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Duarte Paranhos Schutel

A República vista do meu canto

Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Organização


de Rosângela Cherem. Florianópolis, 2002. Portal Catarina.

Duarte Paranhos Schutel


(1837 — 1901)

“Projeto Livro Livre”

Livro 600

Poeteiro Editor Digital


São Paulo - 2015
www.poeteiro.com
PROJETO LIVRO LIVRE
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Castro Alves

O “Projeto Livro Livre” é uma iniciativa que propõe o compartilhamento, de


forma livre e gratuita, de obras literárias já em domínio público ou que tenham
a sua divulgação devidamente autorizada, especialmente o livro em seu formato
Digital.

No Brasil, segundo a Lei nº 9.610, no seu artigo 41, os direitos patrimoniais do


autor perduram por setenta anos contados de 1° de janeiro do ano subsequente
ao de seu falecimento. O mesmo se observa em Portugal. Segundo o Código dos
Direitos de Autor e dos Direitos Conexos, em seu capítulo IV e artigo 31º, o
direito de autor caduca, na falta de disposição especial, 70 anos após a morte
do criador intelectual, mesmo que a obra só tenha sido publicada ou divulgada
postumamente.

O nosso Projeto, que tem por único e exclusivo objetivo colaborar em prol da
divulgação do bom conhecimento na Internet, busca assim não violar nenhum
direito autoral. Todavia, caso seja encontrado algum livro que, por alguma
razão, esteja ferindo os direitos do autor, pedimos a gentileza que nos informe,
a fim de que seja devidamente suprimido de nosso acervo.

Esperamos um dia, quem sabe, que as leis que regem os direitos do autor sejam
repensadas e reformuladas, tornando a proteção da propriedade intelectual
uma ferramenta para promover o conhecimento, em vez de um temível inibidor
ao livre acesso aos bens culturais. Assim esperamos!

Até lá, daremos nossa pequena contribuição para o desenvolvimento da


educação e da cultura, mediante o compartilhamento livre e gratuito de obras
em domínio público, como esta, do escritor brasileiro Duarte Paranhos Schutel:
“A República vista do meu canto”.

É isso!
Iba Mendes
iba@ibamendes.com
www.poeteiro.com
A REPÚBLICA VISTA DO MEU CANTO

PROÊMIO

Ora, eis-me aqui feito não sei bem o quê.

Cronista não; que não seria fiel narrador dos fatos na ordem de sua sucessão.

Historiador muito menos; que minha vaidade nunca subiria a tais alturas.

Simples noticiarista poderia fazer bom papel, destacando de tudo isso, para o
limbo essas apreciações e essas tiradas que só de mim se ocupam.

Não sei do que sou feito; também não me importa muito sabê-lo.

Cumpro a vontade de alguns amigos e possam eles agora ficar satisfeitos, que
contente logo eu serei.

...

Antes de começar a dizer o que me parece do que se passou de novembro de


oitenta e nove para cá, com respeito aos públicos negócios, é indispensável
mostrar a disposição do espírito em que então me achava para que bem se
possa compreender a feição do ânimo que ditou as apreciações, os juízos, a
escolha do assunto e até o estilo do que escrevi.

Conquanto as minhas ideias, os princípios que sempre professei, sejam bem


conhecidos, pois não os escondi nunca nos tribunais da imprensa, do
parlamento e dos comícios, em artigos, programas e discursos de cerca de trinta
anos, tão emaranhadas andam hoje as opiniões políticas, tão revirados os
crentes e tão falsos os rótulos assim como os próprios conteúdos, que não será
demasiado o meu propósito.

15 DE NOVEMBRO DE 1889 – SEXTA-FEIRA

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Cerca de... da tarde foi visto na Assembleia um designatário da Corte que dizia
no governement, no exchange. Grande impressão, dúvidas sérias, sentido
impossível de perceber. Ideia primeira: morte do Imperador, levantamento
República.

Às três e mais, o Presidente Provincial chama a pressa chefes Liberal.

Às cinco, antes, telegrama: (Scharf) prisão, ministros depostos, Imperador


preso, Ladário morto – Deodoro à frente das tropas proclamação, República
amanhã.

Às sete – Bocaiúva, telegrama ao comandante do 25: toda prudência.

Às oito – Cidade pacífica: poucos grupos. Clube Republicano aberto, poucos


membros – Palácio quase fechado. Duvida-se geralmente da segurança e
estabilidade do golpe.

Às sete, chega vapor do Sul – Gaspar recebe a bordo cópia telegrama do Sul e
Norte e outros vêm chegando. Desembarca. Fala-se na volta Gaspar ao Sul.

16 DE NOVEMBRO DE 1889 – SÁBADO

Ver telegrama Jornal do Comércio. Fala-se prisão Gaspar. Movimento tropa –


praça. Gaspar preso, Estado-Maior Quartel do Campo. Continuam autoridades
policiais. Presidente e repartições suspendem expediente. Ver
nota... do Conservador. Não houve sessão. Falta número Assembleia.

17 DE NOVEMBRO DE 1889 – DOMINGO

Comandante 25 levado ao Clube Republicano... deste, que o foi buscar no Hotel,


sai... por seus membros e vai ao Palácio. Intima Presidente a entregar-lhe o
poder e se empossa com mais dois membros: Raulino Horn, Chefe Clube,
e Bayma, Chefe Conservador. Manda abater bandeira imperial e içar bandeira
Clube e quebrar a alavanca coroa nas armas brasileiras ático Palácio. Presidente,
seguido amigos e membros novo Poder segue Praia de Fora.

Antes, da janela Palácio Presidente, há trinta ou quarenta pessoas na rua,


gritam Viva a República! – Foguetes - Demitido Comandante polícia e
nomeado Firmino, pai de duas raparigas?

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Chefe polícia Capitão Firmino – Chefe poder Comandante 25, ajudantes ou
membros, dito Raulino e Bayma– Gaspar incomunicável – A tarde passeata
militar exclusiva, música, foguetes pela cidade. Ver Boletim.

Consta Imperador embarcado para a Europa – na despedida foi-lhe dado cinco


mil e oitocentos contos mensais -

Consta ordem embarque Gaspar preso para Rio de Janeiro.

Gaspar (insultado na prisão pelo) comandante policial – Consta (denúncia


do Inspetor Alfredo) – (Diretor) Conservador se apresenta Palácio, declara aderir
(e oficializa) seu concurso.

Partido Liberal passivo.

18 DE NOVEMBRO DE 1889 – SEGUNDA-FEIRA

Repartição... comunicação – Governo Provisório a Tesouraria Provincial,


incorporado vai apresentar-se a Palácio.

Câmara reúne sessão extraordinária e adere. Foi por ato Governo Provisório
extinta a Assembleia Provincial – Abateu-se a Coroa na Alfândega e na
Tesouraria Geral.

Ordem às repartições para vigorarem as Leis e regulamentos respectivos.


Continuam ainda os Empregados.

Telegrama anuncia nomeações. Lauro Muller Governador (?) do novo Estado.

Ver boletim intimação e resposta Imperador que ontem seguiu Europa


vapor Alagoas.

Banquete Clube Republicano oficiais à noite, hoje oficiais – Major 25, assume
comando Batalhão, Alcino ajudante – Ordem da Tesouraria Geral aceitar
bilhetes Banco -

Trabalhador (Alfredo) despedido por não querer subir (perigo) e abater Coroa .

19 DE NOVEMBRO DE 1889 – TERÇA-FEIRA

Pela manhã cedo espalha-se notícia revolta parte tropa Batalhão 25 – Fala-se
mortos, feridos e fugidos – População assustada – Continuam os empregados.
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Diversas Câmaras Municipais do Estado de Santa Catarina declaram aderir à
nova forma do Governo (Ver Jornal do Comércio de hoje).

A declaração de extinção da Assembleia Provincial não atinge a Secretaria da


mesma (repartição), segundo explica o Governo Provisório -

Chega vapor inglês do Rio de Janeiro e parte às três horas levando Camargo que
estivera acompanhando Gaspar.

Chegam jornais...

Testemunha (Alexandre Ignácio) narra ocorrência... – Há cerca de cento e vinte


e seis praças do Batalhão 25, o resto destacamentos pelo interior. Voltou a
música e o comandante (Major 25) ao quartel – às dez horas mais ou menos. Em
motim estavam os soldados que aí ficaram de prontidão, quase todos armados
porém sem munição, que por acaso não havia sido distribuída nesse dia.

Major fala para os soldados se acomodarem e recolherem: querem eles


também fazer uma passeata. Major repreende e manda que se recolham –
desobedecem e exigem que a música os siga. Major, para (desviá-los), concorda
no passeio: ele irá, mas em ordem, como militares.

Querem a bandeira: mas já não temos. Nós queremos, está bem, iremos ver a
bandeira: essa não, não é nossa é dos paisanos; queremos a nossa, nacional.
Vem a bandeira – Saúdam-na com vivas ao Imperador, obrigando Major a
saudar – Vão sair – Major de acordo, manda numerar e formar: cedem,
numeram até quarenta, formam e toca o hino nacional.

Dão volta Rua do Vigário, praça, Rua da Cadeia, Menino Deus e Campo do
Manejo. Chegando, já oficiais eram reunidos e armados, arrecadamento
acautelado, munição passada à casa particular.

Recebem voz de prisão: resistem, um volta ao Major e o diz traidor e vai feri-lo.
Ordenança desvia o golpe – Major manda afastar a música e ordena fogo: caem
alguns, fogem outros, muitos presos. Um atira sob alferes Olympio, salvo por
Capitão Firmino que mata o soldado.

No xadrez, outro vai sobre o mesmo cadete sustado pelo mesmo Capitão que
ameaça revólver. Até de manhã ainda se prendem. Na praça um cadete é
atirado por um soldado, mas não acertou – Na Polícia um soldado é espancado
e mal ferido -

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Alfredo Gama D'Eça, chamado, custa a ir e encontrando a passeata foge para
casa. Toda a família vai dormir no Mato Grosso .

Sai a tarde o primeiro número do República – jornal oficial, artigo Conservador e


da mesma oficina. Liga e influência manifesta do artigo Partido Conservador no
poder – representado Bayma.

(Consta reservado figura armada especial soldado leva causa do comércio).

20 DE NOVEMBRO DE 1889 – QUARTA-FEIRA

Não houve ato Governo Provisório. Chegou o paquete do Rio – Notícias –


Câmbio – telegrama 27, comenta-se fugida Alfredo Gama D'Eça. Estavam presos
os soldados menos cinco ou seis.

Afirmam reservado Elyseu B. que não existe influência conservador. Sai número
dois do República.

21 DE NOVEMBRO DE 1889 – QUINTA-FEIRA

Atos Gerais e daqui, vide República. O jornal oficial não toca no negócio dos
soldados, apenas narrado sucintamente Jornal do Comércio – Boatos: que
receando-se qualquer tentativa do Rio Grande, resolvera-se apressar a saída
de Gaspar, ordem pois, Laguna seguir diretamente para o Rio de Janeiro
levando Gaspar mas temendo... Vilella e Souza, contra – ordem; esperado
o Vapor Guerra trazendo Governador e voltando Gaspar; povo... força terra do
Sul apoio Gaspar (senso).

Jantar ou almoço: governador recebe telegrama. "Vamos ver quem é essa boa
pessoa, e o que quer". Abre, lê e pergunta a Firmino "Conhece essa peça?" "– É
um homem distinto, digno, considerado, importante". "É boa pessoa, já devia
estar enforcado".

Souza e outros deputados se despedem. "Os Srs. são boas pessoas, e como
ainda quero lhes aproveitar os serviços, vou mandá-los meter no xadrez".

Quando o filho de Gama D'Eça fugiu,... estava com o pai, e todos fugiram Mato
Grosso.

***

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Decreto n° 1 – de 15-11-1889.

República federativa Descentralizada.

Integridade da Nação.

Autonomia e independência dos Estados.

Liberdade completa e soberania do município.

Governo do povo pelo povo.

Constituição definitiva de cada Estado – Eleição de seus corpos deliberativos e


seus governos locais.

07 DE JANEIRO DE 1890

Era isto o que se esperava? Seria isto o que estava planejado?

Na verdade é preciso confessar que por mais esforço que se empregue, talento,
boa-fé e calma em compreender as relações da causalidade, lógica e
combinação racional, no conjunto dos fatos que se têm sucedido de 16 de
novembro até hoje, nunca se poderá tirar outro resultado se não a convicção da
mais completa desordem.

Bem havia eu suposto quando asseverava que tudo marchava naturalmente,


todas as vezes que a minha vista censuravam os atos estranhos do Governo
Provisório – Natural, tudo isso é bem natural.

É incontestável que um golpe de Estado não deve, não pode se prolongar: de


sua essência é ser efêmero. Uma vez dado, tem de cessar, desaparecer, retirar-
se e ceder o lugar às suas consequências, ao fim para que surgiu.

Sempre que assim não for, segue-se-lhe a desordem, a anarquia, e daí o


absolutismo

RIDÍCULO

Hoje (19 agosto) pela manhã, mais um espetáculo ridículo deu o Comandante
Militar.

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Pela manhã cedo, chovia bastante, o tempo barracoso de há 8 dias continuava
frio e escuro. Foram com aparato usado, trazidas as duas peças da fortaleza e
formou-se no campo do quartel, de uniforme de brim, toda a força militar da
guarnição.

Debaixo de constante aguaceiro fizeram algumas evoluções, correndo o


comando de um lado para outro sem necessidade ou disposição de manobra.

Afinal, vem ele colocar-se ao lado de um fotógrafo ai postado para tirar a vista
desse grande grupo.

Mandava o fotógrafo com a mão esquerda que os praças se arrumassem para a


direita, mandava o comandante com o braço que passassem para a direita; e
não se conseguira nada; por fim o fotógrafo fez sinal de firme e lá se tirou a
vista.

Somente o comandante tinha feito afastar e recuar os oficiais que se lhe


aproximava para sair bem destacado!

Até onde irá esta gente?

O comandante do distrito militar, um coronel do Exército, manda seu ajudante


de ordens ao Palácio queixar-se ao Presidente do Estado de... terem algumas
praças do guarda do Palácio mofado , rindo-se de um soldado que ali fora levar
ofícios!

Outras quejandas anedotas referem-se ao mesmo comandante.

Causa lástima que se deixe assim cobrir de ridículo aquele que tem por dever
rigoroso realçar o prestígio, o respeito e o pundonor de tão importante posição.

Mas é que, em geral, os homens que não sabem zelar aqueles brios, são sempre
dotados de outras qualidades procuradas e aproveitáveis aos tiranos.

Nem um escrúpulo, subserviência inconsciente, brutal execução nas ordens a


cumprir, rancor, crueldade, superstição e pusilanimidade são os dotes que
tomam tais homens útil instrumento nas mãos do despotismo.

14 DE DEZEMBRO DE 1890 – A CORRUPÇÃO

Tenho repetido que o maior mal que nos deixou a Monarquia foi a corrupção:
todos os outros podiam ser extirpados rapidamente, aquele, porém, só de
geração em geração se irá consumindo.
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E não fosse a corrupção, a República viria suave e naturalmente, como já é
própria da civilização atual nos povos cultos.

Nascida muito embora de uma sublevação militar, a instituição da República, se


a sua testa estivessem homens de caráter sério e tino político, de convicções
bem firmadas e planos assentados, – não se acharia hoje comprometida e na
difícil luta com o absolutismo, sem que se possa prever qual o resultado de
tantos embaraços.

A corrupção desceu do alto da corte e invadiu uma por uma todas as camadas
sociais.

Ao atravessar as diversas classes, encontrou a corrupção um aliado natural e já


com trabalho adiantado por conta própria: o mercantilismo.

A DITADURA

Muita curiosidade fornecerá a história se registrar os fatos como eles se vão


passando nesta terra, sob o domínio da ditadura militar.

Entre tantos, não convém esquecer o seguinte que bastante me impressionou e


que referirei dizendo as coisas como elas são, e deixando de lado essas ficções
que tanto prejudicaram a monarquia.

A ditadura vendo que encontrava resistência invencível para tornar-se efetiva


forma de governo, convocou um Congresso, anunciando-o como Assembleia
Constituinte.

Ao mandá-lo, porém, eleger-se, faz um projeto de constituição e o decreta,


declarando, entretanto, não entrar em vigor senão na parte eleitoral ou que diz
respeito à organização do Congresso.

Já aqui começa o imbróglio.

O mesmo decreto manda que só funcionasse o Congresso como constituinte no


ato de julgar o projeto apresentado, não podendo como tal tomar outra
qualquer deliberação.

Ora, qual foi o primeiro ato do Congresso?

Investir o Chefe do Governo chamado provisório, de todos os poderes


nacionais: isto é, a ditadura .
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CONTRASTE

Depois de imposta a chamada República do Brasil, no Estado de Santa Catarina


tivemos desde logo o governo de uma junta de três membros, composta do
comandante do batalhão, um médico militar e um paisano.

Tratou-se então de indicar o Clube da República, de nome um para ser nomeado


pelo Governo Geral.

Foi assim nomeado o oficial de curso Lauro Muller, tenente governador deste
Estado.

A imitação do que se fez no Rio, expediu ele um regulamento eleitoral e


encomendou uma Constituição, feito o que convocou uma Constituinte, que foi
incumbida de aprovar a Constituição e de eleger o governador e seus
substitutos.

Tudo isso se arranjou e Lauro Muller ficou no poder, inventando festas,


distribuindo propinas, cantando glórias, a descansar na vanglória do palácio. O
golpe de Estado, a ditadura de Deodoro, fez estremecer o Brasil todo.

Rio Grande do Sul levantou-se.

A ditadura estendeu o braço para o sul. Santa Catarina sofreu os efeitos do


estado de sítio, a pressão do despotismo, pois o governador aderiu à ditadura.

O movimento do sul estendeu-se.

No Rio de Janeiro estalou a Armada e o Ditador foi deposto.

Os governadores que haviam acompanhado a ditadura baquearam; Lauro


Muller voltava a aderir ao novo estado de causas, e já preparara terreno,
desbravado pela representação no Congresso, toda sua.

Foi então que tomou vulto a oposição. Sua causa era a mesma da revolução do
sul. Deu-se o movimento popular. Lauro Muller deixou o poder ante a vontade
do povo.

Imparcialmente, observados os fatos e a situação do Estado nesse momento,


pode-se com segurança afirmar que a opinião pública era francamente contra o
governador.

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Deixando de lado agora tal estudo, consideraremos só o fato da deposição .

Convidado o povo para um meeting e exposto o motivo dessa reunião, todas as


razões pelas quais se julgava impossível a continuação de Lauro Muller no
governo, tornado ele impopular e incompatível, foi essa reunião por
unanimidade declarada permanente.

Com efeito, o povo se aglomerou na praça e aí crescia de hora em hora,


chegando grandes grupos de fora da cidade.

Diversos oradores arengavam ao povo e eram aclamados com entusiasmo e o


movimento redobrava constantemente, multiplicando-se os manifestantes e
exaltando-se já com violência os ânimos.

A praça toda, até a frente do Palácio as praias e ruas adjacentes estavam


repletas de povo.

A MENTIRA

Desde 89 têm sido em minha terra os fatos públicos acompanhados de uma


circunstância que por fim já me causa uma repugnância e enojo invencíveis.

Horas depois da sedição militar no Rio de Janeiro, começou a prática de um


vício que com pretensão à tática tornou-se pelo seu bom efeito circunstância
indefectível de qualquer movimento político ou simplesmente ato público com
alcance político.

Essa circunstância é a mentira.

Parece impossível, mas a mentira não só se tornou habitual e foi despida


daquelas hesitações, daquele temor que sua natureza lhe impõe, mas até
alcançou produzir os mesmos efeitos da verdade, roubando-lhe sua força e
virtude.

A apreciação do papel que a mentira tem representado no Brasil durante todo o


período da chamada República, a não encher um livro que chegaria a enjoar,
dará para um capítulo que não deve ser esquecido pelo historiador, e que
oferecerá curiosas e peregrinas considerações ao estudo da corrupção dos
povos e a análise do espírito público debaixo da influência dos princípios
filosóficos desregrados da civilização moderna.

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Já de há mais tempo a mentira se tinha insinuado sorrateiramente na imprensa,
tomando diversas formas, disfarçando-se como o medo e recuando, e
escondendo-se o melhor que podia, quando apercebida e denunciada.

Ainda um certo receio, de descrédito obrigava a imprensa a fechar suas portas à


mentira descarada.

Subsistia por enquanto alguma coisa de sério no meio da crescente invasão do


vício; e a mentira só conseguia vida e triunfos efêmeros.

Vem porém o momento de ser necessária a mentira para a salvação pública, e


ela iniciou o seu reinado, assenhoreando tudo, tudo invadindo.

Daí não tem mais sido possível contê-la, nem há forças que lhe resista: os fatos,
a razão, a evidência, tudo ela avassala e rende.

Se acaso o absurdo ou o extremo ridículo a ferem... é tarde, já ela tem


produzido seus efeitos desastrosos.

Como pode a mentira de tal forma elevar-se?

Que meio empregou para destruir aquelas cadeias que a prendiam ao posto de
malfeitor?

Como tão de súbito fundou tamanho império?

Foi em novembro de 89 que se fez essa revolução. Já o disse nos meus artigos
do Gazeta do Sul.

Aqui o movimento republicano foi mentira.

Quem fez a República neste Estado como em todo o Brasil, foi o telégrafo: a
sedição militar apossou-se em primeiro lugar do telégrafo e entregou-o a
mentira.

O primeiro telegrama daqui passado foi mentira, mentirosos foram daí por
diante todos os recados.

A SEDIÇÃO

De longe vinham preparados os acontecimentos que desgraçadamente


acabamos de presenciar. Depois da revolução que fez cair a Lauro Muller,
ficando ela incompleta pela subsistência da representação na Câmara e no
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Senado, dos mesmos que formavam parte do governo deposto, em torno desse
foco de reação começou a se formar um grupo de partidários sem bandeira,
sem programa, sem ideia, mas que se iam ajuntando levados pelo mesmo
motor, unidos pelo interesse pessoal que o acaso ligava.

Nem a escolha de meios, nem o sacrifício de dignidade e de honra, serviam de


embaraço a essa ligação do mais heterogêneo e híbrido pessoal.

As circunstâncias anormais da sociedade, os erros da alta administração pública


da União, o descalabro dos caracteres foram circunstâncias as mais favoráveis a
dar bastante coesão àquele grupo a fazer nele nascerem ideias que deviam
germinar enfim satisfatórias para todos.

Enfim, era o poder que dá as propinas, que sacia as ambições e contenta os


interesses.

Lenta e gradualmente foram obtidos mil pequenos favores, que bem explorados
se transformavam em elementos proveitosos, e de concessão em concessão, de
compromisso em compromisso se organizou esse conjunto de força que
pareceu suficiente para a ação.

Se os meios para obter tais elementos não se pejavam de baixeza e servilismo, a


argamassa que os ligava não eram menos indignos a mentira a mais assombrosa
e disfarçada, a aleivosia e o cinismo foram gastos em profusão e
exclusivamente.

Assim se formou a oposição. E uma vez julgando-se completa e forte, lançou-se


no terreno da ação.

Abriu-se afinal a luta .

Mas vejamos antes a posição dos lutadores, seus recursos, as almas de que
dispunham, vejamos o ânimo e as crenças que dominavam em cada campo.

De um lado, o Governo do Estado confiando, ainda que suspeitoso, na letra da


lei constitucional, sentindo os efeitos da manifesta hostilidade do Governo da
União; assistindo ao fornecer dos meios e a animação dos adversários, e
limitando-se ao calmo protesto e à exígua preparação de sua pequena força, só
descansando na opinião e apoio do povo. A opinião pública sustentava o
Presidente do Estado.

Programa autonomia federalismo independente. Sua defesa era a pequena


polícia.

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Do outro lado, a oposição só animada, só amparada pelas forças da união. Os
elementos com que contava eram tirados do Exército; do Exército saiam muitos
de seus chefes. Aos protestos dos adversários respondiam com insultos, e a
mentira e a intriga, alienando do Estado qualquer inclinação do Governo Geral,
desafiando todos os ódios, azedando todas as relações de seus adversários. A
intervenção do Exército animava a oposição.

Sem meios de ação e sem soldados. Qualquer manifestação na Capital era


impossível porque a causa da oposição é aqui impopular.

Uma arruaça fora sem efeito pela falta de povo: o grupo é diminuto. Foi pois
preciso começar o movimento pelos municípios do interior.

OS TRIBUNAIS

Se nos países regularmente constituídos, o poder judiciário tem necessidade de


ser o distribuidor da mais íntegra e cabal justiça, posto que a marcha normal dos
outros poderes não lhe exija grande sacrifício para isso: — nas épocas de
comoções políticas, de crises e durante os trabalhos de organização das
sociedades, a justiça se torna de extrema importância.

Os abalos e movimentos atropelados dos poderes organizadores lançam o povo


em tal desordem e dificuldades, que é indispensável haver um ponto de apoio
firme, poderoso e seguro para não deixar desmoronar-se o edifício social.

A justiça então tem o seu mais brilhante, mais necessário e mais profícuo papel.

Nas lutas abertas pela política nas revoluções, se do adversário, se do inimigo


nada há a confiar, nada a esperar, na justiça se há de encontrar aquelas
garantias de segurança e de liberdade que não podem faltar na humanidade e
são certas no seio da civilização.

Nas sociedades modernas há o cuidado de erguer bem alto, bem sólido o trono
da justiça, inabalável, livre e seguro em sua ação, e ai daquele que não se vê no
seu seio levantar-se sobranceira essa guarida dos direitos de seus membros.

Podem, muito embora, a opressão, o arbítrio, a perseguição, a violência, até o


crime, todas as armas do despotismo e da tirania, alcançar e ferir o povo: ele
lutará, repelirá, vencerá se puder, — ou cederá, cairá e será esmagado. Mas,
antes de emudecer no embrutecimento da escravidão, os seus brados de dor e
indignação, os seus gritos de desespero, o seu tremendo clamor de vítima irão
vibrantes reclamar, levar aquele trono à justiça e depositar em suas mãos a
punição do crime e a desafronta de sua liberdade.
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Confiados na justiça os membros de sociedade, descansam sobre seus direitos
naturais e sociais, cuja guarda a ela entregam.

Daí vem a suprema majestade do poder judiciário, daí a liberdade,


independência e força dos tribunais de justiça.

Ali eles esperam, eles querem encontrar o juízo imparcial, igual e severo de
todos e para todos; é a esperança para suas atribulações, é a consolação para
suas dores, é a reparação para suas ofensas, a garantia para seus direitos e sua
liberdade.

Quebre-se tudo, subsista a justiça, o homem ainda se acha seguro, se sente


forte e espera, e a esperança é a vida.

Mas, tirai-lhe aquele paládio, e a consciência estremecerá aterrada: que outro


poder a salvará?

Ora, mais cruel, mais bárbaro do que tirar-lhe a justiça, é dar ao povo falsos
juízes.

O tribunal em que ao lado dos juízes se não assenta a sã razão, a imparcialidade,


a liberdade e severa observância da lei, é mais do que um perigo para a
sociedade, é a sua destruição.

Entretanto, foi em um tribunal, e no supremo tribunal do Estado que se


desencadeou a paixão vulgar dos partidos, daí banindo todos os sagrados
atributos da justiça.

Foi no Supremo Tribunal que partiu o mais fundo golpe na moral pública, o mais
pungente desafio ao espírito público.

DESPOTISMO

Será isto governo?

O que quer o Marechal Floriano?

Também não sei, se fale dele ou de seus ministros fazem eles o que quer o vice-
presidente, ou faz este o que resolvem seus ministros?

Entrarão eles em acordo?

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Não parece nada disto exato.

Os disparates nos despachos, as respostas desencontradas, as resoluções


singulares e contraditórias, deixam ver que cada um vai para seu lado e governa
como lhe parece. Somente, vê-se preponderar, vigorar por fim, a vontade do
vice-presidente, qualquer que tenha sido a decisão ministerial, e até o
precedente juízo do próprio chefe do executivo: sua vontade de hoje anula
todas as ordens dadas.

Plano, não existe.

O que agora se julga indicar um cálculo, é desfeito logo por outro ato que indica
nova intenção.

É viver por dia.

É caminhar aos trambolhões, é andar por não estar parado; não olhar para
diante; saltar aos tropeços ou quebrar os obstáculos, custe o que custar;
aprontar instrumentos para combater empecilhos e destruí-los depois; atordoar
e atordoar-se; vencer uma dificuldade criando duas... a vertigem, o turbilhão, a
loucura!

FALSA REPRESENTAÇÃO – FALSO PODER

Quando uma vez no tempo da Monarquia, ouvi no Diretório Liberal de que fazia
parte, propor-se a abstenção nas eleições o que se ia proceder, opus-me com
todas as minhas forças entendendo que o partido que se abstém, suicida-se.

Mais tarde, vencido pelas circunstâncias, tirei da abstenção a que fui forçado, as
vantagens possíveis; por uma curiosa estatística, na Capital feita nominalmente,
demonstrei que o senador então escolhido havia sido eleito pela quarta ou
quinta parte apenas do eleitorado, pois tanto era o que tinha ascendido às
urnas: não podia portanto representar-se a vontade do povo.

Isso porém, nenhum efeito produziu, visto como a lei não dispondo na casa, o
eleito foi reconhecido e ocupou com a maior naturalidade sua e de todo o
mundo, aquele cargo até sua morte.

Lancei mais essa nota no capítulo da corrupção na Monarquia.

Tempos depois, já na República, tratava-se da primeira eleição.

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Na imprensa, aconselhei ao povo toda a hombridade, aproveitando a liberdade
que prometia o governo e os homens da situação.

Era preciso que começasse desde logo a educação do povo, a democracia devia
implantar-se na sociedade partindo de baixo para cima, o centro da resistência,
nas massas populares.

Adoeci. Conquanto não podendo trabalhar, fui procurado pelos antigos


companheiros. Mas já eu tinha estudado a situação e vira que a mentira estava
dominando e que tudo era falso; o regulamento eleitoral desmascarou o poder.

Havia então só um meio.

Era a abstenção.

Mas, abstenção absoluta completa, universal. Considerando a situação extrema,


não hesitei, aconselhei abstenção, e eu próprio dei o exemplo: nem votar nem
ser votado.

Isto quanto às urnas.

Quanto ao mais, nada aceitar cargos, empregos, nomeações.

Renegar todas as funções públicas. O meu princípio era obedecer e não


reconhecer.

Não fui compreendido, não tive companheiros. O futuro me justificou.

***

Sempre a mesma ideia!

Quando foi deposto Lauro, Paula Ramos aliciou entre os colonos alemães
mercenários a tanto por dia para vir à Capital defender o Governador contra as
manifestações desarmadas do povo que pedia resignasse o poder.

Por ocasião de acudir ao ferimento de Severo, falando com os médicos que em


casa dele se achavam, eu disse: "o maior mal que esta gente podia fazer a nossa
terra, era este: acender o ódio de raça; chamar alemães, para combater
brasileiros é da mais malvada barbaridade!"

16
Daquela vez foram frustrados os planos desses loucos; agora porém eles
surtiram efeito.

O bom senso do povo havia conseguido destruir toda aquela planta que já ia
germinando e uma natural e louvável harmonia com os alemães, fez com que os
criminosos se servissem de outra taça.

Já agora foram Polacos.

Engajados também a tanto por dia vieram para desta vez atacar o governo e
depô-lo. A animosidade que despertou este erro fatal estendeu-se ao coração
dos alemães.

INQUÉRITO

Vejamos.

Até 2 horas da noite no sossego, em silêncio, o palácio recebeu um fogo nutrido


vindo em distância dos quatro lados do edifício: tiros de espingarda.

Vinte minutos depois, cessou o fogo. Clareando o dia, o edifício, a praça, as ruas
adjacentes estavam cheias de povo que fazia causa comum com o governo.

Até aí ninguém se havia apresentado em palácio, senão oficiais do Exército: não


se tinha ouvido um "viva" – um "morra"; não se tinha visto um vulto paisano.

Quem atacou o Palácio?

Quem fez fogo?

Sabe o comando militar? Por que não o impediu?

Do Palácio respondera ao fogo corajoso, heróicamente, atirando ao acaso na


direção que traziam as balas recebidas; algum ferido, senão algum morto devia
se ter dado.

Não houve soldado ferido: não foram soldados que atiraram.

Não houve guarda cívico ferido: não foram os guardas cívicos que atiraram.

Não houve paisano ferido, nem foram os paisanos que atiraram.

Quem fez fogo então?


17
Do quartel ao 25 saiu aviso ao Presidente de que uma hora da noite o Palácio
seria atacado.

Os tiros acabaram ao toque de cessar fogo pela corneta do Quartel General.

Quem mandou dar esse toque?

Para quem se mandou tocar?

Quem obedeceu a esse sinal?

O fogo cessou.

Às 2 horas da noite o batalhão estava em quartéis. Ninguém viu passar do


quartel para a praça o batalhão, um pelotão, uma companhia.

Às 2 horas e 25', isto é 5' depois do fogo, pela praça e pelas ruas patrulhas de
soldados infantes e de cavalaria, em diversas diligências.

Ao começar o fogo tocou alarme ou a reunir no Quartel General: acudindo a


este toque foram vítimas os médicos militares Dr. Cordeiro e Freitas.

Pela frente do Quartel General se estendia uma linha de atiradores, o


comandante militar não os viu?

Não foram vistos os grupos armados no canto sul do jardim, adro da matriz, rua
dos Ilhéus, Vigário e outras?

***

O fogo partiu da Tolentino e da frente do Palácio do Governo, o comando não


viu?

Se as patrulhas já rondavam, como não prenderam os atiradores do canto do


jardim, da esquina das ruas Ilhéus e Vigário e adro da matriz?

O que andaram conduzindo desde as 2, 30' até às 7 horas para a Enfermaria


Militar?

***

A 2 pela manhã 8 horas telegrama.


18
A 1º — governo militar?

A 31 – governo Eliseu até 9:00 horas da noite.

A 30 – 2 madrugada – assaltos.

Dia 2 – 8 às 10 Escola de Marinha.

10 horas manhã capitania. A tarde Itapemirim.

Pela manhã guardas de polacos substituídos por tropa de linha.

Dia 3 – Eliseu, para evitar novo assalto, no dia 31 à noite escreveu


a Serra declarando que ele Eliseu conservava o poder, sua posição de
Presidente e todo o direito, e que ele Serra guardasse a segurança das
repartições e edifícios conforme se comprometera. Serra atraiçoando,
instala em palácio Hercílio e este aí esteve toda a noite do dia 31, dia 1º e 2 até
às 8 ou 9 da noite.

Dia 1º – guardas, câmara, cadeia. Palácio dos polacos.

Dia 2 – guardas da tropa. A 2 da manhã telegrama – Rio que continuaram todo


dia. Um a noitinha resolveu afinal a evacuação do palácio.

Dia 3 – Chegada do vapor com a polícia. As 10 e meia foi Eliseu dar contas ao
(Comandante). Mudados os guardas para policiais. Papel Capitania dos Portos.

PUNIÇÃO

Ao chegar o Dr. em frente à sapataria, dirigindo-se para o passeio fronteiro do


jardim, um dos estrangeiros que dali atiravam sobre Palácio gritou, "alto...
quem vem"?

– "O médico, militar..."

E não disse mais: caiu morto.

– "Mataste o Doutor do batalhão, canalha... toma!

E o estrangeiro caiu, como caíra o Doutor.

– "Oh, oh!"
19
E um outro tiro partiu, e outro corpo tombou nas pedras... era o soldado.

Outro estrangeiro vingara seu patrício .

Um polícia que, andando na figueira acudira ao fogo, presenciou a cena ao


chegar à esquina, puxou o corpo do médico para a calçada e correu ao quartel.

Acabara o fogo. Três praças montados foram vistos por mim vir daquele ponto a
trote largo, ir ao Quartel General e já voltarem com dez praças em fuzil e logo
estes, voltaram no caminho trazendo dois corpos feridos ou mortos, não sei.

Durante aquela cena, deu-se o ferimento do outro médico..

CÔMICO E CRUEL

Um dos conspiradores, e saliente, disse, poucos dias depois em uma roda: —


Estive no fogo, não o nego, andei de arma ao ombro, mas não dei um só tiro
que fosse. Quando me deram a arma, me recomendaram "cuidado com isso,
não vá se pisar".

— "Como?" Perguntei. "Carrega-se assim; porque se você não o fizer direito, em


vez do tiro partir para a frente, vem por trás e mata-o". — "Bom, disse eu
comigo, já não darei um tiro que seja; nada de arriscar-me a morrer, — e andei
só com a espingarda largando-a logo que pude".

Tudo isso era pronunciado com o tom de quem contava uma façanha, que se o
não enobrecesse, ao menos o fizesse simpático!

De sobre malvado, covarde.

É o mesmo que em São Francisco. Todo cheio de valentias e fanfarronadas pelo


telégrafo teve de embarcar fugindo às corridas.

NOTA

— Não era para admirar que os praças que agora chegaram fossem fazer fogo
ao governador (sic) em Palácio; mas os que já estavam aqui há mais tempo, os
do 25°,... atirar sobre uma gente tão boa, que trata tão bem os soldados... para
matá-los...

— Mas então...
20
— Nós somos dos últimos chegados, mas eu e mais uns companheiros não
demos um tiro; olhe recebemos cada um cinquenta cartuchos e mal tocou a
cessar-fogo, corremos pela praça abaixo e fomos na praia do mercado atirar ao
mar toda a munição inteirinha. Matar esta gente assim nossos patrícios
brasileiros...

— Meus filhos, da janela, viram algumas pessoas, de pardo, chegarem da praça


correndo, no momento de cessar o fogo, e atirarem uns na praia, outros n'água,
alguma coisa que não puderam conhecer. De dia acharam-se cartucho na praia
do Mercado.

O luar estava bem claro. A ação boa reserva o acaso sempre uma testemunha,
por mais oculta que se faça.

FIGURANTES

É um inepto vulgar.

Não podendo se fazer notável em coisa alguma, ainda moço, por gracejo, dizia-
se republicano. Casou, em cada filho pôs nome de um cabecilho rebelde ou
revolucionário, mais ou menos histórico.

Tornou-se maníaco e original.

Chegava ao escândalo e ficava satisfeito, achando graça no exagero de suas


parolices.

Na Monarquia, só falava gritando no dinheiro que recebia a Família Imperial; os


ministros eram lacaios, os senadores e deputados barrigudos, ladrões de cofres
públicos.

Tinha uma loja de papel com prateleiras vazias. Andava pelos secretários dos
ministros pedindo pequenos fornecimentos que emprestava a outros para ter
algum lucro.

Ultimamente era liquidante de um banco quebrado e disso vivia prolongando a


liquidação por muitos anos.

Decorou as passagens mais cruas da Revolução Francesa e o romance histórico


de Tiradentes.

21
Tinha fundado um clube com esse título; foi do tal clube que veio sua posição
no levante de 89.

A vaidade é o seu característico.

Vaidoso e pretensioso.

Sem experiência, sem critério, é susceptível com todo o enfatuado vazio de


mérito.

Talhado para cortesão de antecâmara, viu-se envolvido no levante militar de


onde saiu a República.

Mole, efeminado, tendo vivido na escassez da pobreza, tornou-se avarento e


ambicioso; nenhum escrúpulo desde que não ficasse prova.

Na Monarquia surgiam frequentemente vultos destes; alguns com talento


faziam certa carreira na política, os outros em geral eram lançados ao
ostracismo e o desprezo público os consumia.

A República achou na turba de suas conspirações grande cópia de tais


indivíduos, os quais têm sido aproveitados na falta de homens sérios.

A concentração não é, como na França, o arregimentar das forças puras para


ressalvar a ideia republicana. Contra a monarquia aqui a concentração é o
monopólio dos interesses nas mãos dos da ocasião e dos confessos de antes
para gozar os proventos, contra os outros republicanos.

Há homens que são como certos artigos ou transcrições – matéria de encher na


paginação do jornal.

CINISMO OU...?

O abaixamento do nível moral de uma sociedade, não é, com certeza, obra de


pouco tempo.

Esse medonho fenômeno que parece à primeira vista protestar contra a lei geral
do progresso, é antes um argumento em seu favor.

A natureza apressa a morte do tuberculoso para que se não propague o mal. Os


desastres que aniquilam tais sociedades são um beneficio para a humanidade.

22
O que tem se passado no Brasil há cerca de 3 anos chega bem para justificar a
ideia de que o nível moral deste povo baixou tanto que se apresentam
possíveis, e quem sabe se prováveis, as maiores calamidades públicas.

Em todo caso, tais apreensões não têm deixado tranquilo o espírito dos homens
sérios e observadores que ainda sentem bater-lhes o coração por aquele antigo
amor da pátria tão sagrado e puro.

Uma esperança nos anima entretanto, e se falaz no futuro, que nos alente até
deixarmos esta tão tormentosa como ingrata peregrinação da vida.

Para que sobre a sociedade possa recair o juízo daquele grande mal, nos parece
necessário que seus sintomas irrompam em todas as camadas, de modo a não
se poder extirpá-lo.

E isso o que ainda, cremos, não se dá, posto que em todos os Estados de tão
vasta nação se possa verificar sintomas bem claros da presença do vício.

MECANISMO

Há três anos e meio que foi mudada a forma de governo no Brasil, e ainda não
pude entender o mecanismo do que se sucedeu à monarquia.

Toda a minha boa vontade de democrata antigo e de sangue, toda minha


prática política veterana, não dão para tanto.

Por muito boa que fosse, a Carta trazia já em si um pecado original; os poderes
que se constituíam eram filhos espúrios da escolha do povo.

A federação começou pela ditadura, e nos Estados, como junto aos


incapazes de dirigir sua fazenda, está a espada da União no papel de curador.

A centralização é mais cruel e tirânica do que na Monarquia.

O estado foi lançado entre duas alternativas: a servidão, território da União, ou


a anarquia.

A SEPARAÇÃO

Poderão porventura fazer duradouro um tal estado de coisas?

Mas a anarquia pode ser um estado social?


23
Por muito que reflita sobre os negócios públicos do Brasil, não vejo uma solução
natural que comporte a existência de uma nação grande e importante e unida,
como a constituída pelo Império.

Ao contrário, quanto mais penso, quanto mais estudo a marcha dos


acontecimentos, mais me convenço de que tudo caminha para o fracionamento
deste imenso país.

É verdade que sempre cuidei ser este o futuro do Brasil, isto é, que em uma
época que se me afigurava muito remota ainda o Império cederia o lugar à
formação de várias nações, regularmente constituídas, conforme estava
indicando as condições geográficas de tão vasta porção da América do Sul.

Longe porém estava de imaginar que dentro de tão pouco tempo, ainda em
minha vida, se tornasse iminente semelhante fato. E o que mais é, tornar-se
uma espantosa catástrofe, aquilo que devera ser a mais natural e louvável
evolução.

***

Bem dizia eu muito que ainda teríamos de ver, quando há meses se queria
achar um plano preconcebido, estudando o procedimento do governo do Brasil.

Nem há planos, nem princípios, nem há programa nem coisa alguma definida.
Há só a vida dia por dia, o intento de vencer todos os obstáculos, o propósito
firme de conservar o poder.

Para isto, a cada dificuldade se opõe um meio enérgico e à medida da


resistência se chega facilmente aos extremos com a ideia de que esse extremo é
transitório e, vencido o óbice, tudo entrará na marcha normal: a questão é
vencer.

O que porém acontece é que essas crises vão se repetindo tão amiúde e tão
filiadas umas às outras que o estado normal já se tem tornado crítico
extremamente.

Apenas terminava a cruel e injustificável tentativa de deposição do governo do


Estado de Santa Catarina pelo Governo Geral, rebenta a revolta da Armada na
Capital da Federação.

O governo lança mão imediatamente do recurso que tem caracterizado a força


da nova forma de governo do Brasil: o telégrafo.

24
Por dois ou três dias fechou-se a comunicação para o Rio de Janeiro, sem se
saber porquê. Depois, ordem para não despachar navios para fora do Estado;
mais tarde a comunicação fechada para todo o país; e finalmente, notícia da
revolta da Esquadra, causa de todas aquelas ordens.

Os disparates que desde então se têm reproduzido chegam a provocar o riso no


meio dos transes por que passam o coração e o espírito e tão tristes condições.

Notícias de bombardeios na capital, mortes e desgraças, bloqueio da cidade;


ordens de resistência, de meter a pique qualquer navio dos revoltados, os
preparativos bélicos, a ausência completa de notícias outras, a ignorância de
todos os atos e resoluções dos governos e da sua atitude, tendo isto fazendo
suspender em absoluto o giro do comércio e as demais relações da vida
exterior, lançou a população em um estado de pânico e sobressalto tais que o
espírito mais calmo e refletido não encontra maneira de incutir tranquilidade
nos ânimos esmorecidos.

***

Uma das frases que hão de ficar de Napoleão III é esta:

– Imperador, foi visitar o castelo de Ham, onde tinha estado encarcerado como
revoltoso, e disse ao sair:

– Compreendo agora que é um crime atacar um governo estabelecido.


"Agora..." quer dizer hoje, atualmente, que eu sou esse governo.

E Robert-Macaire, preso pelos gendarmes, lhes fez uma proposição análoga:


"Vamos, que todo o mundo se abrace e que isto se acabe". (A. Karr – 1875 –
...Plus c'est la même chose).

01 DE DEZEMBRO DE 1893

Desguarnecido completamente o Estado, só as circunstâncias extremas em que


nos achávamos justificou obedecer ao impulso patriótico de sacudir o jugo da
tirania, aceitando o auxílio da armada revolucionada.

As forças de Floriano renderam-se no Desterro e o Estado consentiu na


instalação do Governo Provisório que lhe garantiu a autonomia .

A capital ficava ao abrigo de qualquer violência.

25
Havia porém uma pequena força em Lages, a título de guardar-se a fronteira por
parte da União, e no Araranguá outra maior com seu comandante, que
comunica ao resto do Estado, estar em completa paz e abandono.

Não se submeteu aquele comandante e recolhido o destacamento de Lages, fez-


se forte e hostil em insulto à Laguna.

A Revolução do Sul andava perto; emissários chegaram aos Governos


Provisórios e do Estado, dali passaram à fronteira em Lages.

Unificou-se a Revolução da Esquadra e da campanha, sob o Governo Provisório.

Levantada alguma força para ajudar no sul, fugindo à gente de Floriano, recebe
valioso reforço da tropa de Castilho e volta a assentar-se, fortificado no Tubarão
e amparado por Torres.

A fronteira do norte, ameaçada pelo Paraná, é invadida por exploradores de


Floriano. Lauro veio a São Bento e fez-se proclamar governador sendo corrido
horas depois.

Argollo, com maior força, invade o Estado e proclama-se governador, mas é


rechaçado e passa a fronteira de regresso, indo nossas forças no seu encalço.

Para acudir ao norte, desce de Lages a Cavalaria Saraiva, e mal se afasta é Lages
invadida por Pinheiro, é proclamado governador P.L.

Está pois o sul invadido por A. Oscar com Firmino contido no Tubarão.

Está Lages invadida por Pinheiro Machado, somada às descidas da serra.

A rendição do Paraná desafrontaria este Estado, ou a chegada de novas forças


da Campanha, que meteriam entre dois fogos Lages e Tubarão.

5 DE DEZEMBRO DE 1893

Assim como em 89 no levante militar, o governo do país ressentiu-se do vício


pernicioso de uma seita perniciosa, assim no Governo Provisório da Revolução
de 93, a mesma seita inocultou vício incurável.

O movimento de 15 de novembro trouxe no bojo um elemento mais nefasto,


mais fatal e mais repugnante aos povos do que o elemento militar: o domínio de
uma seita apoiada no poder da espada. É a tentativa absurda de fazer a
civilização recuar muitos séculos atrás.
26
O despotismo, a tirania de que tal domínio provém são de rápida duração.

Ora bem.

Já Pinheiro Machado está em Blumenau; mais um ponto ocupado pelos


Castilhistas.

Nas campanhas de recurso, é assim.

As revoluções porém não podem ficar nessa marcha improdutiva, a menos que
não seja auxiliada por outra campanha que vá reduzindo as forças inimigas.

Daí a revolta da Esquadra chamando a colaborar o Exército Libertador.

Daí o estabelecimento do Governo Provisório para a unidade de ação, e a


adesão de nosso Estado para centro de operações.

***

Da luta que se abate no Rio Grande tem de resultar uma fecunda consequência
para todo o Brasil.

Vão se medir no campo de batalha as tropas de linha, o Exército, com as forças


civis, os paisanos.

As condições do terreno, da moralidade e do número, são superiores da parte


dos revolucionários.

O Exército há de ser vencido.

***

O vício de origem deixou estragado todo o organismo do País no novo sistema


de governo.

A deposição do monarca e do seu governo, ficou modelo e exemplo, como


solução natural para as crises políticas, não só dos estados como também no
poder central.

Se muitas vezes a primeira deposição foi provocada naqueles, pelo despotismo


e tirania, nem por isso se julgam menos autorizadas as outras em represálias.

***
27
Em... de.... 189... sem um tiro, a pressão da vontade popular fez fugir,
abandonando o governo, um comparsa da primeira ditadura.

Em julho de 93 abortou a sedição armada da segunda ditadura; já o sangue


catarinense foi derramado.

Qual era a situação do Estado quando chegou a Esquadra?

Como foi recebida?

Em que posição ficara os dois governos entre si? Perante a ditadura?

Qual a atitude do Estado para com a Revolução Rio-Grandense?

O Estado foi conquistado?

Foi invadido?

Constituiu-se o território da ocupação militar? Procedimento do governo geral


revolucionário. Procedimento do governo do Estado.

Razões do auxílio que deu o Estado à Revolução.

7 DE DEZEMBRO DE 1893

A revolução de 93 tem gradualmente perdido a sua feição primitiva.

Iniciada no Rio Grande do Sul pela revolta popular contra o governo


de Castilhos, passou de estadual que era, a bater-se para sacudir o jugo do
poder central que chamaria a si a sustentação daquele governo.

Nessa luta, o despotismo se foi desmascarando, e, com o apoio da Assembleia,


firmou-se ele desassombradamente.

Levantou-se então a Esquadra intimando o Vice-presidente a retirar-se do


poder.

As duas revoltas mostraram o mesmo fim: a queda do déspota.

Elas se uniram no Estado cujo governo repeliu de si o poder despótico do centro


e o Governo Provisório estabelecido no Desterro foi reconhecido e aceito com a
constituição já promulgada e para mantê-la derribando o despotismo.
28
Já dois fenômenos vinham indicando uma nova feição, quando de simples
revolta se fez a revolução.

Em terra era o povo armado que combatia a tropa de linha ao serviço do


governo.

No mar, era a Armada que jurava a queda do déspota e nada aceitava para si.

Marchando os acontecimentos, do meio desses horrores da Guerra Civil, a nova


feição se tem ido desenhando e hoje bem se pode distinguir a ideia da
destruição do poder da espada no governo do país, como o resultado de toda
esta sangrenta e desoladora campanha.

Mais nobre, mais honrosa, mais justificativa é esta feição, que torna política e
correta a Revolução de 93.

Realize ela esse escopo, de proveito serão para a pátria os tremendos sacrifícios
que está custando.

Não é o soldado revoltado que combate o soldado da tirania – é o povo armado


que repele o soldado quando ele o embaraça.

Não é a Marinha que se levanta para partilhar o poder: é a Armada Nacional


que derriba o governo para que nele entre o possuidor de direito.

O verdadeiro soberano sente que se vai quebrar a espada que o afastava do


governo e prepara-se para tomá-lo em suas mãos.

É o povo que marcha para o poder.

12 DE DEZEMBRO DE 1893 – A CORTE

O poder é sempre poder.

Ou seja, a tirania de Rosas, o absolutismo de um Czar ou a Monarquia, a


Teocracia, ou a República de qualquer forma, sempre ao poder acompanha a
sua corte.

Gera a corte a intriga e da intriga vive ela, espalhando-se no ar que nutre o


poder, de maneira que este não mais subsistirá sem a corte.

29
Improvise de súbito o mais isento e desconhecedor de tal vício, e dentro de
poucos dias a corte aí estará declarada e em ação plena.

Parece que o poder menos sujeito a ser atacado desse vício, seria um governo
provisório – uma revolução por exemplo.

Sua existência efêmera, a rapidez do reduzido número das ambições logo


satisfeitas a incerteza, o risco e o pouco efeito das posições, parecem afastar
então as condições do aparecimento da corte.

Não é porém, assim.

Ainda em tais governos, o poder tão depressa se estabelece, sente na sua vida
logo os efeitos do grande mal que ele aspira no ar ambiente.

Como ai se introduziu?

Viria já com o próprio governo quando se organizou?

18 DE DEZEMBRO DE 1893

Deodoro dissolveu as Câmaras: assumiu a ditadura.

Castilhos aceitou-a no Rio Grande.

Armou-se uma revolução no Sul contra os ditadores: no Rio, a Esquadra se


levanta e cai Deodoro e é deposto Castilhos.

Sobe Floriano e aceita as deposições nos diversos Estados, a exemplo do Sul.

Castilhos prepare uma deposição, assalta o governo: Floriano tergiversa,


Castilhos vence. A reação foi tremenda.

Do seio das vítimas ergue-se nas mãos tremulas das vítimas o lábaro da
vingança.

A esse punhado de heróis revoltados nos campos, acudiam os perseguidos e os


exilados.

Cresceram, tomaram vulto e já os soldados, o Exército não os podia conter.

30
Interrogados responderam que sua questão era estadual: luta interna, nada
tinha a União com eles: seu fim era depor o governo despótico e ilegal do
Estado e ai paravam.

Castilhos pede auxílio a Floriano.

Este invoca a Constituição e envia forças e empenha-se na luta.

Declara-se então a revolução.

Expelir Castilhos e toda sua gente, era o fim, e para isso iriam até a separação.

O movimento era popular, civil.

Combatia o Exército, se os soldados lhe faziam frente.

