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085220
A retórica é a arte de convencer pelo
discurso; é também a teoria dessa arte,
criada pelos gregos e constitutiva do nosso
• humanismo.
Depois de um longo eclipse ela voltou em
nossos dias com muita força, a ponto de
ser aplicada à imagem, ao cinema, à
música, ao inconsciente. INTRODUÇÃO À RETÓRICA
Cinco enfoques complementares são
desenvolvidos nesta introdução: uma
apresentação histórica do "sistema"
retórico, uma exposição metódica dos
procedimentos retóricos, uma aplicação
prática - "leitura retórica de diversos
textos", um glossário com definições dos
termos técnicos e uma filosofia da retórica.

Olivier Reboul, filósofo francês, é professor


de Filosofia da Educação na Universidade de
Estrasburgo. Escreveu, além deste, os livros:
Lan8a8e et ideolo8ie, Le lan8a8e de l' éducation,
Qy' est-ce qu' apprendre?

Projeto gráfico da capa Katia Harumi Terasaka


Execução Adriana Translatti
Imagem da capa Charles Sydney Hopkinson, O];ver Wendell
Holmes, 1930 (detalhe). Harvard Law Art
Collection, Cambridge.
INTRODUÇÃO
À RETÓRICA
Olivier Reboul

Tradução
IVONE CASTILHO BENEDETTI

Martins Fontes
São Paulo 2004
Índice analítico

Esta ohra foi puhlicada originalmente em francês com o titulo


INTRODUCT/ON À LA RHÉTORIQUE - THÉORIE ET
PRATIQUE por Presses Unil'ersitaires de France.
Copyright © Presses Universitaires de France, 1991
Copyright © 1998, Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,
São Pau/o. para a presente edição.

l"ledição
Prefácio ......................................................................... . XI
.::te-ero de 1998 Introdução: Natureza efunção da retórica .................... . XIII

-mmmr0 de 2004 Arte, discurso e persuasão......................................... XIV
Função persuasiva: argumentação e oratória............. XVII
A função hermenêutica ............................................. XVIII
A função heurística.......... ........ ..................... ............ XIX
do original A função pedagógica........ ........ ............ ........ ............. XXI
Vadim Vale inot'Ikh Nikitin
_Revis'; s gráficas
"-na Maria O. M. Barbosa
Capítulo I - Origens da retórica na Grécia ................. .
Marise Simões Leal
Produção gráfica
Geraldo Alves
Nascimento da retórica ............................................ . 2
PaginaçãolFotolitos Origem judiciária ............................................... . 2
Studio 3 Desenvolvimento Editorial
Córax .................................................................. . 3
Origem literária: Górgias ................................... .. 4
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) A retórica e os sofistas ............................................ .. 6
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Reboul, Olivie!. 1925-
Protágoras: o homem medida de todas as coisas .. 7
Introdução à retórica I Olivier Reboul tradução Ivone Castilho Fundamento sofistico da retórica ....................... .. 9
Benedetti. - São Paulo: Martins Fontes, 2(X)4. - (Justiça e direito).
Isócrates ou Platão? ................................................ . 10
Título original: Introduction à la rhétorique Isócrates, o humanista ........................................ . 10
Bibliografia.
ISBN 85-336-2067-5 Uma pausa .......................................................... . 12
1. Retórica I. Título. 11. Série. Texto 1 - Platão, Górgias, 455 da 456 c, trad. M.
04-6899 CDD-808
Croiset ................................................................ . 13
índices para catálogo sistemático: Retórica e cozinha .............................................. . 16
1. Retórica 808 De que "ciência" se trata? .................................. .. 18
Todos os direitos desta edição para o Brasil reservados à
Livraria Martins Fontes Editora Lida. Capítulo 11 - Aristóteles, a retórica e a dialética ........ .. 21
Rua Conselheiro Ramalho, 330 01325-000 São Paulo SP Brasil
Tel. (11)3241.3677 Fax (11) 3105.6867 Uma nova definição de retórica .............................. .. 22
e-mail: info@martin,ifontes.com.br http://www.martinsfontes.com.br
Texto 2 - Aristóteles, Retórica, livro I, capo 2, Capítulo IV - Do século I ao XX .................................. . 71
1355 a-b ............................................................. .. 22 Período latino .......................................................... . 71
Uma definição mais modesta............................. . 23 Forma e fundo: pintura e cores verdadeiras ........ . 71
A argumentação de Aristóteles .......................... .. 24 Retórica e moral .............. , .................................. . 73
O que é dialética? .................................................... . 27 Retórica e democracia ........................................ . 74
A dialética é umjogo .......................................... . 28 Por que o declínio? .................................................. . 77
Tudo para ganhar ............................................... .. 29 Retórica e cristianismo ....................................... . 77
Respeitar as regras do jogo ................................ .. 30 Verdadeiras causas do declínio: retórica, verdade
Utilidade do jogo dialético .................................. . 32 e sinceridade ....................................................... . 79
Retórica e dialética .................................................. . 34 Hoje: retóricas ......................................................... . 82
O que elas têm em comum .................................. . 35 Uma retórica estilhaçada ................................... .. 82
Dialética, parte argumentativa da retórica .......... . 36 Retórica da imagem ............................................ . 83
Moralidade da retórica ....................................... .. 37 Retórica da propaganda e da publicidade ............ . 85
Conclusão: Aristóteles e nós .............................. .. 39 Nova retórica contra nova retórica ..................... .. 87

Capítulo III - O sistema retórico .................................. . 43 Capítulo V - Argumentação ........................................ . 91


As quatro partes da retórica ................................ . 43 As cinco características da argumentação .............. .. 92
Invenção ................................................................... . 44 O auditório pode ser "universal"? ...................... .. 92
Os três gêneros do discurso ................................ .. 44 Língua natural e suas ambigüidades .................. .. 94
Os três tipos de argumento: etos, patos, logos .... .. 47 Premissas verossímeis: o que é verossímil? ........ . 95
Provas extrínsecas e provas intrínsecas ............... . 49 Uma progressão que depende do orador ............. . 96
Os lugares ("topoi") ............................................ . 50 Conclusões sempre controversas ........................ . 97
Observações sobre a invenção ............................ . 54 O que é uma "boa" argumentação? ........................ . 99
Disposição ("taxis") .............................................. .. 54 Os sofistas e a argumentação .............................. . 100
Exórdio ("prooimion", proêmio) ........................ . Não-paráfrase e fechamento ............................... . 102
55
N arraçao
- ("d'legesls,.,,) ......................................... . 56
Argumentação pedagógica, judiciária, filosófica .... . 104
C f - ("
on lrmaçao plshs .. ,,) ...................................... .. Do pedagógico ao judiciário ............................... . 104
57
Digressão ("parekbasis") e peroração ("epílogos") Uma controvérsia judiciária: os expropriados e a
59
desvalorização .................................................... . 106
Por que a disposição? ......................................... .. 60
Elocução ("léxis '') ................................................... .
Argumentação filosófica: onde está o tribunal? .. 109
61
Língua e estilo: uma arte funcional... .................. . 61 Capítulo VI - Figuras .. ................................................ . 113
Figuras ("schemata") e o problema do desvio .... .. 64
A ça-o ("h'Ypocnsls
.. '') ................................................. . 67 Figuras de palavras .................................................. . 115
Uma "hypocrisis" sem hipocrisia ...................... .. 67 Figuras de ritmo .................................................. . 115
O problema da memória .................................... .. 68 Figuras de som: aliteração, paronomásia, anta-
O problema do escrito e do oral .......................... . 69 náclase ............................................................... .. 116
Um argumento retórico: a etimologia ................. . 118
Figuras de sentido .................................................... . 120
Tropos simples: metonímias, sinédoques, metá- Capítulo VIII - Como identificar os argumentos? ..... . 163
foras..................................................................... 121
Os elementos do acordo prévio ................................ . 164
Tropos complexos: hipálage, enálage, oxímoro,
Fatos, verdades, presunções ................................ . 164
hipérbole, etc. ...................................................... 123
Os valores e o preferível ..................................... . 165
Figuras de construção............................................... 126
Os lugares do preferível ...................................... . 166
Figuras por subtração: elipse, assíndeto, aposio-
Figuras e sofismas concernentes ao acordo prévio 167
pese ou reticência ................................................ 126
Primeiro tipo: argumentos quase lógicos ................ . 168
Figuras de repetição: epanalepse, antítese ........... 127
Contradições e incompatibilidade: o ridículo ..... . 168
Figuras diversas: quiasmo, hipérbato, anacoluto,
Identidade e regra de justiça ............................... . 170
gradação ............................................................. 128
Figuras de pensamento ............................................. 129 Argumentos quase matemáticos: transitividade,
Alegoria: figura didática? .................................... 130 dilema, etc .......................................................... . 170
Ironia, graça e humor ........................................... 132 Definição ............................................................ . 172
Figuras de enunciação: apóstrofe, prosopopéia, Segundo tipo: argumentos fundados na estrutura do
preterição, epanortose.......................................... 133 real ........................................................................... . 173
Figuras de argumento: cong1obação, prolepse, apo- Sucessão, causalidade, argumento pragmático ... . 173
dioxe, cleuasmo ................................................... 135 Finalidade: argumento de desperdício, de dire-
ção, de superação ................................................ . 174
Capítulo VII - Leitura retórica dos textos................... 139 Coexistência: argumento de autoridade, argu-
mento "ad hominem" .......................................... . 176
Questões preliminares........................................... .... 140 Duplas hierarquias e argumento "a fortiori" ....... . 178
Orador: Quem? Quando? Contra o quê? Por quê? Terceiro tipo: argumentos que fundamentam a es-
Como? ................................................................. 140 trutura do real .......................................................... . 181
Auditório e acordo prévio .................................... 142 Exemplo, ilustração, modelo .............................. . 181
A questão do gênero: Pascal e La Fontaine ............... 143 Comparação e argumento do sacrifício ............... . 183
Texto 3 - Pascal, "Justiça, força" (Br. Min. N? Analogia e metáfora ............................................ . 185
298, p. 470) .......................................................... 144 189
Quarto tipo: argumentos por dissociação das noções
Texto 4 - La Fontaine, "O lobo e o cordeiro", 189
Absurdo ou "distinguo" ...................................... .
Fábulas, I, 10....................................................... 144
O par aparência-realidade ................................... . 190
Situação dos dois textos ................................. ...... 146 191
Outros pares ........................................................ .
A argumentação dos dois textos........................... 148
Artifício e sinceridade ........................................ . 193
Observações sobre o estilo dos dois textos.......... 150
Os dois gêneros e seu impacto ideológico ........... 152
Capítulo IX - Exemplos de leitura retórica ......... ...... . 195
Questões sobre o texto............................................... 153
O que prova o exemplo?......................................
Entimema ............................................................
O intertextual, o intratextual e o motivo central...
154
155
157
.
de entimemas .................................. .
196
197
197
Texto 5 - Victor Hugo, "Chanson", 1853, Les Figuras fortíssimas ............................................. . 198
châtiments, VII, 7 ................................................ 158 A petição de princípio ......................................... . 199
Texto 7 - Pierre Corneille, "Marquesa", 1658 .... . 200
Texto 8 - René Descartes, Le discours de la mé- Prefácio
thode, segunda parte ........................................... . 205
Texto 9 - Uma entrevista com Françoise Dolto,
Libération, 5 de fevereiro de 1987 ...................... . 209
Introdução .......................................................... . 210
Parágrafo (1) ....................................................... . 211
Parágrafo (2) ....................................................... . 212
Parágrafo (3) ....................................................... . 212
Parágrafos (4) e (5) ............................................ .. 213
Observações críticas: o motivo central ............... . 214
Texto 10 - Alain, "Considerações", de 20 de
março de 1910 .................................................... . 214
Texto 11 - A educação negativa, 1.-1. Rousseau, Para começar, algumas palavras sobre este livro, sobre o
Emílio, 2? livro .................................................... . 217 que ele pretende ser e sobre o que dele se pode esperar.
Introdução: haverá motivo central? .................... . 218 É multidisciplinar, como, aliás, a própria retórica que,
Oparadoxo ......................................................... . 219 desde seus primórdios, foi instrumento comum de juristas, filó-
A argumentação .................................................. . 220 sofos, literatos, pregadores, de todos a quantos concerne a co-
As metáforas da educação ................................. .. 222 municação.
Conclusão: o motivo central ............................... . 223 É pluralista, assim como também a retórica. Esta, a serviço
Texto 12 - Duas histórias iídiches ....................... . 224 das causas e das mais diferentes teses, é algo mais que instru-
mento neutro, indiferente ao que veicula; utilizada em todas as
À guisa de conclusão .................................................... . 227 controvérsias, obriga cada uma das partes a levar em conside-
ração as crenças e os valores do adversário; ensina o sentido, se
Arte e naturalidade ............................................ .. 228 não do relativo, pelo menos do plural, e postula que a verdade
A ilusão do livro do mestre ................................. . 229 resulta do encontro de dois enunciados, o proferido e o ouvido.
Da polêmica ao diálogo ..................................... .. 230
Este livro pode ser lido de diversas maneiras. De cabo a
rabo, sem dúvida. Mas também como obra de referência, a co-
Notas ............................................................................. . 233
meçar pelo índice. Ou então limitando-se a determinado capí-
I lograrfila sumaria
BU' .. ..................................................... . 239
tulo, tendo-se em mente que de qualquer modo ele depende um
Índice remissivo e glossário dos termos técnicos .......... . 243
pouco dos capítulos precedentes.
É teórico e prático ao mesmo tempo. Por um lado pretende
expor o que é retórica, extrair sua unidade profunda através
das transfigtJrações de sua história, discutir suas implicações e
distinguir se1t18 limites. Por outro lado, visa a aplicar a retórica
à dos textos mais diversos, oferecendo assim um
hermenêutica aos estudantes e aos futuros pesqui-
sadores.
Finalmente, tem várias pretensões: ser um manual acadê-
mico e outras coisas mais. Esforça-se, pois, por ser objetivo,
XII INTRODUÇÃO A RET6RICA Introdução
Natureza e função da retórica
por dar informações independentes do seu autor e de suas pre-
ferências. Mas um manual não mereceria o nome de acadêmi-
co, se seu autor não se afirmasse também como pesquisador e
pensador; portanto, como alguém que não se contenta apenas
em expor, mas que se expõe. E o leitor que julgue.
Um livro no plural, portanto.

N.B. - À primeira visld, a retórica desencoraja pelo voca-


bulário. Quantos nomes de argumentos e figuras! Será real-
mente preciso falar em lugares em vez de provas, em hipérbole
em vez de exagero, em ação em vez de dicção? Na verdade, o que se espera de uma introdução à retórica é que logo de
cada um desses termos tem um sentido um póuco diferente da- início se defina o termo. Infelizmente, não é fácil, pois hoje em
quele que pretende traduzi-lo; é, portanto, insubstituível. As- dia o termo "retórica" assumiu sentidos bem diversos e até di-
sim como a medicina, a psicologia e a filosofia, a retórica tem vergentes.
necessidade de um vocabulário técnico. Em primeiro lugar, o sentido corrente não poderia ser mais
Portanto, cumpre saber que epanortose não é doença de pejorativo. Um professor de literatura, depois de brilhante alo-
pele, que hipotipose não é um supositório de bronze da antiga cução, ouve a seguinte felicitação de um colega: "Admirei sua
medicina, e que tapinose não é uma retórica de antas... É ver- retórica", frase que ninguém tomou por cumprimento, nem mes-
dade que poderiam ser usados termos mais correntes, dizer mo o interessado. Para o senso comum, retórica é sinônimo de
correção em vez de epanortose, quadro em vez de hipotipose, coisa empolada, artificial, enfática, declamatória, falsa.
depreciação em vez de tapinose. Mas o sentido não seria mais Entretanto, no começo dos anos 60 os acadêmicos redes-
o mesmo. Hipotipose é um quadro retórico, que desempenha cobriram a retórica e devolveram ao vocábulo sua nobreza, ao
papel ao mesmo tempo poético e argumentativo; epanortose é mesmo tempo prestigiosa e perigosa, mas nem por isso concor-
uma correção retórica, que produz efeito de sinceridade ("ou dando quanto ao seu sentido. Mencionemos aqui as duas posi-
melhor", "para dizer tudo ".. .); a tapinose é uma depreciação ções extremas.
retórica. Uma delas, de Charles Perelman e L. Olbrechts-Tyteca, vê
Apesar de inegável, a dificuldade léxica pode perfeitamen- a retórica como arte de argumentar, e busca seus exemplos mor-
te ser superada. E nosso índice-glossário deve possibilitar isso. mente entre os oradores religiosos, jurídicos, políticos e até
filosóficos. A outra, de Morier, G. Genette, J. Cohen e do "Gru-
po MU", considera a retórica como estudo do estilo, e mais
particularmente das figuras. Para os primeiros, a retórica visa
a convencer; para os últimos, constitui aquilo que toma literá-
rio um texto; e é dificil perceber o que as duas posições têm em
comuml. . .
No entanto, é esse elemento comum que bem poderia ser o
mais importante, ou seja, a articulação dos argumentos e do es-
tilo numa mesma função. Ao dizermos isso, referimo-nos à
XIV INTRODUÇÃO A RETÓRICA INTRODUÇÃO XV

retórica clássica, que começa com Aristóteles e se prolonga até É verdade que a retórica antiga dá à palavra discurso um
o século XIX. É a ela que recorreremos para definir a retórica. sentido claramente mais restrito, mas nós mostraremos que se
É verdade que se pode criticar a tradição, mas ela pelo menos pode perfeitamente ampliar o objeto da retórica sem a trair.
tem a vantagem de nos oferecer elementos estáveis, indepen- Questão "de ordem": este livro é retórico?
dentes das preferências individuais e dos modismos. Pode-se
criticar a tradição, e não deixaremos de fazê-lo quando for o Portanto, a retórica diz respeito ao discurso persuasivo, ou
caso, mas pelo menos saberemos o que estamos criticando e o ao que um discurso tem de persuasivo. O que é pois persuadir?
que pretendemos suplantar. É levar alguém a crer em alguma coisa. Alguns distin-
guem rigorosamente "persuadir" de "convencer", consistindo
este último não em fazer crer, mas em fazer compreender. A
Arte, discurso e persuasão nosso ver essa distinção repousa sobre uma filosofia - até
mesmo uma ideologia - excessivamente dualista, visto que
c Eis, pois, a definição que propomos: retórica é a arte de opõe no homem o ser de crença e sentimento ao ser de inteli-
persuadir pelo discurso. gência e razão, e postula ademais que o segundo pode afirmar-
Por discurso entendemos toda produção verbal, escrita ou se sem o primeiro, ou mesmo contra o primeiro. Até segunda
oral, constituída por uma frase ou por uma seqüência de frases, ordem, renunciaremos a essa distinção entre convencer e per-
que tenha começo e fim e apresente certa unidade de sentido. suadir.
De fato, um discurso incoerente, feito por um bêbado ou um Por outro lado, manteremos uma distinção pertinente, por-
louco, são vários discursos tomados por um só. quanto inerente ao próprio termo "persuadir":
Conforme nossa definição, a retórica não é aplicável a to-
dos os discursos, mas somente àqueles que visam a persuadir, o 1) Pedro persuadiu-me de que sua causa era justa.
que de qualquer modo representa um belo leque de possibilida- 2) Pedro persuadiu-me a defender sua causa.
des! Enumeremos as principais: pleito advocatício, alocução
política, sermão, folheto, cartaz de publicidade, panfleto, fábu- Distinção capital para compreender a retórica, pois em (1)
la, petição, ensaio, tratado de filosofia, de teologia ou de ciên- Pedro conseguiu levar-me a acreditar em alguma coisa, en-
cias humanas. Acrescente-se a isso o drama e o romance, desde quanto em (2) ele conseguiu levar-me afazer alguma coisa, não
que "de tese", e o poema satírico ou laudatório. se sabendo se acredito nela ou não. A nosso ver, a persuasão
O que sobra então de não retórico? Os discursos (no senti- retórica consiste em levar a crer (1), sem redundar necessaria-
do técnico definido acima) que não visam a persuadir: poema mente no levar a fazer (2). Se, ao contrário, ela leva a fazer sem
lírico, tragédia, melodrama, comédia, romance, contos popula- levar a crer, não é retórica.
res, piadas. Acrescentemos os discursos de caráter puramente Pode-se dizer, por exemplo, que alguém persuadiu alguém
científico ou técnico: modo de usar, em oposição a anúncio a fazer alguma coisa por ameaça ou promessa, e que nisso resi-
publicitário; veredicto, em oposição a pleito advocatício; obra dia toda a eficácia de sua argumentação. Resposta: é verdade
científica, em oposição à vulgarização; ordem, em op?sição a que se falar de eficácia, mas não de argumentação. Esta
slogan: É proibido fumar não é retórico, ao passo que E proibi- visa se'tiíl>re a levar a crer. Por certo, através de promessa ou
do fumar, nem que seja "Gallia"*, é retórico. ameaça, pode-se persuadir alguém a cometer um erro, mas
esse alguém estará persuadido de que o erro não é erro?
* Cigarro mentolado, geralmente preferido pelas senhoras. (N. do T.) No entanto, Pascal escreve:
XVI INTRODUÇÃO À RETÓRICA INTRODUÇÃO XVII

Ao advogado pago adiantadamente parecerá bem mais jus- mas em retórica ele é inevitável!) constituem uma bela ilustra-
ta a causa que defende! (Pensées, p. 365) ção; exatamente onde seus amigos jansenistas esperavam uma
argumentação técnica, que não deixaria de ser pesada, Pascal
Na realidade, Pascal nada tem contra os advogados em retoma as mesmas idéias na forma de panfleto irônico, eficaz
particular; é do homem que ele não gosta, do gênero humano porque claro e jocoso, e que ainda tem a ver conosco. A arte de
corrompido pela queda, cuja propensão para acreditar "no que persuadir produziu muitas obras-primas.
sabe ser falso" mostra até que ponto ele é miserável. Entretan- Mas não será ela também a arte de enganar, ou pelo menos
to, se nos ativermos apenas aos fatos, poderemos admitir que o de manipular? Voltaremos a esse problema no Capítulo 11. En-
erro não é regra, e que existe um tipo de persuasão que não se quanto isso, para compreender melhor a retórica, interrogue-
obtém nem pelo dinheiro nem pela ameaça: a que conceme à mo-nos sobre suas funçõ"es; em outras palavras, sobre os servi-
retórica. ços que ela é capaz de prestar aos que a empregam, e talvez
Esta, dizíamos, é uma arte. Este termo, tradução do grego também aos demais.
f!:chné, é ambíguo, e até duplamente ambíguo. Em primeiro lu-
gar, porque designa tanto uma habilidade espontânea quanto
Função persuasiva: argumentação e oratória
uma competência adquirida através do ensino. Depois porque
designa ora uma simples técnica, ora, ao contrário, o que na cria-
A primeira função da retórica decorre de sua definição:
ção ultrapassa a técnica e pertence somente ao "gênio" do
arte de persuadir. É, aliás, a mais evidente e a mais antiga; e o
criador. Em qual ou em quais desses sentidos se está pensando
problema maior deste livro será saber por que meios um dis-
quando se diz que a retórica é uma arte? Em todos. curso é persuasivo.
Para começar, existe uma retórica espontânea, uma apti- Aqui nos limitaremos a uma distinção realmente funda-
dão para persuadir pela palavra que talvez não seja inata - não mental. Esses meios são de ordem racional alguns, de ordem
entremos nessa discussão agora -, mas que tampouco é devida afetiva outros. Ou melhor dizendo: uns mais racionais, outros
a uma formação específica, e também existe uma retórica ensi- mais afetivos, pois em retórica razão e sentimentos são insepa-
nada com o nome, por exemplo, de "técnicas de expressão e ráveis.
comunicação", que serve para formar vendedores ou políticos, Os meios de competência da razão são os argumentos. E
para ensinar-lhes aquilo que outros vendedores, outros políti- veremos que estes são de dois tipos: os que se integram no ra-
cos parecem já saber naturalmente. Quais são os mais eficazes, ciocínio silogístico (entimemas) e os que se fundamentam no
quais deles conseguem "se sair melhor"? Sem dúvida os últi- exemplo. Ora, como já notava Aristóteles, o exemplo é mais
mos. Mas tanto entre estes quanto entre os primeiros, encontra- afetivo que o silogismo; o primeiro dirige-se de preferência ao
mos os mesmos procedimentos, intelectuais e afetivos, proce- grande público, enquanto o segundo visa a um auditório espe-
dimentos que fazem da retórica uma técnica. cializado, como um tribunal.
Mas será que se trata de simples técnica? Não, é muito Os meios que dizem respeito à afetividade são, por um
mais. O verdadeiro orador é um artista no sentido de descobrir lado, o etos, o caráter que o orador deve assumir para chamar a
argumentos ainda mais eficazes do que se esperava, figuras de atenção e angariar a confiança do auditório, e por outro lado o
que ninguém teria idéia e que se mostram ajustadas; artista patos, as tendências, os desejos, as emoções do auditório das
cujos desempenhos não são programáveis e que só se fazem quais o orador poderá tirar partido. De modo um pouco dife-
sentir posteriormente. Les provincia/es de Pascal (outra vez, rente, Cícero distingue docere, de/ectare e movere:
XVIII INTRODUÇÀO A RETÓRICA INTRODUÇÀO XIX

Docere (instruir, ensinar) é o lado argumentativo do dis- orador - aquele que fala ou escreve para convencer - nunca
curso. está sozinho, exprime-se sempre em concordância com ou-
Delectare (agradar) é seu lado agradável, humorístico, etc. tros oradores ou em oposição a eles, sempre em função de
Movere (comover) é aquilo com que ele abala, impressiona outros discursos.
o auditório. Ora, para ser persuasivo, o orador deve antes compreender
os que lhe fazem face, captar a força da retórica deles, bem
Em resumo, o persuasivo do discurso comporta dois as- como seus pontos fracos. Esse trabalho de interpretação é feito
pectos: um a que chamaremos de "argumentativo"; e outro, de por todos de modo mais ou menos espontâneo. Até a crianci-
"oratório". Dois aspectos nem sempre fáceis de distinguir. nha mostra ser um excelente hermeneuta, por exemplo quando
Os gestos do orador, o tom e as inflexões de sua voz são percebe que a ameaça dos pais é aterradora demais para ser
puramente oratórios. Todavia, o que dizer das figuras de estilo, executada, ou quando interpreta uma frase do adulto no sentido
aquelas famosas figuras a que alguns reduzem a retórica? A que lhe convém I.
metáfora, a hipérbole, a antítese são oratórias por contribuírem Para ser bom orador, não basta saber falar; é preciso saber
para agradar ou comover, mas são também argumentativas no também a quem se está falando, compreender o discurso do
sentido de exprimirem um argumento condensando-o, toman- outro, seja esse discurso manifesto ou latente, detectar suas cila-
do-o mais contundente. Assim é a célebre metáfora de Marx: das, sopesar a força de seus argumentos e sobretudo captar o
"A religião é o ópio do povo." não-dito. Aí vai um exemplo dessa hermenêutica espontânea.
Se for introduzido um último termo, a demonstração, meio Durante o debate de televisão que antecedeu as eleições presi-
de convencimento puramente racional, sem nada de afetivo e denciais de 1981, Giscard d'Estaing disse a Mitterrand: "O se-
que escapa portanto ao domínio da retórica, chega-se ao se- nhor conhece a cotação do marco hoje?" Mitterrand, que prova-
guinte esquema: velmente não sabia, adivinha que Giscard quer impor-se ao
público como um economista sério, um especialista, um mestre,
retórico e lhe responde taco a taco: "Senhor Giscard, não sou seu aluno."
I
I I E não se falará mais de cotação do marco durante todo o debate.
demonstrativo argumentativo oratório
I Essa é a função hermenêutica da retórica, significando
.1
racIOnal "hermenêutica" a arte de interpretar textos. Na universidade
atual, essa função é fundamental, para não dizer única. Não se
ensina mais retórica como arte de produzir discursos, mas como
A função hermenêutica arte de interpretá-los. Aliás, é o que faremos aqui. Mas aí a
retórica recebe outra dimensão; não é mais uma arte que visa a
Entretanto, por mais primordial, a função persuasiva não produzir, mas uma teoria que visa a compreender.
é única. Se a retórica é a arte de persuadir pelo discurso, é pre-
ciso ter em mente que o discurso não é e nunca foi um aconte-
cimento isolado. Ao contrário, opõe-se a outros discursos que
o precederam ou que lhe sucederão, que podem mesmo estar ..
A função heurística

implícitos, como o protesto silencioso das massas às quais se Arte de persuadir pressupõe que não estamos sozinhos; só
dirige o ditador, mas que contribuem para dar sentido e alcan- pode ser exercida quando se interpreta o discurso de outrem.
ce retórico ao discurso. A lei fundamental da retórica é que o Pois bem, será mesmo preciso persuadir? Pode-se achar que a
xx INTRODUÇÃO À RETÓRICA INTRODUÇÃO XXI

persuasão não passa de um modo - o mais insidioso de todos mais hábil tem diante de si outros advogados que fazem o mes-
por certo - de tomar o poder, de dominar o outro pelo discurso. mo trabalho em sentido inverso. Do mesmo modo, o político
Podemos achar isso, é certo, desde que nos abstenhamos de confronta outros políticos; o pedagogo, outros pedagogos. Cada
persuadir alguém disso! um deles - essa é a regra do jogo - defende sua causa sendo tão
Na realidade, quando utilizamos a retórica não o fazemos persuasivo quanto possível, e contribui assim para uma decisão
só para obter certo poder; é também para saber, para encontrar que não lhe pertence, que incumbe a um terceiro: o juiz.
alguma coisa. E essa é a terceira função da retórica, que deno- Num mundo sem evidência, sem demonstração, sem previ-
minaremos "heurística", do verbo grego euro, eureka, que sig- são certa, em nosso mundo humano, o papel da retórica, ao de-
nifica encontrar. Em resumo, uma função de descoberta. fender esta ou aquela causa, é esclarecer aquele que deve dar a
Claro que ela não é óbvia. Hoje em dia, quando falamos palavra final. Contribui - onde não há decisão previamente es-
em descoberta, pensamos em ciência, e a ciência não quer nem crita - para inventar uma solução. E faz isso instaurando um de-
saber de retórica. Quem sabe se por parte dos cientistas isso bate contraditório, só possível graças a seus "procedimentos",
não é um denegação, não é a recusa de enxergar sua própria sem os quais logo descambaria para o tumulto e a violência.
retórica. Mas pouco importa: o que se pergunta é o que a retóri- A retórica possui realmente uma função de descoberta.
ca pode ter para descobrir...
Convenhamos, porém, que vivemos num mundo que não
condiz inteiramente com o conhecimento científico, um mundo A função pedagógica
em que a verdade raramente é evidente, e a previsão segura rara-
mente possível. No campo econômico e político, é preciso tomar Agora, poderemos ser censurados por termos ampliado
decisões sem saber com toda a certeza se elas são as melhores, abusivamente o campo da retórica. De fato, se nos reportarmos
visto que o "com toda a certeza" só vem depois do feito! Nos aos programas escolares da Idade Média e da época clássica,
debates jurídicos, é preciso sobrepujar, sabendo-se que muitas verificaremos que a retórica só admite a primeira das nossas
vezes não há veredicto objetivo, no sentido em que é objetiva a três funções, ficando a função hermenêutica reservada à gra-
medida de um galvanômetro. Na esfera da educação, fazem-se mática, e a função heurística à dialética.
programas, reformas, sem nunca se ter certeza de que as coisas Mas será legítimo impor à cultura as divisões de um pro-
serão melhores que antes e de que os alunos envolvidos realmen- grama escolar (por certo exigidas pelos imperativos da pedago-
te tirarão proveito delas, quer dizer, vinte anos depois ... gia), para estancá-la em disciplinas sem inter-relações, em "es-
Esse mundo de que estamos falando é o da vida; quase pecialidades"? É mais ou menos como afirmar que a física não
não comporta certezas científicas, dessas que possibilitam pre- tem nenhuma relação com a matemática, alegando que elas têm
visões seguras e decisões irrepreensíveis. Mas tampouco está professores diferentes.
entregue ao acaso, ao aleatório, ao caos. Não se pode prever Mostraremos no próximo capítulo que, na própria escola,
com total certeza, mas é possível prever com mais ou menos gramática, retórica e dialética não passavam de partes de um
certeza, com alguma probabilidade. Não se pode dizer: "é ver- rnrsmo todo que se esclerosaram quando se separaram. A arte
dadeiro" ou "é falso", mas pode-se dizer: "é mais ou menos ve- dô1hscurso persuasivo implica a arte de compreender e possi-
rossímil". bilita a arte de inventar.
Como pois achar o verossímil? Recordemos aqui a lei fun- Qual é, pois, esse "mesmo todo" de que fazia parte a retó-
damental da retórica: o orador nunca está sozinho. O advogado rica? Em termos modernos, cultura geral. E aqui tocamos na
XXII INTRODUÇÃO A RETÓRICA Capítulo I
Origens da retórica na Grécia
última função da retórica, que pode ser chamada de "pedagó-
gica".
No fim do século XIX, a retórica foi abolida do ensino
francês, e o próprio termo foi riscado dos programas. Todavia,
como em geral acontece no ensino, em se apagando a palavra
não se suprimiu a coisa. A retórica permaneceu, só que desarti-
culada, privada de sua unidade interna e de sua coerência. Em
todo caso os professores, quase sempre sem saberem, fazem
retórica2 •
Ensinar a compor segundo um plano, a encadear os argu-
mentos de modo coerente e eficaz, a cuidar do estilo, a encon- A melhor introdução à retórica é sua história.
trar as construções apropriadas e as figuras exatas, a falar dis- Vamos, portanto, empreendê-la, mas com duas observa-
tintamente e com vivacidade, não serão retórica, no sentido ções preliminares.
mais clássico do termo? Demonstraríamos com facilidade que A primeira é que a retórica é anterior à sua história, e mes-
os critérios segundo os quais um professor de língua, ou mes- mo a qualquer história, pois é inconcebível que os homens não
mo de filosofia, avalia uma redação - respeito ao assunto, ao tenham utilizado a linguagem para persuadir. Pode-se, aliás,
plano, à argumentação, ao estilo, à personalidade -, que esses encontrar retórica entre hindus, chineses, egípcios, sem falar
critérios são encontrados, com outros nomes, na retórica clás- dos hebreus. Apesar disso, em certo sentido, pode-se dizer que
sica (cf. infra, pp. 55-56). a retórica é uma invenção grega, tanto quanto a geometria, a
Deve-se ver nisso uma sobrevivência lamentável? Pode-se tragédia, a filosofia. Em certo sentido e mesmo em dois senti-
achar, ao contrário, que esses princípios são formadores, que dos. Para começar, os gregos inventaram a "técnica retórica",
deixar de respeitá-los - errar na formulação da questão, escre- como ensinamento distinto, independente dos conteúdos, que
ver de modo incorreto, monótono, extremado, confundir tese possibilitava defender qualquer causa e qualquer tese. Depois,
com argumento, expor de maneira desconexa, esconder-se atrás inventaram a teoria da retórica, não mais ensinada como uma
de clichês - é dar prova de incultura. Em outras palavras, é habilidade útil, mas como uma reflexão com vistas à compreen-
apartar-se dos outros e de si mesmo. É verdade que existem são, do mesmo modo como foram eles os primeiros a fazer teo-
outras culturas além da escolar, mas não existe cultura sem for- ria da arte, da literatura, da religião.
mação retórica. E aprender a arte de bem dizer fi já e também Segunda observação: escrever uma história, como por
exemplo da música, da pintura ou da filosofia, é repercorrer
aprender a ser.
uma evolução, feita de transformações, perdas e criações. Ora,
paradoxalmente, entre os séculos V e IV antes da nossa era, os
gregos elaboraram A retórica, que, em seguida, "durante dois
milênios e meio, de Górgias a Napoleão I1I", pode-se dizer que
se mexeu mais!. As diversas épocas enriqueceram alguma
do sistema, mas sem mudar o sistema. Ainda hoje,
quando se fala em "retórica", seja a de um filme ou a do in-
consciente, a referência é sempre feita à retórica dos gregos. A
história da retórica termina quando começa.
2 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ORIGENS DA RETÓRICA NA GRÉCIA 3

Nascimento da retórica a verdade, não haveria mais âmbito judiciário, e os tribunais se


reduziriam a câmaras de registro. Mas o problema, tanto para
Tomemos duas datas como referência: 480 a.c., batalha nós quanto para os gregos, é que as más causas precisam dos
de Salamina, na qual os gregos coligados triunfaram definiti- melhores advogados, pois, quanto pior a causa, maior o recurso
vamente sobre a invasão persa, quando começou o grande pe- à retórica. É constrangedor. Ora, em vez de se constrangerem,
ríodo da Grécia clássica; 399, ainda antes da nossa era: morte os primeiros retores se gabavam de ganhar as causas menos
de Sócrates. defensáveis, de "transformar o argumento mais fraco no mais
forte", slogan que domina toda essa época.

Origem judiciária
Córax
A retórica não nasceu em Atenas, mas na Sicília grega por
volta de 465, após a expulsão dos tiranos. E sua origem não é Córax é considerado o inventor do argumento que leva seu
literária, mas judiciária. Os cidadãos despojados pelos tiranos nome, o córax, e que deve ajudar os defensores das piores cau-
reclamaram seus bens, e à guerra civil seguiram-se inúmeros sas. Consiste em dizer que uma coisa é inverossímil por ser
conflitos judiciários2 • Numa época em que não existiam advo- verossímil demais. Por exemplo, se o réu for fraco, dirá que
gados, era preciso dar aos litigantes um meio de defender sua não é verossímil ser ele o agressor. Mas, se for forte, se todas
causa. Certo Córax, discípulo do filósofo Empédocles, e o seu as evidências lhe forem contrárias, sustentará que, justamente,
próprio discípulo, Tísias, publicaram então uma "arte oratória" seria tão verossímil julgarem-no culpado que não é verossímil
(tekhné rhetoriké), coletânea de preceitos práticos que conti- que ele o seja.
nha exemplos para uso das pessoas que recorressem à justiça. Antifonte (480-411), o melhor representante da retórica
Ademais, Córax dá a primeira definição da retórica: ela é "cria- judiciária de Atenas, cita o seguinte exemplo de córax:
dora de persuasão"3.
Se o ódio que eu nutria pela vítima tomar verossímeis as
Como Atenas mantinha estreitos laços com a Sicília, e até
suspeitas atuais, não será ainda [mais] verossímil que, prevendo
processos, imediatamente adotou a retórica. essas suspeitas antes do crime, eu me tenha abstido de cometê-
Retórica judiciária, portanto, sem alcance literário ou filo- lo? (in Perelman-Tyteka, p. 608, cf. Aristóteles, Retórica, 11, 24,
sófico, mas que ia ao encontro de uma enorme necessidade. 1402 a)
Como não existiam advogados, os litigantes recorriam a logó-
grafos, espécie de escrivães públicos, que redigiam as queixas E O pleiteante a seguir insinua que os verdadeiros criminosos
que eles só tinham de ler diante do tribunal. Os retores, com aproveitaram-se da verossimilhança para cometer impunemen-
seu senso agudo de publicidade, ofereceram aos litigantes e aos te aquele ato.
logógrafos um instrumento de persuasão que afirmavam ser O mais maçante é que o córax pode ser voltado contra seu
invencível, capaz de convencer qualquer pessoa de qualquer coi- autor, afirmando que ele cometeu o crime por achar que pare-
sa. Sua retórica não argumenta a partir do verdadeiro, mas a ceÍfâ.suspeito demais para que dele suspeitassem, e que chegou
partir do verossímil (eikos). a acumular propositadamente acusações contra si mesmo, para
Observemos que isso é inevitável. Tanto entre nós quanto depois as refutar com facilidade.
entre os gregos. De fato, se no âmbito judiciário se conhecesse - Argumento simples: todas as evidências estão contra ele.
4 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ORIGENS DA RETÓRICA NA GRÉCIA 5
- Córax 1: exatamente, ele sabia que seria o primeiro sus- Conservou-se um magnífico exemplo dessa eloqüência
peito, logo não seria verossímil que cometesse o crime. epidíctica em Elogio de Helena. Sabemos que para os gregos
- Córax 2: mas justamente por isso ele poderia cometê-lo, Helena era o protótipo da mulher fatal. Esposa de Menelau,
sabendo que não suspeitariam dele. deixou-se raptar por Páris, o troiano, e os gregos, para resgatá-
De qualquer modo, os primeiros retores inventaram a dis- la, lançaram-se numa guerra que durou dez anos. Em seu dis-
posição do discurso judiciário, que Antifonte divide em cinco curso Górgias começa louvando o nascimento de Helena de-
partes; também elaboraram os lugares (topoi), argumentos que pois sua beleza: '
bastava decorar e chamar à baila em determinado momento da
disputa jurídica. Assim, no exórdio, o orador começa dizendo Em mais de um homem, ela despertou mais de um desejo
que não é orador, elogia o talento do adversário, etc. amoroso; só por ela, por seu corpo, conseguiu reunir incontáveis
corpos, uma multidão de guerreiros ... (Les présocratiques,
p.l031)
Origem literária: Górgias
Mas então como perdoar-lhe o ter-se deixado raptar? O
Com Górgias surge uma nova fonte da retórica: estética e orador, através de uma enumeração completa, inventaria todas
propriamente literária. Nascido por volta de 485, Górgias viveu as possíveis causas desse rapto: ou ele se deveu ao decreto dos
cento e nove anos, sobrevivendo, pois, a Sócrates. Também si- deuses e do destino; ou ela foi arrebatada à força; ou foi per-
ciliano e discípulo de Empédocles, em 427 foi para Atenas suadida por discursos; ou foi vencida pelo desejo. Ora, em
numa embaixada. Diz-se que ali sua eloqüência encantou os nenhum dos casos Helena estava livre; em todos, foi subjugada
atenienses a tal ponto que ele teve de prometer-lhes que volta- por uma força superior à sua; portanto, não é culpada. Górgias
ria. Essa história é significativa. se detém no terceiro caso, a força do discurso, e sua defesa de
Isso porque, até então, os gregos identificavam "literatu- Helena na verdade é uma defesa da retórica:
ra" com poesia (épica, trágica, etc.). A prosa, puramente fim-
cional, restringia-se a transcrever a linguagem oral comum. o discurso é um tirano poderosíssimo; esse elemento ma-
Górgias, um dos fundadores do discurso epidíctico, ou seja, terial de pequenez extrema e totalmente invisível alçam à pleni-
elogio público, cria para esse fim uma prosa eloqüente, multi- tude as obras divinas: porque a palavra pode pôr fim ao medo,
plicando as figuras, que a tornam "uma composição tão erudi- dissipar a tristeza, estimular a alegria, aumentar a piedade. (Ibid.,
ta, tão ritmada e, por assim dizer, tão bela quanto a poesia" p.1033)
(Navarre, p. 86). Suas figuras são, por um lado, de palavras:
assonâncias, rimas, paronomásias, ritmo da frase; por outro, Observemos que sua retórica é bastante sofistica, visto que
figuras de sentido e pensamento: perífrases, metáforas, antíte- se baseia em uma petição de princípio. De fato, as únicas cau-
ses. Exemplo de metáfora: "Túmulos vivos", para os abutres. sas possíveis por ele atribuídas ao ato de Helena são precisa-
Exemplo de antítese, o final do Elogio fúnebre aos heróis ate- mente as que a inocentam; não considera uma última possibili-
nienses, cuja tradução é um pálido reflexo: dade, a de que Helena tenha partido por livre e espontânea von-
.. Todavia, esse seu princípio, de que o ato involuntário
Assim, apesar de terem desaparecido, o ardor deles com não é culpável, é bem novo para a época.
eles não morreu, porém, imortal, vive em corpos não imortais, Aliás, é no sentido mais técnico que Górgias merece a de-
ainda que eles não vivam mais. (Les présocratiques, p. 1030) nominação de sofista. Como todos os outros - Pitágoras, Pró-
6 INTRODUÇÃO À RETÓRICA ORIGENS DA RETÓRICA NA GRÉCIA 7

dico, Trasímaco, Hípias, Crítias, etc. -, ele foi professor; dava Ora, se admitirmos como ele que o ser não existe, ou que não
de cidade em cidade lições de eloqüência e de filosofia, co- é cognoscível nem comunicável, não estaremos reconhecen-
brando a cada uma delas o fabuloso salário de cem minas. Di- do ipso facto a onipotência da palavra, palavra que não está
gamos que por um dia de trabalho ele recebia o salário diário mais submetida a nenhum critério externo e da qual nem mes-
de dez mil operários! O mesmo acontecerá com Protágoras. Na mo se pode dizer que é falsa? Nessas alturas estamos em ple-
realidade, esse ensino preenchia uma necessidade, pois até en- na sofística.
tão os gregos só recebiam uma formação elementar, sem
de parecido com um ensino superior ou mesmo secundário. E
aos retores que se deve essa inovação: ensino intelectual apro- Protágoras: o homem medida de todas as coisas
fundado, sem finalidade religiosa ou profissional, sem outro
objetivo senão a cultura geral. O elo entre a sofística e a retórica só aparece plenamente
É verdade que logo Górgias foi criticado pela ênfase de em Protágoras5 • Originário da Abdera, na Trácia, Protágoras
sua prosa, que carecia demais de simplicidade; o verbo gorgia- (c. 486-410) também era um mestre itinerante, que ensinava ao
z-o ficou como sinônimo de grandiloqüência. Mas sua idéia de mesmo tempo eloqüência e filosofia e também ganhava quan-
prosa "tão bela quanto a poesia" impôs-se a todos os escritores tias fabulosas. No entanto, foi mais engajado que GÓrgias. Che-
gregos, a começar por Demóstenes, Tucídides, Platão ... Gór- gando a Atenas, fez a seguinte profissão de fé agnóstica:
gias pôs a retórica a serviço do belo.
\' Quanto aos deuses, não estou em condições de saber se
existem ou se não existem, nem mesmo o que são. (Ibid., p.1 000)
A retórica e os sofistas
O que logo lhe valeu uma condenação à morte, da qual, menos
A serviço do belo quererá dizer a serviço da verdade? Essa heróico que Sócrates, livrou-se fugindo.
questão implica toda a relação entre a retórica e a sofística. Com isso, foi um autor enciclopédico. Foi decerto o pri-
Observemos que o ensinamento de Górgias comportava meiro a interessar-se pelo gênero dos substantivos, pelos tem-
uma vertente filosófica. Foi conservado o resumo de um de pos dos verbos, bem como pela psicologia das personagens de
seus discursos, intitulado Do não-ser, ou da natureza\ com Homero; em suma, pelo que depois será chamado de "gramáti-
este promissor início: ca". Passa também por fundador da eristica, que depois virá a
ser dialética. Partindo do princípio de que a todo argumento
Primeiramente, nada existe: em segundo lugar, mesmo que
exista alguma coisa, o homem não a pode apreender; em terceiro
pode-se opor outro, que qualquer assunto pode ser sustentado
lugar, mesmo que ela possa ser apreendida, não pode ser formu- ou refutado, ele ensina a técnica eristica, arte de vencer uma
lada nem explicada aos outros. (Les présocratiques, p. 1022) discussão contraditória ("eristica" vem de éris, controvérsia).
Essa arte, extremamente elaborada, não hesita em recorrer aos
Haverá algum elo entre esse agnosticismo e a retórica? piores sofismas. Do tipo:
Em Elogio de Helena, ele diz: }, ...
•." ... O rato (mys) é um animal nobre pois é dele que provêm os
Quando as pessoas não têm memória do passado, visão do mistérios ... (Aristóteles, Retórica, 140 la)
presente nem adivinhação do futuro, o discurso enganoso tem Pode-se ser branco e não branco ao mesmo tempo, porquanto
todas as facilidades. (Ibid., p. 1033) o etíope é negro (na pele) e branco nos dentes. (in Navarre, p. 65)
8 INTRODUÇÃO A RET6RICA ORIGENS DA RET6RICA NA GRÉCIA 9

É pouco compreensível como oradores célebres, gregos em Protágoras (320 c s.), meditação antropológica espantosa-
além de tudo, a começar por Protágoras, puderam impor-se com mente profunda e moderna. O segundo é a autodefesa de Protá-
tais estupidezes. De fato, se grandes pensadores, como Aristó- goras em Teeteto (166 a). Esses dois textos nos apresentam um
teles e Platão, envidaram tantos esforços para refutar os sofis- Protágoras cativante e respeitável, um mestre de humanismo e
tas, é sinal de que estes não eram negligenciáveis nem estúpi- tolerância. Acreditar em quê, em quem?
dos, e que, acima de suas artimanhas publicitárias, eles ensina-
vam algo importante. Mas o quê?
É dificil saber, pois só os conhecemos através de seus ini- Fundamento sofistico da retórica
migos. Recordemos as teses de Protágoras: o homem é a medi-
da de todas as coisas; em outras palavras, as coisas são como De qualquer forma, pode-se dizer que os sofistas criaram
aparecem a cada homem; não há outro critério de verdade. O a retórica como arte do discurso persuasivo, objeto de um ensi-
que produz o mais completo relativismo, porque, se uma coisa no sistemático e global que se fundava numa visão de mundo.
parece bela a um, feia a outro, fria a um, quente a outro, grande Ensino global: é aos sofistas que a retórica deve os primei-
a um, pequena a outro, será as duas coisas ao mesmo tempo. ros esboços de gramática, bem como a disposição do discurso
Não há mais nenhuma objetividade, nem mesmo lógica, pois o e um ideal de prosa ornada e erudita. Deve-se a eles a idéia de
princípio de contradição não vale mais. A cada um a sua verda- que a verdade nunca passa de acordo entre interlocutores, acor-
de, e todas são verdades. A cada um: mas, em Protágoras, o "ca- do final que resulta da discussão, acordo inicial também, sem o
da um" é tanto a cidade quanto o indivíduo; é a cidade que, em qual a discussão não seria possível. A eles se deve a insistência
nome de seu próprio interesse, decide sobre os valores e as ver- no kairós, momento oportuno, ocasião que se deve agarrar na
dades. Isso equivale a dizer que nossa língua, nossas ciências, fuga incessante das coisas, ao que se dá o nome de espírito da
nossos valores estéticos e morais não passam de convenções oportunidade ou de réplica vivaz, e que é a alma de qualquer
que mudam de uma cidade para outra, que variam segundo a retórica viva. Sim, todos os elementos de uma retórica riquíssi-
história e a geografia: "Bela justiça a que é delimitada por um ma, que serão encontrados depois, especialmente em Aristó-
rio ...", dirá Pascal, admitindo que assim é, e lamentando. teles.
Relativismo pragmático, tal parece ter sido a doutrina de No entanto, o fundamento que dão à retórica parece-nos
Protágoras. Não existe verdade em si, mas uma verdade de cada bem perigoso. É de perguntar se eles não a comprometeram
indivíduo, de cada cidade; e o importante é aquilo que lhe per- para sempre, ao justificá-la como o fizeram pela incerteza e pe-
mite fazer-se valer e impor-se, que é precisamente a retórica. lo sucesso. Mas, afinal, por que esse laço, aparentemente inque-
Observemos que semelhante doutrina pode legitimar tanto a brantável, entre o sofista e o retor?
violência quanto a tolerância. Por isso ela nos parece ao mes- Certamente porque o mundo do sofista é um mundo sem
mo tempo fascinante e ambígua; e é esse o sentimento que se verdade, um mundo sem realidade objetiva capaz de criar o
tem diante do Protágoras de Platão. consenso de todos os espíritos, para dizerem que dois e dois
Platão parece ter detestado o grande sofista, que ele afir- são quatro e que Tóquio existe ... Privado de uma realidade ob-
o discurso humano fica sem referente e não tem
ma ser pervertedor de jovens, e a quem objeta que não é o ho-
mem a medida de todas as coisas, mas sim Deus. E, no entanto, outro critério senão o próprio sucesso: sua aptidão para con-
Platão escreveu dois pastichos, dois trechos brilhantes que ele vencer pela aparência de lógica e pelo encanto do estilo. A úni-
atribui a Protágoras. O primeiro é o mito da origem do homem, ca ciência possível é, portanto, a do discurso, a retórica.
10 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ORIGENS DA RETÓRICA NA GRÉCIA 11

Concretamente, o que muda? Muda que o discurso não bastante grave; ele escreveu sua própria defesa, confiou-a a um
pode mais pretender ser verdadeiro, nem mesmo verossímil, só discípulo e ... perdeu a causa. Nem por isso deixou de publicar
poderá ser eficaz; em outras palavras, próprio para convencer, sua defesa, A troca, como modelo a ser seguido. Foi, aliás, co-
que no caso equivale a vencer, a deixar o interlocutor sem ré- mo modelos que publicou inúmeros discursos, alguns jurídi-
plica. A finalidade dessa retórica não é encontrar o verdadeiro, cos, outros epidícticos.
mas dominar através da palavra; ela já não está devotada ao sa- Em suma, um grande professor de retórica, admirado pe-
ber, mas sim ao poder. los contemporâneos e sempre admirável. Ao contrário de seus
Os sofistas foram com certeza os primeiros pedagogos, e predecessores, recusa-se a fazer malabarismos prop_agandísti-
o objetivo de sua educação não deixa de ser nobre: capacitar os cos e rejeita a aprendizagem automática de lugares e outros
homens "a governar bem suas casas e suas cidades"6. Entre- procedimentos. Ensina sempre recorrendo à reflexão do aluno
tanto, eles excluem todo saber, e levam em conta apenas o sa- e fazendo seus grandes discípulos cooperarem na gênese de
ber fazer a serviço do poder. seus próprios discursos, que lêem, discutem e corrigem com o
Com a sofistica, a retórica é rainha, mas rainha despótica mestre 7 • Aliás, opondo-se aos sofistas, que se vangloriavam de
. porquanto ilegítima. Agora, o elo entre retórica e sofistica é fa- capacitar qualquer um a persuadir qualquer um, ele mostra que
tal: será possível salvar a primeira da segunda? o ensino não é todo-poderos0 8 • A seu ver, para ser orador, são
necessárias três condições. Para começar, aptidões naturais.
Depois, prática constante. Finalmente, ensino sistemático. Prá-
Isócrates ou Platão? tica e ensino podem melhorar o orador, mas não criá-lo.
Apesar de, como Górgias, querer uma prosa literária, des-
Vimos que a retórica veio atender a diversas necessidades preza a grandiloqüência e cria uma prosa que se distingue com-
dos gregos: necessidade de técnica judiciária, de prosa literá- pletamente da poesia: sóbria, clara, precisa, isenta de termos
ria, de filosofia, de ensino. Ora, Isócrates vai conseguir satisfa- raros, de neologismos, de metáforas brilhantes, de ritmos mar-
zer sozinho essas quatro exigências, ao propor uma retórica cados, mas sutilmente bela e profundamente harmoniosa. Sem
mais plausível e mais moral que a dos sofistas. ser poética, tem um ritmo que se deve ao equilíbrio do período
Aliás, a partir do final do século V, esse termo passou a ser e à cláusula que a fecha; é eufônica, evitando as repetições des-
pejorativo, e devemos agradecer Isócrates por ter libertado a re- graciosas de sílabas e os hiatos.
tórica do domínio sofistico. O problema está em saber se de fato Principalmente, moraliza a retórica ao afirmar alto e bom
foi uma libertação real, e se afinal Isócrates não deixou as coi- som9 que ela só é aceitável se estiver a serviço de uma causa
sas como estavam. É exatamente isso que Platão critica nele. honesta e nobre, e que não pode ser censurada, tanto quanto
qualquer outra técnica, pelo mau uso que dela fazem alguns.
Aliás, para Isócrates, ensino literário e formação moral estão
!sócrates, o humanista ligados, para dizer o mínimo. De fato, ele ensina que a retórica
deve ter um objetivo para depois procurar todos os meios de
Ateniense da gema, Isócrates viveu noventa e nove anos sem nada deixar ao acaso. Mas, ensinando-se assim a
(436-338). Sua voz fraca e sua invencível timidez impediram- organizar um discurso, não se estaria também ensinando a
no de ser orador. Por isso, virou professor de arte oratória. Aos governar a própria vida? O ensino literário é uma escola de
oitenta anos, foi-lhe movida uma espécie de processo fiscal estilo, de pensamento e de vida. Idéia bem grega, de que a har-
12 INTRODUÇÃO À RET6RICA ORIGENS DA RET6RICA NA GRÉCIA 13

monia é o valor por excelência, que rege a existência tanto quan- fundo contra a retórica, especialmente no livro que lhe dedica,
to rege o discurso. Estamos aqui na origem do humanismo, Górgias, um dos textos mais fortes de toda a literatura.
para o qual Isócrates contribui, aliás, com um fundamento an- Mas comecemos com uma pausa, dando pela última vez a
tropológico. palavra ao sofista retor. Pois nesse diálogo Platão lhe dá a pala-
A palavra, diz ele, é "a única vantagem que a natureza nos vra. Põe em cena seu mestre Sócrates a discutir retórica com
deu sobre os animais, tornando-nos assim superiores em todo o Górgias e mais dois de seus discípulos. Aliás, parece que o Gór-
resto"lO. Em outras palavras, todas as nossas técnicas, toda a gias histórico é menos visado em Górgias do que Isócrates.
nossa ciência, tudo o que somos devemos à fala. Donde ele in- No começo, Sócrates, fingindo ignorar o que é retórica,
fere uma conclusão política: os gregos, povo da palavra, for- pede a Górgias que a defina. Ela é - responde o outro - "o po-
mam na verdade uma única nação, não pela raça, mas pela lín- der de persuadir pelo discurso" assembléias de qualquer tipo
gua e pela cultura. Devem, portanto, renunciar às guerras fra- (452 e): ela é, portanto, "criadora de persuasão" (peithous de-
tricidas e unir-se. miurgos). Sócrates então faz uma pergunta capital para o que
Isócrates, que se proclama anti-sofista, também não rei- se segue: será que a retórica tem ciência daquilo de que persua-
vindica o nome de retor. Ele se diz "filósofo". Mas, convencido de? E Górgias responde que ela não precisa disso (tanto quanto
(de que o homem não pode conhecer as coisas assim como são, quem faz propaganda de um remédio não precisa ser médico).
colocando a dialética de Platão no mesmo nível de inutilidade Mas então para que precisamos dela: nos debates públicos não
da eristica dos sofistas, integra a filosofia na arte do discurso". se buscará o conselho de especialistas, e não retores? A respos-
Ela é para a alma o que a ginástica é para o corpo, formação ta de Górgias merece ser citada por inteiro.
intelectual e moral, boa para os jovens, mas inútil para perse-
guir por toda a vida (a mesma critica que será feita a Sócrates'2
por Cálicles). Em suma, para Isócrates, "filosofia" é cultura
Texto 1- Platão, Górgias, 455 d a 456 c, trad. M. Croiset
geral, centrada na arte oratória; numa palavra: retórica.
Nesse caso, qual é seu mérito em relação aos sofistas? Uma
GÓRGIAS - Vou tentar, Sócrates, revelar-te claramente o
contribuição tipicamente grega, o sentido da beleza. Ele escreve poder da retórica em toda a sua amplitude (... ). Não ignoras por
em seu Elogio de Helena que a beleza é "o mais venerado, o certo que a origem desses arsenais, desses muros de Atenas e de
mais precioso, o mais divino dos bens" (54). É a beleza que toda a organização de vossos portos se deve por um lado aos
constitui a harmonia do discurso e da vida, e a educação é ética conselhos de Temístocles e por outro aos de Péricles, mas em
pelo simples fato de ser estética. Se a linguagem é peculiar ao nada aos dos homens do oficio.
homem, a bela linguagem é valor por excelência: e a retórica, SÓCRATES - É isso realmente o que se relata a respeito de
confundida com a filosofia, é a rainha das ciência. Mas será Temístocles, e, quanto a Péricles, eu mesmo o ouvi propor a
construção do muro interno.
possível separar o discurso do ser, a beleza da verdade?
GóRGIAS - E, quando se trata de uma dessas eleições de que
falavas há pouco, podes verificar que também são os oradores que
matéria dão e que a fazem
Uma pausa . SÓCRATES - Posso venficar ISSO com espanto, Gorglas, e
por isso me pergunto há muito tempo que poder é esse da retóri-
Se Isócrates enaltece a retórica, que para ele é toda a filo- ca. Ao ver o que se passa, ela se me aparece com uma coisa de
sofia, Platão, em nome da filosofia, aplica-se a uma critica de grandeza quase divina.
14 INTRODUÇÃO À RET6RICA ORIGENS DA RET6RICA NA GRÉCIA 15

