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l  l  , º 5 l 345-54  345

Alberto Caeiro: linguagem e experiência perceptiva


Đaniel paulo de souza*

Resumo l Este artigo apresenta uma leitura da obra O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro, no
campo da filosofia, realizando uma aproximação entre a poesia de Caeiro e a descrição fenomenológica
da percepção feita por Merleau-Ponty. Nessa aproximação, consideramos que a noção de ato perceptivo
do poeta enfatiza as sensações e apresenta uma percepção direta das coisas em que se destacam a
visibilidade do mundo e a ausência de pensamentos sobre ele. Merleau-Ponty fala da percepção como
“terreno primeiro” para o contato com as coisas anterior a qualquer intelecção sobre elas. Como destitui
a intelecção também, as relações com o mundo realizadas pela poesia de Caeiro são, num certo sentido,
mais radicais do que as realizadas pela filosofia de Merleau-Ponty.
Palavras-chave l Alberto Caeiro. Merleau-Ponty. Fenomenologia

Title l Alberto Caeiro: Language and Perceptive Experience


Abstract l This article presents a reading of O guardador de rebanhos (The Shepherd), by Alberto
Caeiro, in the field of philosophy, through a comparison between Caeiro’s poetry and Merleau-Ponty’
phenomenological description of perception. In this comparison, we take into consideration that the
notion of the poet’s perceptive acting emphasizes sensations, and presents a direct perception of things,
in which the world’s visibility and the absence of thoughts about it stand out. Merleau-Ponty speaks
about perception as the “earliest ground’ for the contact with things, happening before any intellection
about them. As it also discharges intellection, the relations with the world operated by Caeiro’s poetry
are, in a certain way, more radical than the ones operated by Merleau-Ponty’s philosophy.
Keywords l Alberto Caeiro. Merleau-Ponty.Phenomenology

1. introduo das a partir de uma “rede de relações” que permi-


tiria conhecer a “totalidade do real” (Moutinho,
O mundo da percepção, ou aquilo que nos é reve- 2006, p. 28), e em cuja base está a redução do
lado pelos sentidos e pela experiência da vida, pa- mundo e dos objetos a elementos observáveis, a
rece ser o que melhor conhecemos, diz fragmentos de matérias que não necessitam da
Merleau-Ponty, pois basta “abrir os olhos” para experiência da percepção para identificá-los ou
percebermos o mundo, basta vivermos “para nele compreendê-los. De que adianta, diz Merleau-
penetrar”. No entanto, o pensamento científico, Ponty, consultar nossos sentidos, ou o que a per-
“pensamento de sobrevôo” e “objetivante”, vê esse cepção nos informa sobre as cores, os reflexos e as
mundo como uma falsa aparência, pois a ciência coisas, “já que, com toda evidência, são meras
tem pretensões de alcançar a constituição do aparências e apenas o saber metódico do cientis-
mundo e determinar as leis segundo as quais o ser ta, suas medidas, suas experiências podem nos
é feito, considerando tudo como “objeto em ge- libertar das ilusões”, fazendo-nos chegar “à verdade
ral”. Dessa forma, a própria relação entre ‘sujeito’ natureza das coisas?” (Merleau-Ponty, 2004, p. 2).
e ‘mundo’ é reduzida a um conjunto de ações físi- Merleau-Ponty critica esse tipo de pensamento,
cas, fisiológicas ou psico-lógicas. Para esse tipo de mostrando que é preciso, antes de qualquer ciência
pensamento, todas as coisas podem ser explica- sobre o mundo, resgatar a percepção que nos re-
vela o contato ainda “antepredicativo” com as coisas,
o contato com um mundo anterior à elaboração
Data de recebimento: 10/03/2008. científica. É preciso, segundo ele, ir ao fundo da
Data de aceitação: 26/02/2008. experiência, à origem do conhecimento de que fala
* Mestre em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu. Professor
de Língua Portuguesa e Literatura da Universidade São Judas, a ciência, e mostrar que não se pode desvincular
nos cursos de Desenho Industrial, Ciências Biológicas, Letras e o objeto de seu modo de aparecer à consciência.
Tradutor e Intérprete.
