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Revista Eletrônica

ANAIS

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 1


272(05)
G615s

Goiânia. Arquidiocese de Goiânia


VI Congresso da Pastoral Familiar-Regional
Centro-Oeste.Goiânia; CNBB,2018.
115p.

Revista Eletrônica
1.Evangelho - Família. 2.Educação - Política social.
3. Educação - Evangelho. I .Matos, Cleber Alves
- et all. II . Título

272(05)CDU

Leonora Alves da Cunha - CBR - 3159

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 2


VI Congresso da Pastoral Familiar
Regional Centro-Oeste
O Evangelho da Família, alegria para o mundo
“Completai minha alegria permanecendo unidos.”
(Filipenses 2,2)

“A família é hoje o grande campo de batalha entre a


vida e a morte, a verdade e a mentira, o bem e o mal.
Salvar a família é assegurar o futuro. Santificá-la é
renovar a Igreja e o mundo. Porque é a família que
constrói os homens, os cristãos e os santos. Tudo o que
se faz sem a família é muito pouco; tudo o que se fizer
sem a família é quase nada”
D. Manoel Pestana Filho

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Editorial
O Evangelho da família, alegria para o mundo.
“Completai a minha alegria permanecendo unidos”

Ser família missionária que vive a atualidade da Palavra de Deus e com


ela ilumina cada ato e contato de seu cotidiano é uma urgência atual, diante da realidade
que teima em agredir nossos princípios cristãos.

Considerando que a missão de cada cristão é ser sal e luz no mundo,


conservando a pureza e iluminando com amor, é preciso constante empenho em crescer
na fé e no conhecimento para testemunhar, com a vida, o Evangelho.

Em dias de desafios e dificuldades, também vivemos um tempo forte de


graça com a realização do VI Congresso Regional da Pastoral Familiar que busca fazer
comunhão com o Ano Nacional do Laicato e o IX Encontro Mundial do Papa com as
Famílias.

Esta Revista do VI Congresso vem trazer uma síntese da riqueza


anunciada nas palestras, visando auxiliar o agente pastoral a transmitir os temas em suas
paróquias, comunidades e lares.

Iniciando com a espiritualidade, oferecendo formação de qualidade e


motivando para a ação, os conteúdos reforçam o chamado à santidade, para que a
família seja geradora de uma cultura de esperança e alegria e promotora do processo de
conversão da sociedade.

Palestras embasadas na Exortação Pós-Sinodal Amoris Laetitia, do Papa


Francisco, abordando todos os setores de atuação da Pastoral Familiar como a
importância da atenção aos jovens e sua preparação para o matrimônio, a força do amor
conjugal e o acolhimento amoroso a todas famílias nas mais diversas situações;
ressaltando também a necessidade de ação pastoral em unidade com os agentes das
demais pastorais e movimentos.

Sinta-se bem-vindo e fraternalmente acolhido ao VI Congresso Regional,


que foi preparado com muito zelo.

A Arquidiocese de Goiânia lhe recebe de braços abertos!

Leônidas de Almeida da Silva Santos


Maria Dóris A. Cipriani Magalhães
Casal Coordenador da Pastoral Familiar - Regional Centro-Oeste

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Sumário
I - Mensagens do Congresso

1. O Evangelho da Família, alegria para o mundo. “Completai minha alegria


permanecendo unidos.” (Fl 2,2) - Dom João Wilk _________________________ 8

2. A opção fundamental por Jesus Cristo, como caminho de santificação e motivação -


Pe. Dilmo Franco de Campos____________________________________________ 17

3. Características da santidade no mundo atual (Exortação Apostólica Gaudete e


Exsultate) - Dom José Silva Chaves_______________________________________ 21

4. Pré-matrimônio na Amoris Laetittia - André Parreira e Karina _______________ 27

5. Pós-matrimônio: Pastoral Familiar e movimentos e serviços em favor da família e da


vida - Dom Moacir Silva Arantes _________________________________________ 31

6. Casos Especiais na Amoris Laetitia: acolher, misericordiar, acompanhar, discernir e


integrar - Cláudio Rodrigues e Maria do Rosário Silva _______________________ 38

7. O amor pela família como fator norteador dos trabalhos da Pastoral Familiar - Carlos
Alberto Monteiro e Sintia Monteiro_______________________________________ 46

8. Teologia do Corpo - Ronaldo de Melo e Tatiana ___________________________ 49

II - Reflexões sobre as Mensagens do Congresso

1. Pastoral Familiar nos dias atuais: desafios, perspectivas e adaptação à realidade - Pe.
Cleber Alves de Matos__________________________________________________ 53

2. O Evangelho da Família, alegria para o mundo - Dom José Silva Chaves________ 64

3. Pastoral Familiar na Familiaris Consortio e Amoris Laetitia - Pe. Cleber Alves de


Matos ______________________________________________________________ 69

III - Relatos de Experiência na Arquidiocese de Brasília

1. Encontros de Preparação para a Vida Matrimonial _________________________94

2. Encontro por Acolhida_______________________________________________98

3. Encontro dos não Casados, mas por Deus amados ________________________100


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4. Casais em Segunda União - Grupo Bom Pastor____________________________101

IV - Sugestões de Ações Pastorais

1. Roteiro para Encontro de Noivos ____________________________________ 109

2. Roteiro para Encontro de Idosos _____________________________________ 111

Anexo

Lectio Divina ______________________________________________________ 113

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I - Mensagens do Congresso

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I . O Evangelho da Família, alegria para o mundo
“Completai minha alegria permanecendo unidos.”
(Filipenses 2,2)
Dom João Wilk 1

I.O
tema e o lema resumem o conteúdo das catequeses do papa para o
IX Encontro Mundial das Famílias.

É preciso a gente tentar se reunir. Antes de adentrar na nossa reflexão


sobre o “Evangelho da Família”, eu gostaria de citar uma bela página de um dos
escritores franceses mais conhecidos, Saint-Exupéry, de sua obra Terra dos Homens.
São suas palavras: “Trago sempre nos olhos a imagem de minha primeira noite de voo,
na Argentina — uma noite escura onde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas
luzes perdidas na planície. Cada uma dessas luzes marcava, no oceano da escuridão, o
milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia
confidências. Naquela outra casa, alguém sondava o espaço ou se consumia em
cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Mais além seria, talvez, a hora do amor. De
longe em longe brilhavam esses fogos no campo, como que pedindo alento. Até os mais
discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre essas estrelas vivas,
tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos... É
preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar
com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura”.
Hoje, muitas pessoas são como essas “pequenas luzes perdidas na
planície”, pedindo alento. “... entre essas estrelas vivas — diz o poeta — tantas janelas
fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos... É preciso a gente tentar
se reunir”. Nós somos luzes! Precisamos nos comunicar e unir nossas luzes! É nossa
incancelável vocação e missão hoje como “Igreja em saída” (Papa Francisco). “Vós
sois a luz do mundo!”, exorta-nos o Senhor (Mt 5,14s). Essa luz precisa brilhar “para
todos que estão na casa” e “diante dos homens, para que, vendo as vossas obras, eles

1 Bispo de Anápolis - GO, Bispo Referencial da Pastoral Familiar - Regional Centro-Oeste


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glorifiquem o vosso Pai que está nos céus”. O Evangelho da Família é luz e alegria para
o mundo! Certa vez, madre Teresa de Calcutá foi visitar um pobrezinho que vivia em
uma cabana escura e suja. Perguntou-lhe: — Posso limpar? — Eu estou bem assim —
respondeu o pobrezinho. — Mas ficaria melhor — insiste madre Teresa. Ela vê em um
canto uma lâmpada abandonada, cheia de pó. — Você nunca acende esta lâmpada? —
Pra quê? Há anos ninguém vem me ver. — Se nós viéssemos, você acenderia a
lâmpada? Ele não disse não e as irmãs vieram. Três anos depois, madre Teresa
encontrou as irmãs. Elas disseram: — Aquele homem quer que a senhora saiba que
desde aquele dia a lâmpada está acesa! Nós somos luzes! Que bela e exigente vocação!
Por isso, agradeçamos a Deus a graça deste Congresso. Reunimo-nos para, juntos,
sempre à luz do Evangelho, redirecionar a nossa mente e o nosso coração para a Família
divina: Pai, Filho e Espírito Santo, Deus-Amor que alegra a nossa juventude (cf. Sl
43,4), e para a Família de Nazaré, Jesus, Maria e José e, de novo, nos unir no mesmo
ideal: a vocação à santidade na família, “igreja doméstica” e “santuário da vida”.
Para que a nossa luz resplandeça, para que nossa alegria seja contagiante,
precisamos nos reunir e permanecer unidos no Senhor. “Completai minha alegria
permanecendo unidos”, escreve o Apóstolo Paulo à comunidade de Filipos (Fl 2,2).
Esta bela exortação do Apóstolo encontra-se emoldurada por outros maravilhosos
conselhos. São suas palavras: “... pelo conforto que há em Cristo, pela consolação que
há no amor, pela comunhão no Espírito, por toda a ternura e compaixão, completai
minha alegria [implete gaudium meum] permanecendo unidos, no mesmo amor, numa
só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição e vanglória, mas com
humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um
só do que é seu, mas também do que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento de
Cristo Jesus! (2,1-5). Havia divisões intestinas que ameaçavam a paz da comunidade.
Por isso, fundamentalmente, Paulo afirma que a unidade, fruto da vivência da fé e do
amor, é fonte de plena alegria e, portanto, testemunho para o mundo. Permanecer unidos
no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento realiza aquela unidade que é muito
mais do que simplesmente estar juntos. O lema que escolhemos exorta-nos a nos
colocarmos acordes no mesmo sentimento. Essa unidade significa “um estar no outro”,

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no mesmo sentimento... de Cristo Jesus. O Evangelho da família é eminentemente
comunitário, é vivido em comunhão.
Portanto, deixemos ecoar no nosso coração as palavras do Papa
Francisco, na Exortação Sinodal Amoris Laetitia sobre o amor na família: “A ALEGRIA
DO AMOR que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja. Apesar dos numerosos
sinais de crise no matrimônio (...) o desejo de família permanece vivo, especialmente
entre os jovens, e isto incentiva a Igreja. Como resposta a este anseio, o anúncio cristão
sobre a família é verdadeiramente uma boa notícia” (AL 1). A vivência do mandamento
do amor na família é um evangelho, um alegre anúncio para o mundo.

II. O Evangelho é fonte de alegria para as famílias e a alegria da


família é fonte de alegria para o mundo.

O escritor russo Dmitri Merejkowski (†1941), pai de família, em sua


obra Jesus Desconhecido, testemunhava maravilhado o impacto que o Evangelho
causou na sua vida: “O Evangelho — dizia ele — (...) é como o céu noturno: quanto
mais é contemplado, mais estrelas se descobrem. Nada existe que se lhe pode comparar.
Gastei-o de tanto lê-lo. E digo: Que levarei ao túmulo? Ele, o Evangelho. Com que me
levantarei do túmulo? Com o Evangelho. Que fiz na terra? Li-o. Entre os livros
humanos, lumes terrestres, se distingue esse clarão celestial: o Evangelho. Devemos lê-
lo dez, cem mil vezes. Ler a milésima vez como se fosse a primeira, limpar dos olhos a
névoa do hábito, ver de repente e ficar mudo de assombro — isto é que é necessário
para ler o Evangelho como deve ser lido. É difícil lê-lo com os olhos impuros, falar dele
com lábios impuros, e amá-lo com o coração impuro”. Introduzo aqui o incentivo do
nosso amado Papa Francisco: “A oração brota da escuta de Jesus, da leitura do
Evangelho. Não vos esqueçais, todos os dias de ler um trecho do Evangelho. A oração
brota da intimidade com a Palavra de Deus. Existe esta confidência na nossa família?
Abrimo-lo às vezes para o ler juntos? Meditamo-lo, recitando o terço? O Evangelho lido
e meditado em família é como um pão saboroso que nutre o coração de
todos” (Audiência Geral, 26 de agosto de 2015).
O mundo precisa receber esse “alegre anúncio” através do testemunho da
família cristã! Para que o coração da família seja impregnado pelo Evangelho, para que
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a família seja um evangelho vivo, é preciso aquilo que dizia Gertrud von Le Fort
(†1971): “Quando o coração da mãe é o altar de Deus, toda a casa se torna seu
templo”. E isso vale para todos nós. Antes, é preciso acolher o Evangelho, o dom que
Deus fez de Si à família. Impregnada da alegria do Evangelho, a família se torna
evangelho, alegre anúncio. Nesse sentido, gostaria de dirigir uma palavra muito
concreta aos pais. Diz-se com razão que o coração da mãe é a primeira sala de aula do
filho. Mas o pai é o primeiro professor. Dificilmente se terá um homem completo se a
família, que é educadora por si mesma, não for construída e sustentada pelo cérebro e
pelo coração. O pai será sempre a sombra da Providência e da Paternidade divina em
sua casa, dizia Dom Pestana. Não é sem razão que, se a lembrança da mãe nos comove
(refletia meu predecessor), a figura do pai nos acompanha como luz, guia, mestre,
amigo. São ainda suas palavras: “À medida que a vida passa, cada vez mais se torna
presente e confortante a recordação de quem nos deu a vida, sacrificou-se por nós e
mesmo frustrado por nossos desacertos, orgulha-se das pequeninas e grandes vitórias
dos filhos, carne de sua carne e sangue de seu sangue. Esse laço entre pai e filho, por
vezes mais profundo que a ligação umbilical com a mãe, parece justificar o
comprometedor provérbio: Tal pai, tal filho! A maior homenagem ao nosso pai é o
esforço humilde por superá-lo nos valores que ele, apesar das fraquezas, se empenhou
por semear em nós. Pois, não há maior condenação que descobrir que não se conseguiu
ensinar os filhos a superar nossas limitações” (Decolores, VII, agosto, 2005, 77).
É imprescindível acolher o Evangelho para ser evangelho. “A alegria do
amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja” e fonte de alegria para o
mundo. Os nossos contemporâneos necessitam dessa maravilhosa e urgente
interpelação: “Vede como eles se amam!”, anotou Tertuliano (†220) sobre a reação dos
pagãos vendo as primeiras comunidades cristãs. Num passado recente, o Beato Papa
Paulo VI alertava-nos dizendo que “os homens contemporâneos escutam com mais boa
vontade as testemunhas do que os mestres e se escutam os mestres é porque eles são,
antes, testemunhas” (Evangeli nuntiandi, 41). Sim, “a Igreja não faz proselitismo, ela
deve crescer por atração”, pontua o Papa Bento XVI. A alegria do amor que se vive nas
famílias (“igrejas domésticas”) é um dos mais belos modos de anunciar o amor de Deus

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ao mundo de hoje. O Evangelho da Família testemunha aquela comunhão de amor
trinitária, à maneira do lar de Nazaré.
Seguindo uma inspiração do Papa Bento XVI, é importante dizer que por
natureza "a alegria exige ser comunicada, o amor exige ser comunicado, a verdade
exige ser comunicada” (cf. Discurso enviado à Urbaniana, 23/10/2014). Quem recebeu
uma grande alegria, não pode tê-la simplesmente para si, deve transmiti-la. O mesmo
vale para o dom do amor, para o dom do reconhecimento da verdade que se manifesta.
Quando André encontrou Cristo, não pode fazer outra coisa que dizer a seu irmão:
encontramos o Messias (Jo 1,41). E Filipe, ao qual foi doado o mesmo encontro, não
pode fazer outra coisa que dizer a Natanael que tinha encontrado Aquele do qual tinham
escrito Moisés e os profetas (Jo 1,45). Anunciamos Jesus Cristo não para proporcionar
em nossa comunidade o maior número de membros possível, e tanto menos pelo poder.
Falamos de Jesus porque sentimos o dever de transmitir aquela alegria que nos foi
doada, a alegria do Evangelho. Seremos anunciadores credíveis de Jesus Cristo quando,
verdadeiramente, O encontramos no profundo da nossa existência, quando, através do
encontro com Ele, nos é doada a grande experiência da verdade, do amor e da alegria.

III. A alegria deverá ser vivida na individualidade, mas não só, pois a
comunidade é fonte de realização e alegria. Na comunidade, se vivem os momentos
difíceis, mas também, se celebram as vitórias.

O Papa Francisco, em uma de suas belas catequeses de quarta-feira em


Roma (09/09/2015), ofereceu-nos uma reflexão sobre a importância da comunidade
para a família cristã. Há um “vínculo entre a família e a comunidade cristã. É um
vínculo, por assim dizer, natural porque a Igreja é uma família espiritual e a família é
uma pequena Igreja”. Continua a Santo Padre: “A comunidade cristã é a casa daqueles
que acreditam em Jesus como a fonte da fraternidade entre todos os homens. A Igreja
caminha no meio dos povos, na história dos homens e das mulheres, dos pais e das
mães, dos filhos e das filhas: esta é a história que conta para o Senhor. Os grandes
acontecimentos dos poderes mundanos escrevem-se nos livros de história, e ali
permanecem. Mas a história dos afetos humanos inscreve-se diretamente no coração de
Deus; e é a história que permanece para sempre. Este é o lugar da vida e da fé. A família
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é o lugar da nossa iniciação — insubstituível, indelével — nesta história. Nesta história
de vida plena, que acabará na contemplação de Deus por toda a eternidade no Céu, mas
começa na família! Por isso a família é tão importante”.
O Papa lembra nessa catequese que o Filho de Deus aprendeu a história
humana nesta via, e percorreu-a até ao fim (cf. Hb 2,18; 5,8). Jesus nasceu numa família
e ali aprendeu o mundo: uma oficina, quatro casas, uma aldeia insignificante. No
entanto, vivendo por trinta anos esta experiência, Jesus assimilou a condição humana,
acolhendo-a na sua comunhão com o Pai e na sua própria missão apostólica. Depois,
quando deixou Nazaré e começou a vida pública, Jesus formou ao seu redor uma
comunidade, uma assembleia, uma com-vocação de pessoas. Eis o significado da
palavra igreja.
Na comunidade se vivem momentos difíceis, é verdade. Por isso, o Papa
Francisco faz-nos o convite “a pôr os vínculos familiares no âmbito da obediência da fé
e da aliança com o Senhor”. Essa experiência não mortifica os vínculos familiares, pelo
contrário, protege-os, liberta-os do egoísmo, preserva-os da degradação, nos salva para
a vida que não morre. “A circulação de um estilo familiar nas relações é uma bênção
para os povos: traz de novo a esperança sobre a terra. Quando os afetos familiares se
deixam converter ao testemunho do Evangelho, tornam-se capazes de coisas
impensáveis, que fazem tocar com as mãos as obras de Deus, aquelas obras que Ele
realiza na história, como as que Jesus realizou em prol dos homens, das mulheres, das
crianças que encontrou” (Audiência Geral, 2 de setembro de 2015).
O pensamento do Papa Francisco faz conexão com o de São João Paulo
II, que também, de um modo muito concreto, para que não haja ilusões, deixou-nos um
testamento chamado espiritualidade de comunhão: Onde se educam os ministros do
altar, os consagrados, os agentes pastorais, onde se constroem as famílias e as
comunidades. Em que consiste, concretamente? “Ter o olhar do coração voltado para o
mistério da Trindade, que habita em nós e cuja luz há de ser percebida também no rosto
dos irmãos que estão ao nosso redor (...) significa também a capacidade de sentir o
irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é, como um que faz parte de
mim, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus
anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhe uma verdadeira e
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profunda amizade”. É ainda a “capacidade de ver antes de mais nada o que há de
positivo no outro, para acolhê-lo e valorizá-lo como dom de Deus: um dom para mim,
como o é para o irmão que diretamente o recebeu”. Por fim, “é saber criar espaço para
o irmão, levando os fardos uns dos outros (Gl 6,2) e rejeitando as tentações egoístas que
sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes”. Como
Francisco, exorta-nos o Papa da Família: “Não haja ilusões! Sem esta caminhada
espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores da comunhão. Revelar-se-iam
mais como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do que como vias para a sua
expressão e crescimento” (Novo Millennio Ineunte, 43). Uma espiritualidade de
comunhão assim compreendida e assumida como ideal traz inúmeros frutos de alegria e
de paz para a vida pessoal, familiar, eclesial e é testemunho para os nossos irmãos.

IV. A vida de comunidade é um instrumento eficaz para a sobrevivência


em meio ao mundo avassalador que nos permeia.

Nos Evangelhos, a assembleia de Jesus tem a forma de uma família, e de


uma família hospitaleira, não de uma seita exclusiva, fechada: nela encontramos Pedro
e João, mas também o faminto e o sedento, o estrangeiro e o perseguido, a pecadora e o
publicano, os fariseus e as multidões. E Jesus não cessa de acolher e falar com todos, até
com quantos já não esperam encontrar Deus na sua vida. É uma lição forte para a Igreja!
Os próprios discípulos são eleitos para cuidar desta assembleia, desta família dos
hóspedes de Deus.
Para que seja viva no hoje desta realidade da assembleia de Jesus, é
indispensável reavivar a aliança entre a família e a comunidade cristã. Poderíamos dizer
que a família e a paróquia são os dois lugares onde se realiza aquela comunhão de amor
que encontra a sua derradeira fonte no próprio Deus. Uma Igreja, verdadeiramente,
segundo o Evangelho, não pode deixar de ter a forma de uma casa hospitaleira, sempre
de portas abertas.
De um modo muito concreto o Papa Francisco diz-nos que hoje é
indispensável e urgente fortalecer o vínculo entre família e comunidade cristã, para
enfrentar os desafios do nosso tempo. Sem dúvida, é necessária uma fé generosa para

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 14


ter a inteligência e a coragem de renovar esta aliança. Às vezes — exemplifica o Papa
Francisco —, as famílias hesitam, dizendo que não estão à altura: “Padre, somos uma
família pobre e até um pouco arruinada”, “Não estamos à altura”, “Já temos tantos
problemas em casa”, “Não temos força”. Isto é verdade. “Mas ninguém é digno,
ninguém está à altura, ninguém tem força! Sem a graça de Deus, nada poderíamos fazer.
Tudo nos é dado gratuitamente! E o Senhor nunca chega a uma nova família sem fazer
algum milagre”. Recordemos, convida-nos o Papa, “aquilo que Ele fez nas bodas de
Caná! Sim, quando nos pomos nas suas mãos, o Senhor leva-nos a fazer milagres —
aqueles milagres de todos os dias! — quando o Senhor está ali naquela família”.
Naturalmente, também a comunidade cristã deve fazer a sua parte. Por
exemplo, procurar superar atitudes demasiado diretivas e funcionais, favorecendo o
diálogo interpessoal, o conhecimento e a estima recíproca. As famílias tomem a
iniciativa e sintam a responsabilidade de oferecer os seus dons preciosos em prol da
comunidade. Todos nós devemos estar conscientes de que a fé cristã se vive no campo
aberto da vida partilhada com todos; a família e a paróquia devem realizar o milagre de
uma vida mais comunitária para a sociedade inteira. É preciso acreditar. Recorro
novamente a Santa Teresa de Calcutá. Para ela, a misericórdia caía como chuva do céu
da união com Deus na oração. Depois de ter retirado o prêmio Nobel em 1979, na sua
viagem de regresso de Oslo, madre Teresa passou por Roma. Os jornalistas
precipitaram-se para entrevistá-la e ela recebeu-os, pacientemente, pondo na mão de
cada um uma medalha da Imaculada. A um jornalista que lhe manifestou, com certa
maldade, a convicção de que depois da sua morte o mundo permaneceria igual a antes,
ela respondeu com simplicidade: Veja, eu nunca pensei que podia mudar o mundo!
Procurei apenas ser uma gota de água limpa, na qual pudesse brilhar o amor de Deus.
Acha que é pouco? Depois, no silêncio comovido dos jornalistas, prosseguiu: Procure
ser também o senhor uma gota limpa e assim seremos duas gotas. É casado? “Sim,
madre!”. Diga isto também à sua esposa, assim seremos três. Tem filhos? “Três filhos,
madre”. Diga-o também aos seus filhos, e seremos seis! Em síntese, convidava ao
contágio benéfico da misericórdia, fonte de alegria na família e para o mundo.
Revisitando as palavras de meu antecessor na Diocese de Anápolis e na
Pastoral Familiar no nosso Regional Centro-Oeste — Dom Manoel Pestana Filho —,
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 15
encontrei uma mensagem que ele dirigiu às famílias há quase 17 anos. Assim escreveu:
“Jesus falou a São Francisco: Vai e reconstrói a minha casa! E sua fé, coragem e
operosidade incansável revelaram novos horizontes de esperança e beleza à Igreja.
Todos os que Cristo chamou e que lhe disseram Sim! como Maria disse ao Anjo, ouvem,
pelos lábios da Igreja, a ordem angustiada e irrecusável: Vão e reconstruam as minhas
famílias! (...). Reconstruam-na na fé luminosa, na esperança segura, na caridade
transbordante, no espírito de renúncia e sacrifício, na alegria do amor que vence a morte
e abre, ”enerosa, as comportas da vida. A Igreja os chama como apóstolos da vida e da
família, para que rezem e se consagrem, sem limites, à santificação dos lares, por onde
passa o futuro do mundo. Vão, sem demora e sem reservas, reconstruam, como
Francisco (e, acrescento, com o nosso Papa Francisco), a minha Igreja, reconstruindo a
Família” (Mensagem ao IV Congresso Macro-Regional Centro-Oeste da Pastoral
Familiar 12-14/10/2001). Faço minhas as palavras de uma mãe, elevada à honra dos
altares, Santa Gianna Beretta Molla: “Devemos semear, lançar a nossa pequena
semente, sem jamais nos cansarmos”. Só assim seremos os mais preciosos apóstolos de
que a Igreja hoje precisa para ajudar o mundo a sobreviver.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 16


2. A Opção Fundamental por Jesus Cristo, como
Caminho de Santificação e Motivação
Pe. Dilmo Franco de Campos2

A partir do momento em que adquirimos o uso da razão, começamos


inexoravelmente a fazer escolhas, dizer o que gostamos e o que não gostamos, o que
queremos e o que não queremos. As opções colocadas diante de nós requerem uma
tomada de decisão. E para que as nossas decisões se tornem trampolins para a nossa
felicidade, e não obstáculos, precisamos ter critérios, ter um norte para saber por onde
ir. Torna-se necessário encontrar um fundamento na nossa vida para que as nossas
escolhas nos conduzam sempre em direção à felicidade.

