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Dilemas Mesmo   em   meio   a   uma

multidão, ele se sobressaía...

de Um Bonito,   viril,   sensual,


Reece   Carlyle   atraiu   de
imediato a atenção de Amber.

Homem Quando   o   encontrou   pela


segunda   vez,   teve   certeza   de
que ele a estava seguindo. Mas
Arlene James o   que   um   homem   fascinante
como aquele teria visto nela?

Reece   prometera   ao  amigo


que vigiaria sua filha rebelde e
voluntariosa.   Mas   quando
vigiar   transformou­se   em
conversar...   E   depois   beijar...
Ele   soube   que   entrara   em
território   proibido.   Porque
Amber   era   uma   jovem
inexperiente   que   merecia   ter
seu   primeiro   envolvimento
amoroso   com   alguém   menos
complicado   que   ele.   O
problema   era   que   Reece   não
podia   permitir   que   Amber
ficasse   com   nenhum   outro
homem... A não ser ele próprio!
Título Original:
The Mesmerizing Mr. Carlyle

Disponibilização: Drika
Digitalização: Marina
Revisão: Ingrid
Formatação: Edina

CAPÍTULO I

Amber Presley escalou a meia


dúzia de degraus até a agência de turismo
com passos rápidos e decididos, erguendo
com uma das mãos a barra da saia preta
longa e com a outra checando o conteúdo
dos bolsos da capa preta.
Apalpando-os, certificava-se de
que não se esquecera de nada, das
fotografias, dos desenhos e das reprodu-
ções de velhas cartas protegidas por
plástico transparente, bem como da
lanterna, do estojo de primeiros socorros e
de outros apetrechos pirotécnicos.
Não tivera tempo de prender os
longos cabelos ruivo-escuros, por isso
optara por usar um chapéu alto. O batom
vermelho-sangue, o risco de delineador
preto nos olhos e uma pinta falsa
completavam a maquiagem pesada.
Mesmo às dez horas da noite, a temperatura de verão na Flórida chegava quase a
vinte e cinco graus, e o ar estava carregado de umidade.
Amber tinha a sensação de estar cozinhando dentro da fantasia de bruxa.
O calor insuportável era o que ela menos gostava em Key West naquela época do
ano.
Desde o princípio de junho até meados de setembro, quando os ventos finalmente
chegavam, nem uma brisa soprava para amenizar o calor dos termômetros ou espantar os
mosquitos.
Quando saíra da casa dos pais, com vinte e um anos de idade e recém-formada na
faculdade, farta do clima frio da região sudeste, ela não imaginara que pudesse se cansar
do clima tropical.
Em três anos Amber amadurecera de uma maneira inesperada. Agora sentia
saudade do Texas. Infelizmente, Robert e Happy Presley, seus pais, simplesmente não
aceitavam o fato de sua única filha ter decidido viver a própria vida.
Empurrando a pesada porta de vidro no alto da escada, Amber entrou na pequena
área de recepção e acenou para o homem calvo de meia-idade atrás da escrivaninha.
— Olá, Conn... Desculpe meu atraso.
— Ora, foram só cinco ou dez minutos — respondeu o dono da agência.
Em todo aquele tempo, Amber ainda não se acostumara ao modo displicente dos
habitantes das ilhas Key. Para ela, pontualidade sempre fora e continuava sendo essencial.
— Me atrasei na lanchonete — explicou ela, ao mesmo tempo que pegava a lista
de turistas no canto do balcão. Era um número pequeno para uma noite de sexta-feira.
Menos de trinta hóspedes haviam se inscrito para o city tour noturno mais popular de Key
West, três horas rodando pela cidade, ouvindo o relato dos incidentes mais bizarros, desde
assassinatos até assombrações, passando por pelo menos um caso de bigamia e um de
obsessão. Todos estes casos estavam documentados, nos papéis nos bolsos de Amber, mas
os turistas pareciam gostar mais de ouvir as histórias contadas boca a boca e in loco.
O trabalho de guia daquele tour em especial proporcionara a Amber a
oportunidade de praticar arte dramática, além de ganhar algum dinheiro extra, o que era
muito mais importante para ela.
Na verdade, assim como o impulso de mudar-se para Key West, a decisão de
tornar-se atriz surgira muito mais como rebelião contra seu pai do que por vocação.
Claro, ela adorava teatro e, na verdade, fora essa a sua salvação. O pessoal de
teatro era condescendente. No mundo deles era permitido a uma pessoa ser estranha,
socialmente retraída, tímida, insegura, tudo o que ela fora desde que ingressara no
renomado colégio feminino onde seu pai decidira matriculá-la.
Sim, o teatro lhe ensinara muito, menos o desejo de realmente representar.
Todavia, todas as sextas e sábados à noite ela vestia sua fantasia de bruxa e contava
histórias de fadas como se realmente acreditasse nelas para um bando de adultos em troca
de algumas gorjetas.
O dinheiro extra vinha a calhar. Cada centavo ia para o que ela chamava de
"fundo de fuga". O que ganhava como garçonete mal dava para pagar as contas, já que o
custo de vida em Key West era exorbitante. O segundo emprego aos poucos foi
compensando o erro de ter se mudado para lá, e por fim ela começava a construir uma
vida da qual se orgulhava. Talvez, finalmente, conseguisse provar aos pais que realmente
crescera.
— Algo que eu deva saber? — perguntou examinando a lista de nomes
desconhecidos.
Conn deu de ombros.
— Peguei duas garrafas de uísque para um grupo de seus estudantes. E disse que
podiam pegar uma lata de cerveja, cada.
— Oh! Conn! — Amber reclamou. — Pensei que tínhamos combinado na última
vez que me colocou com um bando de bêbados que isso não aconteceria de novo.
— Eu não disse que eles estavam bêbados, só que estavam alegres.
"Alegres" era um eufemismo usado nas ilhas Key para aqueles bêbados que ainda
se mantinham em pé. Amber detestava bêbados. Conhecia os efeitos devastadores do
álcool. Pessoas boas se tornavam desagradáveis, rudes e até mesmo perigosas.
Suspirando, ela fez um gesto de desalento com a mão.
— Passe-me o telefone, por favor.
Conn abriu a gaveta do meio da escrivaninha, tirou de lá o único celular que a
agência possuía e colocou-o na mão de Amber. Era apenas uma medida de segurança,
para o caso de alguma emergência.
Amber colocou o telefone em um dos bolsos e foi ao encontro do grupo que
esperava por ela na penumbra. A luz difusa no pequeno pátio fornecia o cenário perfeito
para uma entrada triunfal de Amber, que a fez magistralmente, com um floreio galante de
sua capa.
— Boa noite, senhoras e senhores! Bem-vindos ao lado sombrio de Key West. Sou
sua guia turística, Amber Rose, e é meu privilégio e prazer enfeitiçá-los esta noite com
excentricidades, assassinatos e fantasmas. Em um instante estaremos partindo.
Ela observava o grupo enquanto fazia seu pequeno discurso de apresentação. A
maioria eram casais, usando os costumeiros shorts, camisetas e tênis. Os bebedores eram,
sem dúvida, estudantes universitários, quatro rapazes e duas moças extravagantemente
vestidas. Um único indivíduo se destacava no grupo, um homem aparentando trinta e
poucos anos, que usava uma bermuda cargo, camisa caqui com as mangas enroladas até
os cotovelos e sapatos mocassim.
Obviamente sozinho, ele permanecia separado do grupo, com as mãos nos bolsos,
os cabelos um pouco longos demais esvoaçando ao vento quente. Amber conhecia o tipo...
Com certeza, era proprietário de um veleiro, ou iate. Havia dezenas deles em Key West,
mas geralmente andavam acompanhados por belas mulheres. Não raramente, juntavam-se
ao grupo para o tour.
— Bem, já conhecem as regras do tour continuou ela. — Estou com as fichas de
vocês assinadas e quero apenas recomendar que usem o banheiro antes de partirmos.
Além de não haver sanitários adequados para uso no nosso roteiro, devo alertá-los que
esse tipo de comportamento desagrada muito aos fantasmas. — Após uma pausa
dramática ela finalizou; — Em dez minutos apresentarei vocês a eles.
Ela tirou uma bolinha de papel do bolso e atirou-a no jardim, provocando uma
pequena explosão de luz e fumaça, dando clima às palavras e arrancando risos e aplausos.
Dez minutos depois, reapareceu na outra extremidade do pátio, com uma lanterna
apontada para o rosto, criando um efeito fantasmagórico.
Virou-se com um floreio, fazendo sinal para que a seguissem. Os turistas
obedeceram diligentes e o tour começou.
Amber começou com uma explanação geral sobre a história das ilhas. Antigos
portos onde os piratas aproveitavam o abrigo de corais para saquear navios, elas haviam
se transformado em um dos lugares prediletos de artistas, escritores, músicos e pessoas
excêntricas, que ali encontravam o ambiente ideal para usufruir de uma liberdade e de um
entusiasmo criativo propiciados pelo cenário de sol, areia, mar e um relativo isolamento.
Devido a esse isolamento, o lugar era popularmente chamado de República da
Concha.
As histórias fantásticas e verídicas de grandes amores, ciúme e duelos enchiam os
ouvidos dos turistas, assim como lendas de vodu.
Amber parava diante das casas cuja arquitetura tinha um significado histórico
importante e discorria sobre o lugar, primeiro contando anedotas e depois seus mistérios
mais escabrosos.
Devido ao número reduzido de turistas, o passeio correu com tranquilidade e
rapidez, naquela noite. Amber respondeu às perguntas dos mais velhos, uma vez que os
universitários se mantinham calados, talvez devido ao álcool que haviam consumido. O
cavalheiro solitário continuava isolado dos demais, sorrindo com condescendência, e às
vezes com uma crítica velada no olhar. Do grupo todo, Amber tinha a impressão de que
era o menos interessado nas histórias que ela contava. Por isso ficou surpresa quando,
depois de retornarem ao ponto de encontro, ele esperou que o grupo se dispersasse para
então se aproximar.
— Parabéns — disse ele, dirigindo-lhe um sorriso encantador. — Tenho minhas
dúvidas, francamente, mas tenho de admitir que foi muito divertido.
Era um homem bonito, de estatura mediana, e constituição atlética, com feições
másculas e pele bronzeada. Os olhos verdes brilhantes rodeados por pequenas linhas de
expressão faziam par com uma boca e nariz perfeitos.
Os cabelos claros e revoltos que lhe cobriam a nuca o faziam parecer um pirata. O
que aquele homem estava fazendo em seu grupo de turismo numa sexta-feira à noite era
um mistério, que por sinal ela não estava inclinada a tentar desvendar.
Mantendo a personagem, Amber inclinou a cabeça em um gesto teatral.
— Eu agradeço, senhor, e os espíritos também. Ele riu com vontade.
— Não por isso.
Considerando a conversa encerrada, Amber começou a caminhar em direção à
porta dos fundos da agência de turismo. O homem a seguiu, alcançando-a com facilidade.
— Ouça, meu nome é Reece Carlyle e sou novo na ilha. Na verdade cheguei ontem
à tarde. E estava imaginando se você, como guia turística, poderia me dar algumas dicas.
— Certamente disse Amber, virando-se e encarando-o. Tome cuidado com a
carteira. Evite andar a pé à noite em ruas pouco movimentadas. Tome bastante líquido e
lembre-se dos dois itens mais importantes nas ilhas Key: protetor solar e repelente de
insetos.
Ela ia abrir a porta quando se lembrou:
— Ah... e não deixe de visitar o Museu Marítimo. Vale a pena.
Ela abriu a porta e, sorrindo por sobre o ombro, entrou no prédio.
— Boa noite, sr. Carlyle.
Depois de girar a chave, Amber começou imediatamente a tirar sua pesada
fantasia, começando pela pinta no rosto. Pelo menos os flertes estavam ficando mais
interessantes, pensou divertida.
Conn já deixara o prédio, embora, a rigor, ele devesse esperar até o final do tour ao
lado do telefone. Amber resignou-se, embora não aprovasse aquela falta de res-
ponsabilidade.
Os "conchas", como se autodenominavam os moradores da ilha, eram tão
tolerantes e ingênuos que não levavam em conta a possibilidade de um acidente. Ou, se
levavam, pareciam contar com a sorte para protegê-los.
Amber guardou o telefone celular na gaveta e terminou de tirar a roupa de bruxa.
Já de sandálias e cabelos soltos, trancou o escritório e iniciou o longo caminho de volta
para casa. A noite era curta para aqueles que não bebiam e tinham um emprego regular.
Apesar do conselho de Amber, Reece esperou do outro lado da rua, atrás de uma
enorme magnólia, e observou com interesse a filha de um de seus melhores amigos e
antigo sócio começar a descer a rua com uma pesada mochila nas costas.
Amber Rose Presley era miúda, seu rosto infantil era o retrato da inocência
debaixo da maquiagem pesada. Fantasiada, parecia um gnomo. Agora, de short e
camiseta, revelava-se a criança adorável que era.
Não era de admirar que Robert estivesse tão preocupado e tivesse lhe pedido para
localizar Amber e certificar-se de que estava tudo bem. As escondidas, claro.
Bem ou mal, Robert tinha conseguido, até então, rastrear os passos da filha. Sabia
onde ela trabalhava e onde recebia correspondência, mas, sendo ela maior de idade, havia
muito pouco que ele pudesse fazer além disso.
Quando Reece anunciou seus planos, mais de um ano após sua separação e
divórcio, de velejar pelo golfo do México, parando de porto em porto, Robert implorou
para que ele parasse em Key West e desse uma olhada em sua pequena Amber Stôite.
"Pequena" era a palavra exata. A garota não devia ter mais de um metro e
sessenta. Sua própria filha de onze anos tinha quase aquela altura e já mostrava sinais de
que seria alta como a mãe.
Mas isso não significava que Amber não tivesse personalidade e pulso firme,
Reece tivera oportunidade de perceber isso durante o tour.
O curso de arte dramática tinha sido bem aproveitado, pelo que pudera
depreender nas últimas três horas. Esperava que sua filha tivesse a mesma garra e energia
quando se tornasse adulta. Mas esperava também que nunca se rebelasse como Amber
fizera, cortando os laços com as pessoas que mais a amavam.
Brittany tinha seus próprios problemas naquele momento, pobre criança... Mesmo
depois de um ano, ainda não tinha aceitado a separação dos pais.
Talvez, Reece refletiu, ele e a esposa a tinham protegido demais, poupando-a de
toda a infelicidade que minava o casamento havia anos. O divórcio vinha sendo cogitado
havia muito tempo, por ambos. Ele estava disposto a esperar mais alguns anos, pelo bem
de Britt, mas Joyce fora contra. Queria refazer sua vida enquanto ainda era jovem.
Com trinta e oito anos, um ano mais velho que a esposa, Reece entendia o ponto
de vista dela. Ele próprio sentia que já não tinha o mesmo vigor da juventude.
Profissionalmente, como empresário e consultor, achava que tinha muitos anos úteis à
frente, porém no campo sentimental a coisa era bem diferente.
Joyce ainda era uma mulher atraente e já se envolvera em outro relacionamento
com um de seus sócios, Mike Allen, divorciado havia três anos, pai de dois meninos.
Alguns dos amigos de Reece especularam sobre a rapidez do romance entre sua
ex-mulher e seu sócio, cogitando a possibilidade de ter começado antes do casamento
terminar.
Reece pensara a respeito e decidira que não fazia diferença para ele; o casamento
fracassara havia muito tempo, mas não havia mágoas nem ressentimentos entre eles.
Brittany, porém, estava tendo dificuldade em aceitar um novo homem na vida da
mãe, especialmente depois de anunciarem que pretendiam se casar. Reece tinha certeza de
que a menina mudaria de opinião quando visse a mãe realmente feliz. Ou, pelo menos, era
o que ele esperava.
A separação tivera um lado negativo, claro. Não apenas sua filhinha ficara confusa
e triste, como também um vínculo familiar de quase catorze anos tinha se partido.
Os avós maternos de Brittany, seus sogros por uma década e meia, agora já não
faziam parte da vida de Reece. Muitos vínculos afetivos haviam sido rompidos, e isso era
doloroso. Sem falar dos negócios.
Reece tinha trabalhado duro para construir a Sistemas Carlyle e fazer dela um
sucesso, talvez até porque tinha um casamento infeliz e o trabalho era um meio de fuga.
O divórcio o forçara a vender a empresa, e o resultado da transação garantira um
futuro financeiramente tranquilo para sua filha, para a ex-mulher e para si mesmo.
Exceto pela filha, isso o deixara sem motivação na vida. Poderia continuar como
consultor, claro. Sabia mais sobre sistemas integrados de computador que noventa e nove
por cento da população mundial, e sua capacidade profissional já havia sido requisitada
por várias empresas de Houston, sua cidade natal. Mas consultoria não era o que Reece
queria fazer naquele momento. Aliás, nada parecia ser adequado para ele naquele
momento, e era por essa razão que ele se encontrava parado naquela calçada em Key
West, na Flórida.
Tendo sido criado e vivido a maior parte de sua vida em cidades costeiras, Reece
sentia falta do mar. Por isso, quando decidira fazer uma viagem para se reequilibrar
emocionalmente antes de seguir com sua vida, a escolha natural fora embarcar no Porto
Feliz, seu veleiro.
Três meses velejando pelo golfo do México, parando de porto em porto, o fizeram
ter certeza de duas coisas. Primeiro, que o simples e puro contentamento era algo que
existia na natureza e não custava absolutamente nada. Ele descobrira isso através da visão
do oceano azul e imenso a frente. Se não fosse a saudade que sentia da filha, para quem
fazia qualquer coisa para manter-se em contato, Reece sabia que nunca teria se sentido tão
feliz em sua vida.
A segunda coisa que descobriu foi que sua própria companhia era algo
extremamente agradável. Os longos e infelizes anos de casamento, a verdade indiscutível
de que sua mulher deixara de amá-lo bem cedo, haviam criado nele um sentimento de
culpa. Mas não acreditava mais nisso. Havia encontrado em seu coração a certeza de que
fizera o melhor possível dentro das circunstâncias. Sim, arcava com a responsabilidade de
suas decisões.
Aos vinte e quatro anos, com o primeiro vislumbre de sucesso soprando em seu
rosto, Reece se sentira infalível, o que concorrera para a decisão de se casar com a única
mulher que se encontrava a seu lado na ocasião. Reece Carlyle, ele admitia, era homem de
uma mulher só. Namorara bastante, mas sempre uma moça de cada vez.
Subitamente, sentiu que podia sustentar uma esposa, portanto era hora de ter
uma, e Joyce era a única que estava por perto. Quando Brittany nasceu, três anos mais
tarde, descobriu que cometera um erro.
Suspeitava que Joyce chegara à mesma conclusão. Mas tinham uma filha, e nada
era mais importante do que Brittany, para os dois. O relacionamento se deteriorara
rapidamente, a ponto de concordarem em não ter mais filhos.
E agora estava parado, sozinho em uma calçada escura em Key West, imaginando
o que Amber Rose pensaria se soubesse que ele não estava tentando flertar com ela, mas
cumprindo uma incumbência, a pedido do pai dela.
Fora alertado por Robert de que um acompanhamento às claras não seria a melhor
política com a srta. Amber Rose. Qualquer indício de que o pai estava por trás daquele
encontro casual a faria desaparecer sem deixar pistas. O problema agora era descobrir o
que ele precisava saber.
Evidentemente, não era o bastante saber que ela estava viva, saudável e que era
uma guia de turismo eficiente em um tour de categoria discutível. Se se tratasse de sua
filha, certamente quereria saber mais que isso.
Enfiando as mãos nos bolsos, encaminhou-se na direção das docas, onde o Porto
Feliz estava ancorado. Todas as marinas estavam ocupadas, e Reece fora obrigado a deixar
o veleiro no barulhento e agitado porto. Mas isso não o aborrecia tanto quanto a frustração
por não ter conseguido desenvolver uma conversa despretensiosa com Amber, conforme
planejara.
Ao longo da rua, as pessoas conversavam nas sacadas e terraços das casas antigas
e pitorescas. Ainda era cedo para os padrões de Key West, e ao passar pela rua Eaton o
tráfego aumentou. A maior parte do movimento era de pedestres, mas a rua estava coa-
lhada de táxis, automóveis e pedcabs, espécie de triciclos com um assento para passageiros
entre as rodas traseiras.
Todos estavam se dirigindo para a rua Duval, que, segundo o que Amber dissera
no tour, era onde ficavam os bares e sorveterias mais frequentados da ilha.
Mas Reece não estava com disposição para enfronhar-se no agito. Queria voltar
para o veleiro, comer alguma coisa e dormir. No dia seguinte ligaria para Brittany
novamente para planejar as férias de verão que passariam juntos. Então compraria alguns
mantimentos e conheceria um pouco mais da cidade. Domingo era seu dia livre.
Na segunda-feira iria jantar no café da rua Angela, onde Amber trabalhava no
primeiro turno. Com sorte, conseguiria falar com ela novamente, descobrir quais eram
seus planos para o futuro e como estava no presente. Talvez, se fosse muito, muito
cuidadoso, e bem mais esperto do que fora naquela noite, conseguisse até encorajá-la a
voltar para a casa dos pais em Dallas.
Provavelmente avançaria aos poucos, uma coisa de cada vez... Mesmo porque, no
local de trabalho, ela não teria tempo para uma conversa muito longa. Talvez o ideal fosse
tentar conquistar a confiança dela a ponto de convencê-la a se encontrarem em outro
lugar, com mais privacidade.
Porém, como deveria agir para que Amber não pensasse que estava tentando
flertar com ela? Não queria parecer um velho tolo paquerando uma moça ingênua. A ideia
o incomodava, mas também o perturbava a duplicidade que era obrigado a representar,
mesmo que isso fosse pelo bem dela.
Bem, certamente não teria dificuldade em convencer a garota a sentar-se com ele
em algum lugar seguro para falar de si mesma. Para sua surpresa, ele também estava
ansioso por isso.
Começou a planejar o encontro com Amber e a estratégia para ganhar sua
confiança. Era bem mais velho e maduro que ela, e a experiência devia lhe valer alguma
coisa. Lidaria com ela como fazia com as amigas de sua filha. Um pouco de charme, um
pouco de indulgência, uma pequena dose de autoridade e superioridade... Seria amigável
mas cauteloso.
Finalmente confiante de que poderia controlar a situação, Reece recolheu-se à
segurança de seu barco, satisfeito com sua ilusão.

