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ANDREI KOERNER

JUDICIÁRIO E CIDADANIA
NA CO N STITU IÇÃ O DA
REPÚBLICA BRASILEIRA

EDITORA H UCITEC
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLlTICA, USP

São Paulo, 1998


© Direitos autorais 1998, de Andrei Koerner. Direitos de publicação reservados
pela Editora Hucitec Ltda., Rua Gil Eanes, 713 — 04601 São Paulo, Brasil.
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símile: (011) 530-5938.

e-mail: hucitec@mandic.com.br

ISBN 85-271.0443-1 Hucitec


Foi feito o Depósito Legal.

Editoração eletrônica: Ouripedes Gallene e Rafael Vitzel Corrêa


Ficha catalográfica: Sandra Regina Vitzel Domingues

K 94 Koerner, Andrei
Judiciário e cidadania na constituição da república
b ra sileira / A n drei K oern er. - São Paulo : H ucitec /
Departamento de Ciência Política, USP, 1998.

269 p. ; 21 cm.
ISBN 85-271-0443-1

1. Cidadania - Brasil 2. Brasil - Constituição I.


Título.

C D D -300
301
342.020981

índice para catálogo sistemático:

1. Ciências Sociais 300


2. Sociologia 301
3. Brasil: Constituição 342.020981
para
Egon Udo Koemer
(1931-1995)
“Marco Polo imaginava responder (ou Kublai imaginava a sua
resposta) que, quanto mais se perdia em bairros desconhecidos
de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que
havia atravessado para chegar até lá, e reconstituía as etapas
de suas viagens, e aprendia a conhecer o porto de onde havia
zarpado, e os lugares familiares de sua juventude, e os arredo­
res de casa, e uma pracinha de Veneza em que corria quando
era criança.”
ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis
A G R A D ECIM EN TO S

Como todo trabalho intelectual, este foi feito com numerosas


pessoas, cuja presença na forma de colaboração, de diálogos, de
críticas, de sonhos e afetos tornaria difícil distinguir até que
ponto o quê cabe a quem. Eu gostaria de agradecer:
Aos professores, colegas e funcionários do Departamento de
Ciência Política da USP, especialmente aos Professores Maria
Hermínia Tavares de Almeida e Paulo Sérgio Pinheiro; e tam­
bém a Rafael Duarte Villa, Antônio Sérgio Rocha, Sérgio C. Mello
e Adhemar S. Cruz.
Aos Professores Régis de Castro Andrade (orientador), Eduar­
do Kugelmas e Sérgio Adorno, que se dispuseram em diversas
oportunidades a discutir as muitas versões de uma dissertação
de mestrado.
Aos pesquisadores e colegas do Programa de Formação de
Quadros Profissionais do Cebrap, especialmente ao Professor
José Arthur Giannotti, e a Cícero Araújo, Guilherme Xavier
Sobrinho, e André Duarte.
Aos Professores Luís Alberto Warat e Leonel Rocha, do Pro­
grama PET/Capes, do Curso de Pós-Graduação em Direito da
Universidade Federal de Santa Catarina, e a Lincoln Porto, Cláu­
dia M. Barbosa, Vicente Gomes, Patrícia Kegel, Aires Rover, e
Adelhardt Graf (in memoriam). Juntos, tornamo-nos, por al­
guns anos,alunautas em busca de umajazz-teoria para o direito.
Ao Professor Pierre Macherey, da Universidade de Lille III, e
aos amigos e colegas daquela cidade, Marie Claire Brouchet de
Arce, Gilles Rocq, Thibaud Pilon, Bemard e Catarina Brunatti,
Philippe “Artmini” Martini e Margarida Gil.
10 I AGRADECIMENTOS

Aos funcionários da Biblioteca da Faculdade de Direito da


USP, onde a maior parte dessa pesquisa foi realizada, especial­
mente às Senhoras Vera Anna Maria C. Caffarello, diretora do
Serviço de Biblioteca e Documentação, Deana M. Pimenta
Araújo e Maria Lúcia Lúcia Beffa, chefes do Setor de Atendi­
mento ao Usuário da Biblioteca, que gentilmente autorizaram a
consulta à coleção do Jornal do Commercio, sem a qual parte
dessa pesquisa não teria sido possível. Embora essa coleção seja
a única desse importante jornal na cidade, está se deteriorando,
por falta de verbas para a biblioteca.
A Capes, ao CNPq e ao Cebrap, instituições que financiaram
os meus estudos em diferentes momentos.
A Albano Pepe, Newton, Renée e toda a família Nogueira,
Maurício Berni, Juan Felix Marteau, Helena Singer, Eduardo
Noronha e Maria Amélia Cupertino, Benoni Belli, Beto, Tuio,
Kike, e outros tantos amigos.
A íris Kantor, Eduardo Noronha e Cícero Araújo, que critica­
ram a versão final desse trabalho.
À minha família, em particular aos tios Renê e Alice, que me
ajudaram muito nos tempos iniciais da metrópole.

Enfim — e em primeiro lugar — a Sara.


“O processo natural pelo qual a Escravidão fossilizou nos seus
moldes a exuberante vitalidade do nosso povo durou todo o pe­
ríodo do crescimento, e enquanto a Nação não tiver consciência
de que lhe é indispensável adaptar à liberdade cada um dos apa­
relhos de que a escravidão se apropriou, a obra desta irá por
diante, mesmo quando não haja mais escravos.
[...]
“Não se trata, somente, no caso da escravidão no Brasil, de
uma instituição que ponha fora da sociedade um imenso núme­
ro de indivíduos, como na Grécia ou na Itália Antiga, e lhes dê
por função social trabalhar para os cidadãos; trata-se de uma
sociedade não só baseada, como era a civilização antiga, sobre a
escravidão, e permeada em todas as classes por ela, mas tam­
bém constituída, na sua maior parte, de secreções daquele vasto
aparelho...
[...]
“Atenas, Roma, a Virgínia, por exemplo, foram, tomando uma
comparação química, simples misturas nas quais os diversos
elementos guardavam as suas propriedades particulares; o Bra­
sil, porém, é um composto, do qual a escravidão representa a
afinidade causal. O problema que nós queremos resolver é como
fazer desse composto de senhor e escravo um cidadão.”
Joaquim Nabuco, O Abolicionismo
SUM ÁRIO

Agradecimentos 9
No império das circunstâncias, Paulo Sérgio Pinheiro 19
Introdução 25

Capítulo 1
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA
IMPERIAL 33
1. O Poder Judicial Segundo a Lei de 31 de dezembro
de 1841 35
a) Forma de organização 35
b) Distribuição de competências 37
2. O Poder Judicial no sistema político imperial 39
a) O sistema constitucional, segundo o pensamento
conservador 39
b) A prática do sistema constitucional 42
c) Papel político dos magistrados 44
3. O Poder Judicial na sociedade escravista 48
a) A organização social escravista e a mediação
judicial dos conflitos 48
b) O governo central, os magistrados e o poder local 52
c) As categorias de indivíduos e as jurisdições civil e
criminal 54
d) A prática judicial na sociedade escravista 63
4. Tensões e conflitos com magistrados 66
a) A autonomia de julgamento dos magistrados 67
b) A lealdade partidária dos magistrados 75
c) A profissionalização da magistratura 78
13
14 | SUMÁRIO

Capítulo 2
MUDANÇAS E CONTINUIDADES DO PODER
JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE
ESCRAVISTA 81
1. A transição gradual para o trabalho livre 82
2. As propostas de reforma judiciária 87
a) As propostas liberais 87
b) As propostas conservadoras 92
3. A Reforma Judiciária de 1871 96
a) O debate parlamentar 97
b) A distribuição das competências na jurisdição civil 100
c) A distribuição das competências na jurisdição
criminal 103
d) Garantias contra prisões arbitrárias 106
4. Mudanças na carreira e no papel político dos
magistrados 116
a) Diferenciação da carreira dos magistrados 116
b) Estruturação da carreira dos magistrados e aumento
do número de lugares 120
c) Análise do mecanismo das remoções 128
5. Prática judicial e mudança social: nota sobre os
magistrados e a abolição 131

Capítulo 3
O PODER JUDICIÁRIO NA ORGANIZAÇÃO
CONSTITUCIONAL DA REPÚBLICA 143
1. A Proclamação da República como ruptura da
ordem política imperial 144
2. A posição do Judiciário nos poderes da União 150
3. Divisão de poderes entre a União e os estados 158
a) Poderes de organização do Judiciário, e da
legislação civil, comercial, penal e processual 158
b) A criação do Código Penal de 1890 161
c) A criação do Poder Judiciário federal 165
4. O Poder Judiciário na Constituinte
Republicana 168

Capítulo 4
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA ORDEM
POLÍTICA DA PRIMEIRA REPÚBLICA 179
SUMÁRIO | 15

1. O STF no sistema político federal: a vitaliciedade dos


ministros e o jogo das alianças políticas das facções 181
2. A Política dos Governadores e a ordem política
republicana 183
3. Política de nomeações de ministros do STF e juizes
federais de 1900 até 1911 187
a) Ministros do STF 187
b) Juizes secionais 190
4. Habeas-corpus nos conflitos eleitorais entre oligarquias
estaduais 193
5. Forma de organização dos juízos Secionais 202

Capítulo 5
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE
EM SÃOPAULO NA PRIMEIRA REPÚBLICA 209
1. A organização judiciária nos estados 210
2. O Poder Judiciário e política no estado de São Paulo 218
3. Poder Judiciário e sociedade em São Paulo 227
a) Processos de mudança social 228
b) Distribuição de competências 233

Anexos 247

Bibliografia 261

índice das Figuras e Quadros

Figuras
1. Distribuição dos lugares de juiz de primeira instância
por região (1849, 1869 e 1889) 257
2. Distribuição dos lugares de juiz de direito por
região(1849, 1869,1876 e 1889) 257
3. População do Brasil por região (1854, 1872 e 1890) 258
4. Lugares de juiz de primeira instância nas províncias
selecionadas (1849, 1869 e 1889) 258
5. Lugares de juiz de direito nas províncias
selecionadas 259
6. População das províncias selecionadas (1872 e 1890) 259
16 | SUMÁRIO

Quadros
1. Distribuição de competências na jurisdição civil,
na Lei n.° 2.033, de 20/9/1871 100
2. Distribuição de competências na jurisdição criminal,
na Lei n.° 120; de 3/12/1841 104
3. Distribuição de competências na jurisdição criminal,
na Lei n.° 2.033, de 20/9/1871 104
4. Lugares da magistratura em anos selecionados —
número e variação 122
5. População do Brasil — Total e Variação (1852, 1872,
1883 e 1890) 122
6. Divisão judiciária e população no Brasil 122
7. Receitas e despesas do Governo Central, por
qüinqüênio (1845-89) 124
8. Orçamentos do Governo Central: créditos ao
Ministério da Justiça 124
9. Despesas do Governo Central e do Poder Judicial
por anos selecionados 124
10. Proporção entre o número de juizes municipais
e o número de juizes de direito por região e anos
selecionados 127
11. Proporção entre termos e comarcas por anos
selecionados 127
12. Votos dos ministros do STF em habeas-corpus em
conflitos eleitorais estaduais (1908-1911) 195
13. Salários dos juizes secionais e substitutos (1899) 203
14. Salários e custas de juizes de direito de São Paulo,
Santos e Campinas (1897-99) 203
15. Valor das custas recebidas por comarca no Estado de
São Paulo (1897-1900) 225
16. Distribuição de competências na Jurisdição Criminal
em São Paulo na Primeira República 236
17. Número e variação dos lugares de juiz de primeira
instância, das comarcas e da população no estado de
São Paulo por anos selecionados 238
18. Número e variação dos lugares de juiz de primeira
instância e da população da capital de São Paulo por
anos selecionados 239
19. Proporção entre lugares de juiz de primeira
SUMÁRIO | 17

instância e população, no Brasil, no estado e na capital,


em anos selecionados 239
20. Despesas estaduais com a administração da
Justiça, Repartição de Polícia e Força Policial
no estado de São Paulo por anos selecionados 240
21. Variação das despesas estaduais com a administração
de Justiça, Repartição de Polícia e Força Pública no estado
de São Paulo por anos selecionados 240

Anexos
Lugares de juiz de primeira instância na Corte e nas
províncias do Império em anos selecionados 249
Distribuição dos lugares de juiz de primeira instância por
região e anos selecionados 250
Distribuição dos lugares de juiz de primeira instância por
províncias e anos selecionados 250
Variação do número de lugares de juiz de primeira
instância por região e anos selecionados 250
Variação do número de lugares de juiz de primeira
instância por províncias e anos selecionados 251
Distribuição dos lugares de juiz de direito por região e
anos selecionados 251
Distribuição dos lugares de juiz de direito por províncias
e anos selecionados 251
Variação do número de lugares de juiz de direito por
região e anos selecionados 252
Variação do número de lugares de juiz de direito por
províncias e anos selecionados 252
População do Brasil por região (1854, 1872 e 1890) 252
População das províncias selecionadas (1872 e 1890) 253
Orçamentos do Império: céditos ao Ministério da Justiça
(1848-9 a 1890) 253
Proporção entre o número de juizes municipais e o número
de juizes de direito por províncias e anos selecionados 254
Juizes de direito nomeados, removidos e designados
(1841 a 1889) 255
Estimativa do número de lugares de juiz de direito
(1846-1862) 256
Remoções e permutas de juizes de direito no estado de
São Paulo (1895-1927) 256
18 | SUMÁRIO

Abreviações
ACD — Anais da Câmara dos Deputados
AE-SP — Anuário Estatístico do Estado de São Paulo
AS — Anais do Senado
CE-SJ — Resoluções da Seção de Justiça do Conselho de Estado
JC — Jornal do Commercio
RMJ — Relatório do Ministério da Justiça
RSJ-SP — Relatório da Secretaria de Justiça e Segurança Pú­
blica de São Paulo
N O IM PÉRIO DAS C IR C U N S T Â N C IA S

Na epígrafe que Andrei Koerner escolheu para seu livro, Joa­


quim Nabuco, em O Abolicionismo, lembra que “enquanto a
Nação não tiver consciência de que lhe é indispensável adaptar
à liberdade a cada um dos aparelhos de que a escravidão se
apropriou, a obra desta irá por diante, mesmo quando não haja
mais escravos”. Se todas as instituições do Estado no Brasil fo­
ram afetadas pela escravidão, em nenhuma delas, como o judi­
ciário, seus efeitos fizeram-se de forma tão profunda.
Qual é o sentido da existência do judiciário desde a existência
mais remota das formas de Estado? Antes de respondermos, lem­
bremos que segundo a interpretação contratualista nas suas di­
versas expressões, formuladas desde o século XVII, é o monopó­
lio da violência física legítima, que constitui a possibilidade do
funcionamento do Estado. Para que esse atributo do Estado possa
ter eficácia é essencial que a escalada da vingança, que marca
as relações entre os homens na sociedade pré-estatál, e portanto
pré-contratual, venha a ser substituída pelo judiciário. Não se­
rão mais os homens, na plenitude de seus direitos num estado
de natureza, mas os juizes que regularão os conflitos entre os
agora cidadãos livres. Mas pesava sobre o judiciário no Segun­
do Reinado a contradição pela qual a regulação da violência e
do esvaziamento da escalada de vingança não prevalecia para
os escravos. Judicialmente, a escravidão era uma exceção —
menos rigorosamente um não jurista diria, um delírio — criada
pelo direito positivo, apesar de contrária ao direito natural e aos
princípios do direito civil. Os chefes locais e os grandes proprie­
tários estavam acima da lei.
19
20 | NO IMPÉRIO DAS CIRCUNSTÂNCIAS

A violência — combinada com modalidades de violence dou-


ce,para falar como Pierre Bourdieu — determinada pelas “obri­
gações morais” dos senhores (mas definidas pelos interesses de
preservação do capital investido na escravaria) era o recurso
primordial para manter o ritmo do trabalho e dissuadir a revol­
ta. Não interessava ainda aos juizes, representantes do poder
imperial, tomarem decisões contra os próprios interesses dos
grandes fazendeiros. É facil imaginar-se as dificuldades de se
estabelecer um estado de direito — contra o direito natural e
repetimos, em oposição flagrante aos princípios do direito civil
— para apenas uma parcela da população, sendo os escravos
incluídos na categoria de “semoventes”, não sujeitos dos direitos
garantidos até, mesmo que precariamente, para os homens li­
vres que não pertencessem à elite. Mesmo que aos senhores não
estivesse assegurado o direito de vida e morte sobre os escravos,
facultando-lhe castigos moderados, muito comumente esses li­
mites eram ultrapassados e na literatura de viajantes abundam
exemplos de barbárie cometidas pelos senhores e pelas sinhás.
E inevitável aproximar essa limitação no respeito aos direi­
tos, como aliás faz Andrei Koerner, a violência ilegal utilizada
contra os trabalhadores agora livres, especialmente os imigran­
tes, ao lado dos escravos e depois substituindo-os, nas fazendas,
e logo depois como operários nas indústrias nascentes. Os rela­
tos de observadores diplomáticos e a imprensa operária são pró­
digos no registro da violência ilegal, em alguns casos até com
açoites, que se abate contra os operários imigrantes e contra os
trabalhadores que começavam a organizar-se em associações e
sindicatos. Para esses nada valiam os direitos assegurados na
constituição republicana de 1891.
Enormes dificuldades surgiram nas sociedades modernas,
como o Brasil no século X IX na qual com os homens livres coe­
xistem os escravos, ou terminada a escravidão continuam a ser
tratados como escravos. Diante dessa contradição — direitos dos
homens livres e dominação do Estado sobre os escravos — assu­
me pleno sentido e desafio proposto, e magnificamente enfrenta­
do, por Andrei Koerner de estudar o caráter estratégico da for­
ma de organização judiciária na constituição do poder político e
na mediação das relações sociais no Segundo Reinado e na Pri­
meira República.
Mas na constituição do Estado moderno, essa articulação do
NO IMPÉRIO DAS CIRCUNSTÂNCIAS | 21

monopólio da violência física e do judiciário exige que os juizes


façam parte da burocracia estatal e tenham asseguradas sua
autonomia e independência. Ora, como mostra Andrei Koerner
na abordagem política do Segundo Reinado, o poder judiciário
nem constituía uma burocracia — pois acesso, promoção e re­
moções não eram definidos segundo normas estabelecidas em
estatuto e eram apenas funcionalmente distintos do poder impe­
rial. Os juizes no segundo reinado desempenhavam simultanea­
mente funções administrativas e judiciais.

Certamente a queda do império e as modificações do estatuto


do judiciário na República contribuirão para que essa ligação
estreita venha a ser modificada, pois os juizes não serão mais os
representantes diretos do poder imperial nas localidades, mem­
bros dos partidos políticos e aliados da dominação escravista.
Mas não estaria nessa relação tão estreita entre o império e o
judiciário o elemento explicativo da limitada autonomia — mes­
mo que a dependência assuma novas formas na República nos
limites dados da política dos governadores — que marca até
hoje a atuação do judiciário nas unidades da federação menos
desenvolvidas, hoje no final do século XX?
Esse legado, tão rigorosamente examinado neste livro, mes­
mo quando a autonomia tenha prevalecido, hoje ou no passado,
aponta para a ligação, essa não superada até os dias de hoje,
entre o judiciário e os interesses das elites. O que Andrei Koer­
ner, sem deslizar para análises mecanicistas, nos mostra com
clareza, é que a “política judiciária”, como ele chama essa nova
área de estudo da ciência política, não é definida de forma inde­
pendente das políticas das elites, mas tem uma configuração
ainda determinada pelos interesses dessas elites.
O chamado Joaquim Nabuco para se “adaptar à liberdade”
as instituições assume maior sentido ainda na atual etapa de
consolidação da democracia, em que a organização do judiciá­
rio continua sobredeterminada ao mesmo tempo pelos legados
do Segundo Reinado e da Primeira República e mais proxima­
mente pelas definições promulgadas pela ditadura militar dos
anos 1970, entulho que a constituição de 1988 não conseguiu
eliminar por completo. O judiciário tem de se “adaptar à de­
mocracia”, numa sociedade complexa, com governos determina­
22 | NO IMPÉRIO DAS CIRCUNSTÂNCIAS

dos pelas eleições, mas com continuidade acentuada das elites


com articulações ainda oligárquicas, ainda que modernizadas,
no Norte e do Nordeste; profundamente desigual, urbana, mas
com conflitos de terra intensos; pacificada pela presença do Es­
tado, mas dilacerada por níveis epidêmicos de violência.
Nesse esforço de adaptação o livro de Andrei Koerner é ins­
trumento essencial e privilegiado porque abandona as vastas
generalizações sobre o judiciário e vai tratar ao mesmo tempo
dos códigos e das práticas, da estrutura funcional e dos seus
arranjos concretos, os diversos projetos de reforma confrontados
com as mudanças efetivamente realizadas. Seu exercício ainda
é mais valioso porque desvenda as contradições — por exemplo
ao analisar o papel inesperadamente ambíguo da magistratura
imperial, às vésperas da Lei Áurea, como fator conduzindo ao
enfraquecimento da dominação escravocrata. Nesse percurso
Andrei Koerner alia o rigor que exige a análise dos textos jurídi­
cos a um exame diacrônico das elites e de suas estratégias de
poder, fazendo obra na melhor vertente da scienza política, como
análise.
O estudo da questão da repressão ao tráfico, em conseqüência
da pressão diplomática internacional, permite a Andrei Koer­
ner expor a enorme ambivalência do judiciário durante o Se­
gundo Reinado, atitude para a qual os clássicos estudos de Emí-
lia Viotti da Costa haviam ressaltado. E dos dados analisados
no livro fica absolutamente claro que os juizes imperiais, mais
uma vez fazendo valer sua solidariedade primeira com a elite e
com o poder imperial, cooperavam com os traficantes e menos
com a repressão ao tráfico. Teria sido impossível que o tráfico
proibido depois de 1831, conseguisse na década de 1842-1851
trazer quatrocentos mil escravos, se não tivesse havido a cum­
plicidade, a colaboração regular e sempre presente das autori­
dades judiciárias encarregadas de reprimir o tráfico: essa aju­
da era considerada como um efeito inerente à escravidão e como
ligada à realidade social e econômica. Desse modo, o judiciário
em vez de contribuir para romper como uma iniqüidade, facilita
sua consolidação.
Mais que os compromissos doutrinários com a justiça ou a
lei, falavam mais alto os interesses da elite a que pertenciam.
Prolongando para o judiciário as instigantes observações de Al­
berto Venâncio Filho e de Sérgio Adorno a respeito da formação
NO IMPÉRIO DAS CIRCUNSTÂNCIAS | 23

dos advogados e de suas relações com as elites, o livro demons­


tra que a magistratura era a forma privilegiada de ingresso na
elite política imperial. Não importa que a própria carreira pu­
desse percorrer cominhos diversos, de caráter propriamente ju ­
dicial, político ou administrativa: o que conta é ressaltar que a
carreira judiciária estava orientada para essa meta. O que não
quer dizer que em alguns momentos essa sobredeterminação —
como no caso de alguns julgamentos na época anterior à aboli­
ção da escravidão, já mencionados subitamente não prevaleces­
se, abrindo caminhos para a alteração de práticas. A análise de
Andrei Koerner dá conta, com igual eficácia, da continuidade e
da ruptura.
O judiciário nos períodos tratados no livro — o Segundo Rei­
nado e a Primeira República — está sempre atrelado ao império
das circunstâncias que determina que os juizes não decidam
apenas iluminados pelo direito e pela justiça, dentro da lei. O
império das circunstâncias relembra a todo momento aos juizes
que eles não devem decidir contra a razão de Estado, contra os
interesses das elites das quais fazem parte. Talvez Andrei Koer­
ner tenha aqui posto em relevo um dos obstáculos maiores pre­
sentes no legado judiciário que a sociedade brasileira agora,
quase entrando o Terceiro Milénio, recebeu.
Esse livro magistral, no estudo do judiciário e na análise da
ciência política, desvenda com precisão os desafios da recons­
trução de um judiciário, marcado pelos legados da escravidão,
do elitismo, numa democracia substantiva. A análise de Andrei
Koerner, surpreende-nos, choca-nos até ao devassar implacavel­
mente a reprodução dos obstáculos, não poupando todos os as­
pectos negativos das práticas, mas abre a possibilidade de pen­
sar uma alternativa contemporânea que não seja mais engen­
drada pelo legado de autoritarismo da Monarquia e da Repú­
blica. Realizando como poucos fizeram até agora o desafio de
desfazer as amarras de iniqüidade legadas pelo passado.

Paulo Sérgio Pinheiro


IN T R O D U Ç Ã O

Em Coronelismo, Enxada e Voto, Victor Nunes Leal dedica um


capítulo à análise da organização policial e judiciária no siste­
ma de compromissos do coronelismo. Para ele, esse compromis­
so era o resultado da superposição de formas do regime repre­
sentativo a uma estrutura social inadequada. Não se tratava de
uma sobrevivência do poder privado dos potentados rurais, mas
antes da adaptação desse poder em decadência às novas condi­
ções criadas com o fim do regime servil e com a ampliação do
regime representativo na República (Leal, 1975:19-20). Se a base
do coronelismo era a estrutura agrária do país, onde o latifún­
dio, a pobreza e o isolamento deixavam a grande maioria da
população à mercê dos proprietários rurais, seu funcionamento
se dava sobretudo no âmbito do sistema político. Nesse âmbito,
essa forma de poder decadente encontrava meios de prolongar
sua existência, pela troca de serviços com a situação dominante
estadual. A Primeira República foi a idade de ouro do coronelis­
mo, pois, com a adoção do regime federativo e a ampliação da
base eleitoral, foram montadas “sólidas máquinas eleitorais”
pelos chefes estaduais, os quais no entanto tinham a necessida­
de de encontrar apoio político nos municípios. Desse modo, os
chefes locais conduziam seus dependentes a votar nos candida­
tos govemistas em troca da concessão pelo governo do estado de
autonomia total na gestão municipal (Idem, ibidem:252-4). A
“essência” do compromisso coronelista consistia então no seguin­
te: “da parte dos chefes locais, incondicional apoio aos candida­
tos do oficialismo nas eleições estaduais e federais; da parte da
situação estadual, carta-branca ao chefe local governista (de
26 | INTRODUÇÃO

preferência o líder da facção local majoritária) em todos os as­


suntos relativos ao município, inclusive na nomeação de funcio­
nários estaduais do lugar” (Ibidem:50).
A organização policial e judiciária dos estados podia ser con­
siderada parte desse esquema. A polícia servia como eficaz ins­
trumento político-eleitoral, posto à disposição dos chefes políti­
cos locais pela situação estadual dominante. Quanto à magis­
tratura, Victor Nunes apontou que a distribuição das competên­
cias entre juizes temporários e vitalícios se dava de modo que os
chefes locais fossem favorecidos no julgamento de questões cri­
minais, especialmente nas que se davam durante os conflitos
eleitorais. As garantias funcionais dos juizes de direito (vitali­
ciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos) ti­
nham poucas condições de ser efetivas e, além disso, essas eram
insuficientes para evitar que os juizes de direito agissem politi­
camente, em virtude dos favores oferecidos pelas situações es­
taduais. A sua conclusão a esse respeito era que “as debilidades
da organização judiciária e policial resultam do isolamento, da
pobreza do país, da escassez de suas rendas públicas, da fragili­
dade e, em grande parte, do interesse menos escrupuloso das
situações políticas estaduais. E sobretudo esse interesse que
determina a entrosagem de juizes, promotores, serventuários
de justiça e delegados no generalizado sistema de compromisso
do ‘coronelismo’” (Ibidem:181-217; a citação é da p. 217).

***

O trabalho de Victor Nunes Leal foi publicado em 1949, e com


o tempo tem recebido críticas, desenvolvimentos e nuanças.
Considera-se que, de modo geral, sua análise continua sendo
um ponto de partida útil para o estudo do sistema político da
Primeira República1. Porém, o quadro que ele esboçou sobre o
Poder Judiciário estadual na Primeira República não recebeu
até agora estudos mais detalhados. Estudos que levantariam
dados históricos para, ou confirmar a sua análise, ou refutá-la,
ou ainda estaoelecer distinções, relacionando em particular as

1 Ver Carvalho, 1980, Enders, 1993. Em 1980, Victor Nunes reafir­


mou suas teses centrais (Leal, 1980).
IN TRO DUÇÃO | 27

diferenças no Poder Judiciário dos estados à sua estrutura so­


cial e à sua história política.
Fazemos neste livro parte desse trabalho, ampliando o âmbi­
to da análise feita por Victor Nunes sobre a forma de organiza­
ção judiciária. Esse domínio de análise, que pode ser chamado
de política judiciária, compreende o caráter estratégico da for­
ma de organização judiciária na constituição do poder político e
na mediação das relações sociais. Procuramos fazer, por um lado,
um estudo que valorize os aspectos jurídicos da organização
do Poder Judiciário, sem no entanto limitá-lo apenas à sua es­
trutura jurídico-formal. Por outro lado, fazemos uma análise
institucional do Poder Judiciário, procurando não tomá-lo ape­
nas nas suas relações com o sistema político em sentido estrito.
O nosso objetivo é buscar as mediações entre o Poder Judiciário,
o sistema político e a sociedade. Então, com o estudo da política
judiciária brasileira do Império à Primeira República, procura­
mos identificar as características institucionais do Poder Judi­
ciário de modo que as apresente, inicialmente, como o resultado
de estratégias políticas de construção institucional adotadas
pelas elites políticas; em seguida, como forma particular de or­
ganização inserida numa estrutura de poder político; e, enfim,
como determinado tipo de mediação dos conflitos sociais, e por­
tanto de integração da sociedade.

***

O nosso argumento é que as continuidades na forma de organi­


zação judiciária brasileira resultaram de determinada política
judiciária, cujo sentido se esclarece quando essas continuidades
são contrastadas com os processos de mudança social e política,
da sociedade imperial e escravista à sociedade republicana e
fundada no trabalho livre. Além da sua importância para os es­
quemas políticos das alianças políticas federais e do coronelis-
mo, como apontou Victor Nunes Leal, essa política judiciária
apresentou também importante aspecto de controle social. Com
essa política judiciária foi mantida uma forma de organização
judiciária, cujo efeito era a exclusão da resolução dos conflitos
entre proprietários e não-proprietários pelo mecanismo judi­
cial, formalmente igualitário e regrado pelos procedimentos le­
gais. Pela relação estabelecida entre a atividade judicial e a ati-
28 | IN TRO DUÇÃO

vidade policial, essa política judiciária também excluiu os indi­


víduos pobres da efetiva salvaguarda judicial à sua vida, à sua
segurança e à sua liberdade, garantidas constitucionalmente a
todos os cidadãos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
país.
Desenvolvemos esse argumento da seguinte maneira:
No Capítulo 1 estudamos o papel dos magistrados na política
e na sociedade imperial. Tomando como ponto de partida a lei
de reforma judiciária de 1841, apresentamos o pensamento con­
servador sobre a posição do Poder Judicial na ordem política e a
prática do sistema constitucional no período. Os magistrados
imperiais eram mais do que juizes, pois eles concentravam di­
versos papéis políticos e sociais, o que explica a importância
política dos magistrados e também os conflitos a seu respeito.
Quanto à atividade propriamente judicial dos magistrados, es­
tudamos os limites postos pela organização social à extensão da
mediação judicial dos conflitos e a incidência diferenciada desta
em relação às diversas categorias de indivíduos. A partir das
relações entre o governo central e os poderes locais veremos que
o objetivo da prática judicial dos magistrados era a estabilidade
política e social do Império. Nessas condições, e com a análise
da inserção do antagonismo inerente à escravidão na própria
estrutura do julgamento jurídico, esboçamos o tipo de prática
judicial na sociedade escravista.
No segundo capítulo, estudamos os projetos de reforma judi­
ciária e as mudanças institucionais ocorridas no Poder Judicial
nas duas últimas décadas do Império, em conjunto com as mu­
danças sociais e com os impasses políticos do processo mais amplo
de crise da sociedade escravista brasileira. Nesse capítulo, ex­
pomos as propostas liberal e conservadora de reforma judiciária
e fazemos análise detalhada da reforma judiciária de 1871, a
fim de mostrar como foram adotadas modificações no Poder Ju­
dicial que excluíram da competência dos magistrados profissio­
nais o julgamento de questões concernentes aos conflitos civis
dos indivíduos livres e pobres, e também do controle dos proce­
dimentos policiais sobre esses indivíduos. Ao mesmo tempo, as
modificações do estatuto legal dos escravos, criadas especial­
mente pela Lei do Ventre Livre, ampliaram a intervenção judi­
cial nas relações entre senhores e escravos. Estudamos também
as mudanças na carreira e no papel político dos magistrados,
INTRO DUÇÃO | 29

que diferenciaram a magistratura em relação aos outros cargos


e funções estatais, e tornaram a carreira dos magistrados mais
longa e mais estruturada. Do ponto de vista das propostas libe­
rais, esse processo é incompleto, o que significa que a magistra­
tura foi apenas parcialmente constituída como uma burocracia,
com magistrados aplicadores da lei e árbitros políticos. Se hoje
essas propostas parecem as mais adequadas para garantir a
independência da magistratura, a causa do fracasso das refor­
mas não foi simplesmente o resultado da falta de vontade dos
políticos, ou a inclinação dos governantes por um poder arbitrá­
rio. O estudo dessa incapacidade será o das forças que, apesar
dos problemas e das críticas, sustentavam a organização exis­
tente, e essa se fará pelo inserção dos magistrados na própria
dinâmica política do Império e da sociedade escravista em trans­
formação. Com essas mudanças institucionais e sociais, um nú­
mero cada vez maior de magistrados passou a decidir a favor da
liberdade dos escravos, criando relações conflituosas com os po­
deres locais, e alterando a própria prática judicial. A ação des­
ses magistrados no processo abolicionista é um momento em
que vemos emergir a autonomia de julgamento do Poder Judi­
cial brasileiro em relação aos interesses dominantes na socieda­
de fundada no latifúndio agroexportador.
No Capítulo 3 analisamos o processo de organização consti­
tucional da República. Este processo foi um novo pacto político
entre as unidades da federação, e não um pacto social em que
se buscasse a reordenação das relações entre os indivíduos na
sociedade. A opção pela forma de governo presidencialista era
predominante entre os republicanos, mas os dispositivos cons­
titucionais característicos do presidencialismo de tipo norte-
americano foram introduzidos por Rui Barbosa. A análise dos
debates na Constituinte sobre o Poder Judiciário põe em rele­
vo os termos do debate político, no qual o controle da magistra­
tura pelos estados era oposto aos privilégios corporativos dos
magistrados do Império. Enfim, com a passagem à República,
presidencialista e federativa, foram deslocados os termos da
proposta liberal de organizar uma magistratura nacional in­
dependente.
No Capítulo 4 estudamos como foi organizado e como funcio­
nou o Poder Judiciário federal na Primeira República. As rela­
ções conflituosas entre o STF e os chefes políticos federais são
30 | INTRO DUÇÃO

estudadas a partir da contraposição entre a vitaliciedade dos


ministros do STF e as alianças cambiantes entre os grupos polí­
ticos em âmbito federal. A Política dos Governadores criou um
arranjo político que garantiu não só a estabilidade das alianças
políticas, mas também a constituição da própria ordem política
republicana. A análise das nomeações dos ministros do STF e
dos juizes federais mostra que essas eram feitas segundo o jogo
das alianças políticas federais e das oligarquias dos estados. O
estudo de decisões do STF nos conflitos eleitorais entre oligar­
quias estaduais confirma essa análise, mostrando que as deci­
sões dos ministros do STF variavam conforme a posição adota­
da nas alianças políticas federais pelos grupos estaduais aos
quais os ministros eram ligados. Por fim, o estudo da forma de
organização dos juízos secionais ressalta que a impossibilidade
de remoção ou demissão dos juizes federais tinha como contra­
partida a ineficácia dos meios à disposição destes. Assim a osci­
lação das decisões do STF e a precariedade da organização do
Poder Judiciário federal eram formas pelas quais se manifesta­
va a instrumentalização da justiça federal pelo jogo político oli-
gárquico da Primeira República.
No Capítulo 5 analisamos a forma de organização do Poder
Judiciário estadual na Primeira República. Todos os estados,
com exceção do Rio Grande do Sul, adotaram a forma de organi­
zação judiciária do período imperial. Essa forma de organização
garantia o controle dos juizes estaduais pelas oligarquias esta­
duais e seu exercício efetivo fazia parte do sistema de compro­
missos do coronelismo. O estudo do Poder Judiciário no Estado
de São Paulo interessa por constituir uma espécie de “teste” da
análise de Victor Nunes sobre a relação entre o compromisso
coronelista e a modernização da sociedade. Como se sabe, a so­
ciedade paulista passou por profundas alterações a partir da
década de 1880: a expansão econômica criada pela cafeicultura
teve conseqüências em muitos aspectos da vida social, como a
rápida urbanização, a expansão do mercado interno, a extensão
dos meios de transporte e de comunicação e a formação de uma
classe trabalhadora rural e urbana. O processo de mudança ins­
titucional levado a cabo pelas elites políticas de São Paulo a
partir da República contrasta com a continuidade da organiza­
ção judiciária, a qual conservou muitas das caraterísticas da
sua antecedente, imperial e escravista. Esse contraste não sig­
INTRO DUÇÃO | 31

nifica apenas uma continuidade, mas indica que os setores diri­


gentes paulistas adotaram determinado tipo de construção ins­
titucional para fazer face a esta sociedade em transformação.
Com essa forma de organização eram mantidos mecanismos de
construção da lealdade dos juizes ao governo estadual; eram
excluídos do julgamento pelos juizes profissionais os confli­
tos entre trabalhadores e empresários; e inexistia o controle,
pelo judiciário, da legalidade da ação policial sobre a população
pobre.

***

Este livro é uma versão modificada da dissertação de mestrado


em Ciência Política, que apresentamos em janeiro de 1993 na
FFLCH/USP*. Com as pesquisas e reflexões posteriores à apre­
sentação da dissertação, o texto original recebeu alterações, em
diferentes momentos. Os dois capítulos finais foram reescritos
em 1994 e 1995, para publicação como artigos; os dois capítulos
iniciais receberam completa reformulação no segundo semestre
de 1997, para a presente publicação. O Capítulo 3 é o que sofreu
menos alterações na sua redação primitiva, e conserva ainda
um pouco da nossa antiga problemática. Os capítulos podem
então ser considerados quase como artigos independentes, cada
qual com sua coesão interna e suas próprias conclusões.
Em virtude da inexistência de trabalhos de ciências sociais
dedicados ao Poder Judiciário no Brasil no período entre a es­
tabilização do Império, a passagem e a estabilização da Pri­
meira República, fizemos inicialmente um trabalho explorató­
rio para identificar os temas relevantes para o estudo do Judi­
ciário; em seguida, procuramos integrar esses temas aos re­
sultados de inúmeros trabalhos de ciências sociais sobre a po­
lítica e a sociedade brasileiras do mesmo período; enfim, pro­
cedemos à sistematização do processo de formação do Poder
Judiciário brasileiro e das suas mudanças no período, a fim de
apresentar à crítica uma análise do problema. Assim tratamos
de maneira esquemática os aspectos mais conhecidos desse

* O Poder Judiciário na Constituição da República. São Paulo:


FFLCH-USP. Dissertação de mestrado em Ciência Política, dat.
32 | INTRODUÇÃO

período: a organização política, a estrutura social e os proces­


sos de mudança social e política. Procedemos da mesma forma
quanto aos aspectos jurídico-formais do Poder Judiciário e do
restante da legislação. Isso quer dizer que não fazemos o rela­
to dessas estruturas e processos; eles são tomados como dados,
a partir das interpretações dos autores citados. Na caracteri­
zação da sociedade escravista e na análise do processo de tran­
sição para o trabalho livre referimo-nos exclusivamente às re­
giões cafeeiras. Além de motivos de ordem pragmática (cará­
ter e extensão deste trabalho, facilidade do acesso às fontes),
essa escolha se justifica pela importância política e econômica
da cafeicultura na sociedade brasileira a partir da segunda
metade do século XIX.
Combinamos neste estudo diversos procedimentos de pesqui­
sa: nos dois primeiros capítulos, além da bibliografia sobre a
política imperial e a sociedade escravista, utilizamos textos le­
gais, Relatórios do Ministério da Justiça e Anais da Câmara dos
Deputados, do Senado e do Conselho de Estado. O terceiro capí­
tulo baseia-se na análise dos projetos constitucionais, em rela­
tos e biografias dos principais participantes do processo, e no
trabalho de Agenor de Roure, sobre a Constituinte Republica­
na. O capítulo 4 foi escrito com base nos Relatórios do Ministro
da Justiça, de decisões judiciais publicadas nas revistas O Di­
reito e Revista do Supremo Tribunal Federal, e de artigos do
Jornal do Commercio. O Capítulo 5 baseou-se em Relatórios da
Secretaria de Justiça e de Segurança Pública do Estado, e de
Comissões nomeadas para elaborar Planos de Reforma Judiciá­
ria em 1901 e 1912, memórias, revistas jurídicas paulistas e bi­
bliografia sobre a política e a sociedade em São Paulo na Pri­
meira República.
Capítulo I
O PO D ER JU D IC IA L N A ORDEM
P O L ÍT IC A IM PERIAL

N a crise do antigo sistema colonial, as colônias da América por­


tuguesa permaneceram unificadas, sob um governo monárqui­
co. A condição política para a adoção deste tipo de regime havia
sido a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro
em 1808. Em virtude dessa instalação da sede da metrópole na
Colônia, foram abolidas as restrições ao comércio — o exclusivo
colonial — e instalaram-se no Rio de Janeiro os órgãos superio­
res da administração metropolitana. Feita a Independência, nas
lutas que se seguiram mostraram-se os limites sociais às cisões
políticas entre as camadas proprietárias, postos pelo risco de
levante de escravos. Do ponto de vista econômico, a expansão
da produção cafeeira revitalizou a economia mercantil-escra-
vista, agora organizada num quadro nacional. O reconhecimen­
to do novo país pela Inglaterra havia sido feito sob a condição da
extinção do tráfico, o qual, no entanto, prosseguiu nos anos se­
guintes. Diante das pressões inglesas, a unidade política das
províncias sob um governo imperial constituía uma forma efi­
caz de negociar o modo pelo qual seria extinto o tráfico. Enfim,
no jogo dos conflitos políticos após a Independência, formou-se
em torno da Coroa uma aliança de proprietários rurais, comer­
ciantes, traficantes e funcionários, aliança que comandou a par­
tir de 1837 a série de acontecimentos conhecidos como o Regres­
so conservador. Com o Regresso, foi adotada uma forma de or­
ganização política que permaneceria a mesma, em linhas ge­
rais, até a queda do Império cinqüenta anos mais tarde (Novais,
1979; Novais & Motta, 1995; Mello, 1987; Alencastro, 1979. Para
outra interpretação, ver Carvalho, 1980).
33
34 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM PO LÍTICA IMPERIAL

O sistema judicial herdado da metrópole foi inteiramente re­


formulado na década que se seguiu à Independência. Com as leis
da Justiça de Paz, o Código Criminal e o Código de Processo Cri­
minal foi adotada uma legislação liberal e descentralizadora,
cujas figuras principais eram os juizes de paz e o tribunal do júri.
Com o Regresso, o sistema judicial foi organizado sobre novas
bases, restaurando em alguns aspectos a magistratura da colô­
nia e mantendo em outros o sistema pós-Independência. Os po­
deres atribuídos pela legislação liberal às autoridades locais fo­
ram divididos pela reforma de 1841 (Lei n.° 261 de 3/12/1841 e
seu Regulamento) entre magistrados profissionais e autoridades
policiais nomeadas pelo governo central. Ao mesmo tempo, fo­
ram mantidos mecanismos que possibilitavam a atuação cliente-
lista dos chefes locais e de seus representantes, tanto no sentido
da indicação ou transferência dos funcionários, como na limita­
ção do exercício efetivo por estes das suas funções. Com a lei de
1841 foi então criada uma estrutura de comando e de informação
que integrava politicamente o governo central, os representantes
políticos e os chefes locais (Flory, 1975 e 1981; Graham, 1990;
Leal, 1922; sobre a magistratura colonial, v. Schwartz, 1979).
Nosso objetivo neste capítulo é analisar o Poder Judicial no
interior deste esquema. Para isso, estudamos as seguintes ques­
tões: 1) o Poder Judicial na lei de 1841; 2) os magistrados no
sistema político imperial; 3) a prática judicial na sociedade es­
cravista; e 4) as tensões e os conflitos com os magistrados.
Nosso argumento é que, na ordem política do Segundo Rei­
nado, o Poder Judicial era distinto apenas funcionalmente do
poder imperial. Essa forma de divisão manifestava- se na com­
petência do Poder Judicial, ao qual era vedado o julgamento de
qualquer questão que envolvesse o poder político. A magistra­
tura imperial não constituía uma burocracia, em primeiro lugar
porque o ingresso, a promoção e as remoções não eram executa­
dos segundo normas estabelecidas em estatuto. A magistratura
era a forma privilegiada de ingresso na carreira política impe­
rial, e a carreira dos magistrados era marcada pela passagem
por diversos cargos do Estado, nos quais eles adquiriam expe­
riência e era testada sua fidelidade política. Em segundo lugar,
as atribuições exercidas pelos magistrados não lhes eram exclu­
sivas. Eles desempenhavam simultaneamente funções adminis­
trativas e judiciais e, além disso, havia funções judiciais execu-
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 35

tadas por leigos e pela polícia. Enfim, a atividade dos magistra­


dos não era nem exclusiva nem predominantemente judicial.
Então, os magistrados exerciam a mediação entre o poder cen­
tral e as localidades como representantes do poder imperial, como
integrantes dos partidos políticos, como aliados aos interesses
dominantes da sociedade escravista, e também como juizes. Es­
ses múltiplos papéis dos magistrados implicavam diferentes ex­
pectativas de comportamento e criavam tensões e conflitos, que
analisamos na seção final deste capítulo.
Mesmo no exercício das suas funções judiciais, a atividade
dos magistrados não consistia na aplicação de normas legais
genericamente estatuídas. A atividade judicial dos magistrados
do Império distancia-se dessa imagem em razão de diversos fa­
tores, institucionais, técnico-jurídicos e especialmente os so­
ciais, no centro dos quais estão os problemas resultantes da es­
cravidão. O objetivo da mediação judicial dos conflitos era a ma­
nutenção da estabilidade da sociedade escravista, para que os
magistrados atuavam em colaboração com o governo e com os
proprietários. Desse modo, era acentuada a dimensão pruden-
cial da prática judicial, em prejuízo do desenvolvimento dos seus
aspectos técnicos e sistemáticos.

I . O Poder Judicial segundo a lei de 3 de dezem bro de 18 4 1

A) FORMA DE ORGANIZAÇÃO
A partir da reforma de 1841, o Poder Judicial era composto
em cada termo por um juiz municipal, o tribunal do júri, um
promotor público, um escrivão das execuções e oficiais de justi­
ça1. Em cada distrito havia um juiz de paz eleito, um escrivão,
oficiais de justiça e inspetores de quarteirão. Os promotores e os
juizes municipais eram nomeados por quatro anos pelo impera­
dor, com possibilidade de recondução. Os juizes de direito eram
nomeados pelo imperador e tinham a garantia constitucional

1 Essa descrição da organização judiciária estabelecida pela lei de


1841 não alcança a complexidade do Poder Judicial como um todo.
Para mais detalhes, ver os textos citados, em especial, Nequete,
ibid., v. 1.
36 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

da vitaliciedade, mas não a da inamovibilidade. Em algumas


capitais havia varas com competência privativa no cível, de ór­
fãos (escravos), do crime e da Fazenda. Os delegados e subde­
legados eram nomeados pelo chefe de polícia. Este era escolhi­
do dentre os desembargadores ou juizes de direito, que não po­
diam recusar o cargo. O chefe de polícia exercia o comando da
jurisdição criminal na província, tendo ele próprio funções ju ­
diciais.
Os tribunais superiores eram os Tribunais de Relação e o
Supremo Tribunal de Justiça. Os desembargadores, membros
das Relações, eram escolhidos de uma lista dos quinze juizes de
direito mais antigos. Havia quatro Relações (Maranhão, Per­
nambuco, Bahia e na Corte) até 1873, quando foram criadas
mais sete (Pará, Ceará, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso,
Goiás e Rio Grande do Sul). As Relações julgavam agravos, ape­
lações civis em certos casos, revistas e crimes de responsabili­
dade de promotores, juizes municipais e juizes de direito. Os
ministros do STJ eram nomeados dentre os desembargadores,
por antiguidade. O STJ não tinha, ao contrário do Supremo Tri­
bunal Federal criado na República, atribuições de caráter polí­
tico, tais como julgar inconstitucionalidade de leis ou a legalida­
de dos atos dos membros dos outros poderes. Até 1875 suas fun­
ções eram julgar recursos de revista, nos casos de nulidade ma­
nifesta ou injustiça notória, das sentenças proferidas em todos
os juízos em última instância, julgar delitos dos seus ministros,
dos desembargadores, empregados do Corpo Diplomático e dos
presidentes de províncias e julgar conflitos de jurisdição e com­
petência entre as Relações (art. 164 da Constituição do Império).
Os magistrados eram subordinados às Relações em suas atri­
buições cíveis e em caso de processo de responsabilidade. Ao
mesmo tempo, eram subordinados administrativamente ao pre­
sidente de província, sendo que os juizes de direito deviam en­
viar semestralmente informações circunstanciadas acerca da
maneira pela qual os juizes municipais, de órfãos e promotores
que fossem bacharéis formados exerciam as suas funções. Os
presidentes de província remetiam essas informações ao minis­
tro da Justiça, mencionando todas as queixas que contra eles
houvessem recebido, quando fundamentadas, o seu destino e
solução.. O chefe de polícia era hierarquicamente superior aos
juizes de direito e aos juizes municipais, ordenando-lhes que
O PODER JUDICIAL NA ORDEM PO LÍTICA IMPERIAL | 37

procedessem investigações, que abrissem processos, e também


controlando a sua atividade.
Embora a nomeação de juizes e promotores fosse atribuição
do imperador, ela era exercida na prática pelo ministro da Jus­
tiça, o qual devia levar em consideração as recomendações de
presidentes de província, políticos locais, e outras considerações
de tipo político. Do mesmo modo, o chefe de polícia atendia nor­
malmente às indicações das câmaras locais para os cargos de
delegado e subdelegado. Os magistrados de qualquer nível po­
diam ser suspensos ou aposentados pelo Poder Moderador, ou­
vido o Conselho de Estado. As assembléias provinciais recebiam
representações dos chefes locais contra os juizes de direito, po­
dendo suspendê-los nos crimes de responsabilidade, ou repre­
sentar ao Poder Moderador, pedindo a sua remoção. Os jui­
zes podiam ser removidos ainda por iniciativa do ministro da
Justiça.
Os cargos de promotor, de juiz municipal, de juiz de direito e
dos tribunais superiores eram ocupados exclusivamente por
bacharéis em direito, os únicos remunerados pelo governo cen­
tral. Além dessa remuneração, eles cobravam diretamente dos
litigantes custas e emolumentos pelos atos judiciais praticados.
Os demais cargos eram ocupados por leigos, que recebiam ape­
nas custas, sem nenhuma remuneração do governo central.

B) DISTRIBUIÇÃO DE COMPETÊNCIAS
Ao Poder Judicial cabia a punição dos crimes e a resolução
dos conflitos de direito privado. O direito privado tinha por ob­
jeto os interesses individuais: as relações contratuais, doações,
sucessões, de aquisição da propriedade e de família. O juiz de
paz era competente para a conciliação prévia de todas as causas
cíveis. Cabia a ele também o processo e julgamento definitivo de
causas de pequeno valor (até 16$000), mediante rito sumaríssi-
mo, verbal e simplificado. A partir de 1853, os juizes de paz jul­
gavam causas de até 50$000. O juiz municipal era competente
para preparar os processos e julgar em primeira instância as
causas com valor superior à alçada dos juizes de paz. Os agra­
vos eram julgados pelo juiz de direito ou pela Relação, para os
termos cuja distância fosse menor que quinze léguas deste tri­
bunal. Das decisões finais de primeira instância cabia apelação
à Relação. Os juizes de direito tiveram a sua competência no cível
38 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

reduzida pela lei de 1841. Pela legislação anterior, cabia ao juiz


municipal apenas a preparação dos processos, sendo o juiz de di­
reito o competente para decisões definitivas. Antes de proferir a
sentença final, esse podia inquirir novamente as testemunhas ou
proceder a quaisquer diligências que julgasse necessárias. O jul­
gamento dos agravos e apelações de suas decisões cabia à Rela­
ção. Com a lei de 1841, a função principal dos juizes de direito na
área cível passou a ser supervisionar os juizes municipais e de
paz, e outros funcionários inferiores, como os tutores, testamen­
teiros e depositários (Costa, M., 1970:22; Flory, 1981:172).
Na área criminal, a lei de 1841 extinguiu o júri de acusação,
criado pelo Código de Processo de 1832, e retomou o sistema
inquisitorial de instrução dos processos criminais. Com isso fo­
ram atribuídas, por um lado, funções judiciais à polícia e, por
outro, funções policiais aos magistrados. Quanto à polícia, os
delegados e subdelegados podiam mandar proceder buscas, pren­
der e decidir sobre a concessão de fiança, proceder à formação
da culpa e julgar os crimes policiais, infrações dos termos de
bem viver e segurança e das posturas municipais. Era-lhes con­
cedida a faculdade de remeter apenas quando julgassem conve­
niente os dados, provas e esclarecimentos sobre um delito ao
juiz competente, para a formação da culpa. Em caso de conflito
de jurisdição do chefe de polícia ou dos delegados com as autori­
dades judiciárias na formação da culpa, predominava a compe­
tência dos primeiros. Por sua vez, os juizes municipais tinham a
competência de denunciar ex-officio nos crimes públicos, nos
quais eles também procederiam à formação da culpa. Aos pro­
motores, como representantes do Império, cabia oferecer denún­
cias nos crimes de ação pública (Nequete, 1973, v. 1:52; 79; so­
bre o processo inquisitorial, ver os trabalhos de Roberto K. de
Lima).
O tribunal do júri foi, até o final do Império, o tribunal co­
mum para o julgamento da maior parte dos crimes. A reforma
de 1841 criou restrições para a escolha dos jurados, como o re­
quisito da alfabetização, e estabeleceu diferenças na renda mí­
nima para a sua qualificação de acordo com a sua origem, de
modo que as rendas provenientes de atividades industriais e
comerciais teriam de ser o dobro das derivadas de empregos
públicos ou da propriedade de terras. Ao mesmo tempo, a quali­
O PODER JUDICIAL NA ORDEM PO LÍTICA IMPERIAL | 39

ficação dos jurados deixou de ser atribuição dos juizes de paz,


passando aos delegados de polícia, com recurso para uma junta
de revisão, composta pelo juiz de direito, promotor público e o
presidente do conselho municipal. O juiz de direito, presidente
do tribunal do júri, podia apelar à Relação das decisões contrá­
rias às evidências.

2 . 0 Poder Judicial no sistem a político im perial

A) O SISTEMA CONSTITUCIONAL
SEGUNDO O PENSAMENTO CONSERVADOR
Para o pensamento conservador, o Poder Judicial não era ins­
tituído em função de uma oposição entre os direitos individuais
e o poder político, como o seria num pacto liberal. O Poder Judi­
cial era uma divisão funcional do poder soberano do Império.
Essa divisão funcional significava que havia um domínio de atri­
buições próprias e um conjunto de órgãos delegados para exer­
cê-las. Porém, além dos limites da divisão, o Poder Judicial era
identificado ao poder imperial em seus fundamentos e objeti­
vos. Era pois da sua condição de representantes, ou delegados,
do poder imperial que os magistrados recebiam a sua investidu­
ra para a mediação dos conflitos entre os indivíduos.
Segundo Pimenta Bueno (1857), o Império tinha sido forma­
do por um duplo pacto político. Em primeiro lugar, os habitan­
tes da Colônia haviam alcançado o estatuto de membros de uma
nação soberana, pela sua emancipação da metrópole, e pelo re­
conhecimento desta e das demais nações. Em segundo lugar, a
nação havia delegado perpetuamente o exercício da sua sobera­
nia ao imperador e ao parlamento, a fim de que estes agissem
para o bem-estar da sociedade. A nação escolheu então a forma
monárquica, hereditária, constitucional e representativa. O prin­
cípio representativo significava a participação ativa dos cida­
dãos no exercício do poder político; a forma constitucional signi­
ficava a limitação do poder do monarca, com a divisão e fixação
de balizas aos poderes políticos. Quanto à monarquia, propor­
cionava unidade, “um só centro, moderador e executivo, único e
permanente, não só por sua vida, mas mesmo hereditariamen-
te”. O monarca concentrava “todas as atribuições que não são
legislativas, em que esse centro todavia tem parte, ou judiciá-
40 I O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

rias, sobre que ainda assim tem inspeção, esta forma de gover­
no simboliza a unidade e a força nacional, a estabilidade na vida
interior do Estado e nas suas relações internacionais. É o prin­
cípio homogêneo e harmonioso da ação diretora, que evita os
graves inconvenientes, cruzados e entorpecidos por idéias dife­
rentes e opostas, debilitados por vontades ou forças desencon­
tradas, ou antes pelo próprio vício de sua instituição” (Bueno,
ibid.:26-8). A soberania era delegada ao imperador e ao parla­
mento; mas a divisão dos poderes do Estado era fundada na
diferenciação das atividades governamentais, e não na divisão
da própria soberania. O Poder Legislativo era órgão de delibe­
ração a respeito dos interesses gerais, e portanto devia ser cole­
tivo, necessitando do concurso dos cidadãos no parlamento; o
Poder Executivo era órgão de aplicação das leis e de ação gover­
namental; e pois necessitava de unidade de ação e de centraliza­
ção. O Poder Moderador era delegado exclusivamente ao impe­
rador, como um órgão da “consciência nacional”, e era concebido
como uma faculdade pessoal de inspeção dos outros poderes polí­
ticos, com o objetivo de manter a harmonia entre eles, frear os
abusos, e prevenir conflitos entre os outros poderes (Id.,
ibid.:205).
Para o pensamento conservador, a atribuição do Poder Judi­
cial era aplicar as leis judiciárias aos casos concretos. As leis
judiciárias eram as que regulavam as relações privadas dos ci­
dadãos e as que determinavam a punição dos crimes. O julga­
mento desse tipo de questões era atribuído a órgãos indepen­
dentes por várias razões: em primeiro lugar, como um princípio
do governo limitado, no qual os direitos privados dos cidadãos
não deviam ser julgados por decisões de tipo discricionário, pró­
prias ao governo. Os direitos dos cidadãos tinham sua origem
na natureza, eram atributos permanentes e inseparáveis da
entidade moral do homem2. Em segundo lugar, em virtude de

2 Pimenta Bueno enumera como direitos naturais inalienáveis do


homem a vida, a família e a fortuna, mas não a liberdade. Isso é
por um lado coerente com a parte do seu estudo referente às garan­
tias individuais, em que ele afirma uma separação absoluta entre
a ordem natural e a ordem civil, em que as disposições desta po­
dem ser contrárias àquela, e, por outro lado, obviamente, com a
sociedade escravista.
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 41

sua origem, os direitos dos cidadãos tinham caráter fixo e está­


vel, e não deveriam depender do caráter móvel e discricionário
próprio da ação governamental. Em terceiro lugar, a imparciali­
dade do julgamento somente poderia ser alcançada se os pró­
prios julgadores tivessem independência suficiente para a apli­
cação exata da lei, sem estarem sujeitos a influências e pressões
externas. A independência dos magistrados estava então em
continuidade com a própria finalidade do Império e a garantia
própria da sua independência era a perpetuidade, ou seja, o prin­
cípio de que não poderiam ser demitidos senão em virtude de
sentença definitiva, em ação regular processada pela autorida­
de competente. De sua parte, os magistrados tinham obrigação
de julgar apenas os casos particulares e estritamente segundo a
letra da lei. Os magistrados não podiam interpretar as leis por
disposições genéricas, nem julgar de modo contrário ao sentido
evidente dessas, porque em caso contrário estariam usurpando
as atribuições do Poder Legislativo. Não podiam ainda julgar
segundo critérios de eqüidade, nem recusar a jurisdição, dei­
xando de julgar sob pretexto de haver lacuna da lei. Essas obri­
gações implicavam a responsabilidade dos magistrados, não só
criminalmente, em virtude do Título V do Código Criminal de
1830, mas especialmente perante o Poder Moderador, pelo qual
o magistrado poderia sofrer remoção forçada ou ser suspenso do
exercício de suas funções. Para os cidadãos, a independência do
Poder Judicial implicava, por um lado, que o governo não pode­
ria avocar ou sustar os processos, nem fazê-los reviver depois de
decisão final; por outro lado, eram excluídos os foros privilegia­
dos ou a nomeação de juizes comissários (juizes designados es­
pecialmente para o processo e julgamento de um determinado
caso). Essas atribuições do Poder Judicial constituíam também
um critério de exclusão: só poderia haver decisão de tipo judi­
ciário nos conflitos dos cidadãos entre si, e também na punição
dos crimes, porque envolviam direitos privados ou individuais.
Nos conflitos dos cidadãos com o governo, não haveria decisão
propriamente judiciária, porque neste caso seriam confronta­
dos o interesse coletivo e o direito, ou interesse, particular. Se o
interesse coletivo afetasse um mero interesse individual, o úni­
co recurso ao indivíduo seria suscitar uma jurisdição graciosa,
na qual a reconsideração do ato pelo agente do governo seria
discricionária. Se o interesse coletivo afetasse um direito priva­
42 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

do, a decisão seria de tipo contencioso, processado com as devi­


das garantias, mas decidida por um órgão administrativo (Id.,
ibid.:327-32; 230-1; ver também Souza, 1862; Autran, 1881; Ro­
drigues, J. C., 1863).

B) A PRÁTICA DO SISTEMA CONSTITUCIONAL


No seu funcionamento, o sistema constitucional do Império
apresentava importantes diferenças em relação a esses princí­
pios. A mais importante era a intervenção do Poder Moderador
na política fora dos casos constitucionais, frequentemente criti­
cada como um desvio do sistema representativo. O Poder Mode­
rador, que era irresponsável, e o Poder Executivo, que se funda­
va na responsabilidade política do Gabinete, não eram distintos
claramente. Manteve-se uma zona de incerteza, que “transfor­
mava o monarca, de fato, em fonte de poder absoluto”. O impera­
dor tinha, entre outras atribuições, o poder de fazer os ministé­
rios, dissolver a câmara, convocar novas eleições e escolher os
senadores vitalícios. Criticada como absolutismo do monarca,
sua intervenção na política permitia a alternância no poder dos
partidos, impedindo que uma mesma oligarquia se eternizasse
no poder (Cardoso, 1975:27-8). O imperador exercia, generica­
mente, quatro funções na ordem política imperial: ele represen­
tava, pelo princípio monárquico-hereditário, a unidade das di­
versas partes da sociedade; na sua relação com os representan­
tes políticos, ele representava o interesse geral, em confronto
com os interesses particulares da sociedade; como árbitro, ele
servia de mediador dos conflitos entre os diferentes grupos; en­
fim, sua presença constituía caução da continuidade do jogo, e
então da possibilidade de alteração futura das posições no siste­
ma político.
A prática relativa ao Poder Judicial também apresentava di­
ferenças em relação aos princípios do sistema constitucional.
Em primeiro lugar, a exclusão da competência dos magistrados
de julgar conflitos que envolvessem o interesse geral foi esten­
dida aos casos de dúvida acerca do caráter (se administrativo ou
judicial) de questões submetidas ao Poder Judicial. Nesse caso,
o representante da Coroa suscitava conflito de jurisdição, que
sustava o seguimento da questão, até seu julgamento final pelo
governo. Em segundo lugar, a reforma de 1841 determinou que
todos os obstáculos, lacunas e dúvidas que encontrassem na exe­
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 43

cução desta lei e do seu regulamento, deviam ser levados ao


conhecimento dos presidentes das províncias pelos chefes de
polícia, juizes de direito e municipais, delegados e subdelega­
dos, sob pena de suspensão por excesso no exercício de suas fun­
ções. Os presidentes deveriam consultar autoridades provin­
ciais, que declarariam se encontravam as mesmas dificuldades
e a maneira por que teriam procedido em casos semelhantes.
Com base nessas consultas, os presidentes levariam as dúvidas
ao conhecimento do Conselho de Estado. Assim foi atribuído ao
Conselho de Estado o poder, que constitucionalmente cabia ao
Legislativo, de estabelecer a chamada interpretação autêntica
das leis, isto é, a determinação, em termos genéricos, do verda­
deiro sentido ou disposição de uma norma legal, que deveria ser
observado “sem mais dúvida ou hesitação”. Enfim, o poder dele­
gado pelo Legislativo ao governo de regulamentar as leis para a
sua pronta execução foi estendido às leis judiciárias. O Ministé­
rio da Justiça não só regulamentava as leis como também orde­
nava o modo pelo qual os dispositivos legais deveriam ser apli­
cados a casos concretos. As leis a serem aplicadas pelos juizes
formavam então um conjunto de instrumentos legais de dife­
rentes épocas, formas e estilo, oriundos de vários tipos de auto­
ridade, fundados em princípios contraditórios e criando concei­
tos jurídicos confusos3.
Em suma, era excluído do Poder Judicial o conhecimento de
questões de interesse geral, o governo supervisionava os crité­
rios de juridicidade de decisões que pertenciam ao próprio do­
mínio das funções do Poder Judicial e ordenações governamen­
tais de diferentes tipos eram incluídas no corpo de leis que os
magistrados deveriam aplicar (Nequete, ibid.: 111; Bueno,
ibid.:37, 69; Nabuco, ibid.; v. 1).

3 Estes instrumentos legais eram entre outros as Ordenações, a Cons­


tituição do Império, os Códigos e outras Leis Gerais, e também
Avisos, Circulares do Ministério da Justiça, Resoluções do Conse­
lho de Estado, e ainda ofícios específicos do ministério e de outras
autoridades. Veremos adiante outros fatores, especialmente a es­
cravidão, que caracterizam a prática judicial do Império. Sobre os
problemas atuais, para a prática judicial, da proliferação de diver­
sos tipos de instrumentos legais, ver os trabalhos de José Eduardo
Faria.
44 I O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

C) PAPEL POLÍTICO DOS MAGISTRADOS


A nomeação para um cargo judiciário era a forma privilegia­
da de ingresso na carreira política imperial. Para isso, a condi­
ção prévia era a obtenção de diploma de bacharel em direito, o
qual abria possibilidade de ascender aos mais altos postos da
hierarquia estatal. Na sociedade hierarquizada do Império, o
“talento”, que permitia ao indivíduo distinguir-se dos semelhan­
tes, tinha papel semelhante ao da nobreza de sangue. No siste­
ma parlamentar, esse talento se manifestava na palavra fácil,
na loquacidade brilhante e ágil. O diploma de bacharel tornava-
se assim uma insígnia que dava “ao seu portador uma dignida­
de e importância que lhe permitiam atravessar a vida inteira
com discreta compostura, libertando-o de uma caça incessante
aos bens materiais” (Holanda, 1972:328).
Nas academias de direito, os estudantes aprendiam apenas a
reproduzir as técnicas e praxes estabelecidas; eles adquiriam
especialmente um determinado estilo de ação política e estabe­
leciam ligações pessoais. A formação voltada para o exercício de
cargos no Estado havia sido o objetivo explícito da criação das
academias de direito de São Paulo e Olinda. Na academia de
São Paulo, segundo Sérgio Adorno (1988), nem a formação es­
tritamente jurídica e nem as salas de aula eram o centro da
socialização dos bacharéis. Os estudantes recebiam uma forma­
ção técnico-jurídica apenas superficial, nutrida pela exposição
quase literal de comentadores das leis e doutrinadores de direi­
to4. Nas salas de aula, predominavam o desinteresse, a disper­

4 O modo de transmissão do conhecimento na academia pode ser


exemplificado pelas “incomparáveis aulas”, segundo um ex-aluno,
de praxe forense do Prof. Barão de Ramalho. Essas aulas “reves­
tiam o caráter solene de um verdadeiro tribunal”. Dentre os alunos
era constituída a magistratura, os funcionários da justiça, os advo­
gados, e também os tribunais superiores, a Relação e o Supremo
Tribunal de Justiça. As aulas “eram verdadeiros certames judiciá­
rios, em que se punha à prova o talento e a cultura” dos estudantes.
“O Barão criava situações que poriam em dificuldades velhos
causídicos e magistrados”. Certa vez, ele retirou uma peça de um
processo e como não foi notada a sua falta em nenhuma das “ins­
tâncias”, “chamou a atenção dos seus juizes e advogados para a
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 45

são e a indisciplina dos alunos, aliada à reduzida assiduidade


dos professores, para os quais esse ofício era secundário em re­
lação a outras atividades profissionais. O ensino era marcado
pela conciliação de tendências filosóficas antagônicas e a har­
monização de correntes jurídicas de distintas filiações. O auto-
didatismo era a forma básica de aprendizado, tanto jurídico como
político. As atividades centrais dos estudantes eram a partici­
pação em associações e periódicos literários ou políticos. “Ser
estudante de Direito era [...] sobretudo dedicar-se ao jornalis­
mo, fazer literatura, especialmente a poesia, consagrar-se ao
teatro, ser bom orador, participar dos grêmios literários e políti­
cos, das sociedades secretas e das lojas maçónicas” (Venâncio
Filho, 1982:136). O aprendizado tinha então como objetivo a
aquisição de determinado estilo de comportamento político, o
da ação pautada pela prudência e moderação. Veremos adiante
que o estilo de ação política se manifestava na própria prática
judicial, em virtude dos objetivos políticos e sociais dos magis­
trados na sociedade escravista (Adorno, ibid.:102-3, 236-7; so­
bre os bacharéis no Império ver também Pang & Seckinger, 1972;
e Barman & Barman, 1976).
Após a formatura, o investimento intelectual do bacharel em
direito no conhecimento técnico-jurídico era reduzido, porque
na sua carreira entrelaçavam-se perspectivas de atividades de
caráter judicial e político, nas quais a ascensão se dava por in­
termédio de bons padrinhos, em vez de algum sistema institu­
cionalizado de mérito5. A carreira política dos jovens bacharéis

indesculpável desídia, com que serviam a justiça de Sua Majesta­


de, o Imperador do Brasil” (Manuel da Costa Cruz, citado por Mar­
ques, 1977:62-5) Descontado o tom laudatório dessas reminiscên­
cias, e sem considerar o grau de eficácia dessas aulas, transparece
a ênfase do ensino na mera reprodução das praxes e na identifica­
ção com a ordem política.
5 As peripécias de bacharéis recém-formados que, nomeados juizes
ou promotores, não tinham nenhum conhecimento técnico-jurídico
para exercer a profissão são um lugar-comum de memórias e estu­
dos sobre o assunto (P. ex., Rodrigo Otávio L. Meneses em Minhas
memórias dos outros — Primeira Série). Do ponto de vista estrita­
mente técnico-jurídico, essa afirmação é válida para todo o período
estudado. Em 1951 Américo J. Lacombe afirmava que não era pos­
46 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

em direito freqüentemente iniciava no cargo de juiz municipal.


