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OBRAS DO AUTOR
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O ACENDEDOR DE LAMPiôES LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITÔRA


Estudos literários.
111 ... HIT
apresenta
!,VA Jacinto Ribeiro dos Santos, editor. Rio, 1923
OUEl'10UE
VOL.VPTAS, A MULHER E A DANÇA
Conferência. Rio, 1925.
TELHADO DE VIDRO
'
Desenho de
Correia Dias
Estudos literários.
Oficina Gráfica de A Pernambucana. Rio, 1928.
HERMES FONTES
VOLTA A .,,....

INFANCIA
Conferência.
Imprensa Nacional. Rio, 1932.
CANDEIA DE AZEITE
Crônicas.
Edições Record . Rio, 1935.
memórias de
AUSÊN CIA DA POESIA
Ensaio literário.
POVINA CAVALCANTI
Editor A. Coelho Branco Filho. Rio, 1943.
PERFIL DE TAVARES BASTOS
Conferência. Rio, 1944.
VIAGEM AO MUNDO D A POESIA
Estudos literários.
Irmãos Pongetti, editôres. Rio, 1957.
CAIEIRO DA NAU CATAR/NETA
Conferência.
Edição do Real Gabinete Português de Leitura. Rio, 1960
HERMES FONTES - VIDA E POESIA
Livraria José Olympio Editora. Rio,
VIDA E OBRA DE JORGE DE LIMA
1964. $
EM CONV:ÊNIO COM O
Edições do Correio da Manhã. Rio, 1969.
Tradução: INSTITUTO NACIONAL DO LIVRO
RETOQUES NO MEU "DE VOLTA DA URSS", MEC
de André Gide. RIO DE JANEIR0-1972
Editora Vecchi. Rio, 1938.
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GUANABARA: Rua Marquês de Olinda, 12, RIO DE JANEIRO
SÃO PAULO: Rua dos Gusmões, 100, SÃO PAULO
MINAS GERAIS: Rua Januária, 258, BELO HORIZONTE
PERNAMBUCO: Avenida Visconde de Suassuna, 562, RECIFE
RIO GRANDE DO SUL: Rua dos Andradas, 717, PôRTO ALEGRE
DISTRITO FEDERAL: S. Q. Sul, 311, Bloco "A" - Loja 29, BRAS1LIA
BAHIA: Rua Gustavo dos Santos, 10, SALVADOR
PARANÁ: Praça Garibaldi, 30, CURITIBA