CAPÍTULO II

Uma porção de mariscos, uma panqueca e um hambúrguer ao ponto para a mesa


seis.
Amber colocou a comanda sobre o balcão e dirigiu-se para o setor de bebidas.
Com agilidade e rapidez, ela encheu dois copos grandes com gelo e em seguida com
refrigerante.
Pegou uma bandeja redonda, colocou nela os copos, duas tigelinhas de amendoim
e seguiu em frente. Dez segundos depois colocou os copos na mesa, dispensando sorrisos
e já pronta para os próximos clientes.
Enfiou a mão no bolso do avental e retirou de lá alguns descansos de copo,
depositou um diante do homem e sorriu:
— Bem vindo ao...
Ele retribuiu o sorriso, e Amber reconheceu o turista com ar misterioso que fizera
parte de seu último grupo. Os cabelos espessos estavam mais bem penteados, dessa vez, e
ela se deu conta de que ele era ainda mais atraente à luz do dia do que à noite.
— Olá — cumprimentou ele — Você está um pouco diferente hoje.
Ela concentrou-se, buscando na memória o nome dele.
— Ahn... Reece... Carter?
— Carlyle.
— Oh! sim, Carlyle.
Amber anotou o número da mesa no canto do bloco, perguntando-se se a presença
dele ali poucos dias depois do tour significava alguma coisa. Ele continuava
desacompanhado, e isso era um tanto peculiar.
— O que vai pedir, sr. Carlyle?
— Reece, por favor. Ela deu de ombros.
— Certo, Reece. Quer beber alguma coisa enquanto olha o cardápio?
— Acho que preciso de ajuda antes — disse ele, olhando sobre o cardápio.
Suspirou e olhou de novo. — O que você recomendaria, Amber?
O uso de seu primeiro nome foi estranhamente familiar, mas ela não soube dizer o
porquê.
— O que está com vontade de comer? Nossos mariscos são muito bons. Têm uma
boa saída. A sopa de peixe também é deliciosa, os hambúrgueres... E temos o peito de
frango caribenho, se você gosta de frutas acompanhando pratos salgados. Esse é servido
com manga.
— Eu adoro manga — declarou Reece, fechando o cardápio. — Vou experimentar
o frango caribenho.
Ela anotou.
— Com anéis de cebola, batatas fritas ou batata assada?
— Batata assada.
— Qual o molho para a salada?
— Mostarda.
— Para beber?
— Chá gelado.
— Sabor laranja, amora ou normal? — Ele riu da pergunta.
— Acho que o normal está bom para mim.
— Em um minuto.
— Prefiro essa roupa à do outro dia.
Amber olhou para o short caqui e a camisa pólo que usava por baixo do avental.
— Obrigada. Isso o coloca entre a minoria da ilha, em geral as pessoas daqui
preferem o estranho ao normal.
— Você não me pareceu um tipo estranho.
— Não, mas sou do tipo bruxa. — Ela riu. — É melhor eu me apressar antes que
comece o movimento do jantar.
Definitivamente, o sujeito estava flertando com ela, concluiu Amber, reprimindo
um sorriso enquanto se afastava da mesa. Ele era atraente, não podia negar isso, mas não
tinha intenção de se envolver com ninguém da ilha, ou de nenhum outro lugar.
Amber voltou quatro vezes à mesa de Reece, para servir o chá, o prato principal, a
sobremesa junto com a conta, conforme ele pedira, e por fim, para entregar-lhe o troco.
Nesta última vez, não conseguiu escapar à abordagem dele. Quando deixou o
dinheiro sobre a mesa, Reece a segurou pelo pulso, para impedi-la de sair correndo.
— Desculpe-me. — Ele sorriu, parecendo embaraçado. — Não sou muito bom
nisto. Pensei que seria simples, mas parece que me enganei. Será que podemos conversar
por alguns minutos?
Amber disfarçou um suspiro.
— Sr. Carlyle...
— Reece.
— Eu... eu não tenho tempo agora...
— Só por um instante — insistiu ele.
— Infelizmente, não posso — declarou ela com firmeza. — Tenho clientes me
esperando.
Deu meia-volta e afastou-se com passos rápidos, antes que ele insistisse
novamente e se tornasse mais difícil recusar. O convite dele a deixara lisonjeada, e ela se
sentira tentada a aceitar. Aquele homem a atraía e despertava sua curiosidade de uma
maneira que nunca lhe acontecera antes.
Arriscou um olhar na direção da mesa, porém ele já se fora. De repente, uma
estranha frustração a invadiu. Mas logo ela forçou-se a afastar a sensação. Prometera a si
mesma dois anos antes que seria sensata e até então agira de acordo com sua resolução.
Não havia por que mudar isso.
Reece amaldiçoou a si mesmo mentalmente repetidas vezes, ao pôr os pés na rua.
O que estava acontecendo com ele? Por que se comportava como um tolo quando estava
com aquela garota? Sentia-se como um adolescente perto dela, e não conseguia entender a
razão disso. A não ser que fosse o fato de a estar espionando... Só podia ser.
Tomou uma decisão. Contaria a verdade a Amber. Explicaria tudo, diria que os
pais estavam preocupados, que isso era natural e que não pretendiam interferir na vida
dela, simplesmente certificar-se de que ela estava bem.
Sentindo-se melhor, Reece começou a andar devagar ao longo da calçada, olhando
as vitrines e espantando-se com os preços exorbitantes. Mantimentos, roupas, calçados,
lembranças de viagem, tudo era caríssimo em Key West. Não era de admirar que Amber
tivesse que ter dois empregos.
Duas horas mais tarde, caminhou de volta para o restaurante, imaginando que
faltava pouco para terminar o turno de Amber. Sentou-se em uma mureta na calçada, a
poucos metros da entrada do restaurante. Queria resolver aquele assunto logo.
Poucos minutos depois um táxi estacionou junto ao meio-fio, em frente à mureta.
O motorista, um homem alto com os cabelos compridos amarrados num rabo-de-cavalo,
desligou o motor. Reece imaginou que estava à espera de algum cliente e voltou a
concentrar-se na porta do restaurante.
Meia hora mais tarde, olhou para o relógio e viu que o motorista do táxi fazia o
mesmo. Trocaram um breve sorriso e continuaram esperando.
Por fim, o movimento da porta abrindo e fechando em seguida chamou a atenção
de ambos. O motorista olhou com ar de expectativa para a entrada do restaurante, e Reece
sentiu um bolo se formar em seu estômago mesmo antes de Amber caminhar na direção
do táxi e dizer:
— Desculpe, estou atrasada, Walt. Carrie ainda não apareceu, mas eu disse ao
patrão que não podia esperar mais. Temos tempo de passar na agência antes de ir para
casa?
Enquanto ela falava, o motorista abria a porta do passageiro, solícito.
— Claro, querida, como você quiser — disse ele, literalmente colocando-a no
banco.
Ela olhou rapidamente para Reece enquanto Walt se ajeitava ao volante e desviou
em seguida o olhar, num sinal evidente de que o estava dispensando.
Querida... antes de ir para casa...
O nó no estômago de Reece cresceu. Como não pensara naquela hipótese? Ela
tinha um namorado, alguém com quem ela morava, aparentemente.
Parado, com as mãos na cintura, observou o carro desaparecer rua abaixo. E agora,
o que fazer? Precisava saber mais detalhes, não tinha informações suficientes para relatar a
Robert. Ele iria querer saber quem era aquele sujeito com quem Amber estava envolvida.
O que mais incomodava Reece, no entanto, era sua própria reação perante o que
acabara de descobrir. O sujeito não combinava nem um pouco com ela, era grandalhão
demais, além de parecer sujo e mal arrumado. Mas Reece sabia que teria ficado
contrariado mesmo que o namorado de Amber fosse outro tipo de pessoa. O que o
incomodava era o fato de ela ter um namorado, fosse ele quem fosse.
Depois do choque inicial, Reece concluiu que só lhe restavam duas opções, uma
das quais já estava descartada, que seria ir embora daquele lugar com seu veleiro, com as
parcas informações que tinha. A outra era permanecer em Key West por mais algum
tempo e investigar a fundo o que estava acontecendo. Era o que ele faria, e sabia que não
era apenas para dar satisfações ao amigo...
Amber mordeu o lábio inferior e olhou para o espelho retrovisor externo, do lado
direito. O homem misterioso obviamente estivera ali esperando por ela, e isso a deixava ao
mesmo tempo excitada e alarmada.
Ouviam-se histórias tenebrosas de perseguidores e sequestradores, em toda parte
do mundo. Aquele homem não lhe parecia um criminoso, ao contrário, parecia ser fino e
educado, culto e até um pouco tímido, como se quisesse aproximar-se dela e não soubesse
como.
Parecia totalmente inofensivo, mas ao mesmo tempo perigosamente másculo e
atraente. E tinha o estranho poder de deixá-la pouco à vontade.
— Você viu aquele homem lá atrás? — perguntou a Walt.
Ele lhe dirigiu um olhar interrogativo.
— Aquele parado perto do restaurante? Sim, vi. Por quê?
— Ele estava no tour na sexta-feira passada... E depois tentou falar comigo.
— É mesmo? Sobre o quê?
— Oh! nada importante, na verdade. — Ela deu de ombros. — Eu o desencorajei.
Bem, pelo menos, foi o que pensei.
— Como assim?
— Ele apareceu no restaurante hoje, umas três horas atrás, e tentou me abordar de
novo. E desta vez foi mais persistente.
Walt sentou-se mais ereto no banco.
— Persistente, como?
— Disse que queria me conhecer, conversar comigo. — Walt franziu o cenho.
— Você não falou com ele, falou?
— Você sabe que não tenho tempo para esse tipo de coisa, pelo menos quando
estou trabalhando.
— Não marcaram um encontro?
— Claro que não. — Amber virou o rosto para fora, refletiu que gostaria de ter
marcado...
— Acha que ele estava esperando por você, agora?
— Não sei... Sinceramente, não sei o que pensar.
— Quer que eu dê um jeito nisso? — Walt perguntou. — Sabe o nome dele? Onde
está hospedado?
— Não — apressou-se ela a dizer. Em seguida ajeitou os cabelos, tossiu baixinho e
virou-se para o velho amigo e colega. — Você... acha que um homem como aquele pode
estar interessado em mim?
Walt riu.
— Que pergunta é essa? Que homem não se interessaria por você? — O tom de
riso foi substituído por outro, de advertência: — Tome cuidado, Amber, esse sujeito pode
ser um louco, um assassino psicopata, sei lá...
Ela riu, fazendo um gesto com a mão para descartar aquela hipótese.
— Oh! ele não é o tipo... na verdade, é gentil, doce... tímido, até.
— Não existe "tipo" para um psicopata — Walt argumentou — Talvez seja melhor
eu falar com ele.
Amber balançou a cabeça.
— Provavelmente nunca mais o verei de novo. Sabe como é, por aqui. As pessoas
vêm e vão.
— Nem todo mundo — Walt discordou. — Você não fez isso.
— Mas gostaria de ter feito — resmungou ela.
— Não está falando a sério. Sei que o custo de vida é alto, existem inconvenientes,
mas esse é o preço para morar no paraíso.
— Paraíso? — Amber riu, irônica. — Pode ser, para quem tem os bolsos recheados,
e você sabe disso.
— Eu gosto daqui — insistiu Walt. — É tranquilo, sossegado, ninguém julga
ninguém... É caro, mas dá para ganhar bem, e o calor não me incomoda. Para mim, é o
lugar ideal.
Amber suspirou. Já tinham tido aquela discussão antes.
— Acho que eu quero mais, mais oportunidades, mais cultura, mais variedade.
Quero uma chance de fazer alguma coisa, de verdade, Walt. Isso é tão difícil de entender?
— Por que não pode ter tudo isso aqui? — Walt perguntou, espalmando as mãos
enormes no volante.
Amber olhou para ele com um sorriso conformado. Walt nunca entenderia. Para
para Key West quase dez anos antes, vindo do Alabama, e se considerava feliz dividindo
um apartamento com três amigas, sendo que Amber era uma delas. Para ele, tudo estava
sempre ótimo desde que não o apressassem para nada. Era um homem simples, um bom
amigo, mas não conseguia compreendê-la.
Por um momento viajaram em silêncio, então subitamente ele disse:
— Você nunca se diverte. Por que não saímos esta noite?
Amber o encarou.
— Mas temos que trabalhar.
— Deixamos o trabalho para outra hora.
Ela balançou a cabeça. Aquilo era bem próprio de Walt, de Key West. Diversão
sempre vinha em primeiro lugar.
— Eu não posso.
— Por que não?
— Eu quero trabalhar.
— Você trabalha demais — resmungou ele. — Amber apenas suspirou, desistindo
de entrar em maiores explicações.
— Preciso do dinheiro — resumiu ela.
Walt revirou os olhos, mas não disse nada para refutar. Em vez disso, perguntou:
— E quanto ao sujeito?
— Que tem ele?
— Ainda acho que eu devia falar com ele para ficar longe de você.
— Não é preciso — disse ela com suavidade. — Realmente duvido que vá vê-lo de
novo. Deverá estar longe daqui em breve.
Ela realmente acreditava nisso. Reece Carlyle desapareceria logo da ilha, e era o
que ela pretendia fazer também, assim que pudesse.
Amber subiu a escada com dificuldade, a fantasia de bruxa jogada sobre o ombro.
Estava cansada e aborrecida, e um pouco deprimida também, embora não soubesse
exatamente por quê. O tour transcorrera bem, e a noite estava mais fresca. Mais o fato de
que o dia seguinte seria domingo, e seu único dia livre na semana, ela deveria se sentir
feliz, não melancólica.
Não obstante, recusara o insistente convite de Walt para uma noitada na cidade.
Não quisera nem mesmo aceitar a carona dele para casa naquela noite. Só sabia que não
estava com disposição para falar e rir.
Chegando à porta, levou a mão à maçaneta e a encontrou destrancada. Uma das
moças com quem dividia o apartamento já devia ter chegado, ou Sharon se esquecera
novamente de fechar a porta.
Com vinte e seis anos, dois mais velha que Amber, Sharon mostrava uma
propensão à irresponsabilidade. Já jogara para o alto o emprego de garçonete, gastara todo
o seu dinheiro com bebida, pagava todas as contas com atraso e frequentemente recebia
visitas noturnas, do sexo masculino, apesar de isso ser contra as "regras" da casa.
Já a teriam posto para fora há muito tempo se seu nome não estivesse no contrato
de locação junto ao de Amber e Walt.
Linda, a quarta moradora do apartamento, viera depois. Tinha apenas vinte e um
anos e não só trabalhava como auxiliar no mesmo restaurante que Amber, como dividia
com ela um dos três quartos do apartamento. Amber se preocupava com ela. Era uma
jovem inexperiente e influenciável e ainda estava decidindo como queria viver a vida.
Em muitos aspectos, Linda fazia Amber lembrar de si mesma algum tempo atrás.
Ultimamente Sharon parecia sentir um prazer perverso em chocar a garota.
Ela empurrou a porta e entrou na sala às escuras. Situado no segundo andar de
uma velha mansão reformada em seis unidades residenciais, o apartamento era mais
espaçoso do que a média na ilha.
A sala de estar era flanqueada de um lado por três quartos, e o terraço fora
transformado em sala de jantar e cozinha O banheiro ficava na extremidade oposta da sala
e dava para uma área ensolarada e um pequeno jardim.
Amber alcançou o interruptor na parede e acendeu a luz. Um homem
desconhecido estava estirado no sofá e virou a cabeça para olhar para ela. Boquiaberta, ela
recuou.
No instante seguinte Sharon ergueu-se sobre um cotovelo e, fazendo um sinal para
o homem para que permanecesse onde estava, falou:
— Droga, Amber, não sabe bater? — Amber lutou contra o embaraço e retrucou:
— Eu moro aqui, lembra-se? E a sala é um aposento comum a todos. Além do quê,
você nem se deu ao trabalho de trancar a porta.
— Trancar a porta, trancar a porta... — repetiu Sharon, em tom de troça.
O homem pigarreou, esfregando o nariz. Sharon sorriu maliciosa, então puxou a
blusa para baixo.
— Com licença — disse Amber, dirigindo-se para o quarto. — Vou dormir.
— Sozinha! — disparou Sharon, virando-se em seguida para o homem. — Amber
sempre dorme sozinha... Que menina boazinha!
— Prefiro as meninas más — comentou o homem segurando a cabeça de Sharon
com ambas as mãos.
— Você e todos os homens da cidade — resmungou Amber, antes de fechar a
porta do quarto atrás de si.
Ficou surpresa ao encontrar Linda deitada na cama.
— Eles ainda estão aí? — Linda perguntou.
— Estão.
— Por que não vão para o quarto?
— Porque Sharon sente prazer em nos chocar.
— Uma gracinha, ele, não achou?
— Quem?
— O rapaz que está com Sharon.
— Francamente, nem reparei — respondeu Amber olhando para a outra moça.
— Claro que um homem como aquele nunca iria reparar em mim.
— Linda, um homem que se comporta como aquele não merece a sua atenção.
Linda sorriu, mas depois deu de ombros.
— Todo homem age assim se tiver uma chance.
— Isso não é verdade — Amber discordou. — Walt não age assim, e você sabe que
ela já se ofereceu.
Com um suspiro, Linda pegou o livro que estava lendo e retomou a leitura.
Em silêncio, Amber despiu-se e se preparou para dormir, sentindo-se mais
deprimida que nunca.

