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Marion Woodman

O Vício da Perfeição
Tradução: Silvia Mourão Netto

Summus Editorial
EDITORA AFILIADA
Dados Internacionais de Catalogação da Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro. SP. Brasil)

Woodman. Marion
O vício da perfeição : compreendendo a relação entre distúr­
bios alimentares e desenvolvimento psíquico / Marion Woodman ;
tradução Mana Sílvia MourSo Netto. - São Paulo: Summus. 2002.

Título onginal: Addiction to peifcction


ISBN 85-323-0693-4

1. Anorexia nervosa 2. Bulimia 3. Mulheres - Psicologia


4. Obesidade - Aspectos psicológicos 5. Perfeição - Aspectos
psicológicos 6. Psicologia junguiana I. Título.

02-1389 C D D -616.85260019
NLM-WD100

índice para catálogo sistemático:

1. Distúrbios alimentares : Aspectos psicológicos :


M edicina 616.85260019
...parecer uma flor inocente,/ Mas por baixo ser a serpente.
Shakespeare, Macbeth

‘A Mulher com os esqueletos” (Lady Macbeth), 1906


Apresentação à edição brasileira
A tradução brasileira de O vício da perfeição é oportuna. Trata-se de um
clássico. A cada leitura encontramos nova inspiração. Inspiração para aqueles que
tratam de pacientes com distúrbios alimentares e inspiração em geral.
De maneira instigante, Marion Woodman nos conduz pela espiral do
inconsciente das mulheres. Mulheres portadoras de anorexia nervosa, bulimia nervosa e
também obesas. No Brasil, é crescente o número de mulheres com distúrbios
alimentares. Os índices de remissão completa desses distúrbios ainda estão bem abaixo
do desejável.
Para tentar compreender as mulheres que jejuam quase até a morte ou que se
fartam de comer e depois provocam vômito e tomam toneladas de laxantes e diuréticos,
temos que aceitar, como nos diz Woodman, o sentido do paradoxo.
Este livro é útil para leigos e especialistas. Seu conteúdo é transcultural. De
Toronto a São Paulo, as mulheres estão exaustas. O corpo anoréxico tem uma
consciência de sofrimento que se antecipa à consciência coletiva.
Este livro é escrito com amor. E possível sentir-se redimida, acolhida nos braços
de Sofia, a sábia senhora que Marion Woodman nos apresenta. Sofia é o princípio da
mulher sábia que nos acolhe em seu seio com firmeza e segurança. Ao ler este livro, nós
que cuidamos de pacientes com distúrbios alimentares, nos sentiremos menos solitários.
Woodman nos ajuda a vislumbrar um caminho pelo inconsciente dessas pacientes.
Mulheres com distúrbios alimentares hão de se sentir amparadas pelas idéias que
encontrarão nas páginas que seguem. Se sentirão menos sós. Woodman revela aquilo
que o corpo já sabe e que o verbo ainda tem dificuldade em expressar. Ela nos ajuda a
compreender a linguagem das anoréxicas e bulímicas. A teleologia do sintoma é
honrada através da aceitação do paradoxo. Marion Woodman é fonte de inspiração para
o meu trabalho clínico desde que a conheci, no final de 1980. É com grande prazer que
a apresento aos meus colegas e a todas as mulheres que precisam deixar o controle
excessivo sobre seus corpos. Este é o seu melhor livro, a obra completa de uma mulher
especial, uma sábia senhora que, em seu consultório em Toronto salva vidas com a
ajuda da assertividade de Sofia, a sabedoria.

Suzanne Robell São Paulo, abril de 2002


Prefácio
Tu, da quietude, noiva ainda não arrebatada,
Tu, filh a adotiva do silêncio e do tempo lento,
Selvática historiadora que assim consegues expressar
o conto florido com mais doçura do que nossa rima:
Que lenda orlada de folhas atormenta a tua form a
De deidades ou mortais, ou de ambos.
No Templo ou nas várzeas da Arcádia?
Que homens ou deuses são estes? O que abominam as donzelas?
Que louca busca? Que esforço para fugir?
Que gaitas e adufes? Que êxtases selvagens?
John Keats, "Ode on a Grecian urn"

Este livro trata da decapitação de uma bruxa malvada. Lady Macbeth, colada no
visgo de um insaciável desejo de poder, incapaz de encarar fracassos a ponto de rejeitar
a vida, servirá de símbolo da mulher destituída de sua feminilidade em razão de seu
empenho na consecução de metas masculinas que, em si mesmas, são uma paródia do
que a masculinidade realmente é.
E, embora na tragédia de Shakespeare, seja Macbeth a decapitada, a cabeça
perdida está fatalmente infectada pela maldição das bruxas. Macbeth e Lady Macbeth
são metáforas dos princípios masculino e feminino funcionando numa pessoa ou
cultura, e o relacionamento entre ambos, ao se deteriorar, demonstra claramente a
dinâmica do mal que se instala quando o princípio masculino perde a posição em sua
própria realidade, e o princípio feminino do amor sucumbe a uma ambição
intelectualizada e maquinadora. Quando Shakespeare faz seu herói-vilão ser decapitado,
ele — no contexto da peça — cura o país.
A decapitação tratada aqui integra um livro laboriosamente talhado a partir da
rocha bruta de um vício de perfeição. Repetidas vezes lutei com o corvo negro
assentado em meu ombro esquerdo a grasnar: "Não está bom o bastante. Você não tem
nada de novo a dizer. Você não se expressa bem". Reiteradamente tive de parar de
tentar aperfeiçoar uma sentença aqui, um parágrafo ali, enquanto o restante do livro
continuava esperando ser escrito. Felizmente, havia prazos a cumprir, ou eu jamais teria
conseguido arrancá-lo da rocha em que estava entranhado. E o corvo então grasna:
"Menos mal". Atribuo isso ao interesse das platéias às quais boa parte do presente
material foi originalmente apresentado, e ao encorajamento de amigos e analisandos que
tão generosamente abriram suas almas para tornar possível este livro. Dessa maneira,
direcionei meu curso entre Cila e Caribdis, de rígidos métodos acadêmicos, e o
rodamoinho de material clínico, e apartei minha criatividade, toscamente esculpida,
buscando toda a delicadeza sem cair em meu próprio vício.
É da minha natureza o gosto de trabalhar com camafeus. Aprecio o trabalho com
detalhes sutis, aperfeiçoando-os até o limite, ou seja, à exaustão, até que outro camafeu
surja no caminho. Escrever livros não é um trabalho de camafeu, e apresentar ao mundo
uma pedra mal entalhada não é fácil para uma perfeccionista. Ao reler agora o texto,
novamente, acho que algumas partes ficaram tediosas, que outras disparam num estilo

Thou still unravished bride of quietness, / Thou foster-child of silence and slow time, / Sylvan historian,
who canst thus express / A flowery tale more sweetly than our rime: / What leaf-fringed legend haunts about thy
shape / Of deities or mortals, or of both, / In Tempe or the dales of Arcady? / What men or gods are these? What
maidens loath? / What mad pursuit? What struggle to escape? / What pipes and timbrels? What wild ecstasy?
verdadeiramente compulsivo e que há trechos atolados em detalhes. Eu poderia tê-los
eliminado, mas no momento em que os escrevia tinham importância para o processo
como um todo, processo esse que demanda infinita paciência, crivado como é de
desanimadores contratempos e longos períodos de avanço pontuados por olhadelas no
retrovisor.
0 pensamento linear não me ocorre naturalmente e, sobretudo, acaba com a
minha imaginação. Nada acontece. Nenhuma idéia estala de repente. Nenhum momento
AQUI-AGORA . Nenhum momento dizendo SIM. Sem esses momentos, não estou viva.
Assim, em vez de me impelir na direção de algum objetivo, prefiro o prazer de percorrer
uma espiral. E peço ao leitor que também relaxe e desfrute dessa espiral. Se perder
alguma coisa na primeira vez, não se preocupe. Pode recuperar na segunda, na terceira,
na nona. Não importa. O importante é que você esteja relaxado para ouvir, caso um
sininho toque dentro de você, deixando que ecoe em todos os níveis de sua espiral. O
mundo do feminino ecoa. A percepção do momento é tudo. Se não ecoar, ou é a espiral
errada, ou o momento errado, ou nem há sininho.
Muitos dos meus analisandos sofrem de distúrbios alimentares e, por isso, uma
boa parte do material ilustrativo, especialmente na primeira metade do livro, refere-se à
obesidade e à anorexia nervosa. Essas síndromes, no entanto, são simplesmente
sintomas particulares de um mal-estar generalizado na sociedade ocidental. E, embora a
angústia de um corpo feminino distorcido coloque em aguda evidência esse problema, a
dinâmica psicológica em questão não se aplica tão-só à pessoa obesa ou anoréxica.
Conforme o problema do peso corporal vai sendo controlado, começam a irromper em
sonhos imagens de vazio, de prisão, de esquifes de vidro etc, as quais assinalam a
presença de problemas sexuais e espirituais comuns à maioria das mulheres modernas.
Esse material aparece na segunda metade do livro. Posso acrescentar que o lamento da
bruxa, oculto na quase totalidade do material, pode ser igualmente reconhecido também
pelos homens.

Uma versão grega da temática da bruxa é a Medusa. Antes de haver ofendido a


deusa Atena (que havia nascido "completamente armada e com um grito poderoso", da
cabeça de Zeus depois de ele ter engolido, ainda grávida, Métis, a mãe de Atena)1,
Medusa era uma linda mulher. Para se vingar, Atena transforma o cabelo de Medusa em
serpentes e torna sua face tão hedionda que todos que a vêem transformam-se em pedra
no mesmo instante. Cabe ao herói Perseu a missão de matar Medusa e, para cumpri-la,
Hermes dá-lhe uma espada curva e um par de sandálias aladas; Atena, um espelho-
escudo e Hades, um capacete que tornaria Perseu invisível. Assim apetrechado, Perseu
mata Medusa evitando ser transformado em pedra ao manter o seu olhar fixo no
espelho-escudo. Do pescoço de Medusa, então grávida, são libertados Pégaso e Crisaor.
Em sua viagem de regresso ao lar, Perseu salva a princesa Andrômeda, até aquele
momento cativa de um monstro marinho, soltando-a da rocha à qual havia sido
acorrentada em sacrifício. Perseu e Andrômeda posteriormente se casaram.
Se olharmos as modernas Atenas, produto da testa de seus pais, o que vemos não
são mulheres necessariamente liberadas. Muitas delas provaram acima de qualquer
dúvida serem iguais ou melhores que os homens: excelentes médicas, excelentes
mecânicas, excelentes consultoras comerciais. E também, em muitos casos, infelizes.
"Tenho tudo", dizem. "O trabalho perfeito, a casa perfeita, roupas perfeitas, e daí? A que
tudo isso leva? Tem de haver mais que isso. Nasci, morri e nunca vivi."
Com freqüência, nos bastidores, são prisioneiras de algum vício: comer,
embriagar-se, ter compulsão por limpeza, ser perfeccionista etc. Como já mencionei,
1 Robert Graves, The Greek myths, vol. 1, p. 46.
uma grande parte deste livro se concentra em distúrbios alimentares, mas estou
convencida de que o mesmo problema está na raiz de todos os vícios. O problema se
manifesta de várias formas conforme a pessoa, sem dúvida, mas em todas existem
aqueles padrões e atitudes coletivas que, inconscientemente, influenciam o
comportamento.
Um desses padrões é ilustrado na cruel vingança desfechada contra a até então
linda Medusa, cujas viperinas madeixas se contorcem e enroscam em incessante
agitação, estendendo-se e esticando-se, querendo cada vez mais. É possível que a
moderna Atena não esteja em contato com sua Medusa porque em algum momento
longínquo, perdido em meio às trevas da era patriarcal, ela foi trancafiada numa
caverna? Nossa geração mal tem conhecimento de sua existência, porém ela está
tornando sua presença cada vez mais perceptível em seus inextinguíveis anseios por
coisas e mais coisas. Quais são estas é algo que depende da história pessoal de cada
uma. Tentar lutar diretamente com ela é quase a derrota certa, porque ela está tão irada e
repleta de energia reprimida que encará-la ocasiona uma paralisia de medo, como
Margaret Laurence descreveu em seu The stone angel com comovedora e devastadora
exatidão. Temos de encontrar nosso próprio Perseu interior e guarnecê-lo com as armas
certas deixando então que entre em cena, usando o capacete ou manto da invisibilidade,
para poder remover a cabeça atormentada. Ele não ousa olhar Medusa diretamente nos
olhos; tampouco ousa desviar o olhar da imagem dela no espelho. Assim que a cabeça é
decapitada, Pégaso, o cavalo alado da criatividade, é libertado junto com Crisaor,
detentor da espada dourada. Então o herói, impregnado de sua vitória, encontra a virgem
prestes a ser sacrificada ao monstro marinho, desacorrenta-a e leva-a como sua noiva.
Na verdade, estou sugerindo que muitos de nós — homens e mulheres — somos
viciados de um jeito ou de outro porque nossa cultura patriarcal enfatiza a
especialização e a perfeição. Compelidos a fazer o melhor na escola, no trabalho, nos
relacionamentos, em cada aspecto de nossa vida, tentamo-nos tornar verdadeiras obras-
primas. Nessa árdua luta para criar a nossa própria perfeição, esquecemos que somos
seres humanos. Por um lado, tentamos ser a eficiente e disciplinada deusa Atena e, por
outro, somos forçados a afundar na voraz e reprimida energia da Medusa. Atena está
acorrentada à Medusa tão certamente quanto esta àquela. Somos prisioneiros dos
radicalismos dos deuses, um território que não nos pertence. Nesse entretempo, a
virgem Andrômeda fica esquecida, presa à rocha, correndo o risco de ser sacrificada a
um monstro do inconsciente. Ela é a esquecida, a "noiva ainda não arrebatada" de nossa
cultura. Enquanto estiver acorrentada à rocha, deve se manter calada e entorpecida.
Permanece como uma figura da urna grega de Keats, com toda a sua ardente
amorosidade paralisada na marmórea imobilidade.
Para sempre terna e ainda p o r ser desfrutada,
Para sempre arfando, e para sempre jovem ;
A paixão humana em tanto alento muito acima,
Deixando um coração pesaroso e saturado,
Testa em brasa, língua sôfrega2

Este livro investiga o coração da impetuosa Atena, a angústia da coleante


Medusa, e sugere maneiras de libertar a virgem para que ingresse em sua vibrante
condição de mulher plena antes de ser sacrificada ao perfeccionismo da morte. Somente
ao amarmos nossa donzela interior e lhe permitirmos que encontre nos recessos de seu
ser o fogo da paixão é que poderemos ousar nos abrir à deusa enfurecida que ruge no
cerne mesmo do vício. Somente pelo amor é que poderemos transformá-la e consentir

2 John Keats, “Ode on a Grecian um”, linhas 27-30


que ela nos transforme.
Quando minha donzela interior fraqueja, encorajo-a com um koan zen:
Cavalgue em seu cavalo pelo fio da espada
Esconda-se em meio ás labaredas
As flores da árvore frutífera desabrocharão no fo g o
O sol se levanta no poente 3

3 Thomas Merton, Zen and the birds o f appetite, p. 1.


Introdução
DA
Damyata: O bote respondeu
Alegremente, à mão hábil com vela e remo
O mar estava calmo, seu coração teria respondido
Alegremente, quando convidado, batendo obediente
Às mãos no comando
T. S. Eliot, "What the thunder said", The waste land

Certa noite, há muitos anos, tivemos uma festa, uma festa memorável. Era a
noite de despedida do elenco de uma produção que fora excelente. Todos estavam
exuberantes, felizes por ter sido a última apresentação a melhor de todas, felizes por se
verem momentaneamente livres da disciplina, mas ainda vivendo um mundo que não
existia mais. Os sets tinham sido desmanchados antes de sairmos do teatro.
E dançamos, comemos e bebemos naquela terra de ninguém em que ainda não
havíamos deixado nossos papéis para trás, onde não havíamos ainda retomado
inteiramente aquelas pessoas que sabíamos reconhecer como "nós". Por volta das duas
da manhã, em meio à nossa algazarra dionisíaca, um dos protagonistas cruzou a sala
para me agradecer a festa. Suas passadas eram deliberadas; seu rosto estava sério.
"Mas a festa ainda não terminou", eu disse. "Não há apresentação amanhã."
"Grande festa!", ele disse. "Mas agora eu tenho de ir. Tenho uma bebedeira séria
pela frente."
Disse aquilo em voz baixa e decidida. Dava a impressão de estar a caminho de
um encontro com a mulher que amara a vida inteira mas com quem não poderia casar-
se. Lembro-me de estar ali, no meio dos dançarinos olhando em seus olhos orgulhosos.
Estive a ponto de lhe dizer que havia muita bebida na mesa, mas senti que era
irrelevante.
Os que se entregam seriamente à bebida são como os que se entregam
seriamente à comida ou ao jejum. São como os viciados profissionais. Seu vício exerce
sobre eles um fascínio que age como algum segredo poderoso que é a essência mesma
de tudo o que fazem. Quem se entrega seriamente a comer escuta os outros falando de
dietas, de Vigilantes do Peso, de exercícios. Escuta quando comparam animadamente os
quilos perdidos, os quilos adquiridos, quando se encorajam, zombam e consolam uns
aos outros. Mas não é um deles. Conhece as dietas melhor que todos e sabe que, no seu
caso, Vigilantes do Peso é inútil. Sabe que sua vida está em alguma espécie de Balança
Todo-Poderosa na qual deve subir sozinho. Está num tipo de conluio com a comida,
conluio que provavelmente não entende mas, não obstante, exerce sobre si um poder
mágico e sedutor. Odeia e adora tudo isso; e mantém seu conluio em segredo.
Este livro trata das pessoas que se entregam seriamente a comer e beber,
daquelas que limpam a casa sem parar, e de todos os outros tipos de compulsão. Como
analista, partilho a secreta angústia daqueles homens e mulheres prisioneiros de diversos
tipos de compulsão. A maioria dessas pessoas se compõe de profissionais altamente
respeitados cientes de que no trabalho não encontram dificuldade, entretanto sabem que
sua derrocada interior se repete segundo um padrão cíclico, diário, semanal ou mensal.
Sabem que sua mão direita não tem idéia do que a esquerda está fazendo, e sabem que a
esquerda está minando na surdina o que parece ser uma vida bem-sucedida. Este livro
também se refere àqueles que se entregam seriamente ao trabalho, ou aos viciados em
trabalho, que dizem: "Sei que vou conseguir a promoção. Dou perfeitamente conta do
serviço. Mas se isso é tudo o que existe não estou interessado/a. Tudo isso não leva a
parte alguma. Não faço nada além de trabalhar. Minha vida pessoal é uma droga".
Por trás das máscaras de vidas bem-sucedidas ocultam-se os espectros da
desilusão e do terror. Um fator comum aparece repetidamente. No plano consciente, as
pessoas estão sendo compelidas a se sair cada vez melhor dentro das rígidas referências
que criaram para si mesmas; inconscientemente, não conseguem controlar seu
comportamento. Há um sem-número de razões individuais e coletivas para a irrupção do
caos tão logo a agenda do dia esteja cumprida. A força de vontade só consegue durar até
aí. Se essa força de vontade houver sido mantida à custa de tudo o mais na
personalidade, então o nada que se instala é absoluto. Quando, ao cair a noite, vem o
momento de se recolher, a máscara e o Ser interior não se comunicam.
As compulsões estreitam a vida até não restar mais o que viver; sobra existir,
mas viver, não.
Em seu The denial o f death [A negação da morte], Ernest Becker torna bastante
clara essa dicotomia:
De um lado, vemos um animal humano que está parcialmente morto para o mundo, que é mais
altamente "dignificado" quando m ostra certa ignorância de seu destino, quando se permite ser arrastado
pela vida; que é o mais "livre" possível quando vive em segura dependência dos poderes à sua volta,
quando menos se encontra na posse de si mesmo. De outro, temos a imagem de um animal humano que é
abertamente sensível ao mundo, que não consegue deixá-lo de fora, que é arremessado de volta ao
caldeirão de seus próprios parcos poderes e parece o menos livre possível para se mover e agir, o menos
possível dono de si mesmo, e o mais vilipendiado. Qual destas imagens escolhemos para com ela nos
identificar depende em grande parte de nós mesmos.1

