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POÉTICAS DO LUTO, POÉTICAS DE LUTA:

PRÁTICAS ESTÉTICO-POLÍTICAS DE REXISTÊNCIA


Nina Caetano

UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto, caetano.nina@gmail.com

O presente texto trata de algumas práticas feministas que desenvolvo, notadamente as performances de rua
Espaço do Silêncio e Chorar os Filhos, pensando-as como práticas “estético-políticas de rexistência”, ou
seja, como ações em que se entrelaçam às dimensões artísticas, não somente questões de ordem ética, mas
também aquelas relacionadas à nossa presença no mundo e as possibilidades de nele inventar políticas de
rexistência. Na primeira das performances, trato do feminicídio e, na segunda, trato da perda materna e do
desejo de justiça de mães que tiveram seus filhos e filhas assassinados em operações policiais, e que não
tiveram resposta do Estado quanto ao extermínio de seus entes queridos ou à punição dos criminosos. Os
objetos resultantes de ambas as ações – na primeira, lençóis de casal contendo 365 cruzes vermelhas e
espécies de lápides e, na segunda, uma mortalha de pano branca costurada com linha vermelha e “bordada”
com frases e depoimentos das mães – são mote para conversas posteriores, em que podem emergir questões
como artivismo, políticas e poéticas da cena contemporânea, performances cidadãs e os desdobramentos
atuais do feminismo.
PALAVRAS-CHAVE: feminismo, artivismo, performatividade de gênero, performance.

Nem uma a menos Porque nenhum “mano” se fez presente


Queria ter coisas doces para escrever No dia em que um delinquente me feriu o peito
Mas preciso me decidir e me decido pela raiva Esta vai pra menina de 9 anos
Hoje 5 mulheres foram assassinadas Condenada a uma gravidez porque foi estuprada pelo irmão
E numa hora pelo menos 20 foram violadas Uma menina sem direitos porque o clero
Isto, somente em um dia na Guatemala Considera o aborto pior do que o que lhe fizeram
Multiplica-o e saberá porque estamos enojadas Me prendo aos fatos
Não vou pisar em ovos com quem não entende Não vou explicá-los com desenhos a nenhum desses machos
Que isso é uma emergência e que estamos preparadas Que creem que com sua intelectualidade nos vão educar
Não sou pacifista: não me exijam coisas que não ofereço Sentados em seus privilégios
Não pedi um pedestal nem o mereço (…) Conte direito: somos milhares pelas ruas
Sou como as outras: farta de andar com medo do México até o Chile e no planeta inteiro
Agressiva porque é a forma com que me defendo Estamos em pé de guerra porque vivas nos queremos
Não tenho privilégios que proteja este corpo não temos medo, não queremos nenhuma a menos
Na rua pensam que sou um “alvo” perfeito Podem me chamar de louca, histérica e exagerada
Mas sou negra como minha bandeira e valente mas hoje canto em meu nome e de todas as minhas irmãs
Canto em meu nome e de todas as minhas avós Não nos acusem de violentas, isso é autodefesa
Esta é pela curandeira que morreu de tantos golpes Estamos na resistência e já não somos indefesas
Porque o homem que a amava realmente a odiava (Rebeca Lane – Ni una a menos)
Pela outra que foi abandonada com um filho
E quando ficou doente tiveram que mandá-la prum hospício
Sempre que vou me apresentar, nas
Esta é para mim porque com 15 anos
Levei na cara um golpe de sua mão inúmeras conversas que tenho feito em vários

