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A ARTE DE PERGUNTAR E SUAS APLICAÇÕES NA TERAPIA COMUNITÁRIA

Roberto Faustino de Paula∗

"Consideramos que a nossa contribuição é constituída basicamente de perguntas,


em particular, daquelas que nossos interlocutores não se fazem, e que dão
possibilidade a muitas respostas que, por sua vez, podem gerar novas perguntas".
(Andersen, 1996:p.48)

Fazer perguntas durante uma terapia, pode se constituir numa arte ou forma de
intervenção terapêutica facilitadora para promover ações transformadoras na vida das
pessoas. Este trabalho irá se concentrar na articulação entre o ato de perguntar e suas
aplicações na terapia comunitária, mormente no que diz respeito às fases de
contextualização e problematização.
Na fase denominada contextualização da terapia comunitária o terapeuta lança
questões para compreender o sofrimento de alguém, ou seja, são feitas perguntas que
ajudem a esclarecer o ocorrido, situar melhor os acontecimentos, permitindo assim que se
compreenda esse sofrimento em seu contexto. Desse modo, o terapeuta fica atento à fala e
às respostas dadas pela pessoa que trouxe seu sofrimento, e ir anotando as palavras-chaves
que servem de temas para serem refletidos através dos motes.
Na fase da terapia comunitária denominada problematização, o terapeuta formula
os motes. O mote é uma pergunta-chave que vai permitir a reflexão do grupo, durante a
terapia. Ou seja, os motes são perguntas que permitem ao grupo refletir sobre o sentido ou
significado dos comportamentos apresentados pelas pessoas.
O objetivo principal do ato de formular perguntas aqui proposto é o de criar um
contexto no qual os participantes da conversa, clientes e terapeutas, estão sempre
aprendendo algo, ou seja, aprendendo a aprender.

O poder da pergunta na abordagem sistêmica


Como terapeutas, ao fazermos perguntas aos nossos clientes, nós os provocamos (no bom
sentido) a dizerem quem eles/elas são, e a definirem seus relacionamentos ou
posicionamentos frente a novas idéias. Para isso, as perguntas hipotéticas acerca do futuro e
as perguntas reflexivas (vide definição e exemplos adiante) são particularmente úteis ao
contexto terapêutico.
No início da terapia, o/a terapeuta costuma fazer perguntas para se orientar em torno do
sistema-problema experimentado pela família (contextualização do problema). Contexto é
o conjunto de subsistemas que formam uma comunidade ou conjunto de realidades (um
sistema). Toda situação-problema deve ser vista e tratada como inserida num dado sistema
ou subsistema. Desse modo, caberiam as seguintes perguntas: De que nível faz parte esse
problema? De um subsistema, por ex. mãe-filho? De um sistema, por exemplo: família,
comunidade? De um supra-sistema, a exemplo do mito construído por uma cultura?
Por conseguinte, a abordagem sistêmica é uma maneira de abordar, visualizar, situar,
pensar, sentir um problema em relação ao seu contexto, incluindo a interação entre todas as
suas partes envolvidas.


Professor adjunto de psiquiatria, UFPE.
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Intenções e efeitos das perguntas


Cada pergunta formulada pelo terapeuta possui alguma intenção e alguma hipótese a ser
testada. Estrategicamente falando, o terapeuta pode estar imbuído de diferentes intenções,
ao fazer os quatro tipos de perguntas seguintes:
1. Perguntas lineares (caráter investigativo)
2. Perguntas circulares (caráter exploratório e de curiosidade)
3. Perguntas estratégicas (efeito corretivo)
4. Perguntas reflexivas (desencadeiam uma atitude reflexiva acerca dos sistemas de crença
preexistentes na família, pressupondo que seus integrantes são seres autônomos e não
podem ser instruídos diretamente)
Cada uma dessas perguntas, com as respectivas intenções acima descritas, tende a provocar
diferentes efeitos seja nos pacientes como nos terapeutas. E tais efeitos são sempre
imprevisíveis, porém aqui vão algumas tendências.
Efeitos nos pacientes:
1. Perguntas lineares (efeito conservador, no sentido de provocar mudanças)
2. Perguntas circulares (desperta a compreensão sistêmica das influências recíprocas
nas relações interpessoais)
3. Perguntas estratégicas (efeito manipulador ou controlador)
4. Perguntas reflexivas (abrem espaço para novas perspectivas, novas direções, novas
percepções ou avaliações)
Efeitos nos terapeutas:
1. Perguntas lineares (tornam-se mais julgadores)
2. Perguntas circulares (atitude de aceitação em relação aos clientes)
3. Perguntas estratégicas (atitude de oposição em relação aos clientes)
4. Perguntas reflexivas (tornam-se mais criativos)

