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unidade I

áfrica
MEIO AMBIENTE, ANTIGOS ESTADOS POLÍTICOS
E REFERÊNCIAS TERRITORIAIS DA DIÁSPORA

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MEIO AMBIENTE, ANTIGOS ESTADOS POLÍTICOS E
REFERÊNCIAS TERRITORIAIS DA DIÁSPORA
Rafael Sanzio Araújo dos Anjos

Ao final dos estudos desta unidade, você terá subsídios para trabalhar com
os seguintes conteúdos em sala de aula:
• A importância da geografia e do território na investigação das
complexidades da sociedade.
• As grandes unidades ambientais do continente africano.
• A dinâmica geográfica secular do tráfico de povos africanos para a
América.
• As principais organizações políticas e Estados da África até o século XIX.
• Algumas referências territoriais de origem do tráfico na África para o
Brasil.

1. A geografia e o território étnico


Num país como o Brasil, plurirracial, multicultural e continental, a terra, o
terreiro, o território e a territorialidade assumem grande importância dentro
da temática da pluralidade cultural, no seu processo de ensino, planejamento
e gestão, principalmente no que diz respeito às características territoriais dos
diferentes grupos étnicos que convivem no espaço nacional. Preconizamos
que é possível apontar as espacialidades das desigualdades socioeconômicas e
excludentes que permeiam a sociedade brasileira, ou seja, um contato com um
Brasil de matriz territorial complexa, multifacetada e cuja população não está
devidamente conhecida, valorizada e nem incluída.
Podemos apontar a matriz africana presente no país como a principal
referência cultural e étnica da formação do nosso povo mestiço. A incorporação
verdadeira, o respeito e o espaço da cultura africana no Brasil, continua
sendo uma das questões estruturais do país que ainda merece investigação,
conhecimento e ação, ou seja, alcançar o direito efetivo de uma participação Destacados entre esses
plena na vida nacional. levantamentos estão
as descobertas da família
Nesse sentido, as demandas para compreensão das complexidades da Leakey na África oriental.
dinâmica da nossa sociedade são grandes e existem poucas disciplinas mais
bem colocadas do que a geografia para auxiliar na representação e interpretação
das inúmeras indagações desse momento histórico.
A geografia é a ciência do território e este componente fundamental, a
terra, ou o terreiro num sentido amplo, continua sendo o melhor instrumento
de observação do que aconteceu, porque apresenta as marcas da historicidade
espacial; do que está acontecendo, isto é, tem registrado os agentes que atuam
na configuração geográfica atual e o que pode acontecer, ou seja, é possível
capturar as linhas de forças da dinâmica territorial e apontar as possibilidades
da estrutura do espaço no futuro próximo. 53
Não podemos perder de vista que é a geografia que tem o compromisso
de tornar o mundo e suas dinâmicas compreensíveis para a sociedade, de dar
explicações para as transformações territoriais e de apontar soluções para
uma melhor organização do espaço. A geografia é, portanto, uma disciplina
fundamental na formação da cidadania do povo brasileiro, que apresenta uma
heterogeneidade singular na sua composição étnica, socioeconômica e na
distribuição espacial.
O território é na sua essência um fato físico, político, social, categorizável,
possível de dimensionamento, onde geralmente o Estado está presente e estão
gravadas as referências culturais e simbólicas da população. Dessa forma, o
território étnico seria o espaço construído, materializado a partir das referências
de identidade e pertencimento territorial e, geralmente, a sua população tem
um traço de origem comum. As demandas históricas e os conflitos com o
sistema dominante têm imprimido a esse tipo de estrutura espacial exigências
de organização e a instituição de uma auto-afirmação política, social, econômica
e territoral.
São várias as questões estruturais relacionadas à cultura africana que
continuam merecendo investigação, conhecimento e intervenção. Um dos
pontos básicos está relacionado à desmistificação do continente africano,
sobretudo nos seus aspectos geográficos e suas relações com a formação do
território brasileiro, que assume uma posição de destaque na conjuntura atual,
quando demandas significativas da sociedade, principalmente educacionais e
empresariais, solicitam esse conhecimento.
Nessa direção, configura-se uma necessidade de recuperação e construção
de um perfil do continente africano de forma mais adequada. Um primeiro ponto
de partida é o estabelecimento e reconhecimento de outras perspectivas para
a compreensão do tráfico, da escravidão, da diáspora e da tecnologia africana
como elementos formadores e estruturadores da configuração do mundo
contemporâneo. Uma introdução a essas questões estruturais é apresentada
nos tópicos a seguir.

