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Garganta Profunda

Por Marcelo de Andrade Maciel

Homens traem mais. Mulheres, mais influenciadas pelos dogmas da moral e da religião traem menos, mas
quando traem realizam o ato com maestria, silêncio e, quase sempre, sem deixar rastros.
É frustrante. Você passa três anos estudando em uma Academia Privada de Investigação Científica, aprende
tudo sobre pessoas desaparecidas, espionagem industrial, suicídios que a polícia classificou como suicídios
mas a família crê em assassinato ou assassinatos que a polícia classificou como assassinato, mas a família crê
em abdução alienígena seguida de traumatismo craniano: aqueles casos em que abrem a escotilha da nave e
defenestram o viajante espacial.
De cada dez casos que entram no meu escritório, nove são, de alguma forma: adultério. O último geralmente
é algo banal como casal de namorados adolescentes desaparecidos, drogado que foge da clínica de
recuperação e evapora, investigação interna de desfalque ou outra bobagem corporativa.
Adultério é o rompimento de um contrato sem que o outro contratante tenha sido avisado. Eu sou só o cara
que entrega a mensagem para a parte lesada. Que, às vezes, uns 5 anos depois, retorna com um novo par de
belas pernas pedindo para que eu as vigie. Normalmente, pagam, vão embora e desaparecem para sempre nas
estatísticas do IBGE.
Se o contador é o fotógrafo da situação da empresa, o detetive particular é o fotógrafo da sordidez humana,
da podridão em que alguns de nós estão mergulhados. Não existe detetive com estômago fraco.
Gostaria de dizer que já vi muita coisa nesta vida. Não é verdade.
Aparentemente, só os pecadilhos triviais da classe média atravessam minha porta.
Até agora.

* * * * *

Escolher secretária é complicado. Se for bonita demais, você acaba levando para a cama. Se for muito
mocréia acaba fazendo má figura perante o cliente. Estagiárias de Curso Universitário de Secretariado
Executivo normalmente trabalham direitinho e. graças à idade, podem me atualizar acerca de todas estas
modernidades tecnológicas. Sei usar um 38, uma lupa e acesso a internet. Deveria ser o suficiente, mas não é.
Gilda, a estagiária, não tinha esta eficiência toda, mas secretária de detetive chamada Gilda impõe respeito.

* * * * *

Gilda avisa no interfone. Orlando manda entrar.


O cliente entra. Uns 50 anos, terno cortado em alfaiate, abotoaduras exóticas em osso. Sapato que passava
longe dos Barrashoppings da vida. Muito distante do típico cliente profissional liberal de classe média que,
costumeiramente, surgia, meio envergonhado, pedindo para seguir a esposa. Enfim, o tal do cliente
“diferenciado” aparecera. Já não era sem tempo.
- O senhor me foi muito bem recomendado.
- Revistas novas e balinhas de hortelã na sala de espera fazem milagres.
- Antes de mais nada, eu gostaria de salientar que, neste caso, o sigilo é fundamental.
- Para mim, o sigilo é sempre fundamental.
- Se vazar qualquer aspecto da investigação, nós destruímos você !
- Nós quem, posso saber ?
- A palavra “nós” é o suficiente para nos identificar.
- Entendi.

* * * * *

- O senhor se identificou para minha secretária como Juscelino Pessegueiro, sócio-proprietário da


Pessegueiro Importação & Exportação Ltda. Isto é verdade ?
- Sim, porquê não seria ?
- Certo. E o que o senhor e “nós” querem que eu faça ?
- Já ouviu falar do Guia Michelin ?
- É um guia que classifica os melhores restaurantes da França e de alguns outros países com estrelas e, se
bem me lembro, já houveram casos de chefs que se suicidaram quando foram rebaixados pela publicação.
- E qualquer um pode comprar o Guia Michelin ?
- Até onde eu sei, sim.
- Imagine agora um guia com um rigor maior que o Michelin, só que restrito a assinantes.
- O.K.
- E que cobrisse o território mundial, não só a França.
- O.K.
- E que avaliasse, inspecionasse e classificasse minuciosamente os mais reservados prostíbulos do planeta.
- Uau !
- É isto que nós publicamos.

* * * * *

- E vocês fazem test-drive nas meninas dos bordéis desde quando ?


- Desde que Moisés deixou o Egito para ficar andando em círculos 40 anos.
- Impressionante, mas pode provar ?
- Tudo é muito bem documentado, há pergaminhos em nossa sede em Amsterdã que remontam a Ramsés II.
Depois de um tempo que o povo de Israel havia deixado o Egito, muitos hebreus ficaram curiosos sobre as
pequenas aldeias que iam encontrando pelo caminho. Tão curiosos que passaram a frequentar as prostitutas
locais enquanto o acampamento de Israel dormia. A informação de quais eram as mais bonitas e quanto
cobravam, no início, foi passada de boca em boca e posteriormente, compilada em um papiro, exaustivamente
copiado pelas lúbricos israelitas.
- É surpreendente que não morreram todos de doenças venéreas antes de chegarem à Canaã.
- Sabe como é... Judeus são como baratas, já dizia Herr Goebbels.
- E o impressionante é que, na época, pouca gente entendeu que Goebbels fez um elogio.
- Ele estaria em maus lençóis se o Hitler tivesse percebido a sutileza.
- Provavelmente. Na minha opinião, daquela cúpula do III Reich o único que merece ser estudado é o
Goebbels.
- A maior mente criativa do século XX !
- Quem disse isto ? Walt Disney ?
- Não lembro. Acho que sim. Um sujeito que ficou rico com uma praga como ratos devia entender muito de
nazistas.
- Mas não se esqueça que todos os patos da Disney são brancos.
- E o Patolino ? Ele é afro-americano !
- O Patolino não é da Disney, é da Warner.
- Eu não sabia.