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âmbitos da vida, inicio por dizer que sou entre eles o risco constante de violência
feminista. E antes de dizer o quanto é sexual e a subalternização/desvalorização de
importante esta afirmação, reforço que nosso trabalho.
feminismo, para mim, é antes de tudo, uma Então quero, nesta conversa que se
prática. Ou um conjunto de práticas que tem inicia agora e que se dará a partir desta
como orientação básica a ideia radical de que questão principal, pensar algumas das ações
mulheres são gente. Para muitas pessoas isso que realizo e como elas podem ajudar a
pode soar como uma obviedade, mas não é. construir possibilidades de rexistência de nós
Pensar mulheres como gente é trata-las em mulheres, desses “corpos que não importam”
sua condição de sujeitos donos de vontade e (BUTLER, 2000: 151). Basta ver as
capacidade de decisão sobre si. É pensa-las estatísticas para comprovar isso: atualmente,
como seres humanos, com direitos básicos uma mulher é assassinada a cada duas horas
tais como o direito à vida. Se alguém, por no Brasil (cerca de 12 feminicídios todos os
exemplo, considera que uma mulher mereceu dias, num total de 4.473, só em 2017). Em sua
morrer porque traiu um homem, pensamento quase esmagadora totalidade, os feminicídios
bastante comum na sociedade brasileira, o que são cometidos por homens contra mulheres
está se negando é justamente a dimensão que, em sua maioria, são negras1.
humana da mulher: não somente em suas Dentre essas mulheres, Júlia, uma
falhas, mas, sobretudo, em sua potência de senhora de 80 anos, oriunda da cidade de
vida. minha mãe, no interior de Minas, que foi
Dito isso, penso ser importante a morta pelo marido de 86 anos a tiros. E
afirmação de que sou feminista porque ela Débora Souza, 20 anos, morta a facadas, em
norteia diversas coisas: a posição de onde frente à casa em que eu morava em Ouro
falarei, o modo como pretendo fazer a Preto/MG, após reagir a um assédio sexual. E
conversa, as questões que orientam minhas Fernanda, Maria do Carmo, Catarina, Ana
práticas etc. E tenho feito conversas na Paula, Luzia, Rosilda, Jandayara, Maria da
universidade, em escolas, em festas, nas ruas Conceição, cujos nomes me foram dados por
e na TV. Seja como professora, ativista, amigas ou parentes, para figurar no lençol de
performer ou DJ, a questão que me atravessa casal em que, ao longo de quase 7 horas, eu
é minha existência como mulher no mundo. E
ser mulher no mundo é conviver com variados 1
Dados do Mapa da Violência 2017, disponível pela
agência Patrícia Galvão, em:
riscos e distinções em relação ao ser homem, http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossies/femini
cidio/

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“teço” 365 lápides para mulheres interlocutoras2 para, entretecendo “o pessoal e
assassinadas, durante a realização da o político3”, mas também questões de ordem
performance de rua Espaço do Silêncio. Nesse estética, fazer um rápido preâmbulo.
trabalho, busco escutar a voz de mulheres que Em 2008, por meio do obsCENA4,
não foram ouvidas em tempo de evitar seu entrei em contato com a Marcha Mundial das
aniquilamento. Das 365 mulheres que Mulheres e com o movimento feminista, na
habitam cada lençol que “bordo” em minha pessoa de Hozana Passos. Na ocasião, a
ação, muitas denunciaram as violências que ativista aplicou uma oficina para o coletivo e
sofriam. Muitas recorreram à justiça, nos convidou – às mulheres – para
buscando proteção. Outras se calaram antes, integrarmos, com nossas ações artísticas, a
ou foram silenciadas. Suas vozes, construção da marcha daquele ano.
desinvestidas de valor e de poder. Foi meu primeiro contato com o
Parafraseando a ativista feminista feminismo como movimento organizado,
estadunidense Barbara Kruger, que, em seu embora eu fosse “feminista desde criancinha”,
famoso cartaz pró-aborto, dizia: “Seu corpo é como também afirma Lola, escritora de um
um campo de batalha” posso dizer, a partir de blog feminista5. Ela, como muitas de nós,
minha experiência como mulher e artista, que percebe desde cedo os cerceamentos que, em
é de dentro do campo de batalha – MEU nossa sociedade patriarcal, a condição de “ser
CORPO – que sai, como gesto estético, o mulher” nos coloca e a necessidade de trazer a
grito de indignação que é Espaço do Silêncio. prática feminista para o cotidiano da mulher
O grito de quem sente na carne as violências comum, a partir de sua percepção diária. Ao
decorrentes de uma performance de gênero
imposta socialmente. E que, quando não o
2
sente diretamente, se propõe a ser veículo A escolha pelo feminino aqui com lugar do
“universal” faz parte do recorte epistemológico que
para a voz de outras tantas mulheres, tenho buscado seguir: feminista e decolonial.
3
A expressão “o pessoal é político” foi cunhada pela
silenciadas por uma estrutura machista, cruel: ativista estadunidense Carol Hanish, em texto de título
homônimo (1969), no qual traz para a arena política
seja na forma de neutralização de nossa voz questões antes vistas como privadas, porque
política, seja na naturalização e romantização relacionadas ao âmbito do “feminino”, tais como os
direitos reprodutivos ou a divisão sexual do trabalho,
de relações que violam ou aniquilam os bem como os modos organizacionais dos grupos de
mulheres.
nossos corpos. Mas, antes de discutir Espaço 4
obsCENA – agrupamento independente de pesquisa
cênica que integro desde 2007. Atualmente, é
do Silêncio, peço licença às minhas leitoras- composto pelos artistas-pesquisadores Clóvis
Domingos, Matheus Silva, Frederico Caiafa e
Lissandra Guimarães, além de mim.
5
http://escrevalolaescreva.blogspot.com/

