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Suplemento
do Jornal
COtiTEXTO
PASTORAL n 11 8
Maio/junho
de 1992

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':/ { ,, .
àuEM É EVANGÉuco
NO BRASIL?
Trazer à tona a história
da Confederaçio
Evangéllca do BrHll
leva a uma reflexão .
básica: como
denominar hoje os
Conferê·ncia do
·Nordeste: 30 anos
herdeiros da Reforma
liderada por Martinho
Lutero? Protestantes?
Evangéllcos? Crentes?
Evangellcals? Antonio
Gouveia de Mendonça
aborda a questão nu
páginas 3 a 6.

TRê.S DÉCADAS
DE CONFERêNCIA
DO NORDESTE
A relevância da
Confederação
Evangéllca do Brasll
para as Igrejas e pua o
Pais, e as duras ·
conseqüência• de sua
"extlnçio" aio
abordadH por José
emencourt Fiiho numa
análise que levanta
quntões sobre o futuro
do protestantismo
tiraallelro (páginas 17
a 20).

A MEMÓRIA
ESTÁ VIVA
Em dlverH•J>_á glnas
deste suplemento estio ·
testemunhos e
depoimentos de
protagonistas da
história da Conferência
do Nordeste e da
Confederaçio
Evangéllca do BrHll.
Gente apaixonada pela
unidade que vê, no
resgate da memória,
esperança de tempos
melhores para as
lgrejH no Brasil.
2 D~ APRESENTAÇÃO CONTEXTOPÀSTORAL

A CONFERÊNCIA DO NORDESTE: UM APERITIVO


Carlos Cunha
Os estudos (bases bíblicas) sobre a responsabili- litares~ repetir, à maneira de Pedro: "Não tenho
hde social da Igreja emergiram do Primeiro Mun- nada com isso". Tinham. Os nomes deles serão
:lo e vieram empolgar este nosso Terceiro, na dé- proclamados ad perpetuam rei memoriam. E de
cada de 1950. Aqui, entre nós, se identificaram outros, cujas confissões reservadas engendraram
com um conceito quase escandaloso para a época o aparente caos fortalecedor de suas próprias be-
- revolução. Surgiram num pequeno arroio nesses. Não sabiam que a história lhes daria um
(1955), fiz.eram-se regato (1957), depois um rio bofetão. E as atitudes como as de um editor que
enfeitado de cachoeiras (1960) e desaguaram num depois forjaria uma devassa na Confederação
caudal quase pororoca (1962) pela confluência Evangélica a fim de apreender as publicações que
com uma vertente dos movimentos sociais do editara para "livrar a cara" na reviravolta do mo-
País, antes da marcha a ré que foi o golpe militar. vimento político-militar.
Na última etapa chamou-se Conferência do Nor- Decidimos por este Suplemento que é, ao mes-
deste e vinha desfraldado numa bandeira que tinha mo tempo, introdução e trailer. Introdução nos
por lema "Cristo e o processo revolucionário bra- temas que discutem conceitos, como "evangéli-
sileiro". co", as tentativas de busca da unidade desde Eras-
Pela primeira vez as igrejas, de expressão, mo Braga até à Associação Evangélica do Brasil
evangélicas (Ler A. Mendonça) se aventuravam a (AEvB). Porém, discussões e estudos ein tomo da .
escutar as voz.es de cientistas sociais e de lideran- Confederação Evangélica do Brasil (CEB), das
ças populares não-evangélicas, na "cratera de um próprias experiências que desaguaram em Recife,
vulcão" (expressão da época) que era o Nordeste de Igreja e Sociedade na América Latina (ISAL)
brasileiro. ficam mais para trailer.
Não podíamos mais ler e ouvir especialistas a Trata-se de uma espécie de aperitivo-convite
escreverem a história da Igreja no Continente, sem ao presente que, neste 1992, vamos oferecer aos
informações sobre o hiato, quase duas décadas, leitores - o livro "Cristo e o processo revolucio-
em que uma perseguição e repressão di'abólicas nário brasileiro". Nele estão reunidos documen-
tentaram reduzir dez.enas de testemunhos.daque- tos, opúsculos, decisões e encaminhamentos de
les "que passaram pela grande tribulação" e não grupos de trabalho, proclamações, celebrações,
sucumbiram. Também incomodava ouvir voz.es recortes de jornais da época etc. das quatro confe-
de alguns "ilustres" da Igreja e da sociedade que, rências que culminaram com a do Nordeste.
embora tivessem participado plenamente daque- Como parte dessa história há um depoimento so-
les momentos gloriosos de nossa história, vieram bre um, entre tantos, Paulo Wright (ver box), már-
após, nas agruras daquela malta de governos mi- tir dessa vanguarda evangélica cujas asas os po-
deres ditatoriais quiseram cortar.
A história da Igreja no nosso Continente está
incompleta sem essas páginas. Vá preparando o
DEBATE Neste número:
Suplemento do jornal Editora seu coração, porque as histórias dessa história nós
Contexto Pastoral n° 8 Magali do Nascimento estamos começando a contar. Por enquanto, sirva-
maio /junho de 1992 Cunha se deste aperitivo.
Publicação do Centro Editores-assistentes
Evangélico Brasileiro de Paulo Roberto Salles Carlos Cunha foi secretário executivo da Conferência do
Estudos Pastorais - Garcia (Mtb 18.841) e Nordeste. Integra a equipe do Programa de Assessoria à
Cebep (Rua Rosa de Carlos Cunha Pastoral do CEDI.
Gusmão, 543 - 13073 -
Conselho Editorial
Campinas/SP -
José Bittencourt Filho
Tele fax: 0192-41-1459)
Marcos Alves da Silva RESGATANDO A MEMÓRIA
e do Centro Ecumênico
Paulo Roberto Rodrigues
de Documentação e Os laços de Paulo Wright com o movimento ecu-
Rafael Soares de Oliveira
Informação - Cedi mênico brasileiro nps anos 1950-1970 foram mui-
(Rua Santo Amaro, 129- Diagramação
to fortes. Resgatar sua memória é fazer presente
22211 - Rio de Janeiro/RJ AnitaSlade
o testemunho deste homem que, apesar de ser
-Tel. 021-224-6713 e Fotolito e Impressão
fax: 021-242-8847). lembrado por muitos grupos, não tem destacada
Tribuna da Imprensa sua atuação como evangélico, sua opção pelo
llragem Reino de Deus, sua militância em prol da unidade
11 mil exemplares dos cristãos.
CONTEXTO PASTORAL ANÁLISE 3

QUEM É EVANGÉLICO NO BRASIL?


Antonio G. Mendonça

A Reforma Religiosa do século XVI apresentou ora com lucros, ora com perdas, resta um fato in-
um tríplice e fatal deslocamento das tradições do discutível e reconhecido por todos, mesmo pelos
cristianismo medieval que, se de um lado repre- próprios herdeiros da Reforma: aqueles três prin-
sentou grande avanço na objetivação de um dos cípios de liberdade, foram também fatores de frag-
mais caros traços da modernidade, isto é, a liber- mentação. As três grandes vertentes da Reforma,
dade, do outro expôs boa parte do cristianismo aos em si já dividida, portanto, traziam por sua vez os
riscos de contínuo divisionismo. De fato, a fatal germes das divisões futuras.
liberdade repousou sobre três pontos fundamen- Das três vertentes, a anglicana, a luterana e a
tais da Reforma: a autoridade da Palavra de Deus calvinista, esta estava contaminada em grau mais
sobre toda e qualquer outra autoridade; o sacerdó- elevado. Embora não seja importante aprofundar
cio universal dos crentes; e a salvação pela fé em as razões do potencial divisionista presente nessas
Jesus Cristo. No primeiro caso, demoliu-se o que três vertentes, é curioso notar que a calvinista é a
se chaina fonte de autoridade: a Tradição e a Igreja que apresenta, juntamente com algumas correntes
como instâncias únicas e finais da interpretação anteriores ou paralelas à Reforma, a menor con-
dos. textos sagrados. A Bíblia agora interpreta-se centração de autoridade visível, pois que o angli-
a si mesma e exerce sua autoridade sobre os cris- canismo possui no seu episcopado histórico e na
tãos; mas, como isto não se dá na prática, cada figura do rei algo fortemente centralizador e o lu-
leitor, exegeta ou teólogo, passou a dar livremente teranismo tem seu baluarte numa espécie de pere-
sua própria interpretação. No segundo caso, reti- ne germanismo cultural. Em suma, o maior ou
rou-se do clero sacerdotal a prerrogativa de admi- menor potencial de fragmentação dos herdeiros da
nistrar com exclusividade as coisas sagradas ins- Reforma reside paradoxalmente no maior ou me-
talando-se no seu lugar uma nova classe, a dos nor resíduo de fonte de autoridade visível que ain-
leigos. No ~erceiro, o espaço da salvação deslo- da lhe reste.
cou-se da Igreja para o indivíduo, seja por livre
arbítrio, seja por decisão divina. QUEM É MESMO PROTESTANTE?
Não é difícil de se perceber que os princípios Embora seja comum a referência aos herdeiros da
da Reforma deslocaram, em nome da liberdade, a Reforma como protestantes, não há uma Igreja
fonte de autoridade de Tradição, da Igreja e do Protestante, mas diferentes ramos do chamado
clero sacerdotal para o indivíduo. Sem discutir o protestantismo, isto é, anglicanos, luteranos, re-
que isso representou na história do mundo ociden- formados e as chamadas igrejas "livres" (batistas
tal, cujo balanço já foi feito de todos os modos,. e congregacionais, por exemplo). A designação de
Agência Folhas protestantes, se é usada univoca-
mente por quem obseiva de fora,
é equívoca para os de dentro,
ABAIXO A IWLATRIA pois que anglicanos e batistas,
· PO.ROU~ ·
SO O SENHOl°fF OEUG por exemplo, em geral não acei-
r
tam identificar-se como protes-
tantes. O nome "protestante"
originou-se em seguida à Dieta
de Spira (1529), quando os prín-
cipes luteranos "protestaram"
formalmente contra as tendên-
cias contrárias à liberdade reli-
giosa estabelecida pela primeira
dieta (1526). Assim, por motivos
históricos, o nome "protestante"
deveria caber somente aos lute-
ranos. No entanto, a própria his-
"t. tória conduziu as coisas por ca-
A.oposição ao catolicismo •lnd• 'forte m•rc• doa eVllng,llcoa minhos diferentes.
4 D~ ANÁLISE CONTEXTO PASTORAL

QUEM É MESMO EVANGÉLICO? Brasil começou em São Paulo, em julho de 1903,


O nome "evangélico" também tem sua história . com a fundação da Aliança Evangélica Brasileira,
Na segunda metade do século XVIII a Igreja da cujos constituintes, membros de várias denomina-
Inglaterra, influenciada, de um lado, pelo movi- ções, subscreveram um documento de dez artigos
mento metodista e, de outro, pela nostalgia da tra- considerados essenciais à fé evangélica (Ver Rei-
dição da "Santa Igreja Católica", dividiu-se em ly, História Documental do Protestantismo no
duas alas: uma chamada dos "evangélicos", vol- Brasil, pp.245/246), ficando clara a intenção de
tada para o cristianismo em ação através da cria- que não se tratava de nenhum credo fonnal ou
ção de organismos interdenominacionais, a fim de eclesiástico. O interdenominacionalismo, para
propagaro Evangelho; e outra, conhecida por"mo- não dizer o ecumenismo, da Aliança Evangélica
vimento de Oxford", "tratarianismo", ou mais pro- Brasileira ficou evidente pelas presenças de um
priamente, por "puseísmo" (de Edward Bouverie metodista como seu presidente e de um batista
Pusey -1800-1882), que preconizava a reaproxi- como secretário.
mação da Igreja Católica e mesmo a volta a ela. O espírito e a intenção do "unionismo'.' evan-
O movimento evangélico se espalhou, princi- gélico incorporou-se mais tarde na fundação da
palmente como reação às dificuldades que o divi- Confederação Evangélica do Brasil, que pretendia
sionismo impunha às sociedades interdenomina- representar todos os cristãos não-católicos brasi-
, cionais (missionárias, bíblicas, etc) e pelo receio leiros. Não conseguiu porque o "espírito evangé-
ao avanço do catolicismo no século XIX. O mo- lico" só abrigava indivíduos e nada tinha a ver
vimento, através das Alianças Evangélicas, atin- com as barreiras denominacionalistas. Os líderes
giu logo países europeus e a América do Norte. da nascente organização logo perceberam o im-
As Alianças Evangélicas adotavam princípios passe ao ponto de Epaminondas Melo Amaral, seu
doutrinários considerados como a essência do primeiro secretário, ter escrito mais tarde um livro
Evangelho e que, subscritas por pessoas e não por que encarava o divisionismo como o "magno pro-
igrejas ou instituições, caracterizavam um movi- blema" do protestantismo (Magno Problema ,
mento ao mesmo tempo de reforço às "fontes 1960). Mas, apesar de todas as diferenças existen-
evangélicas" e de entendimento entre as várias tes entre as denominações e entre seus membros,
facções do protestantismo. Curiosamente, e só de estava consagrado o nome de evangélico para to-
passagem, os desdobramentos do movimento dos os cristãos não-católicos no Brasil. No entan-
evangélico serviram de base, ao mesmo tempo, to, mais uma vez a história pregava uma peça: Se
para o movimento ecumênico e o movimento con- a Confederação Evangélica do Brasil nascia gec
servador/fundamentalista, seu futuro inimigo. Douglas Mansur
Coisas da história.
Assim, por rigor histórico, evangélicos devem
ou deveriam ser somente os adeptos dessa tradi-
ção ou corrente que se originou no século XVIII
e que se espalhou através das Alianças e que se
caracterizam pelo espírito conservador como ain-
da ocorre na Europa e nos Estados Unidos. Evan-
gelicals significa conservador e adversário de
tudo quanto cheire a liberalismo, modernismo e
ecumenismo. Identifica uma ala muito forte do
protestantismo atual e está presente em todas as
denominações, abrangendo, às vezes, denomina-
ções inteiras.

