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Kindezi: A Arte Kongo de Cuidar de Crianças. K.

Kia
Bunseki Fu Ki.Au e A.M. Lukondo-Wamba

Kindezi: A Arte Kôngo de Cuidar de Crianças

K. Kia Bunseki Fu Ki.Au e A.M. Lukondo-Wamba

Kindezi > A arte Kongo da Babá

Com introdução de Marimba Ani

Tradução para o brasileiro por Mo Maiê


Rede Africanidades

Introdução de Marimba Ani


Em seu trabalho inovador “O Poder da Auto-Cura e Terapia”, Dr. Fu Kia-Au nos diz que Muntu (o
ser humano) é o sol vivo, percebido como um “poder”, “um fenômeno da veneração perpétua, da
concepção à morte” e além. Kindezi trata-se do processo de como esse “sol vivo” é educado, uma vez que
ele/ela é trazid@ ao mundo físico.
A tarefa de cuidar desse “Muntu” sagrado é a mais importante responsabilidade da
civilização Africana.
Dr. Fu Ki-Au intencionalmente traduziu “Kindezi” como “a arte da babá” para nos chocar. Minha
impressão imediata após ler o subtítulo de seu livro foi questioná-lo, respeitosamente, sinalando o que
parecia ser um erro de tradução – uma escolha pobre de um termo em inglês. A resposta do Dr. Fu-Kiau
foi dada em sua maneira caraceteristicamente tranquila, paciente e manerada, o que nos força a prestar
atenção a cada palavra, convencido de que a sabedoria está prestes a ser concedida.
Ele explicou que na cultura européia, cuidar de crianças é tomado como uma atividade
insignificante – um trabalho para as pessoas menos importantes da comunidade. Nós sabemos que este
trabalho é dado para as adolescents, que supostamente não tem nada importante para fazer, e que as
mulheres africanas são importadas do Caribe para cuidar das crianças euro-americanas como um
testamento de nossa suposta inferioridade racial. Ainda assim, de acordo com os autores deste livro,
Kindezi é a maior honra que uma pessoa pode ter na África.
Fu Ki-Au está nos trazendo à tona o ponto de vista de que, numa maneira claramente crítica,
enquanto a infância é tão desvalorizada na sociedade européia, a civilização Africana é centrada na
criança. Isso torna-se claro ao passo que compreendemos a vida humana no contexto espiritual da
comunidade: um processo infinito de nascimento, desenvolvimento, transformação e responsabilidade.
O bem-estar da comunidade depende da saúde e integração da totalidade, do amadurecimento das
pessoas que lhe constituem como membros.
Assim, Kindezi é uma arte focada não apenas no cuidado dos jovens da sociedade, mas no
crescimento do Ndezi (o cuidador, aquele que pratica a arte da Kindezi). Em outras palavras, ao passo
que uma pessoa desenvolve as habilidades da Kindezi, desenvolve-se a si mesmo. Ndezi deve ajudar
o muntu, o “sol vivo” a “brilhar” (6); e, no processo, ele/ela aprende como “brilhar” com o poder do “sol
vivo”. Porque esse processo é contínuo, a maior Kindezi(experiência de serviço para a comunidade)
descansa com os anciãos. Na sociedade Africana, os anciãos são aqueles que tornaram-se fisicamente
mais debilitados, mas que são espiritualmente mais fortes, porque eles cresceram ainda mais no
desenvolvimento pessoal e se moveram para mais perto dos Ancestrais, para o mundo spiritual e a
própria “Força da Vida” (Kalunga). Um ancião não é apenas uma “pessoa mais velha”, mas é alguém
ainda “mentalmente e espiritualmente forte e sábio o bastante, não apenas para manter a comunidade
unida, mas acima de tudo, para construir a fundação moral da comunidade jovem e das gerações que
virão”. (9/10)
A arte e prática Africana da Kindezi é de grande importância na presença dos “anciãos” na
comunidade e sua responsabilidade para a saúde e integração do grupo. Através da conexão entre os
idosos e jovens da comunidade, o conceito enfatiza a continuidade intergeneracional, signifitcativa
comunicação, consistência da formação de valores e transmissão de responsabilidade mútua. Isso nos
leva para a relevância contemporânea deste livro.
O maior desafio enfrentado pelas pessoas de descendência Africana deslocadas de nossa base em
nossa pátria-mãe é a fragmentação social, desconexão e confusão axiológica ou de valores. A força
espiritual de nossos antepassados escravizados nos trouxe a brutal e desumana interrupção da Maafa.
Eles fizeram isso encontrando maneiras de educar seus filhos e ensinar-lhes seus valores. Na verdade, a
única fonte de resistência disponível para nós era a força do nosso espírito – nossa “Alma-Força”
(Leonardo Barret) – que usamos para recriar a comunidade, continuamente. Esse sentido de comunidade
sempre foi uma força forte e poderosa sobre a qual os descendentes africanos dependeram durante os
principais períodos históricos de nossa saga nesta diáspora forçada. Porém, desde a década de 1960,
quando apareceu na superfície o que muitos pensavam que eram ganhos políticos e econômicos, nossa
consciência cultural se deteriorou. A importância da família tem diminuído em nossas mentes e a
exposição aumentada às forças destrutivas da sociedade americana, que vem engolindo o tecido de
nossas instituições sociais com sucesso.
Nossos jovens, de quem dependemos para o futuro desenvolvimento, reinvindicação e força de
nossa comunidade, estão sendo roubados de nós por um arsenal de venenos intelectuais e culturais. Eles
estão sendo atacados espiritualmente desde antes de seu nascimento com as armas de um ambiente
anti-africano. Faltam os verdadeiros anciãos porque ele mesmos não foram levados através de um
processo de desenvolvimento cultural.
Esses anciãos que realmente temos são descartados e relegados aos montes de lixo de uma
sociedade capitalista, que valoriza apenas o que traz ganhos materiais. Desde que os bebês são
considerados como fardos que não acrescentam nada materialmente para o grupo, eles também tornam-
se periféricos para esforços significativos. Cuidar de crianças, portanto, é uma das tarefas menos
valorizadas em nossas vidas desordenadas e os anciãos tornam-se embaraços “inúteis”. Nós temos
imitado a decadência euro-americana até o ponto de não reconhecer os valores básicos
africanos.Kindezi trás repostas para um povo em crise, um antídoto para a crônica “desorientação
cultural” (Kambon).
O Dr. Fu-Kiau e sua co-autora, a psicóloga Lukondo-Wamba, nos trazem a sabedoria antiga de
nosso lar ancestral sob a forma de Kindezi. A necessidade de concentrar-se na educação das crianças
pequenas e na valorização de nossos mestres-anciãos é uma verdade simples, mas não simplista. É o
processo (dingo-dingo) através do qual os “padrões sociais” são transferidos para os “membros mais
jovens da comunidade” (1). Kindezi é um ingrediente crítico do soro anti-vial necessário para combater
nossa “Aids cultural”. É o processo básico da socialização africana. Estamos falando da reconstrução da
família e de seu sentido mais fundamental e dinâmico.
Kindezi trata-se do uso da força espiritual, mental e cultural de nossos anciãos, para contribuir
com o processo de desenvolvimento de gerações de jovens culturalmente saudáveis, que crescem para se
tornar anciãos poderosos, que, por sua vez, produzem juventude culturalmente saudável e assim por
milênios que virão.
Por se tratar de um sistema antigo, o Kindezi tomou mais importância durante o período em que
o povo Bakongolutava contra o ataque iminente da dominação colonial europeia. As mulheres tiveram
que ser liberadas para lutar ao lado de seus homens, muitas vezes liderando a própria comunidade em
batalha. A arte de Kindezi lhes permitiu fazê-lo sem sacrificar o cuidado e a socialização de seus
filhos. Fu-Kiau e Lukondo-Wamba continuam explicando que as mulheres africanas sempre foram
agricultoras, passando longas horas longe de seus filhos. De acordo com os autores, foi Kindezi que
permitiu que as mulheres africanas fossem liberadas para que elas pudessem contribuir
significativamente para o bem-estar econômico da família. Isso, dizem eles, é o lugar onde as mulheres
europeias adquiriram seu conceito de “liberdade das mulheres”, porque tais modelos estavam faltando
no patriarcado de sua própria história cultural.
Na breve declaração contida nestas páginas, Fu-Kiau e Lukondo-Wamba se unem para
apresentar uma descrição surpreendentemente minuciosa do processo de socialização africana. O livro
enfoca a importância dos anciãos na sociedade africana em relação à importância da juventude africana.
Socialmente, os anciãos ensinam e dão conselhos, de modo que dão aos filhos um sentido de sua história
e explicam-lhes o significado do “caminho da vida” e sua importância na vida da comunidade (11).
Economicamente os anciãos ajudam a contribuir para o bem-estar e vibração da comunidade,
desempenhando a função vital de Kindezi. Dessa forma, eles permanecem úteis e reciprocamente tem
seu bem-estar físico e emocional cuidados com especial atenção. Os autores chamam a atenção para a
profunda compreensão humana sobre o espírito humano, explicando porque os anciãos na sociedade
tradicional africana sentem-se úteis (ou foram antes dos africanos começam a abandonar formas
africanas) menos susceptíveis de sofrer de doenças “psicossomáticas” e a desnecessária deterioração
biofísica (11). Enquanto isso, mais e mais anciãos africanos na diáspora estão sofrendo de Alzheimer e
outras formas de demência, que os debilitam totalmente e os tornam involuntariamente responsáveis
por uma responsabilidade pesada para os membros adultos da família. Nossa cultura autêntica é baseada
espiritualmente; assim, sua desintegração causa destruição espiritual e, portanto, física. No entanto, os
autores nos apresentam um modelo de cura cultural contemporânea. O valor prático deste livro é
imenso. Fu-Kiau eLukondo-Wamba explicam Kindezi em termos de seu significado social, econômico e
político. Neste sentido, este pequeno livro tem grande valor no desenvolvimento de uma pedagogia
afrocêntrica. A abordagem do ensino através da canção é discutida com alguma extensão, um método
que tradicionalmente falou ao espírito das crianças africanas, mas só agora está sendo reconhecido na
teoria pedagógica europeia. Os autores explicam como a linguagem – a poderosa força energética da
África – torna-se a ferramenta efetiva e afetiva da pedagogia através da arte de Kindezi.
A resposta para a reconstrução cultural africana encontra-se em Sankofa, a recuperação dos
processos que tornam-se os fios de nossa colcha de retalhos cultural. Kindezi é o mais valioso bem
primário para a (re)socialização para o afro-centrismo, a cura para a família Africana e sua reconstrução
cultural. Você escolheu o livro certo. Diz-lhe como ensinar seus filhos (e você mesmo) A SER AFRICANO!

