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unesp UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

“JÚLIO DE MESQUITA FILHO”


Faculdade de Ciências e Letras
Campus de Araraquara - SP

CLAUDEMIR CARLOS PEREIRA

“OS SERTÕES”, EUCLIDES DA CUNHA – ENTRE A


CIVILIZAÇÃO E A BARBÁRIE.

ARARAQUARA – S.P.
2015

1
CLAUDEMIR CARLOS PEREIRA

“OS SERTÕES”, EUCLIDES DA CUNHA: ENTRE A


CIVILIZAÇÃO E A BARBÁRIE.

Relatório Apresentado para a Disciplina APF9055


– Pensamento Político no Brasil – do Curso de
Ciências Sociais, ministrada pelo Prof.° Dr. Carlos
Henrique Gileno.

ARARAQUARA – S.P.
2015

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RESUMO

O objetivo deste estudo é analisar partindo de um olhar sobre a obra “Os Sertões” (1902), de Euclides
da Cunha (1866-1909), distinguir as peculiaridades de sua análise e sua interpretação sobre o Brasil. O
autor procurou se debruçar sobre a questão da formação social brasileira e da superação dos problemas
sociais em um período de nossa história que ainda não haviam sido equacionados durante a Primeira
República e colocava exposta em sua obra, a nossa fragilidade e o contraponto antagônico da relação
entre as ideias: civilização e barbárie.

Palavras – chave: Euclides da Cunha. Primeira República. Civilização. Barbárie.

ABSTRACT

The objective of this study is to analyze starting from a look at the book "Os Sertões" (1902), Euclides da Cunha
(1866-1909), distinguish the peculiarities of his analysis and his interpretation of Brazil. The author sought to
address the issue of the Brazilian social formation and the overcoming of social problems in a period of our
history that had not yet been equated during the First Republic and laid exposed in his work, our fragility and the
antagonistic contrast ratio between ideas: civilization and barbarism.

Keywords : Euclides da Cunha . First Republic. Civilization. Barbarism.

3
INTRODUÇÃO

Em sua obra “Os Sertões (1902)”, Euclides da Cunha demonstrou, através do movimento de
Canudos, os descaminhos de uma nação que parecia, no início do séc. XX ter optado por uma
concepção de civilização desconexa em relação aos fundamentos da identidade social e da
nacionalidade brasileira. Os setores preponderantes pretendiam impor formas de mudanças
sociais que desconsideravam as especificidades brasileiras. Segundo ele, uma sociedade que
pretendia imitar as instituições e os modos de ser e de agir europeus não criaria jamais um
autêntico projeto civilizador nacional.
As relações entre civilização e barbárie observadas em sua obra “Os Sertões”, durante a
cobertura jornalística da Guerra de Canudos1 (1896-1897), sintetizam sua interpretação sobre
o Brasil, dos elementos centrais que nos colocavam no sentido da mudança civilizadora a
partir da Independência, da Abolição da Escravidão e da República Velha. O movimento de
Canudos fornecia, segundo ele, todos os elementos para tecer uma ampla reflexão sobre essas
indagações, pois no transcorrer desse acontecimento ficou evidente que vigorava no país uma
ideia (europeia) de civilização que era completamente desconectada da realidade brasileira.
Euclides da Cunha afirmava que ao destruir Canudos o país agia como um mercenário a
serviço de um projeto de civilização que não era o seu. “Os princípios de civilização que
nortearam a ação contra Canudos eram europeus e não brasileiros” (CUNHA, 1976, p.8). O
grande problema era, então, a ausência de um projeto de civilização que levasse em conta
nossa formação sociocultural e política e, como nosso processo de miscigenação era o centro
das discussões e análises sobre nossa identidade racial, ou seja, como as relações entre o
“jagunço destemeroso, o tabaréu ingênuo, o caipira simplório, o sertanejo das caatingas
nordestinas e do chão úmido da Amazônia” (CUNHA, 1976, p. 8) nos levaria para o caminho
da civilização e do progresso e da constituição de uma civilização brasileira.
O estudo de Euclides da Cunha sobre a Guerra de Canudos (1896-1897) procurou revelar o
significado do embate entre duas civilizações bárbaras, ambas brasileiras, através,