Detalhamento dos tipos de perguntas


• PERGUNTAS LINEARES:
São formuladas para orientar o terapeuta em relação à situação-problema trazida pela
família, baseando-se no pressuposto da causalidade do problema ser linear. A intenção
em formulá-las é eminentemente investigativa. O terapeuta comporta-se mais como um
investigador ou detetive, tentando desvendar um mistério. Ex: "Quem fez isso? Onde?
Quando? Por que?"
A maioria das entrevistas começa com o terapeuta fazendo algumas perguntas lineares.
Elas são mais adequadas para atender às expectativas dos familiares, presentes à sessão,
de descobrirem a causa específica do "problema" por eles trazido, ou seja, do
comportamento dito problemático de um deles (paciente-identificado). Ex: "Qual foi o
problema que trouxe vocês até aqui? Quem está envolvido nele? Como esperam
resolvê-lo?
“Onde foi que foi que a Sra. nasceu?” (Recife)
“Há quantos anos a Sra. está casada com o seu marido?” (A gente vive junto há 8 anos.
A gente não é casado não.)
“A Sra. tinha que idade quando passou a conviver com ele?” (16 anos)
“Quantos filhos a Sra. tem?” (Quatro)

• PERGUNTAS CIRCULARES:
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Essas perguntas são formuladas para orientar o terapeuta acerca da situação-problema,


pressupondo que a causalidade do problema em questão é circular, isto é, que os seus
possíveis fatores causais estão de algum modo inter-relacionados. O terapeuta age mais
como um pesquisador ou cientista que vem explorando uma nova descoberta. As
perguntas são formuladas para identificar os padrões de interligação unindo tipos de
pessoas, ações, percepções, idéias, sentimentos, acontecimentos, crenças, contextos,
etc., formando um circuito integrado ou cibernético. Exemplificando:
Como vocês decidiram me procurar aqui hoje?
As perguntas circulares têm diferentes subtipos:
1. As que buscam entender as diferenças de categorias entre as coisas ou pessoas. Ex:
Quem está mais preocupado com o problema? Quem se preocupa menos?
2. Entender as circunstâncias temporais. Ex: Desde quando o relacionamento de
vocês está em crise? Como estava a vida de vocês naquela ocasião?
3. Compreender os efeitos de alguns comportamentos. Ex: "O que mudou no
relacionamento de vocês, após o aparecimento da depressão no seu marido?"
As perguntas circulares tendem a despertar mais uma curiosidade acerca da possível
conexão entre o contexto de vida das pessoas e o surgimento do problema, do que uma
necessidade em saber a causa específica do problema ou queixa apresentada pelo
paciente ou familiar, por ocasião da consulta (sistema-problema).
“Quer dizer que a Sra. veio à terapia hoje porque estava preocupada com o seu
marido, por estar desempregado e bebendo mais da conta?”
“Quem mais em casa, além da Sra., se preocupa com isso?” (As crianças e minha
mãe)
“De todo mundo, quem a Sra. pensa que se preocupa mais com essa situação?” (Eu,
naturalmente!)
“E quem a Sra. pensa que se preocupa menos?” (Meu marido)
“O que seu marido faz quando a Sra. reclama com ele, quando ele chega em casa
embriagado?” (Ele tenta me bater; se as crianças se meterem, elas apanham
também)
“E o que a Sra. faz quando ele bate na Sra.?” (Aí eu bato nele também!)