E NO BRASIL?
No Brasil, o movimento evangélico entrou e ficou
para fazer confusão. O Brasil, !Ilais do que qual-
quer outro país da América Latina, tem sido odes-
tino final de todos os sistemas de idéias religiosas
alinhavadas noutro lugar. Aqui, descosturam-se,
misturam-se e dão origem a esse caos protestante
que dificulta, para não dizer impossibilita, qual-
quer tentativa de identificação ou classificação.
A trajetória do "movimento evangélico" no Biblla: a grande autoridade
CONTEXTO PASTORAL ANÁLISE 5

neralizando e consagrando o movimento evangé- é compreensível a evolução desse protestantismo


lico, seus principais mentores e fundadores, ·Eras- para o fundamentalismo mais radical, denomina-
mo Braga e Epaminondas Melo Amaral, pouco cionalista e antiecumênico. A ênfase em doutrinas
tinham de "evangelicais"; ao contrário, sustenta- fechadas que não admitem críticas favorece o es-
vam espírito aberto e ecumênico. treitamento denominacional ao mesmo tempo que
induz aos anátemas e cisões, o que somado ao
BUSCANDO A IDENTIDADE NA HISTÓRIA anticatolicismo, produz o antiecumenismo intran-
No entanto, para que haja alguma luz na com- sigente. Mais uma vez a história nos prega uma
preensão da busca da identidade dos cristãos não- peça. O movimento evangélico tinha como obje-
católicos no Brasil, é necessário mais uma vez tivo a união substancial dos protestantes e acabou
recorrer à história. A Aliança Evangélica foi fun- sendo mais um instrumento de esfacelamento.
dada em Londres, em 1846, e nos Estados Unidos Temos muitos elementos para acreditar que a
em 1867, resultantes do movimento que vinha do maioria dos missionários que vieram para o Brasil
século anterior. O evangelicalismo ganha corpo procediam do universo espiritual dos avivamen-
concomitantemente aos grandes movimentos de tos e do evangelicalismo. Esses missionários, ao
avivamento ocorridos na Inglaterra e nos Estados desembarcar no Brasil, encontraram um universo
Unidos na última metade do século XVIII e na religioso muito diferente dos seus. Era necessário
primeira do século XIX. Tanto um como outro identificar os recém-convertidos com um nome
desses movimentos apresentam traços que soma- novo e esse nome foi "crente em nosso Senhor
dos podem ajudar a traçar o perfil do futuro pro- Jesus Cristo'', ou simplesmente "crente". Ora,
testantismo brasileiro. esse nome trazia toda a carga conversionista en-
As Alianças Evangélicas tinham um fundo teo- fatizada pelos movimentos de avivamento que as-
lógico básico considerado substancial para a sinalavam a experiência religiosa como linha de-
união de todos os "crentes evangélicos" e nele sa- marcatória na vida dos convertidos. A um passado
lie:itam-se os artigos sete e oito dos princípios da de incredulidade e desobediência sucedia-se um
Aliança Evangélica Brasileira. O primeiro afirma presente de crença e obediência. Os que passavam
a fé na "obra do Espírito Santo na conversão e pela experiência da conversão eram agora crentes.
santificação do pecador'', e o segundo a fé na Os sermões e outros documentos dos missio-
"imortalidade da alma, na ressurreição do corpo, nários, mas principalmente os cântico.s . religiosos
no julgamento do mundo por nosso Senhor Jesus
Cristo, com a bem-aventurança eterna dos justos
e a punição eterna dos maus". Temos aí a afirma- O Brasll, mais do que qualquer outro
ção do princípio da conversão e santificação, pon- país da América Latina, tem sido o
to central dos movimentos de avivamento, assim destino final de todos os sistemas de
como da fé no julgamento do mundo com a bem- Idéias religiosas alinhavadas noutro lugar
e
aventurança eterna, dos justos a punição, tam-
bém eterna dos ímpios que traz consigo a crença
no Milênio. Alia-se a isso o uso do termo "orde- que eles trouxeram, consagraram o nome de cren-
nanças" em lugar de sacramentos quando, no ar- te como identificador dos novos fiéis . Os conver-
tigo nove, se refere ao batismo e Santa Ceia. Tudo tidos eram identificados e se auto-identificavam
isso está presente nos movimentos de avivamento. como crentes. De fora o apelativo era muitas vezes
Mas há, ainda, no movimento evangélico um carregado de preconceito e até de depreciação,
componente que não deve ser esquecido. Na busca mas de dentro era cheio de brio e de responsabili-
da fé evangélica essencial, necessária à união dade. Os crentes, embora compondo um grupo
s.u bstancial de todos os protestantes, estava a preo- sociologicamente marginal, eram respe itados
cupação com a fraqueza do mundo protestante pelo seu amor à paz, à ordem e ao trabalho. Assim,
fragmentado diante da coesão e do avanço do ca- o nome de crente trazia consigo um compromisso
tolicismo no século XIX, enfraquecido que estava transparente de ser diferente perante a sociedade
no século anterior por causa do Iluminismo. A fun- tradicional.
dação de Alianças Evangélicas tinha como objetivo Mas, os missionários eram também evangéli-
formar uma linha única para enfrentar o catolicismo. cos e esse espírito foi evoluindo no interior do
A combinação dos elementos acima permite protestantismo brasileiro, principalmente após o
traçar um perfil do protestantismo que se introdu- Congresso do Panamá, em 1916, quando o Comitê
ziu no Brasil no século XIX: um protestantismo de Cooperação evoluiu para a Confederação
"evangelical" sob o ponto de vista da teologia e Evangélica do Brasil, em 1934. Havia um intenso
anticatólico sob o aspecto da estratégia. Por isso, desejo de cooperação entre as denominações mui-
6 'OtW. ANÁLISE CONTEXTO PASTORAL

to próprio do movimento evangélico. Outra vez, formados . É certo, também, que as levas de emi-
no entanto, a tústória introduziu o seu paradoxo. grantes para o Brasil continham lutera nos e refor-
O movimento evangélico, expressamente indi- mados, o que podia orientar, na organização das
vidualista e não denominacional, começou a se futuras comunidades, uma visão rQais abrangente
transformar em denominações. Aos poucos as de- do que a denomina cionalista . Por outro lado,
nominações foram adicionando aos seus nomes a como informa Méirtin Dreher (Igreja e Germani-
palavra "evangélica". Em pouco tempo, as pes- dade, 1984), foi fundada em 1837. a Sociedade
soas cristãs não-católicas passaram a identificar- Evangélica para os Alemães Protestantes na Amé-
se como evangélicas e do mesmo modo as igrejas. rica do Sul a fim de acompanhar os alemães emi -
Com o passar do tempo, os católicos, que chama- grados, em suas necessidades religiosas. Não é
vam os convertidos à nova religião d~ protestan- necessário avançar muito para justificar a presen-
tes ou crentes no sentido pejorativo, agora, com ça do nome "evangélico" nas igrejas lutera nas
novos tempos, encontraram uma palavra que os brasileiras. Estas pistas históricas são suficientes.
identificava perfeitamente e que, ao mesmo tem- Quanto ao nome " protestante" pouco resta dele
po, não era pejorativa: são evangélicos e suas para identificar os não-católicos no Brasil. Nin-
igrejas são evangélicas. guém mais o usa, a não ser no sentido técnico por
tústoriadores descomprometidos, cientistas sociais
e, eventualmente, teólogos.
Era necessário Identificar os
AFINAL, EM QUE FICAMOS?
recém-convertidos com um nome novo e
esse nome foi "crente em nosso Senhor Descartados os nomes de "protestante'', restringi-
do à área ml! is técnica, e de "crente", agora cir-
Jesus Cristo'', ou simplesmente "crente"
cunscrito aos pentecostais, que o assumiram ple-
CEDI namente enquanto que os pro-
testantes hi stóri cos o evitam,
res ta o apelativo com um de
"eva ngélicos" a todos os cris-
tã os não-ca tólicos brasil eiros,
aceito de dentro e de fora. Mas,
considerada a origem histó rica
do termo, é necessário fazer uma
distinção. O movimento eva n-
gélico tra z co nsigo uma linha
teológjca e estratégica bem defi-
nida. Como, portanto, identifi-
car todos os protestantes brasi-
leiros como evangélicos? Em-
bora as linhas do movimento se
Com a Reforma Protestante, os leigos ganharam espaço ajustem bem ao perfil da média
do s protes tantes brasileiros,
existem muito s qu e, se nd o
Entender como 9 movimento evangélico atin- evangélicos, não são "evangelicais". Daí, a neces-
giu e passou a identificar as igrejas de origem sidade que os expositores de protestantismo têm
missionária norte-americana não foi difícil. Ago- de introduzir o anglicismo "eva ngelical" para dis-
ra, explicar como as igrejas luterànas no Brasil tinguir "evangélicos" de evangélicos. Aqueles, ti-
também assumiram o nome de evangélicos é ou- picamente conservadores, denominacionalistas,
tra história, talvez longa. Mas, podemos acompa- antiecumênicos, e até fundamentalistas, e estes
nhar alguns fatos que podem ajudar em alguma soltos nas mais variadas correntes.
coisa, ficando o aprofundamento rla questão para Para concluir poderíamos dizer que os protes-
quem melhor entende a história do luteranismo. tantes brnsileiros são evangélicos, mas que nem
É certo, em primeiro lugar, que da Inglaterra o todos são "evangelica is".
movimento evangélico passou logo para a Alema-
nha, ajudando ali a rejuvenescer um protestantis-
Antonio G. Mendonça é presbiteriano. Coordena o curso de
mo também enfraquecido pelo Iluminismo. Uma pós-graduação em Ciê ncias da Re li gião do Programa
primeira reação foi o surgimento de uma Igreja Ecumênico de Pós-Graduação de Rudge Ramos (SP).
Evangélica Nacional, que incluía luteranos e re-
CONTEXTO PASTORAL REPORTAGEM 7

EM BUSCA DA UNIDADE VISÍVEL,


EVANGÉLICOS SE ASSOCIAM
Magali do Nascimento Cunha
Paulo Roberto Salles Garcia

A divisão dos evangélicos em No entanto, os ventos da uni- Nesse congresso o grande


denominações sempre carregou dade não cessaram de soprar por destaque esteve por conta da
consigo o escândalo da separa- estas terras. Eles chegaram mais presença de Erasmo Braga, pas-
ção. " Como testemunhar o mes- fortes vindos da Europa assolada tor presbiteriano nascido em São
mo Cristo sendo de grupos divi- pela guerra no início do século Paulo (1877). Ele traçou a histó-
didos?" foi a pergunta que fez XX. Pelas bandas de lá as igrejas ria de sua vida navegando aos
muita gente pensar ao longo dos descobriam a necessidade de um ventos da unidade, passando a
séculos sensibilizada com o ape- testemunho de unidade visível ser conhecido como o Profeta da
lo do próprio Jesus à unidade. num mundo dividido pela vio- Unidade. ·
Por essa razão muitos evan- lência. Do lado de cá a queixa da Um dos desdobramentos do
gélicos procuraram manter de d.iscrirninação contra os latino- Congresso do Panamá foi a cria-
alguma forma abertos os canais americanos nas reuniões euro- ção do Comitê de Cooperação
de diálogo e encontro. Daí surgi- péias. O resultado foi o Congresso para a América Latina, com sede
ram os conselhos e associações Evangélico do Panamá (1916). em Nova York (essa escolha é
de igrejas com o intuito de que a explicada pela força da presença
unidade visível levasse o mundo PROFETA DA UNIDADE
a crer em Jesus Cristo. O Congresso do Panamá fez do
ano de 1916 uma época marcan- A divisão dos evangélicos
O VENTO SOPRA te para a história das igrejas em denominações sempre
ONDE QUE~ evangélicas latino-americanas . carregou consigo o
Os missionários que trouxeram Nos relatos sobre o evento nú- escândalo da separação .
o protestantismo para a América meros apontam 626 participan-
Latina no século passado foram tes que iniciaram um processo
muito avessos a práticas de uni- desencadeador de outros con- dos missionários norte-ame1ica-
dade. Algumas associações sur- gressos como o de Lima e de nos), como órgão propagador
giram num ou noutro país inte- Buenos Aires no mesmo ano. A. dos ideais do congresso. O Co-
grando grupos isoladamente: as- intenção era a articulação dos mitê instalou uma filial no Rio
sociações de jovens, de minis- evangélicos e uma reflexão so- de Janeiro com o nome de eo~
tros, sociedades bíblicas. bre as práticas evangelísticas. missão Brasileira de Coopera-
CMI / Peter Williams ção (CBC). O secretário foi
Erasmo Braga.

