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A câmara obscura:

a fotografia como fonte histórica


RUI BRAGADO SOUSA *

Resumo
O século XX marcou uma ruptura com a historiografia positivista, os
estruturalistas franceses assim como os marxistas inauguraram uma nova forma
de ler e pensar a História. Gradativamente os conceitos da escola metódica
como o predomínio das grandes personalidades e a fascinação pelo documento
original foram substituídos. A evolução historiográfica trouxe consigo novas
fontes, houve um alargamento na noção de documento e, nesse sentido, a
fotografia e as imagens em geral constituem um importante papel para a
consolidação do “novo fazer histórico”. Hoje, a iconografia está inserida em
qualquer estudo sério, direta ou indiretamente relacionado às fontes
tradicionais. Contudo a metodologia utilizada ainda precisa ser aperfeiçoada.
Este artigo não tem a pretensão de ser uma análise metodológica específica, o
que seria terreno dos semiólogos e teóricos da percepção. Mas sim, esta
discussão propõe apontamentos acerca da utilização pelo historiador da
fotografia e sua função social na era da reprodutibilidade técnica e digital.
Palavras-chave: Fotografia; Historiografia; Metodologia.

Abstract
The twentieth century marked a break with the positivist historiography, the
French structuralists and Marxists inaugurated a new way of thinking and
reading history. Gradually the school methodical concepts like dominance by
big personalities and fascination with the original document were replaced. The
historiographical developments brought new sources, there was a broadening of
the concept document and, accordingly, photography and images in general are
an important role to consolidate the "new to town". Today, the iconography is
inserted into any serious study, directly or indirectly related to traditional
sources. However, the methodology still needs to be improved. This article
does not claim to be a specific methodological analysis, which would be
ground of semioticians and theorists of perception. Rather, the discussion
proposes notes on the use of photography by the historian, and its social
function in the age of mechanical reproduction and digital.
Key words: Photography; Historiography; Methodology.

*
RUI BRAGADO SOUSA é mestrando em História pela Universidade Estadual de Maringá.

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Existe uma terna empiria que se identifica intimamente com o objeto e
com isso transforma-se em teoria (Goethe).

Nascimento e popularização da (...) de que a arte é e não pode


fotografia deixar de ser a reprodução exata da
natureza (...) Um deus vingador
A fotografia surgiu no início do século realizou as desejos dessa multidão.
XIX e, segundo Ana Maria Maud havia Daguerre foi seu Messias (...). Se
uma certa “confusão entre a técnica e a for permitido à fotografia substituir
magia”, resultante dos interesses a arte em algumas de suas funções,
diversos dos seus criadores assim como em breve ela a suplantará e
da pouca difusão da ciência naquela corromperá completamente, graças
época. Seus inventores foram os à aliança natural que encontrará na
franceses Niépce e Daguerre com tolice da multidão. É preciso, pois,
que ela cumpra o seu verdadeiro
objetivos da fixação da imagem num
dever, que é o de servir as ciências
suporte plano, bem como o controle que e as artes (apud BENJAMIN, 1994,
a ilusão da imagem poderia oferecer. p. 107).
No final daquele século a fotografia
entrou em atrito com a pintura. Para No começo do século XX já era
Baudelaire, poeta francês, seu objetivo possível a utilização da fotografia em
deveria ser “a serva das ciências e das documentos pessoais como identidades,
artes, mas a mais humilde das servas”. passaportes, carteiras de
reconhecimento pessoal e, como cita
Nesses dias deploráveis, uma nova Cristina Schmidt, no Brasil a fotografia
ciência surgiu, que muito contribuiu
foi difundida sobretudo no interior
para confirmar a tolice em sua fé
paulista para registrar os encontros