O que é importante saber e o que é necessário saber para não perder o


rumo da vida? Para nós cristãos, Jesus Cristo é o centro da nossa vida e das nossas
escolhas. Ele deve ser a nossa meta.
Jaime Espinosa, no seu livro “Questões de Bioética”, cita parte de um
artigo de G.K. Chesterton, de 1910, intitulado “As raízes do mundo”. Chesterton
contava a história de um rapazinho que morava numa grande casa com jardim. Tinha
autorização para colher as flores, mas não para arrancar as plantas pela raiz. Uma delas,
porém, um pequeno espinheiro insignificante, com flores brancas em forma de estrela,
atraía especialmente a sua curiosidade.
Os seus tutores, gente digna e formal, davam-lhe diversas razões pelas
quais não devia arrancar essa flor, mas só conseguiam espicaçá-lo. Por fim, numa noite
escura, com o coração a bater-lhe fortemente no peito, o menino esgueirou-se até o
jardim. Repetia de si para si que “a verdade” exigia que arrancasse aquela planta, e que,
afinal de contas, o assunto todo não tinha mais importância do que colher umas maçãs à
beira do caminho. Pôs-se a puxá-la, mas ela se agarrava obstinadamente ao chão, como
se tivesse grampos de ferro em vez de raízes. No terceiro puxão, o rapaz ouviu atrás de

2 Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey - Arquidiocese de Goiânia


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 17
si um grande ruído, e ao voltar-se verificou que a cozinha e o telheiro tinham desabado.
Fez ainda um derradeiro esforço, mas quando ouviu, ao longe, o estábulo ruir e os
cavalos fugirem relinchando, correu de volta para a cama e enrolou-se nos cobertores.
No dia seguinte, depois de verificar que os desastres da noite tinham sido
reais e não imaginários, obstinou-se em pensar que não tinham relação nenhuma com a
planta ou os seus puxões. E, num dia em que o nevoeiro envolvia todas as coisas no seu
manto, voltou a agarrar o pequeno espinheiro e a puxá-lo com todas as forças, até que
lhe chegaram, afogados pela neblina, os gritos de pânico da população a anunciar que o
castelo do rei caíra, as torres da costa tinham ruído e metade da cidade mergulhara no
mar. Assustado, deixou em paz aquela planta por algum tempo, embora nunca chegasse
a esquecê-la completamente.
Quando chegou à idade adulta e os desastres que causara já tinham sido
consertados, passou a dizer abertamente: “É preciso resolver o mistério dessa erva
irracional. Em nome da ‘verdade’, devemos arrancá-la”. Reuniu um grande bando de
homens fortes, e todos puseram as mãos sobre a pequena planta, puxando-a sem cessar.
A Muralha da China desabou ao longo de cem quilômetros, as Pirâmides desfizeram-se
em pedras soltas, a Estátua da Liberdade caiu sobre dois terços da frota americana e
afundou-os, a Torre Eiffel arrasou Paris na sua queda, o Japão submergiu no mar...
Depois de vinte e quatro horas, aqueles homens fortes tinham arrasado metade do
mundo civilizado, mas não tinham conseguido arrancar o pequeno espinheiro.
“Não desejo cansar o leitor relatando-lhe todos os detalhes dessa história
realista” – diz Chesterton -, “como a ocasião em que usaram primeiro elefantes e depois
locomotivas a vapor para arrancar a flor, e o único resultado foi que a planta resistiu
bravamente, embora a lua começasse a apresentar rachaduras e até o sol tivesse passado
a vacilar”. Por fim, a humanidade revoltou-se e pôs fim a essas tentativas.
Muito antes disso, porém, o rapaz tinha abandonado a tarefa, deixando-a
para os outros, enquanto dizia aos seus tutores: “Vocês deram-me inúmeras respostas
elaboradas e vãs sobre por que eu não devia arrancar esse espinheiro. Por que não me
deram as duas únicas respostas verdadeiras: primeiro, que não sou capaz de fazê-lo; e,
segundo, que eu destruiria tudo o mais se o tentasse? ”

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 18


Spinosa diz que essa parábola se vem revelando especialmente profética
no campo das ciências biológicas e da medicina moderna. Cientistas do mundo inteiro
vêm tentando arrancar as raízes da vida biológica para encontrar “a verdade” sobre a
natureza humana, mas não conseguem fazê-lo pelos seus métodos, nem nunca o
conseguirão. O que conseguem, em certa medida, é apenas “destruir tudo o mais”. Não
é que o progresso científico em si seja mau, antes pelo contrário; mas o grande erro que
se comete tantas vezes é pensar que a verdade científica pode substituir a Ética, ou pelo
menos tomar-lhe o primado. Porque é somente a Ética, e mais ainda, a Ética revelada
por Deus e proposta pela Igreja, que consegue compreender a verdade sobre “as raízes
do mundo”.
O termo “escolha fundamental”, mais comumente chamado de “opção
fundamental”, passou a ser usado de modo mais amplo no campo teológico moral
somente a partir da segunda metade do século XX. Mesmo sendo de uso recente, seu
conteúdo é fundado na própria Sagrada Escritura, sobretudo quando se refere à palavra
“coração” e às implicações deste termo no agir do homem.
Segundo a Veritatis Splendor (VS 65), a Opção Fundamental é uma
“decisão sobre si mesmo e determinação da própria vida a favor ou contra o Bem, a
favor ou contra a Verdade, em última análise, a favor ou contra Deus”. Essa decisão dá,
por sua vez, ‘forma’ a toda a vida moral de um homem, configurando-se como o sulco
dentro do qual poderão encontrar espaço e incremento às demais escolhas quotidianas
particulares”
A Escolha Fundamental (EF) pode ser considerada como o tônus do agir
moral, isto é, como a disposição de base que leva o homem a estar decidido,
intencionalmente, ao Bem, à Verdade, a Deus. Como fim preciso ou ainda como a
autodeterminação fundamental do indivíduo que envolve sua vida em plenitude, que
toca as estruturas que sustentam todo o seu dinamismo ético, dando forma à vida moral
do sujeito.
Se de um lado, a opção fundamental atua e se concretiza nas escolhas
concretas, são estas que, no dever humano histórico, colaboram para a formação e
solidificação da interioridade ética do sujeito, particularmente de sua EF. Cada escolha
traz consigo uma afirmação ou negação do Bem, de modo que, escolhendo promover ou

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 19


rejeitar o Bem, o sujeito não só escolhe sobre alguma coisa, mas assume ou rejeita o
Bem em sua vida. Assim, cada escolha tem seu significado ético e o seu peso na
construção real da personalidade moral de um sujeito ético, da sua estrutura moral mais
profunda e fundamental – escolho alguma coisa escolhendo sobre mim mesmo.
A escolha fundamental do cristão é acolher Deus como Pai. É acolher o
outro como irmão. Reconhecer o Senhor na humanidade de Jesus é reconhecer o sentido
do humano no modo pelo qual Ele o viveu sobre a terra, reconhecer como
autenticamente humana a intencionalidade própria do seu fazer-se próximo e assumir
aquela mesma intencionalidade como própria. Acolher a comunhão com Ele é assumir
como própria a lógica do amor que é a Sua, de modo que seja ela a motivar, ordenar e
conduzir todo o compreender e o julgar, o decidir e o agir. É a moralidade que vem
compreendida e assumida em termos de caridade: moralmente bom é o que é conforme
a caridade. (S. BASTIANEL, «Una opzione fondamentale di fede-carità», 73 )
E para percorrermos esse caminho, jamais esqueçamos da Mãe de Jesus e
nossa mãe: Maria. No mistério de Cristo e da Igreja, Maria ocupa um lugar eminente. O
próprio Concílio Vaticano II afirma que ela “ocupa na Igreja o lugar mais alto depois de
Cristo e o mais perto de nós” (LG 54).
E que nos momentos de dificuldade, “Maria, a Mãe que Jesus ofereceu a
todos nós, possa sempre amparar os nossos passos e dizer ao nosso coração: ‘Levanta-
te! Olha em frente, olha para o horizonte’, porque Ela é Mãe de esperança”.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 20


3 - Características da santidade no mundo atual.
(Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate)
Dom José Silva Chaves3

O matrimônio, escrevia Leão XIII, não é um contrato qualquer, mas um


contrato sagrado por sua própria força, natureza e caráter. O Concílio Vaticano II, depois
de fazer uma exposição do estado atual do matrimônio e da família, começa fazendo
“uma exposição mais clara de alguns pontos capitais da doutrina da Igreja a respeito
desse sacramento” (GS 47). O primeiro ponto que toca o Concílio é a exposição do
“caráter sagrado do matrimônio e da família” (GS 48). Vamos tratar, portanto, de um
tema atual, de grande interesse, e que tem relevância especial na teologia e na pastoral
de hoje.
Tem-se falado muitas coisas sobre o matrimônio e a família numa ótica
humana e cristã; mas muito pouco sobre as características da espiritualidade própria dos
esposos cristãos. A espiritualidade é a fonte segura donde os esposos vão tirar soluções
para todos os problemas, conjugais e familiares, e a força para viverem em
profundidade e em toda sua amplitude seu sacramento.
O tema da espiritualidade matrimonial é vastíssimo, daria matéria para
um curso completo sobre o assunto. Toda a vida cristã é um chamado que Deus faz ao
homem, para que se una a Ele, chamado ao qual o homem há de corresponder com sua
atitude pessoal.
O Concílio estabelece este princípio: “É muito claro que todos os fieis,
de qualquer estado ou condição, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição
da caridade, isto é, da santidade” (LG 40).
As razões que podem convencer-nos desta universal vocação de todos os
cristãos não só para a salvação, mas também para a perfeição da vida cristã na caridade,
isto é, na santidade, podem resumir-se no seguinte: Todos nós formamos o Povo Santo
de Deus. Deus que é o “único Santo”, se dignou chamar-nos à sua Igreja para formar o
novo Povo de santificação. Todos nós, os batizados, formamos a grande Família de

3 Bispo Emérito da Diocese de Uruaçu - GO


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 21
Deus, à qual amou Cristo como sua Esposa “entregando-se a Si mesmo por ela para
santificá-la (Ef 5,25-26), uniu-a a Si como seu próprio corpo e a enriqueceu com o dom
do Espírito Santo para a glória de Deus” (LG 39). Se todos nós formamos esta Igreja de
Deus, é claro que todos na Igreja temos de viver esta vocação de santidade a que está
chamado todo o Povo de Deus.
“Por isso, na Igreja, todos, sem exceção, os que apascentam (hierarquia)
e os apascentados por ela, estão chamados à santidade” (LG 39). Toda a vida cristã
consiste em configurarmos com Cristo nossa cabeça, e sermos fieis discípulos do mestre
e modelo de toda perfeição.
Além disto, temos o mandato expresso do Mestre: “Sede santos como
vosso Pai celestial é santo” (Mt 5, 48). Cristo “pregou a todos e a cada um dos seus
discípulos, qualquer que fosse sua condição, a santidade de vida da qual Ele é a fonte e
fim” (LG 40).
Um dos atributos essenciais de Deus é a santidade, origem e fonte de
toda outra santidade. “Sede santos, porque Eu sou santo, Javé, vosso Deus” (Lv 19,
2-3). A santidade é exigência do batismo. “Os seguidores de Jesus Cristo são chamados
por Deus não por suas obras, mas segundo seu desígnio e sua graça. Eles são
justificados no Senhor Jesus porquanto pelo batismo da fé se tornaram verdadeiramente
filhos de Deus e participantes da natureza divina, e, portanto, realmente santos” (LG
40).
Apoiados nesta realidade de haver sido constituídos em criaturas novas,
São Paulo exorta aos cristãos a viver “como convém aos santos” (Ef 5,3), e que “como
eleitos de Deus, santos e amados, se revistam de entranhas de misericórdia,
benignidade, humildade, modéstia, paciência” (Col 3,12) e produzam frutos do Espírito
para a santificação (Gal 5,22; Rom 6,22).
No caminho da santidade cristã há grande diversidade. “Uma mesma é a
santidade que cultivam, nos múltiplos gêneros de vida e ocupações, todos os que são
guiados pelo Espírito de Deus, e obedientes à voz do Pai, adorando-o em espírito e
verdade, seguem a Cristo pobre, humilde e carregado com a cruz, a fim de merecer
participar de sua glória”, contudo, “cada um deve caminhar sem vacilação segundo os
dons e funções que lhe são próprias” (LG 41).
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 22
As bem-aventuranças são tão suaves e belas que Jesus Cristo preconiza e
aponta como o segredo da santidade, que a legião de santos soube realizar tão
admiravelmente. O cumprimento dos mandamentos da lei de Deus faz o bom cristão. A
fidelidade aos conselhos evangélicos faz o homem perfeito. A prática das bem-
aventuranças faz o santo. O Papa Francisco comenta muito bem na Exortação Gaudete
et Exsultate.
A verdade é que Deus chama todos os homens à santidade. É uma lei
universal “sede santos!” Ora, Deus, chamando para um ideal, dá as graças necessárias
para realizá-lo, porém, a graça não realiza a obra, mas nos ajuda a realizá-la. Deus não
pode salvar-nos sem nós; nem nos santificar sem a nossa cooperação. Uma verdade
fundamental que sempre deveríamos ter diante dos olhos é que sem Deus nada podemos
(Jo 15,5) e que com Ele tudo nos é possível (Fl 4,13). Eis o segredo dos Santos, a fonte
de sua força. Deus é Pai de todos, e não tem amizade particular com ninguém, senão
com os pequeninos e com os humildes. “Ele resiste aos soberbos e dá a sua graça aos
humildes” (Jo 6,6). A criatura mais santa que o mundo já viu é Aquela que sendo
escolhida para ser a Mãe de Deus, proclamou-se a escrava do Senhor!
São múltiplos e concretos os caminhos para realizar este ideal de
santidade a que todos nós somos chamados, porque múltiplos são os gêneros de vida,
ocupações, circunstâncias e funções. Atendendo aos principais estados de vida em que
podem encontra-se os cristãos, podemos reduzir os caminhos da santidade em três:
Vida consagrada pela função ministerial (bispos, presbíteros e demais
ministros sagrados). Pela vocação a que foram chamados e os mistérios a que servem
“devem conservar-se imunes de todo vício, agradar a Deus e fazer todo o bem diante
dos homens” (Tim 3,8-10.12-13). LG 41
Vida consagrada pela prática dos conselhos evangélicos. “A santidade
da Igreja se mantém de uma maneira especial com os múltiplos conselhos que o Senhor
propõe no Evangelho para que os observem seus discípulos” (LG 42).
Vida consagrada pelo sacramento do matrimônio. Deste caminho de
santidade é que vamos falar mais detidamente, já que é o caminho que vocês
escolheram e no qual devem realizar sua vocação concreta à santidade. “Os esposos e
pais cristãos, seguindo seu próprio caminho, devem apoiar-se mutuamente na graça ao
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 23
longo de toda a caminhada da vida; desta maneira oferecem a todos o exemplo de um
incansável e generoso amor, contribuem para a estabilidade da fraternidade e da
caridade e se constituem em testemunhas e colaboradores da fecundidade da mãe Igreja,
como símbolo e participação daquele amor com que Cristo amou a sua Esposa e se
entregou a Si mesmo por ela” (LG 41).
Hoje em dia se insiste muito nesta maneira específica de viver a
santidade que hão de ter os esposos cristãos. Antigamente, se considerava talvez o
matrimônio como uma espécie de impedimento ou de atraso no caminho da santidade.
Com frequência vinha sempre à tona os outros dois caminhos, deixando o caminho do
matrimônio como um caminho de segunda classe.
Felizmente essa concepção pejorativa do matrimônio como caminho de
santidade foi superada; já se fala com frequência, de uma espiritualidade matrimonial,
considerando o matrimônio como um dos caminhos queridos por Deus, como qualquer
outro, para viver a vida cristã em toda a sua intensidade e perfeição.
Se é verdade que toda santidade consiste em viver o amor e em dar uma
resposta amorosa ao Amor de Deus, que nos amou primeiro, a espiritualidade conjugal
acentua ainda mais esta vivência de amor como realização da santidade, já que a
santidade matrimonial consiste precisamente, e de maneira expressa, em viver uma vida
de amor total.
Sendo a união entre o homem e a mulher um sacramento, instituído por
Jesus Cristo, torna-se um lugar do encontro com Deus. Deus está presente nessa união e
não cessa de vir ao encontro dos esposos. Ele os ajuda a se utilizarem de todos os
aspectos difíceis do casamento. O matrimônio se transforma numa ocasião de viverem
uma unidade mais profunda mediante a aceitação cotidiana do outro. É a ocasião de
viverem não somente as alegrias profundas dessa união, mas também o perdão, como
insiste tanto o Papa Francisco, em todos os seus escritos.
Perdão é o grande dom de Jesus à humanidade. Jesus veio para nos
perdoar e nos possibilitar viver o perdão. Perdão é um amor efetivo pelo próximo que se
encontra ferido, vulnerado, temeroso e que quebrou a união. Perdão é compreender que
todos os bloqueios, todos os atos agressivos derivam em grande parte de sofrimentos
anteriores, de angústias e temores. Perdão é acolher o outro tal qual ele é, com todas as
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 24
suas feridas, todo o seu passado. Perdão é reconhecer e demonstrar a aliança com o
outro.
Esse perdão, proveniente do coração de Deus, é o que cura o homem em
profundidade. Quando alguém faz a experiência desse perdão, torna-se, por sua vez
capaz de perdoar.
As famílias cristãs unidas são sinais a manifestar que o amor, a unidade e
a paz são possíveis. Com suas características, cada uma constitui a célula inicial de toda
a unidade, de todo o perdão, de toda a comunidade, de toda a fecundidade; por isso, são
sinais de esperança.
Quando os esposos se perdoam facilmente, é sinal que se amam de
verdade, estão, pois, realizando o amor de Cristo e nisso consiste especialmente a
santidade, em viver o amor de Cristo em todos os gestos.
O Papa Pio XI concedeu uma indulgência, que chama a atenção, aos fieis
da arquidiocese de Westmister. Todo consorte que beije o anel de boda de seu cônjuge
pode alcançar 100 dias de indulgência se o faz recitando a seguinte oração: “Concede-
nos, Senhor, que te amando nos amemos mutuamente e possamos viver segundo tua
lei”.
Os esposos não precisam ir longe para buscar seu próprio caminho de
santidade. Já o têm dentro do lar. O amor conjugal autêntico é um amor
sacramentalizado, que faz aparecer Cristo em todas suas manifestações.
A espiritualidade de “dois em comum” é outra característica específica da
espiritualidade matrimonial: a de ser uma espiritualidade vivida em comum.
Os esposos se santificam vivendo em comunidade de amor. Se se
empenham em viver cada qual sua vida espiritual independente do outro, não realizarão
sua comunidade de amor no que tem de mais santificador e, consequentemente, se
condenariam a não conseguir a santidade.
Todos os dias os esposos cristãos devem ter um mínimo de oração
comunitária, mas isto não quer dizer que cada um pretenda impor ao outro suas
devoções particulares. A participação de ambos, diariamente se possível, à celebração
eucarística, será o melhor sinal de mútua união plena com Cristo.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 25


Revisão de vida em comum. Para a confissão deveriam fazer em comum
a revisão de vida com plena sinceridade e abertura de um para com o outro. Seria
aconselhável também a direção espiritual conjunta.
O casal deve participar de algum movimento paroquial qualquer, a fim de
exercer o seu apostolado em comum, como testemunho e realização de sua plena
comunidade de amor; trabalhando sem descanso, com fé e esperança, pela renovação e a
vivência constante dos ideais do matrimônio cristão, sendo fermento na grande massa
indiferente e fria da sociedade em que vivemos.
A espiritualidade matrimonial não fica reduzida à vida dos esposos; deve
abrir-se a toda a comunidade familiar. Devem realizar a santidade também enquanto
pais. “A educação dos filhos é um dos deveres mais sagrados dos pais, transmitindo-lhes
sua fé e sua religiosidade cristã, realizam uma exigência de sua paternidade total (carnal
e espiritual) e como a primeira de suas tarefas apostólicas” (AA 11). “A vida familiar
em comum traduz a melhor expressão e realização da vida da Igreja, refletida na
pequena Igreja que é a família” (LG 11; AA 11).
Outro aspecto da espiritualidade matrimonial é seu caráter de
testemunho. Se todos os cristãos devem dar testemunho das virtudes do Reino de Deus
em sua vida e em seu ambiente, os esposos têm essa mesma obrigação e, mais ainda, no
seio de sua família, porque os pais são os educadores natos de seus filhos; se lhes deram
a vida são os primeiros responsáveis por eles.
Senhor, defendei, protegei, robustecei e abençoai as nossas famílias. Que
elas sejam exemplo para a nossa sociedade como o foi a vossa Família de Nazaré.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 26


4 - Pré-Matrimônio na Amoris Laetitia
André Parreira e Karina4

"Convido as comunidades cristãs a reconhecerem que é um bem para


elas mesmas acompanhar o caminho de amor dos noivos." (Papa
Francisco, AL207)

A Pastoral Familiar articula suas ações em três eixos, o Setor Pré-


Matrimonial, o Setor Pós-Matrimonial e o Setor Casos Especiais. Todos os setores
possuem a mesma importância, pois se direcionam às famílias e aos indivíduos em
diferentes etapas da vida, mas todas igualmente dignas.
Colocando o foco deste artigo no Setor Pré-Matrimonial, lembro que este
setor é convidado a organizar seus trabalhos também sobre três eixos, a Preparação
Remota, a Preparação Próxima e a Preparação Imediata. Tais eixos ficaram bem
definidos a partir da Exortação Apostólica Familiaris Consortio (1981), de dois
documentos elaborados pela CNBB: Preparação para o Sacramento do Matrimônio
(1996) e Diretório da Pastoral Familiar (2004), que começaram a ser pensados pela
Igreja há cerca de 40 anos, durante reuniões de conferências episcopais, como a CNBB
e CELAM, e já apontavam a necessidade de tal estrutura.
Recentemente, a Preparação para o Matrimônio ganhou novo destaque,
pois foi um dos eixos de trabalho do Sínodo dos Bispos sobre a família em 2014 e 2015.
Em 2016 o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Amoris Laetitia, que pode
ser considerada uma resposta ao sínodo. Nela, a preparação para o Matrimônio é citada
em vários pontos, mas recebe também um subcapítulo inteiro dedicado ao tema, dos
parágrafos 204 ao 216, intitulado "Guiar os noivos no caminho de preparação para o
matrimônio".
Posso dizer que o Papa Francisco não traz novidades sobre o tema na
Amoris Laetitia, mas faz uma revisão das orientações da Igreja de décadas sobre a
preparação para o Matrimônio, além de pedir ainda mais empenho: “a complexa

4 Casal Referencial do Setor Pré-matrimonial - Assessores Pedagógicos do Inapaf


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 27
realidade social e os desafios que a família é chamada a enfrentar, atualmente, exigem
um maior empenhamento de toda a comunidade cristã na preparação dos noivos” (AL
206).
Na Amoris Laetitia também ficam reforçadas as três etapas, a Remota, a
Próxima e a Imediata. A Preparação Remota começa no ventre e perpassa a vida até que
um namoro esteja se transformando em noivado, sendo constituída por todas as ações
que estimulem a vocação matrimonial e trabalhem em favor dela, começando na
vivência dos pais e passando pela catequese, crisma, encontros de namorados e outras
iniciativas.
E sobre a etapa próxima, o Papa nos orienta que “a preparação dos que
já formalizaram o noivado, quando a comunidade paroquial consegue acompanhá-los
com bom período de antecipação, deve dar-lhes também a possibilidade de individuar
incompatibilidades e riscos” (AL 209), retomando o conceito de acompanhar. Ele fala,
insistentemente, no acompanhamento dos noivos, o que é a chave para uma boa
catequese matrimonial. Acompanhar é um dos verbos mais fortes na exortação e aparece
19 vezes em todo o texto. É o acompanhamento, por exemplo, que permite que os
agentes conheçam melhor os noivos e estes se abram expondo suas dúvidas e
inseguranças.
No Brasil, já em 1978, o Documento número 12 da CNBB, falava em
Preparação Remota e Próxima e que esta não se pode reduzir a um curto período antes
da celebração e faz uma clara recomendação: “O ideal é que essa preparação se
estenda por um tempo razoável, acompanhando os períodos do namoro e
principalmente do noivado, durante os quais se empreguem os múltiplos e variados
meios para atender aos diversos aspectos que ela inclui. […] Menos formal que o
“curso de noivos”, esse catecumenato pode ser realizado nas casas, acompanhando
cada casal de noivos ou agrupando vários” (Parágrafo 2.4, Documento 12 CNBB).
Diante das características específicas de cada diocese e também em
respeito às iniciativas regionais, o Papa não dá uma receita fixa, mas afirma que “há
várias maneiras legítimas de organizar a preparação próxima para o matrimônio e
cada Igreja local discernirá a que for melhor, procurando uma formação adequada
que, ao mesmo tempo, não afaste os jovens do sacramento.” (AL 207) Contudo, tal
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 28
liberdade de organização deve ser guiada pelos princípios básicos reunidos nos vários
documentos que disciplinam o tema. A Amoris Laetitia, bem como alguns
pronunciamentos do Papa estão em total sintonia com as recomendações do documento
Preparação para o Sacramento do Matrimônio (1996), ao dizer que a etapa próxima
merece tempo e cuidado necessários, que seja feita de encontros frequentes e que o
centro seja a doutrina natural e cristã sobre o Matrimônio. "Trata-se duma espécie de
«iniciação» ao sacramento do matrimônio, que lhes forneça os elementos necessários
para poderem recebê-lo com as melhores disposições e iniciar com uma certa solidez a
vida familiar." (AL 207)
O Papa nos esclarece que não é questão de banir as palestras da
preparação para o Matrimônio, mas de ajustá-las aos momentos mais oportunos. Elas
podem e devem continuar existindo na dinâmica paroquial e nas outras etapas da
preparação. Isto fica claro quando o Papa Francisco diz que “habitualmente, são muito
úteis os grupos de noivos e a oferta de palestras opcionais sobre uma variedade de
temas que realmente interessam aos jovens”. (AL 208)
No parágrafo 211, o Papa nos orienta que, tanto a Preparação Próxima
como a remota “devem procurar que os noivos não considerem o matrimônio como o
fim do caminho, mas o assumam como uma vocação que os lança para diante, com a
decisão firme e realista de atravessarem juntos todas as provações e momentos
difíceis”. (AL 211)
Francisco também cita claramente a etapa que, infelizmente, é pouco
conhecida no Brasil, a Preparação Imediata, necessária àqueles que passaram pela Etapa
Próxima, que são os Encontros de Preparação para a Vida Matrimonial, e decidem
prosseguir para o altar. Nessa, “é importante esclarecer os noivos para viverem com
grande profundidade a celebração litúrgica, ajudando-os a compreender e viver o
significado de cada gesto” (AL 213).
De modo prático, a Pastoral Familiar e todos aqueles que se dedicam à
preparação para o Matrimônio são convidados a refletir, a partir deste renovado apelo da
Amoris Laetitia, sobre as etapas dessa preparação e o efetivo desenvolvimento de
atividades específicas para cada uma delas, partindo de questionamentos como:
a) As três etapas são nítidas em nossa paróquia, diocese ou regional?
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 29
b) Quais as principais atividades desenvolvidas em nossa paróquia/
diocese na Preparação Remota?
c) Como está estruturada a Preparação Próxima em nossa paróquia/
diocese?
d) O que oferecemos de Preparação Imediata?
e) De que forma podemos acompanhar os noivos?

