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TÓPICOS DO EDITAL – DIREITO EMPRESARIAL

Doutrina básica – André Santa Cruz Ramos

1. Empresa e empresário. Estabelecimento empresarial.

A empresa pode ser explorada por pessoa física ou jurídica. No primeiro caso, o exercente é
chamado empresário individual. No segundo, sociedade empresária. Os sócios não devem ser chamados
de empresários, pois quem explora a atividade empresarial é a pessoa jurídica. A empresa é, assim, o
empresário e a sociedade empresária.
Entretanto, a pessoa física é ainda o centro da normatização relativa à atividade empresarial.

É correto chamar de sociedade empresária e não sociedade empresarial (que seria uma sociedade de
empresários).

As sociedades limitadas se prestam mais a atividades de pequeno a médio porte, criadas por contrato
social. A S.A. é criada por estatuto e voltada para atividades de grande porte.

Capital social é a contribuição de cada sócio para a formação da empresa. Patrimônio é tudo o que
eventualmente a sociedade adquira. A integralização do capital social confere ao subscritor quotas (ltda) ou
ações (S/A- acionistas), que passam a lhe pertencer, e não à empresa; quanto às dívidas dos sócios/acionistas,
podem se excutir a participação que as quotas/ações lhes conferem; para dívidas da empresa, responde o
patrimônio dela, mas não as quotas/ações.

CONCEITO DE EMPRESÁRIO: Art. 966 do Código Civil: “considera-se empresário quem exerce
profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços”.

A atividade econômica deve ser explorada com habitualidade. Quem o faz esporadicamente não pode
ser considerado empresário.

O intuito de lucro deve estar presente. Significa, também, que o empresário desempenha a atividade
assumindo os riscos técnicos e econômicos do negócio.

A expressão organizada remete à ideia de articulação dos fatores de produção: mão-de-obra, capital,
tecnologia e matéria-prima. Há certa relativização da necessidade de articulação de todos os fatores de
produção nos dias atuais; temos o micro-empresário, que sozinho ou quase sozinho articula a atividade, o
empresário virtual, etc.

Produção ou circulação de bens ou serviços é o que denota a contraposição à antiga teoria dos atos do
comércio, já que cuidou de incluir no conceito os serviços. Assim, a priori nenhuma atividade desenvolvida nos
moldes acima será descaracterizada para fins de empresa. Há de se esclarecer, ainda, que essa produção deve
ser para comercialização, mercado, não para si próprio.

Empresário é a pessoa física ou jurídica (a empresa). Nesta, os sócios não são empresários, já que
empresária é a própria sociedade. Assim, pode-se dizer que expressão empresário designa um gênero, do qual
são espécies o empresário individual (pessoa física) e a sociedade empresária (pessoa jurídica). (CAIU NA ÚLTIMA
PROVA DO TJPR, 2014).

A grande diferença entre o empresário individual e a sociedade empresária é que o empresário


responde direta e ilimitadamente pelas dívidas da atividade, pois o seu patrimônio não difere do da sociedade
(com notas para as exceções sobre a EIRELI), enquanto na sociedade empresária os sócios, ou têm
responsabilidade subsidiária (quando seus bens somente poderão ser executados após os da empresa), ou tem
responsabilidade limitada, a depender do tipo societário adotado (sociedade limitada e anônima, por exemplo),
o que implica que os bens pessoais dos sócios, via de regra, não serão atingidos, a menos que haja presença dos
requisitos para a desconsideração da personalidade jurídica (notando que essa responsabilidade afetará apenas
os administradores).

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EIRELI

Quanto ao instituto da EIRELI, Santa Cruz tece críticas, afirmando que o legislador deveria ter criado
duas figuras: o empresário individual de responsabilidade limitada e a sociedade unipessoal limitada. Tratar a
figura como empresa denotou uma impropriedade técnica, pois empresa é a atividade econômica organizada e
empresário a pessoa que desenvolve essa atividade econômica organizada.

É um novo ente, sui generis, um ente jurídico personificado que não é considerado sociedade. É uma
nova espécie de pessoa jurídica de direito privado. A crítica é de ser desnecessária a criação dessa nova pessoa
jurídica na lei. Se a intenção era limitar a responsabilidade do empresário individual, isso seria feito coma
permissão de afetação de um patrimônio e limitação da sua responsabilidade; se a intenção era permitir uma
sociedade de uma pessoa, bastaria criar uma sociedade unipessoal.

Exige-se para sua formação capital mínimo de 100 salários mínimos, questão está impugnada perante o
STF, já que para nenhuma sociedade há esta exigência no Brasil.

A EIRELI somente poderá ser constituída por pessoa física, e apenas uma por pessoa. Doutrinariamente
critica-se a vedação por ausência de fundamento, de razão. Penso diferente. Se é empresa ‘individual’, aceitar
outra sociedade empresária como fundante é contrassenso, pois inexoravelmente uma coletividade faria parte
dela. E apenas uma por pessoa entendo não ter, mesmo, fundamento. Prevalece o entendimento de que apenas
pessoa natural pode constituir ERELI, vedada, portanto, a criação por pessoa jurídica.

Pode ela utilizar tanto a firma como denominação como nome empresarial.

O veto do artigo 980-A, § 4º: tal dispositivo estava assim redigido: Somente o patrimônio social da
empresa responderá pelas dívidas da empresa individual de responsabilidade limitada, não se confundindo em
qualquer situação com o patrimônio da pessoa natural que a constitui, conforme descrito em sua declaração
anual de bens entregue ao órgão competente.

A razão do veto é que a expressão “em qualquer situação” poderia ensejar divergência quanto à
aplicação ou não do instituto da desconsideração da personalidade jurídica. Mesmo diante do veto, a
responsabilidade deve mesmo ser encarada como limitada; seja em virtude do próprio nome do instituto (de
responsabilidade limitada), seja em virtude das razões de sua criação. Neste sentido, já há enunciado da V
Jornada de DC (470). (caiu na fase oral se SP).

Agentes econômicos não enquadrados no conceito de empresa

A adoção da teoria da empresa, como critério de incidência do direito empresarial, pôs fim ao
tratamento não-isonômico determinado pela antiga ordem, na qual alguns agentes, conquanto desenvolvessem
atividades econômicas organizadas, não eram abrangidos pelo direito comercial, como os prestadores de
serviço e negociadores imobiliários.

No entanto, embora aprioristicamente não se exclua nenhuma atividade do conceito de empresa, o


próprio legislador explicitou que alguns agentes econômicos, embora exerçam atividade econômica, nãos são
empresários, assim como algumas atividades econômicas também não são consideradas empresa.

Basicamente o profissional intelectual, sociedades simples, exercente de atividade rural e cooperativas.

Os profissionais intelectuais – atividade intelectual de natureza artística, cientifica ou literária, ainda que
desenvolvida com auxílio de terceiros.

A exceção da exceção: se esta atividade constituir elemento de empresa.

Se exercem a atividade intelectual com primazia, de modo a deixar em segundo plano, de menor
importância, a organização dos fatores de produção, não será o profissional intelectual (ou liberal), considerado
empresário. Se, por outro lado, passa a articular sua atividade de maneira empresarial, ‘despessoalizando’ a

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atividade, passa a ser considerado empresário. A atividade intelectual, nesse caso, é absorvida pela atividade
empresarial, como apenas mais um fator de organização. A figura pessoal do profissional passa ser indiferente;
não havendo um na categoria, outro atenderá, o que descaracteriza o intuito personae imanente à

Segundo Asquini, quando o profissional intelectual passa a organizar o empreendimento de tal forma a
tornar a atividade intelectual de segunda importância, está caracterizada a atividade empresarial.

Afirma-se que atualmente a exceção é regra, ou seja, na maioria das vezes, há atividade empresarial na
prestação da atividade intelectual.

Se não caracterizada a atividade empresarial: conquanto estejam dispensados estes profissionais de


registro na JC, devem ter registro perante os órgãos de classe, órgãos regulamentadores, como OAB, CFM, etc.
O STF, em alguns casos, entendeu de maneira razoável a inexigibilidade deste vínculo, como no caso dos músicos
(que não precisam estar filiados na ordem dos músicos para desenvolver a profissão; e dos jornalistas, para os
quais até o diploma foi dispensado). Entretanto, nos próprios julgados o STF sinaliza que algumas profissões,
pelo risco, ou por sua importância, exigem que os profissionais sejam filiados aos órgãos regulamentadores,
como é o caso da OAB; não há, assim, orientação pela total liberdade da atividade profissional. Perfilho do
entendimento, pois há necessidade de se precaver a sociedade do exercício desmedido, desbalizado e
inconsequente de algumas profissões. Atualmente a formação de profissionais (ou pseudo-profissionais) é em
massa, o que implica na necessidade de manterem-se ativos mecanismos que possibilitem, ao menos em tese
(como o caso do OAB), algum tipo de controle. O correto, todavia, seria empregar esforços para melhoria da
qualidade das instituições de ensino, priorizando formação decente e não meros números; incentivar inúmeras
pessoas a cursarem cursos superiores, nos quais a qualidade de ensino é duvidosa, é realmente ter de controlar
a atividade profissional posteriormente, o que é medida burocrática e que trava o desenvolvimento econômico
sadio de um país.

As sociedades simples – a sociedade não empresária. Sociedade de profissionais intelectuais (sociedade


de médicos, professores, advogados, etc), sociedades uniprofissionais.

Antes eram chamadas de sociedades civis.

O que define é o objeto social e o conceito é por exclusão. Sociedade empresária é a que desenvolve
atividade econômica organizada, enquanto sociedades simples são as demais. Duas exceções: sociedades
anônimas são sempre empresárias e cooperativas sempre simples.

Novamente, a presença da organização dos fatores de produção pode enquadrar a sociedade de


profissionais como empresária.

Sociedade de advogados – sem menção expressa no CC, é tratada no Estatuto da OAB como sociedade
civil de prestação de serviços de advocacia. Sociedade simples, na dicção do CC.

Levando à risca o que dispõe o CC, sociedade de advogados em que haja organização dos fatores de
produção deve ser considerada empresária. Inclusive o STF lhes conferiu esse tratamento para fins fiscais. No
entanto, ainda prevalece o que dispunha o estatuto da OAB.

O exercente de atividade econômica rural e a sociedade rural – facultou o CC o registro na JC. Não se
registrando, não será considerado empresário para nenhum efeito. Registrando-se, passa a ser considerado
empresário para todos os fins.

Logo, esse registro tem natureza constitutiva, já que é somente a partir dele que nasce o tratamento
jurídico de empresário ao exercente de atividade rural. Isso denota que o registro não é requisito para que
alguém seja considerado empresário, mas sim uma obrigação legal para regularidade (note-se que, embora não
registrado, o empresário praticando atividade empresarial terá as obrigações daí decorrentes. É empresário,
ainda que sem registro, para fins fiscais, por exemplo).

Cooperativas – em regra é a atividade desempenhada que define a natureza de empresária ou não; este
é o critério material. Entretanto, quanto às cooperativas o critério que a define como sociedade simples é legal;

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independente de exercer atividade empresarial, será sempre simples. E tal imposição decorre de opção política
do legislador.

EMPRESÁRIO INDIVIDUAL

Empresário é a pessoa física que exerce pessoalmente e profissionalmente atividade econômica


organizada para a produção e circulação de bens e serviços. Podem ser empresários os que estiverem em pleno
gozo da capacidade civil e não forem legalmente impedidos.

Quanto aos impedimentos legais, no CC pode-se mencionar apenas o art. 1.011, § 1, o qual prevê que
“não podem ser administradores, além das pessoas impedidas por lei especial, os condenados à pena que vede,
ainda que temporariamente, o acesso a cargos públicos; ou por crime falimentar, de prevaricação, peita ou
suborno, concussão, peculato; ou contra a economia popular, contra o sistema financeiro nacional, contra as
normas de defesa da concorrência, contra as relações de consumo, a fé pública ou a propriedade, enquanto
perdurarem os efeitos da condenação”. Afora isso, as regras de impedimento estão espalhadas pela legislação.

Os impedimentos são previstos em normas de ordem pública e visam resguardar a sociedade, evitando
que as pessoas negociem com quem não é idôneo para a atividade empresarial, vindo possivelmente a serem
lesadas. Vale acrescentar que tais impedimentos para exercer pessoalmente a empresa não se aplicam para que
os impedidos sejam sócios de sociedade empresária, desde que de responsabilidade limitada e não exerçam
função de gerência ou administração.

Exemplo de impedimento é o que recai sobre servidores públicos, magistrados, membros do MP,
militares, etc.

Outras vezes o impedimento decorre da natureza da atividade, como a que envolve lavra de recursos
minerais (concessão da União somente a brasileiro ou empresa nacional), empresa jornalística (somente pode
ser de propriedade de brasileiro nato ou naturalizado há mais de 10 anos, ou PJ do Brasil, constituída de acordo
com as normas daqui).

As obrigações contraídas por empresário impedido não serão nulas, protegendo-se o interesse de
terceiros de boa-fé.

Já a incapacidade pode limitar o exercício de atividade empresarial, como regra. Mas há exceções.
Importante, primeiro, frisar que não há impedimento para o incapaz ser sócio em sociedade empresária e, ainda,
que as exceções só abrangem a situação de o incapaz continuar a exercer atividade empresarial, nunca de inicia-
la.

São as hipóteses de incapacidade superveniente do empresário individual e a sucessão causa mortis da


atividade pelo incapaz.

A autorização virá do Juiz, em procedimento de jurisdição voluntária, ouvido o MP. O Magistrado


considerará a conveniência da continuidade da atividade pelo incapaz e os riscos da empresa. Por alvará, o
incapaz continua empresário, por intermédio de representante ou assistente; no caso de impedimento do
representante ou assistente, nomear-se-á um ou mais gerentes.

Importante regra diz que no alvará constarão os bens que o incapaz já possuía por ocasião da sucessão
ou interdição, sendo que tais não responderão pelos resultados da empresa. Isso implica em grande diferença
entre o empresário individual, que não tem bens destacados para a atividade, sendo seu patrimônio e o da
atividade único; já o empresário incapaz terá essa benesse, de os bens que já possuía serem destacados,
diferenciados com os da atividade; há, assim, limitação de responsabilidade ao empresário individual incapaz.
Isso porque, sendo incapaz, há maior preocupação com que mantenha um mínimo de patrimônio, garantindo-
lhe dignidade (Fachin – teoria do patrimônio mínimo).

Difere a hipótese em comento da situação de um menor, com 16 anos ou mais, emancipado. Nesse caso
ele tem capacidade e não depende de autorização judicial para desempenhar a atividade.

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Discutia-se se o menor emancipado poderia ser empresário por não poder responder criminalmente
por crimes falimentares. Entende-se, todavia, que o sistema de falência aplica-se apenas aqueles que
desempenhem atividade há mais de 2 anos; logo, se com 16 anos inicia a atividade, o regime de falência aplica-
se apenas depois que já houver completado os 18 anos, tornando irrelevante a discussão.

Já para o incapaz ser sócio de sociedade empresária, não há dependência de autorização judicial. Ele
apenas não poderá desempenhar atividade de gerência, o capital social deverá estar integralmente
integralizado e que ele esteja assistido ou representado.

Quanto ao empresário casado, pode alienar e gravar de ônus bens da atividade, sem necessidade de
outorga do cônjuge. No entanto, para afetação desses bens à atividade é necessário que o cônjuge tenha
anuído. Separações e divórcios e o que se relacionar aos bens são averbados na JC.

O registro do empresário

O registro junto à JC não é condição para caracterização do empresário ou sociedade empresária, mas
requisito de regularidade. Antes de iniciara as atividades deve ocorrer o registro, sob pena de exercer a atividade
de forma irregular.

Mas a ausência do registro não descaracteriza a atividade como sendo empresária, e, bem por isso, há
submissão da empresa irregular às regras jurídicas atinentes, com algumas limitações (como a impossibilidade
de pedir recuperação).

O registro também é exigido para as filiais, para as secundárias. Filial é a que atua sob direção de outra
empresa, mas tem personalidade jurídica própria. Agência é uma prestadora de serviço como intermediária.
Sucursal é ponto de negócio distinto do principal, responsável por tratar de negócios do principal e a ele
subordinado.

O domicílio do empresário é aquele indicado no ato constitutivo perante a JC. Entretanto, pode ser
demandando no local da agência ou estabelecimento em que se praticou do ato (STF, CC e enunciado).

A Lei de Registros Públicos de Empresas Mercantis: Lei 8934/94: estabelece que a finalidade do registro
é dar garantia, publicidade, autenticidade, segurança e eficácia aos atos jurídicos das empresas; assim como
cadastrar e manter atualizados dados sobre as empresas e matricular os agentes auxiliares do comércio.

O sistema que regula o registro é o SINREM, composto pelo DNRC e JC’s.

O DNRC é órgão central do SINREM com função supervisora, coordenadora, orientadora e normativa e
as JC com funções executivas e de administração dos serviços de registro (responsáveis pela execução e
administração dos atos de registro).

As JC’s fazem parte da estrutura administrativa dos Estados membros, mas no plano técnico se
submetem às diretrizes do DNARC. Há, portanto, subordinação híbrida, ora aos Estados ora ao DNARC, que é
nacional. Assim, entende o STJ haver uma divisão de competência para apreciar ações contra a JC: para assuntos
administrativos é competente a justiça estadual. Para assuntos técnicos, do registro em si, a justiça federal é a
competente (porque nesse caso ela segue as normas do DNARC, órgão federal).

Para o STJ, se estão sendo discutidas questões particulares, ainda que envolva o registro, competente é
a justiça estadual.

Os atos de registro das JCs

São: matricula, arquivamento e autenticação.

Matrícula: ato de registro de auxiliares do comércio. Leiloeiros, tradutores, trapicheiros,


administradores de armazém.

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Arquivamento: atos constitutivos de sociedades empresárias e empresário individual. Toda constituição,
alteração, extinção e dissolução e outros atos que dizem respeito às empresas devem ser arquivadas na JC.
Quanto às cooperativas, conquanto sejam sociedades simples pelo critério legal determinado pelo CC,
registram-se perante a JC.

Autenticação: ato de registro da escrituração do empresário (livros). Requisito extrínseco de


regularidade da escrituração.

A estrutura das juntas: presidência, plenário, turmas, secretaria geral e procuradoria. Os vogais são os
que compõe as turmas e o plenário. São nomeados pelo Governador para mandatos de 4 anos, com suplentes.
Cada turma 03 vogais. Presidente e vice não participam das turmas. A secretaria-geral conta com um secretário,
nomeado em comissão pelo Governador, sendo especialista em direito comercial. Procuradoria é composta por
um ou mais procuradores. Procurador chefe nomeado pelo Governador; atua interna e externamente no
interesse da JC.

Ato levado a registro dentro de 30 dias de sua prática tem efeitos ex tunc. Se depois, ex nunc.

O presidente, os vogais ou até mesmo outros servidores podem tomar decisões. Estas, entretanto,
podem exigir manifestação específica. Decisões colegiadas são exigidas para registro de atos das SA's, fusão,
transformação, cisão ou incorporação de empresas.

O prazo para decisão: decisão colegiada – 5 dias úteis. Decisões singulares – 2 dias úteis.

A análise da JC deve ser formal, limitando-se a conferência de preenchimento dos requisitos legais. Nada
que a lei não exija poderá ser cobrado pela JC. Vícios sanáveis geram devolução para diligências.

As decisões das JCs são recorríveis, embora sem efeito suspensivo:

- pedido de reconsideração: cabe no prazo da diligência. O prazo de resposta é de 3 ou 5 dias úteis


(singular/colegiada).

- recurso ao plenário: no prazo de 10 dias úteis e cabe das decisões singulares ou das turmas e é decido
em 30 dias úteis do recebimento da peça, com oitiva da procuradoria em 10 dias.

- recurso ao Ministro de Estado do Desenvolvimento, Industria e Comércio Exterior: no prazo de 10 dias


úteis, cabível contra decisões do plenário e última instância na JC.

O acesso à informações sobre os assentamentos nas juntas é livre a qualquer um, sem necessidade de
justificação do interesse, mediante pagamento do valor respectivo da certidão. Isso decorre da própria função
da JC, que é dar publicidade aos atos das empresas.

Escrituração do empresário

A escrituração é relativa à contabilidade do empresário. Deve ele manter sistema de escrituração


contábil periódico, além de realizar anualmente dois balanços financeiros: o patrimonial e de resultados
econômicos. De tamanha importância a escrituração que é crime falimentar a escrituração irregular, no caso de
falência; ainda, são considerados documentos públicos, para fins penais, os livros.

Livros, fichas soltas ou contínuas, microfichas, etc. tudo serve para escriturar.

A escrituração deve ficar a cargo de contabilista, salvo se não existir na localidade.

O livro obrigatório comum a todo tipo de empresário é o livro diário, que pode ser substituído por
sistema de fichas caso seja mecanizada a escrituração.

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Os demais livros são facultativos, inclusive o caixa. Outros podem ser exigidos por legislação fiscal,
trabalhista, previdenciária, mas estes não podem ser considerados empresários, pois somente os exigidos por
legislação empresarial é que são livros empresariais.

Alguns livros são exigidos de alguns empresários em específico. P.ex.: os que emitem duplicatas devem
manter livro de duplicatas; atas de assembleia e transferência de ações para S/As, etc.

Há dispensa de escrituração e balanços ao pequeno empresário. Ocorre que pequeno empresário era
conceito sem definição, já que apenas microempresário e empresário de pequeno porte eram conhecidos na
legislação. A doutrina considerava, então, que tal conceito era abrangente, englobava ambos. No entanto, a LC
123/06 veio esclarecer que pequeno empresário é o caracterizado como microempresa e que aufira até 60 mil
anuais. Neste aspecto há crítica doutrinária, na medida em que a própria CF traz comando de tratamento
diferenciado para ME e EPP, indistintamente, tendo a lei criado diferenciação benéfica somente para o
microempresário que se enquadre como pequeno empresário.

Sigilo na escrituração -via de regra são sigilosas as informações dos livros empresariais. Uma ressalva
feita pelo CC é quanto aos atos de fiscalização fazendária, caso em que o exame deve se ater ao objeto de
fiscalização.

Por determinação judicial pode se transpor a sigilosidade: na liquidação, na sucessão por morte do
empresário e nos casos legais. A exibição pode ser total ou parcial, aquela apenas em casos previstos em lei.

Segundo o CC, Art. 1.191, “o juiz só poderá autorizar a exibição integral dos livros e papéis de
escrituração quando necessária para resolver questões relativas a sucessão, comunhão ou sociedade,
administração ou gestão à conta de outrem, ou em caso de falência”.

Nas S/As a exibição total pode ocorrer por requerimento de 5% do capital social, no caso de violação de
estatuto ou lei ou graves irregularidades levadas a cabo pelo órgão da companhia.

Exibição parcial pode até mesmo de ofício.

Devem ser mantidos os livros em arquivo enquanto durar o prazo de prescrição dos atos ali constantes.
Eles têm força probante contra o seu produtor, admitindo prova em contrário por todos os meios. Contra o
empresário, portanto, a força probante opera-se independentemente de estarem regularmente ou não
escriturados. Já se estiverem regularmente escriturados, podem fazer prova a favor do empresário. (lembrar
que requisito extrínseco de regularidade é termo de abertura e encerramento e autenticação na JC).

NOME EMPRESARIAL

Nome empresarial é a expressão que identifica o empresário ou sociedade empresária nos atos que
praticam. É direito personalíssimo.

Tão importante que é, que em havendo alteração devem ser renovados os instrumentos de procuração
aos mandatários, segundo o STJ.

O nome empresarial cumpre duas importantes funções, uma de ordem subjetiva, que é identificar
aquele que desempenha a atividade, e de ordem objetiva, que é lhe garantir fama, renome, reputação.

Não se confunde o nome empresarial com o título de estabelecimento, nome fantasia (como se fosse o
apelido da pessoa natural), insígnia, etc. Não há proteção especifica para o título de estabelecimento,
resolvendo-se os casos pela regra geral do ato ilícito no CC; penalmente, é crime de concorrência desleal. A
ideia, então, é incluir o título de estabelecimento no nome empresarial (como elemento fantasia), para alcançar
a proteção.

Nome de domínio é o endereço eletrônico, site.

Há duas espécies de nome empresarial: firma e denominação.

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- Firma: sempre constituída por nome civil do empresário (prenome e sobrenome) ou de um ou mais
sócios no caso de sociedade. Pode vir acompanhada de designação da atividade {o que faz a sociedade}.
Empresário individual somente opera sob firma. A firma destina-se, ainda, precipuamente para a sociedade de
pessoas (em que há reunião pelos atributos pessoais dos sócios, não somente pelo capital). Serve de assinatura.
Os prenomes podem vir abreviados, mas os sobrenomes, também obrigatórios, não. Serve e pode para:
empresário individual, sociedade em nome coletivo, sociedade em comandita simples. Sociedade limitada e
comandita por ações podem também.

- Denominação: somente social, somente para sociedade empresária. Formada por qualquer expressão
linguística (elemento fantasia - por alguns chamada), seguida do ramo de atividade. Para firma de capital; de
responsabilidade limitada. Não serve de assinatura. Serve para: sociedade anônima (e para ela só pode isso) e
cooperativa; opcionalmente sociedade limitada e em comandita por ações (já que podem elas adotarem firma).

A firma indica o exercente da atividade e serve de assinatura do empresário ou sociedade. Denominação


não. Assim, o empresário individual deve assinar a firma e não seu nome civil (J Silva serviços de informática e
não João da Silva). É como se a firma tivesse a função de ‘nome civil’ do empresário ou sociedade empresária.
Na denominação, o administrador deve assinar seu nome civil nos negócios que firmar em nome da sociedade.

Nome empresarial das sociedades - A depender do tipo societário adotado, deverá ser adotado um tipo
de nome empresarial.

- Sociedade limitada: pode adotar firma ou denominação, integrada da palavra final limitada (para
indicar a responsabilidade). A firma será composta do nome de um ou alguns sócios, desde que pessoas físicas.
No caso de denominação, a expressão linguística deverá necessariamente designar o objeto da sociedade,
sendo permitido figurar o nome de um ou mais sócios ou apenas uma expressão linguística qualquer. Não deve
ser omitida expressão limitada, sob pena de responsabilidade ilimitada dos administradores que assim se
omitirem. Se indicar apenas o nome de um ou alguns dos sócios, deve seguir da expressão companhia também.
A expressão companhia, em qualquer caso que não seja na S.A. pode ser substituída por correspondente, como
‘e irmãos’, ‘e filhos’…

- Sociedades em que há sócios com responsabilidade ilimitada: como a em nome coletivo, somente
operam sob firma, podendo figurar somente nome deles e a expressão ‘companhia’. Ficam solidária e
ilimitadamente responsáveis os sócios que figurarem no nome. E só pode sob firma justamente para identificar
os responsáveis.

- Sociedade Anônima: opera sob denominação designativa do objeto social, integrada pela expressão
“sociedade anônima” ou “companhia” (que não pode ver no final da denominação, apenas no começo) (ex.:
Aba Alimentos S/A ou Cia Aba de Alimentos). Excepcionalmente poderá constar nome de sócio fundador,
acionista ou pessoa que haja concorrido apara o bom êxito da empresa, como forma de homenagear tais
pessoas. Trata-se de empresa de capitais, não havendo justificativa para figurar nome de sócios acionistas afora
a exceção elencada; daí decorre, também, a expressão anônima (não identificação dos acionistas).

- Sociedade em comandita por ações: como regra adota firma, mas pode adotar denominação
designativa do seu objeto social seguida da expressão “comandita por ações”.

- Sociedade em conta de participação NÃO pode ter nome (nem firma nem denominação), diante
da ausência de personalidade jurídica.
Empresários individuais e sociedades empresárias que se enquadrem como ME ou EPP devem trazer tal
expressão atrelada ao nome.

Quanto à sociedade simples, é consenso que pode utilizar tanto a firma quanto a denominação,
conquanto refira-se o artigo 997 do CC apenas a denominação.

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Princípios que norteiam o nome empresarial - O princípio da veracidade determina que apenas
informações verdadeiras figurem no nome empresarial, visando conferir maior segurança nas relações de
terceiros com o empresário ou sociedade empresária. Decorre dele a necessidade de alteração do nome no
caso de exclusão, retirada ou falecimento de sócio que figure no nome. Ainda, a expressão limitada deve vir
mencionada nas relações da limitada, sob pena de responsabilização solidária e ilimitada do administrador que
assim se omitir. Também indica que enquanto não alterado o nome empresarial, continua responsável
ilimitadamente o sócio retirante ou espólio de sócio falecido no caso de responsabilidade ilimitada da sociedade.

Já o princípio da novidade impede a coexistência de nomes idênticos ou muito semelhantes, caso em


que o segundo a se registrar precisa adotar designação que o distinga claramente. A proteção decorrente desse
princípio se inicia automaticamente a partir do registro e é restrita ao território da JC em que foi registrado.

Anteriormente ao CC a jurisprudência entendia como sendo de 10 anos o prazo para reclamar proteção
quanto ao nome (inclusive de abstenção do uso); o atual CC deixou de prever prazo, estipulando que a qualquer
tempo cabe ação do interessado para anular inscrição de nome empresarial feto com violação da lei ou contrato
(art.1.176), nisso incluído a vedação da duplicidade. Isso porque o nome empresarial é direito da personalidade
e, por tal razão, lhe é inerente a imprescritibilidade.

Reza o artigo 1164, CC não ser alienável o nome empresarial. Logicamente que em se tratando de firma,
não pode ser transferido mesmo em trespasse, pois feriria o princípio da veracidade. Já no que diz respeito à
denominação, no trespasse é possível a transferência, já que tal nome integra o próprio estabelecimento (ex.:
pensar no caso de venda de carrinho de cachorro quente: se empresário individual – João dos Santos hot dog –
não pode vender tal nome, devendo ser extirpado o nome de João para melhor refletir a veracidade. Já se for
uma sociedade limitada e o nome hot dog delícia, por exemplo, transfere normalmente); é o que preconiza o
parágrafo único: o adquirente de estabelecimento, por ato entre vivos, pode, se o contrato o permitir, usar o
nome do alienante, precedido do seu próprio, com a qualificação de sucessor (ex.: Noel dos Anjos sucessor de
João dos Santos equipamentos de informática). Neste ínterim, há crítica severa da doutrina quanto à vedação
do artigo 1164.

A proteção do nome empresarial em outra unidade da federação decorre automaticamente da abertura


de filial registrada ou arquivamento de pedido especifico, instruído com certidão da JC de origem.

Se o empresário modificar seu nome civil, o deve fazer também quanto ao nome empresarial.

“Grupo” é uma expressão correlata às S/A (ex.: um grupo da C&A).

Empresas binacionais: EBBA ou EBAB (Ex.: empresa binacional brasileiro-argentina).

As sociedades estrangeiras autorizadas a funcionar no Brasil podem acrescer à sua denominação ‘para
o Brasil’ ou ‘do Brasil’ (ex.: Bayer do Brasil; CK para o Brasil).

Se estiverem em liquidação as sociedades deverão acrescer ao nome a expressão “em liquidação”.

Homógrafas – mesma grafia. Homófonas – mesma pronúncia. Critérios utilizados para definir se são ou
não idênticos ou muito semelhantes os nomes.

O uso de letras ou conjunto de letras, somente goza de proteção se forem uma sigla (ex.: LZK).

Expressões fantasia incomuns podem ser causadoras de colidência entre nomes empresariais se
contenham fortes condicionantes. Ex.: Rei do Mate e King of Tea.

No caso ‘Odebrecht’ o STJ entendeu não haver colidência a deflagrar a proteção pela anterioridade. As
duas empresas estão localizadas em Estados diferentes (BA e PR) e, ademais, os nomes são compostos dos
sobrenomes dos sócios e também de designação da atividade, o que afasta a confusão para os usuários. Não há
necessidade de autorização de homônimos para formação do nome. Ademais, mesmo a marca não confere
proteção absoluta, mas apenas para o determinado ramo da atividade (uma é empreiteira, outra cafeeira).

Se há expressão comum, mas seguida da designação da atividade, não há que se falar em colidência
para o STJ.

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O nome empresarial não pode violar marca também.

ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL

A visão corriqueira que se tem sobre o tema é de que estabelecimento empresarial é o local onde o
empresário desenvolve a atividade. Entretanto, o conceito é mais amplo, podendo ser definido como o
complexo de bens, materiais (mobília, maquinário, etc) e imateriais (patente, marca, nome empresarial),
empregados pelo empresário no desenvolvimento de sua atividade (art.1142, CC).

O local da atividade – o ponto de negócio – é um dos elementos do estabelecimento, mas não o único.

Necessário, também, não confundir o estabelecimento com o patrimônio do empresário ou sociedade


empresária. O patrimônio engloba o estabelecimento, mas não é somente dele composto; é que patrimônio é
integrado por todos os bens do empresário enquanto apenas aqueles organizados para a prática da atividade
empresária são considerados como integrantes do estabelecimento (este pode ser visto como um ‘patrimônio
de afetação’).

Dentre as teorias surgidas para explicar a natureza jurídica do estabelecimento, duas tem relevância
para o direito pátrio, as chamadas teorias universalistas.

A primeira considera o estabelecimento como uma universalidade de direito e a segunda como


universalidade de fato.

Universalidade é o conjunto de elementos que, reunidos, permitem serem concebidos como uma coisa
única, unitária, algo novo e distinto que não representa mera junção dos componentes integrantes (ex.:
estrutura de um chuveiro, uma arvore de natal).

Na universalidade de direito o que une os elementos é a determinação legal (espólio, massa falida, etc).
Já na universalidade de fato é um ato de vontade que une os componentes (ex.: uma biblioteca, rebanho). A
doutrina majoritária brasileira segue a doutrina italiana e considera o estabelecimento como universalidade de
fato (é o empresário que emprega a necessidade dos bens para a atividade, reunindo-os). E o CC reforça a ideia.

