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(Este artigo foi escrito em 2013 e publicado no I FEMBA)

A Música Contemporânea e o Ensino de Música

Ruan Santos de Souza


Universidade Federal da Bahia
rucass87@gmail.com

Resumo: Este artigo é um recorte de pesquisa em andamento que se encontra em processo de


levantamento bibliográfico, e tem como propósito investigar a abordagem de musica
contemporânea no ensino superior, bem como a sua importância para a educação musical em
geral. O ensino de música em diversos locais e escolas do Brasil abordam estritamente o
repertório tradicional, umas concentram este repertório na chamada “música erudita” européia e
outras em música brasileira, seja ela “popular” ou “erudita”, mas ainda estreitados na linguagem
do tonalismo. Os educadores musicais precisam dar-se conta da importância de incluir a
linguagem musical contemporânea em suas aulas, sem receios.
Palavras-Chave: música contemporânea, educação musical, ensino superior, extended
techniques, técnica expandida, técnica estendida.

Introdução

Desde o século XIX, após a Revolução Industrial, os sons que predominaram no


ambiente sonoro foram os zunidos dos equipamentos mecânicos e tecnológicos, contribuindo
significativamente, para a modificação do conceito de silêncio, Principalmente em ambientes
urbanos, e sociedades tidas como “industrializadas”. SCHAFER afirma:

Pensava-se no silêncio mais em termos figurativos do que físicos, pois um


mundo fisicamente silencioso era, naquele tempo, tão altamente improvável
como é hoje. A diferença é que o nível sonoro médio do ambiente era
suficientemente baixo para permitir que as pessoas meditassem sem um
contínuo recital de incursões sônicas em seu fluxo de pensamento. (SCHAFER,
1991, p. 130)

Nota-se que enquanto silenciamos, torna-se mais evidente a existência dos sons, tais
como: de automóveis, movimentos de objetos, funcionamento de equipamentos mecânicos e
eletrônicos. John Cage, em seu livro Silence: Lectures and Writings, 1961, concluiu que “na
verdade, por mais que tentemos fazer silencio, não conseguimos (...)” (CAGE, 1961, p. 8). 1.
Observando que sempre está acontecendo algo que produz som, e ainda se nada à sua volta

1 “In fact, try as we may to make a silence, we cannot (…)".


estiver produzindo som, algo como seus batimentos cardíacos ou sistema circulatório estará o
fazendo.
Muitos destes sons no ambiente são denominados pelos músicos tradicionais por
“ruído”. Contudo, apresenta-se bastante pertinente a definição sugerida por Schafer: “Ruído é
qualquer som indesejado” (SCHAFER, 1991, p. 138).

É certo que isso faz de "ruído" um termo relativo; porém nos dá a flexibilidade
de que necessitamos quando nos referimos ao som. Num concerto, se o transito
do lado de fora da sala atrapalha a música, isto é ruído. Porém se, como fez
John Cage, as portas são escancaradas e o público é informado que o transito
faz parte da textura da peça, seus sons deixam de ser ruídos. (SCHAFER, 1991,
p. 138).

Essas considerações fazem-nos refletir que sons musicais tradicionais, uma vez que
indesejados, também podem ser denominados por “ruído”. “Tudo que fazemos é música, tudo é
teatro todo tempo, onde quer que se esteja, e a arte apenas facilita a compreensão de que isso
acontece” (John Cage apud BASTIANELLI, 2004, p. 186). Esta afirmação torna mais evidente
porque relacionar-se com a música contemporânea, é indispensável a qualquer indivíduo.
O ensino de música em diversos locais e escolas do Brasil abordam estritamente o
repertório tradicional. Umas concentram este repertório na chamada “música erudita” européia e
outras em música brasileira, seja ela “popular” ou “erudita”, mas ainda estreitados na linguagem
do tonalismo. Em O ensino da música num mundo modificado, 1977, Koellreutter alerta a
necessidade de uma mudança no ensino de música:

Um novo tipo de sociedade condiciona um novo tipo de arte. Porque a função


da arte varia de acordo com as exigências colocadas pela nova sociedade;
porque uma nova sociedade é governada por um novo esquema de condições
econômicas; e porque mudanças na organização social e, portanto, mudanças
nas necessidades objetivas dessa sociedade, resultam em uma função diferente
de arte.