Encerro com mais um questionamento do Papa Francisco, feito cerca de


um ano após a publicação da Amoris Laetitia:
“Pergunto-me quantos destes jovens que frequentam os cursos pré-
matrimoniais entendem o que significa «matrimônio», sinal da união
entre Cristo e a Igreja. «Sim, sim», dizem sim, mas compreendem isto?
Têm fé nisto? Estou persuadido de que é necessário um verdadeiro
catecumenato para o Sacramento do matrimônio, e não se limitar a
fazer a preparação mediante duas ou três reuniões e depois ir em
frente.”5

5 https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2017/february/documents/papa-
francesco_20170225_corso-processo-matrimoniale.html
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 30
5 - Pós-Matrimônio: Pastoral Familiar e
Movimentos e Serviços em Favor da Família e da
Vida.
Dom Moacir Silva Arantes6

Ao tratarmos, neste Congresso, da ação evangelizadora dos casais unidos


pelo sacramento do matrimônio, que envolve tanto a Pastoral Familiar como outros
Movimentos e Serviços que atuam apostolicamente em favor da família e da vida,
devemos fazê-lo partindo de dois princípios: existe um objetivo comum, que pertence à
Igreja, e que cabe, prioritariamente, à sua ação pastoral; e existem os diversos carismas
e ministérios suscitados pelo Espírito Santo para que este objetivo seja alcançado,
complementando a ação pastoral da Igreja.
A Palavra de Deus nos traz um apelo e um alerta de Jesus dirigidos a seus
discípulos e, hoje, também a nós, discípulos-missionários Dele, neste tempo e na ação
evangelizadora das famílias: o APELO em favor da UNIDADE, apresentando-a como
condição para testemunhar sua pertença a Ele (Jo. 17,22-23), para alcançar de Deus o
auxílio na missão (Mt. 18,19), para garantir sua presença no meio dos discípulos (Mt.
18,20).
Ao apontar a necessidade da unidade, Jesus manifesta que mais
importante do que realizar obras, ou desempenhar um bom trabalho pastoral, é construir
a unidade, a colaboração entre seus discípulos, porque essa é consequência tanto do
amor a Cristo como aos irmãos. Neste amor, que gera unidade, os discípulos são
reconhecidos em sua pertença a Cristo e suas obras são identificadas com as obras de
Cristo. Buscar a unidade na ação evangelizadora da Igreja, e não a uniformidade, é a
grande meta e o grande testemunho que podemos dar diante do mundo como Pastoral
Familiar. Um atendimento a necessidades materiais, afetivas ou até mesmo espirituais
por uma boa técnica ou estrutura, não supera o mandamento do amor. Mandamento esse

6 Bispo Auxiliar e Coordenador de Pastorais da Arquidiocese de Goiânia - GO


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 31
que é base verdadeira de todo atendimento e leva à colaboração entre os que estão no
mesmo caminho. Conforme lembra São Paulo: “Se eu não tiver amor, nada serei”.
O alerta de Jesus a seus discípulos sobre a busca de poder, de vanglória e
de domínio, quando percebe que discutem sobre quem seria o maior no Reino de Deus,
merece ser lembrado sempre em qualquer ação pastoral. “Chamando-os, Jesus lhes
disse: ‘Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes
as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que quiser ser o primeiro
dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do homem não veio para ser servido, mas
para servir e dar a sua vida em resgate de muitos’” (Mc. 10,42-45). Os agentes da
Pastoral Familiar, como todo servidor do Evangelho, devem guiar-se por este apelo e
cuidar-se diante deste alerta. É preciso construir a unidade e uma ação pastoral marcada
pelo serviço ao outro e não a si mesmo.
Santo Agostinho dizia “Nas coisas essenciais, igualdade; nas coisas não
essenciais, liberdade; e em todas as coisas, caridade”. Diante da diversidade que o
Espírito suscita na Igreja para amar e servir aos casais e ajudá-los a conhecer e viver o
plano de Deus para o matrimônio, bem como a diversidade no agir pastoral, entendemos
a maior necessidade da Igreja hoje: que a Pastoral Familiar e os Movimentos e Serviços
trabalhem de forma orgânica à luz daquela palavra do Bispo de Hipona.
O trabalho de uma pastoral orgânica lembra o modo de trabalhar de
qualquer organismo vivo... Diversos membros, diversas funções, diversos modos de
operar de cada membro, mas um mesmo e único objetivo: manter o corpo vivo,
saudável e crescendo (progredindo e evoluindo), em vista de sua finalidade. São Paulo
se refere a isto na Comunidade de Coríntio, tanto recorrendo ao exemplo do corpo
humano para mostrar a importância de os carismas operarem em conjunto, como
também ao exemplo de que tudo é de Cristo, independente de quem trabalha (semeando,
cuidando, colhendo...), quando cita a divisão de grupos naquela comunidade (1Cor.
3,4-9), e termina lembrando que todos os agentes são cooperadores de Deus, todo o
povo, todas as famílias são “a lavoura de Deus, a construção de Deus” (cf. 1Cor. 3,9).
Não podemos nos contentar hoje com uma pastoral de conjunto em que,
dentro do seu conjunto, cada elemento cuida do que é seu e cuida para não esbarrar no
que é do outro. Um grupo de cadeiras numa sala é um trabalho de conjunto, cada uma
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 32
“no seu quadrado”, sem se envolver com a outra e cuidando do seu. A pastoral orgânica
exige que a identidade de cada elemento seja conhecida, compreendida, respeitada e
colocada a serviço dos demais, numa ação que complementa e não substitui, nem
incorpora e nem suplanta as demais. Cada elemento reconhecendo o outro, envolvendo-
se com ele para conhecê-lo, partilhará do que ele oferece e oferecerá o que lhe é
próprio.
É preciso, numa Igreja em saída e a serviço, que exista vontade para
evangelizar e tornar as pastorais também em saída e a serviço... Uns em direção aos
outros e todos em direção ao objetivo. Isto exigirá de cada um atitudes próprias ao
cristão:
1. A Humildade, para reconhecer que não somos os únicos e nem os
melhores. Que não somos tudo e nem podemos tudo. Que necessitamos uns dos
outros. O Espírito suscita dons e carismas e desperta, na Igreja, diversos
movimentos e pastorais para complementação e colaboração na ação e não
disputa a substituição uns dos outros. Existe lugar para todos e não precisamos
ceder à tentação de Caim (competir com o irmão, e destruir o irmão). Deus nos
fez necessitados uns dos outros (a narrativa javista da criação do casal já
apresenta importante ensinamento). Uma pastoral ou movimento, como qualquer
leigo ou sacerdote, deve ter a mesma clareza do Papa Bento XVI quando disse:
“Não procuro aplausos, procuro obedecer a verdade”, assim também nós,
sabendo que a Verdade não é uma ideia, mas o próprio Jesus Cristo. E nós
procuramos, em nossa ação, obedecer a Jesus Cristo (Jo. 15, 10.14) e esta é a
fonte da verdadeira alegria do discípulo (Jo. 15,11).
2. A Solidariedade, para reconhecer que os talentos a nós confiados,
pessoalmente ou pastoralmente, têm como função ser colocados à disposição dos
outros e não serem enterrados em uma pastoral, em um grupo ou em uma
comunidade de vida. Deus colocou em nós a peça que o outro necessita para
compor seu plano, como num grande quebra-cabeças montado em conjunto.
3. A Caridade, para reconhecer nossa necessidade dos outros, como
convite à abertura, e os nossos talentos necessários a eles, como convite à
doação. Somente terão sentido essa dependência e essa capacidade, a partir da
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 33
decisão de amar e deixar-se amar. Amar, para acolher o que nos dão; amar, para
doar o que necessitam de nós. Agora temos três coisas: Fé, Esperança e
Caridade, mas a maior de todas é a caridade (cf. 1Cor. 13,13).
É preciso progredir na unidade a partir de três vias: conhecer, amar e
servir.
Conhecer o outro a partir daquilo que ele é e manifesta e não daquilo que
pensamos sobre ele. Assim, a coordenação da Pastoral Familiar deve se esforçar para
conhecer, compreender e acolher a realidade dos Movimentos e Serviços presentes na
diocese ou na própria paróquia. Não há nada que impeça um agente de participar e
apoiar outros movimentos e pastorais sem deixar aquilo que é específico do seu trabalho
na Pastoral ou em outro Movimento Eclesial. É importante lembrarmos que nós
pertencemos, em primeiro lugar, não a uma pastoral ou movimento, mas a Cristo e à sua
Igreja (e vivemos esta pertença dentro de uma comunidade concreta – a diocese que se
concretiza em cada paróquia, e a paróquia que se concretiza em cada comunidade). Da
mesma forma que uma árvore sem raiz não pode viver, crescer e frutificar, qualquer fiel
sem a pertença à sua comunidade eclesial também não poderá viver concretamente sua
experiência cristã, crescer como discípulo e nem frutificar em sua missionariedade.
Amar o outro valorizando sua existência e sua importância. Um irmão
não é para ser vencido, mas ser amado.
Servir ao outro como caminho, para servir ao objetivo maior. O outro é o
caminho para Cristo. “Onde está o teu irmão, eu estou presente nele”. “O que fizerem
ao menor de meus irmãos é a mim que estais fazendo”.
A partir de nossa experiência pastoral, podemos aprofundar nossa
identidade de cristão e nossa missão na Igreja e no mundo. Participando de diversos
movimentos e pastorais como leigo ou consagrado (ordem e vida religiosa), aprendemos
que o Espírito realmente suscita diversos carismas e atividades em favor da construção
do Reino de Deus. Com esta certeza, precisamos esforçar-nos para conhecer cada
movimento que envolva as famílias dentro de nossa realidade comunitária, paroquial,
diocesana, regional e nacional. Sem preconceitos, podemos perceber os valores e os
limites de cada um; entender o que eles têm a acrescentar e colaborar (a partir de seus
valores) e a receber e melhorar no contato com outros movimentos e pastorais (devido a
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 34
seus limites). Nenhum movimento ou pastoral atinge tudo... Cada Movimento tem sua
especificidade, mas a Pastoral Familiar é mais ampla e deve ser “um dos eixos
transversais de toda a ação evangelizadora”, ela não é “o” eixo, mas “um” dos eixos, e
deve assumir esta missão fomentando a aproximação, o conhecimento e o diálogo com
todas as outras instâncias.
“Cristão é o meu nome e católico é meu sobrenome. Um me designa,
enquanto o outro me especifica. Um me distingue, o outro me evidencia. É por este
sobrenome que nosso povo é diferenciado dos que são chamados heréticos” (São
Paciano, de Barcelona). A quem pertenço? Em primeiro lugar: a Deus, a Cristo e ao
Espírito Santo. Em segundo lugar, à minha família cristã: a Igreja (minha diocese,
minha paróquia, minha comunidade, nesta ordem). Porque não existe comunidade sem
paróquia e nem paróquia sem diocese, afinal tudo é a diocese que se faz presente ,
concretamente, num território paroquial. E dentro da Igreja (territorialmente ou extra-
territorialmente) assumo missões que me envolvem em grupos (pastorais e
movimentos). Ter clareza sobre nossa identidade é fundamental para entrarmos em
contato com o outro, nos interessarmos por ele, procurarmos conhecê-los.
Diz o Diretório Nacional da Pastoral Familiar:
[376] É muito bom que a família e seus membros participem dos
diferentes movimentos da Igreja, das atividades de algumas entidades ou centros de
formação cristã. Estes meios poderão representar um veículo estável de formação, de
desenvolvimento da sua vida espiritual, um incentivo para o apostolado e uma inserção
estável da família no seio da Igreja.
[377] Existe na Igreja um fenômeno novo. Além de alguns movimentos
especificamente de Pastoral Familiar, surgiram nos tempos atuais diversos movimentos
de uma renovada vivência cristã, globalmente considerada, que trouxeram, cada um
segundo seu próprio espírito, uma significativa contribuição para a vivência cristã da
família. Em torno desse fenômeno, inspiradas pelo Espírito Santo, muitas são as
famílias cristãs que se reúnem em comunidades ou grupos, para melhor aprofundar,
viver e anunciar sua fé. Essas entidades, associações, movimentos e serviços, aprovados
pela hierarquia, produzem frutos abundantes de fé, esperança e caridade. Eles possuem

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 35


uma espiritualidade própria e exercem sua ação apostólica em ambientes específicos da
sociedade, constituindo uma riqueza na vida da comunidade eclesial.
[378] Existe, contudo, um perigo que é preciso sempre evitar: uma certa
tendência a fecharem-se sobre si mesmos, a perder o contato com a realidade social e
com a caminhada pastoral da Igreja. A vida espiritual se alimenta, cresce e dá frutos
quando está unida ao organismo vivo da Igreja. Por essa razão, os casais e as famílias
que pertencem a Movimentos ou Associações, respeitando a autonomia estabelecida nos
seus estatutos e a sua própria identidade, são convidados a unirem suas ações às da
Pastoral Familiar e por ela serem motivados à integração na vida eclesial, como
testemunho da sua unidade e espírito de serviço em prol dos casais e das famílias.
Como diretrizes de ação pastoral, indicam-se as seguintes:
- Deixar claro que essas entidades, movimentos, associações familiares e
serviços, fazem parte, em sentido amplo, da Pastoral Familiar – sem perderem o seu
carisma peculiar –, porém não se identificam com ela e tampouco a substituem. A
Pastoral Familiar é mais abrangente. Ela acolhe os Movimentos, conta com o apoio e a
ajuda deles, respeitando o pluralismo sem prejudicar a unidade.
Sem lesar a sua legítima autonomia, procurar dar a conhecer aos
dirigentes ou membros dessas associações a forma adequada de participar de uma
pastoral de conjunto.
- Incentivar as famílias a formarem associações, inclusive de caráter
jurídico, para a defesa dos direitos de família. Assim poderão influenciar, de modo
organizado e eficaz, as políticas sociais e os meios de comunicação, a fim de se criar
uma cultura, uma legislação e uma ação governamental favorável à dignidade e aos
direitos da instituição familiar.
O que nós, agentes da Pastoral Familiar, sabemos dos Movimentos,
Associações, Institutos presentes em nossas paróquias e diocese? Quais são eles? Como
se organizam? O que realizam? Seria interessante fazermos uma listagem e percebermos
se, como Pastoral Familiar, estamos centrados demais em nós mesmos ou estamos
estabelecendo as ligações necessárias.
Quando a Pastoral Familiar, os Movimentos, Associações, Organismos e
Institutos assumem esta compreensão e esta missão de trabalhar como um corpo nas
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 36
realidades eclesiais, conseguem descobrir caminhos de viabilizar esta atividade
orgânica. Na Paróquia, a integração na estrutura da Pastoral Familiar e do Conselho
Pastoral Paroquial; na Diocese, a integração na Comissão Diocesana ou no Setor Vida e
Família; no Nacional, na estrutura da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a
Família (CEPVF), por meio da Comissão Nacional da Pastoral Familiar (CNPF).

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 37


6 - Casos Especiais na Amoris Laetitia: acolher,
misericordiar, acompanhar, discernir e integrar.
Cláudio Rodrigues e Maria do Rosário Silva7

Antes de refletirmos sobre os aspectos teóricos e práticos da Exortação


Apostólica Pós-Sinodal “Amoris Laetitia: sobre o amor na família", referentes ao Setor
Casos Especiais, faz-se importante resgatarmos a compreensão da caminhada da
Pastoral Familiar, que desde o início abarca a família em sua situação real, em todos os
aspectos e se dirige a todos os tipos de família, sem distinção: as regularmente
constituídas como também as que se encontram em alguma situação de irregularidade. A
todas, quaisquer que sejam a realidade e as circunstâncias em que se encontrem, a
Igreja, por meio da Pastoral Familiar, deseja levar palavras e gestos de apoio, acolhida,
orientação e conversão, sempre animada e impulsionada pelo espírito missionário do
Bom Pastor. (Guia de Orientação para os Casos Especiais – CNBB- 2005).
O trabalho da Igreja junto aos divorciados e recasados, em todos os seus
níveis (nacional, regional, diocesano e paroquial), tem como objetivo acolher e
evangelizar os casais em segunda união, a fim de que eles não se sintam separados da
Igreja. É necessário dar-lhes condições de refletirem sobre a sua situação e sobre o amor
misericordioso de Deus, para integrá-los na comunidade paroquial, onde, como
batizados, podem crescer na fé e no amor e devem participar da vida e da missão da
Igreja. (DPF- 2005).
A Igreja, em comunhão, tem se debruçado sobre essas questões, a
exemplo do Diretório Nacional da Catequese que contemplou essa urgência: “A
catequese leve em conta também as pessoas que vivem em situação familiar
canonicamente irregular. Partindo de sua situação, podem-se abrir portas para o
engajamento, para a experiência de fé, para o serviço na comunidade, ajudando-os a
aceitar e viver o amor em sua situação real. Na catequese com essas pessoas, muito
pode auxiliar a Pastoral Familiar no setor da segunda união”. DNC, 211/2006.

7 Casal Coordenador Nacional - Instituto Nacional da Família e da Pastoral Familiar


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 38
Fazendo uma viagem pelo tempo, podemos confirmar que São João
Paulo II foi o primeiro Papa a dar início a uma pastoral de acolhida misericordiosa aos
irmãos em “situações irregulares”, há quase 37 anos, quando da publicação, no dia 22
de novembro de 1981, da Exortação Apostólica “Familiaris Consortio: sobre a missão
da família cristã no mundo hoje" e depois, em 1984, com a Exortação Reconciliatio et
Paenitentia: sobre a reconciliação e a penitência na missão da Igreja hoje". Toda
orientação pastoral tem pisado em terreno consistente, à luz da Palavra de Deus e do
Magistério da Igreja.
Há duas passagens importantes de São João Paulo II que nos dão pistas
para uma proposta firme. Primeiramente, São João Paulo II afirma:
Juntamente com o Sínodo, exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade
dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita que
eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo,
enquanto batizados, participar na sua vida. Sejam exortados a ouvir a
Palavra de Deus, a frequentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na
oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade
em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as
obras de penitência “para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus”.
(FC, 84)

Segundo, ele oferece uma sólida orientação pastoral: “a Igreja não pode
mais do que convidar os seus filhos, que se encontram nessas situações dolorosas, a
aproximarem-se da misericórdia divina por outras vias, mas não pela via dos
Sacramentos, especialmente da Penitência e da Eucaristia”. (RP, 34)
Também Bento XVI, em sua Exortação Apostólica “Sacramentum
caritatis”: sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja", em 2007,
completa com preciosos conselhos “a cultivar, quanto possível, um estilo cristão de
vida... a adoração eucarística, da oração... o diálogo franco com um sacerdote ou um
mestre de vida espiritual...” (SC, 29) e “cultivar o desejo da plena união com Cristo, por
exemplo, através da prática da comunhão espiritual” (SC, 55).
Papa Francisco, no início de seu pontificado, nos motivou a refletir sobre
o anúncio do Evangelho no mundo atual, na Exortação Apostólica “Evangelli
Gaudium”, no encerramento do Ano da Fé, em 24/11/13: “Convido todo o cristão, em
qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 39


com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O
procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite
não lhe diz respeito, já que ‘da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído’".
Já no ano de 2015, com a Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário
da Misericórdia (“Misericordiae Vultus”) Papa Francisco, além de nos motivar a
continuarmos firmes na participação da vida da Igreja, como vimos nos documentos
acima, guiou-nos e convidou-nos com sabedoria a passar pela Porta Santa, quando
afirmou que “a Porta Santa é “uma Porta da Misericórdia, onde qualquer pessoa que
entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança” (MV,
3). Os casais em “situação irregular”, convidados a participar da vida da Igreja podem
se aproximar da Divina misericórdia “por outras vias”, e a participação do Ano Santo
foi uma destas vias.
O Setor Casos Especiais, da Pastoral Familiar, realiza um trabalho
pastoral de misericórdia e de acolhida fraterna, mas não pode sacrificar a verdade. A
verdade por si mesma é misericórdia, pois ela liberta e salva: “Se permanecerdes na
minha Palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade e a
verdade vos libertará”, disse Jesus (Jo 8, 31-32), por conseguinte são atribuições desse
setor cada dia mais urgente e exigente: acompanhar as diferentes realidades das famílias
de migrantes, mães e pais solteiros, famílias com filhos deficientes; filhos envolvidos
com drogas; famílias distanciadas da Igreja; matrimônios mistos; atenção especial aos
idosos; viúvos; casais em segunda união; separados sem nova união; pessoas com
tendência homossexual; alcoolismo, etc.
Fomos presenteados pelo papa Francisco, em 19 de março de 2016, dia
em que celebramos São José, o padroeiro das famílias, com a Exortação Apostólica Pós-
Sinodal “Amoris Laetitia” e o capítulo VI, com o título Algumas Perspectivas
Pastorais, trata, entre outros, do acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas
ou divorciadas. Coloca-se em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito e
conclui-se: “O divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de
divórcios, por isso, sem dúvida, a nossa tarefa pastoral mais importante relativamente às
famílias é reforçar o amor e ajudar a curar as feridas, para podermos impedir o avanço
deste drama do nosso tempo”. (AL, 246)
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 40
A necessidade de tornar mais acessíveis e ágeis os procedimentos para o
reconhecimento dos casos de nulidade, levaram o Santo Padre a publicar dois
documentos sobre a matéria, antes mesmo da Amoris Laetitia. Favorecer "não a
nulidade dos matrimônios, mas a rapidez dos processos" – é o pilar da Carta Motu
Proprio do Papa Francisco, intitulada “Mitis Iudex Dominus Iesus” (O Senhor Jesus,
manso e humilde) divulgada no dia 8 de setembro de 2015, sobre a reforma do processo
canônico para as causas de declaração de nulidade no Código de Direito Canônico. O
documento deixa completamente a salvo o princípio da indissolubilidade do vínculo
matrimonial, o que se deseja é mais celeridade dos processos, a fim de que, por causa da
demora da decisão do juiz, o coração dos fiéis que aguardam esclarecimento de sua
situação não mergulhe por muito tempo nas trevas. É uma verdadeira guinada pastoral,
não se trata apenas de saber se o matrimônio anterior foi ou não válido, mas de se
oferecer acompanhamento pastoral às pessoas nessas circunstâncias.
A aplicação desse documento é uma grande responsabilidade para os
ordinários diocesanos, chamados eles próprios a julgar algumas causas e a garantir, de
todos os modos possíveis, um acesso mais fácil dos fiéis à justiça. Isto implica a
preparação de pessoal suficiente, composto por clérigos e leigos, que se dedique de
modo prioritário a este serviço eclesial. Por conseguinte, será necessário colocar à
disposição das pessoas separadas ou dos casais em crise um serviço de informação,
aconselhamento e mediação, ligado à Pastoral Familiar, que possa também acolher as
pessoas tendo em vista a investigação preliminar do processo matrimonial.
A preocupação pela salvação das almas permanece hoje como ontem a lei
suprema da Igreja, conforme estabelece o c. 1752, último cânone do nosso Código de
Direito Canônico, que precisa urgentemente ser mais divulgado e conhecido.
Voltando à Amoris Laetitia, ela fala de fato a linguagem da experiência e
da esperança. Muitos são os desafios pela frente, precisamos seguir confiantes, com
coragem e ousadia. Somos convidados a sair da zona de conforto, da comodidade,
descruzar os braços, calçar as sandálias e sair ao encontro dos irmãos, principalmente
dos feridos e machucados.
Desenvolver serviços, criar espaços de acolhimento, ousar, conceber
meios de formação e capacitação, inventar modos de dialogar e propor ideais do
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 41
Evangelho de Jesus Cristo às famílias atuais, oferecer amplo acesso à justiça
eclesiástica, ampliar os meios para o discernimento das situações irregulares, das
marcas e das feridas, eis o nosso chamado.
“As pessoas divorciadas que não voltaram a se casar (que são muitas
vezes testemunhas da fidelidade matrimonial) devem ser encorajadas a encontrar na
Eucaristia o alimento que as sustente no seu estado.” AL, 242
"Os batizados que se tenham divorciado e se voltaram a casar civilmente
devem ser mais integrados na comunidade cristã”, nas diversas formas possíveis,
evitando qualquer ocasião de escândalo”. “A sua participação pode expressar em
diferentes serviços eclesiais [...], o convite à misericórdia e o discernimento pastoral
devem permear nossa ação missionária, “frequentemente, a tarefa da Igreja se
assemelha à de um hospital de campanha” (AL, 291)”.
É importante fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja, que “não estão
excomungadas”, nem são tratadas como tais, porque sempre integram a comunhão
eclesial. Estas situações exigem um atento discernimento e um acompanhamento com
grande respeito, evitando qualquer linguagem e atitude que as faça sentir discriminadas
e promovendo a sua participação na vida da comunidade.
“Cuidar delas não é, para a comunidade cristã, um enfraquecimento da
sua fé e de seu testemunho sobre a indissolubilidade do matrimônio; antes, ela exprime
precisamente neste cuidado a sua caridade.” (AL, 243)
No debate eclesial e na opinião pública houve um grande interesse sobre
uma questão concreta, que não é certamente aquela mais importante do ponto de vista
pastoral: a eventual admissão à Eucaristia aos divorciados em nova união civil.
De fato, como o próprio Papa Francisco fez notar, não era este o
problema central do último Sínodo da Família; basta pensar nos grandes desafios da
Igreja acerca da família no contexto da atualidade, o fato de que os jovens se casam
sempre menos; a perda do papel social do matrimônio; as novas ideologias que
ameaçam a família; mas, sobretudo e em primeiro lugar, a grande missão de levar Cristo
a todas as famílias numa nova evangelização...
Jesus é o “Bom Pastor” e não exclui ninguém, Ele se ofereceu por todas
as pessoas, sem exceção, e não ficariam de fora, no trabalho do setor Casos Especiais,
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 42
famílias que vivem a experiência de ter no seu seio pessoas com tendência
homossexual, experiência não fácil nem para os pais nem para os filhos. Por isso,
devemos, enquanto Igreja, reafirmar que cada pessoa, independentemente da
própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito,
procurando evitar qualquer sinal de discriminação injusta e particularmente toda a
forma de agressão e violência. Todos devem ser acolhidos com respeito, compaixão e
delicadeza. A Igreja deve assegurar a essas famílias “um respeitoso acompanhamento”.
É evidente então, que o papa Francisco, insistindo na importância do
princípio da sinodalidade na Igreja, não quis ir além das decisões sinodais. É afirmado
com clareza que, mesmo depois da Amoris Laetitia admitir à comunhão os divorciados
“recasados”, excetuando as situações previstas pela Familiaris Consortio, 84, e pela
Sacramentum Caritatis, 29, significa ir contra a disciplina da Igreja, e ensinar que é
possível admitir à comunhão os divorciados “recasados”, indo além destes critérios, é ir
contra o Magistério da Igreja.
Então, a Palavra de Deus “não se apresenta como uma sequência de teses
abstratas, mas como uma companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em
crise ou imersas nalguma tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho” (AL, 22).
A principal contribuição da Pastoral Familiar é oferecida pela paróquia,
onde estão as forças vivas, família de famílias, onde se harmonizam as contribuições de
pequenas comunidades, movimentos e associações eclesiais, onde se dá o anúncio e
proclamação da boa notícia de Jesus, que convida e oferece caminhos de esperança a
todos e não rejeita ninguém, faz tudo que está ao seu alcance e possibilidades.
É um trabalho com características próprias, que deve caminhar devagar,
sem pressa, com responsabilidade, compromisso e dedicação, pois é um fazer
missionário exigente, de busca de cura de muitas feridas, marcas profundas, chagas e
mágoas.
Papa Francisco convida os fiéis que vivem situações complexas, a
aproximarem-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos
qualificados; pode ser que nem sempre encontrarão neles, segundo o Papa, uma
confirmação das próprias ideias ou desejos, mas, seguramente, receberão uma luz que

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 43


lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um
caminho de amadurecimento pessoal. (AL 312)
Que bela missão tem os Senhores Bispos e Presbíteros, que agindo in
persona Christi, através do múnus de ensinar, conduzem suas ovelhas e as orienta a
observar tudo o que o Senhor ordenou, são eles, como pastores de almas, os
responsáveis por acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento
segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo diocesano, em sua igreja
particular. Para se chegar a um juízo correto sobre cada caso não abandonam as
exigências evangélicas de verdade e de caridade propostas pela Igreja; julgam com
humildade, privacidade, amor à Igreja e à sua doutrina, buscando a vontade de Deus,
desejando chegar a uma resposta mais perfeita a essa vontade. A Igreja possui uma
sólida reflexão sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes. Nem todos os
que estão numa situação chamada “irregular” vivem em estado de pecado mortal,
privados da graça santificante.
Há fatos que limitam a capacidade de decisão da pessoa, razão pela qual
a lógica da misericórdia pastoral deve ser sempre exercitada: a compreensão pelas
situações excepcionais não implica jamais esconder a luz do ideal mais pleno, nem
propor menos de quanto Jesus oferece ao ser humano; hoje, mais importante do que
uma pastoral dos falimentos é o esforço pastoral para consolidar os matrimônios e,
assim, evitar as rupturas.
Não podemos desenvolver uma moral fria de escritório para temas tão
delicados, mas realizar um discernimento pastoral cheio de amor misericordioso, que
sempre se inclina para compreender, perdoar, acompanhar, esperar e, sobretudo integrar.
Papa Francisco tem nos ensinado que a misericórdia de Deus é
“infinitamente maior do que o nosso pecado”, porque o Senhor “nos primeireia”,
“antecipa-se a nós, nos espera” com o seu perdão, com a sua graça. Quem se descobre
“doente na alma”, de fato, deve encontrar portas abertas, não fechadas; acolhida, não
julgamento ou condenação; ajuda, não marginalização. Com a misericórdia, Deus vai
além da justiça, “a engloba e a supera” no amor. “Se se tem em conta a inumerável
diversidade de situações concretas [...] pode compreender-se que não deveria esperar-se

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 44


do Sínodo, ou desta exortação, um novo normativo geral de tipo canônico, aplicável a
todos os casos.” (AL 300)
Embora a Igreja reconheça que toda a ruptura do vínculo matrimonial “é
contra a vontade de Deus, está consciente também da fragilidade de muitos dos seus
filhos”, por isso, dirige-se com amor àqueles que participam na sua vida de modo
incompleto, reconhecendo que a graça de Deus também atua nas suas vidas.
No parágrafo conclusivo da Amoris Laetitia o Romano Pontífice afirma:
“Nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada duma vez para sempre, mas
requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar”. (…).
As ideias chaves dessa belíssima Exortação podem ser percebidas, com
clareza, na proposta de renovação pastoral, vivenciando os verbos que nos motivam à
ação: acolher, misericordiar, acompanhar, discernir e integrar. Caminhar é preciso...