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pensar o pessoal como político, o feminismo, foi desde o encontro com Hozana Passos que
segundo Carole Pateman: o entrelaçamento entre arte e ativismo que
perpassa minhas pesquisas e meu agir no
(...) chamou a atenção das mulheres mundo se intensificou, alimentando e dando
sobre a maneira como somos levadas a
contemplar a vida social em termos forma a inquietações que eu já carregava,
pessoais, como se tratasse de uma
questão de capacidade ou de sorte trazendo “desconforto fresco para um
individual [...] As feministas fizeram
finca-pé em mostrar como as problema antigo”, na feliz expressão utilizada
circunstâncias pessoais estão estruturadas pela performer e pesquisadora Eleonora
por fatores públicos, por leis sobre a
violação e o aborto, pelo status de Fabião, ao tratar do trabalho do artista
“esposa”, por políticas relativas ao
cuidado das crianças (...) e pela divisão William Pope.L (POPE.L citado por
sexual do trabalho no lar e fora dele.
Portanto, os problemas “pessoais” só FABIÃO, 2013: 03).
podem ser resolvidos através dos meios e
das ações políticas (PATEMAN apud
Em 2008, junto à atriz Lissandra
COSTA, 2005: 11). Guimarães – também integrante do obsCENA
– comecei a experimentar ações no ambiente
Eu, quando criança, questionava, entre
urbano, em que eu investigava uma escrita
outras coisas, as diferenças de tratamento
performada, ou seja, “a escrita produzida no
entre mim e meus irmãos, em função do
fluxo da ação performativa e em relação com
machismo de meu pai: ensiná-los a dirigir
o espaço da cidade”6. Surgiu a intervenção
(mas não a mim e a minha irmã), me castigar
urbana Mulheres Mortas e, em seguida, Baby
fisicamente por “brincar de médico” com o
Dolls, uma exposição de bonecas, que
meu primo (que nada sofreu), bem como o
integrava ao trabalho desenvolvido por mim e
controle sobre o meu corpo na adolescência
por Lissandra, as pesquisas de Erica Vilhena e
(proibição do uso de maquiagem e de certas
Joyce Malta.
roupas, restrição da sexualidade etc.). Além
disso, havia a violência doméstica: me
Três tapetes. Três nichos de exposição.
lembro, ainda muito pequena, de ouvir meu Três bonecas – monumentos animados
das mulheres objetos – convidam os
pai espancar minha mãe, “sem que ninguém transeuntes a brincar. Mulheres
princesas, mulheres noivas, mulheres
metesse a colher”, como assinala trecho do dóceis. Mulheres mudas. Mas não se
texto-manifesto que utilizo em Espaço do engane. Logo, essas bonecas serão
mulheres mortas, marcadas a giz no chão
Silêncio. (CAETANO, 2011: 167).

