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NEOFILIA, A VERSÃO MODERNA DA CURIOSIDADE

Pe. Ináá cio de Aráúá jo Almeidá

Introdução

Vivemos na era da comunicação e nunca foi tão fácil o acesso ao conhecimento. Todos os
dias somos constantemente bombardeados por notícias oriundas dos quatro cantos do mundo. Hoje
tomamos conhecimento de um furacão que assola o golfo do México, de um terremoto nas ilhas do
Pacífico, de uma leve queda na bolsa de Nova York. A preocupação de nos mantermos informados é
cada vez maior. Por outro lado, parece que o homem nunca foi tão desconhecedor da essência das
coisas e, de modo especial, daquelas que se sucedem em seu próprio interior...

Tal facilidade de acesso à informação acabou também por suscitar uma certa banalização do
saber. O tempo tem se tornado cada vez mais curto e, todavia, muitas são as coisas que se almeja
conhecer. Acompanhando esta tendência, a imprensa então passou a narrar os fatos de modo cada
vez mais rápido, suscinto e simplista. São as denominadas pílulas da informação. Sobre a razão
disto, os publicitários argumentam que qualquer informação um pouco mais densa ou que
proporcione uma maior riqueza de detalhes poderá vir a fadigar o leitor. Sendo assim, quanto menor
for a notícia, tanto maior será a probalidade de ser lida.

Esta hipertrofia da informação parece também encontrar-se nos ambientes acadêmicos. Os


docentes que atualmente tem que ensinar a esta nova geração da imagem, cada vez mais sentem-se
instigados a fazer uso de novos métodos, de novas ferramentas metodológicas para tentar atrair a
atenção dos alunos. Todavia, para que a informação possa realmente alcançar o grande público, não
basta que ela seja breve ou simples. Ela também deve vir acompanhada de outro elemento que para
as atuais gerações tornou-se algo verdadeiramente indispensável. Tal elemento é comumente
denominado de novidade.

A indústria do entretenimento há muito tempo está atenta a este fenômeno, pois sabe que
existe um público que sempre está atrás do novo computador, do novo celular, do mais novo
componente eletrônico. O mais curioso é que estes que procuram a mais recente novidade, ainda
não foram sequer capazes de utilizar todos os recursos do seu aparelho anterior. É o desejo do novo
pelo simples fato de ser novo. Enquanto que para alguns este desejo de possuir o último lançamento
não oferece nenhuma implicação mais profunda, para outros, esta ânsia de novidades vai se
transformando numa verdadeira obcessão. Segundo a Associação de Psiquiatria Americana, este
1
problema já tem um nome e pode ser considerado como uma das mais maiores enfermidades
psicológicas do século XXI. Ela se chama neofilia1, um neologismo latino que significa amor à
novidade. O seu principal sintoma consiste nesta irrefreável aspiração de possuir tudo que é novo,
principalmente naquilo que se refere a cibernética.2

Enquanto a neofilia se identifica com o consumismo ou com o irrefreável anseio de


novidades, existe também outra enfermidade que embora menos habitual, também se caracterisa
como sendo um dos traços distintivos de nossa sociedade atual. Ela é denominada de bulimia
intelectual e está associada ao excessivo desejo de tudo conhecer. Por esta razão, alguns autores
também a denominaram de síndrome de Fausto. Tal patologia recebeu este nome em função da
amarga lamentação do personagem Fausto, na obra homônima. Goethe delineia muito bem o
percurso final daquele que se entrega ao incontrolável desejo de tudo conhecer

...Ah! Já estudei Filosofia, Jurisprudência, Medicina e também, por desgraça,


Teologia. Tudo isto em profundidade extrema e com grande esforço. E agora me vejo,
pobre louco, sem saber mais do que no princípio. Tenho os títulos de Mestre e de
Doutor e faz dez anos que arrasto meus discípulos para cima e para baixo, em direção
reta ou curva, e vejo que não sabemos nada. Isto consome meu coração. Claro está que
sou mais sábio do que todos esses néscios doutores, mestres, escritores e frades; não
me atormentam nem os escrúpulos nem as dúvidas, não temo o inferno e nem o
demônio. Entretanto, me sinto privado de toda alegria; não creio saber nada com
sentido, nem me orgulho de poder ensinar algo que melhore a vida dos homens e
mude o seu rumo. Não tenho bens nem dinheiro, nem honra, nem distinções diante do
mundo. Nem sequer um cão queria viver nestas circunstâncias. Por esta razão me
entreguei à magia: para ver se pela força e a palavra do espírito me são revelados
certos mistérios; para não ter que dizer com amargo suor o que não sei; para conseguir
reconhecer o que o mundo contém em seu interior.3