Uma distinção importante, ainda, pertine aos contratos, créditos e dívidas, que compõe o patrimônio,
mas não o estabelecimento (dado ser conjunto de bens organizados para a atividade).

O contrato de trespasse

O artigo 1143 do CC está a permitir que o estabelecimento seja objeto de negociação como um todo
unitário, uma universalidade de fato. Já o artigo 90, parágrafo único, CC permite a negociação singular.

O que interessa, por ora, é o trespasse, ou transferência do estabelecimento; trespasse.

O artigo 1.144 do CC preconiza que o efeito quanto a terceiros, de qualquer negociação envolvendo o
estabelecimento, só tem validade após a averbação na margem do registro da empresa na JC e publicação na
imprensa oficial.

Ao empresário devem restar bens suficientes para pagamento de suas dívidas ou o trespasse somente
terá validade se houver concordância dos seus credores (expressa ou tacitamente (que ocorre após 30 dias de
serem notificados).

Acrescente-se, neste particular, que o trespasse irregular pode constituir em ato de falência, ensejando
pedido e decretação da quebra.

A negociação unitária do estabelecimento (trespasse) conta com efeitos no que toca à sucessão
empresarial (art.1146, CC).

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Quanto às dividas, o adquirente responde pelas que estiverem regularmente contabilizadas. O alienante
continua solidariamente responsável pelo prazo de 01 ano a contar da publicação do trespasse, se vencidas as
dívidas, ou do vencimento, se vincendas.

E o adquirente responde justamente pela contabilização, cuja informação deveria ter obtido através de
due diligence (medidas investigatórias sobre a situação econômica do empresário alienante e dos bens eu
compõe o seu estabelecimento empresarial).

Este raciocínio aplica-se às dívidas negociais (tais como empréstimos, fornecedores, etc). Dívidas
trabalhistas e tributárias não se incluem aqui, já que possuem efeitos jurídicos próprios, decorrentes de lei
específica.

Segundo o enunciado 33 da CJF o que o art.1146, CC somente tem cabimento quando da transmissão
da funcionalidade do estabelecimento.

Na nova sistemática de falência há previsão legal de que o adquirente do estabelecimento nesta


condição recebe-o livre de qualquer ônus, negocial, fiscal, trabalhista (art.142, Lei 11101/05). Tal inserção no
ordenamento deu-se em virtude do princípio da conservação da empresa (continua gerando renda, empregos,
mantem-se os fornecedores, etc); tronou mais atrativo a aquisição do estabelecimento.

A cláusula de não concorrência (ou não restabelecimento ou interdição de concorrência): o emblemático


caso da Companhia de Tecidos Juta Vs. Conde Álvares Penteado e Companhia Paulista de Aniagem – O STF, em
1914, decidiu que a cláusula de não concorrência não pode ser presumida, sob pena de malferir a livre
concorrência. NO ENTANTO, a firme jurisprudência que se seguiu foi em sentido CONTRÁRIO. Calcada na boa-
fé objetiva, que gera a legítima expectativa de o adquirente ‘herdar’ a clientela do estabelecimento adquirido,
o reestabelecimento somente era admitido se expressamente pactuado.

Seguindo e consolidando este entendimento, o CC/02 previu que, ausente cláusula que permita o
restabelecimento, este somente pode ocorrer após 05 anos. Isso para evitar o ‘desvio’ de clientela em
detrimento do adquirente.

O prazo de 05 anos pode ser alterado pelas partes, mas se previsto a maior, pode ser judicialmente
revisto, se abusivo.

Quanto a questão do âmbito territorial de aplicação da cláusula, melhor solução somente é alcançada
casuisticamente. De acordo com as circunstâncias do caso concreto é que pode o Julgador estabelecer se há,
ou não, malferimento da vedação, entendendo que há, de fato, concorrência entre o alienante e o adquirente.
Neste aspecto, o elemento teleológico (a finalidade da norma) é de extrema relevância.

O CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica tem seu próprio entendimento acerca do tema.
Conquanto para o direito empresarial seja absolutamente justificável a cláusula de não concorrência, a
autoridade antitruste citada a vê com bastante cautela, por prever óbice à concorrência entre agentes
econômicos. Segundo ele, a cláusula de não concorrência somente é válida se: for medida auxiliar do negócio
principal (acessoriedade); sirva de garantia de viabilidade negocial (instrumentalidade) e submeta-se a
parâmetros mínimos fixados pelo Conselho, notadamente relacionados ao limite material, territorial e temporal
da cláusula.

Doutrinariamente, entretanto, vê-se como indevida a atuação do CADE. Aparentemente o órgão está
resolvendo uma questão de tensão entre princípios da autonomia da vontade e livre concorrência, este último,
constitucional e que fundamenta a ordem econômica, que deflagra a atuação (interferência) estatal para sua
observância (através do CADE). Apenas se admite que tal interferência ocorra se efetivamente a operação puder
causar danos (efetivos ou potenciais) à livre concorrência. Caso contrário, há indevida intromissão do Estado na
esfera privada, o que, aliás, sequer coaduna com o princípio da livre concorrência (se é livre, não deve ter
amarras, ainda mais estatais).

No que tange à sub-rogação do adquirente nos contratos, o artigo 1148 do CC dispõe: “salvo disposição
em contrário, a transferência importa a sub-rogação do adquirente nos contratos estipulados para exploração
do estabelecimento, se não tiverem caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em noventa dias
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a contar da publicação da transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, nesse caso, a responsabilidade do
alienante”.

Quanto ao contrato de aluguel, há necessidade de se verificar a jurisprudência do PR, primeiro.


Doutrinariamente, entende-se que o contrato de locação tem caráter pessoal, portanto, deve o locador
anteriormente concordar para que haja a sub-rogação.

Quanto aos créditos, o ativo também é assumido pelo adquirente. Se pagarem, de boa-fé, ao antigo
proprietário, ficarão exonerados da responsabilidade, que passa a ser do alienante.

Proteção ao ponto de negócio – locação empresarial

Local físico ou virtual de desempenho da atividade. Tamanha importância que alcança que o
ordenamento lhe confere peculiar tratamento, em especial quanto ao alugado.

A proteção, em especial, se dá pela possibilidade de manutenção do contrato mesmo sem a vontade do


locador: é o direito à renovação compulsória. As razões da existência do instituto derivam de todo investimento
do empresário para galgar fiel clientela ao ponto de negócio; dele decorre o direito a inerência ao ponto.

A Lei nº 8.245/91 elenca, entretanto, requisitos condicionantes ao direito da renovação compulsória:

- O contrato a renovar deve ser escrito e com prazo determinado (requisito formal).

- O prazo mínimo deve ser de ao menos 5 anos ininterruptos, admitida soma de contratos (requisito
temporal). Ao sucessor ou cessionário estende-se o benefício.

- O locatário esteja explorando a mesma atividade há pelo menos 3 anos (requisito material).

O somatório dos requisitos indica que o empresário agregou valor ao ponto, transformando-o em
atrativo para clientela.

O prazo da ação renovatória: no máximo 01 ano e no mínimo 06 meses antes do término do contrato.
(nos seis primeiros meses do último ano do contrato). Assim, 1 ano antes do encerramento do contrato o
locatário deve iniciar as tratativas com o locador, a fim de renovar o contrato; não sendo frutífera a tentativa,
poderá ser valer da ação renovatória.

Trata-se de direito potestativo, com prazo decadencial, portanto.

Segundo o STJ o contrato será renovado pelo mesmo período do contrato anterior, e não pode
ultrapassar a 05 anos.

Tal direito, ao de renovação compulsória, entretanto, não é absoluto, sob pena de, com instituto
previsto em lei ordinária, ferir-se preceito constitucional de direito à propriedade. Bem por isso que a própria
lei de locações prevê defesa oponível ao direito da renovação; são as hipóteses de retomada, caso em que a o
direito à propriedade prevalecerá frente ao direito inerência ao ponto de negócio.

São cinco hipóteses que, acolhidas, determinarão a improcedência da ação renovatória e a


determinação de desocupação do imóvel (segundo o STJ, até seis meses o prazo).

- Proposta insuficiente para a renovação: aferida em função do valor real do imóvel. O locatário poderá
ofertar cobrir a proposta feita pelo locador. Eventuais benfeitorias feitas pelo locatário serão consideradas na
fixação do valor, sem que importe em enriquecimento ilícito, na medida em que se incorporam ao valor do bem.

- Proposta melhor de terceiro: provada documentalmente (documento assinado pelo proponente e duas
testemunhas), facultado ao locatário a aceitação das condições para alcançar a renovação. A hipótese não é
atrativa ao locador, pois nesse caso deve indenizar o locatário pelas despesas com mudança, desvalorização do
estabelecimento, perda do lugar.

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- Para reformas: sejam as determinadas pelo Poder Público, sejam as que importem em acréscimo do
valor do negócio ou imóvel.

- Necessidade do imóvel para uso próprio E necessidade do imóvel para transferência de estabelecimento
empresarial existente há mais de um ano, cuja maioria do capital social seja sua, de seu cônjuge, ascendente ou
descendente: neste último caso não pode o locado explorar o mesmo ramo, salvo se a locação era gerencial (do
próprio estabelecimento). Se for explorara a mesma atividade, deverá indenizar o locatário pela perda do ponto.

Nos casos de reforma e retomada para uso próprio ou de estabelecimento seu ou de parentes, o locador
tem 3 meses para dar a destinação ao imóvel, sob pena de indenizar o locatário por prejuízos e lucros cessantes.
Igual dever existirá no caso de destinação diversa da usada para retomada.

O contrato no caso de shopping center tem natureza atípica mista (segundo o STJ, já que não há
pagamento de valor fixo, mas de porcentagem sobre as vendas, havendo locação de bens e serviços).
Comumente há cláusula de fiscalização das contas do lojista, que não pode embaraçar sua atividade. Conquanto
seja admitida a ação renovatória, não cabe exceção com fundamento na necessidade para uso próprio ou de
transferência de estabelecimento.

A denominada cláusula de raio impõe ao lojista não se instalar em outro shopping concorrente durante
a vigência do negócio. Admitida pelos Tribunais pátrios, mas analisada com mais cuidado pelo CADE, que já
chegou entende-la abusiva, por vedar a livre concorrência. Doutrinariamente entende-se ilegítima a atuação do
CADE, devendo prevalecer a autonomia da vontade das partes.

Aviamento e clientela

Aviamento é a aptidão que um determinado estabelecimento possui de gerar lucros ao exercente da


empresa. Trata-se de uma qualidade, atributo que influi de sobremaneira na valoração econômica do
estabelecimento. Não se confunde com clientela, mas intimamente ligado a ela. Chamado também de goodwill
of a trade. O aviamento objetivo, ou real, está ligado com condições objetivas (localização do estabelecimento,
tecnologia, etc) e subjetivo tem relação com qualidades do empresário. É a organização dada ao
empreendimento, que lhe torna mais lucrativo; é o exemplo da disposição das mercadorias em um
estabelecimento, de forma a alavancar vendas, como expositores de balas, revistas, e itens desnecessários na
fila dos caixas, pois os clientes acabam adquirindo estes bens em virtude do atrativo e do tempo que
permanecem expostos à propaganda. Portanto, são formas de organizar e administrar o negócio e que o torna
potencialmente mais lucrativo.

Como é o que determina o valor do estabelecimento, este pode ser vendido por valor superior ao seu
valor patrimonial (caso da Microsoft). Mesmo uma empresa temporariamente inativa deve ser avaliada levando-
se em consideração seu potencial aviamento, segundo o STJ. A clientela é o conjunto de pessoas que mantém
com o empresário relações jurídicas constantes.

Auxiliares e colaboradores do empresário

Disciplinados sob a rubrica de prepostos pela lei. Antigamente eram utilizadas expressões como caixeiro,
trapicheiro, etc. Hoje o CC apenas trata do gerente e contabilista e refere-se genericamente a ‘outros auxiliares.

O contrato de preposição implica em poderes de representação típicos de mandato; não se admite ao


preposto a delegação de funções sem autorização do preponente, na medida em que as prerrogativas que lhe
são conferidas são pessoais e intransferíveis.

Prepostos estão proibidos de fazer concorrência ao preponente, salvo se autorizados, inclusive sob pena
de concorrência desleal.

O artigo 1.178 do CC estabelece a responsabilidade do preponente pelos atos dos prepostos praticados
no estabelecimento e relativos à atividade, ainda que não autorizados expressamente. Trata-se de aplicação da

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teoria da aparência. Se fora do estabelecimento, entretanto, somente obrigarão o preponente nos limites de
poderes conferidos por escrito.

Pelos atos danosos respondem os prepostos perante os preponentes nos casos de culpa. No caso de
dolo, respondem solidariamente perante terceiros.

O gerente é o mais importante preposto do empresário. No caso em comento, o gerente preposto, não
o gerente sócio. É certo, ainda, que algumas sociedades não dependem de gerente.

Ao gerente se atribuem funções de chefia; logo, quando a lei não exigir poderes especiais, o gerente
pode praticar todos os atos necessários ao exercício dos poderes que lhe foram outorgados (como se fosse a
teoria dos poderes implícitos para o direito administrativo e constitucional).

Eventualmente até em juízo poderão ir os gerentes, representando o preponente, para ações que
versem sobre obrigações assumidas em virtude do exercício da função gerencial.

O empresário pode limitar os poderes do gerente, e, para que a limitação produza efeitos quanto a
terceiros, eximindo o empresário de responsabilidade, deverá ter registrado o ato na JC ou provar que o terceiro
tinha conhecimento da limitação. Doutrinariamente entende-se como previsão contrária a teoria da aparência
e que pode ocasionar insegurança; melhor se a lei tivesse previsto mero direito de regresso.

2. Microempresa e Empresa de Pequeno Porte (Lei Complementar nº 48, de 10.12.84, Lei n.º 9.317, de
5.12.96, Lei n.º 9.841, de 5.10.99): a) objetivo do sistema; b) definição de microempresa e empresa de
pequeno porte; c) forma de opção pelo sistema; d) vedações à opção; e) enquadramento e
desenquadramento.
Em 1979 iniciou-se no País um processo de desburocratização tanto da Administração Pública quanto
no setor privado inclusive com a criação de um Ministério da Desburocratização. Naquela época as
microempresas não contavam com uma regulação única, sendo várias as leis esparsas a tratar do assunto sem
que, contudo, existisse um tratamento diferenciado para elas, o que as levavam a sonegar tributos e cometer
fraudes para não serem fadadas ao insucesso.

O objetivo de conferir um tratamento especial é possibilitar o franco desenvolvimento dos pequenos


empreendimetmos.

Em1984 surge, então, o primeiro Estatuto da Microempresa conferindo alguns benefícios às


microempresas. Os ideais do Estatuto foram adotados pela CF, que no seu artigo 179 prevê que os entes da
federação dispensarão às ME e EPPs tratamento jurídico diferenciado, visando o seu incentivo pela simplificação
de suas obrigações administrativas, tributárias, previdenciárias e creditícias, ou pela redução ou eliminação
destas por lei. Inclusive esse tratamento diferenciado foi encampado como princípio geral da atividade
econômica (art.170, IX).

Em 1994 editou-se a Lei 8.864/94, denominada Estatuto da Microempresa e da Empresa de Pequeno


Porte.

Em 1996 foi a vez da Lei 9317, que instituiu o SIMPLES, o recolhimento único de vários tributos, que
gerava econômica e eliminava vários entraves burocráticos.

O GMC (Grupo Mercado Comum; órgão de execução da MERCOSUL) editou a Resolução nº 59/98,
aprovando um documento intitulado Políticas de apoio às micros, pequenas e média empresas – Etapa II. As
orientações da resolução foram seguidas para a edição da Lei nº 9.841/98, que revogou as leis anteriores sobre
o tema, salvo a lei do SIMPLES, e instituiu o novo Estatuto da ME e da EPP. O Decreto 3.474/00 regulamenta a
lei.

Em 2002 o novo Código Civil trouxe no seu artigo 970 a determinação para que a lei assegure tratamento
favorecido, diferenciado e simplificado ao empresário rural e ao pequeno empresário. Sobre a disposição,
criticas doutrinárias foram tecidas, na medida em que o termo pequeno empresário não era utilizada pelas
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demais legislações (que sempre empregaram microempresa e empresa de pequeno porte) e por restringir esse
tratamento diferenciado ao pequeno empresário apenas a aspectos relacionados à sua inscrição, quando a CF
determinava amplo tratamento privilegiado (a englobar micro e pequena empresa).

Em 2003, com a edição da EC 42/03 (Reforma Tributária), definiu-se que o tratamento favorecido e
simplificado às ME e EPP seria por meio de LC a qual, enquanto não editada, manteria em vigor a Lei 9.841/99.

Em 2006 editou-se a LC 123/2006, batizada de Lei Geral das Micro e Pequenas empresas, o novo
estatuto do tema, revogando expressamente as Leis 9.317 e 9.841.

Definição de microempresa e empresa de pequeno porte

Dispõe a LC 123/06:

“Art. 3º Para os efeitos desta Lei Complementar, consideram-se microempresas ou empresas de pequeno
porte, a sociedade empresária, a sociedade simples, a empresa individual de responsabilidade limitada e o
empresário a que se refere o art. 966 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), devidamente
registrados no Registro de Empresas Mercantis ou no Registro Civil de Pessoas Jurídicas, conforme o caso, desde
que:

I - no caso da microempresa, aufira, em cada ano-calendário, receita bruta igual ou inferior a R$


360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais); e

II - no caso da empresa de pequeno porte, aufira, em cada ano-calendário, receita bruta superior a R$
360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais) e igual ou inferior a R$ 3.600.000,00 (três milhões e seiscentos mil
reais)”.

Tais valores são revisados por um Comitê Gestor (tratado no artigo 2º).

Os termos ‘pessoa jurídica e firma mercantil individual’ figuravam na lei anterior e, na novel disposição,
foram corrigidas para empresário individual, sociedade simples e sociedade empresária.

São excluídos do regime jurídico diferenciado:

“§ 4º Não poderá se beneficiar do tratamento jurídico diferenciado previsto nesta Lei Complementar,
incluído o regime de que trata o art. 12 desta Lei Complementar, para nenhum efeito legal, a pessoa jurídica:

I - de cujo capital participe outra pessoa jurídica;

II - que seja filial, sucursal, agência ou representação, no País, de pessoa jurídica com sede no exterior;

III - de cujo capital participe pessoa física que seja inscrita como empresário ou seja sócia de outra
empresa que receba tratamento jurídico diferenciado nos termos desta Lei Complementar, desde que a receita
bruta global ultrapasse o limite de que trata o inciso II do caput deste artigo;

IV - cujo titular ou sócio participe com mais de 10% (dez por cento) do capital de outra empresa não
beneficiada por esta Lei Complementar, desde que a receita bruta global ultrapasse o limite de que trata o inciso
II do caput deste artigo;

V - cujo sócio ou titular seja administrador ou equiparado de outra pessoa jurídica com fins lucrativos,
desde que a receita bruta global ultrapasse o limite de que trata o inciso II do caput deste artigo;

VI - constituída sob a forma de cooperativas, salvo as de consumo;

VII - que participe do capital de outra pessoa jurídica;

VIII - que exerça atividade de banco comercial, de investimentos e de desenvolvimento, de caixa


econômica, de sociedade de crédito, financiamento e investimento ou de crédito imobiliário, de corretora ou de
distribuidora de títulos, valores mobiliários e câmbio, de empresa de arrendamento mercantil, de seguros
privados e de capitalização ou de previdência complementar;
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IX - resultante ou remanescente de cisão ou qualquer outra forma de desmembramento de pessoa
jurídica que tenha ocorrido em um dos 5 (cinco) anos-calendário anteriores;

X - constituída sob a forma de sociedade por ações.

XI - cujos titulares ou sócios guardem, cumulativamente, com o contratante do serviço, relação de


pessoalidade, subordinação e habitualidade.”

Tais restrições são impostas para que o benefício atinja apenas e tão somente os pequenos
empreendimentos. Todas as hipóteses tratam de situações que fazem presumir um empreendimento mais
organizado, não merecedor de tratamento diferenciado. Com efeito, incidindo uma ME ou EPP em alguma das
situações será automaticamente excluída do regime diferenciado.

Enquadramento, desenquadramento e reenquadramento

Ao contrário da lei anterior, o novo regramento não debruçou-se sobre o tema.

Quanto ao enquadramento, correto é afirmar que depende de manifestação de vontade do


empreendedor. Se já operasse como ME ou EPP no regime anterior, basta simples comunicação ao órgão de
registro.

Na lei antiga, para obter o enquadramento um empreendimento em constituição, bastava que


declarasse à JC: a sua condição de ME ou EPP; que a receita bruta anual não excedia os limites legais; que não
incidia nenhuma das hipóteses de exclusão do regime. A nova lei não traz semelhante regramento, silenciando
a respeito do tema, o que leva à conclusão de ser utilizado a mesma sistemática da lei anterior.

Entendia-se, e agora também, que o registro não possui natureza constitutiva, mas meramente
declaratória. A JC não recebe pedido para enquadramento, mas mera comunicação de enquadramento; não
haverá análise dos requisitos.

Após o enquadramento deve o nome empresarial ser acrescido, obrigatoriamente das designações ME
ou EPP, sendo essa condição exclusiva para os já enquadrados.

Depois de enquadrado o empreendimento, pode ocorrer de ele se desenvolver (pois é justamente este
o objetivo do instituto) e acabar uma ME passando a EPP. Pode uma EPP, por outro lado, ter sua receita
diminuída, passando à condição de ME. Na antiga legislação era consagrada a cláusula evolutiva (seguindo a
orientação da Resolução 59/98) – desenquadramento ocorria apenas se os parâmetros fossem superados por
dois anos consecutivos.

A nova legislação traz o desenquadramento e reenquadramento automáticos. (para desenquadrar


perdendo o regime jurídico diferenciado, a exclusão somente se opera no ano calendário subsequente se o
excesso verificado à receita bruta não for superior a 20%. Caso seja superior, já no próximo mês em que foi
detectado o excesso.

O DNRC editou a Instrução Normativa 103/07, sobre o enquadramento, reenquadramento e


desenquadramento.

Pequeno empresário - antes da LC 123 a doutrina, interpretando o artigo 970 do CC, dizia que pequeno
empresário englobava tanto o ME quanto o EPP, sedimentando-se o entendimento através de um Enunciado
da CJF, eis que tal entendimento coadunava com o comando constitucional de tratamento diferenciado a estas
figuras.

Todavia, a LC solveu a dúvida tipificando como pequeno empresário aquele caracterizado como ME e
que augira renda bruta anual ínfima, não excedente a 60 mil reais. Somente, pois, o empresário individual é
abarcado pela benesse. Além das benesses do sistema, o pequeno empresário também conta com tratamento
ainda mais especial, como no caso de dispensa de qualquer obrigação escritural.

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3. Propriedade Industrial. 3.1 Patentes: a) pedido; b) concessão da patente; c) invenção; d) modelo de
utilidade; e) proteção; f) nulidades; g) cessão do pedido ou da patente; h) extinção da patente. 3.2
Marcas: a) caracterização; b) registro; c) restrições; d) proteção; e) nulidades; f) cessão e licença de uso;
g) prazo; h) extinção do registro. 3.3 Desenhos Industriais: a) titularidade e pedido de registro; b)
proteção legal; c) nulidade e extinção do registro.

É o conjunto de regras e princípios que confere tutela jurídica específica aos elementos imateriais do
estabelecimento empresarial (marcas, patentes, modelos de utilidade, desenho industrial, invenções, etc).
É espécie de direito de propriedade intelectual (que abrange o direito autoral, outros direitos imateriais
e o direito antitruste). DIREITO DE PROPRIEDADE INTELECTUAL é gênero, do qual são espécies o direito autoral
e o direito do inventor (direito de propriedade industrial). Este protege uma técnica, aquele uma obra em
específico.

O saber e a criatividade humana sempre incrementaram o desenvolvimento das sociedades, assim


como grandes conflitos. Mas a preocupação com a proteção dessas criações somente surge a partir do
momento em que o homem desenvolveu a capacidade de produção em massa; logo, após a Revolução Industrial
é que se passa a sentir essa necessidade.

A Convenção de Paris, da qual o Brasil fez parte, é um marco importante na regulação internacional do
direito à propriedade industrial.

Praticamente todas as Constituições do Brasil cuidaram de proteger o instituto. Atualmente a proteção


está insculpida no art.5º, XXIX.

Em 1994 vários acordos foram assinados no âmbito internacional, na Rodada Uruguai, que culminou
com a criação da OMC. Firmou-se o ADPCIC acordo relativo aos aspectos do direito da propriedade intelectual
relacionados com o comércio, do qual o Brasil é signatário (esse tratado continha em si previsão de postergação
de 05 anos para países em desenvolvimento, opção não feita pelo Brasil, entendendo o STJ a aplicabilidade
imediata).

Algumas críticas são feitas à propriedade intelectual (somente leitura da doutrina, não há tópico
especifico no edital).

A proteção no Brasil basicamente se constitui por:

- Concessão de patente de invenção e modelo de utilidade e registro de marca e desenho industrial.

- Repressão às falsas indicações geográficas.

- Repressão à concorrência desleal.

Afirma-se que o Brasil é um país unionista (signatário da Convenção de União de Paris).

O INPI (instituto nacional de propriedade industrial) é uma autarquia federal, vinculada ao Ministério de
Desenvolvimento, Industria e Comércio Exterior. Ele quem concede os privilégios e garantias aos inventores e
criadores em âmbito nacional. Ações contra ele são de competência da JF na sede, RJ (segundo o STJ).

A lei que regula a propriedade industrial é a Lei nº 9.279/96.

Patentes de invenção e modelo de utilidade - o instrumento que concede a patente é a carta-patente.

A lei não define o que é invenção, mas pode-se dizer que é algo original, fruto da criatividade humana.
Apenas há referência de que torna registrável uma invenção: quando atender aos requisitos de novidade,
atividade inventiva e aplicação industrial + licitude (desimpedimento). Já modelo de utilidade é o objeto de uso

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prático, ou parte deste, suscetível de aplicação industrial, que apresente nova forma ou disposição, envolvendo
ato inventivo, que resulte em melhoria funcional no seu uso ou em sua fabricação. Pode vir tratado como mini-
invenção ou pequena invenção.

Os requisitos de patenteabilidade:

- Novidade: resta atendido o requisito quando a invenção ou o modelo de utilidade ainda não
estão compreendidos no estado da técnica, ou seja, ele é desconhecido no momento até mesmo para a
comunidade científica na respectiva área de conhecimento. Deve ser diferente de tuto o que era de
conhecimento público até aquele momento.

- atividade inventiva: pressupõe atividade humana que implique numa invenção; não pode
decorrer de mera descoberta, de maneira evidente ou vulgar do estado da técnica.

- aplicação industrial: deve o invento ser útil e factível, produzido em qualquer tipo de indústria.

- licitude: desimpedimento. Não de obtém patente nas situações descritas no artigo 18, LPI. Não
se confunde com as situações do artigo 10, caso em que, a priori, sequer se considera invenção ou modelo de
utilidade. A ideia do artigo 10 traz um rol de casos que poderiam ser considerados invenção ou modelo de
utilidade, mas por razões outras, valores superiores, como moral, segurança, etc, não são patenteáveis.

A patente de remédios não era permitida antes, agora sim, a depender de anuência da ANVISA.

O procedimento de patente - O pedido é feito junto ao INPI.

A legitimidade é do autor do invento ou MU, seus herdeiros ou sucessores, cessionários, ou por aquele
à quem a lei atribuir a titularidade. Se mais de um inventor, um pode pedir, desde que nomeados e qualificados
os demais para a ressalva dos respectivos direitos.

No caso de duas pessoas realizarem o mesmo invento, tem direito a patente aquele que provar o
depósito mais antigo, independente da data da invenção ou criação (ponto em que difere do direito autoral,
que é declaratório e protege desde a criação).

No caso de inventor empregado: se foi contratado para esta atividade, a patente e os direitos são do
patrão, fazendo jus o funcionário apenas ao salário. E considera-se como ocorrida durante o contrato de
trabalho a invenção cuja patente seja requerida até um ano após o a extinção do vínculo empregatício. Mas
podem as partes dispor de maneira diversa. Pode o empregador, por negociação com o empregado, assegurar
a ele participação nos ganhos econômicos pela exploração da patente, que não se incorpora ao salário.

Se o invento não foi realizado em função do contrato de trabalho, sem utilização dos recursos da
empresa, pertencerá ao empregado.

No caso de o invento ser realizado pelo empregado, mas com uso dos recursos da empresa, será
considerado invento comum. Nesse caso, tem o empregador o prazo de 1 ano para passar a explorar a patente,
sob pena de passar exclusivamente para a propriedade do empregado. E o STJ entendeu que a remuneração a
empregado é devida ainda que a patente penda de deferimento, bastando mero depósito do pedido.

Nesses casos de co-invenção, aquele que pretender ceder seus direitos deve dar preferência aos
demais.

O procedimento de análise da patenteabilidade inicia-se com o depósito do pedido. Num exame


preliminar e formal pode ser detectada alguma falha. Serão solicitadas correções no prazo de 30 dias. Passa-se
à análise das condições do pedido. Depois, passa-se à fase de exame do pedido; nele por 18 meses se manterá
o sigilo (que se mantém no caso de interesse da defesa nacional após esse período). Depois desse prazo há uma
publicação. Pode ocorrer antecipação da publicação pelo autor do pedido (porque esse prazo é posto a sua
disposição, para que melhor se organize; se ele não necessita, pode pedir para antecipar).

Nessa fase de publicidade é que os terceiros interessados se manifestarão, para sobrestar ou se opor
ao pedido. Muitas vezes é por essa fase que o empresário prefere explorar o invento como segredo de empresa

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(o que cerra em si riscos de um terceiro chegar ao mesmo invento, patenteá-lo primeiro e, nesse caso, o
empresário terá de lhe pagar pelo uso, já que não se trata de direito autoral que protege desde a criação, mas
direito de patente, que protege do pedido, independente da data da descoberta). Logo após o requerente ou
interessado faz o pedido de exame pelo INPI (esse pedido é necessário frente à dinamicidade das invenções que
podem perder o objeto mesmo antes do registro. Assim o pedido reitera e reafirma o interesse); se não faz o
requerimento, o pedido é arquivado, cabendo desarquivamento em 60 dias.

Feito o requerimento o INPI analisa propriamente a patenteabilidade do invento, podendo fazer


exigências de adaptação.

Da decisão que deferir ou indeferir a patente não cabe recurso, o que não afasta a atuação do Poder
Judiciário, a critério do interessado.

Concedida a patente, paga a retribuição correspondente, expede-se a carta-patente.

A vigência da patente de invenção tem prazo de 20 anos e a de modelo de utilidade prazo de 15 anos,
tudo contado do depósito.

No entanto, devido ao trâmite burocrático que pode levar vários anos, a lei estabelece um prazo
mínimo: 10 anos para invenção e 07 anos para modelo de utilidade, contados da concessão. O STJ entendia que
as patentes da lei anterior tiveram o prazo majorado de 15 para 20, mas atualmente pensa diferente.

Com a patente o inventor passa a ter o direito de exploração econômica exclusiva do invento
patenteado.

Conquanto não caiba recurso da concessão da patente, é possível um pedido administrativo de


nulidade, quando concedida contrariando as disposições legais. O reconhecimento da nulidade tem efeitos ex
tunc. Se o interessado pretende a nulidade com base na alegação da propriedade da invenção, pode pedir logo
em juízo a adjudicação compulsória da patente. A nulidade administrativa pode ser realizada de ofício pelo INPI.
Em todos os casos, respeita-se o contraditório.

Judicialmente cabe a nulidade, caso em que o INPI, se não for parte, intervirá no feito como interessado.
Por isso a competência é na JF.

Pode ocorrer cessão da patente (negócio jurídico, normal, com todos os seus requisitos).

Pode haver, também, licenciamento da patente, voluntária ou compulsória.

A voluntária se dá através de contrato de licença, registrado no INPI. A contraprestação ajustada é


chamada de royalty (não cabe caso ainda seja somente um pedido de patente).

Já a licença compulsória tem previsão na Convenção União de Paris e LPI. Em alguns casos é penalidade
ao titular da patente, em outros serve para anteder a imperativos de ordem pública.

Penaliza-se quando há exercício dos direitos decorrentes da patente de forma abusiva, ou com abuso
do poder econômico, comprovada e por decisão administrativa ou judicial, ou casos de não conferir efetivo uso
da patente. Sempre respeitado um devido processo legal, com contraditório.

Licença dependência – dependência de uma patente de outa.

Art. 71, LPI: “nos casos de emergência nacional ou interesse público, declarados em ato do poder
executivo federal, desde que o titular da patente ou seu licenciado não atenda a essa necessidade, poderá ser
concedida, de oficio, licença compulsória, temporária e não exclusiva, para exploração da patente, sem prejuízo
dos direitos do respectivo titular”.

A licença será tomada de oficio pelo chefe do executivo; caberá pagamento de royaltys. São concedidas
com exclusividade, não cabendo sublicenciamento.

Patente de defesa nacional: tramita sigilosamente, sem as publicações normais, com intervenção do
órgão administrativo federal competente, estando proibido pedido de patente desse invento no exterior.

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A partir do terceiro ano do depósito da patente de invenção será paga uma retribuição anual ao INPI,
cujo valor é reduzido à metade no período de oferta pública de licença. Não pago, será arquivado o pedido ou
extinta a patente.

A extinção da patente: decurso do prazo de vigência; renúncia do titular, ressalvado direitos de terceiros;
falta de pagamento da retribuição anual; ausência de procurador devidamente qualificado e domiciliado no
Brasil, com poderes de representar administrativa e judicialmente a pessoa domiciliada no exterior titular de
patente.

Extinta, o seu objeto cai em domínio público.