Sejamos animais humanos "parcialmente mortos para o mundo" ou animais


humanos "abertamente sensíveis para o mundo", há muitos de nós sendo arrastados por
uma força que percebemos como vinda de fora ou, com a mesma força, vinda de dentro,
ou ainda chicoteados por ambas até que "eu" não tenho mais controle de minha própria
vida. Esse "eu" não tem um sistema próprio de valores. Não é o senhor em seu próprio
castelo. Todo dia a máscara, ou persona, se desempenha com perfeita eficiência, mas
quando o serviço está concluído aqueles ritmos frenéticos e estranhos continuam
dominando o corpo e o Ser. Não há um "eu" para dar um basta nisso, nenhum ego forte
e diferenciado capaz de desacelerar e recuperar os ritmos naturais.
Se esses ritmos naturais afundaram na inconsciência total, o ato de ser
desaparece e, tal como o bicho espancado, neurótico, aterrorizado, o corpo tenta
prosseguir com ritmos totalmente estranhos à sua natureza. A atitude de lobo que, de
dia, cobra mais, mais e mais, à noite uiva "eu quero, eu quero, eu quero". Os valores da
sociedade baseados na ética do trabalho e em padrões, ambições e metas perfeccionistas
sustentam a atitude de lobo na selva profissional, mas a sociedade nada pode fazer para
alimentar o lobo solitário à noite. Algumas pessoas se deixam levar pelo bando e
afundam em álcool, sexo, comida e drogas. Em seu esforço de fugir dizem: "É melhor
estar bêbado que enlouquecer, melhor estar vomitando que ficar louco, melhor ser gordo
que 'pirado'". Mas não há alguém bebendo, amando, comendo ou vomitando porque não
há esse alguém presente no que faz. Os instintos, dotados de um ponto natural de
saciação, não estão em funcionamento. Esse vazio nunca será preenchido.
Algumas pessoas que atendo no meu consultório recusam-se a deixar-se arrastar
pelo bando mas, mesmo assim, caem nas garras da síndrome do lobo. Engolem a
contragosto o álcool que não apreciam, devoram alimentos que não mastigam, faxinam
a casa imaculada todas as noites, ou se livram de qualquer resíduo de carne que ainda1

1. Ernest Baker, The denial o f life, p. 24.


reste em torno de seus pobres ossos. Acabam indo para terapia porque sabem que "isso
é loucura". Seu "eu" está possuído por algum demônio sobre o qual não têm o menor
controle. Esse demônio que, de dia, enverga a náscara da respeitabilidade mostra a
verdadeira cara à noite. Exige perfeição — eficiência perfeita, mundo perfeito, limpeza
perfeita, corpo perfeito, ossos perfeitos, mas como as pessoas são humanas e não
anúncios de TV em horário nobre elas descambam no caos perfeito e na morte perfeita.
O demônio as destrói e, estando destruídas, finalmente caem no sono.
O que falta é o equilíbrio que lhes devolveria qualidade à sua vida. O princípio
masculino perfeccionista, racional, orientado para a consecução de metas, tem de ser
equilibrado pelo princípio feminino. Esses dois termos, masculino e feminino, estão a
tal ponto comprometidos atualmente que eu gostaria de esclarecer seu significado
psicológico descrevendo um incidente simples.
No último verão, meu amigo Tony e eu, de pés descalços e cabelos ao vento,
velejávamos em nossa pequena embarcação pelas águas encapeladas de Georgian Bay,
deslizando à tona d'água, adernando, soltando mais os cabos, ao sabor das traiçoeiras
correntes e do caprichoso vento da baía. Não sou marinheira mas adoro servir de
tripulante para meu amigo velejador. Ele facilmente assume o comando do barco e,
observando-o excitado e contido, cada músculo de seu corpo tensionado no esforço de
manter o barco no rumo, dou-me conta, de repente, de que ele é uma metáfora para o
equilíbrio entre masculino e feminino. Vejo o corpo forte e a mente atenta fundidos em
perfeita harmonia, ao mesmo tempo concentrados e descontraídos, sensíveis às
implacáveis energias em meio às quais velejamos. Sua mão direita controla os cabos
com firmeza, seus dedos sensíveis às variações na energia do vento. Sua mão esquerda
segura o leme com o mesmo nível de tensão, que não é absolutamente retesamento mas,
antes, uma entrega consciente às energias da água. Sabemos que dependemos do vento e
das ondas para ir adiante, mas dependemos igualmente de sua experiência de velejador.
Uma falha de julgamento de sua parte, um momento de indecisão, e estaríamos sendo
arremessados contra a baía, de cabeça e tudo. Com todas as velas içadas, nosso
pequenino barco cruza as águas, como se o fizesse sobre o fio da navalha. Firmamo-nos
com os dedos dos pés e nos inclinamos para trás, aproximando-nos o mais possível da
água para manter o equilíbrio. As mãos dele ficam o tempo todo respondendo à
mensagens que leme e cabos transmitem a cada instante.
Ao ancorarmos em segurança, piso no píer com pés ensangüentados de tanta
força feita e com as coxas trêmulas, queimando. Tony arria as velas calado, enrola os
cabos e sorri, sabedor. O que sabe transpira de suas passadas enquanto sobe a escarpa,
confiante, ereto, lépido. Ele conhece sua própria força; confia em seu corpo animal. É
capaz de entregar sua força pessoal a outra, infinitamente maior que a sua. O eterno
soprou nele porque ele se colocou na exata sintonia necessária para recebê-lo.
Bem, não estou absolutamente sugerindo que eu, frágil fêmea, me coloquei de
propósito numa situação para depender de um grande homem forte. Quanto a isso, fico
igualmente feliz de servir de tripulante para minha amiga Mary, que é uma velejadora
tão experiente quanto Tony. E essa é exatamente a questão. Masculinidade e
feminilidade nada têm a ver com reserva de propriedade de um corpo masculino ou
feminino. Se somos biologicamente mulheres, o ego é feminino e, dentro de nós,
carregamos nossa própria masculinidade, que Jung chama de animus. Se somos
biologicamente homens, o ego é masculino e carregamos em nosso interior nossa
própria feminilidade, a anima. Masculinidade e feminilidade não são uma questão de
gênero, embora, historicamente, em nossa cultura ocidental sua antiga identificação com
o gênero ainda nos dificulte vê-las dessa maneira "liberada" . É com base nessa visão
liberada da masculinidade e da feminilidade que trabalharei neste livro. É mais uma
questão de diferenciação psíquica que biológica.
O I Ching, ou O Livro das Mutações chinês, reconhece as contínuas
modificações que ocorrem dentro da pessoa. A energia yang, o masculino criativo,
avança com persistência e deliberação rumo a seus objetivos até se tornar muito intenso
e então quebrar; nesse momento, o yin, o feminino receptivo, entra em cena vindo de
baixo e aos poucos ascende até o alto. A vida é uma tentativa contínua de equilibrar
essas duas forças. Conforme vai amadurecendo, a pessoa se torna capaz de evitar os
extremos de ambas as polaridades, de ta! sorte que o pêndulo não se excita demais em
seu movimento para a direita nem ricocheteia depois com estrépito para a esquerda,
num ciclo incessante de ação e reação, de inflação e depressão. Em vez disso, a pessoa
reconhece que esses pólos são domínio dos deuses, são extremos de preto-e-branco.
Identificar-se com um ou outro só pode levar a um mergulho no oposto. A proporção
entre esses pólos é de uma exatidão cruel. Quanto mais me empenho na radiosidade
branca, de um lado, mais negra é a energia que inconscientemente se constela às minhas
costas: quanto mais força eu faço para aperfeiçoar minha auto-imagem ideal, mais
transbordamentos de conteúdos de minha privada aparecerão nos sonhos.
O homem que se identifica com seu próprio ideal se torna como o amante
enamorado de Swift ao se lamentar:
Não admira que tenha perdido o Juízo; Oh! Célia, Célia, Célia defeca!2

Ele não consegue aceitar que a alva radiância de sua bem-amada possa ser
maculada pela humanidade de suas funções excretoras.
Como criaturas humanas, e não como deuses, devemos perseguir a consistente
linha cinzenta que traça seu percurso serpenteando só ligeiramente à esquerda e à direita
a posição intermediária entre pólos opostos.
Esse é o ego diferenciado, quer masculino, quer feminino, traçando seu caminho
entre vento e água. A energia masculina positiva se orienta por metas e tem a força de
vontade de avançar para realizá-las. Exerce sobre si mesma a disciplina necessária a
fazer seus dotes — físicos, intelectuais, espirituais — render o máximo possível,
empenhando-se para conseguir harmonizá-los. Chega, às vezes, a reconhecer sua
própria individualidade e, paradoxalmente, quanto mais forte, menos rígida e mais
flexível se torna. Não tem de depender de padrões obsoletos de comportamento, de
velhos hábitos, de antigas tradições. Com confiança cada vez maior, experimenta a
excitação de novos modos de se conduzir e o contínuo surgimento de novas energias.
Aprende a sustentar uma tensão perfeita entre um ponto de vista firme e a entrega às
forças femininas criativas interiores. Seu poder de penetração insemina e libera a
criatividade do feminino.
O feminino é um vasto oceano de eterno Ser. Foi, é, será. Contém animalidade
primordial, "rubra nos dentes e nas garras", assim como as sementes potenciais de vida.
Conhece as leis da natureza e coloca-as em prática com implacável justiça; vive no
agora eterno. Tem seus ritmos próprios, mais lentos que os da energia masculina,
deslocando-se em meandros, em movimentos espirais, aparentemente voltando-se sobre
si mesmo, mas sendo inevitavelmente atraído para a luz. O feminino encontra o que lhe
é significativo e brinca. Pode trabalhar com afinco mas sua atitude é sempre lúdica, pois
ama a vida. Ama, e se esse amor for penetrado pelo masculino positivo suas energias
são liberadas para que fluam com a vida, num constante fluxo de novas esperanças, fé e
dimensões do amor. O feminino espiritual, contudo, sempre está enraizado nos instintos

2 Jonathan Swift, "A beautiful Young nymph going to bed". ("Célia" é um trocadilho com o termo
"caecum", que significa "ceco; a primeira parte do intestino grosso, que se prolonga no fundo-de-saco".)
naturais, de tal sorte que, por mais espiritualizado que se torne, sempre está do lado da
vida. Nisso difere do masculino hiper-espiritualizado (tanto em homens como em
mulheres), cuja tendência é a de nos seduzir àquele torpor que dê cabo da "aflição... da
qual é herdeira a carne".3
Os bons marujos, diante das tempestades da vida, usam seu próprio "eu", seu
ego, para discriminar em que situação usar sua masculinidade e quando recorrer à
feminilidade. Constroem um ego forte o suficiente para fluir com o poder do vento e da
vaga. E esse ego só pode ser forte o bastante se tiver o apoio da sabedoria do corpo,
cujas mensagens estão em contato direto com os instintos. Sem essa interação entre
espírito e corpo, o primeiro sempre cairá em armadilhas. No exato momento em que
poderia alçar vôo, é despotencializado pelo medo e pela falta de confiança pois não
pode contar com suas raízes instintivas nem mesmo para sobreviver. Sem essas raízes, o
corpo é percebido como inimigo. Como um barco sem leme, rodopiando em círculos
nas garras do pânico, o marinheiro pode ser arrastado para o vórtice da paralisia ou do
terror. Se, por outro lado, espírito e corpo estiverem em sintonia, cada um complementa
o outro com sua forma especial de sabedoria.
Estamos vivendo numa era tecnológica que deposita sua fé na precisão do
computador. Os seres humanos tendem a se tornar como o deus que veneram mas,
felizmente para nós, nossa agonia não nos permite tornar-nos robôs perfeitos. Por mais
que nos empenhemos na tentativa de erradicar a natureza, ela terminará fatalmente
exercendo seu próprio sistema de valores, cobrando seu preço singularmente doloroso.
Nossa geração é uma geração-ponte, tentando dar um gigantesco passo adiante em sua
consciência. Diante da energia nuclear, face a face com a possibilidade de nossa própria
autodestruição, continuamos tentando recuperar a ligação com as raízes que, há séculos,
têm-se mantido adormecidas na esperança de que a seiva que vem das profundezas
possa, de alguma maneira, contrabalançar a esterilidade da máquina perfeita. A maioria
das pessoas não tem modelo. Embora possamos ter amado nossos lares e nossas
famílias, precisamos ser implacavelmente honestos ao avaliarmos nosso legado
psicológico.
Quase todas as nossas mães nos "amaram" e fizeram o melhor possível para nos
oferecer alicerces sólidos com os quais termos uma vida boa. Praticamente todas as
mães, de todas as gerações, fizeram o mesmo, todavia permanece o fato de que, nesta
geração, a maioria das pessoas de ambos os sexos não tem uma matriz materna forte a
partir da qual enfrentar a vida. Muitas mães e avós de mulheres desta geração são filhas
de sufragistas, já a caminho de descobrir um novo papel para as mulheres. Algumas
delas ansiavam por ser homens; outras estavam envolvidas com seu lado masculino e
dominavam o lar com valores masculinos, de maneira que a atmosfera em casa era
alimentada pelo desejo da ordem, pelo ideal de atingir metas e de alcançar sucesso na
vida, sucesso que elas mesmas sentiam haver-lhes escapado. A bílis de suas decepções
era bebida por seus filhos junto com o leite que mamavam. Alheias ao seu próprio
princípio feminino, essas mães não poderiam transmitir sua alegria de viver, sua fé no
ser, sua confiança na vida em si. Motivadas a fazer coisas com eficiência, não
conseguiam se entregar e permitir apenas a vida acontecer. Não ousavam permitir-se
reagir espontaneamente ao inesperado. E, como seus filhos eram às vezes o inesperado,
esses bebês tinham três pontos desfavoráveis antes de serem devolvidos ao berço,
inesperados como eram não só como pessoas mas também em seu temperamento, pois
manifestavam pensamentos e sentimentos que destoavam das projeções de seus pais
concernentes a como devem ser os filhos. Em tal atitude não há lugar para a vida ser
vivida do jeito que vem, nenhum espaço para que pais e filhos possam descontrair e
3 Shakespeare, Hamlet, ato 3, cena 1, linhas 62-3.
"ser". Conseqüentemente, essa criança vive uma difusa sensação de culpa, a
personificação do desapontamento de sua mãe não tanto com seu filho mas, sim,
consigo mesma. Essa criança cresce tentando justificar o próprio fato de existir já que
sua existência, como realidade psíquica, nunca obteve reconhecimento.
A mãe que não se sente à vontade em seu próprio corpo não consegue interagir
com alegria com o filho que leva no ventre, assim como não sente como triunfo esse
parto. Não consegue alimentá-lo com as ternas carícias que deveriam acompanhar as
longas horas de amamentação. Em seu Magical child, Joseph Chilton Pearce tece uma
veemente argumentação a respeito das matrizes pelas quais passamos. Sobre a primeira,
o útero, ele diz:
Se o corpo da mãe produzir quantidades maciças de esteróides adrenais durante a gestação, como
decorrência de uma ansiedade crônica, de maus-tratos, ou de medo, o bebe dentro do útero
automaticamente partilha esses hormônios do estresse, pois eles atravessam diretamente pela placenta.
Esse bebê está nas garras de uma ansiedade difusa, de uma espécie de estresse corporal permanente...
Preso nessa tensão, o bebê in útero não tem condições de se desenvolver intelectualmente nem de
estabelecer com a mãe o vínculo preparatório para o parto.4

E mais adiante o autor assinala:


Se a primeira matriz de formação for incompleta ou insuficiente, a matriz de formação seguinte
será duplamente difícil. A jovem vida sofre cada vez mais danos, porque a substituição das matrizes deve
ocorrer automaticamente.5

Pearce desfecha um ataque arrasador contra os procedimentos tecnológicos da


sala de parto. Segundo sua descrição do que se passa no momento do nascimento, é
notável que o bebê enfim consiga sobreviver. Resta a indagação de quais partes serão
destruídas em caráter permanente mediante o trauma tão distorcido pelas modernas
técnicas da medicina. É certo que os acontecimentos da primeira passagem de um
mundo para o outro deixem marcas indeléveis na psique infantil. Pearce afirma:
[...] funciona como uma bomba-relógio, e nenhum dos cúmplices do crime jamais terá de pagar
por isso pois é uma explosão que acontece lentamente, numa fusão que ocupa anos e cria um tipo tão
difundido e diversificado de caos que poucos se darão ao trabalho de refazer o percurso até o princípio e
descobrir quem acionou o mecanismo em primeiro lugar.6

O bebê sai lentamente de dentro de sua mãe, mas


só pode fazer essa transição de forma plena e satisfatória na mesma medida em que sua mãe for
seu porto seguro absoluto e inquestionável, ao qual ele sempre poderá instantaneamente regressar e ser
nutrido. Somente quando o bebê sabe que a matriz mãe não o abandonará é que consegue ingressar na
infância e na meninice com confiança e força... A mãe física permanece como a matriz primária mesmo
quando nos separamos dela, entrando em matrizes mais amplas... Por mais que ampliemos nossas
abstrações até o raciocínio puro e a realidade fabricada, a mente obtém energia do cérebro, que obtém
energia da natriz corporal que obtém energia da matriz da terra... No fundo, temos somente duas
matrizes: a física, que começa no útero e inclui a mãe, a terra e o corpo físico, e a matriz abstraía do
pensamento que progride nos relacionamentos, na capacidade para o interagir.7

E claro, no sistema de Pearce, que a maioria não tem, ou só tem em parte, as


matrizes capazes de nos oferecer fé em nós mesmos e em nossa vida. A forma extrema a
que pode levar o feminino não realizado, assumindo ideais masculinos estranhos à sua

4 Joseph Chilton Pearce, Magical child, p. 22.


5 Idem, ibidem.
6 Idem ibidem, p. 46.
7 Idem ibidem, pp. 24-5.
natureza, talvez encontre seu mais claro exemplo no Macbeth de Shakespeare.
No primeiro ato, Macbeth reconhece o poder de sua própria imaginação. Ele
enxerga nitidamente a adaga que pode induzi-lo à sua autodestruição. Cuidadosamente,
ele avalia os valores morais envolvidos em matar seu rei e destruir a própria alma, caso
persista nesse intento. Ele decide "seguir adiante com sua proposta". Mas Lady Macbeth
tem outras idéias. Ela é prisioneira de um ideal de reinado. Para atingir essa meta, ela
trai sua natureza feminina "até as últimas conseqüências" e, num dos solilóquios mais
sombrios jamais escritos por Shakespeare, ela entrega sua alma "aos espíritos que
vigiam as trevas mortais". Desse modo, em lugar de cumprir seu papel feminino em
relação a seu homem — vale dizer, em vez de ajudá-lo a manter contato com seus
valores afetivos —, ela zomba do ego masculino dele e aponta-lhe um caminho que o
aliena de si mesmo, dela e, enfim, de toda a estrutura cósmica. Encapsulados em seus
ideais e suas projeções, ambos perdem o contato com o elo íntimo que os mantém
humanos.
Macbeth e Lady Macbeth surgem a princípio com tratamentos ternos,
chamando-se de "meu querido", "meu amor". Ao se envolverem mais e mais com seus
ideais de reinado, perdem um ao outro. No momento crucial da decisão, ela desafia a
virilidade do marido: "Mas enfiando tua coragem no buraco certo não fracassaremos".
Se nesse momento sua função sentimento estivesse ativada, ela estaria em sintonia com
seu coração e, em vez disso, teria tomado o rosto dele em suas mãos para virá-lo para si
e dizer-lhe: "Por que estás com medo?". O desfecho da cena teria sido muito diverso.
Nossa derradeira imagem de Lady Macbeth é a de uma mulher de camisola, em transe,
encaminhando-se para o quarto que antes haviam compartilhado, encontrando só o
espaço vazio e não mais a mão que antes amara, a voz em lamento levando-a "para a
cama, para a cama, para a cama". Seus olhos estão abertos mas nada vêem. A vela bem
poderia estar apagada. Ela criou uma imagem errada. Poderia ter feito um grande rei
para a Escócia, mas não teve imaginação para reconhecer que seu marido não era capaz
disso. A sua masculinidade incinerou sua feminilidade: erro fatal para qualquer mulher.
Quando isso acontece, a vida inevitavelmente se torna
[...] um conto
Narrado p o r um idiota, muito barulhento e furioso,
Significando n a d a 8