Esse cargo era a “ante-sala” na qual era posta à prova sua fide­
lidade. Para os bacharéis cujas famílias não possuíam influên­
cia suficiente para ingressá-los diretamente na política, a ma­
gistratura era uma alternativa para o início da carreira. “Logo
após a formatura, o candidato à carreira política tentava conse­
guir uma nomeação de promotor ou juiz municipal em localida­
de eleitoralmente promissora ou pelo menos num município rico.
Na impossibilidade de conseguir boa localização, a solução era
aguardar oportunidade de ser transferido. A oportunidade vi­
nha em geral através do auxílio de amigos ou de correligioná­
rios políticos já bem colocados” (Carvalho, ibid.:93-4).
A partir de sua nomeação para juiz municipal, o jovem ba­
charel tinha diversas possibilidades, como a nomeação para juiz
de direito, a eleição para a assembléia provincial ou para a câ­
mara, que poderia acumular com um cargo de juiz de direito. Se
não conseguisse eleger-se, poderia continuar na carreira de
magistrado (Id., ibid.) A nomeação e remoção de magistrados
serviam ao governo tanto como preparação para os processos
eleitorais, quanto para premiar amigos e cooptar aliados pro­
missores. Por não ser proibida a atividade político-partidária
dos juizes, era comum que ocupassem mais de um cargo simul­
taneamente. Havia forte presença de magistrados em cargos
eletivos e de nomeação dos outros poderes. No período 1822-
1853, 41,71% dos ministros e 44,41% dos senadores eram ma­
gistrados, com uma participação semelhante no Conselho de
Estado, no mesmo período (Carvalho, ibid.:79-81). Para a Câ­
mara dos Deputados, a participação dos magistrados foi de 36%
entre as legislaturas de 1826 e 1858 (Simões Neto, 1983, v. 2:193;
Flory, ibid.:195, fig. 1). Essas condições implicavam a expectati­

sível falar em decadência do ensino jurídico no Brasil, porque não


havia uma época anterior em que a qualidade do ensino fosse supe­
rior. “O mal é antigo e a grita de protesto que vamos encontrando
pelo passado afora é realmente ensurdecedora [...] não encontrei
até agora um momento da história do nosso ensino [...] que tenha
sido considerado sequer satisfatório pelos homens que se ocupa­
ram do assunto” (apud Venâncio Filho, 1982:261). Alberto Venâncio
afirma o mesmo no seu estudo sobre os 150 anos do ensino jurídico
no Brasil.
O PODER JUDICIAL NA ORDEM PO LÍTICA IMPERIAL | 47

va de lealdade dos juizes no exercício de suas funções pelos che­


fes responsáveis por sua colocação.
A fidelidade partidária era também a condição principal para
a nomeação dos juizes de direito. As necessidades do governo e
as suas atribuições em transferir juizes reforçavam a tendência
desses a serem partidários, pois sua ascensão na carreira era
determinada pela sua habilidade em promover esse tipo de in­
teresses. Por outro lado, os magistrados esperavam do governo
a recompensa pela sua fidelidade e então, a cada mudança de
gabinete, o governo recebia pedidos de magistrados desconten­
tes em busca de posições mais vantajosas (Flory, ibid.:186).
O governo central procurava minimizar as ligações locais dos
magistrados fazendo-os passar por diversos cargos e províncias.
Essa circulação era um meio de preparar os futuros integrantes
da elite política e também era necessária para preparar as elei­
ções, garantindo a vitória dos candidatos oficiais. Na sua condi­
ção de membros dos partidos políticos e de representantes do
poder central, os magistrados negociavam com os chefes políti­
cos locais tanto no processo eleitoral, como no exercício de suas
atividades normais. Ao mesmo tempo, como letrados e funcio­
nários do poder central tinham ligações com a elite provincial e
a nacional, tornando tentadora sua aliança (por meio do matri­
mônio, por exemplo) com os grupos dominantes do interior. Eles
garantiam com isso apoio regional e financeiro para sua carrei­
ra política aliando-se aos interesses da grande propriedade ba­
seada no trabalho escravo (Flory, ibid.: 193; Carvalho, ibid.:94-5;
Graham, ibid.:83-5)6.
Assim a magistratura era a forma privilegiada de ingresso
na elite política imperial. A carreira dos magistrados era diri-

6 Para um relato da ascensão na carreira vinculada ao estabeleci­


mento de alianças sociais e políticas ver as memórias do José Albino
Barbosa de Oliveira, que chegou a ministro do STJ (Oliveira, 1943).
Sobre a rede de indicações e nomeações para cargos, ver o estudo
das cartas de recomendação enviadas a políticos, em Graham, ibid.,
cap. 8. Os pedidos de colocação para cargos de juizes eram os mais
freqüentes, alcançando 28,4% das 577 cartas de recomendação es­
tudadas pelo autor. Para os juizes, as relações mais freqüentes
invocadas nestas cartas eram a de amigo, e de colega do partido
(ibid.:240-l).
48 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM PO LÍTICA IMPERIAL

gida para este objetivo e podia assumir caminhos diversos, de


caráter judicial, político ou administrativo. A sua situação polí­
tica era ao mesmo tempo a de representantes do poder impe­
rial, de membros de um partido, e portanto de aliados ou adver­
sários das facções locais, e de juizes.

3 . 0 Poder Judicial na sociedade escravista

Estudamos nesta seção a atividade propriamente judicial dos


magistrados na sociedade escravista. Analisamos as seguintes
questões: a) os limites postos pela organização social à media­
ção judicial dos conflitos; b) a inserção dos magistrados no jogo
de relações entre o poder imperial e os poderes locais; c) a me­
diação judicial e as diferentes categorias de indivíduos; d) e o
tipo de prática judicial na sociedade escravista. Nosso objetivo é
determinar as condições sociais e institucionais nas quais era
feita a mediação dos conflitos pelo mecanismo judicial. Veremos
que essa forma de mediação dos conflitos tinha seu alcance li­
mitado pela organização social e incidia de maneira diferenciada
segundo as diferentes categorias de indivíduos. Pelo papel dos
magistrados nas relações entre o poder imperial e os poderes
locais, veremos que seu papel era arbitrar os conflitos locais a
fim de manter a estabilidade política e social do Império. Nes­
sas condições, era acentuada a dimensão prudencial da prática
judicial.

A) A ORGANIZAÇÃO SOCIAL ESCRAVISTA


E A MEDIAÇÃO JUDICIAL DOS CONFLITOS
Os limites à extensão e à eficácia da mediação judicial dos
conflitos decorriam da própria organização da sociedade es­
cravista. A economia era de tipo mercantil-escravista, cuja ca­
racterística era a “grande empresa produzindo em larga esca­
la, apoiada no trabalho escravo, articulada a um sistema co-
mercial-financeiro, controlados, uma e outro, nacionalmente”.
O latifúndio escravista organizava-se como uma unidade com
acentuado isolamento econômico e autonomia em face da so­
ciedade mais ampla, voltando as suas atividades tanto para a
produção dos produtos de exportação, como para a produção
dos meios de subsistência. Nas relações sociais internas do la­
tifúndio, o proprietário rural exercia um poder quase absoluto
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 49

sobre sua família, agregados, camaradas e escravos. As rela­


ções civis e mercantis eram restritas aos proprietários e ho­
mens livres das cidades. O comércio no interior reduzia-se a
pequenos pousos e vendas ao longo das estradas, o artesanato
e o comércio dos pequenos núcleos urbanos eram reduzidos.
Seus habitantes mantinham comunicações restritas às áreas
rurais adjacentes e incorporavam-se à clientela dos grandes
proprietários locais. O mercado de café, ao qual o grande pro­
prietário estava integrado, era completamente dissociado da
vida local. E a produção local a que se dedicavam sitiantes e
jornaleiros se organizava na maior parte das vezes como eco­
nomia de subsistência (Mello, J., 1987:58; Costa, E., 1987:203;
Franco, M., 1974:74-5; 48).
De modo geral, as relações sociais regravam-se pelo sistema
moral da troca de favores. Esse sistema moral tinha como as­
pectos complementares um circuito restrito de trocas de bens e
serviços, e, do ponto de vista dos indivíduos, as relações basea­
das na noção de honra pessoal. O circuito era restrito porque
os bens e serviços eram em sua maior parte excluídos de rela­
ções mercantilizadas e eram geralmente trocados no interior
de um conjunto restrito de indivíduos de diferentes posições so­
ciais. A troca de favores implicava a complexidade das obriga­
ções, ou seja, a prestação de um favor de caráter político resul­
tava não só em obrigações de caráter político, mas também em
obrigações econômicas, jurídicas e morais. Pela capacidade de
fazer favores e de retribuí-los eram estabelecidas as hierar­
quias e distinções, e definidas as possibilidades de ascensão so­
cial. Pela honra pessoal, as relações entre os indivíduos envol­
viam a integralidade de suas pessoas, e então, se a troca de fa­
vores implicava um conjunto difuso de obrigações, implicava ao
mesmo tempo a ameaça de violência, pois a quebra da reciproci­
dade, a agressão ou o desafio atingiam a integralidade do indi­
víduo como pessoa. Com isso a ameaça de violência ocupava po­
sição central nas relações interindividuais e sua utilização não
só era uma conduta legítima, como também, em determinadas
situações, tornava-se um imperativo.
Em virtude da organização social, e do sistema de ligações
políticas, os chefes locais e outros proprietários estavam em ge­
ral acima da lei. O poder que o grande proprietário rural desfru­
tava “fazia dele, automaticamente, um privilegiado diante da
50 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

lei e dos regulamentos, de maneira constante. Nas mais banais


circunstâncias da vida a preferência que lhes era concedida vi­
nha... como um reflexo” (Franco, M., ibid.:146-7). Para esses, o
poder do Estado não era imperativo, sua autoridade não impu­
nha obediência automaticamente e era então necessário que o
representante do poder imperial barganhasse e cooptasse. Uma
decisão do magistrado desfavorável a um chefe ou a um grupo
local dominante poderia ser interpretada não como a imposição
de uma ordem legal impessoal, mas como uma perseguição ou
vingança do magistrado por motivos pessoais ou políticos, que
deveria ser revidada de alguma maneira (Nabuco, ibid., v. 1:90;
Graham, ibid.: 126-7).
Quanto aos escravos, a violência de senhores e feitores era o
recurso usual para “manter o ritmo de trabalho, impedir atitu­
des de indisciplina ou reprimir revoltas, para atemorizar os es­
cravos, mantê-los humildes e submissos, evitar ou punir fugas...”.
Para os senhores de escravos, o castigo físico era a única medi­
da coercitiva eficaz e entre eles era generalizada “a convicção de
que muitos escravos não trabalhavam se não fossem devida­
mente espancados” (Costa, E., 1989:303-4). A violência, ou sua
ameaça, não era porém o único recurso utilizado no controle dos
escravos, pois era complementada por outras técnicas de sujei­
ção, racionalizadas como um conjunto indefinido de “obrigações
naturais”, de caráter religioso ou moral, do senhor em relação a
seus escravos, em troca das quais se exigiam humildade e sub­
missão destes. Estas obrigações naturais do senhor compreen­
diam desde um nível mínimo de alimentação, vestuário e cuida­
dos, um ritmo convencional de trabalho e de repouso; algum
âmbito de atividades autônomas dos escravos (como roças pró­
prias, festas e rituais religiosos); até a promessa de alforria gra­
ciosa de um ou outro de seus escravos. Mesmo que não justifica­
das como obrigações naturais, pelas condutas de senhores e es­
cravos fixavam-se formas convencionais de relacionamento co­
tidiano. Esse comportamento convencional tinha conteúdos va­
riáveis e, além disso, podia ser quebrado pelo senhor, ou seu fei­
tor, a seu arbítrio. Porém, a quebra das convenções criava situa­
ções de tensão, que podiam resultar em crimes, fugas ou mesmo
em rebelião dos escravos (Stein, 1990:170; Machado, 1987).
Nas regiões em que já se havia estabilizado a ocupação da
terra, com o seu controle pelas grandes propriedades, o acesso à
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 51

propriedade rural era dificultado pelos fazendeiros. Ao mesmo


tempo, o processo de trabalho baseado na mão-de-obra escrava
impedia a formação de um mercado de trabalho assalariado e
livre, colocando os homens livres e pobres numa situação de
marginalidade no processo produtivo. Por sua vez, os fazendei­
ros não exploravam parte de suas propriedades e cediam-nas
aos homens livres e pobres para moradia, lavoura e criação de
subsistência. Esses homens ficavam na condição de agregados:
moravam em “terra alheia” e viviam por sua “conta e risco” e o
seu aj ustamento com o proprietário dava-se por uma relação de
simpatia e prestação de serviços pessoais7. O seu vínculo ocupa-
cional com o sistema de produção mercantil era descontínuo e
instável. Assim, os agregados estabeleciam relações de depen­
dência com os proprietários, baseadas em obrigações recíprocas
de caráter pessoal e com o reconhecimento mútuo das posições
respectivas na hierarquia social. Essa situação afastava a resolu­
ção dos seus conflitos da esfera formalmente igualitária da Justi­
ça8(Franco, M., ibid.:94-5).

7 A manutenção de agregados nas fazendas tinha motivos eleitorais,


pois era possível que se fraudassem as exigências de renda mínima
para o votante. Pelo sistema de eleições indiretas, bastavam trinta
votantes para eleger um eleitor de segundo grau.
8 A situação de dependência pessoal em relação aos grandes pro­
prietários rurais também se manifestava, com algumas variações,
com outros tipos sociais, como os tropeiros, vendeiros e sitiantes.
Quanto aos últimos, suas relações com os grandes proprietários
eram marcadas pelo reconhecimento mútuo e fidelidade política.
Com a estabilização da ocupação das terras, ambos se reconheciam
como proprietários rurais, com interesses estabelecidos nessa pro­
priedade, o que conferia permanência e continuidade às suas rela­
ções. Estas relações se encadeavam na troca de favores e de servi­
ços, dos quais o compadrio é a manifestação típica. O fazendeiro
necessitava observar continuamente os seus deveres e obrigações
pois era um requisito essencial para a preservação do seu poder o
voto do sitiante. Para o sitiante, o seu reconhecimento como um
sujeito plenamente capaz, livre, proprietário e portador de direitos
políticos, tinha como contrapartida a negação dessa situação pela
sua adesão política automática ao fazendeiro, que era garantida
pelo “encadeamento estável e contínuo de penhores e compromis­
sos” (Franco, ibid.:78-91).
52 I O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

B) O GOVERNO CENTRAL, OS MAGISTRADOS E O PODER LOCAL


Os grandes proprietários rurais reconheciam a ordem políti­
ca imperial, tendo como contrapartida o controle do exercício
desta no âmbito local. Por um lado, o governo central concedia
títulos nobiliárquicos, delegava funções e permitia o controle do
aparato estatal pelos proprietários rurais. Por outro lado, os pro­
prietários atuavam sobre o governo central por mecanismos
clientelistas de representação política, não só a fim de obter van­
tagens específicas, mas também na defesa de seus interesses
comuns. Com isso, os proprietários rurais identificavam-se à or­
dem política existente, tornando-se partners na sua consolida­
ção e defesa, ao mesmo tempo que dividiam a sua ação com ou­
tros proprietários. Desse modo, o Estado imperial não alcança­
va, como organização, a totalidade do território nacional9. Os
magistrados estavam inseridos nesse mecanismo e, como repre­
sentantes do poder imperial, mediavam as relações entre o go­
verno central e os poderes locais (ver Graham, ibid.:55, 65-8;
Uricoechea, ibid.:112-5; Carvalho, ibid.:124-5 e 1988:16-8; Flory,
ibid.:190).
Quanto à eficácia da ação dos magistrados, a exiguidade dos
meios à sua disposição já constituía importante limite e impli­
cava a necessidade de sua acomodação com os chefes locais. Não
existiam instalações adequadas e os juizes eram obrigados mui­
tas vezes a exercer suas funções nas próprias residências. Os
outros cargos judiciários, os oficiais de justiça e escrivães, eram
exercidos por membros da própria localidade sem nenhum trei­
namento profissional. Esses membros leigos tinham outras ocu­
pações e eram remunerados apenas pelas custas judiciais. Os
delegados e subdelegados eram nomeados pelo chefe de polícia,
com base na indicação dos chefes locais, e as praças eram conce­
didas pela Guarda Nacional, outra instituição com fortes liga­
ções locais. O comandante local da Guarda Nacional somente
mobilizaria seus contingentes de acordo com suas conveniên­
cias políticas, o que significava a necessidade de conciliação do

9 Havia além disso restrições de natureza orçamentária, e a inexis­


tência de pessoal qualificado.
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 53

magistrado com ele. Era comum o controle dos cargos locais pe­
los membros de uma mesma família. “Por toda parte, o prestígio
dos fazendeiros mais representativos estendia-se às esferas ad­
ministrativas. Uma família detinha a administração local. Mo­
nopolizava os postos-chave. Era todo-poderosa na sua região.
Ninguém ousava ir contra ela. A autoridade central encontrava
aí sérias dificuldades para se fazer valer”. Uma decisão do ma­
gistrado contrária aos interesses locais dominantes poderia ser
frustrada simplesmente porque não haveria quem a executas­
se. Por exemplo, se um magistrado quisesse determinar uma
prisão “inconveniente”, esta deixaria de ser feita por não haver
praças para tal, ou as eventuais praças não conseguiriam en­
contrar o réu. Tendo sido preso um grande proprietário rural ou
um seu protegido, seria retirado pelos seus aliados da cadeia. E
a guarda do preso era feita pelas próprias praças, que não resis­
tiriam à retirada, por insuficiência de meios ou por fidelidade
aos seus laços locais (Uricoechea, ibid.:134-7, 244; Franco, M.,
ibid.: 120; Graham, ibid.: 143; 209 ss; a citação é de Costa, E.,
1989:83).
A posição do magistrado nesse mecanismo não importava
então num controle absoluto de sua ação pelo governo central,
nem pelos poderes locais. Ao atribuir determinados poderes a
magistrados cuja nomeação, remoção e promoção estava sob seu
controle, o governo central garantia para si a decisão sobre a
maneira pela qual uma lei seria aplicada. A aplicação da lei era
no entanto condicionada à resistência encontrada no âmbito lo­
cal, a qual poderia manifestar-se, por exemplo, numa represen­
tação dos chefes locais às autoridades superiores contra a con­
duta do magistrado. Por sua vez, o magistrado não podia sim­
plesmente desobedecer às leis nas suas decisões, em virtude pre­
cisamente dos mecanismos de controle funcional detidos pelo
governo central. Os magistrados eram então mais do que apli-
cadores das leis gerais do Império; eles eram os juizes dos con­
flitos locais, mas também, como representantes do poder impe­
rial, os mediadores das relações deste com os poderes locais.
Nesses dois tipos de mediação seu objetivo seria resolver os con­
flitos de modo que não se voltassem contra a própria ordem po­
lítica e a estabilidade social do Império.
54 I O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

C) A S CATEGORIAS DE INDIVÍDUOS
E A S JURISDIÇÕES CIVIL E CRIMINAL
A mediação judicial dos conflitos incidia de maneira diferen­
te sobre as diversas categorias de indivíduos. Existiam inicial­
mente restrições formais à jurisdição comum dos magistrados.
Por um lado, havia a exclusão de indivíduos com capacidade
jurídica limitada, não só os escravos, mas também as mulheres,
os filhos de família e outros dependentes. Os conflitos desses
indivíduos eram classificados como pertencentes à esfera do­
méstica e deveriam pois ser resolvidos neste âmbito; judicial­
mente, esses indivíduos seriam representados pelo chefe da fa­
mília. Por outro lado, havia a exclusão dos indivíduos sujeitos
às jurisdições privilegiadas, como os funcionários superiores do
Estado, ou às jurisdições especiais, como a eclesiástica e a mili­
tar. A jurisdição militar era estendida também aos oficiais da
Guarda Nacional, que tinham os mesmos privilégios que os mi­
litares profissionais. Embora as jurisdições especiais fossem for­
malmente restritas aos atos praticados pelos religiosos ou pelos
militares no exercício das suas funções, eles procuravam esten­
der as suas imunidades até atos da vida civil (Uricoechea,
ibid.:166). Com isso, uma boa parte dos homens livres era excluí­
da da jurisdição comum.
Se os conflitos civis entre a população de pequenos comer­
ciantes, lavradores e artesãos fossem levados à mediação judi­
cial, em virtude do seu valor, teriam um processo oral e simpli­
ficado, sendo julgados pelos juizes de paz segundo as regras mo­
rais da sociedade escravista. Desse modo, as formas igualitá­
rias e reguladas legalmente, características das relações de ca­
ráter contratual não alcançavam — ou só muito superficialmente
— as relações sociais nesse nível.
As próprias relações entre os grandes proprietários e gran­
des comerciantes eram reguladas por regras costumeiras, que
davam aos seus negócios um significado diferente do de meras
relações contratuais. No comércio, por exemplo, era praxe o es­
tabelecimento de relações do tipo de “negócios em confiança”,
que se processavam dentro de pequenos grupos, nos quais as
pessoas se ligavam “por relações mais inclusivas e mais dura­
douras que os contatos formais e impessoais de negócios”. O
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 55

cumprimento dos compromissos entre comerciantes e seus


clientes não envolvia apenas a obediência a um contrato mer­
cantil, mas “a fidelidade devida a um parente ou a um amigo”.
Os ajustes comerciais eram “sedimentados por comprometimen­
tos recíprocos [...] firmados em atos de contato próximo e garan­
tidos por uma forma imediata de controle, fundada na possibili­
dade de perda da reputação comercial e na desclassificação so­
cial”. As promessas fixadas e mantidas desse modo garantiam a
“estabilidade e equilíbrio necessários às operações mercantis,
em vez de essas condições serem previstas e asseguradas pela
observância de cláusulas contratuais...” (apucL Franco, M.,
ibid.: 162). Um comerciante escrevia que em 1865 o financiamento
do fazendeiro tinha duas bases: “a moralidade junta aos meios
de produção, ou a hipoteca; em ambos os casos a dívida ao co­
missário é representada em letras a 4 ou 6 meses de prazo. Es­
tas letras com o saque do comissário são descontadas nos ban­
cos diretamente ou por meio de banqueiros; neste caso são 3 e
naquele 2 os solidários à solvabilidade do suprimento. Este é o
mecanismo atual. Quando, porém, há vinte anos entrei na vida
comercial, estreando a minha carreira em uma das mais respei­
táveis casas de comissões, nunca soube o que fosse descontar as
letras dos fazendeiros. Nesse tempo a imperfeição da circulação
não consentia as letras dos fazendeiros... Os comissários não
exigiam letras e os fazendeiros as desconheciam” (apud Faoro,
1987, 11:416). Conflitos entre os proprietários que eram legal­
mente de caráter civil, por exemplo, envolvendo demarcação de
terras, envolviam também suas noções de honra e rivalidades
pessoais. Ou seja, esses conflitos também tenderiam a ser resol­
vidos por compromissos pessoais ou pela violência e dificilmen­
te encaminhados à jurisdição contenciosa dos magistrados.
A maior parte dos crimes era julgada pelo tribunal do júri. O
tribunal do júri foi adotado no Primeiro Reinado como uma rea­
ção liberal ao arbítrio e à corrupção dos magistrados. Criticado
inicialmente por estes e pelos conservadores, o tribunal do júri
permaneceu no entanto com poucas modificações até o final do
Império. O júri era importante política e socialmente10. De um

10 Para os aspectos jurídicos do júri, comparar as críticas de J. J. Ro-


56 I O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

ponto de vista político, o controle dos resultados do tribunal do


júri era uma medida do prestígio político dos chefes locais. “Na
organização das listas de jurados e na ‘preparação’ dos perten­
centes à sua parcialidade, é que mais avultava a influência do
chefe local... Pôr na rua ou fazer condenar quem tivesse cometi­
do algum crime tem sido, tradicionalmente, problema impor­
tante para a política local, sobretudo quando o criminoso, ou
seu mandante, ou a vítima tem atuação partidária de relevo.
Nessa tarefa desempenham papel decisivo a conivência da polí­
cia, na investigação das provas; a tolerância do promotor, diluindo
a acusação ou dispensando os recursos; a atuação dos advogados
filiados às correntes municipais, às vezes chefiadas por eles pró­
prios...” (Leal, ibid.:210). As autoridades judiciárias participavam
então desse esquema político e o modo pelo qual exercessem as
suas atribuições resultava de sua aliança com algum dos chefes
locais. O tribunal do júri tinha também importância social, pois
permitia o controle local da aplicação da lei penal. Com isso dava-
se uma intervenção apenas episódica e limitada do poder impe­
rial sobre a violência das relações sociais.
A incidência da punição judicial dava-se então sobretudo so­
bre os homens livres e pobres. Eles aparecem nas estatísticas
judiciais em proporções muito maiores do que a sua participa­
ção na população (Cunha, 1986:140; Holloway, 1993). Porém, se
a presença dos homens livres e pobres era predominante como
acusados, o mesmo não acontecia quando eram vítimas de cri­
mes, pois negou-se a eles até mesmo o direito de recorrer à jus­
tiça. Por ter o juiz aceitado uma denúncia de homicídio feita por
homens pobres, um advogado acusava-o num processo de “pou­

cha (1835), fundadas numa oposição de princípios, com a posição


de P. Bueno (1857), que defende a sua manutenção, com melhorias.
Para propostas de mudanças no júri, ver RMJ 1844, 1850, 1851,
1858, 1859, 1877, 1880, 1884. Em 1854, o ministro da Justiça
Nabuco de Araújo tentou concentrar o júri nas cidades “cabeças” de
comarca, o que retirava o júri das pequenas localidades. Apesar da
oposição, a proposta foi aprovada na Câmara. Porém, no intervalo
das sessões de 1854 e 1855, os grandes proprietários de Vassouras
enviaram uma representação ao Senado contra o projeto; “e a esse
veto da grande propriedade fluminense foi sacrificada a reforma no
Senado” (Nabuco, 1936,1:150; Silva,'E. 1984:73-4).
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 57

ca reflexão e circunspecção no exercício de seu nobre e delica­


díssimo dever de denunciar”. Ao agir assim, o juiz havia aberto
um “precedente horroroso”, porque ninguém estaria livre de ser
intimado amanhã para se defender “de uma denúncia de homi­
cídio dada por um caboclo qualquer, agregado ou colono de um
desafeto”. “O órgão da justiça [...] acolheu a denúncia de um
caboclo, sem responsabilidade moral, menos ainda social, um
trabalhador boçal de enxada, que não tem nome, nem posição, e
nem reputação a zelar. E hoje... há de trazer a sua consciência
bem acabrunhada e exprobrar-se amargamente a facilidade com
que prestou fé a caboclos” (apud Franco, M., ibid.:97). Eles tam­
bém apareciam freqüentemente nos processos como testemu­
nhas, pois o depoimento a favor do grande proprietário rural
era uma forma de contraprestação do agregado. As regras de
hierarquização social se manifestavam na própria argumenta­
ção jurídica e a dependência econômica era apontada para inva­
lidar o seu depoimento, apesar de o Código de Processo nada
mencionar neste sentido (Zenha, 1985:139).
Na repressão aos crimes praticados pelos escravos, havia uma
combinação dos mecanismos públicos e privados de punição. A
lei negava o direito de vida e morte do senhor sobre seus escra­
vos, sendo-lhe concedida apenas a faculdade de aplicar castigos
moderados. A mobilidade dos escravos no espaço público era re­
gulada pelas posturas municipais, que determinavam a obriga­
toriedade do passaporte do senhor com a autorização da circula­
ção de seus escravos pela cidade; proibiam a permanência de
escravos em vias públicas após o toque de recolher; a sua con­
centração nas ruas; a permanência em casas de comércio além
do tempo necessário para realizar as suas transações; a compra
e venda de determinados produtos etc. A competência para o
julgamento das infrações a essas posturas era dos delegados, os
quais, contudo, habitualmente entregavam os cativos aos seus
senhores para serem castigados. O mesmo ocorria em casos como
pequenos furtos, lesões corporais leves e crimes contra a ordem
pública (desordens, embriaguez, brigas de rua). Quando esses
casos ocorriam nas fazendas, os senhores resistiam à apresen­
tação de seus escravos às autoridades judiciais, procurando re­
solver os conflitos em suas propriedades. Mesmo no julgamento
de crimes mais graves, como homicídios, lesões corporais gra­
ves e furtos de grande valor havia complementaridade entre os
58 I O PODER JUDICIAL NA ORDEM PO LÍTICA IMPERIAL

dois níveis de punição. Os homicídios pelos escravos de seus


proprietários, dos familiares destes ou dos feitores eram puni­
dos com a pena de morte ou as galés perpétuas. Quando a ví­
tima do homicídio era o senhor ou seus familiares, essa pena
era em geral bem aceita, mas quando a vítima era o feitor, os
senhores burlavam a aplicação da lei, negando que a vítima fos­
se feitor. Para o escravo, a prisão, mesmo com trabalho forçado,
era preferível à volta ao domínio do senhor, sendo comum os
escravos se apresentarem espontaneamente à polícia ou à justi­
ça após a prática de um crime. Para o senhor, a condenação do
escravo implicava sério prejuízo, e por isso eram usados diver­
sos expedientes para desqualificar o crime, o que, em geral, con­
tava com o beneplácito das autoridades judiciais. Depois de ab­
solvido pela justiça, o escravo voltava à fazenda, onde era puni­
do pelo senhor e vendido para locais distantes. Na aplicação das
penas de açoites ocorria o oposto, as autoridades judiciais ultra­
passavam comumente o limite máximo de cinqüenta chibata­
das estabelecido na lei11. Houve casos em que foram aplicadas
trezentas ou mais, “acarretando danos irreversíveis aos supli­
ciados” (Machado, ibid.:28-30, 47; Costa, E., ibid.:317; Gou­
lart, 1971:171).
As punições dos escravos pelos senhores tinham algum con­
trole nas cidades, mas, nas fazendas, esses as exerciam de ma­
neira ilimitada. As denúncias por crimes ou castigos excessivos
encontravam na maior parte das vezes a conivência da justiça,

11 As autoridades imperiais chegaram a recomendar moderação aos


juizes de direito na aplicação do castigo de açoites: “Sendo mister,
para conciliar-se o rigor da lei com os princípios de humanidade,
que a imposição da pena de açoites aos réus escravos tenha por
fim somente a punição do delito sem o perigo da vida ou prolonga­
do e grave detrimento da saúde do paciente, há S.M. o Imperador
por bem que V. Exa. recomende aos juizes de direito dessa provín­
cia a maior cautela a semelhante respeito; advertindo-lhes que
devem graduar a pena conforme a idade e robustez do réu, na
inteligência que, segundo afirmam os facultativos, todas as vezes
que o número de açoites exceder a duzentos, é sempre seguido de
funestas conseqüências; e que deve suspender-se o castigo logo
que o paciente, a juízo do médico, o não mais puder suportá-lo
sem o perigo”. (Av. de 10/6/1861, apud Correa, J, v. 11:13-4, e Ger­
son, 1975:93).
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 59

sendo absolvidos pelo júri os proprietários acusados. Na década


de 1860 foi reconhecido por lei o direito do escravo de requerer à
justiça que fosse vendido pelo senhor, em razão de maus-tratos.
Porém, a lei impedia que o escravo denunciasse pessoalmente
seu senhor, pois o escravo somente podia ingressar em juízo sob
tutela desse, do promotor público ou de qualquer pessoa do povo.
O escravo também só era admitido como informante e nunca
como testemunha jurada.JEm 1837, Frederico Burlamaque, em
livro em que condenaya a escravidão, apontava a ineficácia do
controle legal do poder senhorial. Se o escravo denunciasse o
senhor por maus-tratos, quem o condenaria? Qual homem livre
ousaria testemunhar a favor de um escravo contra o seu senhor?
A solidariedade de classe dos homens livres impediria tal con­
trole, pois nenhum desejaria ver punido um proprietário por
faltas que todos cometiam. Não existia também entre nós uma
classe intermediária, um pouco ilustrada, que não fosse miserá­
vel nem dependente dos senhores, que pudesse punir pelo júri
as violências e crimes destes, testemunhar contra eles etc. (apud
Costa, E., ibid.:306, 366; Goulart, ibid.; para punição de escra­
vos na Corte, ver Holloway, 1993).
Quanto à aquisição da liberdade pela via judicial, era um meio
restrito, pela pequena probabilidade que tinham os escravos de
alcançá-la e pelo número dos que efetivamente a alcançaram.
Esse meio de liberdade não importava contestação ao sistema;
era, ao contrário, coerente com ele, pois a libertação do escravo
só se dava nos casos em que era compatível com o respeito à
propriedade do senhor. Em 1867, Perdigão Malheiro, um jurista
emancipacionista, recomendava moderação no julgamento das
ações de liberdade dos escravos, pois os princípios favoráveis à
liberdade natural deveriam ser aplicados levando em conta o
direito à propriedade de terceiros, como no caso de um escravo
alforriado por apenas um dos proprietários que o possuíam em
condomínio (Id., ibid.:59). Na prática judicial prevaleciam deci­
sões, ou omissões, favoráveis à propriedade senhorial, mesmo
que contrárias a princípios gerais do direito, contrárias à lei, ou
em que a lei não era aplicada, em nome das “circunstâncias”12.

12 Ver algumas decisões dos tribunais superiores do Império transcri­


tas por Manuel da Silva Mafra (1877). Este afirmou ter compilado
60 I O PODER JUDICIAL NA ORDEM PO LÍTICA IMPERIAL

A situação exemplar de colaboração dos magistrados com


as autoridades políticas do Império e com os proprietários
de escravos é a sua atuação em relação aos africanos escravi-

“a substância das decisões do Cons. Estado, Relações e STJ”, ante­


riores e posteriores à Lei do Ventre Livre. A preferência da prova
era para a causa da liberdade. Porém, na aplicação do princípio
apareciam os obstáculos: ônus da prova: “a simples manifestação
da vontade futura de libertar um escravo, em uma declaração escri­
ta, não é título para poder gozar a liberdade e basear a respectiva
ação, pois pode não ser levada a efeito e ser em qualquer tempo
mudada (Rev. de junho de 1849, em Jurisprudência dos Tribunais).
Também não bastava a “declaração de testemunhas de que o se­
nhor em vida, e mesmo próximo a morrer, declarara que seus es­
cravos, depois de sua morte, a ninguém serviriam. Não basta a
simples manifestação deste projeto, não havendo testamento, car­
ta de liberdade, ou qualquer outro instrumento, de onde se possa
concluir que o senhor quisesse reduzir a efeito o seu intento. Nem
obstam os atos solenes e menos solenes, de que usavam os roma­
nos, pois tais atos não são entre nós admitidos” (Rev. de 23/6/1866.
Cf. também, Rev. n.° 6901, em Gaz. Jur., v. 1:114-5; Ac. da Rei da
Corte de 18/9/1852; de 23/6 e 22/8/1873; Rev. de Junho de 1849;
Rev. negada de 22/4/1874, Gaz. Jur., v. 3:119). “A alforria dada por
um dos condôminos, não importa concessão de liberdade para isen­
tar o escravo de matrícula, se este não satisfizer aos outros
condôminos, pelos meios permitidos em lei...” (vários Avisos do
Ministério da Fazenda). “Manifestada a intenção de alforriar, e
provado o fato, é ainda assim simples projeto — que não pode auto­
rizar a procedência da ação, tanto mais quanto, permitindo a longa
enfermidade — não reduziu o senhor a escrito a sua vontade” (Ac.
da Rei. de Ouro Preto de 11/9/1874, Dir., v. 6, p. 76-7). Confissão da
liberdade, feita por um dos condôminos na ação de liberdade, im­
porta libertação da sua parte; e sendo a liberdade indifusível, só é
obrigado o libertando a prestar serviços aos outros condôminos, ou
a indenizá-los (Ac. da Rei. da Corte de 23/7/1872, Gaz. Jur., v. 2:45,
412, Rev. de 28/2/1874). “A alforria em fraude do credor dada ao
escravo arrestado e antedatada é nula por simulada, e de nenhum
vigor em face da Ord. L. 4., T. 71.” O arresto impede a renúncia de
direitos, “nem os favores à liberdade vão ao ponto de validar títulos
simulados e nulos” (Rev. de 28/11/1866). Outras decisões que cons­
tam no índice da revista Gazeta Jurídica: a escrava forçada à pros­
tituição pelo senhor não fica liberta —“1.“ não aproveita à escrava,
em favor de sua liberdade, a alegação de ter sido entregue, pelo seu
senhor, à prostituição. 2.“ e nem a ação sumária de liberdade é com­
petente para nulificar a escritura da venda, pela qual o novo se­
nhor adquirira a escrava do anterior, que assim a forçara à escravi-
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 61

zados ilegalmente, entrados no país após a proibição do tráfico


pela lei de 7 de novembro de 1831. Pela sua importância, essa
ilegalidade estava no cerne do sistema escravista brasileiro do
século XIX, pois se calcula que apenas na década de 1842-51
quase quatrocentos mil africanos ilegalmente escravizados en­
traram no país. Com exceção de algumas tentativas dos gover­
nos liberais da Regência de controlar o tráfico, e apesar das pres­
sões diplomáticas e da vigilância naval britânica, o tráfico era
feito abertamente e os-traficantes eram conhecidos de todos.
“Está claro que sem a ajuda e cooperação de juizes, júris, ofi­
ciais navais, funcionários portuários e a polícia não teria sido
possível tal violação aberta da lei, mas essa ajuda era em si
mesmo um efeito inerente à escravidão e às realidades social e
econômica da nação. O tráfico era considerado essencial à eco­
nomia do país, e a escravidão não era condenada pela socieda­
de. Assim, por cumplicidade, medo ou corrupção, as autoridades
subalternas encarregadas de fazer cumprir a lei cooperavam
com os traficantes. A situação pessoal de muitas autoridades
simplesmente não permitia que aderissem irrestritamente aos
princípios da lei de 1831. Freqüentemente mal pagos ou sob a
patronagem de algum membro da elite dos plantadores, freqüen­
temente recrutados nessa mesma elite rural, cuja demanda por
escravos sustentava o tráfico, as autoridades de nível inferior
não tinham outra escolha senão curvar-se às pressões sociais e
aos seus instintos aquisitivos para colher os lucros oferecidos
pela oportunidade. Fazer executar a lei, de fato, era virtualmen­
te inimaginável para as autoridades que se encontravam em

dão; 3.° Esta tem sido a jurisprudência dos Tribunais do país, visto
que não há Lei alguma que autorize a concessão judicial da liber­
dade por tal motivo, e nem a prática do foro registra caso algum em
contrário a este (Gazeta Jurídica, Vol. XIV, p. 28; ver também Vol.
IA, p. 222). Ainda que seja corrente na lei e julgado pelos Tribunais
e Juízos, que a falta da matricula especial do escravo traz ipso facto
a liberdade deste, e o que só pode ser revogado por ação ordinária,
proposta pelo senhor, mostrando que não houve, o fato, e contra o
preceito legal, culpa ou omissão suas, todavia a ALEGAÇÃO DE
IGNORÂNCIA DE LEI, por parte do senhor, aproveita-lhe e é cau­
sa SUFICIENTE para ser revogada essa liberdade e tomar o liber­
to, PELA LEI, ao cativeiro” (Ibid., vol. XVI:220).
62 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

um palco de atividades em que os traficantes e seus poderosos


clientes poderiam usar sua riqueza e influência para solapar a
autoridade pública. A interferência no tráfico, era sabido, pode­
ria causar um grande revés na carreira de um burocrata, ou um
desastre pessoal ainda mais sério: as pessoas que realmente ten­
tavam cumprir seus deveres freqüentemente eram hostilizadas,
demitidas dos seus empregos, e por vezes assassinadas”13(Con-
rad, 1985:123; Costa, E.:70-l; RMJ, 1837).
O tráfico ilegal mostra também a importância do controle lo­
cal da aplicação da lei penal. O julgamento dos indivíduos acu­
sados de tráfico ilegal de escravos entre 1831 e 1850 era atribui­
ção do júri, o que garantia a sua impunidade, sem que a coope­
ração de magistrados e outras autoridades governamentais com
o tráfico ilegal se tornasse anuência expressa. “Diante dos pro­
testos britânicos, o governo central invoca a separação de pode­
res para justificar a não ingerência nos processos de primeira
instância dos tribunais das cidades do litoral onde os trafican­
tes detidos em flagrante delito obtinham invariavelmente ab­
solvição” (Alencastro, 1979:404; v. Conrad, 1985:103; 123-4). A
partir da proibição ao tráfico em 1850, o julgamento dos trafi­
cantes de escravos foi atribuído aos auditores da marinha (jui­
zes de direito), o que era uma maneira de tornar sua punição
mais efetiva. Porém, os proprietários rurais acusados de com­
prar escravos africanos entrados ilegalmente no país continua­
ram a ser julgados pelo tribunal do júri.

13 Em 1837, Eduard Watts, cônsul britânico em Pernambuco, afirma­


va: mesmo que o governo desejasse bloquear a importação de ne­
gros, “seus poderes físicos para cumprir esse objetivo podem ser
postos em dúvida dada a flagrante venalidade de suas autoridades
subalternas, a deplorável falta de todo o senso moral, mesmo nos
próprios Tribunais de Justiça, a crescente demanda por mão-de-
obra, os lucros desmedidos advindos do Tráfico Escravista, e as
combinações obscuras e ardilosas dos negociantes de escravos, seus
agentes e proprietários em terra para encobrir e facilitar o desem­
barque de negros africanos nessas praias” (apud Conrad, 1985:106).
Ver também o capítulo 7 sobre os emancipados, nem livres nem
escravos, isto é, os cerca de 11.000 africanos liberados pelas comis­
sões da marinha britânica e brasileira, que no entanto não foram
libertados no Brasil: eles foram distribuídos pelos juizes de órfãos
(juizes municipais) para os fazendeiros a título de aprendizado.
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 63

A violação da lei de 1831 continuou mesmo depois da extin­


ção do tráfico, em 1850. A escravidão dos africanos ingressados
no país neste período permanecia ilegal, mesmo depois da sua
incorporação à população escrava. Em 1862, o governo britâni­
co estimava que havia cerca de meio milhão de africanos ilegal­
mente escravizados, ou seja, quase um terço da população es­
crava do Império. Pelas suas conseqüências, a aplicação da lei
implicaria a virtual abolição da escravidão no país e, por isso, a
sua não-aplicação era expressamente recomendada pelas au­
toridades centrais aos magistrados. Em 1854, um juiz de di­
reito mandou abrir investigações a respeito de um escravo afri­
cano, a fim de determinar se este entrara no país depois da lei
de proibição do tráfico de 1831. O ministro da Justiça, Nabuco
de Araújo advertiu o juiz por aplicar a lei com um “rigor contrá­
rio à utilidade pública e pensamento do Governo”. A aplicação
dessa lei colidia com a intenção do governo, que tinha a aprova­
ção geral do país, de anistiar esse passado. O império das cir­
cunstâncias impunha que, a bem dos interesses coletivos, o go­
verno alertasse os magistrados neste sentido, porque, embora
não fosse conveniente julgar contra a lei, convinha “evitar um
julgamento em prejuízo e com o perigo dos interesses, um julga­
mento que causaria alarme e exasperação aos proprietários”.
Em 24 de outubro de 1874, o Conselho de Estado renovava esse
parecer: a lei de 1831 era uma lei especial e de ordem pública, a
sua aplicação deveria ser feita pelos auditores da marinha, e
segundo os fins da lei — que eram de direito internacional. So­
mente nas décadas de 1870 e 1880 essa ilegalidade foi questio­
nada pelos advogados abolicionistas, mas a maioria dos juizes e
tribunais continuou a ignorar esse problema legal (Conrad,
1975:55; Nabuco, ibid., v. 1:167,180-1; para outros casos de não-
aplicação da lei de 1831, ver Costa, E., ibid.:80; Queiroz, S.,
1977:67-9).

D) A PRÁTICA JUDICIAL NA SOCIEDADE ESCRAVISTA


A relação da prática judicial com a escravidão não deve ser
considerada de um ponto de vista restrito. Esta relação não era
a de funcionários que aplicavam as leis escravistas e que por­
tanto não faziam mais do que obedecer a ordens de autoridades
superiores. Nessa relação não se tratava apenas da orientação
pessoal dos magistrados, favoráveis à escravidão, em virtude de
64 I O PODER JUDICIAL NA ORDEM PO LÍTICA IMPERIAL

seus próprios interesses, de suas opiniões, de suas alianças com


os senhores escravistas, ou de alguma dependência política. A
relação não se dava enfim de maneira apenas episódica, no sen­
tido de que, quando havia escravos envolvidos num processo,
ocorriam desvios na aplicação correta da lei.
O antagonismo inerente à escravidão penetrava na própria
estrutura do julgamento jurídico, e isso caracterizava a prática
judicial na sociedade escravista. Para o pensamento jurídico e
político, a escravização era contrária à liberdade natural do ho­
mem; ela existia somente em virtude da lei positiva do Império.
A relação entre o escravo e o senhor implicava antagonismo per­
manente entre, por um lado, o direito de propriedade do senhor,
e a sua conseqüente autoridade absoluta sobre seus escravos, e,
por outro lado, a liberdade natural do escravo. O escravo era,
então, o inimigo doméstico do seu senhor. No que se refere à
autoridc de pública, sua relação com o escravo era a do direito
das gentes, caracterizado pela necessidade e pelo antagonismo,
porque, em virtude mesmo de sua condição jurídica, o escravo
era excluído da sociedade civil: o escravo era, pois, o inimigo
público. Assim o antagonismo com os escravos fazia parte da
própria vida social, mas era exterior à ordem jurídica da socie­
dade civil, no sentido que as suas relações não eram reguladas
pelas normas gerais desta. Diante desse antagonismo, a autori­
dade do senhor e a autoridade pública eram complementares,
pois os seus objetivos eram comuns: a estabilidade da ordem
social, a defesa da sociedade civil (Malheiro, 1976, v. 1).
Juridicamente, a escravidão era uma exceção criada pela lei
positiva, contrária ao direito natural e aos princípios gerais do
direito civil* Os princípios favoráveis à liberdade natural não
eram porém apenas regras religiosas ou morais; também não
eram apenas fontes subsidiárias da lei positiva, como o era o
direito romano. A própria legislação civil continha dispositivos
favoráveis à liberdade, enunciados como princípios gerais, como
regras de competência, de processo e de ônus da prova. As Or-
' denações continham mesmo o princípio de que a liberdade de­
veria ser favorecida, contra as regras gerais do direito, e que em
caso de dúvida, dever-se-ia julgar a favor da liberdade (Ord. liv.
4.°, Tit. 11, Par. 4; lei de 1 de abril de 1860; ver Malheiro, ibid., v.
1:124-8). A escravidão não constituía também uma legislação
excepcional, à parte das disposições legislativas do direito co-
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 65

mum. O antagonismo da escravidão estava no interior da pró­


pria legislação comum, que era composta de normas jurídicas
conflitivas, com conceitos jurídicos confusos e fundadas em
princípios contraditórios. No julgamento jurídico, essas normas
seriam dificilmente compatibilizadas pelos métodos usuais de
interpretação da lei.
O antagonismo da escravidão estava também presente no
julgamento jurídico do ponto de vista das conseqüências da de­
cisão. Os escravos eram o “vulcão que ameaça constantemente
a sociedade; é a mina pronta a fazer explosão à menor centelha”
(Id., ibid., v. 1:51-2). Isto significa a necessidade do cuidado per­
manente da manutenção da tranqüilidade nas senzalas, a ne­
cessidade de uma gestão constante do risco de resistência, de
revolta ou de rebelião dos escravos. Os magistrados deveriam
necessariamente levar em conta os efeitos sociais de sua de­
cisão, pois a escravidão impunha “circunstâncias especiais”, e
mesmo a aplicação rigorosa da lei podia ser incompatível com a
necessidade e a utilidade públicas. O antagonismo inerente à
escravidão penetrava pois na própria estrutura do julgamento
jurídico e permaneceria mesmo que as decisões judiciais fossem
uniformemente favoráveis aos proprietários de escravos (o que
não era o caso), visto que, na própria afirmação da intangibili-
dade da propriedade do senhor, estaria presente, de forma ex­
pressa ou tácita, a negação da liberdade natural do escravo na
ordem jurídica.
Essa estrutura do julgamento jurídico não se resume às de­
cisões sobre escravos, mas é característica da prática judicial
da sociedade escravista brasileira. As condições sociais e ins­
titucionais que vimos considerando — a forma de organização
política, a organização social e o sistema moral — acentuavam
a dimensão prudencial dessa prática judicial14. Na tomada de
decisão, o magistrado era colocado diante de uma situação com­
plexa: ele devia considerar instrumentos legais heterogêneos,
fundados em princípios contraditórios e conceitos jurídicos
confusos, indivíduos de diferentes categorias sociais, outras cir­

14 Sobre o direito como prática prudencial, ver os trabalhos de Michel


Villey, e a crítica de François Ewald, 1986, 1993.
66 I O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

cunstâncias particulares da situação (mesmo não previstas na


lei e não presentes nos autos) e os efeitos políticos e sociais de
sua decisão. Politicamente, havia considerações relacionadas à
estabilidade da ordem política imperial e à fidelidade partidária
do magistrado. Em seguida, o magistrado confrontava-se com
lealdades locais e expectativas de conduta contrárias ao enun­
ciado genérico das normas legais que deveria “aplicar”. Além
disso, havia o problema da eficácia da sua decisão, pois, por um
lado, o poder imperial fornecia meios bastante reduzidos para
que o magistrado pudesse contrapor-se às estruturas de poder
local e, por outro lado, os seus subalternos e demais ocupantes
de cargos governamentais no nível local participavam destas
estruturas de poder local. Enfim, havia o problema mais geral
da escravidão, que impunha ao magistrado a consideração dos
efeitos sociais da sua decisão. Essas condições tornavam então
necessário o modelo de comportamento e decisão recomendado
aos magistrados imperiais: a “circunspecção” na aplicação das
normas legais, a prudência quanto aos efeitos da decisão e a
moderação em relação aos princípios jurídicos15.
A prática judicial do Império não se conforma então à ima­
gem criada pelos conservadores, de meras operações técnicas
de consideração dos fatos trazidos aos autos, para a aplicação de
regras fixas a casos particulares. Ela não se conforma também
com a imagem, criada mais tarde pelos juristas positivistas, de
que se tratava de uma atividade meramente pragmática, pré-
científica, visto que nela simplesmente se reproduziam os usos
e praxes herdados da metrópole. Enfim, ao contrário dos críticos
liberais posteriores, as decisões dos magistrados não eram “des­
viadas” em virtude de uma simples dependência do governo.

4. Tensões e conflitos com magistrados

O magistrado concentrava diversos papéis, pois ele era ao


mesmo tempo representante do poder imperial, juiz, membro
de um dos partidos políticos e aliado dos interesses dominantes

15 Recomendações desse tipo aparecem em inúmeras manifestações


de juristas e políticos do período. Ver, por exemplo, o item b.l, da
seção seguinte. .
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 67

da sociedade escravista. Estudamos nesta seção alguns episó­


dios de tensão e de conflitos com magistrados no Império, anali­
sando-os como o choque das diferentes expectativas de conduta
criadas por esta concentração de papéis. Estes conflitos serão
postos como três problemas: da autonomia de julgamento dos
magistrados, da sua lealdade partidária e da sua profissiona­
lização.

A) A AUTONOMIA DE JULGAMENTO DOS MAGISTRADOS


Uma primeira série de situações diz respeito ao tema da au­
tonomia de julgamento dos magistrados. Os governos imperiais
consideravam essa autonomia necessariamente limitada pelo
seu dever de julgar segundo a lei, obrigação à qual eles eram
submetidos à responsabilidade legal. Para os liberais, a amplia­
ção da autonomia de julgamento do Poder Judicial seria corre­
lata à restrição do Poder Moderador e das atribuições do Conse­
lho de Estado. Eles também sustentavam a ampliação da super­
visão judicial sobre os atos dos agentes da administração. Na
prática, revelavam-se as dificuldades de delimitar a esfera da
obrigação dos juizes de aplicar a lei e manifestava-se a necessi­
dade para o governo central, fosse conservador ou liberal, de
manter mecanismos mais ou menos indeterminados de controle
sobre a atividade dos magistrados.
1. Um problema inicial refere-se à extensão do poder dos
magistrados de interpretar as leis. No próprio Conselho de Es­
tado esta questão era controvertida. Alguns conselheiros defen­
diam a atribuição ao Supremo Tribunal de Justiça da interpre­
tação por forma geral e regulamentar, outros afirmavam que a
interpretação autêntica era uma atribuição indelegável do Po­
der Legislativo (Pimenta Bueno) e outros, ainda, achavam ne­
cessário que esta se mantivesse provisoriamente na compe­
tência do Conselho de Estado (Nabuco de Araújo). Em 1855, a
Seção de Justiça do Conselho de Estado pretendia pedir autori­
zação ao Legislativo para solucionar as dúvidas e “estabelecer
uma interpretação com a força dos antigos assentos da Casa de
Suplicação”16. Porém, no Conselho de Estado pleno, essa pro­

16 Isto é, a interpretação de lei enunciada de forma genérica com for-


68 | O PODER JUD ICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

posta só teve dois votos em onze. O voto vencedor em contrário


foi de Maranguape, para quem a proposta representava uma
“subversão dos princípios constitutivos do nosso direito públi­
co”. Para ele, cabia ao Legislativo a interpretação autêntica e
aos juizes a interpretação “doutrinal”, sendo esta a razão pela
qual os assentos tinham sido vedados aos tribunais de justiça
do Império (Nabuco, ibid., 1:203-7; Bueno, ibid.:69-70; CE-SJ:613-
8) Em 1875, o STJ foi autorizado a tomar assentos, que teriam
força de lei na “inteligência das leis civis, comerciais e crimi­
nais, quando na execução delas ocorrerem dúvidas manifesta­
das por julgamentos divergentes do mesmo Tribunal, das Rela­
ções e dos Juizes” (art. 2.°, do Decreto 6.142, de 10/3/1876). Po­
rém, o tribunal não exerceu essa atribuição até a queda do Im­
pério, alegando diversos tipos de dificuldades. Assim a inter­
pretação da lei continuou sendo feita pelo governo, por meio de
Avisos e Circulares ajuízes e tribunais. Apenas em 1888 houve
uma reação do STJ, considerada “surpreendente”, contra um
Aviso do ministro da Justiça que “chamava a atenção dos ma­
gistrados para a observância de certos preceitos legais, que, na
sua opinião, estavam sendo esquecidos”. Em resposta, o STJ
aprovou um protesto dirigido ao ministro da Justiça, por consi­
derar o seu Aviso uma “afronta à magistratura nacional”, e ser
“atentatório da soberania e independência do mesmo poder, não
reconhecendo superioridade no Executivo, de igual categoria
política e com separada esfera de atribuições, para receberem
deste poder os juizes e tribunais judiciários censuras e ordens,
sobre o modo por que devem eles exercer as funções de sua ex­
clusiva competência e com única inferioridade de hierarquia
judiciária” (apud Bonfim, 1979:39-40; RMJ, 1882; 1885; 1889).
2. Outro ponto de tensão se dava em relação à definição da
competência judicial para julgar questões administrativas, tema
em que havia divergências entre conservadores e liberais. Para
os conservadores, não podia haver controle judicial da adminis­
tração pública, em nome da própria diferença de natureza entre
essas duas esferas de poder. Para os liberais, o controle judicial

ça regulamentar para a aplicação das leis pelos juizes e tribunais


inferiores. Os assentos eram estabelecidos no período colonial pela
Casa de Suplicação, o tribunal supremo da justiça de Portugal.
O PODER JUDICIAL NA ORDEM PO LÍTICA IMPERIAL | 69

das autoridades administrativas era um ponto programático.


No entanto, em 1878 o Gabinete liberal ameaçou de aposenta­
doria os ministros do STJ, que se reconheceram competentes
para o julgamento de um caso de habeas-corpus a agentes do
tesouro presos administrativamente. Essa divergência perma­
neceu até o final do Império (v. Nequete, ib id .:lll, 123; CE-SJ;
RMJ, 1880; Oliveira, 1943:333-6).
3. Existiam também tensões entre a obrigação do magistrado
de julgar conforme a lei e a sua independência na aplicação da
lei aos fatos. Os limites desta independência já eram problemá­
ticos em virtude da prática judicial prudencial, em que eram
freqüentes os textos legais contraditórios, os desvios, omissões,
ou excessos na aplicação da lei e as decisões contra a lei. Por
causa da independência do Poder Judicial, as decisões dos ma­
gistrados só poderiam ser revisadas pela autoridade judiciária
superior, em recurso judicial regular. Porém, existia o mecanis­
mo da dúvida, pelo qual as autoridades administrativas supe­
riores examinavam usualmente se o magistrado cumpria a obri­
gação de julgar conforme a lei. A dúvida sobre a decisão da au­
toridade inferior era levantada pela autoridade superior, leva­
da a outras autoridades e ao Ministério, chegando, nos casos
mais graves, ao Conselho de Estado. Além do mérito da ques­
tão, eram examinados os motivos da dúvida, se a lei deixava
espaço para dúvida razoável, ou se esta ocorrera por um erro
intencional ou por ignorância da lei. Em razão da independên­
cia da magistratura, o exame sobre a correta aplicação da lei
feito pelo mecanismo da dúvida não tinha efeito sobre o caso
julgado definitivamente e o magistrado só seria responsabiliza­
do se o seu erro fosse intencional.
Os magistrados usavam o mecanismo da dúvida para seus
próprios fins. Em Circular de 7/2/1856, do ministro da Justiça
aos presidentes de província, Nabuco de Araújo determinava
que devia cessar o “abuso” cometido por muitos magistrados,
que deixavam de julgar os casos ocorrentes, que cabiam em sua
autoridade, sujeitando-os como dúvidas à decisão do governo
imperial. Com isso tornava-se demorada a administração da
justiça e os tribunais superiores se viam impedidos de decidir
em grau de recurso as dúvidas existentes. Nabuco de Araújo
estabeleceu nessa circular alguns princípios para o encaminha­
mento pelos presidentes de província das dúvidas suscitadafe
70 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM PO LÍTICA IMPERIAL

pelos juizes. As dúvidas deveriam ser instruídas por documen­


tos, informações e pareceres de “pessoas doutas e competentes”;
as decisões seriam por meio de Imperial Resolução, não versan­
do sobre casos individuais sujeitos ao Poder Judicial, mas ape­
nas sobre a coleção de casos e por forma geral ou regulamentar;
as decisões deveriam respeitar as regras da hermenêutica para
conhecer a vontade do Legislador, e os casos que necessitassem
de providências para se estabelecer direito novo, deviam ser
encaminhados ao Legislativo (Nabuco, ibid., v. 1:205-6; em 11/
2/1882, o ministro da Justiça, Manuel da S. Mafra enviou aos
presidentes de província um Aviso semelhante). Essa atitude
antijudiciária dos magistrados pode ser explicada por sua situ­
ação política: com o mecanismo da dúvida, eles contornavam as
expectativas conflitivas de sua conduta, evitando ao mesmo tem­
po o choque com o governo central e com os chefes políticos lo­
cais. Dada esta zona de incerteza sobre os motivos da dúvida e
as dificuldades de responsabilizar os magistrados judicialmen­
te por suas decisões, o governo os punia com instrumentos ad­
ministrativos, como a advertência, a remoção, a suspensão e
mesmo a aposentadoria compulsória17 (v. Atas do Conselho de
Estado, em Rodrigues, J. H., 1978; CE-SJ).
4. A autonomia de julgamento dos magistrados levava a con
flitos com a sua condição de representantes do poder imperial.
Nessa condição, os magistrados deviam obedecer às ordens do
governo central, o que incluía a decisão a ser tomada em casos
particulares. O ponto extremo dessa situação seria caracteriza­
do como a oposição entre um julgamento fundado numa inter­
pretação pacífica da lei ao caso e a pressão por uma decisão
contrária, vinda do Ministério ou de outra autoridade, devido
aos indivíduos ou às circunstâncias particulares do caso. A si-

17 Em 1864 o presidente do STJ reagiu a uma destas punições e recu­


sou-se a proceder à aposentadoria compulsória de alguns magis­
trados, decretada pelo Ministério da Justiça. O presidente do STJ
considerava ilegal o ato do ministério: ou os magistrados tinham
prevaricado, e então deviam ser responsabilizados criminalmente,
ou não, e então o ato do governo era um atentado à independência
da magistratura. O caso resultou no pedido de demissão do presi­
dente do STJ e a nomeação de outro, que executou o decreto (Ne-
quete, ibid., v. 1:102).
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 71

tuação parece ter ocorrido quando o Ministério pressionou Albi­


no de Oliveira e seus colegas do Tribunal do Comércio da Cor­
te para decidir favoravelmente a Mauá, nos casos de falência de
suas empresas. Albino de Oliveira afirma que, apesar das
pressões, decidiu contra Mauá, mas de acordo com a lei. Isso
resultou, segundo ele, em perseguição do imperador, ameaças
de aposentadoria forçada, críticas na imprensa e, em 1861, sua
demissão do Tribunal do Comércio, pelo ministro da Justiça
Sayão Lobato. O episódio teve ainda desdobramentos na impren­
sa e no parlamento, onde ele desafiou o ministro da Justiça a
dar as razões de sua demissão: o ato era uma afronta à sua dig­
nidade de homem e à sua respeitável posição de magistrado;
que o ministro apontasse uma só mácula em sua vida pública ou
privada; no caso, ele cumprira o seu dever, julgando segundo o
merecimento dos autos, sua inteligência e sua consciência de
magistrado (Oliveira, ibid.:251-90; v. também Nabuco, ibid., v.
2:302-6).
5. O problema da autonomia de julgamento não se resumia
porém, ao controle dos magistrados pelo governo. Este problema
se colocava também nas relações entre a orientação do governo
e os interesses escravistas. Em certo sentido, a situação era cor­
riqueira e não conflitiva, pois havia complementaridade antes
que oposição entre o governo central e os proprietários rurais, e
as decisões dos magistrados em conflitos particulares levavam
em conta este fato. Porém, se houvesse oposição entre o governo
central e os proprietários, os magistrados poderiam, em nome
da sua independência, decidir a favor desses, contra as ordens
do governo, e mesmo contra a lei. Esse foi o caso dos conflitos a
respeito da repressão ao tráfico de escravos ocorridos entre o
governo e alguns desembargadores. Como se sabe, a lei de proi­
bição do tráfico de 1850 foi adotada no Brasil em virtude das
pressões inglesas e implicou negociações globais entre o gover­
no, traficantes e proprietários de escravos. Aprovada a lei, o go­
verno tomou várias medidas de polícia das costas para impedir
a continuidade do tráfico e assim evitar um recrudescimento
dos conflitos diplomáticos com a Inglaterra. Um dos objetivos
do governo era obter a efetiva condenação dos traficantes e para
isso o julgamento destes foi transferido do tribunal do júri para
os auditores da marinha (v. Alencastro, 1979; Conrad, 1985).
Porém, contrariamente à política governamental, em 1852 a
72 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

Relação da Bahia despronunciou por falta de provas alguns dos


traficantes de escravos presos pelo governo. Em virtude dessa
decisão, alguns dos desembargadores foram processados pelo
Conselho de Estado. Questionados pela Seção de Justiça sobre
os fundamentos do seu acórdão, os desembargadores responde­
ram que, como membros de um poder independente, não eram
obrigados a dar a razão dos seus votos, proferidos segundo a sua
consciência. A Seção de Justiça argumentava que a indepen­
dência do Poder Judiciário não deveria ser confundida com a
irresponsabilidade dos juizes. A independência dos poderes po­
líticos do Estado consistia em que os atos de um poder não se­
riam revogados pelo outro poder. O parágrafo 12 do art. 179 da
Constituição do Império estabelecia a independência do Poder
Judicial e explicava que isto significava que nenhuma autorida­
de poderia avocar as causas pendentes, sustá-las ou fazer revi­
ver os processos findos. No caso, tratava-se da responsabilidade
dos juizes, valia o estabelecido no art. 156 da Constituição, se­
gundo o qual os juizes eram responsáveis pelos abusos de poder
e prevaricações que cometessem no exercício dos seus empre­
gos. Desse modo, a independência do Judiciário não significava
a irresponsabilidade dos seus membros. “A Constituição não
poderia consagrar semelhante absurdo, que destruiria toda a
idéia de justiça e de ordem na sociedade. Os juizes devem votar,
e resolver as questões que lhes são sujeitas conforme as leis,
que forem aplicáveis: no caso contrário são obrigados a respon­
der pelos votos, e decisões, que proferirem contra as leis, ou seja
por ignorância, ou por alguma outra causa reprovada, pois que
tal procedimento é qualificado crime no Código Penal...” (Rodri­
gues, J. H., ibid:92-3). Os desembargadores argumentaram ainda
a insuficiência das provas, dado que a lei não considerava como
tal as informações de escravos contra seus senhores. O juiz ti­
nha o arbítrio de dar a essas informações o peso que entendesse.
Para a Seção de Justiça, o arbítrio deixado aos juizes acerca da
concludência da prova era regulado pelos princípios do direito,
como expressamente declarou o decreto de 14 de julho de 1759,
e era doutrina trilhada entre os praxistas, assim reinícolas como
estrangeiros. Apenas os jurados eram juizes de consciência. “Os
demais juizes estão adstritos à prova regulada pelas disposições
de Direito ainda que lhes a consciência dite outra coisa e eles
saibam a verdade ser contrária do que no feito for provado, como
O PODER. JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 73

é expresso na Orden., liv. 3, Tit. 66 inprinc...” Além disso, o art.


89 do Código do Processo determinava que, quando a verdade
não pudesse ser descoberta por outro gênero de prova, valeria o
depoimento do escravo sobre o fato passado em sua presença,
princípio que também era das Ordenações e do direito civil
romano. Em 6 de setembro de 1852, o Conselho de Estado sus­
pendeu os desembargadores João José de Oliveira Junqueira
e Cândido Ladislau Japiaçu de Figueiredo encaminhando o
processo ao STJ para proceder à sua responsabilidade (id.
ibid.:89-96).
Em 1856, a Relação de Pernambuco absolveu os acusados pelo
desembarque de africanos em Serinhaém. O ministro da Justi­
ça, Nabuco de Araújo, aposentou forçadamente dois dos desem­
bargadores e removeu um terceiro, em virtude da injustiça da
sentença e do mau efeito que ela produziria para a política de
repressão ao tráfico. Joaquim Nabuco afirma que ele teria feito
o mesmo com a Relação da Bahia, se o Gabinete Paraná houves­
se durado mais tempo. Por causa destas aposentadorias, Nabu­
co de Araújo foi, no ano seguinte, acusado na Câmara de crime
de traição. Na sua defesa, ele distinguia a independência do poder
político, da dos seus membros; a aposentadoria dos magistrados
era a consagração de sua perpetuidade no cargo e não o contrá­
rio; o ato era ilegal, pois não havia lei que o autorizasse, mas era
também um direito do governo; enfim, o princípio da inamovibi­
lidade absoluta dos magistrados representaria grande perigo
para a sociedade pois, para o caso da venalidade, a responsabi­
lidade legal era impraticável. “Não é possível conceber que sem
perigo da ordem pública e dos direitos individuais dos cidadãos
o Poder Judiciário seja absoluto, sem responsabilidade, sem cor­
retivo algum... A perpetuidade foi instituída não em proveito do
magistrado, mas a bem da sociedade e para a garantia da vida,
honra e liberdade dos cidadãos.” Ele defendia então que deveria
ser mantido, como um recurso especial e extraordinário, o po­
der discricionário do governo de aposentar forçadamente os
magistrados, com aprovação do parlamento (v. Nabuco, ibid., v.
1:169-77; 298-301).
Esse caso é exemplar sob vários aspectos: a orientação do go­
verno era de aplicação rigorosa da lei aos acusados; apesar de a
decisão ser contrária à sua orientação, o governo a respeitou,
adotando outros meios de repressão aos traficantes; quanto à
74 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

responsabilidade dos magistrados, os desembargadores fo­


ram desde logo punidos com a suspensão; a sua condenação cri­
minal não era garantida, pois — além de problemas corporati­
vos — a decisão não era contrária à lei, o objeto da contestação
era a aplicação da lei aos fatos. Na questão dos meios de prova,
vê-se a prática prudencial, nesse caso deveriam valer os teste­
munhos dos escravos contra os seus senhores que, em geral,
não valiam. Enfim, o caso mostra a complexidade das relações
entre a independência da magistratura e o respeito à liberdade
individual.
Os estudos sobre o Poder Judicial adotaram o ponto de vista
sustentado pelos liberais desde o Império e, por isso, têm abor­
dado os conflitos entre magistrados e governo do ponto de vista
da oposição entre a garantia aos direitos individuais, proporcio­
nada pelo mecanismo judicial, e o despotismo da política. Desse
modo, a história do Poder Judicial brasileiro tornou-se a histó­
ria desses conflitos, abordados sob a perspectiva da “dependên­
cia” dos magistrados em relação ao governo (ver, entre outros,
Nequete, 1973; Baleeiro, 1968; Rodrigues, L., 1965). Vimos, com
o estudo desses casos envolvendo o problema da independência
dos magistrados no Império, que esta envolvia questões mais
complexas, relativas à própria forma da ordem política, às rela­
ções entre a política e os magistrados, e à extensão da mediação
judicial dos conflitos na sociedade — ao tipo e ao conteúdo social
da sua prática judicial. A independência funcional dos magis­
trados, e mesmo a sua autonomia de julgamento, não é sinôni­
mo de garantia aos direitos e às liberdades individuais. Do mes­
mo modo, os mecanismos de controle governamental sobre os
magistrados, não fortalecem necessariamente o despotismo go­
vernamental e não resultam forçosamente em prejuízos aos di­
reitos individuais.
O controle direto das decisões judiciais pelas autoridades po­
líticas imperiais evidencia ainda outro aspecto da atividade ju­
dicial, que poderia ser incluído no domínio da política judiciá­
ria, tal como o delineamos na introdução deste trabalho18. Esse

18 Com a independência de julgamento do Poder Judiciário na Repú­


blica, este aspecto da atividade judiciária passou a ser exercido
pelas autoridades judiciárias superiores (em suas relações infor­
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 75

aspecto da atividade judiciária é o da interpretação da lei, cujos


limites poderiam ser esboçados entre a “aplicação rigorosa” de
leis incontroversas a casos concretos, e as decisões intencional e
explicitamente ilegais, que acarretariam a responsabilidade cri­
minal dos magistrados. O problema da interpretação da lei não
se resume a um questão de método para a resolução das lacunas
e obscuridades dos textos legais. Esse problema diz respeito tam­
bém às condições da atividade judicial, à sua eficácia, aos seus
objetivos políticos e a seu conteúdo social. E neste espaço que os
juizes estabelecem na prática uma determinada relação entre
as disposições legais e as relações sociais. Assim a questão da
garantia aos direitos — civis, políticos e sociais — não se con­
funde com a defesa da independência do Poder Judicial; se o
objetivo político de uma proposta de reforma judiciária for
estender os direitos a todos os indivíduos na sociedade, a ques­
tão a ser tratada é mais ampla, é uma questão de política judi­
ciária19.

