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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 20, Nº 41: 75-91 FEV.

2012

A POLITICA ENERGÉTICA BRASILEIRA NA ERA


DA GLOBALIZAÇÃO:
ENERGIA E CONFLITOS DE UM ESTADO EM
DESENVOLVIMENTO

José Alexandre Altahyde Hage

RESUMO

O texto tem o intuido de demonstrar que a globalização não tem contribuído amplamente para a vantagem
dos estados em desenvolvimento devido à dificuldade que eles têm em construir seu poder nacional. Nesse
caso, a própria globalização pode ser utilizada como meio de concentrar influência nos estados
industrializados, dificultando o relacionamento entre os dois lados. O intuito do texto é também examinar
como essas questões correspondem ao papel que o Brasil poderá representar como produtor de etanol e
petróleo em grande escala. Por fim, o artigo procura compreender em que medida o país poderá transformar-
se em um importante produtor de energia e, ao mesmo tempo, construir seu poder nacional na era da
globalização.
PALAVRAS-CHAVE: poder nacional brasileiro; globalização; política internacional; energia.

I. INTRODUÇÃO em desenvolvimento, caso o Brasil, que nos


últimos anos tem ganhado relevância na política
O objetivo deste artigo é demonstrar quão
internacional, entre outras coisas, em virtude de
importante é a constituição de planejamento
sua excelência na produção de etanol e da
estratégico para a consecução de segurança
importância das jazidas petrolíferas da Bacia de
energética dos estados, mesmo na era da
Santos.
globalização1. Sem querer basear-se em lugar-
comum atualmente tão em voga nos temas de Para tanto, é necessário apresentar pontos
política energética, o intuito do texto é sublinhar históricos que marcam a evolução, crise e resposta
que a consecução de segurança energética deve da política energética nacional de alguns estados
ser relevante tanto para países importadores em desenvolvimento e sua relação com
quanto para exportadores de energia. Por isso, fenômenos internacionais, como a globalização e
há de se melhor compreender os casos de países a disputa pela proeminência sobre recursos
naturais, especialmente o petróleo, cuja
importância está acima de dúvidas para o equilíbrio
1 Conceitualmente, os “estados” são atores que procuram estratégico dos estados em geral. Assim, o artigo
sobreviver em ambiente naturalmente conflituoso. Desde
faz um breve balanço de algumas questões dos
Hobbes, passando pelos pensadores da geopolítica (um anos 1980 com seus desdobramentos que
componente do realismo em Haslam (2006)), como Ratzel. influenciaram a formação de políticas públicas do
Assim, o Estado usa a estratégia como ferramenta de sua Brasil e outros estados em desenvolvimento.
consecução para sobreviver. No momento em que há estados
modernos, com o mínimo de base econômica e política, a Em princípio, o tema envolve particularmente
sobrevivência ocorre com maior qualidade à medida que o Brasil, que tem ganhado sofisticação tecnológica
haja segurança energética, caso mais específico dos na produção de álcool combustível e na pesquisa
hidrocarbonetos que impulsionam a economia internacional. e prospecção de petróleo e gás natural em áreas
Daí a premissa de que há segurança energética, integrando
de difícil acesso. No entanto, para que o país
as grandes preocupações da segurança no propósito mais
largo do termo, como a nacional, que conta com instrumentos possa tirar proveito dessas riquezas é necessário
militares (RIFKIN, 2002). superar dificuldades políticas e institucionais

Recebido em 20 de maio de 2010.


Aprovado em 27 de setembro de 2010.
Rev. Sociol. Polít., Curitiba, v. 20, n. 41, p. 75-91, fev. 2012
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A POLITICA ENERGÉTICA BRASILEIRA NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

ampliadas na história recente, como a falta de É claro que todos os fenômenos políticos e
perspectiva de construir seu poder nacional para, culturais tendem a universalizar-se, ainda mais em
justamente, aproveitar suas riquezas. ambiente interligado por meio de novas tecnologias
de comunicação, como a internet. Porém, isso
Nos anos 1980 grandes esforços institucionais
não é algo necessariamente exclusivo dos anos
passaram a ser feitos com o objetivo de separar a
2000. Nas devidas proporções, no decorrer dos
esfera econômica da política como se elas fossem
séculos XIX e XX podem ser constatados traços
duas entidades naturalmente divergentes. Separar
de revolução tecnológica que impulsionaram
a economia da política não seria somente
intercâmbios internacionais em alto grau nas
resguardar uma atividade socioeconômica da
trocas comerciais, nos serviços financeiros e
outra, pois haveria de atribuir-se valores e
outros itens que haviam ganhado dimensão com
qualificações morais a uma delas, sendo a primeira
o telégrafo e a navegação a vapor; depois com o
positiva e a segunda negativa2. Separar a economia
motor a combustão. No século XIX Marx e
da política significava ampliar os direitos
Engels haviam percebido o choque tecnológico
considerados naturais (e individuais) da produção
inerente ao capitalismo como acelerador dos
econômica e da liberdade de mercado, mesmo
processos socioeconômicos que integrariam
sobre aqueles setores vistos como tão caros à
variados povos, a saber, processo civilizador rumo
estabilidade dos estados, como o energético,
ao progresso (MARX & ENGELS, 1982).
sempre passível de conflitos.
Assim, o fenômeno denominado globalização
Nessa óptica, a esfera política, simbolizada pelo
que, dependendo da análise, ganha ares de
Estado, seria perniciosa ao mercado auto-regulável,
novidade e de revolução, com força suficiente para
que prescinde de planejamento governamental, pelo
alterar as formas com as quais o sistema
fato deste desconhecer a real dimensão que envolve
internacional organiza-se e compreende-se, não
os agentes econômicos, cuja máxima é a de que o
marca presença em somente uma esfera do
progresso e o bem-estar só emergem na medida
planeta4 . Trata-se de atmosfera cuja influencia
em que as regras da economia de mercado são
estende-se às atividades políticas, culturais e
admitidas. Uma dialética de confrontos foi
econômicas tanto nos Estados Unidos quanto no
observada no cotidiano dos estados nacionais,
Japão; e não deixaria de ser presente nos países
industrializados ou não. Para Julien Freund, de um
latino-americanos.
lado estão os membros do “partido do Direito
Privado”, os indivíduos, fazendo valer seus direitos No entanto, há uma diferença que merece ser
sobre seus oponentes, os membros do “Direito sublinhada. Embora o processo de globalização
Público”, a coletividade (FREUND, 1986).
Nesse campo, na visão tradicional de Carl determinado território, ocupado por coletividade
Schmitt, as implicações de elevar o papel possuidora de cultura e identidade, que é organizada por
alguma soberania. Esse poder soberano utiliza a guerra
representado pela coletividade, do Direito Público
para fazer valer seus interesses em situação de conflito.
acima das individualidades, acarretam o Em Aron, unidades políticas puderam ser encontradas em
fortalecimento do poder do Estado, do fomentador Atenas e Roma do período clássico, assim como na
de estratégia, que faz valer o princípio de soberania Florença de Maquiavel e na Alemanha Imperial de
e da vontade nacional das unidades políticas3 Bismarck (ARON, 1986).
sobre convenções e tratados limitadores 4 Não é demais conceituar alguns termos consagrados na
(SCHMITT, 1992). literatura de Ciência Política e de Relações Internacionais.
Por sistema internacional concebe-se uma relação de
2 Não ignoramos os motivos que levaram à reforma coordenação, cujo centro tem a cadência das grandes
potências. Os estados nacionais relacionam-se a partir de
institucional dos anos 1990 no Brasil, como a “crise do
código de conduta, seguindo comportamentos
projeto de substituição de importações”. Deve-se atentar,
considerados universais, pois são encontrados em todo o
no entanto, para a qualidade dos resultados daquelas
mundo, por exemplo, adoção do trabalho diplomático e
iniciativas para a projeção para projeto de
embaixadas, compreensão do modo como se organizam
desenvolvimento. Ver texto de Maria da Conceição Tavares
forças militares e outros. A posição que o Estado ocupa na
(1999).
ordem das coisas, posição de destaque e secundária, é
3 O conceito de “unidade política” pode ser usado como resultado de processo histórico e político. Na percepção
substantivo a “Estado nacional”. Começando com Carl de Waltz, o que determina a posição do Estado no sistema
Schmitt e Raymond Aron, a unidade política significa um é resultado da estrutura mundial de poder (WALTZ, 2002).