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Guerra de Canudos, ou Campanha de Canudos, foi o confronto entre o Exército Brasileiro e os integrantes de
um movimento popular de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro, que durou de 1896 a 1897,
então na comunidade de Canudos, no interior do estado da Bahia, no nordeste do Brasil. A região, historicamente
caracterizada por latifúndios improdutivos, secas cíclicas e desemprego crônico, passava por uma grave crise
econômica e social. Milhares de sertanejos e ex-escravos partiram para Canudos, cidadela liderada pelo
peregrino Antônio Conselheiro, unidos na crença numa salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes
do sertão dos flagelos do clima e da exclusão econômica e social.
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principalmente, da forte influência obra de Spencer2. A impossibilidade da mudança social
alinhavava as suas reflexões acerca das perplexidades, dos absurdos, dos desconhecimentos e
das ignorâncias revelados, de uma só vez, por este embate entre os homens do litoral (leia-se
soldados, políticos, intelectuais, etc.) e os do sertão (povo sertanejo, jagunço). A resistência às
condições climáticas e sua luta para sobreviver a todas as diversidades criou no sertanejo uma
postura de enfrentamento e de resistência que desnorteou o país durante a Guerra de Canudos,
a qual parecia, aos brasileiros das cidades, incompreensível, inimaginável. Euclides da Cunha
demonstrava que não era de quaisquer elementos místicos que vinham as resistências dos
sertanejos. Ela se originava de sua vivência fundada em uma situação física (clima,
topografia, etc.) e social (miséria, fome, sede, solidão, angústia) excessivamente violenta
sobre todos os aspectos.
O país somente poderia se civilizar, para Euclides da Cunha, através de um projeto de
integração nacional em que estivessem incluídos todos os brasileiros. A evolução significava
a criação de condições econômicas, políticas e sociais para o rompimento da exclusão da
maioria da população. Em seus relatos ele procurava os fundamentos das ações dos diversos
agentes que emperravam a efetivação de mudanças profundas na sociedade brasileira. A
guerra de Canudos teria sido o momento em que teria ficado evidente a indisponibilidade dos
setores preponderantes em decifrar e enfrentar as reais causas dos males que acometiam a
sociedade brasileira.

A DUALIDADE SERTÃO VERSUS LITORAL

A análise de Euclides da Cunha recortava o Brasil em duas partes. Uma formada pelo sertão e
a outra pelo litoral. Ambas de difícil possibilidade de evolução social e política. Não se deve
esquecer que, em razão da perspectiva teórica spenceriana a que ele se filiava, as
características destas duas partes se imbricavam e, assim, definiam as propriedades do país
como um todo. Ou seja, se o Brasil era incivilizável, isso não se devia somente à existência
das gentes dos sertões com suas crendices, superstições, fanatismos e messianismos religiosos
e políticos, já que os habitantes do litoral também eram portadores de uma cultura de
indiferença, de apoliticismo e de conformismo que impedia o florescimento de qualquer
mudança social e política substantiva.

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Herbert Spencer (1820-1903) foi um filósofo inglês, um dos maiores representantes do positivismo na
Inglaterra. É considerado o fundador da teoria do darwinismo social, onde as classes diferenciadas formariam a
seleção natural na sociedade. A obra do filósofo inglês é inseparável da ideologia do progresso - da ideia de um
desenvolvimento progressivo da Humanidade e do evolucionismo cultural e social - que marcou o século XIX.
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Havia mais do que a denúncia de um massacre e a revelação da miséria do interior brasileiro
em “Os Sertões”. Na força poderosa deste livro era possível encontrar uma nova interpretação
do Brasil, capaz de colocar o conceito de nação em outra perspectiva política. Utilizando-se
do que Antonio Candido chamou de “metodologia dos contrários”, Euclides da Cunha vai
revelar a dualidade sertão versus litoral; ou cidade versus sertão. Com isso vai descortinar
uma interpretação inovadora, onde as fissuras do país geográfico e a exclusão econômica de
parte significativa da população serão reveladas e compreendidas em suas próprias
contradições históricas. A ideia do litoral contra o sertão foi apresentada assim:
“Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos
da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a
República. Ascendemos, de chofre, arrebatados na caudal dos ideais
modernos, deixando na penumbra secular em que jaz no âmago do país, um
terço de nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo... fugindo
ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade,
mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes
patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa.
Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos” (CUNHA,
1995, p. 158).