GÓRGIAS - Se soubesses tudo, Sócrates, verias que ela uma visão global e da arte da palavra, ou seja, que saiba ouvir e
engloba em si, por assim dizer, e mantém sob seu domínio todos fazer-se ouvir.
os poderes. Vou dar-te uma prova impressionante disso: E seria fácil continuar os exemplos de Górgias: são os pre-
Aconteceu-me várias vezes acompanhar meu irmão ou sidentes das empresas que decidem, não os engenheiros; os
outros médicos à casa de algum doente que recusava uma droga grandes ministros raramente são especialistas em seu setor: um
ou que não queria ser operado a ferro e fogo, e sempre que as Ministro da Saúde não precisa ser médico, um Ministro da Edu-
exortações do médico resultavam vãs eu conseguia persuadir o
cação não precisa ser professor, e os melhores comandantes
doente apenas com a arte da retórica. Que um orador e um médi-
co andem juntos pela cidade que quiseres: se começar uma dis- das guerras não são militares: pensemos em Clemenceau ou
cussão numa assembléia popular ou numa reunião qualquer para em Churchill. Quem realmente decide não são os especialistas,
decidir qual dos dois deverá ser eleito médico, afirmo que o mas aqueles que, graças à cultura e à arte da eloqüência, são
médico será anulado e que o orador será escolhido, se isso lhe capazes de fazer-se ouvir e arbitrar.
agradar. Aliás, é por isso que Protágoras, em outro diálogo, afirma
O mesmo aconteceria com qualquer outro artesão: o orador que educa os jovens não para torná-los técnicos em alguma
se faria escolher diante de qualquer outro concorrente, pois não coisa, mas para sua educação all'epi paideia, ou seja, para sua
há assunto sobre o qual um homem que conhece retórica não cultura geraP3.
consiga falar diante da multidão de maneira mais persuasiva que Na seqüência de seu discurso, Górgias amplia o argumen-
um homem do oficio, seja ele qual for. Aí está o que é retórica, e
to, mas por isso mesmo o enfraquece, pois exige demais dele.
do que ela é capaz.
Depois de mostrar o poder da retórica, quer transformá-lo em
onipotência. Para isso acrescenta outro exemplo, menos verifi-
cável, mas também plausível, o do orador que convence o en-
Para começar, cabe admirar a ironia de Sócrates (§ 4), que
finge não compreender e espantar-se. Observemos também fermo. Continuamos no verossímil: para levar um paciente a
admitir que tem de sofrer para curar-se, é preciso coisa diferen-
que, sem explicitar, Górgias ilustra a teoria de Isócrates, para
quem a palavra é apanágio do homem e origem de todos os seus te da ciência médica: psicologia.
"poderes"; donde se pode concluir que o domínio da palavra Mas no fim a argumentação incha a ponto de explodir,
será também o domínio de todas as técnicas. com o exemplo - puramente fictício - do concurso. A assem-
Górgias, porém, não utiliza o raciocínio. Argumenta atra- bléia preferirá o orador ao médico, caso o orador queira fazer-
vés do exemplo. Na verdade, para provar sua tese, a onipotên- se eleger médico! No fundo é o ponto de vista da publicidade,
cia da retórica, ele parte de dois fatos bem conhecidos, de que que afirma, a torto e a direito, que consegue vender e "vender-
seu próprio interlocutor foi testemunha (§ 2). Esses exemplos se". No entanto o eu afirmo (phémi) de Górgias não é realmen-
são muito fortes, pois bastam para pôr em xeque a pretensão te autorizado pelo que precede; de fato os exemplos, por mais
dos especialistas e refutá-la. Ainda hoje não são os especialis- numerosos e eloqüentes que sejam, não provam tudo; não que
tas que promovem vendas, mas publicitários. Ainda hoje como não provem nada, mas não provam nada de universal. Desse
na Grécia, as decisões políticas não são tomadas por especia- modo, os exemplos de Górgias provam que nem tudo podem os
listas. Por quê? Porque estão em falta? Ao contrário, talvez por especiattstas, e não que nada podem; provam que a retórica é
existirem em excesso, por ser necessário selecionar os melho- capaz de alguma coisa, e até muito, mas não que é onipotente.
res, que raramente sabem se impor. É preciso, portanto, um Na verdade, seria fácil contra-argumentar mostrando que, sem
"retor", um não-especialista que em contrapartida disponha de médicos ou outros especialistas, o retor não iria muito longe; a
16 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ORIGENS DA RETÓRICA NA GRÉCIA 17

cidade que o tivesse elegido médico não seria enganada por mui- crates faz outra pergunta completamente diferente: os tiranos
to tempo! fazem o que querem? Naturalmente fazem o que lhes agrada,
Em suma, partindo de um argumento muito forte, Górgias mas será realmente o que querem? Fazer o que se quer implica
o enfraquece, depois o destrói, exigindo dele o que ele não po- saber do que se trata, conhecer o objeto da vontade e seu valor
de provar. real. Ora, o retor e o tirano não conhecem nada disso. Pois seu
único critério é o prazer, e o prazer nunca indica o verdadeiro
bem; só dá uma satisfação aparente e fugaz. Assim como a
Retórica e cozinha culinária cujo objetivo único seja lisonjear nossa gula não nos
dá saúde, pelo contrário, também a retórica apenas lisonjeia,
A seqüência do diálogo é uma refutação progressiva e to- sem preocupação com o verdadeiro bem. Aquilo que a culiná-
tal da retórica. ria é para a medicina, ciência da saúde, a retórica é para ajusti-
Para começar, é o próprio Górgias que, como Isócrates, li- ça, ou seja, sua falsa cara, sua imitação.
mita o pOder dela, subordinando-a à moral: Poder da retórica? Um poder sem freios como o do tirano,
e sem controle. Mas é poder de verdade? Polos afirma que o
Deve-se usar a retórica com justiça, assim como todas as tirano é o homem onipotente, pois pode fazer "tudo o que lhe
armas. (Górgias, 457 b; cf. Isócrates, A troca, 251 a 253) agrada": despojar, exilar, matar, etc., sem as peias de lei algu-
ma. Ora, Sócrates abstém-se de criticas morais, do tipo "não
Górgias (ou Isócrates?), retor honesto, subordina a retóri- está certo". Mostra simplesmente que "não é forte", que esse
ca a uma moral que lhe é completamente exterior; mas não es- poder que o retor e o tirano se atribuem não passa de impotên-
taria ele dessa forma mascarando as fraquezas e os perigos da cia, porque não fundado em verdade, porque não pode justifi-
retórica? Pois, afinal, mesmo a serviço de uma boa causa, a ar- car o que está propondo ou se propondo. O tirano considera-se
ma continua sendo uma arma, e não é infalível que o seu poder um monstro, mas um monstro feliz; na verdade, é apenas fraco
seja sempre totalmente controlável. e infeliz, mais digno de lástima que suas vítimas.
Sócrates começa fazendo Górgias confessar que a retórica
assim definida não necessita conhecer aquilo de que está falan- POLOS - O homem miserável e digno de piedade sem a
do, como por exemplo a medicina. Donde a seguinte conclusão menor dúvida é aquele que foi morto injustamente.
desdenhosa: SÓCRATES- Menos do que aquele que mata, Polos ... (469 b)

Logo, quem leva a melhor sobre o sábio é um ignorante E a retórica, com todo o seu prestígio, sofre da mesma impo-
que está falando a ignorantes. (459 b; "sábio" no sentido de com- tência; não passa de técnica cega e rotineira que, longe de pro-
petente) porcionar aos homens aquilo de que eles de fato precisam para
serem felizes, apenas lhes lisonjeia a vaidade e agrada-os sem
O debate torna-se mais agressivo com o discípulo de Gór- ajudá-los, prejudicando-os mesmo (463 a 465). A onipotência
gias, Polos, jovem que recorre menos a sutilezas e escrúpulos da retQrica não passa de impotência:
que seu mestre. Como ele se embevece com a onipotência da '''-'
retórica, Sócrates demonstra que esse poder teria a mesma na- Os oradores e os tiranos são os mais fracos dos homens.
tureza do poder do tirano, o que Polos admite, achando por cer- (466 d)
to que lhe dirão que a retórica é perigosa, imoral, etc. Ora, Só-
18 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ORIGENS DA RETÓRICA NA GRÉCIA 19

Platão rejeita a confiança que os sofistas como Isócrates beriam disso! Há um bom tempo estaríamos livres de ações
atribuem à linguagem. Só lhe reconhece valor se a serviço do errôneas e erráticas, e poderíamos prever o futuro com segu-
pensamento, único a atingir as "idéias", a verdade inteligível: rança e tomar decisões irrefutáveis. Ora, nesse ponto, Isócrates
continua tendo razão: não é por aí. A "ciência" que Platão opõe
A autêntica arte do discurso, desvinculada do verdadeiro, à retórica ainda está para ser feita e, sem dúvida, estará sempre.
não existe e não poderá jamais existir. (Fedro, 260 e) Notemos que, em Fedro, ele parece reabilitar a retórica.
Mas trata-se de uma retórica a serviço da dialética, método da
É por isso que a retórica não é nem mesmo o que pretende ser, verdadeira filosofia, que "capacita a falar e a pensar" (266 b).
uma tekhné, uma arte. Uma retórica do verdadeiro, que não procura o beneplácito das
Em resumo, Platão volta contra o retor o seu próprio argu- multidões, mas dos deuses (273 e). Mas essa retórica, que não
mento. Seu pretenso "poder" nada é. Por quê? Porque ele des- passa de expressão da filosofia, perde toda a autonomia, e mes-
conhece o verdadeiro, porque lhe falta a ciência, especialmente mo toda a existência própria.
a da justiça, única que concede o poder real e a felicidade. Concluindo, como diz muito bem Barbarin Cassin 1\ Pla-
Assim CC!JllO é a medicina que proporciona o verdadeiro bem- tão apresenta-nos duas retóricas, quer dizer, duas a mais. A pri-
estar, não a confeitaria. meira, a dos sofistas e de Isócrates, não é arte, mas uma falsa
adulação. A segunda é apenas uma expressão da filosofia, sem
conteúdo próprio. Hoje em dia, reencontramos esse dualismo
De que "ciência" se trata? estéril entre uma publicidade que só procura agradar, para ven-
der, e uma pretensa "ciência humana" que não resolve os pro-
Só que o argumento de Platão sustenta-se apenas por seu blemas humanos, abstendo-se mesmo de formulá-los. Entre-
pressuposto: de que, no domínio dajustiça e da felicidade, exis- tanto, esse conflito talvez não seja fatal. Deve ser possível uma
te uma "ciência", um conhecimento tão seguro quanto a medici- outra retórica.
na, que, assim como esta desqualifica a culinária, autorizaria a
desqualificar a retórica. E Platão está bem convencido disso.
Para ele, essa ciência, a dialética, proporciona um conhecimen-
to das coisas éticas e políticas tão seguro quanto as ciências da
natureza, e até mais seguro (cf. República, livros VII e VIII).
Mas essa ciência existe? Quando Sócrates lança a Polos a céle-
bre fórmula: "Mais vale sofrer a injustiça do que a cometer",
querendo dizer com isso que a vítima não só é menos desonesta
como também menos infeliz, porquanto o mal não está nela,
tem razão. Mas será que podemos saber uma única vez e uma
vez por todas o que é o justo e o que é o injusto?
Hoje em dia, certamente em sentido diferente, alguns au-
tores afirmam também que existe uma ciência da política, da
ética, da educação, o que lhes permite condenar, como Platão,
tudo o que é retórico, a que dão o nome de "literário" ou mes-
mo "filosófico". Mas afinal, se tal ciência existisse, todos sa-
Capítulo 11
Aristóteles, a retórica e a dialética

Aristóteles (384-322) nasceu - quinze anos depois da


morte de Sócrates - em Estagira, cidadezinha litorânea entre
Salônica e o monte Atos. Entra com dezessete anos na Acade-
mia de Platão e ali fica vinte anos, abandonando-a por não po-
der suceder ao mestre; vai fundar uma escola concorrente, o
Liceu. Filósofo e sábio universal, soube conciliar em si duas
tendências pouco conciliáveis: o espírito de observação e o es-
pírito de sistema.
Antes de fundar o Liceu, foi preceptor do filho do rei Fili-
pe da Macedônia, que mais tarde se distinguiu como um dos
maiores gênios militares e políticos de todos os tempos, con-
quistando para a pequena Grécia todo o Oriente, desde o Egito
até a Índia.
Aristóteles e Alexandre, o Grande: o que o primeiro pode
ter ensinado ao segundo? Um militar tentou responder:

o poder do espírito implica uma diversidade que nunca se


encontra unicamente na prática da atividade profissional, do
mesmo modo como não nos divertimos apenas em família. A
verdadeira escola do comando está na cultura geral. Por meio
dela, o pensamento é posto em condições de exercer-se, com or-
dem, de distinguir o essencial do acessório nas coisas, de perce-
ber os prolongamentos e as interferências, em suma, de elevar-
um nível em que o conjunto aparece sem o prejuízo dos
matizes. Não há ilustre capitão que nunca tenha tido gosto nem
sentimento pelo patrimônio do espírito humano. Por trás das
vitórias de Alexandre, encontramos sempre Aristóteles. (Char-
les de Gaulle, Vers I'armée de métier, 1934)
22 INTRODUÇÃO À RETÓRICA ARISTÓTELES, A RETÓRICA E A DIALÉTICA 23

Belo elogio da retórica. Retórica que Aristóteles vai re- sua função não é [somente] persuadir, mas ver o que cada caso
pensar de cabo a rabo, integrando-a de início num sistema filo- comporta de persuasivo. O mesmo se diga de todas as outras
sófico bem diferente daquele dos sofistas, e depois transfor- artes, pois tampouco cabe à medicina dar saúde, porém fazer
tudo o que for possível para curar o doente.
mando-a em sistema.

Uma nova definição de retórica


Uma definição mais modesta ...

Nós mesmos traduzimos esse texto capital, utilizando a


Texto 2-Aristóteles, Retórica, livro I, capo 2, 1355 a-b
tradução de Médéric Dufour, a de Rhys Roberts, na edição in-
(1) A retórica é útil, porque, tendo o verdadeiro e o justo glesa, e evidentemente o texto grego.
mais força natural que os seus contrários, se os julgamentos não Se compararmos esse trecho com o de Górgias (texto 1),
são como conviria, é necessariamente por sua única veremos nos dois casos que se trata de um elogio à retórica.
culpa que os litigantes [cuja causa é justa] são derrotados. Sua Górgias a celebra por seu poder, Aristóteles por sua utilidade.
ignorância merece, portanto, censura. Ambos admitem (como Isócrates) que ela pode ser usada deso-
(2) Ainda mais: conquanto possuíssemos a ciência mais nestamente (adikôs), o que em nada subtrai o seu valor.
exata, há certos homens que não seria fácil persuadir fazendo Entretanto, se é que Górgias e Aristóteles estão falando da
nosso discurso abeberar-se apenas nessa fonte; o discurso se- mesma coisa, não falam da mesma maneira. O discurso do
gundo a ciência pertence ao ensino, e é impossível empregá-lo sofista é digno quando muito de uma praça pública; sua argu-
aqui, onde as provas e os discursos (logous) devem necessaria- mentação pelo exemplo dá guinadas. O de Aristóteles, ao con-
mente passar pelas noções comuns, como vimos em Tópicos, a trário, é muito coeso; procede por silogismos implícitos, ou
respeito das reuniões com um auditório popular. entimemas. Em suma, passa-se de uma arenga propagandísti-
(3) Ademais, é preciso ser capaz de persuadir dos prós e ca, do tipo "vocês vão ver o que vocês vão ver", para uma argu-
dos contras, como no silogismo dialético. Não para pôr os prós mentação rigorosa.
e os contras em prática - pois não se deve corromper pela per- E essa nova argumentação dá uma idéia mais profunda e
suasão! -, mas para saber claramente quais são os fatos e para, sólida da retórica. Para começar, já não a apresenta como poder
caso alguém se valha de argumentos desonestos, estar em condi-
de dominar, mas como poder de defender-se, o que logo de cara
ções de refutá-lo (... )
a toma legítima. Em seguida, os argumentos contrários ao mau
(4) Além disso, se é vergonhoso não poder defender-se
uso são muito mais fortes, porque o explicam; é precisamente
com o próprio corpo, seria absurdo que não houvesse vergonha
por ser um bem (agathon) que a retórica pode ser pervertida,
em não poder defender-se com a palavra, cujo uso é mais pró-
prio ao homem que o do corpo.
assim como a força, a saúde, a riqueza. Com exceção da virtu-
(5) Objetar-se-á que a retórica pode causar sérios danos de moral, todos os bens são relativos. Mas, enfim, nem por isso
pelo uso desonesto desse poder ambíguo da palavra? Mas o deixan;l de ser bens, pois mais vale ser forte que fraco, sadio
mesmo se pode dizer de todos os bens, salvo da virtude (... ) que dotDte ..-. Do mesmo modo, é preferível saber utilizar a for-
(6) Fica claro, pois, que, assim como a dialética, a retórica ça do discurso.
não pertence a um gênero definido de objetos, mas é tão univer- Em resumo, enquanto a defesa de Górgiasou de Isócrates
sal quanto aquela. Claro também que é útil. Claro, por fim, que consistia em fazer da retórica um instrumento neutro, que só
24 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ARISTÓTELES, A RETÓRICA E A DIALÉTICA 25

valia pelo uso, Aristóteles lhe confere um valor positivo, ainda tras palavras, dela se pode esperar aquilo que se espera de todas
as técnicas: um serviço; é o que vão mostrar os quatro argu-
que relativo.
Ou talvez porque relativo. Voltemos, pois, à sua definição mentos, cada um por sua vez.
"corrigida" da retórica. Ela não se reduz, diz ele, ao poder de O primeiro argumento parece responder a uma objeção
persuadir (subentendido: ninguém de coisa nenhuma); no es- implícita: não é possível contentar-se com expor simplesmente
sencial, é a arte de achar os meios de persuasão que cada caso o verdadeiro e o justo, sem recorrer a artifícios oratórios? Aris-
comporta. Em outras palavras, o bom advogado não é aquele tóteles leva em conta a objeção, dizendo: sim, o verdadeiro e o
que promete a vitória a qualquer custo, mas aquele que abre justo são por natureza (physei) mais fortes que seus contrários.
para a sua causa todas as probabilidades de vitória. Só que a experiência mostra - aqui, argumento pelo exemplo -
E aqui surge uma vez mais a personagem paradigmática que muitos veredictos dos tribunais são iníquos. Como expli-
do iatrós, do médico. Para Górgias, ele estava submetido ao re- car isso? Pelo erro dos litigantes, que não souberam fazer valer
tor, pois dele dependia inteiramente, quer para convencer seu seus direitos, que não conseguiram sobrepujar a retórica de
paciente, quer mesmo para ser nomeado. Em Platão, é, ao con- seus adversários, capazes de "tomar mais forte o argumento
trário, o faz papel bonito; é ele que sabe e pode mais fraco", de fazer o injusto prevalecer sobre o justo. Se a
curar, enquanto o retor não passa de envenenador que não sabe arte pode ter vantagem sobre a natureza, é preciso um suple-
nem como nem por que envenena, uma vez que sua pretensa mento de arte para devolver à natureza seus próprios direitos.
arte não passa de rotina cega. Pode-se observar que o médico É isso o que o terceiro argumento desenvolve tecnicamen-
de Aristóteles tem bem menos segurança do que faz; ele nada te. É preciso ser capaz de defender tão bem o contra quanto o
pode fazer pelos doentes incuráveis, e mesmo aos outros não po- pró, claro que não para tomá-los equivalentes - como preten-
de prometer a cura, mas simplesmente dar-lhes todas as oportu- diam os sofistas -, mas para compreender o mecanismo da ar-
nidades de curar-se. Ainda que nossa medicina seja hoje infini- gumentação adversária e assim a refutar.
tamente mais científica que a de Aristóteles, não pode prome- O quarto argumento amplia o debate, ligando novamente a
ter mais. Aqui o médico já não está abaixo do retor, nem acima; retórica à condição humana, como já fazia Isócrates, o grande
ambos estão frente a frente, sendo cada um detentor de uma ausente-presente de todo o debate. Se a palavra é característica
arte que só tem poder porque reconhece seus limites. do homem, é mais desonroso ser vencido pela palavra que pela
Em resumo, dando à retórica uma definição mais modesta força física. Para interpretar a polissemia do termo grego 10-
que a dos sofistas, ele a toma muito mais plausível e eficaz. gos, o tradutor inglês emprega rational speech.
Entre o "tudo" dos sofistas e o "nada" de Platão, a retórica se Na verdade, esses argumentos valem não somente para o
contenta com ser alguma coisa, porém de valor certo. discurso judiciário como também para todos os tipos de discur-
sos públicos. No campo do direito, da política, da vida interna-
cional, vivemos sempre uma situação polêmica, em que as ar-
A argumentação de Aristóteles
mas mais eficazes são as da palavra, visto que só ela - e não a
força física - define o justo e o injusto, o útil e o nocivo, o no-
Nosso texto objetiva estabelecer esse valor. Isso é feito
bre e o;àWsprezível. A retórica, arte ou técnica da palavra, é,
com quatro argumentos mais uma prolepse (§5), para final-
portanto, indispensável. E aí está o que a legitima.
mente passar à definição.
Os quatro argumentos têm por finalidade provar a tese, Mas o que dizer então da objeção de Platão, qual seja, que
exposta desde o início: "A retórica é útil" (khrésimos); em ou- a retórica é inteiramente estranha à verdade? Parece-nos que o
26 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ARISTÓTELES, A RETÓRICA E A DIALÉTICA 27

segundo argumento de Aristóteles (§ 2) responde implicitamen- Parece que o problema está em outro lugar. O domínio da
te a ele. A retórica, dizia Platão, que se autodefine como arte retórica, o das questões judiciárias e políticas, não é o mesmo
onipotente, não é arte de modo algum, pois é cega no que faz e da verdade científica, mas do verossímil. O próprio Aristóteles
no que quer. Por ignorar o verdadeiro, não é nem mesmo verda- diz isso em outro texto:
deiro poder. O que responde Aristóteles?
"Conquanto possuíssemos a ciência..." É preciso entender Seria tão absurdo aceitar de um matemático discursos sim-
bem o que está em jogo. Aristóteles opõe-se aos sofistas, para plesmente persuasivos quanto exigir de um orador (retor) de-
os quais tudo é relativo, e também, como sempre, a Isócrates, monstrações invencíveis. (Ética a Nicômaco, I, 1094 b)
para quem uma ciência absoluta, à moda de Platão, não passa
de logro, visto que o homem poderá chegar apenas a opiniões A retórica não é, pois, a prova do pobre. É a arte de defen-
justas, ou melhor, mais ou menos justas (A troca, VI, 271). der-se argumentando em situações nas quais a demonstração
Quanto a Aristóteles, admite que existe uma ciência exata, e não é possível, o que a obriga a passar por "noções comuns",
até "inteiramente exata" (akribestaté). Assim como Platão, ad- que não são opiniões vulgares, mas aquilo que cada um pode
mite uma ciência que, por via demonstrativa, parta do verda- encontrar por seu bom senso, em domínios nos quais nada seria
deiro para chegar ao verdadeiro. Mas parece que objeta a Pla- menos científico do que exigir respostas científicas.
tão que a ciência mais exata é impotente para convencer certos Numa palavra, Aristóteles salva a retórica, colocando-a
auditórios, aos quais falta instrução. É preciso, portanto, utili- em seu verdadeiro lugar, atribuindo-lhe Um papel modesto,
zar noções "comuns", ou seja, acessíveis ao comum dos mor- mas indispensável num mundo de incertezas e de conflitos. É a
tais. Suponhamos que uma comissão médica queira fazer cam- arte de encontrar tudo o que um caso contém de persuasivo,
panha contra o tabagismo: vai precisar achar para difundir coi- sempre que não houver outro recurso senão o debate contradi-
sa bem diferente de um curso de medicina! Tal é a interpreta- tório. Para entender melhor isso, passemos ao exame da rela-
ção corrente do texto de Aristóteles. No entanto, ela nos parece ção entre a retórica e a dialética 1•
evidente e banal demais para não ser suspeita.
Com efeito, no fim da alínea, Aristóteles refere-se à dialé-
tica dos Tópicos. Atendo-nos a essa interpretação, poderíamos o que é dialética?
acreditar que a dialética não passa de quebra-galho, devido à
incultura dos auditórios populares, uma maneira de falar aos Sabe-se que os gregos eram grandes esportistas, pratican-
ignaros, que só têm a seu favor (quando muito) o senso co- tes de toda espécie de lutas e competições. Mas também se des-
mum. A retórica seria então a filosofia do pobre, o que no fun- tacavam numa disputa esportiva fora dos estádios e ginásios,
do nos remete a Platão. ou puramente verbal, a dialética. Dois adversários se enfren-
Na verdade, é preciso retomar à frase obscura: "o discurso tam diante do público: um sustenta uma tese - por exemplo,
segundo a ciência pertence ao ensino". Em outras palavras, um que o prazer é o bem supremo -, e a defende custe o que custar;
discurso submetido às exigências científicas só pode ser feito o outro ataca com todos os argumentos possíveis. O vencedor
numa escola, numa instituição especial, com seus métodos, será aquele que, prendendo o adversário em suas contradições,
seus mestres, programas progressivos, etc. Ora, não é a mesma conSe8uir reduzi-lo ao silêncio, para grande alegria dos espec-
coisa quando se fala diante de um tribunal, ou em praça públi- tadores.
ca, onde não se tem nem mesmo o tempo para expor cientifica- Parece que a primeira dialética foi a erística dos sofistas,
mente. Mas será por causa da incultura do auditório? arte da controvérsia que permitia fazer triunfar o absurdo ou o
28 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ARISTÓTELES, A RETÓRICA E A DIALÉTICA 29
falso. Sócrates e depois Platão puseram a dialética a serviço do Em nossa opinião, a melhor resposta para esse tipo de crí-
verdadeiro, transformando-a no próprio método da filosofia. tica é mostrar que a dialética não é nem moral nem imoral, sim-
Para Aristóteles, a dialética não está menos a serviço do plesmente porque, no fundo, ela é um jogo. Num jogo, o pro-
verdadeiro do que do falso; ela trata do provável: blema é ganhar. E, neste, vencer é convencer; em outras pala-
vras, uma proposição enunciada pelo adversário é admitida
Em filosofia, é preciso tratar as questões segundo a verda- como provada, sem que se possa voltar a ela.
de, mas em dialética somente segundo a opinião2•
Como em todos os jogos, a polêmica só é conflito na apa-
rência: um prélio esportivo ou uma partida de xadrez estão tão
A dialética de Aristóteles é apenas a arte do diálogo orde-
longe de ser um conflito real quanto um rei do xadrez está lon-
nado. O que a distingue da demonstração filosófica e científica
ge de um monarca histórico; assim, quem defende uma tese po-
é raciocinar a partir do provável. O que a distingue da erística
de muito bem não acreditar nela; defende-a por jogo ... Enfim,
sofista é raciocinar de modo rigoroso, respeitando estritamente
as regras da lógica. como todo jogo, a dialética não tem outro fim além de si mes-
ma: joga-se por jogar; discute-se pelo prazer de discutir. E é
nisso que se distingue das atividades sérias: da filosofia por
A dialética é um jogo um lado e da retórica por outro, ainda que lhes seja - como ve-
remos - indispensável.
O silogismo demonstrativo parte de premissas evidentes, Em síntese, um jogo análogo ao xadrez, em que o acaso
necessárias, que provam sua conclusão explicando-a de modo tem posição ínfima. Um jogo em que se deve fazer de tudo
indubitável. O silogismo dialético parte de premissas simples- para ganhar, mas sem trapacear, respeitando as regras ... da ló-
mente prováveis, os endoxa, aquilo que parece verdadeiro a 'gica.
todo o mundo, ou à maioria das pessoas, ou ainda aos indiví-
duos competentes. O endoxon opõe-se, pois, ao paradoxon (o
paradoxo pode ser verdadeiro, mas contradiz a opinião aceita). Tudo para ganhar
São assim, hoje em dia, os conceitos de "normal" ou de "matu-
ridade": não possuem nenhum rigor científico, mas são úteis No embate dialético, é preciso antes de tudo levar em con-
para que as pessoas se entendam, tanto nas ciências humanas sideração o adversário concreto que temos diante de nós e dis-
quanto na vida social; seriam bons exemplos de endoxa. por os argumentos por via de conseqüência. Por exemplo, se o
Portanto, a dialética renuncia à verdade das coisas em be- adversário é iniciante, será atacado com exemplos ou analogias;
neficio da opinião aceita. Substitui a pergunta científica: "o se for experiente, ser-Ihe-ão opostos raciocínios dedutivos4 •
que é?" por esta outra: "o que lhe parece?"3. A verdade é que Aristóteles, aliás, ensina procedimentos, "truques" próprios
Aristóteles toma o cuidado de distinguir o verdadeiro consenso a desorientar o adversário, impedi-lo de ver aonde se quer che-
do consenso aparente (phainomenon endoxon), com que se con- gar (como no xadrez); por exemplo, encontrar formas de argu-
tentam os sofistas. mentação que dissimulem a conclusão, para que o adversário
Hoje, quem lê os Tópicos pergunta-se com freqüência o não sat& aonde se está indo realmente; inserir na argumenta-
que distingue Aristóteles dos sofistas. Desconfia-se que seu ção proposições inúteis para melhor esconder o jogo, etc. 5 ; do
objetivo não é ensinar a buscar a verdade, mas sim a manipular mesmo modo, finge-se imparcialidade, fazendo objeções a
o adversário e mesmo a enganá-lo. si mesmo; às vezes não se hesita em concluir o verdadeiro a
30 INTRODUÇÃO À RET6RICA ARIST6TELES, A RET6RICA E A DIALÉTICA 31

partir de premissas falsas, em se verificando que o adversário contrário, se obstinar, não estará fazendo mais que chicanice,
admite estas últimas mais facilmente que as verdadeiras!6 No pois estará bloqueando o debate de modo totalmente arbitrá-
todo, as aparências são salvas. Tem-se até o direito de jogar rio lO • Analogamente, é preciso evitar que as objeções acabem
com as palavras (como os sofistas!), quando, por culpa do virando obstrução, o que equivale a desperdiçar tempo e parali-
adversário, se está "absolutamente impossibilitado de discutir sar a discussão para não perder. De modo mais geral, deve-se
de outra maneira..."7. evitar discutir com qualquer um, porque, se o adversário ignora
Na verdade, pouco importa se o defensor sustenta uma as regras do debate, este só poderá abespinhar-se, já que cada
tese provável ou improvável; pouco importa se a tese é dele, de um recorrerá a qualquer meio para impor sua conclusão II •
outro, ou de ninguém. O importante é acharem que ele defen- Às regras que dizem respeito aos argumentadores, acres-
deu bem, que argumentou brilhantemente8 ; por fim, caso o centam-se as que dizem respeito à argumentação.
questionador tenha vencido ressaltando todos os absurdos de- Em primeiro lugar, as regras de clareza no que diz respeito
correntes da tese, o defensor deve poder "mostrar" que a culpa aos termos. Muitas vezes os debates são deturpados por se utili-
zarem premissas ambíguas. Vejamos, entre milhares de exem-
nâo é sua, mas da própria tese; em suma, que ele defendeu o
plos, este sofista registrado na Lógica de Port-Royal (p. 217):
melhor que pôde uma tese que não era sua>, Assim,
Não és o que sou;
num debate dialético, o objetivo do questionador é parecer, por
eu sou homem;
todos os meios, estar fazendo uma refutação, e o objetivo do de-
logo, não és homem.
fensor é parecer não estar sendo afetado pessoalmente em nada.
(VIII,5,159a)
Sofisma porque, na conclusão, "ser homem" é tomado no
sentido universal, enquanto na premissa menor ele é tomado
em sentido particular: este homem, e não todo o homem ou
Respeitar as regras do jogo qualquer homem I2 •
Outros sofismas dizem respeito à forma do raciocínio. Por
Um jogo, portanto, mas que deve ser jogado respeitando- exemplo, a petição de princípio, que toma como aceita a tese
se as regras. Sim, deve-se fazer de tudo para ganhar, mas não que se quer demonstrar, enunciando-a com outras palavras I3 ;
por quaisquer meios. Porque a trapaça, transgressão das regras em que a conclusão é extraída de premissas menos prováveis
lógicas, induz de chofre a destruição do jogo. E é exatamente que ela, ou de premissas excessivamente numerosas para que
por isso que Aristóteles tanto insiste nas regras da dialética, se possa compreender a razão do que está sendo concluído; e
que a opõem à sofistica, essa trapaça. As principais são as que em que se chega à conclusão por meio de um raciocínio impró-
seguem: prio ao assunto, como por exemplo um raciocínio não geomé-
Para começar, as que - sem serem propriamente lógicas - trico para estabelecer uma conclusão geométrica I4 •
têm por objetivo permitir a conclusão, o fim do jogo, num tem- Vimos que, contra certos adversários malevolentes ou li-
po limitado. mitados, o verdadeiro pode ser concluído de premissas falsas.
Assim, se é verdade que, a partir de casos particulares, por Mas, ,mesmo nesse caso, continua proibido transgredir as re-
mais numerosos que sejam, nunca se pode concluir por uma gras d&raciocínio; sejam as premissas certas, prováveis ou fal-
proposição universal, cumpre entretanto que o adversário, após sas, o raciocínio deve ser correto.
certa quantidade de exemplos, aceite essa passagem para o uni- A passagem,do falso ao verdadeiro deve ser dialética, não
versal, a menos que ele próprio gere um contra-exemplo. Se, ao erística (161 a).
32 INTRODUÇÃO À RETÓRICA ARISTÓTELES, A RETÓRICA E A DIALÉTICA 33

Enfim, uma regra apropriada ao 'jogo" dialético: só serão E o próprio Aristóteles, no capítulo 2 do primeiro livro dos
feitas perguntas que possam ser respondidas com sim ou com Tópicos, fixa os beneficios secundários oferecidos pela dialéti-
não. Por exemplo, não se deve perguntar: "O que é o bem?", ca. Aponta três: uso pedagógico, uso filosófico e uso social
mas: "O bem se reduz ao prazer?" (158 a) ("homilético", que diz respeito diretamente à retórica).
O uso pedagógico será explorado pelo ensino durante cer-
ca de vinte e cinco séculos! "É a gymnasía: Nos embates dialé-
Utilidade do jogo dialético ticos, argumenta-se para avaliar as forças, e não para debater",
"com o propósito de exercitar-se e provar-se, e não de instruir-
A dialética é, pois, um jogo cujo objetivo consiste em pro- se"16. Se desse jogo não se extrair verdade alguma, pelo menos
var ou refutar uma tese respeitando-se as regras do raciocínio. O se adquirirá um treinamento intelectual, um método que permi-
papel do inquiridor "é concluir a discussão de modo que o de- ta argumentar sobre qualquer assunto.
fensor sustente os mais extravagantes paradoxos, como conse- O 'uso filosófico divide-se em dois. Em primeiro lugar, a
qüências necessárias de sua tese" (159 b). Ao outro, em contra- dialética, que desempenha um papel epistemológico por per-
partida, cabe defender sua tese por todos os meios. O essencial mitir (e só ela o faz) estabelecer através de um exame contradi-
é que cada um mostre que raciocinou bem e utilizou todos os tório os primeiros princípios de cada ciência e os princípios
argumentos a seu alcance. E esse "mostrar" já não é simples comuns a todas. Foi graças a um exame dialético que Aristóte-
aparência; é o sofista que raciocina na aparência, exatamente les estabeleceu os primeiros princípios da fisica, da moral e até
como o trapaceiro, que faz de conta que estájogando. Quanto à o princípio de contradição.
dialética, é uma argumentação que vai da aparência à aparência, A outra função é interna à filosofia. A dialética dá ao filó-
mas raciocinando de modo real, quer dizer, correto. E o que sofo uma competência que lhe é indispensável: "Numa pala-
reforça ainda mais a idéia de jogo é a afirmação de Aristóteles: vra, é dialético quem está apto a formular proposições e obje-
quando um dos dois adversários raciocina mal, a discussão vira ções."!7 Proposição: extrair o universal de vários casos particu-
chicana, e o faltoso "impede o bom cumprimento da obra co- lares; objeção: achar um caso particular que permita infirmar
mum" (161 a); como em todo jogo, cada parceiro persegue seu uma proposição universal... E ainda mais, a dialética dá ao filó-
próprio objetivo, porém ambos perseguem um objetivo comum, sofo "a capacidade de abarcar apenas com um olhar (00') as
que é chegar ao fim da partida. Cada um quer ganhar, mas conseqüências de uma e de outra hipótese"; assim, só lhe resta
ambos querem levar a bom termo "a obra comum". "fazer a justa escolha entre ambas"18.
Finalmente, qual é o proveito do jogo dialético? Aristóte- Mas o filósofo não joga. Utiliza a formação que a dialética
les por certo responderia - e todos os gregos com ele - que esse lhe dá para buscar a verdade. No uso lúdico da dialética, cada
jogo tem fim em si mesmo. Joga-se por jogar, discute-se pela um leva em conta os objetivos reais ou prováveis do adversário
beleza e pelo prazer de uma disputa bem travada, prazer com- que tem diante de si. No uso filosófico, têm-se em mente todas
partilhado, aliás, pelo público. Entretanto, Aristóteles diz em as objeções possíveis, ainda que estas jamais tenham sido for-
outro lugar que, embora esse jogo tenha fim em si mesmo, mulaqas nem sejam formuláveis. O filósofo está diante de um
pode-se também "jogar com vista a uma atividade séria"!5. Po- adverMho que renasce a cada instante, pois está sempre insa-
de-se, com efeito, ignorar o valor insubstituível do jogo na edu- tisfeito: ele mesmo.
cação? Pode-se ignorar o aspecto de jogo intelectual que se en- Resta a função homilética da dialética:
contra tanto na matemática quanto na filosofia?
34 INTRODUÇÃO A RET6RICA ARIST6TELES, A RET6RICA E A DIALÉTICA 35

Sua utilidade no contato com os outros é explicada pelo Dessa forma, ela passa a ser antístrofos da dialética, ou seja,
fato de que, depois de prepararmos o inventário das opiniões da está no mesmo plano.
maioria (tôn pollôn), não estaremos falando a ela a partir de
pressupostos que lhe sejam estranhos, mas a partir de pressupos-
tos que lhe são próprios, sempre que a quisermos persuadir... o que elas têm em comum
(1,2, 101 a)
No mesmo plano: vejamos agora como Aristóteles prova
É preciso deixar claro que esta passagem é precisamente isso. Seus argumentos podem ser resumidos em cinco l9 •
aquela à qual Aristóteles remete no segundo argumento de Primeiramente, a retórica e a dialética são capazes tanto
nosso texto de Retórica. "Contatos com os outros": essa é exa- de provar uma tese quanto o seu contrário; o que não significa
tamente a área da retórica, e aí temos uma idéia dos serviços
que as duas teses sejam necessariamente equivalentes, pois
que a dialética pode prestar-lhe.
então se cairia na sofística; quer dizer que se pode argumentar
mesmo em favor de uma tese fraca.
Em segundo lugar, a retórica e a dialética são universais,
Retórica e dialética
no sentido de não serem ciências, de não implicarem nenhuma
especialização e de possibilitarem a discussão de tudo o que for
Qual é então a relação entre dialética e retórica? A esta
controverso.
pergunta Aristóteles responde desde a primeira frase de seu
Em terceiro lugar, ainda que ambas sejam praticadas por
livro: a retórica é antístrofos da dialética" (Retórica, I, 1354 a).
hábito ou mesmo por acaso, podem também ser ensinadas me-
O problema é que não se conhece bem o sentido de antístrofos.
todicamente, e são nesse caso "técnicas".
Os tradutores utilizam ora "análogo", ora "contrapartida". E-
Em quarto lugar, ao contrário da sofistica, ambas são ca-
o que não simplifica as coisas - a explicação do próprio Aristó-
pazes de fazer a distinção entre o verdadeiro e o aparente: a
teles é um tanto confusa. Nesse primeiro capítulo, ele escreve
dialética, entre o verdadeiro silogismo e o sofisma', a retórica,
que a retórica é o "rebento" da dialética, isto é, sua aplicação,
mais ou menos como a medicina é a aplicação da biologia. Mas entre o realmente persuasivo e o logro.
depois ele a qualifica como uma "parte" da dialética. Diz tam- Em quinto lugar, elas utilizam dois tipos idênticos de ar-
bém que ela lhe é "semelhante" (omoion), portanto que a rela- gumentação: indução e dedução, que se situam entre a demons-
ção das duas seria de analogia. Antístrofos: é maçante um livro tração (apodeixis) própria da ciência e a erística enganadora
começar com termo tão obscuro! dos sofistas.
Na nossa opinião, esse termo deve ser visto como uma Esses argumentos são tão fortes que dialética e retórica
provocação ... Isto porque Aristóteles argumenta quase sem- chegam a parecer dois termos que, no fundo, designam a mes-
pre contra Platão. Como se sabe, este último desprezava a re- ma disciplina! Mas não é nada disso. A retórica é apenas uma
tórica e exaltava a dialética, na qual via o método por exce- "aplicação", entre outras, da dialética; é uma de suas quatro
lência da filosofia, único que permitia alcançar o absoluto, o funções. Inversamente, a retórica utiliza a dialética como um
"aipotético". Aristóteles inicia, pois, o seu livro com um ges- meio,entre outros, de persuadir. Mais ou menos como o médi-
to de desafio a Platão. Faz a dialética descer do céu para a ter- co utiliza as ciências biológicas, mas também a psicologia, a
ra e, inversamente, reabilita a retórica, atribuindo-lhe um pa- psicanálise, etc.
pel mais modesto do que lhe atribuíam os antigos retores.
36 INTRODUÇÃO A RET6RICA ARIST6TELES, A RET6RICA E A DIALÉTICA 37
Dialética, parte argumentativa da retórica Se não é justo encolerizar-se contra quem nos tenha feito
mal sem intenção, quem nos fez bem por obrigação não tem
É certo que a retórica utiliza a dialética para convencer. E direito a nenhum reconhecimento. (1397 a)
parece mesmo que, no capítulo primeiro do livro I, Aristóteles Se os deuses não são oniscientes, muito mais razões há
limita a retórica à técnica da prova; diz, aliás, que o orador só para que os homens não o sejam. (1397 b)
deve ocupar-se com problemas de fato e deixar para o juiz a
preocupação de avaliá-los. Em suma, uma retórica honesta, po- A partir daí, pode-se desculpar "X" por não ser grato, ou
rém inexpressiva ... que não será exatamente a que Aristóteles "Y" por se ter enganado. Embora não sejam irrefutáveis, esses
vai desenvolver em seu livro. Esta, longe de limitar-se a ser argumentos são altamente verossímeis.
aplicação, vai subordinar a si a dialética como um meio entre Numa palavra, a dialética constitui a parte argumentativa
outros de convencer. da retórica. Cabe esclarecer, porém, que a argumentação não
E já no capítulo 2 o autor introduz em sua retórica elemen- tem a mesma função, portanto o mesmo sentido, em ambos os
tos de persuasão que nada têm a ver com a dialética, que só casos. A dialética é um jogo especulativo. A retórica, por sua
conhece provas de ordem intelectual. A retórica, diz Aristóte- vez, não é um jogo. É um instrumento de ação social, e seu
les, comporta três tipos de provas (pisteis) como meios de per- domínio é o da deliberação (buleusis); ora, esse domínio é pre-
suadir. Os dois primeiros são o etos e o patos, que estudaremos cisamente o do verossímil. De fato, não se delibera sobre o que
no próximo capítulo; constituem--4 parte afetiva da persuasão. é evidente - por exemplo, para saber se a neve é branca! - nem
O terceiro tipo de prova, o raciocÍnio, resulta do logos, consti- sobre o que é impossível; delibera-se sobre fatos incertos, mas
tuindo o elemento propriamente dialético da retórica20 • que podem realizar-se, e realizar-se em parte através de nós.
O próprio Aristóteles diz que "esses dois métodos", a de- Por exemplo, a cura de um doente, a vitória na guerra, etc. 21
dução e a indução, "são necessariamente idênticos nas duas Em resumo, a retórica é uma "aplicação" da dialética, no
técnicas" (1356 b). Idênticos não apenas em termos de estrutu- sentido de que a utiliza como instrumento intelectual de per-
ra, mas também de conteúdo. Em retórica como em dialética, suasão. Mas instrumento que não a dispensa de modo algum
os dois tipos de raciocínio apóiam-se no verossímil, o eikos, dos instrumentos afetivos.
termo constante entre os antigos retores, que Aristóteles com-
para ao endoxon da dialética. Fique claro que, limitada ao ve-
rossímil, a argumentação continua racional. O eikos (por exem- Moralidade da retórica
plo, o filho amar o pai) é o que acontece com mais freqüência,
portanto o que apresenta grande probabilidade e pode ser pre- Mas aí surge uma questão sobre a retórica que não existia
sumido salvo prova em contrário (cf. 1357 a). com referência à dialética. Como vimos, esta última em si mes-
Nesse sentido, a retórica assim como a dialética opõe-se à ma é somente umjogo, cuja moralidade consiste em não trapa-
sofistica, que se compraz com o inverossímil e o "prova" por cear, em respeitar as regras internas, sem as quais o jogo não
meio de uma aparência de raciocínio. Assim, no capítulo 24 do seria mais jogo. A retórica, ao contrário, é uma disciplina séria,
livro 11, Aristóteles detém-se numa análise dos sofismas que pois está ligada à ação social e contribui para decisões graves,
retoma de modo mais abreviado a análise feita em Tópicos. E como éôhdenar ou absolver, entrar em guerra ou viver em paz,
no capítulo 23 expõe os lugares, ou seja, os tipos de argumen- etc. Pode-se, pois, formular a questão de sua moralidade: será
tos verossímeis que servem de premissas ao raciocínio retóri- honesto o método de debater e persuadir, ou trata-se de mani-
co. Por exemplo: pulação desonesta?
38 INTRODUÇÃO A RET6RICA ARIST6TELES, A RET6RICA E A DIALÉTICA 39

A essa pergunta, que ainda teremos oportunidade de formu- assim ela produzirá conseqüências iníquas. O segundo é a
lar, vimos o que responde Aristóteles: a retórica é uma técnica útil, recusa do arbitrário, pois afinal cada um pode invocar as leis
freqüentemente indispensável. Se seu uso às vezes é desonesto, "não escritas" de Antígona para revogar a lei que o incomoda;
não cabe censurar a técnica, mas o técnico. No entanto, lendo a é como se alguém alegasse erro médico "para passar-se por
seguir os conselhos da retórica de Aristóteles, perguntamo-nos se mais hábil que os médicos" (ibid.)!
ela não se reduz a uma manipulação digna de sofistas. Discutire- Só que a situação não é mais de dialética, mas de proces-
mos esse assunto a partir de um exemplo concreto. so, em que há bens em jogo, talvez mesmo vidas. E aconselhar
No capítulo 15 do livro I, Aristóteles dá conselhos ao liti- o litigante a adotar, segundo a causa, ora uma tese, ora seu con-
gante sobre o que dizer; primeiro se a lei lhe for contrária, de- trário, parece um tanto amoral. Mas não se deve esquecer que a
pois se a lei lhe for favorável. Numa primeira leitura, tem-se a condição do litigante, como aliás a do político, é de não estar
impressão de que ele legitima todas as "velhacarias de advoga- sozinho; ele tem diante de si outro litigante, a quem compete
dos". Para destacar bem isso, dispusemos os dois textos lado a fazer de tudo para desmentir sua argumentação; ambos têm por
lado, invertendo ligeiramente a ordem dos argumentos, para que missão preparar o julgamento: cada um faz valer tudo o que
cada um corresponda a seu contra-argumento. possa servir à sua própria causa. Quem define é o juiz.
A retórica só é exercida em situações de incerteza e confli-
"Se a lei nos é desfavorável" "Se a lei nos for favorável"
to, em que a verdade não é dada e talvez jamais seja alcançada
- "é preciso recorrer à lei comum, - Ué preciso explicar que ninguém senão sob a forma de verossimilhança. Afinal de contas, o de-
com razões mais equânimes e mais [gortanto nenhuma cidade] escolhe bate entre Creonte e Antígona, entre a razão de Estado, que
justas"; o bem absoluto, mas sim seu próprio exige a ordem para garantir a paz, e a lei divina, ética, que se
bem";
- "dizer que a fórmula em minha al-
resigna com a injustiça, esse debate não se encerrou, e pode-se
- "dizer que a fórmula do juramento
em minha alma e consciência signi- ma e consciência não tem por objeti- acreditar que não nunca se encerrará.
fica não nos atermos estritamente à vo obter uma sentença contrária à A única coisa que se pode fazer, na falta de uma demons-
letra da lei"; lei, mas escusar o juiz de perjúrio, tração rigorosa, é confiar no debate contraditório em que cada
caso ele tivesse ignorado o sentido orador "se esforça por detectar tudo o que seu caso comporta
real da lei";
- "dizer que os princípios de eqüida- - "dizer que não há diferença entre
de persuasivo" ...
de são permanentes e nunca mudam, não ter lei e não recorrer àquelas que
nem a lei comum, que é baseada na temos!"
natureza"; Conclusão: Aristóteles e nós
- citar "a lei não escrita de Antígo- - "dizer que querer ser mais sábio
na", único critério de justiça das leis que as leis é justamente o que proí-
escritas, aliás muitas vezes ambíguas, bem essas leis [não escritas] que Retórica e dialética são, pois, duas disciplinas diferentes,
anacrônicas ou contraditórias entre si. costumam ser elogiadas" (75 a). mas que se cruzam como dois círculos em intersecção. A dialé-
tica é um jogo intelectual que, entre suas possíveis aplicações,
Note-se que o debate é propriamente dialético, pois opõe comporta a retórica. Esta é a técnica do discurso persuasivo
dois endoxa. O primeiro é a recusa do legalismo, em nome da que, ertttt outros meios de convencer, utiliza a dialética como
"eqüidade" (epieikés), que põe a justiça acima do direito posi- instrumento intelectual. Pois bem, se os dois círculos podem
tivo e faz do juiz um árbitro, que pode corrigir a lei quando esta cruzar-se, é porque se situam no mesmo plano, e - indo mais
"deixar de desempenhar sua função de lei" (ibid.), porque longe - porque pertencem em sentido estrito ao mesmo mundo.
40 INTRODUÇÃO À RETÓRICA ARISTÓTELES, A RETÓRICA E A DIALÉTICA 41

É certo que não desempenham o mesmo papel. "A dialéti- provável, onde a decisão é mais ou menos justa. Mundo onde,
ca", diz Pierre Aubenque, "refuta no real ( ... ) mas só demons- embora possamos "refutar no real", com uma certeza demons-
tra na aparência"22. Na retórica, em que não se sustenta uma trativa, devemos nos contentar com provas mais ou menos con-
tese, mas se defende uma causa, em que não se joga com idéias, vincentes, com opções mais ou menos razoáveis.
mas o que está emjogo no discurso é o destino judiciário, polí- Esse mundo já não é nosso, dirão. Não mesmo, porém vai
tico ou ético dos homens, na retórica, é preciso levar a sério o continuar sendo ainda enquanto não tivermos chegado à ciên-
"na aparência", como verossímil que faz as vezes de uma evi- cia total. Aí então é o homem que já não será.
dência sempre inapreensível.
Em todo caso, elas pertencem ao mesmo mundo. O que Quadro comparativo
significa isso?
Campo para
A retórica de Aristóteles está bem próxima da retórica de Alvo Modalidade Aristóteles Campo para nós
Isócrates em termos de conteúdo. A diferença é que em Aristó-
teles a retórica é uma arte situada bem abaixo da filosofia e das Demonstração: Eu, nós Necessária Lógica, ciências Lógica, ciências
ciências exatas. Estas, "demonstrativas", atingem verdades "ne- saber exatas, exatas
metafísica e naturais
cessárias", que, como os teoremas, só podem ser o que são, Dialética: Tu Provável Universal, Ciências
possibilitando compreender e prever. A retórica, por sua vez, jogo, (endoxon) princípios humanas,
só atinge o verossímil, aquilo que acontece no mais das vezes, exercício primeiros fílosofia,
mas que poderia acontecer de outra forma. Equivale a dizer teologia
Retórica: Vós Verossímil Judiciário, Os mesmos, mais
que ela só é possível em certo mundo. convencer (eikos) político, pregação,
Para Aristóteles, existem dois mundos. Primeiro, o mundo um público epidíctico propaganda,
divino, o "céu", não cognoscívélJ pela fé, mas, ao contrário, publicidade
pela razão demonstrativa. Esta conhece tanto o divino invisí- Sofística: Impessoal, Falsa-aparência Ilusão Idem
vel, Deus, quanto o divino visível, a saber, os astros, objeto da dominar eles
pelo logro
astronomia matemática, visto que seus movimentos são neces-
sários, portanto calculáveis e previsíveis.
Abaixo, o mundo "sublunar", a Terra, onde existem acaso, Notas. - Para começar, a distribuição não é mais idêntica
contingência, imprevisibilidade, onde nunca é possível a ciência à de Aristóteles. A metafisica passou para segundo plano, en-
perfeita, mas onde existe o provável, o verossímil. Mundo, en- quanto as ciências da matéria tomaram-se demonstrativas, e
fim, aberto à ação humana. Citemos mais uma vez Aubenque: referem-se ao necessário (fisica, química, etc.). A natureza e o
campo da sofistica não mudaram, ainda que o sofista já não
Num mundo perfeitamente transparente à ciência, isto é, se confesse como tal; esse é o campo em que se pode tomar a
onde estivesse estabelecido que nada poderia ser diferente do "aparência" de razão pela razão: na verdade, todos os cam-
que é, não haveria lugar para a arte, nem, de maneira geral, para
pos! Note-se, por fim, que a sofistica, ao fingir que se dirige a
a ação humana23 •
"ti", ou a "vós", manipula na realidade o "eles" ou o "alguém";
não é eXá1amente a "ti" que o sofista se dirige, mesmo que
Nenhum lugar também para a retórica, que é uma arte. Mas
finja fazer isso, mas sim à coisa em ti.
vivemos em um mundo que não é o da pura ciência; em um
mundo que não é um jogo, mas que nem por isso está submeti- Quanto à retórica, seu campo ampliou-se muito a partir
do ao cego acaso. Mundo onde a previsão é mais ou menos de Aristóteles, o que provaria a fecundidade de seu sistema.
Capítulo III
O sistema retórico

Aristóteles, portanto, reabilitou a retórica ao integrá-la


numa visão sistemática do mundo, onde ela ocupa seu lugar,
sem ocupar, como entre os sofistas, o lugar todo. Mais ainda,
Aristóteles transformou a própria retórica num sistema, que
seus sucessores completarão, mas sem modificar.
Passaremos, pois, ao estudo desse sistema retórico, não
sem perguntar, no que se refere a cada um deles, qual a sua re-
lação com o homem do século XX.

As quatro partes da retórica

o sistema começa com uma classificação: a retórica é de-


composta em quatro partes, que representam as quatro fases
pelas quais passa quem compõe um discurso, ou pelas quais
acredita-se que passe. Na verdade, essas partes são principal-
mente os grandes capítulos dos tratados de retórica.
Quais são elas? Para não criar confusão, manteremos seus
nomes tradicionais, do latim.
A primeira é a invenção (heurésis, em grego), a busca que
empreende o orador de todos os argumentos e de outros meios
de persuasão relativos ao tema de seu discurso.
A segunda é a disposição (taxis), ou seja, a ordenação des-
ses argólilentos, donde resultará a organização interna do dis-
curso, seu plano.
A terceira é a elocução (lexis), que não diz respeito à pala-
vra oral, mas à redação escrita do discurso, ao estilo. É aí que
44 INTRODUÇÃO A RETÓRICA O SISTEMA RETÓRICO 45

entram as famosas figuras de estilo, às quais alguns, nos anos três? Aristóteles responde: "porque há três espécies de auditó-
60, reduziam a retórica! rio" (Retórica, 1358 a); é a necessidade de adaptar-se a eles
A quarta é a ação (hypocrisis), ou seja, a proferição efetiva que confere traços específicos a cada gênero: conforme as p.es-
do discurso, com tudo o que ele pode implicar em termos de soas a quem nos dirigimos, não falaremos da mesma maneIra.
efeitos de voz, mímicas e gestos. Na época romana, à ação será O discurso judiciário tem como auditório o tribunal; o delibe-
acrescentada a memória. rativo, a Assembléia (Senado); o epidíctico, espectadores,
todos os que assistem a discursos de aparato, como panegíri-
Essa classificação pode parecer bem escolar: na verdade
cos, orações fúnebres ou outras.
não é bem assim que as coisas acontecem quando se prepara
Os atos dos três discursos não são os mesmos. O judiciário
um discurso. Pode-se ir de uma tentativa de ação - proferir al-
acusa (acusação) ou defende (defesa). O deliberativo aconse-
gumas frases - para buscar em seguida argumentos; escrever
lha ou desaconselha em todas as questões referentes à cidade:
antes de encontrar um plano, etc. Mas pouco importa a ordem
paz ou guerra, defesa, impostos, orçamento, le-
cronológica. As quatro partes na realidade são as quatro "tare-
gislação (cf. 1359 b). O epidíctico censura e, na malOna das
fas" (erga) que devem ser cumpridas pelo orador. Se este dei- vezes, louva ora um homem ou uma categoria de homens, co-
xar de cumprir alguma delas, seu discurso será vazio, ou desor- mo os mortos na guerra, ora uma cidade, ora seres lendários,
denado, ou mal escrito, ou inaudível. como Helena ... '
Portanto, um advogado que prepare uma defesa, um estu- Aristóteles, que nunca esquece que é filósofo, mostra que
dante que prepare uma exposição, um publicitário que prepare os três gêneros também se distinguem pelo tempo. O judiciário
uma campanha, todos deverão, se não passarem sucessivamen- refere-se ao passado, pois são fatos passados que cumpre
te por essas quatro fases, cumprir pelo menos as tarefas que esclarecer, qualificar e julgar. O deliberativo refere-se ao futu-
cada uma delas representa: compreender o assunto e reunir to- ro, pois inspira decisões e projetos. Finalmente, o epidíctico
dos os argumentos que possam servir (invenção); pô-los em refere-se ao presente, pois o orador propõe-se à admiração dos
ordem (disposição); redigir o disClU'sO o melhor possível (elo- espectadores, ainda que extraia argumentos do passado e do
cução); finalmente, exercitar-se proferindo-o (ação). futuro.
O principal é que os valores que servem de normas a esses
discursos não são os mesmos. Enquanto o judiciário diz respei-
Invenção to ao justo e ao injusto, o deliberativo diz respeito ao útil e ao
nocivo. Útil a quem? À cidade, e a nada mais; e o interesse co-
Antes de empreender um discurso, é preciso perguntar-se letivo, nacional, pode ser perfeitamente injusto; assim, o ora-
sobre o que ele deve versar, portanto sobre o tipo de discurso, o dor político pouco está preocupado em saber
gênero que convém ao assunto. Veremos que essa questão do gê-
nero também diz respeito à interpretação do discurso. se não há nenhuma injustiça em reduzir povos vizinhos à escra-
vidão, mesmo que eles nada tenham feito de mal. (1358 b)

Os três gêneros do discurso Hoje, UfiílIl10S luvas de pelica... Mas será que encontramos
muitos políticos para propor medidas justas, porém nocivas à
Segundo os antigos, os gêneros oratórios são três: judiciá- nação? Quanto ao epidíctico, os valores que o inspiram são o
rio, deliberativo (ou político) e epidíctico. Por que exatamente nobre e o vil (kalon, aiskhron), valores que nada têm a ver com
46 INTRODUÇÃO À RETÓRICA o SISTEMA RETÓRICO 47

o interesse coletivo, e que não se confundem tampouco com o sentimento cívico e patriótico. Pronunciado, além do mais,
"justo", pelo menos no sentido de legal. durante jogos entre cidades (por exemplo, Olimpíada), refor-
Aristóteles quase não se detém nos estilos respectivos çou nos gregos o sentimento de pertencer a uma mesma cultura
dos três gêneros; esclarece, todavia, que o epidíctico é "o que estava acima de todas as guerras intestinas (cf. 6 Gregos!
mais escrito dos três" (1413 b, 1414 a). Em compensação, de Górgias, 1414 b). Em suma, o epidíctico não dita uma esco-
mostra durante longo tempo que o tipo de argumentação dos lha, mas orienta escolhas futuras.
três não é o mesmo. O judiciário, que dispõe de leis e se diri- Significa dizer que ele é essencialmente pedagógico. No
ge a um auditório especializado, utiliza de preferência racio- vastíssimo terreno que abre, os sucessores de Aristóteles in-
cínios silogísticos (entimemas), próprios a esclarecer a causa cluirão a história, essa "memória dos grandes feitos do passa-
dos atos. O deliberativo, dirigindo-se a um público mais mó- do". Mais tarde, na era cristã, o gênero epidíctico será enrique-
vel e menos culto, prefere argumentar pelo exemplo, que, cido com toda a pregação religiosa.
aliás, permite conjecturar o futuro a partir dos fatos passa- O fato é que a teoria dos três gêneros hoje é bem mais res-
dos: Dionísio pede uma guarda; ora, todos os futuros tiranos tritiva; há tantos outros tipos de discursos persuasivos além des-
conhecidos da história pediram uma guarda; logo, Dionísio ses três! Mas o mérito de Aristóteles foi mostrar que os discur-
sos podem ser classificados segundo o auditório e segundo a fi-
vai tomar-se tirano (1357 b). Quanto ao epidíctico, recorre
nalidade. Voltaremos a essa questão no capítulo VII.
sobretudo à amplificação, pois os fatos são conhecidos pelo
público, e cumpre ao orador dar-lhes valor, mostrando sua
importância e sua nobreza (1368 a). Hoje em dia mesmo,
quando se faz o elogio de um morto, parte-se daquilo que to- Os três gêneros do discurso

dos conhecem, para exaltar seus méritos e calar o resto.