2. O continente africano e o meio ambiente


O território africano, componente fundamental para uma compreensão
mais apurada das questões que envolvem o papel da população de ascendência
africana na sociedade brasileira, não pode deixar de ser entendido como um
espaço produzido pelas relações sociais ao longo da sua evolução histórica,
suas desigualdades, contradições e apropriação que esta e outras sociedades
fizeram, e ainda fazem dos recursos da natureza.
Os povos europeus e seu processo de dominação e exploração do
continente acabaram por fixar uma imagem hostil dos trópicos, cheios de forças
naturais adversas ao colonizador e ocupadas por homens ditos indolentes. Essa
imagem que foi sendo ampliada não considerava os processos históricos como
fatores modeladores da organização social, mesmo diante dos elementos da
natureza. Nesse contexto, não é de causar espanto o lugar insignificante e
secundário que foi dedicado à geografia africana em todas as interpretações e
representações da humanidade.
A notável originalidade da sucessão atual de faixas climáticas e da cobertura
54 vegetal, ordenada de forma quase paralela ao Equador, sofre influência decisiva
da pluviosidade. Em ambos os hemisférios, os regimes das chuvas diminuem,
progressivamente, em direção às altas latitudes. Por possuir a maior parte do
território na zona intertropical (75%), ou seja, entre os trópicos de Câncer, ao
norte e o de Capricórnio, ao sul, a África é o continente mais uniformemente
quente do planeta. Esse calor faz-se acompanhar de seca, crescente em direção
aos trópicos, ou de umidade, geralmente mais elevada nas baixas latitudes.
Observe no Mapa 1 os grandes padrões de vegetação desse continente,
destacando os espaços desérticos no norte e no sul, as áreas com climas
modificados pelas montanhas, os planaltos, assim como os territórios de floresta
equatorial e savana ocupados por extensas bacias hidrográficas.