A formação da nacionalidade brasileira era a base para compreender os (des)caminhos de um


dado processo social que emperrava mesmo diante de prenúncios de possibilidades
transformadoras como a Independência e a República, por exemplo. O jagunço e o cangaceiro
tinham que ser tomados, segundo Euclides da Cunha, como produto histórico das condições
sociais reinantes nos sertões. Eles eram forças sociais desvairadas por causa da indisciplina,
do banditismo, da desordem, dos estigmas que marcavam a população mestiça, do
mandonismo político e da intransigência das leis. Esses elementos convergiram na formação
do cerne da nacionalidade brasileira de tal forma que “a significação superior dos princípios
(republicanos) democráticos” (Cunha, 1976, p. 316) foram aqui anulados.
Nessas condições, afirmava Euclides da Cunha, o movimento de Canudos passava a ser
combatido em duas frentes. Em uma pela força das armas e na outra pela construção de uma
opinião pública que se pautava na desmoralização dos sertanejos e de sua luta. A surpresa dos
habitantes das cidades foi, no entanto, incomensurável diante da capacidade de resistência do
sertanejo. Os bárbaros das cidades não contavam com uma luta nos termos em que foi
conduzida pelos bárbaros de Canudos. Diante do inusitado aqueles primeiros atribuíam às
forças ocultas a capacidade dos seguidores do beato Antonio Conselheiro para repelir os
expedicionários republicanos.
A barbárie imperava nos dois lados. No entanto, as forças expedicionárias eram
representantes do Brasil que pretendia ser civilizado. Elas vinham das cidades, do litoral. Isso
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revelava que mesmo os que se supunham evoluídos não passavam de bárbaros. A
incompreensão era alarmante, o desconhecimento do país era total. Na medida em que não se
tinha a resposta, a opinião pública em geral passava a difundir a ideia de que, se a luta dos
sertanejos não fosse destroçada, eles seriam capazes de ações cada vez mais ousadas, o que
poria todo o país em risco.
Esse tipo de pensamento que envolvera também Euclides da Cunha antes de ele chegar ao
local em que se travava a batalha era fruto de um desconhecimento profundo do país, de suas
gentes, de suas culturas e de seus desejos e objetivos, o assinalava. O autor de “Os Sertões”
dava, através do acompanhamento in loco, uma guinada na interpretação dos fatos em
andamento. Ele se empenhava em decifrar sentidos e significados até então inimagináveis
para os brasileiros em geral acerca dos acontecimentos no sertão da Bahia.
Euclides da Cunha perguntava se estes fatos reproduziam ou não os vícios sedimentados há
séculos na estrutura social brasileira. Em sua avaliação havia em Canudos um empenho em
construir uma ordem social que era a uma só tempo inovadora e mantenedora de elementos
socioculturais sedimentados no país. Ela inovava ao propor um padrão mais equitativo de
distribuição daquilo que era conseguido por todos e, também, ao propor uma forma de
administração do povoado pautada na tentativa de garantir proteção às mulheres e às crianças.
Euclides da Cunha demonstrava que os indivíduos que se aglomeravam em Canudos tentavam
estabelecer uma forma de organização social protetora e crudelíssima ao mesmo tempo. A
justiça de Antônio Conselheiro era extremamente rigorosa para todos os que ali viviam. Havia
uma ordem moral rígida quanto à distribuição dos meios de sobrevivência entre cada membro
do povoado e permissiva no que dizia respeito ao sexo e ao casamento, por exemplo.
Os brasileiros supostamente civilizados não compreendiam o que estava ocorrendo no sertão
da Bahia e passaram a apoiar um verdadeiro desastre. Nesse aspecto ficava evidenciado o
quão desinformado eram os citadinos acerca do Brasil para além do litoral. Os sertanejos não
podiam ser diferentes na sua incivilização, mas o homem do litoral tinha obrigação de o ser,
segundo Euclides da Cunha. Transparecia no calor dos acontecimentos que o que mais
surpreendia os habitantes da capital da República, por exemplo, era que os sertanejos
reagissem à ação das forças expedicionárias. Houve um verdadeiro mal-estar nacional à
medida que a resistência dos homens do sertão se mostrava inquebrantável. Evidenciava-se
um país não acostumado à tamanha determinação. Implicitamente estava o desejo de que estes
últimos sucumbissem à ordem republicana.
Observe-se que, quando Euclides da Cunha mencionava os moradores das cidades, ele se
referia essencialmente aos habitantes da capital da República, ou seja, o Rio de Janeiro. Para
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ele, as manifestações desta população eram as mais representativas da parte do país que
pretendia ser civilizada. Acompanhando as suas atitudes e os seus comportamentos, ele
construía um perfil do homem litorâneo. Para o autor de “Os Sertões” a incivilização do
homem das cidades era, então, muito mais grave que a do sertanejo, pois estes não tinham a
menor noção das condições sociais e políticas vigentes no país como um todo.
Euclides atacou a instituição republicana – nas ações expressas do governo – porque foi no
afã de defendê-la que o massacre foi realizado. Atacou o Exército porque se atribuía o destino
da pátria, outorgava-se a fundação do novo regime e foi o executor da matança.
“Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada. Não era a ação severa das leis, era a
vingança. Dente por dente. Naqueles ares pairava, ainda, a poeira de Moreira César,
queimado; devia-se queimar. Adiante, o arcabouço decapitado de Tamarindo; devia-se
degolar. A repressão tinha dois polos – o incêndio e a faca”. (CUNHA, 1976, p. 444).

