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A OBRA DE ARTE

Publicado na Folha da Manhã, domingo, 4 de maio de 1952.

Neste texto foi mantida a grafia original

ANTON TCHEKHOV

Sacha Sminorf, filho unico de sua mãe, entrou no consultorio do dr. Cochelkof levando debaixo
do braço um embrulho de jornal. "Olá, amiguinho! - saudou o doutor. Como vai passando? Está
bem?"

Sacha, virando os olhos, a mão colocada sobre o peito, respondeu-lhe com voz agitada:

"Minha mãe manda-lhe suas saudações... Sou filho unico de minha mãe e o senhor salvou-me a
vida, curando-me de uma molestia perigosa... Não sabemos como demonstrar nosso
agradecimento."

"Está bem, está bem, amiguinho! - interrompeu o doutor satisfeito. Fiz o que qualquer outro
teria feito em meu lugar."

"Sou filho unico de minha mãe... Somos gente pobre e não dispomos de meios suficientes para
remunerá-lo pelo trabalho... Estamos muito envergonhados... Todavia... mamãe e eu... filho
unico e minha mãe... rogamos aceitar este objeto como testemunho de nosso agradecimento...
É um objeto caro... de bronze antigo... uma obra de arte..."

"Para que? Não é preciso" - interrompeu o doutor.

"O senhor não pode negar-nos este favor - replicou Sacha, desfazendo o embrulho. Seria
desgostar mamãe e a mim... É uma coisa linda... uma antiguidade... Herdamo-la de papai e
ficou guardada como recordação... Meu pai comprava antiguidades, revendendo-as a
colecionadores... Minha mãe e eu trabalhamos com isso agora."

Sacha desembrulhou o objeto, colocando-o triunfalmente sobre a mesa. Era uma candelabro de
bronze antigo e trabalhado artisticamente, apresentando duas mulherzinhas, completamente
despidas, em umas posturas que não posso descrever por falta de engenho e arte. As
mulherzinhas sorriam e pareciam, não fosse a obrigação de sustentar as palmas, querer saltar
do pedestal e armar um escandalo superior a qualquer imaginação.

O doutor lançou um olhar ao presente e coçou a cabeça:

"É, na realidade, uma obra de arte, mas... é demais. A expressão destas mulheres é licenciosa
ao extremo..."

"Por que o entende assim, senhor?"

"O diabo em pessoa não teria executado tal coisa. Colocar isto em cima de uma mesa é macular
toda a casa."

"Que maneira de julgar a arte, doutor? - replicou Sacha. É elevadamente artistico, repare bem.
Tem tanta beleza, que a alma se eleva às regiões da imortalidade... Contemplando semelhante
obra de arte esquece-se tudo que é terrestre... Olhe, olhe quanta vida, quanta expressão!..."

"Tudo isto compreendo e vejo perfeitamente - interrompeu o doutor. Porem, meu amigo, alem
de ser pai de familia, aqui vêm crianças, entram senhoras..."

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"Naturalmente. Para o povo talvez esta obra de arte tenha outra significação. Mas o senhor,
doutor, deve considerá-la acima do vulgar; alem disso, recusando este presente, ofenderá minha
mãe e eu. Sou filho unico de minha mãe... O senhor salvou-me a vida... Entregamos-lhe o
objeto mais precioso que temos, lamentando ainda faltar-nos o outro par..."

"Agradecido, meu amigo; Muito obrigado mesmo... Meus respeitos à sua mãe. Contudo, na
realidade, ponha-se na minha situação: os meninos brincam aqui, as senhoras vêm... Bem,
deixe-o!... Você não compreende..."

"Muito bem - exclamou Sacha satisfeito. Ponha o candelabro aqui, ao lado deste jarro. Que pena
faltar o par! Que lastima! Adeus, doutor!"

Ao ficar só, o doutor permaneceu longo tempo, passando a mão pela fronte, a refletir.