Embora tais expressões tenham sido criadas recentemente para indicar uma realidade cada
vez mais atual, o seu fundamento parece ser tão antigo como a própria existência do homem sobre a
Terra. A razão disto consiste no fato de ser inerente à essência do ser humano um natural desejo de
tudo conhecer. É interessante observar como o homem é naturalmente inclinado ao conhecimento e,
por isso, a todo instante aspira saber coisas novas. Cumpre recordar que se não houvesse este
espírito de investigação e anseio de examinar a natureza dos seres que nos cercam, a vida seria

1
Segundo Ordoñez, este vocábulo foi criado pelo médico austríaco e prêmio Nobel de Medicina, Konrad Lorenz. Cf.:
ORDÓÑEZ, Rubén. Cambio, creatividad e innovación. 2010. p. 64.
2
E sobre esta temática Konrad Lorenz afirma: “Foi com entusiasmo que os grandes produtores receberam o
aparecimento da “neofilia”. Graças a uma forma de doutrinamento das massas,[...], exploram a fundo essa tendência
que lhes traz enormes benefícios. Built in obsoletion – ‘produzir-objetos-logo-ultrapassados’, é um princípio que
desempenha papel importante na moda da indumentária ou dos automóveis”. In: LORENZ, Konrad, Os oito pecados da
civilização. 2009. p. 46.
3
GOETHE, Johann Wolfgang von, Faust e Urfaust. 2005. p. 675. (Tradução própria).
2
insípida e monótona. E assim estaríamos privados de um dos mais nobres deleites que um ente
inteligente possa ter, ou seja, o prazer de conhecer as coisas.

Entretanto, este desejo de conhecer também pode tornar-se exacerbado, levando o homem a
querer a todo instante estar diante de algo novo e que atraía a sua atenção. Por esta razão, pode-se
considerar a neofilia ou a bulimia intelectual como uma variante moderna daquilo que os antigos
denominaram de curiositas. Todavia, o que distingue a curiositas do verdadeiro desejo de conhecer
e que é propriamente o motor de todas as ciências? O que leva o homem a alterar este seu natural
instinto de saber, transformando-o numa verdadeira ânsia de novidades? São estas algumas das
indagações que norteiam o percurso do presente trabalho. A fim de tentar respondê-las, centraremos
o nosso estudo na temática da curiositas, tomando como referência o pensamento de Santo
Agostinho, pois foi ele um dos autores que mais profundamente tratou desta temática.

A gênese do termo curiositas

O estudo sobre a curiosidade apresenta um largo percurso na história da literatura ocidental.


Contudo, já em seu nascedouro esta palavra assume matizes diversos e em alguns casos até mesmo
contraditórios. Desta forma, faz-se necessário primeiramente estabelecer o campo semântico em
que este termo se determina, para em seguida analisar brevemente como tal palavra foi
compreendida na antiguidade.

O vocábulo curiositas é um neologismo latino atribuído a Cícero em sua carta a Atticus.4


Este termo provém da raiz latina cur que significa por quê. Daí também nasceu o vocábulo “cura”
que quer dizer cuidado. Desta forma, em sua acepção primeira, tal palavra apresenta uma conotação
positiva, pois o curioso é aquele que procura saber o porquê das coisas. Entretanto, o vocábulo
curiositas é comumente utilizado para designar o excessivo afã de conhecer e que apresenta efeitos
opostos ao interno do processo cognoscitivo. Por isso, desde a Antiguidade, tanto o natural desejo
de saber, bem como o seu excesso foi em muitos casos entendido pelo mesmo nome de curiosidade.

