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 ESCRAVATURA

Ana Lúcia Araujo


porque já passou muito tempo ou porque
os antigos escravos já não estão vivos. Na

A reparação
verdade, esses pedidos já lhes tinham sido
negados quando ainda viviam!

Na sua opinião, qual foi o papel dos

aos escravos
escravos no processo de emancipação?
Vários trabalhos têm mostrado como os
escravizados foram os grandes protago-
nistas da emancipação. A começar com
Historiadora e professora na Howard University, nos a revolução haitiana, que nada teve a ver
EUA, Ana Lúcia Araujo tem trabalhado na história com a generosidade abolicionista fran-
transnacional da escravidão e na sua memória pública cesa. O impacto que o fim da escravidão
no Haiti teve no mundo atlântico ainda
precisa de ser estudado com mais atenção,
Uma das novidades do seu mais recente período do pós-abolição, emergem os pri- mas sabemos que a revolução haitiana
trabalho, Reparations for Slavery and meiros movimentos coletivos de pedidos incentivou ondas de revoltas em Cuba,
the Slave Trade (Bloomsbury, 2017), as- de reparação. No final do século XIX, o nos EUA e no Brasil. No caso do Bra-
senta na demonstração de que é preciso maior movimento foi liderado por libertos sil, os trabalhos dos historiadores Flávio
compreender a longa e variada genealo- nos EUA que pediam ao governo pensões dos Santos Gomes e João José Reis, entre
gia de manifestações a favor de medidas para os ex-escravos. Desde esse período, outros, mostram como os escravizados
de reparação – simbólica e material, tais atividades foram fortemente repri- fugitivos estabeleceram quilombos que,
do pedido de desculpas à compensa- midas. Callie House, líder do movimento de várias maneiras, desestabilizaram o sis-
ção financeira – pelas consequências e por pensões para ex-escravos, foi mandada tema escravista. A historiadora Manisha
legados da escravatura. Pode explicar para a prisão. Mas é sobretudo após o final Sinha, no seu livro The Slave’s Cause: A
esta história? da II Guerra Mundial que várias organi- History of Abolition (2017), mostra como
Existe uma escassez de estudos que tratem zações negras, principalmente nos EUA, os abolicionistas negros norte-americanos
a questão dos pedidos de reparação do mas também no Caribe e na América do foram atores cruciais de um movimen-
ponto de vista histórico. Quando come- Sul, começaram a promover programas to emancipacionista e do movimento
cei esse trabalho, constatei que a maioria pedindo reparações financeiras, materiais abolicionista radical, desmantelando a
dos estudos eram trabalhos esparsos, que e simbólicas pela escravidão. ideia já bastante ultrapassada de que a
geralmente abordavam somente o exem- emancipação foi fruto da benevolência
plo dos EUA, muitas vezes com ênfase Qual o impacto desse reconhecimento das sociedades ocidentais.
no século XX. Ora, ao fazer a genealogia no âmbito dos debates contemporâneos?
desses pedidos de reparações, a minha O impacto é mostrar que desde os tempos A memorialização da escravatura
intenção era verificar se os próprios escra- da escravidão, os escravizados e libertos tornou-se uma manifestação global,
vizados e os anteriormente escravizados tinham plena consciência de que mui- assumindo muitas formas, como de-
tinham consciência das atrocidades de tos senhores de escravos enriqueceram monstrou em Shadows of the Slave Past:
que foram vítimas. Constatámos que a à custa do seu trabalho, e sabiam que os Memory, Heritage, and Slavery (2014).
ideia de reparação aparece bastante cedo proprietários lhes deviam alguma for- Muitas têm sido as iniciativas, menos os
em fontes como panfletos, discursos de ma de reparação financeira e material. projetos oficiais consistentes. Quais os
ex-escravos e abolicionistas, petições e No Brasil, alguns abolicionistas negros principais efeitos dessas ações?
narrativas escravas. A maioria dos aboli- calcularam, inclusive, os montantes que Existem muitas iniciativas de todos os
cionistas brancos não levantou a questão seriam devidos aos escravos, uma vez tipos, lideradas por diferentes grupos e or-
da necessidade de reparações financeiras, libertados. E, mesmo assim, a maioria ganizações, passando pela implementação
materiais e simbólicas para os ex-escra- dos abolicionistas nunca levou a sério a de datas comemorativas, pela construção
vizados; estavam mais preocupados em discussão sobre as reparações financeiras de monumentos e memoriais, pela criação
indemnizar os proprietários de escravos. aos antigos escravos. Essa constatação de museus, de programas educacionais.
Apesar disso, há pedidos de reparação in- desmonta a ideia de que não pode haver Várias dessas iniciativas tornaram-se
dividuais a partir do século XVIII. Com o hoje reparação para o crime da escravidão projetos oficiais. Por exemplo, no caso

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a possibilidade de participação política, os
pedidos de reparação coletivos emergiram
de forma mais intensa.