PRIMEIROS FRUTOS
A C:BC começou a traçar as li-
iihas do que seria uma associa-
ção de evangélicos com presen-
ça maciça na sociedade brasilei-
ra. A comissão era iilterdeno-
minacional - trabalhava em
conjunto com a Associação
Cristã de Moços (ACM) e esta-
beleceu como tarefa mestra a
prática educacional: buscar a
unidade por meio da literatura
evangélica.
Muitos crlstios têm-•• senslblllzaido com o apelo de unidade Partindo desse princípio, a
do próprio Cristo. CBC traduziu um grande núme-
8 Det4 REPORTAGEM CONTEXTO PASTORAL

Erasmo Braga procurou PARA ALÉM Unido, retiros evangélicos, mis-


ctespertar nas Igrejas o DAS FRONTEIRAS sões entre imigrantes, Serviço
Interesse por programas Na CBC articulavam-se os es- de Proteção aos índios, Macken-
que extrapolassem as forços de cooperação não só no zie College, União Congrega-
fronteiras denomlnaclonals Brasil, mas na América do Sul, e cional Evangélica do Brasil,
dela saía também representação Hospital Evangélico, Associa-
latino-americana para eventos ção Cristã Feminina, Sociedade
ro de livros, organizou a União mundiais. Bíblica, Instituto do Povo, De-
das Escolas Dominicais (reunia- Mas a CBC queria mais. partamento Nacional de Saúde
se trimestralmente e produzia Erasmo Braga, em sua peregri- Pública, Associação de Tutela de
publicações para as igrejas), edi- nação profética, visitou concí- Menores, Federação Universitá-
tou a Revista Brasileira de Cul- lios das diferentes denomina- ria, Missão entre os índios, Ins-
tura Religiosa (indicava livros e ções e procurou despertar nelas tituto José Manoel da Conceição,
outras publicações). o interesse por programas que Fundação Umuarama, Cruz Ver-
O trabalho em pouco tempo extrapolassem as fronteiras .de- melha, Cruzada para Extinção da
se expandiu. Da CBC saíam as nominacionais. Febre Amarela, Profilaxia da Le-
diretrizes educacionais para Daí brotaram convenções de pra e Doenças Venéreas.
todo o Brasil: bíblias traduzidas, clérigos e leigos, conselhos lo- A CBC prestava serviços es-
livros, folhetos, lições de Escola cais de igrejas, o Concerto Uni- timulando o combate ao indivi-
Dominical, avisos. Foi organi- versal de Oração, congressos dualismo e ao exclusivismo, e
zado um fichário de endereços evangélicos, campanhas comu- passou a ter acesso aos meios
de cerca de quatrocentos minis- nitárias de ser"iço social. oficiais brasileiros, desenvol-
tros evangélicos bem como de Vários outros movimentos vendo um serviço de imprensa
informações sobre a localização que atuavam isoladamente den- que dava aos jornais informa-
de cada denominação. tro e fora das igrejas engajaram- ções seguras sobre a atuação dos
se nos programas: Seminário evangélicos. Esse processo ge-

ASSOCIAÇÃO EVAN~ÉLICA BRASILEIRA:


IDENTIDADE E MISSAO
Osmar Ludovico da Silva
Com uma estrutura que busca ser leve e ágil , a partir de uma caminhada, é essencialmente brasilei-
AEvB se propõe, de fato, a ser uma Associação, isto ra e visceralmente comprometida com a fé e a ética
é, um fórum inclusivo de todos os evangélicos brasi- evangélica. A AEvB tem como objetivo exercer entre
leiros, e capaz de exercer um papel de informação os diversos grupos evangélicos, bem como junto à
e de referencial da unidade do Corpo de Cristo no nação brasileira um papel de informação e represen-
Brasil. Uma associação que acolha pessoas físicas tação, sempre respeitando a diversidade denomina-
e jurídicas que se identifiquem com seus objetivos, e cional e a autonomia de seus membros. Estrutural-
que se submetam aos seus padrões de ética pessoal mente está representada por sua diretoria executiva,
e administrativa. · secretários estaduais e secretários dos diversos de-
E também Evangélica, isto é, identificada com os partamentos. Escolhidos democraticamente, seus
.pressupostos de nossa herança reformada, mas diretores e secretários não podem se candidatar a
·também com os avivamentos do século passad@. mandatos pollticos e tampouco pode a AEvB receber
Evangélica no compromisso com ~evangelização verbas do governo a fundo perdido.
do mundo, na seriedade da reflexão teológica, np Com a AEvB surgiu a oportunidade para que o
profetismo que denuncia o mal, na intercessão por importante segmento da igreja evangélica brasileira
um genulno avivamento nacional que redunde em não identificado com a Confederação e nem com o
transformação de pessoas e da sociedade e na bus- movimento ecumênico possa se articular em torno
ca por alivio e justiça aos que sofrem. de uma proposta de unidade visível. AAEvB, embora
Finalmente Brasileira, isto é, nascida e encarnada tenha a sua própria história e via de ação, mantém-
na realidade nacional, buscando como uma das for- se, no entanto, aberta ao diálogo com os demais
ças vivas da Nação a promoção da justiça e da paz, grupos cristãos atuantés no Brasil.
envolvendo-se concreta e historicamente com os
destinos deste pais. Oamar Ludovico da Siiva é pastor e 1Q secretário da A5-
Neste sentido, a AEvB é singular, pois nasceu a sociação Evangélica Brasileira (AEvB).
CONTEXTO PASTORAL REPORTAGEM 9

rou o Centro Brasileiro de Publi- A partir daí uma nova idéia nias, Administração; e o jornal
cidade. · surgiu e foi conçretizada em Unum Corpus.
1934: integrar em um só órgão O setor de Responsabilidade
ESTREITANDO AINDA geral as três entidades. Foi cria- Social da Igreja teve sua rele-
MAIS OS LAÇOS da a Confederação Evangélica vância por ter sido o organizador
Toda essa articulação e atividade do Brasil com os três órgãos de das quatro grandes conferên-
passou a ser por demais expres- associação conjugados. cias: A responsabilidade social
siva. Erasmo Braga tentou ir ain- Erasmo Braga faleceu (maio da Igreja (1955), A Igreja e as
da além. Ele empenhou-se a par- .de 1932) sem testemunhar a for- rápidas transformações sociais
tir de 1926 no estabelecimento mação da Confederação Evan- na Brasil (1957), Presença da
de contatos com os concílios das gélica do Brasil, mas sem seus Igreja na evolução da naciona-
diversas igrejas para a formação esforços ela não se teria concre- lidade (1960) e a mais importan-
de um conselho de igrejas. Esse tizado e marcado presença na te Cristo e o processo revolucio-
esforço foi recompensado cinco história das igrejas evangélicas e nário brasileiro - a Confe-
anos depois com a criação da Fe- do País. rência do Nordeste (1962).
deração das Igrejas Evangélicas As ênfases teológicas e so-
no Brasil (1931). REPRESENTATIVIDADE E ciais incluíam, além do campo
Passam a existir então três ór- PARTICIPAÇÃO EVANGÉLICA da educação cristã; da represen-
gãos de associação de evangéli- A Confederação, seguindo a es- tatividade dos evangélicos, de
cos em prol da unidade cristã: a tratégia de trabalho que culmi- uma perspectiva ecumênica in-
Comissão Brasileira de Coope- nou na fundação, estruturou-se terdenominacional, debate pro-
ração (CBC), o Conselho de da seguinte forma: departamen- fundo e inspiração à participa-
Educação Religiosa (novo nome tos: Educação Cristã, Juventude, ção dos membros das igrejas
da União das Escolas Domini- Ação Social, Imigração e Colo- evangélicas na vida social e po-
cais) e a Federação das Igrejas nização; setores: Responsabili- lítica do Brasil.
Evangélicas no Brasil. dade Social da Igreja, Capela~

SONHO, QUASE FRUSTRADO


Jether Pereira Ramalho
O ideal ecumênico sempre acompanhou e inspirou do extenso trabalho educativo e promocional, com
minha vida eclesial. Por mais significativos e respei - sucursais em quase todos os estados do Brasil. Pe-
táveis que sejam os fundamentos identificadores dos ríodo de intensas atividades, cursos, publicações,
diversos ramos do cristianismo , eles não são capa- seminários com as entidades de ação social das
zes de esgotar a proposta do Reino. Por natureza são · igrejas, relações com organizações sociais e movi-
limitativos e excludentes. mentos populares, etc. Tive o privilégio de participar
A minha atração pela proposta de unidade, repre- das notáveis Conferências de Responsa~ilidade So-
sentada pela Confederação Evangélica do Brasil cial da Igreja, destacando-se a célebre Conferência
(CES), que no seu contexto histórico era a mais do Nordeste, em 1962, com o tema "Cristo e o pro-
abrangente, vem desde a infância, inspirada pelo cesso revolucionário brasileiro".
meu pai, pastor congregacional formado pela primei- Com o golpe militar de 1964, a CES entrou em
ra turma do Seminário Unido. Aliás, esse seminário .crise profunda. As ênfases teológicas e sociais que
que congregava diversas denominações evangéli- nortearam suas atividades foram sufocadas. Houve
cas era sinal , muito concreto, da visão de unidade da censura interna e externa, o que provocou um esva-
presença protestante no Brasil. Infelizmente, não ziamento da CEB de tal forma, tanto na sua legitimi-
teve vida longa. As diferenças denominacionais des- dade quanto na sua integridade, que a levou a um
truíram tão edificante proposta. processo de estagnação. Assim desapareceu doce-
O meu envolvimento com a CEB foi bastante lon- nário ecumênico nacional, por ter perdido significa-
go, desde a época da mocidade. Participei dos con- ção e relevância, proposta que tinha todas as possi-
gressos nacionais da mocidade evangélica e, duran- bilidades de ser sinal vitalizante da marcha do
te anos, fui presidente do Departamento de Mocidade ecumenismo no Brasil.
da Confederação. Atuei no Setor de Responsabilida-
de Social da Igreja, e fui um dos organizadores de Jether Pereira Ramalho é congregacional e integra a equi-.
diversas conferências desse setor. Em 1962-63 coor- pe do Programa de Assessoria à Pastoral do CEDI.
denei o Departamento de Ação Social, desenvolven-
10 '(}~ REPORTAGEM CONTEXTO PASTORAL

li Reunião de Estudos do Setor de Responaabllldade Soclal da lgre)s da CEB-1957

TEMPESTADE voltada para a dignidade de vida "subversivas" e portadoras de


E NAUFRÁGIO e garantia de direitos do seu pensamentos "ct>munistas". A
Se os anos de 1932a 1964foram povo -sinais concretos do Rei- Confederação Evangélica do
marcados pela mobilização dos no de Deus. Em março de 1964, Brasil, avançada que estava na
evangélicos comprometidos com o golpe militar, foi instalado discussão sobre os problemas
com a paz e a justiça, o que se um regime de governo marcado sociais e políticos do País, não
viu em seguida significou a rup- por total-obscurantismo, com au- escapou da "caça às bruxas". O
tura de um processo e o esface- toritarismos, injustiças, persegui- mais lamentável, no entanto, é
lamento de um projeto que pro- ções e desaparecimentos. que entre os "caçadores" esta-
metia grandes avanços na dire- O golpe veio como um fura- vam evangélicos e setores da
ção de uma igreja brasileira cão, varrendo todas as organiza- Igreja Evangélica, certamente
ções e instituições consideradas determinados a manter o "status

