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Lucas 24.

13-35
Em nossa estrada de Emaús
Autoria do texto: Prof. Edson Fernando de Almeida

No evangelho de Lucas a palavra vai da periferia ao centro -


Nazaré/Galiléia em direção a Jerusalém. Pois no texto que é alvo da nossa
reflexão, os discípulos fazem exatamente o caminho contrário. Vão de
Jerusalém para Emaús.
É para nós significativo e simbólico o fato dos discípulos estarem na
contramão do caminho que trilhou Jesus. Periferia - Jerusalém. Tentemos
extrair algum ensinamento desta contradição.
Lembremos que muitos abandonaram tudo para seguir Jesus. Quantos
sonhos puderam sonhar com o nazareno, quantas emoções viveram em sua
companhia. Quantos planos puderam imaginar na presença daquele que
trouxera um novo sentido para as suas vidas. E de repente, tudo está perdido.
A cruz arrasou quaisquer que expectativas, aniquilou todos os sonhos,
destruiu aquele ninho de cuidado e “cidadania” que de tão real, parecia até
mentira para muitos. Repito, muitos haviam abandonado tudo para seguir
Jesus…
E o que vemos agora? Muitos voltam à vida anterior. Voltam ao passado
de incompreensões, a uma vida sem brilho, sem horizontes; afogam-se na
bebida amarga de uma vida sem a luz do amor; sem aquela presença que os
transformara para sempre.
Podemos dizer que, em certo sentido, na compreensão dos discípulos
de Jesus não havia lugar para a cruz. Sim, não havia lugar para a cruz. Não
havia lugar para as sombras, na havia lugar para a perda, não havia lugar para
a dor! Não havia lugar para a morte!
O relato dos caminhantes de Emaús revela, portanto, que o outro
escândalo da Cruz não pôde ser superado. Atende bem para a força deste
relato, próprio de Lucas. Nós que vivemos sob o clarão da ressurreição
esqueçamo-nos com frequência do escândalo que foi para aquele grupo vir o
corpo de Jesus de Nazaré pregado naquele madeiro maldito. A dureza que foi
para aquele grupo sentir o amargo do dia seguinte sem Jesus.
O relato de Lucas, portanto, é um retrato em três por quatro da
contradição humana. Os doze quilômetros que vão de Jerusalém à Emaús
simbolizam uma vida. Doze quilômetros que concentram toda a tragédia, toda
a beleza, toda a profundidade da vida humana.
Muitas perguntas, questões e intuições afloram quando nos
aproximamos do texto de Lucas. Fiquemos, entretanto, com apenas uma
pergunta: Onde está Deus nesta grande viagem. Onde está Deus? Deixemos
que esta pergunta nos toque. E ao procurarmos uma resposta para ela no
enredo dos caminhantes de Emaús, estaremos ao mesmo tempo, fincando as
estacas, os alicerces para uma conversa madura sobre o tema do
Aconselhamento Pastoral. O texto nos sugere três respostas a tal pergunta. E
estas respostas, no meu entendimento, são o fundamento do Aconselhamento
Pastoral.

Onde está Deus em nossa estrada de Emaús?