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 45


7 - O amor pelas famílias como fator norteador
dos trabalhos da Pastoral Familiar
Carlos Alberto Monteiro e Sintia Monteiro8

"Tome cuidado com a tua vida, porque talvez ela


possa ser o único evangelho que o teu irmão lê.”
São Francisco de Assis

Não diminuindo, de forma nenhuma, a importância deste evento e de outros,


tanto quanto importantes que acontecem na vida da comunidade, gostaria de ressaltar
que o nosso testemunho de vida, convicto nos princípios evangélicos, pode ser o único
evangelho que o próximo mais próximo de nós pode ler.

À luz da palavra de Deus, tão bem esclarecida pelo nosso querido e


respeitoso São João Paulo VI, em sua carta encíclica Humanae Vitae, aparecem-nos as
características do amor conjugal: um amor doação, que antes “é um amor plenamente
humano, quer dizer, ao mesmo tempo espiritual e sensível.” HV 9 É depois um amor
total, os cônjuges compartilham todas as coisas, sem reservas indevidas e sem cálculos
egoístas. Não ama somente por aquilo que o outro pode doar, mas, por aquilo que ele é.

É, ainda, amor fiel e exclusivo, até a morte. Os esposos o assumem,


livremente e com plena consciência. Fidelidade esta, treinada pelos pais nos filhos,
educando-os na castidade desde a infância. É, finalmente, um amor fecundo, que está
destinado a continuar suscitando novas vidas. “Os filhos, são o dom mais excelente do
matrimônio e contribuem grandemente para o bem dos pais.”

Não podemos esquecer que “mesmo quando a procriação não é possível,


nem por isso a vida conjugal perde o seu valor”. FC 14 Isto é colocar-se pelo dom da fé,
diante de Deus com responsabilidade e total dependência Dele, para que seja feito
segundo a Sua vontade. “Há muitos planos no coração do homem, mas é a vontade do
Senhor que se realiza. (Prov.19-21)

8 Grupo Famílias Renovadas - Santuário Sagrada Família - Goiânia - GO


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 46
Quem defende a vida em seu início, a defende em todas as suas fases. Não
dá para ser agente da Pastoral Familiar somente com teorias, é preciso nos deixarmos
envolver pelo amor de Deus; é o amor que nos envolve no Pai, no Filho e no Espírito
Santo. “... Sem Mim, nada podeis fazer.” (Jo.15)

“O primeiro princípio da educação é educar-se a si mesmo, para ser


exemplo na educação dos filhos.” Não basta anunciar e defender a família, é preciso
acreditar que o matrimônio e a família constituem um dos valores mais preciosos da
humanidade. (A missão da família cristã no mundo de hoje – João Paulo II)

O matrimônio não é um sonho no qual colocamos todas as nossas


expectativas sobre o outro. “Quem se casa com um sonho, pode acordar com um
pesadelo”. O matrimônio é o caminho de uma realização pessoal, obediência a um
chamado interior, vocação…, mas, sobretudo, um lugar de doação de si, serviço,
santificação, um caminho seguro para manutenção e renovação da humanidade. O
futuro da humanidade, passa pela família.

A nossa alegria está em fazer a vontade de Deus. “Por mais ferida que
uma família possa estar, ela pode sempre crescer a partir do amor”. (RF, in AL 53)

A família precisa descobrir uns nos outros o próprio Cristo, e assim seus
membros podem se renovarem no amor a cada dia. Deve estar sempre aberta ao perdão
e à reconciliação. Tudo aquilo que nos falta na convivência superficial, deveríamos
poder encontrar no ambiente familiar: ternura, autoestima, estabilidade, compreensão,
segurança, carinho, amor, paz, serenidade, aconchego, liberdade… “Ser amável, não é
um estilo que o cristão possa escolher ou rejeitar, é uma obrigação ser afável com
aqueles que o rodeiam.” (AL, 99)

Todos somos família, mesmo os que não são casados, ou que vivem situação
especial, devem ser todos apaixonados pela família e pelo matrimônio.

Oração de Consagração à Sagrada Família (Papa Francisco)

Jesus, Maria e José

Em vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor,

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 47


confiantes, a vós nos consagramos.

Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias

lugares de comunhão e cenáculos de oração,

autênticas escolas do Evangelho

e pequenas igrejas domésticas.

Sagrada Famílias de Nazaré,

que nunca mais haja nas famílias

episódios de violência, de fechamento e divisão,

e quem tiver sido ferido ou escandalizado

seja rapidamente consolado e curado.

Sagrada Família de Nazaré,

fazei que todos nos tornemos conscientes

do caráter sagrado e inviolável da família

da sua beleza no projeto de Deus.

Jesus, Maria e José,

ouvi-nos e acolhei a nossa súplica.

Amém.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 48


8 - Teologia do Corpo
Ronaldo de Melo e Tatiana9

Você já ouviu falar sobre a Teologia do Corpo? Tem ideia de quem a


escreveu? Quando ela foi escrita? Sabe do que ela trata? Para quem ela foi escrita?
Desconfia por que ela é tão atual? Essas são algumas das muitas perguntas que
procuraremos responder para vocês, queridos irmãos e irmãs. Abordaremos o tema da
Teologia do Corpo, convidando todos a mergulhar nesta maravilha que a Igreja nos
oferece. Queremos proporcionar uma oportunidade única para uma verdadeira
descoberta ou, quem sabe, até mesmo uma redescoberta do ser humano e da beleza do
seu corpo, enquanto homem e mulher.
A Teologia do Corpo é um conjunto de escritos do papa São João Paulo II, o
Papa das famílias e dos jovens. Quando ainda era o Cardeal Wojtyla, iniciou seus
primeiros manuscritos sobre a Teologia do Corpo, em 8 de dezembro de 1974, quando
consagrou sua obra à Imaculada Conceição. Também deixou importante contribuição
com os livros “Pessoa e Ato” e “Amor e Responsabilidade”, entre outros, que já traziam
alguns pontos fundamentais da mesma temática. A Teologia do Corpo é o conjunto de
133 catequeses, das quais 129 foram proclamadas nas audiências públicas de quartas-
feiras, no início do seu pontificado, na Praça de São Pedro, no Vaticano, indo de 1979
até 1984.
Os escritos da Teologia do Corpo são um grande tesouro, um enorme
presente deixado para nós. Eles nos indicam o caminho para vivermos verdadeiramente
nossa afetividade e sexualidade segundo o plano original de Deus para a humanidade.
Revelam o valor do nosso corpo – masculino e feminino – como espelho do amor do
próprio Deus. “Pelo fato de o Verbo de Deus ter se feito carne, o corpo entrou, eu diria,
pela porta principal na teologia…” (TC 23)
O Papa inicia as primeiras 23 catequeses retornando ao Princípio, meditando
sobre a grande obra de Deus: a criação do homem e da mulher. Nelas são abordados
temas como unidade originária do homem e da mulher, a consciência do significado
esponsal do corpo, o significado bíblico da convivência matrimonial, entre tantos

9 Núcleo de Formação e Espiritualidade - Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 49
outros. A seguir, em 40 catequeses, temos o segundo ciclo de ensinamentos que tratará
da Redenção do Coração. A partir do apelo de Cristo ao coração do homem,
encontramos muitas respostas aos males que atingem a humanidade e, também, é pela
abertura de coração que fluirá a graça do Pai, que nos ensinará novamente a amar como
Ele ama. O terceiro conjunto de nove catequeses tem como tema principal A
Ressureição da Carne. Aqui, a partir das palavras de Jesus no diálogo com os saduceus
sobre a ressurreição, São João Paulo II ensina como será a vida gloriosa do nosso corpo
e como é importante cuidarmos dele. Ressalta o valor do matrimônio aqui na terra, que
nos aponta para as núpcias divinas na eternidade. O quarto ciclo trata da Virgindade
Cristã. São 14 catequeses que nos levam à bela e profunda meditação da ideia da
virgindade e do celibato como antecipação e sinal escatológico dessa comunhão plena
de amor que viveremos com Deus na Vida Eterna. O Papa mostra que nossa vocação à
castidade é uma realidade terrena que prefigura a vida celeste. No quinto ciclo – com 31
catequeses – o Papa traz o tema do Matrimônio Cristão. São catequeses que fazem o
paralelo da união homem-mulher e Cristo-Igreja, mostrando a essência do sacramento
do matrimônio como aliança e sinal. E, por fim, o sexto ciclo, composto de 16
catequeses, faz uma abordagem do Amor e Fecundidade a partir da Carta Encíclica
Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, de forma bem aprofundada.

Esses ensinamentos foram escritos para todos nós homens, mulheres,


jovens, namorados, casados, celibatários, pois nos permitem viver não uma sexualidade
reprimida, mas uma sexualidade remida, a partir da diferença sexual que abre caminho
para buscarmos a comunhão segundo a própria imagem da Santíssima Trindade. O Papa
nos propõe um caminhar, uma experiência efetivamente humana onde nos
reconhecemos como pessoas que nasceram, não para serem usadas, mas para serem
amadas. Temos, assim, a oportunidade de descobrirmos o sentido do nosso corpo – de
todo o nosso ser – como dom para nós mesmos, para o outro e para Deus.

Os ensinamentos preciosos da Teologia do Corpo – que só há pouco tempo


vêm sendo amplamente difundidos – não poderiam vir em momento mais oportuno.
Esse “tesouro escondido” está sendo revelado exatamente na hora em que o ser humano
vem sendo duramente atacado de todos os lados naquilo que tem de mais precioso: ser

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 50


imagem e semelhança de Deus. Que tal ajudar a “injetar” esse ânimo novo na
humanidade doente para que ela recupere sua dignidade inestimável de imagem e
semelhança do Pai?!

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 51


I I- Reflexões sobre as
Mensagens do Congresso

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 52


1 - Pastoral Familiar nos dias atuais: desafios,
perspectivas e adaptação à realidade
Pe. Cleber Alves de Matos10

Em meio às urgências em favor da família e da vida que inquietam a Igreja


e, consequentemente, os agentes da Pastoral Familiar, surgem inúmeras ações, eventos e
projetos, que tentam remediar as situações difíceis que afetam a família. Para a eficácia
dos trabalhos em favor da vida e da família apresentamos os requisitos abordados em
nosso VI Congresso Regional da Pastoral Familiar, resumidos aqui, com intuito de
nortear nossos trabalhos.
Diante dos inúmeros objetivos de ações em favor da vida e da família,
destaco a necessidade de se promover o encontro com Cristo como o objetivo principal
de qualquer ação. Através dele se terá base sólida para os demais. Nenhum trabalho
pastoral, bem como a defesa da família e da vida terão sentido se não forem pautados
pelo olhar fixo em Cristo. O amor e a paixão a Ele são o combustível para qualquer
ação.
A Pastoral Familiar, antes de tudo, deverá ser uma Pastoral que promova o
encontro com Cristo. Deverá conduzir seus agentes a uma experiência com Ele,
experiência que gera inúmeros frutos, dentre esses a conversão. Agentes convertidos,
entregues a Deus, encontram vigor e sentido em seus trabalhos. Um trabalho que não
gera conversão não é fecundo. Não sendo fecundo, torna-se pesado e deixa de ser
prazeroso.
Não raramente encontramos agentes da Pastoral Familiar que vivem
situações irregulares, passivas de solução. Casais feridos pela infidelidade, pela crise
dos relacionamentos, por conflitos, que perderam o brilho do matrimônio e a crença na
família. Impossível obter êxito nos trabalhos ferido por essa realidade. Para isso, faz-se
necessário, com certa urgência, que se promova um encontro desses casais com Cristo,
que Ele se torne a poção fundamental de cada um.

10Assessor Eclesiástico da Pastoral Familiar - Regional Centro-Oeste


Paróquia Nossa Senhora da Abadia/ Niquelândia - GO/ Diocese de Uruaçu
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 53
Pastoral Familiar não se faz apenas com papéis, mas principalmente com o
joelho no chão. Pastoral Familiar que não reza, torna-se vazia, sendo vazia, não se torna
atrativa, não encanta, não convence.
O que fazer para promover esse encontro com Cristo? Para isso, destacamos
duas vias, ordinária e extraordinária, que nos levam a Deus. As vias ordinárias são os
sacramentos, merecendo destaque, porém, não mais importante que os demais, o
sacramento da Penitência e o Sacramento da Eucaristia. As vias extraordinárias são os
gestos plurais de piedade, que visam potencializar a graça sacramental, merecendo
destaque, a Adoração ao Santíssimo, a Oração do Santo Terço, o Jejum e a Leitura
Orante da Palavra de Deus.
Mediante o sacramento da Penitência se mantém em estado de graça.
Estando em estado de graça, vive-se em comunhão com Deus, sendo facilmente
conduzido por Ele. Não raramente, encontramos agentes da Pastoral Familiar que são
adversos à confissão. Vivem em situação de pecado, alheios à vontade de Deus, bem
como, insensíveis à Sua condução.
Não se escondam atrás do segundo mandamento da Igreja, que nos orienta a
nos confessarmos apenas ao menos uma vez ao ano, pois seria bom e útil buscar a
confissão sempre que necessário, ou seja, sempre que estiver em estado de pecado. Não
espere a Páscoa, viva a experiência pascal sempre que precisar. Estando em estado de
graça, se gozará dos benefícios da Comunhão Eucarística. Portanto, não se constrói
santidade, mediante o matrimônio, bem como, pelas ações pastorais, sem a comunhão.
Os que não têm impedimento para se aproximarem do Sacramento da Penitência, o
façam sempre que necessário.
Não se esconda atrás do terceiro mandamento da Igreja, que nos convida a
receber o sacramento da Eucaristia ao menos pela Páscoa da Ressurreição. Não temos
fome apenas na Páscoa. Busque fidelidade ao primeiro mandamento da Igreja, participar
da Missa aos domingos e festas de guarda. Mesmo que não esteja em estado de graça, a
participação da missa dominical é regra, uma obrigação que deverá se tornar uma
opção. A Eucaristia não é apenas uma coroa de glória para os justos, é, também,
remédio para os pecadores arrependidos, desejosos por mudanças em suas vidas. Um
agente de pastoral que busca encontrar-se com Cristo na Eucaristia terá força suficiente
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 54
para os trabalhos.
Nenhum trabalho pastoral poderá sobressair à missa. Nossos encontros
deverão ser pautados pela Eucaristia. É no altar que nos refazemos, é no altar que
descansamos. O altar, portanto, é lugar de encontro, onde nos unimos às espécies do pão
e do vindo e nos ofertamos a Deus, tendo em vista também sermos transformados e
santificados.
Bem sabemos que as situações difíceis da vida tendem a nos afastar do altar,
promovendo até mesmo medo e vergonha de nos aproximarmos dele. Mas digo, o altar
é lugar de misericórdia, o Cordeiro perfeito, Cristo, é imolado no altar, mas os cordeiros
imperfeitos, que somos nós, também são ofertados no mesmo altar. Em uma Igreja, o
altar sempre deverá ser o lugar de destaque, pois é nele que se constrói santidade, que o
cristão se refaz, que se reconstrói. Uma família, um casal, um agente de pastoral que se
encontra na Eucaristia, terá força, audácia e sabedoria, para enveredar-se no mundo,
buscando transformá-lo.
Não raramente encontramos agentes de pastorais que, em meio aos afazeres
pastorais, não participam da missa, sentindo-se legitimados para não cumprir esse
preceito. Repito, nada, nenhum trabalho da Pastoral Familiar deverá sobressair à missa
dominical.
Tendo em vista esse convite de centrar-se em Cristo, buscando a comunhão
com Ele no sacramento da Penitência e da Eucaristia, aqueles que gozam da
possibilidade de comunhão diária, usufruam desse benefício, pois é um alimento salutar
para os trabalhos pastorais.
Além dessas vias ordinárias, encontramos muitas outras vias extraordinárias
de encontro com Deus, merecendo destaque, como foi dito, a Adoração ao Santíssimo, a
Oração do Santo Terço e o Jejum.
Sem me delongar sobre as vias extraordinárias, ressalto a importância de se
recolher diante do Cristo Eucarístico, mediante a adoração, se possível silenciosa,
tecendo com Ele um diálogo entre irmãos, entre parceiros, entre Mestre e aprendiz.
Nesse diálogo, Ele nos conduz a rezar.
Da mesma forma, a Oração do Santo Terço, se possível diário, nos coloca
diante de Maria, em cujo colo somos acolhidos, amparados, especialmente nos
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 55
momentos difíceis. A devoção mariana é um alimento singular para o agente da Pastoral
Familiar, mesmo tendo vias plurais de se cultivá-la, deve-se buscar o melhor caminho
para se ter com Ela uma relação maternal, pois através dela chegamos a Jesus.
O jejum consiste na privação ou redução de comida por um período,
encontrando na mortificação da natureza humana uma via de encontro com Deus. O
jejum não poderá ser visto como um mecanismo de troca, em que ofertamos a falta de
alimento a Deus em vista de recebermos Dele algo. Mas sim, como forma de
reconhecermos que a humanidade deverá se curvar diante de Deus. Na fome, na
abstinência, nos lembramos que somos pó.
Bem sabemos que algumas pessoas, por motivo de saúde ou trabalho, não
conseguem abster-se de comida por um período do dia. Convidamos esses a se unirem a
Deus através da abstinência de algo que seja bom e desejado. Abster-se de algo que não
seja bom é obrigação.
A leitura da palavra de Deus nos coloca diante dos ensinamentos do Senhor,
possibilitando-nos encontrar na Palavra um alimento sólido para a vida e os trabalhos
pastorais. Aconselha-se que cada agente cultive diariamente a leitura da palavra de
Deus, não sob a ótica do estudo, mas sim de uma leitura espiritual, deixando que Deus
dê a devida resposta às situações concretas do dia a dia, pela Palavra.
Aconselha-se também a investir na Lectio Divina, pois através dela se
aprimora a leitura da Sagrada Escritura. Uma dica, de grande valia, é a leitura da
Liturgia da Palavra de cada dia, pois sabiamente a Igreja nos propõe um roteiro de
leituras que condizem com um caminho de santificação.
O encontro com Cristo pelas vias ordinárias e extraordinárias tem como fim
nos manter em estado de graça, fortificando-nos para a missa. Promovem também nossa
santificação. Um trabalho pastoral que não promove a santidade de seus agentes e
atendidos não goza de credibilidade. A defesa da vida e da família por agentes crentes e
santos goza de mais eficácia, pois não se defende uma ideia, mas sim, algo que se
acredita e se vive.
A santidade é o ponto de chegada de todas as ações e experiências
religiosas, mas infelizmente nem todas são providas dessa intenção. Tem como origem
o próprio Deus, portanto, ser santo, é assemelhar-se a Ele. Dentre os caminhos de
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 56
santificação, destacamos as Bem-aventuranças11, as Obras de Misericórdia12, os
Conselhos Evangélicos13 , que se unem às vias ordinárias e extraordinárias acima
destacadas. Buscar a santidade é cooperar com Deus no processo de salvação, pois não
basta Deus querer, é preciso que mereçamos e busquemos os caminhos de santificação,
requisito necessário para contemplarmos Sua face.
Portanto, todos os trabalhos da Pastoral Familiar devem ter, dentre outros
efeitos, a santificação tanto de seus agentes como das famílias atendidas. Um trabalho
pastoral que não promova a santificação de seus agentes torna-se vazio e desmotivador.
É urgente a retomada desse objetivo. Muitos se encontram desmotivados com os
trabalhos pastorais, mas se enxergarem na pastoral um caminho de santificação e de
encontro com Cristo, mesmo que seja pautado por desafios, nunca será desmotivador.
Cada agente é convidado a viver o martírio, não de sangue, mas sim, dos sentidos.
A Pastoral Familiar deverá promover ações que possibilitem a santificação
de seus agentes e assistidos, propagar a importância da Missa Dominical, e porque não
diária, da confissão, oração do santo terço, práticas das obras de misericórdia e outras
vias de santificação. Para isso, será preciso mudar nosso jeito de fazer pastoral. Não
podemos nos esquivar dos encontros e eventos, mas o grande desafio da Pastoral
Familiar é dar testemunho de perseverança nas vias de santificação, promovendo, no
cotidiano de cada pessoa, hábitos salutares para a perseverança daqueles que se
aproximam ou se reaproximam da Igreja. De nada adiantará o sucesso de nossas ações

11 Mt 5,316.

12Corporais: Dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, pousada aos peregrinos, vestir
os nus, visitar os enfermos e presos, enterrar os mortos; espirituais: ensinar os ignorantes, dar bons
conselhos, corrigir os que erram, perdoar as injúrias, consolar os tristes, sofrer com paciência as fraquezas
do nosso próximo e rezar a Deus por vivos e defuntos.

13 Pobreza, castidade e obediência. A pobreza vivida no seio familiar não se resume ao não ter, mas sim,
ao bom uso dos bens materiais, não ter a conquista material como foco e objetivo norteador da vida
conjugal e familiar. Bem sabemos que inúmeras famílias são afetadas por questões financeiras. Em nome
do bem-estar e da estabilidade muitos abrem mão de viver em família, provocando sua falência. A
castidade vivida na vida conjugal se refere à fidelidade ao estado de vida, não significa abster-se da
relação conjugal, mas sim, manter-se fiel ao seu cônjuge, primando por uma relação saudável e que prime
pela vida. Um casal que vive a castidade não resume ao ato sexual à relação afetiva, sendo a relação
sexual vista como cume de uma relação afetiva. Obediência na vida conjugal está no curvar dos cônjuges
e prole ao Evangelho e ao que é ensinado pela Igreja, entendendo que não é a verdade que deve se adaptar
às necessidades ou senso comum, mas sim, nós que devemos nos adaptar ao Evangelho. A obediência a
Deus e aos seus ensinamentos é semente para a relação entre pais e filhos, pois a obediência construída no
Evangelho é capaz de formar o indivíduo em sua totalidade.
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 57
se essas não forem acompanhados pelo crescimento pessoal de cada agente e assistido.
Os livros são de extrema importância, pois nos capacitam ao diálogo com o
mundo. Um agente que não conhece a doutrina acerca da família e da vida, propagada
pelo Magistério da Igreja, infelizmente será massacrado pelo mundo. Mas de nada
adianta ter um bom contato com os livros e não ter a experiência daquele que é assunto
central dos livros, o Cristo. Estude e reze.
Em meio a esta necessidade de se adaptar a Pastoral Familiar à realidade,
surgem inúmeras inquietações e perguntas acerca dos modos de se promover a cultura
da família e da vida em uma sociedade secularizada. Por isso, destacaremos alguns
pontos que não esgotam o tema, mas ajudam na reflexão sobre esta reinvenção do jeito
de ser e fazer Pastoral Familiar.

