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Capa

ENRIQUE MORIEL

A cidade sem tempo

A história oculta de Barcelona esconde o romance mais apaixonante.

Mais de 100 000 livros vendidos


Badana da contracapa

Enrique Moriel é o pseudónimo de Francisco González Ledesma, nascido


em Barcelona, em 1927. Enrique Moriel é também o nome do protagonista
do primeiro romance do autor, Sombras viejas, proibido pelo regime de
Franco e recuperado recentemente.

Francisco González Ledesma dedicou-se primeiro à advocacia e depois


ao jornalismo, chegando a director do La Vanguardia.

Recebeu o Prémio Planeta 1984 com a Crónica Sentimental en rojo,


livro da série policial de Méndez, de sucesso internacional, que
inclui também El expediente Barcelona, Las calles de nuestros padres,
La dama de Cachemira, Historia de Dios en una esquina, El pecado o
algo parecido (Prémio Dashiell Hammett 2003), Cinco mujeres y media e
Uma Novela de Bairro (Prémio RBA 2007). Recebeu o Prémio Pepe
Carvalho 2005, um reconhecimento da sua carreira como autor de
romances policiais, assim como o Prémio Ciudad de Barcelona de Cinema
e o Prémio Roda Ventura pela Ordem dos Advogados.

A Cidade sem Tempo, um grande sucesso editorial publicado em dez


países, conquistou mais de 100 000 leitores.
Badana da contracapa

Outros títulos da Livros d’Hoje

A ESCRAVA DE MARFIM Almudena de Arteaga

O ÚLTIMO CATÃO Matilde Asensi

MISTÉRIO EM CHINATOWN William C. Gordon

O CORRESPONDENTE Alan Furst

TUDO DEBAIXO DO CÉU Matilde Asensi

O LEGADO DOS TEMPLÁRIOS Steve Berry

O PÁSSARO DE PEITO VERMELHO Jo Nesbo

OUT - UMA SAÍDA Natsuo Kirino

Se quiser receber informações sobre os títulos envie o seu e-mail


para: livrosdhoje@leya.com
Contracapa

Um homem da alta sociedade barcelonesa morre misteriosamente. Marta


Vives, a jovem assistente do advogado Marcos Solana, trabalha no
esclarecimento da verdade.

Ao longo da investigação, Marta não só terá de enfrentar as forças


obscuras que a rodeiam, como também se verá envolvida na luta da sua
família para manter o segredo de uma antiga linhagem da cidade, os
Mesdeu.

Uma aventura emocionante, que é ao mesmo tempo, a grande epopeia de


uma cidade.

Ao seu encontro virá um narrador inquietante, oriundo do submundo


medieval de Barcelona, perseguido pela Inquisição, portador da
bandeira do povo e cujo rosto reencontramos em momentos decisivos da
história da cidade.

Marta e este espírito maldito acompanham-nos numa fascinante busca


através de luzes e sombras, que o fugitivo aponta desta forma: que
prova temos de que no combate entre o bem e o mal, entre Deus e o
Diabo, ganhou o primeiro?
Folha de rosto

Enrique Moriel

A CIDADE SEM TEMPO

Tradução de Pedro Santa Maria

Livros d'Hoje
Ficha técnica

Livros d'Hoje

Publicações Dom Quixote

[uma chancela do Grupo LeYa]

Rua Cidade de Córdova, n.° 2

2610-038 Alfragide • Portugal

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor

Copyright © Enrique Moriel, 2007

© Ediciones Destino, S.A., 2007

Diagonal, 662-664. 080 34 Barcelona

Copyright © Publicações Dom Quixote, 2009

Design: Ideias com Peso

Este livro foi composto com a fonte tipográfica Scala

Título original: La ciudad sin tiempo

Revisão: Lídia Freitas

1ª edição: Julho de 2009

Depósito legal n.° 294 469/09

Paginação: Fotocompográfica, Lda.

Impressão e acabamento: Guide - Artes Gráficas, Lda.

ISBN: 978-972-20-3841-6

www.livrosdhoje.pt
.0.

O OUTRO

Eu venho de anos sem fronteiras, de cidades sepultadas, de cemitérios


que falam, de canções de que já ninguém se recorda. Eu venho de um
tempo amplo. É por isso que nunca sou o mesmo, tal como não é igual a
minha cidade, e é por isso que não posso dar nome às minhas
histórias.

Quando nasci, a grande planície barcelonesa que se estendia para além


da muralha gótica era terra de vício. Lá estavam as mancebias baratas
que não haviam sido aceites na cidade amuralhada e honesta, os
saltimbancos, as gentes do teatro, sempre mortas de fome, os mendigos
e os fora-da-lei.

Eu nasci nessa terra.

Curiosamente, a falta de espaço fez com que, em pouco tempo, a


planície do vício se transformasse na planície dos conventos. A minha
mãe - que aprendera muitas coisas ouvindo as conversas dos clientes -
disse-me que a primeira muralha barcelonesa, a romana, cedo asfixiara
a cidade, ao ponto de esta chegar a estender-se para fora das
defesas, tendo sido necessário, na Idade Média, levantar uma segunda
muralha, aquela que com o tempo se veio a chamar gótica. Descia por
aquilo que agora chamamos a Rambla, que era então uma mera torrente e
que contava com várias portas lindíssimas, como a de Ponferrisa e a
de Canaletas, onde havia uma pontezinha para os cidadãos poderem
atravessar sem risco a corrente de água das Ramblas. Os clientes da
minha mãe sabiam tantas coisas porque eram maioritariamente clérigos.

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Mas a cidade ia crescendo para além dessa segunda muralha. E foi
assim que surgiu a «terra de ninguém» onde eu nasci, era aí que
ficava a mancebia da minha mãe. É claro que muito perto, por
contraste, também se elevavam hospitais como o da Santa Cruz,
conventos que não cabiam dentro das muralhas e quartéis, isto é,
edifícios que mais tarde dariam lugar a instituições tão sacras como
o Liceo. Mas isso não podia explicar-me a minha mãe, porque não
ocorrera ainda, nem podiam adivinhá-lo também os homens que
frequentavam a minha cama.

E foi na sua cama que nasci, sem ter sido atendida por ninguém no
parto.

A minha mãe era uma escrava. E que ninguém se admire.

Que ninguém se admire também de que alguém nos tentasse matar aos
dois.

Esse alguém era O Outro. E não vou referir o seu nome porque ainda
nos cruzamos amiúde.

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.1.

A MORTE BRANCA

Era a primeira vez que Marcos Solana, advogado de estirpes ricas -e,
portanto, especializado em barceloneses que apenas falam de dinheiro
em família -, se via envolvido num assassinato que contava com estes
três elementos: um morto, claro está; um sacerdote católico e uma
fotografia quase centenária que estava exposta num dos corredores do
Hospital Clínico.

«Talvez seja preciso começar pelo morto», pensou Marcos Solana, um


homem educado que por respeito aos seus clientes vestia sempre de
cinzento.

O morto era Guillermo Clave - os seus íntimos chamavam-lhe


Guillermito -, e jazia numa mesa de mármore do hospital, com o corpo
recém-cosido pela autópsia. Mas o que havia de particular no seu caso
era o facto de ele ser multimilionário, como muitas das pessoas que
não trabalham, e morar numa das melhores torres do passeio de
Bonanova; e nunca fora visto no hospital um cadáver tão branco.

E, finalmente, havia o padre, facto normal porque junto às pessoas


ricas que morrem costuma haver sempre um sacerdote católico.

Marcos Solana olhou para ele. O padre Olavide era canónico, camareiro
secreto de Sua Santidade, doutor em Teologia e professor desta
cadeira no Colégio de Roma. Dizia-se que tinha entrada livre nos
gabinetes mais obscuros do Vaticano, que conhecia a história de todas
as criptas e que, de vez em quando, recebia consultas confidenciais
do Papa.

Marcos Solana ainda não tinha visto a fotografia antiga.

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Olhou para o médico forense, um homem alto e magro, sem dúvida já
entrado em anos - isso notava-se em alguma prega do pescoço -, mas
com um cabelo tão preto e uma pele tão lisa e fina que parecia não
ter idade. Estava a tirar as luvas, uma vez concluída a sua tarefa, e
a deixar o espaço livre para que pudessem vestir o cadáver. Quando o
advogado de ricos pousou os olhos naquele corpo, estremeceu.

Os clientes dos advogados ricos surgem sempre pulcramente vestidos,


em qualquer circunstância, em contrapartida, pouco interessa como
possam surgir os clientes dos advogados pobres. Mas Guilhermito Clave
significava naquele momento uma dupla novidade para ele: nunca o vira
despido - essa agora! - e, portanto, reparava agora que era um homem
grande, disforme e, aparentemente, sem nenhuma dignidade. Mas isso
também não é de espantar em burgueses já maduros que nunca fizeram o
mais pequeno exercício, excepto acariciar mulheres, viver sob a
tutela dos melhores restauradores, que nunca trabalharam e que de
repente se vêem confrontados com a ausência do seu alfaiate. Era uma
novidade relativa para um homem como Solana; mas a segunda, essa é
que era mesmo uma novidade absoluta: nunca tinha visto um cadáver tão
branco.

Perguntou ao médico forense se era normal.

- É claro que é normal - disse o médico com voz neutra, preparando-se


para lavar as mãos. - A morte não costuma deixar-nos com o nosso
melhor aspecto, embora nem sempre seja branca: é precisamente pelas
tonalidades do cadáver que adivinhamos muitas coisas. Mas tenho de
reconhecer que nunca vi um cadáver tão exangue.

Marcos Solana perguntou:

- O que quer dizer exactamente isso de exangue?

- Exactamente o que a própria palavra indica: simplesmente, que não


há no corpo uma gota de sangue. E isso é o que mais me surpreende,
porque nunca me tinha deparado com um caso assim, nem em grandes
mutilações. Este homem... Como se chama?

- Guillermo Clave, mas todos o chamavam Guillermito.

- ... A este homem parece que lhe tiraram o sangue com uma máquina
aspiradora, se bem que essa não seja a explicação técnica. Repare
neste orifício no pescoço, exactamente na jugular. Pode ter perdido
todo o sangue por aí, mas acho estranho que isso tenha acontecido tão
rapidamente.

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E ainda acho mais estranho que, segundo a polícia, quase não houvesse
rastos de sangue na cama dele quando apareceu morto. O lógico seria
que todo o quarto tivesse ficado materialmente tingido a vermelho.

- E o que provocou esse orifício?

- Isso é ainda mais incrível: eu diria que a mordidela é de um animal


pequeno, provavelmente uma ratazana ou um gato. Evidentemente, na
casa de grande luxo em que vivia... O Cuillermito?... Não podia haver
ratazanas, e disseram-me que também não havia gatos. Além disso,
nenhum destes animais bebe sangue; é por isso que a minha confusão é
absoluta. Vou ter de pedir ajuda aos meus colegas e, assim sendo, por
enquanto o cadáver deverá permanecer aqui, no depósito do Clínico.

- É impossível - disse de uma forma maquinal Marcos Solana, sem


reflectir.

- Impossível? Porquê? E quem é exactamente o senhor?

- Disseram-lhe antes de me autorizar a entrada: sou Marcos Solana, o


advogado da família. Uma família da alta burguesia barcelonesa, como
o senhor já deve saber. Se a morte de Guillermo Clave for apresentada
como um mistério insolúvel, o nome da família será rodeado de todo o
género de especulações, e os negócios dos Clave irão sofrer as
consequências disso. Embora o senhor Guillermo não trabalhasse, os
seus apoderados movimentam muito dinheiro. Acho normal que sejam
feitas todas as investigações que o senhor quiser, mas o enterro não
deve demorar. Deverá parecer uma morte digna... digamos... de boa
família.

O padre Olavide olhou então para o cadáver, para o que teve de dar
uma volta completa à mesa. Observou a incisão de que o médico forense
falara. Apesar dos seus muitos diplomas - entre os quais constava o
de académico de História - não tirou nada a limpo, embora tivesse
conseguido chegar a uma ou outra conclusão. O padre Olavide dera
muitas conferências na Real Academia de Medicina, no edifício
medieval do Hospital de San Pablo, e tinha a fama de ser o sacerdote
barcelonês que mais mortes ilustres tinha investigado. Mas o seu
rosto desenhou um esgar de dúvida.

- Não percebo nada - disse.

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Passeou as mãos pela frente da batina, como que a acariciá-la, e
voltou a passar para o lado oposto da mesa. Os sacerdotes
barceloneses já não costumam usar batina, mas o padre Olavide usava.
Fez um sinal ao advogado Marcos Solana:

- Peço-lhe para falarmos um momento lá fora - murmurou. Uma coisa é


os negócios da família e outra diferente a morte inexplicável deste
homem. Por favor, acredite em mim: a viúva confia em mim tanto quanto
em si.

O advogado acedeu. Não podia fazer outra coisa. Ambos foram até à
porta da sala das autópsias e nesse instante entrou um homem,
certamente um outro médico forense, com um carrinho de mão com
instrumentos cirúrgicos. Tal como o médico que acabara de realizar a
autópsia, parecia um homem sem idade. Alto, magro, de olhar profundo
e inquietante, mãos compridas, passos rápidos, não lhes chamou
particularmente a atenção. Chamou-lhes mais a atenção o carrinho,
cheio de horríveis instrumentos, que aquele olhar profundo e
inquietante. No fim de contas, esses olhares costumam nascer logo nos
tempos de interno, e indicam que o médico ganha pouco. O padre
Olavide passou uma das suas mãos pelos ombros do advogado, colocando-
o assim sob a protecção de Deus. Foram a pouco e pouco por um dos
corredores pétreos do Clínico, daqueles que conduzem ao pátio de
entrada da Faculdade.

Agora há ali paredes novas, e fora uma praça ampla, algumas árvores
e, naturalmente, um parque de estacionamento. Mas as solenes colunas
sob o frontispício estão exactamente na mesma, quando o hospital foi
criado, num descampado fabril que só os pássaros conheciam. Algumas
fotografias, acinzentadas ou sépia, encerradas em molduras baratas,
estavam penduradas na parede. Numa delas via-se o Hospital Clínico
quando foi erigido no horizonte da cidade; numa outra, uma das velhas
salas comuns, presidida por crucifixos; ainda uma terceira, um grupo
de advogados da época: batas brancas abotoadas até ao pescoço,
botins, alguma barba, alguma pêra que a foto deixara parada no tempo.
E, por baixo, um apontamento em caligrafia inglesa: «Serviço de
Urgências, 1916». Serviço de urgências quando arrancar um dente podia
matar por causa das septicemias.

O padre Olavide disse:

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- Podemos falar com a família, que deve ser a primeira interessada em
esclarecer tudo. Não vai acontecer nada se o enterro for adiado mais
um dia.

- Desde que os rumores não alastrem. Podemos sem problema falar de


uma morte por hemorragia, mas nunca de uma morte por assassinato.

- Deixe que tratemos disso com a viúva. Se eu sou confessor dela,


devo ter alguma influência nela, não acha? E da imprensa e dos
círculos comerciais pode encarregar-se o senhor. Ouça... isto é tudo
muito lúgubre, não acha? O velho Clínico conserva ainda uma parte dos
seus fantasmas, sobretudo num momento como este, às onze da noite. E
essas fotos nas paredes, será que não estavam melhor num museu?

Foi então, quando o sacerdote fez esta observação, que Marcos Solana
reparou numa daquelas fotos. Mais concretamente a do grupo de antigos
médicos.

E a cara dele mudou.

As pálpebras tremeram.

Com um fio de voz sussurrou:

- Ouça, eu acabo de ver esta cara...

Apontava para um dos médicos do serviço de urgências de 1916. Mais de


noventa anos desde então, mais de noventa cidades diferentes, mais de
noventa panteões esvaziados e tornados a encher, mais de noventa
bebés levados meticulosamente para a vala. Esse homem, o da foto, que
já nesses tempos era uma pessoa madura, tinha forçosamente de já
estar morto.

O advogado girou nos calcanhares, largou uma espécie de gemido e


desatou a correr para a sala das autópsias. Porque estava convencido
de que ainda agora o tinha visto.

13
.2.

A ESCRAVA

Quando eu nasci, numa casa da rua que muitos anos depois se haveria
de chamar Espalter, aquilo já era um prostíbulo. Mas por cima da
porta não existia a cara.

Outros lugares semelhantes tinham uma à entrada, embora agora julgue


que o sítio onde nasci era tão mesquinho e miserável que nem esse
distintivo podia pagar. Ainda que a casa constituísse uma espécie de
garantia legal. Com a passagem do tempo, aqueles que conheciam a
cidade e os seus prostíbulos passaram a chamá-la «la carassa»: por
vezes, era a imagem em pedra de uma mulher a presidir a entrada da
mancebia, mas geralmente tratava-se da cara de um homem a rir com
aspecto de bêbedo, isto é, um homem feliz. É por isso que costumava
considerar-se que «la carassa», para além de anunciar que ali existia
um prostíbulo autorizado, representava um cliente satisfeito, que
provavelmente teve uma morte santa depois de conhecer todas as
pupilas. Ninguém chegou nunca a imaginar que a cara que mais tarde
houve por cima do dintel representava um ser que nasceu ali - isto é,
eu - e que, ainda por cima, não representava o vício, mas sim um acto
de amor.

Com o passar do tempo, a minha própria mãe mandou colocá-la lá,


depois de poupar durante anos, homem sobre homem e moeda sobre moeda.
À minha mãe, os clientes pagavam pouco porque não podia libertar-se.
Era uma escrava filha de uma escrava.

Se alguém chegar a ler isto (o que eu duvido, porque dizem que aquele
que lê, além de servir mal o seu senhor, excita a imaginação e acaba
na sodomia), espantar-se-á de que, passados mil e quatrocentos anos
da morte do chamado Senhor dos Cristãos, ainda existissem escravos
sob a tutela de Sua Majestade.

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E existiam, é claro que existiam, e disso poderia ter dado fé a minha
mãe.

Apesar de Barcelona ser considerada, em certo sentido, uma cidade


liberal e de ideias avançadas - embora os liberais costumassem acabar
na forca -, as constantes guerras contra o infiel, ou seja, contra os
sarracenos, provocavam a queda de prisioneiros, e estes eram
reduzidos à escravidão, exactamente o mesmo que os infiéis faziam com
os filhos de Cristo. E uma vez que os filhos de Cristo viviam aqui
mais do trabalho do que das bênçãos, utilizavam como mão-de-obra os
escravos machos e como mão-de-cama as escravas fêmeas, que os levavam
sempre a caírem em lamentável tentação, pelo que, sem dúvida,
mereciam o castigo. Entre aquelas que sempre mereceram o castigo
estava a minha mãe.

Os escravos barceloneses, até bem iniciada a Idade Moderna, e por


incrível que possa parecer, não só podiam ser comprados e vendidos,
mas também hipotecados e, portanto, a tentativa de fuga era o pior
delito que podiam cometer, uma vez que prejudicava a seriedade
comercial da cidade. E foi assim que fixaram recompensas para aqueles
que, pensando na prosperidade do país, perseguiam os fugitivos. Estas
recompensas variavam conforme o trabalho e os incómodos que o escravo
desse ao perseguidor: se o fugitivo fosse capturado antes de
atravessar o Llobregat, o captor recebia um modesto «mancus»
(equivalente a um «dinar» muçulmano, de quatro gramas de ouro fino),
mas se para o capturar era preciso arriscar a vida e atravessar este
rio tão caudaloso, o captor recebia uma onça de ouro.

Onde se encontra hoje a rua da Puerta del Ángel, em Barcelona,


existia um mercado de escravos, que podiam ser comprados, vendidos,
emprestados e hipotecados. Uma dama da cidade, segundo me contou um
dia o historiador Durán i Sampere (sem suspeitar que eu já vivera
isto), chegou a ter até sete escravos com boa aparência. O
historiador não me soube dizer quantas escravas, ainda com melhor
aparência, tivera o esposo.

Tendo sido esta sempre uma cidade séria e amiga de apurar bem os
balanços, os donos de escravos podiam contratar um seguro.

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A encarregada de cobrar o seguro era nada menos que a Generalitat, e
eu posso jurar que li - porque sou leitor, mas sodomita ainda não -
que no ano do Senhor de 1431 esta tinha segurados 1478 escravos,
quase todos de Barcelona, e é evidente que de tais seguros se obtinha
um grande proveito para a fé e para os negócios públicos.

A minha mãe, como era bela mas de constituição frágil, não podia
aspirar a um futuro mais ou menos aceitável, como por exemplo o leito
de um comerciante. Ninguém tomou conta dela. Daí que tenha sido
cedida a um prostíbulo modesto, onde todas as brutalidades eram
permitidas. As leis, como eu soube ainda criança, protegiam as
mulheres públicas da morte, e de pouco mais. A minha mãe recebia às
vezes vinte clientes por dia, os bêbedos batiam nela e, no mínimo,
era insultada, ainda que, sendo o dono uma pessoa bondosa, costumava
dar-lhe, por cada cinco homens, um copo de leite obtido de uma cabra
de confiança, porque vivia num dos quartos da casa. Devo a essa cabra
a minha vida, pois havia alturas em que era amamentado directamente
das suas tetas.

Mas ainda antes disso, quem primeiro me salvou foi a minha mãe,
quando O Outro quis acabar com ambos. Como já lhe haviam morto dois
filhos, nascidos também no prostíbulo, a mãe defendeu-me com a raiva
de uma tigresa. Tão grandes foram o desespero e o ódio - pois era
ódio animal que nela havia - que O Outro teve de nos deixar vivos.
Depois, vendo como tudo correu, não sei se lhe serviu de muito.

Mais tarde, muito mais tarde, numa noite tranquila em que ela apenas
tinha de se meter na cama com um prior, contou-me como eu nascera. E
foi aí que soube de todos os abusos a que estivera submetida. Um
deles marcou-me. Naquela noite eu soube que lhe fora imposta a
tortura do cepo.

16
<Mapa de Barcelona – pormenor: omitido>

17
.3.

A VOZ DO BRONZE

O mais alto de todos os sinos situados na catedral de Barcelona é um


chamado «Honorata», que anuncia os quartos de hora aos agitados
habitantes da cidade.

A «Honorata» pesa setecentos e cinquenta quilos e foi fundida em


Agosto de 1865, quando Barcelona era próspera, tinha os primeiros
caminhos-de-ferro de Espanha, as melhores fábricas têxteis, os
comerciantes mais ricos e barrigudos e as meninas da alta sociedade
mais gráceis, porque para marcarem bem a cintura aprendiam a montar
num novo clube de aristocratas chamado Círculo Equestre.

Mas como acontece em todas as cidades velhas, a «Honorata» não era a


primeira «Honorata». O sino que estreou este nome foi colocado no ano
do Senhor de 1393, e servia para marcar a hora aos cidadãos, naquela
época bastante menos ricos. Sino sensato quanto baste, também serviu
para criar postos de trabalho, pois era golpeado nos momentos
acordados pelos «sonadors», e os «sonadors» eram pagos pelo Consejo
de Cento.

Tal como acontece com as cidades antigas, os sinos velhos vivem


momentos heróicos ou, melhor dizendo, sofrem-nos. Porque a
«Honorata», que sobrevivera a tudo desde 1393, foi a mesma que tocou
a rebate durante o cerco a Barcelona na Guerra de Sucessão de 1714,
até que em 16 de Março desse ano os canhões inimigos a destruíram,
enquanto Barcelona era arrasada. A cidade, tão fiel aos seus negócios
quanto aos seus símbolos sentimentais, quis gastar o dinheiro que
tinha a reconstruí-la, embora isso, como tantos outros símbolos, lhe
tivesse sido proibido.

18
Nunca será possível saber com exactidão qual a culpa de um sino que
anunciou o combate, mas os juízes de Sua Majestade Filipe V acusaram-
no de sedição, e a 16 de Setembro de 1716 o sino foi destruído.

Destruído?

O advogado Marcos Solana observou na vitrina o pedaço de bronze do


tamanho de uma mão humana que a viúva de Guillermito Clave lhe
mostrava. A viúva de Guillermito Clave era magra como uma radiografa,
o que deverá ter significado um suplício para o extinto, pois este
gostava de mulheres gordas. A vitrina de lembranças históricas estava
carregada também de objectos que haviam feito dieta: agulhas que a
baronesa de Albí usara para prender o cabelo, conjuntos de alfinetes
com pérolas, fitas que tinham marcado as páginas dos livros santos e
colherzinhas com que as senhoras de boa disposição, que só tinham
cinco filhos, tomaram xarope para a fertilidade. Tudo isso, e ainda o
pedaço de metal.

- É o último pedaço que resta de um sino ilustre, talvez o mais


ilustre da catedral - disse a viúva. - Ordenaram a sua destruição,
mas algumas famílias nobres da cidade ficaram com os seus restos. Ou
o que puderam capturar dos seus restos. O sino era a primeira
«Honorata». Estou convencida de que é o último que resta.

O padre Olavide, que também estava a olhar para ela, disse sem o
mínimo interesse:

- Pois.

Não fora essa a questão que os levara até à Torre da Bonanova, um dos
últimos edifícios verdadeiramente nobres que restam numa rua que se
dedicava às poupanças da cidade e que agora se dedica, através de
prédios de arquitecto, à sua riqueza hipotecária. Ambos tinham notado
que a viúva procurava todo o género de assuntos supérfluos para
evitar o mais importante e que verdadeiramente os levara ali: a morte
do marido e o possível adiamento do enterro. Talvez por causa disso,
acrescentou:

- Eu sei que hei-de morrer nesta casa, mas depois não sei o que lhe
vai acontecer. Talvez os meus filhos a vendam para que a deitem
abaixo e façam prédios de apartamentos caros, assim que eles
repararem na quantidade de milhões que oferecem pelo terreno.

19
Tem sido esse o destino de todas as velhas torres senhoriais
construídas aqui. Sabem em que ano esta casa foi construída?

- Em 1898 - disse Marcos Solana, que como advogado da família o sabia


perfeitamente.

O bisavô Clave voltou de Cuba quando Espanha perdeu a ilha: Espanha


perdera tudo, mas o bisavô Clave não. Ele tornara-se rico a cultivar
açúcar e tabaco. Com uma parte do seu dinheiro comprou aquela terra,
que ficava na parte mais alta de uma cidade apertada, que mal
começara a estrear o alargamento do Ensanche, e edificou a casa. Nela
conservam-se ainda as palmeiras que todos os indianos plantavam como
lembrança da terra de Cuba.

«E das mulheres de Cuba», pensou o padre Olavide, que fora confessor


de três gerações da família.

Mas não disse nada.

Apenas murmurou:

- Senhora...

- Sim?

- Viemos incomodá-la para falar de outra coisa. O juiz ordenou a


autópsia do seu marido, como está no regulamento em casos de morte...
não habitual, e tanto o senhor Solana como eu pensámos que se tratava
de uma burocracia sem excessiva importância, mas não é bem assim. Os
médicos forenses precisam de mais dados, e isso vai atrasar o
enterro.

A nobre radiografia sentou-se numa das cadeiras antigas, estilo


rainha Ana - mais próprias de um quarto de dormir do que de uma sala,
pensou distraidamente o advogado -, e retorceu os dedos angustiada.

- Não sei o que posso eu fazer ou o que pode fazer a nossa família -
suspirou -, mas começo a ficar nervosa e, ainda pior, a sentir-me
embaraçada. Já sabem o que é que se passa?

- Receio que sim - disse Marcos Solana: - as pessoas que não têm mais
nada para fazer começam a comentar. A estranha morte do senhor
Guillermo coincidiu com uma inspecção fiscal em todas as suas
sociedades. Há quem diga mesmo que tinha negócios clandestinos. E o
cúmulo é que há quem ande a espalhar a notícia de que ele se
suicidou.

20
- Há coisas que até agora me pareciam absurdas - ciciou a dama -, mas
que começo a considerar reais, ou pelo menos possíveis. Não sei se os
senhores vão perceber. Quanto mais isto se prolongar, mais problemas
haverá com a herança, e entretanto tudo está imobilizado. E resta
ainda a questão dos créditos... Hoje em dia as empresas não são como
as de outrora, que trabalhavam com fundos próprios; agora precisam
dos bancos. Se houver rumores deste tipo, os créditos serão
suspensos.

- Eu já estou a tratar disso - acalmou-a Solana -, bem como dos


trâmites forenses, para avançarmos com as coisas. Mas reconheço que
nunca me tinha deparado com um caso tão extraordinário como este; por
momentos, cheguei mesmo a acreditar em algo de sobrenatural.

O padre Olavide, que vivia do sobrenatural, perguntou com um certo


tom de gozo:

- A sério?

- Não me diga que não havia alguma coisa de sobrenatural naquele


médico forense que entrou quando nós estávamos de saída - disse o
advogado, sem se aperceber que não era de bom-tom falar disso na
presença da viúva. - Parecia o mesmo que figurava numa fotografia de
há noventa anos. O mesmo, ainda que vestido de uma outra maneira. Foi
por isso que eu corri, por isso tentei alcançá-lo na sala de
autópsias.

- E...?

O tom do padre Olavide, perante as inoportunas palavras do advogado,


exalava um matiz de desprezo. Além disso, sabia a resposta.

- Já não estava - murmurou Marcos Solana. - O médico forense disse


que era um auxiliar dos que tomam conta dos instrumentos, e que não o
conhecia. Parece que lhes mudam os turnos frequentemente. Procurei
por todo o lado, mas já não estava...

- Isso não tem nada de sobrenatural - disse o sacerdote tentando


mudar de conversa. - Um homem parecido com outro... e então? Não
pense mais nisso, Solana, porque ontem à noite todos estávamos
nervosos. Por sinal, senhora, vamos acelerar os trâmites legais na
medida do possível, e para isso preciso de lhe perguntar uma coisa.
Peço desculpa.

21
- É claro... O que quer perguntar? Há alguma coisa que o senhor não
saiba?

- Nós, os sacerdotes católicos, conhecemos muito bem umas quantas


coisas, mas normalmente não são deste mundo. Tudo o mais, fingimos
que sabemos. Por exemplo, não sei o que aconteceu àquela mancha de
sangue que apareceu na cabeceira da cama do coitado do senhor
Guillermo. Era a única que estava à vista. O que lhe fizeram?

Agora quem sabia a resposta era o advogado. Murmurou:

- A polícia analisou-a para saber se era sangue do defunto. Isto é,


se correspondia ao mesmo ADN. Verificaram o do senhor Guillermo, o
que era muito fácil, e depois o da amostra de sangue. Não era da
mesma pessoa. Entre outras coisas, a amostra correspondia a um O -
negativo, e a do senhor Guillermo não.

A viúva levantou-se da cadeira rainha Ana. Foi até uma mesinha junto
da janela, onde havia um autêntico jarro da dinastia Ming. Para além
da janela, na serenidade do jardim, distinguia-se uma palmeira
pertencente a uma dinastia de mulatos. E junto da palmeira, um
jardineiro em cuja dinastia figurava uma mãe que lutou na coluna
Durruti. É claro que a senhora apenas conhecia a parte da dinastia
Ming. Virou-se para a vitrina e apontou para o único resto que se
conservava do sino medieval, aquele que em 1714 confundiu as suas
últimas badaladas como os últimos gritos dos mortos.

Sussurrou:

- É estranho.

- Estranho? O quê?

- Há duas semanas, quando o Guillermito estava vivo, veio ter


connosco uma comissão da Generalitat, uma comissão da Conselleria de
Cultura, já sabem. Professores de óculos que não vêem as suas
mulheres a dois passos, mas vêem a dois quilómetros uma coluna
românica sobre a qual descansava o rabo a rainha Elisenda. Bom,
pediram-me autorização para analisar este resto da «Honorata». A
tradição dizia que deveria estar forçosamente manchada de sangue. E
parece que é verdade: neste fragmento há uma manchinha que, analisada
com os meios mais modernos, revela tratar-se de sangue.

22
Estes meios modernos, que por vezes aparecem na televisão, deixam-me
tonta, porque afinal nunca acabamos de morrer.

- É verdade - reflectiu o advogado em voz alta - deixamos sempre


marcas, e depois de séculos ainda há quem as siga. Por exemplo,
chega-se a investigar a vida sexual das múmias e sabe-se o que comiam
os legionários romanos da antiga Mérida, que por sinal foi um lar de
repouso para aqueles que já não podiam levantar a espada. Bem, e com
esses amantes da rainha Elisenda, o que aconteceu?

- Levaram o resto do sino, jurando devolvê-lo. E fizeram-no. Mas


entretanto analisaram tudo o que havia no metal e disseram-me que, de
facto, havia uma mancha de sangue. Nem imaginam quão felizes ficaram
por causa disso. Deduziram que tinha de ser sangue dos defensores de
Barcelona de 1714. De um deles, vá lá: certamente, disseram, o que
segurava a bandeira. Chegaram inclusivamente a falar-me em comprar o
resto do sino.

- Mas a senhora não precisa do dinheiro.

- Não.

- E o que é que apuraram dessa manchinha de sangue de há três séculos


atrás? Em primeiro lugar, como é que pôde conservar-se?

- Bem, suponho - disse a dama - que não teria podido permanecer num
sino exposto ao ar. Acho que é impossível. Quer dizer, os técnicos
explicaram-me que era impossível. Mas o facto de terem destruído a
«Honorata» foi a sua salvação, porque os restos estiveram sempre
protegidos. Por exemplo, este aqui. Ainda que eu não consiga perceber
porque é que as pessoas gastam dinheiro nessas coisas.

- Investir no passado - grunhiu o padre Olavide - é o consolo de quem


não pode investir no futuro.

E virou as costas.

Entretanto, o advogado perguntara:

- Conseguiram apurar alguma coisa? Suponho que deve ser impossível.


Não podemos obter ADN a partir de uma amostra deste género.

- Suponho que não - disse a dama com indiferença -, nem me interessa.


Não falaram do ADN nem de nada disso. Apenas disseram que tinham
conseguido descobrir qual era o tipo de sangue.

23
- E qual era? - quis saber Marcos Solana.

- O - negativo.

- Como o da manchinha encontrada junto do corpo do seu marido?

- Sim. É curioso... Agora que penso nisso.

O sacerdote virou-se lentamente e deixou de estar de costas para

eles.

24
.4.

O HOMEM DO CEPO

Em certa ocasião, a minha mãe explicou-me como é que eu fui concebido


dentro do prostíbulo. As cortesãs, para as chamar de alguma maneira,
que pariam nas casas dos seus donos só eram levadas ao Hospital da
Santa Cruz em caso de hemorragia ou febre puerperal, porque regra
geral morriam ali, como santas. Os filhos que sobreviviam eram
alimentados pelo dono, que adquiria assim o direito, por sua vez, de
os considerar escravos, vendendo-os e separando-os das suas mães. A
minha tivera, antes de eu nascer, mais dois filhos que nunca voltou a
ver.

Devo dizer aqui algo que ela própria me contou. Quando conheceu o meu
pai aconteceram-lhe duas coisas que, de certo modo, eram espantosas.
A primeira, que se tratava de um cliente realmente garboso e bonito,
o mais belo que alguma vez vira na sua vida de escrava, uma escrava
que se entrega diariamente a verdadeiros detritos humanos. A segunda,
para mim a mais inexplicável, foi ela ter sabido desde o primeiro
momento que iria ficar grávida dele, e precisamente de um rapaz.

Aquele estranho cliente, tão diferente do resto, visitou-a diversas


vezes, sempre à noite, quando as ruas de Barcelona estavam
completamente às escuras. Contou à minha mãe que era marinheiro e que
vinha do Oriente, o que não era fácil de acreditar, com uma pele tão
branca como a sua, pois os marinheiros estavam expostos ao sol, ao
vento e à chuva ao longo de todas as suas travessias. Mas era também
difícil não se acreditar nele - continuava a explicar a minha mãe –
quando fixava nela os olhos profundos e penetrantes, os olhos mais
belos e enigmáticos que ela jamais vira.

25
Parecia bondoso. E foi, durante as primeiras visitas - duas ou três
-, até que na última ocorreu uma mudança e ele transformou-se num
outro homem.

A minha mãe nunca pôde imaginar que dessa vez seria obrigada a
praticar sexo com o suplício do cepo.

- Pago mais - disse ele -, mas esta noite vais ser torturada. Levava
o cepo, a máquina que prendia as mãos e a cabeça da vítima, escondido
sob a capa. As duas peças daquele cepo encaixavam tão perfeitamente
que a minha mãe teve medo de morrer sufocada.

Torturada durante anos, acostumada a tudo, não pôde contrariar esse


capricho malsão, tal como nenhuma escrava podia contrariar as
chicotadas do seu senhor, que provavelmente as punia com boas
intenções, para que não incorressem em mais vícios. Quando foi
completamente despida, o homem ajustou-lhe o cepo e ordenou: - De
costas e de joelhos!

Foi assim que a possuiu várias vezes seguidas, como um garanhão


incansável. Torturou-a até ao amanhecer, até que os sinos da igreja
anunciaram o novo dia. Então, e com as ruas ainda na sombra, aquele
misterioso sádico desapareceu. Mas antes pagou generosamente à minha
mãe e disse-lhe as palavras mais estranhas que ela jamais ouvira:

- Não julgues que isto foi um acto de crueldade. Foi precisamente o


contrário: um acto de amor.

- De amor? - perguntou a minha mãe, achando que ainda por cima


troçava dela.

- Sim, enquanto tinhas o cepo não pude morder-te o pescoço.

A minha mãe não percebeu. É claro que não percebeu. Mas cumpriu-se o
pressentimento que ela tivera. Nove meses depois, nasci eu. O que não
sabia era que iriam tentar matar-nos, e que isso seria feito por
alguém conhecido. Quanto ao homem dos olhos inquietantes, o que
apenas viera três noites, não voltou a vê-lo. Nunca mais. E foi esse
o meu mundo.

A Barcelona que muito mais tarde iria cometer a idealista loucura de


fazer frente, sozinha, às tropas de Filipe V, constava, quando eu
nasci, de umas cinco mil casas, o que poderia perfazer mais ou menos
trinta mil habitantes, talvez trinta e cinco mil.

26
Digo «mais ou menos» porque naquela altura não havia registos e para
autenticar a identidade, a idade ou o nascimento e a morte das
pessoas era preciso que os moradores fizessem uma declaração junto
das autoridades, numa espécie de «acta de notoriedade». As ruas que
fui conhecendo, durante as poucas vezes que me deixavam sair do
bordel, eram estreitas e sórdidas, sobretudo dentro das muralhas. É
verdade que a casa em que eu nasci estava situada fora delas, como a
maior parte dos prostíbulos: querendo castigar-nos, deixavam-nos
viver, paradoxalmente, melhor do que no recinto amuralhado. As nossas
ruas também eram esconsas e malcheirosas, mas de quando em quando
víamos uma horta, havia uma praça ou elevava-se um grupinho de
árvores.

Dentro das muralhas, em contrapartida, muitas ruas eram tão estreitas


que por elas apenas podia passar uma carroça em sentido único; no
momento de virar, a carroça não tinha espaço e chocava contra as
paredes. Por isso, nos extremos dessas ruas, com a finalidade de se
evitar a sua lenta destruição, eram colocados reforços em ferro. Os
cemitérios costumavam estar dentro do recinto amuralhado, nas
igrejas, e quando a praça de uma igreja era integrada na cidade por
falta de espaço, o cemitério transformava-se numa praça urbana. O
terreno era nivelado e os cidadãos passavam por cima dos seus mortos.
Hoje, nenhum barcelonês desconfia que os seus pés deslizam sobre os
ossários.

Nas casas não havia água, que provinha dos poços. No entanto,
Barcelona era uma cidade afortunada, porque bastava furar o chão para
encontrar reservas de água doce, inclusive muito perto do mar. Também
se transportava água de longe, através do canal do Conde Miro, que
fazia chegar o líquido do rio Besós para poder mover os moinhos. Mas
essa água não era para o uso do cidadão e nem a minha mãe nem os seus
clientes podiam lavar-se, praticamente; assim, transmitiam uns aos
outros o herpes e a sarna. É claro que, apesar de tudo, as pessoas
viviam bastante tempo. Havia velhos que chegavam a ter quarenta anos.

Nas casas também não entrava luz natural, o que me favorecia porque
logo me apercebi de que a claridade me incomodava e fazia com que eu
sentisse uma espécie de formigueiro em todo o corpo.

27
Passava os dias a mamar da minha mãe até jorrar sangue, e ela gostava
tanto de mim que quando estava com os clientes na cama permitia-me
ver tudo, desde que eu não incomodasse. Era assim que passava tardes
inteiras, de cócoras dentro do quarto, olhos bem abertos e o cérebro
em branco, não percebendo quase nada.

Foi então que a minha mãe começou a poupar as gorjetas que os


clientes lhe davam, porque o pagamento principal era feito pelo dono
da casa. E foi também aí que ela confessou, a chorar, que fazia isso
tudo para situar o meu rosto num cantinho da eternidade. Naquele
momento não a percebi, porque eu não sabia o que é que o meu rosto
significava, e muito menos o que era a eternidade.

28
•5.

A ETERNIDADE E UM DIA

O sacerdote Olavide olhou através das janelas para as palmeiras que a


rica poluição barcelonesa estava a matar e depois perguntou a Solana:

- O senhor advogado acredita na eternidade? Marcos Solana respondeu,


olhando para o vazio:

- Nós os humanos sempre precisámos de acreditar na eternidade, meu


amigo. E temos trabalhado sempre para a tornarmos nossa.

Olavide voltou a perguntar inesperadamente.

- O senhor advogado acredita na eternidade?

- Bem... Posso acreditar, pelo menos, que o homem, consciente da


morte e do esquecimento, tenta não ser esquecido. Para que o seu nome
possa perdurar durante séculos, há desequilibrados capazes de cometer
crimes horrendos, atirar-se para um vulcão em chamas ou fundar novas
religiões que não sei se salvam almas, mas salvam contas bancárias.
Dizem que não morremos completamente enquanto alguém nos recordar e é
por isso que a lembrança é um valor apreciadíssimo. Há mesmo quem
esteja disposto a pagar para que as suas cinzas repousem nos pilares
de um estádio de futebol, pensando que o futebol irá existir sempre e
que, além disso, o clube do seu coração continuará a ganhar
campeonatos. Há quem nasça a pensar já na sua própria estátua. Se
fosse possível pagar a própria estátua em vida, fariam fila no
guiché, mas infelizmente a única estátua que podemos comprar em vida
é a do panteão.

O padre Olavide sorriu sarcasticamente.

29
- Estou a ver - disse ele - que os advogados se dedicam apenas às
ambições terrenas.

- Não vejo bem o que quer dizer.

- Refiro-me à eternidade, e a eternidade não é apenas um valor


humano, mas essencialmente um valor religioso.

Marcos encolheu os ombros. Reparou que a viúva os escutava


atentamente, seja como for não é de mau gosto falar perante a viúva
sobre a eternidade do marido. De modo que sussurrou:

- Pode ser que a eternidade seja o que o senhor está a pensar em


segredo: um engano religioso para que sigamos a linha que nos é
marcada. Aí acabaram - muitas vezes aos tiros - interessantes
discussões. Mas eu não sou tão simples ao ponto de deixar de pensar,
ou pelo menos é o que eu tento. Há dois aspectos que me obrigam a
reflectir.

- E quais são eles?

- Um, é o próprio conceito de eternidade. A eternidade não


corresponde a nenhuma realidade humana, ou seja, a experiência não
irá sugerir-nos nunca essa realidade. Mas, ainda assim, temos o
conceito, e isso sugere que a realidade não visível tem de existir. A
ver se me explico melhor. Tudo aquilo que o homem aprendeu desde o
princípio dos tempos é baseado em coisas vistas ou sentidas
anteriormente, seja através do prazer ou da dor. Todas as ciências,
da química à medicina, da engenharia à arquitectura, da guerra ao
direito, estão baseadas em coisas que o ser humano vê - ou pode ver
mediante instrumentos - ou que então pode calcular ou medir.

- Certo.

O advogado Marcos Solana continuou:

- Poderia resumir tudo dizendo que o que não está no universo não
está no homem. Ainda não dominamos o universo, naturalmente, mas
estamos a seguir alguns caminhos para o fazermos.

- Também é verdade.

- No entanto, há duas coisas que o homem não encontrou nunca no


universo, e portanto não tem delas experiência directa. Uma delas é a
alma. Nunca ninguém viu uma alma, ninguém a pesou ou mediu, e no
entanto acreditamos nela de uma forma muito geral.

30
A outra é a imortalidade. Nunca vimos nada eterno, mas chegámos mesmo
a introduzir a eternidade nas fórmulas matemáticas.

- Tudo isso é religião - murmurou o padre Olavide. - Dê-lhe o nome


que quiser, mas é religião: sem alma não há eternidade. Eu não tenho
o direito de pôr em dúvida quer uma coisa quer a outra, ainda que
suponha que se refere a algo diferente.

- De facto. Refiro-me a que o homem pode criar conceitos sobre coisas


que nunca viu ou sentiu: por exemplo, pode criar o número zero, que é
uma abstracção total. E pode criar o conceito de infinito, que também
o é. Que ligação tem isto com as religiões? Nenhuma. Por isso tenho
pensado muitas vezes que se o homem concebe a eternidade é porque de
uma ou outra forma a eternidade existe.

A viúva pôs-se então de pé. Continuava a ser uma radiografia, mas


agora, com o movimento, tinha ao menos três dimensões. Olhou para os
dois homens e fechou os olhos.

- O meu marido acreditava exactamente nisso - disse -, e falava


muitas vezes da eternidade. Queria estar ligado a ela de algum modo,
à margem dos seus sentimentos religiosos, que talvez no fundo nem
tivesse. Contudo, há dois pormenores do seu enterro que vão
surpreendê-los, meus caros, e que constam do seu testamento. Quando o
abrirem, poderão lê-lo. Seja como for, vou revelá-lo agora. Quer ser
enterrado junto a uma estranha pedra negra, que comprou há muitos
anos a uma espécie de vendedor ambulante que disse tê-la conseguido
num antigo cemitério que...

E interrompeu-se antes de continuar a falar.

Porque naquele momento um grito ululante, que não parecia ser oriundo
de uma garganta humana, chegou do fundo da casa.

31
.6.

O SANGUE DOS MERCADOS

Um clérigo muito piedoso, que de vez em quando visitava a minha mãe e


que a costumava abençoar depois de fornicar, foi-se afeiçoando a mim
e incluiu-me nas rezas pela chuva, já que as hortas não podiam ser
regadas. Embora existissem grandes projectos, explicava-me aquele
homem enquanto se vestia: por exemplo, um plano municipal de 1401
projectava trazer água do Llobregat, que era um rio cristão e
constante, ao passo que o Besós, do outro lado de Barcelona, era
caprichoso e indigno de confiança. Mas só a misericórdia do Senhor é
que nos podia salvar, porque os dois rios ficavam muito longe e ainda
por cima recebiam contribuições indecorosas, como, por exemplo -
dizia o clérigo -, a urina humana. E ainda por cima - acrescentava
-nesses lugares é impossível tratar-se de urina de santo.

Nós próprios vivíamos na mais absoluta fetidez. As pessoas urinavam


onde quer que fosse e os dejectos maiores eram feitos em casa, num
curral contíguo onde havia algumas bestas. Não era raro que cinco ou
seis pessoas o fizessem conjuntamente, umas ao lado das outras. O
excremento misturava-se com a palha e por vezes gerava riqueza,
porque os lavradores dos campos contíguos compravam-no como
fertilizante. Os preços subiam e baixavam consoante a abundância e a
qualidade.

De todos os modos, a casa onde eu vivia era, como vim a saber mais
tarde e com grande surpresa, uma casa douta. Não vinham fornicar
apenas os clérigos, que por vezes falavam longamente com as pupilas e
lhes davam conselhos sobre a vida eterna, mas em algumas ocasiões
também os representantes dos grémios se reuniam num dos quartos para
discutir as questões do trabalho, e as mulheres, como a minha mãe,
ficavam a saber de muitas coisas.

32
Sempre imaginei que os representantes dos grémios se reuniam ali por
serem tão aborrecidos que as suas esposas os tinham posto na rua.

Foi assim que aprendi, por exemplo, que os habitantes de Barcelona


eram muito mais livres que os camponeses das redondezas, porque não
estavam submetidos à obediência feudal. No entanto, comiam pior e se
quisessem praticar uma profissão tinham de se submeter às normas dos
grémios, que eram implacáveis e, além disso, nunca estavam de acordo.
Quantas vezes ouvi as suas discussões à luz de uma candeia enquanto a
minha mãe contava as moedas poupadas para instalar a minha cara no
dintel da entrada! Quantas vezes me deixei dormir no catre, durante
horas, enquanto eles não paravam de discutir...!

Era um cambalacho. Cada um dos grémios queria ter o direito de


fabricar certas peças, sem que os outros as pudessem fabricar: por
exemplo, os carpinteiros queriam intervir na fabricação de espelhos,
argumentando que todo o espelho digno desse nome tinha uma moldura de
madeira. Os vidraceiros, porém, diziam:

- Ah, sim? É mais importante a moldura que o vidro? E os fabricantes


de tintas e pinturas:

- E para que serviria um vidro caso o mercúrio não o transformasse em


espelho?

Tanto os ouvi que consegui perceber perfeitamente porque é que


aqueles homens defendiam com afinco o seu ofício, porquanto era
resultado de grandes sofrimentos. Superados longos anos de
aprendizagem, eram submetidos a um longo exame, e ainda depois, já
mestres, sofriam frequentes inspecções oficiais e eram obrigados a
repetir as peças mal feitas, por muito complicadas que fossem. Julgo
que se um dia alguém escrever a história do trabalho na minha cidade
chegará à conclusão de que a época mais dura e honesta foi a dos
grémios, embora depois tenha conhecido outras que não sei se não
terão sido, de certo modo, piores. A minha mãe, porém, dizia a rir
que mesmo que ela fizesse o trabalho mal não a obrigavam a repeti-lo,
o mesmo poderia dizer o carrasco.

33
Não sabia ela com quanta amargura iria lembrar-se destas palavras.

A minha mãe - talvez porque já perdera dois filhos - amava-me


apaixonadamente, de uma forma irracional, visceral, com um amor que
não era feito dos sentimentos do seu coração, mas do sangue das suas
veias. Cedo percebi que não merecia tal amor.

Era submisso e calado, é verdade, mas apresentava dois gravíssimos


problemas:

O primeiro era que eu tinha cara de velho. Aos cinquenta anos, já se


tinham formado em mim umas feições de velho que, por outro lado,
permaneceram inalteradas. Portanto, exibia uma cara de pessoa mais
velha, o que, na opinião das outras putas, das matronas e dos
clérigos, era um indício de evidente bruxaria. E por isso a minha mãe
começou a ter fama de bruxa. E por isso «la carassa» que havia por
cima da porta não era a cara de uma criança, mas a de um homem, um
homem com um sorriso sardónico. O escultor que a trabalhou deve ter
visto alguma coisa em mim e fez-me assim, ainda que a minha mãe se
opusesse. O escultor disse: «Há coisas que eu vejo e que a senhora
não vai ver nunca.»

Talvez o artista que trabalhou a minha cara tenha visto o que mais
ninguém via, o segundo gravíssimo problema.

Acho que nunca o desvendou a ninguém. Mas se calhar estou enganado.

O caso é que eu, uma criança insignificante, mamei da minha mãe até
aos cinco anos, até lhe jorrar sangue dos peitos; quando ela ficou
sem leite, fez com que outras me amamentassem. Mas o que não sabia
era que à noite, enquanto os clientes a maltratavam, eu deslizava
pelas muralhas, antes do fecho das portas, e passava horas no
interior da cidade, até que amanhecia e as portas abriam novamente.
Durante esse tempo, chegava quase de rastos até aos pestilentos
mercados, onde o gado era sacrificado. Lá, a sujidade era
impressionante. No entanto, era ainda pior nos pequenos mercados do
exterior das muralhas, onde tudo era mais barato mas não existia o
menor controlo higiénico, e onde o gado doente - que normalmente não
era admitido no interior da cidade - era sacrificado sem nenhum tipo
de controlo.

34
O sangue, as peles, os despojos e os lixos amontoavam-se em qualquer
canto junto dos restos da matança. Já ali, e graças ao meu pequeno
tamanho, podia facilmente deslizar no meio das casotas e beber algum
sangue dos animais sacrificados, que pingava para o chão. Nunca fui
surpreendido, e mesmo que isso tivesse acontecido é possível que não
me tivesse acontecido nada. Havia bastantes pessoas que bebiam sangue
recém-vertido por conselho dos físicos, os quais julgavam que assim
curavam desde a tuberculose à esterilidade, desde as febres à
impotência.

Quando a minha memória revê aqueles anos, penso que a vida era
insuportável, e se consegui superar tudo foi graças aos horários da
minha mãe, que tentava sempre estar comigo, e ao seu carinho. Falo
dos horários porque não existiam: ela estava sempre à disposição do
dono da casa, e muitas vezes não podia controlar-me. Isso impedia-a
de se aperceber que eu sempre tentava sair depois do pôr do Sol. O
facto de eu estar junto dela nas horas claras do dia era interpretado
como mostra de afecto, e penso agora que, na realidade, era isso
mesmo.

Ainda que o verdadeiro afecto fosse o dela, e foi isso que tornou a
minha existência suportável. Mas de repente tudo mudou. Foi aos sete
anos que cometi o meu primeiro erro, um erro que transformou a minha
vida, porque começou com sangue e acabou com sangue.

35
•7.

UM GRITO NO SILÊNCIO

Sentado num cadeirão do seu elegante escritório, Marcos Solana


recordou o alarido que se ouviu na noite anterior em casa do defunto.
Entre um silêncio barcelonês que os ricos pagam a peso de ouro e a
quietude das palmeiras, o grito parecia ter atravessado todos os
muros. Quando ele e o padre Olavide chegaram ao rés-do-chão, uma das
criadas mais antigas tinha-se deixado cair e estava à beira de perder
os sentidos. Mas não sofrera nenhuma agressão. Simplesmente tinha
visto algo que não encaixava no seu cérebro de mulher simples cuja
família, pela graça de Deus, já servia há três gerações.

A velha criada vira chegar do fundo do jardim, através da escuridão,


o médico que tinha tratado o seu pai há muitos anos, quando este
morreu. O padre fora mordomo da propriedade, e naquela altura a
criada era uma menina que dormia no sótão, embora tivesse o
privilégio de correr pelo jardim e pendurar-se ao pescoço dos enormes
cães de guarda.

E agora recordava com nitidez aquele rosto, o do homem que vira


tratar o seu pai. Mas desde então haviam decorrido mais de quarenta
anos, de modo que era impossível que o médico tivesse a mesma cara.
E, além do mais, ela sabia que já estava morto.

Uma vez recuperada, fizeram com que descrevesse a cara daquele


estranho visitante da noite. Nesse momento, Marcos Solana teve a
certeza de que era o mesmo médico que tinha visto na velha fotografia
do Hospital Clínico.

Mas os factos incompreensíveis não acabavam aqui.

36
No dia seguinte, encontraram no jardim uma lâmina com um desenho que
na tarde anterior, sem dúvida, não estava lá. Tratava-se de um papel
pequeno e especial, marca Guarro, pouco granulado, com um
apontamento. Quem o fez teve de o realizar na escuridão, o que
mostrava claramente tratar-se de alguém com boa visão nocturna.

O advogado lembrava-se perfeitamente do esboço. Tratava-se do rosto


de um homem, mas não de um homem actual, antes a reprodução de uma
estátua. Poderia ser um rosto humano? Ou medieval? Em qualquer caso,
havia nele algo de pétreo, antigo e, como é óbvio, morto. Contudo,
nada havia de mais vivo como o rosto daquele homem.

Ria. Estava desgrenhado, parecia de pouca idade e os seus olhinhos


predadores, cheios de vigor, olhavam insistentemente. Tratava-se,
evidentemente, de alguém satisfeito: satisfeito séculos atrás, dizia
a si próprio o advogado. E o que era curioso era que ele, afeiçoado
aos museus, especialista em arte e conhecedor de quase todas as
estátuas que hoje se podem ver no país, não se lembrava absolutamente
de nada que tivesse relação com essa cara.

Sem dúvida, o misterioso desenhador traçara aqueles contornos à noite


e de cor, mas segundo um modelo que existia ou que em tempos tinha
existido.

E era aí que tudo acabava.

Ou melhor, não acabava nada.

37
.8.

UMA FORCA NA RAMBLA

A história que começou com sangue principia com a história de uma


menina.

Eu acabara de fazer sete anos. Não conhecia a minha idade, mas a


minha mãe tinha-a calculado contando as luas, sem saber que o
especialista em luas era eu. Também não sabia a minha mãe que me
sentia atraído pelo sangue e pela escuridão: junto dela apenas comia
o pão e as verduras que nos davam na casa, mas isso não me dava
forças nem vontade de viver. A verdadeira vida, eu encontrava-a à
noite, no meio do sangue que pingava do gado.

Até que fiz algo diferente: ataquei um ser humano. A menina era uma
pedinte das muralhas, provavelmente filha de uma escrava como eu, e
dormia perto das Atarazanas quando me lancei sobre ela; julgo que nem
chegou a ver-me, porque lhe tapei os olhos enquanto lhe mordia o
pescoço. Não quis matá-la, juro que não quis matá-la apesar da
facilidade que teria tido em deixá-la sem sangue. Mas aconteceram
duas coisas.

A primeira foi que alguém das redondezas acudiu assim que ouviu um
gemido. Naquela época, os barceloneses dormiam com um olho aberto,
sempre alerta, e ajudavam-se ao menor sinal de perigo, apesar de
serem poucos os estranhos que conseguiam penetrar no labirinto das
suas ruelas. A primitiva cidade romana - duas ruas principais em
forma de cruz - tinha sido substituída por um verdadeiro labirinto
que raros forasteiros chegavam a dominar e que transmitia segurança
aos seus habitantes. De modo que não era assim tão estranho que
alguém me surpreendesse.

38
A segunda deveu-se simplesmente à minha imbecilidade. Embora o lugar
me parecesse suficientemente escuro, realizei o ataque sob uma das
varandas que costumavam ser alugadas para ver os espectáculos e onde
havia sempre alguém nas noites de calor. Estas varandas tinham uma
tal procura que muita gente pedia licença para as ampliar, porque a
cidade era cada vez mais rica e o gosto pelos divertimentos crescia.
Todavia, o Consell de Cent, que desejava uma Barcelona discreta e
tranquila, negava-se a autorizar o seu alargamento. De modo que fui
visto e dois homens começaram a perseguir-me. Consegui fugir pela
Puertaferrisa, aproveitando a saída de um viático, mas os tipos
continuaram atrás de mim.

A imbecilidade consistiu em dirigir-me ao Raval, para além da


muralha, e ir a correr para o lupanar onde estava esculpida a minha
cara num muro e onde trabalhava a minha mãe. Também não reparei que
as minhas mãos estavam cobertas de sangue da menina, e que ia
deixando um rasto de gotas, fácil de ser seguido por pessoas
acostumadas à escuridão. O caso foi que me encontraram refugiado nos
braços da minha mãe.

Julgo ter dito antes que ela fora acusada várias vezes de bruxaria, e
eram bruxas, por exemplo, as que tiravam sangue às crianças para os
seus ritos. Isto era mais que suficiente para a condenar,
principalmente tratando-se de uma escrava. E pior ainda, para que não
faltasse nada, era uma mulher pública com um filho que não tinha cara
de criança, mas de homem.

Era demasiado para uns servos da fé, como aqueles que me tinham
perseguido. As mulheres do bordel - que reparavam em tudo - e os
clientes - que quase não reparavam em nada - tinham atribuído o meu
aspecto a uma doença; com excepção da minha mãe, todos esperavam que,
doente como estava, morresse em breve.

Mas os homens que me tinham perseguido - e ainda os que chegaram


depois, atraídos pelos gritos e pela má fama do local - não estavam
acostumados a ver-me, e ainda menos manchado de sangue, de modo que
proclamaram logo que aquilo era um acto de bruxaria. O culpado era eu
e, acima de tudo, a minha mãe, que engendrara o pequeno monstro.

39
Passaram-se séculos, mas lembro-me daquela cena tão claramente como
se a estivesse a viver hoje: a casa com a minha imagem em pedra por
cima da porta, o primeiro quarto, onde estavam sempre os donos da
casa para controlar tudo, o pátio com animais que dava acesso aos
pequenos cubículos onde o sexo era praticado e, sobretudo, a enxerga
onde eu nascera, com a minha mãe a abraçar-me entre lágrimas. Ainda
que naquele dia tivesse havido uma pequena novidade: sobre o catre
repousava uma pedra quase negra na qual tinham caído algumas gotas do
meu próprio sangue. Tinha ficado ferido na cara enquanto tentava
ocultar-me nos matagais.

Se faltava alguma coisa para acusarem a minha mãe de bruxaria, aquela


pedra acabou com todas as dúvidas. Não tinha a mínima lógica que ali
estivesse, e se estava lá era porque o diabo a trouxera.

A minha mãe, numa tentativa de esclarecer a situação, piorou-a. Disse


que a tinha levado com ela para que um dos seus clientes, que era
alquimista, a guardasse. Segundo ele, a pedra era mais antiga do que
a própria Terra, caíra do céu e conservava segredos dignos de estudo.
Era para isso que o alquimista pensava usá-la.

Alquimista...

Palavra nefanda.

Todos eles tinham fama de se dedicarem à bruxaria, eram suspeitos de


crimes e algumas vezes acabavam mesmo na fogueira. Viviam sozinhos e
escondidos, embora se dissesse que alguns eram admitidos em certos
conventos se prometessem encontrar a pedra filosofal.

A minha mãe nunca deveria ter pronunciado a palavra «alquimista».


Nunca deveria ter-me defendido assumindo a culpa de tudo o que eu
fazia. Nunca deveria ter permitido que eles vissem as minhas mãos
manchadas de sangue.

- Foste tu que o mandaste atacar a menina! És uma bruxa! E se este é


o teu filho, é um rebento do diabo!

- Toda a gente o conhece cá - defendeu-se ela. - Teve sempre a mesma


cara.

- Então diz-nos quem é o pai!

- Não o conheço.

- Diz-nos se os teus donos o conhecem!

40
- Eles menos que ninguém. Estando aqui, é natural que eu tenha
filhos. Dois deles já morreram.

- Então o pai pode ser esse renegado alquimista! Dá-nos o nome dele!
Diz-nos onde mora!

A minha mãe também não o sabia. Nenhum dos seus clientes, mesmo os
mais habituais, lhe dava a morada, e por vezes chegavam mesmo a
disfarçar o nome. Pôs-se a chorar implorando compaixão.

Foi o pior que podia ter feito.

As bruxas sempre imploravam compaixão. Nunca apresentavam provas da


sua inocência. Apenas choravam. Ou mostravam o seu verdadeiro rosto e
amaldiçoavam tudo quando já estavam nas mãos do carrasco e nada tinha
solução.

Percebi logo que estava perdida. Porque entre as caras dos homens que
iam enchendo o quarto vi as feições do Outro.

Não podia recordar-me. Não podia guardar memória dele. Tentara matar-
nos a mim e à minha mãe quando eu acabara de nascer, pelo que era
impossível conservar qualquer imagem.

Mas a minha mãe, receando que ele voltasse, tinha-o descrito tantas
vezes que o consegui reconhecer. Era alto, enxuto, com olhos de
iluminado, jovem, com um certo ar de servo dedicado de Deus. Muitos
clérigos que predicavam nas igrejas mais nobres tinham aquele
aspecto, mas ele não ia vestido de clérigo. Levava roupa escura,
severa e elegante, como os comerciantes ricos ou os membros do
Consejo de Ciento, embora o que mais impressionasse fosse o seu rosto
sem idade, um rosto que de certo modo se parecia com o meu.

Reparei que a minha mãe também o reconhecera.

E começou a guinchar novamente, possuída pelo terror, porque não


percebia nada. Os anos - melhor dizendo, os séculos - ensinaram-me
que não podes defender-te de algo que não percebes. E a minha mãe
vira, anos atrás, como aquele homem tentava matar-nos aos dois,
embora sem saber porquê. E quando o viu novamente ali, soube que
estava perdida para sempre.

41
Pôs-se de joelhos e começou a chorar outra vez, implorando piedade.
Em nome de Cristo: piedade. Em nome da Virgem: piedade. Piedade em
nome da Santa Igreja.

Não há nada que irrite mais os crentes fanáticos que o uso do nome de
Deus por parte de quem não crê. Aprendi isto mais tarde, mas logo
naquele momento tive motivos para o aprender. Aqueles que enchiam o
quarto começaram a dar-lhe pontapés, a chamá-la puta, bruxa e infiel,
escrava e agente de Satanás, porque levava os homens para o pecado.
Ninguém se perguntava naquela altura, e eu ainda menos, quanto
dinheiro chegavam a obter as mancebias de Barcelona. A minha mãe, já
envolta em sangue, tentou proteger-me com o corpo, mas isso ainda foi
pior. Soou então um grito:

- A bruxa protege o seu cúmplice!

- Morte aos dois!

- Sem piedade!

O Outro avançou através da multidão e pegou-me nas suas mãos. Fê-lo


sem esforço, já que todos lhe abriram passagem como se estivessem
perante uma autoridade. Sei que jamais esquecerei aquelas mãos
fortes, grandes, duras como as de um lenhador e frias como as de um
morto.

- Devem ser queimados - disse. - Para as bruxas, é a lei de Deus. O


dono da casa desatou aos urros, dizendo que a escrava era dele

e que a tinham de pagar, mas não serviu de nada. O Outro, que era
alto e forte, atirou-o para o chão com um encontrão e perguntou-lhe
se não queria ser queimado também. Entre todos começaram a arrastar-
nos até à porta.

Foi então que o clérigo falou. O clérigo - que tinha um lugar no coro
da catedral - era um dos clientes da minha mãe, aquele que depois de
se deitar com ela nos explicava factos curiosos sobre a vida da
cidade encerrada nas suas muralhas. Não podia ser um homem perfeito,
porque profanava Deus, mas a minha longa vida tem-me ensinado que os
homens perfeitos devem ser temidos: talvez porque não têm compaixão
por si próprios, também não têm compaixão por ninguém. Os frágeis, os
pecadores, aqueles que têm uma fraqueza qualquer, compreendem melhor
as fraquezas dos outros.

42
E aquele homem, que amava as pobres carnes da minha mãe, achou que
não mereciam acabar na fogueira. Tentou dizer que a minha mãe não era
uma bruxa. «As bruxas têm poder, e bem vês que ela não passa de uma
escrava!»

- Nesse caso, quem é bruxo é o filho.

- Não podeis fazer nada contra ele. As crianças não podem ser
condenadas à morte.

Não era verdade. Muitas crianças tinham sido enforcadas por roubo e
séculos depois soube que na praça Mayor de Madrid foram enforcadas
crianças de sete anos por terem ultrapassado uma barreira monetária:
roubar mais de um real. Enquanto suspeito de bruxaria, eu podia
seguir a sorte da minha mãe. Sobretudo quando o Outro gritou:

- Ele é o principal culpado!

Tiraram-nos dali arrastando-nos e conduziram-nos para uma masmorra


que ficava numa das poucas praças da cidade, a chamada praça de San
Jaime. Séculos depois, mesmo ao lado, seria instalada a audiência
criminal, onde foram ditadas muitas penas de morte, mas naquela época
eu estava longe de poder imaginar tal coisa. Aproveitou-se o facto de
estar a ser celebrado, perto da catedral, um julgamento por bruxaria.
Fomos acrescentados aos outros dois acusados - o que nos livrou do
tormento -, e a minha mãe, desejando salvar-me, declarou-se culpada.

Condenaram-na a morrer. Eu fui absolvido devido à minha pouca idade,


e em parte também porque as lágrimas da minha mãe, e a sua pungente
confissão, teriam enternecido até as portas das muralhas. Porém, fui
expulso da cidade e desapossado de todos os direitos de que gozavam
os cidadãos de Barcelona - entre outros, o de ser livre -, de modo
que qualquer um poderia caçar-me como um animal. Na prática, isso
significava, à falta de coisas piores, que o dono da minha mãe podia
considerar-me seu escravo.

Nem uma palavra saiu dos meus lábios quando a condenaram por
bruxaria. Nem uma lágrima brotou dos meus olhos quando a condenaram à
morte. Às vezes, quando me lembro disso, penso que não senti
absolutamente nada, como se estivesse acima do tempo. Quando penso em
Deus, também me sinto assim: perante alguém que nada sente por nós,
por também estar acima do tempo.

43
Era também como se a minha mãe não existisse e apenas existisse o meu
pai, que eu no entanto nunca conhecera.

As execuções costumavam ser feitas era lugares afastados e não na


Rambla, que era um local demasiado público, conhecido e buliçoso para
o qual se voltavam directamente diversas portas da muralha. Mas com a
minha mãe isso não aconteceu: mataram-na no Llano de la Boquería, uma
vez que o tribunal eclesiástico deixou-a em mãos do poder civil, para
que este executasse a sentença.

Havia relativamente a isto - soube mais tarde - um antecedente não


muito longínquo. Em Junho de 1451 fora pendurado nas forcas da horta
do Llano de la Boquería um fanqueiro acusado de diversos furtos. O
nome dele era Pedro Colom, e os seus familiares, também comerciantes,
uniram-se para pedir uma coisa que os familiares não costumam pedir
nunca: que a execução fosse levada a cabo imediatamente. Porquê? Para
impedir que o evento fosse anunciado e, portanto, para evitar ao réu
a vergonha da presença de público. Os Colom eram pessoas poderosas, e
entre eles figuravam eclesiásticos e mercadores riquíssimos. Um
canónico Colom legara os seus bens para a construção do Hospital da
Santa Cruz, embora na altura ainda não tivesse esse nome. Portanto,
podiam conseguir esse favor.

E conseguiram-no em parte. Colom estava já na forca, sem qualquer


anúncio público, quando chegou a ordem do Consejo de Ciento para que
o devolvessem à prisão e o executassem no dia a seguir, na presença
do povo. Tratando-se do rito da morte, não deviam ser abertas
quaisquer excepções.

Apesar da minha breve idade, eu sabia disso.

E dos ritos de morte cheguei a saber muito mais. Por exemplo, da


execução de Blas de Durana, uma alta patente militar que em 1855
tinha assassinado por ciúmes uma mulher casada e que perante a
sentença de morte pediu como última graça ser fuzilado e não acabar
no garrote vil, que significava uma morte desonrosa. Sendo-lhe negada
esta graça, os seus companheiros de armas facilitaram-lhe em segredo
um veneno e Durana suicidou-se no seu calabouço da Ciudadela. Mas a
sentença cumpriu-se como estava previsto: o cadáver foi «executado»
no garrote vil.

44
Porém, até que eu viesse a saber disso, teriam ainda de decorrer
vários séculos.

Por enquanto, eu apenas queria evitar que a minha mãe sofresse uma
morte horrível.

Porque na maior parte das ocasiões, e quando se tratava das


condenações por bruxaria, os réus eram queimados vivos.

Em algumas ocasiões, inclusivamente, eram queimados com lenha verde,


para que as chamas os devorassem mais lentamente. Todavia, os
clientes da mancebia - que como eu já disse eram, não raro, pessoas
esclarecidas e cultas, ungidas pela mão de Deus - haviam comentado à
minha frente, julgando que não os ouvia, que na realidade a fogueira
de lenha verde era piedosa, pois o sentenciado, antes de sofrer
realmente com as chamas, já estava morto por causa do fumo. E neste
catálogo de obras de caridade tinham-me dito também, por exemplo, que
os carrascos, se recebessem uma avultada quantia, fingiam arrumar bem
a lenha com um ferro comprido, aproximando-a do condenado, mas o que
faziam, na verdade, era passar a ponta entre os ramos, sem que
ninguém os visse, atravessando com ela o coração do réu. Desse modo,
poupavam-lhe os sofrimentos do inferno.

A minha mãe livrou-se disso, talvez porque a minha cidade era mais
piedosa do que as outras ou talvez porque algum dos juízes fora
cliente dela nos dias não dedicados ao Senhor. Condenaram-na a morrer
na forca, isto é, apenas com um relativo sofrimento, mas num dos
locais públicos da cidade.

Foi esse o meu primeiro contacto com o tormento, ainda que eu não
chegasse a presenciá-lo, nem tenha podido ver, portanto, como O Outro
cingia a corda ao pescoço da minha mãe. Não passava então de um
fugitivo que iriam perseguir pela cidade fora. E eu, o que tinha de
fazer, era salvar a minha vida.

45
.9.

O RITO

No Norte de Espanha há uma espécie de povoação chamada Santillana del


Mar. Acolhe tantos turistas e acumula tantas belezas que inveja é
coisa que não lhe falta, e ainda menos pessoas que trocem dela. Daí
que exista uma frase famosa segundo a qual o nome da vila engana,
porque não é santa, nem é plana, e também não tem mar.

Em Santillana existe um museu muito visitado que é o Museu da


Inquisição: os turistas chegam em tropel, talvez porque o horror do
passado dá ao presente uma certa sensação de conforto. O museu mostra
delicados instrumentos para empalar, pinças de ferro a arder, rodas
para esticar os ossos e camas com ganchos que perpassam o hóspede.
Com tais instrumentos foram garantidas durante séculos a caridade
cristã e a pureza da fé.

No mundo abundam, certamente, os museus deste género, mas o de


Santillana del Mar é um dos mais completos, e além disso encontra-se
num edifício da época, facto que reforça a convicção dos crentes.
Como é natural, há instrumentos de tortura literalmente aterradores,
feitos para despedaçar o corpo humano, e outros mais levianos, feitos
apenas para despedaçar a sua alma. Entre eles consta uma grande
variedade de cepos com os quais eram imobilizadas as mãos e a cabeça
da vítima, a qual, assim exposta, recebia os insultos, as cuspidelas
e a urina do povo soberano. O cepo foi tão amplamente usado em todas
as épocas por crentes e não crentes que a inquisição nunca se gabou
do seu invento, antes o catalogou de material profano.

46
Não há quem nunca não tenha visto, em desenhos ou filmes, como era
usado o cepo, e também não há quem o não considere um instrumento de
outros tempos, sem a mais pequena actualidade. É possível que figure
ainda no arsenal de algum sadomasoquista, mas disso não se fala.

O que estava a acontecer naquele quarto dos arredores de Barcelona


poderia parecer, de facto, um ritual sadomasoquista, pois não lhe
faltavam os elementos essenciais. Em primeiro lugar, a escuridão e o
segredo: o quarto estava fechado e encontrava-se no sótão de um velho
chalé de Vallvidriera situado no pinhal e a cem metros de distância
do morador mais próximo. Porém, o local não estava longe da
civilização, nada disso, uma vez que as paredes do sótão recebiam a
intervalos as vibrações quando passava uma carruagem dos caminhos-
de--ferro da Generalitat.

Depois, seguiam em cadeia os outros elementos essenciais: um chicote,


um tapete e uma mulher jovem presa no cepo. A mulher estava
completamente nua, de joelhos no tapete e com a cabeça e as mãos
apoiadas nela. Naturalmente, não as podia mexer, uma vez que o cepo
as prendia, e oferecia ao espectador, nessa posição, muito erguidas,
as suas poderosas nádegas.

A reforçar esta impressão de rito sexual, um homem relativamente


jovem encontrava-se de pé atrás da mulher, também nu e exibindo uma
potente erecção. Qualquer espectador da cena poderia supor aquilo que
era óbvio: o entesado largaria uma série de chicotadas nas nádegas da
rapariga e depois penetrá-la-ia. Mas havia três circunstâncias que
não encaixavam numa situação tão óbvia.

Uma delas era a presença de um espectador no pequeno quarto. Era um


outro homem, de idade indeterminada, mas completamente vestido e até
com uma elegância sóbria.

Isto era a primeira coisa que não fazia sentido, mas muitos
especialistas neste tipo de ritos - anunciados, por outro lado, em
jornais respeitáveis - teriam dito que, na verdade, encaixava. Tais
cerimónias atraem a atenção de voyeurs, e não era assim tão estranho,
portanto, que alguém - um impotente, quiçá - pagasse para presenciar
a cena.

A verdade é que o homem estava imóvel, observando.

47
O segundo ponto talvez tivesse provocado também uma discussão entre
os especialistas: tratava-se da mulher. Era muito jovem e bonita, e
as mulheres jovens e bonitas costumam ter outras pretensões e não se
submetem àquele tipo de castigo. Embora isso seja relativo -
continuariam a dizer os especialistas -, porque às vezes a submissão
é vocacional. Os especialistas também reparariam num outro pormenor:
a rapariga era uma emigrante cor de canela, isto é, com misturas de
sangue, e muitas imigrantes pobres têm de submeter-se a qualquer
oferta. Isto levaria muita boa gente entendida a considerá-la uma
situação lógica.

No entanto, havia algo que não batia certo naquele ambiente, algo que
destoava naquela penumbra e na rapariga submetida.

Este terceiro pormenor era a cara simiesca do tipo que se preparava


para a possuir, a sua pele cheia de cicatrizes e tatuagens.
Excepcionalmente, um indivíduo desse género poderá ser um homem de
sorte (todas as semanas há lotarias e totobola), mas bastava olhar
para ele para se chegar à conclusão de que tinha passado a vida atrás
das grades. Em circunstâncias normais, aquele tipo não poderia pagar
o preço de uma cerimónia assim.

É claro que poderia muito bem ter sido paga pelo outro, o misterioso
espectador.

Havia um outro pormenor que poderia chamar a atenção de um


especialista (os especialistas são abundantíssimos entre os leitores
de revistas do género) e que consistia no facto de o chicote não
estar a ser utilizado: o homem nu segurava os dois extremos de uma
corda, e isso parecia desconcertá-lo. Foi então que o homem vestido,
o que estava num extremo do quarto, lhe disse com voz metálica:

- Não vais precisar de voltar da licença prisional. Sabes que a tua


saída do país está garantida, e uma soma que te permitirá viver bem
pelo menos durante um ano. De modo que não esperes mais tempo.

A rapariga ouvia tudo, mas não se mexia. Também a ela lhe haviam
prometido que poderia viver durante um ano. E, afinal de contas,
ninguém ia matá-la.

A voz metálica insistiu:

- Faz isso.

48
O membro que vibrava no ar, aproximou-se das costas da mulher. A
garganta do homem deixou escapar um grunhido. Mas a voz chegou,
sucinta, do outro lado do quarto.

- Não.

- Não, porquê?

O homem nu estava prestes a saltar com raiva. Não percebia. E a voz


que surgia da penumbra disse então o que naquela situação era
inaudito, que não fazia sentido.

- Porque o sexo é pecado.

- Mas...

- Faz. Sabes que te convém por causa do dinheiro e da liberdade.


Depois poderás procurar outra mulher, quando eu não estiver a ver.