E-mail: Para Merleau-Ponty, a consciência não é pura
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intelecção, nem os objetos que nos cercam, mas também, algumas diferenças existentes entre o
eles fazem parte do “tecido sólido” da experiência, filósofo e o poeta.
habitam um mundo já dado. Dessa forma, para realizar esse estudo, alguns
A filosofia teria como tarefa, então, resgatar esse movimentos são necessários. Primeiro, apresentar
nosso contato direto com o mundo e as significa- a perspectiva fenomenológica de Merleau-Ponty,
ções que as qualidades dos objetos nos desvelam, acompanhando a crítica que ele faz ao pensamen-
bem como reconhecer que toda reflexão ou ciência to científico e a certas correntes filosóficas, como
está antes assentada no terreno primordial da per- o racionalismo, principalmente ao modo como
cepção. Essa é justamente uma das propostas da compreenderam a percepção. Segundo, indicar
fenomenologia: fazer um relato do “mundo vivi- como Caeiro valoriza o processo perceptivo por
do”, retornar “às coisas mesmas”. meio das ‘sensações’. Terceiro, refletir os desdo-
Na tentativa de falar a respeito deste “retorno ao bramentos filosóficos dessa aproximação.
mundo vivido”, à “experiência primordial”, Merleau-
Ponty vê nas artes, especialmente na pintura, uma 2. fenomenologia da percepo
forma de manifestação desse mundo da percep-
ção. Ele vê, por exemplo, na pintura de Cézanne O resgate que Merleau-Ponty faz do “mundo da
um movimento de revelação desse mundo já que, percepção”, em oposição à tentativa da ciência de
para Merleau-Ponty, Cézanne não quer separar a desvencilhá-lo da verdade, relegando-o à aparência
sensação e o pensamento, ele não quer separar as e à mera subjetividade, pressupõe que, na ordem
coisas de sua maneira de aparecer, mas “quer pintar da percepção, é preciso reconhecer que o mundo já
a matéria ao tomar forma, a ordem nascendo por está dado, anterior a qualquer análise que se possa
uma organização espontânea” (Merleau-Ponty, fazer sobre ele2, e a consciência, no processo per-
1975, p. 306). O pintor, diz Merleau-Ponty, suspen- ceptivo, não precisa constituí-lo como pensamen-
de as relações habituais de conhecimento e “reve- to, mas constatar que está lançada nele a fim de
la o fundo de natureza inumana sobre o qual se conhecê-lo. Merleau-Ponty diz que estamos ligados
instala o homem”, resgatando o “mistério da apa- ao “tecido sólido” do real, a uma certa facticidade da
rição” de algo na natureza. própria existência, então é preciso considerar os
Nesse contexto, situamos a poesia de Alberto significados próprios da percepção sem reduzi-la
Caeiro, heterônimo pastor de Fernando Pessoa, que, a um produto do pensamento. Seguindo essa idéia,
na obra O guardador de rebanhos, apresenta uma Merleau-Ponty (1975, p. 308) comenta que “a ex-
noção de percepção próxima à descrição fenome- pressão de tudo que existe é uma tarefa infinita”,
nológica feita por Merleau-Ponty. A poesia de já que o percebido está constantemente nos reve-
Caeiro é baseada no contato direto com a natureza, lando novas significações. A consciência deve ser
recusando qualquer intervenção do pensamento, reconhecida “como projeto do mundo, destinada
inclusive a mediação lingüística que traduz a expe- a um mundo que ela não abarca nem possui, mas
riência em discurso poético. A proposta de Alberto em direção ao qual ela não cessa de se dirigir”
Caeiro está calcada em uma característica da natu- (Merleau-Ponty, 1999, p. 306). O mundo será para
reza que, segundo ele, é básica e inevitável: a visi- essa consciência “pré-objetivo”, “uma unidade que
bilidade do mundo, a apresentação das coisas reais prescreve à consciência a sua meta”. Para Merleau-
como espetáculo à visão. Sobre isso, ele diz: “Creio Ponty, o sujeito está lançado no mundo, e é no
no mundo porque o vejo. Mas não penso nele” mundo que ele conhece.
(GR, II, p. 26)1. Para o racionalismo cartesiano, essa relação
Como este estudo analisa a poesia de Caeiro no perceptiva entre o sujeito e o mundo se dá a partir
campo da filosofia, a reflexão de certos aspectos de de uma operação intelectual. O conhecimento
O guardador de rebanhos será feita a partir dessa que temos das coisas não ocorre por meio dos
aproximação entre as noções de percepção de sentidos, mas é produto do pensamento, é conce-
Merleau-Ponty e de Alberto Caeiro, destacando, bido pela inteligência antes de qualquer sensação
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exterior. Descartes, ao analisar o exemplo do pe- são assimiladas e se tornam conteúdos da cons-
daço de cera em sua “Segunda Meditação Metafí- ciência, perdendo seu aspecto concreto e exterior.
sica”, diz que, embora um objeto sofra mudanças, A própria consciência também não tem interior,
como ocorre com a cera depois que é aproximada ela é o exterior de si mesma, é uma explosão, um
ao fogo, é possível ainda reconhecê-lo como o mes- movimento em direção ao mundo.