Eis que a adesão de Wandenkock impressionou a Marinha, e a prisão deste e a


oposição dos deportados de Cucuhy, fez lavrar no Rio o fogo abafado de uma
revolta .

As desgraças no Estado de Santa Catarina repercutiram em todo o país e a


deposição preparada por Floriano foi sustada violentamente.

Dias depois a Esquadra levantou-se no Rio e abriu as hostilidades ao governo


de Floriano.

19 DE DEZEMBRO DE 1893

Onde está a soberania popular?

Como se manifesta?

Nos levantes, nos pronunciamentos?

Não. São rebeliões.

Nas revoluções?

O que é a revolução?

20 DE DEZEMBRO DE 1893 – CRISE

31
A Revolução nega o poder ao Positivismo.

O Governo Provisório nas mãos do positivismo.

As forças do Sul querem voltar atrás se o governo não sai dos positivistas.

O governo quer sustentar-se e a obediência de todas as forças e direções


revolucionárias.

A revolução do Sul já tem um chefe e uma comissão diretora.

Ciúmes.

A Armada fez a revolta no Rio e o Governo Provisório: o povo fez a revolução no


sul.

Cada um, ao se encontrarem, trazem seus compromissos

Condições da campanha no momento da crise.

21 DE DEZEMBRO DE 1893

Conluio positivismo no Estado.

Pretende-se fazer Machado assumir a Previdência.

Nada decidido no Governo Provisório. Salgado segue deixando representante


seu.

Reuniões partido federalista.

Erros partidários do Presidente.

Falta de pessoal político.

LEI DAS CONSEQUÊNCIAS

Há fatos que nos abalam de tal modo a alma, que ainda muito tempo depois
não sentimos o espírito bastante calmo para analisá-los.

32
Ao lembrá-los com violência e tumulto irrompem mil sensações em tropel
estrondoso que nos lança no silêncio e no desânimo como atordoados por
vertiginoso turbilhão.

Em 89 houve quem dissesse que o povo ficou bestificado.

Foi uma frase; foi uma grande verdade.

A reação vem sempre mais tarde; em regra espera que acabe a ação, quando
esta é grande, súbita. 89 faz esperar 93.

A República do Brasil feita no Rio de Janeiro por uma sedição militar impôs-se a
todo o país pelo telégrafo e pelos soldados; foguetes e flores cobriram o
fasto ao nascer.

A organização da República foi entregue à ditadura militar, e a sociedade


começou a estremecer em todo o país, aproximava-se a época do batismo.

As festas próprias já se anunciavam; aqui e ali sem nexo, ao acaso levantes,


sedições, pronunciamentos ensaiavam já as forças.

Onde quer que a ação ia já fraca a reação começava a sentir-se.

Um dia a criança recebeu um nome pelo qual já era tratada.

O golpe de Estado de 3 de novembro de 1891 declarou chegada a hora do


batismo; a ditadura ia resignar o poder que caiu nas mãos do substituto legal,
ficando o ditador no posto de primeiro magistrado.

A República na sua fase de organização tem destas esquisitices.

Estava dado o primeiro passo.

Em todo o país o movimento foi iniciado, começando no Sul.

APONTAMENTOS

Empregados da alfândega que ficaram:

– Inspetor Ernesto Manoel da Silva conservou-se na Alfândega desde a entrada


do Cruzador "República" a 27/set/93 até 11 de outubro, data em que passou a
Inspetoria ao seu substituto, por doente. Ordenou em setembro pagamento
entre eles a entrega de 4.000...
33
– 1º escriturário Alexandre Magno Aducci, requereu ao Governo
Revolucionário, ipso facto reconheceu-o, a quantia de 100.000 contos de ajuda
de custo, de sua comissão como administrador da mesa de rendas fiscais a São
Francisco a então Capital e além disto ordenou a dar pagamentos aos
revolucionários pela referida estação.

– 2º Dr. Álvaro Gentil conservou-se com os demais empregados na repartição.


Foi cumprimentar ao chefe do Governo Revolucionário, Frederico Lorena, por
ocasião da instalação do Governo Provisório no Estado.

– (Fiscal) de amanuense, Julio (...). Também conservou-se na repartição e


cumprimentou ao Sr. Chefe Revolucionário.

– Guardas: Comandante Antônio Paulo da Silva, João Carlos Marquesi, Arthur,


Olympio Eduardo e Francisco José Coelho.

Esses todos se conservam na repartição e não foram demitidos.

RELAÇÃO DOS EMPREGADOS DA REPARTIÇÃO DE TELÉGRAFOS QUE


PRESTARAM SERVIÇOS À REVOLUÇÃO NO ESTADO DE SANTA CATARINA E QUE
AINDA SE ACHAM EM EXERCÍCIO.

Vasconcellos, Luiz da Silva Pinto 1, Doroteia Mascarenhas 2, Gervásio Antônio


Vieira 3, Victor de Souza Formiga 4, Alfonso Ladislau Gama de Camargo 5, João
Cândido da Silva 6, Álvaro Dias de Lima 7, Otávio Cardoso da Costa 8, José Alíbio
Lopes 9, Manuel da Costa Pereira 10, Casimiro José Ribeiro 11, Manuel Joaquim
de Araújo Góes 12, Oscar Azambuja 13, Germano Augusto Thieme 14, Teodoro
Wedekin 15, Patrício Rogério da Maia 16, João de Souza Dutra 17, Manuel da
Silva Flores 18, João de Mesquita Saldanha 19, Antônio Joaquim Gonçalves Lima
20, Theodoro Claine (Inspetor dos telégrafos) 21, Gentil (Álvaro) – alfândega
22, José Basílio 23, Alexandre M. Adduci (administrador Correio São Francisco)
24, Wenceslau Freislebem (Capitão G. N. ) 25, Henrique de Abreu (Major da G.
N.) 26, Antônio Blum (Oficial da G. N.) 27, Ouvídio S. Oliveira (Cirurgião da G. N.)
28, Emílio Meyer (Capitão da G. N.) 29, Trajano Firmino (Escriturário de
delegacia) 30, Gouveia (Alfândega) – (repartição de terras) 31, Pedro José de
Sousa Lobo (engenheiro da estrada Dona Francisca) 32, José da Silva
Santos (delegado de terras) 33, Dr. Altino (Juiz distrito de Joinville) 34, Dr.
Euclides Fausto de Sousa (Juiz Distrito São Francisco) 35.

09 DE JANEIRO DE 1894

34
Conhece porventura a Europa moderna os horrores da guerra civil?

Cruel fatalidade das leis que regem a marcha do espírito humano!

Todas as vezes que um povo experimenta juntar-se ao lento e gradual caminhar


do progresso, comete uma temeridade, e muito embora alcance dar algum
passo mais largo, paga-o com os mais acerbos e cruentos sacrifícios.

Valerá a pena o que sofre para o que alcança?

E ainda quando alcança!

Da Monarquia, a mais democrática que registra a história, um só passo havia


para a República. Deu-se: num salto – O que está custando esse passo? O que
ainda custará até que se firme?

Dada a árvore viçosa e carregada de maduros frutos: – dados vários rapazes


sôfregos, entregues a si e a seus desejos: – dá-se o assalto em tumulto à árvore,
e ela esgalhada, partidos os ramos, perdidos os frutos, ameaça secar.

É fatal.

No assalto de 15 de novembro no Rio de Janeiro, só houve uma coisa grandiosa:


o procedimento de Pedro II.

De então para cá só têm governado loucos!

A loucura domina em toda a vastidão do Brasil.

A História o deixará bem patente e classificará o gênero da perturbação mental.

Registre-se cronológica e imparcialmente toda a série desses fatos públicos de


novembro de 89 até hoje, e descobre-se sem o mínimo esforço o predomínio da
loucura.

No Governo Central, como no dos Estados a ausência do bom senso, da


reflexão, da calma, já não do estudo, se torna bem sensível.

22 DE JANEIRO DE 1894

A medida que a revolução ganha terreno, vai-se pronunciando mais e mais a


divisão que separa seus elementos.

35
Um, só visa a queda do tirano e obtida ela, desaparece.

Outra tem como alvo o poder local, cuja questão lhe deu origem.

Este, julgando conveniente o edifício que ajudara a levantar, quer dele apossar-
se desalojando os seus moradores.

Aquele tem por fim levantar novo edifício aproveitando as mesmas bases ou
cavando novos alicerces.

Estes dois últimos são antagônicos: a revolução triunfante dirá qual foi o
vencido.

No seio porém deste movimento há germes de grandes questões que podem ao


desenvolver-se trazer as mais perigosas agitações no país.

Ficará o elemento militar no poder?

Continuará a Constituição promulgada pela União?

Será substituída a Federação pela República unitária?

Subsistirá o sistema Presidencial ou vira o Representativo?

Ficará o Norte unido ao Sul, ou virá a separação no final?

Qualquer destas soluções terá causa de grandes males.

Com a destruição da monarquia cessou a propaganda doutrinária a qual


entretanto, apenas ia nascendo em 89.

O espírito público aturdido pelo golpe foi precipitado revolto em um caos.

Daí a imprensa livre cessou até hoje, desapareceu a opinião.

Não há partidos, portanto não há programas nem princípios.

Não há sistema, nem método, nem escolas. As leis não obrigam, porque não são
fixas.

A autoridade é sem prestígio porque só vem da força.

A justiça não se exerce pela sua intermitência e o vício de sua origem.

36
A verdade não se impõe porque ninguém a conhece.

A desordem, o caos alastrou todo o país, porque: Tudo isso que se fez, tudo o
que está feito, tudo o que se está fazendo é falso, não tem base.

Falta o – Contrato.

Neste estado de coisas, fácil é prever que qualquer daquelas conclusões será
causa de grandes males.

27 DE JANEIRO DE 1894

O mais arrojado dos pensamentos que tem surgido com a Revolução é decerto
o da extinção do Exército.

O desarmamento que tanto tem neste século preocupado o espírito público na


Europa, não pode, e não poderá tão cedo ali ganhar terreno, as condições
ordinárias das diversas nações opõem invencível barreira à semelhante
evolução.

Nem parece o mais seguro o caminho que a propaganda tem seguido; pelo
contrário o exemplo da Suíça está mostrando que só a subdivisão dos países
tornados grandes pelas nacionalidades, favoreceria os desarmamentos nas
pequenas regiões.

Daí vem a ideia da possibilidade desse imenso melhoramento no Brasil.

Suas antigas Províncias de tal forma se educaram que a separação não fora
muito difícil, hoje os novos Estados com as regalias que lhes são outorgadas
(ainda que na prática sejam usurpadas) mais facilmente podem criar vida
própria e autônoma.

Ora, de um lado, o princípio centralizador tem por principal elemento de


segurança o Exército que conserva os Estados sujeitos à ação absorvente do
Centro.

Em vez de laço poderoso da União pela sua violência, o absolutismo é um


gerador perene da dissolução e provocador constante das reações extremas.

De outro lado, a disposição geográfica dos Estados opõe-se praticamente à


subsistência desse meio forçado de união, tornando-a ineficaz ou inútil; veja-se
a história da Revolução.

37
Para conter a força, unidos em uma só Nação os dez milhões de brasileiros, fora
preciso manter as mãos do governo um Exército de quatro ou cinco milhões de
soldados.

A posição topográfica dos Estados, a falta de comunicação, as distâncias, os


meios de locomoção, tudo entorpece e embaraça a ação do centro, e o braço do
governo mal pode apontar e lentamente se dirige para regiões tão longínquas
sem que lá faça sentir conjunta e utilmente o peso de sua vontade.

Para que pois um Exército cujo movimento é tão desastrado?

O recurso do telégrafo a quem teve o levante de 89 sua vitória e de que


desvairado por esse prazer tem a República abusado, vai sendo destruído para
essa mesma exploração abusiva.

10 DE FEVEREIRO DE 1894

"Os horrores da guerra civil" é a frase banal a que se não liga a mais leve ideia
nem de horror, nem de guerra.

Eis que de levantes à manifestação, de pronunciamentos à deposições, de


revoltas à guerrilhas, chegamos às revoluções e finalmente estamos com a
guerra civil.

É incrível não foi o que se conta, mas o que se lê na imprensa: tão incrível que
se passa sobre a narração das mais atrozes barbaridades, exclamando apenas:
"que gente ruim!" É que a incredulidade tirou a tais monstruosidades todo o
caráter de realidade, preferindo o espírito amparar-se atrás de exageração, a
sofrer o choque de tanto horror.

Horror, sim, o que de mais hediondo conhece a história, e talvez pior pelo
requinte que a civilização moderna lhe presta.

A imaginação desvairada do louco não criaria mais estupendos crimes – a mente


abraseada, vingadora e fecunda do velho Dante.

11 DE FEVEREIRO DE 1894

Os enviados pela Revolução para parlamentar com os situados na Lapa, foram


recebidos a balas.

Duas mulheres que conseguiram escapar do sítio foram mortas.


38
Toma-se o Quartel-General.

Barracas, munições, armas são arrecadadas, depois abandona-se a posição


suspeita e perigosa.

Aproveitam essa ocasião quarenta e tantas famílias e fogem da praça – ainda o


terror, o medo e a esperança e a alegria de escapar...

"Fogo!"

Descargas partem da praça sobre essa multidão de mulheres e crianças!

"Amém!"

E uma trincheira de valentes cavalheiros cobre com seus peitos a retirada das
famílias!

Vilania.

Covardia – Grandeza d'alma.

13 DE FEVEREIRO DE 1894

Tomada a Lapa oficiais tiveram licença para retirar-se de suas casas sob
promessa não pegar em armas contra a Revolução.

Colheu-se toda a artilharia, armas de mão, munição, que ali encontraram.

Deu-se, de certo, comida a todo esse povo, armados e inermes, que se


renderam pela fome,... e a liberdade plena aos que lá estavam presos e dos que
os prendiam.

Eis como acabou a Lapa.

Eis a coroa com que a Revolução engrinalda a Pátria.

Aqueles monstros que receberam os parlamentários a tiros de espingarda,


aqueles réprobos que negaram a saída da praça das famílias para que tivesse
lugar o combate, aqueles bárbaros que fuzilavam mulheres que conseguiam
fugir, aqueles selvagens que por trás das mulheres nas janelas atirava sobre o
inimigo, aqueles vilões que faziam rebentar minas de dinamite onde não
podiam resistir ao braço possante do adversário, aqueles perjúrios que,
39
perdoados, voltaram a atacar seu vencedores... todos eles renderam-se: e como
se renderam, – foram perdoados.

Rendeu-se Lapa.

Os oficiais foram para suas casas.

Ali estavam Serra Martins, Napoleão Poeta, Campos e tantos outros notáveis na
negra história de Santa Catarina sob o domínio de Floriano.

O que tem o Governo Provisório com essa história do Estado?

Deve-lhe alguma coisa? Não lhe garantiu sua autonomia?

Não lhe deu subida honra em ser a sede do Governo?

Não concedeu uma pasta a um catarinense?

Que mais quer?

Lapa caiu: – alegrai-vos, aí tendes a reforma da Alfândega.

Não há vencidos nem vencedores! – disse o Marechal Vermelho, e tirou daqui o


Eliseu e deu-nos novas ordens a Serra Martins.

Não há vencedores nem vencidos! – pratica o Governo Provisório "– Seguindo o


preceito do mestre,... porque, afinal, parece que com tal arte o poder tem sido
difícil de se lhe arrancar das mãos – e, quando o for – terá de passar às da
Revolução Triunfante.

Oh, homens, homens, por toda parte os mesmos, em todos os tempos


semelhantes!

É este o progresso?

Tantos séculos de sacrifícios só nos dão isto?

O que mais quer o Estado?

Porventura há de o Governo Provisório ingerir nos negócios do Estado?

"O Governo já crê que há aqui mais políticos do que patriotas –!"

40
Nada temos que ver com os partidos no Estado: não satisfazemos vinganças
partidárias.

Temos uma ideia... (A Constituição?)

A Revolução tem um fim: por fora do Governo Floriano; o meio, é substituir-se a


ele.

A Revolução não pôde arrancar-lhe a Capital, porque a população não se


levantou para acompanhá-lo, experimentou Santos e veio à Santa Catarina.

Aqui, achou a Revolução já feita e capitulou a força da União que fez-se um


governo e descansou.

O Estado pedira garantia de sua autonomia -: tinha a administração local mais


ou menos peada, e continuava em estado de sítio, e seus portos mais ou de
todo bloqueados.

Enquanto se organizava, reforçando-se a coluna de Firmino no Araranguá,


punha-se em contribuição a Polícia, a Guarda Nacional e o Batalhão Patriótico
saídos desta Capital.

A fronteira do Paraná estava ameaçada; Blumenau se prevenia em auxílio dos


inimigos, Joinville estabelecia uma neutralidade de território bem curiosa.

Em delongas e dificuldades, sem armas, e sem o menor conhecimento das


localidades, e pior, sem conhecimento do pessoal, e das lutas que o Estado
sustentava para não cair o poder nas mãos dos florianistas, chegou-se a ver uma
perigosa situação.

Tubarão ocupado por forte coluna de A. Oscar reforçando Firmino: daí a Torres
todo o território em mãos inimigas.

Lages ocupada pelas grandes forças de...

Rendeu-se Lapa.

Ali, como no Tubarão, como em Blumenau, como aqui na Capital, os chefes do


partido que sustenta o déspota, escapam-se incólumes das mãos da Revolução
e são tratados como se foram revolucionários.

No Tubarão, deixou-se fortificar Firmino que graves perdas e desgraças causou,


e deixou-se escapar para o Sul por improvável inépcia, tolerância ou proteção,
então criminosa.
41
Em Blumenau, o mesmo sucedeu a Paula Ramos e seus companheiros dos quais
muitos estão folgadamente cuidando de seus negócios.

Aqui, na Capital, o ridículo das prisões, e em geral das medidas preventivas, só


desperta vergonha.

Lá, na Lapa, Serra Martins, Poeta, Campos e outros, rendem-se... e são livres.

Lauro e Hercílio retiram-se tranquilamente para São Paulo.

Pegados com as armas na mão, são soltos sob promessa de se conservarem


neutros; fogem, armam-se, são vencidos em combates, são postos em liberdade
sob igual promessa: a promessa com a República de 89 substituía o juramento.

14 DE FEVEREIRO DE 1894

A Revolução é patriótica: não é guerra.

Procura-se o inimigo, bate-se os piquetes de reconhecimento, ataca-se as


avançadas, corta-se as retaguardas, surpreende-se acampamentos, sitia-se
posições, derrota-se colunas inteiras e toma-se praças, os que morreram,
caíram no pó: – os que escapam são livres.

Não há vencidos nem vencedores.

É luta entre irmãos.

No combate, na peleja, na refrega, são bestas feras, são monstros na


campanha... derrotados, vencidos, são livres; – basta prometer não pegar em
armas contra a Revolução.

Livres, correm a surgir em novos combates, e o destino é o mesmo.

Qual é pois o inimigo que se procura e se combate?

Em que consiste a vitória?

Em tomar armas, gado, munições e barracas?

Em nomear autoridades que se correspondam com o Governo Provisório e lhe


obedeçam... mas que não são obedecidos e fique livre reconhecer ou não o

42
Governo Provisório a quem que o hostilizou e ainda o hostilizará se achar
ensejo.

Como o capinador estonteado que, cavando com a enxada mal arranca a erva
daninha, ora fazendo inúteis buracos, ora fincando as raízes ainda pregadas – se
voltasse sobre o campo lavrado teria necessidade de novo trabalho. – Assim a
Revolução se volver sobre seus passos encontrará já vicejando as moitas que
tanto lhe custou abater.

Mais.

Em mãos de hábil adversário, os elementos que solta generosa, a Revolução vê


aproveitados dias depois mais adiante.

Que inimigos – são todos irmãos.

No poder formam batalhões de crianças menores arrebatadas nas ruas, enchem


imundas prisões de numerosos presos, e os votam a morte e os mandam
fuzilar: não são irmãos.

No combate são ferozes e bárbaros.

Vencidos – são irmãos, são livres.

16 DE FEVEREIRO DE 1894

Como compreender o Governo Provisório vindo da Revolução da Esquadra?

Chegada a divisão expedicionária, rendeu-se a guarnição federal ou da União: o


Estado se declarou livre do Governo Central sob Floriano, fez-se revolucionário.

Instalou-se aqui o Governo Provisório, assumindo as prerrogativas, atribuições e


poderes do Governo da União, e garantiu a autonomia do Estado.

Começaram a funcionar duas administrações, não sem embaraço.

Procurando dar-lhe a forma de um governo regular, a Revolução aproveitou os


atos do Poder Legislativo, que não tem, investido um Poder Judiciário, não
podendo dispor do que ficara com Floriano.

Regem as leis já existentes, e serve-lhes de base a Constituição em vigor.

43
Prevalecendo, ora o estatuído nas leis ordinárias, ora o arbítrio casuístico das
revoluções ou suspensão de garantias do estado de guerra civil: difícil é
conhecer a posição que escolheu o Governo Provisório, e a marcha que traçou
para sua administração dos públicos negócios. – [Ver O Estado de 18 de
fevereiro – 94.]

São pois numerosas as dúvidas que surgem ao espírito ao considerar estas


coisas.

Este Governo nascido espontaneamente e instalado de acordo com um só


Estado, terá o direito de impor-se a toda a região revolucionada?

Já da Direção da revolução do Sul, sobrevieram-lhe dificuldades que o puseram


em risco, e que não parecem removidas.

Marchando a Revolução subleva simplesmente novas regiões, outros Estados,


ou força-os à mão armada arrancando-as ao governo de Floriano?

Corre a Revolução em auxílio de povos revoltados, ou conquista-os e os força a


reconhecer o novo governo?

É a ocupação militar.

Mas a revolução que originou este governo, já encontrou outra revolução, vasta
poderosa, e muito mais antiga.

As forças desta primeira revolução vieram auxiliar a da Esquadra e dar-lhe o


elemento de que ela carecia.

Entretanto a revolução do Sul não obedece ao Governo Provisório, tem a sua


direção.

Essa direção e um outro governo.

Não se hostilizam, porque concorrem para o mesmo fim, combatem o mesmo


inimigo.

E qual será a posição de ambos, por fim?

17 DE FEVEREIRO DE 1894

44
Que o patriótico povo catarinense sabe respeitar a sua palavra de honra, os seus
compromissos. Jamais quebrará a sua palavra de honra empenhada.
[Ver, Estado, 350]

De sobre a crueldade do golpe o insulto!

Quem são esses que assim nos ferem e ofendem?

De onde saíram, como aqui estão? Com que direito se alçam sobre nosso seio e
nos pisam com suas botas?

Pobres catarinenses, a estulta ambição e tola vaidade de alguns de teus filhos,


são a origem de todas os teus males atuais.

O governo de 89 entregou esta pátria nas mãos da inépcia e do pedantismo;


não tardou que a especulação e a fraude se chegassem ao poder, e daí, de
loucura em loucura, de crime em crime se formou o tremendo estado de
dissociação em que se acha hoje o povo.

Há homens impossíveis para outros homens, há grupos impossíveis para outros


grupos: esses homens, esses grupos não podem coexistir na vida pública.

Sustentar a ambos é matar um deles.

Ai do que dormir na boa-fé!

A bandeira branca da paz e da concórdia...

Haverá paz e concórdia para esse tigre, esse sanguinário Marechal vermelho
quando vencido promete não pegar em armas contra a Revolução?

E esses crimes nefandos, essas monstruosas barbaridades cometidas por


tamanho celerado, ficarão perdoados esquecidos pela bandeira branca da paz e
da concórdia?

Paz..., com quem?

Paz com a hiena que torva espreita, aguçando manhosa as unhas, o momento
azado de nos saltar ao colo?

Concórdia... com quem?

Concórdia com os bandidos que a sombra da noite, de emboscada traiçoeira nos


matam e saqueiam?
45
Paz com traidores refeces que prometem, juram, pranteiam e assinam
obrigações e fogem e são de novo vencidos em cruenta refrega, réus de vis
atrocidades?

Concórdia com malvados que trazem ainda as mãos tintas no sangue de nossos
irmãos, em cujos ouvidos ainda ressoam os últimos estertores das vítimas
inocentes e inermes de mulheres e crianças imoladas a sua sanha?

Não há vencedores nem vencidos...

Disse o tirano do Rio de Janeiro e repetem os que o combatem nas trincheiras


da Lapa.

Sim, não há vencidos nem vencedores – mas há criminosos e vítimas.

É de cavalheiro, nobreza e gentil generosidade, estender a mão ao adversário


que tombou vencido em luta igual, rasa e leal.

É de general bem avisado e que preza sua tropa, perdoar e fazer seguir em paz
com armas, o inimigo que venceu, depois de fugido ao primeiro perdão, rendido
em crua peleja sem quartel?

Antes destes combates, antes desta campanha, houve aqui um crime hediondo
mandado executar pelo tirano.

Como não conseguiu seu fim, bradou logo; não quero vencedores nem
vencidos, juntando benemérito é o executor: e assim decretou a impunidade e
assumiu a responsabilidade.

Mais tarde essa assembleia de mercenários por ele conservada concedeu a


anistia geral!

E foram premiados os criminosos.

Mas aquelas palavras chegaram cedo demais e quando saíram do Palácio


passaram sobre os cadáveres da madrugada de 31 e vieram escrever-se com
seu sangue no peito do povo.

O soldado esquece a ferida e dela tira glória, se foi recebida em combate leal e
franco, e perdoa o soldado que o feriu.

Mas a justiça não esquece o bandido, o assassino fugido que reaparece na


sociedade onde cometeu o crime.
46
O ladrão que apunhala para roubar, se não consegue o roubo, é perdoado e
esquece-se o crime.

Não; não há vencedores nem vencidos.

São irmãos que se batem por uma ideia, ardentes de patriotismo, valentes
heróis!

São soldados escravos do dever, patriotas arrastados pelo civismo.

A bandeira branca a todos reúne na paz e na concórdia.

O povo saberá respeitar aqueles compromissos dos vencidos, – por mais justos
e profundos que sejam os brados de castigo que, do fundo dos túmulos, erguida
a laje pela indignação, se levantam tremendos e reboam lúgubres dos cadáveres
de Berlinck, Povoas, Coutinho, F. F.

Perdão a todos! Concórdia... na guerra civil!

19 DE FEVEREIRO DE 1894

O programa anunciado por Saldanha da Gama foi aceito pela direção da


revolução do Sul, e pelos comandantes dos navios da Esquadra.

O Governo Provisório protestara, mas foi retirado a protesto por intimação dos
vasos de guerra.

A Constituição pela revolução – essa sutileza positivista do Governo Provisório


(já tem sido gradualmente e a força golpeada) , e as necessidades da campanha
e a força da opinião farão o resto.

A seita tem sensivelmente perdido terreno, já pela nulidade de seus atos, já pela
retirada de seus agentes desastrados.

O poder não lhes ficará nas mãos.

Porque os aliados naturais desses juristas modernos hão de ser afastados da


administração.

O poder militar tombará.

A espada não mais governará.


47
A ocupação militar do Rio de Janeiro dará o último golpe.

A revolução do Sul sustentará a bandeira da consulta.

Liberdade ou separação.

É preciso que desapareça a mentira.

É preciso ouvir o povo: – ele ainda não falou.

Rasguem-se essas falsidades das leis.

Tire-se essa grande mentira da bandeira.

A solução que da Revolução parece melhor encaminhada é sem dúvida a da


consulta ao povo.

Em verdade, não tendo isso ainda sido feito, e havendo a gente de 89 esgotado
todo seu pessoal e tentativas, parece a consulta o meio único de regularizar o
país.

Assim seria dada uma base sólida a forma republicana; assim a instituição
ganharia o prestígio de que carece, a confiança indispensável, e a sua firmeza
lhe daria força para arrastar consigo todas as adesões.

Todos os elementos morais e políticos, todos os contingentes sociais e


particulares, os talentos, as aptidões, as experiências e as virtudes – virão
desassombrados trazer seus benefícios, sua real influência ao poder cercado de
tal arte dos verdadeiros atributos da majestade.

A democracia tem o seu modo de ser.

A forma republicana tem suas exigências.

O povo para reinar precisa obedecer.

A República está mais perto do absolutismo do que da Monarquia.

E a anarquia vive rosnando em roda do palácio dos tiranos.

O Brasil de 89 já teve dois presidentes: o primeiro morreu ditador, – o segundo


vai cair ditador.

48
A anarquia vai colhendo sua presa.

20 DE FEVEREIRO DE 1894

Ainda hoje, depois de um ano de cruenta guerra civil, apenas dois estados se
acham fora do governo de Floriano.

Os outros dezoito, isto é, a grande maioria da nação obedece ao governo do Rio


de Janeiro.

Poderá corretamente Floriano deixar a vice-presidência da República?

A Revolução não tomou pé em todo o Norte, entretanto não têm estes Estados
sido mais poupados pela tirania do que o Sul.

Essa indiferença não tem suficiente explicação, ao menos a ausência de notícias


traz o espírito público mal disposto a respeito.

Será possível que se o quisessem fazer aqueles Estados não pudessem ter tido a
mínima comunicação com o Sul durante um ano inteiro?

Não encontrariam uma embarcação qualquer, pequena que fosse, mercante


que viesse mesmo arribada, até nosso porto, trazer-nos notícias e levar
informação reais de nossas coisas?

Não lhes será de interesse o que por aqui têm os brasileiros sofrido?

Não lhes trará alguma parte dos nossos males?

Há um ferimento perigosíssimo que parece transpirar de sob essa pesada


camada de indiferença.

"Que tem por fim a defesa da Constituição..." [Ver Ata sobre Capitulação da
Lapa – Jornal do Comércio n. ° 1-94]

Insiste o Governo Provisório na sua mania: revolução pela Constituição:


revoltam-se para defender a constituição e as leis.

Uma vez triunfante a Esquadra na Capital cai Floriano. (ou derribado, fugido, ou
resignando como seu antecessor, para não ver correr o sangue de brasileiros, o
que faz estremecer seu velho coração).
49
A revolução venceu. O Governo Provisório alcançou seu fim.

A Constituição portanto está livre, e restabelecido integral, afetiva e


rigorosamente a execução de todas as suas determinações e em pleno vigor
todos os seus artigos sem que a ninguém seja dado nem de leve infringi-los.

O domínio da lei se fará sentir em todos os poderes públicos.

Írritos e nulos serão os atos imanados do poder ou autoridade não


constitucional, e os que de si, não de sua origem firam a Constituição.

O almirante Saldanha da Gama empossará desde logo o substituto legal na vice-


presidência da República.

Serão convocadas as Câmaras...

As eleições...

Os governadores...

O Governo Provisório será dissolvido...

E as coisas voltarão ao mesmo que dantes, entrando tudo na paz e na


concórdia.

E depois de um Deodorus, um Florianus e depois de Florianus um.... Termidorus.


E reinará a sagrada Constituição. E Carlos V cantará a grande ária do "Perdono a
tutti".

21 DE FEVEREIRO DE 1894

Poderá Floriano, levado pelas circunstâncias, chamar, um por um, os seus


substitutos e passar o governo?

Não é plausível essa hipótese.

Para fazer isso, não fora preciso esperar até agora, deixando e provocando tanta
desgraça.

Mas, se o fizesse, não seria de seu caráter, impor, então, o célebre lema "não há
vencedores nem vencidos" e a anistia geral não viria restituir o país às mãos

50
desses vampiros que se cobririam com as mesmas leis e a mesma Constituição
que os gerou?

É, não obstante, o que pretende o Governo Provisório com a sua defesa da


Constituição.

Mas, como conciliar essa guarda inteira de uma Carta, quando o primeiro e o
mais reclamado estatuto da Revolução é à destruição do Governo da espada,
vedando a influência no poder ao elemento militar?

Não está ele consagrado na Carta e até com regalias especiais sobre outras
classes?

Como chegar aquele resultado sem alterar a Constituição?

Como alterá-la sem uma Constituinte?

Só com a revolução, e a revolução o fará, porque a revolução quer a consulta.

O que parece pois é que o Governo Provisório não representa o pensamento da


Revolução.

Os seus trabalhos como revolucionário são dignos de louvor, mas seus serviços
políticos são desastrosos.

Seus homens sabem combater, – não sabem vencer.

Desprezam a força moral e barateiam as forças materiais.

Acreditam no frio critério da fúria das paixões – no manso cordeiro do ódio


rancoroso.

Embalde de entre os neutros sigam muitos a tomar armas contra o Governo


Provisório, se voltam sem armas, são outra vez considerados neutros, para de
novo correr às armas.

Embalde oficiais e paisanos, capitulando prometem não hostilizar o Governo


Provisório, se são vencidos em outro combate, tomam novo compromisso, para
faltar a este como ao primeiro.

Em vão generais derrotados, rendidos à discrição, obtêm todas as honras


militares, e quebra a espada, se compram outra e são vencidos, têm as mesmas
honras e quebram a nova espada para comprar outra.

51
Tamanha indiferença, tanto desprezo pela vilania e pelo crime, é muito pouco
amor à virtude.

22 DE FEVEREIRO DE 1894

Cada vez mais difícil se há de tornar a missão do historiador imparcial, se ele


não foi testemunha dos fatos ou contemporâneo bem inspirado.

Essa mesma super abundância de documentos fornecidos pela imprensa


periódica, será a fonte fecunda de todas as falsidades.

A imprensa livre e séria é quase impossível subsistir, porque só em assunto


bastante restrito, nas letras, ele pode, ainda que manca, medrar.

Os dados ou documentos oficiais, estão e vão sendo tão eivados de mentira e


sonegações adrede preparadas, que ao historiador só restaria a narrativa ou
crônica perturbada na atualidade pelo interesse das paixões, e mais tarde
abastardada pelas legendas e fantasias.

Todo o critério, o maior escrúpulo no discernimento da origem das notícias não


parece ainda bastante aos que vivem na mesma região e no mesmo tempo dos
acontecimentos.

Terrível reverso dos dois mais estupendos e úteis inventos dos tempos
modernos; a imprensa e a eletricidade, o jornal e o telégrafo!

Uma coisa das mais fáceis de suceder e que é muito de esperar, é que triunfante
a Revolução do Sul, ao tomar Porto Alegre aí se renda Castilhos, depois de em
seu último desespero, haver completado a série horrorosa dos mais nefandos
crimes de que se fez coberto.

"Não há vencedores nem vencidos"– rezará o telegrama ao dar-nos aquela


nova?

Serão todos perdoados, e sairá Castilhos, e os seus asseclas da praça ou nela


ficarão, de espada e cinto, com todas as honras militares e... livres?

Assim deve ser, e... será, quem sabe?

Assim deve ser, porque a luta é entre brasileiros, todos são irmãos.

A Revolução hasteou a bandeira da paz e da concórdia.

52
E por cima dos cadáveres, dos irmãos assassinados na defesa de sua honra e de
sua família e de seus lares, tremulará o pavilhão branco, já todo salpicado de
rubro do sangue das vítimas do assassínio e do roubo.

E o sonho desse pavilhão estenderá sobre todos o perdão, em favor de... da


Constituição!

23 DE FEVEREIRO DE 1894

"A mocidade lança-se num abismo". [Ver Estado de hoje]

Naquelas mesmas lições que tanto exaltaram o coração da mocidade enchendo-


lhe o espírito com o clarão dessas ideias absolutas é que se vai encontrar os
dementes da corrupção e perdição daqueles que devem ser a pátria futura.

Em germes, alimentou-os e desenvolveu-os essa chusma de ambiciosos sem


escrúpulo, de petulantes sem critério, de viciosos sem pudor, de ruins homens
que barateiam: o brio, honestidade, virtude; e tudo empenham, crime, más
paixões e bárbaras crueldades.

A degradação moral propagou-se aqui, como na França; aqui os micróbios de A.


Karr tem uma cultura especial: a mentira.

A mentira atraiu a mocidade, a mentira a exaltou, de mentira se nutriu e de rojo


com a mentira ela há de cair no abismo.

É muito tarde para salvá-la.

A geração toda está tocada.

Os micróbios invadiram todas as camadas desse organismo.

Força é sucumbir. – A nova geração verá escoimada desse terrível mal?

Há outros a esperá-la.

28 DE FEVEREIRO DE 1894

A série de disparates a que se vai assistindo que parece não se interromper


senão para fazer emenda com disparates maiores, leva o espírito a pensar que é
próprio das revoluções inutilizar nelas o juízo.

53
Quem conhece e relembra como se formaram as lutas partidárias neste Estado,
que acompanhou o movimento das coisas públicas, as mudanças da
administração e o pessoal que em tudo isso se tem agitado, a cada momento se
sente presa de espanto e de indignação impossíveis de disfarçar.

Não há ainda realmente partidos e muito tarde se poderão eles formar, tão sem
ideias andam os movimentos políticos.

Há somente grupos, bem pequenos, reunidos pelo interesse, pela ambição ou


pelo ressentimento e despeito, e esses grupos se têm revezado no poder
andado a força pública como joguete ora nas mãos de um, ora nas de outro.

Se algum ânimo bem disposto é atraído e cai nesse redemoinho infernal ou é


despedaçado ou segue a vertiginosa carreira do sorvedoiro.

Esses grupos, sendo movidos pelos mesmos incentivos, obedecem à mesma lei
de vitalidade, e sustentam-se pelos meios; empregando para isso sempre as
mesmas máximas.

Infeliz a Nação na qual se prolonga essa crise desoladora; se não tiver em si


elementos fortíssimos de conservação não poderá resistir e o país será
esfacelado desaparecendo a nacionalidade.

***

Depois que a Divisão Expedicionária da Esquadra aqui entrou, os


acontecimentos tomaram desde logo outra feição.

O Estado assumiu posição definida e se declarou em revolta contra o Governo


de Floriano Peixoto.

A Revolução da Esquadra firmou-se, achando um ponto de apoio em um


Estado revoltado como ela, com os mesmos princípios, os mesmos fins, e pode
dispor do melhor porto, da chave da navegação do Sul do Brasil.

A aliança era natural.

O Estado recebia da Marinha o apoio e a defesa contra o despotismo dispondo


das forças da terra.

Estabeleceu-se então o Governo Provisório.

E foram ligados todos os pontos levantados, tornando-se uma só e vasta


Revolução.
54
O Estado inteiro de Santa Catarina, todo o Estado do Rio Grande do Sul a
exceção da Capital, a oposição do Paraná e de São Paulo entenderam-se no
levantamento, obrando de comum acordo os dois primeiros Estados.

Em Santa Catarina, sobretudo, as coisas tomaram um vulto excepcional.

Se no Rio Grande o sangue de seus filhos regando os campos, a bravura dos


combates, os atos de heroísmo, a grandeza da luta por nove longos meses eleva
o Estado cheio de glórias, entre...

***

Que é isto?

Chegais aos nossos mares inimigos, e nós vos recebemos amigos, e vos entrega-
nos os vossos adversários.

Entrais em nossa terra hóspedes bem-vindos, e aqui assentais tendas de guerra,


e...
***

Vai romper o dia .

Já o clarão dos Krupps mal rompe a claridade do alvorecer; a fumaça mais densa
embranquece; e mais se amiúda o chato estampido das peças de campanha.

Já ao incessante estalar da fuzilaria se mistura à múltipla descarga das


metralhadoras.

Mal se avista, ora aqui e ora ali, entre a espessa nuvem de fumaça a trincheira.

O rufo dos tambores e o surdo vozear das ordens de comando, dos gritos,
imprecações, ais e estertores, deixam desconfiar do que vai de dores, de raiva,
de fúria nessa lúgubre e sangrenta cena de morte.

Vai clareando o dia.

Do lado dos assaltantes, soa um clarim: toca uma, duas, três vezes.

Que estranho soar é esse?

55
A terra que suportou impassível o abalo dessas possantes máquinas de guerra,
parece agora estremecer de repente.

As bocas de fogo suspendem por um instante sua voz estertora.

Que toque é esse de clarim?

O que quer dos combates naquela hora extrema? O que lhes vêm dizer?

Por que assim tudo estacou?

Pelo campo, já perto ecoa o estrépito estridente do galope de cavalos.

A aurora já vai tudo iluminando.

Já se levanta o pó nas patas dos corcéis, já brilham os ferros das lanças...

Recomeça o estrondear da artilharia, a fuzilaria rola nutrida; redobra o furor.

Um raio, uma faixa de luz deslumbrante clareia de súbito o campo de batalha.

De novo, ainda um toque de clarim.

Ei-lo... é ele!

Guapo cavalheiro se adianta audaz, temeroso e sereno na sua bravura.

De seus flancos estendem-se as linhas de lanceiros, que a toda brilham, num


atacar insano, numa intrepidez sobre-humana, a queima roupa, descarregam os
mosquetes, e de lança em viste, investe a artilharia, a infantaria, a cavalaria,
tudo que se opuser a sua corrida vertiginosa e precipitante.

E os Krupps emudecem.

As trincheiras derrocadas, os pastos cobertos de vencidos deixam escancarados


ao sol brilhante todos os horrores do campo de batalha.

A luta então é medonha.

Não é mais a pesada massa de ferro, o pequeno cone de aço, que inconsciente
de longe, fatais, traiçoeiros vomitam essas máquinas, que substituem os
homens.

Não é mais o jogo cruel em que, não a coragem, mas o acaso decide.
56
Não; a peleja travou-se agora; à rinha, de homem para homem, corpo a corpo,
face a face. Jaz o fuzil por terra e a espada, e a lança terrível, que obedecem à
bravura, à coragem à força desses homens.

E no meio...

***

Ainda reboa nos morros o estampido da artilharia; a fumaça dos últimos tiros de
canhão, ainda...

Poderão porventura fazer duradouro um tal estado de coisas?

Mas a anarquia pode ser um estado social?

Por muito que reflita sobre as coisas públicas do Brasil, não vejo uma solução
natural que comporte a existência de uma Nação grande e importante e unida
como a constituída pelo Império.

27 DE FEVEREIRO A 17 DE MARÇO DE 1894 – PRÓLOGO

Ainda não sei bem como cheguei a este ponto, de todos os dias tomar
apontamentos e escrever algumas tiras ao menos.

Simples curiosidade a princípio, me fez juntar boletins e jornais, depois algumas


notas lhes ia lançando na margem; mais tarde, para lembrança apontara em
sumário alguns fatos, e de interesse em interesse, impressionado por
extraordinários episódios, desabafava o espírito escrevendo as reflexões que
mais me abalaram.

Mas para que isso tudo?

Que valor têm essas considerações sem nexo, desligadas muitas vezes dos fatos
que as originaram e sem alcance algum, visto que secretas nascem e secretas
morrerão?

Só o gênero de vida que adotei desde o levante de 89, pode dar alguma
explicação a isto.

Retirado desde logo dos partidos e da política, limitei-me à vida privada.

57
Não aderi à coisa alguma do que fez a chamada República: não intervi, não
aceitei, não entrei enfim na sociedade que se formou depois de rota a carta
estatuto daquela em que nasci.

Obedeci, é verdade, mas não reconheci.

Nesse propósito tenho vivido, não obstante todos os estímulos, todas as


seduções que vinham provocar minha natural paixão e o inveterado vício da
política que tanto me dominou.

Não quer, porém, isso dizer que morto esteja um coração de tão sincero e
profundo amor da pátria; não quer dizer que cego e indiferente, um espírito
nascido e criado nos mais ativos e constantes lutas políticas, deixe passar esses
estranhos movimentos, estas violentas comoções, toda esta medonha tormenta
desencadeada sobre a pátria.

Que não sinta a incoercível necessidade de escrever já que não falar, reservado
já que não publicado, o transbordamento das sensações, os gritos de revolta, as
duras controvérsias da polêmica, a censura e a ferrenha nota do crime – só por
acaso e raro, descansando o ânimo atribulado, na contemplação de alguma
ação generosa e santa, de algum quadro de levantado heroísmo e virtudes
descomunais.

É assim que irão ficando essas tiras apenas servindo para me despertarem cenas
que no passado só acreditava pela imaginação reproduzidas de outros países.

14, 15, 16 E 17 DE MARÇO DE 1894

Pesar tenho eu de não poder quando me pede o ânimo me estender e escrever


longamente dizendo com a abundância natural todo esse turbilhão de ideias,
levantado pela presença de tanto fato peregrino.

Porque talvez a natural condescendência e a inclinação pronunciada que nós, os


do Brasil, temos para nos conformarmos com todos os fatos consumados, me
fará amanhã, passada a tormenta, enxergar por outro prisma, e esquecer ou
apagar muita nota digna de memória.

Nunca pensei que pudesse ser testemunha de acontecimentos como os que


tenho presenciado há quatro anos.

Quando lia as narrações da história moderna e ainda da contemporânea, me


parecia que estava fora da grande e agitada sociedade só na qual surgiam tais
movimentos e comoções.
58
Parecia que tinha nascido em um país onde todas as crises se resolviam pelo
consenso mais ou menos geral; onde os habitantes satisfeitos com o esplendor
da natureza e a suave e fraca pressão social não era sentida; país em que os
embates das aspirações e da resistência se resolviam pela campanha incruenta
da palavra e da razão; país enfim cujo caminho na civilização e no progresso já
estava traçado na gradual e incessante evolução do aperfeiçoamento moral e
material.

Pensar em guerra!

A do Paraguai nos havia colocado em tais condições na América do Sul, que o


espírito mais susceptível não se receava de semelhante emergência.

Pensar em Revolução!

A dos Farrapos de tão dolorosa memória, já havia deixado crescer sobre os


túmulos das vítimas a benéfica sombra dos ciprestes, já o fraternal perdão tinha
apagado a incandescente paixão e o fecundo labor do tempo já havia feito
brotar mansas e úteis plantas onde agrestes e daninhas urzes só vegetavam.

Pelo contrário, tão pacífico, tão indolente, sofredor e descuidado se mostrava o


povo, que todos os estrangeiros nos julgavam e o diziam incapazes sequer de
uma arruaça um tanto séria.

15 DE MARÇO DE 1894

As notícias que de outras nações nos chegavam narrando essas lutas armadas,
esses combates, essas campanhas mortíferas, os crimes, depredações, incêndios
e saques, todas essas medonhas cenas de cruel maldade de que o volver dos
séculos, a civilização e todo o aperfeiçoamento não tem livrado a humanidade;
quando essas notícias vinham até nós, era com certo ar de comiseração, com a
oculta e íntima satisfação, que fazíamos seus comentários lamentando em que
os povos tão adiantados tais coisas se dessem, e talvez bem dizendo nosso
atraso, mas sempre com o ar seguro de quem nada disso temia.

Com efeito, quem comparasse a vida irrequieta dessas populações turbulentas,


agitadas sempre, ora em multidões festivas e estrondosas, ora em iradas massas
e desenfreadas lutas – com a existência pacífica e quase monótona de nosso
povo, com a tranquila facilidade de nossos usos e costumes, não poderia jamais
conceber que aqui tivesse lugar nenhum desses atos revoltantes que têm a
abundar de 89 para cá.

59
Afeito, meu espírito, por mais de 30 anos de vida pública, educado nas
doutrinas democráticas nas lutas ativas do Partido Liberal, e finalmente, já
formado pela experiência e o estudo, não me surpreendeu o grito da República,
senão pela maneira com que se apresentou.

16 DE MARÇO DE 1894

Eu a esperava, não porém como ela veio.

Também, 24 horas depois, interpelado, disse "três dias são para hóspede, no
quarto dia eu falarei".

No quarto dia, a minha resposta foi "Era uma vez, a Nação brasileira...".

Daí em diante tudo foi surpresas.

Por mais tolerante e benévolo que fosse o ânimo e empenhado em buscar a


razão, o critério, o bom senso, não era possível descobri-los nos sucessivos atos
que os governos, nos seus diversos ramos, foram praticando.

Disparates, absurdos, monstruosidades, necessidades, ridículos e loucura


caíram como chuva em todos os pontos do país: Arbitrariedades, prepotência,
fraudes, especulações, iniquidades, roubo e até crimes derramaram-se como
incandescente lava, em toda direção, pela face de tão formosa terra.

A princípio o inesperado da coisa me causava admiração e me faziam rir os


contra-sensos e o ridículo.

Depois os absurdos me foram impressionando e o abuso do poder, a vaidade, a


petulância e os vícios que se iam desmascarando, e as paixões que se
desenfreavam, me confrangeram o ânimo e amarguraram o coração.

Não tardaram, por fim, os crimes as iníquas barbaridades a completar a


formação do meu espírito.

Pouco a pouco, do meu natural benévolo, condescendente e sociável me fui


tomando desconfiado; perscrutador, incrédulo; daí apoderou-se de mim a mais
displicente indiferença me retraindo no silêncio e na observação; seguiu-se
então uma irritação nervosa, constante disposição para a censura e a crítica;
uma severidade implacável e sem reservas, até que, ao embate de tantas e
violentas emoções, e tão extraordinários acontecimentos, meu espírito
experimentou uma completa mudança e entrou a viver uma vida toda nova e
estranha.
60
Frio, calmo e severo, nem os homens nem os fatos passam por mim sem que os
submeta a rigoroso exame, e com o interesse de um jogador de xadrez procuro
antever as consequências de qualquer movimento das peças no tabuleiro.

17 DE MARÇO DE 1894

Sinto algures aquecer-me o ânimo e referver-me o sangue quando vejo a


dignidade, os brios, a felicidade de minha terra e dos meus patrícios sofrer um
golpe que pudera ser evitado.

Doem-me os erros dos que se ocupam dos negócios públicos, e enchem-me de


exasperação o cinismo, a baixeza, a vilania de tantos caracteres repugnantes
que têm surgido à tona na quadra lamentável que atravessamos.

As minhas ideias democráticas não as escondo; a minha simpatia por esta


Revolução com o programa que lhe acredito, não o disfarço, mas já me não é
dado intervir, trabalhar, concorrer ativamente nessas lutas.

Reconheço a sua necessidade, elas são fatais, já as havia previsto e anunciado:


não podiam ser evitadas, dado o que foi o primeiro passo em 89.

A mim, hoje só me resta ir consignando nestes apontamentos as reflexões


íntimas e sinceras que por aí ficam a esmo sem destino.

Tais me parecem a origem e a razão de ser dessas tiras que todas as noites vou
enchendo.

Por vezes houve lapsos em que nada escrevi; agora um tédio invencível, logo a
moléstia, antes o desprezo, e a esperança de ver efêmera vida de certos
assuntos, mais logo a violência e extrema comoção que alguns fatos horrorosos
despertavam, determinaram lacunas no papel, porém não no sentimento e na
disposição do espírito.

A imaginação vivaz, a memória fiel daquelas cenas e daqueles acontecimentos


dificilmente me serão tirado: aproveitarei portanto alguma bonança nos
sucessos atuais para preencher aquelas lacunas.

Bem que me sangre o coração ao relembrar tão tristes coisas, e torne a sentir,
narrando as mesmas cruciantes dores e os mesmos amargurados transes, eu os
contarei, humilde e mesquinho, abrigado na admiração do divino Alighieri, ao
ouvir no inferno bradar-lhe o Conde Ugotino... Partare elacrimare vedrai me
insieme .
61
ABRIL DE 1894 – NOTAS – QUEDA

Dia 17 – Ontem: Ao amanhecer de 15 foi atacada a barra por navios de Floriano.

Constou serem repelidos, ainda um navio com avarias.

Ao amanhecer de 16 novo e renhido combate.

Desastre do Aquibadan.

Viagem do Itapemirim a Santa Cruz.

A noite abandono da Fortaleza e do encouraçado.

Abandono do Itapemirim.

Retirada das autoridades civis e militares.

Hoje pela manhã entrada nas posições oficiais dos adversários: ocupação
militar.

Dia 18 – Pela manhã entrada de parte dos navios.

Chegada do Almirante Gonçalves.

Aclamação de Villas-Boas .

Volta à última forma.

18 a 22 – Ver os boletins de 17 a 22 de abril.

Desregramento dos alunos nas ruas.

Chega a 21, alta noite, vapor com tropa do Rio; – desembarque soldados pela
manhã.

Antes à noite, alunos efetuam prisões – invadem casas.

A 22 César anuncia tomar posse.

62
LISTAS

Félix, Cogoy, Caetano Demoro, Dr. Freitas, Batovi, Elesbão, Romualdo, Paranhos,
Dr. Barata, Fausto Werner, Alfredo Batovi, Veiga Jr., Antônio Pires, Júlio Lima,
Conceição, Luiz Ignácio, Coelho, Dr. Lobo, Camisão, Oscar, A Castro, Villas –
Boas.

Batovi, Alfredo, Luiz Caldeira, Caldas, Castello, Miguel Cascaes, Lorena,


Sobrinhos (2), Caetano de Moura, Engenheiros (2), Romualdo, Becher, Filhos de
Trajano (2), Elesbão, Alferes Olímpio, Dr. Barata, Dr. Paulo Freitas, Júlio Lima,
Capitão Leal.

***

Cândido Freire, Ernesto, Gentil – Alfredo Benjamim, Adduci, Henrique Abreu –


(G.N)

Cristovão – (G. N.), Ouvídio – (G. N.), Genuíno (?), W. Freinsleben, (G.N.), Enil
Meier – (G. N.), Portela – São Francisco – Carvão, Paulino Gouveia – (G.N.),
Santos (José da Silva) – delegado de terras, Trajano – delegado de terras, Pedro
Lobo, o Grego.

Provincial Secretaria: Juliano Firmin Oliveira, Tomaz Cardoso Caldas Jr., Horácio
Nunes Pires.

Tesouro : Miguel Vitor Cardoso Caldas, Sérgio Vieira de Souza, Antonio Luiz
Livramento, Eduardo Nunes Pires, Geraldino Feijó, Juliano Vieira de Souza.

Henrique Paiva, Antônio Paselo, Antônio Blum – (G.N.), Boiteux – (G.N.)