Na literatura grega, as consequências da excessiva curiosidade são claramente descritas no


mito de Pandora (Πανδώρα). De acordo com o relato de Hesíodo, Prometeu, irmão de Epitemeu,
roubou uma centelha do fogo divino, dando assim aos homens o domínio deste elemento. Zeus,
indignado com tal atitude, resolveu castigar o gênero humano. Foi então que ordenou a Hefesto e
Atena que criassem uma mulher que fosse ornada com todos os dons, a fim de ser oferecida como
esposa a Epitemeu. Parecendo assim temer alguma artimanha, Prometeu alertou a seu irmão que
4
Cf. EVANS, Gillian Rosemary. Getting It Wrong: The Medieval Epistemology of Error. Leiden: Brill, 1998. p.110.
3
não aceitasse nenhuma dádiva dos deuses. Entretanto, Epitemeu não levou em conta esta prudente
recomendação e, por fim, acabou aceitando Pandora como sua esposa. Esta havia recebido de Zeus
como presente de núpcias, uma caixa que por nenhum motivo deveria ser aberta, pois continha em
seu interior diversos males e desgraças.

Entretanto, quando Hermes e Hefesto criaram Pandora, além de adorná-la com todos os
dons, puseram também em seu coração o germe da curiosidade. Por este motivo a imprudente
mulher não resistiu à tentação e, em certa ocasião resolveu abrir aquela tão misteriosa caixa. Foi
então que dela saíram a fome, a sede, a tristeza e a morte que rapidamente se espalharam pelo
mundo. Dando-se conta do ocorrido, Pandora tentou fechar o recipiente, entretanto, todas as
desgraças já haviam saído. A única coisa que restou em seu interior foi a solitária esperança que, por
esta razão, para sempre ficou apartada do convívio com o gênero humano.

Cumpre ressaltar que na Antiguidade, a análise mais acurada sobre o fenômeno da


curiosidade foi realizada por Santo Agostinho. Em seus escritos, a curiositas é entendida como um
imoderado afã de conhecer e é considerada mais perigosa que a concupiscência da carne, pois se
5
camufla sob o nome de conhecimento e ciência. Em sua obra Confissões, depois de analisar os
sentidos do tato, do paladar, da audição e do olfato, Santo Agostinho nos oferece uma profunda
análise sobre o sentido da visão, relacionando-o com o processo cognoscitivo. Ele inicia o seu
estudo recordando o prazer que o homem sente diante do simples fato de ver as coisas. Depois de
afirmar que os olhos amam as formas belas e variadas, bem como as cores alegres e nítidas, o
filósofo de Tagaste nos oferece um verdadeiro hino de louvor àquela luz que se contempla com os
olhos:

A própria rainha das cores, esta luz que se derrama por tudo o que vemos e por todos
os lugares em que me encontro no decorrer do dia, investe contra mim de mil maneiras
e acaricia-me, até mesmo quando me ocupo noutra coisa que dela me abstrai. Insinua-
se com tal veemência que, se de repente me for arrebatada, procuro-a com vivo desejo.
E se ela se ausenta por muito tempo, a minha alma cobre-se de tristeza. 6

Depois de tão bem expressar as alegrias e os deleites proporcionados pelo sentido da visão,
Agostinho considera que esta luz contemplada pelos olhos é somente um reflexo daquela luz
transcendente que é mais atraente e brilhante do que esta material. Em seguida, o bispo de Hipona
narra algumas das danosas consequências do exagerado afã de tudo querer ver:

Quanto à luz corporal, de que falava, com sua doçura sedutora e perigosa, é um dos
prazeres da vida para os cegos amantes do mundo. [...] Resisto às seduções dos olhos,
5
SANTO AGOSTINHO. Confissões, Livro X, cap. 35.
6
Ibid. cap. 34.
4
para que meus pés, que começam a trilhar teus caminhos, não fiquem enredados.
Elevo a Ti olhos invisíveis, para que libertes meus pés de seus laços. Tu não cessa de
livrá-los, porque sempre estão a se prender.7

No pensamento agostiniano, tal é a força do sentido da visão e sua relação com o processo
de conhecimento, que na linguagem quotidiana os olhos parecem usurpar as funções atribuídas a
cada um dos demais sentidos

