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Referenciação sobre coisas ditas e não-ditas

Mônica Magalhães Cavalcante

Este livro é uma homenagem a Ingedore Koch e a Luiz Antônio Marcuschi dois nomes, duas certezas. E é também um ponto de sutura. Por ele, fala o grupo Protexto, especialmente meus alunos e ex-alunos que, encontrando-se na referenciação, começam a se fazer referência no país.

Apresentação

Eis aqui um trabalho artesanal de catar pedaços e de embuti-los numa dada disposição de cores e enigmas, para comporem o mosaico do que se tem avançado nos estudos sobre referenciação. O que se entende hoje por referenciação começou quando, bem longe daqui, na Suíça, em 1994, Lorenza Mondada propôs tratar da descrição de processos discursivos que se verificam na introdução de um objeto, nos ajustes que ele sofre quando vai participando da configuração complexa de um texto e na passagem de um objeto a outro. Falava-se, assim, não de referentes como entidades da realidade externa do mundo, mas objetos de discurso, aqueles que emergem da elaboração discursiva de um saber compartilhado. Tais objetos de discurso intervêm nas formas estruturantes de um texto e são, ao mesmo tempo, em alguma medida, por elas condicionadas. Como dizia Mondada, as categorias cognitivas e o modo como se organizam ancoram nas formas lingüísticas, que nunca se desvinculam de sua ação social. Na mesma época, e numa convergência de pensamento, Apothéloz, em 1995, também falava de objetos de discurso como construtos culturais cuja representação na memória discursiva dos interlocutores era alimentada pela própria atividade lingüística. Fenômenos lingüísticos pontuais envolvendo esse pressuposto antropológico do referente vêm sendo analisados, desde aí, também por outros pesquisadores, como Charolles, Schnedecker, Reichler-Béguelin, Berrendonner, e uma gama de seguidores. Muitos deles nos foram apresentados, aqui no Brasil, por Ingedore Koch e por Luiz Antônio Marcuschi, sempre ocupados em nos pôr a par das inovações saídas da lata agorinha mesmo. Dessa bagagem, proliferaram inúmeras dissertações e teses país afora, e se constituíram vários grupos de estudo que se debruçaram sobre as intricadas

questões de gêneros do discurso e de referenciação. Um deles é o grupo interinstitucional de pesquisa Protexto, sediado na Universidade Federal do Ceará, que, desde 2001, vem desenvolvendo trabalhos atinentes, sobretudo, a texto, discurso, sociocognitivismo, gêneros e referenciação. Este livro é um dos resultados deste percurso, uma atividade de bricolagem das pesquisas sobre referenciação, mas não exatamente um ponto de chegada; é, antes, um intervalo de pensamento, ou um impasse. Dividi a obra em quatro partes, mantendo, mais ou menos, a uniformidade dos livros que compõem esta Coletânea. Na primeira seção, intitulada O que se dizia sobre a coisa, destinada à perspectiva histórica, invoquei algumas palavras dos filósofos que abordaram a relação entre a linguagem e as coisas do mundo, aquilo a que ora tratavam como referência, ora como denotação. Salientei, nesse início, com enorme brevidade, a evolução do conceito de referente e de sua posterior relação com a noção de signo lingüístico. Em seguida, esclareço que não é esta definição de referente, como correspondente externo do mundo para as palavras, que constitui o objeto de estudo deste livro. A segunda parte, prevista para conter a descrição do tema na perspectiva atual, teve que ser cindida em duas (segunda e terceira seções), para expressar o ponto de vista que tece o fio argumentativo subjacente às caracterizações dos processos referenciais. Foi uma maneira de demonstrar, com um ato, que as análises empreendidas nos estudos sobre referenciação podem ser agrupadas em duas grandes tendências. Uma que toma como critério princeps a menção da expressão referencial para opor processos de introdução de referentes a processos de manutenção anafórica. Outra que prescinde desse critério e defende o objeto de discurso como uma construção cognitivo-discursiva que, mesmo quando não se explicita no cotexto por meio de uma expressão lingüística, constitui ainda um dos processos referenciais. É nesta vertente que se inserem as pesquisas mais recentes do grupo Protexto, de que nascem todas as reflexões aqui elaboradas. A quarta parte ultrapassa a constatação óbvia de que o estudo da referenciação pode ser proveitosamente aplicada à sala de aula dos diferentes níveis de ensino. Nesta seção, enfatizo, a partir de propostas defendidas em teses e dissertações, as funções discursivas que os processos de referenciação podem desempenhar em gêneros do discurso variados. Optei por indicar alguns caminhos de utilização do referencial teórico discutido nas aulas de compreensão e produção de texto. Digo “alguns” porque há

muito ainda a ser explorado em termos de referenciação, mesmo sem apelar para o uso de termos técnicos e sem entrar nos meandros das dificuldades classificatórias. Estão postas algumas sugestões de atividades que podem ser adaptadas para o ensino de língua portuguesa em todos os graus. São um gatilho, uma provocação - ou talvez apenas um pedido.

Mônica Magalhães Cavalcante

PARTE I O que se dizia sobre a coisa

Mas o que é mesmo referente?

A primeira pergunta que assoma à cabeça de quem deseja conhecer a referenciação talvez seja o que é referente. Temos que começar dizendo que referentes são entidades que construímos mentalmente quando enunciamos um texto. São realidades abstratas, portanto, imateriais. Referentes não são significados, embora não seja possível falar de referência sem recorrer aos traços de significação, que nos informam do que estamos tratando, para que serve, quando empregamos etc. Referentes também não são formas, embora, em geral, se realizem por expressões referenciais. Se

repetimos um dito popular, muito comum nos dias de hoje: “A informática chegou para resolver problemas que antes não existiam”, vemos emergirem desse texto dois referentes, isto é, duas entidades, dois objetos de discurso - o primeiro diz respeito à informática; o segundo, aos problemas que advieram com ela. Escusado dizer que só representamos cognitivamente essas entidades se sabemos o significado das expressões referenciais que as manifestam nesse enunciado: “a informática” e “problemas que antes não existiam”. O modo como aquele que enuncia (o enunciador) e seus possíveis

interlocutores (ou co-enunciadores) constroem a representação desses referentes em suas mentes nunca é o mesmo em qualquer situação efetiva de comunicação. O ato de referir é sempre uma ação conjunta. Para a Lingüística do Texto, hoje, fazemos referência a algo quando nos reportamos a pessoas, animais, objetos, sentimentos, idéias, emoções, qualquer coisa, enfim, que se torne essência, que se substantive quando falamos ou quando escrevemos. É na interação, mediada pelo outro, e na integração de nossas práticas de linguagem com nossas vivências sócio-culturais que construímos uma representação sempre instável dessas entidades a que se denominam referentes. E é por seu caráter substantivo que os referentes são nomeados por sintagmas nominais (incluindo aí os pronomes substantivos), como o livro, o reconhecimento, a violência, ele, esta dúvida, nossos pequenos dramas etc. - são as chamadas expressões referenciais, que também podem ser sintagmas adverbiais, como aqui, hoje, assim, dentre outras. Participar dessa dinamicidade de contínua remodulação de referentes é pôr a referência em ação, é tecer a referenciação - condição fundamental para que, nas práticas comunicativas, os participantes (re)construam a coerência do texto.

Que relação tem a referenciação com a coerência de um texto?

A coerência é a unidade de sentidos que cada um elabora de um determinado texto, de acordo com seus conhecimentos lingüísticos, textuais, com seus saberes específicos que compartilha com os co-enunciadores e seus conhecimentos de mundo. Quando, por exemplo, recebemos via e-mail, uma lista de provérbios parodiados e lemos algo do tipo: “A união faz o açúcar”, precisamos resgatar, em nossos

conhecimentos de mundo dentro de nossa cultura, o provérbio do qual este se origina,

que é “A união faz a força”. No instante em que notamos a substituição do referente de “a força” pela entidade expressa por “o açúcar”, retornamos ao início do texto e entendemos que a expressão referencial “a união”, na verdade, está disfarçando o

substantivo próprio União, empresa fabricante de açúcar. Nesse momento, o referente de “a união” se recategoriza, quer dizer, se transforma, e todas as pistas expressas no cotexto (isto é, na superfície do texto) e inferidas de nossos conhecimentos partilhados se articulam, tornam-se coesas, e nos ajudam a compor a coerência desse texto humorístico, que dialoga com outro texto, num processo de intertextualidade. O texto é algo que se abstrai da relação entre autor, sentido/referência e leitor num dado contexto sociocultural, por isso não o encaramos como uma materialidade, como elementos que se organizam numa superfície material suportada pelo discurso. O texto está inevitavelmente atrelado a uma enunciação discursiva. Como diz Ciulla e Silva (2008, p.13), “para a dimensão discursiva que estamos delineando aqui, os falantes, os objetos, os interesses e as circunstâncias histórico-sociais não apenas contam, mas devem ser vistos em conjunto, ao lado da situação imediata em que os falantes estão envolvidos no momento da interação; e o texto, portanto, deve ser visto como emergente da dimensão discursiva”. Partimos, assim, de uma noção de texto como fenômeno comunicativo, o que supõe uma visão de coerência/coesão e de textualidade que não depende exclusivamente de propriedades inerentes à organização dos elementos no cotexto, mas, sim, de um contexto sociocultural mais amplo, o que inclui uma série de atividades interpretativas dos co-enunciadores. Por isso, concordamos com Hanks (2008) quando diz que há textos que podem falhar em ter uma unidade temática, estilística ou outros tipos de unidade, mas nem isso não os impede de ser um “texto”. O autor assume a posição de

que também as propriedades formais e funcionais de signos complexos possam auxiliar no estabelecimento da textualidade e a sua coerência.

No texto abaixo, os diversos pares de diálogos, apenas somados uns aos outros, poderiam parecer desconexos, não-coesos, porque misturam temáticas completamente distintas, ou porque constituem uma sucessão de perguntas variadas com respostas prontas:

( ) TROCADILHOS

O que é um macaco com uma pasta de executivo em cima de uma árvore? R: Um mico-empresário. O que dá o cruzamento de pão, queijo e um macaco? R: Um X-panzé. O que o tomate foi fazer no banco? R: Tirar um extrato. O que a galinha foi fazer na igreja? R: Assistir à Missa do Galo. Por que a mulher do Hulk largou dele? R: Porque ela queria um homem mais maduro.

(

...

)

(piadas divulgadas pela internet)

Mas o tópico geral, declarado no título “trocadilhos”, une a todos eles e prepara o leitor para o que se pode esperar do conteúdo: jogos de palavras, não-informativos, com o propósito de divertir. Esse pressuposto é indispensável à coesão entre os trocadilhos, de modo a ligar coerentemente os conteúdos díspares num conjunto com o mesmo objetivo lúdico. A disposição das frases no cotexto, o conhecimento que se tem do gênero trocadilho, a veiculação pela internet para inúmeras pessoas a um só tempo, os recursos estilísticos de descontruir e reconstruir vocábulos, ressignificando-os, todos esses fatores, aliados à prática social de divulgar textos humorísticos pelo meio digital, estabelecem a textualidade e favorecem a construção da coerência pelos participantes da comunicação. É, pois, dentro de uma enunciação mais ampla, incluindo a dimensão discursiva, que situamos nosso ponto de vista sobre a referenciação: dentro de um conceito mais estendido de enunciação, que, como dizem Charaudeau e Maingueneau (2004), pertence a um nível global, pensado em termos de cena de enunciação, de situação de comunicação, de gênero de discurso” (p. 195).

Retornando às origens: quem já estudou o fenômeno da referência?

Investigar como as expressões nomeiam as entidades é uma preocupação muito antiga, que, por um longo tempo, ocupou a mente dos filósofos da linguagem e dos lógicos, bem antes de interessar aos lingüistas. Como mostra Araújo (2004), já os estóicos, no século I a.C. (e, antes deles, Platão e Aristóteles), ao refletirem sobre as questões da linguagem, distinguiam entre expressão, conteúdo e referente. Pensava-se,

então, que o referente era “a coisa”, que subsistia exteriormente ao texto materializado. A referência era a relação que se estabelecia entre “a linguagem (um dizer) e uma

exterioridade (um não-dizer)” (CARDOSO, 2003, p.1). Falar de “referência” era, então, tratar de uma relação entre palavras isoladas e os

objetos do mundo real que elas podiam etiquetar. Uma palavra como peixes simbolizaria os peixes que existissem na realidade, na exterioridade do que estava dito no texto. Diremos que essa “exterioridade” não era a mesma para todos os pensadores no decurso do tempo. Para os estóicos, o referente podia ser uma entidade física, uma ação, um pensamento era um dado sensível, aquilo que, sendo percebido pela experiência, alcançava um significado e se exprimia por palavras, registrando-se na memória. Muitos anos mais tarde, comenta Araújo (2004), também Santo Agostinho (354- 430) defenderia que não poderia haver significado se não houvesse referente. Assim, o conhecimento dos conteúdos não adviria das palavras, das expressões, mas do próprio fato de elas remeterem à coisa. A palavra, que, antes do aprendizado, era som, torna-se sinal, não pelo fato de se aprender o seu significado, e sim pelo fato de se aprender a que ela se refere, sua denotação” (ARAÚJO, 2004, p.22). O que se concebia, pois, como referente devemos notar já resvalava para outra noção, a de objeto denotado1 , ou, em outros termos, a noção de referência já se confundia com a de denotação. Basta ler a citação abaixo, de Chierchia (2003, p.36), para constatar esse conflito conceitual e, conseqüentemente, terminológico:

Tradicionalmente, tende-se a distinguir a referência ou denotação de um signo, e o seu significado ou sentido. Diz-se que uma expressão denota ou se refere à sua referência, mas “exprime” o seu sentido. Por referência (ou denotação), entende-se geralmente aquilo a que um signo se refere no contexto de emissão. Categorias de expressões diferentes têm referências

“Denotação de uma unidade léxica é constituída pela extensão do conceito que expressa o seu significado. Por exemplo, sendo o signo cadeira uma associação do conceito ‘móvel de quatro pés, com

assento e encosto’ e da imagem acústica [kadeyra], a denotação será: a,b, c

...

et al., 1993)

n são cadeiras.” (DUBOIS

de tipos diferentes. Um nome próprio, por exemplo, se refere a um indivíduo. Um nome comum, por sua vez, parece se referir a uma classe de indivíduos: o nome comum cavalo se refere à classe dos cavalos [grifos nossos].

Confundia-se, portanto, referência com denotação, como se fossem termos intersubstituíveis. Mas é necessário que não as confundamos.

Referência vs. denotação

A denotação diz respeito, na verdade, a um tipo de significado descritivo; é a

relação virtual, estocada na nossa memória coletiva, entre a palavra e o conjunto dos membros de uma classe que ela representa (LYONS, 1977). Eis por que é possível dizer que o nome cavalo denota a classe de indivíduos que podem ser designados como tal. Quando tratamos da denotação de uma palavra como cavalo, ocorre-nos a idéia de uma série de animais, mais ou menos semelhantes, que poderíamos chamar assim. Já a referência costuma estar associada ao uso que os sujeitos podem fazer das expressões referenciais em enunciados efetivos, em contextos particulares, para se reportarem a entidades. Não poderíamos falar de referência considerando apenas a palavra fora de contexto, em estado de dicionário, mas poderíamos, sim, tratar de

denotação. Não se pode afirmar que um dado nome “se refere” a uma classe de

indivíduos, pois só se identifica o referente correspondente a um nome quando se

analisa o enunciado e o contexto de uso em que esse nome foi empregado. Se, numa situação real de comunicação, alguém enuncia O capitão comprou um belo cavalo, aí sim, podemos afirmar que, dentro desse contexto de uso, alguns referentes foram criados, como o de capitão e de cavalo, nomeados, respectivamente, pelas expressões

referenciais “o capitão” e “um belo cavalo”, que passam a representar as entidades

instituídas dentro dessa interação. A denotação, tal como foi conceituada, pertence, pois, ao âmbito do sistema, ao passo que a referência só se efetiva no uso.

Aprofundando...

(para pôr num quadro à parte)

As discussões em torno da tríade linguagem-pensamento-realidade (que, por vezes, se estendeu a outros conceitos, como significante-significado-referente) nem sempre discerniram com clareza a diferença entre objeto denotado e referente.

A questão da realidade, ou do que são as entidades do mundo real, foi o que mais instigou o pensamento filosófico na Grécia Antiga, numa tentativa primeira de contrapor a verdade ao mito, ao fictício, ao imaginário. Para Martins (2004, p.447), a passagem do pensamento mítico ao racional “se associa crucialmente a uma insatisfação quanto a uma certa forma de explicar as coisas, e à determinação de parâmetros para o que seriam explicações mais adequadas explicações racionais e verdadeiras”. Essa busca de explicação do real, ou das coisas do mundo, e de sua relação com a linguagem logo se polarizou em duas grandes visões: uma mais relativista, influenciada pelo pensamento dos sofistas; outra mais essencialista, defendida por Platão e Aristóteles. Assim, quando se perguntava se as coisas do mundo tinham uma essência própria e permanente, sofistas, como Protágoras, respondiam que não, que tudo se relativizava a partir das experiências humanas, já que “o homem era a medida de todas as coisas”. Por outro lado, Platão e, depois, Aristóteles (guardadas as diferenças2), respondiam que sim, que a realidade era independente da mente do homem que a pensava:

O legado filosófico mais recorrentemente atribuído aos sofistas é aquele do relativismo a já aludida tese radical da impossibilidade de estabelecerem-se verdades universalmente válidas, autônomas com relação às circunstâncias concretas, contingentes e variáveis da experiência humana. O homem ser assim a única medida das coisas o impediria de ter sobre as coisas uma medida única excluiria de forma irreversível a possibilidade de uma apreensão final e verdadeira da realidade tal como ela é em si mesma. (MARTINS, 2004, p. 450)

Para a tradição do platonismo, as coisas aí incluindo as idéias existiriam por si mesmas; seriam essências, formas que existem universalmente, fora dos objetos e dos homens. Contraditando os sofistas, Platão propõe a repartição em dois mundos: um mundo sensível e um mundo inteligível. Foi o raciocínio que o filósofo encontrou para livrar do mundo inteligível, do intelecto, tudo o que fosse variável, mutável, instável,

2 Uma tese também não-relativista é defendida pela tradição; muda, todavia, a noção do que são os universais. Como bem diferencia Araújo (2004, p.23): “Os universais são, na tradição do platonismo, entidade com realidade ontológica independente da mente que os pensa, representam a verdadeira

realidade. Já a tradição aristotélica é seguida pelos conceptualistas (

...

).

Os universais são abstrações

mentais, conceitos abstratos acerca das coisas individuais e concretas. Para os nominalistas, os universais

não ‘existem’, são nomes que sequer precisam de entidades abstratas para contê-los.(

)

Para Occam

... (1300-1349), os universais estão na mente não enquanto substâncias, e sim enquanto formas. O nominalismo lançou profundas raízes na história do pensamento ocidental. A moderna filosofia da linguagem tem em Quine um dos principais defensores do nominalismo, para quem os conceitos referem

não pela relação com as coisas, mas devido a certas relações que as classes estabelecem”.

imperfeito ou fictício, pois essas coisas pertenceriam ao mundo do sensível, das aparências, tão fortemente defendidas pelos sofistas. Qual o papel da linguagem (e dos significados) dentro das idéias de Platão? De acordo com Martins (2004), para Platão também a linguagem exige que se pense a verdade (o real) como tendo existência própria, independente. “O que parece se impor

nessa forma platônica de pensar a linguagem é, em suma, que se compreenda o sentido de um enunciado como a parcela da realidade, o estado de coisas, que ele, por si mesmo e de forma objetiva, se destina a descrever” (MARTINS, 2004, p.458). A função da linguagem seria descrever e representar o real, informar sobre as entidades, mas não as coisas aparentes e instáveis e sim, a essência das coisas, num plano virtual das idéias. Assim, as palavras de uma língua - não importa qual língua seja - devem representar

“entidades extralingüísticas universais, autônomas e transcendentes” (MARTINS, 2004,

p. 461) . Contrapondo-se a essa orientação realista da significação, os sofistas diriam que os sentidos da linguagem deveriam incluir a subjetividade de quem os diz, seus propósitos enunciativos, suas experiências de vida dentro de uma determinada cultura e de uma dada circunstância histórica. A visão realista (e essencialista) de Platão se prolongou, em alguns aspectos, no ponto de vista de Aristóteles, sobretudo quanto ao princípio de que as formas (essências) do sentido na linguagem são universais, exteriores aos indivíduos e autônomas em relação a eles, e quanto à idéia de que a linguagem representa objetivamente diferentes realidades subjetivas. Mas, enquanto que, para Platão, as entidades (podemos dizer: os objetos

denotados) eram abstrações universais e eternas, para Aristóteles eram as próprias coisas da realidade, as quais afetavam o espírito de modo semelhante (universal) para todas as pessoas. A linguagem era constituída de símbolos que representavam essas afecções da alma ante o real. A linguagem correspondia, assim, à capacidade racional do homem. Comparando os dois filósofos, Martins comenta:

...

assim

como Platão, Aristóteles reconhece na racionalidade a condição

nuclear de funcionamento da linguagem. As palavras teriam para ele, assim como para Platão, o propósito fundamental de representar objetivamente nominata extralingüísticos essências universais e autônomas. A divergência básica entre os dois pensadores estaria no lócus dessas essências: na alma, para Aristóteles; no real, para Platão. (MARTINS, 2004, p. 469)

Em ambos os casos, porém, o que era entendido como “real”, como coisas

extralingüísticas, se afasta muito do que, na Lingüística do Texto, hoje, é concebido como referente. Estas breves explicações são apenas para constatar que a visão de referência com que estamos lidando, aqui, se alinha muito mais a uma perspectiva relativista do que essencialista da linguagem e da verdade. Assumimos, com Mondada

(1994; ver ainda Apothéloz e Reichler-Béguelin, 1995; Mondada e Dubois, 1995), que os segmentos da realidade são construtos culturais, razão por que são tomados como objetos de discurso, isto é, são entidades do discurso, representações alimentadas pela atividade lingüística (APOTHÉLOZ e REICHLER-BÉGUELIN, 1995, p.239), que sofrem transformações na memória discursiva dos interlocutores ao longo da enunciação. Essa concepção se apóia numa filosofia de tendência pragmática, fundada principalmente em Rorty, mas também baseada em alguns pressupostos de Habermas. A concepção também se fundamenta, em parte, em pressupostos fenomenológicos de Kant, para quem só se pode fazer referência aos fenômenos na medida em que constituem experiência humana possível. A realidade em si mesma escapa a qualquer possibilidade de referência. Como conclui Rodrigues (2001, p. 63-4):

“Não devemos, portanto, confundir referente com realidade. Por referente entendemos

aquilo a que nos referimos quando falamos, uma construção do discurso (

...

).

O

referente é, por conseguinte, uma realidade do discurso ou uma construção da

linguagem”.

Por uma visão não-referencialista da linguagem

Assim como Mondada e Dubois (1995), defendemos que nem os elementos do discurso nem as entidades do mundo têm uma segmentação já pronta, dada a priori; os referentes, ou objetos de discurso, são categorias cognitivo-discursivas e apresentam uma instabilidade inerente a eles. Para as autoras, até mesmo o que é habitualmente

considerado como um ponto estável de referência para as categorias “pode ser

'decategorizado', tornado instável, evoluir sob o efeito de uma mudança de contexto ou

de ponto de vista” (MONDADA e DUBOIS, 2003, p.26-7). As possíveis alterações de foco, a cada instante da comunicação, levam constantemente a uma concorrência entre as categorias, conduzindo, naturalmente, a incertezas e indecisões. As autoras demonstram como as mesmas entidades podem ser

compreendidas e imaginadas de maneiras distintas e, conseqüentemente, serem também nomeadas de modos diferentes. Relatam que, em suas pesquisas, entrevistaram vários especialistas sobre doenças de plantas e demonstraram como os mesmos objetos não foram focalizados e retratados de igual maneira. Enquanto os agricultores se referiam aos estados da doença em evolução, os biólogos se referiam aos nomes da doença e às propriedades perceptivas das plantas vistas como sintomas. E contam ainda como, por decisões político-econômicas, numa reunião em 1991, a cenoura foi categorizada como fruta, e não como raiz ou legume, para que Portugal pudesse vender suas compotas de cenoura sem desrespeitar a lei:

Nosso argumento consiste em dizer que a "estabilidade" resulta, de fato, de um ponto de vista realista que relaciona as categorias às propriedades do mundo - como se a objetividade do mundo produzisse a estabilidade das categorias - no lugar de relacioná-las aos discursos sócio-

históricos e aos procedimentos culturalmente ancorados. Se, ao contrário, adotarmos este segundo ponto de vista, não será surpresa ler que a cenoura é transformada de raiz ou de legume em fruta por decisão da Comunidade Européia em janeiro de 1991. Tal decisão foi tomada para permitir a Portugal exportar sua compota de cenouras respeitando a definição categorial legal ou jurídica de compota, que é uma conserva de mistura açucarada de frutas (Pelt, 1994, p.45). Assim, a administração pode impor uma transformação categorial, mesmo que o conhecimento científico continue a considerar a cenoura como uma raiz e as práticas alimentares, como um legume. (MONDADA e DUBOIS, 2003, p.27).

