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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

INDOMÁVEL SEDUTOR
Margaret Way
Sabrina Nº. 929

A filha do fazendeiro e o rei do gado...


Curt Carradine é um dos maiores proprietários de terras na Austrália. Elegante, duro,
extraordinariamente sedutor. Os homens o admiram, as mulheres se apaixonam por ele.
Rachael Munro não é exceção à regra. Mas Curt ainda a vê como a menina que era sua
amiga na adolescência. Pior ainda, parece mais interessado em tornar a glamourosa madrasta de
Rachael em esposa, e a Fazenda Miriwin, em sua propriedade.

Copyright © 1994 by Margarety Way Pty. Ltd


Originalmente publicado em 1994 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
Título original: The Carradine Brand

Digitalizado: Shirley
Revisado: Madalena

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CAPÍTULO I
O sol impiedoso os deixara cobertos de suor. Eles estavam em atividade desde a madrugada,
perto da Garganta do Diabo. O solo tinha aspecto assustador, parecendo tremer e pulsar à luz
prateada da miragem. Porém, apesar de acidentado em algumas partes, o lugar era um santuário
ideal para o gado, com bolsões de arbustos que serviam de alimento aos animais e um emaranhado
de sulcos multicoloridos com flores roxas, alaranjadas, azuis e cor-de-rosa. Mesmo na época de
grande estiagem, os vales mantinham poças de água potável.
Os aborígines acreditavam que aquela região possuía enorme magia. Outras pessoas
consideravam a atmosfera anormal, estranha. Mas o gado parecia não se importar com tudo aquilo;
havia ocasiões, como agora, em que os animais se juntavam em grupos, sumiam à procura de água,
e precisavam ser arrebanhados. Tratava-se de um trabalho penoso, fácil quando feito com o auxílio
de helicóptero. Mas helicópteros custavam dinheiro.
Reunir o gado era um trabalho perigoso, requerendo coragem, habilidade e muito traquejo
nas rédeas.
A um dado momento, um canguru pulou na frente da montaria de Rachael Munro, Rae para
os amigos, assustando sua égua. Poderia ter provocado um acidente se Rae não tivesse fortes mãos e
reflexos rápidos. Mas, em conseqüência do esforço, sentiu como se seus braços houvessem sido
arrancados do ombro. Tinha a vista turva, devido ao suor que lhe corria pelas faces.
Ela tirou o chapéu e começou a se abanar. Com um gesto de cabeça, jogou os cabelos para
trás. Magnífica cabeleira! Ondulada, de um tom castanho-avermelhado.
Rae sentia-se exausta. Além do trabalho, toda manhã levantava-se com tristeza, sabendo que
nunca mais veria seu pai. Desesperadamente queria que o tempo voltasse atrás, para quando o pai
era vivo.
Os empregados descansavam e tomavam chá. Matt Pariarch, o capataz de Miriwin e o
homem de confiança de Rae desde sua infância, ofereceu-lhe uma caneca de chá.
— Não se preocupe, querida — disse ele. — Estou acostumado a viver com esse tipo de
seca. Tome seu chá e relaxe.
— Vou me sentir melhor depois do descanso, Matt — declarou ela.
— Mas vá com calma, querida. Depois da morte de seu pai você está exagerando sua
atividade na fazenda. Posso entender, mas todos os rapazes estão preocupados.
— O que quer que eu faça, Matt? Que vá para a cama e durma o dia inteiro?
— Esse dia nunca chegará — respondeu Matt. — Mas isso não significa que deva exagerar.
Cuido de você desde bebê, e não posso permitir que se mate de trabalhar.
— Você me parece bastante pessimista Matt.
— Não posso deixar de ser pessimista. Falei com sua madrasta, e ela ameaçou me despedir.
Seria um desastre, em especial no que se refere a você. Tenho a impressão de que ela não se
incomoda com o que lhe possa acontecer, Rae, e nem nota que está emagrecendo
impressionantemente.
— Um momento, Matt. Acha que estou emagrecendo tanto assim?
—Claro. Tem aspecto muito frágil.

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—Quer dizer que emagreci mesmo? Tudo bem, mas esse emagrecimento não vai interferir
em meu trabalho.
—Sei disso, Rae, contudo não quero que se mate de trabalhar. Você é uma moça tão bonita!
Tem apenas vinte e três anos e precisa aproveitar a vida.
—Ir a festas loucas? Ter namorados?
—Naturalmente, querida. Quero que se divirta. Seu irmão sabe muito bem como se divertir.
— Scotty tem um ponto de vista diferente do meu — respondeu Rae com voz seca.
— Você é que devia ter sido o filho homem — comentou Matt com azedume. — Sua
madrasta mimou demais o filho. Imagine que ele não pôde ficar aqui nem ao menos um dia depois
do funeral!
— Scotty estava muito chocado, Matt. Não sabia como contornar a situação de ter perdido o
pai.
— Tudo o que ele tinha a fazer era dar apoio a você. E isso é algo que vem naturalmente.
—Scotty possui um temperamento parecido com o de Sônia. Nenhum dos dois tolera
momentos difíceis. — Ela sacudiu os ombros. — Compreensível, não acha? É humano.
— Talvez. Mas está mais que na hora de ele assumir alguma responsabilidade e de não
deixar tudo nas mãos da irmã.
—Sem dúvida. Penso que Scotty vá ser de grande ajuda no escritório.
— Se conseguir segurá-lo lá. Esse menino foi mimado demais, por você, pela mãe e pelo
pai.
— Scotty era a pupila dos olhos de papai. Alguns homens são assim com os filhos do sexo
masculino.
— Seu pai foi um homem inteligente, mas não previu o que aconteceria como resultado da
educação que deu a Scotty.
—Scotty pode ainda vir a ser um rapaz às direitas. Ele é muito jovem.
—Você não é tão mais velha. E vale dez de seu irmão, Rae.
—Você é suspeito, Matt. — Ela beijou o rosto empoeirado do velho capataz. — Você e Win.
Vocês são mais minha família do que minha verdadeira família. Quanto a papai, talvez não me
tivesse amado como amou Scotty, mas ele me amou, garanto.
— Naturalmente que amou Rae.
— E comum os pais favorecerem mais os filhos homens que as filhas. Eu devia ter sabido
que Scotty herdaria o controle de Miriwin.
—Sessenta por cento para ele, o resto para você e sua madrasta. Não é justo.
—Talvez não. Mas papai sempre disse que um dia eu me casaria e abandonaria Miriwin.
— Não concordo. Scotty e sua madrasta abandonarão a fazenda bem antes disso.
—O que está dizendo, Matt?
— Precisa encarar os fatos, minha menina.
—Scotty não a venderá. Ele adora ser um Munro, proprietário da fazenda de Miriwin, e
adora ter todas as honrarias que advêm de sua posição.
—Você quer dizer que ele é um esnobe como sua madrasta?

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— É. Não somos ricos como nossos vizinhos Carradine, mas Scotty viveu aqui o tempo todo
tal qual um lorde. Papai o idolatrava, e Sônia acha que ele não erra nunca.
—Eu, de minha parte, nunca vi rapaz tão mimado como ele. Não simpatizo com Scotty, em
particular depois do funeral.
— Entendo, mas eu o amo, e nada mudará meu afeto por ele.
—Sei que você o ama, e ele também a ama. Essa é a única coisa que o salva, em minha
opinião. Isso não quer dizer, no entanto, que ele não venderá a fazenda.
—Scotty não pode fazer isso. Os Munro trabalham em Miriwin por mais de cento e vinte
anos. É um tempo bastante longo nesta parte do mundo. Estamos na Austrália, não na velha Europa.
— Tradição é importante para você, não para Scotty. Mas não se esqueça de sua madrasta. E
lhe garanto que, se tiver uma boa oferta, ela não hesitará em concordar com a venda. Fala-se, mas
são só boatos, que Curt Carradine se interessará por Miriwin, se um dia a propriedade estiver à
venda. Rae ficou pálida.
— Repita isso, Matt! — exclamou.
— Não se aborreça tanto. Falar com você sobre Curt, nestes dias, é como acender um
fósforo num amontoado de folhas secas. — Ele fez uma pausa. — Conheço as velhas histórias, Rae,
embora acredite que muitas delas já foram enterradas. O avô de Curt sempre quis esta propriedade,
e o pai dele antes disso. Houve sempre grandes tensões entre os Carradine e os Munro acerca do
assunto. Foi o pai de Curt quem trouxe o caso de volta. Um homem simpático, não cruel como o
velho pai dele, nem brilhante como Curt, mas pacífico e respeitado. Nunca negou, contudo, que
considerava interessante a idéia de adquirir esta propriedade. Curt não hesitaria em comprar o
pedaço de terra que vai até o rio. Ouro líquido durante a seca. Curt seria um idiota se não se
candidatasse a adquirir Miriwin caso a propriedade entrasse no mercado de vendas.
—E acha que ele não se importaria, Matt, de nos deixar sem teto? — indagou Rae. — Curt
já tem mais do que o suficiente para viver bem.
— Acho que tem — Matt concordou. — Ele é o maior proprietário de terras desde os velhos
tempos dos reis do gado. Mas aumentar o império é parte de seu trabalho.
—Onde você ouviu isso, Matt?
—Através de duas ou três fontes. Henderson é uma delas.
— Henderson é um velho fofoqueiro.
— E uma mina de informações, Rae. Claro, houve comentários depois da morte de seu pai.
Todos sabem que sua madrasta sempre foi uma mulher da cidade, e continua sendo.
— A ambição de Curt é uma revelação para mim. Acho que o odiarei se ele vier a nós com a
intenção de pegar nossa fazenda.
— Essa sua atitude é ridícula, Rae. Curt é um homem honrado. E lembro-me de que um dia
você teve uma afeição especial por ele.
—Loucura de adolescência.
—Encare as coisas desta maneira. Se Scotty e sua madrasta puserem Miriwin à venda,
alguém terá de comprá-la. Nesse caso, por que não Curt? Ele restauraria a fazenda ao seu antigo
esplendor, mais do que qualquer outro proprietário o faria.
—Você está tirando conclusões precipitadas, Matt. Ninguém me perguntou nada sobre a
venda, e eu tenho vinte por cento das ações. Acho falta de ética Sônia e Curt discutirem o assunto
nas minhas costas.

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—Tenho certeza de que Curt não encara as coisas dessa maneira. Mas não se esqueça de que
sua madrasta precisa esperar até que Scotty volte para casa antes de decidir qualquer coisa acerca da
venda.
—Sônia sempre nutriu grande afeto por Curt — comentou Rae. — Talvez lhe ofereça
alguma vantagem na compra: ela junto com a fazenda. Não sei se seria uma boa oferta. Sônia é bem
mais velha que Curt.
—Concordo, mas ela não é propriamente velha — observou Matt. — E uma linda mulher
para quem gosta de bonecas de porcelana. Sinto se a preocupei, Rae, mas precisava pô-la a par da
situação.
—Por que não fui mais desconfiada? Por que não adivinhei tudo isso antes de você me
falar?
— Não sei. Mas não quero que se revolte contra Curt. Ele foi um grande amigo de seu pai e
ajudou-o em momentos difíceis. Inclusive sua madrasta recorreu a ele depois que seu pai morreu.
—E eu me ressinto disso.
— Por que, Rae?
—Penso em papai. Sônia andou atrás de Curt Carradine logo após papai haver sido
enterrado. Considero muita deslealdade. Não apenas isso, mas acho que Sônia não entendeu bem o
interesse de Curt por ela.
— Sua madrasta é uma mulher adulta, sabe cuidar de si.
—Sinto muita falta de papai, Matt.
— Acredito.
— A casa me parece vazia sem ele. Sua morte foi tão súbita, tão violenta! Estava conosco
pela manhã, longe de nós para sempre à noite.
Alexander Munro dirigia um trator e apeara para tirar do caminho um tronco de árvore. O
veículo deslizara, esmagando-o.
— Entende por que resisto contra a venda da fazenda, não, Matt? — prosseguiu Rae. — Era
desejo de papai conservá-la na família para sempre.
—Os desejos nem sempre se transformam em realidade — comentou o capataz. — Nós, de
nossa parte, faremos sempre o melhor que pudermos. Mas a seca continua nos castigando, e não sei
quando teremos a primeira gota de chuva. Olhe para o céu!
— É de um azul igual a uma pena de pavão. Brilhante, sem nuvens. Acha que papai está nos
vendo lá do outro lado?
— Aposto que sim. — Matt levantou-se. — Vá para casa agora, querida. Eu continuo
trabalhando.
—Disso não tenho dúvida. Não sei o que faríamos sem você, Matt.
—Diga isso à sua madrasta. — Matt sorriu. — Ela sempre age como se até minha presença a
irritasse.
— Você não a adula o suficiente — Rae observou.
— Sou orgulhoso demais — respondeu Matt. — Como você...
A beira do riacho Rae apeou para que a égua matasse a sua sede.
Nos bons tempos, o riacho era um local de rara beleza, perfumado pelas flores e com águas
profundas e límpidas. O sol penetrava através do arvoredo frondoso e dos arbustos viçosos,

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lançando faixas luminosas. Agora o riacho não passava de uma série de poças d'água sobre um leito
arenoso, e a relva das margens estava amarelada.
Mais uma rampa escaldante antes de chegar ao lar.

Lar? Rae mordeu o lábio. Sabia agora sem sombra de dúvida que fora seu pai quem
mantivera a família unida. Já se haviam passado seis meses do acidente, e o tempo provara que
Sônia não nutria a menor afeição por sua enteada.
Rae era a filha da outra mulher, e qualquer ligação que pudesse ter havido entre as duas se
rompera após a morte do chefe da casa. A tragédia não as unira, Sônia não precisava da companhia
da enteada. Rae e Scotty continuavam unidos, embora Rae fosse forçada a reconhecer que o irmão
não queria saber de se ocupar de Miriwin. Pelo menos no momento. O pai sempre insistira que
Scotty ficaria mais responsável ao atingir a maturidade. E Rae só esperava que isso acontecesse
antes de Curt Carradine se apoderar da fazenda. Que Deus os ajudasse!
Do alto da colina ela apreciou sua residência, uma casa de dois andares, linda, rodeada de
terraços, agora terrivelmente ameaçada de ser perdida. A escadaria que conduzia ao segundo andar
era de madeira de lei.
No passado, o produto primordial da fazenda era a lã de carneiro. Com isso fora construída a
fortuna dos Munro. No advento dos tecidos sintéticos, o interesse dos proprietários passou para o
gado.
A vista lá de cima era magnífica. Os jardins, as árvores que cercavam a casa, continuavam
verdes graças aos poços artesianos. Rae amava aquilo tudo! Vibrava agora ao apreciar sua casa,
como haviam vibrado todos os Munro antes dela. Porém para Scotty, Miriwin consistia apenas num
local para fins de semana. Ele sempre aparecia com um grupo de amigos que se divertiam dançando
no enorme salão de baile.
Quando chegou nas estrebarias, Rae começou a pensar no banho relaxante que iria tomar.
Passou as rédeas ao cavalariço e caminhou para a casa.
O som de vozes chamou-lhe a atenção. Ou melhor, o som de uma voz. Ela estremeceu.
Falando no diabo, o diabo aparece. Ou pensando no diabo? Precisava subir o mais depressa possível
para não aparecer naqueles trajes, com o jeans empoeirado e a blusa molhada de suor. Mas era tarde
demais.
—Rae, é você? — A pergunta pareceu não esperar pela resposta, pois Sônia continuou: —
Não fuja e veja quem está aqui.
Veja quem está aqui? Como se ela não soubesse!
Rae conhecera John Curtis Carradine toda sua vida. Ficou rubra quando ele a fitou. Por quê?
Irritava-a acima de tudo vê-lo tão perto de Sônia. Como dissera a Matt, parecia-lhe uma deslealdade
a seu pai.
Curt, um verdadeiro aristocrata, levantou-se a fim de cumprimentá-la. Tinha quase dois
metros de altura e era muitíssimo atraente. Espalhava simpatia. Não havia mulher que não olhasse
para ele uma segunda vez.
Apesar de trajado com simplicidade, camisa bege, jeans e botas, tinha um ar de príncipe. O
chapéu de "cowboy" estava na cadeira ao lado.
Sônia vestia-se com apuro. Seus olhos azuis brilhavam de excitação. Tinha aparência jovem
e linda.
— Tire seu chapéu, querida — ela disse a Rae. — Detesto o modo como o põe na cabeça. É
tão pouco feminino!

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— E melhor do que ficar queimada de sol — respondeu Rae, tirando o chapéu. Ela apertou a
mão que Curt lhe estendia. — Como vai, Curt? — disse. — É sempre um prazer vê-lo aqui.
A hostilidade dela foi evidente, porém Curt pareceu se divertir, pareceu não se importar.
— Pela expressão de seu olhar concluo que esse prazer não é lá tão grande.
— E... — gaguejou ela, a contragosto, encarando-o.
Os olhos de Curt eram extraordinários. As vezes, pareciam ouro puro e faziam lembrar os
olhos de um leão. Lindos e assustadores ao mesmo tempo.
—O que andou fazendo para estar tão exausta? — perguntou ele.
—Cavalgando, mas agora estou firme aqui em pé, não estou?
— Pode estar, porém seus pés não a agüentarão por muito tempo mais. Sente-se! — Curt
aproximou uma cadeira e ela sentou-se.
—Rae esteve arrebanhando gado, Curt — Sônia explicou, com ar de reprovação. — E
impossível fazê-la parar. Cada vez que eu tento, faz um escarcéu.
— Quando tenta, Sônia? — protestou Rae. — Sempre que saio pela manhã deixo você na
cama.
— De qualquer modo, não é necessário que se dedique ao trabalho de um vaqueiro.
Rae sacudiu os ombros e replicou:
— Tenho de fazer alguma coisa. Um dia desses pode chover e o gado deverá estar todo
arrebanhado.
— Por onde andou, afinal? — indagou Curt.
— Na Garganta do Diabo.
—É um local perigoso. Surpreendo-me por Matt ter deixado você ir lá.
— Posso convencê-lo, quando quero — declarou Rae.
— Imagino. Mas não está dando o devido valor à sua vida.
— Não sou mais uma criança, Curt, e você continua me tratando como tal. Já tenho vinte e
três anos. Sabia, não?
— Obrigado por lembrar-me.
— Mas, se qualquer coisa acontecer — interferiu Sônia —, culparei Matt. Ele lhe dá muita
liberdade.
—Acho que aqui sou eu a patroa, não Matt — Rae disse laconicamente. — De qualquer
maneira, Matt foi quem me mandou embora para casa hoje.
— Ele estava usando um helicóptero? — perguntou Curt.
— Não, é dispendioso demais — explicou Rae. — E o gado é esperto, sabe como ficar a
salvo.
—Um bom piloto consegue tudo — disse Curt, dirigindo-se depois a Sônia: — Eu gostaria
de conversar com Matt, se você me permitir, Sônia. Tenho um bom piloto trabalhando para mim no
momento. Posso cedê-lo por algumas horas.
— Você é tão amável conosco, Curt! — exclamou Sônia.
—Obrigada, Curt, mas não será necessário — Rae agradeceu secamente.
—Garanto que Matt gostará de minha proposta — disse Curt, ignorando a opinião de Rae.
— Falarei com ele mais tarde.
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—Matt não voltará antes do pôr-do-sol — explicou Rae com satisfação na voz. — Você já
terá ido embora há muito.
—Ao contrário, Rae — Sônia interveio. — Convidei Curt para passar a noite aqui.
Rae estava no quarto havia dez minutos apenas quando Sônia entrou, como um furacão.
—Que maneiras são essas, Rae? Cada vez que Curt vem aqui é como se estourasse uma
guerra não declarada.
—Isso é exagero, Sônia.
— Acho que não. Pensa que ele não percebe sua agressividade? Você mal a esconde.
—E que faz ele aqui o tempo todo?
— Preciso lembrá-la de que sou a dona desta casa?
—Calma, Sônia. Esta é minha casa também, papai deixou partes iguais para mim e para
você.
—Menina ingrata! Acho que mereço mais respeito. Ingratidão é o que ganhei depois de
todos os anos que me dediquei a você.
— Nunca lhe dei trabalho — protestou Rae. — Scotty sempre foi o preferido. Por sinal,
você e papai o mimaram demais, estragando-o.
— Minha cara, está com inveja de Scotty? É isso? — Sônia riu muito.
—Quer que eu fale com franqueza, Sônia? Não há nada de invejável em Scotty. Ele não
pensa em coisa alguma a não ser em se divertir.
— Meu filho está se preparando para os exames finais. Você tem ciúme dele. Seu pai não
olhava para sua cara quando Scotty estava presente.
— Não é verdade, Sônia, e você está sendo muito cruel ao me dizer isso.
— Mas é a verdade. Scotty era a luz dos olhos dele. Provou isso dando-lhe o controle da
Miriwin.
— Até papai cometia erros. Mas, por favor, deixe-me só agora. Estou cansada, empoeirada e
coberta de suor.
— Tem alguma coisa contra Curt?
— Tenho! Sei que ele nos ajudou muito, mas começo a me questionar sobre seus motivos
reais.
— Curt Carradine ajuda todo mundo! E acha tão estranho ele querer me ver? — Sônia
estava escarlate, furiosa.
— Como assim?
—Não me olhe desse jeito, Rae. Tenho só trinta e nove anos, e sou bastante jovem para
atrair um homem.
— Claro que é. Mas não pode estar se referindo a Curti
— Não seja cruel! Sempre fui considerada uma mulher linda.
—E é, Sônia. Mas papai? Que papel faz ele nessa história? Acabamos de perdê-lo.
— Não posso permitir que esse acontecimento me destrua, Rae. Sinto muita falta de seu pai,
mas ele se foi. As vezes, tenho impressão de que isso não entrou ainda em sua cabeça. Preciso de
um homem, quero me casar! Curt é alguns anos mais jovem que eu, sei disso, mas ele tem bastante

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maturidade. E o mundo está se acostumando a homens se casando com mulheres mais velhas.
Principalmente mulheres que têm tanto a oferecer.
— Cuidado, Sônia, você pode ficar muito ferida.
— Obrigada, Rae, por me prevenir — Sônia respondeu com sarcasmo. — Talvez o choque
tenha algo a ver com seus sentimentos em relação a Curt. Mas encare os fatos. Ele a enxerga como
uma criança, viu-a crescer. E ultimamente, enquanto você tentava evitá-lo, Curt e eu ficamos mais
unidos. Nós nos entendemos muito bem.
—Não se esqueça de uma coisa, Sônia, você está se entregando muito facilmente Curt pode
ter a mulher que desejar. Andrée Haddon anda atrás dele há anos.
— Andrée é uma mulher bonita e pertence a boa família. Mas não tem condições de
competir comigo. Sou mais sofisticada e tenho muito a oferecer. Sou até suficientemente jovem
para gerar outros filhos.
— Sônia, você acabou de enviuvar. Precisa dar tempo ao tempo — insistiu Rae.
—Isso é algo que não farei.
— Curt sabe o que você tem em mente? Se ele souber, vou descer já e expulsá-lo desta casa.
— Não seja tola, Rae. Sei exatamente como me portar. Quando seu pai visitou minha
família, há vinte anos, ele não pensava em se casar comigo. Eu era a filha mais moça, havia apenas
terminado a universidade. Mesmo naquela ocasião, soube o que eu desejava. Queria ser a Sra.
Alexander Munro da fazenda Miriwin. E sou grata a Deus pelos vinte anos que vivi com seu pai. E
não estou tirando nada dele pelo fato de querer me casar de novo.
— Depois de apenas seis meses?
— Claro que não depois de seis meses. Mas, digamos, um ano. Acho que Curt vai gostar de
cuidar de mim durante esse tempo.
— Papai deixou-lhe dinheiro suficiente para isso.
—Você não entende nada, Rae. Não sabe como se sentem as mulheres iguais a mim.
—Tenho uma idéia, Sônia. Você sempre gostou de Curt de um jeito diferente. Certo? Será
inevitável apaixonar-se por ele agora.
— E como pode impedir que isso aconteça?
— Tire umas férias, afaste-se daqui. Vá visitar suas amigas em Sidnei, como fazia no
passado. Papai sempre lhe facilitou essas viagens.
—Minha cara, ele sabia que tinha de facilitar. Fui boa esposa, dei-lhe um filho. Não foi
minha culpa nosso casamento não resultar num completo sucesso.
— Por favor, Sônia, não fale mais. O que houve entre vocês é assunto particular.
— Seu pai era um homem bom, mas bem mais velho do que eu. Não muito afetuoso.
— Talvez houvesse algo errado com você. Não ponha toda a culpa nele. Mas já pensou que
todo o interesse de Curt talvez seja apossar-se de Miriwin? — perguntou Rae abruptamente.
— Quando começou a imaginar isso? — Sônia estava atônita.
—Há boatos circulando por aí.
— Boatos! O ar está cheio deles. — Sônia riu. — Sei o que as pessoas do local pensam de
mim. Nunca me entrosei bem nesta área.
— Jamais tentou.

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—Sinto muito, Rae, não tenho essa mentalidade de tomar parte em obras sociais. Mas
sempre fizemos doações de grande monta. Você é o tipo de pessoa que todos daqui amam, a
verdadeira mulher do campo.
—Diga-me, nunca ouviu nada da boca de Curt?
— Sobre Miriwin? Não, mas os Carradine sempre tiveram interesse em Miriwin. Sabe disso,
não?
— Sônia, por favor, responda claramente à minha pergunta — suplicou Rae.
— Curt nunca mencionou nada. Você é tão cansativa no que diz respeito a Miriwin, Rae!
Parece até que tem muitas ações. Scotty e eu não temos a mesma obsessão pela terra. E uma loucura
a sua! Veja agora, estamos no meio de uma terrível estiagem. Uma verdadeira calamidade!
— A estiagem termina, Sônia, é só termos paciência.
—Paciência? Você é exatamente como seu pai. Tive de viver com essa obsessão por anos. A
terra para ele foi o mais importante de tudo.
—E é, Sônia — declarou Rae.
— Você devia ter nascido homem, posso ver isso.
— Não é preciso ser homem para gerenciar Miriwin.
—Só que seu pai deixou essa tarefa a Scotty.
— Porque você convenceu-o de que Scotty seria capaz.
— E que mãe agiria diferentemente? Afinal, você não tem meu sangue. Scotty tem.
—Nutre alguma afeição por mim, Sônia? Tudo tem sido mais difícil entre nós desde a morte
de papai.
—Você já é uma mulher, Rae, e há sempre atrito entre duas mulheres que vivem sob o
mesmo teto.
—Quer que eu me mude daqui?
—Não necessariamente. Acho que tudo se resolverá com o tempo. Você se casará um dia.
Tem um bom dote.
Após longa pausa, Sônia sugeriu:
— Curt e eu não nos importaremos se estiver cansada demais para jantar conosco.
—Recuso comer em meu quarto — protestou Rae.
— Nesse caso, vista algo decente e tente tratar Curt como um hóspede bem-vindo. E mais
uma coisa. Não procure dificultar o relacionamento entre mim e ele. Acho que o faria, se tivesse
chance.
— Está errada quanto a isso, Sônia. — Rae riu muito. — Você pode fazer tudo o que quiser,
protesto apenas quando Miriwin entra em cena. Este é meu lar, o lugar onde nasci e onde espero
morrer. Tenho apenas uma imposição a lhe fazer. Não entre em entendimentos com Curt Carradine
sem meu conhecimento.
— E uma ameaça, Rae?
— Não uma ameaça. Mas um pedido a ser levado em consideração. Nenhum Carradine
tomará posse de Miriwin. Isso só sobre meu cadáver.