ENTRE A BARBÁRIE E A CIVILIZAÇÃO

Quando pensamos em civilização e barbárie, pensamos logicamente na imagem de extremos,


um civilizado, se portando de forma adequada, racional; o outro como sua antítese, ou seja, o
bárbaro, o irracional. Desta forma, civilização e barbárie se complementam, se fortalecendo,
ajudando a criar a identidade um do outro. É aqui que entra a análise de Edward Said (1996),
em sua obra o “Orientalismo”, onde este autor ilustra justamente como o Ocidente construiu
sua imagem de “civilizado”, tendo como base a imagem de “bárbaro”. Assim, o Ocidente
construiu a sua imagem civilizada, organizada, frente ao mundo oriental, que lhe parecia
bárbaro.
John Luckacs (2005) também ilustra bem a definição de civilização e barbárie e em especial a
ideia de “primitivo” que surgiram na língua inglesa em 1540. Segundo o autor, este termo
“sugeria, inicialmente, pessoas que ainda estavam “atrás” de nós, isto é, atrás e não à frente,
atrás de nós no tempo e não no espaço: em outras palavras, “atrasadas”“. Indo mais além ele
demonstra que foi a partir de 1600 que “civilização” havia-se transformado em antônimo de
“barbarismo” e “primitivismo” (do Dicionário Oxford de 1601: “civilizar: retirar da rudeza,
educar para a civilidade”). Concluindo este raciocínio, Luckacs ilustra que depois, já na
metade do século XIX para o início do XX, a mesma ideia de civilização ganhou espaço se
associando a ideia de cultura e de progresso.

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Euclides da Cunha ao descrever em minúcias a Guerra de Canudos, fez a aproximação
narrativa destes conceitos de “civilização e progresso” vigente a sua época, mas ao longo de
sua descrição denuncia esta violência “bárbara e desigual” com o discurso de “civilidade
institucional” do governo. O resultado foi inserir os episódios de Canudos na enorme lista de
massacres e extermínios cometidos em nome da civilização. O papel civilizador –
desempenhado pelas nações europeias – já era discutido na América espanhola, depois de
sucessivos massacres da população indígena. Mas no Brasil, num governo e numa sociedade
que tinham os olhos voltados para a Europa, o questionamento da maneira bárbara de atuar
contra a suposta barbárie, em nome da civilização, apareceu pela primeira vez em “Os
Sertões”.
“A animalidade primitiva, lentamente expungida pela civilização, ressurgiu
inteiriça. Desforrava-se afinal. Encontrou nas mãos (dos soldados) ao invés
do machado de diorito e do arpão de osso, a espada e a carabina. Mas a faca
relembrava-lhe melhor o antigo punhal de sílex lascado. Vibrou-a. Nada
tinha a temer. Nem mesmo o juízo remoto do futuro” (CUNHA, 1976,
p.445)

