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Revista Design em Foco

ISSN: 1807-3778
designemfoco@uneb.br
Universidade do Estado da Bahia
Brasil

Margolin, Victor
O Designer Cidadão
Revista Design em Foco, vol. III, núm. 2, julio-diciembre, 2006, pp. 145-150
Universidade do Estado da Bahia
Bahia, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=66111515011

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Jul/Dezz 2006
MARGOLIN, V. O Designer Cidadão In: Revista Design em Foco, v. III n.2, jul/dez 2006.
.III nº2 • Jul/De Salvador: EDUNEB, 2006, p. 145-150.

O Designer Cidadão*
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The Citizen Designer


Revista Design em FFoc
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Se a comunidade do design tem o papel de gerar cenários para uma


mudança social, os designers devem buscar responder duas questões:
Sobre o autor em primeiro, como desenvolver um conjunto de valores de referência
que possa guiá-los no sentido de fazer julgamentos sobre o modo
Victor Margolin
PhD em História do Design, pelo qual eles gostariam que o mundo fosse; e em segundo, como
professor do Departamento os designers podem aprender a ver abaixo da decepção de ordem e
de História da Arte e do
Design da University of
entender a verdadeira natureza dos equipamentos, sistemas e
Illinois at Chicago (UIC), situações com as quais (e pelas quais) cada um vive?
autor de diversos livros e
artigos, editor da revista
Design Issues. Diante de todo discurso sobre a ética do design e a necessidade do
designer em ser ético, devemos lembrar que os designers, na maior
parte das funções nos sistemas de produção, distribuição e consumo,
raramente estão no controle da situação. Tendo em vista que a ética
pessoal é o ponto de partida essencial para qualquer estratégia de ação
do designer, estes profissionais devem frequentemente agir dentro de
esferas de poder cujos parâmetros são determinados por outrem.

O capitalismo, em sua melhor face, é um sistema altamente eficiente


em oferta de bens e serviços. Em seu lado sombrio, ele impõe
produtos indesejáveis e até mesmo ambientes para o consumidor e
o cidadão. Em última instancia, é a vontade do consumidor que leva
a compra de um produto ou serviço em função de sua qualidade,
que determina sua presença ou ausência no mercado. Quem, então,
deve proclamar a verdadeira qualidade de um produto ou serviço e
como isto deve ser feito? Este é o trabalho do crítico e do cidadão. De
modo ideal, o designer será ambos. Um cálculo de valor pode ajudar.
Esta é uma ferramenta conceitual que relaciona um produto ou serviço
a muitos e diferentes fatores: as condições de trabalho para sua
produção, seus materiais, seus impactos no uso de recursos e
reciclagem, bem com seus efeitos no modo pelo qual os seres
humanos comunicam na esfera pública.

Somente se o designer ou o consumidor aprender a reconhecer todos


esses fatores, e aqui se deve considerar o fato de que tal informação é
frequentemente difícil de ser percebida, ele ou ela pode
inadvertidamente estar participando de uma situação que tem um
*
Texto inédito, gentilmente
efeito negativo em algum grupo ou alguém envolvido na concepção,
enviado pelo autor para
tradução e publicação planejamento, produção, distribuição ou consumo de um produto. A
exclusiva nesta edição da instalação de air bags em automóveis, por exemplo, foi fortemente
Revista Design em Foco.
Tradução: Paulo Fernando de influenciada por uma proposição ao consumidor, a partir do livro “Unsafe
Almeida Souza at any speed” (Inseguro em qualquer velocidade), de Ralph Nader.
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Consumidores e usuários, ao invés de designers, foram também os
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mais fortes advogados de legislações relacionadas com o design de


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equipamentos para portadores de necessidades especiais, notavelmente


os requerimentos de acessibilidade de cadeiras de rodas em edifícios e
sistemas de transporte público, sejam rampas, elevadores ou
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equipamentos especiais. Estas e outras mudanças de design tornaram-


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se Leis, nos Estados Unidos, a partir do Ato dos Americanos com


Deficiências (Americans With Disabilities Act), em 1992.