mo objeto, porque o que nos permite concebê-lo Ao contrário da perspectiva racionalista, na
é, na verdade, a faculdade do entendimento; ainda fenomenologia merleau-pontiana o mundo não
que as coisas sofram alterações sensíveis, consta- será visto como um produto do pensamento, mas
tamos a identidade delas por meio de uma opera- como o pressuposto para a consciência que sempre
ção do “espírito”. Assim, a certeza do mundo acaba vai em direção a ele. Essa noção de percepção nos
sendo compreendida por meio de uma “inspeção mostra que somos “seres-no-mundo”, que todo co-
do espírito”3. Diz Descartes: “só concebemos os nhecimento já intelectualizado é uma expressão
corpos por intermédio da capacidade de entender em terceiro grau do mundo, calcado nesse terreno
que há em nós e não por intermédio da imagina- comum do ato perceptivo, e que ele encontra na
ção nem dos sentidos, e que não os conhecemos linguagem um grau de mediação entre a percepção
pelo fato de os ver ou de tocá-los, mas apenas por e a racionalidade.
concebê-los por meio do pensamento” (Descartes,
1999, p. 268). 3. a poesia de alberto caeiro
Como destacamos, para Merleau-Ponty a per-
cepção não pode ser tratada como uma operação A poesia de Alberto Caeiro enraíza-se justamente
intelectual, ela não é a síntese de dados da cons- nessa camada viva da experiência e deixa-se levar
ciência que excitam o aparelho sensorial. O mun- pelo modo de aparecer das coisas, habita o campo
do percebido, de acordo com Merleau-Ponty (1999, dos fenômenos como alguém habita naturalmente
p. 42), é “o fundo sempre pressuposto por toda os campos na natureza. Para o poeta, a experiência
racionalidade, todo valor e toda existência”. Sartre4 sensível revela os objetos como existentes visíveis
dirá que o realismo e o idealismo não compreen- e não como significações para a consciência. As
deram bem esse movimento da consciência em coisas, para o poeta, não têm significação, “têm
direção ao mundo dos existentes factíveis. Eles existência”, revelam, portanto, apenas uma dimen-
dizem que conhecer é “comer”, isto é, que conhecer são factual e imediata, sem interferências do pen-
é assimilar as coisas na consciência, degluti-las e samento. Isso pressupõe que a natureza é um
torná-las “um composto de conteúdos de cons- espetáculo de visibilidade e não carrega sentidos
ciência” (Sartre, 2005, p. 55). Eles praticam o que ocultos. Caeiro mesmo diz a respeito dessa visão
Sartre chama de filosofia alimentar porque dis- que tem do mundo: “sou um homem que um dia,
solvem os objetos na consciência. Porém, os obje- ao abrir a janela, descobri esta cousa importantíssi-
tos não são da mesma natureza da consciência: a ma: que a Natureza existe. Verifiquei que as árvores,
árvore que se vê à beira da estrada, por exemplo, os rios, as pedras são cousas que verdadeiramen-
não entra na consciência porque um é exterior ao te existem. Nunca ninguém tinha pensado nisto”
outro, e ambos “são dados de uma só vez”, sendo (Pessoa, 2001, p. 201). Essa atitude natural e simples
que o mundo é, por essência, “exterior à consciên- permite que ele veja a natureza. Ele complementa:
cia”, ele já é uma realidade posta em que o sujeito “fiz a maior descoberta que vale a pena fazer (...).
se lança a fim de apreendê-lo. A consciência, por Dei pelo Universo. Os gregos, com toda a sua niti-
sua vez, não pode ser expressa por nenhuma ima- dez visual, não fizeram tanto” (Idem, ibidem).
gem a não ser a “explosão”. Conhecer, diz Sartre, Ao longo dos quarenta e nove poemas da obra
“é explodir em direção a”, é um movimento para O guardador de rebanhos, destacam-se todas essas
fora de si, para além de si, ir próximo aos objetos, idéias que expõem como Caeiro experiencia a na-
mas não para dentro deles, porque o conhecimen- tureza, a começar pela definição que há no segun-
to “não é comparável à posse”, em que as coisas do poema5: “Não tenho filosofia, tenho sentidos”.
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Aliás, a respeito de qualquer atitude pensante, ele E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
alerta: “Pensar incomoda”, mais ainda “Pensar é Sempre que olho para as cousas e penso no que os
estar doente dos olhos”, pensar é fechar as cortinas homens
da janela e não presenciar o espetáculo do mundo [pensam delas,
que se desvela incessantemente aos sentidos. Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Assim ele se define como ‘ser natural’ que ape-
nas sente6: Sua atitude natural é simplesmente ver as coi-
sas a partir do modo como elas aparecem aos
Sou um guardador de rebanhos. sentidos, sem procurar algum mistério nessa visi-
O rebanho é os meus pensamentos bilidade do mundo. O “rio” e a “árvore” nada sa-
E os meus pensamentos são todos sensações. bem sobre o mistério (“Que sabe o rio disso e que
Penso com os olhos e com os ouvidos sabe a árvore?”), eles apenas existem e não levam
E com as mãos e os pés a pensar em nenhum sentido oculto:
E com o nariz e a boca.
