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TABLE OF CONTENTS

Folha de Rosto
Sumaá rio
Epíágrafe
Introduçaã o geral aà trilogia
Prefaá cio aà segunda ediçaã o
Nota preá via [da 1ª ediçaã o]
I - Lana caprina, ou: A sabedoria do sr. Capra
Adendo
Sugestoã es de leitura
II - Sto. Antonio Gramsci e a salvaçaã o do Brasil
Adendos
1
2
3
4
III - A Nova Era e a Revoluçaã o Cultural
Observaçoã es finais
Apeê ndices
As esquerdas e o crime organizado
O Brasil do PT
Bandidos & letrados
Maá fia gramsciana
Efeitos da "grande marcha"
Medindo as palavras
Tentando enxergar
Um inimigo do povo
Doutrinaçaã o difusa
Os gurus do crime
Do marxismo cultural
Transiçaã o revolucionaá ria
Antonio Gramsci e a teoria do bode
Que eá hegemonia?
Nossa míádia e seu guru
Cegueira dupla
Dominador invisíável
A clareza do processo
Engordando o porco
Cozinhando a raã
A receita dos mestres
A unidade da duplicidade
O nome da coisa
A Gestapo terceirizada
Por que o brasileiro vota na esquerda
Da fantasia deprimente aà realidade temíável
Perdendo a guerra cultural
Arredondando os quadrados
Revoluçaã o social
Recordaçoã es inuá teis
A camuflagem da camuflagem
Posfaá cio: Uma conversa com o autor duas deá cadas depois
Creá ditos
Sobre a Obra
OLAVO DE CARVALHO

A Nova Era
e a Revolução
Cultural

Fritjof Capra & Antonio Gramsci


4ª edição,
revista e muito aumentada
SUMAÁ RIO

Capa
Folha de Rosto
Epíágrafe
Introduçaã o geral aà trilogia
Prefaá cio aà segunda ediçaã o
Nota preá via [da 1ª ediçaã o]
I - Lana caprina, ou: A sabedoria do sr. Capra
Adendo
Sugestoã es de leitura
II - Sto. Antonio Gramsci e a salvaçaã o do Brasil
Adendos
1
2
3
4
III - A Nova Era e a Revoluçaã o Cultural
Observaçoã es finais
Apeê ndices
As esquerdas e o crime organizado
O Brasil do PT
Bandidos & letrados
Maá fia gramsciana
Efeitos da "grande marcha"
Medindo as palavras
Tentando enxergar
Um inimigo do povo
Doutrinaçaã o difusa
Os gurus do crime
Do marxismo cultural
Transiçaã o revolucionaá ria
Antonio Gramsci e a teoria do bode
Que eá hegemonia?
Nossa míádia e seu guru
Cegueira dupla
Dominador invisíável
A clareza do processo
Engordando o porco
Cozinhando a raã
A receita dos mestres
A unidade da duplicidade
O nome da coisa
A Gestapo terceirizada
Por que o brasileiro vota na esquerda
Da fantasia deprimente aà realidade temíável
Perdendo a guerra cultural
Arredondando os quadrados
Revoluçaã o social
Recordaçoã es inuá teis
A camuflagem da camuflagem
Posfaá cio: Uma conversa com o autor duas deá cadas depois
Creá ditos
Sobre a Obra
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

WILLIAM BUTLER YEATS,


The Second Coming
INTRODUÇAÃ O GERAL AÀ TRILOGIA

Manual do usuário de O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras e dos volumes


que o antecederam: A Nova Era e a Revoluçaã o Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci e O
Jardim das Afliçoã es: De Epicuro aà Ressurreiçaã o de Ceá sar – Ensaio sobre o Materialismo e a
Religiaã o Civil.[ 1 ]

O IMBECIL COLETIVO encerra a trilogia iniciada com A Nova Era e a Revolução Cultural
(1994) e prosseguida com O Jardim das Aflições (1995).
Cada um dos treê s livros pode ser compreendido sem os outros dois. O que naã o se pode eá ,
por um soá deles, captar o fundo do pensamento que orienta a trilogia inteira.
A funçaã o de O Imbecil Coletivo na coleçaã o eá bastante explíácita e foi declarada no prefaá cio:
descrever, mediante exemplos, a extensaã o e a gravidade de um estado de coisas – atual e
brasileiro – do qual A Nova Era dera o alarma e cuja precisa localizaçaã o no conjunto da
evoluçaã o das ideá ias no mundo fora diagnosticada em O Jardim das Aflições.
O sentido da seá rie eá , portanto, nitidamente, o de situar a cultura brasileira de hoje no
quadro maior da histoá ria das ideá ias no Ocidente, num períáodo que vai de Epicuro ateá a
“nova retoá rica” de Chaim Perelman. Que eu saiba, ningueá m fez antes um esforço de pensar o
Brasil nessa escala. Meus uá nicos antecessores parecem ter sido Darcy Ribeiro, Maá rio Vieira
de Mello e Gilberto Freyre, o primeiro com a tetralogia iniciada com O processo civilizatório,
o segundo com Desenvolvimento e cultura, o terceiro com sua obra inteira. Separo-me deles,
no entanto, por diferenças essenciais: Ribeiro emprega uma escala muito maior, que
começa no homem de Neanderthal, mas ao mesmo tempo procura abranger esse imenso
territoá rio desde o prisma de uma determinada cieê ncia empíárica, a Antropologia, e fundado
numa base filosoá fica decepcionantemente estreita, que eá o marxismo nu e cru. Vieira de
Mello, com muito mais envergadura filosoá fica, naã o se aventura a remontar aleá m do períáodo
da Revoluçaã o Francesa, com algumas incursoã es ateá o Renascimento e a Reforma. Quanto a
Gilberto, o ciclo que lhe interessa eá o que se inicia com as grandes navegaçoã es. De modo
geral, os estudiosos da identidade brasileira deram por pressuposto que, tendo entrado na
Histoá ria no períáodo chamado “moderno”, o Brasil naã o tinha por que tentar enxergar-se num
espelho temporal mais amplo. Estou, portanto, sozinho na jogada, e posso alegar em meu
favor o temíável meá rito da originalidade.
Temíável porque originalidade eá singularidade, e a mente humana estaá mal equipada para
perceber as singularidades como tais: ou as expele logo do cíárculo de atençaã o, para evitar o
incoê modo de adaptar-se a uma forma desconhecida, ou as apreende somente pelas
analogias parciais e de superfíácie que permitem assimilaá -las erroneamente a alguma classe
de objetos conhecidos. Entre a rejeiçaã o silenciosa e o engano loquaz, minha trilogia naã o tem
muitas chances de ser bem compreendida.
Mas a singularidade, nela, naã o estaá soá no assunto. Estaá tambeá m nos postulados filosoá ficos
que a fundamentam e na forma literaá ria que escolhi para apresentaá -la, ou antes, que sem
escolha me foi imposta pela natureza do assunto e pelas circunstaê ncias do momento.
Quanto aà forma, o leitor haá de reparar que difere nos treê s volumes. O primeiro compoã e-se
de dois ensaios de tamanho meá dio, colocados entre duas introduçoã es, vaá rios apeê ndices, um
punhado de notas de rodapeá e uma conclusaã o. O todo daá aà primeira vista a ideá ia de textos
de origens diversas juntados pela coincideê ncia fortuita de assunto. A um exame mais
detalhado, revela a unidade da ideá ia subjacente, encarnada no síámbolo que fiz imprimir na
capa: os monstros bíáblicos Beemot e Leviataã , na gravura de William Blake, o primeiro
imperando pesadamente sobre o mundo, o maciço poder de sua pança firmemente apoiado
sobre as quatro patas, o segundo agitando-se no fundo das aá guas, derrotado e temíável no
seu rancor impotente.
Naã o usei a gravura de Blake por boniteza, mas para indicar que atribuo a esses síámbolos
exatamente o sentido que lhes atribuiu Blake. Detalhe importante, porque essa
interpretaçaã o naã o eá nenhuma alegoria poeá tica, mas, como assinalou Kathleen Raine em
Blake and Tradition, a aplicaçaã o rigorosa dos princíápios do simbolismo cristaã o. Na Bíáblia,
Deus exibe Beemot a Joá , dizendo: “Eis Beemot, que criei contigo” (Joá , 40:10). Aproveitando a
ambiguü idade do original hebraico, Blake traduz o “contigo” por from thee, “de ti”, indicando
a unidade de esseê ncia entre o homem e o monstro: Beemot eá a um tempo um poder
macrocoá smico e uma força latente na alma humana. Quanto a Leviataã , Deus pergunta:
“Porventura poderaá s puxaá -lo com o anzol e atar sua líángua com uma corda?” (Joá , 40:21),
tornando evidente que a força da revolta estaá na líángua, ao passo que o poder de Beemot,
como se diz em Joá 40:11, reside no ventre. Maior clareza naã o poderia haver no contraste de
um poder psíáquico e de um poder material: Beemot eá o peso maciço da necessidade
natural, Leviataã eá a infranatureza diaboá lica, invisíável sob as aá guas – o mundo psíáquico – que
agita com a líángua.
O sentido que Blake registra nessas figuras naã o eá uma “interpretaçaã o”, na acepçaã o
negativa que Susan Sontag daá a esta palavra: eá , como deve ser toda boa leitura de texto
sacro, a traduçaã o direta de um simbolismo universal. Para Blake, embora Beemot
represente o conjunto das forças obedientes a Deus, e Leviataã o espíárito de negaçaã o e
rebeliaã o, ambos saã o igualmente monstros, forças coá smicas desproporcionalmente
superiores ao homem, que movem combate uma aà outra no cenaá rio do mundo, mas
tambeá m dentro da alma humana. No entanto naã o eá ao homem, nem a Beemot, que cabe
subjugar o Leviataã . Soá o proá prio Deus pode fazeê -lo. A iconografia cristaã mostra Jesus como o
pescador que puxa o Leviataã para fora das aá guas, prendendo sua líángua com um anzol.
Quando, poreá m, o homem se furta ao combate interior, renegando a ajuda do Cristo, entaã o
se desencadeia a luta destrutiva entre a natureza e as forças rebeldes antinaturais, ou
infranaturais. A luta transfere-se da esfera espiritual e interior para o cenaá rio exterior da
Histoá ria. EÁ assim que a gravura de Blake, inspirada na narrativa bíáblica, nos sugere com a
força sinteá tica de seu simbolismo uma interpretaçaã o metafíásica quanto aà origem das
guerras, revoluçoã es e cataá strofes: elas refletem a demissaã o do homem ante o chamamento
da vida interior. Furtando-se ao combate espiritual que o amedronta, mas que poderia
vencer com a ajuda de Jesus Cristo, o homem se entrega a perigos de ordem material no
cenaá rio sangrento da Histoá ria. Ao fazeê -lo, move-se da esfera da Provideê ncia e da Graça para
o aê mbito da fatalidade e do destino, onde o apelo aà ajuda divina jaá naã o pode surtir efeito,
pois aíá jaá naã o se enfrentam a verdade e o erro, o certo e o errado, mas apenas as forças
cegas da necessidade implacaá vel e da rebeliaã o impotente. No plano da Histoá ria mais
recente, isto eá , no ciclo que começa mais ou menos na eá poca do Iluminismo, essas duas
forças assumem claramente o sentido do ríágido conservadorismo e da hübris
revolucionaá ria. Ou, mais simples ainda, direita e esquerda.
O drama inteiro aíá descrito pode-se resumir iconograficamente no esquema em cruz que
coloquei depois em O Jardim das Aflições, mas que jaá estaá subentendido em A Nova Era e a
Revolução Cultural, pois constitui a estrutura mesma do enfoque analíático pelo qual procuro
aíá apreender a significaçaã o das duas correntes de ideá ias mencionadas no tíátulo: o holismo
neocapitalista de Fritjof Capra e o empreendimento gramsciano de devastaçaã o cultural.
Nesse primeiro volume, a forma adotada inicialmente naã o podia ser mais clara e foi
imposta pela natureza mesma do assunto: uma introduçaã o, um capíátulo para Capra, outro
para Gramsci, um retrospecto comparativo e uma conclusaã o inescapaá vel: as ideologias,
quaisquer que fossem, estavam sempre limitadas aà dimensaã o horizontal do tempo e do
espaço, opunham o coletivo ao coletivo, o nuá mero ao nuá mero; perdida a vertical que unia a
alma individual aà universalidade do espíárito divino, o singular ao Singular, perdia-se junto
com ela o sentido de escala, o senso das proporçoã es e das prioridades, de modo que as
ideologias tendiam a ocupar totalitariamente o cenaá rio inteiro da vida espiritual e a negar
ao mesmo tempo a totalidade metafíásica e a unidade do indivíáduo humano, reinterpretando
e achatando tudo no molde de uma cosmovisaã o unidimensional.
As notas e apeê ndices, que aparentemente colocam alguma desordem na forma do
conjunto, servem aíá a dois propoá sitos opostos e complementares: de um lado, indicar as
bases mais gerais que o argumento conservava implíácitas, mostrando ao leitor que a anaá lise
de Capra e Gramsci era apenas a ponta visíável de uma investigaçaã o muito mais ampla que,
aà quela altura, soá meus alunos conheciam atraveá s das aulas e apostilas do Seminário de
Filosofia, mas que, nas condiçoã es de uma vida anormalmente agitada, eu naã o estava certo
de poder redigir por completo algum dia; de outro lado, indicar que minhas anaá lises naã o
pairavam do ceá u das meras teorias, mas que se aplicavam aà compreensaã o de fatos políáticos
que se desenrolavam na cena brasileira na hora mesma em que eu ia escrevendo o livro –
daíá as arestas poleê micas que daã o a trechos desse ensaio uma apareê ncia de jornalismo de
combate. Se alguns leitores naã o viram no livro mais que essa superfíácie – como outros naã o
veraã o em O Imbecil Coletivo senaã o a críática de ocasiaã o a certos figuroã es do dia e em O Jardim
das Aflições um ataque ao establishment uspiano –, naã o posso dizer que perderam nada,
pois o restante e o melhor do que se conteá m nesses livros naã o foi feito realmente para esses
leitores e eá bom mesmo que permaneça invisíável aos seus olhos.
Se no primeiro volume permiti que a ideá ia central fosse apenas esboçada em fragmentos,
um tanto aà maneira minimalista, para que o leitor, antes pressentindo-a do que
percebendo-a, tivesse o trabalho de ir buscaá -la no fundo de si mesmo em vez de
simplesmente pegaá -la na superfíácie da paá gina, no segundo, O Jardim das Aflições, segui a
estrateá gia inversa: ser o mais explíácito possíável e dar aà exposiçaã o o maá ximo de unidade,
obrigando o leitor a seguir uma argumentaçaã o cerrada, sem saltos ou interrupçoã es, ao
longo de quatrocentas paá ginas. Mas, para naã o dar a ilusaã o de que essa forma completa
abrangesse a totalidade do meu pensamento a respeito do tema, espalhei ao longo do texto
centenas de notas de rodapeá que indicavam os pressupostos teoá ricos implíácitos, as
possibilidades de aprofundamentos por realizar (ou jaá realizados soá oralmente em aula), e
mil e uma sementes de desenvolvimentos possíáveis e interessantes, que eu realizaria se
tivesse uma vida sem fim, mas que os leitores inteligentes bem podem ir realizando por sua
conta. A unidade de argumentaçaã o de O Jardim das Aflições, que na minha intençaã o,
confirmada por alguns leitores, daá a esse livro naã o obstante pesadíássimo e complexo a
legibilidade de um romance policial, mostra assim naã o ser a unidade cerrada de um
sistema, mas a unidade de um holon, como diria Arthur Koestler: algo que, visto de um lado,
eá um todo em si, e, de outro lado, eá parte de um todo mais vasto. Esta homologia de parte e
todo repete-se, por sua vez, na estrutura interna do livro, onde o evento aparentemente
insignificante que lhe serve de ponto de partida jaá conteá m, na sua escala microcoá smica, ou
microscoá pica, as linhas gerais da interpretaçaã o global da histoá ria do Ocidente, que eá
apresentada nos capíátulos restantes. Aqueles leitores que se queixaram de que um livro taã o
substancioso começasse pelo comentaá rio poleê mico de um acontecimento menor,
mostraram naã o compreender bem uma das mensagens principais do livro, que eá a de que, aà
luz de uma metafíásica da Histoá ria, naã o haá propriamente acontecimentos menores – o
grande e o pequeno estaã o coeridos na unidade orgaê nica de um Sentido que tudo pervade.
Aquilo que nada pesa na ordem causal pode muito revelar na ordem da significaçaã o.
E, na verdade, se houvesse acontecimentos perfeitamente insignificantes, que nada
merecessem senaã o o desprezo e o sileê ncio, o terceiro volume da seá rie, O Imbecil Coletivo,
naã o poderia sequer ter sido escrito: pois o que nele apresento eá um mostruaá rio comentado
de banalidades culturais que muito significam precisamente na medida em que naã o valem
nada. E, se decidi reuni-las num volume, dando-lhes a dignidade de serem lembradas
quando seus autores jaá nada mais forem senaã o sombras no Hades, que eá o sepulcro do
irrelevante, foi precisamente porque entendi que, partindo de cada uma delas, e girando em
cíárculos conceê ntricos cada vez mais amplos, se poderia chegar a visoã es de escala universal
semelhantes aà quela em que, partindo de uma picuinha cultural ocorrida no Museu de Arte
de Saã o Paulo em 1990, mostrei aos leitores de O Jardim das Aflições o combate de Leviataã e
Behemot no horizonte inteiro da histoá ria Ocidental. E, naã o podendo refazer tamanho
esforço hermeneê utico a cada nova babaquice cultural que lesse nos jornais, decidi reunir
algumas e ofereceê -las aos leitores como amostras para fins de exercíácio. O Imbecil Coletivo eá ,
portanto, o livro de tarefas que acompanha o texto-base trazido em O Jardim das Aflições,
ficando A Nova Era como abreviatura para principiantes. Quem leia assim O Imbecil
Coletivo, buscando ali as liçoã es de casa para reconstituir, desde treê s dezenas de exemplos, os
lineamentos da visaã o da Histoá ria e do meá todo interpretativo exposto nos volumes
anteriores, e buscando sempre a unidade orgaê nica entre a parte e o todo, entre a visaã o
filosoá fica de uma cultura milenar e as amostras da incultura momentaê nea de um paíás
esquecido aà margem da Histoá ria, esse teraá conquistado para si a melhor parte do que lhe
dei. Pois eá assim que se leê em os livros dos filoá sofos, mesmo quando se trate apenas de um
filosofinho como este que lhes fala.
Admito que, se em qualquer dos treê s livros tivesse adotado uma forma expositiva mais ao
gosto acadeê mico, eu naã o precisaria estar agora chamando a atençaã o para uma unidade de
pensamento que transpareceria aà primeira vista. Mas essa visibilidade custaria a perda de
todas as refereê ncias aà vida auteê ntica e o aprisionamento do meu discurso numa redoma
linguü íástica que naã o combina nem com o meu temperamento nem com a regra que me impus
alguns anos atraá s, de nunca falar impessoalmente nem em nome de alguma entidade
coletiva, mas sempre diretamente em meu proá prio nome apenas, sem qualquer retaguarda
mais respeitaá vel que a simples honorabilidade de um animal racional, bem como de nunca
me dirigir a coletividades abstratas, mas sempre e unicamente a indivíáduos de carne e osso,
despidos das identidades provisoá rias que o cargo, a posiçaã o social e a filiaçaã o ideoloá gica
superpoã em aà quela com que nasceram e com a qual haã o de comparecer, um dia, ante o
Trono do Altíássimo. Estou profundamente persuadido de que somente nesse níável de
discurso se pode filosofar autenticamente.
Ademais, existe algum meá rito pedagoá gico em naã o ser bem arrumadinho, em poder dispor
os dados naã o na ordem mais costumeira em que os desejaria o espectador preguiçoso, mas
em desarrumaá -los inteligentemente de modo a obrigar o leitor a tomar parte ativa na
investigaçaã o. E haá um prazer imenso em misturar os geê neros literaá rios quando se eá autor de
um livreto que antes os distinguiu e catalogou com requintes de rigidez formal.[ 2 ]
Estou imensamente satisfeito de ter podido concluir esta trilogia e de poder estar aqui
hoje, nesta celebraçaã o que para mim eá menos a do lançamento de um livro que a da
conclusaã o de uma parte, de uma etapa da tarefa que me cabe nesta vida. Tarefa que eá , em
esseê ncia, a de romper o cíárculo de limitaçoã es e constrangimentos que o discurso ideoloá gico
tem imposto aà s inteligeê ncias deste paíás, a de vincular a nossa cultura aà s correntes milenares
e mais altas da vida espiritual no mundo, a fazer em suma com que o Brasil, em vez de se
olhar somente no espelho estreito da modernidade, imaginando que quatro seá culos saã o a
histoá ria inteira do mundo, consiga se enxergar na escala do drama humano ante o universo
e a eternidade. Tarefa que eá , no seu mais elevado e ambicioso intuito, a de remover os
obstaá culos mentais que hoje impedem que a cultura brasileira receba uma inspiraçaã o mais
forte do espíárito divino e possa florescer como um dom magníáfico a toda a humanidade.

[ 1 ] Texto lido no lançamento de O Imbecil Coletivo, na Faculdade da Cidade, Rio de Janeiro, em 22 de agosto de 1996.
[ 2 ] Cf. Os Geê neros Literaá rios: Seus Fundamentos Metafíásicos. In A dialética simbólica – estudos reunidos. Saã o Paulo. EÁ
Realizaçoã es, 2007.
PREFAÁ CIO AÀ SEGUNDA EDIÇAÃ O

D ecorridos alguns meses da primeira ediçaã o, rapidamente esgotada, os


acontecimentos naã o fizeram senaã o confirmar com igual rapidez os diagnoá sticos que
apresentei neste livro.
O Brasil vive, de um lado, uma crise profunda da inteligeê ncia, de que eá reflexo o
deslumbramento apalermado com que recebemos e enaltecemos, como altas produçoã es do
espíárito, as ideá ias mais sonsas e descabidas que nos chegam do estrangeiro. O sr. Capra naã o
foi o uá ltimo da seá rie. Depois dele recebemos a visita e as luzes do sr. Richard Rorty, cuja
proposta, filosoficamente indecorosa e moralmente repugnante, os pensadores locais naã o
ousaram criticar senaã o com precauçoã es e desculpas que raiavam o servilismo.[ 3 ]
Esse fenoê meno eá , em parte, efeito passivo da crise da inteligeê ncia norte-americana, como
explico num outro livro que deveraá sair logo apoá s esta segunda ediçaã o.[ 4 ]
Mas, de outro lado, ele eá tambeá m o resultado de uma políática deliberadamente conduzida
pelos movimentos de esquerda, interessados em reduzir toda a vida intelectual brasileira a
um coro unanimista de reclamaçoã es. O rebaixamento das artes, da filosofia e ateá de algumas
cieê ncias aà condiçaã o de megafones da propaganda revolucionaá ria, que os melhores
pensadores marxistas sempre rejeitaram como uma tentaçaã o aviltante, tornou-se a praxe
estabelecida, que ningueá m ousa contestar, menos pelo temor de um revide explíácito do que
pela certeza absoluta de que seus ouvintes jaá naã o poderaã o compreendeê -lo, taã o longe estaã o
de imaginar que a cultura possa ter outros e mais elevados fins. Pois o dogma da cultura
militante naã o se adotou como opçaã o consciente, vencedora no confronto com outras
concepçoã es possíáveis, mas se infiltrou sorrateiramente, como um pressuposto implíácito,
aproveitando-se da ignoraê ncia das novas geraçoã es, que ao despertarem para o mundo da
“cultura” jaá a encontram identificada aà propaganda ideoloá gica como se este fosse o seu
estado natural e seu destino eterno. O pior eá que essa propaganda jaá naã o transmite sequer
ideá ias ou síámbolos de uma doutrina revolucionaá ria, mas limita-se a repetir, de maneira rasa,
literal e direta, as reivindicaçoã es do dia: fora Collor, morte aos corruptos, viva o Betinho,
queremos sexo. Todos os anoã es do Congresso, reunidos e somados, naã o fizeram tanto mal a
este paíás quanto essa prostituiçaã o completa da inteligeê ncia aà s ambiçoã es políáticas imediatas
e aà s paixoã es mais corriqueiras. O dinheiro perdido pode-se ganhar novamente; o espíárito,
quando se vai, naã o volta mais. Os templos abandonados — eá a experieê ncia universal —
tornam-se para sempre covis de feiticeiros e bandidos.
Pelo efeito conjugado da decadeê ncia norte-americana e da açaã o local tendente a amassar e
fundir todos os ceá rebros deste paíás na foê rma sem rosto do “intelectual coletivo” gramsciano,
o fato eá que a inteligeê ncia nacional estaá indo ladeira abaixo, ao mesmo tempo que sobe, das
ruas e dos campos, o rumor sombrio de uma revoluçaã o em marcha.
Sim, o Brasil estaá inequivocamente entrando numa atmosfera de revoluçaã o comunista. A
imbecilizaçaã o naã o eá senaã o um sintoma: o temporaá rio obscurecimento da luz, mencionado
pelo I Ching, no qual se geram, entre as dobras da noite, os monstros que iraã o povoar as
visoã es de um despertar temíável.
Esses monstros jaá naã o saã o taã o pequenos para que um olhar atento naã o consiga enxergaá -
los e espantar-se com a velocidade com que vaã o crescendo no ventre da inconscieê ncia
nacional.
O proá prio unanimismo da intelectualidade eá um dos sinais. Mas outro, aparentemente
contraditoá rio, eá a proliferaçaã o das reivindicaçoã es gremiais, do espíárito de divisaã o, na hora
em que o paíás mais necessita do sacrifíácio das partes pelo bem do todo. Em cada classe, em
cada regiaã o, em cada sindicato, em cada empresa, em cada famíália, em cada alma, o que se
nota eá um sentimento agudo e exasperado dos proá prios direitos e o completo
amortecimento do senso do dever. EÁ o predomíánio desastroso do reivindicar e protestar
sobre o criar e oferecer. Quanto menos cumpre sua obrigaçaã o, mais cada um se creê no
direito de acusar o proá ximo. O governo reprime os aumentos abusivos de preços enquanto
protege as elevadas taxas de juros e alimenta a gigantesca teê nia petrolíáfera que pela
majoraçaã o perioá dica dos combustíáveis vai marcando o compasso para a subida
generalizada do custo de vida. O pai de famíália vocifera contra a corrupçaã o dos políáticos
enquanto solicita a um contador que “deê uns retoques” na sua declaraçaã o de rendimentos
para tornar mais verossíámil a mentira que o isentaraá do imposto. As empresas censuram o
governo no instante mesmo em que elevam os preços de seus produtos e serviços acima de
tudo quanto permite a lei e recomenda a deceê ncia. A esquerda clama contra as oligarquias
enquanto promove greves de funcionaá rios puá blicos voltadas diretamente contra os direitos
da populaçaã o. Os intelectuais e artistas clamam contra as injustiças enquanto levam vida de
príáncipes aà s expensas do eraá rio puá blico. A imprensa acusa, delata, aponta homens e
instituiçoã es ao oproá brio, enquanto discretamente, em congressos de profissionais longe dos
olhos da multidaã o, confessa sua proá pria falta de decoro, eá tica e dignidade. Os sem-terra
exibem diante das caê meras sua pobreza comovente enquanto gastam fortunas em
operaçoã es paramilitares que o proá prio exeá rcito naã o teria verba para sustentar. O discurso
do unanimismo, como o coro entusiaá stico das torcidas durante a Copa, naã o eá senaã o um
Ersatz, a ostentaçaã o de uma unidade postiça que encobre a luta covarde e sem regras de
todos contra todos. O egoíásmo, a inconscieê ncia, a maldade ganham terreno a cada nova
investida da “campanha pela EÁ tica”.
Quia bono? A quem aproveita o crime? Quem lucra com a dilaceraçaã o da alma nacional
num confronto vil de todos os egoíásmos e de todas as inconscieê ncias? As pesquisas de
opiniaã o respondem que, de todos os brasileiros, o uá nico que naã o tem medo de ser feliz jaá
ganhou quarenta por cento das intençoã es de voto para a Presideê ncia.
Poderia ser uma coincideê ncia, o efeito acidental de uma conjuntura. Mas, recuando em
busca das suas raíázes, vemos que esse efeito foi longamente desejado e meticulosamente
preparado pela mais haá bil e talentosa geraçaã o de intelectuais ativistas jaá nascida neste paíás.
A geraçaã o que, derrotada pela ditadura militar, abandonou os sonhos de chegar ao poder
pela luta armada e se dedicou, em sileê ncio, a uma revisaã o de sua estrateá gia, aà luz dos
ensinamentos de Antonio Gramsci. O que Gramsci lhe ensinou foi abdicar do radicalismo
ostensivo para ampliar a margem de alianças; foi renunciar aà pureza dos esquemas
ideoloá gicos aparentes para ganhar eficieê ncia na arte de aliciar e comprometer; foi recuar do
combate políático direto para a zona mais profunda da sabotagem psicoloá gica. Com Gramsci
ela aprendeu que uma revoluçaã o da mente deve preceder a revoluçaã o políática; que eá mais
importante solapar as bases morais e culturais do adversaá rio do que ganhar votos; que um
colaborador inconsciente e sem compromisso, de cujas açoã es o partido jamais possa ser
responsabilizado, vale mais que mil militantes inscritos. Com Gramsci ela aprendeu uma
estrateá gia taã o vasta em sua abrangeê ncia, taã o sutil em seus meios, taã o complexa e quase
contraditoá ria em sua pluralidade simultaê nea de canais de açaã o, que eá praticamente
impossíável o adversaá rio mesmo naã o acabar colaborando com ela de algum modo, tecendo,
como profetizou Leê nin, a corda com que seraá enforcado.
A conversaã o formal ou informal, consciente ou inconsciente da intelectualidade de
esquerda aà estrateá gia de Antonio Gramsci eá o fato mais relevante da Histoá ria nacional dos
uá ltimos trinta anos. EÁ nela, bem como em outros fatores concordantes e convergentes, que
se deve buscar a origem das mutaçoã es psicoloá gicas de alcance incalculaá vel que lançam o
Brasil numa situaçaã o claramente preá -revolucionaá ria, que ateá o momento soá dois
observadores, aleá m do autor deste livro, souberam assinalar, e aliaá s mui discretamente.[ 5 ]
A expectativa, a esperança, o anseio da revoluçaã o saã o taã o velhos, taã o arraigados na alma
da intelligentzia nacional[ 6 ] que, mesmo diante do fracasso mundial do socialismo, ela naã o
teraá forças para resistir aà tentaçaã o de fazeê -la, agora que a conjuntura local, pela primeira
vez na nossa Histoá ria, lhe oferece os meios de chegar ao poder. O Brasil, de fato, tem um
descompasso croê nico em relaçaã o ao tempo da Histoá ria universal. O reconhecimento
mundial da debacle do comunismo ecoou neste paíás — paradoxalmente, segundo a loá gica
humana, mas coerentemente, segundo a linha constante da Histoá ria nacional — como um
toque de esperança: chegou a nossa vez de conquistar aquilo que jaá ningueá m mais quer.
Durante algum tempo, nutri a insensata esperança de que o PT expeliria de si o veneno
gramsciano e se transformaria no grande partido socialista, ou trabalhista, de que o Brasil
precisa para compensar, na defesa do interesse dos pequenos, o avanço neoliberal
aparentemente irreversíável no mundo, e propiciar, pelo sadio jogo de forças, o movimento
regular e harmoê nico da rotatividade do poder que eá a pulsaçaã o normal do organismo
democraá tico. Movido por essa ilusaã o, votei em Lula para presidente. Hoje naã o votaria nele
nem para vereador em Saã o Bernardo. EÁ que, pela sucessaã o de acontecimentos desde a
campanha do impeachment, o PT mostrou sua vocaçaã o, para mim surpreendente, de partido
manipulador e golpista, capaz de conduzir o paíás aà s vias fraudulentas da “revoluçaã o
passiva” gramsciana, usando para isso dos meios mais covardes e ilíácitos — a espionagem
políática, a chantagem psicoloá gica, a prostituiçaã o da cultura, o boicote a medidas saneadoras,
a agitaçaã o histeá rica que apela aos sentimentos mais baixos da populaçaã o —, e de adornar
esse pacote de sujidades com um discurso moralista que recende a sacristia. O partido que,
para sabotar um candidato, promove no lançamento da nova moeda algo como uma “greve
preventiva” sob a espantosa alegaçaã o de uma possibilidade teórica de danos salariais
futuros, sabendo que essa greve resultaraá em aumento do preço dos combustíáveis e em
retomada do ciclo inflacionaá rio, dando facticiamente confirmaçaã o retroativa aos danos
anunciados, eá que, francamente, decidiu imitar o capeta: produz o mal para no ventre dele
gerar o oá dio, e no ventre do oá dio o discurso de acusaçaã o. A greve dos petroleiros naã o deu
certo, mas ela eá o mais puro exemplo do que o povo denomina “apelaçaã o”: o recurso
extremo usado para fins levianos.
Se o PT faz isso, eá porque perdeu sua confiança no futuro majestoso a que o destinava a
nossa democracia em formaçaã o, e, excitado por indíácios de um sucesso momentaê neo que
teme naã o repetir-se nunca mais, resolveu apostar tudo no jogo voraz e suicida do it’s now or
never. Naã o quer mais apenas eleger o presidente, governar bem, submeter seu desempenho
ao julgamento popular daqui a cinco anos, fazer Histoá ria no ritmo lento e natural dos
moinhos dos deuses: quer tomar o poder, fazer a revoluçaã o, desmantelar os adversaá rios,
expelir da políática para sempre os que poderiam derrotaá -lo em eleiçoã es futuras. Nos termos
da poesia de Murillo Mendes, preferiu, aà s “lentas sandaá lias do bem, as velozes heá lices do
mal”. A mitologia gramsciana, diagnosticando pomposamente a “transiçaã o para um novo
bloco histoá rico”, deu uma legitimaçaã o verbal a essas pretensoã es, e eis que o Brasil, mal
tendo ingressado no caminho da democracia, jaá se apressa a abandonaá -lo pelo atalho da
revoluçaã o. Aonde ele leva, eá algo que o mundo sabe, mas que importa o conhecimento do
mundo aà s hordas de menores-de-idade que a lisonja esquerdista consagrada em norma
constitucional transformou na parcela decisiva do eleitorado, dando-lhes poder antes de
lhes dar educaçaã o? O que importa eá aproveitar o momento, levar a todo preço o Lulalaá ,
carregado nos ombros de garotos raivosos, insolentes e analfabetos, e, antes que o
“consenso passivo” da populaçaã o tenha tempo de avaliar o que se passa, atrelar
irreversivelmente o paíás ao carro-bomba que se precipita, morro abaixo, no rumo da
revoluçaã o.
A geraçaã o que atingiu a idade adulta no momento em que a ditadura fechava as portas de
acesso aà vida políática estaá agora com cinquü enta anos. Ao longo dos uá ltimos trinta ela
esperou, sonhou, planejou, desejou, cobiçou entre laá grimas de rancor impotente, e,
sobretudo, leu muito Antonio Gramsci. Que a revoluçaã o socialista jaá tenha mostrado ao
mundo sua verdadeira face, que ela jaá tenha provado cabalmente que não vale a pena, isto
pouco interessa. A geraçaã o dos guerrilheiros faraá o que longamente se preparou para fazer.
Pouco importa que, pelo reloá gio do mundo, tenha passado a hora. O fim da festa eá , para o
catador de lixo, o sinal de que a sua festa estaá para começar.
Por essas razoã es eá que este livro, aparentemente constituíádo de pedaços inconexos,
começa a mostrar, pela força dos acontecimentos externos, a unidade que, no plano
literaá rio, o autor naã o teve o tempo ou o engenho de lhe dar. Sob a apareê ncia
comprometedora de uma salada histoá rica que mistura Leê nin, o I Ching, Max Weber, Freud e
o Comando Vermelho, ele aponta, pela ordem e, segundo creio, com loá gica, o sintoma e a
causa da doença da intelectualidade brasileira: a origem ao menos parcial da nossa
vulnerabilidade aà falsa mensagem do sr. Capra estaá nas ideá ias de Antonio Gramsci,
transformadas em praá tica pela geraçaã o de intelectuais esquerdistas que, na Ilha Grande, fez
ofíácio de parteira do Comando Vermelho, e que agora daá o tom da vida mental neste paíás.
Se, na primeira ediçaã o, naã o consegui dar desse fenoê meno uma exposiçaã o seguida e coesa,
tendo de adotar, em vez disso, um enfoque prismaá tico e desnivelado, antes sugerindo em
fragmentos do que declarando por extenso o sentido do conjunto, naã o foi por nenhuma
intençaã o profunda: foi por auteê ntica incapacidade de fazer de outro modo. Mas naã o creio,
por isto, merecer censura: afinal, aqui foi dito aos trancos e pedaços o que ningueá m mais
disse de maneira alguma. Do primeiro a esboçar a unidade de um quadro confuso, naã o se
exige que seja completo; e do primeiro a anunciar um perigo terríável, naã o se exige que fale
claro e ordenado segundo o bom estilo. Esbaforido e gaguejante, semilouco e abstruso, ele
afinal presta um serviço de emergeê ncia. Como diz um proveá rbio aá rabe: “Naã o repares em
quem sou, mas recebe o que te dou”.[ 7 ]

Rio de Janeiro, junho de 1994.

[ 3 ] V. Joseá Arthur Gianotti, "Conversa com Richard Rorty", Jornal do Brasil, 26 de maio de 1994. EÁ no míánimo estranho
que um homem como Gianotti, taã o valente ao expor ideá ias políáticas mesmo quando lhe atraiam a ira dos sumos-
sacerdotes da esquerda nacional, se cubra de cautelas ao criticar um pensamento taã o vulneraá vel como o de Rorty. Explica-
se, talvez, pela croê nica timidez uspiana, inibiçaã o intelectual que se tornou, em versaã o fetichizada, a caricatura tupiniquim
do "rigor" ensinado pelos primeiros mestres — franceses — fundadores da USP. O "rigor" uspiano eá na verdade moleza,
tremor da geleá ia terceiromundana ante a autoridade dos íádolos da moda — compensaçaã o junguiana pela petulaê ncia ante o
legado espiritual do passado. Mesmo em sua versaã o original europeá ia, herdeira de nobres tradiçoã es filosoá ficas, um
rigorismo acadeê mico inibitoá rio torna-se muitas vezes o refuá gio comunitaá rio onde o intelecto mal dotado vai abrigar-se
contra os perigos da investigaçaã o solitaá ria — vale dizer, contra o exercíácio mesmo da filosofia. O verdadeiro rigor
filosoá fico, ao contraá rio, eá pura coragem interior, naã o se curva senaã o ante a evideê ncia e naã o tem nada de temor reverencial
adolescente (ou colonial) ante os prestíágios acadeê micos do dia. Com a ascensaã o da intelectualidade paulista ao primeiro
plano da vida nacional, a inversaã o uspiana do rigor, que devota ao prestíágio o culto que nega aà verdade, ameaça
contaminar o pensamento brasileiro como um todo, selando a morte da inteligeê ncia nesta parte do mundo. Nada vai aqui
contra Gianotti, homem capaz e correto, que soá peca por admirar quem naã o merece — ou por fingir admirar, talvez, jaá que
o floreio bajulatoá rio involuntariamente iroê nico eá outra marca registrada do estilo uspiano, onde faz as vezes de polidez
acadeê mica.
[ 4 ] O Imbecil Coletivo. Atualidades Inculturais Brasileiras, Saã o Paulo. EÁ Realizaçoã es, 2006, que forma, com o presente
volume e com O Jardim das Aflições, uma trilogia dedicada ao estudo da patologia cultural brasileira na presente fase da
nossa Histoá ria.
[ 5 ] Um deles foi Fernando Henrique Cardoso (Jornal do Brasil, 11 de novembro de 1993), um homem que conhece as
esquerdas muito bem e que, por isto mesmo, sentiu o dever de se opor a elas no momento em que mais poderia ajudaá -las.
O outro foi Oliveiros da Silva Ferreira, que vem explorando o assunto em vaá rios artigos publicados em O Estado de São
Paulo.
[ 6 ] O mito da “Revoluçaã o Brasileira” eá um componente ativo do pathos esquerdista desde a deá cada de 30. "Fadado a um
grande destino, o Brasil seria a terceira grande revoluçaã o neste seá culo. A primeira, a Uniaã o Sovieá tica, segunda a Repuá blica
Popular da China, e a terceira, a Repuá blica Democraá tica Popular do Brasil" (Luíás Mir, A Revolução Impossível, Saã o Paulo:
Best Seller, 1994, p. 10).
[ 7 ] Nada retirei nem alterei do original nesta segunda ediçaã o, apenas corrigi erros de grafia, acrescentei este Prefaá cio,
uns quantos adendos, e adendos de adendos, e muitas notas de rodapeá . O leitor austero acharaá que saã o excresceê ncias
complicatoá rias, mas gosto delas justamente por isso, porque eliminam do texto a enganosa linearidade e lhe daã o aquele
aspecto vivente de rede nervosa, de trama vegetal, que faz com que, precisamente, um texto seja um texto.
NOTA PREÁ VIA [DA 1ª EDIÇAÃ O]

A
“Nova Era” da qual Fritjof Capra se tornou festejado porta-voz e a “Revoluçaã o
Cultural” de Antonio Gramsci teê m algo em comum: ambas pretendem introduzir
no espíárito humano modificaçoã es vastas, profundas e irreversíáveis. Ambas
convocam aà ruptura com o passado, e propoã em aà humanidade um novo ceá u e uma
nova terra.
A primeira vem alcançando imensa repercussaã o nos cíárculos cientíáficos e empresariais
brasileiros. A segunda, sem fazer tanto barulho, exerce haá treê s deá cadas uma influeê ncia
marcante no curso da vida políática e cultural neste paíás.
Nenhuma das duas foi jamais submetida ao mais breve exame críático. Aceitas por mera
simpatia aà primeira vista, penetram, propagam-se, ganham poder sobre as conscieê ncias,
tornam-se forças decisivas na conduçaã o da vida de milhoã es de pessoas que jamais ouviram
falar delas, mas que padecem os efeitos do seu impacto cultural.
Para os adeptos e propagadores conscientes das duas novas propostas, nada mais
reconfortante do que a passividade atoê nita com que o puá blico letrado brasileiro tudo
recebe, tudo admite, tudo absorve e copia, com aquele talento para a imitaçaã o maquinal que
compensa a falta de verdadeira inteligeê ncia.
Mas a Revoluçaã o Cultural de Gramsci e o movimento da Nova Era naã o saã o simples modas,
que se possam adotar e abandonar aà vontade, com a despreocupaçaã o de quem troca de
cuecas. Saã o propostas de imensa envergadura, que, uma vez aceitas, mesmo implicitamente,
mesmo informalmente, mesmo hipoteticamente, levam a consequü eê ncias de alcance
incalculaá vel. Essas consequü eê ncias naã o pouparaã o, decerto, aqueles que tiverem aderido aà s
suas causas por mero passatempo, sem uma clara conscieê ncia das responsabilidades em
jogo. Naã o pouparaã o ningueá m que esteja dentro do seu raio de açaã o. E todos estamos.
EÁ , portanto, uma leviandade suicida absorver ideá ias como essas sem um exame críático
preliminar. EÁ este exame que inauguro no presente livreto, ciente de que, ao fazeê -lo, me
adianto a uma lerda opiniaã o puá blica que nem de longe levantou ainda as questoã es aqui
discutidas, mas nem por isto o faço com menor atraso em relaçaã o aà s exigeê ncias de minha
proá pria conscieê ncia, que me cobra este trabalho desde que pela primeira vez falei em
puá blico sobre estes assuntos, em 1987. Falador prolíáfico, sou tardo em escrever, motivo
pelo qual meu sentimento de urgeê ncia se transforma, aà s vezes, em sentimento de culpa. A
urgeê ncia, no caso, era a de esclarecer a ligaçaã o entre aquelas duas correntes de
pensamento; ligaçaã o que, uma vez percebida, revela a inconsisteê ncia de ambas, e de ambas
nos liberta. Por naã o percebeê -la, a mente brasileira gira hoje em falso em torno do eixo
balizado por esses dois poá los. Pelo nuá mero de adeptos e pelos postos estrateá gicos que
alguns destes ocupam na sociedade, Capra e Gramsci dominam as duas correntes mentais
mais atuantes deste paíás. O fato de que jamais tenham sido confrontados e de que a ideá ia
mesma de confrontaá -los soe estranha mostra apenas que o paíás naã o tem clara conscieê ncia
das alternativas em que se debate, e que a vida mental nele tende a cindir-se em devoçoã es
estanques a deuses que se desconhecem mutuamente e que mutuamente se hostilizam nas
trevas, como espadachins vendados. Trata-se portanto, aqui, de esclarecer um conflito
subconsciente, em que o destino de um paíás se decide entre as sombras de um sonho. Brasil
sonaê mbulo: para que sustentas com dinheiro e lisonjas os teus intelectuais, se naã o eá para te
revelarem a ti mesmo, para te dizerem o que se passa contigo para aleá m da superfíácie do
noticiaá rio?
Os treê s capíátulos que compoã em este livro reproduzem, tanto quanto possíável, o conteuá do
de aulas e confereê ncias que dei sobre os respectivos temas, seja no Seminário Permanente
de Filosofia e Humanidades, que dirijo no Instituto de Artes Liberais,[ 8 ] seja fora dele. O
capíátulo sobre Fritjof Capra foi redigido e distribuíádo aos meus alunos em setembro de
1993, quando se anunciava a proá xima vinda ao Brasil do guru da Nova Era, promovida pela
Universidade Holíástica de Brasíália. Os outros, seus naturais complementos como se veraá ,
foram escritos agora em fevereiro de 1994, especialmente para este livro. Os apeê ndices
ilustram detalhes que importam aà compreensaã o do capíátulo II.
Reconheço que, ao menos quanto a Gramsci, o exame que apresento eá superficial, que
haveria ainda milhares de coisas a dizer que aqui naã o foram ditas.[ 9 ] Mas algueá m tem de
começar, e, na falta de melhores ceá rebros que se dispusessem a digerir o assunto, a coisa
sobrou para mim. Quanto a Capra, ele estaá longe de representar a “Nova Era” na sua
totalidade; embora alguns vejam nele uma síántese desse movimento, ele constitui apenas
um seu sintoma, ainda que agudo e sonante. Que ningueá m me censure, portanto, a
incompletude destas anaá lises: minhas amostras levam o roá tulo de amostras, com altiva
modeá stia. Tambeá m naã o tem, este trabalho, a menor pretensaã o de interferir no curso das
coisas. Seu uá nico anseio eá fornecer, aos que tenham um sincero desejo de compreender os
acontecimentos, alguns meios de fazeê -lo. Ora, os que teê m esse desejo saã o sempre poucos, no
meio do vozerio, entusiaá stico ou ameaçador, dos que creê em jaá saber tudo e que naã o
aguardam senaã o com impacieê ncia que o mundo se curve aà s suas propostas. AÀ queles poucos
e silenciosos, portanto, eá dedicado este trabalho. Dentre eles, destaco o romancista
Herberto Sales, que leu em versaã o datilograá fica o primeiro capíátulo e lhe fez refereê ncias
generosas, que agradeço comovido. Tanto mais comovido porque, se eu tivesse de escolher
um guru estilíástico, ele naã o seria outro, na presente fase da nossa literatura, senaã o Herberto
Sales. Destaco ainda o valente grupo de alunos e ouvintes que haá anos acompanha meu
trabalho com um interesse que me reconforta.

Rio de Janeiro, fevereiro de 1994.

[ 8 ] Atualmente, o Seminário eá mantido online, com aulas semanais transmitidas pelo site www.seminariodefilosofia.org
[NE].
[ 9 ] Limito-me ao estudo da estrateá gia e, mais brevemente, de alguns aspectos da gnoseologia, sem tocar por exemplo na
sociologia gramsciana, que mereceria — naã o por seu valor cientíáfico, mas pela força persuasiva da sua alucinante
falsificaçaã o da realidade — um exame mais atento. Prometo fazeê -lo no livro O antropólogo antropófago: A miséria das
Ciências Sociais, a sair no ano que vem. Tambeá m naã o pude senaã o mencionar de longe as concepçoã es esteá ticas e literaá rias
de Gramsci, taã o influentes ateá hoje, mas sobre as quais naã o pretendo escrever nada nunca, se os deuses me pouparem esse
castigo. [nota da 2ª ediçaã o].
LANA CAPRINA, OU: A SABEDORIA DO SR. CAPRA

N o começo de novembro[ 10 ] estaraá chegando ao Brasil o sr. Fritjof Capra, chamado


pela Universidade Holíástica de Brasíália para falar sobre a Nova Era que ele anuncia
no seu livro O ponto de mutação.
A voz do sr. Capra naã o clamaraá no deserto. A Universidade Holíástica jaá reuniu uma
congregaçaã o de intelectuais locais para dizer-lhe ameá m. Entre os acoá litos contam-se Frei
Betto e o ex-reitor da UnB, Christovam Buarque. O sr. Capra, jaá se veê , naã o eá um escritor
como os outros: eá um líáder, uma autoridade espiritual e, admitamos logo, um profeta.
O conteuá do de suas profecias eá bastante conhecido: O ponto de mutação anda ateá nas
maã os das crianças, que o debatem nas escolas. Mas, segundo a Universidade Holíástica, isso
naã o basta. O sr. Capra tem de ser ouvido por todos os amigos da espeá cie humana. Pois,
embora homoê nimo de um cineasta que se celebrizou pelas fitas de happy end, ele naã o
garante nenhum final feliz para o nosso seá culo a naã o ser que a humanidade siga os seus
conselhos. Passemos portanto a examinaá -los, com a urgeê ncia requerida pelo caso.
Segundo o sr. Capra, a histoá ria do mundo chegou a um turning point, e deve mudar o seu
curso. As treê s principais mudanças em pauta saã o as seguintes: primeira, a humanidade
deixaraá de consumir combustíáveis foá sseis (petroá leo); segunda, o patriarcado vai acabar;
terceira, o paradigma cientíáfico vigente seraá substituíádo por um outro, de base holíástica.
Estas treê s coisas jaá estaã o acontecendo, mas, assegura o sr. Capra, urge apressar a sua
consumaçaã o, que marcaraá o advento da Nova Era.
Ao falar do primeiro item, o sr. Capra eá muito breve, como conveá m aos profetas. Em vez
das longas anaá lises que concede aos dois outros temas, ele emite apenas esta profecia: “Esta
deá cada seraá marcada pela transiçaã o da era do combustíável foá ssil para uma nova era solar,
acionada por energia renovaá vel oriunda do Sol”. Tendo o livro sido publicado em 1981, a
deá cada a que o sr. Capra se refere terminou em 1990. Bem, nem todos os profetas daã o sorte.
Mas, se a mencionada profecia vier a cumprir-se com quatro, cinco ou nove deá cadas de
atraso, o sr. Capra sempre poderaá alegar que Saã o Joaã o Evangelista tambeá m naã o foi muito
preciso quanto aà data do Apocalipse.
Como muitos outros profetas, o sr. Capra pode queixar-se de ser um incompreendido. Eu,
por exemplo, naã o compreendo como eá que o mundo poderia ter saltado direto da era dos
combustíáveis foá sseis para a da energia solar, sem passar pela era atoê mica, na qual jaá
estaá vamos na data de emissaã o da profecia e na qual continuamos a estar apoá s a data do seu
vencimento. Mas talvez a intuiçaã o profeá tica do sr. Capra opere aà velocidade da luz, saltando
etapas. Eis aíá aliaá s um bom motivo para saltarmos logo para o item seguinte, jaá que o
primeiro capíátulo da mutaçaã o naã o teve um happy end.
O patriarcado consiste, segundo o sr. Capra, num complexo de treê s elementos: primeiro, o
domíánio do homem sobre a mulher; segundo, o domíánio da espeá cie humana sobre a
natureza; terceiro, o predomíánio da razaã o (faculdade masculina) sobre a intuiçaã o
(feminina). Saã o treê s lados de um fenoê meno uá nico, que o sr. Capra resume como a
supremacia do yang sobre o yin.
EÁ , como se veê , um tipo especial de patriarcado, bem diferente daquele que podemos
encontrar nos livros de histoá ria e sociologia. Pois estes nos dizem que o aumento do
poderio teá cnico sobre a natureza abalou o regime de propriedade rural no qual se esteava o
patriarcado; e que o advento do Impeá rio da Razaã o, trazido no bojo da Revoluçaã o Francesa,
promoveu logo em seguida a igualdade de direitos para homens e mulheres, desferindo o
golpe de misericoá rdia na autoridade do pater familias. Em suma, que das treê s coisas que o
sr. Capra reuá ne sob o roá tulo comum de “patriarcado”, duas saã o precisamente o contraá rio.
Mas os profetas naã o ligam para as cieê ncias profanas. Non enim cogitationes meae
cogitationes vestrae, jaá nos tinha advertido a Bíáblia. O sr. Capra, com efeito, naã o pensa como
noá s.
Mas haá algo nele que pelo menos alguns de noá s podem compreender perfeitamente bem.
Sendo a loá gica, no seu entender, uma expressaã o do abominaá vel patriarcado cujo fim ele
deseja, ele naã o poderia mesmo obedeceê -la sem tornar-se, ipso facto, iloá gico. EÁ entaã o por
uma simples questaã o de loá gica que ele opta por ser iloá gico. Qualquer bebeê de colo pode
compreender isto. O difíácil eá compreendeê -lo quando jaá naã o se eá um bebeê de colo. Para ser
admitido nos ceá us da Nova Era, o leitor deve portanto tornar-se como os pequeninos.
Eis aqui um caso tíápico. Para livrar-se do odioso patriarcado, diz o nosso profeta, a
humanidade deveria inspirar-se no exemplo da civilizaçaã o chinesa, cuja concepçaã o da
natureza humana, expressa sobretudo no I Ching, “estaá em flagrante contraste com a da
nossa cultura patriarcal”. Buscando agora muniçaã o antipatriarcal nas paá ginas do I Ching, o
leitor encontraraá , no hexagrama 37, as seguintes recomendaçoã es: “A esposa deve ser
sempre guiada pela vontade do senhor da casa, isto eá , pelo pai, pelo marido ou pelo filho
adulto. O lugar dela eá dentro de casa”. A vida que Betty Friedan pediu a Deus. Aliaá s, segundo
informa Marcel Granet no claá ssico La Civilisation Chinoise,[ 11 ] o feudalismo chineê s,
períáodo no qual se redigiu o grosso dos comentaá rios do I Ching, “repousa sobre o
reconhecimento do predomíánio masculino”. A China a que o sr. Capra se refere naã o deve
portanto ser a mesma que os geoá grafos profanos conhecem por esse nome.
O que o sr. Capra naã o pode mesmo eá ser acusado de facciosismo sinoá filo. Pois, se ele
rejeita a loá gica ocidental, nem por isto se curva aà s exigeê ncias da oriental. Segundo ele, o
yang representa a razaã o analíática, que divide, e o yin a intuiçaã o, que unifica. Os chineses,
nada entendendo destas sutilezas, representaram o divisivo yang por um traço contíánuo, e
o unificante yin por um traço dividido ao meio. Na Nova Era, as ediçoã es do I Ching viraã o
devidamente retificadas.

***

Enquanto essas ediçoã es naã o aparecem, o sr. Capra jaá vai tratando, por conta, de introduzir
no pensamento chineê s umas modificaçoã es mais seá rias. Ele diz, por exemplo, que na
civilizaçaã o chinesa o homem naã o procura dominar a natureza, mas integrar-se nela.
Novamente, a sabedoria chinesa do sr. Capra pegou a China desprevenida: um chineê s nem
mesmo entenderia essa frase, pela razaã o de que na sua líángua naã o haá uma palavra que
signifique “natureza” no sentido ocidental, isto eá , ao mesmo tempo o mundo visíável e a
ordem invisíável que o governa (ambiguidade que as líánguas modernas herdaram do grego
physis). O chineê s eá nisto, com o perdaã o da palavra, mais “analíático”: tem um termo para
designar o mundo visíável (khien), e um outro (khouen) para a ordem invisíável. Para
compensar, o mundo visíável ou khien abrange, “sinteticamente”, tanto a natureza terrestre
quanto a sociedade humana. O sr. Capra naã o diz a qual das duas “naturezas” o homem
deveria integrar-se, mas eá claro que ningueá m poderia integrar-se em ambas
simultaneamente e de um mesmo modo. Os antigos chineses jaá haviam advertido isto, e
resolveram a contradiçaã o propondo uma dualidade de atitudes para fazer face a esse duplo
aspecto da natureza: o saá bio, diz o I Ching, deve buscar ativamente integrar-se na ordem
invisíável ou khouen (chamada por isto “perfeiçaã o ativa”) e contornar suavemente as
exigeê ncias da natureza terrestre (khien ou “perfeiçaã o passiva”). Dito de outro modo:
integrar-se na ordem celeste, integrando em si e superando dialeticamente a ordem
terrestre (e portanto absorvendo-a, por sua vez, na ordem celeste). O “celeste” e o
“terrestre”, nesse sentido, identificam-se respectivamente ao dharma e ao kharma da
tradiçaã o hindu. O homem naã o se “integra” no kharma, poreá m “absorve-o” na medida em que
se integra no dharma: livra-se do peso da terra na medida em que atende ao apelo celeste.
Exatamente no mesmo sentido diz o cristianismo que o homem vence a necessidade natural
na medida em que segue as vias da Provideê ncia. Naã o eá bem o que diz o sr. Capra.
O ideograma Wang (“o Imperador”) esclarece isso melhor. Ele constitui, por si, um
compeê ndio de cosmologia chinesa. Compoã e-se de treê s traços horizontais — o Ceá u em cima,
a Terra em baixo, o homem no meio, formando a tríáade Tien-Ti-Jen, “Ceá u-Terra-Homem” —
cortados por um traço vertical, o Tao, que se traduz um tanto convencionalmente por lei ou
harmonia. A harmonia consiste em que cada coisa fique no lugar que lhe cabe, de modo que,
por traá s de todas as mudanças por que passa o mundo, a ordem suprema naã o seja violada
(embora neste mundo de apareê ncias ela o seja necessariamente, pois, como dizia o
evangelho, “eá necessaá rio que haja escaê ndalo”; mas no fim todas as desordens parciais saã o
reintegradas na ordem total).
Na tríáade chinesa, o homem eá chamado “filho do Ceá u e da Terra”. Sendo o Ceá u o pai, jaá se
veê , pelo hexagrama 37, quem eá que manda. O homem governa portanto o mundo visíável,
mas naã o o faz por arbíátrio proá prio, e sim em nome de uma ordem transcendente. Tien naã o
significa o “ceá u” no sentido material, mas a “perfeiçaã o celeste” ou mais propriamente a
“vontade do Ceá u”; em ingleê s, que o sr. Capra compreende melhor, naã o o sky, mas o heaven,
morada do Espíárito Santo. O saá bio ou imperador apreende no invisíável a vontade do Ceá u e a
poã e em execuçaã o na Terra. Na sala central do seu palaá cio, ele cumpre diariamente ritos de
um complexo simbolismo geomeá trico e numeroloá gico (similar ao do pitagorismo),
mediante os quais os arqueá tipos celestes “descem” (exatamente como na missa “desce” o
Espíárito Santo) para trazer aà Terra a ordem e a harmonia. Se o imperador paá ra de fazer os
ritos, a Terra — sociedade e natureza ao mesmo tempo — entra em convulsaã o, espalham-se
por toda parte a ignoraê ncia, o medo, a violeê ncia, a fome, a peste.
Naã o era soá a interrupçaã o dos ritos que podia trazer a cataá strofe. “O imperador — escreve
Max Weber em A Religião da China — tinha de se conduzir segundo os imperativos eá ticos
das escrituras claá ssicas. O monarca chineê s permanecia basicamente um pontíáfice. Ele tinha
de provar que era mesmo “filho do Ceá u”, o regente aprovado pelos ceá us, para que o povo,
sob o seu governo, vivesse bem. Se os rios arrebentavam os diques ou a chuva naã o caíáa
apesar de todos os ritos, isto era prova — acreditava-se expressamente — de que o
imperador naã o tinha as qualidades carismaá ticas requeridas pelo Ceá u”.
O homem governa a Terra, mas em nome do Ceá u. Governa como pontifex, “construtor de
pontes”, que liga a Terra ao Ceá u atraveá s do Reto Caminho, o Tao. Caso se afaste do Reto
Caminho, ele perde de vista a Vontade do Ceá u e jaá naã o pode governar senaã o em nome
proá prio, como tirano e usurpador. Aíá, num choque de retorno, ele perde seu poder e cai sob
o domíánio das poteê ncias terrestres que antes comandava. Como a Terra designa ao mesmo
tempo a natureza fíásica e a sociedade humana, o choque pode significar tanto uma
revoluçaã o civil ou golpe militar, quanto uma tempestade ou terremoto. O monarca que cai
representa, por analogia, qualquer homem que, rompendo com a ordem celeste, perca de
vista o seu destino ideal e caia presa das paixoã es abissais. EÁ a situaçaã o descrita no
hexagrama 36, O Obscurecimento da Luz: “Primeiro ele subiu ao Ceá u, depois mergulhou nas
profundezas da Terra”. O comentaá rio tradicional, resumido por Richard Wilhelm, eá o
seguinte: “O poder da treva subiu a um posto taã o alto que pode trazer dano a quantos
estejam do lado do bem e da luz. Mas no fim o poder das trevas perece por sua proá pria
obscuridade”.
Jaá se veê que o conselho do sr. Capra, afetado pela ambiguidade da palavra “natureza”, pode
ter dois significados opostos: com “integrar-se”, pretende ele que obedeçamos aà Vontade do
Ceá u ou que mergulhemos nas profundezas da Terra? As falas dos profetas, quando
obscuras, merecem interpretaçaã o. Interpretemos.
Na versaã o do sr. Capra, o Ceá u naã o eá mencionado. A tríáade fica reduzida a uma dualidade:
de um lado o homem, de outro a natureza visíável. O macho e a feê mea. O yang e o yin. A cada
um soá resta a alternativa de subjugar o outro ou “integrar-se” nele. O homem da civilizaçaã o
industrial optou pela primeira hipoá tese. O sr. Capra advoga a segunda.
EÁ verdade o que diz o sr. Capra, que a civilizaçaã o ocidental optou por dominar a natureza.
Mas eá verdade tambeá m que, desde o Renascimento ao menos, ela apagou (exatamente
como o sr. Capra) toda refereê ncia a uma ordem transcendente (Tien) e deixou o homem
sozinho, face a face com a natureza material. Desde entaã o a histoá ria das ideá ias ocidentais
tem sido marcada por uma oscilaçaã o pendular entre as ideologias da dominaçaã o e as
ideologias da submissaã o: classicismo e romantismo, revoluçaã o e reaçaã o, historicismo e
naturalismo, cientificismo e misticismo, ativismo prometeá ico e evasionismo quietista,
marxismo e existencialismo e, last not least, revoluçaã o cultural socialista versus ideologia da
Nova Era.
EÁ neste uá ltimo par de opostos que reside a chave para a compreensaã o do nosso profeta. O
sr. Capra acerta na mosca (nenhum profeta pode realizar o prodíágio de errar sempre) ao
dizer que sua visaã o da histoá ria cultural eá uma alternativa ao marxismo. Para Marx e seus
epíágonos, a natureza nada mais eá que o cenaá rio da histoá ria humana. Estaá aíá naã o como um
ser, uma substaê ncia ontoloá gica que o homem deva contemplar e respeitar em sua
constituiçaã o objetiva, mas como mateá ria-prima a ser apropriada e transformada livremente
segundo o arbíátrio humano. A natureza, em Marx, eá ancilla industriae. O marxismo
prossegue a tradiçaã o de prometeanismo revolucionaá rio do Renascimento, potencializando-
a mediante a submissaã o completa e explíácita da natureza aà histoá ria. A isto eá que se opoã e a
ideologia da Nova Era.
Mas ela naã o se opoã e somente ao marxismo em geral, e sim a uma forma especíáfica de
marxismo, que tambeá m, como ela, quis operar uma “mutaçaã o”, um giro de cento e oitenta
graus na orientaçaã o do pensamento humano. O fundador desta corrente marxista foi o
ideoá logo italiano Antonio Gramsci (1891-1937). O gramscismo propoã e uma revoluçaã o
cultural que subverta todos os criteá rios admitidos do conhecimento, instaurando em seu
lugar um “historicismo absoluto”, no qual a funçaã o da inteligeê ncia e da cultura jaá naã o seja
captar a verdade objetiva, mas apenas “expressar” a crença coletiva, colocada assim fora e
acima da distinçaã o entre verdadeiro e falso. EÁ a total submissaã o do “objeto” (natureza) ao
“sujeito” (humanidade histoá rica). Neste novo paradigma, a eê nfase da atividade cientíáfica jaá
naã o cai no conhecimento objetivo da natureza (descriçaã o exata da sua apareê ncia visíável e
investigaçaã o dos princíápios invisíáveis que a governam), mas sim na sua transformaçaã o pela
teá cnica e pela induá stria, a isto correspondendo, na esfera das ideá ias, uma espeá cie de
“revoluçaã o permanente” de todas as categorias de pensamento a suceder-se numa
aceleraçaã o vertiginosa do devir histoá rico.
Contra isto levantou-se a ideologia da Nova Era. Ao prometeanismo revolucionaá rio, ela
opoã e a “integraçaã o na natureza”; aà aceleraçaã o da histoá ria, o equilíábrio “ecoloá gico” da Nova
Ordem Mundial; e, ao historicismo absoluto, o “fim da Histoá ria”. Capra eá inconcebíável sem
Fukuyama. Capra eá a casca da qual Fukuyama eá o miolo. Todo o vistoso “esoterismo” da
Nova Era, com suas iniciaçoã es secretas, seus gurus, seus magos e seus ritos, naã o constitui
senaã o o exoterismo, o aparato religioso externo e social, cujo interior, cujo “sentido
esoteá rico” eá na verdade uma cieê ncia bem moderna, racional e profana: o planejamento
estrateá gico. Fukuyama estaá para Capra exatamente como o esoterismo estaá para o
exoterismo, como a Igreja de Joaã o estaá para a Igreja de Pedro. Mas ambas, cada qual no seu
plano e pelos meios que lhe saã o proá prios, combatem um mesmo adversaá rio.
O gramscismo fez muito sucesso nos anos 60, inspirando a febre passageira do
eurocomunismo e revigorando algumas esperanças comunistas. No Brasil, conquistou
praticamente a esquerda inteira, e o PT eá um partido essencialmente gramsciano, admita-o
ou naã o explicitamente. Mas o intento de renovaçaã o foi fraco e tardio: o comunismo acabou
sendo derrotado pela ascensaã o mundial da ideologia da Nova Era. Afinal, a mistura de fíásica
quaê ntica e simbolismos orientais, experieê ncias psíáquicas e sexo livre, promessas de paz e
miragens de auto-realizaçaã o, que essa ideologia oferece, eá infinitamente mais sedutora do
que qualquer “historicismo absoluto”. O Brasil, sempre atrasado, eá um dos poucos lugares
do mundo onde o combate ainda prossegue, com um feroz nuá cleo de remanescentes
gramscianos oferecendo uma quixotesca resisteê ncia local aos exeá rcitos triunfantes da Nova
Era.
Mas, se o prometeanismo revolucionaá rio representou o maá ximo da hybris, da avidez
dominadora do homem sobre a natureza, a ideologia da Nova Era naã o eá outra coisa senaã o o
choque de retorno anunciado pelo I Ching.
A Nova Era venceu a revoluçaã o gramsciana. Mas foi uma teratomaquia: um combate de
monstros. Diriam os chineses que foi um combate suicida: que, sem a obedieê ncia comum a
Tien, a luta entre Ti e Jen soá pode terminar pelo “obscurecimento da Luz”. A vitoá ria da Nova
Era prenuncia, portanto, o proá ximo passo do ciclo das mutaçoã es: a humanidade vai cair da
autoglorificaçaã o prometeá ica na passividade inerme; vai integrar-se, “ecologicamente”, no
equilíábrio da Nova Ordem Mundial, onde o conformismo coletivo seraá assegurado mediante
a justa repartiçaã o dos meios de satisfazer as paixoã es mais baixas e mediante um arremedo
de religiosidade externa que daraá a essas paixoã es uma aura lisonjeira de “profundidade” e
“autoconhecimento”.
Pode-se interpretar isso psicanaliticamente. Geá rard Mendel, no seu livro La Révolte contre
le Père, uma das mais importantes contribuiçoã es das uá ltimas deá cadas aà psicanaá lise
freudiana, diz que, ao longo da histoá ria, o impulso do homem para superar o pai tem sido,
como pretendia Freud, um dos mais potentes motores do progresso. Mas este impulso,
prossegue ele, pode tomar duas direçoã es: ou o homem supera e vence o pai carnal
integrando-se na ordem racional representada pelo pai ideal, ou manda logo aà s urtigas a
ordem ideal para, livre de toda trava moral, matar o pai carnal e tomar posse da maã e. Esta
uá ltima alternativa eá a revolta prometeá ica, a que se segue, num choque de retorno, a queda
no irracional, a regressaã o uterina, a “integraçaã o” do homem nas trevas. Daíá, segundo
Mendel, a importaê ncia antropoloá gica, e tambeá m psicoterapeê utica, das palavras da mais
ceá lebre oraçaã o cristaã : a “revolta contra o pai” soá eá saudaá vel e frutíáfera quando empreendida
“em nome do Pai”.
Trocando em miuá dos chineses: o pai carnal eá , para o homem adulto (Jen), nada mais que
um aspecto de Ti, a Terra. EÁ preciso submeteê -lo aà ordem celeste, Tien ou pai ideal, para aíá
entaã o poder assumir, sem usurpaçaã o nem violeê ncia, o governo justo e harmoê nico da Terra.
Sempre achei que o dr. Freud tinha algo de chineê s.
Nos termos de Mendel, a revoluçaã o gramsciana eá a revolta destrutiva contra o pai, e a
ideologia da Nova Era, com seus apelos aà fusaã o das conscieê ncias individuais numa sopa de
miragens holíásticas, eá a regressaã o uterina que se lhe segue. Todas as regressoã es uterinas
anunciam-se pela exacerbaçaã o da fantasia, pelo chamamento hipnoá tico das esperanças
insensatas, pela antevisaã o mediuá nica de delíácias sem fim. Todas terminam na escravidaã o
abjeta, na passividade inerme ante a agressaã o das forças abissais, no obscurecimento da luz.
EÁ inevitaá vel que haja escaê ndalo. A Nova Era venceu o prometeanismo gramsciano, e sai de
baixo: laá vem o hexagrama 36. There’s coming a shitstorm e Fritjof Capra eá o seu profeta.
Mas, no fim, que por certo naã o se anuncia breve, o poder das trevas sucumbiraá por força da
sua proá pria obscuridade.