Uma leitura da realidade


O Documento de Aparecida (I Parte), o Diretório da Pastoral Familiar
(Capítulo I), a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (Capítulo II) e tantos
outros documentos do Magistério tecem um olhar inteligente sobre a realidade em que
vivemos. O documento Amoris Laetitia deixa-nos claro que não pretende dar uma
receita única para as diversas realidades que compõe a Igreja e conclama-nos a fazer
pastoral a partir de nossa realidade.
Todos os planejamentos Arqui/Diocesanos deverão considerar a
singularidade de sua realidade, promovendo ações que correspondam às reais
necessidades da comunidade. Outras ideias e projetos de realidades distintas poderão
servir de exemplo para a realidade local, ser até aplicáveis na íntegra, se
corresponderem à realidade. Porém, se não nascerem de uma necessidade local, não
alcançarão o coração da assembleia, e serão apenas ações desvinculadas da caminhada
da comunidade, fadadas ao esquecimento.
Esse olhar detalhado da realidade nos dará subsídios necessários para
entendermos a realidade das famílias a nós confiadas, nos deparando com as verdades
de nosso povo, seus desafios, suas enfermidades, suas dores e alegrias. Tendo essa
realidade em mente, poderemos rezar sobre esses dados e pedir a Deus sabedoria para
criarmos os remédios adequados para cada enfermidade social.
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 58
A Pastoral Familiar é um importante instrumento da Igreja. Mesmo não
tendo pretensão de ser o único caminho de restauração da família e defesa da vida,
possui uma estrutura singular que facilita os trabalhos em favor da família e da vida.
Mas é importante destacar que a defesa da estrutura da Pastoral Familiar, em seus
respectivos setores, deve ser cautelosa para não criarmos uma cruzada desenraizada da
realidade, uma inquisição condenatória daqueles que não possuem a estrutura ideal de
pastoral, pois bem sabemos que nem todas as realidades possuem capacidade humana
para implantar a estrutura apresentada pelos documentos da Igreja. Não podemos nos
esquecer que o mesmo Espírito, que inspirou a Igreja a criar esta estrutura, poderá
também nos impulsionar a fazer Pastoral Familiar para nossa realidade.
Longe de mim negar a importância da estrutura apresentada solenemente
pela Familiares Consortio (IV Parte) e pelo Diretório da Pastoral Familiar (Capítulo
VIII), pois é o caminho e a metodologia ideal para os trabalhos da Pastoral Familiar.
Mas, como foi dito, há realidades que não conseguem alcançar o ideal proposto, não por
negligência ou comodismo, mas por falta de material humano. Tais realidades não
podem ser excluídas do corpo pastoral da Pastoral Familiar, não deixam de ser pastoral.
Lutemos firmemente para implantar o que é idealizado pelos documentos acima
mencionados, mas não deixemos de nos sentir Pastoral Familiar quando esses ideais não
forem atingidos.
O grande desafio desse processo de ressignificação da Pastoral Familiar é
construir uma Pastoral Familiar para a paróquia, para os grandes centros e as periferias.
Não podemos pensar em projetos belos, mas inaplicáveis à realidade paroquial. A
Pastoral Familiar se faz na paróquia, é lá que ela acontece. Nesse processo, não nos
descuidemos das ações Regionais e Diocesanas: caberá ao Regional Centro-Oeste e às
Arqui/Dioceses dar o devido suporte às paróquias, buscando aproximar-se do ideal
proposto pelo Magistério, porém mantendo o foco de atuação pastoral em nível
paroquial a partir da realidade da Igreja local.

Organicidade da Pastoral Familiar e a Pastoral de Conjunto


Como foi dito, a Pastoral Familiar é subdividida em setores, Pré-
Matrimonial, Pós-Matrimonial e Casos Especiais, sendo implementada pelo Núcleo de
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 59
Formação e Espiritualidade e outras iniciativas que enriquecem seus trabalhos.
Nesse processo de repaginação da Pastoral Familiar, inevitavelmente deverá
ter-se em mente a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia, que veio reafirmar
a doutrina da Igreja sobre o Matrimônio e a Família, merecendo destaque a acolhida
misericordiosa dos Casos Especiais. Porém, com a mesma envergadura, o Papa
Francisco retrata com clareza a necessidade de se preparar, principalmente, os jovens,
propagando a cultura da família àqueles que almejam contrair o matrimônio. É
crescente o número de casos especiais, fruto de uniões falidas, pela ineficiência da ação
pastoral do Pré-Matrimônio.
Lamentavelmente, estamos nos tornando uma Igreja de divorciados. No
Brasil, em 2016, em média, 2.097 casamentos foram declarados nulos. A princípio,
prova de um bom trabalho de nossos tribunais, mas também, retrato de uma triste
realidade: um simples encontro para noivos não prepara um casal para o matrimônio. É
preciso propagar a cultura da família e do matrimônio. Para isso, faz-se necessário que a
Pastoral Familiar aproxime-se dos movimentos, pastorais e serviços que têm a
juventude como foco, não necessariamente para assumir os trabalhos, mas sim, dar o
devido suporte e formação acerca do matrimônio e da família. Da mesma forma, a
aproximação com a catequese, movimentos, pastorais e serviços que atuam com a
infância e a adolescência.
Tecer parcerias para a construção de uma Pastoral de Conjunto, um grande
desafio da Igreja, constitui uma necessidade prioritária para a eficácia dos trabalhos do
Pré-Matrimônio. É urgente entendermos que pastoral não se faz isoladamente, ou não
atingiremos nossos objetivos.
A Pastoral Familiar deve compreender que não é sua missão assumir todos
os trabalhos, mas sim, articular e oferecer suporte para outras ações existentes,
preservando a identidade de cada movimento, pastoral ou serviço. A presença de adultos
e idosos em meio aos jovens é o maior instrumento de propagação da cultura da família
e da vida. O diálogo entre as gerações se constrói a partir de uma boa leitura histórica
dos dias atuais, capaz de compreender que, em meio às diferenças, sempre há pontos
comuns que possibilitam o encontro do mais jovem com o mais velho. Entre muitas
crianças, adolescentes e jovens que não têm abertura com os pais, a presença da Pastoral
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 60
Familiar pode suprir a necessidade de diálogo.
Como fora dito acima, não há uma proposta pedagógica universal para a
preparação dos noivos, das crianças, adolescentes e jovens para a vida conjugal e
familiar. Cada Arqui/Diocese deverá fazer uma leitura de sua realidade, tendo em vista a
necessidade de se construir um processo formativo para a preparação para o
matrimônio. Salientamos apenas que a cultura da abreviação dos “cursos” de noivos
nunca preparará com qualidade nossos jovens para a vida matrimonial. Dever-se-á levar
a sério os encontros de preparação para noivos.
Dentre os temas importantes para a propagação da cultura da família e da
vida, bem como a preparação para a vida conjugal, destacam-se: 1) Sacramento do
Matrimônio: o que é e quais suas implicações canônicas e civis; 2) Preparativos básicos
para a celebração matrimonial - o Rito; 3) O amor de Deus como protótipo do amor
conjugal; 4) O pecado como fator destrutivo da vida conjugal; 5) A experiência de Deus
na vida conjugal; 6) Conhecimento de si mesmo e do outro; 7) Harmonia sexual do
casal; 8) Não se faz sexo, mas sim, amor. Relação sexual como celebração do amor; 9)
Paternidade Responsável e métodos naturais para o planejamento familiar; 10) Diálogo:
importância e técnica para um diálogo aberto e sincero em um casamento; 11) Finanças
em um mundo perturbado; 12) Como organizar um orçamento familiar: compras,
planejamentos, comunhão de bens, investimentos... Não colocar o dinheiro em primeiro
plano; 13) Filhos: educação, dedicação, dom de Deus e adoção. 14) Como relacionar-se
com os familiares e amigos. 15) As principais mudanças pós-matrimônio; 16) Tecer
laços de amizade no matrimônio como um importante investimento matrimonial.
Tendo em vista a análise de conjuntura de cada Arqui/Diocese, orientamos
que construam um “encontro de preparação para o matrimônio” homogêneo em toda
Arqui/Diocese. Podendo realizá-lo em módulos, em um único final de semana...
contando que prime pela qualidade. É importante, também, aproximar a Pastoral
Familiar dos noivos, para um acompanhamento personalizado, favorecendo a cultura da
Direção Espiritual. Para isso, é importante que cada casal Diretor Espiritual promova
encontros periódicos com os noivos, podendo retomar temas tratados na preparação
para o matrimônio ou temas diversos, favorecendo o diálogo e a interação entre
diretores espirituais e noivos. Este acompanhamento deverá prosseguir após a
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 61
celebração do casamento, como atividade do setor Pós-Matrimônio.
A Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia retrata a necessidade
de se criar Centros de Apoio às Famílias, com diversas ações em favor da família. Em
uma Pastoral de Conjunto, o setor Pós-Matrimônio deverá tecer laços fraternos e
serviçais com movimentos e serviços em favor da família, principalmente, os que
primam pelo cuidado com os casais. Dentre as ferramentas possíveis, destaca-se a
Direção Espiritual, que intermediará a solução de conflitos, acompanhará os recém-
casados... evitando que se multipliquem os casos especiais.
Importante articular reuniões com os movimentos, pastorais e serviços, para
tecer parcerias nos trabalhos em favor da família e da vida. Orientamos, sem ferir a
identidade de cada Arqui/Diocese, a criação do Setor Família, unindo forças para os
trabalhos pastorais.
O setor Casos Especiais ainda é um dos maiores desafios da Pastoral
Familiar, devido à sua amplitude e complexidade. Sem nos delongarmos nesse tema,
lembramos apenas que já foram apresentadas as três palavras que resumem as
necessidades do setor: Acompanhar, Discernir e Inserir. Cada Arqui/Diocese, em
comunhão com seu Pastor, deverá pensar como efetivar essas vias apresentadas pela
Amoris Laetitia, buscando meios de inserção dos Casos Especiais nos trabalhos
pastorais e litúrgicos, considerando sempre o bem da comunidade, a defesa da verdade e
a acolhida misericordiosa.
Outra urgência do setor é a criação ou implementação da Pastoral Judiciária,
com vistas a ajudar a solucionar as irregularidades passíveis de solução. Caberá à
Pastoral Familiar tecer parcerias com as Câmaras Eclesiásticas e Tribunais
Eclesiásticos, facilitando o acesso à justiça daqueles que vivem situações irregulares.
O Regional Centro-Oeste possui dois Tribunais Eclesiásticos, presentes nas
províncias de Brasília e Goiânia, que acolhem, através das Câmaras Eclesiásticas das
Dioceses, os processos que pleiteiam a Declaração de Nulidade dos matrimônios.
Temos ainda outros tribunais em via de criação. Por isso, é importante ficar atento à
realidade de sua Arqui/Diocese para oferecer suporte para os trabalhos judiciais.
Outro desafio ainda por vencer, também necessário para a ressignificação da
Pastoral Familiar, se encontra na constituição do Núcleo de Formação e Espiritualidade,
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 62
responsável pela formação e espiritualidade dos agentes da Pastoral Familiar. Ressalte-
se que a formação também deverá ser pensada a partir das paróquias, favorecendo sua
aplicação nas diversas realidades concretas, pois infelizmente a formação Regional e
Diocesana não tem chegado até elas. Por isso, uma avaliação sincera da situação é
necessária para identificar as razões dessa ineficiência na multiplicação dos conteúdos.

Uma Igreja ferida


Por fim, ao olharmos para a nossa realidade, nos deparamos com uma Igreja
ferida pelas inúmeras situações que dificultam seus trabalhos. Importante lembrar que a
Igreja está inserida em um contexto social, sofrendo também as consequências do meio.
Choramos os sacerdotes que abandonaram seus ministérios, choramos os casais que se
separaram, choramos os escândalos sexuais, administrativos... Somos uma Igreja ferida.
Mas ser uma Igreja ferida não implica ser uma Igreja entristecida, pois ser
ferida nos faz lembrar da fragilidade humana e também da providência divina. Em meio
às dores deverá surgir a esperança e a confiança no cuidado de Deus.
Quem ama, ama na alegria e na dor. Não condicione seu trabalho, sua
doação, sua entrega às dores. Não sejamos propagadores das dores. É importante lidar
com as feridas, com verdade e maturidade. A solução não é fazer de conta que não
temos problemas, tampouco escancará-los, mas sim, ter atitude de agentes
transformadores de realidades difíceis. Não podemos nos prender ao choro, temos que
nos levantar e reerguer essa Igreja caída. Cabe-nos lembrar que Cristo é a Cabeça da
Igreja e sempre estará erguida. Independente de os outros membros estarem
fragilizados, a Cabeça se encontra plena. “Jesus então lhe disse: Feliz és, Simão, filho
de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está
nos céus.18E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as
portas do inferno não prevalecerão contra ela”. (Mt 16,17-18).
Torne-se agente transformador das realidades difíceis, ame esse Igreja na
alegria e na tristeza, Deus proverá caminhos de solução.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 63


2 - O Evangelho da Família, alegria para o mundo
Dom José Siva Chaves14

O Concílio Vaticano II, ao falar sobre a família na GS 47-52, não começa


dando princípios teóricos sobre a grandeza e a dignidade desta instituição cristã.
Começa oferecendo-nos uma descrição realista da situação da família no mundo atual
(GS 47). Inicialmente, também oferecemos uma visão panorâmica sobre a situação da
família no momento atual.
No mundo moderno, a família também se apresenta com características
novas. Isso é tão verdade que às vezes dá a impressão de que nos encontramos diante
desta disjuntiva: ou que a família tende a desaparecer totalmente, ou que se trata de algo
completamente diferente do tradicional. Quais explicações para essa revolução dentro
da instituição familiar? Como podemos solucionar os problemas familiares?
Para se ter uma ideia mais exata do estado atual da família é conveniente
que voltemos nosso olhar para sua situação anterior, buscando identificar os sintomas
dessa profunda evolução. A partir desse olhar, podemos projetar o autêntico rosto da
família do amanhã, destacando os princípios imutáveis que devem reger essa instituição,
tendo em conta sua adaptação às novas situações.
Para compreender a situação da família de ontem vamos considerá-la sob
dois aspectos complementares: o aspecto sociológico e o aspecto religioso.
Quanto ao aspecto sociológico, dentro de nossa cultura ocidental, tendo em
conta as distintas bases sociológicas, encontramos a família patriarcal, que, em seu
sentido pleno, desapareceu quase por completo da atual sociedade ocidental, mas ainda
mantém suas marcas, sobretudo, em ambientes rurais que não sofreram o impacto da
revolução urbana e industrial. Esse tipo de família, da qual grande parte de nós
procedemos, possui peculiares características.
Nela, a primazia do princípio da autoridade de forma exagerada era comum,
concentrada exclusivamente no chefe da família. Desse princípio, observa-se a sujeição
absoluta da mulher à vontade do marido (nos gostos, na escolha do lugar onde morar,
tipo de casa...). Embora considerada “rainha do lar”, a mulher não passava de uma

14 Bispo Emérito da Diocese de Uruaçu


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 64
rainha escrava do lar. O marido é que tinha a suprema autoridade, o que dirigia a
economia, e o que intervinha na vida social.
Desse princípio também decorre a sujeição total dos filhos às ordens do pai,
até em assuntos de relevante importância, como a escolha do estado de vida: solteiro(a),
casado(a) etc. A autoridade do pai compunha-se das gravíssimas obrigações de vigiar,
corrigir e castigar, e por parte dos filhos o estrito dever de respeitar e de obedecer.
Este sentido de autoridade familiar concentrado no marido como cabeça da
família se reflete em todos os códigos civis e até no Evangelho, a exemplo de Ef 5,
22-23 (subordinação da mulher ao marido, “porque o marido é a cabeça da mulher”) e
1Cor 7, 36 (o pai é quem dispõe o casamento da filha).
A afetividade conjugal ficava em segundo lugar. As relações conjugais não
tinham nenhuma manifestação fora da mais estreita intimidade do lar, a tal ponto que
parecia indecoroso qualquer manifestação dos esposos diante dos olhares dos demais. O
esquema essencial parecia ser o seguinte: “o amor para os noivos; os casados já vivem
juntos”. Dava-se relevante importância à fecundidade dentro do matrimônio: o que
contava eram os filhos, sem olhar demasiado para a promoção humana dos mesmos, e
menos ainda a perfeição e o enriquecimento afetivo dos esposos.
Este tipo de família, que se prolongou durante séculos em nossa sociedade,
é precisamente a que agora está em revisão e na qual ocorrem os problemas mais
agudos ao buscar adaptar-se às novas circunstâncias.
Quanto ao aspecto religioso, a família de todos os tipos e de todas as idades
têm tido, de uma maneira ou de outra, um senso religioso e sagrado. Na família de
ontem, poderíamos assinalar em relação à teologia do matrimônio, que havia um
“déficit” de teologia e uma “inflação” de direito, embora não se negue o caráter
sacramental do matrimônio, considerado quase que exclusivamente na perspectiva de
contrato humano sobre um fundo de instituição natural imutável.
Poderíamos resumir em três aspectos a moral matrimonial e familiar:
fidelidade, indissolubilidade e fecundidade.
A fidelidade, baseada na unidade e indissolubilidade do matrimônio,
descarta o adultério e o divórcio como dois vícios opostos e confirmam a família como
célula da sociedade, não somente por título jurídico e econômico, mas também por sua
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 65
grande força educativa. Nela se exercitam as virtudes que fazem possível a convivência
social: a responsabilidade, a compreensão, o autodomínio.
É impossível imaginar a convivência humana sem essas forças morais. Mas
para que elas possam brotar do solo da família, esta há de ser duradoura, constante,
segura: há de ser indissolúvel. Por isso, não tenhamos medo de cair em exagero
afirmando que o matrimônio indissolúvel é a argamassa imprescindível da convivência
social. Suprimamos a indissolubilidade e veremos como cai em pedaços o edifício da
sociedade humana.
A procriação dos filhos era considerada o fim primário do matrimônio,
carregando o assento sobre o dever da fecundidade, que diminui cada vez mais na
atualidade…
Quanto à espiritualidade, não podemos negar os grandes valores espirituais
que se desenvolveram dentro das famílias cristãs. Contudo, podemos afirmar que a
espiritualidade, especificamente, matrimonial é relativamente nova. Na família se vivia
uma “espiritualidade de terciários”; isto é, calcada sobre os módulos de uma
espiritualidade conventual.
Depois de uma rápida visão da situação da instituição familiar nas gerações
passadas, definimos a situação da família na atualidade em três palavras: mudança, crise
e revisão.
Quanto ao estado de mudança, é evidente para todos que a instituição
familiar se encontra em um momento de mudança e evolução, naturalmente, devido ao
processo de transformação a que está sujeito o mundo atual.
A crise que tem provocado esse estado de mudança e evolução na instituição
familiar decorre de vários fatores. Dentre os quais, citamos problemas
sociopsicológicos: “a atual situação econômica, sociopsicológica e civil são a origem de
fortes perturbações para a família” (GS 47). Como a instituição se apóia em
condicionamentos sociopsicológicos, ao mudar estas situações, é natural que se
provoque idêntica mudança na família. A tranculturação, passagem de uma cultura
para outra, de uma cultura rural para uma cultura urbana; de uma cultura agrícola para
uma cultura industrial, leva a família a se acomodar à nova cultura. Rompe-se o círculo
fechado da família com a emigração, a terra já não tem sentido de coesão, ocorre
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 66
dispersão da família por causa do trabalho, há mudanças notáveis na relação autoridade-
obediência, os filhos já não seguem necessariamente a profissão dos pais, ocorrem
mudanças sociais com maior facilidade.
Mas querer “reformar” o matrimônio, propalando falsas máximas, destrói
nesciamente os valores mais sagrados. O que o mundo necessita não é a reforma do
matrimônio, mas o matrimônio cristão, reto, moral e indissolúvel. A tese de que o
matrimônio não é invenção humana, mas instituído por Deus , “coisa sagrada”, cuja
essência não depende da vontade humana, justificam a impossibilidade de se mudar sua
lei básica, posto que o matrimônio cristão é sacramento.
O caos e desvario que reinam nesta questão são motivados pelas paixões
humanas, que se intrometeram nas leis divinas e cortaram a sua raiz vivificadora,
arrancando o matrimônio do solo divino, para “reformá-lo” segundo as exigências cegas
da natureza humana, dada ao sensualismo.
Pergunto: - É necessário, é sequer lícito reformar o matrimônio?
Assim respondem: - “Se em volta de nós tudo mudou, se vivemos em
circunstâncias econômicas e formas de vida completamente novas, também o
matrimônio deve-se amoldar à nova situação”.
Ninguém nega o grande progresso que a humanidade realizou nestes últimos
anos, no campo da ciência e da técnica. Mas o semeador da vida humana, apesar das
grandes transformações operadas no mundo, continua a ser o mesmo: a família. Não é
lícito tocar com mãos sujas e grosseiras esta fonte. A família há de ser sempre a fonte
pela qual a humanidade se rejuvenesce constantemente. A família há de ser sempre a
porta pela qual entra na vida a nova geração humana, para ocupar o posto que deixa
vazio a geração que baixa ao túmulo, à sepultura.
Portanto, o que se necessita não é a “reforma” do matrimônio, tal como o
propalam homens embriagados pelo afã do prazer: “matrimônio de camaradas”, “de
experiência”, “de fim de semana”, “do mesmo sexo” e outras mil loucuras. Não, não é
isto de que nós necessitamos. O que necessitamos é salvar, robustecer o “matrimônio
antigo”, pelo qual chegamos ao atual desenvolvimento cultural e que a Igreja de Cristo
não cessa de defender, fomentar e exigir.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 67


A ninguém constrange mais do que à Igreja o grande abismo que se abriu no
campo do matrimônio entre o ideal cristão e a triste realidade. É que há valores
absolutos, há exigências que não se podem mudar nem reformar, ainda quando os
abandone o mundo inteiro. Assim se compreende porque a Igreja Católica, ainda
achando-se só, continua a sustentar uma luta sobre-humana pelo ideal perfeito que
Cristo propôs, isto é, pelo matrimônio indissolúvel.
A luta contra o matrimônio é apenas uma forma de guerra desencadeada
contra Deus pelas diversas escolas filosóficas, materialistas e ateias. Portanto, quem
deseja ver Jesus Cristo reconhecido e adorado no mundo, não pode alistar-se nas fileiras
dos que lutam e apregoam a destruição do matrimônio.
Há, é verdade, um obscurantismo da instituição familiar. Na imagem da
família atual há sombras, e por certo bastante escuras. Não fazemos mais que repetir as
palavras do Concílio: “A dignidade desta instituição não brilha em todas as partes com o
mesmo esplendor, posto que está obscurecida pela poligamia, a epidemia do divórcio, o
amor livre e outras deformações”. E “mais ainda, o amor matrimonial fica
frequentemente profanado pelo egoísmo, o hedonismo e os usos ilícitos contra a
geração” (GS 47).

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3 - Pastoral Familiar na Familiaris Consortio e
Amoris Laetitia
Pe. Cleber Alves de Matos15

Quando falamos de Familiaris Consortio e Amoris Laetitia estamos nos


referindo a duas Exortações Apostólicas, fruto de dois importantes Sínodos dedicados à
família, uma publicada em 1981 no pontificado de João Paulo II, hoje São João Paulo
II, promovendo dentre outros aspectos, uma organização da Pastoral Familiar,
principalmente na quarta parte 16, outra, em 2016 no pontificado do Papa Francisco, que
além de reafirmar a doutrina da Igreja acerca do matrimônio e da família, tem um olhar
mais aguçado à pastoralidade, principalmente, um cuidado mais inclusivo para com os
casos difíceis.
1. O matrimônio e a família como imagem da fecundidade de Deus
Para um bom entendimento acerca do que fora revelado por Deus e
entendido pela Igreja sobre a família e o matrimônio é de suma importância ter essas
duas exortações em mãos, lê-las e entendê-las. Uma boa Pastoral Familiar é aquela que
sabe fundamentar-se no que é ensinado pela Igreja e também sabe colocar esses
ensinamentos em prática. Uma Pastoral só teórica ou só prática não alcançará seus
objetivos.
O matrimônio, um bem revelado por Deus, conjuntamente com a
virgindade, são formas de realizações da vocação da pessoa humana. Sendo um dom de
Deus, imagem da aliança entre Deus e a humanidade, não pode ser vivido apenas como
uma realidade biológica, deve ser vivido também como uma dimensão sobrenatural, a
exemplo da união hipostática assumida por Jesus ao assumir a humanidade, verdadeiro
Deus e verdadeiro homem, gerando vida a exemplo da fecundidade divina17.

15 Assessor Eclesiástico da Pastoral Familiar - Regional Cetro-Oeste

Paróquia Nossa Senhora da Abadia/ Niquelândia - GO/ Diocese de Uruaçu

16 Familiaris Consortio, n. 65 a 85, onde é apresentada a estrutura organizacional da Pastoral Familiar.

17 Familiaris Consortio, n.11 e 12, sobre a virgindade, n. 16; Amoris laetitia, n. 8 a 10. Matrimônio como
dom de Deus, Amoris laetitia, n. 61. Sobre o matrimônio como aliança a exemplo da aliança entre Deus e
a humanidade, Amoris laetitia, n. 63.
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 69
Jesus é o grande exemplo de esposo, exemplo de comunhão e doação,
devendo os cônjuges se espelharem Nele. O matrimônio em Cristo assume caráter de
sacramento, fortificando ainda mais a indissolubilidade natural das relações conjugais,
sendo também caminho de encontro com Cristo, bem como, caminho de salvação. 18
2. Pastoral Familiar e anúncio fecundo
Para que o anúncio da família seja eficaz e produza frutos, é preciso que não
seja feito como uma imposição fria de uma doutrina, mas sim, feito à luz de uma
experiência sobrenatural, de um encontro com Deus 19.
Uma Pastoral Familiar fecunda é uma pastoral que promova o encontro com
Cristo. Não há como se encantar com a Pastoral se antes não houver um encantamento
por Cristo. Sem uma experiência de Deus, nossos trabalhos serão vazios, não terão
sentido. É o encontro com Cristo que nos fortifica nos momentos de sofrimento, de
decepções e cansaço. É o encontro com a Palavra, com os sacramentos e as vias de
piedade popular que nos manterá em prontidão. Não podemos abandonar nossos
eventos, mas é chegada a hora de investirmos um pouco mais na promoção de um
encontro amoroso com Jesus. Desse encontro nascerão agentes fervorosos, mártires da
pós-modernidade.
3. Educação da prole
A exemplo da fecundidade de Deus, o matrimônio é o fator constitutivo de
uma família. Por ele se gera vida e a acompanha mediante um processo educativo. A
educação da prole é uma das prioridades da união conjugal, não estando o matrimônio
apenas para a satisfação humana, tão pouco apenas para a procriação20.

18Familiaris Consortio, n. 13. Sobre a indissolubilidade do matrimônio, Amoris Laetitia, n. 62. Sobre a
sacramentalidade do matrimônio, Amoris Laetitia, n. 72 e 74. Sobre a sacramentalidade do matrimônio,
como caminho de salvação, Familiaris Consortio, n. 56.