Divorciado do feminino e dotado de vida própria, autônoma, o masculino produz


uma falsa noção de reinado: o poder pelo poder. Com isso, o reinado se vê reduzido a
uma demoníaca paródia do verdadeiro reinado. Dessa maneira, quando a masculinidade
de Lady Macbeth usurpa sua feminilidade, Macbeth não a trata mais de "meu querido
amor", mas como uma bruxa tricéfala que se apodera dele.
Esse tema da destruição do verdadeiro reinado é explorado várias vezes por
Shakespeare, sempre para mostrar a mulher negando sua verdadeira natureza quando
simula valores masculinos num braço-de-ferro que é alheio à sua identidade feminina.
Embora seja evidente a crescente proporção de Ladies Macbeth entre as
mulheres supostamente emancipadas, uma reação já se encontra em andamento. Muitas
mulheres agora se recusam a ser como Lady Macbeth. Elas se negam a ser envolvidas
pelos "mais acres vapores do inferno", a se dedicar a um reinado que só arremete para a
loucura. Recusam-se a impelir seus maridos nessa direção e a ser pessoalmente
arrastadas para lá. Conscientemente ou não, sabem que todos os perfumes da Arábia não
suavizarão a mãozinha que cometeu suicídio.
A morte perpetrada foi, com efeito, o assassinato da Grande Mãe, compreendida

8. Shakespeare, Macbeth, ato 5, cena 5, linhas 26-8.


como a vida psíquica interior expressa num mundo de símbolos que alimentam o
espírito. Como Jung assinalou, estamos tão ocupados em afazeres e metas a alcançar
que perdemos o contato com nossa vida interior, com essa vida que confere significado
aos símbolos e, por outro lado, cria os símbolos que dão sentido à vida. Nenhuma outra
era divorciou tão totalmente a realidade externa da interna, cuja matriz é a Grande Mãe.
Nunca antes estivemos tão distantes da sabedoria da natureza e de nossos próprios
instintos. O mundo literário de Eliot a Beckett suplica por água ou alimento; o mundo
da arte cria distorções que vão dos esqueletos anoréxicos de Giscometti à burguesia
obesa de Botero.
A deusa que está no centro da terra de ninguém de nossa cultura é uma Lady
Macbeth. Não a chamamos desse modo. Não sabemos que está ali. Tal como ela,
prosseguimos pela vida como sonâmbulos, de olhos abertos mas com os sentidos em­
botados. Lady Macbeth personifica o extremo da mãe negativa, capaz de arrancar os
miolos do próprio filho e de sacrificar o amor ao poder. Não deve ser confundida com a
Madona Negra da mitologia cristã (ver pp. 111-14), a qual vive mediante nossa natureza
instintiva, escura e espantosa, a qual, se tiver oportunidade para tanto, pode curar-nos do
desespero. Por meio dela, nossa criança divina tem como nascer. Mas nada de divino
pode advir de uma Lady Macbeth. Ela não tem amor nem a força redentora, pois cortou
o vínculo com seus instintos femininos. Seu assim chamado "amor", portanto, mais
aliena que reúne. É dela a voz lamurienta que diz: "Como é que você pode fazer isso
comigo?".
É verdade que Lady Macbeth não sabia o que estava fazendo; tampouco o sabem
suas adoradoras. Algumas das mais suaves, gentis e dedicadas bruxas existentes sugam
a energia de vida daqueles a quem "amam". Não compreendem quando seus filhos não
conseguem comer a comida que prepararam com tanto afinco. Só quando a
identificamos e denominamos é que podemos recuperar o poder que ela, insidiosamente,
drenou de nós. Ela ainda caminha como sonâmbula entre nós; ainda vai se deitar,
totalmente inconsciente, sua agonia feminina gritando nos sonhos. Seu é o princípio do
poder que castra os homens e mata a capacidade feminina de relacionar-se. Essa deusa
está no cerne de muitos vícios. Não podemos redimi-la a menos que arranquemos os
véus que cobrem os nossos olhos e vejamos quem ela é bem como a sedutora feitiçaria
que contém.
Em meu consultório, testemunho essa luta entre a realidade interior e a exterior,
entre feminino e masculino, entre ser e fazer, entre inconsciente e consciência, sendo
travada em termos dramáticos nas analisandas obesas e anoréxicas que atendo. Muitas
delas são mulheres jovens de nível universitário, sensíveis, eficientes, cujo processo
educacional foi dedicado à obtenção de boas notas, cuja sensibilidade foi elaborada até
o ponto de tornar a vida do dia-a-dia tediosa, brutal e mesquinha. Sua aliança com o
princípio masculino fendeu o seu princípio feminino em preto-e-bran-co: de um lado, a
boa mãe que é afetuosa, acolhedora, que ama incondicionalmente; de outro, a prostituta
impiedosa, invejosa, indiferente, sexualizada. Em geral têm sentimentos ambíguos com
relação à própria mãe: tanto uma identificação inconsciente com seus ideais de natureza
masculina como uma rejeição total destes e a identificação inconsciente com a mãe
positiva e a filha dependente, ao mesmo tempo que rejeitam totalmente ambos os
papéis. Como em geral não tem consciência da dualidade de seus sentimentos e da
contradição existente no centro de sua personalidade, por um lado parecem apegar-se à
vida e, por outro, ficam sistematicamente se destruindo. Assim que se conscientizam
dessa dualidade, cuidam para ocultar o verdadeiro conflito por trás de uma máscara
silenciosa e passiva.
São acusadas de ser dramáticas, histéricas e orgiásticas. Talvez essas acusações
sejam verdadeiras mas, de certo ponto de vista, a razão para tanto é clara. Elas não têm a
menor noção de braços sempre disponíveis a acolhê-las durante as crises da vida; a
matriz original da mãe não existe. Essa privação as impele a tentativas violentas de
sobreviver; momentaneamente, podem consegui-lo, mas depois afundam de novo na
letargia da inexistência. Sua existência é, na melhor das hipóteses, precária porque não
tem nenhuma noção de um continuum de cotidiano. Essas moças buscam maridos que
lhes dêem demonstrações diárias de bem-querer e, com isso, podem no casamento
prender-se de novo à mãe de quem tentaram se afastar.
A obesa e a anoréxica estão lutando para se conscientizar mediante o alimento
aceitando-o ou o rejeitando. Em nossa cultura, o alimento é um catalisador para
praticamente qualquer emoção — uma maneira positiva de expressar amor, alegria,
aceitação; ou, negativamente, culpa, suborno, medo de rejeição. O alimento e a
qualidade do alimento estão no centro de todas as comemorações. Partilhar de um
alimento é fazer parte da festa; rejeitá-lo é ser deixado de fora da vida.

O belo é feio e o feio é belo;/ Atravessa o nevoeiro e o ar fétido*


Shakespeare, Macbeth

Limite do Círculo iv, 1960. M.C. Escher (© Herdeiros de Escher, 1982, a/c Beeldrecht
Amsterdam; Coleção Haags Gemeentemuseum, Haia)

Cada vez mais, entendo o complexo alimentar como uma neurose que está
forçando as mulheres inteligentes a se tornarem conscientes. Isso é ver positivamente o
complexo alimentar, em termos de sua finalidade. O outro lado é que tal

Fair is foul an foul is fair;/ Hover through the fog and fílthy air. (N.T.)
conscientização pode não ser suportável. Ela começa com o que problema de peso:
quando o conflito ainda não se encontra no plano da consciência, assume uma forma
psicossomática. Em nossa cultura, gordura é tabu; assim, a neurose ataca onde dói mais:
no próprio cerne do ego feminino. A menina gorda não acompanha o que as colegas
fazem; ela não pode comer todas as bobagens, não é convidada para as festas de
adolescentes, não pode usar calça jeans, não é sexualmente atraente. Em resumo, em
nossa sociedade, ela não é fêmea, e ninguém sabe disso melhor que ela. O isolamento a
obriga a mergulhar em seu próprio mundo interior em que as fantasias compensam a
vida não vivida e as imagens da ficção vão aos poucos assumindo uma força numinosa.
O proibido se torna, ao mesmo tempo, objeto desejado e perigoso,
Enquanto o impulso inconsciente por trás do alimento, que envolve o
relacionamento da menina com sua mãe, não for compreendido, será posto em prática
em atuações destrutivas. Se for entendido, existe alguma chance de ser elaborado
criativamente. O que a consciência exige é o reconhecimento da diferença entre
aparência e realidade, que define os sentimentos ambivalentes da menina pela mãe. Por
um lado, ela admite tudo o que a mãe deu; por outro, sente a negatividade implícita nos
presentes, especialmente a rejeição de si mesma como pessoa.
As mulheres com quem tenho trabalhado e as que tenho em mente neste livro
são conscientes o bastante para efetuar a distinção entre aparência e realidade. Depois
de um intervalo de um a três anos em análise, estão empenhadas em lidar com seus
sentimentos ambivalentes. No mundo elas funcionam com eficiência e muitas ocupam
posições profissionais de. alta responsabilidade. Compreendem até certo ponto a
dinâmica matriarcal que subjaz ao complexo alimentar. Lutam para resolver o falso
sistema de valores de Lady Macbeth, em que sua própria feminilidade é contaminada
por valores masculinos que o inconsciente se recusa legitimamente a aceitar, da mesma
forma como seu corpo se recusa a assimilar o alimento. Quanto mais tempo forem
vítimas desse falso sistema de valores, mais tomam consciência de que, apesar de todas
as demonstrações exteriores de sucesso, sua vida cada vez mais "está barulhenta e
furiosa, [e] não significa nada".
Enquanto as mulheres jovens em geral iniciam análise apenas para perder peso,
as mais maduras reconhecem que devem ir em busca das causas subjacentes de seu
excesso de peso e ajustar seus valores e suas atitudes conscientes segundo esse
conhecimento. Como mulheres, encontram-se atadas a uma falsa visão de um remado
inerente à mulher possuída por um impulso alheio à sua natureza. A sua tarefa é
resgatarem-se das garras desse impulso que as está destruindo. A comida encarna os
falsos valores que seu corpo se recusa a assimilar; quero dizer com isso que tais corpos
se tornam edemaciados, intumescidos, alérgicos, ou recorrem a vomitar aquilo que os
envenena. O corpo inconsciente, e certamente o corpo consciente, não tolera a mãe
negativa.
Quero enfatizar aqui que este livro não é uma condenação das mães — nem dos
pais. Ele trata de reconhecer o inimigo e de lhe dar um nome, para ser possível lidar
criativamente com ele. É claro que as crianças têm de reconhecer, a respeito de seus
pais, tanto os sentimentos positivos como os negativos, mas quase todos nós, em algum
momento da análise, nos damos conta de que nossos pais viveram uma situação pior que
a nossa. Muitos deles sabiam que estavam aprisionados, mas não tinham meios de
encontrar saída. Os pecados de uma geração são visitados na seguinte; essa é a situação
humana, e os filhos sofrem na exata medida em que seus pais são inconscientes. A
tarefa das pessoas maduras consiste em diferenciar as imagos infantis dos pais de carne
e osso, distinguir o que foi íntegro e sadio de seu legado do que foi destrutivo. É
perdoar.
O propósito criativo da neurose é levar a mulher a confrontar, em seu interior, a
mãe negativa que seu corpo feminino naturalmente rejeita. A mãe negativa é uma
substância tóxica; é estranha. Não pertence a ela da mesma forma como um quilo de
chocolate antes de ir dormir. Seu corpo está exigindo que ela se diferencie dele, para
que possa descobrir que é uma mulher madura. A tarefa que sua própria mãe talvez não
tenha realizado é seu mister realizar. Essa é a nova consciência, o salto gigantesco, a
cura de sua própria vida que ela está sendo convidada a corporificar.
Sentei-me um dia diante de meu espelho,
E conjurei uma visão desnuda,
Diversa das coisas contentes e alegres,
Que outrora eram ali refletidas —
A visão de uma mulher, selvagem
Com mais do que desespero feminino.
Seu cabelo repuxado dos dois lados para trás
Um rosto fa lto de amorosidade.
Não havia agora inveja a ocultar
Que ninguém vivo antes poderia suspeitar.
Formando a espinhosa auréola
Da rude aflição não santificada.
Seus lábios estavam abertos — nenhum som
Passou p o r entre as linhas afastadas em vermelho.
Qualquer que fosse, a hedionda ferida
No silêncio e secreta sangrava.
Suspiro algum aliviava seu mudo padecimento.
Ela estava sem voz para fa la r de seu terror.
E em seus olhos lúgubres ardia
A moribunda chama do desejo de viver,
Enlouquecidos pois a esperança tinha partido,
Aquecidos ao fo g o crepitante
Dos ciúmes, da vingança impiedosa,
Da fo rça que não se podia mudar nem cansar.
Vestígio de sombra no espelho,
O, deixa livre a superfície de cristal!
Passa — como passam as mais lindas visões —
E nem voltam jam ais para ser
O espectro de uma hora perdida,
Que me ouviu murmurar "eu sou ela!"

Mary Elizabeth Coleridge, "The other side of the mirror"

Flebas, o fenício, morto há quinze dias,


Esquecido do grito das gaivotas, das ondas do mar profundo
Do lucro e da perda.
Uma corrente submarina
Recolheu seus ossos aos sussurros. Enquanto subia e caía
Atravessou as etapas de seu tempo e juventude
Entrando no turbilhão.
Gentio ou Judeu
Ó tu que giras o leme e perscrutas a direção do vento,
Lembra de Flebas, que um dia fo i belo e altaneiro como tu.

T. S. Eliot, "Death by water", The waste land


1 - Ritual: sagrado e demoníaco
Todas as eras antes de nós acreditaram em deuses de um tipo ou outro.
Somente um empobrecimento sem precedentes do simbolismo
poderia levar-nos à redescoberta dos deuses como fatores psíquicos,
isto é, como arquétipos do inconsciente.

C. G. Jung, Archetypes o f the unconscious

Se nos perguntarmos por que os vícios orais invadiram nossa cultura ocidental
nesta época específica, poderemos não só abrir os olhos e enxergar a nossa própria vaca
sagrada como ver também o anjo negro com quem estamos sendo forçados a lutar.
Segundo estatísticas recentes, cerca de 30 por cento dos homens americanos estão acima
do peso, 4-0 por cento das mulheres americanas estão dez ou mais quilos além do peso,1
e 7 por cento das mulheres canadenses em idade universitária provocam o vômito para
controlar seu peso.12 A população anoréxica varia radicalmente em termos de idade, sexo
e grupo social, mas segundo rigorosos critérios diagnósticos estima-se que 7 por cento
das estudantes de modelagem sofrem de anorexia nervosa.3 Por que essa lacuna tão
grande no centro de nosso ser?

Numa recente entrevista para a TV, Leonard Bernstein, ao comentar sobre o fato
de a música de Mahler ter tanta popularidade entre os jovens atualmente, disse não
considerar esse fato extraordinário porque tudo está em cada nota de Mahler. Os jovens
podem lidar com isso, ele sugeriu, porque são tão constantemente confrontados com o
fim do mundo que conseguem entregar-se por inteiro àquelas notas majestosas.
Essa sensação de término é, em parte, o motivo pelo qual as compulsões,
especialmente as ligadas ao corpo, estão se constelando com tanta força em nossa
cultura. Em cada noticiário somos levados diante da destruição: guerras, desastres
aéreos, estupros, assassinatos. Livros, filmes, peças de teatro — somos bombardeados
de todos os lados com a possibilidade do extermínio iminente. Ao mesmo tempo, as
estruturas que antes nos davam suporte estão desmoronando: a família nuclear, a
comunidade, a Igreja. Os rituais que antigamente eram o arremate da existência agora
são vazios; os rosários são usados como ornamentos. Aliada a esse terror da extinção
está a natural propensão dos compulsivos a viver no futuro. Em geral intuitivos por
natureza, não apreendem a realidade aqui-agora com a qual não conseguem lidar; pelo
contrário, sonham com o que poderiam ser, deveriam ser, enfim, seriam no futuro. A
distância entre sonho e realidade é normalmente preenchida pelas obsessões.
Além disso, a era tecnológica nos está forçando a ir para um espaço muito
distanciado de nossos instintos. Esquecemo-nos de como ouvir nosso corpo; engolimos
pílulas para tudo o que acontece de errado conosco; podemos implantar um marca-passo
intestinal ou grampear o estômago. Podemos recorrer à medicina sem sequer questionar
o que o corpo está tentando nos dizer. Para o nosso próprio risco, presumimos que o
corpo não tem sua sabedoria natural, e queremos corrigir nossos males físicos sem
efetuar as necessárias retificações psíquicas. Podemos temporariamente ter sucesso mas
o corpo, cedo ou tarde, fará com que surjam sintomas. A finalidade destes é chamar
nossa atenção para algum problema básico. Se ignorarmos os sintomas menores, depois

1Paul B. Beeson e Walsh McDermott, Textbook o f medicine, p. 1375.


2 Toronto Star, 10 de agosto de 1981 (citando pesquisa feita no Clarke Institute of Psychiatry, em Toronto).
3 David M. Garner e Paul E. Garfinkel, "Socio-cultural factors in the developmentof anorexia nervosa",
Psychological Medicine, vol. 10,1980, p. 652.
de algum tempo o corpo se vingará. Como cultura, não estamos em contato com as
nossas raízes instintivas. Os pais tendem a tratar seus filhos como se eles também
fossem máquinas em vez de seres humanos com sentimentos e temores. Se a criança é
tratada dessa forma, consciente ou inconscientemente, ela por sua vez passa a se tratar
assim. O mal-estar se agrava a cada geração até que dentro da família alguém se torna
consciente o bastante para interromper o processo.
Se, por exemplo, a mãe se olha no espelho e vê seu corpo não como si mesma
mas como uma matéria bruta que pode ser manipulada artisticamente da forma como ela
o desejar, então se desenvolve em sua filha uma atitude "espelho, espelho meu". O
corpo da filha pode se tornar um objeto de arte, a tal ponto que ela não possa mais
reconhecer-se nele como ser humano. Ela não habita esse corpo. Desenvolve-se dessa
maneira uma dicotomia terrível: ela parece uma menina, doce, cordata, passiva, com
uma voz pueril, mas o que sai de sua boca é letal. Em sua "inocência", ela ignora o
matador à solta em seu íntimo. A declaração seguinte é típica de uma mulher anoréxica
de 20 anos de idade:
Quando é que poderei sair desta caixa? Arrasto meu corpo de um lado para outro como se fosse
um enorme objeto estranho. Tenho muito medo de câncer, de guerra, da escola e do que as pessoas
acham. Agora estou tão transtornada que a minha cabeça está a ponto de explodir. Estou tão assustada de
ficar imensa e de o mundo acabar e eu não estar em lugar nenhum. Não estou aqui e certamente não estou
lá. O que estou fazendo? Fico o tempo todo arrumando padrões para mim mesma e simplesmente não
consigo. Não consigo fazer nada. NADA. NADA. Feia, nojenta, vaca gorda!