***

Findo o períáodo das trevas, assegura o Apocalipse, a loucura dos novos profetas que
arrastaram a humanidade ao erro seraá exibida aà plena luz do dia, e todos a veraã o.
Como a Nova Era ainda mal começou, naã o estaá na hora de fazer o show completo. Por
enquanto, tudo o que se pode fazer eá dar umas amostras preliminares, que atestem, para as
geraçoã es vindouras, a realidade de um passado que lhes pareceraá inverossíámil. Como disse
o saá bio Richard Hooker ante o avanço do besteirol puritano no seá c. XVI, quando tudo isto
tiver passado “a posteridade poderaá saber que naã o deixamos, pelo sileê ncio negligente, as
coisas se passarem como num sonho”.
De amostras estaá cheio o livro do sr. Capra. Poreá m manda a justiça que as selecionemos
segundo a gradaçaã o de importaê ncia que lhes daá o proá prio autor. Devemos portanto agora
examinar o terceiro “ponto de mutaçaã o”: a revoluçaã o do paradigma cientíáfico.
Neste terreno o sr. Capra naã o parece estar em desvantagem como no mundo chineê s, que
soá conheceu por fontes de terceira maã o. Doutor em fíásica pela Universidade de Viena, ele
naã o pode ignorar a histoá ria da cieê ncia ocidental como ignora a civilizaçaã o chinesa. Mas
quem disse que naã o pode? Aos profetas tudo eá possíável.
Segundo o sr. Capra, “o paradigma ora em transformaçaã o dominou a nossa cultura por
muitas centenas de anos”; ele “compreende certo nuá mero de ideá ias” que “incluem a crença
de que o meá todo cientíáfico eá a uá nica abordagem vaá lida do conhecimento; a concepçaã o do
universo como um sistema mecaê nico composto de unidades materiais elementares; a
concepçaã o da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existeê ncia”. Essas
concepçoã es teê m os nomes respectivos de: cientificismo, mecanicismo e social-darwinismo
ou darwinismo social. Repito: segundo o sr. Capra, elas dominam a nossa cultura há muitas
centenas de anos. Isto sugere duas perguntas. Primeira: que eá “dominar uma cultura?”
Segunda: quanto eá “muitas centenas”?
Dizemos que uma certa ideá ia domina uma cultura quando: primeiro, ela eá acreditada
pelos intelectuais mais importantes de todos os setores; segundo, as ideá ias concorrentes ou
jaá naã o saã o feá rteis, quer dizer, jaá naã o se expressam em obras poderosas e significativas, ou
entaã o desapareceram completamente de cena. Assim, por exemplo, o cristianismo dominou
a Idade Meá dia porque, de um lado, todos os filoá sofos e os homens cultos em geral eram
cristaã os e, de outro lado, as correntes de pensamento naã o-cristaã s, ainda que persistindo
vivas pelo menos no subconsciente coletivo, naã o produziram nesse períáodo nenhuma obra
digna de atençaã o. Dizemos que o marxismo dominou a cultura sovieá tica ateá a deá cada de 60
porque nesse períáodo nenhum intelectual eminente que residisse na URSS produziu
nenhuma ideá ia que saíásse dos quadros conceptuais do marxismo e porque as subcorrentes
naã o-marxistas (exceto no exíálio e em líánguas ocidentais) nada criaram de significativo.
Nesse sentido estrito, nenhuma das treê s ideá ias que compoã em o “paradigma dominante”
jamais foi dominante em parte alguma do Ocidente. Desde que surgiram, as treê s foram
incessantemente contestadas, combatidas, refutadas, rejeitadas no todo ou em parte por
intelectuais importantes. De outro lado, correntes abertamente hostis a essas ideá ias
continuaram feá rteis o bastante para produzir algumas das obras mais significativas de seus
respectivos campos.
Vejamos o mecanicismo. Como pode ser “dominante” uma corrente que, desde seu
nascimento, eá rejeitada por gigantes como Leibniz, Schelling, Vico, Schopenhauer, Driesch,
Fechner, Boutroux, Nietzsche, Weber, Kierkegaard e muitos outros, ateá ser derrubada no
seá culo XX pela teoria de Planck?
A rigor, o mecanicismo soá foi dominante, e mesmo assim com reservas, numa certa parte
do mundo, que para o sr. Capra eá “o” mundo: os cíárculos universitaá rios anglo-saxoê nicos. Que
esse mundinho tradicionalmente presunçoso e seguro de si se abra hoje para novas ideá ias,
que se disponha ateá a ouvir os orientais sem a tradicional incompreensaã o colonialista, eá
sem duá vida uma novidade auspiciosa. Mas uma novidade local. Naã o haá meio mais seguro de
tornar provinciano um povo do que persuadi-lo de que ele eá o centro do mundo. Desde esse
momento ele declara inexistente ou irrelevante tudo o que saia do seu campo de visaã o, e
quando finalmente descobre algo que todo o resto do mundo jaá sabia daá a esta descoberta
uns ares de revoluçaã o mundial.
Quanto ao cientificismo, tanto se escreveu contra ele, que eá perfeitamente errado
consideraá -lo dominante mesmo num sentido atenuado do termo. Para isto seria preciso
excluir do primeiro plano da cultura o marxismo, a psicanaá lise, a fenomenologia, o
neotomismo e o existencialismo, pelo menos. Aqui, novamente, o sr. Capra toma como
mundialmente dominante a opiniaã o de um grupo restrito.
O darwinismo social, por sua vez, soá chegou a ser dominante, como crença puá blica, num
uá nico paíás do mundo: nos Estados Unidos. Nunca entrou, por exemplo, nos paíáses
comunistas e no mundo islaê mico, que, somados, completam quase dois terços da
humanidade. Nos paíáses catoá licos, foi recebido desde logo como perversa anomalia,
suscitando reaçoã es de escaê ndalo de que daã o testemunho as encíáclicas sociais dos papas
desde pelo menos Leaã o XIII.
Mas, aleá m de afirmar que essas treê s crenças “dominam o mundo”, o sr. Capra ainda
assegura que o fazem “haá muitas centenas de anos”. Contemos a histoá ria.
A mais velha das treê s eá o mecanicismo. Prenunciado por Descartes, foi formulado
plenamente por Isaac Newton (Princípios matemáticos da Filosofia Natural, 1687), mas soá
se tornou conhecido da intelectualidade europeá ia em geral a partir de 1738, quando
Voltaire divulgou em linguagem compreensíável aos leigos os Elementos da filosofia de
Newton.
Naã o foi soá fazendo divulgaçaã o cientíáfica que Voltaire promoveu a vitoá ria de Newton. Ele
tanto difamou com ironias grosseiras o principal opositor de Newton, G. W. von Leibniz, que
os contemporaê neos cessaram de prestar atençaã o ao que este dizia. Leibniz caiu em quase
descreá dito ateá o seá culo XX, quando a redescoberta de suas ideá ias ocasionou avanços
prodigiosos nas matemaá ticas, na loá gica e nas cieê ncias da natureza. A nova fíásica de Planck e
Heisenberg veio a dar razaã o a Leibniz contra Newton, substituindo o mecanicismo pelo
probabilismo. Esta substituiçaã o poderia ter ocorrido dois seá culos antes, se Voltaire,
imperador da opiniaã o puá blica no seá culo XVIII, naã o tivesse tecido em torno de Leibniz uma
teia de preconceitos duradouros. Por ironia, Voltaire entrou para a Histoá ria como o inimigo
de todo atraso e de todo preconceito.
Mas, de qualquer modo, a opiniaã o de Voltaire naã o se propagou com a velocidade do raio.
Demorou duas ou treê s deá cadas, pelo menos, para tornar-se crença dominante na Europa
inteira. Por volta de 1780, o mecanicismo gozava de um prestíágio invejaá vel, e pode ser dito,
desde entaã o, dominante, se dominante naã o quer dizer unanimemente aceito, ou aceito sem
reservas. Naã o se pode esquecer a oposiçaã o que lhe moveram o vitalismo de Goethe e
Driesch, o contingencialismo de Boutroux e muitas outras correntes, ateá o golpe de
misericoá rdia desferido por Planck e Heisenberg.
No momento em que o sr. Capra redigia O ponto de mutação, o mecanicismo estava
completando portanto dois seá culos de gloá ria incessantemente contestada e de periclitante
reinado sobre as facçoã es majoritaá rias do mundo acadeê mico. Isto eá bem diferente de um
domínio de muitos séculos sobre todo o mundo.
Quanto ao darwinismo social, eá um filhote do darwinismo bioloá gico e naã o poderia ter
nascido antes do pai. O princíápio da “subsisteê ncia do mais apto” surgiu como uma teoria
bioloá gica e soá depois, aos poucos, foi se transformando num argumento ideoloá gico para a
legitimaçaã o retroativa da concorreê ncia capitalista.
A origem das espécies eá de 1859. Herbert Spencer, nos seus Primeiros princípios,
publicados em 1862, amplia o alcance das ideá ias evolucionistas, fazendo delas um princíápio
socioloá gico. Paralelamente, ocultistas como Allan Kardec e Madame Blavatski pegam no ar
o termo “evoluçaã o” e lhe daã o um sentido míástico, ou misticoá ide: jaá naã o saã o somente os
anfíábios que evoluem em reá pteis, e estes em mamíáferos; saã o as almas desencarnadas que,
no outro mundo, evoluem em “seres de luz”, subindo na escala coá smica enquanto os
macacos descem das aá rvores. Revestida de mil e um sentidos, a palavra “evoluçaã o” se
dissemina, e surgem os debates puá blicos, que atraem a atençaã o dos intelectuais para o
potencial políático-ideoloá gico do evolucionismo. Os debates alcançam um auge de sucesso
com a confereê ncia de Thomas Henry Huxley, “Evoluçaã o e eá tica”, em 1892. Aíá estaá aberto o
caminho para a legitimaçaã o do capitalismo liberal pela “sobreviveê ncia do mais apto”. O resto
vem com os livros de Gustav Ratzenhofer (Natureza e finalidade da Política, 1893) e William
G. Sumner (Folkways, 1906), que fundamentam explicitamente a noçaã o de “evoluçaã o social”,
dando aos ideoá logos capitalistas o precioso slogan de que necessitavam. O darwinismo
social tem, portanto, pouco mais ou pouco menos do que um seá culo. Tinha menos no
momento em que o sr. Capra redigia o seu livro.
Finalmente, o cientificismo. A rejeiçaã o formal e completa, em nome da cieê ncia, de
qualquer explicaçaã o filosoá fica ou teoloá gica da realidade, foi proposta, pela primeira vez, por
Augusto Comte (Discurso sobre o espírito positivo, l844). Mas Comte ainda reservava para a
filosofia a tarefa de síántese e ordenaçaã o do conhecimento cientíáfico, e Comte soá foi aceito
sem contestaçaã o num uá nico lugar deste planeta: no Brasil! (Em 1914, o positivista Alain
atribuíáa a guerra mundial ao fato de nenhum outro paíás do globo haver seguido o exemplo
do Brasil, que adotara na bandeira republicana o positivismo como doutrina oficial do
Estado: Ordem e Progresso eá , com efeito, o resumo da filosofia comtiana). Uma declaraçaã o
formal e taxativa de cientificismo, com a completa demissaã o de todas as demais formas de
conhecimento como vazias ou insignificantes, soá veio mesmo em 1934, com Rudolf Carnap,
em Sintaxe lógica da linguagem. Mas Carnap naã o era nenhum Voltaire, para contar com a
imediata aprovaçaã o de um vasto puá blico. A maioria dos filoá sofos do seá culo XX rejeitou
categoricamente o cientificismo, que soá exerceu domíánio sobre grupos determinados,
principalmente no mundo anglo-saxaã o. Contemporaneamente aà declaraçaã o de Carnap, o
matemaá tico e filoá sofo Edmund Husserl, fundador da fenomenologia — escola que iria gerar
Heidegger, Scheler, Hartmann, Sartre e Merleau-Ponty, entre outros —, fazia na
Universidade de Praga as ceá lebres confereê ncias depois reunidas no livro A crise das ciências
européias, em que negava o cientificismo pela base e desde dentro: as cieê ncias fíásicas, dizia
ele, haviam perdido o seu essencial fundamento cientíáfico e jaá naã o serviam como modelo de
conhecimento da realidade. Husserl era e eá pelo menos taã o influente quanto Carnap,
embora naã o tanto no mundo anglo-saxoê nico que eá o limite do horizonte mental do sr. Capra.
Em suma, o cientificismo, que “domina a nossa cultura desde haá seá culos”, estaá
completando sessenta primaveras neste ano de 1994. Mas, para cuá mulo, sua primeira
manifestaçaã o ostensiva jaá foi posterior, de treê s deá cadas, aà publicaçaã o dos primeiros
trabalhos de Max Planck, cujo indeterminismo viria a ser uma das bases do “novo
paradigma” cujo advento o sr. Capra veio agora nos anunciar. O novo paradigma eá um tanto
anterior ao velho.

***

O sr. Capra, como se veê , pouco entende dos assuntos em que exerce, para um puá blico
multitudinaá rio, uma autoridade profeá tica. Ele prima pela careê ncia de informaçaã o elementar
sobre a cosmologia chinesa, na qual diz basear sua visaã o da histoá ria cultural, bem como
sobre a histoá ria cultural mesma, que ele procura, mediante generalizaçoã es grosseiras, e
escandalosas alteraçoã es da cronologia, encaixar aà força num modelo preconcebido.
Naã o questiono, aqui, a validade da proposta holíástica em geral. Reservo-me o direito de
fazeê -lo num outro trabalho. Apenas creio que ela deve ter defensores um pouco mais
qualificados do que o sr. Capra.
Meu propoá sito foi dar um testemunho sobre um fato de relevaê ncia mundial, que acontece
bem diante das nossas barbas, e de cuja realidade as geraçoã es vindouras teraã o o direito de
duvidar. Pois, para a razaã o e o bom-senso, não é verossímil que milhares de intelectuais de
prestíágio, em seu juíázo perfeito, possam aceitar e aplaudir como um marco da histoá ria do
pensamento uma obra como O ponto de mutação, que naã o atende sequer aos requisitos
míánimos de informaçaã o fidedigna, de autenticidade das fontes e de rigor conceptual que se
exigem de uma tese de mestrado. Dentre tantos outros defeitos que um livro pode ter, este
padece do uá nico que naã o se pode tolerar em hipoá tese alguma: a ignoratio elenchi, a
ignoraê ncia completa do assunto. O sr. Capra define o seu livro, pretensiosamente, como um
novo modelo de história cultural baseado nas concepções chinesas do homem e do universo.
Mas ele naã o estudou o suficiente nem a histoá ria cultural nem as concepçoã es chinesas para
que sua opiniaã o a respeito possa ter qualquer importaê ncia objetiva, fora do seu cíárculo de
conviveê ncia pessoal. O conteuá do de sua propalada sabedoria do assunto eá pura lana
caprina.
O sucesso deste livro soá pode ser explicado por um uá nico fator, inteiramente alheio ao seu
valor intríánseco: sua oportunidade. Ele diz o que as pessoas desejam ouvir, no momento em
que o desejam. Ele oferece uma perspectiva sedutora a um puá blico que pede para ser
seduzido.
Que esse puá blico naã o inclua somente populares incultos, mas intelectuais de projeçaã o, e
que estes se prontifiquem a aceitar as promessas do autor sem pedir-lhe sequer as
credenciais cientíáficas que se exigem de um estudante de faculdade, eá realmente um
acontecimento inverossíámil.
Mas, dizia Aristoá teles, naã o eá mesmo verossíámil que tudo sempre se passe de maneira
verossíámil. O inverossíámil aconteceu. Ele atesta que, apoá s seá culos de fuá ria iconoclaá stica
voltada contra todas as crenças do passado e os valores de outras civilizaçoã es, a opiniaã o
letrada do Ocidente enfim se cansou de ser arrogante; mas, em vez de um arrependimento
sincero, estaá encenando diante de noá s um arremedo de conversaã o, que deixa aà mostra todas
as marcas do fingimento histeriforme. Estonteada pela visaã o suá bita de suas proá prias culpas,
ela abjurou de toda precauçaã o críática como quem repele um víácio do passado; e entregou-
se, inerme e creá dula, ao culto do primeiro íádolo que lhe ofereceu uma promessa de alíávio.
Ela pensa ou finge pensar que esse íádolo eá o seu salvador. Na verdade eá a sua neê mesis.
Mas naã o eá soá ela que estaá enganada. O profeta do engano tambeá m se engana: ele imagina
trazer ao mundo a sabedoria, quando traz o obscurecimento e a confusaã o. Imagina trazer
uma nova profecia, quando traz o cumprimento de uma velha maldiçaã o.

***

Mas naã o posso encerrar estas consideraçoã es sobre o profeta da Nova Era sem fazer, tambeá m
eu, uma profecia: nos seá culos vindouros, quando puderem encarar o nosso tempo com
alguma objetividade, o fenoê meno da Nova Era seraá considerado um escaê ndalo que depoã e
contra a inteligeê ncia humana.
EÁ forçoso que venha o escaê ndalo. Nada se pode fazer para evitaá -lo. Nem mesmo vou
sugerir, como Jesus, que se amarre ao seu portador uma pesada pedra, para jogaá -lo ao
fundo do mar. Pois, como diria o hexagrama 36, ele jaá estaá no fundo. Tudo o que posso fazer
eá deixar aà posteridade, se vier a ter notíácia destas paá ginas, um testemunho pessoal destes
tempos obscuros: nem todos, nem todos acreditaram no falso profeta.[ 12 ]
ADENDO
Haá no livro do sr. Capra uma infinidade de erros e contra-sensos, aleá m dos mencionados.
Apontaá -los e corrigi-los todos requereria um volumoso comentaá rio: uma lei constitutiva da
mente humana concede ao erro o privileá gio de poder ser mais breve do que a sua
retificaçaã o.
Mas vale a pena dar mais algumas amostras, para que o leitor veja quanto um erro nas
premissas pode ser feá rtil em consequeê ncias:

1. O sr. Capra combate o uso da energia nuclear, mesmo para fins pacíáficos, mas, ao mesmo
tempo, faz da fíásica moderna um dos fundamentos do “novo paradigma” que propoã e. Ele
separa a fíásica enquanto modalidade de conhecimento teoá rico e a natureza das suas
aplicaçoã es praá ticas, como se uma naã o decorresse da outra necessariamente.
O sr. Capra eá , nisto, perfeitamente inconsequente com o meá todo holíástico que advoga. Para
o holismo, toda separaçaã o estanque entre uma ideá ia e suas manifestaçoã es praá ticas eá nada
mais que um abstratismo. Holisticamente falando, o efeito beneá fico ou destrutivo dos
engenhos nucleares tem de estar arraigado no proá prio modus cognoscendi que os produziu.
Se o sr. Capra enxerga ligaçoã es ateá mesmo entre o mecanicismo e a estrutura da famíália
patriarcal, como pode ser cego para as relaçoã es, muito mais proá ximas, entre o conteuá do
teoreá tico de uma cieê ncia e suas aplicaçoã es praá ticas?
2. Em nossa sociedade, afirma o sr. Capra, o trabalho entroá pico (trabalho repetitivo que
naã o deixa efeitos duradouros, como por exemplo cozinhar um jantar que seraá consumido
imediatamente) eá desvalorizado, e por isto eá atribuíádo aà s mulheres e aos grupos
minoritaá rios. Esta desvalorizaçaã o, diz ele, eá tíápica da sociedade industrial.
Nesse caso, deveríáamos considerar sociedades industriais as tribos do Alto Xingu, as
cidades-Estado da antiga Greá cia, a sociedade europeá ia da Idade Meá dia. Naã o existiu jamais
uma sociedade em que os serviços entroá picos fossem mais valorizados que os outros.
Mas, segundo o sr. Capra, existiu. Ele daá como exemplos os mosteiros de monges budistas
e cristaã os, onde cozinhar eá uma honra e limpar as privadas um meá rito invejaá vel. Seraá
preciso explicar ao sr. Capra que uma ordem monaá stica naã o constitui uma “sociedade”, mas
uma comunidade minoritaá ria que pressupoã e em torno a existeê ncia de uma sociedade a
cujos valores possa se opor? Se, dentro de um mosteiro, o trabalho entroá pico tem valor, eá
justamente porque naã o o tem na sociedade maior em torno. Os trabalhos humildes
adquirem ali dentro um valor espiritual e disciplinar justamente na medida em que no
“mundo” teê m pouco prestíágio social ou valor econoê mico. A desvalorizaçaã o social do
trabalho entroá pico naã o eá caracteríástica da sociedade industrial, mas da sociedade humana
em geral; inversamente, a sua valorizaçaã o espiritual eá um traço distintivo das minorias
espiritualizadas envolvidas em alguma forma de rejeiçaã o religiosa do “mundo”.
3. “Tradiçoã es como o vedanta, a ioga, o budismo e o taoismo assemelham-se muito mais a
psicoterapias do que a filosofias ou religioã es”, diz o sr. Capra. Bem, se haá um traço
caracteríástico do Ocidente moderno, que o distingue radicalmente das tradiçoã es orientais, eá
justamente o desenvolvimento, nele, de uma psicologia como cieê ncia independente de
qualquer refereê ncia míástica ou religiosa; e, em decorreê ncia, o esforço para dar uma
explicaçaã o “psicoloá gica” de todos os fenoê menos espirituais. Ao englobar as tradiçoã es
espirituais do Oriente no conceito de “psicoterapia”, o sr. Capra mostra a tíápica incapacidade
do cientificista moderno para apreender tudo quanto haá nelas de puramente metafísico e
naã o-psicoloá gico.
Dizer, ademais, que essas tradiçoã es “se baseiam no conhecimento empíárico e, assim,
apresentam mais afinidades com a cieê ncia moderna” eá pretender enquadrar aà força as
ideá ias orientais numa moldura ocidental e moderna, para tornaá -las aceitaá veis ao
provincianismo acadeê mico. Acontece que, nessa operaçaã o, tudo que haá nelas de
essencialmente oriental se perde por completo. O vedanta, por exemplo, afirma
categoricamente que a experiência não pode trazer conhecimento espiritual de espécie
alguma, e esta afirmaçaã o eá mesmo um dos pontos basilares da doutrina, que o sr. Capra
parece desconhecer completamente: toda experieê ncia eá açaã o, e a açaã o, naã o sendo o
contraá rio da ignoraê ncia, naã o pode destruíá-la.[ 13 ]
Por esse exemplo, veê -se que o sr. Capra estaá muito mais preso a esquemas mentais de
acadeê mico ocidental meá dio do que desejaria deixar transparecer. Algueá m mais proá ximo da
perspectiva oriental jamais procuraria explicar as doutrinas sapienciais da IÁndia ou da
China aà luz da moderna psicologia ocidental, mas, ao contraá rio, emitiria sobre esta, em
nome delas, um julgamento bastante severo.[ 14 ]
4. Apoá s realçar o sentido holíástico das concepçoã es fisioloá gicas de Hipoá crates, o sr. Capra
insinua que esse sentido desapareceu completamente da medicina ocidental e agora temos
de ir buscaá -lo na tradiçaã o chinesa: “A noçaã o chinesa do corpo como um sistema indivisíável
de componentes inter-relacionados estaá muito mais proá xima da moderna abordagem
sisteê mica do que do modelo cartesiano claá ssico”. Se o sr. Capra naã o seguisse o haá bito
ocidental moderno de saltar direto do pensamento grego para o Renascimento, teria
reparado que a mesma concepçaã o holíástica domina todo o pensamento meá dico e bioloá gico
do Ocidente medieval, com destaque para Sto. Alberto Magno e Roger Bacon. Na verdade, as
concepçoã es chinesas saã o muito mais parecidas com as da Idade Meá dia que com a “moderna
abordagem sisteê mica”.
5. Ao explicar a psicoterapia de Arthur Janov, o sr. Capra diz que, segundo este eminente
psiquiatra, as neuroses saã o tipos simboá licos de comportamento que “representam as
defesas da pessoa contra a excessiva dor associada a traumas de infaê ncia”. Quem quer que
tenha lido Janov sabe que, na teoria deste, a etiologia das neuroses não é de ordem
traumática, mas reside na frustraçaã o constante e habitual de necessidades baá sicas,
frustraçaã o que aà s vezes naã o eá sequer percebida no níável consciente. Um trauma, na
psicopatologia de Janov, nada mais eá que um fator superveniente. A minimizaçaã o da
importaê ncia etioloá gica dos traumas eá justamente o que singulariza o sistema de Janov.
Embora conhecendo o assunto de orelhada, o sr. Capra naã o se inibe de opinar a respeito
com ar professoral: “O sistema conceitual de Janov naã o eá suficientemente amplo para
explicar experieê ncias transpessoais...”. O que certamente naã o eá amplo eá o conhecimento que
o sr. Capra tem do sistema de Janov.
SUGESTOÃ ES DE LEITURA
Aleá m das obras citadas no texto, o leitor poderaá consultar com proveito as seguintes:
1. Quem aprecie o holismo e deseje ter uma informaçaã o seá ria a respeito, sem aberraçoã es
caprinas e com mais ensinamento valioso, leia o livro de Joeü l de Rosnay, Le Macroscope: Vers
une Vision Globale (Paris, Le Seuil, 1975). O prof. de Rosnay ensinou no MIT e trabalha no
Instituto Pasteur de Paris. EÁ interessante ler tambeá m as obras de Edgar Morin, que foi aliaá s
quem lançou a expressaã o “novo paradigma”. Ver, especialmente La Méthode, em dois tomos
(I, La Nature de la Nature, Paris, Le Seuil, 1977; II, La Vie de la Vie, id., 1980).
2. O I Ching tem treê s traduçoã es ocidentais famosas: a de James Legge (versaã o brasileira de
E. Peixoto de Souza e Maria Judith Martins, Saã o Paulo, Hemus, 1972), a de Richard Wilhelm
(versaã o inglesa de Cary F. Baynes, London, Routledge and Kegan Paul, 1951, vaá rias
reediçoã es; versaã o brasileira de Lya Luft e Alayde Mutzembecher, Saã o Paulo, Nova Acroá pole),
e a de P. L. F. Philastre, Le Yi King. Livre des Changements de la Dynastie des Tsheou. Annales
du Museá e Guimet, t. huitieà me, 2 vol. (Paris, Adrien Maisonneuve, 1975). Um estudo seá rio do
assunto requer o exame das treê s. A de Wilhelm eá mais didaá tica e faá cil de consultar. Legge
enfatiza muito as ligaçoã es estruturais entre as partes e abre para um estudo mais
aprofundado. Das treê s a de Philastre eá de longe a mais interessante, pois eá a uá nica que
transcreve integralmente e pela ordem as glosas das dez “geraçoã es” de comentaristas
chineses.
3. Sobre os síámbolos da tradiçaã o chinesa, ver o livro claá ssico de Reneá Gueá non, La Grande
Triade (Paris, Gallimard, 1957). Conveá m recorrer ainda, quanto aos ideogramas, aà obra
monumental do Pe. L. Wieger, Chinese Characters: Their Origin, Etimology, History,
Classification and Signification. A Thorough Study from Chinese Documents, traduzido por L.
Davrout, s. j. (New York, Dover, 1965; a primeira ediçaã o eá de 1915).
4. Sobre o pensamento chineê s eá ainda indispensaá vel, a quem deseje aprofundar o assunto,
estudar: quanto aà s concepçoã es cosmoloá gicas, Marcel Granet, La Pensée Chinoise (Paris,
Albin Michel, 1968) e La Réligion des Chinois (Paris, Payot, 1980). Quanto aà s instituiçoã es e
ao governo, Granet, La Civilisation Chinoise (Paris, La Renaissance du Livre, 1929). Sobre a
moral, o direito e as classes sociais, Max Weber, The Religion of China, traduzido por H. H.
Gerth e C. Wright Mills (New York, The Free Press, 1951).
5. Um “novo modelo de histoá ria cultural” baseado em concepçoã es orientais eá algo que jaá
estava realizado pelo menos desde 1945, em Le Règne de la Quantité et les Signes des Temps,
de Reneá Gueá non (Paris, Gallimard). Um monumento de sabedoria.
6. Sobre a disputa Leibniz-Newton pode-se ler: Joseá Ortega y Gasset, La Idea de Principio
en Leibniz y la Evolución de la Teoría Deductiva (em Obras Completas, t. 8, Madrid, Alianza,
1983); Paul Hazard, La Crise de la Conscience Européenne: 1660-1715 (Paris, Gallimard,
1961); Edwin A. Burtt, As bases metafísicas da ciência moderna, traduzido por Joseá Viegas
Filho e Orlando Arauá jo Henriques (Brasíália, UnB, 1983).

[ 10 ] Escrito em setembro de 1993.


[ 11 ] Livro I, cap. III.
[ 12 ] Tendo enviado a Frei Betto uma coá pia deste capíátulo antes de sua publicaçaã o em livro, recebi dele uma resposta em
duas linhas, que eá um singular documento psicoloá gico. Ela diz: "Apesar das suas reservas, o evento [NE: recepçaã o ao sr.
Capra] foi bom para quem laá esteve". Deve ter sido mesmo um barato, imagino eu. Mas o ilustre frade naã o me
compreendeu. Longe de mim depreciar o evento em si — a organizaçaã o do programa, o serviço de som ou o tempero dos
salgadinhos. O que eu disse que naã o presta eá a filosofia do sr. Capra, subentendendo que celebraá -la num congresso de
intelectuais eá jogar dinheiro fora; e quanto melhor o evento, mais lamentaá vel o desperdíácio. Caso, poreá m, o missivista
tenha pretendido alegar a qualidade do evento como um argumento em favor do sr. Capra, isto seria o mesmo que dizer
que o preço da vela prova a qualidade do defunto. Aleá m disso, que opiniaã o se poderia ter de um pensador que
argumentasse em favor de uma filosofia mediante a alegaçaã o de que ela lhe daá a oportunidade de frequü entar lugares
agradaá veis? [Nota da 2ª ediçaã o]
[ 13 ] Cf. Brihadaranyaka Upanishad, livro 10.
[ 14 ] V., por exemplo, Wolfgang Smith, Cosmos and Transcendence, New York, l970, ou Titus Burckhardt, Scienza Moderna
e Sagezza Tradizionale, Torino, l968.
II
STO. ANTONIO GRAMSCI
E A SALVAÇAÃ O DO BRASIL

Q uem deseje reduzir a um quadro coerente o aglomerado caoá tico de elementos que
se agitam na cena brasileira tem de começar a desenhaá -lo tomando como centro
um personagem que nunca esteve aqui, do qual a maioria dos brasileiros nunca
ouviu falar, e que ademais estaá morto haá mais de meio seá culo, mas que, desde o
reino das sombras, dirige em segredo os acontecimentos nesta parte do mundo.
Refiro-me ao ideoá logo italiano Antonio Gramsci. Tendo-se tornado praxe entre as
esquerdas jamais pronunciar o nome de Gramsci sem acrescentar-lhe a mençaã o de que se
trata de um maá rtir, apresso-me a declarar que o referido passou onze anos numa prisaã o
fascista, de onde remeteu ao mundo, mediante naã o sei que artifíácio, os trinta e treê s
cadernos de notas que hoje constituem, para os fieá is remanescentes do comunismo
brasileiro, a bíáblia da estrateá gia revolucionaá ria. Mas naã o estaá soá nisso a razaã o da aura
beatíáfica que envolve o personagem. Da estrateá gia, tal como vista por ele, constituíáa um
capíátulo importante a criaçaã o de um novo calendaá rio dos santos, que pudesse desbancar, na
imaginaçaã o popular, o prestíágio do hagioloá gio catoá lico (uma vez que a Igreja, na visaã o dele,
era o maior obstaá culo ao avanço do comunismo). O novo panteaã o seria inteiramente
constituíádo de líáderes comunistas ceá lebres, e baseado no criteá rio segundo o qual “Rosa
Luxemburgo e Karl Liebknecht saã o maiores do que os maiores santos de Cristo” — palavras
textuais de Gramsci. Os seguidores do novo culto, com inteira loá gica, puseram ainda mais
alto na escala celeste o instituidor do calendaá rio, motivo pelo qual naã o se pode falar dele
sem a correspondente unçaã o. E eu, temeroso como o sou de todas as coisas do aleá m, naã o
poderia iniciar esta breve exposiçaã o do gramscismo brasileiro sem a preliminar invocaçaã o
ao seu patrono, em quem se depositam, neste momento, muitas esperanças de salvaçaã o do
Brasil. Digo, pois: Sancte Antonie Gramsci, ora pro nobis.
Atendida esta devota formalidade, retorno aos fatos. Gramsci ficou, dizia eu, meditando na
cadeia. Mussolini, que o mandara prender, acreditava estar prestando um serviço ao mundo
com o sileê ncio que impunha aà quele ceá rebro que ele julgava temíável. Aconteceu que no
sileê ncio do caá rcere o referido ceá rebro naã o parou de funcionar; apenas começou a germinar
ideá ias que dificilmente lhe teriam ocorrido na agitaçaã o das ruas. Homens solitaá rios voltam-
se para dentro, tornam-se subjetivistas e profundos. Gramsci transformou a estrateá gia
comunista, de um grosso amaá lgama de retoá rica e força bruta, numa delicada orquestraçaã o
de influeê ncias sutis, penetrante como a Programaçaã o Neurolinguü íástica e mais perigosa, a
longo prazo, do que toda a artilharia do Exeá rcito Vermelho. Se Leê nin foi o teoá rico do golpe
de Estado, ele foi o estrategista da revoluçaã o psicoloá gica que deve preceder e aplainar o
caminho para o golpe de Estado.
Gramsci estava particularmente impressionado com a violeê ncia das guerras que o
governo revolucionaá rio da Ruá ssia tivera de empreender para submeter ao comunismo as
massas recalcitrantes, apegadas aos valores e praxes de uma velha cultura. A resisteê ncia de
um povo arraigadamente religioso e conservador a um regime que se afirmava destinado a
beneficiaá -lo colocou em risco a estabilidade do governo sovieá tico durante quase uma
deá cada, fazendo com que, em reaçaã o, a ditadura do proletariado — na intençaã o de Marx
uma breve transiçaã o para o paraíáso da democracia comunista — ameaçasse eternizar-se,
barrando o caminho a toda evoluçaã o futura do comunismo, como de fato veio a acontecer.
Para contornar a dificuldade, Gramsci concebeu uma dessas ideá ias engenhosas, que soá
ocorrem aos homens de açaã o quando a impossibilidade de agir os compele a meditaçoã es
profundas: amestrar o povo para o socialismo antes de fazer a revoluçaã o. Fazer com que
todos pensassem, sentissem e agissem como membros de um Estado comunista enquanto
ainda vivendo num quadro externo capitalista. Assim, quando viesse o comunismo, as
resisteê ncias possíáveis jaá estariam neutralizadas de antemaã o e todo mundo aceitaria o novo
regime com a maior naturalidade.
A estrateá gia de Gramsci virava de cabeça para baixo a foá rmula leninista, na qual uma
vanguarda organizadíássima e armada tomava o poder pela força, autonomeando-se
representante do proletariado e somente depois tratando de persuadir os apatetados
proletaá rios de que eles, sem ter disto a menor suspeita, haviam sido os autores da
revoluçaã o. A revoluçaã o gramsciana estaá para a revoluçaã o leninista assim como a seduçaã o
estaá para o estupro.
Para operar essa virada, Gramsci estabeleceu uma distinçaã o, das mais importantes, entre
“poder” (ou, como ele prefere chamaá -lo, “controle”) e “hegemonia”. O poder eá o domíánio
sobre o aparelho de Estado, sobre a administraçaã o, o exeá rcito e a políácia. A hegemonia eá o
domíánio psicoloá gico sobre a multidaã o. A revoluçaã o leninista tomava o poder para
estabelecer a hegemonia. O gramscismo conquista a hegemonia para ser levado ao poder
suavemente, imperceptivelmente. Naã o eá preciso dizer que o poder, fundado numa
hegemonia preá via, eá poder absoluto e incontestaá vel: domina ao mesmo tempo pela força
bruta e pelo consentimento popular — aquela forma profunda e irrevogaá vel de
consentimento que se assenta na força do haá bito, principalmente dos automatismos
mentais adquiridos que uma longa repetiçaã o torna inconscientes e coloca fora do alcance
da discussaã o e da críática. O governo revolucionaá rio leninista reprime pela violeê ncia as
ideá ias adversas. O gramscismo espera chegar ao poder quando jaá naã o houver mais ideá ias
adversas no repertoá rio mental do povo.
Que esse negoá cio eá tremendamente maquiaveá lico, o proá prio Gramsci o reconhecia, mas
fazendo disto um tíátulo de gloá ria, jaá que Maquiavel era um dos seus gurus. Apenas, ele
adaptou Maquiavel aà s demandas da ideologia socialista, coletivizando o “Príáncipe”. Em
lugar do condottiere individual que para chegar ao poder utiliza os expedientes mais
repugnantes com a conscieê ncia tranquü ila de quem estaá salvando a paá tria, Gramsci coloca
uma entidade coletiva: a vanguarda revolucionaá ria. O Partido, em suma, eá o novo Príáncipe.
Como o sangue-frio dos homens fica mais frio na medida em que eles se sentem apoiados
por uma coletividade, o Novo Príáncipe tem uma conscieê ncia ainda mais tranquü ila que a do
antigo. O condottiere da Renascença naã o tinha apoio senaã o de si mesmo, e nas noites frias
do palaá cio tinha de suportar sozinho os conflitos entre conscieê ncia moral e ambiçaã o
políática, encontrando no patriotismo uma soluçaã o de compromisso. No Novo Príáncipe, a
produçaã o de analgeá sicos da conscieê ncia eá trabalho de equipe, e nas fileiras de militantes haá
sempre uma imensa reserva de talentos teoá ricos que podem ser convocados para produzir
justificaçoã es do que quer que seja.
Os intelectuais desempenham por isso, na estrateá gia gramsciana, um papel de relevo. Mas
isto naã o quer dizer que suas ideá ias sejam importantes em si mesmas, pois, para Gramsci, a
uá nica importaê ncia de uma ideá ia reside no reforço que ela daá , ou tira, aà marcha da revoluçaã o.
Gramsci divide os intelectuais em dois tipos: “orgaê nicos” e “inorgaê nicos” (ou, como ele
prefere chamaá -los, “tradicionais”). Estes uá ltimos saã o uns esquisitoã es que, baseados em
criteá rios e valores oriundos de outras eá pocas, e sem uma definida ideologia de classe,
emitem ideá ias que, ignoradas pelas massas, naã o exercem qualquer influeê ncia no processo
histoá rico: acabam indo parar na lata de lixo do esquecimento, a naã o ser que tenham a
esperteza de aderir logo a uma das correntes “orgaê nicas”. Intelectuais orgaê nicos saã o aqueles
que, com ou sem vinculaçaã o formal a movimentos políáticos, estaã o conscientes de sua
posiçaã o de classe e naã o gastam uma palavra sequer que naã o seja para elaborar, esclarecer e
defender sua ideologia de classe. Naturalmente, haá intelectuais orgaê nicos “burgueses” e
“proletaá rios”. Estes saã o a nata e o ceá rebro do Novo Príáncipe, mas aqueles tambeá m teê m
alguma utilidade para a revoluçaã o, pois eá atraveá s deles que os revolucionaá rios veê m a
conhecer a ideologia do inimigo. Gramsci mencionava como protoá tipos de intelectuais
orgaê nicos burgueses Benedetto Croce e Giovanni Gentile: o liberal anti-fascista e o ministro
de Mussolini.
O conceito gramsciano de intelectual funda-se exclusivamente na sociologia das
profissoã es e, por isto, eá bem elaá stico: haá lugar nele para os contadores, os meirinhos, os
funcionaá rios dos correios, os locutores esportivos e o pessoal do show business. Toda essa
gente ajuda a elaborar e difundir a ideologia de classe, e, como elaborar e difundir a
ideologia de classe eá a uá nica tarefa intelectual que existe, uma vedette que sacuda as banhas
num espetaá culo de protesto pode ser bem mais intelectual do que um filoá sofo, caso se trate
de um “inorgaê nico” como por exemplo o autor destas linhas.
Os intelectuais no sentido elaá stico saã o o verdadeiro exeá rcito da revoluçaã o gramsciana,
incumbido de realizar a primeira e mais decisiva etapa da estrateá gia, que eá a conquista da
hegemonia, um processo longo, complexo e sutil de mutaçoã es psicoloá gicas graduais e
crescentes, que a tomada do poder apenas coroa como uma espeá cie de orgasmo políático.
A luta pela hegemonia naã o se resume apenas ao confronto formal das ideologias, mas
penetra num terreno mais profundo, que eá o daquilo que Gramsci denomina — dando ao
termo uma acepçaã o peculiar — “senso comum”. O senso comum eá um aglomerado de
haá bitos e expectativas, inconscientes ou semiconscientes na maior parte, que governam o
dia-a-dia das pessoas. Ele se expressa, por exemplo, em frases feitas, em giros verbais
tíápicos, em gestos automaá ticos, em modos mais ou menos padronizados de reagir aà s
situaçoã es. O conjunto dos conteuá dos do senso comum identifica-se, para o seu portador
humano, com a realidade mesma, embora naã o constitua de fato senaã o um recorte bastante
parcial e frequü entemente imaginoso. O senso comum naã o “apreende” a realidade, mas
opera nela ao mesmo tempo uma filtragem e uma montagem, segundo padroã es que,
herdados de culturas ancestrais, permanecem ocultos e inconscientes.
Como o que interessa naã o eá tanto a convicçaã o políática expressa, mas o fundo inconsciente
do “senso comum”, Gramsci estaá menos interessado em persuasaã o racional do que em
influeê ncia psicoloá gica, em agir sobre a imaginaçaã o e o sentimento. Daíá sua eê nfase na
educaçaã o primaá ria. Seja para formar os futuros “intelectuais orgaê nicos”, seja simplesmente
para predispor o povo aos sentimentos desejados, eá muito importante que a influeê ncia
comunista atinja sua clientela quando seus ceá rebros ainda estaã o tenros e incapazes de
resisteê ncia críática.
O senso comum naã o coincide com a ideologia de classe, e eá precisamente aíá que estaá o
problema. Na maior parte das pessoas, o senso comum se compoã e de uma sopa de
elementos heteroá clitos colhidos nas ideologias de vaá rias classes. EÁ por isto que, movido
pelo senso comum, um homem pode agir de maneiras que, objetivamente, contrariam o seu
interesse de classe, como por exemplo quando um proletaá rio vai aà missa. Nesta simples
rotina dominical oculta-se uma mistura das mais surpreendentes, onde um valor tíápico da
cultura feudal-aristocraá tica, reelaborado e posto a serviço da ideologia burguesa, aparece
transfundido em haá bito proletaá rio, graças ao qual um pobre coitado, acreditando salvar a
alma, comete, na realidade, apenas uma grossa sacanagem contra seus companheiros de
classe e contra si mesmo.
Aíá eá que entra a missaã o providencial dos intelectuais. Sua funçaã o eá precisamente por um
fim a essa suruba ideoloá gica, reformando o senso comum, organizando-o para que se torne
coerente com o interesse de classe respectivo, esclarecendo-o e difundindo-o para que fique
cada vez mais consciente, para que, cada vez mais, o proletaá rio viva, sinta e pense de acordo
com os interesses objetivos da classe proletaá ria e o burgueê s com os da classe burguesa. A
este estado de perfeita coincideê ncia entre ideá ias e interesses de classe, quando realizado
numa dada sociedade e cristalizado em leis que distribuem a cada classe seus direitos e
deveres segundo uma clara delimitaçaã o dos respectivos campos ideoloá gicos, Gramsci
denomina Estado Ético. EÁ a escalaçaã o final dos dois times, antes de começar o preá lio
decisivo que levaraá o Partido ao poder. O puá blico brasileiro tem ouvido este termo,
proferido num contexto de combate aà corrupçaã o e de restauraçaã o da moralidade. Mas ele eá
um termo teá cnico da estrateá gia gramsciana, que designa apenas uma determinada etapa na
luta revolucionaá ria — uma etapa, aliaá s, bastante avançada, na qual a radicalizaçaã o do
conflito de interesses de classe prepara o iníácio da etapa orgaá stica: a conquista do poder.
Que, no caoá tico senso comum brasileiro, o termo Estado Ético tenha ressonaê ncias
moralizadoras inteiramente alheias ao seu verdadeiro intuito, mostra apenas que o puá blico
nacional ignora a inspiraçaã o diretamente gramsciana do Movimento pela Ética na Política e
nem de longe suspeita que seu uá nico objetivo eá politizar a eá tica, canalizando as aspiraçoã es
morais mais ou menos confusas da populaçaã o de modo a que sirvam a objetivos que nada
teê m a ver com o que um cidadaã o comum entende por moral. O Estado Ético, na verdade, naã o
apenas eá compatíável com a total imoralidade, como na verdade a requer, pois consolida e
legitima duas morais antagoê nicas e inconciliaá veis, onde a luta de classes eá colocada acima
do bem e do mal e se torna ela mesma o criteá rio moral supremo. Daíá por diante, a mentira, a
fraude ou mesmo o homicíádio podem se tornar louvaá veis, quando cometidos em defesa da
“nossa” classe, ao passo que a deceê ncia, a honestidade, a compaixaã o podem ter algo de
criminoso, caso favoreçam a classe adversaá ria.[ 15 ] Que o tradicional discurso moralista da
burguesia brasileira tenha podido ser assim usado como arma para desferir um golpe
mortal na hegemonia burguesa, mostra menos a esperteza da esquerda gramsciana do que
a estupidez paquideá rmica da nossa classe dominante. Que, por outro lado, os proá prios
agentes do gramscismo finjam acreditar no caraá ter apolíático e puramente higieê nico da
campanha moralizante — apaziguando assim os temores daqueles que seraã o suas
primeiras víátimas — eá nada mais que uma expressaã o da linguagem dupla, inerente a uma
estrateá gia na qual a camuflagem eá tudo. Saã o liçoã es de Antonio Soá -a-Cabecinha Gramsci.
EÁ quase impossíável que, a esta altura, a expressaã o “inversaã o de valores” naã o ocorra ao
leitor. Essa inversaã o eá , de fato, um dos objetivos prioritaá rios da revoluçaã o gramsciana, na
fase da luta pela hegemonia. Mas Gramsci eá , neste ponto, bastante exigente: naã o basta
derrotar a ideologia expressa da burguesia; eá preciso extirpar, junto com ela, todos os
valores e princíápios herdados de civilizaçoã es anteriores, que ela de algum modo incorporou
e que se encontram hoje no fundo do senso comum. Trata-se enfim de uma gigantesca
operaçaã o de lavagem cerebral, que deve apagar da mentalidade popular, e sobretudo do
fundo inconsciente do senso comum, toda a herança moral e cultural da humanidade, para
substituíá-la por princíápios radicalmente novos, fundados no primado da revoluçaã o e no que
Gramsci denomina “historicismo absoluto” (mais adiante explico).
Uma operaçaã o dessa envergadura transcende infinitamente o plano da mera pregaçaã o
revolucionaá ria, e abrange mutaçoã es psicoloá gicas de imensa profundidade, que naã o
poderiam ser realizadas de improviso nem aà plena luz do dia. O combate pela hegemonia
requer uma pluralidade de canais de atuaçaã o informais e aparentemente desligados de toda
políática, atraveá s dos quais se possa ir injetando imperceptivelmente na mentalidade
popular toda uma gama de novos sentimentos, de novas reaçoã es, de novas palavras, de
novos haá bitos, que aos poucos vaá mudando de direçaã o o eixo da conduta.
Daíá que Gramsci deê relativamente pouca importaê ncia aà pregaçaã o revolucionaá ria aberta,
mas enfatize muito o valor da penetraçaã o camuflada e sutil. Para a revoluçaã o gramsciana
vale menos um orador, um agitador notoá rio, do que um jornalista discreto que, sem tomar
posiçaã o explíácita, vaá delicadamente mudando o teor do noticiaá rio, ou do que um cineasta
cujos filmes, sem qualquer mensagem políática ostensiva, afeiçoem o puá blico a um novo
imaginaá rio, gerador de um novo senso comum. Jornalistas, cineastas, muá sicos, psicoá logos,
pedagogos infantis e conselheiros familiares representam uma tropa de elite do exeá rcito
gramsciano. Sua atuaçaã o informal penetra fundo nas conscieê ncias, sem nenhum intuito
políático declarado, e deixa nelas as marcas de novos sentimentos, de novas reaçoã es, de
novas atitudes morais que, no momento propíácio, se integraraã o harmoniosamente na
hegemonia comunista.[ 16 ]
Milhoã es de pequenas alteraçoã es vaã o assim sendo introduzidas no senso comum, ateá que o
efeito cumulativo se condense numa repentina mutaçaã o global (uma aplicaçaã o da teoria
marxista do “salto qualitativo” que sobreveá m ao fim de uma acumulaçaã o de mudanças
quantitativas). Ao esforço sistemaá tico de produzir esse efeito cumulativo Gramsci
denomina, significativamente, “agressaã o molecular”: a ideologia burguesa naã o deve ser
combatida no campo aberto dos confrontos ideoloá gicos, mas no terreno discreto do senso
comum; naã o pelo avanço maciço, mas pela penetraçaã o sutil, milíámetro a milíámetro, ceá rebro
por ceá rebro, ideá ia por ideá ia, haá bito por haá bito, reflexo por reflexo.
EÁ claro que a mutaçaã o almejada naã o abrange somente o terreno das convicçoã es políáticas,
mas visa principalmente aà s reaçoã es espontaê neas, aos sentimentos de base, aà s cadeias de
reflexos que determinam inconscientemente a conduta. Condutas sedimentadas no
inconsciente humano haá seá culos ou mileê nios devem ser desarraigadas, para ceder lugar a
uma nova constelaçaã o de reaçoã es. EÁ importante, por exemplo, varrer do imaginaá rio popular
figuras tradicionais de heroá is e de santos que expressem determinados ideais, pois essas
figuras estaã o imantadas de uma força motivadora que dirige a conduta dos homens num
sentido hostil aà proposta gramsciana. Elas devem ser substituíádas por um novo panteaã o de
íádolos, no qual, como se viu acima, Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo, Leê nin, Staá lin e
obviamente o proá prio Gramsci ocupam os lugares de S. Francisco de Assis, Santa Terezinha
do Menino Jesus e tutti quanti. Gramsci copiou nisto uma ideá ia de Augusto Comte, de trocar
o calendaá rio dos santos da Igreja por um panteaã o de heroá is revolucionaá rios. Apenas, os
íádolos de Comte eram os da Revoluçaã o Francesa: Gramsci atualizou a folhinha.
Uma lavagem cerebral de taã o vasta escala naã o poderia, certamente, limitar-se a extirpar
da cabeça humana crenças religiosas, imagens, mitos e sentimentos tradicionais: ela
deveria tambeá m estender-se aà s grandes concepçoã es filosoá ficas e cientíáficas. A estas,
Gramsci queria destruir pela base, todas de uma vez, para substituíá-las por uma nova
cosmovisaã o inspirada no marxismo, ou antes, numa caricatura hipertroá fica de marxismo
que o proá prio Marx rejeitaria com desprezo. Pois Marx considerava-se, sobretudo, o
herdeiro de grandes tradiçoã es filosoá ficas como o aristotelismo, e construiu sua filosofia no
intuito de tornaá -la uma cieê ncia, uma descriçaã o objetivamente vaá lida das bases do processo
histoá rico. Para Gramsci, as tradiçoã es filosoá ficas devem ser todas varridas de uma vez, e
junto com elas a distinçaã o entre “verdade” e “falsidade”. Pois Gramsci naã o eá um marxista
puro-sangue. Atraveá s de seu mestre Antonio Labriola, ele recebeu uma poderosa influeê ncia
do pragmatismo, escola para a qual o conceito tradicional da verdade como uma
correspondeê ncia entre o conteuá do do pensamento e um estado de coisas deve ser
abandonado em proveito de uma noçaã o utilitaá ria e meramente operacional. Nesta,
“verdade” naã o eá o que corresponde a um estado objetivo, mas o que pode ter aplicaçaã o uá til
e eficaz numa situaçaã o dada. Enxertando o pragmatismo no marxismo, Labriola e Gramsci
propunham que se jogasse no lixo o conceito de verdade: na nova cosmovisaã o, toda
atividade intelectual naã o deveria buscar mais o conhecimento objetivo, mas sim a mera
“adequaçaã o” das ideá ias a um determinado estado da luta social. A isto Gramsci denominava
“historicismo absoluto”. Nesta nova cosmovisaã o, naã o haveria lugar para a distinçaã o —
burguesa, segundo Gramsci — entre verdade e mentira. Uma teoria, por exemplo, naã o se
aceitaria por ser verdadeira, nem se rejeitaria por falsa, mas dela soá se exigiria uma uá nica e
decisiva coisa: que fosse “expressiva” do seu momento histoá rico, e principalmente das
aspiraçoã es da massa revolucionaá ria. Dito de modo mais claro: Gramsci exige que toda
atividade cultural e cientíáfica se reduza aà mera propaganda políática, mais ou menos
disfarçada.
A “filosofia” de Gramsci resolve-se assim num ceticismo teoreá tico que completa a negaçaã o
da inteligeê ncia pela sua submissaã o integral a um apelo de açaã o praá tica; açaã o que, realizada,
resultaraá em varrer a inteligeê ncia da face da Terra, por supressaã o das condiçoã es que
possibilitam o seu exercíácio: a autonomia da inteligeê ncia individual e a feá na busca da
verdade. Substituíáda a primeira pela arregimentaçaã o de “intelectuais orgaê nicos” de
carteirinha, e a segunda pela concentraçaã o de todas as energias intelectuais no nobre
mister da propaganda revolucionaá ria, queê sobraraá da aptidaã o humana para discernir entre
verdade e mentira?
Gramsci eá , em suma, o profeta da imbecilidade, o guia de hordas de imbecis para quem a
verdade eá a mentira e a mentira a verdade. Somente um outro imbecil como Mussolini
podia consideraá -lo “uma inteligeê ncia perigosa”. O perigo que haá nela eá o da malíácia que
obscurece, naã o o da inteligeê ncia que clareia; e a malíácia eá a contrafaçaã o simiesca da
inteligeê ncia. Mas a reaçaã o de Mussolini eá significativa. Haá nela a tíápica inveja moá rbida do
brutamontes de direita pelo intelectual esquerdista, sua sombra junguiana que ele naã o
compreende e que por isto mesmo lhe parece, por suas habilidades vistosas, o protoá tipo
mesmo da inteligeê ncia. A atraçaã o eá muá tua, como se veê pelo culto de Nelson Rodrigues entre
os esquerdistas que ele achincalhou como ningueá m. Entre a grossura direitista e a pseudo-
intelectualidade esquerdista, a relaçaã o eá o amor-oá dio de um casamento sadomasoquista.
Casamento entre le genti dolorose / C’hanno perduto il ben dello intelletto... Non ragioniam di
lor, ma guarda e passa.
Para quem quer que pense com a proá pria cabeça, as teorias de Gramsci naã o apresentam o
menor interesse, tanto quanto naã o o apresentam as velhas escolas ceá ticas gregas, das quais
o gramscismo eá uma reediçaã o mal atualizada. A refutaçaã o do ceticismo eá , como se sabe, o
primeiro teste do aprendiz de filoá sofo. Tal como se refuta o ceticismo — a negaçaã o de toda
certeza — pela simples afirmaçaã o de que a negaçaã o tambeá m eá incerta, o gramscismo
igualmente naã o resiste a um confronto consigo mesmo: tendo negado a veracidade objetiva,
ele se reduz a uma “expressaã o de aspiraçoã es”. Tendo reduzido toda a cultura aà propaganda,
ele proá prio se desmascara como mera propaganda. Naã o tem sequer a pretensaã o de ser
verdadeiro: nada pretende provar nem demonstrar; quer apenas seduzir, induzir, conduzir.
O tipo de mentalidade que se interessa por pensamentos desse geê nero eá certamente imune
a qualquer preocupaçaã o de veracidade, mas eá movido por uma ambiçaã o insaciaá vel que o faz
revolver sem descanso as trevas, numa “açaã o” esteá ril, nervosa, destrutiva, da qual promete
em vaã o fazer nascer um mundo. Por uma inevitaá vel e traá gica compensaçaã o, quanto menos
um homem eá apto a enxergar o mundo, mais assanhado fica de transformaá -lo — de
transformaá -lo aà imagem e semelhança da sua proá pria escuridaã o interior.[ 17 ]

***

Se nos perguntamos, agora, como foi possíável que uma filosofia assim grosseira alcançasse
no Brasil taã o vasta audieê ncia a ponto de inspirar o programa de um partido políático, a
resposta deve levar em consideraçaã o treê s aspectos: primeiro, a predisposiçaã o da
intelectualidade brasileira; segundo, as condiçoã es do momento; terceiro, a natureza mesma
dessa filosofia.
Ao longo da nossa histoá ria intelectual, somente treê s correntes de pensamento lograram
exercer uma influeê ncia duradoura e profunda sobre as camadas intelectuais brasileiras: o
positivismo de Augusto Comte, o neotomismo de Leaã o XIII, o marxismo. O que haá de comum
entre elas eá que naã o saã o propriamente filosofias, mas programas de açaã o coletiva,
destinados a moldar ou remoldar o mundo segundo as aspiraçoã es de suas eá pocas e de seus
mentores. O positivismo parte da constataçaã o de que a Revoluçaã o Francesa, derrubando as
concepçoã es cristaã s, deixou sua obra pela metade, na medida em que naã o poê s no lugar delas
uma nova religiaã o; o positivismo constitui esta nova religiaã o, com templo, calendaá rio dos
santos, ritual e tudo o mais; e as teorias filosoá ficas naã o saã o senaã o a sustentaçaã o do novo
Estado teocraá tico que Comte pretende fundar. O neotomismo eá a reaçaã o que, ao novo
Estado teocraá tico, opoã e um apelo ao retorno do antigo, devidamente revisto e atualizado.
Finalmente, o marxismo eá o programa de açaã o do movimento socialista. Nos treê s, as ideá ias,
as teorias, naã o teê m um valor intríánseco mas servem apenas como retaguardas psicoloá gicas
da açaã o praá tica. Os treê s naã o querem interpretar o mundo, mas transformaá -lo. (Cabe uma
ressalva com relaçaã o ao neotomismo: naã o confundi-lo com o tomismo, se por esta palavra
se entende a filosofia de Sto. Tomaá s de Aquino. O tomismo eá filosofia no sentido pleno; o
neotomismo eá , ao contraá rio, um movimento cultural e políático — ideoloá gico, em suma —
votado aà difusaã o dessa filosofia, tomada como soluçaã o pronta de todos os problemas e,
portanto, esvaziada de boa parte de sua substaê ncia filosoá fica. Afinal, tudo o que eá neo-
alguma-coisa eá , por definiçaã o, apenas uma nova casca da qual essa coisa eá o miolo.
Observaçoã es semelhantes poderiam fazer-se, com reservas, tambeá m do positivismo e do
marxismo: em ambos haá na raiz algo de filosofia auteê ntica, sufocada pelo desenvolvimento
hipertroá fico de um programa de açaã o praá tica, dela deduzido aos trambolhoã es.)
Filosofias que recuam da especulaçaã o teoreá tica para a proposiçaã o de açoã es praá ticas saã o
filosofias da decadeê ncia; marcam as eá pocas em que os homens jaá naã o conseguem
compreender o mundo e passam a agitar-se para escapar de um mundo incompreensíável. A
sofíástica nasce, na Greá cia, do fracasso das primeiras especulaçoã es cosmoloá gicas de Tales,
Anaximandro, Anaximenes, Parmeê nides e Heraá clito; incapaz de resolver as contradiçoã es
entre as teorias, ela transfere o eixo das preocupaçoã es humanas para a vida praá tica
imediata: para a políática do dia. Os sofistas saã o professores de retoá rica, que ensinam aos
jovens políáticos os meios de agir sobre as conscieê ncias. AÀ sofíástica opoã e Soá crates a dialeá tica
e o ideal da demonstraçaã o apodíáctica que orientaraá os esforços gregos em direçaã o ao saber
cientíáfico. Cinco seá culos mais tarde, apoá s o esquecimento das grandes síánteses teoreá ticas de
Plataã o e Aristoá teles, tornam-se novamente dominantes as escolas praticistas: os cíánicos, os
cirenaicos, os megaá ricos e, em parte, os estoá icos. E assim prossegue a histoá ria do
pensamento Ocidental, numa pulsaçaã o entre o empenho da compreensaã o teoreá tica e a
queda no ceticismo praticista. O fundo comum de onde emergem o positivismo, o marxismo
e o neotomismo eá a dissoluçaã o do racionalismo claá ssico, levado a um beco sem saíáda pela
críática kantiana e que tem no idealismo alemaã o o seu canto de cisne. Positivismo, marxismo
e neotomismo saã o as filosofias de uma eá poca que naã o tem filosofia nenhuma; de uma eá poca
que anseia por transformar o mundo na medida mesma em que eá incapaz de desempenhar
o esforço teoreá tico necessaá rio para compreendeê -lo.
Num texto claá ssico — Crise da Filosofia Ocidental (1874) —, o filoá sofo russo Vladimir
Soloviev previu que a filosofia, como atividade intelectual essencialmente individual, oposta
ao pensamento coletivo da religiaã o e da cieê ncia, estava em vias de acabar, para ceder lugar a
algo de totalmente diferente. Ele esperava o advento de uma grande síántese, mas o que se
viu foi o advento do “seá culo das ideologias”. Ora, o Brasil entra no curso espiritual do
mundo justamente no momento em que Soloviev faz esse diagnoá stico: recebemos
maciçamente o impacto das novas ideologias, antes de termos podido vivenciar a tradiçaã o
filosoá fica que as antecedeu. Nosso contato com as fontes filosoá ficas da civilizaçaã o do
Ocidente continuou superficial, ao passo que nos entregaá vamos de corpo e alma aà s
retoá ricas coletivistas. Passado mais de um seá culo, ainda naã o temos uma boa traduçaã o de
Aristoá teles, mas publicamos, jaá na deá cada de 60, as obras completas de Antonio Gramsci.
De outro lado, toda tentativa nossa de penetrar mais fundamente no campo da filosofia
mesma ficou limitada pela timidez, pela insegurança, que nos fazia apegar-nos como
crianças aà proteçaã o de algum super-ego estrangeiro da moda. Cinco deá cadas de atividade
filosofante na USP foram resumidas no tíátulo acachapante do livro receá m-publicado de
Paulo Arantes: Um departamento francês de ultramar. Escritoá rios de importaçaã o,
representantes autorizados, imitaçaã o, pedantismo, oscilaçaã o entre a falsa conscieê ncia e a
conscieê ncia de culpa marcam todos os nossos esforços filosoá ficos universitaá rios no sentido
de um pensamento independente. No fim, o intelectual com pretensoã es filosoá ficas soá
encontra alíávio quando desiste delas e recai no pensamento coletivo; quando, abdicando de
interpretar o mundo, se alinha, contrito e obediente, numa das correntes que professam
transformaá -lo: as conversoã es ao catolicismo, ao comunismo e aà s ideologias cientificistas
originadas do positivismo constituem — independentemente dos motivos pessoais em cada
caso — um melancoá lico ritornello na histoá ria dos fracassos das nossas ambiçoã es filosoá ficas.
A queda no pensamento coletivo eá vivenciada como um retorno da ovelha desgarrada, como
uma libertaçaã o das culpas, como um reencontro com a infaê ncia perdida. Ao reintegrar-se
numa comunidade ideoloá gica o ex-filoá sofo arrependido encontra ainda um alíávio para o
isolamento que cerca o intelectual no meio subdesenvolvido, e o ingresso no grupo
solidaá rio arremeda a descoberta de um “sentido da vida”.
A intelectualidade brasileira estava, por todos esses fatores, fundamente predisposta ao
apelo gramsciano, onde a vida intelectual deixa de ser o esforço solitaá rio de quem cherche
en gémissant, para tornar-se a participaçaã o num “sentido da vida” amparado pela
solidariedade coletiva. O Partido eá aà s vezes chamado por Gramsci “intelectual coletivo”. EÁ o
abrigo dos fracos. Aíá a ascensaã o ao estatuto de intelectual eá barateada: jaá naã o custa a
penosa aquisiçaã o de conhecimentos, a investigaçaã o pessoal, a luta direta com as incertezas.
Obteá m-se pelo contaá gio passivo de crenças, de um vocabulaá rio comum, de cacoetes
distintivos.[ 18 ] A sociedade em torno legitima a paroá dia: diante dessas marcas exteriores,
o brutamontes de direita acredita piamente estar na presença de um intelectual. A míádia faz
o resto.