19 Amoris Laetitia, n 59.

20 Os fatores unitivo e procriativo são duas realidades que estão em recíproca relação na vida conjugal;
longe de nós criar uma escala de valores entre ambas. Aqueles que afirmam que o fator procriativo está
acima do unitivo, está equivocado. Se assim fosse, a infertilidade seria impedimento para matrimônio, e
não é. Contudo, a união sexual entre os cônjuges, vivida no matrimônio, tem como fim unir os mesmos e
também promover a vida. Importante lembrar que não basta abrir-se à vida, é preciso também preparar-se
para educar a vida nascida. Não basta gerar; é preciso cuidar. Levantar a bandeira para defender a vida
gerada não nos esquiva da responsabilidade de cuidar da vida nascida. É justamente aí que pecamos.
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 70
Não há, nos desígnios de Deus, possibilidade de renúncia do papel
educativo dos cônjuges. É missão dos progenitores educar a prole à vida em sociedade,
à vivência madura e cristã da sexualidade, à vivência da fé cristã, com seus valores,
doutrinas e princípios, ensinando-a a vencer as tendências sociais destrutivas, tendo
maturidade para fazer boas escolhas quando atingir idade adulta, primando por
princípios éticos, estando cientes de que escolhas ruins geram consequências ruins. Pais
que privam seus filhos de assumirem as consequências de suas escolhas, bem como
repararem seus erros, são péssimos educadores21.
4. Pastoral Familiar e promoção da vida
Ao conjugar o matrimônio à imagem fecunda de Deus, importante lembrar
que a esterilidade não pode ferir a beleza da família, podendo gerar abertura para outras
frentes de serviço à vida e à família22, podendo também suscitar o desejo concreto de
gerar com a alma, mediante a adoção. O amor é tão sublime e fecundo, que nos capacita
a gerarmos não só com o corpo, mas também com a alma. Gerar com a alma implica
cuidar de uma vida que foi gerada e parida por outra pessoa, porém situações da vida
afastaram progenitores e prole.
Uma Pastoral Familiar fecunda, a exemplo da fecundidade de Deus, é uma
Pastoral promotora da vida e, principalmente, do cuidado com a vida abandonada.
Adotar é um desafio, porém, não podemos nos esquecer que somos filhos adotivos de
Deus. Da mesma forma que Cristo mediou nossa filiação, ele também media nossa
geração com a alma. A adoção vivida em um ângulo sobrenatural torna-se fecunda,
concretização do desejo humano de imitar a Deus.
5. Família e vida em sociedade
Pela família se aprende a viver em comunidade, por ela se introduz a pessoa
na sociedade, nela se aprendem os princípios básicos de uma convivência pacífica em

21 Familiaris Consortio, n 14. Sobre a educação, Amoris laetitia, n.17, 259 a 290, Familiaris Consortio,
n. 36 a 41. Sobre o fator constitutivo da família mediante o matrimônio, Amoris laetitia, n. 13. Sobre a
educação de fé, Amoris laetitia, n. 16. Sobre a necessidade de se ensinar os filhos a fazerem boas escolhas
e seguirem um caminho, Amoris laetitia, n. 18. Sobre a educação para oração, Familiaris Consortio, n. 59
a 62.

22 Familiaris Consortio, n. 14.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 71
sociedade23. Portanto, uma Pastoral Familiar fecunda é uma pastoral que se lança pelo
mundo tendo como fim transformá-lo, uma transformação que parte pela restauração
das famílias. Uma Igreja fecunda é uma Igreja que se lança em sua missão profética,
promovendo a justiça social. Mas, uma justiça apenas social, que não prima pela
restauração da família, pelo resgate de seus valores e finalidades, não conseguirá
resgatar a humanidade das garras do secularismo.
6. Avaliar para projetar
O que é comum entre as duas exortações e em outros documentos do
Magistério, é o conhecimento da realidade24, a partir da qual se propõe um projeto, uma
exortação, um remédio para doenças específicas. Nossos remédios pastorais talvez não
sejam eficazes, porque podem não ser remédios certos para as doenças que temos. Isso
serve-nos de exemplo, pois somos bons para criar atividades, porém, péssimos para
avaliarmos nossa realidade.
Abramos nossos olhos para um olhar detalhado do mundo em que vivemos,
de nossas Comunidades. Será que nossos remédios pastorais são indicados para as
doenças sociais que nos afetam? Importante lembrar que não há uma receita única, pois
mesmo que algumas doenças sejam comuns, muitas outras são específicas a cada
realidade25.
Dentre outras doenças apresentadas pelas Exortações, destacam-se:
a. Degradação dos valores fundamentais, inversão de papéis no
contexto familiar, falsa concepção de liberdade e individualidade,
cultura do divórcio que desestabiliza famílias gerando uniões
irregulares, ferindo o desenvolvimento positivo dos filhos26 ;

23 Familiaris Consortio, n.15. Sobre a missão de gerar vida, Amoris Laetitia, n. 11. Sobre a família como
escola para a vida de comunidade, função social e política, Familiaris Consortio, n. 43 a 45.

24 Amoris Laetitia, n. 31.

25 Familiaris Consortio, n.10.

26 Familiaris Consortio, n. 6, Amoris Laetitia 41 e 42.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 72
b. Desigualdade social, economias falidas, miséria como fruto de
uma desigualdade social, que condicionam a família, pois a busca
da estabilidade é condição para a constituição familiar27;
c. Cultura da morte e antinatalista, bem como a forçosa inserção de
ideologias, merecendo destaque a ideologia do gênero, que fere a
ideia de pessoa e suas propriedades. 28
d. Pessimismo frente ao envelhecimento, vendo os idosos como um
peso, pois não são mais produtivos29.
e. Individualismo exagerado, em que o indivíduo se torna absoluto,
gerando famílias subdivididas em ilhas, ferindo o diálogo e
convivência familiar, agressividade e falta de aceitação da
individualidade alheia. Em nome do individualismo e da
liberdade de escolha nega-se o matrimônio com o falso intuito de
preservar a individualidade. A casa (lar) tem se tornado lugar de
passagem e a convivência familiar se dá apenas quando é
conveniente.30
f. Metodologia pastoral inadequada para os dias atuais, gerando
aversão à experiência religiosa e consequentemente ao conteúdo
da fé e a defesa da vida, bem como, a apresentação de um
matrimônio ideal quase poético e desumanizado, desconsiderando
a situação de cada pessoa, suas limitações e intenções positivas,
mesmo que frágeis.31
g. Afetividade narcisista, erotização e vulgarização da
sexualidade32 ;

27 Familiaris Consortio, n. 6, Amoris Laetitia 44 e 49.

28 Amoris Laetitia, n. 42 e 56.

29 Amoris Laetitia, n. 43 e 48.

30 Amoris Laetitia, n. 33, 34, 40.

31 Amoris Laetitia, n 36.

32 Amoris Laetitia, n. 41.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 73
h. Exploração sexual, principalmente de menores; filhos privados da
presença de um ou dos dois pais, violência social e doméstica,
principalmente contra a mulher33.
i. Migração forçada, marcada por perseguições pautadas por falsas
concepções religiosas34.
j. Falta de apoio do Estado para o cuidado com as pessoas
portadores de necessidades especiais e ineficiência de uma
pastoral inclusiva, que não prima pela inclusão de pessoas com
deficiências físicas ou psicológicas35.
k. Decadência do papel educativo dos pais frente a exaustivas
jornadas de trabalho, bem como, projetos pessoais dos pais que
ferem a harmonia conjugal e familiar36.
l. Toxidependência como fator destrutivo da família37 .
m. Mesmo reconhecendo várias situações de família, é um perigo
uma simples equiparação ao matrimônio às uniões de fato e
homoafetivas38 .

Para as doenças levantadas, alguns remédios também são apresentados:


a. Promover uma nova compreensão do valor da vida, dos princípios
e valores que são indispensáveis para a formação da pessoa;
promoção da pessoa frente ao utilitarismo, sendo urgente uma
nova formação da consciência, para obter-se o resgate do que fora

33 Amoris Laetitia, n. 45 e 54.

34 Amoris Laetitia, n. 46.

35 Amoris Laetitia, n. 47.

36 Amoris Laetitia, n 50 e 55.

37 Amoris Laetitia, n 51.

38 Amoris Laetitia, n 52.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 74
perdido, bem como, uma profunda e sólida conversão pessoal,
capaz de influenciar de forma positiva a sociedade 39.
b. Assumir a família e seus valores como prioridade do anúncio do
evangelho, fazendo, assim, um Marketing positivo da família e
não impondo forçosamente uma realidade, mesmo que seja boa 40.
c. Constituir centros de apoio às famílias, principalmente que se
encontram em situações difíceis 41;
d. Advertir sobre a decadência cultural que prima pela falência da
família; sair da defensiva, sem deixar de defender, primando em
apresentar o caminho da verdadeira felicidade42.
e. Promover a defesa dos direitos das famílias tendo em vista dar às
pessoas condições básicas para que possam constituí-las43.
f. Possibilitar uma boa passagem daqueles que se encontram na reta
final de sua jornada terrena 44.
g. Anunciar hoje o evangelho da Família; guiar os noivos no
caminho de preparação para o matrimônio; promover o
acompanhamento nos primeiros anos da vida matrimonial;
iluminar crises, angústias e dificuldades; acompanhar em
momentos de luto45.

7. Pastoral Familiar nos casos difíceis


Ao falar de situações difíceis, inevitavelmente vem-nos a imagem do Bom
Pastor, aquele que vai ao encontro da ovelha perdida. O resgate das famílias, como já

39 Familiaris Consortio, n. 8 e 9.

40 Amoris Laetitia, n. 35.

41 Amoris Laetitia, n. 38.

42 Amoris Laetitia, n. 38-39.

43 Amoris Laetitia, n. 44 e 49.

44 Amoris Laetitia, n. 48.

45 Amoris Laetitia, n. 199 a 258.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 75
fora dito, requer clareza de sua realidade, tendo como fim prover ações eficazes e
pontuais em prol do cuidado para com elas. As situações difíceis vividas pelas famílias
nos dias atuais são diversas: de cunho econômico, político e social etc. É impossível
falar de resgate sem saber o que e onde resgatar46.
Dentre as situações já mencionadas, incluem-se os casamentos mistos,
carentes de acompanhamento anterior e posterior à sua celebração, colocando em risco a
parte católica47; os matrimônios ad experimentum, ou seja, uniões de fato, desprovidas
de vínculos sacramentais e civis48, sem perspectivas de durabilidade; matrimônios
meramente civis 49; separados e divorciados sem segunda união50; divorciados que
contraíram segunda união51; os sem família52; homossexualidade e uniões homoafetivas
e outras.
A Exortação Apostólica Amoris Laetitia, principalmente no capítulo VII,
traz uma profunda explanação sobre o trabalho pastoral para com aqueles que
participam da vida eclesiástica de forma incompleta e aqueles que foram excluídos dela.
A Igreja, portanto, deve acompanhar com misericórdia esses casos irregulares53, pois
deve, mesmo diante das situações irregulares, valorizar as fagulhas, ainda que
imperfeitas, dos elementos constitutivos do matrimônio 54.
Aos casamentos que possuem estabilidade, gozam de valores inerentes à
natureza do matrimônio cristão, sendo passivos de se "sacramentarem", devem ser

46 Familiaris Consortio, n. 77.

47 Familiaris Consortio, n. 78.

48 Familiaris Consortio, n. 80.

49 Familiaris Consortio, n 82.

50 Familiaris Consortio, n. 83.

51 Familiaris Consortio, n. 84.

52 Familiaris Consortio, n 85.

53 Amoris Laetitia, n. 291.

54 Amoris Laetitia, n. 292.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 76
acompanhados por um caminho que os leve ao sacramento55. Mesmo os que não gozam
de estabilidade, também devem ser acompanhados de perto. Da mesma forma, aqueles
que são afetados por diversas culturas contrárias ao matrimônio, para que possam
descobrir a beleza, o valor e o papel do matrimônio e da família perante a sociedade,
levando-os à plenitude 56.
Tendo em vista a necessidade de sacramentar as uniões irregulares e
passivas de regulamentação, deve-se ter cautela com a sacramentalização vazia, pois
não basta sacramentar/legitimar; é preciso promover uma profunda catequese sobre o
matrimônio, a família e a vida. Casais que amam e acreditam na família e no
matrimônio vivem com plenitude o amor que os uniu, pois um amor à pessoa não se
sustenta quando não encontra um amor à família.
Aos que vivem situações irregulares, que não são passivas de solução,
caberá a Igreja reintegrá-los, pois a “caridade verdadeira é sempre imerecida,
incondicional e gratuita”, considerando sempre o sofrimento de cada um diante do
modo que vivem57. Mesmo que não vivam a plenitude da experiência cristã, é preciso
ensiná-los a viver a fé diante de suas limitações 58. Mesmo fragilizados, são membros do
Corpo de Cristo, podem ser integrados em diferentes serviços eclesiais, sempre
tutelados pelo bom discernimento dos pastores59.
Diante dessa necessidade de reintegrar os que se encontram às margens, é
importante ter cautela com aqueles que assumem o pecado como modo autêntico e lícito
de se viver, ou seja, negam o que fora apresentado pelo Evangelho e ensinado pela
Igreja como ideal a ser perseguido. Uma coisa é sofrer pelas situações irregulares, outra
coisa é querer legitimar o irregular. A esses, deve-se evitar dar-lhe funções catequéticas

55 Amoris Laetitia, n. 293.

56 Amoris Laetitia, n. 294.

57 Amoris Laetitia, n. 296.

58 Amoris Laetitia, n. 297.

59 Amoris Laetitia, n. 299.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 77
e pregações, podendo inseri-los, a juízo dos pastores, em serviços sociais e reuniões de
oração60.
Contudo, o texto não diz que tais funções possíveis são de coordenação ou
não. Sendo assim, é de extrema importância, principalmente por parte dos pastores,
fazerem um perfeito discernimento sobre cada caso, sempre considerando o bem da
comunidade61, pois em nome da reintegração não se pode colocá-la em risco.
O amor à Igreja e às verdades ensinadas devem tutelar todo processo de
discernimento, pois pode-se correr o risco de usar de forma imoral o discernimento
pastoral, colocando em cheque a integridade da Igreja e também do fiel 62. Para isso, é
necessária uma preparação da comunidade, para que possa viver essa experiência com
foco na misericórdia.
Ao se falar de discernimento pastoral, é importante salientar que cada caso
deverá ser analisado individualmente, não significando um tratamento desigual, mas
sim, uma equidade. A Exortação Apostólica Amoris Laetitia não visa trazer uma
normativa comum, geral a todos os casos, ao contrário, prima pela particularidade de
cada situação63.
Mas além da preparação da comunidade, da necessidade de se ter um juízo
singular sobre cada caso, é preciso que os pastores revisem o que é ensinado pelo
Magistério, renovem sua convicção e fidelidade. Possibilitar um discernimento não dá o
direito ao sacerdote de doutrinar e legislar por contra própria, não são autorizados as
promoções de mudanças doutrinais e disciplinares. O processo de reintegração não
significa aniquilar as limitações, mas sim, ensinar a caminhar, mesmo quando lhe falta
algo.
Portanto, não basta reivindicar direitos, é preciso ter em mente que, mesmo
em situações irregulares, as pessoas devem também sentir-se responsáveis pela defesa
da família e do matrimônio, principalmente para com seus filhos. Devem ser

60 Amoris Laetitia, n. 297.

61 Sobre a necessidade de se evitar escândalos na comunidade, Amoris Laetitia, n. 299.

62 Amoris Laetitia, n. 300.

63 Amoris Laetitia, n. 300 e 302.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 78
acompanhadas, passando a ter consciência de sua situação, tendo juízo acerca das
limitações consequentes, pois acompanhar e reintegrar não significa enganar 64.
Deve-se também considerar algumas situações irregulares que gozam de
estabilidade, que geraram filhos e construíram uma dependência afetiva e econômica,
dentre outros efeitos. A Igreja não pode cegamente orientar que tais situações sejam
desfeitas, pois há muito que se considerar. Alguns tentaram salvar a primeira união e
têm consciência de sua situação irregular65. A defesa da moral e da doutrina não poderá
ser cega, deverá considerar as particularidades de cada situação, pois é injustificável
destruir um lar, privar filhos do convívio com os pais, colocá-los em situação de risco
econômico em nome da defesa de um corpo doutrinal.
Um ponto digno de conflito foi claramente tratado no número 301, da
Amoris Laetitia: “já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada
« irregular » vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”. É
importante salientar que o número 301 está inserido em um contexto que se refere a
situações irregulares, não podendo ser lido isoladamente.
O próprio texto nos dá dicas para uma boa interpretação. De início, trata
com clareza duas situações, desconhecimento da norma e dificuldade de entendê-la.
Pois bem, esses dois casos são fáceis de discernir, pois a culpabilidade depende do
conhecimento da norma e também do entendimento da mesma, logo, não dá para
objetivamente afirmar que pessoas que se encontram nessa situação de ignorância ou de
incapacidade de entendimento da norma, estão em estado de pecado mortal. Por isso,
caberá a Igreja não só tornar a norma conhecida, mas também, entendida 66.
A dificuldade maior está na expressão “condições concretas que não lhe
permitem agir de maneira diferente e tomar outras decisões sem uma nova culpa”.
Entendamos: quando se fala de condições concretas é importante mencionar, Familiaris
Consortio, n 84, que traz situações que dificultam a separação dos cônjuges que vivem
situações irregulares, da mesma forma o número 298 da Amoris Laetitia. É clara a

64 Amoris Laetitia, n. 300.

65 Amoris Laetitia, n. 298.

66 O Capítulo Oitavo da Exortação Apostólica pós-Sinodal, Amoris Laetitia, Ed. CNBB.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 79
intenção do texto em afirmar que o abandono das situações irregulares implicaria uma
problemática com efeitos negativos ainda maiores. Mesmo tendo consciência da
irregularidade, tais pessoas também são conscientes das consequências que o referido
abandono traria, pois deixaria de cumprir graves deveres familiares.
Afirmar que pessoas que vivem algumas situações irregulares não se
encontram em estado de pecado mortal não significa legitimar o pecado, mas sim, que
há casos que, devido a situações singulares, algumas irreversíveis, são passivas de
serem vistas com misericórdia, sem condenação direta ao inferno, pois nem todos que
vivem em situações irregulares se encontram em pecado mortal, porém, todo pecado é
grave, mas nem todo pecado grave é mortal, pois há situações que atenuam, não
eliminam a gravidade, a culpa e a responsabilidade, mas atenuam.
Pode-se perguntar: - Não seria mais fácil desfazer as situações ilegítimas,
possibilitando uma vivência plena da eclesialidade? A esse respeito já falamos acima,
pois há situações que dificultam ou impossibilitam desfazer as situações irregulares.
Uma solução, principalmente para os que se encontram em uniões conjugais ilegítimas,
seria a abstenção dos atos próprios dos cônjuges67, sem colocar em risco a integridade
da família, da união conjugal e o bem da prole68. Mas por que proteger uma união
ilegítima? Dessas uniões ilegítimas surge a expressão de família, gera-se vida,
cumplicidade, proteção, logo, são compostas por pessoas, cônjuges, filhos, que devem
ser cuidados.
Diante do número 301, salientamos a necessidade de se ter a doutrina acerca
da família e do matrimônio em mente, pois bem sabemos que o foco primário da Amoris

67 A reconciliação pelo sacramento da penitência - que abriria o caminho ao sacramento eucarístico -


pode ser concedida só àqueles que, arrependidos de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo,
estão sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a indissolubilidade do
matrimónio. Isto tem como consequência, concretamente, que quando o homem e a mulher, por motivos
sérios - quais, por exemplo, a educação dos filhos - não se podem separar, «assumem a obrigação de viver
em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos cônjuges. Familiaris Consortio, n. 84.

68 O Concílio não ignora que os esposos, na sua vontade de conduzir harmonicamente a própria vida
conjugal, encontram frequentes dificuldades em certas circunstâncias da vida atual; que se podem
encontrar em situações em que, pelo menos temporariamente, não lhes é possível aumentar o número de
filhos e em que só dificilmente se mantêm a fidelidade do amor e a plena comunidade de vida. Mas
quando se suspende a intimidade da vida conjugal, não raro se põe em risco a fidelidade e se compromete
o bem da prole; porque, nesse caso, ficam ameaçadas tanto a educação dos filhos como a coragem
necessária para ter mais filhos. Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n 51.
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 80
Laetitia é a pastoralidade. Ao mesmo tempo em que reafirma a doutrina da família e do
matrimônio, não se fecha os olhos para realidades denominadas difíceis.
Como Igreja, temos dificuldades de tratar algumas realidades de forma
madura, inteligente, verdadeira e sem preconceito, como: homossexualismo, segundas
núpcias, toxicodependência e outros. Pois bem, não há como negar que tais fatos são
realidades nos dias atuais. É impossível fazer uma pastoral que não tenha em mente
essas situações. Se não cuidamos dessas expressões de família, delas poderão ser
geradas novas famílias irregulares.
A defesa da família, da vida e do matrimônio não inibe a acolhida de
pessoas que se encontram em situações difíceis. Esse é o grande grito da Amoris
Laetitia. Enquanto ficarmos na defensiva, não tratando dessas realidades como algo a
ser cuidado por nós, seremos reféns das mídias sociais que tentam injetar na sociedade
pensamentos contrários à vida, ao matrimônio e à família. Não basta condenar as
mídias, fator necessário, mas é preciso também qualificar o discurso; seria negligência
escolher a quem cuidar.
Se as pessoas que se encontram em realidades difíceis não encontram
diálogo no meio eclesiástico, buscarão apoio no mundo secularizado, que fortemente
demonstra-se contrário à vida, ao matrimônio e à família. Dialogar, reintegrar e cuidar
não significa legitimar, tampouco negar a doutrina cristã69, significa apenas ensinar a
cada um viver a experiência religiosa, mesmo com limitações.
Os números 302 e 303 da Amoris Laetitia esclarecem ainda mais a
problemática anterior, pois devido à particularidade de cada situação, encontramos
também efeitos distintos. Deve-se considerar cada situação, ter consciência de que em
alguns casos, a resposta que é dada por esses é a resposta que conseguem oferecer no
momento, mesmo limitada, mas é o fruto que têm para entregar. Acolher os frutos
limitados, não significa conformar-se com eles, pois caberá aos pastores conduzir
aqueles que são passivos de solução à mudança e aos casos irreversíveis, como já fora
dito, à reintegração, mesmo com limitações.

69 Amoris Laetitia, n. 307.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 81
A problemática maior está quando se exigem frutos que as pessoas não
conseguem oferecer. Não basta discernir se há ou não conformidade com a norma, pois
a fidelidade a Deus não se reduz à fidelidade à norma. Não há aqui uma negativa de
uma norma geral, tampouco canonização de uma experiência irregular, mas sim, a
clareza de que mesmo que haja uma norma absoluta, não dá para afirmar que a
infidelidade à norma por si só denota negação a Deus; a fidelidade a Deus não se reduz
à fidelidade a norma70.
Dentre os apelos da Amoris Laetitia já mencionados, destaca-se a insistência
em deixar claro, que mesmo em situações difíceis, irremediáveis há possibilidade de se
viver na graça. Isso não incentiva o relativismo, pois os que são passivos de mudanças
devem ser conduzidos à regulamentação de suas vidas, mas os que não são passivos de
mudanças, devem ser reintegrados e experimentarem como fruto da misericórdia de
Deus, sua graça. Caberá ao pastor, com fidelidade, clareza e bom senso, indicar o
caminho mais seguro. Deus não está apenas na plenitude, está também nas fagulhas71.
Por fim, o grande desafio após Amoris Laetitia é não entender a reintegração
mediante um bom discernimento pastoral como negativa da doutrina acerca da família e
do matrimônio, pois a missão primária da Igreja é anunciar o ideal traçado por Deus,
ideal esse que deve ser perseguido como caminho de santificação e realização humana.
Um risco seria centrar apenas na reintegração e descuidar da propagação das verdades
contidas na Revelação, firmemente anunciadas e defendidas pelo Magistério. A defesa
da vida, da família e do matrimônio nunca poderá deixar feridos pelo caminho. A Igreja
de Jesus Cristo é aquela que passa pelo caminho anunciando a verdade e ao mesmo
tempo cuidando dos feridos que nele se encontram72.
Problemática
Uma das problemáticas que envolve a Exortação Apostólica Amoris Laetitia
é o acesso dos casais de segunda união ao Sacramento da Confissão e da Eucaristia.
Pois bem, entendamos.