• PERGUNTAS ESTRATÉGICAS:
Formuladas com o intuito de influenciar o comportamento do paciente e familiares, de
uma maneira específica. A intenção do terapeuta, ao usar esse tipo de questionamento, é
eminentemente corretiva. Portanto, presume-se aqui que a interação instrutiva (dar
diretivas ao paciente) seja possível. O terapeuta parece comportar-se, nessas
circunstâncias, mais como um professor, treinador, ou juiz, ao dizer para as pessoas em
que elas falharam e como devem se comportar. Algumas pessoas sentem-se ofendidas
durante a sessão com esse tipo de perguntas, porém outras pessoas consideram-nas
bastante apropriadas à maneira como elas interagem, habitualmente.
As perguntas dependem diretamente da hipótese construída pelo terapeuta, sobre o que
vem ocorrendo de "errado" na interação familiar. No exemplo a seguir, o terapeuta tenta
influenciar um casal que está sendo entrevistado, ao perguntar:
para a esposa: "Por que você não fala diretamente a ele (ao marido) sobre as suas
preocupações e mágoas com relação a ele, ao invés de você ficar se queixando dele às
suas crianças?"
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para o marido: "Por que você continua bebendo, mesmo sabendo, com base nas
experiências anteriores, que, ao beber, você poderá chegar em casa embriagado e
abusar de sua mulher e filhos?"
Algumas vezes, tais confrontações por parte do terapeuta são necessárias, a fim de
desbloquear um sistema paralisado (casal em conflito). Entretanto, existe também o
risco do terapeuta provocar uma ruptura na aliança terapêutica com o cliente, ao se
tornar excessivamente diretivo nos seus questionamentos.
“Por que a Sra. não tenta conversar com ele, nessas horas, ao invés de procurar
agredi-lo também?” (Ele não iria me escutar)
“A Sra. não gostaria de tentar fazer algo diferente do que devolver pra ele com a
mesma moeda a agressão sofrida pela Sra.?” (Sim, por isso mesmo é que eu vim até aqui)
“A Sra. acha que existiria uma outra maneira do seu marido enfrentar a terrível
situação de um longo desemprego, ao invés de ficar se embriagando por aí?” (Acho que se
ele passasse a freqüentar as reuniões dos AA, ele pararia de beber e a gente suportaria
melhor a situação).

• PERGUNTAS REFLEXIVAS:
Trata-se de um grupo muito importante de perguntas, conforme dito anteriormente.
O questionamento reflexivo pode se constituir numa intervenção terapêutica em si mesma,
na medida em que as perguntas são formuladas pelo terapeuta com o intuito de possibilitar
que os pacientes/familiares venham gerar, por eles mesmos, novos padrões de
conhecimento e comportamento. Esse questionamento pretende desenvolver a autonomia
nos clientes. Desse modo, o terapeuta adota uma atitude facilitadora e, deliberadamente,
formula aqueles tipos de perguntas com maior probabilidade de criar novas possibilidades
de auto-conhecimento e auto-cura, além de despertar a criatividade nas pessoas.
O mecanismo pelo qual se dá a mudança terapêutica, resultante do questionamento
reflexivo, nos pacientes pode ser o da reflexividade entre os diferentes níveis de significado
existentes nos respectivos sistemas de crenças e valores de cada pessoa e grupo familiar
(sistema significante)*. Reflexividade refere-se a uma teoria da comunicação humana, tendo
em vista um processo interativo complexo, no qual os significados são gerados, mantidos,
e/ou mudados através de interações repetitivas e circulares entre os seres humanos. Ao
adotar essa teoria nas conversas com os pacientes, o terapeuta passa a formular diversos
tipos de perguntas reflexivas (vide mais adiante). Assim procedendo, ele espera aumentar a
eficácia clínica de promover as mudanças desejadas.
Premissas básicas: - A família é autônoma o suficiente para determinar a sua evolução, ao
longo do ciclo vital familiar. A comunicação humana não é encarada como um simples
processo linear de transmitir mensagens de um emissário ativo (uma pessoa) para um
receptor passivo (outra pessoa). Pelo contrário, tal comunicação é um processo circular,
interativo de co-criação e influência recíproca entre as pessoas aí envolvidas (vide conceito
de sistema). Lembrar aqui que a linguagem, além de informativa, é também formativa
(Andersen, 1991: p. 129-130).

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Sistema significante consiste em grupos de pessoas cujos significados a elas atribuídos podem ter origem
tanto em níveis inferiores de estrutura organizacional ao sistema familiar (ex: significado atribuído a um
dos familiares), como em níveis superiores (mais complexos) de estrutura organizacional ao sistema
familiar (ex: cultura a que pertence a família).
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Perguntas reflexivas são perguntas formuladas com o intuito de facilitar a auto-