* * * * *

- Para o senhor entender a importância de sua missão, saiba que o nosso guia foi utilizado por inúmeras
figuras históricas de relevância mundial, inclusive o próprio Hitler.
- Não me surpreende. Ele foi pular a cerca em Paris enquanto Eva Braun lustrava os canecos de Chopp em
Berlim ?
- Envolve Paris, mas não Frau Braun. Hospedado na capital francesa, o Führer percebeu que sua cadelinha
de estimação, Blondi estava demonstrando sinais de depressão, ansiedade e irritabilidade. Preocupado com a
saúde mental de sua amada mascote, o Chanceler da Alemanha consultou nosso guia pacientemente até
encontrar uma companhia para aquecer a noite e acalmar os nervos da cadelinha.
- Um Pastor Alemão-michê ! Que gracinha !
- Na verdade foi um Dálmata-michê.
- Com todo respeito, seu Pessegueiro, mas a imagem de Adolf Hitler folheando um guia de prostituição
canina é um tanto quanto inverossímil para mim.
- O senhor não viu nada. Espere ouvir sobre o Chihuahua secreto de Jacqueline Kennedy.
- E porquê a primeira dama dos Estados Unidos teria um cachorro “secreto” ?
- Porquê ele foi retirado ilegalmente da Área 51 para, após treinamento, matar Marilyn Monroe.
- Bichinho eficiente. E onde o guia de vocês com as prostitutas entra ?
- Bichinhos eficientes também precisam comer, senhor detetive.
[ Silêncio]

* * * * *

- Sabe qual o nosso principal problema, senhor detetive ?


- Impostos ?
- Não, os “peixes ensaboados” !
- Prostíbulos que não querem ser classificados por vocês, imagino.
- Exatamente ! Prometemos ao nosso assinante só os melhores dos melhores, só que, prostíbulos ultra-
exclusivos que atendem somente gente de altíssimo gabarito como Cardeais Católicos, Chefes de Estado e a
realeza européia e nipônica não tem a menor intenção de se “popularizar”. São poucos clientes, poucas
prostitutas mas o lucro é altíssimo: uma noite de diversão do primeiro ministro chinês rende o equivalente à
10 noites de prazer de 10 altos executivos da Microsoft em um estabelecimento de alto nível norte-americano.
- E vocês vão me enviar para onde, atrás do lupanar misterioso da vez ?
- É um pouco mais que um lupanar misterioso. É uma lenda urbana que tem escapado de nossos escrutínios
desde a década de 30. Já ouviu falar no Bordel das Normalistas ?
- O do Nelson Rodrigues ?
- O próprio.
- Isto não existe, como diria o Padre Quevedo.
- Também classificávamos o Bordel das Normalistas como uma lenda até que surgiu um indício bastante
intrigante: um testamento onde um pai deixa para o filho, assim que completar 18 anos, um envelope
correspondente à uma noite no tal lupanar, tudo codificado com Criptografia do nível usada na NSA ou na
CIA.
- Isto custa muito dinheiro.
- E não é só isto. Ninguém utiliza Criptografia com chaves tão altas sem dever favores para alguém na
estrutura de segurança do governo norte-americano. Seja lá quem for que administra este bordel conhece
gente graúda no Pentágono.
- Presumo que minha missão seja localizar o tal lupanar para que vocês, posteriormente, possam mandar
uma “equipe de testes” de “sommeliers de carne humana” para avaliar as “meninas” e seus “serviços”.
- Só não se esqueça que esta gente pode não querer que você revele a existência deles ao nosso guia ou ao
mundo. Pode ser perigoso.
- Eu sou um homem perigoso.
- Então está contratado.

* * * * *

Dois dias depois continuo esperando o retorno do telefonema que ficou na caixa postal de um cara que me
deve uns favores e, por sorte, é professor do ITA. Se não entende de Criptografia em nível militar, conhece
quem entenda.
Uso o tempo para levantar dados sobre o legendário Bordel das Normalistas. Se existiu, sempre foi secreto,
por duas razões: as normalistas eram garotas de uns 15-18, a quem, no Brasil, até onde sei, sempre foi negado
o direito de se prostituir, legalmente. O bordel, se existiu, era tão legal quando um alambique durante a Lei
Seca norte-americana, nos anos 20.
A outra razão estava relacionada com a reputação das prostitutas. Normalistas não são prostitutas, elas
moram em casa com papai & mamãe. Fazem o programa, pagam a cafetina, pegam sua parte no dinheiro e
retornam para seus quartinhos de adolescentes. É carne vinda da classe média para cima, não é uma “casa da
luz vermelha” de beira de estrada. Há um pacto de duplo silêncio: as “meninas” não denunciam a cafetina
para as autoridades e, em troca, a cafetina mantém os nomes das pros-teen-tutas no anonimato.
Na peça “Perdoa-me por me traires” escrita em 1957, Nelson Rodrigues cita o infame lupanar. Mas duvido
que ele fosse maluco de anotar o endereço entre seus alfarrábios, sabendo que as figuras mais proeminentes
da república bebiam no frescor da juventude das mocinhas. Nelson Rodrigues conseguiu atravessar toda a
Ditadura Militar Brasileira sem parar no pau-de-arara, na cadeira-do-dragão nem na “maquininha de choque”.
Foi um feito e tanto.
Depois, há um relato de um assassinato em 1972, no Rio, onde o suposto matador alega inocência
declarando que, na hora do crime estava no tal Bordel das Normalistas, então. o delegado pediu o endereço e
ele mandou a polícia civil ligar para o gabinete do Ministro da Fazenda, em Brasília. Ficou nisto. O cara,
apadrinhado político de alguém graúdo no Planalto, foi solto. Este país não muda.
Daí por diante as pistas foram se espaçando no tempo. Em 1981, em um registro de reclamação trabalhista,
uma arrumadeira chamada Etelvina Pacheco moveu uma ação contra um certo Bordel das Normalistas, que
desta vez estava instalado em Porto Alegre. Misteriosamente, o Oficial de Justiça não encontrou o endereço e
a arrumadeira jamais recebeu suas verbas rescisórias.
Aqui e ali, surgem alguns registros esparsos que apontam que o bordel havia se mudado do Rio de Janeiro
para o sul do país, mas, sabe-se lá quem o administrava, continuava mantendo sigilo absoluto sobre qualquer
aspecto do negócio.
Gente profissional, que levava o negócio a sério, que nunca pagava impostos e jamais cometeu um erro
grave após décadas. Admiro isto.
Não vai ser fácil.