I. O Conceito de Kindezi

Pode-se perguntar: O que é Kindezi? É um conceito? Um campo de interesse? O que é para o povo
da África e do Kôngo, em particular?
Kindezi, a arte de cuidar de crianças, é uma arte antiga entre os africanos, em geral, e os Bântu,
em particular. É basicamente a arte de tocar, cuidar e proteger a vida da criança e do
ambiente, Kinzungidila, em que o desenvolvimento multidimensional da criança ocorre. A palavra
“Kindezi”, um termo da língua “Kikôngo”, deriva do verbo raíz Ieia, que significa desfrutar de tomar e
dar cuidados especiais.
Cuidar de crianças – Ieia, ou seja, dar cuidados especiais- é, antes de tudo, uma forma de transferir
padrões sociais para os membros mais jovens da comunidade. E, em segundo lugar, é a orientação da
criança para a vida que compreende orientações muito bem determinadas de acordo com as normas e
valores comunitários. Com tal, osKindezi/Kindesi podem variar de uma sociedade para outra em
relação aos sistemas individuais e seus valores.Kindezi, a arte de cuidar de crianças, também oferece a
oportunidade de testemunhar uma experiência de vida pessoal ao longo do processo de
desenvolvimento do estágio mais delicado da vida: a infância.
Por causa destas visões filosóficas sobre Kindezi entre os povos africanos e o Kongo, em
particular, cuidar de crianças é considerado um método terapêutico altamente recomendado para ajudar
os anciãos (ao “usá-los” como cuidadores) a lidar com seus diversos problemas sociais, psicológicos e/ou
gerontológicos. Para jovens babás, oKindezi é visto como uma pré-adaptação social/preparação para as
responsabilidades da maternidade ou paternidade. É também programado para este último grupo como
uma experiência de aprendizagem para a vida e uma forma de adquirir a tolerância que tem as boas
mães e bons pais. Muitas vezes, jovens casais sem filhos são obrigados, na sociedade do Kôngo, a cuidar
de membros da comunidade (família extensa) como preparação para a vinda de seus próprios filhos.
Cuidar de crianças é uma experiência requerida por todos os membros da comunidade no mundo
africano, independente de seu estado físico. Compreender o dingo-dingo (processo) de
desenvolvimento infantil é um dos princípios básicos e mais importantes na compreensão do valor e
respeito da vida. Walèmbwa leia kalèndi bakula ntoko za môyo ngâtu za buta mu zola ko. “Quem
jamais cuidar de um bebê” – diz um provérbio Kôngo, “nunca entenderá a beleza da vida nem a de educar
com amor”.
Historicamente falando, Kindezi existiu na África desde tempos imemoriais, mas seu verdadeiro
desenvolvimento começou no período pré-colonial, quando as mães, sem nenhuma exceção, foram
obrigadas a tomar as armas como seus semelhantes, não só para lutar contra a invasão de seus
territórios, mas também para liderar as guerras. O desenvolvimento de Kindezi para estes propósitos
continuou e tornou-se comum durante a colonização com a introdução de novas culturas em África, que
exigiram enorme esforço e tempo para o cultivo. Este foi o tempo durante o qual tanto pai quanto mãe
foram “transformados” em bestas de cargas pelas potências exploradoras do mundo sob a cobertura da
“missão civilizada”. Tanto homens quanto mulheres trabalhavam para a “corvée” (trabalho forçado e
livre) na criação de estradas, transportes, produção de produtos de exportação e assim por diante. Mães
e pais eram incapazes de cuidar de seus filhos como estavam acostumados. A carga, por consequência,
recaía sobre os ombros dos idosos e/ou sobre os mais jovens, que estavam abaixo da idade de
recrutamento para a “corvée”.
É a criação desta arte que é a mais difícil, mas a mais bela, a Kindezi, ou a arte de cuidar da vida
da criança e do ambiente social, em que este cuidado e este desenvolvimento resultam em circunstâncias
tão difíceis e cruéis que dedicamos este estudo. Os conceitos filosóficos de Kindezi descritos aqui são
baseados na cultura Kôngo. Este estudo é um produto de um esforço conjunto apresentado não só aos
nossos colegas Bakôngo, mas a todos os homens e mulheres no campo de Kindezi em comunidades em
todo o mundo.

Notas:
1. Sua variação é Ieza.
2. A mulher africana sempre esteve envolvida em quase todas as atividades da vida: social,
econômica, bem como militar. Durante a era pré-colonial ela tinha sido como seu companheiro, um bom
general no exército. Este é o caso deNzing'a Matâmba e Vita-Kimpa no antigo Reino do Kôngo, que,
como generais do exército, liderou a guerra anticolonial.

II. TIPOS DE NDEZI

Embora as coisas estejam mudando rapidamente na África, o Kindezi, em sua subestrutura, ainda
permanece como uma habilidade e uma arte a ser aprendida por todos os jovens membros da
comunidade, meninas e meninos, por meio de um processo inicial e prático para, como um provérbio
Kôngo diria, Kindezi m'fuma mu kânda (A arte de cuidar de crianças é como um baobá para a
comunidade), ou seja, um forte apoiador de atividades econômicas comunitárias (Fig. 1). A arte de cuidar
de crianças, sâla kindezi, não é instintivamente adquirida como alguns poderiam assumir ou fingir.
Dingo-dingo diena é um processo pelo qual se descobre o mistério do crescimento humano e atinge a
total compreensão da psicologia da criança.
Através do cuidado com crianças, uma pessoa aprende a maravilhosa habilidade de ser
responsável por outra vida e de como transformar-se através de um novo “padrão de vida”. Um “padrão
de vida” é um modelo através do qual os valores culturais são transmitidos de geração em geração.
Através de Kindezi, os africanos adquirem essa habilidade, uma habilidade que tornou o africano não
apenas um dos seres mais religiosos da terra, mas também um dos mais humanistas.
Kindezi m'fuma mu kânda (A arte de cuidar de crianças é como um baobá para a
comunidade)

Os pais africanos - e as mães em particular - tem uma grande preocupação sobre a infância de
suas crianças, porque são conscientes de que Kimbuta kia múntu, bônso kimüntu, ga mataba – “a
liderança, assim como a personalidade de uma pessoa, tem suas raízes na infância”. Acontecimentos da
vida infantil tem um papel de extrema importância na vida adulta. Como tal, grande atenção é dada a
quem tem algum papel a desempenhar na vida de uma criança – o ser humano com a mente com maior
capacidade de copiar. Este entendimento básico de que a infância é a base que determina a qualidade de
uma sociedade é a principal razão que induziu as comunidades africanas a fazerem da Kindezi uma arte,
ou Kinkete, a ser aprendida por todos os seus membros. Assim, Kindezi é exigida em sociedades que
querem preparar seus membros para se tornarem bons pais e mães, mas sobretudo, pessoas que se
preocupam com a vida e que entendem, tanto humana quanto espiritualmente, o valor altamente
inabalável dos seres humanos que todos somos. A partir dessa premissa, Kindezi tornou-se uma arte
popular e uma experiência de vida pessoal no início e no fim da vida, já que uma pessoa deixa o mundo
no mesmo estado de fraqueza física em que chega nele.