CAPITULO III

Amber puxou o lençol e rolou para o lado, amassando o travesseiro. Ajeitou-se no-
vamente, suspirou e fechou os olhos. O som de risos abafados que vinham do aposento ao
lado a deixavam irritada ao extremo.
Virou-se para o outro lado, tão inquieta que sentia a pele arrepiada sob o lençol.
Determinada, tornou a fechar os olhos. Quando ouviu um gemido rouco e alto, tapou os
ouvidos com as mãos.
Por que isso estava acontecendo? Estava morta de cansaço, mas por alguma razão
não conseguia dormir, nem ignorar os murmúrios do outro lado da parede. Talvez porque
todas as noites, ao se deitar, pensamentos sensuais a conduziam ao sono, mas os rostos
que ela via não eram os de Sharon e daquele homem, e sim o seu próprio e de Reece
Carlyle.
Ela própria não sabia explicar por que Reece se tornara objeto desse tipo de
pensamento. Talvez Walt tivesse razão, talvez ela estivesse precisando espairecer um
pouco.
Amber acordou com o som de um grito rouco, desta vez vindo do quarto de
Sharon. Sonolenta, olhou para o relógio na mesa-de-cabeceira. Cinco horas da manhã. Será
que aqueles dois não se saciavam nunca? De repente, o quarto pareceu-lhe extremamente
quente e abafado, tinha a sensação de que as paredes estavam se fechando sobre ela, Não
conseguia respirar nem pensar direito. Na cama ao lado, Linda permanecia imóvel,
profundamente adormecida.
Levantando os joelhos, Amber enfiou a cabeça entre eles, em uma tentativa de
acalmar-se. Percebendo que não conseguiria, tomou uma decisão. Procurando não fazer
ruído, levantou-se, vestiu um short e uma blusa de moletom. Prendeu os cabelos num
rabo-de-cavalo, enfiou as chaves e a carteira no bolso e, com os tênis na mão, saiu do
apartamento.
Depois de trancar a porta, sentou-se nos degraus, calçou os tênis e desceu até o
abrigo para bicicletas, no térreo.
Faltava cerca de meia hora para o nascer do sol, e Amber pedalou pelas ruas
desertas, sem destino, respirando o ar fresco e absorvendo a paz. Chegando às imediações
da marina, prendeu a bicicleta a um poste e foi caminhar na doca. Era agradável ouvir o
som dos próprios passos sobre as placas de madeira, enquanto o céu começava a clarear
no horizonte.
Sentou-se junto a um pilar e, chapinhando os pés na água, admirou por alguns
minutos o espetáculo do alvorecer, extasiada com os tons alaranjados que coloriam o céu e
o mar.
Abraçou o pilar de madeira e deixou-se ficar ali, usufruindo de um profundo
contentamento interior.
Reece apoiou os pés na grade de metal e se recostou com um suspiro audível,
segurando nas mãos uma xícara de café fumegante. Aquela era a hora do dia de que ele
mais gostava, principalmente quando estava no mar.
Assistir ao sol se levantar lentamente no céu era um deleite especial que nunca
deixava de trazer-lhe paz. Não era a mesma coisa ali no ancoradouro, mas ainda assim ele
adorava aquele momento, antes que o resto do mundo acordasse.
Distraído, olhou na direção da doca, e um movimento atraiu-lhe a atenção. Parecia
que ele não era o único a apreciar aquela hora do dia.
Curioso para saber quem era a outra pessoa a dividir sua predileção, levantou-se e
foi até a cabine. De posse de um par de binóculos, voltou para a proa e focalizou o píer.
Quase derrubou a xícara.
— Não acredito!
Tornou a ajustar o foco do binóculo. Amber Presley estava sentada na doca de
madeira, encostada ao pilar, o olhar perdido no horizonte. Pela expressão de seu rosto,
Reece podia afirmar, sem sombra de dúvida, que ela apreciava aquele momento mágico
tanto quanto ele.
A descoberta lhe dava uma oportunidade que ele não podia desperdiçar. Deixou a
xícara de café no piso do convés e se dirigiu para o píer, ignorando o nó que se formava
em seu estômago.
Ao se aproximar de onde Amber estava, Reece diminuiu o passo, temendo
assustá-la. A figura feminina dela o encantou. Parecia ter virado mulher de repente...
Daquele ângulo, o corpo dela parecia mais curvilíneo, a cintura mais fina, os quadris mais
cheios.
Reece tratou de afastar o pensamento, considerando-a uma criança linda e
adorável... Concentrando-se no rabo-de-cavalo, seguiu em frente, com um leve sorriso nos
lábios.
Amber não percebeu a aproximação de Reece até que ele estivesse ao seu lado. Sua
surpresa ao vê-lo devia ter sido evidente, porque o sorriso dele se transformou numa
risada.
— Você!
Reece Carlyle... Iluminado pela claridade difusa da aurora, parecia uma visão,
alto, forte e dominador. Por um momento, Amber pensou que estivesse sonhando.
— Bom dia — disse ele, com um sorriso mais radiante que qualquer raio de sol.
Amber sentiu-se derreter por dentro.
— Bom dia. Eu não esperava ver ninguém mais por aqui.
Ele se sentou ao lado dela, as pernas bronzeadas expostas sob o short azul.
— Eu adoro esta hora da manhã. Para mim, é a melhor hora do dia. — Ele fez uma
pausa e acrescentou: — Vi você do meu barco. Ali está ele, o Porto Feliz.
Amber ficou surpresa com o tamanho do veleiro, que devia ter, no mínimo,
quarenta pés.
— Você veleja sozinho?
— Sim. Quase tudo é mecanizado, automático. E tomo cuidado para não ser
surpreendido em situações de risco no mar. Faz quase três meses que estou vagando pelo
golfo do México e pretendo passar mais três antes de voltar ao mundo real.
Amber voltou-se para ele para analisá-lo. A luz da manhã certamente o
valorizava. Sentado ali, recém-barbeado e dourado pelo sol, os cabelos encaracolados
descendo pela nuca, parecia um deus grego. Os pêlos das pernas e braços musculosos
eram louros de tanto ficarem expostos ao sol. Mesmo as sobrancelhas castanhas eram
salpicadas por fios louros. Amber estudou o rosto dele. Reece possuía traços angulosos e
marcantes; os olhos verdes, embora penetrantes, transmitiam gentileza.
— Você não desiste fácil, não é? — observou ela. Ele sorriu e olhou para baixo,
para os próprios pés.
— Não, não desisto — admitiu.
Mas ele havia desistido certa vez, de alguém. Amber podia perceber isso em sua
voz, que não escondia uma ponta de remorso. Voltou a atenção para o barco, meio que
esperando por um convite para ir a bordo, imaginando o que o havia compelido a iniciar
aquela jornada solitária.
— Por acaso sabe onde se pode tomar um bom café da manhã por aqui? —
perguntou ele.
— Claro. — Virando o corpo, Amber apontou para o calçadão. — É só seguir
direto até a rua Front. Vire à esquerda na rua Simonton e antes de chegar à Fleming verá
mesas na calçada. É um lugar simples, não há salão interno, mas a comida é muito boa. O
café, então... é maravilhoso! E os croissants... são divinos!
Reece riu.
— Parece perfeito. Mas... rua Front? Não me recordo de essa rua se ligar ao
calçadão.
— Bem, não exatamente, mas...
Ele se levantou de repente, quase em um salto.
— Por que não me mostra? — sugeriu, estendendo-lhe a mão. — Não lhe apetece
um bom café da manhã?
Lançado o desafio, olhou-a com um sorriso maroto nos lábios, que ao mesmo
tempo a deixou intrigada e lisonjeada.
Amber viu-se retribuindo o sorriso e aceitou a mão estendida, pondo-se de pé com
a ajuda dele.
Caminharam lado a lado em direção ao calçadão, e só quando atingiram a rampa
de acesso Amber se lembrou da bicicleta.
— Podemos voltar para pegá-la mais tarde — disse Reece.
Amber mordiscou o lábio inferior. Mais tarde... Isso implicava algo mais que um
café da manhã, ou não? Estaria imaginando coisas?
Reece pareceu ler seus pensamentos. Sacudiu a cabeça e riu.
— Estou sozinho naquele barco há três meses — disse ele — e foi uma experiência
interessante, mas agora eu gostaria de um pouco de companhia. É só isso. Mas se acha que
pode precisar escapar para longe de mim, leve a bicicleta.
Colocado dessa maneira, pareceu absurdo o temor de Amber. E era mesmo. Ali,
ela estava no comando da situação, Reece nem mesmo sabia para onde estavam indo. Ela
sorriu.
— Acho que sou do tipo cautelosa.
— Eu já tinha notado. E, para ser honesto, aprovo isso.
— Aprova?
— Certamente. É sensato ter cautela. Tive trabalho para ensinar isso a minha filha.
Uma filha... Então ele era casado. Ou fora.
— Você tem uma filha?
Reece abriu um sorriso cheio de orgulho.
— Ela se chama Brittany. Tem onze anos, é linda, inteligente e muito esforçada.
Mora com a mãe, mas ficarei com ela um mês inteiro no barco, antes de as férias
terminarem.
Um alívio absurdo inundou Amber.
— Você é separado?
— Sim. Faz pouco mais de um ano que me divorciei. — Um laivo de amargura
perpassou as palavras.
— Sinto muito.
— Eu também, mas foi uma decisão mútua e era a melhor coisa a fazer. — Ele
cruzou os braços. — Bem, estou com fome. E o nosso café?
Ela assentiu. Andaram alguns metros em silêncio. Então Reece se voltou para ela.
— Então, fale-me de você, Amber Rose.
— O que quer saber?
— Bem, para começar, como veio parar em Key West?
Sorrindo, ela respondeu sem titubear.
— Pura e simples estupidez, recheada com um tanto de imaturidade.
Reece olhou-a surpreso e depois riu.
— Parece que essa condição não é permanente. Por favor, explique melhor, se não
se importa.
O engraçado era que ela não se importava em contar.
— Eu cresci no Texas — começou — mas fiz faculdade no estado de Nova York,
onde é frio e neva muito. Aliás, formei-me no meio do período letivo, ou seja, no inverno.
— Quando estava nevando muito — observou ele com argúcia.
— Isso mesmo. De qualquer forma, eu não podia voltar para casa, assim, quando
alguns amigos sugeriram que viéssemos para Key West para comemorar e fugir do
inverno, achei que era uma boa ideia.
— O que você quis dizer com "não podia voltar para casa"? — perguntou ele
cuidadoso.
Ela deu de ombros, balançando os braços ao caminhar.
— Isso mesmo. Eu não podia voltar para a casa dos meus pais. Eu não podia, não
posso nem mesmo morar perto deles.
— Por quê? — ele pressionou. — Quero dizer, não é da minha conta, claro, mas
falando por mim mesmo, acho que ficaria arrasado se minha filha não quisesse viver perto
de mim.
— Então não tente viver a vida por ela — Amber respondeu de pronto. — Não lhe
diga quem deve ter como amigos ou não. Não lhe diga onde deve trabalhar ou que roupa
vestir, que tipo de música deve ouvir ou não. Quem ela deve ou não namorar, a que horas
precisa dormir e acordar... e como deve respirar. — O desabafo terminou em um longo
suspiro.
Reece esticou as mãos à frente.
— Mas é bem isso que os pais fazem pelos filhos, não é? Eu certamente policio as
atividades da minha filha, monitoro sua agenda e oriento suas amizades.
— Sim, mas sua filha tem onze anos. Eu já fiz vinte e quatro.
— E quando foi a última vez que viu seus pais?
— Na formatura.
— Devem estar arrasados — disse ele, balançando a cabeça.
— Tenho procurado dizer-lhes que estou bem — respondeu ela na defensiva. —
Mas toda conversa acaba em discussão ferrenha, com meu pai ordenando que eu volte
para casa e eu insistindo em desobedecer.
Reece fez um gesto com a mão como para dizer que isso não tinha importância.
— Voltando ao ponto em que você veio para Key West para comemorar... Como
acabou ficando aqui?
Ela fez uma careta.
— Meu pai fez um estardalhaço por causa da viagem. Ele achava que eu ficaria
bêbada e acabaria me afogando, ou coisa pior. Acho que resolvi lhe dar razão, provar que
ele estava certo.
— Foi o que você fez?
— Bem, foi uma festa e tanto — admitiu ela — mas quando acabou, nada tinha
mudado. Então chegou a hora de ir embora e eu não tinha para onde ir. O tempo nessa
época do ano é maravilhoso, e uma amiga minha conheceu um rapaz que nos ofereceu um
lugar para ficar. E nós ficamos.
— E onde está ela agora?
— Oh! não deu certo entre eles, e depois de algumas semanas ela voltou para casa,
em New Jersey. Naquela época eu já estava empregada como recepcionista em uma
imobiliária, onde, por sinal, encontrei meu primeiro apartamento. Mas tudo era muito
caro, precisava juntar cada centavo para pagar as contas, e comecei a perceber que não
queria realmente ficar aqui.
— E isso foi há quanto tempo?
— Dois anos. Bem, dois anos e meio. Demorei quatro ou cinco meses até me dar
conta de que havia cometido um erro.
— Mas você ainda está aqui.
— E estarei nos próximos meses.
Ele estacou e colocou as mãos nos quadris.
— Eu não compreendo.
— Primeiro precisei esperar vencer o contrato do meu aluguel. Depois tive de
procurar um novo lugar para morar e pessoas para dividir o aluguel. Naquele meio tempo
eu havia trocado de emprego porque no antigo eu não ganhava o suficiente para pagar as
despesas e ainda economizar. Assim, arrumei um segundo emprego. Desde então tenho
guardado dinheiro para poder recomeçar. Mas leva tempo para juntar o suficiente. Não
esqueça que estamos no extremo sul dos Estados Unidos. Sair daqui custa caro. Uma
passagem aérea para Miami custa duzentos dólares e eu não pretendo ficar em Miami.
Tudo que possuo são meus shorts, jeans e camisetas.
— E uma fantasia de bruxa — acrescentou Reece sorrindo.
— Muito bem lembrado — admitiu ela. — O ponto é, preciso de um guarda-roupa
adequado para sair daqui e ir à procura de um emprego decente. Sem falar no custo de um
lugar para viver até arrumar trabalho. Bem, por aí vai... moradia, móveis, comida,
transporte.
Concordando com ela, Reece baixou a cabeça antes de dizer:
— Seria bem mais fácil se você voltasse para casa.
— Mais fácil? — zombou Amber. — Creia-me, seria tudo, menos isso.
— Certamente seus pais a ajudariam a recomeçar — argumentou Reece com
suavidade.
— Não se trata de meus pais me ajudarem. Você pediria aos seus pais que o
ajudassem a recomeçar agora?
— Bem, não, mas...
— Não tem mas — insistiu ela. — Sou adulta, e se eu permitir que meu pai pense
o contrário, mesmo que só por um instante, é melhor voltar a usar trancas. Não, eu preciso
fazer isso sozinha. Eu farei isso sozinha. Espero que um dia possamos, meu pai e eu, ter
um relacionamento honesto e afetuoso. Mas para isso ele precisa me respeitar, portanto
voltar para casa está fora de cogitação.
Por um momento ela pensou que Reece fosse discutir a questão, mas ele apenas
sorriu e, passando a mão no estômago, falou:
— Por favor, diga que estamos perto do café. Rindo, Amber apontou para frente.
— Acha que consegue aguentar mais dois quarteirões?
— Vou tentar — retrucou ele, ao arrastar as pernas, fingindo fraqueza. — Se eu
não conseguir, jogue meu corpo no mar.
— Não vou arrastar sua carcaça de volta ao porto. — exclamou Amber, entrando
na brincadeira.
— Que moça cruel! É assim que trata os amigos?
— Pelo menos você continua andando... Amber passou por ele, acelerando o
passo.
— Nada de café para você — gritou ele ao ser ultrapassado.
Um instante mais tarde Reece a alcançou. Amber estava intimamente satisfeita por
ter sido chamada de amiga.
— Alguém já lhe disse que você não é nada divertida?
— O tempo todo.
— Bem, eles mentiram — falou Reece com um sorriso brilhante estampado no
rosto.
Ele ensaiou um movimento para enlaçar os ombros de Amber, mas recuou,
embaraçado. Afastou-se e, pigarreando, desculpou-se.
— Estou com tanta fome que fiquei bobo — murmurou ele.
Amber desviou o olhar, caminhando direto para o tablado de madeira cheio de
mesinhas e cadeiras.
— Se a questão é essa, está salvo. Chegamos. — Atrás dela, Reece inspirou
profundamente.
— Oh! sinta o aroma deste café!
Rindo, Amber saudou o homem atrás do balcão.
— Bom dia, Alonso.
— Bom dia, Amber. Como vão as coisas?
— Tudo bem. Meu amigo aqui está a ponto de ter um colapso de tanta fome.
— Acho que podemos resolver isso já. O que querem?
— Dois cafés, para começar. E eu quero dois croissants com requeijão. — Virou-se
para Reece: — E você?
— Queria algo mais substancioso. — Assim que Alonso colocou as xícaras no
balcão, ele pediu: — Dois croissants para mim também, mais uma omelete de camarão e
para acompanhar um fatia de bacon frito.
Alonso e Amber trocaram olhares surpresos diante de Reece, que argumentou:
— Sempre como bem no café da manhã, e hoje estou particularmente faminto.
Amber virou-se para Alonso:
— Você ouviu.
— Hum-hum — Alonso respondeu. — Eu gosto de um homem que sabe comer. —
E soprou um beijo na direção de Reece antes de se voltar para a cesta de ovos.
A ilha abrigava uma substancial população homossexual. Amber estava
acostumada com a convivência divertida e irreverente, mas a maioria dos turistas
estranhava um pouco. Reece apenas fez de conta que não percebera os olhares de Alonso
em sua direção.
Passando a xícara de café para ele, perguntou:
— Creme e açúcar?
— O meu, puro, por favor. — E, dando um gole, aprovou: — Excelente!
— Vamos nos sentar, Alonso nos avisará quando a comida estiver pronta.
— Não acredito que estamos sozinhos aqui — disse Reece olhando ao redor. — Só
este café devia trazer uma multidão para cá.
— Key West não é uma cidade matutina — explicou Amber, tomando um gole do
café. — Alonso serve um brunch ótimo aos domingos, e no fim da tarde há sanduíches e
drinques gelados.
— Bem, eu, particularmente, fico feliz que ele abra para o café da manhã.
— Mais café?
— Não, prefiro esperar pela comida.
— Se é assim, que tal me falar um pouco de você? Até agora só falamos de mim.
Ele deu de ombros.
— Não há muito que contar. Sou texano também, como você.
— Eu já tinha reconhecido o sotaque. — Reece deu um risinho.
— Cresci em Corpus Christi, fiz faculdade em Houston, onde me fixei. Era lá o
meu lar, mas vendi tudo, casa e negócio. Não tenho mais nada lá, nem em lugar algum.
— Que tipo de negócio?
— Tecnologia em informática.
— Para mim, computadores são mais ou menos como máquinas de escrever. Meu
diploma é de Arte Dramática e Língua Inglesa.
— Muita gente pensa como você, mesmo no mundo dos negócios. É aí que eu
entro, eu e minha equipe desenvolvemos o melhor software para cada empresa e
ensinamos como utilizar a tecnologia disponível.
— Parece interessante.
— E é Ou era. — Ele pigarreou. — Vendi a empresa para uma corporação
multinacional. Meu problema agora é que não sei o que fazer da vida. Assinei um termo
de compromisso para ficar fora do mercado, o que significa recomeçar do zero. Não acho
que aos trinta e oito anos esteja velho para recomeçar nos negócios, só não sei o que
gostaria de fazer. — Ele suspirou. — É por isso que estou aqui. Decidi tirar seis meses para
pôr minha cabeça em ordem, entende?
Amber sorriu compreensiva.
— E como! — admitiu ela — Tenho tentado pôr minha cabeça em ordem nos
últimos vinte e quatro anos.
— Não se apresse. Eu me casei aos vinte e quatro, e vivi o arrependimento de ter
feito isso, creia-me. Exceto pela minha filha. Por ela nunca me arrependi.
— Disse que ela tem onze anos.
— Isso.
— Então você foi pai aos vinte e sete.
— Exato.
Ela olhou para dentro da xícara.
— Pergunto-me se serei mãe aos vinte e sete.
— Quer ser?
Amber inclinou a cabeça para o lado, pensativa.
— Sim, acho que sim. Sempre adorei crianças. Na verdade, resolvi que quero
lecionar.
— Mesmo? Que matéria?
— Vida — respondeu ela, e explicou em seguida: — Gostaria de ensinar teatro
para crianças com problemas ou carentes.
— O teatro como um microcosmo da vida real? —perguntou ele com
desconfiança.
Franzindo o nariz, Amber corrigiu:
— Mais o teatro como ferramenta de crescimento pessoal. Desde ensinar a
construção de cenários, a confecção das fantasias, a integração da iluminação, som e
movimento... Além da arte dramática em si, que pode ensinar desinibição aos tímidos,
disciplina aos extrovertidos, graça aos desengonçados, imaginação e tantas outras coisas...
Reece estava justamente pensando nisso quando Alonso tocou a sineta
anunciando que a comida estava pronta.
— O desjejum está servido!
— Deixe que eu vou buscar — apressou-se Amber a dizer, rindo do desconforto
dele diante dos olhares de Alonso.
— Obrigado. Espere! — Ficando em pé, tirou a carteira do bolso. — Vou pagar,
lembra-se?
— Não é preciso.
— Claro que é. — E colocou uma nota de vinte dólares na mão dela. — Eu insisto.
O trato era que você mostrasse o caminho e eu pagaria.
— Certo.
Brincando, ele acrescentou:
— Ganha uma gorjeta se conseguir distrair o cozinheiro.
— Ele não é o meu tipo — sussurrou Amber de volta.
— Nem o meu, esse é o problema.
Rindo, ela se virou. Enquanto esperava pelo troco, ocorreu-lhe que fazia muito
tempo que não se sentia tão contente.