***

O segundo fator, a situaçaã o do momento, pode-se descrever mais ou menos assim: desde a
derrota da luta armada, a esquerda andava em busca de uma estrateá gia pela qual se
orientar. Naã o sendo capaz de criar uma nova e naã o encontrando no repertoá rio mundial uma
outra aà sua disposiçaã o, ela aderiu a Gramsci quase por automatismo, sonambulicamente,
levada pela careê ncia de opçoã es.
De fato, o comunismo internacional soá teve, ao longo de sua histoá ria, um nuá mero pequeno
de propostas estrateá gicas. Marx naã o apresentou nenhuma. A primeira que fez sucesso foi a
de Leê nin. Consistia na formaçaã o de uma elite auto-nomeada, na tomada do poder por um
golpe suá bito, na posterior conversaã o forçada do proletariado a uma causa vencedora que se
apresentava como sua. A proposta de Leê nin veio a predominar sobre o socialismo
evolucionário de Edward Bernstein, o que provocou o racha entre os partidos comunistas e
a social-democracia, que pregava a tomada do poder por via pacíáfica, eleitoral e gradualista.
Hoje em dia a social-democracia eá a grande vencedora, dominando toda a Europa; mas, no
tempo de Leê nin, sua rejeiçaã o pelos comunistas parecia prenunciar o seu fracasso, o que a
queda de governos social-democratas ante o avanço do nazismo aparentemente confirmou.
A terceira grande estrateá gia foi a de Mao Tseá -tung. Nas condiçoã es da China, naã o havia um
proletariado urbano suficiente sequer para dar apoio moral aà guerra revolucionaá ria, e
como, por outro lado, o exeá rcito revolucionaá rio, banido dos grandes centros, acabasse
iniciando uma “grande marcha” pelos campos, o apoio das populaçoã es camponesas tornou-
se fundamental, e Mao teorizou a coisa a posteriori, transformando a revoluçaã o proletaá ria
em “guerra revolucionaá ria operaá rio-camponesa” — o que teria provocado engulhos em Karl
Marx, que via nos camponeses uma horda de reacionaá rios incuraá veis. Paralelamente, a
submissaã o do movimento comunista internacional aos interesses da políática exterior
sovieá tica deu nascimento a uma quarta estrateá gia, que encontrou sua mais clara expressaã o
no Front Popular, e que consistia fundamentalmente numa aliança dos comunistas com os
“elementos progressistas” de todas as outras correntes, direitistas inclusive. Aíá, a pretexto
de anti-fascismo, ateá Benedetto Croce ficou simpaá tico. Finalmente, a quinta estrateá gia do
movimento comunista surgiu da revoluçaã o cubana e da guerra do Vietnaã . Sem um autor
definido, resultando de enxertos e mixagens de vaá rias provenieê ncias, ela fundia, num vasto
plano de guerrilhas, o combate rural e o urbano. Uma de suas versoã es foi a “teoria foquista”
difundida por um doidaã o de nome Reá gis Deá bray, que obteve ampla audieê ncia na Ameá rica
Latina e propunha, para fazer face ao poder maciço do imperialismo norte-americano, a
formaçaã o de variados e simultaê neos “focos” de guerrilhas. A teoria resumia-se no slogan
entaã o pixado nos muros de todas as universidades: “Um, dois, treê s, muitos Vietnaã s”. Deu no
que deu. Dentre as muitas mixagens, uma particularmente interessante foi a que fundiu a
estrateá gia comunista — ateá aíá fundamentalmente proletaá ria e camponesa, ao menos no
nome — com as heresias de Herbert Marcuse, segundo o qual proletaá rios e camponeses
tinham-se integrado ao “sistema” e a revoluçaã o naã o tinha outros representantes
autorizados senaã o os estudantes e intelectuais, de um lado, e, de outro, a massa dos
miseraá veis e marginalizados, o vasto Lumpenproletariat, do qual o velho Karl Marx
aconselhava que os militantes comunistas fugissem como se foge de um assaltante aà maã o
armada. Um dos resultados locais deste enxerto foi que, apoá s a derrota da luta armada, os
militantes brasileiros presos passaram a alimentar uma vaga esperança no potencial
revolucionaá rio do Lumpen, e, para adiantar o expediente, trataram de ir ensinando taá ticas
de guerrilha aos bandidos com quem conviviam no presíádio da Ilha Grande. (Mais tarde
ainda, a fusaã o do gramscismo com resíáduos do marcusismo transformaria num dos pratos
de resisteê ncia do cardaá pio esquerdista a defesa da legitimidade do banditismo como
“protesto social”, que, formando polaridade com a onda de combate moralista aos
“colarinhos brancos”, estabeleceria uma dupla moral para o julgamento dos crimes: brando
para com o Lumpen, mesmo quando este mata ou estupra, rigoroso para com os ricos e a
classe-meá dia, quando cometem delitos contra o patrimoê nio — a mais curiosa inversaã o jaá
observada na histoá ria da moralidade.)
Nessa resenha das estrateá gias comunistas, onde entra o gramscismo? Naã o entra. Ele ficou
de fora, restrito a cíárculos locais italianos, e soá alcançou maior difusaã o, mesmo na Itaá lia,
apoá s a deá cada de 50, com a ediçaã o das obras completas de Gramsci por Einaudi. A partir de
l964, a facçaã o comunista brasileira ainda fiel aà orientaçaã o moscovita de aliança com a
burguesia acreditou ver em Gramsci um potencial renovador desta estrateá gia, com a qual
ele coincide ao menos no que diz respeito ao caraá ter eminentemente naã o-sangrento da luta
revolucionaá ria e na cuidadosa exclusaã o de quaisquer radicalismos que pudessem estreitar a
base das colaboraçoã es possíáveis. Porta-voz dessa corrente, o editor EÊ nio Silveira
empreendeu entaã o a publicaçaã o ao menos das principais obras de Gramsci: A concepção
dialética da História; Maquiavel, a Política e o Estado Moderno; Os intelectuais e a
organização da Cultura; Literatura e vida nacional e Cartas do cárcere.
Estas obras foram muito lidas, mas, numa atmosfera dominada pela obsessaã o da luta
armada, naã o exerceram influeê ncia praá tica imediata. Seu potencial ficou retido ateá a derrota
da luta armada, que provocou, como naã o poderia deixar de ser, um retorno generalizado aà s
teses do combate pacíáfico e aliancista defendidas pelo PC proá -Moscou. O reatamento do
romance entre a esquerda armada e a desarmada deu-se, naturalmente, sobre um fundo
musical orquestrado pelo maestro Antonio Gramsci. Simplesmente naã o havia outro capaz
de musicar esta cena. A esquerda tornou-se gramsciana meio aà s tontas, jogada pelo
entrechoque dos acontecimentos, como bolas de bilhar que, impelindo umas aà s outras, vaã o
dar todas enfim na caçapa.
Agora, a imprensa brasileira acaba de descobrir, com um atraso de dez anos, que o
programa do PT eá gramsciano. Mas, aleá m de tardia, esta descoberta eá inexata: naã o eá soá o PT
que segue Gramsci; todos os homens de esquerda neste paíás o fazem haá uma deá cada, sem se
dar conta. O gramscismo domina a atmosfera por simples auseê ncia de outras propostas e
tambeá m por uma razaã o especial: atuando menos no campo do combate ideoloá gico expresso
do que no da conquista do subconsciente, ele se propaga por mero contaá gio de modas e
cacoetes mentais, de maneira que poã e a seu serviço informal uma legiaã o de pessoas que
nunca ouviram falar em Antonio Gramsci. O gramscismo conta menos com a adesaã o formal
de militantes do que com a propagaçaã o epideê mica de um novo “senso comum”. Sua
facilidade de arregimentar colaboradores mais ou menos inconscientes eá , por isto,
simplesmente prodigiosa.
Eis ai o terceiro fator a que me referi. O gramscismo eá menos uma filosofia do que uma
estrateá gia de açaã o psicoloá gica, destinada a predispor o fundo do “senso comum” a aceitar a
nova taá bua de criteá rios proposta pelos comunistas, abandonando, como “burgueses”,
valores e princíápios milenares.
Que essa “filosofia”, para se propagar, naã o conte tanto com a persuasaã o racional como com
a eficaá cia da penetraçaã o sutil no inconsciente das massas, eá o que se veê claramente pela sua
eê nfase na conquista das mentes infantis — um terreno onde o avanço da esquerda vem
causando um dano incalculaá vel a milhoã es de crianças brasileiras, usadas como cobaias de
uma desastrosa experieê ncia gramsciana. Que, enfim, essa corrente haja alcançado sucesso
no Brasil, eá algo que testemunha a miseá ria intelectual de um meio onde os letrados,
incapazes de suportar o isolamento, buscam menos a verdade e o conhecimento do que
uma carteirinha de intelectual orgaê nico, que lhes garanta o apoio psicoloá gico de um vasto
grupo solidaá rio e os aureole de um ambíáguo prestíágio aos olhos dos brutamontes de direita,
sua mal disfarçada paixaã o.
Isso naã o poderia acontecer senaã o aqui.
ADENDOS

1
O nuá mero dos adeptos conscientes e declarados do gramscismo eá pequeno, mas isto naã o
impede que ele seja dominante. O gramscismo naã o eá um partido políático, que necessite de
militantes inscritos e eleitores fieá is. EÁ um conjunto de atitudes mentais, que pode estar
presente em quem jamais ouviu falar de Antonio Gramsci, e que coloca o indivíáduo numa
posiçaã o tal perante o mundo que ele passa a colaborar com a estrateá gia gramsciana mesmo
sem ter disto a menor conscieê ncia. Ningueá m entenderaá o gramscismo se naã o perceber que o
seu níável de atuaçaã o eá muito mais profundo que o de qualquer estrateá gia esquerdista
concorrente. Nas demais estrateá gias, haá objetivos políáticos determinados, a serviço dos
quais se colocam vaá rios instrumentos, entre eles a propaganda. A propaganda permanece,
em todas elas, um meio perfeitamente distinto dos fins. Por isto mesmo a atuaçaã o do
leninismo, ou do maoismo, eá sempre delineada e visíável, mesmo quando na clandestinidade.
No gramscismo, ao contraá rio, a propaganda naã o eá um meio de realizar uma políática: ela eá a
políática mesma, a esseê ncia da políática, e, mais ainda, a esseê ncia de toda atividade mental
humana. O gramscismo transforma em propaganda tudo o que toca, contamina de objetivos
propagandíásticos todas as atividades culturais, inclusive as mais inoá cuas em apareê ncia.
Nele, ateá simples giros de frase, estilos de vestir ou de gesticular podem ter valor
propagandíástico. EÁ esta onipresença da propaganda que o singulariza e lhe daá uma força
que seus adversaá rios, acostumados a medir a envergadura dos movimentos políáticos pelo
nuá mero de adeptos formalmente comprometidos, nem de longe podem avaliar.
Um detalhe que assinala bem as diferenças eá a atitude do gramscismo perante a arte
engajada. Outras estrateá gias exigem do artista que ele imprima aà s suas obras um sentido
políático determinado, ou que, pelo menos, sua visaã o do mundo, expressa em cada obra, seja
coerente com a interpretaçaã o marxista. A literatura engajada do leninismo, do stalinismo ou
do maoismo, eá portanto uma coleçaã o de obras das quais cada uma, por si, eá uma peça de
propaganda, com valor autoê nomo. Jaá no gramscismo o que interessa eá apenas o efeito de
conjunto da massa de obras literaá rias em circulaçaã o. Esse efeito de conjunto deve tender aà
mudança do senso comum desejada pelo Partido, pouco importando que cada obra, tomada
isoladamente, nada tenha de marxista ou seja mesmo destituíáda de qualquer valor
propagandíástico.
Graças a isto, o julgamento gramsciano de cada obra eá muito menos ríágido e dogmaá tico
que o de outras correntes marxistas — o que muito contribuiu para elevar o seu prestíágio
entre intelectuais ansiosos por conciliar seus ideais marxistas com seu desejo pessoal de
liberdade.
No gramscismo, qualquer obra literaá ria pode contribuir para a propaganda marxista,
dependendo apenas do contexto em que eá divulgada — tal como num jornal o teor das
notíácias tomadas individualmente interessa menos do que sua localizaçaã o na paá gina, ao
lado de outras notíácias cujo efeito de conjunto imprime um novo sentido a cada uma delas.
O objetivo primeiro do gramscismo eá muito amplo e geral em seu escopo: nada de políática,
nada de pregaçaã o revolucionaá ria, apenas operar um giro de cento e oitenta graus na
cosmovisaã o do senso comum, mudar os sentimentos morais, as reaçoã es de base e o senso
das proporçoã es, sem o confronto ideoloá gico direto que soá faria excitar prematuramente
antagonismos indesejaá veis.
As mudanças aíá operadas podem ser, no entanto, muito mais profundas e decisivas do que
a mera adesaã o consciente de um eleitorado aà s teses comunistas. Mudanças de criteá rio
moral, por exemplo, teê m efeitos explosivos. Essas mudanças podem ser induzidas atraveá s
da imprensa, sem qualquer ataque frontal e explíácito aos criteá rios admitidos. Um caso que
ilustra isto perfeitamente bem, e que demonstra o alcance da estrateá gia gramsciana no
Brasil, eá o do noticiaá rio sobre corrupçaã o. A campanha pela Ética na Política naã o surgiu com
um intuito moralizador, mas como uma proposta políática antiliberal. Numa entrevista ao
Jornal do Brasil, um dos fundadores da campanha, Herbert de Souza, o Betinho, deixou isso
perfeitamente claro. A campanha surgiu numa reuniaã o de intelectuais de esquerda em
busca de uma foá rmula contra Collor, muito antes de que houvesse qualquer denuá ncia de
corrupçaã o no governo. Mais tarde, estas denuá ncias vieram a dar aà campanha uma força
inesperada, trazendo para ela a adesaã o de massas de classe-meá dia moralista que,
politicamente, teriam tudo para se opor a qualquer proposta explicitamente esquerdista.
Ora, a campanha exerceu uma influeê ncia decisiva na direçaã o do noticiaá rio nos jornais e na
TV. Essa influeê ncia foi tal que introduziu nos julgamentos morais uma mudança profunda.
Impressionado pelo conteuá do escandaloso das notíácias, o puá blico nem de longe reparou
que a ediçaã o delas subentendia essa mudança, que, conscientemente, ele naã o aprovaria. Ela
consistiu em fazer com que os crimes contra o patrimoê nio puá blico parecessem
infinitamente mais graves e revoltantes do que os crimes contra a pessoa humana. P. C.
Farias, um treê mulo estelionataá rio incapaz de dar um pontapeá num cachorro, era
apresentado como um Al Capone, ao mesmo tempo que se minimizava a gravidade do
banditismo armado. Se de um lado jornalistas de esquerda promovem um ataque maciço
aos criminosos de colarinho branco e de outro lado intelectuais de esquerda lutam para que
os chefes de bandos de assassinos armados sejam reconhecidos como “lideranças
populares” legíátimas, o efeito conjugado dessas duas operaçoã es eá bem níátido: atenuar a
gravidade dos crimes contra a pessoa, quando cometidos pela classe baixa e aproveitaá veis
politicamente pelas esquerdas, e enfatizar a dos crimes contra o patrimoê nio, quando
cometidos por membros da classe dominante. Eis aíá a luta de classes transformada em
supremo criteá rio da moral, desbancando o preceito milenar, arraigado no senso comum, de
que a vida eá um bem mais sagrado do que o patrimoê nio.
Para que essas duas operaçoã es ocorram simultaneamente, produzindo um resultado
unificado, naã o eá preciso que emanem de um comando central organizado. Basta que os
intelectuais envolvidos numa e noutra comunguem ainda que vagamente de um espíárito
revolucionaá rio gramsciano, para que, numa espeá cie de cumplicidade implíácita, cada qual
realize sua tarefa e todos os resultados venham a convergir na direçaã o dos fins
gramscianos. Isto naã o exclui, eá claro, a hipoá tese de um comando unificado, mas, para o
sucesso da estrateá gia gramsciana, a unidade de comando, ao menos ostensiva, eá bastante
dispensaá vel na fase da luta pela hegemonia.
EÁ interessante saber que, na Constituiçaã o do Estado sovieá tico, o homicíádio doloso era
punido com apenas dez anos de cadeia e os crimes contra a administraçaã o puá blica
sujeitavam o culpado aà pena de morte. Nem poderia ser de outro modo, dado o pouco valor
que, na perspectiva marxista, tem a vida individual quando naã o posta a serviço da
revoluçaã o. Ora, o noticiaá rio sobre corrupçaã o conseguiu introduzir na mente brasileira o
haá bito de julgar as coisas segundo uma escala moral sovieá tica; e o fez com muito mais
eficieê ncia do que lograria em anos e anos de debates explíácitos. Uma vez explicitada, essa
mudança seria rejeitada com horror por um povo em que ainda saã o vivos, no fundo, os
sentimentos cristaã os. Introduzida por baixo, como criteá rio subjacente, ela penetra aà s
ocultas no senso comum e o perverte ateá a raiz, preparando-o para aceitar passivamente,
no futuro, aberraçoã es maiores ainda, que venham a ser impostas por um Estado socialista.
[ 19 ]
A atuaçaã o espontaê nea, aparentemente inconexa, de milhares de intelectuais — no sentido
gramsciano — em setores distintos da vida puá blica, pode ser facilmente dirigida para onde
o deseja a revoluçaã o gramsciana, naã o sendo necessaá rio para isto nem mesmo um oculto
Comiteê Central de super-ceá rebros a comandar o conjunto da operaçaã o. Basta que uma
cumplicidade inicial se estabeleça entre certos grupos, para que, sobretudo na auseê ncia de
qualquer confronto críático com outras correntes, o gramscismo avance como sobre trilhos
azeitados, na estrada que leva aà conquista da hegemonia. Ele jaá penetrou fundo, por esse
caminho, na mentalidade brasileira. Quando um partido políático assume publicamente sua
identidade gramsciana, eá que a fase do combate informal — a decisiva — jaá estaá para
terminar, pois seus resultados foram atingidos. Vai começar a luta pelo poder. O que marca
esta nova fase eá que todos os adversaá rios ideológicos jaá foram vencidos ou estaã o
moribundos; nenhum outro discurso ideoloá gico se opoã e ao gramscismo, e os adversaá rios
políáticos que restam lhe daã o ainda maior reforço, na medida em que, naã o possuindo
alternativa mental, pensam dentro dos quadros conceituais e valorativos demarcados por
ele e soá podem combateê -lo em nome dele mesmo. Isto eá hegemonia.

2
Gramsci jura que eá leninista, mas como ele atribui a Leê nin algumas ideá ias de sua proá pria
invençaã o das quais Leê nin nunca ouviu falar, as relaçoã es entre gramscismo e leninismo saã o
um abacaxi que os estudiosos buscam descascar revirando os textos com uma pacieê ncia de
exegetas catoá licos. Uma dessas ideá ias eá a de “hegemonia”, central no gramscismo. Gramsci
diz que ela foi a “maior contribuiçaã o de Leê nin” aà estrateá gia marxista, mas o conceito de
hegemonia naã o aparece em parte alguma dos escritos de Leê nin. Alguns exegetas
procuraram resolver o enigma identificando a hegemonia com a ditadura do proletariado,
mas isto naã o daá muito certo porque Gramsci diz que uma classe soá implanta uma ditadura
quando não tem a hegemonia. As relaçoã es entre Gramsci e Marx tambeá m saã o embrulhadas,
como se veê no uso do termo “sociedade civil”: para Marx, sociedade civil eá o termo oposto e
complementar do “Estado”, e, logo, se identifica com o reino das relaçoã es econoê micas, ou
infra-estrutura. Em Gramsci, a sociedade civil, somada aà sociedade políática ou Estado,
compoã e a super-estrutura que se assenta sobre a base econoê mica.
Essas e outras dificuldades de interpretaçaã o do pensamento de Gramsci decorrem, em
parte, do caraá ter fragmentaá rio e disperso dos seus escritos. Talvez elas possam ser
resolvidas, mas o que eá realmente espantoso eá que, alguns anos apoá s revelada ao mundo a
maçaroca dos textos gramscianos, e antes mesmo que algum seá rio exame produzisse uma
interpretaçaã o aceitaá vel do seu sentido, ela jaá fosse adotada como norma diretiva por vaá rias
organizaçoã es, começando a produzir efeitos praá ticos sobre os quais ningueá m, nessas
condiçoã es, poderia ter o míánimo controle. Essa adesaã o apressada a uma ideá ia que mal se
compreendeu assinala uma tremenda irresponsabilidade políática, um desejo aá vido de atuar
sobre a sociedade humana sem medir as consequü eê ncias. EÁ claro que ningueá m adere a
Gramsci com outro propoá sito que naã o o de implantar o comunismo em alguma parte do
mundo. Mas, sendo o gramscismo um pensamento obscuro e aà s vezes incompreensíável, naã o
haá nenhum motivo para crer que sua aplicaçaã o deva produzir nem mesmo esse resultado,
lamentaá vel o quanto seja. Pode acontecer, por exemplo, que a estrateá gia gramsciana naã o
gere outro efeito aleá m de tornar os burgueses ateus, retirando os freios que a religiaã o
impunha aà sua cobiça e ao seu maquiavelismo. Algo muito parecido aconteceu na proá pria
terra de Gramsci: eá impossíável naã o haver conexaã o entre a decadeê ncia da feá catoá lica e a
transformaçaã o da Itaá lia numa Sodoma capitalista. A nova cultura materialista e gramsciana
que dominou a atmosfera intelectual italiana desde a deá cada de 60 muito contribuiu para
esse resultado; apenas, naã o se veê que vantagem os comunistas puderam tirar disso. Os
esquerdistas brasileiros deveriam pensar na experieê ncia italiana antes de atirar-se a
aventuras gramscianas que, na educaçaã o como na políática, podem levar a resultados taã o
confusos quanto as ideá ias que as inspiram.

3
O termo “Estado EÁ tico” eá ele mesmo um dos primores de ambiguidade que se encontram na
mixoá rdia gramsciana. Ora ele designa o Estado comunista, ora o Estado capitalista
avançado, ora qualquer Estado. De modo mais geral, Gramsci denomina “eá tico” todo Estado
que procure elevar a psique e a moral de seus cidadaã os ao níável atingido pelo
“desenvolvimento das forças produtivas”, subentendendo-se que o Estado comunista faz
isto melhor do que ningueá m. A ideá ia eá intrinsecamente imoral: consiste em submeter a
moral aà s exigeê ncias da economia. Se, por exemplo, um determinado estaá gio do
“desenvolvimento das forças produtivas” requer que todos os habitantes de uma regiaã o
sejam removidos para o outro extremo do paíás, como aconteceu muitas vezes na Uniaã o
Sovieá tica, torna-se “eá tica” a conduta de um garoto que denuncie o pai aà s autoridades por
tentar fugir para uma cidade proá xima. A asquerosa admiraçaã o que os brasileiros veê m
demonstrando nos uá ltimos tempos pelos irmaã os que delatam irmaã os, pelas esposas que
delatam maridos, eá íándice de uma nova moralidade, inspirada em valores gramscianos. Naã o
haá duá vida de que o novo criteá rio eá “eá tico” no sentido gramsciano, isto eá , economicamente
uá til, jaá que a delaçaã o generalizada de pais, irmaã os, maridos e amantes pode ressarcir alguns
prejuíázos sofridos pelo Estado. Mas isto naã o atenua sua imoralidade intríánseca.

4[ 20 ]
Em cursos e confereê ncias, venho falando do gramscismo petista desde 1987 pelo menos,
para plateá ias em que naã o faltaram jornalistas. Mas a imprensa brasileira, refrataá ria a tudo
quanto seja novo, soá em 1994 informou ao puá blico a inspiraçaã o gramsciana do petismo,
quando ela naã o era mais uma tendeê ncia latente e jaá se havia externalizado no programa
oficial do partido. O primeiro a dar o alarma foi Gilberto Dimenstein, na Folha de S. Paulo,
logo apoá s a publicaçaã o deste livro que aliaá s nem sei se ele leu; mas limitava-se a mencionar
o nome do ideoá logo italiano, sem nada dizer do conteuá do de suas ideá ias. Naã o teve a menor
repercussaã o. Mais tarde li duas ou treê s frases alusivas a Gramsci, em outros jornais e em
Veja. Tudo muito sumaá rio, num tom de quem contasse com a compreensaã o de uma plateá ia
versadíássima em gramscismo. EÁ o velho jogo-de-cena do histrionismo brasileiro: dar por
pressuposto que o ouvinte sabe do que estamos falando eá um modo de induzi-lo a crer que
sabemos do que falamos. Na verdade, fora dos cíárculos do petismo letrado, soá sabem de
Gramsci uns quantos acadeê micos, entre os quais Oliveiros da Silva Ferreira, que defendeu
uma tese sobre o assunto numa USP carregada de odores gramscianos, na deá cada de 60.
Gramsci continua esoteá rico, lido soá em famíália, a salvo de qualquer críática exceto amigaá vel
— uma críática dos meios, conivente com os fins, numa atmosfera de culto e devoçaã o que
raia a pura e simples babaquice. Mas pelo mundo civilizado circulam críáticas devastadoras,
que provavelmente jamais chegaraã o ao conhecimento do puá blico brasileiro. Assinalo as de
Roger Scruton[ 21 ] e Alfredo Saá enz,[ 22 ] que tomam o assunto por lados bem diferentes
daquele que abordo neste livro, mas chegam a conclusoã es naã o menos reprobatoá rias.
Devo apontar como exceçaã o notaá vel, ainda que tardia, um artigo de Maá rcio Moreira Alves.[
23 ] Ele resgata parcialmente a honra da imprensa brasileira, mostrando que haá nela pelo
menos um ceá rebro capaz de saber de Gramsci algo mais do que o nome e pelo menos um
repoá rter que naã o foge da notíácia. Ele explica em linhas gerais a estrateá gia gramsciana e o
estado presente de sua aplicaçaã o pela liderança petista, levando aà conclusaã o de que, em vez
de criar uma democracia como o partido promete, ela vai produzir aqui a ditadura de uma
capelinha de intelectuais. EÁ lamentaá vel, apenas, que no reduzido espaço de sua coluna o
sempre surpreendente Moreira Alves naã o pudesse abranger assunto taã o vasto senaã o em
abreviatura pesadamente teá cnica, de difíácil assimilaçaã o pelo puá blico. O Globo deveria dar-
lhe duas paá ginas inteiras para trocar em miuá dos os ensinamentos ali contidos, talvez os
mais importantes e urgentes que a imprensa brasileira transmitiu ao puá blico nos uá ltimos
anos.
Particularmente oportuna eá ali a observaçaã o de que o programa mesmo do PT reconhece
— oficialmente, por assim dizer — a hegemonia da esquerda, principalmente no campo
cultural mas tambeá m na políática, na medida em que proclama o ingresso atual do Brasil
num novo “bloco histoá rico” (sistema cerrado de relaçoã es entre a economia e a
superestrutura cultural, moral e juríádica). EÁ digna da maior atençaã o, no programa do PT, a
parte referente aà “revoluçaã o passiva”. A passagem ao novo “bloco histoá rico” seraá feita pela
elite ativista com base no “consenso passivo” da populaçaã o. Isto quer dizer, sumariamente,
que o povo naã o precisaraá manifestar seu apoio ao programa do PT para que este se sinta
autorizado a promover a transformaçaã o revolucionaá ria da sociedade. A simples auseê ncia de
reaçaã o hostil, para naã o dizer de rebeliaã o, seraá interpretada como aprovaçaã o popular: quem
cala consente, em suma. A proposta eá de um cinismo descarado. Ela investe o PT do direito
divino de agir em nome do povo sem precisar ouvi-lo, jaá que o sileê ncio se tornaraá aplauso.
Durante sete deá cadas o sileê ncio de um povo oprimido foi interpretado como “aprovaçaã o
passiva” pelo governo da URSS. Em linguagem teá cnica mas incisiva, Maá rcio Moreira Alves
mostra que por esse caminho naã o se pode chegar a uma democracia. Discordo dele soá num
ponto: ele acha que a estrateá gia petista eá uma traiçaã o aos ideais de Gramsci, e eu estou
seguro de que ela eá a mais pura encarnaçaã o do gramscismo universal.[ 24 ]
O mais lamentaá vel em toda essa histoá ria eá que a massa dos militantes do PT naã o tem a
menor condiçaã o intelectual de compreender as sutilezas da estrateá gia gramsciana, e vai se
deixando conduzir sonambulicamente pelos guias iluminados, sem fazer perguntas quanto
aà verdadeira meta da jornada.

[ 15 ] Para Karl Marx, aqueles que captam o sentido do movimento da Histoá ria e representam as "forças progressistas"
ficam ipso facto liberados de qualquer dever com a "moral abstrata" da burguesia; seu uá nico dever eá acelerar o devir
histoá rico em direçaã o ao socialismo, pouco importando os meios. Baseado nesse princíápio, Leê nin codificou a moral
partidaá ria, onde o uá nico dever eá servir ao partido. Esta moral, por sua vez, deu origem ao Direito sovieá tico, que colocava
acima dos direitos humanos elementares os deveres para com o Estado revolucionaá rio. A delaçaã o de corruptos ou
traidores, por exemplo, era na Uniaã o Sovieá tica uma obrigaçaã o baá sica do cidadaã o. Mas naã o eá soá na teoria que o comunismo
eá imoral. No Estado socialista, todos saã o funcionaá rios puá blicos, e basta isto para que a corrupçaã o se torne institucional. Na
Uniaã o Sovieá tica ningueá m conseguia tirar um documento ou consertar uma linha telefoê nica sem soltar propinas: ao
socializar a economia, socializa-se a corrupçaã o. A desonestidade desce das camadas dominantes para corromper todo o
povo. O mesmo aconteceu na China, paíás que ademais se notabilizou por ser o maior distribuidor de toá xicos deste planeta.
A justificativa, na eá poca, era que os toá xicos enfraqueceriam a "juventude burguesa" e facilitariam o avanço do socialismo,
sendo, portanto, beneá ficos ao progresso humano. As drogas soá se tornaram um problema de escala mundial graças ao
comunismo chineê s, que, com isto, se tornou culpado de um crime de genocíádio pelo qual, ateá hoje, ningueá m teve coragem
de acusaá -lo.
Ainda segundo a moral comunista, as pessoas profundamente apegadas aos ideais burgueses saã o doentes incorrigíáveis,
devendo por isto ser isoladas ou exterminadas. Sessenta milhoã es de pessoas foram mortas, na Uniaã o Sovieá tica, em nome
da reedificaçaã o da cultura e da personalidade. No Camboja, o genocíádio foi adotado como procedimento normal e legíátimo.
Foram os comunistas que, com base nas descobertas de Pavlov, desenvolveram o sistema de lavagem cerebral, para
despersonalizar os prisioneiros e levaá -los a confessar crimes que naã o haviam cometido.
Foi tambeá m o comunismo que instituiu o sistema de romper sem aviso preá vio acordos internacionais, tratados de paz e
compromissos comerciais, institucionalizando no mundo o do gangsterismo como norma de conduta diplomaá tica, depois
copiado por Hitler. Campos de concentraçaã o e de extermíánio saã o tambeá m uma invençaã o comunista imitada pelo nazismo.
O governo comunista da URSS criou o maior sistema de espionagem interna de que se teve notíácia na histoá ria humana, a
KGB, e por meio dela tornou-se o primeiro governo essencialmente policial do mundo.
O comunismo foi ainda o primeiro regime a instituir em escala continental a mentira sistemaá tica como padraã o de ensino
puá blico, e a falsificaçaã o da cieê ncia como meio de controle da opiniaã o.
Que tudo isso possa ser um enorme tecido de coincideê ncias, que naã o haja nenhuma conexaã o intríánseca entre todos
esses horrores e a ideologia socialista, eá somente mais uma mentira propagada por intelectuais ativistas cuja formaçaã o
marxista os tornou para sempre cíánicos, hipoá critas e incapazes de qualquer sentimento moral.
A participaçaã o intensa de intelectuais marxistas na campanha pela "EÁ tica na Políática" eá um sinal seguro de que essa
campanha naã o moralizaraá a políática, mas apenas politizaraá a eá tica, tornando-a uma serva de objetivos intrinsecamente
imorais. Quem viver, veraá [nota da 2ª ediçaã o].
[ 16 ] Exemplo caracteríástico da mutaçaã o da escala moral eá a campanha contra a Aids. EÁ mais do que evidente que a
liberaçaã o sexual favorece a disseminaçaã o dessa doença. No entanto, jornalistas e agitadores culturais do mundo todo estaã o
levando as pessoas a crer que o conservadorismo moral, particularmente catoá lico, eá o culpado pela difusaã o da Aids, na
medida em que se opoã e aà distribuiçaã o de camisinhas. Fazer de um efeito desastroso da liberaçaã o sexual um argumento
contra a moral conservadora eá um truque sofíástico que soá ocorreria a mentalidades inteiramente perversas. Os
liberacionistas daã o com isso um exemplo horrendo de insensibilidade moral, de hipocrisia cíánica. Ocultar suas proá prias
culpas por traá s da acusaçaã o lançada a um inocente eá um dos comportamentos mais baixos que se podem conceber. Por
outro lado, do ponto de vista meramente praá tico, a esperança no poder das camisinhas eá uma insensatez, para dizer o
míánimo. Junto com ela vem a recusa de enxergar a parcela de razaã o que teê m os religiosos nessa questaã o. Qual a taxa de
Aids entre catoá licos praticantes, evangeá licos, monges budistas, judeus ortodoxos, mussulmanos devotos? EÁ praticamente
nula. Uma bela campanha moralista, por desagradaá vel que fosse (e para mim tambeá m o seria, pois pessoalmente sou mais
pela liberaçaã o), faria mais para conter o avanço da Aids do que a distribuiçaã o de trilhoã es de camisinhas. Neste momento
da histoá ria, qualquer campanha moralista, por boboca que nos pareça, eá um empreendimento digno de louvor, uma
contribuiçaã o aà salvaçaã o da espeá cie humana. Se amanhaã ou depois a populaçaã o do Brasil aderir em peso aos Pentecostais,
ao Bispo Macedo ou aà Renovaçaã o Carismaá tica, a Aids estaraá vencida entre noá s. Isto eá uma obviedade que soá os intelectuais
naã o enxergam [nota da 2ª ediçaã o].
[ 17 ] Querem um retrato moral de Antonio Gramsci? Podem encontraá -lo numa das faá bulas que, da prisaã o, ele remetia para
que fossem lidas aà sua filha:
"Enquanto um menino dormia, um rato bebeu o leite que a maã e lhe havia preparado. Quando o menino acordou, poê s-se
a chorar porque naã o encontrou o leite; a maã e, por seu lado, tambeá m chora. O rato tem remorsos, bate a cabeça contra a
parede, mas finalmente percebe que aquilo de nada serve. Entaã o, corre aà cabra para conseguir mais leite. Mas a cabra diz
ao rato que soá lhe daraá leite se tiver capim para comer. Entaã o, o rato vai ateá o campo, mas o campo eá aá rido e naã o pode dar
capim se naã o for molhado antes. O rato vai aà fonte, mas esta foi destruíáda pela guerra e a aá gua se perde; eá preciso que o
pedreiro conserte a fonte. O pedreiro precisa das pedras, que o rato vai buscar numa montanha, mas a montanha estaá toda
desmatada pelos especuladores. O rato conta toda a histoá ria e promete que o menino, quando crescer, plantaraá novas
aá rvores na montanha. E assim a montanha daraá as pedras, o pedreiro refaraá a fonte, a fonte daraá a aá gua, o campo daraá o
capim, a cabra forneceraá o leite e, finalmente, o menino poderaá comer e naã o choraraá mais" (Laurana Lajolo, Antonio
Gramsci. Uma Vida, trad. Carlos Nelson Coutinho, Saã o Paulo, Brasiliense, 1982).
As faá bulas sempre foram, ao longo dos tempos, um depoá sito de síámbolos portadores de um ensinamento espiritual. Por
meio delas, a criança tinha o acesso ao conhecimento das possibilidades humanas mais elevadas, e este conhecimento,
tanto mais potente porque cristalizado numa linguagem maá gica e alusiva, bastava para defender sua alma da total imersaã o
na banalidade esterilizante do meio adulto. Elas representavam, assim, o fio de continuidade do nuá cleo mais puro da alma
humana no meio da agitaçaã o alienante da "Histoá ria".
Gramsci consegue aqui inverter a funçaã o da faá bula, transformando-a num meio de ensinar aà criança, com realismo
literal, o processo de produçaã o capitalista – da mateá ria-prima aà comercializaçaã o – e para lhe inocular, de um soá golpe, o
oá dio aos malditos especuladores e a esperança na futura utopia socialista, onde "tudo seraá mais belo".
O que Gramsci fez com sua proá pria filha, por que naã o o faria com os filhos dos outros? EÁ preciso que a pregaçaã o
comunista atinja os ceá rebros enquanto ainda estaã o tenros e indefesos, e, fechando-lhes o acesso a toda concepçaã o de
ordem espiritual, os encerre para sempre no cíárculo de ferro da mundanidade "histoá rica" (v. adiante, cap. III).
Gramsci revela aqui toda a mesquinhez da sua concepçaã o do mundo, onde a economia eá naã o soá o motor da Histoá ria, mas
o limite final do horizonte humano.
Que um tipo desses possa ser objeto de culto sentimentalista entre os militantes, isto mostra que a ideologia comunista
traz em seu bojo uma perversaã o dos sentimentos, uma mutilaçaã o da alma humana. EÁ preciso muito agitprop para fazer de
Gramsci um personagem digno de admiraçaã o. Mas entre militantes esquerdistas jaá vi sujeitos capazes de proferir toda
sorte de blasfeê mias contra a religiaã o alheia terem tremeliques de emoçaã o religiosa ante o santo nome de Antoê nio Gramsci.
Essa sentimentalidade pseudo-religiosa naã o eá um excesso de zelo: eá a esseê ncia mesma do gramscismo, que beatifica o
mundano para abafar e perverter o impulso religioso e transformaá -lo em devoçaã o partidaá ria. Querem ver no que daá ?
Narrando a morte de Gramsci, a hagioá grafa Laurana Lajolo (op. cit., p. 148) termina falando dos cadernos "nos quais
Antoê nio Gramsci havia depositado, em sentido laico e historicista, a imortalidade da sua alma, a possibilidade de
sobreviveê ncia intelectual na histoá ria". Soá um gramsciano roxo eá incapaz de enxergar o ridíáculo que haá em teologizar a esse
ponto a fama literaá ria. Se a ideá ia valesse, os imortais da Academia jaá naã o seriam imortais figuradamente, mas literalmente
– e nossas preces pela vida eterna naã o deveriam dirigir-se a Jesus Cristo, e sim aà pessoa do sr. Josueá Montello [nota da 2ª
ediçaã o].
[ 18 ] O fenoê meno da pseudo-intelectualidade eá um dos traços mais marcantes do chamado Terceiro Mundo, e eá ela, naã o o
proletariado ou as massas famintas, a base social dos movimentos revolucionaá rios. Eric Hoffer, que examinou o assunto
com mais seriedade do que ningueá m, explica esse fenoê meno pelas condiçoã es peculiares em que, nessa parte do globo, se
deu, com a reforma modernizadora empreendida pelas poteê ncias Ocidentais, a quebra do modo de vida comunitaá rio-
patriarcal. Escrevendo no começo da deá cada de 50, e mencionando nomeadamente a AÁ sia, ele fala em termos que se
aplicam com precisaã o ao Brasil de hoje: "Em toda a AÁ sia, antes do advento da influeê ncia Ocidental, o indivíáduo estava
integrado num grupo mais ou menos compacto – a famíália patriarcal, o claã ou a tribo. Do nascimento aà morte, sentia-se
parte de um todo eterno e contíánuo. Jamais se sentia sozinho, jamais se sentia perdido, jamais se via como um pedaço de
vida flutuando numa eternidade de nada. A influeê ncia Ocidental [...] destruiu e corroeu a maneira tradicional de vida. O
resultado naã o foi a emancipaçaã o, e sim o isolamento e o desamparo. Um indivíáduo imaturo foi arrancado do calor e
segurança de uma existeê ncia coletiva e deixado oá rfaã o num mundo frio.
"O indivíáduo receá m-surgido pode atingir algum grau de estabilidade [...] somente quanto lhe oferecem abundantes
oportunidades de auto-afirmaçaã o ou auto-realizaçaã o. Somente assim ele poderaá adquirir a autoconfiança e auto-estima
[...]. Quando a autoconfiança e a auto-estima parecem inatingíáveis, o indivíáduo em formaçaã o torna-se uma entidade
altamente explosiva. Tenta obter uma impressaã o de confiança e de valor abraçando alguma verdade absoluta e
identificando-se com os atos espetaculares de um líáder ou de algum corpo coletivo – seja uma naçaã o, uma congregaçaã o,
um partido ou um movimento de massa.
"EÁ necessaá rio uma rara constelaçaã o de circunstaê ncias para que a transiçaã o de uma existeê ncia comunitaá ria para a
individual siga o seu curso sem ser desviada ou invertida por complicaçoã es catastroá ficas. [...] O indivíáduo em surgimento
na Europa, no fim da Idade Meá dia, enxergou panoramas deslumbrantes de novos continentes, de novas rotas de comeá rcio,
de novos conhecimentos. O ar estava carregado de novas expectativas e havia a sensaçaã o de que o indivíáduo por si soá era
capaz de qualquer empreendimento. A mudança [...] produziu uma explosaã o de vitalidade [...].
"Essa excepcional combinaçaã o de circunstaê ncias naã o estava presente na AÁ sia. Ali, ao inveá s de ser estimulado por
perspectivas deslumbrantes e oportunidades jamais sonhadas, [o indivíáduo] se viu enfrentando uma vida estagnada,
debilitada, e extraordinariamente pobre. EÁ um mundo onde a vida humana eá a coisa mais abundante e barata. EÁ , aleá m
disso, um m
[ 19 ] A proposta do PT, de dar preê mios aos cidadaã os que delatem casos de corrupçaã o, seria repelida com horror se
apresentada uns anos atraá s, quando a corrupçaã o naã o era menor mas os sentimentos morais da populaçaã o brasileira
conservavam uns vestíágios de normalidade porque ainda naã o tinham sido corrompidos pela "campanha da EÁ tica". Hoje, eá
aceita com aplausos dos que naã o percebem nela aquilo que ela verdadeiramente eá : a instauraçaã o do Estado policial em
nome da moralidade, a corrupçaã o de todas as relaçoã es humanas pela universalizaçaã o da suspeita, o incentivo aà
espionagem de todos contra todos. Para que o Estado naã o perca dinheiro, seraá preciso que todos os brasileiros percam a
dignidade e o respeito proá prio, transformando-se em alcaguü etes premiados [nota da 2ª ediçaã o].
[ 20 ] Escrito para a 2ª ediçaã o.
[ 21 ] Roger Scruton, Thinkers of the New Left, Harlow (Essex), Longman, 1985 [nota da 2ª ediçaã o].
[ 22 ] Alfredo Saá enz, s. J., "La estrateá gia ateíásta de Antonio Gramsci", em Ateísmo y Vigencia del Pensamiento Católico. Actas
del Cuarto Congreso Catolico Argentino de Filosofía, Coá rdoba, Asociacioá n Catoá lica Interamericana de Filosofíáa, 1988, p. 355-
366. [nota da 2ª ediçaã o].
[ 23 ] "A revoluçaã o passiva", O Globo, 28 de junho de 1994.
[ 24 ] Haá pensadores de quem a gente diverge com o maior respeito. Entre os marxistas, esse eá para mim o caso de um
Adorno, de um Horkheimer, de um Marcuse, ou mesmo de um Lukaá cs. Mas por Gramsci, como o leitor jaá deve ter
percebido, naã o consigo sentir o menor respeito, porque ele naã o respeita nada e se porta ante dois mileê nios de civilizaçaã o
com a petulaê ncia dos ignorantes. Acho uma babaquice ter ante um escritor qualquer uma revereê ncia maior do que a que
ele tem ante Moiseá s, Jesus Cristo ou a Virgem Maria. Mas a atmosfera de culto em torno do nome de Antonio Gramsci eá taã o
carregada de zelo, que acaba inibindo por contaá gio inconsciente ateá os melhores ceá rebros, impedindo-os de chegar a uma
visaã o objetiva e críática do pensamento de Gramsci [nota da 2ª ediçaã o].
III
A NOVA ERA E A
REVOLUÇAÃ O CULTURAL

A s ideá ias de Capra e de Gramsci saã o puras ficçoã es, mas nem por isto as semelhanças
entre elas saã o mera coincideê ncia. A simples listagem basta para por aà mostra uma
raiz comum:
1. Ambas essas correntes saã o radicalmente “historicistas” — quer dizer: para elas, toda
“verdade” eá apenas a expressaã o do sentimento coletivo de um determinado momento
histoá rico. O que importa naã o eá se esse sentimento coletivo capta uma verdade
objetivamente vaá lida, mas, ao contraá rio, ele vale por si como uá nico criteá rio do pensamento
correto.
2. Em ambas, o sujeito ativo do conhecimento naã o eá a conscieê ncia individual, mas a
coletividade. Elas divergem somente, na superfíácie, quanto aà delimitaçaã o desse míástico
“sujeito coletivo”: para Capra, eá “a humanidade”, ou, mais vagamente ainda, “noá s” (eá
caracteríástico dos doutrinaá rios da Nova Era, como Capra ou Marilyn Ferguson, dirigir-se a
um auditoá rio universal na primeira pessoa do plural, de modo que naã o sabemos se quem
fala eá um Autor divino ocultando sua supra-personalidade num plural majestaá tico, ou se eá a
autoconscieê ncia coletiva da humanidade). Para Gramsci, o sujeito coletivo eá o
“proletariado”, ou, mais propriamente, o conjunto dos intelectuais orgaê nicos que o
“representam”, isto eá , o Partido.
3. Ambas insistem menos em provar alguma tese do que em induzir uma “mudança de
percepçaã o”, uma virada repentina que faça as pessoas sentirem as coisas de um modo
diferente. Com Capra e Gramsci ningueá m pode discutir, tese por tese, demonstraçaã o por
demonstraçaã o: a conversaã o tem de ser integral e suá bita, ou naã o se realiza jamais: capristas e
gramscistas saã o “convertidos” ou “renascidos”, que num determinado instante de suas vidas
“viram a luz” mediante uma rotaçaã o instantaê nea do eixo de sua cosmovisaã o. O decisivo, em
ambos os casos, naã o eá a argumentaçaã o racional, mas uma adesão preá via, volitiva ou
sentimental: o sujeito “sente-se” de repente, como um todo, identificado com a Nova Era ou
com a causa do proletariado, e em seguida passa a ver os detalhes de acordo com o novo
quadro de refereê ncia.
4. Ambas saã o “revoluçoã es culturais”. Pretendem inaugurar um novo cenaá rio mental para a
humanidade, no qual todas as visoã es e opinioã es anteriores seraã o implicitamente
invalidadas como meras expressoã es subjetivas de um tempo que passou. Como, de outro
lado, a nova cosmovisaã o tambeá m naã o se apresenta como verdade objetivamente vaá lida e
sim apenas como expressaã o de um “novo tempo”, jaá naã o se pode confrontar as ideá ias de
hoje com as de antigamente para saber quem tem razaã o: o criteá rio de veracidade foi
substituíádo pelo da “atualidade”, e como toda eá poca eá atual para si mesma, cada qual
constitui uma unidade cerrada, com suas ideá ias que soá saã o vaá lidas subjetivamente para ela.
Plataã o tinha as ideá ias do “seu tempo”; noá s temos a do “nosso tempo” — cada um na sua.
5. A dimensaã o “tempo” eá assim absolutizada, reinando sozinha num mundo de onde foi
extirpado todo senso de permaneê ncia e de eternidade. Em Gramsci, a amputaçaã o eá
explíácita; em Capra e na Nova Era em geral, implíácita e disfarçada pela verborreá ia míástica.
Apoá s essa cirurgia, a mente humana torna-se incapaz de captar o que quer que seja das
relaçoã es ideais que, para aleá m do real empíárico, apontam para a esfera do possíável, da
infinitude, do universal. O empíárico, o fato consumado, o horizonte imediato das
preocupaçoã es praá ticas — pessoais ou coletivas — torna-se o extremo limite da visaã o
humana. O “cosmos” de Capra e a “Histoá ria” de Gramsci saã o campaê nulas de chumbo que
prendem a imaginaçaã o humana num mundo pequeno, artificialmente engrandecido pela
retoá rica.
6. Com o senso da eternidade e da universalidade, vai embora tambeá m o senso da
verdade, a capacidade humana de distinguir o verdadeiro do falso, substituíáda por um
sentimento coletivo de “adequaçaã o” ao “nosso tempo”. A “supra-conscieê ncia” da Nova Era e
o “intelectual coletivo” de Gramsci teê m em comum a mais absoluta falta de inteligeê ncia.
Para ambos vale o que o jornalista Russell Chandler disse de um deles:
A maior capacidade da mente humana eá a sua habilidade de discriminar entre o que eá verdadeiro e o que eá
falso, distinguir o que eá real do que eá ilusoá rio ou aparente. Mas a ‘supra-conscieê ncia’ da Nova Era estaá
programada para ignorar essas distinçoã es.[ 25 ]

7. Dissolve-se tambeá m a autoconscieê ncia reflexiva e críática, pela qual o indivíáduo humano
eá capaz de sobrepor-se aà s ilusoã es coletivas e julgar o seu tempo. Fechado na redoma do
momento histoá rico, eá vedado ao indivíáduo enxergar para aleá m dele, exercer os privileá gios
de uma inteligeê ncia autoê noma, ter razaã o contra a opiniaã o majoritaá ria — seja ela a opiniaã o
conservadora do establishment ou o anseio coletivo dos ambiciosos insatisfeitos.
8. A depreciaçaã o da conscieê ncia individual vem com a negaçaã o do criteá rio da evideê ncia
intuitiva como base para julgar a verdade. Reduzida a seu aspecto psicoloá gico, imanente, a
intuiçaã o torna-se apenas uma experieê ncia interna como qualquer outra, incapaz de
evideê ncia apodíáctica. Confunde-se com o sentimento, com o pressentimento, com a vaga
impressaã o e com a fantasia. Daíá a necessidade de um novo criteá rio, que seraá , na Nova Era, a
fantasia mesma, adornada com o tíátulo de intuiçaã o míástica, e na Revoluçaã o Cultural de
Gramsci o sentimento coletivo do Partido, detentor profeá tico do sentido da Histoá ria.

***

As semelhanças saã o taã o substanciais que, perto delas, as diferenças se tornam meramente
adjetivas. A filiaçaã o comum remonta, no míánimo, ao mito mais querido da ilusaã o moderna:
o mito da Revoluçaã o, do “apocalipse terreno”, que, num giro suá bito de todas as apareê ncias,
transfiguraraá o mundo, inaugurando um Ceá u na Terra. O mito da Revoluçaã o eá a cenoura-de-
burro que haá seá culos manteá m a humanidade no encalço do comboio da Histoá ria disparado
em direçaã o a uma miragem, sem poder atingir outro resultado senaã o a aceleraçaã o do devir,
que, naã o chegando a parte alguma, acaba sendo entronizado ele mesmo como supremo
objetivo da vida: o acontecer pelo acontecer, a eternizaçaã o do fluxo das impressoã es, a
reduçaã o do homem ao ser empíárico preso a uma giraê ndola sem fim de “experieê ncias” e
“momentos” atomíásticos. Em termos orientais, que o linguajar da Nova Era repete sem
compreender-lhes o sentido, eá a absolutizaçaã o da Maya, a prisaã o eterna no cíárculo do
samsara.
Nem as ideá ias de Capra nem as de Gramsci necessitam de refutaçaã o. Sua interpretaçaã o
ordenada e clara jaá vale como refutaçaã o. O simples desejo de compreendeê -las basta para
exorcizaá -las. Saã o ideá ias que soá podem prosperar sob a proteçaã o de uma neá voa de
ambiguidades, e soá encontram terreno feá rtil nas almas que anseiam por ilusoã es lisonjeiras,
em cujo colo macio possam esquecer sua proá pria miseá ria, a miseá ria de toda vaidade.

[ 25 ] Russell Chandler, Compreendendo a Nova Era, trad. Joaã o Marques Bendes, Saã o Paulo: Bom Pastor, 1993, p. 47.
OBSERVAÇOÃ ES FINAIS

E
xpondo em confereê ncias as ideá ias que depois viria a registrar neste livro, muitas
vezes recebi dos ouvintes a exigeê ncia de uma “definiçaã o políática”. Sentiam-se
desconfortaá veis ante um interlocutor sem filiaçaã o identificaá vel, algo assim como
um UFO ideoloá gico, e desejavam saber com quem estavam falando.
Minha resposta, invariavelmente, tem sido a seguinte:
O pressuposto dessa exigeê ncia eá que naã o se pode criticar uma ideologia senaã o em nome
de uma outra ideologia, dentre as reconhecidas no cataá logo do momento. Esse pressuposto,
por sua vez, funda-se num preconceito meio historicista, meio sociologista, segundo o qual
todo pensamento individual eá apenas “expressaã o” de algum anseio coletivo, e deve a este
sua validade. Em oposiçaã o a este preconceito e aà quele pressuposto, estou profundamente
convicto de que somente o pensamento do indivíáduo como tal pode ter validade objetiva,
pois naã o haá verdade senaã o para a conscieê ncia reflexiva, que soá existe no indivíáduo. As
correntes de pensamento coletivas apenas manifestam desejos, anseios, temores, e jamais
se levantam ao níável de autoconscieê ncia críática no qual a distinçaã o entre verdade e falsidade
pode ter algum sentido. Somente a autoconscieê ncia do indivíáduo pode captar essa
distinçaã o, ascender aà esfera dos juíázos universalmente vaá lidos e da veracidade objetiva.
Logo, eá ela quem eá juiz do pensamento coletivo.
A monstruosa inversaã o que submete o juíázo da conscieê ncia individual ao criteá rio das
ideologias coletivas proveá m de uma mutilaçaã o da mente moderna, incapaz de atinar com
alguma “universalidade” que naã o seja meramente quantitativa, reduzida portanto aà
“generalidade” e, em uá ltima anaá lise, aà validaçaã o puramente estatíástica. Como, de outro lado,
toda prova estatíástica pressupoã e a validade universal das leis da aritmeá tica elementar, cujo
fundamento eá a evideê ncia apodíáctica somente acessíável aà conscieê ncia individual, o primado
do pensamento coletivo repousa numa autocontradiçaã o pela qual nega sua proá pria
validade.
Para piorar ainda mais as coisas, o pensamento coletivista, naã o tendo acesso aà esfera da
validade objetiva, logo perde toda refereê ncia ao “objeto” como tal e se fecha num
subjetivismo coletivo: da estatíástica dos “fatos” caíámos para a estatíástica das “opinioã es”, e a
contagem dos votos se torna o supremo criteá rio da veracidade. Este processo, que se inicia
na esfera da políática, termina por contaminar a cieê ncia mesma, onde hoje em dia ouvimos
apelos generalizados em favor da aceitaçaã o de criteá rios puramente retoá ricos de
argumentaçaã o como fundamentos legíátimos da credibilidade cientíática. O marketing, em
suma, eá elevado a cieê ncia suprema, modelo e juiz de todas as outras cieê ncias.
Ou aceitamos esse resultado, ou devemos negar pela raiz o primado do pensamento
coletivo, restaurando a conscieê ncia individual no posto de dignidade que lhe cabe. E, neste
caso, deveremos admitir que o indivíáduo humano possa elevar-se acima das ideologias e
julgaá -las, contanto que naã o o faça em nome de um protesto pessoal e subjetivo, mas em
nome da veracidade universal e apodíáctica, da qual ele, com todas as suas fraquezas, com
todos os seus condicionamentos limitantes, continua, afinal, o uá nico representante sobre a
Terra.
No seá culo XX, a conscieê ncia individual sofreu, das pseudocieê ncias emergentes, os mais
violentos ataques, que pretenderam negaá -la, reduzi-la a um epifenoê meno dos papeá is sociais
introjetados, a uma projeçaã o do instinto de sobreviveê ncia, a uma ficçaã o gramatical, a mil e
uma formas do falso e do ilusoá rio. De outro lado, no campo das teá cnicas psicoloá gicas, nunca
se investiu tanto na busca de meios para subjugar a conscieê ncia individual, quebrar sua
autonomia, forçaá -la a repetir mecanicamente o discurso coletivo. Se o nosso eá o seá culo do
marxismo, da psicanaá lise, do estruturalismo, eá tambeá m o da hipnose, o das teá cnicas de
influeê ncia subliminar, o da lavagem cerebral, o da “modificaçaã o de comportamento” e o da
Programaçaã o Neurolinguü íástica. Se, por um lado, tudo se faz para demonstrar teoricamente a
inanidade da conscieê ncia individual, de outro lado naã o se poupam esforços para reprimi-la
e subjugaá -la. Ora, estas duas seá ries de fatos, quando confrontadas, sugerem uma pergunta:
para que tanto empenho em derrotar na praá tica algo que, em teoria, naã o existe? Se o cavalo
estaá morto, para que açoitaá -lo com tanta fuá ria?
Este eá aliaá s o tema de um livro que estou preparando, A alienação da consciência. EÁ uma
resenha dos ataques teoá ricos e praá ticos dirigidos pelas doutrinas pseudocientíáficas, em
aliança com os governos totalitaá rios ou com o establishment tecnocraá tico, contra a
autonomia da conscieê ncia individual. Foi este estudo, precisamente, que me levou aà rejeiçaã o
completa e taxativa de todo pensamento ideoloá gico. Naã o me perguntem, portanto, em nome
de que ideologia combato esta ou aquela ideologia. Combato-a desde um plano que naã o eá
acessíável ao pensamento ideoloá gico, e que soá existe para a autoconscieê ncia individual,
quando firmemente decidida a naã o abdicar de seu direito — e de seu dever — aà verdade e aà
universalidade. Em consequü eê ncia, tambeá m naã o me dirijo a ouvintes e leitores enquanto
representantes desta ou daquela facçaã o ou grupo, mas enquanto portadores de uma
inteligeê ncia universalmente vaá lida, capaz de sobrepor-se ao discurso de facçoã es e grupos e
julgaá -lo objetivamente. Naã o converso com fantoches coletivos, mas com seres humanos,
investidos da dignidade suprema da autoconscieê ncia, que os torna imagens de Deus. Se,
enquanto apegada aà identidade bioloá gica e sujeita portanto aà ilusaã o passional, a conscieê ncia
do indivíáduo eá pura Maya, por outro lado eá somente o indivíáduo, e naã o o aglomerado
estatíástico das coletividades, que pode ascender ao plano da universalidade onde eá líácito
dizer: eu sou Brahman.