B) A LEALDADE PARTIDÁRIA DOS MAGISTRADOS


Outro conjunto de tensões ocorria entre a lealdade partidá­
ria dos magistrados e os seus deveres funcionais como juizes e
representantes do governo central.
1. A identificação de um magistrado com um dos partidos
políticos e, portanto, com uma das facções locais, implicava con­
flitos com as demais. A conduta partidária do magistrado não
era condenada, era antes estimulada, como um recurso neces­
sário para ascensão na carreira. Quando seu partido estivesse

mais com o governo e proprietários) em três sentidos: nas relações


com o governo, pelos mecanismos de revisão judicial dos seus atos;
na relação com os magistrados inferiores, na revisão de suas deci­
sões; enfim, nas relações internas do poder judicial, pelo “governo
dos juizes”, ou seja, os mecanismos funcionais da carreira da ma­
gistratura e as decisões de alocação dos magistrados nas posições
judiciárias (ver Zaffaroni, 1994, que aponta a necessidade de uma
análise política do Poder Judiciário).
19 Sobre o problema da interpretação da lei, ver os trabalhos de Luís
Alberto Warat; sobre a relação entre a prática judicial e a socieda­
de, ver os trabalhos de Boaventura de S. Santos, citados na biblio­
grafia.
76 I O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

no governo, a atuação do magistrado seria mais fácil, visto que


as expectativas de sua conduta como representante do poder
imperial e como membro do partido tenderiam a se recobrir.
Quando o partido contrário ao seu estivesse no governo, o ma­
gistrado estava posto numa situação partidária conflituosa com
sua condição de representante do poder imperial. A conduta do
magistrado estava submetida, neste caso, por um lado, às ex­
pectativas de lealdade partidária e, por outro, aos deveres do
cargo, sobre o qual o governo dispunha de mecanismos de con­
trole funcional.
Porém, tanto numa como noutra situação, o magistrado não
poderia conduzir-se para potencializar os conflitos locais, exa­
cerbando as lutas e confrontos políticos. Nesse caso, os chefes
locais reclamariam às autoridades superiores, as quais deter­
minariam, pelo menos, a remoção do magistrado para outra co­
marca. Essa situação aparece na discussão do Conselho de Es­
tado pleno de 1.° de abril de 1854 sobre a remoção do bacharel
Antônio Duarte Novais, juiz de direito da comarca de Príncipe
Imperial, da província de Goiás. A câmara municipal da vila
sede da comarca representou ao ministro da Justiça acusando o
juiz de direito de corrupção, adultério, embriaguez e má condu­
ta. Na denúncia de adultério havia três testemunhos, confirma­
dos por atestados do delegado e do tenente da Guarda Nacional.
No seu parecer, o procurador da Coroa afirmava que essas acu­
sações eram conseqüência das inimizades políticas do juiz com o
delegado e outros chefes locais. Porém, as acusações contra o
juiz, vagas e não provadas, mostravam que a comarca estava
num estado deplorável de desmoralização, “ [...] ainda mesmo
pondo de parte as acusações formuladas e positivas feitas ao
juiz de direito, que se ele tivesse havido com a prudência, sisu­
dez e discrição, que devem caracterizar o Magistrado, as coisas
não teriam chegado naquela comarca ao ponto em que estão”.
Na sua informação ao Conselho de Estado, o presidente da pro­
víncia sugeria a remoção do juiz de direito, por razões de utili­
dade pública (lei de 28/6/1850, art. 2.°, par. 2.°). Esse remédio
“ [...] felizmente não depende de provas aquilatadas com o rigor
que devem empregar os Tribunais, mas antes de uma aprecia­
ção política das circunstâncias que podem reclamar essa medi­
da”. No caso dava-se a utilidade e, ainda mais, a necessidade
pública, porque o juiz de direito tinha perdido toda a força mo-
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 77

ral na comarca onde contra ele se suscitava resistência aberta,


sendo argüido por crimes gravíssimos por grande número de
cidadãos. O voto unânime do Conselho de Estado foi neste sen­
tido: o bacharel deveria ser removido para outra comarca onde,
“enquanto não se livrar das imputações que lhe foram feitas, o
seu procedimento possa ser melhor observado” (apud Rodrigues,
J. H., ibid.:201-4; ver Graham, ibid.).
2. A atuação dos magistrados nas eleições, aliada à sua parti­
cipação como candidatos, implicava sua forte presença nas câ­
maras de representantes. Essa presença era criticada como des­
vio da representação política, em que o predomínio de funcioná­
rios se dava em detrimento das “classes produtoras”. Alguns
liberais, e mesmo o imperador, defendiam a incompatibilidade
absoluta dos magistrados em relação aos cargos eletivos e de
nomeação política, mas esta não foi adotada até o final do Impé­
rio. Criticava-se a incompatibilidade absoluta por impedir o con­
curso do saber dos magistrados ao parlamento, preparados pela
sua própria profissão para a atuação na política. Outro argu­
mento era o da inconstitucionalidade da medida, pois era uma
restrição ao direito dos magistrados de concorrer a cargos públi­
cos, direito comum a todos os cidadãos. No projeto de reforma
eleitoral do Marquês de Paraná de 1855 constava somente a
incompatibilidade relativa, isto é, a proibição de que os funcio­
nários públicos concorressem a cargos eletivos nos distritos em
que exerciam as suas funções. A proposta encontrou forte resis­
tência na Câmara, composta de muitos magistrados, mas foi
afinal aprovada (Carvalho, 1988:150).
3. A participação eleitoral dos magistrados levantava tam­
bém suspeitas de parcialidade. Afirmava-se que, quando um
magistrado concorria às eleições, ele era suspeito por dois anos,
pelo menos: “um ano antes da eleição não há justiça porque o
juiz está montando sua máquina... e um ano depois não há justiça
porque ele está pagando os seus votos” (apud Flory, ibid.: 196).
Em discurso de 10/4/1850 na Câmara, Nabuco de Araújo afir­
mava que a autoridade do magistrado não decorria da sua con­
duta pessoal, mas da sua posição. “Não basta que o magistrado
seja reto, justo... é preciso que ele seja tido como tal aos olhos do
povo para que a sua autoridade tenha o respeito de todos. O
magistrado político, por mais esforços que faça para ser justo,
para ser reto, paira sempre uma certa suspeita de parcialidade
78 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

sobre seus atos que destrói a força moral que lhe é mister” (apud
Nabuco, ibid., v. 1:87-8). Em 1868, o Ministro Martim Francisco
Ribeiro de Andrada afirmava a necessidade de decretar medi­
das para afastar os magistrados das lutas políticas. “O juiz par­
tidário deixa necessariamente de ser o órgão da lei, para defen­
der os interesses de seu partido; ainda o mais honesto não pode
libertar-se da influência, que sobre ele exercem as suas idéias
políticas, e é sempre suspeito aos jurisdicionados, que perten­
cem ao lado contrário. Esta suspeita fecha muitas vezes as por­
tas dos tribunais, que devem ser o templo da justiça” (v. RMJ,
1868; 1878; 1887). Por essa situação política, pode-se compreen­
der as diversas referências feitas nos trabalhos citados sobre
corrupção, prepotência e parcialidade dos magistrados no exer­
cício de suas funções, além de fraudes e ameaças a adversários
no processo eleitoral. Esses “desvios” não eram mais do que a
conseqüência da concentração de papéis na figura do magistra­
do, o que permitia que barganhassem no exercício de suas fun­
ções com o governo central, com seus aliados, com outros chefes
locais e demais proprietários.
4. A presença dos magistrados nas sessões legislativas e nas
comissões governamentais criava o problema do absenteísmo.
O governo central ficava sem representantes nas localidades e
os postos judiciais sem os seus titulares. Ao comparecer às ses­
sões legislativas, os juizes municipais eram substituídos pelos
juizes de paz. Ora, a necessidade de conhecimento especializa­
do para o cargo de juiz municipal fora um argumento utilizado
pelos próprios conservadores, na discussão da reforma de 1841.
Os juizes de direito eram substituídos pelos juizes municipais, o
que trazia dupla conseqüência negativa, pois de todo o modo
permanecia a incerteza quanto ao julgador e, enquanto exer­
ciam a substituição, os juizes municipais seriam, por sua vez,
substituídos por juizes de paz.

C) A PROFISSIONALIZAÇÃO DA MAGISTRATURA
Num outro nível, a lealdade partidária dos magistrados era
prejudicial às suas novas funções, decorrentes da própria auto­
nomia política do país. Com a quebra do monopólio colonial e
com o processo de formação do Estado nacional, criava-se a ne­
cessidade de reformas institucionais que garantissem as condi­
ções de funcionamento de uma economia nacional. A atribuição
O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL | 79

das funções judiciais a magistrados profissionais era considera­


da uma necessidade, tanto pelos liberais moderados como pelos
conservadores, em vista das críticas à ignorância, à corrupção e
à parcialidade dos juizes leigos. A ignorância dos procedimen­
tos legais pelos juizes leigos era, genericamente, conseqüência
da própria organização social, em virtude da qual havia habi­
tualmente uma dissociação entre as relações costumeiras locais
e os procedimentos jurídicos de resolução de conflitos civis (pelo
menos os que exigiam conhecimentos técnicos mais sofistica­
dos). Também não se tratava apenas de um problema de treina­
mento profissional para a aplicação das normas legais, o proble­
ma era mais amplo e dizia respeito à própria alfabetização na
sociedade imperial, que já foi caracterizada como uma ilha de
letrados num mar de analfabetos (Carvalho, 1980). Enfim, a
corrupção e parcialidade dos juizes municipais leigos, dos juizes
de paz e dos jurados são apontadas com muita freqüência tanto
pelos contemporâneos como pelos estudiosos (ver Nabuco, 1936;
Bruno, 1979:287; Flory, 1981; Franco, ibid.; Leal, 1975). A atri­
buição das funções judiciais a magistrados profissionais tinha
sido um dos argumentos que justificaram a lei de 1841. Na ses­
são do Senado de 3/11/1841, o ministro da Justiça, Paulino J.
Soares de Sousa, criticava os juizes municipais eleitos e leigos,
que não tinham condições de exercer a jurisdição civil. “Entre­
ga-se a um homem que nunca ouviu enunciar o princípio mais
trivial de jurisprudência o conhecimento de causas que jogam
com a nossa complicada legislação civil. Homens ocupados em
suas lavouras ou comércio, quando querem proceder com cons­
ciência têm de pagar assessores; os menos escrupulosos se en­
tregam cegamente ao advogado do lugar que monopoliza a jus­
tiça, ou entregam os processos às próprias partes para que vão
buscar despachos e sentenças, de que muitas vezes se encarre­
gam os seus próprios letrados” (apud Nequete, ibid., v. 1:67). A
necessidade de reformas institucionais era agravada pela pró­
pria expansão da economia mercantil-cafeeira, em particular
pela disponibilidade de capitais em conseqüência da proibição
do tráfico de escravos em 1850. Em resposta a essas mudanças,
foram criadas novas leis nos anos seguintes, como a Lei de Ter­
ras de 1850, a Lei de Hipotecas, de 1864 e, principalmente, o
Código Comercial e seu Regulamento, n.° 737. Por essas leis eram
atribuídas novas funções judiciais aos juizes municipais, a quem
80 | O PODER JUDICIAL NA ORDEM POLÍTICA IMPERIAL

cabia o conhecimento em primeira instância de todas as causas


comerciais, das hipotecas e dos processos de legalização das ter­
ras. O exercício dessas novas funções era assim incompatível
com a partidarização dos magistrados, uma vez que as suas li­
gações políticas afetariam a tomada de decisões, que deveriam
ser orientadas por critérios técnico-jurídicos. Era pois necessá­
ria uma maior profissionalização dos magistrados, a sua maior
presença nos seus postos e o afastamento das suspeitas de cor­
rupção e parcialidade; em suma, a independência e a diferen­
ciação de sua carreira das demais funções estatais.
Capítulo 2
M U D A N ÇA S E C O N T IN U ID A D E S
DO PO D ER JU D IC IA L N A CRISE
DA S O C IE D A D E ESCRA VISTA

A reforma da lei de 1841 foi um tema recorrente no debate po­


lítico do Segundo Reinado e fez parte, entre outros, dos progra­
mas ministeriais de 1846, 1848, 1854, 1858, 1862, 1866, 1879,
1882, 1884. Para os críticos liberais, a lei de 1841 consagrava a
centralização política; sujeitava os magistrados à dependência
ao governo e confundia a justiça e a polícia. A lei de 1841 era
contrária à Constituição e sua reforma era necessária para a-
garantia das liberdades individuais. Os conservadores admi­
tiam a necessidade de reformas, reconheciam a lei de 1841 como
produto das circunstâncias políticas da época de sua aprovação
e justificavam a reforma pela neceçsidade de uma “boa admi­
nistração da justiça para os povos”, primeira função de uma boa
monarquia. Porém, a única mudança de grande alcance aprova­
da durante o Segundo Reinado foi a reforma judiciária de 1871,
apenas oito dias antes da Lei do Ventre Livre. Além dessa refor­
ma, foram adotadas mudanças parciais na organização judiciá­
ria e foi aumentado o número de juizes nas décadas finais do
Império. Esse processo levanta então questões referentes às pro­
postas e aos obstáculos à reforma da lei de 1841; ao significado
da Reforma Judiciária de 1871; ao alcance e aos efeitos dessas
reformas parciais para o papel político dos magistrados, para a
sua carreira e para a sua prática nas duas décadas finais do Impé­
rio. Estudamos estas questões neste capítulo, fazendo uma su­
cinta exposição 1) da estratégia e do processo de transição gra­
dual da escravidão para o trabalho livre, em especial, da Lei do
Ventre Livre; 2) das propostas liberal e conservadora de refor­
ma judiciária. Analisamos a seguir 3) a reforma judiciária de
81
82 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

1871, como parte da estratégia de abolição gradual de escravi­


dão; 4) as mudanças na carreira dos magistrados e no seu papel
político, nas décadas de 1870 e 1880, com um estudo particular
do mecanismo da remoção; e, enfim, 5) uma nota sobre a relação
entre os magistrados e a abolição.
O nosso argumento neste capítulo é que, apesar dos proble­
mas causados pela concentração de papéis na figura do magis­
trado e apesar das propostas recorrentes de reforma o controle
governamental dos instrumentos de gestão da magistratura foi
mantido, não só por razões político-clientelistas, mas também
em virtude das próprias conseqüências políticas e sociais que
teria a perda de tais instrumentos. A reforma judiciária de 1871
fez parte da estratégia mais ampla de abolição gradual do tra­
balho escravo^Desta reforma resultou a separação entre a polí­
cia e a justiça — sem o controle desta sobre a ação daquela — e
a expansão dos poderes dos juizes de paz na resolução dos con­
flitos civis entre proprietários e trabalhadores. Alguns dos me­
canismos de controle social sobre os escravos foram converti­
dos em mecanismos não-judiciais de controle sobre os trabalha­
dores livres e libertos. No jogo de propostas e de resistências às
reformas foram adotadas modificações que diferenciaram a car­
reira dos magistrados em relação aos outros cargos estatais. Esta
diferenciação foi acompanhada de uma maior estruturação in­
terna da sua carreira e, ao mesmo tempo, da sua constituição
como árbitros dos conflitos político-eleitorais. Enfim, a atuação
dos magistrados no processo abolicionista significa um momen­
to de emergência da autonomia de julgamento dos magistrados
em relação aos interesses imediatos do governo e dos proprietá­
rios no Brasil. Os limites desta ação e os conflitos que criou indi­
cam o sentido sociológico do modo de organização do Poder Ju­
dicial imperial: a mobilidade dos seus juizes e, mais generica­
mente, da própria lei imperial, eram condições necessárias para
a manutenção das relações hierárquicas da sociedade fundada
no latifúndio agroexportador.

I. A transição gradual para o trabalho livre

A extinção efetiva do tráfico de africanos que se seguiu à lei


de 1850 significava que, em prazo mais ou menos longo, a escra­
vidão estava destinada a acabar no país. As décadas posterio­
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 83

res, até a abolição legal da escravidão no país em 1888, marcam


a crise final da sociedade escravista brasileira. Nessas décadas,
a substituição da mão-de-obra escrava se processou de modo
desigual nas diferentes regiões e nos diversos setores econômi­
cos do país. A “escassez de braços” para a cafeicultura foi con­
tornada nos anos posteriores à proibição do tráfico de africanos
pelo tráfico interprovincial de escravos provenientes das pro­
víncias do Nordeste e das cidades. Com isso houve progressiva
concentração de escravos nas províncias cafeicultoras, enquan­
to o trabalho livre passava a predominar nos centros urbanos e
demais províncias. A população escrava nas províncias de São
Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro passou de cerca de 30% do
total do país em 1823 para cerca de 55% em 1872 e cerca de 70%
em 1887. Ao mesmo tempo, declinava a proporção da população
escrava em relação ao total da população do país, em virtude
das mortes de escravos, dos efeitos da Lei do Ventre Livre, das
alforrias, manumissões e fugas de escravos, além da imigração.
A população escrava passou de cerca de 30% da população total
em 1823, para cerca de 15% em 1872_ej:erca de 5% em 1887. A
população escrava tornava-se mais idosa e com preços mais ele­
vados. O escravo “que nos primeiros tempos fora de baixo custo
e fácil aquisição, tornara-se pouco a pouco caro e difícil de ob­
ter”. As transformações do regime de trabalho se processavam
de várias maneiras: com o aumento do preço dos escravos, eles
passaram a ser concentrados nas grandes propriedades cafei­
cultoras, as máquinas de beneficiamento e, sobretudo, as ferro­
vias, permitiam a liberação de escravos para a agricultura. Es­
sas transformações reforçavam a economia mercantil-escravis-
ta cafeeira, mas também criavam-se novas condições para a
emergência do trabalho assalariado, pois ampliavam-se os seto­
res baseados neste regime de trabalho, nos quais se manifesta­
vam as dificuldades da falta de braços (Costa, E., 1989:242-3;
Mello, J, 1987:82).
As mudanças davam-se também em outros setores da socie­
dade escravista. As ferrovias tornavam as comunicações mais
rápidas, ampliavam a capacidade de transportes e melhoravam
a qualidade dos produtos transportados. As cidades aumenta­
vam, com a migração interna, com o maior número de libertos e
com a chegada dos imigrantes; com o trabalho livre ampliava-se
a divisão do trabalho. O capital acumulado, nacional e estran­
84 I PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

geiro, financiava reformas urbanas, sendo introduzidos nas prin­


cipais capitais do país bondes, iluminação pública e telégrafos,
além de terem surgido algumas indústrias de bens de consumo.
Modificava-se também a atividade cultural nas cidades, aumen­
tando o número de jornais, de associações culturais e artísticas,
alterando-se os costumes etc. No plano intelectual, o liberalis­
mo, o positivismo e o evolucionismo social forneciam novas pers­
pectivas teóricas aos que condenavam a escravidão e aposta­
vam no trabalho livre, na inovação técnica e no crescimento eco­
nômico para promover o progresso do país. Nesse processo, sur­
giam novos grupos sociais, criavam-se conflitos entre regiões e
setores de atividade econômica e aparecia um público potencial
para as campanhas políticas e insurreições dos anos seguintes
(Costa, E., 1986:725-35).
Nas malhas da sociedade crescia o espaço do mercado de tra­
balho assalariado e livre. A fuga “para fora” do espaço da socieda­
de escravista (quilombos) já não era mais a única alternativa para
os escravos fugidos; havia também a fuga “para dentro” da socie­
dade em transição. Ou seja, as cidades maiores, mas também as
fazendas distantes dos locais da fuga, tornavam-se espaços nos
quais a cor da pele deixava de ser sinônimo de escravidão. O au­
mento do número de libertos e as maiores possibilidades de circu­
lação abertas com as ferrovias, tornavam cada vez mais difícil
capturar escravos fugidos. A essa parcela da população liberada
do controle senhorial, vinham juntar-se imigrantes que se fixa­
vam, tão logo podiam, nas cidades maiores. Sobre essa população
procuravam-se adaptar os mecanismos de controle sobre a sua
mobilidade física, que existiam sobre os escravos. As posturas
municipais, que visavam principalmente ao controle dos escra­
vos nas vias públicas, foram sendo ampliadas, sendo também di­
rigidas a colonos, a “pretos”, a libertos ou a desconhecidos (Ge-
bara, 1986:100-20; Castro, 1995:48-9).
O problema do suprimento contínuo de mão-de-obra para a
agricultura de exportação, e o regime de trabalho adequado às
novas condições sociais, era central neste processo. Diversas al­
ternativas foram consideradas pelos proprietários e seus repre­
sentantes no parlamento, desde formas de servidão, supridas
pela imigração de chineses, colônias de parceria, até ao aprovei­
tamento dos homens livres e pobres nacionais, ou os ex-escra­
vos, como trabalhadores. Os trabalhadores nacionais recusavam-
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 85

se a trabalhar no eito, que era identificado ao trabalho escravo.


Ao mesmo tempo, era difícil compeli-los a isto, pois a fronteira
aberta facilitava o acesso à terra para a produção de subsistên­
cia. Os escravos, tão logo libertos, abandonavam as fazendas,
em direção às cidades ou para formar comunidades baseadas
em lavouras de subsistência. Alguns fazendeiros tentavam as­
segurar a continuidade da mão-de-obra por meio da manumis-
são, a compra pelo escravo pelo seu próprio preço, com a cláusu­
la de prestação de serviços por determinado número de anos.
Quanto à imigração, havia vários tipos de problemas para con­
cretizar esse projeto: dificuldades diplomáticas com os países de
emigração, os próprios procedimentos (como a forma de paga­
mento do transporte) e o regime de trabalho nas plantações,
além de considerações de tipo racista.
Na segunda metade da década de 1860 foi novamente posta
no debate político a questão das medidas para a emancipação
dos escravos. A iniciativa da discussão da lei era do imperador,
mas havia também pressões internacionais e manifestações
emancipacionistas na Corte. O imperador encomendou ao Mar­
quês de São Vicente projetos de lei sobre a emancipação gra­
dual, que foram apresentados em 1866 à discussão no Conselho
de Estado. Nos anos seguintes, o imperador abordou a emanci­
pação nas suas Falas do Trono, apresentado-a como questão que
deveria ser considerada pelo parlamento no momento oportu­
no, o que significava que se deveria esperar o fim da guerra do
Paraguai. Com o fim desta em 1870, a questão das medidas
emancipacionistas voltou à tona e, em 1871, Rio Branco apre­
sentou ao parlamento o projeto da Lei do Ventre Livre.
A proposta não tinha apenas disposições sobre a liberdade
dos filhos de escravas, mas compreendia um conjunto de medi­
das que visavam promover a extinção gradual da escravidão.
Desde as discussões do projeto no Conselho de Estado, conside­
rava-se que a abolição da escravidão resultava numa profunda
transformação social. Para Nabuco de Araújo, a abolição ime­
diata apresentaria graves riscos para a ordem pública, uma vez
que muitos libertos (ele estimava que eram cerca de dois mi­
lhões) abandonariam as plantações, vivendo na vadiação ou di­
rigindo-se às cidades. A mudança teria também conseqüências
para a organização do trabalho, pois, mesmo que muitos liber­
tos voltassem a trabalhar nas plantações, calculava que haveria
86 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

um déficit de meio milhão de indivíduos. Argumentava-se tam­


bém que a abolição afetaria a ordem jurídica, ao intervir no di­
reito de propriedade dos senhores, direitos preexistentes à Cons­
tituição do Império, respeitados e garantidos por ela, considera­
dos essenciais à ordem pública. Era, pois, necessário adotar me­
didas de emancipação gradual; porém, como mostravam os exem­
plos estrangeiros, essa estratégia tinha em si o risco de perda do
controle do processo, pois, com o aumento da resistência dos
escravos, insurreições e crimes contra senhores seriam multi­
plicados, não restando senão a alternativa da abolição comple­
ta, em pouco tempo. A emancipação gradual deveria assim ser
complementada por outras medidas, que reforçassem a autori­
dade, para prevenir insurreições e garantir a ordem pública,
que obrigassem os libertos ao trabalho e que punissem os vadios
e vagabundos. O projeto da Lei do Ventre Livre resultava numa
proposta complexa, pois esperava-se que promovesse alterações
no statu quo de modo que, por um lado, protegesse os interesses
dos proprietários de escravos e, por outro, extinguisse a última
fonte de escravidão, possibilitando então a passagem para o tra­
balho livre. A lei procurava enfim garantir a permanência de
libertos e ingênuos no trabalho das plantações, iniciando a or­
ganização do mercado de trabalho livre no país (Costa, E.,
1989:380; Nabuco, ibid.,z v. 1:31-9; Conrad, 1975:113; Gebara,
ibid.).
A Lei do Ventre Livre torna manifesta uma alteração das re­
lações dos proprietários com o poder imperial, pois a extinção
da escravidão tornava necessárias políticas de incentivo à imi­
gração, de obrigação ao trabalho e de controle dos libertos. Essa
lei criou também várias formas de intervenção da justiça nas
relações entre o senhor e o escravo. Os mecanismos judiciais de
emancipação permitiam conciliar o acesso dos escravos à liber­
dade com o direito dos proprietários, pois a alforria seria feita
mediante o pagamento pelo escravo do seu preço, arbitrado pelo
juiz. Foi ampliada a ação de liberdade, agora com rito sumarís-
simo, com a qual o escravo apresentava ao juiz de órfãos o seu
pedido de manumissão, mediante o pagamento do seu preço; se
houvesse divergência com o senhor, a respeito do seu valor, o
arbitramento seria feito pelo juiz de órfãos; e apenas no caso de
decisão desfavorável à liberdade, caberia apelação ex-officio à
autoridade superior. O juiz ainda poderia declarar libertos os
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 87

escravos não matriculados nos prazos legais. A Lei do Ventre


Livre extinguiu também a possibilidade de revogação da alfor­
ria por ingratidão, determinando que, caso o liberto deixasse de
cumprir a prestação de serviços ao ex-senhor, o juiz de órfãos
poderia determinar que ele trabalhasse em estabelecimento
público até reunir pecúlio suficiente para indenização do ex-se­
nhor. Com a interferência judicial, a manumissão (e suas va­
riantes, como a promessa de alforria, a alforria condicional, o
“quartado” — a compra, em prestações, da liberdade pelo pró­
prio escravo) deixava de ser um mecanismo de criar a depen­
dência do liberto, uma vez que a “ingratidão” não importava
mais o risco de reescravização (Cunha, 1986:132-8).
A proposta do governo enfrentou na Câmara cerrada oposi­
ção dos representantes dos proprietários rurais, especialmente
dos das regiões cafeeiras, onde havia maior concentração de es­
cravos. A Lei do Ventre Livre resultou de negociação do governo
com os proprietários, os quais, ao incluir a indenização pelo
governo como condição para a liberdade dos ingênuos, salvaram
o princípio da intangibilidade da propriedade, de qualquer tipo
que fosse. Os proprietários também incluíram alterações no
projeto, que facilitaram a ineficácia da lei em muitos aspectos.
Outro efeito da lei foi retardar a abolição completa, pois depois de
sua aprovação seguiu-se um refluxo do debate público sobre o
problema, e quando, no início dos anos 1880, foi reaberta a
discussão parlamentar sobre a emancipação, os proprietários
foram os maiores defensores da Lei do Ventre Livre, que se tor­
nara, para eles, o limite intransponível da legislação sobre o as­
sunto. A lei teve efeitos mais importantes do ponto de vista das
atitudes em relação à escravidão. Quanto aos escravos, cresce­
ram suas manifestações de insatisfação, seus crimes e insurrei­
ções, mesmo que as previsões catastróficas dos proprietários de
escravos não tenham acontecido nos anos seguintes (Conrad,
ibid.: 129-46).

2. A s propostas de reform a judiciária

A) AS PROPOSTAS LIBERAIS
A partir da década de 1860 forma-se novo conjunto de partidos
e de associações políticas liberais no Brasil. Os liberais da década
de 1860 diferenciavam-se dos seus antecessores das décadas de
88 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

1830 e início dos anos 1840. Estes eram fortemente dominados


pelos proprietários rurais, cujas demandas tinham como eixo a
descentralização política, tendo como figuras principais o juiz de
paz e o tribunal do júri. A partir da década de 1860, os liberais
eram também oriundos dos novos grupos sociais urbanos. Suas
propostas não constituíam um programa homogêneo de reformas,
mas tinham alguns pontos comuns: a descentralização, a morali­
zação das eleições, a abolição gradual e a reforma judiciária. Quan­
to ao Poder Judicial, eles viam na constituição de uma magistra­
tura independente uma forma de ampliar garantias às liberda­
des individuais (Carvalho, ibid.:160-l).
O principal formulador das propostas liberais de reforma ju­
diciária foi, sem dúvida, Nabuco de Araújo. Desde 1850 ele de­
fendeu na Câmara medidas que ampliassem as garantias e os
poderes da magistratura. Ele propunha fortalecer a carreira dos
magistrados, separá-la da política e ampliar as atribuições das
autoridades públicas de denunciar e de julgar na maior parte
dos crimes, a fim de aumentar a segurança da sociedade, garan­
tindo os cidadãos contra os poderosos. Segundo Joaquim Nabu­
co, a partir de então a sua esperança estava na magistratura,
“nos juizes de direito que oferecem maior garantia em razão de
serem magistrados perpétuos” (Nabuco, ibid., v. 1:90, grifos do
autor). Em 1862, o Partido Progressista, formado por liberais e
conservadores dissidentes, propunha a reforma da organização
judiciária a partir das seguintes bases: “la. Julgamento defini­
tivo dos juizes de Direito no crime e cível — Por conseqüência,
julgamento em segunda instância competindo exclusivamente
às Relações — Relações em todas ou na maior parte das provín­
cias. 2a. As funções dos juizes municipais reduzidas ao preparo
e execuções dos processos crimes e cíveis. 3a. Garantias neces­
sárias para a nomeação, substituição e independência pessoal
dos magistrados. 4a. Criação e organização do ministério públi­
co no crime e no cível” (Brasiliense, 1878). Em 1866, quando
retornou ao Ministério da Justiça, Nabuco de Araújo propôs uma
reforma da magistratura que tinha objetivo de “despertar e ali­
mentar a vocação do magistrado, de elevar a magistratura no
Estado, de cercar de garantias o cidadão”. O programa de 1868
do Partido Liberal-Radical, composto pelos liberais históricos,
tinha propostas semelhantes. Defendia a separação da judica­
tura da polícia, a suspensão e responsabilidade dos magistrados
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 89

pelos tribunais superiores e Poder Legislativo, a independência


da magistratura, pela escolha de seus membros fora da ação do
governo e incompatível com cargos eletivos, e a eletividade da
polícia. Sustentava também a extinção do Poder Moderador e
da Guarda Nacional, a eletividade e temporariedade do Sena­
do, a descentralização com a eleição dos presidentes das provín­
cias, a substituição lenta. O controle do processo eleitoral pelos
magistrados foi defendido pelo Partido Liberal de 1869, forma­
do em reação à derrubada em 1868 do Gabinete Progressista
pelo imperador, o que resultou no retorno dos conservadores ao
poder. Outras propostas do Partido Liberal de 1869 eram o Se­
nado temporário, a transformação do Conselho de Estado num
órgão apenas administrativo e a abolição gradual da escravidão
(Brasiliense, ibid.:18-9; 37-8). Em novembro de 1882, o Conse­
lheiro Lafayette, então ministro da Justiça, encaminhou ao par­
lamento uma proposta de reforma judiciária, cujos pontos prin­
cipais eram: 1) jurisdição de primeira instância exercida nos
termos exclusivamente pelos juizes de direito; 2) jurisdição de
segunda instância pelas Relações; 3) supressão dos juizes muni­
cipais; 4) extinção das comarcas e condições para a criação dos
termos (o termo judicial só poderia ser criado pela província se
fossem cumpridas condições mais restritivas, a existência de cem
jurados — na época eram apenas cinqüenta — , e só seriam qua­
lificados jurados os cidadãos que soubessem ler e escrever e que
tivessem a renda anual mínima de 200$000 estabelecida pela
Lei Saraiva, de 1881); 5) princípio da antiguidade absoluta para
as promoções e remoções, tanto na primeira quanto na segunda
instância; 6) aumento de vencimentos dos juizes e supressão
das custas (para outras propostas semelhantes, ver RMJ 1878;
1883; Nequete, ibid., v. 1:87-100; Costa, M., 1970:46; e Bruno,
1979:315-80).
As propostas liberais de reforma judiciária podem ser agru­
padas em cinco temas: 1) a autonomia de julgamento do Poder
Judicial; 2) a estruturação da carreira dos magistrados; 3) a su­
pervisão judicial do processo eleitoral; 4) as incompatibilidades
do cargo 5) a separação entre as funções da magistratura e da
polícia.
1. Para os liberais, a lei de 1841 feria a autonomia de julga
mento dos órgãos judiciários assegurada na Constituição. Esta
proibia que os processos judiciais pudessem ser sustados, sus­
90 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

pensos ou avocados por algum outro órgão, judiciário ou admi­


nistrativo. Essa questão apareceu constantemente nas discus­
sões do Conselho de Estado, quando se fazia a revisão das de­
cisões judiciais, para determinar a responsabilidade legal dos
juizes. Além disso, havia o problema da interpretação das leis
feita pelo Executivo. Para os liberais, uma solução seria a atri­
buição ao STJ de poderes de tomar assentos para a interpretação
definitiva das leis, o que acabaria com uma tripla anomalia: a
interpretação das leis pelos órgãos do Executivo, a falta de uni­
formidade da jurisprudência e a possibilidade de que os tribu­
nais inferiores julgassem contrariamente às decisões expressas
do tribunal supremo.
2. A lei de 1841 feria também o princípio da independênci
dos magistrados. Ao atribuir aos juizes municipais a competên­
cia para decisões definitivas em primeira instância e aos juizes
de direito, a segunda instância, a lei de 1841 havia desobedeci­
do aos dispositivos constitucionais que determinavam que os
juizes de primeira instância seriam perpétuos (o que não era o
caso dos juizes municipais) e que o julgamento em segunda ins­
tância seria coletivo (arts. 151, 153 e 158 da Constituição de
1824). Outros pontos problemáticos da lei de 1841 eram a livre
nomeação dos magistrados pelo governo e as promoções segun­
do indicações políticas. Assim a questão central para os liberais
era a independência dos magistrados, da qual dependiam as
outras reformas, de organização judiciária e processuais — e
até a própria autonomia de julgamento do Poder Judicial. A in­
dependência dos magistrados seria alcançada com critérios im­
pessoais de seleção, e promoção, e com as garantias funcionais
do cargo. Para garantir a independência dos magistrados,
Nabuco de Araújo propunha o noviciado: o candidato seria exa­
minado após o primeiro quatriênio de exercício sobre as dúvi­
das e dificuldades que encontrou na execução das leis. As pro­
moções seriam baseadas no princípio da antiguidade pura, para
que o magistrado “nada tivesse a temer nem a esperar do gover­
no”. Nabuco de Araújo defendia também a incompatibilidade
absoluta e propunha que advogados notáveis pudessem ser no­
meados juizes. Para ele, essa medida era de grande importân­
cia, pois “devemos falar a verdade, os nossos tribunais não se
ressentem da improbidade, mas ressentem-se do pouco estudo”
(discurso na Câmara em 23/3/1866,apud Nabuco, ibid., v. 1:550).
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 91

Segundo Joaquim Nabuco, o objetivo de Nabuco de Araújo era


criar uma aristocracia de juizes, porque “onde o indivíduo não
se interessa senão pelo que pessoalmente lhe concerne, a liber­
dade individual só pode ser protegida tornando-se-a em ponto
de honra de uma magistratura escolhida e superiormente edu­
cada”.
3. A inversão de 1868 era, para os liberais, conseqüência da
hipertrofia do Poder Moderador no Brasil. E nesta ocasião que
Nabuco de Araújo enuncia a sua famosa crítica — o sorites — à
intervenção do Poder Moderador na política: “o Poder Modera­
dor pode chamar a quem quiser para organizar ministérios; esta
pessoa faz a eleição, porque há de fazê-la; esta eleição faz a
maioria. E aí está o sistema representativo do nosso país!” (Na­
buco, ibid., v. 2:81). O motivo da intervenção do Poder Modera­
dor era a perda do apoio do governo na opinião; porém, a fraude
eleitoral tornava necessária a chamada de um novo ministério,
para evitar a perpetuação de um mesmo grupo no poder. A con­
seqüência dessa intervenção era a inversão do regime represen­
tativo no Brasil. Para evitar a fraude eleitoral, os liberais pas­
saram a defender a eleição direta com censo alto, a abolição do
recrutamento e da Guarda Nacional, que eram meios de perse­
guição utilizados pelo governo nas eleições, e a “supervisão das
eleições por um Poder Judicial constitucional e independente,
para punir a fraude e o abuso de autoridade” (carta de Saraiva a
Nabuco de Araújo, apud Joaquim Nabuco, ibid., v. 2:94). A inter­
venção dos magistrados na política era justificada pela necessi­
dade de constituir árbitros dos conflitos políticos, exercendo a
função de juizes da política, tão necessária quanto a de juizes
dos conflitos civis.
4. Os liberais consideravam necessária a incompatibilidade
absoluta da magistratura com os cargos administrativos e polí­
ticos, para minimizar os riscos de parcialidade dos magistrados
nos conflitos civis. As funções eleitorais dos magistrados torna­
vam o tema da incompatibilidade ainda mais importante, uma
vez que esta era uma das condições necessárias para instituir
os magistrados como juizes da política. Desenvolvemos esse tema
na seção 4, adiante.
5. Quanto à separação entre a justiça e a polícia, deveria ser
acompanhada do fortalecimento do Ministério Público. Isso era
necessário por duas razões: por um lado, para ampliar a garan­
92 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

tia do poder público à liberdade individual, contra os poderes


locais; e, por outro, para separar as atribuições de acusador e
juiz no processo criminal, que eram acumuladas pelos magis­
trados no procedimento oficial. Já em 1850, Nabuco de Araújo
propunha que o Ministério Público deveria ter o direito de de­
nunciar todos os crimes, sendo por conseqüência abolida a dis­
tinção entre os crimes de ação pública e os crimes de ação parti­
cular. Ele era também favorável a reformas no júri, propondo
que se passasse para o juiz de direito o julgamento dos crimes
de resistência e de retirada de presos, e também o julgamento
de todas as questões atribuídas aos juizes municipais. Na pro­
posta de 1866, Nabuco de Araújo defendia a atribuição exclusi­
va do Ministério Público para proceder à acusação dos crimino­
sos e a limitação da ação particular aos crimes contra a honra.
Deveria ser extinto também o procedimento oficial, pois “não
podem combinar bem os dois caracteres de autor e juiz do mes­
mo processo”. Ele propunha também a criação da Ordem dos
Advogados, com objetivo de inspecionar a profissão do advoga­
do e garantir sua independência em relação à autoridade (Na­
buco, ibid., v. 1,89-90; 550-3).
Em suma, os objetivos dos programas liberais de reforma ju­
diciária eram: constituir a autonomia de julgamento do Poder
Judicial, cujos magistrados seriam independentes em relação
ao governo e aos poderes locais, com uma carreira diferenciada
e estruturada burocraticamente, e com poderes ampliados de
intervenção sobre os conflitos sociais e sobre o processo eleitoral.

B) A S PROPOSTAS CONSERVADORAS
Os conservadores também defenderam alterações na lei de
1841. No Relatório do Ministério da Justiça de 1862, Sayão Lo­
bato fazia propostas neste sentido, algumas incorporadas na
reforma de 1871. Para ele, as reformas deveriam mudar apenas
algumas disposições da lei de 1841, que abriam espaços para
abusos, sem no entanto afetar o seu sistema, como sugeriam
seus adversários. Ele propunha que a sentença de pronúncia
dada pela autoridade policial deveria depender da confirmação
do juiz de direito ou do juiz municipal. Essa mudança atendia
às objeções dos liberais, “sem no entanto cercear faculdades, que
são necessárias nas circunstâncias do país, para que não fale­
çam meios de ação que é de mister à mesma autoridade [poli­
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 93

ciai] para prover à repressão dos crimes e punição dos crimino­


sos”. Com esta medida prevaleceria a autoridade judicial, que
decidiria definitivamente sobre a pronúncia, mantendo a polí­
cia seu poder de prender os criminosos e de coligir todos os es­
clarecimentos para a instrução do processo. As circunstâncias
do país tornavam necessária ainda a distinção entre as peque­
nas povoações e as cidades principais. As grandes distâncias e
as insuficiências da organização judiciária deveriam prevalecer
sobre o dogma constitucional da uniformidade das autoridades
judiciárias. O legislador providente deveria adaptar a organiza­
ção judiciária às circunstâncias do país; não deveria sacrificar a
todo transe a substância à fórmula, preferir os meios ao fim. A
lei de 1841 tinha disposto neste sentido, ao criar os juizes mu­
nicipais e atribuir a segunda instância aos juizes de direito, os
quais permitiram que a justiça chegasse a todos os pontos do
país. O legislador deveria adotar mudanças que protegessem a
maior soma de interesses e as maiores dificuldades que avulta­
vam nos foros das grandes capitais. A reforma se concretizaria
pela atribuição aos juizes de direito da jurisdição de primeira
instância; às Relações caberia a segunda instância, a presidên­
cia do tribunal do júri e os corregedores. Outras propostas do
ministro foram adotadas pela lei de 1871, como a do direito de o
estrangeiro requerer habeas-corpus em seu favor e maiores for­
malidades das prisões. Enfim, ele propunha modificações no júri
e a alteração da legislação existente sobre o efeito da apelação
interposta da sentença absolutória em crime inafiançável. A
apelação tinha como efeito suspender a execução da sentença,
permanecendo o réu preso até a decisão da Relação. Porém, ha­
via comarcas longínquas em que a comunicação com a Relação
podia demorar mais de um ano (essa reforma só foi adotada
pelo governo provisório da República) (RMJ, 1862).
Em 1869, o Ministro José de Alencar propunha uma reforma
judiciária bastante ampla, que diferia em importantes aspectos
da proposta de Sayão Lobato, mas que também tinha alguns
pontos comuns com esta. Para José de Alencar, mais do que
simples reformas, havia necessidade de criação da administra­
ção da justiça no país, em virtude da ausência de sistema nas
instituições existentes. Era necessário desenvolver as luzes dos
magistrados e fortalecer as suas garantias, de modo que esses
se tornassem os únicos julgadores, cercados da vitaliciedade, do
94 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

privilégio do foro, da inamovibilidade absoluta e do acesso pela


antiguidade, depois da justa concessão ao merecimento. Dever-
se-ia adotar a aposentadoria por tempo de serviço, mantendo-se
a aposentadoria pela inabilitação para o cargo, em virtude de
sentença. Porém, ele considerava que deveria ser mantida a
suprema inspeção disciplinar do Executivo, não sobre os tribu­
nais, mas sobre cada juiz, individualmente. Essa faculdade se­
ria concedida ao governo “como um estímulo para o bem; e nun­
ca uma violação da independência do magistrados”. O ministro
desenvolveu ainda muitos outros pontos, como a crítica à espe­
cialização dos magistrados e o fim do poder de julgamento defi­
nitivo dos juizes municipais, que deveriam ser apenas prepara­
dores de processos, cabendo as sentenças aos juizes de direito.
Estes deveriam exercer toda a jurisdição em primeira instân­
cia, cível e criminal, com a exceção das atribuições conferidas ao
júri. Para Alencar, o inconveniente da “mesquinhez” e das pres­
sões das partes sobre um juiz isolado nas localidades distantes
era maior que o inconveniente da distância dos juizes da comar­
ca. Ele propunha mudanças para estimular a carreira dos ma­
gistrados, o fim do recolhimento das custas pelos juizes — estas
deveriam ser recolhidas ao Estado; por sua vez, este pagaria
todo o salário dos funcionários da justiça. Dever-se-ia atribuir
aos juizes de paz a jurisdição de primeira instância das infra­
ções às posturas municipais e regulamentos policiais, elevar as
alçadas quanto à natureza e ao valor de suas atribuições, forta­
lecer o ministério público, regularizar e uniformizar os ofícios
de justiça. Enfim, ele era contrário a quaisquer restrições aos
poderes da polícia: por um lado, a polícia exigia unidade de ação
e confiança de seus agentes, o que era incompatível com a inde­
pendência e com a politização dos juizes de paz; por outro lado,
não se poderia coibir a ação da polícia transferindo os seus po­
deres de prisão preventiva aos juizes (como propunham os libe­
rais), porque essa atribuição fazia parte da própria natureza
das funções policiais. Se, para coibir os abusos e a impunidade
da polícia, era necessário separá-la da justiça, esse objetivo não
poderia ser alcançado com o deslocamento de uma atribuição de
sua “sede natural” a uma autoridade que lhe era estranha. A
prisão preventiva era uma exceção ao princípio da liberdade
constitucional e repugnava à gravidade e certeza que deveriam
cercar os julgados; além disso, o juiz que decretasse a prisão
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 95

preventiva tornar-se-ia suspeito para o julgamento. Os títulos


da prudência e moderação dos magistrados deveriam ser corre­
tivos à ação policial, mas nunca servir para a iniciativa da repres­
são dos delitos. Havia ainda outras dificuldades como a impossi­
bilidade da presença do magistrado sempre que fosse necessário
usar da prisão. “A prisão preventiva é atribuição policial na es­
sência. Só a autoridade que vela incessantemente sobre a socie­
dade sabe quando se toma indispensável aquele arbítrio, e o mo­
mento preciso em que deve lançar mão dele. Deslocar daí, de seu
alvo natural essa faculdade, seria transformá-la em odiosa inuti­
lidade.” Para corrigir os abusos, havia os poderes de controle do
Poder Judicial, a responsabilidade, a correição, o habeas-corpus.
“Se a magistratura armada desses meios não defender a liberda­
de individual contra qualquer violência da polícia; neste caso tam­
bém nada devíamos esperar dela, confiando-lhe a iniciativa da
prisão preventiva” (RMJ, 1869:75-110).
Apesar das diferenças entre as propostas dos conservadores,
vemos dois pontos comuns entre elas, que as diferenciam das
propostas liberais. Em primeiro lugar, a independência dos
magistrados: para os conservadores, era necessário que o gover­
no mantivesse mecanismos de controle sobre os juizes; para os
liberais, a independência funcional dos juizes era condição ne­
cessária para a sua autonomia de julgamento. Em segundo lu­
gar, para os conservadores o controle do arbítrio da polícia seria
feito sem restrição aos seus poderes. A polícia possuía uma esfe­
ra de atribuições que, por sua natureza, ou pelas circunstâncias
do país, não poderia ser deslocada às autoridades judiciárias
sem prejuízo da segurança pública. Para os liberais, o fortaleci­
mento da autoridade pública era uma condição para a amplia­
ção das garantias individuais e, para isso, era necessária a trans­
ferência, ou o controle, das atribuições policiais para as autori­
dades judiciárias. As propostas dos liberais é dos conservadores
revelam desde já uma diferença fundamental quanto aos meca­
nismos de controle social, tema central na transição do trabalho
escravo para o trabalho livre. Como se sabe, do ponto de vista do
conteúdo social não havia diferenças significativas entre con­
servadores e liberais, pois estes não objetivavam reformas de­
mocráticas. Porém, a diferença específica entre essas propostas
parece estar no aspecto das técnicas de controle social. A pro­
posta liberal se vinculava à expansão da mediação judicial das
96 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

relações dos indivíduos entre si e com a autoridade, tema cen­


tral da incorporação pela via da cidadania. A proposta conserva­
dora defendia o poder discricionário da autoridade, que seria
forçosamente estendido com a ampliação da população livre.
Neste caso, haveria a marginalização dos homens livres em re­
lação aos direitos civis: eles seriam controlados pela vigilância
policial e a sua incorporação se faria pelo mercado de trabalho
ou pelos mecanismos tradicionais da troca de favor. Isso se veri­
fica no papel atribuído ao Poder Judicial por uma e outra pro­
posta: para os liberais, os juizes seriam agentes ativos da incor­
poração dos indivíduos como cidadãos (titulares de direitos ci­
vis); para os conservadores, os juizes mantinham seu papel tra­
dicional, cioso da certeza e da segurança de suas próprias deci­
sões, distanciado dos conflitos, servindo como corretivo dos abu­
sos da autoridade, sem no entanto correr o risco de enfraquecê-
la. Veremos na seqüência do presente capítulo que, na reforma
judiciária de 1871, foram adotadas as propostas dos ministros
conservadores, e não as propostas liberais.

3. A Reform a Judiciária de 1871

Ao assumir, em março de 1871, o Gabinete Rio Branco pro­


punha realizar as reformas do programa liberal: a emancipação
gradual dos escravos, a reforma eleitoral, a reforma judiciária e
a abolição da Guarda Nacional. Havia na Câmara um projeto de
reforma judiciária aprovado em segunda discussão em 1864. O
projeto foi à Comissão de Justiça Criminal, onde recebeu emen­
das do governo, que o colocou, em julho de 1870, em terceira
discussão. O projeto ainda recebeu emendas de José de Alencar,
Tristão de A. Araripe e outros, e foi afinal aprovado pela Câma­
ra em setembro de 1870. Enviado o projeto ao Senado, Sayão
Lobato, Ministro da Justiça do Gabinete Rio Branco, apresen­
tou um substitutivo, que foi aprovado nesta casa. Retornando à
Câmara, o substitutivo foi afinal aprovado em 26 de agosto, por
sessenta votos contra dezenove e resultou na Lei de Reforma
Judiciária, n.° 2.033, de 20 de setembro de 1871. Do ponto de
vista do seu conteúdo, a reforma aliava as propostas de José de
Alencar e de Sayão Lobato, que apresentamos acima.
Esta reforma constituiu uma determinada política judiciá­
ria, cuja importância aparece quando a consideramos como um
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 97

aspecto complementar do processo de transição gradual da es­


cravidão ao trabalho livre. Alguns elementos do próprio pro­
cesso legislativo já indicam isso. A reforma judiciária de 1871
foi a primeira (e única) alteração ampla da lei de 1841 e foi
sancionada apenas oito dias antes da Lei do Ventre Livre. Além
disso, a distribuição dos votos na Câmara é idêntica nas duas
leis, ou seja, dos deputados presentes nas duas votações to­
dos — exceto um, o Barão de Vila da Barra — votaram as duas
leis no mesmo sentido, aprovando ou rejeitando ambas (ACD,
1871, T. 4).
Estudamos a seguir a reforma judiciária de 1871, abordando
quatro questões: a) o debate parlamentar; o conteúdo da refor­
ma, quanto à distribuição de competências b) cível; c) criminal;
e d) as garantias contra prisões arbitrárias. A análise será feita
contrastando o programa liberal de 1869, o projeto aprovado em
1870 pela Câmara e as emendas a este projeto, propostas em
1871 ao Senado pelo ministro da Justiça.

A) O DEBATE PARLAMENTAR
Nos debates da Câmara, as posições doutrinárias dos parla­
mentares sobre a reforma judiciária não evidenciam a sua con­
vergência com a Lei do Ventre Livre. Uma primeira posição, a
majoritária na Câmara, apoiava as duas reformas, pois tratava-
se de fazer as reformas dos liberais, pelos conservadores. Ou­
tros, como José de Alencar, defendiam a reforma judiciária con­
servadora e ao mesmo tempo se opunham à Lei do Ventre Livre;
o Deputado Araújo Lima criticava o projeto de reforma judi­
ciária do governo em nome do programa liberal, mas votou a
favor das duas propostas; enfim, alguns, como os deputados
Perdigão Malheiro e José Calmon, adotaram o programa liberal
para criticar — e votar contra — a reforma judiciária proposta
pelo governo, ao mesmo tempo que votavam contra a Lei do
Ventre Livre (ver Brasil, Congresso Nacional. Anais da Câmara
dos Deputados (ACD), 1871, T. 4 e 5; Anais do Senado (AS),
1871, T. 5; Bruno, ibid.). Vejamos os debates na Câmara a res­
peito de duas questões: uma, sobre o que faltava no projeto do
governo, as medidas que criassem condições para a indepen­
dência dos magistrados; e outra, a proposta de separação da
justiça e da polícia, em particular as garantias contra a prisão
preventiva.
98 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

Na sessão de 19/8/1870 da Câmara, Perdigão Malheiro, mem­


bro do Instituto dos Advogados, adotava as propostas liberais
para a independência da magistratura e criticava duramente a
ausência de medidas a este respeito. O meio legal mais eficaz
para a garantia real das liberdades era a organização judiciá­
ria. As leis de 1832 e 1841 tiveram a sua razão de ser, mas fo­
ram impostas sobretudo pelas circunstâncias políticas; para os
que, como ele, queriam a aliança da liberdade com a ordem, era
necessário o melhoramento da administração da justiça. Ele
apontava a dependência dos magistrados em relação ao gover­
no e aos “mandões de aldeia”, como um problema central da
organização existente; dever-se-ia pois atribuir aos magistra­
dos grandes vantagens e sólidas garantias; estas vantagens e
garantias diziam respeito à habilitação dos magistrados, à sua
carreira, aos seus vencimentos e à sua aposentadoria. Nessas
condições o governo poderia exigir deles a responsabilidade efe­
tiva pelos seus atos. Quanto à separação entre a magistratura e
a polícia, P. Malheiro apontava que deveria ser feita em termos
hábeis. Ele adotava a proposta defendida em 1845 por Bernar­
do P. de Vasconcelos, que dividia as funções da polícia e da judi­
catura com base na formação da culpa. A polícia deveria manter
a atribuição de coligir provas e enviá-las ao juiz formador da
culpa. No entanto, essa atribuição não poderia caber ao juiz de
direito, distante na cabeça da comarca e a autoridade que deve­
ria formar a culpa até a pronúncia deveria ser o juiz de paz.
Dessa decisão haveria recurso necessário ao juiz de direito, que
daria a sentença definitiva de pronúncia. Nesse aspecto, a sua
posição se distanciava das propostas liberais, pois a divisão en­
tre a polícia e a justiça não implicava a perda do controle local
sobre o processo da formação da culpa.
O Deputado Tristão de Alencar Araripe discursou na Câma­
ra na sessão de 10 de setembro, defendendo o projeto do gover­
no. A independência da magistratura, tal como proposta pelos
liberais e defendida na Câmara por P. Malheiro, era incompatí­
vel com a Constituição. A Constituição não falava em indepen­
dência da magistratura, mas sim de independência do Poder
Judicial; aquela não era senão um dos meios para esta. Segun­
do a Constituição, nenhum poder deveria preponderar sobre os
demais, embora houvesse certa predominância do Poder Execu­
tivo, como poder de iniciativa, de ação constante e de inspeção.
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 99

Por isso, o Executivo tinha interferência no Judiciário para no­


mear os magistrados, responsabilizá-los e exigir deles a obser­
vância das leis; Se fosse suprimida a ingerência do Poder Execu­
tivo sobre a magistratura, esta se constituiria como classe, segre­
gada da ação governativa. Com isso seria criada a ocasião para
uma potência de fácil abuso e usurpação, os quais, como em todos
os poderes, não tardariam a surgir. Além disso, a magistratura
não tinha a exclusividade de garantir os direitos dos cidadãos,
havia os demais funcionários e os homens do Poder Executivo
eram os mais eminentes, tirados da representação nacional.
“Uma magistratura isenta de toda ação governativa não
tardaria em ser desafiada pelos atrativos da usurpação; e
nesse caso difícil seria contê-la. Senhora da faculdade de pro­
nunciar, e por conseguinte de suspender os altos funcioná­
rios do Estado, e os agentes subalternos do poder executivo,
ela poderia dominar tudo; e apenas entrasse em competência
com o poder executivo, o embaraçaria a qualquer momento, e
até o anularia com o uso mais perigoso, quanto mais suscetí­
vel do pretexto de legalidade daquela faculdade.”
Para Araripe, a reforma deveria somente restituir ao Judi­
ciário suas atribuições constitucionais, extinguindo-se as avoca-
ções e as suspensões de processos. O remédio contra as prevari­
cações do Executivo estava na sua responsabilidade perante o
parlamento. Pelas mesmas razões, seria ainda mais grave a atri­
buição de poderes sobre o processo eleitoral aos magistrados.
Ele apoiava ainda os poderes da polícia quanto à prisão preven­
tiva, esta era uma medida necessária pelas condições sociais do
país (ACD, 1871, T. 4).
Se nossa análise se resumisse aos debates parlamentares, e
ao confronto entre o programa liberal e a lei de 1841, a reforma
judiciária de 1871 poderia ser considerada uma reforma liberal.
A reforma seria apenas incompleta, em virtude da adoção par­
cial das propostas liberais. Se fosse feita uma contraposição en­
tre o discurso dos críticos liberais à reforma judiciária e as suas
posições a respeito da emancipação dos escravos, ficaria eviden­
ciado o conteúdo social não-democrático desse liberalismo e, deste
ponto de vista, as suas diferenças em relação aos conservadores
teriam reduzida importância.
Procuramos mostrar a seguir como a reforma de 1871 consis­
tiu uma determinada política judiciária, pela qual foram reor­
100 I PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

denadas as relações entre o Poder Judiciário, o governo central


e os poderes locais. Com essa política, foram mantidos controles
sobre os indivíduos, crescentemente livres, sem que os mecanis­
mos judiciais fossem estendidos à resolução dos seus conflitos.

B) A DISTRIBUIÇÃO DAS COMPETÊNCIAS NA JURISDIÇÃO CIVIL


A reforma de 1871 criou dois tipos de comarcas: gerais e es­
peciais. As comarcas especiais eram as sedes das Relações, isto
é, a Corte, Salvador, Recife e São Luís; e também as “comarcas
de um só termo a elas ligadas por tão fácil comunicação que no
mesmo dia se possa ir e voltar”. Além dessas capitais, constava
do projeto da Câmara a criação de novas Relações, de Belém,
Fortaleza, São Paulo, Ouro Preto, Cuiabá, Goiás e Porto Alegre,
o que ocorreu em 1873.
Nessas comarcas, a jurisdição de primeira instância seria
exercida exclusivamente pelos juizes de direito e a de segunda
instância, pelas Relações (art. 1.° da Lei 2.033, de 20/9/1871).
Até 1871, cabia aos juizes de paz o julgamento definitivo das
causas cíveis com o valor de até 50$000 réis. As demais causas
eram julgadas pelos juizes municipais, com recurso para os jui­
zes de direito ou para as Relações. A jurisdição civil foi dividida
pela reforma de 1871 do seguinte modo:

Quadro 1. Distribuição das competências na jurisdição civil na Lei n.° 2.033, de 20/9/1871
comarcas gerais comarcas especiais
juiz paz julgam ento de causas até 100$000 julgamento de causas até 100$000
juiz m unicipal processo e julgam ento de causas
de 100$000 até 500$000
preparo de causas de mais
de 500$000
juiz direito julgam ento de causas de mais processo e julgam ento de causas
de 500$000 de 100$000 até 500$000 em ins­
julgam ento de recursos das tância única; julgam ento de re­
decisões dos juizes inferiores cursos das decisões dos juizes de
paz; processo e julgam ento de
causas de mais de 500$000
Relação julgam ento de recursos das causas julgamento de recursos das cau­
de mais de 500$000 sas de mais de 500$000

A divisão entre comarcas gerais e especiais relaciona-se com


a questão da profissionalização dos juizes. Essa distinção indica
que a profissionalização da magistratura foi acentuada nas ca­
pitais e cidades mais importantes. Presumindo-se que fossem
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 101

obedecidos os prazos para a promoção das entrâncias criados


em 1850, atuariam nas comarcas especiais juizes de direito com
uma experiência de, no mínimo, onze anos de serviço efetivo
(quatro anos como juiz municipal mais três anos como juiz de
primeira entrância mais quatro anos como juiz de segunda en-
trância, sem considerar nenhum período em comarcas de ter­
ceira entrância). Os liberais criticaram essa “organização ex­
cepcional”, porque ela contrariava o princípio de organização
judiciária uniforme, baseada na primeira instância vitalícia e
na segunda instância coletiva (Nabuco de Araújo, apuei Bruno,
ibid.:251). A lei de 1871 criou para as comarcas especiais os jui­
zes substitutos, preparadores de processos e estabeleceu a or­
dem de substituição nas comarcas gerais, que passou a ser feita
entre os próprios magistrados profissionais. Em caso de ausên­
cia do juiz titular, seria chamado o juiz do termo, ou comarca,
vizinho, e não mais o juiz de paz.
A mesma política judiciária aparece na distribuição das com­
petências. As questões de mais de 500$000, que tiveram seu
julgamento transferido dos juizes municipais aos juizes de di­
reito nas comarcas gerais, eram as que envolviam demandas
entre proprietários1. Os juizes municipais mantiveram, nas co­
marcas gerais, parte de suas atribuições cíveis, as quais foram
transferidas para os juizes de direito nas comarcas especiais. A
manutenção dos poderes de julgamento definitivo dos juizes
municipais era defendida pelos conservadores pelo inconve­
niente do aumento de gastos que implicava nomear juizes de
direito em todos os termos (orçava-se em duzentos contos anuais
os gastos com a remuneração de 120 novos juizes de direito).
Vimos que os liberais criticavam a jurisdição definitiva dos jui­
zes municipais, pois, como juizes temporários, eram inconsti­
tucionais. Os liberais propunham que os juizes municipais deve­

1 Algumas máquinas de beneficiamento de café valiam entre 350$000


a 900$000 em 1872 (Costa, E., 1989:208-9). Cada escravo adulto do
sexo masculino custava na mesma época entre 800$000 e 1:500$000,
passando entre 1876 e 1885 a valer de 1 a 2:000$000 (ibid.:228).
Em Vassouras, o preço do alqueire da terra virgem era em 1870 de
450$000, passando a um conto de réis em 1883; a terra já aprovei­
tada pelos cafezais, por sua vez, valia entre 50$000 e 150$000.
102 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

riam limitar-se a preparar os processos, que seriam julgados


pelos juizes de direito. Os conservadores argumentavam que
era inconveniente atribuir aos juizes municipais, futuros juizes
de direito, exclusivamente funções de preparo de processos, pois
eles estudariam apenas “a marcha e formalidades dos proces­
sos” e esquecer-se-iam “das disposições de direito, pelas quais
se devem decidir as demandas e distribuir a cada um o que é
seu” (parecer de Figueira de Melo sobre o Projeto n.° 144, de
1869, publicado em O Direito, n.° 57, 1892:215-9; a citação é da
p. 217). Assim os conservadores justificavam pela necessidade
de aprendizado a manutenção dos juizes municipais, em detri­
mento das garantias individuais, apesar das objeções a respeito
da sua constitucionalidade.
Quanto aos juizes de paz, a reforma ampliou as causas de sua
competência, para as quais foi criado um processo chamado su-
maríssimo, verbal e simplificado. A questão a ser analisada, en­
tão, é a do âmbito de conflitos compreendidos pelos limites de
100$000, para os juizes de paz e 500$000, para os juizes muni­
cipais. J£sses conflitos eram os que surgissem entre os proprie­
tários e colonos ou trabalhadores livres. Por exemplo, os contra­
tos com imigrantes portugueses eram fixados à base anual de
240$000, num regime de trabalho de dez horas por dia. Na região
de Piracicaba, operários de fábrica recebiam em 1883 entre 25$000
e 30$000 por mês, com comida, e os diaristas, de 1$400 a 1$500.
Na região de Lorena o salário mensal variava de 12$000 a 20$000
por mês, com comida. Trabalhos de roçada e derrubada de mata
virgem eram contratados entre 100$000 e 130$000 por alqueire.
Havia contratos de regime misto, em que o imigrante recebia casa,
pasto e um hectare de terra para plantar o necessário para o seu
sustento e mais 50$000 por ano, para tratar de 1.000 pés de café
(Costa, E., 1989:219-20). Quanto aos salários urbanos, em São
Paulo as diárias em 1874 eram de 2$500 para operários de estra­
da de ferro e de 4$000 a 6$000 para padeiros (Fernandes, 1974:118-
9). Esses exemplos mostram que o efeito da reforma de 1871 foi
garantir a jurisdição dos conflitos com os trabalhadores livres às
autoridades locais (juiz de paz), ou que podiam receber mais fa­
cilmente influências locais (juiz municipal)2.

2 Em Relatório de 1878 sobre as condições dos imigrantes portugue-


PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 103

A exclusão da jurisdição comum para as relações de trabalho


foi justificada nos diversos projetos de Lei de Locação de Servi­
ços em debate desde meados da década de 1860 (Lamounier,
1988). Nesses projetos defendia-se a necessidade de mecanis­
mos eficazes de controle dos colonos e propunham-se juizados
especiais para o processo e julgamento deste tipo de contratos.
Considerava-se que a jurisdição comum seria ineficaz para os
interesses dos proprietários, em razão do processo lento e dis­
pendioso e à conversão da obrigação do locador em perdas e da­
nos. Em 1879, o ministro da Justiça Lafayette R. Pereira afir­
mava que, para os contratos de Locação de Serviços, “ [...] o di­
reito há de abandonar os seus processos comuns, e há de dar ao
locatário (o fazendeiro) contra o locador meios prontos e efica­
zes para obrigá-lo a prestar o serviço estipulado. Esse meio é o
da prisão” (apud Id., ibid.:99).

C) A DISTRIBUIÇÃO DAS COMPETÊNCIAS NA JURISDIÇÃO CRIMINAL


A mesma política judiciária aparece na distribuição de com­
petências na jurisdição criminal. Tomamos a distribuição da
jurisdição criminal a respeito das infrações de posturas munici­
pais, dos termos de segurança e bem viver, dos crimes policiais e
dos crimes comuns.
As posturas municipais regulavam especialmente a mobili­
dade física e as atividades dos escravos e libertos nas vias pú­
blicas. O termo de segurança era um procedimento adotado
por qualquer autoridade inferior (oficial de justiça, inspetor,
subdelegado) que encontrasse algum suspeito que houvesse
cometido algum crime ou que demonstrasse vestígios da pre­
tensão de cometê-lo (como o porte de armas, ameaças a alguém)
O suspeito seria conduzido à presença da autoridade criminal
e obrigado a assinar o termo de segurança. Caso o suspeito
infringisse o termo de segurança, seria preso ou obrigado a
pagar uma multa. Os termos de bem-viver eram compromis-

ses contratados para as plantações segundo os termos da Lei de


Locação de Serviços de 1837, o Cônsul português, Gomes Perchero
afirmava: “Visitei vários cartórios de escrivães de juizes de paz,
que são os competentes em tais processos, examinei muitos deles, e
em nenhum encontrei sentenças a favor do locador (do imigrante)”
(apud Lamounier, 1988:70).
104 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

sos semelhantes, que deviam ser assinados pelos vadios, men­


digos, bêbados por hábito, prostitutas que perturbassem o sos­
sego público e os turbulentos que por palavras ou ações ofen­
dessem os bons costumes, a tranqüilidade pública e a paz das
famílias. Os crimes policiais eram aqueles com pena de até
seis meses de detenção. Os crimes comuns eram os que tinham
penas maiores e eram julgados pelo júri. A distribuição de
competências criminais pela lei de 1841 e pela reforma de 1871,
nas comarcas gerais, era a seguinte:

Quadro 2. Distribuição de competências na jurisdição criminal na Lei n.° 261 de 3/12/1841


PM TSBV CP CC

P j P j p j fc Pr
polícia X X X X X X X X
juiz de paz
juiz municipal X X* X* X*
p = processo; j = julgam ento; fc = formação da culpa; pr = pronúncia
PM = infrações de Posturas M unicipais;
TSBV = infrações dos Termos de Segurança e Bem-Viver;
CP = Crimes Policiais (contravenções) e Crimes menos graves;
CC = Crimes Comuns. * = Competência Cumulativa.