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familiares , viagens de férias, espaço que ele percorre
casamentos ou mesmo eventos públicos. inconscientemente.” Dessa forma, “só a
No entanto, a popularização da fotografia revela esse inconsciente
fotografia foi através da imprensa, ótico, como só a psicanálise revela o
possibilitando “um certo acesso dos inconsciente pulsional” (BENJAMIN,
analfabetos”. Com a Kodak e o slogan 1994, p. 94).
“you press the button, we do the rest”
houve a universalização da fotografia, Uma imagem marcante como das
do espectador como produtor. guerras ou fome ou então uma tragédia
nos levam diretamente para aquele
Recentemente foi lançado um livro momento cronológico e cultural. Como
iconográfico ilustrando a vida de não voltar no tempo vendo a imagem de
Machado de Assis; esse fato mostra a menina vietnamita vítima do
difusão da fotografia ainda no século bombardeio americano com napalm
XIX, no entanto, apenas nas elites. (Kim Phuc), ou como não sentir a
Contudo, podem-se observar aspectos angústia e o medo estampados nos olhos
da mudança psicológica de Machado verdes de Sharbat Gula, capa da
durante as fases de sua vida. O olhar National Geographic de 1985 como
melancólico e curioso da juventude refugiada de guerra, talvez os sonhos de
(romântico), a seriedade e olhar Ernesto Guevara fotografado por
penetrando da sua maturidade Alberto Korda, quem sabe a história
intelectual (realista) e finalmente um ar recente ao ver a imagem do ataque às
desiludido no final de sua vida. Esses torres gêmeas nos Estados Unidos? A
aspectos nos mostram como e porque a fotografia além de fonte, age também
fotografia pode e deve ser utilizada como instrumento ideológico e isso
como fonte histórica, mostrando senão a veremos detalhadamente no subtítulo
vida particular do individuo, bem como “metodologia”.
as fases que acompanham as tendências
mundiais, ora romântico, ora realista,
ora dadaísta, ora surrealista, enfim, é Fotografia como fonte histórica
uma prova e um documento histórico.
Todavia, como veremos, a fotografia A necessidade dos historiadores em
nunca pode ser utilizada como uma problematizar temas pouco trabalhados
prova absoluta do passado. pela historiografia tradicional levou a
ampliar seu universo de fontes. A
Para Walter Benjamin, estudando as utilização da fotografia como fonte
mudanças da arte “na era de sua histórica é recente por ser usada antes
reprodutibilidade técnica”, a estreita como mera ilustração, prova ou forma
relação entre estética e política, a de reforçar uma interpretação textual.
fotografia pode dar às suas criações um Contudo, no decorrer da segunda
valor mágico que um quadro nunca metade do século XX, a iconografia
mais terá. Para Benjamin, há uma passou de coadjuvante das fontes
estreita relação psicológica entre o escritas para se tornar personagem
instante do flash e o olhar posterior do principal, como documento e
observador. “A natureza que fala a monumento. Não é coincidência que a
câmara não é a mesma que fala ao análise dos documentos visuais evoluiu
olhar; é outra, especialmente porque positivamente e de forma crítica a partir
substitui a um espaço trabalhado do momento em que os documentos
conscientemente pelo homem, um escritos foram questionados,