CAPÍTULO III
Estava maravilhoso! — exclamou Reece, novamente alisando o abdômen. —
Agora preciso caminhar.
Amber se levantou e começou a reunir tudo sobre a bandeja. Reece se levantou
prontamente.
— Deixe que eu faça isso. Afinal de contas, você serviu.
Ela deu de ombros.
— Tudo bem.
Ele juntou tudo, colocou na bandeja e depositou-a no local adequado sobre o
balcão. Alonso não perdeu tempo.
— Volte sempre, viu?
Reece acenou e sorriu, murmurando baixinho:
— Sozinho, nunca.
Amber tapou a boca com a mão para abafar o riso, e Reece a pegou pelo braço.
— Rápido, antes que ele comece a mandar beijos de novo — falou por entre os
dentes.
Ela atendeu ao pedido e apertou o passo rua abaixo.
— Onde é o incêndio? — brincou Reece, alcançando-a. Amber apontou para o alto.
— Está começando a esquentar.
— Mais uma razão para ir devagar — disse ele.
— Especialmente se você acabou de se empanturrar — provocou ela.
— Não foi culpa minha. Eu estava com fome. E ele encheu meu prato com todas
aquelas delícias.
Amber riu.
— Ele gostou de você.
— Se existe algo que eu posso falar daquele sujeito é que ele é um cozinheiro de
mão cheia.
— Isso é verdade. Para ser honesta, ele lhe serviu uma porção mais generosa que o
habitual.
— Eu percebi.
— Mas não vi nenhuma arma apontada para sua cabeça obrigando-o a comer
tudo.
— Sou um homem fraco. Não resisto a tentações. — Amber baixou a cabeça e riu,
e Reece imitou-a.
— O que há de tão engraçado? — quis saber ele.
— Você. Um homem fraco não teria feito tudo o que você já fez, aos trinta e oito
anos.
Ele deu de ombros.
— Trinta e oito anos é bastante tempo.
— Depende da perspectiva, não acha?
— Talvez.
— E o resto da sua família? — perguntou ela ao perceber subitamente que ele só
falara da filha e da ex-mulher.
— Continuam todos em Corpus Christi. Meu pai era funcionário público e já se
aposentou. Meu irmão caçula também continua lá, é casado e tem dois filhos. Meu irmão
mais velho mora em Galveston. Finalmente se casou e minha cunhada está grávida, mas
ela já tem um casal, do primeiro casamento. Jason é louco por eles.
— Você é o irmão do meio, então.
— Sim. Temos dois anos de diferença entre cada um.
— Em que mês você faz aniversário? — Ela quis saber.
— Janeiro, dia dez.
— Eu também faço aniversário no dia dez, mas de fevereiro.
— Sério? Poucos dias antes do dia dos namorados na América... Seu namorado
nunca tentou juntar as datas e lhe dar um único presente?
Amber riu.
— Eu não tenho namorado.
— E o taxista?
Amber se esquecera de que ele a vira com Walt no dia anterior.
— Ele não é meu namorado. O que o levou a pensar isso?
— O jeito como ele falou com você. Ele a chamou de querida.
— Walt sempre me chama assim. É o jeito dele.
— Mas eu entendi que vocês moravam juntos...
— E moramos. Divido um apartamento com ele e mais duas garotas.
— Então Walt é só um amigo — repetiu ele.
— Foi o que eu disse!
— Desculpe-me... Achei que era seu namorado, só isso.
— Acha que eu tomaria café com você se tivesse namorado?
Reece piscou para ela.
— Bem, e por que não? Não acho que ele se importasse, dada a diferença de idade
entre nós.
— Que diferença de idade?
— Bem, sou catorze anos mais velho que você.
— E daí? Somos ambos adultos, isso é o que importa. — Reece pareceu confuso a
princípio, depois deu sorriu, concordando.
— Está certa.
— Para onde você vai depois que puser a cabeça em ordem?
— De volta para Houston.
— Mesmo sendo lá que mora sua ex-esposa?
— Minha filha mora lá.
— Tudo bem... mas e se ela fosse adulta e não precisasse mais de você?
Ele cruzou as mãos para trás, pensativo.
— Bem, eu gosto do Texas, e há muitas oportunidades em Houston. Sim, acho que
voltaria para lá.
— Corpus Christi, não?
— Não existe o mesmo mercado.
— E Dallas?
— Talvez. Mas Houston é mais perto da minha família.
— San Antônio?
— Realmente gosto de estar perto do mar. Amber concordou. Parecia
perfeitamente lógico.
— E você? Vai voltar para o Texas?
— Pode ser. Pensei em ir para o Nordeste, mas não gosto mesmo do frio. Cogitei a
Costa Oeste, mas...
— Texas é a sua casa — Reece completou por ela.
— Acertou.
— Então é possível que volte para Dallas.
— Não, para Dallas, não. Talvez San Antônio, ou El Paso.
— Amarillo?
— Esqueceu que odeio...
— Invernos rigorosos? — interrompeu ele, demonstrando que não esquecera.
— Exatamente.
Continuaram andando, falando e brincando. Os assuntos iam e vinham, passando
pelas excentricidades de Key West, o que forneceu-lhes motivos de sobra para risadas.
Antes que Amber desse por si, a manhã havia terminado e ela estava diante da
entrada do edifício. Walt estava sentado nos degraus da frente.
— Chegamos — anunciou ela.
— Já? — perguntou Reece, só então se dando conta de onde estavam. — Não me
dei conta de que estávamos andando nesta direção. Aliás, que horas são?
Ele olhou para o relógio de pulso.
— Meio-dia e meia!
Eles se entreolharam boquiabertos e caíram na risada. O tempo voara sem que
nenhum dos dois notasse.
— Deixamos sua bicicleta no porto — lembrou Reece de repente, e Amber gemeu,
pensando na longa caminhada sob o sol escaldante e no trajeto de volta.
— Eu a apanho mais tarde — decidiu. — Depois que refrescar.
Reece assentiu e lançou um olhar de soslaio para Walt.
— Tive uma ideia — disse, com os olhos brilhantes. — Por que não voltamos e
antes de você pegar a bicicleta damos um bom mergulho para refrescar?
Amber sorriu. A proposta era por demais tentadora, nem tanto para se refrescar,
mas para continuar mais tempo ao lado de Reece.
— Vou trocar de roupa — declarou, aceitando o convite.
— Ótimo. Vou esperar aqui na sombra. — Ele apontou na direção de uma
palmeira no gramado.
Amber começou a escalar os degraus de dois em dois, olhando para trás.
— Não me demoro.
— Leve o tempo que precisar.
Ela sorriu e passou por Walt, subitamente animada. Até o calor parecia ter
amainado, e uma sensação de liberdade a dominava por inteiro. Pela primeira vez admitiu
que gostava de Reece Carlyle. Não apenas gostava, mas também se sentia fortemente
atraída por ele.
Walt levantou-se e a seguiu escada acima.
— Eu a vi com aquele sujeito. O que está acontecendo?
— Nada de mais. Vamos nadar, só isso.
— Vai nadar com ele?
— Juro que ele não é um assassino, Walt.
— Como você sabe?
— Passei a manhã toda com ele e posso garantir que é completamente inofensivo.
Na verdade, ele é um doce de pessoa.
— Isso não quer dizer nada. Ainda acho que não devia ir.
— Ora, não é você quem vive dizendo que nunca me divirto? Pois bem, vou me
divertir agora.
Walt ficou sério, mas não disse nada. Amber apreciava sua preocupação, mas
realmente estava se divertindo e não estava disposta a parar, não naquele momento.
— É melhor eu me apressar — disse alegre, fingindo não escutar os resmungos do
amigo atrás de si.
Reece não ficou totalmente surpreso quando, ao ouvir o som de passos pesados e
firmes, virou-se e se deparou com Walt a seu lado. Decidiu ser amistoso e polido, a
despeito da postura quase agressiva do outro homem.
— Olá.
— Eu vi você no outro dia, na porta do restaurante — disse Walt em tom
acusador.
Reece manteve a calma.
— Também o vi. — Estendeu a mão. — Meu nome é Reece Carlyle.
Walt ignorou o cumprimento.
— Amber não está no mercado.
Inclinando a cabeça para o lado, Reece deixou a mão cair sobre a coxa lentamente.
— Amber já me contou que vocês dois são amigos.
— Ainda assim, ela não está no mercado.
Como Reece suspeitava, Walt não tinha a mesma visão que Amber quanto ao
sentimento entre eles. Mas não queria criar problemas.
— Nem eu, tampouco — respondeu sem hesitar.
— Posso ver que não — zombou Walt — pelo menos não para um relacionamento
sério. Sei o que você quer, mas aviso já que, com Amber, não vai conseguir.
Reece sentiu o sangue ferver. Levantou-se e, dando um passo à frente, encarou o
outro homem.
— Vou deixar passar desta vez — falou com voz pausada — porque compreendo
e admiro sua preocupação e cuidado com Amber, mas que fique claro que está insultando
a nós dois com suas insinuações.
— Eu não insinuei nada! — exclamou Walt recuando. — Só estou dizendo para
ficar longe de Amber!
— Desculpe-me, Walt. — Reece usou o nome do oponente pela primeira vez. —
Não posso fazer isso, e duvido muito que Amber aprove esse tipo de interferência na vida
dela.
Walt ficou rubro de raiva.
— Escute aqui, estou avisando para ficar longe de Amber, ou...
— Ou o quê? Vai me bater? Ótimo. Mas não espere sair disso com todos os dentes
na boca.
No instante seguinte, Walt agarrou-o pela camisa com ambas as mãos. Reece se
soltou com um único movimento, mas se viu frente a frente com os punhos levantados do
outro.
O ruído da porta se abrindo, entretanto, foi suficiente para acalmar os ânimos.
Walt ergueu o olhar, cheio de culpa, mas ainda teve tempo de sibilar para Reece:
— É bom que não a faça sofrer...
— Nunca — prometeu Reece justamente quando Amber chegava ao último
degrau. — Pronta?
Ela olhou para ambos e sorriu, alheia à situação que provocara sem saber.
Segurava uma toalha de praia dobrada contra o peito. As alcinhas púrpura do
maiô apareciam sob o decote da camiseta amarela, do comprimento de um vestido. Nos
pés, usava sandálias plásticas coloridas.
Reece passou por Walt, pegou Amber pelo braço e seguiu pela calçada.
— Até logo — disse ela para o amigo.
Eles caminharam o mais depressa que o calor permitia, apertando o passo,
ansiosos por alcançar logo o oceano.
O bote estava no lugar exato em que Reece o deixara pela manhã. Amber pulou
para dentro com destreza e sem nenhuma ajuda. Manobrando entre as muitas
embarcações que lotavam o cais, vagarosamente escaparam para longe da agitação.
Amber se acomodou, as mãos espalmadas sobre o banco, as pernas esticadas à
frente. Bastaria um gesto e Reece alcançaria sua coxa. O impulso o chocou sobremaneira e,
resoluto, fixou o olhar à frente.
— Você tinha razão — disse ela. — É bem mais fresco aqui.
Ele concordou, subitamente sentindo-se pouco à vontade, como um adolescente
no primeiro encontro.
Quando chegaram perto do veleiro, Reece alcançou a escada e firmou ali o bote.
Amber, mais que depressa, despiu a camiseta, enrolou-a junto com a toalha e subiu com
rapidez os degraus.
Boquiaberto, Reece ficou admirando a elegância do maiô púrpura, que moldava as
formas femininas de Amber, antes de segui-la.
Ela era miúda, porém possuía um corpo excepcionalmente bem-feito, com curvas
pronunciadas e insinuantes.
Acompanhou-a com o olhar até ela desaparecer dentro do barco, enquanto uma
voz dentro de si gritava: Ela não é uma criança! Nem de longe! É uma mulher adulta,
madura, deliciosa. Mas era a filha de Robert
Presley, seu amigo. Isso bastou para fazer o ar voltar aos seus pulmões e acalmar
seu coração.
Ela podia não ser uma criança, mas continuava sendo a filha de seu amigo. Amigo
esse que estava preocupado com a filha. Mesmo sendo adulta, ainda era a filha de Robert.
Isso o lembrou da sua missão ali. Tinha um dever a cumprir, e esse dever era
convencê-la a sair daquela ilha. E voltar para casa.
Parada no centro do tombadilho, Amber espiava pela escotilha o interior da
embarcação. A decoração era moderna e de extremo bom gosto.
— Sinta-se em casa, por favor — disse Reece. — Já vamos zarpar.
Amber deixou suas coisas sobre uma cadeira e virou-se para ele.
— Posso ajudar em alguma coisa?
— Bem, se quiser descer e pegar alguma coisa gelada para nós...
— Claro! — Amber brindou-o com um sorriso antes de descer à cabine.
A âncora já fora içada e o motor roncava quando ela retornou com duas cervejas
geladas.
— Adorei seu barco — elogiou ela ao entregar uma lata a Reece.
— Fico feliz com isso.
Ele sorriu, olhando para a frente, e Amber sentiu-se derreter com a visão daquele
perfil másculo.
Reece obedeceu todos os procedimentos de praxe, avisando pelo rádio sua rota
antes de guiar o barco para fora da baía. Assim que atingiram o mar aberto, Amber falou:
— Podemos içar as velas?
— Claro que sim. Já velejou antes?
— Já, mas nunca em um barco como este.
Com as velas içadas, o Porto Feliz cortava as ondas ao sabor do vento.
— É incrível! — gritou Amber extasiada.
Quando ela abriu os braços para sentir o vento, seu rosto exibia uma expressão de
completo abandono e delírio.
Reece segurou o timão com ambas as mãos e, fixando o olhar à frente, repetiu
mentalmente uma ladainha desesperada: Jovem demais. Filha do meu amigo. Jovem
demais. Filha do meu amigo. Jovem demais...
E uma mulher absolutamente tentadora.
Fechou os olhos, com profunda consciência de que estava metido em uma grande
enrascada.

CAPÍTULO IV

O passeio foi rápido demais para o gosto de Amber, mas o barco era de Reece, e
ela não era o tipo de convidada que impunha suas vontades. Adorara a sensação de
navegar sobre as ondas, com as velas infladas sobre sua cabeça. Fazia muito tempo que
não se sentia tão despreocupada.
— Pronta para mergulhar? — perguntou Reece sem olhá-la diretamente. — Pensei
em ancorarmos lá, bem longe dos recifes. Que tal?
— Ótimo.
— Lá embaixo tem um aparelho de CD — disse ele. — Fica no armário sob a
estante de livros. Por que não desce e coloca uma música?
— Certo. Alguma preferência?
— Fique à vontade para escolher. Tem um pouco de tudo, mas muitos são os
favoritos de minha filha.
— Vou dar uma olhada.
Amber desceu para a cabine interna. A estante comportava um sofisticado
equipamento de som e vídeo e uma vasta gama de fitas e CDs. Percorreu rapidamente os
olhos pelos títulos dos filmes e constatou que o gosto de Reece combinava com o seu.
O mesmo não se podia dizer quanto à música. Muitos dos discos eram de bandas
jovens, provavelmente do gosto da filha de Reece. Mas também encontrou música clássica,
trilhas sonoras de filmes e de peças musicais. E, o mais importante, CDs do bom e velho
rock clássico.
Escolheu um deles, e após alguns instantes lidando com os botões do aparelho, a
música encheu o ambiente.
O barco perdeu velocidade, e ela percebeu que Reece estava recolhendo as velas.
Decidiu subir para ver se ele precisava de ajuda. Chegou ao convés a tempo de vê-lo
prender as amarras nos mastros. Espantosamente, o som ali era mais nítido que na cabine.
Ele a brindou com um olhar surpreso, sorriu e disse:
— Boa escolha. Um dos meus favoritos.
— Meu também.
— Mesmo? Pensei que preferisse algo mais... como se chama? Techno?
Amber fez uma careta e Reece riu.
— Gosta mesmo de rock clássico?
— Há tempo que eu estava querendo comprar esse CD — confessou ela.
Reece parou o trabalho por um momento para olhar para Amber.
— O dinheiro está assim tão curto? — Ela franziu o nariz.
— Sou eu. Não consigo deixar de pensar que cada centavo gasto é um centavo a
menos para sair desta ilha.
— Se deseja tanto ir embora, por que não volta para casa?
Esse era um terreno que já haviam trilhado antes, mas ainda assim Amber
respondeu à pergunta.
— Seria como sair de uma prisão para entrar em outra, ainda pior. Como se eu
estivesse sob condicional e voltasse para detrás das grades.
— A comparação é um pouco forte, não acha?
— Não.
Deixando tudo em ordem no convés, Reece desceu para vestir o traje de banho.
Minutos depois estava de volta, usando um calção azul-marinho e trazendo toalha em
volta do pescoço. Amber olhou extasiada para a musculatura rija do torso bronzeado.
Deixou escapar um suspiro. Era quase embaraçoso o modo como a visão de Reece
a afetava. Tossiu baixinho e se pôs de pé, virando-se para o lado.
— Não parece muito fundo aqui. — Ele tirou a toalha.
— Deveria ter perguntado antes, mas já que você mora em uma ilha, presumi que
sabia nadar.
— Como um peixe — disse ela, posicionando-se na amurada e mergulhando.
Amber mal tocara a areia do fundo quando sentiu o impacto do corpo de Reece
junto ao seu. Ao emergir, deparou com sua face sorridente, os olhos verdes realçados pela
cor do mar. Ambos riram.
— Quer apostar uma corrida?
Ela deu meia-volta na água e tomou a dianteira.
— Não tenha dúvida.
— Ei!
Amber estava bem à frente quando Reece saiu, mas ainda assim não era páreo
para a estatura dele. Quando finalmente o alcançou nem ao menos teve a satisfação de vê-
lo ofegante.
— De novo? — sugeriu ele.
— Não, obrigada. Sei quando estou fora do páreo.
Reece riu e deslizou sobre a água, seguido por Amber. O dia estava ensolarado, e a
água, tépida e cristalina. Entre uma braçada e outra, conversavam.
— Você se saiu muito bem hoje.
— Está dizendo que me comportei como um marujo de verdade?
— Pode acreditar.
— É um barco maravilhoso.
— Obrigado. Eu gosto muito dele.
— Posso ver por quê.
Reece mergulhou e deu a volta em torno de Amber, puxando-a pelos calcanhares.
Ela só teve tempo de encher os pulmões de ar antes de ir para baixo d'água.
Quando voltou à tona foi a sua vez de perseguir Reece e, quando teve chance,
empurrou-o para baixo pelos ombros. Por algum tempo persistiram naquela brincadeira,
imitando dois golfinhos, até que ambos ficaram exaustos.
Finalmente subiram a bordo, Reece primeiro, para ajudar Amber. Ao erguê-la,
seus corpos ficaram próximos pela primeira vez fora da água. O efeito desse contato foi
forte o bastante para que Amber perdesse o equilíbrio. Reece a agarrou pela cintura com
um só braço, e de repente ela se viu grudada ao torso másculo dele, com a respiração
suspensa e o coração disparado.
Por um segundo, a boca de Reece se aproximou, o hálito dele se misturando ao
dela. As pálpebras de Amber baixaram, tão forte era a compulsão de beijá-lo. Foi então
que ele virou a cabeça, soltando-a. Rápido, subiu os degraus da escada e entrou no barco.
Amber o seguiu com mais vagar, trêmula, mas não por causa do cansaço.
Encontrou-o se enxugando quando finalmente chegou ao convés, e atirou-se sobre
um dos colchonetes.
— Hora do almoço! — anunciou ele.
— Que bom... estou com fome!
— Que tal uma salada de atum com vinagrete de abacaxi? Tenho pão de alho para
acompanhar.
— Céus! Ele também sabe cozinhar!
— Se eu quiser comer, sim — corrigiu Reece.
— Acho que terei de ajudar para merecer minha parte.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Ela abanou a mão e dirigiu-se à cabine.
— Entendi a indireta.
— Não, de verdade, eu nem sonharia em pedir que você...
Amber lançou um risinho malandro sobre o ombro, desarmando-o por inteiro.
— Está bem. Se quiser, pode arrumar a salada enquanto eu tosto o pão.
Na cozinha, Reece abriu a pequena geladeira e retirou de dentro os ingredientes
para a salada. Amber acomodou-se em uma das banquetas do bar e passou a arrumar as
verduras em uma tigela.
Juntou uma lata de atum, e em seguida preparou o vinagrete. Misturou abacaxi
picadinho, tomate-cereja, cebola, repolho roxo, passa, azeite, vinagre branco e salsinha,
depois temperou com sal e pimenta.
A exótica mistura caiu como um manto sobre as folhas frescas de rúcula, agrião e
alface. As torradas de alho espalhavam um aroma forte por todo o barco, aguçando o
apetite de ambos.
Reece abriu uma garrafa de água com gás e, para acompanhar a refeição tão bem
preparada, um vinho branco francês bem gelado.
Amber só percebeu o quão estava faminta ao se debruçar sobre o prato e
praticamente devorar a salada. Mal provou o vinho, porém tomou vários copos de água.
Deixou-se cair sentada no sofá ao terminar a refeição, deixando que Reece lavasse
a louça. Sabia que devia ajudá-lo, mas estava muito cansada para levantar dali, então
deixou-se ficar recostada, apreciando o som.
Com os olhos semicerrados, ouvindo a música e os ruídos na cozinha, sentindo o
balanço do barco, Amber sentiu um profundo contentamento invadir-lhe a alma. Era algo
tão intenso e pleno que imaginou que dificilmente se sentiria assim novamente.
Certamente, nunca viveria um momento como aquele depois que Reece Carlyle saísse de
sua vida, o que fatalmente aconteceria, mais cedo ou mais tarde.
Não queria nem pensar sobre isso.
Terminada a limpeza, Reece surgiu atrás do balcão, com um sorriso estampado no
rosto. Ela se sentou de pernas cruzadas sobre o sofá.
— Quando vai embora? — disparou.
— Daqui? Acho que daqui a pouco, tem algum compromisso?
— Não, eu quis dizer quando pretende ir embora de Key West.
Ele a encarou por um momento e depois deu de ombros, dirigindo-se para o sofá,
onde se sentou ao lado dela.
— Realmente não sei. Meu único compromisso importante é pegar minha filha,
mas para isso ainda falta mais de um mês.
— Não tem planos de ir a nenhum lugar até lá?
— Nenhum. Na verdade não tenho planejado muita coisa ultimamente. Por que
pergunta?
Não ocorreu a Amber responder nada além da verdade.
— Estava torcendo para que você ficasse algum tempo por aqui.
Assim que as palavras foram pronunciadas, a atmosfera mudou, tornando-se, de
alguma forma, eletrificada.
Ele a estava olhando de novo. Cruzando as mãos sobre o abdômen, pigarreou e
disse:
— É possível que sim.
Amber virou-se para ele com um misto de alívio e esperança. Reece parecia
sereno, relaxado, mas ela sabia que ele não estava assim. Podia sentir isso, como se o seu
coração batesse no mesmo ritmo frenético que o dela.
— Falando em deixar a ilha — disse ele sem olhar para Amber diretamente —
quando acha que estará pronta para partir?
— Estou pronta agora. Infelizmente precisarei de mais alguns meses para juntar o
dinheiro necessário.
Apoiando os cotovelos nos joelhos, Reece a olhou intensamente.
— Se você pedisse a seus pais, certamente eles a ajudariam.
— Será que você não entende? Seria como dar ao meu pai cordões para me
manipular como a uma marionete.
— Se minha filha sumisse da minha vida por anos, eu faria qualquer coisa para tê-
la perto de mim novamente.
— Perto para meu pai é uma coisa extrema — disse Amber. — Você não o
conhece. Ele tem uma personalidade muito forte e uma obsessão em me proteger, até de
mim mesma. Quando estou perto dele, minha vida se resume em agradá-lo. Como minha
mãe, que vive em função dele, Mas ela é esposa dele, escolheu essa vida, eu não. Não
quero voltar a ser a filhinha do papai, deixá-lo escolher minhas roupas e meus amigos.
Não vê? Não posso deixá-lo decidir por mim, nunca mais.
— Você prefere guiar turistas, servir mesas e dividir um apartamento e um quarto
a voltar para casa, onde tem conforto e poucas responsabilidades? — perguntou ele.
— Pelos próximos dez anos — afirmou ela com convicção.
Reece suspirou pesadamente.
— Suponho que esteja fora de questão eu ajudar você...
— Completamente! — interrompeu ela com mais veemência do que gostaria.
— Tudo bem. Não é da minha conta. Só não posso deixar de me colocar no lugar
do seu pai.
— Se você fosse meu pai, não existiria problema algum.
Reece sacudiu a cabeça e respondeu:
— Não pode dizer isso.
— Tem razão. Não posso imaginar você como meu pai, mas acredito que você seja
bem mais razoável que ele.
Reece relanceou os olhos para Amber e falou:
— Você realmente não consegue me ver como seu pai?
Ela riu.
— Parece que essa questão de idade incomoda mesmo você.
— Acho que sim.
— É uma pena, porque você é a primeira pessoa que... que me deixou à vontade.
"À vontade" não era a palavra ideal para descrever o que Amber sentia ao lado
dele, mas a intenção era essa mesmo, provocá-lo.
Reece olhou para ela, então tocou-a suavemente na face. De súbito pôs-se em pé.
— É melhor nos pormos a caminho.
Gostaria de pedir-lhe para ficarem um pouco mais, porém sabendo que pareceria
infantil, limitou-se a dar de ombros, aceitando o inevitável.
— Claro. Posso ajudá-lo com as velas desta vez? — Ele sacudiu a cabeça.
— Vamos com o motor.
Amber deu de ombros, desapontada.
— Tudo bem. De qualquer maneira, foi um dia incrível.
Por um momento Reece não disse nada, mas pousou a mão sobre o ombro dela.
— Está sendo o melhor dia desde há muito, muito tempo para mim.
Ele foi para o convés superior, e Amber deixou-se ficar ali, parada, tentando dar
um nome para a sensação que invadia seu peito e perguntando-se se as palavras dele
significariam algo mais. E se teria tempo para descobrir tudo isso antes que ele partisse.
— Foi ruim desde o começo — admitiu Reece, com as mãos nos bolsos, vendo-a
empurrar a bicicleta pela calçada.
Tornara a vestir a bermuda, e Amber estava com a camiseta sobre o maio. Não
sabia como começara o assunto sobre seu casamento, mas após um dia cheio de surpresas
isso não o perturbava.
Algo em Amber Rose Presley evocava honestidade e clareza. Era estranho estar
mentindo para ela. Entretanto se alegrava por ainda não ter lhe dito a verdade. Não teriam
tido aquele dia maravilhoso se tivesse contado tudo, e a verdade viria à tona mais cedo ou
mais tarde.
Deixando esse problema de lado, concentrou-se no assunto em questão.
— Eu achei que tinha que me casar e como estava namorando Joyce na ocasião, ela
foi a escolhida.
— E agora você acha que o casamento foi um erro. — Reece suspirou.
— A convivência não é tão fácil quanto parece. A verdade é que éramos ambos
jovens e inexperientes, tomamos uma decisão precipitada e inconsequente.
— Bem, eu quero me casar, mas não sei se algum dia aparecerá a pessoa certa...
Reece sorriu e olhou para ela. Aquela mulher era perigosa, verdadeiramente
perigosa. E excitante. Incrível.
— Fale-me mais sobre sua filha — pediu ela. Eles voltaram a caminhar, Reece
ajudando-a a empurrar a bicicleta; ele não se lembrava de ter falado tanto de uma só vez
sobre sua vida. Quando finalmente chegaram ao apartamento de Amber, já havia contado
cada detalhe da vida de Brittany, a ponto de aborrecer qualquer um, porém ela continuava
sorrindo.
— Brittany parece ser um amor de menina — disse Amber colocando a bicicleta
sob a escada e prendendo a corrente. — Tem personalidade forte e sabe o que quer da
vida. Ela tem sorte por ter um pai como você, que a respeita como indivíduo.
— Você está absolutamente certa. Brit é difícil, às vezes, mas não preciso me
preocupar com influências externas. Ela é muito obstinada quanto às suas ideias, talvez
não faça sempre as melhores escolhas, mas ainda é uma criança.
— Uma criança que está crescendo depressa, eu garanto.
— Não tão depressa, penso eu. Talvez você ache um pouco estranho, eu nunca
coloquei isso em palavras antes. A verdade é que alguns amigos de Britt têm onze anos e
se comportam como se tivessem vinte, sabe, prontos para ser adultos antes mesmo de ser
adolescentes. Britt porém, embora seja mais madura que eles sob vários aspectos, parece
ter optado por ter seus onze anos. Não que ela se comporte como um bebê mimado, mas
parece que não tem pressa em crescer, o que me faz ter confiança nela.
Amber concordou.
— Ela ainda tem alguns anos pela frente para amadurecer. E pelo que ouvi hoje, é
uma garota de sorte. Claro que vai cometer erros, mas por favor, deixe-a cometê-los
sozinha. E, por favor, nunca tente protegê-la do mundo. Por mais que você queira, não
faça isso.
Não tentar proteger sua garotinha do mundo? Era pedir muito de um pai. Mesmo
sabendo que Amber estava certa. O que o levava a repensar sua "missão".
O relacionamento entre Amber e Robert era um pouco mais complicado do que
havia imaginado quando este lhe pedira para vigiar sua "garotinha".
Certo, Amber fizera uma tolice, mas fora um ato de desespero, e agora ela estava
tentando consertar as coisas. Como a mulher adulta que era.
— Você me deu muito no que pensar — disse ele.
— Que bom, pensar é uma coisa ótima. Hoje foi um dia muito especial. Obrigada
novamente.
Reece balançou a cabeça.
— Eu é que agradeço. Gostei muito.
— Você não precisava me trazer para casa, mas confesso que me deixou muito
feliz.
— Achei que seria algo que um cavalheiro faria.
— Eu o convidaria para entrar, mas passamos bastante tempo juntos hoje, e... não
é aconselhável apressar as coisas.
Reece engoliu em seco. Estavam juntos, ele e Amber. Não podia acreditar no que
estava ouvindo, no que estava acontecendo. Olhou para o relógio. Eram cinco horas da
tarde.
— Tem razão, onze horas é um pouco demais para a duração do primeiro...
encontro?
Amber riu.
— Vejo você a qualquer hora?
— Com certeza. Vou até o café, pode ser?
— Eu saio às seis. Quartas, sextas e sábados à noite tenho o tour.
— Certo. Então, até lá.
Ficaram parados por um momento, enquanto ele lutava desesperadamente contra
o impulso de beijá-la.
Reece não soube como aconteceu, mas quando deu por si estava enlaçando a
cintura de Amber, e ela, na ponta dos pés, abraçava seu pescoço e estavam se beijando.
Se não tivesse partido dela, Reece jamais teria feito aquilo.
Quando se afastou, deixou-o tão atônito que mal podia pensar no acontecido.
Amber colocou os dedos sobre a boca como se quisesse reter o beijo um pouco
mais.
— Até logo — disse ela baixinho, antes de desaparecer escada acima.
Reece ficou parado, incapaz de mover um só músculo, sentindo a pressão dos
lábios dela nos seus, as extremidades de seu corpo latejando.
E em uma reação tardia seu coração disparou dentro do peito.
Aos poucos foi se conscientizando do que acabara de acontecer entre eles. Do que
haviam feito. Oh, céus... Teria perdido o juízo?
Ela tinha vinte e quatro anos! E era filha de Bob Presley. O que faria agora?
Confuso demais para pensar com clareza, decidiu que se afastaria de Amber por
algum tempo. Isso mesmo, sairia de Key West por alguns dias e tudo se ajeitaria.
E, se fizesse tudo certo, ela jamais descobriria que fora encarregado por seu pai de
vigiá-la. Tudo passaria, e ambos ficariam bem.
Naquelas circunstâncias, era tudo que Reece podia esperar.