Embora questões de gênero já


aparecessem nas experimentações que
realizávamos desde a gênese do obsCENA, 6
CAETANO, 2011: 168.

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Em Baby Dolls, as performers realizado na universidade. Em 2013, então,
compunham ações a partir de estereótipos do fundei o NINFEIAS - Núcleo de
feminino – concretizados nas “bonecas” que INvestigações FEminIstAS que tem, como
cada uma performava - e eu experimentava a eixo de pesquisa em rede colaborativa, a
composição de escritas instantâneas a partir performance e o feminismo.
da colagem, muitas vezes irônica, de notícias Com forte caráter extensionista, o
de jornal, produções ficcionais, classificados núcleo – composto por estudantes da UFOP
de garotas de programa, anúncios de clínicas (em sua maioria das artes cênicas) e por
de estética e estatísticas de violência. mulheres da comunidade ouro-pretana – tem
Baby Dolls percorreu vários festivais realizado diversas ações, tais como mostras
no Brasil, entre 2009 e 2011, e com ela artísticas, oficinas7, cines-debates, atos
pudemos fortalecer não somente a pesquisa públicos com pautas feministas urgentes
realizada pelo coletivo em torno de (contra o estatuto do nascituro, denúncia de
performances urbanas, mas também a nossa abusos sexuais ocorridos nas repúblicas
investigação em torno das relações entre estudantis, apoio à criação de delegacia das
performance/artivismo/feminismo, pois mulheres na região etc.) e rodas de conversa.
realizávamos, muitas vezes, oficinas As rodas são bastante produtivas e
exclusivamente para mulheres nos lugares trazem temas diversos, dependendo do
para onde íamos, como foi o caso do Festival público com que estamos falando: estudantes
Recife do Teatro Nacional (2009) e do da universidade, adolescentes da comunidade,
Festival do Teatro Brasileiro: Cena Mineira professoras da rede pública ou grupos de
(2011), no qual realizamos workshops com apoio exclusivamente femininos. Também são
mulheres encarceradas, em Curitiba/PR e em várias as dinâmicas com as quais trabalhamos,
Porto Alegre/RS. Esses workshops geraram desde jogos até exibição de curtas e o uso de
não somente espaços de experimentação para questionários rápidos, para suscitar questões.
nós, mas também espaços relacionais para as Cito como exemplo uma das últimas
mulheres participantes. rodas de conversa realizadas por mim, junto
Em 2011, retornei à Universidade ao Fórum Intersetorial de Defesa dos Direitos
Federal de Ouro Preto (UFOP), após concluir
meu doutorado, e senti falta de aliar as
7
As oficinas abarcam desde aquelas de Igualdade de
investigações e pesquisas que eu vinha Gênero, realizadas em escolas da rede municipal, até
workshops dirigidos exclusivamente para mulheres da
desenvolvendo junto ao obsCENA ao trabalho comunidade, atendidas pelo CRAS – Centro de
Referência da Assistência Social.