Rio de Janeiro, março de 1994.


APEÊ NDICES

AS ESQUERDAS E O CRIME ORGANIZADO

C
omando Vermelho. A História Secreta do Crime Organizado, de Carlos Amorim,[ 26 ]
eá um trabalho de valor excepcional, cuja leitura se recomenda a todos os
brasileiros que se preocupem com o futuro deste paíás. Futuro do qual se pode ter
um vislumbre pelas palavras de William Lima da Silva, o “Professor”, fundador e
guru do Comando Vermelho, citadas aà p. 255:
Conseguimos aquilo que a guerrilha naã o conseguiu: o apoio da populaçaã o carente. Vou aos morros e vejo
crianças com disposiçaã o, fumando e vendendo baseado. Futuramente, elas seraã o treê s milhoã es de adolescentes,
que mataraã o voceê s [a políácia] nas esquinas. Jaá pensou o que seraã o treê s milhoã es de adolescentes e dez milhoã es
de desempregados em armas?

A quem entenda isso como mera expressaã o de um delíário megaloê mano, o livro de Carlos
Amorim mostra que a sinistra profecia jaá estaá em curso de realizaçaã o: o Comando Vermelho
naã o apenas domina dois quintos do territoá rio do Grande Rio, desfrutando aíá o monopoá lio
dos sequestros, do comeá rcio de carros roubados, do traá fico de drogas, mas exerce tambeá m
nessa aá rea funçoã es de governo, por meio do terror alternado com lisonjas paternalistas, e
tem ainda a liderança no contrabando de armas pesadas, sendo hoje uma organizaçaã o mais
equipada do que a políácia ou mesmo do que as guarniçoã es locais do Exeá rcito. As
autoridades reconhecem que o poder da maá fia dos morros eá absolutamente incontrolaá vel, e
ela prossegue, de vitoá ria em vitoá ria, atordoando a políácia, humilhando os governantes, e
atribuindo aà s suas operaçoã es criminosas, para cuá mulo de descaramento, o sentido eá pico de
uma luta pela libertaçaã o dos oprimidos.
Naã o vou aqui resumir o livro, pois pretendo que o leiam. Nas paá ginas que se seguem,
concentrarei minhas observaçoã es antes no que me parece o seu uá nico ponto fraco. Naã o farei
isto para depreciar os meá ritos da obra, que saã o elevados, mas justamente para os realçar;
pois essa lacuna, que estaá no diagnoá stico das causas e origens profundas do crime
organizado, soá poderia ser preenchida por uma investigaçaã o que iria muito aleá m do seu
escopo. O autor, de fato, alude a algumas causas provaá veis, mas centraliza sua atençaã o no
fenoê meno do Comando Vermelho como tal, sem estender seu exame ao conjunto dos
fatores histoá ricos que cercaram, propiciaram e finalmente determinaram o seu surgimento.
Naã o se trata portanto de assinalar aqui algum defeito do livro, mas de sugerir investigaçoã es
suplementares que dariam mateá ria para outro livro, ou vaá rios.

***
Uma certeza o livro de Amorim parece deixar definitivamente assentada: o Comando
Vermelho nasceu da conviveê ncia entre criminosos comuns e ativistas políáticos dentro do
presíádio da Ilha Grande, entre os anos de 1969 a 1978. Ali os militantes esquerdistas
ensinaram aos bandidos as teá cnicas de guerrilha que eles viriam a usar em suas operaçoã es
criminosas e os princíápios de organizaçaã o políático-militar sobre os quais viria a estruturar-
se o Comando Vermelho, bem como a fraseologia revolucionaá ria com que o bando hoje
glamuriza suas façanhas.
O que naã o fica claro de maneira alguma eá o grau e a natureza da participaçaã o das
organizaçoã es de esquerda na criaçaã o do Comando Vermelho, a sua responsabilidade
histoá rica pela eclosaã o do fenoê meno que hoje aterroriza a populaçaã o carioca e poã e em risco
a sobreviveê ncia da jovem e fraá gil democracia brasileira.
Quanto a esse ponto, o autor se contradiz: sua narrativa dos fatos aponta num sentido,
suas opinioã es no sentido contraá rio. Eis uma dessas opinioã es:
Os revolucionaá rios nunca pretenderam ensinar criminosos a fazer guerrilhas. Em mais de uma deá cada de
pesquisas, nunca encontrei o menor indíácio de que houvesse uma intençaã o — menos ainda uma estrateá gia —
para envolver o crime na luta de classes.[ 27 ]

Logo, na interpretaçaã o do autor, os ensinamentos de guerrilha teriam sido passados aos


bandidos de uma maneira natural, espontaê nea, impremeditada, ao sabor de contatos
fortuitos entre indivíáduos, e sem qualquer responsabilidade das organizaçoã es esquerdistas.
Mas os fatos narrados pelo proá prio Amorim desmentem frontalmente essa interpretaçaã o.
Sem chegarem a dar respaldo aà tese policial que veê no Comando Vermelho uma extensaã o ou
um recrudescimento da velha guerrilha revolucionaá ria, eles indicam, no entanto, que o que
se passou na Ilha Grande foi algo de bem mais comprometedor do que simples conversas
casuais. Poderosos interesses vetam, hoje, uma investigaçaã o mais profunda desses
episoá dios. Os prisioneiros políáticos de entaã o tornaram-se gente importante, deputados,
ministros, procuradores, com poderes suficientes para dissuadir qualquer olhar curioso
que se lance sobre um passado que eles preferem manter protegido entre neá voas. Naã o
duvido que a ambiguidade do proá prio Amorim tenha brotado do prudente desejo de evitar
um confronto com essa gente, cujos partidaá rios e simpatizantes exercem uma completa
hegemonia sobre o seu ambiente de trabalho: as redaçoã es de jornais. Da minha parte,
poreá m, nada espero deles. No tempo em que eram perseguidos políáticos, ajudei-os o quanto
pude, escondendo foragidos e armas, redigindo e distribuindo propaganda contra a
ditadura, porque via em seus rostos o emblema da verdade, hostilizada pela mentira oficial.
Hoje, que estaã o a um passo do poder, jaá enxergo em seu semblante a maá scara da hipocrisia,
que anuncia para breve, neste paíás, um novo impeá rio da falsidade. Todo sacerdoá cio
converte-se, mais cedo ou mais tarde, num culto de si mesmo: tendo outrora servido aà
verdade, eles hoje tomam o lugar dela no altar de um culto degenerado.
Investigar o sentido dos episoá dios da Ilha Grande eá romper um tabu, eá violar o preceito
consagrado segundo o qual a maldade, a baixeza, a hipocrisia saã o monopoá lio da direita.

***

A conviveê ncia entre presos políáticos e bandidos comuns eá antiga no Brasil, reconhece
Amorim. Vem desde 1917, com as primeiras prisoã es de agitadores sindicalistas e
anarquistas. Intensificou-se durante e apoá s a rebeliaã o comunista de 1935. Desde entaã o foi
constante e sistemaá tico o esforço dos comunistas para doutrinar criminosos e enquadraá -los
na luta políática. Um dos líáderes de 35, Gregoá rio Bezerra, conta em suas memoá rias como
“transformou guardas penitenciaá rios e bandidos em militantes comunistas”. Durante os
anos do Estado Novo, conta Amorim, “o contato com intelectuais, militares radicais,
políáticos e sindicalistas fez a cabeça de punguistas e escroques. A partir dessa conviveê ncia,
muitos homens deixaram para traá s as carreiras no crime e optaram pela militaê ncia
revolucionaá ria”.[ 28 ]
Nada disso no entanto provocou a menor alteraçaã o de conjunto no mundo do crime:
Nas ruas, o crime continuava o mesmo: avulso, violento, desorganizado. O fenoê meno da conscientizaçaã o e o
surgimento do chamado crime organizado soá vaã o aparecer na deá cada de 70.

Houve portanto aíá a introduçaã o de um fator novo, de uma diferença especíáfica no tipo de
influeê ncia exercido pelos militantes sobre os bandidos. Essa diferença residiu
essencialmente no conteuá do das informaçoã es transmitidas: em vez de simples doutrinaçaã o
ideoloá gica, os bandidos receberam ensinamentos praá ticos, que puderam por em açaã o taã o
logo saíáram da cadeia. Que ensinamentos foram esses?
Primeiro, princíápios de organizaçaã o, que incluíáam desde a estrutura hieraá rquica e
disciplinar do grupo armado ateá sistemas de comunicaçaã o em coá digo.
Em seguida, teá cnicas de propaganda ou agitprop, que lhes permitiram transformar
assaltos e sequestros em espetaá culos de protesto — “propaganda armada”, no jargaã o
esquerdista —, que ganham a simpatia ao menos parcial da populaçaã o e da intelligentzia.
Terceiro, taá ticas de açaã o armada. Aqui a lista eá grande. Dentre os procedimentos usados
pela guerrilha e copiados pelo Comando Vermelho, pode-se destacar os seguintes:
1. Realizaçaã o de assaltos simultaê neos em vaá rios bancos, para desorientar a políácia.
2. Com o mesmo objetivo, bombardear os postos policiais com dezenas de alarmes falsos,
no dia dos assaltos planejados.
3. Naã o sair para uma operaçaã o armada sem deixar montado um “posto meá dico” para
atender os feridos (que antes os bandidos deixavam aà sua proá pria sorte, expondo-se aà
delaçaã o por vingança).
4. Em caso de emergeê ncia, invadir pequenas clíánicas particulares selecionadas de
antemaã o, obrigando os meá dicos a dar atendimento aos feridos.
5. Planejamento e organizaçaã o de sequestros.
6. Designar para cada operaçaã o um “críático”, que naã o participa da açaã o mas apenas
observa e assinala os erros para aperfeiçoar a açaã o seguinte.
7. Planejar as açoã es armadas com exatidaã o, de modo a obter no míánimo de tempo o
maá ximo de rendimento com o míánimo derramamento de sangue (hoje o Comando
Vermelho consuma em quatro ou cinco minutos um assalto a banco).
8, Teá cnicas para o bando retirar-se do local da açaã o em tempo record, aproveitando-se da
conformaçaã o das ruas, do congestionamento, etc., ou provocando deliberadamente
acidentes de traê nsito.
9. Planejamento cuidadoso de todas as açoã es, segundo o princíápio de Carlos Marighela:
“Somos fortes onde o inimigo eá fraco. Ou seja: onde naã o somos esperados”.
10. Informaçaã o e contra-informaçaã o como base do planejamento.
11. Sistema de “aparelhos” — casas compradas em pontos estrateá gicos da cidade, para
ocultar fugitivos apoá s as operaçoã es, guardar material beá lico etc.
O quarto e uá ltimo grupo de ensinamentos dizia respeito aà seleçaã o das melhores armas
para cada tipo de operaçaã o, e ainda aà fabricaçaã o de explosivos apropriados para o uso na
guerrilha urbana, como coqueteá is-molotov com uma foá rmula especial preparada por
estudantes de Quíámica e “bombas de fragmentaçaã o com pregos acondicionados junto aà
poá lvora e enxofre num tubo de PVC ou numa lata do tamanho de uma cerveja”.[ 29 ]
O conjunto forma um curso completo de guerrilha urbana, apoiado ainda numa
bibliografia especializada, que incluíáa O pequeno manual do guerrilheiro urbano, de Carlos
Marighela, Guerra de guerrilhas, de Che Guevara, e A Revolução na Revolução, de Reá gis
Deá bray, aleá m de A guerrilha vista por dentro, de Wilfred Burchett. Este uá ltimo eá apenas uma
reportagem feita no Vietnaã por um correspondente de guerra ingleê s; mas entre os
militantes era taã o prezado quanto as obras de guerrilheiros profissionais, e sua circulaçaã o
chegou a ser proibida no Brasil durante os governos militares, porque “mostra como o
vietcongue fabricava muniçaã o, inclusive com uma foá rmula para se produzir poá lvora caseira.
Explica tambeá m como funcionava o sistema de tuá neis para a fuga dos comandos
guerrilheiros, com iluminaçaã o a partir de geradores movidos a roda de bicicleta. O livro fala
ainda dos coá digos, do correio baseado em bilhetes entregues de maã o em maã o, de aldeia em
aldeia. Um manual de guerra revolucionaá ria que conteá m longas explanaçoã es de taá tica e
estrateá gia. Enfim, dinamite pura”.[ 30 ] Rematavam a bibliografia claá ssicos da literatura
marxista — Marx, Leê nin — e obras menores de doutrinaçaã o.
Todos esses ensinamentos foram depois levados aà praá tica pelo Comando Vermelho, que
demonstrou possuir ateá mesmo um domíánio mais extenso deles do que as proá prias
organizaçoã es guerrilheiras: “O crime organizado foi muito aleá m do que a luta armada tinha
conseguido nos anos 70, tanto em mateá ria de infra-estrutura quanto na disciplina e
organizaçaã o internas”.[ 31 ] Como bem resumiu o assaltante de bancos Vadinho (Oswaldo
da Silva Calil), que viu tudo de perto na Ilha Grande, “os alunos passaram a professores”.

***

Amorim opina enfaticamente que “naã o houve intençaã o” de ensinar guerrilha aos bandidos,
que a transmissaã o desses ensinamentos se deu de maneira “involuntaá ria”, em resultado
espontaê neo do “convíávio eventual nas cadeias”. Diante dos fatos narrados, eá difíácil acreditar
nessa opiniaã o, eá difíácil mesmo admitir que o proá prio Amorim acredite nela. Mais sensato eá
veê -la como uma concessaã o verbal: tendo ousado divulgar fatos que saã o profundamente
comprometedores para as esquerdas, Amorim preferiu deixar que a narrativa falasse por si,
sem endossar pessoalmente a conclusaã o que ela impoã e. Manha de repoá rter, que com muita
prudeê ncia teme mais as líánguas de seus colegas de ofíácio do que as balas do Comando
Vermelho.
O que me faz interpretar as coisas desse modo eá a desproporçaã o entre a força da narrativa
e a timidez dos argumentos em que Amorim sustenta sua opiniaã o. Qualquer principiante do
jornalismo sabe que a exposiçaã o dos fatos exerce sobre o leitor uma influeê ncia mais
profunda do que a opiniaã o expressa. A verdadeira intençaã o de um jornal estaá na sua
maneira de selecionar e ordenar as notíácias, e naã o no que ele afirma nos editoriais. As
cabeças dos repoá rteres funcionam de modo anaá logo: inteligeê ncias antes narrativas do que
analíáticas, expressam-se mais plenamente contando os fatos do que alinhando argumentos.
O principal argumento que Amorim apresenta em defesa de sua tese eá que, ao longo de
doze anos, naã o encontrou indíácios ou provas “de uma intençaã o, menos ainda de uma
estrateá gia” no sentido de os militantes ensinarem guerrilha aos bandidos.
O argumento destroá i-se a si mesmo. Em primeiro lugar, naã o existe prova de intençaã o, a
naã o ser a loá gica mesma do ato, pela qual das consequü eê ncias podemos remontar aà s causas.
Todo ato humano que naã o possa ser explicado pela mera acidentalidade pressupoã e uma
intençaã o, e todo acidente eá , por definiçaã o, momentaê neo: naã o existem acidentes continuados;
a mera casualidade naã o se prolonga, inalterada e uniforme, ao longo dos anos, como um par
de dados naã o prossegue dando seis e seis incansavelmente ao longo das rodadas. Qualquer
ato reiterado é, por si mesmo, prova da sua intenção. Se um homem fica beê bado uma vez,
duas vezes, pode ser sem intençaã o e por mero efeito acumulado dos tragos mal medidos;
mas se quatro ou cinco vezes por semana o encontramos virando novamente o copo ateá
trocar as pernas, seraá preciso alguma outra “prova” para certificar que ele teve intençaã o de
se embriagar? Ora, a transmissaã o de ensinamentos de guerrilha prosseguiu, na Ilha Grande,
por nada menos que nove anos. Que mais seraá necessaá rio para comprovar uma intençaã o?
Pode-se ver a coisa por um segundo aê ngulo. Uma intençaã o nada mais eá do que a previsaã o
de uma consequü eê ncia, somada ao desejo de provocar essa consequü eê ncia. Soá podemos,
portanto, supor auseê ncia de intençaã o quando um homem naã o estaá em condiçoã es de prever
as consequü eê ncias de seu ato. Se um marido furioso desfere um tabefe na esposa e a manda
para o hospital, podemos admitir que o brutamontes naã o mediu sua força; mas depois de
uma longa seá rie de internaçoã es da infeliz, devemos supor que ele ainda naã o avaliou
corretamente a proporçaã o entre o empuxe da porrada e suas consequü eê ncias hospitalares,
ou que ele teve a intençaã o de desencadear precisamente essas consequü eê ncias? Quanto aos
nossos guerrilheiros, a hipoá tese da auseê ncia de intençaã o pressupoã e que fossem incapazes
de atinar com o uso que os discíápulos fariam de seus ensinamentos. Se um deles, uma vez
ou outra, desse com a líángua nos dentes, poderia ser coincideê ncia. Mas vaá rios deles
transmitindo informaçoã es seguidamente ao longo dos anos, sem jamais atinar com as
consequü eê ncias do que faziam, eá mais do que a credulidade humana pode admitir.
Provas externas soá saã o necessaá rias quando a loá gica dos fatos naã o fala por si, quando nos
fatos haá algo de ambíáguo que admite interpretaçoã es variantes, o que naã o eá o caso. Mas
Amorim absolve os guerrilheiros justamente com base na auseê ncia desse tipo de provas. E
acontece que mesmo estas naã o estaã o realmente ausentes. Querem ver?
Soá existem no mundo treê s tipos de provas: materiais, documentais e testemunhais.
A prova material estaá laá : a presença dos livros, dos manuais de guerrilha nas maã os dos
bandidos eá prova de que algueá m os entregou a eles. Entregar um livro comprova,
manifestamente, o intuito de transmitir informaçoã es, e de fazeê -lo de maneira mais completa
do que se poderia em meras conversas de ocasiaã o.
Os livros citados por Amorim eram obras raras, de tiragem limitada e circulaçaã o proibida,
que soá se encontravam, quando se encontravam, nas maã os de militantes diretamente
envolvidos nas organizaçoã es da esquerda armada. O de Reá gis Deá bray circulou num volume
impresso clandestinamente pela ala marighelista do PC, e o de Guevara era uma apostila
mimeografada, de pouquíássimos exemplares. Mesmo o de Burchett (Amorim escreve
“Bulcher”, mas a grafia certa eá Burchett), que saiu por uma editora comercial (Civilizaçaã o
Brasileira), teve tiragem reduzida e logo foi apreendido, sobrando em circulaçaã o uns poucos
exemplares que os militantes de esquerda disputavam a tapa. Naã o eram, enfim, livros de
interesse geral, que se dessem a algueá m para ler por mero passatempo, mas manuais de
ensino teá cnico, dirigidos a um puá blico especializado. Transmitir esses livros aos bandidos é
algo mais do que manifestar uma intençaã o de ensinar guerrilha: eá realizar essa intençaã o.
Quanto a provas documentais que atestassem uma decisaã o das organizaçoã es de esquerda
de promover o ensino de guerrilhas, soá poderiam consistir em atas de reunioã es dos comiteê s
de presos políáticos, que declarassem formalmente essa intençaã o. Mas os prisioneiros
políáticos teriam de ser doidos ou suicidas para registrar uma decisaã o desse teor em atas
que certamente iriam parar nas maã os da direçaã o do presíádio mais dia menos dia. Aliaá s eles
nunca fizeram ata de decisaã o nenhuma, pela mesmíássima razaã o. Se o historiador fosse hoje
depender de atas para estudar esse períáodo, naã o teria sequer uma prova de que os comiteê s
de presos políáticos chegaram a existir. Uma prova documental, no caso, naã o eá exigíável.
Presos políáticos naã o fazem atas, tal como naã o se fazem atas de uma reuniaã o de meliantes
para planejar um assalto a banco. O argumento da falta de provas naã o vale, portanto, para
provas documentais.
Restam, ainda, as provas testemunhais. Estas saã o ambíáguas. Amorim aliaá s soá cita duas.
Vadinho afirma que houve ensinamento. O entaã o prisioneiro políático e depois (no governo
Brizola) diretor do mesmo presíádio da Ilha Grande, Joseá Carlos Toá rtima (hoje procurador do
Estado), proclama que naã o:
— EÁ uma mentira essa histoá ria de que os presos comuns aprenderam como se organizar e noçoã es de
guerrilha urbana com os presos políáticos. O conteúdo ideológico deles é de tal forma individualista que de
maneira nenhuma poderiam absorver a proposta de apoio coletivo... Repudio claramente qualquer insinuaçaã o
de que os presos comuns foram formados pelos políáticos. Isso é um mito veiculado pela direita.[ 32 ]

O dr. Toá rtima eá , pelo visto, um desses devotos esquerdistas, para quem a sentença “EÁ de
direita!” constitui, em si e por si, uma prova fulminante contra qualquer argumento. Algo
assim como o Roma locuta, causa finita, um roá tulo fatal que, colado a uma ideá ia, basta para
invalidaá -la para todo o sempre.
Se ele naã o pensasse assim, teria procurado calçar melhor seu testemunho, citando fatos
em vez de dispensar-se de fazeê -lo, confiado na força exorcizante da frase maá gica.
Pois, na verdade, o seu naã o eá um testemunho; eá um parecer, uma opiniaã o, que opoã e aà
abominaá vel tese direitista um argumento de probabilidade loá gica: individualistas ferrenhos
naã o podem, em princíápio, absorver uma proposta de açaã o coletiva, ou pelo menos eá muito
pouco provaá vel que o façam.
De um ponto de vista hipoteá tico e abstrato, devemos dar razaã o ao dr. Toá rtima: a lei das
probabilidades estaá com ele. Mas, em primeiro lugar, eá estranho que uma testemunha,
chamada a mostrar a falsidade de uma alegaçaã o, se limite a demonstrar sua
improbabilidade. Raciocinamos por probabilidades quando naã o temos acesso aos fatos,
quando, naã o sabendo o certo, soá nos resta conjeturar sensatamente. Testemunhas naã o
conjeturam: testemunhas narram.
Se passamos da conjetura para os fatos, a conversa muda. Hipoteticamente, a absorçaã o da
proposta de apoio coletivo pelos individualistas era de fato improvaá vel; mas o proá prio livro
de Amorim mostra bem claro que o improvaá vel se realizou: que naã o somente os marginais
absorveram a proposta, como tambeá m a puseram em praá tica com mais rigor, eficieê ncia e
amplitude do que os proá prios militantes políáticos; e, organizando-se melhor do que eles,
chegaram ainda a coordenar o “apoio coletivo” da populaçaã o pobre dos morros cariocas,
superando tudo o que em mateá ria de arregimentaçaã o popular os guerrilheiros haviam
sequer sonhado: “Os alunos tornaram-se professores”.
De que vale o argumento de improbabilidade, diante da prova do fato consumado? Diante
desse fato, o que vemos eá o argumento do dr. Toá rtima voltar-se a favor da tese que ele
enfaticamente repudia, contra a que defende. Se era pouco provaá vel que os individualistas
anaá rquicos absorvessem a proposta de apoio coletivo mesmo quando esta lhes fosse
transmitida por haá beis e solíácitos professores de guerrilha, muito menor, para não dizer
nula, seria a probabilidade de que o fizessem taã o-somente pelo esforço proá prio e sem
nenhuma ajuda pedagoá gica. O esforço necessaá rio para aprender sozinho eá
significativamente maior do que o requerido para seguir as liçoã es de um bom professor. Se,
portanto, os individualistas desorganizados se tornaram eficientes organizadores coletivos,
o meá rito muito provavelmente naã o eá soá deles, nem soá deles a culpa pelo tipo de coisa que
vieram a organizar.
De passagem, a desastrada argumentaçaã o do dr. Toá rtima derruba tambeá m as opinioã es do
proá prio Amorim em favor do caraá ter fortuito e impremeditado dos ensinamentos de
guerrilha. Se os bandidos comuns eram uns individualistas anaá rquicos, como poderiam
colocar em boa ordem fragmentos de informaçaã o colhidos aqui e ali em conversaçoã es
casuais, a ponto de compor com eles uma teá cnica racional apta a desenvolver-se em amplas
e notaá veis aplicaçoã es praá ticas? Seria preciso um QI fora do comum, mas mesmo geê nios
teriam alguma dificuldade em aprender organizaçaã o taã o desorganizadamente. Com toda a
franqueza: pedir que acreditemos que homens primitivos, baá rbaros, indisciplinados e
voluá veis conseguiram apreender os complexos princíápios de organizaçaã o políático-militar da
guerrilha urbana taã o-somente ciscando aqui e ali uns pedaços de conversas e depois
transformar essa maçaroca informe numa teá cnica de grande eficaá cia, eá realmente fazer
pouco da nossa inteligeê ncia.
Contar com a credulidade alheia eá aliaá s um víácio da esquerda brasileira, adquirido nos
anos que se seguiram aà queda da ditadura. A revelaçaã o das torturas, dos cadaá veres
escondidos, confirmando denuá ncias que antes a opiniaã o oficial desqualificava como
invencionices de agitadores, desmoralizou a direita e elevou aà s alturas a credibilidade da
esquerda. Desde entaã o esta vem abusando do creá dito para nos fazer engolir patranhas e
caluá nias de toda sorte, sem outra garantia senaã o a de terem sido proferidas por quem nos
disse a verdade uma vez. Ateá quando as atrocidades da direita seraã o fiadoras das mentiras
da esquerda?
O que o dr. Toá rtima nos impinge como testemunho naã o poderia mesmo valer nada, pois a
“testemunha” saiu da cadeia em 1971, antes, portanto, da fase decisiva de formaçaã o do
Comando Vermelho, sobre a qual ele sabe soá o que leu nos jornais, se eá que os leu. Isto aliaá s
confirma o caraá ter muito provavelmente calunioso de insinuaçoã es que o acusem de
envolvimento pessoal no ensino de guerrilha aos bandidos. Mas o fato de ele estar inocente
naã o o qualifica para inocentar outros, dos quais nada sabe. Qual, no entanto, o esquerdista
brasileiro que recusaraá falar em puá blico sobre um assunto do qual ignora tudo, se o convite
lhe servir de ocasiaã o para dar umas alfinetadas na “direita”?
Acreditar que o “testemunho” do dr. Toá rtima baste para absolver algueá m aleá m dele
mesmo exigiria que a nossa feá removesse montanhas. Destituíádos da feá , façamos algo que,
no Brasil de hoje, se tornou sinal de impiedade: raciocinemos.
Raciocínio I: o livro de Carlos Amorim informa que os militantes esquerdistas, uma vez
encarcerados, procuraram fortalecer a unidade disciplinar de suas organizaçoã es, para
poderem resistir ao ambiente hostil. De outro lado, o mesmo livro deseja que acreditemos
que homens assim afeitos a uma disciplina espartana deixaram escapar, em amenas
conversas informais com os detentos comuns, todos os segredos de teá cnica militar e de
organizaçaã o políática que constituíáam o sangue e os nervos da revoluçaã o. Quer que
acreditemos que esses homens de ferro, capazes de resistir aà tortura fíásica e psicoloá gica
para naã o entregar nenhum segredo aos policiais, deram tudo aos bandidos, de maã o-beijada,
por mera desatençaã o; que de conversa em conversa foram deixando vazar teoria marxista,
princíápios de agitprop, teá cnicas militares, meá todos de organizaçaã o, enfim todo o
conhecimento de guerrilha urbana entaã o disponíável, sem jamais se dar conta de que
estavam ensinando guerrilha nem ter a mais míánima intençaã o de fazeê -lo. Nunca ouvi uma
coisa mais doida na minha vida.
Raciocínio II: se, ao contraá rio dos presos comuns, individualistas anaá rquicos, os militantes
eram socializados, politizados e disciplinados, entaã o certamente nada faziam de importante
sem preá via consulta ao “coletivo”. Logo, das duas uma: ou a transmissaã o de ensinamentos
de guerrilha aos bandidos foi autorizada pelo coletivo, ou foi feita em flagrante
desobedieê ncia aà sua proibiçaã o. Nesta uá ltima hipoá tese, devemos entender que, malgrado o
alto grau de politizaçaã o ali reinante, reinava tambeá m a mais completa anarquia, de modo
que o coletivo naã o conseguia controlar as veleidades individuais de seus membros e os
deixava aà solta para que, como verdadeiros individualistas anaá rquicos, fizesse cada qual o
que bem lhe desse na telha. EÁ claro que, neste uá ltimo caso, os presos políáticos naã o teriam
podido resistir aà s pressoã es do ambiente nem muito menos fazer, como disse o dr. Toá rtima,
“que os bandidos se acomodassem aà s nossas regras”. Entaã o naã o haá duá vida: transmitir aos
bandidos ensinamentos de guerrilha não pode ter sido uma decisaã o deixada ao arbíátrio
individual. Amorim diz muito claro que, pelo menos a partir de 1975, etapa decisiva na
formaçaã o do Comando Vermelho, as relaçoã es entre presos comuns e presos políáticos naã o se
davam de indivíáduo a indivíáduo, mas de comiteê a comiteê .
Raciocínio III: se os livros, os manuais de guerrilha, estavam proibidos de circular em todo
o territoá rio nacional, muito mais o estavam entre os muros da prisaã o. Introduzi-los ali e
fazeê -los circular, mesmo exclusivamente entre militantes, era grande temeridade. Transferi-
los a bandidos comuns, gente isenta de qualquer compromisso ideoloá gico e de toda
confiabilidade moral, era certamente expor-se a risco de delaçaã o, a não ser que houvesse um
acordo prévio entre o comitê dos políticos e o dos presos comuns, com previsão de graves
sanções contra os faltosos. Hipoá teses contraá rias, soá haá duas: ou os presos políáticos
entregavam aos bandidos obras de Che Guevara e Carlos Marighela por mero descuido,
folgadamente como quem distribui a crianças exemplares de Luluzinha e Tio Patinhas; ou
entaã o os presos comuns eá que tinham um organizadíássimo serviço de espionagem capaz de
burlar a vigilaê ncia dos políáticos e surrupiar uns quantos exemplares das obras explosivas
ciosamente guardadas. Mas, se era improvaá vel que militantes taã o descuidados
sobrevivessem na Ilha Grande, muito mais o seria que os “individualistas” anaá rquicos
lograssem montar um serviço de espionagem taã o eficiente.
***

O testemunho de Toá rtima e as opinioã es de Amorim, portanto, caem por terra. O que fica de
peá eá a narrativa de Amorim, a sustentar, com eloqueê ncia terríável, a conclusaã o que o autor
naã o quis endossar pessoalmente: ou os militantes de esquerda ensinaram guerrilha aos
bandidos com um propoá sito deliberado, ou entaã o a aquisiçaã o desse conhecimento pelos
líáderes do Comando Vermelho eá o mais prodigioso milagre de absorçaã o espontaê nea jaá
registrado nos anais da pedagogia universal. Deixo esta hipoá tese para os adeptos da tese
segundo a qual Deus eá brasileiro. Quanto aà outra, resta discutir se o propoá sito dos
esquerdistas foi cooptar os bandidos para a luta armada sob seu comando ou simplesmente
o de vingar-se pela derrota da guerrilha deixando para o governo militar a semente do
futuro tormento do banditismo organizado. Pode ter sido uma mistura das duas coisas.
[ 33 ] Alguns policiais apostam na primeira, jurando que o Comando Vermelho eá uma
extensaã o e recrudescimento da guerrilha urbana, um novo braço armado das esquerdas.
Esta certeza tem o mesmo fundamento daquela do dr. Toá rtima: uma opçaã o ideoloá gica preá via
que faz ver tudo torto, ou toá rtimo.[ 34 ] Deixarei esta questaã o para outra oportunidade,
advertindo apenas que ela naã o pode ser resolvida pelo meá todo das apostas sentimentais.
Mas, qualquer que tenha sido o caso, uma coisa eá certa: se os militantes da esquerda
armada treinaram bandidos-guerrilheiros dentro da prisaã o, os da esquerda desarmada,
fora dela, estaã o dando seguimento coerente aà sua iniciativa, na medida em que ajudam o
Comando Vermelho a conquistar uma posiçaã o de força como “liderança popular” legitimada
artificialmente, e o integram assim na estrateá gia global da esquerda, jaá naã o como força
militar, e sim políática. Se os jovens guerrilheiros de 1968 naã o tinham uma estrateá gia
definida para aproveitar-se politicamente do banditismo, os velhos políáticos esquerdistas
de 1994 estaã o lhes dando uma, retroativamente. Naã o se trata de uma ponte entre geraçoã es:
eá que estes velhos, simplesmente, saã o aqueles jovens, adestrados pelo tempo. Os jovens
matavam e roubavam pela revoluçaã o; os velhos tiram dividendos políáticos de assaltos e
homicíádios praticados por outros. Servem-se do banditismo duplamente: ao protegeê -lo e ao
denunciaá -lo. No primeiro caso, ganham — ou pelo menos tencionam ganhar — os votos da
populaçaã o pobre, que supoã em obediente ao Comando Vermelho; no segundo, servem-se
dele como pretexto para denunciar a corrupçaã o da sociedade capitalista. Alimentam o mal
para poder acusaá -lo, o que eá , sem exagero, o tipo da malíácia propriamente diaboá lica,
imitando o tinhoso no seu duplo e inseparaá vel papel de tentador e acusador.[ 35 ] Se a ideá ia
de cooptar os bandidos para a luta armada era uma fantasia insensata, se o desejo de
vingar-se da ditadura era uma pirraça juvenil, uma esquerda mais madura e experiente estaá
sabendo reaproveitar e tirar vantagem políática daquilo que, entre neá voas, foi gerado na Ilha
Grande. A quem poderia ser doce esse fruto senaã o a quem, de olho no futuro, plantou a sua
semente?
O BRASIL DO PT

A entrevista do teoá rico do PT, Marco Aureá lio Garcia, no Jornal da Tarde de 12 de
janeiro, mostra que, por traá s de uma tranquü ilizante fachada moderninha, esse
partido naã o tem nada a propor senaã o o bom e velho comunismo.
1. Segundo o entrevistado, o governo do PT naã o seraá socialista. Os ingeê nuos tomam esta
promessa como uma garantia. Mas, prossegue Marco Aureá lio, esse governo seraá uma
“democracia popular” e constituiraá “um aperfeiçoamento do capitalismo” com vistas a “um
horizonte socialista” — um horizonte vago e indistinto o bastante para naã o alarmar o
eleitorado. O que o eleitorado, novo e inculto, ignora por completo eá que aperfeiçoar o
capitalismo para chegar ao socialismo naã o eá nenhuma proposta nova, mas sim a uá nica
estrateá gia de governo comunista que jaá existiu e a uá nica que poderia existir, jaá que, segundo
Marx, o socialismo naã o pode ser implantado antes que o capitalismo desenvolva suas
potencialidades ateá o esgotamento. A funçaã o do governo de transiçaã o, “democraá tico-
popular”, eá acelerar esse esgotamento. Na Ruá ssia, essa fase intermediaá ria chamou-se NEP,
Nova Políática Econoê mica, implantada por Leê nin logo apoá s a tomada do poder pelos
comunistas. Se o proá prio Leê nin, subindo ao poder no bojo de uma revoluçaã o armada, naã o
implantou logo o comunismo, e sim apenas um “capitalismo aperfeiçoado”, por que o PT
haveria de fazer mais, levado ao poder pela via gradual e pacíáfica do gramscismo?
2. Marco Aureá lio Garcia, prosseguindo na linha tranquü ilizante, assegura que os
empresaá rios nada perderaã o e teraã o tudo a ganhar no Brasil petista: “Se queremos
desenvolver um grande mercado de massas, eá claro que grande parte da burguesia vai tirar
proveito disso”. Mas eá exatamente o que dizia Leê nin: naã o se pode fazer a transiçaã o para o
socialismo sem que, na passagem, a burguesia ganhe um bocado de dinheiro com o
incremento dos negoá cios. Nisto consistiu precisamente a NEP. Mas naã o se pense que os
comunistas fiquem tristes com a suá bita prosperidade dos seus desafetos.[ 36 ] Ao contraá rio:
acenando com a promessa de ganhos raá pidos, o governo comunista faz trabalhar em favor
da revoluçaã o a cobiça imediatista dos burgueses, cumprindo a profecia de Leê nin: “A
burguesia tece a corda com que seraá enforcada”. O truque eá simples: com o progresso
raá pido do capitalismo, cresce tambeá m rapidamente o proletariado, base de apoio do
governo comunista. Taã o logo esta base esteja firme para sustentar o governo sem a ajuda
dos burgueses, o governo puxa o laço. Em seguida os burgueses mortos ou banidos saã o
substituíádos em suas funçoã es dirigentes por uma nova classe de burocratas de origem
proletaá ria ao menos nominal.
3. Garcia diz que o PT quer um “Estado forte”, dotado de “mecanismos de controle do
Parlamento, da Justiça, do Tribunal de Contas e das estatais”. Mas que diabo eá isto senaã o o
totalitarismo mais descarado? Nas democracias, a autonomia dos treê s poderes tem sido um
mecanismo confiaá vel e suficiente para o controle do poder. O que o PT advoga eá que dois
desses poderes sejam controlados por um terceiro, o Executivo, desde o momento em que
este caia nas maã os do sr. Luíás Inaá cio Lula da Silva. Nesta hipoá tese, daraá na mesma que o
Executivo policie os outros dois poderes diretamente, numa ditadura ostensiva, ou que o
faça por intermeá dio de organizaçoã es autonomeadas representantes da sociedade civil —
sindicatos, ONGs, grupos de intelectuais, greê mios estudantis — e controladas, por sua vez,
pela facçaã o políática dominante, isto eá , pelo PT: em ambos os casos, o que teremos seraá o
crescimento hipertroá fico do poder e seu absoluto descontrole.
4. Interrogado sobre o destino que o governo petista daraá aà s Forças Armadas, Garcia
responde, com toda a clareza de quem diz exatamente o que pensa: mudar a Constituiçaã o,
para que as Forças Armadas deixem de ter, entre suas atribuiçoã es, a de combater inimigos
internos, e passem a se incumbir exclusivamente da defesa das fronteiras nacionais. Ora,
mandadas para a fronteira, desligadas do combate a inimigos internos, as Forças Armadas
estaraã o duplamente impedidas — pela obrigaçaã o constitucional e pela distaê ncia — de
mover um soá dedo contra o crime organizado, que, sob aplausos de uma certa
intelectualidade esquerdista, jaá domina um Estado da Federaçaã o. Se, ampliando o que hoje
acontece no Rio, uma aliança entre políáticos e delinquü entes atear fogo ao paíás inteiro, as
Forças Armadas nada poderaã o fazer contra isso, porque estaraã o, fieá is ao dever
constitucional, aquarteladas num cafundoá amazoê nico, velando contra a iminente invasaã o
boliviana ou talvez dando nos marines uma surra de fazer inveja ao vietcongue.
Mas seraá estranho que um dirigente petista alimente esse projeto insano, quando seu
partido tambeá m tem, entre seus principais quadros teoá ricos, um tal sr. Ceá sar Benjamin,
bioá grafo-apologista do fundador do Comando Vermelho? Recordemos: escrito com a ajuda
deste teoá rico petista, o livro em que o quadrilheiro William Lima da Silva faz a apologia do
crime foi publicado pela Editora Vozes, da esquerda catoá lica, e lançado, com noite de
autoá grafos e muita badalaçaã o, em cerimoê nia realizada na sede da ABI em 1991. Apesar do
que dispoã e o Art. 287 do Coá digo Penal, ningueá m foi processado. Alguns veê em em fatos como
esse perigosos sinais de ligaçoã es entre as esquerdas e o crime organizado. Se haá ou naã o aíá
uma aliança políática subterraê nea, eá algo que soá o tempo diraá . Mas que as esquerdas estaã o
ligadas ao Comando Vermelho pelo passado comum e por uma profunda afinidade
“espiritual” baseada no culto dos mesmos mitos e dos mesmos rancores, eá coisa que estaá
fora de duá vida. E como os senhores do crime naã o haveriam de sentir essa afinidade como
um verdadeiro reconforto, diante da promessa petista de tirar do seu caminho o uá nico
obstaá culo que ainda pode inibir suas ambiçoã es?[ 37 ]
A proposta petista de aumentar a dotaçaã o orçamentaria das Forças Armadas em troca de
retirar delas a responsabilidade pelo combate ao inimigo interno eá puro suborno, em que o
PT veste implicitamente a carapuça de inimigo interno. Se ainda existe conscieê ncia
estrateá gica entre os militares, a proposta indecente seraá repelida.
5. Enfim, se Marco Aureá lio Garcia procura aplacar o temor ante o espectro comunista
dizendo que o regime petista naã o seraá socialismo e sim “democracia popular”, tambeá m
nisto naã o haá novidade alguma: todos os regimes comunistas se intitulavam “democracias
populares”.
O PT, seguindo a liçaã o de Hitler, naã o se daá sequer o trabalho de ocultar o que pretende
fazer: anuncia seus planos abertamente, contando com a certeza de que o wishfulthinking
popular daraá aà s suas palavras um sentido atenuado e inocente, sem enxergar qualquer
periculosidade mesmo nas ameaças mais explíácitas. Afinal, quanto mais assoberbado de
males se encontra um povo, mais ansioso fica de crer em alguma coisa e menos disposto a
encarar com realismo a imineê ncia de males ainda maiores. Nessas horas, a maneira mais
segura de ocultar uma intençaã o maligna eá proclamaá -la cinicamente, para que, tomada como
inverossíámil em seu sentido literal, seja interpretada metaforicamente e aceita por todos
com aquela benevoleê ncia compulsiva que nasce do medo de ter medo. Quando Hitler
prometeu dar um fim aos judeus, tambeá m foi interpretado em sentido metafoá rico.
A predisposiçaã o da opiniaã o puá blica para naã o enxergar o risco evidente nasce, por um lado,
da proá pria hegemonia que as ideologias de esquerda exercem sobre o nosso panorama
cultural, impondo viseiras psicoloá gicas mesmo a pessoas que, politicamente, divergem da
esquerda. A políática eá apenas uma superfíácie da vida social, e de nada adianta divergir na
superfíácie se, no fundo — nas convicçoã es morais, nos sentimentos baá sicos, nas atitudes
vitais elementares — copiamos servilmente o figurino mental do adversaá rio.
Nasce, por outro lado, da ilusaã o de que o comunismo estaá morto. EÁ um excesso de
ingenuidade — ou, talvez, medo de ter medo — supor que o fracasso do comunismo no
Leste europeu liquidou de vez as ambiçoã es dos comunistas em toda parte. O ressentimento
move montanhas, dizia Nietzsche. Particularmente no Brasil, eá muito profunda nas
esquerdas a aspiraçaã o míática de alcançar uma vitoá ria local que, pelo seu proá prio caraá ter
inesperado e tardio, possa resgatar a honra do movimento comunista humilhado em todo o
mundo. Permitir que o PT realize seus planos de “democracia popular”, sob o pretexto de
que o comunismo eá um cavalo morto, eá arriscar-se a um coice que provaraá a vitalidade do
defunto.
Ademais, o movimento das ideá ias no Brasil naã o acompanha pari passu a evoluçaã o do
mundo, mas fica sempre atraá s. Em 1930, quando o positivismo de Augusto Comte jaá era
peça de museu no seu paíás de origem, uma revoluçaã o tomou o poder no Brasil inspirada no
modelo positivista do Estado. O espiritismo, moda europeá ia que morreu por volta da
Primeira Guerra sem nunca mais reencarnar, ainda eá no Brasil quase uma religiaã o oficial.
Nossos intelectuais ainda estaã o empenhados no combate ao lusitanismo em literatura,
quase um seá culo depois de rompido o intercaê mbio literaá rio entre Brasil e Portugal. As
velhas religioã es africanas, que os negros de todo o mundo vaã o abandonando para aderir ao
islamismo, aqui vaã o conquistando novas massas de crentes entre os brancos. Enfim, o
tempo nesta parte do mundo corre ao contraá rio. Por que o comunismo, morto ou
moribundo em toda parte, naã o poderaá ressurgir neste paíás, fiel ao atraso croê nico do nosso
calendaá rio mental? Pelo menos eá o que nos promete a entrevista de Marco Aureá lio Garcia:
se depender dele, naã o falharemos em nossa missaã o coá smica de coletores do lixo refugado
pela Histoá ria.
Homens de formaçaã o arraigadamente marxista, insensíáveis durante toda uma vida a
quaisquer outras correntes de ideá ias, simplesmente não podem, no breve prazo decorrido
desde a queda do Muro de Berlim, ter feito uma revisaã o profunda e seá ria de suas
convicçoã es. Mudanças, se houve, foram epideá rmicas, para naã o dizer simuladas. A força
atrativa do messianismo comunista naã o acabou: refluiu para a obscuridade, de onde,
vitalizada pelo apelo nostaá lgico e pela aê nsia de um renouveau transfigurador, estaá pronta a
ressurgir ao menor sinal de uma oportunidade. Declaraçoã es improvisadas de
arrependimento nada significam, sobretudo em homens que, habituados por uma praxe do
cerimonial comunista a utilizar-se de rituais de “autocríática” como instrumentos de
sobreviveê ncia políática, acabaram por assimilar profundamente o víácio da linguagem
duá plice, a ponto de tornaá -la uma segunda natureza. Um seá culo de histoá ria do comunismo
prova que nada iguala a capacidade da esquerda de tapar os proá prios ouvidos aà verdade,
senaã o a sua habilidade de desviar dela os olhos alheios. A pressa mesma com que alguns
proá ceres comunistas compareceram ante as caê meras de TV para declarar a faleê ncia do
comunismo eá suspeita, uma vez que em nenhum deles a desilusaã o foi profunda a ponto de
fazeê -lo desejar abandonar a políática. Do dia para a noite, desvestiram a camisa sovieá tica,
vestiram um modelito novo, e sem mais delonga reapareceram, prontos para outra, com o
maior vigor e animaçaã o, discursando com aquela certeza, com aquela segurança de quem
jamais tivesse sido desmentido pelos fatos. Acredite nessa gente quem quiser.
Da minha parte, naã o duvido de todos os comunistas. Acredito em Antonio Gramsci,
quando diz que o Partido eá o novo “Príáncipe” de Maquiavel, e acredito em Bertolt Brecht,
quando diz que para um comunista a verdade e a mentira saã o apenas instrumentos, ambos
igualmente uá teis aà praá tica da uá nica virtude que conta, que eá a de lutar pelo comunismo.
NOTA
Aos que, lido este apeê ndice, enxergarem no autor um hidroá fobo antipetista, advirto que
votei em Lula para presidente e o faria de novo, com prazer, se ele tomasse as seguintes
provideê ncias:
1. Banir do seu partido o elenco de vedettes intelectuais que, formadas numa atmosfera
marxista, e apegadas a ela como um bebeê aà saia da maã e, insistem em manter aprisionado
nela o movimento socialista que anseia por novas ideá ias. Exorcizar de vez os fantasmas de
Marx, Leê nin, Deá bray, Althusser, Gramsci e tutti quanti, e permitir que a ideá ia socialista
cresça livre de gurus e totens. Quando Lula diz que nossas elites viveram “com os olhos
voltados para a França e a bunda voltada para o Brasil”, naã o percebe ele que isso eá uma
descriçaã o exata da elite intelectual petista, e esquerdista em geral?
2. Reprimir o uso de taá ticas de movimento clandestino e revolucionaá rio, que saã o
indecentes num partido que professa conviver democraticamente com outros partidos num
Estado de direito. Infiltraçaã o, espionagem, delaçaã o, boicote moral podem ser necessaá rios e
inevitaá veis a um movimento de oposiçaã o que queira sobreviver numa ditadura. Em regime
de liberdade, saã o praá ticas intoleraá veis, principalmente em políáticos que posam de
professores de eá tica. Quando os apoá stolos da eá tica citam como um exemplo para o Brasil o
que os americanos fizeram com Nixon apoá s o caso Watergate, esquecem de dizer que Nixon
naã o caiu por causa de um desvio de verbas, mas por causa da praá tica de espionagem. Se a
corrupçaã o eá um crime, a espionagem eá um ato de guerra, que destroá i, pela base, o edifíácio
democraá tico.
Lula eá um homem decente e, como disse Francisco Weffort, eá algueá m maior do que o seu
partido. Se ele se utilizar da tremenda força do seu prestíágio para exterminar esses dois
víácios, o marxismo e o clandestinismo, o Partido dos Trabalhadores se transformaraá
naquilo que seu nome promete, deixando de ser apenas o partido da nostalgia comunista.
[ 38 ]
BANDIDOS & LETRADOS[ 39 ]

E
ntre as causas do banditismo carioca, haá uma que todo o mundo conhece mas que
jamais eá mencionada, porque se tornou tabu: haá sessenta anos os nossos
escritores e artistas produzem uma cultura de idealizaçaã o da malandragem, do
víácio e do crime. Como isto poderia deixar de contribuir, ao menos a longo prazo,
para criar uma atmosfera favoraá vel aà propagaçaã o do banditismo?
De Capitães da areia ateá a novela Guerra sem fim, passando pelas obras de Amando Fontes,
Marques Rebelo, Joaã o Antoê nio, Leê do Ivo, pelo teatro de Nelson Rodrigues e Chico Buarque,
pelos filmes de Roberto Farias, Nelson Pereira dos Santos, Carlos Diegues, Rogeá rio
Sganzerla e naã o-sei-mais-quantos, a palavra-de-ordem eá uma soá , repetida em coro de
geraçaã o em geraçaã o: ladroã es e assassinos saã o essencialmente bons ou pelo menos neutros,
a políácia e as classes superiores a que ela serve saã o essencialmente maá s.[ 40 ]
Naã o conheço um uá nico bom livro brasileiro no qual a políácia tenha razaã o, no qual se
exaltem as virtudes da classe meá dia ordeira e pacata, no qual ladroã es e assassinos sejam
apresentados como homens piores do que os outros, sob qualquer aspecto que seja. Mesmo
um artista superior como Graciliano Ramos naã o fugiu ao lugar-comum: Luíás da Silva, em
Angústia, o mais patoloá gico e feio dos criminosos da nossa literatura, acaba sendo mais
simpaá tico do que sua víátima, o gordo, satisfeito e rico Juliaã o Tavares — culpado do crime de
ser gordo, satisfeito e rico. Na perspectiva de Graciliano, o uá nico erro de Luíás da Silva eá seu
isolamento, eá agir por conta proá pria num acesso impotente de desespero pequeno-burgueê s:
se ele tivesse enforcado todos os burgueses em vez de um soá , seria um heroá i. O homicíádio,
em si, eá justo: mau foi cometeê -lo em pequena escala.
Humanizar a imagem do delinquü ente, deformar, caricaturar ateá os limites do grotesco e da
animalidade o cidadaã o de classe meá dia e alta, ou mesmo o homem pobre quando religioso e
cumpridor dos seus deveres — que neste caso aparece como conformista desprezíável e
virtual traidor da classe —, eis o mandamento que uma parcela significativa dos nossos
artistas tem seguido fielmente, e a que um exeá rcito de socioá logos, psicoá logos e cientistas
políáticos daá discretamente, na retaguarda, um simulacro de respaldo “cientíáfico”.
AÀ luz da “eá tica” daíá resultante, naã o existe mal no mundo senaã o a “moral conservadora”.
Que eá um assalto, um estupro, um homicíádio, perto da maldade sataê nica que se oculta no
coraçaã o de um pai de famíália que, educando seus filhos no respeito aà lei e aà ordem, ajuda a
manter o status quo? O banditismo eá em suma, nessa cultura, ou o reflexo passivo e inocente
de uma sociedade injusta, ou a expressaã o ativa de uma revolta popular fundamentalmente
justa. Pouco importa que o homicíádio e o assalto sejam atos intencionais, que a manutençaã o
da ordem injusta naã o esteja nem de longe nos caá lculos do pai de famíália e soá resulte como
somatoá ria indesejada de milhoã es de açoã es e omissoã es automatizadas da massa anoê nima. A
conexaã o universalmente admitida entre intençaã o e culpa estaá revogada entre noá s por um
atavismo marxista erigido em lei: pelo criteá rio “eá tico” da nossa intelectualidade, um homem
eá menos culpado pelos seus atos pessoais que pelos da classe a que pertence.[ 41 ] Isso
falseia toda a escala de valores no julgamento dos crimes. Quando um habitante da favela
comete um crime de morte, deve ser tratado com clemeê ncia, porque pertence aà classe dos
inocentes. Quando um diretor de empresa sonega impostos, deve ser punido com rigor,
porque pertence aà classe culpada. Os mesmos que pedem cadeia para deputados corruptos
fazem campanha pela libertaçaã o do chefe do Comando Vermelho. Os mesmos que sempre
se opuseram vigorosamente aà pena de morte para autores de homicíádios citam como
exemplar a lei chinesa que manda fuzilar os corruptos, e repreendem o deputado Amaral
Netto, um apologista da pena de morte para os assassinos, por ser contraá rio aà mesma
penalidade para os crimes de “colarinho branco”. O Congresso, ocupado em castigar
vulgares estelionataá rios de gabinete, mostra uma soberana indiferença ante o banditismo
armado. Assim nossa opiniaã o puá blica passa por uma reeducaçaã o, que terminaraá por
persuadi-la de que desviar dinheiro do Estado eá mais grave do que atentar contra a vida
humana — princíápio que, consagrado no Coá digo Penal sovieá tico, punia o homicíádio com dez
anos de cadeia, e com pena de morte os crimes contra a administraçaã o: dize-me quem
imitas e eu te direi quem eá s.[ 42 ]
Se levada mais fundo ainda, essa “revoluçaã o cultural” acabaraá por perverter todo o senso
moral da populaçaã o, instaurando a crença de que o dever de ser bom e justo incumbe
primeira e essencialmente à sociedade, e só secundariamente aos indivíduos. Muitos
intelectuais brasileiros tomam como um dogma infalíável esse preceito monstruoso, que
resulta em abolir todos os deveres da conscieê ncia moral individual ateá o dia em que seja
finalmente instaurada sobre a Terra a “sociedade justa” — um ideal que, se naã o fosse
utoá pico e fantasista em si, seria ao menos inviabilizado pela praá tica do mesmo preceito,
tornando os homens cada vez mais injustos e maus quanto mais apostassem na futura
sociedade justa e boa.[ 43 ] Um dos maiores pensadores eá ticos do nosso seá culo, o teoá logo
protestante Reinhold Niebuhr, mostrou que, ao longo da Histoá ria, o padraã o moral das
sociedades — e principalmente dos Estados — foi sempre muito inferior ao dos indivíáduos
concretos. Uma sociedade, qualquer sociedade, pode permitir-se atos que num indivíáduo
seriam considerados imorais ou criminosos. Por isto mesmo, a esseê ncia do esforço moral,
segundo Niebuhr, consiste em tentar ser justo numa sociedade injusta.[ 44 ] Nossos
intelectuais inverteram essa foá rmula, dissolvendo todo o senso de responsabilidade pessoal
na poçaã o maá gica da “responsabilidade social”. Alguns consideram mesmo que isto eá muito
cristaã o, esquecendo que Cristo, se pensasse como eles, adiaria a cura dos leprosos, a
multiplicaçaã o dos paã es e o sacrifíácio do Calvaá rio para depois do advento da “sociedade
justa”.
É absolutamente impossível que a disseminaçaã o de tantas ideá ias falsas naã o crie uma
atmosfera propíácia a fomentar o banditismo e a legitimar a omissaã o das autoridades. O
governante eleito por um partido de esquerda, por exemplo, naã o tem como deixar de ficar
paralisado por uma dupla lealdade, de um lado aà ordem puá blica que professou defender, de
outro aà causa da revoluçaã o com a qual seu coraçaã o se comprometeu desde a juventude, e
para a qual a desordem eá uma condiçaã o imprescindíável. A omissaã o quase cuá mplice de um
Brizola ou de um Nilo Batista — homens que naã o teê m vocaçaã o para tomar parte ativa na
produçaã o cultural, mas que teê m instruçaã o bastante para naã o escapar da influeê ncia da
cultura produzida — naã o eá senaã o o reflexo de um conjunto de valores, ou contravalores, que
a nossa classe letrada consagrou como leis, e que veê m moldando as cabeças dos brasileiros
haá muitas deá cadas. Se o apoio a medidas de força contra o crime vem sempre das camadas
mais baixas, naã o eá soá porque saã o elas as primeiras víátimas dos criminosos, mas porque elas
estaã o fora do raio de influeê ncia da cultura letrada. Da classe meá dia para cima, a aquisiçaã o de
cultura superior eá identificada com a adesaã o aos preconceitos consagrados da intelligentzia
nacional, entre os quais o oá dio aà políácia e a simpatia pelo banditismo.
Seria plausíável supor que esses preconceitos surgiram como reaçaã o aà ditadura militar.
Mas, na verdade, saã o anteriores. A imagem do crime na nossa cultura compoã e-se em uá ltima
anaá lise de um conjunto de cacoetes e lugares-comuns cuja origem primeira estaá na
instruçaã o transmitida pelo Comintern em 24 de abril de 1933 ao Comiteê Central do Partido
Comunista Brasileiro, para que procurasse assumir a liderança de quadrilhas de bandidos,
imprimindo um caraá ter de “luta de classes” ao seu conflito com a lei.[ 45 ]
A instruçaã o foi atendida com presteza pela intelectualidade comunista, que produziu para
esse propoá sito uma infinidade de livros, artigos, teses e discursos. Os escritores comunistas
naã o eram muitos, mas eram os mais ativos: tomando de assalto os oá rgaã os de representaçaã o
dos intelectuais e artistas,[ 46 ] elevaram sua voz acima de todas as outras e, logo, suas
ideá ias prevaleceram ao ponto de ocupar todo o espaço mental do puá blico letrado. Hoje
vemos como foi profunda a marca deixada pela propaganda comunista na conscieê ncia dos
nossos intelectuais: nenhum deles abre a boca sobre o problema da criminalidade carioca,
que naã o seja para repetir os velhos lugares-comuns sobre a miseá ria, sobre os ricos
malvados, e para lançar na “elite” a culpa por todos os assaltos, homicíádios e estupros
cometidos pelos habitantes das favelas.
Ningueá m ousa por em duá vida a veracidade das premissas em que se assentam tais
raciocíánios — o que prova o quanto elas fizeram a cabeça da nossa intelectualidade, o
quanto esta, sem mesmo saber a origem de suas ideá ias, continua repetindo e obedecendo,
por mero automatismo, por mera preguiça mental, os chavoã es que o Comintern mandou
espalhar na deá cada de 30.
De nada adianta a experieê ncia universal ensinar-nos que a conexaã o entre miseá ria e
criminalidade eá teê nue e incerta; que haá milhares de causas para o crime, que mesmo a
prosperidade de um wellfare State naã o elimina; que entre essas causas estaá a anomia, a
auseê ncia de regras morais explíácitas e comuns a toda a sociedade; que uma cultura de
“subversaã o de todos os valores” e a glamurizaçaã o do banditismo pela elite letrada ajudam a
remover os uá ltimos escruá pulos que ainda deteê m milhares de jovens prestes a saltar no
abismo da criminalidade. Contrariando as liçoã es da Histoá ria, da cieê ncia e do bom senso,
nossos intelectuais continuam presos aà lenda que faz do criminoso o cobrador de uma
díávida social. Alguns creê em mesmo nela, com uma espeá cie de masoquismo pateá tico, resíáduo
de uma sentimentalidade doentia inoculada pelo discurso comunista nas almas fraá geis dos
“burgueses progressistas”: o escritor Antoê nio Callado, vendo sua casa arrombada, levados
seus quadros preciosos, repetia para si, entre inerme e atoê nito, a sentença de Proudhon: “A
propriedade eá um roubo”. Deveria recitar, isto sim, o poema de Heine, em que um homem
que dorme eá atormentado em sonhos por uma figura que, ameaçando-o com uma arma, lhe
diz: “Eu sou a açaã o dos teus pensamentos”.[ 47 ]
Infelizmente, os pensamentos dos intelectuais naã o voltam soá contra seus autores os seus
efeitos materiais. Erigida em crença comum, a lenda do “Cobrador” — tíátulo de um conto
aliaá s memoraá vel de Rubem Fonseca — produz devastadoras consequü eê ncias reais sobre toda
a populaçaã o. Ela transforma o delinquü ente, de acusado, em acusador. Seguro de si,
fortalecido em sua auto-estima pelas lisonjas da intelligentzia, o assassino entaã o jaá naã o
aponta contra noá s apenas o cano de uma arma, mas o dedo da justiça; de uma estranha
justiça, que lança sobre a víátima as culpas pelos erros de uma entidade abstrata — “o
sistema”, “a sociedade injusta” —, ao mesmo tempo que isenta o criminoso de quase toda a
responsabilidade por seus atos pessoais. Perseguida de um lado pelas gangues de bandidos,
acuada de outro pelo discurso dos letrados, a populaçaã o cai no mais abjeto desfibramento
moral e jaá naã o ousa expressar sua revolta. Qual uma mulher estuprada, envergonha-se de
seus sofrimento e absorve em si as culpas de seu agressor. Ela pode ainda exigir
provideê ncias da autoridade, mas o faz numa voz deá bil e sem convicçaã o — e cerca seu
pedido de tantas precauçoã es, que a autoridade, apoá s ouvi-la, mais temeraá agir do que
omitir-se. Afinal, eá menos arriscado politicamente desagradar uma multidaã o de víátimas que
gemem em segredo do que um punhado de intelectuais que vociferam em puá blico.
Os intelectuais, neste paíás, saã o os primeiros a denunciar a imoralidade, os primeiros a
subir ao palanque para discursar em nome da “eá tica”. Mas a eá tica consiste basicamente em
cada um responsabilizar-se por seus proá prios atos. E nunca vi um intelectual brasileiro,
muito menos um de esquerda, fazer um exame de conscieê ncia e perguntar-se: “Seraá que nós
também naã o temos colaborado para a trageá dia carioca?”.
Naã o, nenhum deles sente a menor dor na conscieê ncia ao ver que sessenta anos de
apologia literaá ria do crime de repente se materializaram nas ruas, que as imagens
adquiriram vida, que as palavras viraram atos, que os personagens saltaram do palco para a
realidade e estaã o roubando, matando, estuprando com a boa conscieê ncia de serem “heroá is
populares”, de estarem “lutando contra a injustiça” com as teá cnicas de combate que
aprenderam na Ilha Grande. Os intelectuais literalmente não sentem ter colaborado em
nada para esse resultado. Naã o o sentem, porque deá cadas de falsa conscieê ncia alimentada
pela retoá rica marxista os imunizaram contra quaisquer protestos da conscieê ncia moral. Eles
possuem a arte dialeá tica de sufocar a voz interior mediante argumentos de oportunidade
histoá rica. Ademais, detestam o sentimento de culpa — que supoã em ter sido inventado pela
Igreja Catoá lica para manter as massas sob reá dea curta. Naã o desejando, portanto, assumir
suas proá prias culpas, exorcizam-nas projetando-as sobre os outros, e tornam-se, por uma
sintomatologia histeá rica bem conhecida, acusadores puá blicos, porta-vozes de um
moralismo ressentido e vingativo. Imbuíádos da convicçaã o dogmaá tica de que a culpa eá
sempre dos outros, eles estaã o puros de coraçaã o e prontos para o cumprimento do dever.
Qual dever? O uá nico que conhecem, aquele que constitui, no seu entender, a missaã o
precíápua do intelectual: denunciar. Denunciar os outros, naturalmente. E aquele que
denuncia, estando, por isto mesmo, ao lado das “forças progressistas”, fica automaticamente
isento de prestar satisfaçoã es aà “moral abstrata” da burguesia, a qual, sem nada
compreender da dialeá tica histoá rica, continua a proclamar que haá atos intrinsecamente
maus, independentemente das condiçoã es sociais e políáticas: “moral hipoá crita”, ante a qual
— pfui! — o intelectual franze o nariz com a infinita superioridade de quem conhece a
teleologia da histoá ria e jaá superou — ou melhor, aufhebt jetzt — na dialeá tica do devir o falso
conflito entre o bem e o mal...
Mas a colaboraçaã o desses senhores dialeá ticos para o crescimento da criminalidade no Rio
foi bem mais longe do que a simples preparaçaã o psicoloá gica por meio da literatura, do
teatro e do cinema: foram exemplares da sua espeá cie que, no presíádio da Ilha Grande,
ensinaram aos futuros chefes do Comando Vermelho a estrateá gia e as taá ticas de guerrilha
que o transformaram numa organizaçaã o paramilitar, capaz de representar ameaça para a
segurança nacional. Pouco importa que, ao fazerem isso, os militantes presos tivessem em
vista a futura integraçaã o dos bandidos na estrateá gia revolucionaá ria, ou que, agindo aà s
tontas, simplesmente desejassem uma vingança suicida contra a ditadura que os derrotara:
o que importa eá que, ensinando guerrilha aos bandidos, agiram de maneira coerente com os
ensinamentos de Marcuse e Hobsbawn — entaã o muito influentes nas nossas esquerdas —,
os quais, ateá mesmo contrariando o velho Marx, exaltavam o potencial revolucionaá rio do
Lumpenproletariat.
Nenhum desses servidores da Histoá ria sente o menor remorso, a menor perturbaçaã o da
conscieê ncia, ao ver que suas liçoã es foram aprendidas, que suas teorias viraram praá tica, que
sua cieê ncia da revoluçaã o armou o braço que hoje aterroriza com assaltos e homicíádios a
populaçaã o carioca. Naã o: eles nada fizeram senaã o acelerar a dialeá tica histoá rica — e naã o
existe mal senaã o em opor-se aà Histoá ria. Com a conscieê ncia mais limpa deste mundo, eles
continuam a culpar os outros: o capitalismo, a políática econoê mica do governo, a políácia, e a
verberar como “reacionaá rios” e “fascistas” os cidadaã os, ricos e pobres, que querem ver os
assassinos e traficantes na cadeia.
Mas os intelectuais da esquerda naã o se limitaram a criar o pano de fundo cultural propíácio
e a elevar pelos ensinamentos teá cnicos o níável de periculosidade do banditismo; eles deram
um passo aleá m, e colheram os frutos políáticos do longo namoro com a delinquü eê ncia: o apoio
dos bicheiros — o que eá o mesmo que dizer: dos traficantes — foi a principal base de
sustentaçaã o popular sobre a qual se ergueu no Rio o impeá rio do brizolismo, a ala mais
tradicional e populista da esquerda brasileira.
Sob a eá gide do brizolismo, as relaçoã es entre intelectualidade esquerdista e banditismo
transformaram-se num descarado affaire amoroso, com a ABI dando respaldo aà promoçaã o
do livro Um contra mil, em que o quadrilheiro William Lima da Silva, o “Professor”, líáder do
Comando Vermelho, faz a apologia do crime como reaçaã o legíátima contra a “sociedade
injusta”.
Um pouco mais tarde, quando a criminalidade organizada jaá estava bem crescida a ponto
de requerer uma intervençaã o do governo federal, o que se verificou foi que a esquerda naã o
se limitara a colaborar com os bandidos, mas se ocupara tambeá m de debilitar seus
perseguidores; que a CUT e o PT, infiltrando-se na Políácia Federal, haviam tornado esta
organizaçaã o mais ameaçadora para o governo federal do que para traficantes e
quadrilheiros.[ 48 ]
E finalmente, quando o governo federal, vencendo resisteê ncias prodigiosas, finalmente se
decide a agir e incumbe o Exeá rcito de dirigir a repressaã o ao banditismo no Rio, a
intelectualidade de esquerda, como naã o poderia deixar de ser, inicia uma campanha surda
de desmoralizaçaã o do comando militar das operaçoã es, seja com adverteê ncias alarmistas
quanto aà possibilidade de “abusos” contra os moradores das favelas, seja com toda sorte de
gracejos e especulaçoã es sobre as fragilidades da estrateá gia adotada, seja com
argumentaçoã es pseudocientíáficas sobre a inconvenieê ncia do remeá dio adotado, dando a
entender que os riscos de uma intervençaã o militar saã o infinitamente maiores que o da
anarquia sangrenta instalada no Rio. Tudo isto prepara o terreno para uma investida maior,
em que entidades autonomeadas representantes da “sociedade civil” — as mesmas que
promoveram a elevaçaã o dos chefes do Comando Vermelho ao estatuto de “lideranças
populares” — se uniraã o para pedir a retirada das Forças Armadas e a devoluçaã o dos morros
a seus eternos governantes, laá entronizados pelas graças da deusa Histoá ria.[ 49 ]
Resumindo, pela ordem cronoloá gica: a esquerda, primeiro, criou uma atmosfera de
idealizaçaã o do banditismo; segundo, ensinou aos criminosos as teá cnicas e a estrateá gia da
guerrilha urbana; terceiro, defendeu abertamente o poder das quadrilhas, propondo sua
legitimaçaã o como “lideranças populares”; quarto, enfraqueceu a Políácia Federal como oá rgaã o
repressivo, fortalecendo-a, ao mesmo tempo, como instrumento de agitaçaã o; quinto,
procurou boicotar psicologicamente a operaçaã o repressiva montada pelas Forças Armadas,
tentando atrair para ela a antipatia popular. Naã o eá humanamente concebíável que tudo isso
seja apenas uma sucessaã o de coincideê ncias fortuitas. Se a continuidade perfeitamente
loá gica das iniciativas da esquerda em favor do banditismo naã o reflete a unidade de uma
estrateá gia consciente, ela expressa ao menos a unanimidade de um estado de espíárito, a
fortíássima coesaã o de um noá de preconceitos contra a ordem puá blica e a favor da
delinquü eê ncia. Para a nossa esquerda, decididamente, assassinos, ladroã es, traficantes e
estupradores estaã o alinhados com as “forças progressistas” e destinados a ser redimidos
pela Histoá ria pela sua colaboraçaã o aà causa do socialismo. Quanto a seus perseguidores,
identificam-se claramente com as “forças reacionaá rias” e iraã o direto para a lata de lixo da
Histoá ria. No que diz respeito aà s víátimas, enfim, pode-se lamentaá -las, mas, como dizia tio
Vladimir, queê fazer? Naã o se pode fritar uma omelette sem quebrar os ovos...
Para completar, eá mais que sabido que artistas e intelectuais saã o um dos mais ricos
mercados consumidores de toá xicos e que naã o desejam perder seus fornecedores: quando
defendem a descriminalizaçaã o dos toá xicos, advogam em causa proá pria. Mas eles naã o saã o
apenas consumidores: saã o propagandistas. Quem tem um pouco de memoá ria haá de lembrar
que neste paíás a moda das drogas, na deá cada de 60, naã o começou nas classes baixas, mas
nas universidades, nos grupos de teatro, nos cíárculos de psicoá logos, rodeada do prestíágio de
um víácio elegante e iluminador. Foi graças a esse embelezamento artificial empreendido
pela intelligentzia que o consumo de drogas deixou de ser um haá bito restrito a pequenos
cíárculos de delinquü entes para se alastrar como metaá stases de um caê ncer por toda a
sociedade: Si monumentum requires, circumspicii.
EÁ de espantar que nessas condiçoã es o banditismo crescesse como cresceu? EÁ de espantar
que, enquanto a populaçaã o maciçamente clama por uma intervençaã o da autoridade e
aplaude agora a chegada dos fuzileiros aos morros, a intelectualidade procure depreciar a
atuaçaã o do Exeá rcito e naã o se preocupe senaã o com a salvaguarda dos direitos civis dos
eventuais suspeitos a serem detidos, como se a eliminaçaã o do banditismo armado naã o
valesse o risco de alguns abusos esporaá dicos?
O que seria de espantar eá que os estudos pretensamente cientíáficos sobre as causas do
banditismo jamais assinalem entre elas a cumplicidade dos intelectuais, como se os fatores
econoê micos agissem por si e como se a produçaã o cultural naã o exercesse sobre a ordem ou
desordem social a menor influeê ncia, mesmo quando essa cumplicidade passa das palavras aà
açaã o e se torna um respaldo políático ostensivo para a açaã o dos quadrilheiros. Seria de
espantar, digo, se naã o se soubesse quem saã o os autores de tais estudos e as entidades que
os financiam.
Haá deá cadas nossa intelligentzia vive de ficçoã es que alimentam seus oá dios e rancores e a
impedem de enxergar a realidade. Ao mesmo tempo, ela queixa-se de seu isolamento e
sonha com a utopia de um amplo auditoá rio popular. Mas eá a incultura do nosso povo que o
protege da contaminaçaã o da burrice intelectualizada. “Incultura” eá um modo de falar: seraá
incultura, de fato, privar-se de consumir falsos valores e slogans mentirosos? Naã o: mas
quando houver neste paíás uma intelectualidade aà altura de sua missaã o, ela seraá ouvida e
compreendida. Por enquanto, se queremos ver o nosso Rio livre do flagelo do banditismo, a
primeira coisa a fazer eá naã o dar ouvidos aà queles que, por terem colaborado ativamente
para a disseminaçaã o desse mal, por mostrarem em seguida uma total incapacidade de
arrepender-se de seu erro, e finalmente por terem o descaramento de ainda pretender
posar de conselheiros e salvadores, perderam qualquer vestíágio de autoridade e puseram aà
mostra a sua lamentaá vel feiuá ra moral.
MAÁ FIA GRAMSCIANA[ 50 ]