Caducidade: decurso de 02 anos desde a concessão da primeira licença, sem que ela tenha sido
suficiente para prevenir ou sanar o abuso ou desuso, salvo motivos justificáveis. Respeita-se o contraditório.

Certificado de adição de invento: algo que for aperfeiçoado ou desenvolvido no invento, mesmo que
desprovido de caráter inventivo, mas se inclua no mesmo conceito inventivo da patente.

Patente pipeline – de medicamentos e alimentos, que na lei anterior não poderiam ser concedidas, mas
agora são. Quem tinha feito pedido mesmo na vigência de lei que não permitia ou no exterior, pode converter
em pipeline. A vigência é limitada ao tempo que restava no exterior e limitada também pelo prazo máximo da
nossa legislação (20 anos).

DESENHO INDUSTRIAL

A proteção advém de registo e não patente.

“Considera-se desenho industrial a forma plástica ornamental de um objeto ou o conjunto ornamental


de linhas e cores que possa ser aplicado a um produto, proporcionando resultado visual novo e original na sua
configuração externa e que possa servir de tipo de fabricação industrial”.

Diferem substancialmente das obras de arte, pois eles são providos de alguma utilidade industrial, ainda
que mínima, enquanto elas são figuras meramente estéticas ou decorativas.

São criações aplicadas a uma patente ou modelo de utilidade.

Novidade, originalidade, aplicação industrial e licitude são requisitos da registrabilidade do desenho


industrial.

As mesmas considerações quanto à novidade feitas para as patentes são repetíveis para o desenho
industrial.

Originalidade é uma configuração visual distintiva em relação a figuras anteriores.

Formas que atentem à moral e aos bons costumes ou que ofendam a honra a imagem de pessoas, ou
atentem contra liberdade de consciência, crença, culto religioso ou ideia e sentimentos dignos de respeito e
veneração não são registráveis. Também não são a forma necessária, comum ou vulgar do objeto, ou, ainda
aquela determinada essencialmente por considerações técnicas ou funcionais; isso porque uma forma imposta
por requisitos técnicos ou uma forma necessária jamais poderá ser considerada ornamental.

O procedimento de registro segue basicamente a forma de concessão de patente. Difere o prazo para
diligências, que para patente é de 30 dias e para o registro é de 05 dias.

O pedido será referente a um único objeto, permitida a pluralidade de variações, até o limite de 20,
desde que se destinem ao mesmo propósito e guardem entre si a mesma característica distintiva
preponderante. Para que os técnicos do INPI possam aferir a industriabilidade, deve o pedido representar clara
e suficientemente o objeto e suas variações.

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Difere, ainda, quanto à concessão do pleiteado, em si, já que a publicação e concessão são automáticas,
sem prévia análise de registrabilidade. O exame do mérito é eventual e diferido, só sendo realizado se o titular
ou terceiro interessado requeira.

O prazo de vigência é de 10 anos, contados do depósito, prorrogáveis por mais três períodos de 05 anos,
sucessivamente, totalizando 25 anos. O pedido de prorrogação é feito no último ano de vigência, instruído com
pagamento da retribuição, ou até 180 dias do final do registro, com retribuição adicional.

A proteção conferida ao registro é a mesma da patente.

A nulidade pode ser pleiteada perante o próprio INPI, no prazo de 05 anos da concessão. Se esse
requerimento ou a instauração de ofício se der até 60 dias após a concessão, ela suspenderá os efeitos da
concessão do registro.

Os efeitos e a ação judicial de nulidade são os mesmos relativos à patente.

A retribuição pelo registro, entretanto, é quinquenal e a sua ausência também implica na extinção do
registro.

As hipóteses de extinção são as mesmas da patente.

MARCAS

Sinais distintivos visualmente perceptíveis, não compreendidos nas proibições legais. Têm finalidade
precípua de diferenciar produtos e serviços dos concorrentes. Portanto, o conflito ocorre, justificando a
proteção, quando há concorrência entre os que se utilizam da marca. Entre uma marca e um nome de edifício,
por exemplo, já decidiu o STJ não haver conflito. Entretanto, havendo possibilidade de ocorrer confusão entre
consumidores, a proteção da marca entra em ação.

A marca deve cumprir efetivamente esse papel de distinguir os produtos ou serviços. Se a expressão for
comum, genérica, não há registro como marca. O STJ entendeu que a expressão “Brasil” é genérica e pode ser
registrada como marca inclusive por empresários do mesmo ramo que não terão proteção de marca. Expressões
com pouco originalidade ou fraco potencial criativo (marcas evocativas) ou que designem componente principal
do produto não merece proteção como marca.

Marca olfativa ou sinal sonoro não são passíveis de registro como marca, pois esta exige, segundo a lei,
ser sinal visualmente perceptível.

E se colidirem a marca e o nome empresarial? O STJ entendeu que se forem de ramos distintos de
atividade podem coexistir. Se essa coexistência for passível de causar confusão no consumidor, a anterioridade
dos registros pode ser a solução, mas há ponderação.

Para o caso de conflito entre denominação empresarial e marca:

- em princípio a denominação restringe-se ao âmbito de uma unidade da federação;

- a marca restringe a proteção a um ramo específico de atividade.

Se a denominação for registrada em todas as juntas, terá proteção nacional e a marca e denominação
causarem confusão ao consumidor, a anterioridade determinará a não registrabildiade da marca.

Espécies de marca:

- Marca de produto ou serviço: distingue produto ou serviço de outro idêntico, semelhante ou afim, de
origem diversa. É a noção geral de marca. Art.123, LPI.

- Marca certificação: atesta a qualidade de determinado produto ou serviço conforme normas técnicas
estabelecidas para institutos especializados, quer sejam de caráter governamental ou apenas credenciados
pelos órgãos oficiais competentes. (ex.: ISO9001)

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- Marca coletiva: atesta a proveniência de um produto ou serviço. Indica, por exemplo, que o produto é
originário de empresário membro de determinada associação e que seus produtos ou serviços estão em
conformidade com as regulamentações técnicas dessa entidade. (Ex.: doces colônia tal).

As marcas podem ainda ser dividas de acordo com a forma de apresentação:

- Marcas nominativas: criadas a partir de palavras e/ou números. Expressões já existentes ou criações
originais.

- Marcas figurativas: desenhos, símbolos ou figuras que apresentam configuração gráfica decorativa,
incomum, não usual.

- Marcas mistas: combinam palavras e/ou números com figuras.

- Marcas tridimensionais: novidade para o sistema. Constituída pela forma plástica do produto, sua
configuração física, com capacidade distintiva e dissociada de efeitos técnicos (ex.: vidro de perfume).

Há um procedimento para o registro da marca.

Aquele que requerer o registro deve exercer lícita e efetivamente a atividade relacionada, diretamente
ou através de empresa que controle direta ou indiretamente. Ex.: determinada S.A. quer registrar a marca de
um produto alimentício, deve comprovar que exerce a atividade de produção e comercialização desse produto.

A marca coletiva pode ser registrada por pessoa jurídica representativa da coletividade, podendo
exercer atividade distinta da de seus membros. Daí o porquê se chamar de marca de identificação indireta, pois
utilizadas não pelos requerentes do registro.

Quem utilizava a marca, de boa-fé, há pelo menos 6 meses, mas não a registrou, tem direito a
precedência, que deve ser exercido no procedimento administrativo perante o INPI, sob pena de preclusão;
logo, não cabe invocá-lo judicialmente pretendendo anulação do registro.

Depositado o pedido devidamente instruído, após exame formal preliminar se identificam as


providências pendentes para serem cumpridas em 05 dias sob pena de ser considerado inexistente o depósito.
Cumpridas as diligências o depósito é considerado realizado na data do depósito do pedido.

Após, faz-se a publicação, com a finalidade de proporcionar aos interessados o exercício do direito de
precedência. Prazo: 60 dias. Oposição deve ser provada documentalmente e pode ter fundamento no registro
da marca em outro País signatário da Convenção União de Paris.

Sem posição: prossegue fase de exame, onde podem ser formuladas exigências com prazo de 60 dias
para cumprimento. Após, decide-se pelo registro ou não.

Concessão do registro da marca - Expede-se o certificado de registro após deferido o pedido e paga a
retribuição.

Vigência -10 anos, contados da concessão, podendo ser prorrogado indefinidamente por iguais prazos,
mediante requerimento, no último ano da vigência, com pagamento de retribuição.

A proteção assegura o uso exclusivo da marca em todo o território nacional.

Territorialmente é abrangente a proteção conferida à marca; materialmente, entretanto, é restrita e se


submete ao princípio da especialidade ou especificidade (proteção restrita ao ramo de atividade em que atua o
titular).

A exceção ao princípio da especificidade está na marca de alto renome, cuja proteção é estendida a
todos os ramos de atividade.

Não há necessidade de qualquer registro para proteção da marca de alto renome. Deverá ser alegada
tal matéria incidentalmente no procedimento me que se requeira o registro de marca que conflite com uma de
alto renome, como matéria de defesa; pode ser alegado em processo administrativo de nulidade do registro da

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marca perante o INPI. Se procede: nega registro da outra marca, anula registro da outra marca e manda anotar
o alto renome no Sistema de Marcas, por 5 anos.

Tal marca de alto renome não se confunde com a marca notoriamente conhecida. Esta não depende de
registro para gozar da proteção no seu ramo de atividade, independentemente de registro. Nesse caso o INPI
pode indeferir de ofício o pedido de registro de marca que a imite ou reproduza.

O uso indevido de marca registrada desafia perdas e danos cujo prazo prescricional é de 05 anos. Para
o STJ a simples contrafação de marca já gera dano material, ainda que não comercializado o produto. Pode
desafiar, ainda, danos morais se houver prova da vulgarização da marca.

Tanto o pedido de registro quanto o registro podem ser cedidos, desde que o cedente também atenda
aos requisitos legais para concessão (ex.: não pode ceder marca para outro ramo de atividade).

Além da cessão, pode ocorrer o licenciamento do registro da marca, podendo o licenciante controlar
seu uso. Esse licenciamento deve ser averbado no INPI para ter validade. Portanto, não podem as partes
concordar em permitir o registro de marca já existente, sobretudo em virtude de proteção ao consumidor.

A declaração de nulidade tem efeitos ex tunc. Se o pedido tiver como fundamento o registro em outro
país signatário da CUP, pode o requerente, em vez de pedir anulação, requerer a adjudicação compulsória
perante o Juiz.

Judicialmente, o prazo prescricional para propor ação que vise nulidade do registro da marca é de 05
anos. Se ação tiver como réu apenas o INPI é competente a JF do RJ; se tiver outro réu, pode optar pelo domicílio
deste.

Extinção - Decurso do prazo, caducidade, não manter procurador no Brasil, renúncia. Quanto à marca
coletiva, também se extingue desaparecendo a entidade que a criou ou se desvirtuadas suas finalidades.

A caducidade pode ser pleiteada por qualquer interessado e ocorre quando, concedido o registro, 05
anos se passarem sem o início do uso da marca no Brasil, ou ficar sem uso por mais de 05 anos consecutivos ou
se ela foi utilizada com modificação que implique alteração de seu caráter distintivo original. No caso de marca
coletiva, a caducidade ocorre ainda quando ela for utilizada por uma única pessoa, pois isso desvirtua da noção
de coletiva).

A caducidade é declarada pelo INPI após regular processo administrativo, respeitado o contraditório e
ampla defesa. O ônus da prova é do titular do registro da marca e não do requerente da caducidade; o titular
deve demonstrar o uso da marca ou razões legítimas para desuso.

A declaração da caducidade não produz efeitos retroativos, sendo apenas ex nunc.

Indicações geográficas- Também estão inclusas no rol de proteção da LPI. Reprime-se a falsa
informação geográfica especialmente para proteger o consumidor de erro. Constitui indicação geográfica a
indicação de procedência ou a denominação de origem. Ex.:só pode vender um chocolate como sendo de
Gramado se ele for realmente de Gramado.

Trade dress - Tema atual do direito empresarial. É conjunto-imagem do produto. Ocorre ofensa quando
o concorrente não copia a marca ou desenho industrial do bem, mas imita sutilmente uma série de
características do produto ou o modus operandi da prestação do serviço, como combinação de cores, método
de atendimento ao cliente, exposição do produto, tudo num apelo invocativo da marca.

4. Direito Societário. Código Civil de 2002. 4.1 Sociedade empresária: a) conceito de sociedade; b) formação e
divisão do capital; c) responsabilidade dos sócios; d) personalidade jurídica; e) desconsideração da personalidade
jurídica; f) classificação das sociedades; g) constituição das sociedades.4.2 Das sociedades em espécie: a)
sociedade em comum; b) sociedade em conta de participação; c) sociedade simples; d) sociedade em nome

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coletivo; e) sociedade em comandita simples; f) sociedade limitada; g) sociedade anônima; h) sociedade em
comandita por ações.

Direito societário é voltado ao estudo das sociedades, e sociedades são pessoas jurídicas de direito
privado, decorrentes da união de pessoas com finalidades econômicas, ou seja, de exploração de atividade
econômica com repartição de lucros.

É a finalidade econômica e o intuito lucrativo que diferencia sociedade de associação.

As sociedades possuem presença mais marcante no mercado, pois há maiores possibilidades de


minimizar o risco empresarial para os sócios. O advento da EIRELI pode causar impacto neste cenário.

Mas nem toda sociedade é empresária, já que para alçar essa categoria deve organizar os fatores de
produção; ausente os requisitos, serão consideradas sociedades simples, como as sociedades uniprofissionais;
mas o mesmo raciocínio se repete: se a atividade em questão for considerada elemento de empresa, pois fica
em segundo plano diante da organização alcançada, poderá ser considerada empresária.

É a empresarialidade que determina o caráter empresarial de uma sociedade; ou seja, seu objeto social
deve ser atividade própria de empresário. Mas há exceções: são sempre empresárias, independentemente do
objeto, as sociedades anônimas, e simples as cooperativas (art.982, CC).

Segundo o artigo 983 do CC as sociedades empresárias podem adotar as seguintes formas:

- sociedade em nome coletivo.

- sociedade em comandita simples.

- sociedade limitada;

- sociedade anônima.

- sociedade em comandita por ações.

As sociedades simples podem adotar qualquer destas formas, à exceção da sociedade anônima. E pode
ser sociedade simples pura, ou simples simples, como doutrinariamente chamada, sem adoção de nenhuma
destas formas.

Algumas atividades, dada a natureza e interesse público dependerão de autorização estatal para
funcionarem (como seguros, saúde, educação, etc).

Será considerada sociedade nacional aquela que, organizada em conformidade com a lei brasileira, tiver
a sede de sua administração aqui. Não interessa a nacionalidade dos sócios nem a origem do capital.

E se for considerada sociedade estrangeira, dependerá de autorização estatal. Além disso, deve manter
constantemente representante no Brasil e antes do registro não pode iniciar as atividades. Submete-se às leis
locais quanto aos atos praticados aqui.

A sociedade entre cônjuges é admitida, desde que o regime de bens do casamento não seja a comunhão
universal nem a separação obrigatória. Art.977, CC, que sofre duras críticas doutrinárias, por partir de presunção
de fraude ao regime, transmudando-o, sendo que fraude somente se prova e não se presume. Neste aspecto,
a formação da sociedade nestes dois regimes e antes da vigência do CC 02 está na categoria de ato jurídico
perfeito, não dependendo de qualquer regulamentação, continuando hígida.

A sociedade unipessoal não é admitida como regra no Brasil. Há um único caso permitido: a subsidiária
integral – sociedade anônima que tem como único sócio uma sociedade brasileira que pode ser limitada ou
anônima. Alguns apontam para possibilidade de empresa pública unipessoal. E o contrário ocorre com os
ordenamentos jurídicos ao redor do mundo, nos quais se verifica forte tendência à admissão de sociedade
unipessoal. Ressalte-se a possibilidade de constituição de EIRELI, que é pessoa jurídica sui generis, mas não
sociedade. Ainda, casos podem ocorrer que determinem a unipessoalidade, acidental e temporária nestes casos
(180 dias o prazo de regularização, sob pena de dissolução).

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A sociedade unipessoal seria instrumento importante. Isso porque a constituição de sociedade
incrementa o empreendedorismo, pois minora os riscos empresariais, limitando a responsabilidade ao capital
investido. As mesmas ponderações já feitas quando tratada da EIRELI se repitam.

Classificação das sociedades empresárias

Levando em consideração a responsabilidade dos sócios a sociedade pode ser limitada, ilimitada ou
mista. A responsabilidade da sociedade em si é ilimitada. Na sociedade de responsabilidade limitada os sócios
respondem apenas limitadamente às cotas que integralizaram, não respondendo o patrimônio pessoal deles
pelas dívidas da sociedade. Já a ilimitada indica que os sócios respondem ilimitadamente, ou seja, esgotado o
patrimônio da sociedade, passa o patrimônio dos sócios a responder pelas dívidas daquela. Nas mistas há estas
duas espécies de responsabilidade dos sócios.

Considerando o regime de constituição e dissolução, são as sociedades contratuais ou institucionais. As


sociedades contratuais formam-se a partir de um contrato social, e a vontade das partes, ou seja, dos sócios, é
máxima, podendo eles estabelecerem livremente as relações sociais, desde que não desnaturem o tipo
societário escolhido. As sociedades institucionais têm como vínculo unindo os sócios o estatuto social, que não
cuida dos interesses particulares dos sócios, mas do interesse geral da sociedade enquanto instituição; a
autonomia de vontade, assim, é mínima, sendo a lei a fonte primária do regramento (as S.A.s são exemplos
ideais de sociedade institucional, não raro são macroempreendimentos).

Já quanto à composição, poderá ser a sociedade de pessoas ou de capital. Nas sociedades de pessoas o
affectio societatis é muito relevante, sendo o vínculo psicológico entre os sócios o mais importante; assim, a
entrada de pessoa estranha no quadro societário sempre dependerá do consentimento dos demais. Já nas
sociedades de capital a importância do sócio em si é praticamente nenhuma, importando mais a contribuição
financeira dele; assim, a admissão de sócio não depende do consentimento dos demais. Neste ponto em
questão é que surge a importantíssima e discutida penhorabilidade ou impenhorabilidade das quotas sociais
(estudadas mais adiante).

Modernamente, e com supedâneo em entendimento do STJ, não mais é possível falar que, a priori, uma
sociedade limitada seja personalista ou capitalista, nem que uma SA é sempre capitalista (não é incomum, aliás,
serem personalistas, como as fechadas constituídas por uma família). Tudo depende da análise do estatuto e
do contrato social.

Sociedades não personificadas

Nesta categoria estão as sociedades em comum e em conta de participação.

Em verdade, a opção do legislador em chamar de sociedades não personificadas traduz erro, pois
sociedade pressupõe personificação, por se tratar de espécie de pessoa jurídica. Mas ao chamar de sociedade
a intenção foi conferir um mínimo de segurança jurídica para as relações delas.

E elas podem ser civis ou empresárias.

A sociedade em comum - Tradicionalmente chamada de sociedade irregular ou sociedade de fato. Mas


para a maioria, se trata de sociedade contratual em formação (não a institucional, cuja formação está
disciplinada em estatuto próprio), o que difere da sociedade irregular ou de fato.

Sociedade de fato é a sociedade sem contrato escrito, sem nenhum indício de que os sócios estejam
tomando as providências necessárias para sua regularização. Sociedade em comum é a contratual em formação;
ou seja, há contrato em trâmite de registro, aguardando para início da exploração do objeto social. Sociedade
irregular é a com contrato escrito e registrado, já executando o objeto social, mas que apresenta superveniente

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irregularidade (ex.: não averbação de alterações do contrato social). A todas elas podem ser aplicadas as regras
da sociedade em comum.

É a sociedade que ainda não inscreveu seus atos no registro competente (junta comercial, para
empresárias; RCPJ, para simples). Art.986, CC.

E o CC cuidou de disciplinar essa sociedade em formação porque uma sociedade não nasce da noite
para o dia. O trâmite burocrático para o registro de constituição de uma sociedade pode levar algum tempo,
conquanto a sociedade em si já exista de fato, e pratique alguns atos. Assim, é possível afirmar que desde a
exteriorização dos atos tendentes à constituição do vínculo societário a lei já confere proteção.

A prova da existência da sociedade em comum vem disciplinada pelo artigo 987, CC. Os terceiros que
precisarem provar a existência da sociedade o podem fazer por qualquer meio; já se forem os sócios que
precisarem realizar essa prova, ela somente poderá ser documental.

A responsabilidade dos sócios na sociedade em comum é ilimitada, mas subsidiária, sendo ilimitada e
direta apenas do sócio que contratou em nome da sociedade. Art.990 e 1024, CC. E quando o artigo fala em
solidariedade, na verdade essa solidariedade se dá entre os sócios, porque entre a sociedade e os sócios é
subsidiária. Críticas tecem-se na doutrina, pois se não há personificação, como identificar o patrimônio da
sociedade para fazer valer a subsidiariedade da responsabilidade? O art.988, CC tenta amenizar essa regra
incoerente, estabelecendo que será considerado patrimônio da sociedade tudo o que estiver afetado ao
exercício da atividade. E o sócio que indevidamente tiver seus bens constritos pode indicar em substituição o
patrimônio da sociedade comum.

A sociedade em conta de participação - Doutrinariamente chamada de sociedade secreta; é um contrato


especial de investimento. Não tem nome empresarial e não tem personalidade jurídica, daí porquê dizer-se que
não se trata de sociedade.

Na sociedade em conta de participação há duas categorias de sócios: o sócio ostensivo e o sócio


participante, ou oculto. A sociedade só existe internamente, pois é unicamente o sócio ostensivo, sob sua
responsabilidade própria e exclusiva, a exercer o objeto social. Os demais sócios, participantes, não figuram nas
relações com terceiros, participando apenas dos resultados sociais. Se estes participantes porventura figurarem
em alguma relação com terceiros, responderão solidariamente com este.

O contrato neste tipo de sociedade pode existir e ser até mesmo verbal. Esse contrato produz efeitos
exclusivamente entre os sócios, e o seu registro não conferirá personalidade jurídica à sociedade em conta de
participação.

Usualmente são constituídas para determinado negócio ou para empreendimentos temporários.

O patrimônio, repetindo o que se disse sobre a sociedade em comum, será considerado como aquele
afetado à realização do objeto social, seja ele do sócio ostensivo ou participante. Mas essa especialização em
relação a terceiros só vale quanto aos bens do sócio ostensivo.

A sua regência é pelas regras da sociedade simples e sua liquidação por regime de prestação de contas.

Sociedades personificadas

A principal função da personificação é reconhecer a sociedade como sujeito de direitos, como ente
autônomo e de personalidade e patrimônio distintos dos sócios. Portanto, é a própria sociedade, como pessoa
jurídica, que exerce a atividade empresarial (quando for o caso), respondendo pelas suas obrigações sociais. Mas
esta autonomia patrimonial que decorre dos artigos 1024 e 596, CC, não é uma blindagem absoluta e bem por
isso a teoria da desconsideração da personalidade jurídica foi positivada em nosso ordenamento.

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Sociedade simples simples, ou simples pura - É a que tem por objeto atividade econômica não
empresarial, caso típico das sociedades uniprofissionais e da sociedade cujo objeto social é o exercício de
atividade econômica rural (desde que os sócios optem pelo registro em Cartório, não em Junta Comercial).

A sociedade simples pode adotar, além da forma pura (forma básica), a forma limitada, em nome
coletivo ou em comandita simples.

A sociedade simples pura é contratual. A teoria que prevaleceu na doutrina, inclusive, foi a
contratualista, de Tulio Ascarelli, segundo a qual a formação da sociedade simples pura vem de um contrato sui
generis, já que difere dos contratos bilaterais, sendo, pois, plurilaterais, caracterizados pelo fato de várias
pessoas poderem tomar parte dele e pelo affectio societatis; ainda, as obrigações são entre os contratantes e
entre eles e terceiros.

O rol de itens que deverão constar do contrato está no artigo 997, CC, mas não é taxativo, devendo,
pois, cumprir também as regras atinentes ao registro. E o registro deve ser feito perante o RCPJ (por se tratar
de sociedade não empresária), no prazo de 30 dias da constituição da sociedade.

Os sócios podem ser pessoas físicas ou jurídicas, e a qualificação serve para aferir eventual
impedimento.

O nome poderá ser uma denominação ou firma, mesmo que tenha o II, do 997 referido a denominação.

O seu objeto será sempre atividade econômica não empresarial.

O capital social é o montante de contribuição dos sócios para a sociedade, a fim de que ela possa cumprir
seu objeto social. Deverá vir expresso no contrato em moeda nacional e pode compreender dinheiro ou bens
suscetíveis de avaliação pecuniária.

No contrato deve ser definida cada cota do sócio e a maneira pela qual poderá integralizar o capital
social. Subscrever + integralizar = dever de todos os sócios; eles devem adquirir cotas e pagar por elas. E essa
contribuição é requisito especial de validade do contrato social. E a forma de contribuição é diversificada,
podendo ser em dinheiro, bens e até mesmo o próprio serviço (art.997, V, CC) (enunciado 206 CJF). No caso de
transferir bens responde o sócio pela evicção e se transferir crédito pela solvência do devedor. Se ele contribuir
com prestação de serviços, salvo autorização no contrato, não pode empregar-se em atividade estranha à da
sociedade (podendo ser privado dos lucros e dela ser excluído).

O sócio que em 30 dias da notificação pela sociedade não integraliza a cota é considerado remisso,
devendo arcar com o dano emergente da mora. Os demais sócios podem deliberar em reduzir as contas ao
montante já integralizado pelo remisso ou excluí-lo da sociedade (por deliberação da maioria). Se excluído, o
reembolso se realizará por balanço especial na data da exclusão.

A administração da sociedade simples pura: conquanto considerada pessoa jurídica, evidentemente pela
ausência de existência biológica, atua a sociedade através dos administradores. Representantes (pela teoria da
representação, presentantes, pela teoria orgânica).

Para a teoria orgânica os administradores presentam a sociedade, já que não são distintos dela, mas
sim órgãos integrantes de sua estrutura. Se não são coisa separada, não representam, mas presentam a
sociedade. A lei, entretanto, determina que às atividades dos administradores aplicam-se as disposições
concernentes ao mandato.

E a administração da sociedade simples pura somente pode incumbir a pessoas físicas, não jurídicas.
Ainda, há um rol de impedidos de atuarem como administradores, cujos impedimentos decorrem de situações
que lhe retiram a honestidade, boa reputação (ex.: condenação por crime contra a fé pública, relação de
consumo, propriedade, etc). Isso para proteger a terceiros que venham contratar com a sociedade, o que
evidentemente será feito através dos presentantes. Além disso, funcionários públicos, magistrados, membros
do MP, etc, estão impedidos de administrar pessoa jurídica (justamente porque não podem se dedicar a outras
atividades que não as derivadas do seu cargo público).

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O administrador, assim, tem atividade personalíssima, podendo delegar apenas certas atividades a
mandatários.

Silenciando o contrato sobre quem são e os poderes e atribuições dos administradores, o próprio CC
prevê regras. Se o contrato não designa os administradores, a administração competirá separadamente a cada
um dos sócios. Os sócios decidem por maioria de votos o impasse entre os vários administradores. A indicação
do administrador pode vir em ato separado, que deverá ser averbado no registro (antes ou sem averbação o
administrador responde pessoalmente e solidariamente com a sociedade).

Se o administrador for sócio e designado no contrato, seus poderes são em regra irrevogáveis, salvo
decisão judicial. Se ele for não sócio, ou até mesmo sócio, mas nomeado em ato separado, os poderes são
revogáveis.

Sendo o contrato silente quanto aos poderes e atribuições, presume-se que os administradores podem
praticar todos e quaisquer atos de gestão da sociedade, exceto oneração e alienação de imóveis (salvo, nesse
caso, se este for o objeto social da sociedade).

Como o administrador é órgão de máxima relevância para a sociedade, ela responde por todos os atos
dele, ainda que realizados com excesso. Há casos excepcionais que afastam a responsabilidade da sociedade
pelo ato de excesso do administrador, cujo rol é taxativamente elencado pela lei:

- Se a limitação de poderes estiver inscrita ou averbada no registro próprio da sociedade. Se a limitação


é publicizada pelo registro, o terceiro não pode alegar desconhecimento.

- Provando que a limitação era conhecida do terceiro. Para casos em que a limitação não estava inscrita
ou averbada.

- Se o administrador assumir obrigação decorrente de operação evidentemente estranha aos negócios


da sociedade. É a chamada teoria ultra vires, segundo a qual bastaria ao terceiro ser diligente e perceber a
incompatibilidade entre a relação jurídica travada e o objeto social. Mas a teoria parece retrograda e traz
consigo insegurança jurídica o dinamismo nas atividades econômicas implica em grande dificuldade de
constatação desse abuso/excesso de poderes.

Mas adotada que foi a teoria, há consenso que deve ser aplicada com ressalvas: o ato não produz efeitos
apenas perante a sociedade; a sociedade poderá ratifica-lo; admitem-se poderes implícitos aos administradores;
não se aplica a regra para as sociedades por ações, pois há regra especial de responsabilidade dos
administradores.

Em contrapartida, há quem defenda que o terceiro de boa-fé está sempre amparado pela teoria da
aparência, podendo sempre cobrar responsabilidade da sociedade.

Sempre que houver excesso do administrador a sociedade pode regressar contra ele.

A partilha dos resultados: assim como a contribuição dos sócios, a divisão dos resultados é requisito
especial de validade da sociedade. Neste sentido a regra do art.1008, CC, veda a chamada ‘cláusula leonina’,
que exclui qualquer sócio de participar dos lucros das perdas. A forma de divisão é livre, mas nada tendo sido
pactuado os sócios participam na proporção de suas cotas (o que presta exclusivamente serviços, pela porção
média do valor das quotas).

É vedada a distribuição de lucros ilícitos ou fictícios, sob pena de responsabilidade solidária dos
administradores que a realizarem e dos sócios que os receberem.

A responsabilidade dos sócios: depende da estipulação contratual, mas no silêncio será ilimitada e
subsidiária. O sócio admitido posteriormente não se exime das dívidas anteriores.

Alteração do contrato social: de quórum bastante significativo segundo as regras do CC. Para as matérias
do 997, CC exige-se unanimidade (como alteração da forma de divisão de lucros, alteração de capital social,
etc). Para outros temas o quórum é a maioria absoluta, salvo disposição contratual em outro sentido. E qualquer
alteração deve ser averbada no registro.

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Direitos e deveres dos sócios: as obrigações dos sócios começam imediatamente com contrato (salvo se
ele prever diferente) e terminam quando, liquidada a sociedade, extinguirem-se as responsabilidades sociais.

A principal obrigação, como antedito, é subscrever e integralizar cotas do capital social.

O sócio retirante, que transferiu sua cota a outrem com autorização dos demais, não fica
automaticamente exonerado das eventuais obrigações perante a sociedade e terceiros. Até 02 anos após
averbada a modificação do contrato ele responde solidariamente com o cessionário, pelas obrigações que tinha
como sócio.

Deliberações sociais: a regra é que a sociedade aja por meio de seus administradores. No entanto, cabe
ao contrato disciplinar as matérias para as quais há necessidade de deliberação dos próprios sócios,
notadamente em assuntos mais relevantes, como fusão, etc.

E as deliberações são tomadas por maioria absoluta, segundo o valor das cotas. Maioria absoluta = votos
correspondentes a mais da metade do capital social. O número de sócios votantes torna-se relevante no caso
de empate pelo primeiro critério. Persistindo o empate incumbe ao Poder Judiciário a decisão.

Sociedade limitada - Corresponde a cerca de 90% das sociedades no Brasil. Atrativa pela contratualidade
e limitação de responsabilidade dos sócios, fator de redução de risco empresarial. A contratualidade é atrativa,
já que há maior liberdade no estabelecimento do vínculo societário, ao contrário da sociedade anônima,
estatutária, rege-se pela lei.

E o surgimento deu-se em razão, justamente, destes dois elementos, na Alemanha, em 1800, com a
chamada Lei das Limitadas. Inicialmente adotada com algumas críticas pela doutrina no Brasil.

Regida atualmente pelo CC, tem 36 artigos que lhe foram destinados, mais a regência subsidiária pelas
regras da sociedade simples pura. Podem os sócios, no entanto, estipular regência supletiva pela Lei das SAs,
somente em aspectos compatíveis com a contratualidade da limitada. Por exemplo, não se aplicam as regras
próprias das sociedades anônimas para emissão de debentures, abertura de capital, temas relativos à
constituição e à dissolução.

O contrato da limitada segue as regras do artigo 997, da sociedade simples pura, no que couber. Ex.:
não cabe integralização de cota com serviço na limitada.

O contrato deve ser escrito e registrado no RCPJ, caso a atividade desenvolvida pela limitada não seja
empresarial, ou na JC, para o caso de atividade empresarial. O prazo é de 30 dias e uma vez respeitado esse prazo
o arquivamento tem efeito retroativo.

Pode ser integrada por sócios pessoas físicas e jurídicas. A pessoa jurídica que participa na formação de
outra pessoa jurídica é denominada holding (pura se só tiver como objeto participar de outras sociedades) ou
mista (quando tem atividade própria também).

O incapaz pode ser cotista, pois sócio não é empresário. Mas nesse caso o capital precisa estar
integralmente integralizado e ele não desempenhe atividade de administrador. Quanto ao impedido, como o
funcionário público, basta que não seja administrador.

Como nome a sociedade limitada pode usar tanto a firma quanto a denominação, evidentemente pelo
caráter contratual, parece.

Quanto ao objeto, pode ser atividade empresarial ou não.

O capital social também deve vir previsto no contrato. A sua alteração obviamente deverá vir
acompanhada de alteração no contrato social. No caso de aumento os sócios têm direito de preferência para
participação do aumento, na proporção de suas quotas, preferencia esta que pode ser cedida. A redução pode
ocorrer depois de integralizado, se houver perdas irreparáveis ou se ele for excessivo em relação ao objeto da
sociedade.