Uma forte evidência dessa negociação no modo de conceber e de denominar os referentes é a atitude de refletir sobre o próprio dizer ao selecionar as expressões referenciais de acordo com a audiência, com os propósitos comunicativos, com o contexto imediato etc. Essa negociação repercute nas não-coincidências do dizer (AUTHIER- REVUZ, 1998) e na estratégias usadas para marcá-las, isto é, repercute na escolha de pistas que assinalam vozes diferentes, pontos de vista distintos num mesmo enunciado. Para ilustração, atente-se para o emprego das aspas em “sistema” no exemplo seguinte, extraído de Costa (2007, p. 161); trata-se de um e-mail para uma lista de discussão. Observe-se como o enunciador se volta para a expressão referencial que vai empregar e se vale das aspas como que para questionar o que alguns outros pontos de vista entendem por sistema:

( ) From: E F [mailto:elir@ims.uerj.br] Sent: Tuesday, May 18, 2004 1:13 PM

To: A. S. CVL@yahoogroups.com Subject: Re: [CVL] Ainda o racismo A, Estamos todos sem a resposta, pois a resposta está em construção. O "sistema" (entendido aqui como "o governo") criou as cotas (e criará sempre) sem uma discussão maior, pois está "cumprindo" seu papel em querer manter o status quo, ou baixar o nível desse status quo para maior conveniência. Poder é poder. A minha proposta é exatamente esta: se o discurso sobre as cotas começou mal, então vamos endireitá-lo. Assim, a resposta virá, mesmo que não seja a que gostaríamos que fosse. A circulação da discussão tem certamente um poder transformador. (COSTA, 2007, p.161).

Como explica Fonseca (2007), essas aspas de “questionamento ofensivo”

apresentam-se como uma reação ofensiva a uma situação, da qual o enunciador se

defende. A negociação da referência, e dos sentidos, também pode ser percebida nas reformulações, nas paráfrases e nas correções, em constantes tentativas de ajuste nas designações, que parecem nunca chegar ao melhor termo.

Como diz o poeta:

Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça

e nem há sevícia que as traga de novo

ao centro da praça.(

)

Palavra, palavra

(digo exasperado), se me desafias,aceito o combate. Quisera possuir-te neste descampado, sem roteiro de unha ou marca de dente nessa pele clara.(

).

... (Lutador - Poesia Contemplada, de Carlos Drummond de Andrade

Dizer algo e nomear os referentes envolve, assim, um contínuo processo de desestabilização do que poderia parecer comum ou inquestionável para qualquer pessoa. Eis por que os participantes da enunciação cooperam para que, em alguma medida, os sentidos e a referência se estabilizem o suficiente para que os propósitos da comunicação sejam alcançados. Outra evidência da instabilidade dos modos de nomear os referentes é que ela tem sido usada como efeito de humor, como no texto seguinte:

O amor

"O amor não é algo que o faz sair do chão e o transporta para lugares que você nunca viu. O nome disso é avião. O amor é outra coisa." ( ) ..

"O amor não é uma coisa que te faz perder a respiração e a fala. O nome disso é bronquite asmática. O amor é outra coisa." "O amor não é uma coisa que chega de repente e o transforma em refém. Isso se chama seqüestrador. O amor é outra coisa."

(

)

"O amor não é uma coisa que desapareceu e que, se encontrado, poderia mudar o

... que está diante de você. Isso se chama controle remoto da TV. O amor é outra coisa."

(piadas divulgadas pela internet).

Por isso, conclui Araújo:

Falar sobre algo depende de inúmeros fatores que vão da designação, passando pela significação, descrição, situação, intenção e que dependem, em última análise, do contexto do discurso; a discussão não pode ser

simplificada por um apelo à busca semântica de uma teoria sobre o que as

pessoas estão “realmente falando”, que não leva a nada, pois é impossível

chegar a saber sobre o que estão falando de fato. Entram aí, como bem

viu Davidson, fatores históricos, antropológicos, biológicos, psicológicos. Pretender que a teoria da referência possa elucidar a relação entre a linguagem e a realidade é pretender que haja uma espécie de conexão mágica entre palavras e coisas, entre a referência e o que está sendo referido. (ARAÚJO, 2004, p.96).

Retornemos ao percurso histórico da noção de referência. Da reflexão sobre as aproximações entre linguagem, pensamento e realidade, foi apenas um passo mas um passo importantíssimo em direção à lógica - para filósofos e pensadores em geral se perguntarem sobre como a referência às coisas se organizaria na forma de sentenças, contendo um conteúdo proposicional. Já não se falava somente de representação da realidade denotada por expressões, mas, sim, de proposição, uma formulação do tipo algo é isso, como, por exemplo: O homem é mortal. As expressões denotadoras, como o homem, só teriam significação se se reportassem a um estado de coisas por meio de uma

proposição, do tipo é mortal, tem cirrose, corre muito etc. Afirmava-se, desse modo, que o pensamento só seria apreensível por meio de uma proposição. Começou-se a questionar se alguma sentença faria sentido se não houvesse uma pressuposição de existência da entidade da qual se diz alguma coisa, ou seja, do objeto denotado (“referido”) a respeito do qual se predica algo. Para os filósofos, era possível haver sentido, mesmo que não houvesse denotação, isto é, ainda que não existissem entidades no mundo real a que a expressão correspondesse, por isso propunham que sentido e denotação fossem noções apartadas. A denotação (por vezes, também chamada de “referência”) passou a operar, para filósofos da linguagem, como Frege

([1892]1971), como um valor de verdade. Quando, numa sentença, a entidade denotada tivesse, de fato, existência no mundo real, poderia ser atribuído à sua proposição o valor de verdadeiro ou falso.

Na sentença “Ulisses desembarcou em Ítaca”, as expressões empregadas fariam

sentido, mas não teriam denotação, porque a entidade denotada, Ulisses, não teria valor de verdade, já que se trata de uma entidade fictícia. Se não existia no mundo real, então a proposição em que se formalizava não poderia ser nem verdadeira nem falsa. Alguns princípios sustentados por Frege foram, em seguida, severamente criticados por Russell, em 1905, um dos fundadores da filosofia analítica, em seu

tratado sobre a classe das expressões denotadoras, as chamadas “descrições (expressões) definidas ou indefinidas”. Para Russel, ao contrário do que dizia Frege, uma proposição

declarativa tinha que ter valor de verdade, independentemente do fato de ter existência no mundo real. Dizia Russell que, havendo duas proposições, uma afirmativa e outra negativa, uma das duas tinha que ser verdadeira e a outra, falsa; e que dois sentidos

seriam equivalentes se, substituindo-se uma entidade pela outra, o valor de verdade não se alterasse. Por exemplo:

( ) Ulisses desembarcou em Ítaca.= O mítico herói grego desembarcou em

Ítaca.

Assim, operando-se a substituição, o sentido permaneceria o mesmo, pois o valor

de verdade é o mesmo, malgrado o fato de se tratar de uma entidade fictícia. Russell tentou dar um tratamento lógico às proposições contendo descrições definidas, propondo para elas uma representação quantificacional, com um pressuposto

de existência e unicidade. Algo assim como: “existe um ser, e somente um, que

...

”. Era

uma maneira de levar a denotação (“referência”) para dentro do sentido, tornando-a ainda mais semântica, ainda mais independente das coisas do mundo real, num

movimento de total semantização, de abstratização do “referente”.

O movimento contrário ou seja, de pragmatização da referência só principiaria por volta de 1950, quando Strawson contestaria as idéias de Russell, alegando que as condições de existência e unicidade eram necessárias, mas não suficientes, para tornar uma proposição verdadeira. Strawson argumentava que não se poderia assegurar que uma expressão estivesse se referindo a uma mesma e única entidade, isto é, não era possível comprovar que a forma gramatical de uma expressão, por si só, tal como “o mítico herói grego”, fosse usada para se referir a um mesmo e único objeto, pois uma coisa era o significado da expressão numa sentença; outra era o uso que fazíamos dela num enunciado. Poderíamos, por exemplo, empregar uma expressão de igual significado, mas que se reportasse a entidades distintas, como em:

( ) O funcionário da empresa atravessou a rua. O funcionário da empresa está em casa.

Conclusão:

Significado e referente não são a mesma coisa. Sentença e enunciado também não são a mesma coisa. O significado e a função sintática de um termo comporiam a sentença; o emprego real da expressão constituiria o enunciado. Olhar para os significados dos vocábulos, para as funções morfológicas, morfossintáticas e sintáticas, para a organização estrutural da oração, por exemplo, era ocupar-se do estudo da sentença. Examinar todas essas relações formais e funcionais considerando o uso era preocupar-se com o enunciado, contemplando, assim, aspectos pragmáticos.

A separação entre os termos sentença e enunciado ganhou enorme destaque na Lingüística, sobretudo para demarcar fronteiras entre correntes formalistas (que elegem como objeto de estudo a sentença) e funcionalistas (que lidam com enunciados). Foi um primeiro salto para a Pragmática. As orações (sentenças) teriam significado, mas a verdade e a falsidade só poderiam ser atribuídas a usos particulares (em enunciados), tendo em conta as circunstâncias de emprego. Assim, Strawson sugeria que a referência

não era uma propriedade das orações (sentenças), mas dos enunciados, pois só podemos nos referir quando usamos enunciados. Com isso, agora era possível afirmar que a noção de referência pertencia ao âmbito pragmático e só se aplicaria ao uso.

Uso referencial vs. uso atributivo

Foi com o filósofo Donnellan, porém, que se chegou a uma distinção que havia sido negligenciada pelas propostas anteriores e que influenciaria todo o pensamento da Teoria dos Atos de Fala, permanecendo como um pressuposto para vários estudos lingüísticos ainda hoje: a diferença entre função atributiva e função referencial. Tratando, especificamente, de descrições definidas, Donnellan alertou para o perigo de se confundirem dois empregos para ele, excludentes dessas expressões definidas: o uso atributivo e o uso referencial. Haveria uso referencial quando a descrição definida nos permitisse selecionar (identificar) algo ou alguém. Era exatamente o que Strawson tratava como referência. Já o uso atributivo não teria por função identificar um objeto, mas predicar sobre ele, dar-lhe um atributo. Chierchia (2003, p. 243-4) explica a oposição entre uso atributivo e uso referencial simulando uma situação em que um homem chamado Léo se encontra numa festa, tomando uma bebida parecida com martíni. Imagine-se, diz o autor, que Hugo, acenando com a cabeça na direção de Léo, diz a Lea: O homem que está bebendo martíni é louco. Na verdade, o homem (Léo) num cantinho da festa nem estava bebendo martíni, mas água, e Lea sabia disso, porém entendeu, assim mesmo, que Hugo se referia a Léo. Este seria um uso referencial da descrição definida “o homem que está bebendo martini”, pois foi empregada para levar o ouvinte a identificar o referente Léo nessa situação. O uso atributivo se contrapõe a este porque não é utilizado para orientar o interlocutor a reconhecer uma determinada entidade, mas para apresentar algum atributo desse referente. Para ilustrar o contraste entre as duas situações, Chierchia imagina uma outra circunstância em que um dos participantes presentes a uma festa descobriu que alguém, movido por um sentimento de vingança, trocara todos os martínis por veneno, com exceção do próprio copo dele. Se enunciarmos a mesma frase “O homem que está bebendo martíni é louco”, a descrição definida já terá sido utilizada com outro

propósito, que não o de dar pistas para a identificação do referente. Aqui, o objetivo é expressar que o único homem que estiver bebendo martíni (quem quer que ele seja) só

pode ser louco, para estar querendo envenenar todo mundo; a intenção, portanto, é atribuir predicados a esse referente já instituído. Pensemos em mais este exemplo: A política protecionista do atual governo é prejudicial à população. Com a descrição definida “a política protecionista do atual governo”, não se tem a intenção de exigir que o leitor identifique o referente aí expresso (pois já se supõe que ele seja conhecido, dado, porque o referente de “a política do governo atualjá faz parte do conhecimento compartilhado entre os membros de nossa comunidade). Assim, o objetivo de nomear a expressão dessa maneira não é de levar o leitor a reconhecer, em meio a outros, esse referente, que já se supõe conhecido, mas, sim, tachá-lo de “protecionista”, para atribuir-lhe o predicado “prejudicial à população”. Por isso se enquadraria entre os casos que Donnellan teria provavelmente classificado como um uso atributivo. Se se dissesse, por outro lado, O atual governo do Brasil tem uma política demagógica, o propósito seria, com a descrição definida “o atual governo do Brasil”, conduzir o interlocutor a identificar, dentre os referentes possíveis, o governo do Brasil, não de outro país, e no momento atual, não em outra época. Neste caso, haveria um uso referencial da expressão.

Por que os filósofos da linguagem queriam contrapor os usos referenciais aos

usos atributivos? Porque era uma maneira convincente de demonstrar que o significado gramatical (e literal) de uma sentença podia não coincidir com a intenção de descrição que o falante tinha em mente num enunciado real.

Como bem explica Araújo (2004), a idéia de que a referência só pode ser realizada em enunciados, bem como a distinção entre uso referencial e atributivo, passaram a ser sustentadas, depois, dentro da Teoria dos Atos de Fala, que instaurou definitivamente os estudos da Pragmática na Lingüística.

Aprofundando (pôr em caixa separada)

O filósofo da linguagem John Austin, com quem teve início a Teoria dos Atos de Fala, postulava que a verdade dependeria diretamente da situação extralingüística, dos usos em situações particulares, por isso não poderia estar presa a uma noção de natureza gramatical.

Austin não aceitava o fato de as sentenças serem analisadas dicotomicamente, sempre como verdadeiras ou como falsas; dizia que poderiam existir outras caracterizações intermediárias, dependendo das diferentes funções dos enunciados. Ser verdadeiro ou falso não era uma propriedade da oração (ou seja, da sentença), mas do enunciado, por isso ele reafirmava a separação entre estes dois conceitos: sentença e enunciado. Para ele, o que decidiria se um enunciado era verdadeiro seria apenas sua correspondência com os fatos, isto é, com as coisas do mundo real. Os enunciados se ajustariam aos fatos da realidade, daí por que Austin preferia tratar da noção de condições de adequação de um enunciado a situações particulares de uso.

De todo esse percurso que vimos fazendo, é importante guardar que a noção de referente de que trata a Lingüística do Texto hoje, como um objeto criado no e pelo discurso, não é a mesma de que se falava na filosofia da linguagem, como uma entidade correspondente às coisas do mundo. Mostraremos, a seguir, como a separação entre uso referencial e atributivo chegou à Lingüística de um jeito diferente: com uma associação a fatores estruturais.

Uma concepção estrita de uso referencial

A diferença entre uso atributivo e uso referencial entrou nos estudos lingüísticos quase sempre relacionada a estruturas gramaticais. A função atributiva, opondo-se à função referencial, costuma estar atrelada, em descrições de direção funcionalista, à estrutura argumental dos predicados, quer dizer, à relação entre um verbo ou nome predicador e os elementos nominais exigidos ou não por eles. Observemos no trecho de um conto, abaixo, como os termos grifados podem apresentar um uso atributivo:

( ) Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo. Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque. Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos,

Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca. (conto Dario, de Dalton Trevisan)

Do ponto de vista semântico-sintático, esses termos não ocupam o espaço de um argumento de um determinado predicado, isto é, não são exigidos por um predicado, por

isso não cumpririam função referencial; além disso, semanticamente, acrescentam atributos, não denotam entidades. Já outros termos teriam uso referencial, pois, em sentenças factuais, estariam vinculados a argumentos de um verbo ou de um nome. É o caso, no conto acima, de expressões de uso referencial, como “Dario”, “o passo”, “a parede de uma casa”, que preenchem obrigatoriamente posições sintáticas requeridas, respectivamente, pelos verbos vir, diminuir, encostar-se:

Quem vinha? - Dario vinha

...

”;

Diminuiu o quê? - diminuiu o passo”; Encostando-se a quê? - encostando-se à parede de uma casa”. Os objetos de discurso sofrem, nessa visão funcionalista, condicionamentos de ordem semântica e sintática, conquanto sejam sempre vinculados ao uso de expressões referenciais em enunciados. Saber a que proposição corresponde o enunciado em que as expressões referenciais foram empregadas é, para essa perspectiva teórica, de fundamental importância.

Aprofundando (pôr em caixa separada)

Em Neves (2006, p. 75), embora encontremos o reconhecimento de que a noção

de referenciação de que fala a autora envolve interação e intenção, também encontramos, por outro lado, a afirmação de que os referentes, ou objetos de discurso, são “entidades que constituem termos de predicações”. O universo construído no

discurso, ainda que tome como ponto de partida as intenções e propósitos argumentativos do falante, depende, pois, de escolhas semânticas, como o tipo modal de proposição e o valor aspectual dos tempos verbais. Desse modo, enunciados que, aqui nesta obra, serão considerados como apresentando usos referenciais podem ser tratados como não-referenciais, dentro do ponto de vista funcionalista. A título de ilustração, atentemos para os exemplos que Neves menciona como não-referenciais (“um retrato

interessante” e “um único livro

...

”),

ao apresentar o pensamento da linha funcionalista

givoniana:

Já na base dessa escolha está a possibilidade que existe, nas línguas naturais, de se construírem proposições de dois grandes tipos modais, o factual e o não-factual. Como indica Givón (1984, pp.391-392), no tipo factual (em que os argumentos são referenciais),ou há pressuposição, como em . Sorridente e calmo, L.S. afirma que lamenta ter causado problemas à mãe na escola. (FSP). ou há asserção real, como em . No caminho, Zaidman viu um carro da Rota. (FSP). ( ) ... No tipo não-factual (em que argumentos podem não ser referenciais), ou há asserção irreal, como em . Bem, quem tiver tal interesse vai ver um retrato interessante de um dia-a-dia bem ordinário. (FSP). ou há asserção negativa, como em . Até aquela data Winter não vira um único livro impresso na Província. (TV). (NEVES, 2006, p. 80).

A autora demonstra, ainda, como os tipos modais de proposição, quando ligados a categorias gramaticais, como o valor aspecto-temporal dos tempos verbais, por exemplo, podem também determinar se um argumento é ou não referencial. E exemplifica com o comportamento do futuro e do habitual, definido e indefinido, no enunciado: “D’Ávila vai comprar um modem para enviar pela linha telefônica todas as informações digitais que compõem uma imagem. (VEJ).” (cf. NEVES, 2006, p.81). De acordo com Neves, haveria repercussões no caráter referencial ou não da expressão em negrito, dependendo da interpretação de definitude ou de indefinitude, como, por exemplo, se a expressão fosse o modem: “No primeiro caso – indefinido há um modem que ou é referencial de expressão indefinida (sabe-se qual é) ou é não- referencial (é um qualquer), e no segundo caso definido há um modem que é referencial (sabe-se qual é)” (NEVES, 2006, p.81).

Como vemos, a noção de referenciação e de objetos de discurso que estamos adotando aqui, sendo inteiramente pragmático-discursiva, não coincide de todo com essas mesmas noções utilizadas em análises funcionalistas, em que a caracterização da referência criada no discurso está condicionada ao mundo de eventos e estados nele construído. Em outros estudos de base funcionalista, também permanece esse pressuposto de condicionamento entre formas lingüísticas e funções discursivas. Investiga-se, por exemplo, ainda hoje, o status informacional das expressões, ou seja, a relação entre informações novas ou velhas (dadas) e a forma de manifestação das expressões referenciais (se são realizadas por sintagmas nominais definidos ou indefinidos, se por

pronomes etc.), e ainda a função sintática que essas expressões preenchem (sujeito ou objeto direto, por exemplo). Em análises dessa natureza, diz-se que as expressões referenciais não ocorrem em certas posições sintáticas de modo aleatório. Uma expressão referencial exerceria a função sintática de sujeito, por exemplo, e não de objeto direto, porque teria status de informação velha, dada, como no excerto abaixo:

(

)

Um

homem,

seu

cavalo

e

seu

cão

caminhavam por uma estrada.

Depois de muito caminhar, o homem se deu conta de que ele, o cavalo e o cachorro

haviam morrido num acidente. Às vezes os mortos levam algum tempo para se dar

conta de sua nova condição

...

(

)

(conto de auto-ajuda veiculado pela internet)

Note-se que os referentes dos sujeitos gramaticais, já tendo sido mencionados e sendo, portanto, conhecidos, são realizados por expressões definidas. Em vista desse fato, funcionalistas como Prince constatam: os sujeitos tendem a ser definidos e a representar informação velha” (PRINCE, 1992, p. 296). Embora reconheçamos a pertinência dessa observação de que há um inter- relacionamento pragmático e sintático influenciando o modo como a expressão referencial deve ser designada, entendemos que há múltiplos fatores concorrentes para essas escolhas das formas referenciais e que não se pode afirmar qual deles é mais determinante que os demais de maneira sistemática em todos os casos. Assim sendo, diferentemente desses posicionamentos, não estamos, aqui, ligando os usos referenciais e atributivos a posições argumentais de um predicado, nem a funções sintáticas e a formas morfossintáticas das expressões. Da mesma maneira, não condicionamos a ocorrência dos processos referenciais ao emprego de expressões referenciais. Assumimos a mesma concepção de Apothéloz (2001, p.31) de que o referente, a que denomina de objeto de discurso, não precisa, necessariamente, estar representado por uma expressão referencial, já que se trata de uma construção discursiva:

É importante notar que os referentes, que são conseqüência desse processo, são, nesta perspectiva, ficções semióticas, e não exatamente realia que preexistem à interação. Seguindo os trabalhos de Grize (1982,

1996), eu os nomearei de “objetos de discurso”. Teremos oportunidade de

ver que um objeto de discurso pode ser uma instância referencialmente subdeterminada e efêmera. Na perspectiva em que me situo, a referência não é, de modo algum, ligada a marcadores lingüísticos particulares, nem notadamente

àquilo

que

se

convencionou

chamar

de

“expressões

referenciais”.

(tradução nossa)

 

Construir um referente não requer, para nós, que ele seja explicitado por uma expressão referencial; assim como colaborar para o acréscimo de predicativos a um objeto de discurso não exige que, para isso, se tenha necessariamente um predicado, ou uma função sintática que cumpra uma função atributiva predeterminada. Não falaremos, pois, de usos considerados como referenciais ou como atributivos tendo em vista a descrição estrutural do enunciado em que se inserem. É bastante freqüente e esperável, diríamos encontrarmos sobrepostas as duas operações: de referência e de acréscimo de atributos, condição essencial para que se processe a progressão referencial (e temática), que dá unidade de coerência a um texto. Eis por que, em muitos casos, Schwarz (2000) fala de “tematização remática”, sempre que constata essa duplicidade de funções. Algumas evidências interessantes desses usos se verificam em certos empregos de expressões indefinidas, como bem demonstrou Cunha Lima (2004). Koch (2002a), retomando Schwarz (2000), analisa algumas situações de uso da expressão indefinida, em que referência e atributo se amalgamam numa tematização remática, e conclui essa duplicidade provavelmente se explica pelo fato de as expressões referenciais nominais, em geral, exercem, simultaneamente, duas funções cognitivo-discursivas, pois reativam referentes já presentes na memória discursiva e introduzem novas predicações a respeito deles (KOCH, 2002b, p.3). A autora comenta o seguinte exemplo de Schwarz, em que a expressão anafórica exerce muito mais a função de focalizar um atributo do que de identificar um referente dentro da cadeia coesiva do texto:

( ) A velha senhora desaba sobre a cadeira da cozinha. E quando sua amiga chega, não encontra a avozinha, mas um montinho de infelicidade, uma coisinha danificada e confusa. (adaptado de Schwarz, 2000, p.59).

Koch (2002b, p.121) seqüencia esse raciocínio discutindo o termo grifado no exemplo abaixo, cujo estatuto anafórico foi questionado por Rodolfo Ilari, o qual se pergunta: a expressão em destaque não seria uma simples ocorrência de predicação, de uso atributivo, e não de referência?

(7) A repressão policial na cracolândia, reduto de traficantes e dependentes de crack no centro de São Paulo divide opiniões. De um lado, especialistas no tratamento

de dependentes condenam a estratégia do governo para expulsar os viciados da região. De outro, comerciantes locais aplaudem a iniciativa. / Para o psiquiatra Auro Lescher, coordenador do Projeto Quixote, criado pela Escola Paulista de Medicina para atender crianças e adolescentes que vivem nas ruas, a ação da polícia é apenas uma maneira "de varrer a sujeira para debaixo do tapete". / "Estão tratando uma questão social como se fosse uma questão urbanística e financeira. Enquanto adotarem medidas repressivas estarão perpetuando um grave problema", diz. (FSP "Especialistas criticam ação do governo" FSP 3/9/2000 - extraído de um corpus de anáforas da imprensa brasileira, coletado por R. Ilari).