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À medida que nos afastamos do Equador, o clima continua úmido, mas as
temperaturas médias diminuem e a amplitude térmica aumenta, caracterizando
um clima tropical. Este ambiente de floresta tropical constitui o espaço de maior
devastação secular, principalmente pelas espécies de valor econômico, como o
ébano e o mogno africano.
Nas ocorrências de clima tropical continental ou semi-úmido, marcado por
duas estações bem definidas (uma seca no inverno e outra chuvosa no verão),
ocorre o domínio das savanas, que ocupam as maiores extensões na África.
Nestes mosaicos de cobertura vegetal está o habitat dos animais de grande
porte, como elefantes, girafas e rinocerontes. À medida que a latitude aumenta,
a umidade do ar e as chuvas ficam mais escassas, a ponto do clima tornar-se
semi-árido. Já a savana cede lugar às extensões de estepes, uma vegetação
rasteira formada por gramíneas e tufos de ervas, que margeiam o deserto. Na
transição do Saara para o ambiente tropical ao sul, esta faixa alongada que se
estende de oeste a leste, da Mauritânia à Etiópia, é chamada de Sahel (zona da
margem do deserto). Esta é a região da fronteira do mundo mulçumano, palco
de uma extensão de conflitos étnicos e religiosos e, conseqüentemente,de
guerras civis e tragédias.
Nas extensões continentais onde vão se instalar as altas pressões ou
anticiclones subtropicais vão ocorrer os grandes desertos da África. Dessa forma,
um terço do espaço africano é constituído por regiões áridas, marcadas pela
escassez e irregularidade da pluviosidade, e também pela baixíssima umidade
do ar e grande variação diária da temperatura.
Com aproximadamente nove milhões de quilômetros quadrados, o
deserto de Saara, no norte da África, vai se estender do oceano Atlântico ao
Mar Vermelho, com variações significativas no seu quadro natural, como por
exemplo: imensos campos de dunas (ergs), afloramentos e grandes planaltos
rochosos. A riqueza do seu subsolo, com grandes reservas de fosfato, gás
natural, ferro e petróleo, é o fio condutor nas explorações industriais (instalação
de refinarias, oleodutos e plataformas de exploração). É importante lembrar as
denominações regionalizadas do grande deserto, como: a Líbia, a Núbia (entre
o Egito e o Sudão), o Tenerê (no Níger), entre outras.
No espaço africano meridional, a aridez subtropical se revela em duas
extensões desérticas. A primeira delas é o deserto do Kalahari, caracterizado
por solos pedregosos de aproveitamento agrícola restrito, mas que possuem
um subsolo rico em minerais, como chumbo, cobre, urânio, e sobretudo,
diamantes. A segunda extensão é o deserto da Namíbia, localizado na faixa
litorânea. A sua formação é decorrente da transformação dos ventos úmidos
de oeste que, ao passarem pelas águas frias da corrente marítima de Benguela,
perdem a sua umidade e chegam quase secos nesta costa atlântica.
No território africano vão predominar os grandes planaltos, com altitude
média de 700 metros, com destaque para:
• os da Etiópia;
• os dos Grandes Lagos;
• os situados no maciço Abamaouá, que ocupa o território dos Camarões e
se estende até a Guiné, no lado Ocidental.
Entretanto, algumas cadeias de montanhas são relevantes como a do Atlas,
56 localizada no noroeste africano e de formação relativamente recente e a do
Drakensberg, situada no extremo sul e constituída por dobramentos antigos.
Os grandes dobramentos responsáveis pela formação das atuais cadeias
de montanhas, os maciços de rochas antigas, foram alterados pelas grandes
pressões. Devido a esse processo físico-químico, as rochas da parte leste da
África foram fraturadas, de maneira que alguns blocos se levantaram e outros
afundaram. As altas montanhas e planaltos foram originados a partir dos blocos
elevados e as fossas tectônicas surgiram dos que afundaram. Grandes lagos
como o Vitória, o Tanganica e o Malavi (antigo Niassa) se formaram sobre essas
fossas tectônicas.
Retorne ao mapa 1. Veja que ele mostra também a distribuição dos recursos
minerais e energéticos, informação básica para compreendermos a cobiça
pela dominação territorial que se processou, de forma secular, no continente
africano.
A expressão geográfica da riqueza mineral da África é um dos fios
condutores básicos para a compreensão do interesse e da exploração mais
intensa que ocorreu em algumas partes do continente e, também, em função
da sua importância em determinados momentos históricos. É relevante
destacar a concentração dos recursos minerais nos extremos sul e norte da
África, assim como na sua área central, que constituem os espaços cuja disputa
pela dominação ocorrem de forma bem evidente.
Por possuir esse extraordinário patrimônio mineral ,secularmente explorado,
a África poderia ser o continente mais rico do planeta.
Com uma área de 30.227.467 km², o continente africano é o terceiro do
mundo em extensão territorial. Está banhado ao norte pelo Mar Mediterrâneo,
ao sul pela junção dos oceanos Índico e Atlântico, a leste pelo Mar Vermelho
e o oceano Índico e a oeste pelo oceano Atlântico. Dessa maneira, a África
encontra-se protegida por dois oceanos, um imenso deserto e um litoral não
muito hospitaleiro, fatos geográficos que possibilitaram a sua permanência,
durante séculos, fora das rotas comerciais.
O isolamento nunca foi completo, o oceano Índico favoreceu o contato
entre a África central e o sul da Ásia, assim como o extremo norte da África
sentiu as influências do mundo mediterrâneo. A desertificação do Saara não
impediu, de modo absoluto, a comunicação entre o Mediterrâneo e a África
tropical. Esse deserto atuou como uma espécie de filtro natural, limitando a
penetração de influências do mundo europeu.
Árabes, indianos, chineses e outros povos orientais há muito mantinham
relações comerciais e miscigenavam-se com os povos africanos. No entanto, as
estruturas sociais mesclaram-se sem provocar rupturas violentas nas sociedades
africanas. Já os povos europeus hostilizaram a imagem dos trópicos, até o ponto
de firmarem teorias errôneas de que as realizações humanas são limitadas pelo
clima tropical.