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da Infância e Juventude8, a partir da exibição “multiplicidade de vozes”, quebrando com “o
do documentário Mask you live in e na qual discurso autorizado e único que se pretende
tratamos do tema Masculinidades tóxicas e universal”, e desestabilizando a norma e a
relações abusivas. Com uma dinâmica de autorização discursiva, de modo a “romper
mão dupla, em que a palavra pode circular de com o silêncio instituído para quem foi
maneira mais horizontal, foi possível o [sempre] subalternizado”9.
exercício não somente da fala, mas também Sei que quando Djamila Ribeiro
da escuta. Isso permitiu com que adolescentes discute o termo lugar de fala, ela pensa num
do sexo masculino repensassem recorte específico: ao tratar do silenciamento
comportamentos sociais naturalizados por imposto ao povo negro, ela critica também o
eles, ao serem confrontados, em sua visão, apagamento que, em certa medida, o
por questões colocadas pelas adolescentes feminismo branco tem insistentemente
presentes. E é justamente o espaço de escuta produzido em relação às relevantes
que tem me interessado praticar nas ações contribuições teóricas de pensadoras negras.
feministas, pois “em todo dizer (e quero dizer, Mas, para a presente reflexão, quero
em todo discurso, em toda cadeia de sentido) aproximar o termo de modo a pensar os
há um escutar, e no próprio escutar, em seu processos de subalternização enfrentados pela
fundo, uma escuta; o que quer dizer: é mulher – e aqui estou incluindo mulheres
porventura necessário que o sentido não se brancas e não brancas – na misógina
restrinja a fazer sentido (ou de ser logos), mas sociedade patriarcal em que vivemos e
que além disso ressoe” (NANCY, 2013: 163). também para pensar as práticas que buscam
Ressonância! De modo que a fala ecoe romper o silêncio, “e cujas premissas giram
e possa produzir ruído e estranhamento, mas em torno de visibilizar as subjetividades das
também sentido, música e atravessamentos. mulheres e suas questões, investidas na
No entanto, tratar da escuta é também pensar construção de poéticas cênicas e
em processos históricos de silenciamento e na engajamentos como forma de construção de
necessidade de construir discursos contra um mundo melhor para ‘todxs’” (FISCHER,
hegemônicos, que possam promover uma 2017, p.13).
Em 2013, dei início às primeiras
8
Encontro realizado periodicamente pela Secretaria de experimentações em torno do que viria a ser
Desenvolvimento Social e Cidadania da Prefeitura de
Mariana, cidade vizinha a Ouro Preto, e que visa Espaço do Silêncio, performance de rua
colocar em pauta questões que atingem diretamente a
juventude local, por meio de “palestras” ministradas
9
por profissionais diversos. RIBEIRO, 2017: 75-90.

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inspirada em um dos 30 espaços-gestos que sobre um quadrado de pano branco,
compõem IdeiaSituação, proposta do artista oferecendo à leitura dos passantes o manifesto
visual luso-brasileiro Artur Barrio para a 11ª indígena, passei a experimentar uma
Documenta, importante exposição realizada circularidade na ação, com dois principais
em Kassel-Alemanha, em 200210. Embora eixos: com a cruz vermelha cerrando minha
Espaço do Silêncio tenha tido como motor de boca, ofereço à leitura dos passantes o meu
experimentação uma carta-manifesto dos próprio manifesto para, depois, retirando-a,
índios guarani-kaiowá11, rapidamente ela se dar início a uma sequência de cruzes
configurou a partir de um mote que, em meu vermelhas no lençol branco de casal, cruzes
corpo, gritava urgência: o violento extermínio que ganham, em seguida, uma etiqueta
diário sofrido por mulheres no Brasil. contendo o nome de uma mulher, sua idade e
profissão – quando possível – além da
Configurando-se como um possível localidade, ano e modo (em geral bastante
campo para a nítida colocação/tomada de
posição de corpos políticos marcados violento e cruel) com que foi assassinada,
pela diferença – o corpo do negro, da
mulher, do transgênero, do gordo, do bem como a relação que o feminicida
amputado e tantos, tantos outros corpos
possíveis! – a performance vem
mantinha com ela (deste, só forneço idade e
afirmando sua vocação contestatória, profissão).
possibilitando a construção de espaços de
resistência, seja na constituição de um Espaço do Silêncio é uma performance
corpo coletivo ou na individuação das
marcas de opressão no corpo, que em processo constante de elaboração: muitos
performa seu discurso e inscreve seu
gesto no espaço, ou melhor, inscreve dos elementos citados foram incorporados ao
com o corpo seu gesto político no espaço
(CAETANO: 2015).
longo do tempo – como é o caso das etiquetas
– e outros vem sendo repensados,
Da ação inicial, em que eu me sentava, rearticulados, a partir do amadurecimento de
hierática e vermelha, em uma cadeira rubra minhas questões no contato com a rua e com
transeuntes. É o caso do texto-manifesto, que
10
A proposta está disponível no dossiê Artur Barrio:
Textos, manifestos e um "texto mais recente", ganha contornos específicos12 em cada cidade
publicado pela revista Visuais, do Programa de Pós-
Graduação em Artes Visuais da UNICAMP:
na qual realizo a ação, bem como a definição
https://www.publionline.iar.unicamp.br/index.php/visu de um programa performativo desafiante que
ais/article/download/547/pdf
11
Em 2013, diante da ameaça dos ruralistas e da perda parte de uma missão: fixar no lençol 365
de seus territórios, cerca de 50 indígenas da etnia
guarani-kaiowá lançaram uma carta pública, em que lápides, uma para cada dia do ano em que
diziam que só sairiam de suas terras mortos. A carta, na
ocasião, foi entendida por muitos como uma declaração mulheres são brutalmente exterminadas neste
de suicídio coletivo e grupos de apoio começaram a
12
mobilizar manifestações em todo o país. Na mídia A versão mais atual do manifesto segue inteira ao
tradicional, no entanto, a repercussão era mínima. fim deste texto-conversa.