De acordo com Koch, Ilari questiona se, para que expressões como “um grave problema” sejam classificadas como anafóricas, bastaria argumentar, por exemplo, que o indefinido um poderia ser permutado pelo demonstrativo esse esse grave problema - , sem que isso acarretasse alterações ao processo; ou que a expressão poderia ser retomada no cotexto subseqüente por o problema, esse problema etc., formando, assim, uma cadeia coesiva, que asseguraria a natureza referencial. Em outros termos, “um grave problema” teria uso referencial anafórico porque poderia ser substituído e retomado depois por “o problema, esse problema”. Não pensamos que o cerne da questão de se tratar ou não de um uso referencial anafórico resida na forma de manifestação do referente, mas o fato de a entidade poder ser retomada no texto posteriormente nos parece um argumento forte para o caráter referencial dessa expressão indefinida. Não se trata simplesmente de recorrer à substituição do artigo indefinido pelo demonstrativo, pois não é a expressão em si, e suas restrições formais, que vai determinar o aparecimento de um objeto de discurso. O referente atinente a “uma questão social” já vinha sendo, na verdade, introduzido aos poucos, e a ele foram sendo acrescidas outras nuances que permitiram ao enunciador homologá-lo como “um grave problema”. Koch defende que se verifica, neste caso, uma transformação chama-se recategorização – do referente de “uma questão social” em um grave problema, que expressa o ponto de vista do enunciador sobre o objeto construído. Este pensamento converge para as observações que temos feito até agora sobre o processo contínuo de reconstrução da referência. Como bem observa Koch:

A opção pelo indefinido deve, pois, ter uma razão de ser: talvez o enunciador tenha preferido a expressão indefinida para enfatizar a sua avaliação de que a forma como a questão social está sendo tratada pelas autoridades constitui um grave problema que poderá se perpetuar. O emprego de esse grave problema parece pressupor que os co- enunciadores já partilhavam a idéia de que o problema existia. (KOCH, 2002b, p.125)

Não importa, portanto, que dadas expressões se encontrem em posições sintáticas predicativas, pois

ao optar pelo uso de frases nominais, o enunciador não quis apenas atribuir predicações, mas sim construir seus objetos-de-discurso por meio de descritores lexicais nominais o que é, inclusive, retoricamente muito

mais ágil e mais forte. São ‘flashes’ que nos permitem compor na

memória os objetos descritos. (

...

)

cada um desses descritores nominais

pode ser atribuído a uma voz diferente. (KOCH, p.123)

Com todas essas ponderações, não queremos, todavia, negar que os referentes, ou objetos de discurso, sejam mais apropriadamente manifestados por certas formas que a língua disponibiliza, como os sintagmas nominais (SN) definidos, indefinidos e demonstrativos, como os pronomes e os nomes próprios, pois, como o admite Charolles:

Os nomes próprios, os SN definidos, demonstrativos, indefinidos e os pronomes não esgotam o estoque de expressões referenciais que o francês põe à disposição dos locutores, mas estas formas muito utilizadas, às quais é necessário notadamente acrescentar os possessivos e os SN sem determinantes, permitem responder a uma gama ampla de situações e de intenções comunicativas. Eles oferecem aos sujeitos que as utilizam a possibilidade de explorar e de acrescentar dimensões do contexto que são bem mais sutis do que possamos imaginar. Essas dimensões incluem traços materiais e psíquicos que preexistem à comunicação, como a presença ou não de referentes no contexto de enunciação, mas também, em certo sentido sobretudo, os traços imateriais como a atenção que os interlocutores podem já ter dado ou não ao referente visado, a representação que eles podem ter deles, as intenções referenciais que podem se atribuir mutuamente etc. (CHAROLLES, 2002, p. 241-2).

Apenas rejeitamos a idéia de que tais formas, e as funções sintáticas que elas possam preencher dentro de proposições, sejam obrigatoriamente referenciais ou não- referenciais, independentemente de seus usos. Os processos referenciais resultam, a nosso ver, de uma conjunção de vários fatores, que não dependem exclusivamente de imposições de ordem gramatical. Em consonância com Apothéloz (2001), diremos que construir um referente envolve um processo cognitivo e social de interação e de atenção. De interação porque, como mostramos acima, só se pode tratar de referência dentro de situações efetivas de comunicação, não importa que não sejam interações face-a-face. De atenção conjunta porque os participantes da comunicação se voltam, por meios diversos, lingüísticos e não-lingüísticos, gestuais ou não, para cada entidade que estiverem focalizando durante essa interação.

É como sintetiza Ciulla e Silva (2008): elaborar e reelaborar referentes requer a consideração de elementos lingüísticos, de pistas extralingüísticas e, necessariamente,

de muitas inferências, para que os participantes da interação achem que estão atentando para a mesma entidade, mesmo que esse referente não seja precisamente o mesmo para a mente dos interlocutores, pois haverá sempre um viés de diferença no modo como cada um concebe e percebe as coisas.

Pensamos que, na verdade, os elementos lingüísticos estão imersos, assim como todos os outros elementos da situação extralingüística, no que poderíamos chamar de entorno discursivo. Por isso, a referência é um processo em que não se pode separar completamente o que é lingüístico do que não é. O que podemos é inferir, a partir do texto, quais objetos estão sendo referidos, de que maneira, por quem, com quais intenções, etc. num cálculo que pode ser ajustado, conforme nos empenhamos na compreensão e de acordo com as outras pistas que nos vão sendo fornecidas à medida que o discurso se desenvolve. O fato de que as inferências que são autorizadas pelos elementos materiais do texto são essenciais para completar-lhes o sentido é uma evidência de que essas inferências fazem parte do próprio processo lingüístico. (CIULLA e SILVA, 2008, p. 17)

Este pensamento está em harmonia com as idéias de Ariel (1996), como explica Costa (2007), para quem as expressões referenciais constituem apenas instruções ao destinatário de como este deve recuperar da memória parte de uma determinada informação. Elas indicam quão acessível está esse pedaço de informação no discurso. Além de exercerem essa função de orientar o co-enunciador, elas ainda contribuem para a identificação do referente de outro modo: pelo próprio conteúdo informacional que comportam, geralmente. Não existe uma associação previamente determinada entre as formas de expressões referenciais e os “lugares” de onde provém a base de conhecimentos relevantes para a identificação dos referentes. Conforme explica Ariel, não se deve supor que os nomes próprios, por exemplo, sejam as formas mais apropriadas para a recuperação de informações enciclopédicas, ou que os demonstrativos sejam os mais indicados para a identificação de objetos salientes no ambiente físico, nem que os pronomes pessoais só remetam a algo presente no contexto lingüístico precedente.

Conclusão:

Não se pode, a priori, estabelecer uma relação fixa entre formas de expressão referencial e tipos de campos de onde se origina a informação que elas veiculam.

Os enunciadores não instruem os co-enunciadores a recuperarem os referentes pela alusão à sua origem “geográfica”, mas sim, pela “sinalização”, também através das

expressões referenciais (mas não somente por meio disso), de como esses referentes podem estar mais, ou menos, acessíveis para eles.

PARTE II O que dizemos hoje sobre o referente

Há tipos distintos de processos referenciais que ajudam os participantes da interação a construírem sua própria coerência dos textos que recebem ou que produzem. Para nós, todo processo referencial é viabilizado por um dispositivo remissivo, uma propriedade de apontar para um dado objeto reconhecível a partir de pistas muito diversificadas. Podemos dizer, com Lyons (1977), que todo processo referencial envolve um componente dêitico”, já que aponta para pistas vindas do espaço e do tempo real em que se situam os enunciadores, do cotexto, da memória compartilhada, das supostas intenções enunciativas de cada um e do contexto sócio-histórico do momento, todas colaborando, ao mesmo tempo, para que os referentes se configurem na mente dos participantes da enunciação. Divisamos, nos trabalhos da linha de referenciação, duas maneiras de abordar os objetos de discurso dentro de um texto; este capítulo discute um pouco cada uma delas. Uma prioriza a manifestação das expressões referenciais no cotexto para descrever diferentes tipos de processos de introdução, de anáfora e de dêixis. Outra não considera como critério primário de distinção a explicitação das expressões referenciais, mas sim, a construção sócio-cognitivo-discursiva desse objeto de discurso. Embora, em ambas as abordagens dos fenômenos referenciais, se busque analisar o modo como a representação mental do objeto de discurso vai se configurando, não somente a partir dos indícios fornecidos pelo cotexto, mas também a partir de todos os outros dados do entorno sócio-cultural e situacional dos enunciadores e co-enunciadores, a prioridade dada à menção das expressões referenciais, na primeira visão, termina sendo decisiva para a separação entre estratégias de introdução, de anáfora e de dêixis.

Referenciação atrelada à menção de expressões referenciais

Dentro da primeira perspectiva, pela qual se pautam inúmeros trabalhos (como os de Koch, Marcuschi, Cavalcante e muitos outros), os processos referenciais se dividem em duas possibilidades. Se as entidades são introduzidas no texto pela primeira vez, isto é, se elas ainda não foram citadas antes no texto, então estamos diante de ocorrências de introdução referencial. Se os referentes já foram de algum modo evocados por pistas

explícitas no cotexto, então estamos em presença de continuidades referenciais, isto é, de anáforas.

Processos referenciais atrelados à menção

Introdução Referencial

Anáfora (continuidade referencial)

Vejamos, no seguinte exemplo, como as expressões “o sujeito” e “o padre”

introduzem novos referentes no texto, citando-os pela primeira vez:

( ) “O sujeito chega para o padre e pergunta:

  • - Padre, o senhor acha correto alguém lucrar com o erro dos outros?

  • - É claro que não, meu filho!

  • - Então me devolve a grana que eu te paguei para fazer o meu casamento. (piada, As melhores piadas de casseta e planeta, v.4)

Para esta primeira concepção, dizer que os referentes de “o sujeito” e de “o padre” foram introduzidos no universo do discurso depende diretamente do fato de eles aparecerem formalmente no cotexto. São tomadas como introduções referenciais porque não se leva em conta o que vem após elas, mas o fato de nada remeter a elas antes. Por outro lado, diz-se que, para haver anáfora, é necessário que as expressões referenciais anafóricas ancorem em pistas do cotexto, que podem apontar para trás, ou para a frente, ou até para ambas as direções. Note-se como “o garoto”, do exemplo ( ), reapresenta o referente já mencionados antes, fazendo uma remissão retrospectiva a Joãozinho:

(

) A professora tenta ensinar matemática para o Joãozinho.

com

Se eu te der quatro chocolates hoje e mais três amanhã, você vai ficar com ... com E o garoto:

-

...

?

-

Contente! (piada, Coleção 50 Piadas Matemática, de Donaldo Buchweitz)

O referente de “o Joãozinho”, uma introdução referencial, é retomado a partir da expressão anafórica “o garoto”. Diz-se, neste caso, que se deu uma ocorrência de correferencialidade, porque o mesmo objeto de discurso previamente introduzido foi completamente recuperado pelo anafórico “o garoto”.

Em contraste com isso, as expressões anafóricas correferenciais sublinhadas a seguir fazem uma remissão prospectiva ao mesmo referente diz-se que são remissões catafóricas, antecipando o que vai ser dito do referente:

( ) CERVEJA

Motivo de polêmica A Schincariol lança neste mês no Nordeste a lata de Nova Schin com uma tampa protetora de alumínio. A solução, que outras empresas já usam, é motivo de uma pequena guerra no setor: o sindicato que reúne a Ambev e a Femsa fez campanha publicitária contra. Alegou que esse tipo de embalagem não protege contra a formação de bactérias. Uma liminar na Justiça proibiu a campanha. (nota revista Veja, 07/05/2008)

Vejamos

como,

na

reportagem

abaixo,

os

referentes

vão

sendo

mantidos,

formando cadeias coesivas de correferencialidade:

( ) A energia do Shiatsu Há séculos que os japoneses recorrem aos benefícios dessa massagem, que usa a pressão (atsu) dos dedos (shi) para aliviar tensões e dores de cabeça. Segundo o terapeuta Kioshi Kikuto, do Rio de Janeiro, a técnica chegou aqui com os imigrantes japoneses, que aplicavam a massagem entre si para amenizar as dores causadas pelo trabalho na lavoura. Nesses 100 anos, o shiatsu sofreu algumas adaptações: “No Japão, a pressão dos dedos é maior e mais pontual; aqui é comum associar técnicas de alongamento e relaxamento na mesma sessão”, diz Carla Godinho, professora de terapias corporais do Senac de Fortaleza. Para ter certeza de que a massagem foi bem-

feita, Kioshi ensina: “A primeira sensação é de dor, seguida por um enorme conforto. Desconfie se sentir apenas uma coisa ou outra”. (revista Cláudia, maio de 2008)

Comecemos com o referente de shiatsu: ele é retomado correferencialmente logo no início do texto e já recebe uma nova configuração, pois é recategorizado pela expressão anafórica “dessa massagem”. A estratégia é proposital, já que fornece ao co- enunciador a informação, que ele pode desconhecer, de que o shiatsu se define como um tipo de massagem. Assim, a referência, pelo emprego de uma paráfrase definicional (KOCH, 2004), não apenas continua, mas ainda progride e colabora fundamentalmente também para o tema que está sendo desenvolvido. O referente já transformado é ainda recuperado pelo relativo “que”, por repetições (“a massagem”, “o shiatsu”) e, adiante, é novamente recategorizado como “a técnica”. São situações de anáfora correferencial, em que o mesmo referente é ora simplesmente mantido, ora alterado em proporções variadas.

Contudo, não se deve concluir que a progressão referencial se efetive somente através das estratégias de correferencialidade. O processo de continuidade anafórica e de progressão da referência por meio de acréscimos também pode ser realizado pela menção de expressões que, embora não representem o mesmo referente citado, estão de algum modo ligadas a outras âncoras lingüísticas do cotexto e operam uma espécie de referência indireta, que nem por isso deixa de ser anafórica. Conforme comenta Koch:

As anáforas indiretas, por seu turno, caracterizam-se pelo fato de não existir no cotexto um antecedente explícito, mas sim um elemento de relação (por vezes uma estrutura complexa), que se pode denominar âncora (cf. Schwarz 2000) e que é decisivo para a interpretação; ou seja, trata-se de formas nominais que se encontram em dependência interpretativa de determinadas expressões da estrutura textual em desenvolvimento, o que permite que seus referentes sejam ativados por meio de processos cognitivos inferenciais que mobilizam conhecimentos dos mais diversos tipos armazenados na memória dos interlocutores. (KOCH, 2002a, p.1)

É o que acontece já na relação entre a âncora do título “A energia shiatsu” e “os japoneses”. A origem do nome shiatsu é um dado que favorece uma associação com o referente de “os japoneses”. Não se trata do mesmo referente, é claro, mas de um processo inferencial, cognitivo, em que certos indícios contextuais provocam o surgimento de um dado referente sem que isso cause estranheza ao co-enunciador, produzindo o que Marcuschi (2005) chama de universo referencial emergente. Trata- se de uma relação anafórica que não se realiza diretamente entre a primeira expressão que introduz o referente e a outra que o retoma, mas de uma outra relação, designada na literatura como anáfora indireta. É o que percebemos também na associação automática que fazemos, por exemplo, entre a massagem e “o terapeuta Kioshi Kikuto”, “a pressão dos dedos”, “tensões e dores de cabeça”, “terapias corporais”, dentre outros marcados no texto, que se amarram dentro do texto porque os participantes da comunicação acreditam em noções compartilhadas. Conhecimentos culturais (ou mais particulares, dependendo do gênero e da situação enunciativa) vão sendo acionados e novas associações vão sendo elaboradas, sem que se possa predeterminar exatamente que pista foi mais determinante do que outra determinou uma ligação. Chamamos a atenção, mais uma vez, para a importância dada, dentro desta perspectiva, à menção tanto das expressões anafóricas quanto das âncoras, ainda que se admita que o fenômeno só surte efeito por causa da ativação de processos cognitivos

complexos mobilizando conhecimentos diversificados na memória discursiva dos participantes da enunciação. Os elos referenciais vão se entrelaçando nas representações mentais que os falantes vão elaborando no universo do discurso, compondo verdadeiras cadeias anafóricas. Essa tessitura de elos interligados, coesos, que não se costuram exclusivamente pelo que está explícito no cotexto, senão também pelo que se encontra implícito na memória discursiva e que se descobre por inferências, é a condição básica para que uma unidade de coerência se forme na mente de enunciadores e co- enunciadores. Poderíamos resumir esses dois grandes processos referenciais, fundamentados nesse critério menção no cotexto, dizendo assim: há duas funções gerais das expressões referenciais:

1)

Introduzir formalmente um novo referente no universo discursivo

2) Promover, por meio de expressões referenciais, a continuidade de referentes já estabelecidos no universo discursivo.

Essas duas funções autorizam a separação entre os dois tipos de processo: as introduções e as anáforas, conforme mostramos acima. Dentro do segundo grupo, das anáforas, há dois subgrupos: as anáforas com manutenção do mesmo referente e as sem retomada do mesmo referente. Veja-se a síntese no quadro abaixo:

Processos referenciais atrelados à menção

Introdução Referencial

Anáfora (continuidade referencial)

Processos referenciais atrelados à menção Introdução Referencial Anáfora (continuidade referencial) Anáforas Diretas (Correferenciais) Anáforas indiretas (Não-correferenciais)

Anáforas Diretas (Correferenciais)

Anáforas indiretas (Não-correferenciais)

O aparecimento das expressões do primeiro grupo, isto é, das introduções referenciais, não está atrelado a nenhum elemento do cotexto anterior ou da situação imediata de comunicação. Examinemos o termo grifado a seguir:

( ) “O Prefeito foi visitar o hospício da cidade. Chegando na biblioteca, percebe

que tem um louco, de cabeça para baixo, pendurado no teto. Preocupado, comenta com o diretor do hospício:

  • - O que é que esse louco está fazendo aí no teto?

  • - Ele pensa que é um lustre.

  • - Mas é muito perigoso, ele pode cair e se machucar.

  • - Por que vocês não o tiram do teto?

  • - Mas e, à noite, como é que a gente vai fazer para ler no escuro?” (piada, Coleção 50 piadas loucos, de Donaldo Buchweitz).

Já as expressões do segundo grupo, isto é, as que a literatura tem sempre consagrado como anafóricas, são responsáveis pela continuidade referencial e exigem a consideração de um termo-âncora formalmente dito no cotexto.

Recapitulando Continuidade não significa obrigatoriamente manutenção de um mesmo referente. Quando o mesmo referente é retomado, dizemos que a anáfora é correferencial. Mas nem toda continuidade, ou seja, nem toda anáfora, é correferencial, porque nem todas retomam o mesmo objeto de discurso. Quando acontece de não haver correferencialidade, a continuidade se estabelece por uma espécie de associação que os participantes da enunciação elaboram por inferência.

No exemplo acima, são anafóricas diretas (correferenciais) as expressões “esse louco” e “ele”, que recuperam a mesma entidade, “um louco”, previamente mencionada. Por outro lado, são anafóricas indiretas, dentre outras, as expressões:

- “a biblioteca”, ligada por uma relação metonímica de parte-todo a “o hospício da cidade”; - “o diretor”, “um louco”, também associadas a “o hospício da cidade”, mas por uma relação funcional (KLEIBER, 2001): o diretor e o louco são agentes que atuam dentro de um hospício. Nestes últimos casos, temos anáforas indiretas, caracterizadas pela menção de um novo referente relacionado a outro, distinto, e já citado anteriormente, ou relacionado a alguma outra pista formal do texto, como um verbo, por exemplo. Essa possível associação entre as duas formas, a qual o enunciador espera que o co-enunciador reconheça, permite apresentar o anafórico indireto como se já fosse conhecido, dado, velho. Repare-se no exemplo seguinte:

( ) “Um advogado morre e pede, em seu testamento, que cada um de seus três sócios jogue 50 reais dentro de seu túmulo na hora do enterro. O primeiro pensa muito, tira uma nota de 50 reais da carteira e a joga na cova. O segundo reluta bastante, mas também joga uma nota de 50 reais. O terceiro recolhe as duas notas de 50 e joga um cheque de 150 reais na cova. (piada, Coleção 50 piadas profissões, de Donaldo Buchweitz).

Como anafóricos diretos, correferenciais, podemos ter, dentre outros, “o primeiro”, “o segundo” e “o terceiro”, com relação a “cada um de seus três sócios”.

Como anafóricos indiretos, podemos citar, além de outros, “um cheque de 150 reais”. Note-se que anáforas indiretas, como as que se instauram a partir da relação entre, por exemplo, “o enterro” e “morre”, constituem um processo de referenciação que se dá pelo que inferimos, dentro de nossa cultura, da cena de morte seguida de enterro. A

menção nova, portanto, do referente de “o enterro” já se estabelece por dedução a partir de pelo menos uma menção velha, como “morre”.

Alguns estudiosos pleiteiam, ainda, uma subdivisão dentro das anáforas indiretas. Os estudos convergem para duas abordagens do fenômeno: uma estreita, que se apóia em restrições léxico-estereotípicas; outra ampla, que diz não limitar-se a tais restrições. Esse duplo olhar para as relações anafóricas indiretas redundou em decisões classificatórias distintas. Certos autores preferiram restringir o fenômeno às ligações fundadas, em princípio, em associações que seriam, supostamente, apenas semântico- lexicais, deixando à margem as situações que requeressem outros tipos de inferência é o caso de Kleiber (2001). Outros autores, como Schwarz (2000), por exemplo, optaram por propor duas classes de referência indireta:

- as anáforas associativas - seriam “conceitualmente baseadas; - as anáforas inferenciais - seriam “inferencialmente baseadas; englobariam muitos outros casos em que a recuperação do referente indireto exigisse percepções da situação enunciativa, informações do conhecimento culturalmente compartilhado, dados fornecidos pelo próprio desenvolvimento textual e argumentativo etc.

Outros autores, ainda, como Apothéloz e Reichler-Béguelin (1999), decidiram- se por não distinguir as anáforas indiretas, reunindo-as todas num só conjunto de

“anáforas associativas”, sob a alegação de que não importa a origem da âncora em que

se apóia o anafórico indireto, nem importa a forma como ele se manifesta (se como

sintagma nominal definido, demonstrativo, possessivo; se como pronome pessoal), pois o que vale é o mecanismo inferencial envolvido no processo este é também nosso posicionamento neste livro.

Aprofundando (para pôr numa caixa à parte)

Aqueles que concordam em falar de anáfora associativa stricto sensu vêem-na como um tipo de referência indireta que “repousa sobre um elo convencional, pré- inscrito no léxico, que liga de modo necessário e, mais freqüentemente de modo estereotípico – o sintagma nominal fonte e o sintagma nominal anafórico” (KLEIBER, 1994, p.93). Para Kleiber, uma anáfora associativa consiste na introdução (leia-se:

menção) de um referente novo, manifestada por uma expressão nominal definida, que se reporta a uma outra entidade mencionada antes no cotexto. As duas expressões, isto é, a anafórica associativa e a antecedente, estariam associadas por relações convencionais estabelecidas entre os nomes (lexemas) que as constituem. Ponderemos sobre a restrição formal que tal definição impõe: ela isola das anáforas associativas todas as ocorrências de referência indireta realizadas por sintagmas nominais demonstrativos, possessivos, bem como as manifestadas por pronomes pessoais. Todos esses casos que não se encaixam nas conexões léxico- estereotípicas propostas pelo autor são relegados a situações de anáforas inferenciais, ou de algum tipo de referência indireta que nem chegaria a constituir anáfora, e não são descritos por ele. Desse modo, exemplos como “a pedra”, abaixo, não configurariam anáforas associativas, mas fenômenos outros de referenciação indireta; não se submeteriam a um exame detido, pois seria difícil justificar uma relação lexical

necessária e regular entre “a pedra” e “lá embaixo”, ou “tomba”:

(

) que será

que tem lá embaixo que a pedra tomba tão fácil? (La vie en close, de Paulo Leminski)

Para compreender em que consistem as relações lexicalmente convencionadas, consideremos os exemplos analisados por Kleiber, que as subdivide em quatro espécies:

meronímicas, locativas, actanciais e funcionais.

a) Anáforas associativas meronímicas

As anáforas associativas meronímicas se instancializam quando o nome nuclear do

anafórico associativo é semanticamente marcado pelo traço “parte de”. Haveria entre as

duas entidades que essas expressões representam uma dependência ontológica particular, em que o referente do anafórico seria uma parte constitutiva do referente de seu antecedente. Exemplos representativos de anáfora associativa meronímica podem ser extraídos de Schwarz (2000), como nas seguintes ocorrências, que adaptamos:

( ) Não pegue a xícara amarela. A asa está quebrada. ( ) O carro está acabado. A direção está totalmente torta. ( ) Pegue esta panela aqui. O aço agüenta mais. ( ) O bonito vaso da tia Erna é frágil. A porcelana é muito fina.

b) As anáforas associativas locativas

Kleiber observa que as entidades dos anafóricos associativos meronímicos não são

referencialmente autônomas, como “asa” e “xícara”; “direção” e “carro”; “aço” e “panela”; “porcelana” e “vaso”. Os segundos referentes são, com efeito, partes

constitutivas de suas fontes. Ao contrário disso, os anafóricos associativos locativos têm

independência referencial, porque sua existência não se prende à existência da outra entidade. O exemplo prototípico, para o autor, seria este:

( ) “Entramos num vilarejo. A igreja estava situada no alto.” (KLEIBER, 2001,

p.263)

Aqui, embora permaneça um vínculo entre a parte e o todo, verifica-se um condicionamento de localização espacial ou temporal das partes, como no exemplo a

seguir, em que o referente de “a geladeira” pertence ao de “uma cozinha”:

( ) “Entramos numa cozinha. A geladeira estava aberta.” (KLEIBER, 2001, p.278)

Kleiber explica que, se entre igreja e vilarejo, e entre geladeira e cozinha, há autonomia dos componentes em relação ao todo, o mesmo não se pode dizer da ligação entre direção e carro, aço e panela, porcelana e vaso.