RECIFE, 1962
200 MIL DESEMPREGADOS, 70 MIL PROSTITUTAS
WaldoCésar
Recife não tinha nem 800 mil habitantes. Mas eram 60, "A presença da Igreja na evolução da nacionali-
200 mil os desempregados e 70 mil as prostitutas, a dade". E em 62 a palavra Igreja é substituída. Agora
maioria meninas de 13 a 15 anos. Era C? ano de 1962. o tema atinge a sociedade e repercute na imprensa
Tempo de "reformas de base". Tempo de esperanças secular, no rádio, na televisão : "Cristo e o processo
em um novo destino nacional. E também dois anos revolucionário brasileiro".
antes do golpe militar. A Conferência do l\lordeste continua a dar teses e
Nesse contexto, porém, cheios de certezas, nos a despertar a curiosidade de estudiosos e de jovens
reunimos. Tratava-se de conviver com a verdade dra- evangélicos de hoje. Na sua década, através do Se-
mática do Nordeste, sair do eixo Rio-São Paulo, ofe- tor de Responsabilidade Social da Igreja, teve ex-
recer às igrejas evangélicas uma experiência ecumê- pressão ecumênica maior do que a instituição - a
nica voltada para a real/dade social brasileira. Era a Confederação Evangélica do Brasil - que abrigava
expressão culminante - e acabou sendo a última essa outra face da missão da Igreja.
daquela época - de um processo novo na tradicional Não dou dados nem nomes. Eles estão nos livros
eclesiologia brasileira. e nas teses. Quero apenas lembrar que o movimento
O começo foi em 1955, com a 1Consulta Nacional Igreja e Sociedade superou de certa forma o nível
e um tema não muito comum ao vocabulário da épo- teológico, ideológico e institucional em que se movia,
ca: "A responsabilidade social da Igreja". Dois anos timidamente, o protestantismo brasileiro. Foi, portan-
depois, tempo das metas de JK, falamos de "A Igreja to, um rompimento. O compromisso da fé tinha uma
e as rápidas transformações sociais do Brasil". Em nova referência, criava um vocabulário novo, outra
CONTEXTO PASTORAL REPORTAGEM 11

quo" e que assumiram uma pos- renegar todo o passado que tanta TEMPOS ÁRIDOS
tura serviçal para com dirigentes repercussãp causou nos meios A lacuna que essa nova situação
e grupos dominantes. O entrosa- evangélico e ecumênico brasi- do País provocou foi prolonga-
mento de setores de uma das leiros indicou forte grau de in- da. Por trás do "milagre econô-
igrejas evangélicas com o golpe coerência e desacreditou a insti- mico", do "Pra frente, Brasil",
foi tamanho que pastores e pres- tuição". do "Ninguém segura este país",
bíteros foram convidados a fre- Isso sem falar na adoção de a repressão corria solta e tinha
qüentar cursos e ciclos de estu- métodos repressivos como de- por objetivo a inibição do movi-
dos sobre segurança nacional e missões de funcionários identi- mento social. Nesse período de
desenvolvimento promovidos ficados com o compromisso so- exceção, setores da Igreja Cató-
pela Escola Superior de Guerra cial dos cristãos. lica e de algumas igrejas evangé-
(Brasil Presbiteriano, outubro de Esse processo levou ao esva- licas tiveram uma destacada im-
1964). ziamento da Confederação e ge- portância porque assumiram a
Alianças bem declaradas e rou sua estagnação. A entidade função de um grande guarda-
até oficiais de igrejas evangéli- perdeu o significado e a relevân- chuva, no qual se abrigavam
cas surgiram com toda a força, cia, e despiu-se teológica e ecle- aquelas pessoas que tiveram seu
aplaudindo o golpe e os poderes sialmente da proposta que tinha espaço e trabalho cerceados pelo
ditatoriais que emergiram. todas as possibilidades de ser um regime militar e que encontra-
Como decorrência dele, li- sinal vitalizante da marcha do vam na instância religiosa a re-
nhas programáticas da Confede- ecumenismo no Brasil. ferência desejada - ou disponí-
ração foram abandonadas. Se- vel. Esse processo, entretanto,
gundo o diretor do Departa- ficou restrito apenas a pouquís-
mento de Ação Social na época, simos setores de algumas igrejas
Jether Pereira Ramalho, "os di- evangélicas, e não representou
O golpe de 64 significou
rigentes da Confederação ava- nenhuma iniciativa conjunta por
a ruptura de um processo
liaram que os estudos e trabalhos parte do movimento evangélico
poderiam ser considerados peri- e o esfacelamento de
nacional.
gosos pelos órgãos de segurança grandes avanços na O processo de abertura políti-
nacional e resolveram, de forma · direção de uma Igreja ca que marcou o início da década
abrupta, terminar com · muitas brasileira voltada para de 1980 fez com que, pouco a
das atividades". Para Jether, "o a dignidade de vida pouco, organizações da socieda-

leitura da Bíblia - e da realidade social na qual vivía- obras de artistas consagrados: Portinari , Carybé,
mos mais como vítimas do que participantes. O pro- Goeldi, Vitalino. E na mesa estavam também Gilberto
jeto Igreja e Sociedade foi para nós uma forma de Freyre dizendo que já era tempo de os evangélicos
inserção na conjuntura nacional e a revelação das darem ao País uma contribuição cultural que ultra-
contradições do protestantismo e do País, das coisas passasse a expressão normativa e formal das gra-
velhas e novas que se produziam nas igrejas e na máticas da língua portuguesa.
cultura brasileira. Agora entendemos melhor o desafio? Paul Tillich
Entre as muitas experiências e mediações que nos fala da arte - a literatura, a música, a arquitetura,
constituíam então a nossa busca de unidade interna a pintura - como formas de mediação (ou de corre-
-e do encontro entre o sagrado e o secular-, quero lação) . E neste sentido a arte, a estética, podem se
destacar certa concepção est~tica que animava tomar em objeto da teologia. Assim como projetos
aquela aventura de um novo sopro do Espírito, dentro sociais e até programas políticos. Não por sua natu-
e fora da Igreja. As relações que pouco a pouco se reza intrínseca, mas pelo que podem representar
foram cor.solidando com pessoas e instituições cul- como sinais .
turais e sociais, naquela década de grande produção Para mim, trinta anos depois, a Conferência do
social e política, evidenciavam a alienação de nossas Nordeste foi um sinal . Que a nossa lembrança seja
formas de expressão - dentro e fora da Igreja. mais do que uma homenagem a um tempo que pas-
Na época, talvez não soubéssemos revelar por sou - é que no entanto está conosco. Quantos são
inteiro esse sentimento da inútil feiúra que marcava hoje os desempregados, as prostitutas, osº meninos
- ou escondia - a presença protestante no mundo. de rua?
Um dos pólos da Conferêncía do Nordeste foi justa-
mente uma exposição de originais de artistas brasi- Waldo César está vinculado à Igreja Luterana e é respon-
leiros preocupados com o sofrimento do povo - que sável pelas relações internacionais do lser. Foi secretário
despertou o interesse da televisão local. Mas eram executivo do Setor de Responsabilidade Social da CEB.
12 REPORTAGEM CONTEXTO PASTORAL

de civil se fossem reorganizando oporturústa dos tempos do golpe tido de reorganizar a Confedera-
ou sendo criadas. Sindicatos, as- - a nova etapa do Brasil serviu ção; c) a nova proposta estava
sociações de classe, movimen- para se envolverem em: acordos calcada em cima de pessoas e
tos de jovens, mulheres, merú- excusas e desabonadores . Foi não de uma associação de igre-
nos de rua, negros, estudantes, assim na Assembléia Nacional ja's; d) e a "nova" Confederação
entre outros, começavam a dis- Constituinte, quando um grupo não estava a serviço dos com-
cutir o papel que poderiam ocu- de deputados evangélicos se dei- promissos ecumênicos entre as
par dentro da nova conjuntura do xou seduzir por favores do go- igrejas evangélicas, mas sim de
País. No âmbito eclesial, 1982 verno em troca de apoio às suas uma política de apoio ao gover-
marcou a criação de uma asso- teses na elaboração da Consti- no .
ciação de igrejas - o Conselho tuição, por exemplo, cinco anos Esse quadro resultou na reali-
Nacional de Igrejas Cristãs (Co- de mandato para presidente da zação de um ato ecumênico de
rúc)- com o objetivo de reurúr República e o veto à reforma repúdio à ação dos constituintes
fraternalmente algumas igrejas agrária. Mais do que nunca, o fi - evangéli cos (Rio de Janeiro,
evangélicas, a católica e a orto- siologismo ("É dando qu!! se re- agosto de 1987), no qual repre-
doxa para ação comum e teste- cebe") passou a fazer parte do se ntantes de div ersas igrejas
munho cristão diante do cenário discurso e da prática desse gru- evangélicas assumiram posição
brasileiro. Trata-se de uma pro- po. Com essa mentalidade e com frontalmente contrária à reorga-
posta ecumênica, que ultrapassa a doação de uma verba de Cr$ nização da CEB, e não reconhe-
as barreiras confessionais e que 108 milhões a fundo perdido, ceram , na iniciativa do grupo,
busca, no esforço comum, parti- esse grupo " ressuscitou" (junho qu alquer objetivo de reunir as
cipar de modo responsável das de 1987) a Confederação Evan- igrejas em torno de teses verda-
grandes questões que compõem gélica do Brasil. Isso causou es- deiramente evangélicas.
o mosaico social, político, eco- pécie entre cristãos e várias igre-
nômico e cultural da Nação. jas evangélicas, já que: a) embo- NOVOS SOPROS DO VENTO
Se, para muitos, a redemocra- ra saiba-se que desde 1964 até Outra reação trouxe como fruto
tização e a abertura política trou- aquele momento, a Confedera- a criação da Associação Evangé-
xeram a oportunidade de se or- ção vinha diminuindo gradativa- lica Brasileira (AEvB). O pastor
garúzar em movimentos a fim de mente suas atividades, não hou- Caio Fábio d' Araújo Filho, fun-
participar das discussões do que ve um ato oficial de dissolução; dad o r da Visão Nac io na l de
acontecia no País, para outros - b) nenhuma notícia deu conta da Evangelização (Vinde) e hoj e
viciados na prática autoritária e posição oficial de igrejas no sen- presidente da AEvB, declarava

",/

GARANTINDO A UNIDADE
Darci Dusilek
,Esforços tentando estabelecer formas e veículos de Foi assim que surgiu a Associação Evangélica
cooperação interevangélicos não são coisa nova no Brasileira (AEvB) após muito debate, reflexão e ora-
Brasil. Sem dúvida alguma o grande momento vivido ção. Ela não pretende ser uma substituta natural para
pela família evangélica brasileira foi a organização da a, agora extinta, CEB. Mas tem uma proposta de ser-
Confederação Evangélica do Brasil (CEB) que, tendo viço bem ampla cobrindo desde os temas de Evan-
prestado relevantes serviços ao Reino em solo bra- gelização e Missões, passando pela Diaconia, até o
sileiro, infelizmente teve dificuldades de prosseguir exercício do ministério profético em relação aos pro-
em seu ministério e agenda com o golpe militar de blemas enfrentados pela nação. Somente a· igreja
1964. evangélica no Brasil é que irá permitir-nos ajuizar so-
Com o ocaso da CEB outros movimentos em prol bre a sua razão de ser.
da unidade aconteceram, mas de forma localizada e Creio que a AEvB veio para ficar. Mas este mesmo
assistemática (encontros de pastores e lideres, gru- fato vai depender da participação de todos, pois a
pos de trabalho em locais específicos) . própria gênese dP.1 AEvB foi resultado de um trabalho
A tentativ~ de políticos evangélicos de "ressusci - coletivo. Sua efetiva realização como processo his-
tar" a CEB apenas destacou o vazio em que nos en- tórico somente será legitimada se for, também , resul -
contrávamos nessa área, uma vez que o Conselho tado de um processo coletivo .
Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) não conseguia a
adesão de grupos mais conservadores para a sua Darci Ouallek é batista, 1° vice-presidente da AEvB e dire-
proposta. tor da Visão Mundial.
CONTEXTO PASTORAL 13

em 1989: "Nos últimos anos a os seus integrantes. O Clade ill, tidade é "uma associação de e
lgreja Evangélica vem sendo as- que vai ser realiudo em agosto para evangélicos, d~de os gru-
~olada por todo tipo de bombar- deste ano,' deve confinnar a dis~ pos históricos mais progressis-
deio interno e externo. Externa- cussão dos temas defendidos tas aos conservadores e pente-
mente assistimos .aturdidos às pelo grupo, especialmente a costais, sem nenhuma intenção
denúncias feitas pela impf'l'.Ma evangeliução integral. de transformá-la numa entidade
contra os evangélicos na políti- A Associação pretende ser o ecumênica que vise o relaciona-
ca, na administração dos bens referencial de pessoas e/ou gru- mento formal com expressões
públicos e na prática desastrosa . pos denominacionais, ·em espe- cristãs da fé existentes fora do
de um tipo de fé que, muitas ve- cial aqueles identificados com o protestantismo".
:zes, oprime mais do que liberta. Pacto de Lausanne, ou comuni- A história das associações en-
(...)Em razão de tudo isso, é fun- dades autônomas. Reunida em tre evangélicos passa, portanto,