A
cada dia que passa, mais o chamado “debate cultural” brasileiro se reduz a mero
debate eleitoral, tudo rebaixando ao níável dos slogans e estereoá tipos e, pior ainda,
induzindo as novas geraçoã es a crer que a paixaã o ideoloá gica eá uma forma legíátima
de atividade intelectual e uma expressaã o superior dos sentimentos morais.
Taã o grave eá esse estado de coisas, taã o temíáveis os desenvolvimentos que anuncia, que
todos os responsaá veis pela sua produçaã o – a começar pelos fieá is seguidores da estrateá gia
gramsciana, para a qual aquela reduçaã o eá objetivo explicitamente desejado e buscado –
deveriam ser expostos aà execraçaã o puá blica como assassinos da inteligeê ncia e destruidores
da alma brasileira.
Para Antonio Gramsci, a propaganda revolucionaá ria eá o uá nico objetivo e justificaçaã o da
inteligeê ncia humana. O “historicismo absoluto”, um marxismo fortemente impregnado de
pragmatismo, reduz toda atividade cultural, artíástica e cientíáfica aà expressaã o dos desejos
coletivos de cada eá poca, abolindo os caê nones de avaliaçaã o objetiva dos conhecimentos e
instaurando em lugar deles o criteá rio da utilidade políática e da oportunidade estrateá gica.
EÁ ideá ia intrinsecamente monstruosa, que se torna tanto mais repugnante quanto mais se
adorna do prestíágio associado, nas mentes pueris, a palavras como “humanismo” ou
“consenso democraá tico” (naturalmente esvaziadas de qualquer conteuá do identificaá vel),
bem como das insinuaçoã es de santidade ligadas aà narrativa dos padecimentos de Antoê nio
Gramsci na prisaã o, as quais daã o ao gramscismo a tonalidade inconfundíável de um culto
pseudo-religioso.
Recentemente, um grande jornal de Saã o Paulo, que se gaba de sempre “ouvir o outro lado”,
consagrou a Antonio Gramsci todo um caderno, laudatoá rio ateá aà demeê ncia, que, sem uma soá
mençaã o aà s críáticas devastadoras feitas ao gramscismo por Roger Scruton, por Francisco
Saenz ou – de dentro do proá prio greê mio marxista – por Lucio Coletti, deixa no leitor a
falsíássima impressaã o de que essa ideologia domina o pensamento mundial, quando a
verdade eá que ela tem aíá um lugar muito modesto e ateá o Partido Comunista Italiano, com
nome mudado, jaá naã o fala de seu fundador sem um certo constrangimento.
Que o jornalismo assim se reduza aà propaganda, nada mais coerente com o espíárito do
gramscismo, o qual naã o busca se impor no terreno dos debates, do qual naã o poderia sair
senaã o desmoralizado, e sim atraveá s da taá tica de “ocupaçaã o de espaços”, por meio da qual,
excluíádas gradualmente e quase sem dor as vozes discordantes, a doutrina que reste
sozinha no picadeiro possa posar como resultado pacíáfico de um “consenso democraá tico”.
Com a maior cara-de-pau os adeptos dessa corrente atribuiraã o a um moá rbido direitismo
esta minha denuá ncia, sem ter em conta aquilo que meus leitores habituais sabem
perfeitamente, isto eá , que eu denunciaria com o mesmo vigor qualquer ideologia direitista
que tentasse se impor mediante o uso de estratagemas taã o sorrateiros e perversos.
Se no momento pouco digo contra a direita eá porque sua expressaã o intelectual puá blica eá
quase nula, naã o por falta de porta-vozes qualificados, mas de espaço. Os liberais, banidos de
qualquer debate moral, religioso ou esteá tico-literaá rio, recolheram-se ao gueto especializado
das paá ginas de economia, o que muito favorece o lado adversaá rio na medida em que deixa a
impressaã o de que o liberalismo eá a mais pobre e seca das filosofias. Quanto aà s correntes
conservadoras que ainda subsistem, por exemplo catoá licas e evangeá licas, sua exclusaã o foi
taã o radical e perfeita, que hoje a simples hipoá tese de que um conservador religioso possa
ter algo a dizer no debate cultural jaá eá objeto de chacota. Chacota, eá claro, de ignorantes
presunçosos, que, nunca tendo ouvido falar de Eric Voegelin, de Russel Kirk, de Malcom
Muggeridge, de Reinhold Niebuhr ou de Eugen Rosenstock-Huessy, acreditam piamente que
naã o pode existir vida inteligente fora de suas cabecinhas gramscianas, e provam assim ser
eles proá prios as primeiras víátimas da censura mental que impuseram a todo o Paíás.
No campo intelectual, atacar a “direita”, hoje, seria mais que covardia: seria coonestar a
farsa de que no Brasil existe um debate cultural normal, quando o que existe eá apenas o
mafioso apoio muá tuo de gramscianos a gramscianos, que priva os brasileiros do acesso a
ideá ias essenciais e ainda tem o cinismo de posar de democraá tico.

***

O motivo pelo qual naã o haá nem pode haver debate filosoá fico neste paíás jaá se tornou claro:
um grupo de ativistas sem escruá pulos apropriou-se dos meios de difusaã o cultural para fazer
deles o trampolim de suas ambiçoã es políáticas, fechando os canais por onde pudessem fazer-
se ouvir as vozes adversaá rias e impondo a todo o Paíás a farsa gramsciana da “hegemonia”.
A palavra mesma, que tanto veneram fingindo ser termo claro e uníávoco, jaá traz a letal
ambiguü idade das grandes mentiras. Designa, no sentido intelectual, a amplidaã o do
horizonte de uma visaã o do mundo que abarca as concorrentes sem ser por elas abarcada.
Hegel, por exemplo, eá hegemoê nico sobre todos os marxismos, que quanto mais buscam
superaá -lo mais se enredam, como viu Lucio Coletti, nos compromissos metafíásicos do
hegelianismo, e jurando poê -lo de cabeça para baixo soá conseguem eá plantar bananeira eles
proá prios (v. o excelente estudo de Orlando Tambosi, O declínio do marxismo e a herança
hegeliana, Florianoá polis, UFSC, 1999).
A maá fia gramsciana, quando chama Gramsci de hegemoê nico, deseja induzir-nos a crer que
ele o eá nesse sentido. Mas ela sabe que naã o eá , pois um breve exame das filosofias do seá culo
XX mostra que nelas haá mundos e mundos inabarcaá veis e invisíáveis aos olhos desse pobre
sapo filosoá fico, espíárito escravo que, fingindo-se de livre e universal, tudo comprime e reduz
aà s dimensoã es mesquinhas do seu poço escuro e proclama que o ceá u eá apenas um
buraquinho no teto. Gramsci nunca foi um filoá sofo, foi apenas um sistematizador de truques
soá rdidos para falsificar o saber e tornaá -lo instrumento de poder nas maã os do Partido.
Se o gramscismo fosse hegemoê nico no sentido intelectual, ele se imporia pela força das
suas demonstraçoã es, como se impuseram por exemplo as filosofias de Aristoá teles e de
Leibniz. Mas estes nunca precisaram ter a seu serviço um exeá rcito de “ocupadores de
espaço”, semeadores do sileê ncio forçado onde germine a falsa gloá ria do monoá logo restante.
Quando, na Idade Meá dia, um aristoteá lico desejava vencer um adversaá rio, naã o pensava em
tomar-lhe o emprego, em encobrir seu discurso sob a gritaria uníássona de uma raleá de
militantes pagos. Chamava-o para o debate em campo aberto, mesmo quando isso
importasse, como importou para Santo Alberto, em atrair a ira dos poderosos. Para
derrotar os empiristas, Leibniz naã o tratou de boicotaá -los na distribuiçaã o das verbas de
pesquisa, de omitir seu nome das publicaçoã es culturais, de monopolizar contra eles o apoio
milionaá rio dos senhores da míádia. Simplesmente escreveu um livro fulminante em forma de
debate com o príáncipe deles, John Locke, ainda que ao preço de ver-se exposto aà chalaça
grosseira de filoá sofos de salaã o.
Os escolaá sticos e Leibniz desconheciam a hegemonia no sentido gramsciano, e se a
conhecessem naã o veriam nela senaã o a criaçaã o doentia de uma mentalidade torpe.
Para ilustrar do que se trata, nada mais elucidativo do que a conduta recente de uma tal
dona Marilena, que, denunciada por mim como praticante do caracteríástico estilo elíáptico-
mistificatoá rio de raciocíánio gramsciano, ficou caladinha ante o puá blico da cidade onde
mora, mas foi dizer laá longe, laá em Goiaá s, que naã o me conhece nem leu, mas que, segundo
informaçaã o confiabilíássima obtida de fonte anoê nima, sou indiscutivelmente “um pulha”. O
jornalista Joseá Maria e Silva, do jornal Opção de Goiaê nia, jaá deu a essa criatura a resposta
devida, e cito o caso apenas como amostra dos meá todos gramscianos de conquista da
hegemonia: jogo de poder, manobra soturna para frustrar o debate, boicotar o adversaá rio e
vencer por uma impressaã o postiça de unanimidade espontaê nea.
Quando essa gente trombeteia que uma ediçaã o completa de Gramsci vai “renovar o
pensamento nacional”, o que anuncia eá nada menos que a “renovaçaã o por estrangulamento”.
Pois que estrangulem o quanto queiram. Eu, da minha parte, lhes digo o que vou fazer: vou
furar o bloqueio, por meio do JT e de quantos outros respiradouros ainda restem na
imprensa nacional. A cada novo volume de escritos do anaã ozinho maluco que voceê s
publicarem, vou responder com argumentos que demonstraraã o a sua total vacuidade
filosoá fica e a íándole brutal de sua doutrina fingidamente humanoá ide. Voceê s, como sempre,
vaã o ficar rosnando pelos cantos e tramando maldades. E vaã o falar mal de mim bem longe de
Goiaá s, pois jaá viram que goiano naã o eá idiota.
EFEITOS DA “GRANDE MARCHA”[ 51 ]

A
Justiça Eleitoral existe, como o proá prio nome o diz, para que as eleiçoã es sejam
justas. Mas ela se compoã e de funcionaá rios puá blicos e, desde que apareceu neste
paíás um fenoê meno chamado “a grande marcha da esquerda para dentro do
aparelho de Estado”, essa classe vem se tornando cada vez mais suspeita de estar
interessada em tudo, menos em eleiçoã es justas. Pois a “grande marcha” consiste em ocupar
o maior nuá mero de empregos puá blicos, com a finalidade de colocar o aparelho de Estado a
serviço de um partido, o qual entaã o passa a exercer o governo sem ser governo,
desfrutando das prerrogativas do poder sem as suas concomitantes responsabilidades.
Essa operaçaã o foi calculada por seu inventor, Antonio Gramsci, para ser realizada de
maneira lenta e sorrateira, de modo que os proá prios governantes acabem sendo
responsabilizados pelos efeitos globais nefastos das açoã es de funcionaá rios infiltrados na
burocracia para desmoralizaá -lo e enfraqueceê -lo.
Um exemplo da eficaá cia alucinante desse procedimento foi obtido jaá durante o governo
militar. O regime, por ser autoritaá rio e naã o totalitaá rio, desejava a apatia políática do povo e
naã o fez nenhum esforço para doutrinaá -lo segundo os valores do movimento de 1964 (o
totalitarismo, ao contraá rio, exige doutrinaçaã o maciça). Essa atitude deixou aà merceê da
oposiçaã o de esquerda a rede de instrumentos editoriais, jornalíásticos e escolares de
formaçaã o da opiniaã o puá blica (o que, entre outras coisas, resultou na ampliaçaã o formidaá vel
do mercado de livros esquerdistas). Uma das poucas tentativas de doutrinaçaã o feitas pelos
militares foi a introduçaã o, nas escolas, das aulas de “Educaçaã o Moral e Cíávica”. Mas taã o
displicente foi essa tentativa que o Partido Comunista se aproveitou da oportunidade para
lotar de bem treinados agitadores as caá tedras da nova disciplina, as quais assim se
tornaram uma rede de propaganda comunista subsidiada pelo governo. EÁ claro que muitos
professores ideologicamente descomprometidos tambeá m se apresentaram para suprir as
vagas, mas os militantes faziam o mesmo como tarefa partidaá ria, de modo que, no conjunto,
o plano comunista de apropriar-se dos receá m-abertos canais de doutrinaçaã o naã o concorreu
com uma premeditaçaã o igual de signo ideoloá gico contraá rio, mas apenas com a resisteê ncia
amorfa de uma massa politicamente indiferente e sem direçaã o. A brutal politizaçaã o
marxista das escolas, que hoje culmina nas barbaridades ideoloá gicas impingidas aà s crianças
pelos manuais publicados pelo proá prio Ministeá rio da Educaçaã o, começou precisamente aíá.
O mais notaá vel foi que, ocupado em reprimir a guerrilha, o governo militar naã o apenas
deu reá dea solta aà ala “pacíáfica” e gramsciana da esquerda, mas ateá lhe concedeu
substanciais incentivos. O principal editor comunista da eá poca jamais deixou de receber
subsíádios oficiais, ateá que, com a abertura políática, começou a ter dificuldades financeiras e
acabou vendendo sua empresa.
Jamais interrompida, rarissimamente denunciada, a “grande marcha” parece enfim ter
chegado aà Justiça Eleitoral, que, nos uá ltimos tempos, tomou pelo menos treê s decisoã es
bastante suspeitas. Primeiro, proibiu mençoã es adversas aà aliança do PT com o movimento
“gay” (v. meu artigo no JT de 20 de setembro); depois, mandou distribuir cartazes que
incentivavam o eleitor a votar “para mudar”, o que eá mensagem de signo ideoloá gico
indiscutivelmente níátido; por fim, vetou propagandas do candidato do PPB aà Prefeitura de
Saã o Paulo que apresentavam sua concorrente como adepta da causa abortista – uma
afirmaçaã o cuja veracidade eá empiricamente confirmaá vel por qualquer um.
Cada uma dessas decisoã es, isoladamente, pesa pouco. Somadas – se ainda naã o vierem
outras –, talvez naã o sejam capazes de decidir uma eleiçaã o. Mas, na escala minimalista de
uma estrateá gia que aposta antes na somatoá ria de milhares de açoã es imperceptíáveis do que
nos riscos da propaganda espetacular, elas veê m engrossar o caudal da “revoluçaã o cultural”
gramsciana, a mutaçaã o sutil e persistente dos padroã es de percepçaã o do povo brasileiro,
cujos resultados, em Saã o Paulo e em outras cidades importantes, jaá estaã o em vias de se
traduzir em resultados eleitorais superficialmente limpos e profundamente sujos.
EÁ impossíável naã o ver simultaneamente um efeito da “grande marcha” na greve da políácia
pernambucana, claramente ilegal e insurrecional, e em mil e um outros fatos que parecem
isolados, mas cuja origem comum estaá sempre num funcionalismo puá blico bem adestrado
para trabalhar contra quem paga seu salaá rio.
MEDINDO AS PALAVRAS[ 52 ]

V
oceê s jaá repararam no tratamento discreto, macio, quase gentil que as classes
falantes teê m dado a Fernandinho Beira-Mar desde que foi preso? Imprensa,
políáticos, intelectuais – ningueá m parece ter um pingo de raiva desse homem
responsaá vel por tantas mortes, por tanto sofrimento, por tanta iniquü idade.
Ningueá m o chama de assassino, de genocida, de monstro, de nenhum daqueles nomes que
taã o facilmente veê m aà boca de todos quando se referem a desarmados vigaristas de
colarinho branco ou ateá mesmo aà pessoa do presidente da Repuá blica. Nenhuma multidaã o
em fuá ria, convocada pelos autodesignados porta-vozes dos sentimentos populares, se reuá ne
na porta da delegacia para xingaá -lo como se xingou Luiz Estevaã o. Nenhum moralista, com
laá grimas de indignaçaã o nos olhos, condena como insulto aà memoá ria de inumeraá veis víátimas
os cuidados paternais que o traficante recebe na cadeia, como tantos julgaram um acinte a
prisaã o especial que, em obedieê ncia aà lei, as autoridades deram ao juiz Lalau, malandro
septuagenaá rio incapaz de matar uma galinha.
Naã o obstante, o homem que distribui drogas a crianças nas escolas e mata quem tenta
impedi-lo eá , obviamente, um assassino, um genocida, um sociopata amoral e cíánico.
Aplicados a suspeitos de crimes incruentos, esses termos saã o figuras de expressaã o,
hipeá rboles descomunais, flores de plaá stico de uma retoá rica postiça. Usados para definir
Luiz Fernando da Costa, saã o termos exatos, precisos, quase cientíáficos. A liberalidade
tropical no emprego das hipeá rboles para falar de quem rouba contrasta singularmente com
a inibiçaã o de usar as palavras em seu sentido literal para falar de quem mata.
De onde vem essa assustadora inversaã o das cotaçoã es de palavras, homens e crimes na
linguagem brasileira? De modo geral, ela reflete, inequivocamente, a influeê ncia da
“revoluçaã o cultural” gramsciana que, haá 40 anos, com a obstinaçaã o sutil das bacteá rias e dos
víárus, contamina de antivalores comunistas – sem esse nome, eá claro – os sentimentos e as
reaçoã es de nossa opiniaã o puá blica.
Mas, no caso presente, haá algo mais que isso – algo de infinitamente mais sinistro. Haá o
temor instintivo de revelar a uma luz muito direta e crua a feiuá ra de um soá cio das FARC.
Pois essa luz ameaçaria refletir-se sobre a imagem da guerrilha e, portanto, de todos os
seus amigos e apologistas: Fidel Castro, o presidente Chaá vez, Lula, o governador Olíávio
Dutra, o MST, a esquerda quase inteira.
Falar de Fernandinho Beira-Mar com uma linguagem proporcional aà gravidade de seus
crimes seria – para usar a expressaã o consagrada do jargaã o militante – “dar muniçaã o ao
inimigo”. Naquilo que dentro de uma cabeça esquerdista faz as vezes de conscieê ncia moral,
naã o haá pecado maior. Portanto, moderaçaã o nas palavras! Abandonado haá tempos em nome
da “eá tica”, da “participaçaã o” e do “dever de denunciar”, o estilo noticioso frio, factual, sem
comentaá rios, eá de repente retirado da gaveta e mostra toda a sua inesperada serventia: num
ambiente de furor moralista e indignaçaã o oratoá ria, o relato neutro, asseá ptico, soa quase
como um elogio.
E naã o pensem que, para poê r em açaã o esses anticorpos verbais, tenha sido necessaá rio
emitir uma palavra de ordem, distribuir avisos de algum comiteê central, mover alguma
complexa cadeia de comando. Nada disso. A reaçaã o jaá se produz sozinha, por automatismo,
quase inconscientemente. Todos mentem em uníássono – e ningueá m tem culpa porque
ningueá m mandou ningueá m fazer nada.
EÁ precisamente esse domíánio taá cito sobre as conscieê ncias, essa reduçaã o coletiva dos
formadores de opiniaã o ao estado sonambuá lico de inocentes uá teis, que Antonio Gramsci
denominava “hegemonia” – o preluá dio psicoloá gico aà tomada do poder. A hegemonia jaá estaá ,
portanto, conquistada. Se definitivamente ou naã o, isso depende. Depende de que ningueá m
diga o que estaá acontecendo. E eá por isto mesmo que insisto em dizeê -lo.
TENTANDO ENXERGAR[ 53 ]

A
recente pesquisa do Ibope, na qual 55% dos eleitores clamam por uma revoluçaã o
socialista no Brasil, fala por si. Mas, para melhor captar o alcance da sua
significaçaã o no presente momento histoá rico, eá preciso realçar os seguintes
pontos.
Primeiro: a populaçaã o consultada naã o disse simplesmente “socialismo” (o item
“socialismo” foi objeto de uma pergunta em separado), nem muito menos “transiçaã o
pacíáfica para o socialismo”. Disse “revoluçaã o socialista”, o que indica claramente sua
disposiçaã o de aceitar, como coisa normal e desejaá vel, todo o cortejo de crueldades e
horrores inerente a essa modalidade de transformaçaã o políático-social. Nenhuma revoluçaã o
socialista se fez ateá hoje sem genocíádio, que chegou, no caso chineê s, aà extinçaã o de dez por
cento da populaçaã o local. Isso equivaleria, aqui, a dezesseis milhoã es de brasileiros. A morte
dessas pessoas jaá parece, aà maioria do nosso eleitorado, um preço moá dico a pagar pelo
prazer de viver na China.
Segundo: nenhuma revoluçaã o socialista se realizou, ateá hoje, com a garantia de tamanho
respaldo popular. Isto garante, ao primeiro governo revolucionaá rio do Brasil, os meios para
impor, sem muita reaçaã o adversa, as leis e controles que bem entenda. A minoria refrataá ria
teraá contra si naã o apenas a força repressiva do Estado, mas a ira popular. Por exemplo, a
constituiçaã o de uma rede de espionagem interna, com voluntaá rios civis, teraá aqui pelo
menos tanto apoio quanto teve na Venezuela de Chaá vez, a qual, com isso, se aproxima
velozmente da taxa cubana de um espiaã o do governo para cada 28 habitantes.
Terceiro: refletindo o sucesso obtido por trinta anos de “revoluçaã o cultural” inspirada em
Antonio Gramsci, a conversaã o maciça do eleitorado brasileiro ao socialismo revolucionaá rio
eá , ela mesma, um momento capital do processo revolucionaá rio, o qual jaá estaá , portanto, em
pleno curso de realizaçaã o, como o compreenderaá quem quer que conheça algo da estrateá gia
traçada pelo fundador do Partido Comunista Italiano.
Quarto: ao preconizar uma revoluçaã o socialista como “soluçaã o” para os atuais problemas
do paíás, imaginando-o portanto como um ideal a ser realizado no futuro, aquela parcela
majoritaá ria do eleitorado mostra naã o ter a menor ideá ia de que jaá estaá em plena revoluçaã o, e
muito menos de que os problemas que a angustiam no momento presente, longe de ser
males que a revoluçaã o possa curar, saã o sintomas e etapas do processo revolucionaá rio
mesmo. Aíá, novamente, a foá rmula anunciada pelo estrategista italiano estaá seguida aà risca: o
que ele denomina “revoluçaã o passiva” eá precisamente essa etapa de lusco-fusco, essa noite
da conscieê ncia, esse torpor agitado e sombrio em que uma populaçaã o semi-hipnotizada faz
a revoluçaã o sem perceber e, quando acorda, jaá estaá sob o domíánio do Estado comunista.
Como jamais a estrateá gia gramsciana foi tentada em taã o larga escala, tambeá m jamais se
observou, na histoá ria dos tempos modernos, um fenoê meno taã o vasto de cegueira coletiva.
Quinto: o governo comunista, ao constituir-se, jaá teraá de imediato nas maã os, aleá m da
cumplicidade popular, quatro instrumentos decisivos para consolidar velozmente o seu
poder, desarticulando, no ato, qualquer possibilidade de oposiçaã o: (a) o controle dos meios
de comunicaçaã o, propaganda e ensino, atraveá s da organizada militaê ncia instalada na míádia
e na rede de escolas de todos os níáveis; (b) a obedieê ncia garantida e zelosa da burocracia
estatal, jaá devidamente doutrinada e amestrada atraveá s dos sindicatos de funcionaá rios
puá blicos; (c) o controle da Zona Rural, atraveá s da bem treinada militaê ncia do MST; (d) uma
legislaçaã o fiscal habilitada a “colocar o empresariado de joelhos” com a velocidade com que
Hitler, autor dessa expressaã o, o fez na Alemanha.
Sexto: com exceçaã o do controle da míádia, todos os demais itens apontados no paraá grafo
anterior, inclusive o domíánio do sistema educacional, foram servidos aà liderança
gramsciana, de bandeja, pelo atual governo. Este, portanto, longe de constituir “o
adversaá rio” a ser derrubado pela revoluçaã o, vem sendo no sentido mais estrito do termo
aquilo que no jargaã o revolucionaá rio se denomina “governo de transiçaã o para o socialismo”,
tendo representado, portanto, exatamente o papel que alguns anos atraá s o cientista políático
Alain Touraine, taã o respeitosamente ouvido pelo nosso presidente da Repuá blica,
recomendou que ele consentisse em representar no palco da histoá ria, caso naã o quisesse
desempenhar o de víátima inerme de um processo irreversíável. Sendo o nosso presidente
homem versado na estrateá gia gramsciana — e ele se gaba de ser um dos mais versados — eá
impossíável que ele naã o esteja consciente do papel que escolheu; e ele proá prio deu mais uma
prova disso ao explicitar seus atos em palavras, aconselhando aà naçaã o que naã o hesite em
curvar-se ao destino previsto, como ele proá prio se curvou.
Para a perfeiçaã o integral do poder revolucionaá rio, falta apenas um item: o apoio das
Forças Armadas. Ele eá difíácil de obter, em vista de feridas histoá ricas ainda naã o cicatrizadas,
mas talvez possa ser, em parte, alcançado mediante a manipulaçaã o de ressentimentos e
ambiçoã es nacionalistas — que haá beis agitadores civis veê m tratando de providenciar — e,
em parte, substituíádo pela neutralizaçaã o e enfraquecimento da classe militar, que o atual
governo jaá providenciou.
Se me perguntarem como esse processo pode ser detido, responderei que, obviamente,
naã o sei. Mudar o curso da histoá ria estaá aleá m das minhas pretensoã es: elas se resumem, no
momento, em tentar enxergaá -lo. E notem que, no meio da cegueira geral, isso jaá eá muito
para um pobre observador humano.
UM INIMIGO DO POVO[ 54 ]

E
m Os Demônios de Dostoieá vski, publicado em 1872, um revolucionaá rio diz a outro:
“Voceê sabia que jaá somos tremendamente poderosos? Preste atençaã o. Jaá fiz a soma
de todos eles. Um professor que, com as crianças, ri do Deus delas, eá algueá m que
estaá do nosso lado. O advogado que defende o assassino educado porque ele eá
mais culto que suas víátimas… eá um de noá s. O promotor que, num julgamento, treme de
medo de naã o parecer progressista o bastante, eá nosso, nosso... Voceê sabe quantos deles
vamos conquistar aos pouquinhos, por meio de pequenas ideá ias prontas?”.
Quase meio seá culo antes da tomada do Palaá cio de Inverno, um seá culo antes da difusaã o
mundial das obras de Antoê nio Gramsci, o romancista jaá havia captado a estrateá gia macabra
da “revoluçaã o cultural”, aà qual o fundador do Partido Comunista Italiano deu apenas um
embelezamento teoá rico mas que, em esseê ncia, jaá estava em açaã o desde o seá culo XVIII, nos
saloã es onde aristocratas se deliciavam com as ideá ias de Diderot e Rousseau sem perceber
que o uá nico propoá sito delas era legitimar sua decapitaçaã o.
Os homens que se gabam de ser praá ticos – empresaá rios, políáticos, comandantes militares
– saã o os mais lentos em perceber o sentido praá tico de certas modas culturais sem teor
políático demasiado aparente, nas quais naã o enxergam senaã o curiosidades acadeê micas ou
ateá exigeê ncias morais legíátimas, mas cujo efeito, temporariamente obscurecido pela
variedade e confusaã o das palavras que as veiculam, mais cedo ou mais tarde acaba por se
manifestar da maneira mais brutal. Invariavelmente, esse efeito eá um soá : o assassinato
políático em massa, o genocíádio.
Em geral, soá dois tipos de observadores estaã o conscientes dessa conexaã o: os intelectuais
ativistas, que desejam produzi-la, e os estudiosos independentes. Os primeiros teê m todo o
interesse de manteê -la oculta sob um veá u de pretextos diversionistas, de ordem moral,
esteá tica, pedagoá gica, econoê mica, etc., sob cuja profusaã o as víátimas naã o apreendam a
unidade do processo revolucionaá rio subjacente. Os segundos, quando tentam alertar a
sociedade para o que se passa, quase que invariavelmente saã o rejeitados como alarmistas e
paranoá icos por aquela mesma parcela parcela do tecido social que a revoluçaã o haá de
extirpar da maneira mais cruel e sangrenta.
Basta a constataçaã o desse fato, aliaá s, para dar por terra com a teoria gramsciana do
“intelectual orgaê nico”, segundo a qual as classes criam seus intelectuais sob medida para a
defesa de seus interesses: com regularidade sinistra, de Voltaire a Antonio Negri, eá sempre
o inimigo da classe dominante que eá cortejado por ela, enquanto o intelectual que desejaria
preservar o sistema, por descrer da bondade e utilidade das revoluçoã es, eá estigmatizado, no
míánimo, como exceê ntrico e marginal.
Dostoieá vski, que defendia a monarquia e a religiaã o, continuou sempre um “outsider”,
enquanto os escritores revolucionaá rios eram recebidos nos cíárculos elegantes, onde
gozavam de toda a estima e consideraçaã o – quando naã o da confiança cega – de suas futuras
víátimas. Nicolai Berdiaev, aristocrata de nascimento, revolucionaá rio de convicçaã o, conta em
suas memoá rias como, na juventude, gostava de escandalizar princesas e condessas com
discursos inflamados contra a moral e a hierarquia. Soá mais tarde, ao saber que todas elas
tinham morrido na Revoluçaã o, se deu conta de que contribuíára levianamente para a
consecuçaã o de um crime hediondo. O caso mostra que nem mesmo os proá prios
colaboradores mais ativos da “revoluçaã o cultural” precisam ter plena conscieê ncia da
finalidade a que seus atos, aparentemente inoá cuos ou entaã o rodeados de uma aura de
piedoso idealismo, concorrem quando somados a milhoã es de outros atos semelhantes,
praticados nesse mesmo instante por uma legiaã o dispersa de militantes, colaboradores e
simpatizantes que se ignoram uns aos outros. No topo, soá uma elite muito restrita tem a
visaã o intelectual do conjunto, que naã o precisa ser “dirigido” como uma conspiraçaã o
organizada, mas apenas sutilmente orientado, de tempos em tempos, por intervençoã es
oportunas. O automatismo, o espíárito de imitaçaã o e a atraçaã o incoercíável das modas fazem o
resto.
Mesmo quando naã o resulta diretamente numa tomada do poder políático, a revoluçaã o
cultural deixa marcas profundas e indeleá veis no corpo da sociedade. Dois estudos recentes
de Roger Kimball, editor de New Criterion – Tenured Radicals: How Politics Has Corrupted
Our Higher Education e The Long March: How The Cultural Revolution of the 1960’s Changed
America – mostram como a incansaá vel guerra psicoloá gica movida pelos intelectuais
ativistas contra a religiaã o, a moral, a loá gica e o bom-senso produziram, na vida americana,
resultados catastroá ficos praticamente irreversíáveis: a perda coletiva dos padroã es mais
elementares de julgamento, a prematura decrepitude intelectual dos estudantes, a
disseminaçaã o endeê mica das drogas, a criminalidade desenfreada. Naã o por coincideê ncia, os
mesmos intelectuais que conscientemente se esforçaram para criar esse estado de coisas
(muitos deles a serviço da KGB ou da espionagem chinesa, como hoje se sabe graças aà
abertura dos Arquivos de Moscou) saã o os primeiros a tirar redobrado proveito políático de
seus proá prios atos, imputando os resultados deles ao “sistema”, aà “corrupçaã o intríánseca do
capitalismo” etc. etc.
EÁ preciso ser muito cego para naã o perceber que coisa ideê ntica se passa no Brasil, com o
agravante -verdadeiramente desesperador - de que estudos como os de Kimball (e centenas
de outros similares) nem saã o traduzidos nem haá equivalentes produzidos pela
intelectualidade local, dividida entre a maioria de ativistas enfurecidos e a minoria de
observadores acovardados, mudos, ou entaã o acomodatíácios e cuá mplices. Em resultado, a
simples tentativa de diagnosticar o estado de coisas eá rejeitada – mesmo por parte do
“establishment” – como ousadia impolida e abuso intoleraá vel, quando naã o como
conspiraçaã o de extrema direita.
A revoluçaã o cultural, aqui, jaá alcançou seu maá ximo triunfo, que eá o de tornar proibitiva a
sua proá pria discussaã o. Pouparei aos leitores o relato dos constrangimentos, ameaças e
boicotes que tenho sofrido em resposta aà minha simples iniciativa de analisar e mostrar aà
plena luz do dia a marcha de uma revoluçaã o que desejaria poder continuar florescendo aà
sombra protetora do implíácito, do nebuloso e do naã o declarado. Mas, quando um escritor
independente, isolado, sem conexoã es políáticas ou protetores de espeá cie alguma, eá
combatido naã o por meio de argumentos e sim de manobras de bastidores e mobilizaçoã es
coletivas de oá dio, como se fosse um governante ou um poderoso líáder de massas, entaã o eá
que a atividade intelectual jaá se encontra inteiramente submetida aos caê nones da
“revoluçaã o cultural”, e quem quer que ouse contrariaá -los, mesmo em pura teoria, mesmo a
tíátulo pessoal e sem qualquer pretensaã o de reagir politicamente ao curso dos
acontecimentos, jaá eá considerado um elemento perigoso e um inimigo do povo.
DOUTRINAÇAÃ O DIFUSA[ 55 ]

U
m puá blico que estaá contaminado de doutrinaçaã o marxista ateá a medula naã o tem,
por isso mesmo, a menor ideá ia de que estaá sendo doutrinado. A primeira etapa
da doutrinaçaã o eá puramente cultural, difusa, e naã o visa a incutir no sujeito a
menor convicçaã o políática explíácita, mas apenas a moldar sua cosmovisaã o
segundo as linhas baá sicas da filosofia marxista, sem este nome, naturalmente, e
apresentada como se fosse “o” conhecimento em geral. Com exceçaã o de um reduzidíássimo
nuá mero de intelectuais que estudaram criticamente o movimento comunista e das pessoas
demasiado pobres que naã o receberam educaçaã o nenhuma, saã o raros os cidadaã os brasileiros
que jaá naã o estejam conquistados para essa visaã o do mundo, no míánimo por desconhecer
que ela eá uma visaã o e naã o o proá prio mundo.
Em especial, a explicaçaã o da histoá ria com base no esquema marxista das classes sociais
economicamente definidas, que eá o terreno preá vio para uma doutrinaçaã o mais ativa, jaá se
pode considerar definitivamente integrada nos esquemas de pensamento da míádia e da
populaçaã o instruíáda, ao ponto de que ningueá m, aíá, tem a conscieê ncia de que ela eá apenas
uma teoria entre outras e todos a tomam como se fosse um traslado direto da realidade
vivida. Por menos que ela coincida com a efetiva distribuiçaã o das forças no panorama social
brasileiro, o cidadaã o espontaneamente apela aos seus conceitos baá sicos - se naã o aà sua
nomenclatura – para expressar o que acha que se passa na sociedade. Assim, por exemplo, a
burocracia estatal, em vez de ser encarada como uma força autoê noma – o que eá um traço
caracteríástico da sociedade brasileira – e embora nela se recrute a maior parte da militaê ncia
esquerdista, se tornou invisíável o bastante para que os efeitos de suas açoã es sejam
atribuíádos aà “classe dominante”, compreendida no sentido de “os ricos” ou “os capitalistas”.
A classe meá dia, que abrange 46% da nossa populaçaã o e inclui a quase totalidade das
pessoas politicamente atuantes (sobretudo na esquerda), naã o tem nenhuma conscieê ncia de
si como entidade distinta, mas cada um, dentro dela, espontaneamente divide o quadro
social entre os “os ricos” e os “os pobres”, tomando os discursos partidaá rios como se fossem
traduçoã es fieá is das realidades socioloá gicas subjacentes e catalogando-se a si mesmo na
classe dos pobres, sem reparar que os pobres o colocam na classe dos ricos e, na verdade, o
invejam e o odeiam mais do que a qualquer banqueiro. A alienaçaã o entre a realidade social
e o discurso de auto-explicaçaã o, em tais circunstaê ncias, eá total.
Com igual facilidade, a compreensaã o das ideá ias como expressoã es estereotipadas de
interesses de classe eá projetada sobre a imagem do nosso passado histoá rico, passando
como um trator sobre o fato, facilmente comprovaá vel mas marxisticamente inexplicaá vel, de
que no Brasil os discursos ideoloá gicos quase nunca coincidem com os interesses objetivos
das classes sociais envolvidas. Na educaçaã o puá blica, nos livros, nos programas
pretensamente educativos da TV, a reduçaã o marxista das criaçoã es culturais a
superestruturas dos interesses de classe jaá estaá taã o profundamente integrada no
vocabulaá rio corrente que quem deseje apresentar alguma outra versaã o da histoá ria naã o tem
nem por onde começar a se explicar e pode ateá cair no ridíáculo ao bater de frente com o
“senso comum” (no sentido gramsciano do termo).
De maneira bastante compreensíável, mas nem por isto menos iroê nica, quanto mais
limitado o horizonte de uma pessoa esteja aos caê nones da vulgata marxista, mais ela
reagiraá com quatro pedras na maã o aà denuá ncia de que existe propaganda do marxismo no
Brasil e, mais ainda, aà ideá ia de que os comunistas tenham algum poder entre noá s. Ser
invisíável, jaá dizia Reneá Gueá non, eá da esseê ncia mesma do poder.
Uma segunda fase da doutrinaçaã o eá a que vai associar, ao estereoá tipo das classes, os
valores morais e emocionais necessaá rios a despertar reaçoã es de agrado ou desagrado
conforme o discurso ouvido soe de maneira a parecer associado aos “interesses de classe”
dos bondosos pobres ou dos malvados ricos, por menos que, objetivamente, tenham algo a
ver com isso. O discurso em favor da livre empresa, por exemplo, embora objetivamente
fale em favor da imensa populaçaã o pobre que vive da economia informal, eá rejeitado como
defesa dos interesses da “elite” e das multinacionais, enquanto o discurso estatizante,
embora naã o arranhe no mais míánimo que seja os interesses das classes ricas e de fato
fortaleça a burocracia onipotente que reduz o paíás aà pobreza mediante uma carga tributaá ria
escorchante, eá facilmente aceito como traduçaã o dos interesses dos “excluíádos”. Da alienaçaã o
passa-se entaã o aà alucinaçaã o, mas, naã o por coincideê ncia, a proá pria anguá stia decorrente do
vago pressentimento da loucura eá em seguida explorada para gerar mais oá dio aà imagem
estereotipada da “classe dominante”, responsabilizada por todos os males e personificada
em indivíáduos e grupos que, na verdade, naã o saã o dominantes de maneira alguma e
funcionam como puros bodes expiatoá rios, como por exemplo os militares. A tal ponto os
síámbolos convencionais se substituem aà percepçaã o dos fatos que um acontecimento como o
Foá rum Social Mundial, em Porto Alegre, eá passivamente aceito pelo seu valor nominal de
manifestaçaã o antiglobalista, malgrado o apoio que recebe da ONU, o coraçaã o da Nova
Ordem Mundial, bem como da rede mundial de ONGs que estaã o para a ONU como as veias e
arteá rias estaã o para o coraçaã o.
OS GURUS DO CRIME[ 56 ]
“Intelectuais iluminados não são curiosidades inofensivas.
São maníacos perigosos”
– Eric Voegelin.

T
oda a cieê ncia social do mundo, a marxista inclusa, ensina que nunca as condiçoã es
materiais e econoê micas determinam diretamente a conduta dos homens, mas que
o fazem sempre e somente atraveá s da interpretaçaã o que estes lhes daã o, isto eá ,
atraveá s dos fatores ideoloá gicos, culturais, morais e psicoloá gicos envolvidos no
processo.
Um exemplo tornaraá isso mais claro. Toda hora aparecem na TV e nos jornais pessoas
cultíássimas, sabedoras, iluminadas, as quais nos asseguram, com ar de certeza infalíável, que
a miseá ria produz a criminalidade. O sujeito trafica, assalta, mata e estupra porque eá um
excluíádo, um miseraá vel, um favelado. EÁ o que dizem. Mas – digo eu e dizem os fatos – se o
excluíádo, o miseraá vel, o favelado eá tambeá m evangeá lico, ele naã o trafica, nem assalta, nem
mata, nem estupra. Se fazia essas coisas antes da conversaã o, cessa de fazeê -las
imediatamente ao converter-se. Qual a diferença? Naã o eá econoê mica, decerto. EÁ cultural, eá
moral, eá psicoloá gica e espiritual. O sujeito, ao converter-se, sofre ainda o impacto cruel da
miseá ria, da exclusaã o, do compressivo estreitamento de suas possibilidades de açaã o na
sociedade. Apenas, deixou de acrescentar a esses males o mal ainda maior da praá tica do
crime. Ele ainda estaá na mesma situaçaã o, materialmente falando. Apenas, passou a
interpretaá -la segundo outros valores, outros síámbolos, outros criteá rios. Isso faz, no pobre
como no rico, toda a diferença entre o criminoso e o homem de bem. A experieê ncia de
milhares de evangelizadores e evangelizados, inclusive dentro dos presíádios, comprova que,
na produçaã o como na supressaã o da criminalidade, o peso dos fatores morais e culturais eá
infinitamente mais decisivo do que a situaçaã o material em si. Eis o motivo pelo qual, nas
cadeias, a gereê ncia do crime odeia aqueles a quem pejorativamente chama “os bíáblias”. Eis o
motivo pelo qual, na Coloê mbia, as FARC jaá mataram 70 pastores evangeá licos e, pelo seu
porta-voz Mono Jojoy, anunciaram que vaã o matar todos os outros.
Bastam essas observaçoã es para nos fazer perceber que a parte mais audíável e vistosa da
discussaã o do problema da criminalidade no Brasil eá pura fraude. Essa discussaã o
caracteriza-se, da maneira mais geral e patente, pelo esforço de explicar tudo diretamente
pelas condiçoã es materiais, omitindo os demais fatores mencionados. E eá assim por um
motivo muito simples: esses fatores naã o saã o produzidos pela situaçaã o material mesma,
como emanaçaã o natural e espontaê nea, mas saã o introduzidos nela desde fora e desde cima,
pela açaã o dos criadores de cultura, dos “intelectuais” (no sentido gramsciano e elaá stico do
termo). Ora, quem saã o os ceá rebros iluminados que, nas horas de crise e agonia, aparecem
na TV e nos jornais para receitar soluçoã es? Saã o os proá prios intelectuais militantes. Quando
esses homens, ao analisar uma situaçaã o catastroá fica, omitem o elemento cultural, estaã o
ocultando a contribuiçaã o que eles proá prios deram aà produçaã o da cataá strofe.
Se fossem honestos, jamais fariam isso. A primeira obrigaçaã o do inteá rprete da sociedade eá
discernir sua proá pria posiçaã o, sua proá pria atuaçaã o na cena descrita, para neutralizar o
quanto possíável a distorçaã o subjetiva ou interesseira. Ora, no Brasil o cuidado primordial
dos opinadores eá fingir que estaã o fora do quadro, eá lançar tudo aà conta de causas externas
justamente para que ningueá m perceba que eles proá prios saã o o item nuá mero um do rol de
causas.
O debate em torno da criminalidade tem sido uma gigantesca maá quina de auto-ocultaçaã o
dos culpados. Haá cinquü enta anos a cultura que produzem, interpretando postiçamente o
banditismo como expressaã o direta e legíátima de uma justa revolta contra a sociedade
injusta, atua como poderoso mecanismo de chantagem emocional que desarma
moralmente o aparelho repressivo, ao mesmo tempo que infunde nos delinquü entes uma
ilimitada autoconfiança e lhes fornece o discurso de autolegitimaçaã o ideoloá gica para a
abdicaçaã o dos uá ltimos escruá pulos, para a passagem da violeê ncia caoá tica e imediatista aà
violeê ncia organizada, politizada, que se viu na rebeliaã o simultaê nea de 29 presíádios
paulistas.
Alguns desses gurus do crime vaã o ateá aleá m disso, ensinando aos delinquü entes as formas
de organizaçaã o revolucionaá ria que aprenderam em seus partidos ou em Cuba. Depois
aparecem ante as caê meras, fingindo desinteresse generoso e superior isençaã o cientíáfica.
Todos esses fatos saã o empiricamente verificaá veis, e a conclusaã o a que levam naã o tem
nenhum meio racional de ser impugnada: os acontecimentos sangrentos da semana
passada foram – como o seraã o os proá ximos do mesmo teor – o efeito loá gico e inevitaá vel de
uma açaã o coerente, contíánua, pertinaz, empreendida pela intelectualidade ativista na
intençaã o de fomentar a revolta e transformar o Brasil primeiro numa Coloê mbia, depois
numa Cuba.
As peá ssimas condiçoã es do sistema carceraá rio, as prodigiosas dificuldades econoê micas da
populaçaã o, as frustraçoã es de milhoã es de excluíádos, as injustiças e as maldades do sistema
naã o produziram a rebeliaã o organizada e politizada dos detentos: o que a produziu foi a
crença, artificialmente inculcada nos delinquü entes pelos intelectuais, de que essas
circunstaê ncias deprimentes justificam que detentos se organizem politicamente para a açaã o
violenta. O que a produziu naã o foi nenhum desejo sincero de suprimir ou remediar aqueles
males, todos eles remediaá veis, todos eles suprimíáveis, mas sim o de lhes acrescentar o mal
irremediaá vel e irreversíável por exceleê ncia: a organizaçaã o revolucionaá ria da brutalidade
coletiva.
Saã o culpados da rebeliaã o carceraá ria todos os que, haá cinco deá cadas, a desejam e a
fomentam com seus discursos ideoloá gicos, seja por decisaã o voluntaá ria ou por cumplicidade
sonsa. Saã o culpados todos os que, rejeitando nominalmente esses discursos, se absteê m de
combateê -los sob a desculpa infame de que se tornaram inofensivos apoá s a queda do Muro
de Berlim. Saã o culpados todos os que, sabendo que doses letais de oá dio revolucionaá rio saã o
diariamente injetadas nas cabeças de milhoã es de crianças brasileiras, nada fazem para
desmascarar essa pedagogia do abismo. Saã o culpados todos os que, por comodismo, por
paternalismo, por medo de levar na testa roá tulos pejorativos, por desejo abjeto de fazer
bonito ante o esquerdismo chique, naã o movem um dedo para impedir que a cultura e a
psique da nossa gente seja infectada com os germes dos mais baixos instintos de vingança
políática, adornados com roá tulos edificantes como se fossem a expressaã o mais alta da
moralidade humana.
DO MARXISMO CULTURAL[ 57 ]

S
egundo o marxismo claá ssico, os proletaá rios eram inimigos naturais do capitalismo.
Leê nin acrescentou a isso a ideá ia de que o imperialismo era fruto da luta capitalista
para a conquista de novos mercados. Conclusaã o inevitaá vel: os proletaá rios eram
tambeá m inimigos do imperialismo e se recusariam a servi-lo num conflito
imperialista generalizado. Mais apegados a seus interesses de classe que aos de seus
patroã es imperialistas, fugiriam ao recrutamento ou usariam de suas armas para derrubar o
capitalismo em vez de lutar contra seus companheiros proletaá rios das naçoã es vizinhas.
Em 1914, esse silogismo parecia a todos os intelectuais marxistas coisa líáquida e certa.
Qual naã o foi sua surpresa, portanto, quando o proletariado aderiu aà pregaçaã o patrioá tica,
alistando-se em massa e lutando bravamente nos campos de batalha pelos “interesses
imperialistas”!
O estupor geral encontrou um breve alíávio no sucesso bolchevique de 1917, mas logo em
seguida veio a se agravar em paê nico e depressaã o quando, em vez de se expandir para os
paíáses capitalistas desenvolvidos, como o previam os manuais, a revoluçaã o foi sufocada pela
hostilidade geral do proletariado.
Diante de fatos de tal magnitude, um ceá rebro normal pensaria, desde logo, em corrigir a
teoria. Talvez os interesses do proletariado naã o fossem taã o antagoê nicos aos dos capitalistas
quanto Marx e Leê nin diziam.
Mas um ceá rebro marxista nunca eá normal. O filoá sofo huá ngaro Gyorgy Lukaá cs, por
exemplo, achava a coisa mais natural do mundo repartir sua mulher com algum
interessado. Pensando com essa cabeça, chegou aà conclusaã o de que quem estava errado naã o
era a teoria: eram os proletaá rios. Esses idiotas naã o sabiam enxergar seus “interesses reais”
e serviam alegremente a seus inimigos. Estavam doidos. Normal era Gyorgy Lukaá cs. Cabia a
este, portanto, a alta missaã o de descobrir quem havia produzido a insanidade proletaá ria.
Haá bil detetive, logo descobriu o culpado: era a cultura ocidental. A mistura de profetismo
judaico-cristaã o, direito romano e filosofia grega era uma poçaã o infernal fabricada pelos
burgueses para iludir os proletaá rios. Levado ao desespero por taã o angustiante descoberta, o
filoá sofo exclamou: “Quem nos salvaraá da cultura ocidental?”.
A resposta naã o demorou a surgir. Felix Weil, outra cabeça notaá vel, achava muito loá gico
usar o dinheiro que seu pai acumulara no comeá rcio de cereais como um instrumento para
destruir, junto com sua proá pria fortuna domeá stica, a de todos os demais burgueses. Com
esse dinheiro ele fundou o que veio a se chamar “Escola de Frankfurt”: um think tank
marxista que, abandonando as ilusoã es de um levante universal dos proletaá rios, passou a
dedicar-se ao uá nico empreendimento viaá vel que restava: destruir a cultura ocidental. Na
Itaá lia, o fundador do Partido Comunista, Antoê nio Gramsci, foê ra levado a conclusaã o
semelhante ao ver o operariado trair o internacionalismo revolucionaá rio, aderindo em
massa aà variante ultranacionalista de socialismo inventada pelo renegado Benito Mussolini.
Na verdade os proá prios sovieá ticos jaá naã o acreditavam mais em proletariado: Staá lin
recomendava que os partidos comunistas ocidentais recrutassem, antes de tudo,
milionaá rios, intelectuais e celebridades do show business. Desmentido pelos fatos, o
marxismo iria aà forra por meio da auto-inversaã o: em vez de transformar a condiçaã o social
para mudar as mentalidades, iria mudar as mentalidades para transformar a condiçaã o
social. Foi a primeira teoria do mundo que professou demonstrar sua veracidade pela prova
do contraá rio do que dizia.
Os instrumentos para isso foram logo aparecendo. Gramsci descobriu a “revoluçaã o
cultural”, que reformaria o “senso comum” da humanidade, levando-a a enxergar no
martíário dos santos catoá licos uma soá rdida manobra publicitaá ria capitalista, e faria dos
intelectuais, em vez dos proletaá rios, a classe revolucionaá ria eleita. Jaá os homens de
Frankfurt, especialmente Horkheimer, Adorno e Marcuse, tiveram a ideá ia de misturar Freud
e Marx, concluindo que a cultura ocidental era uma doença, que todo mundo educado nela
sofria de “personalidade autoritaá ria”, que a populaçaã o ocidental deveria ser reduzida aà
condiçaã o de paciente de hospíácio e submetida a uma “psicoterapia coletiva”.
Estava portanto inaugurada, depois do marxismo claá ssico, do marxismo sovieá tico e do
marxismo revisionista de Eduard Bernstein (o primeiro tucano), a quarta modalidade de
marxismo: o marxismo cultural. Como naã o falava em revoluçaã o proletaá ria nem pregava
abertamente nenhuma truculeê ncia, a nova escola foi bem aceita nos meios encarregados de
defender a cultura ocidental que ela professava destruir.
Expulsos da Alemanha pela concorreê ncia desleal do nazismo, os frankfurtianos
encontraram nos EUA a atmosfera de liberdade ideal para a destruiçaã o da sociedade que os
acolhera. Empenharam-se entaã o em demonstrar que a democracia para a qual fugiram era
igualzinha ao fascismo que os pusera em fuga. Denominaram sua filosofia de “teoria críática”
porque se abstinha de propor qualquer remeá dio para os males do mundo e buscava apenas
destruir: destruir a cultura, destruir a confiança entre as pessoas e os grupos, destruir a feá
religiosa, destruir a linguagem, destruir a capacidade loá gica, espalhar por toda parte uma
atmosfera de suspeita, confusaã o e oá dio. Uma vez atingido esse objetivo, alegavam que a
suspeita, a confusaã o e o oá dio eram a prova da maldade do capitalismo.
Da França, a escola recebeu a ajuda inestimaá vel do meá todo “desconstrucionista”, um
charlatanismo acadeê mico que permite impugnar todos os produtos da inteligeê ncia humana
como truques maldosos com que os machos brancos oprimem mulheres, negros, gays e
tutti quanti, incluindo animais domeá sticos e plantas.
A contribuiçaã o local americana foi a invençaã o da ditadura linguü íástica do “politicamente
correto”.
Em poucas deá cadas, o marxismo cultural tornou-se a influeê ncia predominante nas
universidades, na míádia, no show business e nos meios editoriais do Ocidente. Seus dogmas
macabros, vindo sem o roá tulo de “marxismo”, saã o imbecilmente aceitos como valores
culturais supra-ideoloá gicos pelas classes empresariais e eclesiaá sticas cuja destruiçaã o eá o
seu uá nico e incontornaá vel objetivo. Dificilmente se encontraraá hoje um romance, um filme,
uma peça de teatro, um livro didaá tico onde as crenças do marxismo cultural, no mais das
vezes naã o reconhecidas como tais, naã o estejam presentes com toda a viruleê ncia do seu
conteuá do calunioso e perverso.
Taã o vasta foi a propagaçaã o dessa influeê ncia, que por toda parte a ideá ia antiga de toleraê ncia
jaá se converteu na “toleraê ncia libertadora” proposta por Marcuse: “Toda a toleraê ncia para
com a esquerda, nenhuma para com a direita”. Aíá aqueles que vetam e boicotam a difusaã o
de ideá ias que os desagradam naã o sentem estar praticando censura: acham-se primores de
toleraê ncia democraá tica.
Por meio do marxismo cultural, toda a cultura transformou-se numa maá quina de guerra
contra si mesma, naã o sobrando espaço para mais nada.
TRANSIÇAÃ O REVOLUCIONAÁ RIA[ 58 ]