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seja algo de teor universal, ele não se aplica de econômica que se estendem na criação de
modo uniforme e constante em todas as unidades empregos, nas garantias trabalhistas, nas políticas
políticas que compõem o sistema internacional. públicas. Entre outros, esses são os frutos do
A forma com a qual a globalização manifesta-se, que se pode ler como crise do Estado. Já no
política e economicamente, depende da qualidade mundo desenvolvido a globalização acontece, mas
do poder nacional de cada Estado. Vale dizer, seus com menor possibilidade de desgastar a esfera
efeitos modificam-se quantitativa e qualitativa- pública e o poder nacional.
mente em consonância com o poder político de
Partindo da premissa de alguns analistas, como
cada unidade política. Dessa forma, seria ilícito
Rubens Ricupero, há como perguntar se o
dizer que os efeitos globalizantes, bem como sua
processo que desemboca na globalização não tem
mensagem, são adotados considerando o perfil
cores de ideologia. A saber, ideologia pelo fato de
político dos próprios estados, conforme pensa
haver uma pregação intelectual, uma opinião
Peter Gowan (2003).
institucionalmente montada a seu favor, dando a
A expressão “poder nacional” é usado na entender que sua mensagem e resultado são
Ciência Política, em sua versão mais tradicional, expressões universais que desconhecem
para contabilizar potencialidades dos estados. fronteiras, abarcando tanto em vantagem quanto
Trata-se de estimativas, um cálculo de em impasses todo tipo de Estado, ricos e pobres
aproximação que leva em conta os fatores básicos (RICUPERO, 2002).
de poder, como as riquezas naturais, as forças
Essa ideologia, para o ex-embaixador
armadas bem equipadas, a economia avançada, a
brasileiro, não sobrevive aos testes da realidade.
ciência, a educação popular, a saúde, o número
De fato, não há como negar que a revolução
de doutores etc. São fatores que variam de tempo
tecnológica contribui com a globalização e o
em tempo, mas sem sofrer grandes alterações.
estreitamento das relações internacionais.
No caso brasileiro, há conforto em alguns itens
Contudo, tratando-se da América Latina, tem de
do poder nacional, mas há problemas em outros5.
observar-se que as crises econômicas e sociais
É factível o entendimento de que a globalização da região foram os custos do baixo poder nacional
seja resultado de avanços tecnológicos em para que a globalização, e o que ela simboliza,
informática, comunicação e novas engenharias. ascendesse (idem). Por isso, o abandono de
Mas também deve ser compreendido que outros projetos nacionais de desenvolvimento, da
itens concorreram para sua emergência com teor autonomia industrial e da tecnologia, são fatos
de transformação radical nos anos 1980 e 1990. que aconteceram para dar lugar às sugestões feitas
Talvez o mais explícito disso tenha sido a crise por organizações internacionais e sua ideologia
do Estado que grassou por aqueles anos, cujo anti-Estado (CANO, 2000).
efeito não se esgotou totalmente. Crise do poder
Outra sugestão que ganhou espaço nos debates
estatal que pode ter deixado sua marca nas
políticos nos anos 1990 foi a que seria factível
grandes potências, mas cujo efeito fora
adotar modelo antigo, mas ainda útil, de
largamente devastador nas áreas mais
coordenação produtiva, o mercado auto-regulável
empobrecidas do globo.
que seria muito mais compatível com o período
E aqui há um imbróglio. Por que os efeitos posterior à Guerra Fria do que os desgastados
socioeconômicos da globalização recebem programas de planejamento governamental, sendo
diferentes admissões? Na parte periférica do boa parte deles sinônimo de ineficiência e anti-
sistema internacional ocorrem crises na arena racionalidade econômica, conforme escrevera
Friedrich Hayek contra o keynesianismo (HAYEK,
1986).
5 Há variedade de analistas que se interessam pelo poder
A idéia acima relembra estudos feitos por Karl
nacional, cada um no seu estilo e época. Há preocupações Polanyi para analisar o princípio do mercado auto-
sobre o poder nacional em Gramsci, Morgenthau e Aron.
regulável, no século XIX, e por que esse mercado
Na perspectiva brasileira temos Araújo Castro (1999) e
Oliveiros Ferreira (2001). O segundo escreveu um livro entrou em decadência nos anos 1930 com os
fazendo um balanço do desgaste do poder nacional e nacionalismos (POLANYI, 2000). Ignorar os
comparando seu desenvolvimento e impasse em duas contratempos que o autor de A grande transfor-
épocas, período militar e redemocratização. mação escreveu para privilegiar grupos de

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A POLITICA ENERGÉTICA BRASILEIRA NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

investidores internacionais e domésticos como se, efeitos negativos 6 . No entanto, não é difícil
efetivamente, houvesse analogias políticas, sociais encontrar críticos, sobretudo de sua versão
e econômicas para reproduzir o modelo liberal do econômica, Joseph Stiglitz (2003) e Gowan
século retrasado talvez tenha sido um dos grandes (2003), só para citar dois. Eles são da opinião de
equívocos que houve nas tomadas de decisão dos que a globalização, além de não ter consistência
governos, sobretudo dos Estados em em sua mensagem virtuosa, como o aumento do
desenvolvimento (GRAY, 1999). comércio internacional, pode ser ainda encarada
como “instrumento de laboratório” a favor das
O estudo do ambiente político e econômico
grandes potências. Em outras palavras, a
que envolve questões energéticas e o papel que o
globalização é uma ideologia, da mesma forma
Brasil representa nesse espaço é o objetivo deste
que foi ideologia a pregação da nova ordem
texto. Ambiente que, por vez, assiste ao
internacional nos anos 1990 e suas derivações
lançamento de pregações como a do mercado auto-
com o “fim da história”, que tanto espaço teve
regulável e aos pressupostos de que há uma
com o desmanchar do socialismo soviético.
globalização da energia, de que se ela fosse bem
seguida traria desenvolvimento e bem-estar aos Ideologia porque, em primeiro lugar seria
países envolvidos. errôneo sublinhar que os fluxos de comércio
internacional gozam de trânsito como nunca visto
II. A GLOBALIZAÇÃO E A IDEOLOGIA DO
na história, tudo em virtude do final da Guerra-
MERCADO AUTO-REGULÁVEL
Fria e da decadência dos princípios estratégicos
O princípio de um mercado auto-regulável nacionais, da política propriamente dita. A liberdade
como pressuposto de racionalidade econômica e econômica e seus resultados no comércio
maximização de ganhos para operadores internacional já tiveram dias melhores, mesmo
capacitados e competentes não é exclusividade do antes desse tipo globalização, acredita Batista
período de globalização. Dessa forma, o intuito Júnior, cujo pensamento é o de que no período
deste texto não é impulsionar o debate da da Pax Britannica, entre 1870 e 1914, a liberdade
antiglobalização nem se fixar em um setor comercial foi maior que a atual.
específico dela, a economia. Cada vez mais, falar
Mais do que isso, mesmo sob governos
em globalização tem sido tarefa difícil, uma vez
conservadores, antiliberais, portanto afeito ao
que se multiplicam textos feitos para analisá-la,
protecionismo, o Reino Unido fora mais aberto
permitindo variedade enorme de opiniões. Opiniões
ao mercado externo durante sua proeminência
que nem sempre se pautam pela qualidade, mas
político-econômica do que sua representação atual,
sim pela quantidade, reproduzindo máximas de
assumindo o livre-mercado. Havia mais liberdade
lugares-comuns e não reparando no viés ideológico.
comercial e social, trabalhadores imigrantes, no
Dizer que a globalização abarca todos os começo do século XX, em comparação ao que
estados, ricos e pobres, centrais e periféricos, ocorre na “era da globalização”, em que as
nos mesmos efeitos e desgastes, é algo que se fronteiras passam a ser vigiadas constantemente
torna inadequado, pois privilegia a visão fatalista e a imigração transforma-se em questão nacional.
de que a política necessária, que se deseja para Assim, não seria original pregar que os princípios
dar destaque ao desenvolvimento dos Estados, não de livre-mercado e liberdade social são algo
mais existe. Então, o que fazer com o desemprego inerente à globalização nos anos 1990. No fundo,
e o atraso tecnológico, por exemplo? Para com as devidas proporções, os fluxos atuais do
governos conformistas, sem vontade nacional para
sanar as grandes questões sociais e econômicas
6 Octavio Ianni faz uma leitura diversa da globalização.
a globalização tem sido um bálsamo para servir
Seus efeitos podem ter outra representação para
de justificativa e para esquivarem-se de movimentos sociais que queiram escapar do nacional e
responsabilidades, de acordo com a leitura de pleitear militância internacional, valorizando o socialismo.
Paulo Nogueira Batista Júnior (1997). Uma sociedade civil internacional que cresceria à medida
que o poder político dos estados entrasse em decadência.
É fato que a globalização não é versada Sociedade civil internacional que estaria acima dos estados,
somente nos assuntos econômicos e tecnológicos. e suas querelas, e tendo como ponto primordial a
Da mesma forma, não há como imaginar que valorização do homem completo e sua liberdade – o que
todos seus debates sejam para demonstrar seus seria, para Ianni, a renovação do marxismo (IANNI, 1997).