Sua reação ao mundo afluente em que está vivendo é a fuga. Odeia tudo o que é
supérfluo. Seu sistema patriarcal de valores baseado no Reinado da Beleza., da Pureza e
da Luz força-a a uma inimizade com seu "corpo nojento", que gostaria de reduzir a uma
peça de arte "mínima" ou até mesmo "conceitual", em que o objeto não existe mais. A
sociedade também não pode oferecer uma imagem da Grande Mãe a ser buscada, de
uma mãe que pudesse ajudá-la a superar a distância entre si mesma e sua feminilidade.
Esse arquétipo ainda não está constelado. Sem essa matriz maternal, ela vai de lá para
cá no cenário de seu terror pessoal, fugindo do caos de uma vida nova e paralisada pelos
sonhos da antiga. Para ela, a vida não é a questão. Seu único propósito é moldar o objeto
no espelho até que se torne um objeto de arte, totalmente aceitável, por mais irônico que
isso seja, ao sistema coletivo de valores que ela despreza.
O isolamento é um componente crucial tanto das síndromes compulsivas quanto
da sociedade moderna. Os verdadeiros compulsivos realizam seus rituais quando estão
sozinhos. Veja a seguinte citação de um diário de outra moça anoréxica:
Entro em vários estágios de perfeição. Quando minha vida está organizada, está perfeitamente
organizada. Assim, se alguma coisa dá errado, não consigo apenas fazer o melhor para consertar aquilo:
eu simplesmente desmorono. Tudo se perde. É preciso haver uma razão lógica para tudo o que faço,
inclusive para o que eu como. "Quanto mais magra, melhor" é a minha filosofia. Não é só atraente:
demonstra disciplina e controle. Mas tudo o que eu faço está centrado em torno de comer e da
preocupação com o que as pessoas me obrigarão a comer. Antes, dizer isso me teria parecido muito
estranho. Por isso é que não adianta eu tentar me explicar às pessoas que não são anoréxicas. Elas estão
em outro plano de pensamento. Não compreendem que quando sou arrastada pela compulsão poderia
ficar sem comida para sempre.

A mesma sensação de orbitar sozinha é expressa por outra moça obesa:


Evoluí de comer só porcaria para comer biscoitinhos de granola. Perdi cinco quilos. Senti-me
ótima, até olhar no espelho: foi a morte. Posso sentir o sangue sendo chupado para fora de minhas veias.
Ouço as risadinhas de gozação ecoando até o fundo de minha barriga. Não acredito mais. Não acredito
que posso eleger a vida. Pego um biscoitinho para interromper aquela risada terrível. E então vem a
culpa! Quem podería acreditar nisso? Sufocar a vida até comer um biscoitinho tomar-se um crime!

Uma das maiores dificuldades do trabalho com os viciados em comer, assim


como com os viciados em álcool, consiste em ajudá-los a superar sua sensação de
desespero quando perdem a sensação de euforia associada a esses vícios. Na realidade,
superar um vício pode ativar outro, e muitas mulheres anoréxicas ou obesas são fruto da
luta da cabeça de uma alcoólatra. Não é incomum que essa mulher encontre uma saída
na conversão religiosa. Acertadamente Jung reconheceu a confusão entre a sede física e
a espiritual quando escreveu para Bill Wilson, co-fundador do Alcoólicos Anônimos:
[A ] ânsia pelo álcool [é] equivalente, numa medida inferior, à ânsia espiritual de nosso ser pela
totalidade; em termos medievais diríamos a união com Deus...
Estou fortemente convencido de que o princípio maligno que prevalece neste mundo leva a
necessidade espiritual ignorada para o caminho da perdição, se não for combatido por um genuíno insight
religioso ou pela parede protetora da comunidade humana. A pessoa comum, carente da proteção de um
ato superior e isolada da sociedade, não consegue resistir ao poder do mal, que muito apropriadamente é
chamado de Diabo...
Você sabe, em latim, "álcool" é spiritu e vocês usam a mesma palavra para a mais elevada
experiência religiosa e para o mais depravador veneno. A fórmula salvadora portanto é: spiritus contra
• • 4
spiritum
Os dois primeiros passos do Alcoólicos Anônimos são:
1. Admitimos que fomos impotentes diante do álcool, que nossas vidas estão
fora de controle.
2. Acreditamos finalmente que um Poder maior que nós pode nos devolver a
sanidade.45
A comida e a bebida são de um fascínio irresistível para uma enorme quantidade
de pessoas de nossa sociedade e talvez se possa dizer que a numinosidade da comida e
da bebida reflete a crise central da nossa cultura no século XX: a crise da fé. Vivemos
numa cultura predominantemente cristã que perdeu sua conexão viva com o simbolismo
da hóstia e do vinho. Na ausência de sustento espiritual, existem uma sede e uma fome
genuínas. A estrutura arquetípica implícita na hóstia e no vinho está lentamente cedendo
lugar a uma nova configuração, mas durante essa transição estamos no caos. Esse caos
engendra o isolamento, o medo e a alienação. Embora a sensação do isolamento seja
árdua de suportar, pode ter um valor supremo no processo analítico. A nova vida sempre
irrompe do despossuído, assim como Cristo emergiu da manjedoura.
O perigo de fazer parte de um grupo é a pessoa identificar-se com a imagem que
este tem, ou com a imagem que a sociedade lhe conferiu. Dessa maneira, a mulher que
entra num grupo feminista pode estar presa às idéias de repressão da década de 1970,
em vez de acompanhar seu próprio processo criativo. Se uma mulher obesa ficar presa à
noção de que "enorme é lindo", e começar a catequizar com base nessa filosofia,
efetivamente terá detido seu desenvolvimento interior, da mesma forma como o
alcoólatra que entra para o AA se torna o melhor orador do circuito e termina em breve
voltando para a garrafa.
Tenho o mais profundo respeito tanto pelo Alcoólicos Anônimos como pelo
Glutões Anônimos, e incentivo meus analisandos a entrar nesses grupos porque a
compreensão que os outros lhes conferem pode surtir um efeito tremendamente
libertador. Mas permanece o fato de que, para encontrarmos nossa verdade interior,
temos de mergulhar sozinhos em nossas próprias trevas e permanecer no nosso processo
interior até encontrarmos aquele que é para nós o padrão arquetípico de cura. Assim que
esse vínculo se estabelece, estamos trilhando nosso caminho individual, quer em grupo

4 Jung, Letters, vol. 2 (1951-1961), pp. 623-5.


5 Alcoólicos Anônimos, p. 59.
quer não. É preciso muita coragem para romper com a história do próprio passado e
ficar sozinho.
Nos contos de fadas, o movimento em direção à totalidade — em geral
simbolizado pela busca da princesa, do príncipe ou do tesouro — é constelado pela falta
de alguma coisa no reino. De modo semelhante, em qualquer sociedade humana um
novo padrão arquetípico será constelado no inconsciente coletivo para compensar o que
estiver faltando no plano da consciência coletiva. Por isso concluo que o que hoje
acontece com a comida e a bebida é a maneira que a Matéria tem de concretizar um
novo padrão arquetípico — feminino — que se constela para compensar os ideais
masculinos capciosos e a perda dos valores espirituais numinosos em nossa cultura.
A matéria está se empilhando cada vez mais, à nossa volta, num crescente
acúmulo material. Nunca é o bastante. Estamo-nos enterrando nela, quer sejam posses,
quer a carne. Estupramos a natureza, a Grande Mãe, com pouquíssima culpa. A mãe
devoradora está ocupando cada vez mais espaço, mas não abrimos os olhos para vê-la.
A moça anoréxica inconscientemente diz um redondo "não" à bruxa mas,
inconscientemente, é devorada. A mulher gorda, presa entre o ódio pela bruxa exterior e
a interior, constrói sua própria fortaleza na tentativa de escapar. O alcoólatra escapa por
intermédio de seu espírito trickster. No ínterim, o princípio de Eros, do amor, não
consegue se relacionar com a destruição diária dos instintos humanos. O amor que um
dia existiu entre a natureza e o homem foi praticamente exterminado. Na realidade, é no
ponto de morrer que uma nova vida pode aparecer. Contudo, o arquétipo do feminino,
tal como está atualmente constelado, não está claro. Talvez as trevas ainda não estejam
densas o bastante.
Muitas pessoas em nossa sociedade estão sendo impelidas a vícios porque não
existe um continente coletivo para suas necessidades espirituais naturais. Sua natural
propensão a experiências transcendentais, ao ritual, à conexão com alguma energia
maior do que a sua própria, está sendo distorcida e se tornando comportamentos de
vício. Os rituais, em qualquer nível, são uma parte muito importante da vida diária.
Adoramos os nossos pequenos rituais que nos ajudam a percorrer o dia. Imaginamos
que estamos conscientes quando acordamos. Passamos pelo ritual das abluções, dos
exercícios, tomamos o café, o suco de laranja, comemos a torrada. Vamos do quarto
para o banheiro e daí para a cozinha. Então, certo dia há um hóspede em casa. Não
podemos entrar no banheiro. Vamos para a cozinha e ele deixa cair nossa caneca de café
favorita. Ficamos irritados. Detestamos a conversinha boba à hora do desjejum.
Perdemos o ônibus. O dia inteiro é uma ruína. Com base em detalhes tão pequenos
elaboramos os nossos rituais profanos, aos quais somos basicamente indiferentes a
menos que dêem errado. Então percebemos o quanto nos mantivemos inconscientes
enquanto contávamos com aqueles padrões repetitivos para dar uma coerência ao nosso
mundo.
Estabelecer um cotidiano fixo bem como rotinas diárias confortáveis até certo
ponto é uma atitude necessária. Algumas pessoas se saem muito bem com vidas
altamente organizadas. Outras, as compulsivas por exemplo, movem-se num mundo
fixo com um aparente equilíbrio mas, na verdade, são escravas de uma rotina rígida e,
com isso, uma boa parte de sua energia está fervendo em alguma câmara secreta que até
elas mesmas não são capazes de localizar. Em termos psicológicos, sua energia está
trancada num complexo, uma área tabu ao mesmo tempo proibida e magnética,
aterrorizante e numinosa. Periódica ou regularmente, essas pessoas são compelidas a
entrar em contato com essa energia assombrosa em seu interior. Se o objeto tabu é a
comida, comem até o ego se render, desistir, submeter-se à energia arquetípica que
Mantido em inglês, uma vez que já faz parte do jargão junguiano. (N.T.)
então é liberada. Se são anoréxicas, executam seus rituais com a comida e depois fazem
ginástica até a "leveza" começar a invadi-las. Entram nessa Luz e começam a se
perceber iluminadas por um brilho interior. Se são bulímicas (vomitadoras rituais),
podem comer até 50 mil calorias e depois se purgar até seis vezes num único dia,
vomitando e tomando diuréticos ou laxantes. Todas estão instituindo um padrão
declaradamente esquizofrênico: um lado de sua personalidade está em franca rebelião
contra a sociedade que as mata de fome; o outro as está matando para poder atingir a
imagem da magreza que a sociedade cobra.
Existe de forma evidente uma mentalidade criminosa em ação. Se sorvete é
proibido, então tomam um e ficam se odiando o resto do dia. Se um pacote de biscoito
de chocolate está espalhado na prateleira do supermercado, enchem a mão.
Examinando-se esse comportamento com atenção, fica claro que praticamente toda a
comida que ingerem é roubada — inclusive de sua própria geladeira. Dizem que vão
fazer dieta, mas não fazem; na realidade, roubam comida de si mesmas. Essa ânsia de
fazer o que é proibido em geral vem de um relacionamento praticamente vitalício com a
mãe negativa que está constantemente julgando. Assim, se "eu" estou fazendo o que
quero, é errado e, portanto, devo fazê-lo rápida e sorrateiramente para ser possível
desfrutar sem condenações esse prazer.
Durante o conflito, sua energia oscila de um pólo a outro. Essa repentina
inversão da energia é chamada de enantiodromia. Ela ocorre quando a energia foi
jogada longe demais numa direção e, de repente, se transforma na energia resistente que
esteve se esforçando para superar (como a conversão de Paulo na estrada para
Damasco). O "eu" não consegue emergir para recuperar o controle e, sem o "eu", o
resultado é inevitável: a pessoa se torna aquilo mesmo que estava combatendo. Ao
iniciarem uma guerra civil em que cada lado odeia o outro e se recusa a negociar, essas
pessoas deixam a retaguarda aberta. E por ali que espreita o verdadeiro inimigo,
esperando que a guerra civil se esgote por si. Então, apodera-se do controle sem
contestação.
Jung acreditava que a religião (religere, refletir) é um dos instintos do homem,
uma necessidade natural que deve, por conseguinte, ser satisfeita.6 Em nosso mundo, em
que o sagrado institucionalizado está sendo cada vez mais profanado, a compensação é
o processo que predomina. As pessoas começam a cultuar seus próprios objetos
pessoais e a revesti-los de um poder sagrado. Criam seus rituais particulares mas, como
não se dão conta do que estão fazendo, podem invocar o deus errado e sujeitar-se a esse
poder, gostem dele ou não. Mais uma vez, acabam caindo na armadilha de se tornar o
que cultuam. Se rejeitam o mundo tal como ele é, inconscientemente criam sua própria
ficção e tentam projetar seu mundo "sagrado" particular no mundo externo. A colisão
decorrente é cada vez mais destrutiva.
Uma mulher pode me dizer, repetidamente, o quanto fica sentida com as atitudes
grosseiras dos outros. Sua comprometida sensibilidade foge dos ataques constantes. O
que ela não percebe é que está tentando tornar tudo à sua volta sagrado, que as outras
pessoas talvez não entendam que estão pisando no território que para ela é sagrado, ou
usufruindo seu tempo sagrado, e assim, inadvertidamente, profanando seu templo
sagrado. A tentação é refugiar-se no próprio santuário e construir uma parede de
proteção tão forte que ninguém consiga mais atravessá-la.
Novamente, o perigo é que o santuário se transforme no caldeirão da bruxa. Sem
a Igreja para delimitar esses fortes limites entre o impessoal e o pessoal, o sacro e o
profano, Deus e o Diabo, nós temos de ser extremamente conscientes para poder nos

6 Ver, por exemplo, Jung, The structure and dynamics of the psyche, OC 8, par. 242, e Civilization in
transition, OC 10, par. 659.
proteger do demoníaco, dentro e fora de nós.
A projeção do Perfeito antes era em Deus. Quando Deus "morreu", essa
perfeição foi em grande escala projetada no marido. E agora a terrível verdade é que,
em muitas vidas, essa projeção foi retirada do marido e realocada nas guloseimas.
Bolinhos passam a ter a mesma densidade numinosa: a pessoa que lhe é cativa não
consegue quebrar o feitiço. Ao mesmo tempo, porém, alguma voz sadia, ou alguma
risada interior, zomba totalmente da idéia de uma participation mystique com um
sagrado bolinho. Ele não é sagrado, bem como o poder que está liberando mesmo
quando recheado de creme de morango.
Então, o que está acontecendo? Numa estrutura religiosa, o ritual é reconhecido
como um fogo que transforma e por meio do qual a pessoa avança na jornada, de um
nível na sociedade para o seguinte, ou de um nível de conscientização para outro. Quer
o fogo seja real ou simbólico, o iniciado se submete a ele, permitindo que a vida antiga
seja incinerada e uma nova pessoa apareça.7 No centro do fogo existe uma força
arquetípica, um deus ou deusa por assim dizer, que o participante invoca para poder
tomar parte na vida desse elemento. Ao entrar em contato com essa energia numa
experiência numinosa de sofrimento, morte e renascimento, o ego se sacrifica a um
Poder Superior, é ampliado, transformado, e depois retorna ávida comum com novas
perspectivas. Mas o que acontece quando esses anseios espirituais inatos não são
estruturados dentro de uma referência impessoal como a que a Igreja poderia oferecer?
O bolinho não pode substituir a hóstia sagrada, assim como o álcool não pode substituir
o espírito divino, nem morrer de fome pode ser a mesma coisa que jejuar por motivos
religiosos. Quando nossos sinais animais e espirituais são confundidos, resultam
condutas bizarras. O vazio corrói e o lobo uiva até que algum tipo de ritual seja
realizado. Se for um ritual compulsivo, pode tornar-se nada menos que um furacão,
arrastando sua vítima de ponta-cabeça para a vertigem da inconsciência. A fome natural,
espiritual, se não for saciada pelo sagrado, cai na armadilha do demoníaco.
Nos rituais sagrados, os participantes sempre tomam o cuidado de andar em
sentido horário em volta da igreja, da cidade murada, do temenos sagrado. Movendo-se
nessa direção, invocam os deuses bons e, tendo ido ao encontro deles e recebido suas
emanações, emergem novamente no plano consciente dotados de uma nova percepção
da vida e de uma nova noção de harmonia. Na Missa Negra, em que os acólitos invocam
o Demônio, eles giram para a esquerda, executam os procedimentos rituais de modo
inverso e sentem-se imbuídos do poder demoníaco. Esses dois padrões podem ser
simbolizados pelo movimento espiritual da energia que emana ou do olho da Medusa ou
do olho da Grande Mãe.8Na forma de diagrama teriam esta aparência:

7 Para uma discussão aprofundada do ritual religioso, ver Mircea Eliade, O sagrado e o profano: a natureza
da religião.
8 Para uma discussão mais completa do Olho do feminino, ver Penelope Uttle e Peter Redgrove, The wise
wound: menstruation and every woman, pp. 189-90, e Sylvia Brinton Perera, Descent to the goddess: a way o f
initiation fo r women, pp. 30-4.
Olho da Grande Mãe
Olho da Medusa Movimento da energia
Movimento anti-horário em sentido horário,
da energia, rumo rumo à consciência.
ao inconsciente. Liberação de nova
Depressão energia
A medusa petrifica Ser alimenta o Fazer

O monólogo interior que se dá quando a energia circula em sentido anti-horário,


rumo a uma orgia demoníaca, soa como um mantra negativo:
Estou esgotada. Todas as pessoas à minha volta acabaram comigo. Estou com fome. Não
consigo mais me agüentar. Preciso de comida. Na minha vida não existe amor. Não posso ser amada. Não
é minha culpa. Preciso de doce. Tenho de comer alguma coisa doce. Não posso ficar me privando de
tudo. M inha vida está toda errada, mas não posso fazer nada a esse respeito. Não é minha culpa. Não dou
conta disso. Não consigo. Não consigo.

Do ponto de vista psicológico, essa mulher não está assumindo a


responsabilidade por sua sombra, assim como não está levando em conta a realidade de
sua situação e depois tomando providências concretas para cuidar de si mesma. Ao
renunciar à sua responsabilidade, ela também renuncia à própria culpa e atividade
autodestrutiva. Seu desejo infantil de uma gratificação instantânea torna-a indiferente
aos seus próprios sentimentos e, dessa maneira, ela abre a porta a uma inundação
emocional negativa (cujas conseqüências plenas são evidentes na passagem narrada à p.
53), quando a comilança atinge o clímax. (Quero enfatizar aqui a distinção que Jung
fazia entre sentimento e afeto: sentimento é uma função racional que nos diz o que tem
valor para nós; afeto, ou emoção, advém da ativação de um complexo.)
Em contraste, quando a energia da pessoa circula em sentido horário, em torno
da Grande Mãe, o monólogo interior soa como um mantra positivo:
Estou cansada. Eu me amo. Amo meu corpo. Dou-me licença para me alimentar. Am o a minha
m ulher interior. Que comida seria a m elhor para ela? Será comida o que ela realmente quer? Será música?
Dança? Sim, estou gorda, mas estou tentando libertar meu verdadeiro corpo feminino, seja qual for sua
forma. Qual é a realidade aqui? Esta sou eu acontecendo para mim. Preciso relaxar, ficar quieta. Preciso
de um banho. Quero afirmar a minha própria vida. Posso fazê-lo; posso fazê-lo; posso fazê-lo.

Nesse monólogo, a gordura está sendo enfrentada como um fato, como o lado
luminoso da sombra que, provavelmente, nunca foi plenamente vivido. Em vez de fazer
regime e dizer "não consigo", o que só reforça o padrão negativo de pensamento, o
excesso de peso é encarado de maneira positiva, o tempo todo construindo o ego.
Quanto mais forte o ego, mais as projeções podem ser retiradas da comida. Se a saúde
psíquica for pacientemente reconstruída dessa forma, então pode não existir necessidade
de novos sintomas aparecerem assim que começar a perda de peso.
A compulsão do mundo profissional pode ser tão demoníaca quanto a das
satisfações orais. Marie-Louise von Franz diz a respeito do simbolismo do lobo:
Nos sonhos de mulheres modernas, o lobo em geral representa o animus, ou aquela estranha
atitude devoradora que as m ulheres podem adotar quando possuídas pelo animus... O lobo representa
aquele estranho desejo indiscriminado de devorar tudo e todos... aspecto que é visível em muitas neuroses
nas quais o problema principal é que a pessoa permanece infantil por causa de uma infância infeliz... Não
é que ela realmente o queira, é ele que a quer. Esse desejo nunca é satisfeito e por isso o lobo também cria
nessas pessoas uma insatisfação constante e ressentida... O lobo é cham ado lykos, luz. A cobiça, quando
domada ou encaminhada para seu legítimo objetivo, é o verdadeiro ponto9

O diagrama seguinte ilustra a energia movimentando-se como um pêndulo.