Auditório Tempo Ato Valores Argumento-tipo
Aliás, mesmo que o epidíctico e o deliberativo tenham igual
conteúdo, assumirão modalidades diferentes. Quando o delibe- Judiciário Juízes Passado Acusar Justo Entimema
rativo aconselha: "/ (fatos por Defender Injusto (dedutivo)
julgar)
Deliberativo Assembléia Futuro Aconselhar Útil Exemplo
Não nos devemos gabar daquilo que devemos à sorte,
Desaconselhar Nocivo (indutivo)
Epidíctico Espectador Presente Louvar Nobre Amplificação
o epidíctico descreve: Censurar Vil

Ele não se gabou daquilo que devia à sorte. (l368 a)


Os três tipos de argumento: etos, patos, logos
Pergunta: será mesmo que o gênero epidíctico faz parte da
retórica, admitindo-se que esta só diz respeito aos discursos Determinado o gênero do discurso, a primeira tarefa do
persuasivos? orador é encontrar argumentos.
De fato, como mostraram tão bem Perelman-Tyteka (TA, define três tipos de argumentos, no sentido ge-
§§ 11 e 12), o epidíctico é persuasivo, mas a longo prazo, ao neralíssimo de instrumentos de persuadir (pisteis): etos e patos,
versar sobre problemas que não exigem decisões imediatas. que são de ordem afetiva, e logos, que é racional.
Usando o exemplo para fazer o elogio de certo herói, reforça o
48 INTRODUÇÃO À RETÓRICA O SISTEMA RETÓRICO 49

o etos é o caráter que o orador deve assumir para inspirar etos e o patos como dois tipos de afetividade: a primeira calma,
confiança no auditório, pois, sejam quais forem seus argumen- comedida, duradoura, submetida ao controle mental; a segunda
tos lógicos, eles nada obtêm sem essa confiança: súbita, violenta, irreprimível, portanto irresponsável. Quinti-
liano, como a retórica ulterior, distingue bem dois tipos de afe-
Por isso é que sua eqüidade é praticamente a mais eficaz tividade, mas sem definir nitidamente que uma é do orador e a
das provas. (1356 a) outra do auditório.
Em todo caso, a retórica criou uma verdadeira psicologia,
Como então dispor favoravelmente o auditório? É verdade de que tirará proveito toda a literatura, em particular o teatro.
que a resposta depende do próprio auditório, cujas expectativas Toda a análise dos sentimentos e das paixões deriva da retórica.
variam segundo a idade, a competência, o nível social, etc. O Se o etos diz respeito ao orador e o patos ao auditório, o
orador, portanto, não terá o mesmo etos se estiver falando com logos (Aristóteles não emprega esse termo, que utilizamos para
velhos camponeses ou com adolescentes citadinos. Mas, em simplificar) diz respeito à argumentação propriamente dita do
todo caso, ele deve preencher as condições mínimas de credibi- discurso (cf. 1356 a). É o aspecto dialético da retórica, que
lidade, mostrar-se sensato, sincero e simpático. Sensato: capaz Aristóteles retoma inteiramente dos Tópicos.
de dar conselhos razoáveis e pertinentes. Sincero: não dissimu- Como em Tópicos, distingue dois tipos de argumentos, o
lar o que pensa nem o que sabe. Simpático: disposto a ajudar entimema, ou silogismo baseado em premissas prováveis, que
seu auditório (cf. 11, 1, 1377 b e também 1366 a). é dedutivo, e o exemplo, que a partir dos fatos passados con-
Note-se que etos é um termo moral, "ético", e que é defi- clui pelos futuros, e que é indutivo. As premissas prováveis
nido como o caráter moral que o orador deve parecer ter, dos entimemas são: ou verossimilhanças (eikota), como por
mesmo que não o tenha deveras. O fato de alguém parecer sin- exemplo que um filho ama o pai, ou indícios seguros, como
cero, sensato e simpático, sem o ser, é moralmente constrange- por exemplo que uma mulher que aleita teve um filho, ou indí-
dor; no entanto, ser tudo isso sem saber parecer não é menos cios simples, como por exemplo que a presença de cinza indica
constrangedor, pois assim as melhores causas estão fadadas ao que houve fogo. Voltaremos a esses diversos argumentos no
fracasso. /) capítulo VIII.
O patos é o conjunto de emoções, paixões e sentimentos
que o orador deve suscitar no auditório com seu discurso.
Portanto, ele precisa de psicologia, e Aristóteles dedica boa Provas extrínsecas e provas intrínsecas
metade de seu livro 11 à psicologia das diversas paixões - cóle-
ra, medo, piedade, etc. - e dos diversos caracteres (dos ouvin- Na realidade, o orador dispõe de dois tipos de provas: as
tes), segundo a idade e a condição social. Aqui, o etos já não é atekhnai, ou seja, extra-retóricas, e as entekhnai, ou seja intra-
o caráter (moral) que o orador deve assumir, mas o caráter (psi- retóricas. Vamos denominá-las, respectivamente, extrínsecas e
co lógico) dos diferentes públicos, aos quais o orador deve intrínsecas (no século XVII, eram traduzidas por naturais e ar-
adaptar-se. tificiais).
No entanto, há nisso certa ambigüidade de que sofrerá a As Pr"ovas extrínsecas são as apresentadas antes da inven-
retórica ulterior. Quintiliano (VI, 2, 12 s.) dedica também um ção: testemunhas, confissões, leis, contratos, etc. Do mesmo
longo estudo ao etos e ao patos, termos que ele mantém em modo, num discurso epidíctico, tudo o que se sabe da persona-
grego, alegando (como nós) que são intraduzíveis. Define o gem cujo elogio se faz.
50 INTRODUÇÃO A RET6RICA o SISTEMA RET6RICO 51

As provas intrínsecas são as criadas pelo orador; depen- zir "lugar" por argumento. Mas lembremos que esse termo tem
dem, pois, de seu método e de seu talento pessoal, são sua ma- pelo menos três sentidos, que exporemos por níveis de tecnici-
neira própria de impor seu relatório. Vimos isso no capítulo dade.
anterior: o texto-lei, prova extrínseca, pode ser objeto de uma 1) No sentido mais antigo e mais simples, o lugar é um ar-
argumentação intrínseca contraditória, conforme essa lei seja gumento pronto que o defensor pode colocar em determinado
favorável ou desfavorável ao orador (cf. supra, p. 50); do mes- momento de seu discurso, muitas vezes depois de o ter apren-
mo modo, quem não tiver testemunhas dirá que os testemunhos dido de cor. Numa forma menos rígida, esses lugares são en-
são subjetivos, muitas vezes comprados, e que é melhor julgar contrados em toda a retórica antiga. Assim, no discurso judi-
segundo as verossimilhanças (cf. 1376 a). O orador transforma ciário, os lugares da peroração que concluem a acusação:
assim sua desvantagem em vantagem.
Num elogio fúnebre, as provas extrínsecas são aquilo que Se deixardes impune o seu crime, haverá multidões de imi-
se sabe do defunto, que nem sempre é bonito; o argumento in- tadores. Muitos esperam com impaciência o vosso veredicto.
trínseco é a amplificação, que tira partido das provas extrínse- (Chaignet, p. 132, e Navarre, p. 305)
cas:
Como lugares de amplificação, servem para persuadir os
transformar o impetuoso em franco, o arrogante em respeitável, juízes de que a causa ultrapassa a pessoa do réu, que ela com-
o temerário em bravo, o pródigo em liberal. (1367 b) promete o futuro.
Um lugar das defesas modernas é o da infância infeliz, que
Moliere retomou esse procedimento numa cena do Misan- permite chamar à baila circunstâncias atenuantes. No século
tropo, descrevendo a retórica do amor, que transforma os defei- XVII, servia, ao contrário, à acusação, pois via-se na inf'ancia
tos da amada em "perfeições": infeliz do acusado indícios de que ele sempre fora pervertido, e
que só poderia reincidir; essa não era uma prova de que ele era
A magra o que tem é altura e liberdade;
escusável, mas ao contrário irrecuperável (cf. A. Kibedi-Varga,
A gorda tem porte cheio de majestade; ( ... )
A altiva tem a alma digna duma coroa;
1970, p. 145).
A patife é perspicaz, e a tola é tão boa. (lI, 5) No primeiro sentido, o lugar é, pois, um argumento-tipo,
/,/ cujo alcance varia segundo as culturas. São encontrados no dis-
Logro? Sabe-se lá: quem disse, e com que direito, que ele curso epidíctico: os melhores são os que partem ... ; também se-
era temerário e nada mais, que ela era tola e nada mais? Fala-se rão vistos no discurso publicitário.
de objetividade, mas essa não é tantas vezes a máscara da 2) Em sentido mais técnico, o lugar já não é um argumen-
malevolência? Em todo caso, é dificil conhecer alguém que, to-tipo, é um tipo de argumento, um esquema que pode ganhar
nesse domínio das relações humanas, possa ser realmente obje- os conteúdos mais diversos. Por exemplo, o lugar do mais e do
tivo. menos:

Se,Os deuses não são oniscientes, muito menos os homens.


Os lugares ("topoi ") EletJate nos vizinhos, pois bate no pai. (Retórica, lI, 1397 b)

Como encontrar os argumentos? Por lugares. Esse termo é Ou, de modo positivo, todos os lugares do tipo:
tão corrente quanto obscuro. Na dúvida, pode-se sempre tradu-
52 INTRODUÇÃO A RETÓRICA o SISTEMA RETÓRICO 53
Quem pode o mais pode o menos. (1392 a, b) Vejamos um exemplo simples: um estudante que precisa
fazer uma dissertação não sabe ainda se vai adotar um plano
Altamente verossímil, esse lugar do mais e do menos está por perguntas ou um plano por tese-antÍtese-síntese; o próprio
longe de ser evidente, porém; como toda verossimilhança, fato de interrogar-se assim só é possível através de um lugar: a
pode ser contestado. Seria incontestável se aplicado a realida- questão dos tipos de planos!
des homogêneas, como por exemplo o dinheiro: quem pode dar Esse terceiro sentido da palavra lugar é muito notado num
mil francos pode dar cem; mas isso não despertaria interesse. É lugar próprio do gênero judiciário, o do estado da causa (stasis,
interessante quando se aplica a dados heterogêneos, como por status). Suponhamos que alguém é processado por um crime: a
exemplo aos saberes e aos poderes; mas aí deixa de ser eviden- acusação e a defesa vão propor-se as mesmas perguntas, que a
te. Afinal, quem sabe menos talvez saiba coisa diferente de antiga retórica sintetiza em quatro:
quem sabe mais; o mesmo para o poder: uma enfermeira pode 1. Estado de conjectura: ele matou realmente?
coisas que um médico não pode, etc. Quem pode o mais não 2. Estado de definição: trata-se de crime premeditado, não
pode necessariamente o menos. premeditado, de homicídio involuntário?
Classicamente, dá-se a esses lugares o nome de "luga- 3. Estado de qualidade: supondo-se que seja admitido o
res-comuns", pois se aplicam a toda espécie de argumenta- crime voluntário, quais são as circunstâncias que podem acusar
ção; no caso atual não passa de opinião banal expressa de mo- ou escusar o réu: motivo patriótico, religioso?
do estereotipado, enquanto o lugar comum clássico é um es- 4. Estado de recusa, que consiste em perguntar se o tribu-
quema de argumento que se aplica aos dados mais diversos. nal é realmente competente, se a instrução foi suficiente, etc. 2
Tecnicamente, opõe-se ao lugar próprio, tipo de argumento Naturalmente, o lugar no sentido de questão também pode
particular a um gênero de discurso. Assim os lugares judi- ser um lugar-comum, no sentido de que, sobre qualquer espé-
ciários: cie de assunto, podemos interrogar sobre o tipo de ser, os tipos
de causas, etc. Mas, no terceiro sentido, o lugar é sempre uma
Considera-se que ninguém ignora a lei. questão que permite encontrar argumentos que sirvam à tese,
Uma lei não pode ser retroativa. inventar as premissas de uma conclusão dada.
Esta exposição, que desejamos tão clara quanto possível,
Note-se, aliás, que o segundo depende do primeiro; de fato, ficará incompleta se não considerarmos o que se tomou o lugar
uma lei retroativa aplica-se a pessoas que não poderiam conhe- depois de Aristóteles: termo abrangente que se aplica aos dados
cê-la, pois ela não existia no momento em que essas pessoas mais heteróclitos. Assim, na retórica medieval, teremos topoi,
agiraml espécies de trechos esperados e até obrigatórios, como o lugar
3) No sentido mais técnico, o dos Tópicos, o lugar não é da modéstia afetada; o lugar do puer senilis, da criança ajuiza-
um argumento-tipo nem um tipo de argumento, mas uma ques- da como um velho; o lugar da paragem agradável, da paisagem
tão típica que possibilita encontrar argumentos e contra-argu- paradisíaca; o lugar dos impossíveis:
mentos:
o queima dentro do gelo,
os lugares ( ... ) são como etiquetas dos argumentos, sob as quais O sofficou negro. (Théophile de Viau)
vamos buscar o que há para dizer num ou noutro sentido. (Cí-
cero, Orador, 46) Lugar que se encontra nos panfletos: teremos visto tudo!
54 INTRODUÇÃO A RETÓRICA O SISTEMA RETÓRICO 55

Existem igualmente lugares metafisicos, lugares teológi- A disposição, em si, é um lugar, ou seja, um plano-tipo ao
cos (a autoridade da Escritura e dos concílios), lugares risí- qual se recorre para construir o discurso. A retórica clássica
• 3
velS ... quase não fala da disposição do discurso judiciário. Em que
Finalmente, lugar é tudo o que possibilita ou facilita a in- pode ela nos interessar? Unicamente pela(s) função(ções) de-
venção, mas que, por isso mesmo, a nega, pois uma invenção sempenhada(s) por cada uma de suas partes.
deixa de sê-lo à medida que se torna fácil! Os autores propuseram diversos planos-tipo, que iam de
duas a sete partes. Ficaremos com o mais clássico, em quatro
partes: exórdio, narração, confirmação e peroração.
Observações sobre a invenção

Na realidade, a própria noção de invenção pode parecer- Exórdio ("prooimion ", proêmio)
nos muito ambígua. De fato, ela se situa entre dois pólos opos-
tos. Por um lado, é o "inventário", a detecção pelo orador de Exórdio é a parte que inicia o discurso, e sua função é es-
todos os argumentos ou procedimentos retóricos disponíveis. sencialmente fática: tornar o auditório dócil, atento e benevo-
Por outro, é a "invenção" no sentido moderno, a criação de ar- lente.
gumentos e de instrumentos de prova; até o etos, explica Aristó- Dócil significa em situação de aprender e compreender; por
teles, a confiança inspirada pelo orador, deve ser "obra de seu isso, é preciso fazer uma exposição clara e breve da questão que
discurso" (1356 a); em outras palavras, o importante não é o vai ser tratada, ou ainda da tese que se vai tentar provar.
caráter que ele já tem, e que o auditório conhece, mas é o cará- Atento: nesse ponto os antigos multiplicavam procedi-
ter que ele cria. mentos - dizer que nunca se ouviu nem viu nada de tão espan-
Invenção inventário, que hoje se poderia deixar a cargo de toso ou de tão grave -, procedimentos infladores, pois os juízes
um computador, ou invenção criação? Na realidade, talvez se-
deviam ficar bem cansados com eles! Aliás - observa Aristóte-
jamos nós que criamos uma oposição onde os antigos não a
les -, o exórdio é o momento do discurso que exige menos
viam. Não imaginavam criação ex nihilo, e achavam que qual-
atenção; nas partes seguintes, ao contrário, a atenção tende a
quer invenção é feita, por um lado, a partir de materiais dados
relaxar-se, sendo preciso renová-la.
(lugares extrínsecos) e por outro de regras mais ou menos estri-
Benevolente: é aí que o etos assume toda a sua impor-
tas (lugares intrínsecos); mas achavam támbém que com ela a
criatividade do orador, longe de desvanecer-se, afirma-se ainda tância. Um dos lugares mais correntes consistia em escusar-se
mais. Originalidade, sim, mas como fruto da arte, ou seja, de da própria inexperiência e em louvar o talento do adversário
uma prática e de um ensino. (cf. Navarre,pp. 223 s.)
A retórica do exórdio se aplica aos outros gêneros de dis-
curso? Aristóteles afirma que o deliberativo quase não precisa
Disposição ("taxis") do exórdio, pois o auditório já sabe do que se trata. Quanto ao
epidícti$O, o exórdio consiste em fazer o auditório sentir que
Para definir com outros termos, a retórica apresenta-se está pes;oalmente implicado no que se vai dizer, em incluí-lo
como um código a serviço da criatividade. E esse duplo aspec- no fato (cf. Retórica, 1415 b).
to se encontra em suas outras partes, mais propriamente estéti- A retórica do exórdio consiste às vezes em suprimi-lo,
cas e literárias que a invenção. em ir direto ao que interessa. Assim, o célebre ex abrupto
56 INTRODUÇÃO À RETÓRICA
O SISTEMA RETÓRICO 57

É evidente que a maneira de apresentar os fatos já é, em si,


de Cícero: "Até quando, Catilina, vais abusar da nossa pa-
um argumento.
ciência?"
Hoje em dia, completaremos essa teoria do exórdio com O que acontece com a narração nos outros dois gêneros?
duas considerações. Primeiro, a fala improvisada, sobretudo No deliberativo - diz Aristóteles - ela quase não tem razão de
em lugar público, quando a intervenção não é programada: é ser, pois discurso trata do futuro; no máximo, pode forne-
preciso toda uma arte para fazer-se admitir, ou seja, ouvir. De- cer exemplos. No epidíctico, ao contrário, é tão importante que
pois, o discurso escrito: um livro deve captar a benevolência já há interesse em dividi-la segundo as questões: os fatos que ilus-
na primeira página; se deve, como? tram a coragem, os que ilustram a generosidade, etc.
Na Idade Média vai constituir-se uma nova retórica da
narração; desliga-se do gênero judiciário, mas insere-se na da
Narração ("diegésis ") pregação, com os exempla, histórias geralmente fictícias que
ilustram o tema do sermão. Hoje em dia a publicidade e, princi-
A narração é a exposição dos fatos referentes à causa, ex- palmente, a propaganda utilizam narrações breves, também a
posição aparentemente objetiva, mas sempre orientada segun- título de exemplos.
do as necessidades da acusação ou da defesa. O fato é que, se
não for objetiva, deverá parecer. E é na narração que o logos
supera o etos e o patos. Para ser eficaz, deve ter três qualida- Confirmação ("pis tis ")
des: clareza, brevidade e credibilidade.
Como ser claro? Ao mesmo tempo pelos termos emprega- Em seguida vem uma parte nitidamente mais longa, a con-
dos e pela organização do texto, de preferência cronológica,
firmação, ou seja, o conjunto de provas, seguido por uma refu-
mas recorrendo às vezes aos retornos, aosflash-backs.
tação (confutatio), que destrói os argumentos adversários.
Como ser breve? Eliminando tudo o que seja inútil, todos
Com a invenção, vimos os dois grandes tipos de argumen-
os fatos anteriores ao caso, todas as circunstâncias que não
tos, o exemplo e o entimema. Convém precisar que a amplifi-
esclareçam nada, mostrando que no fundo tudo leva àquilo ...
Como ser crível? Enunciando o fato com suas causas, cação, própria do gênero epidíctico, pode também servir à con-
sobretudo se o fato não for verossímil; mostrando que os atos firmação judiciária; como dirá Cícero, ela permite ampliar o
se afinam com o caráter de seu autor, com tudo o que se sabe debate, remontar da "causa" à "questão" (thésis) que lhe está
dele: .) subjacente; assim, além dessa traição, propor o problema da
confiança, da pátria, etc. (cf. Do orador, 46).
Conselhos especiais para narrações falsas: cuidar para que Tempo forte do logos, a confirmação recorre, porém, ao
tudo o que se inventa seja possível e não seja incompatível nem patos, despertando piedade ou indignação.
com a pessoa, nem com o lugar, nem com o tempo; vincular, se Note-se, com O. Navarre, que a confirmação nem sempre
cabível, a ficção a algo de verdadeiro; evitar cautelosamente está separada da narração. Nos oradores clássicos do século.
qualquer contradição ( ... ) e não fOIjar nada que possa ser refuta- IV (Iseu, Isócrates, Demóstenes), acontece de o discurso intei-
do por uma testemunha. (O. Navarre, pp. 248-249)
ro apresentar-se como uma única narração, em que cada se-
qüência constitui uma prova. Assim, em Eginética, defesa de
Na verdade, basta refletir nas regras da narração falsa para
um herdeiro cuja herança é contestada por uma parenta, Isó-
ver que são as mesmas da verdadeira; no primeiro caso, só é
crates expõe os fatos passados, mostrando sucessivamente três
preciso aplicá-las de maneira mais estrita.
58 INTRODUÇÃO A RET6RICA O SISTEMA RET6RICO 59

coisas: 1) o testamento é legal; 2) é justo, e Isócrates prova isso tando diversos aspectos seus e refutando os argumentos con-
narrando os inumeráveis serviços prestados pelo herdeiro ao trários.
defunto; 3) ele tem bons sentimentos, pois respeita os legíti- Se nos ativermos à ordem "homérica", teremos o seguin-
mos interesses da família4 • te: 1) apresentação do argumento; 2) refutação dos contra-ar-
Em suma, narração e confirmação são duas tarefas que o gumentos; 3) retomada do argumento com nova forma.
orador deve cumprir, mas nada o obriga a realizá-las sucessiva- Essa tese do argumento único é provada a contrario: um
mente. Quintiliano dirá, aliás (11, 13, 7), que impor um plano- discurso que acumula argumentos diferentes, sem nexos entre
tipo ao orador é tão estúpido quanto impor uma estratégia-tipo si, parecerá -estar lançando mão de qualquer expediente, por-
a um general! No fundo, pouco importa em que ordem o gene- tanto ser de má-fé.
ral e o orador atingem seus objetivos, o importante é que os Note-se que, em Roma, a confirmação freqüentemente
atinjam. era seguida por uma altercação, breve debate com a parte ad-
Existe uma outra questão no que se refere à confirmação: versária.
é a da ordem dos argumentos. Deve-se começar pelos mais fra-
cos e acabar pelos mais fortes? Nesse caso, há o risco de cansar
o auditório. Optar pela ordem inversa? Mas o auditório não Digressão ("parekbasis") e peroração ("epílogos")
entenderá bem, achará que estão sendo queimados cartuchos à
toa, esquecerá a força dos primeiros argumentos. Cícero, em No discurso judiciário, prevê-se um momento de "relaxa-
Do orador (11, § 313), preconiza a ordem "homérica", que con- mento", a digressão, trecho móvel, "destacável", como diz
siste em começar pelos argumentos fortes, continuar com os Roland Barthes, que se pode colocar em qualquer momento
mais fracos e terminar com outros argumentos fortes. Mas esse do discurso, mas de preferência entre a confirmação e a pero-
plano supõe que o orador tem um número suficiente de argu- ração.
mentos fortes para reparti-los assim. Narrativa ou descrição viva (ekphrásis), a digressão tem
Perelman-Tyteka (TA, p. 661) afirmam que a força de um como função distrair o auditório, mas também apiedá-lo ou
argumento é uma noção relativa, pois um argumento é mais ou indigná-lo; pode até servir de prova indireta quando feita como
menos forte em função dos que o precederam. Portanto, parte- evocação histórica do passado longínquo. Hoje em dia, esse
se de um argumento cuja força não dependa da dos outros; ou termo tomou-se pejorativo. Os professores, em particular, es-
ainda de um contra-argumento que refute uma objeção que tigmatizam a digressão, ainda que a utilizem à vontade em suas
pese sobre qualquer argumento possível, por exemplo a aulas, aliás de pleno direit05 •
i
afirmação de que o orador é desonesto venal, o que toma A peroração é o que se põe no fim do discurso. Aliás, po-
suspeito tudo o que ele disser. Em nossa opinião, convém con- de ser bastante longa e dividir-se em várias partes. Mencione-
testar a própria idéia da pluralidade de argumentos; cada dis- mos as principais.
curso só teria um único argumento capaz de conquistar a deci- 1) Amplificação (auxese, importada do gênero epidícti-
são, e os outros não passariam de maneiras diferentes de apre- co. Se o acusador, por exemplo, tiver mostrado a realidade do
sentar ou não seriam mais que contra-argumentos que respon- delito,it1sistirá então em sua gravidade, mostrará que é vital
deriam às objeções possíveis. Assim, remetemos à dupla argu- para a cidade castigar o culpado de maneira exemplar, ao pas-
mentação de Aristóteles em Retórica, I, 15 (cf. supra, p. 50). so que absolvê-lo seria incitar outros a imitá-lo (cf. Navarro,
Nos dois casos, desenvolve-se um argumento único apresen- pp. 307 s.).
60 INTRODUÇÃO A RETÓRICA
O SISTEMA RETÓRICO 61
2) Paixão, trecho que visa a despertar piedade ou indigna- Elocução ("Iéxis")
ção no auditório. Assim, a apóstrofe de Cícero a Verres:
A elocução, em sentido técnico, é a redação do discurso. Das
Se teu pai houvera de julgar-te, grandes deuses, que pode- quatro partes da retórica, diz-nos Cícerd que esta é a mais pró-
ria ele fazer? (in Quintiliano, VI, 1,3)
pria ao orador, aquela em que ele se exprime com? tal. Tese esta
que vale para toda produção literária: faço um lIvro; ter
3) Recapitulação (anacefaleose), que resume a argumen-
muitos conhecimentos e muitas idéias, um plano magnífico, mas
tação. Notemos que uma conclusão não deve constituir um no-
meu livro nada será enquanto eu não o tiver escrito; e, quem sabe
vo argumento, pois nesse caso não passaria de uma parte a
se, uma vez escrito, não exibirá outras idéias e plano bem diferen-
mais, e o discurso careceria de unidade.
te do que eu tivera no início? O verdadeiro salto criador está entre
Note-se, enfim, que a peroração é o momento por exce-
a obra escrita e aquilo que a prepara.
lência em que a afetividade se une à argumentação, o que cons-
titui a alma da retórica.
Língua e estilo.' uma arte funcional
Por que a disposição? A elocução é, pois, o ponto em que a retórica encontra a
literatura. Todavia, antes de ser uma questão de estilo, diz res-
O plano antigo do discurso judiciário é muito particular, peito à língua como tal. Para os antigos, o primeiro pro!'lema
mas nos apresenta o problema da utilidade da disposição: afi- da elocução é o da correção lingüística. O orador deve por-se a
nal, por que fazer um plano? A nosso ver, por três razões. serviço, ou melhor, sentir-se responsável por aquilo que os gre-
A disposição tem primeiramente uma função econômica: gos chamavam de to hellenizein, os latinos de latinitas, e que
permite nada omitir sem nada repetir; em suma, possibilita que traduziríamos por "bom vernáculo". Naquelas culturas, em que
o orador "se ache" a cada momento do discurso. o ensino ainda estava pouco desenvolvido, as exigências da
Depois, quaisquer que sejam os argumentos que organize, a arte oratória fixaram a língua como instrumento indispensável
disposição é em si mesma um argumento. Graças a ela, o orador para quem se quisesse fazer entender por todos. Hoje em dia
faz o auditório encaminhar-se pelas vias e pelas etapas que esco- também, quem quiser persuadir o grande público não
lheu, conduzindo-o assim para o objetivo que propôs. Essa metá- permitir-se incorreções nem preciosismos, salvo em ocaSlOes
fora do caminho é confirmada por termos como "preâmbulo"
muito precisas. . ,
(sinônimo de exórdio) ou "digressão" (desvio do rumo). A retórica foi a primeira prosa literána e durante mUlto
Finalmente, a disposição tem funçàb heurística, por per- tempo permaneceu como a única; por isso, precisou
mitir interrogar-se metodicamente. Pois, em suma, o que é fa- se da poesia e encontrar suas próprias normas. Por quê? Afmal,
zer um plano? É formular-se uma série de perguntas distintas, um discurso poético pode ser perfeitamente convincente. Só
constituindo cada uma delas uma parte ou uma subparte. Saber que a poesia grega utilizava uma língua arcaizante, bastante
fazer um plano é saber fazer-se perguntas e tratá-las uma após esotérica e seus ritmos a aproximavam muito do canto. Portan-
outra, agindo de tal modo que cada uma delas nasça da respos- to, era recorrer à prosa, mas a uma prosa digna de riva-
ta precedente. É por isso que acreditamos - talvez de acordo lizar com a poesia. Em suma, entre o hermetismo dos poetas e
com os antigos - que o verdadeiro plano, o plano orgânico, só o desmazelo da prosa cotidiana, a prosa oratória devia encon-
aparece após a redação, a elocução. trar suas próprias regras.
62 INTRODUÇÃO A RET6RICA O SISTEMA RET6RICO 63

Estas 7 diziam respeito à escolha das palavras e à constru- A segunda regra é a da clareza, em outras palavras, a
ção das frases, o que produzia um discurso ao mesmo tempo adaptação do estilo ao auditório. Pois a clareza é relativa: o
correto e bonito; mas será mesmo que essas coisas são diferen- que é claro para um público culto pode parecer obscuro para
tes? Para os antigos, parece que correção e beleza não eram quem é menos culto e infantil para especialistas. Ser claro é
separáveis. De qualquer modo, o fato é que a prosa oratória pôr-se ao alcance de seu auditório concreto. Agora, será pos-
deve distinguir-se ao mesmo tempo da poesia e da prosa vul- sível falar de clareza em si? Em todo caso, pode-se falar da
gar. Para isso: escolher as palavras no vocabulário usual, evi- obscuridade em si: a do discurso que nenhum auditório pode
tando tanto arcaísmos quanto neologismos; utilizar metáforas e realmente penetrar, visto que seus termos e sua construção
outras figuras, desde que sejam claras, ao contrário das dos padecem de ambigüidade intrínseca. Certos oradores, em ma-
poetas; evitar qualquer frase métrica, como os versos dos poe- téria de política, diplomacia, publicidade, utilizam essas
tas, e qualquer frase arrítmica, para encontrar frases com ritmo ambigüidades para esquivar-se aos problemas mais embara-
flexível e sempre a serviço do sentido. çosos ou então para conjugar públicos diversos. Admitindo-
Portanto, a retórica criou uma estética da prosa, uma esté- se que a honestidade permite esse tipo de manobra, ainda cum-
tica puramente funcional, da qual tudo o que é inútil é excluí- pre que ela seja consciente, que a obscuridade seja decorrente
do, em que o mínimo efeito de estilo se justifica pela exigência de uma decisão, e não, como quase sempre acontece, da im-
de persuadir, em que qualquer artificio gratuito engendra pre- potência. Quanto ao resto, fiquemos com estas palavras de
ciosismo ou vulgaridade. Quintiliano:
O que conservar dessas considerações sobre o estilo? A
nosso ver, três pontos, que correspondem respectivamente aos A primeira qualidade da fala é a clareza, e quanto menos
três pólos do discurso: assunto, auditório e orador. talento se tem, maior é o esforço para guindar-se e inflar-se,
O melhor estilo, ou seja, o mais eficaz, é aquele que se adap- assim como os nanicos que se alevantam nas pontas dos pés.
ta ao assunto. Isso significa que ele será diferente conforme o (11,3,8)
assunto. Os latinos distinguiam três gêneros de estilo: o nobre
(grave), o simples (tenue) e o ameno (medium), que dá lugar à A terceira regra diz respeito ao próprio orador, que deve
anedota e ao humor. O orador eficaz adota o estilo que convém a mostrar-se em pessoa no seu discurso, ser colorido, alerta, di-
seu assunto: o nobre para comover (movere), sobretudo na pero- nâmico, imprevisto, engraçado ou caloroso, numa palavra:
ração; o simples para informar e explicar (docere), sobretudo na vivaz. Essa regra da vivacidade tomamos de empréstimo a um
narração e na confirmação; o ameno para agradar (delectare),
pastor retórico do século XVIII, G. Campbell, que a expõe com
sobretudo no exórdio e na digressão. A primeira regra é, portan-
o termo vivacity. Para ser vivaz, é preciso observar regras de
to, o da conveniência (prepon, decorum)8.
:) estilo bem precisas. Primeiro, a escolha das palavras, sempre
que possível concretas: deve-se preferir "fonte" a "origem",
Estilo Objetivo Prova Momento do discurso "aqui jaz Alexandre" a "aqui jaz o corpo de Alexandre". De-
pois, o ritmo das palavras, ao qual voltaremos. Finalmente, a
nobre = grave comover = movere patos Peroração (paixão), que constitui a força das máximas:
digressão
simples = tenue explicar = docere logos Narração, confirmação,
Todos querem viver muito, mas ninguém quer viver velho.
recapitalução
(Swift, citado, p. 337)
ameno = medium agradar = detectare etos Exórdio, digressão
64 INTRODUÇÃO A RETÓRICA O SISTEMA RETÓRICO 65

Em suma, não só se fazer entender, mas também fazer-se "sa- sivo transformá-la no traço distintivo da retórica. Dirão que o
borear" (relish, p. 237). latim de Cícero constitui um desvio em relação à língua latina?
Essas regras, porém, não passam de linhas gerais: evitar Na verdade, a retórica não se reduz a figuras, que só consti-
ser redundante, inutilmente abstrato, etc. O sabor do discurso tuem uma parte de uma parte de uma de suas partes.
não se ganha com regra alguma; quem o faz é o autor. Pois bem, cumpre definir as próprias figuras como des-
A vivacidade é capital para o etos, pois ela toma o discur- vios? À primeira vista, sim. A metáfora desvia-se do sentido
próprio, substituindo o significado por um outro que lhe é se-
so marcante, agradável, cativante; e, principalmente, confere-
melhante; assim também a ironia, que substitui o significado
lhe o indispensável cunho de autenticidade. O verdadeiro estilo
é o do discurso onde é possível encontrar o seu autor. por um que lhe é contrário:

- esse leão, por esse homem valente = metáfora;


- esse leão, por esse homem covarde = ironia.
Figuras ("schemata '') e o problema do desvio
Aliás, os clássicos definiam figura como desvio, desde
Campbell demonstra que a vivacidade depende das figu- Aristóteles, que dizia da metáfora: "é para atingir maior grande-
ras. O Evangelho, em vez de dizer os reis mais gloriosos, em- za que ela se afasta (exallattai) daquilo que convém" (Retórica,
prega uma personificação: "Salomão em toda a sua glória ...", o m, 1404 b), até Quintiliano, que explica o prazer (delectatio)
que é bem mais vivaz. proporcionado pelas figuras, por terem o "mérito manifesto de
Durante muito tempo os antigos trataram as figuras como afastar-se do uso corrente" (11, 13, 11), e precisa: "a figura seria
meios de exprimir-se de modo marcante, com encanto e emo- um erro se não fosse intencional" (IX, 3, 2).
ção. Tentaram classificá-las, mas não chegaram a entender-se O fato é que, mesmo limitado à figura, a noção de desvio
(nem nós, aliás). Fiquemos com a classificação mais simples, a apresenta um problema triplo.
de Cícero, que distingue as figuras de palavras, como o trocadi- Em primeiro lugar, desvio em relação a quê? Que "nor-
lho e a metáfora, das figuras de pensamento, como a ironia ou a ma" é essa, esse "grau zero" da qual a figura se desviaria: o có-
alegoria. Voltaremos a falar mais detidamente sobre as diversas digo lingüístico, digamos, o vernáculo? Não vemos que ele
figuras. proíba figuras. A lógica? Mas não é a lógica que rege a língua:
Por enquanto, proporemos a questão de saber se é possível sol é feminino em alemão, o inverso para a lua; nenhuma "lógi-
definir figura sem introduzir a noção de desvio, como por ca" nisso, seja em alemão, seja em português. O sentido primi-
exemplo na metáfora: desvio do sentido derivado em relação tivo, etimológico? Veremos quanto essa noção é ideológica, ou
ao sentido próprio. A teoria do desvio conheceu seu momento mesmo mítica; ademais, utilizar um termo em sentido arcaico
de glória nos anos 60, quando ele foi tão inchado que chegou a - por exemplo, húmile para o que está no chão - já é uma figu-
significar toda a retórica. Os retóricos da época, sobretudo J. ra. O uso normal, ou seja, o modo como todos falam? Mas
Cohen, Roland Barthes e o Grupo MU, limitavam a retórica ao todos falam com muitas incorreções, por um lado, e por outro
estudo das figuras de estilo, que um desvio em com muitas figuras, portanto com desvios. O discurso funcio-
relação à norma, ao "grau zero", e portanto reduziam retórica a nal Esse de fato é o ponto de vista de J. Cohen,
desvio ... que compara os textos dos escritores e dos poetas com um gru-
No entanto, mesmo que se possa definir a figura como po-controle, formado por textos de autores científicos do fim
desvio, o que ainda precisa ser provado, parece totalmente abu- do século XIX; mas nos custa enxergar como esses textos, tra-
66 INTRODUÇÃO A RETÓRICA O SISTEMA RETÓRICO 67
balhados para adaptar-se ao assunto de que tratam, seriam mais Ação ("hypocrisis")
"normativos" ou mais "normais" que os dos escritores.
Na realidade, a noção de desvio é relativa; um discurso se A ação é o arremate do trabalho retórico, a proferição do
desvia de outro discurso em função de seus objetivos, de seus discurso. É essencial porque, sem ela, o discurso não atingiria
públicos e de seus gêneros respectivos, sem que nenhum deles o público. Sua função, diria Jakobson, é acima de tudo fática.
constitua norma absoluta. Assim também: é um desvio ir a uma Ao lhe perguntarem qual é a primeira qualidade do orador,
recepção noturna em traje de praia, mas também é desvio ir à Demóstenes respondeu: a ação; e a segunda: a ação; e a tercei-
praia em traje de gala. ra: a ação (Brutus, 142) ...
Mas não se pode dizer simplesmente que a figura se desvia
do sentido próprio? Por certo, mas isso só vale para algumas,
não para as figuras de palavras ou para as de construção (cf. capo Uma "hypocrisis" sem hipocrisia
VI). E, principalmente, o sentido próprio é realmente a norma?
A teoria do desvio considera a figura como dupla operação: a) o
Ação, que em grego é hypocrisis, no início, antes de ad-
autor propõe um enunciado que se desvia da norma, esse leão,
quirir sentido pejorativo, significava a interpretação do adivi-
b) que o receptor descodifica voltando à norma, "esse bravo".
nho, depois a interpretação do ator, a ação teatral. Assim como
Mas, ou se trata de uma operação com resultado nulo, e não
o hipócrita, o autor finge sentimentos que não tem, mas sabe
teria nenhum interesse além do prazer inegável de fazer buracos
disso, e seu público também. Assim também o orador: pode
para tapá-los, ou se trata de uma operação positiva, mas que
exprimir o que não sente, e sabe disso; mas não pode informar
implica então que a figura diz mais do aquilo com que é traduzi-
da, seu pretenso sentido próprio. seu público, ou destruiria seu discurso. O ator que finge bem é
um artista; o orador que finge bem seria um mentiroso ...
Já não há Pireneus. O fato é que o orador sincero não pode deixar de "repre-
sentar" segundo regras semelhantes às do ator. Se renunciasse
Se traduzido por: Já não há fronteiras (entre França e Espanha), a isso, se abandonasse a hypocrisis, trairia sua mensagem. A
perde-se algo de essencial. A figura confere um sentido extra. ação, diz Cícero, "faz o orador parecer aquilo que quer pare-
Um último problema, para nós essencial, é saber se a defi- cer" (Brutus, 142).
nição de figura como desvio permite explicar seu poder per- Seja sincero ou não, precisa dela.
suasivo. De fato, se a figura é percebida pelo auditório como Quanto a isso, os oradores antigos eram vezeiros ... che-
desvio, é aí que não dá certo. Ela pode ser considerada pesada gando - diz Quintiliano (XIII, 3, 59) - a "cantar" suas defesas.
ou poética, engraçada ou não, mas não funciona. A figura efi- Aliás, o mesmo Quintiliano dedica todo o capítulo 3 de seu
caz pode ser definida como algo que se desvia da expressão livro IX à ação, não só ao trabalho da voz e da respiração, mas
banal, mas precisamente por ser mais rica, mais expressiva, também às mímicas do rosto, à gestualidade do corpo; tudo se
mais eloqüente, mais adaptada, numa palavra mais justa do inclui: ombros, mãos, tórax, coxas ... que é preciso pôr a servi- .
que tudo que a poderia substituir. E, fizermos questão de ço das diversas paixões que é preciso exprimir9 •
falar em desvio, é a figura, a figura bem-sucedida, que consti- tem interesse histórico. O conteúdo da ação hoje é
tui a norma. mais simples e flexível. Mas a ação continua sendo indispensá-
vel, aliás mais que nunca, numa época em que o discurso oral,
graças aos meios de comunicação de massa, readquiriu impor-
68 INTRODUÇÃO À RETÓRICA O SISTEMA RETÓRICO 69

tância capital. Certas regras antigas permanecem, como a im- o problema do escrito e do oral
postação da voz, o domínio da respiração, a variedade do tom e
da elocução, regras sem as quais o discurso não passa. O que apresenta outro problema: a relação entre o discur-
Outras regras dizem respeito à conveniência, aqui adapta- so escrito e o oral. Ao lermos os antigos retores temos a im-
ção do discurso ao canal. Nos anos 30, os oradores políticos pressão de que para eles o discurso é essencialmente escrito, e
forçavam a voz diante do microfone, embora este permitisse que o problema da ação é unicamente de "interpretá-lo", assim
justamente utilizar voz suave, calma e descontraída. Em todo como um pianista interpreta uma sonata, portanto de pronun-
caso, a dicção sempre faz parte da retórica. ciá-lo com clareza e vivacidade depois de o ter redigido e me-
morizado. É verdade que as peripécias do debate político e ju-
diciário obrigariam a improvisar (aliás, os discursos publicados
o problema da memória dos oradores antigos foram reescritos), mas pouco importa:
eles não parecem ter pensado num estilo específico do discurso
Pois bem, como eram proferidos os discursos: eram lidos, oral, talvez porque a língua falada estivesse longe demais da
proferidos a partir de notas, de improviso? Parece que, para os língua escrita.
antigos, começava-se aprendendo de cor. Donde a importância Para nós, o discurso oral deve ser bem mais lento que uma
da memória (mnemé), que para certos autores latinos constituía leitura, ou o auditório perderia o fio da meada. Deve ser redun-
a quinta parte da retórica: a arte de memorizar o discurso. dante, para suprir a memória. Finalmente, o mais importante, a
Para Cícero (Brutus, 140,215, 301), isso é uma aptidão língua não é exatamente a mesma: exige frases mais curtas,
natural, não uma técnica; portanto, não pode ser parte da retóri- expressões mais concretas e familiares, ou então o discurso
ca. Para Quintiliano, ao contrário, a memória não só é um dom parecerá artificial. Concretamente, fala-se evitando a forma sin-
como também uma técnica que se aprende (cf. XI, 2,passim); e tética do futuro, substituindo mesóclises e até ênclises por pró-
indica processos mnemotécnicos, como decompor o discurso clises, usando "pra" em vez de "para", dizendo "acho" em vez
em partes, que serão memorizadas uma após outra, associando de "acredito". Quintiliano, que pode ser muito "moderno", acon-
a cada uma um sinal mental para lembrar de proferi-la no mo- selha o orador a:
mento certo: uma âncora para o trecho sobre o navio, um dardo
para o trecho sobre o combate (29). Mas, além desses "truques", cuidar principalmente de fazer que sejam ouvidos como descon-
faz três observações essenciais. traídos desdobramentos muito cerrados, e a dar às vezes a im-
Primeiro, a memória depende antes de mais nada do esta- pressão de estar refletindo, hesitando, buscando aquilo que foi
levado bem pronto. (XI, 2, 47)
do fisico: para lembrar-se é preciso ter dormido bem, estar com
boa saúde, etc.
Depois, um discurso é fácil de memorizar por sua estrutu- Ninguém fala "como livro", mas como gente.
ra (ordo), ou seja, por sua coerência, pelo encadeamento lógico
de suas partes, pela eurritmia de suas Mostrar que a retórica é um sistema é mostrar que ela tem
Finalmente, é "dominando" o discurso que temos mais con- um sentioo ao mesmo tempo rico e preciso. Toda a seqüência
dições de ajustar-nos às objeções e de improvisar. Portanto, deste livro sustenta a tese de que é possível utilizar a retórica
em vez de se opor à criatividade, a memória é fator essencial sem fazer referência a esse sistema, que na verdade constitui
para ela. uma das chaves da nossa cultura.
Capítulo IV
Do século I ao XX

De que forma os séculos foram enriquecendo o sistema


retórico? Também aqui convém deixar claro que não tentamos
traçar uma história da retórica nem um panorama. Limitamo-
nos a lembrar alguns grandes problemas, que foram surgindo
em diferentes épocas, desde Cícero até nós.

Período latino

Depois de Isócrates e Aristóteles, a retórica se instala na


cultura grega helenística como disciplina essencial, tão impor-
tante quanto para nós a matemática. Os romanos também ade-
rirão, assimilando-a. Como?

Forma efundo: pintura e cores verdadeiras

Aqui nos limitaremos a mencionar as obras axiais: Do


orador, de Cícero, completada por O orador, 55 e 46 a.c., e
Instituição oratória, de Quintiliano, escrita provavelmente em
93 d.C. Essas obras constituem admiráveis tratados de retórica,
escritos por praticantes. Note-se que, ao contrário dos gregos,
os romanos tinham advogados; que não tinham o direito de ser
pagos, mas tinham um consolo: eram ressarcidos com presen-
tes. CíeéPo e Quintiliano foram ambos grandes advogados que,
em seus livros, "teorizaram" sobre sua prática.
A primeira tarefa da retórica latina foi traduzir os termos
gregos. Por exemplo, metáfora em Cícero transforma-se em
72 INTRODUÇÃO A RETÓRICA DO SÉCULO I AO XY 73

tralatio, epidíctico é demonstrativum. Tekhné rhetoriké será mente por Cícero como humanitas, nossa cultura geral. Só ela
chamada de ars oratoria, ou rhetorica. Significativo: a palavra permite exprimir-se de modo justo e apropriado, elevar o debate
grega rhetor terá duas traduções: orator, que é o executante, o da causa à thésis, do caso particular à questão geral subjacente.
fazedor de discursos, e rhetor, que é o professor, geralmente Por exemplo, o advogado, ao pedir o castigo do réu, elevar-se-á,
grego. tomando considerações históricas em apoio, aos problemas da
Essa dualidade apresenta um problema de fundo, o do pa- defesa social, da exemplaridade do castigo, etc.
pel da técnica na eloqüência. Pois o retor ensina uma técnica,
com seus lugares, seus planos-tipo, suas figuras. Mas a verda-
deira eloqüência tem a ver com receitas? Não, responde Cícero; Retórica e moral
se ela é autêntica, ocorre naturalmente no orador, desde que ele
seja dotado, experiente e culto, ou seja, instruído em todas as
O mesmo se aplica a Quintiliano que, no apogeu do Impé-
áreas essenciais: direito, filosofia, história, ciências. As receitas
rio, retoma de modo mais sistemático as idéias de Cícero. Ele
retóricas, os "truques" para se impor são ineficazes.
também considera a retórica como arte funcional, que exclui
O estilo também nada tem de artificial; longe de ser um
tudo o que seja inútil, arte que procede do mesmo espírito dos
ornamento aplicado ao discurso, decorre naturalmente do ftm-
aquedutos romanos e da disciplina legionária. O estilo deve seu
do. A escolha das palavras (electio), a composição das frases,
brilho à função, analogamente ao brilho das armas da legião
as figuras, o ritmo - principalmente o ritmo - são expressões
em ordem de batalha (cf. X, 1,29). A arte oratória, portanto,
naturais do que se tem para dizer, e tudo o que soa artificial deve
em vez de criar "desvio" permite atingir a expressão mais jus-
ser riscado:
ta, e nosso pretenso "grau zero" do discurso "normal" para
Se houver nobreza nas próprias coisas de que se fala, das Quintiliano não passaria de inaptidão, desjeito, incultura, "gar-
palavras brotará uma espécie de fulgor natural. (Do orador, rulice improvisada"2.
III, 125) Inversamente, retórica é sinônimo de cultura, e a Institu-
tio oratoria, "Formação do orador", apresenta-se como um
E o homem culto que tem algo para dizer não precisa dos cur- tratado completo de educação a partir da primeira infância,
sos de expressão dos retores. É por isso que Cícero chama as que possibilita classificar seu autor, sem muito anacronismo,
figuras de estilo de lumina, pois elas trazem a lume o que que- como pedagogo. Não entraremos no mérito de seus conselhos
remos dizer (cf. O orador, 85, 95, 134). O discurso para ele é notáveis, muitas vezes bem atuais, como o de sempre levar o
um organismo vivo cujas partes desempenham todas um papel; aluno a propor-se questões. Diga-se que ele abre o campo do
portanto, se forem aplicados ornamentos, eles não passarão de ensino retórico, por nele incluir a gramática, como explicação
"pintura", enquanto o que conta é o "colorido da pele", sinal de dos textos, e a dialética, como técnica de argumentação (cf. 11,
boa saúde l . 21, 12). Porém o mais importante, como educador, é que ele se
Então é melhor renunciar à retórica? Não, pois a ausência esforça por reconciliar a retórica e a ética, que Aristóteles ha-
de retórica, em vez de significar sinceridade, não passa de inap- via separado.
tidão, incapacidade para exprimir-se e convencer. Portanto, uma Quantio define a retórica como scientia bene dicendi, arte
retórica, e que seja ensinada. Mas trata-se de um ensino em pro- de bem falar (11, 15, 5; 16, 38), a palavra "bem" para ele tem
fundidade, que pega o homem desde a infância e forma-o na- sentido não só estético como também moral. A quantos censu-
quilo que os gregos chamam de Paideia, tra(fuzido magnifica- ram a retórica por persuadir tanto do pior quanto do melhor,
74 INTRODUÇÃO À RET6RICA DO SÉCULO I AO XX" 75

Quintiliano responde que não se pode atribuir "o nome de o Mas dá outra explicação, menos banal. A arte oratória ce-
mais belo dos oficios a quem aconselhe perversidades" (15, senvolvera-se na sociedade em que era indispensável, qual seja,
17), e chega a dizer: a democracia. Quando todas as decisões eram submetidas a de-
bates públicos, o futuro orador formava-se naturalmente no fó-
Onde houver causa injusta, não haverá retórica. (11, 17, 31) rum, ouvindo as discussões e depois tomando parte delas; des-
cobria assim as técnicas dos diversos oradores e, principalmen-
Em suma, ela não só é uma arte, mas uma virtude. E, à acusa- te, as reações do público. "Hoje" (na época dos imperadores),
ção de que um homem mau pode às vezes utilizar uma retórica quando esses debates não são mais correntes, os jovens apren-
excelente para chegar a seus fins, ele responde: dem eloqüência na escola, ou seja, de modo artificial, sem ou-
tro público senão camaradas tão pueris quanto eles, sem outros
Um bandido pode bater-se com valentia, e a coragem nem temas de debate senão assuntos irreais, absurdos.
por isso deixará de ser virtude. (11, 20, 10) Em suma, uma vez que a função cria o órgão, a eloqüência
desenvolveu-se na sociedade que precisava dela, a democracia,
Note-se que esses dois argumentos não combinam: de acordo e não sobreviveu a esta senão de maneira artificial. Mas não
com o primeiro, a retórica a serviço de uma causa imoral não é devemos enxergar em Tácito um velho democrata embrulhado
retórica; de acordo com o segundo, ela continua retórica e con- em virtuosa nostalgia. Ele lembra que aquela democracia sig-
tinua virtude! nificava menos liberdade e mais desordem e violência, e que a
Na realidade, o que reconcilia retórica e moral é a cultura, paz romana, concretizada pelos imperadores, vale mil vezes
para Quintiliano valor supremo. Concordando com Isócrates, mais que o regime de anarquia que a precedeu. Raciocinando
ele escreve que, sendo a linguagem e a razão características do por analogia, ele afirma que não se deve sentir saudade da de-
homem, a retórica que as cultiva constitui a virtude humana sordem democrática só porque ela produziu grandes oradores,
por excelência. Falar bem é ser homem de bem; inversamente, assim como não se sente saudade da guerra só porque ela pro-
só o homem de bem, honesto e culto, fala bem. Pode-se dizer duz heróis (37, 7).
que a Institutio oratoria propõe os fundamentos da educação Fato é que esse trecho de Tácito foi transformado em ver-
humanista. dadeiro lugar-comum, afirmando-se que a grande retórica teria
morrido com a liberdade, dando lugar apenas à retórica artifi-
cial, ornamental e vazia. Será verdade?
Retórica e democracia Em certo sentido, a história da educação romana confirma
isso. Tudo ocorre como se os romanos tivessem ganho, com a
Na época imperial, um pouco depois de Quintiliano, um retórica, um instrumento que não lhes servia para grande coisa.
texto célebre de Tácito, Diálogo dos oradores, levanta proble- Nas aulas de retórica, usavam-se, como exercício, "declama-
ma bem diferente. No fim dessa conversa, os protagonistas se ções", discursos puramente fictícios. Eram de três tipos. Os
perguntam por que a eloqüência entrou em decadência depois elogios, discursos epidícticos, tratavam de personagens históri-
de Cícero. Para isso, o orador Messala dá uma primeira expli- cas ou lerttiárias e eram completadas por paralelos (por exem-
cação: esse declínio se deve "à preguiça dos jovens", tanto plo, entre Aquiles e Heitor). Os suasórios eram discursos polí-
quanto ao desleixo de sua educação; história tantas vezes repe- ticos, mas fora da situação vivida:
tida desde então... '/
76 INTRODUÇÃO A RETÓRICA DO SÉCULO I AO XY 77
Aníbal, no dia seguinte a Canas, está pensando se marchará Por que o declínio?
sobre Roma. (in Marrou, p. 415)
Na realidade, foi no século XIX que a retórica realmente
As controvérsias, enfim, eram discursos favoráveis ou contrá- declinou, a ponto de quase desaparecer. Seria interessante sa-
rios a alguma coisa. Os exemplos utilizados eram fictícios, às berporquê.
vezes inverossímeis, alegando-se que a dificuldade era forma-
dora por si mesma. Assim o caso do "duplo sedutor", que era
preciso defender e acusar: Retórica e cristianismo

A lei aqui será: a mulher seduzida escolherá entre a conde- Um grande problema que se apresenta no fim da Antigui-
nação à morte do sedutor ou o casamento com ele, sem dote. Na
dade é o da relação entre a retórica e a nova religião, o cristia-
mesma noite, um homem violenta duas mulheres. Uma pede sua
nismo. Este, de fato, situa-se em ruptura total com a cultura an-
morte, a outra escolhe casar-se com ele. (in Marrou, p. 415)
tiga, cujo "cerne" é constituído pela retórica: cultura pagã, idó-
latra e imoral, que só poderia afastar a redenção, "única coisa
Essas khreias lembram o exercício da conferência dos advoga-
necessária" .
dos estagiários: a lei pune o marido se ele comete adultério no
No entanto, como mostrou tão bem R.-I. Marrou, os cris-
domicílio conjugal. Ora, um marido é surpreendido em fla-
tãos logo aceitaram a escola romana e a cultura que ela veicula-
grante delito de adultério com a vizinha, no muro que divide as
va. Em seguida, quando todas as estruturas administrativas do
duas residências. Ele é passível das penas da lei?
Império desmoronaram, foi a Igreja que se tomou depositária
Em Vida cotidiana em Roma, Jerônimo Carcopino fustiga
desse cultura antiga, retórica inclusive. É verdade que grande
esse ensino retórico totalmente apartado da vida: "retórica
número de pais da Igreja rejeitam os autores pagãos, como inú-
irreal" "virtuosidades verbàis", "formalismo incurável"
teis e perigosos, mas admitem a língua e a retórica dos pagãos
(pp. 1:35 s.). R.-I. Marrou é mais matizado; mostra que essa
(cf. Marrou, 460 s.). Por quê? Por duas razões.
cultura formal a longo prazo produzia resultado positivo: for-
A primeira é que a Igreja, em seu papel missionário e em
mava advogados, administradores, embaixadores capazes de
suas polêmicas, não podia prescindir da retórica, muito menos
falar com eficácia nas situações mais inéditas. Afinal, também
da língua (grega ou latina). Não podia deixar esses meios de
seria possível falar de formalismo com referência a nossas dis-
persuasão e de comunicação em mãos de adversários. Santo
sertações e a nossos problemas de matemática.
Agostinho escreve assim, no fim do século IV:
Se o ensino da retórica perdurou durante o Império Roma-
no se sobreviveu em Bizâncio, tanto sob o islamismo quanto
Quem ousaria dizer que a verdade deve enfrentar a mentira
na' Europa medieval, com métodos semelhantes, significa que com defensores desarmados? Como? Esses oradores que se
não era tão inútil. É verdade que a retórica perdeu os grandes esforçam por persuadir do falso saberiam desde o exórdio tomar
debates políticos, que só recuperará nas democracias moder- o auditório dócil e benevolente, enquanto os defensores da ver-
nas, mas ganhou outros gêneros: a epístola, a descrição, o tes- dade seriam incapazes disso? (Doutrina cristã, IV, 2,3)
tamento, o discurso de embaixada, a consolação, o conselho ao '.,
príncipe, etc. O "fim da retórica" não passa de lugar-comum no A segunda razão é que a própria Bíblia é profundamente
mau sentido do termo, ou seja, não retórico. retórica. Não sobejam nela metáforas, alegorias, jogos de pala-
vras, antíteses, argumentações, tanto quanto nos textos gregos,
78 INTRODUÇÃO A RETÓRICA DO SÉCULO I AO XX 79

se não mais? São Paulo bem que afirma que não tem a sophia brios, mas continuam utilizando a hermenêutica dos quatro sen-
logou, "arte do discurso" (1 Cor I, 17), mas acrescenta a argu- tidos, que funciona como um lugar da retórica.
mentação de um rabino às antíteses de um orador grego.
Portanto, a Bíblia era um modelo, porém mais ainda: um
problema. Com efeito, não bastava ser lida, precisava ser com- Verdadeiras causas do declínio:
preendida; e, para interpretá-la, nunca era demais utilizar todos retórica, verdade e sinceridade
os recursos da retórica. A hermenêutica da Idade Média é toda
alegórica: propõe que todo texto bíblico tem outro sentido além Portanto, o cristianismo nada tem a ver com o declínio da
do literal. Outro, ou melhor, vários. Tomemos como exemplo a retórica. Esta, ao contrário, desenvolveu-se durante toda a Ida-
palavra Jerusalém (pois essa interpretação dizia respeito sobre- de Média, tanto na literatura profana quanto na pregação. A
tudo à palavra): 1) ela tem um sentido próprio ou histórico, de partir do Renascimento, voltou aos cânones antigos, e seu ensi-
cidade onde viveram David, Salomão, etc.; 2) tem também um no constitui o ciclo essencial de toda a escolaridade, tanto entre
sentido alegórico, que se refere ao Cristo, e Jerusalém signifi- os protestantes e os jansenistas quanto entre os jesuítas\ No
ca Igreja; 3) tem um sentido tropológico, ou seja, moral, e Je- entanto, é nesse período que começa o declínio da retórica. As
rusalém significa a alma do cristão, tentada, castigada, curada; novas idéias vão dar-lhe o golpe mortal, rompendo o elo entre
4) finalmente tem um sentido anagógico, relativo à ressurrei- o argumentativo e o oratório, que lhe davam força e valor.
ção e ao reino de Deus, e Jerusalém significa a cidade de Deus, Foi dito que essa cisão ocorreu a partir do século XVI, com
depois do Juízo Final. o humanista Pedro Ramus (Pierre de la Ramée, 1515-1572).
Tomemos o texto seguinte, interessante por possibilitar Este de fato separa resolutamente a dialética, arte da argumen-
destacar os mecanismos da alegoria; é um breve comentário tação racional, da retórica, reduzida "ao estudo dos meios de
sobre Êxodo, XI, 12: expressão ornados e agradáveis" (TA, p. 669), em suma à elocu-
ção. Mas nada prova que a atitude de Ramus tenha sido dura-
À meia-noite sairei pela terra do Egito. E todo primogênito doura; ao contrário, os retóricos que apareceram até o século
morrerá ... XIX, sobretudo na Inglaterra, continuam completos, incluindo
tanto a invenção e a disposição quanto a elocução.
Como comentar esse versículo terrível? Apesar disso, no século XVII ocorre uma fratura também
grave com Descartes, que vai destruir um dos pilares da retóri-
Pode ser interpretado historicamente porque, como se lê, ca, a dialética, em outras palavras a própria possibilidade de
quando a Páscoa é celebrada, o anjo exterminador atravessa argumentação contraditória e probabilista. Em sua autobiogra-
(pertransit) o Egito. Alegoricamente, a Igreja passa (transit) da fia intelectual, que abre o Discours de la méthode, ele escreve:
descrença à fé pelo batismo. Tropologicamente, a alma deve
passar (transire) do vício à virtude pela conversão e pelo arre- Eu apreciava muito a eloqüência e era apaixonado por poe-
pendimento. Anagogicamente, o Cristo passou (transivit) da con- sia, mas achava que uma e outra eram dons do espírito, e não
dição mortal à imortalidade, para nos fazer passar (transire) da do estudo. Aqueles que têm raciocínio mais forte e que
miséria deste mundo à fé eterna3 • digen!m melhor seus pensamentos, para tomá-los claros e inteli-
gíveis, são os que sempre conseguem persuadir melhor daquilo
Como se vê, essa tripla alegoria é construída sobre o tema que propõem, ainda que só falassem baixo bretão e nunca tives-
da passagem. Hoje em dia, os pregadores são bem mais só- sem aprendido retórica.
80 INTRODUÇÃO A RETÓRICA DO SÉCULO I AO XY 81

servem senão para insinuar falsas idéias no espírito, despertar


Como se vê, Descartes considera tanto o objetivo da retó-
paixões e seduzir pelo julgamento, de tal modo que na verdade
rica ("persuadir") quanto suas quatro partes: invenção ("racio-
são perfeitos logros. (in Todorof, pp. 77-78)
cínio"), disposição ("digerem", no sentido de organizam), elo-
cução ("tomar claros"), ação ("falassem"). Considera tudo da
Se Locke admite um ensino da retórica para a elocução, é
retórica, salvo a retórica ... como arte que se poderia "aprender"
ainda mais severo que Descartes, pois faz da retórica a arte da
por "estudo"; idéia retomada depois por Pascal:
mentira. Quanto ao resto, apesar de suas oposições filosóficas,
estão de acordo. Descartes situa a verdade na evidência das
A verdadeira eloqüência escarnece da eloqüência. (p. 321)
idéias claras e distintas; Locke, na experiência dos sentidos.
Mas ambos vêem a retórica como um anteparo artificial entre o
Mais ainda: com seu "baixo bretão" Descartes rejeita o privilé- espírito e a verdade. Ambos desconfiam da linguagem, que só
gio de uma língua nobre, objeto da retórica, o latim. vale como veículo neutro de uma verdade independente dela,
Principalmente no parágrafo seguinte ele repudia a dialé- de uma verdade que nada tem a ver com as controvérsias da
tica, por nunca oferecer mais que opiniões verossímeis e sujei- dialética. A retórica não pode mais ter pretensões a invenção
tas a discussão, ao passo que a verdade só pode ser evidente, alguma.
portanto única e capaz de criar acordo em todos os espíritos. É certo que ela ainda poderá servir aos debates jurídicos, à
Com a dúvida metódica, Descartes tomará a atitude de consi- política e à pregação. E por isso ainda haverá tratados de retóri-
derar não como verdadeiro, mas como falso, tudo o que só é ca até o século XIX.
verossímil, e sua filosofia se apresentará como um encadea- Mas aí duas novas correntes de pensamento conduzirão ao
mento de evidências, análogo a uma demonstração matemáti- seu desenlace.
ca. Enfim, contra o debate de várias pessoas, que é a dialética, A primeira é o positivismo, que rejeita a retórica em nome
ele afirma que só se pode encontrar a verdade sozinho, por um da verdade científica. Ela será excluída até mesmo de sua últi-
retomo a si mesmo (cf. infra, texto 8). ma trincheira, a elocução, sendo substituída pela filologia e pela
A retórica deixa portanto de ser arte e perde seu instru- história científica das literaturas. A última obra propriamente
mento dialético. Basta encontrar a verdade por sua razão, "E as retórica na França é de Pierre Fontanier, publicada em 1818 e
palavras para expressá-la chegam facilmente" (Boileau). 1827, que G. Genette reeditará em 1968 com o título Les figu-
Outros filósofos, os empiristas ingleses, chegam à mesma res du discours, estudo notável, modestamente destinado aos
condenação. Para eles, qualquer verdade vem da experiência alunos da penúltima série do estudo secundário.
sensível, e a retórica, com seus artifícios verbais, só faz afastar A segunda corrente é o romantismo, que rejeita a retórica
da experiência. Locke assim escreve: em nome da sinceridade. "Paz com a sintaxe, guerra à retóri-
ca", exclama Victor Hugo, querendo dizer com isso que o es-
Confesso que, em discursos nos quais procuramos mais critor deve respeitar o código da língua, mas sem se sobrecar-
agradar e divertir que instruir e aperfeiçoar o julgamento, mal regar com um segundo código.
podemos fazer passar por erros essas espécies de ornamentos Em 1885, a retórica desaparece do ensino francês, substi-
que tomamos de empréstimo às figuras. Mas, se quisermos. tuída pela."história das literaturas grega, latina e francesa".
representar as coisas como são, é preciso reconhecer que, exce-
Fim.
tuando a ordem e a nitidez, toda a arte da retórica, todas as apli-
cações artificiais e figuradas que nela se fazem das palavras, se-
gundo as regras que a eloqüência inventou, para outra coisa não
82 INTRODUÇÃO À RETÓRICA DO SÉCULO I AO..IT 83