É importante constatar que aquilo que se concebe, nessas definições, como sendo

“novo” significa o que, até o momento de sua ocorrência, não tinha sido mencionado e que, em conseqüência da não-menção, não tinha sido “introduzido no modelo de discurso”. Também vale apontar que, como assevera Neves (2006), dentro desta visão,

o que distingue a anáfora associativa de outras referências indiretas é a genericidade que a caracteriza, ou seja, seria o fato de a associação já estar prevista em scripts e frames na mente dos interlocutores. Todavia, na perspectiva que assumimos neste trabalho, as anáforas indiretas em geral não estão subordinadas ao condicionamento formal das expressões nominais definidas: elas podem se manifestar também por outros sintagmas nominais e pronominais. Nem podemos afirmar que a relação entre o primeiro referente mencionado e o anafórico associativo só dependa de conhecimentos muito gerais e que independa de informações culturais outras, ou de dados contextuais específicos partilhados entre os interlocutores.

c) As anáforas associativas funcionais

Ao contrário das anáforas associativas meronímicas, que podem conservar uma noção de distributividade, as funcionais não podem alega Kleiber. Assim, se uma associação meronímica como “o tronco – as árvores” permite a interpretação distributiva de que há tantos troncos quantas árvores há, uma associação funcional como “o autor – as obras” não admite essa distributividade, pois não se pode dizer “há tantas obras quantos autores há”. Esse condicionamento semântico distinguiria as funcionais das meronímicas.

Os anafóricos funcionais apareceriam tipicamente em associações como “obra –

autor”, “clube – presidente”, “carro – motorista” etc., em que o anafórico desempenha

alguma função com relação a seu referente-fonte, a sua âncora. Outra restrição

semântica que os tipificaria é que eles não se sujeitam a uma prova estrutural com o verbo ter, que confirma o traço de pertença, como acontece numa estrutura meronímica. Não se poderia dizer, por exemplo, que “? Esse clube tem o presidente doente / ? O carro tem o motorista levemente embriagado / ? esse livro tem autor inglês”’

(KLEIBER, 2001, p.349), ao passo que seria perfeitamente possível afirmar, numa associação meronímica: “o carro tem a direção torta”; “a xícara tem asa” etc. As

restrições ditadas pelo autor, como vemos, são todas de ordem semântico-estrutural, o que limita demais os pressupostos que admitimos neste estudo.

d) Anáforas associativas actanciais

Para definir as anáforas associativas actanciais, o critério a que recorre Kleiber é de outra natureza semântica, diferente das noções partitivas anteriores: agora é necessário que o referente do anafórico corresponda a um dos argumentos (actantes) de um predicado introduzido no cotexto precedente. O elemento que serve de âncora, ou fonte, para o anafórico associativo é, desse modo, um predicado, não uma outra entidade. O relacionamento não se dá entre duas entidades, mas entre um acontecimento e as entidades implicadas nesse evento, como em “Houve um assassinato. O assassino foi rapidamente preso.” (KLEIBER, 2001, p. 324). O predicado seria “foi preso”; a ele, correspondem os argumentos (casas vazias, lugares vazios). Esta peculiaridade distingue completamente as actanciais das outras três, que se instauram a partir da associação entre duas entidades, não entre entidades e predicações. O fato de o anafórico associativo actancial vir representado por uma expressão nominal definida adviria, portanto, do esquema predicativo, e o critério de identificação deste subtipo é de natureza semântico-sintática. No quadro valencial, o predicado implica um conjunto de argumentos, e constitui a âncora que ampara a interpretação da anáfora associativa. Como resume Kleiber (2001, p.324), “a anáfora associativa actancial vem, em suma, apenas saturar um lugar argumentativo junto do

predicado antecedente”. Exemplo do autor:

( ) “A operação se passou bem. O operado e o cirurgião até mesmo brincaram juntos.” (KLEIBER, 2001, p.324).

Observe-se que, por esse viés, o referente da expressão sublinhada só se recuperaria pela identificação da relação de dependência valencial entre o predicado “operação” e os argumentos operado e cirurgião.

Cumpre

reforçar

que

as

relações

anafóricas

indiretas,

de

caráter

mais

“inferencial”, segundo Kleiber (2001), isto é, que não forem consideradas como

derivando de amarrações léxico-estereotípicas, ficam expurgadas do que se concebe como anáfora associativa em sentido estrito. Estariam excluídos todos os tipos inferenciais que exigem, segundo Marcuschi (2005), estratégias cognitivas fundadas em conhecimentos conceituais mais ou menos já estabelecidos em modelos mentais, e em conhecimentos de mundo. Esses anafóricos indiretos mais inferenciais se estabelecem a partir de graus diferentes de inferência. Reconhecendo isso, Marcuschi (2005) propõe subdividir as anáforas indiretas inferenciais em duas variedades mas, evidentemente, haveria muitos outros tipos; propor uma tipologia aberta desses anafóricos é algo que ainda está por ser feito:

a) tipos mais especificamente vinculados ao modelo de mundo textual presente no co(n)texto), como no exemplo:

( ) “Essa história começa com uma família que vai a uma ilha passar suas férias.

Quando amanheceu eles foram ver como estava o barco, para ir embora e perceberam que o barco não estava lá.” (MARCUSCHI, 2005, p.53)

b) tipos mais ligados a processos inferenciais gerais, que dependem de informações culturais mais amplas, como o conhecimento de que, em nossa cultura, o casamento heterossexual envolve dois parceiros. Esse dado favorece, como no exemplo abaixo, a pergunta pelo par masculino que vai casar com Maria:

( ) “A: Maria pretende casar no final do ano B: e o que é que ele faz?” (MARCUSCHI, 2005, p.67)

O ponto de vista que sustentamos aqui é de que, malgrado as inegáveis associações de natureza meronímica, locativa, funcional e actantcial (e até outras não cogitadas por Kleiber, 2001), todas as anáforas são, na realidade, inferenciais, e nada assegura que, cognitivamente, a ativação do anafórico indireto seja engatilhada somente pelos condicionamentos semânticos descritos pelo autor. Ademais, contraditório seria, ante os posicionamentos de que partimos, aceitar o pressuposto de que um referente seria acessível, cognitivamente, apenas por uma associação totalmente estabilizada na língua, e dada a priori. Mesmo o que se supõe estável, porque compõe nossos conhecimentos lingüísticos, passa a se ressignificar e a se reconstruir referencialmente nas práticas discursivas.

2.1.1 O caso especial das anáforas encapsuladoras

Existe um processo referencial que, dentro da perspectiva que dá primazia a menções no cotexto, tem sido tratado como um tipo peculiar de anáfora indireta, porque não retoma nenhum objeto de discurso, pontualmente, mas se prende a conteúdos espalhados pelo contexto.

Vejamos as ocorrências de anafóricos encapsuladores sublinhadas no texto

abaixo:

( ) Auto-retrato Luiz Paulo Kowalski

Em dezembro de 2005, aos 48 anos, o cirurgião Luiz Paulo Kowalski, do Hospital

do Câncer, em São Paulo, um dos maiores especialistas em tumores de cabeça e de pescoço do país, descobriu por acaso um nódulo na parótida direita, uma das glândulas produtoras de saliva. A cirurgia para a retirada do tumor deixou o médico com parte do rosto paralisada. A experiência de enfrentar como paciente uma enfermidade na qual é especialista fez com Kowalski mudasse radicalmente sua postura

perante os doentes. “Minha doença me fez um médico melhor”, disse ele à repórter

Adriana Dias Lopes.

Qual foi a principal lição que o senhor tirou de sua experiência?

Ganhei uma obsessão: ser absolutamente honesto com o paciente. Ou seja, não me limito mais a fazer um relato sobre a doença e seu prognóstico. O que isso significa? Se o doente corre o risco de ficar com paralisia facial depois de uma cirurgia, não digo

apenas que ele poderá ter dificuldade para comer, como fazia antes. “Dificuldade para

comer” é muito mais do que isso. O paciente não conseguirá segurar o alimento com os dentes. A comida vai ficar presa entre a gengiva e o lábio sem que ele perceba. Para o médico, essas situações tendem a ser banais. Mas não para o doente. Minha doença me fez um médico melhor. Aprendi a falar a linguagem do paciente. Na prática, o que o paciente ganha com isso? Segurança e tranqüilidade. Faço de tudo para que o paciente não seja pego de surpresa. Claro que nem todo paciente quer saber de tudo e eu percebo e respeito esse limite. Mas, para a maioria, falar a verdade é sinal de respeito. Certa vez, uma vítima de câncer na língua me perguntou se, depois da retirada do tumor, poderíamos fazer a

reconstituição do órgão. Antes eu teria dito simplesmente que sim. De fato, fazemos a reconstituição mas não aquela imaginada pelo paciente. A sensibilidade da língua, por exemplo, jamais é recuperada. Hoje gasto o tempo que for necessário para informar o doente. Minhas consultas têm espera média de duas horas. E ninguém reclama. ( ) ... O senhor ficou um ano com paralisia facial e até hoje tem algumas seqüelas. Como foi sua recuperação? Uma semana depois da cirurgia eu já estava trabalhando. Fiz um ano de sessões diárias de fisioterapia. Foi muito difícil. O que ajudou na minha recuperação foi o apoio da minha mulher e das minhas filhas. Senti na pele como é importante o

conforto das pessoas queridas. Hoje, quando entro num quarto e encontro meu paciente rodeado por parentes e amigos, acho ótimo. Passei a tolerar mais as visitas. (entrevista - Veja, 06/02/2008).

Nesta entrevista, identificamos, com relativa facilidade, que “uma obsessão” antecipa e resume o conteúdo proposicional da oração que a segue: “ser absolutamente honesto com o paciente”. Na análise em que a referenciação está vinculada ao emprego de expressões referenciais, não é possível afirmar que a expressão encapsuladora “uma obsessão” remeta a uma outra expressão específica do cotexto, ou seja, a uma âncora

pontual, a que se reporta. Diz-se, então, que há uma recuperação difusa de informações

e que este é o traço mais típico das anáforas encapsuladoras; é o que lhes confere o caráter de anáfora também indireta: ser não-correferencial e ter um poder de resumir informações do cotextuais e contextuais. As demais expressões sublinhadas no exemplo da entrevista remetem a conteúdos ainda mais difusos, quanto mais genéricas elas forem: a expressão com um nome geral “essas situações” e o demonstrativo neutro isso não apenas encapsulam informações do cotexto, como requerem do leitor uma série de outros conhecimentos de mundo, de situações e vivências cotidianas, ou seja, requerem também dados contextuais. Declarar, por exemplo, que “Dificuldade para comer é muito mais do que isso” é não somente resumir, com o “isso”, o que foi dito antes, como também subsumir o que será

explicado logo em seguida e ainda apelar para a sensibilidade do leitor em imaginar todo o constrangimento que o ser humano tem que suportar diante de tal quadro clínico. A par dos anafóricos indiretos, também os encapsuladores não são correferenciais e se instauram pela menção a um objeto de discurso ainda não citado no cotexto, daí por

que se identificam com os casos de anáfora indireta. A diferença crucial entre estes encapsuladores e os anafóricos indiretos propriamente ditos é que resumem, “encapsulam”, conteúdos proposicionais inteiros, precedentes e/ou conseqüentes. Além disso, os encapsuladores não remeteriam a âncoras bem pontuais, bem específicas, do cotexto, mas a informações ali dispersas.

CONCLUSÃO Dentro desta visão de referenciação associada à menção de expressões referenciais, toda anáfora indireta deve apoiar-se em âncoras do cotexto, o que não exclui a possibilidade de remeterem, simultaneamente, a elementos da situação extralingüística e do conhecimento compartilhado. E, desse modo, toda anáfora

encapsuladora é uma espécie de anáfora indireta, por também introduzir e mencionar no cotexto uma expressão referencial nova, apresentada como se fosse dada, por resumir conteúdos explicitados (mas também implicitados) em porções cotextuais anteriores e/ou posteriores.

Eis alguns outros exemplos de anáfora encapsuladora, grifados no texto seguinte:

( ) APRENDENDO A DIZER NÃO Além das dificuldades que aparecem ao tentarmos conciliar a sobrecarga dos afazeres de tudo aquilo que nos pedem e a que não tivemos coragem de dizer não, corremos o risco também de nos frustrarmos ou deprimirmos diante da sensação de estarem se aproveitando de nós. Outras vezes não conseguimos dizer não por temermos que, se recusarmos um pedido de alguém, essa pessoa vai deixar de gostar da gente, ou por temermos que o outro tenha alguma atitude agressiva. Na realidade esses temores de que pensem algo pejorativo a nosso respeito, só por recusamos alguma coisa, é um sentimento que nasce primeiro dentro de nós mesmos e, em seguida, acabamos projetando nos outros como se deles se originasse. Indiretamente é um indício de insegurança ou, pior, de auto-estima baixa. Dizer sempre sim, por qualquer motivo que seja, pode trazer outros tipos de problemas. Concordar só para ter a imagem pessoal melhor aceitável e depois descobrir que não podemos cumprir o prometido costuma ser muito pior que dizer um não decidido e educado logo de início. Concordar com tudo e perceber depois que estamos tendo de fazer alguma coisa completamente contrária à nossa vontade pode gerar conflitos e conseqüências emocionais muito danosas. Ainda há o risco de fazermos alguma coisa contrariados e, portanto, muito mal feita. Sem dúvida, isso não vai melhorar nossa reputação e nem tampouco agradar os demais, como pretendíamos. Estando nossa auto-estima satisfatória, teremos consciência de que os outros, principalmente aqueles que convivem conosco, já têm razões de sobra para nos julgar positivamente, para reconhecerem nossa competência, capacidade e nossos valores, independentemente de nossa pretensa servidão incondicional. Aliás, é bom que a opinião dos outros sobre nossa pessoa tenha outras razões de admiração além da simples servidão. Todo mundo tem uma certa necessidade der ser amado e admirado, mas essa necessidade é tão mais presente quanto mais dúvidas temos de estarmos, de fato, sendo amados e admirados. Ora, essas dúvidas surgem em pessoas inseguras e com algum prejuízo da auto-estima. (crônica de auto-ajuda, de Geraldo J. Ballone -, divulgada na internet).

Vale observar, como se tem feito na literatura sobre o assunto (ver, por exemplo, KOCH, 2002a), que as anáforas encapsuladoras mas não somente elas, entendamos costumam ser exploradas para auxiliar na atribuição/homologação de um ponto de vista, por isso podem contribuir para a transmissão de impressões avaliativas e para a condução argumentativa do texto. É o que salienta Conte (1996, p.1), num dos estudos pioneiros sobre o assunto:

O encapsulamento anafórico é um recurso coesivo pelo qual um sintagma nominal funciona como uma paráfrase resumitiva de uma porção precedente do texto. O sintagma nominal anafórico é construído com um nome geral como núcleo lexical e tem uma clara preferência pela

determinação demonstrativa. Pelo encapsulamento anafórico, um novo referente discursivo é criado sob a base de uma informação velha; ele se torna o argumento de predicações posteriores. Como um recurso de integração semântica, os sintagmas nominais encapsuladores rotulam porções textuais precedentes; aparecem como pontos nodais no texto. Quando o núcleo do sintagma nominal anafórico é axiológico, o encapsulamento anafórico pode ser um poderoso meio de manipulação do leitor. Finalmente, o encapsulamento anafórico pode também resultar na

categorização e na hipostasiação (“hypostasis”) de atos de fala e de

funções argumentativas no discurso.

O uso das anáforas indiretas encapsuladoras como estratégias argumentativas,

numa atitude metadiscursiva, pode ser observado no exemplo acima. Com o emprego de

“esses temores

...

”,

“nossa pretensa servidão incondicional”, os adjetivos usados e o

valor axiológico do substantivo “temores” ajudam a ratificar a tese que o enunciador tenta defender na crônica acima. Além disso, de maneira indireta, a expressão “outros tipos de problemas” também categoriza como “problema” o fato de a pessoa não conseguir dizer não a nada.

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O fenômeno do encapsulamento ganhou destaque com o estudo precursor de Francis (1994) sobre um processo de “atribuição de títulos resumidos a segmentos textuais”. A esse processo, a autora chamava de rotulação (“labelling”), que, segundo

Francis, se realizava por meio de expressões nominais selecionadas pelo enunciador para conectar e organizar o discurso. A autora se deteve no exame dessas expressões anafóricas encapsuladoras que apresentavam um significado inerentemente genérico. Por causa do caráter inespecífico dos nomes rotuladores, era possível abarcar extensões variadas de discurso e condensá-las em denominações adequadas a propósitos especiais do falante. Sobretudo quando portam um valor metalingüístico, os rótulos operam como

“estágios de um argumento desenvolvido dentro e através do próprio discurso, à medida

que o escritor apresenta e avalia suas proposições e as de outras fontes” (FRANCIS, 1994, p.83). Fornecem, desse modo, instruções sobre como o destinatário deve

interpretar a unidade semântica encapsulada, traçando uma espécie de roteiro para o entrelaçamento das idéias conduzidas no texto.

É preciso entender que nem todos os anafóricos encapsuladores equivalem ao que Francis toma como rótulos, senão apenas os que se manifestam por sintagmas nominais plenos seriam, portanto, um tipo de encapsulador. Francis concebeu os rótulos como um recurso coesivo constituído de elementos nominais cujo significado inespecífico só poderia ser precisado dentro do discurso. O fenômeno estaria, pois, condicionado a dois traços singulares: um diz respeito à natureza lexical desse modo de referenciar; outro tem relação com a sua natureza semântico-textual. Desse modo, além de terem a propriedade de resumir porções do texto, os rótulos teriam que manifestar-se, necessariamente, por sintagmas nominais plenos; do contrário não seriam rótulos, mas somente anáforas pronominais que encapsulariam conteúdos, como isso, nada disso, tudo isso etc. Não estamos particularizando aqui, no entanto, os rótulos dentro da classe maior de anafóricos encapsuladores todas as formas serão consideradas por nós como encapsulamento, desde que cumpram, no mínimo, a função discursiva de resumir conteúdos proposicionais. Primeiro, por considerarmos igualmente importante a função argumentativa dos encapsuladores pronominais no discurso; segundo, por não aceitarmos o pressuposto de que as formas dos rótulos determinam, previamente, como os argumentos devem ser interpretados. Esse pressuposto também não parece estar em Francis, para quem a seleção de um nome particular como um rótulo para a proposição de alguém não reflete, necessariamente, sua intenção original, mas não deixa de ser um indício do modo pelo qual o enunciador escolhe interpretar um conteúdo. Por isso, assim como a autora, não descuramos a relevância dos traços semânticos dos sintagmas rotuladores para a (re)construção da coerência argumentativa dos discursos a cada enunciação, mas ressaltamos a dificuldade de agrupar e categorizar as infinitas possibilidades de nomeação de argumentos nas várias situações específicas de uso, recorrendo apenas a um critério semântico-lexical. Francis descreve quatro tipos de nomes que podem compor o uso de rótulos como estratégias metadiscursivas, aquelas pelas quais o enunciador reflete sobre seu próprio dizer e escolhe seus modos de expressão; são eles: nomes ilocucionários, nomes de atividades linguageiras, nomes de processos mentais e nomes de texto. Os nomes ilocucionários representariam atos de comunicação, exemplificados pela autora como:

acusação, admissão, aviso, afronta, alegação, anúncio, resposta, apelo, argumento, asserção, encargo, reivindicação, comentário, queixa, cumprimento, conclusão, opinião, crítica, decisão, (nível de) negação,

descoberta, desculpa, explanação, indicação, objeção, observação, promessa, predição, projeção, proposta, proposição, protesto, confiança renovada, reconhecimento, recomendação, rejeição, observação, lembrança, resposta, relatório, pedido, revelação, declaração, sugestão, aviso (2003, p. 204)

Os nomes de atividades linguageiras seriam similares aos nomes ilocucionários, mas, diferentemente destes, não teriam verbos cognatos correspondentes. Os ilocucionários devem, em princípio, revelar a intenção comunicativa do enunciador, dizendo da força ilocucionária de sua fala. Os de atividades linguageiras parecem nomear tipos de ato de fala: promessa, defesa, julgamento etc. A lista de exemplos da autora é a seguinte note-se como se aproximam da listagem anterior:

consideração, ambigüidade, comparação, consenso, contraste, controvérsia, critério, debate, defesa, definição, descrição, detalhe, diagnóstico, disputa, distinção, conversa fiada, equação, exemplo, fórmula, ilustração, ocorrência, linguagem, mensagem, mito, bobagem, comprovação (linha de) raciocínio, referência, discussão, história, sumário, conto, conversa, tema, julgamento, colocação, (estilo de) escrita

(2003, p.206).

Os nomes de processo mental, ao contrário dos anteriores, que representavam atos de fala, constituem nomes de estado e de processo cognitivo mais uma vez, concorre para tal distinção um critério semântico, agora com relação ao tipo de predicado. A autora menciona os seguintes exemplos:

análise, atribuição, suposição, atitude, crença, conceito, convicção, doutrina, dúvida, descoberta, hipótese, idéia, insight, interpretação, conhecimento, noção falsa, noção, opinião, filosofia, posição, princípios, fundamento lógico, leitura, suspeita, teoria, modo de pensar, pensamento, (ponto de) vista (2003, p.208)

Por fim, os nomes de texto são os que exercem função mais prototipicamente metalingüística, como a autora define:

São nomes que se referem à estrutura textual formal do discurso. Não há nenhuma interpretação envolvida: simplesmente rotulam extensões do discurso precedente, cujos limites precisos eles definem. Nomes nucleares deste tipo encontrados nos dados são frase, pergunta (ortograficamente assinalada), sentença e palavras, que, de acordo com Leech (1983:314), estão no “modo sintático da metalinguagem” em oposição ao modo semântico. Também incluem nomes como excerto, página, parágrafo, passagem, citação, seção, termo e terminologia, que, similarmente, referem-se às estruturas formais, embora não sejam unidades sintáticas. (2003, p.210).

Os sintagmas contendo esses rótulos foram também descritos como um fenômeno

de dêixis textual (algumas vezes, pouco apropriadamente traduzida como “dêixis

discursiva”, como em CAVALCANTE, 2000). A convergência entre as duas caracterizações, uma do ponto de vista anafórico e outra do ponto de vista dêitico, é

justamente o encapsulamento de proposições. Mas, enquanto as anáforas encapsuladoras são descritas apenas em função da recuperação difusa de porções textuais, os dêiticos textuais têm em conta não simplesmente o caráter resumitivo, como também a presença de um elemento dêitico nas expressões, que assinala o ponto de origem do enunciador, indicando onde terminou sua última fala dentro do cotexto. Lyons (1977) já alertava para a situação de dêixis textual como um fenômeno freqüentemente confundido com a anáfora, em virtude de não se levar em consideração que há diferença entre entidades lingüísticas e não-lingüísticas, isto é, entre referentes que se aplicam a sentenças-texto e referentes que correspondem a qualquer outra entidade. A distinção recorre, no fundo, à separação entre menção e uso, respectivamente. Leia-se o comentário do autor sobre um exemplo prototípico:

Isto pode ser exemplificado por meio do seguinte texto: (X diz) Eu nunca o tinha visto antes (e Y responde) Isso é uma mentira. É claro que 'isso' não se refere nem à sentença-texto enunciada por X nem ao referente de qualquer expressão nela. Alguns filósofos podem dizer que se refere à proposição expressa pela sentença enunciada por X; outros, que se refere ao ato de enunciação, ou ato de fala (cf. 16.1), realizado por X. Todavia, sob qualquer dessas análises da referência de 'isso', sua função parece cair em algum lugar entre a anáfora e a dêixis, e partilhar das características de ambas. (LYONS, 1977, p.668)

Voltaremos a essa discussão logo a seguir. Por ora, é importante ter em mente que nosso foco de atenção recairá não sobre aspectos da estrutura formal das expressões anafóricas encapsuladoras, dêiticas e não-dêiticas, mas sobre as funções discursivas desse processo de referenciação indireta. Algumas dessas funções são intrínsecas ao fenômeno; a mais saliente delas, porque responde pela própria definição do processo, é a resumitiva. Do ponto de vista dos arranjos na tessitura textual, os encapsuladores desempenham uma função eminentemente coesiva. Do ponto de vista cognitivo e discursivo, podemos dizer que têm a função de ativar referentes novos, explicitando-os pela primeira vez (ver, sobre isso, KOCH, 2004), mas ao mesmo tempo reativando informações já dadas no próprio cotexto. É importante observar que dizer que os encapsuladores ativam referentes novos

é estar completamente de acordo com a perspectiva que privilegia a menção de

expressões referenciais, pois, na verdade, quando uma expressão anafórica encapsula um conteúdo, ele está diluído no contexto e, portanto, não deveria mais ser considerado

um “referente novo”.