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CAPÍTULO II
Uma hora mais tarde, Rae deitava-se na cama, os olhos fixos no teto. Wyn, a esposa de Matt
e governanta de Miriwin havia anos, espiou pela porta do quarto.
—Eu a incomodo, querida? — perguntou.
— Claro que não, Wyn. Entre. Eu estava aqui deitada, pensando no que irá acontecer daqui
por diante.
— Somos duas a pensar, então! Posso ficar apenas um minuto. É um corre, corre nesta casa
quando o Sr. Carradine vem visitar! O jogo de limoges saiu do armário. Aposto que você mal o
conhece. Também alguns candelabros de prata e enfeites de porcelana foram postos em uso. Que
ostentação! Mas isso tudo parece importante para sua madrasta. E pensar que seu pai gostava de
coisas tão simples! Porém, querida, o que ia dizendo?
—Sinto-me como se tivessem jogado uma bomba em cima de mim. Preciso saber, Wyn, o
que faz Curt aqui o tempo todo.
— Talvez sua madrasta pense que vem para vê-la. — Wyn deu uma risadinha irônica.
—Será possível, Wyn?
— Ao menos é o que está na cabeça dela.
—Não posso acreditar que isso esteja acontecendo. Papai morreu há apenas alguns meses.
— É verdade. Mas não vamos julgar os outros, querida. Cada pessoa é de um jeito.
— Mas Curt e Sônia? Ele é anos mais jovem que ela, Wyn. E Curt pode conquistar com
facilidade qualquer mulher do mundo.
—Quem sabe sua madrasta o tenha convidado a vir para lhe pedir conselhos e alguma ajuda.
—Matt me contou hoje que há comentários sobre o interesse de Curt em comprar Miriwin,
se ou quando estiver à venda.
— Matt lhe falou isso? E não me contou nada. Suponho que seja verdade, querida. Essa
história vem de longe, mas duvido que Curt Carradine ponha você fora de sua propriedade. Mas
também é possível que Sônia tenha sugerido alguma coisa a ele.
—Sônia nega. O que acho é que ela não tem direito de discutir esse assunto com Curt.
Miriwin não é só dela.
— Maldita mulher! — blasfemou Wyn. — Nem ela nem Scotty têm o mesmo amor por
Miriwin que você tem.
Após uma pausa, Rae disse:
— Acho que Sônia e Curt estão tramando alguma coisa. Wyn sacudiu a cabeça, num gesto
negativo, e protestou:
—Curt, não. Ele é um homem de caráter, jamais faria isso.
—E por que motivo vem tanto aqui? Sobre o que conversam?
— Se quer minha opinião, ele está é cuidando de você.
—O quê? Santo Deus, Wyn, que absurdo!

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— Não é absurdo, querida. Curt a conhece desde pequena, é natural que se preocupe com
sua vida agora. Alguém tem de se preocupar. E acho que sua madrasta não lhe está dando a devida
atenção.
— Ela me fez lembrar de que não temos o mesmo sangue.
—E age conosco da mesma maneira. Mas é com você que me preocupo, Rae. Matt me disse
que está sofrendo muito.
—Bobagem, Wyn. Matt é como uma galinha choca defendendo seus pintinhos.
— Ele me parece deveras apreensivo com você, Rae. Nós a amamos como se fosse nossa
filha. Sei que sente muita falta de seu pai e que nunca teve um bom relacionamento com Sônia.
Tanto Matt como os rapazes que trabalham com o gado estão apreensivos. Todos querem protegê-la.
— Querem que eu pare de trabalhar? — indagou Rae.
—Não querem que pare de fazer o que gosta, mas querem sua segurança. Matt tentou afastá-
la do trabalho pesado arrebanhando gado.
— Mas sou tão boa quanto qualquer de nossos rapazes.
— Ninguém duvida de sua capacidade. Todos nós reconhecemos seu valor. Mas pode
imaginar como nos sentiremos se houver outro acidente? Acidentes em geral acontecem quando a
pessoa está nervosa e não come bem.
— Wyn, faço o possível para...
— Eu sei, querida. Mas não custa descansar um pouco. Sônia passou uma temporada com os
amigos em Sidnei. Scotty ainda não voltou desde o funeral de seu pai. Acho boa idéia você tirar
umas férias também. Conversei com o Sr. Carradine, e ele concorda comigo.
—Garanto que Curt me quer fora de seu caminho.
—Ouça Rae, não dê ouvidos aos boatos. Curt preocupa-se com sua pessoa, no bom sentido.
— Você é suspeita Wyn, você gosta muito dele.
— Curt é um homem maravilhoso.
— Você o adora, como todo o mundo aqui no condado.
— E que mal há nisso? — insistiu Wyn.
—Se ele tentar tirar Miriwin de nós, ganhará um inimigo para o resto de sua vida. Eu! —
exclamou Rae.
— Mesmo que Curt seja a melhor pessoa do mundo? — indagou Wyn. — Encare os fatos,
querida; se Miriwin for posta à venda, alguém vai ter de comprá-la. Você odiaria esse novo
proprietário também?
— Claro!
Wyn levantou-se e perguntou, mudando de assunto:
—O que vai fazer com seu cabelo esta noite?.
— Está horrível, não? Fica sempre assim quando lavo a cabeça.
—Seu cabelo é lindo, querida — Wyn declarou com muito orgulho. — Vou arrumá-lo.
Deixe-me antes procurar um vestido adequado para o jantar. — Wyn abriu o guarda-roupa e
exclamou: — Céus, você não tem quase nada! Em contraste, sua madrasta possui mais roupa do que
a princesa Diana.
—E mais sapatos do que lady Di e Imelda Marcos juntas. Papai não negava nada a ela.

12
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— A mulherzinha sabia como conseguir o que queria. Mas, que acha deste, querida?
A governanta tinha nas mãos o melhor dos vestidos de Rae.
—Acho ótimo, Wyn. Mas por acaso você pensa que Curt vai perder tempo olhado para
mim?
— Ele é homem, não é? Quando lhe digo que é linda, você não acredita. Talvez seja essa sua
beleza o que irrita tanto Sônia.
—Posso ver que você não gosta dela, Wyn. Assim sendo, por que trabalhou durante tantos
anos para minha madrasta?
— Corrija isso, por favor, querida. Trabalhei para você. Matt e eu ficamos encantados
quando vimos pela primeira vez uma meninazinha órfã, de cinco anos, de enormes olhos azuis e
maneiras gentis. Uma princesinha, Matt logo disse. Pudemos ver de imediato que todo o amor e a
atenção de sua madrasta eram reservados para Scotty. E queríamos ficar perto de você.
— E eu adorei tê-los junto a mim. São minha família. Sempre tive os dois do meu lado.
— É com você que estamos preocupados. E Curt também. Ele quer que pare de trabalhar
para seu bem. Está na hora de você assumir a posição de beldade desta casa.
Eles jantaram na sala de banquetes, os três na ponta de uma enorme mesa que acomodava
vinte e duas pessoas. Tudo era grandioso, e de certa maneira desnecessário. Quadros valiosos
pendiam das paredes, alguns com motivos de paisagem, outros de natureza morta. Acima da lareira
havia uma tela gigantesca de cavalos galopando. Rosas num enorme vaso davam um colorido à
sala, como também o friso azul da porcelana de Limoges. O arranjo era lindo, Rae teve de
reconhecer, mas o jantar servido na sala perto da cozinha daria menos trabalho a Wyn. A acolhedora
saleta, alegre, com suas oito poltronas no estilo Windsor, era bastante conveniente até para visitas
mais distintas.
A luz suave dos abajures Sônia, loura, elegante, perfumada, não parecia ter mais do que
trinta anos. Seu vestido de crepe rosado combinava com as rosas. Rae achava que, em outras
circunstâncias, ela até que poderia ser a companheira perfeita para Curt. Porém, no mesmo instante
em que chegou a essa conclusão, fechou os olhos e teve vontade de fugir. Um romance entre Sônia
e Curt Carradine era mais do que ela poderia suportar. Sua reação provinha de vários motivos: não
queria que a memória de seu pai fosse traída, não queria que Sônia sofresse com as possíveis
conseqüências daquele romance, e não queria que Carradine interferisse em Miriwin. Mas havia
outras razões que ela não queria analisar profundamente...
O jantar constava de vários pratos: um suflê delicioso, bifes suculentos com cogumelos,
legumes, queijos, torta de maçãs e sorvete.
Sentada em frente a Curt, Rae teve consciência dos olhos com reflexos dourados fitando-a o
tempo todo. Achou que Curt não apreciava seu vestido ou seu penteado, mas que observava o pouco
que ela comia.
—Quantos anos acha que eu tenho? — Rae perguntou-lhe à queima-roupa.
— Vinte e três, como você me lembrou não há muito tempo atrás. — Curt sorriu.
— Então, por que está prestando atenção a cada bocado de comida que ponho na boca?
— Perdoe-me, Rae. Não me importo com o que come.
E não me importo se está enfraquecendo a ponto de quase não poder se manter de pé, como
aconteceu esta tarde.
— Um começo de anorexia — aventou Sônia.
—Bem, anorexia é o problema de outra pessoa aqui presente, e não o meu.

13
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Sônia fazia uma dieta rigorosa havia vários anos já.


—Para me dar prazer, Rae, coma um pouco desta torta — pediu-lhe Curt, contrariando o que
dissera havia pouco, que não se importava com o que ela comia.
— Você é tão... persuasivo que vou comer.
Era verdade que seu apetite sumira, porém Rae tinha certeza de que voltaria no futuro. No
momento a tristeza a impedia de comer. E o pior era que parecia sofrer sozinha...
Sônia recomeçou o diálogo com Curt, sorrindo muito e esvaziando copos e copos de vinho.
"Teria ela sido assim feliz com meu pai?", Rae se perguntava.
Alexander Munro dera à esposa completa liberdade e muito dinheiro. Sônia fazia viagens
anuais a Sidnei onde tinha família e grande número de amigos. De lá ia a outros lugares, em
especial para Hong-Kong, e gastava fortunas em butiques, comprando coisas em geral para si. Era
muito jovem quando se casara, não completara vinte anos, e Alexander Munro já passava dos trinta
e quatro. E agora, ainda bastante moça, parecia ter grande necessidade de sexo. Não poderia
permanecer viúva por muito tempo. Contudo, era muito velha para Curt, Rae se convencia cada vez
mais. Curt tinha à sua disposição coisa melhor, mesmo dentro do condado. Poderia escolher
mulheres inteligentes e de rara beleza.
— Em que está pensando, Rae? — ele lhe perguntou de súbito.
—Rae não ouviu uma palavra do que dizíamos — acrescentou Sônia com sarcasmo.
—Pensava nos velhos tempos — respondeu ela. — Pensava em como papai trabalhou aqui.
Em como amava este lugar. A vida sem papai não tem sentido para mim.
Não era o que Sônia queria ouvir. Por isso, ela protestou:
—Temos de reagir contra essa atitude, Rae. Não adianta lamentar por coisas que não têm
remédio, que não podem ser mudadas.
— Eu entendo seu sofrimento, Rae — observou Curt. — Mas lembre-se de que a dor faz
parte da vida. E havia laços muito fortes entre você e seu pai.
— Mais fortes ainda entre Scotty e o pai — corrigiu-o Sônia —, e no entanto Scotty está
sabendo como reagir. Rae era apegada demais ao pai, quando já devia ter se tornado independente
havia muito tempo. Scotty, graças à Deus, não tem essa... mania pela terra.
—Assim sendo, por que papai deixou Miriwin para ele? — insistiu Rae, os olhos agora
expelindo faíscas.
—Que pergunta absurda, Rae! — Sônia fitou-a friamente. — O pai adorava Scotty, seu
único filho. Curt entende isso, não? Ele tinha de ser o herdeiro da propriedade. E agora, por favor,
Rae, pare de falar sobre esse assunto de herança. Você está perturbando a mim e a nossa visita.
—As duas estão muito nervosas. — Curt lançou às mulheres um olhar bondoso. — E acho,
Rae, que seria interessante você tirar umas férias e ir para algum lugar. Ouça, tenho uma casa vazia
na praia. Um casal de empregados cuida de tudo. É o lugar ideal para você descansar.
—Que idéia maravilhosa, Curt! — Sônia exclamou.
—Mas acontece que não quero me afastar daqui — declarou Rae com firmeza. — Tenho
muitas coisas a fazer nesta casa.
— Verdade? — Sônia protestou.
— Veja o que há sobre a escrivaninha. Papéis se acumulam, e Matt precisa de mim.
—Você parece se esquecer de que Scotty estará de volta em poucos dias. —Sônia começava
a perder a calma.

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—Talvez. Mas não posso ir a parte alguma por enquanto. — Não com vocês dois aí
tramando algo.
—Entende agora o que eu quero dizer? — perguntou Sônia, dirigindo-se a Curt. — Insisti
muito com Rae para que tirasse umas férias, ela precisa muito disso. Mas em vão.
— Estranho, nunca ouvi ninguém me sugerir qualquer coisa como férias — disse Rae. Não,
ela não iria a parte alguma, não precisava de férias, não quando se armava uma conspiração.
— O que está dizendo é uma grande mentira, Rae — protestou Sônia. — Tentei fazer você
raciocinar, mas sua teimosia é impressionante. Garanto que tudo correrá bem aqui sem você.
—Sua insistência prova que desconhece nossos problemas, Sônia.
Curt interveio mais uma vez:
—Vejo que está preocupada, Rae, mas vamos ver o que é possível fazer. Posso providenciar
um funcionário de meu escritório para trabalhar aqui enquanto você estiver fora. Nada será tão
difícil, depois que Scotty estiver de volta. E você, Sônia, está convidada a acompanhar Rae —
acrescentou Curt. — Só que vou logo dar uma festa para meu primo Philip e a noiva, e gostaria que
você comparecesse.
—Que maravilha! — exclamou Sônia. — Acho que vou gostar muito de ir a essa festa.
Rae sentiu um enorme desejo de se esconder embaixo da mesa.
Depois do jantar, ela ajudou Wyn com a louça. Em seguida, foi dar um passeio pelo jardim.
Deixou que Sônia ficasse sozinha com seu convidado. Talvez fosse esse o desejo de Curt. Mas...
quais seriam os verdadeiros motivos dele? Se desejava de fato Miriwin, provava ser muito sem
caráter, a ponto de usar Sônia para isso. Mas Rae estava decidida a cuidar de seus próprios
interesses e não arredaria pé de Miriwin. Contudo, a idéia de passar algumas semanas na praia era
tentadora. A isca balançava diante de seus olhos.
A brisa quente sacudia as flores, perfumando o ar, as estrelas brilhavam num céu de veludo
negro, a Via Láctea riscava o espaço como um rio de diamante. O Cruzeiro do Sul aparecia acima
das colinas arenosas.
Bem mais tarde, quando ela entrou em casa, viu que Curt e Sônia ainda conversavam
animadamente. Sobre o quê?
Rae limitou-se a dizer boa-noite antes de subir. Sônia praticamente ignorou-a, porém Curt,
cavalheiro como sempre, levantou-se, estendeu-lhe a mão e disse:
— Acho que você merece uma boa noite de sono.
— Boa noite, Rae — disse Sônia, com voz autoritária. —- Você falou com Matt sobre o
helicóptero? — Era perguntou diretamente a Curt.
—Falei, e ele ficou bastante grato. Vai facilitar seu trabalho.
— Você é muito eficiente, Curt. Eu não gostaria nunca de estar em seu caminho
atrapalhando seus planos — declarou Rae, com segunda intenção.
—E duvido que conseguiria. Durma bem. Ambos começaremos nosso trabalho bem cedo
amanhã.
Era mais de meia-noite quando Rae ouviu passos nas escadas. Depois de alguns minutos, as
luzes se acenderam no quarto de hóspedes.
Antes de se entregar totalmente ao descanso, ela resolvera pensar melhor em seus
problemas. Levantou-se e vestiu um robe. As coisas andavam depressa demais para seu gosto. E
aquela era uma boa hora para falar com Curt, se tivesse chance. Talvez a única.

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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

Pé ante pé, foi para o terraço que rodeava a casa no segundo andar. A lua-cheia banhava os
gramados, e o riacho que circundava o parque parecia uma faixa prateada. A um dado momento,
uma luz forte bateu em seu rosto, vinda do quarto de hóspedes. Curt devia estar se preparando para
dormir. E ela viu-o através da porta de vidro. O maravilhoso corpo nu a perturbou. Sacudiu a
cabeça, mal acreditando no que presenciava. Imagens de homens nus normalmente não a afetavam,
mas aquela com certeza a impressionou. Era como se uma nova parte de sua mente houvesse
acordado.
Ainda caminhando suavemente, sentiu seu coração disparar quando Curt surgiu no terraço.
Talvez ele quisesse apreciar o efeito do luar no jardim adormecido. Curt deu uns passos e pôs as
mãos no parapeito; depois falou, assustando-a.
— Se quer conversar, Rae, é melhor começarmos já.
—Sabia que eu estava aqui? Você pode ouvir até o ruído de uma gota d'água? — ela
perguntou.
—O que acha?
— Suponho que a resposta seja "sim". Em outra vida, você deve ter sido um leão.
— Nesse caso, arriscaria entrar em minha caverna?
— Acho melhor ficarmos aqui no terraço.
—Concordo, Rae. Mas deixe-me dizer-lhe que está linda com esse robe.
— É de cetim, presente de Scotty. Ele mesmo o escolheu para mim.
— Scotty tem excelente gosto. Vamos nos sentar? Você parece meio sem fôlego.
Rae sentou-se e perguntou:
— Você só consegue me enxergar como uma colegial meio tonta?
—Tonta? — Ele riu muito. — Quem se referiria a você dessa maneira? Eu diria adorável,
jamais tonta. Mas vamos ao assunto. Notei, durante o jantar, que queria me perguntar algo.
— Darei mais valor à amizade que tem por mim, Curt, se me disser uma coisa.
— Qualquer coisa que você deseje, Rae. Não há razão de continuar vivendo com alguma
dúvida.
— Você está absolutamente certo. Quer me dizer, então, se está interessado em Miriwin?
Esta pergunta está pesando em minha mente.
— Então é isso, Rae?
— Bem, não se trata de uma tragédia para você, Curt. Mas, enquanto Miriwin é apenas outro
negócio em seu caso, para mim é meu lar!
— Seu pai deixou a propriedade a Scotty — Curt retrucou com tanta rudeza que Rae recuou,
aturdida.
— Não sabia que você podia ser tão cruel!
— Há muita coisa que não sabe sobre mim. Posso ser duro quando acho necessário. Mas
juro que nunca fui cruel com você. É penoso, eu sei, enfrentar as realidades da vida. Certo ou
errado, seu pai entregou a sorte de Miriwin nas mãos de Scotty. A única coisa que você pode fazer
agora é contestar o testamento.
—Sônia me odiaria pelo resto da vida. Se bem que eu poderia viver sem a afeição dela. —
Rae cobriu o rosto com as mãos e acrescentou: — Pensei em contestar o testamento, mas decidi não
ir contra o desejo de meu pai. Sempre fui uma filha dedicada, embora ache agora que isso não
adiantou muito.

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—Quer dizer que vai continuar com seus vinte por cento — observou Curt. — Durante toda
nossa vida temos de fazer opções. Você acabou de fazer a sua.
—Quero muito que Scotty volte logo para casa.
— Acha que ele vai se responsabilizar pela herança?
— Ao menos conto com isso — disse Rae.
—Ele não mostrou o mínimo interesse por Miriwin até agora.
—Scotty é jovem ainda!
—O amor pela terra está no sangue. Scotty sempre vai querer uma vida fácil e não
conseguirá esse tipo de vida trabalhando com o gado.
— Falou isso a Sônia? — Rae desafiou-o.
— E acha que ela me ouviria?
— Vamos, vamos, é claro que Sônia o ouviria.
— Por que pensa assim?
— Porque ela o admira e o respeita.
—Sônia acha que o filho é perfeito; sabe disso, não, Rae? Tocar nesse assunto com ela seria
penoso. E, acima de tudo, Sônia nunca a tolerou.
—Percebeu isso, Curt?
—Sim, uma ou duas vezes. Eu gostaria demais que você aceitasse tirar essas férias. Precisa
separar-se um pouco de Sônia.
—Não entendo como notou o antagonismo existente entre nós duas.
— Seria difícil não notar. De qualquer maneira, você agora é uma mulher, tem suas próprias
opiniões, sabe o que quer. É normal que encontre dificuldades na vida.
— Quer dizer que pretende se livrar de mim, Curt?
— Não seja ridícula! Eu me preocupo com seu trabalho.
—E enquanto eu estiver fora você e Sônia poderão decidir sobre o futuro de Miriwin.
— Obrigado, Rae, pelo julgamento que faz de mim — Curt respondeu ironicamente.
—Então nega que tem interesse em Miriwin?
—Céus, quer usar um detector de mentiras?
— Não, apenas quero que seja sincero comigo.
— Ouça, Rae, dirigir a Companhia Carradine é parte integrante de minha vida. Quero
expandir meu império, expandir o que é meu. Miriwin é uma linda fazenda, mas seu pai sofreu
muito para conservá-la e nem sempre tomou as decisões acertadas. Mas, se por acaso Miriwin for
posta à venda, eu me candidatarei a adquiri-la. Por que não? Assim caminha a vida de negócios.
Você é uma mulher inteligente e pode reconhecer que tenho razão. Tente entender meu ponto de
vista. Sei que Miriwin é tudo para você. Quanto à minha conversa com Sônia, foi sempre a mesma.
Ela se preocupa por não ter condições de assumir a fazenda. É uma mulher da cidade, sente falta do
marido, acha que por consideração a ele deveria continuar aqui, mas não sabe como conciliar as
duas coisas. E você está vendo tudo da maneira errada. Imaginei que tivesse mais bom senso.
— O que bom senso tem a ver com o caso? Você vem aqui com muita freqüência. Sônia o
convida?
—Naturalmente que convida. Sugere que eu esteja forçando minha presença?

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— Francamente, acho que está nos manobrando. Você não é um homem bondoso como seu
pai, é mais parecido com seu avô!
— Maldito seja meu avô! — blasfemou Curt. — Meu pai também não foi lá um santo.
— Vocês, Carradine, manobram pessoas há anos. São os reis do gado, construíram um
império. Céus, têm mais poder do que o primeiro-ministro. E nunca deixam escapar um bom
negócio. Sônia o vê como um conselheiro, por isso será fácil convencê-la.
—Exceto que agir de modo contrario aos seus interesses, Rae, não é de meu caráter — Curt
protestou, irritado. — Você está me insultando. Não acha?
—Desculpe-me, Curt, mas esse negócio da venda de Miriwin pesa em meu coração.
—Não há negócio nenhum, Rae. Sei que você passa por dificuldades e apenas tento ajudá-
la...
— Dificuldades? — Rae estava tão cansada e tão aborrecida que se sentia atordoada.
Lágrimas corriam-lhe pelas faces agora. — Tudo tem sido tão difícil para mim. Será que ninguém
mais nesta casa sofre pela morte de papai?
— Cada um sofre à sua moda. Algumas vezes, a única coisa que se pode fazer é continuar
vivendo. Sei que você está bastante ferida, mas não ganha nada sendo tão crítica a respeito de
Sônia. Ela é diferente, só isso. O que você precisa, Rae, é dos braços de um homem em volta de sua
cintura.
Os olhos dourados de Curt brilharam, e ele abraçou-a. Rae imaginara aquele cenário desde
os dezesseis anos, mas a realidade chocou-a. Quando seu corpo entrou em contato com o dele,
quando as curvas da mulher encontraram os músculos firmes do homem, uma onda de desejo a fez
vibrar.
—Pare, Curt! — disse. — Não posso agüentar...
— Não, Rae!? Como? Já desistiu? Você é uma criatura capaz de enlouquecer um homem, é
bem mais complexa do que pensei. A fascinante adolescente transformou-se numa mulher de fibra.
Um verdadeiro perigo. Alguns homens acham isso muito excitante.
Curt ergueu-lhe o queixo com os dedos, e seus lábios juntaram-se aos de Rae, lábios
quentes, íntimos, que provocaram nele um verdadeiro choque. Rae mal sabia o que estava fazendo,
fora tomada de surpresa. As mãos de Curt deslizaram sobre a massa radiante de seus cabelos, e a
energia do corpo dele a fez tremer.
Rae viu tudo então. Enxergou a força dos Carradine.
Suas veias pegavam fogo, e Curt a beijava com sofreguidão. Com as mãos afagou-lhe os
seios sob o robe de cetim e sentiu os mamilos se enrijecerem. Ela estava completamente entregue,
vulnerável.
—Então, tudo resolvido? — disse Curt calmamente.
—Como? Acho que nada foi resolvido.
— Beijar você foi um ato instintivo. Querida Rae Munro, seu erro foi lembrar-me de que já
tinha vinte e três anos.
—Não me faça de tola, Curt. Sônia e Scotty podem acreditar em todas as suas afirmações,
mas eu não sou tão fácil de ser manobrada.
—Não?
— Não! Apesar de você ser Curt Carradine, o solteirão mais cobiçado do condado.
—Devo me sentir culpado por isso? — indagou ele.

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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—De forma alguma.


—Penso, Rae, que você ainda não se deu conta de sua sexualidade. Ela é tão possante como
o perfume das rosas. Mas não se preocupe comigo. Afinal, lembro-me de você desde o berço.
— E eu me lembro de você andando por aqui com seu pai. Sempre com esse tremendo ar de
nobreza, uma de suas características marcantes.
—Está recordando o passado, Rae? Os Carradine e os Munro?
— Penso que sim. Você é persistente e ambicioso. Em mãos capazes, Miriwin poderá voltar
a ser o que foi antes. Precisa de uma boa injeção de capital, e isso não lhe falta. E não vai ter de nos
tirar daqui à força. Com seu charme, consegue sempre o que deseja.
— Bem, bem, você deve ter remoído muito o que está me dizendo.
—Francamente, só agora me ocorreu.
— Alguém pôs isso em sua cabeça? Matt talvez tenha ouvido qualquer coisa a respeito. Mas
já lhe disse antes e repito, Rae, não vou expulsá-la de sua casa, sei o que isso significa.
—Seria o mesmo se alguém quisesse tirar Carrara de você.
— O testamento de seu pai a magoou profundamente, posso ver.
— Sem dúvida. Mas isso não me impede de eu querer conservar o que sempre pertenceu à
minha família.
—Acho que você está obcecada por uma idéia fixa. Precisa mesmo de férias. Assim Sônia
também voltará ao normal.
—Naturalmente. — Rae sentiu uma onda de raiva crescendo dentro de si. — Esse é seu
verdadeiro motivo? Agradar Sônia?
—Não seja tola. Penso em você, mas não posso dar as costas a Sônia, tampouco.
—Não precisa vir aqui toda vez que ela lhe pede. Sônia está muito dependente de seus
conselhos. Acho isso perigoso.
—Calma, calma, sei o que estou fazendo. Penso em vocês duas. Olhe para mim, Rae.
— Não quero olhar para você. Reflito com mais clareza quando não tenho meus olhos fixos
nos seus.
— E eu recuso falar com suas costas voltadas para mim.
—Posso ouvi-lo da mesma forma, não posso?
Como resposta, Curt agarrou-a pelos cabelos e a fez dar meia volta. Rae voltou a sentir todas
as sensações anteriores. A tontura, o prazer, a quase dor. Quando Curt a tocava, sentia-se
hipnotizada, perdida mesmo. Mas guardaria esse segredo para sempre.
— Promete que vai se afastar um pouco daqui? — ele perguntou.
Tremores percorriam todo o corpo de Rae. A voz de Curt a fascinava. Contudo, respondeu:
—Estou bem em casa.
—Não, não está. Matt e Wyn concordam comigo.
— O caso é que não considero boa sua influência aqui. Vamos entrar num acordo? Irei para
sua casa de praia se você escassear suas visitas a Sônia. Acredite ou não, ela sobreviverá sem você.
— É claro que sobreviverá, não tenho a menor dúvida.
—Combinado, então? — disse Rae.
—Combinado. Porém, acho que nosso contrato terá mais valor se for selado com um beijo.
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— Não, não será necessário.