A míádia nacional jaá levou longe demais essa farsa de rotular o tucanato de “direita”,
um truque inventado pela esquerda para poder condenar como extremismo e
fascismo tudo o que esteja aà direita de FHC, ou seja, aà direita da centro-esquerda.
Se eá verdade que o atual presidente obedeceu em linhas gerais aà s exigeê ncias econoê micas
do FMI – coisa que qualquer outro faria no lugar dele e que o proá prio Lula promete fazer
igual, o que naã o torna nem um nem o outro direitistas –, por outro lado o presente governo
subsidiou fartamente com dinheiro puá blico o crescimento da mais poderosa organizaçaã o
revolucionaá ria de massas que jaá houve na Ameá rica Latina, introduziu ou ao menos permitiu
a doutrinaçaã o marxista nas escolas, instituiu a beatificaçaã o oficial de terroristas
aposentados e a concomitante desmoralizaçaã o das Forças Armadas, generalizou o uso de
criteá rios morais “politicamente corretos” para o julgamento das questoã es puá blicas e
destruiu uma por uma as lideranças regionais mais ou menos “conservadoras” que
restavam, aleá m de deixar montado todo o aparato legal e fiscal que seu sucessor necessitaraá
para criminalizar a atividade capitalista, sufocar as críáticas de oposiçaã o e, tendo feito tudo
dentro da lei, poder posar de democraá tico. Democraá tico no sentido de Hugo Chavez, eá claro.
Sem tocar nos interesses internacionais, mas seguindo estritamente a receita de guinada aà
esquerda que lhe foi preparada desde 1998 por Alain Touraine, FHC fez mais pelo avanço
da revoluçaã o comunista no Brasil do que o proá prio Joaã o Goulart, que ficou soá na ameaça.
Se, naã o obstante, seu governo ainda eá rotulado de “direitista”, eá somente graças a um
fenoê meno bastante conhecido na mecaê nica das revoluçoã es: sempre que uma facçaã o
revolucionaá ria toma o poder, suas proá prias dissensoã es internas se substituem aà s divisoã es
de partidos e facçoã es existentes no regime anterior. Assim, por exemplo, apoá s a revoluçaã o
de 1917, a ala revolucionaá ria menchevique passou a ser atacada pela ala radical como
direitista e reacionaá ria. Evidentemente, o sentido de “direita” havia mudado por completo:
antes, era ser contra a revoluçaã o; agora, era naã o ser revolucionaá rio o bastante. A diferença
entre o caso russo e o brasileiro eá que naquele a mudança foi declarada e consciente, ao
passo que entre noá s ela estaá proibida de ser mencionada em puá blico.
Um dos elementos primordiais da revoluçaã o cultural gramsciana em curso eá o lento e
inexoraá vel deslocamento de todo o eixo de refereê ncia dos debates puá blicos para a esquerda,
de modo a estreitar a margem de direitismo possíável e, aos poucos, substituir a direita
genuíána pela facçaã o direita da proá pria esquerda ou por algum fanatismo hidroá fobo
estereotipado e faá cil de desmoralizar. O processo deve ser conduzido de maneira taá cita e, se
algueá m o denuncia, negado com veemeê ncia. As coisas devem acontecer como se naã o
estivessem acontecendo. Os discordes e recalcitrantes, mais que censurados, saã o jogados
para o limbo da inexisteê ncia e se tornam taã o deslocados que parecem malucos.
Poucos brasileiros se daã o conta da profundidade das mudanças políáticas por que este paíás
passou ao longo dos uá ltimos quinze anos. Elas podem ser resumidas assim: a oposiçaã o de
esquerda ao antigo regime militar tomou o poder, ocupa todos os postos do governo e da
oposiçaã o e naã o deixa lugar para mais ningueá m. Os poucos remanescentes do antigo regime
se apegam desesperadamente aos uá ltimos resíáduos de poder que lhes sobram em escala
regional, ao passo que na disputa nacional naã o podem aspirar senaã o ao papel de auxiliares
e meninos de recados de alguma das facçoã es esquerdistas em disputa. As presentes eleiçoã es
deixaram isso muito claro.
AÀ completa liquidaçaã o da direita corresponde, quase instantaneamente, a
institucionalizaçaã o de uma das facçoã es de esquerda no papel de “direita” – uma direita
fabricada ad hoc para as necessidades da esquerda.
O processo foi enormemente facilitado pelo fato de que, nas eleiçoã es legislativas federais,
estaduais e municipais, o Brasil tem uma das mais altas taxas de substituiçaã o de políáticos jaá
observadas no mundo. A transfusaã o de lideranças, a completa destruiçaã o de uma classe e
sua substituiçaã o por outra jaá saã o fatos consumados. A revoluçaã o estaá em curso. Se vai
descambar para a destruiçaã o violenta das instituiçoã es ou se vai chegar a seus fins por via
anesteá sica, eá algo que soá o futuro diraá . Mas negar o caraá ter revolucionaá rio das mudanças
observadas eá realmente abusar do direito aà cegueira.
Alguns enxergam essas mudanças, mas soá parcialmente e segundo um vieá s
predeterminado. Notam, por exemplo, a destruiçaã o de velhas lideranças, abominadas como
“corruptas”, e veê em nisso um progresso da democracia - sem reparar que naã o haá progresso
nenhum numa caçada a corruptos de menor porte que serve apenas de disfarce para
encobrir o crime infinitamente maior em que estaã o envolvidos os proá prios moralizadores
mais estusiaá sticos: a narcoguerrilha, o terrorismo internacional, a revoluçaã o continental.
Que, no meio, surjam algumas situaçoã es paradoxais – como por exemplo o fato de que o
proá prio Partido Comunista, com nome trocado, acabe aparecendo como uá nica alternativa aà
ascensaã o da esquerda revolucionaá ria –, eá coisa que faz parte da natureza intrinsecamente
nebulosa do processo. E que ningueá m seja capaz de discernir por baixo do paradoxo a
loá gica implacaá vel que leva este paíás dia a dia para dentro do bloco terrorista internacional, eá
sintoma do mesmo turvamento geral das conscieê ncias, sem o qual nenhum processo
revolucionaá rio jamais teria sido levado a efeito no mundo.
ANTONIO GRAMSCI E A TEORIA DO BODE[ 59 ]

N
um debate de que participei na Faculdade de Direito da Universidade Federal do
Paranaá , estava eu a expor a estrateá gia gramsciana da ocupaçaã o de espaços e da
fabricaçaã o de consensos, quando meu oponente, desejando enaltecer a figura do
ideoá logo italiano que minhas palavras pareciam depreciar, alegou ser ele hoje
em dia o autor mais citado em trabalhos universitaá rios no Brasil e no mundo.
A plateá ia naã o resistiu: explodiu numa gargalhada. Nunca uma pretensa refutaçaã o
confirmara taã o literalmente as afirmaçoã es refutadas.
Mas a alegaçaã o em favor de Gramsci eá correta. Se haá um consenso imperante nos meios
acadeê micos ao menos brasileiros, eá aquele que faz do fundador do Partido Comunista
Italiano o mais importante dos pensadores, mais importante, sob certos aspectos, do que o
proá prio Karl Marx.
Esse consenso produziu-se aliaá s pelos mesmos meios preconizados por Gramsci para a
imposiçaã o de qualquer outra ideá ia: primeiro os adeptos da ideá ia “ocupam os espaços”,
apropriando-se de todos os meios de divulgaçaã o; depois conversam entre si e dizem que as
conclusoã es da conversa expressam o consenso universal.
A coisa, dita assim, parece um estelionato grosseiro. Ela eá de fato um estelionato – e na
invençaã o desse estelionato consiste toda a pretensa genialidade de Antonio Gramsci –, mas
naã o eá nada grosseira: a fabricaçaã o do simulacro de debate chega ao requinte de forjar
previamente toda uma galeria das oposiçoã es admitidas, que saã o precisamente aquelas cujo
confronto levaraá fatalmente aà conclusaã o desejada. As demais saã o excluíádas como
aberrantes, criminosas, sectaá rias ou naã o representativas. Naã o eá preciso dizer que, no debate
letrado nacional, eu em pessoa pertenço a essas quatro classes, ora de maneira simultaê nea,
ora alternada, conforme as necessidades do momento, o que jaá levou mais de um
gramsciano a me condenar, ao mesmo tempo, como um esquisitaã o isolado e como porta-voz
dos donos da míádia...
Que essa cíánica engenharia de dirigismo mental passe hoje por sinoê nimo de “democracia”,
eá algo que a perfíádia consciente soá explica em parte. Na cabeça dos gramscianos, acontece
tambeá m um fenoê meno muito estranho, que exemplifica a famosa “teoria do bode”. Voceê estaá
com problemas, poã e um bode dentro de casa e logo os seus problemas desaparecem,
obscurecidos pela presença de um bicho que come todas as suas roupas, os seus moá veis, o
seu dinheiro e os seus documentos. Entaã o voceê manda o bode embora e fica sem bode e
sem problemas. Esses comunistas passaram, no seá culo vinte, as piores humilhaçoã es. Cada
partido que formavam virava imediatamente uma maá quina de controle repressivo interno,
mais sufocante que a Inquisiçaã o. Se fossem perseguidos pela direita, isso lhe infundiria
orgulho e autoconfiança. Oprimidos por seus proá prios líáderes, como eá que ficava sua auto-
imagem? Ningueá m no mundo matou mais comunistas do que Leê nin, Staá lin e Mao Tseá -tung.
Eles superaram, nisso, todas as ditaduras de direita somadas. Isso daá um complexo danado,
naã o daá ? Bem, comparada aos horrores fíásicos do “socialismo real”, a opressaã o meramente
psicoloá gica parece um alíávio. De bom grado qualquer um de noá s, entre o pelotaã o de
fuzilamento e a manipulaçaã o gramsciana, escolheria esta uá ltima e ateá a celebraria como
uma forma de “liberdade”.
Tratados como caã es por seus proá prios mentores e chefes, os comunistas e socialistas,
quando entram na atmosfera gramsciana, estaã o como um cachorro que foi tirado da
carrocinha e amarrado aà coleira do dono. Sua nova sujeiçaã o eá o maá ximo de liberdade que
ele pode conceber. EÁ a vida sem bode.
O problema eá que esses indivíáduos de mentalidade escrava, sendo ao mesmo tempo, no
seu proá prio entender, o aá pice da inteligeê ncia humana, naã o podem conceber que outras
pessoas tenham experimentado doses de liberdade bem maiores. Libertos de Stalin e Mao,
acham sua nova escravidaã o linda e confortaá vel, e acreditam piamente que o restante da
humanidade naã o aspira a outra coisa senaã o a dobrar servilmente a espinha aà s exigeê ncias do
“consenso” gramsciano. Daíá o orgulho, a alegria e o sentimento de sincera generosidade
com que eles nos oferecem esse lixo, seguros de que eá a coisa mais preciosa do mundo.
Alguns de noá s saã o tolos o bastante para aceitar por mera educaçaã o a oferta desprezíável, e
acabam presos nas malhas do “consenso”. Da minha parte, naã o quero saber de nada disso.
Que vaã o oferecer a outro sua miseraá vel liberdade de escravos satisfeitos.
QUE EÁ HEGEMONIA?[ 60 ]

D
ois acontecimentos importantes da semana passada mereceram pouca ou
nenhuma atençaã o da míádia brasileira: o estrondoso sucesso da visita de George
W. Bush aà Romeê nia e os 70 anos do genocíádio sovieá tico na Ucraê nia. Claro:
nenhum fato que deponha a favor dos EUA ou contra o socialismo eá admitido
pela nossa classe jornalíástica, reduzida cada vez mais aà condiçaã o de mera força auxiliar da
“revoluçaã o cultural” gramsciana.
Poucos povos teê m a conscieê ncia histoá rica dos romenos. Jaá fiz vaá rias viagens aà Romeê nia,
tenho uma infinidade de amigos laá , e todos eles, desde as estrelas maá ximas da
intelectualidade como os filoá sofos Andrei Plesș u e Gabriel Liiceanu ateá motoristas de taá xi e
empregadas domeá sticas, desde patriarcas centenaá rios ateá garotos de ginaá sio, sabem de cor
e salteado a epopeá ia das lutas e sofrimentos do seu paíás ao longo de seis deá cadas de
totalitarismo, primeiro nazista, depois comunista. Mais ainda: teê m uma aguda conscieê ncia
de que nenhuma naçaã o que tenha vivido essas experieê ncias pode saltar alegremente para o
futuro, varrendo o passado para baixo do tapete. Quando Pleshu, entaã o ministro das
Relaçoã es Exteriores, descobriu documentos que incriminavam seu amigo e mestre Dan
Lazarescu como colaborador da políácia secreta do extinto regime, a decisaã o de divulgaá -los
deve ter-lhe doíádo como se cortasse na proá pria carne. Lazarescu, decano do Senado,
historiador e erudito, era um íádolo nacional, aleá m de graã o-mestre da Maçonaria – e por
meio dele centenas de maçons e naã o-maçons tinham encontrado o caminho da prisaã o e da
morte. A revelaçaã o de seus crimes foi um trauma que poucas naçoã es suportariam sem cair
imediatamente em duá vidas inquietantes sobre o seu proá prio futuro. A recepçaã o entusiaá stica
a George W. Bush mostra a firmeza inalterada da opçaã o do povo romeno pelo modelo
ocidental de democracia, sem concessoã es ao anti-americanismo faá cil de tantos povos
europeus. Franceses e alemaã es podem ter esquecido que devem sua liberdade aos
americanos. Os romenos naã o o esqueceraã o facilmente.
O massacre dos ucranianos pela “arma da fome”, empreendido por Stalin entre os anos 32
e 33, tambeá m naã o seraá esquecido, malgrado os esforços censoá rios da nossa míádia. Negado
durante deá cadas pela imprensa “progressista chique” do Ocidente, hoje eá fato
perfeitamente assimilado pela historiografia mundial, sobretudo depois que a abertura dos
Arquivos de Moscou e os trabalhos da Comissaã o de Investigaçoã es sediada em Montreal
confirmaram o relato apresentado pelo historiador Robert Conquest no claá ssico Harvest of
Sorrow. Terça-feira passada, na Sociedade dos Amigos da Cultura Ucraniana, em Curitiba,
assisti a um filme produzido pela Comissaã o com trechos de documentaá rios da eá poca
filmados in loco. Foram sete milhoã es de mortos, a maioria crianças – uma Biafra tamanho
gigante, soá que criada de propoá sito para a eliminaçaã o de resisteê ncias.
Essa diferença, eá claro, naã o absolve o socialismo africano. Num levantamento feito em
1985 pela ONU em vinte paíáses da AÁ frica assolados pela miseá ria e pela fome, todos, sem
exceçaã o, tinham adotado na deá cada anterior políáticas agraá rias socialistas, controle de
preços, supressaã o dos intermediaá rios – toda a parafernaá lia estatizante que, num paíás de
agricultura enormemente produtiva como o Brasil, ainda haá quem apresente como soluçaã o
“humanizadora”. Somem a isso algumas dezenas de milhoã es de víátimas do “Grande Salto
para a Frente” chineê s, e veraã o que, seja de propoá sito, seja pela ineá pcia de suas políáticas
econoê micas, nenhum regime, em qualquer eá poca que fosse, matou tanta gente de fome
quanto o socialismo. Saã o coisas que teê m de entrar em discussaã o num momento em que o
governador Germano Rigotto, revelando um fundo moá rbido de escruá pulos socialistas em
sua mentalidade democraá tica, hesita em cortar os subsíádios ao proá ximo Foá rum Social
Mundial. Pois deveria naã o somente cortaá -los, mas abrir inqueá rito para averiguar se os dois
Foá runs anteriores naã o foram um abuso, um desperdíácio de dinheiro puá blico em propaganda
ideoloá gica de um regime genocida. Por que tantas defereê ncias, tantos salamaleques, tantas
obscenas genuflexoã es de democratas ante a propaganda socialista, como se esta, com todos
os crimes hediondos que legitimou ao longo de um seá culo, estivesse por isto investida de
uma excelsa autoridade moral? O governo do Estado subsidiaria um congresso de
propaganda liberal ou conservadora? E, se o fizesse, naã o se defrontaria no ato com o clamor
petista por investigaçoã es e puniçoã es? Por que os democratas usam de dois pesos e duas
medidas contra si mesmos, favorecendo o adversaá rio “para naã o dar maá impressaã o”? Quem
naã o percebe nesse temor, nessa fraqueza, o triunfo da hegemonia esquerdista, que logrou
desarmar psiquicamente o adversaá rio, reduzindo-o a colaborador e escravo?
AÀ queles que creê em que o projeto gramsciano eá de transiçaã o indolor para o socialismo, eá
bom lembrar que Gramsci jamais abdicou da estrateá gia leninista de violeê ncia e terror.
Apenas julgava conveniente adiar-lhe a aplicaçaã o ateá aà completa destruiçaã o ideoloá gica do
“inimigo de classe”. Nesse sentido, nada acrescentou aà teá cnica stalinista. O exemplo
ucraniano mostra bem isso: primeiro Stalin demoliu a religiaã o, a cultura e a moral dos
ucranianos. Soá depois empreendeu o assalto aà propriedade e por fim o confisco das
reservas de alimentos, matando os adversaá rios de fome. O timing da operaçaã o foi
perfeitamente gramsciano.
A demoliçaã o das defesas ideoloá gicas dos democratas, no Brasil, jaá estaá bem avançada. Taã o
avançada, que eles se curvam espontaneamente aà arrogaê ncia dos novos senhores, evitando
magoar suas suscetibilidades com a lembrança de seu passado de crimes e perversidades.
Um partido de esquerda muda de nome, e pronto! Num relance, estaá absolvido de quatro
deá cadas de apoio moral ao genocíádio. Quem, na “direita”, goza de tamanho privileá gio?
Taã o longe vai a subservieê ncia, que ela naã o molda soá o presente, mas remolda o passado.
Num livro receá m-lançado por um jornalista ceá lebre, com pretensoã es a meticuloso registro
histoá rico do regime militar, naã o encontro uma soá vez a sigla “KGB”. Na eá poca, a espionagem
sovieá tica tinha centenas de agentes de influeê ncia, pagos, na míádia nacional. Chegou a
instalar um grampo no gabinete do presidente Figueiredo. Foi uma das forças baá sicas que
criaram a histoá ria do períáodo, incompreensíável sem o conhecimento desse fator. E tudo isso
desaparece, falseando radicalmente o quadro. A Guerra Fria narrada ao nosso puá blico naã o
se travou entre duas poteê ncias mundiais, uma democraá tica, a outra totalitaá ria, mas entre
malvados imperialistas ianques e heroá icos democratas brasileiros – exatamente como a
pintava, naquele tempo, a propaganda sovieá tica. Hegemonia eá isso.
NOSSA MIÁDIA E SEU GURU[ 61 ]

O
mais lindo espetaá culo dos uá ltimos tempos naã o foi a posse de Lula, escoltado por
Fidel Castro, Hugo Chaá vez e uma penca de veteranos do terrorismo, numa praça
adornada de milhares de bandeiras vermelhas e nenhuma do Brasil. O mais lindo
espetaá culo dos uá ltimos tempos eá a tranquilidade com que, diante disso, a míádia
nacional assegura que naã o haá mais comunistas em açaã o no mundo e que o paíás, no novo
governo, tem o futuro assegurado de uma genuíána democracia. Nunca uma mentira taã o
oá bvia foi sustentada com taã o acachapante unanimidade, num insulto coletivo aà inteligeê ncia
popular, que, ao naã o se sentir ofendida por isso, mostra naã o ter mesmo muito respeito por
si proá pria.
Naã o encontro precedentes histoá ricos para taã o estranho fenoê meno, mas encontro paralelos
em outros que, ao mesmo tempo, sucedem na mesma míádia. Querem ver um? A onda de
indignaçaã o geral contra Chaá vez eá mil vezes maior e as acusaçoã es que pesam sobre ele mil
vezes mais graves do que tudo quanto, no Brasil, bastou para dar razaã o de sobra aà
derrubada de Collor. Naã o obstante esta eá celebrada ateá hoje como uma apoteose da
democracia, enquanto o movimento dos venezuelanos eá pejorativamente rotulado de
“tentativa de golpe”.
A duplicidade de criteá rios eá taã o patente, taã o descarada que ela basta para mostrar que o
jornalismo nacional estaá morrendo, substituíádo pela propaganda pura e simples. Muitos
jornalistas negaraã o isso, fazendo-se de escandalizados, mas suas caretas de dignidade
afetada naã o me convenceraã o. Pois eles proá prios naã o escondem seu orgulho de ter
abandonado as antigas regras de objetividade e isençaã o para adotar uma eá tica de dirigismo
militante. Naã o querem mais ser meros portadores de notíácias. Querem ser “agentes de
transformaçaã o social”. Um agente de transformaçaã o naã o se contenta em dar informaçoã es:
manipula-as para produzir um efeito calculado. Os jornalistas brasileiros estaã o de tal modo
adestrados para isso que jaá o fazem ateá sem perceber.
Como chegaram a tanto? Uma pista reside na influeê ncia exercida sobre eles, como sobre a
totalidade das classes falantes, da leitura de Antonio Gramsci, hoje a obrigaçaã o central e
quase uá nica de quem passe por estudos ditos “superiores” neste paíás. Para que haveriam de
embeber-se tanto das ideá ias de Gramsci, se fosse para se absterem de levaá -las aà praá tica?
Mas essas ideá ias teê m uma propriedade notaá vel: quanto mais um homem se intoxica delas,
menos percebe o que teê m de imoral e perverso.
Visto sem as lentes da devoçaã o boboca, o gramcismo naã o passa de uma sistematizaçaã o de
intrujices. A hegemonia, segundo ele, deve ser conquistada pelos partidos de esquerda
mediante “ocupaçaã o de espaços” na míádia, na educaçaã o etc. Ora, o que eá “ocupaçaã o de
espaços” senaã o muá tua proteçaã o mafiosa entre militantes, recusando emprego aos
adversaá rios e institucionalizando a discriminaçaã o ideoloá gica como princíápio de seleçaã o
profissional? Trinta anos dessa praá tica e jaá naã o resta nas redaçoã es nenhum anticomunista.
Dividido o espaço entre esquerdistas, simpatizantes e indiferentes, ningueá m reclama e
todos sentem viver na mais confortaá vel democracia. A conscieê ncia moral dos jornalistas de
hoje eá pura inoceê ncia perversa.
Mas Gramsci naã o era um intrujaã o soá na estrateá gia políática. Manipulador, naã o hesitava em
contar aà filha pequena velhos contos de fadas esvaziados de seu simbolismo espiritual e
adulterados em grosseira propaganda comunista. Sua proá pria imagem histoá rica eá uma
farsa. Beatificado como encarnaçaã o do intelectual proletaá rio, soá trabalhou em faá brica por
tempo brevíássimo.
Chamar Gramsci de maquiaveá lico naã o eá força de expressaã o. Filho de um corrupto, ele era
neto espiritual do megacorruptor florentino. Orgulhava-se de ser discíápulo de Maquiavel e
descrevia o “Partido” como o “Novo Príáncipe”, encarnaçaã o coletiva do astuto golpista
palaciano que conquistava o poder pisando nos cadaá veres dos que o tinham ajudado a
subir. Quando o Partido estaá fraco para o assalto direto ao poder, dizia Gramsci, deve formar
um amplo “pacto social” baseado no “consenso”, mas conservando para si a hegemonia, o
primado das ideá ias e valores que soldam a aliança. Os aliados, acreditando agir no seu
proá prio interesse, seraã o levados a amoldar seu pensamento aà s categorias admitidas pelo
Partido, que, parasitando suas energias, livrar-se-aá deles no momento devido.
Gramsci naã o eá maquiaveá lico soá no sentido vulgar d’O Príncipe, mas tambeá m naquele, mais
sutil e maldoso, dos “Discorsi”. Nesta obra pouco lida, Maquiavel revela seu intuito de
colocar o Estado em lugar do proá prio Deus. Gramsci apenas acrescenta que, para isso, eá
preciso antes um Partido-deus. EÁ aíá que sua malíácia chega a requintes quase demoníáacos.
Ele considerava o cristianismo o principal inimigo do socialismo. Sonhava com um mundo
em que toda transcendeê ncia fosse abolida em favor de uma “terrestrializaçaã o absoluta”, na
qual a simples ideá ia de Deus e de eternidade se tornasse inacessíável.
Mas naã o queria destruir a igreja como instituiçaã o, e sim usaá -la como fachada. Para isso,
propunha que os comunistas se infiltrassem nela, substituindo a antiga feá por ideá ias
marxistas enfeitadas de linguagem teoloá gica. Assim, a pregaçaã o comunista chegaria aà s
massas sob outro nome, envolta numa aura de santidade.
A maior fraude religiosa de todos os tempos estaá hoje coroada de sucesso, o que naã o torna
menos deformada e monstruosa a mentalidade do seu inventor. Nem menos desprezíável a
daqueles que o admiram por isso.
CEGUEIRA DUPLA[ 62 ]

O
narcotraá fico e a induá stria dos sequü estros, na Ameá rica Latina, naã o saã o “crimes
comuns”, no sentido de apolíáticos. Muito menos saã o o efeito espontaê neo de
“problemas sociais”. Saã o atividades de guerra, coordenadas pelo mesmo
movimento comunista internacional a que o sr. Luíás Inaá cio da Silva agradeceu,
sem muitos disfarces, a colaboraçaã o recebida para a sua eleiçaã o aà presideê ncia da Repuá blica.
As FARC dominam quase por completo o mercado de drogas no continente, e cada
sequü estro maior, rastreado, leva diretamente ao MIR chileno ou a outras organizaçoã es
filiadas ao Foro de Saã o Paulo.
Esses fatos saã o taã o evidentes, taã o abundantemente comprovados, que sua auseê ncia no
temaá rio dos debates puá blicos soá pode ser explicada pela cumplicidade consciente ou
inconsciente da míádia e dos poderes constituíádos.
Mas isso naã o explica tudo. Uma longa e complexa conjunçaã o de causas tornou os
brasileiros cegos para as forças imediatas que decidem o curso do seu destino, ao mesmo
tempo que hipersensíáveis aà s miudezas diversionistas que daã o assunto aà tagarelice nacional.
Entre o Brasil que existe e o Brasil de que se fala, nunca a distaê ncia foi taã o grande.
Das causas a que aludi, duas devem ser destacadas.
De um lado, a duradoura articulaçaã o de relativismo ceá tico e dogmatismo devoto na
educaçaã o das classes letradas, orientada para neutralizar certas ideá ias por meio do
questionamento insultuoso e manter outras a salvo de todo exame, envoltas numa aura de
sacralidade intocaá vel.
O leitor compreenderaá facilmente o que quero dizer se notar que, nos cíárculos letrados
deste paíás, as hipoá teses mais escabrosamente pejorativas e ateá pornograá ficas a respeito de
Nosso Senhor Jesus Cristo saã o aceitas com a maior naturalidade, ao passo que a míánima
sugestaã o de alguma noá doa na pessoa moral de Antonio Gramsci ou de Che Guevara eá
recebida com escaê ndalo e horror como se fosse blasfeê mia. Naã o haá exagero no que digo. As
coisas saã o exatamente assim, e se o modo como as descrevo parece caricatura eá porque a
situaçaã o eá caricatural em si.
Em abstrato, feá sectaá ria e duá vida relativista saã o incompatíáveis. Na mente fragmentaá ria e
centríáfuga do brasileiro alfabetizado, coexistem sem maiores problemas, dividida a sua
jurisdiçaã o em territoá rios estanques e incomunicaá veis. O criteá rio da divisaã o segue os
caê nones do marxismo cultural. Tudo o que pareça associado a valores tradicionais da
civilizaçaã o judaico-cristaã deve ser dissolvido num banho aá cido de suspicaá cia maliciosa,
mesmo ao preço de ultrapassar o limite da críática racional e entrar no terreno da difamaçaã o
pura e simples. Inversamente, síámbolos, chavoã es e imagens que apontem para o lindo
futuro da utopia socialista devem ser conservados num relicaá rio, sob a guarda de um
esquadraã o de zelotes que oponham aà primeira investida do olhar críático uma barreira de
exclamaçoã es indignadas e laá grimas de humilhaçaã o, fazendo saber ao intruso a magnitude
do sofrimento que lhes infunde com suas perguntas íámpias e observaçoã es blasfemas. Raros
críáticos resistem a taã o contundente chantagem moral. Daíá a diferença de linguagem: os
sacerdotes do culto supremo podem lançar sobre seus adversaá rios a gama inteira das
invectivaçoã es ultrajantes, chamaá -los de caã es, de ladroã es, de lacaios do imperialismo, ao
passo que estes devem entrar em cena como quem penetra num santuaá rio, limitando-se a
polidas objeçoã es teoreá ticas precedidas de cerimoniosas demonstraçoã es de bom-mocismo.
A instrumentalizaçaã o da cultura para fins de socialismo reduziu a atividade intelectual
brasileira a um jogo simiesco de encenaçoã es e trejeitos destinados a tornar invisíáveis a
maldade e o crime quando a serviço da facçaã o políática hegemoê nica.
Daíá a desconversa geral quanto ao comando políático do narcotraá fico e dos sequü estros.
Crimes saã o coisas ruins, portanto a mente formada nesse tipo de cultura recusa associaá -los
aà imagem do bem, que eá ideê ntico ao socialismo.
A segunda causa vem de outra fonte.
Durante os oito anos da sua gestaã o como presidente dos EUA, Bill Clinton fez tudo para
“despolitizar” a imagem da criminalidade na Ameá rica Latina, isto eá , para limitar a açaã o
repressiva aà periferia das organizaçoã es criminosas, sem nunca tocar no seu centro vital.
Escorando-se na retoá rica triunfalista do “fim da Guerra Fria”, ele ajudou o movimento
comunista a fazer-se de morto para melhor assaltar o coveiro. Entre outras provideê ncias
que seria longo enumerar aqui, ele amarrou as maã os do governo colombiano,
condicionando toda ajuda americana a uma claá usula que soá permite usaá -la contra o
narcotraá fico enquanto tal, naã o contra a organizaçaã o políática e militar que o dirige.
Resultado: as FARC, ao mesmo tempo que seu íándice de popularidade na Coloê mbia baixava
de 8 para 2 por cento, foram aceitas como representaçaã o políática, cresceram ateá tornar-se a
mais rica e poderosa força armada da Ameá rica Latina e hoje dominam metade do territoá rio
colombiano, onde impoã em um sangrento regime comunista similar ao de Pol-Pot no
Camboja.
Dizer que Clinton agiu assim por ineá pcia eá fazer pouco da inteligeê ncia de um brilhante ex-
aluno de Harvard. Mas seus motivos pouco importam. O que importa eá que sua políática
fixou um padraã o para o enfoque do problema da criminalidade na AL. Endossado pela míádia
elegante dos EUA, imitado pela brasileira, impregnado assim no “senso comum” da nossa
populaçaã o, esse padraã o pode ser resumido numa foá rmula simples: eá proibido investigar os
mandantes do crime.
Haá outros fatores, mas a associaçaã o de um haá bito cultural com a legitimaçaã o vinda de uma
políática oficial norte-americana basta para tornar inacessíável aos brasileiros, desde dois
lados, a visaã o de uma realidade que em si eá oá bvia e patente. A convergeê ncia das causas na
produçaã o da cegueira dupla tambeá m naã o eá mero acaso. Mas expor a conexaã o dos altos
cíárculos clintonianos com a intelligentzia revolucionaá ria da Ameá rica Latina eá tarefa
demorada, que teraá de ficar para outro dia.
DOMINADOR INVISIÁVEL[ 63 ]

A
doutrina marxista da “ideologia” impregnou-se de tal modo na cultura, que
mesmo os indivíáduos mais alheios a qualquer militaê ncia esquerdista acham
natural esperar que toda ideá ia ou teoria se explique, em uá ltima anaá lise, como
instrumento das ambiçoã es de uma classe ou grupo, portanto como distorçaã o
interesseira, mito autojustificador ou propaganda.
Nessa perspectiva, naã o haá mais conhecimento objetivo. A uá nica maneira de um sujeito
escapar da prisaã o ideoloá gica eá assumi-la como fatalidade incontornaá vel e incorporaá -la na
sua visaã o habitual do mundo, como um cavalo que comesse seus proá prios arreios
esperando, com isso, tornar-se cavaleiro. A nova objetividade do “intelectual orgaê nico” jaá
naã o consiste em ver o mundo como eá mas em transformaá -lo em outra coisa para poder
dizer, depois, que ele eá exatamente isso.
Correntes de pensamento inteiramente alheias ao marxismo vieram a dar a esse doutrina
insana algumas legitimaçoã es acidentais.
Nietzsche abominava o socialismo. Mas, rejeitando toda pretensaã o de veracidade como
ilusaã o autolisonjeira de contemplativos doentes, e consagrando a “vontade de poder” como
fundamento uá ltimo da realidade e da açaã o humana, acabou dando aos dois socialismos,
bolchevista e fascista, um pretexto admiraá vel para que mandassem aà s favas os escruá pulos
de argumentaçaã o racional e aderissem gostosamente aà brutalidade da “açaã o direta”
preconizada por Georges Sorel.
Freud, politicamente um conservador, deu impulso aà destruiçaã o da feá no conhecimento ao
vituperar como camuflagens da repressaã o sexual todas as manifestaçoã es da inteligeê ncia
humana, seja na arte, na cieê ncia, na filosofia ou na religiaã o. E acabou malgré lui colocando a
serviço da propaganda socialista o poder da fantasia sexual, taã o logo a escola de Frankfurt
acreditou descobrir no desejo reprimido o equivalente geneá sico da força de trabalho
proletaá ria “expoliada” pelo super-ego capitalista. Daíá por diante todos os frustrados sexuais
do mundo tornaram-se militantes esquerdistas em potencial.
Muitas outras modas e escolas intelectuais, aà s vezes bem antimarxistas, concorreram para
os fins do socialismo: roendo pelas beiradas a credibilidade popular da tradiçaã o filosoá fica e
religiosa ocidental, mas naã o tendo por sua vez nenhuma expressaã o políática proá pria,
acabaram sendo absorvidas como utensíálios de guerra ideoloá gica pela uá nica corrente de
pensamento que, aleá m de doutrina, era uma estrateá gia políática e uma militaê ncia organizada.
Assim, aà medida que se desmoralizava intelectualmente, o marxismo se renovava de
maneira quase inesgotaá vel, chamando em seu socorro novos e novos pretextos adaptados
do pragmatismo, da filosofia analíática ou ateá do messianismo liseá rgico e anaá rquico da New
Age. Aquisiçaã o mais recente foi a retoá rica anti-ocidental do radicalismo islaê mico. E agora ateá
o “tradicionalismo” de Gueá non e Evola pode servir para ajudaá -lo um pouquinho...
Nenhuma doutrina resiste a tantas incorporaçoã es sem perder sua identidade. Mas aà s
vezes isso eá uá til. AÀ medida que afeiçoava seu organismo a tantos alimentos estranhos, o
marxismo, jaá em versaã o Gramsci, flexibilizava sua estrutura organizacional, dissolvendo os
antigos partidos monolíáticos numa complexa rede de associaçoã es e canais com rotulagem
infinitamente variada – desde agremiaçoã es políáticas ateá entidades assistenciais, “grupos de
encontro” e clíánicas de aborto, aleá m de quadrilhas de narcotraficantes e sequü estradores –,
que o advento dos computadores e da internet permite hoje manter unida e pronta, a
qualquer momento, para açoã es repentinas de alcance mundial, como se viu nas passeatas
“pela paz” que quase conseguiram salvar, in extremis, o regime mais tiraê nico e genocida do
planeta.
Irreconhecíável como doutrina individualizada, o marxismo continua, politicamente, a
uá nica força organizada em escala planetaá ria. Na esfera cultural, tornou-se a influeê ncia
dominante que, sem nome, quase invisivelmente, move as correntes de opiniaã o no mundo.
Cada vez que, diante de uma ideá ia, voceê pergunta a quem ela serve antes de perguntar se
ela eá verdadeira ou falsa, voceê eá quem estaá servindo a esse senhor invisíável. A doutrina
marxista da ideologia, mentira a serviço da vontade de poder, veê em tudo mentiras a serviço
do poder e, como toda profecia auto-realizaá vel, tem o dom de fazer com que aqueles que a
seguem, mesmo sem saber que a seguem, se tornem exatamente aquilo que ela diz que saã o.
A CLAREZA DO PROCESSO[ 64 ]

C
omo as divergeê ncias do PT com o PT se tornaram o molde uá nico do debate políático
nacional, peço aos leitores que reexaminem meu artigo “Transiçaã o revolucionaá ria”,
publicado neste jornal em 25 de agosto de 2002.[ 65 ] Nele eu descrevia o
mecanismo baá sico da políática brasileira nas uá ltimas deá cadas: a transfereê ncia do
eixo cada vez mais para a esquerda, de modo que o esquerdismo acabe por ocupar todo o
espaço, ao mesmo tempo que impinge ao puá blico a falsa impressaã o de que o cenaá rio
continua dividido, normal e democraticamente, entre uma esquerda e uma direita.
Naã o cito meu proá prio artigo para me fazer de profeta. Cito-o para mostrar que a linha de
evoluçaã o das coisas eá clara demais, que para enxergaá -la naã o eá preciso ser nenhum profeta, e
que o fato mesmo de que taã o poucos a enxerguem eá um componente fundamental do
processo. Pois este se realiza por meio do entorpecimento das conscieê ncias, culminando na
cegueira geral: a direita incapaz de perceber sua impoteê ncia, a esquerda negando sua
onipoteê ncia manifesta e fazendo-se de víátima de adversaá rios inexistentes para prevenir o
nascimento de adversaá rios futuros.
Desde 1988 cada novo governo estaá um pouco mais aà esquerda, fechando o SNI,
engordando o MST, premiando terroristas com verbas oficiais, endossando uma a uma
todas as exigeê ncias “politicamente corretas”, difundindo propaganda marxista pelas escolas,
etc. etc. Em vez de alegrar-se com isso, os esquerdistas ficam cada vez mais irritados e seu
discurso mais violento. A escalada da brutalidade verbal, com o sr. Caio Ceá sar Benjamin
mandando o presidente “se f...r”, mostra que o esquerdismo se torna tanto mais prepotente
quanto mais vitorioso, que nada pode satisfazeê -lo senaã o a obedieê ncia total e incondicional,
que cada concessaã o, em vez de aplacaá -lo, soá excita ainda mais sua fome de poder absoluto.
Inspirada pela foá rmula leninista da “estrateá gia das tesouras”, a esquerda cresce por
cissiparidade, ou esquizogeê nese, dividindo-se contra si mesma para tomar o lugar de
quaisquer concorrentes possíáveis, que hoje se reduzem a quase nada.
Quem domina o centro, domina o conjunto. A esquerda inventa sua proá pria direita,
criminalizando e excluindo do jogo todas as demais direitas imaginaá veis. Uns anos atraá s,
tornou-se feio estar aà direita de FHC. Agora eá impensaá vel estar aà direita de Lula. A políática
nacional inteira jaá naã o eá senaã o um subproduto da estrateá gia esquerdista, realizando a
foá rmula de Gramsci, de que o Partido deve imperar sobre toda a sociedade, naã o com uma
autoridade externa que a oprima ostensivamente, mas com a força invisíável e onipresente
de uma fatalidade natural, de “um imperativo categoá rico, um mandamento divino” (sic).
Por isso estaã o loucos e iludidos aqueles que, vendo o esquerdismo dividido, celebram seu
enfraquecimento e sua proá xima derrota. Um partido soá pode ser derrotado por outro
partido, jamais pela sua proá pria confusaã o interna, que eá fermento de sua expansaã o
ilimitada. E o fato eá que nenhum outro partido existe. Haá quarenta anos soá a esquerda tem
uma estrateá gia global, objetivos de longo prazo e uma firme determinaçaã o de remoldar a
sociedade aà sua imagem e semelhança. As outras facçoã es naã o teê m senaã o ideá ias soltas e
objetivos parciais temporaá rios, que saã o facilmente absorvidos ou neutralizados pela onda
triunfante e irreversíável do neocomunismo petista.
ENGORDANDO O PORCO[ 66 ]

C
onsciente de que as nossas classes empresariais saã o incapazes de enxergar o
mundo exceto sob a oá tica de um sonso economicismo, a liderança esquerdista tem
conseguido fazer delas instrumentos prestativos para a implantaçaã o de uma
ditadura comunista neste paíás.
Os mais tolos e servis saã o justamente os empresaá rios inflados de pretensoã es intelectuais,
que leram uns verbetes do Dicionário de Política de Norberto Bobbio e jaá saem afagando
seus proá prios ouvidos com a recitaçaã o pomposa dos termos receá m-aprendidos – eá tica,
sociedade civil, controle externo, democracia participativa, etc. –, cujo alcance estrateá gico
nem de longe percebem, pois para isso precisariam ter estudado muito Antonio Gramsci
depois de adquirir a soá lida base marxista-leninista necessaá ria para saber do que ele estaá
falando.
Ouvem dizer, por exemplo, que para acabar com a corrupçaã o o uá nico remeá dio eá o
“controle externo” da políácia e do judiciaá rio pela “sociedade civil organizada”. Iludidos pelo
valor nominal das expressoã es, sem saber que saã o termos teá cnicos do vocabulaá rio
gramsciano no qual teê m uma carga semaê ntica muito precisa, diferente do que as palavras
sugerem na acepçaã o geral, chegam quase aà s laá grimas ante a imagem roá sea que nelas se
parece anunciar, e prestam-se por isso a colaborar na empreitada revolucionaá ria como se
estivessem lutando por seus mais viscerais interesses. Um grupo deles, totalizando a quarta
parte do PNB, jaá poê s tudo a serviço da realizaçaã o de taã o sublimes ideais.
Quem tenha estudado Gramsci, no entanto, sabe que “sociedade civil organizada” quer
dizer apenas o Partido, gigantescamente ampliado ateá perder sua identidade aparente,
espalhado por meio de seus agentes ateá os setores mais perifeá ricos da vida social, e
transformado portanto – nos termos do proá prio Gramsci – “num poder invisíável e
onipresente”, habilitado a dominar a sociedade com a força ao mesmo tempo avassaladora e
imperceptíável “de um imperativo categoá rico, de um mandamento divino” (sic). EÁ a completa
ditadura do Partido, naã o imposta de cima para baixo por um decreto autoritaá rio explíácito
que arriscaria suscitar resisteê ncias, mas injetada aos poucos nas veias da sociedade, como
uma droga alucinoá gena que a proá pria víátima acabaraá por exigir em doses cada vez maiores.
Quem quer que, aà luz dos ensinamentos gramscianos, observe a praá tica petista no dia a dia,
veraá que ela se orienta pelo sentido originaá rio que esses termos teê m em Gramsci, e naã o pela
segunda camada de significados postiços, criada para fins de auto-intoxicaçaã o de idiotas
uá teis. Que estes, pelo caminho, recebam o estíámulo ocasional e passageiro de algumas
vantagens menores, eá coisa que nada tem de estranho: ningueá m mata o porco antes de
engordaá -lo.
E a proposta que acolhem naã o quer o “controle externo” soá da políácia e do judiciaá rio, mas
do legislativo, dos ministeá rios, das empresas, das entidades religiosas e educacionais, dos
oá rgaã os assistenciais e da míádia. Nunca palavras taã o doces e atraentes foram usadas para
encobrir uma realidade taã o brutal e hedionda. Nunca uma tirania comunista foi oferecida
com embalagem taã o vistosa, com apareê ncia taã o inofensiva. E o empresariado, com tíápica
auto-ilusaã o nouveau riche, compra tudo. Compra e paga.
COZINHANDO A RAÃ [ 67 ]

A
míádia nacional jaá adotou o costume de designar o PT governante como “direita”,
para que D. Heloíása Helena e o sr. Joaã o Pedro Stedile posem como representantes
da uá nica “esquerda” auteê ntica. EÁ um truque sujo e seu efeito eá oá bvio: a parcela do
puá blico que teme mudanças bruscas corre para dar apoio ao governo, na
esperança de que contenha os “radicais”, enquanto a insatisfaçaã o do restante com os erros
do governo eá canalizada em favor da “esquerda da esquerda”, sem risco de que venha a ser
capitalizada pela oposiçaã o liberal ou conservadora.
Todo movimento revolucionaá rio tem dentro de si uma direita e uma esquerda. Esta
forceja por ampliar a aá rea de atuaçaã o do movimento e radicalizar as transformaçoã es
revolucionaá rias a todo preço, pouco se importando de perder o controle da situaçaã o ou,
melhor ainda, imaginando que o melhor controle eá a perfeita confusaã o. A “direita”, por seu
lado, tenta consolidar as vitoá rias obtidas e manter um estrito controle estrateá gico e taá tico
do movimento, mesmo aà custa de desacelerar o processo e ter de cortar na proá pria carne,
livrando-se da indisciplina “esquerdista” por meio de expurgos e de puniçoã es variadas.
Isso foi assim em todas as revoluçoã es comunistas. O detalhe diferencial eá que na revoluçaã o
brasileira estaá sendo tentada pela primeira vez em grande escala uma transiçaã o “indolor”
baseada na estrateá gia de Antonio Gramsci. Isto faz com que, aos olhos dos ignorantes, a
revoluçaã o naã o pareça uma revoluçaã o e as mudanças mais desastrosas sejam aceitas,
insensivelmente, como detalhes de rotina. Naã o que o gramscismo seja pacifista. Apenas, ele
naã o admite violeê ncia antes do momento certo, isto eá , quando a opiniaã o puá blica estiver
madura para aprovar ao menos por indiferença a eliminaçaã o cruenta dos poucos
adversaá rios restantes. O gramscismo eá como a aranha, que anestesia a víátima antes de
mataá -la.
No processo anesteá sico, Gramsci enfatiza o controle da míádia e, portanto, do vocabulaá rio.
EÁ essencial que a populaçaã o se acostume a usar as palavras no sentido desejado pelo
Partido, para que, a cada momento, pense o que o Partido deseja que pense. Isso nada tem a
ver com persuasaã o explíácita: naã o visa a fazer com que o povo “concorde” com as instruçoã es
partidaá rias, mas busca induzi-lo a comportar-se da maneira desejada, mesmo quando
imagina opor-se aà autoridade estabelecida.
No presente momento, quando a ascensaã o do Partido eá ainda recente, eá importante
garantir que ningueá m, na sociedade, possa dar um alarma geral e abortar o processo.
Firmeza e discriçaã o saã o essenciais.
EÁ a hora do lobo, o lusco-fusco antes da aurora, quando o predador espreita as
redondezas, ainda sem saber se o que vai encontrar pela frente eá a presa ou o caçador.
Nesse momento, tudo na conduta do Partido eá camuflagem e fingimento. Tudo o que eá
deve parecer outra coisa, nada pode ser chamado pelo nome, todo raciocíánio conclusivo
deve ser neutralizado por uma tempestade de desconversas, todo diagnoá stico real da
situaçaã o deve ser contornado por meio de um intenso confusionismo verbal. A proá pria
identidade dos personagens deve ser esfumada, para que ningueá m possa distinguir o
predador e a presa. Trabalhar para que a “direita” e a “esquerda” do movimento
revolucionaá rio sejam tomadas pelo puá blico como a direita e a esquerda convencionais, de
modo que esta uá ltima ocupe todo o espaço políático existente e uma transiçaã o revolucionaá ria
passe como rotina normal da democracia, eá o modo de fazer com que a raã , que saltaria fora
da panela se jogada na aá gua fervente, vaá se adaptando aà aá gua aquecida devagar, ateá morrer
sem perceber que foi cozida.
A RECEITA DOS MESTRES[ 68 ]

K
arl Marx ensinava que, mesmo investida daquele poder absoluto que soá a
violeê ncia armada garante, a esquerda revolucionaá ria jamais deveria se apressar
em estatizar a propriedade dos meios de produçaã o da noite para o dia, arriscando
provocar a fuga de capitaise desmantelar a economia. O certo, dizia ele, era
alongar o processo por uma ou duas geraçoã es, usando de prefereê ncia o expediente
anesteá sico da taxaçaã o progressiva. Ainda mais prudente e sorrateira ela deveria ser, eá claro,
na hipoá tese de ter vencido pela via das eleiçoã es, que soá garantem um acesso limitado ao
poder.
Leê nin acrescentava que a proá pria classe capitalista, atraíáda pela isca dos lucros imediatos
oferecidos pelo Estado socialista e cega para as correntes mais profundas da transformaçaã o
revolucionaá ria, haveria de colaborar alegremente com a lenta e inexoraá vel expropriaçaã o de
seus bens.
Antonio Gramsci completava o silogismo, concluindo que o Partido naã o deveria arriscar
nenhuma mudança mais draá stica na estrutura social antes de ter-se assegurado de treê s
condiçoã es: (1) a completa hegemonia sobre a cultura, o vocabulaá rio puá blico e os criteá rios
morais vigentes; (2) o estabelecimento de um unipartidarismo informal atraveá s da
supressaã o de toda oposiçaã o ideoloá gica, reduzidos os demais partidos, quase que
voluntariamente, aà tarefa subalterna de criticar detalhes da administraçaã o; (3) a fusaã o de
Partido e Estado atraveá s da “ocupaçaã o de espaços”.
Por seguir fielmente a receita desses mestres, o PT governante adquiriu direitos e
privileá gios jamais sonhados por nenhum partido comunista do mundo, como por exemplo:
(1) o de jamais poder ser chamado de comunista, mesmo quando efetua aà plena luz do dia a
inserçaã o do Brasil na estrateá gia comunista internacional; (2) o de autofinanciar-se com
dinheiro puá blico em doses crescentes e ilimitadas, atraveá s do embuste do “díázimo” que,
utilizado por qualquer outro partido, provocaria uma tempestade de denuá ncias e
processos; (3) o de agir em estreita parceria estrateá gica com organizaçoã es terroristas e
narcotraficantes, como o ELN colombiano, as FARC, o MRI chileno e os tupamaros, sem
jamais poder ser acusado de cumplicidade com o terrorismo ou o narcotraá fico; (4) o de
criar desde dentro de suas proá prias fileiras uma oposiçaã o histrioê nica, que o acusa de
“direitista” sem que o puá blico maior atine com a acepçaã o muito especial, quase a de uma
senha, que este termo tem nas discussoã es internas da esquerda e, assim, camuflando ainda
mais o curso real do processo políático.
Nunca, em cinco seá culos, a mentira e a dissimulaçaã o dominaram taã o completamente o
panorama dos debates puá blicos neste paíás, outorgando aos condutores do processo aquela
“onipoteê ncia invisíável” a que se referia Gramsci e condenando todos os demais brasileiros aà
menoridade mental e políática.
Um dos instrumentos mais engenhosos utilizados para isso foi a duplicaçaã o das vias de
açaã o partidaá ria, uma nacional e ostensiva, denominada oficialmente “PT” ou “governo”, a
outra internacional e discretíássima chamada “Foro de Saã o Paulo”, o mais importante e
poderoso oá rgaã o políático latino-americano, cuja mera existeê ncia a classe jornalíástica em peso
continua ocultando criminosamente – repito: criminosamente – ao conhecimento de seus
leitores. No aê mbito circunspecto do Foro, o PT articula suas açoã es com as de outros
movimentos de esquerda continentais. Entre eles, evidentemente, o MST. No plano nacional,
isto eá , diante dos olhos da opiniaã o puá blica, PT e MST aparecem como entidades separadas e
inconexas. O partido onipotente estaá , portanto, habilitado a promover a agitaçaã o no campo
atraveá s do seu braço invisíável, ao mesmo tempo que, com o visíável, encena gestos de
apaziguador dos aê nimos e mantenedor da ordem.
Dentro do PT haá decerto muitas pessoas que teê m conscieê ncia de tudo isso, e eá impossíável
que pelo menos algumas delas naã o se envergonhem, em segredo, de colaborar com tanta
perfíádia e ignomíánia. Mas quando ousaraã o renegar em puá blico a macabra herança
comunista que faz de seu partido um aliado e cuá mplice de Hugo Chaá vez, de Fidel Castro e de
Kim Il Jong?
A UNIDADE DA DUPLICIDADE[ 69 ]

C
omo eá possíável que um partido repleto de ex-terroristas, associado no Foro de Saã o
Paulo aos narcotraficantes das FARC e aos sequü estradores do MIR chileno, acusado
de superfaturamento em obras e na coleta de lixo em vaá rias das capitais que
governa, suspeito de cumplicidade no assassinato de um prefeito, alimentado
pelos díázimos obrigatoá rios dos cargos puá blicos que ele mesmo distribui e, last not least,
inventor de uma “campanha contra a fome” que jaá tem 45 por cento de licitaçoã es
irregulares, consiga fazer com que a denuá ncia de uma negociata com bicheiros apareça
como uma mancha esporaá dica na sua reputaçaã o ilibada, como um ato isolado de “traiçaã o” a
seus “altos padroã es eá ticos”, e naã o como a continuaçaã o normal e previsíável de uma longa
carreira de delitos e mentiras?
“Hegemonia” eá isso: acuada pela exibiçaã o de provas contundentes, a facçaã o dominante
ainda tem força para transmutar a perda políática em vitoá ria ideoloá gica, fazendo com que a
crença geral na bondade intríánseca da esquerda saia imune e engrandecida da revelaçaã o de
qualquer sujeira. Em mateá ria de gerenciamento de danos, eá um prodíágio.
EÁ que os dois fenoê menos – o envolvimento em crimes de magnitude incomum e o controle
sobre os criteá rios morais da opiniaã o puá blica – estaã o profundamente interligados. EÁ
impossíável elucidar o caso Waldomiro sem colocar em exame a estrutura interna do PT, que
herdou das organizaçoã es revolucionaá rias que a originaram a teá cnica de articular legalidade
e clandestinidade, miolo e fachada, realidade e apareê ncia.
O partido que mama o leite dos bicheiros eá , afinal, o mesmo que, com os bons preá stimos
de uma rede de informantes espalhados em todos os escaloã es da administraçaã o puá blica e
privada e o apoio de variadas organizaçoã es co-irmaã s, adquiriu haá tempos um verdadeiro
poder de políácia, investido dos meios de subjugar e destruir os adversaá rios que bem
entenda e, no mesmo ato, pelo proá prio terror que inspira a sua retoá rica moralizante,
bloquear qualquer investigaçaã o seá ria dos crimes em que se envolva. E o sr. Joseá Dirceu que
apadrinhou Waldomiro eá o mesmo que, na CPI dos “anoã es do orçamento”, brilhava com
revelaçoã es espetaculares, citando ateá mesmo os nuá meros das ceá dulas recebidas como
propina por fulano ou beltrano – informaçaã o soá acessíável a quem tivesse olheiros
escondidos por toda parte.
Essas duas faces naã o se excluem, mas se exigem mutuamente. O juiz temíável e o gatuno
sorrateiro saã o o mesmo personagem. Jaá ensinava Leê nin: “Fomentar a corrupçaã o e denunciaá -
la”. Naã o haá um PT bom e um PT mau: o que haá eá estrateá gia, organizaçaã o, informaçaã o,
planejamento, convergeê ncia de todos os meios líácitos e ilíácitos para o objetivo final: a
conquista do poder, a fusaã o de Partido e Estado, o domíánio sobre a “sociedade civil
organizada” (“o Partido ampliado”, como a chamava Gramsci), a demoliçaã o total das
instituiçoã es e sua substituiçaã o por um “novo modelo de democracia” que jaá era velho no
tempo em que Fidel Castro usava fraldas.
As habilidades requeridas para conduzir uma operaçaã o taã o complexa estaã o fora do
alcance dos políáticos “normais”, cuja cieê ncia naã o vai aleá m das espertezas eleitoreiras,
mercadoloá gicas e parlamentares necessaá rias para o exercíácio corriqueiro da políática
provinciana.
Quase todos os líáderes do PT teê m uma longa praá tica da açaã o clandestina, e, naã o por
coincideê ncia, precisamente aquele a quem o episoá dio recente deu a mais triste notoriedade
eá um agente treinado pelo serviço cubano de inteligeê ncia militar, o mais poderoso e eficaz
do continente. Suas aptidoã es nesse campo incluem a organizaçaã o de redes subterraê neas de
espionagem e propaganda, infiltraçaã o, terrorismo, bem como todas as artes da
desinformaçaã o e camuflagem das quais a meá dia da classe políática nacional soá tem uma ideá ia
longíánqua e fantasiosa, adquirida, na mais erudita das hipoá teses, em filmes de James Bond.
Entre o PT e seus acusadores, a uá nica luta possíável eá a da astuá cia organizada contra uma
pululaçaã o anaá rquica de indignaçoã es cegas. Sem a conscieê ncia do que estaá verdadeiramente
em jogo, essas indignaçoã es correm o risco de se esfarelar numa poeira de protestos vaã os.
O NOME DA COISA[ 70 ]

O
senador Jefferson Perez tem toda a razaã o ao afirmar que “pela primeira vez no
Brasil um partido domina o poder e a sociedade civil organizada”. Onde ele erra eá
no termo geral com que sintetiza o estado de coisas. “Mexicanizaçaã o” naã o eá
sequer um conceito descritivo, eá uma figura de linguagem, que alude a um
fenoê meno pela vaga semelhança com outro.
Mas o que se passa aqui naã o eá taã o misterioso que nem tenha um nome apropriado. O sr.
Perez chega perto dele ao usar a expressaã o “sociedade civil organizada”, mas logo perde a
pista ao derivar para uma analogia improá pria. “Sociedade civil organizada” eá o termo
teá cnico com que Antonio Gramsci designa a rede de entidades extrapartidaá rias controladas
pelo Partido. Dizer que o Partido as controla eá portanto redundante: elas constituem,
segundo Gramsci, “o Partido ampliado”. Quando esse rede abrange os principais canais de
expressaã o da sociedade, naã o haá mais opiniaã o puá blica: haá apenas a voz do Partido, ecoada
em muitos tons e oitavas que simulam variedade espontaê nea. EÁ a materializaçaã o da
“hegemonia cultural” que monopoliza as ideá ias em circulaçaã o e forja ateá o vocabulaá rio dos
debates puá blicos, adquirindo sobre a mentalidade geral “o poder onipresente e invisíável de
uma lei natural, de um imperativo categoá rico, de um mandamento divino” (sic).
O fato mesmo de aquela expressaã o ser usada por muitos como termo neutro, sem a menor
conscieê ncia de sua origem e de suas implicaçoã es estrateá gicas, basta para mostrar o alcance
da “hegemonia”.
A organizaçaã o da sociedade civil, diz Gramsci, deve preceder de muito a conquista do
Estado. Nos tempos da ditadura, quando os generais imaginavam dominar tudo porque
tinham a guerrilha sob seus peá s, a elite do Partidaã o, bem tolerada pelo governo porque
alheia aà violeê ncia armada, tratava de estudar a estrateá gia gramsciana e colocaá -la em praá tica
diante dos olhos cegos da autoridade. O Brasil de hoje nasceu aíá. O proá prio sr. Perez admite
que naquela eá poca a esquerda jaá adquiriu o controle da sociedade civil.
Mas ele erra tambeá m quando limita as possibilidades de explicaçaã o do fenoê meno a uma
alternativa paralisante: “conspiraçaã o” ou “coincideê ncia”? O que haá naã o eá uma coisa nem a
outra. EÁ “grande estrateá gia”. A adesaã o do PCB ao gramscismo obedeceu aà nova “linha geral”
adotada pelo Politburô sovieá tico entre 1958 e 1960,[ 71 ] que, inspirada no exemplo da NEP
leninista de 1921, recomendou a todos os partidos comunistas o fim do monolitismo
stalinista, concessoã es aos interesses capitalistas privados, o eventual abandono da
identidade comunista explíácita e a fragmentaçaã o num pluripartidarismo aparente, a
penetraçaã o ampla na sociedade civil para absorver todas as correntes de opiniaã o
aproveitaá veis, de modo a marginalizar o anticomunismo e seduzir ateá os conservadores
para as belezas do “socialismo com face humana” encarnado na perestroika.
No plano internacional, essa políática, calculada para durar quatro deá cadas, visava a
formar uma Europa socialdemocraá tica “unida do Atlaê ntico aos Urais”, isolando os EUA e
induzindo-os a desarmar-se ideologicamente (e militarmente) em nome da “convergeê ncia”
anunciada de capitalismo e socialismo numa “nova ordem global” apadrinhada pela ONU.
Anestesiado o sentimento anticomunista, os EUA festejaram o “fim da Guerra Fria”, sem
perceber que com isso apenas cediam ao inimigo o direito de prossegui-la unilateralmente
em condiçoã es ideais, nas quais toda resisteê ncia jaá estava de antemaã o condenada como
saudosismo, desamor aà “paz” e, eá claro, paranoá ia.
Com alguns percalços vistosos que naã o abalaram em nada o seu centro orientador, a
estrateá gia alcançou o objetivo desejado, como se veê hoje pela hostilidade global anti-EUA e
anti-Israel. No tempo de Stalin, isso seria sonhar demais. Hoje eá uma realidade.
Perto disso, a Revoluçaã o Mexicana foi apenas um fuzueê de caipiras. O que se passa no
Brasil eá a Revoluçaã o Gramsciana, manifestaçaã o local da grande estrateá gia comunista
mundial. EÁ preciso estar muito, muito alienado para naã o enxergar uma coisa taã o patente.
A GESTAPO TERCEIRIZADA[ 72 ]