*****

O telefone toca.
Do outro lado, o Professor Doutor Osni Soares, também conhecido como Furúnculo, ou só “Fu” para os
amigos. O tipo de cara que vive se envolvendo em encrencas com mulheres casadas e, obviamente, vive
precisando da minha ajuda para colocar um Taurus 38 na cara dos maridos traídos vingadores. Não reclamo, o
sujeito sempre foi prestativo e nunca cobrou nada. É complicado. Como muitos, o desgraçado é viciado em
adrenalina, encontros furtivos e visitas românticas no meio da tarde quando o marido está trabalhando. Já falei
várias vezes para ele trocar este hobby por outro menos perigoso como colecionar bonecas infláveis ou
garimpar mulheres solteiras nos sites de relacionamemto. Mas não adianta. Não me ouve.
- Você achou aquilo aonde ?
- É de um caso sigiloso, não dá pra contar.
- Sigiloso e profundamente suspeito, aquilo é criptografia militar chinesa !
- E você decodificou como ?
- No IME tem um cara que mexe com estas coisas. E, aliás, ficou impressionadíssimo com o fato de que o
texto estava usando protocolos de comunicação entre tropas e não a decodificação padrão do Exército Chinês.
Você tem que tomar cuidado ao mexer com este tipo de coisas, se um espião chinês entra na tua casa à noite
com você dormindo você está morto.
- Não delira, não existem espiões chineses por aqui.
- Você está enganado. Na Embaixada dos Chinas, em Brasília, tem uns 4 ou 5 esperando ordens de Pequim
para partir para a ação.
- Eu sei me cuidar. E, afinal, o que estava escrito mo papel ?
- Uma Latitude, uma Longitude e a frase ”Válido por tempo indeterminado”. Era o que esperava encontrar ?
- Em termos. E as coordenadas são de onde ? Eu duvido que você não resistiu a tentação de espiar no Google
Maps.
- São de uma reserva florestal privada de conservação da Mata Atlântica. Fica no sul de Santa Catarina, mais
ou menos perto da cidade de Criciúma.
- Viu quem é o dono ?
- Um fundo de investimentos ucraniano off-shore com sede nas ilhas Caymann.
- Suspeito.
- Suspeito ? Você vai acabar encontrando um depósito de Urânio enriquecido chinês se aparecer por lá.
- Ou eu resolvo o mistério e embolso o resto do pagamento.
- Você é o cara que resolve mistérios do nível “Scooby-doo” achando que pode saltar para o nível “James
Bond” com um estalar de dedos.
- E daí ?
- Daí que no nível “Scooby-doo” se você for para a cama com a Daphne ou a Velma, nenhuma das duas vai
tentar te envenenar com veneno de sapo da Amazônia. No nível “James Bond” antes que uma delas tire a
primeira peça de roupa você já estaria morto, caído no chão.
- Então está bom.
Desligo o telefone.
Péssima educação da minha parte com uma pessoa que nunca me cobrou nada por serviços de valor
inestimável. É terrível quando você escuta o que os outros realmente acham da sua pessoa em uma destas
janelas mágicas quando as regras da civilidade e da hipocrisia são temporariamente congeladas e o sujeito fala
o que realmente pensa de você. Ás vezes o álcool provoca o fenômeno, neste caso, nem isto precisou.
Na verdade, ele não me ofendeu tanto assim, a Daphne do Scooby-doo era uma delícia: ruiva, corpo legal,
vinte e poucos anos, cabelo comprido... Insinuar que eu consigo ir para cama com uma mulher destas é um
elogio.
O que será que aparece se eu mudar o Google para procurar imagens e mandar buscar [ DAPHNE “Scooby-
doo” porn xxx cartoon ] ?
Vamos ver...

*****

Dois dias depois.


Criciúma, Santa Catarina, Brasil.
Alugo um carro. Uma pick-up com cheiro de cigarro barato, mas com pneus de primeira. Que valem ouro
caso tudo isto acabe em uma estrada de terra cheia de buracos.
Compro uns mapas da região na banca de revistas da rodoviária para ver se citavam a tal reserva florestal,
mas... Nada ! Cara de fachada, pinta de fachada, cheiro de fachada.
E vamos lá...
Scooby-dooby-doo !

*****

BR- Cento e qualquer coisa – Asfalto.


Estrada vicinal I – Terra.
Estrada vicinal II – Terra.
Estrada de escoamento de produção rural – Terra com pedregulhos.
Até que a paisagem muda !
De um lado, pasto, uvas, uma vaca aqui outra ali. Do outro lado, um paredão espesso de mata fechada
aparentemente sem fim, tampando qualquer coisa além de uns 20 cm da estradinha poeirenta.
Uma hora há de ter uma porteira ou algo que o valha. É só continuar contornando o matagal e esperar.
E tinha mesmo.
Mas não era uma porteira.

* * * * *

Uau.
Duas torres de concreto de uns 3 metros de altura e 1 e meio de diâmetro. Pintadas de verde-camuflagem
para disfarçar. No meio, ligando as duas colunas sinistras, um portão blindado igualmente coberto de tiras de
plástico verde entrelaçadas. Mas o pior vem agora.
No alto de cada uma das torres uma gaiola de metal, com dois sujeitos vestindo uniforme de brim negro me
apontando duas metralhadoras M-60. Coisa boa. Queria que meu porte incluísse autorização para comprar
uma belezinha destas. Se eu não me engano, arma privativa das forças armadas. Ê Brasil...
Curiosamente, não há nada cercando a propriedade. Nem arame farpado, nem cerca elétrica, nem
dormentes de madeira. Estranho... Em volta das torres só mata fechada. Tem que ter alguma coisa que
guarneça o perímetro que eu não estou vendo. Minas terrestres seriam uma alternativa sensata para responder
a pergunta.
Ficamos ali.
Eu parado com a pick-up na frente do portão.
Os caras nas gaiolas me apontando aquelas belezinhas com o dedo no gatilho.
O GPS mostrava que as coordenadas do convite indicavam um ponto muito ao sudoeste do portão, uns 60
quilômetros para dentro.
“Deixai óh vós que aqui entrais toda a Esperança”. Isto é Dante Aliguieri. A Divina Comédia.
A citação brota em minha mente como um vento de mau-agouro.
Olho para meu Rossi 38 adormecido no banco do veículo.
Correr não era uma opção.
Velozmente coloco a arma no bolso interno do paletó e saio da pick-up esperando que os caras não tenham
visto o movimento com as mãos e o trezoitão.
Então, a porta se abre.