Hoje: retóricas Os três parágrafos que seguem contêm exemplos desse es-
tilhaçamento.
Ou melhor: falsa saída de cena. Pois se a retórica perdeu o
nome nem por isso morreu. Não só sobrevive, como se viu, no
ensino literário, nos discursos jurídicos e políticos, como tam- Retórica da imagem
bém vai renovar-se com a comunicação de massa, própria do
século xx. Finalmente, a partir dos anos 60 aparece na França "Vivemos no século da imagem", é o que se ouve com fre-
e na Europa uma nova retórica, que logo conhecerá imenso su- qüência. Clichê bem contestável, pois os outros séculos comu-
cesso. A palavra já não dá medo.
nicaram-se bem mais pela imagem que pelo texto escrito. Além
do mais, é raro que as nossas imagens possam prescindir do
texto escrito para serem legíveis.
Uma retórica estilhaçada
Assim, é perfeitamente possível fazer a interpretação retó-
Apesar de tudo, a retórica atual é bem diferente daquela rica de estátuas romanas, de ícones, de portais romanos, etc.,
que substitui. imagens que se vinculam ao gênero epidíctico, para glória de
Para começar, seu objetivo já não é produzir discursos, po- um soberano ou de Deus. Mas é normal que essa retórica se in-
rém interpretá-los, e assim se aproxima mais da gramática dos teresse mais pelas produções atuais, sobretudo pelas imagens
antigos. Pode-se dizer que já não se aprende a fazer discursos? publicitárias, persuasivas por essência.
Aprende-se, mas esse ensino, que no fundo se identifica com a O pontapé inicial da retórica da imagem, na França, foi
formação literária e filosófica, já não é visto como retórica - dado por Roland Barthes, em seu artigo publicado em Communi-
ou não é ainda. cations no ano de 1964. Nele, Barthes analisa um cartaz feito
Em segundo lugar, o campo da moderna retórica alargou- para as massas Panzani, mostrando que além de sua denotação
se muito. Longe de limitar-se aos três gêneros oratórios dos - legumes frescos e pacotes de macarrão saindo de uma sacola
antigos, ela vai anexando, como lhe cabe, todas as formas mo- - o cartaz persuade pela conotação: as cores verde, branca e
dernas do discurso persuasivo, a começar pela publicidade, e vermelha sugerem italianidade; os legumes, frescor e natureza;
mesmo dos gêneros não persuasivos, como a poesia. Não con- a sacola, cozinha artesanal, etc. Ainda que as massas em ques-
tente com reivindicar todo o campo do discurso, vai bem além, tão sejam francesas e industrializadas! Mas Barthes faz mais
pois se apodera de todas as espécies de produções não verbais. semiótica que retórica.
Elabora-se assim uma retórica do cartaz, do cinema, da músi- O que se pode dizer é que, se é imprópria para produzir
ca, sem falar da retórica do inconsciente. argumentação, a imagem é porém notável para amplificar o
Finalmente, e mais importante, a retórica moderna é uma etos e o patos.
retórica estilhaçada, fragmentada em estudos distintos. Distin- Tomemos como exemplo o cartaz da oposição que inau-
tos não só pelo objeto, mas pela própria definição que dão à gurou a campanha eleitoral para as eleições legislativas de
palavra "retórica", de tal modo que cabe perguntar se esse ter- 1986. Como texto, o cartaz contém o slogan: Vivement demain!,
mo ainda tem algum sentido preciso. Esse estilhaçamento, que e em menores: Avec le RPR!*. O slogan expressa a ex-
afeta, aliás, a arte e a filosofia, é um dos grandes sinais da nos- de toda oposição: chegar ao governo. A seqüência
sa cultura, índice de que ela está bem viva, pois é a vida que es-
tilhaça as formas rígidas. Mas também de que, como acontece
com tudo o que é vivo, há o risco de morrer. * Literalmente, "Vivamente amanhã" e "Com o RPR". (N. do T.)
84 INTRODUÇÃO A RETÓRICA DO SÉCULO I AO XX 85

sugere que o beneficiário dessa expectativa é o RPR, e não dos caso das massas Panzani ... Mas de uma sugestão, que por certo
outros partidos de oposição. se encontraria em qualquer imagem publicitária. Em todo caso,
A imagem: Jacques Chirac, o líder, no centro de uma linha esses dois cartazes, aliás belíssimos (beleza funcional), mos-
de doze pessoas, das quais duas mulheres jovens, em posições tram bem duas coisas:
simétricas, que avançam por um prado, debaixo de um céu 1) A retórica da imagem desenvolve o oratório em detri-
imenso, onde está escrito o slogan. mento do argumentativo.
O etos é sugerido pelas conotações da imagem: 2) A imagem não é eficaz, nem mesmo legível, sem um
mínimo de texto.
"Equipe": as pessoas estão com os braços nos ombros das outras A imagem é retórica a serviço do discurso, não em seu lugar.
ou estão de braços;
"respeitável": usam traje social, com gravata;
"trabalho": tiraram os paletós; o vento levanta as gravatas; Retórica da propaganda e da publicidade
"juventude" : quase todos têm menos de quarenta anos; os mais
idosos estão no meio; sinédoque: alguns jovens para marcar Pode-se considerar a propaganda (política, militar, etc.) e
juventude. a publicidade como invenções do século XX. Ainda que nossos
ancestrais não nos tenham esperado para defender seus parti-
O patos também nasce das conotações: dos e criar suas mercadorias, o que eles faziam era coisa bem
diferente, por uma boa razão.
"ímpeto irresistível": a linha ondulante sugere uma vaga que nos A propaganda e a publicidade pertencem à comunicação
envolve; metáfora; de massa. O que é massa? Um número indefinido, geralmente
"saúde": todos estão incrivelmente bronzeados;
imenso, de indivíduos cujo único elo é receber a mesma men-
"dinamismo": a equipe avança; numa primeira versão, estava
sagem. Um camelô que vende um tira-manchas na feira dirige-
imóvel, o que era bem menos convincente;
"patriotismo": o céu é azul, as camisas são brancas, os vestidos se a algumas pessoas e adapta-se às reações delas. O anuncian-
das duas mulheres são vermelhos; te de um tira-manchas na televisão dirige-se a milhões de des-
"otimismo": as doze pessoas (bom número, o dos apóstolos), os- conhecidos cujo único elo é a mensagem a que estão submeti-
tentam um sorriso comercial, o que valeu ao cartaz o nome dos. A massa, em si, é passiva e atomizada.
de "ouistiti-sexe"*. Na verdade é a comunicação de massas que cria a massa.
Para que ela exista, são necessários meios de comunicação mo-
Esse cartaz é obra de profissionais da publicidade, como dernos, de grande difusão, como o cartaz ou o anúncio de tele-
aliás todos os dos outros partidos nessa campanha5 • Note-se visão. Nisso, a massa se distingue da multidão, conjunto de pes-
que a conotação enriquece a denotação, e que em certo sentido soas reunidas para alguma coisa, que pode reagir imediatamen-
a contradiz. Pois a imagem dá a entender que todos os figuran- te à mensagem que recebem. A multidão aplaude ou infama; a
tes da equipe irão tornar-se ministros de Chirac, ao passo que massa não tem voz nem rosto. E a comunicação de massa é
alguns não se tornaram; o mais importante é que ele não mos- sempre indireta. Utiliza algum canal, do cartaz ao filme, com-
tra os principais colaboradores de Chirac, que não eram nem plexo o que implica conseqüências para o próprio con-
um pouco jovens. Não se trata de uma mentira, tanto quanto no teúdo do discurso.
Em primeiro lugar, geralmente é breve, pois limitada no
* Ouistiti é sagüi, mico. (N. do T.) tempo ou no espaço, o que quase não lhe possibilita argumen-
86 INTRODUÇÃO A RETÓRICA DO SÉCULO I AO XX 87

tações sutis, mas autoriza, em compensação, a jogar com ambi- Poder-se-ia retorquir a Flader que sua explicação é parcial,
güidades. Sua satisfação ou o dinheiro de volta: ótimo, mas em pois há outras motivações além do retorno à infância; a liber-
que condições? X lava mais branco: mas o quê e como? Em se- dade de Lee talvez seja também a comodidade do corpo, a libe-
gundo lugar, embora menos claro e menos preciso, o discurso é ração sexual, a saída da infância (e não a volta a ela!). Mas, no
completado pelo conteúdo não lingüístico da mensagem, pela conjunto, ele tem razão; o patos ganha do logos, e esse patos
música, pela imagem, que no fundo desempenham o papel da inova em relação à tradição retórica.
ação, parte não verbal da antiga retórica. Mas a publicidade vai Mas, se mudar seu conteúdo, a publicidade se inserirá no
renovar a invenção também. sistema retórico; comporta invenção, disposição - plano da men-
Primeiro ela cria seus próprios lugares, no sentido de ar- sagem, estrutura do cartaz -, elocução e principalmente ação.
gumentos-tipo ("somos jovens") ou de perguntas para chegar a Numa propaganda eleitoral, por exemplo, não só a voz é essen-
eles ("Como parecer jovem?"). Lembremos os lugares mais cial como também todo o comportamento, a aparência do can-
conhecidos: juventude, sedução, saúde, prazer, status, diferen- didato, que é a forma moderna do etos.
ça, natureza, autenticidade, relação qualidade/preço. Caberia mostrar aqui o que distingue a propaganda da pu-
Depois, a publicidade privilegia o etos e, principalmente, blicidade. Limitemo-nos a observar que elas tendem a confun-
o patos, em relação ao logos. Em outras palavras, a mensagem
dir-se, pois os partidos políticos confiam suas campanhas cada
é bem mais oratória que argumentativa. O próprio patos - psi-
vez mais a publicitários. Donde a pergunta: a publicidade é real-
cologia utilizada pelos meios de comunicação de massa - é di-
mente compatível com a democracia?
ferente do da retórica antiga. Inspira-se, pelo menos atualmen-
Pode-se responder: sim, porquanto é retórica, e a base da
te, na psicanálise. Dieter Flader, em seu estudo de 1976 sobre a
estratégia da publicidade, insiste no lado infantilizante dessa retórica é a argumentação contraditória. Toda publicidade é con-
retórica, voltada para a necessidade que há nos consumidores traditada por outras, e quem não achar que X lava mais branco
de se sentirem seguros e amados. Es lohnt sich bestimmt ("Sim, sempre pode comprar Y; assim também, quem não gosta do
vale a pena!"), proclama o slogan, incitando a deixar de lado a sorriso comercial deste candidato tem a liberdade de votar em
angústia da dúvida, a entregar-se à voz paterna onisciente e outro. Certo, mas a publicidade limita a liberdade de escolha
onipotente. Lee match frei ("Lee é liberdade"); Lee já não é um por situar o debate em tal nível que na verdade não há debate,
objeto, calças banais, porém um ser personalizado que cuida de conservando da argumentação apenas o que ela tem de mais
nós, e a liberdade que nos proporciona encontra verdadeiro sumário e oferecendo como termos de escolha apenas objetos
sentido no inconsciente: livra-nos da angústia de sermos adul- - brancura, sorriso - que não têm grande relação com proble-
tos. Significa que todas essas mensagens, ao eliminarem o mas reais. A democracia precisa de um povo adulto, e a retóri-
tempo e as relações causais, ao criarem uma fusão narcísica en- ca publicitária devolve as massas à infância.
tre o objeto e o ego, jogam com a necessidade de regressão afe-
tiva. Vê-se o mesmo fenômeno nos "revolucionários" de 1968;
seus slogans mais fortes: Nova retórica contra nova retórica
Sob a calçada, a praia.
NOS'MloS 60, assiste-se ao nascimento de uma "nova retó-
É proibido proibir.
rica". Mas que retórica? Houve várias, e a que estava mais na
Seja realista, peça o impossível.
moda naquela época afirmava-se puramente literária, sem rela-
faziam parte da recusa global de ser adultos. ção alguma com a persuasão. Tinha-se então esquecido tão bem
88 INTRODUÇÃO A RETÓRICA DO SÉCULO I AO XX" 89

o que significava a palavra "retórica" que ela virou rótulo de de valor? O que nos permite afirmar que isto é justo ou que
coisa completamente diferente. aquilo não é belo? Buscaram, pois, a lógica do valor, paralela à
Esse movimento, que incluiu Jean Cohen, o grupo MU, da ciência, e acabaram por encontrá-la na antiga retórica, com-
Gérard Genette, Roland Barthes, transforma a retórica em "co- pletada, como convém, pela dialética. A grande descoberta desse
nhecimento dos procedimentos da linguagem característicos tratado - a palavra "descoberta" comporta um pressuposto, mas
da literatura" (Rhétorique générale, p. 25). E esses procedi- nós o assumimos - é que, entre a demonstração científica e a
mentos são reduzidos às figuras de estilo, definidas como des- arbitrária das crenças, há uma lógica do verossímil, a que dão o
vios do "grau zero", que seria a prosa não literária. Renri Mo- nome de argumentação, vinculando-a à antiga retórica.
rier chegou a fazer um Dicionário de retórica e poética sem No essencial, esse livro é um estudo dos diversos tipos de
falar de argumentos, lugares, disposições. Essa "nova retórica" argumentos, a que voltaremos no capítulo VIII; é certo que
limita-se, pois, à elocução, e desta só fica com as figuras. Em abre espaço para as figuras, porém um espaço menor, reduzin-
suma, uma retórica sem finalidade alguma. do-as a condensados de argumentos; por exemplo, a metáfora
Não nos cabe desprezar essas obras, tão ricas e muitas ve- condensa uma analogia. Em suma, uma retórica centrada na in-
zes apaixonantes. Mas trata-se de retórica? Um representante venção, e não na elocução.
do grupo MU responde rejeitando qualquer argumento de au- Portanto, também incompleta. De fato, se o tratado des-
creve maravilhosamente as estratégias da argumentação, deixa
toridade:
de reconhecer os aspectos afetivos da Retórica, o delectare e o
Nem a Bíblia, nem o Código Civil, nem poder algum pode movere, o encanto e a emoção, essenciais contudo à persuasão.
nos obrigar a partir do domínio da antiga retórica. ("Rhétorique Na França, o Traité de 1'argumentation foi ignorado pelos
de I' argumentation et des figures", in Figures et conflits rhétori- meios literários, fechados para tudo o que não fosse estilística,
ques, p. 126) e até pelos meios filosóficos, de tal modo a idéia de um tercei-
ro caminho, entre a lógica formal e a ausência de lógica, era es-
Por certo, mas há outro poder, o do dicionário. E nosso tranha à cultura da época. Pelo menos na França, pois conti-
temor é de que, à força de infringi-lo, cheguemos à Torre de nuava familiar aos anglo-saxões, que, aliás, nunca tinham es-
Babel... quecido de todo a retórica.
Em todo caso, à retórica literária opõe-se outra corrente, O pensamento de Perelman só teve penetração realmente no
de Chai'm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, cujo livro mais fim dos anos 70. E mesmo então seus esquemas argumentativos
importante, Traité de l'argumentation, la nouvelle rhétorique, foram utilizados bem menos para interpretar os autores que para
foi publicado por Presses Universitaires de France em 1958 e "desmistificá-los". Pois na época o lado retórico dos discursos
quase não teve sucesso na época *. era considerado indício de manipulação ideológica:
Essa obra, que se insere na grande tradição retórica de Aris-
A retórica aparece, assim, como a face significante da ideo-
tóteles, Isócrates e Quintiliano, é realmente a teoria do discurso
logia. (R. Barthes, "La rhétorique de l'image", p. 49)
persuasivo. Seus autores partiram de um problema, não lingüís-
tico nem literário, mas filosófico: como fundamentar os juízos Essal'etórica da desconfiança, preconizada por Barthes e
por tantos outros, parece-nos singularmente redutora, tanto dos
* Tratado de argumentação, São Paulo, Martins Fontes, 1996. (N. textos que interpreta quanto da própria idéia de retórica. A
do E.) nosso ver, a teoria de Perelman-Tyteca permite uma leitura re-
L/
90 INTRODUÇÃO A RETÓRICA Capítulo V

tórica dos textos que se fundam no diálogo, e não na descon-


Argumentação
fiança, como tentaremos mostrar no último capítulo.
Para chegar lá, é preciso negar-se à opção mortal entre re-
tórica da argumentação e retórica do estilo. Uma nunca está
sem a outra6 •

No fim dos anos 60, um acadêmico, professor de matemá-


tica, fundou um instituto de pesquisas sobre o ensino, onde se
elaborava aquilo que recebeu o nome de matemática nova. Um
dia, diante de seus colegas, fez a seguinte pergunta: "Será pos-
sível demonstrar que nossa reforma tornará o ensino mais efi-
caz?" Pergunta honesta, porém ingênua. Pois, afinal, a eficácia
de um ensino de matemática não se demonstra matematica-
mente! Essa é uma pergunta que não está realmente clara - o
que significa "eficaz"? -, portanto a resposta não pode ter a
evidência de uma lei científica.
O que não significa que a pergunta não tem resposta. Se a
ausência de demonstração significasse não-saber, não haveria
ciências humanas. Ora, elas existem, mas os conhecimentos que
proporcionam são de ordem diferente do das ciências "duras".
Isso para ilustrar a tese deste capítulo e de todo o livro:
entre a demonstração científica ou lógica e a ignorância pura e
simples, há todo um domínio da argumentação.
Esta constitui um método de pesquisa e prova que fica a
meia distância entre a evidência e a ignorância, entre o neces-
sário e o arbitrário. Tanto quanto a dialética - que ela continua
com outra forma -, constitui um dos pilares da retórica. Os fi-
lósofos, desde Descartes, acreditaram que esse pilar estivesse
destruído; no entanto eles mesmos precisam dele ...
A lttórica em si compõe-se de dois elementos: argumen-
tativo e oratório. E aí vai nossa segunda tese: a importância da
oratória é maior quanto mais urgente for a questão, mais restri-
to o acordo prévio, e menos acessível à argumentação lógica o
92 INTRODUÇÃO A RET6RICA ARGUMENTAÇÃO 93

auditório. Um advogado será bem mais orador se o tribunal se auditório, termo que se aplica até aos leitores. Um auditório
comportar um júri; um político será bem mais orador diante é, por definição particular, diferente de outros auditórios. Pri-
das massas que diante do Parlamento, e mais ainda quanto me- meiro pela competência, depois pelas crenças e finalmente
nor for o tempo que tiver para tomar a palavra. É então que o pelas emoções. Em outras palavras, sempre há um ponto de
etos e o patos tendem a suplantar o logos, e é aí também que sur- vista, com tudo o que esse termo comporta de relativo, limita-
gem as figuras. do, parcial. Ora, como a argumentação pode modificar esse
Essas são as duas teses que tentaremos defender com ar- ponto de vista sem recorrer pouco ou muito ao etos e ao patos?
gumentos. Responderão que os próprios Perelman-Tyteca introdu-
zem a noção de auditório universal, que está acima de qualquer
ponto de vista, portanto talvez de qualquer retórica. Mas onde
As cinco características da argumentação está esse auditório e qual seria a sua utilidade para o argumen-
tador?
Como definir a argumentação? Certamente não como um Será um auditório não especializado? É o que se pensava
conjunto ou uma seqüência de argumentos! Pode-se definir o às vezes no século XVII, com o testemunho de MoW:re e Pas-
argumento como uma proposição destinada a levar à admissão cal. Admitindo-se isso, a relação entre o orador e o auditório
de outra. Um indício serve de argumento a um policial ou a um nem por isso deixará de ser retórica; por certo muito mais, pois
advogado, etc.: "pois", "de fato", "porquanto" ... e também a a vulgarização é bem mais retórica que a ciência. E se o próprio
expressão: "Considerando os fatos como são ..." orador finge não ser especialista, como Pascal em Provincia-
Como se vê, certos argumentos são demonstrativos, ou- les, e estar interrogando ingenuamente especialistas, na verda-
tros argumentativos, não se podendo definir a argumentação de está utilizando uma figura completamente oratória, o cleuas-
senão a partir do argumento. Argumentação é uma totalidade mo (ou autodepreciação).
que só pode ser entendida em oposição a outra totalidade: a de- Será um auditório não particular, sem paixões, sem pre-
monstração. conceitos, a humanidade racional, em suma? Mas invocar esse
Inspirando-nos livremente em Perelman-Tyteca, diremos auditório, fingindo que ele existe, poderia não passar de artifi-
que a argumentação distingue-se da demonstração por cinco cio. Em política, faz-se apelo ao homem acima dos partidos, ao
características essenciais: 1) dirige-se a um auditório; 2) ex- homem comum, ao homem de bom senso, ao uomo qualun-
pressa-se em língua natural; 3) suas premissas são verossímeis; que... Nada de mais ideológico. Agora, será que o próprio filó-
4) sua progressão depende do orador; 5) suas conclusões são sofo não está sendo ideólogo quando afirma dirigir-se ao ho-
sempre contestáveis. Veremos que todas essas características mem racional que está acima de seu auditório real (os leito-
incluem o componente oratória da retórica e justificam nossa res)? "Homens, sede humanos!", exclama Rousseau. Será que
segunda tese. na verdade não estava interpelando os intelectuais parisienses
de seu tempo? Dirigir-se ao "homem" por cima do ombro de
seu auditório real é utilizar uma figura completamente orató-
o auditório pode ser "universal"? ria, a apóstrofe.
Em suma, o auditório universal poderia ser apenas uma
Sempre se argumenta diante de alguém. Esse alguém, que pretensão, ou mesmo um truque retórico. Mas achamos que ele
pode ser um indivíduo ou um grupo ou uma multidão, chama- pode ter função mais nobre, a do ideal argumentativo. O orador
94 INTRODUÇÃO A RET6RICA ARGUMENTAÇÃO 95

sabe bem que está tratando com um auditório particular, mas mam isso; é certo que argumentam e ensinam, mas por repeti-
faz um discurso que tenta superá-lo, dirigido a outros auditó- ções, aliterações, ritmos, metáforas, alegorias, enigmas, que de-
rios possíveis que estão além dele, considerando implicitamen- senvolvem a função poética em detrimento da função crítica,
te todas as suas expectativas e todas as suas objeções. Então o como se observa ainda em nossos provérbios.
auditório universal não é um engodo, mas um princípio de su- Em suma, a argumentação oral em geral é menos lógica e
peração, e por ele se pode julgar da qualidade de uma argumen- mais oratória que a escrita. No entanto, cabe ressaltar uma ex-
tação l • pressão, que se ouve nos debates mais técnicos, e não só nas
brigas de família: "Se pelo menos pudéssemos explicar pes-
soalmente!" Ela comprova que falta alguma coisa à argumenta-
Língua natural e suas ambigüidades ção escrita, que a oral tem um valor insubstituível, que a orató-
ria pode ser, de certa forma, heurística.
Na demonstração é grande o interesse de se utilizar uma
língua artificial, por exemplo a da álgebra ou da química. A ar-
gumentação desenrola-se sempre em língua natural (exemplo, Premissas verossímeis: o que é verossímil?
francês), o que significa utilizar com grande freqüência termos
polissêmicos e com fortes conotações, como "democracia", Do fato de o auditório ser sempre particular, parece decor-
que está longe de ter o mesmo sentido e o mesmo valor para rer a terceira característica, o caráter simplesmente vero-símil
todos os oradores. Além disso, a própria sintaxe pode ser fonte das premissas, que não são evidentes em si, mas que "parecem
de ambigüidade. Tomemos como exemplo o adágio: O homem verdadeiras" a esse auditório. Essa constatação parece fadar-
é o lobo do homem, que não é apenas um provérbio popular, nos ao relativismo: "A cada um sua verdade."
mas foi lugar da filosofia do século XVII. O que quer dizer? A Mas essa "constatação" é errônea, pois repousa num jogo
que corresponde a metáfora do lobo: ser cruel, é verdade, po- etimológico de palavras. De fato, a verossimilhança não está
rém solitário ou em matilha? Neste último caso, os lobos, ligada ao auditório, e nossa terceira característica é logicamen-
mesmo humanos, não se comem uns aos outros, e é possível te independente da primeira. O verossímil não decorre de igno-
continuar sendo lobos mesmo sendo irmãos! É significa "sem- rância, incompetência ou preconceitos do auditório, mas do
pre" ou "na maioria das vezes"? E o artigo o refere-se ao ho- próprio objeto. Quando se trata de questões jurídicas, econô-
mem em sua essência, ao homem natural anterior à cultura ou micas, políticas, pedagógicas, talvez também éticas e filosófi-
ao homem de hoje? Em suma, o adágio tem tantas armadilhas cas, não se lida com o verdadeiro ou o falso, mas com o mais
quanto um slogan publicitário. O mais notável, porém, é que ou o menos verossímil. Inversamente, num mundo onde tudo
não sentimos sua ambigüidade; basta ouvi-lo para que nos pa- fosse cientificamente certo, já não seria possível argumentar,
reça claríssimo. É que em língua natural consideramos claro nem ... agir. Em suma, a argumentação não deve resignar-se ao
aquilo que é apenas familiar. verossímil como se ele fosse filosofia de pobre, mas deve res-
Outra observação: quando se fala de argumentação, é pre- peitá-lo como inerente a seu objeto e não ter pretensões a um
ciso perguntar se ela é escrita ou oral, pois isso muda tudo. que não passaria de engodo, que na verdade seria
Uma argumentação oral deve combater dois inimigos mortais: anti científico.
desatenção e esquecimento; e só pode fazer isso por meio de O que é então o verossímil? Para encurtar: tudo aquilo em
procedimentos oratórios. As chamadas culturas "orais" confir- que a confiança é presumida. Por exemplo, os juízes nem sem-
96 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ARGUMENTAÇÃO 97

pre são independentes, os médicos nem sempre capazes, os mesma conclusão; a palavra "aliás", desconhecida na demons-
oradores nem sempre sinceros. Mas presume-se que o sejam; e, tração, é freqüente na argumentação:
se alguém afirma o contrário, cabe-lhe o ônus da prova. Sem
esse tipo de presunção, a vida seria impossível; e é a própria vida Demonstração: A - B - C - D .. · z
que rejeita o ceticismo.
Cumpre deixar claro que a argumentação, mesmo se apoian-
do no verossímil, pode comportar elementos demonstrativos,
no sentido de necessários e, portanto, indubitáveis. De modo
geral, aliás, esses elementos são negativos; pode-se demonstrar
que um projeto de lei não é incompatível com a constituição, A ordem dos argumentos é, pois, relativamente livre, e de-
mas não que será benéfico com certeza. E, se há uma ética na pende do orador; vimos, de fato, que a disposição dos antigos
argumentação, é de respeitar esses elementos demonstrativos compreendia dois planos-tipo, mas nada havia de necessário, e
sempre que eles existirem. podiam ser subvertidos. Por outro lado, depende do auditório,
Suponhamos, por exemplo, um debate histórico sobre o caso no sentido de que o orador dispõe seus argumentos segundo as
Dreyfus: é certo que ele sempre comporta aspectos controver- reações, verificadas ou imaginadas, de seus ouvintes. Em suma,
sos, mas pode-se e deve-se considerar como "demonstrado" que a ordem não é lógica, é psicológica.
o capitão Dreyfus não era culpado, que não foi ele o autor da Assim, ainda que o exórdio seja muito útil, pode-se às ve-
documentação criminosa. Duvidar disso seria demonstrar par- zes começar ex abrupto, como Cícero: "Até quando, Catilina,
cialidade racista, e não prudência e objetividade. abusarás da nossa paciência?" Ou ainda como de Gaulle, no
Premissas verossímeis: o simples fato de invocá-las equi- discurso feito em Argel em 4 de junho de 1958: "Eu entendi."
vale, pois, a apelar para a confiança do auditório, para a sua Se essas frases tivessem sido postas no interior do discur-
"presunção", e comporta um aspecto oratório. so, teriam perdido grande parte de sua eficácia.

Uma progressão que depende do orador Conclusões sempre controversas

Numa argumentação, a conclusão não é, ou não é só, um


Se as premissas não são verossímeis, a progressão dos ar-
enunciado sobre o mundo; ela expressa acima de tudo o acordo
gumentos nada tem a ver com uma demonstração. A. Lalande
entre os interlocutores. Portanto, tem as seguintes característi-
define assim a argumentação: "Série de argumentos, todos ten- cas. Primeiramente, deve ser mais rica que as premissas, ao
dentes à mesma conclusão." cbntrário da demonstração, em que a conclusão "sempre segue a
Definição que nos parece inadequada, devido à palavra pior parte"2; se a argumentação ficasse aí, seria estéril, ou esta-
"série", que lembra uma progressão linear. Se pudermos com- ria limitada a ser apenas refutação. Em segundo lugar, a conclu-
parar a demonstração a uma cadeia de argumentos ("essas lon- são é reivindicada pelo orador como algo que deve impor-se,
gas cadeias de razões" de Descartes), em que cada um é com- encerrar 5 debate. Mas, no que se refere ao auditório, este não é
provado por aqueles que o precedem, e cuja ordem é, portanto, obrigado a aceitá-la; continua ativo e responsável tanto pelo sim
lógica, a argumentação será mais semelhante a umfuso de ar- quanto pelo não; é principalmente nesse sentido que a conclu-
gumentos, independentes uns dos outros e convergentes para a são é controversa: ela compromete tanto quem a aceita quanto
98 INTRODUÇÃO À RET6RICA ARGUMENTAÇÃO 99

quem a recusa. Um bom exemplo, que l-B. Grize retirou de Quanto a esta, alguns acham que poderia ser formalizada,
uma obra pedagógica, ilustra essas três características: ou seja, expressa em língua artificial. Mas o verdadeiro proble-
ma é outro. Uma formalização só tem vantagem se for fecunda,
É com referência à atividade da fala que o filhote de ho- se permitir descobrir pelo cálculo outros dados além daqueles
mem se situa; a palavra "infantil" é fonnada por duas unidades, que ela transcreve.
in e Jari, que significam: "não falar". Portanto, é a partir de uma Não nos parece que tal cálculo seja possível com a argu-
carência, de uma ausência, que a criança é percebidaJ • mentação; suas estruturas podem ser descritas, mas não dedu-
zidas. Por quê? Porque a argumentação é dirigida ao homem
A conclusão que se segue ao portanto é bem mais rica que total, ao ser que pensa, mas que também age e sente.
as premissas, pois o autor passa da opinião dos romanos - opi-
nião que ele infere, e de maneira bem contestável, a partir da
etimologia - a uma verdade universal: a criança é percebida, o que é uma "boa" argumentação?
que o autor coloca como necessária. Mas o auditório pode não
aceitá-la, pois talvez não atribua mais valor à etimologia do Ora, dizer que qualquer argumentação é retórica, ou, em
que atribuiria a um trocadilho. Seja como for, uma conclusão outros termos, que comporta uma parte de oratória, não será
não é obrigatória: é sempre contestável; mas o é em maior ou torná-la suspeita? Não será ela ipso facto manipuladora, seja
menor grau. Também aqui é preciso renunciar ao tudo ou nada por confusão, seja por omissão, seja por sedução? Em suma,
em favor do mais ou menos verossímil. uma argumentação pode ser boa? Como?
Concluiremos que a argumentação rejeita a alternativa "ra- Note-se que, aplicado à argumentação, o termo "boa" re-
cional ou emotivo". Pois as premissas são crenças, e as crenças fere-se a dois valores diferentes, ou mesmo opostos. Uma "boa"
sempre têm um conteúdo afetivo, e só pode ocorrer o mesmo argumentação é a mais eficaz ou a mais honesta? E as
com a conclusão, mesmo que em caminho o discurso consiga nem sempre estão juntas! Aqui nos ateremos ao problema da
modificar a afetividade; se o orador transformar medo em con- honestidade.
fiança, tristeza em alegria, terá libertado o auditório de senti- Ora, se uma argumentação é mais ou menos desonesta,
mentos negativos, mas não de sentimentos.
não é porque seja mais ou menos retórica. Caso contrário Pla-
tão, cujos textos são infinitamente mais retóricos, pelo conteú-
Antes de prosseguir, convém perguntar se opor assim ar-
do oratório, que os de Aristóteles, seria menos honesto que es-
gumentação e demonstração não tem algo de forçado.
te! Então, segundo quais critérios avaliar a honestidade duma
Pierre Oléron afirma assim que a própria demonstração
argumentação?
científica não é tão pura e rigorosa quanto diz Perelman. No
O primeiro que vem à mente é o da causa. Uma argumen-
próprio cerne das ciências exatas encontram-se controvérsias
tação valeria pela causa a que serve. Mas como explicar que
em que ambas as partes têm o desejo de convencer, "de exercer
uma causa excelente seja às vezes defendida por má argumen-
intluência"4. Convém principalmente - cremos nós - distinguir
tação? E, principalmente, como sabemos que uma causa é boa?
entre demonstração lógico-matemática, puramente formal, e
O critério.supõe que o valor da causa seja conhecido antes da
demonstração experimental, na qual intervêm também outros
critérios além da validade lógica, como por exemplo a falsifi- argumentação encarregada de estabelecê-lo: o que equivale a
cação de Karl Popper, que seria muito instrutivo comparar à ar- julgar antes do processo, a eleger antes da campanha eleitoral,
gumentaçã05• a saber antes de aprender. Não existe dogmatismo pior.
100 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ARGUMENTAÇÃO

Outro critério, este interno, consiste em respeitar os ele- mas, ainda que tenha muitas outras coisas censuráveis. Pode-se
mentos demonstrativos, ou seja, lógicos, que a argumentação responder, porém, que a argumentação, pelo fato de comportar
comporta. Em outras palavras: agir de tal modo que ela não elementos demonstrativos, pode abusar deles, sendo pois sofis-
seja sofistica. tica no sentido estrito. Vejamos os dois tipos de argumentação
descritos por Aristóteles.
O exemplo torna-se sofistico quando dele se extrai uma
Os sofistas e a argumentação conclusão que ultrapassa o que ele mostra, quando se "extrapo-
la" do particular ao universal: tal e tal políticos de esquerda
Inspirando-nos em Lalande 6, digamos que o sofisma é um aprovam essa medida; logo, a esquerda aprova essa medida.
raciocínio cuja validade é apenas aparente e que ganha adesão O entimema torna-se sofistico quando infringe as regras
por fazer crer em sua lógica. Pode servir assim para legitimar do silogismo, quando conclui além daquilo que a lógica lhe
interesses, amor-próprio e paixões. permite. Vejamos a seguinte proposição:
Portanto, é pela forma que um raciocínio é sofistico, e não
Dupont, por ser deputado de direita, precisou votar essa lei.
por seu conteúdo. Vejamos dois exemplos de silogismo.
O primeiro "demonstra" que o sal mata a sede: O entimema é válido se for admitida sua principal implícita:
- Beber água mata a sede; Todos os deputados de direita votaram essa lei.
- ora, o sal obriga a beber água;
-logo, o sal mata a sede. Agora, um segundo exemplo:

O segundo "demonstra" que o barato é caro: - Todos os deputados de direita votaram essa lei;
- ora, Durand votou essa lei;
- Tudo o que é raro é caro; -logo ...
- ora, um bom cavalo barato é raro;
-logo, um bom cavalo barato é caro. Logo, nada! Não se tem o direito de concluir. Durand po-
de ter votado a lei sem ser deputado de direita.
O primeiro é um sofisma grosseiro, que reside no equívo- Vejamos um terceiro entimema:
co do termo médio: beber = obrigar a beber, significando o
segundo na realidade o contrário do primeiro. Essa medida é de esquerda porque foi tomada por um go-
O segundo é um verdadeiro silogismo, perfeitamente váli- verno de esquerda.
do. Donde vem então o absurdo de sua conclusão? Do fato de
Basta enunciar a principal implícita:
que as premissas são falsas, e de que o raciocínio prova isso pelo
absurdo. Prova que o que é raro nem sempre é caro; ou ainda que Qualquer medida tomada por um governo de esquerda é de
um bom cavalo barato nem sempre é raro (em caso de má venda, esquerda,
por exemplo). Em suma, não há sofisma no sentido estrito, mas •
um erro que consiste em transformar o provável em certo. para perceber que é falso, pois acontece de um governo de di-
Alguns autores argúem a oposição entre demonstração e reita tomar medidas de esquerda e vice-versa. O entimema é
argumentação, afirmando que esta não pode comportar sofis- válido, mas sua premissa é falsa.
102 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ARGUMENTAÇÃO 103

Em suma, um entimema é sofistico quando conclui mais De olhos fechados compro tudo na primavera.
do que deve. É falso quando toma por verdadeira uma premis-
sa, geralmente implícita, que é desmentida pelos fatos. Até o dia em que um outro respondeu:
Podemos ir mais longe: uma argumentação é sofistica, ou
pelo menos errônea, quando sua conclusão vai além dos argu- Quando abro os olhos, eu vou ao Louvre*.
mentos que supostamente a estabelecem. Mas, dirão alguns, isso
não acontece sempre? Nós mesmos afirmamos que uma conclu- o que ilustra um princípio fundamental: só se pode refutar uma
são argumentativa é mais rica que suas premissas. E então? retórica em seu próprio plano, por meio de outra retórica.
Não-paráfrase e fechamento: demos numerosos exemplos
disso em outros textos 7 • Aqui ficaremos satisfeitos com um só,
Não-paráfrase e fechamento
o já mencionado início da primeira Catilinária de Cícero:
Sofisma da argumentação seria, portanto, ela dizer mais do
Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?
que sabe. Pois bem, existe a maneira de "dizer". Pode-se afir-
mar excluindo qualquer objeção - para começar em si mesma-,
mas também se pode propor sem impor, favorecer ao máximo a Ele mostra perfeitamente o efeito persuasivo decorrente da
própria afirmação, deixando-a aberta às criticas alheias. Essa aliança da forma com o fundo. Lembremos que essa pergunta
abertura constitui a honestidade da argumentação. oratória substitui o exórdio, e que, se aparecesse mais tarde no
Mas não estará esta comprometida pela retórica? Aqui discurso, produziria menos efeitos. Constitui uma apóstrofe,
cabe interrogar sobre o "dizer" próprio da retórica. Pelo que que, aliás, vai durar quase até o fim da arenga; ora, se formos
dissemos acima, um discurso é retórico quando, para persuadir, parafrasear a apóstrofe: "até quando Catilina abusará ..." em vez
alia seu componente argumentativo a seu componente oratório, de "até quando, Catilina, abusarás...", perderemos muito. Por
a forma ao conteúdo. Isso acarreta duas conseqüências. ser não-parafraseável, a pergunta também é fechada, pois é sem
A primeira é que o discurso retórico nunca é completa- réplica. De fato ela contém três pressupostos. Admitamos que
mente parafraseável; em outras palavras, não pode ser traduzi- Catilina tenha respondido: "Vou parar já"; sua resposta teria
do, nem mesmo em sua própria língua, por um discurso que deixado intactas três afirmações: 1) houve paciência; 2) ele
tenha absolutamente o mesmo sentido. Vejamos o argumento abusou dela; 3) essa paciência era "nossa". Note-se, enfim, que
quase lógico mencionado no TA: Cícero conseguiu fundir numa mesma frase duas figuras opos-
tas: a apóstrofe e a prosopopéia: finge dirigir-se a outro (Cati-
Os amigos de meus amigos são meus amigos. lina), e não a seu auditório, mas faz o seu auditório (o Senado)
,falar por sua voz: patientia nostra.
É simples perceber que, se substituirmos amigos por alia- Mas quem não percebe que, sem essa retórica, sem esse
dos ou por quem me ama ... o argumento desaparece integral-
elemento oratório, Cícero arriscava-se a fracassar? Sua argu-
mente.
mentaçã%i eficaz: seria por isso desonesta?
A segunda é que um discurso retórico é sempre mais ou
menos fechado, sem réplica. Um bom slogan é aquele que ex-
clui qualquer resposta; é mau (ineficaz) em caso contrário. Nos * Note-se que em francês há rima: Quand je les ouvre, je vais au Lou-
anos 30, uma grande loja anunciava: vre. (N. do T.)
104 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ARGUMENTAÇÃO 105

A nosso ver, a característica da boa argumentação não é outros, deve atrair e prender a atenção, ilustrar os conceitos,
suprimir o aspecto retórico - uma argumentação inexpressiva facilitar a lembrança, motivar ao esforço. Iremos mais longe:
não é obrigatoriamente mais honesta -, mas equilibrá-lo, se- aquilo que hoje chamamos de "transposição didática" faz parte
gundo dois critérios. da retórica; ensinar uma matéria é conferir-lhe uma clareza,
À não-paráfrase pode-se opor o critério da transparência: uma coerência que ela não tem necessariamente como ciência,
que o ouvinte fique consciente ao máximo dos meios pelos é passar da invenção à elocução e à ação, porém muitas vezes
quais sua crença está sendo modificada; o encanto e a poesia do em detrimento do conteúdo propriamente científico. As peda-
discurso não serão destruídos por isso, mas serão dominados. gogias ativas, que tendem a suprimir a aula professoral, não
Ao fechamento, pode-se opor o critério da reciprocidade: escapam a essa regra: o que há de mais retórico do que conhe-
que a relação entre o orador e o auditório não seja assimétrica, cer antes aqueles que vão ser instruídos e obter sua adesão?
que o auditório tenha direito de resposta. Esses dois critérios Note-se enfim que, mesmo quando se trata de ensinar a de-
não tornam a argumentação menos retórica, porém mais ho- monstrar, só se obtêm resultados através da argumentação retó-
nesta. rica. E aqui tomamos a liberdade de transcrever uma experiên-
Naturalmente, esse mais é relativo. Uma mensagem publi- cia pessoal do tempo do liceu:
citária é bem menos transparente e recíproca que uma argu-
- A professora: Durand, mostre que essas duas retas são
mentação acadêmica. No limite inferior, encontramos esse fe-
paralelas. - Durand: Está se vendo, professora! -A professora:
nômeno próprio do nosso século, a língua estereotipada da pro- Durand, aprenda de uma vez por todas que em matemática não
paganda, mensagens sem nenhuma transparência nem sentido se vê nada, demonstra-se.
preciso, sem nenhuma reciprocidade, pois se trata do discurso
de um poder cuja "retórica" não tem outra função além de ex- Esses imperativos ressaltam o aspecto assimétrico do en-
cluir a crítica. sino, mesmo quando se afirma que há diálogo ou cooperação.
A linguagem estereotipada da propaganda não é a retóri- Só que o verdadeiro professor nunca dissimula sua retórica; ao
ca; é apenas sua perversão mais caricatural. O que salva a retó- contrário: ensina os procedimentos retóricos que possibilitam
rica é precisamente o que exclui esse tipo de linguagem: o diá- ensinar, e leva assim os alunos a tornar-se mestres no assunto.
logo. O ensino é, pois, uma relação assimétrica que trabalha por sua
abolição, para que o aluno se torne, se possível, igual ao mes-
tre. Aí está ajustificativa do "poder docente".
Argumentação pedagógica, judiciária, filosófica Poder-se-ia pensar que o ensino define um modelo de re-
tórica "transparente" e "recíproca" que deveria ser encontrada
Diálogo: vamos vê-lo em ação em três casos peculiares: em todos os outros setores, pelo menos nas democracias. Con-
ensino, justiça e filosofia. venhamos que isso é utopia. E acrescentamos: utopia das mais
perniciosas.
Tomemos como exemplo o setor judiciário. Se nos ativés-
Do pedagógico ao judiciário semos ao Jnodelo pedagógico, um processo penal deveria ser
um diálogo após o qual o réu confessaria livremente seu crime
O ensino não pode prescindir da pedagogia; e toda peda- e pediria para ser castigado. Esse, aliás, era o ponto de vista de
gogia é retórica. O professor é um orador que, como todos os Platão em Górgias, e foi isso o que os processos stalinistas pre-
106 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ARGUMENTAÇÃO 107

tenderam realizar: processos pedagógicos cujo objetivo era tribunal que designa peritos e depois, eventualmente, uma nova
educar não só o público mas também os culpados, ou pretensos perícia, de tal modo que o processo pode durar muito tempo.
culpados ... Assim, em 1909, grande número de expropriados entrou
Nossa democracia não tem essa pretensão. Distingue niti- com uma ação na justiça que durou até 1913. Mas as indeniza-
damente a ética do judiciário, em que as decisões não implicam ções foram suspensas em 1914 por causa da guerra. Em 1919,
a anuência do culpado. Não se espera que o réu aceite o vere- os expropriados voltaram à justiça devido à desvalorização;
dicto que o condena; ninguém lhe diz: "Não queremos coagi- nessa época, a moeda belga perdera a metade do valor e, em
lo ..." Admite-se que a justiça pode coagir. E isso é inevitável, 1926, no fim do caso, seis sétimos do valor! Caberia indenizar
pois há sempre o risco de que a anuência do condenado seja os expropriados segundo o valor nominal fixado em 1913,
obrigatória, portanto hipócrita. Em todo caso, nada é mais como se nada tivesse acontecido? Nesse caso, as diferentes câ-
nocivo que introduzir a relação pedagógica nos domínios não maras do tribunal de Bruxelas deram respostas contraditórias.
educacionais; isso não é libertar os homens, mas sim infantili- Em resumo, os veredictos de tipo A eram favoráveis aos expro-
zá-los. priados, os do tipo B contrários.
No judiciário, o diálogo "ecumênico" dá lugar ao debate A) Só uma das câmaras julgou que seria preciso recalcular
polêmico, em que o objetivo não é convencer a parte adversá- o valor da indenização - digamos em 1926 multiplicá-la por
ria, mas uma terceira parte, o tribunal. E o advogado nada tem sete -, argüindo que a lei previa um ressarcimento "justo", ou
de professor; sua finalidade é fazer de tudo para tornar válida a seja, que permitisse ao expropriado adquirir bem equivalente
causa de seu cliente, para lhe dar todas as oportunidades de ao que possuía na época da expropriação. Além do mais, julga-
vitória. Só que o advogado não está sozinho, mas tem diante de va a câmara: não se pode atribuir ao expropriado a responsabi-
si colegas capazes de desmentir sua retórica, de contraditá-la lidade pela duração do processo, pois ele "tinha o direito de fa-
com outra. E as duas partes preparam dessa maneira o julga- zer tudo o que estivesse ao seu alcance" para obter a indeniza-
mento do tribunal. ção mais favorável (in Foriers, p. 311).
Até aqui, temos a impressão de que se trata de uma de-
monstração pura e simples, porquanto o veredicto só podia con-
Uma controvérsia judiciária: tar com a anuência dos interessados.
os expropriados e a desvalorização B) No entanto, várias câmaras do mesmo tribunal toma-
ram a decisão contrária, mesmo diferindo em termos de argu-
Vejamos um exemplo de controvérsia em direito civil, que mentos. Vejamos os mais notáveis.
agitou a opinião pública da Bélgica entre 1920 e 1926, mas que O montante da indenização deve levar em conta unica-
tem a ver com muitos outros países8• Trata-se da indenização mente o valor do imóvel na época da expropriação, e não as
devida aos expropriados. Falaremos em linhas gerais, sem nos que se seguiram. Não fosse assim (argumento por
perder em detalhes técnicos. absurdo), caso esse valor tivesse baixado, seria preciso reduzir
A expropriação em caso de utilidade pública é uma venda proporcionalmente a indenização. Em todo caso, "a avaliação
forçada. Os proprietários são obrigados legalmente a ceder seu dependeria. de fatores arbitrários" (p. 314).
imóvel ao Estado (ou às comunas), do qual se tornam então Outro argumento: o Estado que desvaloriza a moeda deci-
"credores"; a única coisa que podem contestar é o montante da de apenas diminuir seu poder aquisitivo; não decide ipso facto
indenização proposta. Se fizerem isso, a questão vai parar num elevar os preços. Inflação não é desvalorização, é apenas uma
108 INTRODUÇÃO À'RET6RICA
ARGUMENTAÇÃO 109
de suas conseqüências mais ou menos previsíveis; acontece até Segundo argumento: uma dissociação. Até então as câma-
de um Estado desvalorizar sem que os preços subam (argumen- ras tinham considerado a moeda como meio de pagamento.
to de dissociação). Portanto, se o expropriado for indenizado Leclerc vai mostrar que a moeda também é - sobretudo - um
segundo o valor do imóvel doze anos depois, cria-se um prece- instrumento de medida da economia. Ora, as desvalorizações
dente para a especulação.
haviam criado uma nova medida
Um último argumento é mais forte, porque dirigido a um
auditório bem mais amplo e menos especializado: é a regra de que na verdade é sete vezes menor que a antiga. Doravante o
justiça. A desvalorização é uma medida adversa que atinge to- franco legal é outro bem diferente do franco legal estabelecido
dos os credores, e deve atingi-los com igualdade. Ora, se for pela legislação ab-rogada. (p. 321)
concedida uma indenização compensatória apenas aos expro-
priados, criar-se-á uma "categoria de privilegiados". A última frase introduz uma nova retorsão: Segundo V.
Ex:', não devem ser levadas em conta as "flutuações" posterio-
Não é concebível que o expropriado tenha mais direito [que
res à expropriação; ora, aceitando outro franco legal, está sen-
os outros credores] de prevalecer-se de uma desvalorização da
do feito aquilo que V. Ex".' condenam. Note-se a epanalepse:
moeda que ocorreu posteriormente [à expropriação]. (p. 316)
franco legal.
Esse exemplo mostra que certos raciocínios aparentemen-
Finalmente, um argumento que responde ao último de A: os
expropriados, dilatando o processo, são causadores do próprio te demonstrativos na realidade são argumentativos e retóricos.
prejuízo, e devem considerar-se os únicos responsáveis por ele. Cada um repousa sobre princípios apenas verossímeis: B atém-
Como se vê, enquanto A favorece o expropriado, B favo- se à letra da lei, cuja infração abriria as portas para a arbitrarie-
rece o expropriador, que poderá pagar em moeda que vale sete dade e a desigualdade. A apóia-se na eqüidade e nega que se
vezes menos. Enquanto Ajulga em nome da ''justa'' reparação, deva observar apenas a lei numa situação que ela própria não
B julga segundo o texto da lei, em nome do risco de arbitrarie- previra (a desvalorização). Finalmente, C tem ganho de causa
dade, e atém-se apenas ao sentido legal da palavra ''justo'' - sobre B utilizando argumentos de B.
assim como se fala de "justas núpcias" (p. 319). Aqui encon- A própria solução decorre do debate contraditório. Mas
tramos o debate-tipo de Aristóteles (cf. supra, p. 50). será ela racional? Não, por certo, porém certamente "mais ra-
C) As sentenças de tipo B ganhavam em número, mas in- zoável".
dignaram a opinião pública. A Corte Suprema deu parecer fa-
vorável às sentenças de tipo A em 1929, depois de uma defesa
veemente feita pelo procurador geral, Paul Leclerc. Argumentação filosófica: onde está o tribunal?
Esta opõe a B dois argumentos.
Primeiro uma retorsão da regra de justiça. Se é que não se 1 E a filosofia? Poderia ser comparada a uma controvérsia
deve criar desigualdades diante da lei, por que só os expropria- .. em que cada filósofo seria advogado de sua própria causa dian-
dos deveriam pagar os custos da desvalorização? O Estado te de um tribunal que seria ... quem senão o leitor? Mas o leitor
dificilmente admitirá ser melhor juiz do que aqueles que ele lê;
foi evidentemente culpado por fazer recair sobre uma classe julgará phra si, é verdade, mas não para os outros.
social em particular os custos da reparação, unicamente porque O fato é que os filósofos não formulam o problema dessa
essa classe estava em situação de deixar-se pilhar (p. 320; "pi- maneira, principalmente - como vimos - a partir de Descartes.
lhar": metáfora hiperbólica). Os maiores deles afirmam ser demonstrativos, "apodícticos",
110 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ARGUMENTAÇÃO 111

dizia Kant na língua de Aristóteles; e se, às vezes, aceitam o vincular a filosofia a um dos três gêneros, seria ao epidíctico.
termo argumentação é deixando claro que ela não poderia ter De fato, numa causa é sempre preciso suplantar, impor um ve-
nada que fosse retórico. redicto para põr fim ao debate. Uma tese, porém, nunca é im-
A essa pretensão dos filósofos, de serem demonstrativos posta, e sim proposta. Mas a quem?
podem ser opostos três argumentos, dos quais os dois
Consideremos um exemplo em que se vê a pior retórica (a
mais fácil) passar como por milagre a servir à filosofia, mila-
ros decorrem do lugar da unidade. O primeiro é que os filóso-
gre chamado Sócrates. Em Eutidemo de Platão, o sofista Dio-
fos chegam a doutrinas muito diferentes, muitas vezes opostas,
nisodoro fala assim do ensino:
embora a demonstração só possa redundar numa verdade úni-
ca. O segundo, ainda mais forte, é que as estruturas da demons-
Quereis que [o aluno] passe a ser sábio e não seja mais
tração não são as mesmas, segundo se trate de cartesianos Kant ignorante? (... ) Uma vez que quereis que ele deixe de ser o que é,
Hegel, Bergson, Husserl, neopositivistas e outros. Há s6 desejais sua morte? (283 s.)
matemática, enquanto existem várias filosofias.
O terceiro argumento (exemplo) mostra que na verdade os Ele utiliza um sofisma, afallacia accidentis, em que se
filósofos todos recorreram, em maior ou menor grau, à argu- muda um nexo acidental: não ser mais ignorante (nexo aciden-
mentação. Descartes argumenta para provar que é preciso tal), não ser mais, portanto morrer. Essa metáfora do ensino
demonstrar. Spinoza, que constrói toda a Ética "de more geo- como morte é um tanto freudiana, e lonesco, aliás, realiza-a em
metrico" (segundo o método geométrico), acrescenta a suas A lição, em que o professor, por ardor pedagógico, acaba ma-
demonstrações os mais importantes "escólios", que as ilustram tando o pobre aluno ...
de modo pedagógico e retórico: tudo acontece como se ele ti- Aí entra o humor de Sócrates; em vez de desmentir a me-
vesse escrito seu livro duas vezes, a primeira para Deus e a se- táfora (morrer), brinca com ela e extrai uma lição:
gunda para nós. Hegel procede da mesma maneira na Enciclo-
pédia. E hoje em dia? Hoje em dia parece que a filosofia cin- Se [esses sofistas] sabem aniquilar as pessoas de tal manei-
diu-se: de um lado uma investigação lógica rigorosa, porém es- ra que as transformam de viciosas e insensatas em virtuosas e
téril; de outro, um discurso retórico que, por falta de interro- sábias ( ... ), que matem esse menino para tomá-lo sábio, e a nós
gar-se sobre sua própria argumentação, incide no arbitrário. também por acréscimo. (285 b)
No entanto, a pretensão de ser demonstrativo comporta
certa dose de verdade, pois permite distinguir o filósofo do ad- O grosseiro sofisma transforma-se em metáfora, ao mesmo
vogado, tanto quanto, aliás, do pedagogo. tempo pedagógica e religiosa. Todo verdadeiro ensino é em
O propósito do filósofo é encontrar, e não ensinar o que certo sentido - sentido metafórico, portanto retórico - uma
outros encontraram, ainda que muitas vezes se encontre mais morte. E um novo nascimento.
ensinando. Assim também, sua tarefa não é defender uma cau- Convém lembrar que em Eutidemo, assim como em todos
sa, e sim sustentar uma tese. Onde está a diferença? os diálogos, os interlocutores são apenas vozes interiores de
Uma causa exige um juízo hic et nunc; uma tese visa a Platão, que vê a filosofia como um diálogo consigo mesmo; por
uma explicação de alcance universal; ela não responde à per- isso, quanlio o filósofo propõe uma tese, o faz primeiro a si mes-
gunta: "Catilina é injusto?", mas a outra bem diferente: "O que mo. E a retórica então? Como todo diálogo, o diálogo interior
é justo e injusto?" E mesmo que a pergunta tenha alcance práti- também a utiliza, mas confrontando-a logo com uma outra. Por-
tanto, o que distingue o filósofo - mesmo quando fala de política
co, como aqui, é de longo prazo e para todos. Se cumprisse
112 INTRODUÇÃO A RETÓRICA Capítulo VI
Figuras
ou de direito - do político e do advogado é que ele sustenta ao
mesmo tempo o pró e o contra, é que ele é ao mesmo tempo o
advogado e seu adversário. Mas qual é o tribunal?
O auditório universal, responderia Perelman. Mas deixe-
mos claro que ele não está em lugar nenhum, senão em cada
um de nós. Em Górgias, quando Sócrates declara a Polos que o
culpado é mais digno de lástima que sua vítima, e o culpado
impune mais infeliz que o punido, Polos exclama que ninguém
admitiria tais paradoxos! E Sócrates:

Tens por ti, Polos, todo o mundo exceto eu. E eu não peço O que é figura? Um recurso de estilo que permite expres-
anuência nem testemunho de ninguém, senão de ti. (475 e) sar-se de modo simultaneamente livre e codificado. Livre, no
sentido de que não somos obrigados a recorrer a ela para comu-
Aí está o supremo tribunal. Em Polos. Em cada um. nicar-nos; dessa forma, qualquer um poderá dizer que vai se
suicidar para pôr fim a uma paixão culposa, sem precisar re-
Aí está o que tentamos demonstrar neste capítul09 • Inicial-
correr às figuras de Fedra:
mente, que a argumentação existe como meio de prova distinto
da demonstração, mas sem incidir na violência e na sedução.
Para ocultar da luz uma chama tão negra.
Depois, que ela comporta uma parte de oratória, e que os anti-
gos tinham razão em unificar seus elementos racionais e afeti-
Codificado, porque cada figura constitui uma estrutura .co-
vos num mesmo todo, a retórica.
nhecida, repetível, transmissível. Assim, no verso de Racme,
Essa união vamos agora observar nas figuras.
identificam-se quatro metáforas e um oxímoro (chama tão
negra). .
A expressão "figuras de retórica" não é pleonasmo,
existem figuras não retóricas, que são poéticas, humorístlcas
ou simplesmente de palavras. A figura só é de retórica quando
desempenha papel persuasivo.

A religião é o ópio do povo.

A esta metáfora, Raymond Aron responde com outra:

o marxismo é o ópio dos intelectuais.



Marx e Aron têm pelo menos alguma coisa em comum:
não fazem metáforas por gosto nem por questão de estilo, mas
para convencer. A figura de retórica é funcional.
114 INTRODUÇÃO A RETÓRICA FIGURAS 115

Mas como? Quando os antigos falam das figuras, é para Figuras de pensamento, como a alegoria, a ironia, que di-
evocar o prazer que elas proporcionam, que eles relacionam zem respeito à relação do discurso com seu sujeito (o orador)
com o de/ectare e mais raramente com o movere. A figura se- ou com seu objeto.
ria, portanto, uma fruição a mais, uma licença estilística para
facilitar a aceitação do argumento. Assim é que na Retórica a
Herênio encontra-se um exemplo de epanalepse: Figuras de palavras

Não te abalaste quando uma mãe te beijou os pés, não te o que caracteriza as figuras de palavras? O fato de serem
abalaste? (IV, 38) intraduzíveis, de poderem ser destruídas por menos que se
mude sua matéria sonora. Por isso, parecem reservadas à poe-
Por que esta repetição? Segundo o autor, tem duas funções: emo- sia ou, a rigor, ao humorismo. Entretanto, devem desempe-
cionar o auditório e ferir a parte contrária: nhar bem alguma função argumentativa, porque os filósofos
mais racionalistas recorrem a elas. Assim, basta traduzir a
Como se um dardo atingisse várias vezes o mesmo lugar expressão Sôma sêma de Platão - "corpo, um túmulo" - para
do corpo. destruí-la, a não ser que se perca o poder da metáfora.
Essas figuras se dividem em dois grupos:
Se o argumento é o prego, a figura é o modo de pregá-lo ...
Perelman-Tyteca também vêem na repetição uma figura
de "presença", uma das que fazem sentir o argumento. Para Figuras de ritmo
eles, porém, ela não se reduz ao patos; não é apenas o que faci-
lita o argumento, mas constitui o próprio argumento; desse mo- Para os antigos, o ritmo da frase tem importância capital,
do, o primeiro Não te aba/aste ... indica um fato; o segundo, pois é a música do discurso, o que torna a expressão harmonio-
depois de quando uma mãe, ressalta o caráter chocante desse sa ou tocante, sempre fácil de ser retida. O problema é que os
fato, incompatível (argumento) com os valores da humanidade. elementos constitutivos do ritmo, como o acento tônico e a ex-
Para o TA, toda figura de retórica é um condensado de argu- tensão das sílabas, não são marcados em todas as línguas. Des-
mento: a metáfora é condensado de analogia, etc. A nosso ver, se modo, por exemplo o slogan alemão de 1968:
essa teoria é intelectualista demais; esquece-se do prazer da
figura, que deriva ora da emoção, ora da comicidade, mas sem-
pre do patos.
Aqui estudaremos a função argumentativa das principais tem estrutura especular: iâmbico, troqueu/troqueu, iâmbico. Os
figuras de retórica l , que classificaremos conforme suas rela- esquerdistas franceses, por exemplo, foram obrigados a atri-
ções com o discurso em que se encaixam.
buir-lhe um ritmo arbitrário:
Figuras de palavras, como o trocadilho, a rima, que dizem
respeito à matéria sonora do discurso.
Figuras de sentido, como a metáfora, que dizem respeito à
significação das palavras ou dos grupos de palavras.
Figuras de construção, como a elipse ou a antítese, que di-
zem respeito à estrutura da frase, por vezes do discurso. '" É só o começo; sigamos a luta. (N. do T.)
116 INTRODUÇÃO À RETÓRICA FIGURAS 117

No entanto, os provérbios, os slogans, certas "frases anto- b) Sílabas: paronomásia: Traduttore, traditore, de cuja tra-
lógicas" muitas vezes têm um ritmo próprio graças ao qual fi- dução não sobra grande coisa (tradutor, traidor). A rima é uma
cam na memória: paronomásia no final das palavras, que retoma em ritmo regu-
lar: Valéry au tri, Anémone au téléfone [Valéry na triagem,
Qsc@s @dtaml e_ai Anémone no telefone] (slogan dos carteiros em greve, em
,-,
1975, que brinca com o nome do presidente francês e de sua
F_aça_a@r, esposa).
,-,
c) Palavras: a figura baseia-se ora na homonímia, ora na
Vejamos algumas figuras de ritmo mais complexas. A pa- polissemia.
risose é um período composto por dois membros de mesma ex- A partir da homonímia, cria-se o trocadilho, que aproxima
tensão: duas palavras idênticas no som, mas com sentido diferente.
Freqüentemente grosseiro, é fino quando cria uma relação
Beber ou guiar, convém optar. (5 + 5) inesperada com a situação. FremI, em O chiste, conta que, num
baile, uma italiana dá um bom troco a Napoleão, quando este
A cláusula é uma seqüência rítmica que termina um perío- lhe pergunta se todos os italianos dançavam tão mal: Non tutti,
do, como esta com seis pés que termina a célebre peroração de ma buona parte... O imperador podia entender: nem todos, mas
Danton: boa parte, e podia entender também que se tratava de um nome
próprio, o seu.
Pour les vaincre, Messieurs, il nous faut de I 'audace, en-
A figura que se baseia na polissemia é a antanác1ase, que
core de I'audace, toujours de I'audace, et la France est sauvée.
(in Suhamy, p. 76) - - - - -- se aproveita de dois sentidos ligeiramente diferentes de uma
[Para vencê-los, senhores, precisamos de audácia, mais au-
mesma palavra; como por exemplo no slogan que aconselha o
dácia, sempre audácia, e a França está salva.] exame de mamas:

Em todos os casos, o ritmo gera um sentimento de evidên- Eu tenho peito.


cia próprio a satisfazer o espírito, mas também a conseguir sua
adesão ... Põe o pensamento sobre trilhos. Enquanto o trocadilho é sobretudo fático, deixando o ad-
versário sem palavras por desarmá-lo, a antanác1ase tem alcan-
ce argumentativo, permitindo pseudotautologias:
Figuras de som: aliteração,
paronomásia, antanáclase Negócios são negócios ...