Fig. 2: O nascimento de uma criança é o nascer de um “sol vivo”:


B—o amanhecer do sol é o ponto do nascimento
G—a trajetória do sol é a direção de seu crescimento e transformações
D—o pôr-do-sol é seu ponto de maior transformação (morte)

Para os Bântu, em geral, e para os Kôngo, em particular, a chegada de uma criança na comunidade
é o nascer de um novo e único “sol vivo”. É de responsabilidade da comunidade como um todo e
do Ndezi, em particular, ajudar esse “sol vivo” a brilhar e crescer em seu estágio inicial. (Fig. 2)
Ndezi, aquele que pratica a arte da Kindezi, o cuidador de crianças, não é para ser confundido
com uma doula, uma ama. Em primeiro lugar, Ndezi, lida não apenas com bebês, mas com crianças e com
o cuidado que deve ser dado a elas. Depois, a arte da N´sânsi (ama) é Kinsânsi, e ela lida não apenas
com crianças, mas com bebês e/ou mães e com o cuidado que deve ser dado a elas. Uma N´sânsi é uma
jovem donzela ou uma garota escolhida pela comunidade ou pelos membros de uma família para viver,
por um período de alguns meses, com uma mãe para lhe ajudar em sua delicada obrigação. O seu
trabalho é basicamente ligado à maternidade. Ali n´sânsi (amas, doulas) podem cuidar de crianças, mas
nem todas as Ndezi (babás) tornam-se amas. Eticamente, um homem nunca é escolhido para ser amo ou
enfermeiro de uma mãe que está precisando de cuidados. É um tabu moral.
Kindezi, a arte de cuidar de crianças, é uma das mais importantes responsabilidades divididas
tanto por mulheres quanto por homens em uma comunidade Africana. O provérbio seguinte, Kindezi
wasâdulwa; kindezi una sâdila (Alguém cuidou de sua criança, você cuidará da criança de alguém),
tornou-se um mote e pedra angular desta arte.
Um/a garoto/garota tem que cuidar de seus irmãos e irmãs mais jovens, enquanto um avô cuida
de seu neto. Qualquer pessoa na comunidade – irmão, irmã, primo, avó, tia, tio, amigo, vizinho – pode
cuidar de alguma criança da comunidade para que, como diz o proverbio Kôngo, Mwâna mu ntünda, zitu
kia müntu mosi; ku mbazi, wa babônsono, que significa “Uma criança no útero de sua mãe é
responsabilidade de uma pessoa; uma vez que tenha nascido, ela pertence a todos (na comunidade)”.
Consequentemente, segundo uma pessoa sobe ou desce os degraus de poder social (C), pode se
distinguir entre as três principais categorias das quais as maiorias dos Ndezi (babás) se encontram. A
primeira categoria é formada por jovens Ndezi e a segunda, por velhos Ndezi (Fig. 3). Além destes dois
principais grupos existe ainda um terceiro grupo, o grupo dos Ndezi ocasionais. Do zero aos cinco anos
uma criança vive a vida de um ser indefeso. Ela/ele precisa de ajuda para seu completo desenvolvimento.
Essa ajuda vem tanto da N´sânsi (ama) que vive com a mãe enferma (para crianças com menos de dois
anos), ou do grupo B, C ou D através o Kindezi, antes de cair de novo para o grupo E das crianças mais
velhas, com mais de oito anos de idade. Como o leitor perceberá adiante, cada um dos grupos de babás
mencionados é diferente dos outros.

A. JOVEM NDEZI

Um jovem ndezi é uma pessoa que é muito jovem para ser incorporado como mão-de-obra social.
Como tal, ele/ela aida não é reconhecido como uma força produtiva dentro da comunidade. As jovens
babás variam entre cinco e dez anos.
Estes jovens ndezi, sendo o grupo de pessoas em crescimento, constituem o grupo mais dinâmico
e energético de ndezi. Eles estão no estágio de exploração de seu próprio ambiente e, cuidando de seus
irmãos e irmãs mais novos, ajudam estes últimos a seguir o caminho do dingo-dingo da vida.
O ndezi toma conta de crianças o dia inteiro até o cair da noite, quando a mãe volta para a casa de suas
tarefas do dia. As crianças crescem muito ligadas ao seu ndezi, andando e brincando ao redor de sua
aldeia. Os ndezi deixam a vila somente para ir ao rio banhar-se ou banhar as crianças que eles estão
cuidando. Em raras ocasiões, o ndezi pode ter que levar uma criança persistentemente chorando para o
local de trabalho de sua mãe. Eles às vezes gostam de preparar as refeições, para que as mães não
tenham que cozinhar depois de um longo e quente dia na fazenda.
Os deveres do cuidador são numerosos. Ele/ela leva o bebê para cima e para baixo em suas costas
enquanto canta pequenas canções de ninar para acalmar a criança - Estas canções tem um grande
impacto tanto educativo quanto psicológico ou influência sobre a criança- Nós veremos algumas destas
canções no próximo capítulo.
O ndezi também deve aprender várias técnicas relacionadas a esta arte de cuidar de crianças:
como acalmar ou fazer uma criança parar de chorar; como alimentar uma criança ou o que fazer quando
a criança se desvia enquanto come ou bebe; como segurar a criança para lhe dar banho; como amarrar a
criança nas costas; como puxar para cima (sela) ou deslizar para baixo (tülula/zelumuna) uma criança
amarrada em suas costas, etc. Técnicas relacionadas ao processo de amarrar (kânga) e desvincular
(kutula/vüla) a criança de costas só são perfeitamente alcançadas por mulheres. Os
jovens ndezis masculinos preferem correr com suas crianças assentadas em seus pescoços, enquanto as
jovens ndezi terão sempre sua criança amarrada acima de suas costas.

A. VELHO NDEZI

As velhas babás são pessoas que são excluídas da força de produção comunitária por causa de sua
idade. Eles são muito velhos para serem incorporados à mão-de-obra social. Pessoas com qualquer
deficiência física também estão incluídos neste grupo.
As pessoas idosas nas sociedades bantu em geral, e entre os Kôngo em particular, constituem uma
força social poderosa da antiga arte de Kindezi, a arte sem traço no mundo acadêmico. Se os idosos são
fisicamente fracos e não podem mais participar economicamente como uma força produtiva na
comunidade, eles ainda são mental e espiritualmente fortes e sábios o suficiente, não apenas para
manter a comunidade unida, mas sobretudo para construir a base moral da comunidade jovem e das
gerações vindouras. Uma pessoa idosa, como uma pessoa jovem, é considerada em África para ser uma
parte completa da comunidade, não importa quão fisicamente fraca esta pessoa se torna. Esta pessoa
nunca está isolada da sociedade.
Vamos mencionar aqui, de passagem, que entre os Kôngo, como em muitas outras
sociedades Bântu, os deficientes, mesmo aqueles que nascem severamente retardados, estão entre os
mistérios mais aceitos e quase deificados na comunidade. Ninguém, nem o rei nem o ngânga (o
curandeiro, o especialista), tem o direito de acabar com seu direito de estar vivo. O “grisalho”, tanto físico
quanto mental, para as pessoas Bântu, é algo de que se orgulhar e as gerações mais jovens aspiram isso.
Um provérbio kôngo diz: Bitèta ku rítu, milongilmtna kalunda (envelhecer (passar a ter os cabelos
grisalhos) não é uma coisa totalmente negativa). Ter os cabelos grisalhos é também um símbolo de
quem mantém o ensino ou a lei, ou seja, alguém que vai vivendo e se conformando com a Lei dos dingo-
dingo da vida e da mudança.
Os asilos, a estrada de sentido único percorrida por aqueles que nunca voltam para casa, não
existem em sistemas tradicionais Bântu. Se existiam casas de enfermagem, estas seriam vistas aos olhos
africanos e aos kôngo em particular, como instituições muito negativas onde seus entes queridos não
receberiam cuidados, mas apenas sentavam-se ou deitavam-se, olhando para o horizonte de sua morte
próxima. Além disso, tais instituições seriam vistas como um símbolo monumental negativo de uma
sociedade descuidada.
Para o povo Kôngo, um provérbio nos diz: Nuna i soba mbebe mu kânda (envelhecer é mudar o
papel/responsabilidade de alguém na comunidade). O envelhecimento não é razão para isolar ou
expulsar alguém do caminho natural comum de Kala ye Zima (existir enquanto caminha para extinguir-
se lentamente) e dingo-dingo dia môyo ye nsobolo (o processo de vida e transformação).
Devido a esta filosofia Bântu fundamental entre os Kôngo para com os mais velhos, os idosos
com a sua experiência de vida como membros da comunidade, constituem o grupo mais importante
de ndezi. Estes idosos, assim, reingressam ao campo de Kindezi, a arte de cuidar de crianças, por razões
sociais, econômicas ou humanitárias.

RAZÕES SOCIAIS:
Os idosos são considerados, entre os Bântu, como uma classe especial com um papel especial
dentro da comunidade por causa de sua experiência especial ao longo da vida. Como tal, em Kindezi eles
exercem o papel não apenas de excelentes ndezi (babás), mas também de professores e conselheiros dos
jovens ndezi. Nessas posições e papéis como professores, conselheiros e ndezi, eles têm dois principais
deveres sociais: (1) Transmitir para todas as crianças da comunidade, em sua própria língua, a história
de sua comunidade através de canções, histórias, lendas e jogos; e (2) explicar a essas crianças o
caminho da vida, seu significado de kala (ser, vir a ser, existir neste mundo) e zima (extinção, a morte do
corpo para a transformação) e o papel da comunidade sobre eles.