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3. A Europa,a diáspora africana e os antigos Estados políticos
O período das grandes navegações e dos “descobrimentos” coincide com
o início do Renascimento, no qual a atividade mercantil vai abrir caminho para
a Revolução Industrial e para o Capitalismo. Este período da humanidade é
caracterizado por uma nova fase das relações entre os povos e entre estes e
a natureza. Em nenhum momento da história dos seres humanos tinha sido
necessária uma acumulação tão rápida de riquezas para a emergência de uma
nova classe e desenvolvimento de um novo sistema econômico e social.
A Europa, com seu território de dimensões reduzidas, pobreza mineral
e uma população insuficiente para ocupar e produzir nas “novas terras
descobertas”, nas quais os europeus haviam chegado nos séculos XV e XVI, vai
encontrar nessas mesmas terras os fatores de produção que lhe são escassos.
A exploração dos recursos naturais, por mão-de-obra escrava, principalmente a
extração dos minerais preciosos da América e da África, impulsionou o comércio
a longa distância e fortaleceu o poder central do Estado, passando a ser a base
do capitalismo comercial e financeiro na Europa e além dela.
O processo crescente de troca e comercialização de mercadorias na
Europa, (o mercantilismo europeu), entretanto, tinha pressa. Essa pressa não
permitia um relacionamento harmônico com as novas sociedades com as quais
entrava em contato. À medida que os povos europeus visavam tirar do meio
tropical tudo aquilo que pudessem oferecer ao seu mercado, delineava-se uma
missão civilizadora que desde então tratou de hostilizar a imagem dos trópicos,
chegando a elaborar teorias que afirmavam que as realizações humanas seriam
limitadas pelo clima tropical. Tais teorias desconsideravam os processos e as
forças históricas como fatores estruturadores do comportamento humano,
mesmo diante das influências dos elementos da natureza.
Não era somente a terra e suas riquezas que interessavam aos povos
europeus, mas também os seres humanos; os colonizadores precisavam de
mão-de-obra para realizar o cultivo e a exploração das minas.
A barreira das condições ambientais e a resistência dos povos africanos
à desestruturação de suas sociedades impuseram gradientes no território
atingido pela retirada de povos para serem escravizados. O tráfico de escravos
da África para a América foi, durante quase quatro séculos, uma das maiores
e mais rentáveis atividades para os negociantes europeus, a ponto de tornar
impossível a contagem precisa do número de africanos retirados de seu habitat,
com sua bagagem cultural, para serem, injustamente, incorporados às tarefas
básicas para formação de uma nova realidade.
Lutas sangrentas, violência, morte, crueldade, situações completamente
novas de deslocamentos e adaptações, tudo isso concorreu para os efeitos
multiplicadores do grande negócio que foi o tráfico de escravos. Do continente
europeu chegavam produtos alimentícios, como: azeite, queijos, vinhos, farinha
de trigo,bacalhau e produtos manufaturados, como ferramentas e tecidos. Do
Brasil e de outras regiões da América exportava-se couro, tabaco, madeiras,
farinha de mandioca, aguardente, derivados de baleia, açúcar e também
diamantes e ouro. Do Oriente vinham as louças, os tecidos, os móveis e outros
produtos (especiarias).
Observe no mapa 2 a dimensão global da diáspora africana, destacando a
dinâmica das principais rotas de deslocamento dos povos europeus e da África,
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assim como as principais articulações econômicas do Capitalismo primitivo.
mapa 2

59
O mapa-múndi elaborado na projeção cartográfica de Arno Peters (1973)
conserva as reais proporções das terras emersas, elimina, portanto a visão do
mundo na perspectiva eurocêntrica (quando o hemisfério norte é representado
ocupando um terço do planeta). O mapa revela, também, a intensidade do fluxo
existente no oceano Atlântico, ao longo desses séculos (XV-XIX) e aponta o
triângulo econômico entre a África (seres humanos cativos), a América (trabalho
escravo, produtos e riquezas tropicais) e a Europa (acúmulo de riquezas,
enriquecimento e expansão territorial do Estado).