Porque o único sentido oculto das cousas
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la É elas não terem sentido oculto nenhum.
E comer um fruto é saber-lhe o sentido. É mais estranho do que todas as estranhezas 
E do que os sonhos de todos os poetas
Pensar, conforme ele o coloca, é cheirar, é ver, os pensamentos de todos os filósofos,
definindo que “pensa” pelos sentidos, pelo corpo, Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
que seus pensamentos são sensações: a expressão E não haja nada que compreender.9
“saber o sentido de um fruto é comê-lo” quer dizer
que o ato de comer substitui o ato de pensar ou de Não havendo nenhum sentido oculto, não há
atribuir um “sentido” ao fruto. Esse movimento nada para ser compreendido nas coisas. Caeiro
caeiriano de conhecimento não mediado e instan- diz que isso é mais “estranho” que os sonhos dos
tâneo afirma uma espécie de “curto-circuito” entre o poetas e que os pensamentos dos filósofos porque
ver e o conhecer. Isso coloca Alberto Caeiro como faz que a natureza seja realmente como ela é, que
um “sensacionista puro e absoluto que se prostra ela seja somente um espetáculo visível diante do
ante as sensações qua exterior e nada mais admi- olhar. Em O guardador de rebanhos, a percepção que
te” (Pessoa, 1966, p. 349). A sensação é tudo, e o Alberto Caeiro delineia é, como diria Merleau-
pensamento será uma doença, afinal, “Caeiro não Ponty, sua forma de conhecer e de ser no mundo.
tem ética a não ser a simplicidade” (Idem, p. 350). Compreender, para o poeta, é reparar na sucessão
Essa simplicidade está na forma como vê o mundo imagética das paisagens que contempla, é estar aten-
e como expõe sua vida em contato com a natureza. to a esse modo de aparecer que as coisas possuem.
Na seqüência, Caeiro destaca que não existe Por isso o olhar é importante, e ele diz que “O es-
mistério nas coisas, não há nada nelas para ser sencial é saber ver / Saber ver sem estar a pensar10”;
compreendido. Ele diz que “Há metafísica bastante na verdade, Caeiro dirá que a nossa “única riqueza é
em não pensar em nada”7 e que não há razões para ver”11 . Para ele, o olhar voltado para o mundo é o
se pensar em “causas” e “efeitos”, em “Deus” e na sentido privilegiado, o que melhor revela os objetos.
“alma”, posto que essas elucubrações distanciam o Esse contato direto e visual, desprovido de qualquer
sujeito da visibilidade das coisas. Essa idéia é re- pensamento, revela uma “percepção pura” que prio-
tomada nos versos do poema trinta e nove8: riza as sensações e destaca um movimento exclusi-
vamente sensitivo em direção aos objetos, percebendo
O mistério das cousas, onde está ele? apenas a existência factual que possuem. Assim
Onde está ele que não aparece Caeiro finaliza o poema trinta e nove que citamos:
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:
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As cousas não têm significação: têm existência. radical que a destacada pela filosofia merleau-
As cousas são o único sentido oculto das cousas. 12 pontiana, porquanto a experiência perceptiva de
Alberto Caeiro não admite nenhuma significação
Esse reconhecimento da existência das coisas e nenhuma mediação, enquanto Merleau-Ponty
como objetos para a percepção e não para o pen- reconhece que há, já na experiência elementar,
samento indica, na nossa leitura, que a poesia de um “sentido”. Esse radicalismo fica evidente em
Caeiro faz o movimento proposto pela fenome- um dos paradoxos, o da linguagem, identificado
nologia merleau-pontiana: vai ao fundo da expe- em O guardador de rebanhos quando ele diz:
riência, ao momento em que o sujeito tem contato
com os objetos, ao momento em que eles são re- “Só a Natureza é divina, e ela não é divina...