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país. A noção de programa performativo eu Evidentemente, isso também alterou o
busco de Eleonora Fabião (2013:04): ritmo de seu oferecimento, pois levo cerca de
três meses – em meio a todas as atividades
Programa é motor de experimentação que exerço - para fazer tal levantamento. A
porque a prática do programa cria corpo
e relações entre corpos; deflagra pesquisa traz, ainda, uma proximidade com as
negociações de pertencimento; ativa
circulações afetivas impensáveis antes da histórias dos feminicídios, pois as recolho
formulação e execução do programa.
Programa é motor de experimentação ainda vívidas. Muitas pessoas reconhecem
psicofísica e política (...). Programas são nomes nos lençóis, lembram histórias
iniciativas.
repercutidas na mídia, se espantam com a
Assumir essa missão trouxe alterações crueldade dos crimes. Outras reconhecem, em
significativas à performance. Anteriormente, seu próprio cotidiano, histórias semelhantes,
eu mantinha um arquivo mais ou menos fixo vividas por parentes ou amigas. Algumas tem
de nomes a serem utilizados nas etiquetas encontrado, em minha ação, um espaço de
(ainda que, com o passar do tempo, outros memória e, por que não? De reparação do
fossem acrescidos), pois, depois de cada crime cometido contra seus entes queridos,
realização, o lençol era desfeito para, tal qual crime que, muitas vezes, nem sequer é
Penélope, tecê-lo novamente. Com a decisão reconhecido como feminicídio, seja pela
de colocar 365 lápides, a duração da ação justiça ou pela mídia. Como lembra Judith
saltou de quase duas horas para, no mínimo, Butler (2015: 66), “o luto público está
06 horas de trabalho extenuante, o que deu inteiramente relacionado à indignação, e a
novo valor aos lençóis, frutos do meu labor. indignação diante da injustiça, ou, na verdade,
Decidi, então, mantê-los, fato que gerou a de uma perda irreparável” e aí reside, segundo
exigência de fazer, para cada realização da ela, seu “enorme potencial político”.
ação, o levantamento de 365 novos13 nomes Em 29 de julho de 2016, fui procurada
de mulheres – que são pesquisados, com as via Messenger por Rosy Souza. Ela me disse
demais informações, em matérias de jornais que havia visto, em compartilhamentos do
diários e sites feministas. facebook, materiais sobre a performance.

13
Nesses materiais, o nome de sua tia, Osailda,
Na verdade, acabam sendo um pouco menos, pois eu
mantenho cerca de 15 nomes mais ou menos fixos, e de 45 anos, assassinada por envenenamento
que se relacionam tanto com nomes que me foram
“dados” como de crimes que eu considero importantes pelo marido, em Dom Expedito Lopes, Piauí.
de serem recordados (muitas vezes, porque seus
autores não forma punidos), como é o caso da travesti Rosy me disse que ela havia visto o nome da
Dandara que, brutalmente espancada em Fortaleza/CE,
teve sua morte registrada em vídeo e divulgada em
tia e resolvido me procurar. Rosy quer justiça,
redes sociais.