—Mas eu insisto.
Se assim disse, melhor o fez. Beijou-a até deixá-la sem fôlego.

CAPÍTULO III
Rae passou a manhã tentando concentrar a mente na contabilidade da fazenda. Não foi fácil,
considerando-se os eventos da noite anterior. Contas se empilhavam de maneira alarmante. Ela as
dividiu em vários montes separando os assuntos e começou a dar especial atenção aos mais
urgentes. Havia contas pessoais de Sônia, provenientes da estadia dela com os Radford na mansão
em Sidnei. Sônia conseguira gastar centenas de dólares em roupas.
Rae trabalhou intensamente até a hora do almoço, depois tomou uma xícara de café e comeu
um sanduíche. Planejara ir à Garganta do Diabo à tarde. Achava emocionante ver um bom piloto de
helicóptero em ação. Bob Grafton trabalhava para a Fazenda Carrara, centro do império Carradine e
Rae esperava que ele estivesse em atividade naquela tarde.
Sônia encontrou-se com ela no hall e cumprimentou-a amavelmente.
— Alô, Rae. Vai sair ou pretende ficar em casa? Está na hora de você desistir desse seu
trabalho de arrebanhar o gado, junto com os homens.
— São todos meus amigos — disse Rae. — Estou mais segura com eles do que em qualquer
outro lugar.
—Sinto muito se não vejo as coisas assim. — Sônia riu. — Homens são criaturas lascivas, e
você é uma pessoa muito sexy, embora não se aproveite dessa sua qualidade. Venha almoçar
comigo. A casa anda terrivelmente vazia estes dias.
—Quero apenas uma coisa leve.
—Coma o que quiser, mas não tão pouco. Curt tem razão ao dizer que está esquelética.
— Esquelética? Ele disse isso?
— Qualquer coisa parecida com "esquelética". Mas, antes que me esqueça, ele deixou
ordens para você não exagerar em suas atividades com o gado. Disse que não fosse à Garganta do
Diabo hoje.
— Curt ousou me deixar ordens? Ele não pode determinar o que devo ou não fazer.
— Não comece tudo de novo, Rae. Não sei onde estaríamos agora sem ele.
— Talvez em situação muito melhor.
—Não concordo com você. Por exemplo, achei ótimo Curt lhe oferecer a casa na praia.
Espero muito que aceite.
— Não posso ir a parte alguma por enquanto.
— Ninguém é indispensável — observou Sônia. — Seu pai achava que não podia ter um
minuto para si próprio também. Às vezes, penso que morar em Miriwin é o mesmo que viver no
inferno.
—É a seca, Sônia.

20
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— Não sei se posso agüentar isso por muito mais tempo — confessou Sônia. — Esse calor
horroroso e nada de chuva! E nossas dívidas aumentando dia a dia...
—Você devia ter pensado nisso enquanto percorria as butiques de Sidnei. Mas, se fizermos
economia, tudo melhorará com o tempo. Até em Carrara estão sofrendo com a seca.
— Não podemos comparar Miriwin com Carrara. Afinal, o que pode mudar aqui?
—A chuva mudará tudo. As coisas ficarão boas de novo. O futuro será brilhante para a
indústria da carne.
— Deus! Como você se parece com seu pai! Acha que Miriwin é o centro do mundo. Agora
que ele já se foi, não quero mais agüentar a solidão, a falta de dinheiro, as pessoas interferindo em
nossos negócios. Detesto esses malditos contadores, querendo mais e mais informações. Logo
começará de novo o drama do imposto de renda. Não é o que eu quero da vida, Rae. Nunca me
interessei quanto ao modo como esta fazenda funciona.
— Pode aprender Sônia. Não é difícil. E você é uma mulher inteligente.
— Só que não tenho interesse no assunto. Sou mulher de verdade, Rae. Não mulher
fantasiada de homem.
—Suponho que se refere a mim — disse Rae, escondendo sua mágoa. — Não tive outra
escolha. Mas por que Scotty não voltou para casa ainda?
—Não entendeu que ele tem compromissos na universidade?
— Festas?
—Scotty possui uma infinidade de amigos que lhe serão úteis no futuro. Você não espera
que ele se enterre aqui no meio do mato, espera?
— Pensei que essa fosse a intenção. Scotty é o herdeiro majoritário. Você trabalhou para
isso, não foi?
—E daí? — Sônia sacudiu os ombros. — Era minha melhor opção, como lhe disse antes.
Céus, os vinte por cento são mais do que suficientes para você, Rae, pode viver confortavelmente
com isso. Não é uma mulher sem-teto, tampouco sem dinheiro.
Em silêncio, Sônia retirou-se.
Nuvens de poeira se erguiam no sul e no sudoeste, enrolando-se em espirais num céu de azul
cobalto. O gado e os homens vinham da Garganta do Diabo, e Rae ia ao encontro deles. Esporeava
a égua na subida, de onde se avistava o vale. Na estação das chuvas, aquilo era um tapete de flores
do campo, vermelhas e azuis. Agora parecia um oceano de grama amarelada que adquiria a cor
verde apenas nas margens do riacho, o único lugar onde ainda existia vida.
A miragem pregava peças aos olhos de Rae. Setas de luz lambiam o vale numa dança
selvagem. A distância, a densa linha do arvoredo parecia ter perdido contato com o solo e flutuava
na luz prateada.
Sons começaram a chegar até ela. Seria o gado que se aproximava? Uma hora atrás, Rae vira
o helicóptero, tal qual pássaro amarelo que surgira do lado de Carrara.
Manchas escuras apareceram ao longe. Gradualmente, as manchas se transformavam em
cabeças de gado. Seiscentas? Setecentas?
Depois dos acontecimentos da véspera, Rae não tirava Curt da cabeça. Tinha de encarar os
fatos com calma. Sônia estava tendo um romance com Curt Carradine, e isso poderia selar o destino
de Miriwin.
Se ao menos Scotty voltasse! Ela precisava desesperadamente conversar com o irmão. Era
seu dever convencê-lo a continuar com o nome e a tradição dos Munro, fato que sempre lhe fora tão

21
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

importante! Porém Scotty confessara várias vezes que achava Miriwin um lugar "entediante". Seria
possível que tudo o que ele e a mãe queriam fosse dinheiro? Para Rae, tratava-se de abuso da
confiança que seu pai depositara em Scotty.
Quando o rebanho entrou no vale, Rae foi ao encontro dos homens. Os animais vinham bem
controlados, portavam-se como soldados marchando em campo aberto. Nos tempos áureos, teria
sido difícil prendê-los no vale, pois as verdes pastagens os atrairiam.
Nat Roberts, um novato no trabalho, vinha na frente. Matt e os outros homens atrás, para o
caso de algum animal fugir. Não seria difícil identificar Curt, mesmo a distância. Ele era um notável
cavaleiro. Seu corpo ereto, bronzeado, possuía uma individualidade que ninguém deixaria de
reconhecer.
Rae cavalgava sem parar. Em breve a tropa sentiria o cheiro da água e começaria a ficar
indócil. Era dever dos homens conservá-la a passo lento até atingir o riacho.
Nat acenava o tempo todo na frente dos animais, tal qual um cowboy de fim de semana. A
um dado momento, Curt viu Rae e ergueu o braço para cumprimentá-la.
E Rae pensou: "Por que, oh, por que lhe dera ele aquele beijo cheio de magia? Não era a
vida já suficientemente complicada?"
Nat a viu também, ergueu-se então na sela e cumprimentou-a com o berro típico dos
vaqueiros. O grito ecoou pelo vale e muito além. Foi o bastante para o estouro da boiada.
Assustados, os animais mugiram e se espalharam pelos arredores, na direção de Rae.
Ela passou por um momento de terror. Depois esporeou a égua, tentando evitar a debandada.
Céus, estaria Nat louco?
Os cavaleiros que acompanhavam a tropa passaram voando perto dela numa trovoada de
cascos de animais. Pelo canto do olho, Rae viu Matt. A situação foi aterradora. O gado se
embarafustava por toda parte, correndo instintivamente na direção da água. Apavorada, ela segurava
as rédeas de sua montaria e enxergava-se já deitada no solo e pisada pelos animais furiosos.
Um cavaleiro apareceu vindo não se sabia de onde, emparelhou com a égua já exausta e
ergueu Rae da sela num esforço de gigante. Ele gritou: Pule! Por segundos, Rae se viu suspensa no
ar para em seguida sentar-se firmemente numa sela, na frente de Curt. Ele a segurava com tanta
força que ela receou ter uma costela quebrada. Galoparam na direção da margem do riacho. Iam,
pareceu a Rae, entrar na água. Que outra opção tinham? Ela se preparou para mergulhar. Ouviu-se
ao longe um estampido de bala de rifle, ao qual Rae não deu atenção. Começou a nadar nas águas
rasas e esverdeadas do riacho, com Curt sempre ao lado, atento. Ela comparou-o a um super-
homem.
Ambos nadavam, esguichando água como baleias. Parte do gado movia-se lentamente agora,
bem junto deles. O perigo continuava. Nat, com o fim de evitar as censuras que na certa iria receber,
tentava capturar o garanhão de Curt e a égua de Rae.
— Santo Deus! — exclamou Curt, agora ambos já próximos da outra margem. — Você está
bem, Rae?
— Não tenho muita certeza, não. Eu lhe responderei depois que conseguir pegar meu
chapéu. — De forma alguma ela o perderia. Era o melhor que tinha.
—Rae?! — Curt berrou, porém ela nem olhou para trás, continuou nadando. O chapéu
flutuava rio abaixo como um enorme sapo negro.
Evidentemente irritado, Curt passou perto de Rae sem ao menos fitá-la. Apanhou o chapéu e
jogou-o para ela.
— Ponha na sua cabeça se é tão valioso assim — disse.

22
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—Não me dê ordens. — Rae enterrou o chapéu até os olhos e nadou para a margem.
Curt chegou primeiro, naturalmente. Rae não lhe dirigiu a palavra. Muitas vezes se
revoltava, como acontecia naquele instante, com a superioridade física dos homens.
— Venha cá, Rae, dê-me sua mão.
Ele inclinou-se e tirou-a da água quase sem esforço. Um ficou olhando para o outro,
parecendo inimigos. Rae puxou a blusa molhada para separá-la do corpo, consciente de que não
usava sutiã. Sabia também que sua calça ficava transparente quando encharcada. Mas por que se
preocupar tanto com a aparência, se não tinha nenhum futuro com Curt?
— Você perdeu seu chapéu também — disse ela.
—Não dou tanto valor a chapéus como você. Mas... não lhe deixei recado para ficar em
casa?
—Olhe, poupe-me de suas censuras, como se fosse meu supremo chefe — protestou ela,
ofendida. — Não tive nada a ver com o estouro da boiada. Foi o idiota do Nat que provocou tudo
aquilo.
— Ele quase matou você. — Curt estava furioso.
— Nesse caso, não há necessidade de vir a mim jogando pedras! — Os olhos azuis de Rae
faiscavam. — E, por favor, não repreenda Nat. Tenho certeza de que ele aprendeu a lição. Errou,
mas não quis fazer nada de propósito.
— Não se esqueça de que você quase morreu esmagada.
— Eu estava no lugar errado na hora errada. — Era levantou as mãos num gesto de
impaciência. — Mas tudo acabou. Vamos esquecer?
— Vou esquecer — declarou Curt de mau modo — só quando meu coração voltar ao seu
ritmo normal. Mas você precisa arranjar uma égua melhor, a sua é péssima.
—Ela se agita nas crises. Por que está assim tão zangado? Não foi a pior coisa do mundo o
que aconteceu, afinal de contas!
—Imaginar você morta ou aleijada? Não foi a pior coisa do mundo? Vamos, Rae, eu me
apavorei. Aposto que Matt está tendo um ataque de nervos, agora.
— Por favor, Curt, dê-me uma pausa, ok? Você salvou minha vida, concordo. Mas... para
quê? Para depois me expulsar de minha própria terra?
Curt apertou as pálpebras e retesou o corpo. Agora estava mais do que furioso.
—Não comece com isso de novo, Rae! Não me sinto com disposição para discutir sobre o
assunto. Ambos estamos molhados até os ossos. Vamos voltar para casa.
— Não é má idéia no seu caso. Quanto a mim, posso preferir não voltar.
O olhar que Curt lhe lançou fez suas pernas tremerem. E ele disse:
— Vejo que tem um grande problema, Rae. É melhor solucionar tudo o mais depressa
possível.
—Estou bem.
Matt interrompeu o diálogo dos dois, surgindo com o cavalo de Curt e a égua de Rae. Ele
mancava, parecia andar com dificuldade.
— Aquele maldito rapaz! — o capataz blasfemou. — Tenho vontade de lhe dar uma boa
lição para que não crie mais problemas a ninguém. Você está bem, querida? Garanto que vai ter
pesadelos esta noite.

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—Pare de se preocupar comigo, Matt — ela pediu.


—Graças a Curt você está salva. Mas não permita que seu ego sofra. — Matt virou-se para
Curt e acrescentou: — Rae é muito orgulhosa.
— E eu não sei?! — Curt exclamou e sacudiu os ombros. — Obrigado por ter recuperado os
cavalos, Matt. Se você precisa ficar aqui ainda um pouco mais, eu levarei Rae para casa.
— Muito bem. Vou reorganizar a caravana bem devagar. Muitíssimo obrigado, Curt, por seu
auxílio. Foi muito apreciado. Obrigado também por salvar Rae. Amo essa menina. Não sei o que
faria se alguma coisa lhe tivesse acontecido. E não se preocupe com aquele idiota, prometo que irei
endireitá-lo.
— Dê-lhe uma boa lição, Matt — Rae pediu.
—Nat nunca será um bom criador de gado — retrucou Matt.
O vento quente revolvia os cabelos de Rae que caíam, ainda úmidos, sobre seus ombros.
—Ponha esse chapéu logo — preveniu-a Curt. Ele se preocupava com o sol ardente contra a
pele delicada de Rae.
— Vou pôr. O chapéu já está quase seco.
Ela passou a mão pela massa gloriosa de sua cabeleira ruiva. A blusa amarela estava quase
seca, como também a calça, tudo graças ao calor intenso.
As planícies se estendiam diante deles, uma relva amarelada interrompida de quando em
quando pelas bauhunias que floresciam até na mais severa seca. A égua, nervosa depois do acidente,
cavalgava sem segurança, sendo necessário que Rae a afagasse e pronunciasse palavras animadoras
vez ou outra.
— Você acha que algum dia vai chover de novo? — ela perguntou a Curt enquanto punha o
chapéu na cabeça.
—Tem de chover. Chegamos a uma situação desesperadora já. Nos tempos de meu avô, os
aborígines cantavam para chamar a chuva. E, por mais incrível que pudesse parecer, funcionava.
Perdemos muito ao desprezar a velha cultura. Esse povo viveu aqui milhares de anos e não há nada
que não saiba sobre a terra e como preservá-la. Você se lembra de Kidgee, um dos chefes da tribo?
Ele tem certeza de que vamos ter chuva forte muito em breve. Quando lhe perguntei como sabia, me
respondeu que seu espírito protetor lhe contara.
—Que bom! — exclamou Rae. — Espero que o aborígine tenha razão.
— Você parece não se importar muito com o calor — comentou Curt.
— O calor não me incomoda, estou acostumada, apenas a seca me preocupa. Sônia odeia o
calor. E ela o acha especialmente desagradável no momento. As vezes me pergunto por que se casou
com papai.
— Acha que não o amava?
— Não disse isso. — Rae sacudiu a cabeça. — Eles pareciam muito felizes juntos. Papai lhe
deu tudo o que ela queria. Cada vez que se aborrecia aqui e ficava inquieta, mandava-a viajar. E
Sônia sempre voltava para casa muito mais contente. Não que ela tivesse se sentido absolutamente
feliz aqui. Isso não. Deve ser terrível estabelecer-se num lugar onde se está o tempo todo em guerra
com o ambiente. Nos últimos dez anos ela nem mesmo tentou usufruir os prazeres do campo.
Lembro-me dos tempos em que Sônia cavalgava. Vivia bem satisfeita. Nunca mais andou a cavalo
nos anos recentes. Tenho a impressão de que quando Scotty assumir a direção da fazenda ela voltará
para Sidnei. Ao menos durante o verão.

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— Talvez você esteja certa — concordou Curt. — Sônia tem família e amigos lá. E é ainda
muito jovem.
— Acha que Sônia vai se casar de novo? — indagou Rae.
—Tenho a impressão de que sim.
—Espero que não se apresse. Ela está muito vulnerável no momento.
—Percebi Rae.
— Tentei lhe dizer isto, mas não fui bem recebida — comentou, ela.
—Muito poucas pessoas gostam que lhes falem de coisas tão íntimas. E seu relacionamento
com Sônia nunca foi lá muito fácil.
— É verdade. Ela idolatra Scotty, mas estranhamente não é uma mulher maternal. Ao menos
seus instintos maternais não chegaram até mim.
—Sônia poderia ter agido diferentemente se seu pai não tivesse demonstrado abertamente
tanta infelicidade pela perda de sua mãe. Nunca se recuperou.
—Como pode fazer tal afirmação, Curt? Ele nunca disse uma palavra acerca disso.
—Muito, muito ocasionalmente, sim. E essa atitude só podia ter aumentado a implicância de
Sônia por você.
—Fale-me alguma coisa. — Rae estava aborrecida e ao mesmo tempo curiosa.
— Recordo-me de uma conversa havida um pouco antes do Natal. Ele disse, e Sônia estava
perto, que jamais poderia se esquecer da luminosidade que emanava de sua mãe. Falou
espontaneamente, sem refletir, mas foi uma afirmação muito reveladora, não acha? Imagino que
Sônia deva ter sofrido. Pela expressão do rosto dela, concluí que não era a primeira vez que o
marido deixara escapar algo desse tipo. Escutei-o muitas vezes referir-se à sua mãe com lágrimas
nos olhos. E seu pai, chegar a ponto de chorar...
—Se chorou, nunca vi — comentou Rae. — Não me lembro de ter visto papai chorar.
— Como poderia perceber uma situação dessa espécie sendo tão criança? Suponho que ele
nunca tenha falado do período trágico da vida a sós e, se falou, não na sua frente. Comenta-se que
você é a imagem de sua mãe. Posso ainda me lembrar dos cabelos ruivos dela, dos olhos cor de
violeta, da feição cheia de inteligência e de fogo. Mulher difícil de ser esquecida.
— Se sou a imagem de minha mãe, por que papai não foi mais indulgente comigo? Quem
sabe tivesse raiva de mim por eu estar viva e ela morta! E possível. Ao menos isso explica muitas
coisas.
— Eu apreciava seu pai, Rae, mas ele tinha alguns aspectos obscuros em sua personalidade.
Sei que amava você, mesmo não conseguindo se expressar bem, como deveria. — Eles seguiram
em silêncio por alguns minutos, depois Curt prosseguiu: — Recentemente ocorreu-me que havia um
retrato de sua mãe no hall. O que houve com ele?
— Céus, Curt como vou saber? Lembra-se de quando o viu pela última vez?
— Vi-o muitas vezes nas ocasiões em que meu pai e eu vínhamos aqui. A última deve ter
sido quando seu pai se casou com Sônia. Compreensível, suponho. Mas alguém deve saber onde foi
parar esse retrato. E seu, creio. Esperei pelo momento adequado para lhe dizer isso, mas me pareceu
que nunca chegava.
—Interessante! Talvez tenha ido parar na casa de meus avós. Papai nunca me levou para
visitá-los, você sabe. Quando fiquei suficientemente adulta para ir sozinha, era tarde demais. Vovô
teve um derrame e não reconhecia ninguém. Suponho ter sido um grande choque para meus avós
perder a única filha e não conhecer a neta. Detesto falar no assunto, mas acho que papai portou-se

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muito mal. Minha avó morreu logo depois. É terrível para mim recordar o passado. Eu queria tanto
enxergar meu pai como um homem perfeito!
— E não o enxerga agora?
—Em alguns aspectos, ele me traiu. Scotty sempre ia com Sônia a Sidnei para visitar os
avós. Por que não podia eu visitar os meus? Qual o problema?
—Falava-se, na ocasião — Curt começou a explicar com muito cuidado —, que eles
culparam seu pai pela morte de sua mãe. Seu pai, parece, insistiu que o primeiro filho nascesse em
Miriwin. Dizia-se que, se sua mãe tivesse sido hospitalizada, com certeza teria vivido. É tão triste se
pensar nas coisas dessa maneira! Seu pai viveu quase em completo isolamento após a morte da
mulher. Algumas governantas cuidaram de você até ele conhecer Sônia, dois anos mais tarde. Todo
o mundo ficou atônito quando ele voltou de Sidnei com uma nova esposa; e logo Sônia ficou
grávida de Scotty. A situação não deve ter sido fácil para ela também.
—Não. Contudo, pôs na cabeça, assim que viu meu pai, ser a sra. Alexander Munro de
Miriwin. Isso ela mesma me contou.
— Um rapaz ou uma moça, de apenas dezenove anos de idade, sabe por acaso o que quer?
—Você gosta de Sônia, não? — Rae perguntou subitamente.
—É claro que gosto. Eu não viria aqui se não gostasse dela.
Houve um tremor em sua voz ao declarar aquilo?, Rae se perguntou.
Ela ficou olhando para alguns cisnes negros que voavam baixo, tendo por fundo um céu cor
de opala.
— Eu queria muito que Scotty voltasse logo — sussurrou.
— Isso resolverá seus problemas?
—Ao menos poderíamos conversar sobre diversos assuntos.
— E verdade. Mas, antes disso, você deveria tirar umas férias. O mundo não vai acabar se
sair um pouco daqui. Posso mandar um funcionário trabalhar nos escritórios de Miriwin.
— Não, obrigada, Curt. Você já sabe demais de nossos segredos. — Ela fez uma pausa. —
Francamente, eu gostaria muito de descansar à beira-mar, fugindo um pouco deste calor. Mas quero
estar aqui quando Scotty chegar.
—Você só verá Scotty no fim da temporada, típica das grandes cidades — Curt disse
secamente. — Estão no auge das festividades no momento.
— Preciso então pensar no caso das férias.
—Tudo bem. — Curt fez um ligeiro movimento de cabeça. — Aguardo uma resposta sua
antes que eu vá embora, esta tarde.

CAPÍTULO IV
Apesar de algumas apreensões, Rae gostou de cada minuto que passou na casa de praia de
Curt, na costa de Queensland, a cento e vinte quilômetros de Brisbane. Era uma linda casa situada
no alto de uma colina, com vista do mar azul à direita, e do rio à esquerda.

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No interior havia muito espaço. Portas enormes abriam para o terraço, onde soprava uma
brisa agradável o tempo todo.
O jardim era maravilhoso, cheio de palmeiras, árvores com flores de várias tonalidades e
centenas de samambaias.
Leo cuidava do jardim, e sua mulher, Marie, arrumava a casa e cozinhava. Ambos eram
excelentes com Rae, tratavam-na com eficiência e carinho.
Cada dia era mais bonito que o anterior. De manhã, Rae nadava nas águas cristalinas do
oceano. A tarde, no pequeno carro que teve a liberdade de usar, passeava pela ilha vulcânica cheia
de pomares de frutas cítricas e tropicais.
Havia na redondeza várias aldeias montanhosas que a interessaram pelo artesanato dos
habitantes locais. E os pequenos e famosos restaurantes ficavam tão perto um do outro que o
visitante podia almoçar num e jantar noutro.
Ela sentia-se tão melhor longe das tensões de Miriwin! Começara a relaxar com o poder
revigorante do lugar. A noite às vezes assistia à tevê ou lia revistas e livros especialmente
comprados para ela. Uma ou duas vezes, saíra depois do jantar, porém notou que era alvo de olhares
masculinos um tanto quanto insistentes. Além disso, achou que, tendo tempo para ler, devia
aproveitar essa oportunidade. E em geral estava tão cansada pelas atividades diárias que caía na
cama e dormia imediatamente até as sete horas da manhã seguinte, quando o mar a chamava.
Ela achava uma delícia descer correndo as escadas davam para a praia, caminhar pela areia
branca, mergulhar nas ondas. Seu apetite fora estimulado pelo ar marinho, e ela aumentou alguns
quilos. Falava-se sobre a ida de Scotty à ilha, para passar um fim de semana com a irmã. Ele Lhe
telefonou várias vezes, mas, quanto à visita, nada.
Logo nos primeiros dias de sua chegada, cansada e tensa, Rae achou que seria bom não
pensar nos problemas de Miriwin se quisesse tirar o máximo proveito das férias. Não havia nada
que pudesse fazer sobre o relacionamento entre Sônia e Curt. Ela precisava, isso sim, viver a
própria vida.
Rae agora tinha uma idéia fixa: encontrar o retrato da mãe. Sônia negara saber da existência
dele.
Na véspera da volta, ela deitava-se na praia sobre uma toalha, bem em frente da casa,
quando uma sombra longa bloqueou-lhe o sol. Uma flor, um jasmim, caiu sobre seu peito. Rae
sentou-se imediatamente, cobrindo os seios nus com as mãos. Estando só, como sempre acontecia,
costumava despir a parte de cima do biquíni para tomar banho de sol.
Curt sorria, aquele sorriso que fazia suas pernas tremerem.
— Então é assim que você passa o tempo?
—Curt! De onde surgiu? — O ar perfumado ficou de repente carregado de energia, de
perigo, de excitação.
—Ora, ora, você tinha certeza de que iria me ver aqui, não tinha?
— Ao contrário, achei que estaria ocupado em Carrara.
—Pensou em mim, então? — Ele deitou-se na areia ao lado dela. Usava camisa esporte e
calça bege.
— Pensei, todas as noites. Achei que devia incluir você em minhas preces.
—Muita bondade sua. Mais do que esperei de você.
— Os olhos de reflexos dourados percorreram o corpo de Rae, bem devagar,
prazerosamente. — Você está linda, desejável, cheia de fogo.