Em quase todas as escolas de música, conservatórios, academias e


departamentos de música das nações industrializadas do mundo, os músicos
estão ainda sendo treinados para um tipo de sociedade que já passou para a
história. Os padrões e os critérios de educação musical nesses países são ainda
os da sociedade do século XIX, cuja estrutura social já está obsoleta dentro do
contexto da nossa sociedade contemporânea, dinâmica e economicamente
orientada. (KOELLREUTTER, 1977, p. 1).


Este pensamento vem sendo corroborado por poucos educadores e pesquisadores no
Brasil. É de extrema importância a apreciação, performance e ensino da música abordando a
linguagem contemporânea pós-tonal, pois como toda a arte, a música é a representação da vida
de sua época e é mais facilmente compreendida por seus contemporâneos (SCHAFER, 1991;
HARNONCOURT, 1988; ZAGONEL, 1999; DALDEGAN, 2009).
Bernadete Zagonel, em seu artigo Em direção a um ensino contemporâneo de música,
descreve a necessidade do ensino de musica contemporânea integrado ao de música tradicional.
Angélique Fulin, numa entrevista concedida a Zagonel em 1989, defende a iniciativa pedagógica
com base na música contemporânea, afirmando que “nossa vida está inserida nos elementos que
se encontram dentro das obras de Xenakis, Messiaen, Ohana ou tantos outros”. Todavia, os
educadores musicais não os consideram, “e o condicionamento ao qual nos submetemos nos
impede de escutar o contemporâneo”, ou a escutamos com total estranhamento. Contudo, é
importante notificar que “trabalhar com a música contemporânea não significa que é preciso
negar o passado; ao contrário, é primordial preservar a tradição cultural da qual somos hoje o
fruto” (ZAGONEL, 1999, p. 5-6).
Em Criatividade na escola e música contemporânea, Jorge Antunes traz à reflexão:
“(...) é necessário, para o jovem, conhecer a linguagem musical do passado, para depois ser
iniciado na linguagem musical do presente?”, onde o autor afirma: “estou certo de que a resposta
é não” (ANTUNES, 1990). Antunes, ainda ressalta a necessidade urgente da aproximação entre o
jovem e a música contemporânea como forma de atrair sua atenção e o seu interesse os quais,
atualmente, estão buscando na música comercial:

É preciso urgentemente lançar os jovens na música de hoje. Seus ouvidos, em


geral, estão condicionados e “entupidos” pela música comercial que hoje é
industrializada e enfiada, vídeo adentro, nas salas de nossas pobres famílias. Ao
terem acesso à nova e desconhecida arte musical, talvez eles se sintam, de
início, um pouco alheios àquele novo mundo sonoro. Mas a experiência mostra
que logo depois se identificam e penetram naquela nova atmosfera de sons, pois
logo sentem que o vocabulário caleidoscópico da música de hoje é um mundo
tão maravilhoso, tão cheio de sonhos, de temores e de fantasias, quanto o
maravilhoso mundo de suas mentes, também cheias de fantasias, temores e
sonhos. (ANTUNES, 1990).

É sensato afirmar que o estudo da música de épocas passadas auxilia na compressão da


música nova, além de contribuir com o desenvolvimento técnico instrumental, valendo-se de


uma metodologia que há tempos está sendo organizada, possibilitando que os estudantes atinja
altos níveis de performance. Porém, é notável a necessidade da abordagem da linguagem musical
contemporânea desde a iniciação musical do indivíduo.
Valentina Daldegan em Técnicas estendidas e música contemporânea no ensino de
flauta transversal para crianças iniciantes, Luciane Cuervo em Música contemporânea para
flauta doce - Um diálogo entre educação musical, composição e performance, e Álvaro
Henrique Borges em Abordagens criativas: possibilidades para o ensino/aprendizagem da
música contemporânea, contribuem com o conhecimento científico descrevendo resultados de
experimentos voltados ao ensino de música contemporânea para jovens iniciantes. Concluindo
que as crianças, até os dez anos, reagem mais positivamente quanto à aceitação de repertório
não-tradicional, se comparadas às de outra faixa etária.