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ela luta para que o crime, ocorrido em família tenha comprovado que ela foi morta
fevereiro de 2015, seja julgado como tal e o com 02 tiros nas costas.
feminicida – que permanece em liberdade – Em maio de 2017, minha instrutora de
seja punido. Ela luta para que o crime não seja Pilates, ao saber que eu iria realizar a ação em
esquecido e para que a memória de sua tia não Salvador, na programação do URBARTE – I
seja apagada. Encontro de Arte, Cidade e Teatro, pediu que
Em 03 de setembro de 2016, fui eu incluísse em meu lençol o nome de uma
novamente procurada via Messenger. Agora, antiga professora dela, Catarina, que, dois
por uma atriz e amiga que havia meses antes, havia sido assassinada na capital
acompanhado, no final de 2015, a mesa de baiana pelo marido, um subtenente da Polícia
debates Feminicídio: o corpo da artista e a Militar, que além de matá-la, matou também o
fabricação do corpo feminino, da qual filho e, em seguida, se matou.
participei na II Bienal Internacional de Teatro Em julho de 2017, em Salvador,
da USP. Na ocasião, mencionei Espaço do realizei novamente Espaço do Silêncio. Desta
Silêncio e Vanessa, a minha amiga atriz, vez, em Alagados, periferia da cidade. Ao
tendo vivido recentemente uma perda, final da ação, um homem trans, Dido, fez
lembrou-se de mim: no final de julho, questão de, da cruz da minha boca, construir
Fernanda, a irmã de uma grande amiga dela, um espaço em meu lençol para figurar o nome
foi assassinada pelo ex-marido e o desejo de de sua mãe, Maria da Conceição, que morreu
Vanessa era que eu fizesse minha ação vítima de um longo processo de depressão e
também em memória dela. auto-destruição, após ter sido
Então, em 07 de setembro daquele sistematicamente espancada por todos os
ano, realizei na Praça 7 em Belo Horizonte, companheiros com quem viveu.
junto ao Grito dos Excluídos, a performance Esses recentes acontecimentos têm me
em memória de Fernanda. Nesse dia, durante mostrado que Espaço do Silêncio não é só um
a realização da ação, uma mulher quis falar gesto meu de denúncia e indignação. É
comigo: Rita queria me dar o nome da irmã, também espaço de memória para outras
para que ele também figurasse em meu lençol. mulheres, um grito que ecoa, que repercute
A irmã, Maria do Carmo, foi assassinada pelo em outros corpos. Desse modo, apostando “na
marido há mais de 30 anos e ele nunca foi capacidade relacional e no efeito de
sequer indiciado: o crime foi considerado convocação” da prática realizada na rua,
suicídio, embora um laudo solicitado pela penso que meu “propósito não é produzir

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objetos para serem contemplados, mas “liminares”, pois elas se localizam entre a
envolver pessoas, levando-as além da criação artística e o gesto ético, construindo
condição de espectadores”, de modo a
uma zona onde a arte se vislumbra como
sublinhar, como afirma Caballero (2011:
transparência do real, como irrupção de
154), “a dupla relação – respondência e um estado de coisas que revela o sinistro
cotidiano e onde o obsceno funciona por
responsabilidade – que reside nos processos transbordamento, pela incidência do real
contextual – inclusive, a partir do não
intersubjetivos”. dito – na evocação de uma memória de
violência (CABALLERO, 2011, p.111).
Para o pesquisador Clóvis Domingos
dos Santos, em diálogo com Florez (2014, p. Embora eu não tenha exatamente o
13), Espaço do Silêncio se configura como interesse de produzir “objetos a serem
uma “poética do luto”, em que é possível contemplados”, o fato é que a realização da
perceber a existência de três dinâmicas: “a ação culmina, atualmente, na produção de
apropriação do espaço urbano através da uma materialidade bastante interessante: os
produção de um mecanismo crítico, a lençóis. Frutos das performances realizadas
singularização das vítimas ao evocar suas em Ouro Preto, Salvador, Florianópolis e
memórias e finalmente, a representação do Curitiba, eles são, até agora, quatro e
esquecimento e banalização da violência na carregam uma plasticidade forte, em que o
sociedade contemporânea” (SANTOS, 2017: “excesso” de cruzes demarca a enormidade
166). dessa carnificina diária, “não como ação de
Ao oferecer minha presença vitimização auto-contemplativa, mas como
performática aos passantes, como salienta ação que torna visível as feridas sociais”
Santos, busco me colocar no espaço público (CABALLERO, 2011, p.104).
como artista e como cidadã que, “exposta, ao
intervir nos espaços”, corre “o risco de
transitar entre as pessoas, assumindo os Assim, funcionando como pré-texto, a
imprevistos e as consequências de suas exposição dos lençóis demarca um espaço
intervenções”, de modo que a performance possível para a discussão de temas latentes à
acaba operando com uma “espécie de performance Espaço do Silêncio, no que diz
‘dramaturgia’ ou partitura inicial aberta às respeito tanto aos procedimentos estéticos,
14
modificações do trabalho in situ” . Como quanto, fundamentalmente, no que concerne
afirma Santos, ações como essa são às questões ético-políticas que a prática
suscita. Podemos, na esteira de Santos (2018:
14
CABALLERO, 2011, p. 77-78.