A boca de símio retorceu-se. Os olhos brilharam febrilmente. Qualquer


espectador teria percebido que também não lhe incomodava fazer aquilo
que iria fazer.

As mãos passaram a corda pelo pescoço da rapariga, cruzaram-na sobre


a sua nuca e apertaram selvaticamente, começando a estrangulá-la. O
cepo dificultava a operação, mas o assassino era suficientemente
hábil e forte para que bastasse uma porção de pescoço.

A vítima, assustada, nem chegou a gritar. Morreu sem se ter


apercebido de nada. Tudo demorou apenas alguns segundos.

O assassino virou-se. Os seus olhos indicavam até que ponto


desfrutara daquele momento. A sua erecção tinha atingido agora o
ponto máximo.

E então encontrou os olhos do Outro.

Quietos.

Gelados.

Impenetráveis.

- A polícia vai ficar espantada quando te encontrar assim - ciciou. -


Talvez até te levem para um museu.

E cravou a adaga com um só golpe no coração do tipo simiesco.

Precisão de joalheiro.

Apenas um som seco.

Apenas umas gotinhas de sangue.


O homem bem vestido nem se manchou.

49
As paredes vibraram um instante. Um dos comboios acabava de passar.

Virou-se sobre os calcanhares e consultou o relógio. Apressando-se,


ainda chegaria a tempo à estação para apanhar o próximo comboio.

Um dia depois, quando os cadáveres foram descobertos por uma mulher


da limpeza, a polícia pensou que resolveria facilmente o caso.

O proprietário do chalé era identificável. Tratava-se de um alemão


que o alugava no Verão, com serviços de administração e de limpeza
incluídos. Isto é - determinou logo de seguida a polícia - não era
proprietário, mas sim inquilino. A proprietária era uma agência que
possuía muitos prédios como aquele e não podia garantir, portanto,
que todas as chaves estivessem controladas. Mas todos os seus
vendedores tinham álibis, e certamente também o inquilino alemão. No
dia anterior, estivera num hospital para um exame de rotina.

Não era assim tão fácil.

Mas em relação às vítimas era. O homem, um violador e assassino a


quem acabavam de conceder a sua primeira licença de saída. Um
cadastro maior do que um discurso cubano. A rapariga, uma pobre
emigrante sem papéis que praticara a prostituição de baixo preço na
rua Robadors e com problemas de droga. Às vezes era ajudada na
desintoxicação por uma instituição religiosa.

Isto é, não era assim tão difícil.

E as marcas. Marcas por todo o lado: as dos dois mortos e as de


alguém que, sem dúvida, estava vivo. Por ali se ia em linha recta até
ao êxito.

Quer dizer, cada vez menos difícil.

Além disso, as impressões digitais do vivo apareceram nos arquivos.


Mas eram as de um industrial têxtil que já nos anos vinte era rico,
antes da ditadura de Primo de Rivera, e que se vira envolvido na
morte de um sindicalista. Uma tão honrosa personagem tinha de estar,
sem dúvida, dez vezes morto, embora a sua acta de óbito não constasse
em nenhum lugar.

Quer dizer, não era assim tão fácil.

50
.1O.

A CIDADE OCULTA

Na época em que a minha mãe foi enforcada, os clérigos viviam bem e


não tinham grandes coisas em que pensar, excepto se haveriam de
chegar à santidade ou não, o que reconheço que é uma preocupação
diária e muito importante. Por isso se envolviam em discussões sobre
qual a igreja mais antiga de Barcelona, dentro das muralhas, e
chegara-se à conclusão de que era a dos santos Justo e Pastor, entre
outros méritos, por ter sido edificada num terreno regado pelo sangue
dos mártires e por conter os restos do bispo S. Paciano. Considerava-
se, inclusive, que era mais antiga que os restos da primeira cátedra,
em cujas fundações foram usadas pedras da primeira muralha romana.
Isso fizera-me perceber, já com aquela idade, que tudo se aproveita e
nenhum edifício é eterno neste mundo.

A discussão subiu de tom quando foi preciso decidir o destino a dar à


estranha pedra encontrada no leito da minha mãe, e na qual eu deixara
a marca do meu sangue. Era evidente para alguns que uma pedra
encontrada no leito do pecado, e ainda por cima trazida por algum
alquimista, tinha de ser destruída, mas quem se atrevia com um
material tão duro? Além disso, não mereceria ser conservado um
pedregulho tão antigo? E onde melhor do que numa antiquíssima igreja,
que ainda por cima a purificaria?

O pároco de São Justo e Pastor, um homem instruído, decidiu que essa


era a melhor da soluções e a pedra foi protegida sob um altar, na
crença de que assim não iria voltar a cair na cama de uma puta.

51
De modo que nunca mais vi a minha mãe, que foi enterrada na vala
comum de Moreres, nem voltei a ver a pedra.

Se queria sobreviver e não morrer como um escravo na casa onde a


minha mãe tantas vezes tinha sido possuída, devia fugir imediatamente
a sete pés. Sou obrigado a reconhecer que não foi difícil, porque
ninguém em particular me estava a vigiar, visto que eu não passava de
um petiz que não tinha para onde ir. A primeira noite após o enterro
da minha mãe, passei-a na casa onde era suposto eu estar, o
prostíbulo sobre cujo dintel estava o meu rosto.

Foi precisamente nessa noite que eu conheci o carrasco. Este, que


acabou por se revelar um pobre homem cheio de filhos e que cobrava
uma certa quantia por cada execução, veio ver-me para me pedir
desculpa. Disse com humildade que eu era o único familiar da
enforcada e que por isso tinha de pedir-me desculpas, por não ter
apertado pessoalmente o laço, como era a sua obrigação. Homem
especialista no ofício, jurou-me que nenhum dos seus condenados tinha
sofrido. Sabia calcular bem a longitude da corda, de modo a que o
corpo, ao lhe ser retirado o apoio, tivesse um instante de queda
livre, suficiente para quebrar as vértebras do pescoço e produzir
assim uma morte instantânea, ou quase. Sublinhou bem: ou quase. Para
isso, era preciso ter mão de mestre de forma a que o nó da corda
estivesse bem colocado, mesmo por baixo da orelha esquerda, para que
apertasse onde tinha de apertar. Se o tivesse feito como era seu
costume, acrescentou, a minha mãe teria sofrido menos.

Contou-me que um cavalheiro da nobreza, cujo nome ignorava - eu já


sabia que era O Outro -, lhe tinha dado uma boa maquia para que fosse
ele a realizar o trabalho. O carrasco aceitava sempre gorjetas, mas
sempre por fazer bem o seu trabalho, nunca por não o fazer, de
maneira que se sentia culpado por ter deixado que a execução fosse
realizada por aquele cavalheiro cujo nome ignorava. Ainda que ele
estivesse ao lado, a fingir que realizava pessoalmente a tarefa.

Aceitara a gorjeta porque tinha uma catrefa de filhos, aos quais


ainda por cima ninguém dava trabalho (dizia-se que a estirpe do
carrasco estava amaldiçoada), e mesmo assim oferecia-se para
partilhar o dinheiro comigo, que não passava de um miúdo com o
estranho rosto de um rapaz mais velho.

52
Isto demonstrou-me que entre as classes mais pobres das cidades,
mesmo entre aquelas que são consideradas vis, há muitas pessoas que
têm sentimentos e que sabem derramar lágrimas. O problema é que
ninguém as ouve.

Disse-lhe que não aceitava o seu dinheiro porque não ia precisar.


Dormiria em lugares escondidos, tentando que ninguém me prendesse, e
para comer recorreria à sopa dos conventos. O que não lhe disse era
que de vez em quando, quando sentia muita fraqueza, tinha de deslizar
por entre as mesas onde eram sacrificadas as cabeças de gado.

O carrasco confessou-me, então, mais uma coisa: a minha mãe tinha uma
jóia.

Claro que eu já sabia disso. Tendo visto a minha mãe nua, sempre com
um homem por cima dela, como não reparar que levava no pescoço um
fino fio de ouro?

A corrente era muito fina e não tinha grande valor, caso contrário, o
dono da casa já teria ficado com ela. E talvez tivesse algumas
tentações, porque uma escrava não podia possuir nada. Mas agora me
lembro - na distância das minhas recordações - que os clientes tinham
comentado que aquele pequeno luxo dotava a prostituta de um halo
especial, e era por isso que a escolhiam mais vezes. Este facto
levara o dono a considerar o fiozinho um investimento rentável.

Mas o carrasco disse-me que a minha mãe fora atirada para a vala
comum sem esse enfeite, que normalmente seria o saque do executor da
lei, ou que talvez tivesse vendido à família como resgate. Aquele
homem confessou-me que o cavalheiro que colocou a corda tinha
arrancado o pequeno enfeite, guardando-o para si. O carrasco jurava-
me que não era culpado e que se quisesse recuperar a última lembrança
da minha mãe, agora já sabia quem a possuía.

Recuperar?

Recuperar, um escravo perseguido, o filho de uma rameira, algo que já


estava nas mãos de um nobre como O Outro?

Era impossível, seria melhor esquecer.

Tentei. E teria conseguido, de certeza, se mais tarde não tivesse


passado por tantas vicissitudes que me fizeram recordar aquela
pequena jóia, aquele mistério e aquela morte.

53
O primeiro mistério prendia-se com a identidade de quem a poderia ter
oferecido à minha mãe. Quem? Sem dúvida, um cliente, mas esse cliente
perdera-se nos arcanos da noite. E como eu sempre vira o fiozinho no
seu pescoço, cheguei à conclusão que lhe fora oferecida pelo meu pai.

O próprio carrasco aconselhou-me a fugir, porque era quase impossível


conseguir esconder-me na cidade livre. E tinha de o fazer o mais
depressa possível, antes que o dono do prostíbulo decidisse por mim.
Este podia fazer comigo o que quisesse, excepto oferecer-me como
mercadoria carnal, pois o sexo entre homens e, ainda pior, com
crianças era considerado pecado nefando, e punido com a morte.

Fui-me embora nessa mesma noite. Antes que fosse vendido para ser
grumete nas galeras - o que significava acabar como remador -, antes
que fosse preso num combate naval - o que significava ser atado ao
fundo da galé até me afogar, ou que me arrancassem os olhos -, perdi-
me no labirinto da cidade, embora soubesse que lá acabariam por
encontrar-me. Tinha de mudar a minha personalidade a qualquer custo,
transformar-me em alguém que até então nunca tivesse existido.

À luz da lua, despedi-me da minha cara, da «la carassa», o anúncio


fidedigno de que ali existia um prostíbulo. Disse adeus à minha
própria imagem. Sabia que nunca mais a voltaria a ver. Sabia que
também não voltaria a ver as rameiras, as companheiras da minha mãe,
porque não podia voltar àquela parte do Raval, a meio caminho entre a
muralha gótica e as hortas de São Beltrano, onde se erguiam não só
conventos, como também teatrinhos, prostíbulos, tendas de marionetas
e casebres onde viviam os menestréis que não podiam pertencer a
nenhum grémio. Despedia-me de todo um mundo, embora as velhas
companheiras da minha mãe fossem quem me inspirava mais piedade. Nem
todas eram escravas; algumas eram solteiras que tinham sido expulsas
das suas casas para evitar a desonra, e outras meras camponesas que
não tinham encontrado trabalho na cidade. Todas as vigílias do Dia do
Senhor - o mundo não mudou tanto assim -o sémen amargo da cidade era
derramado nos seus ventres. Elas davam dinheiro aos donos das casas,
o município tolerava-as, e até a própria Igreja, mas nunca tinham
direito a queixar-se.

54
A cidade, ao estender-se, iria devorar aqueles campos que por
enquanto pareciam não ter fim. O único relevo próximo, que ocultava a
desembocadura do rio Llobregat, era a montanha do velho cemitério
judeu, Montjuic, de cujas pedreiras tiravam a pedra para as igrejas e
casas nobres de Barcelona. Eram dali transportadas por mulas, embora
anos antes os carregadores, os «bastaixos», as tivessem levado às
costas para erguer o templo de Santa Maria dei Mar.

Era esse o meu mundo, e um pequeno monstro como eu devia ter--se


sentido bem dentro dele. No fim de contas, era o reino do pecado. No
entanto, eu sabia que alguma coisa se quebrara para sempre em mim,
que nem sequer sabia em que canto estava exactamente enterrada a
minha mãe e que, com o seu desaparecimento, o meu vínculo à vida se
tinha quebrado. De modo que senti uma lágrima escorrer na minha face.

Era absurdo.

Não me recordava de ter chorado nunca.

Tive de andar de costas porque queria continuar a ver aquilo que fora
o meu lar. A última coisa que vi foram os raios da lua a iluminar em
cheio «la carassa».

55
.11.

ACARA

A nova Rambla do Raval arrasou muitas ruas, tal como antes já tinha
acontecido com a Via Layetana e, mais tarde, com os bombardeamentos
franquistas, que arrasaram as que estavam defronte da catedral. Mas
assim como a Via Layetana se encheu de edifícios nobres e homens de
cartola, na Rambla do Raval ninguém parecia ter procurado a nobreza.
Entre as frestas das ruas penetra finalmente um pouco de sol e ar
puro, embora os seus ocupantes costumem ser magrebinos, indianos,
filipinos e homens e mulheres que carregam às costas toda a miséria
do mundo. Os catalães que há anos lutaram pela liberdade nessas ruas
já desapareceram, e da liberdade raramente se fala.

Uma das ruas que, por enquanto, tem permanecido mais ou menos intacta
é a de Espalter, junto da nova praça de Salvador Segui. Outrora esta
praça também era ocupada por um pequeno labirinto de ruas e bares
sombrios onde havia bebidas de garrafão, homens de olhos vidrados e
mulheres que esperavam por alguém que lhes pagasse uma cama.

Marcos Solana, advogado de ricos, era ali ocasionalmente advogado de


pobres. Pelo menos duas vezes por mês ia até à associação de
moradores para resolver gratuitamente as dúvidas legais apresentadas
por todos os que dormiam numa cama debaixo de um tecto a cair aos
pedaços.

Nessa manhã estava acompanhado por Marta Vives, uma jovem estagiária
do seu escritório que queria apenas aprender e que, por isso, o
seguia nas suas visitas ao bairro.

56
Se a frieza dos livros lhe ensinara que o Direito tem pouco que ver
com a humanidade, aquelas ruas quentes ensinavam-lhe que a humanidade
tem pouco que ver com o Direito.

Marcos Solana era jovem, atraente e tinha inclusivamente pretensões


atléticas (corria todos os anos na maratona e quando chegava ao fim
não sabia onde tinha as pernas). Marta Vives era jovem, atraente e
atlética, mas ela a sério, porque figurava na selecção catalã de
salto com vara. Além disso, era historiadora, embora a história não
lhe desse para comer todos os dias, e por isso utilizava o seu
segundo curso, de leis, para tentar sustentar-se. O pai sempre lhe
dissera que, em vez disso, se deveria dedicar a vender apartamentos,
mas o pai já estava morto.

Foi ela que lhe disse:

- Pedi-te para me acompanhares até aqui quando saímos do tribunal


porque nesta zona vai haver novas demolições. Já sabes que ando a
preparar um livro sobre a invasão imobiliária, e gostava que me
orientasses em algumas questões. Sobretudo, gostaria que me
apresentasses a algum morador afectado.

Enquanto falava, pensou envergonhada: «Com muitas estagiárias como


eu, este homem vai à falência.»

Mas podia-se perdoar tudo a uma mulher jovem - segundo a ideia dos
advogados, que ainda se consideram jovens com quarenta anos -que
tinha uma imensa cultura, umas sólidas pernas e, dizia-se, uma
reconhecida inocência sexual.

A rua Espalter é curta, tem um futuro duvidoso e é formada por


prédios velhos que, por sua vez, estão construídos sobre as ruínas de
outros edifícios ainda mais velhos. Não seria de estranhar que sob as
suas fundações aparecesse um cemitério.

- Estudei muito bem a história desta zona - disse Marta Vives -e sei
que as fundações dos prédios assentam sobre outros edifícios que já
não existem, e diria mesmo que sobre uma constelação de mortos. Sob
algumas velhas praças de Barcelona há cemitérios cobertos por uma
nova civilização. Não há muito tempo atrás, foram descobertas
caveiras perto daqui, junto da igreja românica de São Paulo.

57
Os antigos cemitérios paroquiais têm, simplesmente, uma camada de
asfalto por cima.

Enquanto subiam por Espalter, deixaram à direita a praça de Salvador


Segui, um sindicalista assassinado há muitos anos pelos capangas da
direita, conforme diziam no bairro os poucos que não se tinham
esquecido dele. A picareta destruía tudo e as novas construções
arrasavam desde as camas até aos caixões, desde as cozinhas até às
varandas onde um dia esvoaçou uma bandeira federal, desde os bidés
das prostitutas até às camas das freiras. Ainda estavam em terra de
felações, embora antes fosse terra de conventos. Marta, nos seus
meses sem trabalho e sem poder suportar a cidade viva, consolava-se
pensando na cidade morta.

[Mapa com indicação de algumas ruas de Barcelona: omitido]

Não sabia até que ponto muita gente tivera de fazer isso mesmo.

- Acontece por todo o lado - continuou. - Sob o Borne, que foi


mercado municipal anos a fio sem que ninguém se preocupasse em ver o
que havia debaixo das pedras, apareceram as casas da cidade de 1714,
aquela que foi destruída na guerra de Sucessão.

58
De certeza que sob alguma das casas que estão a demolir aparecem
agora as ruínas de outras.

- Não sei porque é que estás interessada especialmente nisso - disse


o advogado olhando para o vazio.

- Porque me especializei em arqueologia - murmurou Marta. - Assim,


com tantas licenciaturas, talvez chegue a ganhar num dia aquilo que
em duas horas ganha um electricista.

Mas não sentia mágoa ao dizer isto. Marta Vives sabia que as coisas
sempre têm uma outra dimensão.

A casa que apontou estava meio demolida ou talvez apenas meio


reformada, porque a estrutura se mantinha parcialmente intacta. Do
interior, porém, quase não restava nada, excepto pilhas de entulho,
bocados de azulejo e restos de vigas em que assentara, outrora, a
inocência de um berço. A rapariga parou e apontou para o que restava
de uma porta. Através dela, uns operários marroquinos tiravam os
restos e o entulho.

- De certeza que chegaram a expulsar os moradores - disse Marta - e


aqueles que vierem depois da reforma irão pagar dez vezes mais. É uma
história que neste bairro se repete, por isso gostaria de fazer uma
pesquisa. Ainda acabo a pedir trabalho numa dessas revistas de
arqueologia que duram apenas dois meses.

- Não me parece que vás precisar, porque no meu gabinete acabarás por
ter futuro - disse Marcos com um sorriso. - Mas parece-me que neste
caso estás menos interessada nos moradores vivos que no entulho
morto.

- Neste caso, talvez sim. Havendo por trás desta casa uma outra meio
enterrada, talvez encontrem algo de interessante. Acho estranho que
não esteja nenhum técnico municipal a vigiar as escavações. Podem
destruir à martelada parte da nossa história.

- Os proprietários das obras têm bastante cuidado para que não venha
nenhum técnico municipal. Se alguma coisa de valor for descoberta,
mandam parar o trabalho e aí o negócio irá para o diabo. Seja como
for, espero que tu não denuncies - acrescentou Marcos, rindo.

- Porquê?

59
- Porque provavelmente eu teria de interpor um recurso contra a
paralisação das obras. E quem sabe se, na pior das hipóteses, não
serias tu quem se encarregasse de o redigir.

Riram um momento perante aquele cenário de fachadas carcomidas,


janelas pelas quais mal podia sair uma cabeça, entulho e pó. Anos
atrás, a praça de Salvador Segui consistia num dédalo de ruelas com
bares, moças de cinquenta anos à espera de uma oportunidade, portais
por onde não passavam os caixões e prostíbulos tão baratos que
pareciam financiados pela assistência pública. Agora, nessa mesma
praça, alguns rapazes jogavam futebol, tinham sido instaladas algumas
mesas para apostas ilegais e uma ou outra moça de cinquenta anos
continuava à espera da sua oportunidade.

Mas já não havia espanholas, velhas mães de família que morriam com o
sotaque das suas terras e a lembrança das virgens desses locais,
agora havia umas negras mal vestidas, que pelos vistos tinham
encontrado a liberdade na Europa.

- Nestas zonas, os restos arqueológicos são o terror dos construtores


- insistiu Soiana -, porque a Câmara Municipal pode parar os
trabalhos. Seja como for, aqui não há restos tão importantes como os
do bairro gótico ou da muralha romana: no máximo, encontram-se aqui
velhos cemitérios de pessoas que morreram de fome. Mas já não há
nenhum vereador que ligue a uma caveira.

Detiveram-se perante o bocado de parede demolida por onde retiravam o


entulho. Pedras sem interesse, pedaços de mosaico, fragmentos de viga
que tinham suportado o peso dos séculos das casas. De repente, Soiana
fez um gesto para chamar a atenção.

- Olha.

Dois operários retiravam um fragmento de pedra diferente dos


restantes. Tratava-se do dintel quase inteiro de uma velha porta,
onde estava esculpida uma cara.

Soiana agarrou em Marta Vives pelo braço.

E voltou a dizer:

- Olha.

Era uma «la carassa», o que significava que no edifício sepultado sob
a casa actual existira um prostíbulo da Idade Média.

60
Não era fácil encontrar peças assim, e portanto este mero
descobrimento, em si, já causava admiração. Mas Marcos Solana sentiu
naquele momento algo que não era exactamente admiração.

Sentiu medo.

Semicerrou os olhos.

Os seus dedos tremeram levemente no braço da rapariga.

Murmurou:

- Não pode ser...

Mas era. Solana tinha suficiente boa memória para se lembrar muito
bem do desenho encontrado no jardim da torre da Bonanova, a torre do
defunto Guillermito, quando uma velha criada desmaiou horrorizada.
Recordava-se claramente dos traços do desenho e podia compará-los à
«la carassa» que tinha agora à sua frente. Os traços eram exactamente
os mesmos. O desenho encontrado na parte mais rica da cidade era uma
reprodução exacta da escultura encontrada na parte mais pobre.

Perguntou aos operários que a carregavam para fora:

- Onde a encontraram?

- Aí em baixo. Por baixo das fundações dessa casa que derrubámos


havia uma outra, muito mais antiga. Mas quase nada restava para além
da porta.

- E essa cara estava à mostra?

- Qual quê...! Estava enterrada. Veja a quantidade de entulho que


tivemos de lhe tirar de cima.

Marcos Solana estremeceu novamente. Isso significava que quem havia


feito aquele misterioso desenho e o tinha deixado no jardim da
Bonanova não tinha a «la carassa» à frente para a desenhar. Isso
significava, precisamente... que a teria desenhado de cor.

Desenhar de cor uma cara que estava enterrada há séculos...

A rapariga murmurou:

- O que se passa?

- Nada. Foi uma coisa de que me lembrei agora.

- Eu diria que ficaste assustado...

- Sim.
61
- Bem, a descoberta é importante, mas não ao ponto de alguém ficar
assustado. Significa, simplesmente, que descobrimos uma casa de putas
anterior à descoberta da América.

- E daqui a cinco séculos talvez descubram os restos das casas de


putas que estão agora por trás das nossas costas. Mas não é nisso que
eu estou a pensar.

- Então, o que é?

Alguém que devia ser um encarregado das obras interrompeu-os:

- Afastem-se.

- O que é que vai fazer com essa pedra? - perguntou Solana.

- Temos de a pôr de lado para ser vista por um técnico da Câmara.


Cuidado, afastem-se que isto pesa.

Assim o fizeram. Pelo menos, pensou Solana, naquela obra eram


cuidadosos com os restos. Voltou a tomar a sua estagiária pelo braço
e ambos se afastaram alguns passos dali, embora o advogado
continuasse com um esgar que lhe desfigurava a cara.

Ela, no entanto, não parecia minimamente afectada. Parecia estar


muito mais preocupada com o aspecto artístico daquilo que tinham
acabado de encontrar do que com o mistério que tanto preocupava
Marcos Solana.

- Suponho que a «la carassa» será conservada em algum museu - disse.


- Merece.

- Mais do que tu imaginas. Já reparaste que representa o rosto de uma


pessoa jovem?

- A mim parece-me antes que representa uma pessoa sem idade. E penso
também nos séculos que passaram e nos mistérios que haverá por trás
dessa cara - opinou Marta.

- Julgo que sei qual é o mais importante: alguém que não a viu
desenhou-a de cor.

Dava a impressão de que Marta Vives não compreendia totalmente.


Passaram por cima do cascalho em direcção à Rambla do Raval, onde há
séculos ficava a corte dos milagres da cidade velha e onde agora a
cidade nova continuava a fabricar um milagre todos os dias. Pessoas
que há cinco anos não tinham ouvido sequer falar de Barcelona estavam
a fabricar uma Barcelona que daqui a cinco anos ninguém iria
reconhecer.
62
Tocaram uns sinos longínquos; - Solana pensou: «A igreja do Pino.»

De certeza que quem esculpiu «la carassa» ouviu repicar, séculos


atrás, esses mesmos sinos.

Talvez desejando ignorar a angústia secreta de Solana, Marta


murmurou:

- Ontem arquivei os últimos papéis da herança de Guillermito Clave. A


viúva vai ser muito rica.

- Já o era.

- Será que não a incomoda pensar que as cinzas do marido repousem


junto dessa estranha pedra negra?

- Não, porque parece que essa pedra é antiquíssima e o defunto devia


acreditar que isso o aproximaria de algum modo da eternidade. Mas não
vou falar com ela sobre uma questão destas.

- Porquê?

- Reparei que a eternidade me assusta.

E rumaram para o pequeno local - umas cadeiras desdobráveis, duas


mesas de oficina, um par de candeeiros e uma bandeira catalã - onde
Solana recebia gratuitamente os emigrantes que esperavam encontrar um
cantinho para si na cidade. Havia apenas cinco à espera, mas com o
passar das horas chegaram mais dez. Marcos Solana e Marta Vives
acabaram exaustos e sem ter ganho nem para o bilhete do autocarro,
mas ficaram com a sensação de estarem a justificar as suas vidas.

Quando as ruas da cidade já estavam cobertas de sombras, ela voltou


para o pequeno apartamento onde morava sozinha. Ficava no centro,
perto da Escola Industrial -, portanto não muito longe do Clínico -,
tinha dois quartos onde os livros se amontoavam, uma cama onde se
amontoava a solidão e duas janelas em cujo parapeito deixava por
vezes alimentos, para que os pombos emigrantes se amontoassem.

Marta Vives não queria acreditar na morte, mas na vida que palpita.

Naquela noite teria uma surpresa. A segunda janela, a do quarto de


dormir, estava aberta, e ela tinha a certeza de a ter deixado
fechada. «Se calhar foi o vento», pensou.

63
Mas durante o dia não tinha havido vento. «Não tem importância»,
pensou também. Tinha sim, porque as pombas se haviam esgueirado para
o interior.

Os dois quartos tinham sido revistados, ainda que com minúcia, ordem
e mesmo um certo cuidado científico. Dentro do possível, cada objecto
tinha sido colocado novamente no seu lugar; uma pessoa menos
meticulosa que Marta não teria notado nada. E foi isso precisamente o
que mais a assustou: era como se tivesse ali entrado alguém que não
era como os outros, alguém que vivia no ar. Quem podia ter entrado
por uma janela que estava a cinco andares de altura, apenas ao
alcance dos pombos? E quem tinha feito aquilo para não roubar nada?

Nada, não faltava nada. Nem documentos, nem as escassíssimas jóias,


nem dinheiro, nem as chaves de reserva que estavam dentro da casa.

Apenas faltava um objecto. Um. E inexplicável.

Faltava apenas um retrato da sua mãe.

64
.12.

A GUERRA QUE O DIABO CANHOU

Não sei se ainda existe, porque eu não voltei a passar por lá, mas
naquela altura existia, juro que existia. Ficava na rua Palma de San
Justo e era uma entrada de esgoto romano junto da qual estavam as
bases das colunas de um alpendre. A cloaca deve ter sido esquecida
durante séculos e séculos, porque li num jornal anticlerical, El
Dilluvio, que fora redescoberta em 1928. No entanto, quando vi pela
primeira vez «la carassa», existia, e continuava a existir quando de
lá fugi. O esgoto ficava dentro das muralhas e pertencia às entranhas
da cidade morta.

Apesar de ali não caber uma pessoa em pé, vivi no seu interior quase
três dias para que o dono da casa não me encontrasse. Tinha a certeza
de que viria à minha procura e que pagaria a alguém para me
encontrar, como se fazia com todos os escravos fugitivos; mas de mim
não podia tirar grandes vantagens, por isso supus que em breve se
cansaria.

Ocultar-me no esgoto foi a melhor ideia que poderia ter tido, porque
os caçadores de escravos vasculharam por todo o perímetro amuralhado.
Soube mais tarde que também tinham procurado no Raval, na Muralla de
Mar e nas Atarazanas, onde as galés eram construídas. Procuraram,
inclusive, no cimo das torres, mas ninguém teve a ideia de mergulhar
nos esgotos.

Quando uma noite saí, pouco antes de fecharem as portas da cidade,


compreendi que devia procurar um novo refúgio. Barcelona estendia-se
pela planície, muito para lá das fronteiras que as Ramblas marcavam,
com as suas avenidas de água e as poças fedorentas que se formavam ao
fundo, junto do mar, que os cidadãos tinham de atravessar a pé,
geralmente descalços.

65
Como essa fronteira já não podia conter o desenvolvimento da cidade,
iam-se formando ruas perpendiculares à muralha, como por exemplo a do
Hospital, que acabava por perder-se no vazio. Precisamente perto
dessa rua ficava a casa onde eu nascera, de modo que jamais me
aventuraria por ela. É claro que a seguir havia campos, pequenos
bosquezinhos, vivendas de um só andar e até um cemitério onde eram
enterrados os mais pobres da cidade, e cujas caveiras ainda se
encontram sepultadas no mesmo lugar. Junto ao cemitério elevava-se
uma igreja suficientemente longínqua para me inspirar confiança. Era
a de Sant Pau dei Camp. As preces e os mortos eram a sua única
envolvência.

Em Barcelona, fora das muralhas, havia duas igrejas românicas


antiquíssimas: uma era a de Nossa Senhora do Coll, que ficava perdida
nas brumas da distância, e outra, muito mais próxima, a de Sant Pau.
Era anterior ao século x, com pormenores visigóticos na parte
anterior e, logicamente, havia sido arrasada pelos muçulmanos em
diversas ocasiões antes da sua reconstrução em 1117.

66
E eu vivi lá porque o pároco me recolheu. Ao encontrar-me na rua deve
ter confundido a minha expressão de medo com uma expressão de
piedade, e deu-me o trabalho de o acompanhar nos viáticos nocturnos,
que eram por vezes extremamente perigosos, apesar da presença do
Senhor. Alguma coisa viu em mim que lhe fez crer que com a minha cara
paralisaria as pessoas.

O sacerdote servia Deus e o bispo numa paragem próxima dos primeiros


contrafortes de Montjuic, com as suas cavernas, onde se refugiavam
vagabundos e ladrões. Nas imediações de Sant Pau del Camp a virtude
corria perigo. Era também um local adequado - diziam os fregueses -
para os pecados da carne. Por estas razões, não era estranho que os
viáticos nocturnos representassem um perigo e que o pároco de Sant
Pau preferisse ser acompanhado pelo menos por dois acólitos, um dos
quais fui eu. Convinha-me, porque assim tinha tecto e comida, e ainda
por cima o templo mantinha-me a salvo de qualquer detenção por se
tratar de um lugar sagrado.

As igrejas da minha infância eram ricas, embora nem todas,


especialmente em Sant Pau, onde tudo abundava menos as pessoas
prósperas: isto é, a Sant Pau não lhe calhavam testamentos, nem
legados. Porque, segundo aquilo que me foi dado a ver e a aprender,
os moribundos deixavam em testamento às paróquias uma grande parte
dos seus bens, caso contrário, dizia o confessor, não era certo que
fossem ter boas referências ou boas testemunhas no julgamento do
Além... «Agradai o Senhor - gritava o santo homem que cuidava de mim
- porque no terrível e decisivo momento Ele apenas vos fará uma
pergunta: O que me destes?»

E as pessoas davam, mas como é lógico muito mais nos locais ricos do
que nos pobres, que eram geralmente os de extramuros, como a minha
igreja. Nas paróquias prósperas, uma enorme quantidade de terras de
lavoura e solares urbanos passavam por testamento para a Igreja
sempre que um cristão se despedia, nunca melhor dito, dos bens deste
mundo. A igreja recebia os dízimos, dos quais as primícias
representavam um terço, embora segundo pude ver, nem tudo chegasse às
mãos dos bem alimentados servos da fé.

67
Muitas igrejas catalãs beneficiavam de uma protecção particular, e o
patrono amealhava grande parte da dádiva sem cuidar muito se a tirava
do coração de Deus ou da boca do clérigo. Daí que muitos templos
subsistissem graças aos baptizados, às bodas, aos enterros e às
esmolas, aos quais eu dedicava uma santa energia. Algumas câmaras
municipais, inclusive, ajudavam oferecendo-nos uma parte da quantia
das multas impostas àqueles que eram apanhados a trabalhar em dia de
descanso. Nefando pecado que, depois, por aquilo que vi, os catalães
continuaram a praticar entusiasticamente para alimentar os novos
cristãos que chegavam ao mundo.

As longas horas nocturnas à espera da confissão de quem morria


ajudaram-me a perceber uma coisa que ainda não tinha percebido nessa
altura: eu estava vivo graças ao sacrifício da minha mãe, isto é,
graças a um acto de amor. Provavelmente, ter-me-iam executado por
atacar uma menina e beber-lhe o sangue. E esse sentimento, embora
demasiado tardio, de certa forma fez com que eu mudasse, obrigou-me a
sentir vergonha de mim próprio e a tentar viver como os outros.
Frequentava os cemitérios à noite, mas isso fazia parte do meu
trabalho, porque quando em Barcelona era declarada uma epidemia,
coisa bastante frequente, eu tinha de ir à procura antecipadamente,
em local sagrado, de buracos para os túmulos, que nem sempre eram
abundantes. Também perdi o medo das cruzes, que antes disso me
aterrorizavam, porque estavam constantemente a encontrá-las. E julgo
que até nem teria sido impossível aprender a rezar, sobretudo à
Virgem: a Virgem, não sabia porquê, fazia-me sempre sentir pena. Via-
a fazendo a vontade de um Deus implacável e ainda por cima a suportar
a dor que outros lhe iam levando.

E aconteceram-me então duas coisas que, pelos vistos, não tinham


sentido, e que possivelmente nunca virão a ter. A primeira é que
perdi a noção do tempo, de maneira que não me apercebia da passagem
dos anos: era como se contasse em séculos. A segunda foi tomar
consciência de que as desigualdades aumentavam na minha cidade, em
vez de diminuírem, de modo que Barcelona teria de ser, forçosamente,
uma cidade revolucionária.

68
Já quando via as mulheres, como a minha mãe, serem esmagadas pelos
clientes, que por sua vez eram uns esfomeados, deveria ter pensado
nisso, mas naquela altura não me apercebia. De qualquer forma, há
pessoas que não se apercebem disto em nenhum momento da sua vida; e
aqueles que nessa época já pensavam acreditavam firmemente que essa
era a vontade de Deus.

A primeira das questões, isto é, a passagem do tempo, preocupava-me a


sério, ainda que por uma razão muito concreta: o pároco de Sant Pau,
os seus paroquianos e outros acólitos que trabalhavam na igreja iam
ficando mais velhos, ao passo que eu tinha sempre a mesma cara.
Crescia um pouco, mas sem que as minhas feições variassem: a marca
dos anos não deixava vestígios em mim, e isto acabaria forçosamente
por chamar a atenção das pessoas.

Não passaria muito tempo até precisar de uma mudança de refúgio;


seria preciso esconder-me em algum outro lugar onde ninguém me
conhecesse.

E então o pároco de Sant Pau começou a perder a fé.

Por vezes, à noite, quando nos agasalhávamos à volta de uma fogueira


nas redondezas do cemitério, dizia-me que a vida não tinha sentido.
«Sendo que a vida - reconhecia - foi criada pelo Senhor.» Tudo se
reduzia a nascer, a procurar alguma coisa que nos desse pão, seguir o
instinto para nos reproduzirmos (instinto que ainda por cima era
acompanhado pela ratoeira do amor), envelhecer e morrer, deixando
espaço para outras pessoas. Nascíamos sobre os túmulos dos
antepassados à espera de sermos também antepassados, e fornicávamos
junto dos cemitérios sabendo que apenas iríamos conseguir uma coisa:
que os cemitérios fossem maiores.

- Esta vida não tem sentido - murmurou o pároco estendendo as mãos


para a fogueira. - Substituirmo-nos uns aos outros, para quê?

- Para conseguirmos a vida eterna - disse. - A nossa estadia na terra


é apenas uma passagem, e seremos julgados consoante o que nela
tivermos realizado.

Disse-lhe o mesmo que costumava ouvir nos sermões de domingo, isto é,


as palavras dos sacerdotes, mas não tinha sentido falar como um
deles, porque nem eu o era, nem alguma vez tivera a ideia de o ser.
Talvez tivesse dito aquilo para bajular o pároco, que era o meu
protector.

69
Ou por considerar que era a minha obrigação dizer isso, uma vez que
ambos vivíamos dentro da igreja.

- É isso que eu tenho achado até agora - interrompeu-me. - É por isso


que eu sou sacerdote, e além disso com autêntica vocação. São muitos
aqueles que a não têm.

- Porquê?

- Porque o sacerdócio, no fim de contas, é um modo de vida. Não


julgues que existem muitos mais. Ou nasces nobre e com bens, ou seja,
sem precisar de trabalhar, ou então tens de ganhar a vida de outra
forma. Como? Ou és um escravo nos campos, submetido ao teu senhor, ou
és um escravo dos grémios, se tiveres chegado a ser livre na cidade.
Ser livre quer dizer passar a vida esfomeado, tal qual. A única opção
que resta, então, é a guerra ou o clero: por isso há tantas aves de
rapina e tantos sacerdotes que não têm fé.

Lembrei-me de muitos deles, que tinham sido clientes da minha mãe,


mas não quis dizer nada.

- No entanto, eu tenho fé - disse o pároco com o olhar perdido -, e é


precisamente isso que me faz pensar. Por exemplo, cheguei à conclusão
de que o mundo não está bem construído, e que portanto não pode ser
obra de Deus.

Estremeci.

Nunca ouvira um homem que vivesse da Igreja falar assim. Embora, no


fundo, sentisse uma alegria secreta ouvindo-o falar desse modo, não
sei porquê.

Não me atrevi a perguntar-lhe, de maneira que ele prosseguiu:

- Repara, por exemplo, nos animais. Eles nunca matam, excepto se com
medo ou com fome, exemplo constante que devíamos imitar. Porque nós
matamos por prazer.

- Ou por uma causa justa - atrevi-me a dizer.

- Procuramos uma causa justa para disfarçar o prazer, ou pelo menos é


o que acontece na maior parte das vezes. As guerras são um magnífico
exemplo das causas justas. O que admiro nos animais é que nunca
entram nisso.

- Os animais também foram criados por Deus - murmurei, defendendo


algo que não me interessava -, e nesse sentido poderíamos dizer que a
obra é perfeita.
70
- E nós, os homens, destruímo-los - objectou. - Tornamo-nos donos dos
animais para sacrificá-los.

- Isso também é verdade. Tornamos perverso algo que nunca o foi.

- Tudo o que tocamos tornamos perverso, e ainda por cima com a


aparente graça de Deus. Guerras, crueldades, maldades e injustiças
dependem de nós, homens. Doenças, cataclismos, terramotos, pestes,
acidentes em que as crianças são queimadas vivas dependem de Deus.
Diz-me lá tu se, por uma ou por outra parte, este é um mundo bem
arquitectado?

- Deus não pode ter errado a tal extremo - sussurrei.

- Nesse caso, bom, fizeram com que Ele se enganasse.

- Não estou a perceber.

Era verdade: não estava a perceber, embora no fundo do meu coração


algo que não sabia explicar obrigava-me a estar de acordo com o
pároco de Sant Pau. Mas este não parecia disposto a continuar as suas
palavras, pelo menos por enquanto. Por momentos deixou o olhar
vaguear no vazio enquanto aproximava ainda mais as mãos da fogueira.
Pareceu-nos ver ao longe uns ladrões de túmulos que abriam a cova de
alguém enterrado nessa mesma manhã, para ver se encontravam alguma
jóia. Normalmente, o pároco tê-los-ia perseguido invocando a santa
ira de Deus, mas daquela vez nem se mexeu, como se de repente não se
importasse com isso. Continuava com o olhar perdido.

- Não é que eu não me atreva a persegui-los - disse depois de alguns


minutos: - afinal, o cemitério está sob a minha responsabilidade, mas
se não me mexo é por não valer a pena lutar contra a grotesca
construção do mundo. Tens aí a prova de que a morte é tão absurda
como a vida. Tudo aquilo que fizermos será inútil.

- Vejo que não tem vontade de lutar - disse a medo, esperando não
ofendê-lo com essas palavras.

- Já lutei bastante. Talvez haja uma coisa que não saibas sobre mim.

- O quê?

- Não sabes que fui soldado.

71
Fiz um gesto de espanto. A verdade é que não sabia. Eu achava que o
pároco de Sant Pau del Camp havia passado toda a vida no cemitério e
na igreja.

- Não. Nem sequer poderia imaginar - disse em voz baixa.

- Sendo eu muito jovem, alistei-me na guerra para reconquistar


Roussillon, que pertencia ao rei de Maiorca. Barcelona dera créditos
para a luta, ficando ainda mais pobre e sem perceber que aquilo
representava uma matança entre homens que, afinal, falavam a mesma
língua e que qualquer animal teria compreendido que não mereciam
morrer. Qualquer animal, certamente, teria sido mais esperto do que
nós. Mas, naquela altura, não me importava com isso. Para o combate,
deram-me um escudo e um machado.

- Não o imagino com um machado - murmurei.

- Usei-o apenas uma vez.

- Como?

- Apenas participei um dia nos combates. Tinham-me ensinado que devia


usar um estratagema, caso o inimigo fosse imprudente ao ponto de se
deixar cair. Tinha de levantar o machado por cima da sua cabeça, como
se lhe fosse partir o crânio, e o inimigo protegeria com o escudo
toda a parte superior, sem se aperceber de que estava a deixar a
descoberto as virilhas. O meu movimento, então, tinha de ser muito
simples, mas terrivelmente rápido: descer com o machado e afundá-lo
nos genitais, num golpe de baixo para cima, rachando-o praticamente a
meio. As suas partes, a bexiga, o ventre, cairiam imediatamente no
chão, no meio de um jorro de sangue. Foi tão bem feito que o meu
inimigo nem sequer teve consciência de que estava a morrer: ou
melhor, até sim, porque a morte foi atroz e lenta, perdeu tudo pela
horrível fenda. Estava tão perto que o sangue saltou para a minha
cara.

O pároco abriu um pouco as mãos. Era como se dissesse: «Estás a ver,


tão simples?» O primeiro golpe engana, o segundo mata. Ouvimos
confusamente que os ladrões de túmulos tinham encontrado o caixão de
madeira tosca e estavam a abri-lo, mas não ligámos. O sacerdote
fechou os olhos e prosseguiu:

72
- Neguei-me a continuar a lutar, sobretudo depois de ver, após a
vitória, que o acampamento inimigo era pilhado, as crianças eram
mortas e as mulheres violadas. E não só.

- Não só...?

- Duas coisas. A primeira foi a organização de uma missa para


agradecer a Deus a vitória. De modo que, disse de mim para mim, Deus
ficava proclamado autor daquilo. A segunda foi quando voltei a ver o
homem que matara. No acampamento estava o cão dele, e o cão uivava
junto do morto enquanto os soldados se abraçavam pela vitória. O
único sentimento que vi, entre tantos milhares de homens, foi o
daquele animal.

E pôs-se em pé. O seu olhar dirigira-se para cripta românica da


igreja, que não era obra sua, mas sim a responsabilidade dele neste
mundo. Tive a impressão de que, de repente, aquele homem acreditava
nos séculos, não no templo. Ao longe, viam-se as fogueiras que os
sentinelas tinham acendido nas torres da muralha. Do cemitério, que
quase se estendia até Montjuic, chegaram uma série de golpes, como se
alguém estivesse a quebrar um caixão. Sob um toldo situado muito
perto, uma mulher cantava e ouviam-se risadas.

Aquela voz lembrou-me a minha mãe.

A minha mãe, por vezes, cantava para os clientes, que depois a


possuíam à vez.

- Se este é um mundo bem feito... - balbuciou o meu protector. - Se


este é um mundo bem feito, e se os homens nascem à imagem e
semelhança de Deus... Bom, quem é que acredita nisso? Será que vou
dedicar a minha vida a uma mentira tão monstruosa? Quando houve uma
guerra entre Deus e o diabo, acreditas realmente que foi Deus o
vencedor?

Rodou sobre os calcanhares e dirigiu-se lentamente para a igreja, que


estava perdida entre as sombras. Por isso, não viu o que levavam nas
mãos aqueles que acabavam de roubar o túmulo de uma mulher recém-
sepultada.

Era uma cruz de bronze que o cadáver levava ao peito. Não me pareceu
que fosse muito valiosa, mas alguma coisa receberiam os ladrões por
ela: no fim de contas, era uma cruz de bronze.

73
Enquanto os saqueadores se dirigiam a um dos toldos alinhados à
frente da muralha da Rambla, eu dirigi-me com uma tocha para o túmulo
recém-violado e voltei a cobrir com terra o corpo da mulher.

Tinha sido uma mulher muito bonita. E parecia viva, ainda.

Mas fugi quando ouvi o guarda chegar. Ainda podiam pensar que quem
violara o túmulo fora eu.

74
.13.

A HERANÇA CATALÃ

Marcos Solana e o padre Olavide entraram no escritório. A cruz estava


lá.

Era uma cruz de bronze, de tamanho médio, que podia cobrir todo o
peito de uma pessoa. Como estava limpa e polida e o bronze é um metal
generoso, parecia uma cruz nova, dessas que há nos catálogos das
poucas lojas de arte sacra que ainda existem em Barcelona. Mas era
uma cruz muito antiga, uma antiga peça de 1400. Havia sido
certificada por três classes de peritos: os de um salão de leilões,
os da Audiência e os do Bispado, que mobilizou os seus especialistas
quando se discutiu se a arte religiosa de La Franja, terra de idioma
catalão entre a Catalunha e Aragão, fazia parte de uma ou outra
comunidade. Por isso, muitas cruzes e muitas virgens que deviam estar
nas igrejas acabaram nos escritórios de advogados ou nas antessalas
dos bispos.

Essa cruz estivera em muitos lugares.

Por enquanto, todavia, foi o padre Olavide quem a examinou com mais
respeito e atenção, talvez por ver nela alguma coisa que os outros
não veriam nunca. Acariciando o cabeção que o cobria até ao queixo e
alisando com a outra mão a batina que lhe chegava até aos pés, o
padre Olavide parecia mais do que nunca um homem alto, ascético,
surgido de um outro tempo, como se acabasse de nascer de um breviário
da época de Torras i Bages. Sabia que chamava a atenção na rua, mas
isso fazia-o sentir-se orgulhoso, porque era o testemunho público de
uma religião acima do tempo.

75
O advogado Solana, junto dele, examinou as peças de arte sacra que
estavam por cima de uma das mesas. Ao lado da cruz reluzia um anel
episcopal - último vestígio de alguém que fora fuzilado na guerra
civil -, uma custódia, um Livro de Horas e um cálice que fora também
polido cuidadosamente. Ainda assim, aqueles objectos pareciam falar
de um tempo que já não existia, para além da morte, com uma voz que
já ninguém compreendia.

Pela porta do fundo entrou, então, Marta Vives, produzindo um efeito


de juventude que se introduziu repentinamente no escritório, quando
ninguém estava à espera dela. Marta tentou sorrir, mas o seu sorriso
parecia congelado há já três dias. Ninguém lhe perguntara o porquê,
nem sequer Solana.

Foi este quem murmurou:

- Obrigado pela tua assistência, Marta. Hoje, finalmente, podemos


assinar a transacção que irá pôr fim a este maldito pleito. Andamos
há perto de oito anos às voltas com ele. Assim que assinarmos os
documentos, tudo isto será incorporado na herança dos Vives. Pedi
para seres tu a redigir a acta porque és uma perita em arte. Tenho a
certeza de que assim não pode haver nenhum erro.

Sentou-se atrás da mesa, perante uma imensa estante onde estavam


todos os livros que a lei pariu nos últimos cem anos, e continuou:

- Este pleito foi iniciado com a herança, Marta, muito tempo antes de
tu começares a trabalhar no escritório, e é um dos que mais me têm
atazanado a vida. Iniciou-se com a discussão sobre se seria uma
herança castelhana ou catalã, facto que mudava tudo porque como
sabes, segundo o Código Civil, é obrigatório deixar dois terços aos
herdeiros - a medida da legítima e as doações a descendentes -, ao
passo que no Direito catalão são de livre disposição para o testador
três quartas partes da herança. Não podíamos fazer nada sem antes
esclarecermos este conceito. Com a lei castelhana, a herança
distribuía-se de uma maneira e com a lei catalã de uma outra.

Fez uma breve pausa enquanto contemplava o padre Olavide. Este não
prestava atenção às suas palavras, como se não se importasse com as
sentenças dos homens, mas sim com as sentenças da eternidade. Nem
sequer parecia ter dado pela entrada de Marta Vives.

76
Marcos Solana prosseguiu:

- Depois houve mais um longo pleito, desta feita eclesiástico, porque


esta cruz e os restantes objectos tinham aparecido em La Franja, uma
zona catalano-aragonesa disputada por dois bispos. Finalmente, o
padre Olavide foi nomeado árbitro da questão e conseguiu chegar a um
acordo. É por isso que ele está aqui, para assinar a acta que mais
tarde levaremos ao notário.

- Não foi fácil - disse o sacerdote com voz distante.

- Os objectos que aqui vemos - finalizou Marcos - pertenceram


historicamente à família dos Vives, e a eles serão devolvidos quando
os documentos forem legalizados.

Marta, que estava junto à mesa, aproximou-se mais um pouco e tomou a


cruz entre os dedos. Certamente não era o elemento mais valioso - a
custódia atingia várias vezes o preço daquela -, mas essa cruz
parecia fasciná-la. Os seus finos dedos de mulher especialista em
antiguidades acariciaram os rebordos da relíquia, as saliências
carcomidas pelos anos, esse brilho artificial que parecia esconder a
escuridão de um túmulo.

- É estranho - balbuciou.

- O quê?

- Não tenho conseguido afastar os olhos desta cruz desde que entrei
no escritório. Pergunto-me em que lugares terá estado até chegar
aqui, em que palácios, em que prisões e em que sepulcros. Talvez
sejam fixações de antiquário.

- Absolutamente - disse Marcos, que desejava acabar logo -, embora


essa seja uma fixação que não faz mal a ninguém.

- Há mais uma coisa - sussurrou Marta.

- O que é?

- A família que reclama judicialmente esta cruz chama-se Vives, e eu


também me chamo assim.

- Um acaso - disse o sacerdote.

- Oh, é claro que sim... - Marcos Solana abreviou a questão


encolhendo os ombros. - O apelido Vives é antigo e muito habitual
nesta terra. Além disso, tem uma autêntica categoria cultural... Mas
há Vives ricos e Vives pobres, Vives que gozam de um património e
Vives que não podem gozar nada...
77
Talvez um militar com esse apelido tenha vivido melhor do que
ninguém.

- Quem? - perguntou o padre Olavide, que se gabava de saber tudo.

- Foi capitão-general em Cuba - disse o advogado - e durante o seu


mandato caracterizou-se pela sua inércia. Estava tão bem na sua
poltrona que, na velha Cuba, quando se referiam a alguém que já não
podia estar melhor, diziam: «Vives como Vives.»

A rapariga sorriu.

- Bom, eu não posso dizer a mesma coisa que o capitão-general. Só


tenho problemas.

E deixou a cruz em cima da mesa com tanto respeito como se de um ser


vivo se tratasse, sem poder afastar o olhar dela.

Uma série de pensamentos rápidos passou-lhe pelos olhos, mas todos se


referiam ao tempo em fuga, o tempo que transformava as coisas em pó e
que, no entanto, deixava um resquício para a ideia de eternidade, a
única coisa que, não havendo nenhuma prova, os homens tinham assumido
como certa.

A eternidade... Marta Vives não podia deixar de pensar que a


eternidade dá sentido a tudo aquilo que não é eterno.

A voz do padre Olavide distraiu-a por momentos. Essa voz que sempre
parecia chegar de muito longe, como o retumbar da pedra do primeiro
sepulcro aberto em nome da Igreja.

- Gostaria que as cinzas do nosso amigo Guillermito Clave andassem a


vaguear no espaço, acreditando que assim se tornam eternas... É
melhor do que estarem enterradas com uma pedra.

- Até parece que está a brincar, padre...

- Eu gozo sempre com todas coisas que tentam substituir a ideia de


Deus.

E sentou-se à frente da mesa, com o habitual rosto imperturbável, os


olhos perdidos num espaço que não correspondia aos outros. Todos os
fanáticos de Deus - pensou Solana - têm o mesmo olhar perdido.

- Com isto concluímos muitos anos de trabalho - murmurou o sacerdote.


- Este é um grande dia, e por sinal cheio de notáveis feitos.

78
Você, Marta, que irá redigir a acta, chama-se Vives pelo seu pai,
ainda que também pela sua mãe. Chama-se Vives y Vives... Bom, tanto
faz. Se eu não fosse sacerdote, elogiaria a sua beleza e a sua
inteligência, mas como sou, vou elogiar apenas a sua inteligência...
Prepare-se para escrever, minha cara... Hoje acabamos, finalmente, um
pleito infindável.

- Foi ainda mais infindável para mim do que para o senhor - disse, a
rir, Marcos Solana. - O senhor apenas teve de elucidar se estas peças
sagradas pertenciam à Catalunha ou a Aragão, ao passo que eu tive de
examinar todos os antecedentes para saber a quem tinham pertencido.
Muitos documentos foram-me proporcionados pela família requerente,
mas outros tive eu de ir à procura deles nos arquivos paroquiais, nos
calhamaços do Registo Civil e até mesmo nos dos cemitérios. Mas não
me vou queixar agora... Quando uma pessoa se dedica a velhas heranças
catalãs, parte do seu trabalho é um trabalho de toupeira. Mal sabem o
alívio que sinto ao dar por finalizado um pleito deste género.

- Deves ter encontrado pormenores surpreendentes - disse Marta


enquanto ligava o computador.

- Nem imaginas. Como também não podes imaginar, provavelmente, que


trabalhas no escritório graças a este pleito, Marta. Quando comecei a
ser confrontado com objectos tão antigos decidi procurar a ajuda de
uma pessoa como tu, com conhecimentos de arqueologia. Na realidade,
ajudaste-me imenso na última fase, mas não sabes tudo. Não te
comentei alguns pormenores porque são, digamos... até um pouco
terroríficos. Nos velhos arquivos episcopais, nos papéis que provêm
da igreja românica de Sant Pau del Camp, fala-se de um pároco
vinculado a ela que foi queimado vivo em Madrid, juntamente com uma
mulher acusada de bruxaria. E a história desta cruz... Ninguém pode
imaginar a quantidade de coisas absurdas, ou terríveis, que se
encontram nos arquivos das igrejas ou das grandes famílias, nos
papéis de outros tempos. Eu próprio fico assustado porque penso que
vou acabar por me tornar um advogado fóssil... Por exemplo, quando
encontrei os antecedentes dessa cruz de bronze.

- Tem história?

79
- Imensa.

- Talvez seja por isso que me chamou tanto a atenção – sussurrou a


rapariga.

- Não vou ser eu a negar. Há objectos que possuem um certo magnetismo


- opinou o advogado.

- E qual é, em linhas gerais, a história desta cruz? - perguntou


Marta.

- O primeiro pormenor é que foi roubada de um túmulo - respondeu


Marcos com os olhos fechados.

- Do túmulo de quem...?

- Do túmulo de uma mulher assassinada.

80
.14.

A FOGUEIRA

É de justiça reconhecer que o pároco tomava conta do cemitério de


Sant Pau del Camp e tentava assistir a todas as cerimónias, apesar de
não ser pago por isso, uma vez que os mortos daquele sector eram
pobres e quando havia epidemias eram todos amontoados junto das
valas. Mantinha, também, uma espécie de registo que incluía os nomes
e as circunstâncias da morte, embora eu pensasse que esse registo
nunca serviria para nada, pois era impossível que alguém pegasse nele
depois de séculos.

Era um bom sacerdote, meticuloso em todas as suas obras, mas até eu


notava que estava a ser vigiado.

Para lá da pequena igreja, estendia-se uma superfície plana cortada


pela montanha de Montjuic, e essa superfície tinha dois extremos: um
eram as muralhas das Atarazanas, onde havia uma constante actividade,
e o outro, no ponto mais afastado do mar, um terreno bastante
sinistro onde enforcavam os condenados e onde havia uma cruz que era
tapada sempre que alguém era pendurado. Por isso, aquele ponto
fúnebre começou a ser chamado Cruz Coberta.

As pessoas que habitavam no sector tinham fama de ser pobres - mais


do que as de Sant Pau -, e, naturalmente, mais descrentes. Por isso
chamava a atenção que tantas delas fizessem, todos os domingos, a
longa caminhada apenas para escutar aquele pároco. E também que o
bispo enviasse com regularidade alguns dos seus homens fiéis apenas
para o ouvir.

Porque aquilo que me dissera a mim, também o dizia em público, embora


com outras palavras.

81
O espectáculo do mundo - dizia ele, em síntese - não nos sugeria uma
criação perfeita, mas antes uma criação imperfeita. O único sentido
da vida era a repetição das espécies, e não proporcionava nenhuma
satisfação moral - ou nenhuma elevação moral - porque todos os seres
vivos precisavam de matar para continuar a viver.

Quem chegava de muito longe para o escutar, percebia-o. Mas a verdade


era que nunca ninguém lhes falara assim.

Os homens fiéis ao bispo também percebiam. Mas a verdade é que nunca


tinham ouvido ninguém falar assim.

Quase como que repetindo as palavras que pronunciara à minha frente


na solidão da noite, o pároco desculpava os animais, que eram uma das
partes mais belas da Criação e nunca sentiam ódio nem matavam se não
fosse por fome ou por medo. Eu podia ter-lhe respondido que há
animais que matam mais por curiosidade que por fome, como, por
exemplo, o gato, mas nunca fiz isso porque, em linhas gerais, o
sacerdote tinha razão. O homem, no entanto - dizia nos seus sermões
-, mata por prazer. E muitas artes culinárias da época não eram mais
do que refinadas amostras de crueldade, porque se o animal morresse
sofrendo poderia vir a ter um sabor mais suculento. Naquela altura,
eu não entrava em nenhum género de cozinha, mas constava-me que havia
coelhos que eram esfolados vivos, gatos que eram submergidos em água
a ferver antes de serem igualmente esfolados, peixes que iam para o
carvão ainda vivos e alegres cerimónias populares em que o porco era
arrastado com um gancho cravado na garganta até ao lugar do
sacrifício. Já para não falar da crueldade requintada que começava a
ocorrer entre os fidalgos, nas corridas de touros.

Mais tarde, na longa solidão dos séculos, eu iria testemunhar


práticas igualmente atrozes. Por exemplo, caracóis queimados vivos em
palhas finas, ou sibaritas da mesa que imobilizavam um macaco,
abriam-lhe o crânio utilizando uma fina serra e, com uma colher,
comiam directamente os miolos quando o animal ainda estava vivo. Com
o tempo, aprendi que qualquer livro de cozinha é um catálogo de
horror.

Mas esta - dizia o sacerdote - é apenas uma parte ínfima da falta de


sentido da Criação.

82
Também da vida dos torturadores, ou seja, dos homens, faziam parte
todos os catálogos de maldade: as nossas atarefadas vidas, quase
sempre afogadas pela injustiça e pela fome, levavam-nos à morte e à
morte das pessoas que amávamos. Esta ausência de sentido complicava-
se ainda mais - especificava o sacerdote -quando nos diziam que, após
uma vida tão dura e sem rumo, nos esperava o inferno, pois nem um mau
pensamento nos seria perdoado. «Isto, um pai não faz aos filhos -
gritava nas missas ao domingo, numa igreja que era cada vez mais
pequena - por muito injusto, vaidoso e cruel que esse pai seja.»

Deduzia daí que na Criação não tinham triunfado as forças do Bem, mas
as do Mal, e que a própria morte de Jesus Cristo na cruz era um acto
de vingança e humilhação ditado pelo Mal, pois era preciso supor -
nisto, o sacerdote era ortodoxo - que Cristo representava o Bem. Não
podia haver forma mais clara de nos dizer que, com a crucifixão do
seu rival, o diabo triunfara.

Por vezes, as pessoas saíam a chorar da igreja de Sant Pau.

Por vezes.

Mas os enviados do bispo nunca choravam e apontavam tudo.

Tudo.

Eu não chorava, porque entre outras coisas nunca tive a sensação da


morte. Mas era atormentado pelas dúvidas. Se o Anjo Mau ganhara a
batalha, a crucifixão de Cristo era, de facto, a prova mais palpável
de todas. Mas se não era esse o caso, se tivesse sido ordenada pelo
Bom Pai para nela se comprazer, que género de Bom Pai era e que
respeito merecia? Tudo isto levava-me a pensar que o sacerdote, meu
protector, tinha toda a razão: o Deus da Bíblia não podia ser bom.
Mas e se Cristo tinha passado por aquele mau momento para depois já
não se importar com mais nenhum mau momento que os humanos lhe
pudessem vir a dar? E se o fizera para que qualquer outro pecado
viesse a ser perdoado? Este pensamento aliviava-me, ainda que
estivesse em contradição com a doutrina da Igreja. A doutrina da
Igreja era simplesmente esta: para o inferno!

Se eu ainda vivesse no prostíbulo, vendo como possuíam a minha


própria mãe, nunca me teria feito estas perguntas, porque no
prostíbulo nunca falavam do Além.

83
Nem sequer os clérigos, quando iam jazer, falavam de Deus. Eles menos
que ninguém. Mas na igreja de Sant Pau era diferente, porque Deus
estava em todo o lado, principalmente na cabeça do atormentado
sacerdote. E o atormentado sacerdote era um homem bom que ainda por
cima me tinha descoberto.

Tinha-me descoberto.

E era a coisa mais estranha do mundo, porque eu ainda não me


descobrira a mim próprio.

Falou numa das noites, à frente da fogueira, rodeados pelo cemitério


em paz, enquanto os contornos da igreja, que já tinha séculos,
começavam a enegrecer.

- Reparei que cresces um pouco em tamanho - disse olhando para mim


fixamente -, mas que a tua cara não muda nunca. Nunca. Quando te
conheci, já tinhas uma cara mais velha do que aquela que corresponde
à tua idade, ou seja, aparentavas ser um rapaz de uns vinte anos,
embora o teu corpo fosse muito menor. Apercebi-me disso logo de
início, mas a caridade obrigava-me a ignorar esse facto, pois não
tinhas para onde ir. Depois, ao longo destes anos, tenho-te observado
sem nunca te dizer nada. E agora já cheguei à conclusão: se o mundo é
regido pelo princípio do Mal, o Mal deve ter filhos. São poucos,
muito poucos, mas devem dar testemunho disso. Tu és um deles, embora
talvez ainda não tenhas reparado nisso: tu és um deles.

Aquele homem era o indivíduo mais esperto e com maior capacidade de


observação que eu conhecera.

- Notei que quase nem comes, como se realmente não precisasses. Notei
que, de tempos a tempos, desapareces e vêem-se nos teus lábios umas
gotinhas de sangue. Perguntei nos mercados próximos da muralha, onde
sacrificam o gado doente que não pode entrar na cidade, e lembravam-
se de te ter visto por lá. Não te critico, porque muita gente
aproveita o sangue dos animais mortos. Mas fico com medo que um dia
venhas a atacar uma pessoa viva.

Fechei os olhos.

Atacar uma pessoa viva...

Já o fizera. É por isso que eu era uma espécie de besta fugitiva.

Por isso estava ali.

Estremeci.

Mas o sacerdote disse-me suavemente:


84
- És um enviado do Mal, e o Mal irá desenvolver-se dentro de ti,
ainda que seja muito a pouco e pouco. Mas desenvolver-se-á
inevitavelmente. Tens faculdades que neste momento nem sequer
pressentes e, portanto, deverias assustar-me. Mas não me assustas. Eu
acredito que a Criação é uma longa obra, e que embora nela impere o
Mal, tudo tem uma solução.

Juro que não pensava - nem nunca tinha pensado antes - que pudesse
assustar alguém. Nem que tivesse condições excepcionais, excepto a de
comer pouco, não dormir quase nunca, fugir da luz do sol e precisar
de vez em quando de sangue como um bêbedo precisa de bebida. Não dava
qualquer importância a factos que para mim careciam de qualquer
transcendência: por exemplo, levantava pedras que nenhuma pessoa da
minha idade teria levantado e adivinhava como poder matar um homem
com um só golpe, partindo-lhe a traqueia se atacava de frente e a
medula se atacava por trás. Sem nunca ter ensaiado. Era um
conhecimento instintivo, como o das feras, que não precisam de matar
para o saber.

Fiz uma coisa que nunca antes fizera.

Beijei a mão daquele homem. Era talvez o único homem realmente bom
que eu conhecera.

Mas os amigos do bispo, que assistiam às suas missas e aos seus


sermões, não deviam pensar da mesma forma, porque enviaram a
Inquisição. Já naquela altura a Inquisição tinha um palácio em
Barcelona, dentro das muralhas, e eu cheguei a conhecê-lo bem, embora
até então a sua existência nunca me tivesse preocupado. Levaram o
sacerdote e já não voltei a vê-lo, fiquei sozinho em Sant Pau del
Camp, no seu silêncio e no seu cemitério.

Não por muito tempo.

Podiam também a mim levar-me à Inquisição. Precisava de fugir fosse


como fosse, perder-me nalgum lugar onde ninguém me reconhecesse.

Soube mais tarde que o sacerdote fora transferido para um tribunal


dos dominicanos de Madrid - as transferências faziam-se a pé, em
cortejo de prisioneiros - e que os amáveis dominicanos o haviam
exortado a reconhecer que no mundo imperava o Bem.

85
Como o pároco insistisse em que imperava o Mal, os amáveis
inquisidores aplicaram-lhe o mal, talvez para lhe concederem um pouco
de razão. Ele sobrevivia à tortura como se já soubesse que esta fazia
parte das entranhas do mundo, mas não disse o que os dominicanos
desejavam ouvir. Foi entregue, então, ao braço secular e queimado
vivo com mais dez pessoas, num grande auto-de-fé do qual a virtude do
povo saiu largamente favorecida. Contaram-me que era um magnífico
domingo de Primavera, ao anoitecer, e que a cremação fora presenciada
por alguns monges que mais tarde viriam a ser santos pela sua defesa
da ideia do Bem. Mas nessa altura já eu estava num outro lugar da
Barcelona negra.

Não me contaram apenas isso. Bom, talvez nem tivesse precisado de os


ouvir, porque cheguei a ler as actas da execução. Com todos aqueles
hereges - cujos nomes eram conservados para a boa ordem do Senhor -
fora queimada uma jovem mulher, transferida a pé, também ela, desde
Barcelona. Fiquei impressionado pelo facto de ser uma mulher, ainda
que não devesse ter dado importância a esse facto. Os homens e as
mulheres sofrem do mesmo modo quando são queimados, apesar de os
homens serem menos dignos de lástima.

Nas actas ficou o nome da mulher. Chamava-se Vives.

86
.15.

A MULHER QUE ACREDITAVA NO TEMPO

- Aqui estão as actas - disse Marta Vives, enquanto esticava


suavemente a saia sobre os seus sólidos joelhos de atleta; - são
cópias autenticadas dos arquivos da Inquisição. Obtive-as na semana
passada, quando fui a Madrid para fazer aquele relatório na Direcção
Geral de Registos.

Marcos Solana não se interessou por eles. As cópias estavam lá, a


ocupar uma parte da mesa - uma parte demasiado grande da mesa,
pensava -, quando outras questões mais urgentes precisavam daquele
espaço. O interesse de Marta Vives pela Idade Média começava a
tornar-se ridículo.

É claro que muitas vezes os conhecimentos de Marta eram úteis para


ele. Edifícios caros de Barcelona estavam ainda submetidos ao censo
enfitêutico, segundo o qual, naquele outro tempo em que ainda se
acreditava na eternidade do Senhor, um terreno era cedido a preço
zero para o adquirente cultivar ou nele edificar, sem outro benefício
para o cedente que uma pequena renda paga, pelo menos, uma vez cada
trinta anos e uma percentagem do valor da venda ou da herança caso o
terreno fosse herdado ou vendido. Como com o passar do tempo foram
edificadas ruas inteiras sobre aqueles terrenos, agora cada trespasso
ou cada herança representavam uma fortuna. Barcelona não crescera -
pensava Marcos Solana - sem o censo enfitêutico e as suas enormes
complicações urbanas.

É claro que isto correspondia a uma época longínqua, quando havia


mais terrenos do que homens. Mal podia imaginá-la.

87
E Marta Vives ajudava-o nisso porque conhecia a história de tudo,
especialmente a história das velhas famílias. Mas agora tinham outras
coisas a fazer, para além de se dedicarem aos velhos maços da
Inquisição. Marta parecia ter adivinhado os seus pensamentos porque
justificou:

- Consegui estes papéis entre dois trâmites, num momento em que


estava livre. Não atrasei minimamente o que me tinhas pedido para
fazer.

Marcos tentou sorrir. O que não foi fácil. Nota-se que um advogado é
veterano quando começa a perder o sorriso.

- De qualquer maneira, não sei qual o interesse que isso tudo poderá
ter - disse. - São papéis procurados apenas para uma tese de
doutoramento ou para escrever um livro.

- Enganas-te - esclareceu Marta.

- Então, para quê?

- Lembras-te que quando aquela cruz medieval foi adjudicada aos


nossos clientes, não há muito tempo, me disseste que fora retirada do
sepulcro de uma mulher assassinada?

- Claro.

- A mulher assassinada chamava-se Vives, como eu. Eu sou Vives da


parte do meu pai e da minha mãe. Existia a possibilidade de aquela
mulher do túmulo profanado ser uma minha antepassada.

- E decidiste investigar.

- Sim.

Marcos Solana passeou os olhos pala paisagem que se alongava para


além da janela. Como o seu escritório ficava num último andar da Via
Layetana, conseguia vislumbrar as torres da catedral, as de Santa
Maria del Mar, a cúpula da Generalitat, os telhados do bairro antigo,
onde antigamente houvera pombais e roupa estendida e agora já só
restavam quartos ilegais e velhos decididos a morrer ao sol. A Via
Layetana estripara casas, enterrara lembranças, sepultara por duas
vezes os mortos, mas isso acontecera numa época muito longínqua,
quando os avós de Marcos Solana ainda nem sequer tinham o projecto de
se conhecer. De modo que o advogado era consciente de viver por cima
de uma cidade sepultada, ainda que por vezes, quando tocava o
maravilhoso carrilhão da Generalitat, lhe parecesse uma sepultura
digna da História.
88
- Então achas que a mulher que tinha essa cruz no túmulo poderia ser
uma tua antepassada.

- Não acho. Digo apenas que existe essa possibilidade.

- E já agora a mulher que foi queimada viva juntamente com o pároco


de Sant Pau del Camp, em Madrid, também poderia ser - acrescentou
Marcos, um tanto ou quanto irónico.

- Tens de admitir que não é impossível.

Marcos Solana encolheu os ombros. A maioria dos advogados que ganham


dinheiro dedica-se à constituição de sociedades, fantasmas ou não, e
às transacções imobiliárias, o que lhe dá um grande sentido da
actualidade e faz com que o seu mundo comece normalmente nos anos
oitenta, quando começaram a ser utilizados os primeiros computadores.
Mas ele era um advogado de velhas famílias com linhagens ancoradas na
Idade Média, e vivia no meio de arquivos, panteões e acontecimentos
que tinham ocorrido em alguma ocasião, ao longo dos séculos. A
actualidade, pois, não era mais que o resultado de mil passados
diferentes, e isso fazia com que Marcos Solana não fosse exactamente
um advogado como os outros, embora por vezes sentisse vertigens.

Alguns anos antes, quando ele, muito jovem, começou a trabalhar para
as velhas famílias e, portanto, se deparou com os censos
enfitêuticos, havia um procurador que sabia tudo e conhecia qualquer
antecedente, como se o Registo de Propriedade tivesse sido criado por
ele. Chamava-se Bernardo Martorell e tinha um escritório um tanto
fúnebre na rua da Diputación. Porém, com a morte de Martorell,
tornara-se muito difícil encontrar pessoas que soubessem orientar-se
entre os papéis sepultados há séculos. Uma dessas pessoas era Marta
Vives, embora ultimamente estivesse a ficar obcecada com as velhas
histórias. E é mau ficar obcecado.

- Não vais ter tempo para tanta coisa - disse-lhe Marcos Solana.

E deixou de olhar para a paisagem, as velhas torres, para contemplar


as pernas firmes de Marta Vives, pernas de atleta, de campeã. Mas no
que dizia respeito àquelas pernas, Marcos Solana ignorava tudo.

89
Talvez alguém as acariciasse, talvez alguém as mordesse em segredo ou
procurasse com a língua a derradeira fenda. O advogado ignorava se
aquela mulher carregada de histórias tinha história.

- Dormirei menos horas - contestou ela -, mas não fiques preocupado


porque todo o trabalho do escritório será despachado no seu devido
tempo.

- Infelizmente, acho que vai mesmo ser preciso, Marta. Como se já não
nos bastassem os assuntos civis que temos em mãos, caiu-me agora em
cima um caso de crime. Tive mesmo que pegar nele, porque vem de um
velho cliente que quer que me constitua em acusador particular. O que
vai fazer com que me passem todos os dados do sumário do caso daquela
mulher estrangulada numa casa de Vallvidriera e junto da qual
apareceu um homem selvaticamente morto com uma arma branca. É um caso
que inclusivamente deu origem a reportagens de televisão, ou seja,
qualquer advogado sequioso de fama iria adorar. Mas eu odeio a fama.
Não vou prestar declarações e aparecerei em público o menos possível.
Digo isto no caso de algum jornalista ligar. Dá-lhe uma desculpa
qualquer para ele não insistir. Não quero que nada me distraia do meu
verdadeiro trabalho.

- Certamente - disse Marta. - Assim farei, tal qual. Mas, quem é o


cliente?

- Um banqueiro que tem várias propriedades luxuosas nos arredores do


local do crime. Tem interesse em que tudo fique esclarecido, para as
propriedades não perderem valor e para que eu, enquanto parte no
julgamento, possa conversar com a polícia se for preciso, dissipando
rumores. Já sabes: os terrenos urbanizáveis precisam de melhor fama
que as pessoas. Mas aqui há algo de estranho.

Marta Vives quase nem virou a cabeça para olhar para ele.

- O quê? - perguntou.

- O banqueiro, quando me recebeu no seu gabinete, tinha na mesa


vários retratos luxuosamente emoldurados. Retratos de políticos, é
claro. Um deles, dedicado pelo Rei; outro, curiosamente, dedicado por
Franco. Os banqueiros nunca se zangam com a História. Mas também
havia um ou outro retrato de família, naturalmente. Por exemplo, o de
umas crianças coradas que agora devem ser, pelo menos, auditores de
contas.

90
Ou o de uma moça muito atraente que actualmente, depois de ter sido
várias vezes mãe, já nem sequer deve ser capaz de subir as escadas do
liceu. Ou o de um grupo de cavalheiros que deviam ser, de certeza, um
conselho de administração. Reparei que entre eles havia um homem com
uma cara muito jovem, com uma cara inexpressiva, como que sem tempo.
Ou eu estava louco ou já tinha visto essa cara antes, nalguma
ocasião. E em alguma parte que não me faz sentido nenhum.

- E porque é que não lhe perguntaste? - murmurou Marta Vives.

- Porque não tinha a certeza de que era ele - respondeu Marcos com o
olhar perdido. - Porque não tinha a certeza de que fosse a mesma
cara.

91
.16.

A RAPARIGA QUE QUERIA MORRER

O pároco magrinho que fora queimado vivo foi substituído por um


pároco gordo que nem sequer imaginava que algum dia pudesse vir a ser
queimado. Era amigo do bispo e, ao que parece, reunira os relatórios
que mais tarde foram enviados para a Inquisição. Acreditava na
bondade do Senhor, na bondade da fé e na bondade do estômago. Comia
quase até perder o fôlego, numa época em que as grandes fomes enchiam
os cemitérios, e abençoava na garganta vinhos longínquos que chegavam
até ele carregados por mulas. Por exemplo, os de Alella, nascidos de
umas vinhas que ficavam perto do mar, depois do Besós; e os do
Priorato, uma terra tão remota que para os encontrar era quase
preciso entrar em território infiel. Mas este era o preferido dele,
porque segundo defendia eram excelentes para a consagração da missa.

Logicamente, tinha uma barregã. Era uma moça muito jovem, quase
criança, que fazia todos os trabalhos pesados e que à noite costumava
gemer, ainda que não exactamente de prazer.

O novo pároco fez duas coisas: primeiro, expulsou todos os pedintes


que dormiam nos cemitérios; depois, perguntou-me a minha idade.

- Segundo os registos, andas por cá há quase quinze anos - disse -,


portanto devias ser muito mais velho. Diz-me a tua idade.

- Não sei; nunca me disseram, e também não me parece que o meu


nascimento conste nalgum lugar.

- Bom, é estranho, porque os paroquianos disseram-me que já naquela


altura tinhas o mesmo aspecto que agora.

92
Era um sinal de alarme, o sinal de alarme pelo qual estivera à espera
há tanto tempo e que representava o único perigo que eu não podia
evitar. As pessoas acabariam por perceber que o meu aspecto não
mudava nunca. Portanto, decidi fugir.

Naquela altura, o Raval estava a mudar muito e em poucos anos. A zona


esquerda da Rambla, que descia até ao mar, estava fechada pela
muralha, e na parte final, por Escudellers, estavam a ser edificados
alguns palácios. Todavia, a zona direita da Rambla, sempre a descer,
era ampla e livre, e continuava a ser terra do mal: o álcool, as
danças, a música popular, as mulheres públicas e a blasfémia
constituíam o seu mundo. Ainda que fosse também o único lugar onde
cabiam os quartéis, os conventos e até o único grande hospital, o que
fazia com que o ambiente se fosse transformando. As ruas
perpendiculares às Ramblas tornavam-se mais animadas e compactas, e
formava-se assim uma outra cidade na qual todas as pessoas se
conheciam, quer dizer, onde todas as pessoas podiam conhecer-me a
mim.