CAPÍTULO V

Reece manteve-se afastado de Amber por dois dias inteiros. A segunda-feira não
foi tão ruim. Tinha museus e pontos turísticos para visitar e presenteou a si mesmo com
um jantar no melhor restaurante da ilha. A noite foi a diversos bares, não para beber, mas
para conhecer a vida noturna da ilha. Pelo menos foi do que tentou convencer-se.
Procurou evitar os lugares mais suspeitos, mas acabou entrando em um ou outro
bar de segunda categoria, lotados por turbas de universitários.
Não queria admitir para si próprio que no fundo estava à procura de Amber e que
não encontrá-la foi um alívio e tanto.
Por outro lado, encontrou um sem-número de garotas que o assediaram. Não
podia imaginar a razão, uma vez que havia uma infinidade de rapazes muito mais jovens
por perto. Naquela noite deu uma boa olhada no espelho, tentando descobrir o que
aquelas jovens viam nele.
Para sua idade até que estava bem. Tentava manter-se em forma, e gostava do jeito
que seu cabelo estava agora, um pouco mais comprido e queimado pelo sol. Porém nada
justificava a atenção recebida das moças. O triste fato era que ele não entendia como fun-
cionavam os namoros de hoje em dia.
Era verdade que desde que se divorciara muitas das mulheres que conhecia
passaram a lhe dedicar outro tipo de atenção, mas isso o pegara de surpresa antes que se
familiarizasse com a situação. Estivera tanto tempo fora de circulação que acreditava ter
perdido o jeito.
Uma delas em particular, Marcy, tinha se mostrado mais ousada, o que o deixara
lisonjeado a ponto de, por três meses, julgar-se apaixonado.
Embarcaram em um relacionamento fugaz que logo se tornou, para Reece, apenas
sexo. No final a experiência se mostrou desagradável. Quando terminou o caso, teve de
ouvi-la dizer que o achava meio maluco.
Percebera então que não era aquilo que queria, mas sim um relacionamento
baseado em outro tipo de sentimento, não apenas na atração sexual. E dera-se conta de
que não iria encontrar isso se continuasse trocando de parceira com a frequência com que
o vinha fazendo. Fora quando decidira tirar um tempo para si mesmo.
Na terça-feira estava inquieto, sem vontade de sair para dar uma olhada nas lojas
e acabou comprando um sino antigo de navio, de procedência duvidosa.
De volta ao barco, pendurou-o na popa, satisfeito com a nova decoração. Tentou
distrair-se com a televisão, depois com um livro, mas não conseguia se concentrar em
coisa alguma.
Acabou voltando à terra firme, apenas para sofrer com o calor insuportável
enquanto perambulava sem destino pelas ruas.
Havia prometido a si mesmo depois do último encontro com Amber que não
tornaria a procurá-la antes de quinta-feira, mas já sabia que não conseguiria aguentar mais
dois dias.
Tomou o rumo do restaurante, torcendo para que Amber ainda estivesse lá. O
desapontamento ao ser informado de que ela havia acabado de sair foi um baque que não
estava pronto para receber.
Ao invés de tomar isso como um aviso para continuar mantendo distância, Reece
tomou o primeiro táxi que apareceu a sua frente, rumo ao apartamento de Amber.
Momentos mais tarde viu-se na entrada do edifício. A bicicleta estava sob a
escada, presa ao cadeado, o que aumentou sua esperança de encontrá-la em casa. Teve um
instante de hesitação ao pousar o pé no primeiro degrau, a mão pousada no corrimão.
Mas o desejo de vê-la, de falar com ela novamente sobrepujou tudo o mais.
Galgou os degraus com um sorriso no rosto e ainda sorria ao bater à porta.
Poucos minutos mais tarde o sorriso deu lugar à preocupação, já que ninguém
vinha atender à porta, embora pudesse se ouvir o som de música do lado de dentro.
Bateu mais forte. Nada.
Esperou mais um pouco e experimentou a maçaneta, encontrando-a destrancada.
Enfiou a cabeça para dentro e espiou. A sala era um pouco escura, porém ampla e
confortável, com três portas na parede oposta. Apenas a do meio estava fechada. A música
parecia vir do aposento à esquerda.
Olhou ao redor e, não vendo ninguém, chamou:
— Olá? Amber? Alguém em casa?
No instante seguinte uma mulher apareceu na porta à direita. Tinha o rosto
inchado de sono, mas nem por isso menos atraente. Os longos cabelos negros pareciam ter
sido revirados com um batedor de ovos, e pelo estado de sua roupa devia ter dormido
vestida.
— Você?! — exclamou ela, com voz arrastada. — Como descobriu onde eu
morava?
Reece olhou por sobre o ombro, para ver se havia alguém atrás dele.
— Como disse? Você me conhece?
— Você esteve no clube a noite passada.
— No clube?
A mulher esfregou os olhos com ambas as mãos e pigarreou.
— Eu servi você. Bourbon e água, separados.
Era verdade que pedira bourbon e água mineral em um dos dois lugares onde
estivera na noite anterior, cansado de beber cerveja.
— Ah, você estava servindo no balcão...
— Está me dizendo que só se lembra disso? — perguntou a jovem se
espreguiçando de modo provocante.
Sem saber o que dizer, Reece tentou mudar de assunto.
— Amber está em casa?
Por um instante ela apenas o encarou, depois baixou os braços e, com um brilho
malicioso nos olhos azuis, perguntou:
— O que você quer com Amber?
Mesmo sem ter sido convidado, Reece entrou, fechando a porta atrás de si.
— Ela está em casa?
A moça atravessou a sala e deixou-se afundar no sofá.
— Não. Se estivesse, eu não poderia estar usando o aparelho de som de Walt. Mas
você ainda não me respondeu, o que você quer com Amber?
— Eu sou amigo dela — Reece esclareceu. — E você, quem é?
— Sharon — respondeu ela com um sorriso sugestivo. — E você, como se chama?
— Reece Carlyle.
— Bem, Reece, gostaria de ser sua amiga também.
— Mesmo? — perguntou ele, a voz imbuída de um entusiasmo estudado. —
Maravilha. Então por que não me conta tudo sobre Amber? Começando pela hora que ela
deve estar em casa.
Amber escalou os degraus com dificuldade. Arrependia-se agora de não ter levado
a bicicleta ou aceitado a carona de Walt, ao invés de voltar a pé para casa. Fora uma tola,
imaginando que Reece apareceria.
Durante toda a tarde esperara que ele entrasse porta adentro no restaurante.
Quando sua substituta chegara, excepcionalmente pontual, ela se decepcionara ao
constatar que Reece não viera nem viria.
Não que ele tivesse prometido nada, mas como não aparecera no dia anterior e no
dia seguinte ela tinha o tour, imaginara que ele fosse vê-la. Obviamente entendera tudo
errado.
Encalorada, abriu a porta, ansiando por um banho refrescante. Obviamente, a
porta estava destrancada, uma vez que Sharon se encontrava em casa, o que era evidente
pela música que tocava em alto volume.
A cena com que se deparou a deixou boquiaberta. Reece estava sentado na
poltrona enquanto Sharon o brindava com uma estonteante visão de seus seios volumosos,
através do decote da blusa, que ela fizera questão de ampliar abrindo os dois primeiros
botões.
— Bem, aí está ela — anunciou Sharon, claramente contrafeita.
Reece se virou na poltrona e um largo sorriso estampou-se em seu rosto.
— Estávamos mesmo falando de você — disse ele.
— Devia estar muito interessante — retrucou Amber olhando para Sharon, que
levantou o queixo em atitude de desafio.
Em seguida caminhou na direção de Reece, que se pusera de pé, e estendeu a mão.
— Fui até o restaurante, mas cheguei tarde. Peguei um táxi e corri para cá.
— Eu vim a pé. — Subitamente consciente de sua aparência, acrescentou: — Estou
toda suada.
— Você está maravilhosa.
Sharon a fuzilou com os olhos, porém Amber fingiu não notar.
— Obrigada. Ouça, deixe-me tomar um banho rápido e saímos daqui, certo? —
Lançou um olhar significativo para Sharon, que retorceu os lábios.
— Claro, como você quiser.
— Volto em um instante — prometeu Amber, entrando no quarto do meio. Voltou
com um roupão branco nas mãos e atravessou a sala apressada em direção ao banheiro.
Abriu o chuveiro, enfiou-se debaixo da água e lavou-se rapidamente. Enxugou-se, vestiu o
roupão e voltou depressa para o quarto, sem olhar na direção de Reece e Sharon, que
conversavam.
Amber passou um desodorante, aspergiu um jato de colônia e vestiu uma
camiseta regata justa com decote quadrado e uma saia de algodão cor de palha. A roupa
era mais justa e curta do que costumava usar, mas sentia necessidade de parecer um pouco
mais atraente naquela noite.
Prendeu os cabelos no alto da cabeça com uma fivela, calçou um par de sandálias
amarelas, passou creme hidratante nas pernas e um brilho leve nos lábios.
Olhou-se rapidamente no espelho e voltou para a sala. Reece levantou-se
imediatamente, com admiração no olhar.
— Ora, acho que vou ter de trocar de roupa para ficar a sua altura — brincou ele,
baixando a vista para seus próprios trajes, uma bermuda velha e uma camisa branca com
as mangas arregaçadas.
— Você está ótimo.
— E você está espetacular. — Amber sorriu e corou, deliciada.
— Obrigada.
Sharon se levantou do sofá e se encaminhou para o banheiro.
— Tem gosto para tudo — disse ao passar por Amber.
Reece baixou a cabeça, ocultando um risinho. Amber suspirou e, assim que a outra
saiu do aposento, virou-se para ele.
— Desculpe-me, Sharon não...
— Ela morre de inveja de você — interrompeu Reece. — Acho que já percebeu que
nunca chegará a seus pés.
— Ela me odeia.
— Porque você é tudo o que ela gostaria de ser e nunca vai conseguir.
Amber franziu a testa, tentando assimilar a ideia de que Sharon tinha inveja dela.
— Aonde vamos? — quis saber Reece, encaminhando-se para a porta. — Tem algo
em mente?
Ela sacudiu a cabeça.
— Não, aliás começaria pensando aonde não irmos.
— Você é quem manda — disse ele, conduzindo-a gentilmente para fora do
apartamento.
Já não estava tão quente como quando Amber chegara em casa, mas agora era um
outro tipo de calor que a assolava por dentro. Aceitou o braço que Reece lhe oferecia e,
juntos, desceram as escadas.
— Está com fome? — perguntou ele.
— Até que não, mas se você quiser, podemos comer alguma coisa.
Ele balançou a cabeça.
— Jantaremos mais tarde, então.
— Certo. Aonde vamos então?
— Bem, está quente demais para tomar café. Que tal uma bebida gelada?
— Eu acho ótimo.
— Alcoólica ou não?
— Não costumo beber.
— Nem eu.
— Então um drinque não nos faria mal — concluiu Amber.
Reece sorriu.
— Verdade. Mas não quero ir a nenhum daqueles bares barulhentos da rua Duval.
— Conheço o lugar perfeito — disse ela, virando a esquina.
Caminharam sem pressa, aproveitando o tempo juntos. O calor era um fator a
mais para que agissem assim. Reece contou-lhe onde estivera no dia anterior e Amber
sugeriu outros pontos para visitarem.
Ela descreveu uma família que estivera no restaurante naquele dia. A mãe, com
uma escadinha de cinco filhos pequenos, estava grávida do sexto. Ao contrário da maioria
das crianças, que não paravam quietas no restaurante, aquelas eram extremamente bem-
educadas.
— Eles eram adoráveis. E os pais faziam parecer tão fácil, e eram seis! Três ou
quatro, tudo bem, mas seis?! Não consigo me imaginar com seis filhos.
— Quer dizer que você pretende ter dois ou três? — perguntou Reece.
— Na verdade, sim. Sei que você teve uma filha só, mas, sendo eu mesma filha
única, gostaria de ter mais. Sempre quis ter irmãos.
— Eu gostaria de ter tido mais — confessou ele. — Joyce e eu discutimos isso
algumas vezes, mas não nos pareceu prudente ter mais uma criança, naquelas
circunstâncias.
— Bem, ainda não é tarde demais — disse Amber, e tratou de mudar de assunto,
receosa de que Reece interpretasse mal seu comentário. — Sabe do eu realmente gostaria?
Um sorvete.
— Humm, gostei da ideia. Sorvete primeiro, bebida depois. Vejo o jantar em um
distante terceiro lugar.
Ela riu e apontou para uma doceria onde sabia que serviam um sorvete delicioso.
O lugar era amplo e agradável, como quase tudo em Key West. Amber pediu
sorvete de chocolate com nozes e Reece escolheu de pistache. Segurando os cones de
biscoito, acomodaram-se em um banco sob uma árvore, na calçada.
Dali podiam ouvir a música que tocava em um bar nas adjacências, e quando
terminaram de tomar o sorvete, a noite já havia caído sobre a ilha.
A rua se alargava numa praça arborizada, no centro da qual se erguia uma capela.
A entrada estava decorada com flores, e eles logo compreenderam por quê. Um casamento
estava sendo realizado.
Amber e Reece assistiram fascinados. Era um casamento típico de Key West. O
padrinho usava uma camisa florida, máscara de mergulho e respirador. A dama de honra
não tinha nada em cima do biquíni, e seus cabelos e pulsos estavam ornados com flores.
Quanto à noiva, nada poderia ser menos tradicional. O vestido de organza branca era
curtíssimo e a saia não passava de tiras soltas de tecido. Nos pés, tênis brancos, e na
cabeça, um pequeno véu preso a um arranjo de flores silvestres. O noivo não ficava atrás,
com um paletó de fraque sobre uma camiseta cor-de-rosa e bermuda branca. Também
calçava tênis.
Os convidados, que não passavam de dez ou doze, pareciam personagens de uma
história futurista e muito divertida. O casamento estava sendo realizado do lado de fora
da capela por um juiz de paz, que também estava vestido de maneira esportiva, de calça
jeans e camiseta. A cerimônia não foi demorada, e o beijo que os noivos trocaram ao final
foi quase obsceno.
Depois todos saíram em passeata pela rua Duval em alegre algazarra.
— Algo me diz que essa não será uma noite de núpcias tradicional — comentou
Amber.
— O que você sabe de noite de núpcias, convencional ou não?
Chocada, virou-se para Reece.
— Não sou idiota, Reece.
Ele ficou visivelmente embaraçado.
— Eu sei, me desculpe.
— Admito que sou virgem — continuou ela — mas não sou desinformada. Moro
com Sharon, esqueceu?
— Não quis subestimar você.
— Disse isso para deixar claro que se lembra da minha idade, não é?
Reece suspirou, assentindo.
— Você está certa, absolutamente certa. Sou eu, não você. Foi o meu divórcio, meu
casamento, tudo foi traumático. Quando tudo acabou eu estava exausto, cansado até de
mim mesmo. Sentia-me... acabado.
— Velho — corrigiu ela. Reece riu.
— Sabe do que você precisa? De um drinque, música alta e um pouco de dança
sob as estrelas.
— Acha mesmo?
— Mal não fará.
— Só penso em tirar você desta ilha.
Mal Reece acabara de pronunciar as palavras, Amber percebeu, pela expressão do
rosto dele, que ficara tão chocado quanto ela própria.
— Reece?
— Não acredito que disse isso — passou a mão pela nuca e acrescentou: — Quero
dizer, não acredito que disse dessa maneira. Mas não retiro. Sei que não vai aceitar
dinheiro dos seus pais ou de mim, mas pense, posso fornecer-lhe o transporte. O barco
está aí, pronto, podemos estar em Houston em poucos dias.
— E depois disso? — finalmente Amber conseguiu perguntar.
Reece piscou para ela e pareceu hesitar. Obviamente não pensara além desse
ponto.
— Bem, o que você tem em mente? Quero dizer, quais são seus planos para o
futuro? Falou alguma coisa sobre lecionar... — Amber assentiu.
— Gostaria de ensinar teatro para Crianças carentes. Sei como isso pode ajudar na
auto-estima.
— Bem... só sei que, quando eu for embora, quero levá-la comigo — repetiu Reece.
— Sem esperar nada em troca.
— Mesmo? — sussurrou ela, o coração batendo tão forte que mal podia falar.
Reece fitou-a com a expressão transtornada.
— O que você está fazendo comigo?
— Nada que você também não esteja fazendo comigo — respondeu Amber
trêmula.
Depois de uma breve hesitação, Reece pousou a mão sobre a dela e apoiou-a em
sua perna, acariciando-lhe os dedos. Amber sentiu uma série de pequenos choques
elétricos percorrerem-lhe o antebraço.
— Vai pelo menos pensar na possibilidade de ir embora comigo?
— Vou.
Um suspiro de alívio escapou dos lábios de Reece.
— Bom... — Ele passou o braço sobre os ombros de Amber e puxou-a para si. —
Acho que eu tomaria aquele drinque, agora.
— Eu também — concordou ela, sem se lembrar de outra coisa mais interessante
para dizer.
— Vamos.
Sorrindo, Reece beijou-a na testa e pôs-se de pé, fazendo-a levantar-se também.
Amber enlaçou-o pela cintura e, abraçados, caminharam na direção da música.
Amber não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Tinha vontade de
saltitar, de gritar de felicidade. Enquanto caminhavam em silêncio, ela e Reece podiam se
dar ao luxo de não tocar mais no assunto da partida de Key West ou do que esperavam ou
não, um do outro. Saber que existia uma possibilidade já era suficiente para se deixarem
levar pelo deleite de estarem juntos. Mais do que suficiente.
Por mais de uma hora, eles conversaram sobre os mais variados assuntos, antes de
pedirem o segundo drinque. Tudo foi comentado, menos o assunto que fervilhava na
mente de ambos.
Ainda custando a acreditar que sugerira a Amber que fossem embora juntos,
Reece tinha certeza de que aquela seria a melhor solução para ela.
Se também seria para ele, não estava tão certo. Era algo que lhe parecia ao mesmo
tempo perfeito e perigoso. A medida que a noite avançava, no entanto, parecia cada vez
mais perfeito e menos perigoso, principalmente quando dançaram ao ar livre. Nunca
gostara muito de dançar, mas naquela noite tudo parecia diferente, tudo estava diferente.
Só tinha pensamentos para Amber, para o que estava acontecendo e o que ainda
aconteceria entre eles.
Reece não reconhecia a si próprio. Tudo era novo, desconhecido e delicioso. Key
West de repente lhe parecia o paraíso terrestre, e ele sabia que era por causa de Amber. E
isso o transformava em um novo homem. Um outro Reece, estranho, totalmente
incongruente, completamente irracional, absolutamente imprevisível. Feliz. Confuso. E
apavorado.
Mas não naquela noite. Naquela noite não havia lugar a não ser para surpresa,
deleite e um desejo acumulado.
Depois de dançar e beber mais um drinque, eles rumaram para um bistrô tropical
onde saborearam ostras deliciosas, diretamente das conchas, camarões grelhados com
cogumelos, pimentas caienas inteiras e abacaxi à moda dos ilhéus. Lambuzaram os dedos,
refrescaram os lábios com vinho branco italiano gelado e riram, de puro deleite.
Saciados e felizes, caminharam de mãos dadas até o apartamento de Amber. Reece
se comportou, dando-lhe um discreto beijo de despedida ao lado da escadaria. Gostaria de
ficar ali para sempre, mas ela tinha de trabalhar no dia seguinte e precisava descansar.
— Jantamos juntos amanhã? — convidou ele. — Não podemos dizer que jantamos
hoje.
— Amanhã é dia de tour — lembrou Amber, desconsolada.
— É mesmo...
— Por que não almoçamos juntos? — sugeriu ela. — Será um almoço meio rápido,
mas se você quiser...
— Claro que quero.
— E jantamos na quinta-feira. Se estiver livre...
— Excelente — aceitou Reece sorrindo.
Irradiando alegria, Amber subiu a escada, e a simples visão dela na meia-luz o
deixou atordoado. Os fios de cabelos castanho-avermelhados caíam delicadamente sobre
os ombros, emoldurando as faces afogueadas, os lábios cheios, os olhos brilhantes. A saia
justa moldava-se ao corpo dela, realçando as curvas femininas.
Amber tinha um corpo perfeito, a cintura fina, alargando-se nos quadris, as pernas
esguias e bem torneadas.
Reece a desejava com loucura, e esse sentimento o deixava apavorado. Mal podia
esperar pelo momento de revê-la.
Saiu do edifício e começou a caminhar na direção da marina, pensando em como
contaria a verdade a ela.
CAPÍTULO VI