Quadro 3. Distribuição de competências na jurisdição criminal, na Lei 2.033, de 20/9/1871


PM TSBV CP CC
P j P j p j i fc Pr
polícia X X X
juiz de paz X X
juiz municipal* X X X X
i = inquérito; * = Competência dos juizes de direito nas comarcas especiais, criadas pela lei
de 1871.

A reforma de 1871 retirou da polícia o poder de julgar as in­


frações dos termos de segurança e bem-viver, atribuições que
foram transferidas para os juizes de paz. Quanto aos crimes
policiais, foi transferido o julgamento para os juizes municipais,
mas permaneceu com as autoridades policiais a atribuição de
preparar os processos, o que significa que foi mantida a sua au­
tonomia de ação neste nível. Porém, a inovação mais importan­
te da reforma foi a criação do inquérito policial. Este era a atri­
buição das autoridades policiais para proceder em seus distritos
às diligências necessárias para a verificação da existência de
crime comum, logo que por qualquer meio lhes chegasse a notí-
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 105

cia de ter sido praticado (art. 38 do Decreto de 22/11/1871, que


regulamentou a Lei 2.033, de 20/9/1871). Nessas diligências a
polícia investigaria as circunstâncias do crime, fazendo o exame
do corpo de delito direto, buscas e apreensão de instrumentos e
documentos, inquirição de testemunhas, do réu e do ofendido e
em geral tudo o que fosse útil para esclarecimento do fato e das
suas circunstâncias (art. 39). O inquérito seria tomado por es­
crito e enviado ao promotor, comunicando-se à autoridade for­
madora da culpa. O inquérito mantinha a iniciativa de ação da
polícia na instrução criminal, independente de intervenção da
autoridade judiciária. Essa inovação foi incluída no substituti­
vo enviado ao Senado pelo ministro da Justiça Sayão Lobato ao
projeto de reforma aprovado na Câmara dos Deputados. Neste
projeto, e no programa liberal, o preparo dos processos era atri­
buição dos juizes. A autoridade policial cabia executar todas as
diligências que os juizes municipais e os juizes de direito (das
comarcas especiais) ordenassem (art. 5.° do Projeto, apud Bru­
no, ibid.:221). A emenda apresentada pelo Ministro Lobato era
uma modificação de sua proposta de 1862, na qual defendia que
a polícia deveria manter a atribuição de formação da culpa até a
sentença, inclusive, fazendo com que esta fosse confirmada pelo
juiz de direito. Desse modo, ele argumentava, prevaleceria “a
Jurisdição da Autoridade Judiciária, que definitivamente deci­
de da pronúncia ou julgamento dos processos policiais, e é redu­
zida a ação da autoridade policial a um mero auxiliar, como é
indispensável”. Como auxiliar, a polícia deveria manter as atri­
buições que lhes eram próprias: prender os criminosos e coligir
todos os esclarecimentos para instrução do competente proces­
so, o que era necessário em virtude das circunstâncias do país
(RMJ, 1862).
O inquérito duplicou todo o processo de formação da culpa.
Com o inquérito policial, a reforma de 1871 separou a justiça da
polícia, sem estabelecer mecanismo de controle efetivo da pri­
meira sobre a segunda. Ocorreu antes uma superposição das
duas esferas, o que, na prática, resultou no afastamento do con­
trole judicial efetivo da legalidade dos procedimentos policiais.
Já em 1873 Nabuco de Araújo criticava o inquérito policial no
Senado. Para Aquino e Castro, com o inquérito policial manti­
nha-se a liberdade de ação da polícia, pois “[...] o que se vê é a
polícia, como dantes, formando processos, dispondo do destino
106 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

dos acusados, segundo seu alvedrio e má vontade, e indireta­


mente julgando sem nenhuma responsabilidade legal... pois que
é sempre verdade que o inquérito que formulou tem que servir
de base ao processo que vai ser completado em outro juízo” (apud
Nequete, ibid., v. 1:85). O inquérito era criticado também nas
respostas à Circular enviada em maio de 1877 pelo ministro da
Justiça, Conselheiro Diogo Cavalcânti de Albuquerque aos pre­
sidentes do STJ, das Relações e do Instituto da Ordem dos Ad­
vogados do Brasil, com questões sobre as medidas para melho­
rar a administração da justiça. Essas questões foram delibera­
das coletivamente por esses órgãos e, das doze respostas cons­
tantes do Relatório do ministro da Justiça (a Relação de São
Paulo não respondeu), apenas duas eram contrárias à extinção
do inquérito policial. Tratava-se de uma duplicação inútil e pro-
telatória da formação da culpa; a polícia podia, no inquérito,
controlar o resultado dos processos, pois era ela que chamava as
testemunhas que sabiam do fato. Os depoimentos das testemu­
nhas eram tomados por escrito e, mesmo que o juiz pudesse cha­
mar as testemunhas mais tarde, o inquérito acabava servindo
como a base da pronúncia. O inquérito, porém, não tinha as ga­
rantias de defesa na preparação do processo e tornava-se uma
surpresa para o réu, que não podia providenciar sobre a sua
defesa. Era consensual a necessidade da extinção do inquérito;
a polícia deveria limitar-se a capturar os criminosos e passá-los
à autoridade judiciária com as provas que houvesse colhido (RMJ,
1876:525-620).
“Os inquéritos, como base para a formação da culpa, dão
extraordinária supremacia à autoridade policial, pois será di­
fícil a qualquer autoridade judiciária, em presença de uma lar­
ga inquirição de testemunhas concludentes e contestes, ates­
tando um fato e seu autor, deixar de pronunciá-lo como indi­
ciado no crime imputado, donde resulta que a polícia, em vez
de ser auxiliadora da justiça, esta é que receberá as suas inspi­
rações daquela. A polícia, investida da faculdade dos inquéri­
tos e mais atos concernentes à verificação do crime e descobri­
mento do seu autor, ocupa sem dúvida um lugar assaz impor­
tante; é quase que o verdadeiro juiz, e sem a responsabilidade
da decisão, sofismando-se assim o princípio da separação das
funções respectivas. Além do exposto, acresce que, notando-se
em nossa população uma excessiva repugnância para compa­
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 107

recer em juízo e depor como testemunha, os inquéritos cria­


ram uma obrigação acessória às preexistentes, dando-se gran­
des dificuldades para o comparecimento das testemunhas do
inquérito no juízo da formação da culpa, o que ainda é motivo
para retardamento” (Des. Inocêncio M. A. Góis, presidente da
Relação da Bahia, apud id., ibid.:557-8).
A reforma de 1871 também ampliava a competência dos jui­
zes de paz, atribuindo-lhes o processo e julgamento das postu­
ras municipais. Era mantido nesse aspecto o poder das autori­
dades locais sobre os mecanismos de controle social, o que era
também admitido pelos liberais. Porém, manteve-se também a
possibilidade de acúmulo das atribuições da polícia e justiça nesse
nível, pois o ministro da Justiça suprimiu a incompatibilidade
do juiz de paz com os cargos policiais, que constava no projeto
de 1870 e era defendida pelo programa liberal. Quanto aos jui­
zes municipais, tiveram, por um lado, seus poderes ampliados
na competência de julgar as infrações dos termos de segurança
e bem-viver e dos crimes policiais, em decorrência da extinção
da jurisdição das autoridades policiais nestes crimes. Por outro
lado, mantiveram o poder de formar a culpa e pronunciar os
réus nos crimes comuns, com base nas provas produzidas no
inquérito policial.

C) GARANTIAS CONTRA PRISÕES ARBITRÁRIAS


A reforma de 1871 criou uma tabela com os valores máximo e
mínimo das fianças em função das penas e deu também às auto­
ridades judiciais o poder de arbitrar esse valor. Essa medida era
defendida há muito tempo pelos liberais, como forma de impe­
dir que a polícia pudesse manter presos acusados de crimes
afiançáveis, estabelecendo arbitrariamente o valor da fiança.
Os liberais defendiam a ampliação dos casos de fiança, atri­
buindo ao juiz a faculdade de concedê-la de forma excepcional,
mesmo nos crimes inafiançáveis. “Se o indivíduo é domiciliário,
se ele tem por si bons precedentes, e todas as condições que
excluem a suspeita de fuga, se tem a seu favor motivos eviden­
temente justificativos dos crimes que cometeu, que inconve­
niência há para a justiça pública em livrar-se ele solto? Por­
que há de ser preso sem necessidade social e só para estar pre­
so?” (Nabuco de Araújo, discurso no Senado em 20/6/1871, em
AS, 1871, T. 5).
108 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

A reforma manteve a possibilidade de prisões ilegais pela


polícia, permanecendo a faculdade de a autoridade policial de­
cretar a prisão preventiva sem mandado nos crimes inafiançá­
veis. Nesses casos, a prisão poderia ser feita independentemen­
te de ordem escrita da autoridade judicial, quando a polícia en­
contrasse algum réu para quem fosse “notória” a expedição de
mandado de prisão, devendo apresentá-lo em seguida à autori­
dade competente. A regra foi bastante criticada no Senado, por­
que era contrária ao projeto aprovado na Câmara e também ao
programa liberal. O projeto da Câmara determinava que a pri­
são preventiva nos crimes inafiançáveis somente poderia ser
feita por mandado escrito do juiz competente, e devidamente
fundamentado em provas, medida que era apoiada pelos libe­
rais. Para Nabuco de Araújo, a vantagem da medida era ser
absoluta e simples, o que era necessário para que se evitassem
os abusos. A reforma, porém, determinou que o preso deveria
ser apresentado à autoridade judiciária. Além disso, a “notorie­
dade” da expedição do mandado era uma expressão sem senti­
do, serviria para que a polícia prendesse os indivíduos e depois
fosse à procura do mandado para legalizar o seu procedimento.
(Ver o voto em separado de Nabuco de Araújo de 10/6, e os seus
discursos no Senado de 20/6 e 22/7/1871, em AS, 1871, T. 5; e
Bruno, ibid.:247-8.)
Para o ministro da Justiça, Sayão Lobato, as suas propostas
não eram “radicais”, como as sustentadas pelos liberais, que par­
tiam do pressuposto do antagonismo entre a liberdade e a auto­
ridade. Esse antagonismo não existia no governo representati­
vo consagrado pela Constituição, pois a autoridade regular de
um governo e das suas leis era a condição para a liberdade prá­
tica. Assim a reforma proposta era a razoável, tal como devia
ser feita pelo partido conservador (Bruno, ibid.:258). A possibi-
, lidade da prisão preventiva feita sem mandado pela polícia era
a forma de adequar a necessidade da prisão preventiva às “cir­
cunstâncias notórias” do país. Se a prisão preventiva pudesse
ser feita apenas pela autoridade formadora da culpa e se esta
passasse a ser exclusivamente a autoridade judicial, deixaria de
haver a regular administração da justiça por toda parte, pois, no
Brasil, as autoridades judiciárias existiam somente em alguns
pontos circunscritos e limitados. A autoridade judiciária não po­
deria então ser eficaz para determinar imediatamente as prisões
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 109

necessárias em quaisquer outros lugares. A atribuição dessa fa­


culdade à polícia era necessária, “para que tanto se proteja a ino­
cência, como se reprima o crime e livre a sociedade de atentados”;
a polícia deveria proceder prisões por toda a parte e conseguir as
que fossem necessárias. Essa liberdade de ação era imposta pelas
próprias condições do país “de fácil saída, que por toda a parte se
dilata, franqueando mil meios de fuga”. Uma vez que os réus po­
diam deslocar-se facilmente, ele interrogava
“[...] porque obstar que em toda a parte onde for encontrado e
reconhecido, sendo notória a ordem de sua prisão, ela possa
ter lugar com as condições que determina o artigo?” “Porque
razão no Brasil, onde há tamanha extensão, onde as comuni­
cações são dificílimas, onde há tantos meios dos réus se po­
rem a coberto das diligências da autoridade, onde a polícia é
tão fraca, não só por deficiência de força, como pelas dificul­
dades próprias de um país extenso e despovoado; porque ra­
zão, digo, se há de exigir sempre que a prisão preventiva se
faça em todo e qualquer caso, somente à vista do mandado da
autoridade? Mas o mandado é só levado a um ponto certo e
determinado; é só levado pelos meios ordinários, por um es­
tafeta caminheiro, pelo correio, e, quando muito pelo vapor,
para aqueles pontos onde há linha de vapor... Pois essas co­
municações não poderiam ser feitas de todo e qualquer modo?
Em tantos casos... não haveria uma extrema necessidade, uma
alta conveniência de ordem pública, em que assim se prati­
casse?”
A prisão preventiva tinha corretivos contra os abusos, o pri­
meiro de todos o habeas-corpus. Além disso, havia~a responsabi­
lidade da autoridade policial. A proposta liberal implicaria, ao
contrário, o caos e a impunidade. Para ele, se a polícia fosse
desarmada,
“ [...] a repressão dos delitos tornar-se-á impossível em um
país cujas circunstâncias são notórias e não dão para que a
polícia, ainda muito mais hábil, ainda dispondo de outros re­
cursos, tenha ação eficaz e desembaraçada, porque as dis­
tâncias são imensas, as comunicações dificílimas, as popu­
lações dispersas; esconderijos não faltam, nem meios de
qualquer réu se evadir” (Sayão Lobato, discursos no Sena­
do, sessões de 21/6, 24/7 e 3/8/1871, em AS, 1871; Bruno,
ibid.:258-61).
110 I PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

O Senador José de Alencar usou a própria definição jurídica


da prisão preventiva para justificar a extensão das atribuições
da polícia. A prisão preventiva era um ato administrativo, que
não podia depender da intervenção do magistrado; era um “mal
necessário, fundado em exigências da segurança pública”; era
uma “exceção ao princípio constitucional da inviolabilidade dos
direitos individuais”. Por sua “natureza”, essa exceção não de­
veria ser incumbida ao Poder Judicial, cuja missão era dizer o
direito, mas ao Poder Executivo, ao qual deveria caber
“ [...] toda a responsabilidade do emprego dos meios extraor­
dinários para a salvação pública [...]. Deixemos que a polí­
cia prenda, que ela carregue com a odiosidade desses atos;
deixemos que ela aprecie a oportunidade de lançar mão des­
sa lei de exceção... A verdadeira, a importante garantia con­
tra a prisão preventiva não é a deslocação de uma atribui­
ção cometida a uma autoridade judiciária; é, sim o habeas-
corpus, esse veto do poder judiciário a todos os iníquos arbí­
trios do poder executivo contra o cidadão” (apud Malta,
1935:129-30).
Os defensores da reforma judiciária justificavam as amplas
atribuições discricionárias conferidas à polícia com expressões
como “mal necessário” e “atuais circunstâncias do país”, ou “nos­
sas condições sociais, conhecidas por todos”. Essas expressões
remetem a um conjunto amplo de referências (a extensão do
país, o pequeno desenvolvimento econômico, a rarefação da po­
pulação, o seu baixo grau de ilustração, etc.), no centro dos quais
estava a escravidão: por causa da violência intrínseca desta, era
necessário que a autoridade pública pudesse garantir o arbítrio
dos senhores; além disso, a autoridade devia ser reforçada, em
razão dos riscos representados pelo processo de transição gra­
dual para o trabalho livre.
A prisão preventiva sem mandato de indivíduos acusados de
crimes estava também em continuidade com outros procedimen­
tos de controle de indivíduos no espaço público. Procedimentos
como a custódia legal, que dava à polícia a faculdade legal de
deter escravos, negros desconhecidos, libertos, pobres, indiví­
duos em atitude suspeita, bêbados, vadios e prostitutas, a fim
de fazê-los assinar termos de segurança ou de bem-viver; de
fazer averiguações, ou simplesmente evitar que eventualmente
pudessem vir a cometer alguma transgressão à ordem pública.
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | III

A prisão preventiva estava também em continuidade com os


meios usados pelos fazendeiros para fazer cumprir os contratos
de locação de serviços, ou de parceria, que então se experimenta­
vam nas plantações para substituir o trabalho escravo. Os fa­
zendeiros utilizavam as penas de prisão fixadas na Lei de Loca­
ção de Serviços de 1837, e solicitavam com uma simples repre­
sentação ao juiz de paz, a prisão de locadores inadimplentes, ou
ausentes das fazendas. Nos debates políticos e sobre a locação
de serviços, na década de 1860, a prisão era considerada a única
garantia efetiva que poderia ser exigida dos homens livres e
libertos para o cumprimento das obrigações dos contratos de
locação de serviço (Lamounier, ibid.:62-71; 88-9).
A reforma judiciária de 1871 criou o habeas-corpus preventi­
vo, para o caso de ameaça de detenção ilegal e o direito ao ha­
beas-corpus foi estendido aos estrangeiros e ao recrutamento.
Porém, foi proibida a concessão de habeas-corpus a réu já pro­
nunciado ou sentenciado. Se o preso já tivesse sido pronuncia­
do, somente caberia o habeas-corpus para ser apreciada a in­
competência do juiz, sendo vedada a apreciação de outras nuli-
dades processuais. Essa norma possibilitava prisões arbitrárias
e era contrária a julgados do STJ, que havia concedido habeas-
corpus a presos já pronunciados e até a réus condenados. Os
liberais criticaram a restrição, pois ocorriam nas províncias “jul­
gamentos quase clandestinos sem que o réu tomasse ciência a
não ser quando deles já não havia condições de recurso ou ape­
lação (Senador Pompeu apud Leite, 1982:69). Para Nabuco de
Araújo, tal limitação era, na prática, a inutilização da garantia
do habeas-corpus, pois significava: “juiz formador de culpa, apres­
sai a pronúncia, e para logo ficará consumada a violência”. Para
o Ministro da Justiça, Sayão Lobato, o habeas-corpus servia ape­
nas para acabar com o vexame da prisão ilegal. A pronúncia
proferida por autoridade competente arreda a ilegalidade da
prisão, embora “não garanta sempre a justiça da prisão”. A pro­
núncia decretada nessas condições seria presumida regular. Para
corrigi-la
“[...] há outros recursos; outras investigações são necessárias
[...] e não a repentina concessão de habeas-corpus, que só pode
facultar-se, quando a ilegalidade é manifesta..., sem que haja
procedimento legítimo que explique, justifique ou ao menos
possa fazer presumir a prisão como regular... Ora, o julga­
112 I PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

mento da pronúncia decretada pela autoridade competente é


bastante para arredar a ilegalidade, e exclui a aplicação da
ordem de habeas-corpus que repentinamente é concedida; e
neste caso viria perturbar a marcha regular do prossegui­
mento judiciário, porque outros são os meios, outros os recur­
sos para a reparação das injustas decisões que porventura
tenha proferido a autoridade competente” (apud Bruno,
ibid.:249-62).
Ele afirmava que a extensão do habeas-corpus defendida pe­
los liberais iria armar as autoridades superiores “de um meio
excessivo e prejudicial”, que não apenas perturbaria, como tam­
bém iria “desmoralizar, tornar impossível a regular adminis­
tração da justiça”. A possibilidade de concessão do habeas-cor-
pus pela autoridade superior converter-se-ia numa “causa pre­
judicial da formação da culpa, ou meio de danar o procedimento
da autoridade competente, desmoralizando o ato que legal e le­
gitimamente praticou e que, no caso de injustiça, tem como cor­
retivo os meios ordinários” (Id., ibid.). Se a competência para
formar culpa e pronunciar nos crimes comuns era dos juizes
municipais, a autoridade superior criticada pelo ministro da
Justiça como perturbadora e desmoralizadora da regular admi­
nistração da justiça era o juiz de direito. Pela justificação dada
pelo ministro da Justiça à restrição ao habeas-corpus confirma-
se o objetivo da reforma: manter mecanismos de vigilância so­
bre a crescente população livre, em especial os que limitavam a
sua mobilidade física, pois o deslocamento era uma forma de
evadir-se aos controles da sociedade escravista.
Em suma, a distinção entre comarcas especiais e comarcas
gerais estabelecida pela reforma de 1871 respondia às deman­
das de profissionalização dos magistrados para o julgamento dos
conflitos entre proprietários, especialmente nos centros urba­
nos. As questões de menor valor, entre as quais estavam espe­
cialmente os diversos tipos de contrato de trabalho, seriam jul­
gadas por juizes leigos ou temporários. Na área criminal, a re­
forma estabeleceu a incompatibilidade no exercício dos cargos
judiciais (exceto o juiz de paz) com os cargos policiais e foi supri­
mido o poder das autoridades policiais de proferirem sentenças.
As autoridades policiais mantiveram o poder de preparar pro­
cessos, o poder de deter sem mandado e foi criado o inquérito
policial, que mantinha os seus poderes de iniciativa e de ação
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 113

próprios na instrução criminal, independentemente do controle


das autoridades judiciárias. A ampliação dos poderes do juiz de
paz e a transferência das atribuições de julgamento da polícia
para o juiz municipal tornavam possível o controle local da jus­
tiça criminal. Ao mesmo tempo, a divisão formal entre justiça e
polícia não implicou a transferência das funções de controle so­
cial das autoridades locais para funcionários subordinados ex­
clusivamente ao governo central. Pelo contrário, algumas atri­
buições dos delegados passaram aos juizes de paz e outras aos
juizes municipais. Além disso, a reforma aumentou a sua
autonomia de ação dos juizes municipais em face da autoridade
superior, ao proibir a concessão de habeas-corpus a réus pro­
nunciados.
***

Em conclusão, as mudanças na organização judiciária criadas


pela Lei do Ventre Livre e pela reforma judiciária se deram em
sentidos opostos e, à primeira vista, de modo paradoxal. A Lei
do Ventre Livre estendia a intSrvenção judicial nas relações entre
escravos e senhores. Por sua vez, os dispositivos da reforma ju­
diciária restringiam o alcance da intervenção dos magistrados
profissionais tanto nas relações civis entre proprietários e tra­
balhadores, como no domínio criminal. Quanto à Lei do Ven­
tre Livre, a extensão da intervenção judicial era decorrência da
transição legal ao trabalho livre. Era adotada pelos seus efeitos
“morais”, pois o direito ao pecúlio e a ação judicial de liberdade
davam aos escravos a esperança de se libertarem por seu pró­
prio esforço. Porém, o exercício direto do controle social perma­
necia com as autoridades locais (polícia e juizes de paz) e os
magistrados profissionais só intervinham posteriormente, seja
em grau de recurso, nos casos civis e criminais, seja por meios
extraordinários, e por isso mesmo eventuais, como o habeas-
corpus, a responsabilidade, as correições.
A aplicação das leis de reformas pelos juizes municipais mos­
tra também a forma cautelosa e gradual do governo central em
promover a mudança social e, ao mesmo tempo, uma forma dos
poderes locais" de amortecer os efeitos da lei através da sua não-
execução ou da sua execução apenas parcial. Do ponto de vista do
governo central, a atribuição da jurisdição de uma questão con­
troversa aos juizes municipais era uma forma de pressionar os
114 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

poderes locais no sentido da mudança social. Para estes, precisa­


mente por ser a questão da jurisdição do juiz municipal, havia
formas de resistir à aplicação da lei para, pelo menos, reduzir o
seu impacto. Como o desencadeamento de conflitos de âmbito
local era contrário aos “interesses superiores de utilidade públi­
ca”, os poderes locais poderiam canalizar seu descontentamento
às autoridades superiores, que teriam meios de resolver o confli­
to pela advertência, remoção ou suspensão do juiz.
Quanto às críticas liberais ao projeto de reforma judiciária,
poderiam parecer irrelevantes, do ponto de vista do seu conteúdo
social. Sabe-se que as posições dos liberais nas votações decisivas
sobre a abolição não foram diferentes das dos conservadores. Os
dois partidos se dividiram nessas votações e os fatores mais rele­
vantes que explicam as posições dos parlamentares nessa ques­
tão são a sua origem regional — e portanto a maior ou menor
força dos interesses escravistas, segundo a região — e a profis­
são, se vinculados ou não à elite política imperial (v. Carvalho,
1980 e 1988). Liberais e conservadores também tinham posições
semelhantes, senão idênticas, a respeito das medidas de controle
social a serem adotadas na transição ao trabalho livre, em parti­
cular no uso da prisão para garantir a execução das obrigações
dos contratos de trabalho. Enfim, mesmo a independência dos
magistrados não tem um sentido claro de ampliação das garan­
tias individuais, pois as posições dos parlamentares a este respeito
são cruzadas. Há liberais e conservadores, emancipacionistas e
escravistas que defendem a independência dos magistrados. Tam­
bém do ponto de vista do processo histórico, as críticas liberais
seriam irrelevantes, pois existiriam, de qualquer maneira, meios
extralegais de coação sobre os trabalhadores para garantir a taxa
de exploração da força de trabalho nos níveis compatíveis com a
acumulação num país periférico.
Porém, as críticas liberais ao inquérito, à prisão preventiva e
às restrições ao habeas-corpus mostram que havia uma diferen­
ça específica entre eles e os conservadores a respeito da exten­
são do mecanismo judicial nas práticas de controle social. Dado
o processo de transição do trabalho escravo ao trabalho livre,
essa diferença era fundamental para a determinação do sentido
concreto da cidadania, ou seja, da eficácia dos direitos civis dos
Indivíduos livres e pobres, e das suas relações com as. institui­
ções estatais, judiciárias e policiais.
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 115

A crítica liberal é importante do ponto de vista da história do


Poder Judicial brasileiro e mostra a relevância da reforma ju­
diciária de 1871 para a constituição do Poder Judicial na socie­
dade brasileira pós-escravista. Nessa reforma foi adotada uma
determinada relação entre a atividade judicial, a atividade poli­
cial e a cidadania que, em muitos aspectos, persiste até hoje.
Vimos que a manutenção de atribuições discricionárias da polí­
cia, sem controle judicial, consistiu uma escolha política cons­
ciente, explicitamente reconhecida pelos defensores da reforma
judiciária, que visava separar a justiça da polícia. Essa separa­
ção não estabeleceu, como afirma a interpretação corrente, a
independência do Poder Judicial brasileiro; ao contrário, a re­
forma criou no Brasil a polícia independente de mecanismos de
controle judicial mais imediato da legalidade da sua atividade.
Essa escolha implicou uma espécie de estado de sítio perma­
nente para os indivíduos livres e pobres, cujas garantias civis
ficaram suspensas indefinidamente, estando eles sujeitos a pro­
cedimentos de controle policial, segundo o critério dessas auto­
ridades. Ao mecanismo judicial, exercido por juizes profissio­
nais, foi atribuído um papel apenas mediato, com uma ação cor­
retiva dos excessos, e posterior a eles.
Nos cento e vinte e sete anos que nos separam dessa reforma,
diante da violência policial cotidiana, do número de violações
impunes aos direitos humanos, seria preciso afirmar a ineficá­
cia destes corretivos? Pensamos que não, e mais: que essa inefi­
cácia resulta da política judiciária adotada no processo de tran­
sição gradual para o trabalho livre. Naquela reforma foi defini­
da uma relação entre a atividade judiciária, a atividade policial
e a cidadania, em virtude da qual o Poder Judicial adquiriu um
formato institucional que foi mantido no tempo, com efeitos ne­
gativos crescentes, em virtude das mudanças políticas e sociais,
em especial o crescimento populacional urbano e as transfor­
mações no aparelho policial. Dado o contraste entre a continui­
dade institucional e os processos de mudança, vemos que a ine­
ficácia do mecanismo judicial para garantir os direitos de todos
os indivíduos não resulta apenas de uma situação disfuncional
e passageira — de uma crise do Poder Judicial brasileiro. Nos
últimos anos, este passa por uma crise sistêmica, em virtude do
grande aumento do número de processos, e da sua crescente
incapacidade em processar e responder às demandas. Porém,
116 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

além das causas mais imediatas dessa crise3, há também pro­


blemas que resultam do formato institucional que o Judiciário
brasileiro adquiriu historicamente. Enfim, pensamos que um
estudo para a reforma judiciária não deveria tomar, pelo menos
inicialmente, como dadas as características atuais do Poder Ju­
dicial brasileiro. Essas características precisam ser elas mes­
mas analisadas e criticadas, com base na perspectiva e nos obje­
tivos da reforma, para que se possa conhecer o seu papel e os
seus limites. Então, se o objetivo de uma reforma judiciária for
a maior efetividade das garantias judiciais à cidadania, pensa­
mos que se deve tomar como ponto de partida a crítica do papel
desempenhado, na nossa sociedade desigual e excludente, pelas
instituições judiciárias existentes. Desse modo, poderemos ela­
borar e propor uma reforma judiciária que contribua não só para
a consolidação, mas também para o aprofundamento da demo­
cracia no Brasil.

4. Mudanças na carreira e no papel político


dos magistrados

Analisamos nesta seção as mudanças na carreira dos magis­


trados nas duas décadas finais do Império, em virtude das quais
ocorre maior diferenciação da magistratura em relação aos ou­
tros postos estatais, maior estruturação interna da carreira dos
magistrados e maior presença dos magistrados nas localidades.
Estas mudanças fazem parte da política judiciária daqueles anos,
que procurou responder, por um lado, às pressões dos magistra­
dos e dos bacharéis em direito, e, por outro, aos processos de
mudança social analisados acima.

A) DIFERENCIAÇÃO DA CARREIRA DOS MAGISTRADOS


Em 1850 os conservadores aprovaram uma lei que criava
alguns incentivos aos magistrados para o exercício efetivo das
suas funções, ao mesmo tempo que fixava algumas restrições
às remoções e ao exercício simultâneo de cargos da magistra­
tura com cargos comissionados ou eletivos. A partir dessa lei, a

3 A esse respeito, ver os trabalhos de José Eduardo Faria e Rogério


Arantes, citados na Bibliografia.
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 117

contagem da antiguidade só começava com o exercício efetivo


do cargo e só com este é que os magistrados receberiam a par­
cela do ordenado dada a título de gratificação. Segundo o mi­
nistro da Justiça, Eusébio de Queirós, essas medidas surtiram
algum efeito, pois em 1848, de um total de 152 juizes de direi­
to, 58 estavam fora de seus lugares; em 1851, apenas 35 esta­
vam ausentes, dos quais 13 recentemente despachados, e 12
em viagem (RMJ, 1851). A lei de 1850 limitou também os po­
deres de remoção do governo, dividindo as comarcas do Impé­
rio em três entrâncias, proibindo a transferência de comarcas
superiores para inferiores e determinando para estas últimas
as nomeações iniciais. O juiz de direito somente poderia ser
promovido para a segunda entrância após quatro anos de ser­
viço efetivo e, para a terceira, somente depois de mais três anos.
Com essa mudança, os conservadores garantiram o controle
das comarcas mais importantes, pois, antes de enviar o projeto
de lei à Câmara dos Deputados, o ministro da Justiça havia
feito mais de setenta remoções de juizes (Flory, ibid.:196-7).
Além disso, com essa lei diminuiu o número dos que seguiam
ao mesmo tempo as carreiras judicial e política. Dentre os di­
plomados entre 1824 e 1826, mais de um terço haviam seguido
as duas carreiras; combinação que diminuiu para menos de
um décimo dentre os diplomados entre 1849 a 1851. Destes
últimos, cerca de um terço seguiu carreiras exclusivamente ju ­
diciais (Barman & Barman, 1976:440 e n. 14). No entanto, a lei
teve efeitos limitados para manter os juizes em seus postos,
pois o absenteísmoresultava não só do exercício de outros car­
gos, mas do mecanismo das remoções. Essa questão foi levan­
tada na discussão da reforma judiciária de 1871, quando foi
criado, para as comarcas gerais, o sistema de substituição dos
magistrados ausentes, ou de qualquer modo impedidos para o
exercício do cargo. A lei de 1850 foi criticada por suas limita­
ções no sentido da burocratização da magistratura, tais como:
a inexistência de qualquer sistema de promoção de uma en­
trância para outra, porque a exigência de antiguidade era ape­
nas critério restritivo; não foi fixada nenhuma hierarquia de
remuneração dos juizes ou para fins de promoção para os tri­
bunais superiores; e a falta de critérios objetivos para a classi­
ficação das comarcas. Foram classificadas como de segunda e
terceira entrâncias comarcas distantes e sem importância para
118 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

as quais os juizes de direito mais antigos do partido contrário


pudessem ser removidos (Bruno, ibid.:333)4.
A diferenciação da carreira dos magistrados em relação aos
outros postos estatais era relacionada ao tema das suas incom­
patibilidades, eleitorais e administrativas. Vimos que em 1855
foi proibido ao magistrado candidatar-se no distrito em que exer­
cia suas funções. Apesar de ter sido proposta em projetos poste­
riores de reforma eleitoral (1860, 1875) e de reforma judiciária
(1862, 1873), a incompatibilidade eleitoral dos magistrados so­
mente foi ampliada pela lei eleitoral de 1881. Por essa lei, os
magistrados que fossem eleitos não poderiam exercer seus car­
gos, receber salários e promoções. Em virtude dessas restri­
ções, a participação dos magistrados em cargos eletivos e de
nomeação apresentou forte redução na segunda metade do sé­
culo XIX. De um máximo em torno de 50% na década 1840-50
para todos os cargos, houve redução gradual até menos de 10%
no final do Império. Esses dispositivos modificaram o padrão
das carreiras dos próprios ministros do Supremo Tribunal de
Justiça, que eram nomeados dentre os desembargadores das
Relações segundo o critério de antiguidade. Verifica-se, pelas
suas biografias, que houve tendência gradual de nomeação para
o STJ de membros das Relações que não exerceram (ou que
exerceram menos) outros cargos que os judiciais. Nota-se as­
sim uma diferenciação gradual da carreira judiciária em rela­
ção aos demais cargos do Estado (Nabuco, ibid., v. 1:140; Car­
valho, 1988:147; Lago, 1978).
As incompatibilidades faziam parte da proposta liberal de su­
pervisão do processo eleitoral pelos magistrados. O controle das
eleições pelos magistrados foi adotado nas reformas eleitorais
de 1875 e 1881. Ajunta de qualificação dos eleitores era com­
posta em 1842 pelo juiz de paz, pelo pároco e pela autoridade
policial e a mesa eleitoral era composta por dezesseis eleitores
sorteados. Em 1846, a junta qualificadora era composta pelo
juiz de paz mais votado e de quatro membros escolhidos dentre
os eleitores. A mesa eleitoral era composta de forma semelhan­
te. Dos atos da junta cabia reclamação para ela própria e ape­

4 Sobre o significado da lei de 1850, ver o debate de Thomas Flory


(1975) com Roderick e Jean Barman (1977).
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 119

nas em casos especificados para um conselho municipal, com­


posto geralmente do juiz municipal, do presidente da Câmara e
do eleitor mais votado da paróquia principal. Em certos casos
podia haver recurso à Relação. Essa composição das mesas per­
maneceu, com algumas alterações, até a lei eleitoral de 1875.Por
essa lei, as juntas paroquiais de qualificação eram escolhidas
pelos eleitores da paróquia. As listas organizadas pelas juntas
eram revisadas por uma junta municipal, composta de dois mem­
bros eleitos pela Câmara, sob a presidência do juiz municipal,
ou substituto do juiz de direito. Das decisões dessa junta a res­
peito de denúncias, queixas ou reclamações “cabia recurso para
o juiz de direito da comarca, e nos casos de exclusão de votantes
ainda se dava recurso daquele magistrado para a Relação do
distrito”. O processo eleitoral dava-se perante mesas paroquiais
com organização semelhante à das juntas de qualificação. O pro­
jeto de lei de Rio Branco, do qual resultou a lei eleitoral de 1875,
baseava-se em algumas idéias do programa liberal de 1869, par­
ticularmente a da intervenção dos magistrados no processo elei­
toral (Nabuco, ibid., v. 2:289). A proposta dos liberais era, po­
rém, associada ao estabelecimento da incompatibilidade eleito­
ral e da inamovibilidade para os magistrados (Leite, 1978:101).
No entanto, os conservadores propuseram em 1875 o controle
pelos magistrados de todo o processo eleitoral, sem incluir essas
restrições. Os liberais se opuseram ao projeto, pois, nessas con­
dições, a participação dos magistrados não evitaria a fraude, “se
a magistratura fosse entre nós inteiramente independente do
governo ainda vá lá, mas sofre pressão do chefe da localidade,
do governo. Os magistrados podem ser removidos, colocar jui­
zes expostos aos ódios de partido é perigoso, pois se tornarão
suspeitos. Pode também despertar neles um desejo ou ambição
de se coligarem e formarem uma oligarquia terrível” (discurso
de 4/8/1875 no Senado, apud Id., ibid.:102).
Pela lei de 1881, das eleições diretas, a qualificação cabia aos
juizes municipais, e os juizes de direito organizavam a lista de­
finitiva de eleitores da comarca. O alistamento seria revisto
anualmente. As mesas eleitorais eram constituídas pelo juiz de
paz como presidente e por quatro mesários, que eram os dois
juizes de paz eleitos e os dois imediatos em votos ao último elei­
to. A apuração final cabia a uma junta presidida pelo juiz de
direito da comarca e pelos presidentes das mesas eleitorais. A
120 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

atribuição aos magistrados desses poderes de intervenção au­


mentou a sua importância no processo eleitoral. Porém, se os
magistrados não participavam mais como candidatos, não ha­
via condições para a sua atuação como árbitros das eleições.
Entre as causas do fracasso do sistema eleitoral criado em 1881,
apontou-se a remoção de juizes para preparar as eleições (Leal,
1975:221-4; RMJ, 1887; 1888).

B) ESTRUTURAÇÃO DA CARREIRA DOS MAGISTRADOS


E AUMENTO DO NÚM ERO D E LUGARES
Nos anos seguintes à reforma judiciária de 1871 foram ado­
tadas diversas mudanças que aumentaram o número de luga­
res da magistratura e as oportunidades de ascensão na carreira
dos magistrados. O aumento do número de bacharéis e a situa­
ção da carreira dos magistrados representavam pressões por
melhores oportunidades de ingresso e de ascensão na magistra­
tura. Essas pressões eram um aspecto das propostas, tanto libe­
rais como conservadoras, de reforma judiciária.
Nas restritas oportunidades ocupacionais abertas pela socie­
dade escravista, as perspectivas de carreira abertas aos bacha­
réis em direito tomavam essa formação uma opção desejável, tanto
para os filhos dos proprietários rurais como para os oriundos de
setores médios. Desde os primeiros anos da sua instalação, au­
mentaram as matrículas nas academias de direito, cujo número
não era limitado pelo governo imperial. Os números de diploma­
dos nas duas academias de direito do Império apresentam a for­
ma de três ondas, com picos nos anos de 1833-5 (média de 115
diplomados por ano nas duas academias, em 1861-3 (média de
171 diplomados) e em meados da década de 1883-6 (média de 240
diplomados). No final da década de 1850-o número de bacharéis
diplomados excedia as necessidades do emprego público e o di­
ploma em direito já não era mais condição suficiente para asse­
gurar o ingresso na elite imperial. O aumento do número de ba­
charéis também tomava mais difícil a nomeação para os cargos
públicos, mais longo o período de tempo nos lugares mais baixos
da carreira, e portanto mais lento e incerto o ingresso na elite
política. No período de organização do Império, era possível obter
o cargo de desembargador com um tempo mínimo de serviço; nas
décadas seguintes, o tempo mínimo para atingir tal posto chegou
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 121

a vinte anos. No final do Império apenas 8% dos diplomados em


1874-6 haviam atingido cargos da elite periférica (desembarga­
dores, presidentes das províncias secundárias, suplentes de de­
putado geral), ao passo que, com o mesmo número de anos depois
da graduação, 48% dos diplomados em 1824-6, e 14% dos diplo­
mados em 1849-51 tinham atingido tais postos (Barman & Bar-
man, ibid.:443-4; 447, n. 17; sobre as transformações nas acade­
mias de direito nos anos 1870, ver Adorno, 1988).
A ascensão na carreira foi facilitada entre 1869 e 1873, quan­
do foram criados mais lugares superiores da magistratura do
que os lugares de graus inferiores. Dentre as comarcas, as clas­
sificadas em entrâncias superiores tiveram crescimento relati­
vamente maior: em 1869, as comarcas de primeira entrância
representavam 63% do total de comarcas; em 1873 eram ape­
nas 50,5%, passando a 58% em 1876, mantendo a mesma pro­
porção até 1889. Em 1873 foram também criadas as novas Rela­
ções em Belém, Fortaleza, São Paulo, Minas Gerais, Mato Gros­
so, Goiás e Rio Grande do Sul, com o que o número de lugares de
desembargadores passou de 68 a 915.
Quanto ao aumento do número de lugares da magistratura,
vemos nos quadros seguintes que sua variação foi maior do que
a população. O aumento do número de comarcas e termos indi­
ca que os lugares criados não foram de varas especiais ou novas
varas nas capitais ou cidades maiores.

5 A criação de Relações nas “províncias longínquas” de Goiás e Mato


Grosso foi muito criticada pelos seus objetivos políticos. Essas Re­
lações tiveram um funcionamento bastante irregular durante os
quinze anos finais do Império, com reduzido número de decisões,
dificuldades de realização das sessões por falta de titulares, neces­
sidade de deslocamento dos juizes de direito para as substituições
etc. Além disso, o arbítrio do governo para designar livremente os
desembargadores para as Relações ou para nomear juizes de direi­
to para elas aumentava o seu controle sobre os órgãos judiciários.
As alternativas propostas para a solução desse problema eram a
extinção pura e simples daquelas Relações ou o estabelecimento de
entrâncias também entre as Relações, sendo o acesso aos graus
mais baixos condição para a nomeação para os cargos inferiores e
proibido o rebaixamento (Silveira da Motta, apud Bruno, 1979: 288;
ver também RMJ, diversos anos a partir de 1873).
122 I PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

Quadro 4. Lugares da m agistratura em anos selecionados — número* e variação,


índice de Variação 1849 = 100
juizes juizes de juizes desembar­ minis­ total varia­
munici­ direito substi­ gadores tros do ção
pais tutos STJ
1849 241 141 68 17 467
1859 346 221 68 17 652 139
1869 372 237 68 17 694 148
1876 469 399 44 91 17 1.020 218
1883 539 456 33 91 17 1.136 243
1889 506 461 78 91 17 1.153 247
* Não se trata do número efetivo de juizes, ver Anexo.
Fonte: Relatórios do Ministério da Justiça dos respectivos anos.

Quadro 5. População do Brasil — total e variação


(1852, 1872, 1 8 8 3 e 1890)
índice de Variação: 1852 = 100
ano número variação
1852 7.480.000
1872 9.930.478 132
1883 12.515.213 167
1890 14. 333.915 191
Fonte: Censos de 1872 e 1890, apud Stein, S., 1990,
Apêndice.
Para 1852, cf. estim a tiv a de G. M ortara, apud
Marcílio, 1973

Quadro 6. Divisão judiciária e população no B rasil


ano população comarcas itermos habitantes/ habitantes/
comarca termo
1852 7.480.000 126 245 62.333 30.530
1867 9.396.000 219 372 42.904 25.258
1872 9.930.478 245 379 40.533 26.202
1873 283 414 35.090 23.987
1883 12.515.213 430 539 29.105 23.219
1889 14.058.751 435 506 32.319 27.784
1890 14.333.915
1903 17.318.556 544 684 31.836 25.320
1910 23.151.669 588 704 39.374 32.886
1920 30.635.605 669 769 45.793 39.838
Fontes: para comarcas e termos, RMJ dos anos respectivos; para a população, Stein, S., cit.;
para 1852 e 1867, projeções de G. Mortara, apud Marcílio, 1973; Censos de 1872, 1890 e
1920; para os demais anos, projeções do Anuário Estatístico do Brasil, do IBGE, s.d.
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 123

Com o aumento do número de juizes, as despesas com o Po­


der Judicial permaneceram importantes no orçamento, apesar
dos aumentos das receitas do governo imperial. Segundo José
Murilo de Carvalho, as despesas administrativas caíram de
84,80% das despesas totais do governo central em 1850-1 para
67,54% em 1875-6, e 58,56% em 18896. Das despesas adminis­
trativas do governo central, as despesas com a justiça, ao con­
trário, aumentaram naqueles anos de 2,83%, em 1850-1, para
4,32%, em 1875-7 e 4,50% em 1889. Nesse item estão incluídas
as despesas com juizes, tribunais, cadeias e presos. Pelos Ba­
lanços Provisórios do Ministério da Justiça, vemos que as des­
pesas específicas com o Poder Judicial (as rubricas referentes
aos tribunais superiores, juizes de primeira instância, tribunais
do comércio e despesas para instalação de comarcas) mantive­
ram-se entre 2,1% e 2,6% das despesas totais do Império. Assim
o aumento das despesas com o Poder Judicial acompanhou o
aumento das despesas totais do Império e o seu peso foi manti­
do durante esses quarenta anos, apesar da redistribuição, apon­
tada por José Murilo de Carvalho, das despesas administrati­
vas às despesas econômicas, que ocorreu de forma mais mar­
cante a partir do início da década de 1870 (Carvalho, 1988, Apên­
dice III).
Vemos abaixo o aumento dos créditos atribuídos pelo orça­
mento ao Poder Judicial. Os créditos ao Poder Judicial entre os
anos de 1849-50 e 1889 tiveram o mesmo aumento que a receita
total do Império entre os qüinqüênios de 1850-1:1854-5 e 1885-
6:1889. Entre estes qüinqüênios, os créditos atribuídos ao Po­
der Judicial tiveram aumento superior ao aumento da receita,
de modo mais acentuado na primeira metade da década de 1870.

5 Ele classifica como despesas administrativas os itens: Família Im­


perial, Governo Geral, Exército e Marinha, Polícia e Bombeiros,
Guarda Nacional, Justiça, Culto, Relações Externas, Dívida Exter­
na e outras, dos Balanços da Receita e Despesa do Império.
124 I PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

Quadro 7. Receitas e despesas do Governo Central, por qüinqüênio (1845-89).


Valores em 1:000$000; índice de Variação: 1845/46-1849/50 = 100____________
m édias qüinqüenais variação
anos receitas despesas receitas despesas
1845/46-1849/50 26.584 26.459 100 100
1850/51-1854/55 35.275 36.521 133 138
1855/56-1859/60 45.653 47.539 172 180
1860/61-1864/65 52.591 60.450 198 228
1865/66-1869/70 75.278 140.243 283 530
1870/71-1874/75 105.301 114.173 396 432
1875/76-1879/80 110.506 149.135 416 564
1880/81-1884/85 130.337 148.773 490 562
1885/86-1889 165.593 168.372 623 636
Fonte: Carvalho, 1988, Apêndice I.

Quadro 8. Orçamentos do Governo Central: créditos ao M inistério da Justiça.


Valores em 1:000$000; índice de Variação: 1849/50 =100
valor variação
ano MJ total PJ Polícia EP MJ total PJ Polícia EP
1849/50 2 220 654 553 97 100 100 100 100
1850/51 2.165 758 536 84 98 116 97 87
1856/57 3.306 1.127 816 171 149 172 148 176
1860/61 5.039 1.360 1313 410 227 208 237 423
1869/70 3.275 1.462 1383 196 148 224 250 202
1871/72 4.197 2.195 1512 272 189 336 273 280
1873/74 5.291 2.952 1777 287 238 451 321 296
1876/77 6.250 3.376 2 359 194 282 516 427 200
1882/83 6.695 3.717 2 284 480 302 568 413 495
1886/87 9.727 5.502 3 049 791 438 841 551 815
1888 6.381 3.665 1916 544 287 560 346 561
1889* 7.680 4.033 2 844 548 346 617 514 565
Fonte: Balanços Provisórios da Receita e Despesa do Ministério da Justiça, em RMJ dos
anos respectivos.
* Crédito votado; para os demais anos estão incluídos os créditos extraordinários.
M J total = Total dos créditos ao M inistério da Justiça.
PJ = Poder Judicial: inclui as rubricas: Supremo Tribunal de Justiça, Relações, juizes de
Primeira Instância, Tribunais do Comércio, Juntas Comerciais e instalação de novos ter­
mos e comarcas.
Polícia = inclui as rubricas para o pessoal e material de Polícia, Guarda Nacional, as diver­
sas rubricas referentes à polícia da Corte, e a rubrica de Auxílio à Polícia das Províncias.
EP = execução da pena: inclui as rubricas de transporte e condução de presos, Casa de
Correção da Corte, Presídio de Fernando de Noronha, asilo de m endigos.

Quadro 9: Despesas do Governo Central e do Poder Judicial por anos selecionados.


Valores em 1:000$000
anos total PJ % PJ
1850/51 26.276 639 2,43
1860/61 52.358 1.271 2,43
1870/71 100.074 2.109 2,11
1877/78 151.493 3.249 2,14
1880/81 138.583 3.623 2,61
1886/87 228.186 4.925 2,16
1888 120.906 3.027 2,50
Fonte: Carreira, 1889, e Balanços Provisórios do Ministério da Justiça, em RMJ.
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 125

A distribuição regional dos novos lugares da magistratura não


ocorreu de maneira uniforme. Como podemos ver nos gráficos do
Anexo, a partir de 1849 houve lenta redistribuição dos lugares de
juiz de primeira instância do Nordeste para o Centro-Sul e o Sul.
Essa tendência acompanha o deslocamento do centro político e
econômico ocorrido entre estas regiões, que pode ser indicada com
a mudança da população relativa das regiões. Porém, a redistri­
buição dos lugares de juiz de primeira instância foi mais lenta do
que a mudança populacional, o que poderia parecer surpreen­
dente, pois no Centro-Sul ocorria um processo de rápida expan­
são da fronteira agrícola, acompanhada pela criação de novas
unidades jurídico-administrativas, como os termos municipais.
Essa defasagem poderia ser explicada por diversos fatores, como
o peso diferente das regiões no sistema político ou mecanismos
clientelistas. No conjunto, porém, não houve entre 1849 e 1889
uma redistribuição significativa dos lugares de juiz de primeira
instância entre as regiões e nem entre as províncias. Manteve-se
pois a defasagem na distribuição dos lugares de juiz de primeira
instância em relação à população, especialmente em relação à
região Centro-Sul. Em 1889, esta região tinha apenas 33% dos
lugares de juiz de primeira instância, para 44,3% da população,
segundo o Censo de 1890. No Nordeste e no Sul estes números
aproximavam-se, ficando a defasagem principal em virtude de
um número maior de juizes em relação à população nas regiões
Norte e Centro-Oeste, que possuíam respectivamente 10% e 4,5%
dos lugares de juiz de primeira instância e apenas 6,3% e 2,2% da
população.
Quanto aos lugares de juizes de direito, o crescimento foi mais
acentuado nas províncias do Sul e Centro-Sul e concentrado nos
anos posteriores à reforma judiciária de 1871. Assim, em 1849,
49,6% do total de lugares de juiz de direito do Império eram no
Nordeste, em 1869, eles eram ainda 46%, caindo a 42,1% em 1876.
Por sua vez, o Centro-Sul passou de 27,7% dos lugares a 29,1%
em 1869 e 34% em 1876. Esse crescimento foi mais acentuado
nas três províncias cafeeiras que, em conjunto, tinham 19,9%,
22,4% e 26,8% dos juizes de direito do Império em 1849, 1869 e
1876. Em 1849, as três províncias tinham 71,8% dos juizes de
direito da região Centro Sul; 76,8% em 1869; em 1876, 81%; e
83,5% em 1883. Como se pode ver nas tabelas do Anexo, o mesmo
ocorreu no Rio Grande do Sul. Se tomamos a variação do número
de juizes de direito, vemos também a importante diferença entre,
126 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

por um lado, as regiões Centro-Sul e Sul, e, por outro lado, o Nor­


deste. Para um aumento médio de 227% do número de lugares de
juiz de direito de todo o Império, entre 1849 e 1889, nas regiões
Centro-Sul e Sul o aumento foi de 295% e 438%, respectivamen­
te. No Nordeste, o aumento foi de 176% no mesmo período.
A diferença na distribuição dos lugares de juiz de direito no
Império é certamente relacionada ao deslocamento do eixo polí­
tico e econômico do país do Nordeste ao Centro-Sul ocorrido du­
rante o século XIX. O peso econômico crescente dessa região
levaria ao crescimento de suas vilas e cidades, que desse modo
poderiam transformar-se mais facilmente em comarcas. Além
disso, a concentração dos juizes de direito nas regiões da cafei­
cultura escravista tinha aspectos clientelistas e havia também
a necessidade de ampliar a presença do poder imperial nas loca­
lidades, em razão dos riscos, reais ou imaginários, da transição
gradual ao trabalho livre.
A redistribuição dos lugares de juiz de direito por região em
contraposição à manutenção da distribuição do total de luga­
res de juiz de primeira instância revela a política judiciária do
governo central, que se manteve durante todo o período anali­
sado, mas se acentuou nas duas décadas finais do Império.
Como se sabe, a transformação do termo em comarca era deci­
dida pelas Assembléias Provinciais; porém, essa decisão esta­
va sujeita à aprovação do governo imperial, que examinava se
a nova comarca tinha condições de ser instalada. A criação de
uma comarca não era então um ato unilateral do governo im­
perial, mas este tinha meios de controlar a efetiva instalação
da comarca. A política do governo central pode ser vista pelas
mudanças na proporção entre o número de lugares de juiz de
direito por região e o número de lugares de juiz municipal. Em
todas as regiões e durante todo o período a tendência dessa
proporção foi aproximar-se de 1,00. A proporção entre termos
e comarcas apresenta, de modo menos acentuado, a mesma
tendência, a qual não resultou, então, da concentração de jui­
zes de direito nas capitais e cidades maiores, pela criação de
novas varas. Tratava-se, ao contrário, da expansão gradual dos
juizes de direito no território do Império. Neste sentido, cada
comarca tenderia a ser formada pela sua sede e mais um ter­
mo municipal: na sede, o titular era o juiz de direito, e no ter­
mo, o titular era o juiz municipal. Desse modo, a administra­
ção da justiça criminal nas províncias foi gradativamente uni­
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 127

formizada, com maior presença dos juizes de direito nas locali­


dades.

Quadro 10. Proporção entre o número de juizes municipais e o número de juizes de direito
por região e anos selecionados. Prop. = jm /jd_____________________________________________
1849 1869 1876 1883 1889
jm jd prop jm jd prop jm jd prop jm jd prop jm jd prop
Centro-Sul* 86 30 2,87 141 61 2,31 167 121 1,38 189 142 1,33 167 144 1,16
Nordeste 100 70 1,43 154 109 1,41 198 168 1,18 227 190 1,19 220 193 1,14
Extremo
Norte 24 18 1,33 31 28 1,11 45 44 1,02 50 49 1,02 48 49 0,98
Oeste 9 6 1,50 14 13 1,08 20 23 0,87 24 22 1,09 23 22 1,05
Sul 21 8 2,63 31 18 1,72 39 32 1,22 49 43 1,14 48 43 1,12
Total* 240 132 1,82 371 229 1,62 469 388 1,21 539 446 1,21 506 451 1,12
SP, RJ, MG 83 28 2,96 159 53 3,00 152 107 1,42 170 127 1,34 147 129 1,14
* Não incluídos os juizes da Corte, cuja organização judiciária tinha características particu-
lares.
Fontes: RMJ dos anos respectivos; ver tabela sobre a organização judiciária do Império no
Anexo. Se tomamos cada uma das províncias, a proporção apresenta a mesma tendência;
ver tabela anexa.

Quadro 11. Proporção entre termos e comarcas por anos selecionados. Prop. = termos/
comarcas
ano termos comarcas prop.
1850 241 118 2,04
1869 372 219 1,70
1872 379 245 1,55
1873 414 283 1,46
1876 469 366 1,28
1883 539 430 1,25
1889 506 435 1,16
1903 684 544 1,26
1910 704 588 1,20
1920 769 669 1,15
1929 811 774 1,05
1934 972 744 1,31
1940 1294 785 1,65
Fontes: Até 1889, RMJ dos anos respectivos; outros anos, Anuário estatístico do Brasil,
IBGE, s.d.

Vemos em conclusão que nas décadas finais do Império hou­


ve gradual extensão da magistratura profissional nas localida­
des, afirmada por Emília V. da Costa. Em virtude das medidas
legislativas que diferenciaram a magistratura dos outros car­
gos estatais, pode-se afirmar que também aumentou a presença
dos magistrados nos seus lugares. Nesse período ainda foram
tomadas outras decisões legislativas concernentes aos magis­
128 I PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

trados: foram aumentados os seus salários e o regimento de cus­


tas (1874); foram criadas algumas garantias para a sua aposen­
tadoria (1877) (Nequete, ibid., v. 1:92-101). Em conjunto, essas
mudanças estruturaram gradualmente a carreira dos magistra­
dos e as incompatibilidades eleitorais tomaram-na diferencia­
das em relação aos demais postos no Estado. Porém, até o final
do Império não foram adotadas as propostas liberais de consti­
tuição de uma magistratura independente, mantendo-se a sele­
ção, nomeação e promoção de juizes pelo governo, além dos po­
deres de sua remoção, suspensão e aposentadoria compulsória.
Até o fim do Império vigoraram ainda outras normas caracte­
rísticas do Regresso conservador de 1841: “a que atribuía ao
Governo Imperial a nomeação dos Presidentes dos tribunais; a
que ordenava às autoridades judiciárias submeterem aos Presi­
dentes das Províncias (que as encaminharia ao Ministro da Jus­
tiça e, este, ao Conselho de Estado) as dúvidas, lacunas ou obs­
táculos que encontrassem na execução das leis; e a subsistência
do contencioso administrativo, ainda o (contencioso) provincial,
para a solução de questões que se suscitassem entre os particu­
lares e a administração — sem falar na incompetência que se
lhe dava de deixar de aplicar aquelas leis que reputasse mesmo
flagrantemente inconstitucionais” (Nequete, ibid., v. 1:101).

D) ANÁLISE DO MECANISMO DAS REMOÇÕES


Apesar das propostas liberais a favor de garantias funcionais
e de uma carreira burocrática para os magistrados, essas não
foram adotadas durante todo o Segundo Reinado. A adoção des­
sas reformas encontrava obstáculos de diversos tipos, como o
papel político dos magistrados, os interesses dos próprios ma­
gistrados e os limites sociais à mediação judicial dos conflitos.
Vejamos quais eram estes obstáculos pelo estudo do problema
da inamovibilidade.
Este mecanismo apresenta três aspectos:
1. O aspecto eleitoral: o magistrado representava o seu parti
do a nível local e quando houvesse mudança na situação políti­
ca, havia remoções para posicionar novamente os magistrados
segundo a nova situação. Esse problema pode ser colocado como
um impasse político: com a consolidação de uma magistratura
independente, as práticas eleitorais e governamentais seriam
controladas judicialmente. O partido que implantasse a mudança
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 129

estaria abdicando de parte de seu poder, atual e futuro. Porém,


o estabelecimento da inamovibilidade dos magistrados signifi­
caria o congelamento das posições existentes num momento
determinado dos magistrados favoráveis ou contrários ao parti­
do no governo. Seria mantido, então, o predomínio nas localida­
des das facções a que os magistrados eram aliados, o que preju­
dicaria uma parte do partido no poder. Isso porque, sendo o nú­
mero de magistrados limitado, e limitadas também as posições
às quais eles deveriam ser alocados, em determinado número
de lugares estariam exercendo suas funções os opositores do
governo. Se o governo resolvesse fazer uma “limpeza” antes da
implementação da reforma (mediante a aposentadoria ou a dis­
ponibilidade de magistrados, por exemplo) despertaria tantas
resistências, que seria provável a sua demissão pelo imperador,
subindo ao governo o partido contrário, ou um outro grupo do
próprio partido7. Nenhum dos partidos conseguiria apoio políti­
co, nem mesmo a unanimidade entre seus próprios membros
em favor da reforma, em virtude dos seus custos.
2. Em boa parte das vezes a remoção era utilizada a pedido
do próprio magistrado, pois esse mecanismo era o modo pelo
qual os magistrados procuravsjrnbter posições mais vantajo­
sas para a sua carreira. Se o governo designasse ao magistrado
uma comarca longínqua, sem importância política e econômica,
ele poderia recusar o lugar, permanecendo avulso; poderia acei­
tar o lugar sem assumir o cargo ou ainda dirigir-se à comarca,
tomar posse e retornar à Corte ou à capital de sua província a
fim de buscar colocação melhor. Até 1850, não havia nenhuma
restrição relacionada ao exercício efetivo do cargo para a remu­
neração do magistrado e para a contagem de tempo de serviço
para as promoções. Ou seja, para o magistrado não havia dife­
rença se exercesse efetivamente o cargo ou se, ao contrário, fos­
se eleito deputado, se não assumisse o cargo, ou se se afastasse
por algum outro motivo, como para exercer algum cargo comis­
sionado no Executivo. Após aquela data passou a ser exigida a

7 O problema se estendia ao interior dos partidos. Estes eram dividi­


dos internamente e então a oposição à inamovibilidade viria não só
do partido contrário, mas também de grupos que fizessem parte do
próprio partido do governo.
130 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

posse efetiva do cargo para a contagem do tempo e para o rece­


bimento integral do ordenado. No entanto, eram freqüentes as
reclamações de magistrados contra sua nomeação para comar­
cas longínquas e os riscos para sua carreira de nelas ficarem,
“esquecidos do governo”. Os pedidos dos próprios magistrados
explicam assim o grande número de remoções existentes mes­
mo nos anos sem eleições. A esse fator podemos adicionar as
próprias promoções, pois, tendo completado o tempo para a pas­
sagem de entrância, e recebido a promoção para uma comarca
pouco desejável, o magistrado empenhar-se-ia em encontrar
melhor posição.
3. A remoção era enfim um mecanismo necessário para regu­
lar o próprio modo pelo qual o magistrado exercia suas funções
na localidade. O mecanismo de remoção aparece aqui como um
instrumento que permitia ao governo central, e aos poderes lo­
cais, regular a eficácia da legislação no âmbito local. Pelo jogo
entrecruzado de influências e pressões determinava-se o modo
pela qual seriam julgados os conflitos locais. O governo central
poderia controlar a atuação dos magistrados pelos instrumen­
tos de gestão de sua carreira. Se a sua atuação excedesse um
nível “adequado”, desperta7^ío conflitos locais, os chefes locais
tinham meios de recusar obediência, de protestar, de represen­
tar ao presidente da província contra ele. Eles poderiam deman­
dar ao governo a suspensão, a remoção do juiz ou, em conflitos
mais graves, expulsavam-no simplesmente do município. Decre­
tando a remoção, o governo regularizava então a sua situação.
O mecanismo da remoção dos juizes foi largamente usado
durante todo o período imperial. Liberais e conservadores usa­
ram os poderes de remoção de juizes, sendo que o número de
remoções aumenta nos anos eleitorais em que houve a inversão
do partido no governo. Como se pode ver em tabela no Anexo,
em anos de inversão do partido no governo (como 1841, 1844,
1848, 1861-2 e 1878) havia grande número de remoções de jui­
zes de direito. Por exemplo, em 1841, 43 juizes de direito foram
removidos, ou seja, em 30,7% dos lugares ocorreram remoções;
em 1861-2, foram removidos 62 juizes de direito, ou 29,5% dos
lugares; e em 1877-8, foram removidos 96 juizes de direito, ou
22,1% dos lugares. Porém, as remoções foram altas também em
anos em que não houve mudança de gabinete, como em 1873-4,
em virtude da criação de novas comarcas em entrâncias supe­
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 131

riores; em 1880-1, quando as remoções serviram, provavelmen­


te, à redistribuição dos juizes de direito para a eleição direta.
Em todos os anos para os quais obtivemos informações, houve
remoções de juizes de direito. A comparação entre as remoções
na década de 1869-70 a 1879 e na década seguinte, de 1879-80 a
1888-9, indica pequena redução da porcentagem de juizes de
direito removidos, de 14,2% por ano, na primeira década, para
10,2%, na segunda. Esta redução pode estar relacionada à dife­
renciação da magistratura dos outros postos estatais, e portan­
to menor envolvimento direto dos magistrados nos conflitos po­
líticos. Essa diferença pode também resultar de uma estabiliza­
ção dos magistrados nos seus postos depois do aumento do nú­
mero de comarcas ocorrido de modo mais acentuado na década
de 1870.
No entanto, a tendência à estabilização dos juizes de direito
nos seus postos não implicava o desuso do mecanismo da remo­
ção. Pois, apesar dos problemas que causava — o absenteísmo,
a insegurança do magistrado quanto à sua posição, a incerteza
do julgador para as partes, a mudança constante de juizes nas
localidades — a remoção apresentava vantagens para o gover­
no central, para os poderes locais, e também para os próprios
magistrados. Por estas vantagens, e em virtude de sua simplici­
dade, a remoção foi um mecanismo estratégico na gestão da
magistratura no Segundo Reinado.