***

Villas-Boas, Batovi (...), Alfredo Batovi (...), Luiz Inácio, Alferes Emigídio, João
Fausto, Alferes Telles, Capitão Coelho, Romualdo (...), Lulu Caldeira (...), Elesbão
(...), Lili François, Higino, Genro Maurício, Luiz Crispim, Poticarpo, Miranda,
Gualberto Vilela, Cogoy, Paranhos, Cabral, Raul Natividade, Miguel Cascaes (...),
Manoel João, Nicolau Padeiro, Fábio Faria, Antônio – café, Fausto Werner,
Belisário, Teotônio, Chico Berto, Alferes Olímpio (...), Liberato José, Aníbal
Carvalho Veiga Júnior, Mendonça, Eduardo Saltes, Dr. Barata(. ), Dr. Paulo
Freitas (...), Caetano De Moura (...), Oscar Capela, Júlio Lima (...), Cadete Dutra,
Hercílio Duarte, Séptimo Werner, João Gualberto, Dr. Francisco Lobo, Conceição,
Camisão, A. Castro, Gordílho, Dr. Teixeira, Alfredo Albuquerque, José Cândido
63
Silva, Chico Magano, Loló Gama, Lídio Barbosa, João Cândido, José Narciso, José
Honório, Major Alexandre, Rios – delegado, Manuel Serafim, Sabbas Costa,
Capitão Leal.

Presos 50 paisanos. Presos 21 militares. Ocultos – total 75.

EXECUTORES DE SANTA CRUZ

Alferes Valério Barbosa Falcão.

Alferes Mariano José Pereira de Carvalho.

Segundo Tenente João Lopes Oliveira e Souza.

23 DE ABRIL DE 1894 – O RESPONSÁVEL

Ao Presidente da República Chefe do Executivo, cabe toda a responsabilidade


dos desastres que aqui se têm dado.

A ele incumbe velar direta e eficazmente pela segurança pública, garantir com
efetiva defesa a liberdade e os direitos dos cidadãos, fazer respeitar e cumprir a
Constituição e as leis.

Ao Presidente, pois cumprirá repelir o ataque da Esquadra revoltada e preservar


o Estado da invasão das forças revolucionárias.

Em vez disso o que fez?

O Estado foi entregue a Revolução, sem resistência.

A força presidencial rendeu-se porque não podia resistir, tão insuficiente era:
nem um navio guardava o porto.

As tropas da Revolução transbordaram do Sul e se derramaram sobre todo o


Estado assoberbando tudo até o vizinho Estado Paraná.

A ocupação militar investiu a Revolução de todos os soberanos direitos e


poderes, tão inteiros como os do governo a que tinha pertencido o território.

Daí a sujeição, a obediência do povo a este poder.

64
A Revolução organizou o seu governo e dispôs de todos os meios a seu alcance
para administrar os povos que se achavam sob sua guarda, e utilizou todas as
forças que pode obter para garantir a posse do território adquirido.

A imposição e o constrangimento mais ou menos arbitrários que esse governo


empregou apoiava-se no mesmo direito e poder que arma o governo do Rio –
do arbítrio e da violência no estado de sítio – É o mesmo direito da força.

O povo é sempre passivo, venha de onde vier o despotismo.

A força superior exclui a responsabilidade do violentado.

As autoridades, os funcionários, o povo que vergavam ao poder arbitrário do


estado de sítio, entregaram-se ao arbítrio mais suportável do poder
revolucionário.

Abandonado pela Revolução, a seu turno, o Estado, inflige-lhe o Presidente da


República, o mais cruel castigo, antes vingança atroz.

Com que direito?

Por que a Revolução esteve aqui? Por que o Estado se governou regularmente
durante esse tempo? Por que as repartições públicas funcionaram
normalmente, por que as Câmaras Municipais, a Justiça, por que todos os ramos
do serviço público foram exercidos pelo seu completo pessoal, por que o
comércio continuou no estreito círculo, que já o apertava, sua vida própria? Por
que o povo conforme as dificuldades do momento prosseguiu nas suas
indústrias, artes e lavoura?

Por que viveu, enfim?

E o que queria ele que fizesse?

Que procedimento esperava dos habitantes de todo um Estado em tal


emergência, e onde, em que manual em que doutrina, em que lei se encontra
norma para esses casos?

Pretendia que a Revolução concedesse ao povo liberdades que ele nunca lhe
permitiu?

Queria que as autoridades legítimas, os funcionários legais abandonassem as


Repartições, que o comércio fechasse suas portas, e todas as famílias deixassem
suas casas, e a população fugisse... para os sertões?

65
E como não o fez, o Estado é revolucionário, cometeu o crime de rebelião
contra a República, e toda a população está sujeita aos castigos que a Lei
Marcial, o estado de sítio, entregam discricionariamente nas mãos do arbítrio.

Cometeram o crime...

Mas quem é aqui o criminoso?

Criminoso é o Presidente da República que levanta nos Estados a animosidade,


o desespero, a raiva, pela opressão, pela tirania, pela afronta aviltante.

Criminoso é aquele que tendo a obrigação, o rigoroso dever de velar pela


segurança do território do Estado, deixa-o a mercê do primeiro ocupante e o
entregue inerme nas mãos do Revolucionário triunfante.

Criminoso é aquele que incumbido de conservar a paz, a tranquilidade, o bem-


estar do povo, – tudo sacrifica para acender a discórdia, para agitá-lo, para
lançá-lo na desgraça.

Criminoso é o Presidente da República que manda seus soldados espingardear


as dez horas, traiçoeiramente, o Governo do Estado e que declara reconhecer
legítimo esse governo – confessando suas ordens covardes.

Criminoso é o Presidente da República que galgou o poder, que assumiu a


Presidência à frente de uma revolução armada, que fez deposições de governo
nos estados à força de armas, – e que pune com a Lei Marcial essa mesma
revolução que depôs o seu antecessor e o elevou, a ele, ao poder.

Esse, sim é criminoso.

Não esse povo generoso que afogado em ondas de indignação e desespero,


abriu os braços, sentindo-se abandonado pela tirania, aquelas legiões de bravos
que vinham, combatendo pela liberdade e em desafronta da pátria oprimida.

Não, não são criminosos esses que aceitaram a Revolução e a serviram.

Soltos dos braços de ferro do despotismo que os dobrava por terra, – sentiram
bater-lhes o coração ao grito de liberdade, e expandir-se o peito as quentes
auras do patriotismo.

Levantar-se contra a tirania, tomar as armas pela liberdade, bater-se pela pátria,
defender os lares, a família, a vida, é crime?

Crime o amor dos mais sacrossantos sentimentos do homem?


66
Maldita a sociedade, maldita a Nação, maldito o país que aceita, que sanciona,
que aprova o absolutismo de déspota.

24 DE ABRIL DE 1894 – MACABRA

Como explicar tudo isto? O Estado de sítio, quando muito desculpa o arbítrio
das violências.

Debalde se tem procurado motivar estas ou aquelas prisões com certos


preceitos regimentais: alguns não abrangem todos os casos, outros são
extensos demais.

O que fica provado realmente é que só o mais livre arbítrio tem presidido a tais
atos do Governo Militar.

Têm sido presos militares e paisanos.

Militares que serviram ativamente na Revolução e outros que nela não


serviram; paisanos que tomaram armas como voluntários e outros como Guarda
Nacional, e ainda outros que nada fizeram.

Presos têm sido telegrafistas uns em serviço outro em disponibilidade.

Desses presos quase todos têm sido embarcados com destino para o Rio de
Janeiro.

Com que fim?

Responder a Conselho de Guerra, ou ser julgado pela Comissão da Lei Marcial?

Ou simplesmente para mudarem de prisão?

Ou finalmente para se efetivar assim sua deportação?

Como fixar ideia no meio de tamanho poder discricionário?

25 DE ABRIL DE 1894 – O CASTIGO

O que parece ressaltar mais proximamente dos fatos acontecidos, desde o


abandono do Governo Revolucionário, é mais um traço característico da feição
que tomou a tirania ou despotismo.
67
O poder central, quando menos pensava, sentiu arrancarem-lhe das mãos um
Estado, com o qual contava para reprimir a marcha da Revolução e contê-la no
Rio Grande do Sul.

A irritação que lhe causou semelhante fato, o consequente desastre, e a afronta


que sofria nesse golpe, enviazou-lhe no profundo rancor o firme propósito da
vingança.

Múltiplas e variadas causas se haviam acumulado aqui, para atrair a


animosidade daquele poder.

A sentença parece ter sido terrível.

Tomada à viva força, nos horrores dos sanguinolentos combates, de


bombardeio e desembarque: tudo seria arrasado, sem piedade, sem distinção,
sem tréguas.

Ocupada sem resistência, nas violências das prisões, nas mais cruéis e
angustiosas cenas de encarceramento e deportação – todos seriam feridos
atrozmente, sem compaixão, sem dó, homens e mulheres, velhos e crianças.

Não houve resistência, nem um sinal de despeito: abandono completo de tudo.

Derramou-se a vingança à meia noite sobre toda a cidade; foi medonho e ao


amanhecer, o sol iluminava cenas de prantos, de dores, aflições, 3 – 2 – 1, e o
silêncio e o medo, a fuga, nas casas e nas ruas, como da praça vencida entregue
à vindita do estrangeiro vitorioso.

Estrangeiros com efeito foram esses vencedores.

Estrangeiro é este ditador elevado ao poder por uma sedição militar que
derribou outro ditador, erguido ele também por uma sedição militar.

Estrangeiro, que não sente queimar-lhe as mãos o sangue brasileiro que


derrama.

Estrangeiro, que nunca viu o azul de nosso céu, que nunca sentiu afagar-lhe o
peito a brisa suave de nossa terra.

Mas esse estrangeiro... é o poder e o poder armou-se da ditadura, é o


despotismo, é a tirania.

O despotismo não podia deixar sem castigo esta mísera terra.


68
Como?

Essa misérrima e fraca Cidade, sem renda, sem população, sem forças,
desarmada e exausta teve o atrevimento de sacudir de seus ombros o jugo do
poder central?

Essa população de pobres ilhéus e mesquinhos lavradores teve a ousadia de


revoltar-se contra a ditadura?

Esse pequeno e insignificante Estado teve a veleidade de declarar-se


independente?

Esse punhado de homens, quase todos crianças, bisonhos, sem roupas, sem
almas, tiveram a coragem de se arrojar contra as tropas do Exército de linha?

Era demais.

Ao chegar a hora do castigo, caro haviam de pagar todos esses crimes.

Mísera plebe, vergada e conduzida ao látego dos feitores que do centro a vinha
governar, que tinha essa gente de revoltar-se contra os que lhe dão o salário e o
pão?

Quem lhe deu o direito de sentir afrontas e perceber opressões, quem a


autorizou a enrubescer de brio, quem lhe deu licença de pensar em liberdade,
de conhecer o amor da pátria, de reclamar de direitos?

Tais crimes não podiam ser perdoados.

O castigo será exemplar e lhe há de tirar por muito tempo a ideia de levantar-se
contra o poder que a domina.

Abatido, prostrado, cortado pelas dores, pelas lágrimas, enfraquecido pela


pobreza, – só recebendo a vida pelas esmolas que lhe venham do Centro, este
Estado subjugado aprenderá a arrastar a existência servil que o poder lhe
concede.

Então terá a paz e lhe será permitido alegrar-se, cantar hosanas à magnificência
e esplendor do divino poder que o felicita.

É esta a explicação.

Explicação tremenda, que ao mais íntimo da alma leva o horror e desânimo.


69
Ainda sangrava a ferida na noite de 31 e já se completava a obra espalhando
sobre toda a pátria catarinense o opróbrio e a ruína.

Caiam sobre o malfadado estado todos os males e desastres, que se esse povo
de escravos fugir ou perecer, outro será enviado para reviver e conservar do
senhor sempre este burgo podre.

26 DE ABRIL DE 1894 – AUTONOMIA

Quando a Divisão Revolucionária entrou no porto, proclamou em claro


manifesto que respeitava e garantia a completa autonomia do Estado, em cujos
negócios não interviria, – restabelecendo assim os direitos e prerrogativas
usurpadas pelo Estado, contra o estatuído na Constituição que impuseram ao
país.

E continuou na administração o governo que então estava.

Feito um Governo Provisório para a revolução, esse governo deixou ao Estado


as regalias todas concedidas pelo chamado pacto fundamental.

O Governo do Estado seguiu livremente sua administração até o último dia de


liberdade.

Quando a Revolução deixou o poder do Estado, dele se apossou uma Comissão.


Entrados os navios do Ditador foi investido no Governo um militar. Começou a
administração dispondo nova formação dos poderes estaduais.

De súbito, chega um chefe militar e às dez horas da noite assume o governo,


prende o antecessor e à essa mesma hora solta pela cidade a soldadesca a
efetuar as mais arbitrárias e violentas prisões, com todo o aparato de cerco e
varejo nos domicílios.

Este governo pôs na Galícia um militar e está administrando o Estado em


comum nos seus e nos negócios federais.

27 DE ABRIL DE 1894

A Revolução não foi sufocada.

Do Sul, ela derramou-se majestosa até bater nas fronteiras de São Paulo.

70
Terrível, ameaçadora, ela iria até a cidade fatal de todos os tempos, a corte de
todas as tiranias, e lá nos paços do despotismo, quebraria por uma vez essa
espada, que inconsciente, desembainhada em 89, tem entregue a Nação
desgraçada nas mãos da anarquia.

Os azares da guerra fizeram-na perder o apoio das forças do mar. Sua Esquadra
inutilizou-se.

Sem esse apoio, a disposição de seus planos mudava.

28 DE ABRIL DE 1894

O Governo militar aqui estabelecido neste Estado tem trazido afastados da


administração os corifeus do partido que caiu com a ditadura de Deodoro.

A maneira com que se instalou no Governo o Coronel enviado pelo Presidente


da República...

29 DE ABRIL DE 1894

O Estado do Paraná está nas mãos do Governo do Rio.

Mais vergonhoso do que a triunfal vitória do Desterro, foi esplêndido feito de


armas...

30 DE ABRIL DE 1894 – CALDAS

Mais uma cena desoladora vem hoje reabrir as feridas ainda gotejantes do
coração catarinense...

***

Ludovino avisou parentes.

De sua casa fez-se nutrido fogo.

Pretexto de buscar fugitivos – (fugistes).


Passeata militar Domingo.

Intimação Chaves (Câmara).

71
Varejo casa carcereiro.

***

Dr.

Por hora nada de novo, está tudo parado, e não há remorsos de sair o Boi.

Vamos esperar mais um pouco.

Estava escrevendo quando vieram dizer-me que querem os lambizas tomar


o Lomba e o Itapemirim para fazerem fogo para a terra e já anda tudo em
movimento, inclusive o capitão do Porto, segundo me informam.

Estou com tanto medo que não escrevo direito.

***

Eis que prossegue o trabalho de desmoronamento.

No turbilhão dessa voragem, tudo se precipita, tudo rola, tudo se despedaça e


some.

***

Campo do Manejo.

Córrego que atravessa.

Limpeza de macega.

Rua da Carioca – 22.

Aumento do (líquido alcoólico)

João Regis -R

João Barbosa – R

João Sic – R

Delminda.

Caetano Demoro.
72
Coutinho.

Saturnino.

***

Perguntar ao Dr. Motta quais os companheiros que foram do Paraná para


Desterro no Vapor e quais os que morreram.

1894 – Chegada Paula Ramos.

Fuzilado Cemitério da Capital

Pedro Lopes de Mendonça.

1º cadete – 2º– Sargento.

Vapor Santos. Era do Aquibadan.

Bellerophonte – Processo de defloramento.

30 de Abril de 1894

– Relação nominal dos doentes que por ordem superior baixam no Hospital da
Santa Casa de Misericórdia

A saber: Exército Revolucionário – Bazar aqui: Vicente Marques Goulart (Alferes)


- Alta em 24 de dezembro de 94; Domingos Lopes (Tenente Coronel); Antônio
Ajara – faleceu infecção pútrida; Eliseu Ajara – alta – passou a
servente; Emiliano Manuel (Primeiro Sargento) – alta a 7 de
setembro; Severino – seguiu para o sul a 4 de outubro; Alberto
Bonafuentes (Alferes) alta 9 de novembro de 94 – foi para o sul; Severino de
Almeida Lima – alta a 12 de Fevereiro de 95 – seguiu com Emiliano para o
Sul; (Fidêncio) Fidéles Alexandre Dutra (Alferes) – alta; os policiais:Pedro Pierre
Oronante – alta 13 de setembro de 94 – seguiu para São José; Simplício
Estanislaus – alta; Luiz Eduardo Mozogo – alta 21 de maio de 94.

Ass.: João Claudino da Rosa, enfermeiro militar

João Marques – oculto na mata

73
Prático Serafim (da orelha) – é falso, delator

Prático Pedro é fiel.

***

Vicente Marques Goulart, (Paciente), Fernando Marques Goulart.

No Rio Grande do Sul, Bruno, 20 anos, veio do Hospital Militar – ferido.

Exército Libertador (revolucionário).

Alta – Curado a 24-Dez-94.

Baixa – 30 – abril.

***

Um tal João Gaspar, em Biguaçu, que serviu de guia ao Dr. Caldas, foi depois seu
denunciante. Preso este e trazido com as mãos amarradas, cuspiram-lhes na
face; tiraram-lhe as botas, relógio, dinheiro.

Os arreios ainda estão guardados em uma casa ali.

De Castelo Branco um tal Ventura roubou uma valiosa mala que com uma faca
arrombou, sacando quanto continha: farda, roupa, dinheiro. A mala está em
casa de uma senhora em Biguaçu.

Não é só o Rio Grande, Santa Catarina tem o seu heroísmo.

(Reclamação.)

Liberal de todos tempos, na ditadura Deodoro venceu.

Assalto S. Martins. Foi o primeiro que denunciou Floriano. Foi o único


independente da Ditadura.

01 DE MAIO DE 1894

Se era grave durante estes últimos meses a situação do Brasil, agora que se nos
apresenta muito mais delicada e cheia de perigosas complicações.

74
O novo aspecto da Revolução nascido de imprevistos acontecimentos e certos
fatos, também inesperados, que vão acentuando aquela nova feição, não
entravam decerto nos cálculos e nas combinações que determinaram o
procedimento do governo com relação a sua política interna.

Muitos dos elementos com que contava seguro o governo em seus planos tem
faltado completamente.

As Nações estrangeiras não acertam a qualificação de piratas para a Esquadra


revoltosa;

A marinha revolucionária abandonando a posição na baia do Rio, sem ser


combatida pela frota do governo, e sua proteção de bandeira estrangeira;

O acolhimento em extremo significativo dos revoltosos, no Rio da Prata:

As fáceis vitórias sobre Estado de todos abandonados:

O acontecimento destes fatos, logo após a eleição presidencial sob a pressão,


homicida, do Estado de São Paulo.

Tudo isto deve ter abalado muito fundamente os alicerces em que o Governo
vai levantando o edifício do militarismo e talvez da ditadura declarada.

Conhecido porém, como se tem empenhado em demonstrar o governo, o seu


intento firme de sustentar o elemento militar na direção do país, não há razão
para duvidar de quanta contrariedade lhe foram aqueles fatos, mas também
não serão para estranhar os novos e maiores esforços que venham a aparecer.

Curioso, entretanto, será o caminho que terá de tomar o chefe do militarismo.

02 DE MAIO DE 1894

Entre tantas ruínas que o observador tem de encontrar no serviço público ao


terminar o estado deplorável de guerra civil, – uma das mais completas será a
das forças armadas de mar e terra.

Vencida a Revolução, por que preço ficará esse triunfo?

Mas também conseguindo a Revolução derribar o governo de Floriano, não


serão menores as dificuldades.

75
A Esquadra, reduzida a três ou quatro navios, vêm todos eles prontos para
servir; o pessoal da Marinha, no primeiro caso limitado a um ou dois oficiais
superiores e alguns novos encarreirados, além da falta de segurança
profissional, tocados de suspeição e dúbia confiança, sem tripulação marítima,
não poderá a Armada prestar serviço algum real, antes que se passem muitos
anos.

O Exército, é porém onde se reúnem os mais insuperáveis embaraços para o


governo qualquer que ele venha a ser.

Se na Guerra do Paraguai a Monarquia achou-se em dificuldades com os


voluntários, cuja leva o governo teve a fortuna de realizar com invejável
regularidade, o que não produzirá de obstáculos, a turba-multa armada de um
momento para outro, em grupos e lugares diferentes e sucessivamente, sem
uma ideia, sem nexo algum entre si, conservados fiéis tão somente a peso de
dinheiro e prontos sempre a abusar das armas pela inconsciência da própria
disciplina?

Esses corpos de Exército sem organização, esses batalhões incompletos,


inominados, dissolvidos pelas derrotas, levantados sobre os restos de uma
companhia, formados civis uniformizados, sem assentamentos, compostos só
de oficiais, confundidas as armas em profunda promiscuidade; esses homens
armados, enfim, entregues a chefes de posição precária e mando efêmero, aos
quais só se manda combater o inimigo e combater até a morte, aos quais se
ensina que ser vencido é ser degolado, esses homens, que destino terão, os
oficiais de improviso que classificação obterão, uma vez terminada a luta
quando já não for necessária tanta tropa?

Esses braços arrancados à indústria, às artes e à lavoura, voltarão tranquilos a


seu antigo labor, salpicados ainda de sangue de seus irmãos?

Esses homens tirados do comércio, das repartições públicas, irão deslocar os


que os substituíram, armados com os galões obtidos a combater seus irmãos?

Esse rebotalho das praças e dos cais será de novo entregue às suas antigas
pocilgas, mais desenvoltos os vícios e apurada a crueza no saque de seus
irmãos?

Ou, com todos esses elementos se constituirá uma força pública, se


reorganizará o quadro do Exército brasileiro, elevando, se preciso for, a cem ou
duzentos mil homens o efetivo para dar lugar a todos esses galões
profusamente derramados?

76
Com os claros deixados pelos inimigos revolucionários não se poderá contar, em
tão pequeno número são os graduados do Exército que entre eles andam.

As forças revolucionárias são compostas de paisanos, sem aspiração militar sem


outro fim senão derribar a tirania, para voltar em paz a amparar a família e lar, à
sombra da liberdade.

Daí não virá certamente embaraço a nenhum governo.

03 DE MAIO DE 1894

Qual será a nova feição do movimento revolucionário?

A revolta da Esquadra havia mudado o caráter da Revolução.

De puramente civil e política, ela tinha acolhido o concurso de um dos


elementos armados da Nação, que se rebelava contra o despotismo da ditadura.

Logo depois esse elemento expandindo-se desenvolveu uma vasta bandeira


políticas.

Abandonada a ação da Esquadra sem que o seu pessoal se retirasse da


revolução, ressume-se o movimento na campanha de terra.

Mas porventura o papel desses Chefes da Armada está terminado com a


suspensão das hostilidades por mar?

Ficarão ociosos repousando sobre seus louros tantos heróis, deixando em meio
a pugna a que se arrojaram com tamanho valor?

Acolhendo-se sob a proteção de uma bandeira estrangeira esses, valentes


conservaram a sua posição de revolucionários, não tiraram da cinta sua espada.

04 DE MAIO DE 1894

A recepção feita tanto em Montevidéu, como em Buenos Aires aos inimigos


brasileiros, tem uma alta significação política.

Não morriam de amores pela Revolução os Governos Oriental e Argentino;


aqueles até se tornaram tão antipáticos à causa federalista, que seus atos
atingiram as raias da intervenção.

77
Como explicar pois os procedimentos, não já do povo, mas dos próprios
governos?

Como entender o empenho extremado em prestar todos os socorros, em


cumular de benefícios, de favores, de sinais de amizade, não só os brasileiros
que nos navios revolucionários ali aportaram, como aos que por terra se
abrigaram à sua bandeira?

05 DE MAIO DE 1894 – DÚVIDAS

Alguma coisa de duvidoso parece encerrar o aspecto das coisas públicas neste
Estado.

A administração está como suspensa, o expediente limitando-se a demissões e


nomeações simplesmente partidárias.

Nem um andamento em os diversos ramos do serviço público: tudo parece


suspenso à espera de algum acontecimento.

Ocupados a presidência e a polícia militarmente, os seus atos são expedidos e


praticados com o caráter puramente militar.

As fórmulas e praxes civis estão suspensas.

Há quinze dias que começou este governo ainda se não falou em voltar à
direção do Estado os poderes criados pela sua Constituição, apesar de se achar
ele completamente livre da Revolução segundo logo foi declarado.

O jornal único que se publica, não parece muito na intimidade do poder: o


expediente é atirado para lugar secundário e somemos; o governo ainda não
obteve uma única menção laudatória nem na sua instalação simplesmente
anunciada.

O Palácio vive isolado das figuras civis que mostravam repugnância ou


contrariedade em ai se apresentarem, não só o desgosto, mas um sério
desânimo se patenteia na feição e nos modos de cada uma dessas figuras.

Nada é claro; nada é tranquilo, nenhuma segurança se conhece no povo.

Pelo contrário, ao pânico produzido pelos dias de terror, com que se inaugurou
o poder militar, tem sucedido um torpor, uma reserva, uma sombria tristeza,
que facilmente denunciam a concentração de ânimo do povo subjugado pela
força, e nunca a resignação do vencido nos azares da política.
78
De vez em quando, ainda alguma cruel violência fere a sociedade em um de
seus membros, e então um surto estremecimento se adivinha percorrendo
todas as camadas, e logo adormecido no fundo daquele torva prostração.

O comércio e o tráfego da vida na cidade perdeu de todo a animação, e nas


praças, nas ruas o maior movimento é devido aos soldados que em toda parte e
em grupos parecem os únicos habitantes; ainda bem, não se esconde o sol e já
as casas comerciais se fecham e as ruas se tornam desertas.

As linhas telegráficas foram declaradas livres para a norte e para o sul: e mal e
custosamente e se obtém um outro recado do sul, fechada a comunicação para
o vizinho Estado do norte.

Os portos do Estado se anunciou abertos para toda a Nação e para o


estrangeiro, e nem um navio, a não ser da própria divisão em operações de
guerra, entrou ainda em nossos portos.

As evoluções desses vasos armados têm sido incessantes e inexplicáveis, saiu de


súbito e apressadamente, e voltou do caminho daí a horas, não formando
outros ao ancoradouro.

A mudança da força armada que aqui primeiro chegou, a irrupção de uma outra
força logo retirada depois de feita a reação, a saída de grosso contingente para
a noite do Estado, trazem a população em constantes surpresas.

Do vizinho Estado do Paraná, nada se sabe: apenas foi publicada a notícia de


que abandonados literalmente, os portos e Capital haviam sido ocupados pela
força da União, e nem mais uma palavra até hoje: silêncio que o jornal guarda
tão estritamente sobre o Rio Grande como sobre o Rio de Janeiro e São Paulo.

Ao mesmo tempo outros fatos vêm tomar mais inexplicável a observação à


atual situação.

Tornou-se público que o oficial militar que assumiu o governo se acha


contrariado, pois esperava ser substituído em poucos dias e não conseguia que
aceitassem o poder os chefes políticos ao quais quis passá-lo.

Esses chefes são conservados em completa ignorância das vistas, planos e


intenções do governo: seu papel é muito secundário e humilhante.

O fato da entrada à meia noite em palácio, o coronel, apenas tenha chegado do


Rio, e a essa hora assumir ex-abrupto o governo prendendo o oficial que se
achava funcionado como governador investido do poder pelo chefe da Esquadra
79
incumbida de retomar o Estado para o governo do Centro: causou estranha
sensação em todos os espíritos.

É notório que depois desse proceder, que não se acompanhou de nenhuma


satisfação ao Chefe da Esquadra, este não voltou mais à terra.

É sabido que não só nenhuma diligência se fez, nem mesmo nenhuma palavra
se pronunciou a respeito, para a prisão de qualquer dos oficiais da Armada que
aqui se achavam implicados na revolução, sendo dela aliás os mais importantes
chefes.

Lançando-se, com atenção, a vista sobre tudo isso, notando-se a confusão e


atropelo dos fatos, a indecisão, irresolução, o segredo das revoluções; torna-se
firme a ideia de que alguma coisa de duvidoso paira sobre a situação política do
Estado e quiçá da Nação.

06 DE MAIO DE 1894

Varejo à noite em casa Vasco Gama.

Conferência – Dona Rita Gama e filha com o governador.

A 8 – fuzilamento no cemitério de um grumete.

Apreensão de cavalos a pretexto de terem pertencido aos revoltosos.

Prisão de calabouço na Fortaleza Santa Cruz.

Opinião do Almirante sobre Alexandrino.

Teoria sobre os funcionários públicos no caso de revolução em um Estado.

Teoria sobre os militares neutros.

08 DE MAIO DE 1894

Como se fará a restituição do Estado à vida normal, ao exercício das funções de


sua existência legal?

Antes de tudo, o que se entenderá por legal?

80
Será o que constitui o status quo no momento em que entrou a Esquadra
revolucionária neste porto?

Mas já então existia o estado de sítio.

Será o status quo de antes da deposição de Lauro, o qual retirou de toda as


posições oficiais o grupo ou partido que agora se apossou do poder?

E como se fará essa evolução?

Por ora nem um fato, nem um escrito no jornal, dá indício sequer de se haver
cogitado em tal.

Parece antes que vivendo-se à mercê das circunstâncias do momento, tudo se


fará ao acaso.

Enquanto a autoridade suprema do Estado se conserva nas mãos de um agente


militar, armado de completo arbítrio, no estado de sítio, com a compreensão
ditatorial do despotismo, escusado é pensar em Constituição, em leis.

A própria justiça foi arrancada das mãos da magistratura e sem que subsista o
estado de guerra, o julgamento militar anda em vigor, dispensando mesmo a Lei
Marcial.

Qual será a transição para uma regular organização social?

Ou entrará nos planos da ditadura destituir o Estado, e incorporá-lo como


território do centro?

Todas as hipóteses são admissíveis hoje, quando os mais estupendos e


tresloucados decretos têm chovido sobre tão desgraçado país.

O efêmero governo de Villas-Boas, apresentou-se prometendo entregar o poder


aos delegados da soberania do povo apontado em próxima escolha.

Também curioso.

Que legalidade viria a ser essa?

Não importaria isso na mais pura e simples deposição?

Por ocasião da nefasta noite de 31, não havia clara e peremptoriamente


declarado o Presidente da República, único legal o governo que tentavam depor
os mesmo, que hoje se constituem poder?
81
Não havia com toda a força de sua autoridade mandado a ele só reconhecer e
obedecer, garantindo-o com o seu apoio militar?

Seria esse então o poder legal e legítimo, seriam todos os atos dele emanados
até o primeiro dia do domínio revolucionário.

E terminado que fosse esse período anormal, seria o poder chamado a entrar no
exercício de suas funções.

Não teria pois lugar a mudança do pessoal efetuada, isto é, do partido ou


grupo...

***

– Floriano assumiu o poder a 23/nov/1891 ás 9 horas da manhã

– Dissolução do Congresso por Deodoro em 3/nov/91

– Reclamação dos 13 generais pedindo a eleição do Presidente da República em


abril de 1892. Foram reformados todos a 7 de abril.

– Conspiração e prisão, Desterro (Caruí) abril/92

– Lulu Caldeira fuzilado a 25.

– Começo da Revolução no Rio Grande a 4 de fevereiro de 1892 – Combate


de Salsinho?

– Revolta da Esquadra – Madrugada de 6-9-1893 abandonou o Rio de Janeiro a


13-março-1894

– Entrada da Esquadra em Santa Catarina em 29 de setembro de 1893

– Desastre Aquibadan

– Revolução Lauro

– Ataque dos Polacos

– Estado de sítio

– Passe Hercílio Governador

82
– Entrada da Esquadra no Paraná – 20-01-94

– Tomada da Lapa: 18 – fev.

– Desastre de Melo no Rio Grande.

12 DE MAIO DE 1894 – QUESTÃO FEDERALISTA

12 de maio – 94. A capital é federalista e a maioria do Estado também.

É impossível deixar de reconhecer a feição profundamente partidária da


população desta Capital.

Nunca se manifestou ela tão claramente como agora desde o dia da retomada
do governo.

A observação, a mais superficial, vê-se forçada a conhecer a opinião que domina


o espírito público.

Se tantas vezes, já desde os antigos tempos, em estrondosas festas, em


brilhantes demonstrações nas quais tomam parte todas as classes, que
abalavam todas as matizes partidárias e ainda os mais indiferentes habitantes,
se tantas vezes, por ocasiões e motivos tão diversos e poderosos, pareceu
declarar-se franca e abertamente a opinião pública, – jamais se pronunciou tão
solenemente a palavra majestosa e grave de uma população inteira

Jamais se acentuou com tão fundos e vivos traços a alma do povo.

É preciso que na memória dos homens não empalideça essa imagem majestosa,
ao perpassar rude e áspero

Durante os primeiros dias foi o terror que encheu de pânico a Cidade.

As praças, praias e ruas cheias de soldados estranhos, despejados pelos


vapores, armados e equipados em campanha, de punhal e revólver, sôfregos,
arrogantes, desabridos e insultantes como se entravam em praça rendida em
combate, os vivas, os passeios desrespeitosos em carros descobertos, as prisões
violentas, os arrombamentos e varejos nas casas a horas mortas da noite, o
aparato bélico, a fuga de quantos receavam sofrer, as notícias da multiplicidade
de prisões, enchendo-se os cárceres de onde se levava para bordo dos navios os
presos, a fim de enchê-los de novo, e isto sem explicação, sem uma razão que
pusesse em segurança qualquer classe de cidadãos; tudo incutiu rapidamente

83
nos habitantes um tal pânico que o comércio e as casas particulares se
fecharam e ninguém mais ousou sair à rua.

Se a soldadesca não abundasse, dir-se-ia uma cidade abandonada na presença


da peste.

Passados alguns dias, se foram pouco a pouco arriscando os habitantes,


forçados pelas necessidades da vida, recolhendo-se a seus domicílios tão
depressa se desembaraçavam de seus deveres.

Está a completar um mês dessa...

14 DE MAIO DE 1894 – RETIRADA SALDANHA DO RIO

Tradução da "El Siglo" – 10-5-94 – Montevidéu [Ver Diário de Santos – 18-4-94]

E Ver Gazeta de Notícias – 16 – 4 -941 Bordo da Corveta Afonso Albuquerque

Surto na baía do Rio de Janeiro – 14 -3 -94

Resumo extraído da ata da última conferência celebrada no dia 10 e terminada


no dia 11 a bordo da Mindello, corveta da Armada real portuguesa, atualmente
em água da baía do Rio de Janeiro, entre o comandante Capitão da
Fragata Conselheiro Castilho, e os Chefes das estações navais europeias, inglesa,
francesa, italiana e alemã (faltando das marinhas estrangeiras que têm navios
ancorados neste porto, a americana, cujo almirante comunicou previamente
que dava por aprovado e ratificado todo e qualquer ato resolvido na
deliberação desta conferência).

"Aos onze dias do mês de março de 1894 neste porto do Rio de Janeiro, e
reunidos a bordo do navio de guerra Mindello, da Marinha de Sua Majestade
Fidelíssimo El Rei de Portugal, todas altas categorias dos diversos navios de
guerra ancorados nestas águas, legalmente autorizados pelos ministros
plenipotenciários que na última reunião diplomática (consequência de outras
que se efetuaram) e no dia dez de março concordaram em garantia dos
interesses materiais e das vidas dos seus concidadãos, na previsão de um
próximo bombardeio cujas consequências seriam forçosamente funestíssimas.

Resolveu; dar asilo ao temerário e leal Sr. Contra-Almirante Saldanha da Gama,


a toda sua oficialidade, e a valente marinhagem que sempre deu provas de bra-
vura, coração e disciplina, resistindo nas duas fortalezas que estavam em seu
poder e com o pequeno número de navios a seu serviço, ao governo legal vinte
vezes superior em forças, durante seis meses.
84
O asilo será escolhido pelo Senhor Almirante, que será atendido e garantido por
todos os navios estrangeiros, atento o heróico sacrifício por ele realizado, e
estes auxiliarão moralmente ao referido Sr. Almirante, para que uma vez a
bordo com sua falange de bravos, possa sair barra fora para um porto dentro ou
fora do Brasil, qualquer que seja o escolhido pelo mesmo senhor Almirante.

Documentar a história de com esta conferência, lavrar a ata que deve


acompanhar o protocolo que vai ser enviado à Europa a fim de ser concedido
em boa e devida formação o direito de beligerantes aos revolucionários
federalistas e da Marinha, preenchendo assim uma formalidade de máximo
alcance para a Revolução.

E aprovados todos os preliminares e discutidos os pontos mais controvertidos


de direito marítimo internacional, aplicáveis ao fato de que se tratou,
especialíssimo em sua espécie, o Senhor Conselheiro Castilho, depois de haver
firmado esse documento mandou transcrevê-lo no livro de quarto daCorveta
Mindello, que foi também remetido (o original) para ser registrado no livro de
quarto do Afonso d'Albuquerque, assim como será registrado em todos os livros
de quarto dos diversos navios de guerra, cujos chefes compareceram nesta
conferência.

O Senhor Saldanha da Gama bem merece da pátria da humanidade, seguem-se


doze assinaturas".

15 DE MAIO DE 1894 – VER 12 DE MAIO

Da reação se aproveita o espírito partidário para extinguir o Partido Federalista.


Efeito contrário.

É preciso que se extinga o Partido Federalista. Duas feições traz a reação aqui
mandada fazer pelo governo da União.

A extinção do movimento revolucionário nesta capital e nas outras cidades do


Estado não justificaria medidas de repressão, tirando-lhe o objeto, e abandono
completo por parte dos que na Revolução tomaram parte, não só das forças e
meios das armas, mas também de todas as posições oficiais e de todo o caráter
político na vida pública.

A repressão portanto não tem lugar.

20 DE MAIO DE 1894 – MILITARISMO


85
Golpes na Armada – Extinção da classe. Extinção do Exército – base e apoio do
elemento militar.

O elemento militar estabelece francamente o seu domínio.

Rompeu afinal a luta entre o Exército no poder e a Armada.

A ditadura não hesita mais: se for preciso novo golpe de Estado, ele se dará.

A Marinha foi entregue ao Exército.

Os arsenais, as escolas, os laboratórios, as farmácias e os hospitais, as


repartições, companhias e os batalhões navais, tudo passa para a direção do
Exército fundido em comum serviço.

Os navios de guerra são, não só guarnecidos por soldados, mas por eles
tripulados.

Ao lado de cada oficial da Marinha velam dois soldados.

Um capitão do Exército é o ajudante de ordens do Ministro da Marinha.

Onde o soldado não pode chegar, na especialidade da profissão, o ouro põe o


estrangeiro.

Se se tratasse de um testa coroado, era o caso para rir-se de tão estulta política,
pois esses, hoje soldados, não serão amanhã marinheiros, e não ficará assim
restaurada a Marinha de guerra, a Armada Nacional, que então sentirá no peito
rebentar o sagrado fogo da vingança pela agora sua classe? Não seria essa uma
dolorosa herança aos sucessores no trono?

Mas as presidências são efêmeras, e no curto espaço de alguns meses não se faz
de um soldado bisonho, nem um bisonho marinheiro.

Ainda com um golpe de Estado que só faria renovar a ditadura, nulo seriam os
resultados desse disparate para os fins que o leva em vista.

O absurdo de semelhantes atos só deixam claro o ódio, a sede de vingança


contra a Marinha.

Aquelas ordens se forem cumpridas mostrarão dentro de poucos dias a


nulidade de seus efeitos e a inexiquibilidade de sua maior parte.

86
A instrução técnica, a manobra, a prática, não fazem dos destinados ao serviço
do mar simples marítimos? Ou serão teoria e prática comuns a todo o militar, a
todo o cidadão armado pela Nação?

E, se começando aos quinze anos, a vida quase não chega ao homem para se
fazer um bom almirante da Armada, ou um bom general do Exército, o que
pode sair desse incompreensível misto de profissões antagônicas?

A divisão, a distinta especialidade traz fatal separação, e a Armada sem demora


há de surgir poderosa e altiva do seio desse caos em que a querem sufocar.

A extinção da classe da Armada é impossível; no Brasil pode se dispensar os


Exércitos de terra, mas não se pode dispensar a Marinha de guerra que exige
até, a todo custo, o maior e o mais perfeito desenvolvimento.

Esse procedimento portanto para com as forças de mar significa sem rebuço
uma hostilidade rancorosa e implacável, com o propósito firme de multiplicá-
las, de tornar a Armada incapaz de resistir e mesmo de criar o menor embaraço
ao poder.

De outro lado toda a animação, todos os favores, engrandecimento e prestígio


entregues às forças de terra, denunciam facilmente o intento de fazer delas o
apoio, a garantia eficaz ao poder em qualquer eventualidade, sustentáculo que
nada poderá abalar.

Juntando-se tudo isto à militarização contínua e progressiva de todos os ramos


dos poderes públicos, não pode espírito algum hesitar um momento em ver
assentar-se em sólida base o elemento militar no governo do país.

E poderá esse elemento subsistir com o representante do elemento civil, que


dentro de cinco meses deve suceder ao atual poder?

Do conflito então inevitável, não surgirá a Ditadura?

Ou...?

22 DE MAIO DE 1894

Difícil é por certo, pelas notícias até agora conhecidas, formar um juízo seguro
sobre o estado político do país e muito menos aventurar qualquer hipótese
sobre a marcha da Revolução.

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As complicações que muito naturalmente irromperam do desastre marítimo
que completou a retirada da Esquadra em ação contra o governo da União, lan-
çou tal obscuridade na cena política que nada se pode asseverar sem receio de
próximo desmentido.

As repetidas surpresas, os frequentes absurdos, a constante inconsequência nos


atos do governo, fazem baquear todos os raciocínios.

A precipitação, o atropelo das ordens, o terminante rigor e violência das


execuções, fazem cessar toda a reflexão.

De onde resulta o poder absoluto e de puro arbítrio e a obediência passiva e


cega.

No interior, governar com a tirania e reduzir tudo ao servilismo rigoroso.

No exterior, a vida a todo transe e dia a dia, sem uma única orientação política.

Como fim no interior, e meio no exterior a ditadura.

Sob a imediata proteção do norte americanos fazer frente às pequenas Nações


e ameaçar as grandes potências com o espantalho do americanismo.

Prendendo pelo monstruoso excesso de interesses os mercados da Inglaterra e


da Alemanha a contê-las em forçada tolerância.

As necessidades do povo, a luta pela vida obrigarão ao trabalho e as rendas


virão, filhas dessa violência.

A história de todas as Repúblicas latinas fornecem exemplos de tais crises.

Não é necessário estudá-los, visto que são produtos naturais de certos


caracteres em certas circunstâncias: dadas estas e existindo aqueles, fatal é o
sucesso.

Por mais, porém, que se busque conhecer uma ligação entre os atos ainda os
mais transcendentes do governo, não é possível descobri-la.

23 DE MAIO DE 1894 – JOGO

Logo que tomaram conta do poder neste e no Estado do Paraná, os homens do


Governo Central, entre aplausos (apenas impressos) anunciaram alegres que

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com a volta da legalidade, estavam reabertas todas as portas, e livres todas as
comunicações, para o norte e sul da República, como para o estrangeiro.

Há mais de um mês decorrido e apenas alguma correspondência para Santos e


Rio, é facultada ao comércio e poucos particulares, e a maior dificuldade se
opõe ao transporte das famílias.

Paraná acha-se tão interceptado como quando no domínio da Revolução ele


estava em poder de Floriano.

Rio Grande continua fechado quase completamente.

Os exilados do Sul não obtêm saída do Estado.

O comércio não tem transportes: a navegação continua a ser feita por navios de
guerra.

Dos acontecimentos bons ou maus, dos sucessos ainda os mais estranhos à luta
revolucionária, à administração, à política, todos em Santos e Estado de São
Paulo, Paranaguá e Estado do Paraná, em Porto Alegre e campanha do Rio
Grande do Sul se conservam vedados ao telégrafo e só um ou outro jornal
dessas localidades, em datas desastradamente atrasadas nos dão inúteis e
adrede preparadas notícias.

O que significa isso?

Será receio ainda de alguma coisa em Santa Catarina? Ou necessidade de


encobrir fraquezas e desastres naqueles outros pontos?

Como quer que seja, é bem evidente que a luta não terminou, o levante, a
rebelião, já que lhe negam o seu nome de Revolução, não está sufocada, não
está vencida.

Tranquilo não está o país, tranquilas não estão as populações, e com certeza os
governos também não estão tranquilos.

A Revolução do Sul, o exemplo dos dois Estados levantados, abalaram mais do


que se pensa, o resto do país: a convulsão foi muito profunda e muito duradou-
ra.

O fogo que incendiou tão vastas regiões não foi lançado pela mesquinha mão
acusada na mensagem: os ateamentos, o material que arderam, não foram os
apontados pelo Presidente da República – na sua raiva e escárnio.

89
Em meio desse horroroso acervo de fome e fogo, de sangue e heroísmo e até de
crimes, havia, agitando-se rubras, como se tecidos de amianto fossem, as mais
preciosas e inextinguíveis fibras do coração do povo.

Revoando nas flamas, essas fibras candentes iam levar, não já a cor, mas o calor
e as vibrações aos lares e coração de outros povos: o incêndio foi apagado, o
braseiro dispersado, mas as brasas ainda continham fogo, o fogo há de se
propagar.

Não, – a revolução não foi extinta.

Não, – o país não está tranquilo.

Os Estados do Centro, os do Norte não podem ter assistido nem indiferentes


nem inteiramente contrários, a existência da Revolução tão repleta de
comoções políticas, tão irradiante de interesses e elementos populares que a
toda parte levou os compromissos, em todos os Estados despertou e agitou os
problemas graves e perigosos da política.

Se a mão de ferro do despotismo tem obtido por acaso conter esses Estados
debaixo de uma pressão suficiente para que não estale a Revolução, se o isola-
mento, a divisão, a violência têm alcançado até agora ao poder central o
domínio sobre esses Estados: – não é permitido imaginar que tal compreensão,
por mais incessante, por mais duradoura consiga restabelecer a tranquilidade
precisa para estabelecer a vida normal no país.

Todos os germens semeados pelas populações nestes últimos tempos são de


sua natureza entumescentes e expansivos e sua força de dilatação é tal que se
multiplica à medida que a compreensão aumenta.

O momento do equilíbrio dessas forças há de chegar, se a estabilidade atual já


não é sem efeito e, daí por diante, ou mais um grau de pressão, ou a simples de-
mora desse estado, a expansão vencerá todos os obstáculos e darão passantes e
multiplicados os tremendos frutos de sua esplêndida vegetação.

25 DE MAIO DE 1894 – SERVILISMO

Causa tédio o servilismo desses homens ao soldo da ditadura.

O cuidado com que buscam esconder tanta baixeza que praticam, furtaria à
história o meio de conhecê-los, se não ficasse inconscientemente talvez, uma
prova irrefragável, uma espécime exatíssima que eles chamam – a imprensa.

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O jornal – único – traduz fielmente o governo e os seus homens.

Apareceu com o primeiro dia do governo endeusando-o e aclamando, batendo


palmas à legalidade.

Três dias depois inseria o boletim anônimo que mudara o seu governo, e dava
ainda por já estar composta uma apologia do seu benemérito governador quan-
do ele já se achava na prisão.

Por muitos dias, nenhuma palavra sobre o Governador militar; de súbito


rebenta sem motivo um empolado encômio.

No interregno, pediam o esquecimento, a conciliação, o congraçamento de


todos para auxiliar a tranquilidade e a ordem.

Depois concitavam ao governo a ser implacável em perseguir e prender sem


descanso os malditos que não fossem seus íntimos.

28 DE MAIO DE 1894

Sus, guerreiro indômito!

Que tua voz nos chegue animadora e forte, aos nossos ouvidos enfraquecidos
pelo desânimo.

Que teu braço se estenda e nos aponte o terreno da salvação.

Nós os que sofremos, nós os que gememos outra vez aos martírios que nos
inflige o bárbaro despotismo, nós as vítimas da tirania, te acompanhamos com o
olhar e te seguimos com a esperança.

Alenta tuas hostes: que não descansem pois que o cansaço não atinge esses
valentes.

Pelejar – é a sua vida; é um destino, é uma fatalidade: voto terrível e


inquebrantável de pelejar, pelejar sempre, pelejar até tombar mortos.

Há vingança sem tréguas. Não há perdão para certos crimes.

Perguntai-lhes onde estão seus pais, onde suas mulheres, o que fizeram de suas
filhas?

Perguntai-lhes pelos seus haveres, pela sua honra, pela sua liberdade?
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Com os olhos afogados no pranto, com a voz embargada na garganta pela
cruciante amargura, eles vos responderão com a mão convulsa a haste da pos-
sante lança – a vingança!

Ergue-te, arcanjo das pelejas.

Salta tuas vozes, que soem teus clarins de combate.

Espalha os teus guerreiros em linha as suas ardidas montarias, mal contidas,


percorrem os campos vencedores.

Aí pampas!

Desce esses planaltos.

Esmaga com as patas dos teus corcéis essas hordas mercenárias da tirania e
traze na ponta de tuas lanças a liberdade de nossa pátria.

Esta pátria que também é a tua, que te acolheu nos seus braços, esta pátria cuja
sorte para todo o sempre está ligada à sorte das tuas.

A teu lado combatem nossos patrícios, nossos irmãos.

Desce às pampas, batalhador invencível.

Os que se levantam, os que tomam as armas pela honra, pela liberdade, pelo
amor da pátria, não podem ser vencidos.

Não, nunca será derrotada a Revolução.

Esses heróis veem as suas fileiras engrossarem dia a dia.

A crueldade do despotismo, hora por hora envia novos heróis aqueles arraiais.

As legiões escravas recusam marchar ao encontro dessas bizarras cohortes de


bravos lidadores.

O nome do Grande Chefe enche-as todas de pânico.

A vista dos seus guerreiros, faz-lhes percorrer pelas carnes o calafrio do terror.

O som de seus clarins toca a sua sentença de morte.

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É o teu olhar é sempre plácido e manso, e o teu rosto sereno e bondoso,
sempre calmo, e a tua segurança e a tua firmeza irresistíveis te envolvem em
uma auréola de místico encanto e enlevo no meio de tuas hostes, com as rédeas
refreando o ardor do teu ginete, a destrar e afagar suas crinas, dormente ao
lado na bainha a lã-mina fatal cujo aço deslumbrante só brilhará ao sol ardente
de nossa terra na hora da derradeira vitória!

Para o leste, para o norte, para o sul derrama os teus heróicos companheiros
nessa cruzada sacrossanta.

Nós te saudamos.

Arcanjo das pelejas.

31 DE MAIO DE 1894 – DELAÇÃO

A delação já nada tem do crime da traição: é um composto de nojo e de


vergonha.

O agente de polícia denuncia por força do ofício. A vingança, o ódio, as paixões


violentas movem à traição.

O delator causa asco: Judas só provoca indignação.

Por que denuncia?

Com esse meio riso alvar, ele vem dar a sua denúncia: não sabe o que faz, e
volta como o idiota, sem ligar importância e esquecendo o ato de tanta baixeza
que praticou.

Pagaram-lhe? Mereceu mais alguma coisa? Cumpriu algum dever? Vingou-se?


Satisfez algum ódio?

Por que denuncia?

Miserável!

E não tem ele consciência? Não lhe diz essa consciência que essas palavras
saídas estupidamente de sua boca, levam a morte à pobre vítima de sua...

Ele o sabe talvez.

Sabe que uma vez preso, esse foragido será trucidado.


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Sabe que enquanto oculto evita a morte e que, passado o perigo, poderá
escapar e salvar-se.

Sabe que esse foragido pode ser um pai de família, pode ser um chefe cuja alta
posição, cujos talentos importem ao país conservar-lhe a vida...

Que importa?

A mulher, os filhos, os irmãos, os pais, ele não os verá pranteando o morto nem
lhe virão eles esmolar o pão que lhes faltará.

Talentos, posição social, ele despreza tudo isso; não fazem falta à Nação que
tem esses outros que aí estão; não lhes deve nada, porque nunca lhes deram
nada, nem deles espera coisa alguma porque a eles nunca poderão se chegar.

Outros não têm denunciado?

Ele também denuncia.

E volta para sua inútil e prejudicial ociosidade, pagando-se da importância que


julgar reverter-lhe da importância da vítima que fez.

Duas vezes miserável!

Judas recebeu ao menos trinta dinheiros. De onde nasceu essa raça?

Não nasceu, não é raça felizmente.

Esse vício degradante é novo entre nós.

Ainda não há muito, a segurança da hospitalidade árabe dominava os usos e


costumes dos povos de nossas localidades.

Depois, o exemplo da perfídia, da duplicidade, da má-fé, desceu com rapidez


das primeiras camadas sociais e foi contaminar a última zona favorecida pela
simplicidade e ignorância.

A perversidade não tem mais do que explorar essa abjeção.

01 DE JUNHO DE 1894 – QUEM É?

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Como são executados? Aonde e que fazem dos corpos? Silêncio absoluto e
indiferente. Silêncio da imprensa. Ignorância do destino dos presos. Comprazer
em animar os boatos de morte.

Se a dor, se a amargurada aflição nos confrangem o coração, nos abatem e


enlutam a alma, um surdo e mal contido brado de indignação e desespero
percorre como elétrica vibração todo o nosso organismo procurando irromper,
ao encarar as cenas de crueldade que dia por dia se estão renovando.

De onde vem esse poder?

Onde nasceu esse direito?

A esses atos que nome haveis de dar?

Pretendeis a irresponsabilidade do fatalismo?

Ou vos julgais instrumento de uma vontade superior e onipotente?

O poder da força é de sua natureza transitório. Nem um direito natural ou


escrito dá guarida àqueles atos.

Não tendes a fatalidade dos cataclismas da natureza, nem a majestade dos


bulcões, nem a grandeza das tempestades, nem o sublime da luta em que se es-
trangulam as forças da criação.

Vosso espírito vazio de crenças não percebe outra vontade além do instinto
animal.

O que esperais então?

E, antes, esperais alguma coisa?

Vencemos – havemos de matar.

Matamos – porque somos os vencedores.

Morrem estes – porque não queremos matar os outros.

Matamos às ocultas – porque não temos contas a dar a ninguém.

Eis o direito – eis o poder.

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O horror que causam essas execuções clandestinas, negando às vitimas até a
sepultura, e cujos cadáveres são lançados às praias pelas ondas do mar revol-
tado contra esse depósito medonho, não despertará jamais um povo nem um
outro sentimento que não seja a repugnância e o ressentimento contra o poder
que as fez.