RAZÕES ECONÔMICAS:
As pessoas idosas na África são usadas como babás – ndezi - para ajudar a comunidade com seus
filhos e outros deveres claros, enquanto é a responsabilidade da comunidade para cuidar de suas
necessidades, alimentação, habitação, roupas e confortá-los. Voltaremos a este ponto no quarto capítulo.
Além das razões já mencionadas, os idosos africanos são usados como babás (ndezi) em suas
comunidades para deter doenças psicossomáticas. Com o efeito de Luvèmba, “o elemento negativo que
se acumula em nosso corpo através da idade (e que é a principal causa de uma morte física)”, os idosos
enfraquecem fisicamente e retornam à categoria de crianças – “crianças velhas”. Essas crianças velhas
podem ter tido seus próprios filhos no passado. A ausência de seus próprios filhos pode se tornar um
grande problema, tanto físico quanto psicologicamente, neste momento particular da vida. Nessa
situação, os povos africanos não querem que os mais velhos vivam na solidão, diz a sabedoria Kôngo,
Bukaka rísôngo, Bulènda vônda – “A solidão é uma doença, pode matar”. Como forma terapêutica de
redução de falhas psicológicas e gerontologicamente relacionadas, os Kôngo fazem de seus idosos babás
da comunidade, lidando com crianças para mantê-los ocupados. Com esta técnica terapêutica, anciãos na
sociedade Kôngo tradicional terminam felizmente seus últimos dias de vida. Eles literalmente morrem
nas mãos de seus entes queridos, com respeito e dignidade depois de terem dito para eles, sua última
palavra, ao invés de dizê-lo para uma enfermeira. Essa “última palavra” é o bem maio que qualquer
africano espera de um ser amado que está morrendo, em vez de levá-lo a mudar ou reformular a sua
vontade. Acredita-se que esta “última palavra” supera em muito os bens materiais listados em um
pedaço de papel chamado “testamento” ou últimos desejos.
Uma criança do Kôngo aprende muito de um ndezi ancião de sua comunidade sobre plantas -
seus nomes, usos e onde uma pessoa pode encontrá-las; sobre animais e histórias morais relacionadas a
eles; o que estes animais comem e como se reproduzem; sobre pessoas de longe, seus costumes, línguas
e modos de vida; e, acima de tudo, aprendem o que as crianças mais gostam: canções, histórias, jogos e
truques.
Um ndezi velho, para as crianças, é uma estrela da vida. Eles brincam, cantam, saltam e dançam
com ela. Seu colo é a melhor cama para estar e descansar. Um ndezi velho é visto às vezes como sendo
melhor do que seus próprios pais – principalmente se o Ndezi for um avô. Sabe não só como acalmar,
mas melhor, como censurar uma criança. Ele/ela é um pai por excelência para ele/ela sabe o que é ser
um pai, um ndezi/babá e uma criança. E, acima de tudo, é uma pessoa de experiência que sabe ler as
mentes das pessoas.
A. NDEZI OCASIONAIS

Contrariamente ao que é dito sobre os Ndezi jovens e velhos, os Ndezi ocasionais (Ndezi
Yantôta) são pessoas no degrau de forças sociais produtivas (FIG. 3). Em outras palavras, eles são
principais produtores da comunidade que, por algum motivo, decidiram permanecer no vilarejo para
fazer certas tarefas, tais como: assar o pão (nika/yoka kwânga), reparar uma casa, extrair óleo de
dendê (kama mafutá), esperar por um visitante, etc. Sob estas condições, um pai (ou mãe) pode pedir a
um indivíduo para cuidar de seu filho enquanto faz outras tarefas. Essa babá é conhecida como Ndezi
yantôta ou Ndezi bwèso, significando respectivamente e literalmente “babá inesperada” ou “babá por
acaso”. Esta pessoa serve como um ndezi enquanto executa suas outras tarefas em um horário normal.
Devido à sua atenção dividida entre a criança a vigiar e o trabalho a ser feito, problemas, conflitos e até
acidentes podem ocorrer com os Kindezi praticados por este grupo. Consequentemente, uma criança,
por exemplo, pode rastejar acidentalmente além do ndezi desatento e cair em um buraco de fogo ou de
despejo. Muitos destes acidentes em Kindezi ocorreram com o Ndezi neste grupo.
Muitos não gostam de babá para uma criança enquanto ocupado com outra atividade. Pode ser
perigoso – até mesmo catastrófico – para a babá, bem como para toda a comunidade, e pode significar a
perda da vida para a criança. O cuidado de cri

anças ocasional deste tipo é apreciado e funciona bem somente se houver mais de uma criança ao
redor. Estas crianças devem ser de diferentes níveis e idades para que eles possam tomar conta umas das
outros para a sua própria segurança e proteção.
Cada africano participou, de uma forma ou de outra, de um dos três diferentes grupos de ndezi,
pela simples razão de que o ambiente social e cultural o exige. Todos trabalham para a comunidade e a
comunidade funciona para todos. E com a prática do sistema Kindezi, os mais jovens e os mais velhos
membros da comunidade não são excluídos do dingo-dingo (processo) da economia coletiva. Isso
explica porque Kindezi, a arte da babá, não é apenas a arte de tocar e cuidar da criança, mas de moldar a
humanidade e o futuro de seu ambiente mundial.

NOTAS

1. Para maiores detalhes sobre esse assunto, leia “Cosmogonia Kongo”, de Fu-Kiau (1969), O
Livro Africano sem título, e outros de seus trabalhos.
2. Na sociedade do Kôngo, os pais nunca brigam ou se matam por causa de seus filhos. As
crianças dos casais que estão juntos ou separados sempre pertencem aos dois pais e suas respectivas
comunidades. Assim como um Mukôngo nunca vai sequestrar ou matar sua própria criança, num
ambiente de conflito entre pais.
3. A maioria das mulheres do campo estão ocupadas em suas fazendas das seis da manhã às
seis da tarde.
4. Leia O Livro Africano sem título, de Fu-Kiau, 1980.

I. CRIANÇAS NAS MÃOS DO NDEZI

A. QUEM SÃO?

As crianças nas mãos dos ndezi são todas as crianças que vivem ou nasceram na comunidade. São
os membros mais jovens da comunidade e representam o futuro da própria comunidade. Muitas vezes,
estas crianças estão familiarmente relacionadas entre si.
A sociedade do Kôngo presta grande atenção à sua juventude, porque Môyo a kânda, bilesi (a
vida da comunidade está em sua juventudo), diz um provérbio. Uma comunidade sem juventude não tem
futuro. Mas para assegurar um futuro positivo, a comunidade e todos os seus membros devem assumir a
plena responsabilidade de “iniciar” (educar) a sua juventude – Bula mèso mâu – quanto às suas
responsabilidades sociais, culturais, econômicas e políticas, comunais, nacionais ou internacionais. Para
ter sucesso nesta tarefa, o Mbôngi, “parlamento comunitário”, deve criar uma boa atmosfera política,
favorável ao crescimento cultural, social, econômico, político e intelectual da juventude.
Uma das maneiras de conseguir isso na sociedade do Kôngo é através do desenvolvimento de um
sistema muito forte de ntungasani, que pode ser melhor traduzido como “construindo indivíduos sábios
e fortes laços comunitários através de debates críticos livres e abertos”. O Mbôngi é assim visto como o
mais popular sistema de educação Kôngo. Aqui, todas as questões e assuntos relacionados à vida
comunitária são abertamente e comunitariamente discutidos. E, aqui no Mbôngi, as decisões são
tomadas em conjunto na comunidade, pela comunidade, para a comunidade.
O processo ntungasani no Kôngo Mbôngi é ainda mais democrático do que o processo de
democracia no ocidente, pela simples razão de que neste processo ntungasani todos na comunidade,
absolutamente todos, participam no processo de fazer ou mudar uma ordem ou lei. Espaço para a
ditadura simplesmente não existe. Assim, o que as crianças aprendem de seus velhos ndezi vem do
Mbôngi, a fonte comunitária de informação “oficial” que reúne e constrói a sociedade comunal e seu
sistema.

B. O QUE ELES APRENDEM?

O sâdulo (o local onde acontece o cuidado das crianças) não possui um quadro para escrever
ou um livro para ler. No entanto, as crianças no sâdulo “lêem” e recebem muito das mentes de seus
ndezi e assim aprender a “escrever” e assimilar muita informação sobre a vida na comunidade do
passado, do presente e do futuro também.
O ensino é oral e prático. Crianças e suas babás às vezes deixam seu local sâdula e se movem
de um lugar para outro, visitando ferreiros locais, tecelões e oleiros. E muitas vezes eles vão coletar
flores, ervas, insetos, raízes, bimènga (pedaços de cerâmica), ovos, cogumelos, rochas, etc. Ao redor
da aldeia. Aprender os nomes e o uso de “coisas” no ambiente da criança é um dos estágios mais
excitantes no processo de aprendizagem sâdulu. Eles aprendem a dissecar cuidadosamente
pequenos animas e insetos. Através destas experiências a criança adquire um sólido conhecimento
prático em assuntos relacionados à anatomia, fauna e flora. Além disso, essas atividades práticas de
aprendizagem proporcionam aos filhos a oportunidade de melhorar o desenvolvimento de sua
língua nativa e aumentar seu vocabulário.
Infelizmente, este sólido conhecimento da língua materna é desconsiderado em todos os
sistemas escolares africanos modernos, onde não há espaço para línguas africanas “não científicas”.
Essa crença de que as línguas africanas não estão equipadas para o estudo científico moderno é, em
nosso ponto de vista, tola e é um câncer no corpo do crescimento intelectual e econômico africano.
O ndezi no sâdulo sustenta um rígido ensinamento moral em relação à vida comunitária.
Aqui a experiência do velho ndezi é habilmente “derramada” na criança, que então a canta, a prova,
a sente e aprende com ela.
É no sâdulo, o local onde acontece o cuidado com as crianças, que a criança aprende o valor
de viver, brincar, cantar, dançar e rir junto com os outros, não importa quem são e quão ricos ou
pobres podem ser. Para os Bântu, e para os Kôngo em particular, a união é algo espiritual para ser
compartilhado orgulhosamente com os outros. A união é um poder e uma energia que liga as
pessoas e as aquece. Sob este poder de juntar-se, a criança aprende não só a ouvir, mas a obedecer e
respeitar as pessoas idosas. Também aprende a participar ativamente de todas as atividades da
comunidade, ou seja, trabalhar para os outros. Acima de tudo, é nesta fase que a criança é
introduzida no conhecimento de alto nível, não apenas do nosso universo, mas também da vida, da
morte e do conceito de kala ye zima (ser/viver e extinguir/morrer) como Dingo-Dingo (processo)
natural de vida e mudança.
Através de Kindezi, a criança também aprende que o mundo em que vivemos não é uma
propriedade individual. É para a vida e, portanto, deve ser compartilhada por todos. Nós, como
“indivíduos”, que gostamos de pensar em nós mesmo com um “Eu” capital, todos vêm a este mundo
como seres fracos. Nós crescemos mais fortes e então devemos deixar o mundo como seres fracos,
assim como quando chegamos.