Europa (acúmulo de riquezas,


enriquecimento e
expansão territorial do Estado)

Europa (acúmulo de riquezas,


enriquecimento e África (seres humanos cativos)
expansão territorial do Estado)

É importante frisar que o continente africano foi, ao longo de quatro


séculos, o centro das atenções, da cobiça, da apropriação, da acumulação de
capitais e da desestruturação das sociedades e do Estado.
Reconhece-se hoje que entre os vários fatores que fizeram com que os povos
europeus se voltassem para a África e a transformassem no maior reservatório
de mão-de-obra escrava jamais imaginada pelo homem, o principal deles foi
a tradição dos povos africanos de bons agricultores, ferreiros, construtores,
mineradores e detentores das mais avançadas tecnologias desenvolvidas nos
trópicos.
Outro fator que justificava para o europeu a substituição do índio brasileiro
pelo africano como escravo colonial era que, trocando na África produtos
manufaturados por homens cativos, e na América estes por mercadorias
coloniais, as classes dominantes das metrópoles da Europa apropriavam-se mais
facilmente das riquezas aqui produzidas. Esse jogo de trocas estabelecido pelos
europeus imprimiu relações precisas entre clientes e fornecedores dos dois lados
do Atlântico e, estrategicamente, permitiu que a distribuição das populações
africanas, de diferentes reinos e impérios, fosse realizada indiscriminadamente
nos territórios da América.

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produtos manutarurados

África

homens cativos

Europa

mercadorias coloniais

América

Rapidamente os mercados transatlânticos se tornam mais importantes do


que as antigas rotas dos mercados transaarianos (floresta-savana-deserto), por
onde passavam e desaguavam, principalmente, o ouro, o sal, a borracha e o
africano escravizado. Esta rota se tornou secundária, diante da força da ligação
savana-floresta-praias.
Uma das conseqüências geográficas mais graves dos processos espaciais
desencadeados pela diáspora africana é a desestruturação dos antigos Estados
políticos do continente, componentes fundamentais para a compreensão da
amplitude das formas de organização social, política e territorial dos povos
africanos.
Estes Estados, preconceituosamente, eram denominados de tribos. Estas
organizações territoriais e políticas, que chamamos aqui de reinos e impérios,
são núcleos e grupamento humanos de domínio com limites e fronteiras
bastante fluidos, que alcançam maior ou menor extensão territorial de acordo
com o nível de autoridade e dinamismo de seus governantes. Suas populações
alcançavam milhares de habitantes, portanto, jamais poderiam ser chamadas
de tribos. Essas expressões não designam, portanto, um Estado político nos
padrões ocidentais, caracterizados por fronteiras rígidas e limites precisos.
Os Estados e formações políticas representados no mapa 3 não
retratam graficamente a complexidade das organizações políticas africanas,
mas pretendemos apenas mostrar a diversidade de unidades territoriais e a 61
distribuição espacial das fronteiras aproximadas das formações políticas que
estruturas espaciais dos principais
estados e formações políticas
da áfrica até o século xix

LEG ENDA
OYO

ZANJ SWAHILE BENIN

NOVA MERINA KWARARAFA

ADAL ADA MAUA

ETIÓPIA LUANGO

IMPÉRIO NÚBIA N’ GOYO

EGITO KACONGO

IMPÉRIO TURCO CONGO

BÉRBERES NDONGO

IMPÉRIO ALMORÁVIDA MBUNDU

TAKRUR OVIBUNDU

REINO JALOFO MATAMBA

IMPÉRIO MALI
Equador KUBA

REINO MOSSI IMBANGWALA

REINO HAUÇAS LUBA


Proibida reprodução parcial ou total por processo mecânico, ótico ou eletrônico sem prévia autorização do autor.