A
lfredo Saá enz, S. J., em La estrategia ateísta de Antonio Gramsci (Coá rdoba, 1988),
observava que a via gramsciana para o socialismo, evitando a praá tica leninista de
liquidar fisicamente os inimigos, dava prefereê ncia – embora naã o exclusiva – ao
assassinato moral. Isso refletia a nova estrutura do Partido revolucionaá rio, que de
elite golpista armada ia se transmutando numa rede difusa e onipresente, sem rosto nem
limites, imperando invisivelmente sobre a psicologia das massas e moldando ateá a mente
dos seus adversaá rios. Estes ficariam assim taã o isolados, taã o desarmados ideologicamente,
que mal conseguiriam se defender sem acusar-se no mesmo ato, por falta de linguagem
proá pria. Os poucos que se salvassem do naufraá gio mental seriam neutralizados por meio do
boicote profissional e do massacre difamatoá rio – instrumentos manejados, eá claro, de
maneira impessoal e camuflada. Os líáderes do Partido, bem como o proá prio governo
esquerdista, naã o se exporiam na primeira linha de ataque: ficariam escondidos por traá s da
multidaã o de jovens militantes anoê nimos, para dar a impressaã o de que a víátima naã o tombara
sob os golpes de uma corrente partidaá ria e sim da opiniaã o puá blica, do progresso ou da
natureza das coisas. A ideá ia era usar a proá pria sociedade civil, em vez do Estado, como
instrumento de repressaã o.
A perseguiçaã o policial sem políácia, a Gestapo terceirizada, jaá estaá funcionando com pleno
sucesso no Brasil. Os adversaá rios mais sonsos – a maioria – jaá naã o ousam criticar o governo
senaã o em nome de pretextos esquerdistas que os arrastam com ele na mesma condenaçaã o;
a minoria intelectualmente ativa estaá acossada pela perda de emprego, pelas agressoã es
psicoloá gicas, pelas ameaças veladas ou explíácitas, pelo asseá dio judiciaá rio, pela difamaçaã o
incessante e cruel.
Exemplos?
O jornalista Reinaldo Azevedo perdeu o emprego porque os anunciantes tinham medo de
aparecer nas paá ginas de Primeira Leitura. Depois a casa de sua maã e foi invadida e
depredada.
O aê ncora Boris Casoy foi demitido da TV Record pela força discreta das pressoã es políáticas.
O cronista Diogo Mainardi geme esmagado sob toneladas de processos pelo crime de
denunciar a corrupçaã o federal.
O Padre Joseá Carlos Lodi da Cruz, acossado por ONGs internacionais, foi condenado por
um grotesco tribunal de Brasíália a pagar multa por chamar uma abortista de abortista.
O escritor Juá lio Severo sofre toda sorte de humilhaçoã es judiciais e administrativas por ter
escrito um livro contra a ideologia homossexual e querer educar seu filho na religiaã o cristaã .
O professor Francisco Pessanha Neves, do Coleá gio de Aplicaçaã o da UFRJ, foi surrado por
seus alunos por insistir em lhes ensinar filosofia grega em vez de marxismo.
Quanto a mim, todo mundo sabe: os insultos escatoloá gicos e ameaças de morte jaá viraram
rotinas banais, a intromissaã o difamatoá ria na privacidade da minha famíália tornou-se direito
consuetudinaá rio, exercido por batalhoã es de imbecis juvenis instigados por professores que
naã o ousariam me confrontar num debate. E tanto se empenharam na minha destruiçaã o que
acabaram se traindo, publicando com sinistro humorismo goebbelsiano uma caricatura na
qual apareço crucificado – uma eloquü ente declaraçaã o de intençoã es, soá frustradas in extremis
pela minha oportuna saíáda do paíás.
O que Gramsci naã o explicou eá que tipo de sociedade poderia nascer de uma geraçaã o em
que os jovens se imaginam heroá is da liberdade quando se juntam em bandos de centenas,
de milhares, para servir de políácia políática e desgraçar a existeê ncia de uns poucos inimigos
isolados e sem recursos. EÁ uma sociedade de vigaristas covardes e psicoá ticos. EÁ o Brasil de
hoje.
Mas nada disso eá exclusividade nacional. O oposicionista venezuelano Alek Boyd, editor
do site www.vcrisis.com, auto-exilado na Inglaterra, sem dinheiro para pagar um advogado,
sofre bombardeio difamatoá rio do lobby chavista apadrinhado pelo proá prio prefeito de
Londres. Por toda parte, o combate brutalmente desigual eá a arma predileta dos apoá stolos
da igualdade.
POR QUE O BRASILEIRO
VOTA NA ESQUERDA[ 73 ]

S e no Brasil ocorre esse fenoê meno aberrante de um eleitorado conservador votar


maciçamente em candidatos de esquerda, o motivo da contradiçaã o aparente eá
claríássimo e se compoã e da conflueê ncia de treê s fatores.
Desde logo, o conservadorismo naã o tem canais partidaá rios ou culturais de expressaã o e se
tornou politicamente nulo. Naã o haá políáticos conservadores: ningueá m pode votar em
candidatos inexistentes.
De outro lado, o esquerdismo usa uma linguagem nas suas discussoã es internas, outra para
falar com o povo, e soá na primeira delas assume sua verdadeira identidade ideoloá gica. Na
outra ele dilui sua imagem em generalidades moralistas, nacionalistas e populistas. EÁ um
discurso maliciosamente escorregadio, que evita o jargaã o marxista e impede o povo de
identificar a esquerda brasileira com a revoluçaã o neocomunista continental. Ateá
observadores estrangeiros qualificados, mas que desconhecem os documentos internos do
PT e do Foro de Saã o Paulo, como por exemplo AÁ lvaro Vargas Llosa, Otto Reich e o proá prio
subsecretaá rio Tom Shannon, se deixaram enganar por essa falsa apareê ncia, imaginando o
esquerdismo brasileiro como populista em vez de comunista. A populaçaã o local, eá claro, cai
no engodo ainda mais facilmente. Mesmo entre pessoas letradas eá comum a reaçaã o: “Lula,
comunista? Voceê estaá doido”. O proá prio Lula poê de dizer, sem que ningueá m o contestasse,
que naã o apenas nunca foi comunista como naã o eá nem mesmo esquerdista. Essa declaraçaã o
seria considerada cíánica, inaceitaá vel e ateá criminosa se a plateá ia naã o ignorasse que o
declarante foi fundador e presidente da maior organizaçaã o proá -comunista do continente.
Em terceiro lugar, o sucesso de quarenta anos de “revoluçaã o cultural” gramsciana foi taã o
avassalador – dada a completa falta de resisteê ncia –, que os valores, criteá rios e ateá cacoetes
mentais do movimento comunista internacional se incorporaram no “senso comum”
brasileiro e jaá naã o saã o reconhecidos como tais: saã o aceitos passivamente pela sociedade,
sem conscieê ncia de suas implicaçoã es ideoloá gicas.
Somem esses treê s fatores e compreenderaã o por que um povo conservador vota em
candidatos comunistas: ele naã o sabe que saã o comunistas, naã o sabe o que haá um movimento
comunista ativíássimo no continente naã o tem a menor ideá ia das consequü eê ncias do seu voto.
As eleiçoã es brasileiras saã o uma farsa no sentido mais exato e integral do termo.
Naã o havendo partidos ou políáticos de direita no Brasil, toda a confrontaçaã o direita-
esquerda que se veê atualmente eá uma obra de engenharia social criada pela proá pria
esquerda com treê s objetivos: (1) ocultar sua hegemonia e seu poder monopolíástico sob uma
apareê ncia de disputa democraá tica normal; (2) neutralizar quaisquer tendeê ncias direitistas,
canalizando-as para uma direita preá -fabricada, a “direita da esquerda”, o que se observou
muito claramente nas duas campanhas eleitorais de Fernando Henrique Cardoso, um
marxista gramsciano que foi alegremente aceito como depositaá rio (infiel, eá oá bvio) da
confiança do eleitorado direitista; (3) dominar todo o espaço políático por meio do jogo de
duas correntes partidaá rias fieá is ao mesmo esquema ideoloá gico, soá separadas pela disputa
de cargos, como aliaá s o reconheceram explicitamente o proá prio Fernando Henrique e o
prof. Christovam Buarque, entaã o um dos mentores do PT. Essas treê s linhas de açaã o definem
exatamente o que Leê nin chamava “estrateá gia das tesouras”, termo inspirado na ideá ia de
cortar com duas laê minas.
O PFL poderia ser um partido de direita, mas, como soá quer cargos e naã o tem nenhuma
perspectiva de poder, consentiu em tornar-se uma filial do PSDB. O PMDB eá esquerdista
desde a origem e estaá repleto de comunistas. O PSDB, a “direita da esquerda”, eá a boca de
funil para onde converge o que possa restar de direitismo hipoteá tico nesses outros
partidos. Tal como o PT, esse partido nasceu na USP, e sua uá nica funçaã o no conjunto da
estrateá gia comunista uspiana eá impedir que os descontentes com o PT acabem se
aglutinando numa direita genuíána.
DA FANTASIA DEPRIMENTE
AÀ REALIDADE TEMIÁVEL[ 74 ]

A
sentença de Hugo von Hofmannsthal jaá citada nesta coluna – “Nada estaá na
realidade políática de um paíás se naã o estiver primeiro na sua literatura” – eá taã o
verdadeira e profunda, que pode ser aplicada aà anaá lise das situaçoã es políáticas
desde vaá rios aê ngulos diferentes, sempre rendendo algum conhecimento.
Vejam, por exemplo, o que aconteceu na Ruá ssia entre a metade do seá culo XIX e a queda da
URSS. Por volta de 1860-70 a cultura russa, ateá entaã o raquíática em comparaçaã o com as da
Europa ocidental, começava a tomar impulso para lançar-se a grandes realizaçoã es. A
inspiraçaã o que a movia era sobretudo a confiança míástica no destino da naçaã o como
portadora de uma importante mensagem espiritual a um Velho Mundo debilitado pelo
materialismo cientificista. Preservada da corrosaã o revolucionaá ria por um regime políático
fortemente teocraá tico em que as crenças oficiais da coê rte e a religiosidade popular se
confirmavam e se reforçavam mutuamente, a Ruá ssia contrastava de maneira dramaá tica com
as naçoã es ocidentais onde a elite e as massas viviam num divoá rcio ideoloá gico permanente e
que por isso soá se modernizavam aà custa de reprimir e marginalizar os sentimentos
religiosos da populaçaã o. O regime tzarista, naã o obstante o peso da sua burocracia
emperrada, havia conseguido encontrar o caminho para reformas que naã o iam contra os
ensinamentos da igreja ortodoxa, mas, bem ao contraá rio, nasciam deles. O futuro da Ruá ssia
parecia emergir diretamente do messianismo cristaã o das duas figuras maá ximas da
intelectualidade russa, o romancista F. M. Dostoieá vski e o filoá sofo Vladimir Soloviev.
Em comparaçaã o com a grande cultura nacional do períáodo, a contribuiçaã o do movimento
comunista russo consistiu sumariamente em rebaixar tudo ao níável de um automatismo
dialeá tico miseraá vel, quando naã o da pura literatura de propaganda. A reduçaã o da cultura
superior a instrumento de formaçaã o da militaê ncia neutralizou os efeitos beneá ficos das
reformas universitaá rias empreendidas pelo governo e transformou grande parte da
juventude letrada russa naquela multidaã o de tagarelas alucinados que povoam os romances
de Dostoieá vski, especialmente Crime e castigo e Os demônios. Experimentem ler qualquer
paá gina de Vladimir Soloviev ou do proá prio Dostoieá vski, depois comparem com as platitudes
revolucionaá rias de George Plekhanov – tido na ocasiaã o como o mais capacitado intelectual
comunista russo – ou com as filosofices grotescas de V. I. Leê nin em Materialismo e
Empiriocriticismo, e saberaã o do que estou falando. Os comunistas começaram por destruir a
inteligeê ncia superior de uma grande naçaã o antes de criar o regime políático mais estuá pido e
animalesco de que se tivera notíácia na Histoá ria. Quem, na eá poca, quisesse prever o futuro da
economia russa sob os comunistas poderia fazeê -lo facilmente por meio da simples avaliaçaã o
da literatura que eles produziam. Mesmo o mais talentoso ficcionista nas hostes
revolucionaá rias, Maxim Gorki, estava formidavelmente abaixo da geraçaã o anterior. Hoje em
dia jaá naã o se pode leê -lo senaã o como documento histoá rico. Nem eá preciso dizer que o mesmo
se aplica aà literatura produzida sob os governos de Leê nin, Staá lin, Kruschev e tutti quanti. Ateá
os melhores romances do períáodo – os de Sholokhov – se tornaram ilegíáveis por excesso de
babaquice revolucionaá ria. Nem falo dos filoá sofos e ensaíástas, uma multidaã o subsidiada que
o tempo de encarregou de jogar na lata de lixo. O pensamento russo soá sobreviveu no
exterior, integrado na cultura europeá ia ou americana, com Berdiaev, Chestov, Sorokin. A
imaginaçaã o literaá ria soá veio a se recuperar a partir anos 50, mas no subterraê neo, longe da
cultura oficial, com Soljeníátsin, Bukovski, Zinoviev. E naã o eá preciso dizer que a inspiraçaã o
para isso veio principalmente do antigo messianismo de Dostoieá vski e Soloviev.
O que sucedeu na cultura literaá ria e filosoá fica reproduziu-se, com exatidaã o milimeá trica, na
economia. Aqueles que se acostumaram a imaginar o tzarismo sob o aspecto estereotipado
da “repressaã o”, do “atraso” e da “decadeê ncia” ignoram solenemente os fatos principais do
períáodo: a progressiva abertura da burocracia para elementos vindos de fora da camada
aristocraá tica (inclusive judeus) e a industrializaçaã o acelerada. Nos cinquü enta anos que
antecederam a revoluçaã o comunista, a economia russa foi a que mais cresceu na Europa,
deixando longe a Inglaterra e a Alemanha que entaã o pareciam ser as encarnaçoã es mesmas
do progresso e das luzes, e soá encontrando rival do outro lado do oceano, nos Estados
Unidos da Ameá rica. Se o regime tzarista naã o tivesse sido destruíádo pela I Guerra Mundial e
pela subsequü ente ascensaã o dos comunistas, o simples crescimento vegetativo da economia
teria acabado por dar aos russos, por volta de 1940, um padraã o de vida comparaá vel ao dos
americanos. Em contraste com isso, na Uniaã o Sovieá tica dos anos 80 o cidadaã o meá dio
consumia menos carne do que um suá dito pobre do tzar um seá culo antes e tinha menos
acesso a automoá veis, assisteê ncia meá dica e serviços puá blicos em geral do que os negros sul-
africanos vivendo sob o regime humilhante do apartheid. Nada estaá na realidade políática de
um paíás que naã o esteja primeiro na sua literatura.
O exemplo russo eá soá um entre muitos. O utopismo abstrato da Revoluçaã o Francesa, que
num choque de realidade acabou levando a resultados taã o paradoxais quanto o terror, a
ditadura napoleoê nica e a restauraçaã o monaá rquica, foi antecedido de pelo menos meio
seá culo de linguagem abstratista, forçada, artificial e artificiosa, que sufocava a experieê ncia
direta sob toneladas de construçoã es idealíásticas sem peá nem cabeça. O processo foi descrito
e analisado com muita acuidade por Hyppolite Taine em Les Origines de la France
Contemporaine (6 vol., 1888-1894), uma das obras histoá ricas mais notaá veis de todos os
tempos. Na Alemanha e na AÁ ustria, a longa degradaçaã o da linguagem puá blica, contra a qual
em vaã o reagiram Karl Kraus e Stefan George, eá hoje reconhecida como um dos fatores que
tornaram possíável a ascensaã o do irracionalismo nazista. De modo geral, a explosaã o de
cacofonias na literatura modernista anunciou e preparou o caminho para a invasaã o dos
totalitarismos: jaá naã o haá como negar isso depois desse tour de force historiograá fico que eá
Rites of Spring: The Great War and the Birth of the Modern Age, de Modris Eksteins (Boston,
Houghton Mifflin, 1989). Naã o, Hofmannsthal naã o deu um palpite a esmo: se nada estaá na
políática que naã o esteja antes na literatura, eá pela simples razaã o de que a imaginaçaã o vem
antes da açaã o. Se haá uma “lei histoá rica” que funcione, eá essa. Digo-o entre aspas porque naã o
eá uma lei histoá rica, eá um dado estrutural da açaã o humana que nenhuma mutaçaã o histoá rica
pode alterar.
Se o leitor compreendeu isso, com muita facilidade perceberaá a loucura suicida que foi
confiar os destinos do Brasil a uma corrente políático-ideoloá gica que, dos anos 70 ateá hoje,
se empenhou sistematicamente em destruir a cultura superior do paíás e de modo especial a
sua literatura, mediante a submissaã o de tudo aà s exigeê ncias estrateá gicas e taá ticas da
“revoluçaã o cultural” de Antonio Gramsci.
O entorpecente gramsciano penetrou no ceá rebro nacional a partir da publicaçaã o das obras
do ideoá logo italiano pelo editor comunista EÊ nio Silveira logo depois do golpe de 1964. Na
confusaã o geral que se apossou das esquerdas ante o fracasso de suas esperanças de
cubanizaçaã o raá pida e indolor da sociedade brasileira, uma ala mergulhou na leitura das
idiotices de Reá gis Deá bray e Che Guevara, torrando suas energias na “revoluçaã o impossíável”
das guerrilhas. Outra, mais esperta, recuou e apostou na estrateá gia de longo prazo que
propunha ir conquistando o universo inteiro das artes, do ensino, da cultura, do jornalismo
– discretamente, como quem naã o quer nada – antes de arriscar a sorte na luta direta contra
o inimigo políático. O governo militar, obsediado pelo empenho de reprimir as guerrilhas,
naã o ligou a míánima para esses empreendimentos pacíáficos, aparentemente inofensivos. Fez
vista grossa e ateá os apoiou como derivativo e alternativa aceitaá vel aà oposiçaã o violenta. A
ideá ia gramsciana foi taã o bem sucedida que, jaá em plena ditadura militar, a esquerda
mandava nas redaçoã es, marginalizando os direitistas mais salientes – Gustavo Corçaã o,
Lenildo Tabosa Pessoa – ateá excluíá-los totalmente das colunas de jornais. O esquerdismo
controlava taã o eficazmente o sistema de ensino, que a proá pria disciplina de Educaçaã o Moral
e Cíávica, timidamente instituíáda por um governo que se abstinha de estender ao campo
cultural a autoridade de que desfrutava na aá rea policial-militar, acabou fornecendo uma
tribuna para a disseminaçaã o das concepçoã es “politicamente corretas” que vieram a forjar a
mentalidade das geraçoã es seguintes. No teatro, no cinema e na TV, a autoridade da
esquerda pode ser medida pelo poder inconteste de veto ideoloá gico exercido, na seleçaã o
das novelas da Globo – o mais vasto aparato de formaçaã o do imaginaá rio popular – pelo casal
de militantes comunistas Dias Gomes e Janete Clair. Ideê ntica filtragem aconteceu no
movimento editorial. Aos poucos, todos os autores naã o aprovados pelo Partido Comunista
desapareceram das livrarias, das bibliotecas escolares, dos programas universitaá rios, e isto
ainda na vigeê ncia de um regime cuja fama de anticomunista intolerante era apregoada aos
quatro ventos pelos proá prios comunistas que se beneficiavam de sua sonsa toleraê ncia e
omissaã o ideoloá gica. Em toda a esfera cultural, artíástica, escolar e jornalíástica, a uá nica
diferença que se viu, com o fim da ditadura, foi a passagem da hegemonia taá cita da
esquerda ao domíánio explíácito e, agora sim, intolerante. A confortaá vel hospitalidade com
que, no tempo dos militares, esquerdistas notoá rios eram aceitos nos mais altos postos do
jornalismo, do ensino e do show business contrasta de tal modo com a exclusaã o radical dos
direitistas hoje em dia, que a aplicaçaã o do termo “ditadura” aà primeira dessas eá pocas e
“democracia” aà segunda acaba soando singularmente iroê nica. Na eá poca havia, eá claro, o
jornalismo “nanico”, soi disant alternativo aà grande míádia. Mas esta uá ltima estava quase que
inteiramente nas maã os de esquerdistas como Claá udio Abramo, Luiz Alberto Bahia, Alberto
Dines, Luiz Garcia e outros tantos, de modo que a diferença com os nanicos era antes de
estilo que de conteuá do. Hoje, os jornalistas “de direita” estaã o todos na míádia nanica. Os
poucos que ainda aparecem nas paá ginas dos grandes jornais saã o apenas colaboradores
contratados. Nem entram nas redaçoã es.
O total domíánio da cultura por uma corrente políática, qualquer que seja, constitui jaá um
mal em si. Mas o que aconteceu no Brasil foi muito mais grave:
1. Aquele domíánio implicava, desde logo, o rebaixamento proposital do níável de exigeê ncia,
em vista da ampliaçaã o semaê ntica do termo “intelectual”, que no contexto gramsciano
abrange a totalidade dos indivíáduos, com qualquer níável de instruçaã o ou QI, que possam
atuar na propaganda ideoloá gica. Daíá derivou a promoçaã o de sambistas, roqueiros,
publicitaá rios e strip-teasers ao estatuto de “intelectuais”, que resultou em uá ltima anaá lise
nesse descalabro da promoçaã o do sr. Gilberto Gil ao cargo de ministro “da cultura”.
2. O proá prio termo “cultura” perdeu toda acepçaã o qualitativa e pedagoá gica, reduzindo-se
ao seu uso antropoloá gico como denominaçaã o neutra e geral das “formas de expressaã o”
populares. Nesse sentido, o samba-de-roda do Recoê ncavo Baiano deve ser incluíádo, segundo
aquele ministro, entre os grandes tesouros culturais da humanidade, junto com a filosofia
de Aristoá teles, a Catedral de Chartres e a mecaê nica quaê ntica. Todo es igual, nada es mejor.
3. De maneira mais geneá rica, toda diferenciaçaã o do melhor e do pior, do mais alto e do
mais baixo acabou sendo condenada como discriminatoá ria e ateá racista. Milhares de livros e
teses universitaá rias foram produzidos para consagrar como fundamento da cultura
brasileira a proibiçaã o de distinguir (que naã o obstante continuou sendo usada contra “a
direita”).
4. Para legitimar o estado de total confusaã o mental daíá decorrente, introduziram-se os
princíápios do relativismo e do desconstrucionismo, que, a pretexto de promover um
pensamento supraloá gico, destroem nos estudantes ateá mesmo a capacidade de raciocíánio
loá gico elementar, substituíáda por uma verborreá ia presunçosa que lhes daá uma ilusaã o de
superioridade justamente no momento em que mergulham no mais fundo da estupidez.
5. Uma vez amortecida a capacidade de distinçaã o, foi faá cil disseminar por toda a sociedade
os contravalores que deram forma ao Estatuto da Criança e a outros instrumentos legais
que protegem os criminosos contra a sociedade, criando propositadamente o estado de
violeê ncia, terror e anomia em que hoje vivemos, e do qual a proá pria esquerda se aproveita
como atmosfera propíácia para o comeá rcio de novas propostas salvadoras.
Uma corrente políática capaz de rebaixar a esse ponto a inteligeê ncia e a capacidade de
discernimento de um povo naã o hesitaraá em destruir o paíás inteiro para conquistar mais
poder e realizar os planos concebidos em encontros semi-secretos com movimentos
revolucionaá rios e organizaçoã es criminosas do exterior.
A esquerda brasileira – toda ela – eá um bando de patifes ambiciosos, amorais,
maquiaveá licos, mentirosos e absolutamente incapazes de responder por seus atos ante o
tribunal de uma conscieê ncia que naã o teê m.
Estaá na hora de o paíás retirar de uma vez o voto de confiança que deu a essa gente num
momento de fraqueza fabricado por ela proá pria.
PERDENDO A GUERRA CULTURAL[ 75 ]

C
ultura eá o novo nome da propaganda”, explicava o críático literaá rio portugueê s
Fernando Alves Cristoá vaã o. Bem, quando ele disse isso, o nome naã o era taã o novo
assim. Fazia quase setenta anos que os comunistas haviam reduzido a cultura a
instrumento de propaganda e manipulaçaã o, rejeitando todos os seus demais usos e
significados como superfetaçoã es burguesas puníáveis, eventualmente, com pena de prisaã o. A
novidade, nos anos 90, era que esse conceito havia se universalizado, tornando-se regra
usual em cíárculos que antes o teriam desprezado como mero sintoma da barbaá rie
comunista. A expressaã o mais visíável desse fenoê meno eá a mudança draá stica do sentido do
tíátulo de “intelectual”, hoje conferido automaticamente a qualquer um que engrosse por
escrito alguma campanha de propaganda políático-ideoloá gica, mesmo que o faça em termos
intelectualmente desprezíáveis e numa linguagem de ginasiano relapso.
O plano de colocar o sr. Lula na Academia Brasileira de Letras, lançado anos atraá s pelo
falecido cientista políático Raymundo Faoro, naã o foi levado adiante, mas jaá era um sinal
visíável de que a acepçaã o elasticamente gramsciana do termo “intelectual” se tornara moeda
corrente fora dos meios comunistas estritos. Mais ou menos na mesma ocasiaã o, o sr.
William Lima da Silva, líáder do Comando Vermelho, por ter escrito um livro de memoá rias
onde alegava que bandidos eram os outros, recebia tratamento de autor respeitaá vel em
plena Associaçaã o Brasileira de Imprensa, enquanto na Folha de Saã o Paulo a jornalista
Marilene Felinto dava estatuto de filoá sofo ao estuprador e assassino Marcinho VP, que salvo
engano tinha tambeá m olhos verdes. O silogismo aíá subentendido fundia Herbert Marcuse e
Antonio Gramsci. O primeiro dizia que os bandidos eram revolucionaá rios. O segundo, que
os revolucionaá rios eram intelectuais. Logo, os bandidos eram intelectuais. A ABI e a Folha
naã o eram instituiçoã es formalmente comunistas. Apenas tinham-se deixado dominar pela
mentalidade comunista ao ponto de obedecer os seus mandamentos sem ter de aderir
conscientemente aà sua proposta políática.
Mas o pior veio uns anos depois, quando a reduçaã o da cultura aà propaganda começou a
parecer natural e desejaá vel aos olhos dos conservadores – ou “liberais”, como saã o chamados
usualmente no Brasil (mais uma curiosa inversaã o numa repuá blica onde tudo cresce de
cabeça para baixo, como as bananas). Aconteceu que o conservadorismo brasileiro foi, em
esseê ncia, uma criaçaã o de pequenos empresaá rios. Essas pobres criaturas, acossadas pelo
fisco, pelas leis trabalhistas, pela concorreê ncia das multinacionais e pela crença estatal de
que os capitalistas soá naã o comem criancinhas porque preferem vendeê -las sob a forma de
salsichas, estavam taã o preocupadas com a sua sobreviveê ncia imediata que mal tinham
tempo de pensar em outra coisa. Seu conservadorismo – ou liberalismo – foi assim reduzido
aà sua expressaã o mais frugal, asceá tica e descarnada: a defesa pura e simples do livre
mercado, tomado como se fosse uma realidade em si e separado das condiçoã es
civilizacionais e culturais que o tornam possíável.
O primado do econoê mico, adotado inicialmente por mera urgeê ncia praá tica, acabou
adquirindo, por força do haá bito, o estatuto de uma verdade axiomaá tica, da qual se deduziam
as conclusoã es mais estapafuá rdias e perigosas. Talvez a pior delas fosse a de que o progresso
econoê mico eá a melhor vacina contra as revoluçoã es sociais. O fato de que jamais tivesse
acontecido uma revoluçaã o social em paíás de economia declinante naã o abalava em nada o
otimismo progressista daqueles risonhos empreendedores, que julgavam o estado geral da
naçaã o pelo balancete de suas respectivas empresas e se julgavam tremendamente realistas
por isso. Nem os demovia da sua crença a obviedade histoá rica, jaá reconhecida pelos
proá prios marxistas, de que a classe revolucionaá ria naã o se forma entre os proletaá rios ou
camponeses, muito menos entre os miseraá veis e desempregados, mas entre as massas
afluentes de classe meá dia alimentadas de doutrina comunista nas universidades.
De outro lado, aconteceu que os liberais, ao mesmo tempo que se inchavam de
entusiasmo ante a modesta recuperaçaã o econoê mica do paíás, eram cada vez mais excluíádos
da representaçaã o políática. As eleiçoã es presidenciais de 2002 ofereceram aà escolha do
eleitorado quatro candidatos esquerdistas, dos quais nenhum, ao longo de toda a
campanha, disse uma soá palavra em favor da livre empresa. Nos anos subsequü entes, o
partido nominalmente liberal – PFL – adaptou-se aà s circunstaê ncias aceitando sua condiçaã o
de mero coadjuvante da esquerda light, mudou de nome para ficar parecido com o Partido
Democrata americano (o partido preferido de Hugo Chaá vez e Fidel Castro) e nem mesmo
resmungou quando foi declarado, pelo presidente petista reeleito, “um partido sem
perspectiva de poder”.
Condenados aà marginalidade políática, mas ao mesmo tempo anestesiados pelos sinais
crescentes de recuperaçaã o da economia capitalista no paíás, os liberais apegaram-se mais
ainda ao seu economicismo, desistindo do combate nos demais fronts , quando naã o
aderindo ao programa esquerdista em todos os pontos sem relevaê ncia econoê mica imediata,
como o gayzismo, o abortismo, as quotas raciais e o anticristianismo militante, na
esperança louca de concorrer com a esquerda no seu proá prio campo, sem perceber que
com isso concediam ao adversaá rio o monopoá lio da propaganda ideoloá gica e se
transformavam em doá ceis instrumentos da “revoluçaã o cultural” gramsciana.
EÁ compreensíável que, nessas condiçoã es, toda a atividade mental da “direita” brasileira
acabasse se reduzindo aà s anaá lises econoê micas e aà propaganda de um produto uá nico – o
livre mercado –, perdendo toda relevaê ncia no debate cultural e rebaixando-se ao ponto de
passar a aceitar como “intelectual representativo” qualquer moleque idiota capaz de dizer
duas ou treê s palavrinhas contra a intervençaã o estatal no mercado.
Ironicamente, a esquerda, no mesmo períáodo, decaiu intelectualmente ao ponto de raiar a
barbaá rie pura e simples, mas, como os liberais naã o se interessavam pela luta cultural,
continuou desfrutando do prestíágio inalterado de suprema autoridade intelectual no paíás,
sem sofrer nenhum abalo mais forte desde a publicaçaã o do meu livro O Imbecil Coletivo
(1996).
Nunca, como ao longo das uá ltimas deá cadas, o esquerdismo esteve taã o fraco
intelectualmente: um ataque maciço a esse flanco teria quebrado a maá quina de doutrinaçaã o
esquerdista nas universidades e na míádia, destruindo no berço a militaê ncia em formaçaã o e
mudando o curso das eleiçoã es subsequü entes. Mil vezes tentei mostrar isso aos liberais, mas
eles soá davam ouvidos a quem falasse em PNB e investimentos. Trancaram-se na sua torre-
de-marfim economicista e laá se encontram ateá hoje, perdendo mais terreno para os
esquerdistas a cada dia que passa e conformando-se com sua condiçaã o de forças auxiliares,
destinadas fatalmente a tornar-se cada vez mais desnecessaá rias aà medida que a esquerda
naã o-petista acumule vitoá rias contra o partido governante.
Fora dos cíárculos do liberalismo oficial, noto com satisfaçaã o algumas iniciativas novas
destinadas a formar uma intelectualidade conservadora e liberal apta a oferecer uma
resisteê ncia seá ria aà “revoluçaã o cultural”. Essas iniciativas partem de estudantes, de
intelectuais isolados, e naã o teê m nenhum apoio nem dos partidos “de direita”, nem muito
menos do empresariado. Mas eá delas que dependeraá o futuro do paíás, se algum houver.
ARREDONDANDO OS QUADRADOS[ 76 ]

A s premissas do marxismo-pragmatismo saã o tolices sem sentido. Se uma coisa naã o eá


nada em si mesma, como poderíáamos transformaá -la em outra?
Dentre as inumeraá veis regras que governam a estupidez humana, estas duas, opostas e
complementares, saã o de especial importaê ncia para elucidar a conduta de intelectuais,
políáticos e formadores de opiniaã o em geral:
Regra nº 1 – se um sujeito estaá persuadido de que os quadrados saã o redondos, ele faraá
todo o possíável para arredondaá -los.
Regra nº 2 – se o mesmo indivíáduo ou outro parecido tem algum interesse em arredondar
os quadrados, ele juraraá que eles saã o redondos por natureza.
O pragmatismo, uma modalidade especialmente elegante de estupidez, fundiu essas
regras numa soá e as erigiu em princíápio fundamental do conhecimento: os conceitos das
coisas naã o dizem o que elas saã o, mas o que planejamos fazer com elas.
Para justificar a afirmativa, que soava um tanto paradoxal e interesseira aà primeira
audiçaã o, essa mimosa escola filosoá fica argumentou que o pensamento eá açaã o, que portanto
pensar numa coisa jaá eá fazer algo com ela. Todos os atos cognitivos tornavam-se assim uma
forma de manipulaçaã o da realidade, o que resultava em suprimir toda possibilidade de
conhecimento teoreá tico e afirmar resolutamente que soá existe conhecimento praá tico.
Enquanto na Ameá rica Charles Peirce, William James e Josiah Royce se compraziam nessas
reflexoã es taã o agradaá veis aos homens de induá stria, para os quais tudo o que existe naã o passa
de mateá ria-prima para a produçaã o de outra coisa que tambeá m naã o existiraá senaã o como
projeçaã o do que os consumidores pretendam fazer com ela, do outro lado do oceano um
cidadaã o que odiava homens de induá stria vinha inventando umas ideá ias bem parecidas.
Para Karl Marx, uma cieê ncia que pretenda descrever o mundo como ele eá naã o passa de
uma ilusaã o burguesa, nascida da divisaã o do trabalho. Como os burgueses ficam no
escritoá rio ou em casa, sem sujar suas maã ozinhas na luta direta com a mateá ria industrial,
eles imaginam que haá uma diferença entre conhecimento teoá rico e praá tico. Mas os
proletaá rios, que pegam no pesado para executar os planos dos burgueses, sabem que seus
esforços de todos os dias saã o a materializaçaã o viva das ideá ias burguesas, as quais portanto
naã o teê m nenhuma existeê ncia em si mesmas e saã o apenas planos malignos de obrigar o
proletariado a fazer isso ou aquilo. A verdadeira cieê ncia, concluíáa Marx, naã o consiste em
conhecer a realidade, mas em transformaá -la. Os burgueses jaá praticavam essa cieê ncia, mas
naã o podiam confessar que faziam isso: para preservar sua auto-imagem de pessoas
decentes enquanto sugavam o sangue dos proletaá rios, tinham de se enganar a si mesmos
imaginando que sua concepçaã o do mundo era pura contemplaçaã o teoreá tica, alheia a
interesses menores. Daíá o culto burgueê s da “cieê ncia” como uma espeá cie de religiaã o leiga,
personificada no clero universitaá rio que, da Idade das Luzes em diante, sobrepunha sua
autoridade aà dos padres e bispos medievais.
Naã o demorou muito para que essas duas correntes de ideá ias anaá logas, vindas de
continentes distantes, se fundissem numa cabeça especialmente imaginativa, a do filoá sofo
italiano Antonio Labriola, segundo o qual o marxismo eá uma espeá cie de pragmatismo e
vice-versa. Labriola repassou essa descoberta a seu discíápulo Antonio Gramsci, que a
transformou numa genial estrateá gia de propaganda revolucionaá ria: jaá que as coisas naã o saã o
nada em si mesmas, elas podem ser o que o Partido determine que elas sejam.
Consequü entemente, naã o existe conhecimento da verdade, mas “construçaã o coletiva” da
uá nica realidade verdadeira: a conquista do poder, a gloá ria final do partido revolucionaá rio.
As ideá ias de Gramsci penetraram taã o profundamente na alma do esquerdismo universal,
que ateá o militante mais sonso, incapaz de atinar com qualquer sutileza, acaba se deixando
conduzir por elas na praá tica, por uma espeá cie de mimetismo inconsciente. EÁ com uma total
naturalidade que essas pessoas falam a toda hora em “construçaã o da verdade” e
“construçaã o da memoá ria”, sem ter a míánima suspeita de que esses giros de linguagem
implicam de fato a negaçaã o de toda verdade objetiva, o intuito de transformar os fatos em
vez de conheceê -los.
Num trabalho publicado em 2002, defendendo a criaçaã o de “centros de memoá ria
empresarial”, a historiadora Marieta de Moraes Ferreira, com aquela candura tocante,
declarava que o objetivo dessas entidades era “acompanhar o trabalho permanente de
construçaã o da memoá ria ao selecionar o que deve ser valorizado e o que deve ser esquecido”.
[ 77 ]
Em 2007, no I Congresso de Ex-Presos e Perseguidos Políáticos, falando em favor daquilo
que viria a ser a malfadada “Comissaã o da Verdade”, o promotor Marlon Weichert advogava
bravamente a “construçaã o da verdade, atraveá s da abertura dos arquivos”. Quando a
proposta tomou forma, tornando-se evidente aos olhos de todos que se tratava de
investigar metade dos crimes e abafar a outra metade, ningueá m se lembrou de observar que
a seletividade deformante naã o era uma distorçaã o da ideá ia original, mas a sua realizaçaã o
literal e exata, perfeitamente coerente com as doutrinas de Labriola e Gramsci. Naã o por
coincideê ncia, o mesmo evento no qual o promotor apresentou sua proposta encerrou-se
com uma comovida homenagem aos assassinos Pedro Lobo e Carlos Lamarca, este uá ltimo o
nobre detentor do meá rito de haver esmigalhado a coronhadas a cabeça de um prisioneiro
amarrado.
Mas naã o foi soá nos meios mais obviamente militantes que o espíárito do marxismo
pragmatista deixou suas marcas. Nas faculdades de letras, a crença de que os textos naã o teê m
nenhum significado em si mesmos, de que cada leitor “constroá i sua leitura” conforme bem
entenda, tornou-se uma claá usula peá trea dos estudos literaá rios. Se o aluno protesta contra
alguma interpretaçaã o cretina, alegando “Naã o foi isso o que o autor quis dizer”, tem um zero
garantido. Os autores naã o dizem nada, meu filho: voceê eá que “constroá i” as obras deles. Em
educaçaã o infantil, a longa hegemonia das doutrinas “construtivistas” de Jean Piaget, Emilia
Ferrero, Paulo Freire e tutti quanti consagrou a estupidificaçaã o geral da meninada como
uma grande realizaçaã o pedagoá gica: naã o se espante quando seu filho voltar da escola seguro
de que o teorema de Pitaá goras eá uma imposiçaã o cultural arbitraá ria, de que Jesus Cristo era
gay ou de que existem campos de concentraçaã o em Israel. Afinal, a realidade eá pura
construçaã o.
As premissas do marxismo-pragmatismo saã o tolices sem sentido. Se uma coisa naã o eá nada
em si mesma, como poderíáamos transformaá -la em outra? Se os conceitos nada dizem sobre
a realidade, tambeá m naã o podem dizer nada sobre o nosso conhecimento da realidade, o
qual eá tambeá m uma realidade. Se nossa apreensaã o das coisas naã o nos daá o conhecimento do
que elas saã o, mas soá do que planejamos fazer com elas, como poderíáamos conhecer nosso
proá prio plano se naã o inventando algum outro plano a respeito dele, e outro, e outro mais, e
assim por diante ateá o infinito. Como outras tantas modas intelectuais, o marxismo-
pragmatismo eá uma teá cnica de preencher o vazio com o vaá cuo.
Mas, quando uma doutrina idiota se impregna em toda uma cultura como essa se
impregnou na cultura contemporaê nea, a proá pria idiotice se torna premissa fundante de
inumeraá veis argumentos em circulaçaã o, investida de força probatoá ria automaá tica, e toda
resisteê ncia que se lhe ofereça toma ares de heterodoxia extravagante e abominaá vel.
REVOLUÇAÃ O SOCIAL[ 78 ]

R
evoluçaã o social naã o eá , como dizem os marxistas, a substituiçaã o de uma “classe
dominante” por outra. Isso eá apenas uma figura de linguagem, uma metoníámia.
Ao fim de uma revoluçaã o social, os mesmos grupos ou pessoas podem continuar
no poder. Isso naã o faz a mais míánima diferença. Substantivamente, literalmente,
revoluçaã o social eá uma mudança radical dos meios de alcançar riqueza, prestíágio e poder.
Quem manda pode continuar mandando, mas por outras vias. Por exemplo, na Idade Meá dia
europeá ia, havia os seguintes meios de subir na vida (ou de manter-se no alto): a posse da
terra, por conquista ou herança; a profissaã o militar; uma bem sucedida carreira eclesiaá stica.
Fora disso, mesmo que voceê tivesse muito dinheiro, mesmo que fosse um geê nio, naã o
chegaria ao primeiro escalaã o do poder. Quando se formaram os Estados nacionais
modernos, os reis precisaram de dinheiro para criar exeá rcitos que pudessem sobrepor-se
ao poderes locais, assim como de uma burocracia administrativa e juríádico-policial, que
desse ao governo central o controle do paíás inteiro. Resultado: de repente, banqueiros e
burocratas passaram a mandar mais que os baroã es e cardeais. Isso quer dizer que entrou
no poder uma nova “classe social”? Naã o. Na Inglaterra, a velha classe aristocraá tica ocupou
os lugares na nova hierarquia, e continuou mandando. Na França, deixou a vaga para uma
horda de alpinistas sociais, e estes tomaram o seu lugar. Nos dois casos houve uma
revoluçaã o social. Revoluçaã o social naã o eá troca de classe dominante: eá troca dos meios de
tornar-se (ou permanecer) classe dominante.
No Brasil um processo claro, patente, manifesto de revoluçaã o social estaá em curso, e
aparentemente ningueá m, fora os comandantes do processo – que ao menos por enquanto
naã o teê m o menor interesse de alardeaá -lo –, parece dar-se conta disso.
Ateá uns anos atraá s, ganhar dinheiro na induá stria, no comeá rcio ou na agricultura era um
meio seguro de chegar ao poder ou ao menos de influenciar os ocupantes do poder. Uma
carreira militar bem sucedida tinha o mesmo resultado. Ser um cientista, um teá cnico, um
erudito, um escritor, um jurista de primeira ordem, idem.
Agora, todos esses velhos meios de ascensaã o estaã o sendo substituíádos por um novo, que
os domina e os controla. Isso naã o quer dizer que naã o funcionem mais. Funcionam, mas
como instrumentos auxiliares do meio principal, que rapidamente vai-se tornando o uá nico
legíátimo, o uá nico socialmente aprovado. Para adquirir ou conservar poder e prestíágio no
Brasil de hoje, ateá mesmo para conservar alguma margem de liberdade e segurança, voceê
tem de pertencer ao Partido governante, a um de seus associados ou aos grupos de
influeê ncia que orbitam em torno dele. Chamemos a esse pool de organizaçoã es, para
simplificar, o Esquema. Na mais tolerante das hipoá teses, voceê tem de negociar com essa
gente e ceder. Ceder ateá o extremo limite da degradaçaã o e da humilhaçaã o. Aíá permitem que
voceê conserve o seu lugar na sociedade, mas sempre como concessaã o provisoá ria, jamais
como direito adquirido.
Suponha que voceê seja um juiz de Direito. Ateá algum tempo atraá s, isso garantia poder,
segurança e liberdade. Agora, depende de que voceê sentencie de acordo com a vontade do
Esquema. Se voceê o contraria, logo descobre que grupos de pressaã o mandam mais que uma
sentença judicial. De algum modo, todas as sentenças jaá veê m prontas, assinadas pelo
Esquema. As outras saã o inoá cuas.
Nem falo dos empresaá rios. Podem ganhar dinheiro a rodo, mas toda a sua influeê ncia no
poder consiste em tentar ser uá teis ao Esquema, que os tolera como um mal provisoá rio.
E se voceê eá um general de Exeá rcito, deê graças aos ceá us de que o Esquema lhe garanta
ainda um lugarzinho no palanque, em troca das condecoraçoã es que voceê deu a comunistas,
terroristas aposentados e ladroã es notoá rios.
Um simples posto na diretoria de “movimento social” daá mais poder que tudo isso junto.
Coloca voceê acima das leis, dos Direitos Humanos, da Constituiçaã o, dos Dez Mandamentos e
das exigeê ncias da aritmeá tica elementar (num paíás que tem 50 mil homicíádios por ano, as
mortes de duzentos homossexuais no meio dessa massa de víátimas naã o consta oficialmente
como prova de uma epidemia de violeê ncia anti-gay?).
Os novos meios de subir e cair jaá saã o uma realidade, jaá saã o a nova estrutura social.
Quarenta anos de revoluçaã o cultural anestesiaram a populaçaã o para que a aceitasse sem um
pio, sem um vago sentimento de desconforto sequer. Essa etapa estaá encerrada. A revoluçaã o
social jaá veio, jaá estaá aíá, e a uá nica reaçaã o do povo e das elites eá procurar desesperadamente
um lugarzinho aà sombra dela, a abençoada proteçaã o do Esquema.
RECORDAÇOÃ ES INUÁ TEIS[ 79 ]

U
ma fraqueza croê nica do pensamento liberal eá que, em sua resisteê ncia obstinada e
naã o raro heroá ica ao crescimento do poder estatal, acaba por fazer vista grossa ao
fato de que nem sempre os movimentos revolucionaá rios e ditatoriais concentram
o poder no Estado, mas aà s vezes fora dele. Na verdade, nenhum movimento
poderia se apossar do Estado se primeiro naã o se tornasse mais poderoso que ele, criando
meios de açaã o capazes de neutralizar e sobrepor-se a qualquer interfereê ncia estatal
adversa, bem como, eá claro, de manobrar o Estado desde fora e utilizaá -lo para seus proá prios
fins. Qualquer principiante no estudo do leninismo sabe disso.
Que a esquerda petista e proá -petista estava destinada a dominar por completo o Estado
brasileiro sem encontrar a mais míánima resisteê ncia, eá coisa que para mim jaá estava clara
pelo menos desde 1993, quando as famosas CPIs mostraram ser o nosso Parlamento nada
mais que um bichinho doá cil aà s injunçoã es da grande míádia, alimentada e manobrada por sua
vez pelo onipresente e onissapiente serviço de informaçoã es do PT. Foi naquele ano que
publiquei “A Nova Era e a Revoluçaã o Cultural”, dando cieê ncia – a quem naã o desejava cieê ncia
nenhuma, por achar que jaá possuíáa todas – de que a petizaçaã o integral do Brasil era apenas
questaã o de tempo. Mal havia entaã o, entre os liberais, quem imaginasse sequer que o PT
pudesse vir a ter alguma chance de eleger um presidente da Repuá blica. E todos me olhavam
como a um egresso do Pinel quando eu lhes dizia que, quando isso viesse a acontecer, como
fatalmente aconteceria, seria numa ocasiaã o em que o Estado jaá estivesse completamente
dominado por dentro e por fora, a conquista do governo federal nada mais constituindo que
a oficializaçaã o derradeira de um fato longamente consumado.
Enquanto isso, a intelectualidade liberal gastava todos os seus neuroê nios no empenho
idealíástico de defender no plano doutrinaá rio a economia de mercado e a liberdade
democraá tica, duas coisas que a esquerda nem pensaria em atacar muito seriamente
naquele momento, jaá que precisava de ambas para poder parasitaá -las e continuar crescendo
ateá ficar forte o bastante para subjugaá -las, deformaá -las e, no devido tempo (que soá agora
estaá chegando) extingui-las.
Havia ateá quem celebrasse a proliferaçaã o das ONGs como um progresso notaá vel da
democracia liberal, na medida em que, consagrando as vias naã o-oficiais de açaã o social e
políática, fortalecia a sociedade civil contra as pretensoã es avassaladoras do gigantismo
estatal.
Em vaã o advertia eu a essas criaturas que a “sociedade civil” era o terreno de escolha para
a penetraçaã o das forças revolucionaá rias, decididas a soá se lançar aà conquista do poder de
governo quando estivessem seguras de controlar, por vias naã o-oficiais, todos os meios
possíáveis de modelagem da opiniaã o puá blica, assim como todos os canais de financiamento
estatal e privado de uma multidaã o de empreendimentos revolucionaá rios maiores e
menores, setorizados e discretos o bastante para que seu efeito de conjunto simulasse uma
transformaçaã o espontaê nea da mentalidade popular. A proá pria disseminaçaã o do termo,
insistia este insano colunista, refletia a influeê ncia crescente e anoê nima do pensamento de
Antonio Gramsci, naquela eá poca jaá o autor mais estudado e mais citado em todas as
faculdades de letras e de cieê ncias humanas no Brasil, soá ignorado por aqueles que mais
interesse deveriam ter em defender-se da revoluçaã o gramscista.
O primeiro sinal de que algueá m havia me prestado alguma atençaã o naã o veio senaã o
decorrida quase uma deá cada, e naã o veio dos liberais. Um artigo memoraá vel do general Joseá
Faá brega, publicado em jornal de pequena circulaçaã o, mostrou que entre os militares havia
ainda alguma inteligeê ncia desperta, o que veio a se comprovar nos anos seguintes com os
dois livros espetaculares, tecnicamente perfeitos, do general Seá rgio Augusto de Avelar
Coutinho, A Revolução Gramscista no Ocidente (Rio de Janeiro, Estandarte, 2002) e Cadernos
da liberdade (Belo Horizonte, Grupo Inconfideê ncia, 2004), infelizmente publicados tarde
demais para poder inspirar qualquer açaã o eficaz contra o projeto de controle hegemoê nico
da sociedade brasileira, aà quela altura jaá praticamente vitorioso. O general Coutinho faleceu
em 27 de dezembro de 2011, amargurado de ver a facilidade estonteante com que a malíácia
organizada – que a estrateá gia de Gramsci naã o passa disso – havia se apoderado do paíás. O
que mais o entristecia era que um processo de dominaçaã o taã o oá bvio, taã o patente, taã o bem
explicado de antemaã o e taã o faá cil de compreender, pudesse ter sido aplicado a toda uma
naçaã o de maneira taã o anesteá sica e imperceptíável que qualquer gemido de protesto acabasse
soando como extravagaê ncia intoleraá vel e quase sinal de demeê ncia. Se no resto do mundo a
vida imita a arte, no Brasil ela imita a piada: nossa democracia realizou aà risca, com seá culos
de atraso, a boutade de Jonathan Swift sobre o cidadaã o que morreu mas, naã o tendo sido
avisado disso, continuava acreditando que estava vivo.
A CAMUFLAGEM DA CAMUFLAGEM[ 80 ]

R
epito, pela eneá sima vez, o conselho de Georg Jellinek: no estudo da sociedade, da
políática e da Histoá ria, a precauçaã o nuá mero um eá distinguir entre os processos que
nascem de uma açaã o consciente e os que resultam da conflueê ncia impremeditada
de fatores diversos.
Ao longo da minha vida de estudos, fui colhendo, aqui e ali, alguns preceitos que, por sua
evideê ncia maá xima e seu poder elucidativo, acabaram se incorporando definitivamente aà s
minhas faculdades de percepçaã o e continuam guiando os passos da minha vacilante ineá pcia
entre as brumas e a fumaça da confusaã o contemporaê nea.
Esse eá um deles.
O víácio de tudo querer reduzir a “leis histoá ricas”, “estruturas”, “causas” e outras forças
anoê nimas, suprimindo do panorama os agentes conscientes e todo elemento de
premeditaçaã o, soá tem de cientíáfico a apareê ncia enganosa que deslumbra e fascina multidoã es
de estudantes devotados a alcançar, como supremo objetivo na vida, a perfeita
macaqueaçaã o do discurso pedante sem o qual naã o se avança na carreira acadeê mica.
Isso eá taã o prejudicial aà compreensaã o dos fatos quanto o velho mito carlyleano que fazia do
universo histoá rico inteiro o cenaá rio passivo da açaã o criadora de uns quantos indivíáduos
notaá veis, heroá is ou monstros sobre-humanos.
Jellinek acertou na mosca quando transpoê s ao cenaá rio maior da histoá ria e da sociedade
um dado do senso comum, que ateá os mais burros e inexperientes sabem aplicar na
existeê ncia de todos os dias, e que mais tarde Ortega y Gasset resumiria na foá rmula
exemplar: “La vida es lo que hacemos... y lo que nos pasa”. Nossa vida resulta da mistura
entre aquilo que fazemos e aquilo que nos vem de fora sem qualquer iniciativa da nossa
parte.
O culto unilateral das causas impessoais resulta, em parte, de um preconceito positivista e
marxista que aliaá s nem Comte nem Marx jamais subscreveriam, em parte de um instintivo
desejo humano de pular fora de toda responsabilidade pessoal concreta (fazendo, por
exemplo, dos criminosos as víátimas inermes e santas da maá distribuiçaã o de renda). Mas
resulta tambeá m, e com muita frequü eê ncia, da astuá cia dos proá prios agentes histoá ricos, que se
escondem por traá s de forças anoê nimas para naã o ser pegos de calças na maã o em pleno ato de
implementar algum plano que dependa, para o seu sucesso, da discriçaã o e do segredo. Naã o
haá nada de estranho em que esses agentes, com aquela expressaã o inconfundíável de
dignidade ofendida que soá os mais rematados hipoá critas conseguem imitar com perfeiçaã o,
recorram ao roá tulo infamante de “teoria da conspiraçaã o” sempre que algueá m os acuse de
fazer o que estaã o fazendo. Tambeá m eá compreensíável que ningueá m tenha feito apelo mais
reiterado e constante a essa camuflagem do que aquele movimento que, desde suas origens,
assumiu a clandestinidade como condiçaã o essencial do seu modo de açaã o e a duplicidade
escorregadia da dialeá tica como seu linguajar oficial. Refiro-me, eá claro, ao movimento
comunista. E mais compreensíável ainda eá que essa auto-ocultaçaã o sistemaá tica tenha
redobrado de eficaá cia desde o momento em que Antonio Gramsci ensinou a seus
companheiros que a mentira e o fingimento naã o eram apenas um instrumento taá tico, por
obrigatoá rio e consagrado que fosse, mas sim a proá pria natureza íántima, a esseê ncia e a chave
do processo revolucionaá rio como um todo.
Sim, a verdade eá essa. Despido dos adornos humanitaá rios que o embelezaram ex post
facto, e que comparados aà truculeê ncia grossa e crua de seus antecessores sovieá ticos lhe daã o
mesmo uma apareê ncia angeá lica, o gramscismo naã o eá nada mais, nada menos, que a mais
completa, abrangente e meticulosa sistematizaçaã o do engodo como meá todo essencial da
açaã o políática – e o eá em escala ainda mais vasta e em sentido ainda mais radical do que o
Príáncipe de Maquiavel, que lhe serviu de inspiraçaã o remota e esboço primitivo.
Como descrever, senaã o nesses termos, uma estrateá gia sutil planejada para que todas as
pessoas vaã o se tornando socialistas pouco a pouco, sem percebeê -lo, e da noite para o dia
acordem em plena ditadura socialista sem ter a menor ideá ia de como, quando e por que
maã os se operou taã o tremendo milagre?
Essa eá , sem nenhuma imprecisaã o ou exagero, a definiçaã o e a foá rmula da estrateá gia de
Gramsci para a conquista do poder absoluto pelo movimento comunista.
Mas toda camuflagem que se preze eá dupla: encobre primeiro o objeto que quer ocultar e
depois se camufla a si mesma, para passar despercebida. Taã o logo as obras de Antonio
Gramsci começaram a ser publicadas em 1947, a intelligentzia esquerdista se apressou a
classificaá -las – e a elite conservadora a aceitaá -las sonsamente – como expressoã es de um
“marxismo ocidental” original, naã o-dogmaá tico, marginal e independente do tronco oficial
do movimento comunista.
O que aconteceu foi que, apoá s ter sido oficialmente impugnada ateá aà morte de Stalin em
1955, a estrateá gia gramsciana foi adotada integral e entusiasticamente pela KGB e, desde o
iníácio dos anos 60, aplicada em todo o Ocidente com a pletora de recursos financeiros e
instrumentos de açaã o acessíáveis aà quela que era, e eá ainda sob outro nome, a maior e mais
poderosa organizaçaã o de qualquer tipo que jaá existiu no mundo. Na verdade, o proá prio
Staá lin soá rejeitou a parte do gramscismo que preconizava a independeê ncia dos partidos
comunistas nacionais, mas naã o deixou de se utilizar de teá cnicas da “revoluçaã o cultural”
desde a deá cada de 30, especialmente nos EUA.
Esses dois fatos poderiam ter sido antevistos em tempo, com um pouco de inteligeê ncia. No
entanto, mesmo depois de bem comprovados pelos documentos dos Arquivos de Moscou,
ainda haá quem teime em ignoraá -los.

[ 26 ] Rio de Janeiro: Record, 1993.