Coletiva à lmprenu (1188): O deaagr•vo •oa conatltulnw evenpllcoa •à "rnsurrelçio" d• CEB


moblllzou lideres d•• dlwraas conftnões

<lamentai que recuperemos a A história das associações pela necessidade de testemunhar


proposta de um evangelho inte- entre evangélicos passa, a unidade do Corpo de Cristo por
gral" (Carta-convite do Con- portanto, pela necessidade meio de esforços e projetos co-
gresso da Vinde, 1989)'. de testemunhar a unidade muns. A bem da verdade, ativi-
Na realidade, se a Associação do Corpo de Cristo . dades têm sido propostas, alier-
Evangélica Brasileira nasceu em na tivas têm surgido. Há, no
1991, sua gestação vem aconte- entanto, que se avançar ainda
cendo há pelo menos dezoito mais, procurando levar as igre-
anos, com a realiução do Con- torno de pessoas e líderes evan- jas evangélicas a se abri~m ao
gresso Internacional sobre gélicos - característica do mo- diálogo e ao encontro de outras
Evangelização Mundial, de vimento evangelical - , a AEvB propostas cristãs que visem o
onde se originou o Pacto de Lau- busca sinaliur à sociedade bra- testemunho fiel dos valores do
sanne - arcabouço teológico e sileira referenciais de conven- Reino de Deus. E, acima.de tudo,
missiológico do movimento ções bíblicas que possuem o gru- "para que todos sejam um". ·
evangelical. De lá para cá, uma po de fiéis, as igrejas e as deno-
série de encontros tem marcado minações que a compõem. Magali do Nascimento Cunha 6
A meta principal que norteia metodista, jornalista e editora do jornal
o processo de fortalecimento do CON1EXTO PASTORAL
movimento evangelical (1 e II o trabalho da Associação é a uni- Paulo Roberto Salles Garcia 6
Congressos Latino-Americanos dade visível da Igreja (leia-se metodista, jornalista e editor-assistente
de Evangelização - Clade), igrejas evangélicas). Segundo do jornal CON1EXTO PASTORAL.
mediante pactos e acordos entre Caio Fábio d' Araújo Filho, a en-
14 D~ CONJUNTURA CONTEXTO PASTORAL

UM EXERCÍCIO DE MEMÓRIA
Relato de Rubem César Fernandes
Nos anos de 1950-1960 se pode falar realmente 1960 ela ganha um sentido maior porque é nesse
do pós-Guerra. Esse período foi marcado pela re- período que se tem a explosão ideológica mais
construção do desgaste da Guerra Mundial - re- forte dessa divisão, disputa e debate. Os anos de
construção física das cidades, mobilização das 1960, portanto, são palco de um amplo debate
pessoas em torno disso, etc. No final dos anos de internacional sobre vários pontos. Havia consen-
1940 começa a Guerra Fria, a guerra pela guerra. so de que a dinâmica do mundo era de progresso
O mundo se organiza em tomo de um grande de- - o tema do desenvolvimento surge com toda a
bate sobre o sentido da guerra. Os aliados haviam força, com a questão de como se desenvolver. A
vencido, e havia, então, a vitória, a experiência partir dessa dinâmica do desenvolvimento, a po-
progressista, esclarecida, iluminista. Havia a vitó- laridade entre Leste e Oeste, socialista e capitalis-
ria de uma aliança entre o mundo liberal., o mundo ta, liberal e comunista, cresce. Fruto desse debate,
social democrata e o mundo comunista. Todos se surgem lideranças mundiais com grande carisma:
aliaram na guerra contra o Eixo. No imediato pós- Kennedy, Martin Luther King, do lado capitalista
guerra, permanece ainda a continuaçao dessas liberal, e Nikita Kruschev, do lado socialista, que,
alianças no sentido da reconstrução, em que o de- superando o mito de Stálin, abria grande esperan-
bate interno se faz em tennos tentativos, limita- ça de renascimento do ideal socialista. Ele chegou
dos, não explícitos. Esse período da reconstrução a convencer todo mundo de que na disputa entre
termina por volta de 1948, e os anos de 1950 se os mundos socialista e capitalista, o primeiro es-
iniciam com uma disputa sobre o sentido dessa tava com maiores chances. O lançamento do sa-
vitória entre os aliados. Dá-se então a divisão do télite Sputnik foi um exemplo disso, pois a União
mundo que deflagra a guerra fria: entre o mundo Soviética, tida antes da guerra como atrasada, to-
socialista, tendendo para o comunismo; e o mun- mou dianteira no domínio da tecnologia em. ter-
do liberal. As duas grandes potências - União mos de experiência interplanetária. No Terceiro
Soviética e Estados Unidos - representando, res- Mundo houve essa grande perspectiva -vão todos
pectivamente, esses pensamentos. O mundo vive progredir e se desenvolver (a questão é como)-,
essa polaridade pelos anos de 1950, e nos anos de com a China fazendo opção clara pelo socialismo.

/:;/;
~' IF Havia também uma terceira

'l/// j) \~>,.,"t;1~N1Nn1'\'i/.i'.'
MarieLou1seNery via, espécie de combinação das
duascorrentes, com grandes per-

1 \\\~ 1
~\lll1t~t)tfkt~.~M\~~~\~·~;\~\1.
·'~\,;
\ K@ ,~ *\ ~(} ~
sonagens.
1 \ lll\ l\ .. ' l,t/ Era um mundo muito ideolo-
111
gizado, num debate que parecia
~'1,.\\~ll'\V4i\"À \11/ ~\V/~\ 'f!(\ll;_~\1•1'{,1 '~ X.\ ~/
~/ .~,)?/~) 1 >~t~\ y \\Í / claro, num processo histórico
que parecia inevitável. Aquestão
era quem levaria a melhor nessa
disputa pelo progresso.
Na América Latina, o tema do
desenvolvimento é muito forte.
No Brasil a era de Juscelino Ku-
bitsckek coloca o País nessa dis-
cussão, além de Getúlio Vargas
também tê-lo feito . Volta Redon-
da era sinônimo de progresso, a
metalurgia era a grande arte des-
se mundo. Não somente aqui
mas em todo o mundo, a meta-
iurgia era a indústria por exce-
lência e símbolo do futuro . Volta
Redonda era a cidade do futuro,
bem como outras cidades dos
países socialistas. Getúlio Var-
gas, com Volta Redonda e Petro-

• . ,
CONTEXTO PASTORAL CONJUNTURA 15

brás, e Juscelino Kubitschek com a indústria au- conseguiam lidar com os alunos. Eram greves
tomobilística, colocavam o País no caminho do atrás de greves, com propostas de reforma da uni-
progresso e no debate global. versidade. O movimento estudantil representava
Nesses anos, eclode também Cuba, que repre- um fervilhamento cultural. Nos anos de 1960, há
senta a alternativa socialista dentro da América uma obssessão pelo novo, representado com o
Latina. E Cuba teve um significado enorme por- surgimento da bossa nova, do cinema novo, o jor-
que até então, pela geopolítica, a América Latina nal Metropolitano (no Rio de Janeiro), os Centros
era território considerado de domínio dos Estados Populares de Cultura (CPCs) do Ministério da
Unidos. Mais ou menos por razões de natureza e Educação, o envolvimento efetivo da juventude
geografia, a América Latina estava condenada a nos diversos projetos, etc. Enfim, a juventude ga-
ter uma posição de dependência, e não tinha con- nhava um plano de primeira linha no debate na-
dições de participar do debáte de maneira positi- cional, e fazia uma opção clara, diante das discus-
va. Mas a vitória de Cuba na cara do imperialis- sões sobre o desenvolvimento, pelo socialismo. A
mo, abriu o debate na América Latina e mostrou empolgação era tamanha que a juventude achava
que a alternativa socialista poderia ser possível Já. que poderia mudar o mundo. Havia uma tremenda
O ideário socialista, portanto, ganhou destaque e ingenuidade messiânica nessa juventude, uma
importância, sobretudo nos meios jovens daquela falta quase total de conhecimento da complexida-
região, tendo Cuba como símbolo. de da realidade. Para nós, a história tinha um de -
No Brasil, a Cuba brasileira era o Nordeste. senho claro, bastava descobrir como fazer. Não
Essa região simbolizava o lado pobre, explorado, era um messianismo do além, mas um messianis-
que vive a revolução. O Sul estava no processo do mo sociologizado, da história, feito por forças his-
progresso diante dos marcos capitalistas, enquan- tóricas e sociais, que iam transformar o mundo.
to que o Nordeste parecia condenado ao atraso. Essa era a revolução.
Daí a revolta e o significado da região cresceram, Foi nesse contexto que a Igreja foi apanhada
como aquele símbolo da pobreza, injustiça, ex- quando começou a se interessar pelas ciências so-
ploração, e também da esperança - porque é da ciais. Parece-me que a Igreja foi afetada de ma-
injustiça que nasce a alternativa socialista. Por neira similar à sociedade como um todo. A juven-
exemplo, todo mundo que queria fazer filme pro- tude evangélica era a força de engajamento maior
gressista no Brasil ia para o Nordeste, porque ele dentro da Igreja - o jornal Mocidade Uuventude
significava o referencial simbólico ideal. E no presbiteriana), a revista Cruz de Malta (juventude
Nordeste, nessa época, surgiram as Ligas Campo- metodista), a União Cristã de Estudantes do Brasil
nesas com Julião, o que nos fazia mais identifica- (Uceb) - e vanguarda. Os seminários foram per-
dos ainda com Cuba, dado o carisma desse perso- meados por essa efervescência universitária . En-
nagem. Daí a realização da Conferência do quanto isso, as bases das igrejas, as gerações mais
Nordeste, pela aproximação, dentro do grande de- antigmi estavam muito assustadas com tudo isso
bate, com aquele lugar que simbolizava a explo- e as bases populares muito por fora de tudo isso.
ração, a miséria e o atraso dentro do mundo capi- Esse movimento sofria de uma fragilidade básica
talista. Não bastava simplesmente desenvolver, de um certo isolamento dos meios intelectualiza-
mas se exigiam grandes transformações. A Con- dos, do meio universitário ou dos seminários. As
ferência do Nordeste nos aproximava de Cuba, igrejas protestantes tiveram uma reação forte por-
das Ligas Camponesas, enfim, do imaginário da que esse messianismo sociológico tendia ser ca-
grande transformação. racterizado pelo ateísmo, porque eram setores
Em termos de geração, aquela que fez a guerra, muito pouco religiosos - ou quando eram reli-
fez a reconstrução e se esgotou por aí. O grande giosos, eram católicos. A Igreja protestante vinha
debate ideológico dos anos de 1960 empolgou, de uma história de oposição aos católicos. Daí a
sobretudo, a juventude, que entrou de cabeça. necessidade de um duplo esforço: dialogar com
Quem fez a guerra, tinha a cabeça mais compli- católicos e com marxistas. Nós, da juventude
cada, mais traumatizada. A juventude, diante das evangélica, fazíamos isso. Para a Igreja, de um
questões claras, é ganha por esse debate com uma modo geral, esse tipo de encontro parecia muito ar-
intensidade enorme. Em algumas universidades, riscado pois ela não estava preparada para isso. O
especialmente no Rio de Janeiro, havia casos em que ela fez foi cortar esse tipo de reação, uma reação
que aqueles jovens mais engajados liam ma"is, ti- conservadora que acompanhou o País inteiro.
nham mais a dizer do que os próprios professores,
e sobretudo eles liam coisas sobre as quais os pro- Rubem César Fernandes é antropólogo. vinculado ao
Instituto de Estudos da Religião (!ser) . Nos anos de 1960
fessores não tinham domínio. O movimento estu-
integrou a Uniã o Cristã de Estudantes do Brasil (Uceb).
dantil implodiu as universidades, pois elas não
16 'O~ DEPOIMENTO CONTEXTO PASTORAL