5. Prática judicial e m udança social:


nota sobre os magistrados e a abolição

A atuação dos magistrados brasileiros a favor da libertação


dos escravos é um tema presente nos trabalhos sobre a crise da
escravidão no Brasil na década de 1880. A atuação dos magis­
trados aparece nesses trabalhos como parte do movimento abo­
licionista. Porém, estudos mais recentes têm relativizado a im­
portância do movimento abolicionista, estudando a abolição como
o desenlace final de uma mudança mais global, a crise da socie­
dade escravista. Esses trabalhos mostraram a complexidade do
processo abolicionista, a importância de fatores de diversos ti­
pos (políticos, sociais e econômicos) para o modo, o tempo, os
sujeitos que atuaram na crise final da escravidão. Esses estu­
dos relativizaram uma interpretação que colocava a extinção da
132 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

escravidão como a conseqüência de uma doação benevolente da


princesa imperial ou como resultado apenas da ação política dos
líderes abolicionistas. Ao enfatizar as mudanças econômicas e
sociais, alguns trabalhos mostraram a inviabilidade do traba­
lho escravo, os efeitos da concentração de escravos nas provín­
cias cafeicultoras, as conseqüências de mudanças internacionais
(a revolução industrial, a constante pressão inglesa, as revoltas
de escravos nas Antilhas e a abolição da escravidão nos Estados
Unidos). Outros ampliaram a análise do processo político, com o
que aparece o aumento da resistência dos escravos, o constante
temor dos fazendeiros e autoridades de uma insurreição geral
dos escravos e as dificuldades crescentes de controle dos escra­
vos num território com uma importante presença de mão-de-
obra livre (Moraes, 1986; Conrad, 1975; Costa, E., 1989; Santos,
R., 1980; Machado, 1994).
A atuação dos magistrados permanece nesses trabalhos como
um aspecto particular desse processo, mas até agora não foi fei­
to nenhum estudo detalhado a seu respeito. Só um estudo desse
tipo poderá fornecer elementos para que, na complexidade do
processo abolicionista, sejam respondidas questões a respeito
da extensão do abolicionismo entre os magistrados, o modo pelo
qual eles utilizaram os instrumentos legais a seu dispor para
libertar escravos, qual a magnitude, em termos numéricos, des­
sa ação e que efeitos políticos e sociais mais difusos teve a liber­
tação judicial de escravos. O interesse de tal estudo não seria o
de retornar a um tipo de história das elites, em que as decisões
de magistrados favoráveis à liberdade de escravos seria oposta
à ação autônoma destes, e nesse sentido os magistrados não se­
riam mais do que um grupo particular das classes dominantes e
sua ação um substituto acidental do paternalismo dos senhores.
O interesse de um estudo desse tema seria de tratar uma situa­
ção de crise social, em que aparecem as relações complexas en­
tre as classes dominantes e a prática judicial, em particular a
ambivalência da mediação judicial dos conflitos, pelo menos em
relação aos seus interesses mais imediatos. Nesta seção, indica­
mos alguns aspectos dessa atuação dos magistrados, analisan­
do os efeitos do processo de abolição sobre o papel dos magistra­
dos e sobre a prática judicial.
Na segunda metade da década de 1860, o imperador tomou a
iniciativa de abrir a discussão sobre a necessidade de extinguir
PODER JUD ICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 133

a escravidão. Com a concentração dos escravos nas províncias


cafeicultoras, as mudanças na economia e o processo de urbani­
zação, setores cada vez mais amplos da população — antigos
proprietários e novos setores médios — se viam desvinculados
dos interesses da propriedade de escravos. Nas cidades maiores
abria-se o debate sobre a abolição gradual; entre os proprietá­
rios e representantes políticos discutiam-se regimes alternati­
vos para o trabalho escravo. No início da década de 1880, come­
çava a mudar a opinião pública sobre a escravidão e o movimen­
to abolicionista recomeçou a atuar, inicialmente nas cidades,
utilizando a propaganda e os meios legais de libertação indivi­
dual de escravos. Em meados da década de 1880, o movimento
abolicionista passou a utilizar expedientes ilegais, ampliando
as suas formas de ação, constituindo redes de auxílio e esten­
dendo sua atuação para o interior, aliando-se à resistência es­
crava, que crescia nas fazendas. Com isso, intensificaram-se as
fugas e rebeliões coletivas dos escravos e os confrontos diretos
entre escravos, proprietários, abolicionistas e autoridades. Essa
ação desorganizou o trabalho escravo nas fazendas, tornou into­
leráveis à opinião pública as violências cometidas contra os es­
cravos e, enfim, os proprietários perderam o apoio do Estado
para a repressão às rebeliões de escravos e ao movimento aboli­
cionista. Em conjunto, essas mudanças precipitam a crise final
da escravidão, levando à sua abolição legal em 1888.
Os estudantes de direito, advogados e outros bacharéis parti­
ciparam desse processo desde o seu início. Junto com outros
membros dos setores médios urbanos, eles atuaram inicialmen­
te em partidos políticos, associações acadêmicas e profissionais,
jornais literários e políticos. Nesse debate levantaram-se am­
plas questões políticas e sociais, como as diversas posições a res­
peito do regime de trabalho, as propostas liberais de reformas e
a crítica republicana. A partir da década de 1870, ampliou-se o
debate e a ação emancipacionista, com as posições públicas to­
madas pelo Instituto dos Advogados (liderado por Nabuco de
Araújo), com o aparecimento da revista jurídica O Direito, na
qual colaboravam, entre outros, Tristão de Alencar Araripe e
Macedo Soares, e com a apresentação por advogados, como Luís
Gama, Carlos de Lacerda e João Marques, de demandas judi­
ciais em favor da liberdade de escravos. De um ponto de vista
doutrinário, os conceitos jurídicos dominantes que justificavam
134 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

a propriedade de escravos eram criticados por argumentos fun­


dados não só no liberalismo e no positivismo, mas também no
evolucionismo e nas doutrinas da escola histórica (Savigny, Ihe-
ring). Esta escola apresentava novas interpretações do direito
romano e fornecia novos argupaentos no debate jurídico sobre a
situação do escravo.
Quanto ao Poder Judicial, vimos nas seções anteriores as
mudanças graduais no papel político dos magistrados, cuja car­
reira se tornou mais diferenciada dos demais cargos estatais,
mais estruturada e mais longa. Com o poder atribuído ao STJ
de tomar assentos sobre a interpretação da lei, passou a ser re­
conhecida a autonomia de julgamento dos juizes em relação à
interpretação do governo. Do ponto de vista da legislação, fo­
ram adotados dispositivos relativos aos escravos, cujo efeito foi
aprofundar as contradições internas da legislação, ou seja, en­
tre o conceito jurídico dominante do escravo-coisa e as demais
disposições que reconheciam ao escravo alguma condição de
sujeito de direito. Pela Lei do Ventre Livre, os juizes passaram
a intervir nas relações entre senhores e escravos, pois estes ad­
quiriram personalidade jurídica e suas relações com os senho­
res tornaram-se objeto de mediação judicial.
Do ponto de vista da estratégia de transição gradual ao tra­
balho livre, o objetivo da “via judicial” de mediação dos conflitos
entre senhores e escravos era menos efetivo do que “moral” —
fortalecer a submissão dos escravos pela sua esperança de for­
mar um pecúlio e poder comprar a sua liberdade. Porém, no
processo que levou à abolição, advogados e juizes utilizaram esses
mecanismos para obter decisões favoráveis à libertação de es­
cravos, ampliando-se as situações em que os magistrados eram
chamados a intervir nas relações entre senhores, escravos e abo­
licionistas. Em síntese, essas transformações indicam que, por
um lado, o Poder Judicial recebeu atribuições formais de inter­
venção nas relações “domésticas” entre senhor e escravo; e, por
outro lado, os magistrados tinham novas condições para julgar
a favor da libertação dos escravos. Em primeiro lugar, as mu­
danças econômicas, sociais e políticas mais amplas que indica­
vam a necessidade da transformação do regime de trabalho; em
segundo lugar, a presença de uma opinião pública mais favorá­
vel à libertação dos escravos; em terceiro lugar, novas condições
institucionais que permitiam maior autonomia de julgamento
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 135

dos juizes; e, enfim, novas doutrinas e novas técnicas de argu­


mentação jurídicas em favor da liberdade de escravos.
Alguns magistrados passaram a decidir a favor da liberdade
em processos judiciais, usando diversos expedientes, como a
baixa do valor do escravo no arbitramento, a concessão de alfor­
ria forçada com o depósito de parte do pecúlio e a concessão da
carta de liberdade a escravos libertados por apenas um dos con­
dôminos. Havia ainda outras formas de atuação, como a recusa
de aplicar açoites nas condenações dos escravos, a investigação
das denúncias de maus-tratos dos senhores em seus escravos, a
proteção de abolicionistas contra perseguições de senhores ou
da polícia (Moraes, ibid., cap. VIII; Fonseca, 1988; Santos, R.,
ibid.). Vejamos algumas destas formas de atuação.
A Lei do Ventre Livre criou a exigência da matrícula dos es­
cravos pelos senhores, a qual passou a ser o título legal da es­
cravidão, que os senhores deviam apresentar para fins fiscais,
para a inscrição dos escravos no fundo de emancipação, e tam­
bém nos processos judiciais, como o arrolamento de bens no in­
ventário e as transferências de propriedade. Os senhores utili­
zaram muitos subterfúgios para legalizar a escravidão de ingê­
nuos nascidos depois da lei e dos africanos entrados no país de­
pois da proibição do tráfico (como declarar uma idade maior*
para justificar o ingresso do africano antes do tráfico, ou decla­
rar desconhecida a filiação, para os filhos de africanas entradas
depois de 1831). Muitos deles, acreditando na não-aplicação da
lei, deixaram de tomar precauções, declarando escravos africa­
nos cuja idade provava seu ingresso ilegal no país. Essas decla­
rações haviam sido feitas pelos senhores em registros oficiais,
de forma unilateral e espontânea, e por isso elas podiam servir
de prova contra eles. Os advogados abolicionistas passaram a
demandar a liberdade de escravos cuja matrícula apresentasse
de forma evidente incoerências, lacunas e outros defeitos. Luís
Gama foi o precursor de demandas judiciais, tendo constituído
verdadeira rede de colaboradores, entre eles funcionários judi­
ciais, como escrivães, avaliadores e outros. Um dos meios utili­
zados pelos abolicionistas foi a demanda de liberdade para os
escravos brasileiros em cuja matrícula constasse filiação desco­
nhecida. O argumento foi formulado inicialmente por João Mar­
ques e adotado mais tarde por outros advogados, como Rui Bar­
bosa. Se a escravidão era fato contrário à lei natural, tolerado
136 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

pela lei civil, não podia ser presumida; e se depois da Lei do


Ventre Livre nenhum brasileiro nascia escravo, só podia ser es­
cravo aquele cujo nascimento fosse comprovadamente resulta­
do da condição escrava da mãe. A filiação ignorada fazia surgir
a dúvida sobre o estado jurídico do escravo, uma vez que a ma­
ternidade não se oculta facilmente; na dúvida, prevaleciam as
presunções em favor da liberdade. Alguns juizes da Corte e das
províncias aceitaram esse argumento, até que o governo decla­
rou em 20/7/1887 que “o fato de achar-se o escravo matriculado
com a declaração de filiação desconhecida não dá direito à liber­
dade” (Moraes, ibid.:170; Machado, ibid.:151-2).
Os casos mais polêmicos foram os pedidos de liberdade fun­
damentados na lei de 1831, segundo a qual os africanos entra­
dos no país após aquela data seriam declarados livres. O núme­
ro de africanos ilegalmente escravizados, e seus descendentes,
era da ordem de centenas de milhares de indivíduos. A lei era
desrespeitada em massa, cotidianamente, com a orientação do
governo, e com a anuência dos magistrados. Segundo decisões
enumeradas por Macedo Soares, já em 1873 alguns juizes con­
cediam a liberdade a africanos ilegalmente escravizados. Po­
rém, se a lei de 1831 não podia ser respeitada, ela também não
podia ser revogada, pois era o resultado de um tratado interna­
cional e qualquer medida neste sentido fatalmente faria recru­
descer os conflitos diplomáticos. Havia ainda argumentos hu­
manitários — a revogação seria um retrocesso na direção da
abolição, reforçando a escravidão; e, juridicamente, a revogação
de uma lei favorável à liberdade com efeito retroativo seria
“monstruosa”, escravizaria a posteriori indivíduos juridica­
mente livres e seria um novo fundamento para a escravização
de indivíduos nascidos no país.
Em junho de 1883, Silveira da Mota apontava no Senado as
divergências nos julgados, questionava o presidente do conse­
lho de ministros, Lafayette R. Pereira, seu colega de partido,
sobre a vigência da lei de 1831 e indicava a necessidade de o
governo emitir um Aviso aos magistrados orientando a inter­
pretação a adotar a este respeito8. Ministro Lafayette respon­

8 A discussão que se seguiu entre escravistas e abolicionistas é inte­


ressante do ponto de vista da história do pensamento jurídico bra­
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 137

deu que a lei estava em vigor, porém o governo deixava de dar o


seu parecer sobre as dúvidas na sua interpretação, pois se tra­
tava de uma lei de direito civil, referente ao estado pessoal de
certa classe de indivíduos, cuja aplicação estava na inteira e
exclusiva órbita do Poder Judicial. Em virtude da separação dos
poderes, o governo não podia ditar normas aos magistrados,
determinando a maneira péla qual as leis deveriam ser aplica­
das, pois, em caso contrário, o Poder Judicial deixaria de ser
independente, seria subordinado ao Executivo. O Executivo não
tinha poder de intervir nessas questões, pois, pela lei de 1875, a
uniformização da jurisprudência havia sido conferida ao STJ.
Tal como no caso do conflito do ministro da Justiça Nabuco de
Araújo com os desembargadores da Bahia e de Pernambuco a
respeito da repressão ao tráfico, nessa situação vemos novamente
uma oposição entre a independência do Poder Judicial e as ga­
rantias à liberdade individual. Silveira da Mota demandava ao
governo que se declarasse sobre a vigência da lei de 1831 e La-
fayette recorria à autonomia de julgamento dos magistrados
como uma forma de manter a ineficácia daquela lei. Porém, nas
novas condições políticas, sociais e institucionais, essa afirma­
ção do ministro da Justiça já não teria os mesmos efeitos. Como
afirmou Macedo Soares: a lei de 1831 estava em vigor “houve
felizmente ministro que o dissesse... e esse ministro foi o emi­
nente jurisconsulto Sr. conselheiro Lafayette... Os magistrados
que a vão aplicando obram na órbita das suas funções próprias;
e o Poder Executivo nada tem que fazer senão respeitar a inde­
pendência do Poder Judicial, tão soberano como ele”. Assim a
declaração do ministro significava uma autorização formal do
governo para que os juizes interpretassem a vigência da lei à
sua maneira, e foi o que alguns deles fizeram: em nome da inde­
pendência do Poder Judicial, decretavam — mesmo ex-officio,
em inventários, por exemplo — a liberdade dos africanos escra­
vizados ilegalmente (Soares, 1938:29-74).

sileiro. Nesta discussão podemos ver como a escravidão apresenta


efeitos no interior da própria racionalidade jurídica, em virtude
dos diversos tipos de argumentos e subterfúgios jurídicos apresen­
tados para a justificação da escravidão.
138 I PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

Os proprietários de escravos reclamavam, já em 1878, da in­


terferência de delegados e juizes na sua autoridade. No Con­
gresso Agrícola daquele ano, um fazendeiro de Barra Mansa afir­
mava ser necessário “que os lavradores não estejam sujeitos a
ser desmoralizados por autoridades como são os juizes munici­
pais, moços inexperientes e precipitados que, à mais leve quei­
xa de um escravo ou de um ingênuo, por ter recebido uma sim­
ples e leve correção (indispensável a tais indivíduos para man­
ter a disciplina na fazenda), fazem vir à sua presença os senho­
res, os repreendem e maltratam, muitas vezes, diante dos in­
justos queixosos, e assim os deixam desmoralizados. É preciso
que os atos do procedimento dos senhores para com seus escra­
vos e ingênuos sejam unicamente sujeitos aos conhecimentos e
fiscalização dos juizes de direito que, como autoridades mais
práticas e de mais critério e experiência, não exporão ao des­
prestígio e à desmoralização os senhores lavradores”. Em 1888,
o chefe de polícia de São Paulo condenava os magistrados por
constituírem fator de desordem na sociedade: “E o magistrado a
principal garantia da ordem, mas também se torna um perigo
quando esposa interesses alheios à causa da justiça como está
acontecendo, perdendo o seu prestígio e força nas sociedades
bem constituídas” (apud Costa, E., ibid.:312; 340).
Os proprietários de escravos também reagiram com violência
às decisões desfavoráveis. Em quase todos os municípios cafeei­
ros, formaram-se associações para defender os seus direitos e
interesses, os Clubes da Lavoura. Essas associações constituí­
ram capital para a manutenção de milícias que os protegessem
da ação dos abolicionistas. “Congregados em bandos armados,
sempre sob a direção dos mais poderosos, os fazendeiros não se
acanhavam em ameaçar pelas armas, advogados, juizes e dele­
gados, que não demonstrassem identificação estrita com seus
interesses.” Em 1884, Cristiano Otôni denunciava no Senado
essas entidades, que cerceavam as liberdades civis, expulsando
dos municípios os advogados que requeressem a libertação de
escravos e os juizes que lhes dessem sentenças favoráveis. Es­
ses casos aconteceram em diversas localidades: em Brotas, Ara-
raquara, Ribeirão Preto, Botucatu e São João da Boa Vista, na
província de São Paulo; em Itaboraí e em Santa Maria Madale­
na, no Rio de Janeiro. Em outras cidades, os proprietários de­
mandaram ao governo central a remoção de juizes que davam
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 139

sentenças contrárias aos seus interesses (Machado, ibid.:75;


Santos, R, ibid.:96; Moraes, ibid.:364, n. 116; 370, n. 155).
A tensão na relação entre magistrados e senhores de escra­
vos esclarece a relação entre o mecanismo das remoções e a re­
sistência local à eficácia da lei imperial, que estudamos na se­
ção anterior. A tensão também permite explicar a distribuição
dos magistrados nas diversas regiões do Império segundo sua
orientação mais ou menos favorável ao abolicionismo. Emília V.
da Costa afirma que houve crisscente penetração da justiça, e
orientação dos magistrados favorável à abolição nos anos finais
da escravidão. Porém, esse processo parece não ter sido homo­
gêneo nas diversas localidades, pois estudos sobre o movimento
abolicionista na região cafeeira relatam também muitos casos
de apoio dos magistrados aos proprietários de escravos, desqua­
lificando crimes, censurando informações, reprimindo escravos,
perseguindo abolicionistas etc. (Machado, ibid.). A presença de
magistrados favoráveis aos interesses escravistas nas áreas ca-
feeiras poderia ser analisada como parte das relações estratégi­
cas entre o governo central e os fazendeiros. Para evitar confli­
tos com estes, o governo colocava nessas áreas magistrados fa­
voráveis aos interesses escravistas e removia para regiões com
menor população escrava aqueles que decidiam a favor da liber­
dade dos escravos. Isso ocorreu com Antônio J. de Macedo Soa­
res e outros magistrados, “deportados” pelo governo para “co­
marcas longínquas” em virtude de suas decisões (artigo publi­
cado na Gazeta de Notícias e reproduzido no Jornal do Com-
mercio, de 15/8/1905, p. 6, por ocasião do falecimento do Minis­
tro Macedo Soares; ver também Soares, ibid., e Lago, ibid.:154).

***

Qual a importância das decisões judiciais favoráveis à liberda­


de dos escravos? Se consideramos apenas as ações de liberdade,
poderia ser considerada numericamente reduzida. Em São Paulo,
no ano de 1886 foram alforriados menos de cem escravos por
esse meio pelo Tribunal de Justiça. Esse número poderia pare­
cer à primeira vista irrelevante, diante do total de escravos no
país, que eram mais de setecentos mil. Porém, pela Lei do Ven­
tre Livre havia apelação ao Tribunal de Justiça apenas das de­
cisões contrárias à liberdade e então o número não. reflete as
140 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

decisões favoráveis dos juizes de primeira instância. A impor­


tância das decisões judiciais favoráveis à liberdade seria maior
se fossem incluídas outras formas de concessão judicial de car­
tas de liberdade. O advogado João Marques afirmava que, até a
data da lei de 13 de maio, a Relação da Corte havia concedido
mais de duzentos mil cartas de liberdade em virtude da filiação
desconhecida nas matrículas e só o Barão de S. Domingos, juiz
em Santos, teria mandado, por simples portaria, dar baixa na
matrícula de 15.000 escravos, por esse motivo (Nequete, 1988:58;
Moraes, ibid.:370). Esses números devem porém ser verifica­
dos, pois fazem parte da própria memória do movimento aboli­
cionista. Além disso, a situação em Santos era excepcional e então
esse número não pode ser estendido ao resto do país. Uma res­
posta ã questão só pode então ser dada com base em pesquisas
mais amplas.
A importância das libertações judiciais de escravos pode ser
considerada também do ponto de vista dos seus efeitos difusos
pois, para os senhores, essas decisões judiciais significavam a
perda da garantia estatal da propriedade dos escravos. Desse
ponto de vista, a ação judicial é um aspecto relevante no proces­
so final de abolição da escravidão no Brasil. Durante a década
de 1880, a ação legal e ilegal dos abolicionistas tornava a escra­
vidão impraticável nas cidades. Nas fazendas, muitos proprie­
tários tentaram contornar a situação, concedendo manumissões
com cláusulas de prestação de serviços. Porém, os libertos aban­
donavam as fazendas sem cumprir as obrigações e os proprie­
tários não podiam demandar a reescravização; o único recurso
disponível era a ação judicial de pagamento pelo liberto de seu
valor, com resultado tardio, incerto e que não cumpria o objetivo
principal da manumissão, fixar os libertos nas fazendas. A au­
sência de garantia estatal aos proprietários de escravos se tor­
nava ainda mais grave em virtude da situação de pânico coloca­
da pela constante ameaça de levante dos escravos, multiplica­
ção das insurreições, crimes e fugas de escravos, às quais se
somava evidente insuficiência dos meios de repressão disponí­
veis (Machado, ibid.:156).
Porém, a importância da atuação dos magistrados a favor da
liberdade de escravos é maior para a própria história do Poder
Judiciário, da prática judicial e dos direitos civis no Brasil. O
significado da mudança de posição dos magistrados nessa ques­
PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA | 141

tão pode ser indicada com paralelo com a do imperador, do qual


aliás eles eram os representantes. Os senhores acusavam o im­
perador de ter abusado de seu poder ao tomar a iniciativa da
emancipação dos escravos. Como afirmava José de Alencar, em
1871, ao tomar a iniciativa emancipacionista, o imperador de­
caíra de seu papel constitucional; o poder imperial ultrapassava
a sua esfera de ação, de árbitro nos conflitos políticos, para in­
tervir nas relações sociais. O imperador se tornava parte, inte­
ressado em dirigir a sociedade em determinada direção. Po
mesmo modo, para os proprietários, os magistrados favoráveis
à abolição não atuariam mais como árbitros dos conflitos civis
entre eles, não partilhavam mais com eles do objetivo de garan­
tir a estabilidade da ordem social.
Para os senhores, os magistrados tornavam-se parciais, por­
que, ao conceder a liberdade a escravos, as suas decisões contra­
riavam os seus interesses imediatos e ajudavam a precipitar a
extinção da escravidão.
Nos processos em que era julgado o direito de escravos à li­
berdade torna-se manifesta a oposição entre parte dos mem­
bros do Poder Judicial e os interesses de parte das classes domi­
nantes brasileiras. Nas decisões favoráveis à liberdade dos es­
cravos, os magistrados afirmaram a sua autonomia de julga­
mento em relação aos interesses daquelas classes. Os magistra­
dos deixavam de considerar os interesses, as pessoas envolvi­
das, as circunstâncias especiais e as conseqüências particulares
de cada caso. A sua prática judicial dissociava-se do modelo pru-
dencial; eles passavam a utilizar a interpretação formal e siste­
mática das leis, fundando-a no princípio da liberdade indivi­
dual, com o objetivo de expandir a efetividade da ordem legal.
Por isso, as suas decisões representam importante momento para
a reflexão sobre o problema da extensão da mediação judicial
dos conflitos entre proprietários e não-proprietários no Brasil.
As decisões dos magistrados incorporavam os escravos à socie­
dade civil, segundo a lei imperial. A efetividade da ordem legal
era estendida aos que dela estavam até então excluídos, inci­
dindo sobre as relações sociais do latifúndio escravista. Ao mes­
mo tempo, as resistências opostas pelos senhores à ação desses
magistrados, os conflitos que a envolveram e os mecanismos de
controle que se desencadearam mostram os efeitos e os limites
sociais desse processo.
142 | PODER JUDICIAL NA CRISE DA SOCIEDADE ESCRAVISTA

A nossa formação social, em que permaneceram a estrutura


social e as relações sociais baseadas no latifúndio agroexporta-
dor, teve efeitos permanentes sobre a forma de organização do
Poder Judicial, sobre a prática judicial e, mais genericamente,
sobre os direitos civis dos não-proprietários no Brasil. As rela­
ções sociais hierárquicas daquela sociedade impunham a mobi­
lidade dos magistrados e, mais genericamente, da própria lei
civil, imperial, ou republicana. Porque, se o fundamento do po­
der dos latifundiários era o monopólio da terra e o controle das
oportunidades econômicas e sociais, o poder exercido por eles
sobre os não-proprietários havia de ser incontrastado, como con­
dição da sua própria continuidade. A presença nas localidades
de agentes judiciais cuja ação pudesse contrariar esse domínio
em nome da lei teria, se não efeitos reais, pelo menos o efeito
simbólico de desafiar “pelo alto” o poder absoluto de uns sobre
outros, sujeitando-os a uma lei comum. Ora, isto, para os pro­
prietários, era inaceitável: ver-se submetidos à mesma lei que
seus subordinados, seus escravos, atuais ou antigos. Assim a
organização política incorporava mecanismos, como a remoção
de juizes, que permitiam modular a eficácia local da lei segundo
as resistências que lhe fossem opostas.
Temos aqui o sentido sociológico das mudanças e continuida-
des do Poder Judicial na passagem do Império para a Repúbli­
ca. Como veremos nos próximos capítulos, a organização consti­
tucional da República resultou em importantes mudanças na
organização e no papel político do Poder Judicial. Porém, do ponto
de vista social manteve-se no novo regime a incidência limitada
da mediação judicial nos conflitos entre proprietários e não-pro­
prietários. Permaneceu pois restrita a eficácia das garantias
judiciais aos direitos civis, formalmente enunciados pela. lei,
agora republicana.
Capítulo 3
O PO DER JU D IC IÁ R IO N A O R G A N IZ A Ç Ã O
C O N S T IT U C IO N A L DA R EP Ú B LIC A

Analisamos neste capítulo as propostas a respeito do Poder Ju­


diciário defendidas durante o processo de organização constitu­
cional da República, iniciado pelo Governo Provisório e encerra­
do, quanto à União, com a promulgação da Constituição Fede­
ral de 24 de fevereiro de 1891. Nosso objetivo é estudar a atua­
ção dos diversos grupos políticos em relação à adoção do presi­
dencialismo, da divisão de poderes entre a União e os estados e
o papel político atribuído por eles à magistratura. Fazemos ini­
cialmente 1) uma análise das diferentes propostas de organiza­
ção da República, com base em uma interpretação do significa­
do político da ruptura da ordem política imperial, criada pela
Proclamação. Na seção seguinte, 2) fazemos a comparação dos
projetos da Comissão dos Cinco, do Governo Provisório e do tex­
to definitivo da Constituição, no que se refere às relações entre
o Poder Judiciário e os demais poderes da União, com o objetivo
de verificar em que momento foi proposto o presidencialismo de
tipo norte-americano como sistema de governo, e a posição dos
diversos agentes perante ele. Em seguida, 3) estudamos os mes­
mos projetos de Constituição a respeito da divisão dos poderes
entre a União e os estados quanto à organização da magistra­
tura e da legislação civil, comercial, criminal e processual. Por
fim, 4) apresentamos as discussões na Constituinte sobre o Po­
der Judiciário em relação a estes dois temas, presidencialismo e
federalismo, com objetivo de mostrar a oposição dos constituin­
tes à magistratura imperial e o papel político que defendiam
para os magistrados no novo regime.
O nosso argumento neste capítulo é o seguinte: o sistema de
143
144 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZAÇÃO DA REPÚBLICA

governo presidencialista de tipo norte-americano foi adotado na


Constituição a partir da ação de Rui Barbosa, que atribuía ao
Poder Judiciário federal, em especial ao STF, não só o papel de
árbitro da federação, mas sobretudo o papel de defensor dos di­
reitos e garantias individuais. Porém, o debate a respeito do
Poder Judiciário em todo o processo de organização constitucio­
nal centrou-se no nível de um pacto político entre as unidades
constitutiva da nova ordem — os estados. O problema central
nesse debate era a divisão do controle sobre a magistratura en­
tre a União e os estados. Isso se verificou na ação de Campos
Sales e outros republicanos (paulistas, gaúchos, paraenses), que
procuraram restringir ao máximo os poderes da União em ge­
ral, e também as atribuições do Poder Judiciário federal e as
restrições constitucionais à organização da magistratura esta­
dual. A reação de militares, magistrados, burocratas e políticos
do antigo regime à descentralização da organização judiciária
enfatizou a defesa dos interesses corporativos dos magistrados.
Na Constituinte, a discussão entre os defensores da unidade e
da dualidade judiciária foi feita em função dos limites do pacto
político federativo. Assim, na organização constitucional da Re­
pública, o Poder Judiciário federal não foi considerado do ponto
de vista do seu papel de guardião das liberdades individuais
declaradas na Constituição. Quanto ao problema do Poder Judi­
ciário estadual, foi concedida total autonomia de organização
aos estados. Nesse processo, foi deslocada a ênfase dada pelos
liberais do Império e, mais tarde, por Rui Barbosa, ao estabele­
cimento de um Judiciário independente que servisse de garan­
tia aos direitos individuais.

I . A Proclam ação da República com o ruptura


da ordem política imperial

O advento da República resultou menos da força política or­


ganizada dos republicanos do que das tensões e conflitos cria­
dos sob a ordem política imperial. A República era mais “um
fator de convergências não inteiramente racionalizadas”, do que
o objeto de um programa político defendido por grupos e parti­
dos já constituídos plenamente (Andrade, 1981:32-3). Reivindi­
cações federalistas, questão religiosa, questão militar e as ten­
sões criadas pela abolição da escravidão são fatores comumente
O PODER JUDICIÁRIO NA O RGAN IZAÇÃO DA REPÚBLICA | 145

apontados pelos observadores da época e pelos estudiosos como


as causas da Proclamação1. Esses fatores se conjugavam à rejei­
ção ao terceiro reinado, que caberia a uma princesa ultra-reli-
giosa e a um príncipe estrangeiro. Podemos sintetizar essas ten­
sões e conflitos com a imagem de uma mudança de polaridade
do imperador na ordem política imperial, nas suas últimas dé­
cadas. Aposição central e superior do imperador2, que, na cons­
tituição da ordem política imperial, fora ponto de referência para
o movimento centrípeto dos outros agentes, passou a ser para
estes uma espécie de ponto comum de repulsão. Os agentes po­
líticos começaram a marcar suas posições com as suas diferen­
ças específicas a algum atributo da ordem política imperial. Es­
sas forças não eram especificamente republicanas, uma vez que,
em geral, elas se opunham a aspectos limitados da situação po­
lítica e social. Também não se tratava exclusivamente de forças
sociais progressistas ou que pudessem ser unificadas sob esse
aspecto. Tratava-se sobretudo de forças que se desenvolviam
em sentidos diferentes, marcando de forma mais acentuada a
sua diferenciação em relação ao centro da ordem política. Os
diversos agentes expunham dessa maneira os limites nos quais
estava constituída a ordem política imperial, à medida que afir­

1 A bibliografia a respeito da Proclamação da República é bastante


ampla. Ver, por exemplo Carone, 1983; Bello, 1983; Lapa (org.),
1990.
2 “O imperador ocupava uma posição de autoridade (a) de natureza
pessoal, de legitimação pré-social, em cujo exercício supunha-se um
elemento de discrição: o Poder Moderador; (b) única, visto que tan­
to os demais poderes do Estado como os governos provinciais eram
emanações suas; (c) exterior ao sistema político, porquanto inaces­
sível a todos os não-herdeiros; (d) uniformizadora, posto que ina­
cessível ao entrechoque de interesses diversos; (e) abstratamente
disciplinadora, na medida em que disciplinava em nome de si pró­
pria e não de algum princípio que a transcendesse, tais como a
liberdade, o progresso, a igualdade; (f) aristocrática, porque o atri­
buto essencial do governo era a honra pessoal. Ao assinalar a posi­
ção do Rei, o ordenamento Imperial fixava a posição dos súditos:
estes, por definirem-se como tal face a autoridade, não se diferen­
ciavam por grupos, classes ou regiões e podiam, sem romper as
regras do jogo, dividir-se nacional e ritualisticamente, entre Libe­
rais e Conservadores” (Andrade, ibid.: 34).
146 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RGAN IZAÇÃO DA REPÚBLICA

mavam posições que o sistema político existente não podia su­


portar. À medida que esses limites eram expostos, a federação e
a república tornavam-se as referências comuns que lhes permi­
tiam encontrar alguma unificação. No entanto, a “aspiração” pela
federação e pela república não teve a correspondente busca de
uma ação coletiva entre os diversos grupos, nem de uma defini­
ção mais concreta dos atributos da nova ordem. Essa análise
poderia ser aplicada aos fazendeiros decepcionados com a Abo­
lição, aos republicanos, aos militares e mesmo aos padres envol­
vidos na “questão religiosa”.
A ordem política imperial encontrou também seus limites
pelos problemas com os quais foi confrontada: o federalismo e
a abolição da escravidão. Esses problemas dividiram de alto a
baixo os agentes do sistema político do Império, cujas organi­
zações partidárias perdiam importância como referência polí­
tica. Manifestavam-se então clivagens regionais, interesses
setoriais e corporativos etc. Os dois partidos políticos imperiais
dividiram-se profundamente, formando-se novas alianças e ma­
nifestando-se a necessidade de uma reordenação institucional
do país. Mas a reordenação parecia impossível, pois com ela
havia o risco de degelo da situação que garantia a ordem social
existente, a qual sustentava a estabilidade para todas as for­
ças políticas. À medida que o problema da abolição da escravi­
dão foi resolvido, chegava o momento da reforma institucio­
nal. O veto ao federalismo posto pelo centro político do Impé­
rio, deixava os grupos políticos e as forças sociais ainda mais
desobrigados em relação à ordem política estabelecida. Sob esse
aspecto, a convenção do Partido Liberal em junho de 1889 é
simbólica. A rejeição pela maioria do partido das propostas fe-
deralistas levou muitos de seus membros a abandoná-lo, entre
os quais Rui Barbosa, e a aderir ao Partido Republicano. Em
suma, as mudanças na estrutura econômica, social e política
do Império, ocorridas nos últimos vinte anos punham em xe­
que a ordem imperial-escravista brasileira. A abolição da es­
cravidão e a República eram duas mudanças associadas a um
processo geral de diferenciação da sociedade e da política bra­
sileiras. Na década de 1890, o problema para as forças políti­
cas seria oposto, o de encontrar as formas concretas pelas quais
este aglomerado em expansão pudesse reencontrar alguma uni­
dade.
O PODER JUDICIÁRIO NA O RGAN IZAÇÃO DA REPÚBLICA | 147

Com a Proclamação da República, era dissolvido o sistema de


referências da ordem política imperial. Vimos acima que, nessa
ordem, o imperador exercia quatro funções: ele representava
pelo princípio monárquico-hereditário a unidade das diversas
partes da sociedade; na sua relação com os representantes polí­
ticos, ele representava o interesse geral, em confronto com os
interesses particulares da sociedade; como árbitro, ele servia de
mediador dos conflitos entre os diferentes grupos; enfim, a sua
presença constituía uma caução da continuidade do jogo e, en­
tão, da possibilidade de uma alteração futura das posições no
sistema político. A República era o princípio de uma nova or­
dem e o processo político entre a organização constitucional, em
1889-91, e a estabilização em 1898-1900, com a Política dos Go­
vernadores, não envolvia apenas a luta política entre os diver­
sos grupos políticos pelas posições de poder no novo regime, mas
também a disputa do próprio sistema de referências da ordem
política republicana, logo o modo de articulação entre as organi­
zações, os agentes e as regras do jogo político.

***

Os diversos grupos políticos, dentro e fora do Governo Provisó­


rio, defendiam estratégias diferentes para a adoção da nova
Constituição. O Apostolado Positivista encaminhou uma repre­
sentação a Deodoro, sugerindo que ele se proclamasse ditador e
outorgasse uma Constituição ditatorial positivista. O ministro
da Justiça, Campos Sales, também defendia a outorga da Cons­
tituição, mas baseada no projeto do Governo Provisório, de or­
ganização presidencialista e federativa. Rui Barbosa defendia o
plebiscito e Quintino Bocaiúva, a convocação de uma Assem­
bléia Constituinte. Essa última proposta foi a vencedora no Go­
verno Provisório e as discussões se concentraram na forma de
organização da República.
Os militares ligados a Deodoro e os burocratas pretendiam
limitar o alcance do federalismo, defendendo a centralização dos
poderes e a organização nacional da burocracia. Líderes políti­
cos dos estados menores ou em decadência econômica, antigos
liberais e conservadores, e também alguns republicanos, defen­
diam uma organização federal, na qual o governo central man­
tivesse alguns poderes. Por fim, os republicanos históricos, os
148 | O PODER JUDICIÁRIO NA O R G AN IZA Ç Ã O DA REPÚBLICA

liberais e os conservadores dos estados maiores propunham uma


organização ultrafederalista, na qual seria deixado à União ape­
nas a renda “estritamente necessária para viver”, reduzindo-se
suas atribuições às relações internacionais, à defesa externa e
arbitramento das questões entre os estados. Assim foi proposto
que as forças militares da União deveriam ter a autorização do
governador para estacionarem no território do estado; que o co­
mandante local das forças militares da União seria afastado com
base em requisição do governador; que os estados tivessem o
poder de emitir papel-moeda etc. (Roure, 1979, v. 1:1-33).
O sistema de governo a ser adotado não era consensual en­
tre os diversos grupos, nem mesmo entre os republicanos his­
tóricos. Além da presença recente das instituições do regime
imperial, havia a influência do positivismo e outros defendiam
o parlamentarismo. O grupo ligado a Deodoro defendia um sis­
tema de governo muito semelhante à do Império, um parla­
mentarismo no qual o chefe de estado tinha poder de destitui­
ção do ministério e dissolução da Câmara (Barbosa, 1946:374;
Senna, 1981:3-9). A maioria dos republicanos era presidencia­
lista, porque se considerava que era o único sistema de gover­
no compatível com a federação. Confunde-se a defesa por di­
versos grupos de dispositivos presidencialistas, como o man­
dato presidencial por tempo determinado e a irresponsabilida­
de dos ministros perante o parlamento, com a sua preferência
por um sistema de governo de “tipo norte-americano”. Porém,
o que aparece em diversas manifestações da época, especial­
mente nos projetos de Constituição que analisaremos neste
capítulo, é a adoção de formas combinadas de presidencialis­
mo e parlamentarismo, que estabeleciam diferentes graus de
distribuição de poderes entre o Congresso e o presidente da
República. O que era comum nessas propostas era a forma pela
qual representavam a ordem política republicana, que contrasta
com a forma de representação da ordem política do presiden­
cialismo norte-americano.
O ditador, proposto pelos positivistas, o presidente da Repú­
blica com funções “imperiais”, proposto pelo grupo de Deodoro
ou o Congresso com funções de controle sobre os atos do presi­
dente da República e dos ministros, defendido por outros agen­
tes, são diferentes formas pelas quais é delegado o exercício da
vontade geral. Essas propostas têm em comum a representação
O PODER JUDICIÁRIO NA O R G A N IZA Ç Ã O DA REPÚBLICA | 149

da ordem política como o predomínio da vontade geral, repre­


sentada por um ou muitos, sobre todos. Nessa forma de repre­
sentação da ordem política, os conflitos são em última instância
decididos por uma manifestação de vontade, seja do ditador, seja
do parlamento. Identificada com a vontade geral, sendo portan­
to a manifestação legítima da soberania, a vontade da última
instância (isto é, a pessoa do presidente ou o Congresso) é a
garantia da unidade da ordem política.
O presidencialismo norte-americano não se caracteriza ape­
nas pela separação e independência dos poderes políticos ou pela
organização federativa. Nessa forma de representação da or­
dem política, a unidade da ordem política é dada pela própria
Constituição, como manifestação da vontade originária do povo.
Os poderes políticos constituídos têm suas atribuições claramente
definidas e delimitadas pela Constituição; todo ato que ultra­
passar esses limites é nulo, e os cidadãos não só podem como até
devem desobedecê-lo, porque destituído de validade. Os confli­
tos a respeito desses limites são resolvidos, por uma delegação
da Constituição, pelo Poder Judiciário federal. A última instân­
cia é a Suprema Corte, cuja atribuição mais importante é o po­
der de declarar a inconstitucionalidade das leis. Assim a garantia
da unidade da ordem política é a própria Constituição, tal como
interpretada pela Suprema Corte. O exercício da última instân­
cia por decisão judicial não é mais do que a atualização de um
dispositivo constitucional3. E aqui está a diferença característi­
ca da forma de representação da ordem política no presidencia­
lismo norte-americano: ela não é identificada à vontade geral,
pois a resolução dos conflitos na última instância é representa­
da por um enunciado de tipo legal. Nesse tipo de ordem política,

3 Daqui decorrem algumas características do controle da consti-


tucionalidade pela Suprema Corte: a sua manifestação só ocorre se
provocada pelo interessado, mediante processo judicial regular e a
decisão se manifesta apenas para o caso particular sob julgamento.
Por outro lado, a declaração de inconstitucionalidade de lei ou ato
do Executivo não é justificada pelos ministros da Suprema Corte
como um poder, mas antes como um dever, o qual decorre da sua
obrigação como juizes de aplicar as leis aos casos ocorrentes e por­
tanto o de verificar a sua validade em relação às leis hierarquica­
mente superiores (Bryce, 1900,1:328-72, esp. p. 360).
ISO I O PODER JUDICIÁRIO NA O R G AN IZA Ç Ã O DA REPÚBLICA

a esfera da política é então limitada por normas estáveis e gené­


ricas, as quais devem ser aplicadas sempre da mesma forma por
um órgão de tipo judicial4.
Essa diferença na forma de representação da ordem política
indica as seguintes questões: como foi adotado no processo de
organização da República o presidencialismo do tipo norte-ame­
ricano? Como este sistema de governo foi interpretado pelos
diversos agentes? Analisamos estas questões nas seções se­
guintes.

2. A posição do Judiciário nos poderes da União

Nesta seção analisamos os projetos da Comissão dos Cinco,


do Governo Provisório e o texto definitivo da Constituição, no
que se refere às relações entre o Poder Judiciário e os demais
poderes da União. A Comissão dos Cinco foi nomeada pelo Go­
verno Provisório em 3/12/1889 para elaborar um projeto de Cons­
tituição a ser apresentado à Constituinte. Saldanha Marinho
era o presidente e os membros eram Américo Brasiliense, Fran­
cisco Rangel Pestana, Antônio Luís dos Santos Werneck e José
Antônio Pedreira de Magalhães Castro, todos antigos republi­
canos. A Comissão deliberou que cada um dos membros apre­
sentaria um projeto, mas Rangel Pestana e Santos Werneck

4 James Bryce afirmava que o controle da constitucionalidade pelos


tribunais adotada pelo presidencialismo norte-americano não era
uma característica “própria e essencial do governo federal”. “La
preuve que ces fonctions ne sont pas propres à une fédération est
que la distinction des lois en lois fondamentales et lois inférieures
peut également exister dans un gouvernement unifié, c’est qu’elle
a, en fait, existé dans chacune des colonies jusqu’en 1776, et dans
chacun des treize Etats de 1776 à 1789, et, enfin, qu’elle existe de
nos jours dans chacun des quarante-cinq Etats. Elles ne sont pas
davantage de l’essence de la fédération dans laquelle la législature
centrale ou nationale serait théoriquement souveraine dans le mê­
me sens et avec la même amplitude que le Parlement britannique.”
Na Suíça, a corte federal não era a única que podia declarar a in-
constitucionalidade de leis cantonais; ao Conselho Federal, espécie
de gabinete executivo da Confederação, e à legislatura federal ca­
bia também esta atribuição (1900,1:370-1).
O PODER JUDICIÁRIO NA O R G AN IZA Ç Ã O DA REPÚBLICA | 151

assinaram conjuntamente o seu, resultando três projetos. A Co­


missão entregou o seu projeto definitivo ao Governo Provisório
em 30/5/1889. Alguns ministros do Governo Provisório revi­
saram o projeto apresentado pela Comissão e discutiram a no­
va versão com Deodoro. Daí resultou o chamado projeto do Go­
verno Provisório, publicado pelo Decreto n.° 510, de 22/6/1890,
revisado em alguns pontos pelo Decreto 914-A, de 23/10/1890
(Roure, id., v. 1:1-5; os projetos estão publicados em Ribei­
ro, 1917).
As diferenças entre o projeto do Governo Provisório e os de­
mais foram apontadas por aqueles que afirmam que foi Rui
Barbosa o “verdadeiro autor” da Constituição. Segundo eles, Rui
Barbosa reelaborou completamente o projeto da Comissão dos
Cinco, discutindo a sua proposta com alguns ministros e defen­
dendo-a perante Deodoro, que discordava do projeto em muitos
pontos. Essa interpretação se baseia em discursos do próprio
Rui Barbosa, além da sua autoridade intelectual, pois eram pou­
cos os que conheciam com alguma profundidade as instituições
norte-americanas. “Campos Sales, Aristides Lobo, Quintino, —
eram franceses de 89, com todo o arsenal da soberania popular
e superstições equivalentes. Deodoro, Floriano, Wandenkolk, o
próprio Benjamim, eram leigos na matéria. Demétrio Ribeiro,
dominado pelo positivismo, muito moço, não tinha autoridade
no governo. Glicério, Cesário Alvim, chegados depois, eram so­
bretudo temperamentos partidários” (Homero Pires, Prefácio,
em Barbosa, 1932:VTII-IX; ver, também, Pedro Calmon, Prefá­
cio, em Barbosa, 1946; sobre o pensamento político de Rui Bar­
bosa, ver Rocha, 1988).
A posição contrária afirma que os membros do Governo Pro­
visório reuniram-se na casa de Rui Barbosa porque a sua locali­
zação favorecia o sigilo das reuniões, que ocorriam sem o conhe­
cimento de Deodoro. O objetivo das reuniões era modificar o
projeto da Comissão dos Cinco, sendo que as modificações te­
riam sido limitadas a dois aspectos essenciais (que os defensores
desta posição não especificam) e a alterações formais de reda­
ção e divisão dos artigos e parágrafos. Rui Barbosa teria sido
apenas o relator do grupo. Essa posição é defendida por aqueles
que ressaltam o papel de Campos Sales na elaboração do proje­
to de Constituição do Governo Provisório, uma vez que ele in­
terveio diretamente na elaboração do projeto final da Comissão
152 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZAÇÃO DA REPÚBLICA

dos Cinco, participando das reuniões e apresentando propostas.


O próprio Campos Sales afirmou que a sua intervenção nas
reuniões da Comissão dos Cinco teve por objetivo salvar “de
um terrível naufrágio os princípios fundamentais da federação,
postos em iminente risco pelas tendências centralistas e con­
servadoras” de Américo Brasiliense (artigo de 1/4/1891, apud
Debes, 1978, 1:319). Comparando-se os projetos dos membros
da Comissão com o projeto definitivo aparecem algumas di­
ferenças importantes, como a discriminação das rendas entre
a União e os estados e as disposições a respeito do Poder Judi­
ciário.
Com base na comparação dos diversos projetos de Constitui­
ção, verifica-se que os dispositivos característicos do presiden­
cialismo norte-americano somente aparecem no projeto do Go­
verno Provisório, isto é, após a intervenção de Rui Barbosa no
processo. A atuação de Campos Sales foi especialmente no sen­
tido do federalismo, para garantir aos estados o controle sobre a
magistratura (seção 3). Essa atuação, e da maioria dos republi­
canos históricos, é compreensível, uma vez que a magistratura
existente era identificada ao governo centralizado do Império,
ao qual justamente os republicanos se opunham. Para esses,
todo o poder que não fosse de eleição popular, ou havia de ser
delegado, ou seria uma usurpação. Como a eleição de todos os
magistrados de primeira instância era geralmente excluída,
propunha-se que sua nomeação fosse feita pelos governos elei­
tos dos estados.

***

Na ordem política imperial, como vimos no Capítulo 1, a última


instância de resolução dos conflitos era simbolicamente identi­
ficada a uma faculdade pessoal do imperador. Porém, ao contrá­
rio do Império, a ordem política republicana não era, em prin­
cípio, representada por ninguém: o poder político deveria ser
exercido em termos impessoais. Assim tornava-se necessário
definir qual seria a última instância para a resolução dos confli­
tos políticos e privados, de que modo esta última instância seria
composta e como seriam tomadas as suas decisões. Essa ques­
tão se apresenta no tema do poder de interpretar a Constitui­
ção, pois é pelo exercício dessa atribuição que é fixado de modo
O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZAÇÃO DA REPÚBLICA | 153

genérico o significado da Constituição, e a relação desta com as


leis e as situações concretas0.
No projeto de Américo Brasiliense cabia à Corte Suprema de
Justiça6 as decisões de questões levantadas sobre a execução da
Constituição e das leis federais (48,1, c)7. A interpretação por via
de autoridade cabia ao Legislativo (89). A Corte Suprema de Jus­
tiça seria composta de um representante por estado, nomeado
pelas legislaturas estaduais, dentre juizes e jurisconsultos (46).
O projeto de Santos Werneck e Rangel Pestana atribuía tam­
bém ao Supremo Tribunal de Justiça a interpretação dos casos
em espécie, apenas (6.°, 65, 135). Ao Congresso cabia o reconhe­
cimento das leis estaduais que adaptassem as leis federais às
condições locais (64) e a atribuição de velar na guarda da Cons­
tituição e das leis (111, XXVII). Esse dispositivo era inspirado
no art. 15, § 9.° da Constituição do Império. O seu sentido era
dar ao poder que faz as leis “o direito de inspecionar, de exami­
nar se elas são ou não fielmente observadas”. Esse direito de
inspeção serviria como “um corretivo valioso e indispensável
contra os abusos ministeriais”. A Assembléia-Geral deveria diri­
gir a sua vigilância principalmente para verificar se o Poder
Executivo se encerra “em sua órbita”, sem invadir o “território
constitucional” dos outros poderes. Outro objetivo dessa norma
seria dar à assembléia-geral o poder de “examinar e reconhecer
se o governo tem ou não exercido bem, se tem empregado no
sentido dos interesses públicos o poder discricionário que as leis
lhe confiam” (Bueno, ibid.: 105-6). O direito de inspeção é um
dispositivo típico do governo parlamentarista, pois no presiden­
cialismo a inspeção do parlamento sobre os atos do Executivo
implicaria a confusão de atribuições e a subordinação de um
pelo outro. A inspeção somente pode ser exercida pelo controle

5 A questão também se coloca na competência para julgar os confli­


tos de jurisdição. Esta, porém, é uma questão derivada.
6 Foram propostas diversas denominações para o tribunal supremo,
Corte Suprema de Justiça, Supremo Tribunal de Justiça. Ele só é
de- nominado Supremo Tribunal Federal por proposta de Rui Bar­
bosa.
7 Os números entre parênteses referem-se ao artigo, inciso, letra do
projeto.
154 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA

judicial da constitucionalidade dos atos do Executivo ou por acu­


sação nos crimes de responsabilidade. Os membros do Supremo
Tribunal de Justiça seriam eleitos pelo Senado Federal (99, §
1.°), não sendo estabelecidas restrições à nomeação nem ao nú­
mero de membros.
O projeto de Magalhães Castro dava ao Supremo Tribunal de
Justiça o poder de interpretar a Constituição e as leis, não só
para os casos contenciosos. O STJ serviria também como órgão
consultivo para o presidente da República sobre a constitucio­
nalidade de projetos de lei encaminhados pelo Congresso para
sanção presidencial. Os membros do STJ seriam eleitos pelo Con­
gresso, votando um senador e um deputado por estado em um
nome escolhido entre os desembargadores e os cidadãos notá­
veis por seus talentos e virtudes na advocacia, na política ou no
magistério público. Dois terços dos lugares do STJ caberiam aos
desembargadores (95).
No projeto final da Comissão dos Cinco caberia ao STJ ape­
nas a interpretação da Constituição e das leis nos casos concre­
tos. Ao Legislativo caberia “velar na guarda da Constituição e
das leis federais” (33, § 17) e a interpretação das leis por via de
autoridade (108). O STJ seria composto de quinze membros, no­
meados pelo Senado dentre os trinta juizes federais mais anti­
gos e jurisconsultos de provada ilustração. Aos juizes eram re­
servados dois terços dos lugares (64). Essa distribuição de
competências e forma de nomeação dos membros dos tribunais
superiores já constava do projeto elaborado em 1873 pela Comis­
são Permanente do Congresso do Partido Republicano de São
Paulo. Dessa Comissão faziam parte, entre outros, Américo Bra-
siliense, que assinara o projeto “com restrições sobre a organiza­
ção de poderes” e Campos Sales, que o assinara “com pequenas
restrições” (v. Brasiliense, 1878:150, os dispositivos do projeto são
o art. 20 e seus dois primeiros parágrafos, 22, segundo parágrafo
e 32).
Pelo confronto dos projetos nota-se que o papel atribuído ao
STJ na interpretação das leis era típico do parlamentarismo, no
qual a assembléia é identificada à soberania nacional e, portan­
to, não reconhece poder superior à sua vontade. Esse é o sentido
da interpretação autêntica: aos juizes, como simples delegados
da representação nacional, cabe decidir apenas a aplicação da
lei aos casos concretos, sendo-lhes vedado deixar de aplicar al­
O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA | I 55

guma lei do parlamento. O mesmo acontece com a forma de no­


meação: o exercício da jurisdição é uma delegação da soberania,
e por isso os membros do STJ seriam eleitos pelo Senado Fede­
ral ou pelas legislaturas estaduais. As restrições ã nomeação e
ao número de lugares a serem ocupados por juizes foram in­
cluídas por sugestão de Magalhães Castro.
O projeto de Magalhães Castro se diferencia dos demais, pois
dá ao STJ a competência privativa para a interpretação da Cons­
tituição. Porém, nesse projeto são também atribuídas ao STJ
funções consultivas, o que revela a inspiração do projeto no pro­
grama liberal-radical do Império, antes que a orientação presi­
dencialista. Isso é confirmado por outros dispositivos do seu pro­
jeto, como a unidade da magistratura, a enumeração das garan­
tias dos juizes, o controle pelos próprios tribunais das nomea­
ções (por concurso), promoções e controle dos juizes e as restri­
ções ao preenchimento de cargos. Essas propostas figuravam no
programa liberal-radical desde 1868 e é sabido que, em julho de
1889, o imperador cogitou com Salvador de Mendonça e Lafayette
Rodrigues Pereira a transferência das atribuições do Poder
Moderador ao STJ (Rodrigues, L., 1965:1).
O Supremo Tribunal Federal somente adquiriu um perfil
quase idêntico ao da Suprema Corte norte-americana a partir
das emendas de Rui Barbosa, que resultaram no projeto do Go­
verno Provisório. Nesse projeto foram suprimidas as atribui­
ções do Legislativo de estabelecer a interpretação autêntica e
de velar na guarda da Constituição. A competência do STF foi
ampliada para todas as questões decididas pelos juizes e tribu­
nais estaduais que negassem a validade das leis federais, que
afirmassem a validade de leis e atos dos governos estaduais con­
testadas em face da Constituição ou das leis federais. A amplia­
ção estendeu-se até os juizes federais, os quais passaram a ter a
competência para julgar as causas em que alguma das partes se
firmasse em disposições da Constituição Federal. Também foi
proibido que o Congresso transferisse qualquer jurisdição fede­
ral a tribunais dos estados e foi estabelecida a supremacia da
jurisdição federal sobre a estadual, proibindo-se que a justiça
dos estados interviesse em questões submetidas aos tribunais
federais, ou que anulasse, alterasse, suspendesse as suas sen­
tenças ou ordens. Todos esses dispositivos fazem parte do proje­
to do Governo Provisório (59 a 61), e as supressões propostas
156 | O PODER JUDICIÁRIO NA O R G A N IZA Ç Ã O DA REPÚBLICA

por Rui Barbosa foram mantidas, exceto uma, a que dava ao


Congresso a atribuição privativa de velar na guarda da Consti­
tuição e das leis (33, § 36). (Ver a edição fac-similada do projeto
da Comissão dos Cinco anotado por Rui Barbosa em Fundação
Casa de Rui Barbosa, 1985.)
O projeto do Governo Provisório também modificou a forma
de nomeação dos ministros do STF. Ao contrário dos projetos
anteriores, que davam ao Legislativo o poder de nomear os mi­
nistros, a emenda de Rui Barbosa estabeleceu que os ministros
seriam nomeados pelo presidente da República, com a aprova­
ção do Senado, dentre os cidadãos elegíveis para este cargo. Esse
sistema de nomeação já não era baseado na delegação da sobe­
rania pelo parlamento, mas no princípio da separação de pode­
res, com um sistema de freios e contrapesos, que fazem os pode­
res dependerem uns dos outros para garantir a sua harmonia.
A restrição da nomeação dos ministros dentre os trinta juizes
federais mais antigos e cidadãos de notável saber e reputação
foi mantida, mas excluiu-se a limitação de serem ocupados dois
terços dos lugares pelos juizes. Isso significava, na prática, a
liberdade de nomeação pelo presidente da República, exatamente
como está disposto na Constituição norte-americana (art. II,
Seção II-2).
Esse perfil institucional do STF foi mantido no texto definiti­
vo da Constituição, exceto o poder de velar na guarda da Cons­
tituição e das leis federais. Esse poder passou da competência
privativa do Congresso à competência não-privativa (35, § 1.°).
A emenda foi proposta pelo deputado catarinense Lauro Müller,
de orientação positivista, com o argumento de que a guarda da
Constituição não cabia ao Poder Legislativo, apenas, mas a to­
dos os poderes do Estado. A proposta foi aprovada na Comissão
dos 21 representantes dos estados, que revisou o projeto do Go­
verno Provisório (Roure, ibid., v. 1:434). No texto definitivo foi
suprimida também a obrigação de serem nomeados ministros
dentre os trinta juizes federais mais antigos, passando a serem
exigidos o notável saber e reputação e a elegibilidade para o
Senado.
Quando às incompatibilidades da magistratura, foi manti­
da na Constituição Federal apenas a do exercício simultâneo
dos cargos de magistrado e parlamentar. A legislação eleitoral
O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA | I 57

posterior ampliou essa incompatibilidade, declarando inelegí­


veis para os cargos federais os juizes federais em todo o terri­
tório nacional e os juizes estaduais, no território do estado em
que exercessem a jurisdição (Id., ibid., v. 1:358-9). De modo
geral, foram estabelecidas nos estados as incompatibilidades
absolutas, ou pelo menos de exercício, entre os cargos eletivos
e o de magistrado, consolidando o processo de diferenciação da
carreira judicial em relação aos demais cargos estatais. Quan­
to à fiscalização do processo eleitoral, foi retirada das atribui­
ções dos magistrados já em 1890, pelo “Regulamento Alvim”
(Leal, 1975:225).
Por fim, foi suprimido o predomínio da jurisdição federal so­
bre a estadual. Para Campos Sales este dispositivo feria o prin­
cípio da dupla soberania, que era o fundamento do sistema fe­
derativo. Com a dualidade da organização judiciária — a princi­
pal característica do regime — havia a necessidade de uma de­
marcação clara e positiva entre a jurisdição federal e a esta­
dual, “de tal sorte que o domínio legítimo de cada uma destas
soberanias seja rigorosamente mantido e reciprocamente res­
peitado”. Coexistiriam, assim, um Poder Judiciário federal e um
Poder Judiciário local, “cada um desenvolvendo a sua ação den­
tro da respectiva esfera de competência, sem subordinação, por­
que ambos são soberanos e sem conflitos, porque cada um co­
nhece a natureza dos interesses que provocam as suas inter­
venções” (Exposição de Motivos do Decreto 848, de 11/10/1890,
apud Barbalho, 1924:294-5). A partir de uma emenda de Mo­
rais Barros e Adolfo Gordo foi estabelecida na Constituição a
autonomia entre essas duas esferas de poder ao ser incluída a
proibição de intervenção da justiça federal nas questões julga­
das pela justiça estadual à cláusula que proibia a intervenção
da justiça estadual sobre as questões em julgamento na justiça
federal (62) (Roure, ibid., v. 2:46).
Vemos pois que as normas típicas do presidencialismo nor­
te-americano, no que se refere ao papel político do Poder Judi­
ciário, foram introduzidas a partir das emendas de Rui Barbo­
sa ou, pelo menos, após a sua intervenção no processo de ela­
boração do projeto do Governo Provisório. Alguns dos disposi­
tivos que estabeleciam a separação plena dos poderes da União
foram suprimidos pela Constituinte, o que, se não chegou a
158 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA

eliminar a função do STF como supremo intérprete da Consti­


tuição, abriu uma brecha que serviria para justificar a contes­
tação desse poder. Do mesmo modo, as restrições aos poderes
da magistratura estadual foram substituídas por uma relação
de autonomia com o Judiciário federal, mantendo-se a possibi­
lidade de contestação ao predomínio da Constituição e da ju­
risdição do Poder Judiciário federal sobre os estados8.

3. Divisão de poderes entre a União e os estados

O outro problema que abordamos nos Projetos de Constitui­


ção elaborados pela Comissão dos Cinco e pelo Governo Provisó­
rio é o da divisão de poderes entre a União e os estados. Nesta
seção fazemos a) uma comparação entre os diversos projetos de
Constituição a respeito da unidade ou dualidade da magistratu­
ra e do direito; b) uma análise do processo de criação do Código
Penal e c) da justiça federal. A partir dessa análise, verifica-se
que a atuação de Campos Sales foi no sentido de ampliar os
poderes dos estados, restringindo o campo de ação do poder fe­
deral. Exceto no texto doutrinário da Exposição de Motivos do
Decreto 848, que organizou a justiça federal, as suas manifesta­
ções a respeito da organização judiciária do novo regime são
sempre de restringir a ação do poder federal, inclusive do Poder
Judiciário. Ao mesmo tempo, as circunstâncias em que foi pro­
duzido aquele decreto permitem-nos compreender os argumen­
tos da Exposição de Motivos.

A) PODERES DE ORGANIZAÇÃO DO JUDICIÁRIO E D E LEGISLAÇÃO


CIVIL, COMERCIAL, PENAL E PROCESSUAL
O projeto de Américo Brasiliense estabelecia a unidade da
organização judiciária, a unidade do direito substantivo (civil,

8 O que ocorreu efetivamente em 1895, quando Júlio de Castilhos


negou-se a apresentar ao STF o seu adversário político Facundo
Tavares, o qual estava preso pela justiça estadual. Júlio de Castilhos
somente o apresentou sob a ameaça de intervenção federal. Em
1897, nas informações encaminhadas ao STF no pedido de habeas-
corpus em favor de monarquistas, o chefe de polícia de São Paulo
afirmava ao STF que não obedeceria à ordem de soltura, caso fosse
concedida, o que não ocorreu (Rodrigues, 1965:53-7; 90-8).
O PODER JUDICIÁRIO NA ORGAN IZAÇÃO DA REPÚBLICA | 159

comercial e criminal) e a dualidade do direito processual. Os


membros dos Tribunais de Relação exerceriam seus cargos por
doze anos, podendo ser reconduzidos, e seriam escolhidos pelo
presidente da República, com base em lista tríplice elaborada
pela Corte Suprema de Justiça com os juizes mais antigos (49).
À União caberia a legislação do direito substantivo, podendo os
estados representar ao Congresso Nacional contra dispositivos
que julgassem inaplicáveis. O Congresso poderia autorizar mo­
dificações, que seriam votadas pelas legislaturas dos estados e
teriam validade unicamente no respectivo território (8.°). A com­
petência legislativa residual era dos estados, aí incluído o direi­
to processual (9.° e 19, § 12).
O projeto de Magalhães Castro estabelecia a unidade da ma­
gistratura e do direito. Fixava a exigência de concurso para a
escolha dos juizes de direito, que seriam nomeados pelo presiden­
te da Relação (97). Os membros das Relações seriam escolhidos
pelo STJ dentre os juizes de direito dos estados respectivos (96).
O seu projeto estabelecia também a escolha dos juizes de paz por
meio de eleições (98). A atribuição de legislar sobre o direito subs­
tantivo e processual era da União, “sendo lícito aos estados alte­
rarem as suas disposições, em ordem a adaptá-las conveniente­
mente às suas condições pecuniárias, necessidades especiais e
interesses particulares e próprios, desde que não ofendam os prin­
cípios gerais estabelecidos nesta Constituição” (51, § 6.°).
O projeto de Rangel Pestana e Santos Werneck estabelecia a
dualidade da magistratura e do direito substantivo e proces­
sual. Não havia nenhum dispositivo dirigido à magistratura es­
tadual e era dado aos estados o direito de regulamentar o pro­
cesso do direito federal privado (65), o qual era a declaração dos
direitos individuais e que devia valer em todo o território nacio­
nal (51 a 58). As leis substantivas e processuais existentes, e as
que seriam votadas no futuro pelo Congresso, teriam validade
somente para os estados que não criassem os próprios códigos
(63 e 66). Os conflitos entre a legislação dos estados e da União
seriam regulados pelas doutrinas e preceitos do direito interna­
cional privado (64).
O projeto final da Comissão dos Cinco estabelecia a dualidade
da magistratura. Os juizes federais seriam escolhidos pelo STJ,
dentre advogados ou magistrados com mais de quatro anos inin­
terruptos de exercício, sendo garantidas a eles a independência,
160 | O PODER JUDICIÁRIO NA ORGAN IZAÇÃO DA REPÚBLICA

inamovibilidade e a demissão somente por sentença (65, 66).


Quanto aos magistrados estaduais, o projeto determinava que
cada estado teria “a organização judiciária que melhor entender”
(72). Quanto ao direito substantivo e processual, o projeto esta­
belecia o prazo de cinco anos para que o Congresso votasse a sua
codificação, “sendo lícito aos estados alterar as disposições de tais
leis, em ordem a adaptá-las convenientemente às suas condições
peculiares”. Se esse prazo fosse ultrapassado, os estados ficariam
livres para organizar, por si, a codificação de suas leis (33, § 13).
Pela comparação dos diversos projetos nota-se a conciliação
no projeto final da Comissão dos Cinco entre as orientações uni­
tárias e dualistas, tanto no que se refere à organização da ma­
gistratura, quanto à competência para legislar. O projeto esta­
beleceu as garantias individuais e de nomeação dos magistra­
dos defendidas por Magalhães Castro, excluindo, porém, a magis­
tratura estadual dessas limitações. Por outro lado, foi reconhe­
cido o poder do Congresso de legislar sobre o direito substantivo
e processual. Ao mesmo tempo, foram feitas concessões aos esta­
dos, como o poder de regulamentar as leis, segundo suas condi­
ções peculiares. Por fim, o estabelecimento de um prazo de cin­
co anos para a codificação civil, comercial, criminal e processual
pelo Congresso indica uma situação de impasse entre as duas
posições. Esse prazo era muito reduzido, considerando-se os pro­
blemas que seriam levantados num processo legislativo normal,
uma vez que se tratava de uma organização política completa­
mente nova e seriam de quatro a seis Códigos a serem elabora­
dos, discutidos e votados no Congresso Nacional em cinco anos9.
Não é possível avaliar o grau de influência exercido por Cam­

9 Havia a controvérsia sobre se era mais adequado codificar conjun­


ta ou separadamente o direito civil e o direito comercial, do que
resultaria também a unificação ou separação dos códigos de pro­
cesso respectivos. No regime anterior, Teixeira de Freitas fora con­
tratado pelo governo imperial. No entanto, após treze anos de tra­
balho, o projeto de Código Civil, ainda estava em esboço, e o gover­
no imperial decidiu romper o contrato. Nabuco de Araújo traba­
lhou durante cinco anos e meio, até falecer, deixando 118 artigos
com redação definitiva e apenas esboços das demais partes do Có­
digo (Nabuco, 1936, v. 2; o projeto de Nabuco de Araújo encontra-se
Anexo ao RMJ, 1878).
O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZAÇÃO DA REPÚBLICA | 161

pos Sales nos trabalhos da Comissão dos Cinco no que se refere


à organização presidencialista discutida na seção anterior. Quan­
to à distribuição entre a União e os estados dos poderes de orga­
nização da magistratura ao direito substantivo e processual, sua
atuação para garantir a plena autonomia de organização dos
estados pode ser verificada por sua ação no Governo Provisório,
tanto nas discussões do Projeto de Constituição, como nos seus
atos a esse respeito no Ministério da Justiça.
O projeto de Constituição do Governo Provisório estabelecia
a dualidade da magistratura. Os juizes federais seriam nomea­
dos pelo presidente da República. Eles teriam as garantias da
vitaliciedade e da irredutibilidade de vencimentos, mas não a
da inamovibilidade (55 e 56). Quanto aos juizes estaduais, eram
fixadas restrições, garantindo-lhes a vitaliciedade e proibindo a
magistratura eletiva (62, § 3 e 4). O projeto estabelecia também
o poder do Congresso Nacional de legislar sobre o direito subs­
tantivo e o direito processual, sem prever a possibilidade de re­
gulamentação pelas legislaturas estaduais, a fim de adaptá-lo
às suas “condições peculiares”.

B) A CRIAÇÃO DO CÓDIGO PENAL DE 1890


Segundo Agenor de Roure (ibid., v. 1:429), Campos Sales foi o
único membro do Governo Provisório a defender a dualidade de
legislação. Ele já adotara essa posição em 21/11/1889, quando,
pelo Aviso n.° 3 do Ministério da Justiça, dissolveu a comissão
de jurisconsultos nomeada pelo governo imperial em 1/6/1889
para organizar o Código Civil. Campos Sales justificou o ato pela
existência autônoma dos estados, que a República federativa
reconhecia, devendo o Congresso Nacional exercer apenas as
funções expressamente atribuídas pela Constituição. Era da na­
tureza e essência desse regime político que “à autoridade do
Poder Legislativo Federal só pertençam as atribuições relativas
aos interesses gerais e à coexistência harmônica dos estados,
ficando em plena independência, na respectiva esfera de ação,
as legislaturas deles”. A confecção das leis que regulam as rela­
ções civis dos cidadãos dos diferentes estados não entrava na
legítima esfera de ação do Poder Legislativo Federal; e seria
então uma restrição indevida da autonomia dos estados “decre­
tar ou, sequer, redigir leis civis obrigatórias para toda a União,
devendo, pelo contrário ficar à legislatura de cada estado, à sua
162 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZAÇÃO DA REPÚBLICA

soberana iniciativa e livre competência o direito de regular, como


a cada um deles mais convenha, as relações civis dos cidadãos
que os compõe” (apud Barbalho, 1924:171-2). Tendo sido derro­
tado no Governo Provisório acerca da unidade de legislação,
Campos Sales tomou providências para que o novo Código Pe­
nal e a justiça federal fossem adotados antes da promulgação da
nova Constituição pelo Congresso Constituinte.
Quanto ao Código Penal, Campos Sales convidou João Batista
Pereira, que já elaborara durante o regime anterior um projeto
de código. Batista Pereira aceitou o convite, que era incondicio­
nal e sem compromissos recíprocos. Segundo ele, o Ministro Cam­
pos Sales só fazia questão de uma coisa: “da apresentação urgen­
te do trabalho, para que o novo código pudesse ser promulgado
antes da reunião do Congresso, que se avizinhava”. Entregando o
seu trabalho ao cabo de pouco mais de três meses, este foi exami­
nado por uma comissão nomeada pelo Ministro da Justiça, presi­
dida por ele, e que iniciou seus trabalhos, com a assistência do
autor do projeto, em 29/9/1890. O projeto do Código Penal foi ado­
tado em sua quase totalidade, sofrendo emendas de mera reda­
ção e resultou no Decreto n.° 847 de 11/10/1890 (Siqueira, 1921:13).
Não pretendemos fazer uma análise do Código Penal, ressalta­
mos apenas três pontos importantes.
1.°) Como vimos, o projeto de Constituição do Governo Provi­
sório determinava a unidade do direito sem restrições. O Códi­
go Penal de 1890 estabelecia que não eram compreendidos por
ele: a) os crimes de responsabilidade do presidente da Repúbli­
ca; b) os crimes puramente militares... ec) os crimes não especi­
ficados nele, contra a polícia e economia administrativa dos es­
tados, os quais seriam punidos de conformidade com as leis pe­
culiares de cada um (art. 6.°). Campos Sales procurava reser­
var, através do Código Penal e contra o Projeto de Constituição
do Governo Provisório, o direito de os estados criarem legisla­
ção penal a respeito de delitos que, no regime anterior, eram da
competência dos municípios.
O Código Penal trazia ainda duas alterações importantes:
criava os crimes contra a liberdade do trabalho, que eram ine­
xistentes pelo Código Criminal de 1830 e deslocava os crimes
contra o livre exercício dos direitos políticos, que faziam parte
dos crimes políticos, para o título dos crimes contra os direitos
individuais.
O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA | 163

2.°) Quanto aos crimes contra a liberdade do trabalho, eram


considerados uma inovação necessária, por causa da passagem
do trabalho escravo para o trabalho livre. O estabelecimento des­
se tipo de crimes era comum nos países europeus na época, como
forma de repressão ao movimento operário. Assim foram estabe­
lecidos crimes como “impedir alguém de exercer a sua indústria,
comércio ou oficio; de abrir ou fechar os seus estabelecimentos e
oficinas de trabalho ou negócio; trabalhar ou deixar de trabalhar
em certos e determinados dias” (204), que foi inspirado no Código
Penal italiano. Porém, ao contrário dos seus congêneres europeus,
que na mesma época somente criminalizavam a greve violenta, o
Código Penal de 1890, caracterizou como crime “seduzir, ou ali­
ciar operários e trabalhadores para deixarem os estabelecimentos
em que forem empregados, sob promessa de recompensa ou
ameaça de alguém” (205). Era o crime de aliciamento de traba­
lhadores, que existira no regime anterior como forma de evitar
que colonos estrangeiros e libertos abandonassem as fazendas,
deixando de cumprir seus contratos com os cafeicultores. O arti­
go seguinte punia a greve pacífica, com o agravamento da pena
aos chefes e se houvesse o uso de violência (206).
Os artigos 205 e 206 foram modificados pelo Decreto n.° 1.162,
de 12/12/1890, passando a ser punidos o desvio de “operários ou
trabalhadores dos estabelecimentos em que forem empregados,
por meio de ameaças, constrangimento ou manobras fraudulen­
tas” (1.°) e a greve violenta. Essa mudança resultou da pressão do
Partido Operário e partiu do líder operário trabalhista, o tenente
da Marinha, José Augusto Vinhais, que, graças às boas relações
com Deodoro, conseguiu que este alterasse os dispositivos do Có­
digo Penal de 1890 que definiam como crime a paralisação do
trabalho (Fausto, 1976:45). Vemos então que a ação de Campos
Sales na defesa da plena liberdade de organização dos estados
tinha também objetivo de garantir a manutenção pelos estados
do controle da organização do trabalho, seja mediante a crimina-
lização da resistência dos trabalhadores, seja mediante o contro­
le dos magistrados que resolveriam os conflitos entre trabalhado­
res e empregadores.