Além das funções citadas acima, os encapsuladores resumem estágios de argumentos, “à medida que o escritor apresenta e avalia suas próprias proposições e as de outras fontes” (cf. FRANCIS, 2003, p.191). Koch (2004) reforça essa idéia observando que eles ajudam na organização macrotextual, porque, além de indicarem o fechamento de uma porção textual, funcionam como sinalizadores argumentativos, conduzindo o co-enunciador para o estágio seguinte. Assim, podemos agora dizer que os encapsuladores exercem também um papel de organizadores de tópicos discursivos, porque se mostram um recurso valioso para a introdução, mudança ou desvio de tópico, assim como para a ligação entre tópicos e subtópicos. Constituem, portanto, um dos mecanismos lingüísticos de estruturação tópica. Segundo Jubran (2006), duas grandes propriedades particularizam um tópico discursivo: a centração (pois um conjunto de detalhes e comentários converge para um assunto proeminente) e a organicidade (pois há relações de interdependência entre os assuntos, tanto num plano hierárquico de superordenação e subordenação, quanto num plano linear de ligações intertópicas). Note-se que a noção de tópico discursivo, em si mesma, está intrinsecamente relacionada à de referenciação. Como bem observou Pinheiro (2003, p.161), as anáforas encapsuladoras são fundamentais para a continuidade e para a progressão tópica:

Nesse processo de atribuição de referentes, um conjunto de informações difundidas no cotexto anterior é erigido em referentes, que não apresentam, no universo discursivo, antecedentes pontualmente delimitáveis. Esse tipo de elaboração referencial, também ancorada no processo interacional, atua como mecanismo de articulação tópica, estabelecendo seqüenciação e mudança. Ao atribuir a um conjunto de informações o estatuto de referente, o produtor do texto deixa transparecer seu ponto de vista em relação a essas informações. Esse é um dos aspectos interacionais vinculados à conferição de estatuto de referente a um conjunto de informações difundidas no cotexto como mecanismo de articulação tópica. Ao sumarizar todo o conteúdo de tópico através de uma forma referencial, o produtor do texto pode realçar

uma parte desse conteúdo, avaliando-a.

Citamos

um

exemplo

para

se

perceba

como

as

anáforas

encapsuladoras

seqüenciam e organizam os argumentos dentro de um texto:

( ) NOTA DE PATRÍCIA PILLAR À IMPRENSA SOBRE O CÂNCER

Eu tive uma forma rara de câncer de mama, que está no exterior da mama. No mamilo ou auréola, surge como um vermelhão que depois se torna uma lesão com bordas com crostas. Eu nunca teria suspeitado que seria um câncer de mama, mas era ... Meu mamilo nunca pareceu diferente para mim, mas o vermelhão incomodou, por isso eu fui ao consultório do meu médico. Às vezes coçava e doía, mas outras vezes não atrapalhava. Era só feio e incômodo, e não desaparecia com todos os cremes prescritos pelo dermatologista, como a dermatite nos olhos que tive antes disso. Aí fui ao consultório para ser examinada. Eles pareciam um pouco preocupados, mas não me avisaram que poderia ser câncer. Agora suspeito que não há muitas mulheres por aí que saibam que uma lesão ou vermelhidão no mamilo ou auréola pode ser câncer de mama.

Estes são os sintomas:

  • O meu começou como uma simples pápula (espinha) na auréola. Um dos maiores problemas com a Doença de Paget do mamilo é que os sintomas parecem inofensivos. Pensa-se freqüentemente que é uma inflamação ou infecção de pele, levando a indesejáveis adiamentos na detenção e tratamento. Os sintomas incluem:

a) Uma persistente vermelhidão e crostas no seu mamilo levando-a a coçar e provocar queimação (como falei, o meu não coçou ou ardeu, mas tive uma crosta na borda externa de um dos lados). b) Uma dor no seu mamilo que não diminui (a minha era na área da auréola com uma área grossa e esbranquiçada no centro de meu mamilo). c) Geralmente só um mamilo é afetado.

Como é o diagnóstico:

  • Seu médico fará exame físico e pedirá mamografia bilateral imediatamente. Apesar de a vermelhidão, inchaço e crosta parecerem dermatite, inflamação da pele), seu médico deve suspeitar de câncer se a lesão for em apenas uma mama. Seu médico deverá pedir uma biópsia em sua lesão para confirmar o que está acontecendo. Eles tirarão uma amostra do seu tecido mamário naquela área para testar um câncer. Se o câncer for só no mamilo e não na mama, seu médico pode encomendar retirar só o mamilo e o tecido ao redor, ou sugerir radioterapia. Se o meu médico tivesse cuidado do meu rapidamente ao invés de ir tratando como dermatite, talvez pudessem ter salvado minha mama, e a doença não teria ido para meus nódulos linfáticos.

NOTA: Esta mensagem deve ser levada a sério e repassada para tantas amigas quanto possível. Pode salvar a vida de alguém. Meu câncer de mama se espalhou e metastatizou para meus ossos, isso depois de receber megadoses de quimioterapia, 28 tratamentos de radioterapia e tomar Tomoxipan. Talvez, se eu soubesse dessa doença anteriormente, ela não tivesse se espalhado. Tentei relatar o meu caso em um programa de TV, mas não houve interesse sobre esse tema. Por favor, atendam a este pedido:

ENVIE ESTA MENSAGEM A TODAS AS MULHERES COM QUEM VOCÊ SE PREOCUPA. E PARA OS HOMENS QUE VOCÊ CONHECE E QUE AMAM AS MULHERES QUE EXISTEM EM SUAS VIDAS, PARA QUE POSSAM TAMBÉM AJUDÁ-LAS NO COMBATE CONTRA O CÂNCER. (depoimento texto divulgado pela internet).

Note-se que, primeiro, são apresentados os sintomas; depois, o diagnóstico; em seguida, faz-se a referência ao próprio texto da mensagem; depois, a referência ao teor do relato, ao pedido de divulgação, dentre outros. Assim, os processos referenciais estão estreitamente relacionados aos subtópicos e aos modos como o enunciador escolhe ordená-los no cotexto. Neste ponto do estudo, já podemos ampliar o quadro-síntese dos processos referenciais, acrescentando, agora, os encapsuladores:

 

Processos referenciais atrelados à menção

 

Introdução Referencial

Anáfora (continuidade referencial)

 

Anáforas

diretas

Anáforas indiretas

(Correferenciais)

(Não-correferenciais)

AI

Anáforas

(propriamente

encapsuladoras

ditas)

Convém frisar que o fenômeno da recategorização, nesta perspectiva de menção das expressões referenciais, costuma ser descrito como uma possibilidade a mais para as retomadas anafóricas correferenciais. Considera-se que só pode ser recategorizado um referente que já foi anteriormente categorizado, o que, nessa visão, costuma estar associado à expressão referencial introduzida no texto. Sucessivas recategorizações podem acontecer com as anáforas diretas ao longo do desenvolvimento textual- discursivo, como no exemplo seguinte:

( ) Marina e a estética ambiental A saída da ministra Marina Silva do governo Lula é plena de significados. A começar pela antinomia dos signos que se cruzam em torno de seu perfil. Mesmo com o título de “mãe do PAS”, o Plano Amazônia Sustentável, atribuído a ela pelo presidente da República, a ex-empregada doméstica do Acre, nossa maior propagandista no mapa mundial do meio ambiente, não conseguiu segurar a barra. Era precária a base para sua sustentação, conceito pelo qual tanto lutou. Não que lhe faltasse força para enfrentar os dissabores de uma guerra no seio da administração e que exibe, de um lado, os desenvolvimentistas e, de outro, o batalhão ambientalista. Afinal, quem resistiu à hepatite, a metais pesados dos rios do garimpo e a opositores que procuraram minar sua ação no Ministério do Meio Ambiente (MMA) reúne condições para continuar a luta. Marina deixa a cena por ter concluído que sua presença no governo perdera o sentido. Restava-lhe um trato com a consciência, arrumar a mala da crença e enrolar a bandeira

verde amazônica para estendê-la em outra freguesia, no Senado Federal, onde a sua expressão rica de referências a biomas poderá ser bem acolhida. A saída da ministra sinaliza ainda a vitória da companheira que se esforça para

associar o nome ao conceito de progresso: Dilma Rousseff, a “mãe do PAC”, o

Programa de Aceleração do Crescimento. A ministra-chefe da Casa Civil encarna o

pragmatismo de uma gestão que decidiu levar a cabo - a ferro e fogo - programas que batem de lado na cara da “mãe ecológica”: transgênicos, implantação de Angra 3, transposição das águas do São Francisco e usinas hidrelétricas do Rio Madeira, entre outras ações. A dose extra de óleo de rícino que o companheiro Lula quis empurrar garganta abaixo de Marina Silva pode até ter sido a designação do polêmico ministro de

Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, para o papel de “pai” do PAS. Mas a decisão

da ministra foi o ponto final de uma reflexão amadurecida sob irrefutável diagnóstico: o governo optou por colocar o mastro do crescimento na frente da bandeira ecológica. ( ) ... O figurino caboclo de Marina Silva, uma dos sete ocupantes de Ministério que até

a semana passada permaneciam na foto do primeiro ciclo do governo, era a fiança de

que o País levaria a sério a política ambiental. Ademais, associava-se ainda a ação da ministra a Chico Mendes, com quem fundou a Central Única dos Trabalhadores, no

Acre. Tudo isso desaparece. (…)

Esse é o preço do progresso. Um preço que a humanidade (e o Brasil) tem de

pagar. Matreiro, Lula promete que nada vai mudar. Bulhufas. A não ser que recite o mesmo código do coronel Marcondes Alves de Souza, eleito em 1912 governador do Espírito Santo. Ao subir a bela escadaria do palácio, viu as helênicas esculturas de mármore, ligando a cidade baixa à cidade alta. Enfurecido, ordenou ao secretário de

obras: “Mande tirar essas estátuas sem-vergonha de mulheres nuas.” Pasmo, o secretário retrucou: “Governador, vamos tirar a estética da escadaria.” Ainda mais bravo, o coronel fulminou: “E quem mandou tirar a estética, imbecil? Retire as estátuas e deixe a estética.”

A retirada da estátua da ministra Marina do jardim não deixa margem a dúvidas:

vai embora também a estética ambiental do governo. (artigo de opinião, de Gaudêncio Torquato, disponível em http://arquivoetc.blogspot.com/2008/05)

É interessante acompanhar, nesse artigo de opinião, como o referente de Marina, instituído já no título, evolui gradativamente sob o comando da tese que o texto defende: com o pedido de demissão de Marina Silva, a “estética ambiental do governo” vai por água abaixo. A primeira recategorização abre o texto: a descrição definida “a ministra Marina Silva”. Ela evoca muitos significados, a começar pela informação ao leitor do cargo que Marina ocupava, a importância que ela exercia à frente dos projetos

de preservação ambiental. O enunciador arquiteta seus argumentos jogando, primeiro, com a imagem que se construiu em torno do perfil de Marina. E é por isso que, para enaltecer essa imagem, ele lança mão de duas anáforas indiretas essenciais: o título de

“mãe do PAS”, no início do texto, e “a estátua da ministra Marina” ao final, ícone da

estética ambiental do governo. Da recategorização pelo papel de ministra, o enunciador passa a outra: a de pessoa humana sofrida, de batalhadora incansável, afeita às agruras da vida. Assim, o objeto de

discurso Marina é refocalizado como a ex-empregada doméstica do Acre, acrescida

da predicação “quem resistiu à hepatite, a metais pesados dos rios do garimpo e a opositores que procuraram minar sua ação no Ministério do Meio Ambiente (MMA)”. Enfatizando a grande luta da ministra pelas causas ambientais, o enunciador emprega, então, nova recategorização dentro de uma estrutura apositiva: nossa maior propagandista no mapa mundial do meio ambiente. O co-enunciador poderá, assim, compartilhar com ele essa dura constatação: a saída da ministra representa uma mácula na imagem do governo e só reflete a vitória da desculpa do desenvolvimento econômico sobre a batalha da preservação do meio ambiente. Não é à toa que a expressão recategorizadora “a mãe do PAC” é aplicada a Dilma Rousseff, opondo-se a outra recategorização, desta vez aplicada a Marina Silva: a de “mãe ecológica”, numa perfeita

metaforização do embate político posto em cena. Desse modo, aspectos distintos do referente Marina vão sendo contrapostos e sobrepostos, dependendo da faceta que o enunciador pretende ressaltar a cada ponto da argumentação. Todos estes casos representam recategorizações de um mesmo fenômeno referencial: são todas anáforas (diretas) correferenciais recategorizadoras. Dentro da perspectiva que dá prioridade à menção das expressões referenciais, as recategorizações só se efetivam com o uso da expressão referencial. Todavia, dentro da perspectiva que estamos assumindo nesta obra, a recategorização é o fenômeno cognitivo-discursivo que corresponde à evolução natural que todo referente sofre ao longo do desenvolvimento do texto; ele se dá abstratamente, na mente dos interlocutores, podendo ou não realizar- se no cotexto por meio de termos anafóricos. Para essa evolução, concorrem não somente as expressões referenciais que manifestam explicitamente as transformações do objeto de discurso, mas também um conjunto de pistas contextuais que, acionando informações sócio-historicamente compartilhadas, ajudam os participantes da enunciação a (re)construírem a referência. No poema abaixo, por exemplo, o referente de “tua partida” nem chega a se explicitar por meio de uma expressão referencial, no entanto ele “se diz” abertamente por outros recursos textuais:

( ) A um ausente

Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste

e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida em geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si, o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mãos, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar por que o fizeste, por que te foste. (poema - Carlos Drummond de Andrade, do livro Farewell.)

O objeto de discurso a partida da amadavai sendo recategorizado, mesmo sem ser nomeado, como um acontecimento que provocou mais do que saudade, pois acabou na dor e na mágoa, que a recategorizaram como uma culpa, da qual o destinatário deve se sentir ainda acusado: “Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza, nem nos deixaste sequer o direito de indagar por que o fizeste, por que te foste. Não se pode precisar, pelos indícios contextuais, o que foi exatamente essa entidade “partida”: uma separação, uma morte, a morte natural, o suicídio? Cada um categorizará o referente à sua medida. Sabê-lo não é o mais relevante para a construção final dos sentidos e da referência. O que sobressai são os efeitos da ausência, pelo modo, para o enunciador, inesperado e imprevisto como se deu a partida. A recategorização é, assim, sob o ponto de vista desta obra, um processo que pode perpassar todos os demais, por isso não a inserimos como nenhum tipo específico de anáfora.

2.1.2 O processo referencial da dêixis

Paralelamente aos casos de introdução referencial e de anáfora, existe um outro fenômeno, como já anunciamos acima, que pode ocorrer ou independendo desses dois, ou se sobrepondo a eles: é a chamada dêixis, normalmente classificada e descrita a partir da menção de elementos dêiticos. Desde Bühler ([1934]1982), tem-se chamado atenção para certas expressões referenciais cujo significado completo depende de aspectos da situação enunciativa. Para construir o referente dessas expressões, seria preciso analisá-las como que dentro de um outro campo, um campo dêitico, pois elas exigiriam o conhecimento do lugar ou do tempo em que se encontra o enunciador. Palavras como eu, você, aqui, ali, hoje, ontem, aquilo etc. mudam de referente em função da perspectiva que o falante toma no ato da enunciação. Usamos essas formas dêiticas corriqueiramente, como, por exemplo, em recados do Orkut:

D.:

Aqui estou eu novamente

Eu não a esqueço nunca, DOIDA GENIAL!!!

... Adooooooooooooro você!!! Um beijão ... Saudade das suas aulas maravilhosas e de você, é claro!

O enunciador se coloca, dessa maneira, como o lugar de origem do sistema dêitico, estabelecendo-se como um ponto de referência para as coordenadas de espaço e tempo do contexto enunciativo imediato. O dêitico “aqui” representa o momento e o local em que o enunciador “D.”, expresso por outro dêitico: “eu”, emite seu ato de fala, dirigindo-se à pessoa com quem dialoga: “você”. Quando mudam as circunstâncias, alterando-se os participantes da comunicação e o tempo/espaço em que se situam, modificam-se os referentes dessas formas dêiticas. Por isso, Lahud observa:

As circunstâncias discursivas tornam-se uma parte da expressão do

sentido completo (

).

O conhecimento das circunstâncias que

... acompanham as palavras torna-se, então, uma condição necessária para a “exata compreensão” do pensamento expresso por um enunciado contendo dêiticos. (LAHUD, 1979, p.67-8)

Lahud se apóia na noção de enunciação como entorno comunicativo, inspirada em Benveniste (1988). Em concordância com ele, o autor também distingue as noções de pessoa (representando os participantes da enunciação, os interlocutores, aqueles que

“falam” na comunicação) e de não-pessoa (representando os não-participantes do ato comunicativo). Benveniste relacionou a categoria de pessoa às formas gramaticais eu- tu/você, que a língua disponibiliza para manifestá-las. Foi a partir da noção de pessoa que o autor propôs uma separação entre pronomes dêiticos, aqueles que realmente eram indicadores de subjetividade, e os pronomes anafóricos, aqueles que representavam a não-pessoa (os pronomes de terceira “pessoa”: “ele”), como não-participantes da enunciação. Assim, o autor terminou por entrelaçar duas distinções: a de dêiticos vs. anafóricos e a de pessoa (eu/tu) vs. não-pessoa (ele) os pronomes dêiticos manifestariam a categoria de pessoa, ao passo que os anafóricos realizariam a não- pessoa. Convenhamos, pois, que a divisão entre dêixis e anáfora, em sua gênese, já estava vinculada ao correlato formal dos pronomes dêiticos e dos pronomes anafóricos, quando mencionados no cotexto. Evidentemente, a descrição desses dois processos referenciais, hoje, ganhou contornos muito maiores e mais complexos. Também havemos de convir que a concepção de subjetividade sustentada por Benveniste se atinha a uma perspectiva de enunciação diferente da que estamos pressupondo neste livro. Para Benveniste, o fenômeno do subjetivismo se restringia à maneira como as diferentes línguas codificavam as atitudes e crenças do falante na situação comunicativa (enunciação imediata). Para nós, existem, na verdade, ligações intersubjetivas entre os usos da língua e as ações do enunciador e dos possíveis co- enunciadores em seu contexto sócio-histórico (trata-se de enunciação numa concepção discursiva mais ampla). A idéia de que compete à dêixis promover o elo entre o enunciado e a enunciação sobreviveu, no entanto, a todas as tentativas de definir este processo referencial ao longo dos anos. A classificação tradicional dos dêiticos se funda nos próprios sujeitos do ato comunicativo e na localização espacial e temporal em que eles se posicionam na enunciação stricto sensu. As formas dêiticas, quando mencionadas, fazem, então, referência à situação em que o enunciado é produzido, ou seja: às coordenadas de pessoa, tempo e lugar, que definem, respectivamente, as dêixis pessoal, temporal e espacial. Fillmore (1971) acrescentou, a esses três tipos clássicos, as dêixis textual, que já anteriormente mencionamos, e a dêixis social.

  • a) Os dêiticos pessoais

São os que identificam os interlocutores na situação de comunicação, como, por exemplo, os pronomes pessoais (manifestos ou elípticos) e os possessivos no poema- canção a seguir:

) A dor a mais (Vinicius de Moraes)

(

A dor a mais Foi só muito amor Muito amor demais Foi tanta a paixão Que o meu coração, amor, Nem soube mais ø Inventei a dor E como ela nos doeu

Ah, que solidão buscar perdão No corpo teu Tanto tempo faz ø Tens um outro amor, eu sei Mas nunca ø terás A dor a mais Como eu te dei Porque a dor a mais Só na paixão Com que eu te amei.

Os pessoais são os dêiticos por excelência, porque remetem diretamente aos sujeitos da enunciação, o que se reflete na concordância verbal, de primeira e segunda pessoas gramaticais. Outras formas dêiticas não-pessoais, como a dos pronomes demonstrativos e advérbios, apenas pressupõem os interlocutores em seu posicionamento espacial e temporal (por isso recebem as flexões de terceira pessoa gramatical).

b) Os dêiticos sociais

Também se definem diretamente a partir do centro dêitico do falante, mas representam formas que codificam relacionamentos sociais, mantidos pelos participantes da conversação (FILLMORE, 1971). Toda interação é regida por regras, baseadas em comportamentos mais ou menos ritualizados. As relações em sociedade (e não a interação lingüística em si mesma), ao condicionar a escolha dos níveis de maior ou menor formalidade, findam por determinar a seleção de títulos honoríficos e de outras expressões de intimidade ou de polidez. Dependo do grau de intimidade, dos propósitos comunicativos, bem como de outros aspectos contextuais, os participantes do ato de

comunicação podem ser mais ou menos polidos (ver, sobre isso, LEECH, 1983). Veja-se, por exemplo, como essa proximidade/distanciamento é dosada pelos dêiticos sociais no contexto seguinte de um conto:

( ) Ismênia, moça donzela (Dalton Trevisan - Quem tem medo de vampiro?)

Saudações.

Dr. Antônio, desculpe a ousadia de escrever, ontem fiquei arrependida de não confessar a paixão que sinto, porque tive vergonha, vejo que o senhor é casado e pai de tanto filho, acho que isso não tem importância, a gente sabe de muita dona casada gostando de outro, quanto mais eu que sou moça donzela, a diferença é que não sou correspondida. Venha na mesma hora, espero no portão e mamãe não vê. Se o doutor não vier é sinal que não tem a mínima simpatia. Sem mais, sua criada obrigada, Ismênia.

P.S. Desculpe os erros que estou um pouco nervosa.

*

Querido Antônio. Eu escrevo este bilhete, não posso suportar este amor. Olha, Antônio, de hoje em diante farei os teus desejos. Só se você me estimar como tua amante, não me deixe faltar nada e nunca me abandone. Te espero às três horas, no lugar de sempre. Não quebro o juramento que fiz, mas você não sei, Antônio. Sempre fiel,

Ismênia.

P.S.

De

muito pedi

o

teu

retrato, não

serei merecedora?

Sofrendo do

estômago tudo por causa do nosso amor. Mande um dinheirinho pelo menino para comprar remédio. Sonhei a noite toda que me traías e não me querias mais, será?

*

Estimado Antônio. Saudações. Esta carta será a última que minha mão te escreve. Ontem choveu teve desculpa, hoje uma bonita noite, esperei até às nove horas, você não veio e sei que sou desprezada. Ou por que a velha não saiu da sala? Ela pode ficar lá na cozinha. Não se faça de rogado, Antônio. Que horror; depois de combinado você se arrepender; venha sim? A que há de ser tua,

Ismênia. P.S. Peço um dinheirinho pelo menino, estou apurada para pagar uma conta e a pessoa esperando aqui.

(

...

)

O conto acima é montado como uma seqüência de cartas que a personagem Ismênia escreve a Antônio, seu amante. No trecho que recortamos, percebe-se perfeitamente o abrandamento do grau de formalidade entre os dois à medida que se infere que eles vão se tornando íntimos. Na primeira carta, Ismênia trata Antônio por “doutor” e por “senhor”, preservando sua face positiva ao dirigir-se a ele com deferência. Na segunda, após tornarem-se amantes, o tratamento muda radicalmente para “querido”, “tu”, “você” etc. Da terceira em diante, as relações se estremecem, e Ismênia já emprega um tratamento que expressa não apenas respeito, mas, principalmente, o distanciamento afetivo, ao chamá-lo de “estimado Antônio”. Em qualquer interação, de acordo com Brown e Levinson (1987), cada pessoa possui duas “faces” (GOFFMAN, 1998), uma positiva e outra negativa, que compõem as imagens dos participantes da enunciação. Em sua teoria da polidez, Brown e Levinson demonstram como os interactantes se valem de estratégias para apresentar e manter uma imagem valorizante de si mesmos (face positiva) e, ao mesmo tempo, procuram ocultar o que lhes é mais íntimo (face negativa), dependendo do grau maior de formalidade que exista entre os enunciadores. Como observa Kerbrat-Orecchioni ([1996]2006), para ser polido, ou seja, para não cometer um ato ameaçador para o destinatário, é preciso recorrer a alguns procedimentos

que Brown e Levinson chamam de “suavizadores”. Um desses procedimentos é o uso

adequado de dêiticos sociais em determinadas situações. O emprego de senhor(a), no lugar de você, por exemplo, pode atenuar uma indelicadeza e, ao mesmo tempo, indicar reverência. Já em outras circunstâncias, pode-se usar você ou tu, como um modo de se revelar próximo, amigo, ou de ser solidário com o interlocutor, dentre outras possibilidades. Os dêiticos sociais podem representar, portanto, uma marca de polidez lingüística.

c) Os dêiticos de tempo

São os que situam o ponto de origem do falante (e seu interlocutor) no momento

em que a mensagem é enunciada. Assim, nem toda expressão que indique tempo é necessariamente dêitica: somente se, a fim de o referente temporal ser identificado, for preciso conhecer o tempo em que se encontra o falante. Examinemos as expressões

sublinhadas no texto abaixo, para constatar que nem todas formalizam ocorrências de dêixis temporal:

( ) É preciso salvar vidas A pesquisadora explica por que é urgente que o STF libere as pesquisas com

células-tronco embrionárias. A bióloga Mayana Zatz é uma das maiores especialistas em células-tronco do país, com quase 300 trabalhos científicos publicados. Nascida em Israel, mora no Brasil desde os 7 anos. Atualmente, ela é pró-reitora de pesquisa e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo. Mayana estuda há mais de trinta anos terapias para doenças neuromusculares, razão pela qual se tornou uma das maiores defensoras, no país, das pesquisas com células-tronco embrionárias, as únicas capazes de se converter em qualquer um dos 216 tipos de célula do corpo humano.

Desde 2005, quando o Congresso aprovou a lei brasileira de biossegurança que

autoriza o uso em pesquisas de embriões congelados há mais de três anos Mayana luta para que a lei entre em vigor. Isso porque, naquele mesmo ano, a Procuradoria- Geral da República entrou com uma ação de inconstitucionalidade contra a lei. Desde então, os estudos com células-tronco embrionárias estão parados no Brasil. Na semana que vem, o Supremo Tribunal Federal dará sua palavra final sobre o uso dos embriões.

(

...

)

(Entrevista: Mayana Zatz ????)