As figuras de som implicam fonemas, sílabas ou palavras. Ligada à antanác1ase está a derivação, que associa uma
a) Fonemas: aliteração, em que há repetição de uma mes- palavra a outra de igual radical. Assim, no discurso de 30 de
ma letra na frase, como por exemplo na frase de De Gaulle, que maio de 1968, de Gaulle denunciava os contestadores que im-
lembra o resmuninhar dos velhos mal-humorados: pediam·

La grogne, la rogne et la hargne. (r, gn [nh]) os estudantes de estudar, os professores de ensinar [les enseig-
[Resmungo, rezinga, rabugem] nants d'enseigner], os trabalhadores de trabalhar.
118 INTRODUÇÃO À RETÓRICA FIGURAS 119

Se ele tivesse dito: les profosseurs d 'enseigner, les ouvriers [ope- criar uma história do vocabulário. Por exemplo, em latim clás-
rários] de travailler, o argumento de incompatibilidade teria sico, puer designa a criança, infans o bebê, aquele que não
desaparecido. fala (fari, falar). Mais tarde, as designações das faixas etárias
Pergunta: de onde vem a força persuasiva das figuras de acabam com outra distribuição, e infans designa aquele que
palavras? Elas facilitam a atenção e a lembrança, mas não é só ainda não chegou à adolescência. Mas, daí a pretender que a
isso. Lembremos o princípio lingüístico da arbitrariedade do infância é, "por definição", o período em que não há fala, não
signo, segundo o qual as palavras não são "motivadas": não há tem o menor fundamento, é propriamente errôneo. Na verda-
razão para dizer mesa, em vez de Tisch ou tavola. Esse princí- de, o argumento etimológico esquece-se de outra lei lingüísti-
pio também se aplica às nossas figuras de palavras: não é por- ca, a de que a palavra só tem sentido sincronicamente, ou
que dois significantes são idênticos que seus significados tam- seja, no sistema presente de uma língua. Desse modo, a pala-
bém o sejam; e, no entanto, tudo acontece como se fossem idên- vra "infância" só tem sentido em relação a "lactação" e a
ticos. As figuras de palavras instauram uma harmonia aparen- "adolescência"; e o latim não tem autoridade alguma nesse
te, porém incisiva, sugerindo que, se os sons se assemelham, sentido.
provavelmente não é por acaso. A harmonia é comprovada pelo O argumento etimológico às vezes cai no ridículo. Cabe
prazer 2 • citar nesse aspecto os adversários de Freud que, no início do
Que prazer? Do achado, da "felicidade de estilo" (Alain). século, pretendiam refutá-lo aduzindo o "sentido etimológico"
Podemos ir mais longe. Segundo os psicólogos, a criança des- de histeria, derivado do grego hystera, útero, para afirmar que,
conhece a arbitrariedade do signo; para ela, a palavra tem rela- "por definição", histeria só poderia ser doença de mulher! É
ção com a coisa. Cabe perguntar se o adulto, que se deleita verdade que depois disso os psicanalistas inventaram muitas
com uma figura de palavras - seja ela engraçada ou poética - outras 3 •••
não está no fundo sentindo o prazer de retornar à infância. Etimologia como parte da história das línguas, sim. Eti-
mologia como argumento, talvez, porém do mesmo tipo da an-
tanáclase, e não do trocadilho.
Um argumento retórico: a etimologia Uma última observação sobre as figuras de palavras: deve-
se evitar o abuso. Lembremos l-I Rousseau que, em Emílio,
Entre as figuras de palavras, é preciso contar a etimologia, vocifera contra La Fontaine, dado às crianças como "moral":
que serve de argumento tanto para as definições quanto para as
dissociações. Recorrer à etimologia para definir o "verdadei- sans songer que I'apologue. en les amusant, les abuse
ro" sentido de uma palavra na verdade é um ato de poder pelo [sem pensar que °apólogo, distraindo, trai].
qual o orador impõe seu "sentido", portanto seu ponto de vista,
ao auditório. Se ele tivesse dito: en les amusant, les trompe [distraindo, en-
Note-se que muitas vezes a etimologia é falsa: "religião" gana], não haveria atrativo. "Les amuse et les abuse" [distrai
seria relacionável com "relego" [percorrer de novo, revisitar] e trai] seria vistoso demais, nouveau-riche demais; desviaria
ou com "religo" [religar]? "Educação" viria de educere (con- a atençã9 da tese em vez de valorizá-la. Retórica, arte fun-
duzir para fora)? Conjecturas ou fantasias. Mas, ainda que cional...
verdadeira, a etimologia teria algum valor? É evidente que
não se deve rejeitar a história das palavras. Caberia mesmo
120 INTRODUÇÃO A RETÓRICA FIGURAS 121
Figuras de sentido Tropos simples: metonímias, sinédoques, metáforas

Se as figuras de palavras dizem respeito aos significantes, Trataremos agora das três figuras de sentido de que deri-
as de sentido dizem respeito aos significados. Portanto, podem vam todas as outras.
ser traduzidas sem - ou sem nem tantos - estragos. Consistem A metonímia designa uma coisa pelo nome de outra que
em empregar um termo (ou vários) com um sentido que não lhe lhe está habitualmente associada. Seu poder argumentativo é
é habitual. O olho escuta ... Esta estranha metáfora de Claudel antes de tudo o da denominação, que ressalta o aspecto da coisa
poderia levar a pensar em "desvio", transgressão da norma le- que interessa ao orador. Assim, O trono e o altar é uma metoní-
xical segundo a qual o olho deve enxergar e não se intrometer mia valorizadora; O sabre e o aspersório é metonímia deprecia-
no serviço dos vizinhos ... Mas, restabelecendo-se o termo pró- tiva, que reduz o exército a extermínio, e a Igreja a superstição.
prio, perde-se sentido, pois o olho que "escuta" uma obra de Baseada no nexo habitual, a força argumentativa da meto-
arte compreende-a, e compreende-a porque lhe obedece. Por- nímia provém da familiaridade, e essa força desaparece quando
tanto escuta é o termo exato. Isso acontece com toda verdadei- a metonímia vem de outra cultura. Para quem acha, por exem-
ra figura. plo, que o poder ministerial se chama gabinete, pasta ou mes-
Em outras palavras, a figura de sentido desempenha papel mo Esplanada, é difícil entender como o Império Otomano pô-
lexical; não que acrescente palavras ao léxico, mas enriquece o de usar o Divã como símbolo do poder. É verdade que a psica-
sentido das palavras. nálise já deveria nos ter acostumado com isso, mas entre os tur-
"Já disse mil vezes." "Tenho mil coisas para dizer..." A cos era o ocupante do divã quem detinha o poder...
palavra "mil" perde o sentido quantitativo para expressar algo Diz-se com freqüência que, em vista da poética metáfora,
como: vezes demais ... (para repetir outra vez), coisas demais a metonímia é prosaica e pobre. No entanto, existem "metoní-
(para dizer tudo agora... ). A hipérbole cria o sentido. mias vivas". Quando, em 1700, o embaixador da Espanha
Desse modo, a figura de sentido é um tropo, um signifi- declarou Já não há Pireneus, deve ter produzido um belo efeito
cante tomado no sentido de outro, escuta por olha com reve- surpresa; se tivesse dito apenas "acabaram-se as fronteiras",
rência. Mas nem todo tropo é uma figura de sentido. Quando o teria perdido a conotação de cadeia inóspita, quase intranspo-
tropo é lexicalizado a tal ponto que nenhum outro termo pró- nível, que só o divino poder dos reis poderia abolir, poder ca-
prio poderia substituí-lo, passa a ser catacrese. Assim, asas do paz de mover montanhas ...
avião na origem era uma metáfora, mas não é mais figura, pois O importante é que, mais que os outros tropos, a metonímia
não há como dizer de outra forma. cria símbolos, como por exemplo A foice e o martelo, A rosa e a
Inversamente, por falta de referências culturais, uma figu- cruz. Nesse sentido, condensa um argumento fortíssimo.
ra pode ser incompreensível; torna-se então enigma, mas aí A sinédoque distingue-se da metonímia por designar uma
deixa de ser retórica. Podemos dizer da figura de sentido aqui- . coisa por meio de outra que tem com ela uma relação de neces-
lo que Aristóteles dizia da metáfora: deve ser clara, nova e sidade, de tal modo que a primeira não existiria sem a segunda;
agradável. Nova, porém clara e por isso mesmo agradável, como por exemplo cem cabeças por cem pessoas, sinédoque da parte,
o enigma que se tem a alegria de desvendar. A meio caminho ou cem lfIortais, sinédoque da espécie. Donde sua função pró-
entre o enigma e o clichê, a figura de sentido desempenha seu pria: ela é a figura que condensa um exemplo. Muito corrente
papel retórico. em pedagogia (triângulo por todos os triângulos; soneto por
todos os sonetos), serve também à propaganda: partido dos
122 INTRODUÇÃO A RETÓRICA FIGURAS 123

trabalhadores, sinédoque da parte. Na verdade, nada prova que O símile, como a metáfora que dele deriva, é fonte de poe-
o partido em questão represente todos os trabalhadores. sia, pois aproxima seres cuja semelhança antes não fora perce-
Isso também se observa com a antonomásia, sinédoque bida; cria, como em Claudel, o que em seguida vai parecer evi-
que consiste em designar uma totalidade ou uma espécie pelo dente. Se for inesperado demais, dará origem à comicidade:
nome de um indivíduo considerado seu representante: JojJre bonita como um aviãoJalada como a torre de Pisa. Sua criati-
ganhou a batalha do Mame, como se ele estivesse lá sozinho! vidade permite entender o poder argumentativo da metáfora5 •
Sabe-se muito bem como o referido Joffre motivou a sinédo-
que: Não sei se fui eu que a ganhei, só sei que eu sou quem a te-
ria perdido! O slogan dos anos 30, Hitler é a guerra, fazia re- Tropas complexos: hipálage,
cair sobre Hitler todo o peso do hitlerismo. Também aqui se enálage, oxímoro, hipérbole, etc.
encontra a argumentação pelo exemplo.
A metáfora designa uma coisa com o nome de outra que Desses três tropos básicos derivam outros.
tenha com ela uma relação de semelhança. Voltaremos depois a A hipérbole é a figura do exagero. Baseia-se numa metá-
seu papel argumentativo. Aqui diremos algumas palavras sobre fora (Estou morto de cansaço), ou numa sinédoque (As massas
sua gênese. Diz-se que a metáfora é uma comparação abrevia- laboriosas, para certo número de trabalhadores).
da, que substitui o é como por é: Ela é [bela como] uma rosa; O Para entendê-la, comecemos pela admirável definição de
olho [olha como se] escuta. Mas que comparação? Se esta se Pierre Fontanier:
referir a realidades homogêneas, sua abreviação não redundará
A hipérbole aumenta ou diminui as coisas em excesso,
em metáfora: Pedro é [alto como] um gigante; João é [baixo
apresentando-as bem acima ou bem abaixo do que são ...
como] um anão. Trata-se antes de hipérboles por meio de siné-
doques. É o mesmo se eu disser: Esta água está [fria como]
Temos aí a estrutura da hipérbole: auxese quando amplia em
uma pedra de gelo. sentido positivo (esse gigante); tapinose, em sentido nega-
Suponhamos agora que se diga: Sofia é uma pedra de gelo. tivo (esse anão), sendo sempre o significado figurado bem
Há de fato uma comparação (e pouco benevolente), mas de ou- maior ou bem menor que o significado próprio. Por que esse
tro tipo, porque Sofia não é da espécie dos seres que podem exagero?
transformar-se em gelo; a semelhança em que se baseia essa
metáfora provém de termos heterogêneos, que não têm matéria ... não com o intuito de enganar, mas de levar à própria ver-
nem medida em comum; Sofia não é nem uma pedra de gelo, dade, e de fixar, através do que ela diz de incrível, aquilo em que
nem é como uma pedra de gelo. Então, como poderemos en- é realmente preciso crer.
tender a metáfora? Por uma semelhança de relações entre ter-
mos heterogêneos (cf. infra, pp. 193 a 196). Em suma, não é uma figura da mentira, como quando se diz
Em resumo, se desenvolvermos a metáfora e lhe restituir- que alguém está morto, se ele está bem vivo; é uma figura de
mos seu como, teremos uma figura de comparação especial, expressão, como em Estou morto, que não engana ninguém.
que os antigos chamavam de eikon, simile, e que, como os in- Porém, J"tra exprimir o quê?
gleses, chamaremos de símile. O símile é uma comparação en- O inexprimível, por certo. A nosso ver, a função semânti-
tre termos heterogêneos: Ela canta como um rouxinol, que se ca da hipérbole é dizer que de fato não conseguimos dizer, é
abrevia em metáfora como O rouxinol 4 • dar a entender que aquilo de que estamos falando é tão grande,
124 INTRODUÇÃO A RETÓRICA FIGURAS 125

tão bonito, tão importante (ou o contrário) que a linguagem o oxímoro é a mais estranha das figuras; consiste em unir
não poderia exprimir. Donde o papel fundamental da hipérbole dois termos incompatíveis, fazendo de conta que não são: Essa
na retórica religiosa, visto que só ela pode designar aquilo que escura claridade que cai das estrelas (Corneille), O sol negro
não se pode denominar. (Nerval). Como é possível? M. Prandi responde 6 que ele indica
Mas, além da expressão, ela condensa um argumento, o de um conflito entre dois enunciadores: um deles - todo o mundo
direção: se começarmos assim, onde vamos parar? A hipérbole - diz que está fazendo sol, e o outro - o poeta - declara metafo-
amplifica o argumento, colocando-se já de início nesse ponto ricamente que para ele tudo está negro. Assim, quando qualifi-
final, como veremos nos textos 11 e 12. ca Antígona de santamente criminosa, Sófocles quer dizer que
Se, em vez de dizer Estou morto, eu disser Estou meio ela é criminosa para o poder (Creonte), porém santa para os
cansado, estarei substituindo a hipérbole pela litote, que não é deuses e para sua consciência. Perelman-Tyteca vêem no oxí-
uma hipérbole ao contrário, como a tapinose, mas o contrário moro uma dissociação condensada, por exemplo entre a apa-
da hipérbole. Figura do etos, por mostrar o orador modesto, rência - criminosa - e a realidade - santamente.
prudente, comedido, a litote possibilita outras figuras, como a Finalmente, dois tropos complexos, simétricos.
insinuação, o eufemismo e sobretudo a ironia: Não, o doutor X Um deles é a metáfora expandida, seqüência coerente de
ainda não matou todos os seus doentes ... Como muitas vezes metáforas, que aliás permite a personificação e... o humor;
acontece, essa litote procede pela negação de uma hipérbole: como por exemplo a metáfora também citada por Prandi:
matou.
A hipálage é um deslocamento de atribuição. Como no o inconsciente da minha máquina de escrever comete es-
célebre verso de Virgílio, que fala dos mortos a vagarem pelos tranhos lapsos.
Infernos:
Outro é a metalepse, que é para a metonímia o que a metá-
Ibant obscuri sola sub nocte per umbram ... fora expandida é para a metáfora: uma seqüência coerente. As-
(Iam escuros por entre a sombra na noite solitária ... ) sim, no Eclesiastes se diz:

Se ele tivesse falado em noite escura e almas solitárias, o efeito Quando a porta está fechada para a rua, quando cessa a voz
de hipotipose teria sido destruído; estaria perdida a expressivi- do moinho, quando se cala o canto do pássaro (... ), quando há
dade do quadro. temor da subida e pavores em caminho ... (XII, 4, 5)
Daí a força argumentativa da hipálage. Por metonímia:
liberdade de preços, por liberdade dos comerciantes, como se Obscura e terrível metalepse para dizer: quando se está velho.
eles nada tivessem que ver com os preços, como se estes decor- Essa figura designa a velhice através de seus efeitos: ce-
ressem de um determinismo natural. gueira, surdez, fadiga, etc. Mas é redutora, pois só leva em
A enálage é um deslocamento gramatical: do adjetivo . conta os efeitos negativos; poderia até considerar os efeitos po-
para o advérbio, como em Vote certo; de uma pessoa para ou- sitivos da terceira idade: prudência, paciência, etc. De fato,
tra e de um tempo verbal para outro, como em O que estare- todas as figuras de sentido são redutoras, por focalizarem certo
mosfazendo?, por "o que você está fazendo?" A enálage torna aspecto efiobretudo certo valor do objeto que apontam em de-
as coisas mais presentes, embora também mais confusas; em trimento dos outros. Donde seu papel argumentativo.
Pensar francês, de Pétain, qual era exatamente o sentido de
"francês"?
126 INTRODUÇÃO A RETÓRICA FIGURAS 127
Figuras de construção Além do trocadilho nas últimas palavras, recorre-se ao as-
síndeto; o que se deve acrescentar entre 1 e 2, e entre 2 e 3: por-
As figuras abaixo dizem respeito à construção da frase, ou tanto ou mas?
mesmo do discurso. Algumas procedem por subtração, outras A aposiopese, ou reticência, interrompe a frase para passar
por repetição, outras por permutação. ao auditório a tarefa de completá-la; figura por excelência da in-
sinuação, do despudor, da calúnia, mas também do pudor, da ad-
miração, do amor, sua força argumentativa advém do fato de
Figuras por subtração: elipse, retirar o argumento do debate para incitar o outro a retomá-lo por
assíndeto, aposiopese ou reticência sua conta, a preencher por sua conta os três pontos de suspensão.

A elipse consiste em retirar palavras necessárias à cons-


trução, mas não ao sentido. Isso acontece, por exemplo, no pro- Figuras de repetição: epanalepse, antítese
vérbio Longe dos olhos, longe do coração e no slogan CRS
SS *. As palavras que desaparecem são adjuntos ou copulati- Chamamos de epanalepse a figura de repetição pura e
vos, como o verbo ser, o artigo, a preposição, etc., mas isso simples. Propõe duplo problema, o da correção e o da utilida-
de. Que um aluno repita uma palavra na frase ... o professor
também pode acontecer com vocáculos plenos.
mandará substituí-la por um sinônimo. Mas será que o profes-
Parece que a elipse é antes um meio de criar figuras do
sor vai corrigir O homem é o lobo do homem? É aí que entra a
que propriamente uma figura. Por meio de cortes na frase, ela
utilidade da repetição; se a frase dissesse "é lobo para seu se-
produz metonímia, enálage (Pense [com vistas a uma coisa]
melhante", estaria destruído o argumento de incompatibilidade
grande), oxímoro (O sol [não impede que para mim tudo seja]
que sugere: o homem é aquilo que não deveria ser, pois tem o
negro), metáfora (Sofia é [fria como] uma pedra de gelo).
homem como semelhante.
O assíndeto é uma elipse que suprime os termos conec-
Evidentemente, a epanalepse também diz respeito ao pa-
tivos, tanto cronológicos (antes, depois) quanto lógicos (po- tos. Quando de Gaulle exclama em sua mensagem de 18 de
rém, pois, portanto). O assíndeto é ao mesmo tempo expres- junho de 1940:
sivo, pelo efeito surpresa (Vim, vi, venci), e pedagógico, pois
deixa por conta do auditório o trabalho de restabelecer o elo Pois a- França não está sozinha, não está sozinha, não está
que falta, e isso o arregimenta, torna-o cúmplice do orador, a sozinha,
despeito de suas reticências. Assim o slogan criado em 1987
pelo governo francês, após a decretação da liberação dos está expressando sua convicção patética, que tudo parecia des-
preços: mentir então.

Os preços estão livres. Vocês são livres. Não digam sim a Não se deve confundir epanalepse com antanáclase, que é
qualquer preço. a repetição de uma palavra com sentidos diferentes, nem com a
perissologia, repetição de uma mesma idéia com palavras dife-
rentes. P
Dá-se o nome de antítese à oposição filosófica de teses
* CRS = Compagnie républicaine de sécurité, polícia para repressão ou a uma oposição retórica, que sobressai graças à repetição;
de tumultos; SS = esquadrões militares da Alemanha nazista. (N. do T.) AABA, AACA, etc. A antítese é a oposição no mesmo.
128 INTRODUÇÃO À RET6RICA FIGURAS 129

o mesmo pode ser representado por palavras idênticas: de-se dizer que, se a vida determina a consciência, esta, em tro-
ca, muda a vida. A causalidade linear é então substituída pela
Fulminados hoje pela força mecânica, poderemos vencer retroação. Também neste caso o argumento é sedutor, porém
no futuro com uma força mecânica superior. (ibid.) redutor.
Cabe mencionar mais três figuras de construção.
O mesmo também pode ser representado pelo equilíbrio O anacoluto perturba a sintaxe da frase:
rítmico:
o maior filósofo do mundo, sobre uma prancha mais larga do
Et monté sur le faite il aspire à deseendre (Comeille) que necessário, se embaixo houver um precipício, ainda que sua
[E subido no cume ele aspira a descer.] razão o convença de sua segurança, prevalecerá sua imaginação.

A identidade dos dois hexâmetros reforça a oposição. O sujeito do verbo deveria ser o filósofo mas, para nossa sur-
presa, é a imaginação. Seria o anacoluto um "desvio em rela-
ção à norma"? Parece que sim, e até um erro; qualquer profes-
Figuras diversas: quiasmo, sor teria despachado o aluno Pascal a golpes de tinta vermelha...
hipérbato, anacoluto, gradação No entanto, será possível expressar de forma diferente a derro-
ta da filosofia?
O quiasmo é uma oposição baseada numa inversão, AB- A nosso ver, o anacoluto não constitui um erro, mas é a in-
BA, e não mais na repetição: cursão do código da língua oral no código da língua escrita, o
que torna a expressão mais pessoal e a argumentação mais viva.
Deve-se comer para viver, e não viver para comer. O hipérbato, ou inversão retórica, é um caso particular de
anacoluto:
Às vezes cômico, o quiasmo no entanto integra-se muito
bem nas visões trágicas do mundo, de São Paulo a Karl Marx: Chorosa empós seu carro, quereis vós que me vejam? (Ra-
cine)
Quem se exalta será humilhado, quem se humilha será
exaltado. (Le, XVIII, 14) Finalmente, a gradação consiste em dispor as palavras na
Ao contrário da filosofia alemã, que vai do céu à terra, aqui ordem crescente de extensão ou importância:
subimos da terra ao céu (... ) Não é a consciência que determina a
vida, é a vida que determina a consciência. (Marx, A ideologia A pobreza viril, ativa e vigilante. (La Fontaine)
alemã.)
Portanto, é um excelente meio de apresentar os argumentos: não
Aqui o quiasmo está a serviço de um argumento de disso- só, mas também, e sobretudo ...
ciação. Ao par ilusório estabelecido pelo idealismo alemão,
que põe a "terra" como não essencial e a "vida"como simples
exteriorização da consciência, Marx opõe como verdadeiro o Figurasltle pensamento
par inverso; a forma em X do argumento confere-lhe aparência
de necessidade. No entanto, ele assenta numa alternativa sim- As figuras de pensamento são, em princípio, independen-
plista: é a consciência que determina a vida, ou o inverso? Po- tes do som, do sentido e da ordem das palavras: só dizem respei-
130 INTRODUÇÃO A RETÓRICA FIGURAS 131

to à relação entre idéias. Mas essa definição dos antigos levaria que, na Escócia, Rolling stones gather no moss tem, ao contrá-
a excluí-las do campo das figuras, e mesmo da retórica, que se rio, sentido positivo: quem viaja não cria cascão, está sempre
caracteriza pela íntima ligação entre língua e pensamento. A novo.
nosso ver, essas figuras são identificadas por três critérios. É por isso que não podemos concordar com Goethe e com
Em primeiro lugar, não se referem a palavras ou à frase, os românticos, que opõem a alegoria - figura que teria apenas
mas ao discurso como tal; o trocadilho implica algumas pala- um sentido figurado - ao símbolo, que seria aberto e polissêmi-
vras, enquanto que a ironia engloba todo o discurso; um livro co: vemos que a alegoria também pode ser assim. Fato é que ela
inteiro pode ser irônico. Em segundo lugar, dizem respeito à tem má fama: é tachada de factícia, de ser criada para as neces-
relação do discurso com seu referente; ou seja, pretendem ex- sidades da causa, em resumo, de ser puramente didática.
pressar a verdade: enquanto a metáfora não é verdadeira nem Nesse caso, trata-se de uma curiosa didática, pois com ela
falsa, a alegoria poderá ser verdadeira ou falsa. Finalmente, se acaba perdendo tempo. Platão, após ter enunciado a alegoria
uma figura de pensamento pode ser lida de duas maneiras: no da Caverna, precisa explicá-la; e Jesus também precisa dar a
sentido literal ou no sentido figurado. Uma andorinha só não chave de suas parábolas: estranha didática que se condena a en-
faz verão: a verdade do sentido meteorológico implica a verda- sinar duas vezes! Mas veremos, com Rousseau (texto 11), que
de do sentido humano. o verdadeiro problema da educação talvez não seja "ganhar"
tempo.
Na realidade, se a alegoria é didática, não é por tornar as
Alegoria: figura didática? coisas mais claras ou mais concretas; ao contrário, é por intri-
gar. A alegoria da Caverna e a parábola do Semeador intrigam
Esse triste provérbio - eles raramente são alegres - já é os discípulos, que sentem que o texto quer dizer alguma coisa a
mais do que está dizendo, mas não sabem o quê; esperam a
uma alegoria. A alegoria é uma descrição ou uma narrativa que
explicação do mestre, explicação que não estariam desejando
enuncia realidades conhecidas, concretas, para comunicar me-
se o mestre a tivesse dado sem preparação prévia. Existe uma
taforicamente uma verdade abstrata. Ela é a estrutura do provér-
pedagogia muito antiga, a do mistério, que consiste em retardar
bio, da fábula, do romance de tese, da parábola 7•
a solução para incitar o discípulo a buscá-la, para motivá-lo a
Apesar de ser uma seqüência de metáforas - andorinha
aprender. É nesse sentido que a alegoria é "didática".
como boa nova, verão como felicidade - nem por isso a alegoria
Donde seu papel também argumentativo: ela alicia as pes-
é uma metáfora expandida. Por quê? Exatamente porque todos
soas, no sentido de que, se estas aceitarem o foro (a letra), se-
esses termos são metafóricos, enquanto na metáfora expandida
rão obrigadas a aceitar também o tema (espírito). Tomaremos
os termos figurados se encaixam num contexto de termos pró-
da Bíblia (2 Sm XII, 1) o exemplo do profeta Natã, que vai di-
prios, de tal modo que a mensagem só possa ter um sentido, o
. zer ao rei Davi:
figurado. Em Ponha um tigre no seu carro, tigre é metafórico, o
resto não; assim, ninguém achará que se trata de um tigre de Havia dois homens numa mesma cidade, um rico e outro
verdade, exceto o cineasta Jean-Luc Godard, que, para satirizar, pobre. O rico possuía gado pequeno e grande em abundância. O
filma um tigre num motor. A verdadeira alegoria, cujos termos pobrl nada tinha a não ser uma ovelhinha ( ... ) que ele amava
são todos metafóricos, apresenta duas leituras possíveis: como filha. Um hóspede chega à casa do rico que, poupando-se
"Pedra que rola não cria limo" também pode ser lido em de tomar um dos animais de seu rebanho para servir ao viajante.
sentido figurado: quem viaja muito não cria amigos. Note-se pega a ovelha do pobre para prepará-la ...
132 INTRODUÇÃO A RETÓRICA FIGURAS 133

Essa narrativa indigna e intriga Davi, quer saber quem é esse char, de ver o esfrangalhamento das pretensões de poder, saber
homem, "que merece a morte". E o profeta responde-lhe "Tu e virtude exatamente porque quem faz a ironia parece levá-las
és esse homem." a sério. Figura do patos e do etos - põe do seu lado quem ri -, a
Era ele, Davi, que, inflamado de paixão por Betsabá, rap- ironia também é figura do logos, por ressaltar um argumento
tara-a, engravidara-a e depois, arranjando tudo para que o ma- de incompatibilidade pelo ridículo.
rido dela morresse na guerra, desposara-a. Vemos aí a força da Apreciemos a réplica de Napoleão III, quando lhe mostra-
alegoria. Se Natã tivesse simplesmente exposto o crime, o rei ram o violento panfleto de V. Hugo contra ele:
poderia ter respondido que o amor não tem lei, ou que havia
necessidade de um herdeiro para a coroa; poderia até não ter Pois bem, Senhores, aí está Napoleão, o Pequeno, por
Victor Hugo, o Grande.
ouvido nada. Aqui, a causa é ouvida antes mesmo de ser expos-
ta, e, ao condenar o rico, o rei prendeu-se em seu próprio vere-
dicto. Prestando atenção à narrativa, Davi não percebeu - nem
o que ele quis dizer exatamente? "É ele que se toma por Napo-
leão." "Não me atinge." "Admiro-o apesar de tudo como poe-
de longe - que se tratava dele. Sem a alegoria, teria porventura
ta" ... Talvez os três.
entendido?
A graça, em retórica, é a ironia que vem a calhar, a réplica
arguta, que é a mais eficaz. Quanto ao humor, não é uma espé-
cie de ironia; é o contrário da ironia. Esta denuncia a falsa serie-
Ironia, graça e humor dade em nome de uma seriedade superior - a da razão, do bom
senso, da moral -, o que coloca o ironista bem acima daquilo
Na ironia, zomba-se dizendo o contrário do que se quer que ele denuncia ou critica: não é o saber que faz de Sócrates
dar a entender. Sua matéria é a antífrase, seu objetivo o sarcas- um mestre, mas sua ironia. No humor, é o próprio sujeito que
mo; trata-se realmente de uma figura de pensamento, pois tem abandona sua própria seriedade, que abdica da importância. O
dois sentidos: És a fênix ... pode ser tomado ao pé da letra, como que em princípio exige dele certa calma, certo domínio de si -
a ave, ou então segundo seu espírito, que aqui se opõe ao senti- sim, a fleuma britânica e o humor são uma coisa só -, e desse
do próprio do termo. modo se explica que o primeiro grau do humor seja a palavra
A ironia pode ser amena ou cruel, sutil ou grosseira, amarga descontraída nos momentos em que todos já perderam a cabeça.
ou engraçada ... Delimitaremos o assunto com duas perguntas. Antídoto contra todos os fanatismos, o humor tende para o irra-
O que a torna "fina"? Provavelmente o afastamento entre cional e às vezes para o niilismo. Assim, se a ironia é uma arma,
os dois sentidos, a letra e o espírito. É verdade que se pode o humor é algo que desarma. Retórica superior.
"marcar" a ironia: pelo tom de voz, por ponto de exclamação,
aspas, etc. Se clara demais, passa a ser fácil. A ironia pesada é
a esperada, a que sucumbe ao peso do sentido. A ironia é fina Figuras de enunciação: apóstrofe,
quando seu verdadeiro sentido se deixa esperar, quando sua prosopopéia, preterição, epanortose
vítima é a última pessoa a percebê-la; indo mais longe, pode-se
dizer que é aquela cujo sentido nunca ficará completamente Cettas figuras têm parentesco com a ironia, mas sua antí-
claro, que sempre deixará alguma dúvida. frase diz respeito à enunciação, e não ao enunciado.
Por que é engraçada? Por certo há sempre uma dose de A apóstrofe consiste em dirigir-se a algo ou alguém dife-
alegria sádica na ironia, o "prazer maligno" de ver a bola mur- rente do auditório real, para persuadi-lo mais facilmente. O
134 INTRODUÇÃO A RETÓRICA FIGURAS 135

auditório fictício pode ser um ser presente, mas na maioria das Figuras de argumento: conglobação,
vezes está ausente: são mortos, antepassados, a pátria, os deu- prolepse, apodioxe, cleuasmo
ses, qualquer coisa:
Existem, finalmente, figuras de pensamento dificeis de
Onde estou? O que vi? Enganais-me, olhos meus? definir sem recorrer à noção de argumento: mais que as outras,
elas demonstram a existência de laços íntimos entre estilo e ar-
Para o TA, esta seria uma "figura de comunhão" (p. 240), gumentação.
que une o auditório ao orador. Para nós é mais uma figura de A prolepse antecipa o argumento (real ou fictício) do ad-
amplificação, que permite ultrapassar o auditório real em dire- versário para voltá-lo contra ele: Dizer-nos que ...
ção a um auditório (mais) universal, ou, inversamente, em di- A conglobação acumula argumentos para uma única con-
reção a um indivíduo que personifique o auditório universal. clusão. A expolição retoma o mesmo argumento com formas
A prosopopéia consiste em atribuir o discurso a um orador diferentes. A pergunta retórica apresenta o argumento em for-
fictício: antepassados, mortos, leis, como Sócrates em Críton, ma de interrogação.
que é interpelado pelas leis de Atenas: O c1euasmo consiste no desgabo que o orador faz de si
mesmo, para angariar confiança e simpatia do auditório: Talvez
O que tentas (ao fugir), seria outra coisa senão destruir- eu esteja sendo tolo, mas... Figura do etos, o c1euasmo também
nos, a nós, as leis ... ?8 afirma a vingança do bom senso sobre os especialistas ou os
eruditos, da vivência sobre o livresco, da ingenuidade sobre a
A preterição, muito próxima da aposiopese, consiste em sofisticação. Desse modo, o criado Sganarello diz a Don Juan:
dizer que não se vai falar de alguma coisa, para melhor falar
dela. Eu também poderia ter dito que... Como se lê no TA, ela é De minha parte, senhor, nunca estudei como vós, graças a
"o sacrificio imaginário de um argumento" (p. 645). Deus, e ninguém poderia se gabar de alguma vez ter-me ensina-
A epanortose consiste em retificar o que se acaba de dizer: do algo; porém, com meu modesto senso, meu modesto juízo,
Ou melhor... Também é uma intrusão do código oral na língua enxergo melhor que os livros ...
escrita; faz o discurso parecer mais sincero e, ademais, faz o au-
ditório participar do encaminhamento dado pelo orador. A apodioxe é a recusa argumentada de argumentar, quer
A contrafisão é uma espécie de optativo que sugere o con- em nome da superioridade do orador (Não tenho lições para
trário do que diz: Tenhamfilhos então! receber ... ), quer em nome da inferioridade do auditório (Não
A epítrope ou permissão é uma figura de indignação que cabe a vocês dar-me lições ... ) Trata-se de uma espécie de vio-
finge aceitar um ato odioso de alguém para sugerir que esse lência verbal. Mas será só isso?
alguém seria capaz de cometê-lo:
Somos todos judeus alemães.
Eis aqui sangue, vem beber. .. (cf. texto 5)
O célebre slogan de maio de 1968 respondia a quem ale-
Assim como a hipérbole, sublinha um argumento de di- gava que oPlíder esquerdista Cohn-Bendit, sendo filho não na-
reção. turalizado de judeus alemães, não podia dirigir um movimento
político francês. O slogan não recusava o diálogo, mas rejeita-
va o pretenso acordo prévio imposto pelos adversários para que
FIGURAS 137
136 INTRODUÇÃO A RETÓRICA

sente (aqui os gerúndios); pelas metonímias: clarão, chama,


houvesse diálogo (ou seja, um homem, que é judeu e alemão,
ferro; pela gradação no horror: feral - eternal, gritos de triunfo
só tem de calar a boca): queremos discutir, sim, mas não nesse
- ais dos que morrem; pela litote: abrindo passagem, para mos-
nível! A apodioxe, aqui, não é mais violência, mas rejeição à
trar que os mortos queridos estavam reduzidos a detrito; tudo
violência. O mesmo acontece com o slogan americano Black is
isso para desembocar no Voilà [literalmente, eis --. E verás],
Beautiful: reivindicamos aquilo pelo que somos desprezados.
que conclui a hipotipose: inexorável.
Como se vê, existem figuras explosivas. Mas a mais ex-
Depois dessa extensa enumeração, aliás incompleta, al-
plosiva provavelmente é a hipotipose (ou quadro), que consiste
guém perguntará se as figuras são de fato úteis; não seriam an-
em pintar o objeto de que se fala de maneira tão viva que o tes nocivas, fonte de confusão e manipulação? Afinal de contas,
auditório tem a impressão de tê-lo diante dos olhos. Sua força
por que falar de figuras?
de provém do fato de que ela "mostra" o argumento, É como perguntar: por que falar? Sempre que queremos
o patos ao logos. Dessa forma, Andrômaca respon-
expressar sentimentos ou idéias abstratas, recorremos às figu-
de a CefIsa, que a aconselha a casar-se com Pirro com esta ras. E o filósofo, o jurista, o teólogo não escapam dela tanto
descrição do saque de Tróia: ' quanto o homem (e a mulher) comum. Falar sem figuras, sim,
seria o verdadeiro desvio, provavelmente mortal.
Songe, songe, Céphise à cette nuit cruelle O problema não é livrar-se das figuras - o que equivale a
Qui fut pour tout un peuple une nuit éternelle.
livrar-se da linguagem; o problema é conhecê-las e compreen-
Figure-toi Pyrrhus, les yeux étincelants,
der seu perigoso poder, para não ser vítima dele; para tirar pro-
Entrant à la lueur de nos palais brúlants,
Sur tous mes freres morts se faisant un passage veito dele.
Et de sang tout couvert échauffant le carnage;
Songe aux cris des vainqueur, songe aux des mourants,
Dans la flamme étouffés, sous le fer expirant;
Peins-toi dans ces horreurs Andromaque éperdue:
Voilà comme Pyrrhus vint s 'offrir à la vue!

Pensa, pensa, Cefisa na noite feral


Que para um povo inteiro foi noite eterna!.
Afigura-te Pirro com olhos luzentes
A entrar no clarão dos palácios ardentes,
Sobre meus irmãos mortos abrindo passagem
E de sangue coberto incitando a carnagem;
Ouve os gritos de triunfo, ouve os ais dos que clamam
A morrer pelo ferro, abafados na chama.
A vagar nesse horror, vê Andrômaca então:
E verás qual de Pirro foi dela a visão!

quase (pensa, afigura-te) é


aI?plIfIcada por mumeras alIteraçoes: lueur - palais brúlants
[lIteralmente, clarão, palácios em chama], pela enálage do pre-
Capítulo VII
Leitura retórica dos textos

Toda a seqüência deste livro será dedicada à interpretação


de textos. Hoje em dia, dispomos de vários métodos para esse
fim - análise do conteúdo, análise estrutural, hermenêutica,
etc. -, cada um com suas virtudes e com suas fraquezas. O que
propomos aqui nada mais é que a própria retórica, em sua filll-
ção interpretativa; aborda o texto com a seguinte pergunta: em
que ele é persuasivo? Portanto, quais são seus elementos argu-
mentativos e oratórios?
Nossa leitura é retórica também por sua atitude em rela-
ção ao texto. Certos métodos dizem-se puramente objetivos,
abordando o texto com "neutralidade". Outros são partidários
declarados da desconfiança, e se, como nós, procuram no tex-
to procedimentos retóricos, é para mostrar que são mistifica-
dores. Outros, enfim, como a hermenêutica, considerando o
texto sagrado, como fazem teólogos e juristas, explicam-no
com o único objetivo de entendê-lo, e postulam que ele tem
razão sistematicamente, de tal modo que, se o comentador en-
contrar nele erros ou contradições, terá sido porque não o en-
tendeu.
') A leitura retórica, por sua vez, não objetiva dizer que o
texto tem razão ou deixa de tê-la. Nem por isso é neutra, pois
não hesita em fazer juízos de valor, em mostrar que tal argu-
mento é forte ou fraco, que tal conclusão é legítima ou errônea.
Critica et>ondera, sem se abster de admirar, tendo como postu-
lado que o texto, tanto em sua força quanto em suas fraquezas,
pode ensinar alguma coisa. A leitura retórica é um diálogo.
140 INTRODUÇÃO A RET6RICA LEITURA RET6RICA DOS TEXTOS 141

Questões preliminares um autor. Assim, a famosa regra do Discurso do método, cujo


final acabamos de citar e que identifica verdade com evidên-
Diante de um texto, deve-se começar fazendo certo núme- cia, pode muito bem ser apresentada como um axioma lógico,
ro de perguntas, que podem ser chamadas de lugares da inter- mas nem por isso deixará de ser dirigida contra alguém. Reco-
pretação. Algumas dessas perguntas dizem respeito ao orador; nhece-se Aristóteles, cuja dialética integra o campo da verossi-
outras, ao auditório; outras, enfim, ao discurso, no sentido téc- milhança na filosofia, enquanto a regra da evidência leva a
nico que a retórica atribui a esses termos. rejeitar como falso tudo o que é apenas verossímil.
Contra quem, logo por quê? O discurso tende a persuadir
de algo, mas esse algo pode ser múltiplo. O texto muitas vezes
Orador: Quem? Quando? tem um objetivo imediato e outro distante, o mais importante.
Contra o quê? Por quê? Como? O autor do Discurso do método quer persuadir seus leitores do
valor de seu método, mas principalmente do valor de sua em-
Primeira pergunta: quem fala? Ao contrário de certas aná- presa global, a saber, da ciência que esse método produzirá,
lises estruturais, a leitura retórica assume a responsabilidade tornando-nos "senhores e donos da natureza". Num texto irôni-
dessa pergunta, considerando úteis quaisquer informações re- co (cf. texto 10), o objetivo real é absolutamente oposto ao ob-
ferentes à vida do autor e à sua doutrina. Mas essas informa- jetivo declarado.
ções raramente são indispensáveis. E, assim, a leitura retórica Finalmente, como o autor se manifesta em seu discurso?
postula que o texto tem autonomia e é entendido por si mesmo. Esse é o problema da enunciação. Quando Jean-Jacques Rous-
E ainda que seja útil conhecer a doutrina do autor para com- seau (texto 11) diz Eu ousaria expor aqui ... , é Jean-Jacques
preender seu pensamento, é inútil elucidar cada uma de suas Rousseau que está falando, ninguém mais. Quando Descartes
afirmações com citações tomadas no restante de sua obra. Quan- enuncia o Penso, logo sou, é o eu universal que está falando,
to mais se puder interpretar o texto em si mesmo, melhor. como em matemática. Mas quando Descartes escreve em nos-
Na verdade, a pergunta indispensável é: quando? É preci- so texto: meus juízos, meu espírito, que eu não tenha, quem é o
so conhecer a época do discurso, nem que seja para evitar con- eu? Por certo ele, Descartes, pois é o primeiro a dizer isso, mas
tra-sensos nos termos. Lemos, por exemplo: também cada um de nós, pois ele pretende servir de modelo.
Portanto, um eu intermediário entre o da audácia pessoal e o do
(... ) e não compreender em meus juízos nada mais que aquilo
que se apresentar a meu espírito com tal clareza e distinção que
pensamento universal.
eu não tenha ensejo de duvidar. Cumpre mencionar dois casos notáveis. O primeiro é aque-
le em que o eu do discurso não é o de seu autor: isso se observa
O que significa compreender aqui? O leitor moderno será na citação ou na prosopopéia. O segundo é o caso em que não
tentado a ver nele o sentido de entender, explicar. Ora, se sou- há eu algum, em que o discurso se apresenta como puro enun-
bermos que o texto é de 1637, descobriremos que o autor quer ciado, assim como os textos escritos por juristas ou geógrafos.
dizer coisa bem diferente: "incluir em meus juízos". Não no Mas a ausência de marcas de enunciação não significa ausên-
sentido de "entender", mas no sentido de "conter". cia de eoonciação; os textos mais objetivos na forma às vezes
Outra pergunta: contra quem? Isso porque é raro que um são os mais tendenciosos.
discurso persuasivo não seja ipso facto dissuasivo, que não ata-
que, pelo menos implicitamente, uma opinião, uma doutrina,
142 INTRODUÇÃO A RETÓRICA LEITURA RETÓRICA DOS TEXTOS 143

Auditório e acordo prévio lo XVII, partiam de um postulado comum, a verdade do cris-


tianismo: cada um dos protagonistas afirmava representar o
A quem se está falando: em outras palavras, qual é o audi- "verdadeiro" cristianismo. O acordo inicial também dizia res-
tório real do discurso? Sabe-se que, na apóstrofe, não se trata peito aos métodos da controvérsia e aos assuntos espinhosos
do auditório aparente. Isso ocorre quando os candidatos de que cumpria evitar, como a graça e a predestinação!. Nas ques-
uma eleição travam uma polêmica na televisão, e cada um fin- tões em que não haja nenhum acordo inicial, pode haver vio-
ge dirigir-se àquele que está diante de si, mas, como não pode lência ou ignorância recíproca, não controvérsia.
esperar convencê-lo a lhe dar seu voto, na verdade está-se diri- Pode-se objetar que é dificil interpretar um discurso quan-
gindo ao público eleitor. Assim (cf. supra, p. 9): "Senhor Mitter- do se ignora o acordo prévio que ele pressupõe. Mas esse acor-
rand, está a par da cotação do marco?" Mitterrand é o auditório do é revelado pelo próprio texto: pelo não-dito, pela ausência
fictício; o auditório real é o telespectador, que vai ficar saben- das provas que seriam de esperar, por suas fórmulas estereoti-
do que Mitterrand não está a par da cotação do marco. padas, alusões, expressões como: "é certo que", "todos sa-
A quem: essa pergunta não é feita apenas pelo intérprete, bem", "deve-se admitir", etc. Também neste caso o texto expli-
mas por certo também pelo orador. Pois a regra de ouro da retó- ca o texto.
rica é levar em conta o auditório. Ora, os auditórios distin- Faltam as perguntas referentes ao discurso em si: do que
guem-se de diversas maneiras. trata, o que diz, como diz? Em retórica é a terceira pergunta
Em primeiro lugar pelo tamanho, que pode ir de um único que mais importa. Neste capítulo limitar-nos-emos a especifi-
indivíduo (por exemplo, numa carta) a toda a humanidade. Com- car seus aspectos preliminares.
preende-se facilmente que a importância do público influencie
a natureza da mensagem.
Em segundo lugar, pelas características psicológicas de- A questão do gênero: Pascal e La Fontaine
correntes de idade, sexo, profissão, cultura, etc.
Em terceiro lugar, pela competência. Ninguém se dirige a Uma questão capital na leitura retórica é a do gênero, que
um grupo de médicos como se fosse um grupo de doentes, a um comanda estreitamente o conteúdo persuasivo do discurso.
grupo de especialistas como se fosse um público leigo. A com- O gênero agrupa obras que apresentam características fim-
petência distingue não só os conhecimentos necessários como damentais em comum: tragédia, poema lírico, tese, etc. Sem
também o nível de argumentação e até o vocabulário. dúvida é impossível fazer uma classificação exaustiva dos gê-
Em quarto lugar, pela ideologia, seja ela política, religiosa neros, porém o mais útil para a leitura retórica é a comparação.
ou outra. Pois não é só o argumento que muda segundo a ideo- Se quisermos determinar as características de um gênero, pre-
logia; o vocabulário também. '; cisamos perguntar o que o distingue do gênero mais próximo;
Orador, auditório: é impossível que um se dirija ao outro por exemplo o melodrama da tragédia, a novela do romance, a
se não houver entre ambos um acordo prévio. De fato, não há aula da conferência.
diálogo, nem mesmo argumentação, sem um entendimento mí- Nossa tese, inspirada no livro de Angenot, Le discours
nimo entre os interlocutores, entendimento referente tanto aos pamphlbaire, é de que o gênero enseja não só injunções de es-
fatos quanto aos valores. Pode-se até dizer, sem paradoxo, que tilo, extensão e vocabulário, mas também injunções ideológi-
o desacordo só é possível no âmbito de um acordo comum. cas. Segundo a escolha que se faça, de tratar um assunto na for-
Assim, as controvérsias entre católicos e protestantes, no sécu- ma de ensaio ou de panfleto, não se dirá a mesma coisa, não se
144 INTRODUÇÃO A RETÓRICA LEITURA RETÓRICA DOS TEXTOS 145

tirarão as mesmas conclusões. O gênero circunscreve o pensa- Un loup survient à jeun, qui cherchait aventure,
mento. Et que lafaim en ces lieux attirai!.
"Vamos mostrar isso", comparando dois textos. São da mes- "Qui te rend si hardi de troubler mon breuvage?
ma época: Pascal morreu em 1662; o primeiro livro das Fábu/as Di! cet animal plein de rage:
foi publicado em 1668. Falam do mesmo assunto, que se pode- Tu seras châtié de ta téméri!é.
ria resumir pela expressão alemã das Faustrecht, o direito do
- Sire, répond l'agneau, que Votre Majesté
Ne se mette pas en coÜ?re;
punho, o que é um oxÍmoro. Mas não dizem a mesma coisa,
Mais plutõt qu 'elle considere
precisamente porque não são do mesmo gênero; e por mais que Que je me vas désaltérant
o gênio dos dois autores transgrida as "leis do gênero" nem por Dans le courant
isso este deixa de inflectir o pensamento deles; tanto é verdade Plus de vingt pas au-dessous d'Elle;
que adotar um gênero é não só "assinar um contrato com o lei- Et que par conséquent, en aucune façon,
tor"2 como também ingressar numa visão de mundo. Je ne puis troub/er sa boisson.
- Tu la troubles, repri! cette béte cruelle;
Et je sais que de moi tu médis I 'an passé.
- Comment I 'aurais-je fai! si je n 'étais pas né?
Texto 3 - Pascal, "Justiça, força" (Br. Min. N.0 298, p. 470)
Reprit l'agneau;je téte encore ma mere.
Si ce n 'est toi, c'est donc ton frere.
Je n 'en aipoint. - C'est donc quelqu'un des tiens;
É justo que o justo seja seguido, é necessário que o mais
Car vous ne m 'épargnez guere,
forte seja seguido. A justiça sem força é impotente; a força sem
Vous, vos bergers et vos chiens.
justiça é tirânica. Ajustiça sem força é contraditada porque sem-
On me I'a di!: il faut que je me venge. "
pre há perversos; a força sem justiça é acusada. Portanto, é pre-
Là dessus, au fond des foréts
ciso juntar justiça e força; e, para isso, que seja forte aquilo que é
Le loup I 'emporte et puis le mange,
justo, ou que seja justo aquilo que é forte.
Sans autre forme de proces.
A justiça está sujeita a discussões, a força é facilmente
reconhecível e não se discute. Assim, não se pôde dar força à
A razão do mais forte é sempre a melhor razão:
justiça, porque a força contradisse a justiça, dizendo que esta era
É o que vamos mostrar agora.
injusta, e que só ela mesma era justa. E assim, não podendo
fazer que o justo fosse forte, fez-se o forte ser justo. Um cordeiro a sede matava
Numa corrente de água pura.
Chega emjejum um lobo, à busca de aventura,
Lobo que a fome a tal lugar levava.
"Estás turvando minh' água. Que atrevimento!
Texto 4 - La Fontaine, "O lobo e o cordeiro", Fábulas, 1,10 Disse aquele animal raivento:
Serás castigado por tal temeridade.
La raison du plus fort est toujours la meilleure: Resp.onde o cordeiro: - Que Vossa Majestade
Nous I 'allons montrer tout à I 'heure. P Não se deixe destarte irar;

Pois antes cabe considerar


Un agneau se désaltérai! Que esta água que vou tomando
Dans le courant d'une onde pure. Desce escoando
146 INTRODUÇÃO A RET6RICA LEITURA RET6RICA DOS TEXTOS 147

Por vinte passos após vós; Apóia-se num acordo prévio que possibilita o desacordo; esse
E que por conseguinte não posso jamais acordo é a filosofia de Descartes, que opõe categoricamente
Turvar a água que tornais. as duas "substâncias": corpo e pensamento. Ora, como ajusti-
- Mas turvas, respondeu aquela fera atroz;
ça está do lado do pensamento, que é infinitamente superior
E bem sei que me difamaste ano passado.
- Como, senhor, se eu nem tinha sido gerado?
ao corpo, Pascal pode estabelecer um argumento de dupla hie-
Se inda mamo, disse o cordeiro a mais. rarquia:
Se tu não és, é teu irmão.
Se não os tenho. - É um dos teus então;
Pensamento > corpo,
Porque vós não me poupais,
Vós, vosso pastor e o cão. portanto
Contaram-me: cumpre a vingança agora."
E para a mata e seus recessos Justiça > força.
O lobo o carrega e devora,
Sem outra forma de processo. Partindo desse argumento, admitido por seus leitores, Pascal
vai mostrar que estamos numa situação absurda, insustentável,
porque, mesmo não declarando e nem sequer estando cientes,
invertemos a hierarquia natural. Aqui encontramos a atitude
Situação dos dois textos central de Pascal: levar o homem sem Deus a compreender e
sentir o absurdo de sua condição, de que nenhuma filosofia po-
o texto de Pascal é um "pensamento", que poderia ser de dar consciência.
classificado no mesmo gênero dos "aforismas" de Nietzsche e
das "considerações" de Alain. Todavia, é preciso levar em con- Quando ele se gaba, eu o rebaixo; quando se rebaixa, eu o
ta o projeto do autor: escrever uma "Apologia da religião cris- gabo; e sempre o contradigo, até que ele entenda que é um mons-
tã", cujo rascunho é constituído por Pensées e tudo o que nos tro incompreensível. (p. 216; o "ele" é "nós"!)
ficou dessa obra!
O gênero apologético, que começa com a Apologia de Só- Em resumo, toda "apologia" repousa na antítese entre nos-
crates e viceja em nossos dias com os Ce que je crois ... [Aquilo sa grandeza e nossa miséria, nossa grandeza de direito, como
em que acredito ... ], pertence na verdade ao epidíctico dos anti- criaturas de Deus, e nossa miséria de fato, como pecadores de-
gos. Visa a persuadir de um valor fundamental, unindo uma ar- pois da queda de Adão. Antítese filosófica que o gênio de Pas-
gumentação mais ou menos rigorosa a um testemunho que en- cal toma retórica, como demonstra o quiasmo final: justo-forte-
gaja o autor: "Deus existe, encontrei-me com ele." jorte-justo.
A quem Pascal se dirige? Àquilo que se chamava de "hon- Situemos agora a fábula. Em princípio, a fábula é uma ale-
nêtes gens" em seu tempo, mais precisamente aos libertinos*. goria que se reputa capaz de ilustrar, de mostrar, uma verdade
moral. Portanto, é essencialmente pedagógica, e, aliás, o autor
destina sélllivro I às crianças.
* Termo designativo dos cristãos que, no século XVI, iniciaram e de-
senvolveram correntes de independência religiosa em relação à Igreja Cató-
No entanto, a justificativa oficial da fábula, pela moral, já
lica. Mais tarde esse termo, que dá idéia de liberdade, adquiriu conotação de não se sustenta em La Fontaine. Em primeiro lugar, porque a
vida dissipada e anti-religiosa. (N. do T.) alegoria é muitíssimo mais longa do que aquilo que diz demons-
148 INTRODUÇÃO A RETÓRICA LEITURA RETÓRICA DOS TEXTOS 149
trar, a "moral"; parece que, para o autor, ela se transformou mente. Pode-se objetar que a força também é enfraquecida pe-
num fim em si, na alegria de encenar; mas, justamente, essa los conflitos com outras forças. Mas basta que ela seja reco-
maravilhosa encenação é ao mesmo tempo um prazer e uma nhecível, que se saiba onde está, ao passo que isso não aconte-
lição. Em segundo lugar, porque a moral não é a que se espera- ce com a justiça. Portanto, a força pôde explorar essa dupla ca-
va; em Fedro, modelo latino do autor, a mesma fábula termina- rência e apropriar-se da justiça, dizendo "que só ela mesma era
va assim: justa". Conseqüência: a humanidade, sempre e em todo lugar
[sujeito indeterminado no texto], só pôde tomar o segundo ca-
Esta fábula é escrita contra aqueles que, com falsas alega-
minho, em que o justo é posto a serviço do forte, substituindo
ções, oprimem os inocentes.
assim a justiça por sua falsificação.
La Fontaine, ao contrário, não denuncia; apenas enuncia. E a O que Pascal mostra não é que a força reina sobre o direi-
única "moral" que aparece na fábula é francamente imoral. to, pois esse reinado nada mais teria de humano, e sim que a
Rousseau afirmava que essas fábulas não convêm em absoluto força reina porque está disfarçada de direito.
às crianças; como psicólogo, estava coberto de razão; como
pedagogo, completamente errado; pois, se às crianças fosse Em La Fontaine, a argumentação se dá em dois níveis.
ensinado apenas o que é "para crianças", não se iria muito Primeiro, no nível do narrador: Jilmos mostrar... Na ver-
longe ... dade ele não mostra nada, pois não se pode extrair de um exem-
Em todo caso, La Fontaine utiliza o gênero "fábula" trans- plo apenas, e o mais fictício, uma lei universal: é sempre ... É de
gredindo-o; para ele, a pedagogia não passa de pretexto. Ape- duvidar que La Fontaine tenha achado seriamente que estava
sar disso, ensina tanto quanto Pascal, mas de outro modo. mostrando alguma coisa, e sobretudo que tenha acreditado pes-
soalmente que a razão do mais forte é sempre a melhor. A
nosso ver sua argumentação é puramente irônica; em outras
A argumentação dos dois textos palavras, o que ele mostra é tão enorme que o que se impõe é a
tese contrária.
A argumentação de Pascal é ao mesmo tempo clara e den- No segundo nível, a argumentação dos dois interlocutores.
sa. Opondo as duas formas de seguir, por razão e por necessi- A do lobo é o próprio discurso da má-fé. A do cordeiro, que
dade (no sentido de inevitável), mostra que ambas são insufi- começa com uma preparação psicológica (que Vossa Majes-
cientes, e que só existem unidas. Sozinhas, a justiça é impoten- tade... ) é uma demonstração (em sentido estrito) um tanto pe-
te e a força é odiosa, porque ilegítima. A humànidade, portan- dante, mas evidente: é fisicamente impossível turvar a água do
to, só pode sobreviver associando-as. A questão é saber qual lobo. Este limita-se a responder: Mas turvas, o que é uma apo-
das duas sobrepujará a outra, o que exprime o primeiro quias- dioxe, uma recusa pura e simples do argumento contrário.
mo: subordinar o forte ao justo ou o justo ao forte? No entanto - e talvez aí apareça a verdadeira lição da fá-
Ora, o homem de fato escolheu o segundo termo, e Pascal bula -, a coisa não é tão simples. O lobo, afinal, se acha obriga-
explica por quê. Acontece que um elemento veio romper o do a argumentar. O fato de ter a força e de ter fome não lhe
equilíbrio. Diante da força, a justiça padece de carência; não de basta; superioridade é da ordem do necessário, e o lobo se
uma, mas de duas: ela não só é impotente, como também está querjusto, nem que seja com maus argumentos; Bem sei que...
sujeita a discussões, ou seja, é fraca mesmo em sua própria Se não és... é então... Porque... : cada frase é justificada, o que
ordem, o pensamento. Enquanto isso, a força é o que é, plena- prova que o lobo não só precisa comer como também ter razão.
INTRODUÇÃO À RETÓRICA LEITURA RETÓRICA DOS TEXTOS 151
150
opõe-se ao estilo épico e ao trágico, mas também à secura da
O que torna a fábula singularmente complexa é que o lobo aca-
ba trazendo à tona um argumento totalmente convincente: Por- fábula antiga. Note-se ainda a extrema economia de meios em
que vós não me poupais... E é verdade; se agarrado pelos pas- Pascal; seu quiasmo, por exemplo, nada tem de ornamentação;
tores, o lobo seria morto. Por isso, segundo as regras da justiça, é o próprio movimento do pensamento. É bem uma figura de
ele tem direito de matar o cordeiro. Para Louis Marin3, o lobo conteúdo, independente em princípio do autor e da situação, no
pertence ao mundo da natureza, e o cordeiro ao mundo da cul- sentido de que, se quisermos dizer a mesma coisa, não podere-
tura; e entre os dois não é possível arbitragem alguma: só vale a mos dizer de outro modo; o quiasmo tem a mesma necessidade
lei do mais forte. de uma fórmula matemática como a x b = b x a.
Em suma, o lobo dá a verdadeira justificativa. Mas La O humor do fabulista é, ao contrário, figura da enuncia-
Fontaine decerto percebeu que, se ficasse nisso, a fábula se tor- ção. Não há humor sem humorista, e o "tom" do fabulista su-
naria trágica, e deixaria de ser fábula. Por isso, logo completa o gere que a fábula não seja lida no primeiro grau. O fato é que,
argumento com Já me contaram, que, em vez de reforçar, des- apesar da diferença de estilo, os dois textos dizem mais ou
trói o argumento, pois o que era uma evidência natural, que não menos a mesma coisa. Mas só "mais ou menos". Observemos
exigia comprovação - a luta mortal entre lobos e homens - as diferenças.
acaba sendo uma simples opinião, um dizem ("dizem que dois A primeira delas, menor na aparência, diz respeito ao tem-
e dois são quatro"!). Argumento fraco e pouco coerente do ho- po dos verbos. La Fontaine procede por uma seqüência de ená-
mem enfurecido. lages: matava a sede... chega ... O presente, insólito, é aspec-
Fato é que o lobo faz uma defesa, apresenta sua decisão - tual; marca o acontecimento, a surpresa. Assim também a de-
cumpre [a vingança] - como resultado de uma argumentação sordem dos marcadores de narrativa: responde, respondeu, e o
que a torna legítima. Note-se que ela se apóia num endoxon da presente narrativo do fim: carrega-o. Essas figuras contribuem
época, ou seja, que a vingança pode ser um dever, algo que para a vivacidade da narrativa.
cumpre realizar. E o sem outra forma de processo, subenten- Pascal, por sua vez, começa no presente e passa brusca-
dendo que houve processo, acentua ainda mais essa ironia. mente para o perfeito: Assim, não se pôde dar. .. , também próxi-
Em suma, antítese trágica mas clara em Pascal, ironia pra- mo do estilo oral. Mas, neste caso, já não estamos na ficção; o
zenteira mas túrbida em La Fontaine: tão túrbida quanto a pró- tempo tem valor cronológico absoluto, o que distingue a apolo-
pria vida. Talvez caiba mais falar de humor. gia tanto da fábula quanto da exposição filosófica intemporal:
Penso, logo ... Pois Pascal descreve um acontecimento, algo que
surgiu no tempo, depois da queda de Adão. Seu primeiro pará-
Observações sobre o estilo dos dois textos
grafo era filosófico: análise lógica. O segundo é histórico, por-
que teológico.
A elocução, portanto o estilo, acentua de modo impressio-
A segunda diferença diz respeito à personificação. É a
nante a diferença entre os dois gêneros. A fábula é em versos, o
essência da fábula; curiosamente, Pascal se aproxima disso,
pensamento é em prosa. Mas, também neste caso, o gênio
pois sua metonímia aforça ... dizendo que equivale a personifi-
transgride o gênero, e os dois autores reduzem a oposição. Pois
car a força, o que torna trágico o debate. A força que fala aqui é
ambos se aproximam do estilo oral. Com suas frases curtas e
o discurso dos fortes, que não tem outro peso senão o da força
seus assíndetos, Pascal opõe-se aos períodos de Bossuet. E La
deles. A força que fala na fábula é o lobo.
Fontaine, com seus versos irregulares, seu andamento vivaz,
INTRODUÇÃO A RETÓRICA
LEITURA RETÓRICA DOS TEXTOS 153
152
A moral da fábula expressa, pois, o necessário de Pascal:
o que dizer desse lobo e de outros todo bajulador... segundo fores poderoso ou miserável... Às
rias? Antes vale dizer: símbolos, porque passIveIs de vanas In-
vezes ela valida de modo preocupante esse primado do neces-
terpretações. O lobo é o "marginal" que, arriscando-se a sentir
sário. Assim, em "O lobo pastor":
medo e passar fome, preferiu a liberdade à coleira do cão. O
lobo também é o poderoso, aquele que o cordeiro chama - não o que é falso de algum modo sempre aparece.
sem razão - de Majestade ... La Fontaine, que de ordinário exi- Quem for lobo aja como tal:
be uma deferência total pelos monarcas, não os está aqui des- Pois isso é o mais certo, afinal.
mascarando em sua verdade? Afinal, o lobo e o cordeiro sim-
bolizam certa relação entre os homens, ou mesmo certa relação Apesar disso, pudemos demonstrar que a fábula, por ofe-
no homem, pois não somos nós ora cordeiros, ora ani- recer interpretações muito diversificadas, é também o antídoto
mal da fábula exprime nossa natureza em seu detenmmsmo do maniqueísmo: o lobo não está completamente errado ...
inexorável: homens conduzidos pelo aquém de si mesmos, sem A apologia, com suas antíteses e seus quiasmos, é o gêne-
remissão. ro da grandeza, mas também da negação. Para ela, o homem é
O mesmo pessimismo visto em Pascal, tirando o trágico. coisa diferente do que é, ou melhor, daquilo que acha que é. O
projeto do apologista, seja ele Sócrates ou Pascal, é antes de
tudo perturbar, para levar o homem a superar seu ponto de
Os dois gêneros e seu impacto ideológico vista, a olhar para outro lugar, para um além de si mesmo.
Mas, quando a apologia contradiz ou protesta, a fábula
Nossos dois autores, escolhendo um a apologia e o outro a lança um olhar resignado e brincalhão. Por isso é menos ironia
fábula, não poderiam chegar a conclusões idênticas .. Pois a esco- - que denuncia o mundo em nome de uma verdade superior -
lha de um gênero não é apenas a escolha de um estIlo e de uma que humor, pois limita-se a descrever o mundo em seu absurdo.
argumentação. É necessariamente uma escolha ideol?gica, Não diz o que está certo, nem o que está errado, diz o que é. Só
acarreta certa visão do mundo e do homem. Pascal nao podena conhece este mundo, e adverte-nos de suas ciladas enquanto
ter expresso seu pensamento em forma de fábula. Por quê? nos diverte. A ética da fábula é reacionária, pois ensina a resig-
A fábula pretende exprimir certa natureza do homem pela nação. Mas com que felicidade!
interpretação dos animais e das árvores, que falam uma lingua-
gem familiar, pitoresca, muitas vezes cômica: uma
e um diálogo. É a rejeição absoluta tanto da grandeza epIca Questões sobre o texto
quanto da profundidade filosófica; o que ela põe em é .0
homem, mas o homem subjugado pela ação das forças ammaIS Uma questão inicial importante é, evidentemente, a da
que tem em si. E, mesmo quando a fábula home?s. em disposição, do plano do texto; voltaremos a ela em nossos co-
cena, eles são tão pouco livres para mudar, sao tao mecanICOS mentários. Aqui observaremos que os textos muitas vezes são
quanto os animais. Assim, em "O homem e a cobra": apenas excertos, não havendo portanto propósito em buscar a
todo cusfle uma introdução e uma conclusão, que poderiam
Ouvindo isso, o animal perverso perfeitamente estar em outro lugar.
(Estou falando da serpente, Outra questão inicial: estamos diante de que tipo de argu-
e não do homem: fácil seria enganar-se) ... mentação? Segundo Aristóteles, há dois tipos, duas estruturas
154 INTRODUÇÃO À RETÓRICA LEITURA RETÓRICA DOS TEXTOS 155