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A redução não depende apenas da vontade dos sócios, pois eventuais credores prejudicados poderão
apresentar impugnação. Bem por isso que a redução só produz efeitos depois de não ocorrer impugnação e
haver sido averbada no registro.

A subscrição e integralização das quotas: as quotas poderão ser iguais ou desiguais, em adoção do
sistema de pluralidade de quotas, de inspiração francesa {mas não igual ao sistema deles}. Igualmente como
ocorre na sociedade simples pura, é dever do sócio subscrever e integralizar as quotas. Tudo o que se falou
acerca da integralização para ela vale aqui também. Regra importante quanto ao capital social é a que estipula
que os sócios respondem solidariamente pela exata estimação de bens conferidos ao capital social, até o prazo
de 05 anos da data do registro da sociedade (art.1055, §1º, CC), o que estimula que todos, pois todos são
responsáveis solidários, avaliem bem a estimação dos bens.

Uma quota não pode ser dividida, mas poderá ter mais de um titular. Perante a sociedade, no entanto,
apenas um condômino-sócio exerce os direitos a ela inerentes. Há solidariedade entre os condôminos quotistas.

O sócio remisso pode ser excluído, por deliberação da maioria absoluta. O que restar integralizar os
sócios remanescentes podem tomar para si ou transferir a terceiros, restituindo ao remisso excluído o que ele
houver desembolsado.

Quanto à administração, repete-se a adoção da teoria orgânica. Vale também que não pode ser
administrada por pessoa jurídica e também se repetem os impedimentos. Repete-se se tratar de atividade
personalíssima do administrador, podendo constituir mandatários para atividades específicas.

Geralmente em sociedades pequenas com dois ou três sócios a todos eles está atribuído o papel de
administrador no próprio contrato. Entrando sócio mais tarde não se estende automaticamente este poder a
ele, devendo ocorrer alteração no contrato social neste sentido.

Pessoas estranhas ao quadro societário podem administrá-la, independentemente de previsão no


contrato social. Se o capital estiver integralizado, 2/3 elegem; não estando integralizado a votação deve ser
unânime.

Quanto à responsabilidade dos sócios, repita-se o que foi dito em relação à sociedade simples pura.
Respondem os administradores, solidariamente, tanto perante a sociedade quanto perante terceiros, por culpa
no desempenho de suas funções.

A divisão dos resultados também afigura-se requisito especial de validade da sociedade limitada. Veda-
se a cláusula leonina.

A responsabilidade dos sócios é limitada ao valor de suas cotas. Mas respondem todos os sócios
solidariamente pela integralização do capital social. E o Brasil não prevê prazo para integralização do capital
nem o exige para o início da atividade. O limite de responsabilidade estará no valor que faltava integralizar, não
no valor da dívida. O que pagou pode buscar ressarcimento dos demais.

Adota-se, pois o princípio da autonomia patrimonial das pessoas jurídicas.

As alterações no contrato social da limitada se dão, de regra, por ¾ do capital social. Qualquer alteração
deverá ser averbada no registro.

As deliberações corriqueiras são adotadas unilateralmente pelos administradores. Questões mais


complexas dependerão de deliberação colegiada, como aprovação de contas, alteração de contrato social,
destituição de administradores, exclusão de sócio, etc. E o órgão responsável pela tomada de deliberação é a
ASSEMBLEIA DE SÓCIOS. (no caso de até 10 sócios pode substituir por reunião de sócios; o que diferencia elas
é a solenidade; para essa é mais branda cabendo aos próprios sócios no contrato deliberarem como será). Tanto
uma quanto outra podem ser dispensadas por documento escrito subscrito por todos os sócios unanimemente.

As deliberações sociais tomadas em conformidade com a lei vinculam todos os demais sócios ainda que
ausentes ou dissidentes (por isso quem discorda deve consignar em ata a discordância, para não ser
responsabilizado).

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Cabe a convocação, de regra, pelo administrador. Pode ser convocada por sócio quando os
administradores retardarem sua convocação por mais de 60 dias; por titulares de mais de 1/5 do capital social,
se não atendido pedido de convocação em 08 dias; pelo conselho fiscal.

Na primeira convocação instala-se a assembleia com quórum de ¾ do capital social. Em segunda


convocação, com qualquer quórum. Cabe representação do sócio na assembleia. A ata será arquivada e
averbada junto ao registro.

Ao menos uma assembleia deve ocorrer no ano.

Caso deliberação importe em alteração de ato constitutivo, fusão ou incorporação pode o sócio
dissidente exercer o direito de retirada nos 30 dias que se seguirem à assembleia.

Natureza personalista ou capitalista? Uma limitada pode ser tanto uma coisa quanto outra, tudo a
depender do que se constou no contrato social. Se ele prever, por exemplo, que a cessão de cotas depende da
autorização dos demais sócios, ou que o falecimento de um deles importa em dissolução parcial da sociedade
com liquidação da cota do falecido, estaremos diante de uma limitada personalista; se dispor ao contrário, será
capitalista.

Mas e se o contrato for omisso? O CC dispõe regras que dão feição personalista à sociedade limitada,
dispondo que pode o sócio ceder sua cota para outro sócio independentemente de autorização dos demais, ou
para terceiro desde que não o obstem por ¼ do capital social.

Uma faculdade conferida às limitadas é a de criação de um conselho fiscal, composto de três ou mais
membros, sócios ou não¸ desde que residentes no país. Os impedimentos para administradores repetem-se
para membros do conselho fiscal e também estão impedidos os que participem de outros órgãos da sociedade.
Um dos membros será eleito separadamente pelos sócios minoritários que representem ao menos 1/5 do
capital social.

Exclusão extrajudicial de sócio minoritário por justa causa: A ausência do affectio societatis pode
prejudicar de sobremaneira a continuidade da sociedade, bem por isso que a exclusão daquele sócio mais
atende ao princípio da preservação da empresa.

Para que se verifique a hipótese, deve haver autorização de exclusão extrajudicial no contrato e o sócio,
em razão de prática de atos de inegável gravidade, esteja pondo em risco a continuidade da empresa. Para
tanto, mais da metade do capital social deve deliberar nesse sentido (portanto, a exclusão de sócio majoritário
só ocorre judicialmente).

A justa causa reside, portanto, na extrema gravidade da falta cometida pelo sócio.

A exclusão deve ocorrer em assembleia convocada especialmente para esse fim, ciente o acusado em
tempo hábil de comparecer e exercer ampla defesa.

Sociedade anônima - Inicialmente, no mundo, dependentes de outorga pelo poder público, passaram
após a precisar apenas de autorização, com o desenvolvimento do capitalismo. Depois, passaram para apenas
regulamentação. No Brasil enfrentaram também as três fases.

A regência se dá por lei específica: a Lei 6404/76 (LSA).

Um dos temas mais atuais relacionados às SAs é o estudo das chamadas práticas de governança
corporativa (corporate governance). Trata-se de trabalho desenvolvido inicialmente nos EUA e Inglaterra, e que
visa estabelecer padrões de gestão para os negócios da S/A, centrados, fundamentalmente, na transparência,
na equidade no tratamento entre os acionistas (majoritários e minoritários) e na prestação de contas confiável.
Tudo com vistas a atrair a confiança dos investidores. No Brasil o chamado Novo Mercado da BOVESPA reflete
o encanamento destas práticas e a sociedade anônima que adere a ele se compromete a cumprir medidas que
proporcionem boa gestão dos negócios e o constante monitoramento da atuação gerencial do
empreendimento. São exemplos de normas do Novo Mercado: a opção pela arbitragem para resolução dos

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conflitos de interesses entre os acionistas; a existência de conselho de administração com no mínimo 5
membros; prestação de contas uniformemente internacionais; adoção de códigos de ética, etc.

As principais características das sociedades anônimas: natureza capitalista; essência empresarial


(sempre serão empresárias); identificação exclusiva por denominação; responsabilidade limitada dos sócios.

A despeito do seu cunho por excelência capitalista, não há regra que proíba a SA de ser personalista.
Sendo capitalista, a participação societária é livre.

E será considerada empresária independentemente de seu objeto social, segundo a regra do artigo 982,
CPC.

E a imposição da denominação decorre justamente de ser anônima, portanto, não pode atuar sob firma.

A responsabilidade dos sócios é mais limitada que na sociedade limitada, já que não respondem eles
pela integralização do capital social.

Classificação

Podem as SAs serem abertas ou fechadas, conforme tenham autorização ou não para negociação de
valores mobiliários no mercado de capitais. Tal autorização advém da Comissão de Valores Mobiliários (CVM),
autarquia federal ligada ao Ministério da Fazenda, atuante junto ao BC.

É no mercado de capitais que se negociam os valores mobiliários das SAs.

A CVM é uma autarquia estatal que exerce o controle e a fiscalização das operações do mercado de
capitais no Brasil. Tem qualidade de agência reguladora e de extrema relevância. Atua sob três diferentes
formas: a) regulamentar: estabelecendo o regramento geral relativo ao funcionamento do mercado de capitais;
b) autorizante: autoriza a constituição de companhias abertas e a emissão e negociação de seus valores
mobiliários; c) fiscalizatória: zela pelas operações realizadas no mercado de capitais, tendo poderes
sancionatórios.

Já a Bolsa de Valores não integra a Administração Pública. Trata-se de associação privada, formada por
sociedades corretoras, que autorizada pela CVM, presta serviço de interesse público inegável, consistente na
manutenção de local adequado à realização de operações de compra e venda dos diversos valores mobiliários.

O denominado Mercado de Balcão compreende toda e qualquer operação do mercado de capitais


realizada fora da Bolsa de Valores. As sociedades corretoras e instituições financeiras autorizadas pela CVM
quem operam nesta seara.

O mercado de capitais é dividido em primário e secundário: no primário há a subscrição e emissão de


ações e outros valores; criam-se valores até então não existentes, sendo que o investidor paga o preço de
emissão do valor mobiliário que está subscrevendo; há interação direta entre a sociedade e o investidor. Já no
mercado secundário há compra e venda de valores já existentes, não participando da operação a própria
sociedade.

Na Bolsa de Valores somente se procedem operações de mercado secundário. No mercado de balcão,


tanto o primário quanto secundário.

A constituição de uma sociedade anônima: constitui-se por meio de um ato institucional ou estatutário
(estatuto social). O processo de formação da SA compreende os chamados requisitos preliminares, numa
primeira fase, e as formalidades complementares.

Os requisitos preliminares:

1. Pluralidade de sócios (ao menos duas pessoas subscrevendo). A lei admite sociedade anônima
unipessoal apenas para a sociedade subsidiária integral.

2. Realização mínima de 10% do capital social subscrito, em dinheiro. Casos especiais podem exigir valor
maior, como instituições financeiras (50%).

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3. Depósito desse valor anterior no BB ou outra instituição oficial autorizada pela CVM, valor que só
poderá ser levantado após adquirir a SA personalidade jurídica.

No caso de companhias abertas a constituição se dá por meio de subscrição pública de ações. São
requisitos: o registro prévio na CVM; a colocação das ações à disposição dos investidores interessados (todo o
capital social deverá ser subscrito nessa modalidade de SA) (esses passos são feitos por instituição financeira
underwriter); a realização de assembleia inicial de fundação (quórum de no mínimo metade do capital social em
primeira convocação, e qualquer quórum em segunda). Nessa assembleia apenas a unanimidade dos
subscritores poderá alterar o estatuto.

Após, os atos constitutivos serão levados a registro perante a Junta Comercial.

Já para as companhias fechadas o procedimento de constituição é mais simplificado: assembleia +


escritura.

Algumas regras gerais aplicáveis a ambas as espécies (aberta e fechada): a incorporação de imóveis
independe de escritura pública. O subscritor pode se fazer representar na assembleia geral ou escritura por
procurador com poderes especiais. A denominação de companhia em constituição deve ser aditada de “em
organização”. Os fundadores e as instituições underwriter responderão pelo prejuízo decorrente de culpa ou
dolo em seus atos.

As formalidades complementares compreendem basicamente o registro na JC e outras pequenas


medidas de cunho administrativo e operacional.

Após o registro na JC os atos devem ser publicados na imprensa oficial da localidade. Somente depois
destas formalidades complementares é que poderá atuar regularmente, sendo antes disso considerada
irregular.

O capital social: uma peculiaridade em relação à SA é que o valor monetário do capital social constante
do estatuto será anualmente corrigido monetariamente. E esse capital nem sempre corresponde ao valor
nominal das ações, pois elas podem ser emitidas sem valor nominal ou com preço superior ao valor nominal;
ambas são destinadas à denominada reserva de capital.

E diferem ainda das sociedades limitadas porque em regra não é permitida a restituição aos acionistas
de suas contribuições para o capital social – princípio da intangibilidade do capital social (daí a importância de
constituição de reservas de capital para os casos de reembolso ou resgate de ações).

Subscrição + integralização. Só se constitui a SA depois de subscrito todo o capital social.

A integralização pode ser em dinheiro ou outros bens suscetíveis de avaliação em dinheiro, avaliação
esta feita por 03 peritos. A transferência dos imóveis será feita pelos próprios atos constitutivos, sem precisar
de uma escritura específica de translação do direito.

O que integraliza com bens responde pela evicção e o que integraliza com créditos, pela solvência do
devedor.

E a integralização é um dever que deve estar descrito nos atos constitutivos ou boletim de subscrição a
forma e prazo. Se não estiverem previstos, os órgãos de administração efetuarão chamados, por três vezes no
mínimo, na imprensa, com prazo não inferior a 30 dias para pagamento. Não pago, o subscritor incorre em
mora, sujeitando-se a juros, correção monetária e multa prevista no estatuto; será considerado acionista
remisso. E dois caminhos se abrem: execução extrajudicial (o boletim de subscrição + o aviso de chamada valem
como título extrajudicial) ou a venda das ações na bolsa de valores, por conta e risco do acionista (executa o
que faltar se a venda não atingir o montante para pagamento dos débitos). Se os meios falharem: as ações são
declaradas caducas e são integralizadas com os lucros e reservas da sociedade.

A ação: principal valor mobiliário da SA e representativa de parcela do capital social dela. São
considerados bens móveis.

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Quanto aos direitos e obrigações que conferem aos seus sócios, as ações podem ser ordinárias,
preferenciais e de fruição.

A ação ordinária confere ao seu titular, o ordinalista, direitos comuns, ordinários. Nenhuma vantagem,
nenhuma restrição especial. Confere direito ao voto (que não é direito essencial). A ação preferencial confere
ao titular, o preferencialista, preferência ou vantagem em relação ao ordinalista, mas com restrição ou retirada
de alguns direitos que ordinariamente são conferidos, como o direito ao voto (não poderá ter mais de 50% das
ações emitidas sem direito a voto) (nunca poderão privar dos direitos fundamentais do acionista); e é o estatuto
quem define no que se constituirá essa preferência (como prioridade na divisão de dividendos – fixo ou mínimo,
de reembolso de capital, ou os dois). A golden share, figura introduzida na reforma da LSA em 2001, é usada no
processo de privatização das companhias estatais brasileiras, uma categoria especial de ação preferencial
(desestatiza, mas mantém direito a controle pela maioria do capital votante). Por fim, as ações de fruição são as
emitidas em substituição a ações ordinárias ou preferenciais que foram totalmente amortizadas (distribuição a
título de antecipação e sem redução do capital social, das quantias que caberiam aos sócios no caso de
liquidação da companhia); conferem aos titulares unicamente o direito de gozo e fruição contra a companhia.

Quanto à forma de transferência as ações se classificam em nominativas e escriturais.

As ações nominativas são as transferíveis mediante registro levado a efeito em livro específico da SA, o
livro registro de ações nominativas (condição de validade). Ato forma e com certa solenidade, com
comparecimento do vendedor e comprador na sede da companhia para assinatura do livro (no caso de venda
na bolsa, o vendedor será representado pela sociedade corretora ou caixa de liquidação).

Já as ações escriturais são mantidas em contas de depósito em instituição financeira autorizada pela
CVM. São incorpóreas, não possuem certificado e nem exigem solenidade para a sua transferência.

As SAs podem dividir as ações em classes visando atrair os investidores. Ex.: ações preferencias classe A
dão tal tipo de preferência, atraindo x tipo de investidor. As de classe B conferem y tipo de preferência, atraindo
n tipo de investidor.

O estudo do valor da ação é árduo, pois ao menos cinco critérios de valoração existem: nominal,
patrimonial, de negociação, econômico e de emissão.

Valor nominal é o alcançado pela divisão do capital (em moeda corrente) pelo número de ações por ela
emitidas. Mas as SAs podem emitir ações sem valor nominal, de modo que essa divisão mencionada oferecerá
apenas um valor-quociente. E esse valor nominal tem a finalidade de conferir garantia aos acionistas contra a
diluição injustificada do valor patrimonial das ações quando da emissão de novas ações. Ao conferir um valor
nominal protegem-se os antigos acionistas e ao menos lhe da previsão de que a depreciação do valor das ações
terá um limite. E ao contrário, quando as ações são emitidas com valor superior ao valor nominal, dá-se o que
se denomina ágio, destinado à formação de reserva de capital.

Valor patrimonial é alcançado pela divisão do patrimônio líquido (diferença entre o ativo e o passivo) da
companhia pelo número de ações. No momento de fundação da companhia, como não existe nenhuma dívida,
o valor patrimonial da ação será igual ao valor nominal. O valor patrimonial é deveras importante para o caso
de liquidação da sociedade (a partilha corresponderá ao valor líquido, dividido pelas ações), para as
amortizações, etc.

Valor de negociação. Sendo a SA uma companhia de capital, a negociação de suas ações é livre, de modo
que o valor nominal e patrimonial pode servir de referência para a negociação das ações, mas pode também
não servir, já que é livre a negociação entre comprador e vendedor, no mercado de capitais secundário. E esse
valor de negociação pode ser o valor de negociação privada (ocorrida fora do mercado de capitais) e o segundo
o valor de mercado (valor das ações no mercado de capitais – bolsa de valores e mercado de balcão). Portanto,
nas companhias fechadas as ações possuem apenas valor de negociação privada.

Valor econômico é o estabelecido por estudos periciais, para basear operações de compra e venda de
ações, estimando-se o que possivelmente valeriam as ações se postas à venda no mercado de capitais. O

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método mais utilizado pelos profissionais é o do fluxo de caixa descontado. Valor importante para aferir
responsabilidade de administradores, por exemplo.

Já o preço de emissão relaciona-se com a emissão de novas ações – na constituição da SA ou aumento


de seu capital social. Esse valor é o que o investidor entrega à sociedade a título de contribuição ao capital social.
E esse valor não pode ser menor que o valor nominal das ações já existentes, como antedito.

Direitos conferidos pelas ações - A depender do tipo de ação alguns direitos podem ser restringidos. No
entanto, alguns direitos são considerados essenciais, não cabendo exclusão nem pelo estatuto nem pela
assembleia geral. São eles: participação nos lucros sociais; participação no acervo da companhia no caso de
liquidação; fiscalização, na forma da lei; preferência para subscrição de ações, partes beneficiárias conversíveis
em ações, debêntures conversíveis em ações e bônus de subscrição e; retirar-se da sociedade nos casos de lei.
E os meios, processos ou ações de que dispõe o acionista para assegurar esses direitos também não poderão
ser elididos.

O direito ao voto não está no rol dos direitos essenciais. Em havendo esse direito o estatuto pode limita-
lo em relação a cada acionista. E é vedado o voto plural, ou seja, uma mesma ação com direito a mais de um
voto.

Para o caso de ações preferenciais sem direito ao voto, se por 3 exercícios consecutivos deixarem-se de
pagar as preferências a que fazem jus, os preferencialistas adquirem o direito ao voto que permanece até que
tudo seja pago, inclusive os atrasados.

O acionista que dá em penhor (empenha, dá em garantia pignoratícia) a ação, em regra não perde o
direito ao voto, mas os termos do contrato de penhor podem estabelecer regras diferentes. Já no caso de
garantia fiduciária o direito a voto é exercido pelo devedor nos termos do contrato. Para o caso de constituição
de usufruto sobre a ação, o voto é exercido conforme ajuste entre proprietário e usufrutuário.

A lei estipula que o direito ao voto deve ser exercido sem abuso pelo acionista. O Art.115 estabelece
como abusivo o voto exercido com o fim de causar dano à companhia ou outros acionistas, ou obter vantagem
indevida e de que resulte ou possa resultar prejuízo para a companhia ou outros acionistas. Princípio básico da
governança coporativa. E o acionista responde pelos danos causados pelo abuso.

Se o interesse do acionista for conflitante com o da companhia, lhe será vedado o direito ao voto. Ex.:
o acionista não pode votar na deliberação sobre a avaliação dos bens que integralizou como capital social; não
pode votar na deliberação de sua própria prestação de contas.

Dentro de uma SA existem duas classes de sócios: os empreendedores e os investidores. Os


empreendedores possuem interesse na gestão dos negócios da sociedade e por isso são titulares de ações
ordinárias com direito a voto. Já os investidores buscam apenas retorno financeiro e são os rendeiros, quando
pensam a longo prazo, e especuladores, quanto visam apenas ganhos imediatos; estes geralmente possuem
ações preferencias sem direito a voto.

E dentre os empreendedores que se trava a batalha pelo controle da sociedade.

Para que se caracterize o acionista controlador são necessários dois requisitos: o objetivo, que é
percentual do capital votante que confira maioria na assembleia e possibilidade de eleição da maioria dos
administradores e o subjetivo, que é o uso efetivo do percentual votante para comandar a gestão dos negócios
sociais.

Mas o desempenho do controle deve ser realizado com vistas a cumprir a função social da sociedade, e
de forma responsável. É punido o abuso de poder pelo acionista controlador. Há um rol de atitudes que são
consideradas como exercício abusivo do poder, rol este exemplificativo para o STJ, que entende que a
caracterização do abuso de poder independe da intenção subjetiva do controlador, mas é imprescindível a
ocorrência do dano.

A alienação do controle: uma das regras mais importantes é a que trata do tag along, ou direito de
venda conjunta. Importante instrumento de defesa dos minoritários: o controlador que vende o controle

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somente o pode fazer sob o compromisso do adquirente em adquirir as ações com direito de voto dos
minoritários, pagando pelo menos 80% do valor que pagou pelas ações do controlador, para que eles tenham
oportunidade de aproveitar a valorização das ações do controlador.

O chamado take over é a oferta pública de aquisição de ações, intermediada por instituição financeira
que garanta a obrigação assumida.

Acordo de acionistas: contrato parassocial, para alguns. Pode ocorrer para os seguintes assuntos:
compra e venda de ações; preferência para aquisição de ações; exercício do direito de voto; exercício do poder
de controle da companhia. Quando for arquivado na sede da sociedade, deve ser respeitado, cabendo inclusive
execução judicial (execução de obrigação de fazer ou não fazer) do que foi acordado; segundo o STJ a sociedade
é legitimada passiva nessa ação, já que terá que suportar os efeitos da decisão. Valerão contra terceiros depois
de averbados no registro e certificados das ações. O presidente da assembleia, com vistas no acordo, não
computará o voto proferido com infração ao acordo. E quem não comparece ou se omite dá o direito ao grupo
votar por si.

Os valores mobiliários

Além das ações as sociedades emitem outros valores mobiliários, como as debêntures, partes
beneficiárias e bônus de subscrição. São instrumentos úteis para captação de recursos no mercado de capitais,
sendo oportunidade de investimento para os titulares. É praticamente um meio de autofinanciamento, por meio
de capitalização (emissão de novas ações) ou securitização (emissão de outros valores mobiliários).

As debêntures conferem ao titular um direito de crédito certo contra a companhia, conforme dispuser
sua escritura ou certificado. É um título executivo extrajudicial. É basicamente um contrato de mútuo, de
empréstimo. Se forem para circular no mercado e balcão, deverão se submeter ao preenchimento de algumas
regras estabelecidas pelo CVM.

A sua correção monetária pode ser qualquer índice que a SA a dê, conquanto que não vedado em lei.

Há certa liberdade na sua criação, como a forma de pagamento e os juros demonstram. Os interesses
da sociedade e dos investidores é que pesa na definição de seus contornos e conteúdo. Inclusive pode ser
estipulada a conversão da debenture em ação.

Usualmente compete à assembleia geral a deliberação sobre a emissão de debêntures. No entanto, nas
companhias abertas o conselho de administração pode deliberar, desde que não conversíveis em ações e salvo
disposição estatutária em contrário.

As espécies de debêntures são: com garantia real, com garantia flutuante, quirografárias e subordinadas.

Já as partes beneficiárias são títulos que conferem aos seus titulares direito de crédito eventual contra
a companhia. SOMENTE EMITÍVEIS POR SOCIEDADES FECHADAS.

Não tem valor nominal e conferem direito eventual, dependente do resultado da companhia, devendo
esse ser positivo. É direito a eventual participação nos lucros anuais da companhia. Também podem ser
conversíveis em ação.

A lei impõe um limite de comprometimento da sociedade com as partes beneficiárias, para evitar que
o excessivo endividamento dela prejudique o legítimo interesse dos acionistas.

Os bônus de subscrição asseguram ao titular o direito de preferência na subscrição de novas ações. São
emitidos dentro do limite de aumento do capital autorizado no estatuto.

E são os acionistas que têm preferência na subscrição de ações, então esses bônus também são de
preferência de subscrição deles.

Não necessariamente emitidos para alienação; podem ser emitidos como vantagem adicional a
subscritores de ações ou debêntures.

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Órgãos societários

Os empreendimentos explorados pelas sociedades anônimas são corriqueiramente de grande


envergadura. Por isso tem uma complexa estrutura organizacional, que alguns até comparam com a do Estado.

E cabe ao estatuto disciplinar o funcionamento destes órgãos. Mas os órgãos de cúpula estão tratados
na LSA: a assembleia geral, o conselho de administração, a diretoria e o conselho fiscal.

A assembleia geral é órgão máximo da S.A, com competência para tratar todo e qualquer assunto
relacionado ao objeto social.

Uma das competências é autorizar confissão de falência e pedir recuperação judicial, o que pode ser
feito ad referendum no caso de os administradores adotarem a postura antes da autorização.

Quem convoca a assembleia geral: o conselho de administração ou a diretoria, mas não com
exclusividade. Outros órgãos e os próprios acionistas podem convocá-la dentro das hipóteses legais.

A convocação é precedida de publicação por no mínimo 3 vezes. A primeira convocação para SA fechada
é com 8 dias de antecedência, 15 para aberta. A segunda com 5 para fechada e 8 para aberta. As vezes a
convocação é mera formalidade, já que existem sociedades controladas por um único acionista; logo, a
participação dos demais nada interfere. Se os acionistas todos comparecem, a publicação da convocação é
irrelevante.

A instalação em primeira convocação se dá com comparecimento de ¼ do capital votante. Na segunda,


com qualquer número. Embora nem todos votem, todos os acionistas têm direito de participar das assembleias.

O acionista pode se fazer representar por procurador, e para que atue em seu nome, deve estar
constituído a pelo menos 01 ano, sendo acionista ou administrador da sociedade ou advogado ou instituição
financeiras.

As deliberações, via de regra são tomadas mediante MAIORIA DOS VOTOS DOS PRESENTES, exceto
estipulações legais em contrário. Maioria simples, portanto. O estatuto pode aumentar o quórum para
determinada deliberação em sociedades fechadas (é a criação da minoria de bloqueio, que protege as minorias).
Em alguns casos a própria lei estipula necessidade de quórum qualificado, ou maior pelo estatuto da fechada,
como fusão e incorporação da companhia.

Em caso de empate compete ao estatuto disciplinar, mas se ele for omisso há convocação de nova
assembleia em dois meses seguintes e, permanecendo o empate, podem os acionistas submeter a questão a
um terceiro ou ao juiz.

Ao final é lavrada ata a qual assinarão todos os presentes, mas que será válida se a maioria necessária
para as deliberações assinar.

A assembleia pode ser geral ordinária ou extraordinária. A ordinária só trata do art.132 e a extraordinária
para demais matérias necessárias, podendo ambas ocorrerem simultaneamente.

A ordinária deve ocorrer uma vez ao ano, nos 4 meses que se seguem ao encerramento do exercício
social. Os assuntos são corriqueiros: prestação de contas, demonstrações financeiras, destinação do lucro
líquido, eleição de administradores e membros do conselho fiscal e correção monetária do capital social. Uma
série de documentos correlatos devem ser disponibilizados com 30 dias de antecedência, para possibilitar a
análise e tomada de decisões. Frise-se a importância dessas decisões, já que a aprovação, sem reserva, das
demonstrações financeiras e contas exonera os administradores e fiscais da responsabilidade, salvo erro, dolo,
fraude ou simulação.

Já a extraordinária também é de suma importância e, para validade, deve respeitar requisitos. Na que
for convocada para reforma do estatuto, somente se instala em primeira convocação com presença de
acionistas que correspondam a 2/3 do capital votante.

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Em 2008 importante alteração legislativa veio a permitir as assembleias eletrônicas, nas quais os
acionistas podem participar à distância.

Órgãos de administração da companhia

Segundo a moderna teoria orgânica as pessoas jurídicas não são representadas, mas presentadas por
seus órgãos de administração. Os administradores são meros agentes que externam a vontade da pessoa
jurídica, sendo partes integrantes dela.

Nas sociedades anônimas a administração incumbe a dois órgãos: conselho de administração e


diretoria. O conselho de administração, no entanto, é órgão facultativo, a não ser nas abertas, nas de capital
autorizado e nas de economia mista.

E a atribuição desses órgãos não pode ser direcionada a outros.

O conselho de administração:

Órgão deliberativo de matérias relacionadas à gestão dos negócios. Na prática acaba adotando todas as
deliberações que não sejam privativas da AGO (art.132).

Composto por no mínimo 03 membros destituíveis a qualquer tempo e eleitos na assembleia geral
(critério majoritário ou proporcional, como a companhia definir no estatuto). Devem ser pessoas físicas, mas
não precisam ser acionistas. Excepcionalmente pode ser admitida participação de representante dos
funcionários no conselho. No majoritário é possível formação de chapas ou votação em cada cargo separado, e
cada ação corresponderá a uma ação, de modo que o acionista controlador elege os três membros. No
proporcional os três cargos concorrem de uma vez, não sendo possível formar chapas e cada ação corresponde
a um voto; elegem-se os mais votados, de modo que apenas um dos membros será escolhido pelo acionista
controlador. Há ainda o voto múltiplo, que pode ser exigido por no mínimo 0,1 do capital social com direito a
voto, em que a cada ação é destinado o número de votos igual ao número de conselheiros a serem escolhidos,
podendo ser os votos a um candidato ou distribuídos.

A diretoria é o órgão realmente incumbido de desempenhar efetivamente a gestão dos negócios sociais.
Direcionam e representam a sociedade os seus diretores. É composta de pelo menos 02 membros (quanto mais
complexa a sociedade, mais terá diretores, o que o estatuto disporá. Ex.: diretor comercial, financeiro, de
vendas, de marketing, etc) eleitos pelo conselho de administração ou, inexistente esse, pela assembleia geral.
Seus membros não precisam ser acionistas, mas devem ser pessoas físicas e residirem em território nacional
(até 1/3 dos membros do conselho podem fazer parte da diretoria). Podem os diretores constituir mandatários
dentro de seus limites de atuação (o judicial pode ser por prazo indeterminado).

Algumas normas são comuns ao conselho e diretoria, pois a SA adotou o modelo dualista de
administração segundo a lei:

- Conselheiros e diretores não precisam ser acionistas, mas devem ser pessoas físicas. Diretores devem
residir no Brasil e conselheiros que residam fora devem constituir procurador com poderes para receber citação,
mediante procuração que se estenda, no mínimo, até 03 anos após a gestão do conselheiro.

- Os impedimentos são os mesmos: os que são impedidos por lei, os condenados por crime falimentar
ou prevaricação, peita, concussão, peculato, contra a economia popular, a fé pública, a probidade ou nos casos
em que a pena, mesmo que temporariamente, vede acesso a cargos públicos. E ainda há os declarados
inabilitados pela CVM. Os conselheiros não podem fazer parte de sociedades consideradas concorrentes.

- As obrigações assumidas são de meio, devendo empregar diligência que se espera, não se podendo
exigir obrigação de resultado. Devem atuar no interesse geral, não apenas para os que lhe votaram.

Os diretores e conselheiros, num contexto de responsabilidade social da empresa, podem autorizar a


prática de atos gratuitos razoáveis em benefício dos empregados ou da comunidade de que participe a empresa,
tendo em vista sua responsabilidade social.

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- Deveres de lealdade, como manter sigilo, como não usar em benefício próprio informações relevantes,
(visa evitar o insider trading, ou uso de informações sigilosas para obtenção de vantagens. A prática é crime,
inclusive, visa punir aquele obteve sucesso no mercado de capitais de forma desonesta. [lembrar do EIKE
BATISTA] No entanto, é extremamente difícil separar o que é insider trading do que é obtenção lícita de
especuladores.), não participar de operação que tenha interesse conflitante com o da companhia.

- Deveres de informação. Devem informar o número de ações, bônus de subscrição, debentures


conversíveis em ações de emissão da companhia ou sociedades controladas deque seja titular.

A responsabilidade dos administradores:

Como apenas presentam a sociedade que administram, não respondem pessoalmente pelas obrigações
que contrair em nome dela em virtude de ato regular de gestão. Entretanto, respondem civilmente pelos
prejuízos que causarem quando procederem: dentro de suas atribuições, com culpa ou dolo; com violação da
lei ou estatuto.

Em princípio um administrador não responde pelo ato do outro, salvo se conivente, negligente ou tiver
conhecimento do ato ilícito. Se adota a postura correta, como cientificação dos órgãos competentes, se exime
de responsabilidade.