KAARTA LUNDA

SEGU CONF.CHOANA

IMPÉRIO SONGHAY KARIBA

KANEM/BORNOU MONOMOTAPA

DARFUR REINO ZULU

WADAI REINO KHOISAN


ÁREA DE CONTROLE
COMERCIAL DO
ANTIGO REINO
ASHANTE DE GHANA

DAHOMEY ESTADOS IORUBAS


NOTA 1.OS ANTIGOS REINOS DA ÁFRICA CONS- NOTA 2. ESTE MAPA TEMÁTICO NÃO RETRATA
TITUÍ UM DOS COMPONENTES MAIS RELEVANTES A COMPLEXIDADE DAS ORGANIZAÇÕES POLÍ-
DA SUA HISTORIOGRAFIA, SOBRETUDO POR POS- TICAS AFRICANAS, MAS PRETENDEMOS, MOS-
SIBILITAR COMPREENDERAS VÁRIAS FORMAS DE TRAR A DIVERSIDADE E A DISTRIBUIÇÃO DAS
ORGANIZAÇÃO TERRITORIAL, POLÍTICA E SOCIAL.
ENTENDEMOS ESTES ESTADOS COMO NÚCLEOS N UNIDADES TERRITORIAIS QUE FIGURAM COM
MAIS EVIDÊNCIA ATÉ O SÉCULO XIX, DENTRO
DE DOMÍNIO COM LIMITES E FRONTEIRAS FLU- DOS LIMITES OFERECIDOS PELAS FONTES. NA
IDAS, QUE ALCANÇAM MAIOR OU MENOR EX- ÁFRICA ENCONTRA-SE AINDA ORGANIZAÇÕES
TENSÃO NO TERRITÓRIO, SEGUNDOAAUTORIDA- SOCIAISQUECONSERVAMHÁBITOSETÉCNICAS
DADE E DINAMISMO DOS SEUS GOVERNANTES. QUETÊMSUAORIGEMNUMPASSADOREMOTO.

© PROJETO CARTOGRÁFICO E ADAPTAÇÃO HISTORIOGRÁFICA BY GEOG. RAFAEL SANZIO ARAÚJO DOS ANJOS. BRASÍLI
A - DF. CREA 15604/D PROJETO GEOGRAFIA AFRO-BRASILEIRA. CIGA - UNB. BRASÍLIA - DF. 2000 E-mail: cig
a@unb.br

figuram com mais evidência na historiografia africana até o século XIX, dentro
dos limites oferecidos pelas fontes. Observe.
Das organizações políticas que figuram entre as mais antigas no norte da
África oriental, destacamos os Impérios do Egito, do Sudão, da Núbia, o Turco
e da Etiópia. O primeiro deles constitui o mais reconhecido desses estados
políticos, com referências relevantes na história da humanidade, sobretudo,
pelo seu desenvolvimento tecnológico e a forma complexa e elaborada das
estruturas sociais.