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— Minhas férias foram perfeitas. Graças a você.


— Como vai, Rae? — Curt finalmente cumprimentou-a, levantando-se.
—Alô, Curt. — Seu Demônio, ela pensou. Por que sempre me apanha quando estou em
desvantagem?
—Quer que a ajude?
—Sabe muito bem que não preciso. — Ela tentava acolchetar a parte de cima do biquíni,
com certa dificuldade. Mas conseguiu.
— Você está linda! — ele repetiu.
—Estou quente e corada, e sabe bem por quê.
—Quis lhe fazer uma surpresa. E fiz, não?
— Quer passar minha saída de praia, por favor?
— Santo Deus, Rae, por quê? — Curt parecia se divertir.
— Estou um pouco sem jeito.
— Sem jeito? Isso quando me conhece há tanto tempo?
—Concordo. Mas durante esse tempo todo você me pareceu sempre um leão pronto a
agarrar a presa.
— Você? Você era a presa?
—Sabe muito bem que me apavorava.
— Pare com isso, Rae. Relaxe. Prometo que não tocarei em você.
— Minha saída de praia, por favor, Curt.
— Esse coelhinho assustado nem parece a mesma Rae Munro que conheço.
Curt passou-lhe a saída de praia, um tecido transparente azul e verde.
—Como você tem passado? O que tem feito? — perguntou ela.
—Vou bem. — Curt se deitou outra vez na areia, pegando o travesseiro dela para encostar a
cabeça. — Nada de chuva ainda, como imagino que você deva saber. Continuamos esperando,
rezando. Sônia gostou muito da festa que dei para Philip e Natalie. Ela lhe contou?
— Não falei com Sônia.
— Vocês duas...
— É como Sônia prefere. Conversei com Scotty. Convidei-o para vir aqui me visitar, e ele
prometeu que viria. Mas na última hora cancelou. Conhece Scotty, não? Se um convite mais
interessante surge, não consegue rejeitar. Mas espero que ele vá a Miriwin no Natal. Sônia quer
muito vê-lo.
— Ele irá — garantiu Curt.
—Sônia às vezes é possessiva demais, e Scotty não gosta disso. Ele de certo vai levar um
amigo a fim de suavizar a situação.
— Então prepare-se para um trabalho extra. Venha, deite-se aqui a meu lado. — Ele se
espreguiçou como um gato sonolento. — Marie me disse que você não tem saído à noite.
— Dúzias de homens me convidaram — Rae disse para provocá-lo.
—Como?
—Não se preocupe. Não me sentia nem um pouco romântica.
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— Então precisamos mudar esse seu comportamento. — Ele afagou-lhe o rosto. — Vamos
jantar fora esta noite.
— Não estou preparada para suas aulas românticas, Curt.
— Aulas? Você não precisa de aulas, Rae. — Ele sentou-se de repente e perguntou: —
Sentiu saudades de mim?
— Não!
Num movimento inexpressivo, fingindo indiferença, Curt passou a mão pelo ombro nu de
Rae e deslizou-a até o braço.
— Verdade?
—Oh, só um pouquinho.
— Você está tremendo.
— Você causa sempre esse efeito em mim, Curt.
— Que responsabilidade a minha.
O lindo e grande mundo reduziu-se então a eles dois apenas.
— Sempre soube que você exerceria grande influência em minha vida — comentou ela.
— E assim mesmo acha que só brinco com você?
— Talvez...
—Isso prova que não me conhece, Rae.
Ele inclinou-se e deu-lhe um beijo na boca, breve mais violento.
Almoçaram no terraço, ao ar livre. Depois passearam pela praia apreciando as gaivotas que
mergulhavam o bico nas ondas do mar para apanhar peixes.
Rae adorou a oportunidade de ver Curt relaxado. Era um perfeito companheiro, e ela achou
que tinham muito em comum. Ambos adoravam a natureza, ambos eram ativos, atléticos, e
compartilhavam de vários interesses. Quando não se falava sobre Miriwin, as coisas corriam às mil
maravilhas. Eles passavam de um assunto para o outro sem brigas.
A noite, resolveram jantar fora. O restaurante que Curt escolheu foi o que Rae mais admirou
em suas andanças pela aldeia. Ficava na praia e possuía uma atmosfera tropical e romântica. As
cadeiras de vime tinham estofamento azul com estampa de pequenos peixes e conchas. Havia velas
nas mesas e orquídeas em vasos de cerâmica. Era um local perfeito para namorados.
Curt escolheu uma mesa com vista para o mar. Ambos examinaram o menu cuidadosamente
e resolveram escolher frutos do mar.
Curt não tirava os olhos dela. Rae usava um vestido gracioso que comprara numa butique
local, branco com saia rodada.
— Traga todos os frutos do mar apresentados no menu — Curt pediu ao garçom.
—Quer que eu engorde? — protestou Rae.
—Vou lhe confessar uma coisa. Você tem um corpo perfeito. Quando anda então, é quase
impossível a um homem não olhar.
—Pensei que você houvesse dito a Sônia que eu era esquelética.
— Comentário ridículo. Esses quinze dias fizeram maravilhas em você. Tenho enorme
prazer em vê-la tão bem.

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Emocionada, Rae passou a mão numa pétala da orquídea. Seu rosto, iluminado pela vela,
estava lindo.
Eles dançaram várias músicas lentas, e Curt segurava-a bem perto. Sem dúvida, fizera com
que a sensualidade dela despertasse.
Depois do jantar deram uma volta de carro pela costa, quase em silêncio, como se o fato de
estarem juntos fosse suficiente. De quando em quando, Rae desviava o olhar do céu estrelado para o
perfil de Curt. Uma vez por outra ele parava a fim de apreciarem a vista. A brisa era suave.
— Vamos descer e andar um pouco — disse Curt. — Deixe os sapatos no carro.
O aroma da noite envolvia-os como uma capa, criando uma intimidade que deixou Rae
atônita. Um pássaro cantou no alto de uma árvore e ela correu pela areia quente. Por anos desejara
fazer isso, e agora estava tão emocionada que ficou com lágrimas nos olhos.
—Não se distancie muito de mim — avisou Curt. Essa ordem trouxe a Rae recordações da
infância, quando Curt tinha por missão tomar conta dela todas as vezes em que ia com o pai de
visita a Miriwin. Ele assumira a responsabilidade muito seriamente. Como a assumia agora.
Ao chegar perto dela Curt sorriu, como se também se recordasse dos verões de anos atrás.
Tomou-lhe a mão e apertou-a. O mesmo pássaro cantou, com mais sonoridade agora.
Os dois andaram em silêncio, de mãos dadas, durante muito tempo. Era tal qual um diálogo
sem palavras. Rae teve a impressão de que estrelas explodiam dentro dela. Uma comparação
extravagante, mas verdadeira.
Curt abraçou-a pela cintura, e disse:
—Será esta a mesma Rae irascível, beligerante, que eu conheço?
—Não estrague tudo — ela pediu. — Em algumas horas talvez voltemos a brigar.
—Tem certeza de que quer mesmo brigar comigo?
— Acho que não poderemos parar de brigar nunca.
—Exceto por isto!
Curt beijou-a até que o coração de Rae vibrasse no peito como um pássaro preso na gaiola.
Ela precisou agarrar-se a ele para não perder o equilíbrio. Se aquilo era loucura da lua cheia,
abençoada loucura. Rae queria que essa loucura não acabasse nunca. Finalmente, Curt a tratava
como uma mulher, e como uma linda mulher.
Eles aterrisaram no dia seguinte em Miriwin, após um vôo tranqüilo. Matt os esperava na
porta da casa. O velho capataz parecia cansado, abatido, mas seu rosto se iluminou quando Rae
correu a seu encontro.
— Alô, parceiro! — Rae beijou-o e notou que ele mancava muito.
— Alô, parceira! Como você está linda! Alô, Curt. Entre para tomar uma xícara de chá. E
muito obrigado por ter ido buscar Rae na ilha.
Curt tirou as malas das mãos dele e disse:
—Acho bom você consultar um ortopedista. Precisa ver o que há com essa perna.
— Muitos já a examinaram e não fizeram nada.
— Isso há anos, Matt — Rae interferiu. — Ele detesta falar no assunto, Curt.
—Quer que eu ampute minha perna?

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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

— Isso pode acontecer se você não tomar uma providência — Curt declarou sem
preâmbulos. — Quando o ortopedista estiver na cidade, levarei você ao Hospital de Base. Não tenha
medo, Matt.
Rae fitou Curt, um olhar cheio de gratidão. Ela teve vontade de convidar Matt para tomar
chá com eles, mas sabia que Sônia insistia em manter distância dos empregados. E procurava
ignorar a grande afeição que a enteada nutria por Matt e Wyn.
Sônia cumprimentou-os no terraço e no primeiro instante olhou para Rae como se visse uma
estranha.
— Céus, o que você fez? — ela finalmente perguntou. Rae passou a mão pelos cabelos.
— Você se refere a isto? Cortei-os, tratei, fiz reflexos. Gastei um bom dinheiro. A
cabeleireira recusou cortar mais, apenas aparou as pontas. Ela adorou meus cabelos.
—A toalete é nova? — Sônia ainda olhava atônita para a enteada. Rae usava um vestido de
seda branco com um cinto de várias cores na cintura muito fina. E lá estava a nova Rae, a nova
mulher.
—Ela ficou linda, não ficou? — indagou Curt. Alguns minutos mais tarde, Wyn entrava na
sala com o chá. Quando viu Rae, exclamou:
—Como você está bonita, querida! Precisamos conversar mais tarde.
— E você, Sônia, como tem passado? — Curt perguntou.
— Ainda não consegui me livrar das pílulas para dormir — respondeu ela. — Mas estou
tomando uma a menos.
— Você está com um aspecto muito melhor agora — ela disse a Rae assim que Curt se
retirou. — Sabia que Curt ia se encontrar com você?
— Não tinha idéia. Foi uma grande surpresa.
—E como é a casa de praia? Maravilhosa, suponho.
— Você gostaria de vê-la. Fica no alto de uma colina com vista para o mar.
— E o que fez depois que Curt chegou? — perguntou Sônia, fingindo indiferença.
— Demos alguns passeios, nadamos. A noite, Curt me levou a um restaurante. A comida
estava divina.
—Bebeu muito, Rae?
— É claro que não cheguei a ponto de entrar embaixo da mesa. Um ou dois copos de vinho,
nada mais.
— Achei que Curt iria gostar. Ele me disse que não imaginava que você tivesse tanta
capacidade para se divertir.
— Curt não podia ter lhe dito isso, Sônia. — Rae estava cansada das insinuações da
madrasta.
— Pois estou lhe falando a verdade. Foi na festa que deu a Philip e à esposa. Eu me diverti
muito, por sinal. A moça é simples, mas Philip é um homem muito atraente. Não entendo como os
dois se encontraram. Ela deve ser uma mulher muito hábil. É advogada, penso.
—Isso a ajuda a ser hábil — comentou Rae. Porém, Sônia não a ouvia. Ocupava-se em
descrever cada detalhe da roupa que usara. Roupa era algo muito importante para Sônia. Ela
comentou que Curt a tratara extremamente bem, como a tratara bem um homem de nome Anthony
Fallon.

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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—Curt me pôs num quarto de hóspedes com papel de motivos chineses nas paredes e com
dúzias de rosas vermelhas sobre a cômoda. Acho que o primo dele se impressionou bem comigo.
Isso é importante.
Rae deu um suspiro.
Wyn estava sentada na cozinha, bebendo uma xícara de chá, quando Rae entrou.
— É bom tê-la de volta! — exclamou a velha governanta. — Sem você aqui, eu e sua
madrasta não nos entendemos.
—Você é a melhor pessoa do mundo, Wyn. — Rae beijou a cabeça da empregada. — Muito
melhor que a governanta de Curt.
— Verdade? Obrigada, querida. Mas, mudando de assunto, achei uma maravilha Curt ir
buscar você na ilha.
— Bem, mas desconfio, Wyn, que ele tinha outros trabalhos a fazer por lá.
—Conte-me como foi tudo — pediu Wyn.
—Scotty ia me visitar, mas na última hora desistiu.
— É bem dele — comentou a governanta. — Será que virá no Natal?
—Ele prometeu.
—A mãe dele ficará muito feliz — opinou Wyn. — Ela vive para o filho. Mas não se
esqueça de que Sônia é muito possessiva.
— Scotty é filho único. Penso que seja muito bom ela ter algum interesse em Curt. Desvia
um pouco sua atenção de Scotty.
—Sim, Sônia me contou — Wyn disse. — Ela acha que Curt está de fato interessado nela.
— Eu também acho — concordou Rae.
— Bobagem! Sua madrasta é uma mulher bonita, mas tem quase quarenta anos. Curt apenas
passou dos trinta.
— Ele tem trinta e um anos. Fez aniversário em agosto. É do signo de leão. Como se
pudesse pertencer a outro signo!
—Você pode ter Curt a seus pés se quiser — Wyn declarou.
— Minha cara Wyn, sou uma simples mortal, e ele é um príncipe — Rae caçoou.
— Mas insisto você pode.
— Duvido Wyn. Muitas outras mulheres já tentaram. Resta-me o consolo de Curt ter parado
de me considerar uma criança.
— Ele gostou de você como criança também. Lembro-me de que a chamava de menina
"mágica na montaria". Você devia ter apenas dez anos na ocasião.
— Recordo-me. — Rae sorriu.
— Cuidado com sua madrasta — Wyn preveniu-a. — A indiferença dela esconde carvões
incandescentes. É uma mulher dura, determinada.
Scotty chegou quatro dias mais tarde, acompanhado de uma mulher encantadora. Rae, que
foi esperá-lo no aeroporto, ficou extasiada ao ver as duas criaturas fascinantes que desembarcavam,
sorrindo, de braços dados. Scotty dirigiu-se logo à irmã e abraçou-a com carinho.
—Alô, querida. Você está linda! É bom vê-la, Rae. Quero lhe apresentar Midge Cawley.

32
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Trinta segundos foram suficientes para Rae simpatizar com Midge. Midge e Scotty pareciam
realmente apaixonados.
Ela era muito alta, estatura de modelo, tinha longos cabelos escuros e lisos, olhos castanhos
e brilhantes, um rosto atraente e corpo de capa de revista. As duas mulheres apertaram-se as mãos e
trocaram beijos com espontaneidade.
—É um grande prazer conhecê-la, Rae. Scotty falou demais de você, mas não disse que era
linda. Nem mencionou essa maravilhosa cabeleira ruiva. Pensei que você fosse loura como ele, mas
não se parecem nem um pouco. Mas... que lugar lindo é este aqui.
—Midge não conhece a zona rural. — Scotty fitou-a com olhar apaixonado e acrescentou:
— Se você quiser ver uma perfeita fazenda de gado precisa visitar a de nosso vizinho Curt
Carradine. Pode-se percorrer três cidades sem sair do território dele.
—Céus! Isso é incrível!
— Você é tão elegante, Midge, que podia ser modelo — declarou Rae.
— A irmã dela é — disse Scotty com orgulho, beijando o rosto da namorada.
— Nicole mora em Nova York há dois anos já — Midge explicou. — Ela é muito linda e
quer que eu vá para lá também.
— E você pretende ir?
— Naturalmente que não, a menos que...
— A menos quê? — Rae insistiu.
—Eu ia dizer a menos que Scotty me acompanhe. Nós dois teríamos uma vida maravilhosa
em Nova York.
—Quer ir morar em Nova York, Scotty? — perguntou-lhe Rae, não conseguindo esconder
seu desaponto.
Foi Midge quem respondeu:
— Scotty fotografa como você nunca poderia imaginar. E terrivelmente sexy. Nicole acha
que ele tem grande chance de ser modelo. Nicole...
Rae não quis ouvir mais. Teve a impressão de que seu mundo virava pelo avesso.
—Está surpreendida, Rae? — Midge lhe perguntou.
—Um pouco. Somos muito felizes aqui, Midge. Mas vamos nos pôr a caminho, e seja bem-
vinda em nossa casa. Espero que goste da temporada.
— Oh, gostarei. Scotty prometeu me ensinar a montar. Não agüento de ansiedade de
conhecer a mãe dele.
Enquanto acomodavam a bagagem no jipe, Rae deu um jeito de ficar a sós com o irmão e
pediu:
— Não diga nada a Sônia sobre Nova York. Isso a mataria.
— Esconder coisas de mamãe? Detesto isso. Sabe que gosto de viajar, Rae, e tenho apenas
uma vida a viver. Terei de vivê-la à moda de minha mãe?
— Ouça, Scotty, você nunca fez sacrifícios por ninguém. Não pode dedicar à sua mãe um
ano ou dois?
— Estou aqui, não estou, Rae? Apenas detesto me sentir amarrado. Muitas coisas me
esperam longe deste lugar. Odeio responsabilidades, pressões. Um homem pode suportar isso
depois dos trinta anos. Não agora.

33
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—E o que pretende com Midge?


—Sou louco por ela.
—Desde quando? E por quanto tempo?
—Não é da sua conta, Rae.
— Talvez... — Rae sacudiu os ombros. — O que sei é que você deveria ter comunicado que
traria uma amiga. O que fez não foi cortês conosco nem com Midge.
—Ora, ora, Rae. Sabe muito bem que mamãe não quer que eu traga mulheres aqui.
Não havia nada que Rae pudesse falar. Era verdade que Sônia detestava a presença de outras
mulheres em Miriwin.
O sorriso brilhante morreu nos lábios de Sônia quando viu os ocupantes do jipe. Scotty
olhou para a irmã e sussurrou:
—Eu não disse?
—Desça logo e cumprimente-a. Desconfiada, Midge perguntou:
— Tudo está bem, não?
— Naturalmente. — Rae sorriu para animá-la. — Scotty esqueceu-se de dizer à mãe que
você viria, mas será bem recebida. Venha conhecer Sônia.
— Aquela é a mãe de Scotty? — Midge enfim perguntou, depois de se recuperar do susto.
—Sim, é Sônia — Rae respondeu.
—Mas não parece mãe. Não tinha idéia de que ela fosse tão jovem e tão cheia de glamour.
— Oh, sim, Sônia é muito bonita. Mas não tenha medo dela, é uma mulher bondosa. Deixe-
me abrir-lhe a porta do carro e vamos entrar, Scotty nos chama.
Sônia tentou ser amável, porém Scotty encontrou logo um pretexto para afastar Midge da
mãe.
— Você sabia disso, não? — Sônia perguntou à enteada, quase gritando.
— Por favor, fale mais baixo. — Rae olhou aflita para a sala de estar.
— Responda à minha pergunta, Rae.
— Por Deus, Sônia, o que há com você? Eu não sabia de nada, juro.
—O que faz essa moça aqui?
— E amiga de Scotty.
— Amiga?! — Sônia tinha um nó na garganta.
— Não faça com que a moça se sinta mal, Sônia. Ela estava ansiosa por conhecer você.
—E eu estava ansiosa por ter Scotty só para mim. Será isso pedir muito?
— Eu sei, Sônia. Sei o que Scotty significa para você.
—Como pode saber? Você não tem filhos! Sinto-me tão só, Rae.
— Mas não está! Faço tudo o que posso para lhe ajudar, e, afinal, Scotty veio para casa. Ele
te ama, Sônia, mas precisa ter uma namorada. Se você não for amável com Midge, ele irá embora.
Tem para onde ir. Papai comprou-lhe um apartamento em Brisbane, e Scotty não precisa morar
aqui.
—Essa moça não sabe como eu tenho sofrido?—perguntou Sônia. — Com certeza não tem
idéia do que é depressão.
34
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— Como pode saber ela da sua depressão, Sônia? Mas talvez tenha sofrido mais do que
você.
— Eu gostaria tanto de poder conversar com meu filho mais intimamente! Como vai ser
possível com uma estranha no meio?
—Scotty ama Midge.
—Bobagem! Ele pensará que está apaixonado uma dúzia de vezes antes de decidir se casar.
— Despreze essa menina, Sônia, e ficaremos sozinhas no Natal.
—Quem é você para me censurar? Sou muito devotada ao meu filho e ele a mim. A única
coisa que preocupa você é o que acontecerá com Miriwin. Scotty pode desistir de tudo.
—Ou não. Ser proprietário de uma fazenda de gado dá um certo status ao homem. E Scotty
gosta disso.
— Ok, mas ele não precisa ficar aqui. Há administradores, e muito bons. Curt conhece
muitos.
—Quer dizer que vocês têm discutido sobre esse assunto? — Ódio e desilusão eram
evidentes no tom de voz de Rae.
— Criatura tola! Naturalmente que discutimos! Curt e eu somos... amigos muito especiais.
Wyn e Rae prepararam às pressas o quarto de hóspedes para Midge.
—Sua madrasta está furiosa com a vinda da moça — disse a governanta.
— Scotty devia ter nos prevenido que traria Midge — comentou Rae.
—Sabe de uma coisa, eu não acredito que ele vá se casar com essa moça.
—Nem eu. Você ouviu Midge dizer que a irmã dela era modelo em Nova York?
—Dezenas de vezes — respondeu a governanta.
— Bem, Midge pensa em seguir a mesma carreira da irmã e quer que Scotty vá com ela.
—Se Scotty se transformar num modelo de figurino masculino, o pai dele vai se revolver no
túmulo.
—Sem dúvida — concordou Rae.
—E a mãe desmaiará quando souber. "
— Ficará desolada. Não acredito, contudo, que Scotty pense nisso como uma profissão. Ele
apenas quer ficar perto de Midge e se divertir em Nova York.
Apesar de todas as preocupações dos donos da casa, Midge foi uma hóspede fácil. Não que
outras pessoas a vissem durante o dia inteiro, além de Scotty. Os dois desapareciam e voltavam no
fim da tarde de tão bom humor que contagiavam todos. Exceto Sônia...
Curt convidou-os para ir no fim de semana a um torneio de pólo em Carrara. Porém Rae,
ainda abalada pela suspeita, resolveu não aceitar o convite.
No sábado de manhã Sônia ficou horas diante do espelho do hall, virando-se de um lado
para o outro.
—Você acha que eu devia aparar um pouco meus cabelos? — ela perguntou a Rae. — Vi um
corte interessante numa revista e gostei muito.
—Tenho certeza de que você ficaria bem de cabelos curtos — respondeu Rae, ganhando
como recompensa um dos raros sorrisos de Sônia para ela.
— E o que você vai fazer esta tarde?

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—Encomendar alguns implementos, peças para máquinas, combustível, coisas assim.


Scotty e Midge apareceram no hall minutos depois, ambos muito bem-dispostos, vestindo
jeans e camiseta. Rae apreciou o corpo de ambos, e concluiu que seriam de fato bons manequins
para desfiles. Ela desconfiou que Scotty tivesse falado alguma coisa a Midge sobre o caso, porque
nada mais foi dito acerca da estada em Nova York.
Rae conduziu o grupo ao aeroporto e chegaram no instante em que o avião de Curt tocava o
solo. Assim que todos se acomodaram a bordo, Curt foi direto ao assunto com Rae:
— Ouvi dizer que você não vai. Sei que gosta de competições, e esta promete ser boa.
Rae corou e respondeu:
— Estamos no meio da temporada de trabalho, lembra-se? Passo no escritório o tempo todo,
os sete dias da semana.
— Scotty não está ajudando?
— Scotty ocupa-se com Midge apenas.
—E você continua se sacrificando como sempre. Acorde, Rae.
— Não estou pedindo sua compaixão.
— Nem que a pedisse, não a teria. E não vai me contar o que a aborrece?
— Começo a me dar conta do pouco que o conheço. — Ela o fitou com olhar de ódio.
—Sinto muito ouvir isso. Algo mais foi dito a meu respeito?
— Fiquei furiosa ao saber que você e Sônia discutiram sobre a possível contratação de um
administrador para Miriwin.
—Mesmo? Pois bem, Rae, você precisa de uma vez por todas decidir se vai ou não vai
confiar em mim.
— Quer com isso dizer que não é verdade o que eu soube?
—Você quer acreditar nisso, não quer? Essas intrigas vão aumentando dia a dia e intrigas
não combinam com meu estilo de vida. Sônia trouxe o assunto a baila dias atrás e pediu minha
opinião. Dei-a, naturalmente. De forma alguma isso tem a ver com a possível venda de Miriwin. E
aceite meu conselho, Rae, pare de me insultar dessa maneira.
— E você pare de discutir sobre o futuro de Miriwin nas minhas costas.
— Sentindo-se como se sente, por que não contesta o testamento? — Curt quase gritou.
Tinha lampejos de ira no olhar. — Seu pai deixou a propriedade a Scotty. Se quiser brigar com
alguém, brigue com seu irmão.
—Obrigada pelo conselho. Brigarei.
— E, na próxima vez, pense melhor antes de me acusar por qualquer coisa Além disso, você
está tão paranóica com esse assunto que deve ter interpretado mal o que Sônia falou.
— Você parece sempre pronto a defender Sônia. Não estou mentindo nem exagerando.
— Então é possível que Sônia esteja querendo passar na sua frente. — Ele riu, uma risada
despida de humor. — Você é uma mulher adulta agora, tente descobrir. E lute.

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CAPÍTULO V
Rae passou um dia horrível, pensando na conversa que tivera com Curt. O que quisera ele
dizer com: "Sônia está querendo passar na sua frente?" Passar como? Mentindo? Para Rae, que
detestava indiretas, aquilo era incompreensível. Até Wyn a prevenira para tomar cuidado com
Sônia.
Então, por que razão resistia ela em acreditar no que Curt lhe dissera? Ele insistira em que
não tinha planos para Miriwin, que não tramara nada com Sônia. E, pensando bem, ninguém jamais
o acusara de desonestidade. Apenas ela.
À noite a família voltou para casa, e Midge trouxe dúzias de fotografias. Midge e Scotty
foram à biblioteca para conversar com ela, mas Sônia entrou na casa como um ciclone, queixando-
se de violenta dor de cabeça.
— Aconteceu alguma coisa — disse Rae ao irmão depois que Midge se retirou a fim de se
preparar para o jantar. — Posso ver em seu rosto, Scotty.
— Você acredita que mamãe está dando em cima de Curt? — Scotty perguntou
abruptamente, pasmo.
—Se estiver mesmo, posso entender. Afinal, Curt é um belo homem.
—Mas papai acabou de morrer...
— Concordo com você, Scotty, porém Sônia insiste que não pode perder tempo.
— Santo Deus! Jamais imaginei que isso fosse possível. Não que mamãe não seja atraente, é
uma mulher cheia de glamour. Mas Curt!
— Você parece bem chocado, Scotty.
— E você não? Curt pode ter a mulher que desejar, e quer filhos também. Mamãe tem quase
quarenta anos e não é lá essas coisas como mãe.
—Quarenta anos não é empecilho para uma mulher ter filhos hoje em dia.
— Ora, Rae. Andrée Haddon, linda como sempre, estava lá hoje e presenteou Curt com uma
taça. Ganhou um beijo, e que beijo! Pensei que mamãe fosse investir contra ela. Você já sabia dessa
paixão de mamãe por Curt?
— Não percebi no início. Agora sei, naturalmente.
— Não faz você se questionar se mamãe de fato amava papai?
— Isso, Scotty, está acima de meu fraco conhecimento.
Sônia não apareceu de novo à noite, e na manhã seguinte Rae foi ajudar os homens a pôr o
gado nos enormes caminhões. Ela não levou muito tempo para constatar que Matt não estava bem.
Pegou-o pelo braço e o fez sentar-se.
— Matt, descanse agora, eu insisto — disse ela.
—Sou como você, querida. Não sei parar.
—Por isso decidi nomear outro capataz para hoje. Paddy? — Rae chamou um de seus
melhores auxiliares. — Tome o lugar de Matt, por favor.
— Pois não, Srta. Rae.