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comércio internacional seriam até inferiores aos partes, ainda são, muito presentes na participação
contabilizados pelo sistema anterior à I Guerra desses países na economia internacional, embora
Mundial (THOMPSON & HIRST, 2002). a cultura política geral indique o contrário. Mas,
por outro lado, utilizam-se argumentos montados
Para concluir esse ponto, Keynes escreve que
para demover os estados periféricos dos mesmos
se criticava a Rússia czarista porque ela exigia
instrumentos que levaram Washington, Londres
passaportes de europeus ocidentais que quisessem
e outras a serem centros de estados industria-
entrar em seu território. Pedir passaporte seria
lizados (CHANG, 2004).
sinal de atraso, resquício de um país que ainda
não havia adentrado à modernidade da energia Em outro diapasão, os desdobramentos da
elétrica etc. Assim, livre-trânsito era sinal de globalização na Argentina e Brasil, receberiam
civilização (KEYNES, 2002). Quer dizer, a União outro impulso, pela crise institucional e econômica
Européia acabou restituindo uma prática que havia que esses estados latino-americanos passaram
se perdido por causa das guerras. com a quebradeira da dívida externa dos anos
1980, a moratória mexicana. O forte desgaste dos
Em segundo lugar, porque a globalização não
Estados da região, impedindo-os de continuar
seria algo fatalista, sem participação humana, sob
linhas de desenvolvimento iniciadas nos anos 1950
a qual as sociedades têm de adaptar-se para
e 1960, foi conveniente para decretar o fim das
minorar seus efeitos, mas sim um instrumento
autonomias econômicas e adotar planos de
fomentado pela revolução tecnológica. Vale dizer,
desregulamentação e reformas que davam a
um arcabouço formulado pelos blocos nacionais
entender o quanto o período desenvolvimentista
de poder7 encontrados tanto nos Estados Unidos
fora negativo para firmar o crescimento
quanto no Reino Unido para restaurarem sua
econômico e a distribuição de renda.
preeminência internacional, pressionando
aberturas comerciais e desregulamentações Voltar a crescer economicamente nos estilos
(GOWAN, 2003). mais desenvolvidos, bem como afirmar franquias
liberais em Estados vitimados por governos
No juízo de Chang, no âmbito das políticas
autoritários, só poderia ser feito por meio de
públicas utilizadas por unidades desenvolvidas,
reformas que diminuíssem (ou excluíssem) o
Estados Unidos e Europa Ocidental, constata-se
papel regulador dos estados na esfera produtiva e
que instrumentos de proteção ao mercado
de serviços afeitos a monopólio natural, como
doméstico, apoio institucionais a empresários,
energia elétrica e telefonia. A partir desse ponto,
subsídios a exportações etc., foram e, em algumas
as privatizações passaram a ser esperadas com a
eleição de plataformas governamentais que
7 Preferimos a expressão “blocos nacionais de poder”
fossem mais receptivas às sugestões de algumas
para analisarmos o conjunto que engloba não somente o
governo, mas também empresas, partidos políticos e
organizações financeiras internacionais, como o
intelectuais que fecham opinião sobre alguma política. No Banco Mundial, cujo debate era o de que em fase
caso dos Estados Unidos e do Reino Unido, em primeiro de livre-mercado não haveria mais por que
plano, o bloco nacional de poder é formado pelos seus continuar com planos de desenvolvimento autár-
respectivos mandatários, com apoio de dirigentes empre- quicos8, o que valia também para aqueles setores
sariais e think tanks que dão cobertura intelectual às suas
escolhas. Tratando-se de energia, não seria incongruente a
existência de bloco político que procura assegurar supri- 8 No Brasil quem, de certa forma, encarou a missão de
mentos de hidrocarbonetos nos locais mais hostis, como militar pela economia de mercado e superar todas as formas
Ásia Central. Hannah Arendt havia comentado que o pri- o antigo modelo de desenvolvimento foi o ex-Senador e
meiro impulso para a expansão política, econômica e mili- Diplomata Roberto Campos. No papel de “intelectual
tar para o exterior em busca de recursos, imperialismo, orgânico” das reformas, Campos imprimia uma espécie de
dá-se pela existência de grupo específico, unindo o público representação que aliava experiência política e ironia com
e privado, que cria condições intelectuais e políticas para a qual apelidava com os termos “petrossau ro” e
tal excursão (ARENDT, 1989). Na atualidade, o resultado “valessauro”, respectivamente Petrobrás e Vale do Rio
dessa empreitada tende a ser uma competição pelos recur- Doce (CAMPOS, 1994). No governo de Fernando
sos energéticos que ainda existem nas proximidades da Henrique Cardoso a verve de Campos pode tê-lo inspirado
Ásia Central, retomando a máxima de Mackinder, segundo no percurso a favor da desregulamentação por meio de
a qual quem se apossa desse heartland adquiri vantagens palavras usadas com o intuito de diminuir política e
perante seus competidores. Nesse caso, os concorrentes intelectualmente o interlocutor, por exemplo, “neobobos”
são Estados Unidos, Rússia e China (HARVEY, 2004). (GRÜN, 2005).

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A POLITICA ENERGÉTICA BRASILEIRA NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

que foram considerados estratégicos nos últimos anos 1980 em virtude de moratórias e reconstruir
50 anos, como a energia (BERMANN, 1991). o poder de investimento dos estados em áreas
vistas por essenciais para a nova economia que
Algumas afirmações podem incomodar quem
ganhara corpo por meio de criações tecnológicas
honestamente trabalhou pela desregulamentação
(CANO, 2000).
dos serviços públicos, acreditando que realmente
estavam fazendo um bem para o Estado, na Não se trata de fazer crítica moral contra os
criação de empregos e na distribuição de riquezas governantes da ocasião, nem de utilizar termos
para a sociedade. Lendo autores que foram de pouca precisão conceitual, por exemplo,
engajados na tentativa de ter-se maior harmonia “neoliberalismo”, que tanta linha ocupou nos
internacional, sob a égide da globalização, é textos contestadores. Saber se houve efetivamente
possível encontrar quem tenha extraído outra o emprego do neoliberalismo no Brasil, nos
concepção das políticas sugeridas tanto pelo moldes imaginados nos Estados Unidos e Reino
governo norte-americano nos anos 1990, de Bill Unido, é algo que tem de ser examinado com mais
Clinton, quanto pelas organizações internacionais. atenção, o que não pode ser feito aqui.
Em parte, é o que acontece com o depoimento de
A questão de fundo é que mesmo imbuídos de
ex-Presidente do Banco Mundial, Josef Stiglitz:
planos preocupados com a virtude do mercado e
“Alguns de nossos problemas no exterior eram
dos investimentos privados, internacionais ou não,
causados pela forma como interagíamos com os
em serviços públicos mais complexos, ficou claro
outros países, principalmente com as nações em
que as desregulações não lograram resultado
desenvolvimento, mais fracas. Ao agir como se
esperado, inclusive é o que reconhecem
tivéssemos descoberto uma fórmula única e
importantes analistas da questão, como José
segura para a prosperidade – às vezes com a ajuda
Goldenberg e Luiz Tadeu Prado. O primeiro
de outros países industriais avançados –, nós
exerceu cargo de Secretário da Energia durante o
intimidamos outras nações a fazer coisas da nossa
governo de Mário Covas, em 1995 e pôde
maneira. Tanto por meio de nossa própria
acompanhar os desdobramentos que levou à perda
diplomacia econômica como por influência de um
de eficiência do sistema elétrico paulista, com a
Fundo Monetário Internacional sob domínio
Eletropaulo e a Companhia Paulista de Força e
americano [...]” (STIGLITZ, 2003, p. 51).
Luz (CPFL) (GOLDENBERG & PRADO, 2003).
Pelo fato de a América Latina ter atravessado
No caso brasileiro o problema mais premente
grande crise econômica, e de ter entrado com
foi a aceleração da crise de energia elétrica, de
descrédito no sistema financeiro internacional, a
2001, denominada apagão, em virtude da falta de
reforma do poder público foi recebida com
políticas consistentes de coordenação e
entusiasmo, até por setores intelectuais e políticos
investimento durante os anos 1990, quando houve
à esquerda que negavam o período nacionalista
forte pressão de agentes econômicos, intelectuais
por causa do autoritarismo (BERMANN, 1991).
e políticos para que se descaracterizasse o antigo
Planos de reformas institucionais que
sistema Eletrobrás, criado nos anos 1950, para
promovessem a diminuição e, em alguns casos
construir um setor de relevância capital para o
anulação, do poder público sobre serviços sociais
desenvolvimento. Embora seja de conhecimento
foram vislumbrados positivamente. Serviços
histórico, é bom salientar que houve a empreitada
sociais que tradicionalmente foram vistos como
do poder público há mais de 50 anos na construção
de interesse governamental, já que eram passíveis
do setor elétrico nacional. Isso porque não houve
de prejuízo e de lucros parcos, entraram em via
interesse, ou capital suficiente, por parte da
de desregulamentação.
iniciativa privada. Na leitura de Marcondes Ferraz,
Assim, passou a ser aventado pelos governos que planejara a usina de Paulo Afonso, a entrada
reformistas, o brasileiro Collor de Mello, em 1990, do Estado na construção da mencionada planta
e Fernando Henrique Cardoso, em 1995; o não seu deu por preconceito contra o capital
argentino Carlos Menem, em 1989 e o mexicano privado, mas sim porque ele não apareceu
de Carlos Salinas, em 1985. O plano era a (FERRAZ, 1981).
desregulamentação e privatização com o intuito
A razão disso é que obras de infraestrutura
de fazer ações urgentes em face do difícil período:
são grandes absorvedoras de capital intensivo e
restabelecer o crédito internacional perdido nos
suas possibilidades de reverter lucros para o