Também podemos fazer referências à indústria de computadores. Está


finalmente reconhecido em todo mundo que um móvel mal desenhado
pode levar a dor nas costas e outras doenças, mas ainda não é
amplamente aceito que teclados de computador mal desenhados sejam
frequentemente a causa da síndrome do túnel do carpo e outros males
físicos e neurológicos. Ainda não existem legislações ou normas para
tais teclados. É menos dispendioso para a maioria dos fabricantes de
computadores empurrar as questões de saúde para outras instâncias e
continuar a produzir teclados com baixo padrão em todos os seus
produtos. Apesar do fato da síndrome do túnel do carpo está
aumentando entre os digitadores, por que não há mais pesquisas sobre
os teclados ergonômicos e pro que tais teclados não se tornam
componentes obrigatórios em todos os sistemas de computador?

Aqui, mais uma vez, retornamos ao cálculo de valor, reconhecendo


que os teclados adaptados poderiam aumentar o preço de um com-
putador, mesmo que os custos médicos e o desconforto pessoal
tenham um peso muito maior no custo de tal equipamento. De fato,
a indústria de computadores passa o problema para a indústria de
saúde, que, por sua vez, estabelece um patamar elevado para os
planos de saúde públicos e privados, bem como para as finanças
pessoais. Uma vez que os consumidores jóvens estão muito menos
preocupados com os custos em longo prazo relacionados com teclados
e móveis para estações de computadores mal desenhados, em com-
paração com pessoas mais velhas, as empresas de informática podem
ignorar os potenciais problemas de saúde sem comprometer seria-
mente o segmento mais forte de seu mercado. De modo análogo, os
fabricantes de equipamentos de telefonia móvel não se preocupam
com as possibilidades de radiação associadas ao uso de um telefone
celular próximo ao ouvido.

Enquanto as pessoas na maioria das cidades de hoje podem facil-


mente ver evidências físicas de uma desesperança urbana, é muito
mais difícil identificar os contornos do grande aparato eletrônico que
progressivamente determina nosso comportamento e influencia
nossas vidas. Enquanto que, em tempos antigos, as pirâmides ou a
Grande Esfinge de Giza se estabeleceram como objetos de design
muito avançados para a época, no presente somos fortemente
pressionados a imaginar um objeto material que exceda a complexi-
dade imaterial do Google, Amazon.com ou do e-Bay. Estes sistemas
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são, no máximo, os tijolos de uma comunidade global baseada na
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visão mais selvagem de seus criadores.

Ao mesmo tempo, tais sistemas têm-se tornado parte de um ambiente


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eletrônico que está gradativamente usurpando numerosas funções


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sociais, que um dia foram conduzidas face a face por seres humanos.
Tais sistemas, que vão desde transações bancárias on line e paga-
mentos de contas até cursos de atualização para motoristas infratores,
têm se tornado essenciais para nossas vidas, fazendo parte de muitas
de nossas atividades diárias. Se a participação nesses sistemas eletrô-
nicos fosse sempre uma questão de escolha, haveria, então, menos
questões com que se preocupar, mas no grau em que as pessoas
são forçadas a conduzir parte de sua vida cotidiana on line, tendo em
vista que as mesmas prefeririam se relacionar com outros seres huma-
nos ao invés de uma máquina, tais sistemas afetam radicalmente
nosso modo de vida.

O movimento gradativo de transações sociais para a esfera eletrônica


tem o potencial de mudar a conduta da sociedade humana tanto
quanto o sistema fabril transformou as tradições artesanais no Século
XIX. De fato, ao invés do trabalhador do Século XIX que era oprimido
pelo sistema fabril, é agora o consumidor do Século XXI quem é
tiranizado por sistemas impessoais por meio dos quais ele é obrigado
a acessar serviços essenciais.

A mudança de atores humanos para os sistemas automatizados co-


meçou com a troca dos operadores de telefonia e continua com a
substituição de uma infinidade de serviços oferecidos desde agentes
de passagens aéreas até seguradoras. Enquanto William Morris se
voltou contra os baratos e sórdidos produtos da Era Vitoriana, hoje
nós somos confrontados com sistemas baratos e sórdidos que causam
muito mais miséria humana do que a mal desenhada cadeira Vitoriana.
Quantas vezes algum de nós se perdeu em uma espécie de “trem
fantasma” eletrônico de serviços tentando falar com alguma alma
viva, quando não havia ninguém por lá?