Capa de Eugênio H irsch

Cavalcanti, Carlos Povina, 1898


Volta à Infância-Memórias, Rio de Janeiro, Editôra José
Olympio, INL, 1972
192 p. 21 cm.
1 . Literatura brasileira - Memórias I. Brasil.
Instituto Nacional do Livro, co-ed. II. Título.
CDD 920
l . A confis~ão seria na véspera da cómunhão, à tardinha. 0 me
nmo deveria voltar para casa com as maiores cautelas par - •
anao
dizer que deixe. ?e acreditar e~ ~:rtas coisas misteriosas que
existem, sem preJUlZO da nossa reltg1ao . _
Acabou confessando-me, com a aprovaçao do seu Amaro, que
comet er a1gum pecado até a hora solene de receber n
, . Sh
mhmo o en or dos ArcanJos. · oseu a Tia Marcelina, procedente da Costa d' Africa, tinha podêres
extraordinários. Sua casa era freqüentada pela melhor gente de
Assim voltei para casa. E me dispus a pensar nos meus pe. Maceió e até o gover~ador ia, vez por outra, à sua tenda, para
cados. Acontecia que se me lembrava de uns, daí a pouco dêl
ouvi-la sôbre assuntos importantes.
me esquecia . E se na hora da confissão tal ocorresse? R esol:~ Seu Amaro, homem esclarecido, achava que a velha africana
escrevê-los . O padre me tinha advertido: era um fenômeno. E revelou-me:
- Peca-se por pensamentos, palavras e obras. - Nós vamos uma vez por semana à casa dela. Vai muita
Enumerei alguns pensamentos, umas poucas palavras e quase gente . Passam-se lá coisas fora do comum .
nenhuma obra . Mas fui veraz. Contei os meus sonhos (eróti- Depois dêsse longo arrazoado, a Maria e seu Amaro acaba•
cos?) , os meus desejos viris e, como obras, os encontros clan- raro por convencer-me de que eu precisaria conhecer a mandin-
destinos com a Jovelina no fundo do quintal da tanoaria, onde gueira. Mandingueira, digo-o eu, hoje, que para êles era ela quase
"brincávamos de casados". um ser sobrenatural. Foi assim que eu lhes prometi:
Fui assim ao confessionário com a minha relação de peca- - Quero ser apresentado à Tia Marcelina.
dos, murmurados ao pé do ouvido do complacente confessor.
Daria tudo para reler êsses apontamentos, que tive o cuidado
de rasgar tão depressa o padre me absolveu . Estaria ali a ficha
mais autêntica da minha alma infantil.
A primeira comunhão foi um dia de festa no colégio. Meus
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pais não puderam vir, mas lá estavam a Maria, seu Amaro e
suas irmãs . No mesmo dia escrevi a meu pai contando tudo . Ü s PRIMEIROS meses de estu-
Ao contrário da quase totalidade dos meninos, minha corres- . do aumentaram o meu gôsto
pondência não era dirigida à minha mãe . A esta eu mandava hte!ário incentivado antes pelo Jorge e pelos garotos da União.
recados nas cartas ao "velho" . Por isto mesmo não guardei dela E isto se deu com a leitura de dois livros de ensino obrigatório
uma só linha . Como já ficou dito em várias passagens dêste no colégio: lracema, de Alencar, e Le Génie du Cristianisme,
livro, minha identificação completa era com meu pai . de Chateaubriand. O romance-poema de Alencar e a densa obra
A Rua da Aroeira festejou o acontecimento. Eu passava_a de ensaio e crítica do escritor francês operaram no meu espírito
integrar aquela "sociedade" heterogênea e rasteira, mas mmto uma insofrida atração intelectual.
simpática . Até mesmo os beberrões inveterados da rua, que . Lia deslumbrado a fábula da "virgem dos lábios de mel" que
usavam os domingos para as suas carraspanas inofensivas1 m~ tmha "os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos
distinguiam . Tratavam-me com uma deferência especial, muSl· que seu talhe de palmeira", e enternecia-me até às lágrimas.
tada entre os borrachos . Entrava pela noite embriagado com o idílio do cristão com a
Passados alguns meses, descobri que a Maria e seu Amaro virgem dos sertões, filha de Araquém. Quando o largava, so-
tinham uma amizade para êles muito preciosa. Foi com alguma corria-me o gênio de Chateaubriand.
cerimônia que êles me deram notícia dessa amizade. Tra!~va:se Eu entendia que era possível escrever, como êles,. coisas que
da Tia Ma reclina . Vim a saber que era a mais fam osa f e1ttce1ra agradassem e comovessem. Não sei por que achei que o am-
de Maceió . Morava perto, do outro lado da linha de ferro, biente propício à criação intelectual era. a p~a, a beira-11:1-ar,
numa casa bem apresentada . com o vento soprando a copa dos coq~e~os _e infl~do a dinâ-
A Maria explicou-me, cheia de rodeios: mica das ondas no seu ondulado csurao irrequieto e verde.
- Eu sou católica, apostólica, romana. Mas isto não quer volta à mfáncia 167
166 povina cav11lcanti