velados à percepção no contato “originário”, o que
Merleau-Ponty chama de “berço das coisas”. Des- Se às vezes falo dela como de um ente
sa forma, revelando a “experiência elementar do É que para falar dela preciso usar a linguagem dos ho-
mundo”, podemos dizer que a obra de Alberto mens
Caeiro dá a ver esse “mundo da percepção” à me- Que dá personalidade às cousas,
dida que em seus versos vai delineando seu modo E impõe nome às cousas.”13
de repara na natureza que está diante do horizonte
do olhar. Nesse ponto, ele parece concordar com Quando reconhece que faz uso do que ele chama
Merleau-Ponty quando o filósofo diz que “ver é de “linguagem dos homens”, e que essa linguagem
entrar em um universo de seres que se mostram” atribui uma personalidade e um nome às coisas,
na estrutura “objeto-horizonte” (Merleau-Ponty, termina por reconhecer também que emprega
1999, p. 105). Para Caeiro os objetos somente se conceitos e idéias para apresentar seu modo espe-
mostram como existentes factuais e permanecem cífico de ser-no-mundo. A linguagem utilizada pe-
sempre à mostra no horizonte do olhar. lo poeta medeia significações para apresentar essa
Todavia, a forma como Caeiro descreve essa percepção radical, mesmo ele abolindo qualquer
noção de percepção faz que reconheçamos nela relação com o pensamento. Caeiro justifica-se,
um horizonte paradoxal, já que ele recusa o pen- dizendo que, para ser lido, ele se sacrifica às vezes
samento, a compreensão das coisas, a mediação “à estupidez dos sentidos”, que não reconhece o
da linguagem e o significado dos objetos realizan- que são os objetos e necessita da linguagem para
do todos esses movimentos: ele pensa (como diz apresentá-los:
os versos anteriores “penso no que os homens
pensam”), compreende o mundo como senciente Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às
e utiliza a linguagem para nomear o significado vezes
da experiência de que fala. Mesmo tentando dis- À sua estupidez de sentidos...
tanciar-se, ele não consegue porque fala das sen- Não concordo comigo mas absolvo-me,
sações e do valor do olhar, descreve em palavras a Porque não me aceito a sério,
visão que tem do mundo. Entretanto, temos que Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da
entender que Caeiro, sugerindo por meio dos ver- Natureza,
sos, conduz-nos a essa experiência primeira com Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
as coisas, faz “nascer” o mundo visível diante dos Por ela não ser linguagem nenhuma.14
olhos, mostra como é sua vida em contato com a
natureza e comenta que essa é a experiência que Nesse sentido, ser um intérprete da natureza é
realmente revela as coisas, que faz o sujeito retor- traduzir poeticamente algo que percebe. Por utilizar
nar ao que ele chama de “homem verdadeiro e o mecanismo da linguagem para transmitir essa
primitivo”. percepção radical que possui, não concorda con-
Em virtude desses movimentos paradoxais, a sigo mesmo porque isso que ele faz está distante
noção de percepção que Caeiro delineia é mais do que considera a percepção direta do mundo.
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4. a questo da linguagem modo sintético e implícito. Dessa forma, ela pres-


supõe o reconhecimento de uma ‘identidade na
Refletindo esse paradoxo da linguagem, dois pro- diferença’, pois entre dois termos que se supõem
blemas surgem, o primeiro ligado à significação diferentes há um fator de semelhança que os tor-
do discurso poético, fazendo que se questione a na próximos.
importância que ela possui, e o segundo ligado à Esse movimento significativo faz surgir novos
referência que essa significação remete, já que ela sentidos e, embora Caeiro tente destituí-lo, apare-
não leva necessariamente a um existente visível e ce na construção do texto poético. Isso pode ser
real, mas permite que se considere um referente reparado no poema quarenta e seis, quando ele
“não imediato”. Essas pressuposições se dão por- diz:
que, independente de Alberto Caeiro admitir ou
não, a “linguagem dos homens” a que aludiu abre Procuro despir-me do que aprendi,
margens para essas questões, em vista de a pala- Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me
vra não ser um elemento lingüístico destituído de ensinaram,
sentidos. E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
É preciso considerar que cada problema traz Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
consigo dois pontos específicos: o problema do Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
significado diz respeito a uma questão lingüística Mas um animal humano que a Natureza produziu16.
do discurso poético, e a idéia de uma referência
não imediata, que não aponta necessariamente Como utiliza em sua poesia relações imagéticas
para o objeto, faz surgir uma questão epistemoló- ao aproximar, por exemplo, termos como “desen-
gica, ligada ao novo conhecimento que a poesia caixotar” e “emoções verdadeiras” ou “desembru-
traz. Uma vez que a noção de percepção de Caei- lhar” e o pronome “me” representando “eu” em um
ro é destacada no discurso poético, cuja constru- único predicado, produz metáforas e significações
ção faz uso das palavras e dos sentidos que elas que fazem parte do texto, mesmo ele afirmando que
carregam, podemos refletir esse movimento a deseja escrever e “sentir a Natureza, nem sequer
partir da forma como Paul Ricoeur pensa a arti- como um homem, / Mas como quem sente a Natu-
culação do discurso, principalmente por meio de reza, e mais nada”17, o que mostra a dimensão do
seu estudo sobre a metáfora. paradoxo pertinente à linguagem. Nota-se que a
Em linhas gerais, Ricoeur diz, em sua obra A relação de identidade é feita em uma frase, em
metáfora viva15, que a metáfora foi compreendida um contexto, entre termos que são aproximados
por Aristóteles como a transferência de um nome pela predicação inconveniente.