PAULO STUART WRIGHT


Depoimento de Jaime Wright
O telefone tocou. "Alô?!" Era a convocado para a guerra da Co-
voz mansa e inconfundível de réia. Fugiu dos Estados Unidos
Paulo. "Podemos nos encontrar para não perder sua cidadania bra-
hoje às 14 horas na Praça da sileira. Foi procurado pelo FBI.
Sé?". "Sim". No esquema com- De volta ao Brasil e casado
binado, nos encontramos às 15 com Eclimar Rickli, engajaram-
horas na Praça da República. se num projeto da Igreja Presbi-
Paulo StuartWrlght
Eram tempos de ditadura . Clan- teriana do Brasil nas fábricas
destinidade. Conversávamos so- paulistas. Fez-se torneiro mecâ- cassado por "falta de decoro par-
bre família e, principalmente, nico e atuou no bairro operário lamentar'' (não usava gravata e
teologia. da Vila Anastácio. Foi golpeado paletó quando subia à tribuna ... ).
Nas lembranças de nossa in- pela morte do seu primeiro filho Asilou-se no México e voltou
fância, em Santa Catarina, des- num hospital do antigo IAPC, um ano depois. Começavam
tacamos a ousadia dos nossos quando o filho na:>ceu desassis- seus dias de atividade subterrâ-
pais, ambos missionários norte- tido por médicos e enfenneiras. nea como líder do movimento
americanos. Tiveram a rara in- Jurou que iria lutar para que isso Ação Popular, originário dos
tuição de que seus filhos preci- não se repetisse na vida de ou- egressos dos movimentos estu-
savam estudar na convivência tros operários. dantis cristãos banidos: Juventu-
diária com outros brasileiros e Paulo sempre fez dos seus de Universitária Católica (JUC)
não numa escola segregada para dias a matéria-prima de suas e Associação Cristã de Acadê-
americanos em São Paulo. Fun- ações. Voltando a Santa Catari- micos (ACA). Viveu oito anos
daram uma escola nos salões de na, ajudou a criar os primeiros na clandestinidade. Nos primei-
madeira da Igreja Presbiteriana sindicatos de Joaçaba, inclusive ros dias de setembro de 1973, foi
de Herval, na margem esquerda o de metalúrgicos. Foi o primei- seqüestrado pelo II Exército ele-
do Rio do Peixe (Joaçaba está no ro candidato protestante à pre- vado ao DOI-CODI de São Pau-
outro lado do rio). feitura. Perdeu por 11 votos. Foi lo, onde foi torturado e morto
Lembrávamos também a co- eleito para a Assembléia Legis- nas primeiras 48 horas do seu ca-
ragem de "Dona Bela", nossa lativa. Denunciou o controle de tiveiro. Até hoje não se sabe o que
mãe, que, contrariando a vonta- grupos oligárquicos do Estado fizeram com seus restos mortais.
de de papai, pegou um trem e sobre a pesca. Organizou 27 Ruas em quatro capitais os-
viajou até o Rio de Janeiro para cooperativas de pescadores em tentam o nome de Paulo Stuart
buscar recursos para a instalação todo o litoral catarinense, reu- Wright. Na capital do seu esta-
do primeiro posto de puericultu- nindo-as, em seguida, numa fe- do, todas as igrejas se fizeram
ra na região (o posto funciona deração (Fecompesca) para co- representar na cerimônia de
até hoje). locar o controle da pesca nas inauguração da rua que passa ao
Exemplos missiológicos as- mãos dos pescadores (o que ins- lado da Igreja Metodista, menos
sim, fora do seu · tempo, contri- pirou Dias Gomes na primeira a Presbiteriana. Lá, ele tinha
buíram para tomá-lo um leigo novela em cores da Globo: "O sido eleito presbítero. Com o seu
cristão irrequieto, inconformado Bem Anlado"). ingresso na "política", a igreja
e, sobretudo, corajoso. Estava Na véspera do Natal de 1963, de Florianópolis o proibiu de fa-
identificado com os sofrimentos sofreu atentado a mando do par- zer oração e dirigir classe de Es-
e necessidades do seu povo. tido de Adhemar de Barros, mas co la Dominical. Pelo visto, a
Sua preocupação com a con- convenceu o ex-sargento contra- a1ústia ainda não chegou ao pres-
dição dos operários levou-o a tado para matá-lo de que tal cri- bítero (leigo) que teve a coragem
trabalhar na construção civil em me seria contrário aos interesses de levar suas convicções cristãs às
Los Angeles, nas férias dos seus da sua classe. Tomou-se "bode últimas conseqüências.
estudos de pós-graduação. Fun- expiatório" em 1964, quando a
dou, nos Estados Unidos, um Assembléia Legislativa foi pres- Jaime W ri ~h ;, i rmão de Paul o, é
grupo contrário à discriminação sionada pelo regime militar a secretário-gera : d> Igreja Presbiteriana
Unida do Brasil (IPU), e foi coordenador
racial. Estàva fazendo doutora- cassar alguém "corrupto" e/ou do Projeto "Brasil : Nunca Mais".
do em sociologia quando foi "subversivo ". Acabou sendo
CONlEXTOPASTORAL ANÁLISE 17

DO KAIROS PROTESTANTE:
,.. TRÊS DÉCADAS
DE CONFERENCIA DO NORDESTE
José Bittencourt Filho

Houve um tempo no qual os sonhos de unidade fim dos regimes populistas no Brasil e Argentina,
de Erasmo·Braga tomaram-se uma realidade pal- o surgimento da chamada guerra fria; o desenvol-
pável. Sob os eflúvios do movimento ecumênico vimentismo, a revolução cubana, foram alguns
internacioanal, as confederações evangélicas do dos ingredientes que contribuíram para a eclosão
Cone Sul, e · particularmente a Confederação de uma consciência crítica, uma expectativa de
Evangélica do Brasil (CEB), dispensaram um tra- esquerdi7Jlção dos regimes, e assim, o amadure-
tamento especial à temática da responsabilidade cimento de um processo revolucionário.
social dos cristãos. Vislumbrava-se um novo futuro de indepen-
Essa respomabilidade social seria - desde a • dência, autonomia, e de uma prática democrática
fundação do Conselho Mundial de Igrejas em regida pela lógica das maiorias empobrecidas. A
1948, nascido dos escombros da Segunda Guerra expectativa era tamanha, e as rápidas mudanças
- o próprio cerne da unidade visível dos cristãos. sociais pareciam corroborar a cada momento a
Afinal, se as igrejas cristãs foram parte integrante utopia, que se subestimou a capacidade do Siste-
do processo civilintório que plasmou sociedades ma, ao mesmo tempo em que se superestimou o
bélicas, opulentas, expansionistas e imperialistas, potencial de propostas revolucionárias, assim
era chegado o momento do arrependimento, da como de seus p.rotagonistas.
penitência, e da solidariedade concreta com as ví-
timas daquele processo. IGREJA E SOCIEDADE .
Além dessas motivações mais remotas e glo- Em 1961, as confederações evangélicas do Cone
bais, o co{ltinente latino-americano encontrava-se Sul fundaram em conjunto a Junta Latino-Ameri-
numa .grande efervescência. o fim da guerra, o cana de Igreja e Sociedade - mais tarde Igreja e
~ Marie Louise Nery Sociedade ·na América Latina
(Isal)- com a intenção de man-
ter µm espaço ecumênico de
ação e de reflexão que contem-
plasse o momento histórico -
momento esse horizontalmente
atravessado pelos ideais libertá-
rios e pelos anseios por mudan-
ças estruturais irreversíveis.
Nesse espírito o Departa-
mento de Estudos sobre a Res-
ponsabilidade Social da Confe-
deração Evangélica do Brasil,
dest:ncadeou um processo de
.-- consultas e encontros que se de-
sejava fossem capazes de aglu-
tinar as igrejas do Protestantis-
mo de Missão e fazer com que
ele aprofundasse ra(zes na reali-
dade sociocultural brasileira.
Pela vez primeira, os evangéli-
cos decidiram elaborar um pro-
jeto conjunto de participação
efetiva relevante na realidade
nacional. Isto, de forma autóctà:-
ne, ou seja, autônoma em rela-
ção às igrejas-mães situadas nos
Estados Unidos da América.
18 'Ot.W. .ANÁLISE CONTEXTO PASTORAL

Tal contextualização exigia não só uma parti-


cipação do laicato e mobilização dos clérigos e
das lideranças, mas também a produção de um
conhecimento bíblico-teológico que desse conta
não só. dos novos desafios, como das novas mo-
dalidades de ação e participação sociais que advi-
riam. Nesse empreendimento não se poderia pres-
cindir do concurso das ciências sociais, nem de
uma discussão qualificada acerca da problemática
cultural.
A questão cultural sempre tinha sido um ponto
fraco do evangelismo protestante, em decorrência
da identificação apressada efetuada pelas Mis-
sões, entre pecado e cultura nativa. Assim sendo,
aquela discussão revestia-se de uma importância
fundamental, e demonstrava tanto a seriedade
como a radicalidade da proposta.
Uma análise mais detida da temática, textos,
preletores, e recomendações enunciadas tanto nos
encontros preparatórios, quanto na conferência
principal, torna clara a pedagogia que orientou
esse emprendimento pastoral no período entre
1955 e 1962. Quase uma década de esforços ge-
nuinamente educativos e conscientizadores que
culminaram no enfrentamento lúcido e corajoso-
do do "processo revolucionário brasileiro". renúncia de Jânio - mas faltava-lhes coesão in-
O próprio local da Conferência de 1962, não terna e respaldo internacional. Com o apoio dos
foi escolhido aleatoriamente, nem segundo con- contingentes mais alienados das classes interme-
veniências operacionais. Recife era o epicentro po- diárias, finalmente impôs-se o arbítrio.
lítico do Nordeste; região na qual as injustiças e Em algumas denominações evangélicas, as bu-
diferenças sociais atingiam níveis alarmantes, e até rocracias eclesiásticas dirigentes anteciparam-se
por isso converteu-se num pólo de resistência e de ao golpe e tomaram medidas discricionárias con-
organização políticas contra as oligarquias locais e tra líderes, intelectuais, organizações de juventu-
os setores da sociedade política nacional que as se- de e comunidades locais mais combativas. Após
cundavam. A escolha do local constituía-se também, o golpe, os dirigentes conservantistas sentiram-se
num símbolo de aproximação do protestantismo da à vontade para deslanchar a repressão e o expur-
autêntica cultura brasileira, nascida na criatividade go. Um dos alvos prioritários, evidentemente, ou
do povo em meio à opressão e à pobreza . mais precisamente, foi o Setor de Estudos e Res-
ponsabilidade Social.
CORTAR ASAS DE QUEM VOASSE ALTO Dirigentes da própria CEB, aliados a autorida-
Entrementes, as forças nbscuras estavam engen- des eclesiásticas, movidos pela inveja, pelo des-
drando seu plano de retomada totalitária do poder, respeito e pela mediocridade, trataram de eliminar
no fito de implantar um novo modelo econômico até os vestígios do trabalho realizado pelo Setor.
que introduzisse o Brasil e seus vizinhos na gran- O estoque no qual se encontravam as publicações
de internacionalização do Mercado. No interior que continham o precioso material reurudo duran-
das instituições eclesiásticas, não faltavam seg- te as conferências, foi invadido, e grande parte do
mentos apreensivos com o que ocorria na Confe- material simplesmente destruído. Nesse episódio
deração e estavam ansiosas por uma reação que policialesco não faltaram agentes do famigerado
detivesse aqueles vôos temerários! Deops, qur- foram à sede da CEB para prender
O golpe militar de 1964 desabou sobre o País, integrantes do Sewr, por força de denúncia de um
onde as reformas de base, o papel dos sindicatos, colega(?!) pastor.
a organização camponesa, e a lei de remessa de
lucros estavam na ordem do dia. Os setores mili- ECUMENISMO, A GRANDE VÍTIMA
tares mais reacionários já haviam tentado o golpe O medo e a covardia atingiram tamanha magnitu-
anterionnente-como foi o caso da manobra gol- de que os funcionários do Setor foram sumaria-
pista que se travestiu de parlamentarismo após a mente demitidos e o clima de censura e repressão