* * * * *

Um cara loiro.
Jaqueta de couro. Calça jeans. Camisa de flanela quadriculada.
Me apontando um Taurus 38 meio surrado.
- Sai do carro !
- Saio não.
Abro a porta da pick-up e esfrego na cara do sujeito minha falsificação número 35. Em São Paulo tem uma
gráfica com uns caras legais que fabricam passaportes falsos de primeiro mundo para imigrantes bolivianos e
africanos que aparecem por aqui.
Não só passaportes.
Faço uma cara de bravo, tiro a carteira funcional do bolso e esfrego na cara do merdinha.
- Ministério Público do Trabalho, bota a arma no chão !
O cara se assusta, coloca o revólver na poeira da estrada e me encara.
- E agora ?
- Mete a cara no chão, mãos na cabeça e grita para os teus jagunços nas torres pularem de lá sem as
metrancas.
O chefe grita, os dois paus-mandados saltam deixando nas alturas minhas desejadas M-60.
- Escuta aqui, nós recebemos umas informações de que há trabalho escravo de extração de palmito ilegal
nesta propriedade.
Os olhos do loiro saltam das órbitas.
- Não sei de nada não.
- Como é que uma propriedade deste tamanho não tem uma cerca, por mais precária que seja ?
- A empresa loca um satélite sub-orbital com sensores de calor de alta sensibilidade. Se algo que emite calor
penetrar em qualquer ponto da propriedade, um alarme é disparado no espaço e, milisegundos depois, na
“sede” da reserva. Seria impossível um grupo entrar aqui para cortar palmito sem ser detectado.
- Agora você vai entrar na pick-up e me levar até a “sede” da propriedade.
- Não vou não. Tem um mandado ?
Ai...
- Não tenho pois minhas ordens eram apenas de fazer contato com algum dos empregados do
empreendimento para, posteriormente, retornar com uma equipe completa. Eu sou um batedor. Só lhe pedi
para adentrar na propriedade pois imaginei que talvez não fosse necessária esta formalidade legal do
mandado.
- Pois sem mandado não entra.
- Perfeito. Volto depois.
- Mas pode ter certeza que eu vou telefonar para o seu chefe reclamando da violência.
- E eu vou ligar para a Polícia Federal reportando as duas metralhadoras M-60, armas privativas das Forças
Armadas que vocês tem por aqui.
Sorrio.
O jagunço e os dois sub-jagunços desaparecem na floresta úmida.
Fecham o portão.
Vou embora absorto em meus pensamentos.
- Duas metralhadoras M-60 ? Um sistema de vigilância sub-orbital com sensores de leitura térmica ? Que
diabos de lugar é este ?
[ FADE OUT ]

*****

Dois minutos depois.


Dentro da propriedade.
O jagunço-mestre saca um rádio de comunicação chinês e, após olhar para os dois lados, sussurra:
- Chefe, deu merda.
* * * * *

Quatro horas depois.


Criciúma, Santa Catarina.
Hotel Pioneiro dos Pampas.
Não via um negócio destes desde 1995: hotelzinho barato com banheira no quarto. O último destes onde eu
havia me hospedado havia sido em São João do Meriti: Hotel Capri. Com o calor infernal da baixada
fluminense deveria haver uma lei que obrigasse todos os hotéis a oferecerem banheiras em todos os quartos.
Dispenso a hidro-massagem, uma banheirinha básica para ficar parcialmente submerso até virar uma
uva-passa já seria o suficiente.
O telefone toca.
Corro até o quarto enrolado na toalha e encontro o artefato tecnológico sobre a mesa vibrando
epileticamente.
- Alô ?
- É Pessegueiro. Como está indo ?
- Bem. Esta gente tem muito mais dinheiro do que eu esperava. Apesar dos seguranças serem os bocoiós de
sempre, a parafernalha tecnológica que eles tem aqui está muito além do tipo de coisas que se vê no Brasil.
- Acha que pode ser o Bordel das Normalistas ?
- Pode ser qualquer instalação cujos proprietários estejam dispostos a gastar uma pequena fortuna alugando
um satélite de baixa órbita para guarnecer. Pode ser, literalmente, qualquer coisa: um campo de treinamento
militar para terroristas, uma seita satânica de gente de muito dinheiro ou até um depósito clandestino de
Urânio enriquecido como sugeriu um amigo meu do ITA.
- E pode ser o Bordel das Normalistas.
- Também.
- O que vai fazer agora ?
- Vou terminar o banho que o senhor interrompeu. Vestir qualquer coisa e tentar encontrar no comércio local
um drone destes bem simples, que eu possa aprender a operar em umas duas horas para a sessão de
bisbilhotagem de sexta-feira. Se não achar nada para comprar vou ser obrigado a ir até Porto Alegre onde o
comércio é melhor.
- Cidade pequena ?
- Nem tanto, mas não é o Rio de Janeiro onde você encontra moleques vendendo lança-mísseis Stinger em
cada esquina.
- Ou São Paulo, onde você pode comprar Césio-137 retirado de máquinas de raio-X arrebentadas a golpes de
taco de baseball por um preço módico.
- Seu Pessegueiro será que há a possibilidade uma pequena modificação em nosso acordo ?
- Depende, o que quer ?
- Minha missão seria entregar fotos que comprovassem que o lugar era de fato um prostíbulo, com homens
entrando e saindo ou homens entrando com filhos adolescentes, no período noturno. Vocês aceitariam, fotos
com uma resolução menor e meio tremidas tiradas por um drone ?
- Mas o senhor não disse que era um homem perigoso ?
- Perigoso, mas não sou estúpido. Pelo que pude observar, o único acesso à tal de “sede” é uma estradinha de
terra no meio do mato, com espaço para um carro por vez e um portão guarnecido por duas metralhadoras M-
60 no fim do trajeto. Uma garganta profunda com um estômago cheio de ácido estomacal devidamente
preparado para receber intrusos.
- Qual a distância do portão até a “sede” ?
- Pelo meu GPS, quase 60 quilômetros. É um buraco de rato, se entrar e alguém bloquear a saída, morreu.
Um helicóptero faria barulho demais. Sem falar que a polícia local pode achar estranho alguém vir do Rio de
Janeiro para alugar um helicóptero querendo vôo noturno e sigilo. Eu tenho verba para alugar um helicóptero
e mandar calibrar o motor para ficar mais silencioso em Porto Alegre ?
- Não. Se estes caras tiverem armamento para derrubar um helicóptero, uma ponto 50, por exemplo, vai dar
uma confusão dos diabos. Metralhadora M-60 derruba helicóptero ?
- Não sou especialista, mas acho que derruba. Principalmente helicóptero civil, de passeio turístico, sem
blindagem. E então, faço o quê ?
- Não gosto disto, mas parece sensato. Compre o drone, tire as fotos, imprima as fotos, exploda o celular que
tirou as fotos com C4 e me entregue as fotografias em mãos, no seu escritório em Ipanema.
- Onde eu vou encontrar C4 no meio deste buraco, no interior de Santa Catarina ?
- Problema seu.
E desliga na minha cara.
C4 o cacete ! Arrebentar o celular com uma marreta e jogar os pedaços em uns 4 bueiros diferentes faz o
mesmo efeito. Nada melhor para varrer as informações de um HD de celular que a chuva percorrendo as
galerias pluviais de uma cidade, espalhando e enferrujando cada fragmento de informação gravada. Esta nem
a Academia da ABIN ensina.
Sujeitinho paranóico. Mas cedeu, isto que era o importante.
Nunca tinha visto uma M-60 pessoalmente, eram lindas. Queria muito ter uma destas em cima de uma
mesa, com tripé e tudo. É o tipo de artefato que dá um toque de Classe em um escritório de detetive.
Lei idiota.