Esperais, porventura, com essas execuções impedir que se reproduzam as


revoluções?

Mas, vós outros que de tal forma castigais não galgastes o poder por uma
revolução igual?

Não vos dizeis os filhos e vingadores do sangue de Tiradentes, o vosso mestre


da Revolução?

O que esperais?

Não sabeis que essas vítimas que ora fazeis, bem cedo hão de ser sagrados
mártires?

Nada esperais, porque de sobra sabeis que o vosso poder é transitório: aos que
vierem depois, – a herança tremenda.

Que vos importa a justiça? Quando ela vier, já estareis a abrigo dela, – e a da
história – já vos não alcançará.

Contas dessas vítimas, quem vo-las pedirá e quando?

Quem sabe quantas e quais são tais vítimas? Como sacrificar, como provar?

E, por fim, onde encontrar os autores os responsáveis de tão nefandos atos?

O atordoamento da loucura nos vem zumbir no ânimo, ao pensar em tudo isso.

JUNHO DE 1894 – FALSIDADE

Mandou pela legação, fazer constar ao Rio da Prata que anistia e perdão eram
dados aos que quisessem voltar ao Brasil.

JUNHO DE 1894

Duas invasões.
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A Revolução – A tirania.

03 DE JUNHO DE 1894

Como pretenderá o Governo Central restabelecer a autonomia do Estado?

O costume nestas comoções adaptadas de 89 para cá, tem sido aclamar ou


proclamar uma junta, a qual se incumbe de fazer mais ou menos leal uma
eleição que vem justificar o governo chamado então legal.

Os consequentes fatos vão buscar nesse primeiro a sua legitimidade.

Ora, curioso é o que se hã de dar agora nas condições originais em que foram
colocados, e em que nos declarou o Vice-Presidente da República oficialmente.

Por umas considerações que aprouve engendrar, investiu-se para o caso de


atribuição especial, e nomeou para este Estado um governador militar.

Subsistia o estado de sítio; mas como se isto não bastava, foi o governador de
franco poder ditatorial com ação plena em todos os ramos do poder público e
abrangendo os negócios do Estado, como os da União.

Verdade é, que nestes últimos lhe tem sido cerceado o arbítrio.

O exame do exercício destas funções administrativas é digno de demorado


estudo, e certamente há de ser feito.

Basta por ora lembrar que nem uma orientação de direito natural ou escrito, até
mesmo de sã razão, e muita vez, de bom senso, se infere dos atos disparatados,
do movimento desconjuntado, irregular e...

JUNHO DE 1894 – A VILA MALDITA

Preguiçosamente reclinada na margem da Ilha, estendendo o corpo quase a


encontrar o continente, a tranquila e humilde cidade espelha-se nas duas
majestosas baías cujas águas lhes beijam as plantas.

A pureza do céu, a frescura e limpidez do ar, e a luxuriosa vegetação que cobre


suas terras dão à placidez de seus dias a formosura e amenidade de uma vida
feliz.

97
Feliz, sim; ela já o foi.

Feliz aquele que partiu com a felicidade dela.

Debaixo daquele céu tão azul, cercado daquela natureza tão suave, naquela
modesta cidade que se espelha nas mansas águas do mar do sul, a felicidade
acabou.

Dali, o morno silêncio e aquietação do deserto, apenas indicam o cair de um


povo que morre.

É uma população invadida, sufocada, manietada que indefesa e subjugada,


caminha ao extermínio sem dar um gemido, sem fazer um movimento de
resistência.

A morte do escravo.

Arrancados do seio da família, presos de qualquer forma, em qualquer lugar,


embarcados, levados para os fortes, – desaparecem esses infelizes e nas praias
vizinhas o mar arroja corpos sem cabeça, com as mãos decepadas.

Transportados outros para a capital da República deles não se encontra mais


notícias.

Enchem-se as prisões da cidade e quando se esvaziam é para receber novos


presos.

Os empregados são despedidos brutalmente de seus cargos e nega-se-lhes os


meios de subsistência. O recrutamento força ao serviço militar.

As leis, os direitos não subsistem: o governo militar é absoluto.

Inexorável na sua mudez, violento nos seus atos de soldado, misterioso nas
sombras da noite em que opera, o senhor dispõe dos escravos como o Régulo
africano, apurado pela civilização da sociedade.

Não é um grupo, não é um partido, é uma população inteira, porque essa


população foi amaldiçoada e deve ser extinta.

Nos tribunais, corridos os magistrados e metidos nos cárceres: – e a nova


magistratura impassível e muda é incumbida de assistir a tudo com semblante
satisfeito; agir não lhe é permitido, a justiça nada tem que fazer agora.

A polícia fuzila no cemitério o que julga réu do que lhe parece um crime.
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Nos corpos cívicos da Guarda Nacional e da Guarda Policial, as prisões violentas
até a caçada, nem são precedidas das destituições.

Nas repartições públicas fiscais e administrativas, os funcionários são


despedidos como lacaios, tenham um ou trinta anos de exercício, nega-se-lhes o
pagamento dos atrasados, sequestra-se-lhes as economias na Caixa, e para
complemento de sua exclusão, veda-se-lhes a entrada nas Repartições Públicas,
irrogando-se-lhes arbitrariamente o lábio de traidores à República.

Das Estações são in limine demitidos aos punhados os telegrafistas de qualquer


classe e presos.

Da Alfândega, do Tesouro, da Capitania do Porto, dos Correios, da Delegacia das


Terras, Mesas de rendas, Coletorias, Junta Comercial, Secretarias, – são ex-
cluídos os empregados sem atenção aos serviços, ao mérito, e sem causa, – e
deles se enchem as prisões.

Das Câmaras Municipais são expelidos os edis, e forçados nos cárceres a entrar
para os cofres públicos com quantias que o capricho ganancioso apraz-se em
exigir.

No comércio, qualquer pretexto, ainda absurdo, chega para atroz perseguição.

Voz de prisão, casa invadida e cercada ou é tomada a vítima, ou foragida vive


oculta nas matas, onde são buscadas como feras por escoltas de soldado.

A outros as extorsões violentas de somas importantes tomam a feição das tintas


dos salteadores.

No povo, as prisões inexplicáveis, a ameaça constante, o pânico adrede


sustentado pelos agentes do Poder, a liberdade de ação, a liberdade da palavra
foram extintas.

De centenas é o número dos foragidos e ocultos; centenas somam os expelidos


das funções públicas; por centenas se contam os presos, – sem que ainda se
possa aproximar a cifra dos que capturados foram para de onde não voltaram,
onde não estão, e de onde não seguiram.

Começam as famílias a se cobrir de luto.

A população parece sucumbir.

Chegados os soldados, começou o terror.


99
Poucos, bem poucos dos homens da tirania pareciam contentes, o susto
também os tomara.

Imenso foi o choque, porque toda a cidade estava em prantos e brados de


desespero.

Pusilânimes, aqueles poucos, ajudavam os executores da cólera do tirano, com


medo de serem arrastados na confusão, a se tornarem cruéis.

A população sumiu-se e a cidade regurgitava de soldadesca atrevida e


desenfreada.

Depois, os soldados diminuíram, os males continuaram e como se um tal estado


se devesse tornar normal, o povo se foi habituando à desgraça, e o terror deu
lugar ao aniquilamento.

Do norte, do sul vieram chegando os parasitas do poder que o calor da


revolução afastara para longe.

Com aqueles poucos que aqui estavam formaram um grupo – separado da


população por uma vala que, a cada hora, ele trata de tornar mais funda.

Esses espúrios alegram-se em riso nervoso e contrafeito, festejam-se entre si,


embriagam-se nas suas mesas, todos agaloados, esses lacaios da ditadura, dan-
çam nas suas folias.

Dançam e riem, os réprobos, enquanto no íntimo do lar de seus patrícios, de


seus amigos, de seus parentes e até de seus irmãos, as lágrimas da mãe, da
esposa, dos filhos rolam ardentes das faces desmaiadas pela dor da perda
daqueles que eles mandaram matar, e que talvez ainda nesse momento estejam
sendo mortos.

Esse tripudiar fúnebre acabou por perder o eco.

E em toda a cidade, é o silêncio, a reserva, a desconfiança e o abatimento, o que


transparece em toda a população.

As queixas se tornaram soturnas e eivadas dos rancores vagos de incerta


vingança.

Nem festas, nem os antigos e costumados folguedos, a convivência com a


tranquilidade de outrora, se mostram na população.

100
JUNHO DE 1894 – A POLÔNIA BRASILEIRA

"É preciso que se extinga o Partido Federalista".

É preciso que desapareça a raça catarinense.

Esta raça, cuja destruição era votada, disfarçada e politicamente, pelo gênio mal
desta terra, o Visconde de Taunay, é hoje o objeto dos mais rudes golpes da
tirania em pertinaz e encarnecida luta.

Aquele inventor da grande naturalização, queria que a população germânica


superabundasse de tal forma em Santa Catarina que fossem os brasileiros
absorvidos e pelo cruzamento desaparecesse o sangue brasileiro.

Era a imigração alemã o meio.

O espírito centralizador sob a monarquia, continuava no surdo trabalho em que


minava o nosso patriotismo, afastando da terra natal o que lhe podia valer e
arruinando os filhos do norte para substituí-los.

Era a colonização das Províncias do norte, o meio...

JUNHO DE 1894 – O TERROR

Ninguém o vê, o tirano.

A ninguém fala.

O mudo e supersticioso terror: o cerco e de zona em zona se vai derramando


por toda a cidade.

O Rio de Janeiro é a habitação de um Rosas.

Mas é preciso esconder o terror, é preciso que todos estejam contentes, é


preciso que a satisfação se manifeste e ruidosa e geral, para que cheguem a
seus ouvidos do tirano, sempre receosos de qualquer rumor de desagrado.

A espionagem segue a vida de cada habitante até no interior do lar do mestiço,


mas é preciso que quem passe por ali, ou quem daí venha, não siga, não possa
dizer outra coisa se não que: – "o Rio de Janeiro está na sua vida normal e
antiga de paz, tranquilidade, atividade, agitação comercial, festas e distrações,
entregue aos grandes melhoramentos do progresso no seio da felicidade".
101
E é isto o que diz a imprensa, o que dizem as epístolas, o que ainda dizem os
que vindos de lá, ou por lá passando, aqui nos chegam...

JULHO DE 1894

Batismo de sangue.

JULHO DE 1894 – OS DOIS GOVERNOS

A que se acha reduzido este Estado?

O que tem feito o Governo militar?

Impossível era imaginar tamanha desorganização ao lado de tanta maldade.

É incompreensível este estado de coisas, desde que se queira buscar para


determiná-lo um plano, um fim determinado, programa, nem mesmo uma
vontade única, embora caprichosa e malévola.

Há em tudo isto um acervo do arbítrio e de rancor, um misto de despotismo e


ignorância, cinismo, crueldade, mentira, arrogância, baixeza, fatuidade vaidosa,
servilismo e luxúria, egoísmo, ganância e dilapidação.

E em tudo se manifesta, não o poder de um só, mas a vontade absoluta de


diversos poderes, sem harmonia, sem conexão: camadas concêntricas de
ditaduras; irregularmente distribuídos na sua espessura e fortaleza.

JULHO DE 1894 – EM PRESÍDIO

O governo militar apenas aqui se estabeleceu, a Ilha, e até todo o Estado foi
reduzido a um simples presídio.

Rigorosamente vigiados os portos, o correio, e telégrafo, foram as


comunicações fiscalizadas militarmente.

Nos navios armados, únicos meios de transporte por muito tempo, só era
concedida a viagem sob salvo-conduto, negado sistematicamente aos que eram
julgados suspeitos ou desafetos.

102
As notícias do norte só nos eram transmitidas pelos jornais, órgãos exclusivos e
preparados da tirania, e mesmo, escassos e raros.

Aqui, a folha que o governo permite publicar-se está debaixo de tamanha


pressão e censura que chegou a não dar nenhuma notícia local, por indiferente
ou singela que fosse.

É uma verdadeira separação, um isolamento ou desagregação do resto do país


uma das condições do presídio: a guarnição militar e a exclusão do governo civil
completam o estado de prisão.

Na administração nem uma repartição pública funciona sem a inspeção militar e


militares são a fiscalização incumbida de examinar a todos, do Estado, como da
União.

JULHO DE 1894 – POLÍTICA DAS TREVAS – COVARDIA DE ASSASSINOS –


JACOBINOS

Duas missões incumbem a imprensa: ou ela dirige a opinião ou exprime o


pensamento público.

Quer em um, quer em outro caso, há um efeito constante debaixo do ponto de


vista político, faz conhecer os governos e descobre a marcha ou caráter de suas
ações.

O meio, pois, de esconder-se um governo é suprimir a imprensa.

Mas a supressão da imprensa significa que o governo precisa ocultar-se que não
pode suportar a luz.

Por outro lado, aquela supressão é um perigo: a imprensa é a válvula por onde
se escoam as superabundâncias dos vapores, que comprimidos dão a Revolu-
ção.

Em vez, portanto, da supressão, criou-se a imprensa oficial.

Só se publicam os que apoiam o governo e neles só se insere o que o governo


consente: considerações e comentários sujeitos à censura; dos atos oficiais só
se conhece os que o governo manda publicar.

E permitiu-se uma certa classe de jornais oficiosos, cujo papel na opinião pública
é nulo e no mundo nos deveres políticos é desprezível.

103
JULHO DE 1894

A segunda fase da revolução.

Concentração das forças no Rio Grande. Marcha esmagadora de Gumercindo


para o Sul. Vitórias de Paiva, Cabedo e Tavares.

Notável aumento das forças revolucionárias. Defecções dos castilhistas.

Emigração dos habitantes do Sul.

Perigo em Pelotas; receios na Capital. Assassinato de Brasiliano: roubo.

17 DE JULHO

O Penedo na sua última viagem para o Vale deixou em Santa Cruz ou Ratones
três presos importantes que aí foram fuzilados; Vinham do Rio. Um deles
era L. Murat, o qual foi visto em Santos a bordo desse vapor passando para
aqui... César remeteu para o Hospital de Caridade um mendigo que foi ao
palácio pedir-lhe esmola.

20 DE JULHO DE 1894

Um novo pânico se vai pronunciando na cidade.

O movimento bélico desenvolvido nestes últimos dias tem feito a população


tomar-se de susto e entregar-se às mais extravagantes fantasias de perigos e
desastres.

A surpresa é tanto maior quanto mais repetidas e insistentes têm sido a


publicação de empoladas notícias contando pomposas vistorias sobre as forças
revolucionárias, completamente aniquiladas.

Ao passo que tais novas se espalham, começa uma aparatosa faina de


armamento e fortificação.

As fortalezas, umas desarmadas, outras completamente abandonadas e


trincheiras coloniais já há muito esquecidas, e de que nem restam vestígios, são
agora objeto de cuidados.

104
Assentam-se canhões em Santa Cruz, na barra do norte, em Sant'Ana no
Estreito e na barra do sul, prepara-se trincheira no extremo sul da enseada da
cidade, no ponto fronteiro no continente, para a banda de leste da ilha da
Lagoa, enfim até no antigo forte de S. Luiz da Praia de Fora, e nas ilhotas junto à
cidade!

A artilharia que veio, parece não passar de uns seis canhões retrocarga comuns:
como guarnecer tudo aquilo?

Entretanto, tem desembarcado muito armamento de mão, fardamento e


munição.

A tropa aqui existente consta do 72...

25 DE JULHO DE 1894

A ditadura Constitucional.

Prorrogação do Estado de Sítio – Sessão adiada. [Ver: A morte brasileira. Ver: A


Notícia, jornal.] Aos pedaços tem caído a máscara com que a tirania pretendia
encobrir a ditadura.

Pouco a pouco, de crime em crime, o poder da espada vai quebrando todas as


forças da Nação.

A ditadura recebeu, sem lhe haver pedido, o poder absoluto das mãos do
parlamento: ele saberá agradecer-lhe.

Eis-nos pois, na mais abjeta e humilhante das posições em que um país pode
cair.

Para onde voltar os olhos?

Aonde achar um asilo seguro?

Até quando o Brasil sofrerá assim?

O que nos poderá salvar?

Estas interrogações se leem juntas, em uma só voz, num só olhar, na expressão


estranha e contraída, do rosto de cada um dos malfadados filhos desta terra.

105
O desânimo pesa-lhes como barra de chumbo sobre o coração: não choram
porém, também não riem.

O povo atônito, entrega-se maquinalmente aos mistérios de sua vida sem


esperar no futuro, sem confiar no presente, sem ousar lembrar-se do passado.

Parecem todos tomados de indiferença.

Não era isto o que queriam?

Devem estar satisfeitos os que promoveram e que sustentam tamanha


desgraça.

Se na ditadura todos os outros poderes públicos cessam por anulação, agora se


conserva o poder judiciário cuja ação é submetida ao executivo, e o poder legis-
lativo que entrega seu lugar, ausentando-se, mas autorizando, com sua
existência, todo o despotismo do poder executivo.

O estado de sítio tantas vezes prorrogado pelo executivo, terminou quando há


meses funcionava o parlamento, o qual disso se não ocupou e nem mesmo
sabia se as suas imunidades estavam de exceção.

Quinze dias depois de terminada a última prorrogação, começa o parlamento a


tratar do assunto, já no fim do mês decreta nova prorrogação e adia suas ses-
sões.

Entretanto, continuava o governo a sustentar o estado de sítio, que ele não


prorrogara nem a Assembleia decretara!

Quem é o responsável desse período?

A Assembleia assumiu-lhe a responsabilidade com o seu ato de prorrogação.

O executivo não pediu e deu disso a razão a lei de exceção; mas a Assembleia
concedeu-a e pois é ela responsável pelos seus efeitos daqui em diante.

Suspende suas sessões não porque não pode funcionar durante o estado de
sítio, visto havê-lo feito até o último de junho mas, para deixar toda a amplitude
de ação ao poder executivo.

Conservar-se ao lado, testemunha...

CENAS – APREENSÕES
106
– Ver Julho e Agosto.

– Presos? Não; estão todos mortos!

– Não creio nisso.

– Olha, F. disse em casa e eu o acredito.

– Mas sabes que é um crime enorme, que é um atentado monstruoso, uma


perversão de todos os sentimentos, uma responsabilidade, enfim, tremenda
perante às leis, à religião, perante à sociedade... uma barbaridade sem nome,
uma loucura estupenda, que não pode ser praticada, não acha quem a pratique
numa sociedade civilizada. Não é possível.

– Pois, para mim, estão todos mortos.

– Ainda não creio. Dão-me essas notícias, constam diversos pormenores, citam
as palavras dúbias de uns, as asserções de outros, a misteriosa confissão de
alguns, narram circunstâncias delatoras, mais ainda me não apresentaram
provas, e eu sem provas não acredito, tal é a repugnância do meu coração, tal a
repulsa do meu espírito a tais perversidades.

– E, onde estão eles então? Para onde foram?

– Isso é a prova? Porque ignoramos onde estejam, seguem-se que foram


mortos? Nas fortalezas, nas ilhas, aqui, fora daqui, a bordo; há mil modos e
lugares onde em rigoroso segredo os conservam...

– E porque não aceitaram nem roupa nem qualquer objeto de uso para o preso?
Por que lhe não consentiam prisão em terra? Para que respondiam a qualquer
cuidado da família que "para onde ele ia, de nada carecia"?

– Mas é um jogo para conservar e avigorar o pânico proposital; o segredo


absoluto é um plano...

– E os corpos que têm dado à praia, e as declarações de presos na Santa Cruz?

– Vamos; como foi a declaração?

A – Antônio Esteves, B – Lauro Muller, C – Raulino Horas, D – Gustavo Richard, E


– Hercílio Luz, F – Francisco Tolentino.

107
Paula Ramos, Poeta Napoleão.

Coutinho, Genuíno, Margarida, Emilio Blum, Pereira Oliveira.

AGOSTO DE 1894 – ANHATOMIRIM

Na entrada da barra do norte, sobre uma pequena ilha, construíram


antigamente os portugueses, um forte.

Bem escolhida a posição, era para aquele tempo um ponto de confiança: se os


fogos se cruzam com uma trincheira na ponta da ilha de Santa Catarina; parecia
de interesse conservar esse forte bem equipado.

Os longos anos de paz, ausência completa de movimento bélico no mar, fizeram


esquecer e abandonar a fortaleza e a própria capela, em total ruína, apenas era
visitada como o resto das obras e muralhas pela curiosidade de coisas antigas.

A revolução da Esquadra despertou a atenção do governo e uma ou duas peças


ali foram arranjadas sem serventia.

Nas mãos dos revolucionários, a fortaleza foi objeto de cuidados e fortificou-


se com alguns canhões modernos.

Veio enfim de novo o governo do Rio e um novo e nunca imaginado papel lhe
foi reservado.

Ali se executavam as vítimas dos sicários da tirania.

Presos políticos mais ou menos implicados na Revolução, para ali eram


conduzidos, de dia ou à noite, e sumiam-se para sempre, sem que transpirasse a
notícia de como se dava esse desaparecimento.

Não foram poucos os que seguiram para a fortaleza, bem poucos, porém foram
os que voltaram.

Aos ouvidos dos presos, nos cárceres da cidade, soava como sentença de morte,
a ordem de embarcar para a Fortaleza.

Cemitério ou patíbulo?

Ninguém sabe!

O forte da ilha de Anhatomirim, chama-se Santa Cruz.


108
O que se passou naquela ilha durante alguns meses está envolto em tanto
mistério, cheio de tantas narrações lúgubres, crivado de tantas dúvidas
aterradoras, que ainda hoje evitam cautelosos as suas praias, ou trêmulos pisam
seu terreno, os que a necessidade obriga a lá chegarem.

As sombras tumulares dos que ali foram mortos, morte afrontosa, vagueiam à
noite sobre essas muralhas, ou nos blocos de pedras de suas praias.

Quando as lufadas quentes dos nordeste, ou o frio pampeiro não esbravece as


escuras ondas, parece que, do seio dos mares no marulho da água no carcomido
das rochas, soltam-se gemidos profundos, como estertor de quem morre.

E é nesse pedaço de terra abençoado pela invocação do sagrado símbolo do


martírio de Golgotha que se mandou cometer tantos crimes?

Santa Cruz, Atalaia vigilante na entrada da majestosa baía, suas muralhas não
serviram para afastar o inimigo, tua praça de guerra não ressoou com os brados
entusiásticos dos soldados da liberdade, tua capela erma, despida de imagens a
desmoronar-se, não teve um altar, uma prece sequer.

As muralhas, a praça, a própria capela, quem sabe? Só foram manchados pelo


sangue de tantos assassinatos, só ouviram elevar pesado os últimos arrancos
dos moribundos e dos beirais da capela as aves sinistras só viram o nefando
sacrifício humano votado às paixões dos bárbaros sicários.

Pobre Ilha, a tua existência está para sempre infamada na memória dos
homens, os crimes revoltantes que em teu seio foram praticados viverão
eternamente – para eterno castigo dos assassinos.

Que sejam arrasadas essas muralhas que ao mar se lance quanto de arma ali
houver, que nessa praça e por todo terreno, se abram covas, se erijam túmulos
e se encostem lápides.

Que se reedifique a velha capela, se levantem altares.

E naquela ilha será o cemitério, onde cada carneira recolherá os restos que a
justiça encontrar e será coberta pela lápide, condenará o nome que a piedade
gravará com trêmula mão.

E dos braços dessa cruz cravado no céu do ático.

AGOSTO DE 1894 – COMEÇA O JOGO


109
Um jornal do sul dá Buette falecido em Santa Catarina.

Do Rio o jornal dá falecido de beribéri João Fausto. Faustino Alferes


Olympia faleceu onde?

Esses e os outros foram aqui presos: é certo. Mas, que prova há disso? Onde
pedir, e a quem, uma certidão?

Os que chegaram aos cárceres do Rio ainda poderão ter sido objeto de uma
escritura falsa; mas os outros sobre os quais eles não possuem os dados indis-
pensáveis?

Clemente, preso em ferros. Seguiu para Laguna a responder em júri.

Justiça militar – fuzila-se sem processo – põe-se a ferros – prende-se e solta-se


sem dizer pelo que – dispõe-se da propriedade.

– Há ordens terminantes para prendê-lo; veja se o pega... Quer que o traga?

– Ele... há de resistir...

– E, se... resistir?

– Sabe a sua obrigação. Não deixe ferir praça nenhuma.

Procurou-se o fugitivo; uma vez foi visto, e – um tiro prostrou-o morto.

AGOSTO DE 1894

Villela saiu hoje (8 agosto) da prisão, pela segunda vez.

Por que foi preso?

Por que foi solto?

Em que reincidiu?

Que novo delito cometeu?

De que se deve coibir?

Esta prisão será um castigo?


110
Será um meio de afastar por alguns dias o indivíduo para deixar livre o campo o
qualquer maquinação?

O mesmo, porém, se tem dado com os outros presos.

Examinando o procedimento havido para com os diversos presos, só se acha de


invariável o tal mistério de causa da prisão e da soltura.

Nem mesmo a intervenção direta ou indireta, ou ainda suspeita na Revolução, é


causa: pessoas rigorosamente alheias a todo aquele movimento têm sido pre-
sas.

O efeito moral sobre a opinião, causa não é, pois indivíduos sem a mínima
importância na sociedade política foram presos.

Não é regra o modo de efetuar a prisão: ora, cheios de atenção, ora brutais e
violando todas as leis da humanidade, os agentes, quase sempre os mesmos só
mudando os soldados, prendem variadamente a mesma pessoa, se o fazem
mais de uma vez.

AGOSTO DE 1894 – INQUÉRITO

Todos os visitados pelos oficiais da Companhia Francesa, ou os que com eles


falavam, são logo presos pela polícia.

Um soldado de polícia seguiu sempre nos passeios pela cidade o Padre e os


oficiais franceses.

Os presos foram interrogados pelo Chefe de Polícia e o depoimento tomado e


assinado sem leitura permitida, nem feita.

Dias depois da chegada da Companhia inventou o Cônsul a fugida de Buette.

Nos depoimentos fazem incluir essa ideia de fugida. Foram chamados à


polícia Lapagesse, Luiz Werner, M. Bridou, Bonassis.

Presos Chico Duarte, Zecca Pitanga, Eduardo Salles. Nos depoimentos não se
escreve o que se diz, mas o que convém.

Imagina-se respostas, e a prisão apoia a insinuação.

111
Nt. – Quando Leopoldo E. estava preso, foram buscar duas malas pertencentes
ao Engenheiro argentino Etienne, que os soldados levaram não se sabe para
onde. – Etienne teve o destino de Buette.

Para contraditar as informações colhidas pelos franceses, arranja a Polícia


aqueles depoimentos, arrancados sob pressão de prisão, escritos e não lidos à
parte nem por ela lidos, mas assinados sob pena de...

20 DE AGOSTO DE 1894 – ILAÇÕES

Depois de estabelecida escandalosamente a ditadura constitucional, as coisas


não têm marchado muito suavemente para o poder militar.

Transpirando fora daqui o conhecimento dos crimes aqui cometidos e


começando a carregar-se a atmosfera do espírito público pelas mesmas causas e
processos que acumulam nos céus as nuvens negras das grandes tempestades,
a feição do parlamento foi mudando para com o executivo e acentuando-se
uma certa oposição de caráter perigoso.

A criatura revolta-se contra o criador: é vulgar.

A discussão ao projeto prorrogando o estado de sítio, e o adiamento das


sessões da Assembleia, obrigou a certos estudos e exames que não podiam
deixar de ser desfavoráveis ao poder.

A situação do país em nada melhorava entretanto, pois a revolução não cedia


terreno e a posição externa moralmente se arruinava a olhos vistos.

A pressão em que era forçoso conter todos os Estados não podia ser mantida no
mesmo grau ainda por muito tempo: a todo o momento era de esperar qual-
quer explosão.

E, contudo, era indispensável conservar essa pressão sob pena de cair o poder
militar afogado na anarquia.

A Assembleia chegava ao termo de suas sessões: uma prorrogação era


inevitável pois nenhuma das leis de meios fora votadas.

A atenção era absorvida por aquele importante assunto, único que mais
entende com a vida, a propriedade e a liberdade de todos.

Debaixo da máscara e das roupas de fantasia em que envolvem as figuras da


segunda tirania, houve certamente alguma alteração nos homens.
112
Disfarçados avisos da imprensa, imprudentes insinuações da tribuna, revelam a
luta, que parece manifestar-se no ocorrido com o decreto concedendo licença a
um funcionário público e sobretudo com o decreto sobre o estado de sítio.

Observam-se e calculam suas forças os dois antagonistas: breve entrarão em


combate.

Vejamos as posições.

A tirania não pode subsistir um só momento sem o estado de sítio; ela o sabe e
já o disse.

Se lhe não cederem esse meio, entregará o poder. Mas nenhum dos três
substitutos constitucionais o aceita: eles já o deram a conhecer.

Então, só resta o meio extremo: A Ditadura. O tirano a assumirá.

Os manifestos ao Exército e à Armada já estão prontos.

A tirania precisa agir, há de agir até 15 de novembro.

A hostilidade da Assembleia deixa patente que não lavrará novo Decreto sobre
estado de sítio.

Tal decreto para aproveitar é preciso que seja dado até 31 do corrente.

As sessões, se não forem prorrogadas se encerram a 4 de setembro.

Logo, quatro dias sem estado de sítio.

Como resolver este conflito?

A ditadura!

Mas o ditador terá contra si os membros do parlamento, que será dissolvido.

Contará com o espírito público já cansado e agora irritado?

Contará com o Exército, então dividido pelo fato? Contará com a improvisada
Armada brutalmente desmoralizada por ele?

O primeiro ditador pode resignar: como fará o segundo?

113
Só a Assembleia, curvando-se e obedecendo ao despotismo, despindo todo o
brio e dignidade, salvará a tirania outorgando-lhe novo estado de sítio, e
retirando-se a esconder sua vergonha no retiro das províncias.

Mas esta gente estará seriamente persuadida de que é coisa direita tudo o que
se tem feito?

Dormirão descansados esses homens, em cuja consciência tumultuam os


espectros de tantas mortes, visões de tantos crimes?

Julgarão eles que tudo está acabado, que a paz, a ordem, a tranquila satisfação
estão abundando no seio da população?

Pensarão que só lhes cumpre cuidar nos trabalhos ordinários da vida comum,
como em estado normal e louvável?

Há momentos em que nosso espírito é levado a considerá-los todos loucos;


outras vezes hesitamos em tê-los por imbecis, estúpidos escravos, ou por
membros exercitados de uma seita ou quadrilha que tem por fim o poder, culto
ao cinismo, e meio todos os crimes.

Quando os vemos em faina, estufados na sua imprensa, se ocuparem com o


conserto de uma ponte, com a mudança do nome de uma rua; quando os
vemos repartirem entre si vanglórias e posições, e se enfatuarem em sua
nulidade, como se alguém os respeitasse ou votasse consideração: e nisso tudo,
esquecidos ou indiferentes ao estado do povo e da pátria – parecem-nos loucos.

Se os vemos, com um riso alvar, e a palidez da ignomínia nas faces, elogiar entre
respeito e medo o tirano a quem servem: só nos parecem ignaros escravos.

Quando os encontramos de rosto contraído e frio, furtivos lampejos de olhar de


hiena, nesse passo de ódio satisfeito, encolhendo os ombros diante dos mais
atrozes crimes, disputando entre eles o poder dando à turba de suas bebidas e
festas, mentindo a todos e a tudo e obedecendo e executando por si as
crueldades dos chefes, com o descaro de lançar sobre eles a responsabilidade:
nos sentimos revoltados como em presença de disfarçados sicários.

Esteja, pois, esta gente, ou não, persuadida de que tudo isto é direito, não resta
dúvida de que se estão aproveitando de uma tal situação para a seu modo gozar
e dela retirar a maior soma de proveito.

Depois,... que venha o dilúvio!

Tudo entrou em liquidação.


114
Não há princípios de lei nem de justiça – não há, pois, consciência.

Deve ser assim, há de ser assim, é assim. Retire-se quem não estiver por isso.

Quem se opuser, é diminuído.

O ESTADO E A SUA AUTONOMIA

1ª – A antiga Província entregue em 89 como feudo a Antônio Esteves.

Domínio de Lauro Muller.

2ª – Governo de Machado: seu advento

Desenvolve-se o espírito democrático

Machado denuncia Floriano: a opinião pública acentua-se

Prepara-se a vingança do Centro: processo de Machado.

Rebenta a sedição; a tentativa de deposição de Elyseu é frustrada; o Centro


volta atrás.

3 ª– A revolução se apresenta por mar e por terra: o Estado aceita-a

Plena autonomia em plena revolução

Independência do Estado

4ª – Queda da Revolução

O Estado território – Governo Militar

Domínio de Hercílio: Oligarquia.

Retirada do ditador

Novo Governo Republicano mensagem

Continua domínio Florianista

Manejos secretos.
115
Parece fora de dúvida que o primeiro presidente civil não dará conta do recado,
como o primeiro Presidente militar não o deu. Este caiu por haver assumido a
ditadura, aquele não será derribado pela ditadura?

Mas, dissolveu o Congresso: o congresso não fará cair o outro?

Observando todas essas peças, mal acabadas e ao acaso mal misturadas, e as


quais se pretende a força fazer funcionar, o que se encontra de seguro e
estável?

A máquina, que se diz montada, atrasa, acelera, para, torna a agitar-se sempre
irregular, sempre desorganizada: e enquanto a matéria-prima, os elementos
que deviam alimentá-la acumulam-se, esperam, estragam-se e perdem-se de
todo.

Ao produtor só resta: ou quebrar e mudar a máquina, se puder, ou não produzir


mais!

O que é fato é que o Brasil entrou na fase das experiências, depois que foi
rasgando o contrato da Monarquia.

Revolução Federalista: primeira forma: presidencialismo, primeira espécie:


governo militar. Segunda espécie governo civil.

A continuar a República Federalista, teremos a Segunda forma;


parlamentarismo, com as suas duas espécies.

Virá depois a República unitária, e toda essa louca série de ensaios, justificadas
as teorias, em quanta variedade de doutrina a imaginação se apura no silêncio
do gabinete dos sábios e filósofos.

Mas durante o curso dessas experiências, a todo momento pode sobrevir uma
interrupção, que já se tem ensaiado: a ditadura.

SETEMBRO DE 1894

Suspenso o estado de sítio.

Começam as concessões do habeas corpus. A tirania no Senado e Câmara


acentua-se em discursos violentos. Começam as narrações dos martírios dos
presos. – Apresentam-se nas fronteiras do Sul as forças revolucionárias –
Aqui, César prepara-se a entregar o cargo de Governador – Recrutamento.
116
OUTUBRO DE 1894

Governo de Hercílio, poder de César.

– Invasão dos Federalistas no Rio Grande. Jacobinismo escandaloso – Mais


recrutamento aqui – Imprensa livre São Paulo.

Preparativos, festas Rio em novembro. Mensagem soldo militar. Cinismo


destino presos fuzilados.

Floriano não deu ordem para fuzilar – diz estarem mortos cinco – não mandou
fuzilar ninguém.

22 DE OUTUBRO DE 1894

Suplemento n° 8 do Tribuna do Povo, de São Paulo. Transcrição:

"O seu maior crime é o de ter inflamado a mocidade das escolas militares do
Brasil, escolhendo dentre ela os seus carrascos e os executores de seus crimes...

Benjamim Constant corrompeu a inteligência da mocidade, ensinando-lhe a


doutrina endeusadora da tirania que se chama positivismo; Floriano rematou a
corrupção, transformando em agente das duas crueldades os alunos da Escola
Militar...

E o novo congresso chegou já ao cúmulo da abjeção, aceitando o funcionar sob


o estado de sítio...

O Partido Republicano Brasileiro não é só paupérrimo de capacidades políticas e


administrativas: os seus escritores são de uma indigência intelectual, verdadeira
lástima... O caráter dominante do republicanismo brasileiro, nascido do conluio
do militarismo utilitário e do bacharelismo ignorante, é a sua antipatia à toda
manifestação intelectual...

O sentimento dominante de todos os revoltosos, fossem quais fossem os


intuitos de cada um, era o desejo de libertar o Brasil da tirania de Peixoto...

Haverá com certeza uma nova revolta, mas ninguém será capaz de adivinhar a
nova forma que ela tomará...

117
A República vai, parece, criar uma outra Armada, ora os corpos coletivos não
morrem. Um pessoal substitui o outro, mas o espírito de corpo subsiste sempre.
Criada que seja a nova marinha, a sua aspiração invencível será a da desforra....

Se abstenha de criar uma nova Armada. Nesse caso, ficará o Brasil à mercê da
República Argentina. Eis o dilema para a República: ou criar uma Armada que,
mais tarde ou mais cedo, fará outra revolta, ou não criá-la e expor o país à
certeza de uma derrota numa guerra estrangeira...

Há um ano e meio que os jornais anunciam as sucessivas vítimas do Rio Grande:


onde estão os prisioneiros?... Os federalistas aprisionaram... no Paraná muitos
oficiais que andam passeando no Rio e São Paulo... Onde estão os federalistas
aprisionados pelo governo?

No Rio são inúmeras as pessoas desaparecidas...

Os fuzilamentos clandestinos foram e são cotidianos.

Quem são os presos que enchem os calabouços do Rio de Janeiro? Por que
foram presos? Quem são os seus juízes? Quando foram julgados? Quem foram
os seus defensores? A que pena foram condenados?

Não – Peixoto não é o poder público punindo com severidade os inimigos das
instituições.

O poder público deve ter a consciência e a responsabilidade de seus atos. O


poder público pode brandir, à luz do sol, o gládio da justiça; o poder público não
estrangula a vítima na treva e no silêncio. Peixoto não pune em nome da lei;
vinga-se em nome dos seus instintos sanguinários.

Prudente, ou obedece ao militarismo ou é deposto por ele...

A política militarista de Floriano está ligada à sorte da República por tal modo
que no Brasil não é possível republicano sem Floriano, ou pelo menos sem mili-
tarismo. A República para viver precisa de duas coisas.

Primeiro, suprimir toda a tentativa de oposição à sua política e até de exame de


seus atos, segundo, pagar largamente, muito e em progressão crescente e con-
tínua os militares que a sustentam."

(Entrevista de um dos redatores do Jornal do Comércio de Lisboa com Eduardo


Prado.)

118
24 DE OUTUBRO DE 1894

O que será?

Há dois meses que não tenho podido nem pegar nas tiras destas minhas notas.

O coração ferido de tantas e tão profundas mágoas, o espírito entregue a um


turbilhão de negras e revoltas ideias, impossível fora acompanhar sequer, o
curso atropelado, monstruoso e disparatado de minhas impressões – A loucura
deve ser assim.

Deixei passar a tormenta no seu primeiro período, e ao esforço continuado,


readquiriu a vontade seu império, posto que não se apagassem as chamas do
sentimento e da razão.

Encarar de face com tantos crimes, assistir a tantos atos de selvageria, ouvir a
narração de horrorosas e brutais ações, e ver abafado, sufocado em torno qual-
quer grito, qualquer gemido, que a dor ou a indignação arrancasse: ver o
tripudiar cínico dos bárbaros assassinos e escutar o lúgubre arfar do seio mal
ferido da população, e não ter aqui, além, nem muito ao longe, um apoio, uma
promessa, uma esperança de justiça: é horrível.

Com efeito, se os olhos úmidos de pranto volvem-se para um ou outro lado em


busca de um remédio, de uma consolação ou pelo menos de um sinal da
terminação desses males, nada encontravam de positivo que trouxesse a
tranquilidade ao ânimo.

Os dois poderes mais respeitáveis da Nação se deixaram de tal forma solapar


pelo terceiro, que impossível lhes é lutar.

O poder judiciário entregou-se nas mãos dos sátrapas nos Estados e do


executivo no Centro: o supremo tribunal, tentando agora agir com sua natural
independência, foi coagido a confessar-se, anulado e impotente para fazer
justiça.

O poder legislativo causa pejo a alguns de seus membros que tentam despertar
os brios e a dignidade do ramo mais sagrado e direto da soberania nacional;
viciado na origem, sua queda foi tão funda que é absurda a ideia de soerguê-la.

O poder executivo absorveu os outros poderes: seu domínio é absoluto.

Ademais, já de há muito que a ditadura foi estabelecida.

119
Armada de força, nada poderá resistir à tirania, senão a força: de onde sairá
esta?

Os Estados ou se entregaram estupidamente como os antigos africanos,


convencidos de que foram criados para a escravidão, ou vergam ao jugo como
na Sibéria, a viva força, sob pena de morte, ou finalmente, de um egoísmo sem
nome, se enrolam na capa do mercantilismo – sórdido porto do progresso deste
século – e encolhem os ombros a tudo, transigindo com a tirania para auferir-
lhe as vantagens de seu interesse.

Um só atrai as vistas do povo sofredor; um só estado não dobrou ainda a nobre


cerviz ao peso da tirania.

Contra toda a violência das armas, contra todas as legiões, os embustes, contra
todo o poder desencadeado pelo ditador em quase dois anos, esses bravos
sustentam a luta pela liberdade da pátria.

É para esse Estado, é para esses heróicos lutadores, que volta o povo seu olhar
e seu ânimo.

Dos pampas sopram talvez tempestades temerosas mas, nas asas dos
bulcões do sul, voa e reina a liberdade.

Mas, enquanto no campo das batalhas se joga a sorte de uma Nação, nos paços
do déspota se executa uma negra conspiração contra a liberdade e soberania
nacional: as trevas, o segredo, a máscara e o punhal, são as armas servidas
nesta campanha sem nome e talvez sem exemplo.

Perto vem o dia em que deve descer do poder o ditador.

Se esse homem cruel e falso – qualidades únicas que manifestou na cadeia do


supremo magistrado de um tão grande e importante país – se esse homem, que
em tempos normais nunca teria pretendido um qualquer cargo, somenos
administrativo, se ele ou os que com ele partilham o poder, resolveram investir
da Presidência da República o novo eleito, esse fato fará tremer a alma de todos
que cuidam nos destinos da Nação.

Anseia o povo por uma mudança externa; conta e espera anelante pela
restituição de suas liberdades, de seus direitos e regalias; tem sede ardente de
justiça.

Pois bem. Se o tirano entrega o cargo e não há a anistia completa, geral,


absoluta – se o estado de sítio disfarçado subsiste servindo à todas as paixões,
se pronta reparação não se faz a tantas selvagerias: se finalmente o tirano em
120
tranquilo retiro for gozar do descanso e das coroas que ele próprio teceu – ao
passo que o novo governo arruinado ao esquecimento das lutas passadas
comece a administração, aceitando o princípio dos fatos condenados, como
aberta uma época normal: se tal suceder, então deve ser perdida toda
esperança.

Ai da Nação.

Mas não se trata simplesmente da Presidência da República, não se trata de


uma ditadura qualquer, que pode ser transmitida, que pode ser extinta; o cargo
pode passar, o poder porém, será entregue?

A ditadura é militar e seu poder está na espada, sua força nas armas.

A origem dessa força foi pela própria espada consagrada no pacto fundamental;
só uma Constituinte poderá arrancá-la dali.

Que mundo de comoções violentas, que de sacrifícios, que de imprevistos


acontecimentos todos pejados de ódio, de paixões desenfreadas, de crimes
nefandos, não surgem ao pensamento ao imaginar só a luta que se vai travar
entre o elemento civil e o militar.

O desconhecido é o plano da campanha, o ocioso é que há de dirigi-la: quem


será vencedor?

Pobre Brasil, pobre povo?

Que sorte cruel te prepararam esses malvados insensatos, desvairados no


espírito, empedernidos no coração – que, ao estalar uma revolta de quartel,
tontos pelo efeito bestialmente gritavam pela República!

Bem caro te está custando, oh, povo, a tua bonomia, e quando cessará teu
martírio?

Preza aos Céus que uma geração marque o prazo para tua liberdade!

25 DE OUTUBRO DE 1894

Pouco a pouco vai penetrando a luz nas misteriosas e lúgubres trevas em que foi
envolvida a mísera Fortaleza de Santa Cruz; luz porém, fria, pálida e fumarenta
como de brandões mortuários.

121
Cada feixe de luz alumia – não um túmulo – mas a terra revolta que mal cobre o
cadáver apodrecido de um mártir: e quantas covas e quantos cadáveres não
têm de ser, ainda, ali descobertos!

E como se essa hecatombe repugnante não bastasse, como se o sangue


derramado não contentasse os assassinos, num requinte de maldade foram
obter do tirano para prosseguir na destruição da Vila Maldita.

As brutais perseguições, até a caça nos matos, as prisões, as demissões, as


extorsões de dinheiro, a pobreza e a miséria forçada, os ultrajes e ofensas e des-
respeito; nada satisfaz essa turba ignara, escrava da tirania.

Recomeçam as perseguições – não já a ponta do sabre e coronha de espingarda


– não mais com a violência do soldado: mas com a crueldade felina dos proces-
sos políticos, para matar aos poucos, lenta e continuadamente, ferindo sem
cessar e rejubilando-se com as dores, com os sofrimentos que causarem.

Os processos vão começar para os infelizes que não foram fuzilados ou


degolados.

14 DE NOVEMBRO DE 1894 – HERANÇA

Amanhã entrega o cargo de Presidente da República – o vice-


presidente Floriano Peixoto.

Nada mais simples: esgotado o período, no dia marcado pela Lei, toma posse o
novo eleito, e retira-se o que terminou seu tempo.

Para um, começa a árdua tarefa, a ingente luta, perigosa, tremenda que põe em
ação todas as forças, todas as virtudes do homem público.

Para outro, cessam todas as responsabilidades, toda a pressão dos


acontecimentos e dos homens que faz reagir toda a energia do poder.

O que entra vem ao lado do desconhecido, o que sai já não tem o que esconder.

Ambos, ao entrar para tão alto cargo, traziam uma pequena bagagem: não
importa. Nestas formas novas, tudo é novo e os novos não têm passado.

O que vale é que, uma vez no poder, em muito pouco tempo arranjam uma
bagagem incalculável: será das formas, será dos homens?

122
O passado político do novo Presidente curto e resumido: não tem escândalo na
crônica denunciada até aqui.

O Vice-Presidente que deixa, trazia um passado cheio de sombras, que rasgaram


de espaço sinistros clarões; era curto também esse passado, mas escandalizava.

Em regra o julgamento começa para o administrador depois que ele deixa o


cargo: até aí a censura, a crítica apaixonada, a oposição.

Quando nada mais há a esperar, nada mais a temer, então o juiz é imparcial.

Para o Vice-Presidente, de amanhã por diante começa a análise que deixará os


esclarecimentos apurados para a história. Floriano Peixoto vai assistir ao pro-
cesso preparatório do seu julgamento como homem público.

Para isso, porém, para que desde já principie esse trabalho, é necessário que
seu sucessor interrompa com braço vigoroso a marcha atual da administração.

Agora começam as interrogações ansiosas.

Deixará o presidente as coisas como elas estão? Impossível. Há


incompatibilidades.

Floriano tem a grande maioria das Câmaras: tem um partido temeroso, o


partido dos paletós, dirigido por Glicério; tem a nova Igreja, a Capela da
humanidade sob as ordens do pontífice Miguel; tem o povo seu, aborto a que
deu movimento, sem consciência, os jacobinos; tem finalmente, o Exército
criado, assistido, educado e sustentado por ele, e que ele contém por meio de
sua guarda de pessoa, sua quadrilha de confiança – os alunos.

O que há de fazer Prudente de tudo isto?

Floriano tem deposições armadas em três ou quatro Estados do Norte.

Essas deposições são um laço traiçoeiro: Floriano tomou os seus adversários e


deu-lhes a força armada para derribar os governos amigos seus; que arrebente
a bomba; ele já está longe.

O que pode fazer Prudente perante essas deposições?

Floriano tem a Revolução do Sul, refeita, ameaçadora, segura de sua vitória, – e


a encenação completa de absoluta paz no sul, com a destruição total dos
revoltosos.

123
O que há de fazer Prudente diante da Revolução?

Floriano tem um Exército, uma população de exilados, de foragidos, políticos em


país estrangeiro: se os pegasse no Brasil consumia-os; são criminosos.

O que há de fazer Prudente desses exilados políticos?

Floriano tem nas fortalezas, nos cárceres, nos presídios milhares de presos ditos
políticos a apodrecerem e sumir-se.

O que há de fazer Prudente desses míseros?

Floriano tem centenas de corpos sepultados uns; insepultos outros; estes em


fundos abismos, no insondável oceano; aqueles – homens notáveis,
considerados generais de terra e de mar, médicos, engenheiros, capitalistas,
velhos, moços, chefes de numerosas famílias, ricos, pobres, políticos e
estranhos à política, nacionais e estrangeiros – e ele, ou não sabe como e onde
foram mortos, ou não o quer dizer, e as mães, as esposas, os filhos, os irmãos,
os pais de todos esses homens aí andam perguntando onde estão eles.

O que há de fazer Prudente dessas famílias? Floriano é o governo da espada.

Floriano é a ditadura militar.

Prudente deixará o elemento militar no governo? Prudente será ditador?

Resumindo: Prudente encampará o governo de Floriano?

O novo engenheiro deixará que todas as peças do maquinismo fiquem


colocadas e funcionem como se acham?

Finalmente, o que há de fazer Prudente do Marechal Floriano?

O que nos vai trazer o dia de amanhã?

Teremos a paz e a reparação, ou teremos a guerra e a destruição?

Uma ou outra, que venha – clara, positiva, franca. Senão, pior que tudo, pior
que o extermínio das batalhas na guerra civil, teremos a traição.

A falsidade política, administrativa, a mentira oficial e pública, a tirania, o


despotismo mascarado – e o domínio dos vícios, o poder da força armada, tudo
continuará com os meios de que têm disposto, a aniquilar a Nação, a destruir a
pátria.
124
De joelhos, as mãos postas em oração, espera o preso em sua masmorra, que
lhe pronuncie sua sentença; a fronte perdida nas mãos, aguarda no banco dos
réus o acusado, a palavra do juiz que vai decidir a sua sorte.

No Rio de Janeiro, o povo da capital, a orgulhosa população da maior cidade do


Brasil, o grande e soberbo empório em festas esplêndidas, espetáculos, músi-
cos, danças e banquetes, no meio das sedas, no ouro e nos brilhantes, ao
estrugir dos foguetes, da mosquetaria das salvas da artilharia – dá vivas ao
déspota que sai e saúda... o desconhecido que entra!

Panes et Circenses.

A República é dos novos.

15 DE NOVEMBRO DE 1894

O novo Presidente deve ter chamado hoje aqueles a quem incumbirá de


organizar o ministério.

Consultas, combinações políticas, propostas e declarações se deve ter dado e se


estarão dando ainda agora.

Pelos nomes convidados, pelo círculo que rodeia o novo Presidente, pela feição
dos dois partidos das câmaras, pelo humor da reportagem da imprensa – já
muito e muito se pode saber do que nos reserva a mudança do Presidente.

Aqui, porém neste Estado, ainda nas condições de Presídio em que nos
achamos, nada sabemos até agora, nada saberemos tão cedo.

A imprensa está reduzida a um único jornal, nojento cartaz comprado para a


mentira, o cinismo e o atrevimento: só noticia o que lhe faz conta e com licença
ou ordem do governante.

O governo, filho da ditadura militar, Moreira César, educado nos mesmos


princípios da faca e do fuzil, é delegado de Floriano, e vive sob o protetorado
de César: nada dirá.

Quando, pois, viremos a saber o que deu ao país, a mudança de governo?

Completou hoje cinco anos a mudança da forma de governo no Brasil e ainda


nada de bom devemos a República: pelo menos, em nosso Estado.

125
17 DE NOVEMBRO DE 1894 – MANIFESTO

Antigamente a fala do trono servia em geral para esconder o pensamento dos


governos: eram por fim peças de mais febril banalidade, recebidos com
indiferença e até com ridículo.

Mudou-lhe a República o nome, mas em nada melhorou o valor desses escritos


oficiais.

As mensagens e os manifestos pretensiosamente recitados nem se prestam à


análise quanto mais à discussão; incorretos e mal português, sem preceito de
retórica não contém no fundo, ideia clara e positiva sobre nem um assunto.

No domínio da espada, a ditadura militar usou as bravatas e atrevidas


asseverações da mentira e da hipérbole: era-lhe isso próprio e necessário.

Agora que sobe ao poder o primeiro representante do elemento civil o seu


manifesto, esperado com ansiedade, nos sai uma antiga fala do trono, ambígua,
vazia e banal, mesclada porém, com os caracteres da nova era: a mentira e as
bravatas.

A ausência da gramática e da retórica nas palavras traçadas pela espada, não


eram para notar a toga porém fazia esperar melhor estilo – será pela má com-
panhia?

O espírito público havia posto diante do novo Presidente nossas quantas


interrogações, cuja resposta daria ao povo ou a esperança e consolação, ou o
desânimo e o desespero.

A norma de conduta seguida pelo governo passado estava bem conhecida e


julgada por todo o país; daí os dois grupos em que se dividia a opinião, um a
favor, outro contra essa conduta.

O novo Presidente não deixa perceber em seu Manifesto a que grupo se inclina,
com quanto os louvores prodigalizados com ênfase a seu antecessor pareçam
traduzir aprovação aos seus atos.

A nenhuma das interrogações responde, nem uma solução contém o seu


Manifesto às urgentes e extraordinárias questões que comovem todo o país.

Não conhecemos a fala ou o que quer com que Floriano entregou o cargo a seu
sucessor, nem ao menos sabemos se alguma coisa ele fez nessa ocasião.

126
Por consequência não estamos habilitados a julgar as qualidades políticas do
Manifesto, que pudera ser calcado sobre aquela peça oficial como de bom con-
selho político fora no movimento.

Devemos então supor que o Manifesto é estranho a qualquer pensamento


imposto pelos deveres públicos do cargo e recebê-lo como simples expressão
das ideias e convicções do novo Presidente.