Se refletirmos sobre as expressões do texto sublinhadas abaixo, concluiremos que nenhuma delas requer o conhecimento do tempo de origem do enunciador da entrevista:

- Nascida em Israel, mora no Brasil desde os 7 anos,

- Desde 2005, quando o Congresso aprovou a lei brasileira de biossegurança que autoriza o uso em pesquisas de embriões congelados há mais de três anos Mayana luta para que a lei entre em vigor.,

“Desde os 7 anos” toma como ponto de referência a idade da pesquisadora,

independentemente do momento da entrevista; trata-se de uma remissão aos 7 anos da bióloga já referida, por isso o emprego aqui é somente anafórico. Com relação a “desde 2005”, o raciocínio é semelhante, já que o referencial para a expressão é o tempo

cronológico geral.

No que respeita a há mais de três anos”, a origem da contagem é qualquer momento em que os embriões tiverem sido armazenados não importa o tempo a partir do qual o enunciador está falando; o uso, portanto, não é dêitico.

Assim também podemos deduzir do uso da expressão “desde então”, que retoma,

anaforicamente, e não deiticamente, o ano de 2005, quando a Procuradoria-Geral da República entrou com uma ação de inconstitucionalidade contra a lei. Nenhuma dessas expressões temporais cumpre, pois, função dêitica.

Algo diferente se passa, porém, com outras expressões grifadas no exemplo. O referente de “atualmente” e de “na semana que vem”, por exemplo, só podem ser recuperados se o co-enunciador souber do momento em que o texto da entrevista foi enunciado.

Já a expressão “naquele mesmo ano” é um caso híbrido de processo anafórico e dêitico, de vez que remete, anaforicamente, ao ano de 2005, já introduzido no texto, mas, por outro lado, ao usar o demonstrativo aquele, supõe-se, deiticamente, a localização temporal do enunciador num presente distante do ano de 2005. Se o enunciador se situasse no ano de 2005, certamente ele não empregaria “naquele mesmo ano”.

d) Os dêiticos de espaço

São definidos mais ou menos como os dêiticos de tempo, pois só serão tomados como dêiticos espaciais os elementos que pressupuserem o lugar em que se situa o falante, e seu interlocutor, no ato comunicativo. Desse modo, nem todas as expressões que denotam lugar são necessariamente dêiticos de espaço, como podemos entender a partir do exemplo seguinte:

( ) Respostas cretinas para perguntas idiotas

Mulher entrando em uma agropecuária:

-

Tem veneno pra rato?

-Tem! Vai levar? - pergunta o balconista.

-

Não, vou trazer os ratos pra comerem aqui!!!

No restaurante, o rapaz apanhando o talão de cheques e uma caneta.

-

Vai pagar com cheque?

-

Não, vou fazer um poema pra você nesta folhinha.

No andar térreo:

 

-

Sobe?

-

Não, esse elevador aqui anda de lado.

Pescador com vara de pescar na mão, linha na água, sentado.

-

Aqui dá peixe?

-

Não, dá tatu, quati, camundongo

Peixe costuma dar lá no

... (piadas divulgadas na internet com adaptações)

Examinando com atenção as expressões grifadas no exemplo, verificaremos que

só constituem casos de dêixis espacial as ocorrências de “aqui”, “nesta folhinha” e “lá

no mato”, pois somente elas não dispensam o conhecimento do local onde se localizam

os participantes do ato comunicativo, além de se referirem a um lugar, é claro. Os enunciadores que dizem “aqui”, por exemplo, remetem a um espaço próximo do ambiente em que eles se situam na enunciação. A desconsideração dessa informação do ponto de origem compromete a recuperação do referente. Estas são manifestações genuínas de dêixis de lugar. Outras expressões, como “no andar térreo” e “no restaurante”, ainda que remetam a lugares, não representam instâncias de dêixis espacial, pois independem da pressuposição da posição dos enunciadores, para terem seus referentes reconstruídos pelos co-enunciadores. Trata-se simplesmente de introduções referenciais.

Algo peculiar se dá, no entanto, com “esse elevador aqui”. Não se trata de

nenhuma dêixis, quer seja pessoal, temporal, espacial, social ou textual, já que não se refere a uma pessoa do discurso, nem ao tempo ou ao espaço da situação comunicativa, nem a um objeto localizável na organização da superfície do texto. “Esse elevador aqui”, por exemplo, não remete a um referente espacial, mas a uma entidade que só pode ser identificada pelo interlocutor se estiver monitorando o lugar em que se passa a enunciação imediata. Daí por que o elemento dêitico esse aqui é usado para indicar ao participante da comunicação que a entidade referida está próxima do falante na situação em que se encontram. É curioso que na literatura sobre dêixis não haja uma denominação singular para essa espécie de uso dêitico. Embora apontem para a não-pessoa (para empregar os termos de Benveniste), essas expressões são situadas pelo enunciador dentro de um espaço dêitico só reconhecível a partir do ponto de referência dos interlocutores. É o

que encontramos com o uso da expressão “aquela mulher do balcão tomando whisky sozinha”.

( ) Diálogos no casamento

Marido e mulher estão tomando cerveja num barzinho. Ele vira pra ela e diz:

  • - Você está vendo aquela mulher lá no balcão tomando whisky sozinha? Pois

eu me separei dela faz sete anos! Depois disso, ela nunca mais parou de beber. A mulher responde:

  • - Não diga bobagens. Ninguém consegue comemorar durante tanto tempo assim! (piada divulgada na internet)

Dessa forma, dêiticos como “aquela mulher lá no balcão

...

não se enquadram

nem na dêixis espacial, porque o objeto de discurso a que se reportam não é um lugar, nem na dêixis pessoal, porque não representam uma pessoa do discurso. Os estudos sobre o assunto ainda não destinaram a esses casos uma denominação específica. Pode acontecer, ainda, que alguns referentes semelhantes a esses sejam situados a partir da última elocução do enunciador no espaço dêitico do próprio texto, o que se verifica quando do uso de expressões como a palavra anterior, o pronome abaixo etc. Este emprego muitas vezes acumula uma função anafórica, quando também remete a objetos de discurso já introduzidos textualmente, como em:

(

)

...terminam

por não se fixar nem de um lado nem de outro do quadro abaixo,

conforme quer indicar a linha pontilhada. (artigo acadêmico ????)

Note-se que o ponto de referência para a recuperação do objeto designado é a última enunciação do falante dentro do campo dêitico representado pela linearidade do texto: “o quadro abaixo” é algum lugar posterior ao instante em que o falante enunciou essa frase, e é por esta razão que pode ser considerado um dêitico. Ao mesmo tempo, se o quadro a que o enunciador se reporta é mencionado no texto, então a expressão também deve ser tomada como anafórica. Como mostraremos em seguida, exemplos assim, que apontam deiticamente para o espaço do texto e, concomitantemente, retomam um referente citado no cotexto serão classificados aqui como dêiticos textuais.

e) Os dêiticos textuais

São os que se orientam pela posição do último enunciado no cotexto, como dissemos acima. Podem indicar um referente pontual, preciso, que está representado no cotexto por uma expressão referencial, como:

( ) Palas e poses

RIO DE JANEIRO - Lidas assim, nuas, sem outros balangandãs verbais que ajudem a lhes emprestar sentido, as palavras acima parecem agora foragidas do teatro grego ou de um poema medieval. Mas não - são palavrinhas bem nossas, de uso corriqueiro até outro dia, e que ameaçam se evaporar da língua porque as pessoas começaram a deturpar o jeito de escrevê-las. Pala, por exemplo. É um enfeite de vestido feminino, uma dobra perto da gola, algo assim. Ou aquela parte do boné, também chamada aba, que os meninos usam ao contrário, para evitar que a nuca tome sol. Ou a venda preta dos piratas. Enfim, pala é

um ornamento, uma coisa meio secundária, um quase nada. Daí o vulgo ter inventado, em tempos idos, a expressão "dar uma pala" - ou seja, resumir, adiantar o assunto, dar apenas uma pista do que se vai dizer. Por extensão, chegou-se a "dar uma palinha", que significa ser ainda mais sucinto. Mas, ultimamente, por ignorância da língua, pela pouca intimidade com a gíria ou pelo crescente desprestígio das palas, as pessoas começaram a escrever "dar uma palhinha", pensando estar dizendo "dar uma palinha". Não faz sentido e, questionadas sobre o porquê da palhinha, não saberão responder. ( ) ... (artigo de opinião, de Ruy Castro, Folha de S.Paulo 13/03/07)

Em ocorrências como “as palavras acima”, a dêixis textual se soma à anáfora correferencial, indicando o local da linearidade do texto em que os referentes podem ser identificados por sua menção: as palavras palas e poses. Diferentemente dos tipos de dêixis já abordados aqui, a dêixis textual toma como ponto de origem da enunciação a organização das palavras no espaço do cotexto, daí por que o autor emprega “as palavras acima, numa referência ao que veio antes da última fala do enunciador. Não somente os advérbios podem desempenhar esse papel de organizador textual, mas também os demonstrativos, especificamente o par contrastivo este/esse. Vejamos as duas possibilidades no texto de uma página do site de busca do Google:

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Cabe observar que já se neutralizou, mesmo em textos formais, a tradicional oposição entre os demonstrativos este (de remissão catafórica, prospectiva) e esse (de remissão retrospectiva): toma-se, hoje, um pelo outro, quase que indistintamente, na maioria dos casos. Confiram-se os exemplos a seguir, ambos escritos em registro formal, em que, transgredindo as normas gramaticais, emprega-se o este para remissões para trás e esse para remissões para frente:

(

)

As novas tecnologias

e

as

redes de comunicação já ocasionaram uma

verdadeira revolução em algumas atividades humanas no Brasil: na ciência, na economia, na política, não cabendo à educação (ao social) ficar à margem deste processo. (projeto de dissertação ???) ( ) Esse é o mote para que a lenda dos argonautas seja resgatada: Medéia recorda a época em que conheceu Jasão, quando este chegava à Cólquida para obter o velocino de ouro. (projeto de tese, de Tércia Montenegro)

Os demonstrativos este/esse servem, assim, a uma função de ordenação de referentes mencionados no cotexto, ao mesmo tempo em que imprimem a eles maior saliência discursiva. Com efeito, os objetos de discurso realizados por expressões contendo dêiticos textuais ganham maior ênfase e, conseqüentemente, chamam mais a atenção do interlocutor. Esse valor expressivo da dêixis textual determina, muitas vezes, a escolha do pronome este, em vez de esse, sempre que o enunciador deseja trazer para perto de si, de seus afetos, de seus sentimentos, ou de sua presença física, o objeto de discurso a que se refere. A par da função de refocalizar referentes por meio do uso do pronome de primeira pessoa este, existe ainda a função de desambiguar, viabilizada pelo emprego do contraste entre este e aquele, que, de acordo com as normas gramaticais, marca os valores de proximidade e distância, respectivamente. Só raramente, porém, e na modalidade escrita formal, se utilizam em português as duas formas contrastivas este/aquele ao mesmo tempo. É mais comum encontrarmos somente o emprego de este, sob a pressuposição do contraste com aquele, para desmanchar uma possível duplicidade de interpretação referencial, como se vê em:

( ) Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ido na véspera consultar uma cartomante. (conto - Machado de Assis)

De maneira geral, importa constatar que os dêiticos textuais desempenham, como vemos, o que Ehlich (1982) denomina de procedimento dêitico, um modo de chamar a atenção do interlocutor para o que está sendo expresso, empregando um elemento reconhecido no sistema da língua como tendo a função de indicar, de apontar para.

Um dos principais meios de focalizar a atenção do ouvinte é o procedimento dêitico. Ele opera sobre a base de uma orientação prévia comum a falante e ouvinte. Por meio das expressões dêiticas, o falante traz o ouvinte para o foco de algum elemento específico, diretamente acessível, fazendo uso do espaço do ato de fala. (EHLICH, 1982, p.325)

O autor contrasta, em termos de funcionamento pragmático-discursivo das

expressões referenciais, os usos anafóricos e dêiticos. Enquanto o emprego de um dêitico provoca uma alteração no foco de atenção dos interlocutores, o emprego de um anafórico simplesmente mantém a atenção sobre o referente que já foi introduzido no

discurso: “O procedimento anafórico é um instrumento lingüístico usado para que o

ouvinte continue a manter um foco previamente estabelecido sobre um item específico para o qual ele orientou sua atenção antes” (EHLICH, 1982, p.330). Essa diferença fica bastante clara quando, na dêixis textual, percebemos a presença de um demonstrativo, ou de um advérbio, por exemplo, dentro de um caso de anáfora correferencial. Observe-se o anafórico grifado no pensamento a seguir:

(

) “Os vocábulos de mais difícil definição são os monossílabos: bem e mal.”

(pensamento, de Marquês de Marica)

Do ponto de vista pragmático-discursivo, a expressão anafórica “os monossílabos” apenas dá continuidade referencial a uma entidade relacionada a “os vocábulos” e a “bem e mal”. Se o enunciador tivesse escolhido dizer “estes

monossílabos”, ou “os seguintes monossílabos”, o efeito sobre a atenção do interlocutor teria sido outro. Entre os dois procedimentos, existe uma diferença funcional, que reflete o empenho do interlocutor em compreender o enunciador: por um lado, o dêitico orienta o receptor a alterar o foco de atenção; por outro, o anafórico o instrui a manter a focalização, pela continuidade referencial. Esta é a razão por que muitas anáforas correferenciais recategorizadoras são também dêiticos textuais, pois costumam acrescentar ao objeto de discurso retomado algum ponto de vista para o qual o enunciador quer que se atente. Note-se, no exemplo seguinte, o uso de dêiticos textuais que são também anafóricos correferenciais recategorizadores, conduzindo o desenvolvimento argumentativo do texto:

( ) O desenvolvimento tecnológico tem feito com que sobrevivam pessoas com doenças e malformações que espontaneamente seriam eliminadas pela natureza. O estado não está aparelhado para atender a essa legião de dependentes da tecnologia para continuar vivos. A sobrecarga nos serviços de fonoaudiologia, fisioterapia, hemodiálise cria filas intermináveis. Quanto menor o peso dos prematuros que salvamos, maior carga financeira entregamos à família e ao estado. Há necessidade de uma discussão ampla dos aspectos legais e éticos relativos aos procedimentos nas UTIs, prolongando a sobrevivência de pacientes terminais ou com mínima chance de qualidade de vida

razoável. Os interesses, nessas terapias de alto custo, passam pelos setores financeiros das instituições e longe da ética.

Rui Tavares Costa Médico pediatra Brasília, DF. (carta do leitor - revista Veja, 21/05/2008)

CONCLUSÃO

Os dêiticos textuais indicam os segmentos, locais/momentos do próprio texto em que são utilizadas as expressões a que se referem. Diferentemente dos demais tipos de dêixis, que apontam para o entorno enunciativo situacional, o ponto de referência é o lugar e o momento do texto onde aparece a expressão mencionada. E é por retomarem outros referentes já mencionados no cotexto, que eles apresentam, antes de tudo, um caráter anafórico. São sempre, portanto, formas híbridas, pois se comportam, simultaneamente, como dêiticos e como anafóricos.

Todos os dêiticos textuais discutidos até agora cumpriam a função de anafóricos correferenciais, mas é possível que também acumulem a função de anafóricos indiretos e de encapsuladores, como nas expressões sublinhadas no editorial abaixo:

(

) Impossível virar

a pagina e seguir vivendo como se nada tivesse

acontecido. (Este editorial está sendo escrito logo após a reconstituição do crime feita por

peritos no apartamento de Alexandre Nardoni. e Anna Carolina Jatobá.)

Impossível não externar o profundo sentimento de horror que assola meus sentidos. Não é apenas Isabella Nardoni, são os Joãos, Marias, Josés e tantos outros que estão esparramados pelo mundo sofrendo todo e qualquer tipo de violência, o surpreendente para toda minha ingenuidade ou a minha falta de coragem para ver o que acontece ao meu redor é que esta violência vem dos próprios pais, da própria família! Passamos uma boa parte de nossas vidas fingindo que não vemos, ignorando os gritos sufocados de socorro, usamos as tintas do arco-íris para colorir nossa omissão, e quando acontece a morte prematura de uma criança como Isabella, somos obrigados a descortinar nossa visão e nos posicionarmos diante de tal atrocidade. A espécie Homo Sapiens está tão carente de amor, de esperança, de generosidade, de moral, que o mundo se tornou triste demais ante este quadro assustador de violência não só com Isabella, mas com tantos outros casos que não são divulgados pela imprensa de forma tão veemente. Afinal que tipo de homem, se realmente for o pai, é este que encobre ou assassina a própria filha? É um monstro???? Um psicopata???? Um egocêntrico???? E sua companheira, também se for responsabilizada pelo crime, é feita de que material? O instinto materno está e/ou ficou adormecido????? Afinal que sentimento move um ser humano que não respeita a vida?

Será que não é o momento de resgatarmos o verdadeiro sentido de solidariedade?

Será que o ser humano está tão despido de crenças, que somente seus interesses egoístas devem ser satisfeitos a qualquer preço? Eu estava torcendo muito para que os indícios e a polícia estivessem erradas, para ser sincera ainda torço, porque não consigo admitir a degradação do ser humano, porque meus parâmetros de vida foram terrivelmente abalados ante tal quadro sinistro de frieza, de calculismo e engodos. (

...

)

(editorial,

de

Álida.

Disponível em

http://www.jornaldamulher.org/editorial/editorial.htm)

Esses dêiticos textuais/ anáforas encapsuladoras localizam no cotexto, desse modo, porções do discurso em andamento. Em grande parte das ocorrências, tais dêiticos não retomam um objeto específico mencionado, uma ou mais vezes, mas remetem a conteúdos inteiros diluídos no texto. Por este motivo, são, a um só tempo, anáforas encapsuladoras e dêixis textual, considerando-se os critérios distintos que definem uma e outra classificação. Note-se como, no exemplo, esse tipo de dêixis textual vai incorporando informações e pontos de vista sobre a violência, a qual se recategoriza ao longo do desenvolvimento argumentativo, passando de uma violência geral para um quadro sinistro de frieza e de calculismo, referente ao caso específico do assassinato da menina Isabella, ocorrido em 29/03/2008, em São Paulo. Tais expressões cumprem a função de organizadores textuais, porque portam uma sinalização dêitica, aumentando o foco de atenção sobre o referente e a eficácia da argumentação que se desenvolve.

f) Os dêiticos da memória

Fala-se, ainda, de um outro tipo de dêixis, aquela em que, através do uso dêitico de algum elemento do cotexto, se convida o co-enunciador a buscar, nos arquivos de sua memória, um conhecimento partilhado sobre um referente não mencionado no cotexto. Apothéloz (1995) acentua a importância do emprego do demonstrativo nesses casos, indicando ao co-enunciador uma referência in absentia, porque não nomeada no texto, nem presente na situação enunciativa imediata. É como se o demonstrativo fornecesse uma indicação lingüística de que o campo dêitico saliente (porém não o único) para a localização do referente mencionado fosse o campo da memória, não apenas o da situação comunicativa, nem o do cotexto. Um exemplo bem prototípico seria este:

( ) “Sabe aquele desejo incontrolável de ter alguma coisa que não dá para esperar até o mês que vem? O Sudameris sabe.” (anúncio publicitário, veiculado em revistas, como a Veja)

de

...

”.

Repare-se na deiticidade do demonstrativo aquele, em “aquele desejo incontrolável Ao mesmo tempo em que convoca o interlocutor a recuperar alguma lembrança em

que sentiu uma grande vontade de obter algo, situando esse referente em sua memória, também demarca a posição de origem do enunciador no tempo/espaço da enunciação. Se o enunciador optou por empregar aquele, no lugar de esse, é porque quis produzir um efeito estilístico de distanciamento com relação ao tempo em que o enunciado foi proferido. Um uso similar se encontra no dêitico memorial grifado no poema abaixo:

( ) Bem no fundo

no fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto

a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela - silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais

mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos para passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas (poema - Paulo Leminsky)

Usar aquele é tornar manifesto que está se reportando a um desejo que não está sendo experienciado no momento da comunicação e é, simultaneamente, solicitar que ele seja reconstruído na memória compartilhada. A carga de significado do demonstrativo aquele é responsável por esse duplo apelo: na memória e no tempo.

O efeito de distanciamento no tempo real da enunciação imediata não seria possível se, no exemplo, o demonstrativo empregado fosse esse. O importante é reter, neste momento, que, independentemente desse efeito de aproximação ou de distanciamento do falante em relação ao objeto de discurso, ambas as formas demonstrativas, esse ou aquele (e variantes), são credenciadas pelo sistema da língua portuguesa para denunciar ao interlocutor que o referente mencionado está radicado no campo dêitico da memória, e não citado em outra parte do cotexto (está in absentia), nem indicado na circunstância comunicativa imediata. Leia-se Apothéloz sobre isso:

Concordamos em descrever este tipo de demonstrativo dizendo que ele consiste em evocar um referente cuja evidência é tal, para o locutor, que ele equivale a um referente que acabou de ser evocado no próprio texto. A designação de dêixis de memória se deve a Fraser; Joly (1980). Fala-se, às vezes, também de dêixis enfática (Lyons, Kuno), de dêixis emotiva (R. Lakoff), ou ainda de pensamento indicial (Kleiber). Tantas denominações levam em conta o fato de este emprego da referência demonstrativa se acompanhar, às vezes, de um efeito de sentido particular:

ele dá ao destinatário a impressão de ter um acesso imediato ao estado cognitivo no qual se acha um terceiro, quer este último seja o enunciador, quer seja uma pessoa explicitamente evocada. (APOTHÉLOZ, 2003, p.

70).

As funções que os dêiticos exercem no discurso vêm, desse modo, se somar mais que isso: se integrar às demais funções anafóricas, acumulando, por vezes, certos efeitos de expressividade, de emotividade, de (des)comprometimento, dentre outras motivações estilísticas e/ou modalizadoras do discurso.

PARTE III O que poderia ser dito sobre a referência

A

co-construção

dos

objetos

de

discurso

e

a

(não-)menção

de

expressões

referenciais

 

Segundo Apothéloz (2001), o objeto de discurso emerge do modo como os participantes ajustam suas ações na enunciação. É a partir dessas ações que eles conferem sentido a cada evento de fala. Por isso defende o autor - é importante considerar a referência, essencialmente, como um processo de atenção e de interação. Dentro desta abordagem, que vamos assumir nesta obra, mas que não se distancia muito da anterior, os processos referenciais não precisam, necessariamente, estar associados à menção de expressões referenciais para serem introduzidos no universo de discurso criado a partir do texto. Mas, assim como na perspectiva correlacionada à menção no cotexto, o objeto de discurso vai sofrendo transformações/ alterações progressivas a partir da ação dos interlocutores ao se referirem a ele. Mesmo quando os referentes são introduzidos no texto por expressões referenciais, estão respaldados por um contrato tácito de co-participação do destinatário, que aceita responder em alguma medida à atividade que lhe é solicitada. Há uma pressuposição pragmática de que o co-enunciador sabe do que se trata, e de que, ainda que não o saiba exatamente, alguns indícios contextuais o levarão a reconstruir o objeto discursivo, mesmo que vagamente. Por isso, para nós, toda entidade referida é construída sob a pressuposição de que de algum modo vai se tornar acessível na interação. A noção de acessibilidade de um referente, como reconhece Ariel (2001), é extremamente complexa, pois envolve diferentes fatores ligados à saliência de uma determinada entidade no discurso; dentre eles, estariam a distância entre o antecedente e a anáfora; a quantidade de possíveis antecedentes em competição; o fato de o antecedente representar o tópico do momento de fala; e o fato de o antecedente se inserir no mesmo frame que o anafórico. Falaremos, porém, de uma acessibilidade em sentido ainda mais amplo, na medida em que estamos desvinculando a instauração de um referente de sua realização no cotexto. Não estamos, pois, tratando apenas de como as expressões referenciais são selecionadas para representar que entidades em dado contexto, mas sim, de como os referentes, mesmo quando nem foram ainda designados no cotexto, já podem estar

acessíveis no mundo do discurso, até irem, aos poucos, se estabilizando e, em seguida, se desestabilizando, num jogo de co-construção que só chega ao seu termo quando os participantes se dão por satisfeitos com algum tipo de consenso para cada circunstância. Na piada abaixo, por exemplo, o referente de “entrevista de emprego” não é denominado em momento algum do cotexto, todavia é possível, e fundamental para a construção da coerência, admiti-lo como introduzido por uma série de fatores, todos interligados:

( ) - Antes de começarmos, por favor, me diga uma coisa, o que o senhor fazia no emprego anterior?

  • - Eu era funcionário público!

  • - OK! O senhor pode contar até dez?