de um objeto para outro, a aproximação entre A partir do contexto da frase, é possível con-
dois termos distintos a partir da semelhança que cordar com Ricoeur que a metáfora ocorre a par-
comportam. Esse processo acaba criando um uso tir de uma predicação e não de uma denominação18.
da palavra que não é habitual, já que a metáfora é Por isso, ele passa a falar em “enunciação metafó-
produzida dentro de uma ordem lingüística pre- rica” e não em uso “metafórico da palavra”, dizen-
estabelecida. Dessa forma, ela produz uma nova do que “a metáfora é, antes, um uso desviante dos
ordem do discurso, pois faz esses dois termos, no predicados no quadro da frase completa” (Ri-
processo metafórico, comungarem de uma cum- coeur, 1989, p. 217). Sendo produto de uma trans-
plicidade. Diz Ricoeur que “se, formalmente, a gressão, a metáfora pode ser tomada como uma
metáfora é um desvio em relação ao uso corrente impertinência semântica uma vez que subverte as
das palavras, de um ponto de vista dinâmico ela relações significativas habituais da linguagem.
procede de uma aproximação entre a coisa a no- Depois, não sendo propriedade de um nome, mas
mear e a coisa estranha à qual ela empresta o nome” pertencente ao conjunto da frase, ela deixará de
(Ricoeur, 2000, p. 43), fazendo que a metáfora repre- ser chamada de metáfora para ser enunciado me-
sente uma espécie ‘curto-circuito’ entre os termos de tafórico. Assim, a metáfora é, na verdade, uma
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impertinência semântica do enunciado. Na apro- Ricoeur, a partir de agora “pressupomos um mundo


ximação entre os termos dentro desse enunciado da obra” (Ricoeur, 2000, p. 337); a estrutura da
impertinente, surge o que Ricoeur chama de choque obra seria seu próprio sentido, enquanto que o
entre dois campos semânticos distintos, antes des- mundo da obra seria seu referente, e Ricoeur diz
crito como desvio do uso comum. A resposta a es- que “interpretar uma obra é desvendar o mundo
se choque faz surgir o que Ricoeur chama de ‘nova a qual ela se refere em virtude de sua ‘disposição’,
ordem’, e que, em vista da denominação “imperti- de seu ‘gênero’ e de seu ‘estilo’” (Idem, ibidem). A
nência”, passa a ser uma nova pertinência semânti- busca que se dirige para o mundo desvelado pela
ca. Se o significado habitual do termo não se aplica obra é a oportunidade de vermos que o enunciado
mais ao contexto, é preciso então um novo signi- metafórico, embora tido como aquele que apa-
ficado, que será justamente a inovação semântica. rentemente não possui um referente imediato por
Com isso, Paul Ricoeur destaca que o enuncia- causa da figuração e de seus vários significados,
do metafórico realiza o movimento de inovação pode estabelecer a suspensão de uma referência
semântica na linguagem. Ele mostra que essa nova imediata e constituir outra, chamada por Ricoeur
significação produzida pela enunciação metafórica de referência metafórica.
