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13/02/2019 Pequeno glossário da teoria de Bourdieu - Revista Cult

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Pequeno glossário da teoria de Bourdieu

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Os conceitos de Bourdieu, aqui expostos de maneira esquemática, devem ser compreendidos


em sua interdependência, ou seja, na relação de um ao outro. Como adverte o próprio autor,
em Réponses: “noções como habitus, campo e capital podem ser definidos, mas somente no
interior do sistema teórico que eles constituem, nunca isoladamente.”

Eduardo Socha

campo: noção que caracteriza a autonomia de certo domínio de concorrência e disputa


interna. Serve de instrumento ao método relacional de análise das dominações e
práticas específicas de um determinado espaço social. Cada espaço corresponde,
assim, a um campo específico – cultural, econômico, educacional, científico,
jornalístico etc -, no qual são determinados a posição social dos agentes e onde se
revelam, por exemplo, as figuras de “autoridade”, detentoras de maior volume de
capital.

capital: ampliando a concepção marxista, Bourdieu entende por esse termo não
apenas o acúmulo de bens e riquezas econômicas, mas todo recurso ou poder que se
manifesta em uma atividade social. Assim, além do capital econômico (renda, salários,
imóveis), é decisivo para o sociólogo a compreensão de capital cultural (saberes e
conhecimentos reconhecidos por diplomas e títulos), capital social (relações sociais que
podem ser convertidas em recursos de dominação). Em resumo, refere-se a um capital
simbólico (aquilo que chamamos prestígio ou honra e que permite identificar os
agentes no espaço social). Ou seja, desigualdades sociais não decorreriam somente de
desigualdades econômicas, mas também dos entraves causados, por exemplo, pelo
déficit de capital cultural no acesso a bens simbólicos.

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13/02/2019 Pequeno glossário da teoria de Bourdieu - Revista Cult

estratégia: em Coisas Ditas, Bourdieu afirma que “a noção de estratégia é o


instrumento de uma ruptura com o ponto de vista objetivista e com a ação sem
agente, suposta pelo estruturalismo (que recorre por exemplo à noção de
inconsciente) […] Ela é produto do sentido prático.”

habitus: sistema aberto de disposições, ações e percepções que os indivíduos adquirem


com o tempo em suas experiências sociais (tanto na dimensão material, corpórea,
quanto simbólica, cultural, entre outras). O habitus vai, no entanto, além do indivíduo,
diz respeito às estruturas relacionais nas quais está inserido, possibilitando a
compreensão tanto de sua posição num campo quanto seu conjunto de capitais.
Bourdieu pretende, assim, superar a antinomia entre objetivismo (no caso,
preponderância da estruturas sociais sobre as ações do sujeito) e subjetivismo
(primazia da ação do sujeito em relação às determinações sociais) nas ciências
humanas (ver estratégia). Segundo Maria Drosila Vasconcelos, trata-se de “uma
matriz, determinada pela posição social do indivíduo que lhe permite pensar, ver e
agir nas mais variadas situações. O habitus traduz, dessa forma, estilos de vida,
julgamentos políticos, morais, estéticos. Ele é também um meio de ação que permite
criar ou desenvolver estratégias individuais ou coletivas.”

papel da sociologia: para Bourdieu, “a sociologia não mereceria talvez nenhuma hora
de atenção se tivesse como objetivo apenas descobrir os fios que movem os indivíduos
que ela observa, se ela esquecesse que tem compromisso com os homens, justamente
quando estes, à maneira das marionetes, participam de um jogo cujas regras ignoram,
enfim, se ela não tivesse como tarefa restituir o sentido dos próprios atos destes
homens” (Le bal des célibataires, inédito no Brasil)

sentido prático: origem das práticas rituais que estabelecem a coerência parcial em
um determinado campo.

violência simbólica: termo que explicaria a adesão dos dominados em um campo:


trata-se da dominação consentida, pela aceitação das regras e crenças partilhadas
como se fossem “naturais”, e da incapacidade crítica de reconhecer o caráter
arbitrário de tais regras impostas pelas autoridades dominantes de um campo.

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