"Não há duvida de que é uma obra de arte. Seria uma pena levá-la... Hum!... É um problema...
A quem a darei?"

Depois de muito pensar, lembrou-se de seu amigo, o advogado Uhof, a quem devia por lhe haver
ganho um processo.

"Ótimo! - exclamou. Não quererá, como amigo, cobrar em dinheiro e seria acertado presenteá-lo
com isto. Levar-lhe-ei agora mesmo essa diabrura. Com ele ficará a proposito, pois é solteiro e
malandro..."

O doutor vestiu-se imediatamente, embrulhou o candelabro e dirigiu-se para a casa do amigo.

"Olá! - disse ao entrar. Alegro-me de o haver encontrado em casa... Vinha agradecer-lhe pelo
trabalho... e, já que não quer receber honorarios, aceite este objeto. Tome!... É admiravel!...

Uhof ficou encantado com o presente.

"Uma jóia! - disse rindo. Que demonios! Quem inventou isto? Magnifico! Soberbo! Onde o
encontrou?"

Depois de se haver extasiado, Uhof olhou medrosamente a porta, acrescentando:

"É admiravel, mas não posso ficar com o seu presente. Não posso aceitá-lo."

"Por quê?"- inquiriu assustado o doutor.

"Porque... minha mãe vem aqui... vêm clientes... e, alem do mais, envergonhar-me-ia até perto
dos criados."

"Oh!... Você não pode me fazer uma coisa destas! - exclamou o doutor agitando os braços. Uma
obra de arte!... Veja que movimento... que expressão!... Recusando, ficarei ofendido..."

"Se elas tivessem, ao menos, umas folhinhas..."

Mas o doutor não o escutava. Moveu a mão em sinal de despedida e, satisfeito, deixou o
advogado. Voltou para casa encantado por livrar-se do presente. Ao encontrar-se só, o advogado
contemplou o candelabro pelos quatro lados; tocou-o e, como o doutor, ficou longo tempo
pensando no que faria com aquilo.

"É uma magnifica obra de arte! Como sinto não ficar com ela! Mas, como vou guardá-la? O
melhor seria dá-la a alguem... Já encontrei. Já encontrei! À noite dá-la-ei de presente ao comico
Chachkin, que estreará hoje."

Naquela mesma noite o candelabro foi entregue ao comico Chachkin, cujo camarim foi tomado
de assalto pelos espectadores, que vinham felicitá-lo pela interpretação da peça, em murmurios
e risos semelhantes a relinchos de cavalos. Quando alguma das artistas se aproximava e batia
na porta, perguntando se podia entrar, o comico invariavelmente respondia: "Não, menina, não!

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Estou me vestindo..."

Depois do espetaculo o comico esfregava as mãos e encolhia os ombros, perguntando-se:

"Que farei com esta droga? Vivo em uma casa particular e recebo artistas. Se fosse uma
fotografia, seria possivel ocultá-la numa das gavetas da escrivaninha..."

"Venda-a, senhor!" - Aconselhou o barbeiro ajudando-o a vestir-se. Aqui perto mora uma velha
que compra antiguidades... pergunte por Smirnova: é muito conhecida."

Assim fez o comico. Dois dias depois, o doutor Cochelkof estava em seu consultorio a reflexionar
sobre os acidos biliosos, quando a porta se abriu com estrondo, dando passagem a Sacha
Smirnof. Toda sua figura resplandecia de felicidade... Em uma das mãos trazia alguma coisa
embrulhada em jornais:

"Doutor! - disse radiante. Imagine a minha alegria! Encontramos o par do seu candelabro. Minha
mãe está absolutamente feliz... Sou filho unico de minha mãe... O senhor salvou-se a vida."

Sacha, cheio de agradecimento, colocou o candelabro diante do doutor, boquiaberto. Quis dizer
alguma coisa, mas não pôde pronunciar sequer uma palavra: aturdira-se por completo,
paralisado.

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