caracteriza o discurso poético em que, segundo Para que se pense além da referência ostensiva
diz, “os significados estão todos dentro de uma fra- e direta, a condição imposta por Ricoeur é a justi-
se singular de complexa interação de significações” ficação da natureza distinta de certas obras, espe-
(Ricoeur, 2000, p. 58). Por esse motivo é difícil cialmente as que chamamos de literárias. A
para Caeiro distanciar-se das significações por- produção desse tipo de texto, ele diz, significa jus-
que ele produz uma obra literária, faz metáforas, tamente que a relação do sentido à referência é
e conforme aponta Ricoeur, “uma metáfora diz- “suspensa”. Suspende-se essa relação direta para a
nos algo novo acerca da realidade” (Idem, p. 64). instauração de uma referência de segundo grau. O
Outro aspecto importante sobre o enunciado fazer artístico, escreve Ricoeur, não é desprovido de
metafórico é formulado por Ricoeur a partir de referência, mas exige a configuração de um novo
uma pergunta: a que o discurso metafórico faz re- postulado da referência: a obra literária somente
ferência? Ricoeur evoca Gottlob Frege, e seu en- desvela um mundo “sob a condição de que se sus-
saio intitulado Sobre o sentido e a referência, em penda a referência do discurso descritivo” (Idem,
que ele fala da necessidade de haver uma referên- p. 338), ou, em outras palavras, que se pense em
cia de primeiro grau diretamente ligada ao sentido um referente de segunda ordem dado no próprio
de uma palavra. Essa relação entre sentido e referên- processo da metáfora, porquanto o enunciado me-
cia privilegia os discursos não metafóricos, visto que tafórico mostra bem essa “referência suspensa” e
as palavras são empregadas nesses discursos com essa “referência desvelada”. A expressão utilizada
sentido preciso e, conseqüentemente, com uma re- por Ricoeur é bastante enriquecedora, quando diz
ferência que Ricoeur chama de “ostensiva”, “direta”. que, a partir da impertinência semântica e da ino-
Logo, o discurso literário, por ser metafórico e alusi- vação semântica que produz, o enunciado meta-
vo, não possuiria referentes imediatos na realidade. fórico conquista justamente seu sentido “sobre as
No entanto, Ricoeur, na tentativa de superar a ruínas do que se pode chamar referência literal” e
idéia de referência aplicada a um nome que con- constrói o que chama de referência de segundo grau.
tenha um sentido unívoco, diz que o texto é uma Ao longo dos poemas, Alberto Caeiro faz muitas
entidade complexa, discursiva, é prioritariamente comparações utilizando o “como”, tentando sempre
um “discurso como obra” e, antes de tudo, ele é “a apontar para os objetos de modo que a poesia pro-
sede de um trabalho de composição”, e a obra deve cure fazer referência somente às coisas, não admi-
ser entendida como uma singularidade, correlato tindo a alusão a significados: “olhar nítido como”,
de um fazer. Dessa forma, deve-se dirigir ao texto “crer no mundo como”, “os relâmpagos sacudiam
literário como obra, como composição, sem a es- o ar como”, “minha alma é como”. Mesmo assim,
pecificidade dos nomes isolados. Como afirma buscando o referente ostensivo, há momentos em
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que ele acaba significando a própria experiência guardador de rebanhos em si representa uma pro-
do mundo de que fala, o que permite reconhecer posta de vida simples, que recusa o pensamento e
o horizonte paradoxal que discutimos. propõe somente o contato direto com os objetos
A partir de todos esses pontos, pudemos ver sem a interferência do pensamento. Conforme vi-
como a metáfora, tomada no sentido de enunciado mos, essa concepção de ato perceptivo caeiriana
metafórico, trabalha os níveis da significação e da é, na nossa leitura, mais radical que a noção de
referência correntes para propor uma inovação no Merleau-Ponty, que já o filósofo reconhece na
plano semântico. Essa inovação na verdade permeia percepção elementar do mundo uma significação.
toda a obra, que passa a evidenciar seu próprio Entretanto, Caeiro mostra algo a que o filósofo
mundo. O texto poético é aquele que, constituído francês faz referência: o sentir como essa rica ex-
das expressões metafóricas, extrapola os caracteres periência que reveste as coisas de um “valor vital”;
da visão comum e realiza uma tensão entre signi- nas palavras de Merleau-Ponty, o sentir torna-se,
ficações aparentemente incompatíveis. Podemos na experiência do mundo que envolve um sujeito
concluir que a metáfora, e por conseqüência o dis- ‘encarnado’ e habitante de uma paisagem que é
curso poético, “faz referência a algo que não pode constantemente revelada, “esta comunicação vital
ser dito de modo direto, a uma dimensão da re- com o mundo que o torna presente para nós co-
alidade que não pode ser alcançada de maneira mo lugar familiar de nossa vida” (Merleau-Ponty,
direta” (Gentil, 2004, p. 190). Conforme coloca 1999, p. 84).
Ricoeur, “a referência [metafórica] se faz à manei- Essa riqueza do texto de Alberto Caeiro per-
ra de um ‘ver como’ que implica um ‘ser como’”20 mite identificar na obra O guardador de rebanhos
e realizará “uma troca entre o poeta e o mundo, muitas questões provocadoras para a filosofia, co-
graças à qual a vida individual e a vida universal mo as que discutimos ao longo deste estudo. Uma
crescem juntos” (Ricoeur, 2000, p. 379). Está aí, sem delas mostra que, mesmo o poeta falando sobre a
dúvidas, um problema para o poeta que deseja importância da objetividade na forma como as
desligar as relações significativas do texto e desti- coisas têm de aparecer, há uma subjetividade ins-
tuir a linguagem enquanto ela medeia a experiên- talada nessa maneira de ver o mundo a partir do
cia poética. movimento puramente perceptivo. Como Caeiro
Esses dois problemas ligados à questão da lin- faz poesia, sua experiência mediada pela lingua-
guagem destacam uma riqueza do texto que escapa gem levanta o problema de se olhar objetivamen-
ao domínio do próprio Caeiro, porque o excesso te às coisas, semelhante ao movimento científico:
de sentido produzido pela enunciação metafórica considerar o objeto livre de intervenções humanas,
e a referência de segundo grau atrelada a essa sig- destituído do sentido que carrega. Nesse caso, é
nificação mostram que há uma articulação de possível indicar outra questão como horizonte de
discurso que desperta um conhecimento sobre o análise, também pertinente à obra de Caeiro e em
mundo, mesmo que ele pretenda indicar uma ex- diálogo com a fenomenologia merleau-pontiana.