Quanto mais longe vai numa direção,"mais constela a compensação na outra. Quanto
mais depressa e amplamente o pêndulo oscila, mais corre o risco de convocar o inverso
exato (enantiodromia). O segredo está em encontrar a posição de ego capaz de domar a
cobiça e dirigir sua energia no caminho certo rumo ao seu objetivo legítimo.
Na orgia gastronômica ritualizada, a mãe negativa é invocada pelo próprio
padrão que desencadeia a ânsia de comer. A pessoa está num ônibus, a caminho de casa.
Ela decide que não vai descer no ponto habitual, porque tem uma doceira bem ali e,
afinal de contas, uma caminhada vai lhe fazer bem. Ela continua no ônibus. Precisa do
bolinho; fica nervosa. Segue mais dois pontos adiante e, então, apesar de suas melhores
intenções, desce e volta correndo para comprar os bolinhos proibidos, aqueles objetos
sagrados e detestados. Claro que está sozinha. Ficaria envergonhada se alguém estivesse
com ela. Já está sendo levada, em vez de estar indo de vontade própria. Furtivamente se
apressa a entrar em casa, tranca a porta, desliga o telefone, coloca o vestido ritual,
assume a posição ritual e começa a comer. A princípio, está absolutamente calma, uma
calma que a arrasta a uma espécie de êxtase, até que o bolinho se torna BOLINHO . Seu
lobo foi constelado: seu corpo está ingurgitado; seu espírito, aniquilado.
Mundo pessoal Mundo profissional
EGO
I
i
desapego
l
\ apetites normais t
ritual demoníaco firme posição
alimento: mais, mais, consciente compulsão trabalho: mais,
mais/ identificação agüenta tensão mais, mais/ identificação
com a sombra/ energia regressiva entre opostos com a persona/
movimento progressivo energia regressiva
da energia

Síndrome do lobo: Pêndulo ganha ímpeto conforme a energia obsessiva alterna


entre atividades pessoais e profissionais.

Se ela é obesa, cairá em estado de estupor na cama; se for bulímica, vai enfiar o
dedo na garganta e vomitar. Ela se traiu mas se sente traída, ludibriada por algum poder
em seu íntimo sobre o qual não tem controle. A deusa que inconscientemente buscou
encarnar, e em quem por instantes acreditou quando da excitação ao comprar aquela
comida, não apareceu. Ou, se o fez, foi em sua forma demoníaca. Ao se preparar para
iniciar a comilança, achou que estava invocando a mãe positiva; sentia-se amada,

9
Marie-Louise von Franz, Shadow andevil in fairytales, pp. 215-6.
segura, protegida, entronizada. Porém, assim como na infância, a necessidade de uma
mãe positiva é, quase sempre, respondida pela presença da mãe negativa — ou por uma
confusão de ambas — de tal sorte que, quando se entrega à comida, a mãe positiva
efetivamente se transforma numa bruxa diante dos próprios olhos dela e em seu
estômago. Tal eucaristia começa sagrada e termina demoníaca e, dessa forma, repete as
vivências que a mãe teve quando criança.
Certamente a mãe pode ter-se sentido atada pelas necessidades da filha. Se
estava confinada a um casamento sem amor, a um lar com filhos, desesperada para sair
dali, então as necessidades de sua filha tornaram-se seu pesadelo. Assim, em relação à
necessidade da criança de ter uma mãe positiva, a mãe real pode de fato ter-se tornado
negativa, independentemente do quanto "oferecesse".
A experiência da infância que uma mulher compulsivamente revivia em cada
comilança é descrita na seguinte passagem, escrita por ela depois de três anos de
análise:
A estrutura inteira de minha existência tem dependido de um aspecto: tenho de agradar aos
outros. Sou incapaz de pensar de qualquer outra maneira. Por mais que me esforce para reconhecer quais
são meus verdadeiros sentimentos, por mais que conscienciosamente decida viver só o momento, ainda
tenho recaídas de reações retardadas. Amanhã, ou depois, saberei como estava me sentindo na situação.
Então isso me atinge como um raio, às vezes raiva, às vezes medo, às vezes alegria — mas não consigo
penetrar nesses sentimentos senão depois de o momento em que eu poderia ter sido espontânea ter
passado. Gasto uma hora de análise digerindo os reais sentimentos da sessão anterior. Então é tarde
demais para agir com base neles. Na situação de fato, fico paralisada porque parte de mim está tentando
agradar à analista e parte está tentando m ergulhar no que estou realmente sentindo.
Sou incapaz de interagir inclusive com as pessoas que mais amo; na realidade, isso é o mais
difícil. Quando volto de meu isolamento, sinto-me com fome, esvaziada, porque não consigo abrir-me
para receber o alimento emocional. Como não me entreguei, em meu nível mais profundo me sinto não
expressa, insatisfeita, traída por mim mesma. A energia que flui entre as pessoas que se amam em mim
entra em curto-circuito. Balbucio, ouço os outros balbuciando, mas sinto medo de me abrir e mostrar o
que há de mais profundo em meu ser. Não tenho noção do que poderia emergir. Sei intelectualmente que
o crescimento emocional e espiritual ocorre por intermédio das interações, mas me enterro viva num
caixão de vidro lacrado contra a vida. Ali dentro estou fenecendo. Meu corpo se torna mais rígido; minha
alm a mais faminta. Porque, na verdade, estou morrendo de fome. É autodestruição porque sei que vou
continuar comendo até cair inconsciente.
É uma reprise dos jantares de nossa família, ocasiões em que havia a melhor comida possível
que m inha mãe pudesse preparar e meu pai presidia, fatiando o assado. A mesa ronronava de bondade e
amor. O que a mamãe tinha passado o dia todo preparando era esperado que comêssemos. Recusar era
rejeitá-la. Se eu levantava a voz para discutir com meu pai, ele dizia que eu não sabia o que estava
dizendo e então, calmamente, dizia o que eu estava pensando. E uma vez, quando chorei e falei que não
era nada daquilo, minha mãe me mandou sair da mesa e disse que não estava criando nenhum bebê-
chorão.
Havia uma imagem na parede de nossa sala de jantar — uma etérea cabeça de Cristo olhando
para o céu; embaixo havia os seguintes dizeres: "Cristo é o chefe da casa — o convidado invisível de
todas as refeições". Havia sim um convidado invisível. Eu sentia claramente sua presença. Era o próprio
demônio. Se não comesse o que era oferecido — física, emocional e mentalmente — , eu sabia que ele se
materializaria. Ele era um matador. Eu não tinha escolha. Ou eu engolia o que estava entalado em minha
garganta, ou morria. Desde o começo, tudo o que viesse de minha menininha era ironizado ou silenciado.
A confusão começou ainda antes de eu nascer. Minha mãe detestou essa gestação, esperando em Deus
que fosse um menino. Teve um trabalho de parto prolongado, agonizante, e finalmente foi anestesiada.
Fui arrancada para fora, deixando-a com lesões internas. Não admira que não conseguisse cuidar de mim.
O que deve ter sofrido tentando me amamentar! E o que devo ter sofrido tentando sugar o leite.
E esse é o padrão de infância que ainda vigora — e estou com 40 anos completos. Toda vez que
tento receber, passo por um inferno. Externamente é o leite da gentileza humana inundando-me ao fluir de
um seio farto, e eu sou o bebê obediente forçado por minha mãe transbordante e por minha própria fome a
comer. Internamente, sei que tenho de agradar à mamãe e a única maneira de conseguir isso é me
matando. Beba o veneno dela e diga obrigada. O convidado invisível está sempre lá, não há dúvida,
dizendo que tudo o que sou é veneno e a única maneira que tenho de sobreviver é beber o que me dão,
mesmo que eu saiba que para mim é veneno.
Quando me entrego a comer sem parar é o bebe tirano devorando a mãe bruxa, e a terrível ironia
é que essa é exatamente a melhor maneira de eu lhe agradar. Sugerir seu veneno e me aniquilar. Quando
passo m uita fome é o bebê tirano rejeitando a mãe bruxa. Mas o resultado é o mesmo. Rejeitar a vida e
morrer. Sou incapaz de acolher no cerne de meu Ser. Não consigo confiar na doçura do leite. Não consigo
receber a comunhão. Tomo a hóstia, mas não a recebo. Até mesmo a primavera: eu a vejo, mas não sinto
como é linda. Estou presa numa armadilha mortal, em constante contradição. Quero sobreviver. Para
sobreviver, devo agradar. Para agradar, devo morrer — eu, meus sentimentos femininos, minha
sexualidade, m inhas necessidades, meus desejos. Em vez de aceitar, eu fujo. Vivo em meu caixão de
vidro — por mais feio que seja — e vejo a vida passando à minha frente.

Essa passagem deixa claros vários aspectos. Comer desregradamente é algo que
tem um poder magnético, na medida em que parece prometer a presença da Mãe
Amorosa. Antes de começar a acontecer, parece ser um ritual sagrado, governado por
Eros, com um centro fixo a partir do qual o espírito faminto sairá saciado, liberto e
seguro, pronto para entrar no seio de uma comunidade amorosa. Na realidade, é apenas
uma repetição compulsiva governada por Tânatos, que aprisiona a devota num
isolamento ainda mais intenso, numa fome ainda maior e sem nenhum escape. É um ato
simplesmente mecânico que deve ser repetido inúmeras vezes até seu significado
finalmente se tornar claro. E o único modo de tal significado ser decifrado é a pessoa se
tornar consciente o suficiente para formular a questão: "O que isso significa para
mim?'".
Enquanto essa indagação não obtiver resposta, o convidado invisível é a mãe
bruxa fazendo de conta que é um Cristo sentimentalizado ou outra figura de salvador.
Assim que a consciência identifica o problema e dialoga com o inconsciente, o
convidado se revela sob uma forma muito diferente, e o que parecia sagrado é
reconhecido como demoníaco. Enquanto a mulher não sabe o que está fazendo,
permanece iludida. A menos que tenha a coragem de perguntar: "Mas o que está
acontecendo aqui?", ela efetivamente cai na inconsciência que preparou para si mesma.
O que ela esquece ao comprar seus bolinhos é o pânico inerente à escuridão. O que ela
de fato encara no inconsciente é a mãe bruxa negativa, e quanto maior o pânico mais ela
se aproxima do complexo, da mãe negativa, que nunca ousou enfrentar quando criança.
O medo e a cólera despertados ao encarar a Medusa de frente são engolidos junto com a
comilança. (Essa comilança e o abençoado sono podem muito bem ser a forma que a
natureza tem de a proteger de uma dimensão psicótica que ela ainda não está preparada
para enfrentar.)
Assim que a mulher está pronta para romper sua identificação com a mãe, assim
que a consciência compreende o que está acontecendo na dimensão inconsciente, ela
pode entender que sua mãe de carne e osso e, portanto, sua mãe interior simplesmente
não eram capazes de dar alimento. Enquanto ela for obediente a uma mãe, seja real, seja
interna, que inconscientemente deseja aniquilá-la, sua condição é de possuída pela
bruxa. Ela precisará diferenciar-se dessa bruxa para poder viver sua própria vida.
Somente então ela será capaz de se nutrir, e dessa maneira transformar um ritual
demoníaco num ritual sagrado. Talvez até chegue o momento em que comer se torne
simplesmente trivial, mas até que a comida perca seu caráter numinoso, para ela comer
terá de ser um rito sagrado.
Evidentemente, existe uma voz instintiva, inconsciente, que se recusa a ser
silenciada. Alguma coisa nega adaptar-se às exigências do ego. Se não for ouvida e
atendida, a própria vida pode estar correndo risco. O anseio espiritual ou se torna amigo
do ego e com ele comunga das benesses da vida, ou se torna mais bélico que um
inimigo e desfecha um contra-ataque contra a vida. Os deuses da natureza fazem com
que suas exigências sejam percebidas. Gostando ou não delas, somos forçados a ouvi-
las. Se temos alguma medida de insight que seja, em algum momento estaremos
escolhendo entre nos unir aos nossos demônios e nos insurgir contra os deuses que estão
tentando nos salvar, ou ajustar nossos valores conscientes para que entrem em harmonia
com as exigências divinas, inclusive a respeito de uma questão tão fundamental quanto
a alimentação. Ou seja, escolheremos entre digerir o que é necessário à vida, ou permitir
que fique como um bolo pesando no estômago de onde se vai manifestar como vômito,
coágulo ou rins inoperantes.

A passagem a seguir, reproduzida exatamente como saiu da máquina de


escrever, revela a batalha que é a comilança demoníaca desenfreada. É um texto
extraordinário porque raramente uma pessoa consegue manter-se consciente o bastante
para se aperceber de alguma coisa, assim que a compulsão toma conta. Mostra o ego
tentando defender seu território contra o sarcasmo e o riso demoníacos do complexo. As
duas vozes são, a princípio, bem nítidas mas, quando o frenesi realmente começa, então
essa mulher, muito culta (e datilógrafa profissional), não consegue controlar a máquina,
a ortografia, nem mesmo a pontuação. O frágil ego tenta confrontar, depois fugir,
contudo gradualmente se submete ao impiedoso ataque, sentindo-se frustrado,
encolerizado, impotente. Termina com uma experiência "fora do corpo" — a bruxa
voando ao vento.
ENTÃO POR QUE VOCÊ ESTÁ COM MEDO DE TENTAR SE VOU FALHAR NÂO NÃO É ISSO
ONDE ESTÃO AS FORÇAS QUE SÃO SUAS ALIADAS ONDE ESTÃO ELAS TE AJUDAM SIM ELAS ME
DÃO O SONO POR QUE VOCÊ NÃO QUER FICAR ACORDADA PORQUE DÓI FICAR ACORDADA DIGA-
ME QUANTO DÓI OK VOCÊ ESTÁ PRONTA? O TEMPO TODO. TODO O MUNDO OLHAPARA VOCÊ
ABAFANDO RISINHOS ABAFANDO RISINHOS ELES OLHAM PARA VOCÊ ELES NÃO OLHAM PARA
VOCÊ PARA ESEREM EDUCADOS. SER EDUCADO É NÃO REPARAR ELES NÃO REPARAM QUE VOCÊ
FEDE TAMBÉM ESP NO VERÃO VOCÊ SEMPRE ESTÁ FEIA DE CORPO E AGORA DE CARA
NOVAMENTE HAHAHAIIAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA VOCÊ ACHOU QUE TINHA SE LIVRADO
DAS ESPINHAS SHAHAHAHAHAHAHAHAHA ELAS VOLTARAM QUEM ESTÁ FELIZ. DIGA-ME SEU
NOME Ó CRIATURA FELIZ?????? DIGA-ME QUEM É VOCÊ COM O QUE SE IMPORTA EU SOU O
DEMÓNIO HAHAHAHA VOCÊ ESTÁ FINGINDO? NÃO EUEUESOU FELIZ POR QUE VOCÊ É FELIZ
COMA E CALE E A BOCA COMA E CALE A BOCA NÃO TOQUE MÚSICA MÚSICA AFAZ EU ME
ESCONDER SE VOCÊ PUSER MESMO MÚSICA VOCÊ TAMBÉM SE ESCONDE VOCÊ SE ESCONDE
ENQUANTO TOCA NÃO PENSE SONHE ENQUANTO ESTÁ ACORDADA NÃO TRABALHE MAS SONHE
SONHE COM QUANDO VOCÊ ERA MAGRA ENQUANTO COME HAHAHAHAHAH DESSE JEITO POSSO
CONTINUAR POR QUE VOCÊ QUER CONTINUAR PORQUE PORQUE POR QUE DE OUTRO JEITO NÃO
EU SIM EU VOU LHE DAR UMA CASA MELHOR NO NOVO EU VOCÊ SERÁ UM PRÍNCIPE FORTE E
MEU REI E NÃO ESSA PESSOA SORRATEIRA W VOCÊ VAI CRESCER COMIGO NÃO FUJA FUJA FUJA
FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA FUJA
FUJAFUJAFUJ
POR QUE VOCÊ FOGE POR QUE ESTÁ ASSUSTADA PARA ONDE FUGIU?????? VOCÊ NÃO É
NADA VOCÊ É POUCO VOCÊ NÃO PODE ME DAR NADA HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA NÃO RIÂ DE
MIM VOCÊ É QUESTÁ COM MEDO VOCÊÉ QUE ESTÁ FUGINDO MAS A GORDA É VOCÊ
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA VOCÊ DÁ VENENO PARA COMER????? COMIDA BOA
NÃO COMIDA BOA COME COME DOCES IAM IAM IAMIAM. AS ESPINHAS VÃO SUMIR ÉÉ SÓ PORQUE
ESTOU QUASE MENSTRUANDO ELAS VÃO SUMIR PORQUE A MINHA PELE ESTÁ SADIA AGORA E EU
VOU PERDER PESO NÃO NUNCA SIM NÃO VOCÊ NÃO VAI É MUITO DIFÍCIL NÃO TENTE ESPERE
APENAS PR FAZER ISSO MAIS TARDE AINDA NÃO ESTÁ PRONTA POR QUE NÃO ESTÁ PRONTA
PORQUE ESTÁ QUENTE DEMAIS PARATENTAR FRIO DEMAIS TAMBÉM
PARAPARAPARAPARAPARAPARA DESHFKDSAJKLDKSJD FJDKSIEUWIEOFDKDMCKAFDJKSLA
FJDOIWSIFJDIS NAKSLDOFIUW NAKKSODIFUD
NAKSDOFKGHTIWOALSKDJFIAAOSODOFIAUSI ODJAKL FIGHANSISOGNDIA
FNOSENENFGIFNUROANALGUNSNTTNSN; AOEPTNA AOEOWPNANDISNDNAIA OF
F JANAF GISNAN SIS S NTOS PROQIE EISNSNPAIOSNFDNSAODSNSNSDODFNAIFNSOSNLASSND
VENTO SOPRANDO VENTO VOCÊ GOSTA DE VENTO VENTO FAZVOCÊ VOAR COM ELAALTONO AR
OUTRAS PESSOAS NÃO GOSTAM DE VENTO ELAS SE ENCOLHEM NO VENTO ELAS SE ESCONDEM
DO VENTO EU ADORO O VENTO NÓSSSSSSSSSSSSS VOAMOS COM O VENTO.