Na sociedade fechada todos respondem solidariamente pelo descumprimento de dever imposto pela
lei referente ao funcionamento normal dos negócios da sociedade, que lhe cause prejuízos.

A SA, para responsabilizar o administrador, move ação de responsabilidade. A deliberação se dá na AGO


ou AE. Nesse caso o administrador fica impedido e será substituído por outro na mesma oportunidade. A inércia
da SA autoriza os acionistas a proporem a demanda já autorizada, e se não autorizada, por sócios que
representem pelo menos 5% do capital social.

Lembrar que contas aprovadas eximem a responsabilidade. Assim, antes deve ser buscada anulação da
deliberação que aprovou as contas e demonstrações financeiras (prazo prescricional de 02 anos) e depois ação
contra o responsável.

E difere a ação de responsabilidade social, a tratada até aqui, da ação de responsabilidade individual,
na qual se busca reparação direta do dano pelo prejudicado.

O conselho fiscal é órgão de fiscalização da gestão administrativa da companhia e de assessoramento


da assembleia-geral. É de existência obrigatória, mas de funcionamento facultativo. O estatuto prevê a forma de
funcionamento, que pode ser apenas em determinadas situações.

Composto de no mínimo 3 e no máximo 5 membros, com suplentes em igual número, acionistas ou não,
eleitos na assembleia-geral, residentes no País, formados em nível superior, que tenham experiência mínima de
3 anos como administrador ou conselheiro fiscal (esses requisitos o juiz pode dispensar se não tiver gente
qualificada para o cargo). O mandato é entre uma e outra assembleia, e podem ser reeleitos. Os impedimentos
são os mesmos do administrador e conselheiros da administração.

Todos os cargos até então mencionados são remunerados.

Livros sociais e demonstrações contábeis

As companhias também se submetem ao dever de escrituração do empresário. O legislador, para as


companhias abertas, autorizou a escrituração eletrônica, o que defende-se deva ser estendido às fechadas
também.

Além dos livros obrigatórios devem ser escriturados alguns específicos pelas SAs: livro de registro de
ações nominativas; livro de transferência de ações nominativas; de partes beneficiárias nominativas, de atas da
AG, de presença de acionistas, de atas das reuniões do conselho de administração, da diretoria e de pareceres
do conselho fiscal.

Lucros e dividendos

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O exercício social tem um ano, ao final do qual serão apresentadas demonstrações contábeis para
definir o lucro líquido da SA.

Do resultado se deduzem prejuízos acumulados e provisão para IR. Depois deduzem-se participações
estatutárias de empregados, administradores e partes beneficiárias, podendo redundar em lucro zero ou saldo
negativo.

O lucro líquido então é destinado pela assembleia, que não precisa repartir entre os acionistas, pois
pode dele se apropriar como reserva de lucros pela companhia.

Outras reservas com finalidade específicas podem ser criadas.

Sociedade em nome coletivo

A mais antiga sociedade medieval e com origem nas comunidades familiares italianas da Idade Média.
Seu principal traço distintivo é a responsabilidade ilimitada dos sócios, o que impõe somente sejam sócios
pessoas naturais e o nome empresarial será sempre firma. É sociedade de pessoas e não admite administração
por terceiros.

Entre os sócios e com efeito entre eles, poderão dispor no ato constitutivo a repartição da
responsabilidade.

Como sociedade contratual, sua regência subsidiária é pelas disposições da sociedade simples (art.1040,
CC).

Sociedade em comandita simples

Alguns defendem ser evolução da em nome coletivo, com acréscimo de responsabilidade limitada de
alguns sócios. Mas pode vir também das commendas medievais.

Há duas categorias de sócios, que serão definidos no contrato social:

- Comanditados: pessoas físicas responsáveis solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais. Só ele
pode constar da firma social e só ele pode administrar (se o comanditário contracenar tais fatídicos poderá se
sujeitar à responsabilidade do comanditado). {ditados, ditadores, administradores.. logo, maior
responsabilidade}.

- Comanditários: os que se obrigam apenas pelo valor de sua cota. Tem função apenas de contribuir
para formação do capital social. {ditário, otário, menores responsabilidades por menores participações}.

A falta de uma das categorias de sócios por mais de 180 dias é causa de extinção da sociedade em
comandita simples, ao lado das outras formas do artigo 1033, CC.

Sociedade em comandita por ações

É uma sociedade empresária híbrida: com aspectos da comandita simples e também das sociedades
anônimas. Tem o capital dividido em ações e tem categorias distintas de sócios (com responsabilidade limitada
e ilimitada).

E o regime jurídico é a lei da SA.

O acionista diretor responde subsidiária e ilimitadamente pelas obrigações sociais. Os diretores são
escolhidos no ato constitutivo, sem prazo de mandato, e apenas deliberação de 2/3 do capital social os destitui
(bem por isso de sua responsabilidade ser ilimitada). E por dois anos continua responsável o destituído. Assim,
a assembleia geral tem atuação condicionada aos diretores, pois são eles os responsáveis.

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Podem emitir valores mobiliários e outras coisas que SA faz, pois regime jurídico é o mesmo. O que não
se aplica: disposições sobre o conselho de administração, autorização estatutária de aumento de capital e
emissão de bônus de subscrição.

Sociedade cooperativa

Serão sempre sociedades simples, independentemente do objeto social.

Uma das características é a variabilidade ou dispensa do capital social; número mínimo, mas não
máximo de administradores; limitação de cotas por sócio; intransferibilidade de cotas a estranhos à sociedade,
ainda que por herança; funcionamento da assembleia e deliberação pelo número de sócios presentes e não
pelo capital representado; um só voto por sócio, qualquer que seja sua participação; distribuição de resultado
proporcional ao valor das operações do sócio, podendo ser atribuído juro fixo ao capital realizado;
indivisibilidade de fundo de reserva pelos sócios, ainda que na dissolução da sociedade.

A responsabilidade pode ser limitada ou ilimitada.

As regras subsidiárias são as da sociedade simples.

Por muito tempo admitiu-se a cláusula de unimilitância, que consistia, por exemplo, que um cooperado
não pudesse prestar serviços fora da cooperativa, como os médicos cooperados da UNIMED. Hoje a questão
encontra entendimento diverso, sendo considerada cláusula nesse sentido como infração contra a ordem
econômica (enunciado 7 CADE).

OPERAÇÕES SOCIETÁRIAS

Muito comum no direito societário as sociedades se relacionarem entre si, fundindo-se, transformando-
se, incorporando-se, e esses acontecimentos implicam sérias alterações na estrutura das sociedades, com
relevantes consequências jurídicas.

A disciplina está no CC e se tiver SA envolvida, na LSA. O CC não se aplica a SA, mas suas regras se aplicam
na omissão do CC às demais sociedades.

Transformação - Transformação é o ato pela qual uma sociedade, independentemente de dissolução e


liquidação, passa de um tipo para outro. E ensejam a inscrição e obediência aos preceitos do novo tipo vestido.
Em regra exige votação unânime, salvo quando os atos constitutivos disporem de forma diversa. O sócio
dissidente tem o direito de retirada. É ato que não prejudica credores nem suas garantias. A falência só sujeita
antigos sócios se os credores que a requereram sejam anteriores à transformação.

Incorporação - É o ato pelo qual uma ou mais sociedades são incorporadas por outra, que lhes sucede
em todos os direitos e obrigações. Não surge nova sociedade, apenas se extinguem as que foram incorporadas;
subsiste a incorporadora.

Fusão - É operação pela qual duas ou mais sociedades se unem, formando uma nova pessoa jurídica, que
lhes sucederá em todos os direitos e obrigações.

Cisão - É operação pela qual a companhia transfere parcelas de seu patrimônio para uma ou mais
sociedades, constituídas para esse fim ou já existentes, extinguindo-se a companhia cindida ou dividindo-se seu

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capital social. As que sucedem respondem pelas obrigações descritas no ato de cisão, se parcial. No caso de
extinção cada uma que sucede respondem na proporção dos patrimônios líquidos transferidos.

A atuação do CADE - Tais operações podem causar importantes reflexos no mercado concorrencial,
merecendo intervenção do CADE. Atos de concentração econômica (envolvendo empresas com faturamento
bruto superior a quatrocentos milhões de reais e trinta milhões de reais): exigem apresentação ao CADE da
proposta.

Outras operações entre sociedades

Coligações de sociedades: liga-se aos conceitos de sociedades controladas e controladoras. O capital


social é de uma sociedade é de propriedade de outra, sendo controlada diretamente quando a maioria dos
votos estejam na outra sociedade, ou indireta, sé só o maior número de ações ou quotas.

Grupos societários: entre sociedades controladoras e controladas. Mediante convenção pela qual se
obriguem a combinar recursos ou esforços para a realização dos respectivos objetos ou a participar de
atividades ou empreendimentos comuns.

Consórcios: serve para execução de empreendimentos específicos. Não possui personalidade jurídica
própria.

Sociedade subsidiária integral: único caso de sociedade unipessoal. Modelo específico de sociedade
anônima em que todas as ações são de titularidade de um único acionista, que é sempre uma sociedade
brasileira.

Sociedade de propósito específico: não é novo tipo de sociedade, mas uma sociedade qualquer criada
para atingir um único propósito, geralmente de sua controladora. É obrigatória no caso de parcerias público-
privadas (PPPs).

Holding: sociedade que tem por objeto social participar de outras sociedades (será mista se explorar
outro objeto também).

Joint venture: qualquer associação entre duas ou mais sociedades para desenvolver ou criar atividade
econômica, ou seja, com intuito lucrativo.

DISSOLUÇÃO, LIQUIDAÇÃO E EXTINÇÃO DAS SOCIEDADES

Das sociedades contratuais - Inicia com um ato de dissolução, que pode ser judicial ou extrajudicial,
desencadeando o processo de dissolução. Ocorre por: vencimento de prazo, se tiver; consenso unânime dos
sócios; deliberação por maioria absoluta (nas de prazo determinado); falta de pluralidade de sócios por mais de
180 dias; extinção da autorização para funcionar. A falência também causa dissolução.

Pode ser amigável ou de pleno direito, judicial ou extrajudicial.

O procedimento é do antigo CPC (o de 39, mas e agora?), por disposição expressa do novo. Prazo de
contestação é de 48 horas no caso de dissolução de pleno direito, ou de 05 dias no caso de dissolução
contenciosa.

A ato de dissolução não acarreta imediata perda da personalidade jurídica da sociedade. Esse ato apenas
será registrado na JC e dará início a uma fase de liquidação. Ao nome se acresce “em liquidação”. O liquidante
é o mencionado no contrato, ou escolhido por deliberação dos sócios, podendo ser pessoa estranha à
sociedade.

A grosso modo ele passa a ser o administrador da empresa em liquidação.

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A liquidação tem duas finalidades básicas: realizar o ativo e satisfazer o passivo. Depois de realizado o
passivo procede-se a partilha de acervo líquido da sociedade entre os seus sócios. Claro que se o ativo for menor
que o passivo ao liquidante compete confessar a insolvência e requerer a falência.

Aprovadas as contas do liquidante encerra-se a liquidação, extinguindo-se a sociedade.

Chama-se dissolução parcial a retirada de um sócio. E são causas:

- Penhora de cota por dívida particular de sócio: Quando se trata de sociedade de capital a possibilidade
não enfrenta óbices.

No entanto, há evidente problematização quando se trata de sociedade de pessoas, pois a penhora (e


expropriação) de cota social pode causar abalo no affectio societatis; veja-se que a regra é que a entrada de
novos sócios somente ocorre com a vontade dos demais, através de um vínculo pessoal de confiança.

Portanto, parcela considerável da doutrina e jurisprudência defendem a impenhorabilidade dessas


cotas na sociedade de pessoas. Mas o CC de 2002 sedimentou o entendimento contrário, permitindo a penhora
de cotas; o credor não ingressa na sociedade, mas pede a liquidação da cota e o valor é que será utilizado para
pagamento do débito (dissolução parcial da sociedade).

- A morte do sócio: em razão do princípio da conservação da empresa, acarreta apenas a dissolução


parcial dela, no caso de o herdeiro não ser admitido aos quadros sociais.

- O exercício do direito de retirada: é dissolução parcial da sociedade. Também conhecido como direito
de recesso, ou de denúncia e está pautado na ideia de que ninguém é obrigado a contratar contra sua vontade.
Deve o sócio notificar sua pretensão com no mínimo 60 dias de antecedência nas sociedades de prazo
indeterminado. Nas de prazo determinado, deve provar judicialmente a justa causa.

- Exclusão de sócio: é causa de dissolução parcial da sociedade. Nas sociedades contratuais a exclusão
deve ser judicial, por iniciativa da maioria dos demais sócios, por falta grave no cumprimento de suas obrigações
ou incapacidade superveniente, falência ou liquidação de cota. No caso de limitadas, PODE HAVER EXCLUSÃO
EXTRAJUDICIAL por justa causa, desde que o contrato assim preveja (a maioria dos sócios, representando a
maioria do capital social; ocorre em assembleia especialmente convocada para tal finalidade, ciente com
antecedência o acusado para comparecimento e exercício de defesa).

Os efeitos da dissolução parcial: não acarreta liquidação e partilha, com extinção da pessoa jurídica.
Ocorrerá apenas um procedimento de apuração de haveres do sócio retirante. Em princípio acarreta diminuição
do capital social; o valor da quota será apurada de acordo com a situação patrimonial da sociedade à data da
resolução, apurada em balanço especialmente levantado.

Nas sociedades por ações:

O rito não é o do CC, mas da LSA.

Dissolve-se de pleno direito: pelo término do prazo de duração; casos do estatuto; deliberação da
assembleia-geral; existência de um único acionista, se o mínimo de 2 não for reestabelecido em 1 ano; e pela
extinção da autorização para funcionar.

Dissolve-se por decisão judicial: anulação dos atos constitutivos, em ação proposta por qualquer
acionista; quando não pode preencher seu fim, em ação proposta por no mínimo 5% do capital social; falência.

Por decisão da autoridade administrativa: nos casos e forma previstos em lei especial.

São as disposições do CPC antigo (o de 39, mas agora?) que regem o procedimento, que será ordinário.
Se não for contestado o pedido, o juiz manda liquidar conforme regras para liquidação de sociedade civil ou
mercantil.

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Durante a dissolução conserva a personalidade jurídica para que seja procedida sua liquidação. Atua
com nome acrescido de “em liquidação”.

O liquidante também será como um administrador da empresa e tem uma série de deveres legais.

No processo de liquidação todas as ações gozam de igual direito a voto.

Dissolução parcial nas sociedades por ações: pela ausência de affectio societatis a jurisprudência por
muito tempo não admitia. O posicionamento foi paulatinamente sendo modificado, passando a permitir no caso
de sociedades anônimas fechadas, organizadas em grupos familiares, pois aí existiria o affectio, sendo essa a
posição consolidada do STJ.

TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA

Hoje positivada, daí porque não ser mais apenas uma teoria.

O reconhecimento da personalidade jurídica às sociedades é importante sanção premial, na medida em


que afasta os riscos do empreendedorismo, consagrando a limitação de responsabilidade, que tem como forte
o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica.

Mas tal direito não pode ser absoluto, nem servir de escudo para abusos ou blindagem de capital.

A doutrina e jurisprudência alienígena foram responsáveis pela evolução da teoria, pela qual fomentou-
se a possiblidade de afastamento dos efeitos da personalização da sociedade, nos casos em que a personalidade
jurídica fosse utilizada de forma abusiva e em prejuízo aos interesses dos credores.

Em 1960, Rubens Requião, no Brasil, passou a defender a aplicação da teoria, mesmo na ausência de
previsão legal.

A primeira menção legal ao instituto foi no CDC, em 1990; em 1994 uma lei também regulamentou o
tema ao tratar sobre prevenção e repressão às infrações à ordem econômica. Em 1998 na lei de crimes
ambientais também fora abordado o tema.

Mas apenas no CC de 2002 é que, segundo os comercialistas, a teoria foi fielmente retratada, mas não
revogou os demais institutos citados.

A desconsideração no CDC:

Prevista no artigo 28, do CDC, sofre duras críticas, pois não diferenciou hipóteses de desconsideração
da personalidade jurídica da imputação direta de responsabilidade por atos ilícitos. Para esse último caso,
defende-se não ser necessário ou desejável a desconsideração da personalidade, pois são aqueles beneficiados
quem deverão ser chamados a responder pelos prejuízos. Adotou-se a teoria menor.

Outra crítica é que a desconsideração fica a mero juízo do credor, por permiti-la na simples hipótese de
prejuízo ao credor. Os defensores da regra aduzem que os credores não negociais (os que não tem poder de
pactuar garantias, em fim, de negociar o crédito), não devem suportar o risco empresarial da mesma forma que
os credores negociais.

Mas os comercialistas elogiam a forma como o CC tratou do instituto. Para a legislação em comento a
desconsideração é reservada aos casos em que há efetivo abuso de personalidade, caracterizado por desvio de
finalidade ou confusão patrimonial, adepta a uma concepção objetivista da teoria.

Mas o efeito da aplicação do instituto não é o fim da pessoa jurídica, sua extinção; há apenas
afastamento dos efeitos da personificação, para se atingir o patrimônio dos sócios na situação delimitada em
concreto; os efeitos sequer são estendidos a outros casos.

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E somente os sócios que se beneficiaram do abuso que serão executados, mesmo que não exerça
administração ou gerência.

A desconsideração inversa: atingir bens sociais por dívida particular de sócio.

Aplicada atualmente em direito de família, em especial; um dos cônjuges, querendo salvaguardar bens
da partilha, os desvia para o patrimônio de uma pessoa jurídica. Admitida jurisprudencialmente.

Aspectos processuais: não há previsão do procedimento, mas algumas regras são de consenso. O juiz
não pode reconhecer de ofício, mesmo no CDC; deve respeitar o devido processo legal e suas implicações, como
o contraditório (mesmo que postergada para depois da desconsideração); não há necessidade de propositura
de ação autônoma; não depende da demonstração de insolvência da pessoa jurídica. COM O NOVO CPC
regulamentou-se – trata-se de incidente, com contraditório prévio, cujo pedido deve ser fundamentado.

6. Títulos de crédito.

6.1 Código Civil de 2002 e Lei Uniforme: a) características de títulos de crédito; b) circulação dos títulos de crédito;
c) conceito de título de crédito; d) requisitos essenciais e não essenciais.

6.2 Classificação dos títulos de crédito: a) títulos de crédito nominativos; b) títulos de crédito ao portador; títulos
de crédito à ordem. Institutos cambiários: a) aval; b) endosso; c) protesto (Lei n.º 9.492, de 10.09.97); d) aceite.

O título de crédito nasce da necessidade de um instrumento de facilitação e segurança de trocas. O


homem deixou de produzir apenas para si, e passou circular serviços e mercadorias, culminando na necessidade
de instrumentos de troca, em substituição ao escambo presente nas sociedades mais primitivas (primeiro o sal,
depois metais preciosos, depois a moeda e mesmo essa foi insuficiente, culminando a criação de títulos de
crédito, na Idade Média).

É o direito cambial ou cambiário, sub-ramo de direito empresarial, a disciplinar o regime jurídico dos
títulos de crédito.

O crédito é instrumento surgido da necessidade de viabilizar rápida circulação de riqueza; consiste


basicamente num direito a uma prestação futura, baseada fundamentalmente no princípio da confiança. Daí a
importância dos títulos de crédito para a economia mundial, fomentando a circulação de riquezas.

O regramento é, sobretudo, internacional. Sempre houve necessidade, pelos diversos países, de um


regramento padrão. Em 1910 e 1912 foram realizadas duas Convenções de Haia, que tratavam do assunto.
Depois da primeira Guerra Mundial a necessidade de regramento das relações entre os povos se torna mais
evidente, culminando a Convenção de Genebra, que aprovou a chamada Lei Uniforme das Cambiais. Em 1931
nova Convenção aprovou a Lei Uniforme do Cheque. O Brasil participou das convenções e anuiu com elas em
1942, sendo internamente aprovadas pelo CN em 1964, culminando com a edição dos Decretos 57663/66 e
57595/66, que promulgaram as Leis Uniformes Cambiais e do Cheque, respectivamente.

Como o Brasil já tinha regramento bem elaborado sobre o tema, através de lei ordinária, muito se
discutiu se seriam aplicáveis as Leis Uniformes, dado que não houve elaboração de outra lei para derrubar a
anterior. Mas em 1971 o STF firmou entendimento pela legitimidade da incorporação pelos Decretos.

O CC também tratou de títulos de crédito. No entanto, ressalvou em seu artigo 903 que as disposições
são subsidiárias, aplicando-se as regras específicas.

A evolução trazida pelos títulos de crédito foi de suma importância. No entanto, o momento atual da
economia sinaliza que mesmo os títulos de crédito são insuficientes: disseminou-se a prática de comércio
eletrônico, o que impõe repensar a dinâmica dos títulos de crédito.

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Conceito, características e princípios dos títulos de crédito - O conceito de aceitação unânime foi dado
por Cesare Vivante, jurista italiano para o qual título de crédito é o documento necessário ao exercício do direito,
literal e autônomo, nele mencionado. E foi o conceito trazido no CC.

E são as expressões documento necessário, literal e autônomo contidas no conceito que remetem aos
três princípios informadores do regime jurídico cambial: cartularidade, literalidade e autonomia, essa originando
os subprincípios da abstração e inoponibilidade de exceções pessoais a terceiros de boa-fé.

E são características principais dos títulos de crédito: natureza essencialmente comercial, documentos
formais, natureza de bens móveis, são títulos de apresentação, constituem títulos executivos extrajudiciais,
representam obrigações quesíveis, é título de resgate e de circulação.

Princípio da cartularidade – o título de crédito é o documento necessário ao exercício do direito nele


mencionado. Deve haver posse legítima do título para própria comprovação da existência do crédito e
exigibilidade. São documentos dispositivos e só se transferem mediante tradição, entrega.

Fala-se também em princípio da incorporação, pois o direito se materializa no próprio documento, não
existindo sem ele.

É desse princípio que decorrem as regras: a posse do título pelo devedor pressupõe quitação; o protesto
e execução só são possíveis com apresentação da cártula.

Mas a evolução da tecnologia começa a mitigar a cartularidade, pois frequentemente há criação de


títulos magnéticos. Trata-se do que doutrinariamente se chama de desmaterialização dos títulos de crédito.
Exemplo disso soa as duplicatas virtuais, que são objeto de protesto por indicação. No processo o Juiz pode
determinar a exibição em Secretaria caso o feito seja virtual. É preciso repensar o conceito de documento, pois
o eletrônico é realidade inafastável.

Princípio da literalidade - Diz-se ser o título de crédito o documento necessário ao exercício literal nele
representado. O título vale pelo que nele está escrito; somente atos lançados no título produzem efeitos
jurídicos perante o legítimo possuidor. É segurança para ambas as partes: o credor pode exigir tudo que está no
título, e o devedor não poderá ser demandado pelo que dele não conste. Por isso das dimensões positiva e
negativa do princípio para Ascarelli. Aval, endosso, quitação parcial, etc, tudo deve ser feito no próprio título.

Princípio da autonomia - É a pedra de toque do regime jurídico cambial. Por ele tem-se que o título de
crédito configura documento constitutivo de direito novo, autônomo, originário e completamente desvinculado
da relação que lhe deu origem.

As diversas relações que permeiam a sua circulação se desvinculam do título e não interferem no direito
daquele que legitimamente detém o título. É o princípio da autonomia que fomenta a circulação do título,
conferindo-lhe características de negociabilidade e circulabilidade.

E decorrem do princípio da autonomia os subprincípios ou características importantes: a abstração dos


títulos de crédito e a inoponibilidade de exceções pessoais a terceiros de boa-fé.

A abstração ocorre com a circulação. E a prescrição do título faz desaparecer a abstração e a


cambiaridade, impondo ao credor, na via judicial, demonstrar o locupletamento ilícito da outra parte. Mas há
controvérsia.

A inoponibilidade das exceções pessoais a terceiro de boa-fé protege esse da alegação de defesas
quanto a negócios que não praticou. Somente poderá sofrer tal defesa se agir de má-fé. E o ônus é do devedor,
pois a boa-fé se presume.

Classificação dos títulos de crédito

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- Quanto à forma de transferência ou circulação: ao portador; nominal à ordem; nominal não à ordem e
nominativos.

Título ao portador é o passível de circulação por mera tradição, já que não há indicação expressa do
credor no corpo do título. O que está portando presume-se o credor. Possível ao cheque até R$ 100,00.

Título nominal é o que identifica expressamente o credor. Para a transferência, assim, é exigida a
entrega, mas precedida de um ato formal. Nos nominais com cláusula à ordem o endosso transfere o título
(Art.910, CC); é a regra para os títulos de crédito típicos (letra de câmbio, NP, DM, cheque com mais de R$
100,00P). Já nos nominais com cláusula não à ordem somente a cessão civil de crédito opera a transferência.

Os títulos nominativos são os que tem indicação do credor no registro específico mantido pelo emitente.
A transferência somente se opera com termo no referido registro (art.922, CC).

- Quanto ao modelo: de modelo livre ou vinculado.

O título de modelo livre é o que não tem padronização regrada por lei. Ex.: letra de câmbio e NP. Basta
que preencham requisitos legais. Título de modelo vinculado submete-se à rígida padronização legal. Ex.:
cheque e duplicata.

- Quanto á estrutura: podem ser uma ordem de pagamento ou uma promessa de pagamento.

Nos títulos que representam uma ordem de pagamento há três figuras: sacador, sacado e tomador.
Sacador emite a ordem de pagamento ao sacado, que paga ao tomador. São o cheque, a letra de câmbio e a
duplicata. Ex.: cheque – sacador é o correntista, sacado é o banco e tomador é o credor.

Nos títulos que se estruturam como uma promessa de pagamento, como a nota promissória, há apenas
duas relações jurídicas: o sacador ou promitente, e o tomador ou beneficiário.

- Quanto às hipóteses de emissão: podem ser causais ou abstratos.

Título causal é o que pode ser emitido nas restritas hipóteses da lei. Ex.: DM, que só pode ser emitida
em compra e venda mercantil. Já o título abstrato é o cuja emissão não está condicionada a nenhuma causa
preestabelecida em lei, a exemplo do cheque. Não se confunde essa característica com o princípio da abstração.

ATOS CAMBIÁRIOS

O endosso o aval e o protesto são os mais importantes atos cambiários.

Endosso - É ato pelo qual o credor (endossante) transmite seus direitos a outrem (endossatário), pondo
o título em circulação. Todos os títulos típicos possuem implícita cláusula à ordem, circulando por meio de
endosso; a cláusula não à ordem deve ser expressamente inserida se as partes têm essa intenção (e contendo
tal cláusula, a transferência se dá apenas por cessão civil).

A função do endosso é de transferir a titularidade do título e tornar responsável, como codevedor, o


endossante. Mas pode conter o endosso a cláusula ‘sem garantia’, que exonera expressamente o endossante
da responsabilidade pela obrigação.

Deve ser feito no verso do título. Se feito na frente, deve conter a denominação de endosso.

Há expressa vedação ao endosso parcial ou condicional, sendo considerado não escrita a cláusula ou
condição se assim for feito. O CC também veda.

Inexiste limite de endossos.

O endosso poderá ser em branco ou em preto:

Em branco é quando não identifica o endossatário, o que permite que circule o crédito ao portador. Ao
endossatário em branco abrem-se três possibilidades: torna o endosso em preto com inserção de seu nome;

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endossa novamente em preto ou em branco; ou transfere sem novo endosso, pela mera tradição. No caso de
novo endosso o endossatário se torna também endossante e, com isso, também codevedor, responsável.

Em preto ocorre quando o endosso identifica o endossatário. Somente poderá circular o título mediante
novo endosso.

Há também a figura do endosso impróprio: endosso-caução e endosso-mandato.

Nos casos até então estudados o endosso é translativo, ou seja, transfere a titularidade do crédito,
sendo, pois, espécie de endosso próprio. Mas pode ocorrer que a pretensão das partes não seja a de transferir,
mas apenas permitir atos outros, como de cobrança ou garantia.

O endosso impróprio, nessa toada, apenas legítima a posse por terceiro, para que receba o exerça os
direitos da cártula.

O endosso-mandato ou endosso-procuração é ato pelo qual o credor confere a um terceiro o direito de


agir como seu legítimo representante para exercício dos direitos que emanam do título. O endosso, nesse caso,
deve se fazer seguir de uma das expressões: para cobrança, valor a cobrar, por procuração. Segundo o STJ o
que recebe o título só responde por eventuais danos ao devedor se comprovada sua atuação culposa, ou com
excesso de poderes. Súmula 476, STJ: o endossatário de título de crédito por endosso-mandato só responde por
danos decorrentes de protesto indevido se extrapolar os poderes de mandatário.

Já o endosso-caução, ou endosso-pignoratício ou endosso-garantia (art.19, LU), é a transferência para


garantia de dívida contraída perante o endossatário. Nesse caso o endosso é caracterizado pelas expressões:
valor em garantia, valor em penhor ou outra similar. Ocorrendo pagamento o endossante resgata o título;
inocorrendo, o endossatário passa a ter titularidade plena do crédito.

O endosso pode ser póstumo, ocorrido após o protesto ou decorrido o prazo para protesto os efeitos
serão de cessão ordinária de crédito. Não obstante, se antes desse ato ou prazo o endosso, mesmo vencido o
título, pode ser normalmente feito. E endosso sem data se presume feito antes do vencimento.

Diferem endosso e cessão civil. O primeiro é ato unilateral realizado no próprio título em virtude do
princípio da literalidade. A cessão, por outro lado, é ato bilateral, com natureza de negócio jurídico, em
instrumento à parte. No endosso o endossante se torna responsável, codevedor, enquanto na cessão o cedente
responde apenas pela existência do crédito. E na cessão civil não incide o princípio da inoponibilidade de
exceções pessoais: o devedor pode opor exceções pessoais que tinha contra o cedente, ao cessionário. É nítido,
portanto, que o endosso atinge melhor a finalidade de circulação de riquezas.

Aval - Aval é ato pelo qual um terceiro se obriga ao pagamento da obrigação contida no título,
juntamente com o devedor. Deve ser feito no anverso do título, ou seja, na frente, bastando a assinatura do
avalista; se feito no verso deve ser acompanhado de expressão que indique o aval. E a LU admite o aval parcial.

Pode igualmente ser em preto ou em branco, conforme indique ou não o avalizado. Se for em branco
presume-se que foi dado em favor de alguém (na LC há presunção de que foi dado ao sacador; nos demais
títulos, em favor do emitente).

Há diferença entre avais simultâneos e avais sucessivos. Simultâneos ou coavais são avais de duas ou
mais pessoas ao mesmo tempo, garantindo a mesma obrigação cambial; são avalistas que solidariamente se
obrigam conjuntamente. Já os sucessivos, ou aval de aval, ocorre quando um avalista avaliza outro avalista.

E difere o aval da fiança. Aval é garantia cambial e fiança garantia civil que pode ser prestada em
instrumento autônomo. Há autonomia da obrigação do aval, de modo que algum vício na relação do avalizado
não se transfere para a obrigação do avalista. O STF e o STJ já entenderam que o aval é obrigação autônoma e
independente, descabendo assim a discussão sobre a origem da dívida. Bem por isso se entende que pode ser
prestado inclusive sem autorização do avalizado, e até mesmo antecipado, ou seja, antes do surgimento da
obrigação do avalizado; na fiança, obrigação acessória que é, fica à sorte da obrigação principal. Ainda, o aval
não admite o benefício de ordem, reservado à fiança.
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O STJ vem entendendo pela aplicabilidade de regra do CC que exige outorga conjugal para o aval, salvo
regime de separação absoluta (legal ou convencional). Diz-se na doutrina que considerar nulo o aval sem a
outorga conjugal é beneficiar o próprio sujeito que deu causa à nulidade, em ofensa a princípio básico do direito.
Ademais, se a intenção é de proteger o cônjuge que não anuiu, basta que lhe reserve a meação.

Protesto - É ato formal pelo qual se atesta um fato relevante para a relação cambial. Para o direito
cambiário ele é essencial, exigido, apenas para o caso de o credor desejar executar os codevedores, como
endossante. E interrompe a prescrição (art. 202, III, CC).

O CÓDIGO CIVIL 2002 E OS TÍTULOS DE CRÉDITO

Nos artigos 887 a 926 o CC tratou dos títulos de crédito. Adotou o conceito de Cesare Vivante e reservou
a sua aplicabilidade dele apenas para inexistência de disposição diversa na lei especial o que, em princípio, faz
concluir que os títulos de crédito típicos não se submetem integralmente ao regramento do CC, apenas nos
casos de lacunas.

Inovou o CC no quesito desmaterialização do título. Em seu art.889 previu a possibilidade de títulos


eletrônicos.

No que tange ao endosso, dispôs o CC de maneira diversa à LU, ao referir que o endossante não
responde ela solvência do crédito. Assim, quanto aos títulos regidos por lei especial, não vale a disposição do
CC. Quanto ao aval, permite a LU o parcial, enquanto o CC não.

O CC não permite cláusula de juros, ao contrário da LU.

Há polêmica doutrinária no que diz respeito ao momento de nascimento da obrigação cambial, se com
a criação (teoria da criação, consumada com assinatura do título) ou da emissão (entrega voluntária do título).
A questão é relevante para solver o problema de o título ter sido colocado em circulação contra a vontade do
devedor. O CC parece ter adotado a teoria da criação (art.905, CC).

6.3 Títulos de crédito em espécie: a) letra de câmbio; b) nota promissória; c) duplicata; d) cheque; e)
debêntures; f) comercial paper; g) cédulas de crédito comercial, industrial e rural.
Os quatro que se destacam: letra de câmbio; nota promissória; cheque e duplicata. São os títulos típicos.