10 Os crimes contra o livre exercício dos direitos políticos eram os de


impedir o eleitor de votar; de usar de promessas ou ameaças para
164 I O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA

3.°) O Código Penal transferiu os crimes contra o livre exercí­


cio dos direitos políticos do capítulo dos crimes políticos ao capí­
tulo dos crimes contra os direitos individuais10. O projeto final
da Comissão dos Cinco determinava que o julgamento dos cri­
mes políticos seria da competência do Poder Judiciário dos esta­
dos, havendo possibilidade de recurso para o STF das sentenças
dos juizes ou tribunais dos estados apenas no caso de condena­
ção (70, § 2.°). No Projeto do Governo Provisório, a competência
para o julgamento dos crimes políticos, desde a primeira instân­
cia, passou para o Poder Judiciário federal (60, g). Ao transferir
os crimes contra o livre exercício dos direitos políticos que, no
Código Criminal de 1830, constavam do capítulo referente aos
crimes políticos para o capítulo referente aos direitos indivi­
duais, o Código Penal de 1890 reduziu o âmbito de jurisdição do
Poder Judiciário federal. Esta transferência foi criticada por
Galdino Siqueira (ibid.:213), para quem os crimes contra o livre
exercício dos direitos políticos não podiam ser considerados mo­
dalidades dos crimes contra os direitos individuais ou liberdade
individual. Ele afirmava que não havia razão para incluí-los no
mesmo capítulo, porque não existia a “unidade substan­
cial do bem jurídico lesado”. O seu objeto era distinto, pois um
deles se referia ao uso das “faculdades naturais”, ao passo que
os outros eram “oriundos unicamente das leis ou organização
política, conferindo a faculdade de participar nas coisas públi­
cas, pela escolha do delegado ou representantes”. Porém, a trans­
ferência foi feita, não por razões doutrinárias, mas por seu cará­
ter estratégico: garantir o controle pelos estados do julgamento
das acusações criminais por atos praticados durante o processo
eleitoral.

obter os votos para determinada pessoa; de vender o voto; votar ou


tentar votar com o título de outrem; impedir a reunião da mesa
eleitoral ou junta apuradora, ou tumultuá-la, etc.; usar armas nas
assembléias eleitorais; violar o escrutínio; falsificar o alistamento;
reunir a mesa eleitoral ou junta apuradora fora do lugar ou horário
designados, e com isso induzir os eleitores a erro; deixar a mesa
eleitoral de receber o voto de eleitor regular; fazer parte ou concor­
rer para a formação de mesa eleitoral ou junta apuradora ilegíti­
ma; deixar de comparecer sem causa à formação da mesa eleitoral
(arts. 165 a 178 do Código Penal de 1890).
O PODER JUDICIÁRIO NA O RGAN IZAÇÃO DA REPÚBLICA | 165

C) A CRIAÇÃO DO PODER JUDICIÁRIO FEDERAL


O Poder Judiciário federal foi instituído pelo Decreto 848,
também de 11 de outubro de 1890. Esse decreto, manifestamen­
te inspirado na Constituição norte-americana, foi também uma
antecipação de Campos Sales à Constituinte, pois pressupunha
a dualidade de organização do Poder Judiciário. Essa forma de
organização era, contudo, bastante controvertida, pois havia
membros do Governo Provisório, especialmente Deodoro, que
defendiam a unidade de organização judiciária.
A dualidade judiciária constava do projeto de Constituição
elaborado pela Comissão dos Cinco. Os magistrados, que tinham
sido reconhecidos em seus postos pelo ato de Proclamação da
República, resistiram à organização judiciária estabelecida por
esse projeto. Os ministros do Supremo Tribunal de Justiça, de­
sembargadores da Relação do Distrito Federal e outros magis­
trados encaminharam representação ao Marechal Deodoro rei­
vindicando os seus direitos adquiridos e combatendo com vee­
mência o plano da nova organização. Tendo-se sensibilizado o
chefe do Governo Provisório, o ministro da Justiça contestou
esta representação, declarando que, se vencido, deixaria a pas­
ta (Ribas, 1981:94). Campos Sales elaborou então um documen­
to de contestação à representação dos magistrados, no qual de­
fendia o projeto. Para ele, o sistema do projeto era a consagra­
ção da independência dos juizes, “no duplo princípio da perpe­
tuidade e inamovibilidade, tendo por base a descentralização,
que inelutavelmente é a suprema garantia de toda liberdade”
(■apud Ribas, ibid.:95). A adoção da República Federal era um
compromisso do ato de Proclamação que devia atingir também
o Poder Judiciário, um dos três grandes órgãos da soberania
nacional. Por isso, o governo deveria organizá-lo de acordo com
o princípio fundamental da nova Constituição política do país, o
princípio federativo ou da dupla soberania. Para Campos Sales,
a forma de organização federativa estava “nitidamente estam­
pada” na Constituição dos Estados Unidos da América e o proje­
to de Constituição da Comissão dos Cinco havia se subordinado
“no que respeita à organização judiciária, como à dos outros pode­
res, ao princípio federal, como se acha aplicado em outras cons­
tituições” (apud Id., ibid.:95). “Não se concebe uma federação
sem estados, e muito menos se compreende um Estado sem so-
166 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZAÇÃO DA REPÚBLICA

berania. Ora, os órgãos desta soberania são os três grandes po­


deres políticos — Legislativo, Executivo e Judiciário: portanto,
a supressão de um destes órgãos deve produzir necessariamen­
te a mutilação, ou antes, a própria supressão da soberania, pois
que onde esta falta, surge a subordinação, a dependência, que é
a negação da entidade política que se denomina Estado, na acep­
ção do direito público moderno” (Id., ibid.:96-7). Para ele, não
havia maior garantia para a independência da justiça do que a
descentralização, especialmente baseada sobre as bases largas
da federação. A magistratura somente poderia ser honesta quan­
do os juizes não pudessem “ser atingidos pela pressão, nem pela
corrupção, pelo temor, nem pela ambição, pela perseguição nem
pelo favor”. A centralização era, para ele, a dependência e isto
bastava para proscrevê-la da nova organização (apud Id., ibid.:97).
O projeto final da Comissão dos Cinco estabelecia que dois
terços dos membros do STF seriam nomeados dentre os juizes
mais antigos e o terço restante dentre “jurisconsultos de prova­
da ilustração”. A representação dos magistrados criticava essa
cláusula, pretendendo que se mantivesse o princípio de nomea­
ção por antiguidade absoluta, que vigorou para os membros dos
tribunais superiores durante o Império. Para Campos Sales, a
representação reivindicava um privilégio para a magistratura. O
novo órgão não seria um tribunal de revisão “em que somente os
interesses de ordem privada se acham em litígio”, mas um órgão
destinado a “regular o exercício e estabelecer o equilíbrio dos di­
versos agentes do poder público”. Por isso, “a presunção de capa­
cidade não fica restrita à classe dos magistrados, por mais sólidas
que sejam as aptidões adquiridas no seu tirocínio” (Id., ibid.:98).
Vimos que a dualidade da organização judiciária constou do
projeto do Governo Provisório. Campos Sales defendia a outor­
ga da Constituição, em razão da possibilidade do predomínio
dos políticos do antigo regime na Constituinte, pondo em risco a
organização federativa em amplas bases, que ele defendia. Der­
rotado nessa questão, Campos Sales “apressou-se [...] a corpori-
ficar as suas idéias na organização da justiça federal”. E, para
completar o sistema judiciário do novo regime, organizou tam­
bém a justiça do Distrito Federal11(Ribas, ibid.:99). Ante as re-

11 A forma de organização da justiça do Distrito Federal adotada por


O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA | 167

sistências encontradas na organização da justiça federal, Cam­


pos Sales elaborou uma Exposição de Motivos ao Decreto 848,
na qual ressaltava as diferenças entre o Poder Judiciário do
antigo e o do novo regime. A magistratura criada não era “ins­
trumento cego” ou mero “intérprete na execução de atos do po­
der legislativo”. Antes de aplicar a lei, caberia à nova magistra­
tura “o direito de exame, podendo dar-lhe ou recusar-lhe san­
ção, se ela lhe parecer conforme ou contrária à lei orgânica”.
Para Campos Sales, esse poder decorria do seu direito de verifi­
car a conformidade das leis com a Constituição, cabendo-lhe
nesse caso “declarar que elas são nulas e sem efeito”. Dessa for­
ma seria evitado que o legislador, “reservando-se a faculdade de
interpretação, venha a colocar-se na absurda situação de juiz
em sua própria causa”. Essa característica seria a causa da “pro­
funda diversidade de índole” do Judiciário federal em relação
ao do “regime decaído”. “De poder subordinado, qual era, trans­
forma-se em poder soberano, apto na elevada esfera da sua au­
toridade para interpor a benéfica influência do seu critério deci­
sivo, a fim de manter o equilíbrio, a regularidade e a própria
independência dos outros poderes, assegurando ao mesmo tem­
po o livre exercício dos direitos do cidadão” (apud Barbalho,
ibid.:294).
A atuação de Campos Sales durante o Governo Provisório foi
dirigida para ampliar a autonomia dos estados e o modelo norte-
americano servia para ele como fundamentação para o federalis­
mo amplo. Quanto à organização judiciária, Campos Sales iden­
tificava a nomeação dos juizes pelo governo central com o despo­
tismo. Para ele, a organização centralizada do Poder Judiciário,
com garantias para os seus membros, os quais estariam sujeitos
apenas a formas de controle da própria corporação, era a conces­
são de um privilégio à magistratura, antes que uma condição para
garantir a liberdade individual, tal como proposto pelos liberais
durante o Império e na elaboração da Constituição republicana.

Campos Sales foi muito combatida nos anos seguintes por advoga­
dos e juizes locais. Ver o Parecer da Comissão Especial do Institutoda
Ordem dos Advogados do Brasil sobre o Decreto 1.030, de 14/11/
1890, que organizou a justiça do Distrito Federal, datado de 6 de
julho de 1892, publicado em O Direito, 60:161-96, 1893).
168 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZAÇÃO DA REPÚBLICA

Dado o contexto em que foi elaborada, a Exposição de Motivos do


Decreto 848 é antes um documento de contestação às reivindica­
ções dos magistrados, pela acentuação das diferenças entre o Po­
der Judiciário no antigo e no novo regime, do que a defesa de um
conjunto de princípios cuja execução Campos Sales procurasse
pôr em prática.

4. O Poder Judiciário na Constituinte Republicana

Na Constituinte, a questão da organização judiciária foi obje­


to de grande debate, tendo sido abordada pelo ângulo dos limi­
tes do federalismo. Essa discussão estava ligada à da competên­
cia federal ou estadual para legislar sobre o direito civil, comer­
cial e penal e os respectivos processos. Formaram-se, a esse res­
peito, três correntes: os dualistas, que entregavam aos estados
a competência para legislar o direito material e processual, e
defendiam a organização dual da magistratura; os unitaristas,
que defendiam a unidade da magistratura e a atribuição exclu­
siva da União para legislar sobre estas matérias; e os que defen­
diam um sistema misto: entregavam aos estados apenas o poder
de legislar sobre o direito processual e organizar as respectivas
magistraturas, atribuindo à União a legislação sobre o direito
substantivo.
Na “Comissão dos 21”, formada dos representantes dos esta­
dos e do Distrito Federal, a unidade da magistratura foi vitoriosa
por alguns dias, de acordo com os desejos e reclamações dos ma­
gistrados em geral, mas no momento de assinar o parecer, alguns
representantes voltaram atrás, tendo vencido a tese da dualida­
de por treze a sete. Os representantes de Pernambuco, Bahia,
Rio Grande do Norte, Maranhão e Amazonas apresentaram em
voto vencido a proposta de unidade. A proposta deixava aos esta­
dos a competência de organizar a justiça de primeira instância
(nomeação de juizes, fixação de vencimentos). Haveria Tribunais
de Apelação nos estados, custeados pela União, cujos membros
seriam nomeados pelo presidente da República dentre os juizes
de primeira instância do mesmo estado, a partir de proposta do
tribunal onde se desse a vaga. O STF teria funções de Corte de
Cassação, ou seja, de revisão das decisões dos Tribunais de Ape­
lação “sempre que houver violação do direito, pela não aplicação
deste, ou por sua falsa ou indevida aplicação”. Teria também o
O PODER JUDICIÁRIO NA O R G AN IZA Ç Ã O DA REPÚBLICA | 169

poder expresso de julgar os conflitos entre autoridades judiciá­


rias e administrativas federais ou dos estados. Seria formado por
tantos membros quantos fossem os tribunais de apelação, cada
um deles tirado por antiguidade desses tribunais e mais um terço
de juizes nomeados pelo presidente da República, com aprovação
do Senado (Roure, ibid., v. 2:4-5).
Esta emenda era baseada no programa dos liberais do Impé­
rio. Em plenário, foi apresentada por 43 assinaturas e defendi­
da por Anfilóflo B. de Carvalho, representante da Bahia, e José
Higino D. Pereira, de Pernambuco. Transferiam-se ao STF os
poderes judiciários do Conselho de Estado. Quanto às nomea­
ções, ao mesmo tempo que se atribuía aos estados a nomeação
dos juizes de primeira instância, era garantido o controle do
poder central na composição dos tribunais superiores. Essa for­
ma de organização era justificada pela necessidade de haver
um órgão central que unificasse a interpretação do direito (a
competência da União para legislar o direito material havia sido
vencedora na comissão dos 21). Era preciso também evitar a
criação de uma magistratura inferior, encerrada nos estreitos
limites dos estados, com menor remuneração, cujos tribunais
não teriam “as desejáveis condições de independência para emen­
dar e corrigir os erros dos juizes de primeira instância” (Id.,
ibid.:4; Barbalho, ibid.:301).
Anfilóflo de Carvalho combateu a tese da dualidade da sobe­
rania defendida por Campos Sales. Para ele, a soberania era
uma só, se dividida ou multiplicada, já não seria mais sobera­
nia. “Como a certeza, como a verdade, ela não admite, ela não
pode ter graus.” Anfilófio de Carvalho defendeu a unidade da
magistratura proposta pelo voto em separado da Comissão dos
21. Para ele, a unidade do direito nacional deveria ser garanti­
da pelo Supremo Tribunal Federal por meio do julgamento das
diferentes interpretações da lei, definindo seus pontos duvido­
sos e dando-lhe o verdadeiro sentido. Era o poder de tomar as­
sentos, que vinha da antiga Casa de Suplicação de Lisboa e fora
atribuída ao STJ em 1875. Os assentos fixavam a interpretação
da lei: “a inteligência assim dada ao texto da lei é aquela que há
de prevalecer em todos os casos de aplicação futura da mesma
lei, diante de todos os outros tribunais e juizes do país” (Roure,
ibid., v. 2:8-9). Essa emenda foi criticada por Augusto de Frei­
tas, para quem, na prática, tal poder significaria a eternização
170 I O PODER JUDICIÁRIO NA O R G A N IZA Ç Ã O DA REPÚBLICA

dos conflitos, pois as partes teriam o direito, em todos os litígios,


de dizer sempre que o julgamento não se baseou nas provas,
que o direito foi violado ou aplicado erroneamente. Porém, se
este fosse restringido, então sua função de uniformizar a juris­
prudência seria cumprida apenas em parte (Id., ibid.,: 40-1).
Para José Higino, a unidade da justiça se impunha porque
ela favorecia as relações sociais e econômicas através de leis
uniformes. Para ele, a justiça era nacional, pois afetava todas as
relações da vida civil e, nos estados modernos, também as rela­
ções da vida pública. “Se, na federação, a unidade da moeda e da
legislação aduaneira são admitidas porque facilitam as relações
econômicas e mercantis; se o correio e o telégrafo são serviços
federais, porque facilitam as comunicações, parece que a unida­
de do direito e da justiça, tendo por fim assegurar aos cidadãos,
em todo o território de sua pátria, os mesmos direitos e as mes­
mas garantias para a efetividade desses direitos, estão no mes­
mo caso e não podem ser incompatíveis com o programa do regi­
me federal” (Id., ibid.: 10). Ele defendia a unidade do direito em
nome da unidade nacional: “somos um povo completamente uni­
ficado: a mesma raça, a mesma história, os mesmos costumes, o
mesmo direito, a mesma língua. Temos um só direito pela mes­
ma razão porque falamos a mesma língua” (Id., ibid.). Para ele,
o preço a pagar pela dualidade do direito e da justiça seria a
fragmentação do direito e a subordinação dos juizes à política
local.
Para Augusto de Freitas, as idéias de Anfilófio de Carvalho
em defesa da unidade da magistratura permaneciam ainda pre­
sas às reminiscências da monarquia constitucional. A organiza­
ção proposta por ele era pouco mais do que a organização do
Império, reeditando apenas as idéias de 1834. “Quando estas
velhas idéias não podiam ter hoje aceitação, porque era pouco,
[...] porque seria restringir a autonomia dos estados, mutilando
o poder público, legítima manifestação de sua autonomia [...] é
que o nobre representante vem trazer-nos em nome da Federa­
ção, este plano de organização judiciária!” (Id., ibid.:12) Para ele,
a definição clara das esferas de competência, deixando ao Judi­
ciário federal as atribuições de ordem pública e aos estados as
atribuições de direito privado seriam condições suficientes para
o progresso e para que o Poder Judiciário brasileiro ocupasse “o
posto que lhe foi destinado na América do Norte”. As emendas
O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA | 171

de Anfilófio de Carvalho foram rejeitadas em primeira e segun­


da discussões.
Leopoldo de Bulhões atacou os argumentos de José Higino. A
unidade do direito existia nas leis e nos códigos, mas não nos
fatos. Seria preciso um esforço de imaginação para que se afir­
masse “que os usos e costumes do Pará [...] são os mesmos do
Rio de Janeiro ou Rio Grande do Sul...”. Essa unidade não exis­
tia em razão do clima, do solo, da produção, da falta de relações
freqüentes entre os estados e da colonização estrangeira em di­
versos destes. Para ele, a unidade do direito era uma ficção,
“porque as leis são a consagração dos costumes e os costumes
não são, não podem ser uniformes em toda a República”. Por­
tanto, a unidade de legislação, se mantida, seria uma tirania.
José Higino respondeu ainda que a colonização estrangeira, alia­
da à pluralidade de legislação, levaria à dissolução da nacionali­
dade. Além disso, resultariam dificuldades para as relações mer­
cantis e para a administração da justiça (Id., ibid., v. 1:416-9).
Em discurso na Constituinte Campos Sales defendia a duali­
dade da magistratura e do direito, que eram necessárias para
que fosse mantida a coerência do sistema federal. Dever-se-ia
adotar ou o sistema do projeto, fundando a independência, a
soberania do Poder Judiciário dos estados, ou o princípio da
unidade judiciária. Neste caso, a unidade deveria ser adotada
francamente, sem disfarces, tendo a coragem da contramarcha,
de retrogradar para trás dos espíritos de 1831, “e submetamos
os estados à subordinação, ao jugo do poder central em todos os
graus da justiça” (Id., ibid.v. 2:15).
O sistema misto foi defendido por Gonçalves Chaves, de Mi­
nas Gerais. Para ele, o direito era um poderoso vínculo de na­
cionalidade, uma força moral, que deveria ser conservada. Po­
rém, as instituições judiciárias, os órgãos que lhe dão vida e
ação, deveriam adaptar-se à diversidade das condições mate­
riais dos estados. Outra razão seria de ordem política, pois “re­
conhecida a autonomia dos estados para organizarem os pode­
res públicos respectivos, [...] seria mutilar essa autonomia, ne-
gar-lhe a instituição do Poder Judiciário” (Id., ibid.:13).
Assim a discussão da dualidade do direito envolvia a discus­
são sobre os fundamentos da unidade nacional. Os unitaristas
acusavam os dualistas de estarem acobertando a separação
mediante a adoção de uma Constituição ultrafederalista. Para
172 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZAÇÃO DA REPÚBLICA

eles, a possibilidade de serem estabelecidas políticas de coloni­


zação pelos estados, aliada à adoção de legislações civis próprias
iria reforçar os sentimentos estaduais, tornando os brasileiros
“estrangeiros” em seu próprio país, quando estivessem fora de
seus estados.
“A unidade jurídica no País representa a força moral do
povo brasileiro; torna uma realidade vivente toda uma série
de relações que se criaram com o tempo, de acordo com as
condições gerais do povo brasileiro, e o povo brasileiro é um
só. Como, pois, estabelecer diversos códigos para as diversas
circunscrições que formam os estados? O Brasil é um País
novo, que deve atrair e assimilar as forças do velho mundo; e,
se vós investis cada estado nesse supremo atributo de decre­
tação de códigos particulares, em poucos anos, com a imigra­
ção italiana para São Paulo e alemã para o Sul e outra e ou­
tra para este e aquele estado, tereis perdido a nacionalidade
brasileira, porque esses códigos irão formando outras tantas
nacionalidades [...].
“Vós sabeis que a colonização é um elemento permanente
de diferenciação; e se o povo brasileiro não for uma unidade,
sempre fortemente constituída pela sua legislação, como pela
sua força moral, como pelas suas instituições jurídicas, em
pouco tempo será uma nacionalidade dispersa e extinta”
(Teodoreto Souto, senador pelo Ceará, apud Roure, ibid., 1:423).
Por outro lado, os unitaristas aceitavam que os estados legis­
lassem sobre contravenções policiais ou disposições regulamen­
tares, e locação de serviços (Id., ibid.:414). As duas primeiras
não eram mais que as posturas municipais e os dispositivos de
segurança e bem-viver. A legislação sobre locação de serviços
era uma concessão federalista importante, pois dava aos esta­
dos o poder de estabelecer a própria política de mão-de-obra. Os
unitaristas ainda deixavam aos estados o poder de adotar sua
própria organização judiciária e de nomear, remunerar, promo­
ver, remover e suspender os juizes de primeira instância. No
entanto, essas atribuições dos estados pareciam ser pouco para
os dualistas.
Mais do que o tema da nacionalidade, estavam envolvidas
nessa discussão questões financeiras e políticas. Os dualistas
eram os representantes de estados mais importantes economi­
camente (Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais), ou com
O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA | 173

uma expansão recente da exportação (Pará, Amazonas). Do ponto


de vista financeiro, a importância da discussão estava situada
no controle, pela União ou pelos estados, do imposto de exporta­
ção, a principal fonte de recursos governamentais, bem como a
capacidade dos estados de contrair empréstimos no exterior e o
controle das terras públicas, necessária à política de imigração.
Do ponto de vista político, a importância dessa discussão era a
do peso dos representantes dos estados pequenos e médios no
novo sistema político. Se os grandes estados conseguissem fazer
prevalecer a autonomia quase completa dos estados-membros,
os outros estados ficariam desprovidos de fontes financeiras pró­
prias e sem recursos políticos para se fazer valer no plano fede­
ral. A limitação das atribuições civis e comerciais do Congresso
possibilitaria aos grandes estados controlar os meios de legislar
em prol da sua própria expansão econômica. Para os unitaris-
tas, a manutenção do controle da União sobre as mais impor­
tantes áreas da legislação civil reservava algum poder de bar­
ganha para seus estados, por causa da necessidade de serem
negociadas em nível nacional as políticas que estivessem sob a
competência do Poder Legislativo federal12. A emenda da duali­
dade foi aprovada em primeira discussão, mas foi rejeitada em
segunda discussão, quando foi aprovado um dispositivo que man­
tinha a unidade do direito substantivo, mas criava a dualidade
do direito processual. Assim o estabelecimento da unidade do
direito substantivo representou uma derrota importante dos
grandes estados na Constituinte, cujas políticas nestas áreas
deveriam ser submetidas ao Congresso.

***

O projeto do Governo Provisório limitava o poder de organização


do Poder Judiciário pelos estados, proibindo a magistratura ele­
tiva e condicionando a demissão dos magistrados à condena­
ção por sentença judicial. Essas restrições foram criticadas por
João Barbalho, deputado de Pernambuco, porque cerceavam a

12 Havia também posições tomadas em função de grupos profissio­


nais, como magistrados, militares, ou doutrinários, como os positi­
vistas, etc.
174 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA

autonomia dos estados, eram incompatíveis “com as faculdades


que eles têm de se constituir, [...] usando para isto de poderes que
possuem, de que não podem ser despojados e que em caso algum
devem passar à União”. Os estados deveriam, pois, ter a liberda­
de de regular-se conforme entendessem “mais conveniente às suas
condições e circunstâncias, não podendo a União seqüestrar aquilo
que é da competência dos mesmos”. Os representantes do Pará,
liderados por Lauro Sodré, apresentaram emenda substitutiva
que prevaleceu no texto final da Constituição (art. 63): “Cada es­
tado reger-se-á pela Constituição e pelas leis que adotar, respei­
tados os princípios constitucionais da União” (Barbalho, ibid.:357).
Portanto, a organização do Poder Judiciário foi abordada na
Constituinte especialmente do ponto de vista da distribuição
dos poderes entre os estados e a União. Segundo Agenor de Rou­
re, essa foi a tendência geral da Constituinte, tendo acontecido,
por exemplo, na discriminação de rendas, na organização mili­
tar e na indeterminação dos poderes de intervenção federal. Ao
mesmo tempo, foram suprimidas as garantias de organização
municipal e o poder de suspensão pela União de lei estadual
considerada inconstitucional. Restou apenas o poder da justiça
federal para negar a aplicação de leis inconstitucionais a casos
concretos (Roure, ibid., v. 1:25).
A partir do trabalho de Agenor de Roure, nota-se que a discus­
são na Constituinte sobre o Supremo Tribunal Federal não se
deu sobre a questão do controle judicial da constitucionalidade,
pois os debates se concentraram sobre quem controlaria a no­
meação dos ministros do STF. Foram propostos diversos siste­
mas de nomeação de ministros, semelhantes aos que haviam sido
cogitados na Comissão dos Cinco13. As críticas ao projeto do Go­
verno Provisório centraram-se em duas questões: o predomínio
dos estados maiores e os interesses corporativos dos magistra­
dos. Essas duas questões aparecem já no voto em separado de
cinco membros da Comissão dos 21 representantes, que emitiu
parecer sobre o projeto do Governo Provisório. O voto em separado

13 Foram apresentadas emendas a respeito do número de ministros


do STF e do sistema de sua nomeação, como de 21 ministros, um
por estado mais o Distrito Federal, designados pelas legislaturas
dos estados ou eleitos pelos juizes e desembargadores dos estados.
O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZA ÇÃ O DA REPÚBLICA | 175

criticava o sistema do Projeto do Governo Provisório em razão


das limitações que implicava à carreira dos magistrados.
“[...] o sistema do projeto concorrerá para abater o nível da
parte mais numerosa da magistratura, encerrando-a nos es­
treitos limites de cada estado e cortando-lhe o acesso nos tri­
bunais federais, onde seus membros somente poderão ter
entrada por favor e graça do governo da União. Os escassos
recursos da maior parte dos estados e tantas outras razões
que se prendem a circunstâncias peculiares a cada um deles
dificilmente lhes permitirão constituir os seus tribunais su­
periores nas desejáveis condições de independência para
emendar e corrigir os erros dos juizes de primeira instância.
Ao lado de uma magistratura privilegiada, constituir-se-ia
uma outra a todos os respeitos inferior; e essa fragmentação
da tradicional unidade do poder judiciário acarretaria o ani­
quilamento de uma força nacional” (apud Id., ibid., v. 2:4).
Em plenário, esses argumentos foram usados por José Higi-
no e Anfilófio de Carvalho. Este propunha que os ministros do
STF fossem nomeados dentre os desembargadores, um por Tri­
bunal de Apelação, e mais um terço nomeado livremente pelo
presidente da República. Para ele, o sistema de nomeação dos
ministros constante do projeto do Governo Provisório implica­
ria o predomínio dos estados maiores sobre os menores.
“O Supremo Tribunal terá 15 juizes apenas, quando 20 são,
por ora, os estados; e ao julgamento desse tribunal, que em si
concentra a maior sombra do poder político da nova forma de
governo, porque tem a faculdade de corrigir os erros do Exe­
cutivo e Legislativo, firmando a inteligência da lei constitu­
cional e que há de julgar o presidente da República nos cri­
mes comuns; ao julgamento desse tribunal vão ser deferidas
todas as questões que mais interessam a vida autônoma dos
estados, sua independência e futuro, as questões entre esta­
dos e a União, a validade das leis dos parlamentos dos esta­
dos, a manutenção dos atos de seus governos. E, como um tal
tribunal há de ser constituído pelo arbítrio do presidente da
República, para ele só serão nomeados indivíduos tirados dos
estados maiores e mais populosos, que são aqueles que mais
terão de concorrer para a eleição daquele funcionário, por
disporem de maior número de eleitores: de sorte que esses
estados, os grandes, os poderosos, os mais populosos, vão cons-
176 | O PODER JUDICIÁRIO NA O RGAN IZAÇÃO DA REPÚBLICA

tituir-se os tutores dos pequenos e fracos e ao mesmo tempo


os árbitros dos futuros destinos da Pátria, em um regime que
se chamará de Federação! Singular Federação!” (ibid.:21-2).
A mesma oposição entre os estados e os privilégios dos ma­
gistrados aparece nos discursos dos que defendiam a dualidade
da magistratura. Justiniano Serpa, deputado pelo Ceará per­
guntava:
“Há, porventura, maior perigo para os estados do que dei­
xá-los entregues a uma magistratura da União, nomeada pelo
poder central e superior a todas as autoridades locais? [...].
Um dos grandes defeitos do antigo sistema era a centraliza­
ção administrativa. Como, pois, reviver esse regime, tratan­
do-se da magistratura?
“— O que queremos é libertar a magistratura das paixões
locais (aparte).
“— Não compreendo a razão justificativa desse privilégio
que pretendem para a magistratura. Mas, qualquer que seja,
deve ceder a uma razão de ordem pública — as garantias da
liberdade, que ficarão em perigo no momento em que os ma­
gistrados não dependerem dos estados e puderem se colocar
superiores a tudo” (apud Id., ibid., v. 2:6 — grifos nossos).
A referência às garantias da liberdade colocadas em perigo
por magistrados leva à questão: liberdade de quem? A análise
realizada até agora responde a esta questão: nas discussões da
Constituinte a respeito da organização da magistratura os re­
presentantes tratavam de garantir a liberdade dos estados pe­
rante o poder central, contra os interesses corporativos dos ma­
gistrados.
Assim as novas atribuições políticas do Poder Judiciário não
foram temas polemizados durante a Constituinte. Quanto ao
STF, a lacuna manifesta-se especialmente em relação ao seu
poder de declarar a inconstitucionalidade das leis e, com isso, o
papel do novo órgão para garantir o predomínio da Constituição
na esfera dos direitos individuais contra os atos dos outros po-

14 Sobre o problema da atual combinação dos modelos concentrado e


difuso de controle da constitucionalidade no Brasil, ver Arantes,
1997. Para uma outra posição a respeito do problema, ver Vieira,
1993.
O PODER JUDICIÁRIO NA O RG AN IZAÇÃO DA REPÚBLICA | 177

deres políticos14. Mais que uma lacuna, vemos que no processo


de organização constitucional da República, a nova Constitui­
ção era um considerada sob a perspectiva de um pacto político
federativo. Esse pacto não partia do princípio de que ocorrera
com a transformação republicana uma suposta dissolução do
pacto social. Os sujeitos cujos direitos deveriam ser resguarda­
dos pelo novo pacto não eram os indivíduos; eram antes os esta­
dos, considerados como entidades políticas autônomas e pree­
xistentes à nova federação. Com isso, os debates sobre a forma
de nomeação dos ministros do STF e sobre a organização judi­
ciária, tornaram-se a oposição entre a salvaguarda à autonomia
dos estados e a defesa dos privilégios dos magistrados.
Os liberais do Império viam a possibilidade de ampliar as
garantias das liberdades individuais pela constituição de uma
magistratura nacional independente. No processo de organiza­
ção constitucional da República, essa proposta foi deslocada pelo
tema da federação. Nos anos seguintes, o problema da forma de
organização do Poder Judiciário passou a ser posto em novos
termos: abriram-se novos modelos para o Poder Judiciário; tor­
nou-se agudo o problema da posição do Poder Judiciário entre
os poderes do Estado, em particular a extensão da autonomia
dos magistrados na interpretação da lei; aumentaram as situa­
ções de conflito entre magistrados e os ocupantes de cargos ele­
tivos; foi redefinido o âmbito do problema da organização judi­
ciária, do Império para os estados; os governantes e magistrados
enfrentaram novos conflitos políticos e sociais. Por essas razões,
apesar de diversas propostas de retorno à unidade de organiza­
ção judiciária apresentadas nas décadas seguintes, apenas com
a crise da Primeira República é que a antiga proposta liberal de
constituição de uma magistratura nacional independente colo-
car-se-ia novamente com força no debate político.
Capítulo 4
O PO D ER JU D IC IÁ R IO FED ER A L
N A ORDEM P O L ÍT IC A
DA PRIM EIRA R E P Ú B L IC A 1

Neste capítulo, estudamos o Poder Judiciário federal como par­


te do sistema político da Primeira República. Partimos da hipó­
tese que as características institucionais do Poder Judiciário
federal no período foram determinadas pelas características mais
gerais do sistema político federal. Estudamos as seguintes ques­
tões: 1) O STF no sistema político federal: a vitaliciedade dos
ministros e as alianças políticas federais; 2) A Política dos Go­
vernadores e a ordem política republicana; 3) A política de no­
meações de juizes federais de 1900 até 1911; 4) Habeas-corpus
nos conflitos eleitorais entre oligarquias estaduais, no período
1908-1911; e, enfim, 5) a forma de organização dos juízos secio-
nais.
Nosso argumento neste capítulo é que o controle do Poder
Judiciário federal era de alguma importância política na Pri­
meira República. O STF e os juizes federais tinham o poder de
julgar os conflitos entre a União e os estados e os crimes políti­
cos, entre outros. A desobediência a sentença ou lei federal jus­
tificava a intervenção federal no estado (art. 6.°, § 4, da Consti­
tuição Federal). Assim, com os poderes atribuídos ao Poder Ju­
diciário federal pela Constituição, a intervenção deste no pro­
cesso político era um dos meios disponíveis para as facções não,
porém, como árbitro, mas como alternativa estratégica nos seus

1 Este capítulo é uma versão do artigo “O Poder Judiciário Federal


no Sistema Político da Primeira República”, publicado na Revista
USP, 21, de maio de 1994, Dossiê do Poder Judiciário.
179
180 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

conflitos políticos. Com isso, as decisões judiciais, em especial


as do STF, não cumpriam o papel de moderador das lutas políti­
cas, que continuavam após decisões do tribunal. De forma cor­
respondente, as lutas políticas ingressaram no STF, tornando
facciosas as próprias decisões deste tribunal. Os juizes secio-
nais eram, em geral, nomeados dentre os candidatos indicados
pelas oligarquias dominantes nos estados e os ministros do STF
eram escolhidos dentre auxiliares do presidente da República
ou entre os membros de facções aliadas a ele. No entanto, havia
descontinuidade nessa relação, pois, em virtude da vitalicieda­
de, os juizes federais (ministros do STF e juizes secionais) per­
maneciam em seus cargos, mesmo que houvesse mudanças na
situação política federal ou dos estados. Desse modo, as facções
oligárquicas que se encontravam na oposição podiam obter de­
cisões favoráveis da justiça federal. Porém, as forças requisita­
das pelos juizes federais somente seriam concedidas pelo presi­
dente da República se fosse para a facção oligárquica apoiada
por ele. Assim, do ponto de vista da eficácia da ação do Poder
Judiciário federal nas questões políticas, o presidente da Repú­
blica era o supremo árbitro, pois a intervenção federal somente
ocorreria em função do seu próprio julgamento do caso.
O sistema de governo presidencialista adotado pela Consti­
tuição implicava a inexistência de um dispositivo que, tal como
o Poder Moderador no Império, concedesse ao presidente da Re­
pública o papel de supremo árbitro dos conflitos políticos. O Po­
der Judiciário federal, em especial o STF, que constitucional­
mente seria a suprema instância, exercia topicamente esse po­
der, em função de situações políticas particulares, mantendo in­
certos os limites de aplicação da Constituição Federal. O modo
de inserção do STF no sistema político federal da Primeira Re­
pública manifesta-se então na própria oscilação das suas deci­
sões nos casos políticos.
As deficiências organizacionais da justiça federal nos estados
podem do mesmo modo ser consideradas parte do sistema polí­
tico federal. Por um lado, porque a ineficácia da ação dos juízos
secionais garantia a impunidade da violência política. Por outro
lado, porque os juizes secionais somente poderiam agir com al­
guma eficácia se tivessem o apoio da oligarquia estadual domi­
nante, ou o apoio de uma fação oligárquica destituída, somado à
aquiescência do presidente da República. Por essas característi-
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 181

cas, o Poder Judiciário federal participava da ordem política re­


publicana estabilizada com a Política dos Governadores: da ri­
gidez resultante da exclusão dos rivais, do exercício particula-
rista do poder político, e da incerteza quanto ao sentido, à ex­
tensão e à eficácia das normas constitucionais.

I . O S T F no sistem a político federal:


a vitaliciedade dos m inistros e as alianças das facções

Por ser vitalício, o cargo de ministro do STF implicava uma


situação peculiar na dinâmica das alianças e dos conflitos entre
as facções políticas. Uma mudança da situação política resulta­
va na substituição dos ocupantes dos mandatos parlamentares
ou executivos. Os ministros do STF, ao contrário, permaneciam
bastante tempo em seus cargos, durante o qual ocorriam reali-
nhamentos nas alianças entre as facções, ou mesmo o desapare­
cimento da fação à qual pertenciam. Esse é o caso de Bernardi-
no Ferreira da Silva, chefe de polícia (1892-3) e membro do Su­
premo Tribunal Militar (1893-4) e Eduardo Pindaíba de Matos,
nomeados por Floriano Peixoto; de Lúcio de Mendonça, ligado
aos jacobinos, e Ribeiro de Almeida, ligado ao chefe fluminense
Tomás Porciúncula, nomeados no início do governo de Prudente
de Morais; e de João Barbalho, pernambucano, ligado a Lucena
e nomeado por Manuel Victorino na sua manobra para forçar a
renúncia de Prudente.
Como veremos, os ministros decidiam segundo suas ligações
com os grupos políticos de seus estados (alguns ministros, como
Manuel Murtinho e Epitácio Pessoa, eram eles próprios impor­
tantes chefes políticos estaduais). Mas, em virtude da vitalicie­
dade do cargo, a maioria do tribunal não correspondia sempre à
aliança que dominava a política federal. Desse modo, havia al­
guma incerteza sobre o resultado das decisões do tribunal, o
que conduzia a complicadas negociações entre ministros e che­
fes políticos, e também a pressões destes sobre o tribunal, colo­
cando em dúvida sua real obediência às decisões judiciárias que
lhes fossem desfavoráveis. Além disso, os grupos políticos rea­
giam às decisões desfavoráveis do tribunal, criticando a inter­
venção do Judiciário na política, ou atribuindo o resultado da
decisão a influências políticas sobre o tribunal. Mas, uma vez
que a demanda da intervenção do tribunal era um recurso poli-
182 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

tico disponível, as facções políticas utilizavam-no, mesmo que


tivessem criticado “doutrinariamente” essa intervenção pouco
antes. Desse modo podemos compreender a paradoxal recusa
dos chefes políticos à intervenção judiciária na política, seguida
de demandas de habeas-corpus ao tribunal, desde que fosse ne­
cessário. Podemos explicar da mesma maneira os conflitos ocor­
ridos entre a maioria do tribunal e os chefes políticos, e também
os períodos em que suas relações foram pacíficas.
Ao contrário da imagem corrente, os conflitos com o STF não
foram exclusividade dos governos militares, mesmo se foi com
estes que os conflitos foram mais agudos. A expressão extrema
dessa situação é a frase de Floriano Peixoto em 1892 a respeito
da possibilidade de concessão pelo STF de um habeas-corpus a
presos políticos: “Se os juizes do Tribunal concederem o habeas-
corpus aos políticos [detidos por ele], eu não sei quem amanhã
lhes dará o habeas-corpus que por sua vez necessitarão”. Amea­
ça física que o risco posto às instituições pela guerra civil e a
situação de virtual ditadura na época tornavam possíveis. Pode-
se considerar do mesmo modo a desobediência a decisões do STF
pelo ministro da Guerra de Floriano; as tentativas deste de no­
mear ministros do STF de sua estrita confiança, e que não fos­
sem juristas*; e enfim a sua recusa de nomear ministros e o
procurador-geral da República para os cargos vagos, o que aca­
bou por impedir o funcionamento do STF durante sete meses,
pela inexistência do quórum mínimo exigido pelo regimento in­
terno deste tribunal.
Podemos considerar do mesmo modo as críticas de Prudente
de Morais ao STF. No final de 1897, após ter sofrido tentativa
de assassinato, Prudente decretou estado de sítio e deteve seus
opositores como responsáveis da conspiração que havia levado
àquele ato. Em abril de 1898, o STF concedeu habeas-corpus
aos detidos. Na sua Mensagem Presidencial ao Congresso na­
quele ano, Prudente criticava o STF pela decisão, pois ela aba-

* Aliás, ao contrário do que se afirma comumente, foram cinco e não


três as nomeações de ministros rejeitadas pelo Senado durante o
governo de Floriano Peixoto: Barata Ribeiro; Antonio Caetano Seve
Navarro e Inocêncio Galvão Queirós; e Ewerton Quadros e Demós-
tenes da Silveira Lobo (ver JC, 24/9; 7/10 e 18/11/1894).
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 183

lava a harmonia entre os poderes políticos, inutilizava o julga­


mento dos atos do governo pelo Congresso e anulava “as provi­
dências repressivas reputadas necessárias pelo Executivo, a bem
da manutenção da ordem”. Para evitar conflito com o tribunal, o
governo havia acatado a decisão, mesmo que ela tivesse sido
“influenciada pela paixão partidária” e “não obstante a sua in­
constitucionalidade”. De fato, o afastamento de Prudente de
Morais da presidência da República no fim de 1896, por motivo
de saúde, havia permitido ao Vice-Presidente Manuel Victori-
no, que era um dos chefes oposicionistas, nomear três novos mi­
nistros do STF, com o que foi constituída uma maioria favorável
à oposição no tribunal, a qual acabou por conceder o referido
habeas-corpus (ver Rodrigues, L., 1965). Os exemplos desses con­
flitos poderiam ser multiplicados, mesmo durante o período pos­
terior à estabilização da República. Poderiam ser analisadas do
mesmo modo as decisões em que não ocorreram conflitos, em
particular durante a presidência de Campos Sales, e na maior
parte das decisões durante os demais períodos presidenciais.

2. A Política dos Governadores e a ordem política republicana

A primeira década republicana assistiu a diversas tentativas


de articulação de um novo centro político, em função dos novos
dados da política, isto é, o presidencialismo e a federação. Desde
o governo de Floriano, o presidente da República enfrentava o
problema de encontrar um modo de organizar sua sustentação
no Congresso e os grupos dominantes nos estados, de modo a
formar maioria favorável ao governo no Congresso e organizar
as sucessões estaduais e federal. Este foi o objetivo do PRF, Par­
tido Republicano Federal, organizado e presidido por Francisco
Glicério. No entanto, durante o governo de Prudente de Morais,
o PRF acabou entrando em choque com o presidente, que provi­
denciou a fragmentação da maioria partidária. A ausência de
um partido nacional, além de dificultar a sustentação do presi­
dente no Congresso, implicava o risco de pôr o país em guerra
civil a cada eleição. Isso porque, em virtude da decalagem das
eleições, e das próprias mudanças nas alianças políticas, muitos
estados tinham grupos opostos no governo estadual e no Con­
gresso. As lutas para controlar a máquina eleitoral seriam en­
tão inevitáveis, os candidatos da chapa dominante venceriam
184 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

as eleições e as oposições recorreriam às armas, recebendo o


apoio de militares (v. Andrade, 1981; Cardoso, 1975; Kugelmas,
1986 e Souza, 1987).
A resolução desse problema foi encontrada por Campos Sa­
les, com a Política dos Governadores, aliança estabelecida entre
os chefes políticos estaduais a partir de 1898, para as eleições
de 1900. Essa política deslocou o problema da construção de um
grande partido nacional para o da obtenção do apoio dos grupos
dominantes nos estados ao presidente da República. Tratava-se
de aliança que garantia o apoio das fações dominantes nos esta­
dos ao governo federal, em troca da não-intervenção federal nos
estados. Com isso resolviam-se o problema do apoio parlamen­
tar ao presidente da República e o problema sucessório, no âm­
bito federal e no estadual. De um ponto de vista mais geral, a
Política dos Governadores exercia funções semelhantes às do
Poder Moderador do Império. De fato, os dois esquemas servi­
ram como ordenadores do jogo político, quer dizer, por eles se
estabeleceram os modos de ascensão ao mando, a forma de rela­
cionamento entre os poderes políticos, os mecanismos de arbi­
tragem entre grupos dissidentes. Eles serviram também como
fatores de distinção entre os conflitos de interesses locais e os
interesses gerais e, enfim, como dispositivos de alternância dos
grupos no poder. No regime anterior, o imperador tomava parte
no governo e na administração, havendo uma zona de incerteza
entre o poder ativo e responsável do Gabinete e o Poder Mode­
rador, neutro e irresponsável. Segundo a variação da correlação
de forças políticas, expressas no apoio ou, ao contrário, nas pres­
sões e resistências da “opinião pública” às políticas governamen­
tais, o imperador utilizava o Poder Moderador para alternar no
governo os diversos grupos dominantes. Desse modo, quando se
mostrava necessário, ou conveniente, o imperador dissolvia a
Câmara, chamava novo Gabinete que faria as alterações nos
demais cargos. Com isso era garantida a vitória nas próximas
eleições ao grupo emergente, enquanto o grupo decaído entrava
em compasso de espera por nova oportunidade de ascensão.
Funcionava desta forma uma rotatividade política, que impedia
que os mesmos grupos se eternizassem no governo e na qual se
procediam a formulações e a negociações a respeito das políti­
cas a serem levadas a efeito pelo governo central (Cardoso,
1975:30).
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 185

A Política dos Governadores, por sua vez, consistia: 1.°) na


independência entre os poderes, mas com a preeminência do
presidente, que deliberava responsavelmente; 2.°) o Legislativo
não governava nem administrava; 3.°) as maiorias estaduais elei­
tas seriam reconhecidas automaticamente, para garantir apoio
ao presidente; 4.°) em contrapartida, o governo federal não apoia­
ria as dissidências (esta regra foi quebrada em alguns casos);
5.°) o presidente da Câmara anterior controlaria a Comissão de
Verificação de Poderes que reconheceria os votos dos eleitos à
Presidência e ao Congresso. Quanto às suas bases doutrinárias,
o esquema pode ser exposto da seguinte forma. O presidente da
República, como chefe da Nação, deveria exercer o poder políti­
co acima das paixões partidárias, pois era da natureza de suas
funções “esclarecer e dirigir” a maioria do Congresso. Desse
modo, o Executivo era reforçado em face dos partidos e identifi­
cava nos estados a expressão organizada da Nação, pois os par­
tidos políticos não eram mais do que a expressão das ambições
pessoais de seus membros e deveriam ser aceitos apenas no
âmbito estadual, para realizar as eleições. Por isso, o presi­
dente da República reconhecia apenas os grupos dominantes
dos estados, não apoiando os grupos oposicionistas. Como se
sabe, Campos Sales nomeou este esquema “Política dos Esta­
dos”, mas ele ficou conhecido como a “Política dos Governado­
res”. Esta mudança de nome já indica a superposição determi­
nada pelo esquema político, pois à medida que as fações esta­
duais dominantes se reconneciam mutuamente, elas se consti­
tuíam reciprocamente como a própria expressão da totalidade
dos seus estados. Ou seja, era a vontade dos chefes políticos
que unificava e expressava a região sob seu controle e a vonta­
de da nação era expressa pela vontade de seus líderes (Cardo­
so, ibid.:48; Andrade, ibid.; Kugelmas, ibid.:37-80; Enders,
1993:271).
Porém, se a Política dos Governadores exercia funções seme­
lhantes às do Poder Moderador, ela não as exercia do mesmo
modo. O imperador ocupava posição transcendente e de caráter
pessoal; identificada à unidade da nação e concebida como exte­
rior ao entrechoque de interesses particulares; e por conse­
qüência o seu princípio de ação era a sua própria vontade. Ao
assinalar a posição do rei, a ordem imperial fixava a posição dos
outros como seus súditos, definidos de forma abstrata (Andra-
186 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

de, ibid.:34). O presidente da República na Política dos Gover­


nadores era antes o primeiro entre seus pares, aquele investido
temporariamente pelos seus iguais para agir em nome de todos.
Ele representava a unidade da nação de forma institucional e
transitória, pois sua investidura era vinculada à elegibilidade e
à periodicidade dos mandatos.
A investidura por eleição era um modo expressamente tran­
sitório de ocupação dos cargos políticos. Para os grupos rivais,
a periodicidade significava que a situação de mando/obediên­
cia existente em determinado momento era passageira e que
num momento posterior haveria nova “aferição” das forças
políticas respectivas. Com isso, os seus conflitos não se torna­
vam, em geral, guerra permanente, mas voltavam-se aos pe­
ríodos eleitorais, quando se procurava estabelecer novas alian­
ças com que se pudesse continuar, ou reverter, a situação exis­
tente naquele momento. As eleições aparecem então como a
condição mínima, para as facções políticas, de continuidade do
jogo político e de transitoriedade das relações de mando. As­
sim as eleições na Primeira República repetiam-se monotona­
mente, com o formalismo das tomadas de posição pelas fações
políticas, num processo eleitoral cujo resultado já era na
maior parte das vezes conhecido com antecedência, em que as
lutas e campanhas eleitorais terminavam em episódios de frau­
des, de violências e de denúncias etc. Porém, a repetição das
eleições na Primeira República era a forma da luta política
entre os diversos grupos e significava que o jogo continuava,
de algum modo, aberto. Conseqüentemente, a investidura do
presidente da República não expressava alguma coisa de exte­
rior ao conflito de interesses, mas, ao contrário, resultava de
determinado processo de escolha, que era o conjunto de nego­
ciações, de alianças, acomodações ou de rupturas entre os che­
fes políticos, culminando na eleição e investidura de um deles.
Por isso, o seu princípio de ação não podia ser a sua própria
vontade pois, mesmo que o presidente da República tivesse
boa margem de arbítrio, e este arbítrio fosse mesmo conside­
rado necessário e inerente à posição na qual ele foi investido, a
sua ação política devia ser feita em concerto e após consultas
aos principais chefes políticos estaduais. Isso se verifica espe­
cialmente no encaminhamento do processo de sucessão presi­
dencial, no qual os chefes políticos recusaram sistematicamente
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 187

ao presidente o poder de conduzir o processo e de “impor” a


eles o seu candidato. Enfim, a ordem republicana fixava as
posições respectivas do presidente, chefe da nação, e dos seus
eleitores, os quais não eram, de modo algum, seus súditos, mas
chefes eles mesmos, dos estados, as unidades constitutivas da
ordem política republicana.
O esquema da Política dos Governadores permitiu a conso­
lidação do poder federal e dos estados, estabilizando a política
da Primeira República. O sistema de alianças entre fações oli-
gárquicas estabelecido pela Política dos Governadores conse­
guiu manter as condições mínimas para a reprodução da do­
minação na Primeira República. Porém, o custo da exclusão
das fações rivais e das classes populares era a sua impossibili­
dade de representar-se como ordem geral. “No processo, todas
as mediações institucionais tendiam, elas próprias, a afirmar-
se como meros princípios de Poder, e como tal se defrontavam.
O Congresso, os Partidos, as Forças Armadas e a Presidência
descaracterizavam-se, em seus repetidos confrontos, como fa­
tores de integração, como denominadores comuns de toda a
nação para afirmar a sua própria autoridade perante os de­
mais” (Andrade, ibid.:54). E em razão de sua rigidez, o jogo das
oligarquias implicava constantes conflitos com os grupos opo­
sicionistas, levando às dissidências e oposições armadas, e à
exclusão permanente das demandas de participação dos seto­
res populares urbanos. Com os processos de mudança política
e social, essa rigidez acabou levando ao fim da Primeira Repú­
blica em 1930.

3. Política de nom eação de m inistros


do S T F e juizes federais de 1900 a 19 11

Devido às suas atribuições constitucionais, os cargos de mi­


nistro do STF e de juiz secional eram de alguma importância
política na Primeira República. Vejamos como era feita a nomea­
ção destes juizes no esquema da Política dos Governadores.

A) MINISTROS DO STF
Os ministros do STF eram nomeados pelo presidente da Re­
pública, com aprovação do Senado Federal, dentre cidadãos com
mais de 35 anos, elegíveis para o Senado, com notável saber
188 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

jurídico2. A escolha dos ministros pelo presidente tinha como


objetivo garantir maioria favorável no tribunal, limitada ape­
nas pelos compromissos da Política dos Governadores. A no­
meação de um ministro para o STF poderia ser uma retribuição
do presidente da República a um auxiliar por serviços presta­
dos, ou parte de uma aliança entre facções.
As duas situações ocorreram nas nomeações de ministros do
STF no período de 1900 a 19113. Alberto Torres e Epitácio Pes­
soa tiveram preteridas suas pretensões de domínio dos seus es­
tados, por causa da regra do reconhecimento das facções domi­
nantes dã Política dos Governadores. Sua nomeação para o STF
foi uma forma pela qual Campos Sales assegurou a manutenção
da sua aliança com eles. Esse também é o caso de Guimarães
Natal, cunhado de Leopoldo de Bulhões, nomeado por Rodri­
gues Alves. Bulhões era ministro da Fazenda e dominava o Es­
tado de Goiás, onde o seu cunhado era juiz federal. Em meados
de 1905, o governador do estado rompeu com Bulhões, aliando-

2 A condição do notável saber jurídico não era uma restrição efetiva,


pois foram nomeados ministros que notoriamente não preenchiam
este requisito, como Alberto Torres e Cardoso de Castro. Quanto ao
primeiro, consta que, depois de nomeado ministro, retardou a pos­
se por alguns meses, alegando a necessidade de estudar, para se
preparar para o cargo (Rodrigues, 1968). Quanto ao segundo, era o
chefe de polícia do Distrito Federal responsável pela repressão à
Revolta da Vacina no governo de Rodrigues Alves, conhecido na
capital federal como “Cardoso Maluco” (JC, 29/10/1905).
3 Estabelecemos as ligações dos ministros com as fações a partir dos
seguintes critérios: 1) ligações pessoais, especialmente de paren­
tesco, com os chefes políticos; 2) cargos eletivos ou de confiança
exercidos, e a fação dominante naquele momento; 3) a fação do es­
tado de nascimento do ministro aliada ao presidente da República
no momento da sua nomeação e 4) residualmente, outras informa­
ções advindas da pesquisa. Em virtude das características das
alianças, como os realinhamentos e a possibilidade de ruptura, ado­
tamos o critério de tomar as ligações dos ministros com as fações
pela informação existente do momento mais próximo da decisão
tomada. Quando não fazemos referência expressa da fonte, as in­
formações resultam: para dados biográficos dos ministros do STF,
do estudo de Laurênio Lago (1978); para dados de presidentes da
República e parlamentares, do estudo de Dunshee de Abranches
(1918) e para o processo político, Edgar Carone, 1983.
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 189

se à oposição. Na sucessão governamental ocorreram duplica­


tas de governo e assembléia. Rodrigues Alves, porém, não de­
cretou a intervenção no estado, encaminhando o caso ao Con­
gresso Nacional, o que resultou no controle do estado pela opo­
sição. O ministro pediu demissão, mas Rodrigues Alves não acei­
tou. Em setembro de 1905, este ofereceu uma cadeira do STF a
Bulhões, que indicou o seu cunhado (Franco, A., 1973, v. 2:501-
3; Bulhões, A., 277). Nomeações por aliança parecem ter sido
também as de Pedro Lessa e de Canuto Saraiva, ligados aos
paulistas, nomeados por Affonso Penna, mineiro4.
O outro tipo de nomeação era a retribuição do presidente da
República a seus auxiliares, por serviços prestados. Rodrigues
Alves nomeou três chefes de polícia: Oliveira Ribeiro, desem­
bargador de São Paulo, que fora chefe de polícia durante seu
governo em São Paulo; Cardoso de Castro e Manuel Espínola,
na Presidência da República. Nilo Peçanha nomeou Carolino
Leôni Ramos, que fora deputado estadual no Rio de Janeiro e
chefe de polícia do Distrito Federal durante seu governo, e seu
aliado Godofredo Cunha, genro de Quintino Bocaiúva. Quando
era juiz secional do Rio de Janeiro, Godofredo Cunha concedeu
habeas-corpus para garantir as eleições de dezembro de 1896
em Campos, onde Nilo Peçanha era candidato. O juiz secional
foi à Capital Federal e requisitou em pessoa força federal ao
vice-presidente em exercício Manuel Victorino, que lhe foi con­
cedida. O juiz secional comandou pessoalmente a distribuição
das duzentas praças pelo município. A intervenção causou na
época grande controvérsia sobre se o presidente da República
poderia apreciar os motivos da requisição do juiz secional antes
de conceder a força federal (JC, 30/12/1896 a 10/1/1897). Segun­
do Leda B. Rodrigues (1968:117-8), Nilo teria prometido a Go­
dofredo Cunha nessa ocasião que o nomearia ministro do STF
quando fosse presidente da República.
Dos ministros do STF nomeados no período restam apenas
Amaro Cavalcânti e Muniz Barreto. Amaro Cavalcânti havia

4 Apesar de ser mineiro, Pedro Lessa fez toda a sua carreira em São
Paulo. Ligado a Júlio de Mesquita, Lessa participou do PRP na
propaganda, foi deputado estadual, secretário do Tribunal de Jus­
tiça e professor da Faculdade de Direito da capital paulista.
190 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

sido parlamentar no início da República e um dos chefes políti­


cos do Rio Grande do Norte, mas perdeu seu lugar na bancada
federal, em virtude do domínio do estado por seu rival Pedro
Velho. Foi nomeado ministro do STF por Rodrigues Alves, em
cujo governo trabalhava como consultor jurídico do Ministério
das Relações Exteriores. Barreto era desembargador da Corte
de Apelação do Distrito Federal e foi nomeado por Hermes da
Fonseca.

B) JUÍZES SECIONA1S
Os juizes secionais eram nomeados pelo presidente da Repú­
blica com base em lista tríplice elaborada pelo STF5. O processo
de nomeação dos juizes secionais abria um campo de negociação
entre as oligarquias estaduais, o presidente da República e os
ministros do STF. A escolha do candidato pelo presidente era
parte do compromisso da Política dos Governadores, pela qual a
oligarquia dominante no estado controlava os cargos federais.
A indicação dos juizes secionais pelos grupos dominantes nos
estados já ocorrera nas primeiras nomeações de juizes secionais
em 1890. Foram nomeados Hermínio do Espírito Santo, cunha­
do de Júlio de Castilhos, para o Rio Grande do Sul; Luís Antônio
dos Santos Werneck, republicano histórico, para São Paulo;
Cesário Alvim, chefe político, para Minas Gerais; Manuel Mur-
tinho, chefe político, para Mato Grosso; Guimarães Natal,
cunhado de Leopoldo de Bulhões, para Goiás; Godofredo Cunha,
genro de Quintino Bocaiúva, para o Rio de Janeiro; Luís Viana,
para a Bahia; Gentil Bittencourt, republicano histórico, para o
Pará; e José Viana Vaz, de influente família conservadora do
estado, para o Maranhão. Essas nomeações, feitas pelo primei­
ro ministério do Governo Provisório, foram uma antecipação à
entrada em vigor da Constituição e recaíram sobre os grupos
que predominavam nos estados naquele momento. Após o con­
tragolpe de 23 de novembro de 1891 foram mantidos os juizes
federais em todas as seções, o que indica que nenhum deles

5 Essa forma de nomeação era diferente da adotada nos E.U.A., onde


todas as nomeações para a justiça federal eram atribuição do presi­
dente da República, sujeitas à aprovação do Senado. No Brasil, so­
mente os ministros do STF eram nomeados desta forma.
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 191

apoiou o golpe de 3 de novembro. No STF, pelo contrário, foram


aposentados pelo Congresso Nacional o Barão de Lucena e Men­
donça Uchoa, que faziam parte do governo de Deodoro, e apo-
sentaram-se a pedido outros cinco ministros entre os meses de
janeiro e maio de 1892.
Após a entrada em vigor da Constituição, os juizes secionais
eram nomeados pelo presidente da República de lista tríplice
elaborada pelo STF. O processo de nomeação era basicamente o
seguinte: aberta a vaga, o presidente da República comunicava
ao presidente do STF, que publicava edital nos principais jor­
nais do país. O prazo para as inscrições era de trinta dias, a
partir dos quais era sorteada comissão de três ministros para
examinar os documentos e classificar os candidatos. A classi­
ficação era votada secretamente no STF e o presidente do STF
encaminhava a lista com os nomes dos três candidatos mais vo­
tados para o presidente da República, que nomearia um deles.
As listas elaboradas pelo STF eram criticadas pela imprensa,
porque eram colocados os dois candidatos mais qualificados, mas
também o candidato indicado pela oligarquia dominante do es­
tado, o qual era nomeado. Até 1910 isso ocorreu, pelo menos,
nos casos do juiz secional de Goiás, cuja vaga ocorrera com a
nomeação de Guimarães Natal para o STF (JC, 3 e 5/11/1905);
para a seção do território do Acre, cujo cargo foi criado para um
afilhado do Presidente Affonso Penna (ibid., 9 e 10/5/1905); e
também para as vagas do Rio de Janeiro (1909), Rio Grande do
Norte e Paraná (JC, 15/7/1910).
O veto da oligarquia dominante no estado era suficiente para
evitar a nomeação do juiz secional. No preenchimento da vaga
de juiz secional de Mato Grosso de 1898, o veto ao candidato foi
levantado quando já ocorrera “a classificação, remessa ao go­
verno, nomeação, publicação no Diário Oficial, entrega do título
ao nomeado”. O ministro da Justiça, Epitácio Pessoa,
“ [...] mandou um recado telefônico [...] [ao presidente do STF]
para que não desse posse ao nomeado. Quando o interessa­
do chegou lá, exibiu o seu título, já registrado. Pois bem,
entre esse título que tinha a assinatura do presidente, que
fora nomeado no Diário Oficial e o simples recado do minis­
tro — recado verbal, pelo telefone — o recado prevaleceu!
não se deu a posse. O presidente da República fez então ou­
tra nomeação...
192 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

“Esse ato extravagantíssimo do Tribunal teve, porém, o


mérito de firmar o princípio de que, até o momento da posse,
basta um recado do ministro para retirar o direito de qual­
quer dos classificados por ele” (JC, 25/10/1905).
Por outro lado, se não constasse da lista o nome que tinha o
aval da oligarquia, o presidente da República podia remover al­
gum dos juizes secionais para a vaga existente, com o que a lista
de classificação era anulada e abertas inscrições para a nova
vaga. Criou-se então a polêmica sobre se o presidente da Repú­
blica poderia remover os juizes secionais para a vaga depois de
elaborada a lista pelo STF. Em 15/10/1905 o STF publicava a
lista dos classificados para a vaga de juiz secional de Pernam­
buco e dois dias depois o juiz secional do Espírito Santo era re­
movido para a vaga pelo presidente da República. Essa remoção
somente foi cogitada após a publicação da lista do STF, porque o
candidato do governo não aparecia nela (JC, 15,18 e 27/10/1905).
Criticava-se na imprensa o procedimento dos ministros do
STF na classificação dos candidatos a juiz secional. Para os crí­
ticos do STF, a culpa da “leviandade e injustiça” com que era
feita a escolha dos juizes federais não cabia às leis em vigor
“ [...] mas aos seus executores, aos ministros do STF mesmo
que, representantes supremos da lei e da justiça, não trepi­
dam em sacrificar a justiça e a lei à influência nefasta dos
interesses e dos empenhos.
“E da maior evidência, por exemplo, que o fato de ser o
candidato um político militante no estado em que se abriu a
vaga, ou parente e dependente do oligarca ali reinante, cons­
titui uma circunstância que o desabona para exercer com isen­
ção e independência as funções de juiz neste estado” (JC, 15/
7/1910).
Por sua vez, os ministros do STF tinham os seus interesses
particulares e podiam ter as suas próprias posições na política do
seu estado, tendo sido nomeados também seus parentes e aliados
para o cargo: em 1897, Manuel D. de Aquino e Castro, filho do
então presidente do STF, Olegário H. de Aquino e Castro, para o
juízo secional em São Paulo; em 1903, Venâncio Neiva, contrapa-
rente e aliado de Epitácio Pessoa, para o cargo na Paraíba; e em
1906, José Clímaco do Espírito Santo, irmão do Ministro Espírito
Santo, para o cargo no estado do Espírito Santo.
O juiz secional constituía um dos eleir entos de tensão da Po­
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 193

lítica dos Governadores, pois as garantias constitucionais do


cargo (vitaliciedade e inamovibilidade) excluíam a possibilida­
de de demissão do seu ocupante após a derrubada da facção que
o nomeara. O juiz secional permaneceria no seu cargo e pode­
ria, por exemplo, conceder ordem de habeas-corpus para a oli­
garquia destituída, cujo desrespeito seria pretexto para a requi­
sição da intervenção federal. Porém, a concessão ao juiz secio­
nal das forças federais requisitadas só ocorreria se o presidente
da República apoiasse a oligarquia destituída. Caso contrário, o
presidente da República respondia ao juiz secional que requisi­
tasse ao presidente do estado a força militar, quando era preci­
samente a este que se atribuía desobediência à sentença. Ou­
tras vezes, era concedida força federal insuficiente, ou esta re­
cebia ordens para dirigir-se lentamente ao local dos conflitos.
Quando o governo federal tinha por objetivo derrubar a oligar­
quia dominante no estado, ocorria o inverso6.

4. Habeas-corpus nos conflitos eleitorais


entre oligarquias estaduais

Em virtude das condições em que ocorriam, as decisões de


habeas-corpus nos casos de conflito entre as oligarquias esta­
duais interessam como uma situação em que se manifesta de
forma extrema a politização das decisões do STF. Os métodos
utilizados na luta eleitoral tornavam-na uma “briga entre pa­
péis falsos” para o reconhecimento dos vencedores. A intensida­
de da disputa política entre as facções, a ausência de informa­
ções mais objetivas sobre os conflitos nos estados e a urgência
demandada para a decisão judicial somavam-se aos meios limi­
tados para a produção de provas possibilitados pelo processo de
habeas-corpus. Assim o reconhecimento dos fatos e documentos
apontados num determinado pedido de habeas-corpus resulta­
ria de critérios mais ou menos arbitrários, pois essas provas

6 Para a concessão imediata de forças federais, ver a intervenção


federal no estado do Rio de Janeiro em 1896, que relatamos acima.
Para a recusa de força federal ao STF por Campos Sales em 1902
na derrubada do governo de Mato Grosso, ver Rodrigues, 1968:102
e o caso da Bahia de 1908, relatado abaixo.
194 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

estariam sempre sujeitas a contestação, tanto do ponto de vista


formal, como em razão da violência com que foram produzidos.
Para as facções era irrelevante a posição doutrinária que defen­
diam no STF, pois, para vencer, uma mesma facção podia adotar
doutrinas opostas em casos semelhantes ou defender doutrinas
contraditórias num mesmo caso. Uma facção na oposição pode­
ria, por exemplo, alegar constrangimento ilegal do governo, ao
impedir o acesso de deputados ao prédio da assembléia, apre­
sentando atas de diplomação e reconhecimento de deputados
que, à primeira vista, preenchiam os requisitos legais. Nas suas
informações, o governador poderia alegar que o livro de atas
havia sido roubado da assembléia, que as assinaturas eram fal­
sas, que determinado requisito não havia sido cumprido ou sim­
plesmente que não havia coação, porque ele não reconhecia os
deputados da oposição. De um ponto de vista pragmático, po­
dem-se contrastar duas posições dos ministros nessas condições:
a) a ampla aplicabilidade do habeas-corpus aos casos políticos.
Os pedidos deveriam ser concedidos mesmo em caso de dúvida
sobre sua legitimidade, pois a função do instituto era a garantia
imediata da liberdade individual. Com isso, o STF atuaria para
tornar a Constituição efetiva e nesse caso a tendência do minis­
tro seria conceder habeas-corpus; b) a aplicabilidade restrita: o
habeas-corpus caberia apenas em casos de comprovado atenta­
do ilegal contra a liberdade de locomoção. Os pedidos de ha-
beas-corpus nos casos políticos deveriam ser negados, pois o insti­
tuto era inadequado e sua concessão implicaria a intromissão
indevida do tribunal na esfera de outros poderes.
Vejamos os votos dos ministros em casos selecionados de ha­
beas-corpus em conflitos entre oligarquias estaduais, no perío­
do de 1908 a 19117:

7 Selecionamos as decisões finais de habeas-corpus nestes casos e,


dentre elas, a que teve o maior número de ministros. O período
estudado se justifica porque compreende as primeiras divisões na
Política dos Governadores no âmbito federal, a primeira sucessão
presidencial com competição eleitoral sob esta política (Rui versus
Hermes em 1910) e o início do governo de Hermes da Fonseca.
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 195

Quadro 12: Votos dos m inistros do STF em habeas-corpus em conflitos eleitorais estaduais
(1908-1911)________________________
n.° 1 2 3 4 5
Estado/ano Ba, 1908 Se, 1910 RJ, 1910 Am, 1910 RJ, 1911
Ministro c: 6x4 n : 10x0 c: 5x5 c: 8x1 c: 7x6
Espírito Santo n c
Ribeiro de Almeida c n c c cm
João Pedro c
Manuel Murtinho c n c
André Cavalcânti c n c c n
Epitácio Pessoa c n
Oliveira Ribeiro n* n n c c
Guimarães Natal c n* c* c* n
Cardoso de Castro n n c c n’
Amaro Cavalcânti n n n c c
Manuel Espínola n n c c
Pedro Lessa n n n c c
Canuto Saraiva n n c c
Godofredo Cunha n c n n
Leoni Ramos n
Muniz Barreto n
c = concedeu; n = negou; m = voto de Minerva
* Posição defendida pelo procurador-geral, sem direito a voto.