De fato, ver é função própria dos olhos; mas muitas vezes nós usamos essa expressão
mesmo quando se trata de outros sentidos aplicados ao conhecimento. Nós não
dizemos: ‘Ouve como isto brilha’ – nem: ‘Sente como isso resplandece’ – nem:
‘Apalpa como isto cintila’. – Para exprimir tudo isso dizemos: ‘ver ou olhar’. E até
não nos limitamos a dizer: ‘Olha que luz!’, pois apenas os olhos nos podem dar esta
sensação – mas, dizemos ainda: ‘Olha que som! Olha que cheiro! Olha que gosto!
Olha como é duro!’ Por isso toda experiência que é obra dos sentidos é chamada,
como disse, concupiscência dos olhos. Essa função da visão, que pertence aos olhos, é
usurpada metaforicamente pelos outros sentidos, quando buscam conhecer alguma
coisa. 8

Entretanto, quando o Bispo de Hipona fala de visão, esta deve ser entendida como o
conjunto da percepção dos cinco sentidos em que os olhos representam o paradigma desta
experiência. Ele também considera que é possível distinguir claramente a volupias da curiositas
quando estas estão relacionadas com os sentidos. O voluptuoso procura o prazer através daquilo que
é: “belo, melodioso, suave, saboroso e agradável”. 9 Entretanto, aquele que é movido pela
curiosidade chega até mesmo a desejar o contrário, ou seja: o feio, o cacofônico, o grotesco e o
desagradável. Não para expor-se ao sofrimento, mas por sentir-se impulsionado pela excessiva
paixão de conhecer e de experimentar.

Santo Agostinho apresenta como exemplo, o fato de alguém que vê um corpo humano
dilacerado. Não podemos dizer que isto consista num prazer para os sentidos, pois tal visão
necessariamente tende a causar horror. Entretanto, quando há um cadáver, todas as pessoas correm
para se entristecer e empalidecer. Depois disso sentem o temor de revê-lo em sonhos, como se
alguém os tivesse obrigado a contemplá-lo. O filósofo de Tagaste afirma que é esta curiosidade
mórbida que faz com que se exibam monstruosidades nos espetáculos. Também é devido a este
sentimento que o homem deseja perscrutar os segredos da natureza exterior, cujo: “conhecimento de
nada serve, mas que os homens buscam conhecer apenas pelo prazer de conhecer”.10

7
Ibid.
8
Ibid. cap. 35.
9
Idem.
10
Idem.
5
Três fases do conceito de Curiositas no pensamento Agostiniano

Nas obras de Santo Agostinho, o conceito de curiosidade assume distintos matizes. No


primeiro período de seus escritos transparece principalmente a dimensão epistemológica da
curiosidade. Esta se sobressai de modo especial em sua polêmica contra o materialismo
maniqueísta. Tal perspectiva é bem manifesta em um de seus comentários à parábola do filho
pródigo:

Ora, naquele país houve uma grande carestia, não a carestia do pão visível, mas a falta
da invisível verdade. Movido pela carestia, procurou o chefe daquele país. Este vem
entendido como o diabo, o chefe dos demônios, sob cujo poder vão a precipitarem-se
todos os curiosos, porque toda curiosidade ilícita é uma funesta penúria da verdade. 11

Numa segunda fase, ela é analisada principalmente em função de sua dimensão moral. Nas
Confissões ele afirma: “É a vã curiosidade, que se disfarça sob o nome de conhecimento e de
ciência. Como nasce do apetite de tudo conhecer, e como entre os sentidos os olhos são os mais
aptos para o conhecimento, a Sagrada Escritura chamou-a de concupiscência dos olhos”. 12 Santo
Agostinho também argumenta que este vício predispõe o homem ao pecado e foi devido a ele que
Adão e Eva perderam a graça de Deus. Para Ele, a curiositas é uma natural inimiga da serenidade
que leva o homem à “adoração dos fantasmas” que o sujeitam à variedade das formas.13

Na terceira fase de seus escritos, a curiosidade é analisada principalmente sob um ponto de


vista metafísico. Para o filósofo de Tagaste, a curiositas faz com que a alma desça das alturas da
contemplação para se entregar à satisfação das necessidades corporais: “Omnis anima indocta
curiosa est”.14 Por esta razão, quando o homem deixa-se levar pela natural atratividade oferecida
pelo sentido da visão, acaba dando um valor excessivo àquilo que vê como as vestimentas, os
calçados e as belas pinturas. Para Agostinho, o verdadeiro valor daquilo que vemos só encontra o
seu pleno significado quando nos levam a contemplar àquele que é beleza eterna e incriada.