O movimento de Canudos ensinava que todo e qualquer processo de evolução social e política
no país somente se efetivaria se fossem levadas em conta, segundo Euclides da Cunha, as
singularidades culturais brasileiras. Os elementos fundadores da civilização brasileira se
fariam presentes indubitavelmente. Enfim, o país era civilizável se fosse entendido por
civilização algo completamente distinto dos padrões europeus.
Ou seja, o Brasil teria que construir um modo próprio de civilizar-se. De modo certo ou
errado os sertanejos de Canudos haviam tentado reverter as suas condições de desamparo e de
miserabilidade. A iniciativa fora indiscutivelmente válida e a reação das forças oficiais
irreparavelmente brutais.
A obra mostrava também o gigantesco atraso em que vivia o país. Além da miséria revelada
em Canudos – quando a cidade foi tomada, o saque das tropas do Exército só encontrou
rosários de coco e moringas de barro –, os flagelos humanos daquelas pessoas açoitadas pelas
secas formavam o quadro de horror e de justificado desespero. A ideia de nacionalidade não
era uma abstração. Era uma loucura. “Não era somente os jagunços”.
O resultado de seu esforço político e intelectual foi uma interpretação do Brasil sob uma ótica
nova e revolucionária – com fôlego para durar mais de um século – e que influenciou de
maneira profunda os estudos seguintes. “Os Sertões” trazem a ideia do país dividido em duas
sociedades (ou duas porções de uma mesma sociedade?) vivendo num desconhecimento (ou

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num antagonismo?) que transformavam seus habitantes (de raças diferentes?) em estrangeiros
num território inóspito e desconhecido.
Neste quadro, a guerra de Canudos teria sido a consequência do encontro de partes
antagônicas – inimigas – que a violência do oficialismo republicano não poupou da degola e
da dinamite; e onde o desfecho ocorre com “três ou quatro” sobreviventes “queimando os
últimos cartuchos sobre seis mil soldados”. O radicalismo sinistro do epílogo só fez reforçar
as distâncias e as diferenças que o país ignorava.
A ideia de “um terço de nossa gente” vivendo à margem do projeto de nação constituiu-se no
núcleo principal da obra. Como se o livro todo tivesse sido planejado para reforçar a visão de
uma terra desconhecida, habitada por um homem ignorado e com quem o Brasil republicano
entrara em luta – um país inimigo dentro do território nacional. Esta talvez tenha sido a
genialidade de Euclides da Cunha que nas palavras de Antonio Candido (2002) foi expressa
assim: “Muito mais que sociólogo, Euclides é quase um iluminado. As simplificações que
operou, na síntese das grandes visões de conjunto, permitiram-lhe captar a realidade mais
profunda do homem brasileiro do sertão” (CANDIDO, 2002, p. 181)
E infundiu na obra um sentimento de culpa pela conivência – assumida de forma confessional
– e de desilusão com o regime – expressa de maneira tão violenta – que impregnaram o leitor
de justa indignação política. Euclides apresentou um brasileiro – miserável e excluído –
vivendo submetido à violência de um Estado autoritário que lhe negava a própria existência.
Em “Os Sertões”, é atribuída ao governo republicano a visão europeia e colonialista de
recorrer às armas e ao aniquilamento para impor uma autoridade que a real vida institucional
não lhe dava “... e o governo começou a agir. Agir era isto – agremiar batalhões” (CUNHA,
1976, p. 248).
Essa interpretação de aspectos importantes da formação do Brasil propiciou, a Euclides da
Cunha, desenvolver o conceito de um país fraturado como nação: de um lado, a elite litorânea
e europeizada, dominante das riquezas e determinante do destino do país; e de outro, a massa
de miseráveis que vive alheia e desprovida de tudo, habitante do interior territorial brasileiro.
A existência deste país arcaico só era possível pela visão excludente da elite política que não
tinha um projeto de nação para a totalidade da população. Do ponto de vista político, a
constatação desta fissura desautorizava o governo (republicano) a falar em nome do povo.
Os acontecimentos que Euclides descreve, como testemunha ocular ou não, são fortes e
chocam. O mundo fantástico da literatura agora é compreendido, pois a “visão do inferno se
apresenta diante dos olhos”:

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“Quando a uma hora da tarde contemplei o quadro emocionante e
extraordinário, compreendi o gênio sombrio e prodigioso de Dante. Porque
há uma coisa que só ele soube definir e que eu vi naquela sanga
estreitíssima, abafada e ardente, mais lúgubre que o mais lúgubre vale do
Inferno: a blasfêmia orvalhada de lágrimas, rugindo nas bocas
simultaneamente com os gemidos da dor e os soluços extremos da morte
(CUNHA, 1976, p. 569)”.