Consumidores são vítimas destes sistemas, os quais são criados por


grandes corporações que visam à redução dos custos. A partir da
automação dos serviços prestados por operadores ou agentes, o
trabalho extra envolvido na efetivação das transações é passado para
nós, os usuários finais. Somos nós que temos que trabalhar muito
para encontrar um documento, chegar ao lugar correto em um sistema
automático e, então, abrir nossas almas para uma forjada e imoral
máquina que gentilmente nos informa que não pode nos ajudar,
pois confundimos os comandos. Em grande parte não temos outra
escolha senão pagar por serviços que recebíamos antigamente sem
custos. Para pagar por um bilhete aéreo emitido por um atendente o
consumidor deve agora pagar uma taxa adicional. Enquanto que antes
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os consumidores estavam condicionados a receber informações de
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pessoas com um conhecimento especializado em emissão de


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bilhetes, agora têm que gastar seu precioso tempo, caso optem por
não pagar algo mais, realizando pesquisas na busca por tarifas e
rotas por conta própria.
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Ao passo em que estas mudanças de serviços humanos para sistemas


eletrônicos continuam, elas introduzem práticas sociais que serão
difíceis de serem mudadas, devido ao alto custo de desenvolvimento
e implementação de tais sistemas. Sem considerar também o fato
de que estes sistemas são dispostos ao público sem um debate apro-
priado. Decisões são tomadas e implementadas em salas de reunião
corporativas apostando-se que os consumidores não irão protestar.
Virtualmente invisíveis, tais sistemas são desenhados, testados e
implementados sem a consciência do consumidor. De repente, eles
são lançados e um processo social é transformado. Embora haja uma
série de incômodos, nunca há protestos e raramente são feitas críticas
aos sistemas. Poucas pessoas têm consciência de que tais sistemas
são sequer desenvolvidos.

Na melhor das hipóteses, sítios da web tais como e-Bay e Amazon.com


são bazares globais eletrônicos que oferecem ao consumidor uma
ampla escolha de mercadorias em comparação com quaisquer outros
meios possíveis em um espaço físico. Dentre os benefícios de tais
sítios está a criação de um mercado secundário ou até mesmo terciário
para produtos usados que dificilmente conseguiriam encontrar uma
destinação. Diante das oportunidades comerciais que tais espaços
virtuais viabilizam, sem mencionar os sites de pequenas empresas
que conseguem vender um único produto globalmente, é impossível
chegar a uma única conclusão sobre o valor humano dos sistemas
eletrônicos. De um lado, seu potencial é enorme; de outro lado seu
efeito pode ser devastador. Isto nos traz de volta a uma difícil questão:
Como podemos viver humanamente em uma Era de rápidas mu-
danças tecnológicas?

Como uma pessoa que cresceu e se tornou bem maduro antes da


Era eletrônica, eu tenho um sentimento de aversão que me faz pensar
que há algo não-humano na massiva quantidade de inovação tecno-
lógica e nas mudanças sociais que têm sido induzidas por este
processo. Lewis Mumford, um antigo historiador da tecnologia e do
urbanismo, explicou em seu seminal livro, de 1934, “Technics and
Civilization” (Técnica e Civilização) a dificuldade que nós temos em
avaliar a tecnologia como segue:

Devido ao fato do processo de avaliação social ter estado amplamente


ausente nas pessoas que desenvolviam as máquinas nos Séculos
XVIII e XIX, as máquinas evoluíram numa corrida por conta própria,
como engrenagens sem controle, tendendo a superaquecer e
diminuir sua eficiência sem nenhum tipo de ganho compensatório.
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Isto deixou o processo de avaliação por conta de grupos de pessoas
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infelizmente perderam o conhecimento e entendimento que poderiam
ter feito de suas críticas algo mais pertinente. 1
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Eu penso que nós estamos em uma situação similar hoje em dia. Eu


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relembro um comentário de um antigo antropólogo, Edward Hall,


em uma conferência em Washington D.C., muitos anos atrás. Ele
estava discutindo uma questão parecida, a pouca existência de indi-
cadores sociais que revelassem a saúde de uma cidade. “Por tudo
que sabemos”, disse ele, “Nova Iorque já deve estar morta”.