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investidor são baixas em virtude do tipo de empresário brasileiro. Com facilidades em


“produto” que fornece, bem como as obrigações infraestrutura e tarifas públicas subsidiadas, as
sociais que detêm. Fornecer serviço social, água empresas nacionais e internacionais puderam
ou energia elétrica, não pode ser visto como ascender sem riscos de desabastecimentos ou
mercadoria propriamente dita, embora seja “estouro” de tarifas dos serviços prestados,
necessário que o investidor não se comprometa mesmo em período de dificuldades econômicas,
com dívidas e prejuízos constantes. Este tem sido conforme avalia Antonio Dias Leite em seu livro
um debate travado no âmbito não somente na A energia do Brasil (LEITE, 1997).
Engenharia e na Economia, mas também na
Nos anos 1980, na forte crise econômica, o
Sociologia, com a teoria do “antivalor”9.
Estado brasileiro não usava reajustar tarifas de
Voltando à crise do Estado que se fez presente energia elétrica para adquirir meios de equilibrar
nos anos 1980 e 1990, havia ficado incongruente a balança doméstica, o que fez que críticos
usar argumentos políticos e intelectuais para dissessem que tais atitudes eram
conservar o processo de desenvolvimento contraproducentes pelo fato de continuar
econômico fundados nos anos 1950. As razões privilegiando quem tinha condições de pagar e
mencionadas foram o desgaste para lidar com itens jogar o prejuízo para o Erário. O resultado daquelas
econômicos muito mais dinâmicos e sofisticados operações era o aumento do deficit público e,
para um sistema baseado na autarquia. Novos nascendo deste, a inflação que passara a galopar
meios de comunicação, de informática etc., para números inéditos no país.
deveriam ser administrados por agentes
Porém, há também uma explicação alternativa,
governamentais e empresariais, mais sensíveis ao
que não se desvincula do grupo afim ao projeto
fato de que o fim da Guerra Fria havia sido um
de substituição de importações ou àquilo que
divisor de águas entre duas épocas. O processo
derivaria de um Estado com mais poder de
de substituição de importações havia acabado
afirmação. Assim, a elevação do deficit público e
(DOMINGUES, 2007).
da inflação que castigou a denominada “década
Também não se deve deixar de comentar outros perdida” também poderia ser resultado da posição
dois itens relacionados com o desgaste do menor e comprometida que o Brasil ocupava no
desenvolvimento autônomo e com a crise do sistema internacional. Posição fraca que fazia que
Estado, o deficit público e a alta inflação que o Estado, junto com os demais da América Latina,
duraram todos os anos 1980. Dizer que pagasse pelo ônus e pelas decisões feitas
necessariamente o deficit público e inflação são justamente no campo das grandes potências
partes integrantes da substituição de importações (DOMINGUES, 2007).
pode ser impreciso. É certo que bancar a
Se houve descontrole da inflação e do deficit
economia nacional com incentivos governa-
público, é porque existiu o encarecimento dos
mentais e promover o mercado consumidor é algo
serviços da dívida externa. É congruente recordar
que exige recursos, sendo boa parte deles
que foram dívidas feitas com muito apreço pelos
provenientes da poupança doméstica, a saber, de
bancos internacionais e com o sinal verde dos
tributações e empréstimos internos.
governos, mormente dos Estados Unidos, que via
Durante os anos 1950 a 1990 o setor muita vantagem naquelas operações de
energético brasileiro foi um grande fomentador empréstimos para fazer circular os petrodólares,
de incentivo e subsídios para o crescente recursos provenientes de meios que haviam
aumentado muito por causa da forte subida no
9 Estas páginas não são oportunas para analisarmos com preço do barril de petróleo, em 1973 (STIGLITZ,
pertinência a teoria do antivalor do Sociólogo Francisco 2003). Mais empréstimos, mais consumo e
de Oliveira. Mesmo assim, para José Paulo Vieira, a energia, investimentos com “dinheiro barato”, com juros
como serviço público, não pode ser contabilizada pelos baixíssimos, até negativos para aumentar o fluxo
métodos convencionais que o mercado utiliza para de empréstimos aos estados necessitados de
produtos convencionais, “lei da oferta e procura”. Isso
capital. Contudo, havia a letra de que os juros da
porque o fornecimento de energia elétrica guarda
compromisso social que se tiver seu valor reajustado pelas dívida seriam flutuantes – e a fatura veio cara no
regras do mercado o resultado será o prejuízo de setores momento em que o governo Ronald Reagan subiu
populares de baixa renda (VIEIRA, 2007). os juros no Federal Reserve Board, desgastando

81
A POLITICA ENERGÉTICA BRASILEIRA NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

fortemente o poder de pagamento dos endivi- Mesmo sem o ente responsável pelo equilíbrio
dados. da economia mundial e sem o regulador necessário,
os negócios empresariais tinham de continuar e de
Por isso, não é crível somente atribuir o
ganhar terreno, sobremodo por causa de áreas
calvário dos enforcados somente à autarquia
esgotadas para a rápida maximização de
econômica, mas de igual modo deve-se reparar
investimentos. O outrora promissor Leste europeu,
no papel que houve a partir das tentativas de
recém liberado do socialismo, mostrava sinais de
Reagan para restituir o poder nacional dos Estados
esgotamento, inter alia, por causa de grupos
Unidos e seus esforços para vencer o embate da
nacionais, cujos métodos nem sempre combinava
II Guerra Fria. O projeto “Guerra nas Estrelas”
com a moral esperada da virtude do homem
exigia grandes vultos financeiros. E de onde
econômico. Assim, a energia serviu de atração para
deveria sair o dinheiro para tal, a não ser das
atrair investidores na América do Sul por causa da
cobranças feitas sobre os estados periféricos?
pouca possibilidade de maximizar capital em regiões
Desse modo, pode-se observar que alguns saturadas, como a Europa Ocidental (SANTOS,
impulsos que animavam a globalização nos anos 2002).
1990 guardam semelhança com fatores que
O leste da Ásia, com os Tigres à frente,
acabaram sendo substantivos da própria
também não se mostrara mais interessante. Não
globalização, como liberdade econômica, livre
pelo impasse do capitalismo, mas sim pelo
fluxo comercial em todo o mundo e a premissa
esgotamento do modelo de expansão econômica,
de que não haveria mais por que gastar tempo
do livre-mercado, que havia entrado em choque
com a conformação do poder nacional dos
com setores governamentais e empresariais da
estados, ainda mais os periféricos, uma vez que
região, o que passou a ocorrer aceleradamente a
não haveria mais razão pensar nisso em uma era
partir da crise financeira, dos emergentes, que
de decadência soberana. Se a soberania está em
aconteceu em 1997 (STIGLITZ, 2003). Um tipo
seu “ocaso” no Hemisfério Norte, imagina-se,
de nacionalismo asiático contribuiu para que
então, o que seria no Sul.
investidores que procuravam novos eldorados
Esses vazios conceituais, institucionais e passassem a reparar na desgastada América Latina
ideológicos rapidamente passaram a ser ocupado com ativos a serem privatizados.
não por uma novidade revolucionária, mas sim pela
E a oportunidade chegou justamente com a
releitura e reformulação de antigos instrumentos e
desregulamentação de setor que dificilmente
pregações sob a figura da globalização para legitimar
entraria nesse feito nos anos 1950 a 1980,
a máxima de que não haveria por que resistir ao
principalmente nas maiores unidades da região,
fatalismo. Nessa seara apareceram pregações de
como Brasil, cujo princípio estratégico foi o de
que surgiria o mercado auto-regulado, da mesma
que energia é bem essencial para o arranjo da
forma que ele existiu no século XIX. Mas, desta
segurança nacional. E sobre esse princípio não
vez, sem a cultura e a matéria-prima que possibilitou
se torna difícil encontrar pronunciamentos e
aquela modalidade de mercado. Não houve quem
documentos que o comprovam. Analistas já se
se responsa-bilizasse por ele10.
debruçaram sobre essa afirmação, por exemplo,
Oliveiros Ferreira (2001) quando estuda o impacto
10 Não se trata de histórico norte-americano,
dos Acordos de Roboré, de 1958, entre Brasil e
despreocupado com a sorte do sistema econômico Bolívia, para a compra de petróleo do vizinho
internacional. Sobre isso pode ter-se outra percepção, andino, e Christian Caubet (1991), com seu estudo
mesmo que limitada. É licito frisar que a construção de um sobre a relação do poder político brasileiro, com
tipo de “estabilidade hegemônica” fez-se presente nos a energia, na construção da usina de hidrelétrica
anos 1950, até 1973, quando o governo Nixon abandonou de Itaipu11 .
o padrão ou ro. Nas características da estabilidade
hegemônica, Washington tentou estabelecer, sob sua
responsabilidade, um regime de livre-comércio em que o 11 A relação entre poder e energia, como um dos
importante seria a regularidade que, em princípio, houvesse fundamentos do poder nacional brasileiro, está presente
acato por regras básicas de convivência. Guardando as na obra do general Golbery do Couto e Silva. Nesse autor
devidas proporções foi o que fez a Grã-Bretanha no período a energia tornar-se-ia elemento primordial que deveria ser
do livre-cambismo no século XIX (POLANYI, 2000; visto como parte dos “objetivos permanentes” do
HOBSBAWN, 1994). planejamento estratégico (COUTO E SILVA, 1981). A