Precisava de ir para longe, e dirigi-me à outra igreja românica mais


antiga de Barcelona, Nossa Senhora do Coll. Talvez porque fosse
atraído pelas coisas antigas, ou talvez não soubesse encontrar
trabalho fora das igrejas. Lá, naquele lugar tão longínquo,
porventura estariam a precisar de um acólito.

Lugar longínquo...

E juro por Deus que ficava longe.

Era preciso sair das muralhas pela porta de Canaletas e andar sempre
para norte, através de campos pouco povoados, rumo a uma aldeia que
estava a nascer e que chamavam Gracia. No entanto, aquele lugar de
pessoas independentes e mesmo belicosas, ficava a meio caminho. Tinha
de subir umas montanhas suaves e, a seguir, descer por uma ribanceira
que na altura não tinha nome, mas que mais tarde ouvi ser designada
como Vallcarca. Era lá que a verdadeira elevação começava, entre
bosques e caminhos de cabras, para chegar a dois locais devotos: um,
à esquerda, era constituído por umas grutas onde viviam uns eremitas
dignos de piedade e a quem as pessoas chamavam Penitentes, e um
outro, muito mais longínquo, era uma eremita pequeníssima a que
chamavam do Carmelo, dedicada não à ira do Senhor, mas à solidão de
uma Virgem.

93
Ora, a igreja do Coll não ficava assim tão longe, encontrava-se ao
fundo das primeiras encostas.

Quase ninguém morava naquelas bandas; viam-se apenas umas quantas


casas de lavoura e uns pequenos rebanhos de cabras. Estava tudo
envolto na solidão e no silêncio, no meio de matas e debaixo da
quietude das estrelas. Era um mundo completamente diferente do de
Sant Pau dei Camp, onde se ouvia música até altas horas da noite e em
cujos muros, por vezes, chegavam a instalar-se as prostitutas.

O encarregado da igreja - nem sequer sei se era pároco - recebeu-me


bem e perguntou-me qual era a minha idade. Disse-lhe que tinha vinte
anos. A seguir, fez-me um pequeno exame de latim, doutrina cristã e
canto religioso, que superei perfeitamente: passara demasiados anos a
oficiar cerimónias e a assistir a enterros. Mas de modo nenhum lhe
revelei que vinha de Sant Pau del Camp, porque já se sabia o que é
que tinha acontecido ao pároco e eu poderia imediatamente ganhar a
fama de herege. A igreja era tão diminuta que o sacerdote e eu mal
cabíamos na zona do altar. Os fiéis eram uns quantos camponeses,
principalmente mulheres, que viviam no temor a Deus e nunca faltavam
ao domingo.

Aí me deparei logo com duas coisas, uma boa e uma má: a boa,
certamente, era que ninguém me conhecia, e a má, que lá não havia
matadouros nem animais que fossem degolados. Os porcos e as cabras
eram sacrificados, naturalmente, mas em família. Teria sido
arriscadíssimo repetir o que tinha feito à noite, entre as muralhas
de Barcelona. Isso assustou-me, porque eu praticamente não comia. A
única coisa que realmente me dava força era o sangue.

Tinha de resolver o problema de alguma forma.

Na igreja havia muito pouco trabalho, ao contrário de Sant Pau del


Camp, onde sempre havia viáticos e pessoas a morrer. Além disso, nas
épocas de predicação do pároco que foi queimado vivo, o templo
enchia-se de pessoas oriundas de todas as partes, pessoas que nunca
tinham ouvido pronunciar assim, de modo tão diferente, a palavra de
Deus. Aqui, em Nossa Senhora do Coll, uma zona quase sem habitantes,
morriam poucas pessoas. Mal tínhamos trabalho, excepto contemplar a
paisagem das ladeiras.

94
No silêncio dos campos, a Barcelona amurada via-se como uma mancha
pequenina, e nem sequer se distinguiam as ruas que iam nascendo em
seu redor. É claro que face a um labor tão escasso não me pagavam
nada: apenas cama e comida.

Uma vida tão plácida permitiu-me vasculhar os velhos arquivos que se


encontravam no templo, algo que apenas o pároco e eu podíamos fazer.
Ninguém na zona sabia ler, e muito menos escrever, e o catalão que
falavam era tosco e fabricado com quatro palavras. Ninguém conhecia o
castelhano, que era, no entanto, bastante usual nas ruas de
Barcelona. Fiquei admirado por saber ler e escrever não apenas em
catalão e castelhano mas também em latim, o que mostrava que tinha
sido bem ensinado por alguns dos clientes da minha mãe, que tinham
pena de mim. O latim não tinha segredos para mim, graças ao pároco de
Sant Pau, aquele que fora considerado herege, mas ainda assim a minha
inteligência devia ser bastante superior à normal, visto que
aprendera tantas coisas. Ou talvez fosse muito velho e tinha podido
dispor de mais uns anos, algo que os outros nunca chegariam a ter.
Não sei. Naquela época era completamente incapaz de me definir a mim
próprio.

Talvez o pároco de Sant Pau o tivesse feito, quando uma noite me


disse que o Mal precisava de filhos. Mas eu não queria lembrar-me
disso. E a verdade é que ninguém me voltara a definir.

Até que fui obrigado a ir para o palácio da Inquisição, onde O Outro


esperava por mim.

E até que conheci uma rapariga que queria morrer.

95
.17. ALGUÉM QUE CONHECEU O DIABO

Quando a polícia se encontra perante casos inexplicáveis procura às


apalpadelas, e isso quer dizer que na escuridão tropeça em toda a
gente.

Duas das pessoas com as quais a polícia mais tropeçou foram o padre
Olavide e o advogado Marcos Solana, embora eles não fossem os únicos.
Aquilo que diferenciava o sacerdote e o advogado era o facto de terem
sido tratados com muito mais respeito; um dos inspectores,
inclusivamente, beijou a mão ao padre Olavide. Afinal, o inspector
era do Opus Dei.

Os interrogatórios versaram principalmente sobre a morte - «uma morte


nunca antes vista», dizia o inspector da Obra - de Guillermito Clave.
Agora, Guillermito Clave já estava sepultado sob a forma de cinzas,
mas o caso ainda estava aberto, com a necessária discrição. Era um
assunto de assassinato e os assassinatos não devem perturbar a paz
das boas famílias.

A viúva fora interrogada uma única vez.

O padre Olavide duas vezes, como confessor do defunto. Teria ele


amizades estranhas? Gostava de fazer experiências científicas com o
próprio sangue? «Porque há pessoas que são muito malucas, padre, mais
do que parece.» Guillermito, para além da religião, confessara
acreditar em algo de sobrenatural?

Porque era evidente que estavam perante algo sobrenatural, disso


tinha a certeza o comissário devoto. Em primeiro lugar, porque
ninguém conseguia explicar a morte de Guillermito segundo as leis da
lógica.

96
«Ninguém acredita em vampiros no século vinte e um, excepto alguns
historiadores que acabarão por ser perseguidos pela opinião pública.»
Também ninguém podia acreditar que a pequena mancha de sangue deixada
pelo assassino pertencesse - ou, pelo menos, que pudesse pertencer -
ao mesmo sangue conservado nos restos de um sino de 1714 - A viúva de
Guillermito dera-lhes todo o tipo de explicações sobre isso - ao
mesmo tempo que dava ordem para comprar meio milhão de acções das
Companhia das Águas de Barcelona, visto que a morte de Guillermito a
tornara ainda mais rica - e o polícia piedoso ficava confuso e já não
sabia o que perguntar aos restantes membros da Obra.

Nunca tinham lidado com um caso assim.

Entretanto, Marta Vives, durante as poucas horas em que não tinha de


estar no escritório, investigava nos arquivos mais recônditos da
cidade, à procura já não do tempo que partira, mas pelo menos de uma
sombra desse tempo. Renunciou, certamente, ao Arquivo Fotográfico, em
frente do antigo Borne, porque nos anos que ela andava a investigar
ninguém tinha pensado nunca em fotografar o que quer que fosse. Ou
será que sim? Afinal, Marcos falara-lhe de uma cara que se repetia ao
longo do tempo, não era assim? No entanto, tornava-se inútil rever
milhares e milhares de fotos, milhões e milhões de caras, procurando,
no fim de contas, algo que ela já sabia mas que era incapaz de
compreender.

Teve então a ideia de indagar em dois locais, dominando o seu próprio


medo.

Os dois únicos arquivos que podiam ser úteis eram o Diocesano e o da


História da Cidade. Farejou entre centenas de maços que tinham o
inconfundível cheiro do esquecimento e da morte. Passou todas as
horas possíveis nas salas de estudo, até ser posta fora. Procurou na
Internet, onde, no entanto, não costumava haver notícias remotas.
Vasculhou tudo aquilo que se referia ao apelido Vives, o seu, mas
apercebeu-se de que a Inquisição condenara pessoas com variadíssimos
apelidos - por vezes meras alcunhas -, de maneira que as pistas se
perdiam. A única coisa que pôde comprovar foi que a mulher enterrada
com a cruz de bronze, em Sant Pau del Camp, fora assassinada e
chamava-se Vives, mas sem que houvesse qualquer dado sobre o seu
nascimento ou sobre a sua vida anterior.

97
Era como se aquela mulher tivesse vivido nas nuvens até que desceu à
terra. E foi então que a assassinaram.

A partir dos velhíssimos arquivos provenientes de Sant Pau del Camp


atreveu-se a conjecturar que aquela mulher do túmulo ultrajado
poderia ter tido uma filha, ainda que nada constasse do seu
nascimento. Marta Vives percebeu, finalmente, que se encontrava num
beco sem saída, perante uma parede onde apenas parecia estar escrita
uma palavra: «FIM».

Marta teve de pôr aquele assunto de lado, enquanto mergulhava no


escritório, nos processos e nos papéis de hoje, sempre mais urgentes
que os de ontem. A sua mesa de trabalho, localizada na melhor parte
daquele último andar da Via Layetana, pelo menos dava-lhe a
oportunidade de ver a velha Barcelona, a dos cemitérios secretos,
acerca da qual estava a investigar. Consolava-a ver ora a antiga
torre da praça do Rey, ora a nova casa de Cambo - nova? - onde se
cristalizara a vida financeira da cidade e onde nos anos da guerra
civil cristalizara a história operária. Marta, que conhecia bem a
história de Barcelona, considerava divertidos dois episódios de
Francesc Cambo, que se enfrentara sempre a uma Espanha que não
desejava. Um deles era o da construção da própria casa, um prodígio
de luxo no meio dos terrenos semiedificados na nova Via Layetana. Os
terrenos ainda vazios eram tantos e estavam tão sujos que pelas
paredes-meias do prédio subiam ratazanas até ao próprio estúdio de
Cambo, que pediu ao arquitecto que lhe apresentasse alguma solução.
Este idealizou então uma aba à altura daquelas águas-furtadas: «Assim
as ratazanas não morrerão -contrapôs. - Porque é que o faz, então?» E
Cambo respondeu: «Porque me parece falta de desportivismo jogar com
tanta vantagem.»

A outra história referia-se à inauguração da nova sede do Círculo


Equestre, no meio do Passeio de Cracia, com umas instalações que o
transformavam no melhor clube privado da Europa. Cambo foi convidado
para o evento, naturalmente, e no fim deste comentou: «já fabricámos
o local senhorial. Agora falta fabricar os senhores.»

Tudo isto ajudava Marta - mulher jovem que languedescia entre as


coisas velhas - tornando tudo aquilo que estava à sua volta menos
aborrecido e mais humano.

98
Também considerava humana a conclusão da polícia relativamente ao
duplo crime de Vallvidriera: «Forçosamente, deverá tratar-se de um
assassinato ritual. É tudo tão absurdo que só nos resta pensar no
diabo.»

Como é óbvio, o diabo não tinha cadastro.

E uma fatigada Marta procurava dados, pistas inúteis, papéis


perdidos, verdades que talvez nunca tivessem existido.

Até que na Internet, no reino dos acasos, encontrou alguém que


procurava a mesma coisa que ela, embora partindo de outra
perspectiva. O ponto de vista de Marta Vives era o do mistério e da
morte, ao passo que o do seu interlocutor era o do luxo.

Os grandes historiadores conhecem a relação que costuma haver entre o


luxo e o mistério e a morte.

O interlocutor era um ourives. Pediu a Marta que o visitasse


urgentemente, porque só assim é que se atreveria a contar-lhe.

Jurava que tivera uma relação com o diabo.

Entretanto, Marcos Solana, ex-membro da junta da Ordem dos Advogados,


presidente da Comissão de Ética e letrado de pessoas que iam à missa,
fez uma coisa que um advogado deste tipo nunca deve fazer. Mandou a
Ética para o diabo.

E não apenas uma vez, mas duas.

A primeira infracção cometeu-a quando ficou sozinho, durante alguns


minutos, no escritório do banqueiro que lhe pedira para ser arguente
privado no caso do duplo assassinato de Vallvidriera. Mas arguente
privado contra quem? Ninguém fora preso, apenas havia indícios que
podiam levar ao Além. E, apesar disso, o banqueiro estava interessado
em não deixar assentar o assunto.

Houve duas entrevistas, e numa delas o banqueiro ausentou-se alguns


momentos do escritório. Marcos Solana reparara novamente na antiga
foto de um conselho de administração onde surgia uma cara que lhe
parecia conhecida. Quando ficou alguns instantes sozinho, fotografou
com o telemóvel aquela velha imagem. Quando o banqueiro apareceu
novamente, fez de conta que estava a falar ao telefone.

A foto, bem tratada por um técnico, permitiu-lhe ter uma noção


concreta da identidade da cara que lhe chamara a atenção.

99
Foi essa a sua única acção eticamente reprovável. A segunda consistiu
em roubar a fotografia dos antigos médicos do Hospital Clínico, a do
Serviço de Urgências de 1916. Uma vez que a fotografia estava
simplesmente pendurada num corredor, não foi assim tão difícil.

Provido daqueles documentos gráficos, Marcos Solana deu então início


às suas investigações. Naturalmente, Marta Vives ajudou-o, pois a
rapariga, quando se tratava de estudar o passado, sentia uma espécie
de magnetismo.

Com os dados que possuía, Marcos Solana foi visitar o inspector do


Opus Dei.

Já se sabe que os inspectores, com melhor ou pior vontade, estão


dispostos a ouvir qualquer história. Mas quando o inspector pertence
à Obra, parece ainda mais disponível para escutar qualquer coisa
relacionada com os mistérios da fé.

Um dos mistérios da fé é a ressurreição da carne.

De modo que o inspector dispôs-se a ouvi-lo.

O inspector chamava-se Echevarría.

Estava tão convicto da ressurreição que abominava as cremações,


apesar das mudanças da doutrina da Igreja.

Marcos Solana mostrou-lhe as fotografias.

«Serviço de Urgências do Hospital Clínico em 1916».

As batas brancas abotoadas até ao pescoço, os bigodes e as peras, os


botins, várias lunetas no nariz. A marca cinzenta do tempo.

«Conselho de administração do Banco de Barcelona, 7905».

- Repare nestas duas caras, inspector.

- Diacho! Parecem a mesma.

- São a mesma.

- Bom, não há assim tanta diferença na idade - objectou o inspector.


- O mesmo homem podia ser banqueiro em 1905, sobretudo num banco que
foi à falência, e médico em 1916. Deve ter sido obrigado a mudar de
profissão, quase à força.

- Mas não continuaria a ter a mesma cara.

- Vejamos, em primeiro lugar, se a cara é a mesma, sim, porque pode


dar-se o caso de haver uma semelhança, como as da vida real. Sabe que
mais, senhor advogado? Eu não gostaria de fazer parte de um
reconhecimento de suspeitos.

100
Há coincidências tão espantosas que por vezes já nem sei o que
pensar.

- É verdade.

- Mas, por sorte, estamos no sítio ideal para comprovar uma coisa
assim. Dispomos de técnicos em antropometria que podem verificar as
feições... Se o senhor voltar esta tarde, poderão dar-lhe uma
resposta certa.

Marcos Solana voltou à tarde, depois de almoçar no Círculo Equestre.


Ambiente de negócios, de famílias conhecidas, murmúrios de advogados
e a última exposição de um pintor que também aspirava à eternidade.
Sendo Marcos muito conhecido, não pôde almoçar sozinho. Sabes que o
juiz Valbuena não quis ir para o Supremo? Já reparaste nas taras da
juíza Rius? Sabes que descobriram um desfalque na Generalitat e que
não o deitam cá para fora porque vai haver eleições? A sopa de
caranguejo estava boa e a carne no ponto, mas Marcos Solana quase nem
experimentou. Quando voltou a ver Echevarría, dominava-o uma espécie
de vertigem.

- Examinaram os perfis e as medidas das cabeças, além das feições.


Agora não temos dúvidas: nas duas fotografias, é a mesma cara - disse
o inspector.

- Meu Deus...

- Não deveria ficar assim tão surpreendido, Solana. Não há tantos


anos de diferença assim.

- Mas a cara não mudou...

Conselho de administração do Banco de Barcelona, no seu momento mais


poderoso. Fatos de lã de Manchester, coletes cingidos até ao último
botão, laços ou lenços daqueles que mais tarde ficariam na moda
graças a Ventura Gassol. Calvas memoráveis, panças à Grand Vefour,
barbichas cortadas por um príncipe russo que já pedira o exílio
antecipado. Todo um mundo que havia deixado de existir, embora ainda
existisse a casa onde se reunira aquele conselho de administração: a
primeira casa da Rambla, antiga fundição de canhões. E sempre o tempo
nas janelas, o tempo, o tempo.

- Descobri também outros pormenores - disse o inspector, piedoso.

- Quais?

101
- São recursos de um velho polícia que conhece pessoas. Antes de
mais, falei com Francesc Cabana, o melhor historiador da banca que
temos neste país. O homem da cara imutável era, de facto, conselheiro
do Banco de Barcelona em 1905. Chamava-se Eduardo Rossell.

Marcos Solana olhou para ele com renovado interesse. Finalmente, um


dado verificável, uma pista. E também uma certa surpresa, porque não
esperava que o inspector aprofundasse tanto.

- Senhor Echevarría, descobriu mais alguma coisa?

- Sim, esse homem, Eduardo Rossell, desapareceu dois anos depois.


Haverá informações nos arquivos da Sede? Dizem que foi sequestrado
pelos anarquistas por razões políticas - ou antes, sociais, porque os
anarquistas não acreditavam na política -, algo que não era assim tão
estranho naquela época. É claro que foram realizadas algumas
investigações, tendo em conta o estatuto do banqueiro, mas foram
completamente travadas na altura da Semana Trágica de 1909. Surgiram
tantos cadáveres em Barcelona que qualquer um deles podia ser o de
Rossell. De facto, parece que chegou mesmo a haver uma identificação
de restos mortais, ainda que sem muitas garantias, até o caso ser
encerrado. Não é preciso dizer-lhe que agora é um caso que pertence à
pré-história.

- O que me está a contar não é assim tão estranho, senhor Inspector -


murmurou Solana -, porque os desaparecimentos violentos fazem parte
da história deste país, porém, os arquivos do Banco de Barcelona
ainda existem. Poder-se-ia reconstituir a história desse tal Rossell.
Por exemplo, a sua origem.

- Já fiz isso. Não julgue que os meus homens do serviço informático


têm estado parados. Existem indícios de que Eduardo Rossell falava
várias línguas, entre elas algumas mortas, conhecia a história do
país como se a tivesse vivido e tratava da contabilidade como se
fosse um computador. Há indícios de que frequentava as tertúlias do
Els Quatre Gats, onde as pessoas ficavam espantadas perante todas as
coisas que o tipo sabia. Até Sánchez Ortiz, que naquela época era
director do La Vanguardia, lhe fez uma entrevista.

- Então estamos com sorte.

- Nada disso, meu caro: nada. Tudo isto que estou a dizer é espuma:
um episódio nos jornais, fragmentos de memórias de pessoas da altura
e pedacinhos dos relatórios bancários.

102
Mas nada oficial. Não há dúvida de que esse homem existiu, mas para
já nem sequer temos a certidão de óbito.

- Em certo sentido, é natural - disse Marcos, que já tivera que


reconstruir linhagens inteiras de pessoas desaparecida nas guerras.

- Neste país aconteceram demasiadas coisas.

O inspector, que queria santificar o seu trabalho na Terra, olhou


para o advogado com uma secreta piedade.

- Fiz uma coisa que talvez devesse ter visto - murmurou.

- O quê?

- Usar os meus informáticos, e sobretudo as minhas amizades no


Registo Civil, para encontrar a acta de nascimento de Eduardo
Rossell. Na entrevista feita por Sánchez Ortiz, ele diz que sempre
foi corrector da Bolsa e que nasceu em Barcelona. Nunca fornece o
ano, o que complica muito as pesquisas, mas os nascimentos de pelo
menos vinte anos foram todos revistos. Como é lógico, há muitos
Eduardos Rossell, mas todos têm data de óbito, ou no mínimo um
processo de presunção de morte, como manda o Código Civil. Este
parece ser o único que não morreu, apesar de ter desaparecido e de
ter sido procurado pela polícia. O que é absurdo. Devia estar morto
dez vezes. Estamos perante um tipo que não se limita a não morrer,
mas que além disso nem sequer consta que tenha chegado a nascer.

Marcos Solana fechou novamente os olhos.

A luxuosa casa da Avenida Bonanova.

O final de Guillermito Clave.

O tempo.

O tempo nas janelas.

E novamente a vertigem.

Com um fiozinho de voz sussurou:

- Vejamos o médico de 1916.

- Exacto. Serviço de Urgências, um dos primeiros instalados neste


país. Caras bem conhecidas. Por sorte, os arquivos do Hospital
Clínico são muito completos.

- E...?
103
- O médico que está na fotografia é identificável. Chamava-se doutor
Serra, especializado em cardiologia. Apresentou-se a um concurso e,
veja lá, o homem sabia tudo. Há sempre uma forma lógica de praticar a
medicina, aplicando ao mesmo tempo o que é antigo e o que é novo, e
parece que neste terreno ninguém o superava. Ninguém. No concurso
ficou em primeiro lugar. Um dos médicos que formavam o tribunal
confessou que nunca vira nada igual. O tal doutor Serra descreveu-lhe
uma trepanação como as que eram feitas pelos cirurgiões das galeras
no século xv. O espantoso não eram os pormenores ou a descrição dos
instrumentos, mas o facto de não haver qualquer registo de algum
livro que explicasse isso tudo. No tribunal chegaram à conclusão de
que aquele tipo tinha vivido aquilo tudo, mas como se tratava de uma
conclusão tão absurda, no final desataram todos a rir.

Solana contemplou com admiração o inspector.

- Fez muitas averiguações em poucas horas - elogiou.

- Digamos que o caso me apaixonou porque nunca me tinha deparado com


algo assim.

- E o que é que sabem do doutor Serra nos arquivos do Clínico?

- O doutor Serra acabava de se estrear, digamos assim, quando


ocorreram as greves operárias de 1917, que provocaram muitos feridos
em Barcelona. O serviço de urgências ficou atulhado, e aquele jovem
médico trabalhou tão bem que inclusivamente mereceu uma felicitação
municipal.

- Então, deve ter conseguido uma promoção...

- Iam fazer isso quando o doutor Serra decidiu repentinamente que


queria exercer medicina privada em Madrid. Parece que a sua fama
tinha chegado longe, temos até várias referências nos jornais da
capital. Parece que alguns clientes com dinheiro o queriam por perto.
Que o doutor Serra se deixasse tentar parece-me razoável, porque um
médico célebre na cidade da Corte podia ganhar imenso dinheiro. E
talvez até entrar no Palácio Real.

- Suponho, senhor Inspector - disse Solana com admiração - que já


contactou a Ordem dos Médicos de Madrid.

- Com os meus colegas da polícia de Madrid, que é diferente. Porém,


eles averiguaram várias coisas bastante simples.

104
Por exemplo, que o nosso admirado doutor nunca se inscreveu na Ordem
da capital. Esteve duas semanas hospedado num hotel de luxo de
Madrid, conforme ele próprio informou a Ordem, mas apenas isso. E de
repente desapareceu. Tal qual. Desapareceu. Os meus colegas de Madrid
e eu percebemos de seguida que era inútil procurar pistas,
simplesmente porque não as há.

O advogado Marcos Solana sentia frio até nas pontas dos dedos.

Estava perante um homem que não nascia nem morria, embora na


realidade nascesse e morresse mil vezes.

Nem reconheceu a sua própria voz quando perguntou:

- Registo Civil?

- Neste caso, nem isso. O lugar de nascimento do doutor Serra não


consta, por isso não sabemos onde procurar. Mas vejo que está
desorientado, advogado, e quero sossegá-lo.

- Sim? Como?

- Dizendo-lhe que o desaparecimento é uma das circunstâncias da vida


humana que ocorre mais frequentemente, já não falo das guerras, onde
uma pessoa se esfuma no ar e é preciso esperar longos anos para
começar a tratar da presunção de morte. Não, não é preciso ir por aí.
Todos os dias há velhos que se perdem e de que já não voltamos a
saber, miúdos que se vão embora porque querem estrear uma vida nova e
o mais provável é estrearem um túmulo sem que ninguém o chegue a
saber. Raparigas enganadas ou raptadas que, na pior das hipóteses,
jazem junto da árvore onde iam brincar com os pais. Nunca mais
voltamos a saber desses idosos, desses rapazes aventureiros, dessas
meninas em flor. Sei muito bem como essas coisas acontecem, pois
estou constantemente a arquivar casos desses... Não fique espantado,
meu caro, só porque ao longo de tantos anos desapareceram um
banqueiro e um médico.

- Mas não se ambos tiverem a mesma cara e tiverem desaparecido sem


deixar nenhum vestígio no Registo Civil.

O inspector fez um gesto de compreensão que ao mesmo tempo se


assemelhava a um gesto de impotência.

- Senhor advogado... - perguntou em voz baixa -, acredita no diabo?

105
.18.

A CAMA DE FERRO

Parece-me já ter dito que houve duas circunstâncias que transformaram


tudo, entre a calma e o esquecimento de Nossa Senhora do Coll: a
minha visita ao Tribunal da Inquisição e ter conhecido uma menina que
queria morrer.

Não sei qual das duas foi mais importante, mas começarei pela visita
à Inquisição, porque foi o que aconteceu primeiro. Visita essa que me
foi imposta pelo pároco, pois precisava de completar os seus arquivos
e eu era o único que sabia ler, e além disso conhecia todos os factos
históricos acerca dos quais me questionaram. De modo que me entregou
uma carta de recomendação, um bocado de pão, uns gramas de toucinho e
despachou-me com estas palavras:

- Tu comes pouco, de maneira que não vais morrer à fome. Quanto à


água, no caminho vais encontrar toda a que tu quiseres.

Com efeito, a planície barcelonesa era atravessada por regueiros e


torrentes que desciam da montanha, e muitas vezes eram construídas
casas e ruas por cima dos cursos de água. Mais tarde, na lonjura de
um tempo que ainda permanecia perdido nas brumas, eu iria assistir,
por exemplo, à construção da Rambla da Catalunha sobre a ribeira de
Malla. Mas esse tempo estava ainda muito longe.

Era um risco introduzir-me novamente na Barcelona amurada com um


rosto que não mudara nada, porém, tinha de obedecer para não ganhar a
desconfiança do pároco. E não me restava outra alternativa senão
percorrer um longuíssimo caminho até à rua dos Condes, onde ficava o
Tribunal da Inquisição.

106
Ou melhor dizendo, oficialmente ainda não era aí. Uma das sedes mais
sinistras que existiram na História só se instalou no Palácio Real no
século seguinte, mas já então eram ali conduzidos muitos
interrogatórios. Os locais ficam junto do salão de Tinell e neles
destacavam-se uns arcos semicirculares que, anos depois, seriam dos
poucos elementos arquitectónicos conservados. A parte do palácio
atribuída à Inquisição era lôbrega e sinistra, e tinha entrada
directa pela rua dos Condes mediante uma porta que anos depois vi ser
substituída por umas sólidas grades. O que não mudou foi o brasão por
cima dessa porta e que agora assinala o Museu Marés. Com o decorrer
dos séculos, tenho lá voltado para desfrutar das obras de arte, e ao
observar as caras dos outros visitantes vejo que não fazem ideia de
que entre essas mesmas pedras foram ouvidos atrozes gritos de dor e
condenações à fogueira. Fico maravilhado por me encontrar no museu
com damas da alta sociedade que precisam de uma dose de cultura para
as suas tertúlias e com velhinhas que falam entre sussurros, como se
não se atrevessem a perturbar a paz secreta dos mortos.

Ora, naquela altura, a sede oficial do Santo Ofício não era ainda
naquele lugar, mas já funcionava. Introduzi-me na cidade pela Porta
del Ángel, onde antes decorria o mercado de escravos, e assisti ao da
praça dei Pino, que estava tão fervilhante como antes de eu abandonar
Barcelona e em cujos arredores bebera o sangue do gado. Notei que era
agora uma cidade mais rica, com mais lojas e com as oficinas dos
-grémios muito melhor instaladas, ainda que se continuasse a
trabalhar na rua. Havia pessoas mais bem vestidas, embora o ar
continuasse espesso e peçonhento, porque as ruas mantinham-se tão
estreitas como sempre, além de que população tinha aumentado.
Barcelona afogava-se e começava a falar-se da construção de ligações
por cima das ruas, de modo a que estas se transformassem numa espécie
de túnel. Ao mesmo tempo, iam sendo lançadas novas edificações pela
parte do Riego Condal, de modo que duvido que alguém soubesse a
quantidade de habitantes que então tinha Barcelona. Para além das
muralhas, no Raval, onde eu tinha vivido, amontoava-se já uma
verdadeira multidão.

Todavia, eu tinha medo de vir a ser reconhecido, pelo que andava com
um chapéu que me cobria parte da cara, vã precaução porque cada qual
andava metido no seu mundo e, como continuaria a acontecer séculos
mais tarde, ninguém reparava em ninguém.

107
Uma vez no tribunal, apresentei-me perante o secretário, que não
mostrou qualquer interesse por mim, apesar de eu falar em latim
correcto. Disse-me para esperar e fui encerrado numa sala com dois
compridos bancos de pedra e mais de dez pessoas na mesma situação que
eu. Naquele instante, não me apercebi da razão que os levava a estar
ali, mas rapidamente me dei conta, receoso, de que todos eles tinham
sido notificados para serem interrogados pela primeira vez. Muitos
casos duvidosos eram apresentados à Inquisição, geralmente por
denúncias, e não era estranho que houvesse um interrogatório
preliminar sem a presença dos carrascos e dos especialistas em
tortura. Tudo tinha um certo ar civilizado, culto até, porque não
demorei muito a perceber que todos os que estavam ali reunidos eram
pessoas de certo estatuto. A Inquisição nunca interrogava os simples,
que se limitavam a repetir a palavra de Deus, mas sim aqueles que
julgavam essa palavra. No meu país, esta tem sido sempre uma
constante, que tem permanecido invariável: todo aquele que pensa é
suspeito. O melhor é dizer a tudo que sim e aclamar quem manda.

Um dos que se encontravam à espera, por exemplo, era cirurgião, mas


estivera quatro anos nas galeras do rei, suspeito de ser pirata
sarraceno. Relatava com voz triste e monótona a sorte dos remadores,
que estavam acorrentados aos bancos onde eram obrigados a fazer as
suas necessidades, de maneira que o fundo de todos os navios
destilava podridão e era reconhecido pelo odor a milhas de distância.
Não havia nada mais nojento no mundo, dizia aquele homem, do que uma
galera, nem nada mais atreito a infecções, por muito pequenas que as
feridas fossem, de tal forma que nelas chegavam a nascer vermes. Mas
o espantoso, dizia o cirurgião, era que as feridas com vermes ficavam
mais bem curadas que as outras, porque estes comiam a parte podre e
deixavam a parte saudável. Eu sentia-me tonto ao ouvir as suas
palavras. Ainda por cima, quando havia um incêndio, os remadores não
eram libertados, morrendo queimados vivos. Outras vezes, quando se
deixam apanhar, eram eliminados de uma forma rápida e higiénica:
amarrados em massa na praia, de modo a que não pudessem nadar, eram
arrastados para dentro do mar pela galera vitoriosa até se afogarem
no fundo das águas.

108
As pessoas que percorreram o mundo precisam de ser ouvidas, e aquele
antigo cirurgião falava imenso. Mas o mais horrível foi quando ele
começou a narrar operações ao crânio. Dizia que a trepanação era a
cirurgia mais exemplar, pois já os antigos egípcios a praticavam, e
ele sabia exactamente onde perfurar sem a necessidade de separar por
completo a tampa dos miolos. Apenas com um golpe, ou um buraco nos
casos mais difíceis, descobria onde estavam os humores mais
maléficos, arrancava ou limpava uma pequena parte dos miolos e
voltava depois a tapar. O único inconveniente - reconhecia - era que
por vezes os operados esqueciam-se dos seus nomes, não conheciam os
seus companheiros ou simplesmente enlouqueciam. Naquela altura, não
fazia ideia de que cada parte do cérebro regulava uma faculdade
diferente, mas aquele homem recitava-as com uma precisão absoluta,
como eu próprio iria perceber muito tempo depois, ouvindo outros
médicos. Posso jurar que desde então os instrumentos e os métodos têm
melhorado, mas todas as ideias-mãe já se podiam encontrar na medicina
antiga, ainda que os livros se tenham perdido e que tenham
desaparecido as vozes daqueles que a sabiam explicar.

Porém, a brutalidade daqueles relatos, as grandes carnificinas, as


agonias intermináveis que fluiam da boca daquele médico produziam em
mim náusea e horror, simultaneamente. Ele não sabia por que razão o
iam interrogar, mas parece que fizera umas quantas curas miraculosas
e, portanto, começava a ter a fama de bruxo. Não era uma boa ideia
demonstrar perante a Inquisição que se sabia mais que ela.

Um outro dos notificados era alquimista. Hoje, seria chamado químico


com toda a amplitude da palavra. Conhecia as propriedades da matéria,
sobretudo a orgânica, a que estava relacionada com o carbono, de um
modo que eu nem era capaz de imaginar. Ganhei a consciência de que,
com aqueles homens, aprendia em poucas horas mais do que durante toda
a minha vida, embora eu não tivesse consciência de quanto é que a
minha vida já tinha durado.

Tudo acabou subitamente.

Na sala entrou um homem vestido severamente que olhou para nós um a


um, com olhos gelados e profundos que cortavam até os pensamentos.

109
Naturalmente, olhou também para mim e percebi logo ali que me tinha
reconhecido.

Tinha de ser, forçosamente, assim.

O homem que acabara de entrar era O Outro.

Eu agora estava nas suas mãos.

Soube naquele instante que a minha vida iria acabar aí, no palácio da
Inquisição.

Seria possível dizer que O Outro estava vestido como um sacerdote,


embora não levasse batina. Aquela aparência era o resultado das suas
roupas negras e fechadas até ao pescoço, o ar severo e o olhar
glacial, que davam a imagem de um Deus vingador. Tinha o cabelo muito
curto, não tonsurado, e o seu rosto não mudara desde a primeira vez
que o vira. Como eu, O Outro também não parecia ter idade.

Fitou-me longos instantes, como se estivesse surpreendido de que eu


tivesse tido a ousadia de ir até ali. Depois, sorriu retorcidamente,
assumindo que eu estava em seu poder. E perante o meu olhar
interrogador sussurrou:

- Eu trabalho aqui.

Era lógico. Onde, senão na Inquisição, poderia trabalhar um indivíduo


como ele, cuja vocação era a morte? Logo pressenti que me mandaria
prender, que me submeteria ao tormento numa das salas interiores e
reservaria o que restasse do meu corpo à fogueira do próximo auto-de-
fé.

Pela primeira vez em muitos anos, senti medo. Lembrei-me de que


aquele era o homem que tinha enforcado a minha mãe.

Mas em vez disso murmurou:

- Vem comigo.

Em algumas divisões, o palácio da Inquisição chegava a ser elegante,


sobretudo o gabinete aonde me conduziram. Havia móveis de madeira
sólida, cadeirões fradescos e, para evitar a nudez da pedra, uns
tapetes que me pareceram da Flandres. Naturalmente, sobre a mesa
havia um grande crucifixo de marfim, que já não me impressionava -
antes tinha medo de cruzes - porque estava farto de as ver nos
túmulos.

Sentou-se do outro lado da mesa e disse com uma calma gélida:


110
- Sou um dos secretários da Inquisição, o mais importante. Não assino
condenações, mas sou eu quem decide, nos interrogatórios, até onde
chega a fé das pessoas suspeitas.

E acrescentou com a mesma voz gelada:

- Quanto a ti, não é preciso decidir nada.

Esperei alguns segundos sem saber o que pensar, consciente de que


estava perdido. Nunca sairia vivo de um dos edifícios mais sinistros
de Barcelona, e se saísse vivo seria para ser transportado até à
fogueira. O frio que reinava naquela divisão era terrível, como se as
pedras das paredes tivessem sido arrancadas dos panteões uma a uma. O
Outro virou levemente a cabeça, descobrindo uma parte do pescoço, e
reparei que algo lhe brilhava na pele. A finíssima corrente que a
minha mãe levara até ao momento da sua morte ainda existia.

Nos seus olhos gelados surgiu o ódio, mas tive a estranha sensação de
que esse sentimento o desgostava. De que estava farto de ter de
odiar. De que esperava que eu me prostrasse e lhe beijasse os pés.
Que eu gritasse o meu arrependimento, desde o fundo dos séculos.

Porque disse com voz opaca:

- Tu vens do fundo dos séculos.

Notei de forma confusa que ele adivinhara o que talvez nem eu próprio
soubesse. Perguntei com uma voz que não parecia a minha:

- Venho do fundo dos séculos? Porquê?

- Porque a Criação ainda não acabou.

A menina que queria morrer tinha apenas onze anos; era pequena,
loura, frágil, mas com as sugestivas formas de alguém que em breve
será uma mulher. Tinha uma cintura muito fina, uns seios já
insinuados, mas duros - «vai ser mamelluda», diziam os entendidos na
matéria, do remoto bairro - e, sobretudo, uns lábios carnudos, como
que desenhados a pincel, por trás dos quais espreitavam uns dentes
inteiros e branquíssimos. «Isso - dizia o pároco - é uma dádiva de
Deus», porque mesmo as dentaduras jovens costumavam estar
incompletas, eram escuras e muitas vezes estavam carregadas de
podridão. Os homens olhavam para ela e então acreditavam no milagre
de Deus.

Aquela órfã, recolhida por caridade na única casa rica das


redondezas, era a criada mais insignificante de um lar cheio de
mulheres receosas, altivas, orgulhosas do seu dinheiro já que não
podiam sentir orgulho de mais nada, mandonas e convencidas de que
Deus atribui a cada um o seu papel na vida.

111
Apenas dois homens, pai e filho, formavam o lado masculino. O pai, o
amo, proprietário de grandes terras, mas de um dente apenas, entrou
uma noite no cubículo onde a menina dormia.

Abriu-lhe as pernas com o gesto depreciativo de quem examina uma


cabeça de gado.

Ela gemeu.

Um golpe na cara acabou com os gemidos e cobriu-lhe a boca de sangue.

Depois o homem penetrou-a profundamente, o mais profundamente que


podia, enquanto ela continha os gritos e estremecia de dor.

O homem esvaziou-se nela com um grito de prazer.

- Se ficares prenhe do amo não fiques à espera que eu reconheça o


filho, porca - avisou-a enquanto regressava à posição vertical
apoiando-se nos seios da menina.

A pior humilhação para ela não foi a perda da virgindade, a dor, ou a


submissão, mas a sensação de que aquele homem não dava a menor
importância àquilo que acabara de fazer.

Como se acabasse de se aliviar num novilho.

- Sobretudo - disse o amo enquanto abotoava as calças - não digas


nada ao meu filho.

O homem que não sabia o que era a morte recostou-se no cadeirão


fradesco e disse:

- Não, a Criação ainda não acabou. Permaneci em silêncio.

Ignorava o que O Outro queria, mas de certeza que não era algo de bom
para mim. Apertei os lábios.

- O princípio do Bem irá lutar sempre contra o princípio do Mal


-sussurrou O Outro -, e isso será assim desde o princípio até ao
final dos tempos.

Não me atrevi a dizer-lhe que talvez não existisse Criação, mas sim
uma série de forças cósmicas que evoluíram através dos séculos,
fazendo-nos evoluir com elas.

112
Não me atrevi, sobretudo porque dizer tal coisa no palácio da
Inquisição significava a pena de morte.

Existiam em Barcelona algumas pessoas que acreditavam na evolução


mais do que na Criação, mas a maior parte dessas pessoas já estava
morta. Ou seja, não existiam, mas já tinham existido.

Encolhi os ombros. Afinal contas, poderia eu sonhar em sair dali


vivo?

- Deus - disse-me a pessoa sentada à minha frente - completa a


Criação mediante o Espírito Santo, que nunca descansa na sua luta
contra o Mal, e que tem apenas um intérprete: o papado. É claro que,
ao mesmo tempo, o Mal, o Diabo, também nunca descansa.

- E como faz? - atrevi-me a perguntar.

- Através de seres como tu. De auxiliares do Diabo. De filhos


nascidos da sua semente secreta. De pequenos monstros contra os que
haverá que lutar até ao último dia do último Juízo. Seres que será
preciso eliminar para que não difundam a sua semente. Não sei se
alguma vez pensaste que sempre tive a sagrada obrigação de matar-te.

Estremeci mais uma vez, na minha pequenez, perante O Outro, que no


fundo - agora sim apercebia-me disso - pertencia à mesma espécie que
eu: a espécie dos imortais. Eu era um imortal que em breve deixaria
de o ser.

- Tenho de o fazer - acrescentou com um sorriso gelado -, tenho de o


fazer para que no mundo continue a reinar o Bem.

A menina que queria morrer sabia que tinha o ventre em mau estado,
mas que os seus dentes continuavam a ser brancos. O ventre estava
cada vez mais ferido porque o amo a visitava noite após noite, com
crescente desejo, convencido de que a providência lhe dera a verga
mais poderosa de toda a comarca. E devia ser verdade, porque as suas
dores eram cada vez mais atrozes. E o homem repetia cada vez que a
desmontava:

- Não contes ao meu filho.

Poderia ter contado às mulheres da família, que eram uma legião


-todas elas, de uma maneira ou outra, proprietárias -, mas a menina
que desejava ardentemente morrer sabia que dessa forma iria juntar ao
desprezo a dor e a vergonha.

113
A única coisa que aparentemente importava era que o herdeiro, isto é,
o filho, não soubesse.

É claro que tudo o que está mal pode ainda ficar pior, diz um velho
provérbio que, mais tarde, foi aclamado pelos cientistas. O amo
cansou-se rapidamente do ventre da menina, que aprendera a não chorar
e que, com isso, talvez tenha causado uma secreta decepção no amo, o
que o levou a procurar outra via. Ainda que a sodomia fosse pecado
nefando e pudesse ser punida com a morte, nunca era assim tão mal
vista se fosse praticada discretamente por um amo na sua escrava (não
escravo) e por um amo sobre a sua serva (não um servo). E foi assim
que o homem com um só dente aprendeu que a menina podia voltar a
chorar, o que dava às noites a emoção necessária. Por vezes, o amo
chegava mesmo a ter de tapar-lhe a boca.

A menina que queria morrer voltou a sangrar.

E o amo fez-lhe outra advertência paternal:

- Não contes ao meu filho.

O Outro decidiu a minha prisão no próprio palácio da Inquisição, no


qual eu entrara onde hoje existe uma grade. Era evidente que não
tinha autoridade moral para fazer com que me queimassem, uma vez que
para isso eram precisas todas as solenidades de um processo e um
auto-de-fé, mas podia morrer «acidentalmente» no tormento. E foi isso
que decidiu, sem perder um minuto.

- Lamento - disse -, eu gosto de mortes rápidas.

Não era uma morte rápida a que me esperava, ainda que tivesse de
parecer acidental. Enquanto eu era obrigado a esperar numa das
divisões do palácio, O Outro foi à procura de duas testemunhas que me
denunciassem por me terem visto efectuar rituais diabólicos. Esse
requisito era o suficiente para me interrogar e para me submeter ao
tormento.

É claro que ele não iria estar presente, não iria rebaixar-se a esse
ponto. Ele pertencia aos corpos celestes da doutrina, que mantêm
sempre a sua dignidade porque não vêem o que a doutrina faz sofrer os
seres humanos. Os Papas não assistem às torturas nem às mortes, Deus
apenas É.

114
Um dos carrascos conduziu-me até ao leito de ferro, que consistia num
estrado com pontas de metal sobre as quais era amarrado o ser humano
cuja consciência iria ser limpa. As pontas eram colocadas em sentido
ascendente, na direcção da cabeceira, de modo que não picavam
imediatamente a pessoa que se estendia sobre elas. O suplício
começava quando a roda entrava em funcionamento.

Os pés do torturado eram atados ao eixo de uma roda situada nos pés
da cama, que o ajudante do carrasco fazia girar para baixo. Uma vez
que a vítima também estava atada à cabeceira da cama, não apenas
sofria a tortura por esticamento dos músculos, como também as pontas
de ferro, quando o corpo deslizava para baixo, cravavam nele até ao
fundo. Era quase impossível sair com vida daquela máquina de tortura
por muito pouco tempo que se estivesse nela.

Enquanto me amarrava pelos pulsos e pelos tornozelos, o carrasco


disse-me:

- É melhor confessares agora.

O homem do falo erecto, o orgulho da comarca, teve de ir a uma feira


de cavalos realizada em Vic, de forma que deixou sozinha a órfã que
queria morrer. Os cavalos eram de grande classe, machos do Vale de
Arán que os comerciantes de gado levavam de lá a pé, sem os montar,
por vezes terminando a rota naquela que fora a Imperial Tarraco. Dias
e dias a pé, tentando que as bestas mantivessem sempre o melhor
aspecto. O homem do falo erecto não se esforçou tanto assim: foi até
Vic de carroça, no que demorou, ainda assim, dois dias inteiros, dois
dias mais as suas noites.

Logo na primeira noite, a menina que queria morrer foi visitada pelo
filho, o herdeiro, orgulho e honra de todos os falos extramuros. É
claro que a menina que queria morrer não o pôde comparar com o do pai
até o ver. O herdeiro, que tinha já vinte anos e conservava meia
dentadura pelo menos, começou por queixar-se. Disse que ser «hereu»,
a instituição típica da terra catalã segundo a qual o filho mais
velho ficava com tudo, era um castigo, e até a menina que queria
morrer o compreendeu. Era obrigado a viver na casa do pai, conduzindo
com esforço todas as propriedades, o que fazia dele, no fim de
contas, um escravo da terra.

115
Mas não apenas isso: teria de dotar todas as irmãs quando estas
casassem, e no caso de ter irmãos teria tido que dar-lhes uma
profissão ou ofício. É claro que o filho do dono não se queixava
disso, mas do pior: ter de estar sempre submetido ao pai e à mãe, até
à sua morte. Eles eram os verdadeiros amos, eles exerciam uma tirania
discreta e constante, de submissão e beija-mãos, de verdadeiros reis.
Certamente, graças ao «hereu», as propriedades catalãs não eram
fragmentadas e permaneciam rentáveis, enquanto em alguns reinos, como
no da Galiza (ouvira dizer aos ceifeiros sazonais) tudo era repartido
e ficava improdutivo, de tal modo - ilustrou à menina - que se havia
uma vaca e cinco irmãos, a cada um deles correspondia, por assim
dizer, um quinto de vaca. Todos os povos têm a sua lógica, mas -
acrescentava - a lógica nem sempre é a correcta.

A menina que queria morrer aprendia rapidamente.

A lógica era má, por exemplo, quando o pai tinha o direito de exercer
o seu poder sobre todas as pessoas do serviço, esquecendo as
restantes, que também tinham necessidades e desejos. A menina não era
considerada uma mulher, mas um objecto. E com os objectos não há
pecado. Assim, ele iria tentar fazer algo diferente para não imitar
totalmente o pai, e mostrou-se maravilhado - já antes disso o estava
- porque a menina que desejava ardentemente morrer tinha todos os
dentes: era preciso procurar a força da vida nesse espaço
providencial dos dentes. E então mostrou-lhe que a família podia
sentir-se feliz pelos seus atributos, não apenas pelas terras, e a
menina que queria morrer sentiu-se a asfixiar. E voltou a chorar e a
cuspir. Sémen, dor e impotência.

- É melhor confessares agora.

Foi o que fiz. Porquê negar que adorava o diabo se, segundo O Outro,
o poderoso, o sábio, eu era filho do diabo? Pedi que tomassem nota da
minha confissão, o que não fora previsto pel'O Outro, que contava com
que eu morresse no tormento. A confissão requeria umas certas
solenidades, entre elas um escrivão para registar que as minhas
palavras eram voluntárias e que eu não fora torturado, o que de
momento significava uma garantia para a minha vida.

116
De modo que confessei, e ainda por cima fi-lo com uma certa solvência
moral, porque sabia que não iria prejudicar ninguém.

A primeira coisa que devia fazer era examinar-me a mim próprio. Mãe?
Uma escrava prostituta. As circunstâncias do meu nascimento? Era
possível que tivesse intervido alguém que estava acima das leis do
mundo. A minha idade? Não sabia, embora talvez me aproximasse dos
trinta anos: de facto, como quase não tinha mudado fisicamente, não
tinha nada que me servisse de referência. Se assegurasse que tinha
vinte anos, acreditariam em mim; consoante o que eu vestia, parecia
mais novo ou mais velho, e por vezes servia-me disso para não ser
reconhecido. Nos locais que eu frequentava não havia espelhos, nem
nada onde a minha imagem se reflectisse: mal conseguia vê-la nos
charcos de água. Mas percebia que talvez pudesse parecer atractivo, e
que a minha cultura, muito superior à normal, podia mesmo tornar-me
um homem desejável. E mais nada. Eu quase não podia dizer nada de mim
mesmo.

Isso era suficiente para ser submetido ao tormento (se não tinha uma
história lógica, ao menos podia ter uma história sobrenatural), de
modo que inventei uma biografia: criado de prostíbulo, filho de uma
prostituta e de um desconhecido. De facto, havia centenas de pessoas
como eu e, além do mais, em certo sentido, estava a dizer a verdade.
Uma outra coisa era a minha dimensão moral.

Qual era a minha dimensão moral?

Talvez nunca me tivesse feito essa pergunta antes. Eu era um


perseguido e, como tal, tinha o direito a acumular ódio, mas foi
nesse momento que me apercebi que nunca tinha analisado os meus
estados de consciência. Estava destinado ao Mal? Era precisamente
como dissera O Outro? Seria eu uma criação do diabo?

Será que isso me obrigava a não ter consciência?

Percebi que não era assim. Percebi que conhecia o Bem e conhecia o
Mal. Na realidade, com o Mal dignificava-se o Bem, tal como o Bem não
o seria caso não existisse o Mal. Cheguei à conclusão - na qual nunca
antes havia pensado - de que o Diabo é um sábio criador de
ambiguidades, e é também, portanto, um criador de homens.

117
Que a Criação é uma obra conjunta que não acabou (O Outro, ele
próprio, tinha-o dito) e em que cada homem vai participando com o seu
grãozinho de areia.

Eu próprio não sabia em que é que estava a pensar.

Mas não era assim tão simples.

Do mesmo modo que contribuímos para a formação de uma cidade,


contribuímos para a formação de uma consciência.

Perguntei-me se essa consciência me teria sido obrigatoriamente dada.

Cheguei à conclusão de que não.

Que eu próprio podia contribuir para fabricá-la. E que porventura o


Diabo, também ele, no fim de contas, outro perseguido, era mais
tolerante comigo do que podia ser Deus.

Mas isto eu não podia dizer em confissão.

- Na verdade, ele não confessa nada - disse o escrivão. - Faz-nos


perder tempo.

Era o sinal para que me forçassem a falar, e eu sabia bem o que isso
significava.

Bastou uma ordem seca para ser atado nu na cama de ferro.

118
AS JÓIAS SÃO O TEMPO

Era um facto por todos conhecido que Marta Vives utilizava a Internet
no escritório, mas não era amiga de o fazer para as suas
investigações privadas. Na rede encontrava uma grande quantidade de
informação, embora não fosse suficientemente antiga, era uma
informação que jamais poderia ser comparada àquela que encontrava nos
velhos arquivos, onde era uma autoridade que talvez com os anos
viesse a ser reconhecida. Ou talvez já fosse.

Era a única explicação para que através da Internet tivesse entrado


em contacto com aquele ourives que dizia ter visto o diabo. Marta
Vives foi ao encontro combinado.

Durante algumas horas, decidiu esquecer aquela sua antepassada


assassinada, e cuja cruz de bronze fora roubada do túmulo no velho
cemitério de Sant Pau dei Camp, um cemitério de que já não existia

memória.

Uma mulher assassinada, que ela julgava saber que tinha tido uma

filha...

O ourives não era o ourives. O melhor seria dizer que o tinha sido.
Teve um estabelecimento na rua Fernando, perto das Ramblas, lugar de
dinheiro antigo, damas de corpete e casas nobres com tectos
estucados.

Agora, os estuques permaneciam, mas o lugar já não era nobre, o


dinheiro antigo partira para o passeio de Gracia e as damas de
corpete tinham sido substituídas por audazes miúdas que mostravam o
umbigo.

119
Marta Vives, mulher talvez antiquada, começava agora a perceber que o
umbigo se estava a transformar num chamamento erótico de urgência.

O ourives que já não o era tomara-se um designer de sucesso. De


facto, sempre o fora. Criava jóias exclusivas seguindo o critério
modernista que a lembrança de Gaudí estabelecera: insectos,
libélulas, correntes enroscadas sobre si próprias, asas feitas de
ouro, mas que pareciam feitas de ar.

- Caríssima, sente-se.

Marta Vives lembrava-se dos designs. Horas e horas nos arquivos e nas
pinacotecas haviam-na familiarizado com os retratos das damas que
exibiam jóias imortais, hoje legadas às netas e guardadas nas caixas
fortes dos bancos. Assim que viu o ourives, recordou alguns dos seus
clientes: Roca, que parecia andar há séculos no passeio de Grada;
Domènech, que esteve nas Galerias Condal, e ultimamente Suárez, onde
o dinheiro novo se concentrava. Os grandes ourives precisam de um
criador, e o homem que estava à frente de Marta era um deles.

- Desculpe tê-la incomodado quando nos encontrámos naquele chat. No


fundo, acho que andávamos à procura da mesma coisa: você, de
histórias de mulheres antigas que ainda devem ter um sítio no tempo;
eu, designs daqueles que as damas ainda usavam no início do século
vinte, para ter ideias novas. Depois apercebi-me de que você é uma
autêntica autoridade.

- Não em jóias - confessou Marta Vives. - Ganho a vida como


estagiária de advogado, mas as minhas verdadeiras vocações são a
história e a arqueologia. Já dei aulas em seminários.

- E foi assessora do Salão de Antiquários. Foi lá que ouvi o seu


nome. Marta Vives sorriu. No seu sorriso talvez não houvesse orgulho,

antes pelo contrário: timidez e vergonha.

- Pagavam-me tão pouco que não poderia ter vivido disso.

- E como estagiária de advogado, sim?

- Pelo menos é algo fixo.

- Acho-a demasiado jovem para ser uma investigadora reconhecida.

- Duvido que seja reconhecida. Mas ando há tantos anos entre papéis
antigos que também duvido que alguma vez tenha sido jovem.

120
O designer mostrou-lhe as suas últimas criações, ou tentativas de
criação: dúzias de desenhos, ensaios em metal, fotos antigas a partir
das quais procurava uma variação, catálogos que pareciam ter nascido
há séculos numa gala do Liceo... Quando acabou, sentou-se à frente de
um cartão em branco.

- A senhora sabe com certeza que me chamo Masdéu.

- O senhor sabe que me chamo Marta Vives.

- Gostaria de consultá-la, e se quiser posso pagar-lhe pelo tempo que


despendeu comigo. Seria justo. Mas, antes, pretendo que me diga se já
alguma vez viu isto.

E com traços de profissional desenhou no cartão um fiozinho muito


fino, que em princípio não parecia ter grande valor em si. Na
realidade, era um fio simples, muito fino, que mesmo que trabalhado a
ouro não seria exposto em nenhuma montra de alto coturno. Marta olhou
para ele com cepticismo.

- Devia conhecê-lo, porquê?

- Você é uma verdadeira especialista. Viu jóias em catálogos de todo


o mundo.

- Ainda que eu fosse uma especialista a sério - sussurrou Marta -,


este fio não me teria chamado particularmente a atenção. É um
fiozinho sem nada de extraordinário. Talvez tenha alguma coisa de
especial, mas eu não noto.

- Veja o desenho. Se apreciar melhor com lupa, os elos parecem ter


forma de seis.

Marta Vives contemplou o desenho com a lupa. O desenho era tão real
que até parecia que se podia tocar o fio. E era verdade: a estrutura
parecia muito frágil porque os elos, de certa forma, estavam abertos:
cada um deles pendia do outro pela cauda do seis.

- Mas ainda assim não se desfaz facilmente - disse Masdéu. - É um


engaste quase perfeito.

- Suponho que é isso que dá valor à jóia - opinou Marta -, porque a


quantidade de material que esta peça requer é escassa.

- Não.

- Quer dizer que a forma tem pouco valor?

- Muito pelo contrário, é algo de muito comum, e até para um ourives


com experiência representa um desafio.
121
Mas o seu autêntico valor encontra-se em ser uma peça que eu nunca
tinha visto, e que conste que tenho experiência. É por isso que eu
queria saber se já a tinha visto alguma vez.

- Não.

- O que ainda me faz acreditar mais na raridade desta jóia, facto que
sem dúvida lhe concede algum valor. Mas não é isso. O autêntico valor
desta peça única - que nem sequer sei se existe realmente, por sinal
- está na sua história. Uma vez, comprei uma colecção de gravuras
antiquíssimas em busca de novas ideias: o pesadelo do criador é
encontrar algo que os outros ainda não encontraram. Havia desenhos de
damas com jóias antigas, e era isso que me interessava. Mas de
repente, no meio do monte de papéis velhos, encontrei a descrição de
um rito diabólico. Nada de especial, porque esses ritos são de todas
as épocas e de todos os países; não me espantaria nada que em
Barcelona ainda se fizessem. Porém, aquele rito diabólico, onde por
enquanto não havia vítimas, era interrompido de repente por uma
espécie de anti-diabo, um homem vestido de negro, do qual, ao que
parece, ninguém sabia nada, e que matava com a sua adaga um dos
participantes. A gravura era antiga, imagino que do século XVI, de
tal modo que até a adaga, muito bem desenhada, me parecia uma peça de
design apropriada para a nossa época. O homem que interrompia a
cerimónia não estava, no entanto, muito bem desenhado. Tratava-se de
alguém sem idade definida, vestido com elegante roupa preta. Todavia,
no pescoço tinha algo que estava muito bem desenhado: esse mesmo fio.
Parecia tão especial que quase fiquei obcecado. Logo pensei em imitá-
lo, e por isso guardei as velhas gravuras. Ainda que tivesse sentido,
devo confessar, um pouco de medo.

- Porquê?

- Considero os ritos diabólicos uma prática tão antiga e tão ligada


aos mistérios da natureza humana que chegam a inquietar-me. Mas,
neste caso, houve até medo. Tudo era tão perfeito, tão real, que me
incomodava ter as gravuras em casa. E, um dia, alguém as roubou. E
não sei como. A minha casa não oferece qualquer segurança especial, e
isso prova precisamente que nela não existem objectos de valor. Como
se isso não bastasse, só eu é que sei, na desordem do meu estúdio,
onde guardo as coisas.

122
Um vulgar ladrão teria desarrumado tudo antes de as encontrar. Ora,
nada estava desarrumado e apenas faltava isso.

Marta Vives mordeu o lábio inferior com tanta força que quase jorrou
sangue.

Lembrava-se de algo muito especial.

Alguém, também sem desarrumar nada, roubara o retrato da sua mãe.

Por momentos, a visão ficou enevoada.

Não sabia o que pensar.

O designer perguntou:

- Nos seus estudos, tem visto muitas gravuras relacionadas com o


diabo?

- Com certeza que sim, mas só me lembro de um deles em concreto. É


uma pintura de Michael Pacher que remonta a 1480, parece-me. O título
é Santo Agostinho obriga o diabo a segurar-lhe o missal. Sempre achei
que, neste caso, o diabo não deixa de ser uma personagem muito
correcta.

- Eu também me lembro dessa pintura, mas nela não havia nenhum


desenho de jóias. E retratos de damas com jóias? Lembra-se de algum?

Marta Vives reviu o fundo da sua memória. Todo o seu cérebro era um
imenso arquivo. Mas quem lhe iria dar de comer apenas por isso? Por
vezes tinha dúvidas se o seu cérebro servia para alguma coisa. Muitos
lhe tinham dito que as suas pernas valiam mais.

- Lembro-me de um Leonardo Da Vinci - murmurou. - Chama-se A dama com


arminho e é de H94- Nele, há uma jovem com um belíssimo colar de duas
voltas: uma delas está muito cingida ao pescoço, a outra cai por cima
dos seios.

- Já o imitei muitas vezes - confessou Masdéu. - É um dos colares


mais elegantes que podem ser criados para uma dama.

- E que me diz do pingente da Virgem com o Menino, do Mestre da Santa


Verónica?

Masdéu contemplou-a com admiração.

123
- Era inevitável que você e eu acabássemos por nos encontrar
-sussurrou. - É uma das mulheres mais estudiosas que já conheci, uma
dessas mulheres que estão acima do tempo. E sabe porque tenho
dedicado a minha vida às jóias? Porque elas também estão acima do
tempo. As boas jóias duram para sempre, são amadas sempre e além
disso resumem a história. Um dos seus feitiços é nunca terem tido
apenas uma dona: as gerações unem-se nelas.

- Poderia referir alguma outra obra de que me lembro - disse Marta,


com um longínquo sorriso. - Por exemplo, o colar de Maria de
Borgonha, filha de Carlos I, o Temerário. É uma das jóias mais
complicadas e belas que já vi.

-Tal como eu. Eu também a imitei nos meus desenhos, mas nada pode
parecer-se com o sublime original. Qualquer imitação carece de
grandeza.

Marta Vives sorriu, agradada. Percebia que aquele homem, muito maior
do que ela, poderia ter sido perfeitamente o seu mestre, tendo-a
orientado no caminho dos velhos livros, mas nenhum dos dois poderia
ter desenvolvido a sua vocação junto do outro. Masdéu era um criador,
ela, a modesta estagiária de um advogado que vivia entre pessoas que
não se amam. Por vezes, Marta começava a notar um esgar nos lábios, e
esse esgar era o dos anos que não servem para nada.

- E, no entanto, nunca viu o fiozinho que acabei de lhe mostrar...


-disse Masdéu.

- Confesso que não.

- Apenas o encontrei no ritual daquela cerimónia satânica, o que me


provocou uma certa inquietação. Confesso-lhe que cheguei mesmo a
sentir uma espécie de medo e ao mesmo tempo uma espécie de estupor,
porque o antidiabo, o que estava a matar com a adaga, inquietava-me
mais que o diabo. Aquilo que realmente me abala, porém, é terem-me
roubado esses papéis tão antigos. Quem pode precisar deles? Para que
podem servir? E quem pôde encontrá-los como se sempre tivesse sabido
onde estavam?

Marta voltou a lembrar com angústia o roubo do retrato da sua mãe.

Apenas isso: angústia.

124
Mas sentiu frio até ao fundo dos ossos quando Masdéu soltou em voz
baixa:

- Sabe quem é o autor da gravura que me roubaram? Chamava-se Vives,


como você. Foi a sua obra póstuma, porque pouco depois foi
assassinado.

125
.20.

O SENHOR DOS MORTOS

O secretário da Inquisição já havia decidido que não iria perder mais


tempo comigo. Fez um sinal ao carrasco para que eu fosse amarrado à
cama de espigões. Senti o horror das picadelas nas minhas costas
nuas, mas ainda não se espetavam porque podia evitá-lo relaxando o
corpo. Tudo seria diferente com a primeira volta da roda, porque
então ficaria materialmente pregado a elas.

O secretário ordenou:

- Comece.

Naquele terrível momento apercebi-me de uma série de circunstâncias.


Em primeiro lugar, a sala de pedra cheirava a suor e a sangue, como
se de repente se houvesse exalado nela o último hálito dos mortos. A
roda era tão grande que à segunda volta ficaria completamente
empalado nos bicos. A única luz que iluminava a tortura era a que
provinha dos grandes fachos. E o que era mais espantoso para mim: o
homem vestido de negro, o que ocultava o fiozinho de ouro, já não
estava na sala.

Saíra dizendo:

- A Igreja não é responsável por isto.

As suas mãos não ficariam manchadas com o meu sangue.

Mas eu sabia que ia morrer.

Notei que a corda dos meus pés ficava tensa, o meu corpo era
impulsionado para o final da cama e as pontas de ferro, orientadas
para cima, começavam a cravar-se em toda a superfície das minhas
costas, dos ombros até às nádegas e ao próprio sexo. Era a primeira
vez que eu notava que tinha sexo: dois testículos jovens e um pénis
minguado pelo horror.

126
Para todos os efeitos, era um homem, mas nunca me sentira como tal.
Era como se o meu corpo não existisse, como se fosse uma couraça
trazida do outro mundo. A minha mãe nunca me falara do meu corpo. E
eu não era consciente dele.

De repente, fui.

Fiz um esforço terrível para não gritar, para não oferecer aos
torturadores a sensação de que a sua obra estava a ser bem feita.
Reparei no gotejar do sangue por baixo da cama. A sensação da morte,
que até então me fora alheia, trespassou-me. Percebi que nunca
pensara na morte, como se eu não fosse como os outros. E talvez não
fosse mesmo como os outros. Os espigões cravaram-se mais um pouco, e
pensei então que aquilo era o fim. Quando se afundaram entre as
minhas costelas e as separaram, todo o meu corpo ficaria
desconjuntado. Quando se afundassem nos meus rins e no meu fígado, já
não me restaria a mais pequena possibilidade de viver.

Os torturadores conheciam bem esse instante.

Foi então que compreendi.

Faziam uma pausa e davam-me a última oportunidade de confessar.


Depois seria demasiado tarde.

O secretário disse:

- Fala agora.

Afoguei outro grito de dor enquanto os meus olhos ficavam em branco.


De que podia falar? De ter nascido assim? De ter sido perseguido a
partir do próprio momento em que vi a luz?

As alimárias, que também não se conhecem a si próprias, morrem sem


saber por que razão as matam.

Eu não sabia de que se tratava.

Apenas sabia que ia morrer, e que o homem vestido de negro, O Outro,


aguardava a notícia atrás da porta.

De certeza que ele sabia porque é que eu tinha de morrer.

O secretário disse:

- É incrível como ele aguenta.

Com todos os espigões espetados, com as costas desfeitas, era


impossível que eu não berrasse com a dor, e isso aumentou-lhes as
suspeitas.
127
Se eu tinha a resistência do diabo, era forçoso que eu fosse um
diabo.

O torturador propôs:

- Mais meia volta e é o fim disto.

E dispôs-se a dá-la. Mas o secretário, movido pela curiosidade,


ordenou:

- Espera.

Queria que mais alguém presenciasse. Se eu não era um herético como


os outros, merecia a atenção dos altos guardiães da fé. Apontou
alguma coisa nos seus maços e ouviu com indiferença o lento gotejar
do meu sangue.

- Deixa-o um momento assim.

- Vai esvair-se em sangue.

- Quero informar directamente o senhor bispo.

Eu devia ser um caso tão especial que valia a pena exibir-me,


aproveitar a minha morte. Qualquer coisa valia a pena, desde que o
Bem fosse proclamado.

- Não afrouxes a corda. Quero que vejam.

E saiu. Percebi, com a pouca consciência que me restava, que a seguir


ia entrar O Outro. Mas não entrou. Quase rasguei a língua para evitar
um grito enquanto notava o lento fluir do sangue.

De repente, tive uma sensação incrível.

Ficara sozinho.

A sala parecia-me agora enorme, com as suas pedras que iriam


conservar para sempre o cheiro dos mortos.

Com as tochas que mal dissipavam as sombras.

Com aquele lento tiquetaque, tiquetaque, que mais não era que o
gotejar do meu próprio sangue.

E a dor, a dor impossível que me impedia de respirar porque os


espigões se espetavam cada vez mais e mais a cada tremor da pele.

A roda estava fixa. Eu não podia mexer nem o décimo de uma polegada.
Provavelmente seria encontrado morto quando decidissem voltar.

Mas não.
Queriam-me vivo.

Queriam que o bispo em pessoa visse aquele filho de Satanás.

128
Fechei os olhos.

Era eu um filho de Satanás?

Conhecera alguma vez o meu destino? Chegaria a conhecê-lo?

Tinha um destino? Ou era o das alimárias, que nasceram apenas para


serem exterminadas?

Porque me perseguia O Outro?

A mente é prodigiosa, a mente isola-se, faz perguntas a si própria,


dá respostas para fugir da realidade, para não sentir a dor. A mente
é o nosso próprio mistério interior, e nunca o desvendaremos. Eu
estava muito longe de mim próprio, da minha carne a sangrar e das
minhas articulações quebradas. A minha mente perguntava-se quem era
eu, sem chegar a perceber que eu não era nada porque ia morrer.

E subitamente ouvi ali pertíssimo uma respiração.

Um odor a podre.

Abri os olhos e vi um rosto junto do meu. Um rosto que parecia comido


pela lepra, cheio de rugas, marcado pelos séculos, com uns olhos que
olhavam para mim desde fora do tempo.

Não era um dos inquisidores.

Eu não sabia quem era.

Não podia saber, ainda, que quem estava a olhar para mim era, o
senhor dos Mortos.

Há lugares que estão marcados pelo destino, mas naquela altura eu


ainda não o sabia. Também não sabia que, em 1761, veria erguer-se
Colégio de Cirurgia, segundo um projecto de Ventura Rodríguez "criado
por Carlos III e Pere Virgili, médico pessoal de Fernando VI. Não
podia saber que mais tarde iria estar ali a Real Academia de Medicina
e Cirurgia. Ainda não sabia - nem podia saber - que os barceloneses
de hoje passariam tantas vezes à frente das suas portas, perante a
entrada da velha biblioteca Central, naquele que fora o Hospital da
Santa Cruz.

Não, naquela altura eu não podia saber isso.

Apenas sabia que estava a morrer. E que uma cara sem tempo, vinda do
outro mundo, olhava para mim.

Uma voz quase inaudível sussurrou:


129
- Em breve voltarão.

Não respondi. Para quê? Se já sabia.

- Foram à procura do bispo, mas depois vão deixar-te morrer. Também


sabia disso. Por que razão mo dizia aquele fantasma?

A sua cabeleira branca chegava aos ombros, e as suas roupas pretas,


manchadas não sabia de quê, exalavam um odor insuportável, mais
insuportável do que todos os fedores das fossas da cidade. O seu
hálito também tresandava. Apesar da atrocidade da minha dor, que
fazia com que me esquecesse de tudo, tive naquele momento uma
sensação de pesadelo.

Sussurrou:

- Sabes quem sou?

Não me incomodei a negar. Não fiz um único movimento. Naquele


momento, saber quem ele era estava longe de me interessar.

- Sabes o que fazem aos mortos? Neguei pela primeira vez.

- Sabes com certeza que aqui morrem pessoas. Ou ficam restos


esquartejados. E o que fazem com eles?

Também não me mexi. Nada me interessava.

- Sou eu que os levo - murmurou.

Agora percebia o fedor, agora percebia as manchas quase podres da sua


roupa.

- Alguém tem de o fazer - atrevi-me a sussurrar.

- Mas a mim pagam-me.

- Os coveiros são pagos - deixei escapar, tentando pensar em algo que


não fosse a minha terrível dor.

- Não é isso. A Inquisição não me paga nada. São os físicos do


Hospital da Santa Cruz.

- Porquê?

- Para estudarem os cadáveres. Seccionam-nos. Por cada novo corpo


dão-me alguma coisa, e assim o Tribunal não tem de se incomodar a
enterrá-los. Embora nunca te tenha passado pela cabeça, a verdade é
que os mortos também dão dinheiro. Tu és demasiado jovem para o
saber.
Fiz um trejeito.

130
Demasiado jovem?

Quem podia conhecer a minha idade? Sabia-a eu próprio? Sabia qual o


ano em que cheguei, vindo do fundo do tempo?

O homem aproximou-se mais um pouco.

O fedor tornava-se insuportável, apesar de eu já estar numa divisão


criada para os mortos.

- Disse-te que sou pago.

- E o que é que têm os cadáveres que saem daqui? São diferentes dos
outros?

- É claro que são diferentes. Os que morrem no tormento estão


desconjuntados, e isso permite aos físicos estudarem os casos mais
estranhos. Eu responsabilizo-me por carregá-los na minha carroça e
por os levar até à morgue do Hospital da Santa Cruz. Lá acabam
finalmente por os enterrar, não sem antes os estudarem. Se eu não
fizesse este trabalho sujo, os físicos não aprenderiam.

- Mas eu ainda não estou morto. Eu não sirvo.

A própria fraqueza que sentia por ter perdido tanto sangue


precipitava-me numa inconsciência quase total. A minha mente estava
paralisada. A dor, apesar de ser tão terrível, começava a rarefazer-
se.

Então, o fantasma sussurrou:

- Os físicos irão pagar-me muito mais por um torturado que ainda


esteja vivo. Querem ensaiar sistemas de cura que são proibidos no
hospital. Assim, se o torturado morrer, ninguém lhes pede
explicações.

Fechei os olhos sem perceber nada. A cada momento, sentia-me mais


fraco e mais fora de mim próprio. Não percebia o que viera procurar o
senhor dos Mortos.

- Não julgues que gosto de ser coveiro - disse -, faço isto para
ajudar os físicos. Encarrego-me de fazer desaparecer os membros
amputados do hospital e o que resta dos corpos depois das
dissecações. Como deves imaginar, ao lado do Hospital da Santa Cruz
existe um cemitério.

Sabia. É claro que sabia. Vivera já suficientemente perto para o


saber. Mas não estava preparado para ouvir o que ele me disse entre
dentes.
131
- Claro que junto ao cemitério conhecido existe um cemitério secreto.
Na realidade, toda a cidade de Barcelona está repleta de túmulos de
que ninguém se lembra. Por vezes, quando há epidemias, as casas são
queimadas com os mortos dentro. Depois, edifica-se por cima e ninguém
se recorda de nada. Algumas primeiras noites de núpcias são passadas
apenas a cinco metros de um morto.

Voltei a fechar os olhos.

- E então...?

- Vou tirar-te daqui para fora - sussurrou a voz. - Talvez não o


consiga fazer porque tens os espigões espetados nas costas, mas se
afrouxar a roda talvez consigas mexer-te. É claro que podes morrer no
caminho. Podes morrer.

Olhei para ele com súbita esperança, mas sem chegar a acreditar.
Talvez o que ele queria era submeter-me a um novo tormento que
ignorava, mas isso já não tinha importância. Qualquer coisa era
melhor que a dor insuportável a que estava submetido, qualquer coisa
era melhor do que aquele gotejar insuportável do meu sangue e aquela
sensação de que os meus ossos iam rebentar.

- Achas que me importo de morrer?

- Deves saber alguma coisa. Se nos apanharem, seremos ambos


enforcados por enganarmos a Inquisição.

- A forca será um alívio.

- Vão dar-me muito dinheiro pelo teu corpo se conseguir levar-te até
ao hospital. Nunca tiveram para os seus ensaios um torturado como tu.

Supus que os físicos me torturariam ainda mais, no caso de conseguir


chegar lá vivo.

Mas, nesse momento, qual era o problema?

- Não vais conseguir - consegui sussurrar. - Este é um tribunal


fechado e guardado. Tem de haver guardas do outro lado da porta.

- É claro que há, eu bem sei... Mas o torturador está agora ocupado
com outro preso, e o secretário que apontava tudo foi à procura do
bispo. Não sei o que terão pensado quando te viram assim... Deves ser
um personagem importante para se terem incomodado tanto.

- Não sou um personagem importante. Sou apenas...

132
A dor foi tão insuportável que soltei um grito e uma imprecação. Até
aí, tínhamos falado em catalão, na língua comum, mas o fantasma olhou
para mim espantado.

- Isso é hebreu - disse.

- O quê...?

- Disseste qualquer coisa em hebreu; reconheço, porque há físicos e


alquimistas que o utilizam.

- Eu não sei nada de hebreu.

- Tu nem sabes o que és.

É claro que eu não sabia nem nunca soubera! O que conhecia eu, na
realidade, acerca de mim? De que espécie de mundo viera eu? Mas o
outro continuou numa voz muito baixa:

- Os que mandam realmente aqui foram à procura do bispo, e por isso


vão demorar a regressar. Os guardas que há no caminho deixam-nos
passar se eu disser que tu estás morto e tu conseguires parecê-lo
totalmente.

- Mas...

- Para mim, este trabalho é a coisa mais normal e todos estão


acostumados a ver-me por cá. Tenho no pátio a carroça com os mortos.
Se tu conseguires fingir bem, és mais um a caminho do cemitério.

Desbloqueou a roda, afrouxou-a e quase imediatamente todo o meu corpo


encolheu como que activado por uma mola, mas isso fez aumentar a dor
e os fiozinhos de sangue. O senhor dos Mortos, aquele que lidava com
carniça todos os dias, percebeu que tinha de se despachar porque eu
estava prestes a morrer. Se havia alguém em Barcelona capaz de
perceber isso, era precisamente ele.

- Não te mexas.

Deixei-me carregar. Era incrível a força sobre-humana daquele homem


com ar de já ter cem anos. Desencaixou-me dos espigões, e isso fez
com que a dor aumentasse de tal maneira que lancei outra imprecação.
O senhor dos Mortos olhou para mim espantado, enquanto me segurava.

- Isso é aramaico.

Mas o que sabia eu de aramaico? E o que podia saber ele? Pára


aumentar a minha dor, o tipo estava a troçar de mim.

133
Não consegui continuar a pensar nisso.

Uma terrível laceração fez-me perder os sentidos.

Talvez fosse disso que o fantasma estava à espera, porque assim podia
agarrar-me melhor. Tirou-me da cama de ferro deixando atrás um rio de
sangue, e agarrou-me pelos cabelos, arrastando-me sobre o ventre.
Desse modo, viam-se todas as minhas costas e as horríveis chagas, que
continuavam a sangrar. Qualquer pessoa que me visse assim, arrastado
como uma cabeça de gado acabada de sacrificar, apostaria a alma em
como eu estava morto. A minha falta de consciência ajudou, porque não
notava o que estavam a fazer comigo. Caso contrário, teria sido
incapaz de fingir.