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problematizados e investigados pela século XIX a fotografia era concebida
Escola dos Annales. “No início do como “análogo do real, formado pela
século XX Marc Bloch e Lucien máquina, sem interferência do homem,
Febvre, fundadores da École dês desprovida de subjetividade e
Annales, iniciaram uma crítica profunda intencionalidade do produtor”
à própria noção de documento” (CANABARRO 2005, P. 33). Ou ainda,
(CIAVATTA 2009, p. 09). segundo Monteiro (2008, p. 171), como
“auxiliar das ciências e das artes no
Para Cristina Schmidt (2002) “o fato
século XIX pela semelhança entre a
histórico deve ser tratado como
imagem e seu referente garantiu-lhe o
processo comunicacional de uma
estatuto de espelho do real”.
expressão cultural”. O registro de um
fato cultural não é registro do passado A análise fotográfica pela historiografia
ou do presente, mas sim um processo é recente, talvez isso explique o fato de
comunicativo e pode ser usado como que até mesmo alguns autores
fonte histórica ou como registro de uma contemporâneos como Jacques Le Goff
fonte, pois “registra o conteúdo realista, e Boris Kossoy contribuírem mais para
captura o vivido”. consolidar e fundamentar sua utilização
Ana Maria Maud vai alem, para a autora pelo historiador, do que para
existiu em meados do século XX uma desenvolver uma metodologia crítica ao
mudança de foco em relação à documento visual. Para Kossoy (1980,
concepção fotográfica. Com a p. 12) uma fotografia original é uma
influência de personagens como Rudolf fonte primária. Uma vez verificada sua
Arnhein1, Hubert Damisch e Pierre autenticidade e fidedignidade ela pode e
Bourdieu a ideia de que o que está deve ser utilizada no trabalho histórico
impresso na fotografia é pura e por se tratar de um documento
simplesmente a realidade foi superada. iconográfico que nos trás informações
Os diversos campos do conhecimento e dos cenários, personagens e fatos de
a teoria da percepção juntamente com a outrora.
escola semiótica pós-estruturalista Percebem-se até mesmo alguns traços
mostraram a desnaturalização da positivistas na visão de Kossoy, pela
representação fotográfica. Existe na prioridade aos documentos autênticos.
verdade uma análise e interpretação do Para Le Goff citado em Canabarro
real, a parte encenada das imagens que (2005, p.25 e 27), “a fotografia
marcaram a história, “produziram uma revoluciona a memória multiplicando e
determinada versão dos fatos que, pelo democratizando-a dando uma precisão
realismo, garantiram um estatuto de de verdade que permite guardar a
verdade anunciado”, uma vez que o memória do tempo e da sociedade”. O
significado da mensagem fotográfica é mesmo autor ainda afirma que a
convencionalizado culturalmente fotografia está entre os grandes
(MAUAD, 1996. p. 03). documentos para se fazer história, por
Todavia, a crítica ao documento consistir de provas que algo aconteceu e
fotográfico foi mais lenta que aos finaliza salientando que existem provas
documentos escritos pelo fato de que no concretas do passado e a fotografia é
uma delas.
1
Psicólogo alemão e professor universitário nos
Por outro lado Jacques Le Goff
EUA, pioneiro nos estudos sobre imagem relativiza o status de verdade e prova
perceptiva. das fotografias, uma vez que “o

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documento não é inócuo, é antes de Portanto, se faz necessário compreender
tudo uma montagem, consciente ou que entre o objeto e sua representação
inconsciente, da história, da época, da fotográfica interpõe-se uma serie de
sociedade que a produziu”. A fotografia ações convencionalizadas, tanto cultural
ganha status de documento e como historicamente. Nesse sentido a
monumento, para este historiador: influência da Escola dos Analles na
O novo documento, alargado para representação e leitura histórica se torna
alem dos textos convencionais, pertinente também no campo da
transformado – sempre que a fotografia. Seus conceitos farão parte da
história quantitativa é pertinente – metodologia utilizada para leitura
em dado, deve ser tratado como um iconográfica assim como o método visto
documento/monumento. De onde a a seguir: “histórico-semiótico”.
urgência de elaborar uma nova
erudição capaz de transferir esse
documento/monumento do campo Metodologia
da memória para o da ciência
histórica. O registro fotográfico tem sua
Uma vez materializada entre os metodologia definida empiricamente.
documentos históricos, a fotografia Cada gesto, cada imagem, cada objeto
passou então a ser questionada e requer uma forma de abordagem e
investigada; descobriu-se a falsa adequação dos equipamentos no que se
neutralidade do documento fotográfico, refere às emoções, sentimentos e
“a parte ‘encenada’ das imagens que cultura. O objeto capturado é ao mesmo
marcaram a história” (MAUAD 1996, tempo um texto cultural verbal e não
p. 04). verbal, a fotografia não tem caráter
meramente ilustrativo ou contemplativo,
Para Monteiro (2008, p. 174) a revela conteúdo e nos coloca dentro do
fotografia é uma convenção do olhar e universo cultural.
uma linguagem de representação e
expressão de um olhar sobre o mundo, Segundo Kossoy, citado em Monteiro
nesse sentido as imagens são ambíguas (2008, p. 175), a fotografia tem dupla
e passiveis de múltiplas interpretações. realidade, uma no momento da
Sendo assim, o que era visto como produção da imagem e outra ligada à
espelho do real ou análogo do real no circulação da imagem em contextos e
século XIX e pelo senso comum atual, períodos posteriores. Na visão de
passa a ser apreendido como Mauad (1996, p. 04 e 07) “entre o
transformação do real2, através da objeto e sua representação a fotografia
redução do real produzido pela interpõe uma serie de ações
fotografia, pelo congelamento de um convencionalizadas tanto cultural como
instante separado da sucessão dos fatos, historicamente”, ou ainda “a
pelo fragmento escolhido pelo fotografo representação final é sempre uma
na seleção do tema, dos sujeitos, do escolha realizada num conjunto de
entorno e do enquadramento. escolhas possíveis”.
(MONTEIRO 2008, p. 173). A partir da superação da ideia de
análogo do real e desprovida de
2 intencionalidade e subjetividade, qual
O conceito de transformação do real é ligado a
Philip Dubois, citado em Mauad (1996, p. 03),
seria a metodologia para o uso da
Canabarro (2005, p. 34) e Monteiro (2008, p. fotografia como fonte histórica? Como
173). fazer a leitura das informações contidas