argumentativas, e apenas duas: o exemplo, que vai do particu- todos os tiranos conhecidos para o tirano em geral, principal-
lar ao geral, do fato à regra, sendo portanto uma indução, e o mente porque a palavra "tirano" não é unívoca: Dionísio não era
entimema, que vai do geral ao particular, sendo portanto uma tirano como era Hitler!
dedução. O exemplo não permite provar que uma proposição é uni-
Cabe lembrar que o texto 1, de Górgias, pretende provar versal; só pode provar que uma proposição não é universal, que
por dois exemplos o poder da retórica, enquanto no texto 2 não pode começar com sempre nem com nunca. Mas, para essa
Aristóteles prova a utilidade da retórica por meio de entimemas. prova negativa, basta um único exemplo; basta mostrar que um
remédio não curou uma vez para demonstrar que ele nem sem-
pre cura. A função lógica do exemplo é negativa, serve para
o que prova o exemplo? infirmar.
Mas na argumentação serve também para confirmar, fun-
Em retórica, o exemplo (paradeigma) tem sentido bem ção positiva que não tem na demonstração: a de tomar plausí-
mais amplo que o do nosso banal "exemplo". É uma indução vel um enunciado, como vimos com Aristóteles (cf. Tópicos,
dialética, que vai do fato ao fato, passando pela regra subenten- VIII, 2, 157 a, 158 a e 160 b). Assim, em justiça, se houver um
dida. Aristóteles mesmo dá o seguinte exemplo de ... exemplo: acúmulo de acusações contra um réu, compete a este produzir
quer-se provar que Dionísio (político de Siracusa) aspira a tor- um contra-exemplo (como um álibi), caso contrário será consi-
nar-se tirano. Parte-se de um fato verificado: Dionísio pede derado culpado e até condenado.
uma guarda pessoal. Ora, sabe-se que todos os tiranos conheci-
dos da história começaram a carreira pedindo uma guarda.
Portanto, pode-se inferir que Dionísio também se tomará tira- Entimema
no. Portanto, prova-se esse fato (futuro) com uma regra que
pôde ser estabelecida a partir de fatos passados: "Todo aspiran- Passemos agora à vertente dedutiva da argumentação, ao
te à tirania pede uma guarda pessoal" (Retórica, I, 2, 1357 b). silogismo. Pode-se considerar o silogismo como uma velharia
O problema então é saber se a própria regra é comprovada escolar, mas isso não impede que ele esteja sendo feito o tempo
pelos fatos invocados com esse objetivo. Admitindo-se que todo, como o alter da prosa. Quando o lobo diz:
todos os políticos conhecidos, que pediram uma guarda, toma-
ram-se tiranos, poder-se-ia dizer que isso sempre acontecerá, Estás turvando minh'água. Que atrevimento!
notadamente com Dionísio? Observe-se que o elo entre guarda
e tirania talvez fosse um elo de causalidade na cidade grega; já esse minha condensa um polissilogismo: turvar o que é meu é
não o é hoje, pois mesmo nas democracias acha-se natural que I atrevimento (sacrilégio). Ora, essa água é minha; tu a estás tur-
os estadistas tenham uma guarda pessoal. Então, o que o exem- vando; logo ...
plo pode provar? O silogismo utilizado pela argumentação cotidiana cha-
Em primeiro lugar, o exemplo é realmente demonstrativo ma-se entimema; emprega-se esse termo para distingui-lo do
quando se pode mostrar que os casos são em número limitado, silogis11lO demonstrativo. As premissas do entimema não são
e que a regra se aplica a todos. Mas na argumentação o conjun- proposições evidentes, mas nem por isso são arbitrárias; elas
to dos casos na maioria das vezes é ilimitado; portanto, a indu- são endoxa, proposições geralmente admitidas, portanto veros-
ção não é possível; não se pode passar de maneira lógica de símeis. Recordemos o texto 2, de Aristóteles:
156 INTRODUÇÃO A RETÓRICA LEITURA RETÓRICA DOS TEXTOS 157

Além disso, se é vergonhoso não poder defender-se com o partes - é de natureza indutiva ou dedutiva, se os. se, pois
próprio corpo, seria absurdo que não houvesse vergonha em não portanto ... que contém anunciam exemplos ou enhmemas. FI-
poder defender-se com a palavra, cujo uso é mais próprio ao ho- nalmente se examina se a argumentação não é sofistica, ou
mem que o do corpo. seja, se ela não pede aos argumentos mais do que eles podem
provar.
Também neste caso trata-se de um polissilogismo implíci-
to, que, como vemos, se apóia em dois endoxa: o uso da pala-
vra é mais próprio ao homem que o do corpo; é vergonhoso o intertextual, o intratextual e o motivo central
não poder defender-se fisicamente. Este último aspecto podia
ser considerado evidente no tempo de Aristóteles; já não é evi- Sem chegarmos a afirmar, como Kibédi-Varga, que todo
dente para nós, que não achamos desonroso chamar a polícia discurso responde a uma pergunta\ admitiremos .que ele
quando somos atacados fisicamente ... pre replica - explicitamente ou não - a outros dIscursos, seja
Entimema, silogismo do verossímil, mas também silogis- apoiando-se neles, seja refutando-os, seja completando-os.
mo abreviado, cujas premissas enunciadas - como no caso do alusão é a figura da intertextualidade; isso acontece quando dI-
texto de Aristóteles - são apenas as necessárias. Assim, em vez zemos que todos fazem silogismos sem saber, "como o alter da
do silogismo completo: prosa".
Não entraremos aqui nas complexas discussões sobre a
Maior: todo homem é mortal; intertextualidade. Simplesmente distinguiremos o intertextual
Menor: Sócrates é homem; do intratextual. Este último é a presença explícita de outro dis-
Conclusão: Sócrates é mortal, curso no discurso. Presença que se manifesta de duas maneiras.
Primeiro pela citação, que pode servir para apoiar o ora-
limitamo-nos a dizer: "Por ser homem, Sócrates é mortal." O dor, constituindo então um verdadeiro argumento de autorida-
próprio Aristóteles diz: quando uma premissa é evidente para de, ou então pode servir de destaque, de prova contra o
todos, é supérfluo enunciá-la (Retórica, I, 2, 57 a). No entanto, sário: "Vejam o que ele ousa dizer!" Finalmente, pode serVIr de
se omitida, será simplesmente por ser supérflua? documento de análise, como ocorre em nossos textos.
Assim, o slogan francês lançado pelo governo antes da Depois pela fórmula, cuja autoridade, ao contrário, vem
derrota de 1940, venceremos porque somos os mais fortes, é do anonimato. Mais vale um "toma" que dois "te darei" é um
um silogismo abreviado, cuja premissa maior (os mais fortes adágio; não é o pensamento de alguém; é a verdade de
sempre vencem) é omitida. Mas, na realidade, se ela tivesse expressa pela "sabedoria do povo". A fórmula pode ser adaglO,
sido enunciada, o slogan não teria sido enfraquecido? De fato, provérbio, máxima, slogan; este último, por sua vez, pode ser
os franceses poderiam ter-se perguntado se os mais fortes real- publicitário, político ou ideológico, como Inimigo hereditário,
mente sempre ganham, notando então que um princípio desses Faça o amor e não a guerra, Black is Beautiful. Em todos os
tem desagradável semelhança com os princípios do inimigo casos a fórmula é uma frase curta, incisiva, fácil de guardar,
hitlerista. cuja ftmção é resumir um pensamento complexo, dando-lhe
Tecnicamente, há outras teorias lógicas diferentes da aris- mais força justamente por ser resumido. Cerne do discurso, a
totélica, a começar pelas estóicas. Mas, para a leitura retórica fórmula contém o fecho daquilo que é retórico; Morrer por
dos textos, basta perguntar se o discurso - ou alguma de suas Danzig ... : o slogan dos pacifistas de direita em 1939 não admi-
158 INTRODUÇÃO A RET6RICA LEITURA RET6RICA DOS TEXTOS 159

tia réplica; era inútil argumentar com um "não se deve", ou Il entra sur le pont d 'Arcole,
"convém evitar", pois ninguém teria ousado sustentar o contrá- fi en sortit. -
rio! Em suma, a fórmula é um argumento condensado que se Voiei de I'or, viens pille et vole,
torna peremptório graças à forma, à concisão e à felicidade Petit, petit.
estilística. Tudo o que se pode fazer é opor-lhe outra fórmula:
§ 3 Berlin, Vienne étaient ses maitresses;
files forçait,
Porvir radioso - Porvir tenebroso.
Leste, et prenant les forteresses
Par le corset.
Finalmente, diante de um texto, sempre há interesse em Il triompha de cent bastilles
perguntar se ele não tem um motivo central. Entendemos por Qu 'il investit.-
motivo central um procedimento retórico, figura ou argumen- Voiei pour toi, voiei des filies,
to, que serve de princípio organizador para o texto, que permite Petit, petit.
dizer: é ironia, é alegoria, é argumento de autoridade, etc. As-
sim, o motivo central de nosso texto 1 (Górgias) é a hipérbole, § 4 Il passait les monts et les plaines,
uma hipérbole irônica, pois Górgias atribui aos retores poderes Tenant en main,
tão espantosos que custa acreditar. O do texto 3 (Pascal) é o La palme, la foudre et les rênes
Du genre humain.
quiasmo. É certo que não se pode distinguir um motivo central
fi était ivre de sa gloire
em todos os textos, mas é útil procurar um, porque, encontran-
Qui retentit. -
do-o, encontramos logo a unidade viva do discurso. Aí vai um Voiei du sang, accours, viens boire,
exemplo. Petit, petit.

§ 5 Quand il tomba, lâchant le monde,


L 'immense mer
Texto 5 - Victor Hugo, "Chanson", 1853, Les châtiments, Ouvrit à sa chute profonde
VII, 7 Son goujJre amer;
Il y plongea, sinistre archange,
§ f Sa grandeur éblouit I 'histoire. Et s 'engloutit.-
Quinze ans, ilfut Toi, tu te noieras dans lafange,
Le dieu que traínait la victoire Petit, petit.
Sur un ajJut;
L 'Europe sous sa loi guerriere § 1 Sua grandeza ofuscou a história.
Se débattit.- Quinze anos foi
Toi, son singe, marche derriere, Deus levado pela vitória
Petit, petit. Sobre um arrnão;
Sob sua lei guerreira a Europa
§ 2 Napoléon dans la bataille, P Se debateu. -
Grave et serein, Tu, seu símio, marchas atrás,
Guidait à travers la mitraille Ó pequenino.
L 'aigle d'airain.
160 INTRODUÇÃO A RET6RICA LEITURA RET6RICA DOS TEXTOS 161

§ 2 E Napoleão na batalha, Qual é o gênero desse poema? Curiosamente, parecem ser


Grave e sereno, dois. O título indica "Chanson" [Canção], e, pela forma, real-
Guiava através da metralha mente é uma canção: ritmo leve, com alternância de versos de
A águia de bronze. oito e quatro pés, redundâncias, sintaxe solta, sentido às vezes
Ele entrou na ponte de Árcole, subordinado à rima - versos 6 dos §§ 1 e 3 -, descuidos até de-
Dela saiu.- sejáveis no estilo "canção". Finalmente, o mais importante é o
Eis aqui ouro, pilha e rouba, refrão, só que, onde se esperava alguma espécie de "dondin-
6 pequenino. dondão", tem-se Petit, petit, amplificado pela necessidade de
ser dito quase duas vezes mais devagar que o verso anterior.
§ 3 Berlim, Viena, suas amantes;
Pois a canção está a serviço de outro gênero.
Ele as forçava,
Lesto, tomando fortalezas É a diatribe, modo epidíctico mas negativo. Victor Hugo
Pela cintura. recorre, portanto, à forma ligeira e sem rodeios da canção para
Ele triunfou de cem bastilhas dar maior destaque à violência de suas imprecações. Como ex-
Que atacou. - plicar essa curiosa dualidade de gêneros?
Eis aqui as moças, são tuas, Pelo motivo central, justamente, a antítese. O poema co-
6 pequenino. meça com Sua grandeza [Sa grandeur] e acaba com pequenino
[petit]. A antítese entre tio e sobrinho retoma a cada estrofe,
§ 4 Transpunha montes e planícies, mas com forma um pouco diferente, verdadeira expolição:
Tendo na mão § 1, deus e seu símio; § 2, guia e ladrão; § 3, conquistador e ve-
As palmas, o raio e as rédeas
nal; § 4, homem glorioso e covarde cruel; § 5, queda grandiosa
Da espécie humana.
Inebriava-se de sua glória
e fim ignóbil.
Que retumbou. - A antítese não é maniqueísta, pois o próprio Napoleão é
Eis aqui sangue, vem beber, culpado, e deve ser castigado. Mas, mesmo em sua queda, çon-
6 pequenino. tinua grande, como indica o oxímoro sinistro arcanjo.
Tu é a apóstrofe que surge a cada refrão - na verdade o
§ 5 Quando caiu, largando o mundo, poema é dirigido ao grande público -, e a apóstrofe se especifi-
o mar imenso ca em epítropes: pilha e rouba, vem beber, que fingem permitir
Abriu-lhe na queda profunda que o tirano pratique atos ignóbeis para sugerir que ele é capaz
Seu pego amargo; desses atos: tu, ao passo que Ele ...
Lá mergulhou, sinistro arcanjo, As outras figuras, numerosas, amplificam mais a antíte-
Nele engolfou-se. -
se. As metonímias possibilitam a criação de símbolos: Aguia
Tu, tu te afogarás na lama,
6 pequenino. de bronze, raio e rédeas, além da mais nova, armão, símbolo
do exército em guerra, a que se opõem as metonímias do re-
frão: OUfO - sangue. As sinédoques - da espécie humana (§
Les châtiments [Os castigos] denunciam Napoleão III 4), o mundo (§ 5) - possibilitam a hipérbole e sobretudo a per-
como um abominável tirano que subiu ao trono por meio de um sonificação: a história que ele ofusca (§ 1); a vitória, que o le-
crime, o golpe de Estado de 2 de dezembro de 1851. vava (§ 1).
162 INTRODUÇÃO À RETÓRICA Capítulo VIII
Como identificar os argumentos?
Personificação também pelas metáforas: O deus -largan-
do o mundo - cem bastilhas - engolfou-se, e principalmente pe-
las metáforas expandidas: Amantes -forçava - cintura, o mar
imenso abriu, etc.
Personificação: nota-se que o tio sempre está ligado, mes-
mo quando se trata de abstrações, a poderes personificados, ou
mesmo divinizados, enquanto ao sobrinho só tocam matéria e
coisas inertes: sangue, ouro, lama ... introduzidas por Eis aqui.
Assim, as cidades transformam-se em mulheres, que Napoleão
conquista, enquanto as mulheres do símio são apenas moças,
mercadoria venal. Como identificar os argumentos que contribuem para tor-
Em resumo, tudo está a serviço da antítese, até a oposição nar persuasivo um discurso? Para responder, utilizaremos a
entre o estilo épico das estâncias e o estilo seco, entrecortado, classificação do Traité de I 'argumentation [Tratado da argu-
do refrão. A antítese, como dizíamos, é o oposto no mesmo: mentação (TA)] de Perelman-Tyteca.
aqui o mesmo é representado pela estrutura idêntica das estro- A bem da verdade, já encontramos uma classificação dos
fes, das quais o tio ocupa sempre três quartos, e pela repetição argumentos, a de Aristóteles, que os divide em: indutivos (exem-
depetit. pio) e dedutivos (entimema); será preciso criar mais uma?
É possível encontrar argumentos nessa canção? Sim, exem- Sim, porque Aristóteles não trata da forma da argumenta-
plos e um argumento maciço de incompatibilidade; o poema ção, da relação entre as premissas. O TA, ao contrário, estuda o
ridiculariza a pretensão do déspota a ser um segundo Napoleão, conteúdo das próprias premissas, define tipos de argumentos
quando não passa de seu símio. Mas o argumento não é marca- (lugares) que permitem propor uma premissa, mais precisamen-
do, pois, como quer a lei do gênero, a canção é paratáctica, ou te uma premissa maior, à qual se pode depois subsumir o caso
seja, sem nexos lógicos expressos; por exemplo, o assíndeto do em questão. Por exemplo, a frase de Leibniz:
§ 2: entrou ... saiu.
Pergunta: Napoleão III foi realmente esse tirano abjeto e Tendo cuidado dos pássaros, Deus não negligenciará as
sanguinário? Seria bom matizar. Principalmente porque, em criaturas racionais que lhe são infinitamente mais caras ... (in TA,
matéria de tirania, houve tanta gente mais competente depois p.456)
dele que chegamos a pensar que o poeta talvez tenha desperdi-
çado talento. Mas, em retórica, o que importa é o talento. é um entimema que se baseia numa premissa maior implícita: o
que Deus concede às criaturas insignificantes também concede
1s criaturas nobres; premissa maior validada por um argumen-
to afortiori;
O TA distingue então quatro tipos de argumentos:

- os quase lógicos, do tipo "um tostão é um tostão";


_ os que se fundam na estrutura do real, como o argumento a
fortiori
- os que fundam a estrutura do real, como a analogia;
164 INTRODUÇÃO À RET6RICA
COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 165

As verdades são ainda menos diretas; são nexos necessá-


- os que dissociam uma noção, como o distinguo entre a aparên-
cia e a realidade. rios, como e = 1/2 GP, ou então são prováveis, como uma lei
tendencial.
Por isso, utilizaremos essa riquíssima análise, mas indo As presunções têm função capital, pois constituem o que
além do simples resumo. Tentaremos contribuir com exemplos chamamos de "verossímil", ou seja, o que todos admitem até
de nossa lavra e, eventualmente, com críticas. prova em contrário. Por exemplo, não está provado que todos
os juízes são honestos e competentes, mas admite-se isso; e, se
alguém desmente em tal ou tal caso, cabe-lhe o ônus da prova.
Os elementos do acordo prévio O verossímil é a confiança presumida.
Em todo caso, a presunção varia segundo os auditórios e
Vimos que não há argumentação possível sem algum acor- as ideologias. Assim, para um conservador, o costume não pre-
do prévio entre o orador e seu auditório. Quais são os elemen- cisa ser justificado, e sim a mudança. Para um liberal, o que
tos, as "premissas comuns" (TA, § 15), implícitas ou explícitas, não compete justificar é a liberdade, mas sim a coerção. Para
que constituem esse acordo? um socialista, a igualdade é de direito, cumprindo justificar a
desigualdade. O orador, portanto, precisa conhecer as presun-
ções de seu auditório.
Fatos, verdades, presunções
Os valores e o preferível
O acordo repousa primeiramente sobre fatos, e fatos já são
argumentos. Por exemplo, um jornalista que quer mostrar o ca-
Os valores estão simultaneamente na base e no termo da
ráter "antidemocrático" de nosso ensino cita uma estatística:
argumentação. Mais ainda que os fatos, variam segundo o
25% dos jovens franceses concluem o curso secundário, contra
auditório. É certo que há valores universais, mas estes são for-
75% de americanos (Vial, Le Monde, 4 de janeiro de 1985).
mais; toda sociedade admite o justo e o belo, mas com conteú-
No entanto, a noção de fato está longe de ser clara. O que
dos bem diferentes. De qualquer modo, essa pretensão ao uni-
é fato? A única resposta possível é: uma verificação que todos
versal é, em si mesma, um argumento; quem grita: "Franceses
podem fazer, que se impõe ao auditório universal, que parece
primeiro!" dirá que "isso é justo".
ser o caso de nosso "fato estatístico".
Será então preciso renunciar aos juízos de valor para atingir
Contudo, como todo argumento, o fato pode ser contestado.
a objetividade? Nos domínios da argumentação - jurídico, polí-
Como? Primeiramente recorrendo a pessoas competentes: espe-
tico, estético, ético, etc. - é impossível, pois neles todas as ques-
cialistas mostraram que o fato em questão é apenas aparente,
tões (inocente ou culpado; útil ou nocivo; belo ou feio; bem ou
assim como se provou que não é o Sol que gira em tomo da Ter-
mal) são formuladas em termos de valor. Digamos que, assim
ra. Depois, mostrando que o fato em questão é incompatível com
como os fatos, os valores são presumidos; todos admitem sem
outros fatos, comprovados. Finalmente, contestando o valor ar-
provas, h9je em dia, que o desemprego é uma calamidade, e a
gumentativo do fato, sua "interpretação"; em nosso exemplo,
quem sustentasse umjuízo de valor contrário competiria provar.
diremos que o nível do diploma do término do curso secundário
Perelman-Tyteca distinguem dois tipos de valores. Os va-
nos Estados Unidos nada tem que ver com o de nosso baccalau-
lores abstratos, como a justiça ou a verdade, que se fundam na
réat, que ele não permite entrar na universidade, etc.
166 INTRODUÇÃO A RET6RICA COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 167

razão; assim: "Devemos preferir a verdade aos amigos" (Aris- preocupa; quanto mais o sábio se eleva, mais se aproxima do
tóteles). E os valores concretos, como França, Igreja, que exi- uno, do ser verdadeiro, do valor absoluto. Descartes (cf. texto
gem virtudes como obediência, fidelidade: prefiro minha mãe 8) afirma que as obras perfeitas são aquelas em que "uma úni-
à justiça, dizia Camus. Um mesmo argumento pode combinar ca pessoa trabalhou". Excelente exemplo do lugar da unidade é
esses dois tipos: "Todos os homens são iguais porque são fi- o famoso título de Bossuet Variações das Igrejas protestantes,
lhos de Deus." que por si só é uma refutação do protestantismo: se ele fosse
Na verdade, quem diz valores diz hierarquia de valores. verdadeiro seria único. Na verdade, o argumento também vale-
Assim, prefere-se o justo ao útil, acredita-se ser melhor sacrifi- ria contra o cristianismo ...
car o cão que seu dono (Malebranche). A nosso ver, os outros lugares identificados pelo TA se
integram nos acima descritos, ou deles derivam: o lugar da or-
dem pertence ao da unidade; o lugar do existente, ao da quanti-
Os lugares do preferível dade (o que existe é superior à "quimera"); o lugar da essência,
ao da qualidade: superioridade do essencial em relação ao aci-
Como justificar as escolhas? Recorrendo a valores ainda dental, ao fortuito; fala-se assim, por exemplo, de um "belo ca-
mais abstratos, que o TA denomina lugares do preferível. Esses so" para se referir a uma doença interessante.
lugares expressam um consenso generalíssimo sobre o meio de
estabelecer o valor de uma coisa. Podem ser divididos em três
espécies. Figuras e sofismas concernentes ao acordo prévio
1) Lugares da quantidade: é preferível aquilo que propor-
ciona mais bens, o bem maior, o mais durável, ou ainda o que Segundo o TA, certas figuras contribuem para reforçar o
propicia o "mal menor". Por essa óptica, o normal- no sentido acordo prévio: figuras de escolha, como a definição oratória;
do mais freqüente - determina a norma, o obrigatório; assim, figuras de presença, como a epanalepse e principalmente a hi-
expressões como "É isso o que todos fazem", "isso o que todos potipose, que faz do espetáculo um argumento e do argumento
pensam", são dadas como argumentos, e, assim como Sócrates um espetáculo; figuras de comunhão, como a alusão, a pergun-
em Górgias, é preciso uma contra-argumentação para dissociar ta retórica, etc.
a norma do normal. Cabe mencionar, finalmente, dois sofismas referentes ao
2) Os lugares da qualidade têm sentido contrário. À per- acordo prévio. O primeiro é a ignoratio elenchi, ignorância do
gunta "De que vale o que não é eterno?", responde-se "Estime- contra-argumento oposto, ou ainda do verdadeiro assunto de de-
se tudo aquilo que não será visto duas vezes." Desse modo, o bate. Esse sofisma pode ser voluntário e tático, ou então passio-
único passa a ser o preferível; enquanto se despreza o banal, o 'nal: "Discute-se acaloradamente, e muitas vezes um não entende
intercambiável, " a sociedade de consumo", valoriza-se o raro, o outro" (Port-Royal, p. 243). Essa ignorância é um erro de argu-
o precário, o insubstituível. A norma já não é o normal, é o ori- mentação, pois contribui para impossibilitar o debate.
ginal, até mesmo o marginal, o anômalo. O segundo sofisma, ainda mais corrente, é a petição de
3) Os lugares da unidade de algum modo sintetizam os dois princípio. tSegundo o TA, não se trata de um argumento, mas de
anteriores: o que é um, ou efeito de um único, é por isso mes- um "erro de argumentação" (p. 153), que consiste em argu-
mo superior. Na hierarquia do ser, Platão coloca bem embaixo mentar como se o auditório admitisse a tese que se está tentan-
o "múltiplo" (ta polia), com que a "multidão" (oi polloi) se do levá-lo a admitir, quando, justamente, ele não a admite! Mas,
168 INTRODUÇÃO A RETÓRICA COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 169

assim definida, a petição de princípio se reduz a um erro psico- bilidades, que variam segundo os meios e as culturas. Assim,
lógico. O dicionário Lalande dá uma definição mais objetiva ser comunista e funcionário público aparece como incompatí-
disso, que se refere na realidade à argumentação: "Tomar por vel em certas democracias ocidentais, mas não em outras. Em
admitida, sob forma um tanto diferente, a própria tese que se todo caso, a argumentação refutará essa tese mostrando que ela
quer demonstrar." Segundo a Lógica de Port-Royal, Aristóte- é incompatível com alguma outra.
les, ao querer provar que a Terra é o centro do mundo, teria co- Pode-se rejeitar esse argumento de duas maneiras: lógica,
metido uma petição de princípio. Diz ele: dissociando os conceitos por distinguo; empírica, buscando uma
conciliação pela ação. Exemplo de resolução lógica: um profes-
A natureza das coisas pesadas é tender para o centro do sor ensina às crianças que é preciso obedecer aos pais, e que não
mundo. Ora, a experiência nos mostra que as coisas pesadas ten- se deve mentir. Mas o que fazer quando o pai manda mentir?
dem para o centro da Terra. Portanto, o centro da Terra é o cen- Pode-se mostrar que só há incompatibilidade quando a regra su-
tro do mundo. bentende "sempre" com obedecer e "nunca" com mentir. Ou
ainda, que a obediência a uma ordem injusta não é obediência.
A premissa maior desse silogismo na verdade não passa de uma A incompatibilidade está vinculada à retorsão, que consis-
petição de princípio. Pois como Aristóteles sabe que as coisas te em retomar o argumento do adversário mostrando que na
pesadas tendem para o centro do mundo? Ele simplesmente verdade este é aplicável contra ele mesmo. Aos adversários
acredita nisso, e acredita porque acha que a Terra é o centro do que, em 1789, negam que os deputados devam assumir o nome
mundo, o que seria preciso provar! de "representantes do povo", Mirabeau retorque assim:

adoto, defendo e proclamo [essa qualificação] pela mesma razão


Primeiro tipo: argumentos quase lógicos que leva a combatê-la! Sim, é porque o nome de povo não é sufi-
cientemente respeitado na França, porque está deslustrado,
O TA começa com um grupo de argumentos que denomi- coberto pela ferrugem do preconceito (... ) que devemos nos
na quase lógicos. Essa expressão pode surpreender, pois afinal impor a tarefa de não só alçá-lo como também de enobrecê-lo.
um argumento é lógico ou não é! Mas sabemos que a argumen- (16 de junho de 1789)
tação rejeita a lei do tudo ou nada. Na realidade, cada um dos
argumentos quase lógicos é aparentado com um princípio lógi- O caso mais célebre é a autofagia, argumento que consiste
co, como a identidade ou a transitividade; e, assim como eles, em mostrar que o enunciado do adversário se destrói por si
são a priori, no sentido de que não fazem apelo à experiência. mesmo:
Mas, ao contrário dos princípios lógicos da demonstração, po-
dem ser todos refutados demonstrando-se que não são "pura- Aos positivistas que afirmam que toda proposição verda-
mente lógicos" (cf. § 45 s.). deira é analítica ou de natureza experimental, perguntaremos se
o que eles acabam de dizer é uma proposição analítica ou expe-
rimental. (TA, p. 275)
Contradições e incompatibilidade: o ridículo
O ridículo está para a argumentação assim como o absur-
A contradição pura, do tipo "é branco e não branco", é do está para a demonstração: é preciso ressaltar uma incompa-
raríssima na argumentação, que não pode recorrer à prova por tibilidade, e a ironia é a figura que condensa esse argumento
absurdo. O que se encontra, em compensação, são incompati- pelo riso:
170 INTRODUÇÃO A RET6RICA COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 171

No momento em que, num teatro de província, o público gos são meus amigos, que se pode até desenvolver algebrica-
se preparava para cantar A Marselhesa, um policial sobe no pal- mente:
co para anunciar que é proibido tudo o que não consta do car-
taz: "E você, interrompe um dos espectadores, está no cartaz?" + x + = + Os amigos de meus amigos são meus amigos.
(TA,p.274) + x - = - Os amigos de meus inimigos são meus inimigos.
- x + = - Os inimigos de meus amigos são meus inimigos.
Observe-se que, quando a incompatibilidade é nociva - - x - = + Os inimigos de meus inimigos são meus amigos.
por exemplo com a negação das câmaras de gás -, ela já não é
ridícula, porém odiosa. O ridículo é o odioso desenvenenado, Este último argumento foi empregado por Churchill em 1941:
que não provoca escândalo, porém riso. quando a Alemanha invadiu a URSS, ele proclamou que esta
era sua aliada. No entanto, a relação não é realmente lógica:
pode-se detestar o amigo do amigo por uma questão de ciúme.
Identidade e regra de justiça Digamos que o argumento incita a presumir confiança. Já que
você é amigo de meu amigo, vou tratá-lo como tal.
Outros argumentos fazem apelo ao princípio de identida- Outro argumento é a divisão: divide-se um todo - a tese
de, A é A, mas sem se reduzirem a ele. Expressões como Mu- por provar - em partes, e, depois de mostrar que cada uma de-
lher é mulher, Negócios são negócios são pseudotautologias, las tem a propriedade em questão, conclui-se que o todo tem
pois o atributo não tem exatamente o mesmo sentido do sujei- essa mesma propriedade. Esse argumento só é rigoroso quando
to: mulher - ser feminino - é mulher - ser frágil, enganador, o todo e as partes são homogêneos; assim, o lugar Quem pode o
etc.! Mas é dificil refutar a aparência de identidade. mais pode o pouco só vale se o poder é de natureza idêntica: o
Na identidade baseiam-se a regra de justiça: tratar da mes- médico pode tanto quanto a enfermeira no campo dela?
ma maneira os seres da mesma categoria; o precedente: a ad- Na divisão repousa o dilema, raciocínio que prova que os
missão de um ato autoriza a cometer atos semelhantes; a reci- dois termos de uma alternativa levam à mesma conseqüência,
procidade: Olho por olho. sendo esta a tese. Ainda é preciso que a alternativa seja real-
Argumentos "quase" lógicos apenas, pois a expressão mente uma alternativa! "É branco ou não branco" é uma alter-
"mesma categoria" é problemática. Por exemplo, num exame: nativa lógica; "É branco ou preto" não é, a menos que se tenha
"X recuperou-se com 9,5; por que não Y, que teve 9,7?" Admi- provado que as cores intermediárias estão excluídas. Vejamos
tir isso é estabelecer a média em 9,5, e excluir qualquer delibe- o seguinte dilema:
ração. Outro exemplo: "O que é honroso aprender também é
honroso ensinar" (Quintiliano, citado p. 298); mas aprender e Por que vos fazer uma repreensão? Se fordes honestos, não
ensinar são realmente recíprocos? a merecereis; se fordes desonestos, ela não vos perturbará! (Re-
tórica a Herênio, IV, 52)

Argumentos quase matemáticos: Esse dilema só seria rigoroso se os dois termos - honesto, de-
transitividade, dilema, etc. sonesto -tfossem os únicos, e não se pudesse ser um e outro ao
mesmo tempo; um pouco de um, um pouco de outro ...
Outros argumentos quase lógicos apóiam-se em fórmulas O argumento ad ignorantiam mostra que todos os casos
matemáticas. Assim é a transitividade: Os amigos de meus ami- possíveis devem ser excluídos, salvo um, que é justamente a
172 INTRODUÇÃO A RETÓRICA
COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 173
tese por provar, cuja admissão se pede por falta de coisa me- Na realidade, toda definição é wn argumento, pois impõe
lhor; mostra-se que todos os candidatos a um posto são inacei- determinado sentido, geralmente em detrimento dos outros. Tor-
táveis, salvo um (o próprio), ao qual se concederá então o be- na-se perigosa e abusiva quando, sendo apenas normativa,
neficio da dúvida. Esse argumento é muito útil em casos de tende-se descritiva; quando, sendo condensada ou oratona,
urgência; aparece com freqüência na "moral provisional" de pretende-se completa. Assim, no texto 6, veremos que Millner
Descartes. passa sem aviso prévio de: "Entendo por escola" para "a
é isto" e depois: "Só é isto." Em sendo wn argumento, a propna
definição deveria ser argumentada.
Definição

o TA dedica à definição um longo estudo que aqui inter- Segundo tipo: argumentos fundados
pretaremos livremente (cf. TA, § 50).
na estrutura do real
Definição é um caso de identificação, pois com ela se pre-
tende estabelecer uma identidade entre o que é definido e o que Os argumentos do segundo tipo já não se apóiam na lógica,
define, de tal modo que se tenha o direito de substituir wn pelo porém na experiência, nos elos reconhecidos entre as coisa.s.
outro no discurso, sem mudar o sentido, de dizer tanto homem Aqui, argwnentar já não é implicar, é explicar: "O
quanto animal racional. Na realidade, essa identidade só é per- diz isso porque tem interesse em dizê-lo" (argumento ad homl-
feita nas línguas artificiais - como a álgebra - ou ainda para os nem). Inversamente, estima-se que, quanto mais fatos wna tese
termos técnicos: peças de máquinas, por exemplo. Na argu- explicar, mais provável será ela.
mentação, consideraremos quatro tipos de definição.
1) Normativa, que na verdade é wna denominação, pois im-
põe como convenção o uso de wna palavra, como por exemplo o Sucessão, causalidade, argumento pragmático
termo falsificar na epistemologia de Popper. Não é nem verdadei-
ra nem falsa; basta ater-se a ela em toda a argumentação. Pode-se argumentar constatando wna sucessão constante
2) Descritiva (ou "real"), que pretende enunciar o uso - nos fatos, e deles inferindo um nexo causal; se um exército
sentido corrente - do termo definido. Falsificar já não tem sempre tem excelentes informações sobre o inimigo, infere-s:
o sentido de Karl Popper, mas o do dicionário: "Alterar volun- que seu serviço de inteligência é e sera
tariamente com intuito de fraudar." A definição descritiva pode assim. Mas não se trata de uma demonstraçao cIentIfIca.
então ser verdadeira ou falsa; falsa se não descrever realmente Em primeiro lugar, o argumento é apenas provável, e o so-
ouso. fisma está sempre à espreita: post hoc, ergo propter hoc, "se-
3) Condensada, definição descritiva que se restringe às qüência, portanto conseqüência". O mais importante é que o
características essenciais: "Entendo por universidade a institui- argwnento na verdade quer estabelecer wnjuízo de mos-
ção que associa pesquisa fundamental a ensino superior." Omi- trar o valor do efeito a partir do valor da causa, ou o mverso.
te grande número de coisas, como a formação dos adultos. Assim, {m nosso texto 7, Corneille, a partir do valor da poesia,
4) Oratória (cf. p. 233), definição imperfeita, pois o que conclui pelo valor do autor.
define e o que é definido não são realmente permutáveis: "Guer- O argumento pragmático deriva disso: é "o argumento que
ra é toda a nação num esforço de vitória." permite apreciar um ato ou um acontecimento em função de
174 INTRODUÇÃO A RETÓRICA ('OMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 175

suas conseqüências favoráveis ou desfavoráveis" (TA, p. 358). xistente. É o argumento do desperdício: declara-se que é preci-
Por exemplo, que outra boa razão se teria para adotar uma lei, a so continuar a guerra porque, caso contrário, todos os mortos
não ser o conjunto de beneficios que dela se pode esperar (A. teriam tombado em vão; que é preciso continuar a emprestar
Smith)? aos países superendividados, caso contrário a bancarrota deles
O argumento pragmático goza de tal verossimilhança que anularia qualquer possibilidade de quitação; ou ainda que todos
de imediato presume confiança. Em outras palavras, a quem o têm o dever de empregar seus "talentos" inatos; que é preciso
contestar incumbirá justificar. Se digo: é preciso ser sincero, votar para não deixar de expressar sua opinião, etc.
mesmo que disso muitas vezes resultem conseqüências desfa- O argumento de direção consiste em rejeitar uma coisa -
voráveis, cabe a mim defender essa tese, ética, contra o argu- mesmo admitindo que em si é inofensiva ou boa - porque ela
mento pragmático. Sobre ele o utilitarismo funda seus valores serviria de meio para um fim que não se deseja. Quando se argu-
pois afirma que é bom o que é útil à maioria; sobre ele o menta que o salário dos escrivães é baixo demais, o contra-ar-
matismo funda a verdade: verdade é a crença que nos presta gumento é que todas as categorias de funcionários iriam exigir
serviço. aumento. É o argumento da reação em cadeia, da perda do con-
Suas fraquezas? Em primeiro lugar, geralmente ele opta trole: se você ceder desta vez aos terroristas... Em que esse argu-
pelas conseqüências; o banqueiro falará da rentabilidade de um mento se distingue do argumento do precedente? O precedente
investimento, e não de sua segurança. Importante: esse argu- fundamenta um direito, enquanto a direção prevê um fato.
mento elimina os valores superiores: só porque triunfa, uma No argumento da superação, ao contrário, a finalidade
causa é boa? Finalmente, como Sócrates objetava a Górgias desempenha papel motor. Ele parte da insatisfação inerente ao
(texto 1): o que é realmente útil ou realmente nocivo? O argu- valor: nunca ninguém é bom demais, justo demais, desinteres-
mento pragmático só é válido quando já se sabe isso, ou então sado demais. O ideal inacessível mostra em cada conquista um
quando não se tem outro meio de conhecer esse realmente. trampolim para uma conquista superior, num progresso sem
fim. O obstáculo transforma-se então num meio de passar para
um estágio superior, como a doença que imuniza, o fracasso
Finalidade: argumento de desperdício, que educa. "Perfeito é o oposto de aperfeiçoar", dizia P. Valéry;
de direção, de superação aqui, opta-se pelo aperfeiçoamento ao infinito, pelo melhor
contra o bom.
A finalidade, rejeitada pela ciência, desempenha papel ca- A hipérbole, convém lembrar, é a figura que condensa
pital nas ações humanas, e dela é possível extrair vários argu- esses dois argumentos. É o que acontece na seguinte piada:
mentos, todos fundados na idéia de que o valor de uma coisa diante de todos os jornalistas, o Presidente atravessa o Sena an-
depende do fim cujo meio é ela, argumentos que não expri- dando sobre as águas. Um grande jornal de oposição traz como
mem o porquê, mas o para quê. manchete no dia seguinte: "O Presidente não sabe nadar!" Su-
Diz Polieuto de sua mulher, inda pagã: b@.tendido: ele poderia fazer qualquer coisa, nunca estaria
bom. A anedota dramatiza o "qualquer coisa". A epítrope tam-
Tem virtudes de mais para não ser cristã! bém é um argumento de direção levado ao extremo: Eis aqui
sangue, vem beber. ..
afirmando assim que, se não se tornasse cristã, suas virtudes de Duas observações sobre a finalidade. A primeira é que
nada serviriam, seriam meios maravilhosos para um fim ine- acontece criá-la para atender às necessidades da causa, como
176 INTRODUÇA-O A RET6RICA COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 177

quando se invoca um "perfil do posto" que foi traçado em fun- Essa estabilidade da pessoa fundamenta sua responsabili-
ção do candidato que se quer nomear, ou se inventam "objeti- dade: É ele que... ; falta saber se o ele é exatamente o mesmo
vos da guerra" bem depois que a guerra começou. A segunda é ele de cinqüenta anos atrás, como nos processos por crime de
que um contra-argumento eficaz consiste em mostrar que o guerra ... Mas o importante é que a identidade, conquanto fun-
valor invocado não passa de meio: ele só estuda para ganhar damente a responsabilidade, também apresenta o risco de des-
mais, só está apaixonado para ganhar o dote ... O para destrói o truí-la, pois ser responsável é ser livre, logo poder ser diferen-
valor. É o argumento pragmático ao inverso. te; se a identidade não pode ser mudada, toma-se fatalidade:
sou assim, portanto uma desculpa. Em todo caso, no argumen-
to de pessoa baseiam-se dois argumentos muito conhecidos.
O argumento de autoridade (§ 70) justifica uma afirmação
Coexistência: argumento de autoridade,
baseando-se no valor de seu autor: Aristoteles dixit, Aristóteles
argumento "ad hominem "
disse. Argumento muito desacreditado no mundo moderno,
injustamente porém. Primeiro, ele nada tem que ver com dog-
Pode-se extrair o argumento de uma relação de coexistên-
matismo: todo argumento pode ser dogmático, conforme seja
cia entre as coisas. O TA dá a esse termo um sentido muito for- usado; o de autoridade é uma "técnica" como outra qualquer.
te: relação do atributo com a essência, ou ainda dos atos com a Depois, essa técnica - quer sejamos tradicionais, quer inovado-
pessoa.
res - muitas vezes é indispensável.
O argumento da essência consiste em explicar um fato ou Em que se baseia a autoridade? Na vida comum, baseia-se
em prevê-lo a partir da essência cuja manifestação é ele. Quem na moralidade: "Se foi ele que disse, pode-se acreditar." Em po-
bebeu beberá; em outras palavras, sua essência é ser - ou ter-se lítica, baseia-se no passado sério do candidato, ou até mesmo
tomado - ébrio. A essência explica o que um grande número glorioso: foi assim que em 1940 confiou-se em Pétain, mas
de casos tem em comum: "Todos esses monumentos são do também, depois, em de Gaulle ... Em religião, baseia-se na re-
século XIX, logo... "A essência pode ser estética (o gótico), velação. Bossuet diz de Jesus:
política (a democracia ocidental), etc. Em ciências humanas, o
"tipo ideal" é uma essência explicativa e heurística: "o operário Não busquemos as razões das verdades que ele nos ensina:
fiandeiro dos vales de Vosges". É certo que esse operário toda a razão é que ele falou. (In TA, p. 415).
nunca existe em "estado puro", mas o "estado puro", a essên-
cia, permite identificar e classificar muitos indivíduos, deter- A ciência parece excluir o argumento de autoridade. No
minando-se seus desvios em relação a esse estado. Finalmente, entanto, ele está sempre presente: Lei de Joule; como mostra a
a essência tem alcance ético; é a partir dela que se argumenta experiência de X; isso porque o pesquisador não pode desco-
para fazer a distinção entre uso e abuso, entre suficiente e brir nem verificar tudo, precisa confiar em alguém. E em filo-
demasiado. A prosopopéia é a figura correspondente: são as . sofia? Como diz Nietzsche; já não se pode afirmar depois de
leis "em si", "em pessoa", portanto em sua essência, que falam 'J Freud... ; Heidegger ensinou que... Na verdade o mais raciona-
a Sócrates. lista dos filósofos não pode encontrar tudo sozinho, partindo
O argumento de pessoa é uma aplicação do argumento aci- do zero eomo Descartes ... Finitude do pesquisador, do pensa-
ma. Baseia-se no nexo entre a pessoa e seus atos, nexo que per- dor. Ignorá-la seria o pior dogmatismo. .
mite presumir os atos dizendo que se "conhece a pessoa", julgá- Pode-se contraditar o argumento de autoridade com técni-
los dizendo que "são típicos dela", que "ela não vai mudar". cas de ruptura. Através de fatos por exemplo, mas estes tam-
178 INTRODUÇÃO A RETÓRICA COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 179

bém são estabelecidos por uma autoridade; assim, em estatísti- cada um deles aos de uma escala de valores já admitida. Por
ca, quem tem a palavra é o IBGE. Através de outra autoridade: exemplo, se quisermos saber a importância que um jornal atri-
pode-se opor Marx a Lênin, a Bíblia à Bíblia. Então, já não é a bui às diversas notícias, compararemos o corpo respectivo dos
autoridade que decide, é a razão que escolhe; mas escolhe ou- títulos dedicados a cada uma delas. Aristóteles prova assim o
tra autoridade. "preferível", utilizando a coexistência sujeito-atributo:
O argumento ad hominem é o argumento de autoridade
invertido. Consiste em refutar uma proposição recorrendo a o que pertence ao melhor ser é o preferível; por exemplo, o
uma personalidade odiosa: "Era o que dizia Hitler!" Ou então que pertence a um deus é preferível ao que pertence a um
ressaltando as fraquezas de quem o enuncia: Se ele afirma isso homem; o que pertence à alma é preferível ao que pertence ao
é porque tem interesse ... como podem acreditar, se ele escreve corpo. (Tópicos, m, 116 b)
no Le Figaro (ou no L'Humanité)?
Argumento vil, que no fundo implica certa violência, obs- A dupla hirarquia pode ser assim esquematizada:
tando a qualquer raciocínio. Já se disse que a moralidade de
Euclides não prova nada a favor nem contra sua geometria! No ARGUMENTO: pertence aos deuses> aos homens; à alma> ao
entanto, na falta de outras informações, a argumentação deve corpo:
utilizá-lo: se alguém me recomendar um candidato, posso per- LOGO: eudemonismo (bem-aventurança) > felicidade; alegria>
guntar-me se essa pessoa está sendo movida por algum interes- prazer.
se ou por alguma paixão.
A apodioxe exprime o argumento ad hominem: não é a você Mesmo esquema para o discurso de Antígona a Creonte:
que compete nos ensinar!
Os nexos simbólicos são outra estrutura do real, funda- Não acreditei que teus editos pudessem suplantar as leis
mentada na pertinência, mas de ordem puramente social e cul- não escritas e imutáveis dos deuses, pois não passas de um
tural, pois os símbolos mudam segundo o meio. O símbolo - mortal.
cruz, crescente, cores do time ou do partido, heróis históricos
ou lendários, etc. - exprime de modo afetivo, para não dizer sa- ARGUMENTO: dos deuses> tu, mortal:
grado, os laços entre indivíduos e comunidade. LOGO: suas leis não escritas> teus editos.
Muito comuns na argumentação, os nexos simbólicos es-
tão ligados sobretudo ao patos: honre seu distintivo, respeite A primeira hierarquia serve, portanto, para valorizar um
sua bandeira, filhos de Joana D' Arc, herdeiros de Danton, etc. termo da segunda: as leis não escritas em relação a teus editos.
Todo orador deve levar em conta os símbolos de seu auditório Na dupla hierarquia baseia-se o argumento a fortiori, ou
se não quiser falar no vazio. "com maior razão", como na frase de Leibniz:

Tendo cuidado dos pássaros, Deus não negligenciará as


Duplas hierarquias e argumento "a fortiori " criaturas racionais que lhe são infinitamente mais caras ... (in TA,
p.45f5)
Das estruturas do real extrai-se um argumento muito com-
plexo, porém muito eficaz, a dupla hierarquia, que consiste em ARGUMENTO: criaturas racionais (mais caras) > pássaros:
estabelecer uma escala de valores entre termos, vinculando LOGO: cuidados futuros> cuidados passados.
180 INTRODUÇÃO A RETÓRICA COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 181

Naturalmente, a argumentação só funciona se o auditório Hierarquia de Celimena:


estiver de acordo com a primeira hierarquia, que serve de argu-
mento; se ele puser os deuses acima dos homens, a alma acima ARGUMENTO: muitos amantes> nenhum amante:
do corpo, o homem acima dos pássaros. Isso se observa neste LOGO: mulher leviana> mulher pudica.
argumento de Cícero, extraído de Pro Milone:
Como se vê, elas se opõem não só pela hierarquia mas
Se temos o direito de matar o ladrão, com mais razão o as-
também pela interpretação dos fatos. Para uma, se a outra tem
sassino, amantes é por ser leviana ou fácil. Para a outra, é por ser bonita,
enquanto sua adversária não os tem porque não é. A graça está
argumento que inverteríamos hoje em dia: se não temos o di- na presteza da réplica, que inverte os valores inesperadamente.
reito de matar o assassino, menos ainda o ladrão; por exemplo,
na legítima defesa.
Portanto, pode-se refutar uma dupla hierarquia de duas Terceiro tipo: argumentos que
maneiras. fundamentam a estrutura do real
Primeiramente contestando o nexo entre as duas hierar-
quias. Assim, à frase de Hermíone: Os argumentos do terceiro tipo também são empíricos,
mas não se apóiam na estrutura do real: criam-na; ou pelo me-
Se o amava inconstante, quanto mais fiel!, nos a completam, fazendo que entre as coisas apareçam nexos
antes não vistos, não suspeitados.
pode-se opor o argumento de que os graus do amor não são di-

proporcionais ao grau de valor do ser amado, que
talvez seja porque Pirro a tortura que ela é louca por ele. Exemplo, ilustração, modelo
Depois, contestando a hierarquia de valores supostamente
admitidas. Assim, em O misantropo, a "pudica" Arsínoe re- No TA o exemplo tem papel bem mais restrito que em
preende a leviandade de Celimena e afirma: Aristóteles; é o argumento que vai do fato à regra. Assim, nos
Estados Unidos alega-se que certo jomaleirozinho ficou bilio-
E só tem amantes aquela que os quer ter. nário, para dizer que qualquer um pode ser bilionário (cf. § 78 s.).
O exemplo reforça a regra por: 1) ser diferente dos que o suge-
E Celimena, taco a taco: riram; 2) ser independente dos outros exemplos. Assim, Des-
cartes (texto 8) parte de cinco exemplos completamente dife-
Tenha-os então, Senhora! rentes para chegar à sua regra.
Como invalidar um exemplo? Com um outro, que o con-
Hierarquia de Arsínoe: tradiga; a catedral, obra de uma multidão de homens, porém
esplêndida, invalida a regra de que as obras perfeitas são as de
ARGUMENTO: nenhum amante> muitos amantes: um só homem. Mas pode-se responder de duas maneiras. Pri-
LOGO: mulher pudica> mulher leviana. meiro, restringindo o campo da regra: ela vale para as casas,
não para as igrejas! Depois, prevendo a exceção que se julga
182 INTRODUÇÃO A RET6RICA COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 183

infirmá-Ia; assim, o milagre não desmente em nada o determi- o antimodelo indica, muitas vezes de modo fortemente
nismo da natureza, caso contrário deixaria de ser milagre. emotivo, o que não se deve imitar: o mau músico, o hilota bêba-
Mas a "extrapolação" a partir do exemplo é sempre con- do, que era exibido diante dos jovens espartanos para levá-los a
testável; pode infirmar uma regra universal, e não prová-la. repugnar o alcoolismo. Fundamenta o argumento a contrario:
A ilustração é um exemplo que pode ser fictício e cuja "Vejam o que X fez; os resultados foram catastróficos."
função não é provar a regra, mas dar-lhe "presença na cons- N.B. - Ao estudarmos "O lobo e o cordeiro", tentamos
ciência" e reforçar assim a adesão (§ 79). mostrar que as personagens da fábula não são modelos nem
A ilustração pode ir de uma simples palavra - essa raposa antimodelos, mas simplesmente exemplos.
- até uma obra, como 1984 de Orwell. Note-se que nem sem-
pre é fácil distinguir a ilustração da analogia. Vejamos o texto
de Epiteto (in TA, p. 486): Comparação e argumento do sacrificio

São as dificulades que revelam os homens. Por isso, quan- Quando classificamos a comparação entre os argumentos
do surgir uma dificuldade, lembra-te de que Deus, como um do terceiro tipo, afastamo-nos do TA, que a coloca entre os ar-
mestre de ginásio, te pôs às voltas com um parceiro jovem e gumentos quase lógicos por alegar que a medida é um ato ma-
rude. temático. Nós, porém, alegamos que o que se mede é sempre
empírico, e ligamos a comparação ao ato de fundar as estrutu-
Poder-se-ia dizer que as dificuldades têm com Deus a mesma ras do real.
relação que o jovem parceiro tem com o mestre de ginásio: re- De fato, como se diz em outro trecho da TA (§ 57), ela ins-
lação de provação. Todavia, a ilustração e o "ilustrado" apre- taura a relação entre dois termos - maior, mais forte, mais bo-
sentam-se como duas aplicações particulares de uma mesma nito, etc. -, estrutura que a realidade não impõe, e que às vezes
regra: a provação é pedagógica; portanto, são do mesmo gêne- é preciso inventar. É por isso, aliás, que certas comparações
ro, ao passo que a analogia implica termos heterogêneos. parecem "deslocadas". Num livro, comparamos a psicologia
O modelo é mais que exemplo; é um exemplo dado como de Alain à de Théodule Ribot; uma discípula do primeiro achou
algo digno de imitação. O jornaleirozinho não é apresentado
a comparação ridícula, ainda que ela fosse favorável a Alain! O
como modelo; ninguém pede que se faça como ele, mas diz-se
que a chocou foi o próprio fato de comparar.
a todos que cada um pode fazer o que ele fez. Em compensação
Por que a comparação é argumento? Por permitir justificar
São Paulo, ao dizer "Sede meus imitadores como eu sou do
um dos termos a partir do outro ou dos outros. Justifica-se o
Cristo", está-se apresentando como modelo.
montante de um salário, uma nota de exame, uma pena, por meio
O modelo é um argumento? Sim, pois serve como norma;
da comparação com outras da mesma categoria.
é ele que determina do "afastamento", o "desvio". Pode-se re-
Na realidade, o argumento só é rigoroso se comparar rea-
futar recusando-o (por exemplo, preferir Sócrates a Paulo),
lidades do mesmo gênero, que podem, portanto, ser submeti-
mas também mostrando que o adversário não está extraindo
das ao mesmo estalão: este candidato obteve dois pontos a
dele o verdadeiro sentido:
mais média, este salário é 30% inferior ao estabelecido
o pai: Na tua idade Napoleão era o primeiro da classe. por lei. Inversamente, quando se comparam realidades hetero-
O filho: Na tua ele era imperador. gêneas, tende-se - muitas vezes erroneamente - a torná-las ho-
mogêneas; quando V. Hugo mostra (texto 5) que Napoleão III
184 INTRODUÇÃO A RETÓRICA COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 185
é "pequeno" em relação ao tio, submete-o ao mesmo estalão: a Analogia e metáfora
glória militar.
Às vezes, a ordem da comparação muda o valor dos termos: Raciocinar por analogia é construir uma estrutura do real
"O tio é maior que o sobrinho" e "O sobrinho é menor que o tio" que permita encontrar e provar uma verdade graças a uma se-
talvez tenham o mesmo sentido, mas não o mesmo alcance argu- melhança de relações. Em matemática, prova-se assim o valor
mentativo. Às vezes, põe-se um termo no superlativo para situá- de um termo por uma igualdade de relações: a/b = c/x; logo x =
lo acima de qualquer comparação possível: X lava mais branco. bc/a. Se 2/3 = lO/x, x = 15. Os quatro termos são diferentes,
A hipérbole é a figura que condensa esse gênero de argumento. mas suas relações são idênticas.
É fonte de grandiosidade, mas também de comicidade: Na argumentação, as relações são simplesmente seme-
lhantes. Vejamos esta analogia satírica:
Um fanático de ciências ocultas apoquenta Bernard Shaw:
- Ontem à noite a sessão durou três horas; nós estávamos
Hierarquia é como prateleira: quanto mais em cima, menos
todos cansados, mas finalmente a mesa se mexeu.
utilidade.
- Não é de espantar - diz Bernard Shaw -, é sempre o mais
inteligente que cede ... (L. Olbrecht-Tyteca, p. 217)
Ela exibe duas relações. A primeira, o tema, é o que se
Aplicação de um adágio comparativo a uma situação to- quer provar, que a hierarquia não serve para quase nada em seu
talmente heterogênea, e que equivale a dizer: vocês são ainda ápice. O segundo, o foro, é o que serve para provar: quanto
mais estúpidos que a mesa ... mais uma prateleira é alta, menos é acessível. O foro é em geral
O argumento do sacrificio é um tipo de comparação; con- retirado do domínio sensível e concreto, apresentando uma re-
siste em estabelecer o valor de uma coisa - ou de uma causa - lação que já se conhece por verificação. O tema é em geral abs-
pelos sacrificios que são ou serão feitos por ela: trato, e deve ser provado.
Vejamos esta comparação de Aristóteles, na verdade uma
Só acredito nas histórias cujas testemunhas dariam o pes- analogia:
coço. (Pascal, p. 593, in TA, p. 335)
Assim como os olhos do morcego pela luz do dia, também
Note-se que o sacrificio muitas vezes é ambíguo; os sofri- a inteligência de nossa alma pelas coisas mais naturalmente evi-
mentos dos alemães no fim da guerra foram qualificados de dentes. (Metafísica, A, 993 b)
sacrificios pelos hitleristas, de castigo pelos aliados ... em todo
caso, o sacrificio serve para provar as qualidades morais de TEMA FORO
uma pessoa ou de um ato: provo minha sinceridade mostrando A: Inteligência de nossa alma C: Os olhos do morcego
que tenho muito o que perder por causa dela! Mas esse argu- B: As coisas mais evidentes D: A luz do dia
mento não tem cabimento na área econômica ou técnica. Da
interferência entre esses dois campos surge a comicidade: Observa-se que o tema, referente a realidades espirituais,
é heterogêneo em relação ao foro, mas a relação - por provar -
Empregador: O senhor está pedindo um salário alto demais entre A ePB é semelhante à relação conhecida entre C e D: rela-
para quem não tem experiência. ção de ofuscamento. Semelhante, não idêntica, pois uma é fisi-
Candidato: Justamente, o trabalho é tão mais dificil quando ca, outra espiritual.
a gente não sabe como fazer ...
186 INTRODUÇÃO A RET6RICA COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 187

o TA (p. 505) registra analogias de "três termos", como: De fato, segundo o TA (§ 87), a metáfora é uma analogia
condensada que expressa certos elementos do tema ou do foro,
o homem em relação à divindade é tão pueril quanto a omitindo os outros. Aliás, para o próprio Aristóteles a metáfora
criança em relação ao homem. (Epiteto) deriva da analogia (cf. Poética, 1457 b, e Retórica, 1406 b). To-
memos o exemplo de Aristóteles:
TEMA FORO

A: O homem C: A criança A velhice é a noite da vida.