O comentário de Hall é uma excelente introdução nesta seção final


do meu artigo, onde em irei tratar de duas questões. A primeira é
como os designers podem contribuir no discurso sobre a qualidade
da experiência contemporânea, e a segunda o que eles podem fazer
para tanto. Temos a certeza de que nosso ambiente está vivo ou
morto? Se não, e eu penso que a última assertiva é verdadeira, como
obteremos um melhor entendimento sobre nossa experiência? Como
atingir este valor?

Primeiramente, podemos admitir a existência de uma pressão do


consumo e perguntar a nós mesmos como esta pressão corrompe a
esfera pública. Como nos sentimos com relação aos ônibus e metrôs
que são sujos com publicidade de grandes companhias e que, assim,
impedem qualquer identidade cívica? E como nos sentimos quando
nós, em países desenvolvidos, estamos consumindo vinte a trinta vezes
mais energia por pessoa do que em qualquer outro lugar do mundo?

Para começar uma análise sobre o que interfere com relação a viver
uma vida humana de alta qualidade, terei que dizer que o materialismo
é um fator significativo. Ele conduz a manufatura e incorpora um
irracional senso de posse no design de muitos produtos. Eu
certamente não estou advogando um retorno a uma vida com roupas
rudimentares e cinzas, mas acredito que ideais de medida e proporção
que foram centrais nos estágios mais elevados da sociedade Grega
poderiam ser de grande valia no processo de repensar nossos próprios
valores. Desta forma, moderação seria um importante fator em
qualquer cálculo de valor.

Todos temos provavelmente nos dado conta de um mundo com algum


tipo de oposição de valores. Embora o mundo seja dominado por um
grande número de corporações nacionais e internacionais, cujo poder
transcende o de muitos governos e até mesmo das Nações Unidas,
há também um movimento oposicional em que cidadãos têm se
encontrado pessoalmente ou on line. Se alguém pode construir um
1
MUMFORD, Lewis. caminho para um mundo melhor, este será um grupo formado pela
Technics and Civilization.
New York: Harcourt sociedade civil trabalhando em conjunto. Seja por meio de uma mis-
Brace & Co., 1934, p. 282. tura cultural, boicotes globais ou petições eletrônicas, novas formas
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de protesto estão emergindo, as quais ao menos propiciam um espaço
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social para pessoas conscientes afirmarem suas próprias convicções


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sobre como a vida poderia ser vivida.

Para finalizar, eu quero introduzir o conceito de designer cidadão, o


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qual eu primeiramente encontrei em um artigo sobre antropologia


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editado por Stephen Heller e Veronique Vienne. Eu vejo o designer


como tendo três possibilidades de introduzir seu próprio talento para
a cultura. A primeira é por meio do design, que é, fazendo coisas. A
segunda é por meio de uma articulação crítica acerca das condições
culturais que elucidam o efeito do design na sociedade. E a terceira
possibilidade é por meio da condução de um engajamento político.
Muito do poder que afeta todas as formas do design está nas mãos
erradas e apenas pode ser considerado como um pensamento
coerente por meio de estratégias de ação. Eu gostaria de concluir
com as mesmas palavras com as quais William Morris encerrou sua
palestra “Art under Plutocracy”, há mais de cento e vinte anos atrás:

Um homem com uma idéia em sua cabeça corre o risco de ser


considerado um louco; dois homens com a mesma idéia em comum
podem ser tolos, mas dificilmente podem ser loucos; dez homens
dividindo uma idéia começam uma ação; uma centena chama
atenção como fanáticos; mil e a sociedade começa a tremer; cem
mil e se inicia uma guerra, cujas vitórias são tangíveis e reais. E por
que cem mil e não cem milhões para se atingir a paz na terra? Você
e eu que concordamos com isso juntos, somos nós que temos que
responder a esta questão. 2

2
MORRIS, William. Art
Under Plutocracy. p. 85.