Esse quadro indica variação das posições dos juizes em rela­


ção à concessão ou negação de habeas-corpus nos casos estuda­
dos. Se compararmos os casos em que houve grande divisão no
tribunal (1, 3 e 5), formam-se dois grupos que votavam em con­
junto. Dos ministros que participaram em pelo menos dois des­
tes julgamentos, concederam o habeas-corpus nos casos 1 e 3 e
negaram no caso 5: Guimarães Natal, André Cavalcânti, Epitá-
cio Pessoa e Godofredo Cunha. Outro grupo votou nos mesmos
casos no sentido oposto: Pedro Lessa, Oliveira Ribeiro, Amaro
Cavalcânti, Canuto Saraiva e Manuel Espínola. Os demais mi­
nistros mudaram de posição em relação a esses grupos. Faze­
mos a seguir um breve relato desses casos, em especial as posi­
ções dos principais chefes políticos, com o qual poderemos expli­
car tanto as posições dos dois grupos, a variação dos votos dos
outros ministros, como os casos em que não houve divisão no
tribunal8.
1. A eleição para o governo da Bahia em 1908 ocasionou a

8 O processo político é aqui relatado de forma muito genérica. Sobre


a história política do período existem muitos trabalhos, ver espe­
cialmente Carone, 1983.
196 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

cisão do Partido Republicano no estado. Enfrentavam-se os can­


didatos Inácio Tosta, apoiado pelo Senador Severino Vieira e
Araújo Pinho, aliado do Governador José Marcelino. Desde 1906,
quando assumiu a presidência da República, Affonso Penna hos­
tilizava a liderança de Pinheiro Machado no Congresso por meio
do grupo de deputados chamado “Jardim da Infância”. Affonso
Penna lançou o governador mineiro João Pinheiro para sucedê-
lo e apoiou divisões no interior do Bloco. No Rio de Janeiro, Pen­
na se aproximou do Governador Alfredo Backer, procurando afas-
tá-lo do Vice-Presidente Nilo Peçanha, que havia patrocinado a
eleição deste. Na Bahia, Affonso Penna apoiava José Marcelino.
Os conflitos entre Affonso Penna e Pinheiro Machado se manti­
veram até o início de março de 1908, quando fizeram acordo
político, visando o controle dos eleições de 1909. Pelo acordo,
eles excluíam chefes políticos que lhes eram hostis, entre os quais
estavam Nilo Peçanha e seus aliados, como Bulhões e Joaquim
Murtinho, e Rosa e Silva. Este rivalizava com Pinheiro Macha­
do no controle das bancadas do Norte e hostilizara Affonso Pen­
na desde o início de seu governo. Quanto a Epitácio, o acordo
implicava a preterição de seu projeto de assumir o controle da
Paraíba, uma vez que Pinheiro Machado apoiava a situação do­
minante no estado9.
Assim, quando ocorreram as eleições na Bahia, José Marceli­
no tinha o apoio do governo federal, de Pinheiro Machado e de
Rui Barbosa. Os aliados de Severino Vieira requereram habeas-
corpus preventivos ao STF por telegrama, os quais foram conce­
didos em 27/3/1908. Concederam a ordem os aliados de Nilo
Peçanha: Guimarães Natal, cunhado de Leopoldo de Bulhões, e
Manuel Murtinho, irmão de Joaquim Murtinho; os aliados de
Rosa e Silva, André Cavalcanti, pernambucano, e João Pedro10;
Epitácio Pessoa e Ribeiro de Almeida, sobre quem não obtive­
mos informações. Negaram a ordem os ministros ligados aos
“paulistas”, aliados de Affonso Penna: Pedro Lessa e Amaro Ca-

9 Franco, 1955, v. 2:575; Carone, 1983:245; Lewin, 1993:203-38.


10 João Pedro Belfort Vieira era maranhense e aliado do chefe daque­
le estado, Benedito Leite, que, por sua vez, apoiava Rosa e Silva no
plano federal (Moreira, 1939:47-55 e 97).
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 197

valcânti; e Espírito Santo11, gaúcho, ligado a Pinheiro Machado.


O outro voto vencido foi de Cardoso de Castro, baiano. Nomeado
por Rodrigues Alves, ele não acompanhou o voto dos paulistas,
mas a posição de J. J. Seabra, também baiano, que fora minis­
tro da Justiça deste presidente. Essa ligação explica a sua mu­
dança de posição nos casos posteriores. Na sessão de 1/4/1908, o
procurador-geral da República, Oliveira Ribeiro, também liga­
do aos paulistas, lamentava a concessão da ordem. Nesta sessão
foi discutido se a ordem fora ou não cumprida pelo governador
do estado. A decisão cabia ao vice-presidente em exercício Pin­
daíba de Matos, que aceitou a explicação do governo baiano de
que cumprira a ordem. Nos dias seguintes, o Deputado Augusto
de Freitas, da oposição da Bahia, critica violentamente a deci­
são de Pindaíba, acusando o vice-presidente do tribunal de ter
mudado de voto em decorrência da pressão de Affonso Penna.
Afirmava-se que Pindaíba votara com o governo em troca da
nomeação de seu “dileto sobrinho” Raul Rego para um cargo
federal (JC, 31/3 a 6/4/1908)12.
2. Os conflitos que resultaram na dualidade de governos em
Sergipe em 1910 começaram em outubro do ano anterior, quan­
do o jornal O Estado de Sergipe, órgão oficial do estado, publi­
cou carta de renúncia do presidente do estado, Jorge Dória.
Este havia sido eleito em 30/7/1908 e estava afastado do gover­
no por motivos de saúde desde julho de 1909 (JC, 22/10/1909).
Nas semanas seguintes o vice-presidente em exercício, Ma­
nuel Batista Itajahy, foi acusado de má-fé por ter usado inde­
vidamente o documento, deixado a seus cuidados em confian­
ça pelo presidente do estado. Itajahy, ligado a Rosa e Silva,
procurava assegurar apoio federal para as próximas eleições.
Porém, Nilo e Pinheiro Machado garantiram força federal para
reempossar Dória no cargo, o que ocorreu em 13/11/1909 (JC,
3 a 15/11/1909). Mesmo sem apoio federal, o grupo liderado
por Itajahy disputou as eleições em 30/12/1909, estabeleceu

11 Hermínio Francisco do Espírito Santo, nomeado por Floriano, era


cunhado de Júlio de Castilhos.
12 Habeas-corpusn.0B2517,2533, 2534, 2536 e 2536, dec. de 27/3/1908,
em O Direito (109):502-7. Sobre a cisão baiana de 1908, ver Pang,
1979:75-95; Aragão, 1923; Sousa, 1950:155-80.
198 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

duplicata de assembléias e procurou manter-se no governo. No


final de março de 1910, o grupo ingressou pedido de habeas-
corpus no STF. Seu pedido baseava-se na ilegitimidade da mesa
da assembléia governista, que não fora presidida pela autori-
da-de competente, o próprio Itajahy. Porém, o habeas-corpus
foi negado unanimemente pelo STF em 10/4/191013. Assim, não
havendo o apoio de outras forças de origem federal, nem mes­
mo André Cavalcânti, aliado de Rosa e Silva, concedeu o ha­
beas-corpus.
4. A mesma unanimidade ocorreu no caso do Amazonas em
outubro de 1910. Pinheiro Machado autorizou os militares ba­
seados no estado a derrubarem o governo. Quando Nilo to­
mou conhecimento da derrubada, determinou a imediata repo­
sição do governador. Depois dessa ordem de Nilo, isto é, consu­
mado o fato da reposição, o STF concedeu por ampla maioria
habeas-corpus para o governador, contra o único voto de Godo­
fredo Cunha, que o julgou prejudicado14.
3 e 5. A intervenção federal no Rio de Janeiro de 1909-11
envolve todas as questões estudadas neste Capítulo. O afasta­
mento entre Nilo e o governador do estado, Alfredo Backer, le­
vou ao seu rompimento definitivo em 1908. Durante os anos de
1907 e 1908, Nilo tentou de diversas formas derrubar o gover­
nador, mas Affonso Penna apoiava Backer e não concederia for­
ças federais para a intervenção. Com a morte de Affonso Penna
em junho de 1909, Nilo passou a ocupar a presidência e a inter­
venção federal tornou-se possível (Carone, 1983: 262).
Em 18/9/1909, Nilo Peçanha nomeou Godofredo Cunha, juiz
secional do Distrito Federal, para o STF e removeu o juiz secio­
nal do Estado do Rio de Janeiro, Raul de Sousa Martins, para o
Distrito Federal. Aberta a vaga de juiz secional do Rio de Janei­
ro e feitas as inscrições, foi sorteada no STF em 30/10 a comis­
são de três ministros para elaborar um parecer fundamentado
sobre os dezenove candidatos, que deveria levar em conta, entre
outros critérios, “a prática dos candidatos, os serviços por eles
prestados, especialmente na magistratura”. Os ministros sor­

13 Habeas-corpus n.° 2.849, em O Direito (115):336-9.


14 Habeas-corpus n.° 2.950, dec. de 15/10/1910, em Rodrigues,
1968:161-74; Carone, 1983:265.
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 199

teados foram Ribeiro de Almeida, fluminense, Oliveira Ribeiro


e Pedro Lessa, ligados aos paulistas. No dia seguinte, o presi­
dente do STF, Pindaíba de Matos, fluminense, desclassificou dez
dos concorrentes, juizes de direito e desembargadores antigos,
por não terem apresentado documento comprobatório da sua
formação em direito15. Porém, as críticas fizeram-no recuar. No
dia 5/11 os jornais noticiavam visitas constantes de ministros
do STF ao Catete, afirmavam que “todos sabiam” qual era a
lista tríplice e que Nilo queria nomear um político seu amigo,
que não era magistrado. “Docilmente os ministros do Supremo
vão ao Catete, sobem ao beija-mão, recebem o santo e a senha e
resolvem-se a incluir na lista o candidato do presidente da Re­
pública”. Em 6/11, foi votado no STF o parecer da comissão que
classificava nos dois primeiros lugares antigos desembargado­
res e, no terceiro lugar, Otávio Kelly, líder da fação “nilista” na
assembléia estadual do Rio de Janeiro16. Este candidato não ti­
nha nenhuma experiência anterior na magistratura e foi esco­
lhido em preterição a pelo menos três desembargadores e a um
antigo magistrado17. Em 11/11, Otávio Kelly foi nomeado juiz
secional do Rio de Janeiro (JC, 19/9, 31/10 e l a 13/11/1909). O
objetivo da nomeação de Otávio Kelly para juiz secional era pre­
parar as eleições de 19/12/1909 para as câmaras municipais e
Assembléia Legislativa do estado, mediante requisição da força
federal. Nos municípios em que Nilo controlava a prefeitura e a
câmara, os seus partidários recusaram todos os indicados pelos
partidários do governador na formação das mesas eleitorais,
mesmo contra a lei (JC, 23/11/1909). Nos dias seguintes ocorre­
ram diversos conflitos nos municípios fluminenses, como lutas

15 O fato de ser juiz de direito já era uma comprovação, porque em


todo o país o cargo era exclusivamente ocupado por bacharéis.
16 O Ministro Pedro Lessa votou contra a indicação de Otávio Kelly.
Nosso esquema de análise, não permite explicar essa indicação por
parte do “paulista” Oliveira Ribeiro.
17 No Jornal do Commercio de 7/11/1909 afirmava-se que uma parte
do acordo era a nomeação de Raul Rego, o sobrinho do presidente
do STF, Pindaíba de Matos, para juiz criminal de Niterói. Em 9/11,
Raul Rego desmentia que fosse candidato ao cargo. Ele foi um dos
integrantes da chapa nilista na eleição para a assembléia estadual
daquele ano.
200 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

entre capangas e policiais, e o desaparecimento de livros eleito­


rais. No dia 11/12, os mesários de Angra dos Reis requereram
habeas-corpus ao juiz federal. Eram divulgados telegramas de
diversos municípios, cuja política estava sob controle de Alfredo
Backer, noticiando ataques a repartições federais (correios, te­
légrafos, coletorias). O chefe de polícia negava o ocorrido e afir­
mava que “essas notícias procuram impressionar a opinião pú­
blica e visam certamente fins outros que não a garantia dessas
repartições” (JC, 15/12/1909). Nos dias seguintes, o juiz federal
concedeu habeas-corpus a eleitores, mesários e candidatos ni-
listas de diversos municípios do estado e requisitou a força fede­
ral para garantir a execução da ordem. A requisição era contrá­
ria à jurisprudência que até então se firmara no STF, que esta­
belecia a condição de que a força federal somente deveria ser
solicitada depois de esgotados todos os recursos para que a polí­
cia estadual garantisse a execução da ordem. A jurisprudência
se formara exatamente para que a intervenção federal não fos­
se requisitada pelos juizes secionais em favor de oligarquias em
oposição nos estados que não tivessem o apoio do governo da
União. No caso do Rio de Janeiro, o chefe de polícia divulgava
nos jornais da capital seus telegramas em que afirmava que as
ordens de habeas-corpus estavam sendo executadas pela polícia
do estado, com o que desejava evitar a intervenção federal e
manter o controle das eleições pelo governo do estado.
As decisões do juiz secional foram cassadas nos meses seguin­
tes pelo STF, mas os seus efeitos já haviam sido produzidos. Em
geral, votaram pela cassação da decisão do juiz federal: Manuel
Murtinho, Canuto Saraiva, Amaro Cavalcânti, Oliveira Ribeiro
e Pedro Lessa. Os dois últimos votavam ainda que o juiz federal
deveria ser submetido a processo de responsabilidade. Venci­
dos, Godofredo Cunha e Manuel Espínola. Um dos recursos foi
julgado prejudicado, por ter o habeas-corpus já produzido os seus
efeitos. Nesse sentido, votaram, além de Godofredo Cunha, An­
dré Cavalcânti, Cardoso de Castro, João Pedro B. Vieira e Ma­
nuel Espínola18.

18 Rec. de habeas-corpus do RJ n.os 2.813, 2.814, 2.831, 2.849, 2.870 e


2.914, publicados em O Direito (112):325 ss. Apesar da cassação
das ordens de habeas-corpus pelo STF, as forças federais permane-
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 201

A distribuição dos votos dos ministros do STF acompanha as


posições estabelecidas na disputa entre Rui Barbosa e Hermes
da Fonseca para a presidência da República em 1910. Hermes
foi apoiado por Minas Gerais, Pinheiro Machado, Nilo, Rosa e
Silva, Bulhões, Epitácio e as situações dominantes dos estados
menores. Rui era aliado de São Paulo, Bahia e algumas oposi-
ções estaduais19. Em relação ao caso da Bahia de 1908, muda­
ram de grupo Manuel Murtinho, que votara com Nilo e passou a
votar com os paulistas em 1910 e Cardoso de Castro, que acom­
panhou a posição do chefe político J. J. Seabra. A mesma distri­
buição ocorreu nos julgamentos dos habeas-corpus do Rio de
Janeiro de 15/7/1910, a favor dos aliados de Nilo e de 4/1/1911, a
favor de seus adversários20. Concederam no primeiro caso e nega­
ram no segundo os ministros: Godofredo Cunha, Cardoso de Cas­
tro, André Cavalcânti, Guimarães Natal. Os aliados que vota­
ram em apenas um dos julgamentos, como Espírito Santo, Leô-
ni Ramos, Muniz Barreto e Epitácio seguem a mesma distribui­
ção. No campo contrário, os votos foram de Amaro Cavalcânti,
Oliveira Ribeiro, Pedro Lessa, Canuto Saraiva e Manuel Espí­
nola, bem como Manuel Murtinho, que só participou do segun­
do julgamento. O único juiz que não acompanhou esse esquema
foi Ribeiro de Almeida, sobre quem não obtivemos informações.
A distribuição dos votos dos ministros do STF em função de
suas ligações políticas não se resume a esses casos. Nos famosos
habeas-corpus do caso da Bahia de 1912, pedidos ao STF pelos
aliados de Rui Barbosa, a distribuição dos votos foi a mesma, ex­
ceto o de Guimarães Natal, pois Bulhões tinha rompido com Her­
mes por causa de sua intervenção na política dos estados (Bu­
lhões, A.:373 e 413). No Ceará, a oligarquia dos Aciólis foi derru-

ceram no estado durante o ano de 1910 (Carone, 1983:262-3). So­


bre o processo político no Rio de Janeiro na Primeira República,
ver Ferreira, 1989; Enders, 1993.
19 Carone, 1983:245-61; Souza, 1987:193-202; Kugelmas, 1986:82 ss..
20 Habeas-corpusn.° 2.905, de 15/7/1910, pacientes: Joaquim Mariano
Alves Costa e outros, publicado em O Direito (112):382-88 e habeas-
corpus n.° 298, de 4/1/1911, impetrado por Paulino J. S. de Sousa e
Mário Silveira Viana a favor da mesa da Assembléia do RJ (Costa,
E., 1964:106-45; JC, 27/12/1910 a 12/1/1911).
202 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

bada com o apoio de Hermes, sendo empossado o novo governa­


dor Franco Rebelo em julho de 1912. Nos meses seguintes este
perdeu o apoio de Hermes e de Pinheiro Machado, ficando por­
tanto, sem nenhuma aliança federal. Os deputados da oposição
requereram habeas-corpus ao STF em outubro do mesmo ano,
que o concedeu por unanimidade (h.c. n.° 3.283, Dec. de 1/11/1912;
cf. Carone, 1983:297 ss. e JC, 30/10 a 2/11/1912).
Assim, nos conflitos entre as oligarquias estaduais analisa­
dos, os votos dos ministros do STF acompanharam as posições
dos chefes políticos aos quais eles eram ligados. Os casos apre­
sentados indicam que os votos dos ministros do STF nos demais
casos políticos deviam variar do mesmo modo.

5. Fo rm a de organização dos juízos secionais

Além do juiz titular, havia em cada seção um juiz substituto,


nomeado pelo presidente da República dentre bacharéis em di­
reito. A partir de 1894, a seção podia ser dividida em circunscri­
ções, por proposta do juiz secional. Este indicava os suplentes
para as circunscrições, que eram nomeados pelo presidente da
República. A partir da lei eleitoral de 1904, havia três suplentes
do juiz federal em cada município, nomeados pelo presidente da
República, os quais tinham funções eleitorais e judiciais. As fun­
ções auxiliares eram exercidas por porteiros, contínuos, oficiais
e escrivães de justiça nomeados e demissíveis livremente pelo
juiz secional, exceto o escrivão, que só poderia ser demitido por
sentença (Mendonça, 1899:275).
Somente o juiz secional, o juiz substituto e, a partir de 1894, o
escrivão, recebiam remuneração da União. Os demais eram re­
munerados exclusivamente pelas custas recebidas nos processos.
Os membros do STF e os juizes federais tinham direito à aposen­
tadoria após dez anos de serviço, achando-se em estado de invali­
dez, com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço e com
todos os vencimentos após vinte anos completos, independente­
mente de qualquer condição. A invalidez era presumida quando o
juiz federal atingia 75 anos de idade (Mendonça, ibid.:277).
Como vimos no capítulo anterior, os defensores da unidade
da magistratura na Constituinte criticavam a criação do Poder
Judiciário federal, entre outras razões, porque iria criar uma
magistratura privilegiada em relação à da maioria dos estados.
Esses críticos tomavam como base a situação dos Estados Uni­
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 203

dos, onde a justiça federal era em geral bem aceita, e a dos esta­
dos, desmoralizada. Esse foi um argumento de José Higino.
“Os juizes secionais, colocados nas capitais dos Estados,
vantajosamente retribuídos e completamente independentes,
formarão uma espécie de noblesse de robe, ao lado da parte
mais numerosa da magistratura, cujas condições não serão
muito mais seguras do que a dos nossos professores primá­
rios. Há de suceder entre nós o que se observa nos Estados
Unidos. A magistratura dos estados é ali inferior, a todos os
respeitos, à magistratura federal. As partes empregam todos
os meios para se porem à sombra da justiça da União” (cit.
por Roure, ibid., v. 2:51-2).
Mesmo que a situação dos juizes federais possa ter sido com­
parativamente mais estável que a dos juizes estaduais, o Poder
Judiciário federal esteve em situação muito diferente da que era
prevista pelos defensores da unidade da magistratura. Em pri­
meiro lugar, logo surgiram reclamações dos juizes secionais em
relação à baixa remuneração. Eles recebiam apenas salários do
governo federal, não podendo receber custas e emolumentos. Os
seus salários eram os seguintes:

Quadro 13: Salários dos juizes secionais e substitutos (1899)


juiz secional juiz substituto
Distrito Federal 14:000$000 6:000$000
MG, Pa, SP, RJ, RS, Pe, Ba 10:000$000 4:000$000
outros estados 8:000$000 3:000$000
Fonte: M endonça, 1899:136; 213-4.

Em São Paulo, os juizes de direito recebiam, a partir de 1892,


6:000$000 por ano. Os juizes da capital, Santos e Campinas re­
cebiam um adicional de 2:400$000, totalizando, assim, 8:400$000
por ano, mais as custas e emolumentos. Para os anos de 1897 a
1899 a média das custas recebidas pelos juizes de direito nessas
cidades foi a seguinte:

Quadro 14. Salários e custas de juizes de direito de São Paulo, Santos e Campinas (1897-99)
comarca média anual número custas por juiz Salário + custas
das custas de juizes
Capital 70:993$409 5 14:198$681 22:598:681
Santos 14:514$876 2 7:257$438 15:657$438
Campinas 9:986$643 2 4:933$321 13:393$321
Fonte: Almeida Jr. e outros, 1901:79-81.
204 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

Assim o juiz secional, que era o único titular do Poder Judiciá­


rio federal para todo o estado, recebia menos da metade dos ven­
cimentos de um juiz de direito da capital e os juizes de direito de
Santos e Campinas recebiam de 40 a 55% a mais que o juiz se­
cional. Além disso, em dezenove outras comarcas do estado os
juizes de direito receberam mais de quatro contos anuais de cus­
tas nos mesmos anos21. Os vencimentos dos juizes federais subs­
titutos eram ainda menores em comparação com os juizes de di­
reito do estado. Além da diferença nos salários, em 45 comarcas
do estado (incluindo a capital, Santos e Campinas) os juizes de
direito recolhiam mais que dois contos anuais em custas, rece­
bendo mais que o dobro da remuneração do juiz federal substituto.
A situação dos magistrados de São Paulo não pode ser gene­
ralizada para os demais estados, especialmente quanto às cus­
tas recebidas, pois estas estavam em relação direta com a ex­
pansão econômica do estado22. Porém, a comparação serve para
confirmar pelo menos em parte as reclamações dos juizes secio­
nais ao ministro da Justiça em relação à exigüidade dos seus
vencimentos, que constavam, por exemplo, do Relatório do Mi­
nistro da Justiça ao Presidente da República referente ao ano
de 1895 (RMJ, 1896:33-4) e do Relatório do Juiz Federal da se­
ção do Rio Grande do Norte, Franco de Sales Meira e Sá, dirigi­
do ao ministro da Justiça Rivadávia Correia (Sá, 1911).
Também não existia uma carreira a ser seguida pelos juizes
secionais. Os poucos juizes federais nomeados para o STF não o
foram devido a algum sistema de mérito profissional, nem à
antiguidade, mas a ligações pessoais, especialmente por paren­
tesco, com os chefes políticos. Durante toda a Primeira Repúbli­
ca foram nomeados apenas cinco juizes federais para o STF:
Hermínio Francisco do Espírito Santo, por Floriano Peixoto;
Manuel Murtinho, nomeado por Manuel Victorino em manobra
contra Prudente de Morais; Guimarães Natal, nomeado por
Rodrigues Alves, quando Leopoldo de Bulhões era seu ministro
da Fazenda; Godofredo Cunha, nomeado por Nilo Peçanha, como
retribuição pela sua intervenção nas eleições de Campos, e An­

21 Havia em São Paulo um total de 97 comarcas até 1904.


22 Mesmo em São Paulo, o salário dos magistrados era considerado
baixo. Tratamos esta questão no próximo capítulo.
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 205

tônio Joaquim Pires e Albuquerque, sobre o qual não obtivemos


informações.
Os críticos na Constituinte da forma de nomeação para o STF
tiveram razão acerca da preferência dos magistrados dos esta­
dos maiores para o STF. Dos 33 nomeados para ministros do
STF entre 1900 e 1930, catorze eram desembargadores de São
Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e Distrito Fede­
ral. Os ministros oriundos de estados menores eram sobretudo
políticos que atuavam no Congresso Nacional, como Amaro Ca­
valcânti (RN), Epitácio Pessoa (Pb), João Pedro B. Vieira (Ma),
José Higino e João Barbalho (Pe). Assim, com a estabilização da
República, e não havendo carreira profissional a seguir, muitos
juizes federais permaneceram longos anos em seus cargos. Em
1901 continuavam em exercício nas mesmas secões doze dos 21
juizes nomeados inicialmente. Em 1911, permaneciam ainda
cinco dos juizes da primeira nomeação em 1891 e outros seis
estavam há mais de dez anos em seus cargos.
A falta de verbas não se limitava aos vencimentos dos juizes
federais. A forma de remuneração dos seus auxiliares, que rece­
biam apenas as custas dos processos, dificultava a execução dos
atos processuais determinados pelos juizes. A crítica a essa si­
tuação aparece constantemente nos relatórios anuais enviados
pelo ministro da Justiça ao presidente da República. Assim, em
1896, o juiz secional de Minas Gerais afirmava que
“ [...] os oficiais de justiça não se prestam a certas diligências,
pela insuficiência de proventos que os habilitem a consagrar-
se ao serviço exclusivo do juízo, o que traz a desorganização,
não podendo ser compelido com o rigor da lei ao cumprimen­
to de deveres de um cargo que ninguém aceitará, sem um
ordenado fixo, módico embora, auxiliado pelas custas e au­
mento destas por um regimento de acordo com as necessida­
des sempre crescentes da vida” (RMJ, 1897:33).
No ano seguinte, o juiz secional de Minas Gerais repetia a
reclamação: o escrivão ameaçava pedir demissão “por se ver so­
mente onerado de trabalhosex-officio”23. Nesse ano, as reclama­

23 Em questões como os executivos fiscais as custas só seriam cobra­


das do devedor no final do processo se a União fosse vencedora.
Caso contrário, o serviço executado pelos funcionários não seria
206 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

ções contra a falta de oficiais de justiça eram feitas nos relató­


rios dos juizes das seções do Paraná, do Espírito Santo, do Cea­
rá e de Goiás e o ministro da Justiça afirmava que havia ouvido
“idênticas reclamações de outros juizes” (RMJ, 1898:180-1).
Os juizes secionais encontravam também dificuldades em
relação aos suplentes. No relatório de 1899, o ministro da Justi­
ça transmitia as críticas dos juizes secionais aos suplentes, os
quais eram leigos, não recebiam vencimentos e não tinham au­
xiliares (RMJ, 1900:23). No relatório de 1903, o juiz secional do
Espírito Santo afirmava que
“ [...] no interior do estado a ação da justiça é quase nula, visto
não haver quem aceite os cargos de suplentes, percebendo
unicamente custas que, além de insignificantes, só são pagas
a final, acrescendo que nem mesmo a esses proventos, cuja
cobrança é difícil e impraticável, eles têm direito quando a
Fazenda Nacional decai da ação.
“E essa dificuldade se torna insuperável quando é de mis­
ter efetuar alguma diligência, pois não se encontra quem, sem
a menor remuneração, queira servir de oficial de justiça”
(RMJ, 1904:9).
A dificuldade de encontrar quem executasse as diligências do
juízo secional aparecia também no relatório do ministro da Jus­
tiça sobre o ano de 1907:
“ [...] constitui uma das grandes dificuldades na administra­
ção da justiça a inquirição de testemunhas fora da sede das
seções, visto que, não tendo os suplentes substitutos, escri­
vães e oficiais de justiça, e não havendo quem queira servir
em tais lugares sem remuneração, as precatórias, dirigidas
àqueles suplentes, ou não são cumpridas, ou o são tardia e
imperfeitamente. Ficam, por este motivo, sem andamento
grande número de processos crimes, com infração da lei em
detrimento da justiça” (RMJ, 1908:5).
Os juizes secionais repetiam suas críticas aos suplentes lei­
gos, à sua falta de capacitação profissional e à impossibilidade

cobrado da União. Os escrivães federais recebiam vencimentos


anuais de 1:500$000 a partir de 1894; os escrivães criminais da
capital, Santos e Campinas, 2:400$00 anuais a título de gratifi­
cação.
O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA | 207

de exercerem algum controle sobre as suas atividades. Segundo


o juiz secional do Rio Grande do Norte
“[...] os suplentes secionais leigos, em municípios longínquos,
nomeados como são, sem o conhecimento do direito, quer ma­
terial, quer formulário — que só o estudo e a prática ensi­
nam; sem remuneração alguma, — desprovidos do senso da
legalidade, que só a profissão dá; sem amor à profissão, que
realmente a não têm, sem os auxiliares indispensáveis, como
escrivães e oficiais de Justiça, e, entretanto, incumbidos da
inquirição de testemunhas nos sumários de culpa, da investi­
gação de fatos importantes, de ordens diversas, e da realiza­
ção de diligências da maior relevância, das quais dependem a
apreciação e o julgamento do juiz togado, — essa instituição,
dizia, tal como existe, importa, na maioria dos casos, para
bem dizer, em denegação de justiça, pela sua descuidosa inér­
cia; e, por outro lado, quando não é isso, o que é talvez pior
concorre, pela deficiência de habilitação de seu pessoal, en­
tregue a outras profissões, e de meios aptos de regular fun­
cionamento, para decisões pouco alicerçadas e pouco confian­
tes do juiz singular” (Sá, 1911:409).
A falta de mecanismos de controle do juiz sobre os suplentes
aliava-se a ausência de controle do STF sobre os juizes federais.
Em todos os relatórios entre 1897 e 1903 o ministro da Justiça
referia-se à reivindicação do STF para que fosse estabelecida
alguma forma de controle sobre os juizes secionais. Era conside­
rada necessária alguma medida legislativa, mas esta não foi
adotada. Em 1904, o STF reformou o seu regimento interno,
passando, a partir daí, a exigir que cada juiz enviasse até janei­
ro de cada ano relatório “circunstanciado” das atividades do pe­
ríodo anterior. Além do relatório anual, os ministros do STF so­
mente tomavam conhecimento das atividades dos juizes fede­
rais por meio dos recursos que eram julgados pelo tribunal.
A exigüidade dos recursos destinados pelo governo da União
à justiça federal chegava ao ponto de não existirem sequer edi­
fícios para os juízos secionais. Em 1892, o ministro da Justiça
determinava ao juiz secional do Distrito Federal que as audiên­
cias da justiça federal fossem feitas na sua residência, enquanto
o prédio da Relação em que funcionava estivesse em reforma
(<Jornal do Commercio, 4/2/1892). Em 1896, o ministro da Justi­
ça afirmava que as verbas destinadas pelo Congresso Nacional
208 | O PODER JUDICIÁRIO FEDERAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

aos juízos secionais eram insuficientes para as “despesas de ex­


pediente, aluguel de casas, mobília” (RMJ, 1897:33-4). Em 1897,
o ministro da Justiça afirmava que o júri federal não se havia
reunido até aquela data na capital da República por falta de
edifício apropriado. O mesmo ocorria na seção de Minas Gerais
(RMJ, 1897:33). Em geral, os juízos secionais funcionavam nos
prédios do Poder Judiciário estadual, o que criava reclamações
dos juizes federais. O juiz secional do Rio Grande do Sul afirma­
va em 1896 que “[...] além de mal pagos, (os funcionários fede­
rais) vivem de favores das autoridades dos estados, sendo que o
júri, as audiências e todos os atos do juízo efetuam-se na mesma
casa em que funcionam os juízos e o júri estaduais, por emprés­
timo e por favor, uma vez que o prédio não esteja ocupado pelos
proprietários” (RMJ, 1897:34). Em alguns casos o juízo federal
possuía casa própria para funcionar, o que não significava me­
lhoria das instalações. No seu relatório de 1911, o juiz federal
do Rio Grande do Norte informava que “ [...] o prédio em que
aqui funciona o Juízo Federal, além de achar-se desprovido do
preciso, embora modesto — mobiliário, ameaça ruir, tendo a
parede de um dos oitões trincada, de cima a baixo, pendida para
o lado externo” (Sá, 1911:415). Essas reclamações se repetem
monotonamente durante esses anos. Propunham-se alternati­
vas à forma de remuneração dos auxiliares, aumento das ver­
bas para os juízos secionais, cujo aumento de despesa era consi­
derado insignificante, mas não houve nenhuma modificação
substancial na situação material e do pessoal da justiça federal.
Assim ao controle das nomeações dos juizes federais pelas
oligarquias estaduais, como parte da Política dos Governado­
res, somavam-se a organização bastante precária dos juízos se­
cionais e restrições legais ao seu papel de servirem de garantia
aos direitos políticos, como intérpretes da Constituição (por ex.,
as Leis n.os 221, de 1894, e 1.748, de 1907). Se algum juiz secio­
nal tivesse veleidade de afrontar alguma das oligarquias esta­
duais sem apoio de outra, ou do governo federal, sua ação seria
inútil, até mesmo em virtude da ausência de meios materiais
com que pudesse contar para efetivá-la. Além disso, os seus su­
plentes, leigos e sem remuneração, eram nomeados pelo presi­
dente, com base na indicação das próprias oligarquias, o que
garantia a ineficácia da justiça federal no país.
Capítulo 5
P O D ER JU D ICIÁ R IO , P O L ÍT IC A
E S O C IE D A D E EM SÃ O PAULO
N A PRIM EIRA R E P Ú B L IC A 1

Estudamos neste capítulo o Poder Judiciário estadual na Pri­


meira República, enfatizando o Poder Judiciário do Estado de
São Paulo. O nosso trabalho é distribuído do seguinte modo:
analisamos por um lado a relação entre a forma de organização
judiciária e o sistema de compromissos do coronelismo, que se
desdobra 1) no estudo do significado da adoção pelos estados da
forma de organização do Poder Judicial do Império e 2) na aná­
lise da relação entre a organização judiciária e a política em São
Paulo. Por outro lado, faremos 3) a análise da distribuição de
competências de juizes e policiais e seu modo de mediação das
relações sociais na sociedade paulista da Primeira República.
O nosso argumento é que, em São Paulo, como nos demais
estados da federação, foi adotada a forma de organização judi­
ciária do período imperial porque esta permitia o controle dos
cargos de juizes pelas oligarquias estaduais, inserindo-os no sis­
tema de compromissos do coronelismo. Foi adotada uma distri­
buição de competências que excluía o julgamento dos conflitos
civis entre trabalhadores e proprietários pelos juizes profissio­
nais. Pelo seu valor monetário, o julgamento destas questões
era atribuído aos juizes de paz, ligados às suas lealdades locais.
No domínio criminal, a manutenção da forma de organização
judiciária contrasta com a reorganização da polícia. A distribui­
ção de competências não proporcionava formas eficazes de con­

1 Este capítulo foi publicado na Revista Brasileira de Ciências Cri­


minais, 17, 1997.
209
210 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

trole judicial sobre a polícia, que se valia livremente das prisões


como forma de controle da população pobre. Enfim, entre os pró­
prios juizes profissionais predominava orientação eminentemen­
te conservadora, o que se verifica pela interpretação restritiva
de suas atribuições, adotada em decisões de habeas-corpus.

I. A organização judiciária nos estados

Na Constituinte Republicana, as discussões sobre a organi­


zação judiciária foram centradas na questão do controle do Po­
der Judiciário pelos estados versus a defesa pelos magistrados
de seus interesses corporativos. O projeto de Constituição Fede­
ral do Governo Provisório limitava o poder de organização do
Poder Judiciário pelos estados, proibindo a magistratura eleti­
va e condicionando a demissão dos magistrados à condenação
por sentença judicial. Essas restrições foram criticadas na Cons­
tituinte por João Barbalho, deputado de Pernambuco, porque
restringiam a autonomia dos estados e eram incompatíveis “com
as faculdades que eles têm de se constituir, [...] usando para isto
de poderes que possuem, de que não podem ser despojados e
que em caso algum devem passar à União”. Os estados deviam,
pois, ter a liberdade de regular-se conforme entendessem “mais
conveniente às suas condições e circunstâncias”, não podendo a
União “seqüestrar aquilo que é da competência dos mesmos”.
Os representantes do Pará, liderados por Lauro Sodré, apre­
sentaram na Constituinte uma emenda substitutiva que veio,
afinal, a prevalecer na Constituição Federal (art. 63): “Cada es­
tado reger-se-á pela Constituição e pelas leis que adotar, respei­
tados os princípios constitucionais da União” (Barbalho, ibid.:357;
Roure, ibid.).
Vimos que o Congresso Constituinte adotou uma Constitui­
ção com um regime político presidencial e federalista baseada
no modelo americano. Porém, a “cópia” das instituições norte-
americanas limitou-se ao âmbito federal, pois na organização
judiciária dos estados a influência daquelas foi nula. Nenhum
estado brasileiro adotou as formas características da organiza­
ção judiciária dos estados norte-americanos. Em 31 desses esta­
dos a magistratura era eleita; em outros cinco, era nomeada
pela legislatura e nos oito restantes, nomeada pelo governador,
com a aprovação do Conselho, da Legislatura ou de uma Câma­
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 211

ra (Bryce, 1901, v. 2:129-32). No Brasil, com a exceção do Rio


Grande do Sul, que adotou uma Constituição de inspiração po­
sitivista, todos os estados adotaram, com algumas modificações,
a forma de organização judiciária do regime imperial.
A adoção da forma de organização não significou porém a
absorção dos quadros do antigo regime. Em 1891 e 1892 foram
aposentados 29 desembargadores e 22 foram postos em disponi­
bilidade. Assim no máximo quarenta dos 91 desembargadores
do antigo regime continuaram exercendo suas funções e os sete
desembargadores aproveitados para o STF logo pediriam apo­
sentadoria. Os juizes de direito do antigo regime também foram
pouco aproveitados para esses cargos na República, pois dos cerca
de quinhentos juizes de direito do Império, 239 estavam em dis­
ponibilidade em 1895 e onze tinham sido aposentados em 1891
e em 1892. Esses números estão sub-representados, porque não
obtivemos dados sobre aposentadorias nos anos de 1890,1893 e
1894 (cf. RMJ dos anos mencionados). Esses dados indicam gran­
de renovação da magistratura na organização da República, se
considerarmos que cada estado criou o próprio Tribunal de Jus­
tiça, que pelas regras normais de promoção deveriam ser ocu­
padas pelos juizes de direito, os lugares criados pela justiça fe­
deral, e os novos lugares criados nos estados2.

2 Na Constituinte, o Deputado Tavares Bastos criticava em discurso


de 7/1/1891 a criação da justiça federal feita pelo ministro da Justi­
ça do Governo Provisório, Campos Sales. O deputado considerava
este ato uma ilegalidade, pois a organização judiciária era atribui­
ção do Congresso. Ele criticava também os baixos salários e as per­
seguições contra os magistrados. Juizes eram removidos do norte
para o sul, sem respeitar as entrâncias, contra a sua vontade; eram
nomeados juizes para cargos de confiança a fim somente de tirá-los
das suas comarcas. Os juizes de direito do Império tinham ao con­
trário a certeza do respeito à sua carreira. “Hoje todas essas espe­
ranças desapareceram, os juizes vêem suas aspirações circunscri­
tas aos lugares dos estados onde exercem a sua judicatura. E no
entanto, o Governo Provisório, logo depois da Revolução, declarou
que respeitaria os direitos adquiridos!”. Enfim, o Ministério da
Justiça criara inúmeras comarcas, sobrecarregando os estados, a
fim de nomear novos juizes, contando 101 juizes de direito nomea­
dos entre 15/11/89 e 15/3/1890. De 15/3 até aquela data, teriam
sido nomeados muitos outros, de modo que, “sem medo de errar,
212 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

Em cada estado havia um Tribunal de Justiça na capital, com


jurisdição sobre todo o território estadual, e juizes de direito
nas comarcas. Na grande maioria dos estados havia juizes tem­
porários nos termos, nomeados pelo governo com funções de pre­
paração de processos civis e criminais, até a pronúncia inclusi­
ve, e de julgamento das causas de menor valor, os quais eram
denominados de juizes municipais, substitutos ou distritais. Em
cada distrito havia também o tribunal do júri e o juiz de paz
eleito3 (Nunes, 1922:141-55; Mendonça, 1899:282-3).
Quanto à nomeação de magistrados, os estados adotaram, na
maioria, o sistema da sua livre nomeação pelo presidente do
estado. Era consensual no Brasil a rejeição à magistratura ele­
tiva (o que não inclui os juizes de paz). As objeções a esse siste­
ma eram muitas, desde o perigo para a estabilidade política re­
presentado pela fragmentação do poder político entre juizes lo­
cais eleitos até críticas à incompetência profissional, corrupção
e faciosismo político dos juizes de paz. Os outros sistemas de
nomeação adotados nos Estados Unidos eram rejeitados pelos
mesmos motivos: não impediam a influência da “politicagem”
na nomeação dos magistrados. Assim a nomeação dos magistra­
dos pelo presidente do estado, tal como era feita pelo imperador
no antigo regime, era considerada, com ufanismo, “muito me­
lhor” do que qualquer sistema norte-americano de nomeação de
magistrados.
Os críticos da livre nomeação de juizes pelo governo toma­
vam as objeções levantadas pelos liberais no período imperial a
este sistema de nomeação. Estes pretendiam instituir o sistema
de concursos e a nomeação dos magistrados pelos tribunais su­
periores. Contra essas propostas era argumentado que, se o sis­
tema de concursos era apto para verificar a “aptidão científica”
do candidato, não possibilitava a verificação de sua “qualifica­
ção moral” para o cargo. Quanto à nomeação dos magistrados
pelos membros do Tribunal de Justiça, a objeção era a possibili­

o número de juizes de direito passou de 560, que era, para mil e


tantos” (Brasil, Congresso Nacional, 1926, v. 2: 224-9).
3 A organização judiciária do estado de São Paulo apresentava algu­
mas diferenças, como veremos na seção seguinte.
PODER JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 213

dade de ser o estado submetido a uma “casta” de magistrados.


Por exemplo, na Constituinte paulista de 1891 o Deputado Mar­
tins Francisco afirmava que tinha “menos medo do despotismo
do executivo do que do despotismo do poder judiciário”. Contra
a proposta de dar ao tribunal o poder de nomear os seus pró­
prios membros e os demais magistrados, ele afirmava: “a emenda
coloca o poder judiciário como uma casta no meio dos outros de
modo que não pode haver a harmonia dos poderes. E é doloroso
que o Brasil, que acaba de ver-se livre de uma família se sujeite
ao domínio de uma classe” (apud Coelho, 1922:568).
Ao mesmo tempo que rejeitavam a eletividade da magistra­
tura, os republicanos eram contrários à sua autoconstituição. A
independência da magistratura era interpretada com base na
forma de representação da ordem política imperial, ou seja, como
o predomínio de uma vontade soberana, e não como o predomí­
nio da lei originária, tal como na ordem política norte-america­
na. A auto-organização da magistratura, tornando-a uma últi­
ma instância independente, significaria seu domínio sobre os
demais poderes do Estado. A relação da magistratura com o
governo é assim representada de forma semelhante à do con­
servadorismo imperial. Toma-se como ponto de partida a iden­
tificação da vontade do governante com a soberania, o que justi­
fica a recusa ao tema liberal do controle do poder e, por conse­
qüência, a rejeição das formas de organização judiciária propos­
tas pelos liberais. A comissão que apresentou ao presidente do
estado, Rodrigues Alves, em 1901 um plano de reforma judiciá­
ria para o Estado de São Paulo usou a responsabilidade do pre­
sidente do estado como o argumento decisivo contra a nomea­
ção de juizes por eleição, pelo Legislativo ou pelo tribunal do
estado: “E que meio haverá para evitar que o candidato, pondo
em jogo o seu caráter mais ou menos dúctil, procure a proteção
de quem pode nomeá-lo, seja este poder o governo, ou seja o
Congresso, por seus membros, ou sejam os eleitores? Antes uma
nomeação dependente somente da responsabilidade real do pre­
sidente do estado, do que da problemática responsabilidade dos
outros órgãos da política e da administração; pelo menos, o can­
didato não terá muitas dependências e com isso a localidade
para onde ele tiver de ser nomeado mais lucrará” (Almeida Jr. e
outros, 1901:114; grifo dos autores).
A rejeição às propostas liberais de organização judiciária atin­
214 | PODER JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

gia ainda outros aspectos, como o dos critérios para a promoção


de juizes. O princípio da antiguidade pura para as promoções
fora proposto em diversas oportunidades durante o Império,
como forma de evitar a dependência dos magistrados em rela­
ção ao governo. Afirmava-se que o magistrado não deveria ter
nada a esperar nem a temer do governo; só assim ele seria inde­
pendente e assíduo de forma a ascender o mais rápido possível
aos graus superiores da carreira4. A esse sistema era oposto o do
merecimento, o qual era defendido como a única forma de in­
centivar os juizes ao trabalho e ao estudo.
Porém, apesar de aparentar a adoção de critério “moderno”
de mérito para as promoções, essa forma de nomeação permitia,
no sistema de compromisso do coronelismo, que as vagas das
comarcas superiores e dos tribunais fossem preenchidas com
base nos critérios de troca de favor entre magistrados e gover­
nantes. O controle do mecanismo de promoção pelo governo do
estado era também importante meio de dissuasão de eventuais
conflitos entre os juizes e os poderes locais. Também podia ser
utilizado na substituição do juiz de direito da comarca, em caso
de conflito do governo estadual com os poderes locais. Eram uti­
lizadas ainda outras formas para afastar um juiz de determina­
da localidade, como a alteração dos limites da comarca, a mu­
dança da sua sede, a divisão dos termos e a criação de novas
varas. O juiz de direito poderia ainda afastar-se da comarca
durante certo período (licenças), de forma a ser substituído pelo
juiz temporário ou pelo juiz de paz na tomada de alguma deci­
são de interesse local (Leal, 1975:201-4; Telarolli, 1977).
Em virtude da redação indeterminada do artigo da Consti­
tuição Federal referente à organização dos estados citado aci­
ma, muitos estados não reconheceram as garantias constitucio­
nais federais aos magistrados estaduais. Quanto à inamovibili­
dade, eram feitas ressalvas, nas Constituições estaduais em que
era reconhecida, como a remoção a bem do serviço público ou
quando a permanência do magistrado na comarca fosse consi­

4 Esse sistema de promoção foi proposto nos projetos de reforma ju­


diciária de 1848, 1857, 1879 e 1882; foi defendido nos Relatórios
dos Ministros da Justiça de 1855, 1869 e 1877; e em 1866 e 1871
por Nabuco de Araújo (Almeida Jr. e outros, 1901:205).
PODER JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 215

derada “perniciosa”5. Em muitos estados, o processo de remoção


podia ser iniciado a partir da representação de qualquer cida­
dão ou do procurador-geral da Justiça. A remoção era processa­
da e julgada pelo Tribunal de Justiça ou pelo Senado, com apro­
vação do presidente do estado, ou era processada por um Tribu­
nal de Remoções (MG) ou de conflitos (Ba), compostos por re­
presentantes dos três poderes estaduais (Nequete, ibid., v. 2:28;
Nunes, ibid.). O conjunto desses mecanismos garantia o contro­
le dos cargos da magistratura pela situação dominante nos es­
tados. A ocupação dos cargos, era, por sua vez, feita pela política
de compromissos do coronelismo, pelo qual, entre outros fato­
res, os poderes locais controlavam os cargos de nomeação esta­
dual do município em troca do apoio político que davam ao go­
verno do estado. Caso houvesse atrito entre o governo local e o
funcionário, este era removido (Leal, ibid.:44). Porém, em caso
de conflito entre o governo do estado e o coronel que mandava
na localidade, o funcionário seria também trocado por outro,
indicado por algum coronel rival6.
Pouco tempo depois da promulgação da Constituição sur­
giam críticas à organização do Poder Judiciário nos estados. Em
discurso na Câmara dos Deputados em 8/10/1897, Anfilófio de
Carvalho retomava as críticas à dualidade judiciária (publicado
em O Direito, n.° 75, 1898:5-42). No ano seguinte, o ministro da
Justiça Amaro Cavalcanti apontava o problema no seu relatório
anual. Para ele, em virtude do “mesquinho espírito de partida­
rismo político” e da “falta de independência” da magistratura
estadual, esta não inspirava “confiança plena”, não oferecia “ga­
rantia eficaz contra a violação dos direitos individuais em mui­
tos estados da União”. Os juizes estaduais não tinham, na
maioria dos casos, a confiança das fações pelas quais haviam
sido nomeados, existindo certa “coação moral” sobre suas deci­
sões. Era sabido “por todos” o que ocorria nos estados: “Se por
acaso o juiz, revestido de nobre coragem e altivez, ousa contra­
riar a vontade do governo, ou as conveniências do partido, para

5 A expressão é da Constituição do Piauí, de 1892, art. 57, reproduzida


por Nunes, 1922.
6 Ver, por exemplo, o estudo de Rodolpho Telarolli, 1977:79-121, so­
bre os crimes de Araraquara de 1897
216 | PODER JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

distribuir somente a justiça, ele sabe que não tardará o castigo


da sua rebeldia meritória. A sua remoção ou a destituição do
cargo não se farão muito esperar. E quando, porventura, tais
atos não caibam nas atribuições do governo, este convocará o
seu Congresso, o qual, como bom auxiliar da sua política, não
deixará de armá-lo de todos os poderes para a satisfação com­
pleta de quanto convenha aos arranjos partidários” (RMJ,
1897:88-9; grifos do autor). Para Manuel I. Carvalho de Men­
donça, o foro estava desmoralizado. Os governos estaduais não
levavam em consideração a “qualificação profissional e moral”
dos candidatos a juiz. “Transformados em empregados do go­
verno que os nomeia, os juizes vêm-se [...] expostos a todas as
maquinações dos ódios dos vencidos. A respeitabilidade do juiz,
que uma suspeita macula, a imperturbável serenidade de âni­
mo que uma simples desconfiança inutiliza, a imparcialidade
que a menor dúvida abala são a cada momento francamente
atacados pelos adversários que só anseiam pela oportunidade
de colocar os juizes de sua confiança” (Mendonça, ibid.:284). Em
1900, o Congresso Jurídico Americano promovido pelo Instituto
da Ordem dos Advogados do Brasil aprovava, por grande maio­
ria de votos, teses contra a dualidade de soberania e a favor da
unidade judiciária7. Em 1899-1901, a organização judiciária da
República era também criticada na Década Republicana, publi­
cação dos monarquistas dirigidos pelo Visconde de Ouro Preto
(v. Oliveira, C., 1986). Em 1910, Rui Barbosa, que fora favorá­
vel em 1890-1 à dualidade de organização judiciária, defendia
em 1910, na Campanha Civilista, o retorno à unidade judiciária
(cf. Roure, ibid., v. 2:18)8.
O Supremo Tribunal Federal reconhecia em geral aos ma­
gistrados estaduais as garantias dos juizes federais estabele­

7 Teses publicadas em O Direito, n.° 82, 1900:321-43 e n.° 85, 1901:


18-23.
8 A Reforma Constitucional de 1926 enumerou as garantias dos juizes
estaduais entre os princípios constitucionais básicos, cujo desres­
peito justificaria a intervenção federal (art. 6.°, II, i). Na Consti­
tuinte de 1933-4, apesar da forte corrente unitarista, composta pelos
“tenentes” e representantes de Getúlio Vargas, prevaleceu a duali­
dade da organização judiciária. Ver os debates na Comissão do Ita-
marati em Azevedo, 1933.
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 217

cidas na Constituição Federal. Essas garantias eram a da vita­


liciedade, ou a proibição da demissão sem sentença regular
transitada em julgado, e a da irredutibilidade dos vencimen­
tos. Porém, o STF interpretava restritivamente seus poderes e
assim reconhecia apenas o direito de que o magistrado, ou qual­
quer outro funcionário demitido, continuasse a receber seus
vencimentos; o STF considerava o ato da reintegração “mera­
mente administrativo” e, portanto, determiná-lo seria uma in­
vasão na esfera da competência do Executivo, federal ou esta­
dual9. A doutrina do STF permitia que fossem mantidos os efei­
tos práticos da demissão do magistrado ou funcionário con­
siderado inconveniente pelo governo. A inamovibilidade,
contudo, não era garantida pela Constituição Federal e o STF
não reconhecia esse princípio em favor dos magistrados es­
taduais.
Houve então grande continuidade na forma de organização
do Poder Judiciário na passagem do Império à República, pois
com essa forma de organização eram mantidos os mecanismos
de gestão da carreira dos magistrados profissionais sob o con­
trole do governo, agora em âmbito estadual. A continuidade ocor­
reu também nas formas processuais, pois os estados não exerce­
ram a atribuição de legislar sobre o processo, conquistada na
Constituinte de 1890-1. Os estados adotaram o Código de Pro­
cesso Criminal de 1832, reformado pela lei de 3 de dezembro de
1841, com o inquérito policial, o recurso ex-officio das decisões
que concedessem habeas-corpus etc. Foi também unificada a
jurisdição civil e comercial, valendo para ambas o Regulamento
737, de 1850. A elaboração dos novos códigos processuais pelos
estados seria feita muito lentamente e, em 1930, alguns deles
ainda adotavam o Regulamento 737, de 1850, para o processo
civil (Costa, M., 1970).

9 Foram muitas as decisões do STF neste sentido. Algumas delas


encontram-se parcialmente reproduzidas em Azevedo, 1925:130-7,
ementas n.°s 339-58. Ver também a Revista do Supremo Tribunal
Federal, n.°s 3(1):82; (7):33; (16):495; (20):65; (21):34, 51, 73, 246 e
281; (28):221; (37):137; (49):76; (50):105, 116 e 118; (51):133 e 405;
(57):280 e 290; (58):5 e 289; (59):239; (62):450, 500, 511 e 572;
(68):462; (69):18e 586.
218 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

2. Poder Judiciário e política no estado de São Paulo

0 Poder Judiciário de São Paulo foi inicialmente organizado


pela Lei n.° 18, de 21/11/1891, do governo Américo Brasiliense.
Essa organização judiciária mantinha a mesma divisão territo­
rial do Império, em distritos de paz, termos e comarcas. Nos
termos passariam a atuar não mais os juizes municipais, mas
juizes de paz adjuntos, tribunais correcionais e tribunal do júri10.
A lei já eliminava a classificação das comarcas por entrância,
mas mantinha o sistema de substituição dos magistrados pro­
fissionais uns pelos outros. Porém, a lei não chegou a ser aplica­
da, pois, tendo Américo Brasiliense apoiado o golpe de Deodoro
da Fonseca, foi derrubado pelas forças estaduais que apoiaram
o contragolpe de Floriano Peixoto, a 23 do mesmo mês. O novo
presidente do estado, Bernardino de Campos, cancelou todas as
nomeações feitas para a magistratura do estado e fez outras.
Dos nove desembargadores nomeados pela primeira organiza­
ção — que eram todos desembargadores do Tribunal da Relação
do regime anterior — apenas dois mantiveram seus lugares. Os
demais foram ocupados por seis magistrados (um deles com ape­
nas três anos de experiência e outro recém-nomeado juiz de di­
reito) e pelo chefe de polícia do Distrito Federal durante o golpe
de Deodoro, Pedro Antônio de O. Ribeiro11.

10 Os tribunais correcionais eram uma antiga proposta dos liberais


do Império, e tratava-se de uma espécie de tribunal do júri simpli­
ficado para o julgamento de infrações menos graves; desse modo,
pensavam os liberais, ter-se-ia maior eficácia na punição, e seria
diminuído o trabalho do tribunal do júri; no entanto, os tribunais
correcionais não foram adotados.
11 Ele não era natural de São Paulo e não havia ocupado cargos no
estado. Possivelmente a sua nomeação foi uma retribuição à li­
berdade que os opositores de Deodoro tiveram para articular a
sua derrubada no Distrito Federal. Segundo Dunshee de Abran-
ches, conspirava-se abertamente em todos os cantos e recantos da
cidade. Ia-se à casa de Floriano, chefe da conspiração, “de dia, em
plena luz: nenhuns resguardos, nenhuma dessas cautelas e ânsias,
ou sobressaltos, com os quais, numa conspiração, se romanceiam
os perigos. Os conspiradores iam, prosaicamente,
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 219

Pela nova lei de organização judiciária, n.° 80, de 25 de agos­


to de 1892, foi mantida a classificação em entrância única para
as comarcas, a substituição dos juizes de direito em seu impedi­
mento foi atribuída aos juizes de paz, que poderiam decidir até
o despacho de pronúncia, inclusive, e proferir decisões não-defi-
nitivas em matéria contenciosa. Os termos foram transforma­
dos em comarcas, e assim o critério fixado pela lei de 1841 para
constituir termos — um foro civil e um Conselho com cinqüenta
jurados — passou a servir de base para a criação de comarcas.
Conseqüentemente, entre 1891 e 1892 foram criadas 29 novas
comarcas, passando de 66 a 95 no estado. Os juizes eram no­
meados para qualquer comarca, até mesmo a da capital. Pela lei
de 1892, os juizes de direito eram nomeados pelo presidente do
estado após a realização de concurso. Porém, essa exigência foi
abolida pela Lei n.° 1.084, de 1907. Pela Constituição paulista,
os juizes podiam ser aposentados por incapacidade física ou
mental, ou por idade. Havia também a remoção compulsória de
magistrados pelo presidente do estado, com aprovação do Sena­
do estadual, quando necessária ao serviço público. Além disso, a
Lei n.° 338, de 1895 (art. 4.°) deu ao governo o poder de suspen­
der juizes. O fim das entrâncias na organização judiciária de
1892, a liberdade de remoções e o fim da exigência de concurso
indicam que a carreira da magistratura paulista tornou-se me­
nos estruturada do que a sua precedente imperial (Manso,
1940:6).
A dinâmica política do estado de São Paulo apresenta algu­
mas particularidades em relação aos outros estados, com o que
se diferencia do modelo proposto por Victor Nunes. Destas par­
ticularidades ressaltamos duas: o forte processo de construção
institucional do estado, impulsionado pelos dirigentes paulis­
tas; e o controle da política estadual exercido pelo Partido Repu­
blicano Paulista. Com a República, o imposto de exportação pas­
sou a ser arrecadado pelos estados, solução favorável a São Paulo,
onde a arrecadação decuplicou em comparação com o nível pro­
vincial. Além disso, os estados passaram a poder levantar em­
préstimos externos. Essa base financeira permitiu um verda­

de bonde...” à casa de Floriano planejar a derrubada do governo


(Abranches, 1954:117-8).
220 | PODER. JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

deiro state building em âmbito regional, com a ampliação da


rede de saúde pública, educacional, diversos tipos de apoio à
agricultura, aos transportes e, em particular, a organização da
polícia militar do Estado (Kugelmas, 1986:32-4).
O Partido Republicano Paulista permaneceu o único parti­
do relevante do estado, até o final da Primeira República. O
PRP só perdeu o controle do governo estadual no interregno do
governo de Américo Brasiliense, que apoiou o golpe de Deodo-
ro de 3/11/1891 e foi derrubado no mês seguinte pelas forças
que apoiaram o contragolpe do 23 de novembro. A partir da
Proclamação da República, o PRP obteve a adesão dos antigos
liberais e conservadores à nova situação, reaglutinando as for­
ças políticas do estado. De modo geral, o PRP conseguiu man­
ter os conflitos entre as fações políticas no seu interior e, quan­
do ocorreram cisões mais graves, o PRP assumiu uma política
de reabsorver nos seus quadros os membros da fação derrota­
da. A Comissão Executiva do partido atuava como mediadora
entre o governo estadual e os poderes locais, exercendo, desse
modo, forte controle da atividade partidária e das nomeações
dos cargos estaduais. A unidade do PRP fortalecia a posição
paulista, não só em âmbito federal, pela atuação conjunta
de sua bancada, mas também em âmbito estadual, pois havia
maior controle do governo do estado sobre os poderes locais
(Casalecchi, 1987:192-3).
Se a dinâmica social e econômica da cafeicultura e as estraté­
gias políticas das elites dominantes do estado têm característi­
cas que a diferenciam do modelo geral do coronelismo, as rela­
ções entre o governo estadual e os poderes locais não chegam a
constituir um tipo diferente em relação àquele modelo (ver Te-
larolli, 1977). O mesmo pode ser afirmado quanto à forma de
organização judiciária do estado: ela não se diferencia da dos
outros estados e com isso contrasta fortemente com o processo
de construção institucional do estado nas demais áreas.
Vimos que os chefes políticos estaduais adotaram o modo de
representação da ordem política imperial para rejeitar os temas
liberais referentes à independência da magistratura. O mesmo
ocorria em relação ao princípio de separação dos poderes, que
era contraposto à sua harmonia recíproca e às suas finalidades
políticas e sociais comuns. Nos Relatórios anuais do secretário
de Justiça e Segurança Pública aparecem suas reclamações con­
PODER JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 221

tra os magistrados, que, em nome da separação entre os pode­


res, deixavam de cumprir as tarefas que lhes eram ordenadas
pelo governo. Para o governo estadual, os magistrados deve­
riam colaborar necessariamente com a ação administrativa do
Executivo, tal como ocorrera durante o Império. Para os gover­
nantes paulistas, o fundamento da separação entre o Poder Exe­
cutivo e o Judiciário não era a divisão da soberania, mas uma
divisão funcional, baseada no tipo de questões consideradas pro­
priamente judiciais. Tal como o era para o pensamento conser­
vador do Império, a divisão funcional significava que, para além
dos seus limites, todos os poderes políticos do Estado deveriam
atuar com a harmonia necessária para o fim comum (RSJ-SP,
1899-1900). Em 1896, o secretário da Justiça Carlos de Campos
afirmava a necessidade de dar ao presidente do estado e ao se­
cretário de Justiça meios de obrigar os magistrados a executar
tarefas administrativas. Ele reclamava dos problemas que en­
contrara quando solicitava o concurso dos juizes e dos tribu­
nais para se instituírem providências de caráter puramente
administrativo.
“Ninguém há que ignore que o conhecido princípio da des­
classificação de direitos transfere às autoridades judiciárias
atribuições, verdadeiramente governamentais, compreendi­
das na esfera do interesse geral e coletivo, fazendo-as passar,
sem dali retirá-las, aos incumbidos de apreciar e solver as
questões e os pleitos de ordem privada. Não há que negar que
no círculo a que pertencem tais atribuições, firma-se, pela
competência exclusiva, a forçosa superioridade do poder exe­
cutivo, como, no domínio dos litígios e das demandas, estabe­
lece-se a ação privativa e ampla do poder judiciário, que não
admitindo nos negócios que se prendem à sua missão pró­
pria, a interferência do outro poder, deve também, na parte
reservada ao exercício deste outro, a cujos atos cumpre-lhe
subordinar-se, aceitar e reconhecer a ascendência, a supre­
macia do que a possui.
“Todavia, escapou aos nossos legisladores taxar esses ca­
sos especiais, como munir a administração pública de recur­
sos, para tornar-se respeitada e obedecida, desde que, ao tra-
tar-se de matérias atinentes aos seus encargos, não se diri­
gisse aos que lhe estão imediatamente sujeitos. Menos ainda
se cuidou da hipótese de se vir a invocar o princípio da sepa-
222 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

ração dos órgãos da soberania do estado, esquecendo-se, no


entanto, preceito igualmente exato e importante, como o da
harmonia entre eles.
“Não conta hoje o presidente, o funcionário supremo, quais­
quer meios a fim de no que concerne aos seus deveres consti­
tucionais, obter dos magistrados a execução do que deliberar
ou estatuir, faltando-lhe os elementos para proceder com efi­
cácia e energia, com relação aos que cheguem a contrariá-lo
ou desatendê-lo” (RSJ-SP, 1896:189).
A necessidade de estabelecer maiores mecanismos de contro­
le sobre os magistrados foi reafirmada nos mesmos termos em
1900, e foi também um dos objetivos da reforma judiciária de
1907 (RSJ-SP, 1899-1900,1906). O controle da sua carreira pelo
governo estadual significava a inserção dos juizes no esquema
político dominado no estado pelo PRP. Para os juizes, a situação
era de instabilidade funcional e falta de autonomia de julga­
mento, pois eles eram sujeitos a pressões tanto do governo do
estado, como da política local. Segundo Júlio César de Faria,
juiz de direito e desembargador na época, havia nas comarcas
uma “ditadura forense-política”.
“Desaparecidos com a República os partidos que outrora
encontravam na rotação política assegurada pela Coroa a sua
razão concreta de ser, a política passou a ser entregue, inde­
finidamente, a chefes e subchefes grandemente interessados
em obter a adesão dos juizes e transformá-los em instrumen­
to de empreitadas eleitorais. Se estes consentiam em satisfa­
zer-lhes os caprichos, a administração da justiça, anarquiza-
da, deixava de inspirar confiança ao povo e, fatalmente, o
impelia para as hostes do mandão, no empenho de conseguir
favores administrativos ou judiciários.
“Se não se submetiam [...] iniciava-se contra eles o proces­
so tremendo de perseguição: representações pela imprensa,
desacatos premeditados nos auditórios da justiça, cartas anô­
nimas repassadas de calúnias e aleivosias, tudo se erguia con­
tra o infeliz magistrado, que não raro sucumbia na luta desi­
gual contra o caciquismo...” (Faria, 1942:23-5).
O governo tinha outras maneiras de inutilizar a ação dos
juizes, como o controle político dos seus meios de ação, com o
que eram limitadas as possibilidades de ação do juiz. Se ele en­
trasse em conflito com a situação dominante local, necessitaria
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 223

solicitar o apoio do governador do estado, pois os cargos de dele­


gado e subdelegados da polícia também faziam parte do sistema
de compromisso. Porém, na maioria das vezes, o juiz “não podia
contar com o apoio das autoridades centrais (do estado de São
Paulo), senão de forma vaga e imprecisa, expressa quase sem­
pre por frases ocas, de estilo garrafal” (Faria, ibid.:26; Telarolli,
1977).
Também não foram garantidas as condições materiais de fun­
cionamento de muitas comarcas criadas a partir de 1891. Vimos
que em 1892 todos os termos do estado foram transformados em
comarcas. Muitas comarcas do estado não possuíam as instala­
ções e o pessoal necessário ao funcionamento da justiça: “[...]
destituídas de renda, de Casa para o Tribunal do Júri e de ou­
tras condições de aparato, senão mesmo de conforto, exigidas
pela administração da justiça; e em grande número sem o pes­
soal competente para o funcionamento daquele Tribunal” (Fa-
ria, ibid.:ll). Segundo a Comissão nomeada para elaborar um
projeto de reforma judiciária, apresentado em 1901, das 97 co­
marcas do estado, “os juizes de direito em cerca de vinte delas
não têm quase serviço algum”. Havia também cerca de cinqüen­
ta ofícios de justiça do estado vagos, “por não terem rendimento
que provoque concorrentes” (Almeida Jr. e outros, 1901:13).
Os salários atribuídos aos juizes eram considerados baixos
(6:000$000 por ano, mais 2:400$000 adicionais para os juizes da
capital, Santos e Campinas) por Júlio César de Faria. Os salá­
rios dos juizes de direito, sem os adicionais, eram os mesmos
que os dos delegados de polícia; em 1899, estes passaram a rece­
ber oito contos e quatrocentos anuais; um escrivão da Penitenciá­
ria recebia cinco contos e quatrocentos anuais e um coronel da
Polícia Militar, quase sete contos (Fernandes, 1974:237-41). Os
juizes de direito dependiam das custas percebidas nos proces­
sos, as quais eram, na maior parte das comarcas, insuficientes.
“Mal remunerados, e esquecidos do governo quando não
ocorria a favor dos juizes a circunstância de pertencerem a
famílias prestigiosas, permaneciam eles indefinidamente em
comarcas secundárias, destituídos, não raro, de recursos para
a instrução da prole.
“[...] os emolumentos judiciários, exceto nas comarcas de ter­
ras férteis das novas zonas cafeeiras, que despertavam a co­
biça de plantadores ousados, em outras muitas, sabidamente
224 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

pobres, pouco significavam. Então por enfrentar as necessi­


dades da subsistência, juizes havia que fechavam os olhos às
interpretações extensivas dos cartórios (para aumentar as
custas a receber das partes), ou se endividavam nos arma­
zéns e nas lojas com grave sacrifício da compostura própria.
Felizmente outros, fugindo das relações sociais por evitar
despesas extraordinárias, procuravam conduzir-se com a
máxima austeridade, posto isso às vezes determinasse a an­
tipatia do meio em que viviam” (Faria, ibid.: 19-20).
João Arruda afirmou o mesmo sobre juizes “ [...] que se li­
gam com os escrivães, numa tolerância recíproca, para despo­
jar os litigantes”. Ele atribuía o pouco preparo profissional de
“zelosos juizes do interior” à falta de recursos para comprar
livros, especialmente de direito estrangeiros, os quais eram
necessários em virtude do grande número de imigrantes (Ar­
ruda, ibid.:37-8).
A “sujeição” dos juizes ao governo não deve, no entanto, ser
superestimada. Se, para os juizes, a situação era de instabilida­
de funcional, o controle político do estado pelo Partido Republi­
cano resultou numa maior estabilidade política dos magistra­
dos paulistas, se comparada à dos outros estados. Segundo Jú­
lio C. de Faria ocorreram apenas cinco remoções compulsórias
no estado até 1921 (Faria, ibid.:22), isto é, foram poucas, em
comparação com estados como Amazonas, Paraná e Rio de Ja­
neiro, em que à derrubada do governo estadual seguia-se a au­
torização do Congresso Estadual ao presidente do estado para
reorganizar o Poder Judiciário, com o que vinham as aposenta­
dorias forçadas, remoções compulsórias e a disponibilidade de
juizes.
Além disso, a inserção dos juizes no sistema de compromissos
não se dava somente pela intimidação. O governo estadual dis­
punha de mecanismos positivos de produção da lealdade dos
juizes, como o sistema de remuneração e as promoções. As co­
marcas do estado eram classificadas em entrância única, ape­
sar da sua grande diferença de movimento forense, de impor­
tância, de facilidade dos meios de transporte. Segundo o relató­
rio da Comissão que elaborou o projeto de reforma judiciária de
1901, o valor das custas recolhidas anualmente pelos juizes de
direito entre 1897 a 1900 era distribuído pelas comarcas do se­
guinte modo:
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 225

Quadro 15. Valor das custas recebidas por comarca no estado de São Paulo (1897-1900)
valor vnual das porcentagem do salário número de número acumulado
custas recebidas anual do juiz comarcas de comarcas
até 500$000 8,3 18 18
até 1:500$000 25,0 16 34
até 3:000$000 50,0 32 66
até 6:000$000 100,0 17 83
Mais de 6:000$000 + de 100,0 12 95
não consta 2' 97
Total 97
Fonte: Almeida Jr. e outros, 1901:64-81
'Comarcas de Santa Branca e Sarapuí (pelos dados do Relatório a respeito da população e
rendas municipal e estadual, a primeira provavelmente recolhia até 3 contos e a segunda
até 500$000 por ano).