A mulher obesa de 26 anos que escreveu este texto entregou-o a mim em sua
sessão seguinte dizendo: "De certa forma ainda não nasci. Carrego a minha mãe". Esse
comentário inconsciente (dois minutos depois ela não se lembrava de ter dito isso) e a
descrição a seguir do desenho à p. 30 (feito por uma estudante de psicologia anoréxica)
sugerem que a comilança desenfreada tem algo a ver com devorar a mãe. Na passagem
acima, a mãe ainda é o inimigo, a mãe negativa movida a desejo de poder, e o ego não
tem força suficiente para parar de "devorá-la". Os resultados disso são vulcânicos. Na
passagem seguinte, a mulher reconhece a mãe transformada e decide que vai assimilar o
que antes costumava vomitar. O resultado é o que ela chama de uma "inundação
escaldante de liberação e transformação", reunindo o físico ao espiritual. Eis sua
descrição do desenho (o quarto numa série de seis) e seus sentimentos, conforme ia
trabalhando com isso:
Sua inspiração direta foi o Fausto de Goethe, a cena das "Mães". A forma básica é um vaso
alquímico que também é um útero de redenção. Na base estão dois caldeirões, um preto e um branco, para
os opostos. Há também figurações quase ocultas de uma orelha e de um olho, para sinalizar os dois
sentidos mais importantes. Eles representam Logos, o som da palavra, o tempo, e Eros, a forma da
criação, o espaço. Em volta da base do alambique estão imagens de mulheres. Uma velha sábia enfia uma
chave na fechadura. Uma mulher aranha faz lembrar a M ulher Maravilha Amazona. Uma mulher
traquinas olha para baixo com desdém. Uma dançarina estende um braço para cima. Uma mulher vestida
no estilo da década de 1890 indica o fim do milênio dos papéis das mulheres como satélites e o
aparecimento do movimento das sufragistas. Uma mulher fantasmagórica está envolta nas chamas da
transformação. Atrás dessas mulheres estão as deusas da fertilidade: Diana de Éfeso, a Vênus de
W illendorf e a Vênus de Lespugue.
No fundo, ocupando o vaso todo, está uma poderosa Mãe Terra primal. Seus olhos parecem
feridas de lágrimas sangrentas. Tudo está contido em seu útero, cujas paredes são o alambique. A forma é
um vaso alquímico da transformação, um útero, uma flor em formato de chama, e todas são abertas no
topo para o influxo e a saída da energia dos mistérios transpessoais. A forma externa final do desenho
lembra um escaravelho, que é o símbolo egípcio do deus solar. Tanto os princípios masculino e feminino,
como os ritos lunares de "formação, transformação/a eterna recriação da mente eterna" e os ritos solares
da clareza apolínea, estão simbolizados no desenho.
A figura mais importante é a que ainda não foi mencionada: a mulher de preto, ao centro. Levou
mais tempo para desenhá-la e chegar a um acordo com essa figura do que com o restante do desenho. Ela
começou como uma camponesa alemã mas eu buscava algo mais ctônico, mais telúrico. Através de seus
trajes pintei-lhe um corpo negro com tinta e eles se tornaram um véu transparente. Seu corpo tem o
formato de um bulbo, como uma série de pneus de borracha. Sobre seus seios e seu estômago apresentam-
se configurações que lembram um ovo. Ela usa um chapéu pontudo, como o dos palhaços e dos sábios.
Seus braços estão envolvidos pelo material original. Foi um pouco desconcertante perceber sua acentuada
forma fálica. Ela é, ao mesmo tempo, crua e maternal. Em imaginação ativa, enquanto trabalhava na
figura, parecia que eu a estava escalando, uma imensa mãe de terra negra, afundando em sua fértil
umidade, cheirando o rico húmus da terra. Escalei suas lágrimas, com dor e felicidade, porque ela era a
mãe da compaixão, a terra mesma, e eu estava ligada à sua lama primai e nutridora.
Então eu vi, no meu desenho, a forma de um assento sanitário de banheiro público. Vi as "Mães"
na bacia da privada. Na dicotômica lembrança de minhas comilanças e purgações anoréxicas, eu tinha
passado muito tempo recusando o feminino. O alimento que eu ritualisticamente vomitava era uma
rejeição das "Mães" e, portanto, de seus m istérios transformadores. O que durante sete anos fiquei
vomitando era a recusa de ser uma m ulher; a "recusa" da comida regurgitada era uma rejeição da Grande
M ãe in totó.
Somente depois desse desenho é que pude compreender a comunhão do corpo com o sangue, do
físico com o espiritual, porque ali encontrei uma comunhão do profano com o sagrado. Despertava uma
inundação escaldante de libertação e transformação capaz de abalar até os alicerces. A Grande Mãe Terra
Negra provou ser minha expiação e minha redenção, levando-me a um novo modo de viver. Apesar de
minha maneira altamente personalizada de compreendê-la, sei que ela existe para todos.

Assim que os rituais são "traídos" e confessados ao analista ou a alguma outra


pessoa perceptiva, tornam-se então abertos a mudanças. Logo que o ritual é despojado
de sua magia, os falsos receios podem ser desemaranhados dos medos reais. Nesse
momento, o medo real pode ser encarado. Isolada e manipulada pela mídia, uma mulher
pode inconscientemente ser seduzida a afundar ainda mais em seu transe; presa desse
feitiço, ela aceita que o medo da comida é seu medo de ficar gorda. Assim que aborda
essa situação com toda a sua consciência, um medo muito diferente pode assustá-la bem
no centro do quadro. Em geral esse medo está relacionado à falta de controle. A
perfeccionista superconscienciosa sabe que não consegue controlar sua obsessão;
reconhece no centro de seu torvelinho outro poder que hostiliza. O rodopio imposto pela
eficiência do cotidiano e pelas compulsões noturnas evita enquanto pode o confronto
com o Olho. Esse confronto exige a rendição do "eu" rígido e auto-enganador.

Desenho de analisanda: "A figura mais importante é... a mulher de preto, ao centro... Nela
encontro a comunhão do profano com o sagrado", (texto, p. 55)

Essa rendição só pode se efetivar quando o momento estiver maduro, e as


resistências que aparecem devem ser íespeitadas. O programa do AA reconhece que
nada pode fazer enquanto o alcoolista não admitir que é impotente e pode se entregar a
um Poder maior do que si mesmo. Essa atitude do ego diante do Olho é tudo. Se o ego
for hostil, então se experimenta como vítima e se posiciona para o auto-aniquilamento.
Se a atitude for de aceitação — não resignação, mas receptividade aberta —, então a
aniquilação é transformada em sacrifício consciente. Essa mudança de atitude abre o
coração ao poder do amor que irradia do Olho, esse amor todo-abrangente, nutridor,
capaz de dar apoio ao "eu" em lugar de destruí-lo. Em termos psicológicos, enquanto
inconsciente e consciente são inimigos, o ego se percebe correndo um constante perigo
de morte. Assim que entram em harmonia, o ego se percebe aberto e sustentado pela
matriz maternal do amor.
A despeito da crença popular, a comilança desenfreada não depende tanto do
quanto a pessoa come. Para quem está nas garras da mãe negativa, até mesmo um único
bolinho, comido em seu nome, é suficiente para produzir um doloroso ingurgitamento
ou reação alérgica com inchaço. Para os que têm convivido com um complexo alimentar
praticamente sua vida toda, é preciso praticar uma paciência imensa durante o processo
da cura. O corpo pode estar sofrendo de um desequilíbrio hormonal decorrente do
prolongado período de estresse. Os resíduos da neurose podem continuar acionando os
sentimentos originais de culpa e medo, aos quais dizem respeito determinados ali­
mentos. O corpo está se revoltando contra a invasão da bruxa, e a mulher que consegue
permanecer consciente o bastante para ouvir seu corpo já está a caminho de descobrir as
suas próprias raízes arquetípicas.
O vômito ritual pode ser considerado a recusa de manter a mãe no estômago. A
anoréxica que se recusa a comer, e ritualisticamente pica em 16 pedaços o bife no prato
para comer só um deles, pode estar reencenando um mito bem antigo: o
esquartejamento da mãe. Isso pode ser um ato ritual de desafio e poder. No caso, o
inconsciente é muito calculista e dita o comportamento de tal maneira que não é capaz
de comer desenfreadamente. (Vale a pena assinalar que em muitos mitos o filho cria o
mundo a partir do corpo desmembrado da mãe que ele mesmo esquartejou.) O
desmembramento se torna um processo de transformação da mãe negativa em positiva,
uma transformação que reside na consciência da pessoa que, enfim, é capaz de se
separar da mãe negativa e encontrar um novo significado para a comida, com base em
sua capacidade de ouvir as necessidades de seu próprio corpo. Enquanto está possuída
pela bruxa, a mulher não consegue ouvir essas necessidades.
O sonho seguinte pode ilustrar o que quero dizer. Uma mulher obesa, num duplo
esforço de perder peso e ampliar seus horizontes espirituais, decidiu jejuar por sete dias.
Entregou-se ao princípio feminino e teve este sonho:
Estou dirigindo em meio a uma pesada tempestade de neve, na pista expressa, com minha filha
de 12 anos. A neve está tão intensa que não consigo ver e saio da pista. M inha filha e eu caminhamos com
muita dificuldade pela neve alta segurando-nos a uma grade, com medo de perdermos totalmente a
orientação. Uma cigana velha leva-nos até sua pequena barraca, levanta a aba de pele que serve de porta e
nos sentamos as três no chão, juntas em torno do fogo. Ela nos oferece uma xícara de chá. A xícara que
me entrega parece com a que era a minha favorita, entre as de minha mãe. É decorada com flores
delicadas. M as esta é um a xícara muito rústica e pesada. Quando a viro de boca para baixo, percebo que é
feita de cobre e esmaltada para parecer exatamente como a de porcelana de minha mãe. A cigana me
entrega um pedaço velho de camurça. Não tenho certeza quanto ao que fazer com aquilo. Ela me diz que
é para abrir. Quando abro o tecido, encontro um brinco. Tem o formato da cabeça de um cervo e seus
chifres têm um desenho que se amolda ao contorno de minha orelha esquerda. "Este é o seu presente", ela
diz.

O cenário do sonho sugere um mundo frio e insensível, em que a sonhadora e


sua própria faceta feminina jovem ficam tão perdidas e confusas que não conseguem ir
em frente. São forçadas a sair do caminho coletivo, ainda apegadas a alguma direção
racional (agarradas à grade). São localizadas pela velha cigana, uma figura feminina que
tem uma sabedoria ancestral natural. Ela as dirige até que passam pela aba de pele
natural e entram na caverna uterina, o útero natural da mulher. Então, em torno do fogo
da transformação, elas participam do mais natural dos ritos femininos: beber chá. Nesse
contexto, o coração das três mulheres é inundado pelo fogo transformador do amor e o
que teria sido um ritual profano se torna sagrado na medida em que a sonhadora é
novamente vinculada à sua feminilidade. Ali estão em solo sagrado, num ponto fixo em
r a z ã o d o q u a l e la p o d e v iv e r , se m o v im e n ta r e s e r q u e m é. S e u s ilê n c io c o m p a r tilh a d o
v ib r a c o m o m is té r io d o a m o r q u e e s tá n a s c e n d o e n tre e la s, e n e n h u m a d a s trê s p ro f a n a
e s s e silê n c io .
A x íc a r a q u e a v e lh a c ig a n a o f e r e c e à s o n h a d o r a é a d a m ã e , x íc a r a q u e , p o r
a s s o c ia ç ã o , c a u s o u u m a a n g ú s tia te rrív e l e n tre a s o n h a d o r a e s u a m ã e . Q u a n d o c ria n ç a ,
e la h a v ia s id o e d u c a d a a o f e r e c e r e s s a x íc a r a à s v is ita s p o r s e r a m a is b e la e a m e lh o r.
S u a m ã e s e m p r e a a d v e r tir a a n ã o q u e b r á - la q u a n d o a s o n h a d o r a la v a v a a lo u ç a , e a
ú n ic a c o is a q u e a im p e d ia d e f a z ê - lo , a p e n a s p o r ra iv a , e ra o q u e e la m e s m a s e n tia p e la
x íc a ra . A g o ra , n o so n h o , a c ig a n a lh e o fe re c e a x íc a r a d a q u a l e la n ã o tiv e r a p e rm is s ã o
p a r a b e b e r. E a x íc a r a é f e ita d e c o b re só lid o , m e ta l d e V ê n u s , d e u s a d o a m o r. S u a
lin h a g e m fe m in in a , q u e s u a p r ó p r ia m ã e n ã o fo ra c a p a z d e lh e tra n s m itir, p o r n ã o te r
s id o e la m e s m a c a p a z d e r e c e b ê - la , é r e c u p e r a d a n o s o n h o p o r in te r m é d io d a im a g e m
a r q u e típ ic a d a x íc a r a d e q u e — c o m o n a le n d a d o G ra a l — e la b e b e .
A s s im q u e e s s a c o m u n h ã o e s tá e s ta b e le c id a , a c ig a n a c o lo c a e m s u a m ã o u m
p r e s e n te m a is in d iv id u a l. A h e s ita ç ã o e a re lu tâ n c ia e m r e c e b e r o p r e s e n te s u g e re m o
m e d o d a v id a e a a u s ê n c ia d e e s p o n ta n e id a d e c a r a c te r ís tic o s d e s s a s o n h a d o ra . A m a io r
p a r te d e s u a v id a , d e fa to , fo i v iv id a a p a rtir d e su a d im e n s ã o s o m b ra , p o r q u e e la s e n tia
m e d o d e a s s u m ir a r e s p o n s a b ilid a d e p o r s e u s p r ó p r io s d o n s. A g o r a e la re c e b e u m
b r in c o , m o ld a d o p a r a s u a o r e lh a e s q u e rd a . E m r a z ã o d e se u a ju s te p e rfe ito , e s tá
s in a liz a d a s u a c a p a c id a d e in d iv id u a l d e r e c e b e r n u m a r e m in is c ê n c ia d e c e r ta im a g e m d a
A n u n c ia ç ã o e m q u e a V ir g e m r e c e b e s u a c o n c e p ç ã o p e lo o u v id o . "O p e n s a m e n to d o
la d o e s q u e r d o e s tá r e la c io n a d o c o m o p r o c e s s o p rim á rio , c o m o flu x o d a s c o is a s , e se
e x p r e s s a p o r m e io d a u n iã o e d o v ín c u lo c o m a te r r a .'10
A x íc a r a q u e q u a n d o c ria n ç a lh e h a v ia sid o re c u s a d a fo i tr a n s f o r m a d a e m su a
p r ó p r ia ta ç a d o a m o r. A c ig a n a e o fo g o sã o o s e le m e n to s tr a n s fo rm a d o re s . A p re s e n ç a
d e s u a f ilh a s u g e re u m n o v o a lin h a m e n to c o m o fe m in in o . E s s e te m a te m u m a r e la ç ã o
p r o f u n d a c o m a s e m a n a a n te r io r d e d ic a d a a o je ju m , p o rq u e e la h a v ia d e lib e r a d a m e n te
se a b s tid o d a p e n e tr a ç ã o p e la m ã e n e g a tiv a , s a c rific a n d o -s e a u m p rin c íp io fe m in in o
s u p e r io r id e n tific a d o , n o s o n h o , c o m a c ig a n a , o f o g o e a filh a . C a m u rç a é a p e le d e u m
a n im a l r e v e s tid a d e ó le o d e p e ix e . O c e rv o , q u e n a s le n d a s se r e n o v a a o c o m e r u m a
s e rp e n te , é o s ím b o lo d a in te g r a ç ã o d o s in s tin to s , q u e r d iz e r, a n a tu r e z a h u m a n a n ã o se
e le v a s o b re a n a tu r e z a a n im a l, m a s , a o c o n trá rio , a s s im ila - a c o m o p a rte in te g ra n te d e si
m esm a.
U m s o n h o d e s s e s e s ta b e le c e u m a b a s e fe m in in a fix a , u m f ir m e a m o r fe m in in o ,
c o m o u m c o s m o d e n tr o d o q u a l o e g o fe m in in o p o d e re sso a r. U m s o n h o d e s s e s a p a re c e
p o r q u e a s o n h a d o r a h a v ia c h e g a d o n u m p o n to d e c o n f r o n to c o m o c o m p le x o , e m b o r a d e
m o d o a lg u m e s s e fo s s e o e n c o n tr o fin a l. D e p o is d e te r id o e v in d o e m s u a o b s e s s ã o p o r
u m te m p o lo n g o o s u fic ie n te , e la d e c id iu in te r r o m p e r e s s a o s c ila ç ã o c o m u m r á p id o
je ju m . A o se r e c u s a r a a b a f a r s e u s s e n tim e n to s n e g a tiv o s c o m e n d o , e la , n a re a lid a d e , fe z
o s a c r if íc io e x ig id o p a r a lib e r ta r d e s u a s tr e v a s a d e u s a a u s e n te . E m s e u ritu a l s a g r a d o
d e d ic a d o a o p r ó p r io p r in c íp io f e m in in o , e la fe z o sa c rifíc io . A d e u s a a a g r a c ia c o m u m
p r e s e n te q u e é u m n o v o c o s m o , r e la c io n a d o c o m o f e m in in o d iv in o e, a o m e s m o te m p o ,
o u to r g a n d o - lh e s u a p r ó p r ia r e a lid a d e te rra . A o b e b e r d a x íc a ra q u e n u n c a lh e h a v ia sid o
c o n s e n tid a , s u a b r u x a fo i tr a n s f o r m a d a e m m ã e a m o ro s a ; a b ílie d a b r u x a to r n a - s e le ite .
E la g a n h a o u v id o s p a r a o u v ir e o lh o s p a r a v e r; to r n a - s e m a is re c e p tiv a à s u a v irg e m
in te rio r.
N a tr a g é d ia d e S h a k e s p e a re , L a d y M a c b e th c o m o m ã e n e g a tiv a a s s u m e a f o r m a
d a s tr ê s b r u x a s q u e n a s u r z e s c o n s te la m a d e s tr u tiv a im a g e m q u e M a c b e th te m d e si
m e s m o , a f a ls a im a g e m d o r e in a d o q u e le v a à s u a ru ín a . E la s s ã o o la d o n e g a tiv o d e se u

10 Pearce, p. 209
destino. No sonho anterior, as três bruxas são substituídas pelas três mulheres positivas,
a tripla imagem da mãe positiva. Juntas, elas constelam a imagem positiva do reinado da
rainha presente na cabeça do cervo, que é um símbolo medieval de Cristo.
Três é tradicionalmente o número do destino. Como o reconhecem todas as
minhas analisandas anoréxicas e obesas, destino é o que as persegue. Como no caso de
Macbeth, pode levá-las a uma destruição que enxerguem à sua frente com uma clareza
aterrorizante. Ao mesmo tempo, se já estão em análise há tempo suficiente, começam a
ver seu destino com outro rosto: o seu.
Um famoso mestre zen disse certa vez ao seu discípulo: "Mostre- me seu rosto
antes de você nascer".

O Nascimento de Vênus. Sandro Botticelli

Quanto mais o ideal feminino se inclina na direção do masculino, mais a mulher perde seu poder
de compensar o esforço masculino de busca da perfeição, e emerge então um ideal tipicamente masculino
que, como veremos, está ameaçado de enantiodromia. Não há caminho depois da perfeição futura: existe
só o retorno, o colapso do ideal, que poderia ter sido facilmente evitado prestando-se atenção ao ideal
feminino da completude. O perfeccionismo de Yahweh passa do Velho para o Novo Testamento e, a
despeito de todo o reconhecimento e a glorificação do princípio feminino, este nunca prevaleceu diante da
supremacia patriarcal. Portanto, de modo algum já sabemos tudo a respeito dele.

C. G. Jung, Resposta a Jô

Naquela época, [minha mãe] não queria mais ver ninguém e sempre levava com ela, até em
viagens, a pequena e delicada peneira de prata na qual filtrava tudo o que bebia. Não ingeria mais
alimentos sólidos de qualquer natureza, exceto alguns biscoitos ou pão, os quais quando estava só
quebrava em pedacinhos e comia um por um, como as crianças fazem com as migalhas.
Seu medo de agulhas, nessa época, já a dominava por completo. Aos outros, ela dizia
simplesmente à guisa de desculpa: "Não consigo mais realmente digerir nada sólido, mas não quero que
isso o preocupe; sinto-me de fato muito bem". Para mim, no entanto, ela de repente se voltava (pois eu já
era um pouco crescido) e dizia com um sorriso que lhe custava um imenso esforço: "Quantas agulhas
existem, Malte, e como eles mentem a respeito de tudo, e quando a gente pensa com que facilidade elas
podem cair...". Ela tentava dizer isso de uma maneira jocosa, mas o terror a fazia tremer à mera idéia de
todas as agulhas mal apertadas que, a qualquer "instante, em qualquer parte, poderiam cair em alguma
coisa.
Rainer Maria Rilke, The notebook o f Malte Laurids Brigge
2 - Vício da perfeição
Espelho, espelho meu.
Quem é mais bela do que eu?