Breves considerações acerca da Música Contemporânea e sua inserção nos


cursos superiores de música no Brasil?

Tanto o estudo quanto a produção da música contemporânea na Escola de Música da


Universidade Federal da Bahia (UFBA), vêm sendo consideravelmente abordados apenas pelos
estudantes de composição.
Em a universidade e a música: uma memória 1954-2004, Piero Bastianelli notifica a
importância da disseminação da música contemporânea na (e/ou pela) Universidade, quando
menciona os “Cursos e Festivais de Música Nova” (1969 a 1973):

Realizados ao longo de cinco anos consecutivos, os "Cursos e Festivais de


Música Nova" visaram a atualizar professores, estudantes e público em geral, a
respeito das produções recentes no campo da música.

Partindo do princípio fundamental da psicologia musical de que a compreensão


das épocas musicais deve começar com a compreensão da música
contemporânea, os "cursos e festivais" abordaram esta última, simultaneamente,
de três ângulos: criação, interpretação, informação

O programa diversificado proporcionou a realização de cursos, concertos,


apresentações, espetáculos, audio-visuais e sessões de informação, em uma
"amostragem do novo"... (BASTIANELLI, 2004, p. 177)


No mesmo livro, Bastianelli junto ao compositor Widmer em Música Experimental –
Música em Transformação alertam que a abordagem de música contemporânea e suas novas
formas de expressão com os timbres nas aulas práticas de instrumento “é de suma importância”.
Os professores de instrumento e de canto precisam começar a “se preocupar mais com os
recursos sonoros dos próprios instrumentos e da voz, ampliando a técnica convencional”. Os
“sons harmônicos, glissandos, pizzicatos diversos, enfim, tudo o que até agora era tratado como
efeito adicional colocará o instrumentista e o cantor no âmago do mundo sonoro contemporâneo”
(BASTIANELLI, 2004, p. 182-183).
Estas inovações sonoras/técnicas ficaram conhecidas como extended technique, um
termo usado para classificar formas não-convencionais de tocar um instrumento musical, ou
ainda, o uso de gestos ou sons fora do instrumento realizados pelo interprete e recomendados na
composição, trazendo assim uma nova estética na linguagem musical. Também é considerado
extended technique um elemento que faz parte da técnica tradicional, porém executados de uma
nova maneira. Este termo é traduzido em pesquisas no Brasil tanto por “Técnica Estendida”, bem
como, por “Técnica Expandida”. (TOKESHI, 2004; BURTNER, 2005; ISHII, 2005; LUNN,
2010; STEFAN, 2010).
O compositor e professor Ernst Widmer, em 1968, no Boletim 3 do Grupo de
Compositores da Bahia, atenta:

A atual preferência pela música c1ássica e romântica não só gera preconceitos


no público como no intérprete que, por isso, raramente toca obras
contemporâneas, fazendo-o, conseqüentemente contra vontade e de maneira
pouco convincente. Ora, para compreendermos uma linguagem é preciso, em
primeiro lugar, acostumarmo-nos a ela.

A arte exige o empenho de todos os que dela participam: do criador, do


intérprete, do público. O criador vive em busca de uma verdade cuja vivencia
possibilitará comunicá-la ao ouvinte. (BASTIANELLI, 2004, p. 391).

Percebe-se, então, que a música contemporânea, com o passar dos anos, vem sendo
menos disseminada na UFBA. Vale ressaltar, que atualmente, a “Associação Civil Oficina de
Composição Agora” (OCA) 2 , vem realizando uma série de eventos, seminários e concertos