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nas imagens tanto em acervos quando Compreendendo que numa sociedade
em pesquisas? É preciso estabelecer coexistem e se articulam múltiplos
perguntas, hipóteses, crítica interna e códigos e níveis de codificação: nível
externa ao documento, priorizando interno à superfície do texto visual
informações ou pistas contidas nas (denotativo) e nível externo à superfície
entrelinhas, olhar através da imagem e do texto visual (conotativo); sabendo
superar a superfície da mensagem que o significado da fotografia se dá a
fotográfica e chegar ao que não foi partir de quem a olha e interpreta,
revelado pelo olhar fotográfico. Deve “exigi-se que o historiador seja também
ser compreendido que “os textos sociólogo, antropólogo e semiólogo e
históricos não são autônomos, um excelente detetive para aprender a
necessitam de outros para sua relativizar, desvendar redes sociais,
interpretação” (MAUAD 1996, p. 10). compreender linguagens, decodificar
sistemas de signos e decifrar vestígios,
No artigo “A Mensagem Fotográfica”, sem perder jamais a visão do conjunto”
Roland Barthes se refere à imagem na (MAUAD 1996, p. 06).
imprensa no sentido denotativo e
conotativo. O denotativo seria a Portanto, o primeiro passo é a busca de
mensagem sem código, (análogo do uma história total, de caráter
real) indicativo por meio de notas, sinas, multidisciplinar, de crítica ao
símbolos; enquanto que o conotativo documento e, num segundo momento a
seria a parte codificada, signo, sentido abordagem semiótica por oferecer
secundário que se soma aos significados mecanismos para o desenvolvimento da
da imagem. “Graças ao seu código de análise. Na visão de Monteiro (2008, p.
conotação, a leitura das fotografias é 173) “seria necessário aprender para
portanto sempre histórica: ela depende poder ver”, pois “a imagem aparenta
do ‘saber’ do leitor (BARTHES, p. 06). muito com os signos”. Para que a
dimensão propriamente visual do real
Decifradas as formas de processamento possa ser integrada à pesquisa histórica,
da subjetividade fotográfica, através do os autores que trabalham com história
código (conotação), Barthes nos coloca social da fotografia e da semiótica são
diante de um novo problema: “a consensuais em que ela é
conotação não é nem natural nem essencialmente uma representação
artificial, é histórico ou, se preferir visual (CANABARRO 2008, P. 34).
cultural” (BARTHES, p. 04). Mauad
(1996, p. 11) concorda que “a fotografia Para responder essas questões Ana
deve ser considerada como produto Maria Mauad recorre ao método
cultural” e esclarece o poder ideológico hitórico-semiótico que consiste
das fotografias por contribuir para a basicamente na utilização dos signos
veiculação de novos comportamentos e para decifrar as mensagens contidas nas
representações da classe que possui o fotos, o estudo da semiologia nesse
controle de tais meios e, por outro, atuar contexto torna-se indispensável. Para a
como eficiente meio de controle social autora o início da metodologia consiste
através da educação do olhar. Portanto, em aproximar os diversos campos do
“a cultura comunica, a ideologia conhecimento histórico: sociologia e
estrutura a comunicação e a hegemonia antropologia. Somente conhecendo as
social faz com que a imagem da classe ciências humanas será possível traçar
dominante predomine, erigindo-se sobre uma linguagem não verbal, da
as demais” (MAUAD 1996, p. 09). linguagem simbólica.