Com efeito, cumpre recordar que nas Confissões encontramos também uma rápida análise
da “boa curiosidade” e sua relação com o processo educativo. Santo Agostinho censura o duro
método que seus mestres utilizavam para lhe ensinar o grego e enaltece o modo suave e agradável
com que paulatinamente aprendeu o latim, fazendo assim despertar em sua alma uma sã curiosidade
por esta língua.

11
Idem, Discurso 112/A. (Tradução própria).
12
Idem, Confissões, Livro X. cap. 35.
13
Idem, De Musica, Liber VI.
14
Cf. Idem, De Agone Cristiano, n. 04.
6
O trabalho de aprender inteiramente essa língua estrangeira como que aspergia com fel
toda a suavidade das fábulas gregas. Não conhecia nenhuma palavra daquela língua, e,
para me fazerem aprender, ameaçavam-me com terríveis castigos e crueldades. É
verdade que outrora, quando criancinha, também não sabia nenhuma palavra latina, e,
contudo instruí-me, sem temores nem castigos, só com prestar atenção entre carícias
das amas, entre os gracejos dos que se riam e as alegrias dos que folgavam. Aprendi,
sem a pressão correcional de instigadores, impelido só pelo meu coração desejoso de
dar à luz os seus sentimentos, o que não seria possível sem aprender algumas
palavras, não da boca dos mestres, mas daqueles que falavam comigo e em cujos
ouvidos eu depunha as minhas impressões. Disso ressalta com evidência que, para
aprender, é mais eficaz uma curiosidade espontânea do que um constrangimento
ameaçador.15

Desta forma, no pensamento agostiniano também se evidencia a importância da curiosidade


no processo de aprendizagem, pois ela nos predispõe a conhecer as coisas de modo afável, tornando
mais ágil e eficaz a prática do ensino. Em seus escritos, a curiosidade emerge como algo intrínseco
ao ser humano e que pode ser também considerada como uma característica determinante daquelas
almas de maior gênio e arte. Desta forma, no pensamento agostiniano, uma acurada formação
pedagógica deve também suscitar uma sã curiosidade nos estudantes, fazendo com que esta se torne
o verdadeiro motor que impulsiona todas as ciências.

Conclusão

Cumpre salientar que o estudo sobre o conceito de curiosidade visto sob uma perspectiva
atual parece ser de considerável importância no âmbito acadêmico. A razão disto é que o fenômeno
da neofilia, entendido como uma versão moderna da curiositas representa igualmente uma marcante
característica do pensamento pós-moderno. Com efeito, recentemente a curiositas vêm sempre
associada à temática do consumismo, da ética hedonista, do relativismo, da superficialidade e da
fragmentação do saber, bem como da perda do sentido histórico.16 Todas estas temáticas são
consideradas como manifestações do pensamento pós-moderno e que apresentam uma profunda
relação com a curiosidade. Entretanto, cumpre antes de tudo ressaltar que os diversos benefícios que
a tecnologia trouxe para o ensino em nosso tempo, favorecendo consideravelmente a pesquisa
daqueles alunos imbuídos do verdadeiro anseio de saber. Hoje, através dos meios eletrônicos, temos
acesso às principais bibliotecas do mundo, bem como aos mais recentes trabalhos científicos em
todos os âmbitos do conhecimento. Contudo, o que muitas vezes tem sucedido é que esta atual
geração nem sempre tem utilizado sabiamente estes recursos proporcionados pela cibernética,
dando origem a neofilia ou bulimia intelectual.