E deixaremos para mais tarde apreciar o seu valor político quando tivermos não
só a fala com que recebemos rédeas do governo, como ainda a mensagem com
que muito naturalmente se apresentou diante das Câmaras.

Por enquanto não podemos sufocar algumas reclamações que romperam


bruscas a leitura do Manifesto de Prudente.

Há nele, sensivelmente demarcadas duas partes do discurso: a primeira que se


refere ao estado do país e narra os acontecimentos importantes que agitaram
quase todo o período do governo passado; a segunda, só se ocupa de fazer
conhecidos os princípios e normas que pretende seguir.

Pois bem, na primeira parte sobressai a mentira; na segunda parte, o nariz de


cera; vagos lugares comuns.

Vejamos.

Na primeira parte. Assume o poder em virtude da "resolução da soberania


nacional soberanamente anunciada no escrutínio de 19 de março... "para
corresponder à extraordinária prova de confiança – manifestada de modo
inequívoco no pleito eleitoral mais estável da vida nacional".

A eleição de 19 de março nunca poderia exprimir a soberania nacional. O Estado


do Rio Grande do Sul, onde Santa Catarina e Paraná, não fizeram eleição; a
Capital da República e o Estado do Rio de Janeiro estavam em sítio, bem como
diversas capitais dos Estados do Norte; as prisões estavam repletas, e elas
haviam sido multiplicadas de homens da mais alta importância, influências
políticas notáveis, e foragidos no estrangeiro se achavam chefes políticos que
representam grande soma da opinião pública – e todo o país militarizado,
militarmente ocupado, e sob ameaça dos tribunais militares: que soberania
podia sair daí, a não ser a da espada?

Os três Estados do Sul, não deram um só voto para o Presidente da República:


ele nos é imposto pelo centro; e a isto chamam autonomia, independência dos
Estados, a isto chamam República federativa!

127
Melhor fora que o Sr. Presidente não tocasse nesse ponto: esse escrutínio foi
um escândalo, se não foi um crime.

Ninguém hoje ignora a circunstância que deu lugar à essa eleição, votado o
novo adiamento que será reproduzido até se precipitar na ditadura oficial.

O Estado de São Paulo sentia que em suas fronteiras se assentavam as tendas


da Revolução. – O governo da espada estava condenado – a eleição embaraçava
a ditadura – o candidato devia ser civil e de confiança, e a eleição se fez e o
Presidente da República saiu de São Paulo.

O "pleito mais notável" é mais uma nódoa na vida nacional.

Adiante.

"O lustro de existência."

18 DE NOVEMBRO DE 1894 – A POSSE – ENTREGOU O TIRANO O PODER

Entre festas e ruidosas pompas ressoaram hinos de glória ao déspota, e foi


sagrada a ditadura pelas armas e pela corrupção dos áulicos.

Ali no centro, naquela cidade egoísta e mesquinha estrondava nas mais loucas e
desvairadas manifestações de servilismo e faustosa vaidade, o completo es-
quecimento e desprezo pelo país inteiro que ainda vergava ao fogo da cruel
tirania.

Reuniram, acumularam todos os pretextos, todas as sugestões para excitar um


festivo entusiasmo, uma brilhante apoteose com que pretenderam glorificar o
ditador ao qual no delírio da bajulação não poupou os delírios laudatórios.

Como se havia criado aquela falsa dedicação, aquela força bárbara, a custa do
ouro e da mentira, assim se comprou a oração final desse reinado execrando.

Tremenda lição!

19, 20 DE NOVEMBRO DE 1894

Ei-nos ainda nas mesmas condições em que nos achávamos no dia 14 deste
mês; nada nos vem significar que se efetuou a mais importante mudança que a
República estabelece no seu regime – a mudança de Presidente.

128
O Manifesto publicado aqui, dois dias depois de lido na Assembleia, foi a única e
inconsequente demonstração que nos coube até agora de um acontecimento
ao qual o espírito público prendia, por todo o país, com a maior ansiedade,
aspirações e sucessos inadiáveis.

A mesma pressão de ferrenho jugo, o mesmo abatimento, o mesmo segredo, a


mesma condição de presídio, enfim, continua para nós sem que nada indique
qualquer próxima alteração deste humilhante cativeiro.

Votado, pela ditadura, ao ostracismo, o povo catarinense ainda sente pisar o


seu solo abjeto executor, e seus carrascos, dos assassinatos da tirania.

Ainda as vozes se abafam ao passar de algum soldado, tal o terror que a farda
inspira.

Não há ainda garantia.

21 DE NOVEMBRO DE 1894 – DESENGANO

Começa o desengano.

As loucas esperanças que aguardavam da retirada do tirano uma notícia decisiva


da sorte que haviam tido os infelizes presos de abril, vão se esvaecendo dia a
dia.

As lágrimas já se juntam aos doídos soluços dessas mães que choram seus
filhos, dessas esposas, desses filhos, que pranteiam seus maridos e seus pais: já
o luto vai cobrindo essas tantas famílias e nas igrejas já vão as orações
ressoando sentidas no oficio de defuntos.

Portas encostadas, encerrada a família, triste sinal de dor, lança na alma penoso
sobressalto; naquela meia luz, naquelas meias- vozes, paira a fúnebre lembran-
ça da morte.

Vamos. É preciso coragem; chegou o momento tantas vezes evitado, já foi dita a
fatal nova...

Aquelas crianças vestidas de preto pálidas, em pranto, atiram-se em nossos


braços e lembram entrecortados de soluços o nome de seu pai.

Seu pai!

129
Seu pai, repete a mísera viúva, ora de negro vestida no fundo do leito; seu pai
que mataram, que não vi mais, que não cuidei, seu pai que nem ao menos se
sabe onde ficou seu corpo!

As lágrimas embargam a voz.

O silêncio, silêncio atroz que ameaça estalar todas as fibras do coração, fala
mais rápido, mais enérgico, mais vibrante tudo o que tamanha dor desperta na
alma.

Encostando ao peito aquelas crianças, ouvindo o sussurro daquela respiração


chorosa, sentindo todo o pungir do amargurado transe que oprimia todas aque-
las criaturas – um lampejo de revolta me envolveu a mente.

Sicários!

Que não vejam esses malvados as cenas de desolação que promoveram!

Oh, que venha, que venha esse cruel matador; que chegue até essa porta por
onde entra a desgraça.

Tomá-lo pela gola, empuxá-lo para o meio daquela cena e fazê-lo vergar-se, de
joelhos, a cair-lhe sobre a cabeça no meio das sinistras imprecações da dor a
tremenda maldição da viúva e dos órfãos naquele cruel momento!

E perguntar-lhe diante daquelas vítimas;

– Carrasco, que fizeste do esposo daquela viúva, do pai daqueles órfãos.

Caim, que fizeste do teu irmão?

DEZEMBRO DE 1894 – RUÍNAS

Há fatos que levam o desespero aos ânimos ainda os mais calmos e precavidos
contra o desespero: o triste estado a que chegou este país atualmente é, com
efeito, capaz de arrancar do peito qualquer vislumbre de esperança.

Será pois, impossível remediar a tantos males?

Terá de sucumbir a Nação aos repetidos golpes que lhe desfecha essa horda de
especuladores que traiçoeiramente se apossam da sociedade brasileira?

130
Ou haverá um prazo para a reabilitação, mais ou menos próximo, mais ou
menos difícil?

O que nos aguarda ainda no futuro?

Quantos desastres, quantos infortúnios que de ataques à liberdade, que de


violências ao direito, ainda nos esperam?

Ainda nos estarão reservadas novas decepções, mais amargas contingências,


maiores e mais vasto desmoronamento moral?

Quem sabe?

Por mais que o espírito inquieto examine, perscrute, estude, não logra discernir
a menor base para assentar a esperança.

A paixão e o vício tudo minaram e corromperam.

Todas as camadas sociais foram contaminadas, todos os laços da união


afrouxados, quebradas todas as molas: fé, crença, opinião e caráter ou
honestidade pública vão se desfazendo apressadamente.

Como é triste viver em uma tal sociedade, como é doloroso ter nascido, fazer
parte dela!

Ter nascido em um país livre, grandioso, florescente e respeitado e vê-lo


esfacelar-se, cair e desmoralizar-se; assistir ano por ano, dia por dia a essa
desorganização profunda, fatal, inconsciente dos grandes cataclismos sociais;
que aflição!

A extinção do elemento servil foi uma revolução.

Para fazer-se, pôs a seu serviço todos os brios, talentos, nobres impulsos, todas
as ideias generosas, enfim, que sempre desperta a sagrada palavra da liberdade.

Por outro lado, atacou todos os interesses, revolveu todas as camadas de onde
se havia tirar aquela planta daninha. A perturbação foi imensa.

Tudo se deslocou, e daí abriu-se um vasto campo onde se podia plantar novas e
estranhas semente.

Não foi assim porém, aproveitado o terreno.

131
De há mui longos anos, lenta e segura se propagava a grande crença da
democracia, cujos princípios ainda eram servidos por espíritos graves e
experimentados.

Veio aquela comoção, e os vícios, as ambições e todas as paixões, tendo-se


adrede abrigado à sombra daquela propaganda, apoderaram-se da ideia,
atirando para o lado todos os que lhe podiam embaraçar os planos.

Sem apoio no povo, foi para a classe militar que lançaram suas vistas e nela com
efeito acharam fácil instrumento em mãos tão hábeis em manejar a intriga.

O que mais esperar?

Tudo está claro e fixado, e haverá ainda lugar para o imprevisto?

Sob a tirania, no mais forte da luta com a Revolução, em nome de alguns


Estados arranjou-se uma eleição de Presidente da República com o candidato
imposto.

Terminado o período marcado, toma conta do governo o novo Presidente e faz


seu todo o proceder do tirano e prossegue na mesma política.

Achou uma Assembleia (melhor é não macular essa memória), um Congresso


que endeusando o despotismo de onde nasceram, aprovou todos os atos do
governo passado, com ela viveu o novo Presidente como simples
contemporizador.

No intervalo das sessões, tudo parecia remeter para o Congresso a abrir-se:


chega o dia e sua mensagem declara ao país que nada será mudado no governo.

Eleito por imposição, impostos lhe foram as suas duas mensagens, imposto lhe
é o traçado do governo.

Estacando no Senado a aprovação dos atos da ditadura, surge de novo,


instrumento para nova imposição.

Fiquem de lado essas peripécias mais ou menos que prenderam a atenção


pública durante este primeiro ano do governo chamado civil: são modos de
viver variáveis segundo as circunstâncias e caráter de cada governador e
observador, vêm de longe e mais de cima.

Qual é a situação do país?

132
Os triunfos em delírio conferidos ao ditador, firmaram porventura a segurança
do princípio da autoridade?

As deposições continuam.

Têm as leis obtido o rigoroso cumprimento que lhes é devido?

Todos os atos que de face e violentamente as impingiram foram conservados.

A justiça tem acaso sido distribuída aos dela esbulhados pelo despotismo?

A indiferença ou a cínica mistificação deixam em abandono todo o direito


(conculcado).

Finalmente, o novo Presidente fez efetivo o governo civil?

Pelo contrário: o elemento militar está pesando sobre o governo, não com a
ostensiva arrogância da ditadura militar, porém com melhor vantagem pois lan-
çou de si as responsabilidades.

O descrédito, a carestia, a falta de segurança, o desânimo estão minando em


toda essa imensa população do Brasil, enquanto no estrangeiro, a mentira ofici-
al não consegue senão enegrecer a situação do país.

E no sul, o governo civil manda sustentar a guerra.

E no Senado se vai aprovar a ditadura com todos os seus atos.

O que mais querer?

O futuro está claro.

Interrogue-se o espírito público.

Percorra-se friamente todos esses Estados: encontra-se em algum deles a


opinião pública formada?

Que vida vivem esses simples departamentos do poder central?

O que é que os prende, não já uns aos outros, que em verdade não se prendem,
mas todos ao Centro?

Em todos eles não se vê o mesmo desânimo, a mesma carestia, a falta de


segurança, as mesmas características de União?
133
Qual tendência se pode descobrir nesses povos, hoje tão divididos, tão
transformados pelas constantes perturbações, pelas incertezas, pelas
dificuldades em que cada um se estorce, não lhe deixando asa para cuidar dos
outros?

Não há opinião: o espírito público não se formou.

A angústia por toda parte, uma indecifrável ansiedade, prende o ânimo de cada
um ao dia de hoje, não permite estender a vista ao dia de amanhã.

Em tais condições, só os vícios, a corrupção, o abatimento do nível moral


pululam nas populações subjugadas e deturpadas pela escravidão.

Será daí, será desse meio que se poderá esperar tão cedo o germinar da paz, da
tranquilidade, da prosperidade em suma, da felicidade do país?

Essas tentativas, embora cheias de digno esforço, esses brados postos que
indigentes e heróicos, arrancados de generosos corações e repassados de
grandioso amor da pátria aí ficou em vão, sem despertar mais do que efêmeras
vibrações de alguma alma ainda não perdida na voragem.

Não; esperar o que?

No meio do naufrágio, o capitão de revólver em punho contém a tripulação em


obediência para salvação comum: o navio se afunda ou espedaça... o revólver só
tem seis balas, e os escaleres e os destroços contêm mais gente – quebrou-se a
força.

12 DE DEZEMBRO DE 1894 – NOVO GOVERNO

O novo Presidente da República deixa por seus atos julgar que pretende
manifestar inteira reprovação ao comportamento de seu antecessor.

Parece cuidar em persuadir, por obras que o governo passou as mãos de um


poder civil.

Quer fazer acreditar que o militarismo vai acabar.

A feição política, nula em seu manifesto, vai-se lenta e levemente desenhando


em sua administração.

Terá um plano concebido?


134
Qualquer que ele seja, não poderá eximir-se da influência fortuita das
circunstâncias do momento.

Tal é o estado dos negócios públicos, tais são as perturbações políticas, as


comoções sociais em quase todo o país, que nenhum programa de governo
pode ser lançado de antemão.

A execução de qualquer movimento político ficará sempre sujeita às


eventualidades que vão surgindo dos acontecimentos imprevistos em tão
diversos pontos de uma sociedade (que se acha ainda em trabalho de orga-
nização) e cuja vida foi violentamente perturbada.

Parece entretanto que o novo governo tomou a resolução de não afrontar e


bater de rijo os obstáculos que lhe deixou em pé, ou preparado a ditadura.

Evitando quanto possível os conflitos, contornando-se as passagens mais


íngremes e difíceis, não se descuida de si cortando aonde pode, sem perder ne-
nhum propício ensejo que se lhe proporciona de diminuir aquelas dificuldades.

Do mais feliz resultado foi o restabelecimento da liberdade de imprensa.

Aberta essa grande válvula por onde se escoa a demasia da opinião comprimida,
as grandes comoções não terão lugar.

Franqueado esse terreno às lutas do espírito, os combates da força recuarão


inúteis.

Erguida de novo essa majestosa tribuna todo o sofrimento.

O novo governo.

A liberdade de imprensa.

DEZEMBRO DE 1894 – JACOBINOS – PUBLICAÇÃO

"E nós aqui, quando veremos raiar a prometedora aurora de igual


reivindicação?" [Ver Jornal República 30-10-94.]

Os Jacobinos, depois de alguns dias de silêncio, voltam de novo ao tablado de


onde se mostram e falam ao público.

135
Pouco importa indagar se esses cínicos malfeitores ou porque andassem
apavorados com receio de alguns golpes que a sua grei recebesse do alto ou por
julgarem-se seguros, descansavam satisfeitos de suas obras.

Ei-los, pois, aí de volta: vede-os.

São sempre os mesmos!

Reparai suas vestes: a metade é vermelha de sangue, metade, o preto da morte.


Nas mãos a espingarda, o punhal na cinta.

No rosto, a máscara do cinismo, um só para todos, a mesma forma em toda


parte.

Caim foi um só; Judas tinha a mesma cara de Caim.

Têm os passos do chacal, o retraimento da hiena: só se mostram em bandos,


como o lobo.

Não lhes pergunteis o que querem: o rugir daquelas feras não tem só uma
significação?

Saciada a fome, dormitam com as pálpebras meio fechadas espreitando novo


repasto.

Quantos são: De onde vêm? Quem sabe?

Das matas, do lodo, dos cemitérios, do escuro, onde nascem ou se escondem.

São muitos; ora mil, ora cem, ora três, ou um; quando atacam são muitos,
quando atacados, somem-se.

A destruição dos cadáveres precisa dos vorazes carniceiros ou dos vermes na


putrefação: a desorganização das sociedades tem o mesmo processo, é sempre
a podridão.

Ei-los pois aí, os Jacobinos.

Em pouco tempo, pela terceira vez, agora soltam as suas palavras sinistras com
a unção dos sanguinários sacerdotes nos templos da Índia pedindo sacrifícios.
Querem mais vítimas: não estão saciados. Não ouvis? Eles gritam:

136
"Esses que aí andam pela cidade – os que arrastam uma existência penosa e
triste – é preciso que desapareçam, porque a vida, a presença deles está afron-
tando a população.

Eles aí vivem e convivem na sociedade.

Eles aí caminham desembaraçados nas ruas e praças.

Eles aí trabalham para ganhar a subsistência de sua família.

Eles aí se reúnem em casa uns dos outros, à noite no descanso do trabalho.

Eles aí rumorejam pelas esquinas quando se encontram.

Eles à sombra de proteção que não se justifica, se acercam do poder e dos seus
representantes.

Eles vão se insinuando no ânimo do povo complacente e generoso.

A sociedade catarinense anseia pela reivindicação de seus direitos, exige a


reparação reclamada pelos patriotas."

O então, ouvis? Eles gritam assim.

Eles têm razão; os homens da noite de 31 de julho – o espingardeamento – têm


razão os homens da noite de 21 de abril – o morticínio – é preciso ir adiante,
ainda tudo não está acabado.

Aqueles que ainda ficaram por aí, aqueles que não foram mortos nem
perseguidos, não fugiram nem se exilaram, são testemunhas perigosas e
inoportunas.

Cada um que passa nas ruas tem no rosto, nos olhos, no som da voz, o aspecto,
o olhar, a palavra da acusação implacável dos criminosos.

O crime tem necessidade de suprimir as testemunhas.

O assassino lança-se de punhal erguido sobre um transeunte.

– Que mal te fiz eu?

– Viste-me fazer mal. E mata-o.

É preciso que todos desapareçam.


137
Um que fique, é uma ameaça viva; ele contará aos filhos, contará ao estrangeiro
a história nefanda daqueles crimes, e poderá dizer – eu vi – e é preciso que nin-
guém possa pronunciar essas duas palavras.

O ostracismo, a perseguição, os processos, a prisão, o terror forçarão ao


absoluto silêncio ou à expatriação.

Nem uma raiz, nem uma semente deve subsistir. As coisas, como os homens,
eram espectros ameaçadores.

Que tudo seja mudado, pois, para que essa memória se vá apagando e de todo
se extingua.

Aquelas ruas, aquelas praças, os jardins, os edifícios, têm outros nomes que
lembram os protetores do morticínio, aquela cidade infeliz entregue à noite aos
massacres, foi entregue de dia, vil e servilmente ao padroado do déspota; as
pedras daquelas ruas; manchadas de tanto sangue generoso, foram arrancadas.
Aquele palácio, com os rombos das balas nas janelas e nas paredes, demolido.
Aquela fortaleza onde tantas vítimas foram assassinadas, foi posta em obras
para que tudo quanto um dia foi iluminado e aquecido pelo sol da liberdade, de
tudo quanto viu um dia tanto crime horroroso nada ficasse.

Pois bem, ainda não basta.

Os Jacobinos querem mais: eles gritam.

Receiam porventura esses celerados algum poder superior?

Quem, o que lhes causa pavor?

Não o sabem, mas têm medo – as aves de rapina são desconfiadas – por isso
eles guardam zelosos, esses soldados pedem que venham mais tropas, exigem
mais perseguições, e conservam aqui a custa de todas as humilhações e
subserviências esse preposto do Tirano, o executor sanguinário de tantos
assassinatos.

Nada temem, estão seguros: mas, e não se podem separar do matador que lhes
deu o poder.

E ele, o réprobo feroz, acabou sua faina cruenta, está tranquilo com os seus
carrascos e não procura abandonar o matadeiro.

138
A providência das leis externas tem fenômenos estupendos: uma atração
sinistra, um mistério fúnebre prende o assassino ao lugar do crime, à fossa onde
sepultou sua vítima: há feras que escondem ciosas os cadáveres em que
cevaram a fome e ficam girando em volta.

Vem de longe o tirano que mandou fazer o massacre, deu seu nome à terra
ensanguentada da hecatombe e lá, vagueia por entre os cemitérios que fez
entulhar de mortos.

O outro, aqui onde trucidou centenas de mártires, ronda zeloso os corpos que
apodrecem escondidos.

Floriano não pode distanciar-se de Bagé, Sepetiba, Boqueirão.

César não pode afastar-se de Florianópolis.

Mariano vigia Santa Cruz.

Valério guardará a Barra do Sul.

E enquanto gritam torvos os jacobinos; não lhes devem sangue, embora o


cárcere, as paredes negras da masmorra, a miséria, o desterro, tudo serve.

Enquanto essas figuras de encarnado e preto vão segregando ou atirando para


estranhas plagas longínquas aqueles que viram.

É que vai crescendo a erva daninha e se enlaçam nas cruzes sobre o chão ainda
revolto e mal sentado das coroas e das valas onde o crime soterrou as vítimas.

Mais sacrifícios!

DEZEMBRO DE 1894 – SAUDADES DA REVOLTA

[Publicação Apóstolo]

O Apóstolo em um de seus belos e enérgicos artigos verbera afeição asquerosa


dos defensores da Ditadura – os quais não se pejam de patentear saudades do
tempo da Revolta lembrando os lucros e até os roubos com que se
locupletaram.

Bem dignos de aplauso são essas palavras do jornal católico e justas são as suas
increpações àqueles especuladores.

139
Mas o Apóstolo estava no Rio de Janeiro – nessa grande capital do patriotismo e
da legalidade – durante a Revolta, viu e sabe o que aí se acumulou de opressão,
de falsidade e de crimes e pode portanto, amaldiçoar o tempo da Revolta e os
que dela se lembram com saudade.

Lá, tinha o Apóstolo, a Revolta na baía e a tirania na cidade; eis sua razão.

Aqui, diremos a nosso turno, invertem-se os papéis, que invertidos foram de há


muito.

Aqui, tínhamos a Revolta na cidade, e de longe surgiu ameaçador e sequioso de


sangue o despotismo enraivecido.

A Revolta era a segurança, a proteção contra os crimes da tirania; sem ela,


depois dela, era o martírio, o morticínio, a ruína que nos aguardava.

Diferença enorme.

Lá os desastres, os cárceres, a morte – a Ditadura. Aqui, a confiança, o direito, a


liberdade, a Revolta. Daí as saudades da Revolta.

Quem aqui em nossa terra não as tem?

Quem não sente com os olhos quase rasos de lágrimas, saudades da Revolta?

Que catarinense, amante de sua pátria e voltado à liberdade não conserva bem
vivas essas saudades?

Que homem de caráter honesto, de coração ainda não insensível, cheio de


crenças, de nobreza d'alma e de sentimentos virtuosos não experimenta
pungentes saudades daquele tempo?

A própria razão e a justiça e a verdade forçam ainda a fria indiferença a ter


saudades da Revolta.

Nós, os catarinenses cobertos hoje de luto, transidos de dor, derramando


amargurado pranto pelo assassinato de nossos irmãos, bendizemos aqueles cur-
tos dias de felicidade que nos deu a Revolta.

Durante ela, aspiramos a longos tragos a aura benéfica da liberdade, sentíamos


bater-nos o coração de generosos impulsos e o altivo entusiasmo do amor da
pátria nos enchia a alma de inebriantes emoções.

140
O alegre arrebatamento de um povo que se sente livre e soberano derramava a
satisfação e o orgulho sobre os filhos extremosos desta terra.

Quanta animação, quanto de vida, esperanças lisonjeiras de tranquila paz,


quanto de imagens carinhosas de um futuro próspero e risonho não alentava o
povo naqueles dias?

Oh, porque acabou a Revolução?

Ainda mal feridos pela atrocidade da noite de 31 de julho, ainda subjugados


pelo brutal despotismo que nos roubara a liberdade e nos atirara inermes às
violências de um assecla irresponsável – vimos surgir em nossas plagas como
salvadora a falange da Revolta.

Os polacos de 31 tinham sido repelidos, mas havia ficado Serra Martins com os
seus sequazes e o Ditador nos roubara Elyseu o eleito do povo e o conservava
preso.

Declarado o estado de sítio, governava a espada e angustiados esperamos a


cada instante os cruéis sofrimentos que padecia o Rio de Janeiro e que logo se
desenvolveram no Paraná.

Foi então que partiu da Esquadra a Divisão Expedicionária do Sul.

Ela chega; capitulam os soldados da Ditadura e o Estado de Santa Catarina


abraça ufano e com alegria a bandeira branca da Revolta.

Desde logo começaram os dias felizes aí, como foram poucos os dias ruins nos
quais não sentíamos nos esmagar o pé arrogante do despotismo.

Éramos livres.

Acabaram-se os vexames, os insultos, as perseguições, acabaram-se as ameaças


dos sicários, a iminência do massacre; e os ferozes monstros fugiram
espavoridos, entregando-se uns, refalsados outros.

Respirava-se, enfim.

Todos os sentimentos comprimidos pela mão de ferro, expandiram-se alegres


na pureza do seu primeiro voo.

Perigos, vinganças, castigos, quem nisso pensava?

141
A fraternidade, o perdão, a piedade santa irromperam brilhantes ao conhecer-
se a mente, a palavra, as ações livres de uma vez.

Perigo?

Não os temeríamos já vendo os brios frescos do pampeiro desfraldar-se, o


pavilhão branco no mastro dos heróicos República e Palias.

Vinganças?

Do peito nobre e generoso dos catarinenses não brotam paixões cruéis; só


desprezo e compaixão desperta o vencido inimigo nessas almas grandes.

Castigos?

Aí voltava o império da Lei, e a calma justiça desafrontada da pressão do poder


levaria a punição ao crime onde quer que o encontrasse.

Tudo mudara.

Naqueles dias felizes não havia o terror, porque essa revolta foi a vida, foi a luz
depois das trevas, foi a ventura após a tormenta; abria-se a imensidade dos
campos com suas florestas, com seus rios, com suas verdes serranias, depois
das negras muralhas frias e úmidas do calabouço.

Como foi grandiosa a população nesses dias de glória!

As ruas, as praças, os cais eram sempre cheios de povo, a satisfação curva certa
se fazia transbordar de todos os semblantes e de todos os grupos desprendia-se
o entusiasmo, o valor e a dedicação.

Olhai esse tumultuar incessante, esse movimento ardente, essas aclamações,


essas festas de improviso, essas músicas, toda essa multidão de homens, mulhe-
res velhos e crianças; olhai esse mesclar de vestuários, de aspectos e de tez,
tudo se agita, tudo se expressa, tudo trabalha.

Dos pampas do sul chegavam esses coortes cavalheirescos combatendo pela


liberdade.

No mar os Vapores, as embarcações de toda a guerra, sulcam as ondas da baía,


e abordam o cais e despejam na cidade milhares de bravos.

Em terra lidavam, de envolta, com os habitantes, esses gloriosos hóspedes de


um dia, na sua passagem de vitórias.
142
Esses doirados, esses amarelos – fulvos sobre o azul-escuro, esses encarnados
agoureiros não mais apareciam ali; misturando-se com a simplicidade do povo,
andava o dólmen singelo dos salientes da Esquadra, andavam as variadas
blusas, as bombachas dos heróicos gaúchos.

Não eram soldados, não eram tropas recrutadas sem fé, sem crença, que
marchavam a combater sem única ideia sequer a não ser o soldo; a esses dava
tudo o tirano armas, roupas, víveres e dinheiro.

Eram civis, eram legiões de voluntários, ardentes de fé, crentes no direito, que
atiravam-se as pelejas com o entusiasmo do patriotismo com o amor da
liberdade não tinham soldo, a eles todos davam tudo, o tirano só lhes dava a
morte.

Era o povo que se erguia pujante e soberano, arrancando das garras do


despotismo sua liberdade sagrada.

Era o povo que recebia a Esquadra e o Exército Libertador, era o povo que
aceitava Revolta e se revoltava também.

O povo tem a sua intuição e a ciência das massas, tem a sua previdência e a sua
razão.

A Revolta era a liberdade, ele a conheceu à primeira vista.

A Ditadura era o cárcere, o martírio, a morte, ele a anteviu.

Abraçou a Revolução e teve a Liberdade, depois veio a ditadura e ele pagou


bem caro.

Mas o povo se tinha erguido pelos seus direitos e sua autonomia, e sua
exaltação era nobre e justa. O entusiasmo é contagioso.

Com aqueles bravos do Sul partiram os nossos também, a engrossar essas


fileiras populares levando consigo a gratidão e as benções da população.

Partiram esses briosos e valentes catarinenses e pela pátria, pela liberdade, pela
defesa de seus lares e de seu sangue esqueciam todo o perigo de hoje, toda a
ameaça de amanhã.

Ah, como foi portentosa a Revolta!

143
Naqueles dias as mães, as esposas, os irmãos, batendo-lhes o coração de
elevado patriotismo, com suas mãos preparavam-lhes as roupas, com suas
palavras exaltavam-lhes as virtudes, a esses batalhadores que partiam.

Com sacrossanta piedade, eles próprios desfiavam os fios e cortavam as


ataduras para o curativo dos feridos, ao seio dos quais levavam a consolação de
seu carinho e o conforto da sua fé.

E com a trêmula animação do jovem tudo bordavam em custosos lavores os


brilhantes estandartes qual insígnias em legiões triunfantes nas suas campanhas
generosas.

Quanto heroísmo, quanta majestade, dedicação...

E durante todo esse tempo, no meio de todo o tumultuar do forasteiro,


atormentados de privações, trabalhados de todos os sacrifícios, que apenas
chegavam hoje para partir amanhã e nunca mais volver, no meio dessas
enormes circunvoluções de todas as classes, só reunidas pelo amor da liberdade
e o patriotismo, nunca, jamais, num único distúrbio, um só ato de desrespeito
ou de desacato, ou menos digno pode ser guardado de memória.

Era para admirar tanta ordem e segurança e respeito, como era para encantar
tamanha satisfação e alegria no meio de uma população exaltada em foco abra-
sado de plena Revolução.

Oh, por que devia acabar a Revolta?

Mas, um dia, ela acabou! Acabou a Revolta e a liberdade.

Veio a Ditadura, veio o tirano, e nesse dia nefasto, ao retirar-se a Revolução, o


povo sentiu que alguma coisa de enormemente lúgubre, de espantosamente
cruel, ia tombar sobre a cidade.

A previdência do povo ia realizar-se.

Um desastre fortuito e estúpido nos entregava nas mãos do déspota.

No meio da noite, no silêncio da população, adormecida, derramou-se por todas


as ruas o bando sinistro de possessos assalariados e começou logo a hedionda
hecatombe que traz envolto em pesado luto toda essa malfadada região.

Ainda não cessaram essas lágrimas, essas dores profundas porque a viuvez e a
orfandade não têm restituição.

144
Ainda não cessou o terror e a afronta, porque ainda passeiam soberbos e
impunes entre as vítimas, os odiosos algozes.

Os bárbaros assassinatos, seguidos de roubos, as prisões acompanhadas de


extorsão, os ultrajes, os insultos, as perseguições para lançar na pobreza e na
miséria centenas de famílias, toda essa dolorosa notícia já corre desoladora para
todos os Estados irmãos e por todas as Nações estrangeiras, foi a obra do
Ditador entrando à noite na cidade inerme, abandonada, humilhada, sem uma
resistência, sem um tiro.

A Revolta obrigada a retrair-se deixara indefesa a cidade, a tirania entrara


então, segura da impunidade e covarde saciou-se de sangue.

Quando entrou a Revolta, não houve daquilo: veio a Ditadura, apareceu tudo
isso.

Não aqui não foi a Revolta que fez as desgraças da pátria.

Não foi a Revolta que encheu as prisões e as solitárias, que carregou de ferros,
que mutilou e lançou ao mar, degolou e fuzilou, transformando os cemitérios e
as fortalezas em matadouros de homens.

Foi o poder constituído, foi o governo da espada, com quem estava a Nação,
foram os bravos soldados e oficiais do Grande Marechal, foi a sentinela do
tesouro, foi o excelso defensor da constituição, o invicto salvador da República,
foi a legalidade.

Foi finalmente, porque a Revolta...

Junte agora o Apóstolo, os nomes, suas virtuosas orações por esses infelizes
trucidados, una as nossas suas preces piedosas por essas desoladas mães e viú-
vas, por esses numerosos órfãos, e não mais maldiga a Revolta.

Tenha, antes, conosco "a coragem de escrever este atentado, esse crime de lesa
legalidade".

Oh, quantas saudades da Revolta!

18 DE JANEIRO DE 1895

[Juntar a Saudade.]

145
Enviou-nos uma amiga nossa o escrito junto que nos parece apreciara essa
redação, visto dizer-lhe respeito.

Foi essa página obtida pela íntima amizade de um exilado brasileiro, há poucos
dias chegado de Montevidéu, onde pretende publicar seu livro sobre a Revolu-
ção de 93-94.

A REDAÇÃO DO APÓSTOLO

A missão nobre e humanitária, de verdadeira virtude cristã, em que vos haveis


empenhado para conforto de tantas vítimas, para esperança de tantos infelizes
e reparação de tanta injustiça e perseguições, nos anima a nós, obscuros e
humildes católicos a levar ao vosso conhecimento mais uma das armas com que
a odiosa legalidade feriu este pobre Estado em beneficio dos seus seguidores.

Apenas chegado aqui o Sr. Moreira César, Governador Militar, de acordo com a
Comissão Executiva, foi demitindo bruscamente quase todos os funcionários e
empregados públicos de diversas Repartições, quaisquer que fossem suas
habilitações, zelo, prática, anos de serviço, sem mais outro motivo senão a
suposta cor política.

Atirando-lhes oficialmente como lábia a sanha absurda e ridícula de traidores a


República, proibiu-lhes a entrada em todas as repartições públicas, e negando-
lhes os pagamentos atrasados sem esquecer-se de fazê-los prender como se
fossem criminosos.

De sobre isto ainda foi-lhes anulado o Montepio, perdendo assim as prestações


até então feitas!

Fácil é imaginar o quadro que apresentou então a cidade, onde junto a tantas
desgraças que então se davam caiam subitamente nos maiores embaraços de
subsistência, na mais apertada pobreza, centenas de famílias.

Esta calamidade, Sr. Redator, não atingiu somente a essa importante classe da
população: o Serviço Público do Estado e muito especialmente o da Fazenda
Geral, foi desastradamente atacado.

Retirados aqueles empregados serventuários de dez, vinte e até 30 anos de


exercício, foram de atropelo substituídos por um pessoal completamente
inabilitado, sem concurso, sem foi qualidade alguma legal.

As repartições públicas têm desde então oferecido um espetáculo que causa


lástima e que revolta; a desorganização do serviço é completo.
146
A Alfândega, por exemplo, está reduzida a um caos. A mais cabal ignorância da
escrituração de Fazenda, a ausência total do conhecimento, no trabalho
complicado e difícil dessa Repartição, fazem com que protelem, adiem, neguem
por fim objetos de simples expedientes, chegando a ponto de não saberem
processar um documento, seja de receita, seja de despesa!

A escrituração da Caixa Econômica, a do Montepio, a da própria Caixa Geral,


estão por tal forma encalacradas que se pode afoitamente asseverar que nunca
mais será posta em regra, sem o recurso de um belo dia trancar tudo e começar
de novo.

Como poderiam, portanto, dar conta desses trabalhos importantes que


incumbem indispensavelmente a esta repartição, tais como os balanços
mensais, balanços definitivos, orçamentos e outros mapas estatísticos, etc, etc?

Tudo isso está parado e as Estações Fiscais Centrais, a reclamar, a exigir


semelhantes documentos, verdadeiros títulos da gestão dos dinheiros públicos.

Já há meses, o Primeiro Escriturário, que servia de Inspetor, viu-se forçado a


declarar que deixava de satisfazer a exigência do Ministro da Fazenda do Gover-
no da Legalidade, por não ter pessoal habilitado; o próprio Paiz não hesitou em
estampar logo essa notícia em suas colunas.

Digamos, por fim, que a primeira repartição fiscal do Estado não tem tesoureiro,
servindo esse cargo qualquer empregado designado pelo Inspetor, embora nada
entenda daquele serviço e sem a mínima caução ou responsabilidade: o que
serve atualmente é quase analfabeto!

Tal é o estado deplorável do funcionalismo público em Santa Catarina, enquanto


aí ficarem desaproveitados esses sem número de empregados zelosos, cum-
pridores de seus deveres, devidamente habilitados e com longa prática, e
finalmente, com todos os direitos adquiridos.

Nenhuma lei, nenhum código autorizava entretanto essas demissões a que bem
se podia qualificar de revolucionária.

Mas não terá tudo isso remédio na mesma Lei e na Justiça, de que o Sr.
Presidente da República se fez, o defensor extremado, não achará recurso na
razão e no direito, esse descalabro do serviço público com tamanho prejuízo da
Fazenda?

Parece-nos, Sr. Redator, que para sanar todo esse mal, bastará que se cumpra
escrupulosamente a Lei. Poderemos esperar isso?
147
Um Católico.

DEZEMBRO DE 1894 – INVISÍVEL

Por que não se deixa ver? No mês último do seu domínio, o ditador mandou
anunciar que havia ordenado estrondosas festas para solenizar a sua retirada e
a entrada do novo Presidente no governo.

Diversos motivos de festejos ele os acumulou, como procurando excitar o ânimo


do povo, dar posto às vaidades e provocar as manifestações públicas.

Ele próprio traçou e ordenou oficialmente o programa pomposo dessas festas,


os festejos deslumbrantes – que vai custar centenas de contos de réis – e mar-
cou a cada figura o seu papel, e como era muito natural cabia-lhe um lugar bem
saliente nelas.

O vulto desse marechal que teve tantos epítetos, posto que mudados a cada
passo, certamente porque nenhum lhe assentava o vulto desse homem que tão
violento e tremendo poder ostentava, devia sobressair em todas essas
cerimônias públicas, e em muitas até era ele indispensável por ser a única
presença reclamada.

Alguma coisa porém, de extraordinário existe nesse ente cujo aspecto é tão
cuidadosamente sonegado ao público.

Defeito físico?

Ninguém o supõe.

Moléstia... Nunca foi justificada nem dada a conhecer.

Deliberação, intento, resolução calculada adrede, e sustentada com


persistência.

É o que se manifesta claramente no proceder estranho desse homem colocado


na primeira posição do país.

Qual o motivo, e com que fim, não se pode ainda saber.

O que é fato é que desde o começo das relações de novo estabelecidas entre
este Estado e o Rio de Janeiro, nunca tivemos notícias de haver o ditador
comparecido em ato algum público.
148
É verdade que se diz que durante as hostilidades da Esquadra no porto, o
Marechal percorrera diversas vezes as fortificações nas praias, e que até fora
visto, a pé e sem séquito, passear nas ruas da Capital.

Mas também ouvimos de muitos oficiais a seu serviço, que quer naquele tempo,
quer depois, receberam sempre as ordens e entenderam-se somente com os
ministros e quartel-general, sem nunca lograrem avistar o marechal.

Não no viram os amigos e aduladores que o foram cortejar em sua festa;


deixou-lhes em uma carta a resposta ao esperado discurso.

Não o viu, o almirante que desembarcava no meio de triunfos levando-lhe a


vitória sobre um navio abandonado.

Não no viram as suas tropas luzidas na grande revista militar.

Não o viu a comissão estrangeira que levava aos bravos da campanha paraguaia,
a troca de suas medalhas.

Não no viram os que lhe reservavam a cerimônia de lançamento da pedra


fundamental do monumento a Alencar.

Chegou o Gonçalves – nada. Manifestação dia de anos – nada carta. Revista


Militar – nada. Chegada Comissão medalha – nada. Pedra da estátua – nada.
Inauguração outra estátua – nada. Visita da Comissão de Medalha – nada. Festa
1594 – nada. Juramento Prudente – nada. Posse Itamarati – nada. Quartel
General – nada. Padrinho Casamento –?

Não o viu a inauguração da estátua de Osório. Não o viu a Comissão Platina ao


despedir-se.

Não o viu o povo, nem o Congresso ao prestar o juramento ao Presidente eleito.

Não o viram nem o corpo diplomático, nem os ministros, nem o novo


Presidente da República que dele ia receber o poder.

Não o viu finalmente, o Quartel General, a quem se devia apresentar pronto


para o serviço do Exército.

Não o viu ninguém: não o viu a Nação – que estava com ele!

Por que não se deixou ver o ditador, por que não se deixa ver o invicto
Marechal?
149
Não tinha, o poderoso ditador, o apoio, a dedicação extrema dos exaltados
patriotas que o defendiam?

Não tem o benemérito Marechal, o supersticioso zelo de seus soldados, a


expressão cega dos seus alunos?

Não tem esse homem extraordinário, o culto da grei positivista e a proteção do


Pontífice?

Não tem esse patriota brasileiro o auxílio e amparo exaltado desesperado dos
possessos jacobinos? Não está com ele a Nação?

Por que se esconde esse homem?

Vamos, Marechal – o grande, em público! Mostrai-vos, tendes o dever de fazê-


lo: toda a Nação tem o direito de vos ver.

Vesti a vossa farda de oficial General do Exército brasileiro, toda dourada,


bordada, ornai o vosso peito com essas variadas e brilhantes condecorações
que vos deu o imperador quando servíeis a Monarquia, cingi essa espada de
ouro que acabam de dar-vos os amigos da República, e acenai às janelas do
Palácio que acabais de comprar, porque o povo – esse povo – em nome de
quem tudo fizestes, esse povo que nunca vos avistou, vos veja agora finalmente.

Mas, cuidado, invicto Marechal, calçai bem as luvas de pelica, porque as vossas
mãos ainda estão tintas de sangue.

Desmanchai essas rugas da fronte, disfarçai, se podeis, essa contração de vossas


faces de cobre, daí alguma expressão a vosso olhar, – e encarai com a multidão.

Procurais os vossos soldados, os vossos alunos, procurais a vossa gente


dedicada?

Hesitais em aparecer, por quê?

Os soldados obedecem a outras vozes, os alunos já voltaram aos bancos da


escola?

Mas, resta-vos o pontífice e a sua grei de positivos, resta-vos os jacobinos: o que


temeis?

Ah, aquela multidão é a do povo – povo de verdade – no meio dela se distingue


bem as vestes e togas dos juízes e as vestes negras dos padres.
150
Naquela multidão há pais que fremem, viúvas que soluçam, órfãos que
pranteiam.

Naquela multidão, há a pobreza que esmola, a miséria que se estorce faminta.

Naquela multidão, estão as vítimas do ditador, que clama vingança, estão os


juízes que o vão condenar, estão os padres que vão anatematizá-lo.

Naquela multidão está o povo, soberano e justo, o povo insultado, violentado,


assassinado, e todo esse povo solta um único grito, o brado pavoroso da
multidão.

Para trás Marechal Vermelho, para trás.

Não afronteis o povo!

Para trás, não apareçais; o vosso processo está se fazendo; o julgamento da


história já começou.

A Nação vos repudia.

DEZEMBRO DE 1894 – CÉSAR QUE MATA

Quando naquela noite aziaga desembarcou aqui a força que trazia o


vapor Itaipu -, já devia estar previsto o massacre que ia ter lugar: a cohorte dos
bravos alunos, guarda dileta do tirano, havia durante os dois dias anteriores,
com os seus desatinos, anunciado por toda a Cidade aquela hecatombe.

Entretanto a segurança garantida pelo governo aclamado em palácio espalhou


na cidade uma certa tranquilidade, que não tardou em trazer-nos as mais fatais
consequências, com a chegada daquela força.

Traiçoeiro como todos os covardes, o seu comandante entrou à meia noite em


Palácio e aí começou a realizar a comissão que lhe fora dada.

Presos o governador e outros funcionários, a sua súbita entrada, desde logo


sem detença, em todos os pontos da Cidade se efetuaram numerosíssimas
prisões, sendo assaltadas e invadidas as casas no resto daquela mesma noite.

O raiar do dia só trouxe uma mudança: esses horrores que se praticaram nas
sombras da noite e que prosseguiram de dia, foram conhecidos por todos e es-
palharam o pavor na população.
151
Esgotada mais a paina na cidade, veio a caça pelos arrabaldes, pelas freguesias,
pelas matas.

Encheu-se de presos tudo o que podia servir de prisão.

Os calabouços e solitárias da cadeia comum, as salas da Câmara, o Quartel de


Polícia, o de linha e até o teatro, tudo foi pouco e foi preciso remover por
boiada aos navios de guerra os presos à medida que se enchia uma prisão para
dar lugar aos que chegavam.

Esses que embarcavam levavam destino de Santa Cruz: deles bem poucos
voltavam... os outros, o maior número, nunca mais regressou dessa viagem,
porque uns lá não chegaram e muitos ali jazem para sempre.

O terror, essas inauditas barbaridades multiplicadas e cada dia variadas abateu


todos os ânimos e a cidade tomou o aspecto de uma população devastada por
mortífera peste.

Porque isso durou meses.

O silêncio, o recolhimento, o andar soturno dos habitantes horrorizados, faziam


contraste lúgubre com a algazarra e desmando, com as petulantes maneiras e
sinistras ameaças dos selvagens soldados que enchiam as ruas e praças.

Quem decretará tão tremendo castigo a esta pobre terra? Que importa agora
sabê-lo?

Basta conhecer o executor e os algozes.

O tirano cruel já ai vai marcado com o ferrete da maldição de um povo inteiro.

Comandante das forças e governador militar, o bárbaro chefe dessa quadrilha


era um brasileiro, homem maduro, um oficial, coronel do Exército nacional:
chamava-se César.

César! A história tem dessas irrazões.

César, um homem nulo, figura mesquinha, organismo degenerado, ignorante e


refalsado!

César, um cínico traidor!

César, um covarde!
152
Pois bem, sim, tem o nome de César, esse ente abjeto que entregou o que havia
de melhor na nossa população nas mãos assassinas dos seus sicários.

Prenderam, fuzilaram, degolaram, lançaram ao mar inúmeros pais e filhos de


família, cidadãos brasileiros e estrangeiros, os soldados da horda deCésar.

Vilões, que bem depressa foram calcados aos pés por esse mesmo César que
enchiam de glórias e que os açoitava.

Escravos, que cedo vergaram humildes e rasteiros ante o feitor que os


ameaçava de morte, e os esbofeteava em público.

Miseráveis, que tudo sofreram e sofreu para que lhes deem sem trabalho, um
pedaço de pão e um enfeite dourado.

Nada respeitaram nem a idade, a posição nem a intimidade sagrada do lar: tudo
afrontaram, tudo insultaram.

E houve aqui um bando – imprudente que sem pejo, com a coragem da


imbecilidade e malvadez, cobriu de louvores a César.

Careciam de um César, tiveram César.

Para essa gente ignóbil, aquele governo réprobo. Ei-lo aí.

Sua história é curta.

Saiu dos bancos da escola? Não parece. Pouco trouxe dali.

Nunca entrou em combate. Subiu os postos em comissões de beleguim.

Corre que fez figura no assassinato de Apulchro de Castro. Era sina.

Como o soldado traz polida a carabina e o bandido, afiado seu punhal, ele traz
brilhante de luxo e perfumado o seu batalhão.

Ele zela e defende os seus soldados porque os teme e porque deles precisa.

Não tem família, a natureza foi previdente com esse monstro.

Quando chegou, meteu-se em Palácio e ninguém mais o viu; com ele moravam
seus ajudantes, soldados o serviam.

153
Espalhou-se entretanto que por muito tempo ele ia dormir a bordo de algum
vapor; o que é fato é que foi visto a embarcar tarde da noite, e alguma vez
desembarcar ao alvorecer; seria medo?

Com ele residia em Palácio, um tenente que trouxera para Chefe de Polícia.

Floriano cercava os seus prepostos que raras vezes passavam de postos baixos,
de subalternos alferes e simples cadetes, quase sempre tirados de seus bravos
alunos.

César, o coronel, tinha como Chefe de Polícia um tenente, Bellerofonte, e por


secretário e ajudantes de ordens quatro ou cinco alferes.

Quem era esse Bellerofonte?

Perguntai isso em Pernambuco: qual foi o único oficial que, recusando-se todos
os outros a comandar a escolta que devia fuzilar o sargento Silvino, se ofereceu
a fazê-lo e de volta da execução trazia a fronte erguida e ar satisfeito, quando os
soldados tristes caminhavam abatidos e pesarosos.

Era acaso, ou propósito a união destes dois homens?

Se César foi assistir ou mandar a voz de fogo em algum fuzilamento, o fez em


tanto segredo que ainda não transpirou.

O tenente porém não o escondeu; de dia as 4 para 5 horas da tarde, foi ao


cemitério público, para onde mandou em carro ao lado de praças armados, um
mísero grumete, e junto da cova que lhe foi cavada o fez passar pelas armas.

É notável.

Os tiros das espingardas confundiram-se naquela tarde com os estrondos dos


foguetes que então festejavam a chegada de Paula Ramos!

Beleza a consignar.

Esse grumete era um cadete do Exército fazendo parte da guarnição do vapor


conforme estabelecera Floriano no seu empenho de trazer presa e vigiada toda
a armada na qual ele nada confiava.

Pois bem, dada uma queixa desse moço à autoridade judiciária, esta mandou
proceder a ata de corpo de delito no paciente, o que foi feito por peritos médi-
cos.

154
Ainda não era assinado aquele ato, recolhido o acusado à Cadeia, cerca de duas
horas depois, parou à porta deste um carro, trazendo praça armada e na boleia
um soldado com o respectivo fuzil.

Foi embarcado o moço e o carro partiu para o cemitério, onde temeroso de sua
sorte se recusava o moço de entrar, sendo levado aos empurrões e à força.

Ali se achava o Chefe de Polícia, ele mandou amarrar o moço em uma árvore e
postados os soldados, quase à queima roupa, o fuzilaram e o arrastaram à cova
já para isso aberta.

No outro dia foi passado a limpo o termo de corpo de delito, assinado e


guardado no cartório, como coisa já inútil.

Constou-se que saindo do cartório logo que foi concluído o exame, o Chefe fora
a Palácio e de lá voltando ordenara a cena que terminou com a morte do moço.

Mais tarde correu que César, ouvindo algumas reflexões sobre o caso, dissera
que o Chefe lhe tinha pintado o caso tão atroz que ele mandara fazer justiça su-
mária.

Aí está, como nesses dias de terror arranca-se das mãos da justiça em cujo
poder já se achava um indigitado criminoso, e deixando cortado o procedimento
judiciário se executa sumariamente um indiciado sem suficiente formação de
culpa, em crime puramente civil e todo particular.

E por fim, o crime não foi consumado nem pena grave lhe impunha o código.

Tal era o braço direito de César.

Este não aparecia, vivia encerrado em Palácio, enquanto o Chefe fazia-se


relacionado com uma ou outra família da cidade.

Mais alguns traços para esboçar...

Este celerado coberto com a farda do Exército brasileiro e o deixaremos em


descanso no túmulo aonde o lançou, talvez à mão de outro celerado.

As lágrimas e os gemidos das viúvas e dos órfãos lhe servirão de repouso.

***

155
Ver Tribuna do Povo, Santos, São Paulo, ano 1, n° – 12 outubro-94: "A tirania no
Brasil – Um capítulo pelas nações civilizadas – Horríveis crimes de Peixoto –
Revelações do D. Seabra.

Ver Tribuna do Povo 8 – outubro – 94 n°8.

"Plácido de Abreu" – Carta do Lara.

Ver Tribuna do Povo.

17 – setembro – 94 – n°5

"Como morreu o Sargento Silvino".

Ver A Plateia.

São Paulo – 12 outubro – 94 – n° 1010

"Será verdade?"

Ver Correio da Tarde – Rio de Janeiro.

"O General Quadros apresentou ao Governo 1500 processos de pessoas


implicadas na Revolução do Paraná" – Telegrama do Rio para Fanfulla – São
Paulo n° 11.

Dezembro Dia 10.

"O Senado aprovou a proposta do Barão Ladario que pede ao Governo


informações sobre o número e os nomes dos cidadãos fuzilados no Paraná e
Santa Catarina durante a Revolta" – Telegrama do Rio para Fanfulla de 13 –
Dezembro – Em telegrama de 14 diz crer que o governo não dará as explicações
das testemunhas.

Consta que estão em viagem para o Rio alguns oficiais superiores da Armada
revoltosa compreendidos dois almirantes. Serão presos apenas desembarcados
– Telegrama 16 – Dezembro para Fanfulla.

Os aspirantes da Marinha que são aqui esperados nestes dias serão enviados
prisioneiros para bordo dos navios de guerra ancorados neste porto –
Telegrama Rio. 18 –Dezembro – Fanfulla.

DEZEMBRO DE 1894 – PERDÃO?


156
Está salva a República!

Não, não foi salva a República, o que se salvou foi o tirano, foi o ditador.

Ele é que levantou a opinião, ele fez nascer a Revolução, ele é que foi
ameaçado, só ele correu perigo – e pois, só ele foi salvo.

Dos campos onde armavam suas tendas, as hostes revolucionárias das Cidades e
povoados onde se respirou a liberdade, dos bordos desses lendários senhores
dos mares, de toda parte onde a revolução chegou, o grito, o brado, a
imprecação única, altiva, poderosa e tremenda era a queda do tirano, a extinção
da liberdade.

Dos batalhões recrutados da ditadura, das fortalezas, das trincheiras, de onde


quer que o poder atacava os defensores da liberdade, um só rugido se percebia
– a defesa do tirano, a conservação do poder.

Era a tirania, era a ditadura que se combatia.

Era o despotismo que levantava essas legiões ardentes de entusiasmo a


sacudirem o jugo desse poder destruidor.

Não perigou a República.