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— Por onde anda seu irmão, Rae? — perguntou Matt.


—Eu gostaria de poder lhe responder. Ele e Midge saíram às sete horas da manhã, acho que
para visitar as cavernas.
— Ele parece não pensar em trabalho — comentou Matt.
— Trabalho é o grande problema para Scotty.
—E sua madrasta não interfere?
—Como é possível, Matt, se ela não o vê? Mas vamos falar de outro assunto. O cirurgião-
ortopedista vai estar no Hospital de Base durante toda a próxima semana. Isso quer dizer que
decidimos levar você para uma consulta.
— Vai ser o começo do fim, Rae.
—Não diga isso, Matt! Está tirando conclusões precipitadas. Só o médico pode dizer
exatamente o que há de errado com sua perna. E não é necessário que lhe diga que haverá sempre
um lugar para você e Wyn nesta casa.
—Isso se depender de você. Há algo que nós dois sabemos; Scotty não vai ficar. E essa
Midge! Não quererá viver aqui também. É mulher da cidade, quer se divertir.
Rae não pôde negar o que Matt afirmara.
A noite, nuvens, prenuncio de tempestade, começaram a se formar no céu, cobrindo as torres
dos castelos. Mas nem uma gota d'água caiu em Miriwin. Na manhã seguinte, souberam que um
ciclone seguia pela costa do mar de Coral e à tarde o cabo York recebia o esperado dilúvio.
Mas a zona rural aguardava ainda pelas águas. Os aborígines, interpretando o som dos
trovões como a voz do Grande Espírito, intensificavam suas cerimônias religiosas.
Alguns dias mais tarde começou a chover em uma parte das terras dos Carradine.
Mas ainda nenhuma gota do abençoado líquido em Miriwin e nos baixios de Carrara. Todos
continuavam rezando e implorando pelas chuvas.
Uma tarde Curt apareceu na fazenda. Assim que Rae o viu conversando com Sônia no
terraço entrou em pânico. Sônia ria, e sua pele de porcelana parecia mais transparente que nunca. O
amor fazia a mulher mais linda, ela pensou quase com desespero. Apenas rezava para não sofrer
humilhações.
Midge e Scotty chegaram, e todos tomaram chá juntos. Quando Curt preparou-se para sair,
Rae dirigiu-se a ele e pediu:
—Você se importa de ir comigo ver Matt? Ele está em seu chalé, repousando.
— Por que isso agora? — indagou Sônia. — Você não disse que todos se ocupavam com o
carregamento do gado?
— Já terminaram. E a perna de Matt está doendo muito. Quanto mais depressa o levarmos
ao hospital, melhor.
Momentos mais tarde, Rae e Curt saíram e atravessaram os jardins em silêncio.
— Você está muito quieta hoje — disse Curt, quando já avistavam ao longe o telhado do
chalé de Matt.
— Tento evitar problemas.
—Entendo. Você sempre cria casos.
—Ouça, Curt, sinto muito sobre o que houve no outro dia.
— Vai "sentir muito" por quanto tempo? — perguntou ele ironicamente.

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—É difícil para mim aceitar que Sônia decida tudo sem me consultar.
— Acha mais fácil me acusar de agir nas suas costas?
—Perdoe-me, Curt. Eu ofendi você, não foi?
—Sim, madame, me ofendeu, e muito. E espero por pedidos de desculpas.
— Já lhe pedi para me perdoar. Dê-me outra chance.
— Tudo bem. — Os olhos de reflexos dourados brilharam. — Mas é a última vez.
—Eu sei. — Rae sentiu a familiar excitação apoderando-se dela de novo.
Curt deve ter sentido algo também, porque sua expressão agora demonstrava uma inegável
sensualidade. E ele disse:
— Imagine ver uma Rae sem seu sorriso?! E o sorriso mais lindo que conheço.
—E por que levou tanto tempo para me dizer isso?
— Tenho de me proteger contra seus ataques. Porque uma de minhas regras é não tirar bebês
do berço.
— Mas, pelo visto, resolveu fazer isso agora. Curt pôs o dedo na ponta do nariz dela e disse:
— Quem foi que me lembrou que tinha vinte e três anos?
— Você tem apenas oito anos mais do que eu, e sabe disso, não?
— Ah, Rae, mas vivi muito mais. — Curt pegou a mão dela e perguntou: — Matt está me
esperando?
— Não, mas você pode fazer com que ele obedeça. E há algo mais que você precisa saber;
Scotty e Midge planejam ir a Nova York para trabalhar na indústria da moda.
—Como'? Como é possível?
—Sônia não sabe ainda. Pode imaginar de que jeito vai reagir?
— Tal qual um rojão. — Curt sorriu.
— A irmã de Midge é modelo em Nova York.
— Santo Deus! — exclamou Curt. — Estou começando a pensar que todos os Munro não
regulam bem da cabeça.
—Deixe-me fora disso, por favor — pediu Rae.
— Então, Scotty quer ser modelo? E acha isso justo? Com todos os problemas aqui em
Miriwin?
— Matt e eu podemos dar conta de tudo se trabalharmos com afinco.
— Matt com aquela perna?
— Não sei... — Rae começava a se irritar.
— Por Deus, seu pai deve estar amaldiçoando Scotty do lugar onde estiver.
—Com certeza estará chocado. Para papai, modelos masculinos não eram homens de
verdade.
—Confesso que gostaria que meu filho fizesse algo diferente — disse Curt num tom de voz
que tinha um quê de desespero. — Como pôde seu pai se iludir pensando que um dia Scotty se
dedicaria à fazenda?
— Perdoe-me por dizer isso, Curt, mas Sônia convenceu-o, e o orgulho paternal fez o resto.
Acho que papai não confiava em mulher para esse trabalho.
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— E agora perdoe-me você, Rae, se lhe faço essa pergunta, mas você já falou com Scotty
sobre o assunto?
— Tentei, sem muito sucesso, contudo...
— Você é branda com ele como os demais desta casa. Sendo assim, duvido que Scotty
assuma suas responsabilidades tão cedo.
— Ele conta comigo para tudo.
— E não se importa que você se mate de trabalhar.
—O que está falando, Curt, não é justo.
— Não é? Nesse caso por que ele se esconde embaixo de sua saia? Por que não conta à mãe
o que pretende fazer? É claro que ela tem o direito de saber.
—Scotty não gosta de... aborrecimentos.
— E não se perturba em ver você trabalhando tanto!
—Vamos tomar alguma providência logo, Curt. Por favor, não o julgue com severidade.
— Scotty precisa de uma boa conversa. Essa é a verdade.
— Isso vai acontecer. Mas não por iniciativa de Sônia, garanto.
— Talvez seja interessante você convocar uma reunião com seus contadores — sugeriu Curt.
— Sabe, tanto quanto eu, que as coisas não são cor-de-rosa como Sônia e Scotty imaginam.
Miriwin vai mal, Matt vai mal. Paddy é trabalhador, mas não tem condições intelectuais para ser
capataz. Com quem mais você conta?
— Com mais ninguém. Concordo. Está feliz em saber?
— Nada disso me faz feliz, Rae. Amo a terra demais para ver Miriwin sucumbir. Seu pai
tomou decisões erradas nos últimos anos, ele devia ter consultado pessoas competentes na compra
das máquinas. Procurei convencê-lo, mas não consegui.
— Eu sei. Papai apreciou sua atitude, porém era homem muito teimoso.
— Talvez a melhor solução seja mesmo vender a fazenda.
—Isso nunca!
—E se ficar impossível continuar com o empreendimento? Vejamos. Scotty vai embora,
você contrata um novo capataz. E depois? Mesmo que encontre um bom capataz, terá de trabalhar
como uma escrava. Céus, Rae, você pode se matar. Isto não é trabalho para mulher. Se não quiser
que eu fale com Scotty, diga à sua madrasta que o faça. Decisões têm de ser tomadas já; sem
dúvida.
— Juro que tomarei providências, Curt.
— Esses novos planos de Scotty mudam as coisas. Sua situação nos bancos se tornará tão
grave que você não vai conseguir controlar. Perderá Miriwin de qualquer jeito.
— Há mais coisas que eu preciso fazer, Curt? — perguntou ela com lágrimas nos olhos.
— Sim. Precisa convencer Scotty a assumir a herança. Garanto que ele nunca disse ao pai:
"Eu não quero ser fazendeiro".
—De certa maneira, Scotty tinha medo de papai.
— Percebo agora. Mas ele devia ter encontrado coragem. Rae não disse nada. Não havia
nada a dizer.
Matt ficou radiante quando viu Curt.

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— Entrem, entrem — disse. — Rae, querida, vá preparar um chá para nós.


Rae obedeceu, mas ficou de ouvidos atentos para a conversa dos dois homens.
Após discutirem sobre o preço da carne e sobre outros assuntos inerentes à fazenda, Curt
entrou no assunto da perna de Matt. Disse que o levaria ao Hospital de Base dali a dois dias, quando
o cirurgião ortopedista era esperado na cidade.
— Preciso mesmo ir. Wyn e Rae não estão me deixando em paz.
Nesse instante Rae entrava na sala com o chá.
—Obrigada, Curt, por nos ajudar.
Um pouco mais tarde, Curt e Rae voltaram para casa, já na hora do jantar que iria ser
servido na sala de banquetes, de acordo com o desejo de Sônia. Porém Scotty não se conformou em
comer à luz de velas. Apagou-as todas e acendeu os lustres. Claro, irritou a mãe.
—Quero ver o que estou comendo, mamãe.
— E por que não pode ver com as velas? — protestou Sônia.
— E tudo muito escuro. A atmosfera fica muito mais agradável com os lustres acesos. Mas é
melhor que eu vá me vestir. Curt estará aqui em alguns minutos.
Rae não tomou parte na discussão. Subiu a fim de falar com Midge. Bateu na porta do
quarto dela e entrou. Midge usava um vestido de alça, de crepe vermelho, que acentuava seu corpo
perfeito.
— Céus! — exclamou Rae. — Que vestido lindo!
—Lindo, não? Foi Nicole quem o mandou de Nova York para mim.
—Scotty ficará louco quando vir você.
—Acha que Scotty vai gostar? Ele está apreensivo com a ida a Nova York. -
—Scotty é necessário aqui, Midge — comentou Rae.
—Isso deve estar preocupando meu irmão. Ele herdou Miriwin e as responsabilidades
inerentes à herança. Scotty lhe contou isso?
—E claro que contou. Mas ele precisa assumir esse trabalho na fazenda já? Será que não tem
direito a um pouco de divertimento? Sabe, não vamos ficar em Nova York para sempre.
—E o que acontecerá se sua carreira for adiante? Como no caso de sua irmã?
— Não sou bonita como minha irmã — respondeu Midge com determinação. — Nicole tem
um corpo que eu nunca terei. Além do mais, não sou ambiciosa e gosto de comer. Porém o certo é
que não ficaremos definitivamente em Nova York; nossa ida para lá é mais um prolongamento das
férias. Scotty não está muito entusiasmado em trabalhar como modelo de roupas masculinas. Porém
disse que se conformaria com a profissão durante algum tempo só para ficar comigo.
Após uma pausa, Rae perguntou:
— Você moraria aqui na fazenda, Midge?
— Adoro a casa, é linda. Adoro esse teto alto e o tamanho dos cômodos. Nasci num sobrado
pequeno e quando conheci Scotty comparei-o a um príncipe.
— E que acha de nosso estilo de vida aqui na fazenda?
— Rae insistia no assunto. — Agüentaria o isolamento?
— Isso não sei... Sou mulher de cidade, mas acho que posso mudar. Vamos nos esquecer
disso esta noite? Estou tão contente!

41
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

Midge passou o braço em torno da cintura de Rae, e ambas desceram as escadas.


No andar debaixo, Curt e Sônia conversavam animados. Tão logo as duas entraram na sala,
ele disse:
—Estou rodeado de mulheres bonitas esta noite.
— Obrigada, Curt! — exclamou Rae. — Nossa intenção foi mesmo fascinar você.
—Então deixe-me dizer-lhes que conseguiram.
—Santo Deus, Rae, onde comprou esse vestido tão lindo? — perguntou-lhe Sônia.
— Tenho prazer em lhe dizer que comprei quando estava de férias na casa de Curt. Foi caro,
sabe?
—E vale cada libra do que pagou — declarou Curt.
—Interessante — acrescentou Sônia —, você nunca se importou muito com roupas.
— Até agora nunca tive tempo. Daqui por diante comprarei qualquer coisa que me agrade,
dentro de minhas possibilidades.
— Você está mesmo elegante, Rae — observou Midge.
—Poderia ser modelo.
— Que tal um drinque? — sugeriu Curt para acabar com o assunto da elegância de Rae, que
parecia estar irritando Sônia.
— Para mim água mineral — disse Rae.
—Eu quero um copo de vinho branco — pediu Midge. Depois ela transferiu a atenção para a
espaçosa sala e disse:
— Que linda sala, Sônia. Foi você quem fez a decoração? Pobre Midge! Pisava em terreno
perigoso.
Sônia não respondeu por alguns minutos. Depois sorriu e confessou:
— Foi a mãe de Rae. Algumas coisas não são de meu gosto, mas meu marido recusou mudá-
las.
— Eu acho tudo perfeito — declarou Midge.
O silêncio teria sido pesado não fosse pela entrada de Scotty.
—Desculpem-me, estou atrasado — disse ele.
—Tudo bem, querido. — Sônia fitou-o com carinho.
— Como adoro quando você está aqui conosco!
Dez minutos mais tarde, todos sentavam-se à mesa, na enorme sala de jantar.
—Não é isto maravilhoso?! — exclamou Midge. — Em casa comemos na cozinha. Meus
pais trabalham, e não há tempo para essas coisas.
—O que faz seu pai? — indagou Sônia. Scotty apressou-se em responder:
— O pai de Midge trabalha numa imobiliária. A mãe tem um salão de beleza.
— Que interessante! — declarou Sônia, com evidente desprezo pelas profissões dos dois.
— Minha mãe ficaria louca com seus cabelos, Rae — opinou Midge, decidindo ignorar o
esnobismo de Sônia. — Você tem os cabelos mais lindos que já vi.
O jantar foi servido. Comiam a sobremesa quando Rae olhou para as portas que conduziam
ao jardim e perguntou:
42
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—O que é esse barulho?


— Por que não vai lá fora verificar? — sugeriu Sônia, irritada por ter sido interrompida em
sua narração. — Eu não ouvi nada.
—Ouçam! —Rae ergueu a mão. — É a chuva!
—Será? — indagou Curt.
—Chuva! Vocês não podem sentir o cheiro delicioso da terra molhada? — prosseguiu Rae.
Sem pedir desculpas, ela se levantou da mesa e foi ao terraço. Curt seguiu-a.
—Grande novidade! Por isso estávamos esperando. Certo? — Sônia estava cada vez mais
irritada. Que ousadia estragarem sua recepção!
—Você nunca será plenamente feliz como dona de fazenda, mamãe — declarou Scotty
enquanto afastava a cadeira de Midge. — Espero que Rae não tenha se enganado, porque eu
também não ouvi nada.
Curt e Rae ficaram apreciando a chuva. Nada diziam, mas a alegria e a emoção uniam os
dois, tal qual uma corrente elétrica. A longa espera enfim terminava.
A temperatura caiu bruscamente. Uma grande cortina de chuva prateada avançava do
nordeste como exército em marcha.
Tremendo, Midge apoiou-se no ombro de Scotty, sussurrando:
—Eu não acredito!
E da balaustrada Rae gritava:
—Chuva! — Curt beijou-lhe os lábios.
Ignorada por todos, Sônia voltou para a sala de jantar, inconsolável.
Rae dançava agora sob a chuva, pisando nas poças d'água. Estava completamente desinibida.
O barulho vindo da residência dos empregados era ensurdecedor. E as lágrimas de Rae misturaram-
se às gotas d'água.
De repente, a chuva ficou tão forte que Midge e Scotty resolveram entrar. Mas Curt, já
molhado até os ossos, correu ao encontro de Rae e abraçou-a.
—Essa dança vai ser inesquecível para mim — disse ele. — Eu me lembrarei dela cada vez
que fechar os olhos.
Curt beijou-a de novo e, quando suas mãos tocaram os seios de Rae, ela gemeu, agora quase
sem fôlego. Entregou-se em completo abandono. Sentiu uma urgente necessidade de abraçá-lo; não
houve nada de suave naquele abraço, e sim uma violência igual à da tempestade.
— Um dia, Rae — disse Curt — vou satisfazer todas as suas necessidades. Mas agora é
impossível, os outros nos esperam.
Carregando-a, Curt subiu os poucos degraus do jardim como se ela fosse a menina de doze
anos que precisava de proteção.
Rae agarrou-se ao pescoço dele e sussurrou:
—Só espero que ninguém nos esteja vendo.
— O importante no momento, Rae, é que você troque de roupa. Pode apanhar um resfriado,
pois a mudança de temperatura foi brusca.
—Eu nunca apanho resfriados, Curt. Mas pense só numa coisa. Quando acordarmos
amanhã, cada riacho, cada canal, estará transbordando. Quem não ficaria louco numa noite destas?

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Quando Rae saiu do banho quente encontrou Sônia esperando por ela no quarto.
—Sônia! — exclamou, dando um salto. — Você me assustou. O que há de errado?
—O que pretende fazer? — disse Sônia. — Eu lhe agradeceria se não viesse com seus
estratagemas amorosos. Não há possibilidade de eu ficar observando você se atirar nos braços de
Curt Carradine, sem reagir.
— Atirar-me nos braços de Curt? Não será isso uma manifestação de despeito de sua parte?
—Como? — protestou Sônia. — Ninguém pode me acusar de ter me portado mal. Nunca me
atirei no pescoço de um homem.
—Então, estava me espionando? Não acha que há algo de doentio em você?
—Como ousou, Rae, fazer o que fez?
—Bem, se quiser mesmo saber, foi muito fácil. Mas não se preocupe, Sônia, não fiz nada de
que você possa se envergonhar.
—Mas deixa que Curt a devore. Permite que Curt toque seus seios. O que mais ele fez?
— Você precisa de um psiquiatra. E minha vida não é de sua conta. Mas, se está tão
interessada, por que não pergunta a Curt? Sabe de uma coisa, Sônia? Você está é com inveja.
—Eu, com inveja?
—Sim, com inveja. Sinto muito. Procuro entender...
—Entender? Procurar entender? Houve uma grande mudança em você desde que voltou da
casa de praia. Dormiu com Curt, não?
—E claro que dormi.
— Verdade? — Sônia caiu como uma pedra na poltrona.
— Não, não é verdade. — Rae não teve coragem de persistir na mentira. — Uma das razões
pela qual não dormi foi porque Curt não me pediu. Sabe como ele é cavalheiro.
—Mas não se portou como cavalheiro esta noite. Tive vontade de ir ao jardim e separar
vocês dois. Naturalmente, entendo o que ele vê em você. Rosto jovem. Corpo jovem. Não posso
competir com isso. Não mais agora. Dez anos atrás, a história seria diferente. É horrível envelhecer,
acredite-me, Rae. Quando uma mulher chega aos quarenta, ninguém acredita que ela seja uma
criatura ainda sexuada.
—Sônia, você é uma mulher linda! — Rae tentava consolá-la.
— Você quer dizer, para a minha idade.
— Todos nós envelhecemos, embora resistamos a essa idéia. Sônia sacudiu os ombros,
obviamente não desejando terminar com a briga tendo por assunto Curt.
—Imagine, sair da mesa daquele jeito, Rae! Dançar na chuva! Você demonstrou estar muito
excitada.
— Sem dúvida a chuva contribuiu. Durante meses esperamos por ela. O caso é que você
nunca entendeu o que isso significa. A chuva é a seiva da vida, é prosperidade, prosperidade para
Miriwin. Significa alimento aos animais, os quais, sem a chuva, morreriam de fome. Você nunca
acompanhou o sofrimento deles, não é mesmo? Nunca se aventurou chegar até o curral.
—Não tente mudar de assunto — Sônia protestou. — Não ligo a mínima para o gado, e
nunca fiz segredo do fato.
— Diga isso a Curt. Se quer conquistar a estima dele, conte-lhe que não ama o gado. Curt
vai adorar ouvi-la.

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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

— Então, deixe-me contar-lhe o que sinto por ele. Curt me excita. Meu coração acelera cada
vez que o vejo. A vida com Curt jamais será monótona, como foi com seu pai.
—Não será, mas não funcionará também. Você não deu paz a meu pai.
—Engano seu, Rae. Sua mãe foi quem não deu paz a ele. Há muitas coisas, minha cara, que
você não sabe. Quando eu tinha sua idade, achei que estava destinada a ter uma vida feliz no
casamento; mas Alexander continuou amando a primeira mulher. Ela não existia, mas movia-se por
aqui como se ainda estivesse viva. Decorou a casa quando se casou, e seu pai nunca quis mudar
nada. Então, quando fiquei mais velha, comecei a ver sua mãe através dos olhos dele. Você é linda,
Rae, e muito parecida com ela. Todos os homens a admiram, mesmo quando está com os cabelos
amarrados, sem preocupação de parecer bonita. E é duro para mim viver com uma duplicata de sua
mãe.
— Sinto muito, Sônia. Nunca enxerguei os fatos dessa maneira.
—E acha estranho que eu queira embarcar numa vida diferente? Mas não é do passado que
quero falar esta noite, e sim do presente. Ou melhor, do meu futuro. Sei que Curt não me ama agora,
mas pode vir a me amar. Por isso não quero que você se ponha em meu caminho com sua juventude
e sexualidade iniciante. Porém acredite-me, você não passa de uma distração para Curt, nada mais
que isso. Quanto a essa Midge, encontrarei um meio de afastá-la de meu filho.
Com essas palavras Sônia saiu do quarto e bateu a porta com força.
Rae ficou sozinha por alguns minutos antes de Scotty aparecer.
—Acabei de ver mamãe saindo de seu quarto como um furacão. O que houve?
— Há muito ressentimento e ódio recalcados dentro dela.
— Você me parece aborrecida. Será que um dia teremos paz nesta casa? Não admira eu não
ter vontade de voltar para cá. Duvido que agüente isto até o Natal.
—Scotty, você precisa ficar!
—Com mamãe atormentando a pobre Midge?
— Fale com Sônia sobre isso. Diga-lhe que Midge está sofrendo com os comentários dela.
— Mamãe também não é muito amável com você, Rae. É por causa de Curt?
—É.
— Porque Curt beijou você?
—Talvez. Sônia tem fantasias sobre ele.
— Perfeito, Rae! Fantasias. Estou preparado para ver mamãe casada de novo. Mas não com
Curt. Ela está procurando problemas. Oh, detesto isso!
— Scotty, está na hora de você tomar decisões. Essa viagem a Nova York continua de pé?
—Francamente, não sei. Pareceu-me uma boa idéia antes de eu voltar para casa; agora sinto
a desaprovação de papai me atormentando.
—Ele lhe deixou Miriwin. Você precisa assumir as responsabilidades.
—Você é quem devia ser o filho homem, Rae. Seu coração está preso aqui, o meu não. Você
é uma verdadeira Munro, eu sou parecido com mamãe. Talvez a melhor coisa a se fazer seja vender
Miriwin. Mamãe disse que Curt pode estar interessado na compra.
— Acho que Sônia está nos manobrando — protestou Rae. — Perguntei a Curt sobre isso e
ele negou. O que você pretende fazer?

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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—Como já lhe disse, não fui feito para a vida de fazenda. Mas como sei que isto significa
muito para você, estou preparado a cuidar de Miriwin.
— Antes ou depois de Nova York?
— Você pode agüentar um pouco mais?
— Scotty, quando os relatórios dos contadores chegarem, vamos ter muitos choques.
—Quem disse isso?
—Curt. Sabe, papai confiava nele.
—Droga!
—Precisamos de uma injeção de capital e de muito trabalho. Temos de providenciar um
novo capataz com o afastamento de Matt. Precisamos de boa direção e...
—E você espera tudo isso de mim? Você não pode exigir de mim qualidades que não
possuo. Papai cometeu um grave erro.
—Ele confiou em você e quis manter os Carradine fora de nosso território.
— Pensei que você estivesse apaixonada por Curt — disse Scotty calmamente.
— Não posso amar um homem que me ameaça constantemente. Que trama nas minhas
costas.
—Então espero, para seu bem, que mamãe esteja mentindo.

CAPÍTULO VI
As notícias sobre o estado geral de Matt não foram boas. No dia seguinte ao exame médico,
Rae alugou um avião e fez um preocupado Matt e Wyn embarcarem.
Enquanto ela ardia de ansiedade, a reação de Sônia foi bem diferente.
—Quanto você acha que vai custar esse táxi aéreo? Agora que seu pai já se foi, pensa que
pode decidir tudo sozinha? Não discutiu o assunto comigo.
—A operação é urgente, Sônia — Rae explicou com paciência. — Matt não poderia ficar
sentado num aeroporto esperando pelo vôo. Falei isso a você quatro vezes pelo menos. Lembre-se
de que Matt e Wyn trabalharam para nós durante vinte anos.
— Mas foram pagos, não? E bem pagos. — Sônia carregava uma pilha de revistas para o
sofá onde sentou-se. — Você vai pagar por esse avião alugado, não a fazenda.
— A fazenda pagará, e Scotty concordou. E, mais uma coisa, durante o tempo em que Wyn
estiver no hospital você e eu teremos de cuidar da cozinha.
— Está louca, Rae? — protestou Sônia. — Não tenho intenção de entrar numa cozinha, a
não ser para dar ordens. Fale com a sua querida Midge. Ela ficará muito bem de avental.
— Acha? E você não se incomoda de ser tão... inútil?
—De forma alguma. — Sônia sorriu. — Não sei cozinhar, mas sei de coisas que você jamais
aprenderá.
— Tudo bem.