Atrás da porta havia dois guardiães, mas estavam meio bêbedos. Mais
tarde, aprenderia que a bebedeira é o único remédio que permite a
certas pessoas estar em contacto directo com o horror.

- Já vais com os mortos, filho duma grande puta?

- Hoje vens mais cedo.

Sem deixar de me arrastar pelos cabelos, agora com uma só mão, aquela
personagem do outro mundo entregou uma moeda a cada um dos guardiães,
que a aceitaram com a maior naturalidade. Deduzi que não era o
primeiro morto-vivo que o fantasma levava dali para fora. O que não
sabia era o que iria acontecer quando os torturadores dessem pela
minha falta, mas percebi que não me encontrariam, ainda que fossem à
procura do senhor dos Mortos. O Hospital da Santa Cruz devia albergar
tantos recantos ocultos que nem os da Inquisição conseguiriam dominá-
los.

Compreendi também porque é que nos deixavam passar tão depressa.

O fedor que aquele indivíduo desprendia era o de uma autêntica


cloaca.

O velho palácio tinha, e tem, um pátio, em cujo centro se encontrava


uma carroça com três cadáveres. Com o «meu» faria quatro. Dos
extremos daquela carroça deslizava tanto sangue que encharcava o rabo
do pobre asno que puxava pelo veículo. Fui materialmente arremessado
para cima dos restantes mortos, mas sempre de costas para cima
porque, caso contrário, o contacto com aquela podridão ter-me-ia
morto antes de chegar ao hospital.

134
No ar do pátio, que é hoje local de cultura e recolhimento, flutuavam
milhares de moscas nutridas como leitões.

Afortunadamente, ainda estava quase inconsciente.

Quase não me apercebia de nada.

- Sai já daqui, rato nojento!

Estavam a abrir a porta. Pousaram então, por cima dos corpos, uma
lona para que os cidadãos livres de Barcelona não vissem tanta
podridão, embora essa cobertura não servisse para nada. Um fiozinho
de sangue marcava a rota da carroça, da qual toda a gente se afastava
devido a tão sinistro cheiro.

E foi assim que chegámos, depois de atravessarmos a muralha da


Rambla, ao Hospital da Santa Cruz.

Naquele tempo, era o mais belo e moderno de Barcelona.

O hospital começara a ser erguido em 1401, tendo sido iniciado pela


nau de levante. Até então, os hospitais barceloneses haviam dependido
da caridade pública, em parte da municipal e em parte da
eclesiástica, o que criava frequentes conflitos de competências.
Durante esses conflitos, suponho, ninguém se incomodava em contar os
mortos. Foi em 1401 que o Consell de Cent nomeou uma comissão para
negociar com a Igreja, e decidiu unificar os diversos hospitais em
apenas um, que estaria instalado na Casa dos Doentes de Colom, o que
não constituía nenhuma garantia, uma vez que a Casa dos Doentes fora,
antes disso, um centro de leprosos.

Quando dei entrada no hospital - que não ficava longe do prostíbulo


onde eu nascera - o edifício estava muito longe de oferecer um
aspecto respeitável. Tudo estava em obras, pois as fachadas não
seriam unificadas até ao século XVIII e, portanto, aquele antro
mostrava-se então pejado de cantinhos, nem todos eles conhecidos.
Existia um cemitério de pequenas dimensões, umas salas de repouso -
onde séculos mais tarde seria instalada a melhor biblioteca da cidade
- e outros departamentos mais pequenos onde a morte imperava. Sendo
um hospital gratuito, todo o género de experiências eram admitidas,
mas não de modo legal. A medicina oficial, pelo contrário - e naquilo
que me era dado conhecer - estava muito regulamentada.

135
Mistelas preparadas na grande farmácia - e que em princípio serviam
para tudo -, sangrias, jejum, sanguessugas, oração e repouso. Eram
estes os grandes remédios. As naus onde depois seriam amontoados os
livros estavam cheias de camas a partir das quais era contemplado o
Além. Havia uma parte visível do hospital que era rotineira,
alentadora e, sobretudo, santa.

Todavia, a grande quantidade de despojos humanos que aquele lugar


produzia atraíra coveiros, ladrões, alquimistas e físicos não
reconhecidos que chegavam de todo os cantos da Europa. Ali, nas
despensas contíguas aos fossos, e que escapavam ao controlo do
hospital, eram retalhados cadáveres, seccionados tecidos e arrancados
os fetos das mães mortas sem que ninguém ligasse à possibilidade de o
feto estar ou não vivo. Tudo servia para as experiências, às vezes
efectuadas por autênticos rufiões e outras vezes pelos cientistas
mais importantes da Europa, fugitivos dos seus países em guerra e aos
quais ninguém atribuía uma função fixa no hospital. Os mortos desses
arrabaldes não eram contabilizados em lado nenhum, e por isso
existiam umas enormes sentinas para onde eram atirados os cadáveres.
Corpos inteiros - que quiçá não tivessem exalado o seu último suspiro
- eram igualmente para ali arremessados.

A ciência avançava entre a podridão, o sangue, os guinchos de dor, os


vermes e as orações ao Altíssimo. Era o único meio para a ciência
medieval avançar, porque cada morto deixava uma lição que a ele de
nada servia, mas que alguém, porventura um físico francês, um judeu
ou um eslavo, aprendia para sempre.

Sendo eu um corpo ilegal obtido mediante suborno, fui logo entregue a


um grupo de cirurgiões militares que tinham conseguido salvar as suas
vidas em longínquas batalhas contra os sérvios, os vikings ou os
turcos. Toda uma ralé internacional se congregara ali, amparada pelo
dinheiro da grande cidade, numa tentativa de deixar de ser ralé. A
«equipa» que me comprou constava de três cirurgiões dinamarqueses,
que eram na realidade três amputadores. Seguindo a norma sagrada das
batalhas, qualquer membro infectado ou cujo odor já delatasse a
podridão era separado do resto do corpo usando uma serra, contendo-se
a hemorragia com um torniquete.

136
Aqueles físicos melhoravam a sua técnica cortando os membros dos
mortos, mas de vez em quando precisavam de algum vivo, que lhes era
sistematicamente negado. Neste caso, era eu o vivo e queriam ver se
me podiam salvar.

A sujidade era terrível e a única medida higiénica consistia em


baldes de água atirados para as mesas cheias de vísceras e sangue.
Todavia, aqueles médicos estrangeiros estavam a descobrir algo de
espantoso, ou seja, que nos membros onde os vermes faziam ninhos e
onde certos fungos se criavam ocorriam, por vezes, curas
inexplicáveis. Os cirurgiões falavam desses fungos com uma espécie de
respeito, embora nenhuma base científica conferisse autoridade a
nada, e era por isso que não sentiam repulsa pela sujidade. Em cima
das mesas, entre o sangue e a água, havia por vezes excrementos
humanos.

Todo aquele mundo anexo ao hospital, mas oficialmente desconhecido -


e no qual eram entregues os cadáveres -, foi o meu mundo durante duas
semanas, aquelas de que precisei para voltar a caminhar curvado como
um macaco. Tive a sorte imensa de um cirurgião de guerra judeu me ter
tomado à sua responsabilidade, ele que desobedecera à ordem de
expulsão e que, portanto, vivia escondido, ainda que por vezes, à
noite, se aventurasse pelos becos do Call. Ele percebeu logo duas
coisas: que eu era um jovem fundamentalmente saudável e que as
selvagens feridas nas minhas costas iriam rapidamente encher-se de
vermes. Aprendera esta técnica nas galeras, onde as marcas das
chicotadas eram muito parecidas às minhas.

A primeira coisa que ele fez foi verificar que as minhas articulações
estavam mais ou menos no sítio, e que a roda não me desfizera
completamente. Depois, encarregou-se das feridas nas minhas costas,
avisando-me do sofrimento que iria sentir e que não tinha a mínima
garantia de cura. «É claro - acrescentou, apontando com o queixo as
naus do hospital - que também não a tens ali dentro.» A sua técnica
consistia em queimar enxofre directamente sobre as feridas, aplicando
posteriormente uma pomada que, ao que parece, era da sua autoria. Eu
não tinha a mínima ideia de que aquela pomada era feita de gordura de
cadáveres, preferentemente femininos porque despendiam uma substância
pastosa mais suave.

137
«Da mulher, tudo se aproveita - chegou a dizer-me mais tarde -,
especialmente a matriz que tenha contido há pouco tempo um feto.»

Aquele homem não ouvira falar nunca das células-mãe e morreu sem
suspeitar que, de alguma forma, estava no bom caminho. O que ele
sabia de certeza era que a medicina não avança se não for por cima
dos corpos das vítimas.

Várias vezes desmaiei nas curas. O enxofre a arder sobre as feridas


era muito pior do que os tormentos da Inquisição. Não percebo como
fui capaz de resistir, porque outros dois que estavam ao meu lado
numa situação parecida morreram, um deles completamente louco. Tive
sorte: o creme do cadáver feminino que me foi aplicado revelou-se
quase refrescante, e ainda mais a camada de barro que acrescentaram
por cima.

Durante dias mantiveram-me em segredo no depósito de cadáveres, cujo


cheiro era horrível e do qual a administração do hospital se
desresponsabilizava. Apenas alguns sacerdotes se encarregavam dos
corpos que eram reclamados pelas famílias, sempre que quisessem
enterrá-los dentro dos ritos católicos. Os restantes, entre eles
muçulmanos e judeus, não mereciam a mínima atenção.

O tratamento era repetido todos os dias.

Sobre as minhas costas atiravam baldes de água, limpavam-me o


unguento e, a seguir, o enxofre era queimado de novo sobre as
feridas, provocando-me uma dor que estava para além da morte. Essa
operação foi repetida três vezes, e depois voltei a ser depositado de
costas para o ar, banhado em gordura animal e em barro. Era
alimentado com sorvos de água e uma malga de sopa que o físico tinha
de me dar colherada a colherada, já que eu não podia erguer-me ou
mexer os braços.

Durante todo esse tempo horrível soube que estavam à minha procura.
Soube que O Outro estaria a investigar em bordéis, antros, le-
prosários e até em fossas de mortos. E fui admitido nas instalações
do Hospital da Santa Cruz. Nas instalações oficiais, mas não nas
secretas. Esse era um outro mundo, um mundo infernal e remoto. As
leis que regiam os vivos não eram as dos mortos.

138
Nos meus delírios pensei que tanto sofrimento não me valeria de nada.
Que O Outro me capturaria e me enviaria novamente para o Tribunal da
Inquisição. Mas tive sorte nisso e numa outra coisa.

O físico, após ver as minhas feridas em carne viva, sussurrou:

- Estão a nascer uns fungos na tua carne. Os físicos do hospital


diriam que é o fim, mas eu digo que talvez te possas salvar. Tenho
visto muitos casos em que os fungos regeneram os tecidos. Mas não
quero dizer isto em público, porque talvez fosse acusado de heresia e
enviar-me-iam para a fogueira.

Tinha razão.

Foi acusado de heresia por explicar as suas crenças a um dos chefes


do hospital e teve de fugir de Barcelona. E as minhas feridas
cicatrizaram. Embora com o corpo curvado, ainda sem poder mexer bem
as articulações, disseram-me que podia ir embora. Os anatomistas
desmanteladores de cadáveres tinham-me comprado, mas não queriam
fazer mais experiências comigo. E ainda por cima vi que nos seus
rostos havia satisfação e mesmo bondade. Mil vezes tenho pensado que
aquilo que realmente une os homens é o orgulho pelo trabalho bem
feito, e que esse orgulho pode santificar um médico.

De qualquer forma, o mesmo judeu que mais tarde seria apenas um


fugitivo entre outros tantos disse-me:

- Eu praticamente não fiz nada. O que é incrível é a reserva de vida


que há em ti; não percebo qual o material de que és feito nem como é
que fazes para continuares a viver. Se chegar a velho, talvez o possa
descobrir.

Não sei se chegou a velho.

E não me parece que alguma vez o descobrisse.

Voltei a pé ao único sítio onde podia considerar-me razoavelmente


seguro: a velhíssima igreja românica do Coll. Caminhando à noite para
que ninguém me visse, iniciei a ascensão dos campos ermos que
começavam a pouca distância da porta de Canaletas, cheguei à povoação
chamada Grada, tão zelosa do seu território, e deixei-a para trás.
Outra vez os caminhos entre as suaves colinas, outra vez as
profundezas de Vallcarca, outra vez as veredas que levavam, por um
lado, à Igreja do Coll e, por outro, a Penitentes, às grutas dos
eremitas.

139
Parecia que o mundo tinha girado cem vezes desde a minha partida.

Mas ali tudo estava igual.

A igreja onde mal cabiam os fiéis. Os montes onde as cabras se


perdiam. A visão remota de Barcelona nas suas muralhas. Os amos da
terra. E a menina, a menina de olhos perdidos que não podia dizer as
coisas do filho ao pai, nem ao pai as coisas do filho.

Foi ali que eu cometi o meu crime.

140
.21.

A ÚLTIMA CASA DA MURALHA

Marta Vives seguia as pegadas de um fantasma que era ela própria.

Não sabia de onde extraía o tempo. Não percebia como era capaz de
harmonizar a suas investigações com o trabalho de escritório que
Marcos Solana lhe encomendava, onde cada vez se amontoavam mais
disputas entre famílias, mais arrendamentos anteriores à lei Boyer
(Nota 1), mais heranças imensamente longínquas. Mas talvez fosse
porque Solana acreditava cegamente nela. Nenhuma da suas estagiárias
era tão eficiente a obter uma história a partir de um simples apelido
ou de estabelecer uma linhagem a partir de um documento que
aparentemente não revelava nada. Marta Vives conhecia toda a história
do seu país, os seus pequenos segredos, as suas combinações
familiares, as suas desventuras, as suas riquezas e os seus cornos.
E, no entanto, ia deixando nos papéis a alegria dos seus olhos e
caminhava cada vez com passos mais lentos e cansados, sem que isso -
diziam os entendidos - afectasse a beleza das suas pernas. Pelo
contrário, diziam os doutorados: é mais fácil perseguir até à cama
uma mulher de passos curtos.

Aproveitava os serviços fora do escritório para visitar edifícios,


penetrar em arquivos e vasculhar nos velhos cartórios de Barcelona,
onde toda a gente julga que se conservam apenas papéis mas onde, na
realidade, se embalsamam pedacinhos de almas.

Nota 1 - Ministro espanhol da Economia entre 1982 e 1985, no primeiro


governo do Partido Socialista Obrero Español (PSOE). (N. do T.)

141
O seu único ponto de partida era uma cruz roubada de um túmulo
medieval. Aí começava, naquele fragmento de morte, a história dos
seus antepassados. A partir daí, papel a papel e registo a registo, a
rapariga pudera seguir a curta vida da filha daquela mulher que havia
sido assassinada. Os retalhos da sua história surgiam num registo
eclesiástico do ano de 1493, muito pouco depois do descobrimento da
América, onde as vítimas barcelonesas eram discriminadas, devido a
uma infecção nas águas. Um grande número de pessoas haviam sido
enterradas numa vala comum, embora em algumas delas estivesse
assinalada a causa particular da morte: apunhalada numa rixa, raiva
transmitida por um cão, envenenamento por ervas tóxicas, assassínio
ritual. Era este o único caso. A sua longínqua antepassada morrera
num assassínio ritual.

Isto indicava misteriosas relações vindas do fundo do tempo, mas que


não tinham sentido. E havia o roubo da única foto da sua mãe, e havia
o ourives Masdéu, à procura de um fiozinho de ouro que ele nunca
teria criado. Marta Vives continuava à procura, incansavelmente,
ainda que por vezes não soubesse do quê e temesse pela sua própria
vida.

É claro que a primeira coisa era encontrar os sítios onde os


antepassados tinham vivido. Entrar na velha Barcelona, uma Barcelona
que já não existia: a Via Layetana arrastou centenas de casas das
quais ninguém se lembrava, a nova praça da Catedral estava construída
sobre as ruínas de ruas que agora eram apenas pedacinhos de papel, e
o velho bairro da Ribera estava tão arruinado que quando estas foram
desenterradas nas obras do Borne ninguém as reconheceu no início. Lá
poderiam ter vivido - e morrido sabe-se lá como - aqueles que tinham
o seu apelido, mas era impossível seguir vestígios numa cidade que se
devorava a si própria.

Finalmente, encontrou uma pista daquela que poderia ter sido a sua
bisavó, ou talvez a mãe da sua bisavó. A primeira coisa que observou
foi que a família continuava a ser endogâmica, porque as mulheres
Vives casavam-se com homens Vives, para o que tinham de pedir muitas
vezes licença de parentesco, um obstáculo difícil de superar. Que
chamamento secreto, que tendência obrigara aqueles seres a
procurarem-se uma e outra vez, como se obedecessem a um passado
remoto?

142
Teria degenerado a espécie por causa de tanta consanguinidade?
Parecia que não: Marta Vives era bastante saudável, e ao que parece
também a mãe o fora. Não chegara a conhecer nem o pai, nem o avô.

A pista levava-a à última casa que existira sobre a muralha das


Rondas, o terceiro e último baluarte de Barcelona, depois da muralha
romana e da gótica. Abrangia principalmente as que hoje são as
avenidas de San António e San Pablo, em ligação com a fortaleza de
Atarazanas. A velha muralha da Rambla deixara de fora o Raval, com as
suas misérias (e também a grandeza dos seus conventos e a maravilha
do Liceo), mas a nova muralha das Rondas encerrara aquilo tudo dentro
de um anel militar. No Raval, as ruas tinham-se tornado cada vez mais
e mais estreitas, como antes havia acontecido na Ciutat Vella, a mais
cruel aglomeração e as casas mais inabitáveis. Os industriais
instalados naquele perímetro desde o século XVIII tinham construído
ao lado casas para os seus operários, mas quanto mais pequenas
melhor, de maneira que, de repente, não restavam nem uma figueira,
nem um jardim, nem um pássaro. As tabernas que aquela nova massa
operária precisava eram cada vez mais insanas e embrutecedoras (até
um cidadão chamado Anselmo Clave fundar os coros, numa tentativa de
tirar os operários daquela espécie de túmulos) e os prostíbulos mais
sórdidos e confinados, já não existia neles a «la carassa», como na
Idade Média, e o mais sincero teria sido substituir aquela velha
alegria pela de uma mulher a chorar. Agora, nos prostíbulos havia
pouquíssimas conversas, os clientes não se conheciam nem eram
frequentados pelos clérigos. Eram simples depósitos de sémen, com
cujos fiozinhos as prisioneiras pareciam ir construindo a teia-de-
aranha das suas vidas.

A casa que Marta Vives procurava foi a última que se manteve em pé


daquelas que foram directamente construídas sobre a nova muralha,
quando esta deixou de ser útil e o espaço faltou mais do que nunca,
propiciando o seu derrubamento em 1854. As casas eram ilegais, e
foram-no durante séculos, como as que até 1946 taparam nada menos que
a velha muralha romana.

143
Nas suas investigações, Marta Vives chegara mesmo a averiguar quem
foi o último inquilino expulso daqueles edifícios da cidade antiga:
chamava-se Robusté.

Mas o prédio já existia. Fora construído à beira da rua Riera Alt e


durou quase até aos anos oitenta do século xx, ou seja, era um
edifício memorável. Tão memorável que durante os seus últimos
cinquenta anos fora um hotel para casais, sempre compostos por uma
mulher profissional e um homem que quase chegava a sê-lo. Durante os
mais variados regimes políticos, foram ali perpetuadas as artes do
beijo furtivo, a felação, o amor para toda a vida, a cortina e o
espelho.

Marta olhou novamente para o novo edifício actual. Um prédio de


apartamentos, envidraçado e banal, construído simplesmente para a
vida eficaz, aquela que apenas vai passando, sem nenhuma relação com
a vida que é sonhada. É claro que os prédios novos são construídos
sobre a alma dos velhos. Ou pelo menos era nisso que ela desejava
acreditar.

Examinou nos arquivos as fotos daquilo que fora o bairro. Tudo estava
praticamente igual, excepto a praça do Peso de La Paja, actualmente
delimitada por uma casa sanitária e outrora por um bar de putas
melancólicas. Também não existia o cinema Rondas, uma fábrica de
sonhos barata para famílias que decidiram acreditar em alguma coisa,
nem naturalmente a última casa da muralha. Antigamente havia ali um
edifício de pequenas janelas, com um bar no rés-do-chão - o bar
Picón, conforme mostravam as fotografias -, em cujos quartos para
alugar as mulheres contavam moedas e os homens contavam quecas. Devia
ter sido um edifício de escadas estreitas, portas que não encaixavam,
camas de antiquários, cortinas de sacristia e espelhos no tecto.
Quando o prédio foi destruído os tijolos não caíram ao chão, mas sim
as palavras secretas. Contudo, segundo as investigações de Marta, o
prédio nem sempre fora um hotel para casais. Tinha sido antes uma
casa de habitação e nele morou a bisavó de Marta, ou quem sabe a mãe
da bisavó. As pistas perdiam-se nas nuvens da história anónima...
Marta avançava pelas velhas ruas e sentia que o tempo estava a entrar
nela.

Atreveu-se a procurar na secção de Estatística, onde constavam os


moradores de cada casa da cidade para a realização do censo
eleitoral. Mas foi inútil, porque as mulheres não tiveram direito a
votar ate depois da ditadura de Primo de Rivera: nenhuma dama chamada
Vives figurava no censo.

144
Por sorte, encontrou a ajuda do padre Olavide, que frequentava o
escritório (era especialista em testamentos canónicos) e a encaminhou
para o Registo de Propriedade Urbana. Ali talvez se desse o milagre
de encontrar arquivos de velhos contratos de arrendamento que
provavelmente ninguém jamais teria consultado. O padre Olavide sabia
procurar ainda melhor do que ela. Na verdade, o padre Olavide parecia
saber tudo.

E encontrou o contrato: Elisa Vives, terceiro esquerdo, duas pesetas


por mês. Com esses dados conseguiu investigar no Registo Civil, mas
esse nome não constava aí; talvez o Registo Civil tivesse sofrido
algum; danos durante a guerra civil, se calhar as pessoas pobres de
há dois séculos não se incomodavam em fazer constar a sua partida
deste mundo.

O padre Olavide aconselhou-a novamente:

- Tente no cemitério Novo, que é, claro está, o velho. É muito


anterior ao de Montjuíc, inaugurado em finais do século XIX. Conheço
o administrador, vou telefonar a pedir-lhe que lhe facilite o acesso.
E vai mesmo precisar de facilidades: nem sei se existem arquivos de
enterros que correspondam à época das guerras carlistas. Se fossem
pessoas ricas, sim, porque ainda se conservam os panteões, mas
pessoas pobres... Enfim, pode tentar.

Marta Vives tentou. Mergulhou num mundo de amor transformado em


mármore. Lápides de letras apagadas pelo tempo, figuras aladas de
rebordos devorados, poesias esculpidas à mão para lembrar o amor de
uma tarde. E gatos, muitos gatos perpetuados no silêncio das horas.
Marta penetrou naquele mundo, e nos mais antigos registos teve a
sorte de descobrir o nome: Elisa Vives. Um nicho desocupado por falta
de pagamento há pelo menos cinquenta anos: «Ainda chegou a haver uma
família a pagar por ele, mesmo depois da guerra civil», informaram
Marta. «Deviam ser amigos, porque o apelido não tem nada que ver: a
família chamava-se Masdéu.»

E o administrador acrescentou:

- Precisamente um senhor chamado Masdéu veio perguntar o mesmo que a


senhora há pouco tempo. Fui muito amável, porque já o conhecia. Numa
ocasião, a minha mulher comprou-lhe uma jóia.

145
.22.

O TÚMULO NA COLINA

A grande planície de Barcelona estendia-se até ao infinito. Dava a


impressão que a cidade nunca chegaria a ocupar aquele terreno, tal
como hoje temos a falsa sensação de que os humanos nunca chegarão a
ocupar todo o mundo; mas da Igreja do Coll já se começava a ver que
Barcelona tinha os seus limites. Por um lado era cercada pelo mar e
pelo outro pelas montanhas, à esquerda tinha um rio, e à direita um
segundo curso de água que marcava uma fronteira. E era fácil ver, já
então, que pequenas povoações independentes como Gracia, Horta,
Sarriá ou Pedralbes iam cobrindo a terra que mais tarde seria
engolida pela grande cidade. Para além do Raval distinguiam-se na
bruma algumas casas de Pueblo Seco, que não crescia porque era
proibido construir a uma distância próxima do alcance dos canhões de
Montjuic. Do Coll, nas tardes infindáveis, distinguiam-se umas
colinas desabitadas. O sol derramava-se sobre uns campos onde ainda
imperava o silêncio dos séculos.

Tudo permanecia igual.

O pároco soube que eu fora torturado pela Inquisição, mas nem por
isso deixou de me aceitar no templo; sabia que o Santo Ofício fazia
muitas detenções baseando-se apenas numa suspeita. Os outros
continuavam por lá: os pastores, os proprietários, umas mulheres
perdidas que trabalhavam como escravas e, sobretudo, a menina.

Nada mudara nela, excepto os olhos perdidos e o esgar de sofrimento.


As senhoras da casa tratavam-na cada vez pior e com maior desprezo,
porque para elas era apenas uma aprendiz de puta; pelo contrário,
para os seus mestres, o amo e o «hereu», não houve uma única crítica.

146
A menina, como os animais, fazia parte de tudo o que a terra lhes
dera.

- Não sou uma aprendiz de puta, sou uma puta completa - disse-me uma
tarde com a vergonha reflectida nos olhos. - Já me fizeram todas as
coisas possíveis.

Confidenciava comigo porque notava, de uma maneira misteriosa, que eu


não tinha sexo e que estava para além da minha idade. Ela
confidenciava comigo porque assim aceitava o mundo e justificava a
sua morte.

Fizeram-lhe todas as coisas possíveis e estava grávida, mas não sabia


se do pai ou do filho: nessas condições, só lhe restava parir no
campo, como os animais, pegar na criança e fugir. Ninguém a iria
ajudar, e muito menos a Igreja. Enquanto propagadora do pecado,
talvez fosse acolhida num centro de mulheres arrependidas, onde seria
acusada toda a vida não daquilo que fizera, mas daquilo que lhe
haviam feito, como se a culpa fosse dela. E ela não queria que o seu
filho tivesse conhecimento disso: ela queria morrer.

A sociedade era santa e justa.

Ela não podia mudar isso.

Confessou-me isto numa tarde, quando lhe ofereci refúgio numa gruta,
depois de vários moradores a terem perseguido com pedras.
Enternecedor e terrível: apenas o cão dela a acompanhou e lambeu as
suas feridas. O cão dela e eu próprio, eu, aquele que nem tinha nome
nem a amaria nem seria arrastado pela idade.

Sentia-me terrivelmente fraco. A perda de sangue deixara-me tão


exausto que mal podia mexer-me, e um obscuro instinto levava-me a
procurá-la. A pequena não me ofereceu os seus lábios porque os seus
lábios não tinham nenhum valor: ofereceu-me confiadamente o pescoço.

Não sei se ela sabia.

Ou se foi o instinto a dizer-lhe.

O instinto de mulher que queria morrer.

Ficou quieta enquanto eu lhe mordia o pescoço, sem lhe provocar


nenhuma dor. Ficou quieta enquanto eu lhe sorvia a vida.

147
Não se alteraram os seus belos olhos quando notaram que os objectos
se esvaíam para sempre. Não sei se ela percebeu que estava a morrer,
tal como eu também não percebi. Ou se calhar soube. Se calhar sim,
porque a sua última palavra foi:

- Obrigado.

Fui eu quem a matou, sem chegar a dar por isso.

Fui eu quem mentiu e disse ter encontrado o seu cadáver, pedindo que
lhe dessem sepultura junto da igreja.

O pároco negou-se.

Todas as pessoas honestas e bem-pensantes que iam à missa negaram-se.


Por exemplo, o dono da herdade mais importante da zona. E o jovem
«hereu», que merecia não ter sido corrompido nesta vida. E também as
senhoras da casa, que não a queriam junto dos túmulos dos seus pais
mas que prometeram rezar a Deus para que Ele perdoasse aquela puta.

Foi enterrada sozinha, no cume da colina, do qual se via toda a


planície, das montanhas até ao mar.

Enterrámo-la solitariamente, o pároco e eu.

O pároco pediu-me para que eu não contasse a ninguém.

Mas o cão uivante contou, gemendo à beira do túmulo.

Contou, três dias e três noites.

148
.23.

A CIDADE DOS FANTASMAS

Foi o juiz Brines quem recebeu Marcos Solana no seu escritório, que
dava para o passeio de Lluís Companys, advogado de pobres em tempos
difíceis. Na mesa empilhavam-se os maços, no ecrã do computador um
boneco fazia carantonhas e das árvores do passeio chegava uma luz
melancólica.

O juiz Brines fora companheiro de Solana e admirava o seu profundo


conhecimento das famílias mais tradicionais do país. «No fundo, são
sempre as mesmas - pensava. - Antes, dedicavam-se à navegação e ao
comércio com Cuba, depois aos têxteis e a seguir ao fornecimento de
matérias-primas. A sua última mina inesgotável foi a construção
civil, um negócio sem fim à vista. Sim, são sempre as mesmas, mas no
fundo é difícil conhecê-las.»

Por isso, às vezes o juiz pedia conselhos a Marcos Solana. E Marcos


Solana pedia a Marta Vives.

-Vou fechar o caso do crime ritual de Vallvidrera - explicou. -Digo


crime ritual porque não sei encontrar outra explicação. Pedi todo o
género de dados à polícia, mas dão-me sempre os mesmos, de modo que
não encontro uma solução. O caso vai para arquivo provisório, mas
estarei atento, no caso de ser descoberta alguma novidade.

Acendeu um cigarro e acrescentou:

- Lamento ter de o fazer, porque assim tudo fica por resolver. É um


caso tão inquietante que gostaria de ter encontrado mais provas.

- Lembras-te de algum caso semelhante?

149
- Na realidade não, mas talvez seja porque estou há poucos anos neste
tribunal. Alguns companheiros tinham-me falado de crimes estranhos
que não faziam sentido, e nos quais um jornalista podia mesmo chegar
a imaginar a mão do Além; alguns remontam à própria época de Franco,
e nem sequer estão nos arquivos dos jornais. A razão é muito simples:
na época de Franco nada era publicado sobre factos que tivessem
alguma coisa que ver com a religião, para que o cidadão não se
enganasse. Na religião tudo era santo. Mas porque te estou eu a dizer
que o assassino de Vallvidrera esteve de alguma forma relacionado com
a religião? Na realidade, nem sei. Apenas sei que foi um rito...
Enfim, vou ditar um auto de arquivo provisório, se o fiscal ou os
arguentes não pedirem mais nada.

Marcos Solana assentiu lentamente.

Não, ele não podia pedir mais nada.

Caso encerrado.

Nunca voltaria a ser aberto, a não ser que alguém, num dia longínquo,
o utilizasse como guião para uma série sobre ritos satânicos.
Sussurrou:

- Obrigado pela tua amabilidade.

- Não penses que fico feliz esquecendo esta questão. A verdade é que
me faz confusão. Por vezes sinto-me como se o tempo não existisse,
apesar de assistirmos à nossa própria degradação. Há ideias que vivem
eternamente e muitas vezes me pergunto se poderá haver seres capazes
de viver também eternamente.

- Eu também já pensei nisso.

- Mas esta não é uma conversa sensata. Marcos Solana mussitou:

- Não, não é razoável.

- Nem politicamente correcta.

- Nem politicamente correcta.

- Um juiz não pode abrir sumários baseando-se em coisas do 5 Além -


rematou Brines.

- Mas o Além existe.

Os dois homens apertaram a mão. Marcos Solana dirigia-se para a


porta, quando perguntou, como se acabasse de se lembrar:
150
- Disseram-me que recebeste uma oferta de transferência.

-Sim, para Madrid, com uma categoria superior, mas estou a deixar
andar. O que eu fosse ganhar a mais, perderia a alugar um
apartamento, porque aqui tenho um apartamento barato e lá teria de ir
novamente à procura. Além disso, gosto de Barcelona, apesar de que
aqui os juízes não são bem considerados e todos os dias há mais
coisas para fazer. Barcelona é uma cidade que vive de mitos, ainda
que insista em ser uma cidade realista. E está povoada de fantasmas
de anarquistas, de sindicalistas, de revolucionários, de gente que
hoje trabalha laboriosamente e amanhã, não se sabe bem porquê, decide
abrir as campas dos conventos. Agora, a cidade apresenta um
encefalograma plano, é verdade. Mas os fantasmas existem... Ah... Não
queria esquecer que muitos deles são fantasmas de mulher. Aqui
fizeram história as mais honestas cortesãs da Europa.

O juiz largou uma gargalhada enquanto acompanhava o seu visitante até


à porta.

- Ah... - disse como quem não quer a coisa. - Agradece à Marta Vives
os relatórios. De vez em quando peço-lhe, quando num sumário aparece
algum apelido velho, e ela sabe tudo e orienta-me com tanta sabedoria
e generosidade, algo que jamais lhe poderei pagar. Há duas semanas,
perguntei-lhe pelos protagonistas de uma burla bancária que
pertenciam a velhas famílias, e a maneira como ela me contou os
antecedentes fez-me sentir que estava a viver no início do século xx,
quando em Barcelona ainda se fundavam bancos. Nem imaginas todo o
trabalho que ela me poupa... Por sinal, naquele relatório estava o
nome de um antepassado da Marta, que talvez por causa disso soubesse
tanto. O antepassado era, ao que parece, um contabilista de muita
categoria, um desses tipos com lunetas que numa tarde faziam o
balanço da maquinaria terrestre e marítima. Um tipo perfeito, desses
que nunca se engana. E de repente encerram-no num hospital
psiquiátrico.

Solana, que não gostava de números, murmurou:

- Se calhar teve uma indigestão de algarismos.

- A tua estagiária, a Marta, não deu pormenores. Refere apenas o seu


antepassado porque ele era secretário-geral de um banco e deixou as
contas mal acertadas, o que explica uns desajustes posteriores que
algum tempo depois deram lugar a uma burla.

151
Notava-se que a Marta não gostava de escrever sobre este assunto. Mas
deduzi que aquele bom homem ficara doido: começou por dizer que ele
acreditava na imortalidade, o que é muito normal porque todos os
católicos acreditam nela. Mas depois afirmou - e fê-lo numa junta
geral - que conhecia seres imortais. «Os santos que estão no céu»,
disse-lhe um médico católico, diariamente praticante. «Não - afirmou
o antepassado da Marta. - Trata-se de pessoas que estão na terra.» Os
médicos, cada vez mais assustados, pressionaram-no para ele dar mais
pormenores. No final, acabou por dizer a morada de um homem que,
segundo ele, era imortal. O banco pagou a um investigador privado
para que fosse àquela morada e ninguém vivia lá: melhor dizendo,
vivera um homem que já não estava. O doente acabou num hospital
psiquiátrico, onde se suicidou ou o suicidaram: nunca se chegou a
saber e, além disso, já aconteceu há anos. Mas pelo que sei de Marta
Vives, muitos dos seus antepassados morreram de uma forma trágica.

Fez um gesto de pesar, talvez arrependido por ter falado tanto. Mas,
no fim de contas, Solana era um amigo e Marta Vives uma mulher que
ele apreciava.

Atreveu-se a acrescentar:

- Cuida bem dela. É uma mulher que vale muito. E... Fez-se um
silêncio. Solana perguntou:

-... E?

- E dá-me a impressão de que está em perigo.

152
.24. A ÚLTIMA CARGA

A República declarou a igreja de Santa Maria del Mar monumento de


interesse nacional a 3 de Junho de 1931, sem provocar por isso um
levantamento da direita. Foi uma prova de que a República se
interessava tanto pelos problemas culturais como pelos agrários, mas
não devia ter chegado mais longe, segundo os especialistas. Já era
suficiente limitar o interesse cultural às igrejas.

Conheço o debate, porque na altura trabalhava como porteiro no El


Dilúvio, o diário anticlerical, e mesmo assim tinha muitos amigos nos
jornais da direita, como La Veu de Catalunya. Ali eu era apreciado
porque resolvia qualquer dúvida. «Quem era o presidente das Cortes
quando decidiram acabar com o cantão de Cartagena?» Eu sabia. Acho
que foi por isso que entrei no El Dilúvio e que me consentiam que
tivesse amigos do outro bando.

Por outro lado, trabalhar no El Dilúvio quando a Segunda República


foi instaurada não era assim tão difícil. Qualquer cidadão podia
entrar na redacção, escrever o que lhe desse na veneta e entregá-lo
para publicação, naturalmente sem cobrar. Metade das vezes, o artigo
era aceite.

Tomei o gosto à rua Argentería, em cujo fim está Santa Maria del Mar,
pelo Fossar de les Moreres, que o governo catalão considerava um
local honorífico. Hoje, continua a ser considerado um local
honorífico - após numerosos governos catalães no exílio -, embora a
rua Argentería seja um lugar atípico e rico, com inúmeros
restaurantes onde a honra do país continua a ser cultivada.

153
Poucas pessoas reparam no Fossar de les Moreres, onde estão
sepultados os heróis - ou os loucos - de 1714.

Eu vou visitá-lo muitas vezes, porque deveria ter sido um dos


sepultados no ossário e comigo tinha de ter estado O Outro.

Depois da morte da menina compreendi que não podia continuar entre


aquelas colinas. Seria perseguido como responsável daquela morte, que
iria desencadear todo o tipo de lendas, e o pior é que eu era
responsável.

Era como se pairasse sobre mim uma maldição.

Olhava o meu rosto no espelho da sacristia e via sempre a mesma cara:


a de um homem que ainda não tinha trinta anos, que não variava de
expressão, de estatura, de gestos. À minha volta tudo mudava,
inclusivamente iam sendo erguidas casas novas ao longo das colinas,
mas o tempo parecia ter parado em mim. Como já havia acontecido em
outros lugares, era inevitável que as pessoas reparassem em algo de
estranho, que acabassem por pensar «isto não pode ser».

E além disso havia a morte da menina.

Mas, neste caso, eu fora o instrumento. Instrumento de quem? E


porquê? Qual era a minha missão, se é que eu tinha uma? Qual era o
sentido da minha culpa? Havia irremediavelmente alguma coisa que me
empurrava para o mal?

Tinha de fugir.

Não podia permanecer tanto tempo no mesmo lugar.

O padre deixou-me partir, ainda que suspeitasse de qualquer coisa


estranha. Antes disso, achou por bem informar-me de que este mundo
estava perfeitamente determinado pela mão de Deus, que os papéis já
estavam distribuídos e cada um conhecia o seu. De um lado, os donos
da terra, que tinham sido distinguidos pelo Senhor graças às suas
virtudes e que eram os encarregados não apenas de manter a Verdade,
como também de distribuir os bens. Do outro lado, a ralé, que era
preciso redimir cultivando a augusta virtude da caridade. O
sentimento caritativo era o mais nobre que Deus nos dera, porque
graças a ele a justiça era distribuída no mundo. Tudo o que fosse
perturbar a ordem natural de Deus era pecado, e se ainda por cima
houvesse uso da violência, o pecado era gravíssimo, digno do maior
dos castigos.

154
Por isso, quem nada tivesse recebido de Deus devia estar agradecido,
pois estava bem no centro do terreno das bem-aventuranças. Será que
eu não percebia que já estava tudo traçado? Disse-me isto porque
notava que eu não era suficientemente pio, apesar de ter trabalhado
tantos anos no templo.

O pároco suspeitava que, de alguma forma, eu já estava destinado ao


mal.

Parti dali cheio de dúvidas sobre a minha identidade e o meu destino,


mas não fui para muito longe. Nas profundezas de Vallcarca fora
constituído um grupo de eremitas que pareciam viver exclusivamente da
água das inúmeras fontes e que me acolheram pensando que aquilo que
eu queria era meditar. E não estavam muito enganados, porque a
incerteza asfixiava-me, levava a questionar-me a mim próprio e
duvidava que a criação do mundo já tivesse chegado ao fim; no máximo,
estava a meio caminho. Suponho que isso fazia de mim um
revolucionário e, pior, um herege, mas nenhum dos anacoretas pareceu
notar isso. Depois, soube que todos pensavam mais ou menos como eu,
que alguns estavam fugidos da lei ou eram procurados por terem
escapado dos seus senhores. Não se misturavam com os anacoretas de
Penitentes, apesar de estarem tão próximos, porque estes pareciam
pensar que o mundo era tão perfeito que não o mereciam.

Aquela espécie de fraternidade da água - e não da comida - durou


pouco tempo, porque fomos detidos, suspeitos de roubo e banditismo,
embora ali ninguém tivesse roubado nada. Eu próprio, o mais
miserável, mais não fizera do que aproveitar o sangue de um cão que
de todas as maneira ia morrer. Acho que o cão me agradeceu que lhe
aliviasse o sofrimento; acorrentado à porta de uma herdade, sempre
suportara o sol implacável e o frio glacial, a solidão e os golpes
com que era treinado para aumentar a sua ferocidade. Eu fui o único a
quem ele deixou aproximar-se, ao amanhecer, talvez porque tivesse
visto nos meus olhos algo que só conseguiam ver aqueles que conheciam
a verdade elementar do mundo.

Quase todos os eremitas foram presos, mas comigo foram piedosos,


porque eu era apenas um recém-chegado.

155
Estive atrás das grades unicamente dois meses, que passei junto de um
dos velhos mais estranhos que encontrei em toda a minha vida. Era
quase cego, e apesar disso parecia conhecer quase por instinto todas
as proporções do mundo. Em jovem havia sido discípulo dos geómetras
gregos e dos matemáticos árabes, razão pela qual o seu mundo era um
simples conjunto de números que se harmonizavam entre si. Escrevia
incansavelmente no chão de terra do cárcere com o rebordo de uma
pedra, e da sua boca aprendi conhecimentos que nunca julguei que
pudessem existir. Entre eles, toda a geometria de Euclides, as
perfeitas proporções de Fídias e as equações engendradas pelos árabes
e muitas vezes transmitidas pelos judeus. Percebi então que eu,
pequeno monstro, era um sábio.

Mas isso não me iria servir de nada. A minha libertação significou


que devia trabalhar nas inúmeras valas que eram abertas no Raval para
construir casas sobre os antigos cemitérios. Aprendi aí que as
cidades são construídas sobre restos humanos e sobre objectos (um
anel, uma ânfora, um pedaço de gaze, um lenço corrompido pelos anos)
e que os cadáveres atravessam sucessivos estádios de vermes, larvas,
moscas, escaravelhos e pó, pó com séculos que eu respirava quando os
corpos eram desenterrados para abrir as valas. Adquiri mais
conhecimentos sobre anatomia e sobre ossos que qualquer um dos
físicos que visitavam o rei, mas isso nunca ninguém o soube.

Três vezes mudei de local para não chamar a atenção de ninguém. O meu
primeiro novo destino foi a pedreira de Montjuic, desde há tanto
tempo tão explorada e coberta de tantos sofrimentos que cada uma das
rochas parecia conter a alma de um pedreiro morto. Depois, fui
trabalhar como contabilista para um importador de sedas, até que por
fim surgiu algo melhor: escriturário de um cartório notarial que
ficava na praça do Azeite - mais tarde desaparecida e na qual existia
uma taverna onde séculos depois conheceria Picasso -, onde eram
registados todos os actos jurídicos de uma cidade que já era a mais
importante do Mediterrâneo. Ao longo de tantos anos eu nunca mudara,
ao passo que Barcelona era um gigante desconhecido, um gigante que
inventara uma coisa que tem sabido sempre conservar: a convivência. A
convivência e o espírito de acolhimento.

156
Ninguém que venha trabalhar é estranho na cidade de todos, ainda que
tenha de sofrer como a minha mãe sofreu. Os que não nascem
barceloneses acabam por morrer barceloneses. Foi assim que me
apercebi que amava a minha terra, apesar da sua insensatez.

Mas são os insensatos que fazem a História, ao passo que os lúcidos


apenas fazem os calendários.

Por vezes, deslizo como uma sombra rumo a Santa Maria del Mar, para o
Fossar de les Moreres. Dizem que ali «no s'enterra cap traïdor»,
porque todos aqueles que jazem nesse solo são heróis. Os heróis -
agora já o sei - julgam que estão a cumprir uma missão ética, quando
na realidade estão a cumprir uma missão estética. Sem eles, a
humanidade não passaria da categoria de rebanho.

Se algum historiador me consultasse, eu dar-lhe-ia alguns nomes dos


que ali jazem, porque os conheci e estive junto deles. Conheci o seu
medo, a sua firmeza, a sua crença na morte por não terem fé na
vitória. Apenas esses são os verdadeiros heróis.

Tudo começou devido a uma questão que os catalães assumiram como sua
e em relação à qual comprometeram a sua palavra, mas que na realidade
devia ter-lhes importado muito pouco porque era uma questão europeia,
uma dessas questões de ricos por causa das quais os pobres morrem.

Eu já sabia - do meu lugar de escriturário principal do notário -que


esta cidade tem uma característica: não quer depender do Estado, mas
também não quer que o Estado dependa dela. Foi, por isso, muito ciosa
dos seus foros e privilégios, que os reis de Espanha tinham de jurar.
E quando os reis de Espanha pediam dinheiro às Cortes catalãs para
financiar alguma das suas guerras, costumavam sair de lá sem ter
obtido mais do que alguns tostões. A verdade é que, consequentemente,
também os reis não concediam aos catalães grande coisa.

Os meus concidadãos - se assim os posso chamar sem que fiquem


encolerizados - eram, portanto, muito ciosos das suas leis, que
tinham tido de defender face às tropas do nosso senhor Filipe IV, rei
que aproveitou muito bem a vida, que se dedicou a caçar faisões e a
fecundar mulheres dignas de elogio.

157
Mas o pior foi quando o seu herdeiro, Carlos II, morreu sem
descendência, sem ter aprendido dos seus antepassados a arte da
fecundação, facto que despertou os apetites dos grandes da Europa. Os
grandes da Europa sempre souberam muito bem o que tinham de fazer,
coisa que os povos nunca aprenderam.

Aqueles que vivem demasiado, como eu, têm uma certa tendência para a
má-língua. Não acredito que aqueles que morreram a defender as
muralhas de Barcelona soubessem o que eu sabia sobre as dinastias
europeias, mas eles pouco se importavam com isso: foi na sua
companhia que eu soube que estava ali por puro orgulho. O notário,
que o sabia, não sentiu desejos de ter nenhum orgulho.

- Luís XIV de França - disse-me, como se eu precisasse de o saber -


vê que o trono de Espanha está vago e quer impor um rei francês com o
nome de Filipe V, o que faria dele o mais poderoso da Europa, sem
qualquer rival. Porque já deves saber que se começa a falar do
equilíbrio da Europa, e aquele que dominar a Europa dominará o mundo.

O notário, sem saber que eu vivera mais histórias do que todos os


seus antepassados juntos, continuou a dizer-me:

- O equilíbrio europeu terá sido rompido se a França e a Espanha se


unirem, e é por isso que os estados centrais querem impor um rei
austríaco. Carlos. Isso, aos trabalhadores catalães, que irão sempre
ficar por baixo, pouco devia interessar-lhes, mas Carlos da Áustria
prometeu respeitar os seus foros, e Filipe não se arriscou a tanto.
Tens de saber que a França é um país centralista, embora duvide que
percebas o que é o centralismo.

Fiz um gesto de ignorância, como se não soubesse bem do que estávamos


a falar, enquanto empilhava as escrituras em que estavam distribuídos
os bens da terra. Conhecia a história de cada um desses papéis. A
história de cada uma das grandes famílias. A história de cada uma
daquelas vidas e, sobretudo, das mortes.

E conheci bem aquilo que mais tarde aconteceu. Barcelona manteve a


sua palavra a favor do austríaco, e as potências europeias
estabeleceram pactos sem manterem palavra alguma. Os catalães, e
especialmente os barceloneses, ficaram na guerra absolutamente
sozinhos.

E pareciam contentes por isso.

158
* * *

Esta tinha sido uma cidade sensata. O notário era sensato. Os


comerciantes também. Amén para os que morriam nas pedreiras e nos
estábulos. Nunca tinham aspirado a outra coisa que não fosse ganhar
um pedaço de pão.

Esta cidade criara os grémios mais honestos e severos. Estabelecera


as primeiras normas mercantis com a «taula de canvi». Melhorara as
cartas de crédito dos lombardos. Estabelecera as normas do direito
marítimo. Definira para sempre as normas urbanísticas com as
«Ordinacions de Sanctacilia». Fizera jus aos seguros de transporte.
Estabelecera, nos matrimónios, a separação de bens. Criara o
testamento recíproco. Mantivera a liberdade para testamentar em
relação à maior parte da herança. Evitara a dispersão das terras.
Catalunha, e sobretudo Barcelona, pareciam ter nascido para ser
sensatas.

Bom, pois não o eram.

Barcelona vive de mitos.

O que acontece é que ainda não percebeu isso.

O notário deixou de trabalhar em Setembro de 1714. Eu deixei de


trabalhar. Os menestréis dos grémios deixaram as ferramentas e
pegaram em armas. Aqueles que tinham braços apostaram-se nas
muralhas. Os físicos subiram para atender os feridos. As mulheres
esqueceram-se que tinham filhos, lembrando-se que tinham uma
bandeira.

E tudo por um rei longínquo, quem nem sabiam muito bem onde nascera.

Tudo por uma palavra.

Os sinos tocaram a rebate.

Os sinos não percebem de sensatezes. São sempre a última voz que os


mortos deixam, mas então foram a última voz daqueles que iriam
morrer.

Eu perguntava-me porquê.

Ela disse-mo.

159
Eva era procedente da Catalunha interior, que estava já submetida
pelas tropas borbónicas chegadas de toda a Europa. Um duplo círculo
de canhões, torres de assalto, couraceiros, cavalaria, mercenários a
pé e sapadores transformados em toupeiras rodeava a cidade sem
esperança, mas os sinos continuavam a ser a última voz daqueles que
iriam morrer.

Eu não tenho sexo. Eu não tinha sexo. As mulheres, quando olhavam


para mim, sabiam que não iam perpetuar a espécie; é por isso que não
percebo o que Eva viu em mim. Talvez, como o cão acorrentado, tivesse
adivinhado em mim a verdade elementar do mundo. Além disso, ela não
precisava de perpetuar a espécie, porque já carregava a espécie
dentro dela. Estava grávida de nove meses.

Tal como a menina que desejava ardentemente morrer, o senhor dela


possuíra-a quando acabara de fazer quinze anos, deixando bem claro
que eram os senhores, e não os servos, quem domina as forças da
Terra. Porém, é um facto que não fora usada tantas vezes quanto a
menina que desejava morrer, e ainda por cima o senhor prometera
sustentar o filho sob duas condições: que nunca pedisse um
reconhecimento e que, como todos os seus antepassados, permanecesse
ligado à propriedade e fizesse, para sempre, parte do campo.

Eva fez com que eu me apercebesse de que a cidade lutava por uma
promessa, mas que ela iria lutar por uma parte do seu ser. A história
de Barcelona está cheia de mulheres que lutaram por uma parte do seu
ser. Mas delas não se fala nunca.

E ela intuía que carregava nas entranhas uma menina. O instinto das
mulheres nunca as trai. Eva sabia que a sua filha iria nascer presa à
terra, que iria crescer, veria os seios e as coxas dela crescer. E
também o amo a veria crescer e quereria apropriar-se dessas coxas. E
desses seios.

E por fim outra cama.

E ainda um outro senhor que com ela mediria a sua virilidade.

Não, Eva não queria isso.

Disse-mo:

- Quero que a minha filha nasça livre.

160
Desde os tempos que a minha memória conservava, Barcelona fora sempre
identificada com a liberdade. Os servos que conseguiam estabelecer-se
ali passavam a ser livres. Os que tinham uma foice lutavam para não
ser escravos. Os que iriam morrer imaginavam que os foros os tornavam
diferentes dos outros e lhes davam um futuro.

Sou demasiado velho.

Ouvi esse desejo ancestral numa canção revolucionária, durante a


guerra civil:

«Se eu morrer, os meus filhos viverão.»

Eva decidiu que a sua filha iria viver.

Conheci-a nas muralhas, quando apesar da sua gravidez empunhava uma


alabarda. Eu estava ao lado dela porque queria viver aquele momento
de loucura e sabia que só as loucuras é que fazem a História. Quando
vi as granadas destruírem a muralha, levei-a para uma das torres da
catedral, que me parecia um lugar mais seguro.

A velha «Tomassa» tocava a rebate.

Aqueles que morriam por um rei longínquo não sabiam que estavam a
morrer apenas pela sua honra.

Eva sabia mais alguma coisa.

Eva sabia que iria morrer, não pelo seu ventre, mas por causa do
ventre da sua filha.

Sabia mais do que eu.

Quando a acolhi nos meus braços não pensei nela, mas na minha mãe. A
minha mãe não pudera nascer livre. E quando já as muralhas cediam,
desfeitas em pedaços, quando as tropas borbónicas entravam já a
sangue e fogo na cidade, Eva disse-me a chorar que queria fazer uma
última coisa na vida: conseguir que a sua filha nascesse numa terra
livre. Disse-lhe que Barcelona já não existia, que restavam apenas
alguns braços e nem meia légua de liberdade, se é que a liberdade
existia. Mas foi isso que forçou Eva e a sua maravilhosa juventude,
que apenas ouve uma voz e umas pulsações: quase oculta sob o sino,
arregaçou a saia e ficou de cócoras como os animais do campo, como as
primeiras mulheres. Notei-lhe os seios inchados, ouvi-lhe o estertor
e o estalar dos dentes. Balbuciou olhando para mim:

- A cidade acolhê-la-á.

161
Ao mesmo tempo que as balas assobiavam à nossa volta, chegando mesmo
a ricochetear no sino, tentei ajudá-la porque sabia como; nos
hospitais, enquanto o sangue manchava as paredes, vira trabalhar os
físicos.

E então aquele jovem também a tentou ajudar. Largou a bandeira quando


se percebeu, talvez, que o ventre de uma mulher contém mais! verdades
que todas as bandeiras do mundo. Aproximou-se de Eva, es-j tendeu-a
no chão e abriu-lhe as pernas, entre as quais já despontava uma
cabeça. O sangue salpicou tudo em redor. Ela nem sequer gritou porque
era consciente de não estar a parir uma filha, mas uma esperança.

- Sou ajudante no hospital - disse o jovem. - Sei alguma coisa disto.


Eu sabia bastante mais, mas percebi que ele estava a fazer as coisas

bem, de modo que me limitei a ajudá-lo. Enquanto via apertar os


dentes a Eva, pensei que nem ela nem a menina teriam a mais pequena
possibilidade de viver, já não pelas balas, mas pela imundice. Seria
lógico que ao fim de alguns dias ambas morressem devido às febres. O
jovem quase gritou:

- Já nasceu. É uma menina.

E notei humidade nos seus olhos.

De certeza que era daqueles que pensam que a vida vencerá sempre a
morte.

Mas o assalto estava já na fase final. Os barceloneses morriam atrás


das últimas pedras da muralha. Das alturas, vi um dos representantes
da cidade, Casanova, cair abraçado à bandeira. Os estrangeiros
avançavam triunfais, com os tambores a rufar, enquanto os últimos
defensores tentavam detê-los, já não com armas, mas com gritos.
Peguei na menina ensanguentada e deixei-a sob o sino, junto da sua
mãe, que perdera a consciência.

Foi então que a bala roçou o meu pescoço; podia ter-me penetrado em
cheio, mas só me acariciou. O meu sangue salpicou a «Tomassa» e
deixou impregnados os seus rebordos. Como costuma acontecer nesses
casos, não senti qualquer dor e quase não me apercebi da nada.

Dei-me conta, porém, de que aquele era o último embate e que as


tropas borbónicas já tinham entrado.

162
Barcelona inteira estava a morrer, mas essa não seria a primeira vez.
E de repente surgiu O Outro, movendo-se entre as ruínas, impecável,
severo... Não trazia armas e parecia estar ali apenas para contar os
mortos.

Que alegria para ele, pensei.

Os mortos não pecam.

O ataque final estava a chegar aos últimos recantos de Barcelona.


Tudo o que estava à minha volta ruía, e os gritos de triunfo dos
vencedores afogavam os alaridos dos moribundos. De baixo, vários
soldados apontavam para mim, e tive então consciência de que podia
morrer.

Durante alguns segundos a minha cabeça foi um turbilhão. Precisava de


viver. E ali havia um autêntico festim de sangue.

E o Mal triunfou.

Triunfou a minha cobardia.

Pus à minha frente o jovem, que já se pusera de pé e tinha recuperado


a bandeira. As duas balas que iam na direcção do meu peito cravaram-
se no dele. Vi-o cair e continuei a proteger-me com o seu corpo,
caindo ao mesmo tempo que ele.

Salvei-me.

Os gritos começavam a cessar.

Os atacantes rematavam com baionetas os feridos.

Mas a bandeira continuava em pé.

Esgueirei-me pelos telhados da catedral, pisando os últimos


cadáveres, e então caiu a bandeira.

O que vivi naqueles dias ensinou-me que as pessoas simples, o povo,


acaba sempre por cumprir o seu destino, que é trabalhar para os
filhos e morrer para os amos. Resta a honra, mas a honra não abrange
os desconhecidos do Fossar de les Moreres, pois é precisamente quem
não é aí enterrado que a conserva. Nenhum homem ou mulher que aspire
à eternidade quererá ser povo.

E apercebi-me de uma coisa que já sabia: Barcelona continua a viver


de mitos.

Todos os anos, a onze de Setembro, é organizada uma homenagem pátria


a Rafael de Casanova, que caiu junto à bandeira mas que não morreu:
retirou-se para as suas propriedades e chegou mesmo a aceitar uma
pensão do vencedor, morrendo de velho como um homem sensato.

163
E esquece-se o general Moragas, que foi decapitado pelos vencedores e
cuja cabeça foi exibida numa jaula.

Deveríamos inclinar a cabeça perante o povo sem nome.

Mas apenas a inclina perante aqueles que deixam de ser povo.

Bom, também não é preciso que me prestem atenção.

Eu não passo de um proscrito.

Barcelona perdeu tudo, menos o desejo de continuar a trabalhar. No


dia seguinte à destruição, as pessoas estavam nos seus postos e
voltava a ser um povo novamente disposto a escrever a História.
Filipe V - que não fez as coisas tão mal assim, porque pelo menos
introduziu certas normas civilizadas dos franceses - ditou o Decreto
de Nueva Planta, que praticamente anulava todas as liberdades
catalãs, e destruiu o antigo bairro da Ribera, o de Santa Maria dei
Mar, para criar a Ciudadela. Entre esta e os canhões de Montjuic era
preciso dominar completamente a cidade levantina; assim nenhum filho
da mãe se atreveria a levantar a voz. Barcelona deve ter sido,
provavelmente, a única cidade do mundo que viu as suas ruas serem
alinhadas para facilitar as cargas da cavalaria.

De facto, na Ciudadela, onde estavam as tropas, a rua Princesa leva


em linha recta os cidadãos (e os cavaleiros armados) aos centros de
poder que são a Câmara Municipal e a Generalitat (Nota 1), facilmente
domináveis; dali, a rua Fernando continua a conduzir em linha recta
até às Ramblas, sempre agitadas, e também em linha recta, pela velha
rua Conde do Assalto, ao Paralelo, última fronteira do Raval, com os
seus operários famintos. Qualquer tropa que venha a descer desde
Montjuic fará a ligação com a que cavalgou desde a Ribera e
convencerá o povo de que o melhor é continuar a ser povo.

Ainda por cima, o povo nem costuma saber o que quer. E a minha longa
experiência de perversidade diz-me que o povo sempre comanda mal o
povo.

Nota 1 - Órgão de governo autonómico da Catalunha, em catalão. (N. do


T.)

164
Os desalojados do bairro da Ribera foram transferidos para uma nova
Barcelona era ponto pequeno, a que chamaram «a Barceloneta». 0 novo
bairro foi concebido, não sem falta de talento, por um engenheiro
militar chamado Ceemefio, e ali os novos moradores fizeram três
coisas: descobrir o mar, encher os andares de crianças e sonhar com a
revolução pendente, até terem sido convencidos pelos fuzilamentos nas
praias de que é melhor não sonhar. Com o passar dos anos, vi a
Barceloneta transformar-se num bairro de restaurantes, cervejarias,
refúgios para lulas e espaços para iates, ou seja, vi como se tornava
um bairro bastante razoável.

Nós, que vagueamos nas sombras, não esquecemos nada, já os habitantes


das cidades esquecem a sua própria história. Quando o Borne, o grande
mercado central, foi abandonado por já existir um outro mercado
maior, pensou-se fazer ali um centro cultural ou uma grande
biblioteca, para o que seria preciso escavar as fundações que tinham
suportado, durante séculos, a passagem dos carregadores, os gritos
dos vendedores e o peso das carroças. O grande ventre de Barcelona
estava vazio e pensou-se enchê-lo com fragmentos de memória. Mas
quando se aprofundou na terra, surgiram os restos de casas, ruas,
valas e condutas de água, dito de outra forma, uma verdadeira cidade
ignorada, uma espécie de cidade egípcia. Ninguém sabia ao certo o que
era aquilo, até que por dedução lógica chegaram à conclusão de que
eram os restos do bairro da Ribera, destruído por Filipe V e de onde
os barceloneses haviam resistido a última carga. Ou seja, era um
bairro de heróis que durante séculos permanecera sepultado sob
toneladas de verduras e frutas que nem sequer eram do país. As
autoridades puseram-se em sentido perante aquela honra, derramaram
lágrimas municipais e, naturalmente, chamaram os fotógrafos. Puseram
especial cuidado na localização dos possíveis cadáveres para os
honrar devidamente.

Apareceram alguns ossos, mas apenas dois esqueletos humanos que


pareciam ser recuperáveis. Um pertencia a um homem jovem que
empunhava os restos de uma foice e que segurava a mão de uma mulher.
La Vanguardia quis fazer uma grande reportagem sobre a possível
relação sentimental entre ambos os mortos, embora de nada servisse.
Quando tentaram separá-los, converteram-se em pó.

165
•25.

O HOMEM QUE NUNCA FOI ENTERRADO

Pó, pó, pó... Das janelas do seu escritório, que dominavam a cidade
velha, Marcos Solana via crescer sem cessar a cidade nova, que já
ultrapassava todos os limites e que, além disso, destruía os antigos
prédios de dez famílias para fazer edifícios de cinquenta, onde
ninguém se lembrava da história nem do terreno em que vivia. Viam-se
por todos os lados gruas e nuvens de pó que indicavam a morte de um
edifício e anunciavam o parto de um novo filho do cimento. Barcelona
estava cheia de poços de petróleo onde os construtores faziam mais
negócios que no antigo Texas.

Melhor assim, diziam por vezes.

Nas velhas ruas não era possível viver.

Pensava às vezes no beco Malla, já desaparecido, onde as antigas


fotografias mostravam meninos que nunca tinham visto o Sol.

E era tudo muito rápido, demasiado rápido. Ele lera que a Diagonal
não chegara à estrada de Sarriá até 1900, e que o resto eram campos e
casas isoladas onde as pessoas não se atreviam a viver. Agora a
Diagonal não tinha fim, porque na realidade era uma auto-estrada que
levava os barceloneses a fugir, embora também suportasse mais de um
milhão daqueles que entravam e saíam para o trabalho. Porque uma das
maravilhas de Barcelona era que os barceloneses já não podiam dar-se
ao luxo de viverem aí.

Solana deu uma volta pelo seu escritório e avançou em direcção às


janelas, percorrendo-as uma a uma. Sentia-se protegido pela cidade
velha. E ao mesmo tempo sentia-se mais seguro porque estava a pisar a
sua própria história.

166
Naquele momento, entrou Marta Vives. O advogado sussurrou: _
Desculpa, mas pareces cansada.

- Não estou. Simplesmente agora durmo mal durante a noite.

- Se quiseres, podes tirar um fim-de-semana comprido, para mudar de


ambiente. Fisicamente talvez fiques mais cansada, mas pelo menos
esqueces os problemas.

Ela sorriu, apontando para a mesa onde se amontoavam os papéis.


Porém, Solana sabia que não era apenas isso. Alguma coisa preocupava
Marta Vives - dir-se-ia mesmo que estava assustada - de tal maneira
que à sua força física acrescentava agora um encanto especial, um
aristocrático ar de languidez. No início, surpreendera o advogado
pela sua constituição de atleta, a altura e a flexibilidade, a sua
potência física. Agora admirava-a pela sua inteligência, embora por
vezes parecia que lhe transmitia uma espécie de medo.

- Obrigado pelo teu último relatório, Marta. É muito completo.

- Não tem mérito nenhum. Era um assunto que eu conhecia bem.

- Conhecer as coisas sempre foi um mérito, minha amiga. Não tires


importância a isso.

Enquanto falava, Marcos Solana olhava dissimuladamente para as pernas


dela. Não se atrevia a fazê-lo abertamente porque temia que Marta
reparasse e, então, o que pensaria ela? Não seria embaraçoso para
Solana que ela temesse uma espécie de assédio sexual?

Desviou o olhar.

Não, não era justo. As mulheres têm o direito de não sentir a sua
intimidade perturbada. Muitas vezes - e embora poucos o pensem -a
intimidade é a única coisa que lhes resta.

- Porque é que dormes mal, Marta?

Ela desviou o olhar. Não podia dizer-lhe a verdade, dizer-lhe que em


horas de trabalho visitava os arquivos para procurar dados sobre a
sua família, para vasculhar entre pormenores que apenas se poderiam
encontrar lá ou nos cemitérios. Isto, por vezes, deixava-a sem tempo
para os problemas do escritório, mas levava os papéis para casa e
trabalhava neles à noite, sem que Solana soubesse. Este via que todos
os casos estavam em ordem e também não fazia perguntas. Notava apenas
que Marta não era a mesma, que estava a ser vencida por uma espécie
de naufrágio interior.

167
- São fases - disse ela. - Há-de passar, E cruzou as pernas.

Marcos disse a si próprio, novamente, que eram as mais bonitas que


alguma vez vira na vida.

Mas porque carregaria Marta aquela espécie de medo nos olhos?

A verdade é que a rapariga estava a tentar averiguar porque é que o


ourives Masdéu e ela andavam à procura do mesmo. Porque os
antepassados dos Masdéu tinham pago o túmulo de uma sua antepassada,
de que pouco sabia. Podia perguntar directamente a Masdéu, é claro,
mas isso parecia-lhe uma ingenuidade. Preferia fazê-lo já na posse de
alguns dados, sabendo pelo menos qual o terreno que estava a pisar.

Foi ver um velho historiador chamado Conde. Reformado da


universidade, esquecido pelos seus discípulos, Conde continuava a
investigar, e chegara a ser um homem de ciência absoluta e língua
viperina, também ela absoluta. Dizia que a História não serve para
nada, uma vez que ninguém a ensina. «Agora mesmo - proclamava - nos
liceus, a primeira trincheira da ciência, há alunos que passam sem
saberem quem foi Franco e que guerra foi desencadeada por ele. Há
mesmo quem diga - sem morrer logo a seguir - que foi um presidente da
República eleito por sufrágio popular. Aqueles que escrevem sobre
História são quatro doidos e cinco inúteis. Daqui a cem anos, outros
cinco doidos e outros quatro inúteis vão escrever sobre as nossas
guerras civis exactamente o contrário do que eu escrevi, mas também
não serão lidos por ninguém.»

Recebeu Marta Vives num antiquado escritório da rua Petritxol,


anteriormente rua de advogados e agora rua de exposições e
chocolatarias. A primeira coisa que disse foi:

- Você devia dedicar-se a outra actividade.

- Porquê?

- Porque é muito jovem e muito bonita.

- E a que acha o senhor que eu deveria dedicar-me? - Perguntou ela de


queixo altivo. - A acompanhar um banqueiro enquanto ele diz que vai
estudar um balanço?

- Não, mas devia participar nos concursos da televisão e tornar-se


famosa. De certeza que noventa por cento dos que participam são
piores que a menina.

168
É uma pena que a menina deixe perder ávida e não participe na cultura
do povo.

- Que cultura?

- A de aprender que este país nasce e morre todos os dias. Não


conserva uma lembrança do passado, nem se importa com o que poderá
vir a fazer amanhã. Quando o último concurso da televisão acabar, a
Espanha acabou, mas isso é magnífico. Julgo que estamos no caminho de
virmos a ser um país absolutamente feliz.

Marta não se atreveu a contestá-lo. Oxalá o mundo fosse apenas o que


era oferecido pelos concursos da televisão.

- O senhor sabe que levo muito a sério a História, sobretudo a desta


cidade - disse. - Já lhe enviei as minhas habilitações para que me
recebesse. Precisamente porque levo a sério a História, gostaria de
lhe fazer umas perguntas sobre as muitas dúvidas que tenho.

- Está a preparar uma tese de doutoramento?

- Já a defendi. Verá nas minhas habilitações que foi aprovada cum


laude.

Por momentos, Conde parecia desconcertado. Consultou umas notas que


tinha a seu lado. Depois olhou para Marta com mais respeito.

- As minhas condolências - disse.

- Porquê?

- Foi uma tese sobre Barcelona. E esta é uma cidade complicadíssima.

- Concordo - replicou Marta. - Vendo-a ao longo dos séculos, não me


parece que Barcelona tenha seguido uma lógica.

- Receio bem que pensemos da mesma maneira, mas também não gostaria
que tivesse a lógica de uma cidade suíça. Sente-se.

Marta sentou-se, mas não cruzou as pernas.

- O que quer saber?

- O senhor procura documentos originais. O senhor estudou todos os


registos que existem neste pequeno país.

- Não são bem conservados - protestou Conde. - E muitos já


desapareceram.

- Talvez nem todos os historiadores sejam tão meticulosos como o


senhor - elogiou Marta. - Limitam-se a citar-se uns aos outros e nem
uma porcaria de registo consultam.
169
- E quem se importa com isso. Ninguém vive do passado, mas sim do
rigoroso presente. No máximo, o passado é um assunto para discussões,
ou nem sequer isso. Pergunte às clientes das chocolatarias daqui de
baixo, na rua, e agora deixe lá de me gabar e diga-me o que é que
quer.

- Preciso de relatórios sobre uma família antiga, mas não vou poder
pagar. Se o senhor tem de perder horas à procura, em velhos papéis,
esqueça. Responda-me apenas se souber a informação de memória.

- Todos os historiadores a sério são pobres, a não ser que se


dediquem a outras coisas, de modo que tentarei ajudá-la.

- Há uma velha família de Barcelona: os Masdéu.

- Há muitas velhas famílias de Barcelona, mas em breve não irá restar


nem uma. Não que isso tenha assim tanta importância. As velhas
famílias são uma chatice e logo deixarão de servir como sinal de
identidade. Agora impõe-se a cultura da mestiçagem.

E acrescentou:

- Desculpe. Já deve ter reparado que eu sou uma dessas pessoas que
protestam por tudo e por nada.

- E eu perguntava se porventura se lembra de alguma coisa deles.

O professor Conde fechou um momento os olhos, como se quisesse ficar


sozinho com os seus pensamentos. Marta imaginou que também devia
lutar com eles, mas isso era uma prova de boa saúde.

Finalmente, ele sussurrou:

- Um ramo da família dedicou-se ao comércio. Foram furibundamente


proteccionistas, eram contra a importação de produtos têxteis
estrangeiros, porque assim a indústria catalã não tinha concorrência.
Quem tinha concorrência, esses sim, eram os operários, que viviam
cada vez pior e se organizavam em células revolucionárias. Mas isto
que lhe estou a dizer não é novidade nenhuma, é simplesmente a
história da Catalunha durante a segunda metade do século XIX.

Marta sussurrou:

- Se uma parte da família se dedicou ao comércio, suponho que no


sentido mais amplo, isso quer dizer que houve partes que se dedicaram
a outras actividades.

170
- Certamente: política e clero. Também isso faz parte da história da
Catalunha no século XIX.

- O que quer dizer com «política»?

- Câmaras municipais e pouco mais. Tudo o que estivesse ligado a


interesses concretos de cada comarca. Um presidente da câmara podia,
naquela época, fazer muitas coisas, e se quiser conto-lhe a história
do rio Llobregat, com as suas colónias têxteis e as suas fábricas.

- E o que quer dizer com «clero»?

- Se bem me lembro, por aí chegamos mais longe. Houve um bispo, um


prior e vários catequistas, ou seja, defensores da religião
tradicional tal como vem explicada nos livros. Chegou mesmo a haver
uma espécie de visionário. E os sacerdotes da família foram muito
ultra-montanos, algo assim como capelães das brigadas carlistas (Nota
1).

- Guerrilheiros de Deus?

- Poderia ser uma definição correcta.

- Não consultou nem um papel. Tem uma memória prodigiosa, senhor


Conde.

- O que pode significar apenas que inventei tudo, como fazem outros.

Marta sorriu enquanto pensava que estava a cansar o velho. Ou talvez


ele ficasse feliz vendo que alguém se lembrava ainda dele. Mas, por
prudência, fez uma última pergunta:

- Existe algum rasto das casas desse lado, digamos clerical, da


família?

- Bem, o habitual: conventos, paróquias, lares para padres idosos ou


até velhos quartéis carlistas1. Foram muito comuns na Catalunha
durante o século xix.

- Alguém viveu em Barcelona?

- Não me lembro, mas posso consultá-lo. Ou talvez sim, talvez me


lembre... Deixe ver. Julgo que um dos sacerdotes morreu em Barcelona,
mas não na casa patriarcal da família, que ficava na rua de Mercaders
e, naturalmente, hoje já não existe.

Nota 1 - O Carlismo foi, em todo o século XIX espanhol e começos do


XX, o movimento ideológico antiliberal e tradicionalista mais
emblemático, defendendo o integrismo católico, os foros tradicionais
e a monarquia absoluta. Numa verdadeira analogia com a História
portuguesa e as nossas guerras entre liberais e absolutistas, ao
longo desse século XIX houve em Espanha três guerras chamadas
Carlistas. (N. do T.)

171
Uma vez, sem que por isso me tivessem expulsado da cidade, fiz um
estudo sobre as relações entre o comércio e o clero na época que se
convencionou chamar «da febre de ouro». Ouro para alguns, claro.
Posso consultá-la, se estiver disposta a continuar sentada aí mais
quinze minutos.

E vasculhou na sua biblioteca, cheia de papéis amarelos cuja ordem


apenas ele conhecia. Marta pensou que alguns se iriam desfazer entre
os seus dedos. Conde procurou e procurou, levantando nuvens de pó e
larvas enquanto Marta se perguntava por que razão uma atleta como
ela, que ganhara campeonatos, adquirira o gosto àquele pó de túmulos.

Depois de quase uma hora, que substituiu os quinze minutos


prometidos, Conde fez um gesto de satisfação.

- Acho que encontrei - disse.

- O quê?

- A casa onde morreu um dos sacerdotes da família. Quer dizer, o


único que não morreu num lar ou num convento. Foi um dos Masdéu mais
sábios, chegou a ser bispo e, naturalmente, não teve herdeiros. Facto
que explica o que vou dizer a seguir.

- O quê?

- Legou os seus bens à câmara da cidade para esta criar uma


biblioteca destinada aos estudantes pobres. Valente parvoíce, porque
para isso já existem bibliotecas muito mais importantes. Suponho que
se referia a estudantes que quisessem entrar no seminário, mas isso é
uma parvoíce ainda maior: já ninguém quer ir para um seminário. De
maneira que a câmara aceitou o legado, há muitos anos, mas nem se deu
ao trabalho de avançar com mais nada. A casa foi caindo aos bocados e
ao que parece estava em tão mau estado que nem sequer os okupas se
incomodaram a ocupá-la. Agora a única coisa que tem valor é o
terreno, e imagino que a câmara acabará por fazer uma permuta, ou
algo do género. Mas para isso tem de deixar a casa ruir.

- Onde é que fica?

- Naturalmente, no centro histórico; julgo que na rua Baja de San


Pedro, mas não me lembro exactamente onde. Vou já ver, tenho aqui um
catálogo municipal.

172
Procurou no meio de outros papéis não tão velhos, mas que inspiravam
um certo sentimento de piedade. Finalmente, entregou a Marta uma nota
escrita.

- Aqui a tem. Pergunto-me para que quer isto tudo. Para que precisa
disto.

Marta disse com um fiozinho de voz:

- Estou a pensar ir lá.

- A sério?

- Caso contrário, não o teria incomodado.

Os dedos do velho Conde tremeram por momentos. Os seus olhos, que


normalmente destilavam desprezo, jorraram um mar de dúvidas. Com uma
voz que já não parecia a sua, ciciou:

- Não faça isso.

- Porquê?

- Dizem que o cadáver do sacerdote não saiu de lá - murmurou enquanto


virava as costas. - Segundo os registos oficiais, nunca foi
enterrado.

173
.26.

O CONDE DE ESPANHA

- Eu sou Carlos d'Espagnac, senhor do castelo de Ramefort, capitão


general da Catalunha. Exijo que as minhas ordens sejam cumpridas de
imediato, e quem se atrasar terá de arcar com as consequências. Quero
já aqui, na minha mesa, daqui a cinco minutos, os documentos
necessários para executar, nesta mesma manhã, as penas de morte.

Ouvi perfeitamente as palavras daquela espécie de Ser Supremo que


precisava, todos os dias, da sua dose de sangue.

Eu, o filho de um prostíbulo, aquele que nunca morria, via os outros


morrer.

E além disso sabia tudo sobre aquele capitão-general absolutista.


Carlos José de Espanha e Couserans nascera em Foix, França, em 1775,
e estava destinado a morrer em Organyá, em Lérida, em 1839,
estrangulado pelos seus próprios homens. Quando a Revolução Francesa
teve início, fugiu para o Reino Unido, e depois para Maiorca. Em 1792
pôs-se ao serviço da Coroa espanhola e lutou contra os seus próprios
compatriotas franceses. Em 1811 atingira o grau (era-me impossível
saber com que méritos) de marechal de campo. Fernando VII, homem de
fino instinto, nomeou-o capitão general da Catalunha em 1818.

Eu lembrava-me de tudo pela simples razão de que fora testemunha. O


conde de Espanha reprimiu com extrema dureza a sublevação «dels
agraviats», mandando inclusive enforcar quem tinha sido indultado.
Era normal ele exibir os corpos nos patíbulos da Ciudadela, dançando
perante os mortos.

174
E tudo isto sabia-o eu muito bem por ter chegado a ser nada menos que
o seu secretário. Eu, o homem sem morte, estava atolado num mundo de
mortos.

Por vezes, custava-me suportar as minhas lembranças.

Pensava que é justo que as recordações - e a vida - tenham a palavra


«Fim».