Reece foi até o restaurante, e Amber sentou-se com ele por uma hora, durante a
qual conversaram e brincaram sobre os portos do golfo do México onde ele ancorara o
veleiro antes de ir para Key West.
Quando o intervalo terminou e ela precisou voltar ao trabalho, Reece sugeriu que
poderia voltar no final da tarde para apanhá-la e irem juntos até a agência de turismo.
Mas Amber recusara a carona de Walt no dia anterior e, se fizesse isso de novo,
receava magoar o amigo.
Ela nutria um imenso carinho por Walt. Na verdade, era como um irmão mais
velho, e sua presença no apartamento transmitia segurança a Amber.
Ele era melhor amigo do que qualquer uma das moças com quem Amber dividia o
aluguel, e ela não gostaria de magoá-lo.
— Por que não nos encontramos no meu apartamento amanhã à noite, em vez
disso? — propôs ela. — Poderíamos ter aquele jantar que ficou faltando ontem.
Reece sorriu.
— Gostei da ideia. Seis e meia é uma hora boa para você?
— Excelente.
Amber refletiu que não ficaria aborrecida se ele aparecesse novamente no dia
seguinte para almoçar, mas não disse nada. Estava encantada com a sorte que trouxera
Reece Carlyle para sua vida. E pensar que quase o mandara cuidar da própria vida poucos
dias atrás! Sob apenas uma circunstância admitiria a possibilidade de ir embora com ele,
mas ainda era muito cedo para considerar a hipótese.
Pela primeira vez na vida estava pensando no futuro ao lado de um homem, um
determinado homem. E o futuro podia ser resumido em uma única palavra: casamento. Já
não tinha nenhuma dúvida de que estava apaixonada por Reece. Quanto mais tentava
deixar esses pensamentos de lado, mais eles insistiam em ocupar sua mente.
Reece se levantou para ir embora e segurou demoradamente a mão de Amber.
O brilho que ela viu nos olhos dele não deixara dúvidas quanto ao desejo que
sentia. Amber sentiu-se exultante e abraçou-o com força quando ele sorriu e beijou-a no
rosto. Retribuiu colando os lábios ao pescoço dele por longos segundos.
— Vejo você amanhã — prometeu ele.
Amber assentiu, sentindo o coração bater na garganta. Reece apertou suavemente
seus ombros e afastou-se.
Ela alisou o rabo-de-cavalo com a mão e olhou ao redor no salão. Uma das suas
colegas de trabalho deu um risinho malicioso e gesticulou de longe. Amber sabia o que ela
queria dizer. Realmente Reece era um homem atraente. E sensual. Tanto que, ao retornar
ao trabalho, ainda sentia o calor de seu toque.
Foi um sacrifício para Reece esperar até a noite seguinte para ver Amber. Talvez
por isso chegou cedo demais no apartamento para encontrá-la.
Chegou a pensar em dar algumas voltas no quarteirão para o tempo passar mais
depressa, mas o calor estava insuportável e o carro alugado não tinha ar condicionado.
Na calçada estava ainda pior. E ele estava usando calça comprida de brim bege e
camisa de linho branco. Depois de poucos minutos já sentia o suor escorrendo pelo
pescoço e pelo peito.
Mesmo querendo evitar um encontro com Sharon, decidiu que era melhor subir e
esperar por Amber no apartamento.
Resignado, subiu as escadas e bateu na porta. Uma jovem que ele não conhecia
veio abri-la.
— Olá.
— Boa noite... Sou Reece Carlyle, amigo de Amber. Acho que cheguei cedo
demais.
Os olhos da moça se arregalavam à medida que ele dava as explicações, enquanto
o examinavam dos pés à cabeça como se nunca tivesse visto um homem antes.
— Uau! Ela disse a verdade!
— Como?
— Sharon disse a verdade... Você é um pedaço de mau caminho!
Reece sorriu e deu uma piscadela. O que poderia dizer após uma declaração como
aquela?
— Entre! — Ela abriu mais a porta para dar-lhe passagem e apresentou-se: — Meu
nome é Linda. Por favor, fique à vontade.
Ela indicou o sofá e acomodou-se na poltrona em frente.
— Sharon está trocando de roupa para ir trabalhar. No instante seguinte, Sharon
surgiu à porta do quarto, descalça e com os cabelos soltos.
— Vejam só... Voltou querendo mais?
Reece arqueou as sobrancelhas, perguntando-se como deveria interpretar a frase.
— Estou esperando por Amber.
Sharon trocou um olhar divertido com Linda e se aproximou do sofá:
— Você sabia que está perdendo tempo com ela? — perguntou, inclinando-se
sobre o braço do sofá.
— Eu aprecio muito o tempo que passo ao lado dela. Não considero tempo
perdido.
— Acontece que você não vai conseguir o que quer.
— Como pode saber o que quero?
— Você é um homem, não é?
— Um homem livre, com tempo disponível. Tempo que, afortunadamente, escolhi
passar com Amber.
— Bem, quando quiser uma mulher de verdade, sabe onde me encontrar. Aliás,
depois de você "passar o tempo" com Amber, por que não vai até o bar? Eu lhe pago uma
bebida.
— Não, obrigado. Eu não bebo.
Um ligeiro rubor tingiu as faces de Sharon, mas ela rapidamente se recompôs:
— Preciso ir trabalhar.
E voltou para o quarto, batendo a porta com mais força que o habitual.
Linda tossiu baixinho, embaraçada. Reece voltou-se para ela, sentindo um misto
de tristeza e perplexidade. Tristeza por Sharon, por uma vida desperdiçada. E
perplexidade porque sabia que se aquele convite lhe tivesse sido feito poucos dias atrás,
ele teria aceitado sem vacilar. Agora, no entanto, aquele tipo de divertimento não o
interessava mais. Não conseguia ver sentido em ir para a cama com uma mulher simples-
mente pelo prazer físico. E esta mudança ainda lhe causava estranheza.
Voltou-se para Linda, que parecia um tanto constrangida com a situação, olhando-
o como que a querer pedir desculpas pelo comportamento da amiga. Felizmente, naquele
instante a porta se abriu e Amber entrou.
— Oh! você está aqui! Desculpe-me por me atrasar de novo. Queria estar pronta
antes que você chegasse, desta vez.
Reece se levantou para cumprimentá-la, mas logo avistou Walt, que o observava
da porta.
— Walt, você não devia estar trabalhando? — indagou Linda.
— Por que não cuida da sua própria vida? — retrucou ele, em um tom tão ríspido
que a fez encolher-se na poltrona.
Reece suspirou, mas não disse nada.
— Quando vai embora daqui? — interrogou Walt à queima-roupa.
— Quando eu decidir — respondeu Reece no mesmo tom, antes de acrescentar: —
E quando for bom para Amber, porque ela irá comigo.
Walt pareceu ficar transtornado.
— Não é verdade! — exclamou quase em desespero.
— Tenho toda a intenção de tirá-la desta ilha — declarou Reece com firmeza. — E
acho que ela ficará feliz em ir comigo.
Sem dizer nada, Walt saiu da sala pisando duro. No mesmo instante, Linda
levantou-se e foi atrás dele.
Reece balançou a cabeça. Por que Walt não percebia que estava correndo atrás da
mulher errada? Linda obviamente estava interessada nele, e ambos pareciam ter muito em
comum, principalmente o mesmo espírito livre.
Tornou a sentar-se, e Linda voltou um minuto depois. Em seguida Amber
apareceu usando um vestido justo de um tom alaranjado escuro que realçava deli-
cadamente suas formas femininas.
— Pronto? — perguntou ela, ajeitando a alça da bolsa no ombro.
Reece se levantou e aproximou-se. Estava mais que pronto, para qualquer coisa.
Na verdade, estava pronto para se apaixonar, coisa que só naquele instante ele se deu
conta.
***
Amber baixou a revista que estava folheando e olhou para a secadora onde sua
roupa sacudia de um lado para outro. Ao lado dela, Reece se mexia na cadeira de plástico
duro, o nariz enfiado em um livro. O coração dela dava voltas dentro do peito, e mais uma
vez se maravilhava com o rumo que sua vida inesperadamente tomara. Ainda lhe custava
acreditar que estava namorando com aquele homem incrível.
Já fazia quase três semanas. Como era possível sentir que tudo era tão recente e ao
mesmo tempo ter a sensação de que conhecia Reece por toda uma eternidade?
O apito da secadora interrompeu seu devaneio. Olhou para a fileira de máquinas e
viu que a que continha as roupas de Reece concluíra o ciclo. Estava se preparando para
tirar e dobrá-las quando Reece a deteve.
— Deixe. Esta é minha.
Ela obedeceu, porém seguiu-o até a mesa onde ele colocara as peças para dobrar.
Deixou a revista de lado e começou a ajudá-lo.
— Você não precisa fazer isso — disse ele, com um sorriso nos lábios.
— Mas eu quero fazer.
— Tenho lavado e passado minha roupa já faz algum tempo.
— Poderia poupar muito trabalho com o ferro de passar se dobrasse a roupa
direito — sugeriu ela.
— Mesmo? — interessou-se Reece.
— Hum-hum. Veja este short, por exemplo. Se dobrá-lo direito só precisará alisar
as laterais com o ferro. O mesmo acontece com as camisetas. Dobre-as ainda quentes da
secadora e parecerão passadas. Assim como os lençóis e as toalhas de banho.
— Posso saber como foi que aprendeu tanto a respeito de técnicas de lavanderia?
— perguntou ele baixinho, em tom íntimo.
O sorriso dela tornou-se maroto, em parte porque aquela observação demonstrava
que ele ainda estava preocupado com a questão da idade, e em parte porque parecia
justamente o oposto.
— Posso dizer que cuido da minha própria roupa há mais tempo que você da sua.
Reece ergueu uma sobrancelha.
— Provavelmente é verdade.
— Certamente é verdade. Eu tinha uns catorze anos quando comecei a reclamar
do jeito que a empregada arrumava minhas coisas. Portanto tenho uma década inteira de
experiência.
— Eu saúdo seu conhecimento superior — brincou Reece e fez exatamente isso.
Segurando a base do pescoço de Amber, capturou-lhe os lábios em um beijo
ardente e sedento. Ela deixou-se levar, deslizando as mãos ao redor da cintura dele,
sentindo o cheiro almiscarado da pele máscula, o roçar da barba crescida. Ficou chocada
por se sentir tão à vontade pressionando o corpo contra o dele, os seios se achatando
contra o torso forte, o latejar viril contra seu ventre.
Não tinha a menor dúvida de que Reece a desejava e, pela primeira vez na vida,
sentiu uma vontade imensa de entregar-se.
O apito da outra secadora interrompeu o beijo.
— Escute — murmurou ele, a voz rouca de desejo — já comemos em todos os
restaurantes da cidade. Que acha de fazermos o jantar, esta noite, no barco? Levamos sua
roupa para o apartamento, depois podemos comprar alguma coisa pronta e ingredientes
para uma salada... Que tal? Junto com você, isso seria um banquete!
Amber acreditava em Reece, acreditava em sua sinceridade. Também se sentia
assim, mas Reece merecia mais.
— Acho que podemos fazer mais que isso — declarou, consciente de que suas
palavras continham uma promessa. Uma promessa que ela estava disposta a cumprir.
Pegaram um táxi para voltar ao apartamento de Amber. Ela subiu rapidamente
para guardar a roupa e em seguida se dirigiram para uma rotisserie próxima.
Decidiram-se por um belo pedaço de carne assada, uma porção de macarrão com
queijo, e também brócolis, vagem e minicenouras. Quando estavam no caixa, Amber
incluiu um vidro de cogumelos e um de amêndoas torradas.
Rindo, voltaram para o barco, munidos de mantimentos e da roupa lavada de
Reece.
Lá chegando, Amber insistiu para que ele fosse guardar a roupa. Ao voltar da
suíte, ele a encontrou com um pano de prato amarrado na cintura, mexendo na panela.
Surpreso, viu que ela incrementara o prato de macarrão, juntando os legumes, os
cogumelos e as amêndoas. Adicionou molho de soja e gengibre ralado à mistura,
impregnando o ambiente com um aroma oriental, antes de levar ao microondas.
Em poucos minutos o jantar estava pronto. Amber e Reece pegaram seus pratos e
foram se sentar no convés, à luz das estrelas. Reece abriu uma garrafa de vinho tinto
italiano.
Contemplando a baía iluminada, jantaram praticamente em silêncio, embalados
pelos acordes distantes de uma melodia que tocava em alguma embarcação.
Ao terminar a refeição, Reece depositou seu prato junto ao de Amber e tornou a
encher os cálices de ambos com o vinho. Degustou um longo gole da bebida, cerrando os
olhos de prazer. Key West se tornara o paraíso terrestre por causa de Amber, e não queria
que essa sensação deliciosa terminasse ali. De alguma maneira, precisava convencer
Amber a partir com ele.
— Você é linda — disse ele. Ela franziu o nariz.
— Não, não sou. Meu rosto é muito redondo, muito... — Ele a convenceu
cobrindo-lhe a boca com a sua, em um beijo apaixonado. Com grande esforço, ela conse-
guiu levantar a cabeça a tempo de retrucar:
— Você é maravilhoso. Por fora e por dentro. — Amber sorriu com a sabedoria
tipicamente feminina e ofereceu os lábios aos dele. Não para beijá-lo, mas para uma carícia
provocante, tocando com a língua os cantos da boca de Reece.
Incapaz de resistir, ele introduziu a mão sob a camiseta curta que Amber usava e
apoderou-se de um seio. Mal acreditou quando ela arrancou a blusa pela cabeça e jogou-a
ao chão.
Olhou fascinado para o sutiã meia-taça, que mais mostrava do que escondia os
seios de Amber. Quando a viu levar as mãos ao fecho do sutiã, deu-se conta de que em
poucos minutos estariam fazendo amor. E não podia permitir que isso acontecesse antes
que ela soubesse toda a verdade.
Um medo horrendo o dominou, mas não tinha outra escolha. Já esperara demais.
Nunca devia ter ocultado de Amber a história toda. E agora, além de tudo mais, precisava
contar-lhe também sobre seus sentimentos.
Segurando as mãos dela, trouxe-as para frente, em um gesto quase solene.
— Tenho que lhe contar uma coisa — começou, sabendo que sua voz soava
trêmula. — Antes de mais nada, precisa entender que eu nunca esperei que isto viesse a
acontecer, nem em meus sonhos mais secretos. Nunca com uma mulher como você. Eu...
— Alô, Porto Feliz
Reece e Amber demoraram alguns segundos para perceber o que estava
acontecendo. O chamado repetiu-se.
— Alô, Porto Feliz! Guarda Costeira!
Caindo em si, Amber apressou-se em vestir a blusa, e Reece subiu os degraus para
o convés. Três oficiais da Marinha esquadrinhavam o veleiro com os olhos.
— O que há de errado? — perguntou Reece, franzindo a testa.
— Você é Reece Carlyle? — indagou um dos oficiais.
— Sim. Do que se trata?
— Tem uma filha chamada Brittany?
O coração de Reece disparou dentro do peito.
— Aconteceu alguma coisa com ela? — Tremendo dos pés à cabeça, Reece mal
conseguia falar.
— Recebemos um telefonema das autoridades do aeroporto de Miami. Sua filha
está vindo ao seu encontro e sua presença se faz necessária.
— Como? — perguntou Reece, atônito. Só deveria encontrar Brittany dali a duas
semanas, em Houston. Depois voltariam para Key West de avião. Era o que estava
combinado. — Tem certeza disso? Ninguém me avisou que ela viria.
— Aparentemente ela tomou essa decisão por conta própria. Não tenho
conhecimento dos detalhes, mas me parece que ela viajou sem a permissão da mãe.
Por algum tempo, Reece ficou sem reação, como se estivesse paralisado. Então
procurou a mão de Amber com a sua, rezando para que uma catástrofe não estivesse
prestes a explodir.