C. O SÂDULU

Já mencionamos acima que sâdulo é um lugar para cuidar das crianças. Nós preferimos essas
terminologias ao “centro de enfermagem público ocidental” ou “jardim de infância”. Enquanto o
jardim de infância ocidental prepara a criança para a educação formal ocidenta, o sâdulu prepara a
criança para toda a vida na comunidade.
O sâdulu, ou local de cuidar das crianças, não é necessariamente uma cabana (ou um
prédio). Pode ser qualquer coisa que acomode exercitar a arte de Kindezi: um telhado de uma
cabana inacabada, um local desmatado sob folhagem de árvore, ou apenas um lugar em terreno
aberto ou uma varanda. Aqui as crianças são trazidas para juntar-se a seus ndezi, velho ou jovem.
Antigos ndezi preferem cuidar sob um abrigo para se proteger do sol ou da chuva.
Crianças de dois anos ou mais são deixadas no sâdulu com seu nkuta (alimento) nas mãos
do ndezi. No entanto, este alimento/nkuta é mantido na casa da babá.
As babás de crianças com menos de dois anos de idade geralmente não realizam suas tarefas
de babá no sâdulu, mas sim acompanham a mãe que ainda está amamentando ao local de trabalho,
para que a criança continue, quando necessário, a ser alimentada com leite materno. Este ndezi
particular deve saber como manter a criança confortavelmente “amarrada” em suas costas e como
ajudar o bebê a dormir. Ele canta muito enquanto toca o nsakala, uma espécie de chocalho de mão,
para acalmar o bebê. Ele/ela sabe como segurar o bebê e o que fazer quando cair enquanto carrega
sua carga em uma estrada escorregadia. Ele/ela deve agir de tal maneira que o bebê não caia para
trás (mlunguka/yekuka). É importante notar que este ndezi ou n´sânsi só pode ser verbalmente
censurado, de maneira alguma pode ser esbofeteado. Pois, diz o Bakôngo, golpear a pessoa mais
próxima de uma criança é como bater na própria criança. Mesmo uma repreensão verbal do n´sani
ou ndezi na frente de uma criança pode fazer a criança adoecer.
No sâdulu as crianças passam os dias correndo, conversando, brincando de ser nganga
(curandeiro/médico), chefe ou imitando as outras profissões comunitárias. Eles ficam longe de seus
pais, enquanto estão felizes com seus ndezi e companheiros, tem comida suficiente e diversão. Eles
brincam e fazem seus brinquedos com materiais encontrados no local. Eles aprendem a tecer,
quebrar o dendê, cozinhar, fazer panelas e brincar de mercado. Eles aprendem muito sobre sinais,
símbolos e linguagem corporal. Um olhar direto (kintungununu/kiswèswe), por exemplo, diz à
criança para parar o que quer que esteja fazendo. A criança sabe o significado de cada movimento
incomum dos olhos, dedos e rosto de seus pais/ndezi – e até mesmo uma simples tosse pode dizer
muito. Neste sinal dado, a criança deve agir o mais rapidamente possível para se comportar
adequadamente.
Sâdulu, o lugar de cuidar das crianças, é uma escola em movimento, onde as crianças da
comunidade não apenas conhecem o seu ndezi, mas onde também aprendem fazendo. É nesta etapa
que a criança adquire a experiência mais emocionante da vida, a época da união com uma coisa
espiritual compartilhada para o melhoramento da sobrevivência da comunidade.

NOTAS:
1. Mbôngi, que literalmente significa “casa do conselho público”, é o assento do Bantú
tradicional, a mais poderosa instituição política comunitária.
2. Para mais detalhes sobre Mbôngi, leia “O Mbôngi”, de Fu-Kiau.

IV – KINDEZI E A SOCIEDADE/COMUNIDADE

O Kindezi só pode ser percebido e compreendido através do contexto social da comunidade,


que serve como arte e uma grande responsabilidade social. É através do papel
que Kindezi desempenha na comunidade que se pode apreciar a sua importância no dingo-
dingo (processo) de moldar padrões sociais africanos. A qualidade e a personalidade
do ndezi/babá, influenciam a qualidade e a personalidade da criança no sâdulu e na comunidade
também. Uma vez que é o ndezi com quem a criança permanence o dia inteiro, o futuro da criança
refletirá muito a imagem de seu ndezi, o principal formador de sua personalidade. Este é o impacto
de Kindezi, a arte de cuidar da criança, não apenas sobre a criança, mas sobre a própria sociedade.
A contribuição de Kindezi nas sociedades Bântu em geral, e no Kôngo em particular, não
pode ser subestimada ou negada. O papel que desempenha em todos os aspectos da vida
comunitária é tão grande que merece que se erga um monumento em sua homenagem.
Sem Kindezi, a mulher Africana nunca experimentaria a grande liberdade que ela desfruta.
Também não ocuparia a posição que ocupa no controle da terra e da produtividade econômica. Ao
contrário da mulher ocidental, a mulher Africana é mais agricultora do que o homem. A mulher
Africana, nessa perspectiva, é muito mais auto-empreendedora do que sua colega no ocidente. Aqui
no ocidente, a mulher é basicamente um empregado para o trabalho do homem. A mulher Africana
permanece em sua fazendo da manhã ao cair da noite.
O seu trabalho é um trabalho de terra feito sem qualquer participação masculina, graças à
arte de Kindezi. Uma mãe com um ndezi (babá) é um pássaro voando, ela pode ir para onde for
possível. Esse tipo de liberdade de que gozam as mulheres africanas para administrar seus próprios
assuntos não foi descoberto por mulheres ocidentais até recentemente, como o movimento de
libertação das mulheres, que nasceu, aliás, como resultado da descoberta antropológica do Terceiro
Mundo. No Ocidente, a terra é o domínio dos homens apenas. Em África, é principalmente o
domínio das mulheres, graças ao papel desempenhado pelos Kindezi na libertação das mulheres da
casa. E este é um novo fenômeno no Ocidente.
Durante séculos, as mulheres africanas foram “reis”, generais, fazendeiras, pescadoras,
Pescadores, médicas, comerciantes e mineiras (em campos de cerâmica) graças à descoberta
anterior de Kindezi, que lhes permitiu ser seres humanos livres. Elas não precisavam da ajuda de
um marido para atravessar uma estrada, um rio ou para garantir sua presença física na fazenda.
Confiar na presença do homem/marido, dizem as mulheres africanas, é dar credibilidade à doutrina
da inferioridade feminina, fundamento do chauvinismo masculino ocidental. Esta doutrina provou
atrofiar o potencial feminino como mãe e/ou em outras profissões dentro da sociedade.
É bem aceito hoje em dia que as mulheres nos países do terceiro mundo são as melhores
economistas e gerentes do mundo:
“Qualquer um que tenha passado tempo nas aldeias pode testemunhar que os maiores
economistas do mundo são mulheres analfabetas, pois de alguma forma conseguem manter suas
famílias alimentadas com orçamento que parecem impossíveis. O problema reside precisamente na
extremidade oposta do espectro social, com os funcionários bem educados, bem pagos e bem
intencionados que estão destinados a atender à pobreza mundial e à fome desesperada que ela
causa.” 3
As mulheres na África ainda hoje estão correndo atrás de seus ndezi para se libertarem para
poderem fazer o que lhes agrada para o melhoramento de suas famílias em uma África neo-colonial
em que agora não têm nenhuma palavra.
Em muitas partes da África, devido ao fato de que os homens têm que trabalhar em minas
(Azania), a construção de estradas (como em Transkei) é fundamentalmente tarefa das mulheres.
Um empreendimento tão surpreendente seria impossível se as ndezi de Transkei não assumissem
a responsabilidade de cuidar das crianças enquanto suas mães trabalhavam em projetos de
construção de estradas.
Em sua praticidade, Kindezi pode ser visto como uma verdadeira agência de serviços sociais
comunitários.Kindezei apoia as atividades sociais e econômicas de toda a comunidade, bem como
de cada um de seus membros. As mães precisam de ndezi para deixar seus filhos quando vão
visitar os membros da família em outra comunidade ou doentes no hospital; quando vão ao
Mercado negociar os produtos de sua fazenda ou comprar o que suas necessidades domésticas
requerem; quando vão para a fazenda, para pescar, pegar cogumelos, quando vão aos funerais, ou
para qualquer outro evento social, para evitar qualquer incômodo. A cultura Kôngo prefere, por
exemplo, que uma senhora que vai a uma cerimônia de casamento esteja livre, sem uma criança;
caso contrário, ela não vai desfrutar da dança cerimonial por causa da presença da criança. Por
outro lado, isso exige que todas as mães tenham que, de alguma forma, ter um ndezi para que, em
tempos de cultivo da terra, ninguém possa fingir ser incapaz de trabalhar por causa da falta de uma
babá. Hoje, todo o continente africano está morrendo de fome porque, entre outras razões, a
maioria dos ndezi4 foram para a escola e não há serviço de substituição para o tradicional Kindezi.
A falta de ndezi na comunidade devido à mudança do sistema de educação reduziu a capacidade de
produção de alimentos entre os agricultores (mulheres). Tanto as mães, quanto os pais, optaram
por cruzar as pernas, amamentar seus bebês inquietos e ouvir a política do amendoim.
Consequentemente, todo o continente está “comendo” política e morrendo uma morte estranha.
Resumindo, pode-se dizer que Kindezi tem, de imediato, um papel social, econômico e
político a desempenhar na comunidade. Cada um desses papéis tem um único objetivo: servir a
comunidade e proteger seus membros mais jovens.