Mas eu não a tinha. Eu era obrigado a viver e a recordar tudo. Às


vezes, sentia que estava novamente nas muralhas de Barcelona, ou sob
a «Tomassa» da catedral, que manchei com o meu próprio sangue, quando
as tropas de Filipe V entraram de assalto e à minha frente uma mulher
dava à luz uma filha sonhando que seria livre na cidade livre.
Livre...?

Barcelona, perante os meus olhos, não voltara a sê-lo.

Eu fechava esses olhos.

E recordava que, desde então, na maltratada cidade, haviam ocorrido


inúmeros factos: a relativa prosperidade do comércio, a entronização
de Carlos IV, a época do grande Goya, as Invasões Francesas, que
abrangiam dois reis, a coroação de Fernando VII e o absolutismo mais
impiedoso, do qual o conde de Espanha, em Barcelona, era seu legítimo
representante.

Ele afundou naquele mundo de mortos a Barcelona que quisera ser


livre.

Depois das palavras do capitão-general consultei o meu relógio, uma


preciosa peça de ouro que um dos enforcados me confiou para que a
fizesse chegar ao filho. Nunca pude fazê-lo, porque o filho fora
também enforcado.

Calculei o tempo que restava. Menos de cinco minutos... Eu, o homem


sem idade, era, por ironia do destino, um dos secretários do capitão
general, precisamente aquele que contabilizava os mortos na
Ciudadela. O bispo de Barcelona, antes de morrer, havia-me
recomendado: «É um santo homem - dissera o prelado -, porque sempre
distribuiu viáticos e procurou sepulturas para os mortos.» Por acaso,
era mesmo verdade: não aprendera nada tão bem como tudo aquilo que
estava relacionado com a morte dos homens.

Cinco minutos...

175
Se não me despachasse, teria de «sujeitar-me às consequências».

De modo que saí dali a correr, à procura da lista dos condenados à


morte.

O palácio dos capitães-generais ficava, naquela época, junto do mar e


comunicava com um sector da muralha da costa. Prolongava-se num
grande terreno plano chamado Pia dei Palau, que era uma espécie de
milagre numa cidade tão apertada que mal chegava a ter praças, porque
Barcelona era ainda estreita e estava colada às muralhas. Ali, no Pia
dei Palau, exercia as suas funções omnímodas o sicário de Fernando
VII, um espanhol tão espanhol que nascera em França.

«A História é uma farsa - costumava dizer-me Espagnac após alguns


copos. - Fernando VII, que dantes pedia aos espanhóis para matarem os
franceses, pede agora aos franceses para matarem os espanhóis. Sendo
assim, para que é que eu vou levar a sério a História? Os que a levam
a sério morrem inutilmente por ela. Porque esses imbecis mal imaginam
que a História será escrita por quem os matou.»

- Mas esta é uma cidade onde as pessoas morrem para serem livres -
respondi eu numa ocasião.

- Exacto... E o importante é que elas morrem mesmo.

Não me atrevi a dizer-lhe que a História, sem dúvida, é escrita pelos


sobreviventes, mas a lenda - que sempre acaba por ser mais importante
- é escrita, ainda que através do vento, por aqueles que souberam
morrer, e eu sabia, por experiência própria, que as lendas acabam por
ser mais importantes do que as histórias.

Não me atrevi a dizer-lhe isto porque, em teoria, eu devia alegrar--


me com as execuções.

Mas a verdade é que a minha mão tremia quando apresentei a lista.

Desta vez eram três.

Três homens jovens que se tinham atrevido a gritar a favor da


Constituição. Como se a Constituição - dizia o conde de Espanha
-servisse para ensinar alguma coisa ao rei.

Naquela noite, após ter assistido pessoalmente às execuções na forca


- Fernando VII, guiado pela sua compaixão, concebera um procedimento
que era, ao que parece, menos doloroso, o garrote vil, se bem que o
capitão-general considerava o seu uso demasiado complicado -, o
senhor d'Espagnac pediu-nos, ao mordomo e a mim, por ser um dos seus
secretários, para lhe prepararmos roupa civil adequada aos seus
propósitos.
176
Essa roupa civil deveria ser a de um burguês que não chamasse a
atenção, ou seja, a de um qualquer cidadão acomodado.

O senhor capitão-general tinha uma vida nocturna muito intensa. Em


algumas ocasiões alguém lhe dizia - eu não - que podia ser perigoso
sair durante a noite e incógnito, mas ele sempre respondia com a sua
forma peculiar de falar:

- Coxones! Vou às muxeres!

Ir às «muxeres» podia ser mais perigoso para os outros do que para


ele, vendo bem, porque todas as mancebias estavam cheias de espias:
delatores, traidores e, em geral, pessoas de largas ancas que
cobravam de Sua Majestade. Também estavam cheias de mulheres chibas
que, em troca de protecção, passavam constantemente relatórios aos
sicários do conde de Espanha. Obviamente, por estas «casas chãs»,
verdadeiros templos da convivência civil, também deambulavam falsos
cegos, guitarristas pedintes, escriturários em busca do seu primeiro
emprego e até toureiros à procura de uma oportunidade. Porque
Fernando VII defendia as touradas como se nelas estivesse o
verdadeiro espírito da pátria. Por vezes, nas praças pequenas, o
público era autorizado, com o touro já agonizante, a saltar para a
arena e a apunhalá-lo com sanha. Foi uma das épocas mais repugnantes
que me calhou em sorte testemunhar. E eu estava bem no centro.

Fora fundada uma escola de Tauromaquia, a Universidade de Barcelona


estava encerrada por causa do seu espírito levantino e os estudos
haviam sido transferidos para Cervera, cidade tradicional, pequena e
fácil de controlar. Os poucos que se atreviam a falar comigo
queixavam-se de neste maldito país não ser preciso pensar, o que era
melhor assim, porque Deus via em nós Seus filhos predilectos. Aqueles
que tentavam pensar, pelo contrário, percebiam que a verdade não
estava no seu país e que teriam de a procurar no estrangeiro.
Começavam a nascer as duas Espanhas.

Naquela noite, o capitão-general quis misturar-se com o povo mais


simples, isto é, visitar os seus estábulos, como disse ele
textualmente.

177
E, assim, fez com que eu entrasse - com duas pistolas carregadas,
pelo sim pelo não - numa casa contígua à praça do Regomir, onde o
cheiro a tabaco não refinado, a quartos não ventilados e, sobretudo,
a água suja fez com que retrocedêssemos, soltando maldições para o
ar. Com efeito, era um bordel ainda mais sujo que aquele da Idade
Média onde trabalhara a minha mãe.

- Aqui tens o requinte do povo que me critica - grunhiu. - No fundo,


eles gostam deste ambiente.

Pediu-me então que o acompanhasse a um outro prostíbulo muito mais


limpo e distinto, e onde uma dama de alto coturno se dedicava a
proteger donzelas. Mas tivemos azar. A ilustre dama estava doente com
bexigas e o marido, que também tomava conta do negócio, padecia um
ataque da chamada «gota remontada», ou ascendente, o que queria dizer
que começava nos pés mas depois imobilizava as pernas e as coxas, no
meio de terríveis dores. Quando a doença chegava ao coração e a vida
se extinguia, convinha dar graças a Deus pela Sua misericórdia. Como
é natural em tais circunstâncias, as castas donzelas não trabalhavam
com os sexos mas sim com os lábios, para rezar pela salvação das
almas.

O conde de Espanha gostava precisamente das donzelas piedosas e


estava-se marimbando que o dono morresse de gota; mas as bexigas eram
demasiado contagiosas, e isso assustou-o. Fomos embora dali enquanto
jurava que no dia seguinte enviaria homens para queimar todo o
enxoval da casa.

- Teria de queimar também toda esta cidade de cães - resmoneou -,


excepto os quartéis e as igrejas, que são as únicas coisas saudáveis
que nela existem. Porque nesta terra de filhos-da-mãe ninguém admite
a autoridade; só admitem o pacto.

Chegar a esta convicção deixava-o desvairado, porque o capitão-


general estava convencido - e proclamara-o muitas vezes - de que o
poder não existe para ser percebido, mas para ser respeitado. Eu
teria podido dizer-lhe, tendo em conta a minha experiência, que em
Barcelona um poder que é compreendido é um poder que é respeitado,
mas era difícil que um pensamento tão complicado entrasse na cabeça
do senhor d'Espagnac, tal como não havia entrado na cabeça do seu
dono e senhor, o rei Fernando VII.

178
Por isso me calei e por isso nos dirigimos no meio dessa noite para a
rua Monteada, onde se erguiam os palácios da velha burguesia já
decadente. Aqueles palácios costumavam ter uma ampla entrada onde
cabiam as carruagens e uma rica escadaria lateral (era na escadaria
que se revelava a distinção da casa), que levava a um piso dedicado,
normalmente, aos negócios do senhor, que por vezes o alugava. De
resto, eram quartos para a família, nobres quanto baste, mas carentes
de luz. Muitas vezes me perguntei se seria por isso que a pele das
damas, naquela época, era tão branca.

Na rua Monteada morava uma dama que ocasionalmente recebia visitas de


origem elevada, mas a dama não estava. Certamente, alguma pessoa
virtuosa a teria levado para dormir algures. «O senhor deveria ter
avisado...», desculpou-se a donzela.

E então, o capitão-general, a quem tudo corria mal naquela noite,


deu-me outra ordem odiosa. O contacto com uma mulher tranquiliza os
tiranos, e essa costuma ser uma das grandes virtudes do sexo. Diabos
me levem se eu podia saber isso... Mas como Espagnac não encontrara
nenhuma fêmea que o acalmasse, a sua raiva era incontrolável. Mandou-
me verificar se estavam prontas as listas com os enforcamentos do dia
seguinte. Assim fiz, e foi aí que reparei que nos primeiros lugares
estava uma quase menina, Elisenda, que tinha apenas quinze anos. Já
vira antes o nome dela, mas tinha confiança em poder ir escamoteando
a lista, ou pelo menos adiar a sua vez, e assim poder salvá-la.

Agora já não me seria possível, porque fora apanhado de surpresa.

E aqui entrava o meu mundo de confusões, a contradição da minha vida.


Que me importava a mim uma menina enforcada? Não devia sentir, pelo
contrário, alegria por ver as suas pernas balancear? Não representava
eu o Mal?

Eu próprio me fazia muitas perguntas que não tinham resposta.

Ou talvez encontrasse duas respostas, embora me enchessem de dúvidas:


é possível pactuar com o Mal, porque não é um valor absoluto, ao
passo que com o Bem absoluto não se pode pactuar. Só podemos
ajoelhar-nos e pedir perdão. E a segunda resposta possível residia na
ideia de liberdade. Eu sempre quisera ser livre, sem conseguir, e não
podia odiar as pessoas que também ansiavam ser livres.

Ninguém poderia compreender-me.

179
E menos ainda uma besta como Espagnac, que representava a Verdade e o
Bem absolutos.

Regressámos novamente para a fortaleza e fomos directamente para a


prisão. Notei que o senhor dos nossos destinos estava muito excitado
perante a ideia de enforcar uma menina, já que não podia possuí-la.
Perguntou ao guardião quem era Elisenda.

E o guardião disse:

- É esta.

Olhei para ela à luz da lamparina e vi no seu rosto a doçura de uma


morte aceite.

Era como um cãozinho que sabe que irá ser sacrificado. Olhava para o
vazio sem pena e sem ódio, porque Elisenda devia ter a virtude dos
animais: não percebia o mal. A sua tez, demasiado branca, e os olhos
cheios de febre indicavam que sofria uma doença muito comum na
Barcelona das muralhas, onde não havia nem casas ventiladas nem água
limpa: a tuberculose. A expressão envergonhada e as roupas meio
rasgadas indicaram-me uma outra coisa: o carcereiro tinha-a violado.

E foi o próprio carcereiro a contar-me isto, com toda a claridade do


mundo, enquanto o capitão-general passava uma revista surpresa à
guarda, coisa que fazia com frequência:

- Eu acho que ela é inocente e quis assumir a culpa de um grupo de


gente que pretendia assassinar o senhor d'Espagnac. Comi-a antes,
para se ir acostumando. Embora não vá ter muito tempo para aprender,
porque está no grupo de amanhã.

«No grupo de agora mesmo», pensei.

O capitão-general estava furibundo.

Há poucas iras que superem as das pessoas com falta de sexo.

Mas, ao mesmo tempo, olhando para a rapariga, lembrei-me de outra


coisa. À falta de outras destrezas, eu tinha uma memória visual
prodigiosa e nunca esquecia as feições de uma cara. E as feições
daquela cara, onde as teria eu visto...?

E de repente lembrei-me.

A torre da catedral.

1714.

180
A mulher que queria ver uma menina livre nascer na cidade livre. É
claro que já tinham passado mais de cem anos. O que para outros era
uma eternidade. E para mim nada. Perguntei:

- Lembras-te de alguma coisa da tua família?

Olhou para mim com desconfiança, mas já nada tinha importância.


Encolhendo os ombros, sussurrou:

- Vale a pena recordar?

- Talvez não, mas o que sabes da tua mãe?

- Trabalhava numa fiação. Catorze horas diárias, excepto no domingo à


tarde. Aos domingos de manhã era preciso inspeccionar as máquinas.
Morreu um dia na própria tecelagem, acho que foi de esgotamento, mas
pelo menos nem deu por isso. E então? Era isto que você queria saber?

- É por isso que és revolucionária? Mas julgas que vais mudar alguma
coisa?

Elisenda fechou os olhos.

- A minha mãe ensinou-me a ser uma revolucionária. Sei que é inútil,


mas foi ela que me ensinou.

- E o teu pai?

- Morreu no cárcere, em Mahón.

O guardião olhou para mim com suspicácia. Não percebia nada daquele
interrogatório. Quase empurrou a rapariga enquanto grunhia:

- Disseram-me que vão adiantar a execução. Então que raio estamos nós
à espera? Tanta conversa para quê?

Nem sequer olhei para ele.

- Elisenda, lembras-te de alguma coisa da tua avó?

- Não cheguei a conhecê-la, mas sei onde nasceu.

- Onde?

- Numa das torres da catedral, em Setembro de 1714. Agora quem fechou


os olhos fui eu.

Em nome de Satanás...

Mais de cem anos depois do nascimento daquela menina cuja memória se


iria perder...
181
Mais de cem anos após uma menina nascida livre... E o que restara
desse ímpeto de liberdade? O quê? Elisenda deve ter notado alguma
coisa estranha em mim, porque sussurrou:

- E tudo isto, o que é que lhe interessa?

- Talvez não interesse para nada. O que sabes da vida da tua avó?

- Apenas isso: que nasceu durante o assalto a Barcelona.

- Mais nada?

- Bom... As coisas que a minha mãe por vezes me contava.

- E contava-te o quê?

- Que teve uma hemorragia terrível e que foi atendida por umas
religiosas... É claro que os primeiros cuidados tiveram de ser
prestados por um médico militar: um médico militar dos vencedores,
não fosse faltar alguma coisa... Eram as febres depois do parto.
Quase todas as mulheres morriam.

Apertei os lábios. Recordava-me da terrível sujidade, do pó, da


metralha, das mãos gordurosas, da urina... Aquela menina nascida
livre precisava de ter sido de ferro para conseguir sobreviver
enquanto a mãe se esvaía em sangue.

- E depois o que aconteceu cora ela? Refiro-me à tua avó. O que


souberes.

- Assim que ficou boa, as religiosas puseram a mãe fora do convento.

- E a filha?

- A filha, a que seria a minha avó, fizeram dela pupila e depois


criada. Não saiu dali quase até à maturidade, altura em que casou com
um homem que também servira as freiras. Tiveram uma filha, que foi a
minha mãe, aquela que morreu ao pé de um tear. Mas pergunto-me, qual
é o interesse, sobretudo qual o interesse para um homem como você.

E olhou para mim com desprezo, com rebeldia, fixando-me uns olhos
que, apesar de tudo, não haviam deixado de ser de menina.

Já devia saber que eu era um secretário do tirano que a levava para a


forca. Mais ou menos o chefe do carcereiro que acabara de a violar. E
eu apenas pude perguntar:

182
- De modo que nem a tua mãe nem a tua avó foram livres nem um só dia.

- Não. Porquê?

- Eu sei por que é que estou a perguntar. Elisenda quase cuspia as


palavras:

- Não, não foram, mas eu pelo menos vou morrer livre. Aquilo que eu
penso, ninguém pode tirar-me. Ninguém pode matá-lo. E daqui a cem
anos talvez alguém se recorde de mim.

- Daqui a cem anos continuarão a morrer raparigas como tu. E é


verdade: alguém se irá lembrar delas nas ruas.

O carcereiro interpôs-se entre ambos:

- Bom, estamos à espera do quê? O carrasco já tem a ordem de


execução. Porque é que está a falar com ela? A vida desta cadela não
interessa a ninguém.

- Pois é, e é por isso que tiraste proveito da cadela - murmurei.

E sorri. A mim, as pessoas sempre me disseram que tenho um sorriso


sinistro, porventura um sorriso do outro mundo. E talvez seja
verdade, porque há uma coisa mais terrorífica do que o sorriso da
morte, que é o sorriso da vida eterna. Em certas ocasiões cheguei
inclusivamente a pensar que é por isso que Deus, nos milhões de
imagens que o representam, nunca sorri. Será que ninguém reparou
nisso?

O carcereiro insistiu:

- Vá lá, não vamos perder mais tempo.

- Agora ela já não te serve, não é?

- Não sei qual é o propósito disto.

- O propósito disto é que eu conheço muito bem os costumes do


capitão-general: quer que todas as formalidades sejam cumpridas, ou
seja, que a condenada seja retirada da cela apenas quando o carrasco
e o piquete chegarem. Encerra-a e vem cá um momento. Quero mostrar-te
as novas ordens.

Aquele miserável não podia desconfiar de mim, eu era cem vezes seu
superior. De modo que obedeceu: deu a volta à chave e seguiu-me para
um corredor interior onde ficavam os gabinetes das tropas, mas onde
àquela hora da madrugada não havia ninguém. O silêncio era absoluto.
Para além das janelas de pedra, só se viam farrapos de bruma.
183
De repente, virou-se para mim.

- O que estamos aqui a fazer? - resmungou. E encontrou os meus olhos


quietos.

E o meu sorriso.

O sorriso da vida eterna.

- Mas...

Não teve tempo para dizer mais nada.

Se calhar teve tempo para pensar, isso sim; pensar por segundos
naquele mundo sinistro que nunca conhecera.

O pescoço dele. A sua convulsão. A minha mordida sábia.

Até um vampiro pode sentir nojo. Até um enviado do mal pode atingir a
náusea.

Repugnou-me beber-lhe o sangue.

Mas precisava dele. Há demasiado tempo que não saciava o meu impulso
secreto, o poço sem fundo da minha sede. Deixei o corpo tão vazio que
tive de limpar o sangue dos cantos da minha boca. E cuspi sangue para
cima dos restos.

Depois, peguei nas chaves e voltei para trás.

Tinha um plano para salvar a menina.

Ainda era possível.

Quando regressei à cela de Elisenda, sentia-me em paz comigo próprio


e com o meu verdadeiro destino. Talvez fosse a primeira vez que me
sentia realmente livre.

Ela continuava encerrada na cela, como eu esperava. Ainda não tinham


vindo à procura dela. Viu-me com as chaves e alguma coisa fez com que
adivinhasse o que acontecera, alguma coisa fez com que o seu coração
de menina desse um salto de dez anos. Mas era suficientemente
inteligente para perceber que existem coisas impossíveis.

- Ninguém conseguiu fazê-lo - murmurou. - Outros tentaram fugir e nem


sequer chegaram ao segundo corpo da guarda.

Eu resmunguei:

- Podemos tentar.
E comecei a introduzir a chave na fechadura. Mas nem cheguei a fazer
com que rodasse, porque naquele momento apareceu o carrasco com o
piquete.

184
Eram cinco contra mim, e as minhas únicas armas eram os dentes. Isso
e o meu olhar.

Não serviu. O carrasco disse com naturalidade:

- Chegou a hora.

Os soldados do piquete formaram uma barreira entre a condenada e eu,


tornando impossível qualquer gesto para a salvar. O carrasco atou-lhe
as mãos às costas, meticulosamente. Eu senti que o chão tremia sob os
meus pés quando notei, fixo em mim, o olhar de resignação da menina.

Elisenda foi conduzida para o pátio principal da Ciudadela, onde


tanta gente honesta havia morrido e onde o patíbulo estava instalado
de forma permanente; raro era o dia em que não funcionava mais do que
uma vez.

Com olhos que não pareciam os meus, vi como o verdugo subia de costas
pela escada de mão, içando Elisenda por meio da corda com que a tinha
amarrada. A habilidade e a força do sujeito pareceram-me incríveis.
Quando a vítima estava à altura suficiente, pegou nela pela cintura e
colocou-a sob a corda, cingindo-a do lado esquerdo do pescoço, mesmo
por baixo da orelha, porque assim garantia a ruptura das vértebras. O
que me fez estremecer foi que a corda ficou logo coberta pelos
cabelos da menina.

Soou um tambor, um apenas. Era uma morte barata.

Era tudo pavoroso, mesmo para alguém como eu, mas além disso
aconteceu uma coisa que eu não previra. É que Elisenda pesava pouco e
a sua simples queda quando o alçapão foi aberto não lhe teria
provocado a morte dela. Fazia falta algo mais.

Foi por isso que o carrasco se atirou para cima do seu corpo no
momento em que se abriu o alçapão, caindo com Elisenda e balanceando-
se com ela. Foram dois corpos em um, foram dois horrores e, para mim,
duas mortes.

No entanto, era justo reconhecer que aquele acto repugnante era


profissional, por assim dizer. Garantia-se desse modo que, com o peso
adicionado, o pescoço da vítima quebrasse instantaneamente. Mas I não
quis reconhecer isso. Não podia. Fiquei dobrado sobre mim mesmo,
sentindo na boca uma saliva amarga.

185
E dobrei-me mais ainda, sob o peso de toda a dor acumulada na minha
vida, quando vi o conde de Espanha, vestindo o seu melhor traje,
iniciar uns passos de dança junto do patíbulo. Tinham-me falado
daquela horrível cerimónia, daquele paroxismo da crueldade, mas a
verdade é que até então nunca o tinha visto. Pela primeira vez,
estive quase a perder as forças.

E naquela noite despedi-me da Ciudadela, despedi-me de um cargo que


muitos teriam desejado e que me dava poder e riqueza. Enquanto
secretário do conde de Espanha, eu era invejado e invejável, mas não
podia continuar mais tempo como lacaio de um poder que anulava não
apenas qualquer liberdade como também qualquer pensamento. Tinha de
começar do zero, tinha de voltar a afundar-me como uma sombra numa
cidade que era para mim eterna.

No longo caminho, aquele caminho que não podia confessar a ninguém,


tinha sido testemunha da procura da liberdade, inclusive à custa da
vida. Mas a liberdade era um sonho que jamais se conseguiria
alcançar.

Lembrei-me da mulher que vira dar à luz em 1714, sob um sino manchado
de sangue, e lembrei-me de que havia uma luz especial nos seus olhos,
apesar da dor. Ela quisera que a filha nascesse livre numa cidade
livre, mas nem a filha nem a neta o tinham conseguido; a única coisa
que conseguiram foi uma esperança que estava na história da cidade. E
agora essa esperança extinguia-se para sempre.

Além disso, deixava novamente um morto para trás. Tinha de fugir...

E naquela noite tornei-me, mais uma vez, no grande desconhecido,


afundei-me de novo na bruma dos séculos.

186
<Mapa com zonas de Barcelona: omitido>

187
.27.

A CASA DAS SOMBRAS

Na rua Baja de San Pedro acumula-se a história da cidade, dos


pequenos vendedores, dos seus pátios sem luz e dos casais que
deixaram toda a ternura num livro de contabilidade, entre um deve e
um haver. As noivas tornam-se velhas perante uma janela de que se
conhecem todos os raios de sol, e ensina-se às crianças que o
cinzento, também o cinzento, pode ser a cor da esperança.

Marta Vives olhou para a casa.

Era estreita e de pedra, mas tinha sido coberta, provavelmente no


início do século xx, com uma camada que estava praticamente negra. A
pedra original notava-se entre os desconchavados, e em dois ou três
dos seus resquícios nascera o milagre das ervas.

Havia outras casas mais modernas, e de certo modo mais solenes, que a
ladeavam, e nelas distinguiam-se sinais de vida: um vaso nas
varandas, uma cortina que baloiçava com o vento, uma peça de roupa
estendida. As entradas eram obscuras, poços sem fundo que atingiam o
mistério dos anos. Ocasionalmente, o cinzento era animado pelo
letreiro de um bar; talvez os jovens os descobrissem uma noite, como
tinham descoberto os do Borne, mas agora os clientes olhavam para o
vazio e não pareciam ter descoberto nada, nem as próprias vidas.

Notava-se à primeira vista que todo o edifício, com apenas dois


andares, entrara em fase de ruína, e era por isso que os okupas ainda
não se tinham atrevido a entrar ali. Ninguém parecia ter atravessado,
em muitos anos, a velhíssima porta, embora fosse evidente que algum
técnico municipal a inspeccionava de vez em quando para se certificar
que as propriedades da cidade ainda não se haviam afundado no
subsolo.

188
Tinha de entrar, mas não sabia como. E percebia que a primeira coisa
que devia fazer era aparentar naturalidade, como se fosse um dos
empregados da Câmara.

Levava uma gazua que não sabia manejar com perícia. Um dos deserdados
do Raval que ela atendia na Associação de Moradores dera-lhe duas
aulas práticas, embora ela não lhe tivesse dito para quê. E agora
testava a sua perícia, fingindo que aquilo que estava a fazer era um
acto legal. Talvez tivesse sorte.

Teve.

À segunda tentativa, a porta cedeu. A fechadura era antiga, mas


estava bem oleada porque de vez em quando algum agente municipal
fazia uma inspecção. Marta enfrentou uma escuridão que era como a
garganta de um animal adormecido.

E recordou aquilo que não queria recordar, a história da casa e a do


sacerdote cujo cadáver ainda devia ali estar. Talvez não devesse
ligar ao que um velho louco lhe contara.

Ou talvez sim...? Em certas ocasiões, pessoas que vivem sozinhas


aparecem mumificadas em quartos onde já ninguém entra, porque são
seres dos quais não se guarda a memória. As grandes cidades ocultam
segredos assim, ou têm no subsolo túmulos de que se ignora tudo. Se o
sacerdote morrera nas profundezas da casa - que sem dúvida tinha cave
-, era muito possível que nenhum técnico municipal se tivesse
apercebido de nada quando da realização da acta de ocupa- « ção,
apressada e rotineira. Contudo, nos quartos do interior, para além
das escadas íngremes, havia pormenores que denotavam uma grandeza
passada.

Por exemplo, os restos de duas mesas de mogno, os de uma cama que


parecia um catafalco e ainda umas velhas estantes com o que em tempos
tinham sido livros e hoje eram apenas umas páginas pergaminháceas
espalhadas por toda a parte. Toda a vida de uma cidade que já não
existia estava envolta naquela crisálida de morte.

Ninguém voltara a preocupar-se com mais nada: as câmaras administram


bens, mas não o tempo que foge.

189
Um dia, aquilo iria afundar-se e os jornais - não todos - acusariam a
administração da cidade de inoperância. E, depois, mais nada. Ou
talvez alguns anos mais tarde houvesse ali uns apartamentos e um
lofi.

Viu os despojos de dois gatos também mumificados. Apenas o diabo


saberia como é que eles tinham penetrado na casa. O ar, como o de um
velho túmulo, não tinha cheiro.

Tudo isto viu Marta Vives graças a uma lanterna, pois a casa,
obviamente, não tinha nem água nem luz. Na parte de trás, uma
claridade láctea chegava dos pátios íngremes. As vozes de uma
telenovela davam vida àquele templo do passado, mas era uma vida
absurda.

Será que algo daquele último canto dos Masdéu lhe poderia interessar?
Marta pensou que não, que ali não havia nada. Além disso, começava a
sentir medo, apesar de ser especialista em quartos abandonados,
esquecimentos e túmulos.

Era melhor sair dali. Nem chegava a perceber bem porque é que fora
até ali.

E então julgou ver uma sombra numa cadeira, ao lado da janela mais
escura, a que formava um ângulo do pátio interior. Estacou, com todos
os sentidos alerta, embora também com a sensação de se ter enganado;
no fim de contas, tudo eram sombras na casa.

Mas a que estava na cadeira... tinha forma humana!

Marta sentiu que ficava sem respiração.

A sombra mexeu-se. Pôs-se em pé a pouco e pouco.

Avançou na sua direcção.

190
.28.

SUFICIENTEMENTE HONRADO PARA MATAR

O café das Siete Puertas foi inaugurado no dia de Natal de 1838,


quase ao mesmo tempo em que eram construídas as chamadas Casas de
Xifré, hoje conservadas exactamente iguais às de outrora. A
inauguração coincidiu com o nascimento do Passeio de Isabel II, na
confluência com o Pia de Palau, ocupado nos bons tempos por
autoridades como o conde de Espanha. Juan Cortada, um cronista que
então escrevia no Diário de Barcelona, sublinhava a importância do
número 7, tão habitual na mitologia e nas seitas. «O café sem nome -
dizia - tem sete portas. Glória ao café das Sete Portas!» Cortada
ficou portanto com a fama de ter criado essa denominação. É também
surpreendente que o alpendre à frente do café tenha sete arcos,
número que neste caso está relacionado com a maçonaria.

Todo o prédio em que o café foi construído tem, por outro lado, uma
simbologia maçónica. Em primeiro lugar, a alusão à Urânia no
frontispício, desde a Idade Média símbolo da Astronomia e da
Arquitectura adoptado pelos maçons. Acontece que Xifré, construtor do
edifício, tinha nascido em 1777. Dentro do café podem ver-se também
símbolos maçónicos, como a tijoleira de losangos brancos e negros e
os azulejos nas paredes mais antigas.

Tudo isto li-o num livro que José Maria Carandell e Leopoldo Pomes
tinham escrito sobre o velho café. E lia precisamente numa das suas
mesas, enquanto a sala se ia enchendo de famintos convivas que
conheciam a fama do restaurante. Abundavam os convivas de roteiro
turístico, especialmente os japoneses.

191
Clos, um dos velhos empregados de mesa, perguntou-me:

- Deseja mais alguma coisa, senhor Ponte?

Agora chamo-me Ponte.

Tenho a mesma cara de trinta anos, a mesma estatura e o mesmo peso, o


mesmo olhar fugidio que tenta não olhar fixamente para nenhuma parte.
Possuo o bilhete de identidade de um morto que eu próprio sepultei na
argamassa ainda fresca de um edifício que estava a ser construído.
Era o de um informador da polícia que estava a investigar a minha
identidade, colocando-me numa situação de perigo. Penso muito nas
mortes que tenho provocado, mas não nesta. Esse tal Ponte não merecia
viver, e além disso agi em defesa própria.

A polícia acha que o informador foi assassinado por alguém que nunca
irá aparecer. Ora, é mesmo isso: foi assassinado por alguém e nunca
vai aparecer. Uma vez que não tenho cartão de crédito (eu, um
verdadeiro inspector bancário, não possuo um), nem pedi passaporte,
nem faço diligências em instituições oficiais, o meu bilhete de
identidade é dificilmente controlável. Sei que não o poderei renovar
nunca, porque aí surgiria uma estranha história, mas por essa altura
já terei arranjado uma outra identidade aproveitando o grande número
de desaparecimentos que ocorrem todos os anos em Barcelona. Isto dos
desaparecidos é um manancial que nunca me falta.

- Aqui tem a conta, senhor Ponte.

Pago e dou uma gorjeta generosa, porque agora não me falta dinheiro.
Enquanto solicitador, controlo as operações da Bolsa do meu banco e
basta atravessar a rua para chegar ao meu local de trabalho, o
palácio clássico que está à frente do café. Este edifício clássico
oferece a surpresa de acolher no seu interior uma magnífica
construção gótica, e há anos foi descoberta uma maravilhosa sala
superior cuja existência ninguém conhecia. Muitos velhos edifícios de
Barcelona são como túmulos onde ainda não se sabe o que existe.

Contemplo o Pla de Palau, o local onde antigamente ficava o palácio


do conde de Espanha. E tento olhar mais para longe, para o parque da
Ciudadela, onde a forca estava em funcionamento. A história de
Barcelona é feita de dúzias de mortos dos quais se fala e milhares de
mortos dos quais ninguém fala.

192
Apenas eu me lembro deles.

Os liberais.

Os rebeldes que tiveram tempo para dar um último grito de esperança.

A rapariga.

O respeitável senhor Ponte, que ninguém pode relacionar com um


informador do Barrio Chino, atravessa a rua e introduz-se na Bolsa. A
foto do bilhete de identidade é o único elemento falso, mas a idade
suscita a admiração de todos quantos a lêem. No documento figura que
já fiz cinquenta e cinco anos, e toda a gente fica maravilhada ao ver
o meu rosto que não muda.

Digo que uso cremes para a pele.

Perguntam-me quais são.

Contesto sempre que é um segredo que me irá acompanhar até ao caixão.


«É pena. Se os comercializasse, tornar-se-ia fabulosamente rico.»

- Não tenho jeito para os negócios.

Não tenho jeito para os negócios e, no entanto, sou solicitador de um


banco.

Mas o meu caso também não é tão esquisito assim. A maior parte dos
homens e mulheres que sobrevivem na cidade trabalham nalguma coisa de
que não gostam.

Nem sempre foi assim.

Quando naquela noite de 1820 deixei de ser um dos secretários do


conde de Espanha, procurei refúgio num centro liberal e logicamente
clandestino, que era na realidade uma loja maçónica. Os seus membros
acreditaram em mim porque facilitei os planos de umas entradas na
Ciudadela que lhes permitiram dar um golpe de efeito e libertar meia
dúzia de condenados à morte. Eu próprio, para os convencer,
participei na operação nocturna.

Não foi possível salvar um dos condenados, chamado Serra. Enforcaram-


no na manhã seguinte, deixando uma jovem viúva.

Eu vivia uma existência sem mulheres.

Porém, aquela mulher, Claudia, a viúva que não sabia chorar, iria
marcar a minha vida.

193
Aquele grupo de conspiradores liberais tinha uma cobertura: uma
escola para analfabetos na rua de Avinón, onde eu me ofereci para dar
aulas. Para não ser reconhecido, pintei o cabelo e usei uma barba
postiça. Também pus uns óculos falsos, mas por trás deles subsistiu
algo que nunca mudaria: o meu olhar de vida eterna.

Naturalmente, toda a gente que frequentava aquela escola de


analfabetos sabia ler e escrever: as aulas eram uma desculpa para
propagar a ideia revolucionária. Os constitucionalistas, os
avançados, os lire-pensadores, e até alguns hereges, ficavam
extasiados perante as minhas aulas. Eu era o único homem que parecia
saber tudo.

Eles viam que eu não precisava de consultar nenhum livro. Que


conhecia a história dos edifícios mais importantes da cidade como se
eu próprio os tivesse construído. Que, para mim, os faits-divers dos
antepassados famosos não tinham segredos. Era o melhor mestre que
haviam tido, e isso aumentou a minha fama.

Aumentou-a demasiado.

Os sicários de Fernando VII infiltravam-se nos círculos clandestinos,


e por isso não era estranho que alguém tivesse notado que a minha
cara não mudava nunca, apesar dos disfarces. Todos os dias punha a
minha vida em risco.

Foi Claudia quem mo disse. Claudia, a viúva de Serra, o homem


enforcado que não tínhamos podido salvar, veio ver-me ao meu pequeno
refúgio, que ficava na rua de Escudellers. Nesta rua, contígua ao
porto da cidade, tinha havido belos palácios da nobreza, e
conservavam-se ainda vestígios do seu passado. Ainda não era uma rua
próxima do mundo do crime, como haveria de ser muito tempo depois.

Eu dispunha de um quarto numa espécie de estalagem que me fora


recomendada pelos próprios maçons e que tinha um nome muito perigoso:
«A Irmandade». Pagava-a com as traduções do latim, para textos
universitários, que me encomendavam.

Claudia era jovem e tinha os traços finos e brancos das mulheres que
sempre viveram na cidade. Não obstante, era uma revolucionária, até
mais do que o marido, o enforcado: não se limitava a bordar
banbeiras, como Mariana de Pineda, como também as empunhava.

194
Esteve presente num assalto à Ciudadela em que morreram vinte homens,
e era ela a única mulher. Perseguida pelas ruas, foi no entanto
amparada por um ultramontano que, em troca, quis violá-la. O marido
de Claudia, logo na primeira noite, matou o ultramontano.

Agora vivia para além da muralha de San António, numa rua que ainda
não tinha nome e onde mais tarde ficaria o famoso mercado do Ninot.
Quando veio ver-me, disse-me claramente:

- Vocês, os da Loja, começam a ser conhecidos, e a qualquer momento


poderão vir os esbirros do rei prender-vos a todos. E se não te
prenderem lá, irão fazê-lo nesta estalagem cujo nome é como um
anúncio. Tens de ir para um sítio mais seguro, e eu encontrei-o.
Andei à procura dele desde que enforcaram o meu marido.

Simplesmente, estava a convidar-me a ir viver com ela. Era a primeira


mulher que se interessava por mim e a primeira, julgo, que olhava
para mim como um homem. Naturalmente, disse-lhe que não.

De forma alguma poderia fazer aquilo. Cedo ela iria descobrir que eu
não era um homem.

Mas, por fim, não tive outra solução e acedi. Um infiltrado da


polícia denunciou a Loja e vieram prender-nos. Eu fugi porque
conhecia uma antiga passagem medieval que havia na rua, embora
precisasse, a todo o custo, de mudar de casa.

E lá estava ela, a Claudia.

Generosa. Corajosa. Partidária da liberdade para toda a nação e da


liberdade para todas as mulheres. Nunca pensou no perigo em que
também ela estava, e também não pensou que na pequena casa havia
apenas uma cama.

Não sei se naquele momento existiam em Barcelona mais mulheres como


Claudia. Talvez fosse única. Considerava os homens companheiros junto
dos quais era possível morrer, mas que não eram donos do seu destino.
Depois da primeira semana a vivermos juntos (eu dormia no chão sem
nenhum problema), percebeu que eu mal comia, que saía todas as noites
sem saber para onde e que numa certa ocasião regressei com umas
pequenas manchas de sangue na roupa. Disse-lhe que tinha morto um
sicário da polícia real, o que era verdade, mas o que já não pôde
imaginar foi a forma como o matei.

195
Nunca lhe devia ter dito a verdade. Claudia considerou-me um herói e
apaixonou-se por mim. Eu era um companheiro vivo, e o seu marido já
não era mais do que um companheiro morto. Claudia empunhava as armas
porque acreditava no futuro, e neste caso o único futuro era eu.

Lembro-me da modesta casa rodeada de vazio, ou seja, rodeada de


hortas, de cães uivantes e de gatos que se refugiavam nas pernas de
Claudia. Ela trabalhava por vezes como camponesa e noutras ia até à
cidade ajudar as criadas das casas nobres, mas ainda assim era uma
mulher distinta. Tinha classe. Qualquer homem se teria sentido
atraído por ela.

De facto, havia gente rica que andava à volta dela. Ofereciam-lhe


dinheiro. Claudia era a antecessora das raparigas que durante séculos
vieram para Barcelona ganhar o pão e tiveram de o ganhar não apenas
para elas, mas também para o filho, depois de terem sido expulsas,
acusadas de imorais, das casas de senhoras que nunca tinham
trabalhado. Mas Claudia não cedia. Cedeu comigo por achar que eu era
corajoso. Grande corajoso, eu, que sempre atacava à traição e não
passava de um cobarde. Uma noite ofereceu-me os lábios, o hálito e a
cama. No meio do silêncio de uns campos onde apenas os cães
continuavam a uivar, vendo ao longe as fogueiras das muralhas de
Barcelona, a Claudia descobriu que eu tinha sexo, mas que não sentia
a chamada do sexo. E mergulhei pela primeira vez na vergonha de mim
próprio.

Porque mesmo um homem que não sente o sexo fica envergonhado por não
servir para nada perante uma mulher. Fora precedido por milhões de
homens nesse caminho, porém, eu não sabia. E como milhões de homens,
já que era inútil, decidi pelo menos ser sábio.

Não apenas nascera num prostíbulo como até conhecia todos os


prostíbulos da cidade, porque não havia nada que não conhecesse. Ao
longo das minhas estadas nas igrejas ouvira sussurros de confissões
de mulheres, e conhecia o que as tentava, de modo que continuei a
querer ser sábio.

Fiz o que vira fazer ao longo dos séculos, ainda que não partilhasse
disso. Servi-me de todas as combinações em que o pénis não existe,
adivinhei todos os segredos que as mulheres nunca revelam e que
continuam secretos porque não os praticam com ninguém.

196
Não deu. Cláudia não queria um menino burguês de boas famílias - eu
parecia-me com um deles - mas um companheiro íntegro, capaz de lhe
dar filhos e de lutar junto dela. Notei que em vez de ter um orgasmo
no ventre, havia lágrimas nos seus olhos.

Não era como as outras.

As outras apenas queriam ter segurança, um futuro entre as próprias


paredes, uns filhos bem criados e uma série de proibições na cama.

E porque Claudia não era como as outras, contei-lhe a verdade, fiz o


que não havia feito com nenhuma outra mulher do mundo. Pensei que por
uma vez podia ser sincero e entregar-me a uma mulher que se entregava
a mim.

Mas não acreditou em mim. Claudia não acreditava nos homens imortais,
mas naqueles que tinham orgulho em morrer. E na noite seguinte,
estando eu fora, como sempre, a polícia cercou a casa. Queriam
capturá-la viva; Claudia, que era o elo de ligação dos
revolucionários, conhecia tantos nomes que eles iriam obtê-los, mesmo
que fosse preciso abrir-lhe as entranhas.

Foi por isso que não quis ser apanhada com vida.

Enforcou-se.

A única coisa que os sicários encontraram foi uma mensagem póstuma


que não souberam que me era dirigida. A mensagem dizia simplesmente:
«De qualquer modo, deves acreditar nalguma coisa.»

Cláudia morreu para ser enterrada na vala comum, como o marido, mas
nem por momentos imaginou que fosse ter um enterro de luxo: foi pago
por um prestamista em cuja casa trabalhara e que cem vezes tentara
comprá-la. Uma grande coroa de flores tinha uma fita cujo conteúdo
pareceu inexplicável a toda a gente. Dizia: «Finalmente aceitas o meu
dinheiro.»

Há muitos homens que têm apenas esse único orgulho.

O prestamista fez tudo o que pôde para que a sua mulher não soubesse
dessa despesa.

Ela veio a saber.

Eu, que procurara refúgio no escritório de um advogado da rua de San


Pablo - perto da igreja e do seu velho cemitério, onde já tudo mudará
-, recebi a missão de ver a esposa para fazer uma divisão dos bens.

197
E deixei-a tão descansada que decidiu continuar com o marido porque
«no fim de contas - disse - é mais conveniente para mim» Esta frase
burguesa era toda uma declaração de princípios que eu não comentei a
ninguém.

O prestamista, agradecido, pagou ao advogado uma boa comissão, e quis


ainda conhecer-me para me incorporar nos seus negócios. A solução
pactuada era também ideal para a sua boa imagem. Ampliando os
negócios e transformando-os num verdadeiro banco, o antigo
prestamista reconvertido em banqueiro recrutou-me definitivamente ao
seu serviço.

E ali nasceu novamente o senhor Ponte.

Curiosamente, em Barcelona, considerado o maior centro económico de


Espanha, não há bancos genuinamente catalães: todos são entidades com
sede fora da Catalunha, como por exemplo o Santander Central Hispano,
o Bilbao-Vizcaya e o Espanol de Crédito. E, no entanto, eu sei que
foi em Barcelona que criaram o primeiro grande banco espanhol, quando
apenas existia o Banco de San Fernando, que mais tarde veio a ser o
Banco de España. O seu proprietário mais famoso foi Manuel Girona, um
multimilionário que financiou do seu bolso a nova fachada da
catedral. O Banco nasceu em 1842, e ainda é possível ver a sede de
outrora, nas Ramblas: é o último edifício, descendo para o mar.
Suponho que está destinado a ser um edifício sério até cair, pois
antes disso acolheu uma fundição de canhões e depois algo pior: os
tribunais militares.

O Banco de Barcelona, assim chamado, teve o privilégio da emissão de


notas de curso legal, facto que o colocava numa situação de
privilégio quase única. Mas sofreu duas crises: uma em 1848 (fome na
Europa, revoluções e retirada massiva de fundos) e uma outra em 1866
(crise dos títulos de crédito, que chegavam a ser confundidos com as
notas de circulação legal), embora as tivesse ultrapassado sem
problemas. Caiu, porém, em 1920, quando a nova ordem europeia no
final da Grande Guerra acabou com os privilégios comerciais que
Espanha granjeara graças à sua neutralidade. Fim.

198
Eu, Ponte, que durante tantos anos fui um dos donos da Bolsa, sei que
o carácter individualista dos catalães irá fazer com que nunca venham
a ter grandes bancos. Sei também que um homem não se pode manter
durante muitos anos em ambientes financeiros sem mudar de aspecto e
sem chamar a atenção de quem, a cada dia, descobre uma nova ruga no
seu rosto. De maneira que tive de inventar uma dinastia.

Quando percebi que estava em perigo, fui trabalhar para Paris e


depois para Genebra, onde afirmei ter um filho. Certamente, retirava-
me dos negócios e despedia-me dos herdeiros do prestamista, que já
morrera. Estive no enterro, na primeira fila, e fiz com que fosse
enviada uma coroa, com uma fita cujas palavras também ninguém
percebeu: «Devolvo-lhe o seu dinheiro.»

Vivi durante dois anos, não em Paris, para onde os banqueiros iam
frequentemente, mas no bas-fonds de Marselha, que nunca eram
visitados pelos banqueiros. Aí conheci diversos ardis de luta, entre
os quais o «coup du Père François», que com um único movimento de
dedos arrancava os olhos do inimigo.

E decorridos esses dois anos apresentou-se em Barcelona o meu


«filho», tão parecido comigo que toda a gente ficou espantada. Fingi
que gostava de mulheres (o meu «pai» nunca as frequentara) e até
cheguei a ter duas amantes a meu cargo: eram duas raparigas simples a
quem dei dinheiro em troca da sua discrição e com quem nunca tive o
mínimo contacto sexual. Devem ter pensado que se tratava de uma
desculpa para disfarçar a minha inclinação pelos homens, algo muito
mais frequente do que as pessoas julgam.

Entretanto, Barcelona mudara tão enormemente que já ninguém a


conhecia. Não existia a muralha das Ramblas e falava-se muito
seriamente em derrubar as Rondas de San António e San Pablo. O tirano
Fernando VII morrera sem que isso tivesse trazido a paz: como já
existiam definitivamente as duas Espanhas, começaram as Guerras
Carlistas.

Mas a cidade crescia e crescia, e afogava-se cada vez mais dentro das
muralhas; os negócios de têxteis estendiam-se pelas ruas abastadas
(Fernando, Ancha, Canuda, Cármen), ao passo que o Raval, onde eu
nascera, estava materialmente coberto de casas minúsculas onde os
operários que trabalhavam nas fábricas quase contíguas dormiam
durante algumas horas.

199
O Hospital da Santa Cruz e a igreja de San Pablo pareciam
inalterados, embora já não restasse um único vestígio do velho
cemitério. Como há centenas de anos, continuavam a nascer teatrinhos,
barracas de feira e pequenas casinhas onde havia sempre gente e onde
muitas mulheres choravam.

Não havia rasto da casa da minha mãe.

Nem das forcas no Llano da Boquería.

Nem dos postos de vigilância na Rambla.

Mas nasciam mansões de gente rica que queria comprar móveis de alta
qualidade. Por isso, para que me diferenciassem do meu «pai», deixei
os negócios da Bolsa e fingi ser especialista em mobiliário antigo,
coisa que ainda por cima era verdade. Por exemplo, fiz negócios com
instrumentos musicais de grande valor, como uma mandolina de 1775
assinada por Vinaccio e um alaúde de Matheus Buckberberg datado de
1613. Não desprezei comercializar com azulejos de igrejas longínquas
que iam sendo espoliadas pelos ladrões - processo que, ao que parece,
nunca irá acabar - nem livros históricos, como o De Architectura, de
Vitrúvio.

Desse modo, aqueles que tinham conhecido o meu «pai» não suspeitaram
de mim. E acontece que há parecenças espantosas, diziam. Também não
suspeitaram dos desaparecimentos de vários mafiosos nos bairros
baixos da cidade, um dos quais foi depois encontrado sem uma única
gota de sangue. Mas como isso acontecia muito de tempos a tempos e
Barcelona já era uma cidade violenta, ninguém sentiu receios.

Também O Outro não sentia.

Não voltei a vê-lo.

Mas voltaria a aparecer, disso estava certo. Os factos repetem-se


sempre e o tempo não existe. Dividimo-lo para ordenar as nossas
vidas, embora na realidade o tempo seja plano e não tenha nem começo
nem fim.

Também não frequentava os centros revolucionários, os que levariam à


Primeira República, para não suscitar comentários em parte alguma.

200
Eu, filho de um banqueiro, era um comerciante rico e respeitável,
tanto que alguns velhos patrícios me ofereceram as suas filhas em
casamento sem que as coitadas pudessem dizer uma só palavra. As
famílias cresciam com os casamentos por interesse e desmoronavam com
os casamentos por amor, de modo que toda a gente estava bem
satisfeita com a sabedoria das alcovas. Sempre que tinha de estar
presente numa dessas bodas, ia logo a seguir visitar o túmulo de
Claudia.

Talvez já não voltassem a nascer mulheres como ela, talvez tivessem


sido devoradas para sempre pela cidade.

Mas as mulheres revolucionárias ainda existiam.

Barcelona fervilhava. Era cada vez mais rica e cada vez mais pobre.

Na minha qualidade de especialista em arte distingui à primeira vista


um Goya autêntico de um Lucas, coisa que não me exigia nenhum esforço
porque eu conhecia a história de todos os quadros. Também me levou a
entrar em contacto com falsificadores da altura, banqueiros «ful» e
até mesmo grandes assassinos internacionais que tinha feito do crime,
como um livro afirmaria mais tarde, uma das belas artes.

Foi um destes, uma atraente e ambiciosa mulher, para ser mais exacto,
que me propôs financiar um crime que me haveria de dar os melhores
dividendos da minha vida.

Era preciso matar um homem que concebera uma cidade nova.

Chamava-se Cerda.

201
.29.

AS CASAS QUE NÃO EXISTEM

Marta Vives tinha medo de casas velhas, apesar de ser arqueóloga;


tinha medo dos pátios sem luz, das grades carcomidas, das janelas que
não encaixavam e batiam com o vento. Tinha medo, sobretudo, das
camas, onde sempre alguém tinha morrido. Marta era daquelas pessoas
que pensavam que, de algum modo, os mortos permanecem nas casas.

Esteve prestes a gritar: o que se mexia no fundo da casa abandonada


parecia um morto.

Mas ficou envergonhada. Andava já há muitos anos a ver túmulos.

As suas firmes pernas deram um passo ao lado, à procura de uma zona


de luz. Relativa luz naquele mundo que já não existia. E pôde ver que
a sombra, que de repente se mexera e agora avançava na sua direcção,
era a de um homem vivo. Um homem alto, magro, e ainda por cima
vestido com correcção.

Não podia ter medo dele. Era um sacerdote.

E ainda por cima conhecido.

- Padre Olavide... - sussurrou.

O homem que tantas vezes esteve no escritório de Marcos Solana, seu


amigo e colaborador, talvez o sacerdote mais culto da cidade, avançou
para ela estendendo-lhe a mão.

- Estou com a sensação de que a assustei, Marta - disse ele sorrindo.

- Padre Olavide, não percebo o que está aqui a fazer. É verdade,


assustou-me. Sou uma idiota.

202
- Eu também não percebo bem porque é que está aqui, Marta.

E sentou-se à frente dela. Naquela que durante anos devia ter sido a
sala da casa, cenário de velhas recepções, ainda restavam uns
cadeirões isabelinos desengonçados, duas lâmpadas de gás destruídas e
os restos de uma mesa de mogno. Mas lá não havia gás ou qualquer
outra forma de iluminação, apenas a luz do exterior, que já mal
existia, ainda que as janelas do outro lado do quintal deixassem
passar uma leve claridade. Havia vida do outro lado do quintal da
casa morta.

Por educação, Marta apagara a lanterna; não queria que Olavide


tivesse a sensação de estar submetido a um interrogatório. E, além
disso, era melhor assim, porque das casas do lado oposto poderiam ver
o foco da lanterna e despertar suspeitas.

Marta sussurrou:

- Acho que cometi um acto ilegal.

- Não estou a perceber.

- Reconheço que é embaraçoso, para uma mulher que trabalha num dos
melhores escritórios de advogados da cidade.

- Se quiser, não faço mais perguntas - disse Olavide cortesmente. As


suas vestes de sacerdote afundavam-se na escuridão; apenas o rosto,
muito branco, se destacava naquela espécie de neblina. - Ao
contrário, padre Olavide, pode perguntar tudo o que quiser.

- Diga-me, então, porque é que veio cá, se não se importar.

- Não pretendo prejudicar ninguém, e isso serve, de certa forma, para


me desculpar; tento apenas seguir uma investigação que o meu chefe
desconhece, e que é algo puramente privado. Já sabe que sou uma
mulher esquisita.

- Em que sentido?

- Estudei arqueologia, história, heráldica e outras disciplinas


duvidosamente úteis, já sabe que eu conheço todas as antigas famílias
desta cidade.

- Que cada vez está mais misturada. A antiguidade já não existe ou já


não tem importância.

E o padre Olavide sorriu, acrescentando:

- Eu estudo o mesmo que você, Marta, de modo que não posso criticá-
la. No Colégio de Roma dei aulas sobre linhagens que remontam aos
primeiros apóstolos, o que significa, suponho, que disse muitas
mentiras.

203
Mas o que você sabe é, ao invés, verdade, e é muito útil para o seu
chefe; para um advogado ainda existem as velhas famílias pela simples
razão de que existem as velhas heranças. Marta Vives tentou sorrir.

- Suponho que o chefe me atura por essa razão.

- E o que procurava nesta casa, no caso de andar à procura de alguma


coisa? Pertence ao município, embora receie que a Câmara nunca irá
fazer aquilo que o último testador queria.

- Precisamente, entrei aqui sem autorização para procurar indícios


sobre o último testador.

- Sabe quem era?

- Um sacerdote chamado Masdéu.

- Um sacerdote relativamente rico, como muitos da época, que


pretendia que isto fosse uma biblioteca pública.

- O padre sabe disso?

- Mas é claro, cara amiga. Os livros de propriedade da Câmara não são


secretos. Os protocolos notariais também não. Um velho professor como
eu tem de saber, pelo menos, algumas coisas sobre a sua cidade.

- Bem... - Marta reconhecia que o padre Olavide era dos poucos que
podiam dar-lhe lições. - Uma antepassada minha morreu sem que o óbito
fosse registado, no entanto averiguei qual o lugar onde esteve
enterrada. Digo «esteve» porque já não está: há muitos anos tiraram
os seus restos do cemitério do Pueblo Nuevo. A minha antepassada
morreu em circunstâncias muito estranhas... como se estivesse marcada
pelo diabo. Não sei como dizer.

- Disse muito bem, embora receie que não seja tudo.

- Não, não é tudo. Enquanto estava a investigar, soube de uma coisa


ainda mais estranha: os Masdéu foram pagando o nicho dela, mas a
época de confusão da guerra fez, suponho eu, com que deixassem de
pagar. Isso significa que os restos desapareceram.

- Era uma situação muito frequente - disse o padre Olavide, fixando


os olhos em Marta.

- E que mais...?

- Não percebo porque é que durante tantos anos fizeram essa despesa.
Nem deviam conhecer-se.

204
- E está interessada nisso?

- Sim, porque já lhe disse que a minha antepassada morreu em


circunstâncias estranhas, como se estivesse marcada pelo diabo. E não
apenas ela: na minha família longínqua ocorreram casos que nunca irei
perceber.

E acrescentou com um fio de voz:

- Desculpe, parece-me que estou a fazer figura de parva falando-

-lhe disto.

- Ninguém faz figura de parvo ao falar de questões que receia.


Suponho que você, Marta, está assustada.

Ela disse francamente:

- Sim.

- Nesse caso, não deve ficar envergonhada por contar as coisas com
toda a franqueza. Mas não percebo porque é que entrou aqui. Para
começar, como conseguiu?

- Com uma gazua.

- Estranha forma de agir para uma estagiária de um advogado. Mas


fique descansada. Já ouvi em confissão revelações muito mais
espantosas. E diz que está à procura de indícios sobre o último
habitante da casa? Porquê?

Marta mordeu o lábio inferior.

- Tudo isto me parece novamente ridículo. Imaginava que iria


encontrar algum indício da morte da minha antepassada.

- Nota-se bem que é historiadora.

- Nota-se que tenho imensas dúvidas. E medo.

- Bom... Uma coisa são as dúvidas e uma outra é o medo. Nunca deve
ter medo; as coisas naturais, como o diabo, não deviam assustá-la.

A mulher hesitou.

- O diabo é algo de natural? - perguntou com uma voz que não parecia
a dela.

- Mas é claro que é: digo-lhe eu, que ensinei muitos anos Patrologia
no Colégio de Roma. O diabo é um dos elementos naturais da Bíblia, é
verdade que com nomes diversos e características que levantam as suas
dúvidas.
205
O demónio é uma das personagens mais confusas da religião, mas sem
dúvida está presente nela. Deveria ver a figura dele como algo muito
normal. Marta Vives confessou:

- Não estou a perceber completamente a ideia.

- Porque talvez essa ideia mereça uma explicação mais extensa. Mas
responda a uma pergunta: tenho a impressão que esta casa a assusta,
que estava assustada antes de me ver aqui, junto da janela. Porquê?

- Um historiador disse-me que o cadáver do sacerdote ainda não saíra


da casa.

A voz de Marta soou trémula quando sussurrou estas palavras.

Por vezes, tinha a sensação de ser ainda uma menina com os medos que
chegam do corredor, com o ranger da madeira e a luz que entra pelas
frinchas das portas. Tudo aquilo era ridículo - pensava -, mas sabia
que se não tivesse encontrado o padre Olavide, teria desatado a
gritar.

Do outro lado do quintal brilharam, repentinamente, umas luzes mais


intensas. As sombras que havia para além da janela ganharam vida...
Algo tremeu no ar e nas cornijas organizaram-se matrimónios de gatos.

O padre Olavide sussurrou:

- Isso significa que morreu aqui e ninguém soube?

- Não sei. Aquele historiador disse-me que o enterro não constava em


nenhum sítio, e que aparentemente o seu corpo não está em lugar
nenhum.

- Nas grandes cidades há muitos factos que não constam nos registos,
ou que talvez não se saiba procurar. Também é verdade que muitas
pessoas morrem em casa e ninguém repara nisso até que, de repente,
aparece uma múmia num quarto. Quando era um jovem sacerdote, em
certas ocasiões chamavam-me para benzer restos de corpos que
porventura já estavam há anos no inferno. Bem, reconheço que esta não
será uma frase lá muito piedosa... Mas tratando-se de um sacerdote, o
bispo teria feito alguma coisa. Ou a Câmara, ao aceitar o legado e
passar a ser responsável pela casa. É o que a razão dita, embora,
seja como for...

206
Marta notou que uma palavra ficara suspensa no ar. Com um leve tremor
nos lábios, perguntou:

- Seja como for, o quê?

- O cadáver poderia ter ficado nalgum quarto recôndito... Por


exemplo, um quarto do sótão. Estas casas centenárias têm recantos
onde durante anos e anos não entrou ninguém, e caem no esquecimento.
Há falsos tabiques, há portas clausuradas. E ainda por cima esta casa
tem... como dizer? Má fama. É por isso que estou aqui.

As luzes do outro lado do quintal voltaram a apagar-se e os lábios de


Marta tremeram novamente:

- O que quer dizer?

- Disse-me porque está na casa, Marta, e eu no entanto não lhe disse


nada. Bom, estou aqui porque tenho as chaves: a Igreja participa na
administração da biblioteca que devia ter sido criada aqui. E, além
disso, sou exorcista há muitos anos e uma das mais reconhecidas
autoridades acerca do diabo. Sei que muitas pessoas não iriam levar a
sério, mas você sim; o diabo é uma personagem habitual na Patrística,
ou seja, nas obras dos antigos que criaram doutrina sobre as figuras
dos Evangelhos e da Bíblia.

Marta não manifestou nenhuma surpresa, e muito menos levou aquilo de


ânimo leve. Também os livros da patrística faziam parte do seu mundo.

- Está a dizer-me coisas inquietantes - sussurrou após alguns


segundos.

- Suponho que se refere ao facto de eu relacionar o diabo com esta


casa.

- É isso que está a fazer?

- Na verdade, estou - disse o padre Olavide. - Há lugares que têm


espíritos escondidos, concretamente as casas antigas em que morreu
muita gente. Nas casas novas, pequenas e sem história, que acabam por
cheirar a xixi de gato, não me parece que tal seja possível. Mas há
sítios que estão marcados, e este é um deles. Não me parece que seja
casual que, sem sabermos, nos tenhamos encontrado aqui. Nós dois
captámos algo que os outros não notam.

E pôs-se em pé, à frente da janela, cortando a passagem das remotas


luzes que chegavam do outro lado.

207
Marta achou-o mais alto, mais magro e ao mesmo tempo mais importante.
Sentia um imenso alívio por não estar ali sozinha. Olavide não apenas
lhe fazia companhia com também lhe dava força.

- Nestas ruas - continuou ele - os segredos parecem espreitar na


sombra. Desculpe falar assim, mas não sei dizer de outra forma. Por
baixo de cada casa existe uma outra casa que um dia existiu. Se
fizesse um buraco em cada um dos esgotos que passam por baixo dos
nossos pés, encontrar-se-ia provavelmente naquilo que foi a sala de
jantar onde se reunia uma família já morta. Resta alguma coisa dos
seus espíritos? Não sei, mas seja como for levo a sério esta crença.
E poderá haver algo de verdadeiro nela, porque como já lhe disse:
esta casa tem uma lenda.

Voltou a sentar-se. Um raio de luz foi então projectado sobre o que


havia sido uma mesa de mogno, e essa luz foi imediatamente soterrada
por uma camada de pó.

Marta sussurrou:

- Que lenda?

- Primeiro temos o facto de aqui, sob os nossos pés, poder existir


uma múmia. Não é uma história nova, Marta, não julgue que é uma
história nova, e se você a conhece, também a conheço eu e mais
algumas pessoas. Talvez devido a essa razão saiba que aqui já
aconteceram rituais satânicos. Houve pessoas que entraram aqui, viram
as sombras e captaram os espíritos. Daí a invocar o diabo é apenas um
passo. Não fica admirada por ninguém fazer nada com esta casa? Por
vezes, pode existir até nos sítios mais sérios, como nos gabinetes
municipais, um certo receio. Porém, não ligue ao que eu digo. Nós, os
sacerdotes, sabemos que há segredos até mesmo por baixo da basílica
de São Pedro, e é por isso que parecemos estar rodeados por uma aura
de séculos. Alguns de nós indagamos coisas que parecem não ter
sentido.

- Mas o senhor vem por alguma razão...

- Porque sei que foram celebrados rituais satânicos, ainda que sem
vítima nenhuma. De contrário, teria intervindo a polícia. Trata-se de
invocações que talvez estejam carregadas de medo, como o que agora
mesmo está a sentir.

208
E eu vejo, vejo se há alguma coisa que me chame a atenção, e capto
aquilo que resta dos espíritos. Se é que ainda resta alguma coisa.
Mas também venho por uma razão mais prosaica.

- Qual?

- Todas estas velhas propriedades que foram passando para as mãos da


cidade são administradas por uma espécie de patronato, que decide
sobre a sua utilização. Embora, geralmente, nada decida. Eu faço
parte desse patronato, e de vez em quando tenho de fazer um
relatório.

Estendeu a mão para Marta Vives porque já quase não se viam. Tal

como uma sombra protectora, foi conduzindo-a até à porta.

- Quer que acenda a lanterna? - perguntou ela.

- Oh, não... Conheço a casa como se tivesse vivido aqui: não se


esqueça que venho com uma certa frequência. E como agora tenho de ir
embora, não quero deixá-la sozinha. Nunca a deixaria sozinha num
lugar como este.

E apertou-lhe a mão com mais força. A rapariga sentiu-se


reconfortada, apoiada por aquela sombra que parecia dominar tudo. Viu
confusamente a porta, para além da qual pairava um outro mundo de

sombras.

- Mas você veio para averiguar qualquer coisa - disse o padre Ola-
vide - e eu vou ajudá-la. Tudo o que possa ter acontecido com essa
antepassada sua há-de chegar aos seus ouvidos, prometo, porque talvez
eu tenha meios para averiguar. Mas não volte cá sozinha... Não volte.

E abriu a porta para a tirar de lá. Marta Vives sentiu-se a salvo com
o contacto daquela mão, notou uma nova força em todos os músculos do
seu corpo. Teve a sensação que tinha sido salva de alguma coisa,
parecia-lhe estar a deixar um mundo muito real mas que estava feito
de trevas.

209
Todas as sociedades bem organizadas estão baseadas na aceitação do
crime como parte de si mesmas. Nas ditaduras muito mais do que nas
sociedades livres, embora nenhuma delas esteja isenta. Por vezes, o
crime nasce da corrupção. Outras, da falta de liberdade. Outras, da
mentira. Outras, do sangue.

O homem que conheci no cume do Montjuic, antes de chegar à estrutura


do castelo cheio de mortes e lendas, era simplesmente um visionário.
Chamava-se Ildefons Cerda e queria mudar Barcelona.

Não era muito corpulento, e em qualquer outro lugar poderia ter


parecido inclusivamente insignificante; mas ali, gesticulando,
falando com entusiasmo da cidade que tinha a seus pés, chegou a
parecer-me um gigante.

- Estou a falar-lhe assim porque preciso de ajuda - disse-me -, e


você pode prestar-ma. Há alguma coisa que me diz que o senhor é sábio
e conhece muitas coisas que os outros ignoram. Além disso, trabalha
no jornal mais antigo do continente.

Com efeito, eu na altura era redactor - e redactor credenciado - do


Diário de Barcelona, que era o mais antigo dos publicados na Europa
continental. Mais antigo do que ele apenas o The Times, mas o The
Times era apenas publicado nas Ilhas Britânicas.

- Todos os que têm mandado em Barcelona consideraram-na basicamente


uma praça militar essencial - disse Cerda enquanto caminhava
nervosamente, à minha frente, pelo caminho de terra -, e daí as suas
grandes muralhas.

210
As suas grandes e triplas muralhas têm-se perpetuado ao longo dos
séculos. Poderá notar que essa grande planície que se estende de
Canaletas até à vila de Gracia tem algo em comum: nela é proibido
edificar para que nenhuma força invasora encontre refúgio ou possa
ocultar-se enquanto planta os seus canhões ou avança. Isto é, toda a
grande planície deve permanecer limpa e submetida ao fogo dos
defensores. Nenhuma autoridade parece ter percebido que Barcelona é
uma grande cidade comercial e cultural, e portanto algo mais que uma
simples praça-forte. Estas pessoas não vêem que, com as muralhas,
Barcelona está condenada a morrer. Encerrada nelas, há uma grande
massa operária que não tem ar ou limpeza, nem sequer água potável, já
para não falar sequer de espaço para se mexerem, que apodrece. E sabe
o senhor jornalista - perguntou-me aquela espécie de apóstolo -
quantos desses operários têm trabalho todo o ano? A estatística diz-
me que dez por cento dos operários especializados são procurados
pelos patrões, enquanto os outros noventa por cento apenas conseguem
trabalho seis a oito meses num ano. Não é suficiente esse sofrimento?
É preciso aumentá-lo com umas casas e umas ruas que são ainda da
Idade Média?

- É claro que não - disse enquanto tirava apontamentos


apressadamente.

- Você é um dos redactores mais influentes de El Brusi - acrescentou


Cerda - e, portanto, tudo o que escreve é lei. Imploro-lhe que não me
considere um iluminado.

- Nunca o faria - disse em parte por cortesia e em parte porque Cerda


era um engenheiro de nomeada. Embora muitos o considerassem
simplesmente um iluminado, como ele dizia.

A seguir, as suas mãos abriram-se no ar, como se com elas quisesse


abranger toda a planície.

- Uma grande série de quadrículas estender-se-á do princípio das


Ramblas até à própria vila independente de Gracia. Todos os
quarteirões terão as mesmas dimensões, mas não serão exactamente
iguais, porque vão estar edificados apenas em dois dos lados, muitos
em forma de «L», e o interior desses quarteirões consistirá em
jardins e espaços livres. Além disso, a parte edificada de um
quarteirão vai ficar em frente da parte livre da outra, o que na
maioria dos casos permitirá a vista directa sobre um jardim ou um
bosque.

211
E digo-lhe ainda mais-estes quarteirões não vão acabar em ângulo
recto, antes vão formar uma chanfradura, o que irá aumentar a beleza
e a visibilidade. A visibilidade será da maior importância, porque
assim os veículos particulares a vapor que circularem pelas ruas
serão avisados nos cruzamentos e não ocorrerão acidentes.

Aquilo dos veículos particulares a vapor era coisa que ninguém


percebia, e ainda menos quando Cerda dizia que cada família teria um
próprio.

Ildefons Cerda continuou, sem se importar muito com o que eu pudesse


estar a pensar:

- As ruas serão largas e permitirão a circulação desses veículos que,


para já, como prevejo, serão movidos a vapor e ficarão estacionados à
frente das casas que os seus donos ocuparem. Diga-me, caro amigo:
quem irá renunciar a este avanço? Consegue imaginar uma cidade mais
perfeita que esta que lhe estou a descrever?

- Mas senhor Cerda - permiti-me opor -, o que é que irá acontecer


quando todos os moradores tiverem veículos desses que está a dizer?
Ninguém vai saber onde os deixar. Não vão caber à frente das casas.

O apóstolo olhou para mim, quase indignado.

- Mas que suposição é essa? - resmoneou. - Eu tenho fama de


visionário, mas você supera-me. Saiba que, com o meu projecto, a
cidade irá ser imensa e as ruas larguíssimas, de modo que os veículos
nunca as irão encher. Pense o senhor que, de cada quadrícula, apenas
metade será aproveitada para habitação, de modo que a congestão de
que fala nunca irá ocorrer.

E voltou a apontar para o enorme espaço que tinha à sua frente, como
que passado a ferro perante as ladeiras do Montjuic. Era impossível
que aquilo se enchesse de veículos, seguindo a sua ideia de se
edificar apenas uma parte de cada quarteirão.

Finalmente, implorou-me:

- Por favor, não se esqueça de escrever isto tal como lhe disse,
porque compreendo que não seja assim tão fácil. E, sobretudo,
explique ao seu director. Vai ver como ficará convencido.

212
- Esse tal Ildefons Cerda está doido - disse o senhor Rovira i Trias,
penetrando como um cavalo desenfreado na até então silenciosa
redacção de El Brusi. - Oiçam bem isto, senhores informadores,
cidadãos bem-pensantes que amam a sua cidade. O senhor Ildefons
Cerda, cujo plano é patrocinado por Madrid contra os legítimos
desejos de Barcelona, disse nada menos que:

E citou.

«Talvez seja impossível encontrar um só homem urbano que não queira


ver a locomotiva a funcionar pelo interior da urbe, por todas as
ruas, à frente da sua casa, para a ter completamente à sua
disposição.»

O senhor Rovira i Trias acrescentou:

-Vocês, senhores redactores do Diário de Barcelona, conhecem


Barcelona. E imaginem o que o senhor Cerda concebeu. Movido pela
ideia de que cada habitante irá ter o seu próprio veículo à
disposição, imaginou uma rua, a de Aragón, nada menos que com
cinquenta metros de largura, para por ali poderem circular ao mesmo
tempo todos esses veículos... Cinquenta metros! E isto nem é para ser
decidido em Barcelona, tudo isto vai ser imposto a partir de Madrid.

Os redactores tinham deixado de trabalhar para escutar atentamente o


patrício. O senhor Rovira, juntamente com o senhor Molina, tinha sido
premiado pelo concurso convocado pela Câmara para escolher o melhor
projecto do Ensanche, concurso aberto ao público a partir de 27 de
Outubro de 1859. Mas ° prémio, ao que parece, não servia para nada.
Madrid queria impor o projecto de Cerda, com quem eu falara pouco
tempo atrás na montanha de Montjuic.

Grandes sectores da população consideravam-no uma injustiça e um


atentado aos sentimentos barceloneses, embora eu soubesse que no
fundo havia mais alguma coisa. Os proprietários dos terrenos do
futuro Ensanche viam os seus interesses prejudicados.

Edificar apenas cinquenta por cento dos terrenos e desprezar a outra


metade...!

- É preciso explicar bem isto tudo - ordenou o redactor-chefe. -


Temos dado espaço a outras opiniões, e portanto temos também de
incluir esta.

213
Todos os redactores trabalhavam numa mesa muito comprida,
acotovelando-se. A mesa estava iluminada por duas lâmpadas, e
normalmente só se ouvia na redacção, aquele templo da verdade, o som
das nossas tosses e o raspar das nossas penas, já que nunca se tinham
ouvido as nossas vozes a pedir um aumento de salário. Nessa noite,
porém, com a entrada do senhor Rovira, os redactores tinham ficado em
alvoroço, e havia sérias razões para pensar que aquilo era o começo
da decomposição social que ameaçava a cidade. Houve inclusivamente um
deles, o senhor Pedemonte, que nunca mexia a cabeça (entre outras
coisas porque teria podido cornear alguém), que se atreveu a dizer:

- Sérias razões administrativas adulteraram a vontade dos nossos


vereadores, senhor Rovira, e violentaram a que noutro tempo foi a
sagrada voz do povo. A Câmara opina, com razão, que todo o terreno
que se estende para além das muralhas, e fundamentalmente as zonas
que levam ao caminho de Gracia e à Riera de Malla, correspondem a
Barcelona e não à jurisdição militar. E quem melhor que a Câmara de
Barcelona para delinear os planos de um Alargamento de Barcelona que
irá surpreender os forasteiros?

- Foi por isso que se convocou um concurso de projectos - exclamou o


senhor Rovira -, em que modestamente fomos premiados o senhor Molina
e eu.

Um outro redactor chamado Recolons, cujo nome devia ser escrito com
muitíssimo cuidado, disse:

- Acontece que aqui foi cometido um erro histórico que certamente os


séculos futuros se encarregarão de vingar. O senhor Pedemonte, que eu
tanto aprecio, acertou em cheio. Os militares acham que a zona onde
vai ser edificado o Ensanche é deles, e transferiram o seu domínio
para o Ministério de Fomento, evidentemente centralista, que aceitou
o projecto do senhor Cerda, engenheiro civil. Ou seja, que aquilo que
os catalães desejam irá ser realizado por um madrileno, ainda que
neste caso também seja catalão. Com todas as nossas forças, devemos
opor-nos a este projecto que nos marginaliza.

- E como conclusão proclamo:

Enfim, que devemos opor-nos à espada e os centralistas que vão para o


caralho.

214
Ouvidos aqueles brilhantes discursos, o redactor-chefe dirigiu-se a
mim:

- Escreva isto tudo, para que o povo saiba e possa opinar.

- Posso escrever também isso da espada centralista? Sim, mas olhe,


não meta aquilo do caralho centralista.

- Não, senhor.

Comecei a escrever, mas o senhor Recolons quis dar novas mostras da


sua eloquência:

- Senhores, e que dizer então dos problemas médicos que serão


criados, sem dúvida, pelo plano do senhor Cerda? Sim, meus amigos,
disse «problemas médicos» e nunca uma expressão terá sido mais bem
empregue. No Ensanche, o senhor Cerda, engenheiro civil, não
projectou ruas, mas estradas. Umas rectas compridíssimas cruzar-se-ão
com outras rectas compridíssimas, o que irá originar ventos
fortíssimos que, como num túnel, irão circular sem qualquer obstáculo
ou limite. Não encontrando nenhum género de obstáculo, os ventos irão
varrer, no caminho, transeuntes, toldos e carruagens. Até os veículos
funerários vão comer terra. Eu afirmo, cavalheiros, que com este
plano Barcelona vai ficar à mercê dos elementos.

Entusiasmado pelo parlamento, o senhor Pedemonte foi abraçar o senhor


Recolons, mas esse soube desviar-se a tempo para não ser vítima de
uma cornada. Nesse momento entrou o administrador, que também era
accionista do diário e além disso dono de grandes terrenos no caminho
para Gracia, e gritou:

- O senhor Cerda, uma vez que os terrenos não são dele, propõe nada
menos que edificar apenas metade de cada quarteirão, deixando a outra
metade para as massas espairecerem. Como se já não soubéssemos que,
nesta cidade, os espairecimentos das massas costumam acabar em
reuniões operárias, tentativas de sabotagem e até gravidezes que
ninguém previu. No meio de tudo isto é mais que óbvio que não se
obterá nenhum benefício público.

Fez uma pausa dramática e, na sua qualidade de proprietário,


acrescentou:

- Contudo, se os quarteirões fossem edificados pelos quatro lados, ou


seja, na sua totalidade, quatro benefícios seriam obtidos.

215
Primeiro,o proprietário dos bens imóveis teria o dobro dos lucros, ou
seja é muito mais razoável. Em segundo lugar, poderiam instalar-se
muitas mais famílias e haveria muitos mais arrendamentos. Terceiro,
os pedreiros teriam exactamente o dobro do trabalho e do salário. E
por último, nem é preciso referir os pisos térreos dos ditos
quarteirões. O senhor Cerda, acostumado ao esbanjamento madrileno,
propõe que cinquenta por cento do solo seja público, ignorando que,
edificando todo o quarteirão, seria possível instalar comodamente nos
pisos térreos os armazéns têxteis, o comércio grossista e a detall,
as lojas de produtos ultramarinos e os escritórios, que irão produzir
um benefício razoável para o capital. E digo mais, meus senhores: sob
as casas poderíamos pensar em construir subterrâneos para guardar os
veículos impulsionados a vapor, álcool e outras substâncias
inclassificáveis. E essas zonas subterrâneas poderiam ser vendidas ao
público pelos mesmos proprietários. Ora, vejamos: porque é que os
veículos privados têm de invadir as ruas? Afinal, as ruas não são do
município? E, portanto, o município, em legítima defesa, não teria
direito a cobrar uma taxa por estacionamento e circulação?