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Nesse sentido, se é a aproximação necessários para interpretação dos
da História à Antropologia ou a documentos escritos, com um
Sociologia (ou às duas juntas) que agravante: é extremamente e
indaga sobre as maneiras de ser e indispensável o conhecimento dos
de agir no passado, é a Semiótica
signos, do mundo representativo que
que oferece mecanismos para o
desenvolvimento da analise. É ela
passa despercebida ao olhar do leigo,
que permite a compreensão dos porém para o historiador esse é o ofício.
sentidos na sociedade humana para
alem da fragmentação habitual que
a prática científica imprime Considerações finais
(MAUAD, 1996, p. 09). Os autores especialistas em fotografia e
na análise visual como Barthes, Kossoy
Para Ana Maria Maud a cultura
e Mauad são unânimes no sentido de
comunica, a ideologia estrutura a
que para avaliar um documento visual é
comunicação e a hegemonia faz com
necessário atentar para três pressupostos
que a imagem da classe dominante
básicos e inerentes à própria história:
predomine, erigindo-se como modelo
expressão e conteúdo, tempo e espaço,
para as demais. Alem de tudo os textos
percepção e interpretação. “A noção de
históricos não são autônomos,
espaço como chave de leitura das
necessitam de outros para sua
mensagens visuais, devido à natureza
interpretação é aí que o método se
deste tipo de texto” (MAUAD 1996, p.
justifica: o historiador munido do
14). A autora reforça esta afirmação
conhecimento necessário para fazer uma
citando Mirian Moreira Leite3: “toda
leitura de documento precisa ser capaz
captação da mensagem manifestada se
de perceber os mecanismos alienantes
dá através de arranjos espaciais. A
da sociedade, sobretudo dominante, e o
fotografia é uma redução, um arranjo
objetivo por ela passado através da
cultural ideológico do espaço
imagem. Como as imagens são
geográfico num determinado instante.”
históricas, dependem de varias técnicas
de estéticas do contexto histórico que as “O efeito mitológico de uma fotografia
produziram e das diferentes visões de é inversamente proporcional ao seu
mundo que concorrem no jogo das efeito traumático, quanto mais o trauma
relações sociais. “A imagem não fala é direto, mais difícil a conotação”
por si só, é necessário que as perguntas (BARTHES p. 07). Como descrito, todo
sejam feitas” (MAUAD, 1996, p. 10). documento visual tem a pretensão de ser
espontâneo, neutro, análogo do real, no
Dentro do estudo da semiologia, a entanto é sempre codificado, conotado.
fotografia deve ser considerada como Sendo que o código de conotação é
produto social. Numa sociedade sempre histórico e reforçado pela
coexistem e se articulam múltiplos ideologia, “o objeto talvez não possui
códigos e níveis de codificação que uma força, mas por certo, possui um
fornecem o significado ao universo sentido” (BARTHES, p. 04). “Discute-
dessa mesma sociedade, nesse sentido se a possibilidade de mentir da imagem
“a fotografia comunica através de fotográfica, (...) não importa se a
mensagens não verbais, cujo signo imagem mente, o importante é saber por
constitutivo é a imagem” (MAUAD,
1996, p. 11). O estudo da imagem como
representação da sociedade necessita da 3
Historiadora, autora de “Retratos de Família:
mesma formação e “cuidados” Leitura da Fotografia”.