A- PAPEL SOCIAL

A arte de Kindezi é um agente de formação social, cultural e educacional. É o Kindezi que


fornece os elementos mais básicos de conceitos culturais para a criança. No sâdulu (o local de
cuidar das crianças) a criança aprende suas relações sociais com outras pessoas. Aprende a abordar
os adultos de forma respeitosa. O ndezi conta histórias e as crianças, em círculo, ouvem, aplaudem,
repetem, cantam em coro, riem e se alegram. Além disso, ondezi também tem que organizar os
filhos para brincar, dançar ou dramatizar. Aqui, claramente, o Kindeziassume uma posição de
liderança no sistema oral de educação entre os Bântu. O ndezi ensina as crianças a fazer
brinquedos com makaka (uma espécie de grama), bipôpo (dinamites de lama, bolas de lama) e
muitas outras coisas.
Este ensino Kindezi assume uma forma mais animada pela introdução de canções no
processo e muitos kümu, “palavras-lema”. Este processo é um dos mais comuns no ensino
de Kindezi. Cantar como babá é um processo aberto e muito desafiador. O ndezi deve saber o que
ele/ela canta para a criança. O ndezi ensina canções simples que cativam a curiosidade e a atenção
da criança. Através de canções, o ndezi ensina-lhes o conceito de partilha e seu valor para a
comunidade, como expressa a seguinte canção:

Wadia, wadi’e
Tala nkubu nâku
Nkubu nâku e
Lumbu kabaka
Ngângu e
Ngângu ziviôkele

Enquanto comes,
(Melhor) olhar para seu par
Seu par
O dia em que ele/ela mesmo poderia
Tão esperto parecer
Muito esperto

Pelo mesmo processo o ndezi conduz suas crianças ao rio para um banho. Uma canção muito
simples e agradável é cantada. O ndezi canta as palavras e as crianças respondem em coro cantando
“yô”, uma maneira esotérica de dizerinda, que significa “sim”. Eles continuam a cantar enquanto
caminham para o rio, conforme expressa a seguinte canção:

Mwèndo yôl’e
Yô '
Mwèndo yôl’e
Yô '
Na bingulu-ngulu

Na bintaba-ntaba
Yô ...

Indo tomar banho



Indo tomar banho

Com porquinhos

Com cabritinhos

Em se tratando de Kindezi, a arte de cuidar de crianças, os cantos não param com este tipo de
canção. Um ndezi pode cantar uma canção de ninar que transmite, basicamente, um sistema político.
Encontramos esta forma na seguinte canção de ninar muito popular entre os angolanos que estavam
fugindo do sistema colonial lusitano em Angola para abraçar o sistema colonial paternalista do reino
belga no império colonial belga no Congo8:

E mu Leyo (tukwènda)
E yâya mu Leyo
E mu Leyo
E yâya mu Leyo
(Kadi) E Salazale
Wakitudi yo kwândi (nsi)
Se nsânsi ya gôndila9 an’èto
E mu Leyo (tukwènda)
E yâya mu Leyo
E mu Leyo (tuwila)
Yâya mu Leyo
E mu Leyo . . .

Ei! Para Leyo10 (vamos)


Agora, então!
Ei! Mãe para Leyo
Ei! Para Leyo
Ei! (porque) Bem, Salazale11
Transformou-o (o país)
Num instrumento de ninar
Agora, então, para Leyo (devemos ir)
Ei mãe, para Leyo (deve ir)
Mãe, para Leyo agora, então!
Para Leyo (deve ir)

A canção do Zômbo é uma canção política típica usada para transmitir uma mensagem política na
arte de cuidar das crianças: o povo angolano teve que deixar seu país e cantou a música para se preparar
para uma Guerra anti-colonial, porque o seu rico país, Angola, tinha se transformado num simples
brinquedo para agradar crianças superinduzidas, os colonialistas. A Guerra teve que ser preparada a
partir de um país vizinho (o Congo Belga) para lutar contra o facista Salazar, de Portugal.
Canções de ninar também são usadas para lembrar o ndezi de seus deveres quando a criança
chora. “Nunca se esqueça”, transmite a mensagem “a forma como a arte de Kindezi é praticada na
cultura Kôngo”. Ou seja, em outras palavras, ondezi deve levar a criança para sua mãe (no seu local de
trabalho) se possível; assim aconselha as seguintes canções:

Mâma wankâmba
Tâta wankâmba
Mwâna kadila
Nda12 lândis’e
Mu nzila Kôngo
E-e kayânga13
E-e kayânga
Nayendi kaka
Muna nzil’a Kôngo

Mamãe me disse,
Papai me disse,
Se a criança chora
Leve-a para o lugar do trabalho
Do jeito Kôngo
Cuidando, querida
Cuidando, querida
Sempre faça
Do jeito Kôngo

Um outro grupo de canções de ninar de Kindezi é esse que é usado basicamente para ninar
(N´küng´anwukudila). Essas canções de ninar servem, não apenas para acalmar (wukula), mas para
elogiar ou apoiar as mães em geral, e especialmente as mães de gêmeos, ngudi-a-nstmba. As duas
músicas a seguir ilustram:

a) Uma cantiga de ninar comum:


Wa, wa, wa
Mwâna wanlôngo e
Sangamani e14
Buta katominanga
Kala na ndezi âku e
Sangamani e
Wa, wa, wa
Mwâna wanlôngo e
Sangamani e . . .
Calma, calma, calma
Oh! Criança sagrada
Olhe para ela
Para ser uma mãe feliz
Não deveria ter uma babá?
Olhe para ela
Calma, tranquila, silenciosa
Oh! Criança sagrada
Olhe para ela ...

b) Uma cantiga de ninar para gêmeos:


Bâna bèto bôle
Kayang’e
Ma ngudi e
Kayang’e
Bôle bayiza
Bâna
Bôle
Bôle
Kayang’e Ma ngudi e Bâna bèto bôle Bôle Bôle
Nsimba na Nzuzi e Bôle

São dois, os nossos bebês


Cuidando
A mãe dos gêmeos
Cuidando
Eles são dois
(Nossas) crianças
Gêmeos
Gêmeos
Cuidando
A mãe dos gêmeos
Eles são dois, nossas crianças
Gêmeos
Gêmeos
Nsimba e Nzuzi
Gêmeos
Existem também outros tipos de cantigas de Kindezi que são estritamente ligadas a questões
relacionadas com a saúde. Muitas destas canções relacionadas com a saúde ensinam, por exemplo, que é
perigoso para uma criança chorar excessivamente. Chorar, diz a música abaixo, aumenta o calor do corpo
(a temperatura) e pode causar yuku-yuku(febre). Por esta e por outras razões, o ndezi é instruído a
manter as crianças tão felizes quanto possível, em vez de entristecê-las ou deixá-las chorar durante todo
o dia. Aqui está uma canção típica de saúde:
Wa, wa
E mwâna bidilu èyi
Yambula bidilu biâku
Mwânu-wu
Ni bio bitwâla’ tiy’èyi

Calma, calma15
Que criança chorona!
Pare de chorar, bebê
Bebê
Isso vai deixar você com febre16
O último tipo de canções que gostaríamos de mencionar aqui são as músicas relacionadas a
conflitos sociais e/ou desvios. Estas canções preparam as crianças para o fato de que seu ambiente
social, cultural e/ou político não é totalmente saudável e livre de tensões. Como tal, a criança aprende,
desde a mais tenra idade, que a vida é um dingo-dingo (processo) em que se deve lutar continuamente
pela mudança, crescimento e desenvolvimento, embora esta mudança nem sempre seja positiva. É
responsabilidade do ndezi introduzir tal noção à criança para que aceite o ambiente como ele é – como
um ambiente (conflitivo) interativo.
A canção-lenda abaixo, baseada na vida de um desviado social, pinta a imagem deste tipo de
canção. Esta canção-lenda fala sobre uma senhora que deixa seu primeiro marido. Quando volta para sua
comunidade original, ela se vê rejeitada e isolada de seu povo, que interpretou mal o que aconteceu com
ela, que desfez seu casamento. Sua comunidade quer que ela seja um dama de boa conduta. No entanto,
por alguma razão, sua comunidade se recusa a dar-lhe o benefício de trazer esta situação crítica perante
o Mbôngi da comunidade.
Um dia, a “chuva/inundação” (uma metáfora para um estranho que está passando por ela e a vê
em seu estado de rejeição) vem e a leva embora. Ela concorda em deixar sua comunidade para
acompanhar o estranho homem. Com este estranho ela começa uma nova família e se livra de todos os
problemas anteriores, relacionados com seu primeiro casamento e com sua própria comunidade. Ao
longo do caminho para sua nova comunidade, a senhora encontra dois sinos. Um destes sinos não tem
identificador e representa sua vida anterior “quebrada”, aquela vida que ela deixou pra trás. O outro sino,
que tem alça, representa sua nova vida “esperançosa”. Uma vez que ela chega em sua nova comunidade
por nova aliança, a senhora rejeitada vai ver um especialista de charme chamado Mwânda, a fim de ter
seus mâmbu (problemas) amarrados em um “fetiche” Mpüngu, para que eles finalmente
descansem. Mwânda pega o sino sem o punho da senhora e lhe dá em troca uma bela manta de
pano/envoltório que atuará como um muro entre suas vidas passadas e presentes.
Mono ubabela
Batüngila nzo
Va ntèndo bènga
Niâmba bu kayôka Kayôla bisa
Kayôla miku
Ngièle kwâmi bând’e
Ntôtele ngünga zâmi zôle
Ngúnga zâmi zôle
Mosi yatabuka dikôngi
Yatabuka dikôngi
Mpèni kwa Mpüngu a Tâta Mwânda
Mpüngu Tâta Mwând’e
Umpèni rílele wa maleso
N’lele wa maleso
Ni wo nikinina’ ku lôngo
Yakina-kina fiôti
Nto-nto-nto zawíla lôngo
Kiwo-wo-wo!
Ya Masâmba
Kiwo-wo-wo!