O senhor Pedemonte, entusiasmado, compreendendo que era isso o


futuro, mexia várias vezes a cabeça em carinhosa investida, embora
por sorte não colhesse ninguém por surpresa. E o redactor-chefe
voltou a ordenar-me:

- Escreva.

Devo acrescentar mais alguns pormenores, uma vez que eu vi e vivi


tudo.

Em primeiro lugar, tinha morto o senhor Ponte, banqueiro, apesar de


que mais à frente viria a ser conveniente ressuscitá-lo. Agora eu era
o senhor Temple, de nacionalidade britânica e doutorado em Oxford,
embora tivesse roubado os meus documentos a um inglês autêntico
afogado na praia e cujo cadáver aparecera, irreconhecível, uma semana
depois. O senhor Temple estava separado e a ex-mulher nunca se
interessou por ele.

Em segundo lugar, tive motivos para saber que o primeiro edifício


construído no Ensanche foi a Casa Gisbert, na esquina da Porta del
Ángel e a desigual praça de Catalunha, praça que, por sinal, não
estava prevista no plano Cerda.

216
A primeira pedra dessa casa foi lançada por Isabel II no Outono de
1860, quando estava de visita à cidade: com esse real gesto, o
Ensanche ficava inaugurado. Pouco depois, elevava-se a Casa Estruch,
do outro lado da praça, como segundo prédio da ampliação da cidade.

Porém, os anos permitiram-me conhecer outras versões: por exemplo,


que o primeiro edifício do Ensanche, fora das muralhas, foi o da
Ronda de San Pedro número 3, que com a sua bela fachada de pedra
sobreviveu até aos anos quarenta do século xx. Curiosamente, a
prioridade nas edificações será do próprio Cerda, enquanto director
da empresa Fomento dei Ensanche de Barcelona. No cruzamento das ruas
Roger de Llúria e Consell de Cent foi criada uma chamada «Praça
Cerda», que não teve continuidade. Tiveram continuidade, no entanto,
as praças dos senhores Trias e Molina.

Barcelona não costuma ser uma cidade agradecida, embora as câmaras o


neguem.

Mas antes disto houve um enigma que eu não expliquei a ninguém.

Houve alguém que reparou era alguma coisa, apesar de eu tomar todas
as precauções: percebeu que eu nunca mudava de aspecto, nem de idade
aparente. Que me tinha deslocado pela cidade com diversos nomes. E
que levava uma vida nocturna incontrolável, por vezes relacionada com
pessoas que haviam desaparecido.

Isso deu motivos para pensar que me movia por zonas tenebrosas.

E era verdade.

Alguém que sabia tudo isto coagiu-me. Alguém me disse que podia ser
sujeito a uma investigação, e que dela iriam sair coisas que nem essa
mesma pessoa percebia. Em Barcelona - disse - existem demasiadas
sombras a flutuar nos esgotos.

E eu fazia parte delas.

Para que ninguém se metesse na minha vida, eu tinha apenas de fazer


duas coisas.

217
A primeira era proporcionar documentos falsos a um profissional que
viria até à cidade para cometer um assassinato A segunda era ocultá-
lo na minha casa pelo menos durante uma semana, até que saísse do
país. A opinião pública possivelmente ficaria comovida com o enterro
da vítima, mas isso iria durar pouco tempo No fim de contas, a vítima
não era assim tão importante.

A pessoa que devia morrer era um engenheiro civil chamado Ilde-fons


Cerda.

A cidade - disseram-me com uma certa solenidade - precisava da sua


eliminação porque as forças do capital estavam indignadas com ele. Em
primeiro lugar, se o seu plano fosse aceite, em lugar do dos senhores
Molina e Trias, os terrenos que conduziam até Gracia valeriam muito,
e os que levavam a poente muito pouco. E aqui já havia grandes
interesses que tinham de ser discutidos. Mas ainda admitindo a
certeza quanto à aceitação do plano Cerda, o que significava isso de
edificar apenas metade dos quarteirões? Nesta cidade - disse-me o meu
interlocutor - pode brincar-se com tudo e inclusivamente com o
patriotismo, mas com o valor dos terrenos não se brinca.

Resumindo, se o senhor Cerda morresse, acabar-se-iam todos os


problemas.

Os anos ensinar-me-iam mais tarde - porventura não muito mais tarde -


que há crimes que nunca são resolvidos. Ainda não se sabe quem estava
por detrás do assassinato do general Prim, quem estava por detrás dos
cartuchos de dinamite colocados na caçadeira de Franco, quem
respirava na conspiração contra Kennedy. Tudo isto foi-me ensinado
pelos anos, de facto, mas há verdades que não precisamos que nos
sejam ensinadas. Este era um crime político e mais nada, um crime
político motivado simplesmente pelo dinheiro.

O meu interlocutor era um intermediário que iria ganhar uma fortuna


com aquela morte: não me disse quem estava por detrás, naturalmente,
mas era muito fácil adivinhar. Por detrás estavam os grandes
proprietários, os exploradores dos terrenos, os que mudam a face das
cidades com um livro de cheques e um sorriso.

Não me restou outro remédio senão aceitar, e não apenas pela


importância da coacção. Não me restou outro remédio porque a pessoa
com quem eu estava a falar não era um intermediário, mas uma
intermediaria, e as mulheres, quando ameaçam, são muito mais
perigosas e subtis do que os homens.

218
Além disso, era amante de um banqueiro.

Chamava-se Serena.

Era a mais bonita de todas as manteúdas da cidade, a mais esperta, a


mais ambiciosa. Para se fazer respeitar, organizava na sua casa da
rua Canuda uma tertúlia literária. Conhecia o castelhano, o catalão e
o francês: tanto se recordava de alguns versos de François Villon
como de frases de Rabelais, de uma citação de Ramon Llull como de
algumas palavras do Arcipreste de Hita. Tudo isto sabia ela fazer
acompanhar com uns decotes profundíssimos e uma pernas admiráveis que
tinha sempre a preocupação de insinuar, apesar do comprimento da
saia.

As manteúdas costumam ser sempre mais espertas do que os tipos que as


sustentam.

Soube que ela iria ganhar muitíssimo dinheiro pelo seu trabalho, que
era apenas o de assegurar a passagem do assassino, e que ainda por
cima guardava a fortuna que iria ser paga ao autor do crime. O único
que não ganhava nada era eu.

Bem, conservava a minha paz e evitava que O Outro me descobrisse.


Fazia muitos anos que o não via. Sem dúvida, estava no estrangeiro,
mas continuava a existir, existia ainda. O Outro era o único capaz de
acabar comigo.

De modo que aceitei.

Mas muitos meses se passaram e o assassino não chegou. Serena não


voltou a falar comigo, talvez por ser cada vez mais influente e rica.
Mas ela e eu partilhávamos um segredo que podia destruir-nos, por
isso fui vê-la.

Apesar do meu trabalho como redactor no Diário de Barcelona, ainda


ignorava muitas coisas sobre aquela mulher, e se as ignorava era
porque o autêntico dinheiro é discreto, é um valor que não precisa de
palavras. Apenas sabia que Serena cortara com o banqueiro, seu
protector, e que agora não era amante de ninguém. Continuava a dar
festas nos seus salões, mas dos negócios tratava ela sozinha.

Com que dinheiro?

219
E o que iria acontecer comigo e com o trabalho de que me encarregara?
Era possível que aquilo que nós dois sabíamos ficasse em suspenso?

Perguntei-lhe.

E recebi uma gargalhada.

- Não se preocupe - respondeu -, não era uma brincadeira.

- Mas então o que é que...?

- Não sei exactamente quem é o senhor, mas inspira-me um certo medo.


As mulheres sempre têm algum medo dos homens que não podem
conquistar. Isto, se você for um homem, é claro...

Estremeci.

Era muito mais esperta do que parecia.

- Esqueça que fui vê-lo um dia - disse Serena com um novo sorriso -
e, sobretudo, esqueça a nossa conversa. Como vê, Cerda ainda está
vivo, e dou-lhe a minha palavra de que não corre perigo. Tudo o que
eu lhe disse já não tem a mais pequena importância.

- Mas naquela altura tinha - sussurrei.

- É claro que tinha. O plano desse arrivista ia ser mesmo aceite e


representava um autêntico perigo para os interesses da cidade.

- Os interesses de alguns proprietários - especifiquei.

- Oh, é claro que sim... E haverá algo de mais legítimo que os


interesses? O que é mais legítimo? As bandeiras? Muitos proprietários
ficaram assustados porque se o plano de Cerda fosse respeitado, os
seus terrenos iriam valer muito menos do que eles julgavam. E você
pode imaginar que alguns, pensando nas novas edificações, já tinham
perdido créditos.

- Conheço os negócios há já demasiados anos - deixei escapar. -


Sim... Talvez anos demais.

- Então poderá perceber que um grupo de pessoas ficasse assustado -


especificou -, entre eles o distinto cavalheiro que me partilhava com
a mulher. Por sinal, nem imagina como era aborrecido na cama e quanta
fantasia tinha eu de adicionar para que qualquer coisa valesse a
pena. Fui eu quem lhe disse que iria eliminar o problema, dando para
isso os passos necessários e salvaguardando o bom-nome dele.
Encarregar-me-ia de tudo, mas isso significava colocar nas minhas
mãos uma bela soma de dinheiro.
220
Ou três belas somas: a que lhe pagaria a si (ainda que não pensasse
pagar-lhe nada), a que eu ganharia pelo meu trabalho de intermediária
e a que deveria entregar ao assassino. Por sinal, depois de tanto
tempo sem falar consigo, pensei que fosse perceber uma coisa.

- Qual?

- O assassino não existia.

Apesar da minha experiência, fiquei sem respiração. Era a primeira


vez que uma mulher me dava lições.

- Mas, então... - sussurrei.

- Então, então... É no fundo muito simples, e espanta-me que não


tenha percebido antes. Meu caro, talvez seja preciso aguentar muitos
homens em cima para perceber o valor do dinheiro, e eu tenho
aguentado alguns. Não me restava qualquer dúvida de que o dinheiro se
iria impor ao plano de Cerda e que no fim todos os terrenos seriam
edificados intensivamente. Assim aconteceu. E o maçador que está a
financiar tudo ficou a ganhar, mas nunca lhe devolvi as quantias que
me entregou. Com elas, tenho feito investimentos.

- Onde?

- Na promotora para o Ensanche, que possui o próprio Cerda - disse.

E ofereceu-me outro encantador sorriso.

- O melhor desta cidade, meu caro - acrescentou -, é que aqui, para


se fazer negócios, não é preciso matar ninguém.

221
.31.

LAMENTO O MORTO

O cadáver estava na morgue, e nem sequer fora coberto com um lençol.


A médica forense, que era curiosamente uma mulher jovem e bonita,
cheia de vida, observou-o com atenção. Havia sinais naquele corpo que
não percebia de todo, embora pensasse que iria perceber depois da
autópsia.

O pai do morto estava também perante os restos, mas apoiado num dos
enfermeiros. Não se mantinha em pé. Não era apenas idoso: a visão do
cadáver destroçara-o; já nem sequer confiava nas suas lembranças, nas
suas palavras ou na mente, que de repente ficara coberta de brumas.
Por isso viera com o seu advogado, no caso de haver perguntas.

O advogado era Marcos Solana.

De olhos entreabertos, este lembrava-se da noite em que ali mesmo


velara o corpo de Guillermito Clave, um corpo em que não parecia
restar nem uma só gota de sangue. Mas agora, apesar do pouco tempo
decorrido, achava tudo diferente. No Clínico estavam a fazer obras,
cada vez havia menos cantinhos de pedra sombria e tinham desaparecido
as velhas fotografias das paredes, as fotografias dos médicos mortos.

Foi a jovem médica forense quem murmurou:

- Não percebo isto das marcas na pele, que forçosamente devem ter
algum significado. Parecem de um ritual. Desculpe, mas o senhor sabe
se o seu filho tinha, quando vivo, este género de tatuagens? Ou se os
teria desenhado por algum motivo?

222
- Não são tatuagens - contestou Solana no lugar do seu cliente - e de
certeza que essas marcas foram causadas após a morte.

A jovem médica olhou para ele com uma expressão gelada.

- Perguntei ao pai.

- Desculpe - murmurou Solana.

- Não - disse o idoso antes de se vir abaixo -, o meu filho não tinha
no corpo nenhuma marca.

E foi disso que se lembrou Marcos Solana no seu gabinete, em frente


às janelas de onde se divisava a parte velha da cidade. Foi isso que
fez com que ele perguntasse a Marta Vives:

- Marta, tu acreditas na eternidade?

- A eternidade pode estar nas bibliotecas - disse - porque sempre


haverá alguém que as consultará e que resgatará um nome do
esquecimento. Mas as bibliotecas não irão ser eternas, nem os homens.
Pelo contrário, talvez a eternidade esteja nos nossos genes:
passamo--los de uma geração para outra e formam o seio da nossa vida.
Sim, talvez sejam os genes a eternidade: se um dia os seres humanos
desaparecerem, dos nossos genes poderá sair alguma coisa nova, mas
eles continuarão a viver.

- Sem memória do passado...

- Sem memória do passado - respondeu Marta.

- Talvez por isso baseemos a eternidade em Deus, que tem memória. Tu


acreditas em Deus, Marta?

- Se não houvesse mais nada para além disto, acharia toda a riqueza
da vida grotesca. Talvez seja uma das razões possíveis.

- E no diabo? Acreditas no diabo?

Do lado do mar, a cidade ia ficando escura. Aproximava-se uma


tormenta de levante que em breve iria fazer brilhar as torres da
catedral, ali perto, cobriria a Via Layetana com reflexos e faria com
que nas ruas estreitas fosse ouvido apenas o barulho das gotas.

Marta Vives não ficou surpreendida com a pergunta.

Dava a impressão de que andava a pensar nela há muito tempo.

- Nos livros santos fala-se muito de Deus, mas não esclarecem quem é
- murmurou -, e ainda menos quem é o diabo, que é referido muito
marginalmente e com personalidades diferentes.
223
A Bíblia não diz que o diabo se rebelou contra Deus: diz apenas que
tentou. Se dizem que Deus está em todo o lado, também o diabo o
deveria estar mas não consigo discernir mais do que isto. O que eu
acho, curiosamente, é que o diabo é mais humano que Deus. E, a
seguir, balbuciou:

- Porque é que perguntas?

- Um dos meus clientes perdeu o filho. Foi assassinado, um facto que


mereceu quinze linhas dos jornais; nas grandes cidades há
assassinatos quase todos os dias. Mas nesta ocasião havia umas marcas
estranhas no cadáver: tudo leva a pensar num ritual.

- Diabólico...?

- É isso mesmo que eu me pergunto, embora também me pergunte por que


chamamos de diabólico tudo o que é estranho. Talvez precisemos de
personificar o mal. Se estivesse agora aqui o padre Olavide,
perguntava-lhe.

- Ele nunca se gaba, mas é doutor por várias universidades - elogiou


Marta.

- Porque viveu em muitos lugares. Mas depois daquilo que vi hoje, não
sei o que pensar: havia algarismos marcados a punção no cadáver. Algo
assim como uma cabala. Custa-me acreditar que neste século do
progresso e do materialismo constantes ainda existam crenças que vêm
do fundo do tempo. Ou talvez seja lógico, afinal: à medida que a
técnica e o materialismo vão avançando, percebemos que há alguma
coisa que deixámos para trás sem que o tenhamos comprendido. Que
deixámos para trás coisas que não vimos, mas que nos marcam. Isto é,
que existe o fundo do tempo.

Captou nos olhos dela um brilho de inteligência; Marta interessava-se


por aquilo, mas não apenas por aquilo: também a arqueologia, o
urbanismo, a história, o direito... Marta Vives - pensou com amargura
o advogado - não era como a sua mulher, que apenas se interessava por
dinheiro, por luxo e pelos programas do Liceo. Ao lado dela, Marcos
Solana percebia que a sua existência fora absolutamente inútil, que
era baseada apenas num Deve e num Haver, mas que quanto estava com
Marta, pelo contrário, acreditava que ávida voltava ater sentido.

224
Não apenas por causa das pernas de Marta. Pelos seus lábios, o corpo
flexível e duro que ocultava sob os vestidos baratos.

Em Marta amava a curiosidade pela vida, a ânsia de perceber tudo,


aquela espécie de plenitude que ele sabia ver até mesmo no piscar dos

olhos dela.

No entanto, tentou afastar de si esses pensamentos. Nunca lhe daria


razões para ela, simples estagiária, julgar que ele pretendia abusar
do poder que tinha.

225
.32.

O CARRASCO DE BARCELONA

Como é natural, tive de deixar o El Brusi, onde já adquirira uma


certa notoriedade, e mergulhei num outro mundo que até então não fora
o meu. A necessidade obrigava-me a isso. Cheguei mesmo a pensar em
mudar de cidade, partir para outro lugar grande e onde ninguém me
conhecesse, por exemplo Madrid, mas Barcelona era a minha cidade e
sentia-me ligado a ela pela força dos meus próprios segredos. Ainda
que o meu rosto me denunciasse, decidi que mudando completamente de
ambiente passaria despercebido e ninguém andaria à minha procura. E,
portanto, da rua Fernando, onde privara com os burgueses, fui morar
para a Brecha de San Pablo, onde privei com os párias.

Na realidade, bastava cruzar as Ramblas e mergulhar nas ruas do


Raval, que eu tão bem conhecia, pois a distância física entre ambos
os mundos era mínima; mas com aquela mudança parecia que tinha ido
morar para outro planeta.

O Ensanche ia crescendo para acolher todos os barceloneses que até


então haviam vivido ao pé das muralhas. Se em 1818, depois das
«guerras do francês», Barcelona tinha apenas 83 mil habitantes, em
1821, devido à paz e à riqueza, eram já 140 mil, e 187 mil em 1850. O
perímetro amuralhado de 1719, após a ocupação por parte de Filipe V,
era de 6051 metros, e tinha de acolher 860 habitantes por hectare, ou
seja, que cada pessoa dispunha apenas de 11,44 metros, a quarta parte
do espaço necessário para uma vida relativamente digna. O índice de
mortalidade era superior ao de Paris e até ao da miserável Londres da
época, e a esperança de vida dos barceloneses fora fixada nos trinta
e seis anos para um rico e vinte e três para um jornaleiro.

226
Quando penso nisto, ainda me parece que não pode ser verdade. Mas eu
vivi aquilo.

A densidade humana, que atingia os limites das piores cidades


asiáticas, estava marcada não apenas pelo escasso perímetro de
Barcelona, como também pelo uso do mesmo. Dentro do recinto
amuralhado havia quarenta conventos, vinte e sete igrejas e outros
tantos edifícios públicos, onze hospitais e casas de beneficência e
sete quartéis. Uma vez que já não restava o menor espaço para
construir casas, a cidade fez os possíveis para continuar a construir
no vazio. Quando os pátios e os jardins das casas já tinham sido
ocupados, quando os quartos já não podiam ser mais estreitos,
começaram a ser feitos arcos nas ruas para edificar por cima delas.
Algumas ruas barcelonesas converteram-se em túneis.

Por isso não é estranho que, mudando simplesmente de bairro, me


introduzisse num mundo diferente onde ninguém me iria reconhecer.
Além disso, lá não seria preciso nenhum documento: qualquer nome,
qualquer alcunha, servia.

O meu refúgio foi, temporariamente, o Bar dei Centro.

O Bar dei Centro foi, nas palavras de um historiador, «o último


reduto da boémia barcelonesa triste e amarga». Estava situado,
curiosamente, perto do lugar de onde eu fugia, mas insisto em que era
outro mundo. Um rio de pobreza, de mistério, de receio e de perigo
separava as duas cidades.

O local ficava na Rambla dei Centro, número 12, entre as ruas Unión e
San Pablo, quase ao lado da entrada por onde os artistas chegavam até
ao palco do Liceo. Talvez por isso, todo o recinto emanava um aroma
apaixonadamente literato e despreocupado; imagino que por esse motivo
ninguém estava preocupado com o conforto.

As mesas e as cadeiras de madeira estavam coxas; os mármores e os


espelhos, gloriosamente sujos; as garrafas das estantes, cobertas de
pó. Por detrás do balcão havia uma sala traseira de reduzidas
dimensões onde estava a mesa de jogo. À mesa, na qual circulavam
pequenas fortunas, chamavam «a masseira».

227
O dono chamava-se Esteve.

Era doido por mulheres.

Eu não.

Mas acabámos por nos tornar amigos.

Eu conhecia muito bem o bairro, que fora na realidade o meu reino.


Mas desde os tempos de «la carassa» tinha mudado muito.

Não sei se para bem.

Continuava a ser um lugar de aglomeração onde as normas de Cerda e


seu Ensanche nunca seriam aplicadas. Abundavam aí os bares
miseráveis, os quartos como celas e os prostíbulos baratos, como nos
longínquos tempos da minha mãe. Com o passar dos anos, houve alguém
que anunciou as especialidades ali praticadas. Uma chamava-se «La
mamada».

Com a industrialização e o proletariado começaram a proliferar os


lugares de piolhos veteranos, esteira podre e ratazanas de boa
família vacinadas contra as mordidelas dos homens. Não parecia haver
esperança ali, naquele lugar aonde acabara por voltar depois de
tantos anos.

Algumas coisas tinham mudado para pior na época do meu regresso. Por
exemplo a prisão, que antes me parecera eterna, mas que vi ser
destruída em 1936 pelos revolucionários barceloneses. Junto da fresta
de San Pablo, no Pátio de los Cordeleros, reunia-se a miséria mais
credenciada da Europa.

A enorme prisão parecia entupir as ruas. Acabava-se sempre por a


encontrar.

Eu assistira a muitas execuções públicas, entre elas a da minha


própria mãe, mas foi ali, junto do Pátio de los Cordeleros, que
ocorreram as últimas. E terá sido por isso que o local adquiriu uma
fama entre fascinante e sinistra. As pessoas acorriam de todos os
cantos da cidade para testemunhar cada actuação do carrasco. Era o
centro da morte.

Os pais levavam ali os seus filhos para que eles aprendessem o que
era a vida, e vi mais de uma criança levar uma bofetada perante o
cadafalso, para que nunca esquecesse aonde conduzia o crime.

228
Algumas pessoas sensíveis desmaiavam, já outras sofriam uma espécie
de frenesim erótico e entravam numa forma de êxtase. Apesar de ainda
ser cedo, as casas de mulheres que havia ali por perto ficavam cheias
de clientes.

Naquele lugar, que mais tarde Barcelona iria esquecer, e onde agora
existe uma praça nua (perto da qual houve uns banhos públicos e um
salão de baile barato de onde as raparigas saíam grávidas já de seis
meses), tinham decorrido cenas horríveis. Alguém, nos cafezinhos da
zona, falava de uma execução pública e múltipla por causa de um crime
cometido em Vilafranca del Panadés. Vários camponeses, entre os quais
uma mulher, tinham morto um padre para o roubar. Os homens condenados
à morte foram transferidos para Barcelona, para o Pátio de los
Cordeleros, de onde saíram rumo ao patíbulo para morrerem
serenamente. Mas a mulher, uma analfabeta aterrorizada e gorda, foi
arrastada literalmente até ao garrote enquanto berrava: «Não me
matem! Não me matem!» E urrou, dizem os amigos, até ao último
momento. Por vezes saltava sangue - asseguravam os especialistas - da
boca dos réus. Depois, as pessoas iam comer o pequeno--almoço, as
tabernas enchiam, a luz oblíqua do novo dia resvalava pelas ruas e
entrava nos olhos das mulheres como se fosse um dos seus segredos.

Era um lugar carregado de eternidade, que ainda por cima coincidia


com a linha das últimas muralhas; não é preciso dizer que era uma
paragem que me repelia e que, ao mesmo tempo, amava. Para lá da
prisão ficavam as ruas dos proletários, as casas de andares com uma
só retrete na escada, as oficinas onde se afogavam os operários e os
cafés onde eram incubadas todas as revoluções de Barcelona. De vez em
quando, a cavalaria penetrava nessas ruas, os moradores disparavam
dos telhados fazendo pontaria à tropa, um par de canhões troava nas
esquinas e no dia seguinte eram retirados os cadáveres dos operários
e algumas mulheres sem idade vestiam-se de negro.

Como séculos antes, aquele era também um local de boémia, quer dizer,
de lágrimas secretas abafadas por gargalhadas. Continuava a haver os
barracões de feira, as barracas de livros velhos, os cafés dançantes
e os andares onde eram alugados quartos a casais.

229
Nos passeios, palpitava uma vida sincera, quente e viscosa. Também a
actividade sexual mais barata de Barcelona instalara ali o seu mundo
de sonhos e miasmas. A única novidade em relação aos velhos tempos
eram os bares onde os anarquistas sonhavam com a revolução e
preparavam os seus atentados. Num desses bares, muito próximo de onde
eu vivia, os libertários confeccionavam bombas. Curiosamente o bar
chamava-se La Tranquilidad.

Eu quase não necessitava de dinheiro para viver: pouco comia, ainda


que de vez em quando os vagabundos que dormiam na rua me
proporcionassem involuntariamente a minha indispensável dose de
sangue. No entanto, sofria outras limitações que marcavam a minha
existência: não podia viver na promiscuidade, não podia resistir à
luz directa, não admitia a brutalidade da ignorância. Por isso, tendo
decidido ocultar-me naquele bairro durante vários anos, precisava de
encontrar alguma coisa diferente. E encontrei no dia em que conheci

Nicomedes Méndez.

Nicomedes Méndez era o carrasco de Barcelona.

Como todos os carrascos, tinha uma fama sinistra. Além disso,


aperfeiçoara o garrote vil.

Mas Méndez, como se desejasse viver longe daquele ambiente e que


ninguém o conhecesse, morava longe dali, no belo bairro de La Salud,
então formado por pequenas hortas e casas isoladas cujos donos
criavam coelhos e falavam, não das suas mulheres, mas do instinto
caçador dos seus cães. Chegar até à Brecha de Sant Pau, onde eu
morava, significava para o carrasco atravessar toda a cidade, mas
entre as suas obrigações incluíam-se as visitas à prisão, sobretudo
se tinha de dar uma vista de olhos a um condenado à morte. «Matar é
mais difícil do que parece - dizia. - É uma arte.»

Quando fazia as suas rondas de trabalho, ninguém reparava nele. O


carrasco de Barcelona era pequeno, de aparência frágil, e quando ia a
um café era um cliente amável e com aspecto de pequeno arrendatário.
De facto, ninguém reparava nele ou o reconhecia, porque nas execuções
estava de chapéu e além disso era visto de longe.

230
Eu estava num café da Ronda, a falar de várias execuções que tinha
visto, algumas delas tão delicadas como ir arrancando os membros do
condenado com tenazes. Então, o carrasco aproximou-se e pediu licença
para se sentar. Parecia enfeitiçado pelo que acabara de ouvir.
Nicomedes Méndez olhava-me nos olhos e bebia materialmente as minhas
palavras.

Adivinhou que havia algo de especial na minha maneira de contar


aqueles horrores.

- Dá a impressão que viu mesmo isso tudo - disse de repente.

- É claro que não - exclamei percebendo que cometera um erro -, como


deve imaginar é impossível ter lá estado, com a minha idade.

- É claro, é claro... O senhor não pode ter mais de quarenta anos...


Mas fala com um tal realismo que parece uma testemunha directa.

- Não faça caso. São histórias que li; porque, e isto é mesmo
verdade, sou um rato de biblioteca que acumula a experiência de
muitos homens.

- Pois então oriente-me, porque eu não me lembro que haja livros


sobre o tema, pelo menos nesta cidade.

- Talvez eu tenha alguma coisa nalguma edição antiga. Está


interessado no tema?

- Em certo sentido, sim, ainda que apenas por motivos...


profissionais. Eu tento fazer bem o meu trabalho, embora as pessoas
não façam a mais pequena ideia. Ouça, e o senhor, o que faz?

- Neste momento, nada. Tenho ainda algumas poupanças e é com elas que
vou vivendo.

- Está à procura de emprego?

- Não sei o que dizer-lhe... Gostaria de trabalhar, mas de


preferência à noite.

Os seus olhos brilharam estranhamente. Nunca os esquecerei. Pôs uma


mão por cima de uma das minhas, numa tentativa de ser afável, embora
me parecesse fria e áspera, e sem deixar de olhar-me nos olhos
perguntou-me directamente:

- Eu sou o carrasco de Barcelona. Quer ajudar-me a executar um homem?

Olhei espantado para Nicomedes Méndez. Percebi, como se ainda fosse


preciso, que era um homem de aparência frágil e modos suaves, bem-
educado, mas com uma grande força nas mãos e um estranho fulgor nos
olhos.
231
Sentia-me incómodo junto dele, apesar da minha experiência ser muito
superior à dele, muito superior à de qualquer outro ser vivo. Mas ao
mesmo tempo havia naquele homem algo que me atraía de uma forma
irresistível, que quase me fascinava. O carrasco sussurrou:

- Não gosto de chamar a atenção, nem de ser reconhecido pelas


pessoas, e é por isso que frequento pouco os cafés. Também entro na
prisão da forma mais discreta possível, porque a presença do carrasco
é sempre reconhecida e isso horroriza os condenados à morte. Nem
sequer os funcionários gostam de me ver. Mas é o meu dever, e cumpro-
o escrupulosamente, evitando qualquer sofrimento inútil.

- Eu sei - murmurei. - Eu antigamente trabalhava num... Bom, o que eu


queria dizer é que tenho muitos amigos nos jornais, e eles falavam-me
do carrasco de Barcelona.

- Outra coisa que devo dizer-lhe, para que aprecie o trabalho que lhe
estou a oferecer, é que sou o homem que melhor vive em Espanha.

- Está a brincar?

- Certamente que não. Este lugar de ajudante que lhe estou a oferecer
é uma pechincha, e o meu emprego fixo é uma pechincha e meia. Em
França, como demonstração de respeito, chamam ao verdugo «executor
das grandes obras». Recebo o ordenado todos os meses e não tenho
absolutamente nenhum trabalho para fazer. Tenho de ir à prisão de vez
em quando, porque o meu espírito profissional me obriga a dar uma
olhadela nos condenados ao patíbulo. Todo o homem, conforme a medida
do seu pescoço, pede uma morte diferente, uma morte à medida, digamos
assim, e a minha obrigação é dar-lha... Concebi um novo sistema de
argola que torna o garrote muito mais eficaz, rápido e confortável.

- Confortável...?

- Sim, eu explico. Isto tudo porque eu sou um carrasco que se


preocupa com os outros e que faz com que a morte no garrote dure
apenas o estritamente necessário: não julgue que toda a gente o
consegue, porque se colocarmos mal a argola asfixiamos o réu aos
poucos. Houve falhas inenarráveis nos patíbulos de Barcelona.

232
E dando-me afavelmente um pequeno toque, acrescentou:

- Repare: todos os condenados a quem até hoje tomei as medidas a olho


foram indultados no último minuto, de modo que, apesar da minha
sinistra fama, quase não matei um réu. Estamos em 1892, e em
Barcelona não foi executado ninguém desde 1875. De maneira que bem
pode ver: paz e tranquilidade para o espírito. Eu dantes tinha um
ajudante, já que a execução não pode ser feita com a rapidez
necessária apenas por um homem, mas morreu de uma apoplexia por estar
demasiado gordo.

- E agora... - sussurrei - você precisa de outro ajudante.

- Sim - respondeu-me o carrasco -, porque parece que depois de tanto


descanso se aproxima uma grande época cheia de normalidade cidadã.
Estão em curso diversos processos que bom, bom... Irá haver trabalho
no patíbulo, e preciso de uma pessoa que não fique acanhada nos
momentos decisivos, porque a responsabilidade é muito grande.
Confesso que há algo no senhor que me chamou a atenção e que irei
resumir numa frase sem sentido: dá-me a impressão que está para além
da morte. Não posso dizer-lhe se é a cor da sua pele, tão branco, ou
a luz inquietante dos seus olhos. Mas eu diria que é o seu sorriso...
Não fique ofendido, meu caro, mas tem alguma coisa que faz gelar o
sangue.

- Não fiquei ofendido.

Sabia que as pessoas reparavam nisso.

- Vamos ter de tratar de algumas pequenas questões para o emprego -


disse Nicomedes Méndez - porque em grande parte depende do Ministério
de Graça e Justiça. Em primeiro lugar, como se chama?

- Blay - disse pronunciando o primeiro nome que me ocorreu nesse


instante.

- Tem papéis?

- Receio que não. Como sabe, as pessoas que se reúnem nestes cafés
não dão muita importância aos papéis.

- É verdade: apenas os ricos tiram a cédula pessoal, pela qual é


preciso pagar dinheiro. Enfim, no fundo acaba por ser uma espécie de
imposto... Mas não se preocupe. Eu sou algo parecido a «um
funcionário destacado» e posso responder por si se for preciso.
Suponho que estará interessado em saber quem temos de executar, pois
a sentença já foi confirmada.

233
- Imagino que Isidro Mompart - respondi. - Leio os jornais e ouço o
que as pessoas dizem nos cafés.

- Efectivamente - murmurou o carrasco com os olhos fechados. - Esse


não vai ser indultado, de modo que terei de o matar. Acabou de fazer
vinte e dois anos, mas tem mau instinto, muito mau instinto, nunca
será redimido. As pessoas pensam a mesma coisa: morrendo o perigoso,
morreu o perigo. Já deve saber o que fez Mompart.

Anuí.

- Violou e matou uma mulher indefesa - esclareceu o carrasco, embora


eu não precisasse de ouvir isso novamente -, o que, só por si, já o
torna digno de conhecer o garrote vil. Mas Mompart não foi apenas
condenado por essa razão: também foi condenado por roubar uma fábrica
perto da estrada de Mataró e por, no caminho, ter morto uma criança
de cinco anos e uma rapariga que trabalhava como criada. Logo no
início do processo vi tudo claramente: foi isolado e escreveram na
porta da sua cela as fatídicas letras PFM, que significam «Petição
Fiscal Morte». Mompart passeia sozinho no pátio e está proibido de
falar com quem quer que seja. Num dos seus passeios, pus-me a
observá-lo, digamos que por instinto profissional.

- O senhor é um apaixonado pelo seu ofício - disse, sem qualquer


intenção de o elogiar.

- Não, apaixonado não, apenas tento fazer bem as coisas. Um homem


pode ser executado, mas não necessariamente maltratado. Já lhe disse
que inventei um sistema para o garrote ser mais rápido?

- Sim, disse-me, mas talvez eu não conheça o método.

- Ora, é muito simples. O garrote consta de um poste vertical um


tanto grosso, porque tem de suportar muita pressão, e uma cadeira,
uma cadeira qualquer que por vezes vem da barbearia da prisão. Ou às
vezes da própria capela, o que a mim me parece uma piada de mau
gosto. Nesse poste é ajustado, por trás, «o aparelho», exactamente à
altura das vértebras cervicais do condenado: sem brincadeiras, porque
a disposição dessas vértebras, meu amigo, é muito importante. E em
que consiste o «aparelho»? Eh? Em que consiste? - Nicomedes Méndez
levantou um dedo, como o professor que dá uma lição. - Ora, a base é
uma argola dianteira que é fechada à volta do pescoço do aspirante a
defunto.

234
Esta argola está presa a umas guias que a puxam para trás, fazendo
com que o pescoço seja comprimido. E como é que elas puxam para trás?
Através de um parafuso-sem-fim, de fácil manipulação, que está por
trás do poste, ou seja, o réu não vê nada. E o carrasco põe-no a
funcionar dando voltas a uma grande roda, porque se a roda fosse
pequena o suplício não acabaria nunca. Mas porque falo eu de dar
voltas, no plural? Na realidade, basta menos de uma, meu distinto
amigo, ou por vezes até um simples quarto de volta, dependendo da
arte do carrasco. O que acontece é que há carrascos que não têm arte.

Fingi surpresa.

Eu vira demasiados verdugos sem arte.

- Não me diga - sussurrei.

- Digo, sim: não têm arte. Porque a argola aperta o pescoço do


desconhecido contra o poste por trás dele. E que acontece? É
asfixiado, pois claro. Valente maneira de morrer. Foi para isso que
inventaram algo que fosse melhor que a forca? Não, meu amigo. Daí que
eu tenha inventado uma peça posterior que está presa ao engenho e que
tem de encaixar muito bem na nuca do réu, de modo a que a argola
empurre o pescoço não contra o poste mas contra a peça, que num
piscar de olhos se encarrega de quebrar as vértebras. A dor sentida
deve ser uma questão de décimas de segundo, digo eu. Mas há sempre
uma réstea de vida, sempre uma réstea de vida.

Estremeci.

- Como sabe?

- Porque o coração continua a bater durante um bocado. Foram os


médicos que me disseram, pois são eles que têm de certificar a morte.
E também me falaram de carrascos sem amor à profissão que demoraram
quase meia hora a matar um homem. É preciso ser um grande filho da
puta.

Falávamos em voz baixa, sem chamar a atenção de ninguém, vendo


através dos vidros embaciados a vida que passava pelas ruelas, a vida
eternamente a partir. Embora eu não soubesse o que é isso da vida a
partir. Eu apenas sabia o que era o partir dos homens e das mulheres
que conhecera. Os soldados voltavam para o quartel de Atarazanas
arrastando os pés, os malabaristas de vermelhinha dirigiam-se para a
feira da ladra, os casais de proletários chegavam abraçados ao porto
jurando-se uma felicidade de algumas moedas por mês.

235
Também havia alguns mariconços desesperados que a essa hora se
dirigiam para vários lugares da rua de San Pablo, na esperança de que
alguém descobrisse que tinham coração de mulher solitária. Aquela
parte de Barcelona era um grito, uma canção, uma lágrima, era a
grande mentira onde repousam as verdades da rua. Eu sabia então que
sempre iria amar a rua, que precisava da sua gala de lona, da virtude
vendida cada noite e da sua gargalhada de defuntos.

Surpreendia-me que durante algum tempo eu só tivesse frequentado o


Ensanche em crescimento, sem precisar de mais nada, convertendo-me em
redactor de um jornal respeitável e em defensor dos interesses da
parte alta da cidade. Foi talvez a necessidade de voltar às velhas
ruas que me motivou, mais do que o espírito de defesa.

Percebi que, uma vez que precisava de um trabalho, o que Nicomedes


Méndez me estava a oferecer significava a entrada num mundo
fascinante, ainda que fosse um mundo de sombras.

- De certeza que precisa? - perguntei. - De certeza que vai haver


execução?

- Mas é claro que sim. Há já algum tempo que Mompart foi condenado na
rua de San Honorato, na Audiência, e de certeza que o rei vai recusar
o último recurso.

- Onde vai ficar instalado o patíbulo?

- Junto do Pátio de los Cordeleros, naturalmente. É um local central,


bem custodiado e com excelentes condições sanitárias. Esta cidade nem
sempre contou com sítios assim, tão bem preparados para um trabalho
decente. Antigamente, muitas execuções eram feitas na... na...

- Na Praça del Rey - interrompi-o. - A prisão ocupava uma parte do


antigo palácio.

Nicomedes Méndez olhou para mim com suspicácia.

- Isso não é qualquer um que sabe - murmurou. - Ninguém lê. E as


lembranças das pessoas não vão assim tão longe.

- Con... Contaram-me.

236
- Já chegaram a executar pessoas no Llano de la Boquería. Os meus
olhos ficaram húmidos por momentos. Murmurei:

- Também me contaram isso.

- A lei tem de ser inflexível - murmurou o verdugo com autêntico


orgulho profissional. - Também houve execuções na Cruz Cubierta, algo
que ainda menos pessoas sabem. Eu sei o número do último que lá foi
executado.

- Eu também. Chamava-se José Escola - disse eu, rapidamente.

- Porra... E sabes qual era a alcunha dele?

- Era «Sang i Fetge».

Podia-se ler a admiração de Nicomedes Méndez na sua cara. De certeza


que nunca tinha encontrado um tipo como eu. Quase como que extasiado,
passou-me a mão pelas costas.

- Tu vais ser o melhor ajudante que eu podia imaginar - disse -, e eu


sou o único homem que pode levar-te em linha recta até ao ninho de
ratos da prisão. Quero que esta mesma noite conheças o condenado à
morte.

E acrescentou:

- Eu sei que antes da execução o réu é visitado por um médico.


Contaram-me que o último que viu o carrasco estendeu-lhe a mão e
cumprimentou-o, dizendo:

- Como está, colega?

Foi assim, pela mão de Nicomedes Méndez, que penetrei de soslaio nos
meandros da morte. A primeira coisa que notei foi que, face à
iminência de uma execução, as pessoas tinham um enorme desejo de
conhecer o carrasco de Barcelona. Como seria a sua cara? Teria ainda
o aspecto de um ser humano? Mas ninguém conhecia realmente Nicomedes
Méndez, excepto o funcionário do Tesouro Público que lhe pagava o
ordenado. Esta curiosidade popular foi a razão para um jornal, El
Noticie.ro Universal, desejando satisfazer os seus leitores, publicar
um desenho do seu rosto. Mas o retratista enganou-se. Foi um erro
imperdoável que ficou imortalizado nos anais da imprensa.

237
Em vez da cara do verdugo, fez com que surgisse... a do famoso
romancista Narcís Oller!. que ainda por cima acabara de ganhar os
Jogos Florais da cidade. As maldições de Oller e as suas invocações a
Deus Todo-Poderoso, Senhor dos Exércitos, encheram durante semanas os
cafés, as mesas familiares, as casas de empréstimos e os bancos de
uma cidade tão ilustre como Barcelona.

Todavia, devo insistir em que Nicomedes Méndez me permitia meter-me


nos meandros da morte. Vi através do visor da cela (o carrasco nunca
se exibia perante o condenado) a cara de Isidro Mompart, que
reflectia três coisas: estupidez, esperança e medo. Mompart não
acreditava em nada excepto na própria vida e no seu próprio corpo,
onde terminavam todas as dimensões, de modo que queria viver fosse
como fosse e pelo maior tempo possível. Mas fiquei impressionado com
as palavras do carrasco:

- Tem um pescoço forte. Vai ser necessário olear bem o parafuso, mas
ainda assim teremos de dar uma volta completa à roda.

Eu ajudei o carrasco naquela execução, e portanto conheço


perfeitamente os pormenores. Mompart foi o primeiro condenado a quem
anunciaram com tempo a sua execução. Noutros casos teriam dado ao réu
(talvez por humanidade) menos tempo para pensar no seu fim, mas a
Mompart foi-lhe acrescentado este sofrimento. De qualquer forma, devo
dizer que o consolaram e não o deixaram sozinho nem um instante.

Os Irmãos da Paz e da Caridade acompanhavam o réu nas suas últimas


horas, tentavam comprazê-lo nos seus últimos desejos e, se fosse
preciso, chamavam o notário para o condenado fazer testamento, no
caso de ele porventura ter alguma coisa a deixar para além das
próprias cinzas. Mas mesmo nesta última caridade, a sociedade estava
repleta de pormenores miseráveis: havia jornalistas que pagavam para
se infiltrar nos Irmãos, para assim poderem narrar directamente as
últimas horas do réu. Ou talvez, no fim de contas, tentassem cumprir
bem o seu dever? Não sei. O que eu posso dizer é que Isidro Mompart
foi rodeado, agoniado, e não o deixaram pensar nem sequer um
instante. Também lhe deram um último jantar bastante dispendioso,
acompanhado de café, licores, tabaco e outras substâncias que, a
longo prazo, são péssimas para a saúde.

238
Na cela não havia mais do que uma mesa e uma cadeira, e o réu
permaneceu sentado, como que ausente, pensando que a qualquer momento
chegaria o indulto.

Com efeito, a partir de Telégrafos foram ligando para Madrid durante


toda a noite. Primeiro a cada trinta minutos, depois a cada quarto de
hora e finalmente cada cinco minutos. A mensagem continha uma
pergunta apenas: «Há indulto?»

Não houve, como bem adivinhara o agudo instinto de Nicomedes Méndez.


Quando entraram os juízes, o médico forense, os funcionários de
serviço e o defensor, que regulamentarmente devia comparecer para
confirmar a identidade do réu, Mompart desmaiou. Tivemos de o
arrastar para o patíbulo, depois de o vestir com umas roupas
grotescas, como de palhaço, com as quais eram escarnecidos os últimos
restos da sua dignidade. E foi assim que chegou ao cadafalso,
enquanto na praça apenas se ouvia a multidão expectante e o som dos
pés de Mompart a serem arrastados pelos degraus. Nada mais. Nem o
rumor de um sopro de ar. Aquele silêncio era espectral e angustiante.

E de repente o clamor.

Os insultos pareciam chegar de todos os cantos da urbe:

- Toma lá, ó desgraçado!

- Para ver se aprendes, filho da puta!

O ar enchera-se de gritos, insultos, clamores de morte.

Fui eu, o imortal, a segurar o condenado ao poste enquanto Nicomedes


Mendes ajustava sabiamente a argola. Fui eu quem cobriu a cara do
sentenciado com o pano preto, para não se ver o último e horroroso
esgar. O carrasco não disse nem uma só palavra sobre a cerimónia, que
durou menos de um minuto. Tal como dissera, ele mataria um homem, mas
não o iria torturar mais do que o estritamente necessário.

Nicomedes Méndez deu uma volta completa à roda, exactamente como


previra ao ver o réu, e fê-lo com precisão de relojoeiro. Ouvi um
estertor, parecido com o de um balão a esvaziar, e logo a seguir o
estalar dos ossos. O pescoço deve ter ficado reduzido ao tamanho de
uma moeda: o último arquejo do réu fez com que o pano que lhe cobria
o rosto tremesse, mas a audiência pareceu não dar por isso.

239
Todo o corpo de Mompart parecia querer ser arremessado para a frente.
As mãos abriram-se e fecharam-se espasmodicamente duas vezes.

Menos de cinco segundos.

Percebi que o carrasco, apesar de ser um iniciado, não se enganara


era nada.

Até eu fizera tudo bem.

Mas ainda me faltava o mais desagradável. O carrasco era, no fundo,


um senhor. Eu era apenas um vil ajudante, por isso tinha de o fazer.

Ordenou-me secamente:

- Agora, enrola-lhe a língua.

240
.33.

O ENCONTRO

Marta Vives passava muitas vezes por ali.

Naquela que foi a prisão das grandes execuções existe agora uma
grande praça que nasceu nos dias revolucionários de 1936. Por então,
já não executavam ninguém no velho centro penitenciário, fuzilava-se
antes no castelo de Montjuíc ou aplicava-se o garrote vil num pátio
da prisão Modelo, de tal maneira que aquele era agora um lugar onde
apenas estavam reclusas as presas femininas. Era uma prisão de
mulheres. Mas para o povo as lembranças eram vívidas e estavam tão
cheias de amargura que foi decidido que do edifício não restasse nem
uma pedra.

Marta Vives, historiadora das ruas, percorria-as não apenas com os


pés, mas também com a memória. Quase em frente da prisão estivera o
circo Olímpia, porventura o maior da Europa, demolido para construir
umas casas de habitação sem alma e sem graça onde as crianças
conheciam a vida através da televisão, e os casais, com a monotonia
de quem recorta um cupão, fodiam nos sábados à noite. A menos de cem
metros estivera em funcionamento El Molino, o Bataclán, o café
Sevilla, o Teatro Español, o Nuevo, todo um mundo convertido agora em
terrenos para construção, hotéis para turistas de meia-leca ou
redutos para imigrantes. Marta teria sido capaz de escrever a
história de cada sítio, cada montra que já não existia e cada mulher
que ali pusera à venda a sua última esperança.

Tentava fazer todos os serviços externos do gabinete, que eram


muitos, para não ficar fechada com Marcos Solana.

241
Apesar de ser mais observadora do passado que do presente, percebera
que Solana gostava dela e que era infeliz com a mulher, uma mulher
cuja única preocupação eram as tertúlias com as amigas, as últimas
estreias, as séries de televisão e os desfiles de moda. Marcos Solana
trabalhava sem descanso e ganhava dinheiro, mas Marta sabia que, se
as coisas continuassem assim, ficaria completamente arruinado.

Sabia também que ele a admirava a ela, a mulher culta, silenciosa,


que sabia tudo e era capaz de fazer companhia apenas com um olhar.
Mas não queria provocar o momento, talvez inevitável, em que se
veriam rodeados de solidão, em que se sentiriam magoados pelos
pensamentos e ele aproximasse os lábios da sua boca.

Estes pensamentos perturbavam-na e davam ao seu rosto uma melancolia


que os homens achavam interessante, como que um olhar que acompanha
uma perversão. Havia também outros pensamentos mais intensos e que
chegavam a magoá-la. Por exemplo, o fundo secreto da sua família, que
estava submersa em histórias obscuras; Marta Vives sabia que nunca
poderia chegar a conhecê-las completamente, porque pareciam estarem
escritas unicamente nos cemitérios.

Foi por isso que decidiu voltar sozinha à casa da rua Baja de San
Pedro, onde talvez estivesse oculto o cadáver de um bispo e onde o
padre Olavide lhe pedira para nunca entrar sozinha. É possível que
nada encontrasse naquele lugar, como da primeira vez, mas a verdade é
que aquela casa a fascinava.

De modo que uma tarde, depois do último serviço, foi até lá. Já sabia
qual a melhor maneira de entrar, ou pelo menos tinha a primeira
experiência, pelo que mergulhou outra vez naquele mundo de sombras e
naquela escadaria que parecia não levar a parte nenhuma.

Subia trémula, sentindo o medo e a emoção de quem está a violar um


túmulo egípcio. A razão dizia-lhe que não iria encontrar nada, mas o
instinto fazia com que procurasse naquele mundo de sombras. No fim de
contas, aquele mundo era já o dela.

Distinguiu os restos dos velhos móveis: a mesa de mogno, os cadeirões


isabelinos, a cama catafalco e as cortinas, que não passavam já da
lembrança de uma teia de aranha.

Viu isso tudo.

242
E as manchas de humidade nas paredes.

E a noite que avançava como uma mão pelos pátios das traseiras.

Viu tudo isso, num instante.

E a cara.

Curiosamente, a cara não lhe inspirou qualquer medo. Devia tê-lo


sentido, mas teve a estranha sensação de que aquela cara vivia, que
sempre ali estivera, formando parte da casa. Marta levou
instintivamente a mão à boca, embora não soltasse nenhum grito.

Parecia não estar a ver-lhe o corpo. Apenas a cara. E foi aí que


percebeu, no meio do silêncio, que era a cara de um homem sem idade.

243
O rosto era muito branco, os lábios muito finos. Nada naquele homem
chamava poderosamente a atenção: apenas os olhos, uns olhos grandes e
imóveis onde parecia descansar o fundo do tempo, a chama da vida
eterna.

Lembrou-se do encontro com o padre Olavide.

Ao que parece, aquela casa nunca havia estado assim tão abandonada
como ela julgara.

A rapariga teve apenas palavras para titubear:

- Quem é o senhor...?

O corpo do homem estava imerso nas sombras e parecia fazer parte


delas, mas os olhos de Marta começavam a acostumar-se à penumbra, o
que lhe permitiu reparar que o desconhecido tinha uma estatura
normal, ombros para o largo, fortes, com um garbo que inclusive
ocultava uma certa elegância decadente.

Marta repetiu a pergunta, face ao silêncio.

- Quem é o senhor?

- Não se assuste.

- Não fiquei assustada.

- Digamos - explicou em voz muito baixa - que sou um investigador.

- De onde?

- Faço parte de um grupo de investigação clássica da Universidade de


Atenas.

- Acho estranho estar aqui, isto não tem nada que ver com o mundo
clássico. Quem é que me garante que isso é verdade?

O homem falou-lhe, então, em grego clássico, antigo, que Marta


compreendia perfeitamente. Sentiu uma espécie de vergonha quando
pensou que um conhecimento tão intenso nunca lhe iria servir para
ganhar a vida.

- Pode chamar-me Temple - disse a voz -, e não fique espantada por eu


aqui estar: Barcelona pertenceu muitos séculos ao mundo clássico,
sobretudo ao latino. Grécia e Roma eram as fontes da sabedoria.

Marta Vives ficou então assustada; não era medo que aquele homem a
atacasse, era o medo daquele que não compreende nada.
244
De repente, foi como se o tempo não tivesse sentido, como se nunca
tivesse existido. Tartamudeou:

- O que está a investigar nesta casa?

- A mesma coisa que você, suponho: o seu passado. As velhas casas,


como esta, estão cheias de segredos e de lembranças dos mortos. Diria
mesmo que estão cheias de olhos que nos observam. Mas não ligue. Se
eu estou a dizer-lhe isto tudo é porque suspeito que você e eu, no
fundo, pensamos da mesma forma e é por isso que aqui estamos.

O homem chegou-se mais a ela e saiu definitivamente das sombras: de


facto, parecia não ter idade. A sua pele era muito branca, as suas
mãos muito finas, e a única coisa que assustava - voltou a pensar
Marta - eram os seus olhos.

- Reconheço que entrei clandestinamente - sussurrou ela - é melhor


ir embora.

Temple, se era esse o nome dele, sorriu.

Tinha um sorriso que queria ser cordial, mas que era de repente tão
inquietante como os seus olhos.

- E por que há-de ir embora? Aqui não incomoda ninguém e também não
está a cometer ilegalidade nenhuma. Esta casa é da Câmara, julgo eu,
mas não é usada, de modo que acho razoável que entre nela para
investigar. Por sinal, tive a impressão que estava a perceber
perfeitamente quando falei em grego clássico.

- É claro que percebi, porque estudei línguas mortas. Suponho que


nesta cidade deve haver igualmente muitos famintos, a morrer, que
também o teriam percebido.

- Eu tenho facilidade para os idiomas - disse Temple -, mas não é


nenhum mérito: é como se alguém me ditasse o que devo ler ou dizer.
Bem... Congratulo-me por tê-la encontrado, porque um dos meus males é
a solidão. Vou de uma parte da cidade para outra, lembro-me das
coisas e não posso contar a ninguém. Conheço muitas verdades que
gostaria de explicar aos historiadores, mas receio bem que não
acreditassem em mim. Por isso, não lhe contarei nada, embora a sua
companhia seja muito agradável. É historiadora, suponho.

245
- Sim, e até escrevo livros que nunca acabo. Sou uma simples amadora
que nunca vai poder viver disto.

- Então, qual é o seu trabalho?

- Agora, sou estagiária de um advogado, porque também estudei


Direito. Está a ver: sou como uma enciclopédia barata, uma
enciclopédia inútil. Mas pelo menos é um emprego fixo e onde me sinto
bem.

- Que advogado? Quem é o seu chefe?

- Chama-se Marcos Solana e é especialista em heranças. Acho que ele


conhece todas as famílias antigas da cidade. Eu também as estudei,
por isso sou útil para ele.

- Conheço Solana.

- A sério? Nunca o vi lá no escritório.

- Ficaria surpresa se soubesse a quantidade de pessoas que conheço,


ainda que não me relacione muito com elas. Por sinal, ainda não me
disse o seu nome.

- Marta Vives.

- Há muitas famílias antigas com esse apelido - sussurrou Temple - e,


portanto, há muitas histórias.

Afastou-se um pouco da janela, voltando assim a entrar no reino das


sombras. Marta observou que, quando andava, não se ouviam os seus
passos. Também não parecia precisar de luz e movia-se como que por
instinto, mas isso tudo - e o facto de o ter encontrado
inesperadamente ali - continuava a não assustar Marta.

- Faz bem - disse Temple como que adivinhando-lhe os sentimentos. -


As velhas casas abandonadas tendem a assustar as pessoas porque estão
cheias de histórias desconhecidas, mas o medo desaparece quando essas
histórias começam a ser um pouco conhecidas. Posso perguntar-lhe se
esta casa tem alguma relação com a sua família?

- Ainda não sei.

- Suponho que é por isso que aqui está: para saber. Quem lhe deu a
primeira pista?

- Um ourives chamado Masdéu. Melhor: é um designer de jóias.

- Também o conheço.

- O senhor conhece toda a gente?


246
- Apenas os membros de algumas velhas famílias... Não é um grande
mérito, acredite em mim. Em Barcelona, ao longo dos séculos, têm
vivido muitas pessoas, mas sem deixarem marcas. Perdão... Na verdade,
não é isto o que eu realmente penso. Todas as pessoas, por muito
insignificantes que sejam, deixam alguma marca. Para mim, Barcelona
está cheia de pessoas que ainda vivem. Esta casa está cheia de
fantasmas.

- É curioso que me diga isso.

- Porquê?

- Às vezes penso a mesma coisa - confessou Marta.

E pareceu aliviada. De repente, sentia-se bem ali. Tinha a sensação


de que, junto daquele homem, nada de mau lhe poderia acontecer na
casa. E que inclusivamente talvez pudesse descobrir os seus segredos.

- Talvez eu seja capaz de a ajudar - murmurou ele. - Mas para isso


preciso que me diga o que procura.

- Um cadáver - contestou ela, espantando-se com a sua própria


sinceridade. - Reconheço que parece absurdo, mas ando à procura de um
cadáver. Um dos Masdéu era um religioso que morreu e cujo corpo nunca
chegou a sair desta casa.

Temple olhou para ela de soslaio.

Os olhos dele estavam tranquilos e frios.

- Posso ajudá-la - sussurrou com voz gélida. - Eu sei onde está o


cadáver desse homem da igreja.

Marta sentiu, por momentos, que as suas pernas vacilavam. Abriu a


boca com espanto.

- E como é que sabe? - balbuciou.

- Porque fui eu que o matei - disse o homem com a mesma voz gélida.

247
•34.

A FESTA DO PATÍBULO

Devo confessar que eu, o ajudante do verdugo, terminei como pude o


meu trabalho porque, mesmo depois de ter visto tantos mortos, me
repugnava aquela língua que parecia sobrepor-se a tudo. Depois,
Nicomedes Méndez, homem extremamente cuidadoso, passou-me um pano
impregnado em álcool para eu limpar as mãos. Fez-me então um sinal
para descermos do patíbulo enquanto pronunciava a frase sacramental
de todos os operários da cidade assim que o sábado amanhecia:

- E agora a receber o dinheiro.

- Há pagamento extra?

- É claro que há pagamento extra. Mas o que é que tu achas? Que é


todos os dias que as pessoas são executadas? O salário de um carrasco
é baixo e têm de encontrar algum incentivo. Por cada morto, há um
pagamento extra de cem pesetas.

Naqueles anos, cem pesetas representavam uma pequena fortuna.

De modo que o carrasco e eu nos integrámos totalmente no sistema


capitalista.

Descemos do patíbulo no meio do que parecia ser a admiração do


público. Era incrível, mas as pessoas... queriam tocar-nos!
Apercebi--me então, como se já não soubesse, que sempre existiu e
continuará a existir a ingenuidade do povo. Julgo que, naquele
momento, o verdugo e eu estávamos prestes a ser aclamados.

Mas havia que voltar à prisão, pois era o que a lei mandava. Para
lavar a consciência pública, o carrasco, que no fim de contas matara
um ser humano, tinha de passar uma noite completa na prisão.

248
E eu passaria a noite junto dele.

Nicomedes Méndez percebeu logo que eu estava impressionado por aquilo


que acabara de fazer. Porque não é a mesma coisa assistir a uma
execução que participar nela. Como pensou que o iria abandonar,
soltou-me um discurso entusiástico, como se fossem proclamar-nos
presidentes da Câmara de Barcelona.

- A cidade aproxima-se de uma época de grande glória, quer dizer, de


riqueza e respeito pela lei. Diz-se que Barcelona vai organizar
grandes exposições, acolher grandes indústrias, crescer e tornar-se
nada menos que no umbigo do mundo, embora isso, como é lógico, irá
aumentar o vício: jogo por toda a parte, prostíbulos internacionais e
grandes avenidas por onde irão desfilar landós cheios de mulheres de
má-vida.

Pelos vistos, Nicomedes Méndez já não se lembrava de que vínhamos de


uma execução, e cheio de entusiasmo continuou:

- Como é óbvio, haverá escândalos bancários, escândalos tão grandes


que talvez acabem à facada nos conselhos de administração. Haverá
assaltos e crimes, e portanto grandes delitos e grandes execuções por
cada uma das quais receberemos dinheiro. Não te convém abandonares-me
agora, amigo Blay, que grandes personalidades vão passar pelo
patíbulo. Quem sabe se, com um pouco de sorte, não executamos o
presidente da Câmara.

Isso não chegou a acontecer, mas em Barcelona houve depois tantos


mortos que pouco faltou.

Não sei como é que Nicomedes Méndez me conseguiu convencer, mas a


verdade é que fiquei. Talvez tivesse influenciado o facto de ele me
permitir dormir em sua casa e no longínquo bairro de La Salud, onde
ninguém me conhecia. A casa do carrasco era agradável e tranquila, e
além disso tinha uma horta à volta. Os moradores eram amáveis e
silenciosos. O bairro era tão pacato que durante a noite só se ouvia
o latido dos cães.

Nicomedes Méndez não queria ser um carrasco qualquer: pretendia


passar à história apresentando em público o seu novo sistema de
garrote vil, e nada menos que no Salão de Invenções de Genebra.

249
Ou talvez de Paris, não me lembro bem. O que ele não queria, de
maneira nenhuma, era ser um homem qualquer.

Além disso, o maldito acabou por se revelar um profeta. Tinha razão


quanto ao crescimento da cidade, a sua riqueza e os seus delitos
Depois de tantos anos sem ninguém ser executado, no ano seguinte
aplicámos o garrote a Aniceto Peinador, um assassino que soube morrer
com grande dignidade e inteireza. Apesar de tudo, e apesar de a
execução me parecer demasiado macabra, a situação parecia-me
insuportável. Era a segunda língua que enrolava dentro de uma boca: o
carrasco era um senhor, mas eu parecia um talhante.

Despedi-me de Nicomedes Méndez.

Essa retirada a tempo salvou-me de participar numa outra execução que


me teria marcado definitivamente. Refiro-me à de Silvestre Luis,
condenado à morte pelo crime da rua Parlamento, na qual assassinou,
segundo a sentença, a mulher e as duas filhas. Mas Silvestre Luis
proclamou sempre a sua inocência.

O mais incompreensível do caso foi ter sido condenado sem provas e


sem testemunhas, baseando-se o júri simplesmente na declaração,
completamente ilegal, do filho de dois anos, que mal sabia falar. Era
o único sobrevivente do massacre, e pronunciou a frase: «Papá ta col
mama», ou seja, «Papá corta o pescoço da mamã». O júri decidiu que
uma criança daquela idade não mente.

Ainda bem que a execução foi rápida.

Também Nicomedes Méndez teve razão quanto ao crescimento imparável de


Barcelona. A cidade já mudara radicalmente nos anos da Exposição
Universal, cora o Parque da Ciudadela (onde outrora imperara a odiosa
fortaleza), o Arco do Triunfo e a ampla avenida que o rodeava. Mas
além disso surgiam espaços cheios de fábricas, como Pueblo Nuevo,
cuja paisagem estava literalmente coberta de chaminés. Ou o Clot, que
era também um bairro de operários sofredores, de capataz e sirene
logo ao amanhecer. E estendiam-se no sopé da montanha bairros como o
Pueblo Seco, onde outrora era proibido edificar devido aos canhões do
Montjuic. Entretanto, o Bairro Chinês era já o novo nome do Raval,
pois a imaginação popular julgara que os filipinos refugiados em
Barcelona após a última guerra colonial eram chineses.

250
E livrei-me também de participar na execução de Santiago Salvador, um
anarquista solitário numa cidade em que os anarquistas se uniam para
não serem solitários. Santiago Salvador atirou do último balcão do
Liceo (o balcão dos pobres, de onde quase não se via nada mas para
onde iam os fanáticos da música) duas bombas para a plateia, causando
vinte mortes. E este número poderia ter aumentado em mais vinte caso
a segunda bomba tivesse explodido, mas caiu suavemente na saia de uma
mulher. Depois, Santiago Salvador foi-se embora tranquilamente, a pé,
porque nenhum dos vizinhos do seu balcão reparara em nada.

Mais tarde, deu-se ao luxo de assistir ao solene enterro das suas


vítimas do lugar mais alto da cidade, o novo monumento a Cristóvão
Colombo. Quando o vi, pouco tempo depois na prisão - pois os meus
contactos continuavam a permitir-me a entrada nela - explicou-me
tranquilamente:

- Perdi uma grande ocasião. Foi uma pena.

- Uma pena porquê?

- Porque não dispunha de outra bomba. Em baixo estavam todas as


autoridades, toda a aristocracia, os fabricantes, a ralé, e uma bomba
mais ter-me-ia permitido acabar com eles. Teria sido um final
magnífico.

Depois de ter visto tantos loucos, cheguei à conclusão de que


Santiago Salvador era um deles, mas havia que reconhecer que era um
louco íntegro.

Aqueles trágicos acontecimentos de Barcelona (a ópera Guilhermo Tell,


representada naquela noite no Liceo, não voltaria a ser representada
lá no século seguinte) não foram factos isolados. Barcelona
continuava a ser uma cidade revolucionária e onde tudo parecia ser
possível, e eu estava, sem querer, no olho do furacão, uma vez que
trabalhava então como detective privado para uma agência inglesa, e a
agência inglesa andava a investigar, por encomenda da cidade, o caso
das bombas que estavam a matar muitos inocentes, entre eles as
floristas das Ramblas. Os rumores espalhavam-se, suspeitava-se de
toda a gente e os anarquistas, como de costume, eram detidos.

251
Eu, porém tinha um ponto de vista diferente.

Eu, o detective sem nome, assistira com vários disfarces às reuniões


libertárias do Paralelo e do Raval. E recordava-me de um tipo que,
enquanto os outros falavam de liberdade, costumava falar de dinheiro.
Aquele tipo... seria Rull o nome dele? Não era o mais jovem daquelas
reuniões?

Tinha de o seguir, embora para isso fosse preciso encontrá-lo. Porque


Rull desaparecia frequentemente. E encontrei-o.

Mas no último sítio do mundo onde teria esperado encontrá-lo.

No gabinete do governador civil de Barcelona.

252
•35.

A CONVERSA

- Eu é que o matei - disse com a sua voz opaca o homem dos olhos
mortos.

E acrescentou, desviando o rosto para a penumbra:

- Há muitos anos.

Marta Vives notou que quase não conseguia respirar, que o hálito lhe
escapava com um assobio, deixando o corpo vazio. Tudo contribuía para
aquela espécie de pesadelo em que se encontrava agora afundada: o
apartamento, do qual mal vislumbrava os contornos, o rosto tão branco
do aparecido, a sua própria voz, que parecia vir de além do tempo.

Além disso, enquanto modesta estagiária de advogado, Marta nunca


ouvira uma confissão como aquela.

O mais incrível era que aquele homem estava a sorrir.

Não era um sorriso cínico, como poderia corresponder a um criminoso


que sabe que o seu delito já prescreveu. Era um sorriso longínquo,
quase triste.

- Assustada? - Perguntou a voz.

- Não estou assustada - murmurou ela, desejando serenar-se. -Se


tivesse querido causar-me algum mal, já o terá feito. Digamos que
estou surpresa e que não posso acreditar em si.

- Porquê?

A voz era ainda convincente, branda.

- Ninguém confessa um assassinato e a ocultação do cadáver. Quero


dizer que... Ninguém faz isso voluntariamente.

253
- E por que não? Tenha em conta que já passaram muitos anos desde
essa morte, muitos. Já nenhum tribunal me condenaria por causa disso.

- Mas e porque é que me conta logo a mim?

- Primeiro, porque sei que me percebe. Sabe o que é a prescrição dos


delitos e todos esses pormenores. Segundo, porque me disse o seu
nome.

Marta estava cada vez mais espantada, mais ofegante. O que sentia,
porém, não era medo, mas sim espanto; a cada segundo que passava, o
medo diminuía e aumentava a desorientação.

- O que é que se passa com o meu nome?

- O seu nome é muito belo e o seu apelido é... notável. Há sábios que
o têm ou que o tiveram. Não tem a vulgaridade de outros, e dir-lhe-ia
até que é um apelido respeitável. Mas não o tome como um elogio:
limito-me a constatar um facto, pois conheço todos os apelidos do
país.

- E então...?

- Digamos que há linhagens. Todos os apelidos têm uma, até o mais


vulgar. E na sua família, da mais longínqua, há uma linhagem de
pessoas inquietas e que talvez tenham pensado mais do que as outras.
Ou que se sentiram preocupadas pelo sentido da vida. Isso não é bom,
e por vezes merece um castigo.

Marta abriu muito a boca, mas não soube o que dizer. O medo voltou,
como uma mão fria. Porque o que aquele homem estava a dizer era a
mesma coisa que cem vezes ela pensara.

A voz continuou:

- Certamente, uma linhagem não tem de ser sempre igual. Os pais e os


filhos não têm de ser parecidos, embora por vezes se verifiquem
obrigações morais. Por exemplo, é mais fácil um pai juiz ou militar
ser substituído por um filho juiz ou militar. Mas no seu caso é
diferente: trata-se de uma linhagem endogâmica, em que os Vives
homens se uniram a Vives mulheres, superando em ocasiões grandes
obstáculos. Dessa forma cria-se uma linhagem fechada em que as ideias
das gerações são transmitidas de umas às outras, tal como também se
transmitem os genes, criando assim uma espécie de destino, ou talvez
de religião. Não sei se terá reparado nisso, mas é algo que marca.

254
A rapariga via cada vez pior. Parecia-lhe existir no mundo apenas
aquele rosto tão branco.

Mas ainda assim sussurrou:

- Já reparei.

- É natural, pois estudou muito e preocupou-se por aqueles que


viveram no passado.

- Mas ainda assim não o percebo...

- O que é que não percebe?

- Por exemplo, como é que o senhor sabe isso tudo. Eu posso ter
estudado a minha linhagem porque sou uma parte afectada, mas o
senhor... porquê?

- Pelos anos.

- O quê?

- Digamos que sou muito velho, mas não me faça caso... Digamos que
conheço melhor a história desta cidade e das suas pessoas. E sei que
a sua família, depois de tantos anos, digamos que a partir da Idade
Média, foi tentada pela dúvida.

- Que dúvida...?

- Vamos ampliar a nossa perspectiva - repôs o homem com a mesma voz


tranquila. - Não diria que foi tentada pela dúvida, mas pelas
dúvidas: a religião, o sentido da eternidade, a bondade de Deus, que
por vezes não estava em lado nenhum, ou a existência do diabo.

O homem dos olhos quietos falava com um sorriso cada vez mais
tranquilizador, ainda que acabasse de referir o diabo. Marta Vives
sentiu que a curiosidade - porventura a angústia - superara
definitivamente o medo. E assim, sem mexer um único dedo, ouviu-o
prosseguir:

- Ao longo dos séculos, homens e mulheres foram enviados para a


fogueira por fazerem perguntas como as que os seus antepassados
fizeram a si mesmos. Por fazerem perguntas deste mesmo género
surgiram as terríveis guerras de religião. O caso da sua estirpe,
Marta Vives, não é um caso assim tão isolado.

Marta fechou os olhos. Lembrava-se nesse momento de imensas coisas,


demasiadas coisas.

A violação de uma sepultura em Sant Pau del Camp.


255
A cruz de bronze.

As sucessivas mulheres assassinadas, como que perseguidas por um


poder diabólico.

A mesma antepassada que já não estava no seu túmulo do cemitério de


Pueblo Nuevo, embora alguém pagasse por ela.

E a voz pausada perguntou:

- Quer-me parecer que está a rever episódios que a assustaram não é?

Ela assentiu.

De repente já não ficava espantada por aquele desconhecido adivinhar


tudo.

- Não sei se vai ser capaz de me ouvir - disse ele. - Se calhar,


canso-a ou torno-me incompreensível. Ou talvez não queira permanecer
aqui. Nesse caso, posso acompanhá-la até à porta para que não tropece
na escuridão.

Marta negou:

- Es...estou bem - disse.

- Então permita-me fazer-lhe uma pergunta que certamente muitos dos


seus antepassados se terão feito, especialmente as mulheres, que
suponho que fossem as mais sensíveis e por isso se converteram nas
vítimas.

- Fa... Faça lá.

- A menina deve ter pensado no diabo.

Marta sentia os dedos doer de tanto apertar os rebordos da mesa.

- Certamente que sim...

- Não diga certamente, como se fosse algo de natural... Há muitas


pessoas que acreditam em Deus, ainda que seja às vezes, mas no diabo
quase ninguém. É modesto e quase absurdo nestes tempos em que as
pessoas vivem relativamente bem, depois de séculos em que foram
tratadas pior do que animais. Hoje desapareceram muitas e malditas
misérias que faziam com que as pessoas invocassem Deus como última
esperança. De facto, povos oprimidos ou enganados de hoje ainda
invocam Deus e tornam-se seus fanáticos porque não têm mais nada.
Você, no entanto, tem outras opções.

Marta assentiu em silêncio sem saber o que pensar.


256
A voz continuou:

- Uma dessas opções é uma certa justiça social, tão relativa quanto
quiser mas que outrora era desconhecida. Ao longo dos séculos, um
povo do qual não se conserva nenhuma memória encheu as ruas com o seu
sangue para conseguir essa justiça social. Hoje as condições de vida
são relativamente dignas, e mesmo os mais pobres têm esperança,
porque o sistema capitalista inventou o maior dos milagres. Este
milagre chama-se crédito. Graças ao crédito, as pessoas têm acesso
aos apartamentos, podem ter boas cozinhas ou guiar automóveis. O povo
ocidental, que é o grande depósito da civilização cristã, percebe que
pode ter hoje aquilo que irá pagar amanhã, e em consequência está tão
cheio de esperança quanto de dívidas. Vive em realidades materiais,
verificáveis e verdadeiras, e é por isso que não precisa de pensar em
Deus como nas épocas passadas. Deus morreu entre as hipotecas e os
créditos bancários, e logicamente o diabo morreu ainda mais.

A voz permaneceu em silêncio durante longos momentos, ainda que Marta


Vives não soubesse se eram longos ou não, porque perdera o sentido do
tempo. Naquele momento a escuridão era quase absoluta, mas Marta
conseguia ainda ver claramente a cara branca, cuja pele parecia
dotada de uma luz própria.

- Talvez esteja a cansá-la - disse aquela espécie de visão -, e nesse


caso insisto em acompanhá-la à porta. Mas julgo que está interessada
no que lhe vou dizer.

- Porquê...?

- Porque desde há muito tempo que você anda à procura disso. E


novamente fez-se o silêncio, aquele silêncio cheio de presságios.

A voz acrescentou:

- Disse-lhe que sou muito velho, e isso permite-me conhecer factos


que outros já não lembram. Disse-lhe que matei o homem que vivia
nesta casa e que sei onde está o cadáver, algo que os outros ignoram.
Mas talvez seja inútil falar-lhe disto se não começar do início,
porque neste caso tudo tem um início muito longínquo.

Marta Vives assentiu.

Tinha a boca cada vez mais seca, mas ainda assim conseguiu perguntar:

257
- E que início é esse?

- Digamos que o início se encontra nos grandes desconhecidos de hoje,


que são Deus e, certamente, o diabo.

- Porquê desconhecidos...?

- Porque hoje em dia, no mundo em que você e eu nos movemos ninguém


precisa de pensar neles. Conheci épocas em que Deus era a única coisa
que as pessoas tinham. Hoje, temos outras opções e portanto não nos
preocupamos em conhecê-los.

- Será que é apenas devido a isso?

- E também devido à obscuridade que os rodeia. Deus nunca explicou


como é. Nunca quis mostrar-nos a sua face. Ou melhor dizendo, para
aumentar a nossa confusão, mostra-nos três faces. Nessas brumas por
onde se move figura também o diabo, do qual temos ainda menos
referências. A Bíblia não revela como é, nem o que pensa, ainda que a
Patrística e os pensadores cristãos tenham andado às voltas com o
mistério. Na realidade, porém, não se sabe nada ao certo. Vivemos
numa grande incógnita.

Marta Vives continuava a sentir dor nos dedos por se agarrar à mesa
com tanta força. Talvez isso fosse a única coisa que lhe permitia
estar presa ao mundo, embora não pensasse nisso.

- Você é uma estudiosa - disse a voz com crescente suavidade. - Por


isso, vou poupar-lhe alguns pormenores e passo ao mais importante.
Sei que é assim porque muitas gerações da sua família pensaram nisso.

A rapariga sussurrou:

- Peço-lhe para continuar.

- Então permita-me falar-lhe da História Sagrada que lhe foi ensinada


em menina, mas que hoje não é ensinada praticamente a ninguém,
excepto nas catequeses. Fala-se aí na criação do universo.

- A mim, pelo menos, falaram-me - disse Marta.

- E não me diga que não se fala ainda nisso.

- Não tanto como outrora, Marta, não tanto como outrora... Mas tanto
faz. A si falaram-lhe de uma luta entre o Criador e uns anjos
malignos que se opuseram a ele. Um denominado Anjo Mau rebela-se
contra o Criador, o que quer dizer, logo à partida, que também fora
criado por este.
258
Se você afirmar que o Anjo Mau é uma criatura de Deus, não me parece
que alguém possa negá-lo.

Marta negou com um movimento da cabeça, concordando.

- A Bíblia não fala disso - sussurrou a voz. - Falaram os pensadores,


séculos depois. E foi tudo simplificado, chegando-se a dois pólos
opostos, o Bem e o Mal. Esses dois pólos talvez estejam mais bem
definidos nas filosofias orientais do que nas nossas, mas continuando
a resumir dir-lhe-ei algo que já sabe: o chamado Anjo Mau rebelou-se
contra o Criador e houve entre ambos uma luta cruenta, ou seja, uma
guerra.

- É óbvio: é o que já todos nós sabemos.

- E sabemos também, porque nos disseram, que o Criador ganhou essa


guerra e que Luzbel, o anjo caído, ou como se quiser chamá-lo, foi
remetido para sempre ao inferno e às trevas. Ou seja, vivemos no
reino de Deus.

Marta Vives mordeu o lábio inferior.

Sabia que as mulheres da sua família, que morreram antes dela, tinham
sido atormentadas por esse mesmo pensamento.

- Bom... sim - disse. - Acredita nisso?

- Uma pessoa que pensa - disse Marta - é uma pessoa que duvida.

- Então permita-me que eu, cheio de dúvidas, lhe fale simplesmente da


Grande Verdade. E a Grande Verdade é que a guerra foi ganha por
Luzbel, facto que nos foi sempre ocultado.

Marta Vives sentiu umas gotinhas de suor na testa. Os olhos das


gerações passadas, os olhos dos mortos, desfilaram perante os seus
olhos vivos.

- Não me diga que nunca pensou nisso - sussurrou a voz.

- É claro que... que sim. Mas penso, igualmente, que o Criador nos
teria explicado a sua derrota.

- Por um lado, Marta, dir-lhe-ia que não pode. Não são os vencidos
que falam, embora neste caso não seja assim. O Criador, através das
religiões cristãs, fartou-se de nos dizer que foi Ele a perder o
combate.

- Dizê-lo...? Como...?