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 20, Nº 41: 75-91 FEV. 2012

III. POLÍTICA E ENERGIA NO BRASIL Isso se explica, de um lado, pela necessidade de se


preservar nas mãos do Estado o núcleo estratégico
A oportunidade para que a América Latina,
do sistema” (BENJAMIN, 2001, p. 60).
especialmente o Brasil, adentrasse na globalização
energética surgiu com a desregulamentação do No âmbito latino-americano, o emprego do
setor elétrico em 1995. Naquele ano, o governo de capital internacional fez presença na privatização
Fernando Henrique Cardoso havia constituído uma dos setores elétricos e petrolíferos em quase todo
base técnica e parlamentar para que a privatização o subcontinente. Na Argentina houve a
das empresas estaduais de energia elétrica, bem privatização da Yacimientos Petróleos Fiscales e
como a descaracterização do sistema Eletrobrás, na Bolívia houve o mesmo feito com a Yacimientos
ganhasse corpo. Claro, não se deve também deixar Petróleos Fiscales de Bolívia. No México, grande
de comentar que, em paralelo à situação brasileira, produtor, não houve, de fato, privatização de sua
havia experiências na Argentina e na Bolívia com a estatal, mas sua produção ficara como garantia
desregulamentação do setor energético deles. pelo fato de o país ter adquirido um volumoso
empréstimo de bancos norte-americanos e do
A falta de maximização rápida do capital
Fundo Monetário Internacional (FMI) para
investido fez que os interessados internacionais,
consertar a crise econômica de 1994 (STIGLITZ,
na maior parte, viessem à América Latina com o
2003). E não seria demais dizer que parte
intuito de adquirir controle de empresas como
substancial da riqueza mexicana vem do petróleo,
Eletropaulo (São Paulo) e Light (Rio de Janeiro),
boa parte dele exportado para os Estados Unidos.
importantes firmas públicas que se
responsabilizavam pela distribuição de energia À primeira vista, o impacto da privatização das
elétrica, mas que nos anos 1990 sofriam pela falta antigas empresas de energia elétrica não foi
de investimento nas estruturas mais sensíveis, que positivo. A escalonada no preço das tarifas foi muito
necessitavam de reformas. Vale dizer, havia grande em pouco tempo, e foi ainda mais dramático
tempos que tais empresas não recebiam meios por causa dos setores sociais de baixa renda, cuja
para sua readequação técnica (SANTOS, 2002). tarifa era subsidiada pelo Estado (BALBONTÍN,
1999). Para os novos administradores, muitos deles
De certa forma, a falta de investimento na
sem conhecimento adequado da situação latino-
infraestrutura elétrica não foi sem propósito e veio
americana (do Brasil em especial) dar subsídios à
a calhar para criar legitimidade política para que
faixa mais pobre da população seria sem propósito,
essas empresas fossem privatizadas. Isto é, a
sobretudo considerando o real debate intelectual
desvalorização operacional e financeira das estatais
que procurava fazer do Brasil um país de economia
não era sem propósito, cumpria um plano coerente
liberal.
para melhor transferi-las aos novos investidores
(ROSA, 2001). Em algumas situações houve Situação interessante, pois o subsídio deveria
controle externo das firmas de serviços públicos ser anulado pelo fato de camuflar a capacidade
nacionais, visto que o controle acionário passou empresarial do Brasil e também pelo motivo, já
a residir na Europa Ocidental ou nos Estados suficiente, de ser algo contrário ao espírito da
Unidos, caso da Light e da Eletropaulo. A primeira livre-empresa. Porém, não foram poucas as vozes
sob controle de capital francês; a segunda com que aceitaram empréstimos a juros baixos feito
comando de investimento norte-americano. Para com recursos públicos do Banco Nacional de
sublinhar esse impasse vivido pelo Brasil, Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes) e
passamos a palavra a César Benjamin: “Alguns do Fundo de Apoio ao Trabalhador (FAT) para
anos antes, em plena era Reagan, os Estados financiar a compra das empresas estatais de
Unidos, pátria do liberalismo, haviam tomando energia elétrica por parte dos grupos interessados.
cuidado de preservar sob controle estatal o seu Recursos que deveriam ser empregados no bem-
sistema de geração hidroelétrica, parte do qual estar da população de modo geral, e não para
continua a ser operado diretamente pelo Exército. privilegiar o capital internacional (SOLNIK, 2001).
A privatização da empresa Petrobrás havia sido
premissa ressurge nas reflexões mais contemporâneas, vide planejada no governo de Fernando Collor de
Darc Costa, que imputa à integração regional uma das Mello, em 1990. Pelo fato de haver muita emoção
maneiras de o Brasil conseguir regularidade de suprimentos ligada à historia da estatal, saída da campanha “O
energéticos (COSTA, 2004). Petróleo é Nosso”, no auge do movimento

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A POLITICA ENERGÉTICA BRASILEIRA NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

nacionalista de Getúlio Vargas, certamente não seria pudessem ser escolhidos pela Presidência da
nada fácil mover os atores aliados e convencer parte República, como o próprio mandatário da
da opinião pública de que a privatização do setor empresa. Conseqüentemente, em 2001 era
petrolífero nacional seria conveniente para a Presidente da Petrobrás alguém que não fora
aquisição de riqueza e bem-estar ao povo. formado em seus quadros, mas sim um executivo
escolhido pelo Palácio do Planalto12 . O indicado
Na fórmula do governo Collor e do pessoal do
para minar as pressões da corporação, rumo à
Bndes, que combinava com o plano de
possível privatização, não detinha o conhecimento
privatização, o que o governo deveria fazer era
profissional que lhe permitisse comandar a firma
usar a máxima “comer pela beirada”; não se
com a eficiência esperada, mesmo que seus
concentrar diretamente na Petrobrás, mas sim
objetivos contrariassem o apresentado pelo grosso
naqueles setores estatais que teriam menos
dos funcionários (GRÜN, 2005).
resistência política para posteriormente adentrar
no campo do petróleo. Assim, com a idéia de que E foram sintomáticas as escolhas que o
o governo Collor deveria adquirir legitimidade para governo Fernando Henrique Cardoso fizera para
tais assuntos complicados, houve a privatização comandar a Petrobrás. Em sua segunda gestão,
do setor petroquímico, considerado menos o ex-Presidente da República havia aceitado a
dramático que o petrolífero propriamente dito, o escolha de dois profissionais ligados a empresas
que resultou na diminuição sensível do Estado privadas e bancos, mas com pouca ligação com
nesse setor. Anos depois percebeu-se o erro feito, a atividade profissional na esfera pública.
principalmente porque o Brasil virou importador Francisco Gros e Henri Reichstul eram
de fertilizantes, produto altamente ligado à profissionais formados no campo da iniciativa
industria petroquímica. Atualmente, o setor tem privada e com formação intelectual nos Estados
ausência de capital nacional (SCHUTTE, 2004). Unidos e na Grã-Bretanha, em nível de pós-
graduação em Economia. Gros ainda tivera certa
A fórmula de desgastar resistências migrou
atividade no Bndes e no Banco Central, mas
para o governo Fernando Henrique Cardoso, em
sempre com atenção voltada para a
1997. Como seria dramática a ação de privatizar-
desregulamentação e no cumprimento da agenda
se a Petrobrás, o governo preferiu duas táticas
proposta pelo FMI. Já Reichstul era neófito nos
de impacto. A primeira foi quebrar o monopólio
meandros da burocracia pública – e foi justamente
nacional do petróleo, feito em 1953, que
em suas mãos que surgiu profundo mal-estar.
resguardara a exploração e importação de petróleo
à estatal. A segunda tática foi implantar executivos O mal-estar foi fruto de sucessão de enganos
no comando estratégico da empresa, mas que não que desembocou no afundamento da Plataforma
fossem de carreira. De fato, que não fossem P-36. Acidente que, de certa forma, abortaria os
criados na cultura da Petrobrás, sem seu esprit fitos de privatização, ou o adiaria, sine die, pelo
de corps, considerada prejudicial ao processo de motivo de descrédito e por ter legitimado as
privatização. queixas feitas pela Associação dos Engenheiros
da Petrobrás, de que haveria um plano sinistro
A razão para isso não seria despropositada.
feito pelo bloco nacional de poder para privatizá-
Isso porque havia a tradicional queixa, ao menos
la (idem).
dos opositores, de que a Petrobrás seria envolta
em uma espécie de “caixa preta”, em que as
12 É licito dizer que a escolha de um funcionário alheio à
decisões mais prementes da corporação eram
carreira para a Presidência da Petrobrás é um ato regular.
resguardadas para o proveito do funcionalismo e
Historicamente é o Planalto que escolhe o Presidente da
sem permitir consultas externas, da sociedade empresa, geralmente alguém que tenha afinidades políticas
propriamente dita. Na seqüência dessa queixa com o governo. Em 1979 João Figueiredo havia posto
havia a opinião de que a estatal teria um poderoso Shigeaki Ueki para presidir a Petrobrás. Na posse do
corporativismo que dificilmente permitiria Presidente Lula, em 2003, o cargo havia sido do Deputado
alterações – o que resultaria na premissa de que Federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), José Eduardo
Dutra, que foi engenheiro da estatal. De fato, a escolha de
as decisões em nível federal teriam pouco efeito.
Reichstul para presidir a petroleira foi algo bastante
Dessa forma, uma das maneiras de minar o simbólico, visto qual era o objetivo do bloco que
espírito corporativo da petroleira brasileira seria sustentava Fernando Henrique Cardoso para realizar
reformas.
contaminá-la por dentro, botando diretores que