Rejeitada,
Alguém me fez uma casa
Perto do abismo
A inundação veio,
Levou os potes,
Pegou panelas,
Então eu fui para as terras baixas
Peguei dois sinos

Dos meus dois sinos


Um não tinha alça.
O que não tinha alça,
Eu dei para o fetiche Mpüngu do pai Mwânda
O Mpüngu do pai Mwânda
Deu-me uma manta manchada deslumbrante
Com a manta manchada deslumbrante
Eu dancei17 em meu casamento
Uma pequena dança
Ali “problemas” de meu casamento anterior
Foram acalmados
Com você, Masâmba18
Todos eles são acalmados.

As dinâmicas sociais de Kindezi, tal como são compreendidas entre os povos Bântu, não se
limitam apenas ao ensino de jogos, peças e canções. Kindezi é um processo que molda toda a vida da
criança e, portanto, toda a vida da comunidade. Através da dinâmica Kindezi, a criança aprende que
ele/ela não é um elemento fora do corpo social de sua sociedade. Os ndezi, pais e filhos, são parte
de um grande conjunto, o conjunto social (Fig. 4)

Fig. 4: A criança não é um elemento que está fora do corpo social de sua comunidade:
C—criança
N—ndezi/babá
P—pais
SE—corpo social/comunidade

Ali relacionamentos sociais que trabalham para unir todos esses elementos sociais (pais, ndezi,
crianças) estão no interesse do crescimento pessoal e da melhoria da comunidade. Quanto mais essas
relações forem estabelecidas, mais a comunidade estará unida e mais esta comunidade se destacará na
maioria de suas atividades. Assim, criar uma criança torna-se responsabilidade de todos na comunidade.
“A criança no útero é a carga de um indivíduo, mas uma criança que nasce, é filho de todos.” Assim, a
sobrevivência de uma criança é fardo de todos na comunidade. (FIG. 5)
Fig. 5: A sobrevivência de uma criança é o “fardo” de todos de uma comunidade.
Devido à falta de documentos escritos para fins didáticos, a canção ocupa a posição de escolha na
arte tradicional Kôngo de cuidar de crianças. Quase tudo é ensinado através de canções, porque elas são
constantemente repetidas. É através de canções e Kümu (lemas filosófico-didáticos) que a criança
congolesa aprende a beleza artística de sua língua-mãe. É através das canções e dos provérbios que as
crianças aprendem que sua comunidade, com todas suas tensões e interações, é um lugar bonito para
crescer e fazer parte. Na comunidade, a criança aprende que criar uma família é a responsabilidade mais
sagrada e maravilhosa de todas. Como tal, todas as crianças devem permanecer em sua comunidade e
crescer nas mãos de seus membros. Eles nunca serão distribuídos pela comunidade, não importa o que
seja – por dinheiro ou por incapacidade dos pais. As crianças na sociedade Kôngo não são “coisas” para
se livrar ou “bens” para serem negociados. Para melhor e para pior, a família extensa deve “morrer de
fome” para salvar a vida cada criança da comunidade. “Adoro ter filhos”, diz Müntu, “porque a
comunidade não só os quer, mas os ama.” Isto é, todos os membros da comunidade comumente se
sentem responsáveis por crianças, como o conto abaixo sugere. A heroína, uma jovem senhora, prepara
uma audiência com sua família. Ela quer tanto bênçãos quanto permissão para criar uma família própria
para que ela possa ter filhos e fornecer novos membros (“galos” e “galinhas”) – meninos e meninos para
as necessidades da comunidade (social, política e militar):

Ya Masâmb’e
Ya Masâmb’e
Mpèti mbèl’âmi
Mbèl’âmi
Yabudila mpâtu zâmi
Mpâtu zâmi
Yayaba gôngo diâmi
Gôngo diâmi
Yabaka nsümba tânu
Nsümba tânu
Yayenda kwè' batâta
Ba’ batâta
Bampâna n’lele a nkelele
N’lel’a nkelele
Yayabikila mabène
Bène diâmi
Diatlta bu dilèmbo
Wuhu!
E nsusu ankènto
E nsusu ambakala
Wuhu!

Senhor Masâmba20
Senhor Masâmba
Me dê minha faca21
(Com) minha faca
Eu vou esculpir minhas colheres
(Com) minha faca
Eu vou esvaziar uma lagoa
A partir desta lagoa vazia
Vou pegar cinco nsümba22
Com estes cinco nsümba
Eu vou aos meus “pais”
Meus pais
Vão me dar um embrulho deslumbrante
Com meu embrulho deslumbrante
Eu vou cobrir meus seios
Então meus seios
Vão ficar cobertos e vão crescer
Hurrah!
Então virão “galinhas”23
E “galos”24
Hurrah!

B. PAPEL ECONÔMICO
Kindezi, a arte Kôngo de cuidar de crianças, não se trata apenas de responsabilidades socialmente
relacionadas. De fato, os fundamentos filosóficos de Kindezi derivam diretamente dos aspectos sociais,
políticos, culturais, linguísticos e econômicos da vida do Kôngo. Para os membros mais jovens da
comunidade, cuidar de crianças é assim considerada como uma das atividades mais populares e mais
aceitáveis, usadas na sociedade para manter ativos e produtivos os membros fisicamente incapacitados
para o melhoramento econômico da comunidade como um todo.
Para os Bakôngo, cada membro da comunidade é valorizado como uma força de produção. Não
importa qual possa ser o estado físico de um indivíduo, a comunidade deve assumir a responsabilidade
pelas necessidades econômicas deste indivíduo. Por esta razão, jovens e idosos são, através da arte da
babá, incorporados ao processo de produção comunitário. Eles cuidam dos mais jovens da comunidade e,
assim, não apenas libertam um grupo de forças primitivas (mães jovens), mas também obrigam toda a
comunidade a obter seu apoio econômico. Por este processo ninguém na cultura Kôngo se entristece por
ser um parasita da comunidade e de sua riqueza. Todo mundo, por seus meios e habilidades, paga por
sua própria sobrevivência.
Uma mulher Mukôngo é geralmente excelente agricultora, graças a Kindezi. Muitas vezes uma
mulher deixa sua vila de manhã cedo, voltando só depois do anoitecer. Ela permanece em sua fazenda
cultivando a terra, cavando, semeando seu campo, limpando ou colhendo. Durante todo esse tempo no
campo, ela não se preocupa com seus filhos, porque a babá cuida deles. Devido ao apoio do sistema
Kindezi, a produção agrícola de uma mulher Mukôngo sempre foi superior à do homem.
No passado, isso era especialmente verdadeiro quando campos e terras agrícolas eram seguros
para as mulheres permanecerem e trabalharem durante todo o dia. Com o neocolonialismo africano, as
coisas mudaram. Agora, as mulheres nos campos estão experimentando alguma da violência e do abuso
que as mulheres no oeste estiveram experimentando em suas ruas da cidade por séculos. E, porque os
homens africanos não apreciam o funcionamento da terra eles mesmos, o continente inteiro está
experimentando uma falta de alimento. As mulheres, os grandes “alimentadores” do continente, estão
sujeitas ao mesmo trauma que as suas colegas nas ruas do Ocidente, já não se sentem seguras em seus
campos, por causa e irresponsáveis revoluções africanas.
Como mencionado anteriormente na introdução, a contribuição econômica de Kindezi é inegável
em regiões africanas onde a agricultura é a chave para o desenvolvimento econômico local. Este
provérbio Kôngo não é uma piada: Mbôngila mwâna-wu yakângila babakala kilauki (Segure esta criança
para mim, para que eu possa ajudar os homens que são incapazes de prender o louco). Assim, uma
mulher libertada de seu bebê/criança é capaz de fazer tudo. Ela tem a capacidade de ser uma força política
e militar em sua sociedade, em conjunto com seu papel como mãe e contribuinte econômica para a
comunidade. Libertas de seus filhos pelo apoio de Kindezi, muitas mulheres nos poderosos reinos do
Kôngo tornaram-se oficiais e generais do exército.
Repensar e restaurar o sistema Kindezi em todos os seus aspectos é restaurar não só a força
produtiva da mulher, mas também seu poder político e militar.