' I
CONTEXTO PASTORAL ANÁLISE 19

condenou a CEB como um todo a morrer de ina- necessidade de uma relação mais estreita entre a
nição. A partir daí não se alcançou quorum em teologia e as ciências do social. Com isso lança-
assembléia sequer para dissolver a entidade. Por- va-se a semente daquela que mais tarde viria a ser
tanto, juridicamente, a CEB continuou existindo, denominada Teologia da Libertação.
e isto ensejou que na década passada, os compo- No tocante à prática pastoral tentou-se erigir
nentes da "bancada evangélica" (de triste memó- · um projeto de unidade cujo eixo fosse o serviço
ria) tentassem revitalizá-la de cima para baixo. ao próximo e uma práxis solidária. Tudo isso
Com todos esses fatos, preparou-se o clima que quando a Igreja Romano-Católica ainda fazia as
iria impor-se na década seguinte (os anos de pazes com a modernidade por intermédio do Con-
1970), que podemos denominar "idade das trevas" cílio Vaticano II.
do protestantismo brasileiro. Ao lado do retomo Lamentavelmente tudo não passou de um en-
do sectarismo denominacionalista, o expurgo dos saio, um aperitivo. As forças anti-Reino ganharam
intelecíuais provocou a decadência do ensino teo- a batalha e as denominações, despreparadas para
lógico, e abriu espaço para os institutos bíblicos o kairos, bateram em retirada face aos poderes
tidos como inter e supradenominacionais. O obje- demoníacos que se instauraram em várias instân-
tivo último deles era ideologizar e domesticar os cias. Só alguns anos mais tarde, a Igreja Romana
jovens vocacionados para o ministério ordenado. iria reunir condições objetivas para dar uma res-
A educação religiosa por seu turno, mergulhou no posta pastoral condizente ao momento adverso.
obscurantismo, devido à falta de quadros compe- Conforme já mencionamos, o remanescente
tentes e à censura tácita aos conteúdos. Os movi- alocou-se no movimento ecumênico e nas entida-
mentos de juventude foram desbaratados por de- des, nos planos nacional e continental. É oportuno
cretos e perseguições; e o ecumenismo incipiente lembrar que no período de ascenso dos regimes
banido e anatematizado. de segurança nacional, o movimento ecumênico
Paralelamente, esforços foram dispendidos no Marie Louise Nery
sentido de apagar a memória de quase duas déca-
das de contextualização, e de fato, parece que o
Protestantismo de Missão sofreu uma plástica que
o tornou irreconhecível após os anos de 1960, so-
bretudo quando comparado com o que se viveu e
se produziu no período entre 1900 e 1964. Os re-
manescentes tiveram que recorrer ao exílio volun-
tário, ou acomodar-se ao ostracismo, ou ainda re-
fugiar-se no movimento ecumênico continental.
Houve ainda aqueles que se articularam com a
fundação de entidades ecumênicas de serviço, por
meio das quais passaram a desenvolver ministé-
rios alternativos, com todos os riscos dessa alter-
nativa.

DO REMANESCENTE À TEOLOGIA
DA LIBERTAÇÃO
Segundo Paul Tillich, o kairos inclui a voz profé-
tica de denúncia, que prepara e acompanha a ma-
nifestação daquilo que segundo a fé cristã é o cen-
tro da história, e uma afirmação da presença do
Reino entre os homens. Portanto, no kairos a crí-
tica une-se à criação. Após a crise latente desde os
anos de 1950, quando o Protestantismo brasileiro
surpreendeu-se por não possuir nenhuma proposta contribuiu efetiva e decisivamente, na defesa dos
inovadora para a sociedade brasileira, parecia, na- direitos humanos, à época, violados com muita
queles dias áureos da Conferência do Nordeste, freqüência.
que o Espírito concedia a chance de um novo co- O remanescente e seus discípulos ainda hoje
meço. vivem na diáspora eclesial, e aqueles que não se
Do ponto de vista teológico e bíblico, a Confe- perderam, portam a bandeira do ecumenismo com
rência - e suas etapas preparatórias -introduziu humildade e reverência, mas também com deci-
_inovações e antecipações inusitadas; entre elas a são e energia, porquanto os tempos que viveram
20 'f)~ ANÁLISE CONTEXTO PASTORAL

Marie Louise Nery


proposta do evangelismo massi-
vo, haverá lugar para um protes-
tantismo equilibrado, criterioso,
e verdadeiramente ecumênico?
Diante da crise das utopias liber-
tárias, será possível a um protes-
tantismo tão flagelado e fragili-
zado prestar uma contribuição
relevante?
Resta o discernimento da fé
para se descobrir como o Deus
bíblico está atuando em nossa
realidade brasileira e latino -
americana no tempo presente. O
dado fundamental é que nada
poderá acontecer sem que esses
fatos sejam trazidos de volta às
novas gerações de cristãos enga-
são inesquecíveis, e a responsabilidade maior é jados, para que possam ser analisados e sopesa-
transmitir o legado, a começar por aqueles a quem dos. Sem a disseminação dessas idéias e práticas
esse passado foi sistematicamente sonegado. pelas quais há trinta anos o protestantismo brasi-
leiro lutou e pagou o preço, nada realmente novo
MEMÓRIA SUBVERSIVA poderá nascer. Afinal, a memória é sempre sub-
O Espírito de Deus irá providenciar um novo kai- versiva.
ros para o protestantis!llo brasileiro? Será possível
atenuar ou eliminar os efeitos deletérios da "idade José Bittencourt Filho é pastor presbiteriano, mestre em
das trevas"? Haverá quem possa congregar as tes- Ciências da Religião e coordenador do Programa de
temunhas daquele kairos que perseveraram, mas Assessoria à Pastoral do CEDI.
que se encontram na diáspora? Em meio à atraente

VOLUME QUE FALTA À HISTÓRIA


DA IGREJA NO BRASIL
Carlos Cunha
Foi violentada, neste nosso Brasil, bandeira no lema "Cristo e o pro- Como em toda a história hão de
a história da Igreja. Uma repres- cesso revolucionário brasileiro". desfilar heróis conhecidos e anô-
são vergonhosa se abateu sobre Nestes dez anos a obra sonhada nimos, e covardes que, na tormen-
nós durante quase duas décadas e necessária sofreu vaivéns pelas ta de 1964, se agarravam a peda-
(1964-1978) e tentou fazer cinzas crises econômicas, pelas buscas ços de madeira, de uniformes, de
de algumas das páginas mais ri- de convênios editoriais. Mas reu- canos de fuzis, de cordas e grita-
cas dessa mesma história. Entre- niram-se artigos, folhetos, opús- vam: "Eu não tenho nada com
tanto, um remanescente fiel clan- culos, conferências, decisões de isso! Foram eles !". Essa história
destino, na clandestinidade pre- grupos de estudo, proclamações, precisa mostrar que estavam en-
servou documentos que reunimos ceiebrações, recortes da impren- terrados até o pescoço, mas
em 1982 e agora estamos fazendo sa não-eclesiástica, pesquisas. queriam salvar-se da enxurrada
livro. A própria gênese da Teologia Por fim, o conjunto tão apaixonan- suja, negando e acusando com-
da Libertação está ainda capenga: te nos exigiu um índice remissivo panheiros.
tem uma perna latino-americana, de conceitos, entidades, pessoas, Muito mais breve do que pen-
mas falta-lhe a outra, brasileira. datas, uma seleção dentre mais sem, "Cristo e o processo revolu-
Essa gama de textos cobre de dezesseis mil verbetes a fim de cionário brasileiro" estará à dispo-
sete anos de uma história que, no fornecer aos leitores uma contri- sição. Mais de duas mil laudas de
País, é arroio (1955), regato buição para remontarem o mural texto, fotos, facsímiles - um calei-
(1957), rio (1960), caudal (1962). da incrível história da Igreja nacio- doscópio fascinante.
Neste último estágio se chama nal e continental.
Conferência do Nordeste e foi
CONTEXTO PASTORAL DEPOIMENTO 21

O ANSEIO DE UMA VIRADA


QUE 64 TORPEDEOU
William Schisler Filho

CONTEXTO PASTORAL está O MOMENTO dos, davam uma homogeneida-


tendo o mérito de nos acordar. O Brasil vivia a euforia da inte- de ao protestantismo brasileiro,
Está salvando em nossa memó- riorização da capital. Essa mu- e tomavam confortável a sua
ria coletiva aqueles primeiros dança foi como arrancar a ânco- unidade na Confederação Evan-
momentos do encontro dos ra que prendera a nau brasileira gélica do Brasil. As igrejas den-
evangélicos em busca de sua à costa do País, saudosa de suas tro em poucos anos mais seriam
unidade e missão, bem como origens e dependências além- abaladas e até cindidas por uma
seus documentos. mar. Kubitsckek teve a coragem segunda onda pentecostal que,
Esta redescoberta do nosso de levantar ferros e fazê-la cru- diferente daquela nascida das
passado nos surpreende e, às ve- zar em sentido contrário o mar Assembléias de Deus e da Con-
zes, assusta. Surpreende, por nos interior de nossas florestas e ser- gregação Cristã do Brasil, veio
revelar quão adiantados, em al- tões. Uma onda de nacionalismo de confronto com elas. Da ex-
guns pontos, estavam nossos an- e esperança varreu o Brasil. Sol- plosão, cada dia se recolhem. os
tecessores. Assusta-nos porque tadas as amarras centenárias, estilhaços de uma nova denom;-
acabamos percebendo que, em toda a mudança parecia então nação que surge, basta haver um
muitas formas, estamos hoje possível: industrialização ao in- "iluminado" que a constitua.
aquém dos ideais levantados que vés de exportação de matéria- A liderança da mocidadP.
eles procuraram concretizar. prima que fazia a riqueza de ou- evangélica tinha seu ponto de
Haja vista a Confederação Evan- tros; reforma agrária para valo- contato no Departamento da
gélica do Brasil (CEB) que soço- rizar o homem do campo; Mocidade da Confederaç~o
brou depois de tão bons serviços alfabetização pelo método Paulo Evangélica do Brasil. Inquietos,
prestados a suas igrejas-mem- Freire, que devolvia às bases o os jovens procuravam conciliar
bros. caminho de sua libertação; a re- o mundo em ebulição a seu redor
Hoje uma dezena de siglas se descoberta do direito a uma im- com sua fé. Lembro uma confe-
encontram (e às vezes se desen- prensa livre, ao debate, a comí- rência proferida num congresso
contram) procurando advogar e cios, a partidos, a sindicatos; o de mocidade por Richard
dar formato a essa unidade per- velho Nordeste respirando a es- Shaull, um dos catalisadores e
dida. perança de deixar o Quarto profetas dessa juventude. Nós da
O ponto da "virada" nesta Mundo com a criação da Sude- Cruz de Malta a publicamos
história de quase um século do ne; a Amazônia que começa a ser posteriormente dando-lhe o títu-
protestantismo brasileiro foi, na cortada pelas primeiras grandes lo/chamariz de "A Posição do
minha opinião, a Conferência do estradas; e, numa tentativa Je in- Cristão é de Esquerda". Shaull
Nordeste, levada a efeito pelo re- dependência, o Brasil a equili- nada mais disse senão que, num
cém-criado (em 1962) Setor de brar seus compromissos com os Brasil ainda dominado por suas
Responsabilidade Social da Estados Unidos e com a Europa elites (direita) o cristão tinha a
Igreja, da CEB. ocidental: Jânio Quadros conde- responsabilidade de corrigir a.
Eu participei dessa Conferên- corando Fidel Castro e João distorção lutando a favor do pe-
cia, em Recife, como um dos de- Goulart fazendo uma visita ofi- queno (esquerda) para trazer a
legados de minha Igreja. Como cial à China comunista. -sociedade de volta a um equilí-
redator da revista da mocidade A palavra "ecumenismo" brio dinâmico, somando oportu-
metodista, Cruz de Malta, eu tra~ nessa época limita.va-se a um nidades para todos. Nada mais
zia o entusiasmo quase ingênuo sentido pan-evangélico. Ainda cristão e democrático! Mas não
mas muito sincero de um movi- estava por acontecer o Concílio faltou quem começasse a falar
mento jovem dinâmico que so- Vaticano II, com suas alvissarei- na "infiltração do comunismo na
nhava com um mundo revolu- ras conseqüências. As igr(!jas Igreja".
cionado por um Cristo que fazia evangélicas históricas, quase to- A maturidade dos que se ha-
"novas todas as coisas". das originárias do espírito mis- viam formado no movimento da
sionário do sul dos Estados Uni- mocidade evangélica - tanto
22 "()~ DEPOIMENTO CONTEXTO PASTORAL

A CONFERÊNCIA
Confesso que minha me-
mória me trai quanto à
Conferência em si. A do-
cumentação que trouxe
de Recife se perdeu em
minhas mudanças pasto-
rais. Lembro a vibração
por mudanças radicais
que dava aos delegados
tt' uma visão quase messiâ-