  • - É claro! Dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, valete, dama, rei e ás. (piada - 50 piadas, de Donaldo Buchweitz)

A fórmula de início da entrevista, “antes de começarmos”; a alusão a um emprego anterior; a dêixis social, indicando a forma de tratamento respeitosa, tudo isso se conjuga ao conhecimento comum que se adquiriu do ritual comunicativo de uma entrevista de emprego e favorece a instauração da referência. Dizer em que momento preciso do texto o objeto de discurso “entrevista” foi introduzido seria arriscado, porque impreciso. Deveremos, então, ignorar o fato de ter havido essa introdução referencial, simplesmente porque ela não foi explicitamente citada? Evidentemente que não. Ademais, caberia indagar: para quê? Que relevância teria, para fins discursivos, identificar em que momento do contexto o referente se instituiu, ou que formas lingüísticas foram as responsáveis, ou as únicas responsáveis, pelo engatilhamento da referência? De igual maneira, os referentes dos personagens que falam na entrevista, e se instituem no discurso por meio da dêixis pessoal eu/você, não são designados por uma expressão que denote a imagem estereotípica com que o texto os apresenta. O entrevistador assume uma imagem de si - dizemos um ethos - de representante da empresa que, num contexto mais ou menos formal, avaliará os candidatos à vaga. Nenhuma expressão referencial específica no cotexto informa isso. O entrevistado se assume como tal e responde naturalmente ao que lhe é perguntado, descrevendo-se, recategorizando-se e nomeando-se como ex-funcionário público. Mas a recategorização maior, aquela que dispara o humor na piada, tem lugar quando o papel do entrevistador passa por um realinhamento (um footing, nos termos de GOFFMAN, 1998), e ele

transgride suas formalidades para, indiretamente, de modo irônico, tachar o interlocutor de preguiçoso, negligente com as atribuições de seu cargo anterior, pois insinua que o rapaz ocupava seu tempo jogando baralho; o vício chegara a tal ponto que ele, agora, só conseguia contar pela seqüência das cartas. Nenhuma expressão referencial expressa essa recategorização, que é, sem dúvida, anafórica correferencial, porque o objeto de discurso foi retomado e, desenhando-se por um novo contorno, transformou-se. Onde começa a introdução referencial e onde principia a anáfora em situações assim? O referente, ou objeto de discurso, é uma entidade que emerge da própria interação e nem sempre se explicita por uma expressão referencial, quer se introduzindo no discurso, quer apenas se mantendo nele sem muitas alterações, ou quer se mantendo, mas se recategorizando. Não estamos negando, com esse pensamento, que, por outro lado, existam mecanismos de estabilização da referência, nem que o uso de uma expressão de introdução referencial ou de uma anáfora correferencial deva ser subvalorizado na reconstrução da coerência de um texto. Pelo contrário: sabemos que, no momento em que um referente é denominado por uma expressão referencial, sua lexicalização já contribui para estabelecer uma categoria em que ele foi enquadrado pelo enunciador (ver KOCH, 2002a), e este será sempre um fabuloso recurso utilizado pelo falante para orientar o interlocutor quanto ao modo como se espera que ele desenhe o quadro referencial, a partir dos pontos de vista conduzidos no texto. Como afirma Costa, a materialidade do texto, na medida em que gera implicações de ordem cognitiva, contribui para a estabilização da referência, pois passa a atuar como modelo consensual: Constituiriam regras, no sentido wittgensteiniano, ou a ‘base comum’ sobre a qual os falantes atuariam na coordenação de novas ações(COSTA, 2007,

p.73).

No texto seguinte, por exemplo, é principalmente, mas não apenas, por meio de formas lexicalizadas que se vai, aos poucos, esboçando, e se transformando, a figura de um mendigo que perambulava pelas ruas de Fortaleza; e é também por meio da

expressão referencial “um negro alto, cabelos fartos, sujo, roupas em farrapos entidade é, de fato, introduzida no mundo do discurso:

...

” que a

( ) Anjos das ruas

Ao contar uma história de solidariedade, o escritor Pedro Salgueiro abre o questionamento: se uma pessoa de boa vontade consegue salvar uma vida, o que não fariam os poderes estaduais, municipais e federais se tivessem um mínimo de boa vontade?

Faz uns dez anos que perambula pelas ruas de nossa sonsa loirinha descabelada pelo sol um negro alto, cabelos fartos, sujo, roupas em farrapos, às vezes vestidas sobre outra já em tiras. Distingue-se pelo porte altivo, cabeça levantada e pelo quase silêncio que o acompanha: poucos escutam as palavras que pronuncia baixinho, não raro

esbraveja com alguém imaginário ou faz estranhos cálculos matemáticos. Não pede esmola, mas lhe dão dinheiro, roupa e comida; quase sempre redistribui ou deposita as cédulas amassadas e rabiscadas com números em baixo de cones, desses usados em sinalizações de trânsito, e de papelões de outros moradores de rua, nada guarda para o dia seguinte. Come pouquíssimo e toma café e fuma em abundância (que lhe dão sem ele ao menos pedir).

(

...

)

Não se sabe onde dorme, como faz suas necessidades fisiológicas, muito

menos o que pensa e balbucia em quase preces noturnas. Cumpre há uma década o mesmo ritual de sempre, dizem que ele faz as mesmas coisas, nas mesmíssimas horas (até para atravessar as ruas é sempre em locais determinados), o exato itinerário, quer faça chuva ou sol: o mesmo porte altivo, o olhar contemplativo de superioridade e paz. Não se apressa nunca, nem altera o semblante; nem se importa se ao seu lado passa uma bela jovem (que quase sempre aperta a bolsa e desce a calçada) ou um outro morador de rua. ( ) ... Pois bem, acho que cumpriria este seu eterno ritual de perambular pelas calçadas, de se esgueirar pelos becos, de se acocorar pelas calçadas, até o final dos tempos, não fosse a alma enorme e boa do meu colega de repartição (e ex-baixista da banda de regue Rebel Lions) Jânio Alcântara, que puxou conversa, com uma paciência de santo, com nosso personagem: descobriu o nome de sua cidade natal - Paranapanema, São Paulo) e o nome da mãe, Jandira Aparecida da Cruz (completo e com seu nome de solteira e de casada). O novo amigo foi a Internet pesquisar e conseguiu falar por telefone com a mãe, uma senhora forte e saudável morando no interior de São Paulo; em poucos dias se encontrava em nossa cidade a mãezona (que há dez anos não sabia o paradeiro do filho) e a irmã mais nova, Sidelça, uma bela jovem parecidíssima com o nosso herói-de-rua. Jânio não ficou por aí, conseguiu internamento e tratamento dignos para o agora ex- morador das ruas sujas de nossa meretríssima loirinha descamisada pelo sol. Moral de nosso conto de fada: se uma pessoa de boa vontade (com a ajuda de outros anjos bons) consegue salvar uma vida, o que não fariam os poderes estaduais, municipais e federais se tivessem um mínimo de boa vontade, competência e solidariedade?

P.S.: Para não deixar o leitor curioso com o destino de Silvio Tadeu da Cruz, ele está internado, limpo e bem vestido. A família o espera para levá-lo de volta, pois sua avó de 99 anos de idade há dez anos não se cansa de perguntar toda noite por ele. Duas de suas irmãs moram na Europa, os outros vivem bem em Paranapanema (SP). A mãe diz que seu descontrole começou quando ele presenciou a morte, em acidente de automóvel, do irmão de que mais gostava, depois agravado pela dificuldade em pagar a faculdade de Engenharia que cursava já no 2º ano, após ser despedido do banco em que trabalhava. Diz-me (agora sua belíssima irmã) que ele era o mais inteligente da família,

também o mais vaidoso

(artigo de opinião - Pedro Salgueiro

... - especial para o jornal O POVO - 28/01/2008)

Fora a farta adjetivação, sempre eivada de conotação positiva, e a abundância de

predicados de ação, pelos quais o “negro alto

...

vai sendo pintado no texto, cumpre

notar a influência das expressões referenciais “outro morador de rua”, “nosso personagem”, “o nosso herói-de-rua”, “o agora ex-morador das ruas sujas de nossa meretríssima loirinha descamisada pelo sol” e, finalmente, o nome próprio, a identidade,

a cidadania de Silvio Tadeu da Cruz, que, num crescendo, vão rectegorizando o mendigo como um personagem de conto de fada, de final feliz.

A recategorização da própria crônica como um texto que contém um “conto de

fadas” é claramente confirmada pela expressão anafórica indireta: “Moral de nosso conto de fada”. Além do mendigo transformado em “o nosso herói-de-rua”, sobressai também do texto o herói maior, aquele que ocupa o lugar da fada, do “anjo bom” e que o enunciador descreve já por meio da introdução referencial “a alma enorme e boa do meu colega de repartição (e ex-baixista da banda de regue Rebel Lions) Jânio Alcântara”. Concebemos, assim, todas as estratégias de referenciação como um processo sociocognitivo-discursivo, para o qual convergem condições contextuais diversas. Como afirma Costa:

Pode-se dizer que a referenciação constitui uma espécie de “jogo” que extrapola os limites sonoros ou gráficos do texto, isto é, que se realiza na esfera das relações entre sujeitos historicamente situados. As formas que os sujeitos escolhem para relacionar os referentes, que seriam as peças do jogo, criam, em relação com os outros elementos do jogo, o

mundo do discurso, uma realidade “fabricada”, no dizer de Blikstein

(1983). (COSTA, 2007, p.66)

Indo na esteira de Blikstein, a autora defende que nossa percepção “filtra” a realidade, a qual não pode ser acessada diretamente, a não ser através de “óculos sociais”. A massa amorfa da realidade já é filtrada por nós através dos valores (positivos ou negativos) do contexto. São esses valores ideológicos que criam os “estereótipos perceptuais” e levam à configuração dos referentes, dos objetos de discurso. Para Blikstein (1983), por outro lado, a língua exerce uma “função interpretante e modelante na percepção/cognição e no pensamento” (p.79). Como bem observa Costa, ratificando a pensamento da presente obra, são as práticas sociais de linguagem que criam imagens e modelos convencionados, estereotipados. Esses estereótipos condicionam os próprios usos da linguagem, que, por sua vez, também passam a condicionar as imagens estereotípicas, à medida que se estabilizam certos modos de nomear as coisas. Essa tensão entre práticas sociais e formas da língua nos impede de ver a realidade como algo já dado e imutável. E “é ainda nessa tensão que surge o referente ou o o real fabricado.

E esse real, sendo algo que emerge da circularidade práxis estereótipos língua, tem como marca a instabilidade. (COSTA, 2007, p.69-71).

É uma concepção semelhante, em alguns aspectos, à que encontramos nos estudos

de Mondada, que advoga em favor de uma abordagem “construtivista” e “emergentista”

da referenciação, na qual tanto os objetos do saber quanto os objetos de discurso só se

completam interacionalmente, em atividades práticas. A autora também defende a tese de que as atividades linguageiras são indissociáveis de seus contextos sociais, uma concepção que “em vez de privilegiar uma visão substantiva e idealizada do saber, apreende raciocínios práticos encarnados [corporificados]” (MONDADA, 2004, p.5).

Tais idéias, sustentadas nesta obra, também afluem para o pensamento de Ciulla e Silva (2008), para quem o processo cognitivo da (re)categorização nunca se dissocia da referenciação; os dois estão tão intimamente ligados que não se pode interpretar um sem, necessariamente, recorrer ao outro. Para a autora, texto e discurso também estão tão indissociavelmente imbricados que é impossível deixar de levar em conta os fatores da dimensão discursiva na (re)construção dos fenômenos referenciais: A questão central, a nosso ver, é que os processos referenciais e as categorizações que são promovidas na malha discursiva imbricam-se, de modo que não podemos interpretar completamente um sem ver o outro(CIULLA e SILVA, 2008, p.46).

CONCLUSÃO

Os significados das formas da língua constituem apenas um dos componentes dos sentidos, ou da coerência, que os participantes da enunciação constroem em cooperação. Eles servem de pistas, de indícios, de cadeias, de trilhas não somente para a constante reelaboração dos sentidos, mas também para a progressão das referências de um texto.

Este é também o pensamento de Leite, para o qual língua, discurso e práticas sociais são igualmente indissociáveis. Inspirado na perspectiva da semiótica textual de Eco (2000) e na semiótica literária, de Bertrand (2003), o autor assevera que “as estruturas lingüísticas asseguram, para além do sistema lingüístico em si, as hipóteses e inferências da leitura, bem como assumem o papel de refletir o conhecimento sociocultural (enciclopédico) mobilizado pelo leitor nesse processo” (2007, p.118).

Enfatizando sobremaneira a importância dos indícios que a materialização do

cotexto disponibiliza ao interlocutor, Leite argumenta que as categorias que emergem do discurso permitem a criação de uma nova configuração de sentido, ao mesmo tempo em que reconstroem a própria realidade, negociada na interação entre leitor e texto. Desse modo, o processo de interpretação de um texto, para o autor, seria, em si mesmo, uma atividade sociocognitiva, que não consiste simplesmente “em localizar um segmento lingüístico dentro do texto, mas ainda em identificar pistas lingüístico-textuais que estabeleçam ligações com informações que se encontram na memória discursiva de

uma comunidade” (p.118).

Embora aplique sua proposta teórica à compreensão de processos metafóricos, Leite sugere um procedimento de análise que se presta a explicar as etapas de qualquer interpretação do texto/discurso. O interesse dessa explicação para nossos propósitos reside no modo como o autor demonstra que a construção dos sentidos e da referência ultrapassa os limites da expressão referencial, estendendo-se pelo tecido do texto, mas integrando-se a múltiplos conhecimentos socioculturais. Leite elege quatro fatores indispensáveis à interpretação de qualquer espécie de texto: a cooperação do co-enunciador, a abdução, a seleção de propriedades conceituais e as isotopias. Esses quatro dispositivos estariam interligados e intercondicionados; não atuariam numa ordem fixa e imprimiriam à interpretação dos sentidos e da referência (ou seja, à construção da coerência) um caráter sociocognitivo- discursivo, em que “indivíduo e cultura se fundem em uma configuração semiótia, o texto” (p.133).

O primeiro fator decisivo, apontado por Leite, para essa co-construção dos sentidos e da referência é a cooperação dos participantes da enunciação. O autor salienta que a noção de cooperação que adota não se equipara, de inteiro, ao Princípio de Cooperação, de Grice, porque não contempla somente as comunicações que chegam a um consenso. O princípio de cooperação não seria, para Leite, uma norma regendo as relações de comunicação, mas, na esteira de Klinkenberg (2003, apud Leite, 2007), seria uma tendência à relevância, a um ajuste entre os co-participantes no interior do discurso. Reflita-se sobre o exemplo citado pelo autor (LEITE, 2007, p. 126):

( ) Labareda$ O coronel Duarte Frota esteve em Brasília, no último fim de semana, representando os bombeiros do Ceará, em reunião com a Secretaria Nacional de Segurança Pública. No encontro, o secretário NSP, Luiz Fernando Corrêa, após

um diagnóstico nacional das unidades militares, deu um bom presente. Liberou mais de um milhão de reais para cada Estado e também para o Distrito Federal, inserindo a corporação no Plano Nacional de Segurança Pública (Jornal Diário do Nordeste, 19/01/2005).

Leite argumenta que o leitor se depara com a violação do código da língua já no título do texto, quando um cifrão substitui o grafema [s], que representaria o morfema de plural. O autor comenta que, diante dessa situação, o leitor “poderia julgar o título

como um erro ortográfico ou de digitação e desistir da interpretação (

).

No entanto,

... por intermédio da crença compartilhada, o leitor mantém a leitura do texto, com o intuito de interpretá-lo. O leitor, que estamos tratando como co-enunciador, age, assim, de forma cooperativa, aventando outras possibilidades que justificariam essa escolha do enunciador. É essa tentativa de ressignificar e acrescentaríamos: de reconstruir os objetos de discurso que torna o leitor/ouvinte cooperativo e que também nos autoriza a chamá-lo de co-enunciador. O princípio de cooperação, assim redefinido, sustentaria o segundo dispositivo proposto por Leite para a construção da interpretação, ou da coerência: a abdução. Somente sendo cooperativo, o co-enunciador pode fazer abduções, a fim de “evitar interpretações aberrantes, que extrapolem os limites da crença compartilhada com o texto” (p. 129). A abdução constitui um método inferencial, probabilístico, que começa com um momento heurístico de descoberta de hipóteses, de tentativas a partir de intuições, de erros e acertos, que não obedecem a fórmulas e que permitem a criatividade. No texto acima, segundo Leite, a enciclopédia do leitor registra a associação entre labareda$ e bombeiros dentro de uma mesma configuração de sentido, ou seja, de domínio conceitual. Diríamos ainda: o conhecimento compartilhado dos participantes também assegura a relação anafórica indireta entre o referente de bombeiros e seu antecedente labareda$. Mas isso ainda é pouco para justificar o emprego do cifrão, e o co-enunciador precisa, então, seguir outras pistas textuais para construir, por tentativas, erros e acertos, uma interpretação adequada dos sentidos e da referência. O novo sentido e o novo objeto de discurso recategorizando labaredas só se reconfiguram quando o co- enunciador relaciona o cifrão de labareda$ à afirmação de que o Secretário Nacional de Segurança Pública liberou mais de um milhão de reais para cada Estado e também para o Distrito Federal. Do contrário, o texto seria lido em uma única isotopia.

Após essa fase exploratória, há, segundo Parret (1997), um momento icônico, de tentativa de integração do novo à configuração textual, quando o interlocutor procura normalizar sua interpretação. Admitindo que nem os significados nem a referência se encontram previamente estabelecidos, Leite argumenta que, na construção da interpretação, abre-se uma rede de caminhos com semelhanças, homologias e traduções, todos dependentes dos desejos, das crenças e dos saberes dos participantes do ato enunciativo. O terceiro dispositivo de interpretação eleito por Leite é a seleção de propriedades semânticas. Por propriedades semânticas (conceituais), não se deve entender, nesta perspectiva, os traços lexicais em

estado de dicionário, mas, sim, um sistema de pistas, de instruções que o texto fornece, focalizando umas e desativando outras temporariamente, num processo pragmático- discursivo contínuo.

Como explica o autor, “a significação lexical aparece apenas como uma

significação superficial, isolada, visto que somente a inserção em um contexto discursivo é capaz de selecionar quais propriedades serão atualizadas no texto, dentre

outras virtualmente disponíveis” (p.158). Os sentidos e a referência são, assim,

negociados por sujeitos sociocognitivamente situados, que privilegiam, durante a

interação, determinadas propriedades conceituais em detrimento de outras (ou, nas

palavras do autor, “magnificam”, focalizam umas e “narcotizam”, desfocam outras),

avaliando-as e remodelando-as, reconfigurando-as, de acordo com suas práticas socioculturais e discursivas. A conseqüência imediata dessa seleção de traços de sentido e de referência é a construção de cadeias isotópicas em todo processo de interpretação. Por isso, o quarto dispositivo escolhido por Leite é justamente a isotopia, a redundância, a recorrência, a reiteração de traços semânticos que, em conjunto, apontam ao co-enunciador um direcionamento de “leitura”. O termo isotopia, na Lingüística, remonta à semântica estrutural proposta por Greimas (1973), que definiu o processo como uma iteração de semas (propriedades de significado) ao longo de uma cadeia sintagmática que assegurariam a coesão textual. Mas, diferentemente do ponto de vista estruturalista, que entendia a isotopia como um fenômeno advindo do próprio texto manifesto, na semiótica do discurso, assumida por Leite, a isotopia é a redundância de um efeito de sentido, que depende não somente da manifestação linear do texto, mas também, e simultaneamente, da cooperação dos interlocutores, das abduções realizadas na interação e da eleição negociada de traços de sentido e de referência.

Como ilustração, reproduzimos, abaixo, mais um exemplo analisado por Leite (2008, p.181):

( ) Pôr-do-sol

O romance de Luana Piovani e Ricardinho Mansur que começou cercado de flashes há quase dois anos terminou discretamente, sem alarde nem fotos, em Paris. A decisão partiu do jogador de pólo, que foi até a França onde a atriz passa temporada de estudos para finalizar a história. O motivo nenhum dos dois comenta. De lá, Ricardinho seguiu para Aspen, nos Estados Unidos, para

esquiar com amigos. Já Luana preferiu ir até a Espanha (ÉPOCA, 21/02/2005).

...

para dar aquela arejada

De acordo com Leite, quando o leitor se depara com o título, ele acessa, pelo método abdutivo, uma espécie de imagem que o desloca para uma posição de quem visualiza o pôr-do-sol: “Desse modo, na leitura do título, magnificam-se as propriedades do universo conceitual de pôr-do-sol como, por exemplo, sol, horizonte, céu, redução da luminosidade, término do dia, desaparecimento lento no horizonte, diminuição da cor, dentre outras” (cf. p.181). Contudo, no decorrer do texto, a leitura (isotopia) relacionada a pôr-do-sol é, aparentemente, quebrada, pois o texto aborda não a paisagem de pôr-do-sol, mas, metaforicamente, o fim de um relacionamento amoroso de Luana Piovani e Ricardinho Mansur. Isso, a nosso ver, obriga o leitor a recategorizar, por meio da abdução, o referente de pôr-do-sol como fim de um processo e, como diz o autor, “a redimensionar a interpretação com o propósito de identificar uma isotopia na qual o título deve manter alguma relação com o restante do texto” (p.181). Leia-se o restante da análise do autor:

Lidas, agora, sob uma isotopia metafórica, essas expressões magnificam algumas propriedades do campo figural de pôr-do-sol como, por exemplo, redução da luminosidade, término do dia, desaparecimento lento no horizonte e diminuição da cor. Vemos, por conseguinte, a semelhança entre o final do dia (o pôr-do-sol) e o fim de um relacionamento amoroso. Cumpre dizer, no entanto, que a metaforização não confere ao texto somente a mera semelhança conceitual entre o pôr-do-sol e o fim de um romance. Além disso, imprime implicitamente no texto opiniões e julgamentos do leitor sobre um acontecimento do mundo das celebridades do meio artístico. Daí ser possível atribuir valores discursivos ao começo do relacionamento de duas celebridades do mundo televisivo um acontecimento social importante, valorizado pela mídia e coberto de flashes e o nascer do sol cheio de brilho e luminosidade , bem como ao término dessa relação amorosa sem destaque da mídia, feito com discrição – e o “pôr-do-sol” – término do dia, redução da luminosidade e da cor etc. O sentido revelado nesse processo reflete, assim, a mobilização por parte do leitor de saberes socioculturais na interpretação, alcançados a partir do encadeamento dos objetos de discurso, cujo papel é

enriquecer e investir de valores e estereótipos socioculturais as propriedades conceituais desses objetos. (LEITE, 2008, p.181-2)

As reflexões de Leite nos levam à ponderação de que, se, por um lado, a construção do referente não está vinculada ao uso de uma expressão referencial que o represente no cotexto, por outro não se pode negligenciar o emprego da expressão referencial, quando ele ocorre efetivamente. As expressões referenciais, sem dúvida alguma, servem como trilhas às quais o co-enunciador se aferra para, em cooperação com o enunciador, ir elaborando, por tentativas de inferências, numa abdução contínua, seus caminhos interpretativos, suas cadeias isotópicas, das quais fazem parte, necessariamente, a nosso ver, os objetos de discurso. Por esse viés de análise, considerando a multiplicidade de intercondicionamentos para a construção e recategorização dos referentes, os limites entre o que a literatura toma por introdução referencial, anáfora direta, anáfora indireta e dêixis se fluidificam em certos casos. Costa (2007) demonstra como algumas ocorrências classificadas na literatura como introduções referenciais poderiam perfeitamente ser tomadas como anáforas indiretas, por exemplo, já que muitos condicionamentos contextuais entram em jogo na criação do referente. A autora discute como a expressão referencial grifada na piada abaixo pode ser considerada, como tem sido comumente, uma introdução referencial, sob a justificativa de que a entidade foi mencionada pela primeira vez no texto”:

(

)

Joãozinho

A professora de matemática pergunta ao Joãozinho:

Joãozinho, tem três passarinhos no galho de uma árvore. Você pega sua espingardinha e mata um. Quantos ficam no galho?

-

-

Nenhum, professora - responde ele.

 

-

Como, Joãozinho? Pense bem

Você

tem 3 passarinhos, mata um. Quantos

sobram? - Nenhum, professora. Quando eu acertar o primeiro, os outros dois saem

voando e não sobra nenhum no galho.

 

-

Bem, Joãozinho, a resposta não foi correta, mas eu gosto muito do seu jeito de

pensar. Assim, diz o Joãozinho:

 

-

Professora, eu também tenho uma perguntinha. Ali no banco do jardim estão

sentadas três moças. Uma está comendo um sorvete, a outra está chupando um sorvete e a outra está mordendo um sorvete. Qual delas é casada? A professora, muito constrangida e vermelha, pensa um pouco e responde:

-

Bem, acho que é a que está chupando o sorvete.

E o Joãozinho:

-

Errado, professora, é a que está com aliança no dedo, mas eu gosto muito da sua

maneira de pensar

...