C – PAPEL POLÍTICO
Kindezi desempenha um papel importante na política comunitária. Este papel pode ir de um nível
local a um nível nacional.
Sempre que existem conflitos e tensões na comunidade, o ndezi que é membro da comunidade,
mas neutro e libre, para entrar em contato com qualquer família onde há uma criança, pode, portanto,
ser usado por um ou outro lado como um observador imparcial e um mediador. Agindo dessa maneira, o
ndezi se torna um meio de reduzir as tensões dentro da comunidade e entre seus membros.
O ndezi, em seu papel de professor, é o primeiro indivíduo a elevar a consciência política da
criança. Isto é realizado principalmente através de fazer-acreditar, isto é, jogos, brincadeiras, canções,
contos e histórias. É através do ndezi que a criança aprende quem é quem na comunidade e quem deve
ser chamado de quê. Ele também aprende certos elementos básicos da estrutura social da comunidade,
tais como as relações de parentesco e sua hierarquia.
O papel político do ndezi não se limita ao interior da comunidade. Ultrapassa as fronteiras
comunitárias. Durante a era colonial, o ndezi foi usado como meio de resistência política contra forças de
ocupação.
Um dos pais dos autores explicou como Kindezi foi usado como meio de resistência contra as
forças coloniais nestas palavras:
Uma vez que os soldados foram enviados para esta região, para conter as forças políticas
ascendentes do ngunzism, jovens ndezi que não foram proibidos de brincar ao redor dos veículos
militares coloniais belgas foram elaborados por forças de resistência congolesas, para transportar
frascos cheios de uma antiga fórmula de ervas muito conhecida, usada para a guerra, a fim de
secretamente pulverizar os veículos com esta substência poderosa e penetrante. Enquanto os soldados
se relaxavam, as forças resistentes, através do ndezi, faziam sua obra. Quando os soldados voltaram para
suas máquinas e tentaram dirigir, foi um desastre! Os soldados se jogaram no chão, rasgando suas
roupas para se desembarcar do misterioso agente perfurador. Rapidamente, uma equipe médica foi
apressada para investigar o “vírus”. A própria equipe foi atingida pelo misterioso agente atacante. O
agente permaneceu não identificado pelos agentes opressivos e os habitantes locais riram.
Finalmente, as autoridades coloniais decidiram que as forças de ocupação deveriam ser retiradas
da área. Desta forma, Kindezi foi bem sucedido em fornecer a comunidade com uma importante vitória
política e militar.

NOTAS
1. Em várias partes da África a terra é, literalmente, um domínio das mulheres.
2. Nós preferimos usar o termo “Rainha” porque rainha não necessariamente significa uma figura política (chefe,
líder, soberano) de um país. A maioria das rainhas (como rótulos ou figuras representativas) são apenas como o resto das
mulheres, enquanto um Rei é sempre uma figura política, um “soberano”. Além disso, na cultura Kônga (base deste estudo) o
termo n´tinu traduzido por “rei” serve tanto para soberanos homens, quanto para mulheres.
3. Nick Eberstadt, “Hunger and Ideology,” Commentary, 1981.
4. Na África, a filosofia colonia de educação requer que todas as escolas de origem autóctonas sejam construídas
longe das comunidades (vilarejos) para assegurar-se da destribalização (lavagem cerebral), mas para facilitar a
ocidentalização do continente.
5. Por Fu-Kiau, N'Kôngo ye Nza yakun’zungidilia, (Kinshasa: ONRD, 1969), p. 28.
6. Crianças pesadas (gordas).
7. Crianças turbulentas, inquietas, or indisciplinadas.
8. Hoje em dia, o Zaire.
9. Variante comum bôndila, “embalar, ninar.”
10. Variação de Léo (Léopoldville); Kinshasa, hoje em dia.
11. Variação de Salazar, o ditador português dictator que foi também o ditador de Angola.
12. Gíria; uma versão curta de wènda, “Vá.”
13. O infinitivo é kaya, “sentar, cuidar, vigiar”; “dividir”
14. Esta frase é cantada enquanto se coloca a criança acima da cabeça. Em outras partes do país, esta frase é
substituída por vwema Mbadio (Fique quieto, “sem nome”).
15. Isso pode também ser substituído por “escute”.
16. Literalmente, se diz, “melhora o calor do corpo”.
17. Eu faço um feitiço/encanto.
18. O nome do novo marido.
19. Infelizmente, com a invasão do capitalistmo e seus conceitos em nossas terras, essa responsabilidade social e
sagrada do passado está sendo descartada a fim de enfraquecer o sistema social Africano.
20. Do sdmba, “aquele que limpa o caminho,” “o tamador de decisão,” ou “o interruptor social.”
21. A palavra refere-se à espada Kôngo, Mbèle a lulèndo, o insignia do trono. Ela representa poder, direito,
autoridade.
22. Uma espécie de silurus, peixe.
23. Uma metáfora: significando “garotas”.
24. Uma metáfora: significando “garotos"
25. Movimentos politico-religiosos (Profetismo).

V – CONCLUSÃO

Kindezi, a arte da babá, embora um dos campos menos conhecidos no mundo acadêmico, tem
contribuído imensamente para a forma como o nosso mundo é executado. Sem ela, a agricultura seria
desconhecida em muitas partes do continente africano antes da era colonial. De fato, a própria economia
colonial teria sido impossível de perceber se não houvesse Kindezi. Foi Kindezi que libertou as mãos das
mães africanas para serem utilizadas como Kiniemo (trabalho livre) e agricultura de subsistência para
apoiar os orçamentos familiares, que foram empobrecidos pelas escalas de salários extremamente
exploradoras dos sistemas sociais.
Para repensar e restaurar a arte de Kindezi, seria libertar uma grande força produtiva na
sociedade e reconhecer as mulheres como iguais aos homens. Este processo também servirá para
desvendar a estrutura da mulher como um poder econômico, político e militar. Assim, reinventar Kindezi
significaria rearranjar também toda a subestrutura social da comunidade. Quando falamos de Kindezi,
falamos de uma instituição que afeta a vida comunitária como um todo.
A filosofia que está na raíz da arte de Kindezi argumenta que para que os seres humanos
compreendam a criança, o adulto, a comunidade e a totalidade da vida humana, é necessário que
entremos no mundo das crianças, porque os seres humanos que ãão adultos são meramente as imagens
crescidas do que eram quando crianças. Dewey, Montessori, Piaget e muitos outros se tornaram famosos
filósofos e educadores, não examinando adultos, mas tentando conhecer a criança em seu mundo. O que
a infância de uma geração é e será o que essa geração se torna em sua idade adulta. Uma infância
arruinada é uma sociedade arruinada.
As nações, politicamente falando, são crianças também e os líderes são seus babás. Quando as
babás se tornam inconscientes de sua responsabilidade social, cultural e política, a vida da criança em
suas mãos pode ser posta em perigo. O que é verdadeiro para a vida de uma criança é também
verdadeiro para a vida de uma nação. Quando os líderes das nações são politicamente analfabetos e
irresponsáveis, as nações são arruinadas e destruídas moral, cultural, social e economicamente; pior,
seus habitantes são transformados em pássaros sem asas. Estamos plenamente convencidos de que os
políticos não devem assumir levianamente a sua responsabilidade em relação ao desenvolvimento
infantil, porque fazê-lo é comprometer o futuro de sua nação.
A arte de Kindezi, brevemente descrita aqui, oferece ao leitos uma compreensãoo da arte de
cuidar de crianças como era quando floresceu entre o povo Bântu, especialmente no Kôngo.
Nós sabemos que a maioria dos problemas1 sociais e psicológicos que afligem a comunidade
(violência, estupro, roubo, drogas, assassinatos – especialmente nas sociedades industriais) são, na
maioria dos casos, problemas relacionados com o descuido social e/ou dos pais em relação à infância dos
membros mais novos. Se a experiência da primeira infância demonstra que pode destruir a experiência
da vida adulta, então é muito importante que as comunidades do mundo prestem atenção ao Kindezi, a
arte que modela a experiência da criança em seus primeiros estágios. A comunidade deve saber que o
estado mental de seus ndezis (babás), especialmente quando são mais velhos e tem uma experiência
estática ou concreta para transmitir. A experiência concreta algumas vezes pode ser negativa e pode ter
um impacto negativo no estado psicológico da criança e, consequentemente, na sua vida adulta.
Um ndezi mentalmente doente não pode ser um efetivo “artista” (babá) para aqueles que são a
esperança do amanhã para a comunidade mundial. Um/a babá deveria ser mentalmente mais saudável
do que os pais da criança já que seu papel vale mais do que um trabalho remunerado (como nos casos do
Ocidente) ou a responsabilidade com certokibwanga2, recompense (como no caso dos Bântu/Kôngo). A
necessidade de responsabilidade para o ndezi é para que seja um padrão do futuro (modelo de papel
social). Da mesma maneira, politicos e outras figuras de liderança das nações (que são “babás” de seus
Sistemas) devem estar mentalmente com boa saúde porque um advogado mentalmente insano, por
exemplo, não pode defender ou julgar, nem mesmo um psiquiatra doente pode ser um bom terapeuta.
Ambos podem afetar a saúde de toda uma sociedade. A demência entre aqueles que tomam as decisões
domundo pode ser uma coisa muito perigosa. Pode levar a qualquer tipo de desastre.
É nossa esperança que o estudo da Kindezi, a arte de cuidar de crianças, servirá como um modelo
positivo para as babás progressistas ao redor do mundo, e estimule o mundo dos negócios a repensar as
condições do ambiente de trabalho, para incluir Kindezi como uma parte integral de seu funcionamento.
NOTAS
1. Muitos destes problemas estão acontecendo no momento em que estamos escrevendo
este estudo. Agora, a tecnologia do Ocidente está em processo do que podemos chamar
basicamente aqui as crianças alienadas e insanas em sua concepção, por pais e mães de quem a
existência é conhecida por poucos, através de arquivos, em laboratórios e bancos de esperma. Essas
crianças podem ser as mais desgraçadas, psicologicamente instáveis e perigosas para a sociedade
do amanhã.
2. No caso do ndezi, essa recompensa é geralmente bundezi, a recompensado ndezi, que
pode ser um presente dado pelos pais da criança para o ndezi.

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