Letra de câmbio - Por diferirem as moedas de cidade para cidade, na Idade Média, surgiu a LC, das
operações de câmbio trajetício. No Brasil não tem grande utilização, sendo substituída pela DM. Mais ainda, é
título que depende de sobremaneira da boa-fé, talvez por isso não tenha vingado por aqui.

A emissão da LC se constitui em ordem de pagamento e dá origem a três situações jurídicas distintas: o


sacador que emite a ordem, o sacado contra quem a ordem é emitida e o tomador que é o beneficiário. Não há
necessidade de serem três pessoas distintas. o sacador e tomador podem ser a mesma pessoa que emite a LC
em seu próprio benefício. O sacador e o sacado podem ser a mesma pessoa, que emite a LC contra si mesmo.
Ou podem ser todas pessoas distintas.

São requisitos essências: a expressão letra de câmbio; uma ordem incondicional para pagamento de
quantia determinada (não pode ser condicional, submetido à condição suspensiva ou resolutiva e o valor deve
ser expresso em moeda nacional); o nome do sacado, o nome do tomador, a assinatura do sacador, a data do
saque, o lugar do pagamento (ou lugar junto ao nome do sacado) e o lugar do saque (ou menção de lugar junto
ao nome do sacador).

É importante frisar que se admite a emissão de cambial em branco ou incompleta. Súm.387, STF: a
cambial emitida ou aceita com omissões ou em branco, pode ser completada pelo credor de boa-fé antes da

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cobrança ou do protesto. Logicamente que o preenchimento deve se dar em conformidade com os ajustes
realizados (art. 891, CC).

É importante a identificação pelo nome do título (cláusula cambiária), porque a depender dele é que se
identifica a legislação aplicável. Ainda, os títulos nominados ou típicos contêm sempre a implícita cláusula à
ordem, a permitir a circulação por endosso; logo, precisa identificar o título para essa incidência.

O sacador deve assinar porque é codevedor. Se o sacado não aceita, o tomador pode exigir do sacador
o valor.

A indicação da data do pagamento não é requisito essencial e, portanto, sua omissão não invalida o
título. A ausência, vale dizer, indica o vencimento à vista.

O aceite: o tomador recebe a LC e a leva para o sacado, para que ele aceite (no próprio título) – é a
expressão aceite ou aceitamos seguida da assinatura. Esse é o ato pelo qual o sacado assume a obrigação
cambial, tornando-se devedor principal do título. Não é obrigatório, mas é irretratável. Não ocorrendo o aceite
há o vencimento antecipado da dívida (não ocorre se houver a expressão cláusula não aceitável, a qual obriga
o tomador a procurar o sacado somente no vencimento (ou outra data aprazada pelo sacador), ou se procurar
antes só obriga o sacador na época do vencimento) e o sacador torna-se o devedor principal. O aceite pode ser
parcial, o que, por outro lado, representa uma recusa parcial; pode ser aceite parcial limitativo, quando o aceite
é de parcial valor, ou aceite parcial modificativo, quando o sacado modifica alguma condição de pagamento,
como a data.

Vencimento: quatro LC se distinguem: letra com dia certo, à vista, a certo termo da vista e certo termo
da data. Com dia certo é a que vence em data prevista pelo sacador; à vista vende na data da apresentação ao
sacado. A certo termo da vista é a com vencimento após certo prazo estipulado pelo sacador e que começa a
correr a partir da vista (aceite) do título (incompatível com a figura da cláusula não aceitável). A certo termo da
data vencem em determinado prazo estipulado pelo sacador e que começa a correr a partir da emissão (saque).

Prazo de apresentação e prazo de pagamento: na com vencimento a certo termo da vista o tomador
deve apresentar a letra ao sacado no prazo estabelecido ou dentro de um ano contado da emissão. Na com
vencimento à vista pode simplesmente apresentar para pagamento e não aceite, o que deve ocorrer dentro de
um ano da emissão.

Uma vez apresentada a aceite a LC não pode ser retida sob pena de responder o sacado por crime de
apropriação indébita. Mas pode exigir o prazo de respiro de 24 horas, ou seja, pode pedir para apresentar o
título no outro dia.

Uma vez aceita ao tomador resta aguardar o prazo de vencimento, após o que a LC se torna exigível e
pode ser apresentada ao aceitante para pagamento (no mesmo dia ou próximo útil). Após o vencimento começa
a fluir o prazo para protesto, que deve ser feito nos dois dias úteis seguintes ao vencimento.

Nota Promissória - É promessa de pagamento e que envolve apenas duas pessoas: o sacador ou
promitente, e o tomador beneficiário.

São requisitos essenciais na emissão da NP: a expressão nota promissória (cláusula cambiária), a
promessa incondicional de pagamento de quantia determinada, o nome do tomador (não pode ser emitida ao
portador), a data do saque, a assinatura do subscritor e o lugar do saque ou a menção de um lugar junto ao
nome do subscritor.

A data do pagamento igualmente à LC não é requisito essencial, de maneira que sua falta apenas indica
vencimento à vista.

Não é título que depende de aceite, bem por isso não se compatibiliza com vencimento a certo termo
da vista. Mas é a própria LU a admitir a emissão da NP a certo termo da vista, quando o título deve ser
apresentado ao subscritor dentro de um ano a contar do saque da nota. É do visto que se conta o vencimento.

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Na NP poderá constar expressamente que está atrelada, que foi emitida em razão de um contrato.
Assim, há descaracterização da abstração e autonomia, pois o terceiro que a receber por endosso tem ciência
da origem. Isso não a desnatura como título executivo e, obviamente, as exceções oponíveis dizem respeito
unicamente ao contrato (é relativa a mitigação da abstração). Para o STJ há executoriedade de NP emitida em
razão de um contrato bancário; entretanto, não a terá no caso de contrato de abertura de crédito, caso em que
ela não é dotada de liquidez (de início os bancos tentavam executar o contrato, o que era repelido (pois o saldo
devedor era arbitrariamente produzido por eles), depois o contrato mais extratos e, no fim, atrelaram uma
promissória para dar executoriedade, o que igualmente é repelido. Admite-se apenas a monitória).

Cheque - É uma ordem de pagamento à vista emitida contra um banco em razão de fundos que a pessoa
emitente tem naquela instituição financeira. É de modelo vinculado, tem padrões determinados pelo BC.

São requisitos essenciais: a denominação cheque, uma ordem incondicional de pagamento de quantia
determinada (indicada numérica e por extenso, prevalecendo esta quando houver divergência), nome da
instituição financeira contra quem é emitido, a data do saque, o lugar do saque ou local junto ao nome do
emitente e a assinatura do próprio emitente.

A ordem sempre é de pagamento à vista, embora no mercado tenha se consolidado a figura do cheque
pós-datado, para pagamento em data futura. Para a lei, entretanto, a cláusula que pós-data o cheque é
considerada não escrita; portanto, apresentado ao banco será pago, ainda que antes do prazo estipulado. Mas
quem apresenta um cheque antes está a quebrar o acordo, incidindo em responsabilidade civil; e o acordo de
pré-datação vincula apenas as partes, não terceiro de boa-fé. Súmula 370 e 388 STJ.

O local de pagamento é importante, pois define o prazo de apresentação (pois define a ‘praça’ de
emissão. Comumente, entretanto, as pessoas colocam o mesmo local de suas agências, e isso prevalece por
estar escrito).

Não há limite de endossos em um cheque (existia enquanto prevalecia a lei do CPMF, quando apenas
um endosso era admitido, para evitar a circulação sem o recolhimento da contribuição). Atualmente inexiste o
limite. O banco é obrigado a verificar a regularidade na cadeia de endossos, mas não a autenticidade das
assinaturas dos endossantes (apenas a do correntista emitente com quem mantém vínculo que lhe fornece os
caracteres para comparação). Responde o banco pelo pagamento de cheque falso, falsificado ou alterado (salvo
dolo ou culpa do correntista).

Podem ser emitidos ao portador os cheques com valor de até cem reais. Mas pode ocorrer a figura do
endosso em branco, circulando o título até que o último ‘feche-o’ com seu nome.

Excepcionalmente se admite a discussão da causa debendi.

Contém implicitamente cláusula à ordem, o que não impede a inserção de uma cláusula não à ordem,
expressamente, assim como todos os títulos até aqui estudados.

A aceitação como forma de pagamento, segundo o STJ, na esteira da inexistência de dever legal, é
facultativo. No entanto, se o estabelecimento aceita cheques não pode recusar de um cliente sem justa causa,
sob pena de violação à boa-fé objetiva (e porque não à igualdade entre consumidores, caso seja relação de
consumo).

Modalidades de cheque:

- Cheque cruzado: aposição de dois traços transversais e paralelos no anverso do título, e tem como
objetivo conferir segurança à liquidação de cheques ao portador. Isso porque seu desconto só pode ser pago
mediante crédito em conta o que evita o desconto na boca do caixa. Pode ser cruzamento em branco, quando
nenhum nome é mencionado entre os traços ou apenas é escrito branco, ou cruzamento especial, quando se
coloca um banco entre os traços referidos, impondo que somente pode ser pago a algum correntista daquele
banco com creditação em conta.

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- Cheque visado: somente para cheques nominativos e ainda não endossados. É a certificação, pelo
banco, no verso do título, da provisão de fundos, o que assegura o pagamento durante o prazo de apresentação.

- Cheque administrativo: é emitido pelo próprio banco para desconto contra ele mesmo. Utilizado para
operações de grande valor econômico, em que o devedor tem dinheiro no banco e esse banco lhe emite o
cheque, dando mais segurança ao recebedor de que será pago, evitando, ainda, a movimentação física de
grande quantia em dinheiro, diminuindo os riscos.

- Cheque para ser creditado em conta: essa expressão colocada no anverso do título (ou indicação e
número de conta de beneficiário entre os traços do cruzamento, impõe que o valor seja creditado em conta e
não pago em dinheiro.

Sustação: pode um cheque emitido ser sustado: revogação ou contraordem e oposição.

A revogação é feita por carta com as razões motivadoras. Só produz efeitos após escoado o prazo de
apresentação e se não ocorre a revogação o cheque pode ser pago até o prazo prescricional.

Já a oposição é para efeitos durante o prazo de apresentação e enseja a motivação fundada em


relevante razão de direito. Dirigida ao sacado.

E não cabe ao banco investigar as razões da sustação, daí o porquê não ser legal a exigência de BO na
prática. É o beneficiário tomador que deve promover a responsabilização do emitente, se for o caso, inclusive
noticiando o possível estelionato.

Na esteira de entendimento do STJ o cheque pós-datado constitui mera garantia da dívida – para fins
criminais. Desse modo não fundamenta a incriminação por estelionato se na data de emissão não tiver
fundos!!!! Significa que, para fins criminais, o cheque pós-datado perde a qualidade de título executivo.

O prazo de apresentação: 30 dias para da mesma praça e 60 dias para praças diversas. E dentro do prazo
de apresentação que subsiste o direito de executar os codevedores. Súmula 600, STF: cabe ação executiva
contra o emitente do cheque e seus avalistas, ainda que não apresentado o cheque ao sacado no prazo legal,
desde que não prescrita a ação cambiária”.

O banco só não pode descontar se estiver prescrito o cheque. Desse modo o prazo de apresentação
apenas funciona como um prazo de protesto, ou a apresentação em si é como se fosse um protesto, legitimando
execução contra os codevedores.

Ocorre perda do direito de executar o emitente quando esse emitente provar que tinha fundos no prazo
de apresentação, mas deixou de tê-lo por motivos alheios à sua vontade depois dele. Art.47, §3º, Lei do Cheque.

A prescrição: é de 06 meses contados após o término do prazo de apresentação. No caso de cheque


pós-datado o prazo tem início quando da apresentação para desconto no banco.

Mas uma vez prescrito o cheque ainda legitima a propositura de ação de enriquecimento ilícito ou de
locupletamento, cujo prazo é de 02 anos a contar da prescrição da executiva. É ação cambial e o cheque, nela,
conserva seus atributos, como autonomia e inoponibilidade de exceções pessoas a terceiro de boa-fé; o rito
será o ordinário. Depois de decorrido o prazo dessa ação ainda cabe a cobrança, mas atrelada à comprovação
da relação causal. Para o STJ é admitida ação monitória fundada em cheque prescrito (nela o autor não precisa
provar a origem da dívida, cabendo ao requerido essa prova de inexistência), cujo prazo prescricional é de 05
anos.

Duplicata - Difere essencialmente da LC pela sistemática de aceite obrigatório. É, ao lado do cheque, o


título de mais utilização no Brasil.

É um título causal. Somente cabe para documentar determinadas relações jurídicas preestabelecidas
pela lei de regência: compra e venda mercantil ou contrato de prestação de serviços. O STJ já decidiu, por

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exemplo, pela nulidade de DM emitida em virtude de contrato de leasing. E é crime emitir DM em desacordo
com a mercadoria vendida (art.172, CP).

Mas ocorrendo o aceite a relação de causalidade, exigida apenas para originar o título, desaparece.

Também é título de modelo vinculado. Deve, também, conter os elementos: expressão duplicata
(cláusula cambiária) e a clausula à ordem (presumida também), data de emissão, coincidente com a data da
fatura, números da fatura e da duplicata, data do vencimento quando não for à vista, nome e domicílio do
vendedor (sacador), nome e domicílio e número de inscrição no cadastro de contribuintes do sacado
(comprador), importância a ser paga, por extenso e em algarismos, o local de pagamento, local para aceite do
sacado e assinatura do sacador.

Ainda que o devedor não dê o aceite, assinando, será responsável pela dívida, mediante prova da
entrega da mercadoria ou prestação de serviços.

Para recusa do aceite devem existir motivos plausíveis: não recebimento da mercadoria, existência de
vícios do produto, entrega fora do prazo estipulado, etc.

É de emissão pelo próprio credor (vendedor). Apesar de a lei referir como única possibilidade para
documentar compra e venda, está a afastar apenas a LC, e não o cheque e nota promissória, por exemplo (STJ).

E após a emissão é enviada, em até 30 dias, ao devedor para aceite e devolução, salvo justificativa
plausível para a recusa. Tem 10 dias para devolver, contados da apresentação. O aceite sendo expresso
formaliza a DM como título executivo. Já o presumido ou por presunção ocorre quando o devedor recebe a
mercadoria sem rejeição; mas a execução dependerá, nesse caso, de protesto e comprovante de entrega das
mercadorias. Mas tendo o próprio vendedor endossado o título para repasse a terceiro, desnecessária a
comprovação da entrega da mercadoria (mas o protesto não).

Se não há prova da entrega da mercadoria pode desafiar ação monitória (STJ).

O que recebe duplicata sem lastro por endosso responde pelo protesto indevido, com direito de
regresso contra os endossantes.

Três protestos podem ser realizados: por falta de aceite, de devolução ou pagamento. E não elide a
possibilidade de protesto por falta de pagamento se não protestou pela ausência de aceite ou devolução.

30 dias da data do vencimento é o prazo de protesto para executar codevedores (endossantes e


avalistas deles).

O local de pagamento é o do protesto e execução.

O protesto por indicações é a via adequada quando há retenção indevida do título, não a emissão da
triplicata (que serve para extravio da duplicata).

O prazo de prescrição:

- Três anos contra devedor principal e avalistas, contados do vencimento.

- Um ano contra codevedores e seus avalistas, contado do protesto, e entre os codevedores, contado
do pagamento do título.

OUTROS TÍTULOS DE CRÉDITO

Merecem destaque os títulos de crédito comercial, industrial, rural, à exportação, imobiliário e bancário.

São títulos de crédito causais, representativos da promessa de pagamento, com ou sem garantia real.
Diferem as cédulas de crédito das notas de crédito: as cédulas são providas de garantia real, incorporadas na
própria cártula (mas podem também ter garantias fidejussórias ou nenhuma garantia). As notas de crédito são

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desprovidas de garantia e gozam apenas de privilégio especial sobre bens livres do devedor em caso de falência
ou insolvência.

São transferidos por endosso em preto e representam mera cessão de crédito. Dispensam protesto para
assegurar direito de regresso.

Os títulos de crédito comercial têm como destaques o conhecimento de depósito (que representa
mercadoria depositada, circula por endosso) e o warrant (promessa de pagamento cuja garantia é mercadoria
depositada); Lei n] 1.102/1903. Também há a cédula de crédito comercial e a nota de crédito comercial (Lei
6.840/80); títulos causais resultantes de financiamentos concedidos para empresas para finalidade comercial,
representando promessa de pagamento, sendo a cédula com garantia real nela descrita e a nota sem garantia
real.

Os títulos de crédito industrial são a cédula de crédito industrial e a nota de crédito industrial (Decreto-
lei 413/69). Títulos causais resultantes do financiamento para atividade industrial, representando promessa de
pagamento, sendo a cédula com garantia real nela descrita e a nota sem garantia real.

Os títulos de crédito rural são vários. Há a cédula e a nota de crédito rural (Decreto-lei 167/67), que são
títulos causais de natureza civil resultantes do financiamento de atividade rural, concedidos a cooperativas,
empresas ou produtores rurais, representando promessa de pagamento, sendo a cédula com garantia real nela
descrita e a nota sem garantia real. Mas também existem a nota promissória rural e a duplicata rural (mesmo
Decreto) que são títulos igualmente causais e que documentam compra e venda de natureza rural, a prazo e
não constitutivas de financiamento. Há, por fim, a cédula de produto rural (Lei 8.929/94), título de natureza
causal, emitido por produtor ou cooperativa rural, como promessa de entrega de produtos rurais, podendo
conter garantia hipotecária, pignoratícia ou fiduciária; muito usada na aquisição de insumos, cujo pagamento
ocorre com entrega de produtos rurais. O STJ chancelou a possibilidade de emissão de CPR para mera garantia
de oscilação de preços (operação de hedge), independente do recebimento antecipado de pagamento.

7. Recuperação judicial, extrajudicial falência do empresário e da sociedade empresária (Lei n.º 11.101 de 9 de
fevereiro de 2005). 7.1 Disposições preliminares e comuns à recuperação judicial e à falência: a) verificação e da
habilitação de créditos; b) administrador judicial e comitê de credores; c) assembléia geral de credores. 7.2
Recuperação judicial: a) objetivo; b) legitimidade ativa; c) requisitos; d) créditos abrangidos e exceções; e) meios
para a obtenção da recuperação da empresa; f) pedido e processamento da recuperação judicial; g) plano de
recuperação judicial. 7.3 Crise econômica e financeira e cessação do pagamento; causas macro e
microeconômicas da crise da empresa. 7.4 Recuperação judicial das Microempresas e Empresas de Pequeno
Porte: plano especial. 7.5 Recuperação extrajudicial. 7.6 Convolação da recuperação judicial em falência. 7.7
Falência: a) objetivo; b) juízo universal; c) efeito da sentença em relação às dívidas; d) classificação dos créditos e
ordem de preferência; 7.8 Procedimento e decretação da falência; f) direitos e deveres do falido; g) autofalência;
h) efeitos da decretação da falência sobre as obrigações do devedor; i) Ações falimentares. 7.9 Crimes praticados
na falência, na recuperação judicial e na recuperação extrajudicial: a) competência; b) natureza da ação penal; c)
procedimento penal; d) prescrição; e) efeitos da sentença condenatória; f) legitimação passiva; g) condição
objetiva de punibilidade.

Casos de incidência e não incidência

A Lei 11.101/05 aplica-se somente a quem exerce a empresa, seja empresário individual seja sociedade
empresária. Estão, entretanto, excluídas da incidência da lei: as empresas públicas (EPP e SEM); instituições
financeiras; cooperativas de crédito; empresas de consórcio; entidades de previdência complementar;
sociedades operadoras de planos de assistência à saúde; sociedades seguradoras; sociedades de capitalização
e todas as que se equiparem às citadas.

Além dessas pessoas excluídas em razão do objeto, também não se aplica a lei a alguns casos
relacionados com a inatividade: cessação de atividade empresariam mais de dois anos antes do pedido de

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falência, comprovado por documento hábil do Registro Público de Empresas, que deixa de ser considerado por
prova de exercício posterior ao ato registrado; sociedade anônima, depois de liquidado e partilhado seu ativo
(duas hipóteses de não incidência absoluta, não incidência inclusive da recuperação); espólio, após uma ano da
morte do devedor (não incidência relativa, pois apenas o credor não pode requerer, o podendo fazer o cônjuge
sobrevivente, herdeiro ou inventariante).

Unidade do Juízo falimentar - O Juízo competente para apreciar as questões envolvendo a empresa em
crise é o do local de principal estabelecimento do devedor ou filial do empresário individual ou sociedade
empresária com sede fora do Brasil. Principal estabelecimento é o ponto central dos negócios, de onde partem
as ordens que movimentam os estabelecimentos produtores. Princípio da unidade. E a prevenção é o critério
para definição da competência, firmando-se pela distribuição.

Indivisibilidade do juízo falimentar - É o princípio que estabelece o Juízo da falência como o único
competente para conhecer de todas as ações, bens, interesses e negócios do falido. Há exclusão de alguns casos.
Art.76: causas trabalhistas, fora sua execução; causas fiscais, por não se submeterem ao concurso de credores
ou à habilitação nos processos falimentares; causas em que o falido figure como autor ou litisconsorte ativo,
não reguladas pela lei falimentar e; causas que demandem obrigação ilíquida, até a definição do quantum
(construção jurisprudencial a última, com mesmo fundamento das trabalhistas até a execução). Ainda, estão
excluídas as causas de competência da JF, relativa a imóveis, cuja competência se dá pela situação do bem.

Universalidade do juízo familiar - É o princípio que determina submissão de todos os credores às mesmas
regras de classificação dos créditos, mesmo os que não se submetem à habilitação (os excetuados do princípio
da indivisibilidade). Não há exceção, apenas graduação de intensidade de incidência da regra; trabalhistas,
fiscais, com privilégios reais, quirografários, etc, todos se submetem às mesmas regras, uns tendo classificação
superior que outros.

Verificação e habilitação de créditos - As normas de classificação dos créditos se aplicam tanto à falência,
quanto à recuperação judicial. Tem três fases distintas:

- 1ª fase: fase inicial, de chamamento dos credores. Na recuperação é deflagrada com publicação do
edital contendo a decisão que a concede; na falência, inicia com o edital da decisão que a decreta. Da publicação
contam-se 15 dias para habilitações tempestivas. No dia seguinte ao encerramento do prazo de 15 dias, se
iniciam os 45 dias que terá o administrador para publicar edital com relação de todos os credores habilitados.
Publicado o edital contam-se 10 dias para credores, comitê, devedor, sócios e MP para impugnação.

- 2ª fase: é o tríplice encaminhamento. Decorrido os 10 dias para a impugnação, três caminhos se abrem:
a) na ausência de impugnações, o Juiz homologa a relação; b) algumas impugnações: vista aos impugnados com
prazo de 05 dias, depois vista ao devedor, comitê de credores, e parecer do administrador em prazo igual.
Entende-se que deve ser ouvido o MP após o parecer do administrador, dada sua função fiscalizatória. c) em
relação aos créditos não impugnados, os autos são remetidos para decisão judicial.

- 3ª fase: a decisão judicial. Os não impugnados são incluídos. Os impugnados são decididos pelo Juiz,
que pode determinar produção de provas; se improcedente a impugnação, o crédito é incluído. A decisão é
remetida ao administrador para consolidar o quadro geral de credores, que será publicado no prazo de 05 dias.
Da publicação inicia-se o prazo de 10 dias para interposição, pelos interessados, de agravo de instrumento.
Art.17.

A habilitação retardatária de créditos - se não realizada nos 15 dias do edital da decisão da concessão da
recuperação ou decretação de falência, a habilitação será considerada retardatária. Se for requerida a
habilitação retardatária até a homologação do quadro geral de credores, será processada como impugnação de

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crédito. Depois dessa homologação, deve o credor postular em ação de retificação de ato judicial, pelo rito
ordinário, com processamento no juízo falimentar.

Em se tratando de recuperação judicial há uma restrição imposta ao credor retardatário: até não ser
incluído no quadro geral de credores não terá direito a voto nas deliberações da assembleia geral de credores,
salvo crédito trabalhista. E, em se tratando de falência, além dessa restrição, ainda incidirão mais três: não se
beneficia dos rateios feitos aos credores da falida, perde o direito aos acessórios devidos entre a data do término
do prazo e a do pedido de habilitação retardatária; pagará emolumentos e custas.

Ação ordinária de exclusão de crédito - Art.19, LRF (Lei de Recuperação e Falência). Após a homologação
do quadro geral de credores a impugnação se dá através de ação judicial.

São duas espécies distintas: a ação rescisória de sentença, quando se referir a título judicial, julgamento
de crédito retardatário ou impugnação de crédito, e a ação de anulação de ato judicial, quando deriva da
homologação do quadro geral (fora os casos de impugnação). As duas seguem rito ordinário.

Os pedidos são de exclusão, outra classificação ou retificação de qualquer crédito, nos casos de
descoberta de falsidade, dolo, simulação, fraude, erro essencial ou, ainda, documentos ignorados na época do
julgamento do crédito ou inclusão no quadro geral de credores.

A legitimidade para propositura é do administrador judicial, comitê de credores, qualquer dos credores
ou MP que atuar no processo. O devedor não está legitimado.

A competência respeita ao princípio do Juízo universal da falência, salvo se a falsidade, dolo,


simulação,etc, ocorreu em outro juízo, como trabalhista, os que julgaram ações de obrigações ilíquidas, as
promovidas antes da falência.

Decadência: pode ser promovida até o encerramento da RJ ou Falência.

O impugnado só pode receber ou levantar o crédito mediante caução no mesmo valor do crédito
questionado.

ADMINISTRADOR JUDICIAL

O juiz da falência quem indica, dentre advogados, economistas, administrador de empresas, contador
ou empresa especializada que, nomeada, indica o profissional que não poderá ser substituído sem autorização
judicial.

Prevalece que a natureza jurídica é de função judiciária.

Impedimentos: referem-se a atos desídia (quem foi destituído nos últimos 5 anos, deixou ou teve a
prestação de contas reprovada), relações de parentesco, dependência ou amizade com o devedor (parentes até
terceiro grau; do devedor, administrador, controlador ou representante legal da falida), administradores,
controladores ou representantes legais da falida.

Depois de intimado pessoalmente presta o compromisso legal em 48 horas, em Secretaria (sob pena de
substituição).

Suas funções na falência:

- Administrar a empresa falida, na continuação provisória.

- Alugar ou celebrar outro contrato em relação aos bens da falida para lhe produzir renda.

- Apresentar conta demonstrativa da administração (10º dia do mês seguinte ao vencido), relatório final
da falência (10 dias do julgamento das contas), relatório sobre causas e circunstâncias que conduziram a falência
(40 dias da assinatura do compromisso, prorrogável por igual período).

- Arrecadar bens e documentos do devedor (elaborando auto) (ato continuo ao compromisso).

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- Assinar auto de arrematação (no ato) e termo de compromisso (48 horas).

- Avaliar bens arrecadados (no ato de arrecadação ou, justificadamente, em até 30 dias).

- Avisar, por órgão oficial, aos credores dia e local em que terão à disposição os livros e documentos do
falido (findo o prazo de 15 dias para as habilitações e a tempo para as consultas dos credores).

- Consolidar o quadro geral de credores (5 dias após a publicação da sentença que julgar as impugnações
dos créditos).

- contratar avaliadores, profissionais ou empresas especializadas para lhe auxiliarem (quando


necessário, mediante autorização judicial).

- cumprir ou denunciar contratos (ao tomar conhecimento deles, ou até 10 dias da notificação do
contratante).

- Dar extrato dos livros do devedor (antes de findar os 15 dias das habilitações).

- Declarar se cumpre ou não os contratos bilaterais (10 dias após interpelação do contratante).

- Diligenciar cobrança de dívidas e dar quitação.

- Elaborar relação de credores (45 dias após findo o prazo das habilitações tempestivas.

- Entregar ao seus substitutos bens e documentos da massa.

- Enviar correspondência aos credores.

- Examinar a escrituração do devedor.

- Exercer as funções do Comitê de Credores, se não for constituído ou não houver compatibilidade de
criação.

- Exigir certidões do registro de imóveis (15 dia após a arrecadação).

- Exigir informações de credores, devedor ou administradores (a qualquer tempo).

- Guardar os bens arrecadados.

- Manifestar-se nos pedidos de restituição (5 dias, da intimação).

- Manifestar-se sobre a forma de alienação do ativo.

- Manifestar-se sobre impugnação às suas contas ou parecer contrário do MP.

- Praticar atos conservatórios de direitos e ações.

- Praticar atos necessários à realização do ativo e pagamento dos credores.

- Presidir a assembleia geral.

- Prestar contas e relatórios omitidos no tempo certo (na omissão, 5 dias da intimação, sob pena de
desobediência).

- Prestar contas (no final do processo, 30 dias depois de concluída a realização do ativo e distribuído o
produto entre os credores; ou 10 dias depois de sua substituição, de ser destituído ou renunciar ao cargo).

- Propor, sem exclusividade, ação revocatória (até 3 anos contados da decretação da falência).

- Realizar atos pendentes em inventário do espólio do falido, em relação a direitos e obrigações da


massa.

- Realizar despesas, inclusive pagamentos antecipados.

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- Receber a relação de associados sindicalizados que serão representados pelo sindicato na assembleia
geral (10 dias antes da assembleia).

- Receber e abrir correspondência dirigidas ao devedor.

- Relacionar os processos e assumir a representação judicial da massa.

- Remir, em benefício da massa e mediante autorização judicial bens empenhados, penhorados ou


legalmente retidos.

- Requerer a convocação de assembleia geral de credores.

- Requerer a venda antecipada de bens.

- Requerer todas as medidas e diligências necessárias ao cumprimento da lei, a proteção da massa e a


eficiência da administração.

- Restituir coisa móvel comprada com reserva de domínio, se resolver não continuar com o contrato.

- Revogar ou confirmar representação judicial conferida em mandato outorgado pelo falido.

- Transigir sobre direitos e obrigações da massa.

Funções na recuperação judicial

- Apresentar relatório mensal de atividades do devedor.

- Apresentar relatório do plano de execução da recuperação.

- Assinar termo de compromisso (48 horas).

- Consolidar quadro geral de credores (5 dias após publicação da sentença que julgar as impugnações).

- Contratar profissionais ou empresa para seu auxílio (quando necessário e mediante autorização
judicial).

- Dar extratos dos livros do devedor (até os 15 dias para as habilitações).

- Elaborar relação de credores (45 dias após findo o prazo para as habilitações tempestivas).

- Enviar correspondência aos credores.

- Exercer as funções de gestor enquanto a assembleia geral não deliberar sobre a escolha deste.

- Exercer funções do Comitê de Credores se este não for criado ou for incompatível a criação.

- Exigir dos credores, do devedor ou de seus administradores quaisquer informações (a qualquer


tempo).

- Fiscalizar as atividades do devedor e o cumprimento do plano de recuperação judicial.

- Fiscalizar os atos de administração do devedor.

- Fornecer todas as informações pedidas pelos interessados.

- Manifestar-se sobre a forma de alienação do ativo, quando o plano envolver essa operação.

- Presidir a assembleia geral.

- Prestar contas e apresentar relatórios omitidos no tempo certo (na omissão, 5 dias da intimação, sob
pena de desobediência).

- Receber a relação de associados sindicalizados que serão representados pelo sindicato na assembleia
geral.

- Requerer a falência no caso de descumprimento de obrigação assumida no plano de recuperação.


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- Requerer a convocação de assembleia geral de credores.

Remuneração do administrador - Para decidir sobre o valor o juiz levará em conta aspectos relacionados
ao montante (capacidade de pagamento do devedor, grau de complexidade do trabalho, valores praticados no
mercado para desempenho de atividade semelhante, proporcionalidade ao trabalho realizado – quando
substituído sem culpa. Tais aspectos são os mesmos considerados para fixação dos demais profissionais
auxiliares), limite (até 5% do valor da venda dos bens na falência, e até 5% dos créditos submetidos à
recuperação), momento de pagamento (60% no curso da falência, 40% após a conclusão e realização do ativo
e julgamento das contas da administração).

Substituição e destituição - Independem de manifestação da assembleia. A destituição é mais grave.

Será substituído o administrador: a) por iniciativa do devedor, qualquer credor, MP, em virtude de
irregularidade na nomeação, fundada em desobediência aos preceitos da lei; b) renúncia com ou sem motivo
relevante; c) não assinatura do termo de compromisso em 48 horas.

Será destituído o administrador: a) que não apresentar as contas mesmo intimado que já decorreu o
prazo, em 05 dias; b) por ato de ofício do magistrado ou requerimento fundamentado de qualquer interessado,
quando verificado desobediência aos preceitos da lei, descumprimento dos deveres, omissão, negligencia ou
prática de ato lesivo às atividades do devedor ou terceiros.

Em razão de dolo ou culpa se responsabiliza o administrador pelos danos que causar à massa, ao
devedor ou aos credores.

Prestação de contas - Sempre que sair da função ou encerrar os trabalhos deve prestar contas, cujo
procedimento corre incidentalmente ao processo falimentar.

Prazos: até 30 dias da realização do ativo; até 10 dias de outro evento que faça sair do cargo; até 10 dias
do mês vencido quando receber valores no curso da administração. A punição é a destituição, a desobediência
e perdimento da totalidade de sua remuneração.

COMITÊ DE CREDORES - De constituição facultativa. É órgão de fiscalização. Se não constituído, suas


funções são exercidas pelo administrador judicial ou pelo juiz, se houver incompatibilidade. Art.28, LRF.

Três são as formas de constituição: a) de ofício pelo juiz, na sentença de falência ao determinar a
convocação da assembleia geral de credores para tal fim; b) a pedido do administrador judicial; c) por
deliberação das classes de credores na assembleia geral.

Será composto, no mínimo, com representantes de duas classes de credores (6 membros: dois por
classe com dois suplentes cada. A classe não representada pode indicar um representante posteriormente e,
desde que assinado pela maioria dos credores da classe, dispensa assembleia geral e pode ser deferido pelo
Juiz), ou, de forma plena pelas três classes de credores: trabalhistas, com garantia especial, quirografários (9
membros 1 titular e dois suplentes para cada classe).