A partir daí, Euclides da Cunha ao trabalhar com a modernidade na perspectiva da


“civilização e barbárie”, quando aponta duas vertentes: “a modernidade enquanto barbárie e a
modernidade como força civilizadora”.
Reforçando ainda essa ideia de civilização e barbárie, temos a representação dos locais da
cidade e do sertão. Sendo a primeira o local da civilização e os sertões o ambiente da barbárie.
Euclides marca sempre a ideia de um lugar inóspito, sem vida, desértico, solitário, quase sem
vegetação, sem vida - animal e humana. Por seu isolamento, o sertão envolve indivíduos com
uma tradição quase intacta, se comparada ao restante do Brasil. Este pouco contato
civilizatório e ao mesmo tempo tão forte com a natureza, faz com que o sertanejo assimile as
características desta, bruta e sem sentimentos, a barbárie.
Em contrapartida temos a cidade como representação da civilização com todo seu aparato
administrativo e burocrático, vista principalmente (como citado anteriormente) pelas forças
armadas que tomam Canudos.
A partir do paralelo traçado em sua obra, pretendeu-se demonstrar como Euclides da Cunha,
pensou a constituição do Estado-nação a partir da dialética ou do confronto entre “civilização
x barbárie”, que acabou norteando não apenas políticas nacionais, como todo o processo de
constituição de projetos nacionais no século XX, tornando-se pela inovação na forma de
pensar nas identidades nacionais. Essa dialética entre civilização e barbárie produz resultados
diversos no pensamento social e político no Brasil da Primeira República e gera, a partir dessa
leitura específica, imagens nacionais diferentes de acordo com a forma que nossos interpretes
e autores o conceberam. Ela norteará as concepções de progresso e civilização.
Refletindo o pensamento de Euclides da Cunha sobre a época em que ele vivia, a sua
denuncia do crime ocorrido em Canudos foi bastante provocativa. O mundo passava pelo
auge do imperialismo mundial, que se caracteriza justamente pelo massacre, pelo domínio e a
conquista de povos considerados “bárbaros”, pela dita civilização europeia. Talvez este seja
um dos pontos que nos ajudam a compreender como e porque a obra de Euclides da Cunha se
tornou tão importante e universal: a denuncia que ele fez de Canudos é um retrato dos
massacres feitos em nome de um ideal chamado “civilização”.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em Euclides, portanto, o embate entre civilização e barbárie não trará necessariamente bons
frutos. Apesar de acreditar no progresso como uma força histórica inevitável, a forma como
esse avanço da civilização e da modernidade se deu no Brasil, assim como a República em si,
foi apenas mais uma demonstração do atraso desta em relação à Europa. Mas não se trata de
todo, de uma imagem nacional negativa. Apesar de colocar em xeque o futuro nacional,
Euclides consegue ainda descobrir no sertanejo uma redenção para a nação, um ser capaz de
traduzir a essência do brasileiro e que, futuramente, poderá levar a cabo o projeto grandioso
da nação brasileira, finalmente unificada.
Considerado um livro definitivo no processo de formação do pensamento sociopolítico
brasileiro, “Os Sertões”, mais que construir uma história que acabaria se tornando uma
espécie de matriz referencial para a interpretação do sentido de Canudos, manteve-se como
um testemunho privilegiado dos questionamentos que dominaram os debates intelectuais no
final do século passado. Ao refletir sobre uma guerra fratricida que opunha o litoral do país __
considerado avançado e civilizado __ ao interior de um Brasil que ainda conservava uma
parte significativa de seu povo mergulhado no mais profundo atraso, Euclides da Cunha expôs
de forma contundente uma fratura quase irremediável para o projeto nacional pensado pelos
intelectuais que aderiram e defenderam com afinco a causa republicana.
Nessa justaposição de elementos de feição científica e literária, que entram por igual na
composição do texto, evidencia se a interseção, o conflituoso (des)limite de matérias dadas
como antagônicas. Parece-nos que a oposição de ideias e sistemas revela as ambiguidades
com as quais o autor vai tecendo a narrativa. Se o sertão, ou antes, se o sertanejo é visto como
o bárbaro, e bárbaro no sentido negativo do termo, também é visto como o injustiçado e como
o forte. Se, ao falar do sertanejo, é o narrador/ autor quem afirma ser uma raça inferior que
amanhã se extinguirá de todo, também consente: quem a destrói é a civilização. Ou seja, os
antagonismos, os paralelismos, ou a justaposição de contrários não são usados simplesmente a
fim de evidenciar a cisão de um lineamento real ou imaginário, mas mostram, além, o caráter
interseccional dos limites, patenteando a impossibilidade de assinalar contornos rigorosos.
Sua desilusão para com o regime fez com que enxergasse outra guerra, construísse outra
narrativa, tendo como base um conjunto de valores nascido na desesperança. Euclides da
Cunha escreveu “Os Sertões” para acusar o governo, escreveu sobre a desilusão com o regime
e sobre “a retração criminosa da maioria pensante do país (que) permitia os excessos.” Na