compreensão nos indivíduos, ao ativar a reflexividade entre significados oriundos dos
sistemas de crença pré-existentes, que possibilitam aos familiares (presentes à sessão)
produzirem ou generalizarem padrões mais construtivos de cognição e comportamento,
autonomamente. Portanto, tais perguntas partem da premissa que a família é uma unidade
autônoma para determinar seu desenvolvimento.
O fato de nomear certas perguntas de reflexivas, com seus subtipos abaixo, baseia-se,
notadamente, na intenção do terapeuta em formulá-las de tal modo a facilitar o processo de
auto-cura da família. A intenção do terapeuta, ao formular tais perguntas, é, antes de tudo,
facilitar, indiretamente, a ocorrência de mudanças nos pacientes. Presume-se que eles sejam
pessoas autônomas e que, portanto, não possam, neste caso, serem instruídas diretamente a
mudarem, a não ser que o queiram.
Desse modo, o terapeuta procura se comportar mais como um guia discreto ou
facilitador de mudanças, encorajando os clientes a mobilizarem os seus próprios recursos
para a solução dos problemas por eles apresentados. O pressuposto básico desse tipo de
perguntas é que o sistema terapêutico (incluindo terapeuta e clientes) co-evolue, restando
ao terapeuta a função de desencadear nos familiares uma atitude de reflexão sobre a
possibilidade de reverem ou não seus sistemas de crenças pré-existentes (sistema
significante). Assim, se uma crença, que vinha, até então, influenciando o pensar, sentir e
agir de um dos familiares, vem , atualmente, lhe causando sofrimento e não gosto pela vida,
não estaria na hora daquela crença ser questionada e mudada por ele?
O objetivo dessas perguntas é desencadear uma reflexão por parte dos familiares acerca das
implicações que as suas formas de perceberem as coisas e agirem entre si têm, e assim
poderem considerar novas opções ou saídas para seus impasses, criativamente.
Tipos de perguntas reflexivas:
1. Orientadas para o futuro.
2. Colocar o entrevistado na perspectiva de observador.
3. Fazer sugestões veladas.
4. Comparar padrões de normalidade, em relação à situação-problema.
5. Clarificar e distinguir.
6. Testar hipóteses.

1. Orientadas para o futuro.


“As famílias (que vem enfrentando problemas) estão, às vezes, tão preocupadas
com as suas dificuldades atuais, ou com as injustiças do passado, que, por conta
disso, aparentam viver como se não tivessem futuro. Ou seja, elas focalizam tão
pouco as suas perspectivas futuras que elas acabam permanecendo limitadas
quanto às alternativas e opções que teriam pela frente. Ao fazer, deliberadamente,
uma longa série de perguntas acerca do futuro, o terapeuta pode despertar nos
familiares presentes à sessão a capacidade de criar perspectivas para um futuro
melhor” (Tomm, 1987: p.173).

“Caso a Sra. conseguisse dizer para o seu marido, de um modo que ele conseguisse ouvi-la,
o quanto a Sra. está preocupada e sentida com as agressões e a bebedeira dele, o que a Sra.
imagina que ele faria ou pensaria?” (Eu não estou certa como ele reagiria...)
“Se o seu marido parasse de beber e, em seguida, conseguisse arranjar um emprego
novamente, o que iria mudar na vida de vocês?” (Acho que a gente iria voltar a ser feliz...).
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Para um adolescente que vem se saindo mal nos estudos: "Que planos você tem para a sua
futura carreira como profissional? Quanto mais você precisará estudar para um dia
chegar lá?"

2. Colocando a pessoa entrevistada numa perspectiva de observador


(lembrar que, terminada a fase de problematização na terapia comunitária, é feito o
pedido para que a pessoa, cujo tema foi escolhido para ser trabalhado, permaneça na
posição de observador ou em “stand-by”, enquanto se inicia a etapa seguinte da
problematização, quando são formulados os motes)

Este grupo de perguntas parte do pressuposto de que quando uma pessoa assume,
temporariamente, a perspectiva de observador de um acontecimento ou de um padrão
interacional entre pessoas a ela relacionadas, isso pode significar um primeiro passo em
direção a começar elaborar mudanças que se façam necessárias. As perguntas, destinadas a
colocar a pessoa entrevistada na posição de observador, ajudam-lhe a desenvolver a
habilidade de distinguir comportamentos, acontecimentos, ou padrões interativos que ela
própria ainda não se apercebera. Tais perguntas também servem para ela descobrir o
significado de seus comportamentos e das circunstâncias em que ela vem desempenhando
seu respectivo papel.
Por outro lado, essas perguntas, referidas aos padrões de comportamento interpessoal da
pessoa colocada na posição de observadora, não são dirigidas diretamente a ela, e sem que
ela posa interferir, momentaneamente, no diálogo com os demais pessoas presentes,
acabam deixando-a numa posição de “neutralidade”. Em tais circunstâncias, todos os
participantes acabam recebendo um grande manancial de informações, com base no acima
referido.