M i n h a a n a lis a n d a s e n to u -s e n a c a d e ir a à m in h a fre n te . A r r u m o u o d iá r io d e
s o n h o s e o s s e u s p a p é is m e tic u lo s a m e n te , q u a s e q u e a lh e ia a o fa to d e m e u s o lh o s
e s ta r e m p o u s a d o s e m s u a p e s s o a . N ã o fa la m o s . R e p a r e i n o s to n s s u a v e s d e m a lv a e r o s a
e m s u a b lu s a n o v a , e p e r c e b i q u e se u p e n te a d o e r a n o v o , c o m u m c o rte q u e o fe r e c ia
m a is d e f in iç ã o a o s e u r o s to jo v e m . E m to r n o d e la h a v ia u m a q u ie tu d e , u m a e s p é c ie d e
f o r ç a s ile n c io s a à q u a l m u ito s se h a v ia m a g a rra d o . U m n ú m e r o e x c e s s iv o d e p e s s o a s
h a v ia d e p o s ita d o s u a c a r g a s o b re e la, q u e c a r r e g a v a to d o e s s e p e so . F iz e r a is s o tã o b e m
q u e e r a m a is v e lh a q u e s e u s 2 5 a n o s e b e m m a is p e s a d a d o q u e a b a la n ç a c o n s e g u ia
s u s te n ta r . D e u - m e u m so rriso le n to , p u n g e n te , q u e n ã o a c e n d e u s e u s o lh o s. S o rri d e
v o lta e le m b r e i d o " tris te c o ra ç ã o d e R u th q u a n d o , s a u d o s a d e s u a c a sa , F ic o u n o m e io
d o m ilh a ra l a lh e io , la v a d a e m lá g r i m a s " .1
C o m o tin h a a c o r a g e m e a d ig n id a d e d e s s e n o m e , v a m o s c h a m á - la d e R u th . E ra
u n iv e r s itá r ia , d e tin h a u m a p o s iç ã o p ro f is s io n a l d e re s p o n s a b ilid a d e , e r a s e n s itiv a e m
g r a u q u a s e a la r m a n te , m a s s e u p e s o , a g o r a e m to r n o d e 165 q u ilo s , tin h a s id o u m
to r m e n to a s u a v id a in te ira . R e f e r in d o - s e a o c o rp o , d isse : "S e to q u e i e s s e in s tru m e n to
a d o r á v e l a lg u m a v e z c o n s e g u i p r o d u z ir a lg u n s a c o r d e s p e s a d o s e d e s a g r a d á v e is q u e
n in g u é m , s a lv o e u , q u e r e s c u ta r . C o m o m a m ã e d iz ia a c e r c a d e si m e s m a : 'F in jo q u e é
u m a v io la v e lh a q u a n d o , n a r e a lid a d e , é u m S tra d iv a riu s '" . R u th e ra a p r im o g ê n ita d e
u m a f a m ília com c in c o filh o s . S e u p a i e s u a m ã e e ra m a m b o s p r o fis s io n a is . A p ó s 18
a n o s d e u m c a s a m e n to te m p e s tu o s o , d iv o rc ia ra m -s e . P o r d e z a n o s s e u p a i f o r a u m
a lc o ó la tr a e m s e g re d o . D e p o is d e a lg u n s m e s e s d e a n á lis e , e la r e c o n h e c e u s u a
n e c e s s id a d e d e p o d e r, s u a â n s ia d e p e r f e iç ã o , se u d e s e jo d e c o n tro la r, n ã o o s o u tro s , m a s
a p r ó p r ia v id a . R e c o n h e c e u ta m b é m a s ra d ic a is c o n tr a d iç õ e s d e s e u s d e v a n e io s
h a b itu a is : o a n s e io d e v iv e r , a r e je iç ã o d a v id a ; a e s p e ra n ç a , o d e s e s p e ro ; o c o rp o , o
e s p írito . A s a lu s õ e s a e s s a s a titu d e s tr a n s p ir a m d a p a s s a g e m a s e g u ir, r e tir a d a d e se u
d iá rio :
Não estou me enganando. Sei que comer doces é estar consistentemente escolhendo a morte.
Agora me dão indigestão e enxaquecas. Dôo minha energia à minha doença em vez de a meu ego. Acho
que estou preparada para perder peso e pensei que meu inconsciente estivesse pronto para me dar apoio.
Mas ainda estou comendo chocolates antes da ricota, e o desespero é pior que nunca. Você tem razão: há
uma emergência, uma emergência espiritual, porque posso escolher não estar de jeito nenhum aqui. Existe
uma emergência física. Sim, existe um desespero crônico em meu corpo e eu fico dizendo a mim mesma:
"Um dia faço algo a esse respeito, mas nesse meio tempo tenho de cuidar da emergência". Os outros não
entendem essa emergência. Os outros acham que o meu corpo é a emergência. São repelidos por meu
corpo. Eu sou repelida pelo mundo. Eu, Deus, recuso-me a entrar no mundo, recuso-me a encarnar.
Escolho o bem e deixo o restante passar. Pego o que consigo, apenas ficando em pé na soleira de minha
porta. Odeio o mal. Odeio o mal de mim mesma. Sei que é burrice. Quero que as coisas sejam verdadeiras
e, no entanto, a imagem que apresento de mim é absolutamente falsa. Não faço nada para entrar no
mundo. Se não consigo fazer tudo, não faço nada.
Fazer regime é encarar o mundo real. Quando estiver pronta farei isso. Tenho medo dos
desastres que ocorrerão se eu entrar na vida. Vejo a confusão que os outros fazem com suas vidas e não
acho que a m inha seja tão ruim. Mesmo assim, finjo que não estou aqui. Sei que quando penso sobre o
mundo real fico cheia de medo, tensa e hostil. Pensar em todos os possíveis perigos destrói a minha
confiança, desviando a minha energia para longe da questão principal. Tenho muito medo de fracassar.
Esforço-me demais. A rigidez e a disciplina dão errado. Fico demasiadamente deprimida com tudo de
errado que existe no mundo. Não consigo nem ler a Times. Hamlet é pesado, mas não é o mesmo tipo de1

1John Keats, "Ode to a nightingale", linhas 66-7


peso barato como o das revistas. Sinto-me afetada por fugir do mundo do jeito que ele está. Estou
tentando chegar num nível espiritual elevado cedo demais, provavelmente fazendo as perguntas certas no
momento errado. Não enfrento meu problema de corpo porque não quero entrar na vida. Tenho medo de
sair. E no entanto já estou fora. Se conseguir perder peso, então tenho de entrar na vida.
Duvido de meus motivos. Ao cometer um crime, estou evitando uma miríade de outros e todos
são a mesma coisa. Sei que estou me corrompendo, mas isso é diferente de ser corrompida pelo mundo.
Os adultos são falsos. Achei que poderia chegar à idade adulta sem ser falsa. É como vestir certas roupas
para chegar a se conhecer. Não quero falhar. Não quero me corromper do jeito que o mundo faz. Eu sou
assim e, se não gostarem, azar! Claro que é uma falsa couraça. Eu fracassaria ainda mais radicalmente
que eles. Não. Não vou entrar no mundo. Não vou me prestar a ajustamentos exíguos. Quem se importa
se cenouras têm mais calorias cruas ou cozidas? Os cavaleiros do Graal não estavam fazendo o que estava
à mão. Os grandes problemas têm de ser enfrentados de maneira grandiosa. Grandes vocábulos!
Tudo está distorcido. É verdade. Mas não é desculpa. Eu poderia entrar de uma grande maneira,
mas, nesse meio-tempo, comer cenouras cruas. Digo a verdade, mas ao mesmo tempo estou fazendo
joguinhos. Uma parte de mim diz que gostaria de ser magra, contudo eu respondo: "Mentirosa". Se pelo
menos fosse alguma coisa que eu pudesse parar de uma vez! Mas não se pode parar de comer. Amputam
sua perna e você se acostuma com isso. Você usa muletas. Mas, se não parar de cortar um minuto sim
outro não, então você está realmente em apuros.
Meu pai [que era alcoólatra] era um pisca-pisca. Se não tivesse existido a eletricidade, se ele
simplesmente tivesse sumido, poderíamos ter aprendido a viver à luz de velas. Mas nunca podíamos
confiar porque sabíamos que no momento seguinte estaríamos no escuro. Depois de ter entrado na luz
você não consegue voltar para o escuro. Existe em mim um medo horrível disso. Não consigo suportar o
sofrimento. A carne é fraca. Não alimente sua fraqueza. Saia dessa. O corpo é grande demais; vá atrás de
outro. Da próxima vez, tente o espírito!

A rejeição da vida e o desespero implícitos nessa última sentença eram


conclusões características dos depoimentos do diário de Ruth. Ela deixava a caneta de
lado, entrava num rodopio letal que a fazia sentir-se tragada por um redemoinho,
começava inconscientemente a comer chocolate, bolinhos e leite até entrar em estupor;
depois terminava se percebendo pelo menos respirando. O corpo odiado persistia em
suas tentativas de sobreviver mesmo quando o espírito se recusava a habitá-lo.
A sabedoria do corpo é o termostato que determina o apetite, quer o ego goste
disso, quer não. Somente quando muda a atitude consciente, à medida que o ego se
torna de fato forte para assumir a responsabilidade pela mulher como ser humano,
vivendo em seu corpo na terra com suas limitações humanas, é que o registro do apetite
consegue encontrar seu "ponto" natural. Enquanto o ego não for forte o suficiente para
assumir essa responsabilidade, a energia chegará repetidas vezes naquele rito de
passagem, entrará no torvelinho, vivenciará o conflito avassalador, regredirá até a
dimensão da bruxa e não conseguirá efetivar a ressurreição ou a resolução. Porém, cada
vez que percorre o ciclo, sobe ou desce (eis o paradoxo crucial) um novo anel da espiral,
acumulando nova força, desde que, claro, o diálogo entre ego e inconsciente continue
acontecendo.
Nesse intercâmbio, o ego está sendo alimentado pelo inconsciente. Os sonhos
sempre são repletos de imagens de comida. 0 alimento que está tentando ampliar a
atitude do ego fortalecerá pontos de vista firmes desde que o ego assimile essa nutrição;
em outras palavras, passe a agir de acordo com suas novas percepções. Esse mesmo
alimento — físico ou espiritual — ajudará o ego a ser menos rígido, permitindo que as
coisas fluam, aconteçam. O obstáculo, que antes era evitado por medo, pode então ser
visto como um desafio com todas as suas possibilidades de enriquecimento das
vivências. O que parece ser uma contradição para Ruth, nos estágios iniciais da análise,
pode, com o tempo, tornar-se um paradoxo: quanto mais o ego se fortalece, mais se
torna flexível.
Na mesma extensão em que a mulher é capaz de participar dos rituais de uma
Igreja, cristã ou outra, ela está protegida de um confronto pessoal com o inconsciente. O
ritual garante certa distância estética. Também assegura que aquela divindade que sofre
e morre surja novamente. Mas, quando a pessoa está atravessando sozinha essa
experiência, sem o ritual ortodoxo, não consegue saber que o sacrifício do velho
encaminha para o nascimento do novo. Tudo o que ela experimenta é a escuridão do
canal de parto, sem a menor fé de que encontrará a luz ao final. Se ela perder seu corpo
gordo (a única segurança que já conheceu na vida), se sacrificar isso, o que poderá
segurá-la na terra? O que irá protegê-la dos terrores de uma vida que ela essencialmente
rejeita? Sacrificar seu corpo gordo antes que passe a aceitar a vida seria destruir o único
baluarte entre ela e um surto psicótico ou a morte. A desprezada gordura é, de fato, sua
âncora na vida, e o tamanho que ela assume pode variar em proporção direta à aceitação
ou à rejeição com que seu ego contempla sua própria humanidade. Tampouco a gordura
é tão desprezada quanto pode superficialmente parecer pois, assim que começa o
processo de perda de peso, o luto pelo corpo perdido talvez precise ser enfrentado para
que não torne a ocorrer um repentino aumento de peso.
O ritual religioso sempre foi a retomada de um mito: o Deus bebe de uma taça,
morre e renasce. O ritual tem sido uma forma de os seres humanos participarem
vicariamente da vida da deidade. Como diz São Paulo: "Não eu, mas Cristo vive em
mini" (Gaiatas, 2:20). Agora, o divino tapete foi puxado de debaixo de nós, ou nós
mesmos fizemos isso. Os rituais que antes eram vicários são agora reencenados em nós,
na vida cotidiana. Temos de assumir a responsabilidade por nossas próprias vidas. Devo
assinalar que Ruth não tinha mais filiação religiosa. Os sacramentos da Igreja não
tinham mais ressonância em sua vida psíquica. O espírito que ela estava tentando
construir tinha de sê-lo a partir de seu sofrimento particular e de suas esperanças mais
pessoais. Para que seu sofrimento e sua esperança tivessem algum significado, contudo,
teriam de estar fundados em algo ou alguém maior que o frágil ego. Chame essa
instância de Destino, Deus, Energia, Amor ou Prana. O maior perigo dos rituais
solitários é o ego se identificar com o lado positivo ou negativo do deus.
É precisamente aí que mulheres como Ruth situam o problema, como se pode
depreender de seu diário. Ela quer fazer de sua vida uma ficção e identificar-se com um
arquétipo espiritualizado. Identificar-se com Hamlet provavelmente vale uns 12 quilos.
Identificar-se com Cristo, no mínimo, deve valer 60. Na medida em que a autoridade
masculina em sua psique é uma luz pisca-pisca, a figura divina interior não pode ser
digna de confiança como provedora de luz. Posto que a autoridade feminina em sua
psique zomba de seu próprio corpo feminino, a deusa interior não pode ser digna de
confiança como provedora de amor. O ritual não funciona porque perpetua o pai
alcoólatra que não podia encarar a vida, e a mãe descorporificada, alheia aos próprios
instintos femininos.
Nesse mundo sem raízes, os rituais são os jogos em que as pessoas se envolvem.
Ninguém espera realmente que alguma coisa aconteça. Uma mulher sem raiz em si
mesma pode trabalhar com afinco em sua análise enquanto isso for um jogo
interessante, mas assim que ele ganha vida ela recua aterrorizada pois alguma coisa
pode efetivamente acontecer e mudar. O que estou sugerindo aqui é que para Ruth,
assim como para muitos homens e mulheres contemporâneos, os arquétipos parecem
não possuir a autonomia que de fato têm. Sua imagem arquetípica de Deus está, no
momento, tragicamente enraizada em sua experiência de um pai inadequado. E ela
também não tem uma imagem arquetípica de uma deusa amorosa. Uma teologia da
confiança, nessa altura, está fora de cogitação. Reconhecer que existe uma divindade
independente das suas experiências de vida é algo que mal pode pensar. Diante de seu
complexo alimentar, suas prioridades são de uma ordem inteiramente diversa.
Nessa etapa, o objeto de sua confiança deve ser o analista. Quer seja homem
quer seja mulher, essa pessoa se torna, por certo tempo, a mãe positiva que oferece o
alimento nutritivo nunca antes recebido. O ego só pode se tornar forte o suficiente para
que o ritual se sustente se a divindade puder estar enraizada naquele processo de vida do
qual o vício de comida o está alijando. A psique que a vida inteira viveu no medo de
não ser alimentada pela mãe, ou de ser repelida pelo pai — em outras palavras, a psique
que conheceu a rejeição fundamental —, só consegue cortar o cordão umbilical quando
tiver um novo chão. O medo do abandono não é diferente aos 25 anos do que foi aos 25
dias de nascido. O nada é sempre o nada. O ego tem de chegar a perceber que é só na
medida em que se enxerga como uma
extensão de sua antiga vida — ou seja, possuído pela bruxa devoradora — que
está diante da morte. Assim que constatar que o padrão devorador pode ser mudado, dá-
se conta de seu potencial de liberdade. Esse é o momento criativo. Se o ego decidir,
nesse momento, tomar posse de sua própria realidade, então pode se retirar da dimensão
do complexo e iniciar sua celebração da vida. Cristo disse-o de maneira sucinta: "A
menos que possa nascer de novo, o homem não verá o reino de Deus".2
Com base no diário de Ruth, vemos que sua vida, mesmo em meio à própria
confissão de suas derrotas, está apesar disso comprometida com a perfeição, e existe
uma íntima ligação entre seu vício de perfeição e suas derrotas confessas. Aliás, a
perfeição é a derrota. Jung faz uma distinção entre perfeição e completude:
Deve-se ter em mente que existe uma considerável diferença entre perfeição e completude. A
imagem de Cristo é tão boa quanto perfeita (pelo menos tem essa intenção), ao passo que o arquétipo (na
extensão em que é conhecido) denota completude mas está longe de ser perfeito. [...] Por mais natural que
seja buscar a perfeição, de um modo ou outro, o arquétipo se consuma na completude. [...] A pessoa pode
se esforçar para atingir a perfeição... mas deve sofrer com o oposto de suas intenções em nome de
alcançar sua completude.3

O ponto aqui é que a perfeição pertence aos deuses; a completude ou a totalidade


é o máximo a que o ser humano pode aspirar.
Todo padrão arquetípico é inteiro, completo em si. Mas é só um aspecto do
humano. O arquétipo do Velho Sábio, por exemplo, denota um aspecto da totalidade,
mas empenhar-se radicalmente na busca da sabedoria à custa, por exemplo, da tolice
humana irracional é perder muitas das alegrias de viver. De maneira semelhante, a
Madona idealizada é determinada imagem perfeita do feminino, contudo a mulher real
também deve aceitar a prostituta em si, em nome de sua completude. É ao buscar a
perfeição, isolando e exagerando algumas de nossas partes, que nos tornamos
neuróticos.
O principal sinal da busca da perfeição é a obsessão. Esta ocorre quando toda a
energia psíquica, que deveria estar distribuída entre as várias partes da personalidade
para buscar harmonizá-las, encontra-se focalizada numa única área da personalidade
com a exclusão de tudo o mais. A obsessão sempre é uma fixação, um congelamento da
personalidade para que ela se torne não um ser vivo, mas algo fixo como um bloco de
escultura, preso num complexo. Sempre existe algo catatônico a esse respeito, o qual
oculta o medo que se pode tornar um terror cego. Nesse ponto, a pessoa pode se tornar
um animal selvagem imobilizado pelo brilho ofuscante dos faróis dianteiros, incapaz de
se mexer.
A perfeição assemelha-se muito a isso, quando aplicada à vida humana. Certos
tipos de pessoa, por exemplo, astros de cinema, podem ficar paralisados diante do
esplendor dos refletores e passar toda a sua carreira desempenhando o mesmo tipo fixo

2 João, 3:3.
3 Jung,Aion, OC 9 ii, par. 123.
de personagem, vezes e vezes seguidas. Marilyn Monroe lutou para se livrar do assédio
das luzes do palco, mas não conseguiu. Nem os estúdios de cinema nem o público
permitiram. O vício de perfeição é, fundamentalmente, um vício suicida. O viciado
simula não ávida, mas a morte. Quase inevitavelmente, a mulher viciada em perfeição
vê-se como uma obra de arte, e seu verdadeiro terror é que esta, sendo tão
absolutamente preciosa, possa ser destruída, de um instante para outro. Ela tem de se
tratar como um raro espécime de porcelana Ming, ou como o que Keats descreveu como
"a noiva do silêncio ainda não deflorada", uma "filha adotiva do silêncio e do tempo
lento" (ver p. 9).
Movimentar-se em direção à perfeição é movimentar-se para fora da vida, ou, o
que é pior, nunca entrar nela de fato. O vício da perfeição, que psicologicamente indica
estar escravizado por um complexo, é da mesma forma aparente na anoréxica. Como a
pessoa obesa, seu complexo alimentar está enraizado na mãe negativa. Sua entrega
desenfreada assume a forma de um jejum ou do que os alcoolistas chamam de
"bebedeira a seco".
*