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forma, trouxe também o caráter cientificista que tanto encantamento provocava naquelas
mentes ávidas de ciência e de modernidade.
Constatou-se que havia ciência lá, havia um estudo “profundo” e deste trabalho e desta
honestidade autoral republicana, nascia uma espécie de catarse da intelectualidade que havia
calado e consentido, apoiado e até incentivado o massacre da população miserável no
nordeste brasileiro. A sua narrativa “Os Sertões” foi aceito como obra de culpa e seu papel
político se realizaria plenamente.
E infundiu na obra um sentimento de culpa pela conivência – assumida de forma confessional
– e de desilusão com o regime – expressa de maneira tão violenta – que impregnaram o leitor
de justa indignação política. Euclides apresentou um brasileiro – miserável e excluído –
vivendo submetido à violência de um estado autoritário que lhe negava a própria existência.
Euclides da Cunha fez a aproximação narrativa desta violência bárbara e desigual com o
discurso de civilidade institucional do governo. O resultado foi inserir os episódios de
Canudos na enorme lista de massacres e extermínios cometidos em nome da civilização.
A existência deste país arcaico – “o Brasil profundo”, nas palavras de um político, nosso
contemporâneo – só era possível pela visão excludente da elite política que não tinha um
projeto de nação para a totalidade da população.
De outro ângulo – e minimizando a capacidade visionária de Euclides da Cunha –, a razão
capaz de explicar a sobrevivência do livro “Os Sertões”, seja como estudo interpretativo ou
como “manancial de alegoria” do excluído, esteja também no fato do Brasil se manter, em
linhas gerais, num modelo socioeconômico muito próximo do apresentado por ele há mais de
cem anos. Isto é, talvez não esteja somente em “Os Sertões” a explicação de sua atualidade;
talvez as raízes da exclusão social brasileira ainda sejam as mesmas. Com isso queremos dizer
que o Brasil parece continuar muito próximo do seu passado. Com a modernização do
subdesenvolvimento – onde o processo de exclusão não se realiza por “atraso econômico” ou
por “por herança do passado”, como pensou parte dos estudos progressistas até os anos 70 – a
exclusão seria a própria lógica moderna nos países periféricos.
A obra acabada e derradeira desta atuação política e intelectual é o livro “Os Sertões” e sua
orientação é a profunda desilusão política. Não a desilusão política no sentido genérico e
existencial do termo, mas a política aplicada, real e pragmática, executada contra a república
que ele havia ajudado a implantar. O livro “Os Sertões” é a vingança do militante que se
sobrepõe à visão iluminada do intelectual. No final do livro “Os Sertões” o autor faz uma
crítica contundente ao brasileiro de modo geral. Na primeira metade da obra ele traçava um
painel da rudeza e da incivilização do sertanejo; no entanto, nos capítulos finais, ao analisar as
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posições dos habitantes das cidades diante do que estava ocorrendo em Canudos, ele concluía
que o chamado Brasil civilizado não era superior em termos políticos, de modo algum, ao
Brasil atrasado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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