1. Jesus se aproxima de nós.


O verso 15 diz que Jesus se aproxima dos discípulos e os faz enquanto
conversam. Atendem para o verbo homileo (vs 14 e 15). É bom lembrar que
não estão no templo, na sinagoga, não estão nos espaços que chamaríamos
religiosos. O enquanto dá ideia de cotidiano, de dia a dia. Ou seja, é no feijão
co arroz de uma segunda feira, é na discussão do final do dia de um casal que
se encontra depois de uma dia de fadiga, é nos afazeres ordinários do dia que
Ele se aproxima.
Outro detalhe, aproxima-se enquanto conversam, discutem. Aproxima-
se nas trocas humanas que se dão na palavra que vai e vem, na discussão às
vezes acaloradas da busca de um consenso, de uma tentativa de convencer
que muitas vezes não passa de uma ilusão. Mas, a despeito de tudo, são
nessas conversas, nessas trocas que se manifesta a nossa humanidade.
Melhor dizendo, a nossa co-humanidade.
Diz o relato que seus olhos estavam como que impedidos de o rque
conhecer. Ou seja, a proximidade em si, embora fundamenta, não é tudo. É
preciso algo mais, observe que a proximidade tão somente não foi suficiente
para que os poros da alma dos discípulos se abrissem à luz. Seus olhos
escamados pela dureza do cotidiano sem Jesus, da segunda-feira sem Deus,
do pós cruz sem sabor de nada, estavam fechados para o amor daquele que
ainda insistia em deles se aproximar.
Onde está Deus? O texto responde: está próximo! Proximidade,
contiguidade, vizinhança. É a primeira grande resposta que ao mesmo tempo
é para nós a primeira grande intuição para qualquer possibilidade de
estabelecemos um chão, um começo, um solo para o Aconselhamento
Pastoral. Não há aconselhamento sem proximidade. Não há aconselhamento
sem presença.
Observe-se que não se trata de uma presença pura e simples. O texto
nos fala de uma presença em meio ao conflito, uma presença não sentida,
uma presença ignorada. Mas, a despeito de tudo. Presença!
Um dos aspectos mais gritantes da cultura contemporânea é a realidade da
ausência. Ausência dos pais na vida de suas crias; ausência do Estado na
vida de seus filhos; ausência da lei na vida que parece uma luta de vale tudo;
ausência de cuidado nas relações entre os seres humanos e nas relações
desses com a natureza. Ausência!
O texto nos fala da presença ignorada de Deus. As imagens que os
discípulos e discípulas tinham a respeito de Deus certamente não
comportavam a ideia de um Deus que se esvazia e se doa na cruz. Suas
representações de Deus estavam longe de enxerga-li como um servo que se
humilha para servir. Por isso, o ignoram. Mas, ainda assim, Jesus de Nazaré
se faz presente em seu caminho. No túmulo do grande psiquiatra suíço Karl
Gustav Jung está escrito: Invocado ou não, Deus sempre estará presente.
Esta frase resume a força deste primeiro ensinamento que nos vem do texto
dos caminhantes de Emaús.
O Aconselhamento nasce, se alimenta e sobrevive desta simples e
nevrálgica afirmação: não há possibilidade de ajuda sem proximidade, sem
presença.
Dissemos, porém, acima que a presença é apenas um primeiro passo.
E agora podemos destacar uma segunda resposta sugerida pelo texto à nossa
pergunta sobre a presença de Deus em nossa estrada de Emaús. Ele caminha
conosco!
2. Deus caminha conosco
A proximidade é fundamental, mas não é suficiente. Há em Jesus um
movimento claro e límpido de achega e escuta. Jesus quer sentir a realidade
através dos dois caminhantes. Por isso, o Mestre não faz nenhuma afirmação
nesse primeiro momento. Faz, sim, uma pergunta: sobre o que vocês
conversam enquanto caminham?
Seria herético a esta altura dizermos que a Palavra de Deus se revela
também na palavra das pessoas. Jesus não coloca uma pergunta retórica.
Jesus não faz de conta que está perguntando quando já sabe a resposta. O
que preocupa vocês? Jesus vai ao encontro da Palavra que esta guardada na
profundeza dos seus seguidores e seguidoras.
Repito, Jesus vai ao encontro da Palavra na palavra humana. É
interessante observar que em um primeiro momento eles param. Em seguida
começam a falar. E falando fazem jorrar toda a larvar de seu desespero, fazem
aflorar o amargo de suas bocas, a bílis de suas desilusões. A pergunta de
Jesus faz brotar toda a sua agressividade: só você não sabe o que aconteceu
com Jesus de Nazaré?
Falam, os discípulos falam. E falando expõe seu sistema de valores, de
sentidos. Ao falar vão construindo uma narrativa que revela o estado atual de
sua esperança. Seus medos aparecem, sua desesperança, sua frustração,
seu insucesso. Não é incrível a pedagogia divina? Em primeiro lugar a
proximidade. Em seguida, a criação de uma relação de intimidade para que a
palavra possa emergir dos oceanos profundos da alma humana.
Quantas lições que temos aqui, quantas intuições profundas. O
Aconselhamento haverá sempre de sair e retornar às águas transparentes
destas respostas à pergunta pela presença de Deus em nosso caminho de
Emaús. É preciso proximidade. Mas temos que ir além: é preciso escuta.
É só podem escutar aqueles e aquelas cujos ouvidos que estão vazios,
ocos. Eu explico: Jesus poderia imediatamente interromper a narrativa dos