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A questão básica é que são poucas as referências de que o império egípcio,
de localização estratégica no Mar Mediterrâneo, fique no continente africano.
É Importante destacar também, a negligência e exclusão que os outros reinos
dessa região da África sofrem nas reconstituições históricas oficiais em relação
ao Império egípcio.
Na África Ocidental, que tem um vínculo maior com a formação do território
brasileiro, são muito importantes os Impérios de Ghana, Songhai e Mali, que em
função de seus próprios impulsos econômicos e culturais, criaram condições
para o desenvolvimento de outros estados vizinhos, que depois se tornariam
seus rivais.
O Império de Ghana,primeiro estado africano conhecido com precisão, tem
registros dos séculos IV a XI e, era também denominado de Império do Ouro.
Até a “descoberta” da América, este império era o principal fornecedor de ouro
e sal do mundo mediterrâneo e detentor das técnicas avançadas de mineração.
O seu fortalecimento político e militar tem sua origem neste comércio, via rotas
transaarianas, que incluía também, cobre e manufaturados do norte da África.
Uma importante referência do Império de Mali, com registro de expansão
no século XII, é cidade de Tumbuctu com a sua universidade que desenvolveu
pesquisas importantes para a astronomia. O Reino de Songhai com referências
nos séculos XIV e XV, tem na agricultura o seu principal desenvolvimento
tecnológico, principalmente a irrigação de áreas áridas.
Sem alcançar o poderio de Ghana, Songhai e Mali, outras formações
políticas desenvolveram-se por várias regiões africanas. No território da Bacia
do Congo, por exemplo, se configuraram, no final do século XIV, uma série de Bacia do Congo
- Esteve povoada por
reinos bantos com diferentes níveis de integração entre si. O Reino do Congo foi pigmeus (floresta) e
um dos maiores reinos constituídos no sul do Saara. Com registros no século XV bosquimanos (savana),
povos que desenvol-
e fundado por chefes guerreiros e bons caçadores, neste reino as atividades com viam uma economia
ferro e cobre na produção de ferramentas, como a enxada, o arado, machados e mercantil a partir da
conexão com os focos
instrumentos de guerra, são características marcantes dos povos bantos. comerciais da costa
oriental, testemunhada
pela presença de obje-
tos hindus e chineses
do século VIII a X.
4. Referências territoriais de origem de povos africanos e o Brasil
Povos africanos de impérios e reinos diferentes, portanto, com variadas
referências de estruturas sociais, organização política, matrizes tecnológicas e
culturais, vão ser a base do desenvolvimento do sistema escravista no Brasil,
que tem particularidades substanciais em relação às demais regiões da América.
A manutenção dessa estruturação política, econômica e territorial por quase
quatro séculos no território brasileiro e a quantidade de africanos importados
até 1850, não devidamente quantificada, mostra como a sociedade escravagista
conseguiu estabilizar-se e desenvolver-se.
Por outro lado, verifica-se que a continuidade da importação de escravos
conseguiu manter esse sistema por muitos séculos, utilizando-se de mecanismos
reguladores que substituíam o escravo morto ou inutilizado por outro
importado, sem que isso causasse desequilíbrios no custo das mercadorias por
ele produzidas.
Devemos ressaltar que foram as regiões geográficas do Brasil de interesse
econômico europeu que detiveram os maiores fluxos de populações africanas
escravizadas. Os mapas 4, 5, 6 e 7 mostram uma representação gráfica das 63
referências territoriais de origem,na África, do tráfico de povos escravizados
durante os quatro séculos .
No século XVI, a principal referência espacial é dada pelas regiões
caracterizadas como Alta e Baixa Guiné. Os escravos trazidos dessas regiões
foram encaminhados, principalmente, para as áreas açucareiras de Pernambuco
e da Bahia, mas também, foram levados para o Maranhão e o Grão-Pará.
Nos séculos XVII e XVIII, as mais importantes e duradouras extensões
territoriais das rotas do tráfico negreiro se constituiram: as Costas da Mina e
de Angola. Nesse período ocorreram os maiores volumes de povos africanos
transportados para o território brasileiro.
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No século XVII o tráfico foi dinamizado na Costa de Angola, transportando
povos africanos para a Bahia, Pernambuco, Alagoas, Rio de Janeiro, São Paulo e
regiões do centro-sul do Brasil. Na Costa da Mina, o fluxo foi para as províncias
do Grão-Pará, Maranhão e para o território que, atualmente, é o Rio Grande do
Norte.
A primeira metade do século XIX foi caracterizada pelos vários tratados que
visavam a abolição do tráfico negreiro, o que no Brasil só ocorreu efetivamente
em 1850. Neste período, as ligações bilaterais entre os continentes africano e
americano foram desfeitas e as rotas do tráfico triangular entre a América, a
África e a Europa foram destruídas.
A extensão dos impérios africanos e a intensidade do comércio de povos
da África, ao longo dos séculos da diáspora, nos apontam para uma dimensão
ampla e de difícil reconstituição - a caracterização etnológica dos africanos
e de seus descendentes no Brasil.
Foram trazidos para constituir a formação do território brasileiro seres
humanos dos tipos: Minas, Congos, Angolas, Anjicos, Lundas, Quetos, Hauças, Caracterização etno-
lógica - Define qual
Fulas, Ijexás, Jalofos, Mandingas, Anagôs, Fons, Ardas, dentre muitos outros e a origem geográfica
outras, que possibilitaram o que podemos denominar de afro-brasileiros, ou seja, precisa dos grupos
étnicos deslocados ao
brasileiros de matriz africana ou população de ascendência africana. Entretanto, longo dos quase quatro
a referência geográfica precisa não possui uma resposta satisfatória. séculos de tráfico