*****
Acordo.
Passo a manhã inteira nos dois Shopping Centers da cidade procurando uma coisa que sabia que não iria
encontrar: um drone “user friendly”, com um projeto de Ergonomia desenhado para tornar a coisa simples,
alguma coisa entre um brinquedo e um kart. Não quero nada que precise de mais do que duas horas para
aprender a manejar. Meio a contragosto, compro o modelo mais simplezinho que a loja tinha. Quando a
vendedora, simpática, pergunta se era presente para meu filho, eu solto uma cantada clássica:
- Só se você for a mãe.
A moça sorri.
Peço o telefone.
Ela escreve na caixa do drone, antes de mandar embalar.
Não durmo só naquela noite.
My name is Bond, James Bond.
Ou quase.

*****
Amanhece lá fora.
Continuo dormindo.
Brittany sussurra algo em meu ouvido e vai embora.
Continuo dormindo.
9:12. Visto meu uniforme de turista e desço para tomar o café da manhã do hotel com uma caixa de drone
debaixo do braço.
10:03. Paro um taxi e mando o sujeito seguir para qualquer lugar com bastante espaço para voar com um
helicóptero de controle remoto. Fiquei com medo de dizer “drone”, soava como algo militar. Por sorte, o cara
entendeu e me deixou em um parque aberto. Meio deserto, mas não parecia perigoso. Afinal, meu nome é
Bond, James Bond.
15:20 Depois de cinco horas irritantes gastas com a velha Arte da tentativa & erro, estava conseguindo
pilotar a coisinha de um modo bem satisfatório. Depois que você aprende até que é uma sensação prazeirosa,
mas enquanto você não domina dá vontade de jogar o controle remoto no chão o tempo todo. Meu estômago
ronca. Fome.
16:01 Devoro um cheeseburger com batatas fritas e um Milk Shake de morango em uma lanchonete
qualquer na frente do hotel e resolvo ligar para Brittany, a “Bond girl” da vez. Afinal, era quinta-feira, amanhã
era sexta, o dia mundial do faturamento máximo dos prostíbulos e. consequentemente, o dia do “serviço”.
Após a filmagem, enviaria as fotos criptografadas pela internet para meu servidor privado no Quirquiquistão,
destruiria o celular e, com um carro alugado, dirigiria voando de volta para Florianópolis, onde é possível
fretar um avião pequeno facilmente. Não dá para brincar com gente que tem duas M-60 na porteira de “sede”
do negócio.
16:05 Brittany atende. Continua simpática, mas diz que não podia sair naquela noite para jantar pois já
havia prometido para a irmã servir de babá para os dois sobrinhos. Pergunta se poderia ser outro dia. Digo que
não, que amanhã terminaria meu “serviço” e deixaria a cidade. Ela solta um “Que pena...”. Meiga, pergunta se
poderia continuar me ligando. Digo que sim e que se fosse me visitar em Recife, nas férias, eu pagaria todas
as despesas da viagem. Ela diz um “Quem sabe...”, me deseja boa viagem e desliga. Odiei ter de mentir para
uma criaturinha tão adorável, mas, meses depois, poderia simplesmente “retificar” a informação dizendo que
havia me mudado de Recife para o Rio e tudo ficaria bem. Não dá para brincar com gente que aluga um
satélite sub-orbital com sensores de detecção de calor de alta sensibilidade para usar em um projeto de
segurança empresarial. Que está mais para presídio de segurança máxima especializado em terroristas
alienígenas.
Passo o resto da tarde treinando com o drone dentro do próprio quarto do hotel. Até que é divertido. Ligo o
ar-condicionado para abafar o ruído do brinquedo e não aparece ninguém reclamando. Em volta da “sede” não
haveria ar-condicionado para ligar e abafar o ruído dos motores. Esperava, sinceramente. que, como qualquer
prostíbulo, este mantivesse música alta para entreter os clientes enquanto não escolhiam a mocinha que
levariam para o quarto do andar de cima. Prostituição e música, foram feitos um para o outro.

*****

20:00. Faço o check-out no hotel. Levo minha malinha na mão direita e a caixa do drone na mão esquerda.
20:18. Peço um taxi que me leva até a locadora localizada estrategicamente ao lado da rodoviária. Escolho
um sedan preto com insulfilm mais escuro que a alma do Diabo.
21:32 Passo rapidamente pela “porteira” com as duas torres guarnecidas com metralhadoras. É impossível
que a polícia local jamais tenha visto tamanha ostentação de poder de fogo. Ê Brasil...
21:40 Paro o carro. Tiro o bichinho de dentro da caixa. 10...9...8...7...6...5...4...3...2...1. E o drone vai
embora escuridão a dentro. A Natureza colaborava. Céu nublado, sem estrelas ou vestígios de chuva.
21:42 Piloto o bichinho guiado pelas coordenadas do convite e pelo GPS do celular acoplado no drone. Não
é preciso ter passado pela Academia da Nasa para fazer isto. Só é preciso paciência e cuidado para manter a
altitude e não me espatifar contra alguma árvore mais alta. Sigo a estradinha de terra de uma altitude razoável.
Não há como errar.
22:50 Finalmente uma luz. A casa. Dois andares. Estilo Art Déco dos anos 40 com seis ou sete carros em
volta. Na falta de gente para fotografar, fotografo os carros. Chega mais um: Chrysler prateado, modelo quase
do ano. O motorista salta, afobado. Uns 55, talvez, roupa social. Um troglodita de uniforme de segurança de
boate (terno preto, gravata preta e camisa branca) surge de dentro da casa. O cara do Chrysler entrega algo,
que bem poderia ser um convite e entra. Se não é um prostíbulo, parece bastante com um.
Um segundo carro chega. Difícil identificar, pode ser um Suzuki ou outro sedan menos conhecido. Meu
conhecimento sobre a indústria automobilística japonesa deixa muito a desejar. O cara sai do carro, fecha a
porta e olha para cima. Droga ! Achou o drone !
Faço meia volta e entro de novo na floresta.
O cara do suposto sedan Suzuki saca uma arma e atira no drone. Pelo som dos disparos, o desgraçado
portava uma 765.
Meu tamigotchi voador voava rasante direto para os meus braços. Cada segundo contava. Mas, afinal, iriam
me rastrear como ? O motor de um brinquedo daquele tamanho não geraria calor suficiente para ser detectado
do espaço. Claro que havia mais de um modo de rastrear um drone daqueles no meio da noite, mas tudo era
muito improvável, ficção científica delirante. Entre outras coisas, havia a possibilidade de um falcão treinado
deixar a casa e destroçar o drone em pleno vôo, mas eu realmente não acrediva nisto. Piloto o drone com o
cuidado de quem dedilha um Stradivarius sem seguro. Não é que o tal do Pessegueiro estava certo ?
Parecia um bordel mesmo. Então o mítico Bordel das Nornalistas havia sido encontrado. Será que as moças
eram tão lindas como as dos anos 50 ? Não sei nem quero saber. Não volto aqui nunca mais.
00:02 O drone chega. Jogo a coisa no banco de trás do carro. Não retorno pelo mesmo caminho para não
passar em frente da “porteira” com as metralhadoras. Vou em frente até encontrar outra estrada vicinal que me
devolva para o asfalto logo adiante. Afinal, isto aqui é zona rural. Há de haver uma sub-rota para estes
caipiras levarem a produção até os atravessadores que vão lhes comer o couro pagando menos da metade do
que valem os legumes ou seja lá o que estes coitados plantam.
Uma moto.
Dias motos.
Três motos.
E um tiro.
Automaticamente, começo a repetir, mentalmente, meu mantra místico de Força & Poder: “My name is
Bond, James Bond. My name is Bond, James Bond. My name is Bond, James Bond...”