caminhantes dizendo que estes estavam enganados. Observem, vocês estão
equivocados. Eu estou aqui, poderia ter dito o Nazareno. Mas Jesus não o fez,
simplesmente porque ao fazê-lo teria desreispeitoso e minimizado a maneira
como aqueles discípulos viam o mundo ao seu redor. E se Jesus não os
ouvisse radicalmente, se intervisse desrespeitando os sentimentos dos dois,
não teria autoridade alguma para dizer-lhes uma palavra mais conflituosa, o
que vai acontecer um pouco mais tarde.
Percebam, Deus não quer nos ensinar a sentir determinadas coisas, a
mudar a maneira como nossas emoções se manifestam. Deus não quer nem
mesmo que levamos os acontecimentos do dia a dia segundo a sua visão.
Deus se aproxima, e ao aproximar-se espera de nós que apenas expressemos
nossas visões do mundo, que exteriorizemos o que se passa no nosso ser
mais profundo. Deus não quer ler por nós os acontecimentos do dia. Deus
espera apenas que os expressemos. Pois ao expressá-los a palavra pode nos
ajudar a discerni-los com mais clareza e profundidade.
Poderíamos perguntar, a esta altura, se quando nos aproximamos das
pessoas no intuito de ajudá-las estamos dispostos e abertos a ouvir o que
essas pessoas a tem a dizer realmente. Ou estaremos mais interessados em
ensiná-los a como sentir a vida segundo a nosso entendimento. Quanto temos
a aprender com a verdade de que Deus se aproxima de Deus. Ou, com outras
palavras, o quanto Ele nos escuta.
3. Deus nos ajuda a discernir sobre o sentido de nossa jornada
Chegamos a terceira resposta à nossa pergunta inicial onde está Deus no
nosso caminho de Emaús? Deus está próximo, Deus nos acompanha (escuta)
e, por último, Deus nos ajuda a discernir sobre o sentido de nosso caminho.
Outro dia vi uma frase de caminhão que dizia: eu aprendo muito, mas
sei pouco. Mais uma vez a sabedoria popular lança uma bonita luz n até nosso
começo de percurso. Uma coisa é aprender, outra é saber. Saber dá ideia de
uma experimentação, de um mergulho realidade, de um sorver, de um sentir
a vida. Assim poderíamos nos referir ao efeito da presença divina em nós: nos
lança na realidade fazendo senti-la em toda a sua intensidade.
A primeira definição, entre muitas, que o dicionário Houaiss dá ao verbo
discernir, é está: perceber claramente. Sim, é precisamente este o efeito da
presença de Jesus, a esta altura, na história dos caminhantes de Emaús. Dá-
lhes a possibilidade de perceberem com mais transparência os fatos como
são. Em meio a confusão de sentimentos dos dois transeuntes, em meio ao
seu desânimo e desolação, Jesus os confronta com a realidade.
Ou seja, na pedagogia da presença divina na estrada de nossa
existência há um momento que podemos chamar de momento do conforto.
Desfere Jesus, neste momento, uma palavra mais dura: ó néscios e tardos de
coração. Diz uma outra tradução: ó espíritos sem inteligência.
Cuidado! Entendamos com paciência e sem pressa, a colocação de
Jesus. Atentem para o fato de que o ressuscitado se posicionar de maneira
mais contundente e confrontadora depois de um longo período de proximidade
e escuta na vida daqueles caminhantes. Eu diria que no décimo segundo
quilômetro Jesus os confronta com o seu presente. Reparem que
frequentemente invertemos as coisas. Na pedagogia divina a palavra
confrontadora, a postura mais crítica aparece como um momento subsequente
ao longo caminho da proximidade e da escuta.
Ou seja, há um momento que Jesus os chacoalha, os sacode. E,
poderíamos dizer, que o faz com certa dureza. Há momentos em que a
escuridão humana é tão grande, que as escamas do cotidiano cerram de tal
sorte o entendimento humano, que é preciso um tratamento mais duro. Trata-
se daquele momento em que o esparadrapo está sendo tirado e a casca da
ferida começa a ser revolvida.
Entretanto, observem que este é praticamente o último momento da
presença de Jesus na vida daqueles peregrinos. O confronto, a palavra dura,
o posicionamento mais crítico, só tem sentido quando nascidos do chão da
solidariedade e do amor. Se assim não for, a palavra mais crítica terá um efeito
contrário. Produzirá mais endurecimento e revolta.
Estamos, então, frente ao terceiro elemento fundamental do processo
do aconselhamento pastoral: ajudar as pessoas a discernir com mais clareza
e transparência sobre o sentido de sua caminhada.
O mais curioso, entretanto, deste rico relato, é que nem ao serem
confrontados pela palavra de Jesus os olhos dos caminhantes se abrem. Eles
só serão abertos quando da ameaça de Jesus em partir. Aí então a luz
finalmente brilha em seus olhos, que se abrem enquanto partem o pão com
Jesus. Vejam, quando comem o pão. Cum panis, quando a cumplicidade
atinge seu momento mais forte.
O verso 33 diz que os discípulos se levantaram. O verbo aqui é ficar em
pé, acordar. Com outras palavras, os caminhantes ressuscitam. Que bela
imagem da ressurreição. O ápice de um lindo processo de crescimento que
começa com a proximidade divina, manifesta-se no cuidado de Jesus em
escutar o compasso de nossa alma, passa pelo confronto com as raízes da
nossa alienação e finalmente, revela-se na profunda cumplicidade divino-
humana, manifestadas na comunhão do pão e do vinho.