15
Idem. Confissões, Livro I. cap. 13.
16
Para um maior aprofundamento sobre as diversas características da post modernidade, ler: CHIURAZZI, Gaetano. Il
postmoderno: il pensiero nella società della comunicazione. Milano: B. Mondadori, 2007.
7
Desta forma, fazendo uma leitura contemporânea do pensamento de Santo Agostinho, é
possível constatar que no homem que é está dominado pela curiositas, não há propriamente um
progresso no ver, mas apenas um aumento quantitativo da visão. O curioso é aquele que mais vê,
mas não é aquele que mais entende o que viu. Contudo, o que caracteriza o verdadeiro desejo de
conhecer e que este sentimento dá ao homem a capacidade de sempre encontrar algo de novo
naquilo que é aparentemente comum e quotidiano. A curiosidade parece mitigar o natural desejo de
conhecer para substituí-lo pelo apetite de procurar somente aquilo que provoca prazer. Este
movimento é descontínuo e nele não há concatenação nem desejo de inquirir sobre o futuro. Uma
vez que viu o objeto que lhe despertou atenção, o curioso não se preocupa em tirar daí as
consequências oriundas deste movimento. Não se interessa em fazer com que o ato ver se converta
em saber.

Alguns dos seus efeitos são a inquietação interior, a inconstância de decisão e a volubilidade
de caráter. A inteligência derrama-se sem cessar no mundo exterior à procura daquilo que é novo e
insólito. O curioso, a cada momento deseja sempre coisas novas e desconhecidas, mas: “nunca o
novo no mesmo, o novo no sempre, a serena e progressiva penetração na substância do antigo”.17

A perversão da inclinação natural de conhecer em curiositas pode, consequentemente,


ser algo mais do que uma confusão inofensiva à flor do ser humano. Pode ser o sinal
de sua total esterilidade e desenraizamento. Pode significar que o homem perdeu a
capacidade de habitar em si próprio; que ele, na fuga de si, avesso e entediado com a
aridez de um interior queimado pelo desespero, procura, com angustioso egoísmo, em
mil caminhos baldados, aquele bem que só a magnânima serenidade de um coração
preparado para o sacrifício, portanto senhor de si, pode alcançar: a plenitude da
existência, uma vida inteiramente vivida. E porque não há realmente vida na fonte
profunda de sua essência, vai mendigando, como outra vez diz Heidegger, na
'curiosidade que nada deixa inexplorado', a garantia de uma fictícia 'vida intensamente
vivida'.18

O curioso torna-se alheio àquela tranquilidade do espírito e cada vez mais deseja lançar-se
no variado. Seu olhar vagueia por todos os lugares sem nunca adotar uma direção específica. Ele
nunca está satisfeito com o que tem e nem mesmo sabe o que procura. É então que se dá a troca o
verdadeiro desejo de conhecer, para substituí-lo pelo narcótico alienante da curiosidade que tudo
quer ver e sentir. Outro efeito da má curiosidade consiste na confusão mental. Esta provoca no
homem uma profunda crise de dispersão e de pulverização do saber. Na alma do curioso, as ideias
dificilmente apresentam entre si um traço de unidade lógica. Como não hierarquiza conceitos, seus
pensamentos normalmente discorrem num plano horizontal. E uma de suas consequências é que o

17
CEREZO GALÁN, Pedro. La admiración como origen de la filosofía, Convivium, n. 15-16 (1963), pp. 5-32. pág. 08.
(Tradução nossa).
18
PIEPER, Joseph. Virtudes Fundamentais, Lisboa, Aster, 1960, p. 280.
8
curioso acaba por dispersar-se na multiplicidade do existente, pois em sua alma todas as coisas
adquirem um mesmo valor.

Dado o que acima foi dito, não é difícil constatar como a nossa atual geração influenciada
pela neofilia, perde uma preciosa parcela de sua vida naquilo que Santo Agostinho denominava de
vã curiosidade. Quanto tempo desperdiçado numa literatura superficial em que se dedica páginas
inteiras sobre o lançamento de um novo celular ou em discursões sobre a vida privada dos artistas
de sucesso. Tudo isto nos faz recordar uma frase de Santo Agostinho e que oferecemos como
arremate do presente trabalho. O bispo de Hipona analisando a psicologia daqueles que se dirigiam
aos espetáculos de seu tempo, considerava que seus contemporâneos estavam com o “ânimo
cansado e atormentado pela fome e pela sede da vã curiosidade, e que inutilmente aspira a restaurar-
se e saciar-se com imagens vazias, semelhantes a alimentos pintados”.19

19
SANTO AGOSTINHO. La vera religione. Roma: Città Nuova, 1992. p. 159. (Tradução própria).
9