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 20, Nº 41: 75-91 FEV. 2012

Nesse aspecto, marca-se uma inflexão no fraudulentas (SOLNIK, 2001). Goldenberg e


processo de reforma institucional do Estado Prado voltam ao assunto com as seguintes
brasileiro. A imagem de que a iniciativa privada seria percepções: “Todas essas dificuldades do setor
mais bem preparada tecnicamente (e não corrupta) elétrico foram induzindo, paulatinamente, a uma
para administrar serviços públicos recebeu forte deterioração das reservas do sistema anteriores à
golpe tanto pela crise do apagão, visto que sua reforma. Essa situação era agravada pelo fato de
gênese fora provocada por duas causas, a falta de que as geradoras federais que pretendiam fazer
investimentos importantes no setor elétrico, agora novos investimentos para tornar o sistema menos
privatizado, e pelo salto de corrupção feito por um vulnerável foram impedidas de fazê-lo pela política
dos grandes acionistas da Eletropaulo, a empresa de austeridade fiscal do governo” (GOLDEN-
norte-americana Enron, que havia adentrado no BERG & PRADO, 2003, p. 230).
setor elétrico nacional e gozado de mérito –
Ao menos não há dúvida de que as
superavaliada em sua modernidade em prol do
manifestações políticas e intelectuais que passaram
mercado (ROSA, 2001; STIGLITZ, 2003).
a ganhar espaço a partir de 1990, sob o dogma
Eis um traço polêmico na relação entre do mercado contra o Estado, contribuíram para
governos, partidários da reforma institucional, e aumentar a crise do Brasil. É fato que essa crise
empresas que participaram da desregulamentação teve seu início com a elevação dos juros da dívida
e das privatizações. Isso porque ficara patente externa, nos anos 1980, que praticamente
que a lógica de que a corporação privada daria estrangulou os países devedores. Mas também é
conta do desenvolvimento e bem-estar social no licito sublinhar que houve empenho de agências
setor em que adentrara, prescindindo de algum internacionais de risco, de organizações
apoio do poder público, revelou-se falaciosa internacionais e de parte substancial e de
(SOLNIK, 2001). governantes afins para selar a sorte do setor
elétrico nacional (CANO, 2000).
Em 1995, a própria Eletropaulo ficara proibida
de fazer atualizações técnicas necessárias, Conseqüentemente, a crise da dívida externa
investimentos, para conservar sua competência, latino-americana serviu de terreno fértil para o
reconhecida internacionalmente. Proibiu-se que processo da globalização no subcontinente. E, por
a empresa, que tinha caixa suficiente, gerasse seu turno, a globalização serviu de justificativa para
superavit fiscal. No fundo, havia o pensamento desgastes políticos, sociais e econômicos que
de que o mais urgente seria constituir bons foram considerados imanentes aos novos tempos,
relacionamentos com o FMI para que o Brasil acima dos esforços nacionais, que seriam parcos
tivesse credenciais atraentes perante o investidor para reverter uma espécie de lei natural que abarca
internacional. Nesse propósito, o nome do Fundo todos os estados, sob os mesmos efeitos, negativos
serviria como credencial para a boa imagem do e positivos (BATISTA JÚNIOR, 1997).
País.
A atmosfera de cultura política que fora
Por outro lado, se o Bndes ficara impedido de conveniente para governos ligados à reforma
fazer investimentos nas estatais de energia elétrica, institucional e a posturas cosmopolitas foram ao
a mesma proibição não ocorreu no momento de encontro de outro desgaste, grave para a
emprestar-se recursos públicos para que o consecução de segurança e desenvolvimento dos
empreendimento privado internacional estados de modo geral, a relativa desconstrução
participasse no processo de privatizações, assim do poder nacional13 . É certo que o fenômeno fora
é que apareceu a Enron na vida econômica latino-americano, com resultados diferentes entre
brasileira. Contudo, com a crise de credibilidade os estados. No aspecto brasileiro, houve setores
e falência da participante norte-americana, em
2000, o que poderia aprofundar ainda mais a crise
brasileira de energia elétrica por falta de capital 13 A crise do Estado e o desgaste do poder nacional não

na Eletropaulo, o governo federal teve de ocorrem de modo homogêneo na América Latina. Sua gênese
direcionar recursos. A saber, não houve pode ter ocorrido nos anos 1980, a partir da moratória
mexicana, mas seus desdobramentos são variados.
autorização de empréstimos do Banco para Enquanto o Brasil teve relativo desmonte do poder
melhorar a infraestrutura das ex-estatais, mas nacional, mas resguardando alguns itens, países como
houve permissão para salvá-las de operações Argentina tiveram decadência bem mais profunda em seus