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As chuvas continuaram, e Rae passou muito tempo andando a cavalo, supervisionando o


gado. As planícies estavam agora cobertas de grama verde e de flores silvestres de aroma suave.
Mas, embora as chuvas prosseguissem, não tinham mais a mesma intensidade. Rios e riachos,
cheios agora, proporcionavam uma vista deslumbrante.
Rae, ensopada, inebriava-se com a beleza de sua querida Miriwin, como se não fosse vê-la
nunca mais. A verdade era que poderia perdê-la; e tinha de encarar a realidade.
Ela amarrou a égua numa árvore e ajoelhou-se no túmulo de seus pais. Havia comprado
dúzias de flores e espalhou-as sobre a lápide. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Dezesseis
pessoas de sua família estavam enterradas lá, e ela iria abandonar o local para sempre.
Após meia hora, desamarrou a égua, montou, e continuou sua cavalgada. A um dado
momento, olhou para o relógio. Era mais tarde do que imaginara. Pensou no que Midge e Scotty
estariam fazendo para o jantar. Divertiam-se, por certo, enquanto cozinhavam.
Ela cavalgava à margem do riacho Marbuck quando viu uma vaca e um bezerro
emaranhados na vegetação rasteira. Apeou e aproximou-se dos animais. A vaca estava morta e o
bezerro inquieto.
— Tudo bem, querido — disse Rae. — Estou aqui para soltar você.
Solto, o animal saiu correndo e caiu no riacho. Desesperada, Rae tirou o chapéu, as botas e a
capa e atirou-se na água. Estava tão fria que ela gemeu; mas era boa nadadora e conhecia cada
meandro do riacho.
—Agüente, queridinho. Estou indo ao seu encontro — ela gritou para o bezerro.
Mas bateu com a cabeça numa pedra, e imediatamente depois tudo ficou às escuras.
Quando Curt chegou em Miriwin com um novo mecânico que contratara soube que Sônia
estava no quarto com uma de suas dores de cabeça e que Rae fora verificar se tudo ia bem com o
gado.
Scotty e Midge, na cozinha, lutavam com o processador, com o forno a gás e com o forno de
microondas.
-— Estamos fazendo ravióli para o jantar — disse Midge, sorrindo. — Tentando, ao menos.
Precisávamos dar uma folga a Rae. Ela vem cozinhando o tempo todo.
— Vou procurá-la — declarou Curt. — A chuva está piorando. Ela falou para onde ia?
—Não. Mas não se preocupe com Rae, Curt, ela é conhecedora do terreno — informou
Scotty.
—Posso levar o jipe?
— A vontade, Curt. Mas, como já disse, Rae conhece cada centímetro de Miriwin.
— Não quando há enchente.
Mais tarde, Curt não conseguia dizer por que tomara a direção do riacho Marbuck quando
Rae poderia muito bem ter ido para outro lugar. Do alto da colina, procurou pelo vulto familiar
montado na égua. A chuva caía mais forte agora e soprava uma brisa fria. Rae devia estar exausta se
passara o dia arrebanhando o gado.
Quando ele chegou perto do riacho, parou o jipe e começou a chamar por Rae.
Nada. Nada de resposta vinda de lugar algum. Onde estaria ela metida?
Deparou com a vaca morta. Depois, seguindo pela margem do riacho, viu a cabeça e o braço
de Rae. Ela estava com os olhos fechados e um fio de sangue escorria de sua testa.

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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

Curt entrou no rio e surpreendeu-se com a força das águas. Um galho de árvore atravessado
numa curva do riacho salvara Rae de ser levada pela correnteza. Curt carregou-a. Ela parecia
inconsciente e estava gelada. Só Deus sabia quanta água havia engolido.
Colocou-a deitada dentro do jipe e começou a fazer respiração boca a boca, o beijo da vida.
Rae parecia uma menina, com os lindos cabelos ruivos espalhados pelo rosto. Uma eternidade
pareceu decorrer até ela começar a vomitar água.
— Lute, Rae — Curt sussurrava. — Volte à vida, lute. Faça isso por mim.
Quando abriu os olhos, ela murmurou:
—Curt! O bezerro?
—Não se preocupe com o bezerro. Você está gelada!
—Ele envolveu-a com sua capa. — Foi um milagre eu a ter encontrado tão facilmente.
— Não me ouviu chamar seu nome? Gritei até perder as forças. Este rio hoje parecia um
mar!
Em casa, Scotty e Midge providenciaram roupas secas para Rae, e Midge encheu a banheira
de água quente; ela estava impressionada com a palidez de Rae. Curt carregou-a até o banheiro,
segurando-a no colo enquanto Midge acabava de encher a banheira.
— Você não vai me despir, vai? — disse Rae a ele em tom de brincadeira, mas, de qualquer
forma, um tanto quanto apreensiva.
— Entre na banheira, Midge vai ajudar você. Preciso fazer alguma coisa com esse seu
ferimento na testa. Alguns pontos, acho. Aprendi a fazer isso, e graças à Deus não foi na face, pois,
se assim fosse, eu não ousaria.
— Vai doer? — perguntou Midge.
— É claro que vai doer — respondeu Rae com ironia.
—Mas ele não se importa. Sem problemas, não, Curt?
— Sem problemas, mas não vou me divertir se doer. Estarei no quarto ao lado, Midge; se
precisar de mim, chame-me. Rae não é tão forte como gosta de se mostrar que é.
— Não vou desmaiar — ela insistiu.
— Não tenho muita certeza, não. — Midge fitou-a com ar preocupado. — Mas posso dar
conta da situação, Curt, sou bastante forte.
Nesse instante Sônia, vestida com um caftan de gaze azul, apareceu na porta do banheiro,
atrás de Curt. Estava abatida em conseqüência de suas dores de cabeça e tinha círculos negros em
volta dos olhos.
—O que está acontecendo por aqui? — indagou ela. Seu olhar ia de um para o outro, mas
dirigia-se especificamente a Curt.
E ele respondeu quase com rispidez:
— Rae sofreu um acidente, Sônia. Caiu no riacho para salvar um bezerro. Bateu a cabeça e
está agora com hipotermia e talvez concussão cerebral Precisa de um banho quente.
— Rae sofreu um acidente? — repetiu Sônia. — E por que precisava ela se expor tanto?
Alguém pode me responder? E que importância assim tão grande tem um bezerro? Tudo isso é um
absurdo.
— Volte para seu quarto, Sônia — pediu Curt, pondo a mão no ombro dela. — Não há nada
que você possa fazer aqui. Vá cuidar de sua enxaqueca. Está tomando algum remédio?

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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—Se ao menos algum remédio adiantasse! — Sônia encostou a cabeça no peito dele. —
Você me proporciona tanto conforto!
Discretamente Midge fechou a porta do banheiro. Depois disse a Rae:
— Céus, essa mulher é tem uma personalidade estranha! Não está nem um pouco
preocupada com você.
—Como se eu não soubesse!
— Isso porque ela se interessa por Curt. E tem receio de sua concorrência.
— Concorrência? Observe como ele é amável com Sônia. — Exausta e fraca, Rae
mergulhou o corpo todo na banheira.
—Curt apenas a trata bem, só isso. Não é a mesma coisa com você, Rae. Ele ficou
terrivelmente preocupado com seu acidente. Vamos, querida — Midge sussurrou —, deixe-me
ajudá-la. Tudo ok?
Rae acordou no meio da noite, sentindo-se doente e desorientada. Sentou-se na cama com as
mãos na testa ferida. Lembrou-se de que quase morrera no riacho Marbuck. Lembrou-se da água
que corria rapidamente, do vento forte. Lembrou-se da terrível frustração que sentira por não
conseguir manter os olhos abertos. E muito tempo depois disso... Curt. Lembrou-se do tempo que
ficara deitada no jipe, os olhos fixos nele. Teve a impressão de que os traços fortes de Curt estavam
esculpidos em granito. Apenas os olhos com reflexos dourados brilhavam, cheios de vida. Ela sabia
que Curt salvara-lhe a vida. De um modo como não saberia explicar, ele ouvira seus apelos. Tudo
aquilo era espantoso. Curt lhe proporcionava uma segurança quase divina. Apenas a presença dele
inundara seu quarto como incenso. Rae recordou-se do momento em que ele lhe dissera boa-noite.
Nem um sorriso. Ele se mantivera quieto, ocultando seus sentimentos mais íntimos. O mais
estranho de tudo aquilo era, Rae pensava, que Curt... sofria. E ela teve um choque.
A porta do quarto estava aberta, porém Rae se encontrava absolutamente só. Sabia que
alguém estivera lá, sentado na poltrona, pois o tapete no local tinha vestígios de haver sido pisado
recentemente, e o abajur da pequena mesa continuava aceso, lançando uma luz suave no quarto. Ela
concluiu que fora supervisionada durante todas as horas em que dormira pesadamente. Sentia frio,
mas as faces estavam quentes. A respiração parecia irregular. Talvez conseqüência de sua
extravagância, como a classificara Sônia. Ou, quem sabe, um resfriado?
Onde estariam os comprimidos para dor? Rae lembrou-se de tê-los visto na mesa-de-
cabeceira, na noite da véspera. Não estavam mais lá agora. Havia apenas uma jarra de água e um
copo. Ela jogou as cobertas longe e escorregou da cama, ficando de pé sem muita firmeza, contudo.
Sentia dor, como se tivesse um peso na cabeça.
Não se deu ao trabalho de vestir o robe. Quem estaria lá para vê-la? Talvez... a mesma
pessoa que a observara da poltrona... Nesse caso, essa pessoa ficaria satisfeita ao ver que ela
dormira bem. Rae foi pé ante pé até a porta. As luzes estavam acesas em ambos os lados do
corredor, uma longa galeria unindo as duas alas da casa. Muitos retratos dos Munro pendiam das
paredes; Rae mal olhou para eles, como também para a coleção de cadeiras escocesas ou para o
consolo com as duas fabulosas estátuas de bronze.
Precisava ir à cozinha, Wyn guardava alguns remédios num armário da despensa. Ela virou-
se para fechar a porta e, quando ergueu a cabeça, esperando ver um corredor vazio, escuro,
surpreendeu-se ao deparar com uma mulher saindo do quarto de hóspedes, em geral reservado para
Curt.
Por segundos, achou que ia desmaiar. Sentia-se traída. Quis gritar, quis protestar, mas nem
um gemido passou por seus lábios. Sônia, com a cabeça abaixada, deslizava pelo corredor sem olhar
para a direita ou para a esquerda, como uma fugitiva. Usava uma de suas magníficas camisolas e

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um penhoar que flutuava atrás de si como cauda de noiva. Em alguns instantes desapareceu,
entrando na suíte principal situada no fim da ala oeste.
Santo Deus! Naquele instante, os lábios de Rae moveram-se numa prece. Ela entrou no
próprio quarto, cega, apoiando-se na cômoda, com a mão no peito. Seu coração batia dolorosamente
como se estivesse recebendo uma série de golpes.
Curt e Sônia? Um sofrimento violento a atingiu. Ele satisfazia apenas um desejo
momentâneo por Sônia ou esse desejo estivera sempre oculto em seu interior? Afinal, o que sabia
ela acerca de comportamento humano? Que sabia ela de sexualidade?
De qualquer maneira, a experiência fora valiosa. Curt usara seu poder sobre ela, mas apenas
como alavanca para conseguir seus objetivos.
Rae deitou-se na cama. Levantou-se na manhã seguinte bem cedo, mas tinha aspecto tão
horrível que Curt resolveu levá-la ao hospital.
— É melhor ir do que correr o risco de pegar uma pneumonia — aconselhou Midge, muito
apreensiva. Estava acostumada a ver Rae cheia de vida, e agora a via com aparência doentia.
—Quer que a acompanhemos? — indagou Scotty.
— Não, obrigada, Scotty. Você tem muito a conversar com sua mãe.
Scotty fitou-a, surpreso. Rae jamais se referira a Sônia como "sua mãe", e fazia-o agora com
expressão próxima ao desprezo. Scotty pensou que aquilo talvez fosse conseqüência do golpe que
ela recebera na cabeça.
Como resultado, Rae ficou no hospital durante quatro dias com infecção respiratória que
atingiu ambos os pulmões. Durante as primeiras quarenta e oito horas, os antibióticos não fizeram
efeito, mas, trocada a medicação, o organismo começou a reagir. O ferimento da cabeça não foi
sério, e o médico elogiou Curt pela perfeição da sutura feita por ele.
Na véspera do dia em que Rae teve alta, Matt foi operado. A operação teve resultados
positivos, e havia esperanças de uma recuperação quase completa. Mas o médico recomendou que
ele se abstivesse de montar por alguns meses. Curt comunicou a Rae o relatório completo.
—Você não precisa me acompanhar até Miriwin — disse ela a Curt. — Posso fretar um
avião com facilidade.
— Essa sua solução não me parece vinda de uma pessoa que considero amiga, Rae. Está
irritada comigo? Por quê?
— Não estou irritada. E muito obrigada por me trazer notícias de Matt. Falarei com ele
assim que puder. Espero que você não tenha lhe contado e nem a Wyn sobre meu acidente.
— É claro que não contei. Os dois já tiveram preocupações suficientes.
— Mal posso acreditar que vou para casa de novo! — exclamou Rae.
— Você tem muita sorte em estar viva — disse Curt, pegando a mala das mãos dela.
—Obrigada por sua habilidade em agir como herói, Curt. — Rae falava com ironia. —
Houve alguma segunda intenção?
—Nunca sei como a encontrarei de um dia para o outro, Rae.
—Quem sabe eu possa dizer o mesmo de você.
—Espero descobrir o que houve no devido tempo — retrucou ele com amabilidade, decidido
a ignorar a estranha atitude de Rae. — Tudo o que você tem de fazer agora é descansar. Se estiver
pronta, vamos. Providenciei um avião para esta tarde.
Rae fitou-o, com olhar distante, e insistiu:

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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

— Eu lhe disse, para não se preocupar comigo, Curt.


—Mas o caso é que eu quis me preocupar com você!
Midge esforçou-se em preparar um excelente almoço para recebê-los, porém Curt
desculpou-se quase imediatamente após a chegada, e se foi.
Pela primeira vez, Sônia não apareceu para cumprimentá-lo, e Rae ficou contente com o
fato. Não poderia agüentar o calor e a animação da madrasta à presença de Curt, e o modo como
constantemente acariciava o braço dele. Na verdade, não sabia o que fazer para continuar um
relacionamento normal com Sônia. Sentia-se traída.
— Tudo vai bem entre você e Curt? — indagou Scotty. — Achei que estavam frios um com
o outro.
— Você confia muito em Curt — disse Rae.
— Nós confiamos. Afinal, Rae, ele salvou-lhe a vida!
— Já lhe agradeci por isso.
— Você está pálida — declarou Midge. — E nos pregou um susto daqueles. Que tal
almoçarmos?
—Ótimo — respondeu Rae com um sorriso. — Você tem uma habilidade incrível em
adivinhar os pensamentos dos outros.
Scotty beijou a namorada e concordou:
— Não é mesmo? Mas é uma maravilha ter você de volta em casa, Rae. Porém, como bem
disse Curt, não é essa fortaleza que pensa que é. Foi loucura ir atrás do bezerro.
— Eu não poderia deixar o coitadinho morrer afogado.
Curt me contou que os homens o salvaram com uma corda. Portanto, tudo acabou bem.
Sônia vai almoçar conosco?
— Talvez... Mas nunca se sabe sobre mamãe! — disse Scotty com muita displicência. — Eu
achei que ela estaria aqui para se encontrar com Curt, pois supus que ele almoçasse conosco. De
minha parte, gostaria de agradecer-lhe por tudo o que fez por nós. O famoso charme dos Carradine
não estava em atividade hoje. Acho que tem algo a ver com você, Rae.
— Imaginou errado.
— Ok. Vejo que está de mau humor. Mas quem poderia culpá-la? Até eu tenho tido
pesadelos. Curt ficou furioso comigo porque disse que estava cansado. Alguém tinha de ficar com
você parte da noite, porém ele não confiou em nenhum de nós. Ficou acordado durante horas.
—E eu? Também fiquei, não? — protestou Midge.
—Você ajudou bastante — comentou Scotty. — A maior surpresa foi mamãe acabar com a
famosa dor de cabeça. Apareceu também para ajudar. E conversou com Curt sem parar.
— Curt dormiu em seu antigo quarto? — indagou Rae, tentando soar natural.
— Dormiu. Sempre no mesmo. Temos de admitir que ele tem sido um grande amigo nosso
no decorrer dos anos. Papai achava que Curt trazia consigo a luz do sol cada vez que vinha aqui.
Naturalmente, ele pensava que você e Curt se uniriam um dia.
— Bobagem! — Rae vinha tentando se afastar de Curt havia dias já, mesmo antes do
acidente.
— Papai achava que Curt era o homem perfeito para você — insistiu Scotty.
— Ele lhe falou isso alguma vez?

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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

— Deu a entender, claro.


— Papai cometeu muitos erros.
—Bem, poderemos remediar alguns deles — Scotty disse, bem mais sério agora. — E uma
das primeiras coisas que pretendo fazer é elevar em dez por cento sua herança de Miriwin.
Rae não disse uma palavra. De cabeça baixa, ficou olhando para o prato.
—Você merece, Rae — observou Midge. — E triste constatar que não foi contemplada com
a mesma partilha de seu irmão. Em especial, considerando-se que Scotty não tem vocação para lidar
com gado.
— Papai não podia adivinhar — explicou Rae. — Você discutiu esse assunto com Sônia,
Scotty?
—Discutir o quê? — A voz suave de Sônia soou da soleira da porta. — Bem-vinda seja de
volta ao lar, Rae. Mas como está magra! Só tem olhos na cara.
— Apesar disso, continua linda, não? — disse Midge com agressividade.
—Provavelmente é a mulher um tanto avantajada de corpo quem está falando agora. —
Sônia sorriu, triunfante.
— Você jamais ousaria parar com sua dieta, concorda?
— Concordo. Tal qual como acontece com você — respondeu Midge, surpreendendo a todos
com sua resposta rude.
— E isso que está na mesa não é comida demais para quatro pessoas? — protestou Sônia
com sarcasmo. — Você deve ter assaltado a horta de Wyn, Midge. Porém, de que estavam falando
quando eu entrei?
—Planejo aumentar a parte de Rae em Miriwin — declarou Scotty abruptamente.
Sônia retesou os músculos do rosto e disse:
— Você o quê?
— Scotty quer aumentar em dez por cento minha parte — respondeu Rae pelo irmão.
— Ele não pode fazer isso! — Sônia berrou. — Não seja idiota, Scotty. Garanto que ela
batalhou para convencê-lo.
—Ela esteve no hospital estes últimos quatro dias, mamãe.
— Antes disso, então. Daí foi só esperar ansiosamente por sua volta para casa. A idéia de
contestar o testamento foi engenhosa. Curt me preveniu contra isso.
—Tudo o que Rae me perguntou, mamãe, foi o que eu pretendia fazer com Miriwin. Ela tem
direito de saber, não acha?
—E o que você pretende fazer? — indagou Sônia, num tom provocador. — Este lugar é
grande demais para sua supervisão. E você não deseja isso, concorda? Nunca quis ser fazendeiro.
—Isso não foi o que você falou a papai.
— É assim que me agradece, filho? Cuido de seus interesses e esse é o agradecimento que
recebo? Sou totalmente contra a idéia de Rae ter um quinhão maior.
— Ok, mas não depende de você, mamãe. — Pela primeira vez na vida, Scotty enfrentava a
mãe. — Afinal, Rae é a primogênita.
— Oh, essa alegação não vem ao caso. E, se você insiste em aumentar a herança de Rae,
quero que aumente a minha também.

52
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—Céus, mamãe, você não tem o bastante? E suas jóias? Os quadros? Tudo é seu. O seguro
de papai é seu. Você ficou com muito já!
—Esquece-se de que sou a viúva?
— Acho que você é quem se esquece! — Rae interferiu na conversa, rubra de raiva.
— Como ousa! — Sônia sentiu-se ultrajada, seus olhos brilhavam como brasas. — Entendo
bem o que está acontecendo, morre de inveja de mim!
— De forma alguma. Você quer por toda lei se envolver com Curt Carradine. Essa tem sido
sua meta desde a viuvez.
—Não seja ingênua, Rae. — Scotty franziu a testa. — Mamãe não está levando esse caso a
sério.
—Não? — Sônia sorriu de maneira significativa.
A conversa estava sendo demais para Midge que se levantou e disse:
— Vou me retirar. Esses são assuntos de família.
—Sente-se Midge — Scotty ordenou. — Você é importante para mim, e pode ouvir cada
palavra do que eu disser.
— Não pode! — protestou Sônia. — Há coisas sobre minha família que não quero discutir
na presença de estranhos.
— Alguma coisa tem a ver com você? — indagou Rae.
— O caso é, mamãe, que já contei tudo a Midge. Mas há alguns detalhes que ainda não
relatei a você. Midge e eu vamos para Nova York no começo do próximo ano.
—Quando exatamente? — perguntou Rae. — Sônia precisa saber, pois temos de decidir o
que acontecerá com Miriwin.
—E lá vem você outra vez com a mesma história — gritou Sônia. — Santo Deus, Rae, você
só fala em Miriwin, Miriwin, Miriwin. Terei grande prazer em me livrar disto aqui.
— E eu só penso em ir a Nova York — declarou Scotty.
— Por que Nova York? — perguntou Sônia, agora às raias do desespero. — Vai ser
assassinado na rua.
— Ah, com certeza! — caçoou Scotty. — Ora, ora, mamãe, a irmã de Midge sobreviveu até
hoje. Ela é modelo e acha que a agência para a qual trabalha pode nos contratar.
Sônia ficou chocada e ofendida.
— Você está louco, Scotty? — perguntou. — Modelos, capas de revistas. Que tipo de vida
idiota é essa?
—Idiota? — protestou Midge. — Os modelos fazem uma fortuna.
—Fale apenas quando se dirigirem a você — Sônia repreendeu-a. — Essa conversa é entre
mim e meu filho. Não quero ver a vida dele destruída.
—Tudo o que quero, mamãe, é me divertir um pouco. Quero ver o mundo! Durante toda
minha vida só recebi ordens. Faça isso, faça aquilo. Você vai ser isso, vai ser aquilo. Ninguém
nunca me perguntou o que eu queria ser. Até Rae acha que devo ficar em Miriwin porque ela adora
Miriwin. Concluí recentemente que sempre tentei agradar aos outros.
— E foi muito feliz morando aqui — Rae chamou-lhe a atenção. — Então, quer vender a
fazenda? Resolva.
Irmão e irmã se encararam.

53
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— Oh, Deus, Rae, eu gostaria de ficar para agradá-la, mas não funcionaria.
—Nesse caso, só nos resta dizer adeus a tudo pelo qual os Munro viveram e morreram?
—Que melodrama! — exclamou Sônia. — Aceite o que não pode ser mudado, Rae. Não
pode negar que Scotty é quem decide.
— Quem decidiu foi papai — emendou Rae. — Mesmo que eu contestasse o testamento, o
que me passou um dia pela cabeça, duvido que tivesse capacidade de dirigir Miriwin sozinha. E,
mesmo que resolvesse tentar a anulação do testamento, você e Scotty sempre poderiam votar em
contrário. Têm a maioria das ações.
— Ainda bem que está falando com bom senso agora. Eu quis vender esta fazenda dez anos
atrás. Poderíamos ter tido montanhas de dinheiro e muito conforto.
—E não têm dinheiro agora? — Midge perguntou, arregalando os olhos.
Ninguém respondeu. Sônia fitou o filho com olhar angustiado e suplicou:
— Quando eu mais preciso de você, você vai embora, Scotty.
—Tenho de viver minha vida!
—E precisa fazer isso do outro lado do mundo?
— Não planejamos ficar lá para sempre, Sônia — disse Midge amavelmente. — Voltaremos
um dia.
—Não quero ouvir sua opinião — Sônia resmungou.
— Por favor, mamãe, não fale com Midge desse jeito. Pensei que você tivesse mudado, mas
acho que nunca vai mudar. Um dia destes Midge e eu nos casaremos, e será um casamento feliz,
não como o seu e o de papai.
— Não dou um ano para você acabar com esse romance ridículo.
— Você deseja sempre dar a última palavra. Ok, mamãe, se Curt quiser, pode ficar com
Miriwin. Será o fim de uma longa rivalidade entre as duas famílias. Os Carradine, de qualquer
maneira, sempre conseguem o que querem.
—E eu trabalhei muito para isso — disse Sônia, esperando aplausos.
Rae ergueu a cabeça e explodiu:
— Quer dizer que você fingiu o tempo todo, não, Sônia? Alguma vez na vida falou a
verdade?
— Muitas vezes. Pense desta maneira, querida. Por ser você tão fanática pelo problema de
Miriwin, prometi a Curt que não lhe contaria nada sobre nossa... negociação. Não me sinto culpada,
de forma alguma. Vivo na realidade, Rae. Perto de mim você é uma inacreditável ingênua.
— Não é verdade o que diz! — Rae levantou-se e saiu da sala.
O Natal se aproximava. Que ironia!

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CAPÍTULO VII
Rae telefonou para Wyn bem tarde naquela mesma noite. Wyn fez muitas observações, umas
tristes, outras divertidas, e comentários inteligentes. Matt, ela disse, sentia-se como um prisioneiro
no hospital, e teria de ficar lá mais alguns dias. Precisava também de seções de fisioterapia e havia
um bom lugar para isso bem próximo ao hospital.
Assim que Rae desligou o telefone Scotty perguntou:
—Como vão eles?
— Bem. Mas... o que você quer me perguntar além disso?
— Acho que não posso agüentar mais esta casa — ele resmungou.
—Quer ir embora logo?
— Entenda, Rae. Mamãe está me atormentando tanto que, quanto mais cedo eu for, melhor.
—Sim, a situação se torna cada vez mais difícil — Rae foi forçada a concordar. — E o pior é
que ela se ressente de Midge.
— Procure uma pessoa de quem minha mãe realmente goste, sem contar Curt e as amigas de
Sidnei.
— Mesmo com essas amigas às vezes ela tem problemas. — disse Rae, e começou a sair da
sala.
Scotty foi atrás, segurando-a pelo braço.
—Ouça, Rae, se você estiver de acordo, eu e Midge voltaremos a Brisbane no Natal. Por que
não vem conosco? Garanto que se divertirá muito mais por lá.
— E deixar Sônia aqui sozinha? Vamos, vamos, Scotty, isso é impossível.
— Não pense nem por um segundo que ela precisa de você.
— Não, não penso. Qualquer laço que tenha existido entre nós duas, quebrou-se
ultimamente. Não obstante, não posso deixá-la só. Mas faça você o que quiser, Scotty.
Sônia surgiu de repente, como era seu hábito, parecendo sempre estar ouvindo atrás das
portas. E perguntou:
— Então vai fugir de novo, Scotty?
— Por sua culpa, mamãe. Detesto quando trata Midge com rudeza.
— Rudeza? Essa moça é assim tão frágil?
—Você a trata como se estivesse falando com um rinoceronte. Ela não merece isso. A mãe
de Midge me trata muito bem.
Sônia sorriu.
—Claro — disse. — Está encantada, pois a filha namora um milionário.
—Os pais de Midge não dão a mínima importância ao fato de nós termos Miriwin.
— Então por que Midge anda por esta casa com os olhos arregalados? Ao menos uma vez na
vida use a cabeça, Scotty. Aposto que ela está pasma com a grandeza de Miriwin.

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—E é perfeitamente normal, mamãe.