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173), pensar os lençóis como “mantos- CAETANO, Nina. Tecido de vozes: texturas
corpos” ou como “corpos-poemas”: polifônicas na cena contemporânea mineira.
Tese de doutorado, Programa de Pós-

oriundos de cenários de subjugação Graduação em Artes Cênicas da Escola de


extrema, são o testemunho de vidas Comunicação e Artes. São Paulo: USP, 2011.
obstinadas, vulneráveis, esmagadas,
donas e não donas de si próprias, COSTA, Ana Alice Alcântara. O movimento
despojadas, enfurecidas e perspicazes.
Como uma rede de comoções transitivas, feminista no Brasil: Dinâmicas de uma
os poemas – na sua criação e na sua intervenção política. Revista Gênero: Niterói,
disseminação – são atos críticos de
resistência, interpretações insurgentes, v. 5, n. 2, pp. 9-35, 2005.
atos incendiários que, de algum modo e
inacreditavelmente, vivem através da
FABIÃO, Eleonora. Programa Performativo: O
violência à qual se opõem, mesmo que Corpo-Em-Experiência. In: Ilinx – Revista do
ainda não saibamos em que
circunstâncias essas vidas sobreviverão Lume: Campinas, n. 4, 2013.
(BUTLER, 2015, p.96-97).
FISCHER, Stela Regina. Mulheres,
Performance e Ativismo: a ressignificação
Desse modo, realizar Espaço do Silêncio nas
ruas das cidades tem possibilitado a mim dos discursos feministas na cena latino-
realizar conversas, seja diretamente, nas americana. Tese de Doutorado. Programa de
interpelações que a prática suscita, seja nos Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de
desdobramentos possíveis que a ação gera.
Comunicação e Artes. São Paulo: USP, 2017.
NANCY, Jean-Luc. À escuta (parte I). Outra
Referências travessia: revista de literatura do PPGL-UFSC,
BUTLER, Judith. Quadros de guerra: Quando a n. 15, pp. 157-172, 2013.
vida é passível de luto. Rio de Janeiro: RIBEIRO, Djamila. O que é Lugar de Fala.
Civilização Brasileira, 2015. Coleção Feminismos Plurais. Belo Horizonte:
BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os Letramento; Justificando, 2017.
limites discursivos do sexo. IN: LOURO, SANTOS, Clóvis Domingos. Rua dos
Guacira Lopes (org.). O corpo educado: Encontros: liminaridade, memória, festa e
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Ed. Autêntica, 2000. obsCENA (Belo Horizonte). Tese de
CABALLERO, Ileana Diéguez. Cenários doutorado, Programa de Pós-Graduação em
Liminares: teatralidades, performances e Artes. Belo Horizonte: UFMG, 2018.
política. Uberlândia: EDUFU, 2011.
CAETANO, Nina. Corpos Estranhos, Espaços www.agenciapatriciagalvao.org.br
de Resistência. Revista Marimbondo (Teatro).
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Belo Horizonte: Canal C, 2015.
www.ninfeias-feministas.blogspot.com
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