85
A POLITICA ENERGÉTICA BRASILEIRA NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

políticos que procuraram resistir à continuada Otimismo que surge em virtude da possível
reforma que, efetivamente, viessem a concluir os elevação brasileira à categoria de exportador
planos esperados pelos governos reformadores. internacional de energia por meio de sofisticada
produção de etanol, biomassa e hidrocarbonetos.
Mesmo assim, o que houve de empenho nas
Estes últimos representados pelo quantum de
reformas institucionais, em paralelo à crise do
petróleo que pode ser encontrado nas megajazidas
Estado, foi suficiente para permitir a existência
de Tupi, na Bacia de Santos. Fator que credencia
de contratempos suficientes para perturbar a
o Brasil a ator de caráter estratégico no campo da
consecução de segurança, em linhas gerais, do
política internacional. Mas o problema é saber em
Estado brasileiro. Diga-se em linhas gerais porque
que medida o Estado pode tirar proveito dessa
o conceito de segurança não deve ter interpretação
qualificação que, se não for bem refletida, pode
única, sua percepção deve ser pertinente para a
tornar-se um complicador ainda mais grave para
questão tanto militar, modo clássico, quanto na
a consecução de segurança e para a constituição
energia, o que vale também para hidrocarbonetos.
do poder nacional.
Trata-se de conceber a segurança como conceito
em que devem residir preocupações não somente Dessa forma, pode averiguar-se que a falta de
do meio militar, resguardando o espaço territorial, atenção para com as questões de segurança
mas também a regularidade de energia, sobretudo propriamente ditas não afeta somente os termos
em uma economia que ressente de mais urgentes da realidade brasileira, a Amazônia,
desenvolvimento (HAGE, 2007). o tráfico de drogas e armas, a violência urbana e
outros males. O resultado para maior acuidade
A falta de plano coerente para sustentar o
com as questões de segurança também pode
poder nacional brasileiro acabou por prejudicar
marcar presença nos assuntos de energia,
aqueles setores que classicamente são valorizados
principalmente em razão da emergência de
na soberania nacional, as Forças Armadas. Na
variados grupos que utilizam a violência como
opinião de César Flores, houve premeditado plano
expressão, mas não têm, necessariamente, ligações
político, a partir do governo Collor de Mello, para
com nacionalidades tradicionais. A pirataria da
diminuir a importância não somente política, mas
África Oriental, Somália, saqueando várias
também operacional dos militares. E, para o
embarcações, é exemplar para ilustrar essa
Almirante, o resultado é a vulnerabilidade pela qual
asserção. Embora a realidade política da África
passam as regiões brasileiras, cuja presença do
Ocidental, Angola e Nigéria, seja menos dramática
Estado faz-se de modo parco e dificultoso, por
que a costa leste, não há garantias que seus mares
exemplo, a região amazônica (FLORES, 2002).
sejam imunes a violências internacionais.
No entanto, a questão de segurança nacional
Em Darc Costa pode-se encontrar perspectiva
não tem sido o único grande sinal de debilidade
do que deveria ser a formulação de planejamento
para obter-se o real poder nacional, talvez seja a
estratégico com vistas aos bens energéticos do
mais evidente. No âmbito da política energética,
Atlântico Sul e, ao mesmo tempo, projetar a
há no cotidiano político brasileiro uma mescla de
imagem do Brasil como Estado que ao mesmo
otimismo com falta de planejamento estratégico,
tempo prepara-se para o futuro e não se descuida
que deve ser considerado ferramenta essencial
de suas relações exteriores, inclusive promovendo
tanto para a segurança em geral quanto para
a cooperação internacional, como segue o autor:
alimentar os elementos do poder nacional, como
“(a) Aproveitamento da continentalidade mediante
apego ao crescimento econômico e à tecnologia.
a formatação de um processo de cooperação sul-
Elementos que quando bem agregados a outros
americana [...]. (b) O aproveitamento da
constroem o poder nacional de um país
maritimidade como instrumento de dominação do
(FEROLLA & METRI, 2006).
espaço marítimo do Atlântico Sul e condução do
processo de mundialização ao golfo da Guiné e
aspectos internos de poder. Como haviam refletido Amado costa ocidental da África. (c) A criação de uma
Cervo e Clodoaldo Bueno, o Brasil havia feito mescla de maritimidade vinculada ao oceano Pacífico que
modelos divergentes, o desenvolvimentismo com o conduza a mundialização à Nova Zelândia,
neoliberalismo, o que dificulta a conclusão. Já a Argentina Austrália e costa oriental da África” (COSTA,
fora mais categórica na admissão das reformas liberais
2001, p. 47).
(CERVO & BUENO, 2002).

86
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 20, Nº 41: 75-91 FEV. 2012

A situação política da África Ocidental e do suficiência dos arranjos de defesa ou da


Atlântico Sul não é indiferente para o Brasil, para capacidade combatente resultante. Uma segunda
quem deve formular estratégia. Preocupar-se com vertente caracteriza-se por não perceber a utilidade
as imediações mencionadas é tarefa legítima para ou a necessidade das Forças Armadas, a ponto
o Estado brasileiro em virtude da área que passou de admitir sua eventual extinção – ainda que
a ser denominada Amazônia Azul, em analogia à paulatina, a reboque da redução progressiva do
Amazônia florestal, com seus recursos imensos orçamento” (PROENÇA JUNIOR & DINIZ,
e variados que passam, a cada dia, a chamar 2001, p. 344).
atenção de outros agrupamentos, nacionais ou
Um dos meios para fazer que as Forças
não, como contrabandistas ou cientistas e
Armadas perdessem o ímpeto político encontra-
religiosos que, no fundo, estão a serviços de seus
se em sua perda econômica, enxugamento do
estados e privando o Brasil de seus avanços
orçamento dado aos militares; atribuindo-lhes
(VIDIGAL, 2006).
recursos suficientes apenas para os gastos mais
A Amazônia Azul é área que abarca a elementares, como folha de pagamento, ensino e
plataforma continental brasileira, em toda sua área pensões. Já os recursos apropriados para o
de interesse, com quatro milhões de quilômetros melhoramento do material militar ficavam
quadrados. Em termos de aproveitamento ausentes. Esse tem sido um debate travado desde
econômico o território brasileiro estende-se para 1990 em que houve sinais claros do descrédito
12 milhões de quilômetros quadrados (TORRES militar.
& FERREIRA, 2009). Por enquanto, o maior
No entender do almirante Flores, é licito que
ponto de atração e interesse da Amazônia Azul
haja preocupação para que a delicada democracia
tem sido as imensas reservas de petróleo e gás
brasileira não seja maculada pelo autoritarismo.
natural. Certamente, recursos naturais que podem
Talvez daí surja a comentada apreensão de alguns
elevar o nível de desenvolvimento do Brasil, uma
partidos políticos que participam da vida política
poupança que, se for bem administrada, será uma
nacional desde 1985. Por outro lado, a falta de
alavanca para aprimorar pesquisas de ciência,
planejamento estratégico coerente com o papel
tecnologia e o poder nacional em geral.
que o Brasil pode representar nos negócios
Todavia, essa riqueza primordial pode ser mal internacionais, por meio da energia, bota toda essa
aproveitada ou abrir novo canal de conflito que possibilidade em jogo (FLORES, 2002).
envolverá o Brasil. A razão disso é justamente a
E o risco traduz-se de maneira mais clara no
falta de preparo do item de poder nacional mais
nível inferior que a Marinha de Guerra encontra-
específico para a situação das novas jazidas de
se para fazer valer sua função, a de proteger os
hidrocarbonetos, a Marinha de Guerra. Não é algo
reais interesses nacionais, desta vez, representados
recente que a Armada brasileira demonstra
pela maximização econômica dos recursos
preocupação com suas atuações mais elementares.
advindos da Amazônia Azul, da Bacia de Santos.
Como Domício Proença Júnior e Eugênio Em outra instância, não deixa de ser preocupação
Diniz observaram, houve empenho mesclado com geopolítica que apresenta nova versão para o
uma visão curta do processo político, para fazer século XXI. Não mais se pautando pelos aspectos
que o agrupamento militar fosse “enquadrado” em da Guerra Fria, mas sim em consideração à
um aspecto para que não houvesse mais necessidade que o Brasil tem. Na condição de país
condições intelectuais e políticas dos militares periférico, ou potência regional, o Brasil guarda a
adentrarem no poder, da mesma forma como urgência do desenvolvimento e, por isso, não deve
aconteceu com o movimento político-militar de furtar-se da importância de melhorar seu poder
1964, pondo Castelo Branco na Presidência. É nacional.
congruente citar o parecer dos autores a respeito
IV. CONCLUSÕES
de duas questões: “A primeira deixa transparecer
um entendimento difuso do orçamento militar No decorrer deste artigo houve o intuito de
como espécie de pagamento que condiciona os fazer duas correspondências. A primeira foi a de
militares a um bom comportamento e conquanto que o processo de globalização (com sua
este venha a ser obtido, joga, inconscientemente, denotação de declínio das soberanias) relaciona-
para o segundo plano as considerações acerca da se com a crise do Estado. Mas crise do Estado