— Foi um erro você trazê-la aqui. Nunca mais conseguirá se livrar dela.
— Não é Midge quem me preocupa, é você. Eu tinha quase certeza de que voltar para casa
seria o começo de minha desgraça.
—É desgraça voltar para casa? Onde você pode encontrar mais atenção e amor do que no
lar?
— Às vezes o lar dá claustrofobia.
— Como você é cruel, Scotty. Sente-se, por favor, precisamos conversar.
Scotty hesitou em obedecer à mãe, porém Rae lhe fez um sinal para que cedesse. E isso
valeu a ela um sorriso de agradecimento de Sônia.
—Obrigada, Rae — disse. — Nunca pensei que um dia você fosse ficar do meu lado.
— Natal não será Natal sem Scotty — declarou Rae.
— Mas eu também não gosto que você trate Midge mal.
—Então peço desculpas.
—Desculpas? Ok — observou Scotty. — Mas o caso é que daqui a alguns dias você
começará tudo de novo.
—Perdoe-me, querido. Não sei o que acontece comigo às vezes. Mas você nunca perdoa
nada do que faço. Nenhum dos dois. Não levam em consideração que talvez eu esteja passando por
momentos difíceis em minha vida. Viúvas não têm nunca uma posição social definida no mundo.
—Você sem dúvida tem a sua — protestou Scotty, agora exasperado.
—Imagino, segundo seus comentários, que é muito desejada — retrucou Rae.
— Posso ter quase quarenta anos, mas não estou morta. Muito bem. Mas, no que se refere a
Midge, que tal começarmos tudo de novo? Quanto ao Natal, tenho a impressão de que Curt vai nos
convidar para a ceia.
— Deixe-me fora disso — pediu Rae.
— Sem dúvida, se assim se sente mais feliz — disse Sônia.
— Se Rae não vai, por que Midge e eu precisamos ir?
—Scotty indagou.
— Não faça disso um sacrifício, meu filho — insistia Sônia.
— Pensando bem, temos de reconhecer que Curt sempre dá festas suntuosas — comentou
Scotty. — Ser convidado a uma delas é grande honra.
— Vocês dois devem ir — opinou Rae.
— Por que não reconsidera sua decisão, Rae? — sugeriu Scotty.
— Não! — Rae tinha um olhar sombrio e distante.
— Então, nada feito — observou Scotty. — Não poderemos deixar você aqui sozinha.
— Talvez possamos — interferiu Sônia. — Rae ficará bem segura. Providenciaremos
alguém para lhe fazer companhia.
—Não será necessário — protestou Rae. — Ficarei muito bem só.
Sônia virou-se para o filho e fez um gesto de desespero.

56
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—Por favor — pediu —, fique conosco nos feriados, meu querido. Prometo que me
comportarei bem.
E bem ela se comportou, durante algum tempo.
O trabalho de manutenção de uma fazenda nunca tinha fim. A cerca do campo de Pingarra,
com três carreiras de arame farpado, estava arrebentada. O gado simplesmente passava ao outro
lado, sem dificuldade. Rae escalou dois homens de confiança para refazer a cerca, substituindo-a
por outra mais resistente que os animais respeitariam. Numa manhã ela foi ao local a fim de
verificar o andamento do trabalho.
Ao meio-dia, quando procurava por um recanto sossegado onde pudesse comer uns
sanduíches, um empregado seu apontou para um cavaleiro que se aproximava.
—O sr. Carradine! — o rapaz exclamou.
Rae retesou o corpo na montaria, e perguntou a ele:
—Como me achou?
—Estava por acaso escondida? — O tom de voz de Curt era normal. Perigosamente normal.
Rae dirigiu-se aos empregados e ordenou:
— Tirem uma hora para o almoço. Voltarei à tarde. Ela e Curt afastaram-se juntos do local.
— Você veio a Miriwin para uma reunião de negócios? — Rae perguntou.
— Eu preferiria chamar a isso visita social. Não tenho intenção de fazer o que está
pensando, Rae. Vim para convidá-los a ir à minha festa de Natal. Achei que seria triste vocês
ficarem aqui, no primeiro Natal depois da morte de seu pai.
—Que amável! — Rae sussurrou com ironia.
— Você parece ter perdido suas boas maneiras.
— Estou planejando não ter mais maneiras de forma nenhuma.
— Posso ver! Por que não quer passar o Natal em minha casa? Scotty me disse que eu
precisava persuadi-la.
— Além de sem boas maneiras, estou também ficando anti-social.
—Não vou discutir esse assunto. Mas ajudaria eu lhe dizer que teremos muitos convidados?
Minhas irmãs virão com marido e filhos. Você sempre se deu bem com eles.
— Uma reunião de família?
—Como sempre.
— Gosto de suas irmãs. Mas acredite-me, Curt, ficarei mais feliz em casa.
—Está feliz? Mas por que, então, essas olheiras tão escuras?
—Não dormi bem esta noite.
— Tem um aspecto horrível, como se alguém a tivesse ferido brutalmente.
— Não se preocupe, Curt. Sobreviverei.
Os olhos com reflexos dourados a queimaram com seu calor.
—Sobreviverá a quê? — ele perguntou.
— Vou ser honesta com você, Curt. Honesta! Aprecio honestidade. Scotty pensava em voltar
a Brisbane. Aí, Sônia mencionou seus planos para o jantar de Natal. Obviamente vocês discutiram o
assunto antes.

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— Está errada! Sônia deve ter adivinhado alguma coisa.


—E por que adivinhar? Os dois são amigos muito íntimos, não são?
—Sou amigo de todos vocês.
—Não meu. Bem, Sônia adora o filho, à sua moda, é verdade, e quer que ele fique para o
Natal. Scotty disse que não irá a nenhum lugar se eu não for. Portanto, considerando-se essa
alternativa, preciso aceitar seu convite.
—Que insulto violento! — exclamou Curt.
—E o melhor que posso fazer. — Ela tremia agora, e estava pronta para esporear sua
montaria.
—O que há com você, Rae? Acha que pode resolver todos os seus problemas galopando?
—Estou cansada e com fome.
—Então vamos voltar para casa.
— Não! Sinto-me melhor aqui.
— Trouxe algo para comer?
—Trouxe. Sanduíches e café.
—Espero que seja suficiente para dois. De fato, está quente demais para prosseguirmos. Que
acha daquele vale ali adiante? É um lugar quieto e tranqüilo.
Rae não encontrou meio de esquivar-se. Curt estava mesmo decidido a almoçar com ela.
Os animais foram amarrados à sombra de limoeiros, e os dois desceram para o vale. A
superfície da água refletia as árvores floridas, e o canto dos pássaros enriquecia a paz do local. A
brisa espalhava o delicioso aroma de frutos selvagens.
A maior tristeza de Rae era que tudo de bom que houvera entre ela e Curt fora destruído.
Curt Carradine parecia-lhe agora inatingível. E ela descobrira algo pior: não o queria mais.
Desejava outro tipo de homem, um homem em quem pudesse confiar, e que a respeitasse.
Espalhou sobre a grama sanduíches, café e maçãs.
— Ok, aqui está tudo, Curt. Não se trata propriamente de um banquete.
Curt encheu a caneca de café e deu-a a ela.
—Beba — disse.
—Beba você, há bastante para dois.
—Vou esperar até que você acabe. — Curt abriu o pacote de sanduíches. — Acho que
emagreceu de novo, Rae. Acertei?
— Talvez. Penso que seja porque estamos comendo o que eu faço, não mais a comida de
Wyn. Sirva-se de sanduíches, Curt.
—Daqui a pouco.
Ele mudou de posição de sorte que pudesse fitá-la bem de frente. E não tirava os olhos dela.
— Importa-se de não olhar tanto para mim? — Rae pediu.
—As vezes, quando a encaro, posso ler seus pensamentos.
— Não gostaria que lesse o que estou pensando agora.
—Tem razão! — Com um movimento rápido ele deitou-se bem perto dela, e Rae sentiu a
presença masculina como uma força vital, uma tremenda energia, aliás parte integrante de Curt.

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Mais fácil ainda de absorver era a sensualidade que emanava dele. E concluiu que uma das coisas
mais difíceis do mundo devia ser amar e desprezar um homem ao mesmo tempo. E ela carregava
esse peso. Desejo e repugnância, um em cada lado da balança equilibrada. Tudo se transformara
numa mistura de amor e ódio. Rae acabou de comer e achou impossível relaxar.
— Você está vivendo uma confusão mental, concorda? — comentou Curt.
—Estou, mas ficaria perfeitamente bem se me deixasse só. Tome seu café agora.
— Por que tanto nervosismo?
— E por que não? Você faz questão de me confundir. Curt pegou a caneca de café e colocou
nos lábios nocmesmo lugar onde Rae pusera os seus.
A brisa agora era tal qual música. Os pássaros gorjeavam acompanhando a melodia, criando
uma pequena orquestra de notas suaves. Ela precisava se afastar de Curt, se afastar daquele lugar
agradável. Era imprescindível, se quisesse manter uma separação, ainda que ilusória.
Curt puxou a fita que lhe prendia os cabelos, e uma cabeleira ruiva flutuou no ar.
— Quando você era uma meninazinha, tinha mais cachos do que a Shirley Temple.
—Quem é Shirley Temple?
— Uma menina adorável, cheia de vida. Assim era você.
—Era? Tempo passado? Ok.
— Você não tem tido uma vida feliz, Rae.
— Pensei que sim, mas porque não conhecia nada diferente. Agora posso ver quanto perdi.
—Alguém fará você recuperar esse tempo perdido, Rae. Sente-se um pouco melhor agora?
— Na verdade sinto-me... nervosa.
— Espero que não por minha causa. Estarei eu incluído em seus pensamentos tormentosos?
— Não. Mas por que continua comendo toda minha maçã?
— Está tão boa! Mas deixe-me descascar outra para você.
—Não precisa. Eu posso fazer isso.
— Mas eu quero descascar para você. Atos falam mais alto que palavras, minha menina de
olhos azuis. Algumas vezes seus olhos têm o tom do amor-perfeito; outras, da violeta. Quando você
quase se afogou, adquiriram um colorido roxo-escuro. Conheço mulheres que dariam tudo para ter
olhos iguais aos seus.
—Que bobagem.
— Se não me contar seus pensamentos, Rae, terei de adivinhá-los. Acha possível que Sônia
e Scotty estejam pensando em vender Miriwin?
A insolência dele e a duplicidade deixaram-na quase sem fôlego.
—Não se faça de tolo, Curt. Você é a última pessoa do mundo que deveria me fazer essa
pergunta.
— Algumas vezes, Rae, tenho vontade de sacudir você até seus dentes rangerem. Quando
vai acabar de me considerar um corrupto? Tenho de pôr um fim nisso. Há tanta emoção entre nós
dois!
— Emoção? Não é assim que encaro esse sentimento.
— Não? — Abruptamente Curt ergueu o corpo e abraçou-a. Seus olhos tinham um brilho
estranho.

59
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—Não me toquei — Rae disse num sussurro, louca de raiva.


— As coisas que você diz não são as que você quer dizer.
— Você é um corrupto! Um impostor.
— Devo ser um masoquista para aceitar essas ofensas. Rae quis correr, mas tropeçou numa
pedra e caiu. Seu braço sangrava, e lágrimas brotavam de seus olhos. Sentia-se envergonhada,
confusa. Lá estava ela, com a moral ultrajada e tão vulnerável às agonias do ciúme como qualquer
mulher apaixonada. Suas pernas, que fraquejaram um minuto atrás, agora pareciam de chumbo, e
ela não conseguia se levantar.
Curt ergueu-a do solo, examinou-lhe o rosto lívido e depois o braço que sangrava.
—O que, em nome de Deus, está acontecendo com você, Rae? Sou o mesmo homem de
sempre. Não sei o que fiz para magoá-la tanto!
—Sinto muito — disse ela —, mas não estou conseguindo controlar a situação.
— Pode me dizer qual é essa situação? E por que está chorando?
—Não tenho idéia. Só posso lhe dizer que tive um ano terrível.
—E acha que não sei? — Curt segurou-a junto a si. — Suas reações me assustam, Rae.
— Estarei por acaso assustando o grande Curt Carradine?
—Ignoro a razão dessa ironia. Continuo sendo eu, e procuro ser um homem honrado.
— Nesse caso, por que está me usando? Não vou mais agüentar seu comportamento. Não
mais.
—Não?
Num segundo, Curt pareceu pegar fogo. Beijou-a com fúria, punindo-a. Não houve ternura
naquele contato. O que ele lhe proporcionava agora era uma dura dominação masculina. E o que
recebeu em troco foi o violento prazer que o corpo de Rae lhe dava.
A blusa aberta dela convidou-o a acariciar-lhe os seios túrgidos. Quanta emoção! Rae
arqueou o corpo convulsivamente como se estivesse sob a ação de um choque de mil volts. Ele
beijou-lhe os mamilos, e uma excitação incrível percorreu-lhe o corpo. Rae chegou a ponto de não
mais saber quais seriam as conseqüências. E, se soubesse, tampouco se importaria com quaisquer
que fossem. Sentia-se incapaz de resistir. Seu corpo colou-se ao dele em completo abandono.
—Eu desejo você, amor — murmurou Curt. — E de tal forma que estou ficando quase
louco.
— Como pode me querer, se anda atrás de Sônia?
—O quê?
— Mulheres experientes são mais de seu gosto? Elas conhecem bem o jogo do amor.
Concorda?
— Você está passando dos limites, Rae.
—Se estou, foi você quem me forçou.
— Algumas delicadezas que fiz a Sônia deixaram você cheia de ciúme e maldade. Essa é
minha conclusão. Mas quem poderia acreditar nisso? Atitude estranha a sua!
—E sua atitude que precisa ser examinada — Rae gritou, furiosa.
— Mas não por você. — Assim dizendo, Curt montou e se foi. Não quis ouvir mais uma
palavra.

60
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

— Droga! — Rae sussurrou. No fim, ele sempre me faz sentir culpada. E Curt Carradine
sabe fazer isso com arte.
Uma inesperada paz reinava na casa. Sônia abandonara a agressividade contra Midge e, para
animar seu pessoal, sugerira que se fizesse uma árvore de Natal. Scotty e Midge divertiam-se em
decorá-la com enfeites os mais variados, guardados no sótão havia anos.
—Que linda! — exclamou Sônia, entrando na sala. — É uma delícia ter você aqui, Scotty.
— Depois, dirigiu-se a Rae: — Venha comigo, tenho algo a lhe mostrar.
Rae seguiu-a até o sótão. Embora o sol entrasse pelas janelas, a claridade lá era sempre
estranhamente obscurecida. Quando crianças, ela e Scotty tinham horror de ir àquele cômodo da
casa.
Havia no sótão móveis velhos cobertos com lençóis, espelhos, colunas de madeira e uma
centena de coisas agora fora de moda ou objetos de cuja existência a família se esquecera.
—Juro que este lugar é assombrado — disse Rae.
— Devo confessar que penso o mesmo. Mas quero lhe mostrar uma coisa.
—O quê?

— Não pode adivinhar? Seja uma boa menina e pegue aquilo. — Sônia apontou para um
pacote escondido atrás de um biombo oriental. — Não quero me encher de poeira.
— Espero que não haja nenhuma aranha por lá.
— O objeto pertence a você, por isso seja valente e pegue-o. Rae estendeu a mão e tocou em
alguma coisa que adivinhou logo o que era.
— Vamos, abra — ordenou Sônia. — É seu presente de Natal.
—É o retrato de minha mãe, não é? Você disse que não sabia onde estava.
— Perdoe-me, querida. Tive minhas razões. Seu pai... Velhas lembranças... Não espero que
você entenda, apenas espero fazê-la muito feliz.
— Vou levar lá para baixo.
— Abra-o aqui — insistiu Sônia. — Não quer que Midge faça um escândalo com isso, quer?
Use esta mesa.
Bem devagar, com cuidado, Rae começou a desembrulhar o pacote. Viu então o retrato de
uma jovem mulher vestida de azul, sentada numa poltrona estilo Luís XV, que continuava na sala
até hoje. O brocado amarelo do estofamento realçava o azul do vestido. As mãos dela eram lindas.
Num dos dedos estava um magnífico anel de safira e diamantes. De cabelos ruivos, poderia passar
por irmã gêmea de Rae, exceto pela expressão do olhar, bem mais suave na mãe do que na filha.
—Ela é linda! — exclamou Rae. — Mas... onde foi parar a moldura?
—Eu tirei-a — Sônia confessou. — Mas não faz mal, mandarei colocar outra. Não me
orgulho de algumas coisas que fiz no passado, mas quis lhe dar um presente neste Natal.
— E deu, Sônia. Isto significa tanto para mim! Tenho tão poucas coisas de minha mãe!
—Mas há um pedido que quero lhe fazer, Rae. Não vá à festa de Natal na casa de Curt.
Rae não tinha intenção de ir. Contudo, mesmo assim, perguntou:
—Por quê?
—Estranho como isso possa ser, mas ambas competimos pelo mesmo homem.

61
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—E o que a faz pensar que ganhará essa guerra?


— Querida, estou bem mais adiantada em... certos pontos! Imediatamente uma velha cena
atravessou a mente de Rae.
—Você foi ao quarto dele?
—Tudo é permitido no amor e na guerra, querida. Achei que você havia me apanhado em
flagrante. Acertei?
—Eu não tencionava fazer isso, Sônia. Ia descer a fim de pegar um remédio para minha dor
de cabeça.
— Sinto muito, Rae, mas Curt me atraiu desde o início. Você me vê como madrasta e viúva
de seu pai. Curt me vê como uma mulher desejável. Acho que não é amor o que ele sente. Mas, seja
o que for, é bastante. Segurança para mim. Miriwin para ele. Um casamento de conveniência, se
você assim preferir.
Na manhã do dia de Natal, Rae comunicou a todos que não iria à casa de Curt. Disse que
não estava bem. Sentia dor de cabeça e de estômago.
—Talvez tenha sido o champanhe de ontem à noite — observou Midge. — Pode ser esse o
problema, não acha, Scotty?
— Não havia nada de errado com o champanhe. E é bem raro você ficar doente, Rae —
comentou Scotty.
—Naturalmente que não planejei isso. Mas não se preocupem comigo.
—Eu estava contando com um dia maravilhoso — queixou-se Scotty.
— E terá — disse Rae.
— Nem a todos fazem bem refeições tardias — comentou Midge. — Tortas de chocolate são
indigestas. Se Rae não está se sentindo bem, é melhor que não vá.
Sônia desceu para se unir ao grupo. Usava um lindo vestido de organza cor-de-rosa que Rae
nunca vira antes.
— Você vai se sentir melhor em casa, querida — disse à enteada amavelmente, já saindo da
casa. — Acredite-me.
— Tem certeza de que ficará bem? — Scotty indagou mais uma vez antes de sair.
— Não se preocupe comigo, Scotty. Além do mais, não quero estar por perto quando Sônia
iniciar as negociações da venda do lugar onde nascemos.
— Deixarei que minha mãe faça tudo. — Scotty corou. — Ela é melhor em negócios do que
eu e você juntos. Mas deixe-me ir, Rae, não posso deixar mamãe esperando. Ela se irrita facilmente.
No quarto, Rae ficou olhando para o retrato da mãe.
Para qualquer lugar que fosse no quarto, junto às portas que davam para o terraço, perto da
lareira, da cama, os olhos azuis a acompanhavam. Era um enorme consolo para ela. Acreditava que
seria difícil se esquecer de uma criatura tão carismática. E era fácil entender por que Sônia se
ressentia tanto de sua mãe.
Com o objetivo de manter sua moral elevada, Rae preparou-se como que para uma festa. Pôs
seu mais lindo vestido, penteou os cabelos prendendo-os na nuca, maquiou o rosto. Não queria
passar um Natal triste. Agora, mais do que nunca, precisava ter pensamentos positivos. Ficar
sozinha no mundo não era novidade para ela. Afinal, sempre estivera só. Cada vez mais se
convencia de que ninguém deveria começar a vida sem mãe.

62
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

Ela estava na cozinha preparando sua pequena ceia quando ouviu um ruído estranho. Lavou
as mãos e correu para o terraço.
O helicóptero amarelo, de propriedade da Fazenda Carrara, preparava-se para aterrissar nos
jardins. Rae ficou atônita e entrou. Alguém fora ver o que havia por lá. E ela poderia parecer, tudo
menos doente. Mas, quem seria?
Curt. Quem mais?
Ele subiu os poucos degraus do terraço, entrou e examinou-a da cabeça aos pés.
— Isso é o que eu chamaria de recuperação rápida — falou, com ironia. — Midge quis me
convencer a trazer um médico, Mas eu conheço você muito bem.
—Tenho certeza de que não me conhece.
— Não? Arrumou uma mesa tão bonita! — Curt exclamou. Um buquê de lírios amarelos
parecia sorrir no vaso de porcelana. Toalha rendada, cristais, prata, tudo fora usado naquele dia.
Enfim, era Natal. Ela também merecia um pouco de luxo, um pouco de prazer.
— Ouça — disse Rae —, sinto muito não ter tido chance de me desculpar pessoalmente,
mas não quis perturbar seu Natal. Porém, uma vez aqui, aceita um xerez? Quer um pedaço de bolo
de frutas?
— Você planejou tudo, não?
—Sobre o quê? — Ela esforçava-se para não chorar.
— A dor de cabeça. A dor de estômago. Não há nada de errado com você. Parece-me em
excelente estado de saúde.
—Sarei milagrosamente depois que eles saíram.
—E tão importante assim, para você, me insultar? — Os olhos de reflexos dourados
cintilavam como chamas.
— Tempos atrás, Curt, eu teria tido grande prazer em passar um dia com você. Mas as coisas
mudaram...
—Mudaram como?
— Não quero falar sobre isso.
— Tem de ter algo a ver com Sônia.
—Está chegando perto.
— Acha que ela quer se aproximar de mim para falar sobre Miriwin?
—E você não sabe?
— Rae, já lhe falei acerca disso dúzias de vezes. Agora cansei. Francamente, não tenho
certeza de que sua mente esteja funcionando bem nesse particular.
— E a sua, está? Você conquistou Sônia para conseguir sua meta. Claro, Sônia não é tão
atraente quanto Miriwin. E estou...
Curt agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a.
— Você está é louca!
—Eu a vi saindo de seu quarto.
— Agora percebo que está louca mesmo.
— Na noite antes de minha ida ao hospital, eu estava com uma terrível dor de cabeça. Decidi
descer a fim de apanhar um comprimido na despensa e...

63
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—Pode ir direto ao assunto, Rae?


— Vi Sônia saindo do seu quarto de camisola e penhoar.
— Que interessante! — disse ele com sarcasmo. — E o que eu estava usando?
— Não vi você.
— Mas é claro que eu estava lá. Não acha?
—Eram quatro horas da madrugada.
—E não lhe ocorreu, Rae, que eu talvez ainda não houvesse ido para a cama?
— Achei que havia ido.
—E achou também que Sônia fora atrás de mim?
— Achei, e não para conversar apenas.
— Isso é obsceno, Rae! — Ele encaminhou-se para a porta.
—O que você queria que eu pensasse, Curt?
—Que eu era um homem íntegro — ele gritou. — Que não ia atrás das viúvas de meus
amigos para seduzi-las. E na própria casa delas.
Rae deu um suspiro.
—Quer dizer que você não estava lá?
—Não disse nada. Vou-me embora.
—Fiquei chocada! Entende, não?
— Você sofre de paranóia. E é hipócrita também. Pensando o que pensa de mim, devia
desprezar-me. Porém, ao contrário, permitiu que a beijasse, e mais de uma vez.
—E acha que não me senti mal depois que vi Sônia saindo de seu quarto? Eu adorava você,
Curt.
— Não quero adoração, Rae. Quero respeito.
Curt entrou no helicóptero. Mais tarde, Rae ceou sozinha, não sentindo o sabor dos
alimentos em seu Natal solitário.

CAPÍTULO VIII
A família chegou em casa bem tarde da noite. — Que festa maravilhosa! — Midge disse a
Rae. — A única nota triste foi você não estar lá. Carrara é linda, a casa um verdadeiro palácio. E
Curt, um príncipe. — Ela sentou-se numa poltrona, exausta.
Sônia subiu imediatamente, quieta e pálida. Mas alguns minutos mais tarde desceu e
perguntou a Rae:
— Você esteve em meu quarto?
— Nunca vou ao seu quarto, Sônia, a menos que você me peça.
—E que sumiu uma coisa de minha penteadeira.
—O quê, mamãe? — indagou Scotty.