(piada veiculada pela internet)

 

Costa argumenta que, sabendo o leitor que se trata do gênero piada, e de piada de

Joãozinho, como bem explicita o título, logo se cria na mente dos interlocutores “a

imagem do menino levado, safado, inteligente, que tem sempre uma resposta afiada para tudo. A cena que se desenha, a partir desse título, pressupõe as expectativas do

leitor quanto ao desenrolar da piada” (p.163). Em vista disso, nada mais natural que o enunciador inicie a narrativa com a expressão definida, apresentada como dada, “a professora de matemática”, sinalizando para o leitor que o objeto de discurso lhe é conhecido, assim como a cena prototípica do diálogo entre Joãozinho e a professora. Caberia, pois, falar de introdução referencial neste caso, uma vez que o referente, na verdade, já começou a ser instituído a partir de outros caminhos, como o gênero

discursivo em que se enquadra o texto, a pista fundamental do título e a cena de sala de aula, própria das piadas de Joãozinho? Em que momento o objeto de discurso foi de fato introduzido? Impossível precisar, e desnecessário perscrutar. Por outro, há de se convir que alguns objetos de discurso são de fato introduzidos

por expressões referenciais, como é o caso de “três passarinhos”, no exemplo em tela. A

forma como esse referente é apresentado - meio indefinida, porque sem uma marca de definitude, como um artigo definido, por exemplo: os três passarinhos - confirma para o leitor o estatuto de novo que ele assume no texto e sugere que ele deve apelar para seus

conhecimentos enciclopédicos primeiro para identificar a entidade referida. O fato é que, de modo geral, existem indícios no contexto como um todo para o reconhecimento do referente como algo relacionado a outras fontes; é essa ligação entre as fontes (também chamadas âncoras, ou gatilhos, ou antecedentes) e os referentes mencionados pela primeira vez que funda os processos anafóricos; no decorrer do texto, as anáforas vão também se apoiando em outras e em trilhas diversificadas, compondo a tessitura textual. Toda a continuidade e a progressão referencial se organizam dessa maneira, e não poderia ser de outra forma, pelo bem da articulação das informações na construção da coerência. O modo como o enunciador nomeia os objetos de discurso também não depende exclusivamente do fato de eles estarem sendo mencionados no cotexto pela primeira vez, mas do grau de saliência que eles possam ter a cada momento da enunciação, além dos propósitos argumentativos pretendidos, do contexto sócio-histórico envolvido, das restrições da situação comunicativa imediata, entre outras determinações da ordem do inconsciente, como veremos adiante. Se olharmos para as estratégias de referenciação

mais como um processamento cognitivo, poderemos dizer, com Costa (2007, p.159), na

esteira de Ariel (2001), que “qualquer dado nos diversos níveis do universo

textual/discursivo pode atuar em conjunto com outros para condicionar o falante a selecionar, entre as inúmeras formas possíveis, uma determinada expressão em lugar de

outras”. E, sob tal pressuposto, os limites que isolam os processos anafóricos dos

processos dêiticos, assim como os liames entre as introduções referenciais e as anáforas indiretas, por exemplo, nem sempre podem ficar bem definidos. Por essa perspectiva, separar precisamente o que é textual do que é extratextual seria até contraditório. Por outro lado, distinguir anáfora direta de anáfora indireta, pela simples alegação de que a direta exige menos capacidade inferencial, seria uma atitude reducionista. Ponderemos, por exemplo, sobre a diferença entre introdução referencial e anáfora indireta. De acordo com Koch (2004, p.253), nas anáforas indiretas, um objeto de discurso também é introduzido no cotexto - entenda-se: mencionado em primeira mão -,

mas “sob o modo do dado, em virtude de algum tipo de relação com elementos

presentes no cotexto ou no contexto sociocognitivo, passível de ser estabelecida por

associação e/ou inferenciação”.

O primeiro aspecto a se notar, nessa definição, é que a introdução de referente, de que fala Koch, no que tange às anáforas indiretas, não é a mesma que se descreve nas chamadas introduções referenciais. A noção de introdução referencial tem sido sempre

vinculada à idéia de menção primeira no cotexto; já a concepção de anáfora indireta tem sido descrita a partir de uma explicação de ordem cognitiva: ela se dá por uma inferência ativada a partir de pelo menos uma âncora no cotexto. Assim, no exemplo seguinte, a primeira expressão grifada (“numa galeria de arte”) constitui uma introdução referencial, ao passo que “as pessoas”, “o quadro”, “a tela” são instâncias de anáfora indireta, porque todos esses objetos de discurso foram

acionados quando se instaurou no discurso o esquema mental relacionado a uma galeria de arte.

(

) “Imagine-se numa galeria de arte observando as pessoas olharem os

quadros. Dificilmente você verá alguém com a face colada na tela. Desapego é simplesmente dar um passo para trás e observar. Mas, como isso não é ensinado por nossos pais e professores, passamos por apertos quando ficamos muito perto da tela da vida. Mestres nunca se aproximam demais das situações, mas também nunca viram as costas para elas. Mestres nunca consomem as emoções e humores dos outros, mas nunca negam sua validade." (crônica de auto-ajuda, de Mike George, divulgado na internet).

Neste caso, a introdução do referente no universo do discurso criado pelo texto é marcada prototipicamente pelo artigo indefinido uma (“uma galeria de arte”), o que pode não acontecer em todas as ocorrências em que se explicita um objeto de discurso no cotexto pela primeira vez. Como explica Hawkins (1977), de modo geral, mas não sempre, quando se introduz um referente por meio da expressão indefinida, dá-se ao interlocutor uma indicação de que um objeto deve ser buscado em sua bagagem de memória; o uso subseqüente de uma expressão definida indica, então, para ele que deve pinçar o objeto em seu estoque de memória. Assim, no texto acima, o referente da expressão sublinhada poderia ser tipicamente retomado como “a galeria”, em seguida. Mas as opções de introdução e de retomada de referentes são muito mais diversificadas do que nesta situação prototípica. Pode ocorrer, por exemplo, que um objeto já dado e já mencionado seja reapresentado, como mostra Cunha Lima (2006), sob a forma do novo, ou seja, sob a forma de uma descrição indefinida (uma expressão com artigo indefinido). No exemplo abaixo, o referente é introduzido no próprio título não por uma expressão indefinida, e é retomado por uma anáfora recategorizadora no início do texto, mas não explicitado por uma expressão definida, como seria de se esperar:

( ) A orquestra odiosa (Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis)

É uma orquestra desarmônica por excelência. O maestro faz o possível para lançar a discórdia entre os instrumentos, e extrai disso um belo efeito. A trompa e o fagote não se cumprimentam, e ambos vivem de implicância com o oboé, que por sua vez trata o clarinete com soberano desdém. A flauta doce desmente seu nome, recusando o diálogo com o corne inglês. E os violinos planejam seqüestrar o contrabaixo. Trompas e timbales têm ar feroz. O mais, nessa mesma linha de agressividade. Como pode uma orquestra assim povoada de desavenças alcançar tamanho êxito em suas audições? O público ouve-a em religioso silêncio. Sucedem-se as tournées pelos Estados, e há convites do exterior, que ainda não puderam ser atendidos. Devo afirmar, a bem da verdade, que a execução dos concertos é impecável, e como cada instrumento deseja não apenas suplantar, como até expulsar os demais do conjunto, há competição acirrada em torno de quem é capaz de tocar melhor. O rancor conduz a resultados sublimes, que a crítica não sabe como explicar. A orquestra apura cada vez mais suas ambições, e teme-se que no auge de seu esplendor ocorra um assassinato nas cordas.

As demais expressões sublinhadas no texto se ligam, harmonicamente, ao contexto de atuação de uma orquestra: o maestro, as audições, os concertos, além dos instrumentos, homologados pela própria expressão “entre os instrumentos” e pela

citação detalhada de alguns deles, como trompa, fagote, flauta doce etc., todas pertencentes ao mesmo campo conceitual, todas metonimicamente ligadas. Cunha Lima (2006, p.76-7) analisa três circunstâncias que Schwarz identifica como apresentando uma expressão nominal indefinida constituindo não uma introdução referencial, mas uma retomada anafórica:

  • 1. Quando a expressão tem valor partitivo:

(3.6) Um grupo de crianças alegres entrou na sala. Uma garotinha loira

veio em minha direção e entregou uma rosa. (Koch, 2002).

  • 2. Quando a vagueza própria do indefinido é utilizada para criar um efeito

de suspense:

(3.7) O detetive fotografou o homem entrando em um motel com sua

amante. No dia seguinte, mais um casamento se desfazia.

  • 3. Quando a informação nova normalmente presente numa anáfora com

recategorização é mais fortemente focalizada que a seqüencialidade da cadeia coesiva:

(3.8) A velha senhora desaba sobre a cadeira da cozinha. E quando sua amiga chega, não encontra a avozinha, mas um montinho de infelicidade, uma coisinha danificada e confusa. (Exemplo adaptado de Swcharz, 2000 por Koch, 2002 grifos nossos.)

Os três casos focalizados na citação acima, de fato, representam usos distintos do artigo indefinido. Em “Um grupo de crianças alegres entrou na sala. Uma garotinha

loira veio em minha direção

”,

a expressão anafórica correferencial retoma apenas uma

... parte do antecedente “um grupo de crianças”, anteriormente estabelecido no cotexto.

Não se trata de uma transformação do referente, mas de uma retomada parcial de um conjunto maior já introduzido no discurso.

Em “O detetive fotografou o homem entrando em um motel com sua amante. No dia seguinte, mais um casamento se desfazia”, a relação é de anáfora indireta: o referente relativo ao casamento desfeito, que não se expressa somente pela indefinitude

de “mais um casamento”, emerge da situação descrita em que um homem foi visto com

uma amante, o que, em nossa cultura, pode redundar em separação conjugal. O emprego do indefinido não é atribuído, porém, somente a essa inferência da anáfora indireta, que liga a infidelidade à separação, mas também a outra inferência: a de que este é mais um caso, dentre muitos outros em nossa sociedade, de traição masculina que repercute em

divórcio. Com efeito, é a construção inteira, junto com nossos conhecimentos compartilhados, e não apenas a expressão indefinida, que promove um efeito de suspense, e isso é estilisticamente muito eficaz.

No que tange ao exemplo “A velha senhora desaba sobre a cadeira da cozinha. E, quando sua amiga chega, não encontra a avozinha, mas um montinho de infelicidade, uma coisinha danificada e confusa, temos aqui um caso típico de anáfora correferencial recategorizadora. Como desconhecemos o texto na íntegra, não podemos afirmar se a expressão anafórica simplesmente confirma a recategorização que já vinha

sendo feita antes por outros indícios contextuais, ou se é a própria expressão que opera a transformação do referente. O que importa é, no entanto, constatar que a construção com um artigo indefinido e com a carga semântica avaliativa dos substantivos e adjetivos é grandemente responsável pela recategorização da entidade refocalizada. Cunha Lima observa que as situações caracterizadas acima se orientam ora por critérios semânticos, como (1), ora por valores estilísticos, como (2), ora pelo processamento cognitivo da informação, como (3). Consideramos, todavia, que todos esses critérios atuam em conjunção em todos os casos e que não é possível precisar onde começa e onde termina cada um desses aspectos. Convém reter, neste momento, que nem o referente é introduzido no discurso somente quando se manifesta explicitamente por uma expressão referencial, nem a forma indefinida indica sempre a existência de uma introdução referencial. A oposição entre anáfora (direta) correferencial e anáfora indireta também não se fundamenta apenas pela consideração de uma maior capacidade inferencial requerida pelas anáforas indiretas. Como diz Costa (2007), não existe um grau zero de inferência, pois todos os atos referenciais envolvem algum nível de inferência, e mesmo as anáforas correferenciais, na medida em que podem transformar o objeto de discurso,

não operam uma recuperação “direta”, sem apelo à memória compartilhada.

Ciulla e Silva (2008) também defende que as anáforas diretas, assim como as indiretas, são igualmente configuradas como amálgamas cognitivos, na medida em que, ao serem retomados, mesmo correferencialmente, os objetos de discurso vão sendo de algum modo reapresentados, com pequenas, médias ou grandes alterações, a partir das

quais novas referências podem ser realizadas. Por isso, como bem observa Ciulla e Silva, definir a anáfora correferencial como aquela que retoma uma âncora pontual, um único antecedente no cotexto, é algo facilmente questionável, pois, muitas vezes, há não apenas mais de uma âncora, como também inúmeras outras pistas, que também concorrem para a construção da referência, assim como acontece com as anáforas indiretas. Leia-se o exemplo da autora:

( ) “É como uma linha férrea desativada” – o médico lhe mostrava o raio X, levantando a chapa contra a luz. Lá estava a coluna vertebral, na estrada completa, com todos os seus ossinhos aparentemente em perfeito estado. Mas

agora não servia para mais nada, os membros paralisados (

)Agora observa

... outra vez a chapa contra a luz. Uma linha férrea, sim. Sem ligações

nervosas, sem circuitos, o trenzinho parado não se sabe em que canto do

corpo, enferrujando. (

)

O trem das onze chega logo. Sente um arrepio: a luz

... do poste iluminou o rosto do homem, o mesmo que descia na estação, anos

atrás. Não podia imaginar que um dia estaria deitado na linha do trem, com o

menininho lhe ajeitando os membros (

)

Afasta-se. Pensa em voltar rápido

... para casa; a cadeira de rodas leve, ágil. Mas não resiste a um impulso: o de ver os vagões correndo, correndo, atravessando a linha férrea e correndo, correndo. (conto Linha Férrea - Tércia Montenegro,)

Ao longo da descrição, comenta Ciulla e Silva, a expressão anafórica correferencial “linha férrea” se torna propositalmente ambígua e “pode tanto se referir à coluna do velho, numa alusão macabra aos vagões atropelando o velho, como

simplesmente pode remeter ao trem percorrendo os trilhos. (

...

)

De qualquer maneira,

não podemos descartar nem uma, nem outra interpretação” (cf. 2008, p. 52). Com tais reflexões, podemos concluir, com a autora, que as anáforas diretas, correferenciais, tanto quanto as indiretas, constituem núcleos, amálgamas cognitivos, a partir dos quais é possível não só recuperar, como reformular e homologar novos referentes ainda não explicitados no cotexto. Além de poderem acrescentar um novo viés ao referente retomado, as anáforas diretas (correferenciais) também podem recuperar o mesmo referente, mas sob um outro ponto de vista, num espetacular jogo de vozes dentro do texto. A autora cita o exemplo de um conto em que a entidade referida é claramente perspectivada pelo olhar do personagem Belarmino:

( ) O ferro em brasa, que a própria mulher do filho trouxe da trempe de tijolos na cozinha. O gemido, contorções do corpo. A pele de fumo voltou a cobrir a ferida. Morreu três horas depois. Longe os vizinhos. Légua e meia o mais próximo. Belarmino teve de ir até lá (o cachorro enrolava-se no chão sob a tipóia do morto). Trouxe outros seres em molambos e grunhidos. E a marcha fúnebre tipóia oscilante presa à estaca de sabiá se fez em direção ao distante arruado, onde havia a capela e o telheiro abatido do mercado. No mais, a solidão da noite e dos seres. A viúva-menina, sem lágrimas. Duro mundo, carente de umidades. Muitas lições de renúncia. Tão trabalhados todos como a escarpa fendida e crestada pelo tempo, por onde subiam bodes e cabras. (Moreira Campos, O peregrino)

Ciulla e Silva (2008) demonstra como a voz, ou o ponto de vista, de Belarmino se faz ouvir dentro da narrativa do conto, primeiro recategorizando a mulher enfocada como “a própria mulher do filho”, quando ainda era vivo; depois, recategorizando-a como “a viúva-menina”, quando ele passa a enxergá-la como não simplesmente como uma viúva, mas como uma mulher disponível, a quem ele já começara a cobiçar. Não apenas essas expressões, mas ainda a carga dêitica de “trouxe” fazem com que o leitor seja inserido na cena da narrativa, posicionando-se junto a Belarmino” (cf. p.38), contribuindo, assim, para a recategorização. É, pois, a combinação das expressões referenciais com outras pistas que “ajustam o foco do leitor”, o qual é levado a compreender a alternância de pontos de vista, a polifonia, aqui essencial para completar os sentidos do texto. Outra classificação que se desestabiliza quando não se prioriza a realização da expressão referencial é a das anáforas encapsuladoras, que, sempre definidas como tendo a propriedade de resumir porções do cotexto, podem, na verdade, remeter a informações não explicitadas, pondo, assim, em evidência aspectos cognitivo- discursivos do fenômeno referencial. Costa (2007) se pergunta que conteúdo é realmente resumido” nas anáforas encapsuladoras. A literatura sobre o assunto tem postulado, como mostramos na abordagem que prioriza a menção, que os anafóricos encapsuladores resumem, por meio de uma expressão, conteúdos proposicionais postos no cotexto. Mas o fato é que tais anáforas encapsuladoras, com ou sem dêitico textual, remetem, em geral, a outras mais informações não presentes no cotexto, incluindo-se aí pressupostos, subentendidos e outros conteúdos presentes na memória discursiva dos participantes da enunciação. Tomando como exemplos as mensagens trocadas numa lista de discussão, Costa (2007) sugere a existência de uma espécie de encapsulamento intertextual, quando, por exemplo, os participantes de uma lista usam como tópico de seu comentário um argumento usado em um e-mail anterior::

(

)

From: "A S" <as@terra.com.br

>Sent: Tuesday, May 18, 2004 11:01 AMSubject: [CVL] cotas!!!!!!!!!!

Re:

o assunto

das

Não se poderia dizê-lo melhor!

A. S.

Atente-se para o pronome “lo”, comumente considerado como anafórico correferencial. Veja-se que, nesta ocorrência, a forma lo foge a esse padrão de uso, pois encapsula um conjunto de informações veiculadas numa mensagem anterior, as quais, portanto, não fazem parte do cotexto deste e-mail. Como podemos, então, classificá-lo como uma anáfora indireta encapsuladora, se não há nada no cotexto do e-mail que esteja sendo resumido? Pode-se argumentar que o texto da mensagem anterior fica automaticamente anexado quando se clica no link Responder e que, assim sendo, o cotexto seria constituído pelo conjunto dessas mensagens. Mas essa alternativa geraria um problema adicional: afinal, quais os limites de um texto? E quais os limites do gênero e-mail no ambiente de uma lista de discussão? Uma descrição de processos referenciais presa a explicitações no cotexto não consegue apresentar respostas satisfatórias a essas indagações. Ademais, sabemos ser perfeitamente possível reportar-nos a informações que já foram ditas em outros textos conhecidos pelos interlocutores, como se as encapsulássemos. Isso pode ocorrer não somente em e-mails de lista de discussão, mas também em e-mails pessoais, em bate-papos e em recados na internet, bem como também em outras situações corriqueiras, principalmente na modalidade falada, nas conversações face-a-face, nos telefonemas, nos torpedos enviados por celulares etc. Em vista dessas constatações, Costa corrobora a asserção de Ariel de que mais importante do que o lugar de onde provêm as informações do referente é quão saliente e acessível esse referente se apresenta a cada momento da enunciação. O modo como o enunciador nomeia os objetos de discurso está diretamente relacionado a esse ajuste ao grau de saliência das entidades em cada etapa do texto, pelas suposições que faz quanto à maneira como essa nomeação será recebida.

Segundo nos parece, o nível de saliência discursiva dos referentes, muito embora haja outras motivações, revela-se fundamental para a escolha das formas e, até mesmo, para o não-uso delas (cf. Apothéloz, 2001). Há uma integração intrincada entre as informações (ou entre as impressões/percepções) que nos leva a ajustar as palavras a cada uso particular que delas fazemos. Podemos dizer, lembrando a metáfora de Maturana (2001), que o discurso funciona como uma rede de relações e que, dentro dessa rede, as palavras são como nós. (COSTA, 2007, p. 167)

Outro processo referencial cuja caracterização se desestabiliza quando não atrelado a menções no cotexto é o das anáforas recategorizadoras. Não vamos, nesta

perspectiva de análise, conceber este fenômeno tal como ele foi pioneiramente descrito por Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995): como uma estratégia de designação, um fenômeno descrito com um enfoque mais lexical. Por meio da recategorização lexical, os enunciadores mobilizam diferentes formas de nomear os referentes de acordo com seus propósitos comunicativos a cada momento da enunciação.

Corroboramos o pensamento de Lima (2008) quando comenta que a descrição de Apothéloz e Reichler-Béguelin (2005) não se atém a aspectos cognitivos do fenômeno, que precisam, necessariamente, ser considerados se tomarmos a recategorização como um processo de construção sociocognitivo-discursiva. Como afirma a autora:

Pelo nosso entendimento, esse processo é muito mais amplo do que o quadro que se apresenta na proposta de Apothéloz e Reichler-Béguelin

(1995). O próprio termo “recategorização lexical”, em certa maneira, já é

reducionista, no sentido de que aponta só para a dimensão lingüística do processo. Nesses termos, pela concepção dos autores, seria impróprio, então, pensar em ocorrências de recategorizações que se ancorassem em

referentes construídos fora da superfície textual. (

...

)

Assim, pela sua

natureza cognitivo-discursiva, entendemos que o fenômeno da

recategorização precisa ser redimensionado. (

...

)

(LIMA, 2008, p.18)

Desse modo, para Lima, assim como para nós, os limites do processo de recategorização vão além da superfície textual e, portanto, não se prendem à menção de uma âncora no cotexto. Conseqüentemente, o processo também não se vincula às anáforas correferenciais: pode se dar com as anáforas indiretas, com as encapsuladoras e até pode estar presente no que se tem concebido como introdução referencial pela menção primeira da expressão no cotexto. Embora a autora se ocupe primordialmente da estreita relação entre os processos metafórico e metonímico nas recategorizações, alguns pressupostos por ela assumidos convergem para a perspectiva que defendemos: a recategorização é um processo cognitivo-referencial que pode se somar a qualquer fenômeno anafórico ou dêitico. Demonstrando que freqüentemente a metáfora e a metonímia estão imbricadas quando ocorrem nas recategorizações, Lima argumenta que os aspectos cognitivos necessariamente são evocados na construção desse fenômeno. Reproduzimos, a seguir, um dos exemplos estudados pela autora:

( ) E o velhote fica noivo de uma menina de dezessete anos. O casamento dos dois vira o assunto do momento no bairro. Um parente próximo tenta dissuadi- lo da idéia:

- Cai na real, Olegário! Não vai demorar um mês e essa garota vai começar a te chifrar! Por que não arruma uma mulher mais madura, mais experiente, que cuide bem de você? - Nada disso, meu caro! Eu prefiro dividir um filé com os amigos do que comer pelanca sozinho! (SARRUMOR, 1999, p. 138)

Lima identifica duas recategorizações na piada acima: a de garota sendo tomada metaforicamente como filé e a de mulher madura sendo vista, também metaforicamente, como pelanca. Mas, ao mesmo tempo, alega a autora, há ainda uma relação metonímica de parte pelo todo, pela qual duas partes da peça de carne são destacadas, de acordo com nossa cultura: o filé (de qualidade superior) e a pelanca (de pior qualidade). Leia- se, sobre isso, o comentário da autora:

Essa relação metonímica, sem dúvida, integra as duas ocorrências do

processo de recategorização que servem de gatilho para o humor na piada. É interessante perceber que a simples associação do corpo da mulher com a carne bovina, nesse caso, não surtiria efeito cômico tão imediato como o desencadeado pelo papel da metonímia na relação PARTE PELO TODO, daí a necessidade de interação entre os dois processos. Ademais, não podemos deixar de enfatizar a existência de um modelo cognitivo de

sexualidade (

...

).

Nesse modelo machista, o corpo da mulher é associado à

comida, pronto para ser “devorado” pelo homem. O filé é a carne mais

macia e saborosa, por isso mesmo associada ao frescor da juventude da mulher, enquanto que a pelanca, carne de pior qualidade, magra e engelhada, é associada à mulher madura, menos valorizada em termos de atrativos sexuais. Assim, dizer apenas que essas recategorizações são construídas com o propósito de gerar a comicidade do texto parece muito pouco. Não estamos negando ou diminuindo a relevância desse propósito comunicativo, mas, de fato, ele resulta da soma dos elementos lingüísticos e cognitivos que acabamos de descrever, embora de forma sumária. (LIMA, 2008, p.25)

Chamamos a atenção para a indispensável consideração dos elementos de natureza cognitiva e sociocultural para a interpretação dessas associações. A integração entre as associações metafórica e metonímica foi também descrita, mas dentro de uma perspectiva estilística, por Jaguaribe (2004). Dentre os exemplos analisados pela autora, transcrevemos o poema Telegrama, de Carlos Drummond de Andrade:

( ) TELEGRAMA

Emoção na cidade. Chegou telegrama para Chico Brito. Que notícia ruim, que morte ou pesadelo avança para Chico Brito no papel dobrado? Nunca ninguém recebe telegrama que não seja de má sorte. Para isso foi inventado.

Lá vem o estafeta com rosto de Parca trazendo na mão a dor de Chico Brito. Não sopra a ninguém. Compete a Chico descolar as dobras

de seu infortúnio. Telegrama telegrama telegrama Em frente à casa de Chico o voejar múrmure de negras hipóteses confabuladas. O estafeta bate à porta. Aparece Chico, varado de sofrimento prévio. Não lê imediatamente.

Carece de um copo d’água

e de uma cadeira. Pálido, crava os olhos nas letras mortais.

Queira aceitar efusivos cumprimentos passagem data natalícia espero merecer valioso apoio distinto correligionário minha reeleição deputado federal quinto distrito cordial abraço Atanágoras Falcão.

Jaguaribe (2004) analisa como o referente de telegrama é retomado por meio de anáforas indiretas que também recategorizam: “o papel dobrado”, “a dor de Chico Brito”, “as dobras de seu infortúnio” e “as letras mortais”. As relações anafóricas indiretas se configuram todas por associações ou puramente metonímicas, como em “o papel dobrado”, em que o conteúdo do telegrama é representado pelo continente, numa ligação entre suporte e gênero, ou numa mescla de metáfora e metonímia, como nas outras três expressões. Retomar o referente telegrama como “a dor de Chico Brito” é construir também uma representação metafórica do teor do telegrama, recuperado

metonimicamente como o suporte material do telegrama “trazido na mão”. De igual maneira, a mistura de metáfora e de metonímia se faz ver em “as dobras

de seu infortúnio” e “as letras mortais”. É nas duas últimas recategorizações, as dobras de seu infortúnio e (n)as letras mortais