259
- Marta, peço-lhe para examinar os símbolos com um pouco de atenção.
Em primeiro lugar, Deus, ou o Criador, apresenta-se com três caras,
nenhuma das quais encaixa. Não consigo ver qual a relação lógica
entre um Pai cruel e vingativo e um Filho sofrido e castigado. Nem
qual a relação de ambos com um Espírito Santo do qual ninguém sabe
nada e que se apresenta a si próprio como um mistério. Uma certa
lógica humana faz-me pensar que um vencedor não se esconderia, antes
se manifestaria com absoluta clareza. Mas essas três pessoas fizeram
nascer um símbolo que pode esclarecer-nos um pouco.

- O quê...?

- Refiro-me ao triângulo que representa o Criador, que está encerrado


dentro do mesmo. Pode ter muitas interpretações, mas uma delas, para
mim muito clara, é ele querer fazer-nos compreender que está preso.

Marta disse confusamente:

-As pessoas não costumam reparar nisso. Eu sim.

- E as mulheres da sua família também repararam.

- Suponho... que sim.

- Em muitos dos casos, isso marcou tragicamente o seu destino. Marta


Vives baixou a cabeça.

A voz continuou:

- Suponho, pelo menos, que concordará que se trata de uma


interpretação razoável.

- Continuo a pensar que sim.

- Pois ainda há mais.

- O quê?

- Marta, não me diga que não pensou nisso. Refiro-me ao martírio do


Gólgota: se não for capaz de conceber que o triângulo talvez
signifique que o Criador está preso, pense pelo menos no Cristo
crucificado, que vê continuamente. Se Cristo se apresenta como filho
de Deus e torna com isso a sua história verosímil, deverá
forçosamente acreditar no resto dessa história. E o que nos diz esta?
Ora, que foi condenado, açoitado, escarnecido e finalmente pregado a
uma cruz. A sucessão de imagens é clara.

260
- Isso pelo menos creio já todos vimos perfeitamente - disse a
rapariga.

- E é isso que acontece aos triunfadores? Os que triunfam são


condenados, torturados e sacrificados...? Não, Marta, isso não se faz
com aqueles que ganham, mas com os que perdem. A crucificação é o
símbolo mais claro que o Criador nos deixou para nos indicar que
perdeu a luta.

- Mas...

- Se depois de uma batalha virmos um prisioneiro sujo e ferido e


junto dele um soldado bem vestido a vigiá-lo e de arma na mão, quem
julgaremos que terá ganho a batalha?

- Ora, o da arma, é claro - sussurrou Marta -, mas não é essa a


interpretação que lhe damos.

- Ou pelo menos não é essa a interpretação da Igreja - disse o seu


interlocutor. - Falaram-nos sempre da Redenção, mas nunca nos falaram
da Derrota.

No quarto que já não conseguiam ver, o silêncio tornou-se mais


opressivo, mais intenso e mais denso. Marta reparou que voltava a
faltar-lhe a respiração.

- É o símbolo mais claro que o Criador conseguiu deixar-nos -


concluiu a voz -, o símbolo de que aquela batalha foi ganha pelo
diabo.

Marta Vives tentava reunir os pensamentos. Sempre soubera fazê-lo, e


a sua mente ordenada definia tudo, mas desta vez não podia. Sentia-se
ultrapassada, tal como tinha acontecido com muitas mulheres com o seu
apelido e que agora talvez a estivessem observando a partir do ar.

- O senhor está a falar da religião cristã - sussurrou por fim -, mas


há outras, e não dizem todas a mesma coisa.

- É verdade. - Reconheceu o ser que estava do outro lado da mesa. É


verdade... Há outras religiões, mas repare na que está mais próxima
da Criação e da qual partem as convicções cristãs. Repare, por
exemplo, na outra grande religião monoteísta, o judaísmo.

261
- O que se passa com o judaísmo?

- Ora, também tem um demónio, neste caso feminino: chama-se Lilith.


Lilith era a hipotética esposa de Adão, à qual Eva suplantou ocupando
o seu lugar. Ou seja, a grande mãe da Humanidade não é Eva como nós
julgamos, mas uma outra. Devemos supor que houve uma grande luta
entre ambas, entre a demónio Lilith (a quem ainda hoje os judeus
atribuem poderes maléficos) e Eva, supostamente a favorita do
Criador.

- Suponho que sim - murmurou a rapariga -, mas é aqui que a teoria


vai ao fundo: Eva venceu.

A cabeça branca moveu-se negativamente.

- Engana-se, minha amiga: Eva foi punida. Foi realmente a primeira


pessoa a ser castigada na Criação, e ainda por cima com a mais cruel
e dura das punições: a Eva é atribuída a perda do Paraíso, o engano,
a mentira e mesmo a estupidez. Nenhuma condenação parecida caiu sobre
um ser pensante, que ainda por cima abrange, sem razão, todas as suas
descendentes, quer dizer, as mulheres. O pecado original foi
carregado pela coitada da Eva, maldita para os séculos dos séculos. E
agora diga-me se devo pensar que Eva, deliciosa criatura do Senhor,
foi uma triunfadora.

Marta Vives tinha o cérebro em branco. Talvez fosse a escuridão que


lhe começava a produzir vertigens. A voz vincou:

- A luta entre ambas, porque é o que acontece quando duas mulheres


disputam o mesmo homem, foi ganha por Lilith.

De repente, o quarto pareceu a Marta imenso, talvez porque não via os


seus contornos. E a voz prosseguiu insinuante:

- Há mais.

- Mais...?

- Bom... O Criador, se é que vamos continuar a chamá-lo assim, tentou


fazer alguma coisa. Todos os derrotados tentam fazer alguma coisa e
continuar a lutar.

- E o que acha que o Criador fez? - perguntou Marta, desta vez com
voz de desafio.

262
- Fez algo lógico para tentar continuar a mandar, ou pelo menos para
deixar constância da sua presença. Os derrotados que tentam regressar
ao poder fazem um manifesto: o Criador promulgou as Tábuas da Lei no
monte Sinai. Quis demonstrar que não estava morto, nem sequer
completamente derrotado, e mostrou um corpo de doutrina. Escolheu um
homem, Moisés, e um povo, o judeu, para que divulgassem essa doutrina
por todo o mundo. Porventura terá sido afirmado - é uma hipótese
própria da minha má fé - que a ira do diabo não poderia nada contra
todo um povo.

- Na verdade, tratava-se de um povo muito pequeno - opinou Marta. -


Sempre achei espantoso o facto de Deus ter escolhido precisamente o
povo judeu.

- Isso não nos compete julgar a nós. Talvez o povo judeu fosse o mais
receptivo de todos. O caso é que as Tábuas da Lei lhes foram
entregues a eles.

- Isso ninguém discute.

- É verdade, por isso é que o digo. Estou a falar de factos que


ninguém põe em causa, não de suposições. Ora bem, acerca disso quero
dizer duas coisas.

- Pode dizê-las.

- Primeira: não é possível imaginar um povo que tenha pago um preço


tão alto. Ninguém foi tão castigado pelo vencedor, ou seja, pelo
diabo, como o povo judeu. Ninguém sofreu tanto por ter aceite o
testamento do perdedor, nenhum povo sofreu tantas calamidades ao
longo da sua história. E não apenas por parte do vencedor, mas também
do perdedor, porque o povo judeu cometeu o erro de, mais tarde, matar
o mensageiro.

Marta Vives continuava em silêncio. Não lhe custava seguir as


palavras do seu interlocutor, mas nunca pensara nelas anteriormente.
Talvez sentisse vergonha por não o ter feito.

- Mas isso não é tudo - continuou a voz - disse-lhe que havia duas
coisas, e passo por isso à segunda. As tábuas da Lei enumeram uma
série de preceitos que resumem a doutrina do Criador: não matarás,
não mentirás, não fornicarás, honrarás o teu pai e a tua mãe.

- Até aí chego eu - disse Marta, ligeiramente ofendida. - Conheço.

263
- Agora imagine por um instante que o diabo tivesse escrito as Tábuas
da Lei.

- Bom... - Diga.

- Matarás, mentirás, fornicarás, não honrarás o teu pai nem a tua


mãe.

- Exactamente.

- E isso, o que quer dizer? Esclareça-me o senhor, agora mesmo


-desafiou Marta.

- Peço-lhe apenas para observar imparcialmente o mundo que nos


rodeia. Não acabámos com as guerras nem com o homem carrasco do
homem. Em nenhum lado se segue o preceito «Não matarás». Pelo
contrário, o acto de matar parece-nos cada vez mais lógico e sensato.

- É verdade... Ninguém pode desmentir isso.

- Acabou de pronunciar a palavra «desmentir». Deixe-me eu usar a


palavra «mentir».

Marta inclinou ligeiramente a cabeça.

A voz prosseguiu:

- A mentira é o eixo dos negócios, das relações internacionais (a


mentira foi elevada por Maquiavel quase ao nível de santidade),
impera nas relações conjugais, nas relações comerciais, nas relações
amistosas e até nas piedosas. A mentira alivia, a verdade não. A
mentira é não só considerada uma autêntica necessidade social, mas
todo um símbolo da convivência. Por outra parte, sem a mentira (e a
publicidade é uma mentira) não faríamos negócios. Sem a capacidade
para mentir, ninguém se apresentaria a eleições políticas. Trabalha
num escritório de advogados: diga-me quantas vezes precisou de mentir
nos tribunais.

Marta Vives voltou a inclinar a cabeça, mas desta vez com humilhação.

- E vamos para o «não fornicarás» - continuou a voz. - Minha amiga, é


esse o mais vulnerado preceito das Tábuas, inclusive consideramos, em
geral, que é o mais estúpido. Em primeiro lugar, todas as espécies
vivas fornicam... Por que não a humana?

264
E acontece que sem fornicação não há descendência. Sem fornicação não
explicamos a existência de dois sexos, e nem é possível sequer uma
relação entre eles. E sem a relação entre o macho e a fêmea nem
sequer conseguimos entender o mundo. Já para não falar do êxito
sentimental e mesmo social que está implícito. Acrescentou com voz
opaca:

- Sem sexo, não se explicam os mais profundos sentimentos humanos.

- De modo que as Tábuas da Lei nunca serviram para grande coisa -


disse Marta mordendo o lábio inferior.

- Digamos que são mais sensatas as que o diabo teria escrito, que no
fim impôs o seu critério.

Houve mais um denso silêncio naquele quarto onde Marta Vives já quase
não distinguia nada.

- Não quero continuar com todos os preceitos - disse a voz do outro


lado da mesa -, porque iria adormecer, mas deixe-me lembrar-lhe mais
algum, como por exemplo «Adorar só a Deus». A Humanidade fabricou
tantos deuses que já nem pode enumerá-los: o sucesso, o trabalho, o
dinheiro, a família, a liderança, até a bandeira da Pátria. A
Humanidade fabricou o bezerro de ouro. Mas o que é verdade é que o
sucesso, o trabalho, o dinheiro, a liderança, a família e a bandeira
que defendemos são questões perfeitamente legítimas e formam a
madeira de que estão feitas as grandes personagens. Eu não vejo em
lado nenhum o triunfo das Tábuas da Lei.

E continuou:

- Permite-me que lhe fale de honrar o pai e a mãe? Diga-me se a


sociedade tem isso hoje em conta, embora reconheça que este preceito
foi o que mais tarde o diabo, o vencedor, conseguiu impor. Porque
antigamente ainda existiam os Conselhos de Anciãos, a autoridade do
paterfamilias e outros sinais de respeito. Existia, acima de tudo, a
família nuclear, tradicional, que reunia sob o mesmo tecto várias
gerações sob a autoridade do mais velho. Mas e agora? O pai e a mãe
são simples figuras passadas de moda que certamente não são honradas,
no máximo serão usadas. E o pior de tudo é que, no fim da vida, essas
figuras insignificantes incomodam.

265
A organização da sociedade e a moral aceite dispôs que estarão melhor
em lares especiais, verdadeiras antecâmaras do laboratório de
autópsias, onde pelo menos vã deixar de incomodar. E eles próprios
aceitam socialmente essa reclusão e essa morte prematura porque
pensam - ou dizem que pensam - que assim o seu corpo irá durar mais.
Interessam-se mais pelo prolongamento da vida do que pela vida.

A cara muito branca mexia-se do outro lado da mesa. Era a única coisa
que Marta continuava a ver: a nitidez da sua pele, aquela espécie de
fosforescência.

A rapariga não quis responder.

E a voz continuou, sempre com aquela calma que parecia estar acima do
tempo:

- De modo que está a ver, mulher estudiosa e sensata, quem é que


ganhou aquela pugna decisiva e quem governa hoje o mundo. E falo-lhe
do mais recente, quase contemporâneo, estou a falar-lhe da doutrina
cristã que foi formando a mentalidade oficial da Europa. Se der uma
olhada ao passado (e não duvido que já o tenha feito), a situação é
ainda mais clara. Pense na doutrina de Zoroastro, desenvolvida uns
setecentos anos antes da vida de Cristo e que nos fala já de duas
divindades que representam o Bem e o Mal, com a particularidade,
semelhante à doutrina que nos foi ensinada, de que o Bem é o criador
do mundo. O Deus do Bem. E o seu irmão gémeo rebelou-se contra ele, e
no meu entender ganhou a luta, ou pelo menos não a perdeu. Não se
esqueça que a religião de Zoroastro é a dos magos, e estes possuem
faculdades que mais ninguém tem. Mas imagino, Marta Vives, que devo
estar a fatigá-la com as minhas palavras, ou que talvez esteja a
meter-lhe medo e desespero: se for o caso, desterre ambas as coisas,
o desespero e o medo. Pense que o diabo, como todos os vencedores,
quer uma paz estável.

Acrescentou:

- Aquele que não quer uma paz estável é o derrotado, porque para
sobreviver precisa de continuar a lutar. O vencedor, não. Ela abanou
a cabeça com um gesto de incompreensão.

- Receio não perceber bem - disse.

- Mas é claro que sim, minha amiga. Julgo que me pode perceber. O
diabo já tentou chegar a uma situação de compromisso com o Criador
que garantisse algo como a caminhada tranquila do mundo.

266
Tentou fazer um acordo com o Criador.

- Mas que acordo?

- É tão claro que até figura na doutrina cristã. É aí nomeado como as


«as tentações do demónio». Nada menos que durante quarenta dias e
quarenta noites, o diabo tentou dar ao Criador algo em troca de
receber, também ele, alguma coisa, para que aceitasse pelo menos uma
espécie de convivência. Não posso saber o que poderia ter surgido
disso, mas o diabo fracassou. Não houve nem convivência nem mútuo
acordo, de maneira que o Criador deve ter continuado a sua luta,
imagino que cada vez com menos esperança, ainda que apoiando-se em
igrejas e num sólido corpo de crenças. O diabo, pelo contrário, não
assenta numa base doutrinal que esteja de fora e acima dos humanos.
Tenho a impressão de que não precisa dela.

A voz terminou com uma suposição piedosa:

- Imagino que o seu medo desapareceu.

- Sim...

- Mas em contrapartida cansei-a.

- De modo nenhum - respondeu Marta Vives -, não se esqueça que tenho


estudado acerca disso e que existe uma tradição familiar antes de mim
própria, uma tradição que criou grandes sofrimentos.

Eu tenho origem nela.

- Por isso tive interesse em falar consigo, já que tive a sorte de a


encontrar nesta casa.

- À qual vim por uma razão - disse ela tentando acalmar-se.

- Eu sei. Permite-me que lhe dê o conselho mais desinteressado do

mundo?

- Dê-me.

- Não se envergonhe da sua beleza. Não a esconda. Lillith pode ser o


diabo feminino, mas chegou a ser a representação do feminismo. E
talvez a primeira que por ele lutou. Não esconda o que é seu, Marta.

Marta tentou rir.

- Esse parece um conselho do diabo - murmurou -, que leva em linha


recta para o pecado.

Ouviu também um leve risinho do outro lado da mesa. A voz sussurrou:


267
- É que se calhar eu represento o Mal.

E a figura pôs-se em pé. A semiobscuridade quase impedia distingui-


la, mas notava-se que não tinha idade. Marta voltara a sentir uma
espécie de medo, porque aquilo que ela agora tinha à frente não era
uma voz, mas uma figura que se mexia, uma figura que parecia encher
as trevas.

E de repente voltou a existir apenas a voz, a voz que a tranquilizava


porque parecia vir do fundo dela própria, ou talvez do fundo do
tempo:

- Veio para cá porque anda há anos a tentar averiguar alguma coisa do


seu passado, alguma coisa da sua família, e no fim pareceu-lhe ter
encontrado uma pista nas trevas desta casa. Aqui pode jazer um
cadáver que nunca saiu destas paredes, alguém que atingiu um alto
grau eclesiástico, embora nunca tenha comandado esta diocese.
Pertenceu à família Masdéu, a mesma que, por razões que ignora, pagou
o nicho de uma das suas antepassadas.

Marta Vives contraiu a garganta.

- Vim para isso - murmurou -, para chegar ao fundo daquilo que não
sei.

- Ora, eu disse que poderia ajudá-la, e assim farei. Só tem de


seguir-me, se quiser abrir a porta do mistério. De modo que
acompanhe-me.

268
.36.

A CASA DAS MENINAS PERDIDAS

Eu, o homem sem idade, parecia imune ao espanto, mas desta vez foi
isso mesmo que senti, porque conheci Juan Rull no lugar mais
insuspeito e aparentemente absurdo do mundo: o gabinete do Governador
Civil. O Governador Civil de Barcelona era naquela altura o senhor
Ossorio y Gallardo, homem ameno e culto, entendido nas artes da
política e do Direito Civil. Ignoro se era também um entendido na
difícil arte das mulheres, mas dizia-se que muitas delas o admiravam.
O senhor Ossorio y Gallardo prometera acabar com as bombas que faziam
de Barcelona a primeira cidade do mundo submetida ao terrorismo.
Agora são muitas as cidades que partilham esse duvidoso privilégio,
mas posso afiançar que Barcelona foi a primeira.

Quando eu intervim, por conta de uma agência inglesa (ninguém parecia


confiar nos polícias espanhóis), acabava de explodir uma: foi na rua
Boquería, que matou uma florista da Rambla e feriu outras,
comocionando toda a população. Porque as pessoas talvez consigam
esquecer a morte de uma marquesa no Liceo, que era um lugar de
poucos, mas nunca esquecerão a morte de uma florista das Ramblas, que
era um lugar de todos.

Entre os comocionados dos bairros encontrava-me eu próprio sob a


identidade de Temple, de nacionalidade inglesa, sotaque impecável,
roupa de primeira classe e documentos tão bem falsificados que jamais
os poderiam descobrir. Além disso, ninguém investigava um detective
de nacionalidade britânica.

269
Ossorio y Gallardo leu - lembro-me perfeitamente - um discurso
tranquilizador, no sentido que sempre tiveram os discursos
tranquilizadores: a pátria estava em perigo, mas os seus inimigos
seculares nunca iriam acabar com ela. Para isso, havia as leis, que
era preciso cumprir inexoravelmente, e dispunha igualmente de uma
arma secreta para prender e fazer com que os perversos criminosos das
bombas fossem castigados. Resumindo e concluindo, um discurso que
poderia ser repetido cem anos depois sem que nada viesse a acontecer.

Soube mais tarde que a arma secreta do governador era um indivíduo


chamado Juan Rull.

Naturalmente, o senhor Ossorio y Gallardo não disse nada disso.


Concluiu o seu discurso dizendo literalmente: «Sou uma pessoa
convicta de que o Estado, em funções que lhe são próprias,
correctamente ou enganando-se no que diz respeito à liberdade, à
tranquilidade e à honra dos cidadãos, não pode demitir-se delas. Tudo
o que for gabinete de investigação, dados, arquivos, irá secundar a
acção com todas as minhas forças, levando adiante o projecto de
polícia especial, que é muito plausível, embora não seja novo. Tenho
dito, senhores.»

Bem, a verdade é que nada dissera, mas as pessoas já estão


acostumadas a isso.

O próprio Juan Rull estava entre os reunidos e, ao sair, fixei nele


aquele olhar que me haviam dito que parecia o da vida eterna. Mas ele
nem reparou.

Baseando-me nas minhas pesquisas, propus-me continuar a seguir, até


ao fim, as pegadas daquele estranho homem.

E assim fiz.

E foi assim que me meti no inferno.

Eu sabia que Juan Rull era um informador do Governador Civil, e que


por isso recebia como tantos outros. Os pagamentos a espias e agentes
provocadores são tão habituais que contam até com um montante
classificado como «fundos reservados» nos ministérios. Todavia, o
dinheiro que aquele tipo ganhava não se coadunava com a vida que ele
levava.

270
Rull gastava muito dinheiro - demasiado dinheiro - em La Criolla, uma
mistura de casa nocturna e cabaret que ficava no coração do Bairro
Chinês, em ruas que me eram familiares há séculos. Claro que a rua
onde se encontrava, em concreto, era nova para mim. La Criolla ficava
na rua Cid, número 10, num lugar que fora um armazém têxtil. Por
isso, conservava uma estrutura de vigas em ferro, que tinham sido
decoradas como se fossem palmeiras. Nas paredes havia grandes
espelhos que não transpareciam nem reflectiam nada devido ao fumo dos
cigarros. Quase todo este fumo provinha das gargantas dos
homossexuais, que tinham afastado as mulheres do seu lugar de
trabalho. Era ali que Rull gastava o dinheiro todas as noites.

Mas como as pessoas acabam por desconfiar de um homem que gasta e não
trabalha (apesar de a nossa cultura social oferecer muitas
explicações para isso), Rull tornou-se mais precavido e transferiu o
seu local de lazer para um prostíbulo na rua Roca, subindo à
esquerda, num primeiro andar, quase à sombra da Igreja dei Pino.

Vou descrever aquela casa de mulheres com exactidão, porque a conheci


muito bem.

Entrava-se e, quase à frente da porta, surgia uma sala com uma


varanda para a rua (sempre protegida por uma persiana), onde as
mulheres estavam à espera. Estas exibiam-se numa chaise longue
castanha e encostadas à parede, onde também se sentavam os possíveis
clientes. Saindo desta sala, um pouco à direita, havia um corredor
que dava para os quartos. Lembro-me que eram quatro, um deles tinha
também uma varanda para a rua. Mas ali nunca entrava o sol, e as
sombras tornavam-se compactas.

Parece-me que aquelas sombras respiravam, que conheciam as mulheres e


troçavam dos seus falsos gemidos de prazer. Como é óbvio, troçavam
também das maldições de alguns clientes. Reconheço que aquele lugar
era um dos mais vivos que vira, excepto o prostíbulo em que nasci.

Juan Rull organizava naquela casa festas de mulheres e vinho, isto é,


festas de quaresma. Encomendava bandejas de comida a um restaurante
próximo, ordenava às meretrizes que se despissem e depois vinha tudo
o resto.

271
Eu consegui por vezes esconder-me na casa, porque tinha a virtude de
parecer uma sombra. Mais de uma mulher passou a roçar-se em mim, sem
reparar nem ao de leve na minha presença.

E ali ouvi coisas que me permitiram perceber algumas coisas, fazer


algumas ligações, pois não era vão que o único que podia conhecer
todos os barceloneses, a começar pelos mortos, era eu.

Soube então que Rull praticava um perverso jogo duplo, tão audaz
quanto horrível e macabro. Recebia dinheiro para evitar que alguém
pusesse as bombas, mas se ninguém as punha e a tranquilidade reinava
deixavam de lhe pagar, isto é, despediam-no. De modo que era ele
próprio quem punha as bombas. À sua maneira, era um homem de
negócios, um homem de empresa.

Também lhe seguia o rasto um polícia de giro mas astuto, chamado


Tressols. Numa taverna um tanto sinistra da rua Guardiã, ele disse-me
que Rull não o enganava, embora ninguém acreditasse nele quando
tentava denunciá-lo.

Porém, nem Tressols nem eu estávamos sozinhos nas nossas suspeitas.


No Café Espanol, no Paralelo, que ficava bastante perto do quartel de
Atarazanas, conheci Alejandro Lerroux, que naquela época fazia
discursos incendiários pedindo que o povo ocupasse os conventos e
transformasse as freiras em mães, com o trabalhão que isso
significaria. Ora, Lerroux, que então era chamado «o imperador do
Paralelo», confiou-me o seu pensamento numa noite de chuva e
pavimentos brilhantes. Disse-me que todas as bombas haviam sido
colocadas num perímetro de cem metros ao longo das Ramblas. Começando
por uma que rebentou num urinol da Rambla de las Flores, até uma que
explodiu num barbeiro da Rambla dei Centro, não havia nem cem metros
de ruelas. Como é possível que as autoridades não as tivessem bem
controladas, a não ser tivessem sido postas pelos próprios
vigilantes?

Um dos vigilantes era Juan Rull.

Seguindo-lhe a pista, fui conhecendo recantos que antes não haviam


existido, recantos daquela Barcelona amarga e ao mesmo tempo
prodigiosa que de repente parecia ter perdido a esperança. As ruas
fervilhavam, as desigualdades aumentavam e no ambiente parecia
insinuar-se o que mais tarde viria a ser a Semana Trágica.

272
Rull, segundo vim a saber, estava bem protegido, porque jogava muitas
cartas ao mesmo tempo. Conhecia muitos comerciantes ricos, aos quais
proporcionava relatórios secretos, porque a verdade é que ele sabia
tudo. Tentando extorquir um deles, soube que este obtinha meninas
numa rede de corrupção de menores que naquela altura operava num dos
limites mais inatingíveis da cidade, a rua Alfonso XII, e cuja
dirigente era uma virtuosa viúva chamada senhora Blajot. Receando que
usasse estes dados, muitas pessoas ricas não se atreviam a atacá-lo
frontalmente.

E assim Rull tinha cada vez mais força.

Certamente, aquele tipo era também cliente da casa cujos segredos


conhecia na perfeição. Segui-o até esse local e inclusive numa
ocasião esgueirei-me lá para dentro, usando o meu privilégio de ser o
que eu sempre havia sido: uma sombra.

Havia ali quartos que davam para um jardim melancólico. Corredores


com cortinados vermelhos e portas muito brancas. Duas gaiolas com
pássaros que se amavam à distância. Umas meninas que choravam junto
dos vidros opacos. Conheci uma delas, Anita. Foi no jardim interior,
quando ninguém a estava a vigiar, quando apenas se ouvia o rumor de
uma fonte e o leve tremor das folhas dos chorões.

Anita disse-me que estava ali com o conhecimento dos seus pais,
porque queriam que ganhasse o dinheiro necessário para pagar a
redenção do seu irmão. Redenção não significava tirá-lo da prisão,
mas livrá-lo da tropa.

Naquela época, no nosso igualitário país, os ricos podiam livrar-se


do serviço militar obrigatório - e, portanto, da guerra - pagando uma
quota ao Estado. Muitos pais poupavam toda a vida para isso, para que
os filhos varões não morressem, e havia inclusive companhias de
seguros que tinham apólices especiais destinadas a tal finalidade.
Cobravam a quota e um extra, que era o lucro, mas se o filho morresse
antes da idade militar, devolviam o dinheiro. Resumindo, nas
gloriosas guerras coloniais do país só os pobres é que lutavam.

O que não me estranhou nada, porque durante séculos assistira a isso:


os nobres formavam mesnadas com os seus servos e enviavam-nos para a
morte.

273
Quando a vitória chegava, era a vitória do nobre. Se chegasse a
derrota, era porque os servos não tinham lutado bem. E se a morte
chegasse, os servos convertiam-se em pó dos caminhos.

Não foi apenas isso que eu vi. Na organização social que me rodeava,
o filho varão era o único seguro de subsistência na velhice dos seus
pais, sem que as mulheres tivessem quase nenhuma participação. O
curioso é que a pobre da Anita ganhava o dinheiro, ao passo que o
irmão não fazia nada, e não creio que a menina - a dos cortinados
vermelhos e das portas tão brancas - recebesse qualquer género de
gratidão.

Bom, pois acontece que os últimos dias de Juan Rull terminaram ali,
naquela casa dos amores proibidos. Eu seguira-o, mais uma vez, e
estava oculto num terreno contíguo. Era uma tarde tranquila,
sossegada, entregue aos sonhos que estavam de partida, uma daquelas
tardes que o poeta Joan Maragall, morador no bairro, dedicava a
escrever os seus versos.

Foi nessa tarde que a bomba rebentou.

A explosão fez tremer a casa. Os vidros partiram-se, as paredes


vacilaram e as portas abriram-se de repente. Meninas assustadas e
nuas chamaram pelos seus pais, e sisudos varões nus chamaram pelos
seus advogados. A senhora Blajot desatou a gritar.

E para minha surpresa - muito relativa - vi que um dos homens que


tentava fugir era Juan Rull.

Juan Rull, o que colocava as bombas.

Mas esta não podia ter sido colocada por ele, porque ele era uma das
vítimas, e além disso eu vira-o entrar na casa sem nenhum volume
suspeito. Foi um dos atentados menos comentados pela imprensa de
Barcelona. E era natural, porque havia demasiados interesses e
demasiado dinheiro em jogo.

Foi essa a razão que fez com que eu só soubesse a verdade mais tarde.
Uma das raparigas do prazer da rua Roca apaixonara-se loucamente por
ele, Rull, ao ponto de se tornar sua cúmplice e lhe guardar as
bombas. E essa mulher tinha ido com uma das bombas até à mancebia de
San Gervásio, porque não conseguia suportar que Rull namoriscasse com
outras.

274
Porém, o artefacto que pretendera lançar para cima do criminoso
explodiu-lhe nos dedos.

Os pedaços da mulher, o sangue, as entranhas, os seus pensamentos


perdidos, atapetaram as paredes daquela maldita casa. E Anita caiu de
joelhos no limiar da porta, Anita, que fora devorada já pela cidade,
fechou os olhos e começou a rezar na esperança de que alguém do outro
mundo a ouvisse.

E talvez alguém a tenha ouvido, porque foi este o fim de Juan Rull.
Descobriram tudo, falaram de tudo no julgamento (excepto, é claro,
das meninas perdidas), e o Governador Civil e a polícia activaram os
mecanismos para que o procurador pedisse o que era lógico: a pena de
morte.

Foi esta a única vez que fiquei com pena de não ser o ajudante do
carrasco.

A Audiência de Barcelona estava então situada no Palácio de la


Diputación Provincial, que posteriormente seria o edifício da
Generalitat de Cataluna. Ambas as Instituições, o Tribunal e a
Diputación, partilhavam o edifício.

Entrava-se na Diputación pela porta principal, aberta para a praça de


San Jaime, e no Tribunal pelas portas da rua del Obispo e de San
Honorato, que ficam nos lados opostos do palácio e por onde era
possível aceder ao admirável pátio gótico.

Na época em que tudo isto se passava, na Barcelona das bombas, o


Tribunal constava apenas de duas secções, primeira e segunda, que era
a mais pequena. Isso não levantava qualquer problema quando à secção
segunda iam parar processos de grande envergadura, como o de Rull,
processos que atraíam toda a imprensa e verdadeiras multidões que
tinham de ficar na rua à espera. Aí então trocavam-se as salas.

Tudo ali era velho, além de «antigo», naqueles espaços com móveis
estofados a vermelho, com um veludo devorado pelos anos, coçado e
sujo, e paredes cobertas com tapeçarias que - estas sim - eram
valiosas e que depois passariam para o Palácio de Justiça.

275
Talvez a própria decrepitude do ambiente, porém, conferisse à Justiça
uma máscara que incutia simultaneamente terror e respeito.

A mesa presidencial, para dar maior majestade às cerimónias, estava


situada sob um dossel. Dos magistrados viam-se apenas as cabeças,
porque os cadeirões afundavam-se. A luz que entrava pelas janelas era
uma luz plúmbea, morta, digerida pelas ruelas de Barcelona.

Juan Rull, claro está, foi condenado à pena de morte. Não houve
discussão.

E deram-lhe o garrote vil, uma arte de matar na qual eu chegara a ser


um especialista, ainda que em relação a isso não pudesse gabar-me à
frente de ninguém. No entanto, a execução não foi realizada em
público, porque as autoridades consideraram que aqueles espectáculos
eram demasiado macabros. Tinham terminado as execuções públicas, que
durante um tempo fizeram parte da minha vida, tinha terminado o Pátio
de los Cordeleros, a exposição do cadáver, tinham terminado também os
quadros de Ramón Casas.

Juan Rull foi o primeiro homem executado num pátio do estabelecimento


penitenciário Modelo, a nova prisão da rua Entenza, que era então
quase primorosa, recém-estreada, e que os anos transformaram numa
morgue. Com a morte de Rull e o fim das bombas, a Barcelona dos meus
segredos termina uma das suas épocas.

Para mim, era como o final de um inferno, o final de todas as


surpresas que se foram sucedendo na minha existência e de que não
podia falar a ninguém.

Porém, aquilo não era um final, mas um princípio.

Eu é que ainda não o sabia.

276
A CONFISSÃO

- Acompanhe-me.

Não era uma ordem, era um convite que parecia chegar de todos os
lados, como um sopro de ar. Marta Vives levantou-se e deixou de
apertar com os dedos a mesa de mogno. Foi naquele momento que se
sentiu sozinha e perdida, como se tivesse deixado de pertencer ao
mundo.

Agora que o rosto tão branco desaparecera, não via mais nada.

- Siga-me, apoie-se nas paredes - disse a voz. - Encontraremos luz


mais em baixo.

«Mais em baixo.»

Marta Vives, apesar de já ter entrado em muitos recantos selados,


sentiu a boca ficar seca.

- Os planos da casa são os que constam na câmara - indicou a voz, um


passo à sua frente -, e são por isso considerados correctos. Mas é
preciso saber o que são as velhas cidades para perceber que se
enganam.

- O que quer dizer?

- Que debaixo desta há outra casa, da qual restam apenas ruínas. Sabe
tão bem como eu que as cidades vivas são erigidas sobre as cidades
mortas. Vamos chegar a um tabique perto da entrada e então vai vê-lo.

De facto, uns raios da última luz dos pátios mostravam um tabique


coberto de papel de parede segundo as normas do bom gosto de noventa
anos atrás, embora do papel apenas restassem ripas.

277
Marta não reparara antes naquele tabique porque considerava aquilo a
coisa mais natural do mundo e aquela era uma dessas paredes que não
se vêem. Mas as mãos do seu acompanhante deslizaram por ela.

- É um tabique falso - disse a voz. - Levantaram-no há muitos anos


para o isolar de uma conduta do esgoto que era um ninho de ratos.
Essa conduta de esgoto não pertencia a esta casa, mas à que antes
disso ocupara este sítio, e estamos agora por cima dela. Espero que
ninguém nos oiça se fizermos um pouco de barulho.

E procurou algo que servisse, uma velha barra de ferro. Não era
difícil encontrar isso ali. A casa estava cheia de velharias usadas
pela Câmara para evitar que a casa ruísse.

Mas Marta não lhe permitiu usá-la. Tinha uma pergunta no fundo da
secura da sua boca.

- Como sabe isso? - gaguejou.

- Porque eu já tinha estado nesta casa antes deste tabique ter sido
construído.

A rapariga fez um gesto de incompreensão.

- Mas... - balbuciou.

- Por favor, não me pergunte.

E deu dois golpes no tabique. A força daquele homem era imensa, e


também a sua habilidade para encontrar o ponto mais frágil da parede.
O impacto deve ter sido ouvido nas duas casas vizinhas, mas ninguém
ligou. Os técnicos municipais já ali tinham estado demasiadas vezes.

Marta quase não via nada, mas conseguiu distinguir um buraco na


parede. Embora não fosse muito grande, permitia a passagem de um
corpo. Ripas de papel ficaram penduradas no ar.

- Quando atravessar o buraco, Marta - sussurrou a voz -, estenda as


mãos e encontrará uma parede à sua frente. Quase imediatamente
começam dez degraus de pedra, que suponho que estejam escorregadios.
Tenha cuidado e não se preocupe com as ratazanas. A conduta de esgoto
foi fechada há bastante tempo.

Marta seguiu as indicações, entrando num mundo que, agora sim, era
feito apenas de trevas. Estendeu os braços e encontrou uma parede
viscosa. Mexeu a perna direita, num difícil equilíbrio, e encontrou o
primeiro degrau.

278
- Ponha os dois pés em cada um deles - indicou a voz - descendo muito
a pouco e pouco. Lembre-se que são dez degraus. No fim, vou esperar
por si e poderá apoiar as mãos nas minhas costas.

Marta Vives assim fez.

Aconteceu-lhe uma coisa que nunca lhe havia acontecido anteriormente:


eriçaram-se-lhe os cabelos da nuca.

E chegou ao final. Lá estavam à sua espera umas costas nas quais


apoiou ambas as mãos. Não sentia medo, mas no entanto sentiu uma
espécie de angústia por lhes tocar.

- Agora vou avançar até ao fundo. Não há mais nenhum obstáculo. Se


quiser, pode continuar a apoiar-se nas minhas costas.

A distância não era muito grande, embora lhe tenha parecido


interminável. Mesmo uma arqueóloga como ela julgava que nunca mais
iria sair dali. Ao fundo ouvia-se um leve rumor de água, como da
conduta de um esgoto.

A voz tranquilizou-a:

- Não fique admirada. Por baixo da Barcelona que vive, há várias


Barcelonas que morreram, mas que ninguém investiga. Não vão demolir
uma rua cheia de moradores para descobrir um velho templo.
Igualmente, por baixo do Vaticano que os fiéis conhecem, há um outro
Vaticano, apenas conhecido pelos papas.

Chegaram finalmente ao que Marta não vira nunca, mas o outro sim.
Ouviu-se o riscar de um fósforo e logo surgiu uma chamazinha. Quase
mesmo ao lado desta, tomaram-se visíveis dois feixes. As mãos muito
brancas - que de repente pareceram surgir do nada -prenderam uma
daquelas tochas, que pareciam não ter sido acesas nos últimos cem
anos.

Marta Vives aproximou as mãos da boca para não gritar. Estava num
pequeno quarto de pedra que era, na realidade, uma câmara mortuária.
Havia entulho no chão.

-Antigamente isto estava selado - disse a voz -, mas a pequena parede


deve ter ruído com os movimentos, quando fizeram ao lado os novos
esgotos. Os moradores da casa, quando ali viviam pessoas, julgaram
que acabava tudo nesta parede.

Marta não escutou esta explicação. Não lhe interessava. Estava


admirada perante o que parecia ser um túmulo de madeira carcomida,

tão esburacada que parecia impossível que o túmulo ainda se


mantivesse em pé.
279
Por cima, repousava um cadáver, ou melhor, aquilo que fora um
cadáver.

Não restava nada, excepto as ripas de umas vestes sacerdotais como as


que são usadas para celebrar missas e que tinham sido literalmente
comidas pelas ratazanas, cujos pequenos esqueletos cobriam o chão.
Sem dúvida, acabaram por morrer quando, muitos anos antes, a conduta
fora fechada e os orifícios que davam acesso àquela câmara secreta
foram selados.

Marta mal reparou nisso. Apenas no morto que ali jazia e que não
passava de um esqueleto sob aqueles bocados de tecido. Mas até o
esqueleto fora roído pelas ratazanas. Restavam apenas umas formas,
uns restos de algo que fora belo, umas órbitas que pareciam janelas
para o nada, uns dentes curvados a formar o que parecia ser...

- Um sorriso...?

O homem da cara muito branca parecia encontrar-se em território


familiar. Não ficou minimamente perturbado. Enquanto se afastava para
o lado, para que Marta pudesse ver tudo melhor, sussurrou:

- Apresento-lhe o bispo Masdéu. Nunca chegou a comandar Barcelona ou


nenhuma outra diocese; tinha um desses bispados honoríficos que fazem
parte dos inícios da Igreja: cidades do Oriente Médio onde restam
apenas ruínas. Na realidade, o bispo Masdéu estava afastado de tudo.
Era considerado um louco, se não mesmo um herege. Mas um herege que
ninguém conseguia perceber.

- O que quer dizer...?

-Vagueava pelas ruas com hábito talar, misturava-se com os pobres.


Visitava os cemitérios e por vezes desaparecia um ano ou mais. Foi
essa a razão que fez com que, quando morreu, os seus superiores
pensassem que se teria perdido algures. E na verdade, sempre esteve
aqui, inclusive próximo da catedral, na casa onde quis morrer.

Marta julgou não ter percebido bem.

- Quis morrer...? - sussurrou.

- Sim.

- Mas o senhor matou-o...

- Sim.

280
- Como foi capaz... tantos anos atrás? Passou um tempo que... que...

A cara parecia cada vez mais branca.

- Pedi-lhe para, por favor, não me perguntar.

Marta sentiu os seus sólidos joelhos de atleta a tremer. A luz da


chamazinha parecia girar por todo o quarto. O seu cérebro também
parecia andar à roda e isso quase fez com que perdesse o equilíbrio.

- Apoie-se na parede - recomendou a voz. - E, claro, não tenha medo.

- Não... não tenho.

- Mas está a pensar em muitas coisas, demasiadas coisas. Ela apenas


balbuciou:

- Sim...

- De certeza que uma dessas perguntas é como poderei eu ter morto


este homem se já passaram tantos anos, tantos que uma vida humana não
é suficiente para os abarcar. Mas sobre isso repito que não deve
fazer-me perguntas. Provavelmente não me entenderia.

Vendo que Marta fazia apenas um leve movimento de cabeça, a voz


continuou:

- Não deve ligar aos calendários. A vida tem muitos sentidos,


demasiados para a compreendermos na sua totalidade.

- Mas disse que matou o bispo Masdéu... Porquê?

- Matei-o porque ele mo pediu... Além disso, tenho sistemas para


evitar que uma pessoa sofra quando morre.

Marta preferiu não perguntar quais eram esses sistemas. Naquele


momento também não era capaz de imaginá-los. Balbuciou:

- Porque pediu ele tal coisa?

- Estava tão arrependido que não queria viver, mas não era capaz de
se suicidar. Melhor dizendo, um bispo não se suicida, mesmo que os
outros o vejam como um louco. Preferiu deixar-se matar.

- Está a referir-se... a uma eutanásia?

- Pode dar-lhe esse nome, se quiser. Eu acredito na eutanásia, e o


bispo Masdéu também acreditava nela.

- Mas a Igreja não.


- A Igreja engana-se e no fim acabará por ceder. O limbo, ao que
parece, existia, e já não existe. A ressurreição da carne existia, e
por isso a cremação era proibida.

281
Hoje, a cremação existe, e é até uma forma poética, por assim dizer,
de conservar a carne. Um dia, a Igreja vai ceder também em relação à
ideia do inferno, acerca do qual, por outro lado, temos apenas
referências muito incertas. E isto porque o inferno vai contra o
senso comum e inclusive contra o instinto de vingança.

Marta preferiu não separar os lábios. Estava fascinada com aquela


voz, mas sobretudo com aquele mundo fantástico, misterioso, ignorado
e subterrâneo. Parecia-lhe incrível que sob as velhas ruas de
Barcelona existisse uma outra realidade.

Mas existia.

Além disso, a ideia de inferno também coincidia com a sua, e isso


nublava-lhe os pensamentos. Parecia-lhe mentira que a «sua» verdade
pudesse ser expressa tão claramente. Porque já em criança tivera a
sua própria ideia do inferno, uma ideia herética, sem dúvida, e que
agora ninguém lhe proibia. As suas antepassadas talvez tivessem
pensado as mesmas coisas, mas para elas era proibido. E pensar demais
pagava-se com a morte.

Sempre pensara assim. Se ela tivesse nas suas mãos o pior bicho do
mundo, o homem que tivesse violado e depois assassinado a sua filha,
ela, Marta Vives, enviá-lo-ia para o fogo eterno. E durante os
primeiros vinte anos, ouvindo os seus gritos, beberia à sua saúde e
pedir-lhe-ia para guinchar ainda mais. E cinquenta anos volvidos,
impor-se-ia muito levemente um certo sentido de piedade. E após
sessenta, pensaria que já chegava e tiraria o inimigo do inferno. Era
isto o que ela pensava, um ser humano cheio de imperfeições. Como
podia o Deus perfeito não sentir sequer isso? Como podia castigar com
a eternidade um pecado que por vezes consistira apenas em blasfemar
ou não ir à missa...?

Aquele desconhecido pensava a mesma coisa, e aquele desconhecido


parecia saber tudo.

Sentia o olhar dele, que desde o primeiro momento lhe parecera estar
para além do tempo. Finalmente, balbuciou:

- Porque me ensinou isto... a mim?

- Porque é o último elo de uma grande cadeia. E esperei poder


encontrá-la sozinha para falar consigo.

282
- Não percebo.

- Há linhagens de gente que pensa - murmurou a voz -, e isso tornou-


as linhagens malditas. Algumas dessas linhagens provocaram guerras de
religião, cismas, heresias, dúvidas que passaram de pais para filhos.
Todos o pagaram duramente. E quando falo de algumas linhagens,
refiro-me concretamente à sua, à dos Vives.

Ela hesitou novamente. Não conseguia falar.

Mas foi a voz que continuou:

-A sua foi uma linhagem esclarecida. Não posso dizer se foi melhor ou
pior, mas foi uma linhagem de gente que pensava. E além disso
conservava em relação a isso um certo orgulho, e a prova é que
formavam uma espécie de círculo fechado e quase secreto. E quando
chegava a hora de casar, praticavam a endogamia.

Marta fez um gesto afirmativo. Sabia muito bem que aquilo era
verdade.

- Peço-lhe para pensar em algumas dessas antepassadas - continuou a


voz. - Há pouco esteve em contacto com algo que tinha pertencido a
uma delas.

- Com o quê...?

- Devia lembrar-se. Era uma cruz de bronze. Ela apenas conseguiu


dizer:

- Sim...

- A mulher que a levava no seu túmulo foi executada como herege na


Idade Média - que agora lhe parecerá muito longínqua, mas que
continua a marcar a nossa vida - e, como era crente, pediu para ser
enterrada com a cruz. Não quiseram dar-lhe a cruz de toda a gente,
mas antes uma espécie de insígnia pagã. Você já a viu: é algo
parecido ao que os alemães chamavam a cruz de ferro. Uns ladrões
violaram esse túmulo. Não era terra sagrada, ainda que estivesse
perto de um templo românico: Sant Pau dei Camp.

Marta conhecia aquilo perfeitamente, e esse conhecimento era uma das


suas torturas. Portanto, limitou-se a assentir enquanto a voz
continuava:

- A filha dessa mulher foi assassinada, segundo as velhas histórias.


Era uma herege mais dura que a mãe, e ainda por cima palpitava nela o
sentido da vingança.
283
Poderia perfeitamente ter sido queimada viva, mas livrou-se. Mataram-
na, ou antes, assassinaram-na, de outra forma.

- Quem foi?

- Eu sei - disse a voz.

- Então fale...

- E de que lhe servirá? Será que tem um sentimento de vingança por


algo que aconteceu há tantos anos? Peço-lhe que em relação a isto
também não me faça perguntas.

- Algum dia terá de me dar a resposta.

- Talvez venha a descobrir por si... Mas não serei eu, da minha
distância, quem lho dirá. Além disso, quem o fez pensava que era o
seu dever.

- Então dê-me um nome, alguma coisa... Não se esqueça que sou


historiadora.

Como se não tivesse ouvido aquelas últimas palavras, a voz continuou:

- Digamos que a sua família, a sua linhagem, Marta, cultivava alguns


ritos satânicos. Os rituais satânicos, como os divinos, são de uma
imensa antiguidade, e portanto também dignos de respeito. Falando a
partir da minha imensa distância, poderia dizer-se inclusive que a
sua linhagem teve contactos com o diabo.

Marta protestou:

- Talvez esteja a falar-me de histerismos e alucinações. A ciência já


estudou bem isso.

- Porventura qualquer pensamento superior - disse ele, aproximando-se


do cadáver -, sobretudo se for um pensamento religioso, estará em
contacto com o histerismo ou a alucinação, mas é esse pensamento que
muitas vezes se aproxima da verdade. Poderia dar-lhe um nome também
muito conhecido: intuição. Mas insisto em que a sua linhagem teve
contactos com o diabo, e daí a longa cadeia de mortes, sempre
cometidas por uma mão que acreditava estar a cumprir um dever. Poderá
não acreditar em mim, mas eu não a teria trazido até aqui, a este
fundo do tempo, para lhe mentir. Além disso, a menina teve uma prova
dessas relações com o diabo.

284
Marta Vives voltou a sentir vertigens.

Não se lembrava de nada, e por isso negou obstinadamente com a


cabeça.

- Não se lembra?

- Não...

Houve uma espécie de troça na voz quando acrescentou:

- Uma pequena jóia... Uma corrente. Marta abriu muito a boca.

De repente, estava a perceber.

- Aquele fio - balbuciou - cuja pista estava a ser seguida pelo Mas-
déu...

- Você viu-o.

- Vi... a ideia dele.

- Mas o fio existiu. E existe.

- O quê...?

- Existe.

Marta Vives apoiou-se numa das paredes de pedra da câmara, porque de


contrário talvez tivesse caído para cima do cadáver. Esta ideia
inspirou-lhe um imenso horror. A chamazinha da tocha ameaçou
desaparecer e deixá-la novamente imersa nas trevas.

A voz continuou:

- Quem lha mostrou foi um criador de jóias chamado Masdéu. Não


preciso de lhe dizer que é um descendente deste cadáver que agora
está ao alcance das suas mãos.

Marta, que julgava estar acostumada a tudo, nem se atreveu a olhar


para ele.

- Sei que me está a perceber, Marta. Masdéu, o criador, nunca tinha


visto essa jóia, mas existia uma tradição relacionada com ela e,
portanto, ele procurou-a por todo o lado. Em certo sentido, também
você, porque chegou a ser especialista em jóias que exibiam as velhas
damas dos quadros. As jóias transportam consigo a história e nelas
está agarrada a pele de pessoas que já não existem. Você nunca será
rica, mas ama-as. Sabe que elas conservam para sempre pedacinhos de
vida.
Marta teve de fechar os olhos porque ele adivinhara um dos seus
segredos.

285
Aquilo era verdade.

E apenas abriu os olhos quando aquela voz suave continuou a dizer:

- Masdéu sabia, e sabe, que esse fino colar está relacionado com o
diabo.

- Mas não é valioso - objectou ela. - Numa ourivesaria quase nem


chamaria a atenção. Para um profissional tão importante como ele qual
é o interesse?

- Existem dois motivos.

- Diga.

- Um é o design: trata-se de um fio quase impossível, uma vez que os


elos não chegam a ficar presos. Não estão fechados. Mais do que uma
jóia, poderia ser um projecto ou um pensamento. Certamente, Masdéu
tentou criá-la, depois de ter conseguido concluir o desenho.

- E...?

- Não foi capaz. Os elos em forma de «seis» não se mantinham bem e a


jóia desencaixava-se assim que alguém mexia nela com os dedos. Apenas
um desses fios existe na realidade, e não parece confeccionado por
dedos humanos. Masdéu está obcecado por isto. Ele conhecia a tradição
da sua família e sempre se esforçou por encontrá-la.

Marta recordou-se da visita a Masdéu, a criação desenhada por ele, as


perguntas que lhe fizera e que talvez naquele momento não tivesse
percebido. Sentiu-se novamente envolta pela sensação angustiosa do
tempo.

Perguntou com um fio de voz:

- Foi ele quem roubou o retrato da minha mãe?

- Sim. Talvez ela levasse a jóia posta...

- E o que é que ele tem com isso? - perguntou a rapariga com uma voz
que não parecia sua.

- Esse é o segundo dos seus motivos.

- Por favor, conte-me.

- Não preciso de lhe dizer que, entre as muitas superstições que


rodeiam o diabo, figura a do número seis. Durante séculos, o seis tem
sido considerado o número do diabo.

- Isso não é nenhum mistério. Imagino que faz parte das tradições sem
fundamento, mas a tradição existe, é verdade.
286
- E você não lhe dá importância.

- Não.

- Mas talvez desse, Marta, se estivesse obcecada com o diabo. E se


calhar devia estar, ou talvez esteja, no fundo de si própria, porque
os seus ascendentes estiveram de algum modo relacionados com ele.
Pelo menos, acreditavam no seu poder, ou sentiam por ele um interesse
humano. E por isso, ao longo dos anos, foram sempre vítimas.

A rapariga assentiu apenas com um movimento de cabeça.

- A sua família, Marta, fez sempre parte das vítimas, e você mesma
pode sê-lo a qualquer momento. Agora, imagine que em vez de pertencer
ao ramo das vítimas pertencesse ao ramo dos carrascos.

- Não estou a perceber.

- Mas eu estou a falar-lhe de forma muito clara. Os carrascos! Se


pessoas da sua família, especialmente mulheres, foram perseguidas ou
assassinadas ao longo dos séculos, alguém teve de persegui-las ou
matá-las.

- Os Masdéu.

Marta Vives hesitou outra vez, e outra vez teve a sensação de estar
prestes a cair para cima do morto.

- Mas, porquê? - balbuciou.

- Os cristãos acreditam que o diabo é o inimigo absoluto de Deus.

- Bem... bem sei.

- E alguns desses cristãos são fanáticos e matam aqueles que julgam


estarem possuídos pelo diabo. Não preciso de lhe dizer que este é um
facto tão habitual que já se repetiu milhões de vezes ao longo da
história. Quem não obedecia a Deus devia ser exterminado: com eles,
morria também o inimigo absoluto. Se falar das perseguições por parte
da Igreja, se falar das fogueiras e dos autos-de-fé, se falar da
Inquisição, não vai precisar de outros dados históricos.

Marta sabia que não podia rebater aquelas palavras, mas já mal
conseguia respirar.

- Acabou de falar dos Masdéu...

- De facto. Eles constituíram, ou constituem, uma linhagem


absolutamente contrária à sua, a do ramo dos Vives a que pertence: os
Masdéu foram sempre fanáticos de Deus e consideraram seu dever ajudá-
Lo com a morte.
287
- Mas porquê...?

- Talvez porque há linhagens que não pensaram tanto como a sua Marta.
E que mantiveram um fanatismo baseado em algo em que acreditavam
cegamente.

- No quê?

A voz disse apenas:

- Acreditavam na Obediência. Se alguma vez escrever esta palavra,


faça-o com letra maiúscula: a Obediência.

Marta tentou pensar, mas não conseguia. Era melhor deixar-se levar
pela voz. Ainda assim, fez um gesto a indicar que não estava a
perceber bem.

- Muitas coisas, as mais importantes, estão baseadas na obediência,


que quase sempre é irracional. E é-o porque não pode ser discutida.
Por exemplo, o exército. Por exemplo, o clero. Por exemplo, Deus.

- Deus...?

- O Deus que você conhece baseia-se na Obediência. «Deves» acreditar


n'Ele e respeitá-Lo. Ele oferece mistérios e nós «devemos» aceitá-
los. Impõe-nos uns mandamentos e nós «devemos» segui-los. Aquilo a
que chamamos História Sagrada abunda em casos desses: por exemplo, a
ordem de Deus para que um pai sacrifique o seu filho. Deus impõe,
sobretudo, a Obediência. O Papa é infalível e não podemos discuti-lo.
Toda a religião católica poderia ser resumida numa única palavra:
Obediência.

Agora afigura mexeu-se. A chamazinha do feixe ameaçava extinguir-se,


talvez porque o oxigénio que chegava àquele lugar remoto não era
suficiente. Enquanto isto acontecia, Marta Vives estremecia de
horror.

-Os católicos são obedientes ou são hereges - sussurrou novamente a


voz. - E os crentes absolutos podem ser fanáticos e acreditar que têm
uma missão sagrada para cumprir.

- Ainda está a falar dos Masdéu?

- No seu caso sim, Marta. Um ramo dos Masdéu sempre perseguiu um ramo
dos Vives, precisamente o ramo a que você pertence. Durante séculos
perseguiram-nos e assassinaram-nos, acreditando que estavam a cumprir
um dever.

288
Não foram os únicos, mas não quero aumentar a sua angústia falando-
lhe de mais alguém. Uma das pessoas assassinadas, e cuja morte nem
consta no Registo Civil, foi uma sua antepassada não muito longínqua.
Teve um nicho no cemitério Novo, junto do outrora pestilento esgoto
do Bogatell. O cemitério romântico de Barcelona.

Marta ficou abatida. Lembrava-se perfeitamente das investigações que


ela própria tinha feito.

- Um Masdéu matou-a - continuava a explicar a voz - e, certamente,


uma investigação policial foi iniciada, sem qualquer resultado.
Naturalmente, também, essa investigação estava condenada ao fracasso
desde o primeiro momento.

Marta fez um só gesto de interrogação, pedindo ao outro para


continuar.

- Quer saber porquê, Marta? Bem, porque a polícia, a de agora, e


sobretudo a de antigamente, não investiga nos meios eclesiásticos. À
partida, na católica Espanha, quando a sua antepassada morreu, um
sacerdote não era suspeito. E foi um sacerdote que cometeu o crime,
ainda que ele não o considerasse assim.

Os olhos de Marta foram até ao cadáver e pousaram-se naquilo

que restava dele, nas suas órbitas, os dentes intactos, naquela


sombra

de sorriso que chegava do outro mundo.

- Ele?

Houve um leve gesto afirmativo na cabeça branca, sempre imersa

nas sombras.

- Sim, Marta, mas...

- Mas... o quê?

- Masdéu arrependeu-se. Masdéu queria ser um homem justo, e percebeu


mais tarde o que fizera. A Obediência estalou dentro dele, ou talvez
a dúvida tenha perfurado aquilo que até então tinha sido a sua vida.
O caso foi que, quando a investigação já estava encerrada, ele
recuperou o cadáver, que fora enterrado por caridade junto da vala
comum. E agora pode acreditar em mim, ou não, mas eu vi como o
faziam, como o corpo irreconhecível voltava a brotar da terra.

Marta teve por momentos a sensação de estar a enlouquecer. As


palavras chegavam aos seus ouvidos, e ela percebia-as, mas não eram
destrinçadas pela sua mente.
289
Parecia um sonho, quase fora de contacto com a verdade. Algo se
revoltou no seu interior e fez com que mexesse a cabeça
negativamente, embora também não se atrevesse a não acreditar. Aquilo
que estava a ouvir mantinha-a tão quieta como se também ela tivesse
morrido.

Finalmente, conseguiu balbuciar:

- Viu como o faziam...?

- É claro... Eu era naquela altura um dos administradores do


cemitério.

- Acho que estou a enlouquecer...

- Eu só falo daquilo que vi. O corpo daquela mulher brotou do fundo


do tempo. Um sacerdote que já então se começava a destacar pela sua
sabedoria estava mesmo ao meu lado. Vi lágrimas nos seus olhos.

- Um sacerdote... que era este?

- Sim, uma pessoa sagrada que mais tarde chegaria a ser bispo porque
toda a gente lhe reconhecia a ciência, a caridade e o sentido do
dever, ainda que ele nunca tivesse exercido qualquer potestade. Já
lhe disse. Tinha uma vida tão extravagante que era considerado um
louco, e por isso passou a ser uma espécie de morto em vida. Mas
estava arrependido, e colocou num nicho do cemitério romântico a
mulher que matara. Nunca levou flores, mas de vez em quando ia rezar
junto da sua lápide. Ninguém percebia. E pagou sempre aquele nicho,
como quem expia um pecado.

- Mas depois deixou de o fazer...

- É claro, quando morreu. Porque desejava morrer, porque a sua


angústia era superior à sua vida - e a cara fechou um instante os
olhos. - Anteriormente, quis comprar o nicho, mas não pôde, porque
lhe era proibido possuir bens e porque os seus superiores tê-lo-iam
obrigado a esclarecer muitas circunstâncias. Foi muito mais simples
para ele consignar um montante para que o aluguer da sepultura se
mantivesse quase indefinidamente. E assim teria acontecido, mas
entretanto chegou a guerra civil. Ninguém se lembrava então de um
longínquo bispo chamado Masdéu, cujo cadáver nem sequer havia
aparecido. A laje do tempo caíra sobre uma Barcelona em guerra e
incapaz de se recordar.

290
Alguns túmulos foram profanados, de outros perderam-se os papéis e
sobretudo as velhas consignações em dinheiro. A esta casa que já
estava fechada chegaram intimações para se arranjarem novamente os
documentos, mas nunca chegaram a ser recebidas por ninguém. Então,
decorridos muitos anos, o nicho foi esvaziado, tal como acontecera
com muitos outros. Por isso você já não conseguiu encontrar rastos da
sua antepassada.

Marta Vives apertou os lábios com angústia. Lembrava-se perfeitamente


de tudo, e tudo encaixava. Nada podia entrar completamente na sua
mente, mas tudo batia certo.

A voz concluiu:

- Precisava de lhe explicar isto tudo. Não queria mantê-la durante

mais tempo na dúvida.

- Não queria fazer isso...? Mas não percebe que agora duvido muito
mais?

- Agora já tem direito a fazê-lo. Expliquei-lhe tudo. Resta-me apenas


tirá-la daqui, deste lugar onde provavelmente nunca voltaremos, e
dar-lhe um último aviso. Imploro-lhe que oiça atentamente.

- Qual é?

- Corre um grande perigo, Marta Vives. Agora que tocou a morte,


acredite na morte. Proteja-se daqueles que durante gerações têm
matado. Afaste-se do perigo, e para isso talvez haja apenas uma
solução.

- Qual?

- Marta, esqueça-se de si mesma e das dúvidas que lhe foram

transmitidas ao longo dos anos. Deixe de pensar.

Marta Vives não precisava disso. Praticamente havia deixado de pensar


desde que entrara naquele mundo irreconhecível, mas ainda assim
perguntou:

- Devo manter-me afastada dos Masdéu?

- Resta apenas um. Mas não me pergunte mais, porque insisto:


provavelmente não me iria perceber.

E dos lábios tão brancos surgiu a mesma palavra com que começara a
falar:

- Acompanhe-me.
291
.38.

OS OPERÁRIOS DE DEUS

Um dos primeiros clientes de Antoni Gaudí foi um rico antiquário


chamado Masdéu. O rico antiquário Masdéu encomendou ao pobre
arquitecto Gaudí uma rotunda para o seu jardim, que estava no que
mais tarde viria a ser a avenida del Tibidabo. Na rotunda tinha de
haver pássaros de cerâmica, astros fugazes que deixavam uma estela,
flores irisadas e umas nuvens com fundo cinzento, como se tivessem
cor de Outono; esta ficava no ângulo do jardim, dominando uma rua com
cheiro a flores e sem outro barulho que o esvoaçar dos pássaros.
Quase ninguém passava por ali: a rua Balmes não estava ainda
concluída, erguiam-se continuamente muros de jardins e as estufas de
plantas fechavam os caminhos. Masdéu amava a solidão, e para ficar
mais a sós com Deus ordenara a construção de uma capela.

Quando conheci Gaudí, era velho e não se dedicava a fazer rotundas,


mas autênticas catedrais. Eu, o homem da vida eterna, estava à
procura de um novo bairro e uma nova identidade e fiquei
imediatamente fascinado pelas redondezas da Sagrada Família. Vi meio
construído um templo prodigioso, atormentado, que provavelmente não
existia em mais nenhum sítio do mundo. Era um templo onírico, ilógico
e espectral, mas ao mesmo tempo tão sólido como se fosse construído
com almas de pedra.

Soube depois que era um templo expiatório, com o qual se pretendia


que Deus perdoasse os pecados da cidade, que eram muitos e variados.
E se não que me deixassem acrescentar à lista todos os que já vira...
Mas cedo percebi uma outra coisa: o templo era apenas a expressão dos
sonhos mais secretos do seu construtor, um dos homens mais
trabalhadores, solitários e agrestes que alguma vez conhecera.

292
Não ia a lado nenhum, e ainda por cima dormia no próprio templo, como
um prisioneiro. O seu mundo resumia-se aos planos, aos cinzéis, às
pedras e ao silêncio da noite na cripta. Suponho que deveriam ser
assim os tipos que cometeram a loucura de construir as catedrais

góticas.

O templo a que fui parar naquele bairro afastado chamava-se Sagrada


Família, e avançava com tanta lentidão que as pessoas começavam a
dizer que nunca terminaria, o que provavelmente chegará a ser
verdade. Nada mais adequado do que isso para demonstrar a eternidade
do Senhor.

Eu fui para lá viver. Gaudí consentiu-me isso.

Uma noite encontrou-me quando eu me abrigava na cripta, fugindo de


uma chuva suave que esbatia os contornos do templo, e permitiu-me
ficar. Gaudí era um homem que vestia mal, privava com os pobres e não
dava importância ao dia-a-dia porque tinha o sentido da eternidade. E
se o arquitecto habitava no interior como uma larva, por que não
podia fazê-lo eu? Além disso, aquele que depois viria a ser o bairro
da Sagrada Família ainda não existia: havia pilhas de materiais para
a construção, desmontes, barracões e homens e mulheres que pareciam
não saber para onde ir. Talvez a construção mais notável fosse uma
olaria cujos donos, os Vericat, fabricavam tijolos e trabalhavam para
Gaudí, mas tudo, casas, pedras, caminhos e ar, ficava como que
esmagado pelo magnetismo do templo.

Gaudí permitiu-me ficar por outra razão: falando comigo, reparou que
percebia de arte, arquitectura e história. Pareceu-lhe inaudito numa
espécie de vagabundo como eu, e chegou mesmo a dizer-me com voz
velada: «É como se tivesses visto.»

Vivia enterrado no templo, um pouco como o corcunda de Notre Dame de


Paris, e a violência crescente na cidade não me afectava; desejando
viver oculto, mal me apercebi de factos tão sanguinários como os da
Semana Trágica: em Julho de 1909, o povo de Barcelona negou-se a que
fossem embarcados para a guerra de Marrocos milhares de reservistas
que já haviam feito o serviço militar (isto é, que não tinham podido
pagar ao Estado) e que, na sua maior parte, eram já casados e tinham
filhos.

293
Foi aí que se acendeu o rastilho da revolta popular, a queima de
conventos e igrejas, as barricadas tingidas de sangue, a exibição das
múmias na rua e depois a selvagem repressão militar, com os
fuzilamentos no castelo de Montjuic. Mas no silêncio do templo que
não havia sido tocado, eu, o homem do olhar eterno, continuei a viver
como uma larva.

A Sagrada Família, destinada a apaziguar a ira de Deus, avançava


apenas à base de esmolas. E uma das que mais dinheiro fornecia era a
família dos Masdéu, que por vezes me entregava o dinheiro para eu o
dar a Gaudí. Os Masdéu, como eu, acreditavam na vida eterna.

- Pareces assustada, Marta.

Marta Vives sentiu o olhar do seu chefe, o advogado Marcos Solana,


como um formigueiro. O formigueiro pousara-se ali, na linha das suas
pernas, que provavelmente ele traçara mil vezes no ar. Fechou-as
instintivamente, com um gesto de freira, enquanto um pensamento
subtil lhe dizia que estava a desperdiçar a vida.

- Porque dizes isso?

- Não sei... É uma sensação parva e que não consigo explicar, mas que
no entanto sei que existe. É como se tivesses acabado de sair de um
sítio que te deixou assustada. E quando te recordas dele, sentes
ainda o medo a dominar-te.

Ela tentou sorrir.

- Não, de todo... Posso parecer-te preocupada, mas é por outras


coisas. Não estou a adiantar o meu trabalho.

- Ora, fazes tudo bem.

- Bem gostaria de concordar contigo... - mentiu. - Mas estou-me a


referir a um artigo que estou a escrever para uma revista
especializada. Navego entre montanhas de papéis, não vejo as coisas
claras.

- Duvido que possa ajudar-te, mas se precisares de alguma coisa basta


pedir.

- Assim farei, com todo o gosto. Sei que tens sempre a melhor
vontade.

294
E Marta olhou para os documentos que estavam na mesa, embora desta
vez não se referissem a nenhum pleito. Eram facturas, que ela
ordenava como uma formiguinha e depois encaixava meticulosamente no
livro de Caixa.

- Acho que esta é privada - disse, separando uma. -Qual?

- O da viagem da tua mulher. Solana fechou os olhos por instantes.

- Sim, é privada... Não a incluas nas despesas do escritório. A minha


mulher faz um percurso por duas óperas: La Fenice e La Scala.
Empenhou-se em ir com um grupo de amigas.

Ficou um instante em silêncio e acrescentou:

- Diz que precisa de ampliar a sua cultura e mudar de ambiente.


Suponho que tem razão, que eu já não lhe ensino nada e que sou o
marido mais aborrecido do mundo.

Voltou a olhar para a Marta. Por um momento houve nos seus olhos uma
expressão fugidia, como que de pena de si mesmo. Depois, tentou dizer
com voz despreocupada.

- Esqueci-me. Ontem, quando estavas no tribunal, telefonou um criador


de jóias chamado Masdéu. Diz que precisa de falar contigo.

Insisto em que vivia dentro do templo como uma larva. Uma vez que
quase não tinha necessidades, ajudava Gaudí durante o dia e vagueava
solitário durante a noite. Olhava a lua, o sinistro descampado em que
o templo se elevava e ficava entusiasmado com os morcegos, que
brotavam às dúzias dos arcos de pedra. O seu esvoaçar era como uma
música que me transportava ao fundo do tempo, um tempo que apenas eu
conhecera.

Antoni Gaudí e eu morávamos na cripta, rodeados pelo pó, as


ferramentas e a solidão, e não saberia dizer qual de nós era o
refugiado ou o que parecia ser mais pobre. Gaudí tinha o aspecto,
mais do que nunca, de um vagabundo: vestia de um modo que infundia
respeito, devido ao seu porte, mas também algo parecido à compaixão.
Notava-se que o arquitecto era um iluminado: palpitava nele uma força
telúrica que chegava de algum ponto do passado e de algum lugar
ignorado da terra.

295
Percebi, simplesmente, que o templo era ele. Uma noite disse-me:

- Pensei numa coisa em que não deveria pensar.

- O que é que pensou?

- O senhor - disse-me - é um vampiro.

Não lho neguei. Qualquer mentira teria sido inútil perante uns olhos
que, como os meus, pareciam olhar de além do tempo. Respondi apenas:

- E o senhor é um eremita.

- Talvez seja natural. Não poderia erguer um templo como este se ele
não estivesse já dentro de mim, e isso significa deixar-me engolir
por ele.

- Não o assustei?

- Porquê...?

- Acabou de me dizer que sou um vampiro. Fez um gesto que parecia de


indiferença.

- Eu acredito nos vampiros, nas forças que estão para além da vida,
que vêm de um fundo em relação ao qual ainda desconhecemos tudo. E o
que está no fundo da vida não me assusta. Apenas uns quantos
iniciados podem atrever-se a penetrar nele.

As suas palavras nunca me tinham surpreendido; também estas não me


surpreenderam. Gaudí não era apenas um iluminado, mas um visionário,
e aumentava as suas visões com cogumelos alucinogénios que apenas ele
parecia conhecer e que por vezes o transportavam para outro mundo.
Gaudí, graças a algumas substâncias, vivia nesse outro mundo, mas
ainda havia algo mais: estava carregado de enigmas que talvez eu
pudesse perceber, porque vinham do fundo dos séculos.

- Ouvi dizer - murmurei - que os seus antepassados fugiram para a


Catalunha porque eram templários perseguidos, cheios de símbolos
secretos.

Olhou para mim trocista.

- Tal como o senhor - disse-me -, porque o senhor está também cheio


de símbolos secretos. As lendas sobre os vampiros significam que
existem olhos que viram tudo, tal como as catedrais, que não têm
idade e viram tudo.

296
Por isso, contam-nos a história todas as noites das suas gargantas de
pedra, e uma parte dessa história é a dos seres que as habitaram.
Sempre tive a certeza de que na Notre Dame de Paris havia vampiros,
tal como havia na catedral de Colónia, e na de Estrasburgo, e no
próprio bairro Gótico de Barcelona. Porque é que os vampiros não
poderiam ter chegado também à Sagrada Família? Posso dizer-lhe que
estou feliz por estar aqui, porque o senhor transformou o meu templo
num lugar antigo e digno, quando ele ainda não tem nenhuma
antiguidade; e, quanto à dignidade, tem a dos que o estão a
construir. O senhor deu-lhe o feitiço das velhas catedrais, que devem
conter duas coisas: um mistério e um sonho.

Pegou-me no braço e conduziu-me ao interior da cripta enquanto


acrescentava em voz baixa:

- Pode ficar aqui escondido por toda a eternidade, embora por vezes
pense que a eternidade não será suficiente para ver este templo
acabado. E certamente que não irei ser eu. E quem vier depois de mim
vai certamente mudar a minha obra...

Enquanto ambos mergulhávamos juntos nas trevas, continuou a dizer:

- Eu acredito na eternidade, se assim não fosse não edificaria este


templo. E nós, que acreditamos na eternidade, acreditamos no diabo.

Marta acreditava na solidão, e como todos os que acreditam na


solidão, deixava-se consumir por ela.

Na sua vida não havia homens, talvez porque nenhum dos que até então
haviam passado por ela lhe preenchera a mente. Talvez Marcos Solana,
mas Marcos Solana estava muito distante, e tinha de mergulhar cada
vez mais na luta diária... A sua mulher encarregar-se-ia de que essa
luta o fosse destruindo a pouco e pouco, até que os seus sonhos se
conservassem apenas como flores num copo de água. Milhares de homens
e mulheres têm copos assim e apenas olham para eles nos domingos à
tarde, quando as horas se tornam melancólicas.

Marta dava por si pensando nas outras mulheres, que a maior parte
delas fica satisfeita se lhes preencherem o coração, mas ela
precisava de mais alguma coisa, precisava que lhe preenchessem a
mente.

297
Por isso, sentia-se condenada à solidão, conservava coisas sem valor
(mas às quais dera valor, porque com a passagem dos anos as coisas
vão-se impregnando de pedacinhos da nossa saliva e do nosso sangue),
colocava flores nas janelas que se alimentavam com o ar da cidade e
que às vezes lhe contavam para onde ia esse ar. Marta sabia que o ar
estava cheio de vozes.

Decidiu que iria ver Masdéu, uma vez que ele a havia chamado.

Não tinha medo.

Gaudí não era apenas um iluminado: por vezes, os alucinogénios faziam


com que tivesse ideias que pareciam irreais, e via as coisas não como
eram, mas como provavelmente teriam sido num mundo anterior. E
curiosamente perguntava-me por elas, como se eu tivesse o segredo da
memória e do tempo.

Do mesmo modo que Cerda quisera criar uma cidade útil, Gaudí teria
gostado de criar uma cidade mágica. Sonhava com uma Barcelona que não
era real e pretendia que mesmo os operários, as pessoas mais
agarradas à realidade quotidiana, esquecessem tudo o que nela havia
de bastardo. Porque os sonhos - proclamava - podem mudar o mundo. Ao
amanhecer, via os trabalhadores oriundos do Clot ou do Campo dei Arpa
e ouvia com eles as sirenes das fábricas. Gaudí chegou a odiar tanto
essa chamada que uma noite me disse que nunca mais voltaria a ser
ouvida.

«Haverá oitenta e quatro sinos no meu templo da Sagrada Família -


disse-me -, e quando tocarem não se ouvirá outra coisa na cidade. Bem
podem chamar para o trabalho que eles irão abafar esse horrível
barulho que não é mais do que o grito de fome das fábricas. Porque os
homens podem não comer a horas, mas as fábricas sim.»

- Mas como o senhor nunca vai chegar a ver o templo concluído


-objectei - também não vai chegar a ver esses oitenta e quatro sinos.

- Não faz mal: outros os verão. Julga que aqueles que começaram as
catedrais na Idade Média sonharam vê-las concluídas? Isso era o menos
importante: não era o tempo que interessava, mas a fé.

298
Todas as criações admiráveis deste mundo, as mais eternas, foram
feitas porque era belo fazê-las. Só os mercadores é que têm em conta
o resultado final. As criações eternas não têm resultado final,
porque os sonhos de quem as vê renovam-nas continuamente, tornam-nas
diferentes e obrigam-nas a nascer uma e outra vez. Além disso,
aqueles construtores possuíam uma magia carregada de segredos, e
esses mesmos segredos nunca foram revelados.

Percebi que ele conhecia alguns desses segredos, ainda que nunca
chegássemos a comentar nenhum deles. E eu ficava surpreso
perguntando-me se, da mesma forma que eu vivera séculos, não seria
ele a reencarnação daqueles operários fabricantes de Deus. A sua vida
e a sua arquitectura - porque se tornava impossível separá-las -
estavam cheias de estranhos símbolos que nunca obedeciam ao acaso,
mas a alguma razão profunda que Gaudí nunca revelava a ninguém. Pro

-metia-me sempre falar-me dos segredos do templo, mas nunca o fazia.


Deixava que os fosse descobrindo eu próprio.

Por exemplo, o círculo formado por serpentes, e que poderia


simbolizar a letra «G». Ele chamava-se Gaudí, mas fora protegido pelo
conde de Giiell, e além disso o bispo de Astorga, que lhe encomendara
a construção do belo palácio episcopal, chamava-se Grau. A serpente a
morder a cauda era na sua arquitectura o símbolo do infinito. E Gaudí
vivia numa espécie de infinito de que apenas a mim me falava, nas
suas noites delirantes, quando mencionava em voz baixa os nomes das
Ordens mais secretas: Cluny, Temple, Cister e os Filhos de Salomão.
As pessoas tinham esquecido os seus segredos - apenas uns poucos
sábios os estudavam -, mas ele parecia conservá-los e perpetuava-os
nos seus sonhos de pedra.

Vivendo com ele apercebi-me que era um homem avarento, embora pobre.
Todas as despesas lhe pareciam supérfluas, ao ponto de comer e vestir
como um mendigo. Ia a todo o lado a pé - naquela Barcelona que
começava a ser imensa - e não ligava a nada excepto à própria obra. O
seu aspecto costumava ser tão lastimoso que, uma noite, foi detido
pela polícia.

- Não tinha documentos - explicou-me - e ainda por cima andava mal


vestido. Bom, apenas um pouco mal vestido.

299
Faltavam-me alguns botões na roupa, é bem verdade, e levava-a presa
com alfinetes. A polícia perguntou-se a que me dedicava, e disse-lhes
naturalmente que era arquitecto.

- E que fizeram eles?

- Primeiro, desataram a rir e depois levaram-me preso para a


esquadra.

Descobri nele comportamentos que violavam todas as regras da


Barcelona burguesa, apesar de ele ter convertido em monumento toda a
burguesia da cidade. Por exemplo, andava até dez quilómetros, todos
os dias, para comprar o jornal onde sempre o comprara, e uma vez
chamou Unamuno de ignorante por este falar inglês, inclusive
dinamarquês, mas não catalão.

Também ele foi insultado.

Alguns conhecidos, vendo o seu lamentável aspecto, diziam-lhe:

- Pare numa esquina, ponha o seu chapéu no chão e ganhará mais


dinheiro que fazendo de arquitecto.