70 Amoris Laetitia, n. 304.

71 Amoris Laetitia, n. 305.

72 Amoris Laetitia, n. 307 a 312.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 82
Umas das “frustrações” pós Amoris Laetitia é justamente a falta de
respostas, de medidas concretas, de um manual do "pode" e "não pode". Mas não
podemos nos esquecer de que Amoris Laetitia ensina o contrário, ensina a equidade, ou
seja, cada caso deve ser tratado singularmente. Acolher, acompanhar, discernir e
reintegrar não significa responder e tampouco decidir por.
De um momento para outro se ouve falar de subjetividade. A Igreja, ao
longo dos séculos, acostumou-se em "decidir por", ou seja, em dizer ao fiel o que deve e
o que não deve, substituindo sua consciência. Agora passa para o fiel o dever de
escolher. Eis aí a questão, pois não é raro o momento em que os presbíteros são
abordados pelos fiéis, que vivem em situações difíceis, perguntando: - Pode ou não
pode?
Não caberá ao presbítero decidir, mas sim, acolher, acompanhar, discernir e
reintegrar. Salientando que a reintegração, não necessariamente deve ser acompanhada
pelo acesso ao sacramento. Porém, como já fora dito, estar em situação irregular não
significa que não se está em estado de graça.
A esse respeito, é importante ter como orientação parte da Nota dos Bispos
Argentinos sobre Critérios Básicos para a Aplicação do Capítulo VIII da Amoris
Laetitia:
1) Em primeiro lugar, recordamos que não convém falar de “permissões”
para aceder aos sacramentos, mas de um processo de discernimento acompanhado por
um pastor. É um discernimento “pessoal e pastoral” (300).
2) Nesse caminho, o pastor deveria acentuar o anúncio fundamental, o
kerigma que estimule ou renove o encontro pessoal com Jesus Cristo vivo (cf. 58).
3) O acompanhamento pastoral é um exercício da via caritatis. É um
convite a seguir “o caminho de Jesus, o da misericórdia e da integração” (296). Esse
itinerário reivindica a caridade pastoral do sacerdote que acolhe o penitente, escuta-o
atentamente e mostra o rosto materno da Igreja, ao mesmo tempo em que aceita sua reta
intenção e seu bom propósito de colocar a vida inteira à luz do Evangelho e de praticar a
caridade (cf. 306).
4) Esse caminho não acaba necessariamente nos sacramentos, mas pode se
orientar para outras formas de se integrar mais à vida da Igreja: uma maior presença na
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 83
comunidade, a participação em grupos de oração e reflexão, o compromisso em
diversos serviços eclesiais etc. (cf. 299)
5) Quando as circunstâncias concretas de um casal a torne factível,
especialmente quando ambos sejam cristãos com uma caminhada de fé, é possível
propor o empenho de viverem na continência. A Amoris Laetitia não ignora as
dificuldades desta opção (cf. nota 329) e deixa aberta a possibilidade de aceder ao
sacramento da Reconciliação quando se fracasse nesse propósito. (cf. nota 364, segundo
o ensinamento de São João Paulo II ao Cardeal W. Baum, de 22/03/1996)
6) Em outras circunstâncias mais complexas, e quando não se pode obter
uma declaração de nulidade, a opção mencionada pode, de fato, não ser factível. Não
obstante, também é possível um caminho de discernimento. Caso se chegue a
reconhecer que em um caso concreto há limitações que atenuam a responsabilidade e a
culpabilidade (cf. 301-302), especialmente quando uma pessoa considere que cairia em
uma posterior falta, prejudicando os filhos da nova união, Amoris Laetitia abre a
possibilidade do acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia (cf. notas 336
e 351). Por sua vez, estes dispõem a pessoa a seguir amadurecendo e crescendo com a
força da graça.
7) Contudo, é preciso evitar entender esta possibilidade como um acesso
irrestrito aos sacramentos, ou como se qualquer situação o justificasse. O que se propõe
é um discernimento que distinga adequadamente cada caso. Por exemplo, especial
cuidado requer “uma nova união que vem de um recente divórcio” ou “a situação de
alguém que reiteradamente fracassou em seus compromissos familiares” (298). Também
quando há uma espécie de apologia ou de ostentação da própria situação “como se fosse
parte do ideal cristão” (297). Nesses casos mais difíceis, nós, pastores, devemos
acompanhar com paciência, procurando algum caminho de integração (cf. 297, 299).
8) Sempre é importante orientar as pessoas a se colocarem com sua
consciência diante de Deus, e para isso é útil o “exame de consciência” proposto pela
Amoris Laetitia 300, especialmente no que se refere a “como se comportaram com seus
filhos” ou com o cônjuge abandonado. Quando houve injustiças não resolvidas, o
acesso aos sacramentos é particularmente escandaloso.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 84


9) Pode ser conveniente que um eventual acesso aos sacramentos seja
realizado de maneira reservada, sobretudo quando se prevejam situações conflitivas.
Mas, ao mesmo tempo, não se deve deixar de acompanhar a comunidade para que
cresça em um espírito de compreensão e de acolhida, sem que isso implique criar
confusões ao ensino da Igreja sobre o matrimônio indissolúvel. A comunidade é
instrumento da misericórdia que é “imerecida, incondicional e gratuita” (297).
10) O discernimento não se encerra, porque “é dinâmico e deve permanecer
sempre aberto a novas etapas de crescimento e a novas decisões que permitam realizar o
ideal de maneira mais plena” (303), segundo a “lei da gradualidade” (295) e confiando
na ajuda da graça. Somos antes de mais nada pastores. Por isso, queremos acolher estas
palavras do Papa: “Convido os pastores a escutar com afeto e serenidade, com o desejo
sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender seu ponto de vista,
para as ajudar viver melhor e reconhecer seu próprio lugar na Igreja” (312).
Por fim, a temática em questão ainda é passiva de entendimento. Mas bem
sabemos que para que o casamento exista e seja válido, é preciso que esteja livre de
impedimentos e vícios de consentimento, cumprindo todas as formalidades necessárias
para sua validade. Assim, os casamentos afetados por impedimentos ou vícios que
ferem sua validade são passivos de serem declarados nulos mediante o processo de
Declaração de Nulidade.
A Igreja não anula casamento, mas sim, os declara nulos. Portanto, o
processo de Declaração de Nulidade tem a função de declarar e não de anular. Mas para
que se chegue ao veredito acerca da nulidade do casamento é preciso que esta seja
comprovada mediante provas testemunhais e documentais. Não basta dizer, tem que
provar.
Mas o que fazer com os casamentos que tem indícios de nulidades e não são
passivos de provas? Nem todos os impedimentos e vícios são compartilhados em foro
externo, muitos ficam em foro interno. Se a Igreja tem capacidade declarativa, quer
dizer que a nulidade está na origem e não na declaração. Logo, há casamentos nulos e
não declarados, pois não há provas que fundamentam o processo.
Diante disso, o que fazer?

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 85


Quando há uma certeza moral, porém não comprovada processualmente, há
impossibilidade de contrair novas núpcias, pois o que viabiliza novas núpcias não é a
certeza moral, mas sim, a declaração de nulidade mediante processo de Declaração de
Nulidade. Mas seria viável privar tais pessoas do acesso ao sacramento quando se tem
uma certeza moral e não processual? Uma pergunta de difícil resposta.
8. Resumidamente a Amoris Laetitia nos diz
A defesa do matrimônio, da família e da vida é missão singular e primária
da Igreja, não há como esquivar-nos desse compromisso. Mas ao mesmo tempo que é
urgente a defesa da doutrina acerca do matrimônio, da família e da vida, faz-se
necessário também entender que existem pessoas que vivem em situações difíceis, que
não conseguem dar uma resposta plena a Deus. Tais respostas não podem ser
descartadas, pois pode ser o fruto possível que conseguem oferecer.
Papa Francisco, portanto, ao mesmo tempo que nos traz um compêndio da
doutrina acerca do matrimônio e da família, não foge da realidade. Ao mesmo tempo
que reafirma a doutrina da Igreja, convida-nos a uma conversão pastoral. Mas
sabiamente nos diz o Documento de Aparecida, é mais fácil manter que mudar. Uma
pastoral voltada para família não poderá esquecer-se daqueles que se encontram às
margens das normas. Para isso, deverá encontrar caminhos seguros para a reintegração.
Àqueles que buscam solução para as situações difíceis, que geralmente
exigem uma fórmula mágica, deverá ser indicado um caminho ao encontro com
Cristo73. A reintegração parte desse encontro com Cristo, precedido por uma acolhida
que não exige mérito. Da acolhida surge a necessidade do acompanhamento; não basta
abrir as portas, é preciso indicar o caminho, auxiliar para que possam chegar à
integração. Para uma perfeita acolhida, será preciso qualificar nossas estruturas, criando
a capacidade de acompanhar, ouvir e aconselhar.
Uma perfeita reintegração exige um discernimento não condicionado por
pensamentos contrários à verdade que professamos. Deve considerar a singularidade de
cada pessoa. Para isso requer tempo, dedicação e paciência74.

73 Coleção sendas Vol. 9, n 13.

74 Coleção sendas Vol. 9, n 19.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 86
Dar o sacramento não é sinônimo de reintegração75 . Mesmo os casos mais
difíceis são passivos de reintegração, considerando sempre o bem dos fiéis e da
comunidade, sempre pautada pelo bom senso dos pastores.
Portanto, tendo em vista um bom discernimento dos pastores, o
comprometimento com a comunidade e o testemunho de vida cristã pode-se admitir
pessoas que vivem situações difíceis, quer seja como padrinhos de batismo, catequistas,
agentes da pastoral familiar, leitores, considerando sempre o bem da comunidade. Mas,
considerar o bem da comunidade não implica deixá-la na ignorância; deve-se formá-la
para essa realidade 76.
Os centros de assistência às famílias seriam uma importante ferramenta de
acolhida e reintegração das famílias em situações difíceis, bem como de manutenção
das famílias que vivem situações legítimas, podendo ser regionais, diocesanos ou
paroquiais, lugares de livre acesso a todos 77.
Aos casos passivos de solução, caberá à Igreja, mediante a Pastoral
Familiar, apresentar as ferramentas de solução. Aqueles casamentos ilegítimos, passivos
de declaração de nulidade, deverão ser encaminhados às Câmaras Eclesiásticas ou
Tribunais Eclesiásticos, para uma possível declaração de nulidade. Para esse fim, é
importante que os agentes de pastoral estejam devidamente instruídos sobre os aspectos
jurídicos do casamento, orientando com segurança os cônjuges interessados em
regulamentar suas situações.
9. Implantação, reimplantação e manutenção da Pastoral Familiar
Ante de tudo, é importante relembrar o que já fora dito: a Pastoral Familiar,
deve sempre beber em fontes seguras, principalmente no Magistério da Igreja. A Igreja,
através de seus organismos, consegue fazer uma leitura da sociedade, bem como da
história, oferecendo remédios para uma sociedade que se encontra doente.
Dito isso, ressalto o perigo do projetismo, ou seja, a multiplicação de
projetos que até podem ter boas intenções, mas correm o risco de multiplicar ideias e

75 Coleção sendas Vol. 9, n 22.

76 Coleção sendas Vol. 9, n 24.

77 Coleção sendas Vol. 9, n 26.


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 87
não contemplar o que prescreve a Igreja. Um bom projeto é aquele que tende a
perpetuar. Maus projetos promovem até uma boa movimentação e atratividade, mas
com prazo de validade muito curto, passando da euforia ao desânimo e consequente
frustração. Os remédios para os dias atuais não podem ser paliativos, devem ser
remédios capazes de mudar as estruturas doentes e mantê-las vivas.
Não podemos calar a voz de Deus que quer nos mover rumo às mudanças
necessárias para maior eficácia e efetividade do Evangelho no mundo. Mas as mudanças
que Deus impulsiona não são mudanças aliadas ao modismo, tampouco à vontade
coletiva. São mudanças alicerçadas na verdade que já foi anunciada por Cristo e
propagada pela Igreja. Não há o que falar de uma nova mensagem, de um novo
evangelho, mas sim, de um novo jeito de ser e viver o que já fora revelado e ensinado. A
verdade já conhecemos, basta atualizar o jeito de vivê-la.
Portanto, quando falamos de Pastoral Familiar, nos dias atuais, deve-se
considerar o que é anunciado pela Palavra e ensinado pelo Magistério, mas não se pode
desconsiderar a realidade social. Nos deparamos com correntes pastorais que se fixam
apenas no que fora revelado e anunciado, desconsiderando a realidade, outras que
desconsideram o que fora revelado e ensinado se fixando apenas na realidade. Dois
extremos perigosos.
Implantação
Caberá ao Arce/Bispo, Assessor Eclesiástico e ao Pároco escolher dentre
seus diocesanos e paroquianos, de “preferência” casais, de boa índole, para compor o
Núcleo da Pastoral Familiar arqui/diocesano e paroquial, que será composto pelos
seguintes cargos: Coordenador Geral, Vice-Coordenador Geral, Casal Casos Especiais,
Casal Setor Pós-Matrimônio, Casal Setor Pré-Matrimônio, Casal Secretário e Casal
Tesoureiro. Suas funções já estão determinadas pelo Regimento Interno Arqui/
Diocesano da Pastoral Familiar em comunhão com o Regimento Regional da Pastoral
Familiar.
Será de responsabilidade do Núcleo da Pastoral Familiar Paroquial Arqui/
Diocesano e Paroquial, pensar os trabalhos em defesa da família e da vida a níveis
arqui/diocesanos e paroquiais, bem como fazer a ligação com todos os movimentos e
serviços em favor da família e da vida. Não é objetivo da Pastoral Familiar excluir
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 88
outros segmentos que trabalham a família, mas sim, fazer a ligação entre ambos,
promovendo a tão sonhada Pastoral de Conjunto.
Sem perder a identidade e as características específicas de cada movimento
e serviço, é importante promover ações conjuntas entre todos os segmentos já citados,
dando força à voz em favor da família. Muitos gritam, mas gritam sozinhos.
O primeiro passo para a implantação da Pastoral Familiar é o conhecimento
do que fora revelado por Deus e ensinado pela Igreja. A formação, é o primeiro passo,
pois um agente de pastoral bem formado torna-se um multiplicador do Evangelho.
Porém, falar de formação em uma cultura que não prima pela educação e pela leitura é
um desafio. Para isso, caberá aos formadores, principalmente ao Núcleo de Formação e
Espiritualidade, promover o primeiro contato dos agentes de pastoral com a doutrina
sobre o matrimônio, de forma simplificada em alguns casos, sem minimizar a verdade.
Tendo iniciado o processo formativo, deve-se promover a dimensão
espiritual do agente. É o segundo passo, pois o agente deverá encontrar sentido na
doação, ou seja, a defesa da família deve possibilitar ao agente o encontro com Deus.
Cuidando da família somos cuidado por Deus. Uma pastoral familiar bem formada, mas
sem espiritualidade, será uma pastoral infecunda.
Tendo constituído o Núcleo da Pastoral Familiar, promovida a formação e a
espiritualidade, é chegada a hora de conhecer a realidade: terceiro passo. Essa fase da
implantação é de grande importância, pois quando se fala em implantação, de imediato
se constitui ou se tenta constituir o Núcleo, se forma ou se tenta formá-lo, cria-se uma
estrutura ou se tentar criar, porém, em alguns casos ela é infértil. A fertilidade da
Pastoral Familiar se dá mediante o conhecimento da realidade. Em realidades mais
difíceis, carentes de material humano, ouso dizer que o conhecimento da realidade
talvez deva ser o primeiro passo, antecedendo ao passo de composição do Núcleo. Isso
porque algumas realidades não favorecem à composição da estrutura ideal da Pastoral
Familiar.
Mas Pastoral Familiar é Pastoral Familiar mesmo quando não se enquadra
nos moldes estruturais, não por negligência, mas por insuficiência de material humano.
Não se pode privar uma comunidade, mesmo as mais longínquas e periféricas, de se ter
a Pastoral Familiar porque não tem estrutura favorável.
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 89
É muito fácil pensar uma Pastoral Familiar para os grandes centros. O
desafio é pensar a Pastoral Familiar para as regiões periféricas, para as comunidades
que vivem situações difíceis. A Familiaris Consortio e o Diretório da Pastoral Familiar
trazem uma estrutura ideal para a composição da Pastoral Familiar. Deve-se insistir ao
máximo em sua efetivação, mas não se pode desistir de ser Pastoral Familiar quando
não se conseguir concretizar o ideal. Deve-se conhecer a realidade da comunidade,
pensar no que fazer para melhorá-la, para melhor cuidar das famílias, dos jovens,
preparando-os para a vida e para o matrimônio, dos recém-casados, dos casados de
longa data, das viúvas, dos solteiros, dos casos especiais. A estrutura favorece o
cuidado, mas é o amor pela família que promove seu cuidado e transformação.
Portanto, independente de o conhecimento da realidade ser o primeiro ou
terceiro passo do processo de implantação, o que é certo é que não há como fazer
Pastoral Familiar sem conhecer a realidade. Uma paróquia fecunda, bem como uma
pastoral fecunda é aquela que participa da vida do povo, como sabiamente nos diz o
Papa Francisco “A Paróquia tem que estar em contato com os lares, com a vida das
pessoas, com a vida do povo. Devem ser casas onde a porta esteja sempre aberta para
ir ao encontro dos demais. É importante que a saída ofereça uma clara proposta de fé.
Trata-se de abrir portas e deixar que Jesus saia com toda a alegria da sua mensagem.
Peçamos por nossas paróquias, para que não sejam escritórios, mas que, animadas
pelo espírito missionário, sejam lugares de transmissão da fé e testemunho da
caridade78”. Esta é a Pastoral Familiar que deverá ser implantada nas Arqui/Dioceses e
Paróquias, deve participar da vida do povo, fazer-se presente em todos os momentos de
uma família, nas alegrias e também nos momentos difíceis.
Não há uma receita única para a implantação, há sim, uma exigência única:
sentir o cheiro do povo, para fazer uma Pastoral Familiar para o povo. Este é um dos
grandes legados da Amoris Laetitia, que não descuida da estrutura, mas que conclama a
Igreja, a Pastoral Familiar, a inserir-se na realidade de cada comunidade e a partir dessa
realidade pensar nos remédios para curá-la. Porém, não basta pensar os remédios é
preciso acompanhar o doente.

78 Mensagem do Papa Francisco às Paróquias, https://www.youtube.com/watch?v=QlqSgAQRYUs


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 90
Tendo constituído o Conselho Geral, ou Núcleo, iniciado o processo
formativo, alicerçado na espiritualidade, tendo conhecido a realidade, é chegada a hora
de projetar a Pastoral Familiar para o quarto passo, em níveis, propondo ações
pastorais sóbrias, possíveis e realizáveis, que correspondam à realidade, que primem
pelo cuidado com o povo, a família e a vida.
Reimplantação
Seria mais fácil falar em implantação, pois começar do zero seria mais fácil.
Mas não podemos esquecer das comunidades que, um dia, já tiveram a Pastoral Familiar
e hoje se encontram inativas.
Para as comunidades paroquiais que já tiverem a Pastoral Familiar e hoje
estão inativas não basta começar do zero, é preciso entender o porquê de não ter dado
certo, identificando quais os erros, os vícios cometidos, para depois iniciar o processo
de reimplantação.
Tendo identificado as dificuldades que levaram à inatividade da Pastoral
Familiar, iniciam-se as mesmas etapas do processo de implantação, cuidando para não
cometer os mesmos erros.
Manutenção e motivação
Implantar ou reimplantar é um desafio, mas desafio maior é manter viva e
motivada a Pastoral Familiar.
Bem sabemos que o auxílio das ciências, principalmente as humanas, é
importante à pastoral. Mas em tempos que se atribui à Psicologia o papel de salvadora
da pátria é importante lembrar que técnicas de convívio social, de autoconhecimento e
de solução de conflitos por si só não são suficientes para prevenir dificuldades ou
motivar os agentes de pastoral. Os livros de autoajuda, de técnica de convivência e
solução de conflitos são o grande carro chefe das livrarias, mas como explicar que
mesmo com tantos escritos ainda continuamos em declínio? A resposta está no
esvaziamento das capelas do Santíssimo, na diminuição de Eucaristias comungadas nas
missas, no encolhimento das filas de confissão.
Não se faz Pastoral Familiar apenas com livros ou com técnicas. Pastoral
Familiar se faz com Adoração, Comunhão e Confissão, bem como outros gestos de

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 91


piedade popular. Um agente de Pastoral Familiar se manterá motivado se encontrar na
fé cristã e nas vias de santificação sua principal motivação.
Fala-se muito de pastoral, mas esquece-se de que não se faz pastoral sem
martírio. Tornar-se agente de pastoral, principalmente coordenador, implica assumir o
ônus. Mas quando se vivem as dores pastorais em Deus, se suporta, se cresce, se ganha
o céu.
Por fim,
É possível incluir sem relativizar.
É possível colher bons frutos de árvores quebradas.
É possível amar o matrimônio e a família, mesmo que minha experiência não tenha
dado certo.
Não ter dado certo, não significa que o Bem deixou de ser um bem, mas sim que
situações e escolhas impossibilitaram viver com plenitude o que foi assumido.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 92


III - Relatos de Experiências na Arquidiocese de
Brasília

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 93


1 - Encontros de Preparação para a Vida Matrimonial
Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe

A Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, na Asa Sul em Brasília, realiza


Encontros de Preparação para Vida Matrimonial, com duração de oito semanas,
oferecido à comunidade duas vezes por ano. São atendidos 25 casais a cada semestre.
As vagas costumam se esgotar um mês antes dos Encontros começarem, sem que haja
divulgação. São os casais que já fizeram o Encontro de Preparação que,
espontaneamente, o indicam para os amigos.

Já são 452 casais de noivos desde 2007, quando o pároco da época aceitou
nossa proposta de fazer um encontro mais longo, para quem desejava se preparar da
melhor forma possível para o Matrimônio. De início achávamos que não haveria muitos
interessados e seria uma preparação para menos de 10 casais por vez. Mas a média foi
subindo aos poucos de 10 para 12, 15, 20 até que em 2014 chegamos a 25 casais a cada
Encontro e começamos a recusar inscrições por não haver espaço. A partir de então
começamos a procurar paróquias que quisessem fazer a Preparação da mesma forma
para podermos encaminhar os excedentes. Em 2017 conseguimos que a Catedral de
Brasília adotasse a mesma metodologia.

Mas, qual motivo levou-nos a adotar esta metodologia?

Em 1994 conhecemos a metodologia do Diálogo, antigo curso de noivos que não


se limitava a dar palestras, mas incluía momentos para que cada casal mantivesse um
diálogo após a exposição do tema pelos palestrantes. Esse diálogo era orientado por
fichas para que o casal se concentrasse no tema apresentado, e antes de passar para o
tema seguinte, os casais se reuniam para uma discussão em grupo. Essa metodologia
tem ajudado cada um fixar melhor o que foi apresentado na palestra e saber o que o
outro pensa sobre o assunto. Cria o espaço necessário para uma maior reflexão sobre o
tema e permite ao casal se conhecer mais antes de assumir um compromisso tão
importante.

Quem de vós, com efeito, querendo construir uma torre, primeiro não se senta
para calcular as despesas e ponderar se tem com que terminar? (Lc 14, 28-30).

Não se pode deixar de propiciar uma oportunidade para cada pessoa saber se a
outra com quem vai se unir por toda a vida está de acordo com a Igreja e consigo
mesmo sobre cada tema apresentado. Em nosso entendimento, toda preparação para o
Matrimônio precisa propiciar momentos para diálogo do casal a sós, sob pena de ser
uma preparação que não serve como referência. Reuniões de grupo ajudam a saber o

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 94


que os mais desinibidos pensam sobre o assunto, mas não ajuda a saber nada sobre o
cônjuge, que pode ficar calado.

Depois de 10 anos aplicando a metodologia do Diálogo em curso de finais de


semana, entendemos que o espaço criado para o diálogo era muito curto e o Encontro de
Preparação realizado em um final de semana não dava tempo para o casal refletir sobre
cada tema com mais introspecção. Então, pensamos em realizar os 8 temas em 8
semanas. Esses temas são os recomendados pela Comissão Arquidiocesana de Brasília a
partir do ano em que a Pastoral Familiar assumiu a responsabilidade pelos cursos de
noivos e adotou o Guia de Preparação para a Vida Matrimonial da CNBB.

No Encontro da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, o diálogo do casal fica


como tarefa de casa, pois eles terão uma semana para refletir e dialogar sobre o tema
apresentado. Na parte presencial semanal, que dura menos de 2 horas, começamos com
uma reunião de grupo em que cada casal deve dizer como foi o diálogo da semana e
como receberam o tema apresentado na semana anterior. Dessa forma, eles são cobrados
a realizar a tarefa de casa. Apesar de dizermos que eles precisam de meia hora para
fazer a tarefa, muitos relatam que ficam mais de duas horas dialogando sobre os temas.
As reuniões de grupo são coordenadas por um casal da equipe da Pastoral Familiar e
compostas de até 5 casais de noivos. Para a dinâmica, a palestra e o lanche, todos os
grupos se juntam.

Como tarefa extra para casa, que não é cobrada, passamos um e-mail com textos,
vídeos do Youtube, sugestões de filmes e bibliografia sobre o tema. E também os slides
que os palestrantes utilizaram na palestra. Durante as reuniões de grupo, muitos
comentam sobre o que viram nesse material, apesar de não cobrarmos nada sobre isso,
porque o material é extenso. Esse material sofre alterações a cada ano, pois adotamos os
princípios da melhoria incremental contínua.

Para receber o certificado é preciso comparecer a todas as reuniões presenciais.


Caso o casal perca alguma, independente do motivo (não entramos nesse mérito), ele
recebe um texto sobre o tema para leitura como exercício de reposição (pode ser um
livro, uma encíclica, um trecho do Catecismo) e responde a um questionário que
demonstre que a leitura foi efetuada. O coordenador da Preparação lê as respostas e dá
um retorno individual ao casal sobre a reposição que fizeram. Isso faz com que eles
faltem o mínimo possível.

O número de horas presenciais é de 12 horas se descontarmos o tempo do


lanche, o que não difere muito de um Encontro de final de semana. Mas considerando-
se as atividades de casa, pode-se afirmar, com certa segurança que, em média, o tempo
total de Preparação para o Matrimônio gasto pelos noivos é superior a 30 horas.

Frutos da metodologia adotada:

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 95


1. Sempre temos tempo de corrigir ou melhorar alguma informação passada por
um palestrante. E pedir ajuda ao pároco ou ao bispo em questões mais
complexas.

2. Podemos observar e conhecer melhor os noivos, gerando vínculos que duram


após a Preparação.

3. Quando preparamos temas opcionais após o término do Encontro, o índice de


presença é quase o mesmo dos temas obrigatórios.

4. Criamos dois grupos de recém-casados sendo acompanhados, com 80% deles


advindos do Encontro de Preparação para a Vida Matrimonial. Temos
consciência de que a Preparação para o Matrimônio, por mais bem-feita que
seja, não basta.

5. Mais de 60% dos casais da Pastoral Familiar advém do Encontro de


Preparação para a Vida Matrimonial. É uma forma de atrair os jovens casais
para a vida da Igreja.

6. Em média, a cada Encontro, um casal decide terminar o noivado. Vários nos


relatam que o Encontro ajudou a decidir. Um dos nossos objetivos é que
aqueles que não deveriam se casar tomem esta decisão antes do Matrimônio.

7. O índice de separações entre os casais que se prepararam conosco é inferior a


3 %. Talvez esse índice seja um pouco maior porque não conseguimos ter
notícias de todos. Mas o índice se deve ao fato de que a maioria do nosso
público deseja um casamento para sempre, por isso nos procuram.

8. Temos um formulário aberto para críticas e reclamações anônimas, que tem


sido devolvido em branco nos últimos semestres, pois procuramos observar
toda crítica colocada nele para não repetirmos a falha.

Conclusão

Há muitos católicos interessados em se preparar bem para receber o Sacramento


do Matrimônio. Não falta público. Talvez falte a determinação de cada pároco para
oferecer preparações mais longas e profundas em sua paróquia. Mas os agentes de
Pastoral Familiar precisam buscar formação contínua. Consideramos que as pessoas
possuem senso crítico apurado e não estão dispostas a ficar ouvindo coisas que são
baseadas exclusivamente em nossa experiência pessoal. A fidelidade ao magistério da
Igreja é fundamental. Mas a Preparação para o Matrimônio não existe para suprir as
deficiências da preparação para os sacramentos da iniciação cristã. É oportuno atrair as
pessoas que vêm procurar o Sacramento do Matrimônio para participar da vida da Igreja
e, a partir dessa participação, dar a formação religiosa que falta. Os quem têm essas
deficiências devem ser conduzidos para os cursos apropriados. Os próprios agentes de
Pastoral Familiar estão em formação permanente e todos temos nossas deficiências. Em
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 96
nosso grupo, procuramos fazer com que cada casal dê a palestra por duas vezes seguidas
e passe para outro tema, a fim de ampliar seu conhecimento e trabalhar seu
relacionamento conjugal em todos os aspectos.

Os jovens casais querem se preparar bem para seu Matrimônio. O Papa


Francisco nos pede isso na Amoris Laetitia (205 a 211). Temos que acreditar que
podemos melhorar essa preparação.

- Estamos dispostos a nos comprometer com isso?

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 97


2 - Encontros por Acolhida
Paróquia Nossa Senhora Aparecida - Contagem

Somos uma paróquia bastante jovem, porém tivemos a experiência de


iniciarmos, em 2016, os Encontros de Preparação para a Vida Matrimonial (EPVM)
com encontros semanais, abordando os temas indicados no Guia de Preparação para a
Vida Matrimonial da Pastoral Familiar .

No ano de 2017, passamos a utilizar a metodologia do livro “Matrimônio -


Encontros de Preparação” e desde então estamos realizando duas preparações anuais,
uma no primeiro semestre e outra no segundo.

As nossas preparações têm acontecido da seguinte forma: realizamos um


encontro de acolhida para os casais, momento em que explicamos o modelo dos EPMV,
dividimos os grupos e acertamos alguns detalhes sobre os próximos encontros. Dez
encontros são realizados nas casas dos noivos e também dos agentes da pastoral, com o
objetivo de nos aproximarmos da realidade de cada família. Alguns momentos durante a
preparação são realizados com os agentes da pastoral familiar e há um encontro com o
nosso pároco. Os certificados são entregues em uma Missa da Comunidade, como sinal
de acolhimento aos noivos.