Com denominações desse tipo, fica “escondida” ou “embutida” uma riqueza


tipológica, ainda não devidamente estudada e nem quantificada.
É importante marcar decisivamente que os povos africanos não foram
responsáveis somente pelo povoamento do território brasileiro e pela mão-de-
obra escrava; eles marcaram e marcam, de forma irreversível, a nossa formação
social, tecnológica, demográfica e cultural, que, ao longo desses séculos, foi
preservada e recriada, mesmo com as políticas contrárias do sistema.
Os povos de matriz africana são os responsáveis pela adequação ,nos
trópicos, das técnicas pré-capitalistas brasileiras, como, por exemplo: a
mineração, a medicina, a nutrição, a agricultura, a arquitetura, a pecuária, a
tecelagem, a metalurgia, a cerâmica, as estratégias militares e a construção. São
responsáveis também pela elaboração do português africanizado e da religião
com a sua cozinha sagrada.

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FIQUE DE OLHO
• Podemos apontar a matriz africana presente no Brasil como uma das
principais referências culturais e étnicas da formação do nosso povo.
• Os povos europeus, e seu processo de dominação e exploração
do continente africano, acabaram por fixar uma imagem hostil dos
trópicos, como se eles estivessem cheios de forças naturais adversas ao
colonizador e ocupados por homens ditos indolentes. Essa imagem, que
foi sendo ampliada, não considerava os processos históricos como fatores
modeladores da organização social, mesmo diante dos elementos da
natureza. Nesse contexto, não é de causar espanto o lugar insignificante
e secundário que foi dedicado à geografia africana em todas as
interpretações e representações da humanidade.
• Possuidor de extraordinário patrimônio mineral, secularmente explorado,
a África poderia ser o continente mais rico do planeta.
• R econhece-se hoje que entre os vários fatores que fizeram com que os
povos europeus se voltassem para a África e a transformassem no maior
reservatório de mão-de-obra escrava, o principal deles foi a tradição dos
povos africanos de bons agricultores, ferreiros, construtores, mineradores e
detentores das mais avançadas tecnologias desenvolvidas nos trópicos.
• Uma das conseqüências geográficas mais graves dos processos espaciais
desencadeados pela diáspora africana foi a desestruturação dos antigos
Estados políticos do continente, componentes fundamentais para a
compreensão da amplitude das formas de organização social, política e
territorial dos povos africanos.

66
REFERÊNCIAS

ADE AJAYI, J. F. et al. Atlas historique de l´Afrique. Paris: Jaguar, 1988.


p.174.
ANDRADE, M. C. A. O Brasil e a África. São Paulo: Editora Contexto, 1989.
p. 80 (Coleção Repensando a Geografia).
ANJOS, R. S. A. A utilização dos recursos da cartografia conduzida para
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Universidade de Brasília, 1989. p. 12-32.
_____________. A geografia, os negros e a diversidade cultural.
Florianópolis: Humanidades, 1998. p. 93-106 (Série O Pensamento
Negro em Educação – Núcleo de Estudos Negros)
_____________. Distribuição espacial das comunidades remanescentes
de quilombos do Brasil. In: Revista Humanidades. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 1999. p. 87-98.
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