O presidente é escolhido pelos próprios membros.

Os impedimentos são os mesmos que incidem para o administrador judicial.

As decisões são tomadas por maioria e apontadas em livro ata rubricado pelo Juiz da falência (que pode
ser consultado pelo administrador, credores, devedor e MP).

Atribuições na recuperação judicial: apresentar impugnação à relação de credores; apurar e emitir


parecer sobre quaisquer reclamações dos interessados; comunicar ao juízo a detecção de violação de direitos
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ou prejuízo aos interesses de credores; eleger seu presidente; fiscalizar a administração das atividades do
devedor, apresentando relatório a cada 30 dias; fiscalizar a condução da atividade empresarial durante o
procedimento; fiscalizar a execução do plano de recuperação; fiscalizar as atividades e examinar as contas do
administrador; manifestar-se nas hipóteses previstas na lei falimentar; manifestar-se sobre pedidos do devedor
de alienação ou sujeição a ônus de bens ou direitos, não previstas no plano; manifestar-se nos procedimentos
de impugnação de créditos; requerer ao juiz a convocação de assembleia geral; ajuizar ação de rito ordinário de
exclusão/modificação de classificação de crédito; submeter à autorização do juiz, quando ocorrer afastamento
do devedor, nas hipóteses revistas na lei falimentar, a alienação de bens do ativo permanente, a constituição
de ônus reais e outras garantias, bem como atos de endividamento necessários à continuação da atividade
empresarial durante o período que antecede a aprovação do plano de recuperação judicial; zelar pelo bom
andamento do processo e cumprimento da lei.

Atribuições na falência: apresentar impugnação à relação de credores; aprovar os honorários do


advogado contratado para representar a massa falida em Juízo; apurar e emitir parecer sobre quaisquer
reclamações dos interessados; autorizar o administrador judicial a alugar ou celebrar outro contrato referente
aos bens da falida, para lhe proporcionar renda; autorizar o administrador judicial a cumprir contratos bilaterais,
nos casos em que o cumprimento venha a reduzir ou evitar aumento do passivo da massa ou for necessário
para preservação do ativo; autorizar o administrador judicial a dar cumprimento a contrato unilateral se o fato
reduzir ou evitar aumento do passivo da massa ou for necessário para preservação do ativo; comunicar ao juiz;
comunicar ao juízo a detecção de violação de direitos ou prejuízo aos interesses de credores; eleger seu
presidente; fiscalizar as atividades e examinar as contas do administrador judicial. Manifestar-se, nas hipóteses
da LRF, acerca de proposta alternativa para realização do ativo; antes da decisão sobre a modalidade de
realização do ativo; pedido de autorização para os credores, de forma individual ou coletiva, adquirir ou
adjudicar, de imediato, os bens arrecadados, pelo valor da avaliação; no pedido de restituição de coisa
arrecadada em poder do falido; no pedido de venda imediata de bens perecíveis, deterioráveis ou sujeitos à
considerável desvalorização ou que sejam de conservação arriscada ou dispendiosa; no requerimento
envolvendo ato de disposição ou oneração de bens do falido; nos procedimentos de impugnação de crédito;
sobre a restituição de coisa móvel comprada pelo devedor com reserva de domínio se o administrador resolver
não continuar a execução do contrato, exigindo a devolução, nos termos do contrato, dos valores pagos; sobre
pedido do administrador judicial que seja autorizado a transigir sobre obrigações e direitos da massa falida e
conceder abatimento de dívidas. Requerer a realização de ativo por outra modalidade de alienação judicial
diversa da prevista no art.142; requerer ao juiz a convocação da assembleia geral de credores; ajuizar ação de
rito ordinário de exclusão/modificação de classificação de crédito; zelar pelo bom andamento do processo e
cumprimento da lei.

Não há previsão de remuneração pela massa aos integrantes do Comitê, sendo de interesse dos
credores subsidiar a sua boa atuação. Têm direito, contudo, ao reembolso de despesas que comprovarem ter
despendido para a realização do ato previsto na LRF, pagamento a ser feito pelo devedor ou massa (nesse caso,
só quando houver disponibilidade em caixa).

Além dos casos de substituição e destituição previstos para o administrador, se sujeitam seus membros
à substituição por decisão dos credores que representem a maioria dos créditos de uma classe,
independentemente da realização de assembleia, por mero requerimento ao juiz.

Em razão de dolo ou culpa se responsabiliza o administrador pelos danos que causar à massa, ao
devedor ou aos credores. E presume-se a aprovação das propostas por consenso, e por isso exige-se que o que
dissente consigne a discordância em ata (para não ser responsabilizado).

ASSEMBLEIA GERAL

Pode ser convocada para deliberar acerca de qualquer matéria que possa afetar os interesses dos
credores, atendendo a determinação em razão de requerimento do administrador (somente nesse caso as
despesas de convocação correm por conta da massa, sendo que nos demais corre por conta dos credores

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interessados ou da classe que deliberou a convocação), de credores que representem ao menos 25% do valor
total dos créditos de uma determinada classe ou do Comitê de Credores.

Especialmente deve ser convocada para: constituição do comitê de credores e escolha/substituição dos
seus membros; adoção de outras modalidades de realização do ativo.

A convocação se dá por edital publicado no órgão oficial e em jornal de grande circulação (na sede e
filiais), com antecedência mínima de 15 dias, constando data, hora e local, em primeira e segunda convocação,
a ordem do dia (entre as duas datas deve respeitar o mínimo de 5 dias). Cópia do aviso de convocação deve ser
afixado na sede e filiais do devedor, de forma ostensiva.

A mesa de trabalhos é presidida pelo administrador judicial e, ocorrendo incompatibilidade, pelo credor
com maior crédito.

O direito a voto: é dado às três classes de credores (trabalhistas, com garantias real; com privilegio
especial, geral quirografários e subordinados. Não participam das deliberações: credores não sujeitos, credores
fiscais, credores retardatários ainda não incluídos no quadro geral (salvo se forem trabalhistas).

Quóruns: de instalação em primeira reunião – mais da metade dos créditos de cada classe, computados
pelo seu valor. Em segunda chamada, qualquer valor.

A proposta deve ter votos favoráveis de credores detentores de mais da metade do valor total dos
créditos presentes na assembleia. Os votos são colhidos pelo valor do crédito, o que se denomina sistema da
proporcionalidade. No caso de escolha dos integrantes do comitê a escolha é dividida por classes; a decisão
sobre a forma de realização do ativo se dá por dois terços do valor total dos créditos presentes na assembleia;
a decisão sobre plano de recuperação exige dupla maioria, e maioria por cabeça.

Sistema de colheita de votos: à exceção da aprovação, rejeição ou modificação do plano de recuperação,


todas as deliberações são domadas pelo sistema da proporcionalidade. No caso de decisão sobre o plano de
recuperação, além da votação em sistema de proporcionalidade, há votação das classes II e III em segundo
sistema, por dupla maioria (votação pelo valor dos créditos e por cabeça) e a classe I (credores trabalhistas e
acidentários) votam por cabeça.

RECUPERAÇÃO JUDICIAL – crise econômico-financeira e princípios norteadores

Insuficiência financeira abrange tanto as dificuldades para prosseguimento com a atividade como a
insuficiência de recursos para pagamento das obrigações assumidas. E a situação pode ter fatores externos e
internos. Muitas vezes uma crise econômica pode afetar a empresa com crise financeira, lhe retirando
temporária ou sistematicamente a possibilidade de arcar com suas obrigações.

Os novos sistemas legais de recuperação da empresa em crise baseiam-se nos seguintes princípios:

- Supremacia da recuperação da empresa (aspecto funcional dela) sobre o interesse do sujeito da


atividade (aspecto subjetivo), permitindo-se o afastamento do empresário e seus administradores, se sua
presença comprometer a eficiência do processo.

- Manutenção da fonte produtora (aspecto objetivo) e empregos (aspecto corporativo), materializado


através de ações efetivas de preservação dos elementos corpóreos e incorpóreos da empresa, vedação à venda
ou retirada dos bens objeto de transação fiduciária durante o período de suspensão (o crédito dele não se
submete ao plano de recuperação, continuam sendo quitados conforme contratados).

- Incentivo à manutenção de meios produtivos à empresa, concedendo privilégio geral de recebimento


em caso de falência, aos credores quirografários que continuarem a prover bens e serviços à empresa em
recuperação.

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- Manutenção dos interesses dos credores, impedindo a desistência do devedor após deferimento do
processamento do pedido de recuperação, submetendo à assembleia de credores toda deliberação que afete
o interesse dos credores.

- Observação dos princípios da unidade, universalidade e igualdade no tratamento dos credores como
diretrizes para soluções judiciais nas relações patrimoniais não reguladas pela lei.

Modalidades: a mais ampla é a recuperação judicial ordinária. Mas pode ocorrer sob forma de plano
especial, pedidos de homologação de recuperação extrajudicial, ou outras formas de acordo privado entre
devedor e seus credores.

Mas há requisitos comuns a todas as modalidades de recuperação: Art.48, LRF.

- Prazo entre a concessão de uma recuperação e outro pedido: 5 anos para recuperação ordinária; 8
anos para especial; 2 anos para extrajudicial.

- Não ser o requerente falido e, se o foi, demonstração de extinção de suas obrigações, por sentença
transitada em julgado;

- Não ter sido condenado ou não ter, como administrador ou sócio controlador, pessoa condenada por
qualquer dos crimes da LRF.

Distinções:

- Quanto à extensão econômica do exercício empresarial: o plano especial se restringe às ME e EPP, que
podem também optar por outro plano.

- Quanto ao universo de credores: na recuperação judicial ordinária englobam-se todos os créditos


existentes na data do pedido, ainda que não vencidos; na extrajudicial apenas os credores de uma ou mais
espécies de crédito (art.83, II, IV, V, VI e VIII). Na especial: somente credores quirografários, excetuados os que
decorrem de repasse de recursos oficiais. NÃO SE INCLUEM em nenhuma modalidade: créditos fiscais, créditos
de operações fiduciárias e arrendamento mercantil; proprietário ou promitente vendedor de imóvel com
cláusula de irrevogabilidade ou irretratabilidade, inclusive incorporações imobiliárias, proprietário em contrato
de venda com reserva de domínio; titulares de importância entregue ao devedor, em dinheiro, decorrente de
adiantamento a contrato de câmbio para exportação.

- Quanto ao curso da prescrição e ações/execuções individuais dos credores: na ordinária o prazo de


suspensão da prescrição é de no máximo 180 dias, e o curso de todas as ações e execuções dos credores,
inclusive contra sócio solidário por igual período ficam suspensas. Na especial as citadas suspensões só ocorrem
em relação aos credores quirografários, e na extrajudicial apenas quanto aos créditos sujeitos ao pedido de
homologação.

- Quanto aos meios de recuperação: no ordinário são múltiplos os meios. No especial a única forma é a
dilação do prazo de pagamento dos credores, em no máximo 36 parcelas, mensais, iguais e sucessivas, corrigidas
monetariamente e com juros de 12% ao ano.

- Quanto ao procedimento: na ordinária, especial (nesses casos o prazo de 30 dias conta da publicação
da relação de credores) e extrajudicial (nesse caso o prazo de 30 dias conta da publicação do pedido de
homologação), após a apresentação do pedido o magistrado determina em todas as modalidades, a publicação
para conhecimento dos credores e eventuais objeções no prazo de 30 dias. Objeções desafiam assembleia geral
de credores apenas na modalidade judicial ordinária.

- Quanto às restrições à administração da empresa: as restrições deste jaez podem ser classificadas
como voluntárias, assemblear, legal e judicial. Voluntárias quando propostas pelo próprio devedor, quando se
submete à administração compartilhada como forma de recuperação. Assemblear as impostas pela assembleia;

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legal se decorrem da lei, com a vedação da alienação ou constituição de ônus sobre bens do ativo permanente
(salvo se inerente ao plano); judicial é a imposição do juiz, na recuperação especial, exigindo prévia autorização
para que o devedor aumente despesas ou contrate empregado.

Pedido inicial e processamento da recuperação - O pedido inicial deve expor de forma clara as causas da
situação patrimonial do devedor e as razões da crise econômico-financeira dele, comprovando
documentalmente a efetiva ocorrência da sua crise. Com a inicial devem ser apresentados documentos
contábeis, relação de credores, empregados, bens e ações judiciais e certidões de regularidade do registro púb.
de empresas e protestos.

Distribuído o pedido a primeira análise promovida pelo Juiz é meramente formal, podendo determinar
o processamento, a emenda à inicial ou cumprimento de diligência que considere indispensável ao
conhecimento da matéria.

São efeitos da decisão que determina o processamento do pedido: nomeação de administrador judicial;
dispensa da apresentação de certidões negativas para que o devedor exerça suas atividades (exceto para
contratação com o Poder Público ou recebimento de incentivo fiscal ou creditício); suspensão das
ações/execuções e prescrição até 180 dias contado do deferimento; impossibilidade de o devedor desistir, salvo
aprovação da assembleia; impossibilidade de alienar ou onerar bens do ativo permanente; publicização com
comunicação ao MP, Fazendas Públicas (dos estados e municípios onde houver estabelecimentos, inclusive); e
edital em órgão oficial da relação nominal de credores e classificação de créditos (com prazo de 15 dias para
habilitações tempestivas e 30 dias para objeções ao plano; demonstração mensal de contas do devedor até que
finde a recuperação, sob pena de destituição dos administradores.

Meios de recuperação - No artigo 50 há uma lista (exemplificativa), mas o devedor pode indicar outra
que lhe convir. Nesse rol exemplificativo constam meios dilatórios ou misto de dilatório e remissório; meio
meramente remissório (equalização dos encargos financeiros); meios que agem diretamente sobre o perfil
subjetivo da empresa (cisão, fusão, incorporação, alteração de controle societário, constituição de sociedade
de credores); meios que agem sobre o perfil objetivo da empresa (cessão de cotas ou ações, aumento de capital
social; trespasse ou arrendamento (inclusive a sociedade constituída pelos próprios empregados), venda parcial
de bens, emissão de valores mobiliários, constituição de sociedade com o proposito exclusivo de adjudicar os
ativos do devedor), meios que agem sobre o perfil funcional da empresa (modificação dos administradores ou
órgãos administrativos, concessão aos credores de direito de eleição de administradores e poder de veto em
certas matérias, usufruto da empresa, administração compartilhada); meios que agem sobre o perfil corporativo
da empresa (redução salarial, compensação de horários, redução de jornada de trabalho, mediante acordo ou
convenção coletiva).

Apresentação do plano: no prazo improrrogável de 60 dias, contados do deferimento do processamento


do feito. Deve detalhar os meios de recuperação, demonstrar a viabilidade econômica (atestado por profissional
habilitado, acompanhado de laudo econômico-financeiro e avaliação de bens do ativo).

A objeção quanto ao plano pode ser apresentada por qualquer credor, em petição fundamentada, em
30 dias da publicação da relação de credores apresentada pelo administrador judicial ou 30 dias da publicação
do próprio plano (caso não tenha publicação de relação de credores).

Assembleia geral: E somente se houver objeções é convocada a assembleia geral. A deliberação dela
atenderá aos princípios: a) universalidade – todas as classes são ouvidas. O credor que não sofrer, com o plano,
alterações em seus valores ou condições de pagamento originais, não terá direito a voto e não pode ser
considerado para fins de instalação de quórum de deliberação; b) voto exclusivo por cabeça na classe I, com
aprovação por maioria simples dos presentes, independentemente do valor de seus créditos; c) voto por dupla
maioria nas classes II e III, com aprovação por mais da metade do valor total dos créditos presentes à assembleia
e, cumulativamente, pela maioria simples de credores presentes.

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Aprovação do plano: Três são as formas de aprovação do plano: a) tácita (quando não há objeções, tendo
decorrido o prazo de 30 dias); b) aprovação assemblear, por todas as classes submetidas à recuperação, nos
moldes acima citados; c) assemblear-judicial: aprovação de mais da metade dos créditos presentes,
independentemente da classe; ou aprovação de duas classes ou de uma se forem apenas duas; ou voto favorável
de mais de um terço dos credores na classe que houver rejeitado o plano (por dupla maioria).

Apresentado o plano o devedor deve apresentar CND (O STJ ENTENDE QUE NÃO PRECISA DESSA CND
PORQUE NÃO HÁ QUALQUER INTERFERÊNCIA DA RECUPERAÇÃO NOS CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS) e segue-se com
sentença de concessão da recuperação.

O estado de recuperação perdura 2 anos, contados da data de concessão, devendo em tal período
cumprir as obrigações contidas no plano. O descumprimento de qualquer cláusula convolará a recuperação em
falência. Cumpridas as obrigações o Juiz profere sentença encerrando a recuperação e determinando o
pagamento do saldo de honorários ao administrador judicial, a apuração do saldo das custas judiciais a serem
recolhidas, a apresentação de relatório circunstanciado do administrador, no prazo máximo de 15 dias,
versando sobre a execução do plano de recuperação pelo devedor; a dissolução do comitê se formado, e
exoneração do administrador, a comunicação ao registro de empresas. Depois de decorridos os dois anos o
descumprimento de obrigação prevista no plano apenas desafia execução individual.

O devedor em concordata preventiva e em situação regular pode convolar essa concordata em


recuperação judicial, apenas na modalidade ordinária. Isso porque é devedor não falido, já que na concordata
suspensiva é o devedor falido que teve suspensa a sua quebra.

A recuperação judicia especial: destinada apenas aos microempresários e empresários de pequeno


porte; somente para credores quirografários; com procedimento simplificado; a adoção de apenas um meio de
recuperação: a dilação do prazo de pagamento.

A RECUPERAÇÃO EXTRAJUDICIAL

É forma de recuperação tratada diretamente com os credores, submetendo-se a algumas regras: proíbe
a lei o pagamento antecipado de dívidas e o tratamento desfavorável de credores que a ele não estejam sujeitos;
não acarreta suspensão de direitos, ações e execuções, nem a impossibilidade de pedido de falência pelos
credores não englobados no plano; veda-se na pendência de outro pedido de recuperação judicial pendente ou
obtido ou homologado há menos de dois anos; impede desistência da adesão após a distribuição do pedido em
juízo, salvo se todos os signatários anuírem.

Modalidades: os planos apresentados podem ser de duas modalidades: individualizado (com adesão
individual de credores a certos termos e condições) e por classes de credores, inseridos em instrumento público
ou particular.

No caso de ser por classes: assinatura de credores que representem mais de 3/5 de todos os créditos
constituídos até a data do pedido, de uma ou mais classes (estão excluídas as dos trabalhadores e tributária),
obrigando a totalidade dos credores da classe. (3/5 = soma dos créditos da classe, mesmo os não aderentes; a
conversão da moeda estrangeira é pelo valor dela na véspera da assinatura do plano; não se computam créditos
do sócio do devedor, sociedades coligadas, controladas, controladoras, ou que tenham sócio acionista com
participação superior a 10% do capital social do devedor ou em que o devedor ou algum de seus sócios
detenham participação superior a 10% do capital social).

Os efeitos gerados pela homologação são imediatos, independentemente da interposição de recurso:


constituição de título executivo judicial; impede a alienação de bem objeto de garantia real, a supressão da
garantia ou sua substituição sem a aprovação expressa do respectivo credor; mantém variação cambial dos
créditos em moeda estrangeira (salvo aprovação diversa inserida no plano); podem ser pactuados efeitos
anteriores ao plano.

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O pedido é acompanhado pela adesão dos credores ao plano, exposição e provas da situação
patrimonial do devedor; demonstrativos contábeis do último exercício social; documentos que comprovem os
poderes dos signatários para transigir, relação e classificação dos credores, etc.

Procedimento: o juiz, recebendo o pedido, determina a publicação de convocação dos credores para
apresentação de impugnação em 30 dias. As impugnações podem versar sobre: o não atingimento do
percentual legal; prática de atos de insolvência ou descumprimento de requisito legalmente previsto. O devedor
se manifesta em 05 dias e em 05 decide o juiz, homologando ou indeferindo o pedido. Cabe apelação sem efeito
suspensivo. Indeferido as dívidas voltam às condições originais, não se levando em conta as alterações do plano
não aprovado.

CONVOLAÇÃO EM FALÊNCIA

Causas: não apresentação do plano no prazo improrrogável de 60 dias do deferimento do


processamento; rejeição do plano pela assembleia geral; deliberação da assembleia em momento posterior e
com quórum: voto favorável de mais da metade do valor total dos créditos presentes; descumprimento das
obrigações no biênio após a concessão da recuperação.

PEDIDO DE FALÊNCIA

Desde que a responsabilidade pelas dívidas passou a ser garantida pelo patrimônio e não pelo corpo do
devedor, ao credor compete buscar individualmente o seu crédito. Mas quando o passivo do devedor for maior
que seu ativo, evidentemente que a execução individual pode culminar em injustiça entre os credores, pois
alguns, geralmente melhor assistidos, receberão antes, em detrimento de outros com iguais direitos. Nesta
senda que criaram-se institutos para execução conjunta, nos quais os credores sejam tratados isonomicamente
(par condicio creditorum).

Entretanto, a falência, como instituto para garantir isonomia entre os credores, aplica-se apenas ao
devedor empresário, não ao devedor não-empresário, para o qual as regras do CPC são aplicáveis (o concurso
de credores).

Assim, falência é a execução concursal do devedor empresário.

Diante da confluência de normas processuais e materiais a falência tem natureza jurídica hibrida: de
direito material e processual.

Princípios da falência: Dois princípios são basilares na falência: o da preservação da empresa e


maximização dos ativos. Hodiernamente a falência não implica mais em extinção automática da atividade
empresária, que pode ser continuada por outro, como no caso de alienação do estabelecimento. O comando é
de otimização dos ativos, inclusive os intangíveis (como marca), evitando que se desvalorizem, alçando preço
justo na venda, o que é interessante aos credores e também à sociedade, já que se mantêm empregos, a
atividade de fornecedores, etc.

Pressupostos da falência: - material subjetivo: devedor empresário; - material objetivo: insolvência


jurídica ou presumida do devedor; - formal: a sentença declaratória de falência (que tem natureza constitutiva).

Procedimento: presentes os pressupostos material objetivo e subjetivo está autorizada a declaração da


falência, após o que será efetivamente instalada a execução.

A fase pré-falimentar é a que vai do pedido até a declaração da falência. Nesta fase basicamente se
analisa a presença dos dois primeiros pressupostos – a qualidade de empresário do devedor e o estado de
insolvência.

Sujeito passivo do pedido de falência: só pode ser o empresário ou sociedade empresária; chamados
agora de devedor. As sociedades simples, associações, partidos políticos, organizações religiosas, fundações,

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enfim, tudo que não for empresária terá a execução coletiva regida no CPC, não na LRF; SEGUNDO O STJ,
COOPERATIVAS, POR SEREM SOCIEDADES SIMPLES, NÃO PODEM SOFRER RECUPERAÇÃO OU FALÊNCIA.

Mas nem toda empresa é submetida ao regime falimentar, já que a própria lei exclui de seu âmbito de
incidência algumas pessoas:

- Empresas públicas e sociedades de economia mista: na égide da lei anterior pendia discussão na
doutrina e jurisprudência acerca da aplicabilidade do regime falimentar a estas figuras, por conta do que
dispunha a CF, ao afirmar que a lei definiria a sujeição delas ao regime jurídico próprio das empresas privadas,
inclusive quanto aos direitos e obrigações civis, comerciais, trabalhistas e fiscais, discussão acirrada pela
revogação de um dispositivo na LSA que excluía as entidades da abrangência da lei falimentar. Atualmente, com
a nova LRF, a discussão tem interesse meramente acadêmico, pois expressamente excluiu do seu âmbito as EPs
e SEMs, ainda que exploradoras de atividade econômica (há quem defenda a inconstitucionalidade da norma).

- Empresários submetidos a procedimento de liquidação extrajudicial: instituições financeiras públicas ou


privadas, cooperativas de crédito, consórcios, entidades de previdência complementar, sociedades operadoras
de plano de assistência à saúde, sociedades seguradoras, sociedades de capitalização e outras legalmente
equiparadas às anteriores. Tais entidades se submetem a regime especifico de liquidação extrajudicial, regido
por lei específica e subsidiariamente se submetem ao regime falimentar.

Sujeito ativo: art.97, LRF. Pode ser o próprio devedor; cônjuge sobrevivente, herdeiro ou inventariante,
cotista ou acionista do devedor, na forma da lei ou ato constitutivo e qualquer credor.

- Autofalência: pedido do próprio devedor. Aquele devedor em crise que julgue não atender aos
requisitos para a recuperação judicial, deve requerer a falência, expondo as razões da impossibilidade de
prosseguimento da atividade empresarial e trazendo alguns documentos, como demonstrações contábeis dos
últimos 3 anos, relação dos credores, relação de bens e direitos, prova da situação de empresário, livros
obrigatórios e outros documentos contábeis que a lei exige.

- Pedido feito por cônjuge, herdeiro ou inventariante do empresário individual: isso não havendo
possibilidade de mera baixa da empresa, ou seja, quando o EI estava em crise.

- Pedido de falência feito por sócio da sociedade empresária: não sói ocorrer, pois quando um sócio
entende que a falência é melhor saída, mas não encontra apoio dos demais, esse sócio se retira, gerando
dissolução parcial da sociedade.

- Pedido de falência feito por credor: se for empresário/sociedade empresária, deve comprovar a
regularidade das atividades (portanto, deve estar devidamente registrado na JC). Se residente fora do país deve
prestar caução para o caso de improcedência do pedido, para reparação dos danos. E não há necessidade de a
dívida estar vencida: é o caso de condutas que caracterizam a insolvência e o atraso do pagamento de outros
credores, o que já justifica a execução concursal. Há discussão sobre se o credor com garantia real precisa
renunciar a garantia ou alegar que ela se tornou insuficiente para requerer a falência, como era na lei anterior,
prevalecendo que não precisa, pois a lei silenciou sobre tais requisitos. E a Fazenda Pública? O STJ tem julgados
entendendo que ela não tem interesse e legitimidade para o pedido, pois o meio próprio da execução é a fiscal;
no mesmo sentido é o enunciado 56 da I Jornada de Direito Comercial da CJF.

Foro competente para o pedido: o juízo do local do principal estabelecimento do devedor, ou filial da
empresa que tenha sede no exterior. E o principal estabelecimento tem conceituação segundo critérios
econômicos, não estatutário ou contratual; é, pois, o local com maior volume de negócios, que pode, muitas
vezes, coincidir com a sede administrativa. É o ‘centro vital’ da empresa, de onde partem as decisões
empresariais e não necessariamente a sede indicada no registro público (enunciado 465, CJF). E há lógica na

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disposição, pois ali está concentrado o patrimônio, facilitando a arrecadação de bens. A competência é
ABSOLUTA. E a distribuição torna prevento o Juiz.

Demonstração da insolvência do devedor: em sentido técnico/econômico a insolvência é insolvabilidade,


insuficiência de recursos para saldar o passivo; passivo maior que ativo. Em sentido jurídico, são situações
definidas em lei que indicam uma insolvência presumida. Rubens Requião indicava quatro sistemas de
determinação da insolvência: estado patrimonial insuficiente; cessação de pagamentos; impontualidade
injustificada e enumeração legal.

O pedido de falência, não raramente, é usado como meio de cobrança de dívidas, o que já foi rechaçado
pelo STJ com base no princípio da preservação da empresa. Entretanto, na doutrina há posição divergente,
adotada em outras Turmas do próprio STJ. Na prática muitos juízes acabam indeferindo liminarmente petições
iniciais de pedidos de falência ao argumento de que o valor é pequeno e não induz insolvência, ou que a iliquidez
seria temporária, etc. entretanto, é temerária a relativização dos requisitos legais, gerando insegurança do
crédito com efeitos negativos na sociedade, inclusive com reflexo em encargos contratuais (o risco sendo maior,
maior é o ônus repassado ao tomador de empréstimos).

Na lei atual mantiveram-se os sistemas da impontualidade e enumeração legal para determinação da


insolvência do devedor.

O sistema da impontualidade injustificada decore do artigo 94, I, LRF, para o qual o pedido de quebra
está autorizado desde que, sem razão de direito, o devedor não pague por título protestado cujo valor
ultrapasse, sozinho ou em somatória a outros, 40 salários mínimos na data do pedido de falência.

A exigência de que a dívida supere 40 salários mínimos serve para desestimular o uso da falência como
forma de coagir ao pagamento de dívida de pequeno valor. Mas há permissivo de que os credores somem seus
créditos e, em litisconsórcio ativo postulem a falência.

Já o protesto do título (ou títulos) é o único meio de prova da impontualidade injustificada. Há discussão
sobre a necessidade de protesto especial ou se basta o comum; STJ e STF já entenderam bastar o comum, mas
recentes decisões do TJPR reconheceram a necessidade do protesto especial. E, segundo a Súmula 361, STJ, a
notificação do protesto para fins de falência exige a identificação da pessoa recebedora.

Já os atos de falência são os decorrentes do rol taxativo do artigo 94, II e III e alíneas, LRF. São os casos:

- Execução frustrada: é a tríplice omissão do devedor frente a um feito executivo - não paga, não
deposita e não nomeia bens à penhora dentro do prazo (embora o STJ tenha adotado tese que não se caracteriza
execução frustrada a indicação de bens intempestiva). E serve para qualquer valor executado. O pedido,
instruído com certidão da ocorrência da tríplice omissão, é distribuído e constituirá processo autônomo, não
mero incidente do processo de execução.

- Demais atos de falência: a) devedor que precipitadamente vende seus ativos ou lança mão de meio
ruinoso ou fraudulento para realização de pagamentos; muitas vezes retrata tentativa de encerrar as atividades
sem obediência a regras legais; por meio ruinoso pode se entender, por exemplo, a tomada de diversos
empréstimos a juros exorbitantes, pois sinalizam a dificuldade da empresa em se manter às próprias custas. b)
realiza ou tenta realizar, com o objetivo de retardar pagamentos ou fraudar credores, negócio simulado ou
alienação de parte ou totalidade de seu ativo a terceiro, credor ou não. Isso indica que o devedor quer se livrar
dos bens que garantiriam a dívida. c) transferência de estabelecimento a terceiro, credor ou não, sem o
consentimento de todos os credores e sem ficar com bens suficientes para solver seu passivo. d) transferência
simulada de seu principal estabelecimento para burlar a lei ou fiscalização ou para prejudicar credor. e) devedor
que dá ou reforça garantia a credor por dívida contraída anteriormente, sem ficar com bens livres e
desembaraçados suficientes para saldar seu passivo. f) devedor que se ausenta sem deixar representante
habilitado e com recursos suficientes para pagar os credores, abandona estabelecimento ou tenta ocultar-se de
seu domicílio, do local de sua sede ou de seu principal estabelecimento. A doutrina chama de abandono de
estabelecimento. g) devedor deixa de cumprir obrigações do plano de recuperação judicial, no prazo legal.

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Resposta do devedor ao pedido de falência: o seu prazo, hoje, é de 10 dias. A matéria arguível em defesa
está elencada o artigo 96, LRF: falsidade do título, prescrição, nulidade de obrigação ou de título, pagamento da
dívida, qualquer fato que extinga ou suspenda a obrigação ou não legitime a cobrança do título, vício em
protesto ou no seu instrumento, apresentação de pedido de recuperação no prazo da contestação (pedido
incidental de recuperação), cessação das atividades empresariais há mais de 2 anos antes do pedido,
comprovado por documento do registro público (que não prevalecerá sobre prova de exercício posterior ao
ato). Em se tratando de devedor S.A. não se decreta a falência após liquidado e partilhado seu ativo. Se espólio,
decorrido um ano da morte do devedor (só para caso pedido pelo credor).

Essa defesa não obsta a falência se sobrarem obrigações com valor suficiente ao decreto, não atingidas
pela defesa.

Mas no prazo de resposta pode o devedor, ainda, efetuar depósito elisivo da falência, no valor corrigido
da dívida, acrescido de juros e honorários advocatícios. Nesse caso não haverá decretação de falência, ainda
que o pedido do autor seja julgado procedente, caso em que o valor é levantado pelo autor.

E parece que a aplicabilidade está restrita aos casos de impontualidade injustificada e execução
frustrada, não permitindo a lei o depósito elisivo para as demais modalidades de insolvência jurídica.

Denegação de falência: ocorre em duas situações: não verificação do pressuposto da insolvência ou


realização de deposito elisivo.

Sendo improcedente o pedido é o autor a arcar com ônus da sucumbência, podendo ser condenado (ou
condenados solidariamente, se mais de um autor) a pagar indenização ao devedor se se entender que agiu com
manifesto dolo de causar constrangimento ao devedor; o valor é apurado em liquidação de sentença (art.100,
LRF); o objetivo é desestimular pedidos de falência que têm o único intuito de causar constrangimento ao
devedor.

O devedor pode realizar o depósito elisivo e contestar; nesse caso deve o juiz analisar a resposta e pode
denegar a falência com base nela e não no depósito. Se não acolher a resposta, julga procedente o pedido do
autor, mas sem decretar a falência, deferindo o levantamento, pelo requerente do depósito; o réu arca com o
ônus da sucumbência.

A decretação da falência: não realizado o depósito elisivo e sendo procedente o pedido, na presença
dos pressupostos, o juiz decretará a falência, após o que se instaura o processo de execução concursal.

E qual a natureza jurídica da decisão que decreta a falência? É propriamente uma sentença, embora
não implique em nenhuma situação dos artigos 485 e 487, CPC?

Entende-se que, embora não se trate tecnicamente de uma sentença, se trata de uma sentença
constitutiva, pois constitui o devedor em estado falimentar, instaurando o regime de execução concursal.