Não foi atacado o regime.

A salvação da República foi uma mentira necessária.

Necessária durante a Revolução, necessária no último período da ditadura.

Porque justificar os excessos

Para armar dos ingênuos.

Para representar-se no estrangeiro.

Para encenação das últimas mentiras.

A revolução não tinha acabado.

A revolução não acabou.

157
Se ela atacava a República, esta ainda não está salva porque a Revolução
continua.

Mas o déspota viu-se livre do perigo imediato e deu a revolução por finda, viu-
se seguro ao deixar o poder, e deu a República por salva.

Mas tem razão – a República era o ditador, a República era o Vice-Presidente, a


República era o Marechal Vermelho, a República era Floriano Peixoto.

Perguntou a este ou aquele porque combateram?

Os outros faziam um ofício, uma empreitada, uma encomenda.

DEZEMBRO DE 1894 – ÂNIMO

Repetidas vezes tenho tentado ocupar-me com os funestos acontecimentos


daqueles lutuosos dias de abril e maio em nossa terra.

A violência das dores, a impetuosidade dos sentimentos de indignação e revolta


de tão amargurados momentos, tolhe na palavra a expressão, na mente o
turbilhão de ideias despedaça a calma e ameaça desvairar a razão.

Ainda sangramos em demasia essas feridas, para que a mão fria e impiedosa da
justiça histórica venha revolver sequer ao menos o simples instrumento de ex-
ploração.

Ainda o coração fala muito alto para que se deixe ouvir a voz tranquila da razão.

Em verdade.

Como relembrar essas cenas lúgubres e aterradoras, como evocar esses


cadáveres ensanguentados das vítimas do assassínio e do roubo, como reviver
as transes angustiosas da viuvez e da orfandade e com o espírito sereno
analisar, estudar e processar esse repugnante acervo de crimes e atos odiosos?

Entretanto, força é fazê-lo.

É preciso recalcar para bem fundo do coração aquelas dores, enxugar bem o
pranto dos olhos, refrear toda a paixão e pedir à razão toda a frieza e calma do
espírito para esse angustioso trabalho.

Averiguada a criminosa morte de tantos brasileiros e estrangeiros, passada a


oportunidade de continuar nessa faina sinistra, cansados os ódios e
158
assurados os algozes da obra medonha que iam fazendo, chegava o dia de parar
naquele caminho, porque a luz da justiça e da verdade começava a espantar as
trevas daquela prolongada noite de selvagens barbaridades.

O terror era completo, a submissão absoluta, nada havia mais a recear.

O castigo tinha sido tremendo.

A lição estava dada.

Já não havia federalistas a matar.

DEZEMBRO DE 1894 – APROVAÇÃO DE PARECER EM COMISSÃO DA


ASSEMBLEIA

A Assembleia aprovou todos os atos do Vice-Presidente da República e de seus


agentes.

A Assembleia, assumindo o alto poder de representante imediato do povo, deu


por bons, legais e meritórios, todos os atos do poder executivo, e o declarou
livre de responsabilidade perante a Nação.

A Assembleia brada a alto e bom som ao país que ela participou da autoria
daqueles atos que aplaude e consagra.

A Assembleia aprova os atos de despotismo do Vice-Presidente, a Assembleia


aceita a sua ditadura e tirania.

Os homens que se investiram desses dois poderes, o legislativo e o executivo,


eram na realidade dignos uns dos outros; também a história há de colocá-los
juntos no mesmo banco dos réus, condená-los com igual sentença.

Mas não foi um bel não foi um perdão, não foi uma concessão irrecusável ao ato
consumado: foi o reconhecimento estrondoso, com toda a majestade pro-
clamado, em face das leis, e perante a Nação brasileira, e os estrangeiros da
legalidade, justiça e direito do procedimento do Vice-Presidente da República.

A lei fundamental foi violada, as garantias e direitos constitucionais foram


anulados, os poderes legislativo e judiciário foram usurpados, a ditadura foi
assumida sem investidura alguma, foi estabelecido o governo militar pelo
despotismo cruel e absoluto da espada; e a Assembleia decreta que ante a
razão, a justiça e a lei, que ausente a moral ante os princípios, tudo aquilo é

159
plenamente aprovado, e o povo e a Nação assim o hão de ser, porque assim o
mandou a Assembleia.

E que se retire coberto de glórias e triunfos o sanguinário déspota e vá tranquilo


gozar de seus lauréis e fortuna, sem que o possa atingir nem uma reclamação
de direito conculcado nem uma acusação de qualquer crime cometido.

Era esse o proceder de tal Assembleia, sem dúvida, para com tal Vice-
Presidente, como estranhar?

Criminosa, ela também declarava inocente o seu Chefe para inocentar-se ela
própria.

Duas ditaduras: a do Executivo que rasgou a Constituição, a da Assembleia que


se arrogou o direito de impor à Nação a aceitação daquela.

Porém, durante mais de um ano, esteve o país em estado de sítio, esteve em


vigor a lei marcial, esteve suspenso o poder judiciário, esteve a (Nação órfã) no
regime militar, e esses atos extraordinários, essas violências, esses crimes,
inauditos, inúmeros, têm fatais e imediatas consequências que nem um poder
humano é capaz de evitar ou desfazer e que pois, não desaparecem ao decreto
de aprovação da Assembleia.

A invasão, a extorsão da propriedade, os atentados contra a liberdade de ação e


de manifestação, o sequestro, a violência, o martírio, o suplício e o assassinato
por fim, não foram crimes – foi bom e justo, era do direito.

A Assembleia os aprovou.

Todos os que praticaram essas perversidades não são criminosos, a Assembleia


os declarou limpos de culpa e mandou que fossem considerados homens bons e
justos.

Que sejam livres e considerados esses celerados; que sejam acumulados de


recompensas e prêmios; e que passeiem vaidosos nas cidades e praças, os ten-
do os rubros brasões de suas façanhas no meio da sociedade humilhada e servil
sob o peso do governo que aceitou.

Ninguém os pode culpar, ninguém a acusá-los: o respeito, as honras e as


vantagens são para eles que bem mereceram da pátria.

Soldados, continência!

160
Apresentai armas a esses galões de ouro que passam nos braços que deviam
apertar as algemas da galé.

É um herói. Fugiu na luz do combate, assassinou no escuro de um


cárcere soldados. Ele veste a nossa farda, mas não está manchada de sangue
dos batalhões, nem tem o ocre odor da pólvora, suja na lama dos vícios e
espalha o desprezível perfume das orgias.

Povo, descobre-te.

Curva-te respeitoso ante esse potentado que passa com as insígnias do poder,
no meio da plebe que lhe vendeu as orações a esse que, sob a vara implacável
da justiça deverá descer aos cárceres, no meio das maldições do povo contra o
réprobo.

Aceitai todos, soldados e povo, o domínio desses grandes, desses feitores,


porque aos escravos não é dado julgar o que manda o senhor.

Manda pois a Assembleia que não exista crime, nem responsabilidade alguma
nesses atos, e nos que os praticaram, pois que os aprovou.

Mas esse poder, o mais importante, sem contestação, dos três poderes da
Nação, esse poder que se alça orgulhoso na pretensão de sua direta
representação, esse poder que dá a lei aos outros poderes, que toma contas e
responsabiliza o executivo, esse poder finalmente que ousadamente se diz a
Nação – não tem força, não tem alçadas para intervir nos acontecimentos
naturais, atos de um poder mais soberano, a natureza.

As leis da natureza são fatalmente compridas, malgrado todas as arrogantes


pretensões dos homens.

Não há poder de governo, não há Assembleias, Congressos, nem as Nações em


peso que se oponham à execução dessas leis sobre todos soberana; e aí daque-
les que lhes tragam embaraços!

O decreto da Assembleia é um ridículo e estúpido arranco de vaidade perante a


lei natural.

Esse decreto de repugnante serviência é um insulto à sociedade e um desafio ao


povo.

Esse decreto ante as próprias leis do país é um escárnio pela sua prepotência, é
uma inépcia pela sua ineficácia.

161
Mas a Assembleia decretou que o Vice-Presidente e seus agentes cumpriram o
seu dever e aprovou seus atos. E a Assembleia descansou.

Está decretado: não houve crime, não há criminosos.

A esponja do esquecimento passa por cima dessa página negra da história, e


tudo foi acabado.

Esses horrores... eram necessários.

Havias uma casa onde se suspeitava um pestilento, e lançou-se fogo à casa e o


incêndio devorou tudo, homens e casas e povoações: ficou a ruína, a viuvez, a
orfandade e a miséria.

Que importa?

O fogo não era preciso – mas foi bom, porque a peste, se havia, não se
estendeu.

O governo não podia fazer o que fez.

Mas está feito.

E a República está salva.

Loucura!

Réprobos!

***

Jornal do Brasil – 11-Dez-94 – Rio

Carta (Anf. Fralhom)

Poucas semanas antes de 15 de novembro foram dados à guarnição do Rio


Grande do Sul seis meses de soldos, sendo três a título de adiantamento e três
como presente. Presente igual foi feito aos oficiais da marinha durante a revolta
da Esquadra.

Ver Biografia – Barão de Batovi – Gazeta da Tarde – 27-Dez-94 – (mesmo


número do General Sólon ao Público)

Ver artigo "Novo Judas" – Feira do Ano, Correio da Tarde.


162
Ver Gazeta da Tarde – 9-dez-94 – Nota do Dr. (Priano) Almeida sobre Lulu
Caldeira.

Ver Gazeta da Tarde – 8-dez-94 – A Revolta, pelo Dr. Albino Meira – Transcrição
da Província de Pernambuco.

Ver Gazeta da Tarde – 7-dez-94 – A palavra do Almirante Mello (resposta à


mensagem de Peixoto) transcrição do La Prensa, Buenos Aires – 28-5-94.

Ver no mesmo número A memória de cinco arcabruzados.

– No Estribeira – transcrição da Província de Pernambuco – assinado G.M.


deputado Gonçalves Maia. Ver Gazeta da Tarde 10-dez-94.

Correio da Tarde – 5-dez-94 artigo... viúva Braziliano – Ver. Repartição


diplomática.

Correio da Tarde – 6-12-94 – A chamada dos mortos

Correio da Tarde – 7-12-94 – A lei Marcial Correio da Tarde – 8-12-94 – Mortos


ou Vivos? Correio da Tarde – 10-12-94 – Basta de sangue Correio da Tarde – 12-
12-94 – O Rio Grande do Sul. Correio da Tarde – 22-12-94 – A paz do Sul – O
cerco da Lapa

Correio da Tarde – 24-12-94 – O Senado – Os aspirantes

Custódio de Mello – Manifesto Prudente 18-10 Ver Jornal do Brasil – 25-10-94 –


Crônica – Fuzilados em Sepetiba.

Ver Jornal do Brasil – 28-10-94 – Crônica – Revolução no Sul por Antônio Faria

As coisas e os homens de Revolta Naval – Crônicas – Transcrição do Apóstolo de


23-12.

No dia... de dezembro as nove, mais ou menos, da noite, 3 marinheiros do


lugar North American Isaac passeavam na Figueira e cantavam.

Foram atacados por soldados armados e feridos. Recolhidos ao Hospital de


Caridade faleceram dois de peritonite consequente a ferimento penetrante do
abdome e dos lombos.

O República não deu nota do caso.


163
A 21 dando o obituário geral suprimiu de todos os óbitos o caso da morte para
não dar a dois marinheiros.

Grant, cônsul Americano é que tem estado na faina: os mortos são morcegos.

Salomé fez ata de corpo de delito aí com Catão Callado.

O Provedor oficiou ao Chefe de Polícia comunicando a morte e as causas.

Naquela noite recolheu-se ao quartel um praça cheio de sangue, braços, mãos e


calças: foi preso, diz que é do nariz.

Só hoje (vinte e um dias e meio) foram ao Hospital para fazer inquérito no


sobrevivente: não interrogaram as duas vítimas durante 24 horas de estado
lúcido.

Diziam na Figueira tinham de ser americanos – pensavam ser ingleses que não
ajudaram Floriano.

DEZEMBRO DE 1894

Hercílio segue o método de Lauro, o mais positivo. Cortando largo, contrata


obra de todo o gênero por um preço que deixar claras as patotas.

Uma das mais escandalosas é a demolição do palácio.

Em seu lugar...

Era o Exército da liberdade.

Não tinham galões que obrigavam à continência! Subiam os postos no campo de


batalha: não eram oficiais de patente, eram chefes.

Suas divisas eram pretas, quase invisíveis; os generais não as tinham.

31 DE DEZEMBRO DE 1894 – ESPEREMOS

"Desesperar é desertar"
(V. Hugo – Napoleon, Le petit)

164
Mais algumas horas, e está terminado o nefasto ano de 1894.

Com lápide negra ficará marcada sua memória. Deixa em pesado luto toda a
família brasileira dos três Estados do Sul.

Em luto e ainda na escravidão.

Amargurado viver!

Dias cruéis nos trouxe a tirania sob pretexto de República!

O novo ano que vai já começar nos trará algum alívio a tantos males, que
estamos sofrendo?

É sempre a esperança que alimenta o ânimo, e ai de nós se a perdemos.

Esperar! O quê?

Atrás da tempestade vem a bonança.

Sim. Mas o cedro que tombou ao vendaval, o rio que transbordado cava novo
leito, os soberbos penhascos, rolados pelas planuras – nunca mais se ostentarão
no mesmo lugar com a mesma pujança e o mesmo encanto.

Vem a bonança. Mas outros, bem outros serão os companheiros, outras as


cenas dessa vida que se continua, é verdade, porém que já não pode ser a
mesma.

Cada sítio, cada hora, cada vez nos desperta um desgosto, um infortúnio ou
uma dor.

O prazer, a alegria vem manchada da triste saudade.

Sobre os lábios que afastam o riso vem rolando na face cair a lágrima.

Esperar, o que?

Tudo o que é justo, tudo o que é bem; a verdade. Sim, ela virá, hoje, amanhã,
talvez?

Um dia virá, mas não para nós que já nos afastamos dos lugares onde ela há de
pousar. Na volta de nossa viagem já não nos sentaremos no banquete da
felicidade.

165
A outros, aos que vem, cabe gozar.

A nós, cumpre preparar-lhes a colheita.

Laboremos o chão, semeemos, reguemos a terra com o nosso suor, rasguemos


nossas carnes nas urzes e espinhos – o sangue é fecundo – e no meio das
lágrimas que nos arrancam do coração essas dores profundas do martírio –
esperemos!

Quem sabe? Esperar é avançar.

JANEIRO DE 1895 – AO PRESIDENTE

Esses homens foram mortos, vós o sabeis, não é verdade?

Foram mortos no Estado de Santa Catarina desde 16 de abril até novembro, não
é assim?

Vós hoje bem o sabeis

Podeis negar os fatos? Não.

Podeis sequer duvidar? Não.

Pois bem. Escutai.

Vós sois o Presidente da República desde 15 de novembro e vosso antecessor


vos entregou a República consolidada e em paz, a Revolução está extinta.

Vós vos apresentastes à Nação como guarda da Lei e da Justiça.

Ora, trata-se hoje de executar a Lei, de praticar a Justiça, de cumprir a vossa


palavra de honra tão solene e espontaneamente empenhada.

Vejamos.

Não se tem diria.

Logo nos primeiros dias de vosso governo mandastes abrir as prisões e destes a
liberdade a centenas de presos sem culpa: muito bem, era da Lei.

Aí voltastes às praças de pret do Exército e da Armada implicados na Revolução,


e que vosso antecessor os classificou de desertores: ainda bem – era da Justiça.
166
Destes ao povo a liberdade de imprensa: perfeitamente, era da Lei, era da
Justiça; era uma restituição enorme.

JANEIRO DE 1895 – MEIOS DE VIDA

Essa grei cujo laço único de união é o puro interesse pessoal, que ora lhes
agregam partidários, ora os afasta, que não tem estabilidade, nem base, que
como selvagens nômades, em toda a parte suspendem a rede onde quer que
encontrem o proveito, que não conhecem a religião dos lares pátrios, a nada
enfim se prendem, essa grei sem princípios e sem crenças, acabou de uma vez
com a vida tranquila e a modesta felicidade desta pobre terra.

Só dominando pela força, não pode viver sem ela: também só quer o domínio
para satisfazer seu interesse.

Escapa-lhe o poder: desaparece ela com o desapego e a indiferença do beduíno


para surgir de novo, se alguma esperança segura ou sinal certo de domínio, a
convida a estas mesmas paragens.

É dessa grei a gente que de 89 para cá se tem apossado do domínio entre nós e
que ainda nos governa agora depois da retirada da Revolução.

Sem raízes no povo, sem amparo na opinião, essa gente sentiria prestes
escorregar-lhe das mãos, o poder, logo que o apoio da força não a conservasse,
ainda que violentamente.

Fazem crer que o Estado está ameaçado, invadido; que os federalistas estão
sempre prestes a insurgir-se, que o espectro da Revolução não está extinto. Até
inventam combates e forças pelo interior.

Talvez queira obter mais força para conservar a pressão que lhes dá o poder.

Para chamar a prevenção do Governo Geral contra os que não seguiam e dar a
cor da necessidade e valor à sua presença.

O insulto ao Governo Provisório, que traidor! Negado a entrada de todos os


funcionários públicos.

Chega a ameaçar de prisão ao que entrega notícias do Eliseu. Ainda tudo negara
e ainda obriga o comandante do batalhão a esconder-se.

É o verdadeiro estado de sítio.


167
Floriano ainda não entregou a Santa Catarina o presidente recrutado.

Na falta do direito e da justiça essa gente serve-se do aleivo e da mentira, que


emprega com uma desfaçatez revoltante junto a nós e incrível fora daqui.

Para isso foi suprimida a imprensa, suprimida a polícia nos correios, vigiadas as
comunicações, sob o regime violento das perseguições e do terror.

É este infelizmente ainda o estado em que nos achamos, nove meses depois de
aqui terminada a revolução, dois meses depois da posse do novo governo da
República.

Desde abril do ano passado, por meio do jornal único que fazem publicar, por
meio do telégrafo, de que se acham de poder, esses homens aos quais a
ditadura Floriano entregou nossa terra, têm criado e formado uma situação
toda artificial para uso e proveito próprio.

É com efeito admirável e tão inverossímil a contradita que só com escrupuloso


exame e testemunho próprio se pode conhecer semelhante perfídia: tanta e tão
prolongada tem sido a fraude, e tão completa a ausência de qualquer denúncia
ou protesto.

JANEIRO DE 1895 − TUDO ACABOU

E a Revolução acabou!

Quanta falsidade, quanta má-fé!

E podem governos tais pretender os foros de governo regular, legítimo e sério?


Podem declarar-se constituídos pela Nação e reclamar das outras Nações a
confiança, o crédito e a leal troca de relações?

Como deve sangrar o coração brasileiro, vendo assim arrastados pelo nojento
lodo da mentira os brios de seu país, até há bem pouco tempo respeitados com
melindroso escrúpulo!

Quanta humilhação, quanta vergonha!

Mas não terão porventura consciência esses homens que sem hesitação
assumem os primeiros cargos do país?

168
Essa ilustração, esses estudos, esses méritos, essa prática, do que serve tudo
isso, se esses homens ilustres e laureados baseiam a administração pública na
mentira?

Será hoje a falsidade indispensável condição de governo?

A mentira será hoje uma necessidade para a subsistência da Nação?

Feios e amargos frutos seriam esses do progresso e da civilização, triste


desengano fora esse para os espíritos bem formados e sãos.

Se tal se desse, mais valera então deixar que se quebrassem esses anéis que
trazem falsamente unidas as sociedades brasileiras, e cada uma buscar a
verdade e o bem na sua vida particular.

A tão extremado desespero levaria a convicção de semelhante


desmoronamento.

Felizmente assim não é, porque este estado anômalo não passa de uma crise
temerosa de cuja solução se levantam dia por dia e se acumulam os elementos
indispensáveis.

Os fatos, que não se deixam governar por nenhuma vontade ou capricho


humano, em sua marcha fatal e incoercível, vão trazendo o desmentido severo
e implacável a essas falsidades.

A Revolução acabou; disse o Marechal Floriano perante todo o país, meses


antes de entregar o poder a seu sucessor.

A Revolução acabou: disse à Nação o Presidente Prudente de Moraes ao assumir


o governo.

É duro de dizê-lo, mas, ambos mentiram.

Depois que falou o Marechal, os combates seguiram-se sempre nas Campanhas


do Sul.

Quando falava o Presidente já se batiam nas fronteiras os revolucionários.

E depois disso tudo, dois dias depois da posse do novo governo, a Revolução
revigorada forte, bem organizada anunciava sua nova invasão, e a efetuou.

O país está em paz disseram ambos e nessa mesma ocasião, Pernambuco,


Bahia, Sergipe e Alagoas debatiam-se em lutas sangrentas.
169
Terminada a Revolução, todo o país em paz, mandava-se forças e trens bélicos
para o Sul e reforços para o Norte.

15 DE JANEIRO DE 1895 − O NOVO GOVERNO – LIBERDADE DE IMPRENSA

Se em sua mensagem, que disse conter o programa de seu governo, nada


absolutamente nos deu o Senhor Prudente de Moraes para servir de base a um
juízo qualquer sobre a marcha que iam ter os negócios públicos: os seus atos
até hoje não têm sido mais expressivos do que o seu manifesto.

Em vão procurará o observador calmo, nestes dois meses de governo o


pensamento político do novo Presidente.

Nos diversos ramos da administração pública, os seus ministros mostram que


não existe unidade de pensamento; mesmo em cada pasta a tibieza das
determinações incompletas e fracas; deixa ver que são apenas ensaios, ou mais
certo, resoluções tomadas sob a pressão dos momentos críticos que com eles
desaparecem.

Nenhum dos traiçoeiros legados que lhe transmitiu seu funesto antecessor, foi
encarado de frente, nem ao menos se deixa ver à mínima tentativa de desvenci-
lhar-se deles.

Esta inação não parece filha de um plano preconcebido que aconselha-se


necessária contemporização: a imperiosa urgência das soluções a isso se opõe.

Um tal procedimento do governo nas extraordinárias circunstâncias do país, não


pode deixar de ser prejudicial à causa pública.

Com efeito, o trabalho de organização da sociedade brasileira não pode


somente ficar entregue ao tempo; e por demais é conhecido, e pelos próprios
governos confessado que a Nação ainda não está organizada.

Muito embora pretendam alguns espíritos egoístas e desorientados, que o


pacto social está legalmente vigorando, e que nada mais há a fazer do que
desenvolvê-lo em leis e regulamentos consequentes, embora esses sofistas dos
fatos consumados preguem a resignação e o dever de se conformar ao que foi
dado por feito, não é menos certo que aquele pacto desde o começo tem
sempre levantado protestos dos mais graves e sérios, mostrando à evidência a
origem falsa dessa carta imposta.

170
Sejam (capciosos), apaixonados ou de segunda intenção os argumentos
diariamente repetidos afirmando essa nossa asserção não mais se carece
invocá-los depois da terrível argumentação que estamos ainda presenciando.

Os levantamentos, o golpe de estado, as deposições, as ditaduras, a revolução


são eloquentes e tremendas provas das violências feitas à opinião pública, à
vontade do povo, desde novembro de oitenta e nove.

A França gastou oitenta anos a adaptar-se à forma de governo que hoje tem, e
ainda assim difícil será afirmar a universalidade da opinião em apoio do sistema
republicano.

Durante esse tempo esteve sob o regime da Monarquia por diversas vezes e
pôde assim, praticamente conhecer as vantagens e os defeitos dessas duas for-
mas de governo.

Se as lições da história de nada servem para guiar aqueles que por qualquer
motivo se acham colocados na posição de conduzir uma Nação, elas são
poderosos guias dos povos sobretudo, quando estes assistiram ou concorreram
para a história dessa mesma lição.

O que o povo do Brasil está vendo há cinco anos constitui já um pecúlio da


história para muito ensinamento.

Não têm passado inócuos esses acontecimentos pelo espírito público e a soma
de aprendizagem se vai fazendo a despeito de todas essas vaidosas e fofas
teorias.

Um dia ele também há de ter sua vontade.

Em uma tal situação é pois, repetimos, grandemente prejudicial a falta de


solução às dificuldades que estão embaraçando o povo.

FEVEREIRO DE 1895 – DENÚNCIAS

Vamos, oh gente da legalidade, denunciemos. Publicastes a vossa lista,


publicaremos a nossa: é o mesmo direito.

Vós tendes a vossa lei, a vossa justiça! Nós teremos também a nossa Justiça e a
nossa Lei.

Vós tendes forte esperança de repor no governo o Marechal Floriano; nós


temos ainda esperança na palavra do Dr. Prudente de Moraes.
171
A nossa presença vos causa angústias e sobressaltos como a presença da
testemunha afronta o criminoso; a vossa vista só nos dá tédio e repugnância.

Vós gritastes, pedistes, ameaçastes e impusestes os processos: nós calamos,


esperamos e sofremos os vossos processos.

Denunciastes, denunciemos, pois. Vós enchestes a vossa lista de perseguidos,


de exilados, de mortos, que mandastes assassinar: nós comporemos a nossa
lista só de felizes, de poderosos, de exploradores, e não vereis ali o nome de
mortos, porque não mandamos matar nenhum dos vossos.

FEVEREIRO DE 1895 − OS PROCESSOS

Tal como desaparece a elasticidade da mola de aço, quando a tensão é


excessiva e prolongada; assim se vai perdendo no espírito público aquela
irritabilidade que o faz revoltar-se ante os grandes desastres, os estupendos
massacres, se as calamidades perduram e conservam a mesma pressão.

O terror lançado na população deste Estado pela tirania foi tal e tão intenso,
que ainda hoje, há quase um ano daqueles dias nefastos, o espírito público se
conserva em triste apatia, amedrontado, decaído no mais lamentável pânico.

Entretanto já desapareceu no governo do país a ditadura militar; já há meses


que o elemento civil tomou conta do poder, e bem alto, bem claro empenhou
sua honra no rigoroso e absoluto cumprimento da lei e da justiça.

Pois bem, a situação de Santa Catarina, ainda é a mesma do tempo do


despotismo, o que já nos fez dizer que o Marechal Floriano ainda não havia
entregue este Estado ao Dr. Prudente de Moraes.

Ou será então verdade que o extermínio do povo catarinense tinha sido


resolvido pela ditadura, e é possível acaso que o governo atual esteja
continuando essa obra negregada?

De quem é a culpa? Pergunta o povo.

O Presidente da República recebe é certo pela Constituição do Brasil uma tarefa


enorme e dificílima em tempos normais; em circunstâncias como as atuais, lhe é
materialmente impossível esse Presidente atender às necessidades urgentes,
multiplicadas, que surgem e se acumulam e se agravam a todo momento, por
toda parte em um país tão vasto como o nosso.

172
Mas o Presidente tem os seus secretários que pela subdivisão do trabalho lhe
tornam possível o desempenho do cargo.

Por consequência dos secretários ou ministros é a culpa do que ainda sofremos


e do Presidente da República será a responsabilidade.

Como?

Desconhece porventura o governo atual a situação de Santa Catarina? Estará


iludido?

Ou não achará forças a seu dispor para aqui fazer imperar a lei e a justiça?

Examinemos.

Quando o Dr. Prudente de Moraes tomou posse do governo já era do domínio


público, já a imprensa no estrangeiro e no país havia denunciado o acervo de
crimes, o massacre, as hecatombes e as inauditas perseguições que sofria esta
pobre terra.

As medonhas revelações, os estupendos detalhes de tanto crime, vieram logo,


mercê da liberdade preciosa da imprensa elucidar aquelas monstruosidades que
a todo o país têm revoltado, e os nomes dos criminosos irromperam dessas
denúncias.

O governo entretanto parece ter ouvido indiferente tudo isso, e o mais cruel
ostracismo continua a obrigar ao exílio inúmeras famílias catarinenses, como
último refúgio pois que na pátria não defendem seus direitos, sua liberdade, e
quiçá sua vida, nem a justiça nem a lei.

Nenhum ato, nem um influxo do novo poder se manifestou nesta terra


condenada; a mesma gente, os mesmos algozes, a mesma força da tirania nos
conserva em quase completo estado de sítio com toda a compressão, com
todos os arbítrios.

É possível que ignore tudo isso o Senhor Presidente da República?

Ignoram os senhores ministros o que se passa ainda em Santa Catarina?

Assim é.

Tem razão o Presidente da República, e os seus secretários. Têm toda razão.

173
Pois não o viram na câmara, um deputado desmentir, sem contestação, as
acusações feitas ao governo da Ditadura?

Lançar sobre a mísera população massacrada os mais grosseiros ultrajes, as


mais espantosas incriminações?

Defender calorosamente o governador militar, a proposta do ditador a quem


rendeu os maiores elogios?

Pois a imprensa de todo o Estado não é unânime e exaltada nos encômios, nos
agradecimentos, na glorificação dos agentes do Governo legal?

Não desmente um por um todos os fatos imputados a essa Legalidade?

Não lança na maior profusão diatribes, sarcasmos e maldições contra os


habitantes que se conservaram no Estado durante a Revolução?

Teve porventura o governo alguma reclamação oficial, alguma representação do


povo contra as autoridades ou funcionários da União?

Não recebe constantemente o governo as informações oficiais, as


demonstrações de corporação do comando de suas forças aqui?

Não lhe são presentes os esclarecimentos, as demonstrações de cordial e


simpática adesão dos seus Magistrados, dos Chefes de suas Repartições?

Não esteve ainda a bem pouco o governo em prolongadas e certamente


minuciosas conferências com o atual Governador do Estado?

Não se acham a seu lado o mais notável Senador e os três mais notáveis
deputados deste Estado?

Pois todas essas autoridades e funcionários, tudo isso: imprensa, relatórios,


informações, congratulações, reservados e cartas, tudo, não diz ao Governo
com a mais sisuda placidez, com a mais singela beatitude que o Estado de Santa
Catarina se está em completa paz e tranquilidade, que está restaurado o
domínio da justiça, da lei, da ordem e do progresso, e que finalmente todo o
povo goza agora de todas as felicidades, erguendo as mãos ao céu para dar
graças pelos benefícios que lhe dispensou o governo estadual e o geral, depois
de aniquilado os bandidos, cujo restos, contudo, é preciso que desapareçam?

Como, portanto pode o governo pensar de outro modo? Como há de ele saber
outra coisa?

174
Portanto, o povo não se pode queixar nem dos Ministros nem do Presidente da
República.

Portanto, o Ministro da Justiça fez bem em mandar que, com urgência e


implacavelmente, se instaurem processos contra os implicados na revolta.

Portanto...

Mas é demais a irrisão! Clama o povo.

Não basta de humilhação, não basta ainda de cativeiro?

Ah, deram ao país a liberdade da imprensa... ouvi!

O Dr. Prudente de Moraes assumindo o governo da República deve ter olhado


como para todos os outros Estados, para o de Santa Catarina.

Os telegramas de felicitação pela sua posse lhe fizeram logo ver quem eram o
governador do Estado, o Juiz Federal, o coronel, comandante do Distrito
Especial e o Dr. Prudente de Moraes conhece bastante esses três homens.

Nem do governador do Estado, nem dos Chefes da Magistratura e das forças


federais, tinha por conseguinte o Dr. Prudente de Moraes nada de bom a
esperar sobre as coisas desta terra. Sua Excelência tinha motivos de sobra para
estar prevenido.

Não sabia já o Senhor Presidente, que o governador fora aqui processado no


crime de tentativa de morte de seu próprio cunhado e primo infeliz vítima na
última hecatombe de Santa Cruz? [Ver O Pecúlio.]

Não sabia que o mesmo governador foi demitido da comissão de terras públicas
por sedicioso e cabeça-de-motim pelo próprio Marechal Floriano, por ocasião
do espingardeamento do palácio, na tentativa de deposição do
Presidente Elizeu, em preito do Serra-Martins?

Não sabia que o mesmo governador recebeu o governo das mãos do


Comandante do distrito o qual como governador militar em missão especial do
Ditador, sob o regime da Lei Marcial, e em estado de sítio, mandou que as
intendências por ele nomeadas o elegessem?

Não sabia o Dr. Prudente de Moraes que o juiz seccional já havia conseguido
uma reputação com escandalosos processos como o de Chaves, Machado e
Caldas?

175
Não sabia que este mesmo juiz foi a única pessoa a quem se dirigia o ditador
nos primeiros dias da entrada aqui da legalidade no governo Villas-Boas, em
mais ninguém confiando?

Não sabia que ao lado do coronel governador colocou o Marechal esse juiz
vigiando-se eles mutuamente, guiando-se porém somente o ditador pelas
informações diárias do juiz?

Não sabia que todas aquelas mortes neste Estado foram feitas com ciência
de seu alto funcionário da justiça pública?

Não sabia o Dr. Prudente de Moraes que o coronel governador era o autor
acusado de todas essas prisões, de todas dessas perseguições, e deportação, e
trabalhos forçados, e de todas dessas mortes, fuzilamentos ou assassinatos aqui
praticados neste Estado?

Não sabia que este coronel continuou por muito tempo senhor de todo o poder
ainda no governo de seu eleito o qual nada fazia sem consentimento dele?

Não sabia o governo que o deputado defensor do coronel é o presidente da


comissão executiva, e cuja casa fora o quartel general no espingardeamento da
noite de 31 de julho, e que era essa comissão executiva que dava ao coronel a
lista dos infelizes assassinados em Santa Cruz?

Não sabia o Sr. Dr. Prudente de Moraes de tudo isso?

É possível que o Sr. Presidente da República desse crédito a semelhantes


homens? Será possível que ao governo parecesse que nada lhe incumbia fazer?
Nada tinha que indagar, nada que providenciar sobre a situação desesperadora
do povo no Estado de mais malfadada sorte na atualidade?

Não sabia que essa gente tem vivido à custa de mentira, da falsidade, da intriga
e do embuste. Que essa gente é filha da tirania sustentada pela ditadura e só se
alenta da esperança de um novo despotismo? Sua Excelência tinha motivos de
sobra para estar prevenida.

Não cumpriria porventura ao Presidente da República mandar sindicar rigorosa


e imparcialmente de tantos atentados e desde logo para segurança pública por
dever moral retirar do Estado um militar coberto de acusações?

Por que se fez isso?

Sua Excelência o Dr. Presidente da República tem incorrido em grave


responsabilidade para com a palavra do próprio Prudente de Moraes. Sua
176
Excelência esqueceu que também aqui se precisa de liberdade e de justiça: −
também isto é terra de brasileiros.

Nada fez o governo, e agora, depois de tantos meses de indiferença, o seu


primeiro ato é atender as sinistras exigências dos legalistas do Marechal
Floriano, e ordenar que com urgência se instaurem processos políticos para
serem punidos severamente; esses que não foram fuzilados e os que não
puderam fugir ou expatriar-se!

Processos políticos!

Que processos são esses hoje? Por que, contra quem agora? Quem os vai fazer?

Pois não sabe, não consta então ao governador a história dos acontecimentos
que aqui se deram desde a chegada da divisão especial da Esquadra
revolucionada?

Por que começar o governo por semelhantes processos políticos anônimos,


incertos, indefinidos, quando deixa até hoje sem a mínima providência, sem um
sinal sequer de reprovação aos os crimes atrozes públicos, denunciados e bem
classificados pelas Leis?

Por que ainda se não mandou processar os criminosos executores dos


assassinatos em Santa Catarina? Processos políticos!

Estará bem definido este crime político?

Onde a conspiração? Onde a sedição?

Onde começa e onde acaba a criminalidade nessa matéria jurídica?

Oh, o governo parece querer aumentar as provações deste pobre povo, levar ao
extremo o seu infortúnio, e é bem que tal se faça quando desgraçadamente o
espírito público tem perdido toda sua elasticidade.

Que comecem, pois, esses processos.

As inquirições vão ser feitas perante o mesmo juiz que assistiu sempre risonho
às ordens de fuzilamento e acompanhou escrupulosamente a todas as
perversidades do governo militar.

Sabeis como se faz a inquirição? Ainda agora se procedeu a um desses


escândalos.

177
A testemunha depõe respondendo ao juiz e o escrivão lança, não o que ela diz,
mas o que lhe mandam, no termo que o depoente é obrigado a assinar sem ler!

Assim foram forjados os depoimentos de diversos testemunhos, previamente


presos no caso célebre de Buette e de Etienne, pelo Governador Moreira César e
pelo Chefe de Polícia Bellerophonte, por ocasião das indagações do
Almirante Fournier, aqui demorados alguns dias a bordo do Cruzador
francês Duquesne: se não assinassem não saiam da prisão.

O temor de iguais violências está produzindo iguais efeitos.

Entregue essa justiça nas mãos dos mais interessados, pois são esses
funcionários parte também nos mesmos processos, o que serão os
testemunhos, as acusações, o julgamento, senão forçadamente mais um sim-
ples ato de prepotência, mais uma sinistra cena de malvadez?

Como quereis que escape a vítima inocente?

Como e onde achar defesa? Quem se atreverá a patrocinar-lhe a causa? Qual o


acusador nomeado senão no interesse da acusação? Que provas poderá a
defesa fazer aceitar? Para onde apelar?

Todo o recurso é sonegado ao acusado, nem mesmo a imprensa, esse último


reduto dos perseguidos lhe foi deixada: um único jornal só composto da
mentira, do insulto, da perversidade, é exclusivamente reservado aos
perseguidores, com os quais é conivente, dos quais é propriedade, levando o
jacobinismo a ponto de nem admitir anúncio de missas pelos fuzilados!

E em tais circunstâncias, que comecem os processos!

Os florianistas, os homens da Legalidade, ainda hoje senhores desta terra,


exigem em frases desabridas e imperativas a instauração dos processos
políticos.

Para satisfazê-los é seguro que o juiz federal não hesitará, ainda que se tenha de
lançar mão uma vez mais da devassa dos tempos coloniais.

Obedeça o Procurador da União às ordens dos florianistas sob pena de ser


demitido, prossiga o Juiz na sua obra de coerência com a Legalidade; e já que o
Coronel Comandante do distrito não se apressou em remeter ao governo 1500
processos, como os do Paraná, apresentem eles os daqui.

178
Previnam-se, porém de que os nossos não serão em tão pequeno número: só na
Capital do Estado os processos políticos irão acima de oito a dez mil! Toda a
população foi direta ou indiretamente implicada na Revolução.

Previnam-se de que esse trabalho vai ser muito custoso e demorado, e melhor
fora que obtivessem do Ministro da Justiça um desses atos de energia, de pa-
triotismo e alto tino político, decretando a prisão e processo de todos os que
viveram em Santa Catarina durante os sete meses da Revolução.

Que se faça isso de uma vez e que então se mande retirar por inútil já esse
energúmeno Coronel desta terra, para que depois desses últimos castigos,
consiga por fim alguma paz, o mísero povo, que não teve meios de fugir de tão
ingrata pátria.

E não haverá mais do que uma só raça dominadora nestas regiões: os


florianistas jacobinos.

“É preciso que se extermine os federalistas” – disse o


Tenente Bellerophonte chefe de polícia na faina do morticínio “os federalistas
não devem existir”.

E os federalistas são o povo de Santa Catarina.

Cumpra-se o desejo daquele executor, do Sargento Silvino de Macedo e do


Cadete Pedro Mendonça. Talvez lá na sepultura, aonde tão subitamente caiu, os
seus ossos ainda estremeçam de júbilo.

Que venham esses processos, e a Polônia Brasileira desaparecerá, enfim.

Façam tudo isso.

E ao deixarmos para uma vez as plagas de nosso infeliz torrão em busca de


madrasta terra, em um último alento de exprobração perguntaremos com a
afeição no peito e pendido aporte é esta a justiça que nos prometeu senhor
Presidente da República? É esta a palavra empenhada pelo Dr. Prudente de
Moraes?

“Cruel irrisão!: votavam-nos ao extermínio − e nos garan_am a jus_ça, a lei e a


liberdade”.

Duras e rudes, essas palavras que aí ficam são a franca e leal expressão da
verdade do sentimento popular.

Elas não levam o travo do despeito, nem têm a ardência das paixões políticas.
179
São o grito de cruciante angústia, o brado entranhável de socorro que do fundo
do coração dilacerado do povo em tão continuados tormentos, arranca a
desesperança e a dor.

Elas são o sincero clamor da mais excelente das paixões − o amor da pátria, do
mais sagrado dos direitos − a liberdade.

Posto que me causassem estranheza as palavras com que a redação do Jornal


do Brasil encabeçou o escrito − Os processos − ao publicá-lo, não me haverá
abalançado a dizer alguma coisa a respeito, se não fora a necessidade de pôr a
coberto a verdade do que em tal escrito se contém.

Com efeito, que valor ficarão tendo, as informações, embora curiosas, achadas
em um escrito cheio de partidarismo e de rancor sectário?

Uma origem tão suspeita e apaixonada destrói toda a veracidade da escrita


tirando-lhe a imputabilidade. Para que pois publicá-la, então?

Melhor fora por não desgostar o seu conhecido publicista que o atirasse lá para
a secção de literatura e romance entre algum soneto ou tire d'afile da ideia
nova.

Mas vejamos a seriedade da qualificação desse escrito que em má hora foi


tirado do cantinho escuro onde com seus irmãos aguardava tranquilamente o
pó e a traça para lhes darem cabo da existência.

FEVEREIRO DE 1895 − INCONSCIENTE

O Correio da Tarde de 21 de janeiro passado publicou um bonito artigo sob o


título “A Vingança dos Mortos”.

Fantasia terrível, quadro aterrador traçado por mão segura, e que leva a dor e o
assombro ao coração dos que o encaram, cena cheia de clamorosos brados de
vingança implacável soltados pelos espectros das vítimas ao lado do criminoso,
diante do qual ela faz passar em sonho.

Em sonho de preceito ela faz passar um a um todos os espectros


ensanguentados de todos os assassinados pelo coronel.

Mas o autor desse artigo não conhece aquele coronel, e o seu artigo nos fez
abanar tristemente a cabeça e nos deixou pensativos e desanimados.

180
Quanto é grande nossa desdita.

Ainda há quem considere aquilo um coronel, um guerreiro, um homem com


coração, uma consciência como a dos outros?

Será por isso que ainda o conservam no lugar de seus crimes.

Para que lhe sirva de punição a presença constante das desgraças que
promoveu.

Será por isso que enquanto ele ainda aqui, as famílias das vítimas são obrigadas
a expatriarem-se para não encontrar a cada passo essa figura repugnante e
sinistra?

Não se faz portanto uma ideia completa dos martírios que temos sofrido,
porque não se faz também ideia clara do homem a quem o Ditador entregou a
descrição desta infeliz região.

Não se conhecem os crimes porque não se conhece o criminoso. E contudo já


era tempo de se haver começado semelhante trabalho, pois que o é o estudo de
uma variedade teratológica, do qual a ciência não conhecera talvez muitos tipos
ou exemplares.

Não; o pensamento do autor daquele artigo perdeu infelizmente o efeito,


porque foi errado o alvo; não, aquela cena de remorso não pode ter lugar.
Porque não é homem comum aquele coronel, assim como não é um guerreiro:
nunca entrou em combate.

Como?

Olhais para tantas viúvas, tantas mães, irmãos e órfãos, e pensais no homem
que mandou assassinar tanta gente, e imaginais que esse homem tem uma
consciência que fria e calma lhe representa todas essas desgraças, nas horas
mortas da noite, que esse homem tem um coração que se perturbe no
isolamento e no silêncio, ao lembrar os horrores que mandou praticar?

Pensais que alguma vez esse homem refletindo sobre sua vida estremecerá ou
sentirá ao menos alguma emoção ante a memória desses fatos tão
extraordinários e cruéis?

Enganai-vos.

181
A realidade, a triste realidade é mais hedionda, mais cruel, mais espantosa que
todas essas visões lúgubres, vos encherá a alma de estupor no instante em que
a conhecerdes.

Pudéssemos nós jamais tê-la, essa verdade cruel! Vinde conosco.

Não é um sonho que vai desdobrar-se aflitivo em um espírito conturbado pela


lembrança de negros horrores.

Não é a vossa imaginação que vai ser atacada; é o vosso coração que precisa de
reforçar todas suas fibras para resistir à tanta dor, à tão profundas angústias; é a
vossa razão, que carece de toda a frieza, de toda a calma, toda a força para sair
incólume desse espetáculo assombroso.

Vinde conosco.

Era noite.

Em palácio, sentado na poltrona do governo, o Coronel vê entrar uma figura


nobre, cheia de grandeza e dignidade de um ancião venerando revestido de sua
farda bordada.

– O senhor esta preso: levem-no para o quartel... − Coronel, um veterano,


Marechal do Exército brasileiro...

– Marechal nada; agora não é coisa alguma;

– Marechal de Gumercindo, dos bandidos... Pode retirar-se.

E diante daquele velho militar, ante aquele majestoso vulto coberto de glórias,
de respeito e de serviços à pátria, o coronel conservou o frio cinismo e
imprudência, sem perceber o raio de indignação que atravessara aquele
grandioso coração, os relâmpagos de desprezo que faiscara aquele olhar.

O Marechal Barão de Batovi foi levado preso por um subalterno.

Do quartel embarcou para Santa Cruz.

Depois, mais dias, entrara um tenente Coronel do Exército.

– Oh, Castello, por aqui! − e aperta-lhe a mão. − Então?

– Venho apresentar-me.

182
– Bem, mas olha, estás preso; que queres? Vais para o quartel.

E o Coronel acompanhou o colega e amigo até a escada: aperta-lhe a mão. Ele


desce, e o Coronel diz a meia voz ao subalterno:

– Que o levem a Santa Cruz e o fuzilem.

A feição do Coronel era sempre a mesma: certa indiferença.

E assim foram mais cinco, mais dez, mais vinte, centenas.

Eram militares de terra e do mar; médicos, juízes, negociantes, simples homens


do povo.

Alguns não chegaram a ver o Coronel; presos, da Cadeia, da Polícia, ou do


quartel eram levados para Santa Cruz ou para Ratones.

A todos mandou o Coronel matar com a fleugma.

FEVEREIRO DE 1895 − RESIGNAÇÃO?

Um dia, há cerca de dois meses, veio um moço a quem muito estimo, convidar-
me para a realização de uma ideia pela qual ele se mostrava sinceramente
entusiasmado.

Impressionados pelo estado calamitoso de nossa terra, vendo como era


profunda a divisão entre seus habitantes, quanto se repeliam as vítimas e os
algozes, como enfim era vivo o rancor dos perseguidores e o ressentimento dos
perseguidos − alguns amigos se juntaram e resolveram lançar mão de um meio
que lhes pareceu poderoso para extinguir aquela divisão e congraçar no seio da
paz e ligados pela virtude a grande família Catarinense.

O restabelecimento da Maçonaria devia operar esse milagre, prendendo na sua


união fraternal, rigorosa e absoluta todos que a ela se filiassem, desaparecendo
assim os ódios políticos, as lutas partidárias, as vinganças e represálias: tudo
seria esquecido, tudo perdoado.

Era pois para tomar a direção ou em último caso emprestar para isso o meu
nome ao trabalho do restabelecimento da Maçonaria que aquele amigo me
convidava.

FEVEREIRO DE 1895
183
Câmara disse não convir Arthur vir aqui porque podia ser preso.

César a Doutor Olimpo Freitas: não mandou fuzilar remeteu para o Rio; devia
estar solto já. (Recorde o diálogo). −

Clemente − o filho vindo preso, foi requerido habeas corpus; no outro dia
despachado “prejudicado por se achar solto” − Com efeito, nessa hora foi ele
aqui e o pai na Laguna despronunciado.

Reunião há 3 dias (2 ou 3?) todos obrigados a assinar − declaração de que não


querem a Ditadura (!) oficial da junta para assinar, dinheiro necessário para
fugir − sendo necessário, talvez, tenham de pegar em armas.

Dr. Paulo Freitas possuía o termo de capitulação no Desterro, com as


assinaturas. Ata dos neutros.

Recorde o diálogo

Hercílio tem instruções para reintegrar os federalistas.

Os 3 partidos no Rio: Floriano, Prudente e Custódio.

Fev − 10 − informa prisão e deportação de Schmith dentista russo − Joinville.

Idem José Azizi, árabe, Desterro.

Suspende; o “Comercial”...

Inquérito judicial − Waldemiro, Bertrand, François, Bridon e Werner.

FEVEREIRO

Paulo Freitas − 1h tarde − foi com F. Lobo e Engenheiro Mello.

César tratou-os bem e mandou-os para o quartel a 21.

Freitas pediu com insistência o estojo; a senhora não quis mandar, receando
alguma loucura.

Quando Maria foi a 24 ao César, Freitas havia embarcado no Santos. Não havia
que temer, dizia César, ele não tinha culpas para grande castigo. Depois, a 26
vem de bordo do Niterói a carta de Freitas muito desanimadora -
184
A senhora do Dr. Barata com o filhinho: César brincava com a criança.

A comissão das senhoras foi recebida por um dos Alferes secretários.

Frequentemente ia a Santa Cruz.

Hoje fevereiro anda só, nas ruas, sem ordenança. No dia da missa da mãe,
passeou no jardim da Praça.

Trata com amabilidade que parece natural

Um dos seus degoladores afirma ter mostrado a César a “Vingança dos Mortos”

Vindo à cadeia, fez levantarem-se os presos e perguntou se esses sujeitos


andavam direitos − e deu-lhes as costas.

A alguém disse ter mandado matar Castello por andar bêbado e roubando
e Batovi por fazer parte do Governo Provisório; os outros estavam presos.

13 de Fev − foram agarrados todos os carroceiros para conduzir cal para as


obras do Palácio os que se recusaram foram presos − Um casado e com filhos foi
remetido para o quartel do... para assentar praça.

Para a fortaleza da Barra do Sul foi o mesmo.

NOTAS

Tomaz Coelho conversava. Gustavo Cotrim policial vem o prende. Não diz por
quê. Leva-o diretamente a Moreira César. Aí fazem-lhe carga: Secretário
de Gumercindo, revoltoso, o diabo − César grita desabrido, diz − Pois o revoltoso
ou liquida-se ou manda-se embora. Saia já, antes que o mande surrar e por no
quartel − Daí foi levado à policia. Ludovico − diz − sobre ele haver muita
suspeita; que ele bem viu como César não o recebeu bem − pode cuidar dos
seus negócios dentro da cidade.

Se quiser sair dê parte à polícia para ter licença.

18 − Fevereiro: Disse César em casa com família que se não havia ainda
arrependido do quanto tinha feito.

18 − Fevereiro: Passou aqui para o sul no último vapor com diversos outros
militares o Valério, que matou o Coronel Demoro.
185
27 − Fevereiro: Diz o jornal Brasil de hoje (16 de fev.) consta-nos que seis meses
depois de ter recebido do inspetor da Alfândega do Desterro a quantia de 50
contos o Tenente Coronel Moreira César ainda não sabe para que lhos
mandaram. O governo de agora o saberá?”

[Transcrito do Correio da Tarde. 16 de Fev.]

19-Fevereiro: A desonra da República pelo General reformado Honorato Caldas.

Os mistérios da Correção publicado pelo Comércio de São Paulo.

Notas e Apontamentos sobre minha prisão por Alfredo de Barros.

Tibério − crônicas contemporâneas.

Ver Jornal do Brasil − 12 Fev. 95.

A mala que veio de Petrópolis domingo só apareceu às 9 no Correio; ela trazia


uma nota do ministério francês a propósito do fuzilamento dos
engenheiros Buette e Ettienne em Santa Catarina − Por isso foi grande o sarilho
pelo Correio, por hora reclamações terminadas.

23 − Fev: Afinal começa de novo a faina − também já o povo − havia descansado


por muitas semanas.

Agora porém já não é o soldado do tirano que prende e mata sem conhecer as
vítimas somente pela lista que lhe davam. Agora é o juiz que a todos conhece, é
a comissão executiva que se reúne, que planeja, que forja a denúncia: os
agentes que prendem têm a farda do soldado de linha, mas são da polícia.

O Jornal publicou hoje uma lista de 62 denunciados e a polícia foi distribuída por
toda a parte, e as prisões começaram pela manhã.

Quirino ao efetuar uma prisão estava tão bêbado que caiu sobre um fogareiro
saindo da venda e foi levado em carro para o quartel.

Alguns foram presos que não estavam na lista publicada.

Nesta lista não se vê o resultado pedido do oficial do procurador.

03 − Mar: Thomas Coelho fugiu no paquete para o Paraná.

186
Ver telegrama daqui para Rio: o povo indignado por não se fazer processo.

Ver outro: o povo (assinou Coutinho) pedindo para não retirar o César com o
Batalhão.

Diário oficial.

Marinha manda duas passagens à mulher do Capitão Leal, cujo marido se acha
preso em Santa Catarina.

Ver Estado sobre Freire e Governo Provisório.

29 − recusando manda dinheiro à Capitão Firmino.

Freire diz que saiu ordem do Rio para os processos.

MARÇO DE 1895 − MAIS PRISÕES

O jaguar nas matas solto, o rugido de bestial satisfação ao sentir estremecer


debaixo da garra, as carnes quentes da pobre vítima − o jornal República deu
um brado de contentamento ao anunciar triunfante que a justiça federal tinha
mandado prender os seus adversários.

Com efeito foi mais um dia de regozijo para os florianistas jacobinos o dia 23 de
fevereiro.

Desde o meio-dia, a cidade de Desterro viu assustada renovar-se uma daquelas


cenas do governo militar de Moreira César, cujas dores ainda lhe arrancam lágri-
mas bem amarguradas, cenas das quais já parecia ao povo catarinense estar
livre.

Espalhada a polícia em diligências por toda a cidade começou a faina das prisões
em domicílio ou nas ruas, com um aparato militar e ostentação de forças, que
derramou de pronto o alarme em toda a população.

Cruzavam-se os soldados, os oficiais passavam em carros disparados, cercava-se


casas, insultava-se famílias, e na praça o secretário da polícia
Lodovino Aprigão de Oliveira, acompanhado do Superintendente, Henrique de
Abreu, e outros florianistas dirigia transbordando de vanglória o movimento
dessa heróica e brilhante campanha: são os denodados, os intemeratos
patriotas da Legalidade já recompensados com as honras militares pelo
Magnificente Ditador.