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que mentiu e como mentiu” (MAUAD, percepção atuais, na era da arte
1996, p 15). descartável, da era digital, que percorre
nossa mente numa velocidade
Nesse momento já podemos nos
imensamente maior do que pode ser
perguntar se o receptor (mesmo um
cognoscível?
historiador, ou qualquer outro
profissional) tem, de fato, a consciência Nesse ponto entendemos o caráter
de que a fotografia é um instrumento ideológico das mensagens visuais, sua
ideológico e que carrega em si uma falsa neutralidade e sua conotação que
mensagem codificada? Ou ainda, se a comporta bem um plano de expressão e
percepção do analista e sua metodologia um plano de conteúdo, significantes e
não reproduzem um discurso significados, “obriga, portando a um
dominante, um discurso político? Pois, verdadeiro deciframento” (BARTHES,
como afirma Walter Benjamin (1994, p. p. 03). Esse deciframento seria hoje
172), com a aceleração da técnica de prematuro, todavia as “interrogações
reprodução da obra de arte (e a que hoje se colocam são antes uma
fotografia pode ser entendida como uma prova de saúde que de enfermidade”
arte) toda a função social da arte se (MAUAD 1996, p.06).
transforma. “Em vez de fundar-se no As fotos são ideologias ou “imagens
ritual, ela passa a fundar-se em outra idealizadas no espelho”, um espelho
práxis: a política.” Seria o caso de citar embelezador que reflete apenas o que a
Brecht (apud BENJAMIN, 1994, p. classe dominante quer do desejo e como
106): ela o quer. É preciso reformular esta
A situação se complica pelo fato de tese de modo que “o espelho se origine
que menos do que nunca a simples do povo”. Como afirma Pierre Bourdieu
reprodução da realidade consegue (1965), a fotografia traz uma satisfação
dizer algo sobre a realidade. (...) A aos sentidos, de algo ausente para
verdadeira realidade transformou-se próximo, do distanciamento para o
na realidade funcional. As relações presente, do passado ao presente. Dessa
humanas reificadas – numa fábrica,
forma, novos estudos seriam pertinentes
por exemplo -, não mais se
manifestam. É preciso, pois, quanto à relação, por exemplo, da fotos
construir alguma coisa, algo de de outdoors, de vitrines, das
artificial, de fabricado. propagandas de banco, embelezadas
artificialmente; e da conseqüência que
Seguindo o pensamento benjaminiano, essa tempestade de imagens trás à
“no interior dos grandes períodos consciência e inconsciência dos
históricos, a forma de percepção das homens. As perguntas são muitas,
coletividades se transforma ao mesmo afinal, ainda há um enorme campo de
tempo que seu modo de existência”. O estudos até que a câmara obscura
modo como se estrutura a percepção torne-se... clara.
não é apenas condicionado
naturalmente, mas também
historicamente. “As fotos se Referências
transformam em autos no processo da ALBUQUERQUE, Marli Brito M.; KLEIN,
história. Nisso está sua significação Lisabel Espellet. Pensando a fotografia como
política latente” (BENJAMIN, 1994, fonte histórica. Cadernos de saúde pública.
pp. 169 e 174). Um exercício de Rio de Janeiro, 1987.
reflexão ou mesmo percepção pode ser BARTHES, Roland. A Mensagem Fotográfica.
efetivo: qual seriam as formas de Disponível em:

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<http://pt.scribd.com/doc/49666238/A- KOSSOY, Boris. A fotografia como fonte
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Recebido em 2013-01-22
da grande família: a fotografia como fonte
Publicado em 2013-06-11
histórica. Rio de Janeiro, 2003.

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