B: A divindade D:Ohomem
A analogia está subjacente:
Na realidade, há quatro termos, pois em A homem signifi-
ca ser humano, em D significa homem adulto. TEMA FORO
A analogia é sempre um pouco redutora, no sentido de A: A velhice C: A noite
anular tudo o que a relação exclui. Isso acontece até mesmo B:Avida D:Odia
com as duas analogias acima, apesar de belas e profundas: a in-
teligência não é só "ofuscada" pela verdade, assim como o Em suma, a velhice está para a vida como a noite está para o
homem não é só "criança" diante de Deus; poderiam ser en- dia. Mas um dos quatro termos foi omitido na metáfora. Na me-
contradas outras relações. táfora in abstentia dois termos foram omitidos: A noite da vida
É desse modo que se pode refutar a analogia. Contesta-se (para a velhice).
que a semelhança de relações seja uma prova: comparação não Como mostramos no capítulo VI, a metáfora condensa um
é razão. No entanto, é mais eficaz trabalhar com o foro: "Se o símile (A velhice é como a noite da vida), que pode ser explica-
bispo é seu pastor, vocês não passam de ovelhas." Finalmente, do como analogia: a velhice é para a vida o que a noite épara o
pode-se opor ao foro um outro foro. Vimos como Cícero refuta dia. A nosso ver, só haverá metáfora se a analogia lidar com
a idéia de que a figura retórica seja ornamento: replica que ela dois termos heterogêneos, como idades e horas. Mostramos que
não é um "cosmético", mas uma "cor" proveniente do saudável uma metáfora não pode derivar de uma comparação simples,
afluxo de sangue. nem mesmo de uma dupla hierarquia; esta só daria metonímias,
O que nos parece capital nessa teoria da analogia é a dis- como Onipotente para Deus, bem-aventurados para os eleitos.
tinção entre ela, o exemplo e a comparação, afirmando que a Por que a metáfora é argumento? Por condensar uma ana-
analogia sempre lida com realidades heterogêneas ou, na lín- logia. Mas nesse caso ela não é menos convincente do que seria
gua de Greimas, com "isotopias" diferentes. A prateleira não é a própria analogia? De modo mais geral, essa teoria da metáfo-
do mesmo gênero da hierarquia, nem o morcego é do mesmo ra não será redutora, como acha Paul Ricoeur, por esvaziar
gênero da inteligência! Por isso, a analogia não é uma compa- tudo o que a metáfora comporta de poesia, de invenção? A es-
ração, que dá ensejo à contagem e à medida. sas duas perguntas pode-se responder que a metáfora não é me-
Contudo, parece que o TA não dá conta do raciocínio por nos convincente, porém mais que a analogia, precisamente pela
analogia dos juristas, que lida com realidades homogêneas: mistura que opera entre foro e tema, tornando perceptível a
leis, delitos ... Em todo caso, afirmar que a analogia é uma se- união dos termos heterogêneos.
melhança entre relações heterogêneas já tem uma grande van- Por exemplo, quem quiser tranqüilizar um idoso angustia-
tagem: explicar a estrutura e a função argumentativa da metá- do pela morte pode dizer: Morrer é dormir, condensando nessa
fora. metáfora a seguinte analogia:
COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 189
188 INTRODUÇÃO À RETÓRICA

TEMA FORO RELAÇÃO


Quarto tipo: argumentos por
dissociação das noções
A: Morrer C: Donnir Resultado natural:
B: Viver D: Estar acordado repouso após o cansaço
Absurdo ou "distinguo"
Mas a metáfora é mais convincente por ser redutora, por tra- Os argumentos do quarto tipo (cf. TA, § 89 s.) consistem
duzir semelhança em identidade; ao dizer é em vez de "é em dissociar noções em pares hierarquizados, como aparên-
como dormir", ela anula as diferenças: que a morte é o "últi- cia/realidade, meio/fim, letra/espírito, etc. Distinguem-se assim
mo" sono. de todos os outros argumentos, que associam as noções.
Conseqüência: só se refuta realmente uma metáfora com É verdade que todos esses outros argumentos ser
outra. Assim, para refutar a nossa, a de Hamlet: recusados por uma "técnica de ruptura", mas esta se hmIta a
manter separado aquilo que o adversário pretendia unir: "Não é
To die, to sleep! To sleep, perchance to dream ... uma identidade", "essa analogia não é válida", etc. Neste caso
trata-se de uma ruptura não concreta, pois é o discurso que a
Esse sono poderia ser povoado por sonhos, por pesadelos! cria; onde se via uma realidade, surgem duas, a aparente e a ver-
Do mesmo modo, Jean Château replica aos partidários da dadeira. É o que faz a máxima de Severo, em Polieuto (Iv, 6):
"escola aberta para a vida": "Escola não é prisão, é cidadela";
A seita dos cristãos não é o que se pensa.
em resumo, corrigindo o foro':
Em seguida, a dissociação modifica profundamente as rea-
TEMA FORO I FORO 11
lidades que separa. Existem os cristãos da representação
A: Escola C: Prisão Cidadela lar - agitadores fanáticos, degoladores de cnanças - e eXIstem
B: Alunos D: Prisioneiros Protegidos cristãos como os que Severo estudou "de dentro" ... Note-se,
aliás, que os dois termos do par não são
A relação não é mais de cativeiro, porém de proteção. riam o bem e o mal, porém hierarquizados, como cnstãos VIS-
A metáfora argumenta estabelecendo contato entre dois tos de fora e cristãos verdadeiros.
campos heterogêneos: o segundo, o foro, introduz no primeiro Finalmente, a dissociação tem como objetivo essencial di-
uma estrutura que não aparecia à primeira vista. Mas é reduto- rimir incompatibilidades, e é exatamente isso que a torna con-
ra por ressaltar um elemento comum em detrimento dos outros, vincente e durável. É preciso escolher entre o absurdo e o dis-
por ressaltar uma semelhança mascarando diferenças. tinguo. Assim, Pascal diz sobre o pecado original:
Finalmente, ao aproximar dois campos heterogêneos, a
metáfora muitas vezes cria um verdadeiro fluxo entre os dois, Certamente nada nos atinge mais rudemente do que essa
doutrina; e no entanto sem esse mistério, o mais incompreensível
invocando outras metáforas em número indefinido. Assim,
de todos, somos incompreensíveis para nós mesmos. (p. 552)
basta fazer uma aproximação com encaminhamento para que
sUIjam: progresso, progressão, providência, método (caminho
Aprova desse dogma, segundo Pascal, é. ele pode
pelo qual se atinge um objetivo), objetivo, erro, desvio, dedu-
dirimir as contradições inerentes ao homem, dIstmgumdo o ho-
ção, conduzir meus pensamentos (Descartes), etc. 2 • mem bom por criação do homem pecador: o primeiro explica
Como se vê, a metáfora é, por excelência, a figura que fun- nossa grandeza; o segundo, nossa miséria.
damenta as estruturas do real.
190 INTRODUÇÃO A RET6RICA COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS? 191
o quarto tipo constitui o argumento filosófico por exce- Outros pares
lência, pelo menos desde Platão.
Muitos outros pares são constituídos pela analogia com o
par aparência/realidade, que permite identificar em cada um o
O par aparência-realidade termo 1 e o termo 2. Vejamos os pares mais freqüentes em nos-
sa cultura: meio/fim, conseqüência/princípio, ato/pessoa, aci-
Partiremos do par por excelência, a dissociação entre apa- dente/essência, ocasião/causa, relativo/absoluto, subjetiv%b-
rência e realidade. A aparência apresenta incompatibilidades. jetivo, múltiplo/uno, normal/normativo, individual/universal,
Por que, por exemplo, uma vara reta parece quebrada quando particular/geral, teoria/prática, linguagem/pensamento, letra!es-
sua extremidade é mergulhada na água? Certos empiristas res- pírito ... (cf. TA, p. 562).
pondiam: corrige-se a visão com o tato. Mas o tato também tem Em cada um deles, o termo 2 - fim, princípio, pessoa, etc. -
suas ilusões; por que então acreditar nele mais que na visão? é dado como superior ao termo 1. Todavia, essas hierarquias nada
Tudo o que se pode dizer é que a aparência tátil é incompatível têm de invariáveis, mesmo em nossa cultura. O romantismo pre-
com a visual. Para dirimir essa incompatibilidade, é preciso feriu o subjetivo ao objetivo, o indivíduo ao universal. O pensa-
transpor as aparências e remontar à lei científica que a explica: mento moderno inverte igualmente certas hierarquias; para o
seno de I = n X seno de r. pensamento antigo e clássico, o par é movimento/imobilidade;
É também por um distinguo entre aparência e realidade Baudelaire exprime assim o ideal grego em "Beauté" [Beleza]:
que Kant resolve a grande contradição da cultura moderna,
entre a necessidade exigida pela ciência e a liberdade exigida Odeio o movimento que desloca as linhas,
pela moral: se todos os meus atos se explicam cientificamente E eu não choro jamais, não rio jamais.
por suas causas, não tenho nenhuma responsabilidade sobre
eles, o que arruína a moral. A dissociação de Kant entre causa- Mas no pensamento moderno, depois de Hegel, Nietzsche e
lidade fenomênica (no tempo) e liberdade numênica permite- Bergson, o termo 1 passa a ser imóvel, e o termo 2 é a mudan-
lhe distinguir no homem o determinismo científico e a respon- ça, considerada ontologicamente superior a ele.
sabilidade moral como dois pontos de vista, por exemplo o do Um par pode ser expresso com elipse, por apenas um de
psicólogo, que explica, e o do juiz, que absolve ou condena. seus termos. Assim, só se menciona o termo 2, mas com um
Resumindo, em tudo o que parecia uno o argumento de dis- artigo: A solução, ou com um adjetivo: A história autêntica, ou
sociação introduz uma dualidade e cria um par hierarquizado: com um advérbio: universalmente verdadeiro, ou com maiús-
cula: o Ser, ou com um hífen pretensamente etimológico: ek-
sistência. Pode-se também omitir o termo 2 marcando o termo
Termo 1: Ser aparente, imediato, conhecido diretamente.
1 com aspas: "objetividade ", "direito ", para mostrar que se tra-
Termo 2: Ser real, critério de valor e de verdade do termo 1.
ta de pretensão.
Um par também pode ser expresso por figuras. Vejamos a
Apesar de não se limitar à filosofia, esse distinguo consti-
seguinte frase de Schiller, que une a epanalepse à pseudotauto-
tui seu método por excelência. Até mesmo o materialista oporá
logia e-ao paradoxo:
o mundo real, a matéria científica, às aparências; até mesmo o
empirista oporá a experiência real ao sonho e à ilusão. Qual é a religião que professo? Nenhuma, de todas as que
citas. - E porque nenhuma? - Porreligião. (TA, p. 588)
192 INTRODUÇÃO A RETÓRICA 193
COMO IDENTIFICAR OS ARGUMENTOS?

Às religiões positivas (escritas, tradicionais), ele opõe a Artificio e sinceridade


Religião (natural, interior), a única verdadeira.
Certas figuras, como o oxímoro, são compreendidas por Uma atitude que é possível tornar odiosa ou ridícula é a
uma dissociação, que converte uma das duas palavras em ter- perversão da relação meio/fim: ser generoso para que os ou-
mo 1 e a outra em termo 2: douta ignorância (2/1), alegria tros digam, estar apaixonado para fazer carreira; surge então
amarga (1/2), pensar o impensável (2/1), dizer o inefável (1/2), um novo par pela inversão do primeiro, o par artifício/sinceri-
perder para ganhar (1/2), sol negro (1/2). dade.
Num debate, o distinguo dirime a incompatibilidade atra- Esse par acabou servindo de argumento contra a própria
vés de uma dissociação semântica. Assim, em economia,franc retórica (cf. TA, § 96), que é reduzida a um conjunto de "artifí-
courant/franc constant [franco corrente/franco constante]. Em cios", ou seja, de meios totalmente estranhos ao fim em vista, e
psicologia, subsconsciente/inconsciente. que valeriam também para um fim contrário. Somos persuadi-
Para refutar um par, às vezes basta invertê-lo. dos por argumentos "fortes", "plausíveis", etc., mas, como o
seu único objetivo é persuadir, dizemos que o orador utilizaria
Deve-se comer para viver, e não viver para comer. também argumentos falsos, insinceros, desde que se mostras-
sem mais eficazes. E nesse caso qualquer retórica, qualquer ar-
Esse quiasmo inverte o par fim/meio. Mais sutilmente, pode- gumentação passa a ser suspeita de não passar de artifício.
se mudar a expressão dos termos; assim, real/ideal passa a Então, ocorre uma dissociação no seio do próprio discurso:
ser ''utopia/real''; letra/espírito passa a ser "interpretação/texto";
fato/essência passa a ser "abstrato/concreto". Em resumo, Termo 1: discurso artificial, estratagemas retóricos.
invertem-se os termos depois de se ter mudado sua denomi- Termo 2: discurso sincero, ausência de retórica.
nação.
Note-se que a ausência de dissociação pode ser fonte de Na verdade, essa dissociação, em si, é profundamente retó-
comicidade: rica. A sinceridade, que consiste em só se dizer o que se pensa
de verdade, é um valor ético. Mas, desde que alguém queira ex-
A mulher voltou para casa de luto e de táxi. pressar-se com sinceridade, desde que queira persuadir os ou-
tros daquilo em que acredita, estará - querendo ou não, e talvez
Ou, ao contrário, pode haver dissociação abusiva: principalmente sem querer - no domínio da retórica.
De que maneira esta pode superar a suspeita de artifício?
Só as palavras contam / o resto é parolice. (Ionesco) Por meio de melhores artifícios! Primeiro, encontrando o tom
'justo", ou seja, apropriado ao assunto em questão e adaptado ao
Ou então a inversão inopinada de uma hierarquia: que se pensa, a "conveniência" dos antigos retores. Depois, por
meio de certas figuras, como a hesitação, a epanortose ("ou me-
I can 't be there in spirit, so Iam coming in person. lhor"), o anacoluto, a epanalepse (ai, ai, ai!), que conferem "tom"
de sinceridade ao discurso. A retórica é uma arte que, como toda
Normalmente "em espírito" é um quebra-galho para o "em arte, atinge a perfeição quando se faz esquecer.
pessoa"! Está certo que arte não é prova de sinceridade, mas basta
que não seja tampouco prova de mentira.
194 INTRODUÇÃO À RETÓRICA Capítulo IX
Exemplos de leitura retórica
Para terminar, lembraremos os dois princípios que nossas
análises trouxeram à tona. O primeiro é que não há argumento
infalível, pois todo argumento pode ser contraditado por outro
argumento. O segundo é que a argumentação não é inerente-
mente falaciosa; se todo argumento pode tornar-se sofistico
por erro de prova, é porque ele também pode deixar de se tor-
nar sofistico, falando-se então, de pleno direito, em objetivida-
de da argumentação.
Em outras palavras, não se espera de um argumento ape-
nas que ele seja eficaz, isto é, que seja capaz de persuadir seu
auditório; espera-se que ele seja justo, isto é, capaz de persua- Tentaremos pôr em prática os dados até agora desenvolvi-
dir qualquer auditório, de dirigir-se ao auditório universal. dos, aplicar a ferramenta retórica a textos tão diversos quanto
Em que condições isso é possível? Quando o argumento possível.
se expõe deliberadamente à discussão, à contra-argumentação. Por que - dirão - falar em textos, visto que em todo o livro
E aqui encontramos o grande princípio: o que salva a retórica é mostramos que a retórica se aplica ao discurso? Para nós, não é
que o orador não está sozinho, que a verdade é encontrada e igual. O discurso é um conjunto coerente de frases, que têm
afirmada na prova do debate. Tanto com os outros quanto con- uma unidade de sentido e que falam de um mesmo objeto. Ora,
sigo mesmo.
a unidade do discurso é criada por seu autor: é ele que decide
do que se falará, quando começará e quando acabará seu dis-
curso, é ele que decide fazer um tratado, um drama, uma carta
ou uma simples máxima. É nesse sentido que se fala de Discur-
so do método, de Discurso sobre o estilo, etc. A unidade do
texto é, ao contrário, obra de seu comentador; é ele que o desta-
ca no interior do discurso; e, para nós, todo texto é um excerto.
Mas em todos os casos escolhemos textos cuja unidade temáti-
ca e cuja coerência interna permitem tratá-los como discursos
autônomos.
Lembremos as regras principais da leitura retórica. Pri-
meiro, ela consiste em fazer perguntas ao texto, dando-lhe to-
das as oportunidades de responder. Em segundo lugar, essas
perguntas, ou lugares de leitura, referem-se o máximo possível
ao conjunto do texto: qual é sua época, seu gênero, seu auditó-
rio real, seu motivo central, sua disposição, etc.? Se possível,
evita-se' o comentário linear, que logo vira paráfrase. Em ter-
ceiro lugar, a leitura retórica busca o vínculo íntimo entre o
argumentativo e o oratório. Em quarto lugar, ela pretende ser
um diálogo com o texto.
196 INTRODUÇÃO A RET6RICA 197
EXEMPLOS DE LEITURA RET6RICA

Motivo central
Texto 6 -J.-c. Milner, Da escola,pp. 9 e 10
§I Há escola em certas sociedades, e particulannente Essas linhas constituem o início do livro e introduzem a
na nossa. Aí está uma proposição indubitável; no entan- parte intitulada "Axiomática". Quem é o auditório? O grande
to, cabe estabelecer o que ela significa. Dizer que a es- público culto, preocupado com todas as "reformas" do ensino,
cola existe é, na verdade, dizer apenas isto: numa socie- sobretudo com a última em termos cronológicos, a de Savary
5 dade existem saberes, e estes últimos são transmitidos
(1984), que parece dar ênfase à pedagogia, em detrimento dos
por um corpo especializado num lugar especializado.
Falar de escola é falar de quatro coisas: (1) de saberes; saberes. O adversário, que o livro inteiro trata de desancar, é o
(2) de saberes transmissíveis; (3) dos especialistas en- clã dos pedagogos, acusados de fomentar um verdadeiro com-
carregados de transmitir saberes; (4) de uma instituição plô contra o ensino.
10 reconhecida, cuja função é pôr em contato, de maneira No entanto, esse livro não se presume panfleto, mas en-
ordenada, os especialistas que transmitem e os indiví- saio, pretendendo-se rigorosíssimo. Seu método é o do lingüista
duos a quem se transmite. Cada uma dessas quatro coi- (que Milner é), definindo inicialmente uma necessidade formal,
sas é necessária, de tal modo que negar uma delas é
e procurando depois os conteúdos apropriados a preenchê-la:
negar a existência da escola ( ... )
§ II Quatro coisas lhe são necessárias; e também lhe são Que saberes? Que pedagogia? Do mesmo modo, o lingüista es-
suficientes: dizer que há escola é dizer tudo o que foi dito, tabelece a combinatória de todos os fonemas possíveis, para de-
porém nada mais. Assim, não é dizer que todos os saberes pois os buscar empiricamente nas diferentes línguas.
são transmissíveis; não é nem mesmo dizer que todos os Esse texto revela algum motivo central? Sim: o uso (ou
saberes transmissíveis são ou devem ser transmitidos abuso) da argumentação quase lógica, mais precisamente da
20 pela escola; não é dizer que os especialistas encarregados definição. Observemos a palavra capital, o apenas da linha 4:
de transmitir sabem tudo o que há para saber em geral,
declara que a escola é isto - as quatro características - e que só
nem tudo o que há para saber do saber que transmitem.
Decerto sempre poderão ser acrescentadas outras deter- é isso. Resvala-se, sem qualquer aviso, de uma definição nor-
minações às quatro determinações essenciais. Por exem- mativa para uma definição descritiva.
25 pIo, pode-se desejar que a escola dê felicidade, que con-
tribua para a boa saúde fisica e moral, que possibilite um
uso racional do telefone ou da televisão, etc. Nenhum Uma cadeia de entimemas
reparo quanto a isso, contanto que ninguém se esqueça de
que esses são fins secundários e suplementares, vanta-
Como a argumentação se apresenta? Como uma cadeia de
30 gens adicionais: querer transformá-los em fins principais
e em beneficios maiores é na realidade renunciar às deter- entimemas, que parte de um fato admitido por todos, há esco-
minações essenciais. Logo, é querer o fim da escola. la, e de uma pergunta sobre o sentido dessa proposição. A dis-
§ III ( ... ) Trata-se, pois, sempre e primordialmente de posição, muito rigorosa, é a seguinte:
designar e definir os saberes que se querem transmitidos;
35 secundariamente, de ordenar as formas institucionais e I: Características necessárias da escola:
especializadas da transmissão. ( ... ) A segunda decisão é
na verdade a da pedagogia concebida não como fim, mas 1 a 3: exórdio, colocação do problema;
como puro meio de transmissão: muitas vezes tem pouco 4 a 10: enumeração das quatro características que definem a
que ver com a pedagogia usual e vulgarizada. escola;
10 s.: conseqüência de sua negação:falam contra a escola.
198 INTRODUÇÃO A RETÓRICA EXEMPLOS DE LEITURA RETÓRICA 199

lI: As seguintes características são suficientes para definir ra, comum aos partidários da escola clássica e a seus detrato-
a escola: res, não poderia ser mais redutora; ela modifica o sentido do
ensino e do saber. De fato, equipara a escola a um sistema de
13 a 20: explicação e esclarecimentos; transmissão, como o sistema de correios e telégrafos, com seus
20 a 25: concessão aparente;
órgãos, agências, objetos (cartas, encomendas); os saberes não
25 a 29: refutação pelas conseqüências: o fim da escola.
passam de mensagens, informações inertes, excluindo-se todo
III: Das características formais a seu conteúdo: o campo das habilidades e, o que é mais grave, da compreen-
são; os alunos são reduzidos a receptores passivos; os professo-
30 a 33: explicação; res, a agentes telegráficos. O papel da escola será de dar saber
33: nota sobre a primeira decisão (aqui omitida); ou de ensinar a aprender?
33 a 36: nota sobre a segunda: a pedagogia é apenas meio. Outra figura é a ironia, que aflora na linha 22, com as con-
cessões, cuja ordem mostra que elas são aparentes; se ele tivesse
Quais são os principais entimemas? Em I, afirma-se que a ido de televisão a dar felicidade, a gradação teria sido normal;
escola tem necessariamente essas quatro características, de tal aqui, a gradação ao inverso produz efeito caricato, salientando
modo que quem negar uma delas estará negando a escola e, o ridículo dos "pedagogos", ironia reforçada pela metáfora das
concretamente, contribuindo para destruí-la. O parágrafo 11 ter- vantagens adicionais com tudo o que ela sugere: se junto com
mina com um logo: como se chega a essa conclusão? Em três o sabão em pó vem um brinquedo, acontece-nos comprar o
tempos: 1) afirma-se que as quatro condições são suficientes; sabão por causa do brinquedo! O par fins secundários/fins pri-
2) que tudo o que se pode acrescentar a elas não passa de fins mários está assim invertido.
secundários; 3) que transformá-los em fins principais é abolir A litote da linha 35 (pouco que ver) introduz o par deci-
os verdadeiros fins da escola. A premissa principal subentendi- sivo:
da utiliza o lugar da essência: tudo o que se acrescenta à essên-
cia compromete sua integridade. Termo 1: pedagogia usual e vulgarizada, falsa e pretensiosa;
No parágrafo I1I, a premissa maior do entimema seria: Termo 2: pedagogia... puro meio de transmissão, útil e séria.
tudo o que só é formal deve ser completado. Observe-se que
esse texto exclui exemplos. O Por exemplo da linha 22 só faz
introduzir uma ilustração pedagógica (com a devida vênia!). A petição de princípio

Milner começa com uma definição normativa de escola; é


Figuras fortíssimas seu direito propô-la, assim como é direito do leitor recusá-la.
Mas depois essa definição vai funcionar em todo o texto como
O estilo está a serviço desse rigor. No entanto, o texto é definição descritiva; em outras palavras, o autor exige do leitor
amplificado secretamente por figuras fortíssimas. Antes de que este a admita como verdadeira e única. Ora, se descermos
mais nada, uma metáfora que retoma o tempo todo e comanda do "axiomático" ao empírico, se estudarmos na realidade essa
de fato todo o livro. Com freqüência se disse que as metáforas instituição que é a escola (cf. 1. 9), veremos que ela está longe
ocultas são as mais perigosas. Aqui é exatamente isso o que de reduzir-se às quatro características de Milner; a escola in-
acontece. Trata-se da transmissão (1. 5 e passim); essa metáfo- glesa, por exemplo, visa primordialmente à boa saúde fisica e
EXEMPLOS DE LEITURA RETÓRICA 201
200 INTRODUÇÃO A RETÓRICA
5 Vous en avez qu 'on adore;
moral, etc. O autor nos impõe sua definição pessoal, fazendo Mais ceux que vous méprisez
de tudo para que não tenhamos consciência dessa imposição. É Pourraient bien durer encore
o exemplo típico da petição de princípio. Quand ceux-Ià seront usés.
Mas não será isso - como afirma o TA - um "erro retóri-
co", uma inépcia da argumentação, pois age-se como se o audi- 6 Ils pourront sauver la gloire
tório admitisse o que na verdade não admite (como por exem- Des yeux qui me semblent doux,
plo a transmissão do saber)? Não é certo. É verdade que o livro Et dans mil/e ans faire croire
de Milner foi rejeitado com violência pelo clã dos "pedago- Ce qu 'i! me plaira de vous.
gos", tão maniqueístas quanto ele, mas congraçou um auditó-
7 Chez cette race nouvelle
rio granjeado antecipadamente, fornecendo-lhe argumentos, e Ou j 'aurai quelque crédit,
convenceu certo número de indecisos. Vous ne passerez pour belle
Pode-se lamentar que as análises ricas e muitas vezes ge- Qu'autant que je I' aurai dito
nerosas desse livro tenham sido postas a serviço de uma tese
redutora a ponto de ser caricatural, a "transmissão"". 8 Pensez-y, belle Marquise:
Quoiqu 'un grisonfasse effroi,
11 vaut bien qu 'on le courtise,
Quand il estfait comme moi.
Texto 7 -Pierre Corneille, "Marquesa", 1658

Marquise, si mon visage Marquesa, se meu semblante


A quelques traits un peu vieux, Tem traços envelhecidos,
Souvenez-vous qu 'à mon âge Pensai que na minha idade
Vous ne vaudrez guere mieux. Não sereis muito melhor.

2 O tempo as mais belas coisas


2 Le temps aux plus belles choses
Tem prazer em afrontar,
Se plaft à faire un affront,
E murchará vossas rosas
Et saura faner vos roses
Como enrugou minha fronte.
Comme il a ridé mon front.
3 Igual curso dos planetas
3 Le même cours des planetes
Rege-nos dias e noites:
Regle nos jours e nos nuits:
Já fui o que sois agora;
On m 'a vu ce que vous êtes;
Sereis o que agora sou.
Vous serez ce que je suis.
4 Mas conto com alguns encantos
4 Cependantj'ai quelques charmes Refulgentes o bastante
Qui sont assez éclatants Pr'a não ter tantos cuidados
Pour n 'avo ir pas trop d'alarmes Com estes estragos do tempo.
De ces ravages du temps.
202 INTRODUÇÃO A RET6RICA EXEMPLOS DE LEITURA RET6RICA 203
5 Vós os tendes, adoráveis; omitidos. Por exemplo, a estrofe 2 poderia ter começado com
Mas os que mais desprezais um "de fato"; a 5 com "é verdade que"; a 8 com "portanto",
Poderiam durar ainda etc. O assíndeto às vezes enseja ambigüidades; por exemplo,
Depois que esses se estragassem. deve-se entender as mais belas coisas ... como mesmo as mais
belas coisas, ou principalmente as mais belas coisas? No se-
6 Poderão salvar a glória gundo caso, ter-se-ia um argumento afortiori.
Duns olhos que eu veja afáveis, O fato é que a estrutura argumentativa é clara e forte. A
E em mil anos fazer crer disposição apresenta-se da seguinte forma. Nas três primeiras
O que de vós me aprouver.
estrofes, Corneille explica a Marquesa que ela não vale mais
que ele. Nas cinco últimas, deixa claro que ele vale mais, pois
7 E junto a essa nova raça
ela só chegará à posteridade graças a ele. A argumentação é
Que me dará certo crédito,
Vós só passareis por bela
uma seqüência de entimemas.
Tanto quanto eu descrever. A primeira parte é constituída por dois entimemas bastan-
te redundantes, cuja premissa maior é uma regra geral: O
8 Pensai bem, bela Marquesa: tempo... Igual curso ... , e cuja seqüência mostra que ela se apli-
Embora um velho amedronte, ca tanto a Marquesa quanto a ele, segundo a regra de justiça.
Sempre convém cortejá-lo, As figuras só fazem amplificar esse argumento de reciprocida-
Quando ele é assim como eu. de: O tempo... tem prazer, personificação por metáfora; mur-
char vossas rosas, metáfora expandida; enrugar minha fronte,
metalepse (ou "metonímia expandida"); o que sois... o que sou,
antítese. Em suma, uma argumentação quase lógica, do tipo:
Todo esse poema é uma apóstrofe a Marquesa, atriz que não há por quê!
usava esse nome e que ofendera Corneille chamando-o de Os entimemas das cinco últimas estrofes baseiam-se em
"coroa" (ele tinha então cinqüenta e dois anos ... ). Apóstrofe, outros argumentos, geralmente do segundo tipo. Observemos
pois o auditório real não é Marquesa, porém o público leitor. A os termos de comparação: bastante... p'ra (estrofe 4), ainda ...
enunciação é fortemente marcada: de um lado, Marquesa, vós, depois que (estrofe 5), tanto quanto (estrofe 7), e a hipérbole
em mil anos (estrofe 6): tudo evoca o lugar da quantidade, mais
vossas ... e, de outro, eu, minha, mim ...
precisamente da duração; o duradouro tem mais valor que o
O objetivo de Corneille certamente não é obter os favores
precário, portanto o talento mais que a beleza. Donde uma dis-
da jovem, mas provar a todos que tem valor, que sempre con-
sociação que comanda toda essa segunda parte do texto:
vém cortejá-lo... (estrofe 8); não se trata de amor, mas de "hon-
ra". E ele prova seu valor com argumentos de comparação em Termo I: vossos encantos, precários.
que talvez encontremos o motivo central do texto. Termo 2: meus encantos, duradouros.
Embora nada tenha de lírico, essa poesia contribui muito
para o patos; estrofes curtas, rimas ricas, ritmo ímpar - versos Par que fundamenta a dupla hierarquia da estrofe 5:
de sete pés -, tudo confere ao texto uma força, uma compostu- Duradouro> precário; logo:
ra, uma vivacidade que permitem dizer: "Belo troco!" Meus encantos duradouros> vossos encantos precários.
Convém lembrar que a poesia geralmente é paratáctica As estrofes 6 e 7 vão esclarecer por que o duradouro é
(cf. Texto 5). Nesta, os termos conectivos muitas vezes são uma superioridade: eles poderão salvar (vossa) glória; por um
204 INTRODUÇÃO A RETÓRICA EXEMPLOS DE LEITURA RETÓRICA 205

lado, alegando um fato: é graças à minha poesia que vossa be- SoujJre done que je m 'amuse;
leza sobreviverá. Sabe-se que para os homens do século XVII Car le temps, pour ton malheur,
uma causa deve ter pelo menos tanto valor quanto seu efeito, Pourrait bienflétrir ta muse,
caso contrário se admitiria que esse valor "não procede de na- Avant de faner mes fleurs ...
da"; sabe-se que esse lugar serve para que Descartes prove a
existência de Deus (cf. a quarta Meditação). Esse lugar nada Sei que te dói meu prazer
O tempo, p'ra teu desgosto,
mais tem de convincente para nós, que dissociamos o valor e o
Pode tua musa esvaecer
ser, e que acreditamos no progresso, portanto no aparecimento
Antes de murchar meu rosto ...
de um valor "complementar". Comeille, porém, utiliza isso para
estabelecer uma nova dupla hierarquia:

o que pode salvar um valor> esse valor; Texto 8 - René Descartes, Le discours de la méthode, se-
logo o valor de meus encantos> o valor de vossos encantos. gundaparte

A última estrofe, com aliterações notáveis - grison, effroi Um dos meus primeiros [pensamentos] foi perceber-
- conclui a argumentação com uma segunda dissociação: me a considerar que freqüentemente não há tanta perfeição
nas obras compostas por várias peças e feitas pelas mãos
de diversos mestres quanto naquelas em que uma só pessoa
Termo 1: velho amedrontador.
5 trabalhou.
Termo 2: velho genial.
Assim, vê-se que as construções iniciadas e termina-
das por um só arquiteto costumam ser mais belas e mais
seguida de um argumento pragmático: sempre convém ... Ob- bem ordenadas do que aquelas que várias pessoas cuida-
serve-se que a conclusão ultrapassa as premissas, pois Comeille ram de reorganizar, servindo-se de velhas muralhas que
passa de alguns encantos (estrofe 4) a eu (estrofe 8), o que supõe 10 tinham sido construídas para outros fins.
uma nova dupla hierarquia, implícita, que vai dos predicados Assim também certas cidades velhas, que, não pas-
aos sujeitos: meus encantos> vossos encantos; logo, eu> vós. E sando de vilarejos em seus primórdios, tomaram-se gran-
a glória de seu eu culmina com o que me aprouver (estrofe 6), des cidades com o transcorrer do tempo, são de ordinário
que no século XVII era atributo maior da realeza *. tão mal compassadas, apesar das praças regulares que um
15 engenheiro porventura trace nas planícies segundo sua fan-
Portanto, motivo central: dupla hierarquia.
tasia, que, mesmo considerando seus edifícios um por um,
Finalmente, o que Marquesa poderia ter respondido? Por e freqüentemente encontrando neles tanta arte, ou mais,
um lado, com um argumento que contestasse o lugar do dura- quanto nos das outras, ao se ver, porém, como estão orga-
douro: que me importa se vou envelhecer, se agora ... (são as nizados, aqui um grande, acolá um pequeno, e como tor-
palavras que lhe atribui, sem rodeios, Georges Brassens). Por 20 nam curvas e desiguais as ruas, tem-se a impressão de que
outro lado, contestando o fato, ou seja, o gênio de Comeille. foram assim dispostos mais por obra da sorte do que pela
Ou fazendo as duas coisas: vontade de alguns homens em uso da razão.
(... ) Assim, imaginava eu que os povos que, tendo
sido outrora semi-selvagens e tendo-se aos poucos civiliza-
* "Car tel est notre bon plaisir" [pois assim nos apraz), fórmula pre- 25 do, só criando suas leis à medida que a incomodidade dos
sente nos editos, que marcava a vontade do rei. (N. do T.) crimes e das disputas a talos obrigava, não poderiam ser
206 INTRODUÇÃO A RETÓRICA EXEMPLOS DE LEITURA RETÓRICA 207

tão bem policiados quanto os povos que, desde os primór- zem uma verossimilhança, mas não um absurdo: isso poderia
dios de seu agrupamento, tenham observado as constitui- existir.
ções de algum prudente legislador (... ) Por que argumentação dialética num autor que não a acei-
30 E assim pensava eu que as ciências dos livros, pelo ta? Na realidade, Descartes a utiliza para mostrar a necessidade
menos aquelas cujas razões são apenas prováveis e não têm de mudar de filosofia, antes de expor sua própria filosofia. Di-
quaisquer demonstrações, tendo sido compostas e engros- gamos que usa a argumentação para abolir a argumentação. ,
sadas aos poucos com as opiniões de várias e diversas pes-
Que argumentação? Pode-se discernir nesse texto algum
soas, não estão de modo algum tão próximas da verdade
motivo central? Note-se que, de maneira totalmente dialética, o
35 quanto os simples raciocínios que pode fazer naturalmente
um homem de bom senso no tocante às coisas que se apre- autor apresenta uma tese que depois ampara com cinco argu-
sentem. mentos.
E assim também pensava eu que, por termos todos Tese: obra perfeita é aquela em que uma só pessoa traba-
nós sido crianças antes de sermos homens, e por termos' lhou (l. 5); ilustra de modo notável o lugar da unidade, muito
40 carecido durante tanto tempo ser governados por nossos apreciado no século XVII. Note-se que, quando ele diz que
apetites e por nossos preceptores, freqüentemente contrá- esse pensamento foi um dos primeiros, não está indicando
rios uns aos outros e, uns e outros, talvez nem sempre bons apenas anterioridade cronológica, mas lógica; sem esse pensa-
conselheiros, é quase impossível que nossos juízos sejam mento, sem o lugar de unidade, Descartes não teria construído
tão puros ou tão sólidos quanto teriam sido se tivéssemos sua obra.
45 feito uso pleno de nossa razão desde o momento de nosso
Os argumentos, que começam todos com assim, como em
nascimento, e se nunca tivéssemos sido conduzidos senão
por ela.
Aristóteles, expõem fatos notórios: 1) construção; 2) cidade; 3)
constituição; 4) ciência; 5) educação. Estamos diante da argu-
mentação pelo exemplo.
Mas tratar-se-á de exemplos em sentido estrito, de ilustra-
Em várias ocasiões encontramos Descartes como inimigo ções, de modelos ou de analogias? O caráter basicamente hete-
da retórica e destruidor da dialética. Ora, aqui, estamos diante rogêneo dos cinco argumentos faz tender para a analogia. Isto
de um texto tipicamente dialético, que procede por razões ape- porque, por um lado, temos realidades materiais - construção,
nas prováveis, rejeitadas pelo autor (l. 31). Em vez de usar cidade - e, por outro, realidades espirituais - constituição, ciên-
demonstrações (l. 32), ele argumenta! Será inconsciente? Cer- cia, educação; os dois primeiros poderiam lançar luz sobre os
tamente não: Descartes é cuidadoso demais com seu método três últimos. No entanto, pode-se responder, como o TA (p. 484),
para ignorar o que está fazendo. E é com plena consciência que que os cinco exemplos não passam de aplicação de uma única
emprega certas palavras-chave da dialética: freqüentemente (l. regra, suficiente para tomá-los homogêneos: materiais ou espi-
2, 17, 41), tradução do épi to poly de Aristóteles, assim como rituais, essas realidades são todas obras; os cinco exemplos
de ordinário, da linha 13. Melhor ainda, ele "modula" o texto, designam obras humanas.
atribuindo-lhe o grau de verossimilhança que pode ter:foi per- Cumpre esclarecer que a ordem desses exemplos não é
ceber-me a considerar (l. 1); o vê-se (l. 6 e 18) indica que se aleatória nem reversível. Os dois primeiros, para o público do
trata de um exemplo, e não de uma evidência de tipo matemáti- século XVII, apaixonado pela ordem e pela unidade, têm alto
co, assim também imaginava (l. 23), no sentido de "representa- grau de verossimilhança; aliás, naquela época, construíam-se
va". Pensava eu que (l. 29) e quase impossível (l. 43) introdu- cidades bem compassadas, em forma de estrela ou em xadrez,
208 INTRODUÇÃO A RET6RICA EXEMPLOS DE LEITURA RET6RICA 209

como Lunéville, La Valette de Malte, etc. O terceiro exemplo, que aparecem nesta frase: eu era como um homem que anda so-
em que Descartes se refere à constituição de Esparta ou ao De- zinho nas trevas (segunda parte). Aqui aparece outra metáfora,
cálogo, obras superiores porque oriundas de um único autor, a da construção, que comanda todo o texto: se a ciência - e de
também é aceitável para os contemporâneos. Mas os dois últi- modo mais geral o pensamento - é uma construção, a ela pode
mos são completamente paradoxais; seria inadmissível que a ser aplicada a norma da arquitetura.
ciência fosse obra de uma única pessoa, nem no século XVII e Essa norma é o lugar da unidade, que aparece de forma
muito menos no XX! Ora, é aí precisamente que Descartes notável como motivo central de nosso texto. Contra a escolásti-
quer produzir aceitação. Trata-se então de exemplos ou de ilus- ca, Descartes reivindica uma ciência única que só pode ser
trações? obra de apenas uma pessoa. Ele.
Na realidade Descartes quer provar duas coisas: a regra e
o fato de ela se aplicar também e sobretudo à obra científica e
filosófica. Essas aplicações (11. 22 a 44) não são óbvias; por
Texto 9 - Uma entrevista com Françoise Dolto, Libéra-
isso, Descartes não se contenta em invocar a regra, mas mostra
tion, 5 defevereiro de 1987
com uma argumentação a contrario que ela também se aplica a
isto: quem se remete aos livros escolásticos ou à educação es- A psicanalista Françoise Dolto, especialista em crian-
colástica está fadado à diversidade de opiniões, portanto à in- ças, reage apaixonadamente ao movimento de protesto dos
certeza irremediável. Quem recebe opiniões de fora está fada- professores primários. "Incompreensível", afirma. Sentada
do ao preconceito; mesmo quando é verdadeiro o que pensa, junto à sua janela, tendo a seus pés o majestoso pátio da
está em erro, pois não sabe por que aquilo é verdadeiro! escola de surdos-mudos de Paris, ela se diz "espantada
Esse é o drama de quem aprende pelos livros (11. 22 s.), e com todo esse escarcéu".
mais geralmente de quem pensa em função da educação que (1) LIBÉRATION. - Como a senhora explica a rejeição do
projeto ministerial por parte dos professores primários?
recebeu; esta, por melhor que seja, só pode ser incoerente e dar
FRANÇOISE DOLTO. - Não entendo; é o espírito de
origem a preconceitos. Por termos todos começado como
maio de 68 pervertido. Em 68, tudo bem, mas agora é rejei-
crianças, a razão sempre chega tarde demais a um terreno já ção, nem mesmo da autoridade em si, mas da simples defi-
ocupado; só pode retificar mais ou menos um espírito já for- nição de atribuições dentro da equipe. Não entendo. Existe
mado, ou seja, deformado. Esse desenvolvimento terá como a necessidade de que alguém represente a escola para os de
conseqüência a dúvida "hiperbólica", em que Descartes se fora, que alguém assuma os abacaxis de fora. Por que os
obriga a rejeitar como falso tudo o que aprendeu. Rousseau e professores, que se entendem bem em equipe hoje, não
seus discípulos se inspirarão nela para reclamar uma reforma continuariam assim, mesmo que um deles fosse nomeado
radical da própria educação (cf. texto 11). professor-diretor? Afinal, este último não tem o poder de
dar nota aos colegas. Não é um superior, apenas um res-
A nosso ver, pode-se assim reconstituir a argumentação:
ponsável.
uma tese; três ilustrações (construção, cidade, constituição); (2) LIBÉRATION. - Como a psicanalista, que a senhora é,
duas aplicações (ciência, pensamento), que é preciso provar, e define o comportamento dos professores neste caso?
ele prova a contrario. F.D. - É um caso de puerilidade. São funcionários que
Cabe notar que as ilustrações não são aleatórias. Sabe-se gostariam de ser como os profissionais liberais, sem autori-
que para falar de seu pensamento Descartes utiliza metáforas, dade acima de si. É uma coisa ideal, mas não prática. Eles
partindo da luz (claro, escuro, evidência, etc.) ou do caminho, dizem "eu, eu, eu ... ". Idiota. Têm medo do quê? O que eles
210 INTRODUÇÃO À RETÓRICA EXEMPLOS DE LEITURA RETÓRICA 211
têm para temer? O diretor está lá como representante da aqui está combatendo a esquerda. Sua grande preocupação,
escola, e isso não diminui em nada a autoridade do profes- principalmente em (1) e (5), é justificar-se, eliminar essa con-
sor em classe. O sujeito que falou disso na televisão, já não tradição, pelo menos aparente.
lembro quem é, o ministro acho, falou bem. Na realidade, O gênero, portanto, é entrevista, o que implica um estilo
os professores gostariam de ser pagos por alguém que não
familiar e uma argumentação oral, mais ou menos improvisada.
tivesse nenhuma autoridade sobre eles, que só se encarnas-
se no inspetor, presente uma vez por ano.
O que mais impressiona é a mistura de termos técnicos
(3) LIBÉRATION - Qual é a participação da criança em (definição de atribuições) e vulgares (abacaxi). Todavia, o gê-
tudo isso? nero impõe a substituição de palavras eruditas por expressões
F.D. - A criança sempre precisa de uma situação trian- comuns. É assim que, em (2), vemos eles dizem eu, eu, eu, em
gular mínima. Em casa tem papai e mamãe que brigam; um vez de "são narcisistas"; em (3) temos em casa ela tem papai e
dos dois ganha, e a situação está clara. É bom que a criança mamãe, para designar o "triângulo edipiano".
possa recorrer à escola. E o professor também, que nem Finalmente, como é normal numa entrevista, ela não tem
sempre está seguro de si. Cabe ao diretor aparar as arestas, domínio sobre a disposição; quem organiza as perguntas é Ni-
arranjar as coisas. Não há por que sempre opor à criança as colas Beau. Aqui seguimos a argumentação passo a passo, pro-
decisões da equipe: é uma fragmentação ... É como se em curando o motivo central desse texto.
casa dela tudo fosse decidido com as tias e os tios.
(4) LIBÉRATION - Esse diretor da escola deve ganhar mais?
F.D. - Claro. Esse cara merece mais. Precisa visitar a
Parágrafo (1)
escola, receber as autoridades, trabalhar até mais tarde, co-
nhecer os pais, todos os pais.
(5) LIBÉRATION - O projeto tem conotação política? O argumento de partida é uma incompatibilidade: Não en-
F.D. - Ter cabeça não é coisa de direita nem de esquer- tendo, incompreensão reforçada pelas palavras do nariz-de-
da. Com a autogestão, todos viram parasitas. É justo que cera: incompreensível, todo esse escarcéu... É bom entender
haja ordem na escola, não vejo o que a política tem que ver que não há nada para entender: modo de dizer que a revolta dos
com isso, acho isso idiota. É até anti democrático opor-se a professores é absurda.
esse projeto. É deixar o caminho livre para a fuzarca. Essa incompatibilidade vai ser dirimida por uma disso-
ciação:
Entrevista concedida a Nicolas Beau.
Termo I: O espírito de maio de 68 pervertido;
Termo 2: em 68, tudo bem.

Introdução Esse par é explicitado por ela: o que os professores estão


rejeitando não é a autoridade, como em maio de 68, mas a divi-
Em 1987, a opinião pública francesa foi agitada por uma são do trabalho, a definição de atribuições. E através de um
decisão do Ministro da Educação, de criar um corpo de "mes- argumento do segundo tipo ela prova que essa definição de
tres diretores" nas escolas primárias, decisão que pôs os sindi- atribuições é necessária.
catos e toda a esquerda em pé de guerra. Finalmente, uma prolepse: Afinal... , que antecipa um con-
A autora, ou melhor, a entrevistada, é uma psicanalista de tra-argumento do adversário e o destrói por um distinguo: su-
crianças, muito conhecida na época. Diz-se de esquerda, mas perior/responsável.
212 INTRODUÇÃO A RETÓRICA EXEMPLOS DE LEITURA RETÓRICA 213

Parágrafo (2) Aqui também uma prolepse, introduzida por Não há por
que ... ; com dois argumentos ela refuta quem diga que a ação
Pedem-lhe para definir, como psicanalista, o comporta- da equipe pedagógica basta: 1) analogia com a família; 2) lu-
mento dos professores, e na verdade ela começa por qualificá- gar da unidade, marcado pela palavra fragmentação, que na
los: pueris. Termo que introduz uma nova incompatibilidade, última análise acaba adquirindo feições familiares: com as
pois uma das características constantes do infantilismo é perse- tias e os tios.
guir fins incompatíveis, aqui q\Jerer ser ao mesmo tempo fun-
cionário e profissional liberal.
Surge então uma nova dissociação, inversa à de (1): Parágrafos (4) e (5)

Tenno I: é uma coisa ideal; Um dos pontos litigiosos do decreto era conceder uma re-
Tenno 2: mas não prática. compensa aos novos diretores. Dolto justifica essa recompensa
com quatro exemplos, para mostrar que esse cara merece mais
A incompatibilidade é sancionada pelo ridículo: Idiota. (outra vez o estilo negligente).
Que será repetido no fim: os professores gostariam ... Trata-se de argumento pragmático? Seria, se ela tivesse
O que eles têm para temer? É mais uma prolepse; para dito que é preciso pagar mais o diretor para que ele trabalhe
acabar com esse medo, ela dá uma definição normativa do di- mais; no entanto ela disse: porque ele trabalha mais; logo, é um
retor: representante. Mais adiante, ele será árbitro. argumento de sacrifício, que por sua vez se funda numa dupla
Note-se enfim a preterição: já não me lembro quem é... , hierarquia: a hierarquia admitida das tarefas ampara a outra,
embora logo esclareça que é o ministro! Na verdade, sua preo- dos salários, por provar.
cupação é evitar o argumento de autoridade: se ela se alia ao Em (5) a pergunta de Beau induz uma prolepse: pode-se
ministro, não é pelo fato de ele ser ministro, mas sim por ser desconfiar que o projeto seja de direita? Mais uma vez ela res-
um sujeito que falou bem. ponde com uma dissociação:

Tenno I: autoridade contestável no plano político;


Parágrafo (3) Tenno 2: autoridade incontestável no plano pedagógico.

A pergunta que abre o parágrafo (3) é retórica, pois su- Uma figura reforça o argumento: ter cabeça; é uma metoní-
gere que essa revolta lesa o interesse da criança, e que por- mia (cabeça por pensamento) ou uma metáfora (cabeça por
tanto é inadmissível. Dolto só tem que aproveitar a deixa. chefe)?
Armando-se de seu triângulo edipiano, que ela erige em lei Viram parasitas é uma metáfora que resume um argumen-
universal - ela sempre precisa ... -, Dolto passa, por analogia, to pragmático: a autogestão tem conseqüências nocivas. É a
da família à escola, amparando seu argumento numa dupla fuzarca, metáfora enobrecida pelo general de Gaulle em 1968,
hierarquia: que nem por isso deixa de ser uma hipérbole e um argumento
de direção: a ficarem assim as coisas, é nisso que vamos aca-
ARGUMENTO: criança < mãe < pai; logo bar. Como se vê, essa esquerdista se entrega de corpo e alma ao
TESE: aluno < professor < diretor. lugar da ordem.
214 INTRODUÇÃO À RET6RICA EXEMPLOS DE LEITURA RET6RICA 215

Observações críticas: o motivo central não há força maior, porém ação humana, imprevidência, preci-
pitação, negligência do homem.
No mérito Dolto tinha razão? Não queremos nem pode- Só que o rigor do direito e da moral neste caso talvez seja
cruel demais. Pensemos nessas jovens magníficas oferecidas
mos pronunciar-nos sobre isso. Mas não podemos deixar de
com um dote magnífico; vai ser preciso reduzir o dote? E o últi-
examinar as falhas de sua argumentação.
mo modelo "quarenta cavalos", será preciso renunciar a ele? E
Em primeiro lugar, ela parece ignorar a situação concreta aquela mansão tão confortável, que alugaram, como querem que
dos professores primários, sobretudo a autoridade dos inspeto- se livrem dela? Todas essas despesas são interdependentes, e
res e o temor que inspiram, motivado ou não, pouco importa. não se sabe bem por onde começar. Quanto à viagem às termas,
Em segundo lugar, o argumento de direção que termina o é necessária. Saúde antes de tudo, não é mesmo?
texto é probatório? Uma vez que, até aquele dia, se vivera sem Palavra de honra que lastimo esses pobres ricos. Eles tam-
"mestres-diretores", a fuzarca poderia estar reinando há muito bém têm suas necessidades, e as necessidades do hábito não são
tempo. Ora, ninguém tinha notado ... NB: - Nosso argumento é menos imperiosas que as outras. Tenho pena daquela linda loira,
uma instância, refutação de uma tese por suas conseqüências. tão corretamente sentada em seu cupê elétrico; e aquele rapaz,
Em terceiro lugar, o motivo central de todo esse texto é de sobretudo acinturado, vai passar como o seu tempo se não
jogar bacará? As mulheres estão de olho nele, e eu temo por sua
sem contestação o argumento de autoridade. Está claro: Dolto
virtude.
é convocada como especialista da infância; no § 2, ela é inter-
Mas subscrevo, sim, com todo o coração. Vamos lá, senho-
pelada como psicanalista capaz de definir o comportamento res e senhoras, tenham a bondade. Principalmente os que forem
dos professores. E logo de início, quando afirma Não entendo, de poucas posses, acostumados que estão a privar-se. Vamos,
está querendo dizer que nada há para compreender, que tudo é sejam humanos. Caridade, por favor, para os acionistas de Cour-
pueril, idiota. O que se critica na psicanalista não é o fato de ter rieres.
usado sua autoridade, mas de ter abusado dela, pois dita nor-
mas em seara alheia: organização escolar e política. Com o
mesmo tipo de argumentação ela teria conseguido provar que a
liderança mundial cabia aos Estados Unidos e a ninguém mais! A catástrofe ocorrida na mina de Courrieres (Pas-de-Ca-
É verdade que ela não é a única psicanalista que abusa de sua lais), que causou a morte de mil e duzentos mineiros, foi acom-
autoridade. panhada por greves reprimidas pelo exército. Alain trata dela
em um de seus artigos diários para um jornal de esquerda, La
dépêche de Rouen. Trata-se de um "tópico", que chega a cons-
Texto 10-Alain, "Considerações", de 20 de março de 1910 tituir um gênero: texto breve, ao mesmo tempo pessoal e con-
ceitual, em etilo acessível e familiar, habitualmente irônico ou
Aprovo cabalmente essa subscrição nacional para socorrer alegórico.
os acionistas das minas de Courrieres, que passaram por transe
É fácil descobrir o motivo central desse texto. Pode-se
tão cruel.
realmente acreditar que Alain lastime os ricos, que ele esteja
Está claro que moralmente, se não de pleno direito, eles
deveriam, com base nos lucros que auferiram e auferirão, repa- fazendo a subscrição em seu favor e pedindo aos pobres que
rar tudo o que de reparável houver na catástrofe, ou seja, respon- façam o mesmo? Com certeza esse texto é irônico; diz o con-
sabilizar-se desde já pelas viúvas e pelos órfãos. Isso a rigor é trário do que quer dizer, para exprimir-se melhor: de modo
moral; seria até de direito se olhássemos de perto, pois no caso mais percuciente e convincente. No entanto, é preciso detectar
216 INTRODUÇÃO A RETÓRICA EXEMPLOS DE LEITURA RETÓRICA 217

a ironia por certas marcas. Aqui, a mais notória é o oxímoro, levar. Antanáclase em rigor, que passa do sentido de exigência
lastimo esses pobres ricos (4). Mas desde o terceiro parágrafo estrita para o de crueldade. Lugares-comuns: o aluguel que é
será possível tomar ao pé da letra essas expressões falsamente preciso honrar, a viagem às termas, a saúde antes de tudo (3),
apiedadas, na realidade impiedosas, como a saúde dos acio- as mulheres que estão de olho no boa-vida (4): esses argumen-
nistas, quando se conhece a catástrofe que desabou sobre seus tos são decerto escandalosos, mas isso só se nota depois de
operários? algum tempo de reflexão. O que Alain dá a entender é que es-
Em suma, entende-se que, quando Alain diz subscrevo, não ses argumentos são as verdadeiras razões, as únicas razões que
fez nada disso; que, quando diz lastimo, está denunciando. os ricos poderiam alegar para deixar de pagar, razões tão ridí-
Para os leitores de 1906 a ironia era ainda mais visível e culas (ou odiosas) que eles as guardam in petto.
devia até parecer imensa. Pois, afinal, a subscrição realmente De se notarem as metonímias. Para indicar o luxo escan-
ocorreu, mas não para os acionistas, e sim para os mineiros, daloso, ele fala de jovens magníficas - mas oferecidas! -, de
evidentemente! Ora, ocorre aqui um desses deslocamentos em quarenta cavalos, de viagens às termas. A juventude dourada é
que Freud vê um dos grandes fatores da comicidade: Alain age a linda loira, o rapaz com sobretudo acinturado, etc. A metoní-
como se a subscrição para os pobres fosse para os ricos, os mia desempenha papel argumentativo duplo: de exemplo e de
patrões. Mas no fundo não será isso o que ele pensa? símbolo. Com alguns traços Alain estabeleceu a riqueza.
O que ele pensa se vê no segundo parágrafo, que se apre- Cabe lembrar que a ironia quase sempre condensa um ar-
senta como uma prolepse e uma concessão: Está claro que... Só gumento de incompatibilidade, que ressalta através do ridículo.
que... em suma, poder-se-ia acreditar, mas não é isso o que Na verdade, apesar das aparências, esse texto não é de ataque
acontece. Mas, como estamos em plena ironia, é preciso tomar aos ricos, no sentido de que Alain não exige - como faziam
a concessão aparente por argumento real de Alain: os patrões então os socialistas - que eles sejam despojados de suas rique-
devem reembolsar seus operários; não é só a moral que o exige, zas. Esse texto é contrário à caridade, que despoja os pobres de
mas o direito, pois os danos são decorrentes da negligência sua única riqueza, a dignidade. É esse escândalo que o artigo
deles. A catástrofe poderia ser evitada se não tivessem sacrifi- denuncia: pede-se ao povo, aos de poucas posses, que faça doa-
cado homens ao lucro. Em resumo, um argumento de causali- ções às vítimas, o que dispensa os responsáveis de ressarcir as
dade: o causador do acidente - mesmo que por omissão - é res- vítimas e as priva de seus direitos: dupla vantagem para os ri-
ponsável por ele. Na época isso era bem menos claro que hoje. cos. Donde a hipérbole final, que leva ao extremo o argumento
A lei dos acidentes de trabalho estipulava que, para serem res- de direção: a continuar assim, logo estarão exigindo caridade
sarcidos, os operários deviam provar a responsabilidade do pa- para os acionistas ...
trão, o que era especialmente dificil, em se tratando de um de-
sastre numa mina.
Portanto, para Alain, quem tira proveito de uma subscri-
Texto ll-A educação negativa, J.-J. Rousseau, Emílio,
ção nacional "pelas vítimas" são os acionistas, e até duas ve-
2.° livro
zes, pois ficarão dispensados de pagar o que devem, ao mesmo
tempo que obrigam os operários a lhes serem gratos. Atrever-me a aqui expor a maior, a mais importante, a
A seqüência é apenas um argumento irônico, que se deve mais útil regra de toda educação? Não seria isso ganhar
ler ao inverso! A força da ironia é que, por emprestar uma espé- tempo, porém perdê-lo. Leitores vulgares, perdoai-me os
cie de aparência a esses argumentos, no começo deixamo-nos paradoxos: é preciso criá-los quando se reflete; e, seja lá o
218 INTRODUÇÃO A RET6RICA EXEMPLOS DE LEITURA RET6RICA 219

