Vous êtes sur la page 1sur 6

Lubi Prates

Quando juntamos a palavra “corpo” e “negro” na mesma


frase, criando a expressão “corpo negro”, diversas imagens
nos vêm à cabeça. Uma hora nos vem a imagem da sambista
seminua que desfila na escola de samba. Outra hora vem o
capoeirista que evoca uma ancestralidade por meio da sua
ginga. Certos lugares são mais evocados e outros se tornam
esquecidos do lugar da pessoa negra na sociedade. E tais
lugares são basicamente visões estereotipadas e/ou
distorcidas do que a expressão pode evocar. E, ao se falar do
livro “um corpo negro”, de Lubi Prates (nosotros, editorial),
faça o favor de esquecer qualquer tipo de estereotipia.

O livro é uma coletânea de poemas escritos por Lubi dentro


de um processo de reconhecimento do seu corpo como um
elemento inscrito na sociedade. São poemas que não são
facilmente inteligíveis do ponto de vista da razão, apenas,
mas que causam profundo rendez-vous nas nossas mais
íntimas entranhas. É um livro repleto de entranhas que não
são estranhas às pessoas negras, diga-se de passagem.
Pessoas negras que leem o livro se identificam com ele não
no nível da consciência, mas de um inconsciente coletivo, de
um sentimento de pertença que faz com que se enxergue
cada pessoa negra em cada letra, em cada palavra, em cada
verso e estrofe.

um corpo negro é um livro indigesto. Porque ele traz uma


mensagem que precisa ser dita pela poeta e ouvida pelo
leitor. Não é uma publicação linear tampouco se pretende a
isso: escrito de maneira visceral pela poeta paulistana, o livro
é uma coletânea de poesias que relatam as diversas maneiras
de se experienciar a vivência de um corpo negro –
geralmente subjugado e visto como inferior na nossa
sociedade (racista) brasileira. O profundo e denso movimento
a que essa publicação nos leva a fazer deixa-nos
desbaratinados, tontos, des-realizados, mas ao mesmo tempo
cientes do que é a condição de um corpo negro num mundo
desigual, num mundo racista.

Se você espera que um corpo negro seja uma publicação de


fácil leitura, você se equivoca. Sabendo-se que o racismo é
uma experiência venenosamente amarga às pessoas negras,
o livro nos apresenta a condição de tais corpos no mundo e,
ao mesmo tempo, revela que esses corpos não
necessariamente irão sucumbir à discriminação. Ainda que ela
exista, e se paute pela cor da pele, o livro é uma prova cabal
de que resistência não é meramente uma palavra de ordem,
mas ummodus operandi de uma população violentada há pelo
menos 350 anos.

Não podemos esquecer que estamos em tempos sombrios.


Tempos nos quais é fácil desacreditar e paralisar diante o
inimigo. Por isso,um corpo negro pode ser um texto triste, cuja
melancolia não aponta para a morte, mas apresenta como
tem sido possível a existência e a resistência de corpos
negros, diversos e diferentes, nesse nosso Brasil que se
coloca acima de todos.

***
arrancaram meus olhos
e cada pelo do meu corpo,
cortaram minha língua.
arrancaram unha a unha,
dos pés e das mãos.
cortaram meus seios e o clitóris,
cortaram minhas orelhas,
quebraram meu nariz.
encheram minha boca e os outros vácuos
de monstros:
eles devoraram tudo.
só restou o oco.
então, eles comeram este resto,
limparam os beiços.
depois, vomitaram.
§
quem tem medo da palavra
NEGRO
quando ela não ultrapassa
as páginas do dicionário e
do livro de História?
quem tem medo da palavra
NEGRO
quando ela está estática ou
cercada por outras palavras
nas páginas policiais?
quem tem medo da palavra
NEGRO
se transformam em:
moreno mulato
qualquer coisa bem perto de
qualquer coisa quase
branco?
quem tem medo da palavra
NEGRO
se quando eu digo
faz silêncio?
quem tem medo da palavra
NEGRO
que eu não digo?
quem
tem
medo
da
palavra
NEGRO
quando ela não faz pessoa:
carne osso e fúria?
§
meu corpo é meu lugar de fala
meu corpo é
meu lugar
de fala
embora
a voz seja
apenas
um resto
arranhando a garganta.
meu corpo é
meu lugar
de fala
e eu falo
com meus cabelos e
meus olhos e
meu nariz.
meu corpo é
meu lugar
de fala
e eu falo
com minha raça.
meu corpo
eu nomearia
território
se pudesse
inventar
um idioma próprio.
meu corpo é
meu lugar
de fala,
meu corpo é
meu território:
um caminho
sempre
insuficiente
construído
a partir de
escombros
moldado por
violências
tantas vezes invadido.
meu corpo é
meu território:
a fronteira
guarda o limite
um vazio
no lugar do
estômago.
meu corpo é
meu lugar
de fala
embora
a voz seja
apenas
um resto
arranhando a garganta.
meu corpo
eu nomearia
território
se pudesse
inventar
um idioma
próprio.
meu corpo
conta
por si só
histórias
além de mim.