*****
Piso fundo.
As motos tem dificuldade para acompanhar. São CGs-125 ou alguma porcaria do tipo. Devem ser as motos
privadas dos seguranças e não as motos da “Casa”. Todo sistema de segurança tem uma falha. Até o do
Departamento de Defesa Norte-Americano. Osama Bin Laden que o diga.
Continuam me seguindo, mas, aparentemente, acabaram as balas.
Uma curva.
Não consigo. A velocidade é muito alta.
O carro capota.
Uma.
Duas.
Três vezes.
O air-bag é acionado. Mesmo assim, bato com a cabeça no teto do carro.
Sinto a dor do impacto no crânio.
As luzes do painel vão se apagando como estrelas ao amanhecer.
Tudo fica escuro.
Mordo meus lábios. Meio que por instinto.
É a última sensação que tenho.
Perco os sentidos.

* * * * *

Acordo.
Dores pelo corpo todo.
Quarto simples: uma cama, um armário, dois criados-mudos e uma janela enorme por onde eu enxergava
apenas árvores frondosas. Pelo ângulo, acho que sabia onde estava. Tento me levantar. Tudo gira em torno de
mim. O que é isto ? Labirintite ?
A porta se abre.
Uma mulher. Pálida, cabelos negros presos em um coque, uns 45 anos, olhos verdes e vestida com um
uniforme de enfermeira dos anos 50. Por detrás dela, duas garotas saídas da capa da Revista Capricho, ou
Teen Vogue, se preferir. Uma mulata, outra loira, deslumbrantes na exuberância de seus 16...17 anos. Eu sabia
onde estava.
Rapidamente, a enfermeira fecha a porta atrás dela como se fosse muito importante que eu não pudesse ver
nada além do espaço que me havia sido reservado.
E, com um tom de autoridade, fala:
- Me chame de Miss MILF.
- Me chame de Orlando. E eu posso ter meus documentos e minhas roupas de volta ?
- Não. Nós temos um pequeno impasse. Nossa liderança acha que não é uma boa idéia simplesmente
libertá-lo para que o senhor possa divulgar o endereço de nossas instalações e assim, acabar com nossa
exclusividade, que tanto nos orgulha.
- Eu posso prometer que não vou contar nada para ninguém.
- Como diria o Doutor Gregory House: “Todo mundo mente”. Ela sorri.
- Quer dizer que sou um prisioneiro ?
- Nossa liderança...
- Quer dizer, a cafetina ?
- Ela prefere ser chamada de Líder Suprema.
- OK. Vou me lembrar disto.
- Ela é uma boa pessoa.
- Acredito.
- Ele segue um Código de Ética que remonta aos lupanares da antiga Babilônia. E este código diz que,
encantadoras da noite não matam, a não ser em legítima defesa. Nós somos as embaixadoras da Beleza, da
Suavidade e do Prazer, não da Morte.
- Então eu sou um prisioneiro ?
- Assistiu “O estranho que nós amamos.”, “The Beguiled”, no cinema ?
- As duas versões, a do Clint Eastwood e a atual, da Sofia Coppola. O que tem ?
- Digamos que a sua situação é um pouco melhor do que a daquele pobre soldado no meio daquelas loucas
confederadas.
Não entendo a analogia.
Miss MILF sorri. Marotamente.
Nelson Rodrigues explica.

*****

A jovem senhora se retira do quarto, empurrando a mulatinha pelos ombros.


A loira fica.
Mantendo o ar de inocência, ela desabotoa os três botões superiores da blusa estilo normalista dos anos 50,
deixando transparecer parte de um soutien rosa claro.
E caminha em minha direção.
- Então você é detetive ?
- Viu meus documentos ?
- Ainda não.
Ela sorri e eu vou no embalo, mostrando os dentes e baixando a guarda.
- Sabe, Orlando, foi muito bom você ter vindo aqui !
- Foi ?
- Dormimos todas no mesmo dormitório e, uma amiga minha me disse, que, enquanto eu dormia, um bicho
que parecia uma mão-aranha laranja foi até o meu rosto e depositou na minha boca alguma coisa, depois se
desgrudou e morreu no chão.
- Tenho medo que um alien tenha colocado um ovo no meu tórax. Examina aqui.
Ela pega a minha mão e desliza meus dedos sobre seu dorso, tangenciando os seios, já firmes de excitação
erótica.
- Consegue sentir alguma coisa ?
- Não. Nada.
- Acho que sem a blusa e o soutien fica mais fácil fazer o exame.
Voam blusa branquinha cheirando a amaciante de primeira linha e soutien rosa para seios médios.
Aterrisam os dois em um canto do quarto.
Eu estava extasiado. A garota semi-nua guiava minhas mãos em movimentos circulares sobre seus seios e
costas prosseguindo uma fantasia sexual pra lá de peculiar envolvendo o filme Alien, o oitavo passageiro. Que
tipo de mulher tem fantasias sexuais envolvendo o Alien ?
Acho que o tipo que eu gosto.
Só espero que a cafetina não apareça mais tarde com uma conta do tamanho da espaçonave Nostromo.
Mais alguns segundos e ela estava totalmente nua, em pé sobre o pé da cama, gemendo como se realmente
estivesse prenha de um bebê-alien.
Santa Kelly Key, rogai por nós.