O formato será de uma sentença, com os requisitos ínsitos. Um requisito específico é a fixação do termo
legal da falência, que não pode ser superior a 90 dias contados do pedido de falência, de recuperação ou do
primeiro dia do protesto por falta de pagamento (não necessariamente o protesto que motivou a decisão de
falência). Na doutrina convencionou-se chamar de período suspeito, o que possibilita a investigação de fraude
nos atos praticados no período.

Art. 99. A sentença que decretar a falência do devedor, dentre outras determinações: I – conterá a
síntese do pedido, a identificação do falido e os nomes dos que forem a esse tempo seus administradores; II –
fixará o termo legal da falência, sem poder retrotraí-lo por mais de 90 (noventa) dias contados do pedido de
falência, do pedido de recuperação judicial ou do 1o (primeiro) protesto por falta de pagamento, excluindo-se,
para esta finalidade, os protestos que tenham sido cancelados; III – ordenará ao falido que apresente, no prazo
máximo de 5 (cinco) dias, relação nominal dos credores, indicando endereço, importância, natureza e
classificação dos respectivos créditos, se esta já não se encontrar nos autos, sob pena de desobediência; IV –
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explicitará o prazo para as habilitações de crédito, observado o disposto no § 1o do art. 7o desta Lei; V –
ordenará a suspensão de todas as ações ou execuções contra o falido, ressalvadas as hipóteses previstas nos §§
1o e 2o do art. 6o desta Lei; VI – proibirá a prática de qualquer ato de disposição ou oneração de bens do falido,
submetendo-os preliminarmente à autorização judicial e do Comitê, se houver, ressalvados os bens cuja venda
faça parte das atividades normais do devedor se autorizada a continuação provisória nos termos do inciso XI do
caput deste artigo; VII – determinará as diligências necessárias para salvaguardar os interesses das partes
envolvidas, podendo ordenar a prisão preventiva do falido ou de seus administradores quando requerida com
fundamento em provas da prática de crime definido nesta Lei; VIII – ordenará ao Registro Público de Empresas
que proceda à anotação da falência no registro do devedor, para que conste a expressão "Falido", a data da
decretação da falência e a inabilitação de que trata o art. 102 desta Lei; IX – nomeará o administrador judicial,
que desempenhará suas funções na forma do inciso III do caput do art. 22 desta Lei sem prejuízo do disposto
na alínea a do inciso II do caput do art. 35 desta Lei; X – determinará a expedição de ofícios aos órgãos e
repartições públicas e outras entidades para que informem a existência de bens e direitos do falido; XI –
pronunciar-se-á a respeito da continuação provisória das atividades do falido com o administrador judicial ou
da lacração dos estabelecimentos, observado o disposto no art. 109 desta Lei; XII – determinará, quando
entender conveniente, a convocação da assembleia-geral de credores para a constituição de Comitê de
Credores, podendo ainda autorizar a manutenção do Comitê eventualmente em funcionamento na recuperação
judicial quando da decretação da falência; XIII – ordenará a intimação do Ministério Público e a comunicação
por carta às Fazendas Públicas Federal e de todos os Estados e Municípios em que o devedor tiver
estabelecimento, para que tomem conhecimento da falência. Parágrafo único. O juiz ordenará a publicação de
edital contendo a íntegra da decisão que decreta a falência e a relação de credores.

O poder geral de cautela do Juízo que decreta a falência: decorre da possibilidade de o juiz tomar medidas
que salvaguardem os interesses das partes, decretar a prisão preventiva do empresário ou administradores da
falida e autorizar continuação provisória da atividade do devedor. Quanto à prisão, obviamente só tem lugar no
caso de cometimento de crime falimentar, atendidos os demais requisitos para a custódia cautelar.

Publicidade da decisão de falência: a sentença afeta não apenas a esfera jurídica do devedor, mas de
todos os seus credores; daí o porquê deve ser dada ampla notícia da sentença que decreta a falência. Inclusive
há anotação na JC sobre a ocorrência, junto aos atos constitutivos do falido. A partir de então estarão
inabilitados para o exercício da empresa o devedor e os administradores da sociedade falida.

Os registros públicos de bens e o Banco Central são oficiados para fornecer informações sobre os bens
do falido, para que seja possível a arrecadação. O MP e as Fazendas Públicas, da União, Estados em Municípios
onde o devedor tiver estabelecimento serão notificadas. A publicação da sentença que decreta a falência é na
integra, não apenas da parte dispositiva.

Administrador judicial: substituiu a figura do síndico. É o principal auxiliar do juiz na falência e exerce,
além de atribuições de cunho administrativo, a função de representante legal da chamada massa falida
subjetiva, que é a comunidade de credores. Tão relevante é a função que exerce que, para fins penais, é
considerado funcionário público. A escolha já ocorre na sentença e deve recair sobre profissional, conforme já
elencado no início do estudo do tópico.

Recurso contra a decisão que julga o pedido de falência: Naturalmente cabem os embargos de
declaração, embora a LRF não faça a ele alusão expressa. Contra a sentença que decreta a falência cabe agravo
de instrumento, e contra a sentença que denega cabe a apelação.

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Participação do MP na fase pré-falimentar: com a nova lei foi sensivelmente reduzida a atuação
ministerial, entendendo a maioria que cabe apenas nos casos em que a lei ordena sua intervenção, como no
caso de indícios de responsabilidade penal do devedor e alienação de bens do devedor. O STJ inclina-se a
dispensar a prévia oitiva do MP antes do decreto de falência, embora a questão seja ainda muito controvertida.

Efeitos da decretação da falência:

- Em relação à pessoa do devedor: falência dos sócios de responsabilidade ilimitada; apuração de


eventual responsabilidade pessoal dos sócios de responsabilidade limitada (cuja ação prescreve em 2 anos,
contado do trânsito em julgado da decisão que encerra a falência; cabe indisponibilidade de bens na ação,
inclusive de ofício. Há entendimento de que, presentes os requisitos, o juiz pode decretar a desconsideração da
personalidade jurídica nos próprios autos da falência). Não depende da verificação de que o passivo é maior
que o ativo, e o processamento é perante o juízo da falência), inabilitação empresarial; perda do direito de
administração de seus bens e da disponibilidade sobre eles (formação da massa falida objetiva); não pode
ausentar-se do local da falência sem autorização judicial; comparecimento em todos os atos do processo;
suspensão do direito ao sigilo de correspondência e ao livre exercício da profissão; dever de colaboração com a
administração da falência;

- Em relação aos bens do devedor: formação da massa falida objetiva (arrecadação de todos os bens do
devedor, exceto os absolutamente impenhoráveis);

Quanto aos dois aspectos, importante consignar que com a decretação da falência ocorrerá a dissolução
da sociedade. Se há sócios com responsabilidade ilimitada, esses também comporão a falência e serão citados
para apresentação de contestação. Inclusive os que se retiraram há menos de dois anos, caso as dívidas
existentes no momento de registro do ato de retirada não tenham sido liquidadas até a decretação da falência.

Um importante efeito também é a inabilitação do falido para o exercício da empresa, até a sentença
que declare extinta as obrigações. Caso seja condenado por crime falimentar, a inabilitação se estende para 5
anos após a extinção da punibilidade.

- Em relação às obrigações do devedor: suspensão do exercício do direito de retenção sobre os bens


sujeitos à arrecadação, de retirada ou recebimento de valor das quotas ou ações por parte dos sócios;
vencimento antecipado das dívidas do devedor e dos sócios ilimitada e solidariamente responsáveis (com
abatimento proporcional de juros e conversão de todos os créditos em moeda nacional); limitação à
compensação de dívidas do devedor até o dia da decretação de falência; inexigibilidade de juros vencidos,
previstos em lei ou contrato, se o ativo apurado não bastar ao pagamento de credores subordinados;
continuidade dos contratos que puderem ser cumpridos e que possam reduzir ou evitar o aumento do passivo;
se o administrador não se manifestar sobre a manutenção do contrato, o contratante poderá interpelá-lo, no
prazo de 90 dias da assinatura do termo de nomeação, para que em 10 dias declare se cumpre ou não; se não
continuar, pode em ação ordinária o contratante apurar a indenização a que faz jus, constituindo-se em crédito
quirografário.

- Em relação aos credores do falido: formação da massa falida subjetiva (procedimento de verificação e
habilitação dos créditos);

- Em relação aos atos do falido: fixação de termo legal da falência.

Disciplina especial de alguns contratos: na compra e venda mercantil, quando for o devedor comprador,
o direito brasileiro consagrou o right of stoppage in transitu, ou seja, de que o vendedor pode obstar a entrega
coisa ao falido, enquanto esta ainda estiver a caminho. Art.119, LRF; excetua-se da possibilidade caso o devedor
já tenha, de boa-fé, revendido a coisa a terceiro antes da falência ser requerida; cabe ao credor apenas a
habilitação de crédito.

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No caso de ser o devedor vendedor de coisas compostas (como uma máquina que ainda não foi
completamente entregue), se o administrador declarar que não continua com a execução, o comprador deve
devolver o que já recebeu, pedindo perdas e danos. Se as coisas ainda não começaram a ser entregues, basta
ao comprador habilitar o crédito decorrente dos pagamentos na classe própria.

No caso de compra e venda com reserva de domínio, figurando o devedor como comprador, não
pretendendo o administrador continuar com o contrato, devolve a coisa e pede de volta o que pagou.

Na promessa de compra e venda de imóveis a falência do vendedor impõe cumprimento do contrato.


Na falência do comprador, os seus direitos são arrecadados e vendidos em juízo, sub-rogando-se o comprador
no contrato.

O contrato de locação, com a falência, não é resolvido automaticamente. Se o falido é locador o contrato
se mantém normalmente, com redirecionamento dos pagamentos ao administrador. Sendo o falido locatário a
conveniência da continuidade fica a cargo do administrador, que pode denunciar o contrato.

Nos acordos para compensação e liquidação de obrigações no âmbito do sistema financeiro nacional, a
parte não falida pode reputar vencido antecipadamente o contrato, liquidando na forma do regulamento,
admitindo-se a compensação entre eventual crédito que venha a ser apurado em favor do falido com créditos
detidos pelo contratante. A norma favorável aos bancos tinha como escopo reduzir o spread bancário e
consequentemente as taxas de juros, por reduzir riscos e aumentar garantias; mas na prática tal não se
implementou.

Os patrimônios de afetação permaneceram atrelados aos seus objetivos até o cumprimento, sendo
posteriormente arrecadados pelo administrador.

O mandato conferido para realização de certos negócios terá efeitos cessados pela decretação da
falência. O mandato judicial continua vigente até revogação pelo administrador.

As contas correntes do devedor consideram-se encerradas desde o momento da decretação da falência.

Massa falida subjetiva: feita a partir da verificação e habilitação dos créditos.

Juízo universal da falência: ocorre a vis atractiva do juízo que decretou a falência em relação a quase
todas as ações que envolvam o falido. É aptidão atrativa do juízo falimentar. Exceção: causas trabalhistas, fiscais
e aquelas não regularas pela LRF nas quais o falido figurar como autor ou litisconsorte ativo, e ações nas quais
se pleiteiam quantias ilíquidas e as afetas à Justiça Federal.

A suspensão da prescrição e execuções contra o falido: a decretação da falência suspende as ações,


inclusive aquelas contra credores particulares do sócio solidário. Exceções: demandas trabalhistas na fase de
conhecimento e as ações nas quais se demandem quantia ilíquida (porque se é ilíquida, não se pode ainda
executar e, como visto, a falência é execução concursal). Para que não reste prejudicado direito dos credores
nestas ações, pela eventual rapidez na falência, o juiz das ações pode mandar reservar quantia estimada da
dívida.

As execuções fiscais também não se suspendem, pois não se sujeitam ao concurso de credores. No
entanto, o recebimento fica condicionado à ordem de preferência dos créditos, prevista na lei falimentar.

As execuções com constrições já determinadas: ocorrendo a venda antes da decretação da falência não
há nada que determine que o valor se recolha à massa; mas, pendendo a venda, conquanto a nova lei seja
omissa, entende-se razoável o entendimento que continua aplicando as disposições da lei anterior, ou seja, as
disposições que determinam que se há venda com data marcada, essa se realize e o dinheiro vá para a massa
(em homenagem aos princípios da economia e celeridade, embora o credor saia no prejuízo) (STJ).

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O processo falimentar: inicia-se, o propriamente dito, com o decreto da falência, que dá lugar à execução
concursal. Rege-se o procedimento pela celeridade e economia processual, sendo o administrador quem deve
velar pelo correto andamento, devendo dar formação à massa falida objetiva (reunião dos bens) e da massa
falida subjetiva (verificação e habilitação dos créditos).

A arrecadação dos bens do devedor fará a composição do inventário e laudo de avaliação, que deverão
ser individualizados sempre que possível. O Juiz poderá, ouvido o comitê de credores, autorizar a venda
antecipada de bens deterioráveis, perecíveis, depreciáveis com facilidade, ou cuja guarda e conservação sejam
arriscadas. Outra medida que igualmente pode ser tomada é o deferimento da aquisição ou adjudicação de
bens por alguns credores, observada a ordem de preferência. Outra medida a ser adotada pelo administrador
é a locação ou outro contrato sobre os bens para que constituam renda para a massa.

A investigação do período suspeito: a própria LRF prevê situações nas quais será ineficaz ato praticado
pelo devedor antes da decretação da falência.

- Atos do falido objetivamente ineficazes perante a massa: mesmo sem a pretensão de fraudar credores,
ou do conluio com o terceiro, são objetivamente ineficazes alguns atos do falido: I – o pagamento de dívidas
não vencidas realizado pelo devedor dentro do termo legal, por qualquer meio extintivo do direito de crédito,
ainda que pelo desconto do próprio título; II – o pagamento de dívidas vencidas e exigíveis realizado dentro do
termo legal, por qualquer forma que não seja a prevista pelo contrato; III – a constituição de direito real de
garantia, inclusive a retenção, dentro do termo legal, tratando-se de dívida contraída anteriormente; se os bens
dados em hipoteca forem objeto de outras posteriores, a massa falida receberá a parte que devia caber ao
credor da hipoteca revogada; IV – a prática de atos a título gratuito, desde 2 (dois) anos antes da decretação da
falência; V – a renúncia à herança ou a legado, até 2 (dois) anos antes da decretação da falência; VI – a venda
ou transferência de estabelecimento feita sem o consentimento expresso ou o pagamento de todos os credores,
a esse tempo existentes, não tendo restado ao devedor bens suficientes para solver o seu passivo, salvo se, no
prazo de 30 (trinta) dias, não houver oposição dos credores, após serem devidamente notificados, judicialmente
ou pelo oficial do registro de títulos e documentos; VII – os registros de direitos reais e de transferência de
propriedade entre vivos, por título oneroso ou gratuito, ou a averbação relativa a imóveis realizados após a
decretação da falência, salvo se tiver havido prenotação anterior (art.129).

Tais atos podem ser declarados ineficazes de ofício pelo juiz, ou alegada em defesa ou pleiteada
mediante ação própria ou incidentalmente no curso do processo.

- Atos subjetivamente ineficazes perante à massa: os praticados com a intenção de prejudicar credores,
provando-se o conluio fraudulento entre o devedor e o terceiro que com ele contratar e o efetivo prejuízo
sofrido pela massa.

Não se podem reconhecer de ofício e devem ser objeto de ação revocatória, a ser proposta por qualquer
credor, administrador judicial (enquanto representante da massa falida) ou MP no prazo de 03 anos contados
da decretação da falência; a ação segue rito ordinário e tem no polo passivo: todos os que figuraram no ato ou
que por efeito dele foram pagos, garantidos ou beneficiados; os terceiros adquirentes se tiveram conhecimento,
ao criar o direito, da intenção do devedor de prejudicar os credores; os herdeiros ou legatários dessas pessoas.

Os bens podem ser sequestrados, com base no poder geral de cautela do juiz. Se procedente a ação, o
juiz determina o retorno dos bens à massa, com todos os acessórios ou o valor de mercado acrescido das perdas
e danos.

Ambos os atos citados, objetiva e subjetivamente ineficazes, podem assim ser reconhecidos ainda que
praticados com base em decisão judicial, ficando rescindida a sentença que o motivou (para refletir: seria uma
nova modalidade de rescisória????).

Os pedidos de restituição: bens de terceiro podem eventualmente ser arrecadados, cabendo pedido de
restituição, ato chamado de desintegração (já que a arrecadação recebe o nome de integração).
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As hipóteses:

- Bens de propriedade de terceiro; restituição da coisa ou restituição em dinheiro, caso ela já não mais
exista.

- Bem vendido a crédito ao falido, entregue até 15 dias antes da decretação da quebra e ainda não
alienado. Já que nesse interregno, o devedor já sabendo da quebra, não deveria adquirir bens a crédito, por
saber que não poderia honrar o compromisso.

- O adiantamento a contrato de câmbio para exportação. Uns veem a medida como benéfica na redução
de juros de negócios do jaez, mas outros veem como prejuízo dos demais credores em benefício das instituições
financeiras. O STJ sabatina a determinação legal, tendo sumulado a matéria (súmula 307). Restituição em
dinheiro.

- A declaração de ineficácia de ato praticado pelo devedor importa em restituição ao estado anterior,
devendo o terceiro de boa-fé ser restituído em dinheiro.

- Os valores descontados dos salários dos empregados, mas ainda não recolhidos ao INSS, legitima esse
a pleitear a restituição. Isso porque o dinheiro não pertencia ao devedor, mas ao próprio INSS. Restituição em
dinheiro.

No caso de decretação de falência de instituição financeira, entende a jurisprudência que não podem
os correntistas pleitearem a restituição dos valores depositados em contas, já que há transferência da
titularidade o valor e o correntista passa a ter apenas o direito ao crédito decorrente do depósito.

Todos os casos em que se impõe restituição em dinheiro implicam observância de uma regra: somente
o serão feitos após o pagamento dos salários dos trabalhadores, dos três meses anteriores à decretação da
falência, limitado a 5 salários mínimos por trabalhador, valores que serão pagos logo se tenha dinheiro em caixa.

O pedido de restituição será fundamentado e descreverá a coisa reclamada. É autuado em separado e


serão intimados o Comitê, os credores, o administrador para manifestação em 05 dias, valendo a contestação
como manifestação contrária ao pedido (se a massa contestar, a procedência lhe imporá o ônus da
sucumbência). Se houver necessidade, o juiz designa audiência de instrução e julgamento. A improcedência
pode ser acompanhada do reconhecimento, pelo Juiz, da condição de credor do requerente, caso em que, de
ofício, mandará incluir o credor no quadro geral. Caberá apelação no efeito meramente devolutivo; prestando
caução pode levantar antes de transitar, no caso de procedência. O requerente ressarcirá a massa das despesas
para conservação do bem.

Nos casos em que não caiba pedido de restituição a via adequada são os embargos de terceiro.

Procedimento de verificação e habilitação dos créditos: é a formação da massa falida subjetiva, pelo
administrador judicial, com base nos livros e documentos do devedor, e documentos apresentados por credores
(pode empresa especializada auxiliar o administrador). Medida eficaz é a intimação do devedor para, em 5 dias,
apresentar a relação completa e detalhada das dívidas. Na sentença que decreta a falência o juiz fixa o prazo de
15 dias para habilitações de crédito perante o administrador; a verificação se dá com apresentação dos
documentos originais ou autenticados das dívidas e suas garantias.

Segundo o STJ não há necessidade de ser o título um título executivo para a habilitação, dada a
contenciosidade do procedimento de conhecimento que é a habilitação.

Depois desses 15 dias o administrador terá 45 dias para publicar edital contendo a relação de credores.
Sem oferta de impugnação a relação estará formalizada. O prazo e impugnação é de 10 dias, da publicação do
edital, podendo ser proposta pelo devedor, sócio dele, MP ou credor.

Cada impugnação é autuada em separado (em conjunto as sobre o mesmo crédito), com a
documentação necessária. Terá o credor impugnado o prazo de 05 dias para contestar. O comitê e o devedor
também serão ouvidos em 05 dias. O administrador tem 5 dias para parecer. Há possiblidade de produção de

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provas. O juiz decide e contra a sua decisão cabe agravo de instrumento; são devidos honorários advocatícios,
diante da litigiosidade (STJ).

A perda do prazo de habilitação: não gera, obviamente, perda do crédito. Apenas serão tratadas como
habilitações retardatárias, com algumas consequências.

As retardatárias apresentadas antes da homologação do quadro-geral, serão recebidas como


impugnação e como ela terá trâmite. Após a homologação o pedido é feito em ação própria, perante o Juízo
falimentar, pleiteando-se a retificação da decisão que homologou o quadro-geral, para inclusão do crédito a
habilitar.

A consequência é a perda do direito ao voto (exceto para trabalhistas) e o pagamento de custas, assim
como perda dos acessórios entre o término do prazo e o pedido de habilitação.

Habilitação de créditos fiscais: não há habilitação e não há suspensão das execuções. Há apenas
comunicação do valor do crédito para o Juízo falimentar, para ser devidamente inscrito no quadro geral.
Entende o STJ que a Fazenda Pública, querendo, pode optar pela habilitação.

Necessidade de demonstração da origem da dívida: entende-se que deve o credor demonstrar a origem
da dívida, meio esse hábil para controlar a legitimidade dos créditos.

Realização do ativo: art. 139, LRF. Consiste, grosso modo, na venda dos bens da massa. E deve ser
iniciada antes mesmo da formação do quadro-geral de credores, evitando deterioração e desvalorização.

Os procedimentos de venda estão previstas no artigo 140, LRF. E há ordem de preferência entre os itens
da lista. Em obediência ao princípio da preservação da empresa, a primeira modalidade é o trespasse, ou seja, a
venda dos estabelecimentos em blocos; isso mantém a atividade econômica, os empregos, a circulação de
riquezas. Daí o porquê dizer que atualmente a falência atinge o empresário e a sociedade, mas não a empresa
enquanto atividade econômica organizada.

A segunda modalidade é a venda das filiais ou unidades produtivas isoladamente, na mesma toada da
primeira hipótese. A diferença é que se presta mais às grandes empresas com diversas unidades produtivas,
sendo que a venda isolada delas é mais atrativa e célere.

Se as duas primeiras não forem possíveis, pois economicamente inviáveis, ou não se conseguir bom
preço pelo trespasse, a terceira opção é a venda de bens do estabelecimento em bloco.

Já a última alternativa é a venda dos bens isoladamente. Hipótese reservada aos casos de gravíssima
crise, em que o estabelecimento, as unidades produtivas não representem mínimo atrativo, e os bens sejam
desarticulados de modo a não ser possível a venda em blocos.

Mais de uma forma pode ser adotada, desde que conveniente à realização do ativo. São os órgãos do
processo falimentar a decidirem (comitê, assembleia, administrador).

O art. 142 prevê as modalidades de venda: leilão por lances orais, propostas fechadas, pregão.

Qualquer delas será antecedida de publicação em jornal de ampla circulação, com 15 dias de
antecedência para bens móveis e 30 para imóveis; facultam-se também outros meios para maior amplitude de
divulgação. Afinal, quanto mais interessados maiores as chances de bons negócios, ainda mais porque a lei
definiu que a venda se dá pelo maior lance efetuado, ainda que menor que o da avaliação e, portanto, se poucos
comparecem, há incremento do risco de não se chegar sequer ao preço da avaliação.

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As propostas fechadas são apresentadas em envelopes lacrados em Secretaria e abertos em data e hora
designadas pelo Juiz. O pregão é hibrido: admitem-se a lançar propostas orais os que tenham apresentado
propostas não inferiores a 90% da maior proposta ofertada.

Em qualquer modalidade não há necessidade de apresentação de CND fiscais e o MP é previamente


intimado, sob pena de nulidade (a ser analisada casuisticamente, em nome da celeridade. Isso porque a
participação do parquet deve ser revista a partir do veto do artigo 4º, LRF).

Da alienação cabe impugnação pelo devedor, credor, ou MP, em 48 horas, cabendo a decisão ao juiz
em 05 dias.

E atendendo ao comando de maximização dos ativos, admitem-se modalidades atípicas de venda. É o


juiz que, casuisticamente, decide, ou homologa se a assembleia já houver decidido. Uma das modalidades é a
continuidade da empresa por uma sociedade de credores ou de ex-trabalhadores, que podem se valer dos
créditos trabalhistas para adquirir a empesa. Todavia, na doutrina as hipóteses citadas contam com grande
crítica, haja vista incentivarem o empreendedorismo por acidente ou por necessidade (que se contrapõe ao
empreendedorismo por vocação), quando os indivíduos se aventuram em um negócio sem qualquer know-how
para tanto, fadados ao insucesso e, provavelmente, a uma nova e futura quebra.

A sucessão empresarial na venda de bens do falido: seja qual for a modalidade de venda o objeto estará
livre de todas as dívidas, inclusive tributárias, trabalhistas e de acidente de trabalho. Os credores se sub-rogam
no produto da arrematação. Essa novidade da LRF incrementa a possibilidade de venda, pois confere mais
segurança ao adquirente. O CTN recentemente para adaptar-se à LRF.

Mas a regra não é absoluta. De fato, o § 1.° do art. 141 da LRF estabelece que haverá normalmente a
sucessão “(...) quando o arrematante for: I – sócio da sociedade falida, ou sociedade controlada pelo falido; II –
parente, em linha reta ou colateral até o 4.° (quarto) grau, consanguíneo ou afim, do falido ou de sócio da
sociedade falida; ou III – identificado como agente do falido com o objetivo de fraudar a sucessão”. Vê-se,
portanto, que o legislador procurou se precaver em relação à tentativa de fraude, identificando situações em
que o adquirente-arrematante é o próprio falido – na verdade, sócio(s) da sociedade falida – ou pessoa próxima
a ele, quando a sucessão se operará normalmente.

No caso dos contratos de trabalho, os empregados são recontratados e há formação de novo vínculo,
de maneira que não responderá o adquirente por ocorrências anteriores.

O pagamento dos credores: é a finalidade precípua do procedimento falimentar. Todo e qualquer valor
arrecadado será depositado em conta vinculada ao feito para no final servir de pagamento aos credores,
segundo a ordem de preferência estabelecida em lei. Mas o pagamento somente será feito após as restituições
devidas e a quitação dos créditos extraconcursais; há, ainda, despesas que devem ser pagas imediatamente,
que dizem respeito ao andamento do processo e continuidade provisória da atividade, por exemplo.

São extraconcursais: I – remunerações devidas ao administrador judicial e seus auxiliares, e créditos


derivados da legislação do trabalho ou decorrentes de acidentes de trabalho relativos a serviços prestados após
a decretação da falência; II – quantias fornecidas à massa pelos credores; III – despesas com arrecadação,
administração, realização do ativo e distribuição do seu produto, bem como custas do processo de falência; IV –
custas judiciais relativas às ações e execuções em que a massa falida tenha sido vencida; V – obrigações
resultantes de atos jurídicos válidos praticados durante a recuperação judicial, nos termos do art. 67 desta Lei,
ou após a decretação da falência, e tributos relativos a fatos geradores ocorridos após a decretação da falência,
respeitada a ordem estabelecida no art. 83 desta Lei.

É observável que são créditos não pre-existentes, mas que tiveram origem após a falência, por isso essa
determinação de pagamento antecipado. Ainda, há ordem de preferência estabelecida nos incisos.

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Classificação dos créditos concursais: estabelecida no artigo 83, LRF.

1º - créditos trabalhistas, limitados a 150 salários por empregado, e créditos decorrentes de acidente de
trabalho: o limite de 150 salários mínimos, num primeiro momento, contou com severas críticas após a
aprovação da lei; no entanto, uma pesquisa realizada na Justiça do Trabalho revelou que os créditos da relação
trabalhistas relacionados a falidos em 90% dos casos não ultrapassa a 150 salários mínimos. Nesta toada, a lei
veio apenas para coibir as fraudes que corriqueiramente ocorriam na égide da lei anterior, quando se forjavam
contratos de trabalho com salários altíssimos, ás “vésperas” da falência, para gerar supercréditos e fraudar os
demais credores.

A proteção de tais verbas decorre da natureza alimentar deles. O que sobejar aos 150 salários mínimos
é reclassificado como crédito quirografário.

A limitação de 150 salários não incide sobre créditos decorrentes de acidente de trabalho.

Os créditos trabalhistas cedidos a terceiros são considerados créditos quirografários, o que também
gerou polêmica. Mas a regra, no fundo, é verdadeiramente protetiva, pois antes ocorria o mercado negro dos
créditos trabalhistas, quando especuladores, prevalecendo-se da necessidade dos credores trabalhistas,
compravam os créditos com deságio e conservavam a garantia, gerando perda pelos empregados.

A questão dos honorários advocatícios é ainda bastante controvertida na jurisprudência do STJ. Há


posicionamento da 4ª Turma, que nega equiparação dos honorários advocatícios ao crédito trabalhista e, na
senda do EOAB, confere apenas a natureza de crédito com privilégio geral a eles, a despeito da natureza
alimentar. TODAVIA, em maio de 2014, no julgamento do REsp 1.152.218, o STJ entendeu que “parece mesmo
ser o mais acertado e consentâneo com a jurisprudência recente do Supremo e desta Corte, no sentido de que
os honorários advocatícios, sucumbenciais ou contratuais, dada sua natureza alimentar, devem ser equiparados
a crédito trabalhista, para efeito de habilitação na falência” (Rel. Min. Luis Felipe Salomão).

2º - créditos com garantia real: até o limite do valor do bem gravado. E não estão sujeitos a rateio; assim,
pagos os extraconcursais, as restituições, os trabalhistas, devem ser pagos os com garantia real e com o valor
resultante da venda do bem gravado (se vendido em conjunto, o valor da avaliação individual): se este for maior
do que o valor da dívida o que sobeja vai à massa; se menor, o que restar da dívida é enquadrado como crédito
quirografário. Dizem alguns ser inserção da lei para privilegiar os bancos, enquanto outros louvam a iniciativa
porque a garantia é sinônimo de redução de juros.

3º - créditos fiscais: “créditos tributários, independentemente da sua natureza e tempo de constituição,


excetuadas as multas tributárias”. As multas estarão em 7º lugar, abaixo dos quirografários. E entre os créditos
fiscais há relação de hierarquia: primeiro os da União (e suas autarquias), segundo o dos Estados e DF (e suas
autarquias) e pro rata e por fim os municipais e suas autarquias.

4º - créditos com privilégio especial: “a) os previstos no art. 964 da Lei n.° 10.406, de 10 de janeiro de
2002; b) os assim definidos em outras leis civis e comerciais, salvo disposição contrária desta Lei; c) aqueles a
cujos titulares a lei confira o direito de retenção sobre a coisa dada em garantia”. Ex.: sobre a coisa salvada, tem
privilégio o credor das despesas para salvamento. Também não se sujeitam a rateio, pois o pagamento decorre
da venda do bem a que se relacionam.

5º - créditos com privilégio geral: “a) os previstos no art. 965 da Lei n.° 10.406, de 10 de janeiro de 2002;
b) os previstos no parágrafo único do art. 67 desta Lei; c) os assim definidos em outras leis civis e comerciais,
salvo disposição contrária desta Lei”. Ex.: despesas com o funeral do falido falecido. Ex.2: os honorários
advocatícios.

6º - créditos quirografários: “a) aqueles não previstos nos demais incisos deste artigo; b) os saldos dos
créditos não cobertos pelo produto da alienação dos bens vinculados ao seu pagamento; c) os saldos dos créditos
derivados da legislação do trabalho que excederem o limite estabelecido no inciso I do caput deste artigo”.

7º - multas e penas pecuniárias: “as multas contratuais e as penas pecuniárias por infração das leis penais
ou administrativas, inclusive as multas tributárias”. Implica a não aplicação da súmula 565, STF.

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8º - créditos subordinados: "a) os assim previstos em lei ou em contrato; b) os créditos dos sócios e dos
administradores sem vínculo empregatício”. Ex.: os empréstimos dos sócios à empresa falida. Ressalte-se que
não se inserem valores que os sócios pretendam em razão de suas quotas na liquidação, pois tais valores
somente serão satisfeitos se pagos todos os demais créditos e despesas e sobrar dinheiro, o que dificilmente
ocorrerá na prática.

Encerramento do processo de falência: após os pagamentos dos credores o administrador presta contas
ao Juiz, em procedimento apartado e apenso à falência. Os interessados terão 10 dias para impugnar a prestação
de contas; após o MP tem 05 dias para parecer. A rejeição implica, além da responsabilidade do administrador,
a indisponibilidade e sequestro de bens para a indenização da massa. Cabe apelação.

Julgadas as contas o administrador apresenta relatório com o valor que alcançou, os pagamentos
realizados, o que ainda resta ao falido pagar. Após, o Juiz profere sentença encerrando o processo de falência
contra a qual cabe a apelação. A prescrição das obrigações do falido recomeça a correr do trânsito em julgado
da decisão que encerra a falência.

Extinção das obrigações do devedor falido: “I – o pagamento de todos os créditos; II – o pagamento,


depois de realizado todo o ativo, de mais de 50% (cinquenta por cento) dos créditos quirografários, sendo
facultado ao falido o depósito da quantia necessária para atingir essa porcentagem se para tanto não bastou a
integral liquidação do ativo; III – o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contado do encerramento da falência, se
o falido não tiver sido condenado por prática de crime previsto nesta Lei; IV – o decurso do prazo de 10 (dez)
anos, contado do encerramento da falência, se o falido tiver sido condenado por prática de crime previsto nesta
Lei”.

Na ocorrência de uma dessas hipóteses o devedor requererá ao Juiz a declaração da extinção das
obrigações, em petição autuada em separado. O requerimento é publicado na imprensa oficial e em jornal de
grande circulação, com abertura de prazo de 30 dias para impugnações. Em 05 dias o Juiz decide e cabe
apelação. Transitada em julgado o processo é apenso ao da falência. A hipótese é cabível também ao sócio com
responsabilidade ilimitada.

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