\.: nica do futuro. Era a vi-


são de uma "escatologia
realizável".
Duas apresentações
durante a Conferência
me marcaram: as do so-
No momento de Conferência: Weldo CéHr (secretário do Setor de ciólogo Gilberto Freyre e
ResponHbllldede Soclel), o bispo Almlr dos Santos (presidente de Conferência)
e Carlos Cunhe (secretário de Conferência) do economista Celso
Furtado. Trabalhávamos
nas igrejas como nas universida- Mal sabiam as igrejas que os temas da Conferência
des - e dos que haviam partici- uma contra-revolução se arma- em grupos, produzíamos avalia-
pado da caminhada do Conselho va. A luta do Ocidente contra o ções e resoluções. Víamos a
Mundial de Igrejas (fundado em expansionismo ideológico do Igreja se abrindo para o mundo
1948) foi originária de Setor de comunismo se acirrou, ganhou e sonhamos com uma revolução
Responsabilidade Social da aliados no exército e nas elites pacífica (alguns achando que te-
Igreja que, com o aval da Confe- econômicas brasileiras e estas, a ria que ser mais do que isto) que
deração Evangélica e com o au- fim de garantir sua visão de Bra- traria a nosso povo sofrido as
xílio do Conselho Mundial, le- sil, encontraram motivos no go- oportunidades que lhe faltavam.
vou a efeito a Conferência do verno pusilânime de João Gou- E nos comprometemos a voltar
Nordeste cujo tema foi "Cristo e lart para destruir uma demo- a nossas igrejas lutando por es-
o processo revolucionário brasi- cracia que recém se firmara após sas metas.
leiro". a ditadura Vargas. E impuseram Os primeiros resultados da
a ditadura militar do Golpe de Conferência começaram a se
REVOLUÇÃO 1964. sentir logo nas igrejas partici-
A palavra "revolução" da temá- Nunca esquecerei uma "Mar- pantes. Lembro como a Cruz de
tica da Conferência do Nordeste cha pela Família e Liberdade" Malta fazia questão de focalizar
prestava-se a outras interpreta- que preparava psicologicamente reportagens que mostravam a
ções, fora do contexto qu e a o povo para o golpe. Milhares de forma concreta de cristãos agi-
Conferência lhe quis dar. A revo- pessoas desfilaram pelas ruas rem na mudança de situações so-
lução cubana, que virara marxis- centrais de São Paulo. Uma das ciais injustas: um pastor solidá-
ta, praticamente se apropriara da maiores faixas proclamava a rio com seus membros ferrovi-
palavra e produzia nos cristãos adesão de uma igreja evangélica ários, sentando-se com des em
· brasileiros um misto de admira- da capital paulista notória por greve nos trilhos da Estrada de
ção (por seus avanços sociais) e ser igreja da alta burguesia. Ferro Sorocabana; um leigo
medo (por sua negativa à reli- Eram evangélicos ingênuos da cristão se identificando com os
gião e centralização em um ho- direita; tanto quanto os havia da camponeses do interior de Goiás
mem). esquerda. A Conferência do numa mini-reforma agrária en-
A tentativa da Conferência do Nordeste tentou mostrar in loco, tre irmãos de uma mesma fé; um
Nordeste foi de devolver ao con- no coração do Nordeste, o retra- deputado evangélico em Santa
texto bíblico essa palavra, mos- to real do Brasil e dar embasa- Catarina organizando pescado-
trando um Deus que faz tremer a mento bíblico, teológico e socio- res espoliados em cooperativas
terra e "sacode as nações" com 1ó gi co ao posicionamento para a comercialização de sua
sua justiça (Hc 3.6) chama seu evangélico. Mas, veio tarde. pesca; grupos jovens alfabeti-
povo a ser transformador do Quando começava a exercer in- zando e evangelizando, cons-
mundo (At 17.6). fluência 1964 a torpedeou. truindo casas em favelas e cape-
CONTEXTO PASTORAL DEPOIMENTO 23

A tentativa da Conferência Mas não se apagou. É desse com o mundo secular que enten-
do Nordeste foi de mostrar período difícil o projeto " Brasil de a linguagem e testemunho de-
um Deus que faz tremer a Nunca Mais", iniciativa de um les. Os da dimensão vertical en-
terra e "sacode as nações" evangélico com cobertura do contram mais receptividade
com sua justiça (Hc 3.6) cardeal arcebispo de São Paulo intra-igreja, pois falam a lingua-
que rasgaria para sempre o espa- gem tradicional do espírito evan-
chama seu povo a ser
radrapo com que os militares gelístico e pietista que produziu a
transformador do mundo
procuraram esconder do povo a dinâmica do movimento evangé-
(At 17.6) ferida das torturas. E dentre re- lico brasileiro e se exaspera hoje
manescentes da Conferência do na explosão pentecostal.
Nordeste surgiriam os líderes 3. Trinta anos mudaram o
las para levar a luzir a Palavra de para o Centro Ecumênico de Do- . mundo e a Igreja . O mundo viu
Deus. Outros ingressando em cumentação e Informação o suicídio do estado soviético e
partidos políticos, movimentos (Cedi). a derrocada do comunismo
comunitários e sindicatos para como a grande utopia. Ao mes-
dar expressão a sua fé e idéias. CONSEQÜÊNCIAS mo tempo as igrejas começaram
Era um esforço por manter Essa rápida e imperfeita análise 'l descobrir a sua unidade maior
um equilíbrio entre o social e o e testemunho históricos com- com o ingresso do catolicismo
pessoal, entre evangelização na porta, creio eu, quatro preocupa- romano na corrente ecumênica.
ação comunitária e ação comu- ções com o protestantismo bra- 4. Alguém definiu "moderni-
nitária na evangelização, entre fé sileiro hoje, conseqüência das dade" como o processo pelo qual
e envolvimento. Era a consciên- realidades de ontem. as diferentes esferas da vida em
cia de que não se faz visível o 1. Estrutura-se cada vez mais sociedade se tomam autônomas,
Reino de Deus sem que haja pes- a divisão entre os que advogam deixando de ser orientadas por
soas "nascidas de cima" e que a dimensão horizontal do Evan- uma sólida visão de mundo e
têm o Reino de Deus dentro de- gelho, voltado para o ser huma- uma espiritualidade unificante.
las; e que não é possível ter uma no e para o mundo, e os que ad- Vejo este pe rigo nos movimen-
"sociedade do Reino" sem vogam a dimensão vertical, tos que tendem a fazer de uma
"agente do Reino". voltada para o ser humano e a parte o todo dentro do próprio
Veio então o golpe de 31 de necessidade de sua reconcilfa- evangelismo brasileiro deste fi-
março de 1964. Foi como uma ção com Deus. Isto atravessa to- nal de século.
torrente que varreu o Brasil e as das as denominações e atinge to- O maior tributo à Conferên-
igrejas. Prisões, denúncias, tor- dos os seus aspectos - inclusive cia do Nordeste neste seu trigé-
turas, medo ... A minha denomi- a hinologia. Para os da dimensão simo aniversário seria uma
nação por sua tradição histórica horizontal a bandeira se fez Teo- "Conferência Brasileira" que
de envolvimento social e de ter logia da Libertação. reintegrasse o horizontal ao ver-
naquela época uma ativa Junta 2. As fontes que alimentam tical, na visão de Deus para a si-
Geral de Ação Social foi uma essa divisão vêm de fora do País tuação concreta do Brasil e dos
das que melhor resistiu, mas em termos econômicos, embora brasileiros.
também a que mais sofreu com a fermentação e a visão seja nos- Mas a rea lidade - a triste
aprisionamentos e mortes, tanto sa. Tal suporte financeiro se re- realidade - é que nesta altura
de leigos como de clérigos. vela em salários e abundância de ninguém se considera com auto-
Nessa avalancha desagregou- recursos para literatura, reuniões ridade suficientemente ampla e
se a Confederação Evangélica e cursos. As igrejas recebem a inclusiva para tal convocação.
(marcada pelas posições assu- influência sem se sentirem res- Se um dos muitos grupos agluti-
midas em Recife), desmantela- ponsáveis; e os líderes desses nadores tentar, há quem fique de
ram-se os movimentos jovens movimentos não se sentem res- fora .
nas igrejas, fechou-se por um ponsáveis para com as igrejas, Se a Conferência do Nordeste
ano o seminário metodista de mas para cotn os que lhes pagam foi um marco, parece neste mo-
Rudge Ramos devido à contes- as contas. Em alguns casos são mento difícil repeti-lo.
tação de seus 85 alunos, exila- líderes alijados de uma igreja lo-
ram-se no exterior líderes das cal ou da vida ativa de sua deno- William Schisler Filho é pastor da
igrejas que haviam estado so- minação. Os da dimensão hori- Igreja Metodis ta do ltacorubi, Flo-
rian ópolis , se, e diretor do Centro
cialmente envolvidos. E a luz zonta 1 têm influência maior Vivencial para Pessoas Idosas daquela
nascida na Conferência do Nor- sobre indivíduos insatisfeitos capital.
deste bruxuleou ... com o status quo das igrejas e
24 CONTEXTO PASTORAL

O QUE HÁ PARA APROFUNDAR O TEMA

LIVROS E DOCUMENTOS de julho de 1962). Descreve os


• Estudos sobre a principais acontecimentos,
responsabilidade social ata.>, palestras, recomenda-
da Igreja. ções e participantes.
Primeira consulta realizada
pela Confederação Evangélica • De como se interpretaria
do Brasil (São Paulo, 15 a 18 a conferência do Nordeste,
de novembro de 1955). in: Cristo e o processo
revolucionário brasileiro:
•A Igreja e as rápidas volume 1.
transformações sociais Almir dos Santos • A forma da Igreja na
do Brasil. Editora Loqui situação presente.
Segunda Consulta promovida Aspectos significativos da Rubem Alves
pela Comissão de Igreja e So- Conferência para a história do A estrutura da Igreja na situa-
ciedade da Confederação País e da Igreja. ' ção brasileira dos anos 1950-
Evangélica do Brasil (Campi- 1960.
nas, fevereiro de 1957). • A renovação da Igreja
DOCUMENTOS na história
PREPARATÓRIOS W. A. Visser't Hooft
• Evolução no Brasil
PARA A CONFERÊNCIA A necessidade de renovação
Florestan Fernandes
DO NORDESTE das igrejas através da unidade
Da Terceira Consulta (São
Paulo, fevereiro de 1960). Re- • Vida e estrutura atual da e solidariedade, citando os
visão do "Brasil do passado'', Igreja em relação com o seu avanços do ecumenismo.
salientando influência social testemunho na sociedade
do "líder religioso". latino-americana. • Relatório da viagem .
Richard Shaull ao Nordeste.
• Vocação da Igreja 1Ul Aspectos de renovação da Carlos Cunha & Almir dos
vocação política de um povo. igreja e da participação dos Santos
Richard Shaull cristãos na sociedade. Relatório sobre a preparação
Da Terceira Consulta. Relação da Conferência do Nordeste.
entre o Evangelho e a partici- • Reflexões sobre a Contatos com pessoas, grupos
pação política no Brasil. pré-revolução brasileira. e igrejas.
Celso Furtado
• Participação dos As mudanças sociais no Bra-
sil, destacando o custo social VÍDEO
evangélicos na evolução
política do Brasil. do desenvolvimento. • PSW, uma crônica subversiva
Waldo A. Cesar · Verbo Filmes - NTSC/50 min.
Estudo preparatório · para a • O artista: servo da Biografia de Paulo Stuart
Terceira Consulta. Fundamen- humanidade. Wright. Relata sua atuação na
tos para a participação política Jacqueline Skiles vida política e social do Brasil,
dos evangélicos. Compreensão da Igreja dopa- e .culmina com sua prisão e de-
pel do artista à emancipação saparecimento no período da
• Cristo e o processo do homem e sua humanização. ditadura militar.
revolucionário brasileiro:
a Conferência do Nordeste. •Ideologia cristã como base
Volumes: 1 e 2. para a ação social da Igreja. Os livros e documentos fazem parle do
Joaquim Beato acervo do setor de documentação do
Waldo A. Cesar Programa de Assessoria à Pastoral do
Editora Loqui Confronta as bases sociológi- CEDI e estão à disposição para consulta
Crônica e as conferências cas e as teológicas para a ação (R Santo Amaro, 129- Glória - Rio
apresentadas na Quarta Con- social da Igreja. de Janeiro/RJ - teL: 021-224-6713).
sulta da CEB (Recife, 22 a 29