3. Perguntas com sugestões veladas


O terapeuta insere, nesse tipo de perguntas, algum conteúdo específico que aponta
na direção que ele considera particularmente importante para gerar mudanças. O risco de se
insistir com esse tipo de perguntas na conversação é o terapeuta passar a influenciar o
paciente a encarar os problemas e as respectivas soluções da forma que o terapeuta pensa
ser o mais correto, tornando-as perguntas estratégicas e não mais reflexivas. Uma das
maneiras do terapeuta minimizar suas “verdades” é ele retornar, rapidamente à sua posição
de neutralidade, aceitando as respostas dos pacientes às perguntas seguintes, do jeito que
elas vierem.
"Se você fosse compartilhar com o seu marido as mágoas e preocupações que você
tem dele, como imagina que ele reagiria a isso?" Ou ainda, o terapeuta dirigindo-se ao
marido: "Vamos supor que a sua esposa esteja magoada por algo que você tenha feito
com ela, mas que ela não quisesse lhe contar isso, por receio de ferir seus sentimentos,
como você iria convencê-la de que você seria suficientemente forte ou disposto a ouví-
la e absorver bem tudo o que ela lhe dissesse?”

4. Perguntas comparando padrões de normalidade, em relação à situação-problema


Essas perguntas procuram despertar a criatividade nas pessoas a fim de desenvolverem
padrões interacionais mais satisfatórios que assim lhe parecerem, em relação à situação-
problema apresentada.
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“Todas as famílias enfrentam, em algum momento da vida, conflitos em seus


relacionamentos. Como seria possível resolver esses conflitos sem descambar para o uso
da violência? O que poderia ser feito nesse sentido no seu bairro e na sua cidade? Como o
governo poderia contribuir também para isso?”

5. Perguntas que clarificam, diferenciam


A finalidade aqui é clarificar as interconexões causais que, possivelmente, estejam
encobertas acerca do problema abordado, distinguindo os diferentes sistemas, sub-sistemas
e supra-sistemas em que possam estar inseridos.
“Você pensa que seu marido bebe porque ele tem uma natureza ruim, porque está doente e
deprimido, porque está desempregado, ou o que?” (Talvez seja uma doença).

6. Perguntas para testar hipótese


Hipóteses clínicas são explicações provisórias que servem para orientar e organizar a
conduta a ser seguida pelo terapeuta. Essas hipóteses se prestam também para orientar e
organizar o comportamento de auto-cura dos pacientes. Assim, se a hipótese formulada é
coerente e corresponde àquilo que os pacientes vêm, de fato, experimentando, então as
mudanças esperadas podem ocorrer imediatamente. Caso contrário, os pacientes costumam
oferecer informações relevantes para o terapeuta reformular sua hipótese original.