CAPÍTULO VII

— Como assim, você fugiu? — perguntou Reece com incredulidade para a filha,
exasperado com a teimosia dela.
Com os braços cruzados sobre o peito, a menina tinha os lábios franzidos em
descontentamento, a expressão amuada. Os longos cabelos loiros estavam presos num
rabo-de-cavalo mal feito, a camiseta rosa tinha manchas de refrigerante e a calça jeans
estava precisando de uma boa lavada. Parecia que dormira várias noites com aquela
roupa.
— Eu tive que fugir! — insistiu ela. — Você não sabe o que está acontecendo.
— Sei que devia estar em Houston com sua mãe! — exclamou ele.
— Mas você disse que eu podia vir te encontrar.
— Eu disse que eu iria encontrar você. Isso não significa que você poderia vir por
conta própria, especialmente sem sua mãe consentir, e pior, sem saber. Aliás, como foi que
fez isso? Como conseguiu a passagem de avião?
Ela deu de ombros, negligentemente.
— Pela Internet.
— Isso requer um cartão de crédito... — Ele passou a mão pelos cabelos,
exasperado.
— Não se você tiver uma conta e souber a senha — retrucou a menina com ar de
superioridade.
— Mas você não tem uma conta — ressaltou Reece.
— Que conta você usou?
— A de Mike. — Ela franziu a testa ao pronunciar o nome. — Ele não consegue
decorar a senha, por isso a deixa anotada do lado do computador. — Revirou os olhos com
desdém.
Reece não fazia ideia de que uma criança daquela idade fosse capaz de tamanha
animosidade. Tinha sentido uma crescente amargura na voz da filha na últimas semanas
mas tinha ignorado o fato porque estava completamente absorto com Amber.
Amber. Ela desaparecera poucos minutos depois de chegarem ao aeroporto com a
desculpa de procurar um táxi. Só agora Reece se dava conta de que ela quisera deixá-lo à
sós com a filha.
— Brittany, como conseguiu embarcar sozinha, sem autorização?
— Pedi para uma velhinha se passar por minha avó.
— E como conseguiu que ela concordasse com isso?
— Inventei uma história sobre minha mãe estar passando mal no banheiro e eu
precisar embarcar para encontrar meu pai... Chorei um pouquinho... e deu certo.
— E o que aconteceu em Miami?
— Mamãe descobriu o que eu fiz e ligou para a companhia aérea. Quando eu
cheguei dois homens estavam me esperavam na saída.
— Bem, deixe-me ver... você roubou de Mike.
— Hum? — Ela pareceu surpresa.
— Além de usar o cartão de crédito dele, enganou uma porção de gente. Deve
haver uma lei contra o uso da Internet para fins fraudulentos, eu acho. E você fugiu, acho
que isso se encaixa em delinquência juvenil.
— Estou em apuros? — sussurrou ela.
— Pode apostar. — Ela engoliu em seco.
— Vou para a cadeia?
Reece olhou para a filha, até que os olhos dela se encheram de lágrimas, e apesar
do susto que pregara nele e em Joyce, ele se condoeu.
— Não — disse sucintamente.
— Desculpe, papai. É que eu não sabia mais o que fazer.
— A respeito de quê, Brittany? Você não é do tipo de menina que foge, mente e
rouba.
— Desculpe, papai, mas eles vão se casar! Você não pode deixar que isso aconteça!
— Sei que você não está feliz com isso, Brit, mas eles estão planejando isso há
meses.
— Mas será na semana que vem! — gritou ela. — Antes de você ir me buscar! Se
você for antes, mamãe vai desistir, vai querer voltar para você!
— Não, Brit... Sua mãe ama Mike.
— Ela pensa que ama! — insistiu a menina. — Se você falar com ela que podemos
voltar a ficar juntos, ela vai mudar de ideia.
— Não podemos voltar a ficar juntos, Brit — disse ele suavemente.
— Por que não?
Reece suspirou, olhando ao redor. Aquele não era o lugar mais indicado para
terem aquela discussão.
— Já conversamos sobre isso antes, Brit, e podemos conversar de novo, mas não
aqui. Já jantou?
— No avião.
Colocando uma mão sobre o ombro da menina, Reece explicou carinhosamente:
— Falei com sua mãe pouco antes de você chegar e ela pediu que eu lhe dissesse
que embora esteja brava com você, ela te ama muito e está aliviada por saber que você está
bem e em segurança agora.
A expressão no rosto de Brittany era um misto de culpa e desalento.
— Vamos para casa — disse ele. — Amanhã você decide como consertar isso.
— Está bem — respondeu ela, prestes a chorar.
Ao saírem para o saguão do aeroporto, Reece procurou Amber com o olhar.
Encontrou-a parada no fim de um longo corredor e sentiu uma ponta de ciúme ao ver
Walt ao seu lado.
Sabia que Walt era o único motorista de táxi que ela poderia ter chamado àquela
hora, mas não gostou.
— Brittany, esta é a srta. Presley e seu amigo, o senhor...
— Dell — Walt completou, estendendo a mão para Brittany.
— Como vai? — murmurou ela.
— Tudo bem? — perguntou Amber para Reece, e ele assentiu apertando o rosto de
Brittany entre as mãos.
— Vai ficar.
— Walt vai me levar para casa, tem um táxi esperando por você lá fora — disse
Amber. — Falo com você em breve.
— Sim — respondeu Reece contrafeito. — Olhou para ela por um longo momento,
sentindo seu amor se expandir dentro do peito. — Obrigado — foi tudo o que conseguiu
dizer antes de tomar Brittany pela mão e se dirigir para a saída.
Notou que Walt conversava com um dos policiais da lancha, um que Amber
chamara pelo nome, Danny. Não se lembrava se agradecera ao homem, mas isso já não
tinha mais tanta importância. No momento seus problemas com Brittany ocupavam toda a
sua atenção.
Tinha que convencê-la que a mãe e ele jamais voltariam a ficar juntos novamente
do modo que ela gostaria. Ao mesmo tempo precisava encontrar um jeito de contar toda a
verdade para Amber.
Se ela o amasse, e ele acreditava do fundo do coração que sim, poderiam em breve
planejar um futuro juntos. Nesse ínterim precisava lidar com sua filha e com a tristeza que
a separação lhe causara.
Brittany mal respondeu às suas perguntas no percurso até a marina. Trouxera,
com efeito, algumas peças de roupa e maiô. Esquecera a escova de dentes, mas Reece tinha
mais de uma sobressalente no barco. Não fora uma fuga planejada, e sim uma decisão to-
mada em um impulso depois de se negar a acompanhar a mãe nas compras para o
casamento. Sem querer, Mike fornecera subsídios para a fuga, ao tentar envolvê-la nos
preparativos para a lua-de-mel, mostrando como adquirir um bilhete aéreo.
Brittany usara as informações contra ele, pobre homem. A única falha no plano
fora contar à sua amiga Stella aonde estava indo e como. Tentava não pensar o que teria
acontecido caso Joyce não tivesse falado com Stella assim que dera por falta de Brittany.
Estava satisfeito que Brittany tivesse tomado consciência da gravidade do que
fizera. No dia seguinte teriam uma longa e séria conversa.
Chegaram no cais apenas para se darem conta que não havia jeito de alcançar o
barco, uma vez que Reece viera à terra no barco-patrulha.
Irritado e sentindo-se um idiota, precisou pedir auxílio a um casal de meia-idade
que tomava um drinque no deque de sua casa-barco. Após explicar o que acontecera,
conseguiu que lhe emprestassem o bote.
Foi um trabalho e tanto ir até o barco com o bote inflável, voltar com ambos os
botes, devolver o que tomara emprestado e retornar ao Porto Feliz.
Quando finalmente sentou-se diante de Brit, encontrava-se física e
emocionalmente exausto.
— A despeito de tudo — disse ele, tomando-a nos braços — estou feliz por você
estar aqui.
— Eu também — murmurou ela, aninhando-se contra seu peito. — Eu te amo,
papai.
— Também te amo, querida. Mas acho que agora é melhor irmos para a cama.
Conversaremos amanhã.
Brittany não discutiu, aparentemente tão cansada quanto ele. Reece não pôde
evitar de imaginar o quanto aquela noite teria sido diferente se Brit tivesse embarcado em
sua aventura apenas algumas horas mais tarde.
Não sabia o que era melhor. Por fim, exausto, acabou adormecendo antes de
chegar a uma conclusão.
— Desculpe-me, papai — choramingou Brittany. — Reece afastou a xícara de café
vazia.
— Querida, sei que você está chateada com o rumo que as coisas tomaram... Assim
como sua mãe e eu. Quando nos casamos, realmente queríamos que fosse para sempre.
Mas éramos jovens e inexperientes, e nos casamos pelas razões erradas. Pensávamos que
nos amávamos, mas estávamos enganados.
— Mas eu sei que vocês se amam — argumentou a garota. — Vocês não são como
os pais de Stella, eles odeiam um ao outro. Gritam, dizem coisas horrorosas e brigam o
tempo todo.
— E como Stella se sente? — Reece ponderou. Brittany olhou para ele por um
momento, então afastou seu prato e apoiou os cotovelos no balcão.
— Ela odeia. Chora sempre que isso acontece e às vezes acha que eles deveriam ter
se separado há muito tempo.
— Sua mãe e eu amamos você muito para fazê-la passar por isso. Tentamos ficar
juntos, para que você não passasse pelo que Stella está passando. — Reece fez uma pausa e
acariciou o rosto da filha. — Olhe, querida, eu sei que você está sofrendo. Sei que a se-
paração não foi fácil para você. Também não foi para nós, mas é o melhor que podemos
fazer.
Ela se levantou de repente, debulhando-se em lágrimas.
— Acho que é egoísmo meu querer que vocês voltem, não é?
— Poderia ser.
— Só não consigo entender como a mamãe pode preferir Mike a você —
resmungou ela.
— Eu posso — disse Reece, obviamente chocando Brittany. — Esqueça que eu sou
seu pai e Mike não, por um momento.
— Não consigo!
— Consegue sim, se quiser. Agora pense o seguinte. Sua mãe gosta de ópera,
golfe, festas, jantares. Mike também. Eu gosto de rock, barcos e churrascos. Ela gosta de
música clássica, arte, teatro, tudo que é formal e erudito.
— E Mike também — Brittany murmurou. Reece sorriu.
— Eu gosto de arte moderna, revistas em quadrinhos, filmes de ação. Ela gosta de
carros de luxo e de morar na parte nobre da cidade.
— Você prefere o campo e caminhonetes — completou a menina.
— E Mike gosta...
— De carros de luxo e mansões. — Reece apoiou o cotovelo no balcão.
— Nenhum de nós está errado, Brittany. É só que somos diferentes. Sua mãe e
Mike têm gostos similares, objetivos parecidos. Se ele fosse seu pai, você o acharia
maravilhoso. Eu garanto que ele é um homem bom. E ama sua mãe. Isso já deveria bastar.
— Eu nunca havia pensado desse jeito — ela finalmente admitiu. — Mas não
parece justo que ela tenha tudo o que deseja enquanto nós...
— Que é isso, Brit? — interrompeu Reece. — Não é assim, e você sabe disso. O que
ela tem, todos nós temos e é uma chance de ser feliz. Ela ainda será sua mãe, eu serei seu
pai, e Mike será um ótimo padrasto. Se pensar assim, você sairá ganhando. Todos nós sai-
remos ganhando.
— Não você — disse ela com preocupação genuína. — Você está sozinho agora.
— Não estou. Ainda tenho você. Vovô, vovó, tio Jason e Caleb e a família dele. —
Reece tomou fôlego antes de prosseguir: — E é melhor você saber de uma coisa. Eu
encontrei alguém especial também. Alguém com quem pretendo me casar. Ainda não
disse isso a ela, portanto não toque no assunto quando a conhecer.
Brittany fitou-o por um longo momento, confusa e surpresa. Quando falou, sua
voz não passou de um sussurro:
— Você está apaixonado por ela?
— Loucamente. Estou loucamente apaixonado por ela. — Reece sorriu.
— É aquela Marcy que eu encontrei na sua casa?
— Marcy? Não! Por que você acha que é ela? — Ela deu de ombros.
— Você estava sempre com ela, antes de viajar.
— Não é Marcy... É outra pessoa, que você não conhecia, pelo menos até ontem à
noite.
Brittany franziu a testa e pela sua expressão Reece pôde ver que a menina estava
tentando pensar em quem poderia ser a escolhida de seu pai. E soube o momento exato
em que ela descobriu.
— Aquela moça com o homem alto e magro?
— O nome dela é Amber — disse Reece, assentindo com um gesto de cabeça.
— Acha que ela gostará de mim?
Com um suspiro de alívio, Reece segurou o rosto da filha entre as mãos.
— Ela vai adorar você! E você também gostará dela se lhe der uma chance. Faria
isso por mim? Tentaria ao menos?
— Vou tentar, papai — respondeu ela com voz trêmula.
Reece levantou-se e contornou o balcão para abraçar a filha.
— Obrigado, querida. É tudo o que eu lhe peço. — Ligaram para Joyce novamente
e Brittany teve uma longa conversa com a mãe. Lágrimas e sorrisos se alternaram naquela
conversa. Reece queria falar com Amber também, mas sabia que esse período era delicado
e que a filha precisava de sua atenção. Confiava em que Amber compreenderia isso.
Passaram aquele dia e o seguinte fazendo planos. Iriam a Houston nos próximos
dias para que Brittany pudesse ajudar Joyce com os preparativos do casamento.
Velejaram, assistiram a filmes na televisão, jogaram videogame e foram nadar nos corais.
No segundo dia, após voltarem de um passeio, Reece sugeriu que fossem jantar na
cidade, no restaurante onde Amber trabalhava. Brittany assentiu depois de uma
brevíssima hesitação.
— Ela sabe o que eu fiz?
— Tenho certeza que Amber compreende — garantiu ele. — Quando tiver uma
chance, pergunte a ela como veio parar em Key West.
Brittany pensou por um momento e assentiu. Nervoso, Reece se preparou para o
encontro das duas mulheres mais importantes da sua vida.
Amber o viu assim que ele entrou no salão, escoltado pela curiosa filha. Seu
coração disparou e parecia querer sair pela boca.
Teria ele contado algo a Brittany? Se tinha, qual teria sido a reação da menina?
Pior de tudo, e se Brittany a detestasse?
Às vezes tinha a impressão de que tudo que vivera com Reece não passara de um
sonho. Talvez ele não sentisse por ela o mesmo que ela por ele. Afinal, ele não dissera que
a amava. Se a Guarda Costeira não os tivesse interrompido...
Tudo eram conjeturas, e talvez ela estivesse se preocupando sem motivo.
Rapidamente se desvencilhou dos seus pedidos e rumou para a mesa deles na
primeira oportunidade. Entreolharam-se e Amber se perguntou como deveria agira diante
da garota.
— Oi — cumprimentou ela da maneira mais animada possível. — Como estão?
— Famintos — Reece respondeu sorridente. — Fora isso, ótimos. Não é, Brit?
A menina assentiu timidamente, sem olhar diretamente para Amber, que esperava
de bloco em punho.
— Bem, vamos resolver o problema da fome. Que tal batatas recheadas com
caranguejo? Ou preferem cebolas empanadas com espetinhos de camarão?
— Cebolas — disse Brittany quase ao mesmo tempo que Reece dizia: Batatas.
Amber riu.
— Que tal se eu trouxer um pouquinho de cada?
— Seria ótimo. E um suco de laranja e uma Coca.
— Vou providenciar já!
Pegando Amber pelo pulso, Reece lhe falou:
— Alguma chance de você se juntar a nós?
— Claro. Não tive folga ainda.
— Só mais uma coisa — acrescentou Reece. — Isto. — E a beijou de leve nos
lábios.
Os olhos de Brittany se arregalaram, mas o gelo fora quebrado. Após um instante
estavam os três rindo. Juntos.
Inclinando-se para a filha, Reece cochichou-lhe no ouvido:
— Viu o que ela me faz fazer?
— Comporte-se, senhor. O que deu em você? — Ele abriu os braços.
— Estou feliz, só isso! Estou com minhas duas pessoas favoritas na mesa. O que
mais um homem pode desejar?
Pela primeira vez na vida, Amber sabia exatamente o que ela queria e quem. E
estava começando a acreditar que poderia vir a conseguir.

CAPÍTULO VIII

Amber levou Brittany no tour, na noite seguinte. Reece recusou o convite com a
desculpa de que tinha algo para fazer que o impedia de acompanhá-las no passeio.
Amber sabia que isso nada mais era que uma desculpa para deixar as duas juntas
sem tê-lo por perto.
Foi um pouco estranho no início, mas quando ela começou a vestir a fantasia,
Brittany começou a fazer perguntas, e logo estavam conversando animadamente.
O grupo daquela noite era pequeno e tranquilo, e o passeio terminou alguns
minutos mais cedo que de costume.
Quando Reece chegou, encontrou-as sentadas nos degraus da agência, rindo e
comentando sobre uma velhinha que, durante o tour, ficara atentíssima às palavras de
Amber.
Segundo a própria senhora, tinha enviuvado recentemente e, com o dinheiro do
seguro de vida do marido, estava percorrendo o país atrás de locais assombrados.
— Talvez ela só queira encontrar o fantasma do marido — Brittany disse
— Ou se livrar dele — sugeriu Amber, e as duas caíram na risada.
— Não foi tão divertido quando eu fiz o tour — Reece reclamou quando começou
a ouvir o relato dos acontecimentos da noite. Não lhe passou despercebido o interesse da
filha no que Amber fazia e fizera.
Acompanhou a narrativa ao mesmo tempo que via a satisfação no sorriso de
Amber, que lançava olhares furtivos em sua direção.
Esperou Brittany sair pela calçada para tomar a mão de Amber e juntos
caminharam em direção ao apartamento.
Brit logo se cansou e disparou na frente. A noite estava escura e as árvores
lançavam sombras na calçada.
— Tenho que agradecer a você — disse ele a Amber depois de alguns instantes.
— Pelo quê?
Ele apertou-lhe a mão gentilmente e sorriu.
— É uma longa lista, mas neste caso estou falando de Brittany.
— Ela é uma garota ótima, Reece. Tem razão em orgulhar-se dela. Está claro que
você é um pai incrível, mas não sei pelo que quer me agradecer.
— Muitas mulheres teriam pressionado — disse ele simplesmente. — Você não fez
isso e eu agradeço.
— Não é que eu não queira — confessou Amber abertamente. — Mas sei que você
precisa de tempo com ela agora.
Antes que um dos dois pudesse falar mais, Brittany voltou para junto deles.
— Tem um homem na esquina — relatou a menina ofegante.
Amber largou a mão de Reece e pegou a de Brittany. Protegida entre os dois
adultos, a garota passou pela esquina e pelo homem cabeludo que resmungava sozinho.
Um quarteirão e meio adiante, sob as árvores, eles encontraram vários gatos de
seis dedos que habitavam a ilha, herança deixada por Ernest Hemingway. Brittany correu,
atrás deles para tentar ver se, de fato, eles tinham um dedo a mais.
Assim que ela se afastou, Reece virou-se para Amber.
— Há tanta coisa que preciso falar para você...
O coração de Amber acelerou, mas ela conseguiu se controlar e respondeu
calmamente:
— Eu sei. Nós temos mesmo muito que falar, mas agora não é o momento.
O suspiro que Reece exalou tinha um quê de frustração.
— O problema é que...
— Olhe, papai! — Brittany vinha ao encontro deles carregando um gato branco e
preto nos braços. — Ele veio direto para mim.
— Querida, é um gato de rua.
— Mas ele me escolheu.
— Ponha-o no chão, por favor. — Brittany obedeceu.
— Eu quero um gato de seis dedos — disse em tom súplice.
— Precisa pedir para sua mãe e Mike antes.
A menina fez uma careta, mas logo voltou a correr atrás dos gatos, exclamando:
— Eles são tão lindinhos!
Amber riu, marota, ao se juntar a Reece.
— Agora sim, você tem pelo que me agradecer. Eu poderia ter dito o quanto é fácil
cuidar de um gato em um barco.
Levando o dedo indicador aos lábios dela, Reece murmurou:
— Shhh!
Ela riu, enquanto deixava que ele a envolvesse pelos ombros. Passaram pelos
gatos e foram precisos mais alguns instantes para que, após respirar fundo, ele dissesse:
— Tenho que partir.
O coração de Amber falhou uma batida. Só quando ele a olhou nos olhos é que
caiu em si.
— Quando?
— Amanhã.
— Oh! não! — Fechando os olhos, sentiu o pânico tomar conta de seu ser.
— É por pouco tempo — tranquilizou-a Reece, segurando seu rosto entre as mãos.
— Eu não partiria permanentemente antes de resolver as coisas entre nós. Lógico que sabe
disso.
— A-acho que sim. Só me pegou de surpresa.
— Eu sei. Desculpe contar assim de supetão. A realidade é que Joyce vai se casar
no domingo. Brittany tem que estar lá e precisa que eu esteja com ela.
— Sua ex-esposa vai se casar de novo? — perguntou Amber.
— Não contei que ela planejava fazer isso?
— Eu... Você comentou alguma coisa, mas tive a impressão que não era tão
iminente.
— Nem eu. Aparentemente ela quis aproveitar já que Brit vai ficar comigo para
viajar em lua-de-mel.
— Foi por isso que ela fugiu, não foi? — deduziu Amber.
— Você me surpreende constantemente — disse ele. — Sim, foi por isso que ela
fugiu. Tinha na cabeça que eu poderia evitar o casamento. Tive de fazê-la compreender
que isso não era verdade.
— Quando você volta?
— Não sei ao certo — respondeu ele com honestidade. — Estou deixando meu
barco aqui, claro, e reservei passagens de volta para daqui a uma semana. Tenho assuntos
para resolver no Texas, mas nada que leve muito tempo. Assim que eu souber onde vou
ficar, ligo para você. E volto o mais depressa possível. Entende que Brittany voltará
comigo?
— Claro.
— Quando eu voltar — continuou ele, muito sério — nós dois teremos uma longa
e importante conversa. Há coisas que preciso lhe contar, que já deveria ter contado mas
não tive chance. Então espero que possamos falar do futuro. Do nosso futuro.
Amber levantou os olhos para ele, lutando para conter as lágrimas.
— Eu esperarei ansiosa por isso.
Reece inclinou-se e juntou sua testa à dela.
— Tenho sentido saudade de você — sussurrou ele.
— Se Brittany não precisasse tanto de mim nos últimos dias eu nunca teria me
afastado.
— Eu compreendo. E me sinto do mesmo jeito. — Naquele instante, Brittany
chegou esbaforida.
— Estou cansada — reclamou a menina. — Nós estamos andando para algum
lugar, não é?
— Certamente estamos — respondeu Amber segurando a mão dela.
Pouco depois chegaram ao edifício onde Amber morava. Pararam na calçada, e
Amber afagou o rosto de Britt.
— Fico feliz por ter tido a chance de conhecer você.
— Era impossível saber o que se passava na cabecinha da menina. — Cuide-se e
volte logo.
Brittany assentiu.
— Obrigada por me levar no passeio.
— O prazer foi meu.
Reece apontou para uma espreguiçadeira próxima à escada.
— Querida, por que não descansa um pouco enquanto eu acompanho Amber até a
porta?
Não era bem uma sugestão, mas uma ordem. Brittany acatou-a sem reclamar.
Reece e Amber galgaram os degraus vagarosamente, tentando prolongar ao
máximo o tempo que restava.
No alto da escada, ele segurou a nuca de Amber e disse:
— Não posso deixá-la esperando muito, mas uma coisa eu quero dizer antes de
partir. Não importa o que aconteça, pense em ir embora daqui comigo. Sei que é
problemático, mas poderá dividir a cabine com Brittany. Pretendo falar com ela a respeito
antes de voltarmos. Pensará nisso? E sério.
— Está bem.
— Bom, porque não pretendo partir novamente sem você.
— É bom ouvir isso — murmurou ela.
Então Reece a beijou, longa e intensamente. Era uma coisa doce, ao mesmo tempo
uma separação e uma promessa. E deixou a ambos ansiando por mais. Depois ele a
abraçou. Por fim se separaram.
— Voltarei o mais depressa que puder.
— Eu estarei esperando.
Ele sorriu, depois se virou e desceu os degraus. Amber ficou parada, vendo pai e
filha se afastar rua abaixo, acenando antes de dobrarem a esquina.
Nunca se sentira tão feliz e tão triste ao mesmo tempo, com vontade de rir e de
chorar, tão esperançosa e tão despojada.
Estou amando, pensou ela, cheia de assombro e pavor dos sentimentos que a
dominavam. Tinha consciência de que contaria cada minuto até estar novamente ao lado
de Reece.
Reece telefonou na sexta-feira, explicando que o voo havia atrasado em Miami,
fazendo-os aterrissar em Houston tarde da noite. Deu-lhe um número de telefone e ao
mesmo tempo se desculpou dizendo que não seria fácil encontrá-lo.
Aparentemente ficara acertado que ele compareceria ao casamento da ex-mulher
em um esforço conjunto pela filha. Para tanto, seria necessário providenciar roupas
adequadas e, claro, um presente de casamento.
Iria até Galveston para visitar o irmão mais velho no sábado. Para depois do fim
de semana, os planos de Reece não eram muito claros. Pelo menos, não para Amber. Só lhe
disse que tinha negócios a resolver e levaria uns dois dias para fazê-lo.
Ela não pensou muito nisso. O que quer que tivesse de fazer, não era da sua conta.
Ou pelo menos era o que ela pensava até pegar o táxi de Walt na segunda-feira à noite e
encontrar Danny Bello no banco de trás.
Estava sem o uniforme, mas mesmo assim parecia imbuído de uma missão
profissional. Ou quase isso.
— O que aconteceu? — perguntou imediatamente a Walt.
— É o que eu gostaria de saber — respondeu ele solenemente. — E eis por que
pedi a Danny que me ajudasse a procurar o tal Carlyle.
— Você fez o quê?
— Só ouça o que nós encontramos, antes de fazer qualquer julgamento — pediu
ele. — É coisa importante, Amber.
Ela revirou os olhos. Walt ultrapassara os limites desta vez, e não aceitaria isso
calada.
— É absurdo, isso. Não acredito que você foi tão longe a ponto de investigar
Reece.
— Eu sei, mas...
— Mas nada! Ele é um bom homem e eu sou louca por ele. Você entende isso?
— Ele é amigo do seu pai! — Walt disparou. Amber o ouviu, mas demorou algum
tempo até as palavras fazerem sentido.
— Do que você está falando? Isso é absurdo! Se Reece conhecesse meu pai, teria
me contado.
— Eles tiveram negócios juntos por anos — insistiu Walt. Um dia antes de partir
em viagem, ele esteve em Dallas, na casa do seu pai. Ele veio para cá à sua procura,
Amber, a mando do seu pai.
— Você não pode provar isso — sussurrou ela. Não podia ser... Ele teria lhe
contado.
De repente, tudo o que Reece havia lhe dito na noite antes de partir lhe voltou à
memória sob nova perspectiva.
Há coisas que preciso lhe contar, coisas que eu deveria ter contado antes... O que
quer que aconteça, por favor, pense em deixar a ilha comigo. Porque não pretendo partir
novamente sem você.
Que maneira melhor de convencê-la a partir que fingir estar apaixonado por ela?
Claro, era tudo parte de um plano!
Amber sentiu o sangue gelar nas veias.
Sem dúvida, após convencê-la a deixar a ilha com ele, pretendia entregá-la
diretamente para seu pai. "Para o seu próprio bem." E pensara que Reece a compreendia...
Um pai dedicado e amigo fiel como Reece facilmente se condoeria da situação de
seu próprio pai. Estava em uma missão heroica de reunir pai e filha.
Os fins justificavam os meios, não era mesmo?
Tremendo por dentro, Amber se virou para Danny e perguntou:
— Como você descobriu?
— Um colega meu em Dallas fez algumas perguntas, e não foi difícil. Ambos são
pessoas importantes e conhecidas. Eles se conhecem há uns seis ou sete anos, desde que
Reece fez uma consultoria para seu pai. E jantou com seus pais antes de viajar.
Ele nunca dissera que a amava. Apenas pedira para partirem juntos. E no começo
ele havia insistido demais, no assunto das desavenças entre ela e o pai, a favor do pai.
Mais tarde mudara de tática e a abordara romanticamente. Tudo fazia sentido agora.
Dor e mágoa perpassaram Amber. Cobriu o rosto com as mãos, lágrimas quentes
banhando-lhe as faces. Fora enganada, ludibriada. Sua vida que parecia cheia de
esperança e promessas até recentemente, agora afundava em uma espécie de limbo
sombrio.
Pediu que Walt a levasse para casa. Lá, mergulhou na solidão de seu quarto.
Prosseguiria com sua vida, fazendo o possível para que seu coração partido não
interferisse.
Não falaria com Reece novamente, apenas para dizer que não o veria mais.
Quando Sharon a avisou que ele havia ligado para dizer que estaria de volta à ilha
no dia seguinte, exatamente uma semana após ter partido, Amber não fez nenhum
comentário.
Recolheu-se ao quarto para pensar. Era assustador perceber que algo mudara
profundamente nela, e para pior. Quase não se reconhecia mais, tamanha a raiva e o
ressentimento em seu coração. Temia reencontrar Reece por uma única razão: não sabia do
que seria capaz.
Reece desembarcou no aeroporto de Key West e olhou ao redor, apreensivo.
Amber não estava lá, conforme ele esperara.
Lembrou-se da resposta seca de Sharon, ao telefone:
— Ela não quer mesmo falar com você. — E desligara.
Conhecendo Sharon, Reece não dera muita importância. Não era verdade, não
podia ser. Amber o amava. Ele esperava, acreditava que passariam a vida juntos.
Foi direto até um telefone público e ligou para o apartamento para avisar que ele e
Brittany haviam chegado. Dessa vez Linda atendeu e disse que Amber não queria falar
com ele.
— O que aconteceu? — perguntou ele, desarvorado.
— Não sei... — O tom de voz dela tornou-se mais baixo e confidencial. — Ela me
disse para não falar com você. Disse que não quer ver você nunca mais... Eu não sei, não
entendi também.
Reece despediu-se e ficou parado com o telefone mudo na mão, sem saber o que
pensar.
O que teria acontecido? E o mais importante, como consertar a situação?
Brittany fez as mesmas perguntas no táxi, mas ele não sabia as respostas.
— Sou eu, papai?
— Não, querida. Não, não, Amber gosta de você. Ela me disse isso.
— Pode ser que goste, mas não quer ser minha madrasta. Talvez, se eu disser que
vou ser boazinha, ela mude de ideia.
— Querida, não será preciso. Juro que não é nada com você.
Lembrou-se da discussão com o pai de Amber dois dias antes. Quase haviam
chegado às vias de fato. Ela tinha razão quanto à irracionalidade de seu pai no que lhe
dizia respeito.
Referia-se a ela como "meu bebê", "minha menininha", e quando Reece lhe contara
sobre o envolvimento, Robert se enfurecera, acusando-o de traição.
A altercação chegara a um ponto tal que Reece parará de argumentar, deixando a
casa do amigo após informar que se casaria com Amber, com ou sem a aprovação dele. Ou
Robert aceitava os fatos ou ficaria sem a filha e sem os netos que estavam por vir. A
menção de netos, Robert quase tivera um ataque. Mais tarde, Happy, mãe de Amber,
ligara para o hotel onde Reece estava hospedado para dizer que ela, ao menos, desejava
que eles fossem felizes. E que esperava que o marido fosse melhor avô do que pai.
Essas eram as novidades que Reece queria desesperadamente contar a Amber. E
talvez minimizar sua falha por não ter sido sincero desde o início.
Poderia Amber ter descoberto a ligação entre ele e seu pai, durante sua ausência?
Achava pouco provável, mas mais improvável ainda era que a razão fosse Brittany.
Não, tinha de ser alguma outra coisa. Fosse o que fosse, ele descobriria um jeito de
resolver o problema.
A noite passou em uma agonia insone. Já era quase manhã quando o sono
finalmente chegou para Reece. Pouco depois, no entanto, um ruído familiar o despertou.
Era o ruído de um motor de barco. Do seu bote. A conclusão foi lógica. Brittany ou Amber.
Ou ambas!
Atirando para longe as cobertas, pulou para fora da cama e vestiu-se correndo. O
pressentimento terrível se confirmou quando ele abriu a porta da suíte. Brittany não
estava no outro quarto, nem em parte alguma do veleiro. Gritou o nome dela.
Silêncio.
Aterrorizado, constatou que o bote não estava atrelado ao barco.
Talvez se eu lhe disser que serei boazinha...
As palavras da filha lhe vieram à cabeça. Lembrou-se que ela perguntara onde
poderia encontrar Amber. Dissera que era mais fácil encontrá-la no restaurante, mas
jamais imaginara que Brittany fosse agir por conta própria.
Mesmo tendo ensinado à filha como manobrar o bote, ela nunca o fizera sozinha.
Eram muitos os barcos ao redor deles... e as ondas, o mar!
Sem pestanejar, Reece arrancou a camiseta e os sapatos e se lançou ao mar,
disposto a chegar à terra firme a nado.
Amber caminhava sem olhar para lado nenhum.
Desde que recebera a notícia, dispensara a carona de Walt e ia e voltava do
trabalho a pé.
A visão de Danny no banco de trás ainda era muito vivida e dolorosa para voltar a
encarar o carro.
Estava na alameda próxima ao restaurante quando uma figura conhecida surgiu
do nada.
Esguia, os longos cabelos despenteados e a roupa amarrotada como se tivesse
dormido vestida.
Amber olhou em volta, esperando encontrar Reece por perto.
— Brittany, o que está fazendo aqui? Onde está seu pai?
— Eu vim sozinha. Precisava ver você e sabia que ele não deixaria, mas tinha que
te dizer uma coisa.
Amber não sabia se ficava aliviada ou desapontada. Olhou ternamente para a
criança, cujos tênis estavam ensopados.
— Você fugiu de novo, não foi?
— Não exatamente. Se me apressar volto para o barco antes que ele perceba que
eu saí.
— Brittany, você não pegou o bote, pegou? — A menina estava claramente
perturbada.
— Só queria falar com você, não tinha intenção de fazer nada errado.
A vontade de Amber era dar meia-volta e sair dali correndo, mas não podia fazer
isso. Além do mais, Brittany parecia prestes a cair em prantos.
Resignada, Amber assentiu.
— Tenho que trabalhar logo, mas podemos conversar por alguns minutos. Diga, o
que houve?
A garota mordeu o lábio antes de falar.
— Precisa acreditar em mim, eu juro que não serei má para você. Juro que nunca
mais vou fugir. E pense que na maior parte do tempo nem vou morar com vocês.
Amber franziu a testa.
— Do que está falando, querida?
— Sei que brigou com meu pai por minha causa! Mas eu não vou mais fugir, nem
tentar juntar papai e mamãe. Ela até já se casou com Mike, e papai não a ama, ele ama
você!
— Está enganada, querida, não foi por isso que terminei com seu pai.
— Então por que foi?
— É muito complicado explicar. Não quero criticar seu pai para você, mas
ninguém é perfeito. Ele não me falou a verdade sobre uma coisa muito importante.
— Papai sempre fala a verdade.
— Não desta vez. Mas não se preocupe, meu bem, nada é culpa sua, certo?
— Tenho que me preocupar, nunca vi meu pai tão triste como ontem. Ele quer
casar com você, ele me disse isso.
Aquilo penetrou como uma flecha nos ouvidos de Amber, mas antes que tivesse
tempo de se recuperar, avistou Reece caminhando na direção delas. Todo molhado e
semidespido, abraçou a filha.
— Desculpe, papai, mas eu precisava vir pedir a Amber...
— Pedir o quê?
— Para ela casar com você. Papai, você não mentiu para ela, mentiu? Diga que
não.
Ele olhou com tristeza para Amber e respondeu:
— Sinto muito decepcioná-la, querida, mas eu menti, sim.
— Mas, papai...
— Primeiro menti porque temia que a verdade nos afastasse, depois por medo de
perdê-la.
Amber, até então quieta, se manifestou. Incapaz de ouvir mais nada, com lágrimas
nos olhos, falou:
— Preciso ir trabalhar.
— Por favor, Amber, me deixe explicar — implorou Reece.
Oh! quanto ela gostaria disso! Mas não ousaria.
Reunindo toda sua coragem, virou-se e, a passos rápidos, se afastou dali. Só queria
se esconder, fugir, ir para longe de Reece. Ele admitira ter mentido. E isso ela jamais
esqueceria ou perdoaria. Aquelas lágrimas que lhe molhavam o rosto iriam secar um dia.
E, junto com elas, a dor que esmagava seu peito.
Um dia...