periência direta e voltada ao aspecto mais objetivo Como é um campo muito fecundo, limitar-nos-
do mundo. A proposta de uma percepção radical emos por enquanto a apontá-lo: trata-se do estudo
e pura é permeada pela mediação significativa do das relações entre subjetividade e objetividade
poema e pela epistemologia que a acompanha. As presentes na obra caeiriana.
relações semânticas do texto nos permitem essa
leitura ainda que o poeta tente distanciar-se da Referências bibliográficas
linguagem, mostrando a dificuldade em fazê-lo.
DESCARTES, René. Meditações. Tradução de Enrico
5. concluso Corvisieri. São Paulo: Abril Cultural, 1999. Col. Os
Pensadores.
GENTIL, Hélio Salles. Para uma poética da modernidade.
Mesmo diante de todas esses pontos que deno- São Paulo: Loyola, 2004.
minamos ‘paradoxais’, é preciso destacar que O
out. ⁄ no.⁄ dez. l  l  , º 5 l 345-54  353

MERLEAU-PONTY, Maurice. Textos selecionados. 13 GR, XXVII, p. 63.


Tradução de Marilena Chauí et al. São Paulo: Abril, 14 Idem, ibid.
1975, Col. Os Pensadores. 15 RICOEUR, Paul. A metáfora viva. São Paulo: Loyola,
__________. Fenomenologia da Percepção. Tradução de 2000.
Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins 16 GR, XLVI, pp. 84-85.
Fontes, 2002. 17 GR, XLVI, p. 85.
__________. O Primado da percepção de suas conseqüências 18 RICOEUR, Paul. Teoria da Interpretação. Lisboa: edições
filosóficas. Tradução de Constança Marcondes César. 70, 1999. p. 61.
Campinas: Papirus, 1999. 19 Caeiro, segundo essa afirmação de Paul Ricoeur, não
__________. Conversas – 1948. Tradução de Fábio Landa e escapa à referência metafórica porque destaca sempre o “ver
Eva Landa. São Paulo: Martins Fontes, 2004. como”.
MOUTINHO, Luiz Damon Santos. Razão e experiência:
ensaio sobre Merleau-Ponty. Rio de Janeiro: Unesp,
2006.
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Lind e Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Ática, 1966.
RICOEUR, Paul. Do texto à acção: ensaios de hermenêutica
II. Tradução de Alcino Cartaxo e Maria Jose Sarabando
Porto: RES, 1989.
__________. A metáfora viva. Tradução de Dion Davi
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__________. Teoria da Interpretação. Tradução de Artur
Morão. Lisboa: Edições 70, 2000.
SARTE, Jean Paul. Situações I. Tradução de Cristina Prado.
São Paulo, Cosacnaif, 2005.

Notas

1 A fim de facilitar as citações à obra O guardador de


rebanhos, utilizamos, para fazer referência a ela, a abreviatu-
ra GR e a referência direta ao número do poema. Essas
referências ao longo do texto são da seguinte edição:
PESSOA, Fernando. Poesia: Alberto Caeiro. São Paulo: CIA
das Letras, 2001.
2 MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção. São
Paulo: Martins fontes, 1999. p. 5.
3 DESCARTES, René. Meditações. Trad. de Enrico Corvi-
sieri. São Paulo: Abril Cultural, 1999. Col. Os Pensadores. p.
265.
4 SARTRE, Jean Paul. “Uma idéia fundamental da fenome-
nologia de Husserl: a intencionalidade”. In.: Situações I.
Trad. de Cristina Prado. São Paulo: Cosac&naif, 2005, pp.
55-57.
5 GR, II, p. 26.
6 GR, IX, p. 44.
7 GR, V, p. 31.
8 GR, XXXIX, p. 77.
9 Idem, ibidem.
10 GR, XXIV, p. 60.
11 GR, VII, p. 36.
12 GR, XXXIX, p. 77.
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