Gaudí não ficava ofendido. Costumava dizer-me, quando estava


deprimido, que no mundo existe uma harmonia secreta, e que essa
harmonia ao longo dos séculos foi conhecida por muitos poucos homens.
Ele não a conhecia, mas aspirava atingi-la. E embora nunca me
revelasse aquilo que chamava «os segredos», consegui aperceber-me de
algumas coincidências.

Era muito católico e devoto da virgem de Montserrat, e talvez não


fosse um facto casual. A sua família remota era oriunda do Augverne
francês, onde devido às pedras vulcânicas existem muitas virgens
negras. Pareceu-me igualmente curioso que quando a sua família se
refugiou na Catalunha para fugir das perseguições aos templários, se
afincasse no sul catalão, onde precisamente abundavam as construções
templárias e cistercienses. Por exemplo, Miravent, Mora, Ribar-roja,
Scala Dei, Poblet, Vallbona de les Monges, Santes Creus, Granyera e
Barberà. Tudo na vida daquele homem, pelo que ia aprendendo nas
noites da cripta, parecia o resultado de uma predestinação. Inclusive
o facto - que não fazia sentido nenhum para mim - de que, segundo
parece, o tivessem escolhido como arquitecto da Sagrada Família pela
cor dos seus olhos.

300
Quem teve a ideia do templo, o piedoso José Maria Bocabella,
conseguiu reunir, à base de esmolas, cento e cinquenta mil pesetas
para comprar os terrenos. Sonhou que o edifício seria feito por um
arquitecto de grande valor, mas que além disso teria os olhos azuis.
Os olhos de Gaudí, que não foi o primeiro a ser escolhido, eram dessa
cor. Uma noite definiu-me. Estávamos ambos sentados numa parte do
templo meio coberta e ouvíamos a chuva a gotejar mansamente nas
pedras. Eu via as gotas a caírem, com deleite, à incerta luz dos
candeeiros, pois já reparara há algum tempo que em Barcelona chovia
cada vez menos. Porventura assustávamos as nuvens com o fumo das
fábricas... E então Gaudí entoou o meu requiem, explicou em poucas
palavras toda a amargura da minha vida: eu, que nunca chorara, senti
nos meus olhos umas lágrimas que não tinham nenhum valor, porque eram
apenas de piedade para comigo mesmo.

- Eu já não tenho amores - disse-me -, perdi os meus amigos e nem


tenho, nem poderei vir a ter filhos. Mas desaparecerei e tudo isso
deixará de significar qualquer coisa. Imagino, porém, o que deve ser
a eternidade, vendo morrer tudo aquilo que se amou: as sucessivas
mulheres, os sucessivos filhos, os artistas que admirei e que deram
sentido à minha vida, as casas que conservam as minhas lembranças...
Ver isso tudo transformado em cinza. É essa a sua desgraça, amigo,
será sempre a sua desgraça. Os outros não podem ver transformados em
velhos adoentados os filhos que um dia nasceram perante os seus
olhos, mas aqueles que dispõem da vida eterna, esses vêem. Acredite,
a morte é piedosa porque não deixa ver os horrores da vida, nem os
horrores da nossa própria obra. A imortalidade é o pior castigo que
nos podem impor, e compadeço-me de Deus, pois ele também a sofre.

A chuva começava tornar-se intensa. As grossas gotas batiam nas


pedras e, ao desviar-se no ar, enchiam-se de luz. Evitei olhar para
elas, porque essa luz trazia até mim toda a tristeza da cidade. Gaudí
disse-me então:

- Não sei se Deus estará satisfeito com a sua própria obra. E


perguntou-me logo a seguir:

- Acha que alguma vez a terá dado por terminada?

301
Marta ia sempre aos lugares a pé, olhava para os edifícios, as
janelas de onde se via alguma cara fugitiva, imaginava a sua
história. E por vezes sabia essa história ao pormenor, como se a sua
memória também estivesse construída em séculos, porque considerava a
cidade uma obra eterna. As cidades têm alma, e essa alma vai sendo
transmitida pelos fantasmas da rua, de uns para os outros. Marta
conseguia ouvir a voz de todas elas.

Enquanto avançava rumo ao encontro combinado, e apesar de não sentir


medo, perguntava-se se aquela não seria a última vez que fazia esse
caminho. Perguntava-se, também, por que não tivera amores, ou filhos,
ou prazer físico, ou nada daquilo que as outras mulheres desejavam, e
então, como quase sempre, dizia a si própria que toda a sua vida fora
estupidamente inútil. Desperdiçando para sempre os próprios dias
enquanto os dedicava a estudar a vida dos outros. Fechou os olhos,
pensando que o tempo a destruiria, apesar dela ser feita de tempo.

Masdéu pedira-lhe que se encontrassem no seu atelier, mas Marta Vives


preferira combinar num café, onde pelo menos haveria outras pessoas.
Era isto medo? Enquanto mexia a cabeça negativamente, tentava
convencer-se que não, que ela era uma mulher forte e que possuía algo
parecido à verdade dos séculos. Desceu pela Rambla, meteu-se na rua
Nueva, viu as suas pequenas portas, recordou-se daquilo que em todos
eles existira, e voltou então a sentir aquela picada: já não restava
qualquer dúvida, era medo.

Em Barcelona foram desaparecendo os cafés, talvez - pensava Marta -


porque as pessoas têm menos tempo. Agora quase tudo é cafés de
passagem rápida onde os rostos não se detêm, nem os pensamentos. E
ela acedera encontrar-se com Masdéu num café proletário porque sabia
que tinha un recanto mais elevado onde poderiam falar quase envoltos
em silêncio, mas com pessoas por perto. Tendo-se negado a ir para o
atelier, deixara, ao menos, Masdéu escolher o local do encontro.

302
A rua Nueva havia sido um lugar de cabarés, academias de dança, casas
de jogo clandestinas e prostíbulos onde os homens esqueciam e as
mulheres morriam a pouco e pouco. Também fora um lugar de barricadas,
sangue operário e bandeiras vermelhas, mas era agora uma rua de
emigrantes que aspiravam a uma vida melhor, e que portanto algum dia
levantariam outra bandeira vermelha. Marta entrou no café, na sua
atmosfera antiga.

Masdéu cumprimentou-a do alto. Era um local de encontros clandestinos


e de botões que se desapertam sozinhos, mas o único empregado intuiu
que Marta não viera à procura disso. E se a intenção fosse essa, o
tipo lá em cima era mesmo um sortudo. Os dois sentaram-se na
penumbra, olhando-se nos olhos como se quisessem adivinhar os
pensamentos um do outro.

Ela percebeu, então, que Masdéu era mais jovem do que lhe parecera da
primeira vez. E certamente mais vigoroso. Ou talvez estivesse a ser
iludida pelos seus olhos e também aquele homem não tivesse idade.
Marta pensou nos mortos - sobretudo nas mortas - da sua família, e no
silêncio do cadáver que ainda jazia na Baja de San Pedro. Tinham-lhe
dito para não voltar lá. Tinha-lho dito o padre Olavide, que sabia
tudo. O homem sem idade avisou-a que a sua vida estava em perigo. E
ela perguntou-se agora, com um pestanejar, se estava perante a sua
própria morte. Masdéu murmurou:

- Obrigado por ter vindo. E obrigado por me ter deixado escolher

o lugar.

- Era o mínimo que eu podia fazer. Não quis ir ao seu atelier como

da outra vez.

- Medo?

Ela negou com a cabeça enquanto dizia:

- Por que haveria de ter?

-Talvez porque outras pessoas o tiveram antes de si.

- É possível que tenha pensado nisso, mas agora não me interessa.


Quero simplesmente saber toda a verdade, se essa verdade pode

ser contada.

- Intuo que conhece a história, Marta.

303
Ela murmurou:

- Sim.

E naquele momento repararam numa coisa que parecia não ter sentido.

Os sacerdotes já não vão de batina pelas ruas de Barcelona.

Os proletários já não entram nos cafés com tanta naturalidade como se


fossem ali celebrar uma missa.

Mas acontecera.

O padre Olavide estava em baixo.

304
.39.

O CAFÉ DA ETERNIDADE

Já não há batinas negras nas cidades de Barcelona; talvez já nem no


palácio episcopal. Olhou para o padre Olavide como se não pudesse
acreditar, porque era inconcebível que o sacerdote porventura mais
sábio e aristocrático de Espanha pusesse os pés num café onde as
conversas mais relevantes versavam sobre a segurança social. Mas o
padre Olavide não chegou a entrar; notou o olhar de estupor dos
clientes, deu meia volta e desapareceu.

Marta suspirou:

- Até parece que me andava a seguir...

- Não ligue - disse Masdéu -, por vezes o padre Olavide confessa


amigos moribundos. Não é tão estranho assim que tenha algum neste

bairro.

Mas já não havia rasto dele. Ambos perceberam que o empregado estava
ao lado. Olhava Masdéu com inveja. «É muita mulher para ele.» Olhava
com deleite as pernas de Marta Vives: «Demasiado bonitas para uma
merda de café como este.»

Na pequena varanda da frente aparecera uma mulher sozinha a regar as


plantas. O último sol desaparecera e o gato saltou para se livrar da
água.

- Eu vou beber um gin tónico - disse Marta.

- A mesma coisa.

Masdéu virou-se para ela, mas não olhava as suas curvas, apenas
olhava para os seus olhos. As mulheres reparam quando um homem se
sente indiferente perante elas: Masdéu sentia-se indiferente perante
Marta.

305
Alguma coisa nele lhe fazia lembrar o padre Olavide: para o seu
olhar, o sexo não existia.

- Sei que esteve a investigar sobre a minha família - sussurrou


Masdéu.

- E como é que sabe isso?

- Porque nós os dois nos movimentamos em mundos muito pequenos: você


no dos arquivos e das casas prestes a tornar-se em pó. Eu exactamente
no contrário, nas jóias que nunca se irão transformar em pó. Há pouco
tempo estive numa exposição de criações de Masriera e lembrei-me do
design do fio que lhe mostrei. Um ourives contou-me que a tinha visto
a visitar arquivos. Nestes pequenos mundos cultos e civilizados em
que ambos nos movemos, sabe-se tudo.

- É lógico que investigue e que me vejam nos arquivos - alegou Marta.


- Sou historiadora.

- Não tem de se desculpar por nada.

- Então, por que é que quer falar comigo? Dá a impressão de que quer
pedir-me uma explicação... ou talvez avisar-me de alguma coisa.

- Oh, não... Antes pelo contrário. Estou atentar manifestar-lhe a


minha admiração, porque há muito poucas pessoas nesta cidade que
saibam olhar para ela com os olhos do passado, que percebam que as
coisas acontecem devido a alguma outra coisa que aconteceu antes.
Você é como um milagre, tira raios-x à cidade e sabe ver a vida
oculta que há em muitos lugares, e a morte oculta que há noutros.
Disseram-me também que a viram entrar na casa da rua Baja de San
Pedro, que foi de um antepassado meu.

Marta sobressaltou-se, mas disfarçou olhando novamente para a porta


enquanto pensava que aquele homem sabia tudo.

- Agora é propriedade municipal - defendeu-se -, e imagino que é


possível investigar nela, ainda que por pouco tempo. Vai acabar por
cair.

- Também não lhe peço explicações. Apenas elogio a sua capacidade de


investigação, que é superior à minha e à da minha família. Porque
sabe que pertenço a uma família muito antiga, na qual abundaram os
sacerdotes, os inquisidores e os sábios.

Marta cerrou os lábios.

306
- Precisamente o contrário da minha - disse.

- De facto, e celebro que tenha a sinceridade de o reconhecer.

- Não é preciso sinceridade para reconhecer algo que não é pecado.

- Como eu vejo as coisas, há estirpes dedicadas à fé, como a minha, e


estirpes dedicadas ao pecado, como a sua - disse Masdéu abanando a
cabeça. - Não fique ofendida. No mundo sempre houve pessoas que
acreditam e obedecem, e outras, pelo contrário, que em vez de
acreditar e obedecer, preferiram fazer perguntas.

- Fazer perguntas é próprio da natureza humana.

- Talvez não tanto assim. Talvez não seja quando a resposta já nos
foi dada. Mas deixemos isso. Você sabe perfeitamente a que estirpe

pertence.

Marta sentiu-se incomodada perante aquelas últimas palavras, nas


quais adivinhava um certo desdém. Sentia orgulho na sua estirpe,
talvez por esta não se ter preocupado apenas em procurar a
felicidade. Mas adivinhou que a de Masdéu também não procurara a
felicidade, e isso fez com que aquele confuso sentimento
desaparecesse. No fim de contas, estavam a falar de questões
semelhantes, ainda que viessem do fundo do tempo e de uns genes
incontroláveis que continham

a memória secreta.

Masdéu olhava para o vazio e sussurrava com um fio de voz: - Na sua


estirpe, Marta, na família que não conheceu mas da qual está a
receber ordens, houve também muitos investigadores e sábios cheios de
dúvidas acerca de aspectos já resolvidos. Por exemplo, a existência
de Deus e as suas mensagens; por exemplo, a infalibilidade da Igreja;
por exemplo, a salvação e a condenação; por exemplo, a obediência.
Quando uma pessoa se coloca perguntas sobre isso, cai no vazio, que é
o que aconteceu aos seus antepassados. Tudo aquilo que sabe, tudo o
que os seus antepassados souberam, baseia-se no nada. No entanto,
tenho de reconhecer uma coisa. Marta olhou-o nos olhos.

- Diga.

- Tenho de manifestar-lhe a minha admiração, porque você e os que lhe


deram o sangue tentaram olhar para além da superfície, e essa é uma
grandeza que corresponde aos eleitos.

307
Ora, eleitos por quem? As vossas raízes secretas estão no fundo desta
cidade, à qual deram história e mesmo grandeza. Se o ar das cidades
transporta uma voz, nem todos sabem ouvi-la.

Pôs as mãos em cima da mesa. Eram também umas mãos muito finas e
brancas: faziam-lhe lembrar as do homem do olhar eterno.

- Disse-lhe isto - continuou Masdéu - porque Barcelona transporta


muitas vozes, as suas ruas estão cheias de fantasmas que falam, mas
apenas algumas pessoas as podem escutar. Você é uma delas, Marta, e
não julgue que estou a lisonjeá-la; pelo contrário, estou a tentar
dizer-lhe que está enganada.

Ela ficou em silêncio enquanto sentia a boca ficar seca. Bebeu um


gole. Do outro lado da rua, um gato observava a cidade. Uma moradora
alargava as fronteiras da sua varanda mudando de lugar um dos vasos.

- Estou enganada em quê?

- Em fazer tantas perguntas, por exemplo. É melhor acreditar. -A sua


família sempre acreditou, Masdéu. Durante gerações, a fé

foi uma das suas constantes e o catolicismo radical tem guiado os


seus passos, ao passo que a minha família foi guiada pela dúvida.
Você e eu somos uma espécie de milagre, acredite em mim: ainda
pensamos em assuntos em que as pessoas já não pensam.

- Pretende dizer que o catolicismo ou as religiões já não interessam


a ninguém? Pelo contrário. Há religiões, como o Islão, que estão no
auge, talvez porque muitos povos árabes não podem exibir mais nenhuma
outra marca de identidade, nem podem confiarem mais nada. A violência
islamita, que é nova, está a originar uma sólida frente cristã, que
no meu entender irá acabar por ter uma forma política como na época
das Cruzadas. De repente podemos voltar aos séculos da Idade Média,
aos séculos da fé; não me diga que as pessoas não pensam nessas
questões. O que se passa é que por vezes têm medo de falar nelas.

- Eu não; eu continuo a questionar-me acerca da fé, talvez porque


esta faz parte da minha cultura.

Masdéu semicerrou as pálpebras.

308
- E quais são as questões que se coloca?

- Por exemplo, não gosto do mundo.

- Porquê?

Marta quase ficou ofendida. Não era justo que lhe fizessem uma
pergunta tão elementar, e ainda era menos justo que ela fosse feita
por uma pessoa esclarecida como Masdéu. De modo que franziu os
lábios.

- Tenho a sensação de que Deus não toma conta de nós nem do nosso
sofrimento. Que milhões e milhões de seres nasceram apenas para
padecer, e uns poucos milhares apenas para desfrutar, e é esse o
mundo que a Igreja acha lógico. Portanto, ao papado parece-lhe
lógico. E, portanto, a Deus. Olho à minha volta e os únicos raios de
luz que vejo são os que provêm da dignidade humana.

- Os ricos vão pagar.

- E porque haveriam eles de pagar? Muitos deles, que culpa têm, se


não agiram mal? É actuar mal ter mais inteligência? Mais astúcia?
Mais instinto? Não é verdade que todo o ser humano tem direito a
procurar a felicidade, da qual o dinheiro é uma parte? Não há um
caminho inexorável rumo a uma vida mais digna? Quem consegue dinheiro
deverá pagar, necessariamente, na outra vida? Porquê?

- Foi Cristo que disse.

- E ainda que o tenha dito, será que isso é justo? Deverá manter-se
no mundo um estado de terrível desigualdade e de ultrajes constantes
à dignidade humana, apenas para uns poucos virem a pagar mais tarde?

- Lá está você a fazer as mesmas perguntas que a sua família fez


durante séculos, Marta.

- Porque não renunciei a pensar.

- A sua família teria sido muito mais feliz limitando-se a crer,


minha amiga.

- Sobretudo, não teria sido perseguida.

- Lamento. Nunca quis justificar todos os meus antepassados, os


inquisidores e os guardiães da fé, mas é preciso ser forte contra
aqueles que querem privar as outras pessoas das felicidades mais
simples.

- Imagino que a felicidade mais simples consista em acreditar e


deixar-se conduzir. Não se questiona quando as respostas já estão no
catecismo, mas parece-me que isso também atenta contra a dignidade
humana.

309
- Pelo contrário, Marta: existe uma grande dignidade na obediência.
Repare que está a propugnar uma forma de pensar para a qual um Papa
abriu um ligeiríssimo resquício. E estou a falar de João XXIII. Mas
rapidamente a Igreja cerrou fileiras. Não se pode transigir. O
pensamento livre, a análise da fé, o evangelho dos pobres, dos padres
operários, a sensibilidade das mulheres e a sua provável mensagem...
Sobre tudo isto se tem pronunciado a Igreja, fechando todas as
fissuras. Neste sentido, o verdadeiro homem de ferro foi Pio XII. Foi
criticado por alguns, mas os últimos Papas foram seguindo o seu
caminho. Para as pessoas como você, Marta, as portas estão fechadas.

- Sempre estiveram.

- Também não me parece justo. E é por não considerar justo que estou
a falar consigo. Mas inquieta-me isso que acabou de dizer, que a fé
simples, a que nos apresenta tudo já resolvido, atente contra a
dignidade humana.

Marta voltou a franzir os lábios.

- Porque a nossa dignidade é formada por valores morais: o valor


pessoal, a compreensão, a tolerância, a irmandade, o amor e,
obviamente, o pensamento. Não é completamente humano quem não pensa.

Marta Vives desviou o olhar. Sabia que nunca poderia convencer


Masdéu, tal como os membros da sua família nunca convenceram aqueles
que acabaram por matá-los. Além disso, naquele café ninguém os iria
perceber. O padre Olavide, talvez? Mas o padre já se fora embora.

Na rua, imperava a escuridão. Marta ouviu confusamente nas suas


costas o barulho de uma mota, do outro lado da parede. De certeza que
havia uma viela atrás do café, mas só agora é que se apercebera
disso. As portas que se abriam e fechavam, no piso inferior, davam
apenas para as sombras. Como se a sua própria voz a tranquilizasse,
disse como que falando para si mesma:

- Acredito em algo superior a nós. Nem o nosso pensamento, nem a


nossa sensibilidade, a nossa cultura e a nossa história, podem ser
fruto do acaso.

310
Tem de haver um princípio, e se chamar Deus a esse princípio, também
eu posso designá-lo como Deus. Mas a Sua obra é equívoca e triste. Um
criador, não bondoso, mas simplesmente virtuoso, não pode ter
considerado bem acabada uma obra tão cruel.

- Isto, Marta, é um vale de lágrimas.

- Não vejo a necessidade de demonstrar a grandeza criando um vale de


lágrimas.

Masdéu sussurrou sem olhar para ela:

- Pense no Mal.

- O que indica que o Mal, com maiúscula, existe.

- É claro que existe.

- E que Deus - cortou Marta - não é livre. E ainda vou tentar dizer
mais uma coisa: existe uma luta eterna cujas vítimas são os seres
humanos, e a Criação ainda não acabou.

Foi então que Marta viu passar mais uma vez perante a porta aquela
figura negra. Definitivamente, o padre Olavide ainda não se tinha ido
embora.

Durante algum tempo trabalhei como professor contratado num colégio


das Escolas Pias. Parecia absurdo que um filho do diabo ensinasse
alguma coisa nas aulas de Deus, mas a verdade é que fui o único a
demonstrar saber mais História que todos os outros professores
juntos, e além disso fui o único que aceitou trabalhar por um salário
de miséria. Muitos dos escolápios nem sequer eram licenciados e não
sabiam muita coisa, por isso compensavam as suas carências
contratando professores famintos que disfarçavam com dignidade as
mangas gastas dos seus casacos.

O colégio ficava na parte mais nobre de Barcelona, em Sarriá, acima


do passeio de Bonanova. Das suas janelas, conseguia vislumbrar a
magnífica torre de Guillermito Clave, que algum tempo depois eu teria
de matar, embora naquela altura ainda o não conhecesse. Apreciava os
jardins com labirintos venezianos, estátuas gregas e palmeiras
cubanas. Via por vezes, deslizando-se entre as palmeiras, uma ou
outra criada vestida de preto. Os alunos eram ricos e pertenciam às
famílias tradicionais do país.

311
Os professores não pertenciam a nenhuma família e eram pobres.

Barcelona estava a tornar-se uma cidade perigosa para mim, porque a


cada determinado número de anos precisava de mudar de nome, domicílio
e profissão, pois era difícil mudar de aspecto. Teria sido mais
simples deslocar-me para uma qualquer outra grande cidade, mas eu
amava as minhas ruas e não queria separar-me delas nem dos fantasmas
que fora deixando ficar para trás.

Dando aulas àqueles filhos de famílias poderosas convencia-me de que,


definitivamente, se tinham formado duas Espanhas que eram já
irreconciliáveis, mas que também se haviam configurado três ou quatro
Barcelonas. Era, esta minha cidade, tremendamente complicada:
nacionalista e centralista, internacionalista e localista, clerical e
libertária, coberta de igrejas e cheia de lupanares, rica e ao mesmo
tempo generosa em misérias. Quando a inevitável conflagração
acontecesse, ninguém a poderia governar. Por vezes, sentia a
necessidade de falar aos meus alunos de todos os homens e mulheres
que vira morrer, geralmente por nada - ou apenas para salvar a sua
dignidade humana -, porém, eles não teriam percebido nem uma palavra.

Embora Barcelona estivesse a crescer como eu nunca poderia ter


imaginado, a cidade velha quase não mudara, e eu podia seguir por
todas as suas ruas, por todas as suas casas, guiando-me apenas pelo
fio da memória. Conhecia a distribuição dos andares onde estivera sem
que os actuais inquilinos o pudessem imaginar, numerava as portas, as
lojas que vira passar de pais para filhos e os prostíbulos que vira
passar de mães para filhas. Podia descrever as sedes de todos os
partidos políticos, mas não apenas isso, também poderia dar os nomes
dos seus mártires. Via como se perdia o olhar de mulheres cuja
expressão carregada de esperança eu sentira quando elas ainda eram
umas crianças.

Chegavam à cidade comboios de emigrantes à procura de uma vida


melhor, porque em Barcelona havia trabalho, ao passo que na Espanha
interior, nas suas províncias mortas, não havia. Toda a pobreza de
Aragão, Múrcia e Almeria voltava-se para as obras da Exposição de
1929, e eu lia um jovem jornalista, Carlos Sentis, que chamava
piedosamente aos atulhados comboios operários, vindos de Múrcia, não
Transiberianos mas sim Transmiserianos.

312
Deste modo, a agitação social crescia, homens e mulheres procuravam a
sua última oportunidade e as colinas barcelonesas começavam a ficar
cobertas de barracas.

Ninguém teria acreditado em mim se tivesse explicado que, muitos


séculos atrás, os que chegavam a Barcelona à procura de trabalho e
fugindo da pobreza eram os franceses. Aos meus olhos, o mundo era
sempre diferente e repetia-se sempre, demonstrando que ainda havia
nele muito a fazer.

Eram conquistas que já estavam designadas na Criação? Ou éramos nós


quem as estava a fabricar?

Apesar de me ter dado conta de que o país se aproximava da sua


destruição, foram uns anos tranquilos para mim, o fantasma surgido do
fundo dos tempos. Ninguém me conhecia nem me perseguia, subia a pé
todas as manhãs até às alturas nobres da cidade, via os edifícios
nobres de Sarriá, cruzava hortas e terrenos e conversava com os
pássaros. A minha vida era virtuosa.

Matei apenas um homem.

E do Outro não encontrei nem rasto.

Masdéu sussurrou:

- Porque é que julga que a Criação ainda não acabou?

- Porque ainda existe uma luta entre dois poderes, e esse Criador do
qual tanto falámos não conseguiu concluir a sua obra. De facto, está
a aprender para poder acabá-la.

- E de quem é que aprende?

- De nós.

Masdéu estremeceu, como se tivesse ouvido uma blasfémia.

- Mas, o que está a dizer...?

- O senhor, homem de fé sem mácula, acredita nos demónios? -


perguntou Marta, imperturbável.

- O quê...?

- Acredita nos anjos?

- Claro que sim.

313
- Bem, então também deve acreditar nos demónios. Vejamos se consigo
explicar depois de tantos pensamentos que fui deixando para trás. O
Criador - dê-lhe o nome que quiser - foi vencido. O seu vencedor -
dê-lhe o nome que quiser - interveio na obra, interveio na obra e
interveio na Criação, que nenhum dos dois pôde concluir como queria.
Desde então, têm chegado mensageiros, de um lado e do outro, para a
acabar.

- Que mensageiros?

- Uns são anjos, outros são demónios. Chegam ao nosso mundo, e já


todos conhecemos algum. Orientam-nos e em parte dirigem-nos. Mas
somos nós quem vai concluindo a Criação.

Marta falara com firmeza, mas Masdéu escutava-a com os olhos fechados
e ia negando aos poucos, como se não estivesse a compreendê-la.
Perguntou, trocista:

- Será que somos assim tão importantes?

- A coisa mais importante alguma vez criada - disse Marta. - Não


conheço nada superior.

- E então...?

- No conjunto, e ao longo dos séculos, fomos dominando as leis do


Cosmos, e ao longo dos séculos vindouros iremos avançar neste
domínio. E chegaremos mesmo a modificar essas leis. Chegará o dia em
que a Criação será também a nossa obra.

- No aspecto material?

- No aspecto material. Já está a acontecer. É um processo que não


fomos nós a começar, mas que terminaremos. E não sei até onde seremos
capazes de chegar.

-Acha que a ciência, algum dia, poderá completar a Criação?

- Sim. E até mesmo a dar cabo dela.

- Diga-me, Marta: e a lei moral? Nós, os seres humanos, não estamos


formados apenas por ciência. Ou antes: a maior parte dos seres
humanos ainda a ignora, mas todos temos uma dimensão moral.

- Que também evolui, é também uma criação.

- Engana-se: a dimensão moral foi-nos entregue.

- E chama-se a isso fé - sussurrou Marta.

- Sim.
314
Então ela prosseguiu:

- Foi-nos dada uma dimensão moral que varia com as culturas e as


religiões, mas há uma moral universal que foi sendo criada pelos
seres humanos, e que depende em grande medida da cultura que
atingirmos. Fora de qualquer norma religiosa, fomos criando uma ética
humana: a bondade, a integridade, o mérito pessoal, o desejo de
liberdade, o sentido de justiça, o amor humano, que por vezes se
alimenta apenas com um sopro de ar, não estão em nenhuma lei divina.
A tolerância, o respeito, a convivência, inclusive o pranto, são
criações dos seres humanos. Recebemos estímulos do chamado Bem e do
chamado Mal, mas a moral e a ética somos nós que as criamos. Embora
os seres humanos repitam constantemente os seus erros, sabem que são
erros. Ao longo dos séculos temos tentado evitá-los, ou pelo menos
aprendemos a maldizê-los. Com os poucos materiais que nos foram dados
- por exemplo, a fé - criámos uma dimensão moral que de início não
existia. E lutámos e morremos por ela, o que a torna mais nobre. Nem
sequer metade da moral nos foi dada pela fé, e isso significa que
mais de metade da moral foi criada por nós. Atrevo-me a dizer que nós
iremos criar o que nem os deuses nem os diabos conseguiram acabar.
Todos os lutadores, todos os mártires, aqueles que acreditaram num
mundo melhor, estão a criar a moral de um mundo que lhes foi entregue
sem estar concluído. E fazem-no apenas por dignidade, não por
esperarem uma recompensa ou para fugir de um castigo, como fazem os
que simplesmente têm fé.

Masdéu perguntou com voz incrédula:

- E isso é tido em conta por Deus?

- Não é apenas tido em conta: aprende. E irá chegar um dia em que não
teremos apenas atingido os limites materiais da Criação, como também
teremos fixado os limites morais. Talvez nesse dia a Criação fique
concluída, e Deus seja simplesmente o nosso companheiro. A própria
fé, à qual o senhor é tão fiel, o diz: fomos feitos à Sua imagem e
semelhança. Mas a nossa parece uma tarefa sem limite: ninguém pode
calcular quantas gerações houve desde a origem da nossa espécie, e
ninguém pode calcular quantas gerações irão ser necessárias para que
o círculo se feche. E o círculo será fechado, um dia, por aqueles que
acreditarem em si próprios e pensem.

315
Masdéu disse com voz estridente:

- Como fizeram todos os mortos da sua família...

- Como fizeram todos os mortos da minha família. Desde a mulher que


ficou sem nicho até à que tinha ao peito, no túmulo, uma cruz de
bronze.

A voz esganiçada disse novamente, parecendo surgir de todos os


recantos da penumbra:

- Teria sido mais simples ter fé.

- É possível ter fé e pensar.

- Mas aí cai-se na heresia - disse Masdéu.

- Sim.

- Mas evitar isso é muito simples, minha amiga. Os limites são


marcados por Roma.

- O ser humano não deve ter limites - sussurrou Marta —, mas pode
pensar-se sem ofender Roma.

- Não, cara amiga.

- Não porquê?

- Desde o princípio dos tempos, é Roma que considera quando deve


sentir-se ofendida.

- Estou a perceber: de cada vez que uma pessoa medita sobre ela, é
possível ofendê-la. De cada vez que chegamos à chamada Teologia da
Libertação, podemos ofendê-la. De cada vez que um sacerdote vai
trabalhar para uma mina, pode ofendê-la. De cada vez que,
simplesmente, pensamos, podemos ofendê-la. Ainda que não seja essa a
nossa intenção. É ela que decide se há ofensa.

- Lógico. E é essa a sua missão, cultivada desde o princípio dos


séculos; não é possível mexer nem numa vírgula daquilo que nos foi
revelado, e milhões de mártires morreram por essa fé. Sempre
existiram, na minha família. Ninguém se arrependeu.

Marta quase disse que se arrependera pelo menos um - e talvez


continuasse a arrepender-se, nas entranhas da cidade -, mas preferiu
manter-se em silêncio. Virou a cabeça.

Outra vez a rua, onde já não se moviam nem as sombras. E de repente a


sensação de solidão, de tempo estéril, naquele pequeno universo onde
imperavam apenas os olhos do gato. Não soube porquê, mas sentiu medo.
316
A voz de Masdéu, então, quebrou o silêncio que envolvia ambos.

- Há uma palavra básica - disse: - obediência.

- A obediência é própria dos cordeiros. Talvez por isso os cristãos


de boa-fé tenham sido comparados a um rebanho.

- Não queria ficar ofendido consigo, Marta, mas está a ofender--me.


Percebo, agora, que não há solução: é uma digna descendente da sua
estirpe. Durante séculos, a sua gente tem praticado o livre-
pensamento, o que simplesmente tem levado a heresias, revoluções e
sistemas de governo laico ou, pior ainda, anti-religioso,
considerando que o homem é auto-suficiente. Durante séculos, têm
acreditado, não no pacto com Deus mas no pacto com o diabo. E por
isso foram castigados sistematicamente.

- Sistematicamente - repetiu Marta.

Tinha demasiadas coisas para lembrar. Mas conseguiu sorrir enquanto


dizia:

- Deus não admite o pacto.

- Foi por isso que falei na obediência. E, agora, diga-me se


porventura o diabo o admite.

- Talvez sim. De facto, a criação da moral humana foi um contínuo


pacto entre o Bem e o Mal, e julgo que assim continuará a ser. É por
isso que estamos constantemente a receber mensagens: há seres que nos
acompanham sempre e que habitam o Tempo.

- Imagino que sejam enviados do diabo.

- Receio que sim - disse Marta -, mas também há os da parte da


Obediência, da parte das palavras que não podem ser tocadas.

Houve um abrupto silêncio durante o qual Marta fechou fortemente os


olhos.

Sabia.

Masdéu, os Masdéu, tinham ido recebendo as mensagens da doutrina que


não pode ser tocada. Inquisidores, teólogos, bispos, cruzados da fé,
haviam recebido solenemente a voz dessa fé. E se fosse preciso,
morreriam por ela.

Marta continua com os olhos fechados.

Havia outras vozes? Havia outras palavras?

Ela tinha a certeza de que sim, e a sua própria família também


acreditou nisso durante séculos.
317
Por isso foram todos morrendo, e por isso também ela podia morrer.
Como se estivesse a viver no fundo de um sonho, lembrou-se do homem
da pele tão branca que conhecera na casa do bispo morto. Aquele
homem, se era homem, era uma voz que vinha também do fundo dos
séculos? Era uma dessas vozes em que os seus haviam acreditado, ainda
que nunca a tivessem chegado a escutar?

A voz de Masdéu interrompeu os seus pensamentos.

- Esta é uma luta que vem do princípio dos séculos e talvez nunca
acabe. Por isso, não há pressa. Entre os autos-de-fé da Inquisição e
as condenações dos tribunais militares durante a guerra civil, o
tempo não passou. É a mesma luta. E agora... Por que se ri?

- Se as poucas pessoas que estão neste café nos ouvissem, julgar-nos-


iam loucos - disse Marta. Já ninguém discute questões assim.

- Também não tinha ocorrido isso às pessoas que trabalhavam nas


Torres Gémeas - murmurou o homem -, ou àquelas que viajavam num certo
comboio de Madrid, num dia onze de Março. De certeza que nenhuma
delas pensava na religião ou na morte religiosa. Ea morte religiosa
existe. Existiu durante séculos e nunca irá acabar.

- É a morte mais absurda - disse Marta -, a que tem menos razão de


existir, ainda que periodicamente regresse. Espero que algum dia o
pensamento humano acabe com ela.

- Acredita demasiado no pensamento humano, Marta. Ela pôs-se em pé.


Sorria.

- O pensamento humano não acabou com o Mal, mas aprendeu pelo menos a
identificá-lo e a cuspir-lhe em cima. E o Mal vem de quem só acredita
na obediência.

Masdéu levantou-se também, mas a sua expressão era tensa.

- Pelo menos, ouviu-me - disse.

- Não me agradeça. Pretendo ser uma intelectual que serve apenas para
ouvir as pessoas.

Desceu as escadas com Masdéu atrás dos seus passos. Os que estavam em
baixo olharam para as pernas da rapariga, a cintura ágil, e
adivinharam algo na sua boca, algo que lhes disse que não sabia
beijar.

A rua estava mais lôbrega que nunca, talvez mais solitária, apesar de
haver uns operários a abrir uma vala no seu extremo.
318
Quando ali chegou, Marta já vira uns cartazes a anunciar a obra.
Pelos vistos, as fundações de algumas casas não estavam bem firmes.

Masdéu indicou:

- Se sairmos por trás, é melhor. Vamos cortar caminho para evitar


isto tudo.

Marta acedeu, pois não conhecia as redondezas. Viu uma porta meio
disfarçada atrás de uma cortina. E uma ruela que não parecia levar a
lado nenhum. E uma luz longínqua.

Em contrapartida, não viu o poço que se abria sob os seus pés, e que
Masdéu deixava ao seu lado, depois de afastar com o pé a rede de
metal que o protegia. A luz no final da ruela encandeava-a. Não viu
nada enquanto avançava.

Nem a mão de Masdéu a aproximar-se da sua nuca.

319
.40.

A CASA DA COLINA

Já disse que matei um homem.

Gostaria de falar dele, da sua idade: uns cinquenta anos. Da sua


roupa impecável, que se destacava ainda mais na cidade destroçada:
fato de lã inglesa que ele próprio importava através da sua fábrica,
sapatos de pele de crocodilo, suspensórios de seda, os mais finos que
eu alguma vez vira na minha longa história. Das suas honras: tinha na
solapa as fitas de duas medalhas. Das suas mulheres: submissas jovens
que esperavam por ele de saia levantada, junto de um toucador do
século XIX, um espelho ou um tapete oriental que parecia feito com
pele de menina.

Era o triunfador por definição, o que impunha a nova ordem na


Barcelona vencida. Outros triunfadores largavam o fuzil e voltavam
para o trabalho, muitas vezes sem esperança, mas ele regressava às
suas fábricas, ao seu capital e às suas verdades. Medalha de ex-
prisioneiro, medalha de sofrimentos pela pátria. Nem uma gota do seu
sangue na roupa imaculada; em qualquer caso, num desleixo, alguma
gotinha de sangue das suas donzelas. Era a verdade de um país que era
preciso reconstruir e a esperança de um Império que não existia, mas
que os seus já tinham desenhado num mapa.

Já disse que o matei.

Mas primeiro necessito falar da casa.

Nela vivi durante quase toda a guerra civil, mergulhei na sua solidão
e habitei-a como um fantasma. Ficava numa rua de Pedralbes, meio
construída, porque naquela altura todas as ruas daquele bairro
estavam por terminar.

320
Rodeada de árvores e ao fundo de uma encosta, era pouco visível e
suponho que foi por isso que ninguém a confiscou. Havia nela um
jardim com margaridas que já estavam mortas, umas rosas de Outono que
floresciam ainda junto da parede e dois ciprestes que acariciavam o
ar.

Havia também um túmulo.

E foi o túmulo que fez com que eu ali ficasse.

As aulas nos Escolápios tinham terminado já antes da guerra, porque


as leis da República impuseram o ensino laico, em oposição ao
religioso. Puseram-me na rua dizendo-me que não era culpa deles, e
então, sábio como eu era, comecei a dar explicações. Foi assim que
descobri a casa.

Então, as margaridas enchiam o jardim, as rosas do Outono cresciam


por todos os lados e os ciprestes ainda não tinham nascido. Havia
grandes janelas das quais se divisava ao longe a cidade, como eu a
havia contemplado séculos atrás, a partir de Nuestra Señora del Coll.
Havia uma menina que estava ali para receber a luz e o calor do sol e
um cão chamado Ringo, que se fartava de ladrar à lua.

Um dia apresentei-me ali, muito pouco tempo antes da guerra civil, em


resposta a um anúncio, e conheci o sítio onde iria estar o túmulo.

Mas o túmulo ainda não estava.

Naquele momento só conheci a menina. Olhos achinesados, pernas


inseguras, pele muito fina e mãos que faziam desenhos no ar. Era uma
menina com síndrome de Down, e naqueles anos não havia esperança de
melhoras para as meninas com síndrome de Down; eram simplesmente
alimentadas e ignoradas. Neste caso, porém, os pais acreditavam nela.
O pai era um corrector da Bolsa que naqueles anos de classificação
fácil era considerado um homem de direita. A mãe era uma professora
francesa que acreditava no futuro dos seres humanos, e portanto
acreditava no futuro da menina.

Conheci também Rita, a mulher do povo.

321
Tal como senti necessidade de falar da casa onde a luz imperava,
preciso agora de falar de Rita, a mulher das ruelas onde imperavam as

trevas.

Rita nascera na Barcelona mais profunda, na rua Tapias, que então era
o centro da prostituição mais sórdida. Aos vinte e três anos havia
sido prostituta pura e simplesmente porque tinha fome, depois de ter
servido numa casa e ficar grávida do senhor. Rita tivera uma filha. A
filha morrera.

Foi na casa da luz onde lhe conheci os olhos quietos, as mãos


encarnadas devido ao trabalho, os lábios finos e a língua que, como
língua de cão, continuamente lambia a pele da menina dos olhos
achine-sados enquanto junto da janela ela tomava aquele sol de ricos
pago pelos pais.

O pai era um homem honesto, tão honesto que nunca notou nada de
estranho em mim. Enquanto falava comigo, dos seus olhos quase
escapavam lágrimas.

- Alguns colegas estrangeiros disseram-me que pode haver esperança


para a minha filha se receber uma educação especial. Esta educação
especial devia ter começado antes, e isso quer dizer que não lhe dei
tudo quanto devia ter dado. Mas se o senhor estiver com ela todo o
dia, a tentar que aprenda, e a Rita passar o dia todo com ela, a
tentar que ela se aperceba do carinho, ainda pode haver um futuro.

Queria dizer que ainda era possível um milagre.

Desse modo, eu, o homem dos séculos, que conhecera as masmorras da


Inquisição e fora secretário do conde de Espanha, fui nomeado
educador de uma menina que nunca poderia perceber-me, numa casa da
colina onde abundavam as rosas de Outono e começavam a crescer dois
ciprestes. Jurei que iria tentar, porque tinha uma vantagem sobre os
outros: podia olhar para ela com os olhos da vida eterna.

Contava, além disso, com dois seres que podiam fazer o milagre. Um
desses seres era o cão, que se colocava junto da menina e estava
disposto a defendê-la até do ar: a menina notava aquele carinho,
aquela presença.

322
O outro ser era Rita, mulher do povo profundo, que mal sabia ler, e
que levava nas entranhas a filha morta. Agora podia levar nas
entranhas uma filha viva.

A menina foi a sua alma, tal como para o cão foi o cachorro recém-
nascido.

Foi então que a guerra civil eclodiu, o que a mim não me causou
nenhuma surpresa. Eu, não em vão, vivera a «Guerra dels Segadors»
(Nota 1), a defesa de Barcelona em 1714, as invasões napoleónicas, as
guerras carlistas e o nascimento das duas Espanhas. Poderia ter
explicado mil coisas nas cátedras da cidade, mas ninguém me teria
ouvido. A única coisa que podia fazer era ver a cidade aos meus pés,
com as igrejas a arder, como a vira durante a Semana Trágica e
perceber que eu, o imortal, tinha imensa vontade de morrer.

Não podia perceber que naquele momento, sem outra companhia que uma
analfabeta, uma menina e um cão, começava a única etapa digna da
minha vida. Não fui capaz de saber que o cão e a analfabeta eram
donos do seu destino. Eu não era.

Quando as igrejas dos arredores foram incendiadas, e as mansões dos


ricos pilhadas, já nos primeiros dias da revolução, a mãe da menina,
enquanto cidadã francesa, decidiu usar o passaporte para voltar ao
seu país, na companhia do marido e da menina. O marido estava em
perigo iminente de ser executado pelos anarquistas, como já
acontecera a vários moradores. De modo que o consulado francês, face
a este risco, enviou-lhe um carro e disse-lhe para preparar a viagem
em menos de uma hora.

Quase não podia levar nada. Apenas algumas jóias e valores.

E a menina.

Mas a menina tinha desaparecido. Naquela altura não percebi, apesar


de que tudo deve ter acontecido mesmo à frente dos meus olhos.

Nota 1 - «Guerra dos Ceifeiros», nome pelo qual se conhece a


Sublevação de Catalunha, de 1640 e anos subsequentes. (N. do T.)
A mãe desesperou, sofreu um ataque de nervos, esbofeteou-me, pensando
que eu sabia alguma coisa, caiu de joelhos, pediu ao cão que
farejasse o ar. Rita e a menina haviam desaparecido. Nem nos cantos
mais ocultos da casa, nem sob os móveis, nem nos recantos do jardim,
não apareceu nada. O cão, quieto, negava-se a farejar. O motorista do
consulado francês pedia pressa e gritava que um minuto mais e seria
demasiado tarde.

Agora, penso que foi lógico o que aconteceu. Enquanto o pai


desesperava procurando em todos os recantos, a mãe caiu fulminada
levando as mãos ao coração. O motorista transportou-a no veículo até
ao Hospital Clínico, que já estava cheio de mortos. Ali aplicaram-lhe
um tratamento de urgência, deram um sedativo ao marido e pediram ao
motorista que os levasse com toda a urgência para um hospital do
outro lado da fronteira onde pudessem ser atendidos livres de perigo;
e eu fiquei sozinho na casa.

Lembro-me do sol de Julho. A cidade que parecia arder. A Barcelona


que eu vira nascer. Os disparos que eram ouvidos até naquele bairro
de ricos, um dos mais tranquilos do mundo. Lembro-me do ar que
queimava e um jardim de cor tão viva, tão verde, que magoava.

Foi então que Rita apareceu com a menina. E o cão atrás dela,
abanando a cauda. Agora sim, agora é que o danado do cão farejava o
ar.

- Ouviam-se tiros por todos os lados - disse Rita com os olhos


húmidos. - Tive medo que a matassem.

Fizera o que os animais fazem quando intuem o perigo: esconder as


suas crias. Provida de uma astúcia que vinha do fundo da terra,
aquela mulher que não sabia nada soube tudo. Conseguiu chegar até à
única gruta que existia nas redondezas, meter-se com a menina ali,
cobri-la com o corpo, tapar tudo com arbustos e dispor-se a morrer
antes de alguém tocar na menina. Só saiu da gruta quando o silêncio
se instalou nas redondezas.

Tarde demais. Os pais já lá não estavam. A noite caíra. A menina


tinha medo e fome.

Tarde demais.

324
Ou talvez não.

Havia aquela mulher disposta a dar a vida. Estava eu. Estava o cão
que lambia a pequena. Estava a casa.

E assim, eu, o filho do diabo, tornei-me tutor de uma menina que nem
sabia falar. Assim compreendi que eu também fazia parte das verdades
elementares do mundo. Foi assim que lhe dei um beijo e jurei defendê-
la. Ao dar-lhe aquele beijo tive a sensação de que lhe estava a
manchar a cara.

A guerra civil ensinou-me muitas coisas, para o caso de eu ainda não


as ter aprendido. Ensinou-me que era aí que culminava um processo de
séculos e que na realidade o século xx fazia parte do século xv,
porque os problemas de então ainda não tinham sido resolvidos.
Ensinou-me que a religião, que deveria ser uma ternura - ou um
problema - individual, se transforma numa fonte de ódio, sendo por
isso urgente transformá-la novamente numa ternura individual. Ou,
então, num problema. Ensinou-me que o povo é sempre matéria
inflamável: quando recebe o calor de um archote, explode. Ensinou-me
que se mata em nome de Deus, como eu vira O Outro fazer.

Em Burgos matava-se em nome de Deus; em Barcelona tentava-se matar


Deus, mas o resultado era o mesmo. A religião deixara de ser um
sentimento individual que encontra soluções na vida para se
transformar num sentimento colectivo que apenas encontra soluções na
morte. Do alto daquela casa isolada, eu, filho da dúvida, tive de
assistir à matança entre aqueles que nunca tiveram uma dúvida. Então,
percebi, como se ainda não tivesse percebido, quão terríveis são a
absoluta certeza e a absoluta obediência.

É claro que não vi O Outro. As patrulhas anarquistas teriam acabado


com ele. O Outro, que tal como eu estava imerso no fundo dos séculos,
devia estar na outra frente, onde a fé sem matizes estava do seu
lado. Nem para ele nem para mim existia o tempo, nem para ele nem
para mim existia a pressa. Voltaríamos a encontrar-nos.

Disse que para mim o tempo não existia? Bom, também não era
exactamente assim. Para os outros, o tempo existia e eu precisava de
me moldar a ele.

325
Como em tantas outras ocasiões, precisei de mudar de nome e de
personalidade, já que não podia mudar de aspecto. Um ex-professor dos
Escolápios não podia desfilar pela cidade revolucionária; por isso,
apoderei-me dos documentos de um morto (havia mortos em todas as
esquinas e podia-se escolher), falsifiquei alguns dados e tornei-me
professor em Ostende, especialista em idiomas. Deram-me logo trabalho
como tradutor num gabinete de contra--espionagem e, sendo um homem
insubstituível, não me mandaram para a guerra apesar de continuar a
parecer que tinha trinta anos.

E esse foi o tempo da menina.

Sei, agora que já todas as luas passaram, que vivi apenas para isso.
As verdades mais obscuras são sempre as mais simples. E então soube
que até um filho do diabo pode amar uma casa solitária, um cão e uma
menina.

Enquanto eu trabalhava, a menina estava sob a vigilância do cão e de


Rita. Não passávamos fome porque enquanto funcionário governamental
eu tinha um pequeno racionamento extra (do qual não usava
praticamente nada), e além disso Rita, fiel ao seu passado camponês,
transformara o jardim da casa numa horta. A pequena, como parte da
sua nova vida, aprendeu a cultivar verduras, a recolhê-las, a limpar
os carreiros, a deixar-se guiar pelo cão e a dar o mesmo nome a
pássaros que todos os dias eram diferentes. Eu ensinava-a a
distinguir as letras e a relacionar os objectos, de modo que naquele
ambiente isolado, sem nada a perturbá-la, a menina despertou para a
sua inteligência e além disso foi feliz.

É claro que desde França a mãe andou à procura da sua pista. A Cruz
Vermelha fez esforços e poderia tê-la encontrado, mas enquanto eu
estava a trabalhar Rita ocultou-a. Disse que não se mostrara para que
não lha tirassem. É que no fundo do seu sangue, da sua solidão, do
seu ventre que um dia existiu, para Rita a menina era sua filha.

Um dia, caiu uma bomba nas proximidades - algo estranho, porque era
uma zona isolada e de paz - e a menina ficou sepultada pela terra.
Rita desenterrou-a com as unhas, com os seus gritos e as suas
mordidelas no chão, até perceber que a menina ainda estava viva.

326
Limpou-lhe então o corpo com a língua, como fazem os animais, embora
os animais não chorem de gratidão. Rita, que vinha da escuridão,
ensinou-me de repente a verdade e a luz mais elementares do mundo,
tal como séculos atrás a minha mãe me havia ensinado.

Eu ia de um lado para outro, na Barcelona faminta, de uma prisão para


outra, de uma checa (Nota 1) para outra, traduzindo o que diziam os
supostos espias que estavam detidos. Andava pela rua de San Pablo,
onde decorrera a minha meninice, via a igreja em que dormira séculos
atrás e deambulava pelas Rondas, onde durante tanto tempo conheci as
últimas muralhas, as que foram derrubadas no tempo de Cerda. Se a
muralha gótica de Jaime I havia sido a da minha meninice e deixava de
fora o Raval, a de Pedro, o Cerimonioso, erguida apenas cem anos
depois, deixava o Raval dentro, e a mim também. Eu era o homem das
muralhas, sempre com a mesma cara, que podia ser reconhecido em todo
o lado, mas todos aqueles que poderiam reconhecer-me já estavam
mortos.

Ia de um lado para outro da Barcelona faminta. Via as casas arrasadas


pelas bombas e convencia-me de que a cidade ia desaparecer, engolida
pelas chamas. Os aviões fascistas baleavam-na dia e noite. Via os
prédios que um dia amei transformarem-se em pó, via as mulheres a
berrar e os olhos aterrorizados das crianças. Colava-me aos muros de
uma igreja clausurada, recordava todos os seres já mortos que vira
sair dali, agora transformados em bruma, e precisava de fechar os
olhos.

Mas, no fundo, isso não era real. A realidade estava na casa da


colina. Aí ensinara a menina a ler e estava a ensiná-la a escrever. À
noite aprendia os nomes das constelações. Conseguira que pronunciasse
quase todas as suas palavras - elementares e directas - em três
idiomas, pois as crianças aprendem tudo a rir. Segurava-a nos meus
braços, nascidos para o mal, e pensava que também no mal pode haver
ternura. Talvez fosse verdade que Deus aprendia connosco e se
assustava perante a sua obra.

Nota 1 - Nome dado, na Guerra Civil de Espanha (1936-39), a centros


de detenção e interrogatórios da facção Republicana. (N. do T.)

327
É claro que, apesar do isolamento, nem tudo era tranquilidade na casa
da colina. A mãe exilada em França fez uma nova tentativa para
encontrar a filha, mas seguindo outro caminho. Desta vez, em vez da
Cruz Vermelha, veio o Socorro Vermelho Internacional, e Rita voltou a
ocultá-la. Não me opus, porque soube desde o primeiro momento que, se
lhe tirassem a menina (as flores que a pequena tratava, o cão com que
adormecia abraçada e as estrelas cujo nome pronunciava à noite), Rita
matar-se-ia.

Não foi essa a única visita ao silêncio da casa. Uma espécie de


comité governamental, formado por três homens, chegou até aos seus
muros e quis confiscá-la. Todos os edifícios abandonados nas
redondezas já tinham sido confiscados, de modo que isso não me
surpreendeu absolutamente nada. Um dos homens chamou-me a atenção por
parecer culto, autoritário e, não sei como, conhecedor do edifício.
Revistou tudo, verificou o estado das paredes, olhou para a menina
com indiferença, deu um pontapé ao cão, que o estava a irritar, e
confiscou a casa. Pelos vistos, a República precisava dela para
ganhar a guerra. Mas eu opus-me dizendo que aquele edifício estava
adscrito ao serviço de contra-espionagem, e que se ele o perturbasse
de qualquer forma seria submetido a investigação. Ser investigado
pelos serviços de contra-espionagem, isto é, pelo SIM, que enchia
tantos túmulos, não era uma brincadeira.

Não sei se aquele tipo, chamado Reyes, ficou assustado.

Os outros dois sim.

Ficaram convencidos de que a casa era demasiado pequena e estava


muito isolada, de modo que foram embora, ainda que proferindo
ameaças. Nunca senti tanto alívio. A casa, precisamente devido ao seu
isolamento, era a melhor garantia de vida não apenas para mim - que a
bem dizer também não precisava dela - mas para Rita e para a menina.
E novamente a acompanhei pelos carreiros, dando nome aos pássaros que
pautavam o ar e enumerando-lhe as estrelas.

Foi simplesmente isso.

Eu, então, não sabia que iria voltar a matar.

328
A menina nunca saía de casa e ninguém a conhecia, porque a casa e o
jardim eram o seu universo. Mas a partir de finais do ano de 1938,
quando a vida em Barcelona era já insuportável, a pequena ficou
gravemente doente. O que nunca acontecera antes, embora fosse
previsível, acabou por acontecer.

Rita levou a menina em braços para o Clínico.

Outra vez o Clínico, outra vez os mortos.

Ali, havia um retrato meu. «Serviço de Urgências, 1916.» Por isso não
podia ir.

A pequena foi atendida, e até conseguiram uns remédios para ela. Rita
voltou a transportá-la nos braços, convencida de que iria ficar boa,
enquanto nos lábios de ambas flutuava o mesmo sorriso. Faltava--lhes
apenas a alegria do cão. As ruas dramaticamente cinzentas, sem
eléctricos, sem luz, com esquinas destruídas e filas de mulheres
famintas, eram a paisagem da cidade. Rita, caminhando sem parar,
cantava enquanto beijava a menina. Foi a última canção de alegria, a
de uma mulher que acreditava simplesmente na vida pelas ruas da
Barcelona morta.

E então os aviões.

E os gritos de horror.

E a bomba.

Um pedaço de metralha arrancou meia cara à menina, sem causar nem um


arranhão à Rita. Esta caiu sobre a menina tentando protegê-la, sentiu
na pele o golpe dos seus ossos e na língua, na sua língua de cadela
mãe, o sabor do sangue.

Enterrei-a eu próprio ao lado da casa. Com as mãos na terra macia,


sem ferramentas, enterrei-a eu, o homem da morte.

Rita trouxera-a até à casa em braços. Banhada em sangue, as pernas


partidas mas com os olhos pavorosamente secos, entregou-ma. Foi como
uma doação, como uma oferenda. Lembro-me do jardim ainda viçosamente
verde, o sussurro do ar que chegava da cidade, o voo rasante de um
pássaro, o uivo sobrenatural do cão.

Lembro-me disso tudo.

329
E as minhas mãos a furarem a terra.

Agora mesmo poderia desenhá-lo num papel.

Lembro-me dos olhos de Rita, ainda pavorosamente secos.

E a grande caixa de cartão. A caixa da única boneca que a menina


tivera na sua vida.

Foi o caixão.

No fim de contas o caixão para uma boneca.

Lembro-me das mãos nuas de Rita, cobrindo-a de terra.

E a grande árvore que estava ao lado, e cujos ramos arranhavam O céu.


Vi que dois pássaros se pousavam num deles.

Percebi logo que iam fazer um ninho.

Soube desde o primeiro momento que Rita não sobreviveria, mas nunca
pensei que acabasse tão cedo. Naquela noite, deixei a mulher deitada
na cama da menina, abraçada aos seus vestidos. Na manhã seguinte
encontrei-a morta.

Repito que o sabia. Eu, o homem das trevas, vira anteriormente


aqueles olhos nos olhos da minha mãe. Os meus olhos imortais
contemplaram-na do fundo dos séculos, os meus braços imortais pegaram
na morta.

E com as mãos nuas abri novamente o fosso.

Lembro-me do silêncio do jardim, mesmo do silêncio do ar e do cão.


Apenas um bater de asas o quebrou de repente. A meus pés caiu um
raminho. Já não tinha dúvidas de que os pássaros estavam a criar um
ninho.

Era uma sepultura ilegal.

E então?

Era a única sepultura digna. Rita e a menina ficariam unidas para


sempre junto da caixa da boneca.

Mas faltava uma coisa. Eu, homem do fundo do tempo, que pisara tantos
cemitérios esquecidos, pensava no entanto que a morte deve ter a sua
dignidade.

330
De modo que desci até às entranhas da cidade para encontrar uma
lápide.

Uma lápide...?

Isto, aparentemente tão fácil, era difícil nos últimos dias da


guerra. As pedreiras não trabalhavam, os artesãos estavam mobilizados
ou escondidos e, sobretudo, ninguém se lembrava de enfeitar os
túmulos. Um marmoreiro disse-me que roubaria uma lápide e que
gravaria por trás o nome de Rita e da menina, mas eu, que vira tantas
lápides, não queria uma de um segundo morto. Outro propôs-me
trabalhar com bocados de mármore de uma casa bombardeada, fazendo,
como quem diz, uma lápide remendada. Um terceiro expulsou-me
rudemente, dizendo-me que eu deveria tratar de coisas mais
importantes.

Finalmente, encontrei aquele jovem da casa do passeio da Bonanova;


estava confiscada, mas a ele deixavam-no viver ali. Era apenas um
miúdo, gordinho, alegre, com uns olhos que pareciam ter sido feitos
para apreciar o que há de belo na vida.

Disse-me logo:

- Chamo-me Guillermo Clave, mas todos me conhecem como Guillermito.

Olhei para a casa: no local mais alto do prédio, a última bandeira da


República. No passeio das palmeiras, algumas enfermeiras mal
vestidas. Ao fundo, nas janelas, uns homens encurvados, todos de bata
branca, por onde haviam passeado os uniformes negros das criadas de
grandes traseiros.

- Sempre que aqui vier e quiser alguma coisa, pergunte por


Guillermito Clave.

Voltei a olhar para a casa; percebia agora que a conhecia. Numa outra
época, quando simulei ser médico (e, na realidade, podia sê-lo),
atendera ali alguém: não conseguia recordar-me de quem, mas era
alguém... O rapaz propôs:

- Dantes trabalhavam aqui uns marmoreiros, porque estávamos sempre a


fazer obras. Resta um pedaço que poderia servir perfeitamente para
uma lápide.

E acrescentou, rindo:

- Ofereço-lhe.

331
Quase o abracei. Era a primeira vez, desde o começo da guerra civil,
que alguém me dava alguma coisa com generosidade e alegria. Pus as
minhas mãos entre as suas, que estavam cheias de vida, e sussurrei:

- Não sei como, mas juro que um dia lhe retribuirei isto.

- Não vai poder. O senhor é demasiado velho - disse ele. Afinal pude.

Mas naquela altura ainda não sabia.

Quando Guillermito Clave, anos volvidos (depois de morrerem algumas


palmeiras da rua e tendo voltado a ver criadas de grandes traseiros à
janela), deixou de rir porque um cancro lhe devorava os ossos, eu
aliviei-lhe os sofrimentos. Nem percebeu. Foi aquele cadáver tão
branco que depois o padre Olavide enterrou junto da pedra que séculos
atrás se manchara com o meu sangue. Ironia do destino. O homem que eu
deixara sem sangue, enterrado junto do meu sangue imortal.

Enfim, foi assim que tive a minha lápide.

O Gólgota.

Se Cristo tinha suportado nos ombros uma cruz, ascendendo com ela até
ao seu sacrifício, eu, filho do diabo, tive a minha lápide. Ascendi
com ela pelas ruas atormentadas, pelos verdes jardins, saltei valas,
subi montanhas, sempre com o peso da lápide a dar cabo dos meus
ossos. Senti que morria quando a deixei cair junto da árvore em que,
definitivamente, os pássaros estavam a nidificar.

E esculpi-a com as minhas mãos. Eu, filho dos cemitérios, fiz a


lápide mais simples do mundo para uma mulher e uma menina.

Ouvi o cão a uivar ao longe.

O vento batia os cantos da casa da colina.

E ali foram esculpidas três palavras apenas.

Três.

«Rita e filha.»

332
A cidade encheu-se de bandeiras vitoriosas à passagem alegre da paz.
Encheu-se de «prietas las filas, recias, marciales nuestras escua-
dras van». Encheu-se de muros onde pessoas eram fuziladas, encheu-se
de homens ansiosos que voltavam a abrir os livros de caixa.

Mas era-me indiferente.

Lá estava a lápide, acariciada pelas asas dos pássaros. Os velhos


cemitérios de Sant Pau del Camp, o de Pueblo Nuevo, o de Montjulc,
que eu conhecia tão bem, haviam-se tornado pequenos; agora, o meu
cemitério continha apenas uma lápide. Todas as tardes levava algumas
flores do jardim, todas as noites o cão ficava a dormir deitado por
cima dela.

Como é óbvio, eu, um homem que havia trabalhado para os serviços de


investigação republicanos, estava automaticamente condenado à morte,
mas tanto fazia: já conseguira uma nova identidade falsa, a de antigo
professor dos Escolápios. É claro que, para uma segurança mínima,
tinha de abandonar a casa; mas não o fiz: jamais deixaria sozinhas a
tumba e a lápide.

Até que aquele homem regressou, mas armado e acompanhado por mais
quatro homens. Lembrava-me muito bem do seu nome: chamava-se Reyes.
Era aquele que, durante a guerra, quisera confiscar a casa. Aquele
revolucionário raivoso, aquele filho do povo que desejava o melhor
para a República, era na realidade um milionário camuflado que agora
vestia com orgulho a camisa azul da Falange (Nota 1). Houve em
Barcelona muitos como ele. Fiquei consternado pelo facto de ele ser o
dono da casa.

- Os antigos habitantes, os que se rasparam para França, eram meros


inquilinos - espetou-me. - Mas é claro, tu nem sabias disso.

- E o que é que lhes aconteceu? Porque é que não voltam?

- Enganaram-se e chegaram a território alemão, onde tinham muitos


amigos. Mas eram ambos judeus, por isso esquece-os. Não vão voltar. A
casa está livre.

E apontou-me o dedo.

Nota 1 - Principal movimento fascista espanhol, autoritário e


paramilitar. Insignificante na actualidade, foi a face visível mais
violenta do regime dirigido pelo ditador Caudillo Francisco Franco.
(N. do T.)

333
- Lembro-me perfeitamente de que trabalhavas para o serviço de
espionagem vermelho, de modo que é melhor considerares-te preso a
partir deste mesmo momento. Se resistires, será muito pior.

E acrescentou:

- Mas agora não vim por essa razão.

Vendera a casa e ia ser construída, no terreno, uma muito maior. Por


isso estavam com ele os outros homens. Viu a lápide com o cão por
cima dela e como o animal lhe mostrara os dentes, disparou à queima-
roupa.

Depois ordenou:

- Tudo fora.

- A lápide também?

- A lápide em primeiro lugar, porque precisamente é onde vai ficar a


entrada da casa. De certeza que é um enterro ilegal, como tantos na
guerra, mas não vamos perder tempo com papéis. Fora daí toda essa
carniça. Temos de edificar por cima.

Lembro-me outra vez do verde viçoso do jardim. A árvore solene, que


era já a árvore da eternidade onde os pássaros tinham um sólido
ninho. Pus-me em cima da lápide, junto dos restos do cão.

- Seu filho da puta, você não vai mexer aqui em nada.

- Não? Como não? Um condenado à morte a dar-me ordens...?

E mandou os seus homens agarrar-me e atirar-me pela ravina abaixo.


Rodei como um fardo pela colina, fui esmagado contra os arbustos e
parti uma perna, mas Reyes não podia matar-me porque eu era o homem
da vida eterna.

Ouvi ao longe como chegavam outros operários num camião, e dois deles
a começarem a destruir a lápide. Mais dois mortos surgidos no final
da guerra... E então?

Ninguém iria perguntar por eles.

Lembro-me do meu uivo no silêncio dos campos.

- Nãooooooooo...!

Nem conseguia arrastar-me. Ouvia por cima da minha cabeça os golpes


na lápide. Cravei as unhas na terra até o sangue jorrar.
334
Reyes viveu mais dois meses.

Encontrei-o a dormir na cama de um hotel de luxo, junto de uma


rapariga jovem que também estava a dormir.

A ela não lhe aconteceu nada.

A ele sim.

E é esta a história simples que acabei de lembrar, a história simples


de por que matei um homem.

335
.41.

CONTINUA A CORRER, MARTA

O poço abriu-se aos seus pés.

Masdéu devia saber que o poço estava ali, porque acabava de afastar
com um hábil movimento do pé a grelha que estava a protegê-lo. Desse
modo, bastava um leve empurrão, quase um suspiro, para Marta se
precipitar na direcção das trevas.

Em Barcelona abrem-se por vezes poços assim, sobretudo em ruelas


pelas quais não passa ninguém, nessa espécie de gargantas interiores
que em ocasiões se abrem entre duas velhas casas. Pode ser uma cloaca
em revisão, a reparação de umas bases ou uma prospecção de
arqueólogos, mas a verdade é que o poço tinha profundidade. Se o
fundo fosse rocha, uma queda poderia matá-la.

Ela não gritou.

Talvez no fundo estivesse à espera daquilo. Talvez desde que vira


Masdéu intuísse que aquilo iria acontecer.

E o braço direito de Masdéu avançou. Um ligeiro movimento...

Marta tentou furtar-se com uma flexão da cintura.

Não pôde. Os seus pés hesitaram à beira de um abismo que não podia
ver.

E então aquela mão a segurá-la...

Marta Vives não o percebeu naquela primeira fracção de segundo. Mas


era a própria mão de Masdéu. Era ele que estava a salvá-la, a travar
a queda. Marta deteve-se, a arfar, com os olhos desencaixados, sem
nada compreender, enquanto a ruela dava uma volta completa à sua
roda.

336
- Cuidado, Marta.

Agora um braço inteiro segurava-a pela cintura. Ouvia a respiração do


homem como um estertor, quase como um grito de angústia. Os dedos
estavam a magoá-la. Masdéu inclinou-a a pouco e pouco para trás.

- Apoie-se na parede.

Um pensamento passou de repente pela cabeça de Marta. Foi como uma


luz que chegava de ruas remotas, como que uma inspiração. Outro
Masdéu, outro fanático da fé, arrependera-se muitos anos atrás quando
estava prestes a causar uma morte em nome de Deus. Os seus restos
mumificados estavam agora num quarto que provavelmente nunca iria ser
visto por ninguém.

Agora, uns braços seguravam-na, impedindo-a de cair. A respiração de


Masdéu tornou-se ansiosa, enquanto todas as sombras da rua voltavam a
girar. Então soltou-a. Marta notava ainda no sangue a sensação do
perigo. O arrependimento pode durar apenas um segundo. Ainda estava à
beira do poço.

De repente desembaraçou-se e disse com voz rouca:

- Deixe-me sair.

Deu um passo, ainda com a sensação da morte bem nas suas entranhas.
Algo brilhou nas lajes da ruela. A última luz, a uns dez metros,
voltou a girar e Marta ouviu os seus próprios passos enquanto fugia.
Esses passos pareciam-lhe os de uma outra pessoa, as próprias mãos
eram as de outra pessoa. Chegou ao fim da ruela enquanto Masdéu não
fazia nada para ir atrás dela.

Viu confusamente a luz de uma montra, o piscar de um anúncio


luminoso, a silhueta de alguém que passava por outra rua mais ampla.

Estava salva.

E de repente aquela forma negra, aquele vulto que lhe fechava a


passagem e lhe cortava a luz. Marta afogou um grito.

O padre Olavide acolhia-a nos seus braços.

Era como voltar à segurança, ao seio de um mundo conhecido e onde


nada nos pode acontecer.

337
Era como a sua infância, quando fugia espavorida da entrada escura de
um prédio e encontrava uma amiga na rua. A ruela tornou-se mais
ampla, as luzes pararam de andar à roda. Marta largou mais um gemido,
que era na realidade um suspiro de alívio. Ninguém a seguia. O mundo
incompreensível de que estava a fugir ficava definitivamente para
trás. O padre Olavide murmurou:

- Por vezes venho confessar doentes a estas ruas. Depois de ter


passado tantos anos a estudar no estrangeiro, os doentes são quase
apenas os únicos amigos que tenho.

E tirou-a definitivamente da ruela. A rua operária, um pouco mais


ampla, parecia a Marta estar cheia de luzes. As montras sórdidas
pareciam-lhe cheias de resplendor. Dois homens viraram-se quando
viram um padre a andar quase abraçado a uma mulher. Os que estavam a
trabalhar nas valas levantaram as suas cabeças. E foi o padre Olavide
quem perguntou:

- Alguém queria fazer-lhe mal?

Marta não respondeu. Continuava a respirar com ansiedade. Então o


clérigo largou-a para que ela andasse normalmente.

- Mais calma?

- Sim.

- Não percebo porquê tanta pressa para fazer as coisas - sussurrou o


padre Olavide sem olhar para ela. - Aquilo que tem de acontecer
acontece sempre. O tempo é eterno.

338
.42. OS POMBOS

A chuva envolvia a parte velha da cidade e tornava-a mais íntima,


cobria-a como um sudário feito à mão. A norte do escritório de Marcos
Solana, as torres da catedral tinham um brilho cinzento que tinha
sido ensaiado ao longo dos séculos. A «Tomassa» assinalou um quarto
de hora, indiferente ao tempo, embora tivesse nascido para o tempo. A
sul, as torres de Santa Maria dei Mar queriam marcar para sempre o
coração daquilo que fora o antigo bairro da Ribera, que era para elas
o seu panteão e, ao mesmo tempo, as suas cinzas.

Algumas gotas escorregavam pelos vidros, mas pouco mais do que isso.
Em Barcelona já não chove como outrora, e na paleta das suas cores o
sol foi secando a água. Mal se distinguiam as torres da Vila
Olímpica, e às vezes nem isso: uma neblina parda que vinha de
Montjuíc devolvia-as ao nada. Era como se apenas existisse o
escritório sobre os terraços vazios, as ruas de repente tão
silenciosas e a cidade quase invisível, feita de tempo.

O tempo repousava nos velhos papéis de Marta Vives espalhados por


cima da mesa, e o tempo estava também nos seus olhos, que começavam a
perder o brilho das ruas a estrear. Naqueles papéis estava já tudo
estreado, até as histórias dos mortos, mas continuavam a alumiar
incessantemente direitos e heranças para os vivos que estavam ainda
para vir. Marta sabia que os velhos papéis, as velhas heranças,
contêm matrizes sempre dispostas a serem fecundadas por alguém. A luz
amarela caía naqueles papéis, sobre as suas línguas inquietas.

339
E debaixo da mesa as pernas firmes de Marta, que também seriam
passado nas ruas da cidade. E as ruas da cidade, como tantas outras
mulheres belas, não iriam conservar a sua memória.

Solana contemplou-as por um instante, com nostalgia. De olhos


fechados, situava-as, às vezes, num quarto pequeno, com um fundo de
livros, um fundo de chuva e um fundo de palavras que não chegam a
nascer.

E então...? As ruas da cidade também não conservam na sua memória os


desejos dos homens.

A porta da sala principal, onde estavam os outros estagiários, abriu-


se, e até o próprio Solana pareceu surpreendido ao ver quem chegava.
Porém, não fez nenhum gesto. Uma das auxiliares, que tinha acabado de
abrir a porta, disse:

- O padre Olavide chegou. Está a rever alguns papéis do arquivo. E


acrescentou:

- Este é o senhor Bossman, o novo estagiário. O doutor disse-me para


ele entrar assim que chegasse.

- Ah, sim, claro - sorriu Solana.

O recém-chegado entrou. Era um homem de estatura média, vestido com


uma certa simplicidade, de expressão pacata e que teria entre trinta
e quarenta anos de idade.

Impossível dizê-lo.

O tempo parara nele.

Na sua cara de homem maduro palpitava uma criança que ainda não
estava morta.

A sua pele era muito branca.

Nos seus grandes e inteligentes olhos, no seu âmago também feito de


chuva, detivera-se na verdade o tempo.

Marcos Solana disse com amabilidade:

- Tenho o gosto de lhes apresentar o senhor Axel Bossman. O senhor


Bossman, segundo os documentos e as cartas de recomendação que vi, é
natural de Paris, ainda que os pais sejam ingleses, mas já passou
longas estadas em Barcelona, de modo que fala perfeitamente
castelhano e catalão.

340
Enquanto passava um braço pelos ombros do recém-chegado, acrescentou.

- Axel foi documentalista na biblioteca da Assembleia Nacional


francesa e tem uma experiência incomparável a dirigir escritórios,
para além de profundos conhecimentos históricos e legais.
Naturalmente, é advogado e não deverá ter problema nenhum em
trabalhar em Espanha, embora essa não vá ser a sua missão aqui. Vai
formar equipa com a doutora Marta Vives, que já começa a estar
sobrecarregada com trabalho. Marta, apresento-lhe o senhor Bossman,
que num primeiro momento pensei que já conhecia.

O advogado evocou por momentos a parecença mais que evidente entre


Axel Bossman e aquele rosto que o olhara, trocista, por trás de uma
máscara de pedra ou de uma antiga fotografia de 1916, e também como
se autoconvencera para deixar de lado as especulações paranormais que
o haviam obcecado recentemente, debruçando-se sobre o seu complicado
presente. Já tinha o suficiente com este último. E rematou:

- Mas é claro que é um erro. No mundo há muitas pessoas parecidas.

Marta Vives levantou a cabeça, deixando para trás a paisagem de


papéis amarelos, o fundo de silêncio e chuva. O recém-chegado sorriu-
lhe.

Os olhos tão claros.

A pele tão branca.

E o sorriso quieto, aprazível, o sorriso sem tempo em que havia todos


os matizes da vida eterna. E as mãos também muito brancas, cujos
dedos pareciam não tocar nas coisas. As mãos que a haviam guiado na
casa do bispo morto.

Os olhos de Marta estavam hipnotizados. Tão quietos como os cristais


pelos quais escorrega a chuva.

O tempo deteve-se.

Para além da janela a norte, entre as torres da catedral, um bando de


pombos procurava refúgio. Solana disse com uma certa surpresa:

- Parece que se conhecem.

- Não - disse o recém-chegado -, nunca nos tínhamos visto. E nos seus


lábios pairou novamente o sorriso da vida eterna.

341
Os pombos. Também na janela a sul há pombos a fugir da chuva. Santa
Maria dei Mar, que penetra no fundo dos sepulcros dos pescadores
mortos. Os pombos não vão para ali. Talvez vão para a Merced, sobre
cuja cúpula a imagem de uma virgem cativa perdoa os pecados dos
pássaros.

A casa toda, que parece andar à volta da cidade e a sua bruma. Marta,
que se põe em pé e sente as pernas a vacilar, mas que ao mesmo tempo
se apercebe de que estão assentes como nunca numa das esquinas do
tempo. O recém-chegado ciciou:

- Imagino que vou ficar sentado ao seu lado, Marta.

Marta saía do escritório, para a grande sala onde estavam os outros


estagiários, os arquivos, a secção de caixa, a entrada do gabinete
pessoal de Solana e a imensa biblioteca onde mulheres como Marta iam
perdendo a vista.

Apoiou-se com os dedos no rebordo de uma das mesas.

Viu que o padre Olavide acabava de consultar um dos volumes. Com a


sua batina de outra época, o cabeção impecável sempre bem ajustado
para cima, o sorriso perfeitamente vaticano, aproximou-se da
rapariga. E ela perguntou com um fio de voz:

-Viu o meu novo companheiro, padre?

- Sim, vi.

A cara do sacerdote permanecia impassível. Mas os dedos de Marta


tremiam tanto que fizeram deslizar um dos papéis que estavam na mesa
e este caiu para o chão. Cortesmente, o padre Olavide inclinou-se
para o recolher.

Apenas um instante.

Uma faísca.

Com o movimento, o cabeção deslizou para trás, sobre a nuca, e então


Marta viu o fio sempre oculto, o fio.

O delicado fio de ouro, tão fino, como se houvesse sido devorado, a


pouco e pouco, pelos séculos.

O desenho. Os elos em forma de seis, mal engranzados.

342
E o tempo, o tempo que estava ali, o tempo de todas as cidades
mortas.

O padre Olavide não percebeu que ela o vira. Ou talvez sim. Não havia
no seu rosto a menor expressão. Deixou educadamente o papel

na mesa.

- Noto-a um tanto nervosa, Marta, e suponho que é porque está com


pressa. Mas acredite em mim, não deve estar com pressa, as coisas
fazem-se quando devem ser feitas. Há tanto tempo que a Criação ainda
não acabou: construímo-la nós, dia a dia, usando os materiais da
própria Criação. As coisas acontecem no tempo em que têm de
acontecer.

E sorriu.

- Espero que tudo corra bem com o seu novo companheiro. Marta virou
as costas a pouco e pouco, como se de repente os pés tivessem ficado
pregados ao chão. Nas grandes janelas brilhavam as torres da
catedral, imersas na bruma, ocultas para esses pombos que ainda não
haviam encontrado o seu caminho. Sobre os telhados da Barcelona
velha, onde tantas crianças que já partiram plantaram flores. Na
cidade que, em segredo, se vai nutrindo do tempo, que o absorve sem o
destruir. O tempo que nos vigia das suas fendas, o tempo nas janelas.

343

FIM

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