[ 27 ] Ibid., p. 197.
[ 28 ] Ibid., p. 51.
[ 29 ] Ibid., p. 67.
[ 30 ] Ibid., p. 44.
[ 31 ] Ibid., p. 70.
[ 32 ] Ibid., p. 77-78, grifos meus.
[ 33 ] Ao escrever este Apeê ndice, naã o tive a intençaã o de diagnosticar positivamente a intençaã o com que os militantes
ensinaram guerrilha aos bandidos; quis apenas afastar, por absurda, a hipoá tese de ausência de intenção. Alguns leitores
pediram-me depois conclusoã es positivas, que eu naã o estava e naã o estou em condiçoã es de oferecer, jaá que elas soá podem ser
obtidas por uma sondagem histoá rica e documentada, que ultrapassa meu escopo e meus recursos. A tíátulo de mera
hipoá tese, notem bem, e sem qualquer pretensaã o de acertar, conjeturo no entanto que pode ter havido, entre os militantes
esquerdistas, uma duplicidade ou obscuridade de intençoã es — alguns propondo explicitamente a integraçaã o do
banditismo na luta de classes, outros rejeitando-a como inviaá vel mas desejando-a no fundo e, enfim, colaborando com ela
mais ou menos aà s tontas. A posterior recusa de admitir a intençaã o surgiria, entaã o, menos como uma mentira consciente do
que como um caso níátido de falsa consciência, taã o comum entre os militantes de uma falsa causa. Isto, eá claro, naã o
atenuaria em nada a culpabilidade moral das esquerdas como conjunto, mas sim, ao menos em parte, a de seus membros
individualmente considerados. E naã o haveria aíá grande novidade, pois haá um seá culo o comunismo vive de levar homens
bons a compactuar com o mal, corrompendo-os mediante o apelo da lealdade ao grupo. Mas tudo isto, acentuo, eá mera
hipoá tese. O certo eá que alguma intençaã o existiu, e foi uma intençaã o de fazer precisamente o que se fez [nota da 2ª ediçaã o].
[ 34 ] Os mitos e ilusoã es da direita dariam um volume bem mais grosso do que este. Apenas, eles jaá foram inventariados e
dissecados exaustivamente, ao longo de treê s deá cadas, por um exeá rcito de investigadores esquerdistas armados do melhor
instrumental diagnoá stico peá rfuro-cortante, e naã o estou disposto a chover no molhado. Os esquerdistas que lerem este
livro veraã o agora como eá bom sentir-se vasculhado, virado do avesso, ter suas intençoã es mais ocultas exibidas em puá blico.
O que eles fizeram com a direita foi justo e merecido, mas eles tambeá m merecem a sua quota de striptease moral
compulsoá rio, que aqui lhes forneço em doses ateá mesmo modestas [nota da 2ª ediçaã o].
[ 35 ] EÁ de estranhar que pessoas capazes desse tipo de manipulaçaã o ardilosa tendam a uma visaã o paranoicamente
conspiratoá ria da vida políática, enxergando por toda parte — projetivamente, como diria o dr. Freud — tramoá ias ocultas e
“governos paralelos”? Se haá neste paíás um poder secreto, eá a esquerda, na verdade, quem o exerce, por meio da hegemonia
gramsciana, ludibriando a opiniaã o puá blica para levar este paíás de crise em crise e de espanto em espanto. O uso e abuso da
espionagem políática, o controle do fluxo de informaçoã es, o domíánio oculto sobre a imaginaçaã o das massas saã o, por
definiçaã o, o exercíácio de um poder secreto, que conta hoje com os serviços de profissionais altamente treinados em
informaçaã o e contra-informaçaã o, como o deputado Joseá Dirceu, por exemplo.
[ 36 ] Sobretudo quem pode lucrar muito nessa transiçaã o eá a burguesia estrangeira com negoá cios no local. EÁ claro que
depois o dinheiro vai embora junto com ela. Leiam Armand Hammer, Um capitalista em Moscou, trad. Alberto Magno de
Queiroz e Jusmar Gomes, Saã o Paulo, Best-Seller, 1989. Com o que ganhou na NEP, o norte-americano Hammer, amigo de
Leê nin, montou a Occidental Petroleum, que se tornou o 12° maior complexo industrial dos EUA. EÁ suma ingenuidade
acreditar que o governo petista naã o poderaá andar de maã os dadas com o capital estrangeiro: a briga dos petistas eá com a
classe dominante local, e um dos objetos em disputa eá justamente o apoio estrangeiro. Estaã o longe os dias da velha
esquerda nacionalista, da aliança entre comunistas e “burguesia nacional” contra o imperialismo. O quadro internacional eá
outro, e os líáderes do PT naã o saã o nacionalistas: saã o apenas comunistas. Para tomar o poder, naã o hesitaraã o em fazer uma
aliança com o capital internacional contra a burguesia local, invertendo a foá rmula antiga. EÁ oá bvio que pelo menos estaã o
tentando [nota da 2ª ediçaã o].
[ 37 ] No instante em que envio aà graá fica esta 2ª ediçaã o, a revista Interview de julho de 1994 inicia uma campanha pela
libertaçaã o do “Professor” William Lima da Silva. A intelectualidade esquerdista chic eá feá rtil na produçaã o de “heroá is
populares” postiços, quando lhe interessa. Mas se bandidos da espeá cie do “Professor” fossem taã o queridos do povo quanto
se deseja fazer crer, o Exeá rcito naã o seria taã o bem recebido quando sobe aos morros [nota da 2ª ediçaã o].
[ 38 ] Os analistas do fenoê meno petista caem todos em erros elementares. O primeiro eá tentar compreender o partido por
seu programa e naã o por sua praá tica atual. O mais primitivo bom-senso indica que se conhece um homem menos por suas
intençoã es declaradas do que por seu comportamento efetivo. O programa do PT, resultado de mil e um acordos entre
tendeê ncias conflitantes, revela-nos menos sobre esse partido do que a sua organizaçaã o e o seu modo de agir. O programa
pode ser igual ao de qualquer partido socialista ou social-democraá tico do mundo, e ateá ser mais brando em certos pontos.
Mas a organizaçaã o do PT naã o eá a de um partido eleitoral, feito para entrar e sair do poder ao ritmo normal dos resultados
das urnas, mas sim a de um partido revolucionaá rio, construíádo para tomar o poder. Um partido eleitoral naã o precisa de
ceá lulas organizadas nas empresas, naã o precisa infiltrar-se nos escritoá rios dos adversaá rios, naã o precisa espionar, naã o
precisa apoiar movimentos paramilitares, naã o precisa sabotar a administraçaã o incentivando a hostilidade de policiais
armados contra o governo. Se ele fizer qualquer dessas coisas, estaraá fora, automaticamente, da legalidade democraá tica
que o constitui como partido. Mas esses procedimentos, anormais num partido normal, saã o a norma mesma dos partidos
revolucionaá rios, hostis a toda rotatividade do poder e dispostos a instalar-se nele de uma vez para sempre. Provavelmente
a maioria dos militantes do PT naã o tem a menor conscieê ncia dessa diferença, e de fato naã o precisa teê -la para colaborar
docilmente com os intuitos de uma elite dirigente que sabe o que quer e que, por sabeê -lo, naã o o declara. Os militantes
estaã o para a elite como os mencheviques estavam na Ruá ssia para os bolcheviques.
O segundo erro estaá em supor que a pluralidade de correntes conflitantes dentro do PT o enfraquece de algum modo. Soá
precisam de unidade doutrinal os partidos socialistas democraá ticos e constitucionais, feitos para concorrer com os outros
num sistema de rotatividade do poder, bem como os partidos comunistas jaá instalados no poder e ocupados em unificar
uma naçaã o sob a bandeira de uma doutrina uá nica. Um partido revolucionaá rio em luta pelo poder funciona exatamente ao
contraá rio: ele necessita da pluralidade de tendeê ncias, em parte para tirar vantagem da confusaã o, em parte para ampliar
sua margem de alianças ateá a tomada do poder, quando entaã o os dissidentes seraã o banidos e se instalaraá a unidade
monolíática.
Um terceiro erro eá procurar indíácios de corrupçaã o financeira para atacar o PT pela mesma via por onde ele ataca seus
adversaá rios. Bobagem. A corrupçaã o financeira eá proá pria de quem estaá no poder, e o PT nunca esteve. A corrupçaã o petista
naã o eá financeira: eá uma corrupçaã o políática, moral e psicoloá gica. Ela consiste em perverter ateá o fundo os meios de atuaçaã o
políática e mesmo cultural, os criteá rios de julgamento e a conscieê ncia moral dos indivíáduos e das massas. Se ningueá m entre
seus adversaá rios percebe isto, eá porque saã o tambeá m pessoas insensíáveis a qualquer exigeê ncia moral fora dos caê nones
corriqueiros da eá tica comercial. De certo modo, eles merecem a surra que estaã o levando.
Se, vendo que falo mal dos dois lados, me perguntam agora o que proponho, digo que nada. Apenas, se fosse líácito
sonhar, eu naã o sonharia nem com a permaneê ncia da oligarquia no poder, nem com a vitoá ria do PT tal como ele hoje se
apresenta. Sonharia com uma reforma moral do proá prio PT, que, renunciando ao propoá sito revolucionaá rio de “tomar o
poder” e a todo meá todo golpista ou revolucionaá rio de atuaçaã o, poderia transformar-se no grande partido socialista que,
numa futura e ideal democracia brasileira, se alternaria no poder com um partido direitista, cada qual compensando e
corrigindo os erros do outro. Se haá algo que a histoá ria das democracias nos ensina, eá isto: eá bom que haja uma esquerda, eá
bom que haja uma direita, e naã o eá bom que uma das duas afaste a outra do poder definitivamente. Tudo isso eá simples,
praá tico e veraz, quer dizer: no Brasil, naã o funciona.
[ 39 ] Publicado em Jornal do Brasil em 26 de dezembro de 1994 e reproduzido em O Imbecil Coletivo, Rio de Janeiro,
Faculdade da Cidade Editora, 1997.
[ 40 ] Os rapers presos em Saã o Paulo no dia 27 de novembro por incitaçaã o aà violeê ncia cantavam: “Naã o confio na políácia,
raça do caralho”. EÁ a culminaçaã o de seis deá cadas de cultura antipolicial, que teve outro momento memoraá vel com “Chame
o ladraã o” de Chico Buarque. Mas depois que Gabriel o Pensador foi aplaudido pela intelligentzia ao expressar
“artisticamente” seu desejo de matar um Presidente da Repuá blica, que mais se pode esperar? Segundo o ex-procurador da
Repuá blica, Saulo Ramos, naã o haá crime de incitaçaã o aà violeê ncia “em obras artíásticas”. Mas seraá que faz sentido exigir bons
serviços, honradez e patriotismo de uma classe profissional cuja detraçaã o constante e sistemaá tica jaá foi incorporada aà
cultura nacional, sob a proteçaã o do Estado? Naã o constituiraá isso discriminaçaã o atentatoá ria de um direito fundamental,
numa clara violaçaã o do Art. 5º, § XLI da Constituiçaã o Federal? Se a letra do rap naã o tipifica o crime de incitaçaã o aà violeê ncia,
ela eá uma clara apologia do preconceito. Por que naã o haveraá crime em chamar de “raça do caralho” toda uma categoria
profissional, se eá crime usar o mesmo epíáteto contra judeus ou negros? Seraá o elo racial mais sacrossanto ou digno de
proteçaã o oficial do que a comunidade de profissaã o, mesmo quando se trate de uma categoria de servidores do Estado?
Outra coisa: qualquer porcaria posta em muá sica eá “obra artíástica”? Quem conhece a natureza antes publicitaá ria e comercial
do que artíástica de pelo menos oitenta por cento da muá sica popular entende que o termo “arte” tem servido apenas como
um salvo-conduto para a praá tica do crime. O povo, em todo caso, jaá julgou os rapers: apedrejou-os.
[ 41 ] A perda do senso da conexaã o entre intençaã o e culpa eá um grave sintoma de patologia da personalidade. Naã o
obstante, vi pela TV Record (programa 25ª Hora de 28 de novembro) a deputada Irede Cardoso defender a legalizaçaã o do
aborto sob o argumento de que, quando ocorrido por causas naturais, ele naã o eá crime; sendo portanto, na opiniaã o de S.
Excia., uma odiosa discriminaçaã o puni-lo soá quando eá realizado por livre vontade da mulher  um raciocíánio que, embora
S. Excia. naã o perceba, se aplica ipsis litteris aà morte de modo geral. Considero realmente grave que haja pessoas dispostas a
polemizar a seá rio com algueá m capaz de dizer uma coisa dessas, que soá pode ser respondida com uma forte dose de
triperidol.
[ 42 ] Decorrido um ano desde a publicaçaã o deste artigo, vejo que ele inibiu um pouco a apologia do banditismo, mas naã o
eliminou de todo os preconceitos em que ela se fundamenta. Numa entrevista nas paá ginas amarelas de Veja em novembro
de 1995, o delegado Heá lio Luz, um sujeito que estaá a leá guas de qualquer cumplicidade consciente com alguma coisa ilíácita,
cai numa escandalosa contradiçaã o ao descrever a situaçaã o presente do Rio de Janeiro, precisamente porque sua visaã o eá
distorcida pelo vieá s de um preconceito de classe. De um lado, ele afirma que o maior problema da políácia carioca eá que os
bandidos teê m armas melhores e em maior quantidade que os policiais; de outro, que a prioridade no combate ao crime
naã o eá o confronto direto com as quadrilhas armadas, mas a investigaçaã o dos figuroã es, dos homens da classe alta que
financiam o crime organizado. Ora, um sujeito com a cabeça cheia de intençoã es criminosas mas armado apenas de talaã o de
cheques naã o representa senaã o um perigo virtual e de longo prazo: para efetivar suas intençoã es ele tem de contatar,
recrutar, equipar e treinar um esquadraã o de peá s-de-chinelo, o que naã o se faz em dois dias, e, para complicar as coisas, tem
de fazer tudo isso por vias indiretas, por interpostas pessoas, para manter oculta sua respeitaá vel identidade. Quem estaá
nas ruas assaltando e matando, quem representa o perigo imediato para a populaçaã o, saã o peá s-de-chinelo armados de
granadas e metralhadoras, e naã o os colarinhos-brancos que os contrataram dez ou doze anos atraá s. Em segundo lugar, eá
absolutamente impossíável que quadrilhas a soldo de algum ricaço naã o tenham, depois de tanto tempo de exercíácio
profissional, adquirido autonomia financeira para dispensar seus antigos patroã es e operar por conta proá pria. Terceiro, se a
políácia prende um colarinho-branco, os peá s-de-chinelo que trabalhavam para ele vaã o imediatamente pedir emprego a
outro empresaá rio do crime — exatamente como os esbirros da Maá fia trocavam de famiglia em caso de morte ou prisaã o do
seu capo — ou entaã o estabelecem-se por conta proá pria, de modo que, saneadas as classes altas, a vida do povaã o das ruas
continuaraá um inferno. Haá em todo o raciocíánio do delegado Luz a tíápica confusaã o do homem de formaçaã o marxista entre
causas e fatos, entre as raíázes sociais do crime e o crime como tal. Baseado nessa confusaã o, ele creê que a missaã o precíápua
da autoridade eá eliminar as causas remotas do crime, e naã o combater a criminalidade de facto. Ora, pergunto eu: se um
cachorro feroz investe de dentes aà mostra contra o delegado Luz, qual a reaçaã o que ele considera mais urgente nesse
instante: dominar o caã o ou multar o proprietaá rio? E se as ruas estaã o infestadas de caã es raivosos, que diremos de uma
políácia que em vez de amarraá -los vai primeiro investigar quem saã o seus donos? O banditismo naã o eá uma estrutura, uma
instituiçaã o monaá rquica em que, cortada a cabeça, o corpo inteiro venha abaixo: eá um ser caoá tico e proteiforme, capaz de
reorganizar-se instantaneamente de milhoã es de maneiras diferentes, por milhoã es de artifíácios imprevistos; logo, eá utoá pico
pretender liquidaá -lo em bloco, atacando-se somente os centros de comando: ele tem de ser combatido no varejo, bandido
por bandido, rua por rua, bala por bala. Aqui ocorre exatamente como em certas doenças que, uma vez instaladas, jaá naã o
se pode atacar suas causas profundas antes de eliminar seus efeitos e sintomas mais imediatos e perigosos. O meá dico que,
diante do doente diarreá ico por maá alimentaçaã o, tratasse de remover primeiro as causas, alimentando o doente antes de
suprimir o sintoma imediato, obteria um uá nico resultado seguro: a morte do paciente.
De outro lado, eá somente a demagogia mais estuá pida que pode pretender eliminar o banditismo mediante passeatas e
protestos, como se assaltantes e sequestradores fossem colarinhos-brancos ciosos de sua imagem respeitaá vel. Tudo isso
revela uma recusa obstinada de enfocar o problema do banditismo no plano em que ele se coloca — que eá obviamente de
ordem policial-militar — e um desejo obsessivo de encaraá -lo pelo vieá s políático, um terreno onde nossa intelectualidade se
sente mais segura mas que estaá longe daquele onde o problema reside.
[ 43 ] A maldade que se legitima sob a alegaçaã o de lutar por uma sociedade justa eá a esseê ncia mesma da moral socialista.
Quem quiser saber mais a respeito, leia Os Demônios de Dostoieá vski, que descobriu a natureza dessa perversaã o quando ela
estava ainda em germe.
[ 44 ] V. Reinhold Niebuhr, Moral Man and Immoral Society. A Study in Ethics and Politics, New York, Scribner’s, 1960 (1st
ed., 1932).
[ 45 ] Cf. documento citado em William Waack, Camaradas. Nos arquivos de Moscou. História secreta da Revolução
Brasileira de 1935, Saã o Paulo, Companhia das Letras, 1993, p. 55-56.
[ 46 ] Um episoá dio ceá lebre dessa epopeá ia teve como heroá i o poeta Carlos Drummond de Andrade, secretaá rio do Congresso
Nacional de Escritores, que teve de defender a pontapeá s as atas do encontro para que naã o fossem roubadas pelos
comunistas interessados em falsificar o resultado das eleiçoã es para a ABDE.
[ 47 ] O escritor Antoê nio Callado, ao ler estas linhas, teve um acesso de coá lera e escreveu ao JB protestando contra a
publicaçaã o do meu artigo, no qual apontava treê s pecados infames: 1º, ser assinado por um ilustre desconhecido; 2º, errar
na qualificaçaã o dos objetos roubados, que na verdade naã o eram quadros, mas instrumentos oá ticos sem grande valor; 3º,
naã o entender o sentido iroê nico da citaçaã o de Proudhon. Saltando sobre a primeira acusaçaã o, que era tola demais, respondi
que: 1º, os objetos roubados poderiam ter sido meias, ou tacos de bilhar, que naã o faria a menor diferença para o meu
argumento; 2º, a ironia, se alguma houvera, fora antes involuntaá ria. Callado, vendo desmascarada a ambiguidade de sua
atitude ante a violeê ncia carioca, e naã o tendo o que opor aos meus argumentos, se apegara a detalhes bobos no intuito de
me desmoralizar.
Passados alguns dias, a colunista Joyce Pascowitch, na Folha de S. Paulo, informava que, do alto de seu chateau-sur-mer
numa praia baiana, Caetano Veloso estava “indignado” com minhas acusaçoã es aà intelectualidade — como se espumar de
raiva fosse uma refutaçaã o. O Globo, por sua vez, trazia uma declaraçaã o do antropoá logo Gilberto Velho, que condenava
sumariamente o meu artigo (dispensando-se de alegar alguma razaã o para tanto, talvez por julgar que sua opiniaã o eá auto-
probante), e aproveitava para falar mal do meu livro Uma filosofia aristotélica da cultura, que, surpreendentemente,
admitia naã o ter lido. A completa irracionalidade destas treê s reaçoã es eá a melhor comprovaçaã o de que a tese d’O Imbecil
Coletivo, lamentavelmente, estaá certa: algo no ceá rebro nacional naã o vai bem.
[ 48 ] “A Políácia Federal perdeu todo o seu potencial de atuaçaã o. O contrabando liberou geral em todas as fronteiras.
Milhares de inqueá ritos prescrevem nas delegacias da PF, por descaso e falta de pessoal, aumentando a impunidade”. O
quadro, delineado pelo Prof. Paulo Seá rgio Pinheiro (“Crime e governabilidade”, Jornal do Brasil, 14 de novembro de 1994)
eá perfeitamente exato. Mas, se o professor diz a verdade geneá rica, oculta a especíáfica. A decadeê ncia da Políácia Federal
coincide com a sua infiltraçaã o maciça por agentes do PT e da CUT, que transformaram esse oá rgaã o repressivo numa
maá quina de agitaçaã o incapaz de cumprir seus deveres legais mas capaz de intimidar o governo com greves, passeatas,
badernas, ameaças e rojoã es disparados contra as vidraças dos ministeá rios. Armando a Políácia Federal contra as
autoridades, a agitaçaã o petista desarma-a, ipso facto, contra o banditismo. Como naã o conveá m dizer isto, o professor acusa
genericamente “o governo” por um descalabro policial do qual o governo eá , na verdade, a víátima. Naã o eá de hoje que a
esquerda recorre ao expediente de provocar a desordem para em seguida acusar o governo de naã o manter a ordem.
Jogar sobre “o governo” as culpas da esquerda parece ser de fato a estrateá gia mental do professor:
“O crime organizado e as quadrilhas puderam assumir o controle de muitos espaços somente com o assentimento de
vaá rios escaloã es do poder puá blico. Os governos estaduais naã o desarmam as quadrilhas porque naã o conveá m aos interesses
de vaá rios grupos incrustados dentro do aparelho de Estado ou em grupos sociais que lhes daã o base políática”.
O professor naã o esclarece que grupos saã o esses. O modo vago e impreciso de falar deixa no ar a impressaã o de referir-se
a algo jaá sabido e pressuposto, a um lugar-comum. “Grupos incrustados no aparelho de Estado” eá uma expressaã o que
designa corriqueiramente os banqueiros, os senhores do capital, os empreiteiros, os políáticos de direita que deram apoio aà
ditadura. Seraá destes que o professor estaá falando? Naã o pode ser. Naã o existe a menor notíácia de uma ligaçaã o entre essa
gente e os bandidos do morro. Mas os grupos que teê m efetivamente essa ligaçaã o o professor naã o pode citar pelos nomes —
pois saã o grupos de esquerda: saã o os ex-guerrilheiros e algumas velhas lideranças do tempo do janguismo, que apoá s o
exíálio se refizeram na políática com a ajuda dos bandidos e agora continuam “incrustados no aparelho de Estado”. Acusar
estes grupos naã o fica bem: seria dividir as forças da esquerda, coisa que um gentleman como o Prof. Pinheiro jamais se
permitiria. Entaã o ele prefere falar vagamente, de modo que, pela automaá tica associaçaã o de ideá ias, a maá impressaã o acabe
indo para o lado da direita e da “elite” — que obviamente naã o inclui a intelligentzia.
O professor naã o esconde seu intuito de desmoralizar o trabalho das Forças Armadas: “Libertemo-nos da fantasia de
coreografias beá licas inuá teis”. E oferece, em lugar da fantasia, a soluçaã o real, “cientíáfica”: “A participaçaã o das Forças
Armadas deve ser submetida ao comando civil”. Qual comando civil? O do governo estadual que, por omissaã o e
cumplicidade, gerou o atual estado de coisas? Ou o governo federal que, determinando a intervençaã o das Forças Armadas,
já está comandando o processo? Entre o absurdo e a redundaê ncia, a proposta do professor permanece indefinida.
Indefinida, mas nem tanto. Linhas adiante ele finalmente abre o jogo: “No Rio de Janeiro eá impensaá vel pensar em realizar
alguma iniciativa consistente sem a participaçaã o das entidades que compoã em o Viva Rio”. Eis aíá o segredo: o comando da
luta contra o crime naã o pode ficar com as Forças Armadas nem com os governantes civis eleitos, estaduais ou federais:
tem de ser transferido para as entidades autonomeadas “representantes da sociedade civil” — isto eá , em uá ltima anaá lise,
para a intelligentzia esquerdista. Meu Deus, seraá que neste paíás todo mundo soá discursa pro domo sua? A mentalidade
ataá vica, que mais teme a hipoá tese superada do militarismo do que a ameaça real e presente da delinquü eê ncia armada,
acaba reinterpretando a situaçaã o de acordo com a oá tica dos interesses de seu proá prio grupo, tomados como mais urgentes
e importantes do que as necessidades da populaçaã o: em vez de ajudar na luta de um povo contra o banditismo, vamos
desviar nossas energias para o velho conflito entre a intelligentzia e os militares — um episoá dio jaá encerrado da Histoá ria,
que o prof. Pinheiro pretende ressuscitar em prejuíázo das tarefas de hoje. Olhando o presente com os olhos do passado,
ele mostra que estaá menos interessado na luta contra o crime do que em assegurar, nela, um posto de comando para a
casta a que pertence, que ele pressupoã e ser mais confiaá vel do que as Forças Armadas ou do que o governo federal eleito. A
intelligentzia eá a mais corporativista das corporaçoã es.
[ 49 ] Foi isto realmente o que acabou por acontecer, poucos meses apoá s a publicaçaã o deste artigo no Jornal do Brasil.
[ 50 ] Publicado em duas partes no Jornal da Tarde: 25 de novembro e 9 de dezembro de 1999.
[ 51 ] Publicado no Jornal da Tarde em 26 de outubro de 2000.
[ 52 ] Publicado em Época, em 5 de maio de 2001.
[ 53 ] Publicado em O Globo, em 7 de julho de 2001.
[ 54 ] Publicado em O Globo, em 22 de dezembro 2001.
[ 55 ] Publicado em O Globo, em 27 de janeiro de 2001.
[ 56 ] Publicado em O Globo, 24 de fevereiro de 2001.
[ 57 ] Publicado em O Globo, em 8 de junho de 2002.
[ 58 ] Publicado em Zero Hora, em 25 de agosto de 2002.
[ 59 ] Publicado em IEE, ediçaã o nº 31 de 29 de outubro de 2002.
[ 60 ] Publicado em Zero Hora, ao 1º de dezembro de 2002.
[ 61 ] Publicado em Folha de São Paulo, em 7 de janeiro de 2003.
[ 62 ] Publicado em O Globo, ao 1º de fevereiro de 2003.
[ 63 ] Publicado em Jornal da Tarde, em 24 de abril de 2003.
[ 64 ] Publicado em Zero Hora, em 15 de junho de 2003.
[ 65 ] Cf. a paá gina 163 deste livro.
[ 66 ] Publicado em Zero Hora, 30 de novembro de 2003.
[ 67 ] Publicado em Zero Hora, 11 de janeiro de 2004.
[ 68 ] Publicado em O Globo, em 31 de janeiro de 2004.
[ 69 ] Publicado em O Globo, 21 de fevereiro de 2004.
[ 70 ] Pubicado em O Globo, 28 de fevereiro de 2004.
[ 71 ] Cf. Anatoliy Golitsyn, The Perestroika Deception, London, Edward Harle, 1995.
[ 72 ] Publicado em Jornal do Brasil, em 13 de julho de 2006.
[ 73 ] Publicado em Zero Hora, ao 1º de setembro de 2006.
[ 74 ] Publicado em Diário do Comércio, em 11 de setembro de 2006.
[ 75 ] Publicado em Diário do Comércio, em 18 de fevereiro de 2008.
[ 76 ] Publicado em Diário do Comércio,8 de janeiro de 2010.
[ 77 ] Cf. “Histoá ria, tempo presente e Histoá ria Oral". Topoi – Revista de História, Rio de Janeiro, dezembro de 2002, p. 314-
332.
[ 78 ] Publicado em Diário do Comércio, em 10 de agosto de 2011.
[ 79 ] Publicado em Diário do Comércio, em 7 de março de 2012.
[ 80 ] Publicado em Diário do Comércio, em 12 de junho de 2012.
POSFAÁ CIO:
UMA CONVERSA COM O AUTOR
DUAS DEÁ CADAS DEPOIS
POR SILVIO GRIMALDO

Silvio Grimaldo – Neste ano, A Nova Era e a Revolução Cultural completa duas décadas.[ 81
] Muitas coisas aconteceram nesses vinte anos. A mais notória foi a ascensão do PT ao poder
em 2002 – 8 anos depois da publicação do livro – e sua permanência no governo nos últimos
12 anos. Na época de sua publicação, o livro soava como um alerta, um aviso. Hoje, ignorado
por quem poderia evitar o pior, o livro aponta para um fato consumado. Como você avalia o
desenvolvimento da revolução cultural gramsciana no Brasil ao longo dessas duas décadas?
Olavo de Carvalho – A Revoluçaã o Cultural começa muito antes disso, jaá na deá cada de
1960. Com o Golpe de 64, a esquerda se divide: uma parte vai para a guerrilha e outra vai
estudar Antoê nio Gramsci e tentar implantar a Revoluçaã o Cultural. Esta segunda ala foi a que
venceu e jaá era uma força dominante por volta de 1980, uma eá poca em que Gramsci era o
autor mais citado em trabalhos universitaá rios no Brasil. Eu acredito ateá que as geraçoã es
seguintes naã o estaã o taã o impregnadas de um gramscimo consciente, mas apenas de um
gramscismo residual. Haá pessoas que estaã o claramente trabalhando no sentido da
Revoluçaã o Cultural e naã o se reconhecem com agentes gramscianos. Elas naã o estaã o
mentindo; simplesmente naã o sabem. Isso denota que o Brasil jaá chegou aà quele estaá gio
descrito por Gramsci em que as pessoas saã o socialista sem o saber, e em que o Partido
dispoã e da autoridade onipresente e invisíável de um imperativo categoá rico. Ou seja,
raciocinar de acordo com o que o Partido Comunista determinou 30 anos atraá s parece hoje
natural e inevitaá vel. As pessoas naã o sabem mais a quem estaã o obedecendo, aliaá s, nem
sabem que estaã o seguindo algueá m, elas simplesmente agem de acordo com aquilo que lhes
parece o curso natural das coisas. EÁ nesto ponto que o Brasil chegou e sob esse aspecto
podemos dizer que a Revoluçaã o Cultural eá completamente vitoriosa em nosso paíás.
Quando eu publiquei este livro, e depois O Jardim das Aflições, naã o havia uma voz
discordante em todo o panorama nacional. O que eu dizia era taã o estranho que ningueá m
sabia o que fazer com aquilo. Tudo parecia apenas a opiniaã o exoá tica de um maluco. Aos
poucos, o que eu estava dizendo foi se comprovando verdade, as coisas estavam realmente
tomando aquele rumo, mas a reaçaã o foi muito lenta. No meio militar, por exemplo, o
primeiro sinal de que algueá m havia lido e compreendido o que eu havia dito veio apenas 8
anos depois, com um artigo do General Joseá Faá brega, num jornal militar, e depois com a
publicaçaã o de dois livros muito bons do General Seá rgio Augusto de Avellar Coutinho.
Na eá poca em que este livro foi publicado, a visaã o comum era de que o PT naã o
representava perigo algum, que ele ficaria sempre entre 15 e 20% do eleitorado, sem
chances de subir. Para os bem pensantes, os donos de jornais, o comunismo estava extinto e
falar disso era açoitar um cavalo morto. Na verdade, ateá aà s veá speras das eleiçoã es de 2002 as
pessoas pensavam assim. Algum tempo antes da eleiçaã o, o Los Angeles Times reuniu 12
especialistas em assuntos brasileiros, alguns americanos, e todos asseguravam que o PT
naã o venceria. Ao mesmo tempo eu escrevia que a vitoá ria do PT naã o era apenas certa mas
inevitaá vel. Eu levava em conta todo esse trabalho preparatoá rio da Revoluçaã o Cultural, que
convergia para a vantagem do PT. Ou seja, a atmosfera cultural jaá estava totalmente
dominada. Era difíácil encontrar algueá m que conseguisse pensar fora dos caê nones da
esquerda, mesmo naã o sabendo que era esquerda. E esse eá justamente o problema. A
caracteríástica mais terríável do gramscismo eá que ele naã o eá uma doutrinaçaã o, naã o eá uma
pregaçaã o, ele eá uma preparaçaã o de reaçoã es mais ou menos automaá ticas e inconscientes, por
meio da imitaçaã o, segundo aquilo que Willi Muü nzenberg chamava de “criaçaã o de coelhos”. O
processo eá inconsciente e foi feito para ser assim.
S. G. – É mais um sistema de substituição de hábitos do que de crenças?
O. de C. – Certamente. E isso ainda foi ajudado pelas novas teá cnicas de educaçaã o que
foram sendo implantadas no Brasil, que saã o teá cnicas de modificaçaã o de comportamentos
sem passar pela modificaçaã o da opiniaã o. A opiniaã o, o juíázo que um sujeito faz de
determinada situaçaã o naã o interessa mais. A uá nica coisa que interessa eá a conduta. Uma vez
que se conseguiu determinar a conduta de um sujeito para certo sentido, suas ideá ias vaã o
acompanhar sua conduta. Ele vai raciocinar retroativamente em defesa daquilo que fez.
Como isso foi adotado massivamente no Brasil – naã o por influeê ncia direta do gramscismo,
mas por meio de organismos internacionais e grandes fundaçoã es – as duas coisas
convergiram para o paíás inteiro se tornar, como dizia Gramsci, socialista sem saber.
S. G. – A estratégia revolucionária gramsciana é divida em duas fases: a primeira é a
preparação no terreno cultural, como acabamos de ver, a segunda, é a tomada de poder
efetiva. Podemos dizer que essa segunda fase começou a ocorrer quando o PT venceu as
eleições e implantou várias estratégias para conseguir controlar o Estado, como o
inchamento e aparelhamento burocrático do Executivo e o Mensalão, que foi uma tentativa de
controlar o Congresso, ainda arredio ao PT. Isso, ao meu ver, nos mostra duas coisas
importantes sobre a Revolução Cultural no Brasil. Em primeiro lugar, que o PT tem a
hegemonia cultural mas não tem todo o controle político (ou não tinha, durante o primeiro
mandato de Lula); em segundo lugar, que a Revolução Cultural não pára, mesmo depois da
tomada do Estado. Como os rumos da Revolução Cultural mudaram depois da vitória do PT
em 2002?
O. de C. – De fato, a Revoluçaã o Cultural naã o paá ra, mas existe um aspecto contraditoá rio no
processo. Para a Revoluçaã o Cultural funcionar eá necessaá rio que ela seja quase
imperceptíável, que atue por meio da infiltraçaã o em escolas, imprensa e igrejas e por meio da
alteraçaã o gradual de valores e síámbolos, sem pregar socialismo ou falar em comunismo.
Contudo, depois que se toma o poder, as açoã es precisam ser mais explíácitas. Entaã o, de certo
modo, a Revoluçaã o Cultural perde força a partir do momento em que o Partido domina o
Estado. Seria necessaá rio continuaá -la, mas ao mesmo tempo eá impossíável, porque seus
objetivos vaã o se tornando cada vez mais explíácitos. Mas veja bem, seus objetivos se tornam
cada vez mais explíácitos para quem sabe observar, pois haá pessoas que naã o perceberam
nada disso do que estamos falando ateá hoje.
S. G. – Quando um Partido toma o poder e tenta avançar uma agenda como, por exemplo, a
implantação da ideologia de gênero nas escolas, não podemos afirmar que essa ação é tanto
um aprofundamento da Revolução Cultural quanto uma expressão da hegemonia política do
Partido?
O. de C. – Haá , evidentemente, uma institucionalizaçaã o da Revoluçaã o Cultural, mas naã o eá
possíável fazer isso, transformar essa agenda em leis, imperceptivelmente. Para isso teraá que
ser levantado um debate puá blico, mas a teá cnica anterior era contornar o debate, como se
nada estivesse acontecendo. Como a açaã o revolucionaá ria era disseminada por toda
sociedade, sem que viesse de cima, era possíável que ela se prolongasse por muitos anos sem
que ningueá m tivesse conscieê ncia do que estava acontecendo. Mas a partir do momento que
o Partido tem o poder nas maã os e precisa criar leis e mudar as regras do jogo, ele
necessariamente vai criar um debate. Tanto que desde o iníácio do governo, o PT gerou uma
resisteê ncia e uma oposiçaã o dentro das proá prias fileiras da esquerda. Eles estavam
acostumados a fazer tudo lenta e sutilmente e se depararam de repente com a imposiçaã o de
um poder. Entaã o começaram as dissensoã es, como Fernando Gabeira, Heá lio Bicudo, Chico de
Oliveira, etc.
S. G. – Mas isso de certa forma acaba aprofundando a estratégia gramsciana, já que no
debate público e intelectual, a esquerda no poder se torna a direita aceitável, e a esquerda
fora do governo passa a representar a verdadeira esquerda, fechando a discussão política em
torno das várias correntes esquerdistas.
O. de C. – A direita e a esquerda saã o substituíádas pela direita da esquerda e a esquerda da
esquerda. Isso eá natural do processo e jaá indica a posse da hegemonia, pois o debate estaá
totalmente controlado. Mas isso jaá acontecia antes da conquista do Estado, pois na eleiçaã o
de 2002 – e tambeá m na de 2006 – todos os candidatos eram esquerdistas. O que poderia se
chamar de direita estava totalmente excluíáda do processo, ela jaá naã o existia mais. Entaã o, de
certo modo, o objetivo da Revoluçaã o Cultural foi inteiramente atingido jaá aà s veá speras da
eleiçaã o que levou o PT ao poder.
S. G. – O próprio Lula admitiu entusiasmado que, pela primeira vez na história, teríamos
uma eleição sem um representante da direita...
O. de C. – Sim, eles começaram a sair do armaá rio. E note bem, quando ele disse isso
ningueá m achou estranho, ningueá m ficou chocado. A populaçaã o inteira estava pronta para
aceitar uma eleiçaã o em que haá apenas uma corrente políática disputando o poder. Jaá era
normal que todos os candidatos fossem esquerdistas. A políática nacional se tornou a
disputa interna da esquerda. E estaá assim ateá hoje.
S. G. – Então você acredita que ainda hoje é possível falar em uma Revolução Cultural?
O. de C. – Naã o. Pela seguinte razaã o: uma Revoluçaã o Cultural eá feita por meio de
intelectuais, e as esquerda naã o os tem mais. Gramsci daá uma definiçaã o muito ampla de
intelectual, que eá qualquer sujeito que trabalhe para a propaganda do Partido. Mas para
isso saã o necessaá rios intelectuais stricto sensu tambeá m, pessoas que teê m projeçaã o na míádia,
como Luiz Fernando Veríássimo, Arnaldo Jabor, etc. Intelectuais puá blicos, por assim dizer. E o
fato eá que o PT naã o conseguiu reciclar o exeá rcito de intelectuais que ele tinha. Saã o todos
decadentes hoje. Se olhamos para o que havia antes e comparamos com o Fernando
Haddad, com Vladimir Safatle, com Leonardo Sakamoto, percebe-se que a queda foi
vertiginosa. Naã o se pode comparar essa gente com os intelectuais de esquerda dos anos 60.
Naquela eá poca havia Otto Maria Carpeaux, Leandro Konder, EÊ nio Silveira, etc. O proá prio
Emir Sader, que eá de uma geraçaã o anterior aà atual, decaiu muito.
Como naã o houve essa reciclagem dos intelectuais, a esquerda tem hoje o domíánio dos
aparatos educacionais, mas naã o tem mais a liderança cultural. Ningueá m tomou essa
liderança, a esquerda simplesmente caiu e ningueá m tomou o lugar. Haá uma geraçaã o de
jovens que teê m saíádo dos meus cursos e que estaã o ocupando alguns lugares, mas eles ainda
naã o teê m a relevaê ncia que tinham os intelectuais dos anos 60.
S. G. – Por que razão a esquerda não conseguiu recompor-se culturalmente? Os intelectuais
de esquerda não são mais necessário para a manutenção do poder?
O. de C. – A decomposiçaã o da intelectualidade marxista eá um fenoê meno mundial. Hoje o
que sobra de intelectuais marxistas saã o pessoas com 80 ou 90 anos de idade. Alguns outros
saã o tipos muitos esquisitos que ningueá m compreende muito bem, como Zizek ou David
Harvey. Saã o dois ou treê s apenas, naã o haá mais aquela pleê iade de intelectuais como havia
antigamente. Isso acontece por conta das proá prias contradiçoã es internas do sistema
marxista. Ateá que ponto uma maá quina ideoloá gica consegue se recuperar depois do vexame
dos seus proá prios crimes e fracassos? Uma, duas, treê s vezes, mas uma hora se esgota. O fato
de que muitas pessoas saíáram da esquerda e se tornaram ferrenhamente anti-comunistas,
como Steá phane Courtois, autor de O livro negro do comunismo,[ 82 ] eá sinal da
decomposiçaã o da intelectualidade marxista. Haá muitas contradiçoã es no marxismo, eá
impossíável naã o ver certas coisas. Sempre haveraá os crentes, evidentemente, que continuam
afirmando aquilo ateá o tuá mulo, que naã o querem ver os fatos, como Eric Hobsbawm e Oscar
Niemeyer, mas eles se tornam apenas figuras folcloá ricas, sem funçaã o orgaê nica no sistema da
Revoluçaã o Cultural. Eles se tornam apenas síámbolos.
No Brasil, os efeitos dessa decomposiçaã o da intelectualidade marxista saã o notaá veis. Naã o
existe hoje um uá nico intelectual marxista capaz de sustentar uma discussaã o por cinco
minutos. O que eles fazem eá fechar o debate em torno deles mesmos, mas naã o se expoã em ao
adversaá rio.
A esquerda conquistou o poder no sentido externo, mas perdeu a inspiraçaã o.
S. G. – Isso torna o futuro da Revolução Cultural uma incógnita, porque ela precisa da
criação constante de mitos, valores e símbolos agregadores.
O. de C. – Por isso que eu digo que naã o haá mais Revoluçaã o Cultural. Isso aíá acabou, a
esquerda naã o tem mais condiçoã es de criar esses valores.
S. G. – Então a alternativa que resta é a Revolução violenta leninista?
O. de C. – EÁ o que a esquerda teraá que fazer, mas realizar isso eá difíácil, talvez impossíável.
Para implantar uma ditadura eá preciso ter uma políácia organizada e doá cil, e a esquerda naã o
a tem. O que existe saã o as políácias estaduais, que em geral saã o hostis a essa políática. Haá uma
tentativa de unificar as políácias sob o comando federal, mas eá uma tentativa apenas, e naã o
quer dizer que quando assumirem o comando, os policiais seraã o doá ceis e se deixaraã o usar
para a repressaã o dos inimigos ideoloá gicos do governo. Leva tempo para se construir uma
políácia assim. Em todo lugar que houve revoluçaã o, a políácia foi recriada com novos oficiais.
Onde havia um delegado de políácia havia junto um comissaá rio do povo para fiscalizaá -lo. No
Brasil, naã o existem pessoas para isso.
Esse eá o problema. A esquerda eá a uá nica força políática que existe no Brasil, mas essa força
eá deá bil, eá fraca para promover mudanças profundas como ela desejaria. Ela soá estaá no poder
por absoluta falta de oposiçaã o. A esquerda conseguiu destruir a concorreê ncia, mas ela tem
um domíánio muito precaá rio do rumo das coisas. O que realmente fica eá esse elemento
predatoá rio, sangue-suga, esgotando o paíás apenas. EÁ soá isso que eles podem fazer.
A situaçaã o naã o eá como na Venezuela, onde haá uma militaê ncia chavista/madurista armada
e disposta a prender e matar, e do outro lado, uma oposiçaã o disposta a resistir e morrer. No
Brasil naã o existe nem uma coisa nem outra: um lado, a direita, eá inexistente; o outro, a
esquerda, eá fraco.
A esquerda tem o governo mas naã o governa. Ela estaá vivendo apenas de truques e
expedientes, esperando uma oportunidade de fazer algo.
S. G. – Estão vivendo da inércia da vitória ocorrida há 10 anos?
O. de C. – Sim. EÁ um movimento inercial. E eu naã o acredito que eles sejam capazes de se
renovar. Na verdade, a esquerda eá taã o incapaz de se renovar quanto a direita eá incapaz de se
constituir. Podemos dizer que naã o haá mais forças políáticas no Brasil, mas apenas uma força
administrativa no governo. Naã o haá políática no Brasil, mas apenas um pouquinho de
discussaã o interna da esquerda, que deseja fazer algo. O proá prio Lula disse: “naã o sabemos o
tipo de socialismo que queremos”. Naã o sabem, nem saberaã o jamais. Na verdade, naã o faraã o
socialismo algum, continuaraã o apenas parasitando as fraquezas do sistema e roubando
como doidos.
S. G. – A revolução brasileira deixa claro o aspecto desagregador e destrutivo do movimento
revolucionário, que é incapaz de construir algo no lugar da sociedade que ele destrói.
O. de C. – No Brasil isso eá ainda mais evidente. A rigor, o governo naã o estaá fazendo coisa
alguma no sentido de implantar o socialismo, suas açoã es naã o passam de ensaios muito
tíámidos. O que ele estaá impondo ainda eá apenas aquele resíáduo de Revoluçaã o Cultural
radicalizada: gayzismo, feminismo, racialismo, ideologia de geê nero, etc. Mas o governo naã o
eá necessaá rio para avançar essas agendas, pois os organismos internacionais jaá o fazem.
Entaã o, praticamente a uá nica iniciativa políática que se veê no Brasil veê m dos organismos
internacionais. O governo apenas carrega uma agenda que naã o eá dele.
A mentalidade comunista dos anos 70 e 80 naã o tinha nada a ver com esse programa. Eles
pegaram carona nisso porque achavam que era vantajoso e porque essa era uma maneira
de expressar a revolta contra sociedade burguesa e contra a Igreja. Mas era algo secundaá rio.
Hoje, poreá m, isso eá o uá nico item do programa. Na verdade, isso eá uma revolta de classe
meá dia que nada tem a ver com o proletariado, muito menos com a populaçaã o pobre.
Outro fenoê meno que ocorreu no Brasil foi “lumpenizaçaã o” da esquerda. Hoje em dia,
graças a esse tipo de bandeira, que se sobrepoã e muito a qualquer bandeira de ordem
econoê mica ou ateá aà ideá ia de socialismo, o conceito de povo que esquerda tem eá o
lumpemproletariado, ou seja, os bandidos, as prostitutas, os viciados, traficantes, etc. EÁ essa
faixa social que a esquerda hoje defende e em nome da qual ela fala. Inclusive do ponto de
vista esteá tico. A tendeê ncia eá cada vez mais a classe meá dia imitar os haá bitos do lumpem, se
vestir como lumpem, falar como lumpem, etc. Marx estava muito certo quando dizia que o
lumpem naã o eá uma força revolucionaá ria, mas certamente eá uma força de decomposiçaã o. E o
que se observa no Brasil eá o fenoê meno da decomposiçaã o: financeira, administrativa, moral,
cultural etc. O Brasil eá uma paíás que estaá se desfazendo diante de noá s. A corrupçaã o
galopante que ningueá m consegue deter, a magníáfica compra de conscieê ncias com a qual se
transforma o Supremo Tribunal Federal num escritoá rio do Partido, saã o apenas sintomas da
decomposiçaã o moral.
Toda revoluçaã o precisa de uma certa dose de decomposiçaã o, mas num certo momento, eá
preciso passar, como se diz alquimicamente, do mercuá rio para o enxofre, ou seja, da
dissoluçaã o para a fixaçaã o. Mas a esquerda naã o tem como passar para a fixaçaã o. Essa
decomposiçaã o, portanto, vai continuar. E ateá onde podemos chegar? Bem, eu acho que eles
vaã o transformar o paíás inteiro num bordel.
S. G. – Ou a fixação virá por forças externas...
O. de C. – Claro, eá possíável. A Ruá ssia estaá de olho no Brasil. Naã o eá possíável uma
intervençaã o militar, mas para a Ruá ssia encher o Brasil de agentes naã o custa muito. O
professor Alexandre Duguin estaá sempre no Brasil, falando em universidades. A sua
proposta eurasiana pode se tornar o novo mito unificador da esquerda nacional,
transcendendo as divisoã es entre direita e esquerda e substituindo-as por Euraá sia e
Ocidente. Para Duguin, o eurasianismo eá taã o elaá stico que o Brasil estaá na Euraá sia. A divisaã o
naã o eá geograá fica, mas ideoloá gica – ou mitoloá gica –, portanto qualquer paíás pode fazer parte
da Euraá sia.
S. G. – Falando em Duguin e eurasianismo, entramos no segundo ponto sobre o qual
gostaria de ouvir, que é a questão da Nova Era. No livro, você analisa uma obra de Fritjof
Capra, um autor que passou como um cometa pelo Brasil, brilhou por alguns instantes mas foi
logo esquecido, ou pelo menos nunca exerceu uma influência relevante no cenário intelectual.
Capra foi uma moda, como todas, passageira. Contudo, o fenômeno da Nova Era deixou raízes
profundas em todo o mundo e cresceu formidavelmente com o apoio de organismos
internacionais às propostas de religiões globais alternativas ao cristianismo, como descritas,
por exemplo, nos livros de Lee Penn,[ 83 ] do Mons. Sanahuja,[ 84 ] e tantos outros. Como você
vê o desenvolvimento da Nova Era no Brasil nos últimos 20 anos?
O. de C. – A Nova Era foi apenas uma etapa de um vasto movimento de desocidentalizaçaã o
e de descristianizaçaã o da cultura, abrindo-a para influeê ncias orientais, que saã o valorizadas
naã o em si mesmas, mas naquilo que teê m de elemento corrosivo. E curioso eá que por traá s do
movimento da Nova Era estaá a maã o islaê mica. O islam naã o se comprometeu diretamente com
o movimento, mas tentou controlar de longe. A ideá ia eá que o sujeito percorra o seguinte
trajeto: primeiro se descristianiza. Depois, torna-se ateu cientificista. Num outro momento,
desinteressa-se disso, afinal, o cientificismo eá algo do seá culo XIX e jaá superado, e começa a
se aproximar do Tao da Fíásica e coisas similares. Entaã o, o sujeito entra em alguma
organizaçaã o ocultista e depois de se desiludir com ela, chega ao topo. Mas o que eá o topo? O
topo eá o sufismo, o esoterismo islaê mico, que mais ou menos controla todo esse processo de
longe, por meio da influeê ncia discreta das tariqas.
Podemos nos perguntar como eá que se islamiza uma pessoa. Ora, naã o se pode islamizar
um tíápico ocidental do dia para a noite. EÁ preciso faze-lo passar por uma seá rie de processos
de dissoluçaã o. A Nova Era eá um dos componentes do mercuá rio, uma força dissolvente. O que
vem em seguida eá o islam, que veste uma jilaabah no sujeito, mete-lhe um turbante na
cabeça e lhe daá uma forma, enquadrando-o.
Quando Reneá Gueá non começa seu trabalho no ocidente, ele estaá contra todas as
organizaçoã es ocultistas, mas eá nelas que ele procura seu puá blico. Ele queria operar um
transmutaçaã o, puxar toda essa força dissolvente para o islam. Ele e Fritjof Schuon fizeram
isso.
O que as pessoas enxergam no cenaá rio cultural, em primeira instaê ncia, naã o tem nada a ver
com o islam. EÁ preciso deá cadas para perceber que haá uma maã o islaê mica por traá s disso.
Algum tempo atraá s, Tony Blair fez um pronunciamento dizendo que aquilo que se observa
no Oriente Meá dio eá o conflito entre o fundamentalismo islaê mico e o mundo moderno. Muita
gente pensa que eá assim mesmo, pois ali se observa um contraste muito claro entre uma
sociedade que eá moldada por uma lei religiosa muito ríágida, que deve ser obedecida
integralmente, e uma sociedade marcada pela democracia, pela liberdade de imprensa,
pluralismo de ideá ias, etc. Acontece que essas duas coisas naã o estaã o no mesmo plano. O
islam eá realmente um monobloco, apesar de suas divergeê ncias internas. A lei que estrutura
a conduta em 28 paíáses eá a mesma. Ela nunca eá discutida, mas tudo eá discutido em funçaã o
dela. O Coraã o naã o eá discutíável. Por outro lado, no mundo ocidental, existe o Estado leigo,
que faz abstraçaã o de valores e se coloca apenas como uma regra formal, embora essa regra
seja claramente voltada contra a raiz cristaã da civilizaçaã o. Entaã o naã o podemos dizer que haá
uma competiçaã o entre iguais, como seria entre islamismo e cristianismo, entre dois poderes
espirituais. O que temos eá um poder espiritual de um lado e, do outro, um sistema de auto-
dissoluçaã o, que eá a democracia ocidental.
Portanto, eá impossíável falar em competiçaã o entre o islam e o mundo modern, porque foi
este quem abriu as portas aà quele, jaá que o islamismo foi um dos elementos orientais usados
para corroer o cristianismo. E o islam veê m de fato com um mensagem espiritual muito
superior aà s outras tradiçoã es orientais que naã o teê m agentes de propaganda. Naã o se veê
agentes budistas ou hinduistas, por exemplo. A partir do momento em que os muçulmanos
se veê m desde a perspectiva da unidade transcendente das religioã es, eles se colocam como
os gerentes gerais da espiritualidade oriental. Qualquer coisa que se faça para facilitar a
entrada dessa espiritualidade oriental no ocidente acaba favorecendo os muçulmanos.
Entaã o, o mundo moderno de que fala Tony Blair naã o eá um concorrente do islam, mas seu
padrinho. A proá pria Casa Real da Inglaterra eá protetora do islam. Sem falar que hoje em dia
o nuá mero de leis na Europa e nos EUA que protegem o islam e boicotam o cristianismo eá
imenso. O mundo moderno naã o eá nada mais que autodestruiçaã o do cristianismo e portanto
ele eá vulneraá vel a qualquer influeê ncia espiritual externa. E a uá nica força anticristaã
organizada no oriente eá o islam.
S. G. – Agora, esse processo de cristalização da espiritualidade gerenciada pelo islam não
parece ter ocorrido ainda no Brasil. O efeito da Nova Era está ainda só na sua fase
dissolvente?
O. de C. – Exato. Naã o houve ainda um avanço islaê mico efetivo no Brasil, o que eá
inteiramente normal, jaá que em nosso paíás tudo acontece com atraso.
S. G. – E apesar da crise que marca a nossa intelectualidade de esquerda, vemos que ela não
avançou muito na Nova Era, na pseudo-espiritualidade, como era de se esperar.
O. de C. – Naã o. Os intelectuais de esquerda se apegaram mais ao aspecto da revoluçaã o
sexual. E isso estaá em andamento no Brasil.
S. G. – Mas a revolução sexual não é um aspecto da Nova Era?
O. de C. – Certamente. Mas eá um aspecto provisoá rio. A Nova Era entra com a força
dissolvente para no fim islamizar tudo. O islam eá o enxofre que daraá uma forma aà quele caos.
Mas no Brasil, embora o processo de dissoluçaã o seja muito intenso, ele ainda naã o chegou ao
ponto em que as pessoas se desesperam e passam a querer outra coisa. No Brasil ainda viraá
a liberaçaã o das drogas, a liberaçaã o da pedofilia, a adoçaã o de novos modelos de famíália com a
concomitante dissoluçaã o do direito familiar. Isso ainda vai muito fundo. O impulso caoá tico
do brasileiro ainda naã o estaá satisfeito.
Na eá poca eu usei a expressaã o Nova Era porque era os aspecto que as coisas assumiam
entaã o, era a moda daquele momento. Hoje seria preciso uma denominaçaã o mais geneá rica,
como orientalismo, ou algo assim, que eá a força mais profunda por traá s da Nova Era, ou o
proá prio islam.
S. G. – Independente do nome que possamos dar ao fenômeno, está claro que ele é uma força
anticristã. Parece-me que se a Igreja Católica no Brasil não tivesse se desagregado tanto, a
Revolução Cultural não teria tanta força, até porque um dos pilares do gramscismo é a
infiltração na Igreja.
O. de C. – Sem sombra de duá vidas. A Nova Era foi um elemento dissolvente e ajudou a
preparar as conscieê ncias para a ideá ia de que pessoas evoluíádas naã o saã o catoá licas, nem
cristaã s, mas budistas, ou espíáritas, ou umbandistas, qualquer outra coisa de tipo sincretista.
O Brasil sempre teve uma tendeê ncia sincreá tica, de forma que nossa cultura era um terreno
feá rtil para essas coisas. Ademais, o catolicismo no Brasil nunca foi uma instituiçaã o profunda.
Como dizia o Papa Joaã o Paulo II, os brasileiros “saã o cristaã os no sentimento, mas naã o na feá ”.
Desde o tempo da coloê nia, o catolicismo sempre foi uma religiaã o superficial. Somado a isso,
ainda haá o aspecto altamente erotizado da cultura brasileira, que eá convidativo a todos
esses programas de mudança da estrutura familiar, de implantaçaã o da ideologia de geê nero,
etc.
EÁ importante notar o seguinte: todos os pontos da da Revoluçaã o Cultural dizem respeito aà
moral e aà criaçaã o de novos haá bitos. Do ponto de visto econoê mico, ningueá m tem proposta
alguma. Isso eá assim porque os comunistas jaá concluíáram que a estatizaçaã o completa dos
meios de produçaã o naã o funciona. EÁ preciso fazer arranjos, como na China. EÁ o mesmo tipo
de arranjo que estaá estabelecido no Brasil, onde quem manda na economia eá o governo e
meia duá zia de grandes grupos empresariais que vivem parasitariamente do Estado. Isto naã o
vai mudar. O que pode mudar eá a sociedade e a cultura. Um aprofundamento, portanto, da
revoluçaã o sexual vai acontecer no Brasil, certamente. Tudo seraá carnavalizado definitiva e
agressivamente.
Eu naã o vejo como a direçaã o das coisas pode ser mudada no Brasil. A esquerda naã o pode
avançar muito e naã o pode recuar, pois naã o haá quem ocupe seu lugar. E do ponto de vista
econoê mico naã o podem fazer grande coisa. Entaã o, como na esfera econoê mica a revoluçaã o
estagnou, a esquerda vai carregar nas tintas da Revoluçaã o Cultural, agora compreendida no
sentido mais estrito da mudança da moral, especialmente da moral sexual. Podemos
acrescentar aíá a legalizaçaã o das drogas, que certamente viraá . Entaã o teremos um paíás de
drogados, de pedoá filos e de tudo o que vier com essas mudanças. EÁ soá isso que a esquerda
pode fazer hoje e saã o esses os uá nicos itens de sua agenda; somente por essas coisas a
esquerda luta atualmente.
S. G. – Em 1994 você não tinha conhecimento da existência do Foro de São Paulo, ou, pelo
menos, de seus propósitos e força. Hoje, o Foro de São Paulo é a principal força revolucionária
do continente, da qual a Revolução Cultural é apenas uma das estratégias disponíveis. Em que
o Foro altera a análise da Revolução Cultural?
O. de C. – Eu fiquei sabendo do Foro de Saã o Paulo no final da deá cada de 1990, graças ao dr.
Joseá Carlos Graça Wagner, que tinha um acervo enorme de documentos sobre a
organizaçaã o. Quando tomei conhecimento desses documentos, eu quase caíá de costa,
porque ateá entaã o eu ainda via o PT como uma espeá cie de partido trabalhista infiltrado por
comunistas, mas naã o totalmente envolvido no movimento comunista internacional. Quando
descobri o Foro de Saã o Paulo, percebi que era exatamente o contraá rio. E quando vi que o
fundador do Foro era o proá prio Lula, em associaçaã o com Fidel Castro, eu percebi que tinha
uma visaã o muito roá sea de Lula. Ele me parecia um daqueles líáderes do antigo PTB, um
sindicalista, um homem de esquerda, evidentemente, mas naã o um comunista.
Quando eu digo comunista, naã o estou dizendo ideologicamente. A ideologia soá interessa
na cabeça de um sujeito que eá capaz de ter uma ideologia e o Lula naã o o eá . Ideologia eá para
quem tem ideá ias. Entaã o, quando eu digo “ser comunista”, quero dizer estar dentro de um
sistema comunista integrado e trabalhando para aquilo, pouco importando as convicçoã es
do sujeito. Eu acredito que Lula naã o tenha convicçaã o alguma, ele apenas se adapta aà s
exigeê ncias do movimento. O que interessa, portanto, eá saber de qual movimento ele faz
parte. No momento em que escrevi A Nova Era e a Revolução Cultural, eu soá pensava no Lula
em funçaã o do PT, mas, posteriormente, o Foro de Saã o Paulo me mostrou que ele estava
dentro de algo muito maior, que era o sistema comunista revolucionaá rio no continente, do
qual ele se tornou o chefe, por delegaçaã o de Fidel Castro. Ele naã o eá um líáder propriamente
dito, nem nunca foi, ele nunca toma decisoã es. Lula eá síámbolo aglutinador. E ele desempenha
essa funçaã o muito bem. Sua caracteríástica mais notaá vel eá a auseê ncia de inimigos. Ele diz que
seu ideal políático eá Getuá lio Vargas, que por sua vez dizia naã o ter nenhum inimigo que naã o
pudesse ser transformado em amigo. Lula faz isso, ele consegue acalmar os aê nimos e
representar o conjunto. Ele nunca procura briga com ningueá m e estaá mais interessado em
sua sobreviveê ncia políática. Sob esse ponto de vista, ele eá um artista. E foi graças a isso que
ele subiu dentro do movimento e simboliza a unidade da esquerda nacional. Para
desempenhar essa funçaã o, de síámbolo aglutinador, ele precisou abdicar de ser um líáder no
sentido positivo, de ser um homem que decide e manda.
Ele fez a mesma coisa dentro do Foro de Saã o Paulo. Embora fosse o presidente do Foro, ele
naã o era um de seus membros mais ativos: ele simplesmente deixava os outros falarem. E
estava sempre buscando acordos, tentando aproximar todo mundo e juntar o time, apesar
das divergeê ncias. Gilberto Carvalho e Marco Aureá lio Garcia foram muito mais ativos dentro
do Foro do que ele.
A partir daíá, eu comecei a entender o Lula de outra maneira. Ele naã o pode ser
compreendido apenas dentro do quadro nacional, em que ele parece ser realmente apenas
um líáder trabalhista antigo. EÁ preciso olhar para o mecanismo ao qual ele pertence, que eá o
mecanismo da revoluçaã o continental, onde ele ocupa um posto nada desprezíável.
Portanto, para compreender o processo revolucionaá rio brasileiro eá preciso conhecer o
desenvolvimento do Foro de Saã o Paulo, que naã o opera apenas por meio da Revoluçaã o
Cultural. Haá ali uma proposta militar tambeá m, apoiada no narcotraá fico. A organizaçaã o e
instrumentalizaçaã o do banditismo eá um dos elementos fundamentais do Foro. Nesse
íánterim, as FARC conseguiram desmantelar todos os outros carteá is concorrentes e
conquistaram o monopoá lio absoluto do traá fico de cocaíána no continente. Pequenas redes
locais de narcotraficantes saã o desmanteladas pelos aparatos políácias nacionais, mas as
FARC continuam com o monopoá lio do narcotraá fico. E como o Brasil eá um dos paíáses que
mais consomem cocaíána, as FARC precisam de noá s desesperadamente. Por isso, no Brasil,
ningueá m faz nada contra as FARC. Laá , ningueá m das FARC eá preso, e quando isso ocorre, o
proá prio governo trata de liberaá -lo. As FARC atuam sob proteçaã o do governo brasileiro e de
outros governos em torno. Podemos dizer que as FARC saã o a força principal do Foro de Saã o
Paulo, que por sua vez eá a uá nica força políática que existe no Brasil. Toda a esquerda
brasileira estaá comprometida com ele, assinam decisoã es unaê nimes e ningueá m discute.
Nunca houve uma divisaã o no Foro de Saã o Paulo, o que eá impressionante.
Entaã o chegamos a esse ponto. Temos um governo fraco, que naã o vai conseguir fazer
grandes mudanças estruturais na economia nem na sociedade brasileira, e que por essa
razaã o insiste apenas na revoluçaã o sexual, e que aos poucos vai tentar construir uma força
policial para implantar uma ditadura. Mas isso vai levar muito tempo. A criaçaã o de uma
força militar externa, por meio de empreá stimos milionaá rios feitos aà Cuba e aà Bolíávia, que
possa ocupar militarmente o Brasil, tambeá m vai levar muito tempo. Enquanto isso, o que a
esquerda vai fazer eá aprofundar a revoluçaã o sexual. E nada mais. A perspectiva do Brasil eá a
total desmoralizaçaã o.
S. G. – Existe alguma maneira de reverter o quadro, levando em conta que agora a
resistência exige, pela própria situação, uma articulação continental?
O. de C. – Veja, a situaçaã o que temos eá curiosa: a uá nica força que existe, a esquerda, eá uma
força fraca, que estaá em luta contra uma força inexistente. E obviamente o fraco vai ganhar
do inexistente. Ou seja, ela soá tem alguma força por total falta de resisteê ncia.
Para organizar uma força políática eá necessaá rio primeiro criar uma liderança na sociedade:
em sindicatos, associaçoã es de bairros, escolas, igrejas, etc. Para isso eá preciso uma
militaê ncia organizada, que a direita naã o tem. Ou seja, naã o haá uma base social míánima para
organizar uma direita capaz de resistir. Talvez fosse possíável organizar algo a partir das
igrejas, se os religiosos tivessem conscieê ncia do que eá preciso, mas eles naã o tem. A oposiçaã o
religiosa, que de fato existe, eá pontual, como no caso do campanha contra o aborto. E nesse
sentido ela eá muito eficiente, na verdade. Mas naã o haá uma proposta de poder, porque a
uá nica coisa que querem eá que certas leis naã o sejam aprovadas. E se uma direita naã o tem
chances de se organizar no Brasil, menos ainda teraá de se organizar internacionalmente.
S. G. – O que é preciso então para criar um movimento político?
O. de C. – As etapas saã o as seguintes: num primeiro instante, eá preciso criar um
movimento de intelectuais que discutam intensamente a situaçaã o e criem uma espeá cie de
diagnoá stico consensual. Na segunda etapa, eá preciso coletar dinheiro para formar uma
militaê ncia. A terceira etapa eá a formaçaã o da militaê ncia propriamente. A quarta etapa eá a
penetraçaã o na sociedade.
Quanto tempo levaria para fazer tudo isso? Vinte anos.
S. G. – Um movimento político precisa ter intelectuais, líderes, quadros e militantes. E a
direita não tem nada disso.
O. de C. – Exatamente. Ela naã o tem nada disso. Dificilmente vamos ver uma situaçaã o de
decadeê ncia social taã o oá bvia e taã o clara. De certo modo, o Brasil estaá clamando por uma
intervençaã o estrangeira. O paíás estaá pronto para sofrer uma descaracterizaçaã o cultural
completa, para ser dissolvido de alguma maneira.
Culturalmente ele jaá estaá dissolvido. Vemos essa dissoluçaã o ateá na líángua nacional. Hoje as
pessoas saã o incapazes de dominar o proá prio idioma, e naã o estou falando da incapacidade
do povaã o, mas dos escritores, jornalistas e intelectuais em geral. Quando acaba o idioma,
acabou a identidade nacional. A cultura brasileira de ateá os anos 60 se tornou
incompreensíável para as geraçoã es seguintes; ela aparece taã o distante como se fosse a
cultura portuguesa. Perdemos o víánculo com nosso proá prio passado cultural.
Concluindo, o que eu vejo, entaã o, no Brasil, eá um moribundo se agitando contra um
fantasma. O moribundo eá a esquerda, e o fantasma, que soá existe na cabeça do moribundo, eá
a direita. O Brasil estaá se decompondo e a uá nica coisa que a esquerda pode fazer eá
aprofundar essa decomposiçaã o.

[ 81 ] Este texto eá a transcriçaã o de uma conversa entre o autor do livro e o editor da presente ediçaã o, realizada na
biblioteca de Olavo de Carvalho, em sua resideê ncia na Virginia, EUA, em 6 de maio de 2014, com a intençaã o de servir de
posfaá cio para esta quarta ediçaã o. O texto eá publicado aqui sem a revisaã o do autor.
[ 82 ] Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
[ 83 ] Lee Penn, False Dawn. The United Religions Initiative, Globalism and the Quest for a One-World Religion , Sophia
Perennis, 2005.
[ 84 ] Juan Claudio Sanahuja, Poder Global e Religião Universal, trad. Lyeà ge Carvalho, Campinas, SP: Ecclesiae, 2012.
A Nova Era e a
Revoluçaã o Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramci
Olavo de Carvalho
Publicado no Brasil
4ª ediçaã o – julho de 2014
Copyright © 2014 by Olavo de Carvalho
Imagem da capa: Behemoth e Leviathan, gravura de William Blake

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Editor
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Editor-assistente
Thomaz Perroni

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Desenvolvimento de eBook:
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Diogo Chiuso
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Silvio Grimaldo de Camargo

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seja ela eletroê nica ou mecaê nica, fotocoá pia, gravaçaã o ou qualquer meio.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Carvalho, Olavo de
A Nova Era e a Revoluçaã o Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci [recurso eletroê nico] / Olavo de Carvalho – Campinas,
SP: VIDE Editorial, 2014.
eISBN: 978-85-67394-34-3
1. Cultura (Deterioraçaã o) 2. Intelectuais I. Olavo de Carvalho II. Tíátulo.
CDD - 306.01
305.553
IÁndice para Cataá logo Sistemaá tico
1. Cultura (Deterioraçaã o) – 306.01
2. Intelectuais – 305.553
SOBRE A OBRA

“A ‘Nova Era’ da qual Fritjof Capra se tornou festejado porta-voz e a ‘Revoluçaã o Cultural’ de
Antonio Gramsci teê m algo em comum: ambas pretendem introduzir no espíárito humano
modificaçoã es vastas, profundas e irreversíáveis. Ambas convocam aà ruptura com o passado, e
propoã em aà humanidade um novo ceá u e uma nova terra. A primeira vem alcançando imensa
repercussaã o nos cíárculos cientíáficos e empresariais brasileiros. A segunda, sem fazer tanto
barulho, exerce haá treê s deá cadas uma influeê ncia marcante no curso da vida políática e cultural
neste paíás. Nenhuma das duas foi jamais submetida ao mais breve exame críático. Aceitas
por mera simpatia aà primeira vista, penetram, propagam-se, ganham poder sobre as
conscieê ncias, tornam-se forças decisivas na conduçaã o da vida de milhoã es de pessoas que
jamais ouviram falar delas, mas que padecem os efeitos do seu impacto cultural. Para os
adeptos e propagadores conscientes das duas novas propostas, nada mais reconfortante do
que a passividade atoê nita com que o puá blico letrado brasileiro tudo recebe, tudo admite,
tudo absorve e copia, com aquele talento para a imitaçaã o maquinal que compensa a falta de
verdadeira inteligeê ncia”.