5 que de mim disserdes, prefiro ser homem de paradoxos a poderia ser substituído por formas verbais impessoais sem que
ser homem de preconceitos. O mais perigoso dos interva- nada mudasse.
los da vida humana é o que vai do nascimento aos doze A nosso ver, o motivo central está em outro lugar, e bem
anos de idade. É o período em que germinam os erros e os escondido ...
vícios, sem que tenhamos ainda instrumento algum para
10 destruí-los; e, quando chega o instrumento, as raízes já são
tão profundas que já não é tempo de arrancá-las. Se as
crianças saltassem de uma vez do peito para a idade da ra- o paradoxo
zão, a educação que lhes dão poderia ser conveniente; mas,
segundo o progresso natural, elas precisam de outra, total- Aqui: nosso texto situa-se no livro segundo, que estuda a
15 mente contrária. Seria preciso que nada fizessem de sua educação entre dois e doze anos, mostrando que, em essência,
alma enquanto não contassem com todas as faculdades; ela deveria ser uma não-educação. A página anterior trata pre-
pois é impossível que ela perceba o facho que lhe apresen- cisamente do problema das punições, que para o autor são pre-
tais enquanto está cega, e que siga, na imensa planície das
maturas. Mas é contra a "prematuração" em geral que Rous-
idéias, uma trilha que a razão traça tão levemente mesmo
20 para os melhores olhos.
seau se insurge em nosso texto, que, aliás, surge do contexto de
A primeira educação deve ser, pois, puramente negativa. maneira bastante inesperada.
A argumentação é ao mesmo tempo rica e tensa. Por quê?
Provavelmente porque o autor parte, como ele mesmo diz, de
um paradoxo. Paradoxo enorme para os leitores do século
Introdução: haverá motivo central? XVIII, habituados a ver a educação como lavagem cerebral,
adestramento, disciplina sádica, imagem que quase todos os
Pode-se encontrar nesse texto algum motivo central? Em seus colegas passavam. Enorme para nós também: e por uma
todo caso, aparece uma figura essencial logo de início, a após- razão lógica. Rousseau enuncia uma regra, e toda regra, até
trofe l : Leitores vulgares ... Note-se que esse termo nada tem de prova em contrário, é portadora de valor, valor que a toma jus-
depreciativo; na época vulgar podia significar, como aqui, "lei- tamente maior, importante, útil... Ora, perder tempo é expres-
go". Rousseau não se dirige nem aos educadores nem aos filóso- são nitidamente pejorativa, exatamente o contrário do valor;
fos, mas a todos, ao auditório universal. A apóstrofe é subjacente inconcebível, portanto, que seja objeto de uma regra; seria
a todo o texto: o que de mim disserdes (4), que lhe apresentais
como dizer que a grande regra da horticultura é deixar que os
(16). E com uma apóstrofe se conclui o parágrafo seguinte:
legumes apodreçam! E a educação não é ainda mais séria que a
horticultura? Em suma, o paradoxo é tão grande que a primeira
Começando por nada fazerdes, tereis feito um prodígio de
edição corrigiu o texto substituindo perder [perdre] por des-
educação.
pender [prendre]. Mas na segunda edição Rousseau voltou com
Conclusão que mostra que o objetivo do texto é ser prático (ja- seu perder, e o impôs.
zerdes, feito), coisa normal num discurso sobre a educação. O que é paradoxo? Uma opinião que contraria a opinião
A apóstrofe é ao mesmo tempo expressiva e persuasiva, comum; isso não significa contrariar a razão: mas, afinal, Rous-
pois é como se o autor estivesse presente a nos interpelar. Mas seau não estaria se arriscando a perder o auditório, ao partir em
nem por isso é indispensável, pois em qualquer lugar o vós todo caso de um acordo prévio excessivamente restrito? Mas
220 INTRODUÇÃO A RETÓRICA EXEMPLOS DE LEITURA RETÓRICA 221

os leitores, imbuídos das Luzes, por certo achavam que qual- Premissa maior: é antinatural dar às crianças uma educa-
quer coisa vale mais que um preconceito, e a argumentação de ção que não lhes convenha;
Rousseau aposta nisso. premissa menor: a educação positiva não lhes convém (an-
tes dos doze anos);
conclusão: precisam de outra totalmente contrária.
A argumentação
A expressão conveniente (I. 13), reforçada por impossí-
Todo o parágrafo consiste em transformar em verdade vel (I. 17), indica uma argumentação quase lógica fundada no
demonstrada o paradoxo com que começa: a educação... pura- lugar da essência. É a partir do progresso natural da criança
mente negativa, cujo conteúdo prático o parágrafo seguinte que o autor prova a incompatibilidade entre a educação dada
exporá: o "como" depois do "porquê". Curiosamente, Rous- e aquilo que existe na realidade. Progresso natural: hoje di-
seau - homem da experiência, da natureza, do herborismo - ríamos crescimento espontâneo, com seus "estágios", já pres-
parece muito preocupado com a demonstração matemática; ex- sentidos por Rousseau. Nota-se também que ele com isso res-
põe por entimemas, argumentos quase lógicos, mas não tem ponde ao desafio de Descartes em Discours de la méthode
certeza de que seu rigor na realidade não seja dogmatismo. Se (texto 8). Rousseau também admite que o homem nasce mui-
não, vejamos. to antes de sua razão, e que a inrancia é, portanto, um interva-
De início, justifica seu paradoxo com um entimema: lo perigoso, durante o qual se instalam os erros e os vícios,
porque o homem ainda não possui o instrumento para des-
Premissa maior: não se pode refletir sem paradoxos; truí-los (11. 8 a 11), ou seja, a razão. Mas, enquanto Descartes
premissa menor (subentendida): ora, eu reflito; se resigna a ver na educação a causa irremediável de todos os
conclusão: sou homem de paradoxos. nossos preconceitos, Rousseau afirma que se pode mudar a
educação, educar segundo o progresso natural, evitando os
A comparação que se segue apóia-se numa dupla hierarquia: erros e os vícios. Para isso, é preciso renunciar a educar cedo
como a reflexão é superior à irreflexão, o paradoxo é superior demais, não contrariar a natureza, "deixar que a inrancia ama-
ao preconceito. dureça na criança".
A argumentação é rigorosa, mas contestável em dois pon- Contudo, se voltarmos ao entimema, veremos que a con-
tos. Em primeiro lugar, arrisca-se ao sofisma: premissa menor, clusão excede as premissas. Pode-se afirmar sem mais nem
faço paradoxos; conclusão, reflito. Rousseau evita isso, mas o menos que, não convindo às crianças a educação positiva, elas
leitor não fica com essa impressão? Em todo caso - e esse é o precisam de outra totalmente contrária? A conclusão só seria
segundo aspecto -, sua argumentação repousa numa alterativa tal se ficasse provado que não há outra, que não há educação
nada comprovada. Entre o preconceito e o paradoxo não haverá intermediária entre a coação e a espontaneidade total, interme-
meio-termo? Será que não podemos abandonar um sem incidir diária que talvez seja simplesmente a pedagogia.
no outro? Aí está, a nosso ver, o dogmatismo de Rousseau: ele nos
A justificativa do paradoxo é apenas uma prolepse. Mas impõe escolhas absurdas porque fundadas em alternativas que
toda a argumentação seguinte - para provar que o paradoxo não são alternativas. Donde o maniqueísmo - preconceito ou pa-
não é paradoxo - tem pretensões ao mesmo rigor. Configura radoxo, educação positiva ou negativa - que será visto o tempo
um entimema: todo no discurso pedagógico, como mostramos em nosso Lan-
gage de I' éducation.
222 INTRODUÇÃO A RETÓRICA EXEMPLOS DE LEITURA RETÓRICA 223

As metáforas da educação Conclusão: o motivo central

Outra característica importante do discurso pedagógico: a Pode-se até pensar que esse é um texto contrário à pedago-
abundância de figuras, sobretudo metáforas, que dão testemu- gia, como tantos que vicejaram nos anos 70 ... Certo, mas é
nho do caráter fortemente polêmico da argumentação. também um dos textos que fundaram a pedagogia, pelo menos
Nosso parágrafo se inicia com uma pergunta retórica: Atre- se a entendermos não como simples técnica de ensino, mas
ver-me a aqui... , cujo objetivo por certo é preparar o paradoxo, como consideração da criança em sua própria educação, consi-
antecipando todo o seu efeito; o peito (1. 12) é uma metonímia deração que é ao mesmo tempo conhecimento da criança e res-
que sugere a absoluta dependência da criança, dependência que peito por ela. Qual é o pedagogo que não sabe da necessidade
a educação não elimina, mas ao contrário mantém sine die. de saber observar a criança, esperar o momento propício, etc.?
As numerosas metáforas são clássicas em toda a linguagem Pois bem, mas ele não poderia dizer tudo isso dispensando o
educacionaF. Metáfora da luz: facho (1. 17), cega (1. 18), olhos enorme paradoxo?
(1. 20). Metáfora do caminho: saltassem (1. 12),progresso (1. 14), Acreditamos que não se deva tomá-lo ao pé da letra. Para
seguir. .. uma trilha (1. 19), que se combina com a anterior na per- nós, esse texto tem como motivo central a hipérbole, que é não
sonalização: que a razão traça tão levemente, para introduzir um só um modo exagerado de exprimir o pensamento como tam-
argumento afortiori: para os melhores olhos (1. 20). bém a forma extrema do argumento de direção, que refuta uma
Note-se que a palavra alma (1. 16) não é metáfora, pois al- tese dizendo: a admiti-la, aonde chegaremos?
Figura de exagero, em primeiro lugar. O que Rousseau
ma para Rousseau é tão real e tão cognoscível quanto o próprio
quer dizer com sua educação negativa? Ele explicará isso de-
corpo. Em compensação, verifica-se a abundância e a força das
pois, a monsenhor Christophe de Beaumont:
metáforas "hortícolas" (D. Hameline), bastante expandidas: ger-
minam - instrumento para destruí-los; raízes - arrancar. A que tende a aperfeiçoar os órgãos, instrumentos de nos-
Essas metáforas são analogias condensadas: assim como sos conhecimentos, e que prepara a razão pelo exercício dos
os maus germes, sem instrumentos para arrancar... também os sentidos.
saberes inculcados antes da razão. Mas Rousseau multiplica os
curtos-circuitos entre o tema e o foro, fundindo as metáforas: A educação negativa, portanto, nada tem de vazia: ela prepara os
instrumentos do pensamento e da ação, deixando a criança às
Foro: voltas com o meio onde esses instrumentos se exercitarão de iní-
cio, mas um meio cuidadosamente administrado pelo preceptor.
Terna: Hoje diríamos: nada ensinar à criança que ela não possa com-
preender, que ela não esteja madura para aprender.
Na verdade, este último não é tempo pertence tanto ao Mas por que dizer isso de forma hiperbólica? Para argu-
foro quanto ao tema; nele culmina a metáfora, que também é mentar. Rousseau denuncia um perigo: se a criança for instruí-
aquilo que Rousseau quer provar. Mas será que Rousseau vê da antes de precisar desses saberes e de ser capaz de entendê-
isso realmente como metáfora? Para ele, o parentesco entre o los, só lhe estarão inculcando preconceitos, mesmo que se trate
foro - natureza vegetal- e o tema - criança e sua educação - é de verdadeiros saberes e de autênticos valores; ela se acostu-
tão obcecante que temos aí mais uma relação lógica de identi- mará a pensar e a querer através de outras pessoas, portanto te-
dade do que propriamente analogia. rá sido doutrinada. Mais precisamente: querendo forçar a crian-
224 INTRODUÇÃO À RETÓRICA EXEMPLOS DE LEITURA RETÓRICA 225

ça a sair da inrancia, corre-se o risco de mantê-la na inrancia poderia estar menos rico; sua fortuna é inesgotável, e falar de
pelo resto da vida: Rothschild em necessidade seria um oxímoro intolerável (figu-
ra que, no entanto, a história se encarregaria de concretizar, já
éramos feitos para ser homens; as leis e a sociedade mergu- que vários Rothschild morreram de inanição em campos de
lharam-nos de novo na infância (Emílio, p. 100, Gamier- concentração ... ) .
Flammarion). Comicidade do argumento, portanto "comicidade da retó-
rica" - como diz Lucie Olbrechts-Tyteea em Le comique du dis-
Rousseau provavelmente admitiria que seus conselhos são cours -, mas que, curiosamente, se volta contra o próprio ora-
utópicos, e que numa sociedade como a nossa não se pode evi- dor; cada um dos mendigos pretende ressaltar uma incompatibi-
tar o início precoce da educação positiva, muito antes dos doze lidade, mas quem sai ridicularizado não é o rico, e sim ele.
anos em todo caso! Mas ele mostra aonde se chega quando se No entanto, a comicidade não provém, como diria Berg-
escorrega no "resvaladouro", ensinando-se uma criancinha de- son, de um mecanismo qualquer sobreposto à vida, de uma ló-
pressa demais, cedo demais. Um grito de alarme; que ainda es- gica cega e descompassada. A coisa é bem mais sutil. A comi-
tamos ouvindo. cidade provém antes de mais nada da ausência flagrante de
acordo prévio entre os ricos e os mendigos, portanto do confli-
to entre duas lógicas.
A lógica dos dois ricos é moderna, racional e individualis-
Texto 12 - Duas histórias iídiches
ta; segundo ela, a caridade é um ato pessoal, nunca exigível de
Dois irmãos vão todos os anos mendigar em casa de Roths- direito. Na primeira piada, Rothschild raciocina por dupla hie-
child, que lhes dá vinte francos. Um deles morre, e o que conti- rarquia: como o mendigo está sozinho, só tem direito à metade.
nua vivendo só recebe dez francos. Quando se queixa, Roths- Na segunda, o rico acha que, como seus recursos diminuíram,
child lhe diz que seu irmão não está mais vivo. - "Mas, senhor tem direito a dar menos.
barão, quem é o herdeiro, o senhor ou eu?" A essa lógica baseada no devido, os dois mendigos
(Schnorrer) opõem a lógica do donativo, típica das sociedades
Um mendigo vai todos os anos à casa de um rico, que lhe dá tradicionais, que fazem da caridade um dever religioso que
seis marcos. De certa vez só recebe três. Quando se queixa, o rico
confere ao mendigo uma espécie de direito, não escrito, porém
se desculpa, dizendo que seus negócios vão mal, e que acaba de
casar a filha. - "Ah, responde o mendigo, às minhas custas!"3 bem real. Algo disso subsiste em nosso hábito de dar "caixinha
de Natal": quem der ao carteiro a metade do que deu no ano
anterior poderá vê-lo indignado. Donde a lógica dos direitos
adquiridos, que nos dois casos se baseia na regra de justiça:
Essas duas histórias têm a estrutura de todas as piadas: não há motivo para que Rothschild fique com a metade, ou
1) cenário; 2) núcleo, que cria a tensão; 3) desfecho, cômico para que o pobre arque com as despesas das núpcias. Em suma,
porque inesperado. São muito semelhantes entre si; nas duas, o a reivindicação dos mendigos nada tem de ridículo; em certo
núcleo é criado pela decepção do mendigo, e nas duas a comi- sentido é até convincente. Por que então fazem rir (talvez pro-
cidade vem do argumento dele, totalmente inesperado. positadamente)?
Note-se que, na segunda, Rothschild é substituído por um A nosso ver, a comicidade está ligada a duas figuras, mui-
rico. Por quê? Porque, no imaginário popular, Rothschild não to freqüentes nas piadas: por um lado, o jogo de palavras (her-
226 INTRODUÇÃO A RET6RICA À guisa de conclusão
deiro e às minhas custas); por outro, a hipérbole: eles falam
como se Rothschild realmente estivesse reivindicando uma.
herança, ou como se os três marcos tivessem financiado as
núpcias! No entanto, o jogo de palavras, que nada tem de troca-
dilho, é uma sutil antanác1ase, que repousa num ligeiro desvio
de sentido. E a hipérbole é apenas um exagero. Bastaria que os
dois mendigos dissessem "eu precisava tanto desse dinheiro",
para que a resposta deixasse de ser cômica e passasse a ser co-
movente.
Quem é o herdeiro ... : se ele tivesse dito "beneficiário", não
seria engraçado; mas, falando assim, introduz uma igualdade No início deste livro, perguntamos se ele mesmo não era
totalmente incôngrua entre o barão e ele, como se o direito à retórico. Precisamos confessar que é, pois visa a persuadir, sus-
mendicidade equivalesse ao patrimônio de um Rothschild (hi- tenta teses sobre a retórica. Que teses?
pérbole). Às minhas custas ... : o segundo mendigo pode achar I) Definimos a retórica, a partir da tradição, como arte de
que contribuiu muito para o financiamento das bodas, pois é persuadir pelo discurso, o que equivale a dizer que é uma arte
por isso que seu óbolo foi reduzido; e o iídiche se vale admira- funcional, cujos elementos - plano, argumentos, figuras, etc.
velmente da ambigüidade da expressão (cf. alemão Auf meine - têm valor pelo serviço que prestam. Arte para a qual não se
Kosten), que significa "a expensas" e "à custa"; o humor está separa beleza de verdade, que postula que um discurso feio
no deslocamento quase imperceptível de um sentido para o ou- não pode ser verdadeiro, ou pelo menos tão verdadeiro quanto
tro: do mendigo privado de seus três marcos para o mendigo se não fosse feio. Arte para a qual a beleza inútil, sem função
que financia as bodas com seus três marcos. persuasiva, não passa de ornamento, de "pintura", como dizia
Cabe lembrar também a função argumentativa da hipérbo- Cícero.
le, que ressalta um argumento de direção: a continuar assim, o 2) Afirmamos que retória é a união íntima entre estilo e
rico acabará por apropriar-se até da minúscula herança que nos
argumentação, e que, desse modo, um dfscurso é retórico à
resta, ou vai casar a filha com nossos três marcos!
medida que é fechado e não parafraseável. Significa dizer que
Mas a ambigüidade mais profunda está no papel dos men-
um discurso retórico não tem estruturas profundas; sendo inse-
digos. Se fazem rir de si mesmos, será mesmo sem intenção?
paráveis sua forma e seu conteúdo, deixaríamos de entendê-lo
Se involuntário, será dificill entender a inteligência das répli-
se procurássemos por trás da forma um sentido para o qual ela
cas; se proposital, será mesmo deles que estamos rindo?
não passasse de vestidura. O sentido está na superficie, e a
Em suma, por um quase nada essas piadas perderiam toda
superficie faz sentido. Voltemos à fábula de La Fontaine; se a
a graça. É daí que provém, pensamos, a qualidade de sua comi-
interpretássemos reduzindo a narrativa poética a seu esboço
cidade.
em prosa, que por sua vez seria reduzido à "moral", teríamos
entendido tudo, menos ... La Fontaine. Essa recusa de separar
fundo e forma orientou nossas "leituras retóricas".
3) Não hesitamos em fazer um elogio da retórica, o que,
evidentemente, é uma tese. Pois, mesmo que não entendamos
a retórica no sentido vulgar, mesmo que a tomemos por aqui-
228 INTRODUÇÃO A RETÓRICA A GUISA DE CONCLUSÃO 229
lo que ela mesma pretende ser, nem por isso ela estará imune traduziria o pensamento traindo-o. Não será essa no fundo a
a críticas. Argumentaremos uma última vez a partir dessas atitude dos grandes contendores da retórica, como Platão e
críticas. Descartes? A esses temíveis pensadores oporemos seu próprio
exemplo, que mostra que o pensamento, em vez de preexistir à
linguagem, nasce de um trabalho na linguagem, e que aprender
Arte e naturalidade a expressar-se também é aprender a pensar.

Certos termos que quase sempre são associados à palavra


"retórica" (clichê, chavão, estereótipo, verbalismo, academi- A ilusão do livro do mestre
cismo, etc.) sugerem que a "arte" na verdade seria um conjunto
de artificios que impedem a expressão natural, índice de falta Aqui surge outra objeção: a retórica não está a serviço da
de sinceridade. Sim, o orador é culpado de não dizer simples- verdade. A prova é que a invenção retórica, em vez de ser busca
mente o que pensa, sobretudo quando pretende convencer os sincera da verdade, não passa de inventário de argumentos e de
outros das coisas que pensa. sentimentos capazes de levar sua causa ao triunfo. Assim, a
"O que ele pensa": mas pode-se fazer caso de um pensa- "arte oratória" só está a serviço do incerto, às vezes do falso,
mento que preexista já pronto à sua expressão? Acreditamos sempre da aparência. Por acaso essa mesma arte não proclama
que uma idéia não expressa não passa de sentimento confuso que está em busca do verossímil, e não do verdadeiro?
que não pode enfrentar sozinho a prova do diálogo e da refuta- Essa crítica repousa, a nosso ver, numa idéia falaciosa da
ção'. Concretamente, a sinceridade não preserva ninguém da verdade, que chamaremos de ilusão do livro do mestre. Racio-
inaptidão, da incoerência, do chavão, da obscuridade; e nin- cina-se como se todos os problemas da vida - judiciários, polí-
guém favorece seu pensamento quando o expressa de viés! É ticos, econômicos, pedagógicos, éticos - tivessem uma solução
preciso toda uma arte para exprimir-se; e ninguém convence as escrita em algum lugar, na terra ou no céu, em nossa consciên-
massas porque é sincero em política, nem é pregador ou mis- cia ou em nosso coração, numa espécie de livro do mestre que
sionário porque é crente sincero. É preciso aprender; e, se al- basta abrir para encontrar a resposta certa. Infelizmente, não é
guns têm mais dom que outros, significa apenas que são mais isso o que acontece; na maioria das vezes, a verdade só é "esta-
dotados para aprender. belecida" ulteriormente, depois de muitas dúvidas, debates, tra-
A arte é necessária à expressão, arte sem a qual ninguém balhos; principalmente quando se trata das verdades que mais
seria crível ou, mais simplesmente, compreendido. Mas que arte nos importam, que mais paixões despertam, que mais esperan-
não se confunda com artificio. Digamos que, em parecendo arti- ças suscitam. Evidentemente, sabemos que a causa de Sócrates
ficial, o discurso é ineficaz. O artificio é a ruína da arte, é a figu- era justa, tanto quanto a de Joana d' Arc ou do capitão Dreyfus.
ra que não dá certo, é o estratagema que dissuade precisamente Sabemos, mas os contemporâneos não tinham como saber; e,
por ser percebido como tal. É próprio da arte, ao contrário, pas- em cada caso desses, a causa só se mostrou justa graças a seus
sar despercebida. E isso é dissimulação? Às vezes. Mas às vezes defensores e à sua retórica. E mesmo quando uma causa se
também revelação de um pensamento justo e sincero que não se mostra finalmente injusta, não teria ela o direito também de ser
afirmaria sem essa arte, sem a retórica. defendida? Negá-lo equivaleria a dizer que o debate judiciário
Finalmente, a desconfiança em relação à retórica poderia é inútil, que deve ser substituído pelo leqto e dificil trabalho da
perfeitamente ser desconfiança em relação à linguagem, que só prova pela ilusão infantil do livro do mestre.
230 INTRODUÇÃO À RETÓRICA À GUISA DE CONCLUSÃO 231
À ilusão infantil opomos a razão adulta. Mas como a ca- Para terminar, voltemos aos Tópicos de Aristóteles livro
racterizar? árduo e desconcertante, capaz de mostrar porém que nos domí-
nios não pertencentes à ciência pura só se chega à verdade
coletivamente, num debate em que cada um representa - no
Da polêmica ao diálogo sentido próprio da palavra "representar" - sua parte o melhor
possível, até que a verdade, ou seja, o mais verossímil, se im-
"Razão adulta", dizíamos? Mas na realidade a prática da ponha a todos. O diálogo é então realmente heurístico: encon-
retórica se mostra bem pouco racional. Não será ela antes uma tra alguma coisa.
polêmica incessante entre advogados, políticos, publicitários, Com que condição? Com a condição de que os oradores
até entre pregadores, polêmica em que cada adversário tem sejam iguais, que tenham todos, estritamente, os mesmos direi-
como único objetivo vencer o outro a qualquer custo, mesmo à tos. Caso contrário, se um dos oradores se arrogar um direito
custa da verdade? Sempre à custa da verdade, pois o ganhador exorbitante, se já não se puder contestar seus argumentos, en-
não é quem tem razão, mas quem detém a força da palavra. Os tão o diálogo já não será possível, o conhecimento se petrifica-
debates retóricos serão tão diferentes dos duelos judiciários e rá em ideologia, e a retórica, em vez de afirmar, se degradará
dos ordálios medievais? em chavões.
Francis Jacques opõe à retórica a verdadeira "dialógica"2. Como se vê, estamos submetendo a retórica a um crité-
Enquanto a primeira, segundo ele, visa a dominar o orador rio exterior: a liberdade. É esta que faz do diálogo um verda-
contrário manipulando-o por meios parcialmente irracionais, a deiro diálogo, em que cada um pode criticar os argumentos
segunda é uma busca comum da verdade que repousa na idênti- do contanto que produza os seus. Critério exterior, pois
ca liberdade de cada um e utiliza autêntica argumentação. Mas, ele eXIge apenas que os oradores sejam independentes, que
a aceitar-se essa dicotomia, a questão continua aberta: como nenhum deles tenha de lisonjear o outro ou de se lhe subme-
ter. Mas critério ético também, no sentido de caber a cada
saber quando se está na "retórica" ou na "dialógica"? Concre-
um de nós criar esse clima de liberdade, conceder a palavra a
tamente, as duas apresentam-se de maneira idêntica, pois o re-
todas as objeções e bem mais: fazer-se pessoalmente todas
tor mais astuto não vai confessar que é assim e que seu único
as objeções.
objetivo é manipular por meios irracionais! Dirá que está dia-
Criar as condições para o livre diálogo, a começar de si
logando livre e racionalmente. Quanto ao dialético, até o mais
mesmo, essa pode ser a verdade da retórica. Depende menos
honesto, será obrigado também a utilizar meios artificiais, além
das coisas que dos homens, menos dos outros que de nós.
dos racionais, para convencer. Se nossa mente e nosso coração
constituíssem uma placa sensível sobre a qual a verdade viesse
expressar-se espontaneamente, sem deformações, perdas ou
denegações, não haveria necessidade de retórica, de pedagogia,
de diálogo.
A retórica é insubstituível; não fosse, há muito tempo teria
sido substituída. Por certo enseja abusos; por certo às vezes
permite o triunfo da habilidade sobre o justo direito; mas às ve-
zes não significa sempre, e não se pode condenar o uso pelo
abuso. Em que é ela insubstituível?
Notas

Introdução

1. A respeito dessa retórica da criança, veja-se o artigo de Ma-


rie-José Rémigy, "La rhétorique chez l'enfant", in Rhétorique et pé-
dagogie. O autor narra a seguinte história real. Uma criança de três
anos é obrigada a ir passear, enquanto a irmã mais velha pode ficar
brincando em casa. Daí surge uma discussão que a mãe conclui da se-
guinte maneira: "Seja como for, menininhos como você não discu-
tem." E ele: "Eu também quero ser menina." A criança lida admira-
velmente com a ambigüidade da linguagem e dos sentimentos da mãe:
onde ela opõe pequeno a grande, ele opõe menino a menina.
2. Na Rhétorique et enseignement, Figures lI, Gérard Genette
mostra bem essa permanência da retórica, mas, a nosso ver, introduz
separações abusivas: o ensino da Antiguidade teria uma retórica da
invenção; o clássico, da elocução; o nosso, da disposição. Mas serão
elas realmente separáveis?

Capítulo I

1. Roland Barthes, 1970, p. 174.


2. "Retórica", portanto, na origem é um adjetivo, que significava
oratória. Com Aristóteles, a tekhne rhétorike tomar-se-á simplesmente
rhétorike, assim como hoje se diz lingüística. Para maiores informa-
ções, ver Chaignet, Roland Barthes e sobretudo O .. Navarre. Textos em
Les présocratiques, org. J.-P. Dumont, Pléiade, Gallimard, 1988.
3. Ibid.
4. Cf. Barbara Cassin, Si Parménide, Presses Universitaires de
Lille, 19'80, pp. s., estudo magistral sobre esse discurso,
234 INTRODUÇÃO A RETÓRICA NOTAS 235

5. Sobre os sofistas, ver Gilbert Romeyer-dherbey, Les sophis- 16. Tópicos, VIII, 159 a, 161 a; cf. 1,101 a.
tes, "Que sais-je?", PUF, 1985; Jacqueline de Romi11y, Les grands 17. 164b.
sophistes dans I Athenes de Péricles, Fallois, 1988, eLes présocra- 18. 2. 163 b. Sobre a relação entre dialética e filosofia, ler L.
tiques. Couloubaritsis, "Dialectique, rhétorique et critique chez Aristote", in
6. Platão, Mênon, 91 e. Cf. Protágoras, 318 d. De la métaphysique à la rhétorique, 1986.
7. Cf. Panatenaico, 200. 19. 1. Cf. Retórica, 1,1355 a e b; 58 a; 59 b. E Tópicos, 1,104 b;
8. Cf. Contra os sofistas, 14,A troca, 186, 194. 105 a; e VIII, 161 a.
9. Cf. A troca, 36, 76, 77, 99, 251-253; Carta aos filhos de Jason, 20. Cf. Retórica, I, 2, 56 a.
8 e9. 21. Cf. Retórica, I, 2, 1356 b-1357 a e 1358 b. Tópicos, I, 10,
10. Panegírico, 48; cf. A troca, 253 s. 104 a e 105 a s.
11. Cf. A troca, 260, 261, 271, 47, 176, e Panegírico, 6 e 186. 22. Le probleme de I'être chez Aristote, PUF, 1966, p. 286.
12. Cf. A troca, 182 s., Panatenaico, 28 e Górgias de Platão, 23. LaprudencechezAristote, PUF, 1963, p. 68.
484c.
13. Platão, Protágoras, 312 b.
14. Bonnes et mauvaises rhétoriques: de Platon à Perelman, in Capítulo III
Figures et conflits rhétoriques, Universidade de Bruxelas, 1990.
1. Sobre o epidíctico, cf. também Retórica a Herênio, I1I, lOs.
2. Cf. D. Navarre, p. 260 a271; e Retórica a Herênio, 1,18-19.
Capítulo II 3. Cf. E. R. Curtius, I, capo 5, bem como o brilhante apanhado de
R. Barthes, in L 'ancienne rhétorique, pp. 208 a 211.
1. Quem quiser saltar as páginas que seguem, mais técnicas e 4. Isócrates, Eginética, in Obras, t. 1; cf. O. Navarre, pp. 272 S.
destinadas sobretudo a filósofos, poderá retomar este assunto mais 5. Cf. Do orador, 11, 312, e Quintiliano IV, 2,19; 3,14; IX, 1,
adiante, no parágrafo sobre "a moralidade da retórica". 28;X, 1,34.
2. Tópicos, I, 105 b; os Tópicos são a exposição da dialética; 6. O orador, 61. Note-se que, nesse sentido, a elocução diz res-
Jacques Brunschwig faz uma síntese magistral do assunto na introdu- peito ao aspecto escrito do discurso, uma vez que o oral é a ação.
ção da edição Budé (1967); ver também Pierre Aubenque, Le proble- 7. Cf. Aristóteles, Retórica, 1404 a s.; Cícero, Do orador, I1I,
me de I' être chez Aristote, PUF, 1966, pp. 282 s., e Claude Bruaire, La 182 s.; Quintiliano, VIII, 3, 6; X, 1,29.
dialectique, "Que sais-je?", PUF, 1985. 8. Cf. Cícero, O orador, 69, 100, 123; Do orador, I, 144; 11, 37.
3. Cf. 1. Brunschwig, ibid., p. XI. 9. Sobre a ação, cf. Aristóteles, Retórica, I1I, 1403 b; Cícero, Do
4. VIII, 155 b, 164 a. orador, I1I, 219; Quintiliano, XI, 3,passim.
5. 156 a, 156 b, 157 a.
6. 156b, 162a.
7. I, 18, 108 a Capítulo IV
8. VIII, 159a.
9. 159a, 160aeb. 1. Cf. Do orador, I1I, 96, 199; O orador, 78-79; Quintiliano, 11,
10.157 be 160b. 5,12; XII, 1,33.
11. 158 a, 161 a, 164 b. 2.11,4, 16. Cf. Todorof, p. 9 e 60, e D. Auverlot, "Cicéron ou le
12. 158 b, 157 b. rêve d'une rhétorique idéale", in Rhétorique(s), pp. 62 a 81.
13. 162 b. 3. In H. De Lubac, Exégese médiévale, Aubier, I, 1, p. 156.
14. 162aeb. 4. Sobre essa história, devem ser lidas as obras de E. R. Curtius,
15. Ética a Nicômaco, X, 6,1176 b. Marc Fumaroli, A. Kibedi-Varga, bem como a introdução a B. Gra-
236 INTRODUÇÃO A RETÓRICA NOTAS 237

cian, Art etfigures de l'esprit, de B. Pelegrin. Ver também E. Dur- 9. Para teorias diferentes sobre a argumentação, cf. S. E. Toul-
kheim, L 'évolution pédagogique en France, PUF, e D. Poirion, "Allé- min, The Uses ofArgument, Cambridge University Press, 1958; J.-B.
gorie", in Encyclopaedia Universalis, I. Grize, De la logique à I 'argumentation, Genebra, Droz, 1982; Michel
5. Pode-se ver esse cartaz em l Benoit e J. Lech, La politique à Meyer, De la problématologie, Bruxelas, Mardaga, 1986, que conti-
l'ajJiche, Ed. De maio de 1966. Ver também o capítulo sobre a ima- nua Perelman, radicalizando-o.
gem em A. Kibédi-Varga, Discours, récit, image, Bruxelas, P. Mar-
daga,1989.
6. Quanto a essa discussão, ver Gérard Genette, "La rhétorique Capítulo VI
restreinte", Communications n? 16, Seuil, 1970, e Ch. Perelman,
L 'empire rhétorique, Vrin, 1977. I. Para um inventário mais completo das figuras, cf. P. Fontai-
nier, Les figures du discours, e H. Suhamy, Les figures de style.
2. Cf. C. Kerbrat-Orecchioni, La connotation, p. 41. Extraímos
Capítulo V vários exemplos desse truculento e suculento trabalho.
3. Esse episódio é relatado por Gilbert Dispaux, La logique et
1. Sobre o auditório universal, cf. TA, § 7, e o artigo de Barbara le quotidien, Minuit, 1984, p. 86. Sobre esses problemas, cf. Jean
Cassin em Figures et conflits. É dificil saber se em Perelman o audi- Paulhan, La preuve par I 'étymologie.
tório universal é uma ilusão ou um ideal. 4. Essa teoria da metáfora inspira-se diretamente em Aristóteles,
2. Pejorem semper sequitur conclusio partem: se uma premissa Retórica, III, 1405 a e b. Cf. também os belos comentários de Nanine
é negativa, a conclusão também; se uma premissa é particular (algu- Charbonnel em La tâche aveugle, Presses de l'Université de Stras-
bourg, 1991.
mas), a conclusão também.
5. Naturalmente são possíveis outras interpretações dessas figu-
3. D. Bouvet, "La parole de l'enfant sourd", in Grize, "Rai-
ras. Ver l-F. Garcia, "Lamétaphore, encore ... ", em Rhétorique(s), PUS.
sonner en parlant" in De la métaphysique à la rhétorique, 1986.
6. Sémantíque du contresens, Minuit, 1987, p. 18. Note-se que,
4. P. Oléron, L 'argumentation, p. 37.
de acordo com sua origem grega, hipálage e análage são palavras do
5. Cf. Renée Bouveresse, Karl Popper ou le rationalisme criti-
gênero feminino. Quanto ao oxímoro, neutro em grego, a língua fran-
que, Vrin, 1981. cesa deu-lhe o beneficio da dúvida ... e deixou-o no feminino também,
6. Vocabulário de filosofia. Sobre os sofismas, ver principal- diferentemente do português, em que oxímoro é palavra do gênero
mente Lógica de Port-Royal, caps. XIX e XX; e Schopenhauer, A ar- masculino.
te de ter sempre razão, tão excitante quanto irritante! 7. Em seu belo livro Les paraboles de Jésus, Xavier Mappus,
7. O. Reboul, La rhétorique, pp. 73 a 85. A paráfrase integral 1962, Joachim Jeremias afirma que essas parábolas não são alegorias.
será porventura possível? Lembremos a célebre anedota: Um jesuíta Mas ele entende "alegoria" num sentido moral que esse termo não
envia a Roma o seguinte pedido escrito: "Pode-se fumar enquanto se tem necessariamente em todas as línguas.
está orando?" Resposta: "Claro que não, é um sacrilégio." Um colega 8. Sobre essas duas figuras, cf. Quintiliano, VI, I, 63; IX, 2, 28 e
manda outra pergunta: "Pode-se orar enquanto se está fumando?" 3,24.
Resposta: "Claro que sim; pode-se orar em todas as circunstâncias."
Na realidade, as duas perguntas não têm exatamente o mesmo senti-
do, e é aí que entra a retórica. Capítulo VII
8. Foi relatada com pormenores por Paul Foriers, "Le raisonne-
ment pratique. Le raisonnable et ses limites", in Revue internationale 1. Cf. Bemard Dqmpnier, Le venin de I 'hérésie. Images du pro-
de Philosophie, n?' 127-128, 1979, distribuída por Vrin. Essa revista é testantisme et combat catholique au XVlle siecle, Le Centurion, 1985.
uma homenagem a Chalm Perelman. 2. Verbete "Genre", Dictíonnaire des littératures, Larousse, 1985.
238 INTRODUÇÃO A RETÓRICA Bibliografia sumária
3. La parole mangée, Klincksieck, 1986. Essa fábula, na verda-
de muito em voga, foi alvo de interpretações fascinantes, que acabam
dando toda a razão ao lobo!
4. Discours, rédit, image, Mardaga, 1989. Esse livro, que con-
tém um utilíssimo esclarecimento sobre os gêneros (pp. 119 s.), põe
em prática uma interpretação retórica dos textos.

Capítulo VIII

1. La culture générale, Vrin, 1964, p. 60.


2. Cf. Lakoff e Johnson, Les métaphores dans la vie quotidien- A indicação A significa que a obra pertence mais à ver-
ne, e Nanine Charbonnel, La tâche aveugle (inúmeros exemplos). tente argumentativa da retórica, L à vertente literária.

Angenot, M., La parole pamphlétaíre, Payot, 1982, AL.


Capítulo IX Aristóteles, Poétíque, Les Belles-Lettres, trad. fi. 1 Hardy, 1965,
L.
1. Tecnicamente, trata-se de uma apóstrofe? Não, se leitores
- - Rhétorique, Les Belles-Lettres, 3 vo1s., trad. fr. M. Du-
constituir o verdadeiro público de Rousseau. Sim, se ele estiver se di-
rigindo ao grande público através de seus leitores. four, 1967. Cf. também "Rhetoric" e "Poetics" de Aristo-
2. Sobre as metáforas em educação, ver nosso Langage de l'édu- teles, trad. ing. I. Bywater, Nova York, The Modem Library,
cation; Daniel Hameline, L 'éducation, ses images et son propos; Na- 1954,AL.
nine Charbonnel, La tâche aveugle. - - Topiques, livro I a IV, trad. fi. 1 Brunschwig, Les Belles-
3. Muriel Klein-Zolty, em Contes et récits humoristiques chez Lettres, 1967. NB: a tradução francesa dos quatro últimos
les juijs, L'Harmattan, 1991, dá várias versões dessas duas histórias, livros pode ser encontrada na ed. Vrin, A
todas de origem alsaciana. Barthes, R., L'ancienne rhétorique, Communicatíons, n? 16,
Seui1, 1970, AL.
- - Rhétorique de l'image, Communicatíons, n? 4, Seui1,
Conclusão
1964.
1. Sobre esse assunto, ler (e degustar) Jean Paulhan, Les fleurs Campbell, G., The Philosophy ofRhetoric (1776), reed. Southem
de Tarbe, bem como Yvon Belaval, Digressions sur la rhétorique. Illinois University Press, 1963, AL.
2. Dialogiques, PUF, 1979, pp. 221-222. Chaignet, A-E., La rhétorique et son histoire, Wieveg, 1888, A
Charbonnel, N., La tâche aveugle, les métaphores de l'éduca-
tion, Presses de 1'Université de Strasbourg, 1991.
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240 INTRODUÇÃoA RET6RICA BIBLIOGRAFIA SUMARIA 241

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Índice remissivo e glossário
dos termos técnicos

Ação (hypocrisis, actio). Quarta parte da retórica, que trata da profe-


rição, das mímicas e dos gestos, XII, 44, 67, 80, 87, 105.
Acordo prévio. 91,142-143,164 s., 219, 225.
Agudeza. Capacidade de penetração, por graça ou sugestão, que dá rele-
vo ao discurso. Esse termo, que é um dos mais importantes da retóri-
ca barroca, corresponde ao espanhol agudeza, ao italiano conceito,
ao inglês conceit, ao francês pointe, ao latim acumen ou acutus.
Alegoria. Descrição ou narrativa de que se pode tirar, por analogia,
um ensinamento abstrato, geralmente religioso, psicológico ou
moral; exemplos são o provérbio, a fábula e a parábola, 77-78, 95,
115,130-132,147,152,158.
Aliteração. Figura criada pela repetição de um som, 95, 116, l36.
Alusão. Figura que consiste em lembrar uma pessoa ou uma frase
conhecida sem elucidar seu nome: "Das duas palavras, prefere a
menor" (Paul Valéry), 157.
Amplificação (auxesis, amplificatio). Todo recurso retórico que res-
salta a importância do que se diz, 46, 50-51, 57, 59,124,134.
Anacoluto. Figura que realiza uma ruptura na sintaxe: "O nariz de
Cleópatra, se fosse mais curto, toda a face da terra teria
(Pascal), 128-129, 193.
Antanáclase. Subst. Fem. Figura de palavra que consiste em tomar
um mesmo termo em dois sentidos um pouco diferentes: "O cora-
ção tem razões que a própria razão desconhece", 117, 127,226.
Antifrase. Subst. Fem. Figura que consiste em dizer o contrário do
que se quer dizer; serve à ironia, ao cleuasmo: "Pode ser que eu
seja um idiota, mas ... ", l32-l33.
Antítese. Subst. Fem. Figura que ressalta uma contradição colocan-
do-a no interior de uma repetição: "A França perdeu uma batalha,
mas a França não perdeu a guerra" (de Gaulle), XVIII,4, 127,
147,161,203.
244 INTRODUÇÃO A RETÓRICA íNDICE REMISSIVO E GLOSSARIO DOS TERMOS TÉCNICOS 245
Antonomásia. Subst. Fem. Sinédoque que designa uma espécie pelo de pessoa, 176;
nome de um indivíduo: "César" por ditadores; ou um indivíduo de reciprocidade, 170;
pelo nome de uma espécie: "O Corso", por Napoleão, 122. de sacrifício, 183-184,213;
Apodioxe. Argumento que consiste em rejeitar qualquer argumento: de superação, 94, 174-175;
"Não cabe a você dar-me lições", 135, 149, 178. de transitividade, 168;
Aposiopese (ou reticência). Subst. Fem. Espécie de insinuação pelo do precedente, 170, 175;
silêncio, que se tem o cuidado de anunciar para dar mais importân- pela essência, 198;
cia ao fato que se cala: "E não digo o que sei", 126-127, 134. pela estrutura do real, 163, 173, 178, 181, 185;
Apóstrofe. Subst. Fem. Figura pela qual o orador finge dirigir-se a pelas conseqüências, consulte pragmático;
outro auditório, e não ao seu: auditório que poderá ser uma pessoa pelo exemplo, consulte Exemplo;
ausente, um morto, um príncipe, etc., 93, 103, 133, 142, 161, pelo ridículo, 168-170, 199,212,217,225;
202,218. por analogia, 75,185-186,207,212-213,222;
Argumentação. XV, XVII-XXIII, 15,23-25,29,31-32,35-37,39, por autofagia, 169;
46,49-50, 52, 58, 60, 73, 78-79, 83, 87, 89-90, 122, 129, 135, por comparação, 122, 183-187,202,220;
142, 146, 148-150, 152-155, 157, 163-169, 172, 178, 185, 193- por dilema, 170-171;
194,197,200,203-204,207-208,211,214,219-222,227,230 e por identificação, 170, 172;
capo V,passim. por ilustração, 181-182, 198;
Argumento. Proposição destinada a levar à admissão de outras, como por modelo, 78,141,148,181-182,205;
na canção folclórica francesa "Não sou tão plebéia, pois o filho por regra de justiça, 108, 150, 170,203,225;
do rei me ama", XVIII-XIX, XXII, 3-4, 7, 15-16, 18,22-26,34, por retorsão, 108-110, 169;
38,47, 50-52, 57-60, 88, 92, 97, 102, 107, 110, 114, 118-119, por símbolo, 121, 131, 178,217;
124, 127-129, 134-136, 139, 142, 147, 149-150, 157-158, 163- pragmático, 204, 213;
164, 166-184, 187, 190, 193-194,203-204,211-214,216-217, quase lógico, 102, 163, 168,220.
222-226. Arte (tekhné, ars). XIII-XIV, XVI, XVIII, 1-2,7,9-14,18,24-28,40,
Argumentos (os principais), capo VIII,passim: 73-75, 78-86, 205-208.
a contrario, 59, 183,208; Assíndeto. Figura por supressão dos termos de ligação: Veni, vidi,
afortiori, 163, 178-179; vici [Vim, vi, venci] (César), 126-127, 150, 162.
ad hominem, 173, 176, 178; Auditório. O destinatário do discurso, que pode ser uma multidão,
ad ignorantiam, 171; um grupo, um indivíduo, XVII, 45-46, 48-49, 54-55, 58, 60, 62-
da essência, 176 s., 198,221; 68,92-98,112,114,118,127,133-136,140,142,164-165,178,
de autoridade, 88, 157-158, 176-177; 180,194.
de causalidade, 173, 190,216; Auditório universal. Em Perelman-Tyteca, opõe-se ao auditório es-
de desperdício, 174; pecializado, designa qualquer ser racional, trata-se mais de um
de direção, 124, 134, 174-175,213-214,217,223,226; ideal que da realidade, 93-94, 112, 164, 194.
de dissociação, ou distinguo, 108-109, 124, 128, 189, 190-192.
193,203-204,211-212; Catacrese (catachresis, abutio). Subst. Fem. Tropo que se toma ne-
de divisão, 171,210; cessário quando não há nome próprio para designar alguma coisa:
de dupla hierarquia, 147, 178-180, 187,202-204,212-213,220. asas do avião (catacrese por metáfora), 120.
225' Chreia. Exercício de invenção nas aulas de retórica: definir um ter-
de inco:Upatibilidade, 118, 127, 133, 162, 168, 189-190,211-212. mo, comentar uma sentença, etc. (Nota: o ch é pronunciado como
217,221,225; K),76.
246 INTRODUÇÃO.4 RETÓRICA ÍNDICE REMISSIVO E GLOSS.4RIO DOS TERMOS TÉCNICOS 247
Ciência e retórica. XX, 9,15,17-19,89,93. Disposição (taxis, dispositio). Segunda parte da retórica, que trata da
Cláusula. Membro ritmado de frase, que termina um periodo: "e a construção, do plano do discurso, 4, 43-44, 54-55, 60, 79-80, 87,
França está salva" (Danton), 11, 116. 97,153,197,203,211. .
Cleuasmo. Figura pela qual o orador finge depreciar-se para se fazer Docere, delectare, movere. Informar, encantar, comover, XVII-XVIII,
mais apreciar: "Eu, que nada sei ... ", 93, 135. 62,89,114.
Confirmação. Parte argumentativa do discurso judiciário, acompa-
nhada em geral por uma refutação (conJutatio), 55, 57. Elipse. 114, 126, 191.
Conglobação. Figura que consiste em acumular os argumentos em Elocução (lexis). Terceira parte da retórica, que trata da língua e do
favor de uma mesma tese, 135. estilo, 43-44,60-61,68,79-81,87-89,105,150.
Contrafisão. Figura que denuncia uma coisa fingindo desejá-la: "Te- Enálage. Subst. Fem. Figura de sentido que consiste em substituir
nham filhos, então!", 134. ' uma forma gramatical por outra, inabitual: "Pensar grande", 123-
Controvérsia. Em Roma, exercício de proferir discursos judiciários, 124,126,136,151.
76,81,106. Endoxon. 28, 36, 150.
Convencer e persuadir. XIII, XV, XIX. Entimema. Subst. Masc. Silogismo rigoroso, mas que se baseia em
Conveniência (Prepon, decorum). Adaptação do estilo ao assunto e premissas apenas prováveis (endoxa), que podem ficar implícitas:
ao objetivo do discurso, 62, 68, 193. "Ele é falível, pois é homem", XVII, 23, 46, 49,57,101-102,154-
Córax. Subst. Masc. Argumento que mostra que uma coisa é tão ve- 157,163,197-198,203,220-221.
rossímil que passa a ser inverossímil: "Meu cliente é alvo de acu-
Epanalepse. Subst. Fem. Figura de repetição. Sobre suas variantes,
sações de mais para ser culpado", 3-4.
verSuhamy,pp.58a63.109, 114, 127, 191, 193.
Epanortose (correctio). Subst. Fem. Figura que consiste em corrigir
Definição. 119, 123, 130, 167-168, 172-173, 197, 199-200,209-210,
o que se acaba de dizer: "Ou melhor... ", XII, 133-134, 193.
212.
Epidíctico (demonstrativum). Caracteriza um dos três gêneros do dis-
Definição retórica ou oratória. Fórmula que tem a aparência de
curso, o elogio ou a critica pública; por exemplo, a oração fúne-
definição, mas não é, já que seus termos não são reversíveis: "Co-
bre,4-5, 11,44,46-47,51,55,57,59,72,75,83,111,146.
munismo é sovietes mais eletricidade" (Lênin), 167.
Deliberativo. Gênero dos discursos políticos, 44-46, 55, 57. Epítrope (permissio). Subst. Fem. Figura em que se finge permitir a
Demonstração (apodeixis). XVIII, 27, 80, 88,91-92,94,96-98,100, alguém a realização de algo chocante, para sugerir que essa pes-
106,110,112. soa seria capaz disso: "Não fique constrangido por isso!", 134,
Derivação. Figura que emprega na mesma frase palavras com mesma 161,175.
origem: "A França para os franceses", 117. Erística. Arte da controvérsia ensinada pelos sofistas, que para Aris-
Desvio. 60, 64-65, 73, 88,120,128,137. tóteles é sinônimo de sofistica em sentido pejorativo, 7, 27-28,
Dialética. Em Aristóteles, arte da controvérsia, em si puramente lúdi- 31,35,48.
ca, mas que serve tanto à filosofia quanto à retórica, cuja parte Estado (stasis, status) da causa. 53.
argumentativa ela continua sendo, XXI, 7, 12, 18-19,22,26-37, Etimologia. 98.
40,73,79-81,89,91,141,154,206-207. Etos (ethos). Caráter que o orador deve parecer ter, mostrando-se
Digressão (parekbasis). Parte facultativa do discurso judiciário que "sensato, sincero e simpático". Igualmente, caráter do auditório
consiste em sair do assunto, mas para maior esclarecimento do (jovens, ruralistas, etc.), ao qual o orador deve adaptar-se, XVII,
auditório, 59. 36,47,54,56,64,83-84,86-87,92,124,133,135.
Discurso (logos, ora tio). Qualquer produção lingüística, oral ou escri- Etimologia. 1) Sentido primitivo e pretensamente autêntico (etymon)
ta, que fale de certo assunto e apresente sentido e unidade: Dis- de uma palavra; 2) argumento que utiliza esse sentido para impor
curso do método, XV, 63-69,140-143,149 s., 195,218,221-222. sua definição, 65, 98,118-119.
248 INTRODUÇÃO A RETÓRICA iNDICE REMISSIVO E GLOSSARIO DOS TERMOS TÉCNICOS 249
Exemplo (paradeigma, exemplum), XVII, 14-16,23,25,27,29-32, Hipotipose (deseriptio, evidentia). Subst. Fem. Figura que consiste
36-38,46-47,49,51-52,57-59,64-65,94,96,98,101, 105, 114- em descrever um espetáculo ou um acontecimento de modo tão
117,119,196-198,200,203,207,217. vivo que o auditório acreditar tê-lo diante do olhos:
Exórdio (pooimion). Início do discurso, que visa a tornar o auditório
dócil, atento e benevolente, 4, 55-56, 62, 97,103. "Não enxergarei nem o ouro da tarde a cair,
Expolição. 135, 161. Nem as velas ao longe descendo para Harfleur" (V. Hugo).
Extrínseco e intrínseco (ateklnos e enteehnos). 49-50, 54.
Note-se que "velas" não constitui uma sinédoque, pois ao longe o
Fático. Adj. Segundo Jakobson, designa a função do discurso onde se que se vê são velas, e não barcos! V. Hugo descreve aquilo que
fala para poder falar, para criar o contato ou permitir que ele dure: veria, XII, 124, 136-137.
"Alô, alô ... ", 67. Humor. 62, 124, 132-133, 150-153 s., 226.
Figura (sehema,jigura ou lumen). Modo de expressar-se que se afas-
ta do uso comum para obter mais força e adequação, XVIII, 4, 64, Imagem. 83 S.
66 e capo VI,passim, 184, 186. Instância (entasis, instantia). Contra-argumento, 214.
Filosofia e retórica. XI-XII, XIV, XXII, 1,6-7,10,12,19,26,28-29, Intertextualidade. 157.
32-34,40,94-95, 104, 108, 110-111. Invenção (euresis, inventio). Primeira parte da retórica, que trata da
Foro e tema. 131, 185-188,222. procura dos argumentos, tanto do etos quanto do patos, XVII, 43-
Fórmula. 151, 157-158. 44,49,54-57,79-80,87,89,105,229.
Ironia. Figura que consiste em dizer o contrário do que se quer dizer,
Gêneros. A retórica antiga distinguia três gêneros de discurso em não para enganar, mas para ridicularizar, 64-65, 115, 124, 130,
prosa: judiciário, deliberativo e epidíctico, que subsistem como 132-133,150,152,158,169,199,216-217.
modos bem gerais; assim, o panfleto e a pregação pertencem ao
modo epidíctico, 44-47, 55, 57, 62, 66, 76, 82,143,150,152,161, Judiciário. Gênero que caracteriza os discursos proferidos diante de
195,218,222. um tribunal para defender ou acusar, 44-46, 51-53, 55, 57, 59-60,
Gradação. Figura que representa uma seqüência de termos em ordem 69,104-106,215 e capo III,passim.
crescente, seja por extensão dos significantes, seja pela importân-
cia dos significados: "Vai, corre, voa, vinga-nos" (Corneille), 128- Litote. Subst. Fem. Figura que consiste em substituir um significado
129,137,199. por outro menos forte: "Estou meio cansado", em vez de "muito
Gramática (grammatiké, litteratura). Disciplina que consiste em en- cansado", 124, 137, 198.
sinar a língua literária (grega ou latina), pela leitura explicada dos Lugar (topos, loeus). 1) Argumento-tipo: "Quem pode o mais pode o
textos. Primeiro ciclo do ensino secundário, XXI, 7, 73, 82. menos". 2) Tipo de argumento: por analogia, de autoridade, etc.
3) Pergunta-tipo para encontrar argumentos, XII, lI, 13, 17, 27,
Hermenêutica. Arte de interpretar os textos, XVIII-XIX, 78-79,139. 30,32,35-36,40,43,50-53,54-55,62,64,74, 79,82, 84,86,88,
Hipálage. Subst. Fem. Figura que consiste em deslocar uma atri- 94,96,106,110,112.
buição: "Abriu grandes braços pasmados" (Eça de Queirós), da ordem, 213.
123-124. Lugar comum. 53, 75-76,217.
Hipérbato. Figura de inversão: "Do que a terra mais garrida / teus ri- Lugares de quantidade, qualidade e unidade. 110, 163, 166-167,
sonhos, lindos campos têm mais flores ... ," 128. 195.
Hipérbole. Subst. Fem. Figura que exagera para exprimir melhor: "Es-
tou morto!", XII, XVIII, 120, 122, 134, 158, 161, 175, 184,203, Memória (mneme, memoria). Conjunto de procedimentos mnemo-
213,217,223,226. técnicos que permitem saber o discurso de cor, 44, 47,68.
250 INTRODUÇÃO A RET6RICA
ÍNDICE REMISSIVO E GLOSSARIO DOS TERMOS TÉCNICOS 251
Metáfora (metaphora, tralatio). Figura que consiste em designar uma
Patos (pathos, passio). Ação do orador sobre as paixões, os desejos e
coisa pelo nome de outra que se lhe assemelha: "O Eterno é meu
as emoções do auditório, para facilitar a persuasão. Daí vem a pa-
rochedo", para meu "apoio seguro", XVIII, 4, 11, 60, 62, 64-65,
lavra "patético", XVII, 47-49, 56-57, 83-84, 86-87, 92-93, 114,
71, 77, 84, 89, 94, 108, 111, 113-115, 120-123, 126, 130, 162, 127,133,136,178,202.
185-186,188,198-199,203,208-209,213,222. Pedagogia, pedagógico. XXI, 33, 47, 103-105, 121, 131, 148, 196-
Metalepse. Figura que consiste em substituir o nome de uma coisa ou 199,220,222-223,230.
de uma pessoa por uma seqüência de metonímias: "Esse que cho- Pergunta retórica. Pergunta cuja resposta o orador conhece, mas que
ramos", pelo defunto, 125,203. faz com intuito expressivo ou persuasivo: "Sabem quanto ... ?",
Metonímia (metonymia, denominatio). Figura que consiste em de- XX, 117-118, 135, 137, 197,212-213,222.
signar um objeto pelo nome de outro que tem com ele um vínculo Perissologia. Repetição da mesma idéia com termos diferentes, 127.
habitual. Exemplo é a frase de Churchill em 1940, em que ele diz Peroração (epilogos, peroratio). O fim do discurso, que o resume e
que nada tinha para oferecer, além de "sangue, suor e lágrimas", acentua seu patos, por apelo à cólera ou à piedade, 51, 55, 59, 62.
121-124,126,136,151,161,187,203,213,216,222. Personificação. 151, 161-162,203.
Moral e retórica. 10, 12, 16,23,29,33,37,48-50,52,54-55,60-62, Persuadir. XIV-XX.
65,68,73,78, 119, 133, 196,200,214-216,227 s. Petição de princípio. Sofisma que consiste em tomar por admitida a
Motivo central. Procedimento retórico essencial a um texto, que per- tese que é preciso provar e que é enunciada de uma forma um
mite qualificá-lo como irônico, hiperbólico, quase lógico, etc., pouco diferente, para obter aceitação. Exemplo das pp. 167-168.
157-158, 161, 195, 197, 202, 204-205, 209, 211, 214-215, 218- 5,31,199-200.
219,223. Poesia e prosa. 4, 6, 11,61-62,79,82,150,155,157.
Presunção. Aquilo que se admite até prova em contrário: "Presume-
Narração (diegesis, narratio). Exposição dos fatos, que constitui a se a inocência do réu até prova em contrário", 96, 200.
segunda parte do discurso judiciário, depois do exórdio. A narra- Preterição. Figura que consiste em dizer que não se falará de uma
ção era o primeiro exercício de retórica, 55-56, 57-58, 62. coisa, para chamar mais a atenção sobre ela: "E nada direi de sua
inesgotável generosidade ... ", 133-134,212.
Orador. O autor do discurso, escrito ou oral, XVI-XVII, 43-48, 50, Prolepse (prolepsis, occupatio). Subst. Fem. Figura que consiste em
52, 54, 57-58, 60, 63, 66-69, 71-74, 78, 84, 92-93, 96, 140, 142, antecipar o argumento do adversário: "Objetar-se-á que ... " , 24,
156,225. 135,211-213,216,220.
Oratória. Para nós, é aquilo que, numa mensagem retórica, tem cará- Prosopopéia. Figura que consiste em falar por um orador fictício; é o
ter afetivo, e não argumentativo, XVII, 71, 73, 75, 86, 91-93, 95, que ocorre quando Sócrates se deixa interpelar pelas leis de
Atenas (Críton), 103, 133-134, 141, 176.
99,103,112,167,172-173.
Oxímoro (ou paradoxismo). Figura que consiste em associar dois Publicidade e propaganda. XIV, 2,15,19,57,63,82,84-87.
termos incompatíveis: "Sol negro", 113, 123, 125-126, 144, 161,
Quiasmo. Antítese em que os termos são postos em espelho: "Deve-
192,216,225.
se comer para viver, e não viver para comer". 128, 147, 151,153.
Paradoxo (paradoxon, inopitatum). Opinião que contraria a opinião
Recapitulação (anakephaleosis). Parte da peroração que resume a
comum. Exemplo: texto lI, pp. 217 ss. 28, 32.
argumentação do discurso para chegar a concluí-lo, 60.
Parisose. Subst. Fem. Equilíbrio rítmico entre dois membros de uma
Retórica. Arte de persuadir pelo discurso. O ensino dessa arte. A teoria
frase: "Beber ou guiar, convém optar", 116.
dessa arte (definição controversa), XI-XXII, 227-231 e passim.
Paronomásia. Figura de palavras provocada pela repetição de uma Retorsão. 169.
sílaba ou de várias: Traduttore, traditore,4, 116-117. Ritmo. 4, 11,61-63, 72,115-117.
252 INTRODUÇÃO A RET6RICA iNDICE REMISSIVO E GLOSSARIO DOS TERMOS TÉCNICOS 253
Silogismo. 22-23,28,35. Cf. entimema. trário. É a "confiança presumida", 3, 39 49-50 52 95 141 174
Símbolo. 121, 131. 206-207. ' ", , ,
Símile (eíkon, símile ou símílítudo). Subst. Masc. Comparação entre Vivacidade. 63-64, 69.
termos heterogêneos; "Ela canta como um rouxinol", que serve de
base para a metáfora: "Ela é um rouxinol", 122, 187.
Sinceridade. 72, 79, 81, 184, 193,228. - Muitos nomes de figuras tinham na origem um sentido
Sinédoque (synekdokhé, íntellectío). Figura que consiste em designar bem maIS amplo do que o atualmente atribuído. Em Aristóteles me-
uma coisa por outra que tenha com ela uma relação de necessida- taphora desvio de sentido e compreende o conjunto tro-
de; por exemplo, o gênero pela espécie, o todo pela parte, ou vice- (Poetlca, 1457 b). A auxesís dos retóricos gregos significava am-
versa. Como quando se diz "mortais" (gênero) ou "cabeças" (par- pl,lficação, da retórica, mas depois passou a designar apenas hi-
te) para referir-se a seres humanos, 84,121-123,161. perbole. valonzadora, auxese. A parrhesia, que significava antes dis-
Slogan. 83-84,86,94, 102, 115-117, 122, 126, 135-136, 156-157. curso dIreto e figurado (o Evangelho a opõe à parábola), transfor-
Sofisma. Raciocínio aparente e ilusório, por não respeitar as regras mou-se na parresía, figura da franqueza brutal.
da lógica: "Hitler era favorável à eutanásia; você também; logo, Esse encolhimento semântico sem dúvida é um declínio indese-
você é hitlerista", 7,31,35-36,100-102,111,167-173,220. jável, e a tarefa da nova retórica seria trilhar de novo o caminho ascen-
dente, indo das figuras fossilizadas ao espírito que as engendrou.
Suasório. Em Roma, exercício do discurso deliberativo, 75.
Subjeção. Espécie de pergunta retórica.

Tapinose. Hipérbole depreciativa: "Esse aborto da natureza", XII,


123-124.
Tautologia aparente. Argumento que consiste em repetir uma pala-
vra com dois sentidos um pouco diferentes, como se isso não
ocorresse: "Mulher é mulher", 170, 191.
Tese (thesis, questio). Questão de interesse generalíssimo discutida
pela dialética e pela retórica: "O tiranicídio é lícito?" No sentido
moderno: afirmação teórica que deve ser provada, 24, 27, 29-33,
35,38,40,53,55,59,61,69, 77, 91-92, 110-111, 167-168, 170-
174,200,202,206,208,212,214,223.
Tropo (tropos). Técnica de denominação que consiste em tomar uma
palavra com o sentido de outra, por metáfora, metonímia ou siné-
doque. Pode ser catacrese: "O nó do caule, onde se inserem as
folhas", ou figura de sentido: "O nó da questão", 180 s.

Valores. 8,45, 165-166, 174, 178-181,223.


Verdade e retórica. XI-XII, XIV-XVI, XX, XXII, 3, 5-6, 8-10, 12,
14, 21-22, 35, 39-40, 71-73, 75-78, 84-87,163-169,172-
177,182,185.
Verossimilhança (eikos, verisimile). Termo-chave da retórica. De-
signa o que acontece na maioria das vezes, ou o que a maioria das
pessoas pensa, e que é proposto para admissão até prova em con-