É reconhecido que a abolição não repre-


sentou o fim de modalidades coercivas
de trabalho. No entanto, em alguns se-
tores que «excecionalizam» o abolicio-
nismo, produz-se uma distinção rígida
entre escravatura propriamente dita
e outros fenómenos como o trabalho
forçado, a peonagem ou a servidão.
Quais as circunstâncias históricas que
presidiram a esta distinção?
A escravidão atlântica que emergiu com
D.R.

a colonização europeia das Américas


inaugura um sistema novo de desuma-
do Brasil, a data do 20 de novembro, co- nização do escravizado, diferente do que
memorando a morte de Zumbi (líder do tinha existido em Roma e na Grécia an-
quilombo de Palmares), é feriado oficial tigas ou do que já existia em sociedades
em dezenas de cidades. O Museu Nacional A escravidão atlântica que africanas. O novo contexto do comércio
de História e Cultura Afro-Americana, emergiu com a colonização atlântico de escravos cria um sistema onde
inaugurado em Washington em 2016, toma lugar a escravatura de ordem racial.
europeia das Américas
contém um andar inteiro sobre a escra- A escravidão nas Américas era um sistema
vatura e a emancipação no mundo atlân- inaugura um sistema cuja existência foi perpetuada através de
tico e nos EUA. Em França, desde 2001, novo de desumanização uma legislação que lhe dava bases legais.
a Lei Taubira estabeleceu a escravatura do escravizado, diferente A condição legal de um escravo era perpé-
e o comércio de escravos como crimes tua. O único meio de sair da escravidão era
do que tinha existido em
contra a humanidade e criou o Dia Na- pela manumissão ou compra da própria
cional da Escravatura e das suas abolições Roma e na Grécia antigas liberdade. Ora, pessoas que trabalham
(10 de maio). Estas medidas podem ser ou do que já existia em em condições análogas à escravidão não
entendidas como reparações simbólicas, sociedades africanas possuem estatuto legal ou perpétuo de
mas num quadro em que o racismo e as escravos. Além disso, em teoria, o que se
desigualdades raciais não só persistem chama escravidão contemporânea ou
como aumentam são insuficientes, razão rapidamente, havendo uma abolição gra- condições de trabalho análogas à escra-
pela qual os pedidos de reparação material dual através de uma legislação concebida vidão podem afetar qualquer pessoa, de
e financeira continuam emergindo. para causar danos mínimos aos proprie- qualquer grupo «racial», origem étnica,
tários de escravos. Em todos os casos, po- idade, sexo e nacionalidade, mas durante o
Um dos seus argumentos é que há uma rém, os senhores de escravos receberam, período da escravidão atlântica nas Améri-
relação significativa entre as peculiari- direta ou indiretamente, indemnização. cas a condição de escravo era exclusiva aos
dades das sociedades escravocratas e as Nos casos em que o processo foi mais len- racialmente classificados como de origem
especificidades da sua desintegração, to, como no Brasil, e onde prevaleceram africana. A distinção é importante, porque
por um lado, e o modo como emergiram ideologias como a da mestiçagem e da de- a ênfase na questão da «escravidão» con-
(ou não) movimentos a favor de repara- mocracia racial, os pedidos de reparação temporânea tende a esvaziar os debates em
ções, por outro. Pode explicar porquê? manifestaram-se de formas muito difusas. torno da história da escravidão atlântica e
Em sociedades escravocratas, a desinte- Mas no caso dos EUA, onde a escravidão seus legados presentes, sobretudo no que
gração da escravidão foi um processo lon- foi destruída após uma guerra sanguinária toca ao racismo, às desigualdades raciais
go e conflituoso, enquanto em sociedades e onde apesar do curto período, conhecido e à permanência da ideia de supremacia
onde a escravidão existia mas não era uma como Reconstrução, leis segregacionistas branca. M. Bandeira Jerónimo e José
instituição central o processo fez-se mais negaram aos libertos e seus descendentes Pedro Monteiro

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