CAPITULO X

Reece viu Amber desaparecer dentro do restaurante, sem se importar com a água
que pingava de seus cabelos nem com o estado de seu short. A imagem do rosto dela
ainda o assombrava. Sentia-se esmagado pela dor que presenciara em seus olhos, uma dor
pela qual ele era responsável. Infligira-lhe tal sofrimento por egoísmo. Omitira a verdade
para não complicar a sua vida.
Tinha que reparar isso a qualquer custo. De alguma maneira, precisava acabar
com o sofrimento de Amber. Tinha de apagar a mágoa daqueles olhos tão queridos! A
questão era, como?
O contato macio da mãozinha de Brittany na sua o arrancou do devaneio.
— Perdoe-me, papai.
Em um esforço sobre-humano, Reece sorriu para a filha, tentando consolá-la.
— Nunca mais saia para lugar nenhum sem minha expressa permissão, mocinha,
até ter idade suficiente para votar. Estamos entendidos?
A garota baixou a cabeça e fez que sim. Emocionado, ele acrescentou:
— Mas obrigado por tentar ajudar. — Ela apertou com mais força a mão dele.
— Ela ainda ama você, papai. Ela me disse.
— Quando?
— Agorinha.
— O que ela disse exatamente, meu bem? — interrogou Reece com um fio de
esperança.
— Que até podia amar você, mas que você tinha estragado tudo mentindo para
ela. Ou coisa parecida.
O desapontamento o invadiu novamente. Aquela não era bem uma declaração de
amor, mas pelo menos já sabia o que estava acontecendo, o que era um avanço.
Precisava fazer Amber ouvir sua versão da história. Fazê-la entender que agira
assim por amor. E que nunca mais faria algo tão idiota.
De repente estava fazendo planos para tê-la de volta. Se houvesse uma
possibilidade, por menor que fosse, de reconquistar Amber, já valeria a pena viver. E lutar.
A primeira coisa a fazer era voltar para o barco e tomar um banho. Fazer-se
apresentável e então procurar Linda. Sentia que tinha na jovem uma aliada.
Sua mente fervilhava ao caminhar para o porto, a tal ponto que até o desconforto
dos pés descalços passou despercebido.
Amber olhou para a escada e suspirou, desalentada. Parecia mais alta que nunca.
O esforço para escalar cada degrau era demasiado para ela. Sabia que aquela exaustão se
devia ao seu estado emocional, uma vez que o movimento fora calmo no restaurante,
naquele dia.
Dessa vez, aceitara a carona de Walt, temendo reencontrar Brittany e Reece.
Seguida pelo amigo, subiu pesadamente os degraus e suspirou ao chegar ao topo. Quando
girou a maçaneta e abriu a porta, não estava preparada para o que viu no interior da sala.
Sentado no sofá, Reece a aguardava.
— Precisamos conversar — disse ele sem rodeios. Amber titubeou, apoiando-se no
batente da porta.
Mas seu olhar teve tempo de captar a visão de Reece.
Em nada se assemelhava com o que vira pela manhã, quando mais parecia um
pintinho molhado. Agora, bem-vestido e penteado, com os cabelos cortados, tinha uma
aparência clássica e elegante. Podia imaginá-lo com a mesma desenvoltura em um veleiro
quanto em um salão de baile. De traje de banho ou de smoking.
— O que está fazendo aqui? — interpelou-o Walt.
— Linda me deu a chave.
Com o rosto rubro de raiva, Walt apontou para a porta.
— Saia!
— Não — retrucou Reece sucintamente.
— Onde está Linda? — perguntou Amber, recuperando a voz.
— Com Brittany.
Amber sabia que Reece não deixaria a menina sozinha. Linda tinha tomado o
partido de Reece desde o começo, por isso não era de estranhar que o tivesse ajudado.
— Vamos acabar logo com isso. Diga logo o que acha que tem a dizer.
Falou isso repetindo para si mesma que não o estava encorajando, apenas
colocando vim ponto final naquele tormento.
— Quero dizer que vim até Key West para ver você a pedido de seu pai —
confessou ele.
— Conte algo que ainda não saibamos — ironizou Walt.
Amber fez um sinal para que Walt se calasse.
— Meu pai advertiu você para não me contar, não foi?
— Exato. Disse-me que você não falaria comigo caso soubesse da minha amizade
com ele. E estava certo quanto a isso. Mas só quanto a isso.
— Deixe-me adivinhar o que mais ele falou sobre mim. Que sou indisciplinada,
mal-agradecida, uma criança irresponsável, enfim.
— Talvez, mas ele ama você. Do jeito dele, mas ama. Só que demonstra isso
querendo controlar sua vida.
— E como chegou a essa conclusão brilhante? — questionou Amber.
— Fui vê-lo durante minha viagem ao Texas.
— Foi fazer seu relatório, claro — disse ela, acusadora.
— Fui dizer que eu pretendia... Que pretendo me casar com a filha dele.
Demorou um pouco para Amber assimilar o significado do que Reece acabara de
dizer.
— Deve ter sido uma conversa e tanto!
— Bem, ninguém saiu de nariz quebrado, mas chegou bem perto disso —
murmurou ele.
— O que ele disse? — quis saber Amber.
— Tudo o que você já imagina. Que você é uma criança, imatura, que eu sou um
canalha e estou me aproveitando da sua inocência. Discutimos e eu disse que você estava
absolutamente certa em querer se afastar dele. E que eu ajudaria você a se manter longe
dele até que você fosse tratada naquela casa com o respeito que merece. E que ele podia
escolher entre isso ou ser privado do convívio com a única filha e os futuros netos.
— Pronto, já disse o que tinha para dizer, agora Amber precisa de sossego —
intrometeu-se Walt.
— Não venha dizer do que Amber precisa ou não! — Reece virou-se para ele,
exaltado. — Você é que precisa entender que ela não está interessada em você, comigo por
perto ou não!
Os olhos de Walt pareciam querer saltar das órbitas. Por alguns segundos ficou
paralisado, como se soubesse que a única outra opção era avançar para cima de Reece, o
que, no fundo, não queria fazer.
Reece olhou novamente para Amber, o tom de voz mais controlado.
— Eu nunca quis enganar, você, Amber. Você mesma sabe muito bem que se eu
tivesse contado a verdade, teria perdido todas as chances. Eu só estava esperando o
momento certo de falar.
— Você não pode dar ouvidos a ele! — bradou Walt, saindo do transe.
— Este assunto não lhe diz respeito! — gritou Reece.
— Tem razão! Diz respeito a Amber, e ela não quer saber de você, portanto volte
para o seu barco e nos deixe em paz!
— Não vou a lugar algum sem levar Amber comigo! — revidou Reece.
Ambos olharam para Amber, que permanecia imóvel e em silêncio no meio da
discussão. Agora chegara o momento de se manifestar.
— Na verdade, acho que deveríamos conversar sobre isso em outro lugar — falou
calmamente.
— Não está falando a sério! — exclamou Walt, a indignação estampada nos olhos.
— Você não precisa dele. Nós não precisamos dele para estragar tudo de novo!
— Walt, não existe nós — disse Amber com firmeza. Reece tomou a mão de
Amber e por um momento ela permitiu isso. A expressão de Walt era de horror e mágoa.
De desapontamento e ira.
— Eu nunca menti para você, Amber — disse ele.
— Tem razão, Walt. Mas de certa forma eu menti para você. Porque nunca lhe
disse exatamente o que eu sentia. Nunca fui clara o suficiente para que soubesse que
sempre o quis como amigo, só como amigo.
Reece apertou a mão dela, mas Amber não se deu conta, a atenção focada no
amigo querido.
— Se você me der uma chance, Amber...
— Esqueça, Walt. Você é perfeitamente feliz nesta ilha, leva sua vida com
despreocupação, no seu estilo tropical e divertido. Eu não.
— Eu poderia...
— Walt, além de tudo, eu não amo você.
— Você vai voltar para ele? — indagou, em tom de acusação.
Amber não respondeu. Nem ela própria sabia a resposta.
— Nós só vamos conversar.
— E só o que eu peço — disse Reece mais que depressa. — Vamos para o barco.
Decidiremos juntos para onde iremos quando sairmos de Key West.
Ela mordeu o lábio inferior.
— E se eu não puder perdoar você? Porque eu não tenho certeza se vou poder,
entende isso?
— Só lhe peço que fique comigo esta noite — implorou Reece com voz rouca. — E
se depois disso você decidir seguir sua vida sozinha e nunca mais tornar a me ver, eu... eu
terei de aceitar isso.
Amber sabia que não podia se negar a fazer o que ele lhe pedia. E não queria
negar. Tudo o que queria era ficar ao lado de Reece, ouvi-lo e dar a si mesma uma chance
de perdoar. Tudo o que queria era ter Reece para sempre.
Ela olhou para Walt, que estava parado no meio da sala.
— Vamos precisar de transporte, Walt — disse ela, com simplicidade. — E Linda
precisará de uma carona de volta para casa.
Por um momento, ela pensou que ele se recusaria a levá-los, mas isso não
aconteceu.
— Se é isso que você quer...
— É, sim. Obrigada, Walt.
Com a cara amarrada, Walt abriu a porta e saiu do apartamento. Amber sentou-se
na frente, ao lado dele, e Reece foi atrás. O trajeto transcorreu em silêncio absoluto.
Quando chegaram ao local onde o bote estava amarrado, foram recebidos
efusivamente por Brittany. Linda se despediu e entrou no táxi, enquanto Amber subia no
bote.
Ao se despedir de Walt, Reece não pôde deixar de dizer:
— E óbvio que Linda é louca por você, não percebe?
— De jeito nenhum! Estamos sempre discutindo...
— Você estava tão ocupado que nunca enxergou isso. Pense bem, a menos que
você não seja tão esperto quanto eu acho que é.
Em seguida deu meia-volta e encaminhou-se para perto de Amber, sem olhar para
trás.
No veleiro, Reece fez o jantar enquanto Brittany falava sem parar e Amber
admirava o poente em silêncio.
Comeram sem muita vontade, e quando Amber começou a tirar a mesa, Brit
ofereceu-se para ajudar. Enquanto a menina terminava de guardar a louça, Reece chamou
Amber, do convés. Não sabia como iniciar o assunto, e durante algum tempo
permaneceram sentados no tombadilho, em silêncio. Até que Amber decidiu quebrar o
gelo.
— Naquela noite... você teria feito amor comigo? — perguntou, trêmula.
Reece enfiou as mãos nos bolsos.
— Sim. Se você tivesse permitido. Você teria?
— Sim.
— Fiquei feliz por sermos interrompidos.
— Por quê?
— Porque quando eu fizer amor com você, todas as vezes que eu vier a fazer amor
com você pelo resto de nossas vidas, quero que só haja honestidade entre nós.
— É um pouco tarde para isso não acha? — replicou ela.
— Não, não acho. Seria se tivéssemos feito amor naquela noite. Mas agora ainda
existe a chance de eu corrigir meu erro.
— Acha mesmo que isso é possível? — Uma chama de esperança iluminava o
coração de Amber.
— Tem que ser possível. Você preencheu a minha vida de uma maneira que eu
não sonhava ser possível, Amber. Você é o ar que eu respiro, não consigo imaginar meu
futuro sem você.
Ela permaneceu em silêncio, olhando para Reece, as lágrimas toldando-lhe a visão.
Sem se conter, ele se levantou e a abraçou. Amber se aninhou contra o peito musculoso,
fechou os olhos e deixou de lutar contra o amor que sentia por aquele homem.
— Se você mentir para mim de novo... — começou ela.
— Nunca mais! — jurou ele. — Nunca mais! Eu lamento tanto, querida... Devia ter
te contado desde o início, mas tive medo de perder você. Cada vez mais eu te queria, e
cada vez tinha mais medo. Sei que não é desculpa, mas foi só por amor que eu menti. O
que sinto por você é muito forte.
— Sinto o mesmo por você. Por isso fiquei tão mal quando descobri que você tinha
me enganado.
— Isso significa que me perdoa e que vai se casar comigo?
Amber sorriu e seu rosto se iluminou.
— Posso me casar com você agora e deixar o perdão para depois?
— Está gostando de me deixar aos seus pés, não está?
— Talvez...
— Amber, minha vida começou aos trinta e oito anos, no dia em que conheci você.
Meu único sonho é ter você como minha esposa e mãe dos meus filhos. Casa comigo?
Ela abraçou Reece e sussurrou em seu ouvido:
— Já que eu sonho a mesma coisa, acho que é melhor aceitar... Sim, eu me caso
com você!
Reece a beijou apaixonadamente, e qualquer dúvida que Amber ainda pudesse ter
se dissolveu naquele instante.
— Oh! — Reece interrompeu o beijo e enfiou a mão no bolso. — Estava me
esquecendo... O anel! —Ele colocou no dedo dela um aro de platina com um lindo e
delicado diamante. Do topo da escada, Brittany batia palmas.
— Querido, onde vamos morar?
— O mundo está aí para você escolher, Amber! Com você, vou para qualquer
lugar.
Rindo, ela respondeu:
— Houston, decididamente Houston. Temos uma filha, esqueceu?
Chamando Brittany para junto deles, envolveu pai e filha em um abraço cheio de
amor. Um amor imenso, infinito e eterno.

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