Em 66 comarcas, mais de dois terços (68%) do total do estado,


a média das custas não chegava a 50% dos vencimentos dos
juizes de direito. Em dezessete comarcas as custas acresciam de
50 a 100% aos salários e em apenas doze comarcas (12,5% do
total do estado), as custas representavam mais de 100% dos sa­
lários. Mesmo que se considere que havia dezoito vagas nas doze
comarcas mais rendosas12, apenas 17% do total dos lugares de
juiz de direito rendiam em custas o equivalente, ou mais, ao
salário anual. Porém, as diferenças no valor das custas recebi­
das não eram acompanhadas por nenhum critério para as pro­
moções. Ou seja, a nomeação ou promoção de um juiz para uma
comarca mais rendosa dependia do critério do governo. Pela
grande diferença das custas recolhidas entre as comarcas, a pos­
sibilidade de remoção para uma comarca rendosa era grande
atrativo, ao passo que, pelo contrário, o “rebaixamento” era uma
possibilidade sempre presente. Assim a possibilidade de promo­
ção do juiz servia como incentivo forte para sua adequação ao
comportamento esperado pelo governo.
O governo estadual tinha também ampla liberdade para esta­
belecer a composição do Tribunal de Justiça. Pela Constituição
paulista de 1891, os membros do Tribunal de Justiça eram nomea­
dos pelo presidente do estado com base em lista organizada pelo
tribunal com os nomes dos magistrados mais antigos do estado,

12 A comarca da capital tinha cinco varas e as de Santos e Campinas,


duas varas.
226 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

na proporção de dez nomes para cada vaga do tribunal. Na Cons­


tituinte paulista de 1905 foi proposto pelo governo que os desem­
bargadores do Tribunal de Justiça fossem tirados de uma lista de
quinze nomes, elaborada pelo Tribunal de Justiça, com dois ter­
ços dos nomes tirados por antiguidade e o terço seguinte por me­
recimento, escolhidos dentre os magistrados que tivessem mais
de quatro anos. Porém, a proporção entre os critérios de antigui­
dade e merecimento era da lista de indicados e não dos nomea­
dos. Aureliano de Gusmão criticava esse prazo, por considerá-lo
demasiado curto. Como normalmente a “carta” de bacharel era
obtida com a idade de vinte e um anos, um jovem com os três anos
de prática exigidos por lei, mais os quatro anos de exercício do
cargo de juiz de direito poderia ser nomeado desembargador com
28 anos de idade. Achava isso incongruente com a exigência da
idade mínima de 35 anos para a eleição para senador estadual
(Coelho, 1922:584). Herculano de Freitas respondeu que o dispo­
sitivo tomava a magistratura atraente para que os juizes se em­
penhassem, “cada de per si, por ser o primeiro do estado, de modo
a poder, pelas suas qualidades superiores de inteligência, de cul­
tivo e de caráter, impor-se a essa escolha por merecimento” (Id.,
ibid.:587). A emenda foi aprovada pelo Congresso Constituinte e
ampliava bastante o poder de escolha do governo dentre os juizes
de direito, que eram, na época, mais de cem no estado de São
Paulo. Júlio C. de Faria criticou também a adoção do critério de
merecimento para a nomeação dos desembargadores do Tribunal
de Justiça. Segundo ele, a reforma acarretou a “prática aviltan­
te” de juizes “medíocres ou nulos [...] se rastejarem diante dos
superiores hierárquicos”, visando a indicação de seu nome na lis­
ta para a nomeação (Faria, ibid.:27). O governo normalmente
nomeava os desembargadores dentre juizes com mais de quinze
anos de serviço. Porém, escolhia poucos dentre os juizes mais
antigos. Dos oito desembargadores nomeados entre 1917 e 1921,
apenas dois estavam entre os dez juizes mais antigos. No caso de
Vicente de Carvalho, nomeado em 1914, o novo desembargador
tinha apenas sete anos de serviço como juiz de direito, os quais
havia exercido exclusivamente na capital do estado13.

13 O nomeado havia sido propagandista da república, “deputado esta-


PODER JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 227

A organização judiciária da lei de 1892 foi objeto de críticas e


de várias tentativas de mudança, sendo que, entre 1896 e 1920,
foram apresentados nove projetos de reforma judiciária ao Con­
gresso Estadual (em 1896, 1899, 1901, 1904, 1911, 1913, 1915,
1917, 1920). A Comissão nomeada em 1901 pelo Presidente Ro­
drigues Alves para apresentar uma proposta de reforma judi­
ciária fixava critérios para a classificação em entrâncias das co­
marcas, como a distância em relação aos centros urbanos maio­
res e a qualidade dos meios de transportes, o número de jura­
dos, a renda municipal e estadual recolhida. Propostas de crité­
rios de classificação de comarcas foram reapresentadas em 1912,
e discutidas em 1913 no Congresso Estadual, quando Rodrigues
Alves era novamente presidente do estado (ver São Paulo. Pre­
sidência do Estado, 1912; Estado de São Paulo, 1913).
A classificação das comarcas em entrâncias somente foi res­
tabelecida pela reforma judiciária de 1921, que também restau­
rou o concurso para provimento inicial dos juizes, criou juizes
substitutos, cargo inicial da carreira de juizes, suprimiu o rece­
bimento de custas das partes pelos juizes, entre outras medidas
(Manso, 1940:6; 10). Porém, a reforma de 1921 estabeleceu a
promoção dos juizes de entrância a entrância, sem, contudo, es­
tabelecer critérios para as promoções. Os critérios de antiguida­
de e merecimento somente foram estabelecidos pela Constitui­
ção Estadual de 1935, em obediência à Constituição Federal de
1934 (ver Manso, ibid.:10).

3. Poder Judiciário e sociedade em São Paulo

Fazemos nesta seção a análise da distribuição das competên­


cias estabelecida na organização judiciária de São Paulo. Nosso
argumento nesta seção é que a ampliação das atribuições dos

dual, secretário do Interior do primeiro governo constitucional do


estado, fazendeiro de café, industrial, presidente da Cia. de Nave­
gação Sul paulista e mais que tudo, aprimorado e laureado poeta”
(Brotero, 1944:303). Tratava-se tipicamente de um caso de uso de
cargo da magistratura para a retribuição de favores. Para as listas
de antiguidade dos juizes de direito do Estado, ver Revista dos Tri­
bunais, vols.XXIV, 1917:370-2; XXVIII, 1918:366-8; XLI, p. 261-3.
228 | PODER JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

juizes de paz foi a maneira pela qual se garantiu o controle local


da resolução dos conflitos entre fazendeiros e trabalhadores li­
vres. No campo criminal, o contraste entre as organizações poli­
cial e judiciária, a liberdade de ação da polícia e o papel que lhe
era atribuído pela elite do estado, mostram a ênfase dada no
estado de São Paulo na resolução dos conflitos sociais por meio
da intervenção policial, em detrimento do acesso dos trabalha­
dores aos canais judiciais formalmente igualitários de resolu­
ção dos conflitos.

A ) PROCESSOS DE MUDANÇA SOCIAL


A expansão do café no vale do Paraíba se havia caracterizado
pela presença de “dois setores especializados, um agrícola, pro­
dutivo, e outro mercantil-urbano, expropriativo do primeiro, na
economia cafeeira do Rio de Janeiro” (Zélia Cardoso de Mello,
apud Kugelmas, ibid.:14). Para a formação do cafezal eram ne­
cessários investimentos vultosos e com prazo de maturação bas­
tante longo. Ao contrário da estrutura da oferta de café, a estru­
tura de comercialização e de financiamento era altamente con­
centrada e sua ação era centrada no comissário. O fazendeiro
estava preso ao “círculo de ferro” da dominação do capital mer­
cantil. Este, porém, apropriando-se da quase totalidade dos lu­
cros, via-se obrigado a fazer retornar a quase totalidade dos seus
lucros à empresa cafeeira, pela inexistência de outras oportuni­
dades de inversão (Mello, J., 1987:68-9). Ao contrário dos fazen­
deiros do vale do Paraíba, a cafeicultura paulista caracterizava-
se pela forte capacidade de autofinanciamento. Os membros
dessa elite estavam presentes “em todas as etapas e dimensões
do processo de crescimento e diversificação de atividades econô­
micas em curso”. A partir de 1868, depois da construção da São
Paulo Railway, com capitais ingleses associados ao Visconde de
Mauá, os membros da elite paulista formaram a Companhia
Paulista de Estradas de Ferro com a qual se abriu a ocupação
cafeeira do oeste paulista. A nova fronteira de expansão da ca­
feicultura criava novas oportunidades de inversão, através da
criação de casas bancárias (1885), das companhias de imigra­
ção, etc., as quais eram realizadas pelo mesmo “grupo de famí­
lias interligadas” de São Paulo (Kugelmas, ibid.:14-8).
Na década de 1880, o problema da “falta de braços” para as
fazendas de café foi resolvido pela introdução em massa de imi­
PODER JUDICIÁRIO, P O LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 229

grantes italianos no estado de São Paulo. A imigração tinha ob­


jetivo de criar uma força de trabalho assalariada para a cafei­
cultura. Para isso, havia a necessidade de obter fluxo de mão-
de-obra abundante, com o que seriam garantidas baixas taxas
de salário sem o recurso explícito à violência, o que causava res­
trições dos países europeus à emigração para o Brasil. E era
necessário garantir que essa mão-de-obra se fixasse nas fazen­
das, não se transformando em posseiros, nem se concentrando
nas cidades. Essas condições foram satisfeitas pelo financiamento
estatal da imigração, que pagava a passagem apenas para os
colonos que se dirigissem a estabelecimentos agrícolas.
Em 1879 fora aprovada uma Lei de Locação de Serviços, que
regulamentava as relações entre fazendeiros e trabalhadores,
atualizando as garantias para os fazendeiros à execução dos
contratos, que até então eram estabelecidas pela lei de 1837. A
lei de 1879 estabelecia penas de prisão, tanto pelo abandono da
fazenda sem justa causa, como por greves ou incitamento de
outros à violência (Stolcke & Hall, 1983:104). Essa lei, porém,
foi pouco utilizada, pois os fazendeiros já realizavam outro tipo
de contrato, o colonato, o qual iria predominar nas fazendas de
café da década de 1880 até o início dos anos 1960. Esse tipo de
contrato era “um sistema misto de remuneração por tarefas e
por peça... a carpa do café era paga segundo uma taxa fixa anual
por milhar de cafeeiros cuidados e a colheita por alqueire de
café colhido” (Id., ibid.:100; ver também Lamounier, ibid.). Em
meados da década de 1880, os fazendeiros já estavam cientes de
que era impossível “ter salários baixos, sem violência, havendo
poucos braços e muitos que queiram empregá-los” (Anais da
Câmara, 1884, vol. V:540, apud Stolcke & Hall, ibid.:106). Esse
problema foi resolvido pela imigração em massa subvencionada
pelo governo. Até 1885 estimava-se que trabalhavam cerca de
50.000 imigrantes em São Paulo. De 1884 a 1914 chegaram cer­
ca de 900.000 imigrantes a São Paulo, “a maioria como mão-de-
obra barata para as fazendas de café” (Id., ibid.:107).
Resolvido o problema da mão-de-obra, a Lei de Locação de
Serviços de 1879 tornava-se desnecessária e criava problemas
para a imigração. Pelo Decreto n.° 213, de 22/2/1890, o Governo
Provisório revogou a “vexatória” lei. O objetivo do decreto era
facilitar “uma corrente imigratória perene e abundante” e, para
isto, o país deveria oferecer “ao estrangeiro as vantagens mo­
230 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

rais que resultam de uma legislação bastante livre”. Os contra­


tos deveriam ser, a partir daí, “atos de pura convenção, tendo
por base o mútuo consentimento, e elevando por esse modo o
colono à categoria de parte contratante que aliás lhe era recu­
sado por aquela legislação” (Decreto 213, apud Lamounier,
ibid.:158-9).
A liberdade de contratar foi reconhecida pela Constituição
que, em seu artigo 72, § 24, garantiu o “livre exercício de qual­
quer profissão, moral, intelectual e industrial”. Esse dispositivo
foi freqüentemente invocado no Congresso para a rejeição de
tentativas de regulamentar os contratos de trabalho. Parlamen­
tares ou representações dos agricultores enviadas ao Congresso
opunham-se à regulamentação dos contratos de trabalho. Para
eles, deveria continuar valendo a lei da roça, isto é, o “sistema
das convenções diretas ou ajustes em uso consuetudinário no
interior e na lavoura” (Lacerda, 1980:32-6).
Os contratos entre colonos e fazendeiros passaram a ser fei­
tos verbalmente ou por escrito, normalmente pelo prazo de um
ano. As cláusulas dos contratos variavam e os colonos se obriga­
vam a obedecer ao Regulamento Interno e Policial da fazenda,
sendo estabelecidas condições como a proibição de o colono au­
sentar-se da fazenda sem consentimento do fazendeiro, de obe­
decer ao toque de recolher da fazenda, a cobrança de multas
pelo não-cumprimento dos contratos, tanto pelo colono como por
sua família, e a responsabilidade solidária da família pelas obri­
gações contratuais (Costa, E., 1989:245-9).
As tentativas dos fazendeiros de estabelecer relações pater­
nalistas com os colonos fracassaram desde cedo. As relações entre
eles foram desde o início carregadas de tensões, em geral bas­
tante explícitas. Era comum a prática de fraudes pelos fazen­
deiros, seja pela inclusão no regimento interno da fazenda de
obrigações não constantes no contrato, seja pela venda de pro­
dutos alimentares por preços superiores aos de mercado, seja
pela retenção de salários, e outras. Com o recurso à coerção e à
violência, os fazendeiros melhoravam a posição no mercado de
trabalho, reduzindo gastos com a mão-de-obra e, ao mesmo tem­
po, visando conservar os trabalhadores na fazenda (Stolcke &
Hall, ibid.:115, 107-8). Os fazendeiros tentavam às vezes reter
os trabalhadores mediante adiamento do fim do ano agrícola
(quando as contas eram ajustadas), “tornando assim imprová­
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 231

vel que o trabalhador ‘pudesse encontrar trabalho em outra fa­


zenda onde a primeira carpa já teria se iniciado’” (Id., ibid.:113).
Porém, a mobilidade dos trabalhadores após o término dos con­
tratos de trabalho era grande. Durante o período contratual, os
colonos resistiam de diversas formas, individuais (crimes, fu­
gas) ou coletivas (greves). As greves eram reprimidas com o res­
paldo da polícia; os crimes e as fugas eram controlados por ca­
pangas dos fazendeiros. Assim “ [...] não era incomum que os
colonos fugissem à noite da fazenda, antes que seus contratos
tivessem expirado, se eles se sentissem tão sobrecarregados por
multas pesadas, baixos salários ou doenças na família, que não
vissem forma de saldar as dívidas até o fim do ano [...] [A] maio­
ria das fazendas tinha seu próprio grupo de guardas armados,
os capangas, para garantir que as vontades do fazendeiro fos­
sem executadas, para protegê-lo da ira dos trabalhadores e para
controlar o movimento destes de saída e entrada na proprieda­
de” (Stolcke, 1986:73-4; grifo da autora). A abundância de mão-
de-obra e a disciplina do trabalho sob controle dos fazendeiros
garantiu os baixos salários. Em 1914, “os salários apresenta­
vam [...] praticamente o mesmo nível de 40 anos antes. No mes­
mo período, o ganho real dos trabalhadores parece ter decaído
significativamente” (Stolcke & Hall, ibid.:108).
A imigração em massa e o deslocamento dos libertos provoca­
ram também grande crescimento urbano da cidade de São Pau­
lo. A cidade passou de cerca de 30.000 habitantes em 1872, a
cerca de 48.000, em 1886, 65.000 em 1890 e cerca de 240.000 em
1900. Com o crescimento populacional, ampliou-se o mercado
de trabalho e de consumo; intensificou-se a divisão do trabalho,
crescendo o pequeno comércio, a burocracia, profissões libe­
rais e aparecendo os primeiros núcleos operários (Fausto,
1976:17-8)14.

14 As transformações repercutiam também na própria profissão dos


advogados. “No tempo antigo, quando a vida profissional abria as
portas a todas as pretensões que pudessem surgir no espírito de
um jovem advogado, não tinha ele interesse em acumular cabedais,
mas queria tratar-se com certa distinção, ou mesmo luxo, e, se era
de natureza modesta, com algum conforto... Mas a profissão teve,
com o tempo, e particularmente com a concorrência, facilitado o
bacharelamento, de perder muito do seu antigo brilho, de modo
232 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

O grande número de imigrantes, introduzidos no país como


mão-de-obra para o café, produziu também um excedente de
força de trabalho na capital. Aliado à forma de relação entre as
classes e com o estado, esse fator contribuiu para a manutenção
de baixos salários e para limitar a capacidade de organização
dos operários. Assim as greves eram freqüentemente reprimi­
das pela polícia, as lideranças operárias eram presas ou expul­
sas e eram recusadas as reivindicações operárias de melhoria
das condições de trabalho, de garantias aos contratos de traba­
lho e de reconhecimento dos sindicatos15.
Com o crescimento da cidade aumentava também a crimina­
lidade. O grande número de estrangeiros, fracassados, aventu­
reiros, fugitivos da justiça; desocupados ou subempregados; a
falta de habitações; e o choque entre padrões de comportamento
acentuaram a ameaça da criminalidade aos olhos das autori­
dades paulistanas na virada do século. E aqui aparece a impor­
tância da liberdade de ação da polícia, que se valia da prisão
como instrumento de controle social. A ação independente da
polícia nas detenções existia como ameaça sobre os trabalhado­
res, pela possibilidade sempre presente, seja na ação contra li­
deranças operárias ou greves, seja na ação indiscriminada so­
bre os homens pobres. Funcionava como mecanismo de controle
social, que assegurava baixos salários, altas jornadas de traba­
lho nas fábricas sem condições de segurança, de salubridade, e
sem nenhuma restrição ao trabalho de mulheres e crianças. A
repressão policial funcionava também como controle político, pois
limitava a institucionalização das organizações independentes
de representação dos trabalhadores, excluindo-os da participa­
ção política autônoma.

que hoje quase só vale o advogado pelo dinheiro que consegue guar­
dar, e a seus olhos sempre se oferece uma das maiores desgraças,
qual a idade avançada oprimida pela pobreza... Tornou-se pois a
profissão um meio de vida, deixando o caráter de processo para
adquirir honras” (Arruda, ibid.: 17-8, grifos do autor).
15 Sobre a repressão aos líderes operários e as condições de vida e de
trabalho industrial em São Paulo e no Rio de Janeiro na Primeira
República ver, entre outros, Bóris Fausto (1976, 1984), Sheldon L.
Maram (1979) e Paulo Sérgio Pinheiro (1981, 1991).
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 233

B) DISTRIBUIÇÃO DE COMPETÊNCIAS
A organização judiciária do estado de São Paulo estabelecida
pela Lei n.° 80, de 1892, vigorou com poucas alterações até a
reforma de 1921. Como vimos anteriormente, no estado de São
Paulo não havia os juizes municipais do antigo regime. As atri­
buições eram divididas como segue.
Na jurisdição civil, os juizes de paz tinham poder de proces­
sar e julgar todas as causas com valor até 500$000. Os juizes de
direito julgavam em segunda instância as causas sob a jurisdi­
ção dos juizes de paz. Cabia a eles preparar e julgar em primei­
ra instância as causas com valor superior a 500$000. Nessas
causas havia apelação para o Tribunal de Justiça. Os juizes de
paz tiveram a sua competência civil ampliada. Até 1871 cabia a
eles julgar questões de valor até 100$000. O Governo Provisório
aumentou em 1890 este valor a 300$000, o qual foi mantido pela
Lei n.° 18. A Lei n.° 80 ampliou este valor a 500$000.
Essa ampliação garantia o controle pelos poderes locais das
questões de menor valor, incluídas aí não só as do pequeno co­
mércio, problemas de vizinhança, compra e venda de bens mó­
veis, como também todas as obrigações decorrentes de contra­
tos de trabalho. Isso se verifica pelo valor dos contratos de colo­
nato. Em 1888 um colono podia ganhar cerca de 100$000 por
ano com a manutenção de dois mil pés de café (capina, replantio
das falhas, limpeza, varreduras), mais 100$000 pela colheita
(Costa, E., ibid.:220). Mesmo que se tome a família do colono
como unidade, somente em famílias com dois ou mais filhos adul­
tos seria atingida a importância de 500$000 como valor total do
contrato de colonato por um ano. Considerando-se que a maio­
ria dos conflitos se daria em torno do cumprimento de parte das
obrigações contratuais, o julgamento desse tipo de questão ca­
beria invariavelmente aos juizes de paz.
O retorno de muitos imigrantes à Europa, a divulgação das
péssimas condições de trabalho dos colonos e as crescentes ma­
nifestações de descontentamento dos colonos fizeram com que
em 1911 fosse aprovada uma lei que dava preferência na execu­
ção aos salários dos colonos em caso de falência do fazendeiro e
à criação do Patronato Agrícola (Stolcke, ibid.:74). O Patronato
Agrícola tinha por objetivo arbitrar as disputas entre imigran­
tes e fazendeiros. Era composto de um diretor, o advogado pa­
234 | PODER JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

trono e um oficial ajudante. Se fossem vencidos, os imigrantes


pagavam somente um quarto das custas, as quais somente se­
riam cobradas após a decisão final. Em 1913, as disposições re­
lativas ao Patronato Agrícola foram consolidadas, sendo consi­
derados operários agrícolas os jornaleiros, colonos, empreitei­
ros, feitores, carreiros, carroceiros, maquinistas, foguistas e ou­
tros empregados no prédio rural (art. 315, § 1.° do Dec. 2.400, de
9/7/1913, apud Manso, 1923:239). Era determinada a isenção
de selos e emolumentos para todos os papéis e requerimentos
(art. 381). Porém, o Patronato Agrícola também decidia com
parcialidade, recusando-se a intervir em defesa de trabalhado­
res grevistas presos e a encaminhar reclamações de colonos fei­
tas pela cobrança de salários (Stolcke, ibid.:74).
A forma de organização do Patronato Agrícola aponta tam­
bém o problema do pagamento pelos litigantes das custas judi­
ciais, o que era característica de todo o Poder Judiciário do esta­
do. Apenas juizes, promotores e alguns funcionários da capital
recebiam remuneração do governo e todos cobravam custas no
processo. Já nos referimos anteriormente à atuação conjunta de
juizes e escrivães para aumentar as custas processuais. Do mes­
mo modo, era comum que advogados de partes adversas fizes­
sem o mesmo, com objetivo de aumentar seus honorários, pois
estes eram avaliados pelos juizes em função dos atos proces­
suais praticados. Além disso, havia gastos complementares com
“gratificações”, para garantir o andamento rápido e regular do
processo16. Embora não tenhamos dados a respeito da porcenta­
gem que representariam as custas nos processos de pequeno
valor, nem mesmo a redução das custas pelo Patronato Agríco­
la, parece ter sido um meio que tornasse viável demandar judi­
cialmente por salários ou pelo cumprimento de outras obri­
gações dos contratos de trabalho. Este foi um dos fundamentos
da Mensagem enviada pelo presidente do estado, Washington
Luís, ao congresso estadual, em julho de 1922, sugerindo a cria­
ção de um Tribunal Rural. Para ele, “a dificuldade de solução

16 “Coisa de quotidiana repetição é o pedido de gratificação por parte


de empregados inferiores no foro: se se trata de um escrevente filho
ou protegido do escrivão, o pedido é muito semelhante ao do mendi­
go de Lesage no Gil Blaz, que implorava a caridade dos transeun­
tes apontando-lhes a espingarda ao peito” (Arruda, 1921:143).
PODER JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 235

rápida e barata das controvérsias entre fazendeiros e colonos,


na execução dos contratos rurais” era um dos “grandes estorvos,
um dos obstáculos mais sérios à organização definitiva da [...]
vida agrícola com o trabalho estrangeiro [...] A nossa atual or­
ganização judiciária, as nossas leis de processo, em vigor, eter­
nizam ou permitem eternizar [...] os feitos que são levados a
juízo, e os encarecem extraordinariamente. Uma pequena ques­
tão de 300$000 absorve mais do que seu valor em honorários e
custas e equivale a outro tanto pelo espaço de tempo que conso­
me. Demanda menor de 300$000, nem ninguém nela pensa. A
solução pronta e barata dessas controvérsias tem sido a preocu­
pação máxima de todos os que, com responsabilidade, têm-se
ocupado do problema imigratório” (apud Manso, ibid.:240).
Quanto aos trabalhadores urbanos, em 1912 os salários diá­
rios na construção civil eram de 3$000 a 4$000, para serventes de
pedreiro e 12$000 a 16$000, para as funções mais qualificadas
(frentista e estucador). Na indústria têxtil, os salários diários se
situavam entre 4$200 a 5$100 (cf. Fausto, 1976:131). Assim nem
mesmo para os salários mais altos a inadimplência pelo patrão
da totalidade do salário em um mês entraria na competência do
juiz de direito. E os salários da construção civil são aqui tomados
num período em que ocorria um boom industrial e imobiliário em
São Paulo, para trabalhadores da construção civil, cujos sindica­
tos eram os “mais representativos e com freqüência conseguiam
impor aos seus empregadores suas reivindicações” (Fausto,
ibid.:131; ver também Maram, 1979:50). Portanto, as questões
decorrentes do descumprimento de cláusulas contratuais de me­
nor valor pelos patrões seriam julgadas pelos juizes de paz. Isso
significa que dificilmente seriam encaminhadas à justiça, pois,
com o controle político do estado pelo Partido Republicano, ine-
xistiam condições de competição eleitoral efetiva e, portanto, de
alguma representatividade do juiz de paz. Por outro lado, as cus­
tas com os honorários de advogados e as cobradas no processo
pelos funcionários, aliadas a outras dificuldades, tomavam o re­
curso dos trabalhadores ao Judiciário para a resolução de confli­
tos decorrentes do descumprimento dos contratos de trabalho um
investimento ao mesmo tempo custoso e de retomo incerto e, por­
tanto, inviável17. Isto se manifesta no número de julgamentos dos

17 Uma questão importante que servia para aumentar as custas e di-


236 I PODER JUDICIÁRIO, PO LÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

juizes de paz na área civil. No primeiro semestre de 1913, em


sete juízos de paz da capital foram julgados 81 processos suma-
ríssimos, o que dá uma média de menos de dois julgamentos por
mês em cada distrito (RSJ-SP, 1913:51).
Quanto à jurisdição criminal, as competências foram distri­
buídas pela Lei n.° 80, de 1892, do seguinte modo:

Quadro 16. Distribuição de competências na Jurisdição Criminal em São Paulo na Primeira


República
PM TOSBV CP CC

P j P j P j i fc pr
polícia X X X
juiz de paz X X
ju iz de direito X X X X X X
p = processo; j = julgamento; i = inquérito; fc = formação da culpa; pr = pronúncia.
PM = infrações de posturas municipais; TOSBV = infrações dos termos de ocupação18, segu­
rança e bem-viver; CP = Contravenções (antigos crimes policiais) e crimes com penas até
seis meses de prisão celular, com ou sem multa; CC = Crimes Comuns.

A Lei n.° 80 manteve praticamente a mesma distribuição de


competências estabelecidas pela lei de 1871. A Reforma Judiciá­
ria de 1871 havia estabelecido a separação entre a polícia e o Po­

ficuldades na cobrança das obrigações contratuais pelos colonos era


a forma do processo, que partia dos pressupostos do direito civil. O
princípio da igualdade das partes, do ônus da prova, das formalida­
des para a execução da sentença etc. encareciam e retardavam o
processo inviabilizando a execução judicial das obrigações não cum­
pridas pelos empregadores nos contratos de trabalho. A criação da
justiça do trabalho após a Revolução de 1930 foi o reconhecimento
explícito dessas dificuldades. Contudo, como se sabe, os trabalhado­
res rurais foram excluídos das normas trabalhistas. Haveria ainda
outros problemas na análise desta questão, decorrentes do desinte­
resse de advogados por causas deste tipo, de retomo incerto e com
honorários de pouco valor; o desconhecimento pelos trabalhadores
estrangeiros dos canais legais por que poderiam minimamente de­
fender os seus direitos, assim como a recusa pelas lideranças anar­
quistas de recorrer ao Estado para mediar as relações de trabalho.
18 Os Termos de Ocupação eram dirigidos aos libertos pela Lei de
Locação de Serviços de 1879 e pela Lei dos Sexagenários de 1885.
O seu âmbito foi ampliado pelo Código Penal de 1890, com objetivo
de obrigar aos vadios encontrarem ocupação, no prazo de quinze
dias após assinado o termo, perante o juiz de paz ou a polícia.
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 237

der Judiciário, o que resultou numa superposição das esferas de


atuação, sem a possibilidade de um controle judicial efetivo so­
bre as práticas policiais. Também neste nível era adotada pela
República a forma de organização judiciária do Império. A dife­
rença entre ambas foi a competência cumulativa na organiza­
ção republicana para os juizes de direito e delegados, subdele­
gados e chefes de polícia para proceder autonomamente, isto é,
iniciar e preparar o processo das infrações dos termos de ocupa­
ção, segurança e bem-viver, contravenções e de preparar os in­
quéritos para a formação da culpa nos crimes comuns. Além dis­
so, foi estabelecida competência cumulativa da polícia com osjuizes
de direito para proceder nos crimes com pena até seis meses de
prisão celular, como os de ajuntamento ilícito (art. 119 do Código
Penal), desobediência à autoridade (135), uso de armas em as­
sembléias eleitorais (170), ocultação de título de eleitor (172), cri­
mes contra a liberdade do trabalho (204 a 206, par. 1.°), ultraje
público ao pudor (282), injúria (319), dano (329) e furtos de obje­
tos de valor até 200$000 (330, par. 1.°, 2.°, 3.°), entre outros.
O estabelecimento dessas competências cumulativas leva
novamente à questão da forma de organização. Pois ao mesmo
tempo em que eram mantidas a divisão das competências, das
praxes processuais e a forma de organização judiciária do regi­
me anterior, a polícia era reorganizada pelo novo regime, com o
fim de acentuar a sua profissionalização e de ampliar o seu con­
tingente. A polícia civil foi reorganizada em 1905, criando-se a
polícia de carreira, com delegados nomeados dentre os bacha­
réis em direito, a divisão das delegacias em cinco classes, para
criar uma polícia desprendida da vida partidária local. A força
pública foi reestruturada pelos diversos governos estaduais na
Primeira República, em especial após a contratação da Missão
Francesa em 1906, realizaram reformas da polícia que, no seu
conjunto, levaram a uma racionalização dos serviços, com o es­
tabelecimento de pautas de profissionalização dos policiais. Cria­
ram-se novas formas de treinamento; de estruturação da car­
reira, mediante sua militarização e de controle disciplinar so­
bre os soldados. Foram construídas novas instalações, regulari­
zados canais de fornecimento de material etc. O efetivo policial
do estado cresceu mais de cinco vezes entre 1890 e 1926. A polí­
cia tornava-se um recurso de poder sob controle do governo do
estado, oposto ao mesmo tempo aos poderes locais e ao governo
federal (Fernandes, 1974:148-251).
238 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

Por sua vez, o número de magistrados no estado e na capital


de São Paulo teve aumento bastante inferior ao da população,
durante toda a Primeira República. O Poder Judiciário não re­
cebeu, pelo menos até as reformas na década de 1920 (1921 e
1927), reformulações significativas que tivessem possibilitado
racionalização de serviços. Tal como fora no período imperial, os
serviços auxiliares continuaram sendo feitos por escrivães sem
remuneração fixa, com os mesmos métodos de trabalho. Em 1927,
num artigo dedicado a Júlio Prestes, Spencer Vampré (1927)
defendia a adoção, pelo Código de Processo Civil do estado de
inovações que tornariam os atos judiciais mais rápidos e simpli­
ficados, o que, porém encontrava grandes resistências entre os
juristas. Dos códigos de processo, cuja competência para legis­
lar fora atribuída aos estados pela Constituição de 1891, foi ado­
tado apenas o de processo civil, no início de 1930 (Costa, M.,
1970:69). Do mesmo modo, como se pode ver a seguir, o aumen­
to das despesas com o Poder Judiciário do início da década de
1890 até o início da década de 1920 foi, em termos nominais, de
137%, ao passo que as despesas com os Serviços Policiais au­
mentaram mais de sete vezes no mesmo período.

Quadro 17. Número e variação dos lugares de juiz de primeira instância, das comarcas e da
população no estado de São Paulo por anos selecionados
número variação
jtot. comarcas população jtot comarcas população
1872 837.354 100
1873 71 24 100 100 _
1889 115 47 162 196 —
1890 1.384.753 — — 165
1892 101 95 142 396 —
1900 103 97 2.282.279 145 404 273
1910 109 102 3.256.619 154 425 389
1920 117 106 4.592.188 165 442 548
1929 162 120 5.742.897 228 500 686
1940 202 126 7.180.312 285 525 858
Fontes: Para juizes e comarcas, no Império, RMJ; na República, AE-SP; para a população,
censos de 1872, 1900, 1920 e 1940; para os demais anos, projeções em Anuário estatístico,
IBGE, s.d.
jtot = total de juizes de primeira instância; para o Império, ver tabelas anteriores; para os
anos de 1892 a 1920, é igual ao número de lugares de juiz de direito, isto é, comarcas mais
varas especiais; para os anos posteriores a 1921, é igual ao número de lugares de juiz de
direito mais os lugares de ju iz substituto (criados em 1921) e de ju iz adjunto (outro tipo de
juizes substituto, criados em 1940).
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 239

Quadro 18. Número e variação dos lugares de ju iz de primeira instância e da população da


capital de São Paulo por anos selecionados. índice de variação: 1872 = 1
varas jtot. população
número número variação
1872 31.385 1
1873 1 1 .
1889 2 4 -
1890 64.934 2
1892 5 5
1900 5 5 239.820 8
1910 5 5 375.439 12
1914 9 9 449.159 14
1920 9 9 579.033 18
1921 10 12 611.863 19
1929 11 15 851.838 27
1940 19 46 1.326.261 42
Fontes: ver acima.
varas: número de lugares de juiz de direito na comarca da capital (municípios da capital,
Santo Amaro, São Bernardo, Guarulhos, Parnaíba, Juqueri, Itapecerica e Cotia).
jtot: número de varas mais juizes substitutos e juizes adjuntos da comarca da capital.
População: do município da capital.

Quadro 19. Proporção entre os lugares de juiz de primeira instância e população, no Brasil,
no estado e na capital de São Paulo por anos selecionados
ano Brasil SP (estado) capital
hab/jt hab/jt hab/jt varas
1872-3 13.678 11.794 31.385 31.385
1889-90 13.717 12.041 16.234 16.234
1900 22.158 47.964 47.964
1910 29.877 75.088 75.088
1914 49.907 49.907
1920 39.249 64.337 64.337
1921 50.989 61.186
1929 35.450 56.789 77.440
1940 35.546 28.832 69.803
Fontes: ver acima.
240 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

Quadro 20. Despesas estaduais com a administração da Justiça, Repartição de Polícia e


Força Pública no estado de São Paulo por anos selecionados (em 1:000$000)______________
Valor
ano Adm. Just. Rep. Pol. Força Públ. SJ tot tot estado
1893 1.163(970)* 425 4.640 11.705 43.313
1896 1.217 636 6.327 9.067 51.832
1906 1.619 803 7.026 10.766 61.615
1911 1.978 851 9.413 14.870 83.860
1916 2.046 1.580 12.220 20.465 87.444
1921 2.760 3.672 19.946 31.192 197.995
1926 4.754* 9.500 40.580 72.640 511.229
1928 6.149* 16.424 34.339 67.101 406.601
%
ano Adm. Just. Rep. Pol. Força Públ. SJ tot tot. estado
1893 2,69(2,24)* 0,98 10,71 27,02 100,00
1896 2,35 1,23 12,21 17,49 100,00
1906 2,63 1,30 11,40 17,47 100,00
1911 2,36 1,01 11,22 17,73 100,00 '
1916 2,34 1,81 13,97 23,40 100,00
1921 1,39 1,85 10,07 15,75 100,00
1926 (0,93)* 1,86 7,94 14,21 100,00
1928 (1,51)* 4,04 8,45 16,50 100,00
(porcentagem do total do estado)
Fonte: AE-SP.
Adm. Just.: administração da Justiça, compreende as rubricas Tribunal de Justiça, Procu-
radoria-Geral, Justiça de Primeira Instância, Juntas comerciais, e eventuais; exceto para
os anos de 1926 e 1928.
* Valor e % das despesas com justiça de primeira instância, exclusivamente.
Rep. Pol.: rubrica referente à Repartição de Polícia ou Serviço Policial.
Força Públ.: compreende a rubrica correspondente.
SJ tot.: Total de despesas da Secretaria de Justiça,
tot. estado: Total de despesas do estado de São Paulo.

Quadro 21. Variação das despesas estaduais com a administração de Justiça, Repartição de
Polícia e Força Pública no estado de São Paulo por anos selecionados
ano Adm. Just. Rep. Pol. Força Públ. SJ tot. tot. estado
1893 100 100 100 100 100
1896 105 150 136 77 120
1906 139 189 151 92 142
1911 170 200 203 127 194
1916 176 372 263 175 202
1921 237 864 430 266 457
1926 490* 2.235 875 621 1.180
1928 634* 3.864 740 573 939
(índice de Variação: 1893 = 100)
Fonte: Ibidem.
* Variação relativa às despesas com justiça de primeira instância em 1893.
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 241

O contraste entre a reformulação e ampliação da polícia e a


continuidade organizacional do Poder Judiciário dá novo senti­
do à manutenção da antiga distribuição de competências. Se­
gundo afirmava em 1904 o presidente do estado Jorge Tibiriçá,
a reforma da polícia havia buscado criar uma “ [...] polícia sem
política, e portanto, imparcial; remunerada e, por conseqüência
podendo aplicar toda a sua atividade à prevenção e repressão
dos delitos; com competência profissional, isto é, com conheci­
mentos especiais de direito e de processo indispensáveis em quem
tem de garantir e assegurar a liberdade, a honra, a vida e a
propriedade” (apud Fernandes, ibid.:149). Assim Jorge Tibiriçá
reconhecia explicitamente as funções judiciais da polícia ao atri­
buir-lhe o poder de “garantir e assegurar a liberdade, a honra, a
vida e a propriedade”, pois quem tem o poder de garantir, tem
também a faculdade de julgar a respeito do significado da ga­
rantia. Vê-se a ênfase dada pelo governo estadual na resolução
dos conflitos por meios policiais em detrimento da ampliação
dos meios judiciários à disposição da população. O contraste re­
vela o privilégio de formas repressivas de resolução dos confli­
tos sociais, isto é, a restrição do âmbito de eficácia das garantias
individuais formalmente estabelecidas pela lei contra a ação re­
pressiva do estado.
Tendo retornado à Europa, o líder anarquista Gigi Damiani
criticava a situação precária dos imigrantes no Brasil. Essa si­
tuação se devia, em parte, aos juizes e, mais genericamente, à
forma de organização judiciária do país.
“Ali [...] o que domina é o arbítrio. Um chefe de polícia pode
mijar a seu bel-prazer sobre a Constituição todas as vezes
que a camarilha que está no poder lhe ordena, ou todas as
vezes que por um ataque hemorroidal, ou uma bebedeira mal
digerida, se sente com vontade de lançar a cavalaria em cima
do povo, invadir domicílios privados, prender algum infortu­
nado e fazê-lo desaparecer. Mas não existem juizes ali? Exis­
tem sim, e até muitos: mas eles são simples empregados do
estado e o cargo que ocupam dado a eles de presente pela
oligarquia que domina, ou pelos fazendeiros que os investi­
ram do poder de dar ordens ao carcereiro, justamente para
mandar para a prisão os próprios inimigos, os próprios ad­
versários e os colonos que não achassem do seu próprio agra­
do os usos e costumes medievais da fazenda; usos e costumes
242 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

que vão do jus cosciandi, à compensação negada, às chicota­


das e ao tiro de carabina que alcança os que desertam do feu­
do” (Gigi Damiani, militante anarquista, citado por Paulo
Sérgio Pinheiro, 1981).
A extensão da autonomia de ação da polícia no controle social
dos indivíduos livres e pobres verifica-se pela diferença entre o
número de detenções e o número de inquéritos abertos. Em 1893
foram presas 3.466 pessoas na capital e abertos apenas 329 in­
quéritos; em 1905, foram presos 11.036 e processados 794; em
1907 havia 9.361 prisões, contra 1.141 inquéritos. Embora o
número de inquéritos abertos não implique sua conclusão e en­
caminhamento à justiça, verifica-se por estes números que a
maior parte da ação policial se dava sem nenhum controle, mes­
mo posterior, do Poder Judiciário. Ao mesmo tempo, mais de
oitenta por cento das prisões efetuadas entre os anos de 1892 e
1916 eram detenções por vadiagem, quebra das posturas muni­
cipais ou dos termos de segurança e bem-viver, assim como as
prisões “para averiguações” de “suspeitos” (Fausto, 1984:31-3).
A ação policial concentrava-se sobretudo sobre os considerados
vadios, em especial sobre os negros. Com essa ação da polícia
procurava-se impor uma norma de comportamento à população
pobre em geral: a residência em domicílio fixo, com organização
familiar regular e com ocupação estável no mercado de traba­
lho. O julgamento das infrações a essa norma de comportamen­
to — e assim a própria definição do significado da norma — era
decisão de alçada exclusiva dos agentes da polícia, os quais ti­
nham total autonomia para identificar suspeitos, detê-los e
mantê-los na prisão, ou soltá-los, sem nenhuma intervenção ju­
dicial, nem mesmo para controle posterior da legalidade formal
sua ação.
As prisões por vadiagem e cafetinagem serviam também de
pretextos para reprimir lideranças operárias. Após greves ou
revoltas populares, o governo (tanto em São Paulo, como no Rio
de Janeiro) aproveitava a oportunidade para “limpar” a cidade.
Eram deportados indiscriminadamente brasileiros e estrangei­
ros, que estavam presos ou que eram detidos em batidas poli­
ciais pelos bairros operários, para a Colônia Correcional de Bauru
ou para o norte do país. Líderes operários estrangeiros eram
expulsos do país sob acusação de anarquismo (considerado na
época “crime social” e não crime político), vadiagem, cafetina-
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 243

gem ou porque “segundo o critério exclusivo do Governo” fos­


sem considerados prejudiciais “aos interesses da segurança na­
cional ou da ordem pública, em qualquer parte do território da
União” (art. 2.° do Decreto 6.486, de 23/5/1907, que regulamen­
tou a lei de expulsão de estrangeiros; Pinheiro, 1991:87-104).
Assim, com base em investigação feita exclusivamente pela po­
lícia, o governo estadual solicitava ao ministro da Justiça a au­
torização para a expulsão dos estrangeiros indesejáveis. Nem
mesmo a restrição dos dois anos de residência era obedecida,
pois muitos inquéritos policiais sobre a expulsão omitiam esta
informação19(Maram, 1979:58).
O controle das prisões ilegais realizado pelos juizes em casos
de habeas-corpus era ineficaz, pois a decisão valia somente para
o caso individual e o Tribunal de Justiça deixava de promover o
processo de responsabilidade que caberia contra a autoridade
que efetuou a coação ilegal. Isso se verifica não só nas dezenas
de habeas-corpus que eram concedidos anualmente em virtude
da ilegalidade da prisão, como também nos casos em que, tendo
sido requerido o habeas-corpus, o juiz ou tribunal solicitava a
informação e a autoridade policial respondia que o preso já ha­
via sido solto. Então a autoridade judiciária simplesmente de­
clarava o habeas-corpus prejudicado, sem adotar nenhuma pro­
vidência acerca da responsabilidade da autoridade coatora. No
entanto, era obrigação da autoridade judiciária proceder ou re­
quisitar, conforme a sua competência, à responsabilidade do
funcionário que efetuou a coação com abuso de autoridade ou
violação flagrante da lei (Lei 2.033, de 1871, art. 18, § 3.°)20.Um
caso exemplar de interpretação restritiva do habeas-corpus pelo
Tribunal de Justiça paulista na Primeira República é o debate a
respeito da aplicabilidade do habeas-corpus para o caso de coa­
ção efetuada por particulares. O juiz de direito Júlio C. Farias
concedeu habeas-corpus demandado por trabalhadores rurais

19 O julgamento dos habeas-corpus nos casos de expulsão de estran­


geiros era da competência da justiça federal. O STF declarou cons­
titucional a lei de expulsão de estrangeiros de 1907.
20 As revistas jurídicas paulistas estão cheias de decisões do Tribunal
de Justiça neste sentido. Ver Revista Mensal, São Paulo Judiciá­
rio, Revista dos Tribunais.
244 | PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO

contra o administrador da fazenda que os coagia na sua liberda­


de de locomoção. Porém, o Tribunal de Justiça cassou a decisão
em recurso, afirmando que o habeas-corpus só era cabível quan­
do a coação fosse exercida por autoridade pública (ver Faria,
1918 e Revista dos Tribunais, vol. XXVI, 1918:380-1).

Em São Paulo, como nos demais estados brasileiros, foi adotada


a forma de organização judiciária que havia vigorado no perío­
do imperial, forma pela qual o Poder Judiciário era inserido no
sistema de compromissos do coronelismo. Isto é, foi pelo conjun­
to dos mecanismos de nomeação, de remuneração, de remoção,
de promoção, de suspensão e de aposentadoria que os grupos
emergentes nos estados criaram (ou melhor, recriaram) meca­
nismos de controle e de produção de lealdade dos juizes e outros
funcionários judiciais. A ocupação dos cargos era feita pela polí­
tica de compromissos do coronelismo, pelo qual os poderes lo­
cais controlavam os cargos de nomeação estadual do município
em troca do apoio político que davam ao governo do estado. Em
São Paulo, a manutenção da forma de organização do regime
anterior era combinada com baixos salários para os juizes, falta
de requisitos para as promoções entre comarcas muito desiguais
e a falta de controle pelos juizes dos meios necessários à sua
ação. A divisão das competências estabelecida pela organização
judiciária paulista excluía o julgamento dos conflitos entre traba­
lhadores e empregadores pelos juizes profissionais. Pelo seu valor
monetário, o julgamento dessas questões era atribuído aos jui­
zes de paz, ligados às suas lealdades locais. Outras caracterís­
ticas da organização judiciária, como as custas processuais, ser­
viam para afastar a resolução desses conflitos da judicial.
Por outro lado, a superposição das. esferas judicial e policial
estabele Jda pela reforma judiciária de 1871 foi mantida, sendo
reconhecida a liberdade de ação da polícia e o exercício por esta
de funções judiciais. A liberdade de atuação policial em face do
Judiciário adquiriu novo significado em São Paulo na Primeira
República, pois a ampliação e profissionalização dos quadros
policiais tornou a sua ação muito mais efetiva do que no regime
anterior. A reorganização da polícia contrasta com a manutenção
da forma de organização judiciária do estado, em virtude da qual
PODER JUDICIÁRIO, POLÍTICA E SOCIEDADE EM SÃO PAULO | 245

não havia formas eficazes de controle judicial sobre a vigilância


policial, em particular do livre uso das prisões, sobre a população
pobre. Entre os próprios juizes profissionais predominava orien­
tação eminentemente conservadora e restritiva de suas atribui­
ções, o que se verifica pelo julgamentos de habeas-corpus no
Tribunal de Justiça na Primeira República. Vemos assim a ên­
fase dada na República a formas repressivas de resolução dos
conflitos sociais, em detrimento das formas igualitárias de media­
ção judicial, que eram supostas pelo estatuto livre dos trabalha­
dores.
Enfim, os resultados do presente trabalho servem de quadro
para a análise da formação da prática judicial e do pensamento
jurídico republicanos brasileiros, o que fazemos em outro estu­
do, sobre a prática do habeas-corpus21. Tomando como ponto de
partida a doutrina jusnaturalista-conservadora e a prática pru-
dencial dos magistrados do Império, apontamos as transforma­
ções na prática do habeas-corpus como resultado de processos
de mudança social e de paradigma do pensamento jurídico. Nas
décadas de 1870 e 1880, esses processos se manifestam na críti­
ca liberal, na expansão do positivismo e nos conflitos entre os
magistrados, o governo e os senhores, em especial a respeito da
abolição da escravidão. Estudamos também como as mudanças
políticas advindas com a República se manifestam no problema
doutrinário do habeas-corpus no STF. A análise da prática do
habeas-corpus nos tribunais republicanos é combinada com os
resultados de diversos trabalhos sobre as relações sociais e polí­
ticas nas primeiras décadas da República. Procuramos então
mostrar não só a maneira pela qual o habeas-corpus foi pratica­
do pelos tribunais, mas também como, nessa prática, foram com­
binados os princípios igualitários da Constituição com os meca­
nismos concretos de produção das desigualdades entre indiví­
duos livres na sociedade brasileira da Primeira República.

21 Ver nosso O habeas-corpus na prática judicial brasileira (1841-


1920). São Paulo: FFLCH-USP. Tese de doutorado, dat. 1998.
AN E XO S

Apresentamos a seguir os problemas encontrados na pesquisa


e os procedimentos adotados para determinar o número de ma­
gistrados do Império. Havia por um lado o acúmulo de funções
pelos magistrados e, por outro lado, o afastamento dos magis­
trados de seus cargos por vários motivos, como a sua participa­
ção em comissões governamentais, os juizes de direito avulsos,
ou em disponibilidade. A tentativa de encontrar o número real
de magistrados em exercício efetivo do cargo esbarraria ainda
nos problemas do absenteísmo e das substituições. Assim, ha­
via um número excedente de juizes em relação ao número de
vagas, ao mesmo tempo que nem todas as vagas eram efetiva­
mente ocupadas. Por essas razões, utilizamos como base o nú­
mero de lugares para os diversos cargos, o qual é diferente do
número efetivo de magistrados.
No caso dos desembargadores e ministros do STJ esse proce­
dimento foi simples, uma vez que se tratava de poucos cargos,
que apresentaram poucas variações.
Para os juizes municipais, tomamos como número de lugares
o número de termos municipais; pareceu-nos difícil e improdu­
tivo tentar uma aproximação maior, pois para esse cargo os pro­
blemas apontados acima eram os maiores. Além disso, havia a
nomeação de leigos para o cargo, a impossibilidade encontrada
pelo governo imperial de preencher todos os cargos, nas locali­
dades mais distantes. Também havia diversos tipos de termos,
os quais, em virtude do pequeno número de jurados, poderiam
ser reunidos num só, para fins judiciais; em alguns termos os
247
248 | ANEXOS

juizes municipais acumulavam todas as funções, e em outros,


havia juizes municipais especializados de órfãos.
No caso dos juizes de direito, era possível e mesmo necessário
tentar uma maior precisão dos dados. Para isso, procedemos
como segue:
Para determinar o número de lugares de juiz de direito até
1863, adicionamos ao número de comarcas os juizes de direito
de outras varas, especiais ou em extinção. Para confirmar esse
resultado, tomamos o número total de juizes de direito a que o
relatório fazia menção e subtraímos os lugares de chefe de polí­
cia especiais, isto é, daquelas províncias onde o cargo de chefe
de polícia não era acumulado pelo juiz de direito da capital (ver
quadro seguinte).
De 1863 a 1866-7 (e também nos anos para os quais não tí­
nhamos dados completos), adicionamos as comarcas criadas ao
número de lugares de juiz de direito do ano anterior. Para con­
firmar o resultado, tomamos número de lugares de juiz de direi­
to do ano posterior e dele subtraímos o número excedente de
comarcas do ano cujo número de lugares de juiz de direito pro­
curamos determinar.
Para os anos posteriores a 1867-8, o número de lugares de
juiz de direito é igual ao número de varas.
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Fonte: Relatórios do Ministério da Justiça (RMJ) dos anos respectivos.
Jd.: juiz de direito, incluídos os do crime, do cível, das varas especiais da Fazenda, de órfãos da Corte, auditores da Marinha, excluídos para todos os anos
ANEXOS

os chefes de polícia, juizes avulsos, etc.


varas: lugares de juiz de direito depois da reforma judiciária de 1871.
|

term: termos; lugares de juizes municipais.


249
250 I ANEXOS

Distribuição dos lugares de ju iz de primeira instância por região e anos selecionados


ano 1849 1869 1873 1876 1883 1889
número
Centro-Sul 126 211 249 314 351 357
Nordeste 170 263 316 383 430 436
Extremo Norte 42 59 75 96 104 105
Oeste 15 27 30 45 48 47
Sul 29 49 56 74 95 100
total 382 609 726 912 1.028 1.045
%
Centro-Sul 33,0 34,6 34,3 34,4 34,1 34,2
Nordeste 44,5 43,2 43,5 42,0 41,8 41,7
Extremo Norte 11,0 9,7 10,3 10,5 10,1 10,0
Oeste 3,9 4,4 4,1 4,9 4,7 4,5
Sul 7,6 8,0 7,7 8,1 9,2 9,6
total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Fonte: RMJ.

Distribuição dos lugares de juiz de primeira instância por províncias e anos selecionados
ano 1849 1869 1873 1876 1883 1889
número
SP, MG, RJ 111 181 215 265 302 307
Ba, Pe 94 125 151 174 200 202
Ce, Ma 43 64 86 110 111 115
RS 24 36 43 55 74 79
MT, Go 15 27 30 45 48 47
%
SP, MG, RJ 29,1 29,7 29,6 29,1 29,4 29,4
Ba, Pe 24,6 20,5 20,8 19,1 19,5 19,3
Ce, Ma 11,3 10,5 11,8 12,1 10,8 11,0
RS 6,3 5,9 5,9 6,0 7,2 7,6
MT, Go 3,9 4,4 4,1 4,9 4,7 4,5
Fonte: RMJ.

Variação do número de lugares de juiz de primeira instância por região e anos selecionados,
índice de variação: 1849 = 100
ano 1869 1873 1876 1883 1889
Centro-Sul 167 198 249 279 283
Nordeste 155 186 225 253 256
Extremo Norte 140 179 229 248 250
Oeste 180 200 300 320 313
Sul 169 193 255 328 345
total 159 190 239 269 274
Fonte: RM J.
ANEXOS I 251

Variação do número de lugares de juiz de primeira instância por províncias e anos selecio­
nados. índice de variação 1849 = 100
ano 1869 1873 1876 1883 1889
SP, MG, RJ 163 194 239 272 277
Ba, Pe 133 161 185 213 215
Ce, Ma 149 200 256 258 267
RS 150 179 229 308 329
MT, Go 180 200 300 320 313
Fonte: RMJ.

Distribuição dos lugares de juiz de direito por região e anos selecionados


ano 1849 1869 1873 1876 1883 1889
número
Centro-Sul 39 69 98 132 152 154
Nordeste 70 109 137 168 190 193
Extremo Norte 18 28 37 44 49 49
Oeste 6 13 16 23 22 22
Sul 8 18 24 32 43 43
total 141 237 312 399 456 461
%
Centro-Sul 27,7 29,1 31,4 33,1 33,3 33,4
Nordeste 49,6 46,0 43,9 42,1 41,7 41,9
Extremo Norte 12,8 11,8 11,9 11,0 10,7 10,6
Oeste 4,3 5,5 5,1 5,8 4,8 4,8
Sul 5,7 7,6 7,7 8,0 9,4 9,3
total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Fonte: RMJ.

Distribuição dos lugares de ju iz de direito por províncias e anos selecionados


ano 1849 1869 1873 1876 1883 1889
número
SP, RJ, MG 28 53 76 107 127 129
Ba, Pe 39 49 63 73 87 87
Ce, Ma 20 30 44 53 52 54
RS 6 12 18 23 34 34
MT, Go 6 13 16 23 22 22
%
SP, RJ, MG 19,9 22,4 24,4 26,8 27,9 28,0
Ba, Pe 27,7 20,7 20,2 18,3 19,1 18,9
Ce, Ma 14,2 12,7 14,1 13,3 11,4 11,7
RS 4,3 5,1 5,8 5,8 7,5 7,4
MT, Go 4,3 5,5 5,1 5,8 4,8 4,8
Fonte: RMJ.
252 I ANEXOS

Variação do número de lugares de ju iz de direito por região e anos selecionados. índice de


variação 1849 = 100
ano 1869 1873 1876 1883 1889
Centro-Sul 177 251 338 390 395
Nordeste 156 196 240 271 276
Extremo Norte 156 206 244 272 272
Oeste 217 267 383 367 367
Sul 225 300 400 538 538
total 168 221 283 323 327
Fonte: RMJ.

Variação do número de lugares de ju iz de direito por províncias e anos selecionados. índice


de variação 1849 = 100
ano 1869 1873 1876 1883 1889
SP, RJ, MG 189 271 382 454 461
Ba, Pe 126 162 187 223 223
Ce, Ma 150 220 265 260 270
RS 200 300 383 567 567
MT, Go 217 267 383 367 367
total 168 221 283 323 327
Fonte: RMJ.

População do Brasil por região (1854,1872 e 1890)


População por região variação
Ano 1854 1872 1890 1872-1890
n.°
Centro-Sul 3.123.700 4.143.644 6.353.875 153
Nordeste 3.372.400 4 279.520 5.571.193 130
Extremo Norte 610.000 691.887 907.224 131
Oeste 265.000 220.812 320.399 145
Sul 306.300 594.615 1.181.224 199
Total 7.677.400 9.930.478 14.333.915 144
%
Centro-Sul 40,7 41,7 44,3
Nordeste 43,9 43,1 38,9
Extremo Norte 7,9 7,0 6,3
Oeste 3,5 2,2 2,2
Sul 4,0 6,0 8,2
Total 100,0 100,0 100,0
Fonte: Censos de 1872 e 1890, apud Stein, 1990, Apêndice; para 1854, v. Marcílio, 1973.
A NEXOS I 253

População das províncias selecionadas (1872 e 1890)


número variação
1872 1890 1872-1890
SP, RJ, MG 3.659.813 5.445.736 149
Ba, Pe 2.221.155 2.950.026 133
Ce, Ma 1.080.726 1.236.541 114
RS 434.813 897.455 206
MT, Go 220.812 320.399 145
%
SP, RJ, MG 36,9 38,0
Ba, Pe 22,4 20,6
Ce, Ma 10,9 8,6
RS 4,4 6,3
MT, Go 2,2 2,2
Fonte: ibid.

Orçamentos do Império: créditos ao M inistério da Justiça (1848-9 a 1890). Valor em


1:000$000; índice de variação: 1849-50 = 100
valor variação
ano total PJ polícia EP total PJ polícia EP
1848-9 2.248 654 581 97 101 100 105 100
1849-50 2.220 654 553 97 100 100 100 100
1850-1 2.165 758 536 84 98 116 97 87
1852-3 2.381 890 550 84 107 136 99 87
1856-7 3.306 1.127 816 171 149 172 148 176
1857-8 4.309 1.269 1.138 249 194 194 206 257
1858-9 4.491 1.291 1.109 352 202 197 201 363
1860-1 5.039 1.360 1.313 410 227 208 237 423
1861-2 3.502 1.131 1.385 475 158 173 250 490
1867-8 3.518 1.462 1.528 292 158 224 276 301
1869-70 3.275 1.462 1.383 196 148 224 250 202
1871-2* 4.197 2.195 1.512 272 189 336 273 280
1873-4 5.291 2.952 1.777 287 238 451 321 296
1876-7 6.250 3.376 2.359 194 282 516 427 200
1877-8 6.576 3.568 2.100 575 296 546 380 593
1879-80 6.475 3.557 2.339 458 292 544 423 472
1880-1 6.450 3.557 2.236 455 291 544 404 469
1881-2 6.627 3.628 2.285 559 299 555 413 576
1882-3 6.695 3.717 2.284 480 302 568 413 495
1885-6 6.833 3.721 2.339 525 308 569 423 541
1886-7 9.727 5.502 3.049 791 438 841 551 815
1888 6.381 3.665 1.916 544 287 560 346 561
1889* 7.680 4.033 2.844 548 346 617 514 565
1890* 7.817 4.042 2.592 548 352 618 469 565
Fonte: Balanços Provisórios da Receita e Despesa do Ministério da Justiça, em RMJ dos
anos respectivos.
* Crédito votado; para os demais anos estão incluídos os créditos extraordinários.
PJ: Poder Judiciário: inclui as rubricas: Supremo Tribunal de Justiça, Relações, juizes de
primeira instância, Tribunais do Comércio, Juntas Comerciais e instalação de novos termos
e comarcas.
polícia: inclui as rubricas para o pessoal e material de polícia, Guarda Nacional, as diversas
rubricas referentes à polícia da Corte, e a rubrica de Auxílio à Polícia das Províncias.
EP: execução da pena: inclui as rubricas de transporte e condução de presos, Casa de Corre­
ção da Corte, Presídio de Fernando de Noronha, asilo de mendigos, etc. Nestas rubricas
estão incluídas, sem discriminar as verbas para obras.
254 | ANEXOS

Proporção entre o número de juizes municipais e o número de juizes de direito por provín­
cias e anos selecionados
prop = jm /jd_____________________________________________
1849 1869 1873 1876 1883 1889
RJ 2,50 2,58 1,52 1,38 1,36 1,00
MG 2,77 2,35 1,94 1,48 1,33 1,27
SP 3,86 2,39 1,96 1,38 1,34 1,06
ES 1,50 1,50 1,00 1,17 1,50 1,50
Ba 2,00 1,70 1,58 1,38 1,31 1,33
Se 2,25 1,75 2,13 1,64 1,50 1,43
Al 1,20 1,33 1,27 1,25 1,69 1,50
Pe 0,85 1,36 1,22 0,97 1,00 0,88
Pb 2,33 1,27 1,14 1,24 1,15 1,15
RN 1,67 1,17 1,13 1,18 1,15 1,15
Ce 1,10 1,33 1,10 1,00 1,11 0,96
Pi 1,17 1,00 1,00 1,06 1,00 1,00
Ma 1,20 0,93 0,83 0,88 1,00 0,96
Pa 1,50 1,40 1,36 1,23 1,00 0,94
Am 1,00 1,33 1,20 1,17 1,17
MT 1,50 1,67 1,33 0,83 1,00 1,00
Go 1,50 0,90 0,77 0,88 1,13 1,06
Pr 1,75 1,17 1,00 1,11 1,22
SC 1,50 1,17 1,17 1,11 1,33 1,33
RS 3,00 2,00 1,39 1,26 1,09 1,06
total* 1,71 1,57 1,33 1,18 1,18 1,10
Fonte: RMJ.
* Exceto os lugares de juizes da Corte, cuja organização possuía características particula­
res.
ANEXOS | 255

Juizes de direito nomeados, removidos e designados (1841 a 1889)


ano número %
meses total-jd nom rem. desig. nom. rem jd
1841 4 140 43 30,7
1844 4 140 52 37,1
1848 4 140 70 50,0
1858 4 188 10 5,3
1859 4 201 14 7,0
1861-2 12 210 62 29,5
1862-3 12 210 25 11,9
1866-7 12 237 21 14 5 8,9 5,9
1868-9 12 237
1869-70 12 238 22 19 9,2 8,0
1870-1 12 256 17 14 6,6 5,5
1871-2 12 275 44 35 16,0 12,7
1872-3 12 312 57 55 3 18,3 17,6
1873-4 12 344 60 92 21 17,4 26,7
1874-5 12 376 52 51 13,8 13,6
1875-6 19 399 48 112 20 12,0 28,1
1876-7 5 407 15 3 3,7 0,7
1877-8 19 434 81 96 16 18,7 22,1
1879 5 438 27 31 6,2 7,1
1879-80 12 437 7 25 13 1,6 5,7
1880-1 19 443 59 107 70 13,3 24,2
1882 5 443 7 8 7 1,6 1,8
1882-3 12 456 46 42 21 10,1 9,2
1883-4 12 456 21 52 18 4,6 11,4
1884-5 12 456 48 50 15 10,5 11,0
1885-6 12 458 13 40 22 2,8 8,7
1886-7 12 458 40 55 21 8,7 12,0
1887-8 12 458 24 40 9 5,2 8,7
1888-9 12 461 31 45 14 6,7 9,8
Fonte: RMJ; para 1841,1844 e 1848, Flory, 1981.
meses: número de meses abrangidos pelo relatório.
total-jd: total de lugares de juizes de direito; nom.: nomeações; rem.: remoções, a pedido, por
acesso a entrância, e forçadas; desig.: designações de lugares ajuízes avulsos, recentemente
nomeados.
256 | ANEXOS

Estimativa do número de lugares de juiz de direito (1846-1862)


ano comarcas var. jd var soma total chefe sub­
espec. cível crim jd pol tração
1846 117 4 19 140 152 12 140
1847 117 4 18 139 152 12 140
1848 117 4 15 2 138
1849 118 4 15 2 139 153 12 141
1850 124 4 2 ■ 130 147 12 135
1852 126 4 5 2 137 155 12 143
1858 169 11 8 188 0
1859 182 11 8 201 221 20 201
1860 190 11 8 209 227 20 207
1862 190 11 8 209 230 20 210
Fonte :RMJ.
var. espec.: varas da fazenda, de órfãos, auditor, da marinha, do comércio; jd cível: lugares
em extinção;
var. crim.: varas criminais das capitais; total jd: número total de juizes referido no relatório;
ch. pol.: cargos de chefe de polícia separados do jd da capital

Remoções e permutas de juizes de direito no estado de São Paulo (1895-1927)


número %
jd tot rem. perm rem+perm
1895 102 8 5 13 12,7
1896 103 11 2 13 12,6
1898 103 9 0 9 8,7
1899 103 1 2 3 2,9
1900 103 7 3 10 9,7
1906 105 2 5 7 6,7
1909 106 5 1 6 5,7
1910 109 11 3 14 12,8
1912 209 10 2 12 5,7
1913 109 0 3 3 2,8
1914 113 8 3 11 9,7
1915 113 5 3 8 7,1
1916 113 5 3 8 7,1
1917 114 6 2 8 7,0
1921 118 4 4 8 6,8
1923 128 35 5 40 31,3
1927 128 36 7 43 33,6
Fontes: RSJ-SP e AESP.
jd tot.: total de lugares de juizes de direito; rem.: remoção; perm.: permutas de comarcas,
feitas de comum acordo entre juizes de direito.
ANEXOS | 257

Figura 1. Distribuição dos lugares de juiz de primeira instância por região (1849,1869 e
1889).

0 Centro/Sul
■ Nordeste
□ Extr.Norte
□ Oeste
■ Sul

1849 1869 1889


Fonte: RMJ dos anos indicados; ver Anexo.
Regiões: Centro/Sul: Corte, RJ, ES, SP, MG e Pr;
Nordeste: Ba, Se, Pb, Pe, Al, RN, Ce e Pi;
Extremo Norte: Ma, Pa e Am;
Oeste: MT e Go;
Sul: RS e SC.

Figura 2. Distribuição dos lugares de juiz de direito, por região (1849,1869,1876 e 1889).

50.0
Centro/Sul
45.0
40.0 Nordeste
35.0 □ Extr.Norte
30.0 □ Oeste
25’° ■ Sul
20.0
15.0
10.0
5,0
0,0
1849 1869 1876 1889 Ano

Fonte: ver Figura 1.


258 | ANEXOS

Figura 3. População do Brasil por região (1854,1872, e 1889).

El Centro/Sul
■ Nordeste
□ Extr. Norte
□ Oeste
■ Sul

1854 1872 1890


i: Censos de 1872 e 1890; para 1854, v. Marcílio, 1973.

Figura 4. Lugares de ju iz de primeira instância nas províncias selecionadas (1849,1869,


1876 e 1889).

SP, BA, CE, RS MT, Províncias


MG, PE Ma Go
RJ
Fonte: ver Figura 1.
ANEXOS | 259

Figura 5. Lugares de juiz de direito nas províncias selecionadas.


%
30.0
■ 1849
25.0 ■ 1869
□ 1876
20.0
□ 1889
15.0

10.0

5,0

0,0
SP, Ba, Ce, RS MT,
RJ, PB Ma Go
Províncias
MG
Fonte: Ver Figura 1.

Figura 6. População das províncias selecionadas (1872 e 1890).


%
40,0 "i------------ .........m....m ssas..............m a g a s .... r~~rr

SP, Ba,Pe Ce,Ma RS MT,Go


BJ,
MG Províncias

Fonte: ver Figura 3.


B IB LIO G R A FIA

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