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— Meu anel de topázio e diamantes. Usei-o na noite em que Curt jantou aqui, lembram-se?
— Você o pôs em algum lugar, Sônia — disse Rae. — Quer que eu vá ajudá-la a procurar?
—Adoro aquele anel — comentou Sônia. — Sofreria muito se o perdesse.
As duas mulheres subiram, e a primeira coisa que Rae fez foi sacudir o babado de renda da
penteadeira.
—Já procurei aí — declarou Sônia.
—Talvez esteja em seu porta-jóias.
— Olhe lá se quiser. Deixei-o em cima de minha cama. Detesto perder coisas, em especial
coisas valiosas.
— Seu anel não pode estar perdido, Sônia. Afinal, não há estranhos na casa.
—Exceto Midge.
—Deixe Midge fora disso! — Rae pediu, enquanto apreciava as jóias de Sônia no porta-
jóias: colares de pérolas, brincos, anéis, broches, enfim, o suficiente para encorajar qualquer ladrão.
— Céus, não sabia que você tinha tanto! Ponha isso de volta no cofre do qual só você conhece o
segredo.
— Mas o anel estava na penteadeira, eu sei — afirmou Sônia. — Não gosto de falar isso,
Rae, mas Midge é muito... gananciosa. Fiquei sem jeito por causa do modo como se encantava e
embasbacava com as coisas de Carrara. Será que ela pensou que aqui nós morássemos em barracos?
— Não foi Midge, Sônia — Rae observou calmamente. —r Ela pode ter espiado em meu
quarto. Talvez não com intenção de roubar, mas, vendo o anel...
—Oh, Sônia, esqueça isso.
— Sinto muito, querida, mas não posso. Lembra-se de como Júlia Radford roubou sua
raquete de tênis.
— Midge é hóspede aqui, Sônia, e perfeitamente confiável.
—Como podemos saber? Ela é quase uma estranha. Você não sabe nada sobre Midge.
Sugiro que revistemos o quarto dela.
—Não posso fazer tal coisa, Sônia. É impossível para mim.
— E o que você quer que eu faça? Prefiro isso a descer e perguntar diretamente a ela. Você
pode não me acompanhar se não quiser. É meu anel, afinal de contas, não seu.
A porta do quarto de hóspede ocupado por Midge estava aberta. Sônia entrou, acompanhada
por uma relutante Rae.
— Menina desordeira — murmurou Sônia assim que entrou. A desordem de Midge consistia
apenas num vestido sobre a cadeira e num par de chinelos embaixo da cama. — Não é o tipo de
mulher que alguém gostaria de ter como nora. — Sônia examinou com cuidado a penteadeira e as
gavetas, mas não encontrou nada. Pareceu terrivelmente desapontada.
—Exatamente como eu disse — comentou Rae. — Vamos. O que acabamos de fazer é
invasão de domicílio.
—Quero examinar o banheiro — sugeriu Sônia. — Depressa! Prefiro que Midge não seja
culpada, Rae. Não pretendo magoar meu Scotty.
Ela parecia sincera, por isso Rae concordou. Mas não tocou em nada, achava aquilo errado.
Já estavam saindo quando Sônia pôs a mão num frasco de sais de banho e exclamou:

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— Há algo aqui. A menos que eu esteja muito errada... O que disse a você? — Sônia
colocou o anel no dedo. — Como sabemos pouco acerca das pessoas!
— Oh, Deus! — sussurrou Rae. — Não poderia acreditar que uma coisa dessas acontecesse
em casa.
— Você é terrivelmente confiante, Rae. Eu conheço a natureza humana. Desça comigo para
confrontarmos Midge. Ela terá oportunidade de se explicar.
Com relutância, Rae seguiu a madrasta. Ficou um pouco afastada enquanto Sônia informava
Midge sobre sua descoberta. Midge permaneceu muda, fitando Sônia, estarrecida.
— O que está acontecendo, mamãe? — indagou Scotty, levantando-se e indo para o lado da
namorada.
— Querido, isso não me alegra em nada — disse Sônia ao filho. — Sua própria irmã
descobriu o anel.
—Como? — Scotty olhou para Rae. — Você revistou o quarto de Midge como se ela fosse...
uma ladra?
— Foi Sônia quem encontrou o anel e revistou o quarto, não eu. Apenas acompanhei-a —
Rae defendeu-se.
—Não culpe ninguém, Scotty — declarou Sônia. — Midge é uma ladra comum. Há muitas
mulheres jovens que roubam o tempo todo. É um vício, sabe?
Scotty então suplicou a Midge:
— Não fique aí sentada sem falar nada. Você não tocou nesse anel, tocou?
— Acho que vou vomitar — gemeu Midge. — Sinto-me mal... muito mal...
—Não aqui no tapete! — berrou Sônia.
— Midge, por favor. — Rae foi para perto dela e levou-a ao banheiro. Deu-lhe uma toalha e
sussurrou: — Sinto muito, Midge.
—Sente? — Ela afastou-se de Rae e saiu correndo para seu quarto.
Voltando à sala, Rae disse ao irmão:
— Suba, Scotty. Veja o que pode fazer. Você aceitou muito facilmente que ela roubara o
anel.
—Quem poderia ter sido então? — Scotty protestou.
—Você? Eu? Mamãe? Midge nem uma vez negou que roubara o anel!
—Ela não é a primeira jovem a ceder à tentação do roubo, e nem será a última — interferiu
Sônia. — Não farei nada sobre o caso, Scotty. Diga a Midge que já estou contente por ter meu anel
de volta.
— Por Deus, Rae — insistiu Scotty. — Eu pedi a ela que se explicasse, mas Midge não
conseguiu dizer uma única palavra.
—Ela está em estado de choque. Sinto muito pelo que aconteceu — foi a única coisa que
Rae acrescentou.
— Não me considere a vilã da história, Rae — pediu Sônia.
— Você devia ter guardado melhor suas jóias, mamãe
—Scotty falou com voz de censura. — Provavelmente Midge nunca viu nada tão valioso
antes.

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— Você confia tão pouco assim nela? — indagou Rae ao irmão.


—E você, o que sabe sobre confiança? — perguntou Scotty com segunda intenção. — Por
que não conversa com Curt acerca desse assunto? De confiança?
— Vá ter com ela, Scotty — pediu Rae. — As coisas nem sempre são como se apresentam à
primeira vista.
Scotty subiu as escadas correndo. Minutos depois apareceu na balaustrada.
—Ela trancou a porta e não quer me deixar entrar.
—Que mulher esquisita! — exclamou Sônia.
— Talvez tenha desmaiado — prosseguiu Scotty.
— Não seja tolo, filho. Ela está é escondendo a cabeça de vergonha.
— Talvez não seja a única desta casa que deva esconder a cabeça de vergonha. — Rae
explodiu, encarando a madrasta com desprezo.
Rae estava desolada por causa de Midge que passara a noite chorando. Como Midge tinha
muita confiança em Curt, Rae achou que ele seria a única pessoa a servir de intermediário no caso.
Porém, depois dos incidentes da véspera, preferia não telefonar para ele. Mas, como Scotty
estivesse à beira de um colapso nervoso, viu-se obrigada a tomar a iniciativa.
Curt mesmo atendeu. Ficou surpreso com a coragem de Rae em telefonar-lhe.
—Eu não pediria nada para mim, Curt — disse ela após explicar brevemente o que se
passava. — O problema é com Midge.
— Sem dúvida trancar-se no quarto é atitude infantil, não acha? — Ele falava como se Rae
estivesse fazendo uma tempestade num copo d'água.
— Por favor, Curt. Não posso explicar tudo por telefone, mas a coisa é séria. Eu... nós
precisamos de você.
Houve um longo silêncio.
— Tem certeza disso, Rae?
— Absoluta!
— Vou então.
Quando ele chegou, Sônia apareceu no topo da escada e desculpou-se, com voz carinhosa:
— Sinto muito envolver você nisso, Curt. Mas o caso não é de minha conta. Vou me retirar
para o quarto pois não posso ter mais choques.
— Mas o que houve, afinal? — Curt perguntou a Rae tão logo Sônia se retirou. — Midge e
Scotty tiveram uma briga de namorados?
—Não foi uma briga. — Rae suspirou. Enquanto subiam as escadas, ela lhe contou tudo o
que se passara.
Scotty estava sentado numa cadeira na porta do quarto. Ele deu um salto quando viu Curt.
—Obrigado por ter vindo, Curt — disse. — Estamos tendo problemas com Midge. Ela... ela
disse que nos odeia.
— Pelo visto, acho que sim — respondeu Curt. E, batendo na porta do quarto, pediu: —
Midge, posso entrar? Sou eu, Curt.
Midge abriu a porta.
—Graças a Deus que você veio! — ela exclamou. — Quero sair daqui imediatamente, Curt.

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Curt ficou lá mais ou menos quinze minutos. Quando saiu, irmão e irmã o fitaram, ansiosos.
— Descobriu alguma coisa? — indagou Scotty.
—Descobri. Ela está arrasada. Especialmente por sua causa, Scotty. Midge alega que não
tem nada a ver com o roubo do anel. E acredito nela. Disse que não se defendeu como deveria ter
feito por ficar chocada e ferida com sua atitude. Não estava preparada para ouvir você duvidar dela
—Mas, Curt! Não havia mais ninguém nesta casa
—Scotty exclamou.
—Tem certeza disso? Ninguém suspeito? Só sei que o incidente separou vocês dois
irremediavelmente, e ela quer ir embora daqui comigo. Está sofrendo muito e necessita do
aconchego de sua família. Não, Scotty, não entre. Midge não quer ver você no momento. Talvez
com o tempo ela encare as coisas diferentemente.
—Midge não vai ficar, então? — Scotty perguntou.
— E você ficaria, meu irmão, se alguém o tivesse chamado de ladrão? — perguntou Rae.
— Mas eu não a chamei de ladra! — Scotty protestou.
— Apenas lhe perguntei se havia tocado no maldito anel.
— Midge não viu as coisas dessa maneira, Scotty. Bem, tenho visitas em casa e preciso
voltar. Rae — Curt disse, fitando-a com olhos brilhantes —, sugiro que a ajude a fazer as malas.
Rae entrou no quarto e viu Midge deitada na cama, quieta e com aspecto calmo.
—Por que ele fez isso comigo? — ela perguntou a Rae. — Não sabia que Scotty me odiava
tanto.
— Ele não a odeia. — Rae tomou-lhe a mão. — Como pode alguém odiar você? Sônia é
uma mulher muito possessiva e está passando por maus momentos. Não quer ceder Scotty para
mulher alguma. Perdoe minha parte nessa busca do anel, Midge. Fiz contra minha vontade.
—Caso contrário, ela maltrataria você, eu sei.
— Mas daqui por diante, não mais. Isso acabou. Não seja tão dura com Scotty. A culpa de
tudo é de Sônia, ela o mimou demais.
—Eu nunca o perdoarei — jurou Midge.
Enquanto Rae descia as escadas na companhia de Midge, Scotty tentou uma reconciliação.
Mas Midge tratou-o com a mais completa indiferença. Sônia continuava trancada no quarto; não
apareceu. Foi Rae quem conduziu Midge no jipe ao aeroporto, onde Curt se encontraria com ela em
um de seus pequenos aviões.
No último instante, já a caminho, Midge rompeu em pranto.
—Por que eu não a enfrentei, Rae? Por quê?
—Podemos voltar se você quiser — ofereceu-se Rae.
— Não sei se conseguirei enfrentá-la. Mas... como foi possível a uma lady agir daquela
maneira?
—Ela pode ser minha madrasta, Midge, mas não é uma lady.
— Porém é esperta, sem dúvida. Sabe torcer as coisas.
—Não estrague sua vida por causa de Sônia. Você sabe que não tem culpa de nada.

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—Exceto de tentar roubar o filho dela. Céus, eu já havia ouvido falar de mães assim. —
Midge beijou-a. — Cuide-se, Rae. Sua madrasta é perigosa. E tem grande inclinação por Curt.
Cuidado!
—Boa sorte, Midge.
—Para você também.
Curt acabava de chegar ao aeroporto. Dirigiu-se a Rae e disse:
—Mais uma das lições que a vida nos dá.
—Se eu pudesse ajudar Midge melhor do que fiz... Um sorriso irônico esboçou nos lábios de
Curt.
— Scotty ainda precisa crescer muito — disse ele. — E você também.
Sônia ficou no próprio quarto até a hora do almoço quando saiu para tomar uma xícara de
chá. Rae esperava-a.
— Preciso falar com você, Sônia, se não se importar.
—Não é por causa daquela maldita mulher, é? Já tive o suficiente dela, Rae!
—Sinto muito, mas Midge afirma que é inocente. E eu acredito nela. Curt também acredita.
— Vamos, vamos, Rae. Seria embaraçoso para Curt falar o contrário. E acho que jamais
posso perdoar você por havê-lo envolvido nisso. Era um assunto de família e nos expôs ao ridículo.
— Foi terrível o que fez a Midge, Sônia. Uma mulher mais experiente que ela lhe teria dado
uma boa lição.
— Como ousa me falar assim, Rae? — A face de Sônia refletia ressentimento e ódio.
—Foi você quem colocou o anel naquele lugar, não foi? Planejou tudo, não é verdade?
— Querida, eu lhe disse desde o início que Midge não era mulher para meu filho. Ela
precisava sair desta casa. Eu lhe teria dado de presente o anel de bom grado, com a condição de ela
deixar Scotty em paz. Em resumo, de uma maneira ou de outra, consegui. É isso tão horrível?
—Quantas planos como esse ainda tem em mente?
—E você acha que Midge não fez algo semelhante antes? Acha que ela nunca roubou?
— Mais uma mentira, Sônia?
— Pergunte a Scotty. Ele mesmo me contou. Parece que Midge tem o hábito de roubar
pequenas coisas. Talvez uma echarpe cara, um vestido, uma bolsa. Coisas assim. Objetos que ela
pede emprestado e nunca devolve. Muita gente faz isso com livros.
— Mesmo que seja verdade, Sônia, o que não acredito, não é o mesmo que roubar um anel
valioso.
—Essa é sua opinião, querida. Para mim, roubar é roubar.
— Vou perguntar a Scotty.
— Faça-o. Scotty sabe que sua mãe nunca mente. Será minha palavra contra a palavra de
uma estranha, Rae. Mas vejo que prefere aceitar a dela.
— Você me disse que queria se livrar de Midge.
— E me livrei!
— Você é boa para escrever histórias de ficção, Sônia. Não engulo nada do que me falou.
— Pense como quiser, querida. Tem ainda muito a aprender da vida. Midge a estas horas
está provavelmente rindo de nós. Eu estava certa a respeito dela o tempo todo.
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INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—Por que Midge havia de querer um anel, Sônia, quando podia ter Scotty?
—Não era muito garantido ela ter Scotty. Mas por que estou eu perdendo meu tempo nessa
conversa? E sei o que você vai fazer agora, Rae. Tenciona me desacreditar aos olhos de Curt.
— Sem dúvida. E mais uma coisa, ele nunca foi seu amante.
—Querida, isso jamais você vai saber com certeza. Mas... antes que me esqueça, as
negociações sobre a venda continuam em pé. Fiz uma oferta que Curt achou irrecusável. O avô dele
deve estar sorrindo de prazer, onde quer que se encontre.
— Imagino que papai não esteja fazendo o mesmo, mas de certa maneira, a decisão foi dele.
Papai nos vendeu.
—Concordo. Acho que vou partir daqui a dois dias. Os Radford convidaram-me para passar
uns tempos com eles, e levarei Scotty comigo. Não faça essa cara, Rae. Não podemos retornar ao
passado, Miriwin está perdida para você. Isso me alegra muito, pois não desejo que Scotty tenha a
mesma vida dura do pai.
— Não, você só quer o dinheiro. Scotty também. Você nunca se sentiu uma Munro.
— Não, apenas aconteceu de me casar com um Munro. Scotty, como eu, não tem a
mentalidade dos Munro.
Rae levantou-se e saiu da sala.
Os fatos se sucediam rapidamente, como se o incidente com Midge fosse o agente
incentivador dos atos futuros. Ambos, Sônia e Scotty insistiam em que Midge havia mesmo roubado
o anel. E ambos achavam que vender Miriwin para Curt era a melhor solução.
Quanto a Rae, jamais acreditaria que Midge pudesse ser culpada.
Na manhã seguinte, Sônia e Scotty partiram para Sidnei.
—Perdoe-me, Rae — disse ele antes de sair. — Eu estava preparado para ficar, mas mamãe
me convenceu de que minha vida não era aqui.
— Espero que nunca se arrependa disso, meu irmão. Um dia, se você tiver filhos, um deles
poderá ser um Munro com o amor pela terra nas veias.
— Acredito.
—E não se esqueça do velho ditado, o dinheiro vai, a terra fica.
—E acha que mamãe permitirá que o dinheiro vá embora? E, afinal, o que é dela será meu
um dia. E não se esqueça de mim, Rae. Você é minha irmã querida e admiro muito sua tenacidade.
—Obrigada, Scotty.
— Eu gostaria que fosse para Sidnei conosco. Mamãe disse que a receberia de braços
abertos. De qualquer modo, nada nos separará. Sempre serei seu irmão mais moço, e você é tudo
para mim.
Palavras, Scotty, Rae pensou, mas ficou nas pontas dos pés para beijar-lhe a face.
No Ano-Novo, Wyn e Matt voltaram para casa e deram grande apoio moral a Rae. Alguns
dias mais tarde, Rae recebeu o relatório da contabilidade da fazenda e sacudiu a cabeça. As dívidas
eram astronômicas.
Ela começou então a fazer planos mais definidos para o futuro. Compraria uma pequena
fazenda destinada ao cultivo de árvores frutíferas e levaria Matt e Wyn consigo. Não sentia
disposição para viver em cidades. Mas teria de aprender muito sobre agricultura, sem dúvida,
Nunca mais vira Curt. Um de seus empregados comentou que ele viajara para Melbourne.

70
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

Um dia Scotty telefonou, preocupado, achando que Curt desistira da compra.


—Você acha possível ele ter abandonado a idéia de adquirir nossa fazenda? — ele perguntou
à irmã, bastante apreensivo.
— Tudo é possível — respondeu Rae.
As chuvas continuavam. Todas as tardes, temporais com raios e trovões eram precedidos por
nuvens enormes no céu, formando castelos e outras figuras fantasiosas que se assemelhavam a
velhos galeões com suas velas enfunadas. As planícies estavam cobertas de flores silvestres.
Uma tarde, Rae decidiu ir nadar num lago formado pelas chuvas abundantes. O local era
silencioso, com exceção do canto harmonioso dos pássaros. Com o tempo e ao término da estação
chuvosa, as águas secariam; mas, por enquanto, aquilo era um paraíso com os lírios em flor no meio
dos verdes juncos e das trepadeiras que subiam pelas frestas dos rochedos. Como poderia ela
agüentar deixar tudo aquilo?
Por ser o local isolado, Rae não levou maio. O gado e os trabalhadores jamais iriam lá. A
maioria destes, ao saber que Miriwin estava à venda, abandonara a fazenda.
Rae despiu-se, deixou a roupa dobrada sobre uma pedra e entrou no lago. Nadou. O contato
da água fresca na pele nua foi delicioso.
De repente, teve a sensação de que alguém a observava. Olhou ao redor.
—Quem está aí? — perguntou.
Um arbusto se mexeu, e o corpo alto de um homem
surgiu. Usava roupa de montaria. Curt! O coração dela pulou no peito como um peixe fora
d'água.
—Boa tarde, Rae. — Ele ergueu os braços. — Vim em boa paz.
— Boa paz ou não, você tem de ir embora. Não estou de maio.
— Tudo bem, tudo bem, sem problemas.
—Quem lhe contou que eu estava aqui? Wyn?
— Wyn acredita quase infantilmente em minhas qualidades cavalheirescas. Contudo, tenho
certeza de que pensou que você estivesse nadando de maio. Vai sair da água ou prefere que eu
entre? Posso lhe confessar que a situação é muito convidativa. Não temos nada disso em Carrara. —
Curt começou a desabotoar a camisa.
— Pare. Vou sair — ela gritou. — Mas apreciaria muito se não me olhasse.
—Francamente, não quero que minha pressão sangüínea aumente ainda mais. Você está
linda, Rae, assim nua como no dia em que nasceu. — Ele foi sentar-se numa ribanceira, de costas
para o lago.
Rae nadou até a margem, depois correu a fim de apanhar a toalha. Enrolou-a ao redor do
corpo em forma de sarongue. Seus cabelos molhados pendiam pelas costas, mas não havia nada que
ela pudesse fazer para enxugá-los.
—Pode virar agora — disse a Curt.
— Fantástico! — Os olhos de reflexos dourados se iluminaram. — Até com a toalha você é
linda. Que tal se eu escorrer a água de seus cabelos?
— Quer mesmo?
—Com prazer. — Curt pegou os longos cabelos nas mãos e torceu-os como se fossem fitas
de seda. — Venha, vamos nos sentar à sombra.

71
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

— Acho melhor eu me vestir antes.


— Também acho. Mas vista-se depressa.
— Você é um homem esquisito. Não o vejo há dias, não 'ouço falar de você há dias, e agora
aparece tão de repente...
— Estive em Melbourne. Uma viagem mista de negócios e prazer. Wyn me disse que Sônia
e Scotty se mudaram.
Rae fitou-o com surpresa.
—Pensei que você soubesse.
—Fiquei sabendo hoje. Não tive contato com Sônia.
— Estranho! Scotty estava com a impressão de que a mãe havia falado com você.
— Mais uma das mentiras de Sônia! — declarou Curt. — Espero que ela esteja sem jeito
agora por causa do incidente com Midge.
— E eu garanto que não está nem mais pensando no caso.
—Scotty acreditou na versão dela?
— Scotty só se preocupa no momento com sua situação financeira. Os relatórios da
contabilidade são assustadores.
— Eu apenas passei uma vista d'olhos nos documentos.
—Quer dizer que recebeu uma cópia?
—Recebi. E a próxima notícia que você vai ter é a da compra de Miriwin.
— Eu sei, eu sei. Ser proprietário de Miriwin sempre foi o sonho dos Carradine.
— Você preferiria que os Bannerman fossem os compradores? Ou os Faulkner?
— Não, isso não.
—Ou gostaria de continuar com a propriedade?
— Não, Curt. Seria impossível. Mas já aprendi a aceitar. Fiquei furiosa, porém agora tudo
acabou. Afinal, Scotty aumentou minha parte para trinta por cento.
—E o mínimo que ele poderia fazer.
—Sônia foi contra. Mas, a favor ou contra, vai ser o fim de uma era. Todos nós temos de
aceitar coisas que não podem ser mudadas. Mas eu tenho planos.
— Fale sobre seus planos.
Rae estava sentada com as pernas cruzadas, em pose tão graciosa como a de uma estátua.
Tinha expressão séria, introspectiva, mas com uma sensualidade erótica sem ser deliberada. A parte
superior de seus seios passava do limite da toalha, e tinha um tom dourado como o das pernas e
braços.
— Estou pensando em comprar uma fazenda de plantação. Sei que nunca me acostumarei a
morar na cidade.
—Você nem precisava me dizer isso, Rae. — Curt colocou um lírio cor-de-rosa atrás da
orelha dela.
—Há lindas fazendas perto de sua casa de praia.
— Mas você não conhece nada sobre agricultura.

72
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

—Posso aprender. Wyn e Matt me ajudarão, e contratarei um administrador até adquirir


prática. Já me vejo sob a sombra das laranjeiras.
— E eu a vejo coberta de botões de laranjeiras. — Houve um breve silêncio. — Sua toalha
está escorregando, Rae.
—Preciso me vestir.
—Acho bom, está sedutora demais. Não é possível falarmos de negócios.
— Aonde quer chegar, Curt?
—Tenho uma idéia. Não sei se você concorda.
—E essa sua idéia não deveria ser discutida com todos nós?
— Não. Que tal ser minha sócia?
— Não entendi bem sua proposta.
—E simples. Eu compro apenas a parte de Scotty e de Sônia. Você conserva a sua. Miriwin
será gerenciada como uma incorporação Carradine-Munro.
— Por favor, não tenha pena de mim, Curt Carradine. Nunca faça isso!
A indignação dela crescia. Mas... como poderia discutir daquele jeito, quase nua? Saiu
correndo para se vestir e tropeçou nas pedras. Uma tempestade se preparava no céu e outra na terra.
—Rae! — Curt foi atrás dela. — O que há agora?
—Desde quando me considerou sua sócia?
—Não sei. Durante anos.
—Como?
— Por que age como se eu a estivesse insultando, Rae?
— Porque estou cansada de piedade! Não preciso disso nem quero. Estou cansada de vê-lo
agir como se fosse meu irmão mais velho. Encontrarei sozinha um meio de sobreviver, não se
preocupe. Terei dinheiro, e Matt e Wyn irão comigo. E não se surpreenda com nada que eu vier a
fazer no futuro.
—Sua coragem é tocante, Rae! Mas você não ouviu o resto do contrato.
—Não, e não quero ouvir. Já tenho problemas suficiente. Você está procurando sanar o
desastre que papai criou. Mas não quero que mais tarde alguém culpe você de se aproveitar da
situação.
—Ninguém vai me culpar, exceto Rae Munro.
—Não estarei por perto, Curt, para fazê-lo sentir-se culpado. Vou para longe começar uma
nova vida.
— Não, não vai. E não estou brigando com você, Rae, apenas quero que se torne minha
sócia.
—Tenho de saber muito mais sobre o assunto antes de concordar.
Curt abraçou-a, mas Rae lutou para se livrar dele. Ao fazer isso, perdeu o equilíbrio e a
toalha caiu na areia.
— Cuidado, Rae!
— Por favor, Curt, deixe-me ir. — Ela tremia da cabeça aos pés.
— Claro — respondeu ele, soltando-a. — Não quis lhe causar problemas.

73
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

Rae apanhou suas roupas e vestiu-se. Seus cabelos estavam quase secos. Curt esperava-a à
beira do lago, apreciando a beleza do cenário. Os papagaios gritavam, e toda a área parecia ter
adquirido nova vida, apesar de as nuvens começarem a cobrir o céu ainda em parte azul.
— Venha aqui — ordenou Curt, estendendo-lhe a mão. — Este é o nosso mundo — disse. —
Nossa religião. Nossa terra.
—Vai ser difícil para mim deixar tudo. Mais ainda, a separação pode me matar. Curt afagou-
lhe os cabelos.
—Onde quer que você vá, eu irei atrás.
—Não me confunda ainda mais Curt.
— Tornarei então a coisa bem simples. Quero me casar com você, Rae Munro.
Foi como se ela houvesse caído do ponto mais alto da escarpa.
—Casar? Jamais percebi indício algum de que você me amava.
—Então teve uma vida mais estranha ainda do que pensei. Eu nunca beijaria uma mulher
como a beijei. Não, você não é tão inteligente como supus. Na verdade, deve ter sido a última
pessoa a saber de meu amor. Eu te amo há anos.
— Curt, tenho de me sentar — ela disse abruptamente, quando sentiu os joelhos cederem.
— Vamos nos sentar juntos.
— Antes de tudo, preciso evitar um enfarte, Curt. Você falou sério?
—Falei.
— Não sei... o que pensar.
— Vai saber em dez minutos, meu amor — ele disse quase num gemido. Beijou-a então e
deixou-a faminta de amor.
—Curt! — Rae suplicou.
Os lábios de Curt pressionaram os dela com tanta força que Rae viu-se forçada a se entregar
aos braços poderosos. Depois disso, a conversa cessou por alguns minutos. Ao reiniciar, Curt
perguntou:
—Então, vamos ser sócios? Verdadeiros sócios? Até que a morte nos separe?
— Prometo — Rae respondeu com veemência, a emoção embargando-lhe a voz. — Meu
querido Curt, perdoe-me por eu haver duvidado de você.
—Não! — Ele pegou-lhe os dedos e mordeu-os suavemente. — Em nossa noite de núpcias a
farei pagar por isso.
— Verdade? Como? — Rae corou.
—Para saber, terá de esperar até que nos casemos. E em duas cerimônias, meu amor. Uma
em Melbourne, outra em Carrara. Duas recepções. Concorda?
—Concordo. E quero que Matt seja meu padrinho.
— Tudo bem. Matt e Wyn serão os primeiros convidados da lista. E haverá um lugar para
eles em Carrara sempre.
— Você já tinha pensado nisso tudo?
—Sou muito grato aos dois por terem cuidado de você, Rae. Quanto à sua família, a situação
é um pouco problemática.
— Você se refere à Sônia?

74
INDOMÁVEL SEDUTOR - Margaret Way

— Não sei se posso perdoá-la pelas mentiras que contou, em especial por dizer a você que
eu a seduzira. — Curt beijou-a e acrescentou: — Casando-nos, Rae Munro, Miriwin passará para
um de nossos filhos. Concorda, querida?
—Cem por cento, amor. Não poderia haver solução melhor. Agora beije-me como se deve
— ela convidou-o, com voz cheia de paixão.
— Como se deve? Tudo bem, querida, mas não comece aquilo que não pode terminar —
Curt preveniu-a, abraçando-a com força.
— Eu te amo — Rae sussurrou com lágrimas nos olhos. — Você é meu herói.
— Não, amor, não chore. — Havia tanta ternura na voz dele que uma enorme suavidade
inundou o corpo de Rae. — Conservarei você em meus braços e em meu coração durante todos os
dias de nossas vidas.
Um pouco acima do lago, um magnífico pássaro pairou nos ares, e o sol refletiu em suas
asas de um azul brilhante. Mas nem Curt nem Rae testemunharam o sensacional espetáculo.

FIM

MARGARET WAY tem enorme prazer em seu trabalho. Adora ir à praia com a família nos
fins de semana, gosta de percorrer galerias de arte e de ir a leilões. Sua casa, no alto de uma colina
com vista para Brisbane, Austrália, é seu paraíso. Ela começou a escrever quando o filho era ainda
bebê, e agora considera esse o melhor meio de passar o tempo.

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