À guisa de conclusão
O que falta nos exemplos das diferentes perguntas mencionadas é o tom emocional
utilizado pelo terapeuta. Na verdade, as diferenças realçadas entre aquelas perguntas
dependem das intenções e pressupostos teóricos dos terapeutas, ao formulá-las. Em geral, é
a postura emocional do terapeuta ao fazer a pergunta, que acaba fazendo a diferença para o
paciente ao ouví-la e, posteriormente, ao respondê-la, direta ou indiretamente.
Segundo a perspectiva de um observador, as psicoterapias podem ser vistas essencialmente
como tipos de conversação. Contudo, elas não são, simplesmente, conversas como outras
quaisquer. As conversações terapêuticas (psicoterapias) têm por objetivo aliviar a dor e o
sofrimento mentais de alguém e promover a cura. Elas se dão através de um acordo
consensual entre terapeutas e clientes, no sentido do terapeuta contribuir, intencionalmente,
para a ocorrência de mudanças relacionadas às experiências de vida e comportamentos
vivenciados como problemáticos pelos clientes.
A posição do terapeuta numa conversação terapêutica implica em assumir tanto
responsabilidades específicas, como também privilégios especiais. Um exemplo desses
privilégios é o terapeuta poder solicitar informações acerca de situações pessoais e íntimas
dos clientes. Isso torna os clientes, freqüentemente, vulneráveis. Conseqüentemente, existe
a possibilidade das psicoterapias acarretarem sofrimento adicional aos clientes
paralelamente ao seu potencial de curar.
Alguns padrões de conversação têm uma condição muito maior do que outras de atingirem
os seus objetivos terapêuticos. Um dos fatores que contribuem para isso tem a haver com a
natureza das perguntas que são formuladas durante a conversação.
Durante uma conversação terapêutica o terapeuta tanto contribui com afirmativas ou
interpretações, como também formulando perguntas. Afirmativas e perguntas formuladas
nessa conversação possuem desdobramentos bem diferentes. De um modo geral, as
afirmativas já expressam temas, posicionamentos e pontos de vista, enquanto as perguntas
solicitam (a quem elas são dirigidas) que sejam propostos temas, posicionamentos, ou
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pontos de vista a respeito. Dizendo de outro modo, as perguntas tendem a pedir respostas e
as afirmativas tendem a dá-las, de antemão.
Eis, a seguir, algumas vantagens para que os terapeutas formulem mais perguntas do que
afirmativas, especialmente na primeira metade das entrevistas iniciais:
1. Assegurar uma conversação centralizada no cliente;
2. Perguntas levam muito mais os clientes a se engajarem na conversação do que
afirmativas;
3. Clientes são estimulados a pensar sobre seus problemas por si mesmos.
Algumas limitações acerca do predomínio de perguntas sobre afirmativas:
1. Terapeuta pode se esconder por detrás de perguntas freqüentes e com isso limitar o
desenvolvimento da aliança terapêutica com o cliente.
2. Certas perguntas podem se tornar extremamente intrusivas ou ameaçadoras.
Os terapeutas precisam monitorar a conversação, continuamente, e passarem a fazer
afirmativas quando as perguntas por eles formuladas tornam-se contra-terapêuticas,
gerando desinteresse ou oposição nos pacientes.
Apesar da preferência em formular-se perguntas durante a conversação, isso não significa
que um terapeuta deva somente fazer perguntas. Alguns comentários também podem ser
pertinentes.
Terapeuta está sempre "trabalhando no escuro" e nunca pode saber o resultado final de suas
perguntas específicas sobre os clientes. Isto leva a uma responsabilidade ética ainda maior
quanto à intenção do terapeuta decidir sobre o que perguntar ao cliente, uma vez que isso
traz conseqüências, conforme já mencionado.

Referências bibliográficas

Andersen, T. Processos reflexivos. Rio de Janeiro, Instituto NOOS:ITF, 1996.


Barreto, A. Manal do terapeuta comunitário da pastoral da criança. Fortaleza,
Departamento de Saúde Comunitária, UFCE, dezembro 1997.
Campbell, D.; Draper, R. & Huffington. Teching systemic thinking. London, DC Assocites,
1988.
Tomm, K. Interventive interviewing: Part I. Strategizing as a fourth guideline for the
therapist. Fam. Proc., 26:3-13, 1987.
_______ Interventive interviewing: Part II. Refletive questioning as a means to enable self-
healing. Fam. Proc., 26:167-183, 1987.
_______ Interventive interviewing: Part III. Intending to ask lineal, circular, strategic, or
reflexive questions? Fam. Proc., 27: 1-15, 1988.
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ANEXO

EXERCÍCIOS

Exercício 1:
A partir da palavra-chave ou tema escolhido, construir os motes, sob a forma de perguntas
lineares, circulares, estratégicas e reflexivas.
Lembrar que a diferença básica, entre esses tipos de pergunta, não está na sua estrutura
sintática ou no seu conteúdo semântico, mas sim nas intenções e pressupostos do terapeuta.
Na verdade, a mesma seqüência de palavras poderia se constituir numa pergunta linear,
circular, estratégica, ou mesmo numa pergunta reflexiva. Assim, as mesmas palavras
podem significar ou produzir coisas muito diferentes ao longo de uma simples conversação.
O que irá, ao final, fazer a diferença entre essas perguntas será a postura emocional do
terapeuta ao formulá-las.

Exercício 2
Usando cada um dos tipos de pergunta supramencionados, trabalhar os dois lados da
palavra-chave ou tema em questão, ou seja, o seu lado negativo e o positivo.

Exercício 3
Construir perguntas reflexivas que permitam as pessoas refletirem sobre o significado
simbólico do tema escolhido, utilizando palavras-chaves.

Exercícios para desenvolver habilidades no terapeuta. "Como você cria uma hipótese?
Como você testa a sua hipótese, usando o "feedback"ou retroalimentação dos familiares
presentes à sessão?" : exercício no.8 (Campbell et al., 1988: p.36-7).

Exercício sobre questionamento circular (exercício no. 12) – vide folha anexa
(Cambpbell et al., 1988: p. 36).