187
Espalhada a noticia das prisões, os que tinham o seu nome na lista dos 62
publicados como denunciados, trataram de humilhar-se para escapar à sanha
desses malfeitores; e com razão assim fizeram pois dessa lista se achavam
seguros alguns que estão foragidos no estrangeiro, e os 5 que lá em Santa
Cruz puseram em lugar seguro o governo militar.

Oh, quanto cinismo e crueldade audaz!

Essa caçada durou toda a tarde e prolongou-se pela noite adentro com o
mesmo furor, ao comando do delegado F. S. Pereira e H. Mafra que a cavalo
desenvolvia uma atividade digna de destemidos florianistas.

Pegaram entretanto poucos, e desses algumas prisões foram relaxadas pelo


governador, e pelo chefe de polícia, ficando finalmente presos no quartel de
polícia só três cidadãos, os negociantes Germano Wendhausen e Ricardo
Martins Barbosa, da Capital, e de São José, João L. Ferreira de Mello.

Convém notar que também para fora da Capital foram destacadas diligências,
mas não consta que por lá produzisse a caçada resultado algum.

Foram esses atos de uma bravura e denodo sem iguais que fizeram bater
palmas os sôfregos patriotas que tanto haviam se organizado em pedir
processos e todo o rigor da justiça contra cidadãos dignos do maior respeito e
consideração, por andarem livres na Cidade quando os homens da Legalidade os
queriam nas enxovias.

No dia 24 publicaram na íntegra a denúncia dada pelo Doutor Procurador


Seccional e a relação de 6 testemunhas e de 62 denunciados como
conspiradores, durante o domínio da Revolução. Nesta lista estão 27 ausentes
no estrangeiro e 5 mortos em Santa Cruz na negregada hecatombe de César.

E naquele mesmo número do jornal se congratulavam por verem iniciado o


processo e efetuado as prisões dos responsáveis pela revolta de 6 de setembro,
o requerimento do Doutor Procurador Seccional, o qual entretanto, no dia
seguinte, declarou o jornal ser feito pelo Doutor Freire, Juiz Federal da secção, e
não daquele outro funcionário.

Achavam-se pois há muitos dias presos três importantes catarinenses, chefes


respeitáveis de família e de casas de comércio, os quais só três dias depois de
presos foram a qualificar perante o juiz federal.

A faina cessou, e já muitos denunciados andam acudindo aos misteres enquanto


outros sobre os quais há mais empenho e recomendação à policia se conserva
ocultos.
188
E ficam pesando sobre numerosos cidadãos, como constante ameaça, esses
processos estúrdios que, dizem os homens da situação daqui vão ser mais
derramados, estando pronta já uma lista de duzentos nomes.

Isto quase quatro meses depois do domínio da Lei e da Justiça, dez meses
depois da retirada da Revolução.

Se por toda a República brasileira se tem feito sentir a ação benéfica da


liberdade amparada no direito e na verdade porque o infeliz Estado de Santa
Catarina ainda é conservado sob o jugo do mesmo despotismo da mesma tirania
em que o lançou o Marechal Floriano Peixoto?

Ainda no reinado da Justiça e Lei, no predomínio do elemento civil, em um


Estado do Brasil bem próximo da Capital da União se exercem todas as
violências e arbitrariedades do estado de sítio!

O sequestro de correspondência no correio, a extorsão de cartas particulares


em terras (sabe Deus se á custa de alguma vida), a visita militar a bordo dos
paquetes, o recrutamento extensivo, a apresentação de presos ao comando do
batalhão de linha antes de ir à Polícia, a censura à imprensa, os inquéritos a
portas fechadas e sob pressão militar, a coação dos magistrados em público, no
jornal sob pena de demissão: tudo isso ainda se faz em Santa Catarina, já de
novembro para cá, já no governo do Dr. Prudente de Moraes!

E o povo sofre e o povo nem se queixa, porque mal pode respirar nessa
atmosfera pesada de tirania, porque mal pode gemer no meio dos soluços e das
lágrimas que lhe arranca o assassinato dessa centena de seus irmãos.

O povo sofre, e sente que o decreto de aniquilação lavrado contra ele pelo
Déspota ainda não foi revogado. Sofre, e não tem para quem apelar.

Sofre, e olhando em volta, só encontra a esmagar-lhe a liberdade, a ameaçar-


lhe a vida a mão do mesmo verdugo, os seus carrascos, os mesmos sicários e
aventureiros aos quais entregou o ditador.

Que sorte a deste Estado!

Mas que crime em verdade, tamanho, cometeram os Catarinenses, que lhe não
bastavam de castigo as hecatombes e as monstruosas perseguições que já
haviam padecidos?

Será preciso porém quem sabe?

189
Cumpram-se pois inteiro sacrifício, e um dia a História que julgará.

Que ressoe sinistra: o rugido do jaguar.

A REVOLTA − SETEMBRO DE 1895

Já os interessados começam a preparar os elementos que hão de servir no


processo perante o julgamento da história.

Defesa e acusação vão apurando os fatos e apurando a verdade para deixá-la


desembaraçada e pura em presença do imparcial juiz.

As paixões se acalmam e os espíritos se vão mostrando temerosos da sentença


daquele implacável tribunal, ante o qual não comparecem os homens, já nive-
lados pela morte, mas sim as suas ações.

A revolta da Esquadra a 6 de setembro prepara-se para comparecer em juízo, na


mais ou menos fiéis estão já derramando a luz sobre os fatos que a
constituíram.

Na revolução do Rio Grande ainda as investigações são incertas, guardados


como ainda estão os documentos nos campos de batalha onde apenas agora vai
se perdendo o eixo do estrondo dos canhões.

Mas não foi só a Esquadra, não foi só o Rio Grande do Sul que se revoltaram:
houve mais alguma coisa então.

No meio desses dois grandes movimentos, o que descia do norte por mar e o
que subia pelo interior dos pampas do sul; um estranho fenômeno se passava,
modesto e despretencioso, no Estado para onde convergiram aquelas duas
correntes. Santa Catarina revoltou-se.

28 DE SETEMBRO DE 1895

Enfim, chegou a minha vez, já o havia dito: das duas famílias, das duas classes
que aqui tinham lutado e ainda se debatiam, a vencedora extinguiria a outra.
Não podiam subsistir ambas neste mesmo território: havia incompatibilidade
entre elas; a absorção de uma era inevitável, ou a supressão, qualquer que fosse
o modo.

190
É sempre a mesma coisa nas conquistas, é sempre o mesmo processo: no
passado como no presente, nas grandes nações como nos pequenos distritos,
na Europa como na América: a história faz tirar leis para estes fenômenos.

Ou o conquistador é subjugado pelas necessidades do meio em que se


apresenta, e lenta e gradualmente é absorvido pelos conquistados, − ou o
exclusivismo, a pressão, a intolerância são tais, que a extinção dos conquistados
é fatalmente o resultado.

Nesta região a conquista foi um desastre calamitoso.

Depois dos crimes mais nefandos, seguiu-se a mais cruel perseguição que ainda
perdura insaciável: é o extermínio jurado serena e metodicamente posto em
execução.

Começam amanhã as sessões preparatórias e nunca estiveram tão frios os


jornais por semelhante ocasião; apenas hoje um artigo singelo vem lembrar o
fato.

Parece de todo esquecido o monstro ferido da sessão do ano passado, ou é que


a ação prolongada da opressão já aniquilou bastante o espírito público para não
deixá-lo sentir a aproximação de novos males.

É da raça latina.

Educada nos majestosos princípios da moral que se concretizaram na religião do


nazareno, não compreendeu porque lhe tem sido vedado, o alcance de quase
nenhuma de suas máximas. Adulterados eles foram quase todos levados à
consciência do povo que de geração em geração foram transmitidas com o leite
e formam hoje uma dos caracteres morais e sociais da raça.

Perdoa o criminoso, esquece o crime...

Hoje ninguém mais o diz, nem o pensa, mas instintivamente todos o fazem.

Não porque pratiquem um preceito sagrado... Fazem-no por indiferença, o que


é mais horrível, por conveniência.

A história nos mostra em fúnebres clarões essa verdade, mas as lições da


história.

São por demais desprezadas e nunca aproveitadas.

191
Eis-me no foco do movimento, no centro de onde partem todas as ações e
reações, no grande bazar onde se reúnem todas as forças ativas do país, na
metrópole onde se concentra a vida dessa extensa Nação, na capital enfim que
se tem tornado só ela o Brasil.

Apenas cheguei: nada vi ainda, nada reconheço e só me sinto aturdido pelo


passar incessante desse turbilhão em que ainda não pude penetrar.

Nada mais curioso do que o estado em que está vivendo o nosso país.

Hoje não há anarquia, não há o despotismo; não há guerra externa, não há


revoluções: disse o país em paz; e o governo republicano federativo governa o
elemento civil e com a Constituição.

Lança-se porém a vista para as coisas públicas no Centro, e pelos Estados e uma
cena desoladora se vai desenrolando, onde os quadros se não fixam e vão
mudando de aspecto incessantemente.

O espírito a princípio espantado logo se revolta, indigna e exalta para cair por
fim no desânimo, no aborrecimento e desprezo e semelhante baixeza e vício.

17 DE FEVEREIRO DE 1896 – RIO

Naquele tempo, quando ainda a ditadura de Floriano não havia declarado a


tirania, a ideia da separação por algumas vezes irrompeu o medo em alguns
pontos na imprensa. Não era um sonho, não era uma utopia a desafiar
discussão, era apenas uma faísca incerta, fugaz, efêmera, que na violência das
lutas políticas luzia como nos violentos atritos salta a fagulha.

Já porém nalguns espíritos aquela ideia havia sido trabalhada, e a fria razão a
recebia sem assombro, como coisa natural, fatalmente colocada em um ponto
da marcha do espírito humano, estadia do progresso e desenvolvimento das
sociedades nessa região da América do Sul.

Um dia a separação tem de vir.

Os fatos, geralmente inesperados, que durante estes três últimos anos se deram
no país, em nada modificaram as coisas no caminho da sociedade: apressaram
talvez um desenlace que parecia estar muito mais longe.

Os mais fortes interesses políticos, e quiçá sociais clamavam com ardor pela
conservação da integridade − sinal evidente de alvoroço da consciência no
temor do perigo;
192
***

Bradava-se contra qualquer movimento e cobriam de anátema porque dele


podia tomar origem o fantasma da separação, e essa increspação espalhava o
pânico sobre todas as paixões.

Entretanto, a 19 de novembro de 89 houve quem respondesse aos que


interpelavam sobre o acontecimento dos três dias anteriores:

“Era uma vez a Nação brasileira...” − E um pressentimento inexplicável,


espontâneo, sem valor então, via claramente naquela frase brusca a natural
divisão da nacionalidade.

Hoje mais do que nunca a ideia de separação se enraíza e já é a convicção que


se apossa do espírito quando o encara.

MAIO DE 1896

Muitas vezes me quer parecer que com os anos e a observação, vou


entendendo alguma coisa dos negócios públicos deste País; e então me ponho a
refletir sobre a marcha, os acidentes e as lutas travada nele, e acabo por afastar
os olhos, desanimado e confessando que nada ainda percebo.

Em verdade, o mais otimista espírito desfalece ante o quadro que represente as


cenas desenroladas de há alguns anos para cá.

Por maior esforço que se empregue em julgar com calma e imparcialidade os


acontecimentos, não é possível ser favorável o juízo.

Os fatos não são esperam a conclusão do estudo, precipitam-se e vêm dar o


ensinamento, tirando assim do espírito o tempo do exame.

Há em tudo um movimento vertiginoso estupendo, que tudo atropela e tudo


invade: a pedra que lenta desprendeu no alto do rochedo, foi gradualmente
adquirindo força e hoje precipita-se em torvelinho na voragem.

O observador na calma do espírito, esperava, não sem apreensões, as


consequências do movimento de extinção da escravatura, quando, a reforma do
sistema de governo veio mudar a face das coisas públicas.

Essa mudança foi completa, e iniciou uma série casual de sucessos que
facilmente demonstrou a falta de um princípio capaz de coordenação.

193
Desde então, o observador viu transformadas as apreensões em receios os
quais pouco a pouco se transformaram em convicções firmes de fatais
consequências.

Sem resistência, sem esforço, sem algum desses naturais embaraços que os
povos soem erguer, os acontecimentos prosseguem no caminho que a ordem
natural havia reservado para mais desviado futuro.

Em tudo isto se vê uma inconsciência absoluta, a mais repugnante indiferença, e


a mais culposa aquiescência, que descobrem espírito do observador o abaixa-
mento notável do nível moral.

Entretanto, não há que desesperar; na marcha da civilização, o espírito humano


caminha por ciclos é sabido; encerrado um, começa logo outro, este virá mais
adiantado.

Não será que se está terminando um ciclo?

A corrupção que mansamente tinha vindo, como nódoa de azeite, ganhando


uma por uma todas as camadas sociais, apenas de quando em quando
irrompendo mas logo escondida, de 89 para cá ostentou-se na sua plenitude, e
completou sua propagação.

A subversão total no país dividiu desde logo os homens em dois grupos, um dos
quais tinha o poder, e este dissolveu a Nação.

O poder fez o Estatuto e convocou os companheiros para aprová-lo, e o povo


não foi consultado: a tudo assistiu com a calma e indiferença do
embrutecimento habitual.

Foi aceito o novo Estatuto e imposto à sociedade, que impassível vira rasgar o
antigo, e se não dissolvera, e ela continuou sem emoção dando ao fato a
importância simples de uma mudança apenas de nomes e de pessoas.

Então começou essa empresa, própria de tais momentos, em todos os países: a


sequestração do poder; e tanto mais fácil e segura se fez ela, quanto o primeiro
movimento houvera sido praticado pelo braço da força militar.

Debaixo da ação militar, fez-se o novo Estatuto, e o governo poder da espada


entregou o país ao governo militar.

22 DE JUNHO DE 1896

194
Meu estimado amigo, Maneca Ferreira

Recebi anteontem a carta 18.

Como?! Pois é a mesma, que agora toca estender-lhe a mão da filosofia e


levantar-lhe as forças do espírito? Será o velho cansado, quando já se sente
fraquejar na luta pela vida, acabrunhado de incessantes desgostos, exilado,
ferido para cruéis golpes, abatido pela desesperança − será aquele que só viveu
para sofrer, que tem de levar ao veio da amizade o ânimo, o conforto e a
esperança?

Ah, meu amigo, olha para mim. Tira teus olhos desses que são mais felizes do
que nós; não é para lá que tens de olhar, é para cá para mim e para os que
ainda mais do que eu são infelizes, − e não te queixarás. Os que são teus, tu os
têm tranquilos e ao abrigo das maiores eventualidades da vida, e a tua saúde
não te ameaça com perigo.

Pois bem, aquele que de si não pode dizer outro tanto, aquele que longe da
amizade, longe da sua querida pátria, na presença da pobreza que lhe bate à
porta, com alma retalhada de feridas mortais, já no fim da vida: esse, te diz com
segurança de passada experiência – “ergue esse ânimo, amigo, levanta teu
espírito; encara a realidade de face e sacode para longe de ti essas doces ilusões
que ainda da mocidade trazes apegadas ao coração − sê forte.”

Porquê, meu bom amigo, tu és mais forte do que essa multidão ignara que te
circunda afogada em vícios. Teu caráter, ileso está de pé, altivo, no meio desse
extremo rebaixamento de nível moral. Porque esperar qualquer coisa desse
meio estéril e deletério.

Vamos − sê filósofo, dá as coisas o eu verdadeiro, aspecto e valor. Pensas que


ainda se pode fazer alguma coisa dessa argamassa repugnante? Engano si
pudesse de mais perto ver o que aqui, no coração do país, se passa, como ficaria
então teu espírito? Não; se isso que ai vai é o pior, então o pior vai em todo o
país. Estes desmoronamentos assustam e fazem estremecer a primeira vista é
certo; o espírito apreensivo aterra-se com as consequências previstas
facilmente e o desânimo invade a alma e nos lança na apatia. É a saudade do
que já foi, é o sentimento feliz do passado que ainda oscilava ao desprender-se
do coração. Mas ele vai cair, embora nesse despregar-se goteje, o sangue das
afeições − Ânimo! -Tudo não se acaba − Por que desesperar? Quem te disse que
a escala do mal não tem fim? Não vês que em todo o país, do Prata ao
Amazonas, a cena é a mesma? Não sentes no fracasso dessa imensa compreen-
são, desse enorme emprezamento o surdo estalido do desconjuntamento, o
sombrio ranger das peças que se quebram? Pois bem, é triste, é bárbaro, é
medonho, mas é preciso, é fatal.
195
A destruição está se fazendo terminada, começará a organização. Dúvidas?
Como negar o desmoronamento a que estás assistindo dia por dia? Pretendes
que porventura ainda aja alguma força capaz de antepor-se à essa avalanche,
impelida pela fatalidade das leis naturais? E, então, se progride sempre, onde
vai findar? Mas, acaso o aniquilamento é o que lá espera tudo? Não, nem ele
nem o extermínio. A filosofia não debalde estuda os fatos em todas as faces da
humanidade; a marcha do espírito humano é ascendente − mas as civilizações
se fazem por ciclos de duração e caminhos indeterminados; terminado um,
começa outro, e cada um deixa marcado um passo adiante. Estamos no fim de
um desses ciclos, porém é quase certo, não o veremos terminar. Ora, assim
como na humanidade, o processo é o mesmo nas Nações. O ciclo que iniciou-se
com a independência está a terminar: é o desmoronamento a que assistimos; o
outro começara para uma nova organização qualquer − tranquila ou agitada,
quem sabe? Esperemos. A nós, a ti e a mim que nos afastamos dos movimentos,
só nos toca o papel de observadores. Lamentemos as desgraças, as perdas, os
sacrifícios que custam estas ações e reações, mas devemos recebê-las como
aceitamos os fenômenos inconscientes da natureza. Sê forte, pois coragem.
Careces de comunicação e desafogo, precisas desabafar, estás afogado e
oprimido; pois sim; começa adquirindo o hábito de escrever; escreve-me com
liberdade; com franqueza, sem restrições, e verás como gradualmente vai
desvencilhando teu espírito dessa sombria melancolia que te adoece.

Vamos − considera bem nesta minha carta, e com ela tece algumas teses que te
parecerão errôneas, propõe as tuas dúvidas e discutiremos.

Já vês, Maneca, de longe o que teu amigo pode oferecer é este remédio, aceita,
e usa-o e te garanto que com ele, e com a fé e a crença que a religião implantou
em teu coração, vencerás o que julgas incurável.

31 DE JUNHO DE 1896

Amigo Lauro,

Vejo que bem aprecias o estado triste de nosso país, e no entanto é de longe
que sabes alguma coisa de que aqui se passa; ficarias de todo desanimado se de
perto pudesse julgar. Olha, ainda ontem o espetáculo escandaloso e repugnante
da comemoração da morte de Floriano. Que cena!

Já não é o servilismo e a covardia de conhecidas atrocidades do sanguinário


ditador, que tinha as enxovias e os fuzis para forçar as massas; não, já um ano
havia fechado a porta das prisões e descarregado os espingardas: o tirano não
mais pertence ao mundo. O que levou, pois, esses homens, esse povo, a fazer
196
tão ostentosa, tão extraordinária manifestação? Não é ao homem, ao militar, ao
pai de família, que eles consagram essas cerimônias aviltantes: não é mesmo a
Floriano ditador, ao Marechal de ferro, que eles adoram. Esse nome é um
símbolo é um pretexto, um fetiche, que para os próprios sacerdotes desse culto
nem um valor tem.

Há em tudo isto a falsidade, a mascarada, a mentira que domina o país desde


89; há em tudo isto a máscara da comédia cobrindo o rosto hediondo da tra-
gédia.

Há alguma coisa de monstruoso em tudo isso, as sociedades têm suas crises:


uma de bem, outras de mal.

A subversão feita em 89 no país levantou à tona a camada repulsiva: está de


posse de tudo, tudo fez para não descer, e conservou turvas as ondas; ao
princípio as seduções, os exclusivismos, a corrupção; depois, estremecendo ao
embate dos ventos que desencadearia, armou-se do terror e com a fúria da
tempestade e acalmou os ares; − mas não desceu ainda, e represos os ventos,
voltou à primitiva corrupção arredando os maiores perigos e aproveitadas todas
as vantagens do cataclisma. São os proventos do despotismo, são os frutos da
tirania que ligaria esses homens aventureiros; eles têm símbolos, ritos,
preceitos e sagrações; eles se agremiam, se ajudam e obedecem e recebem o
salário segundo seu serviço.

Eles criaram para si deveres e direitos, e a sua união faz a sua força, conservada
e aumentada pelo rigor do absolutismo e arbítrio. E em toda soturna orga-
nização, a falsidade dos nomes, das coisas e das ideias é condição imprescritível
para os sócios.

Esta é a sociedade dos florianistas de que são sacerdotes ou jacobinos. É esta a


sociedade que se apossou do país e que governa sob o nome de partido repu-
blicano federal e cujo presidente é o árbitro dos poderes.

Lê agora, se ainda o não fizeste, a descrição da procissão, ou bando, que foi ao


cemitério à imitação daquele que aí andou na Praça com um andor no ano
passado. E verás que tudo é falso porque essas comissões foram improvisadas
para eles próprios e suas delegações mentirosas e disfarçadamente
denominados porque ninguém se atreveria a desmenti-las.

Toda a imprensa deu conta da festa e grande parte a ela concorreu; só um


jornal enchendo-se de brio e nem uma só vez nesse dia proferiu o nome do
tirano não deu a notícia do fato e só por um iniciante declarou não se haver
feito representar nele: a cidade do Rio.

197
15 DE JULHO DE1896

Delminda:

Contou-nos a narração que lhe fez o seu chegado Maneca do Ribeirão do


sucedido ao Lorena e sobrinhos: era essa versão que eu tinha. Quanto horror
não causa hoje a recordação desses fatos, crimes hediondos, que ninguém
acreditaria antes, e que hoje começam já a repugnar! A alma se toma de terrível
indignação ao passar em revista tanta crueldade, tão selvagens atrocidades
feitas para uma sociedade culta, por homens da civilização, educados, instruídos
na religião católica. E o coração chorando os sofrimentos, e a morte dos már-
tires, leva a razão a estremecer e amaldiçoar os criminosos que impunes
prosseguem na vida com a mesma isenção, tranquilos, desembaraçados no
meio social, recebidos, cuidados, recompensados e até louvados! É esta a justiça
dos homens, sempre falível. Mas a de Deus? Será possível que tenha ficado
impune tantos atentados? Terá descido sobre essas cabeças o perdão? A
misericórdia é infinita, bem o sei; mas a justiça divina é indefectível, e o castigo
é um braço da justiça.

Minha razão, porém, me afasta dessas apreciações superiores, e me chama para


o estudo das coisas humanas. Não sofrerá depreciação a nível moral da
sociedade − com semelhantes − fatos? Onde ficam o brio, a dignidade, os
sentimentos da virtude de um povo que mostra assim não apreciar tantos
crimes, tamanhas suleiradas. Que lições podem colher não só os mais incultos,
mas ainda os filhos que de tais pais procedem? Ah, minha boa amiga, muito me
amargura o coração essa desgraça de nossa querida terra, porque não vejo
reabilitação, é uma ferida que há de sempre sangrar, bem o conheço, porque
que para mim fizeram mais do que insultá-la, mais do que feri-la, mataram-na;
aquela nossa amada Desterro − já não existe.

JULHO DE 1896

O poder está entregue ao partido: é o partido que governa todo o país.

“Pois si este partido é o único! Formai outro, grande, forte e vinde lutar conosco
pelo poder” − exclamam-lhes − os do governo.

Porque eles dispõem da força e o sabem empregar na sua conservação e assim


estão seguros de que nem um partido forte se há de formar.

E prosseguem na sua vereda incompreensível de loucuras, que traz o espírito


público atordoado.
198
Mas, dizem bem, não há outro partido e portanto estão com o direito, não se
formará outro partido e pois estão seguros.

Seguros, é certo; para essa gente há certas regras que ela não transgride;
enquanto podem, é para ela dever aproveitar todas as vantagens, quando lhe
foge o poder, desaparece, e fica espreitando alguma fresta para de novo entrar
no poder.

A vida desse partido é o dia de hoje, amanhã não existe: “que importa o que há
de vir? Já não será conosco”.

Porque esse partido tem consciência de que não durará eternamente; não sabe,
porém, nem quer saber, quando ou como há de deixar o poder.

Entretanto, si o observador não pode ainda suspeitar quando, pode já prever de


que modo. Para que esse partido subsista é preciso a centralização. Para
conservá-la é preciso dar todo o apoio aos Estados. Este apoio os engrandece e
robustece.

Ora, o sistema de governo é o mesmo, nos Estados como no Centro.

A veleidade do poder, a ambição descabida ativa a absorção da força pelos


Estados, e quando o centro enfraquecido tentar na própria conservação reagir,
os Estados erguem-se e resistem.

Ai então do país, não do partido que então não existirá mais.

Ai do país, onde se levantará mais de uma Nação, consequência fatal de tantos


erros, tantos crimes.

20 DE MARÇO DE 1897

Bem me havia parecido dolorosa e triste para um coração bem formado a cena
desoladora da queda de uma grande nação. Nunca pensei durante a monarquia
que fosse para meus dias assistir a semelhante espetáculo.

Eis-nos entretanto no meio desse desastre.

Por mais indiferente, por mais desiludido e frio que o espírito se tenha tomado
pelas vicissitudes da sociedade, impossível é ver com impassibilidade tamanho
cataclisma.

199
Tudo está aluído.

Um só fato fortuito e inesperado fez gemer todas as juntas do edifício social e


algumas paredes baquearam, deixando-a mole, sem segurança. Sobre esse
arcabouço e sem atenção a seu estado precário, em trêfega faina, se improvisou
nova edificação mais formada de fingido estuque que de obra real.

As fendas, porém, a falta de prumo e, mais que tudo, a falsidade do artefato,


em breve determinaram os efêmeros concertos que, ao repetirem-se, vão cada
vez derrocando e desaprumando mais o frágil edifício.

26 DE MARÇO DE 1897

Nova Tróia. Canudos vai ser cercada. Para aí são mandados os Exércitos do
Norte e do Sul − De todos os pontos da República correm os valentes patriotas,
em toda a parte se formam legiões guerreiras para desafronta da instituição
sagrada.

São escolhidos os heróis de mais gloriosa fama para com suas hostes ir estreitar
o cerco.

Com imenso sacrifício se prepara o material de guerra; munições e armamentos


são enviados em profusão; víveres sem conta são fornecidos. Abrem-se estradas
e fazem-se obras de arte custosas, levantam-se plantas, discutem-se planos,
calculam-se efeitos, ouvem-se informações e previnem-se surpresas. Não faltam
os socorros, hospitais de sangue, cirurgiões, enfermeiras, a tudo se atende e se
provê.

Porque está assentado: não se atacar o inimigo senão depois de vencido pelo
cerco.

Se o mais cruel − ditador apossado do poder supremo, com braço de ferro


trucidasse a nação nos mais terríveis martírios que o despotismo inventa, se o
pé de arrogante estrangeiro calcasse ousado a terra nacional! Que mais aceso
entusiasmo, que maior alarme, que mais patriotismo se levantaria do que tudo
isso que estamos vendo?

Não há recanto no país, onde não ecoasse como sinistro clarim a notícia do
horrível desastre de Canudos.

As populações estremeceram, a tristeza e o luto derramou-se por toda parte;


trocaram-se condolências, rezaram-se missas e o ardor do patriotismo súbito ir-

200
rompeu de mil formas em mil pontos, como resposta aquele desastre inaudito,
aquela afronta sangrenta.

Com efeito em um recesso de um dos Estados da República acabava de se dar


um revoltante fracasso; nos sertões da Bahia em um pequeno e pobre arraial,
inculto e ignorado onde se açoitavam foragidos e aventureiros e onde fora
repelida a pequena campanha que...

Mas a afronta fora imensa.

Em Canudos vivia uma turma de fanáticos, dedicados de corpo e alma a um


chefe que os prendia pelos laços da superstição. Às queixas e reclamações de
circunvizinhos, foi enviado um destacamento de linha, que mais devia fazer do
que as diligências policiais que haviam malogrado.

Esse destacamento nada pode conseguir e bateu em retirada, declarando


insuficiente suas forças ante o poder do adversário.

Oh, mas então um punhado de foragidos criminosos e galés ao mando de um


mentecapto, criminoso também, valendo-se do fanatismo, afrontava assim a
força pública, um destacamento militar comandado por oficial?

Não. Alguma coisa de extraordinário havia aí, de sobre o injurioso atrevimento


de resistir a fazer voltar a força armada.

As declarações alegadas eram evidentemente repletas de exageração e fantasia:


sujeite-se esse oficial a conselho de investigação e de guerra pela sua
vergonhosa retirada, e envie-se um militar brioso e provado no campo de
batalha, para reparar aquele erro e castigar rigorosamente como merece o
aleivoso chefe dos fanáticos.

Logo foi mandado o maior afamado oficial dos que haviam defendido a
República contra a revolução passada.

A testa de seu luzido batalhão, com um parque de artilharia, com reforço de


outros batalhões e forças do Estado, seguiu para o covil dos fanáticos o valente
militar que na fronteira do sul, no Boqueirão, Paquetá e Santa Catarina havia
cercado seu nome de coriscante auréola. Com as suas instruções lhe dá o
governo carta branca; entregasse-lhe para as despesas do momento cem contos
de reis, e todos os auxílios incondicionais das autoridades federais e estaduais.

Partiu − chegou, reuniu e revistou suas forças, informou-se e revolveu e


tranquilizando seu governo, garantiu repetidas vezes em prazo fixo ter findado

201
sua missão, extinguindo a turba de fanáticos e entregando às justiças o
alucinado criminoso.

Então distribuiu as forças e foi ao local.

Ei-lo chegado; joga a artilharia, avança a fuzilaria, e ataca-se a praça mal


defendida e fraca: vitória, ia bradar o herói, mas à voz lhe embargavam as balas
inimigas e à sua queda segue-se a queda do seu substituto e o combate cessou
para dar lugar a uma estupenda debandada em fuga.

No campo ficou a artilharia, armamento, munições e víveres, e os corpos dos


chefes e dos soldados em números assustador: o pânico dispersará os
legionários.

As notícias diárias e repetidas sucedeu por três ou quatro dias um silêncio da


imprensa só preenchido por boatos de mau agouro, um certo azedume e
despeito: não se desmentia os boatos, ameaçava-se os que os repeliam.
Finalmente, impossível foi por mais tempo ocultar a verdade e a desastrada
derrota é anunciada no meio já de violentas arruaças.

Era demais.

Morrera o grande oficial e com ele outros bravos, fora dispersada a tropa com
espantosa carnificina: poucos escaparam, e ficaram tomadas artilharia,
amamento, munições e víveres salvando-se a caixa ou tesouro militar.

Bem disposto o ataque, entrado o arraial, tomadas diversas casas, faz-se um


movimento para recomeçar e são mortos os chefes: o novo comando decide em
conselho a retirada e esta é cortada pela retaguarda e pelos flancos, daí a
debandada.

Um desastre.

Mas como foi alvejado o chefe?

Esses miseráveis sertanejos que nunca saíram daquelas matas longínquas


poderiam conhecer o valor do brioso militar que era a alma da expedição, esse
esteio poderoso da República, esse herói da legalidade em quem mais
confiavam e sinceros defensores das instituições?

Não; a traição vil fora daqui oculta no tumulto das tropas e na refrega do
combate visara o alvo covardemente cobiçado e, mão certeira, lhe enviara a
morte. Era demais.

202
Claro fica o jogo nefando.

Atrás daquele desprezível e baixo acervo de ignorantes e criminosos bandidos, a


título do ridículo fanatismo por um sandeu, estava a hidra da restauração que
levanta ali o colo e as cem cabeças por toda a Nação.

A monarquia e a igreja de mãos dadas utilizavam em seus negregados planos a


influência supersticiosa daqueles ignorantes, e os armara, os auxiliara, e os di-
rigira.

Uma vez dado o alarme fácil foi aos vigilantes guardas do precioso tesouro
descortinar o movimento que aquela medonha víbora fazia por toda a parte, e
logo sentiu que o seu sanguinário coração estava pulsando aqui bem no centro
da República.

A reação foi súbita e estrondosa.

Era preciso um golpe certeiro e seguro que fizesse de novo a consolidação da


República; era preciso acabar de vez com esses perturbadores da ordem e do
progresso da grande Nação; era urgente uma vingança para desafrontar o
assassinato traiçoeiro do vulto heróico que tão alto elevara seu nome nos mais
belos fastos da história republicana.

Ali, naquele antro de jagunços do norte, como entre os Maragatos do Sul


manobravam os restauradores inimigos das instituições; já alguns tinham sido
vistos, eram nomeados outros que batidos no sul voltavam a novas tentativas.

Era a eles que deviam ser dirigidos os primeiros golpes, e as vistas se voltaram
para todos os pontos onde vegetavam esses incoercíveis asseclas de uma ideia
condenada.

Os poderosos guardas e chefes da nova forma de governo, por sua imprensa,


disseminaram por todo o país, o brado de guerra que já fez prodígios entre as
suas patrióticas legiões, previdentemente passadas em revistas repetidas, e no
coração das quais não se deixava arrefecer o fogo sagrado do entusiasmo pela
memória do grande vulto do Consolidador, o Marechal de Ferro.

Traição à República. — Morte aos traidores.

Em poucos momentos tudo era agitação e fúria; as imprecações, as orações


incendiárias, as apóstrofes, os vivas patrióticos mais acendiam o entusiasmo nas
turbas que, desorientadas, pediam frenética vingança. Queimaram-se
tipografias, apedrejaram-se casas e assassinaram-se escritores, e soltou-se nas

203
cidades o recrutamento para com o terror e a perseguição conter os
restauradores, que eram votados ao extermínio.

E não eram eles os autores desses males que caíam sobre a República? Não
estava bem evidenciado que em Canudos dirigia o combate o mando oculto de
revolucionários saídos das fileiras dos Maragatos? Não se havia apanhado quase
a remessa de armamento para os jagunços? Não se mostrava na defesa dos
jornais monarquistas a convivência e proteção que esse bando de celerados
prestavam aos fanáticos? Não se achara correspondência entre eles por
intermediários?

Que mais provas buscar?

Agora era imbecilidade duvidar e aos ouvidos de todos os bons patriotas


ecoavam sinistras as sentenças proféticas dos dois grandes vultos — “Confiai,
desconfiando sempre” − dizia um; —”Não tireis daqui os bravos patriotas
porque aqui é que está o perigo” − dizia o outro; — “Nada ainda está seguro” −
repetiam ambos.

E os bons e dedicados defensores da República avisados pela experiência


concluíram que, enquanto existisse no país um suspeito a República não podia
estar tranquila.

E não havia razão?

Não andavam livres nas ruas e praças esses mesmos que haviam, com a
amaldiçoada revolta de 6 de setembro, tentado contra a República? Não
estavam hoje gozando de liberdade quando deveriam nos cárceres ou passados
pelas armas expiar os crimes que cometeram?

Não se haviam insinuado traiçoeiramente no ânimo dos generosos republicanos


esses falsos inimigos a ponto de conseguirem as posições oficiais?

Impensada tolerância!

Negregada anistia! Aí estão os frutos desta inepta fraqueza que o bom senso e a
sã razão condena na tosca linguagem do povo: “quem seu inimigo poupa, nas
mãos dele lhe morre”.

Por que poupar esses bandidos que, sem piedade, feriam no coração a sagrada
República?

Anistiar uns celerados que praticaram tantas depredações, que degolaram que
martirizaram, profanavam os cadáveres, incendiavam e destruíram tudo rou-
204
bando e saqueando, − deixá-los sem um castigo, livre e ainda se prepararem
para novos crimes...era uma chaga dolorosa e funda aberta na alma dos
verdadeiros patriotas.

Não estava ai apontando o caminho o exemplo do grande vulto, o coronel de


bronze, e com a perene calma e tranquilo progresso do Estado de Santa
Catarina, depois da alta justiça de Santa Cruz e das devassas e varejos de toda
aquela região?]

Ainda é tempo, porém. Examine-se todas as estações do funcionalismo público


dessas víboras perigosas; guarde-se sob vigilância rigorosa policial esses
esparsos restos da nefanda revolução, e caia o braço fatal do poder sobre esses
traidores que auxiliam e sustentam o novo movimento.

Nada de piedade, nada de sentimentalismo: trate-se o inimigo como inimigo; é


preciso salvar e consolidar a República.

E de todos os Estados vinham os telegramas anunciando as dolorosas


lamentações pelo desastre, a exaltação e os desabafos dos intimeratos
patriotas, e as adesões às crenças e princípios dos mestres.

Enérgicas e urgentes providências foram tomadas pelo governo sob a


reclamação poderosa do patriotismo.

Mas era preciso que ficasse bem patente que só a hombridade e energia da
opinião republicana que não o braço reconhecido frouxo e moroso obrava
então. Assim, reuniram-se batalhões civis, sob denominações já usadas na
revolta passada e outras que agora evocavam memórias de heróis, batalhões
cujas fileiras se enchiam em poucos dias por centenas de voluntários, sob
condição de provado republicanismo. Fizeram-se meetings de onde jorravam
em ondas de eloquência a mais ascendida devotação patriótica. Reuniram-se to-
das as corporações em todos os Estados e declararam ao governo que estavam
prontos a tomar as armas e seguir para o campo das batalhas, embora o mesmo
governo delas não suspeitasse nem até carecesse, mostrando-se tranquilo e
seguro.

Velhos e cansados nomes, mulheres e crianças, exaltados pela espantosa grita a


saírem de seus lares ao oferecem-se para salvar a República, e desses mesmos
anistiados muitos puseram à disposição do governo os seus serviços.

Que mais era preciso?

205
O país inteiro afirmava assim a sua vontade: as instituições de gente eram filhas
dessa vontade: o povo mais uma vez declarava soberano que queria e tinha
feito o governo do povo pelo povo, e estava satisfeito.

Providência? Acaso?

Nessa morte há alguma coisa de extraordinário.

Dirigir um combate como chefe, expor-se ao maior perigo ao impulso do zelo e


da calma, coragem, e ser ferido e morrer: nada mais natural em um bom militar.
Quantos milhares assim não perecem?

Tombaram assim e tombam ainda os que nos postos assinalados esperam o


combate, é comum.

O heroísmo requer condições especiais, a valentia só na luta se declara e a


coragem no arrastar os perigos.

Uma bala perdida que faz cair o chefe militar não o sagra herói.

Morrendo no posto que lhe marcava a disciplina militar, sem ataque ou luta
pessoal, sofreu a consequência natural de um fato ordinário e provável.

A bala passou ali, como podia passar meio metro mais a direita ou mais a
esquerda.

Simples acaso.

31 DE MARÇO DE 1897

Aquele fogo intenso que desordenado lavrou em todo o país, lançadas as


primeiras chamas, se foi reduzindo a soltar pequenas chispas e já nem se lhe
sente o calor.

As notícias da Bahia foram se tornando contraditórias e incompreensíveis. Os


mortos no desastre horroroso de Canudos se apresentam diariamente nos po-
voados e até um que esperava talhado a facão quando conduzia o corpo do
herói Moreira César, apresentou-se são e salvo; as perdas pois dos Exércitos vão
se tornando de dia a dia insignificante.

Os detalhes das informações dos que voltaram na debandada, não combinam


com as declarações dos que só agora voltam; a própria cena do combate não é
narrada uniformemente: tudo se tornou inexplicável e cheio de mistério.
206
De outro lado a imprensa via-se coagida a desmentir-se a cada passo nas
notícias de fora e até nas acusações e denúncias que fizera no ardor do
entusiasmo; e não havendo mais o assunto, que tão depressa se esgotara, e
livre da polêmica pela supressão da imprensa da oposição: ela foi caindo
rapidamente no tranquilo enumerar dos roubos, suicídios, incêndios e
assassinatos, da vida pacífica e ordinária desta sociedade.

Com presteza e alacridade se haviam aquartelado os batalhões de patriotas e


um destes já aquartelado estava em exercícios. A Guarda Nacional a seu turno
se movera espontaneamente, correndo todos uns e outros, adiante do governo
que se ocupava com o movimento do Exército.

Naqueles dias, não do terror mas das enérgicas e patrióticas manifestações, foi
pedido ao governo que retirasse embora da capital a tropa de linha, mas nunca
os batalhões de patriotas verdadeiros defensores das instituições, porque aqui é
que estava o verdadeiro perigo.

Tudo porém com o correr do tempo se foi acalmando, sem que nada pareça ter
concorrido para tamanha tranquilidade.

3 E 4 DE ABRIL DE 1897

São incompreensíveis para o observador, ao menos na atualidade, certos fatos


que entretanto têm grande importância. Como explicar o que se está passando
na Bahia?

Rapidamente, quando é possível com os meios de transportes que temos, estão


quase reunidos na vizinhança de Canudos dezesseis batalhões das três armas,
cerca de sete mil homens. Os melhores oficiais para lá têm marchado; com
missões militares técnicas de engenharia, corpo abundante sanitário, de
fazenda e outros auxiliares, lá chegam sem cessar. Apetrechos bélicos e víveres
são fornecidos fartamente, bem como o necessário pagamento do soldo e mais
despesas.

Pois bem, aqui nada de interesse se sabe que haja ocorrido naquelas paragens.
Têm cessado as notícias do aparecimento dos mortos, e dos pormenores do
combate o qual por fim, ainda não se sabe como se deu. Da Bahia ou não se dá
notícia, ou se comunica que as forças acampadas e bem colocadas, com
segurança, em Queimadas, se ocupa em exercícios militares e de tiro, e... estão
contentes!

207
Somente aqui veio parar um viandante que se diz saído de Canudos e dirigir-se
ao Presidente da República e que foi logo preso; diz-se mais que trouxera cartas
para várias e numerosas pessoas conhecidas como monarquistas, e
misteriosamente se oculta o que dele escolheu.

Ora, era isto o que se poderia esperar durante aquela efervescência de paixões
e ardores patrióticos à notícia do desastre de Canudos?

Há hoje um mês que se deu o ataque seguido de debandada e ainda nenhuma


exploração ou descoberta no campo inimigo foi tentada.

Com indignação extrema, com exaltado entusiasmo, em atroadores tumultos, as


turbas de patriotas, os oradores populares e a imprensa prorrompiam em bra-
dos ingentes de castigo e vingança; toda a demência, toda a humanidade, seria
descabida, e a ação devia ser pronta, rápida e segura, para calmar as iras dos
bons republicanos e lavar a injúria feita ao Exército nacional: nem um dia, nem
uma hora de repouso enquanto não fosse desafrontada a República.

E nessa ardente fúria foram atacadas e incendiadas tipografias, perseguidos e


mortos adversários políticos, e mil patriotas acudiram a formar batalhões para
guardar em armas, a salvação da República que corria iminente perigo.

Mas, cessou o entusiasmo, as tipografias adversas desapareceram, os


adversários políticos se expatriaram ou fugiram e nenhum sinal de perigo para a
República se revelou nos acontecimentos; a explosão de patriotismo
concentrou-se nas missas e retratos e consagrações de nomes a ruas e praças, e
a imprensa agora unânime e acorde buscou em outra ordem de fatos o assunto
para sua atividade.

Os batalhões, dispensados, transformaram-se em clubes, e tudo voltou à


ordinária vida de um povo desgostoso governado por uma oligarquia
desconfiada e cavilosa.

Mas, aonde ficou a ofensa ao Exército, a injúria à República, o perigo das


Instituições, que fizeram de tudo isso?

Aonde está a sede de vingança, a ânsia marcial de castigar uns bandidos,


jagunços maltrapilhos, capitaneados por traidores e (regeres) monarquistas?

Nada houve, nada há: mas foi bom tudo o que se fez, e se o país está tranquilo e
seguro, deve-o ao entusiasmo dos corações patriotas, dos beneméritos entu-
siastas, que como um só homem, há um simples apelo dos chefes, se
levantaram prontos a tudo sacrificar pela salvação e consolidação da República.

208
E isto só basta, porque prova a força do partido que dá o governo: são revistas,
em que se exercita a tropa e se conta a sua força.

Conquanto que os corpos do Exército se reúnam a seu salvo e comandante em


Queimadas e seus arredores; que se transformem essa vila em uma boa praça
forte, e que sossegadamente se preparem em regimentais exercícios as...

28 DE MAIO DE 1897

Afinal se vai desmascarando a cena, e os papéis se vão distribuindo: já era


tempo. Será um drama, será uma tragédia mais? Comédia é que não há de ser.

Como é curioso este processo que para sua desorganização segue este país!

E o mais notável é que toda essa gente talvez esteja convencida de que tem
razão e tudo isso é sério.

O que se passou por ocasião da moléstia de Prudente já havia descoberto o


intento de se desfazer dele o partido que o havia escolhido, do que segundo se
gabava.

Entretanto não se agradava do substituto, tachado de suspeito.

Mas experimentaram-no e tendo ele aceitado a tutela ou sujeição, fizeram seu


conchavo e folgaram com a troca.

O regresso inopinado de Prudente desconcertou a todos tanto mais quando foi


justamente no momento em que se iniciava a execução do plano sinistro de
extermínio da oposição.

A condenação de Prudente foi nesse momento lavrada, e não cessou mais o


soturno conspirar.

O levante da escola veio a acelerar a cena; vão se tomando posições, vão se


distribuindo os papéis, e separando os campos.

Não tardará o começo das hostilidades.

Pobre país, pobre povo infeliz!

31 DE MAIO DE 1897

209
Eis o primeiro movimento: o partido que tem disposto do país desde a queda
de Deodoro, acaba de dividir-se, e pois estamos com dois agrupamentos adver-
sos, conquanto formado da mesma gente daquele partido.

Difícil é a organização desses grupos em dois partidos: um, nasce em oposição


ao chefe do Partido Republicano Federal, e tomando a si a defesa do Presidente
Prudente; o outro defende seu chefe e faz guerra surda a Prudente.

Na imprensa a oposição foi queimada mas os jornais, de um só crédito, já se vão


ajeitando às posições que devem tomar.

Mais uma curiosidade vamos ter na formação das duas fileiras da imprensa,
onde já dois jornais novos se apresentam.

O País como chefe, marcou já seu terreno, o República parece que irá para seu
lado. A Gazeta de Notícias, parece muito inclinada ao grupo dissidente pela
hostilidade em que insiste contra o Partido Republicano Federal.; já desdobrou-
se em duas edições. A Folha da Tarde mostra-se filha e tutelada do País.
O Jornal do Brasil, e a Cidade do Rio ainda não vi − nem a Notícia.

Também nos Estados essa divisão há de operar-se, e daí virão como de costume
mais acentuados os caracteres da divergência.

E tudo isto, uma balbúrdia, uma confusão, uma anarquia no espírito público −
sem uma ideia, sem um programa político.

Vamos; é ter paciência e ir observando como os fatos são filhos e consequência


dos fatos.

Para complicar a trama da situação atual aí temos qualquer dia destes o ataque
a Canudos − Qualquer que seja o resultado, completo ou insuficiente, ele vem
influir poderosamente nas coisas políticas, porque o Partido Republicano
Federal., segunda vez o tirará proveito do elemento militar que lisonjeia para
dirigi-lo.

Um novo elemento de perturbação é o que rompeu nestes dias na Bahia: as


conferências de Rui Barbosa.

Comprometido como está a sustentar no Senado a doutrina que expendeu, aí


vai levantar o pendão de um novo partido com vistas mais largas e que formam
já um programa.

Por isso mesmo, será isolado pelos dois grupos, e só servirá para diversão aos
jogos dos lutadores.
210
4 DE JUNHO DE 1897

As operações em Canudos parecem ameaçar mais um enorme fiasco. Consta


que Conselheiro retirou-se com sua gente para as margens do rio São Francisco,
e é justamente o instante em que as forças em marcha estão a chegar em frente
a Canudos. Às ordens dadas a diversas brigadas ou corpos já se moveram sobre
o inimigo e qualquer dia ontem ou amanhã ao chegar, achando o lugar vazio
com que cara ficará?

Agora, que o Partido Republicano Federal está na oposição, é natural que lance
as culpas sobre o governo não se lembrando que o governo então era ele
próprio. O jornal, órgão desse partido, sempre teve como arma ofensiva a
mentira e como escudo a desfaçatez e o bom estômago.

A batalha travada na câmara ontem, deu a vitória ao governo contra o partido


cujo candidato, para aterrar pelo medo, foi o seu próprio Chefe − Vivas, palmas,
foras e algumas bengaladas e vaias tiveram seu lugar.

O País aprecia o seu jeito a derrota do chefe, poucos votos de maioria tornam
precárias a vitória do Prudente; não há divisão do partido porque todos são Par-
tido Republicano Federal, tirando alguns maragatos restauradores. O Presidente
da República nunca prestou e não presta: já andavam com ele pela barba. Em
todo caso é bom ter cuidado porque pode aparecer alguém que vá para lá nem
venha para cá! Algum novo consolidador.

Não se podia fazer de conta que Prudente era assim um Deodoro, que havia
uma bernarda grossa e o faziam resignar, para vir o Marechal Victor — que as
duas por três plantava assim um estado de sítio, e a competente ditadura,
precedida de dissolução de Câmaras se elas não andassem bem?

Que bom!

Talvez se acabasse de consolidar.

A Cidade do Rio, não há dúvida achou o Partido Republicano Federal bem a jeito
e vinga-se a valer, dando de rachar no País e personagens adjacentes. Está bem,
por hora, está com o governo em boa maré. Deve aproveitar: quando
morreu Moreira César, os do País queimaram a Gazeta da Tarde e oLiberdade e
mataram o Gentil, e fizeram a Cidade do Rio engolir a língua e a conservaram
amarrada à saga; agora ela pilha-se solta, e língua para que te quero(!)

211
A Gazeta conquanto antiga adversária do País, a quem vota quase ódio, e
sempre guerreando o P.R.F., manifestou-se, cheia de escrúpulos, ao lado do
governo; parece recear comprometer-se, ou ainda não julga ainda bem segura a
situação.

O Jornal do Brasil aplaude e se regozija com a queda de Glicério, mas não se


expande em defesa de Prudente.

A Notícia sorri para ambos os lados.

A República segue o País, mas desaforada e atrabilhariamente.

09 DE JUNHO DE 1897

Insistem em qualificar de simples ato de insubordinação, passageira indisciplina,


e até leviana exaltação de rapazes, o fato da Escola Militar; e concordam todos,
que esse fato era sem consequências, nem importância ou significação.

O que se vê, porém, é que todos têm receio de qualquer modo de cair no
desagrado dos alunos da escola. Neste ponto fora indispensável examinar uma
questão fora do assunto atual, e é saber o que é, como se forma, que ideia tem,
quais suas condições de vida e como age essa Escola. Deixemos isso agora de
lado.

Foi um ato sem consequências: vejamos. Sem consequências porque não se


verificou que estivesse ligado a plano algum e porque a tropa foi recebida em
paz. É verdade, não foi trocado um tiro, mas as armas estavam à mão e os
cartuchos na cartucheira.

E agora, suponhamos que fosse a tropa recebida pelas descargas de fuzilaria e


os tiros dos canhões assentados a propósito: o que aconteceria?

A tropa atacava, o combate travado era fatal à Escola pela superioridade da


força dos batalhões, e o poderoso auxílio dos vasos de guerra.

Pode-se prever as consequências de semelhante fato?

Conhecidos os ânimos da gente que governa o país, e a qualidade de seus


sequazes, pode-se medir o alcance de tamanho desastre?

11 DE JUNHO DE 1897

212
Parece claro.

Se a metade mais um ou dois Estados se declaram contrários ao procedimento


do governo da União, e pois em oposição ao Prudente, este tem de
compreender que não governa por vontade da maioria da Nação e deve
resignar.

Então, assumirá o governo o Vice-Presidente o qual terá feito pacto e dado


assinar com o partido, e continuará o domínio do Partido Republicano Federal e
político de Floriano.

Convém portanto fazer a maioria nos Estados e este é o trabalho em mãos,


pouco difícil para quem durante estes dois últimos anos de seu poder foi
incansável em comprar servidores.

Mas, onde fica a decantada autonomia dos Estados, isentos do domínio político
do Centro ou União?

Quando formados e em ação estiveram os dois partidos naturais, o Liberal e o


Conservador, não poderia algum ou alguns Estados ter dominado em seu seio e
nos seus negócios e governo um partido diverso o que estava no poder da
União?

A prevalecer aquela teoria, só haveria a troca da deposição armada pela


deposição política, ou queda de um partido fora dos trâmites legítimos, ou
finalmente uma pacífica destituição ou cassa de mandato.

Mas se o presidente isso não entender legal e se julgar autorizado enquanto na


forma da Constituição nem um impedimento sobrevenha, qual o recurso que
resta ao partido da oposição?

26 DE JUNHO DE 1897

O observador que procura estudar a marcha do que se chama política no Brasil,


dificilmente pode antever os futuros acontecimentos, ainda baseado na mais ri-
gorosa lógica dos fatos, porque parece que mais do que as consequências
naturais, se vem ordinariamente apresentar o imprevisto.

A razão deste distúrbio na senda do espírito público, está em duas


circunstâncias que ocorrem nos homens políticos: a ignorância de um lado e a
má-fé em outros.

Com a República é o que se pode facilmente verificar desde seu começo.


213
Hoje, mais que nunca se manifesta essa feição naqueles que tomaram conta do
governo na República: os que não são ignorantes, estão de má-fé; os sinceros e
de boa-fé estão afastados.

Com o tempo desenvolveu-se, e tanto se arraigou esse vício ou defeito, que


decerto causará grande abalo o seu extermínio e dessa comoção se acresciam
todos os que incumbiram de dirigir os negócios públicos.