Realizar esse modelo de preparação para a vida matrimonial tem sido muito
prazeroso para nós, agentes da pastoral familiar. Cada tema trabalhado tem nos
fortalecido espiritualmente, estamos crescendo na fé pessoal e na fé vivida no dia a dia
das nossas famílias. As experiências que são trocadas durante os encontros têm
enriquecido o nosso casamento, assim como a nossa vida pessoal.

Temos obtido um retorno bastante positivo dos casais, que na maioria das
vezes iniciam a preparação com resistência devido ao tempo que ela leva para ser
concluída. Alguns acham que seria mais prático fazer uma preparação em um ou dois
dias, mas depois que os encontros se iniciam essa resistência é totalmente vencida.
Muitos casais avaliam que são momentos tão prazeroso que desejam continuar com a
preparação mesmos após o seu término.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 98


Estamos colhendo muitos frutos após as preparações, vemos casais mais
engajados na comunidade e aprendendo a lidar com os desafios do matrimônio com
mais maturidade e principalmente colocando Deus no centro da vida em família,
conforme demonstram os testemunhos de alguns casais.

“Somos um casal que convive há 16 anos em união estável, e temos um


filho. Já frequentávamos a paróquia, eu já era membro da pastoral litúrgica, porém
meu esposo só ia à missa. Resolvemos receber o sacramento do matrimônio e fomos
fazer a preparação. Fomos o primeiro grupo a experimentar os encontros por acolhida
e isso foi tão gratificante para nós que resolvemos participar da Pastoral Familiar.
Nossa vida como casal e família passou por uma transformação muito grande após o
matrimônio e hoje Deus nos chamou a estar à frente, coordenando a Pastoral Familiar.
Somos muito gratos por todas as bênção que Deus tem nos dado e esperamos ser luz
para outros casais que se encontram em dificuldade.” Glaucia e Adoelson

“Acredito que com palavras nunca vamos conseguir expressar a


maravilhosa experiência enriquecedora que tivemos no encontro EPVM. O novo
modelo do encontro, fazendo com que cada tema seja tratado de forma individual,
semanalmente permitiu uma partilha mais aprofundada, e depois com troca de
experiências dos casais, de maneira que cada casal pôde se conhecer melhor e também
outros casais do grupo.”
“A pastoral familiar nos acolheu de uma maneira que nos fez sentir
realmente em casa, com a nossa família. Tiramos dúvidas, compartilhamos vários
momentos, rimos, choramos, tudo muito intenso. Com certeza tivemos a confirmação de
que estamos no caminho certo. Fomos em busca do matrimônio através do
conhecimento em uma preparação correta. Sentimos o desejo também de compor
futuramente essa pastoral que se fez mais do que importante durante esse período do
EPVM.”

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 99


3 - Encontros dos não Casados, mas por Deus
amados
Paróquia Nossa Senhora Mãe da Divina Providência
Setor VI - Ceilândia
Padre Francisco Lopes de Sousa

Esse Encontro, realizado anualmente desde 1997, destina-se aos casais


que podem regularizar sua vida matrimonial. No início do ano, anuncia-se na
comunidade a abertura das inscrições, que podem ser feitas na Secretaria da Paróquia ou
com os casais da Pastoral Familiar.
Em março, alguns casais da comunidade, juntamente à Pastoral Familiar,
são convidados a visitar todos os casais que fizeram inscrição, confirmando a presença
deles no Encontro e ao mesmo tempo fazendo uma pesquisa quanto ao tempo que
moram juntos, quantos filhos têm, idade dos filhos, se são batizados, se todos na família
fizeram Primeira Eucaristia e Crisma. Aqueles que não possuem os sacramentos ou
parte deles, são apresentados, no Encontro, às pastorais responsáveis por cada
sacramento para dar início à preparação.
O Encontro é feito com a participação de vinte cinco até trinta casais,
durante um sábado e um domingo. Sábado inicia-se às 18 horas com a Santa Missa e
apresentação de todos à comunidade, em seguida no salão paroquial é feita a 1ª palestra
com o tema “O sentido da vida e o acolhimento do Bom Pastor”, terminando às 22
horas. Domingo inicia-se às 7h30min, com a palestra “O Amor de Deus”, encerrando às
19 horas, com a presença de todos os familiares, acolhendo-os para uma nova
caminhada.
Na etapa seguinte, os casais são divididos em círculos para melhor
acompanhamento da Pastoral Familiar. Durante seis meses, em reuniões semanais ou
quinzenais, a equipe usa o livro O Segredo do Sucesso Familiar, criado para esse
acompanhamento, contendo temas para onze reuniões. Durante esse tempo, os casais e
seus filhos são também acompanhados pelas Pastorais do Batismo, Catequese de
Primeira Eucaristia e Crisma.
Os encontros iniciados em março terminam em outubro, quando são
realizados os matrimônios diante da comunidade.
O Encontro visa despertar nos casais a importância dos Sacramentos na
vida do casal, da família e na comunidade, frente aos desafios da sociedade nos tempos
atuais.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 100


4 - Casais em Segunda União - Grupo Bom
Pastor79
Breve Histórico

Em 20 de maio de 1993, esse pioneiríssimo serviço da Pastoral Familiar


para acolhimento e evangelização dos casais em segunda união, iniciava sua caminhada
pastoral e missionária. O Padre Francisco Ledur, então Vigário Paroquial da Paróquia
Menino Deus, na Arquidiocese de Porto Alegre-RS, ao ler a Exortação Apostólica
Familiaris Consortio, e ao constatar, também, o grande número de casais em segunda
união que inscreviam seus filhos para o Batismo ou para a Catequese da Primeira
Eucaristia, foi inspirado pelo Espírito Santo para iniciar uma pastoral específica de
acolhimento a esses casais em segunda união, a fim de que não se sentissem excluídos
do seio da Igreja. Convidou, então, para ajudá-lo nessa tarefa apostólica e
evangelizadora, a Irmã Angelina, Coordenadora da Catequese na Paróquia, e o casal
Anibal e Wilma Zambon. Surgia, assim, após as primeiras experiências, o Grupo Bom
Pastor, que mais tarde obteve a aprovação oficial de Dom Altamiro Rossato,
constituindo-se num serviço da Pastoral Familiar denominado “Casais em Segunda
União – Grupo Bom Pastor”. Os antecedentes históricos da concretização e surgimento
de atividades pastorais objetivando o acolhimento e a evangelização dos casais em
segunda união, estão registrados na própria caminhada da Pastoral Familiar no Brasil.

Reestruturação da Pastoral Familiar no Brasil

Em 1989 a CNBB, através do seu Setor Família, reestrutura a Pastoral


Familiar no Brasil, criando a Comissão Nacional de Pastoral Familiar. Em 1990, no II
Encontro da Coordenação Nacional da Pastoral Familiar e II Encontro Nacional dos
Movimentos e Institutos Familiares, realizados em Brasília-DF que procurou lançar as
bases da PF em nosso país, aparece em suas conclusões: “desenvolver atividades para
os recasados, com orientações claras quanto à admissão aos sacramentos; realizar
estudos, encontros e atividades para aprofundar a pastoral “dos casos difíceis” para

79 Compilado do Informativo Setor Casos Especiais. Abril/2018: Brasília


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 101
casais em segunda união; identificar e orientar esses casos, promovendo integração com
a comunidade cristã; criar atividades de pastoral familiar, específicas, para seu
atendimento; oferecer subsídios pastorais claros, baseados nos ensinamentos da Igreja;
conhecer, estudar, analisar cada situação; organizar grupos de reflexão e de
conscientização, encontros específicos; mostrar o ideal, mas acolher o real, sem medo
ou tabus; acolhimento com tolerância, caridade e misericórdia orientar e estimular a
regularização de situações matrimoniais, encaminhando-as aos Tribunais Eclesiásticos
competentes; convidar esses casais recasados para atuar na comunidade, não discriminá-
los, não abandoná-los, nem leva-los a abandonar a comunidade”. Neste mesmo ano o
Plano Anual das Atividades da CNPF estabelece estudos e diretrizes para viabilizar e
desenvolver a atuação da PF, em todas as suas etapas (Formação de Agentes, Pré-
Matrimonial, Pós-Matrimonial, Casos Difíceis – hoje denominado de Casos Especiais).
Esse Setor de Casos Especiais incluía, particularmente, atividades objetivando acolher
os casais separados, divorciados e recasados. Em 1991 o Planejamento Estratégico da
Comissão Nacional de Pastoral Familiar prevê em seu Projeto de “Formação de Agentes
da Pastoral Familiar”, no item 2.6 ‘Formar Agentes Especializados para a Pastoral dos
Casos Difíceis’: “efetuar um levantamento junto aos movimentos que atuam com
famílias e setores da Pastoral Familiar, sobre atividades pastorais junto as famílias
incompletas, principalmente, junto aos casais em segunda união”. Em 08/11/1991
iniciava-se esse levantamento na busca de identificação de experiências práticas de
atividades pastorais junto aos casais em segunda união, trabalho este concluído em abril
de 1996. Dentre as experiências encontradas destacava-se uma atividade que se
apresentava como uma das mais sérias, madura e totalmente dentro da fidelidade ao
Evangelho e ao Magistério da Igreja, em especial ao pensamento do Papa João Pulo II,
na Familiaris Consortio, e da Congregação para a Doutrina da Fé na “Carta aos Bispos
da Igreja Católica a Respeito da Recepção da Comunhão Eucarística para os Fiéis
Divorciados e Novamente Casados”, e que melhores frutos e resultados a curto prazo
apresentava: a Pastoral dos Casais em Segunda União – Grupo Bom Pastor, da
Arquidiocese de Porto Alegre-RS. Diante dessa constatação, esse trabalho pastoral
denominado Casais em Segunda União – Grupo Bom Pastor, desenvolvido em Porto
Alegre-RS, foi convidado pela Coordenação da Comissão Nacional de Pastoral Familiar
VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 102
do Setor Família da CNBB a apresentar oficialmente essa sua experiência.Em abril de
1996 essa atividade pastoral para os Casais em Segunda União – Grupo Bom Pastor da
Arquidiocese de Porto Alegre-RS foi apresentada aos participantes do Encontro
Regional Sul 3 da Pastoral Familiar, que congregava as Coordenações Diocesanas da
Pastoral Familiar do Estado do Rio Grande do Sul, realizado na cidade de Cruz Alta-
RS. Em setembro de 1996, a atividade pastoral dos Casais em 2ª União – Grupo Bom
Pastor da Arquidiocese de Porto Alegre, foi oficialmente apresentada e muito bem
acolhida e aceita, ao Setor Família da CNBB no Encontro Nacional de Assessores da
Pastoral Familiar e no Encontro Nacional da Pastoral Familiar do Brasil, ambos
realizados na cidade de Belém, Estado do Pará.

Participou, ainda, do “Encuentro Regional del Cono Sur, Brasil y


Paraguay de la Pastoral Familiar” promovido pelo SEPAF/CELAM (novembro de 1998)
cujo tema foi “Pastoral de las Famílias en Situaciones Irregulares y la Pastoral de los
Divorciados” realizados em Santiago-Chile; do I Encontro Nacional de Agentes da
Pastoral Familiar para os Casos e Situações Especiais – Casais em Segunda União”
promovido pelo Setor Família e Vida da CNBB, realizado em Brasília-DF em 06 de
junho de 2000; e do II Encontro Nacional de Agentes da Pastoral Familiar para os Casos
e Situações Especiais – Casais em 2ª União” promovido pelo Setor Familiar e Vida da
CNBB realizado em Brasília-DF, em 8 e 9 de junho de 2001; apresentou, novamente,
sua metodologia, seus objetivos, sua dinâmica e seus conteúdos no VI Seminário
Nacional de Assessores da Pastoral Familiar e no X Congresso Nacional da Pastoral
familiar, ambos realizados em setembro de 2002 em Recife-PB. As atividades de
pastoral familiar do Grupo Bom Pastor – Casais em Segunda União, da Arquidiocese de
Porto Alegre, está integrada, oficialmente, na Comissão Regional de Pastoral Familiar –
Sul 3 da CNBB, inserida no Setor Casos Especiais.

Histórico do Encontro de Segunda União na Paróquia São


Francisco de Assis - Brasília/DF

Em junho de 2001 foi feito o primeiro encontro em Brasília, realizado no


Santuário São Francisco de Assis, em acolhida de todos os casos especiais, unindo
viúvos, divorciados não recasados, casais em segunda união, solteiros e mães solteiras.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 103


A partir de 2002, alguns paroquianos se uniram para realização do
encontro de casais em segunda união. Houve a participação dos casais que fizeram o
primeiro encontro, a Pastoral Familiar e o ECC que viram a necessidade da implantação
do movimento de casais em segunda união e buscaram fundamentação no Manual
elaborado pela Arquidiocese de Porto Alegre.
Paróquias que possuem Bom Pastor em Brasília

NOME DA PARÓQUIA LOCALIDADE

Santo Antônio Asa Sul


São Francisco de Assis Asa Norte

Consolata Asa Norte


São Paulo Apóstolo Guará II

Imaculado Coração de Maria Parkway


Cristo Redentor Taguatinga Norte

Nossa Senhora de Fátima Taguatinga Sul


São Marcos e São Lucas Ceilândia

Santa Rita de Cássia Planaltina


Capela São Luiz Gonzaga Gama

Bom Jesus dos Migrantes Sobradinho


Santa Clara e São Francisco de Jardim Botânico
Assis
Nossa Senhora da Glória Ceilândia

São José Santa Maria


Divina Providência Santa Maria

Encontro de Reflexão
Objetivo Pastoral

Acolhimento dos casais em segunda união que se consideram excluídos e


marginalizados do seio da Igreja, levando a eles as palavras do evangelho de Jesus
Cristo e as palavras acolhedoras do magistério da Igreja, apresentando-lhes um Deus

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 104


que é puro amor, cheio de misericórdia, que ama tanto o justo como o pecador e que
está sempre pronto a perdoar.
Objetiva igualmente refletir com esses casais sobre a situação em que
eles se encontram nessa segunda união, mostrando-lhes o verdadeiro sentido da vida, o
amor pleno e misericordioso de Deus, o perdão, a beleza da vida em oração, a prática e
a vivência da comunhão espiritual, a mensagem de Jesus, o Bom Pastor, oportunizando
um crescimento na sua vida de fé, de amor, de casal e de família, procurando, ainda
despertá-los e integrá-los na comunidade paroquial, estimulando-os a participar da vida
e da missão da Igreja e de suas atividades, tanto religiosa, como pastoral social e
caritativa, fornecendo-lhes pistas concretas para sua perseverança

Organização dos Encontros de Reflexão

O encontro começa em reuniões preparatórias, nas quais são definidas as


ações, as equipes, os papéis e as responsabilidades. Essas reuniões são estruturadas em
oração inicial, meditação, desenvolvimento das reuniões com deliberações e
encaminhamentos em planejamento ao encontro, esclarecimento de dúvidas, avisos
gerais e orações finais.
O encontro de reflexão é organizado de forma simples, sem sofisticação,
sem luxo, evitando-se tudo o que for supérfluo e desnecessário, seguindo as instruções
contidas no Manual de Instruções.
As funções são divididas nas seguintes equipes de serviço: Diretor
Espiritual; Coordenação-Geral; Coordenação Adjunta; Coordenação de Grupos;
Recepção e Café; Animação; Secretaria; Liturgia; Copa e Cozinha; Salas; e Bem-Estar.
No Manual de Instruções os encontros são estruturados com as seguintes
palestras:
· Boas-vindas;
· Conhece-te a ti mesmo;
· O Sentido da vida;
· O Amor de Deus;
· O Perdão;
· Minha Vida de Fé em Jesus Cristo;

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 105


· Jesus, o Bom Pastor;
· Comunhão Espiritual;
· Tocar o Senhor;
· A Proposta da Igreja;
· Perseverança.
· Missa Explicada
As reuniões pós-encontro têm a finalidade de manter e incrementar a
espiritualidade dos casais, bem como levar os participantes a estudar temas que digam
respeito à religião católica, à leitura da Bíblia, do Catecismo da Igreja Católica, de
Documentos do Magistério da Igreja, experienciando a vivência do uso de uma
metodologia especialmente criada para os casais em segunda União, contidas em dois
temários.
As reuniões de Grupo são realizadas com intervalo máximo de duas
semanas, podendo a critério do Grupo ser efetuadas semanalmente. As reuniões devem
ser realizadas nas residências dos casais participantes do Grupo, na forma de rodízio ou
em outro local previamente escolhido, como por exemplo a Paróquia.

Ato Penitencial

Em março de 2017, em preparação da Páscoa do Senhor e dezembro de


2017, em preparação do Advento, o padre Carlos Costa, assessor eclesiástico da
Arquidiocese de Brasília, inspirado pelo Espírito Santo, organiza e preside a Celebração
da Palavra de Deus para os grupos Bom Pastor de Brasília. O Ato Penitencial para
Casais em Segunda União representa um exame de consciência, ocasião em que os
casais podem experimentar a misericórdia de Deus Pai. Um chamado à conversão e
maior imitação de Cristo, recordando que o pecado vai contra Deus, contra a
comunidade, contra o próximo e ainda contra o próprio pecador. Também lembrando da
misericórdia infinita de Deus, que é maior que todas as nossas iniquidades, a
necessidade de penitência interior, pela qual nos dispomos sinceramente a refletir sobre
nossos atos e decisões, obras de penitência e o exercício da verdadeira caridade para
com Deus e o próximo.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 106


Em dezembro de 2018, em preparação para o Advento, teremos
novamente o Ato Penitencial para Casais em Segunda União. As celebrações são
semestrais e representam hoje para o Grupo Bom Pastor uma forma de refrigeração da
alma dos fiéis recasados.

Comissão Arquidiocesana da Pastoral Familiar de Brasília


Pe. Ricardo Ferreira de Carvalho
Pe. Carlos Costa Carvalho

Coordenação Geral da Comissão da Pastoral Familiar de Brasília


Silvio Carlos de Souza Carneiro
Aline da Silva Alarcão Carneiro

Setor Casos Especiais - Casais em Segunda União


Marcelo Feijó de Oliveira
Sheyla Cristine Ugiett de Oliveira

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 107


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 108
IV - Sugestões de Ações Pastorais

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 109


1 - Roteiro para Encontro de Noivos
Pe. Cleber Alves de Matos80
Sexta-feira:
I Parte – Introdução
18h30 – Acolhida
19h – Animação e Oração Inicial
19h30 - 1ª Meditação: Sacramento do Matrimônio. O que é e quais suas implicações
Canônicas e Civis.
20h30 – Intervalo
21h – 2ª Meditação: Preparativos básicos para a Preparação da Celebração Matrimonial
“Rito”

Sábado:
II – Parte - Espiritualidade
7h – Acolhida
7h30 – Café da Manhã
8h – Animação e oração inicial
8h30 – 3ª Meditação: O Amor de Deus como protótipo do amor conjugal
9h30 – Intervalo
9h45 – 4ª Meditação: O Pecado como fator destrutivo da vida conjugal
10h45 – Círculos de orientações “práticas”: A Experiência de Deus na vida conjugal
12h – Almoço
III – Parte – Formação Humana
13h30 – Reabertura das atividades
14h – 5ª Meditação: Conhecimento de si mesmo e do outro (aspectos psicológicos do
homem e da mulher, fatores quando não conhecidos podem ser geradores de conflitos
destrutivos).
15h – Intervalo
15h30 – 6ª Meditação: Harmonia sexual do casal
16h30 – Círculos de orientações “práticas”: Não se faz sexo, mas sim, amor. Relação
sexual como Celebração do amor.
17h30 – Intervalo e lanche (ou jantar)
18h – Paternidade Responsável e métodos naturais para o planejamento familiar

Domingo:
IV – Parte – Administração da relação e Bens
7h30 – Café da Manhã
8h – Animação e oração inicial
8h30 – 7ª Meditação: Diálogo: importância e técnica para um diálogo aberto e sincero
em um casamento.
9h30 – Intervalo

80Assessor Eclesiástico da Pastoral Familiar - Regional Centro-Oeste

Paróquia Nossa Senhora da Abadia/ Niquelândia - GO/ Diocese de Uruaçu


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 110
9h45 – 8ª Meditação: Finanças em um mundo perturbado
10h45 – Círculos de orientações “práticas”: Como organizar um orçamento familiar.
Compras, planejamento, comunhão de bens, investimentos... Não colocar o dinheiro em
primeiro plano.
12h – Almoço

V – Parte – Consequências
13h30 – Reabertura das atividades
14h – 9ª Meditação: Filhos: educação, dedicação, dom de Deus e adoção.
15h – Intervalo
15h30 – 10ª Meditação: Como relacionar-se com os familiares e amigos. As principais
mudanças pós-matrimônio.
16h30 – Círculos de orientações “práticas”: Tecer laços de amizade no matrimônio,
como um importante investimento matrimonial.
17h30 – Intervalo
18h – Santa Missa

Observações:
1ª O Encontro para noivos poderá ser ministrado em um único final de semana, podendo também ser
realizado por módulos, conforme a realidade de cada Paróquia ou Forania.
2ª O Círculo de orientações práticas será ministrado por um casal (casal orientador), que acompanhará os
casais durante o encontro e depois, tornando-se padrinhos espirituais dos mesmos.

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 111


2 - Roteiro para Encontro de Idosos
Pe. Cleber Alves de Matos81

8h – Café da Manhã
9h – Animação
9h30 – Dinâmica de interação e Oração Inicial
10h – 1ª Palestra: O Envelhecimento como prêmio e não como castigo.
11h – Trabalho de grupo: Desafios do envelhecimento nos dias atuais. Quais os dramas
e como superá-los. (Trabalho de grupo será orientado por um agente, primando pela
escuta dos participantes, dando-lhes, conforme o desenvolvimento da conversação,
orientações para superação dos desafios apresentados.)
12h – Almoço
13h30 – Bingo, eventos culturais...
14h30 – 2ª Palestra: Cuidados para se viver uma melhor idade (Palestra ministrada por
um profissional que entenda de aspectos biológicos e psicológicos da vida humana,
promovendo a saúde física e psicológica).
15h30 – Intervalo
16h – 3ª Palestra: A espiritualidade como preparação para a fase de transição (Tratar a
morte com leveza, focando na eternidade, promovendo a espiritualidade como sustento
para essa fase).
17h – Término

81Assessor Eclesiástico da Pastoral Familiar - Regional Centro-Oeste

Paróquia Nossa Senhora da Abadia/ Niquelândia - GO/ Diocese de Uruaçu


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 112
ANEXO I

VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 113


Lectio Divina82
A leitura orante da Bíblia, ou Lectio Divina é um alimento necessário para a nossa
vida espiritual. A partir dessa oração, conscientes do plano de Deus e sua vontade,
podemos produzir os frutos espirituais em nossa vida. 


A Lectio Divina é deixar-se envolver pelo plano amoroso e libertador de Deus. Santa
Teresinha do Menino Jesus dizia, em seu período de aridez espiritual, que quando os
livros espirituais não lhe diziam mais nada, ela buscava no Evangelho o alimento da sua
alma.

Como fazer a Lectio Divina?

A Lectio Divina tradicionalmente é uma oração individual, porém, podemos fazê-la em


grupos. O importante é rezar com a Palavra de Deus lembrando o que dizem os bispos
católicos no Concílio Vaticano II, relembrando a mais antiga tradição católica, que
conhecer a Sagrada Escritura é conhecer o próprio Cristo. Os monges diziam que a
Lectio Divina é a escada espiritual dos monges, mas é também a de todo cristão!

Quais os passos da Lectio Divina?

1) Oração inicial: Comece invocando o Espírito Santo, que nos faz conhecer e querer
fazer a vontade de Deus. Reze, por exemplo, com a seguinte oração:

«Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do
vosso amor. - Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e tudo será criado; e renovareis a face da
terra. Ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com as luzes do Espírito
Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas e gozemos sempre da sua
consolação. Por Cristo Senhor nosso. Amém.»

2) Leitura da Palavra de Deus: Leia, com calma e atenção, um pequeno trecho da


Bíblia (aconselhamos que nas primeiras vezes utilize-se os textos dos Evangelhos, por
serem mais familiares a todos). Se for preciso, leia o texto quantas vezes forem
necessárias.

Procure identificar as coisas importantes deste trecho da Bíblia: o ambiente, os


personagens, os diálogos, as imagens usadas, as ações. Você conhece algum outro
trecho que seja parecido com este que leu? É importante que você identifique tudo isto
com calma e atenção, como se estivesse vendo a cena. É um momento para conhecer e
reconhecer a Boa Notícia que este trecho nos traz!

3) Meditar a Palavra de Deus: É o momento de descobrir os valores e as mensagens


espirituais da Palavra de Deus: é hora de saborear a Palavra de Deus e não apenas

82 Compilado do site Católico Orante


VI Congresso da Pastoral Familiar Regional Centro-Oeste 114
estudá-la. Você, diante de Deus, deve confrontar este trecho com a sua vida. Feche os
olhos, isto pode ajudar. É preciso concentrar-se!
4) Rezar a Palavra de Deus: Toda boa meditação desemboca naturalmente na oração.
É o momento de responder a Deus após havê-lo escutado. Esta oração é um momento
muito pessoal que diz respeito apenas à pessoa e Deus. É um diálogo pessoal! Não se
preocupe em preparar palavras, fale o que vai no coração depois da meditação: se for
louvor, louve; se for pedido de perdão, peça perdão; se for necessidade de maior clareza,
peça a luz divina; se for cansaço e aridez, peça os dons da fé e esperança. Enfim, os
momentos anteriores, se feitos com atenção e vontade, determinarão esta oração da qual
nasce o compromisso de estar com Deus e fazer a sua vontade.
5) Contemplar a Palavra: Desta etapa a pessoa não é dona. É um momento que
pertence a Deus e sua presença misteriosa, sim, mas sempre presença. É um momento
no qual se permanece em silêncio diante de Deus. Se ele o conduzirá à contemplação,
louvado seja Deus! Se ele lhe dará apenas a tranqüilidade de uns momentos de paz e
silêncio, louvado seja Deus! Se para você será um momento de esforço para ficar na
presença de Deus, louvado seja Deus!
6) Conservar a Palavra de Deus na vida: Leve a Palavra de Deus e o fruto desta
oração para a sua vida. Produza os frutos da Palavra de Deus semeada no seu coração,
frutos como: paz, sorriso, decisão, caridade, bondade, etc... Não se preocupe se alguma
coisa não for bem, um dos frutos da Palavra de Deus é a noção do erro e a conversão
pela sua misericórdia. O importante é que a semente da Palavra de Deus produza frutos,
se 30, 60 ou 100 por um... o importante é que produza, e que o Povo de Deus possa ser
alimentado pelos testemunhos de fé, esperança e amor na vivência de um cristianismo
sincero.

Termine com a oração do Pai Nosso, consciente de querer viver a mensagem do Reino
de Deus e fazer a sua vontade.

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