-
A surprêsa causou um impacto nos presentes o b
ser aceso. explodiu . Jamais se vira um jibu · tão u;~.,a{?é, a._, ~ aqu.ele famoso ora-
Entreolhamo-nos todos. O André não sofrera nada PT eito ...
segun d o , o t ~rce1ro,
· · entou
oA quarto. Outros quiseram. também o
tirar \ mterramente aberto:
atã provatil
. Foi um malogro total. Das duas dúzias de busca é -- -- --~, ~"P"um1roso . Pena é que nem todos os
f s, homens se conservem meninos!
o gen mente o erec1ºdos por seu Amaro, não se aproveitou Pum
s6. Foi um espetáculo de jibus em série.
A notícia chegou ao Zé Fogueteiro, que gostava muito de
mim e lamentou sinceramente o acontecido. Em compensação,
presenteou-me para a noite de São Pedro com uma dúzia dos
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seus buscapés e outra de chuveiros . A Rua da Fábrica brilhou.
HEGOU o d ia, ou melhor, a
E como nota cômica, uma das meninas perturbou-se tanto • que,
em vez· de acender o seu chuveiro (é um buscapé sem estampido
~ Cnoite em que a Maria e
seu Amaro me levaram a conhecer a Tia Marcelina . A casa
e sem rodopio) . que se conserva na mão até exti~guir-se o seu dela ficava do outro lado da linha de ferro da Great W estern.
lindo e prateado clarão, e apontá-lo para a rua, fe-lo para den- Era edificada um pouco abaixo · do nível da estrada . Uma casa
tro de casa. quase pegando fogo em tudo . .
de boa aparência, grande, com um puxado, onde a velha afri-
A noite triunfal, porém, foi do Zé Fogueteiro . cana guardava os seus orixás e onde oficiava os seus ritos ao
som de um instrumental de percussão, que infundia nos espí-
ritos profunda nostalgia. Tratava-se de uns tambores altos e
Tranq~ilos os últimos dias de férias . Preparei-me para voltar ~reio q~e uma espécie de atabaques, cuja sonoridade era de um
a Maceió, on~e, além dos estudos, esperavam-me grandes sur- 1mpress1onante ritmo de exílio e tristeza . Havia quem dissesse
prêsas . Já a viagem passava a ser um ato de rotina. Teria de qu~ ª. Costa d' África ressoava ali dentro, corno um desafio à
ser assim muitas vêzes . Se o colégio me recebeu muito bem, odisséia da negritude escrava e que a invocação daqueles deuse'>
a Rua da Aroeira me festejou carinhosamente . Naquela noite, de nomes estranhos - Ogum, Xangô, Leba (não recordo os
na calçada da casa do seu Amaro tive a primazia da conversa. outros) - era um apêlo desesperado à alma humana .
Era eu quem falava, contando as minhas novidades, o que tinha Tia Marcelina era gordíssima, cadeiruda, de um cabelo pixaim
feito na União, como a União era e como era a sua gente. rente ao co_u ro . Uma carapinha de autêntica africana, com uns
olha~es espichados que, à primeira vista, me causaram tem or.
Quanto aos buscapés, escondi o acontecido. Pareceu-me ser Movia-se com certa dificuldade talvez devido às banhas, à cor-
pouco gentil com seu Amaro narrar-lhe o insucesso. ~le me pulência e também à idade, já ~mito avançada . .
tinha dado aquêle presente tão bem-intencionado ... __Recebeu-me com afagos . M aria e seu Amaro, alem de fre-
Fui dormir tarde, conversando, conversando, tal qual o ..velho" quentadores do culto, eram seus amigos pesso~!s . F êz-?1,~ umas
Cavalcanti! benzeduras do seu rito levou-me a ver o seu santuário , º nde
Já no dia seguinte cu me reintegrava na vida normal. Es- raros penetravam, e 'ao despedir-me, surpreendeu-i:?e, e aos
tudo em casa, aulas, leituras . Andei brigado com o mar . P~r meus acompanhantes com uma desagradável revelaçao:
- Menino, você ;ai voltar aqui, uma vez por semana, para
muitas semanas deixei de ir ao atêrro de Jaraguá, . à s~a praia,
às suas dunas procurar inspiração . Donde me teria vmdo essa
livrar-se de um mal que o vai atacar • . A
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G rande espanto tomou d · A Mana e seu maro
idéia? Ho1·e pe• nso que nasceu da histór ia de um orador da a~- conta e mim· lh f "ticeira procurou
ez com tenac1- emudeceram de perplexidade. Mas a ve a ei
tigüidadc que era gago e que vencera a sua gagu d . tranqüilizar-nos: t Eu evitarei o m al.
, ·mplesmente a voz, a - Não há perigo. N ão tenham sus O •
dadc, frente ao ma~ . .Sua cu~a cr~ ~~ inteligência . Mas cu
minha seria mais d1fic1l: era a pr pn 11olta à i nfâltcia 173

172 povina ca 11al.canti

.i:.__ ~ ,""111
Ela dizia isto na sua meia l'
algarávia que dava mal para ingua. Uma mistura de sons uma
.
r eceb ia, u se entender M . ,
curava", protegia am . as era assim que ela
capital. Contava-se que até o parava uma grande clientela da
m t · , . governador do Est d
or. as, 1a a casa da Tia Marcelina pedi a o, a horas
Ficou certo que eu voltaria na sema~aº seu _poderoso auxílio.
que fôssem necessárias para que ela f tseguinte e nas demais
pavorosa ameaça. ªasasse do meu corpo a
~eu Amaro quis saber que doença seria a uel .
celtna, se~ pestanejar, respondeu-ihe: q a. E a Tia Mar-
- Bexiga!
Meu Deus do céu! A varíola era uma f •
punha isolamento e marcava o corpo todoen derm.tddade que im-
c on h ec1'd o na R ua da Aroeira. um homem os oentes. Era
terríveis marcas da moléstia. que apresentava as
~ revelação . ~balou-me. Mas a fé da Maria na Tia Marcelina
foi_ me tranq~uhz~ndo aos poucos. Nada mandei dizer a meu
pai• E p~ssei . a 1~, semanalmen_te, receber os passes, os exorcis-
mos, o nao sei_ que da preta afncana que, para tanto, reunia os
seus macumbeiros e ordenava-lhes que dançassem até recebe-
rem os seus santos, rebolando no chão, à surda ressonância dos
tambores.
Ao fim de algumas sessões, tive a maior das alegrias. A Tia
Marcelina anunciou que eu estava livre do perigo. Os seus po•
derosos orixás tinham operado o milagre. A Maria e seu Amaro
exultaram, festejaram a nova com um jantar em minha home-
nagem . E só então escrevi a meu pai, narrando o susto por que
passara. Meu pai não deu maior importância ao caso, mas eu
compreendi que essa atitude resultou de que a comunicação já
era do perigo passado. Se f ôsse antes ...
O certo é que não tive varíola. Os meus amigos ~a Rua da
Aroeira estavam convictos de que a Tia Marcelina mais um~ vez
havia operado um milagre. Naquele tempo também pensei ª~;.
sim. Mas um detalhe não pode, nem deve ser esquecido: eu Ja
era vacinado contra a varíola ...

174 poi,ina ca11alcan ti

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