Durante o tumulto de surpresas, exaltação e embriaguez moral do Governo


Provisório mal pode o observador perceber como se mostrava o espírito
público. No primeiro período do Governo Militar, isto é, na Presidência se
prolongou ainda aquele atordoamento de princípios estranhos que se
impunham, de ideias ainda informes e de crenças ainda mal formadas.

Foi só no segundo período do governo militar, na Vice-Presidência, que, por


uma evolução natural, e não por trabalho de nenhum intento proposital, se
congregou e constituiu por aglomeração o acervo que mais tarde se chamou
partido.

A necessidade de mascarar o despotismo fez com que o Ditador tolerasse a


formação desse partido, que lhe servia passivamente e ao qual nutria com
favores e galardões.

Fácil é ver que fora desse partido, só havia a resistência ao absolutismo da


ditadura e a abstenção da boa-fé.

Os acontecimentos da Revolta de 6 de setembro deram lugar à consagração do


partido pelo Ditador, graça que foi reconhecida por ele com a sua canonização:

A 15 de Novembro passava o poder para as mãos do primeiro Presidente civil; o


partido sentiu que se tornava possível escapar-lhe o poder, justamente quando
o absolutismo o deixava inteiro e, ousado, arriscou um golpe que lhe garantia
na ficção de um protetorado a segurança da existência e efetividade de ação.

O tempo entretanto deixava sobre seus passos o germinar de sementes que


mais tarde desenvolvidas dariam plantas diversas.

O Partido Federal havia-se apossado das formas despóticas e do regime militar


como pretendida herança ou doação do Ditador; de outro lado o Governo Civil
na sua aspiração de liberdade evitava todos os choques perigosos
contemporizava atento aguardando a ação do tempo.

214
Com efeito, naquele acervo que vivera aglomerado em virtude da lei fatal da
conservação, se foi desenvolvendo uma série de elementos que viviam e
cresciam à custa da própria vida do partido. Difícil se tornara contentar as
exigências de tão numerosos e variados elementos pois, o Partido era um só em
todo o país e o único distribuidor de posições.

Com a maior reserva pelo temor de ser lançado ao ostracismo, começou a


formar-se descontentes ou despeitados que com cuidado investigando as
camadas diversas do Partido foram discriminando os pontos fracos e as
necessidades que só eram vencidas pela força, o temor e a falsidade.

De seu lado, já a direção do Partido sentia queimarem-lhe nas mãos as rédeas


tão violentamente distendidas pela impetuosa desfilada em que se precipita-
vam os negócios públicos. Sentia já que esse enorme conglomerado era demais
pesado para ser mourejado e que as fendas já riscadas na grande massa se iam
abrindo e aprofundando; era portanto necessário maior pressão e ensaiar
recursos para algum momento crítico.

A Vice-presidência serviu para esse plano. Mas quando parecia caminhar


desassombrado essa campanha, a volta do presidente, talvez prevenido, desfez
todo o manejo do Partido que mostrara tê-lo posto à margem.

Estabeleceu-se então uma verdadeira crise e só faltava o pretexto.

O levantamento dos alunos militares veio fornecer as bases do movimento, e a


Moção Seabra foi a causa ocasional ou pretexto.

O chefe do Partido se declarou em oposição ao governo com a qual tinha alguns


diretores − não havia remédio − fez-se a cisão ficando uma parte a favor do
Presidente e outra em oposição à ela.

A imprensa que era unânime em razão do atentado aos jornais oposicionistas,


teve de dividir-se, dando o exemplo os órgãos do Partido que abriram guerra ao
governo, sem que esse tenha ainda imprensa sua; os que se pretendem neutros
se inclinam em favor do poder.

Passando da luta de impropérios à discussão chegaram afinal a conhecer ou


antes a confessar o vazio que existia no Partido, e portanto o vazio que subsiste
nos dois grupos atuais.

São dois partidos constitucionais, dizem batendo palmas, e a República vai bem
por isso, era indispensável para um bom governo. Mas partido constitucional
pressupõe um inconstitucional e deste não há notícia.

215
Em primeiro lugar, ser constitucional não é programa é dever.

Em segundo lugar, se ambos são constitucionais, eles não se distinguem, são um


só partido.

Ora, convém uma reflexão. Todos os partidos que se formam e subsistem em


uma Nação são constitucionais, porque a Constituição o permite, sem o que os
governos os extinguiriam. Entretanto guarda-se essa denominação para o
Partido que sustenta o estatuto fundamental em sua inteireza, em distinção a
outro partido que entende e promove, dentro da Constituição, emendas,
alterações ou reformas.

Daí o embaraço e confusão atual.

Que partidos são estes?

O que querem eles?

Não, não nos sabem e dificilmente poderão responder se não usarem das
fórmulas falsas e sofisticas adotadas infelizmente em negócios públicos da
República.

O mal vem do princípio.

Organizado por um sistema que só teria justificação no empenho de educar as


massas no manejo da Delegação sintética do republicanismo, o partido primeiro
que se formou, cobriu a sua falta de ideia, e pois de programa, tomando título
de Partido Republicano Federal, isto é, Partido constitucional ou nacional, por-
que a nação é isto mesmo uma República federal. Cumpre observar que a
princípio, o núcleo do partido se denominava simplesmente republicano,
quando nasceu o partido Jacobino. Porém no sul, tendo aparecido o Partido
Republicano Nacional, e depois Federalista, com acentuando as extremadas
regalias estaduais, o partido do Centro disse-se Federal, para firmar, segundo
declarou, sua sede e seu espírito de concentração na Capital, das forças que
ramificava em todo o país.

28 DE JUNHO DE 1897

Já não se diz a Nação brasileira, o povo brasileiro, os brasileiros. O Brasil, por


que será?

216
Hoje só leio e ouço: a República, os republicanos, o povo republicano; assim
como, “esse notável, pintor, negociante, artista, médico ou industrial
republicano” (brasileiro).

Uma frase que me causa frenesi é o “denodado republicano F. publicou um livro


sobre agricultura em que trata dos grandes interesses da nossa lavoura. −
Recomendaremos aos republicanos sua leitura”.

Muitas vezes nos jornais se leem “nós os republicanos” − tratando-se de


assuntos de administração do país.

Será que esta gente acredita realmente existir no Brasil uma parte da população
que não é republicana?

Ou será que essa palavra serve para distinguir certa qualidade de gente à parte
com caracteres especiais?

Ou finalmente só um intento proposital de, à força de repetir a palavra,


conseguir que todo mundo creia que somos republicanos e nós próprios nos
convençamos de que o somos?

O que é verdade é que pelo que vemos, pela maneira por que somos
governados, pela opressão, pelo arbítrio, pelo absolutismo sob que vivemos,
ninguém poderia supor que estamos na República.

As eleições falsas, as assembleias sujeitas às Presidências, estas cercadas de


camarilhas, os tribunais constituídos a propósito, as autoridades despóticas, e
os negócios públicos entregues a um grupo fechado por círculo de ferro, tudo
isto afasta a ideia da República.

É bem verdade que as coroas foram quebradas e substituídas por uma estrela; o
Presidente dura só quatro anos no poder; as Províncias são Estados e elegem
seus Presidentes; os Estados se governam a seu modo; a República não tem
religião; a aristocracia foi extinta não há mais condecorações; finalmente os
nomes das cidades, das vilas, das praças e ruas e dos estabelecimentos e
fábricas, navios, teatros e ruas, tudo foi mudado.

Não chegará isto?

Porventura esta o povo mal satisfeito? Sentirá falta de alguma coisa?

Não lhe damos.

***
217
Ainda não pude compreender o que se tem vulgarmente como República.

Todo mundo diz que ela é “o governo do povo pelo povo” e quem menos entra
nisso é o próprio povo. Entre nós, pelo menos é isto o que vemos. Perguntai ao
povo se ele é republicano!

Vos responderá que sim, porque é obrigado a sê-lo e lhe é proibido ser
monarquista.

Perguntai-lhe se é mais feliz na República?

Vos dirá que não sabe, porque até agora nenhuma nem outra ventura lhe
chegou com a mudança da forma de governo.

Indagai dele como lhe tem corrido a vida com essa mudança, em que a tem
notado?

06 DE AGOSTO DE 1897

Se a mentira me tornou imediatamente suspeita a República no próprio mês de


novembro, o ridículo me impediu instintivamente de aceitá-la em todo o
tempo...

Por que será? Devido aos princípios em si, não; essa forma democrática é a mais
séria, mais justa e a mais de acordo com a civilização e os sentimentos morais
da sociedade; e não tendo sido originária do movimento social de 1789, não
chegou à loucura feroz desta revolução, em que o ridículo horrível surgiu no
paroxismo do delírio.

Porque será? Se a República não é e nem nada tem de ridículo, este vem dos
homens, não só dos que a fizeram, senão também dos que a assaltaram como
possuidores...

A história da República é curta; examine-se os seus anais, e a cada passo o


espírito o mais desprevenido estaca ante o ridículo. As mudanças de nome, de
tratamento, de relações, de categorias naturais, enfim, um louco em investir e
deslocar tudo, para que nada lembre o passado, foi a oportunidade, ou a causa
de uma série estranha de ridículo e até facécia.

Quando li os artigos em que Jepherson descreve o caráter moral


de Floriano para afirmar que ele tinha uma política definida e a executava com

218
firmeza, me veio logo a lembrança de um fato de minha juventude, quando
estudava retórica e poética.

A lição − morte de Cláudio Manuel na prisão; prof. Doutor Paulo Menezes −


Colégio Dom Pedro 2°.

Em verdade, pela vida adiante, nunca mais senti a necessidade de assim


fantasiar para engrandecer ou amesquinhar a existência de alguém, ao menos
dessa não tive consciência, e se alguma vez o fiz, por certo foi sem propósito e
por erro ou falta de completos elementos para seguro juízo − e mais não foram
pouco numerosos os que escrevi.

Nos estudos de História, me recordo haver alguma vez encontrado em luta de


crítica essa ideia que me parece de graves consequências, pelo falseamento que
pode acarretar nas evoluções sociais.

O mesmo personagem histórico é apresentado por uns como um fino político a


quem os acontecimentos foram adversos, quando outros lhe dão o aspecto de
um vulgar simplório, nas mãos de especuladores: entretanto os atos desse
personagem e os fatos que cercaram sua vida, parecem tanto servir a um, como
a outro juízo. Muitas vezes tive ocasião de ver nas lides da imprensa tornar-se
uma nulidade e fazer-se dela um vulto notável, para enaltecer o partido, no
morto.

1898

Ora, louvado seja Deus!

A que ponto de perfeição chegamos nós, no fim desse século!

Parece que tem aceitação universal o princípio moderno de – “viver muito, em


pouco tempo”.

Com efeito, a razão do pobre filósofo se vai confundindo e perdendo, se ela


entra a refletir na marcha das coisas nas sociedades e nos homens da
atualidade.

Já não subsiste a regra das escalas gradativas para o aperfeiçoamento; tudo vai
aos saltos, e impossível é calcular por onde andará o espírito humano daqui a
algum tempo, neste caminho estupendo.

– O destino do homem na terra não é como tantos imaginavam: vida tranquila e


patriarcal, não é segundo pensaram muitos a pura adoração do Ser Criador,
219
nem conforme outros, a severa investigação da verdade na ciência: o destino
real, nobre, seguro e sagrado da humanidade é o comércio.

A tranquila vida patriarcal só a tem o aposentado nas riquezas do comércio; as


glórias e hosanas ao criador só as levanta o luxo do comércio, e a severa investi-
gação da verdade e da ciência só subsistem no serviço do esplendor do
comércio!

1898

Uma vez, já há muitos anos, eu escrevi que me parecia ver no progresso a


resultante do desenvolvimento de duas forças paralelas: a intelectual e a moral.
Guardarão elas a mesma proporção na escala? Não.

A preponderância de uma sobre a outra traz real prejuízo ao progresso:

Não só a teoria o estabelece, como a prática o demonstra, na história


facilmente se estuda o assunto.

1898

A leitura dos jornais neste país chega a causar tédio.

Parece impossível que em regiões onde tanto se têm desenvolvido o gosto pela
imprensa, ou antes pela publicação, tamanha se tenha feito a prostituição e fal-
seamento de tal arma do progresso.

A política, isto é, o manejo e direção dos grupos partidários, em geral sem


princípios nem ideias políticas, de tal modo se apossou das folhas periódicas,
que elas não representam mais do que a vida desses mesmos grupos, com seus
defeitos, suas mentiras, sua ignorância, seus crimes e má-fé, e os vícios, e a
abjeta loucura enfim em que vivem.

Fora mister não ler mais os periódicos, para se conservar o espírito alguma coisa
tranquila na sociedade em que vivemos.

Mas, pensemos, será isto um erro, uma aberração − não poderia ser de outro
modo a imprensa?

Infelizmente, não.

Não é um erro esse fenômeno, nem é uma aberração.


220
É uma triste fatalidade, à qual não se pode fugir: é a inevitável lei das
consequências a que tudo está sujeito. “Pilriteiro que dás pilritos, por que não
dás coisa boa?”

1898

A Espanha já de há muito devia esperar a conquista de Cuba e Filipinas, em vista


de proteção dada aos insurretos pelos Estados Unidos.

A ideia fixa rosto última Nação.

09 DE AGOSTO DE 1898

Voltemos à nossa antiga preocupação.

Há quase dez anos foi mudada a forma de governo no Brasil e o seu futuro ainda
se nos apresenta o mesmo de então.

A maneira de proclamar a República, as circunstâncias que a cercaram ao


nascer, e o caminho em que se lançou fizeram desanimar muito os espíritos
calmos e encheram de sérios receios pela subsistência do país. Foi assim que,
talvez precipitadamente, talvez sem maior reflexão, saiu-nos do peito aquela
frase dolorosa: “Era uma vez, a nação brasileira...”, frase que significava, não o
despeito, não a inveja ou ciúme, que disso já nada tínhamos, mas o
desfalecimento profundo no porvir de uma pátria que tão cara me era.

Daí por diante, cada ano que passava, cada fase importante que apresentavam
os governos, vinha reviver nos meus lábios a desanimadora frase.

E hoje, ela de novo me acode à mente, como única e triste, mas fatal solução do
estado crítico em que está lançado o pobre Brasil.

Pensemos, calmos.

Desorganizado todo o serviço público, alterado profundamente nos seus


preceitos, e iniciadas novas e estranhas praxes com a falta absoluta de pessoal
idôneo, e o mal escolhido na ocasião, ainda tinha o país na incerteza e na dúbia
vacilação do poder instável quando a revolução do sul determinou a ditadura
que a ela resistiu até que se extinguisse.

221
A tranquilidade, a vida normal do povo, ainda não voltou, e os elementos de
distúrbio fermentam sempre, sempre corrompendo e destruindo o organismo
social.

As finanças tendo chegado realmente à bancarrota, se conservam em


expedientes delicados e perigosos em que qualquer imprudência é um desastre.

Este estado de coisas a que foi trazido o país pelos desmandos e pelas
exigências das lutas e despotismos, não tem sido possível, em quatro anos de
paz e sossego relativos melhorar.

Ao passo que, deste modo, os negócios da União se acham à braços com as


maiores dificuldades, a mais acentuada anarquia domina os Estados.

O espírito desvairado de autonomia, a independência irrefletida, os têm


arrebatado na voragem inconsciente dos descalabros descendo uns à ruína total
e entontecendo outros na vertigem das grandezas.

O observador calmo se amedronta olhando para o futuro, e sente fugir-lhe a


esperança de melhores tempos.

Com efeito, como pensar na volta à marcha regular de uma Nação, constituída
de forma democrática, rica, pujante pela sua gigantesca vastidão dotada de
todos e dos mais preciosos recursos naturais?

Como esperar que do Prata ao Amazonas subsista firme, inquebrantável, esse


profundo sentimento de unificação tão indispensável para a formação de uma
[semelhante] Nação?

Se o espírito irrequieto dos povos ameaça a quebra da unidade harmônica do


todo, se o desvairamento conduz à perda os membros desse todo, bem é, diz-
se, é preciso que uma ditadura um braço de ferro, pese por oito ou dez anos
sobre todo o país!

A ditadura, o braço de ferro!

Pois sim. − Que venha esse jugo, pesado é verdade, mas benéfico; que impere
despótica, absoluta essa vontade única, mas sã, justa, leal e franca só visando o
bem, a verdade e severamente castigando o crime e o vício. − As bênçãos e o
amor dos povos será a sanção de tal tirania e a consagração de tal ditadura.

Mas, dizei, onde, quando e como se poderá achar esse tesouro?

222
É no passado, livro aberto ao estudo do futuro, que devemos pregar nossos
olhos; o que nos mostra o passado?

Quereis ainda uma vez renová-lo?

Não sangram ainda as feridas abertas há tão pouco, não gemem ainda os
contundidos, não se arrastam os aleijados, não sofrem a fome os desgraçados,
não esmolam ainda os pobres que as últimas tiranias deixaram?

Não vagueia de olhar torvo, murmurando sinistras ameaças e planejando


nefandos crimes, o ódio, farejando sempre a vingança?

A mão de ferro que devia enérgica fazer o bem, tinha de começar exterminando
o mal; este está entranhado em todos os órgãos, em quase todas as fibras do
organismo social: como destruí-lo?

O vício é por demais profundo, para que o ferro do cirurgião o possa alcançar,
sem por em contribuição a vida do doente.

Não, não é um braço de ferro, não é uma ditadura, que há de reviver a nação,
que há de ligar esses destroços já hoje heterogêneos, indiferentes entre si,
incompatíveis enfim.

Não é a ditadura que nos salvaria − a ditadura não virá − e se vier...

Tanto pior.

21 DE AGOSTO DE 1898

É extraordinária a feição que apresenta o espírito público no Brasil depois da


mudança da forma de governo.

Depois da estupefação que essa mudança brusca imprimiu, veio uma agitação
febril e violenta, em que a razão se perdeu, cobrindo enfim o espírito neste
desvario insensato, cujos resultados nada de bom auguram.

O interesse pessoal, com suas diversas roupagens, seus disfarces, jeitos e


pretextos, bem como disfarçado com todas as máscaras, ficou dominando todos
os ânimos e dirigindo todos os atos.

A forma republicana, e a federação abrindo espaço à todas as ambições, e à


mudança de regime, por uma tão vasta região, tão atrasada ainda, deu lugar a

223
substituições repentinas do pessoal dirigente, sem o mínimo critério e bom
senso.

A necessidade do momento forçou no começo a falsificar os princípios e até a


moral, para adaptação de leis ainda desconhecidas. − Esta falsificação como era
de esperar, ficou no uso do espírito público, que inconsideradamente construiu
sobre ela o pesado edifício de tão vasta Nação.

Estas recepções e festejos ao futuro Presidente da República estão parecidos


com as faustosas e reais cerimônias da inauguração do palácio do Catete.

É bem verdade que o vício já vem da instalação da República, mas nunca se


tornou tão notável e requintado como agora.

Parece que há uma ânsia, uma saudade, uma sede devorante, de esplendores,
de festas luxuosas, de suntuosos espetáculos, em que cada qual tem sua parte
ou papel saliente.

E sempre é o jornal do Quintino que inventa, que inicia, que se afadiga em levar
avante essas ruidosas manifestações teatrais.

O espetáculo da chegada do vice-presidente ao Catete, parece renascer na


recepção do futuro presidente.

Na tão falada democracia da República onde encontrar esses majestáticos


festejos a um cidadão que há de vir a ser o Presidente ou Chefe do Governo?

Como censurais o presidente atual por não ordenar festas oficiais?

Duas ideias bem tristes resultam de tudo isto: o acinte ao governo de hoje − e a
adulação ao governo de amanhã.

Com a breca! Estas coisas não vão bem.

Fez-se a República, correu-se com os áulicos, lançou-se no ostracismo os que


não acompanharam o movimento, depois tomaram-se todas as posições,
repartiram-se os proventos, aumentaram-se os impostos, subjugou-se com a
ditadura os recalcitrantes, − e estamos por fim a ver as finanças mal paradas, a
vida difícil para todos e os recursos a se esgotarem!

Vamos: − É preciso fazer cara alegre à fortuna, rir e dançar marchando para o
abismo.

224
É preciso que nos enfeitemos de púrpura e ouropéis, ornemos a fronte de
vistosas coroas, e que tomando os gestos e o porte dos semi-deuses, movamos
os passos à cadência soberana das marchas solenes.

É preciso que sejamos como os mais sabidos na humanidade; façamos como


eles, tenhamos as mais belas instituições, as mais sábias leis, os mais adiantados
preceitos, as maiores riquezas, arremedemos finalmente o que de melhor vai
pelo mundo... e aos míseros povos que se estorcem na miséria, na escravidão,
na fome, brademos bem alto: “estamos no auge da prosperidade”.

27 DE AGOSTO DE 1898

Se o ridículo pudesse comparecer ante um túmulo que se abre, seria aqui o


lugar do ridículo.

Pobre Nação!

No teu saimento, as lágrimas, as saudades, a dor se postam e quedas ficam,


esparsas no caminho em que te levam os troções, seguida do vício, do crime e
da falsidade.

Não é a vítima enfeitada que vai para o sacrifício, é a caça que levam a
esquartejar.

E a farsa, a mentira, o aleivo, e todos os jogos repugnantes que a máscara


esconde, se ostentam florescentes no alto da sociedade, ao mando da má-fé e
da hipocrisia.

E o túmulo que se vai abrindo e as surdas pancadas da enxada não soam ainda o
dobre do sino, nem os cânticos fúnebres: apenas se vêm perder no cemitério os
sarcásticos ecos de insana saturnal.

Pobre Nação!

Que tempo, quantos anos, durará a marcha desse saimento, quem sabe?

Mas os anos passam, e um dia, quando o forasteiro parar curioso no cemitério,


apenas poderá ler em singela e tosca pedra, esta humilde legenda:

“– Era uma vez, a nação brasileira...”

12 DE SETEMBRO DE 1898
225
De como se faz uma manifestação... popular.

Em uma pequena roda de três, ou quatro desocupados, se conversa a respeito


de... empregados ou de autoridades.

Elogia-se uns, censura-se outros, comenta-se a proteção dada a este e


inventiva-se a indiferença por aquele − e destes arrazuados nasce um certo
acordo em apoiar uma autoridade qualquer, que se viesse a bem colocar-se
poderia ser de vantagem para os da roda.

Então, um exclama inspirado:

– Aqui está um homem, que bem merecia uma ovação pública pelos bons
serviços prestados, e pelo qual ainda ninguém se interessou.

Entretanto fazem tanto barulho por outros que não merecem...

E vão por aí além, criticando sem piedade as festas dirigidas aos chefes, e mais
se acentua a benévola inclinação para o indicado.

Se não naquela hora, mais tarde cada um, havendo ruminado aquela ideia, se
convence de sua justiça, e comunica aos companheiros as suas vistas.

Havendo tomado vulto na imaginação de cada um, surge o intento.

16 DE SETEMBRO DE 1898

Mas o que era esse homem?

Se ele não fosse o que é, seria um perverso.

É um homem puro, para não ser um objeto; é inocente, para não ser um
criminoso; bondoso, para não ser cruel; enfim, é útil e prestimoso, para não ser
desprezado parasita.

Todos aqueles instintos do vício subsistem; todos eles, a força da contínua


compressão, mal denunciam sua existência, esmagados e sufocados pelas
virtudes.

Embora tentassem hoje levantar-se e irromper qualquer daqueles instintos, a


possante massa das virtudes, não o consentiriam.

226
O que era então esse homem?

Ali não havia a luta, o conflito, a solicitação sequer de um elemento contra


outro; e não havia o valor da vitória.

Ali não havia a dúvida, a hesitação, a escolha, e não havia portanto, o mérito do
acerto.

Vinha por um bom caminho quando o achou bifurcado, não trepidou em deixar
de lado o mau, que o outro já era seu costumado.

Depois, ele conhecia o mal; mas não o seguia, não voltava o rosto, via-o e não
lhe era indiferente, talvez lhe agradasse, mas o deixava passar sem o tocar,
sem...

26 DE SETEMBRO DE 1898 − ONTEM E HOJE

Ontem: Pobre minha terra!

Quanto me corta a tristeza o coração, ao pensar na sorte que te coube em


partilha!

Meus olhos pesarosos se afastam de suas paragens, meu pensamento


atribulado se recusa a (prismar) em teus negócios, e minha alma abatida e
amargurada se confrange ao lembrar o que te devo e o que mereces.

Encarar com as misérias que em ti se passam é um martírio cruel, e com


ansiedade fujo dessa realidade tremenda, que me acabrunha o espírito.

Oh, quanta desilusão, que desenganos penosos nos estavam reservados! Como
o destino zomba irônico das calendas humanas!

Quem o previra?

Pobre minha terra!

Poucos, bem poucos, te restam hoje daqueles que se orgulhavam em te servir


outrora, e esses mesmos exilados, foragidos em terra estranha.

Pois bem, que a esses poucos, longe da pátria, as débeis vozes das pobres
velhas chorando sua terra, lhes desperte no coração a saudade adormecida, e
lhes faça estremecer um momento a alma de puro amor da pátria, no meio das
violentas lutas da vida.
227
Naquele tempo era a paz, a tranquilidade que nos envolvia em seu seio; serenos
iam os tempos, calma a sociedade, toda entregue aos brandos cuidados da vida.

O embate pacífico das ideias, em busca da felicidade, mostrava entrever os


largos caminhos do progresso nas suas colaterais: a inteligência e a moral, e o
futuro se antolhava risonho e fagueiro, como o nosso puro céu do Brasil.

Naquele tempo, ainda o vasto Império do Brasil sob a pacífica administração


geral deixava seus filhos empenharem-se em mansos esforços descuidados das
violentas paixões e das viciosas ambições.

Ainda a minha pobre terra, naquele tempo, gozava indolente do doce renome
de paraíso do Brasil, com que o batizara o estrangeiro encantado.

É bem verdade que a imprensa reflete fatalmente o estado da sociedade onde


ela existe.

Não o espírito público, com a sua moral, o seu caráter, a sua tendência, mas o
aspecto peculiar das sociedades com os seus erros, seus defeitos, seus vícios e
perigos.

Nada é mais palpável do que este fato na atual situação do Brasil e com
especialidade na chamada Capital Federal.

O triste espetáculo que apresenta hoje a imprensa faz desanimar o observador


que para ele atenta − se um outro periódico tenta, reagindo, escapar desse
aluvião, ou é sufocado e tem vida efêmera, ou vegeta à custo, incerto e quase
oculto e desprezado.

O mercantilismo que se apossou desordenadamente das forças vivas da


sociedade, constitui a base única da imprensa e despoticamente a domina.

Não é pois de estranhar a feição ridícula e falsa dos jornais, que por sua
natureza mais estão em contato e relação com iguais qualidades da sociedade.

Seja porém dito desde já, que nunca foi o pessimismo que nos guiou nestas
apreciações, pois em todo este descalabro e anarquia só enxergamos a crise
social que nos deve levar à época feliz do real progresso e bem-estar da vida e
da paz e aperfeiçoamento moral.

Aquele defeito que tanto sobressai na imprensa, se manifesta com intensidade


também em outros ramos de manifestação pública: o teatro por exemplo tão
comprimido se viu por essa mão de ferro que acabou perdendo-se por uma vez,
228
e o espírito público parece grandemente ressentir-se de igual anarquia em todo
o país.

Perdido de uma vez o senso da verdade, não mais é possível conduzir em


caminho seguro esse baixel que boia sobre tão (imensas) ondas.

De outro lado falsas ficarão as posições desde que a imprensa se arroga o papel
de dirigir ou antes de dispor da opinião pública, quando só lhe é dado expressar
ou traduzir essa mesma opinião.

Com o pretexto de dirigir e concertar as diversas correntes de opinião na


sociedade, ela invadiu, se identificou e por fim, se atribuiu o poder, do qual
abusa, de exprimir a vontade e o pensamento do povo, que não mais foi ouvido
nem perscrutado.

É singular esse papel da imprensa!

Pelo povo, ela pensa e fala, em nome do povo pede e exige e manda, sempre
como se o povo fora, julga decide, recompensa e castiga. Exalça a seu talante,
precipita e quebra a bel-prazer, inventa, consagra, repele, comemora, faz e
desfaz reputações e intervém na administração pública, a ponto de parecer
outro poder social.

Tudo isto acobertado sempre com o manto da liberdade!

E o mísero povo atônito olha para esse monstruoso atentado, e confuso e


aturdido se retrai e esconde espavorido de tanta audácia e das terríveis
consequências que sobre ele pesa.

O espírito público amesquinhado pelo contágio de tanto vício, vai deixando de


lado sua ação, e já se mostra tomado de indiferença.

E a favor de tais elementos, a vasta corrupção de mais em mais se avigora, e o


observador desanima entristecido ante tamanha desgraça.

As máximas mais perniciosas, os conceitos os mais temerosos são postos em


valor de legítimos e irrefragáveis preceitos; ante a imprensa tudo deve ceder, a
ela todos se tem de curvar − quem não é por mim é contra mim ai do vencido!

10 DE JANEIRO DE 1899

Quos Deus nulti perdere...

229
Assim como são os homens, assim também são as Nações.

A ventura ou a desgraça é obra deles próprios, e para que se deixem transviar


no caminho dos desastres basta o primeiro erro.

Ansiado pela instrução, descuida a educação e com o desenvolvimento daquela


se deu o desequilíbrio, e daí a desorientação.

Erro consequente foi o 15 de novembro, e deste erro vieram todos os desastres


atuais.

Na marcha em que vai, a Nação tem o esfacelo por termo: poderá, ainda será
tempo de sustar seus passos?

Abyssus abyssum invocat.

A perda da educação é cada vez maior, a moral desaparece e o que é pior, cede
sua roupagem ao vício.

A confusão se estabelece, o vício e o erro são inconscientes.

A ficção do erro toma o lugar da verdade, e nem ao menos a natureza alcança


vingar os seus preceitos.

A Nação foi atirada precipite no despenhadeiro, se alguma pedra do rochedo, se


algum tronco ou raiz a detiver na queda, ela estará ainda inteira?

Quem sabe?!

12 DE JANEIRO DE 1899

É necessário conservar o sentido que realmente se dá à palavra − polí_ca -,


corrompida e falsa, para se poder falar do assunto, que não recebeu ainda outra
denominação. É curioso observar como vai o país escapando, a esgueirar-se
entre tantos e tão frequentes perigos, como se a providência o guiasse pela
mão, pois o que lhe vem sempre terminar as crises que pareciam insolúveis, é
um simples acaso.

Desde 89 a casualidade tem resolvido todas as dificuldades, de modo a


convencer os menos superficiais de que Deus não abandonou o Brasil.

Pobre Nação!

230
Infeliz povo, que tens de correr à revelia essa esquisita peregrinação a que te
condenou tua origem, tua raça, tua índole e tuas crenças!

Mas, as leis que regem a marcha do espírito humano são fatais e se hão de
cumprir cedo ou tarde.

Embora desconhecida ou oculta, em vão contrariada e combatida, muita vez na


aparência vencida ou adiada, a lei não falha e a seu tempo, ela surge vitoriosa e
tudo cai diante dela.

A revolta dividiu o país em dois campos bem distintos, pois que os (fardos) de
sangue e das mais profundas e cruéis violências e crimes, se cavaram entre eles.

Como de outras vezes, o acaso fez parar a luta de então e, por uma
surpreendente série de acasos os crimes, as violências e o sangue cessaram.

A administração do primeiro Presidente Civil, pelo acaso perdurou o quatriênio,


deixando em paz a Nação e parecendo refreados os ânimos pelos esforços e
pela crise que reclamavam esquecimento das paixões.

A pressão irresistível que o Brasil sofria ordenava toda a sorte de sacrifício e eles
se estão, como se pode e se sabe, a fazer: os partidos, os dois elementos que
combateram em adversos campos na revolta se retraíram ante tamanha
pressão e assim recebeu o país o segundo Presidente Civil.

Neste momento, começa a política a dar os seus frutos usuais − a polí_ca em


uso, essa intriga ou chicana a que se chama política.

Observemos um pouco os fatos curiosos que estão passando, e deixemos seu


estudo para mais tarde.

13 DE JANEIRO DE 1899

A adulação com esperança nas boas graças do poder armou um nicho de flores
e adornos de valor no qual meteu o novo Presidente da República a reclamar
aos quatro ventos a adoração do povo para ele.

Enquanto isso as dificuldades econômicas do país o punham nas mais tristes


circunstâncias e sem escrúpulos se ocultava cuidadosamente esses transes.

É para ver o descaso e a prosápia com que a imprensa fala da meticulosa


dignidade da República brasileira, na sua grandiosa pujança e no nobre orgulho
com que ela se assenta ao lado das grandes nações do mundo!
231
O governo tem os seus homens, os seus afeiçoados, os seus partidários e não
indaga de onde nem como vieram; fora desta gente, há os que fazem a guerra
ao governo, os que trabalham para derribá-lo, a oposição composta dos
desiludidos, dos descontentes, dos pretendentes e candidatos, sem que se lhes
pergunte por que e para que fazem oposição.

Estes dois grupos incertos, indistintos, mal delineados, formam o Partido da


República que impõe esta nova forma de governo ao Brasil, quase sem ele o
saber.

Começaram a se formar desde o Governo Provisório.

Sem nomes, sem classificação, sem fins outros além do interesse e vanglórias
pessoais, viveram em lutos, mais ou menos desabridas e violentas, até o
segundo período da última administração.

A força das circunstâncias mais do que a vontade ou plano político, começou


uma tal ou qual discriminação entre os dois grupos, parecendo perceber-se
leves lineamentos de partidos em organização.

O espírito público mostrou-se contente por esse sucesso e queria antever a


formação de partidos que serviriam de base às ideias ou programas políticos.

Mas a nova administração tem deixado ver a futilidade deste pensamento, na


atualidade.

A luta começou a arrefecer e hoje está quase extinta; a oposição retraiu-se e os


governistas se encolheram; neutralidade simpática ou expectativa suspeita, o
combate cessou: − governo de Otomanos, a quem caberá o lenço?

No entanto passa o Sultão poderoso, caminho da Mesquita, e lá do erguido


minarete chama o muezzin o povo à oração.

Allah, bis-millah.

16 DE JANEIRO DE 1899 −... O POVO BESTIALIZADO

Na população há duas secções de homens: a que dirige, e a que se deixa dirigir.

– Dirigir, é um modo de dizer, que melhor se expressaria com a palavra


governar.

232
Esta divisão desde o princípio das nações tem sempre subsistido e parece causa
fatal a todas as sociedades humanas.

A primeira secção a que chamam classe dirigente é suposta formar-se do saber,


da ilustração, do mérito em suma, é a mais adiantada da população.

A segunda compõe-se da classe proletária, lavradores, operários, artistas, do


chamado povo, em resumo.

Duas novas classes trouxeram-nos a força das necessidades sociais o comércio e


a Armada ou força militar.

Bem conhecida é a organização das sociedades modernas quanto ao emprego


destes elementos, seus serviçais e o papel que representam.

01 DE JULHO DE 1899

A medida que o tempo corre vão se acentuando as provas das asseverações por
mim feitas outrora.

Não que isto venha aumentar o meu desgosto, mas sinto aquela tristeza
resignada que inunda a alma dos descrentes no futuro.

Pobre Nação! Um dia ou outro mas, bem tarde e longe devias, é certo, sofrer
esse golpe que agora te ameaça de perto.

As grandes regiões de que és formada haviam de separar-se mais cedo ou mais


tarde; porém tal se faria pela evolução natural, com o desenvolvimento regular
de cada uma, com a marcha normal do espírito humano, e assim, manso e sem
violência e sem os empuxões que arriscam parti-la.

Entretanto, foi dado aquele primeiro passo, errado ou não, mas em todo o caso
fatal, origem da desorganização e da ruína já agora inevitáveis.

Quando de súbito, sem se medir o alcance que em uma certa sociedade pode
ocasionar, se lança em execução uma mudança tão radical, como a de
novembro de 89, é seguro ver a sociedade desequilibrada em suas forças, e
esfacelada em seus elementos enfraquecidos e separados.

Não é pois de estranhar o espetáculo que nos apresenta o país atualmente, e


debalde será o cansaço em busca de algum recurso para salvá-lo do desmem-
bramento em que já se precipitou.

233
26 DE JULHO DE 1899

Para quem escrevo?

Não sei, nem me importa saber.

Escrevo porque sinto necessidade de o fazer, porque me não basta a conversa,


porque tenho uma dívida a pagar e creio que nunca pagarei.

Assim como eu encontro nas narrações dos antigos um prazer imenso quando
leio as suas confidências, as suas notas históricas, quando posso encontrar esses
apontamentos nos quais se vê a alma nua e franca do escritor: assim me parece
que alguém achará nesses escritos que deixo, alguma satisfação ainda que
pequena.

E isto me basta.

Ainda não é propícia a ocasião para tal empresa, confesso-o; mas, correndo o
tempo, mais que eu quisera, e vendo que se vem aproximando o termo desta
peregrinação, não quero deixar este meu intento para quando já o não possa
levar a efeito.

Assim, aproveitarei de alguns momentos que me deixam livres os meus


serviços, e na leitura e nesta escrita, buscarei lenitivo para as dores e tristezas
que me sobrecarregam o cansado espírito já tão conturbado de aflições sem
conta.

27 DE JULHO DE 1899

Bem me lembro ainda.

No dia 15 de novembro de 1889, nos achávamos em sessão na Assembleia


Legislativa Provincial, que eu presidia como 1° Vice-Presidente. Falava o
monótono e interminável Afonso Livramento − aos membros distraídos e que
não lhe não prestavam a mínima atenção. Vi chegar o Vilella ou (não me
lembro) um telegrama que logo foi mostrado a Elyseu e que me vieram trazer:
era passado a casa Hackradt e dizia – “No government, no Exchange”.

Um certo pânico se estendeu pela sala e Livramento, ficando de pé, calou-se.

234
Várias conjecturas se iam fazendo sobre o que teria havido no Rio, e entretanto
foi enviado um deputado para pedir as informações ao Presidente da
Província Dr. Oliveira Bello.

Havendo pensado um pouco, chamei o contínuo e disse-lhe que fosse ao


armarinho e comprasse dois metros de fita larga tricolor e me trouxesse.
Perguntando-me o segundo secretário por que a queria, lhe respondi – “tenho
de colocá-la a tiracolo para anunciar à Assembleia a proclamação da República,
porque o Brasil é agora republicano.”

E suspendi a sessão por algum tempo, convidando o Livramento a sentar-se e


lhe conservando a palavra. Então alguns deputados saíram a colher informações
e não voltaram − Um quarto de hora passada reabri a sessão,
continuando Livramento a falar agora sobre o incidente do telegrama e em
poucas palavras, sem saber do que dizia sentando-se por fim − suspendi de todo
a sessão.

27 DE JULHO DE 1899

Quando a justiça de Deus, tarda

... vem em caminho.

A tirania rejubilava e não escondia o seu poder despótico.

As turbas aplaudiam o tirano e seguiam o seu triunfo entoando os hinos


sagrados, e obedeciam cegas a vontade do déspota.

E por todo o país assim se fez, porque em todo o país venceu o despotismo e a
tirania.

De atordoamento em atordoamento, o povo movia-se aos empurrões das


classes dirigentes, desvairadas e sem orientação, que as paixões arrastavam.

Nos festejos da vitória, os asseclas da tirania repartiam os despojos e


(adormeciam) no fausto e nas grandezas do esnob, ao que chamavam a sua
felicidade.

Aí dormem, esses felizes.

Procuremo-los.

235
Um, pouco depois de deixar o poder, sentindo a morte pousar-lhe o dedo na
fronte desfigurada, bradou “que infelicidade!” -

Lamentando ainda o quanto de mal podia fazer antes de descansar.

Outro, ferido no único combate em que entrou, morreu sem que ainda se saiba
onde para seu corpo.

Outro, foi achado morto em uma casa de moralidade − suspeita.

A outro, quando abria a boca para alguma imprecação, uma bala inimiga atirou
na noite da morte.

Floriano foi enterrado três vezes.

Moreira César ferido em Canudos sumiu-se.

Bellerophonte achado morto em casa de mulher suspeita.

Mariano morto com bala de jagunço na boca.

Vilas-Boas escapando de ser degolado e perseguido por Floriano, aí anda (se


ainda vive) na pobreza e em cancróide nos lábios.

Henrique Abreu condenado aos transes do cardíaco.

Aguiar (Major) morto nas torturas do remorso.

Há dez anos que o nosso país entrou francamente em uma crise prevista e
inevitável pelo qual vai atravessando em marcha incerta e sem plano, não sendo
possível ainda hoje determinar que modo de solução acabará este período.

Isso porém somente enquanto baste para apreciar e julgar os interesses


especiais de nossa Província, cuja existência se prende tanto ainda às forças
gerais da Nação, não se tendo desenvolvido sua vida própria.

08 DE JULHO DE 1900

A extinção da raça negra no Brasil, onde a escravidão mais se derramou e mais


tempo se conservou, está se realizando por meio de fusão.

236
Seguro e eficaz, ainda que um tanto demorado, é este o meio mais natural, e
não fora a forte proporção dos negros em relação aos brancos, seria o mais
desejável.

Os direitos civis que a libertação doou aos negros, a sede dos seus respectivos
gozos acendida ainda na condição de escravo, lançou-os na sociedade brasileira
sôfregos de tudo.

Verdade é que a emancipação moral já vinha de longa data se preparando com


o cruzamento desde muito cedo iniciado.

E bem sensível era sempre o melhoramento da raça tanto física quanto


moralmente.

Quando foi decretada a libertação dos escravos, apontados eram os poucos


africanos, − e destes mesmos já a progênia divergia pelos cruzamentos com os
nascidos no Brasil − já então pesava na sociedade brasileira esse elemento
esquisito do mestiço.

A emancipação era uma necessidade imprescindível, ante o rápido crescimento


no seio da sociedade desse elemento que de todos os lados e por todas as
formas surgia e medrava.

Foi pois a raça negra lançada no seu destino, sem que houvessem precisão de
iluminá-la deportando-a, nem isolando-a na segregação social.

Os africanos eram já velhos e seus vícios e trabalhos, os consumir os seus


descendentes, conquanto da mesma raça eram já nascidos e vivendo no seio da
civilização de mui diversa condição.

Nestes últimos consideraremos duas classes: a massa bruta e composta dos


trabalhadores conservados sobre o jugo e desprezo da sociedade, e a dos de
mais elevados cruzamento de origem mais remota e que mais se havia
entranhado na civilização.

Ora a emancipação lançou no trabalho brutal a primeira dessas classes,


figurando ela quase como companheira da igual classe de europeus.

A segunda lançou-se no meio da sociedade a princípio em desordem, depois


com a filância e pretensões que lhes dava o talento e aptidões devidas ao
cruzamento de raça, que sem a menor dúvida melhora a espécie.

237
Foi com efeito depois de feita a emancipação e sobretudo, depois da República,
que a sociedade brasileira se viu assoberbada pelo elemento cruzado ou
mestiço.

Esta influência é bem sensível na capital e nas regiões do norte e para o centro,
sendo mais isentos dela o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

As aptidões e talentos desse elemento já tão demonstrado para as artes


desenvolveu-se pelo entrecruzamento e no domínio das letras e da ciência
vieram figurar seus representantes.

Não é portanto de estranhar que, ao lado desse apreciável desenvolvimento


intelectual se manifestassem as paixões, os vícios e todas as vaidades sociais.

O que hoje é uma curiosidade às vezes impertinente, vai desaparecendo dia a


dia com a perda da cor.

20 DE JULHO DE 1900

A noite vai calma, serena e escura.

No silêncio que nos envolve, apenas se ouvem longínquas e amortecidas as


notas de um piano descuidoso a soarem não sei o quê.

RIO, 26 DE AGOSTO DE 1900

Já o tenho repetido: a instrução deve correr paralelo com a educação − sobre


pena de desastre.

Nestes últimos tempos a instrução tomando o freio nos dentes, disparou,


deixando a educação a perder de vista, e as consequências fatais são a anarquia
e seus crimes.

A humanidade, em toda a plenitude da civilização moderna, está mostrando,


nos males que a torturam, o efeito do desequilíbrio dessas duas correntes.

As guerras da Espanha com a América do Norte, da Inglaterra no sul da África, e


da Europa na China, em inteiro desacordo com os princípios estudados e pre-
gados, fazem clamar contra o progresso e o seu desenvolvimento.

Os crimes atrozes do anarquismo tão espalhados hoje, estão alarmando os


povos e os seus governos, sem achar os meios de sustar sua propagação.
238
A fatalidade porém, das leis naturais estabelecidas pela vontade suprema não
pode deixar em falso, e o efeito há de seguir-se à causa infalivelmente.

Dado o desequilíbrio da instrução e da educação, com o desmedido progredir


daquela, forçosamente têm os povos de sofrer as desgraças que lhe são
consequentes...

Tomai o filho de um carpinteiro, e ensinai-lhe, não os rudimentos de ciências e


artes aplicáveis à sua profissão, mas as orações, e rasgos de eloquência da
demagogia, e incuti-lhe as naturais ambições dos gozos, da fortuna, da riqueza e
da posição, e fazei-o iniciar-se nos fulgores do socialismo: ele, ou vos sai um
tribuno popular, embriagado em suas vanglórias, ou se transforma em sombrio
e calmo regicida.

Tomai agora uma Nação.

27 DE AGOSTO DE 1900

Assim como os usos e costumes dos povos lhes dão um caráter especial e
distintivo, assim os seus prejuízos e crenças imprimem nas sociedades uma
feição característica. Curioso é o que se está passando no Brasil, país
relativamente novo, como todos da América.

Na população brasileira havia as duas classes, já mal distintas, da nobreza e do


povo, tão mesclados pelas circunstâncias da colonização e das novas condições
de vida. O elemento escravo, de raça africana, vinha formar a grossa massa do
trabalho, quase besta de carga, pela sua ignorância e estado selvagem. Sobre
tão heterogêneos elementos, o clero não descuidava seu trabalho de infiltrar
em todas as camadas sociais, com as luzes da religião a sua influência. − Aos
poucos, novos elementos vieram juntar-se àquela população: os estrangeiros de
toda a parte eram lançados e absorvidos no Brasil, nova e fácil pátria comum.

Fácil pois, é de calcular aonde chegaria o desenvolvimento de um tal povo, uma


vez dado o impulso do progresso no país.

A escravidão foi extinta, entrando para o seio da sociedade toda essa classe,
como quer que se achava.

A imigração, parcial e em grossa, de toda Europa, com a naturalização


engrossou a massa social.

239
O desaparecimento das classes pela sua confusão foi fatal e completa,
arrastando no torvelinho até o clero.

Sem ideia, sem plano, sem cálculo, sem nenhuma orientação, todos esses
elementos juntos operaram suas naturais reações, um sobre outro, constituindo
o misto inexplicável que ora se observa, e cujas consequências ainda são um
mistério.

Observada esta nação na atualidade, ressalta a convicção de que ainda nada


está feito, nem ainda é formada a sociedade, com os seus princípios e fins
imprescindíveis para a organização de um país civilizado. − vasto demais e sem
laços de união outros que não sejam os da língua, o fracionamento parece
inevitável.

O interesse apenas do comércio entretendo essa ligação fictícia e repulsiva, na


realidade.

Se a monarquia não tinha forças para embaraçar a marcha lenta dos


acontecimentos e deixava que seguissem sua marcha natural, a República vindo
de surpresa e com a espada, precipitou o curso dos fatos, lançando o país no
triste estado em que se acha e o qual em vão se pretenderia arrancá-lo, porque
este passo era fatal.

Para estabelecer a forma republicana de governo, foi necessário apelar para


todas as paixões e aceitar o auxílio de todos interesses e ambições, de onde
quer que viessem, e de qualquer feição que tivessem.

Da ação cooperativa desses elementos disparatados, e do choque de tão


extraordinários interesses foi formado o núcleo do novo governo da nação,
estupefato, ante tal mudança; e à medida que a ousadia se assenhoreava de
tudo, a estupefação do povo passava à indiferença completa e passiva.

Então dividiu-se a população só em duas classes, mas agora com outro caráter e
sem fixidez alguma os que mandam e os que obedecem.

Os princípios democráticos absolutamente desconhecidos pelo povo, de origem


monarquista, na qual fora educado, lhe foram com falsidade apresentados e os
maiores absurdos puderam correr impunemente.

A liberdade, só a gozava uma classe, tocando à outra a servidão. A igualdade só


atingia a primeira contentando-se a outra com a paciente resignação.

A fraternidade não saía das raias da filosofia, onde era contida.

240
Com talento e entusiasmo, eram apresentadas as mais belas teorias, e uma vez
aceitas, o sofisma e a falsidade as desmentiam na prática.

A República foi feita com flores e cânticos de alegria, e logo rios de sangue
jorraram em quase todo o país, aos ais e gemidos dos vitimados.

A população inteira do Brasil ansiava pela República, e dez anos depois de ela
feita, ainda se cuida com atroz rigor em consolidá-la no país.

A República vinha rasgar novos horizontes à fortuna pública, e recebendo da


Monarquia o câmbio acima do par fê-la descer a sete e o conserva a nove, sob a
eminência da bancarrota.

O governo do povo pelo povo, trazia a abastança, o bem-estar, a tranquilidade,


e depois de dez anos, vive o povo quase na miséria, acabrunhado de impostos
pesados, e sempre agitado e inquieto pelas agitações, pelos crimes e fraudes.

Nestes dez anos de República, o senso moral do povo caiu sobremaneira


chegando a desaparecer na indiferença de uma, e mascarando-se ridiculamente
na outra das duas classes.

Nesta última, a dos detentores do poder, misto incompreensível de indivíduos


de todo o caráter e natureza, a mentira, até a desfaçatez é a grande arma em
uso para conservar em comum esse acervo de interesses e ambições
desorientadas. Nada mais repulsivo e triste do que a observação de perto dessa
falsificação nojenta.

A verdade, o bem, e a justiça são nominais; os fins justificam os meios, e assim


correm vigorando todas as máximas e preceitos do egoísmo e dos vícios e das
paixões mais reprovadas.

Para realização de tais máximas indispensável era o auxílio da imprensa, e fácil


foi achá-lo, movendo-lhe o interesse; e tanto se entregou a imprensa a
semelhantes práticas que por sua própria conta e vantagem se tornou o árbitro
poderoso da situação.

Esse emprego da mentira, reclamado pelas necessidades da vida se tornou tão


geral vício, que todos os ramos da atividade humana foram por ele invadidas − e
a sua prática fez-se natural e inconscientemente.

Ficou assim reinando a mentira.

E tal é a audácia com que se apresenta a mentira nessa classe distinta que a
outra classe se resigna a crer, ou fingir que a crê, por não sofrer.
241
O engano, o dolo, a falsidade, a fraude, a ilusão, o fingimento, isto é, a mentira
em todas as suas fases e aspectos, em todos os gêneros e assuntos e tempos é a
base e o traço de união que liga essa classe da sociedade.

Triste do povo que em cujo seio se desenvolve tão perigoso mal!

Os mais nobres e puros sentimentos, as crenças mais sãs, as intenções mais


dignas e justas se veem quebrar e repelir de encontro à mentira.

E ante aquela máscara da falsidade a própria virtude se esconde. − E é


necessária muita força de vontade para se não deixar arrastar pela torrente do
vício que tudo assola.

A corrupção se tem estendido de camada em camada da população com rapidez


de assustar e mal se pode calcular onde ela irá parar com os meios de difusão
oferecidos hoje pelo progresso.

12 DE SETEMBRO DE 1900

A antiga Província de Santa Catarina com os seus limites ao norte o Rio Negro e
o Iguaçu, a oeste com a República Argentina pelas missões e a sul, pelo Mam-
pituba tem bastante terreno e estaria em condição topográfica de constituir
uma Suíça brasileira.

E nem pareça que sua posição marítima fosse um obstáculo a essa ideia; com
efeito a grande extensão de suas costas, suas ilhas, e seus portos, mais
favoreceriam um tal futuro.

Tempos serenos da imprensa!

Lia Quintanilha o Despertador quando entrava Anastácio − e levanta-se e


estende-lhe o jornal: “Já li de ontem; está escrito das quatro bandas, não?.”

05 DE OUTUBRO DE 1900

Finalmente, aí está a cena que aqui vim presenciar: o desmoronamento geral da


Nação sem esperança de salvação.

A grande e opulenta Nação da América do Sul, de raça latina e origem


portuguesa, pertence hoje à história do passado; página brilhante de um povo
que apenas formado, já ombreava com as velhas sociedades do antigo
242
continente, prometia com mais esplêndido futuro enchendo de orgulho seus
filhos e de inveja seus êmulos.

Uma fatal loucura tomou-a de assalto e vai precipitando esta pobre Nação,
rapidamente na triste anarquia que a vai dividir em pequenas frações.

Os sintomas de anarquia já começaram a desmoronar da Nação; e bem tristes


são os espetáculos que oferecem a Capital e os grandes centros de povoação.

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BIOGRAFIA
Duarte Paranhos Schutel nasceu em Florianópolis, em 8 de junho de 1837.
Faleceu na mesma cidade, no dia 6 de outubro de 1901.

Filho de Henrique Ambauer Schutel e de Maria da Glória Paranhos. Casou com


Felisberta de Andrada e Almada Schutel, filha de Eliseu Félix Pitangueira e de
Felisberta Sérvula de Andrada e Almada.

Formado em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1861.

Foi tenente-cirurgião do 1º Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional do Desterro,


em 17 de março de 1865, e capitão cirurgião-mor do Comando Superior da
Guarda Nacional do Desterro, em 26 de setembro de 1867.

Foi deputado à Assembleia Legislativa Provincial de Santa Catarina na 15ª


legislatura (1864 — 1865), na 16ª legislatura (1866 — 1867), como suplente
convocado, na 17ª legislatura (1868 — 1869), na 23ª legislatura (1880 — 1881),
e na 27ª legislatura (1888 — 1889).

Foi deputado à Assembléia Geral do Império na 19ª legislatura, de 1885 a 1886.

Foi vice-presidente da província de Santa Catarina, nomeado em 1878.

Dirigiu o jornal "A Regeneração", do Desterro.

É patrono da cadeira 7 da Academia Catarinense de Letras.

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