* * * * *

Sem relógio. Sem rádio. Sem televisão.


Percebia a marcha do tempo pelo sol lá fora e pela ausência deste quando anoitecia.
Meu rádio eram os pássaros do matagal onde o casarão estava incrustado.
Minha televisão era o ato de observar, pela janela, os jovens senhores e outros nem tão jovens assim
deslizarem para fora de suas carruagens modernas para o interior do castelo de prazer, e assim adentrarem na
suprema aventura de serem parte de algo, que, tecnicamente, nunca existiu, mas tinha seu nome sussurrado
entre lábios masculinos desde a década de 30. Ou antes. Para aqueles homens, penetrar no Bordel das
Normalistas era como mergulhar com o Monstro do Lago Ness, passar a tarde fazendo “snowboard” com o
Abominável Homem das Neves ou percorrer uma trilha com o Pé-Grande. Com a vantagem de que as
“meninas da casa” não soltavam pelo.
Por mais que Miss MILF jurasse que não havia nada em minha comida ou bebidas e que eu não estava
sendo medicado de forma alguma, me recusava a acreditar.
Passava a maior parte do tempo sozinho em um quarto vazio que, aparentemente, não estava trancado.
Porta simples, que deixava passar luz de grande intensidade. Só que eu não conseguia chegar até lá. Dava
seis, sete passos e o mundo começava a girar em minha volta. Caia no chão e tentava prosseguir rastejando,
mas fortes dores abdominais me faziam gritar de tanta intensidade. Então eu voltava para a cama e as dores
passavam e o mundo deixava de rodar como o interior de uma batedeira elétrica.
Miss MILF dizia que aquela síndrome deveria ser parte dos sintomas de um trauma severo. Que, como eu
não tinha nada, nem ninguém de realmente importante no mundo extermo, meu sub-consciente sabotava
minhas iniciativas para deixar “a casa” pois sabia que ali era mais seguro que o mundo exterior onde, no
mínimo, eu vivia sendo alvo de tiros de .38., desilusões amorosas, impostos, vizinhos barulhentos e por aí
vai...
De resto, não tinha o que reclamar... As garotas eram sempre muito amigáveis quando vinham no meu
quarto. Tanto as que costumavam atender os clientes sozinhas como que tinham “números” em dupla para
entreter os endinheirados como as irmãs Ana & Elsa de Frozen, Arlequina & Hera Venenosa do Universo do
Batman, Supergirl e Poderosa do Universo do Superman. Quanto vale, para um alto executivo, depois de uma
semana extenuante de negociações com chineses irrascíveis, ser levado para um quarto confortável, ser
despido por uma linda atendente e esperar, até que a porta se abre e dela surgem a dupla de Frozen,
inocentemente perguntando:
- Você quer brincar na neve ?
Isto não tem preço.

* * * * *

Nunca vi a Cafetina, a tal da “Líder Suprema”.


Nunca me responderam qualquer pergunta feita sobre ela. Nem as garotas nem a onipresente Miss MILF.
Funcionárias muito bem treinadas. Coagidas pelo medo ou cooptadas pela lealdade ? Preferia acreditar na
primeira hipótese.
Que tipo de chefe obriga os empregados a chamarem ela usando o título de “Líder Suprema” ?
Talvez alguém que quisesse esquecer que seu meio de vida é ser dona de prostíbulo.

* * * * *

No Castelo dos Delírios Sensoriais. as luzes se apagavam às quatro da manhã.


Toda e qualquer atividade envolvendo os clientes era encerrada às três e meia da manhã. Os alcoolizados
eram levados cuidadosamente para seus carros, e se, vieram sem motorista, um dos seguranças da casa levava
o bebum até um hotel próximo.
Ás vezes, antes do toque de recolher ser ordenado, uma das garotas vinha até o meu quarto para conversar
um pouco. Dizer quanto já tinha economizado, quais as mentiras havia inventado para a família para justificar
sua estada ali, quais os sonhos que buscava realizar quando tivesse alcançado a meta financeira. De quais
pesadelos estava fugindo.
Eram jovens demais para terem perdido a capacidade de sonhar.
Possuíam raros atributos que seduziam muitos clientes como o sorriso aberto e o brilho nos olhos. Não se
vê muito disto por aí. Para o cliente observador, no silêncio entre um ato sexual e outro, a esperança de um
futuro melhor era tão detectável quanto o medo de ser espancada pelo cafetão e, é claro, a prostituta com o
brilho nos olhos fazia a diferença e incentivava o cliente a voltar.
“Tomorrow, tomorrow, I love you, tomorrow. You're always a day away !”
Todas sabiam, de uma forma ou de outra, que jamais me deixariam sair daquele quarto. Me avisavam com
os olhos. Olhos de Hentai.

* * * * *

Dois segundos antes do acidente.


O carro de Orlando capota.
Uma.
Duas.
Três vezes.
O air-bag é acionado. Mesmo assim, o detetive bate com a cabeça no teto do carro.
Sente a dor do impacto no crânio.
As luzes do painel vão se apagando de sua visão como estrelas ao amanhecer.
Tudo fica escuro para Orlando.
Morde seus lábios. Meio que por instinto.
É a última sensação que terá.
O detetive perde os sentidos.

* * * * *

As três motos dos seguranças do prostíbulo chegam ao local do desastre.


Sem a menor cerimônia, um deles entra no carro capotado, pega o drone e vira para os outros dois:
- E agora ?
- Pega a carteira e a mala dele que está no banco de trás, pode ter alguma coisa de valor.
- Beleza.
- Vamo embora ?
- Agora mesmo.
Partem.
Poeira voando.
Motos baratas bramindo.

* * * * *

Leopoldo Quintanilha Sargentelli. Veterinário.