2 http://www.ocaocaoca.com


promovendo a interação da sociedade com a música contemporânea, especialmente com obras de
compositores baianos. O evento “Música de Agora na Bahia” (MAB)3, realizado pela OCA é
uma série de dezenas de atividades que englobam: concertos, projeções sonoras, seminários,
palestras, mini-recitais em escolas públicas e intervenções urbanas, se estendendo de maio até
dezembro de 2012. Mas, ainda é pouco para uma Escola de Música onde seu nascimento foi
alimentado por inúmeros movimentos para a divulgação e apresentação da música
contemporânea, tanto dentro da universidade quanto fora dela.
Em cursos de graduação em instrumento no Brasil a música contemporânea vem sendo
pouco abordada. Este levantamento não é profundo, foi feito em dezembro de 2011 e as fontes se
restringem aos sítios oficiais das universidades, onde as grades curriculares, provavelmente, não
estão devidamente atualizadas. O motivo pelo qual algumas instituições não foram mencionadas
se deu pelo fato de não ter encontrado as grades curriculares disponibilizadas nos sítios.
Nos sítios da Escola de Música da UFBA, na Escola de música da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS) não foram encontradas disciplinas que abordassem música contemporânea. Portanto,
merecem destaque: a Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), que
traz a Música Contemporânea, História, Análise e Processos como uma disciplina optativa
indicada no terceiro semestre; o Departamento de Artes da Universidade Federal do Paraná
(UFPR) traz a partir do quinto semestre estas disciplinas: Música Eletroacústica, Oficina de
Música Eletroacústica, História da Música - Século XX - 1ª metade e História da Música -
Século XX - 2ª metade; a Faculdade Cantareira que a partir do sexto semestre há disciplinas
como Harmonia do século XX, História da Música Contemporânea; e a Escola de Música da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que oferece como optativas as disciplinas
Introdução à música eletro-acústica e Instrumentação Eletro-acústica.

Considerações Finais

A música contemporânea reflete uma realidade atual e que deve ser entendida como
parte dos conhecimentos difundidos em música, seja no ensino superior ou além. Tal perspectiva

3 http://www.musicadeagoranabahia.com


acarreta na necessidade da ampliação do referencial musical a partir de propostas válidas. Isso
contribui para uma educação musical mais ampla, democrática e aberta.
Os educadores musicais precisam dar-se conta da importância de incluir a linguagem
musical contemporânea em suas aulas, sem receios. Crianças postas em contato com este
repertório demonstram-se entusiasmadas (observação derivada de resultados de pesquisas
científicas e também de experiência pessoal em aulas tutoriais). Quando as crianças desejam
fazer aula de música, nota-se que o motivo principal é o interesse em tocar o instrumento, e não
um gênero musical ou um repertório em especial. Percebe-se que a linguagem musical
contemporânea é mais bem aceita pelos jovens e crianças do que pelos adultos, pois estes que já
têm opiniões fixas e preferências estabelecidas.
O real papel da arte vem sendo esquecido a cada dia. Atualmente, na música, a beleza é
um dos principais elementos julgadores, mesmo sendo bastante consciente a relatividade do
significado deste termo. A apreciação de obras contemporâneas de estrutura pós-tonal, que
trazem uma estética inusitada, pode refletir significativamente no individuo com a diminuição de
atos/pensamentos discriminatórios e/ou preconceituosos, sejam estes de âmbito racial, social ou
artístico.

Referências

ANTUNES, J. Criatividade na Escola e Música Contemporânea. In: Cadernos de Estudos:


Educação Musical 1. São Paulo: Atravez, 1990. p. 53-61.

BASTIANELLI, P. A Universidade e a Música: Uma Memória 1954-2004. Gráfica Contexto:


Salvador, Bahia, vol. 1, 2004.

BURTNER, M. Making Noise: Extended Techniques after Experimentalism. Website. New


Music Box. 01 mar. 2005. Disponível em:
<http://www.newmusicbox.org/article.nmbx?id=4076>. Acesso em: 15 set. 2011.

CAGE, J. Silence: Lectures and Writings. Middletown, Connecticut: Wesleyan University


Press, 1961. p. 8 e 191.

DALDEGAN, V. Técnicas estendidas e música contemporânea no ensino de flauta


transversal para crianças iniciantes. 152 f. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do
Paraná (UFPR), Curitiba, Brasil, 2009.


HARNONCOURT, N. O discurso dos sons: caminhos para uma nova compreensão musical.
Trad. Marcelo Fagerlande. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

ISHII, R. The development of extended piano techniques in twentieth-century American music.


126 f. Doctoral Dissertation, University Microfilms International (MI), United States, 2005.
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