87
A POLITICA ENERGÉTICA BRASILEIRA NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

que ocorre de maneira desigual pelo sistema Considerando uma interpretação da segurança que
internacional, sendo os países periféricos os mais vá além do aspecto militar, segurança das
débeis na utilização do poder nacional para, fronteiras etc.; e sim com a importância de ligá-
justamente, amainar os efeitos provocados. E la à energia, a consecução energética, questão tão
mais do que isso, poder pelo qual se coordena o relevante para o equilíbrio político e econômico
desenvolvimento por meio da ciência, tecnologia, dos estados nacionais.
industrialização avançada, educação e outros. Na
Se o sistema internacional é uma arena de
visão de Araújo Castro, é pelo preparo e pelo bom
disputas em que os estados mais bem preparados
uso dos elementos do poder nacional que há
estrategicamente o dominem, então não seria
elevação no nível de vida de parte da sociedade,
incongruente imaginar, como faz Chang, que
os mais necessitados (CASTRO, 1999).
aqueles vitoriosos na corrida do desenvolvimento
O grupo das grandes potências tem condições econômico e tecnológico, conseguindo imprimir
de suportar desgastes no campo político e interesses perante outros, cheguem a impedir a
econômico, caso sejam provenientes da ascensão das pequenas potências, justamente para
globalização. Além disso, há possibilidades de que não perderem a cadência sobre setores fundamen-
esse mesmo agrupamento tire proveito do tais para o primeiro escalão, exemplarmente na
fenômeno mundial, imputando valores e fazendo energia e no comércio internacional. Dessa forma,
exigências para fazer que as unidades pobres os estados desenvolvidos “chutam a escada” para
abram mão de contestações e críticas ao sistema. que os descontentes não a subam e não perturbem
No lugar de limitar a atuação dos estados os de cima (CHANG, 2004).
industrializados, a globalização pode criar
A economia da energia tem condições de ser
legitimidade intelectual e política para que sejam
uma alavanca no nível de vida das sociedades,
feitas reivindicações ao antigo Terceiro Mundo
mas também pode tornar-se um fator de
para que parte dos estados que o integram aceitem
complicação e conflito quando não é bem
reformas institucionais que sejam convenientes
administrada. A construção de regras concernentes
para Hemisfério Norte, por exemplo, a abertura
com aquilo que o Estado espera, apoiando o
de mercados, as privatizações14 e a queda forte
espírito empresarial, atribuindo-lhe direitos
do preço das matérias-primas (GOWAN, 2003).
necessários para a boa parceria entre o setor
A segunda correspondência é que o pouco privado e o público deve ser uma amostra de uma
preparo e alimentação do poder nacional não boa administração. As grandes descobertas de
somente abre espaço para efeitos nocivos da jazidas na Bacia de Santos, com petróleo e gás
globalização, mas também contribui para o natural considerados de qualidade superior, baixo
aprofundamento dos problemas de segurança. teor de metais pesados, são elementos essenciais
que exigem nova postura política, econômica e
jurídica do Brasil; sempre na perspectiva de
14 Faz-se necessário explicar nestas considerações finais contribuir para a melhor ascensão internacional.
que por reforço do poder nacional brasileiro não implica
no notadamente no estatismo ou no embate contra as Por isso, não seria incongruente imaginar
privatizações. Embora seja lícito afirmar que boa parte parcerias entre o poder público, munido de
das privatizações se deu mais com o intuito de aceitar as planejamento estratégico, com setores do
sugestões das organizações internacionais e investidores empreendimento privado. Embora o convívio nem
privados (STIGLITZ, 2003) do que para atender as reais sempre seja fácil ou logre resultados esperados,
necessidades da sociedade brasileira. Houve até efeito
é importante o mapeamento de temas e estudos
contrário na busca de eficiências, caso da energia elétrica
(ROSA, 2001). Alimentar o poder nacional é aceitar a em que as duas esferas possam trabalhar juntas.
existência de um centro aglutinador que deve formar a Na história recente houve avanço entre governo
grande estratégia, sob a qual se coordena os itens integrados, e sociedade, com resultados positivos, em setores
a economia, a educação e outros (FERREIRA, 2001). de grande complexidade técnica, como a
Centro que, para este último, é inexistente, pois não deve informática, dando mérito a unidades políticas
ser confundido com os ocupantes da Esplanada dos
periféricas em tecnologia, Brasil, Índia e Coréia
Ministérios reunidos com o presidente da República.
Talvez algo que se aproxime dessa construção (nossa do Sul (EVANS, 2004). No campo da economia
interpretação) seja o extinto Conselho Nacional de da energia há possibilidades de que essa parceria
Segurança, fundado nos anos 1930. seja efetiva.

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No entanto, questões de ordem geopolítica Com efeito, a OPEP pode concentrar e politizar
ainda são relevantes. As novas reservas na o óleo cru, mas terá grande dificuldade em fazer
plataforma continental brasileira exigirão enormes boicote, pois seus sócios não detêm tecnologia
recursos financeiros e políticos para dar serventia nem logística suficientes para agregar valor ao
aos insumos dali explorados. Financeiros porque produto, cabendo às instituições de Nova Iorque
será volumoso investimento que superará a e de Londres efetuarem o que os árabes, por
estimativa tanto do Palácio do Planalto quanto da exemplo, não podem. Esse é um tema que não
Petrobrás. Também haverá custos políticos em deve ser ignorado pelo Brasil, mesmo que o
virtude dos cuidados de ordem geopolítica que insumo seja o etanol. Em síntese, o que vale para
deverá ser integrada a um relevante projeto as negociações dos hidrocarbonetos estende-se
estratégico, averiguando a situação de segurança também para os combustíveis renováveis.
na área do Atlântico Sul e as relações que o Brasil
Tudo isso leva a observar que o jogo em que
tem com a África Ocidental.
o Brasil tenciona entrar, negociando energia na
Por fim, a segurança energética com que o economia internacional, não será fácil, sobretudo
Brasil terá de preocupar-se não é desligada da para um Estado considerado periférico e com
esfera internacional. Três itens são mencionados limitados elementos de poder. Eis a razão para
aqui. Primeiro, porque parte dos investimentos atribuir-se maior importância na reformulação do
para o setor de energia terá origem no exterior. poder nacional, salutar para a nova fase de relações
Segundo, é em virtude das relações de parceria internacionais que podem ser benéficas para o País.
que a estatal nacional tem com empresas
A globalização não precisa ser interpretada
internacionais. E terceiro, por causa da cadência
apenas como instrumento de ideologização a favor
que o complexo Nova Iorque-Londres exerce na
de determinados grupos. Ricupero e Ianni
economia, negociação e logística do petróleo,
refletiram sobre o assunto. Ela pode ser o meio
concentrando poder (SÉBILLE-LOPEZ, 2006).
pelo qual se elevará um novo conceito de
Isso porque não é totalmente correto afirmar cidadania, fomentando uma sociedade civil
que os estados produtores de petróleo, boa parte internacional (COSTA, 2001). Mas a globalização
deles membros da Organização dos Países não pode ser mistificada na condição de fenômeno
Produtores de Petróleo (OPEP), Arábia Saudita, natural e acima das capacidades políticas das
Venezuela, Kuwait e outros, gozam de proeminência sociedades, usando ou sendo usada, para
na economia internacional. Após a crise do petróleo, justificativas que perturbam propostas e projetos
de 1973, as potências dependentes da exportação nacionais, imputando-lhes juízos negativos. Em
do óleo procuraram modificar a situação que lhes parte, foi isso que aconteceu com alguns estados
deixaram vulneráveis. O efeito daquela crise para em desenvolvimento que se conformaram a um
os Estados Unidos, Grã-Bretanha e Japão foi destino menor e a favor de grupos que tiraram
desmontar as infraestruturas que, até então, proveito de um ciclo econômico que mostrou
funcionavam nas áreas produtoras para serem sinais de esgotamento, caso da Indonésia dos anos
transferidas para os consumidores. Assim se deu 1990 e da Argentina em 2001. No campo dos
com as transferências de refinarias, comercialização assuntos energéticos, a globalização é questão que
e transporte dos membros da OPEP para a América necessita ser reavaliada.
do Norte e Europa Ocidental.

José Alexandre Altahyde Hage (alexandrehage@hotmail.com) é Doutor em Ciência Política pela


Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Professor de Política Internacional na Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp).

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 20, Nº 41: 255-260 FEV. 2012

explain processes of institutional change starting from institutions themselves. The study goes beyond
a simple comparative analysis of theories and seeks to offer, in a preliminary sense, a method for the
analysis of theory that makes it possible to explore the essential dimensions of available approaches
to institutional change through the new institutionalism. What are the constitutive elements that make
up an institutional theory per se? The method we use is constructed starting from the problems that
are considered fundamental in the advancement of an institutional theory. For these purposes, we
suggest that the one of the initial steps in the construction of theories of institutional change can be
seen as associated with the growth of a demand for comparative analysis of theories, in the sense of
a closer understanding of the problems entailed and refinement needed for the building such theories.
KEYWORDS: New Institutionalism; Institutional Change; Comparative Theories; Social Science;
Political Science.
* * *
“WE HAVE A DREAM” – SOCIAL SCIENTISTS AND THE CONTROVERSY ON RACIAL
QUOTAS IN PRESS
Luiz Augusto Campos
Through research that looks at opinion columns published in the major Brazilian press, we analyze
the position that the country’s social scientists have taken on the issue of the racial quota system that
has been implanted in some of its universities. Our main goal is to demonstrate the plurality of
opinions embroiled in the controversy, in order to then identify commom lines of argument. Initially,
we discuss the validity of two widely-disseminated interpretations of the controversy: the one which
sees the polemic as a moment of collision between two antagonistic ideals of justice and another
which sees the polemic as a new phase in discordant public sphere images of Brazilian racial reality.
Finally, we conclude by suggesting that the discrepancies detected are not based on irreconcilable
differences. Rather, the majority of the actors involved mobilize similar bases of justification in order
to further their arguments.
KEYWORDS: Racial Quotas; Intellectuals; Social Scientists; Public Controversy; Press.
* * *
BRAZILIAN ENERGY POLICY IN AN ERA OF GLOBALIZATION: ENERGY AND
CONFLICTS OF A DEVELOPING STATE
José Alexandre Altahyde Hage
The purpose of this article is to analyze how developing States such as Brazil are faring in the ambit
of globalization.. We intend to show that globalization has largely not contributed in advantageous
ways to developing states, due to their difficulties in building national power.. In these cases,
globalization itself can be used as a means to concentrate influence within industrialized States,
making relationships difficult on both sides. We also intend to examine how these issues correspond
to the role Brazil may represent as large scale ethanol and oil producer. Finally, we. seek to understand
how the country can become a major producer of energy while at the same time building national
power in the age of globalization. .
KEYWORDS: Brazilian National Power; Globalization; International Politics; Energy.
* * *

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