Não costumava atender chamados no meio da noite, só que negar o pedido de fazer o parto prematuro da
égua manga larga do filho do prefeito podia ser um tiro no pé. Literalmente. Cidade pequena tem destas
coisas. O pessoal é mais “selvagem”, vamos dizer assim.
Normalmente, era um homem distraído, desprovido de maiores capacidades de foco e atenção. Talvez
tivesse ignorado o carro capotado de Orlando se este não estivesse ocupando quase um quarto da estrada
esburacada.
Para a van da Clínica Veterinária no acostamento e corre até o carro tombado. Tira o pulso de Orlando para
ver se estava vivo. Estava. Orbita o carro procurando algum sinal de vazamento de combustível. Nada
encontra. Melhor assim, não precisaria remover o acidentado. Pelo celular chama o ambulância do SAMU e
fica aguardando sentado na van da Clínica.
Os paramédicos chegam. Procuram no carro e nas roupas de Orlando alguma identificação. Nada encontram
já que os seguranças já tinham feito ”a limpa”. Carregam o detetive para dentro da ambulância e partem em
direção à cidade. Indigente dirigindo carro alugado. Não é comum.
Sargentelli volta para a van. Não tinha a menor condição de fazer um parto prematuro de uma égua que
custara umas três vezes o valor da sua casa. Mete a chave na ignição e vai embora. Se sentia bem por ter
ajudado o sujeito. É bom ajudar alguém que não late ou mia de vez em quando.
O filho da prefeito ficou esperando o obstetra equino que nunca apareceu.
Morreram a égua e o potrinho em uma poça de sangue do tamanho de um Porsche 911 targa.
Dois meses depois, o veterinário teria sérios problemas legais na hora de pagar o IPTU.
Gente ruim e vingativa.

* * * * *

Na manhã seguinte a secretaria do hospital entra em contato com a locadora de automóveis. Anotam os
dados falsos fornecidos por Orlando (por segurança). Assumiram que alguém saqueara o carro com o
motorista acidentado e desmaiado, privando-lhe dos documentos e quaisquer pertences. Estavam certos.
Orlando era agora Mário Perretti. Morador de Vale das Pedrinhas, Município de Magé-RJ. Os telefones que
Orlando dera ao fazer o cadastro na locadora não tocavam. Muito menos o email. Acabou ganhando o
registro-padrão de indigente.
A batida da cabeça no teto do carro provocara um traumatismo crânio-encefálico, sendo o coma induzido
pelo efeito de concussão cerebral, que ocorreu quando o cérebro recebeu um forte impacto e foi arremessado
contra as paredes do crânio, iniciando assim o estado comatoso.
Coma.
Mas havia atividade cerebral.
Coma com atividade cerebral é uma loteria perversa.
Alguns “acordam”. A maioria não.
Dorme.

* * * * *

Nunca houve uma visita.


Orlando, agora Mário, fora acomodado em uma cama hospitalar padrão em um canto de uma enfermaria
qualquer. Algumas máquinas davam o suporte vital, mas era mais uma questão de monitoramento. Desligadas
as máquinas não morreria. Respirava perfeitamente, se alimentava por sondas e fora a questão cerebral, não
haviam danos metabólicos. Estava pronto para “acordar”.
Mas como Rip Van Winkle, continuava a dormir.
ZZZZZ...

* * * * *

O Congresso Brasileiro matou o detetive Orlando.


No dia 3/4/2040 foi promulgada a Lei Tenório Luvizotto que buscava a otimização máxima das despesas
governamentais na área da Saúde Pública, Ultraliberalismo Radical Estúpido travestido de boas intenções
para zerar o déficit público da área. Os hospitais não seriam mais autorizados a oferecer papel higiênico para
os pacientes ou visitantes, as vacinas passariam a ser pagas, em todos os hospitais do país todos os
bebedouros seriam substituídos por máquinas de refrigerantes em lata, o sistema de atendimento de
ambulâncias do SAMU seria privatizado: se o acidentado ou a família não apresentasse um cartão de crédito
ou débito antes da maca entrar no veículo nadinha de atendimento, Hospitais Universitários seriam
privatizados no mesmo pacote da privatização das Universidades Federais e... O que nos interessa mais de
perto: Diretores de Hospitais seriam autorizados legalmente a realizarem eutanásia em pacientes em estado de
coma se estes não tivessem como pagar as despesas médicas visando reduzir os gastos com energia elétrica
dos aparelhos e a alimentação dos mesmos.
No dia 9/10/2040, 22 anos depois do acidente, na presença de duas testemunhas, o Diretor do Hospital foi
presenteado pelo emissário do Ministério da Saúde com um “voucher” que poderia ser trocado por uma
injeção de veneno na rede farmacêutica autorizada, tudo não muito diferente do “Protocolo de Chapman”, o
coquetel de 3 substâncias utilizadas nos estados norte-americanos que adotam a pena de morte.
No dia 10/10/2040, na presença de duas enfermeiras como testemunhas, o Diretor do Hospital, o médico
pediatra Samuel de Coimbra (CRM/SC – 680.579) ministrou o coquetel no paciente em coma.
Hora da Morte: 11:29:12 segundos do dia 10/10/2040.
Nem o diretor, nem as enfermeiras haviam feito algo parecido antes. Se sentiam mal, muito mal. Mas era
efetivar o protocolo ou perder o emprego.
Realmente, não era uma decisão difícil.

* * * * *

11:29:13 segundos do dia 10/10/2040.


A porta do quarto de Orlando se abre.
A luz intensa é cegante como um flash de máquina fotográfica da década de 30.
O homem entra.
Fecha a porta atrás de si.
Orlando, ainda meio trôpego de sono, indaga:
- Mudaram a direção ? A Líder Suprema vendeu o prostíbulo ?
- Não. Normalmente eu tenho auxiliares para realizar este tipo de serviço, mas como o seu caso é muito
estranho, exige uma sensibilidade e uma “sintonia fina” extrema, preferi fazer eu mesmo. Sabe quem eu sou ?
- O novo dono do bordel ?
- Não.
- Demitiram a Miss MILF e você é o substituto ?
- Não.
- Não tem idéia de quem eu sou ? Mesmo ?
Orlando para e analisa. Idoso, entre 60 e 65 anos. Barba bem feita. Boa saúde. Calça social branca, camisa
social branca. Orlando vai no palpite óbvio.
- Você é Deus e eu estou morto.
O velho sorri.
- Quase. Eu sou Pedro e sim, você está morto.
- Então é só isto ? Eu atravesso aquela porta com você, entro no Paraíso e acabou ?
- Em termos... Tem uma burocracia para você preencher, mas é rotina. Só que eu tenho que te avisar uma
coisa muito importante antes de você deixar este plano.
- O quê é ?
- Considerando a vida que você levou nos últimos 22 anos, você vai achar o Paraíso um lugar muito, mas
muito chato.

*****