Perto do final da sessão de Ruth, Eleanor já estava aguardando. Entrou e se


sentou na mesma cadeira, ereta e elegante como um vaso de porcelana de Copenhaguen.
Sua pele branca surgia retesada sobre seus ossos finos. Seus longos cabelos loiros eram
como finos fios de seda e seus imensos olhos azuis denotavam vigilância, inteligência e
ansiedade. Ela parecia um cavalo de corrida premiado perfilando-se para o páreo.
Como Ruth, Eleanor tinha 25 anos, era a mais velha de cinco filhos. Tanto seu
pai como sua mãe eram profissionais que exerciam suas atividades, ainda eram casados,
e gozavam de alto prestígio nos círculos sociais e profissionais a que pertenciam. Como
Ruth, Eleanor era um verdadeiro pilar de força na escola e na comunidade; as duas
estavam atadas por ideais coletivos. Também como Ruth, Eleanor tinha servido de pára-
choque na família, carregando o peso de todos os outros, tentando manter constante a
harmonia, tentando ajudar cada um dos membros da família a entender os outros. Sua
vida inteira tinha-se destacado nos estudos, nos esportes e era líder. Aos 23 anos,
percebeu-se comendo nada mais que pipoca, incapaz de tomar decisões, de falar com
qualquer um por medo de eles despejarem nela mais algum peso que enfim a reduziria a
pedaços. Quando não conseguiu mais trabalhar com eficiência, teve de se internar num
hospital. Aos poucos, sua saúde física melhorou e ela iniciou a terapia para tentar ajustar
sua atitude, de modo a tornar a vida possível. Após algumas semanas, sentiu-se
confiante para me mostrar seu livro de listas: listas anuais de coisas a serem feitas, listas
mensais, semanais, diárias, listas diárias especiais — tudo meticulosamente organizado.
"Eu sei que é loucura", ela disse com um olhar totalmente estressado, "mas não consigo
evitar. Se faltar uma coisa, o que mais poderia estar faltando?"
Quando sugeri que deveria haver espaço para a espontaneidade, ela
diligentemente concordou. Uma semana depois, no entanto, ela me disse, entristecida:
"Não tem sentido criar um tempo para a espontaneidade; simplesmente isso não existe
na minha vida". E mais tarde na sessão, quando passei os olhos por sua lista diária, vi:
"14hl5-14h30: espontaneidade". Nessa simples anotação residia toda a tragédia de sua
vida.
Eis um excerto do diário de Eleanor:
M uitas pessoas estremecem só de ouvir falar em anorexia e obesidade. São pequenas loucuras
para m anter a distância outras loucuras. No meu pior período, fui ao mesmo tempo gorda e magra —
comia o suficiente para fazer páreo com os maiores glutões e, no entanto, devido ao esvaziamento ritual,
mantinha a magreza externa. Era uma forma de corporificar o paradoxo do cheio e do vazio simultâneos.
A idéia de me esvaziar inteiramente para que uma presença divina pudesse penetrar em mim, um
receptáculo purificado, era importante. Desta vez era um esvaziamento emocional, intelectual e vivencial.
Pratiquei técnicas orientais do yoga, busquei a morte: a morte completa do ego pessoal e o monturo que
se havia acumulado em torno dele.
Penetrei cada vez mais na escuridão, conforme ia me afastando de tudo o que conhecia e
entendia. Perdi o "eu" e me tornei um vazio. Sonho às vezes que estou sendo eletrocutada dolorosamente.
Depois de algum tempo, a energia nesses sonhos se transformou em luz pura e radiante. A luminosidade e
a força dessa luz são impossíveis de descrever. Eu acordava no meio da noite e literalmente enxergava a
luz do sol em toda parte, no escuro, como uma pós-imagem radiante. A extensão dessa luminosidade só
tinha paralelo na exuberância e na alegria que fluíam de dentro de mim por todos os lados. Claro que
pensei que tinha alcançado alguma fonte de divina beatitude e tudo estava sincronizado. Não. Eu tinha
começado a aprender, mas não havia começado a viver de modo criativo. Deus é a criatividade desperta
de cada momento.
Chegar à luz não foi fácil. A matéria existe do puro nada. Deus é o não-manifesto mais além do
não-manifesto. Eu tinha de aceitar o vazio. Os ritos de cheio e vazio tinham sido um meio de fuga que
escarnecia da realidade subjacente ao significado simbólico de meus atos. M eu ego afundava em orgias
alimentares; meu corpo se sentia empanturrado. Eu tinha de desempanturrar-me. Não desejava flutuar até
a superfície numa leveza, morta. Queria nadar de volta até em cima. Agora percebo que estava
procurando o Sol mas nunca consegui vê-lo. O que eu mais desejava era que o Sol surgisse numa clareza
linda, flamejante, sem queimar, saindo de minha boca. Em vez disso, minha barriga parecia cheia de
serpentes, cheia do caos da mater saeva cupidinum, "a natureza descontrolada e intacta". Eu me sentia o
caos antes da criação e buscava ser o delineamento da ordem depois da criação como vida organizada e
universalmente viva. M as a organização começa em casa.

A a n á lis e de E le a n o r e ra m a is avançada que a de R u th , p o is h a v ia o


r e c o n h e c im e n to c o n s c ie n te d o d e s e jo d e se e s v a z ia r e d e e n tra r n o v a z io . E m b o r a
e x is tis s e o d e s e jo d a p u r a r a d io s id a d e d a lu z s e p a ra d a d e to d a a e s c u rid ã o , ta m b é m
h a v ia u m m o v im e n to n o s e n tid o d a c ria ç ã o , a p u n g e n te c o n s ta ta ç ã o d a n e c e s s id a d e d e
u m c o rp o . E l a e s ta v a c o m e ç a n d o a id e n tif ic a r o d e u s c r ia d o r c o m a c ria ç ã o . P o r o u tro
la d o , R u th a in d a p r e f e r ia m a n te r o s d o is s e p a ra d o s . E le a n o r e s ta v a m a is p e r to d e se
to r n a r m e n o s d e u s e m a is p e s s o a .
N a s ín d r o m e o b e s a /a n o r é x ic a , a m a tr iz m a te r n a l o rig in a l e s tá c o n s te la d a d e
m a n e ir a d e m o n ía c a . I n c o n s c ie n te m e n te , a c r ia n ç a fo i r e je ita d a p e la m ã e ; p o rta n to , e la
n ã o é u m a p e s s o a m a s u m a c o isa . U m a m u lh e r o b e s a q u e in ic ia v a a n á lis e so n h o u
c o n s ig o m e s m a , m u ita s v e z e s , n ã o c o m o p e s s o a m a s c o m o u m a b o lin h a d e g o lfe . O
p e r ig o d e s e r t r a ta d a c o m o u m a c o is a e m v e z d e u m a p e s s o a é q u e , ir o n ic a m e n te ,
te r m in a le v a n d o a u m a in f la ç ã o ilim ita d a . E s s a s c ria n ç a s se s e n te m D e u s . N ã o o D e u s
d a c ria ç ã o , o q u e tr a b a lh a c o m a m a té ria , s o p ra n d o o h á lito d a v id a n o b a r r o e
d e c la r a n d o b o a S u a c ria ç ã o , m a s o D e u s a n te s d a c ria ç ã o , a q u e m J a m e s J o y c e d e s c r e v e
c o m o " in d ife re n te , a p a r a n d o a s u n h a s " n o im e n s o v a z io .4
A e u f o r ia e x p e r im e n ta d a n e s s a s ín d r o m e é a c r e n ç a d e q u e p o d e m e s c o lh e r e n tre
e n tr a r n a v id a o u n ã o . " E u s o u o q u e so u " , d e c la ra m . P a r tilh a r s e u " e u so u " n u m a
s itu a ç ã o e x is te n c ia l é, s e g u n d o e la s m e s m a s se c o n v e n c e m , u m a e s c o lh a . P r e s a s n a
s ín d ro m e , e s c o lh e m n ã o f a z ê - l o . C o m e r é n ã o só r e c o n h e c e r a m a té ria , m a s ta m b é m
e n tr a r n e la o u , o q u e é p io r, e n tr a r n e la c o n tra su a p ró p ria v o n ta d e , o q u e n ã o a p e n a s
d e s a f ia c o m o a in d a n e g a s u a o n ip o tê n c ia . I s s o s e ria o re c o n h e c im e n to d e q u e " n ã o sã o
q u e m sã o ". H á ta m b é m u m a o u tr a f o r ç a p re s e n te , e e s ta é a m a té ria : a m a té r ia n e g a tiv a ,
a m u lh e r - d e m ô n io , a b ru x a . D e u s n ã o e s tá s o z in h o n e m é o n ip o te n te . E le te m o d ia b o
c o m o a d v e r s á r io a e n fre n ta r. U m a m o r d id a n o b o lin h o é E v a d a n d o u m a m o r d id a n a
m a ç ã . I s s o a c a r r e ta m o rte a o m u n d o . A c a rre ta a p e r d a d o P a ra ís o — a s a b e r, a p e r d a d a
o n ip o tê n c ia . O q u e e s s a m u lh e r n ã o v ê , c o m o J u n g tã o b e m d e s c r e v e e m s e u M e m ó r ia s ,
s o n h o s , r e fle x õ e s , o u e m R e s p o s t a a J ó , é q u e o d ia b o , o u a m a té ria , o u o b o lin h o , é o

4 James Joyce, Portrait of the artist as a young man, p. 215.


d e u s a b s c o n d itu s , a q u e la p a r te d o in c o n s c ie n te d e D e u s q u e n ã o fo i a b s o r v id a o u
d ig e rid a .
A r a d ic a lid a d e d a p o s iç ã o d e Ju n g , e m b o ra te n h a u m a lo n g a h is tó ria n a tra d iç ã o
c ristã , e n v o lv e o q u e a I g r e ja c h a m a d e f e l i x c u lp a , o u s e ja , p e c a d o fe liz . A p r im e ir a
m o r d id a n o b o lin h o a r r e m e s s a a m u lh e r n o c a m in h o q u e lh e p e r m itir á d if e r e n c ia r - s e d e
s u a p r ó p r ia o n ip o tê n c ia d e lira n te , a o m e s m o te m p o q u e a r r e m e s s a D e u s n o c a m in h o d a
e n c a r n a ç ã o . É o p r im e ir o p a s s o m a l d a d o r u m o a to r n a r - s e h u m a n a . E m s u m a , o q u e é
p r e c is o a n te s q u e a p e s s o a c o n s ig a a b s o r v e r a q u e la m o r d id a e m s u a c a rn e é u m a
a v a lia ç ã o ra d ic a l d e s u a te o lo g ia u n ila te ra l. E la te m d e a p r e n d e r a c r ia r e s p a ç o p a r a a
s o m b ra , o u o d e m ô n io .
A m a io r ia d a s p e s s o a s p r is io n e ira s d e s s a s ín d ro m e sã o g n ó s tic o s n a to s: n e g a m a
e n c a r n a ç ã o . D e u s p e r m a n e c e u D e u s . N u n c a se d e g r a d o u to r n a n d o - s e c a rn e . N ã o n a s c e u .
N ã o s o fre u . N ã o m o r r e u . N ã o r e s s u r g iu d e n tr e o s m o rto s . C o m o e la s, D e u s n u n c a v iv e u
n a T erra.
A o r e je ita r a c o m id a , E le a n o r e s ta v a r e je ita n d o a v id a . E o m a io r p r o b le m a a s e r
s u p e r a d o q u a n d o e la d e f a to c o m e ç o u a c o m e r fo i q u e p e r d e u a e x a lta ç ã o e u f ó r ic a
c a u s a d a p e la a b s tin ê n c ia d e a lim e n to s . A v id a n ã o v a lia m a is a p e n a s e r v iv id a se m a
in te n s id a d e e a c o m p u ls ã o d a c o r d a b a m b a d e s u a re s is tê n c ia . E la a c r e d ita v a q u e e s ta v a
se r e d u z in d o a o p u r o e s p ír ito , à p u r a e s s ê n c ia , u m c o n c e ito q u e p o d e e s ta r r e la c io n a d o a
in ic ia ç õ e s x a m a n is ta s , e m q u e o x a m ã é lite r a lm e n te re d u z id o a p e le e o s s o s .5
O q u e R u th n ã o e n x e r g o u fo i q u e s u a c a rn e e s ta v a te n ta n d o s a lv á -la , te n ta n d o
f o r ç á - l a a d e s e n v o lv e r s u a p r ó p r ia id e n tid a d e fe m in in a . E m v e z d e e n f r e n ta r a g o r d u r a
c o m o u m fa to , R u th e s ta v a p r e s a n u m a id e n tific a ç ã o in c o n s c ie n te c o m se u c o rp o
v o lu m o s o . E la n ã o tin h a e g o d o q u a l se s e p a ra r, s e ja q u a l fo s s e o m ito q u e e s tiv e s s e
s e n d o v iv id o m e d ia n te a q u e la g o rd u ra . A r a z ã o p e la q u a l e la p e s a v a 165 q u ilo s e ra
r e c u s a r - s e a a c e ita r a r e a lid a d e e x is te n c ia l q u e se u c o r p o e r a f o r ç a d o a p r o c la m a r c a d a
v e z m a is e s trid e n te m e n te . E n tr e c o r p o e e s p írito , h a v ia u m a d is p u ta d e b e r r o s e m q u e ,
c o m o e m to d a s a s q u e r e la s c o m d o is a d v e rs á rio s , n e n h u m c o n s e g u e o u v ir o o u tro . O
c o r p o q u e se a p r e s e n ta v a b e lic o s o a o e s p írito e m to d a a p u ja n ç a d e s e u s 165 q u ilo s e ra
c o m b a tid o p o r u m e s p ír ito q u e d e s p e ja v a c o n tr a a c a rn e to d a a f o r ç a d e B a c h , M o z a rt,
B la k e e D o s to e v s k i. U m a g r ita r ia d e s s e p o r te p o d e r ia te r m in a r a f o g a n d o a té D e u s , m a s
n ã o n e c e s s a r ia m e n te o d ia b o , a c o s tu m a d o q u e e s tá a ta is d is c u s s õ e s , p o is e le é e s s a
p a r te d e D e u s q u e a in d a n ã o p e n e tro u n a c o n s c iê n c ia . A p e n a s o b s e r v a n d o c o m o R u th
e r a c a la d a , s e r ía m o s c a p a z e s d e p e r c e b e r o q u a n to o s m u n d o s in te r n o e e x te rn o p o d e m
e s ta r d e fa s a d o s .
E m a n á lis e , a lu ta p e la e n c a rn a ç ã o — D e u s fe ito c a rn e , o e s p írito n a m a té r ia —
se re p e te n ã o e m te r m o s te o ló g ic o s m a s p s ic o ló g ic o s . E la n ã o f ic a r e s o lv id a e n q u a n to a
v ic ia d a e m b o lin h o s n ã o c o m p r e e n d e r q u e o q u e e x is te p a r a e la n o b o lin h o é o q u e a
I g r e ja c h a m a d e C r is to tr a n s u b s ta n c ia d o . I s s o s ig n ific a q u e o ritu a l d e m o n ía c o d e se
e n tr e g a r a d e v o r a r b o lin h o s te m d e s e r s u b s titu íd o p e lo s a g ra d o ritu a l d e r e c e b e r o c o rp o
d e D e u s c o m o o s f r u to s d a t e r r a q u e E le d e c la r o u s e r b o a . P s ic o lo g ic a m e n te , s ig n if ic a
tr a n s f o r m a r a m ã e n e g a tiv a o u b r u x a e m G r a n d e M ã e .
P o d e - s e d iz e r q u e n o c r is tia n is m o s e m p re h o u v e u m a la c u n a b a s ta n te g ra n d e
e n tr e a c r u c if ic a ç ã o e a re s s u r r e iç ã o . E m v e z d e c o n s id e r á - la s u m ú n ic o e v e n to , n o
c lím a x d o p r o c e s s o e la s f o r a m s e p a ra d a s . C o m e s s a s e p a ra ç ã o , n a s c e u m a a titu d e
m a s o q u is ta p e r a n te o s o frim e n to , o u u m a a titu d e a r e s p e ito d o s o f r e r q u e te n d e a
s u b e s tim a r s u a im p o r tâ n c ia . N a s ín d ro m e o b e s a /a n o r é x ic a e x is te u m a te n d ê n c ia m u ito
f o r te p a r a q u e a c r u c if ic a ç ã o o u o s o frim e n to se to rn e m c a d a v e z m a is u m fim e m si,

5 Ver Mircea Eliade, Rites and symbols o f initiation, pp. 92-6.


q u a n to m a is a p e s s o a se d e s v a lo r iz a p e la s p ró p r ia s p e r c e p ç õ e s d e s e u s c o n tín u o s
f r a c a s s o s . A o n ip o tê n c ia in c o e r e n te q u e ta lv e z re s u lte e s tá tã o c o m p le ta m e n te a lie n a d a
d o v e r d a d e ir o s o f r e r q u e p a r e c e n ã o te r q u a lq u e r v ín c u lo c o m ele. N ã o é a re s s u r r e iç ã o
d e n tr o d o p r o c e s s o d a c r u c if ic a ç ã o , m a s a lg o d e s c o n e c ta d o d e la ; p o r ta n to , q u a s e q u e
in te ir a m e n te irre a l. T a n to R u th c o m o E le a n o r, e m se u s d iá rio s , re c o rre m c o n tin u a m e n te
a s e u s jo g u i n h o s m e n ta is q u e , fe liz m e n te , n ã o c o n s e g u e m im p in g ir c o m p le n o s u c e s s o a
si m e s m a s . Sua consciência do fracasso é o que as mantém em contato com a realidade.
N ã o o b s ta n te , e s s e c o n ta to a in d a é d e te o r n e g a tiv o , p o r q u e o e g o é in c a p a z d e
lid a r c r ia tiv a m e n te c o m a q u e la .
O q u e d e v e f ic a r e s ta b e le c id o é u m a a titu d e a m o ro s a p o r p a rte d o e g o p a r a c o m
o c o rp o , d e ta l s o rte q u e a n u tr iç ã o d e s te se to r n e in te r e s s a n te p a r a o e g o . E s te d e v e
a p r e n d e r a f a z e r a s p e r g u n ta s q u e o c o rp o e s te ja p ro n to p a ra re s p o n d e r, n u m a v o z
in d is c u tiv e lm e n te c la ra : " Q u a is s ã o a s m in h a s re a is n e c e s s id a d e s ? N a q u e la re u n iã o d e
h o je e u m e tra í. O q u e e u r e a lm e n te q u e ria fa z e r? O q u e m e u c o rp o q u e r c o m e r? E le
q u e r f a z e r e x e r c íc io s ? O q u e a lim e n ta r ia m e u e s p írito e m v e z d e m in h a c a rn e ? D e q u e
m o d o p o s s o to r n a r e s te m o n te d e c a rn e e m m e u c o rp o ? A m o m e u c o rp o ? Q u e ro v iv e r?
Q u e r o e n tr a r n a v id a ? " . O q u e o e g o c o n fro n ta é u m a im a g e m c o rp o ra l d e n e g rid a , u m a
im a g e m q u e , p o r m a is e s tr a n h o q u e p o s s a p a re c e r, te m p o u c o o u n a d a a v e r c o m a
im a g e m r e f le tid a n o e s p e lh o . U m a m u lh e r p o s s u íd a p e la f e iú r a d e se u c o r p o o lh a p a r a o
s e u c o m p le x o h o r a s a fio e, lite r a lm e n te , n ã o c o n s e g u e e n x e r g á - lo . É u m a c o n s tr u ç ã o d a
m e n te q u e se a c r e d ita s e r v e r d a d e ir a m e n te o n ip o te n te , d iz e n d o p a r a o c o r p o " S E J A " , e o
é.
P o r c o n s e g u in te , é c ru c ia l a o p r o c e s s o d e c u ra tr a b a lh a r c ria tiv a m e n te c o m o
c o r p o r e je ita d o . P e lo m e n o s in ic ia lm e n te , is s o d e v e s e r te n ta d o fo r a d o â m b ito d o
c o m p le x o , p o is o e g o n ã o te m f o r ç a s u fic ie n te p a r a e n tra r d ir e ta m e n te n e s s e c o n fro n to .
N o C a p ítu lo 4 s e r ã o d is c u tid a s e m p r o f u n d id a d e a lg u m a s s u g e s tõ e s p r á tic a s a r e s p e ito
d e c o m o p o d e s e r d e s e n v o lv id a u m a n o v a r e la ç ã o m e n te -c o rp o . P o r o ra é s u fic ie n te
d iz e r q u e u m a m u d a n ç a g ra d u a l d e ó d io p o r si e m a m o r p o r si pode o c o rre r, e, q u a n d o
m e n o s e s p e ra , a m u lh e r p o d e s e r " s u rp r e e n d id a p e la a le g ria " q u a n d o h o u v e r, e n tre se u
e s p ír ito e s e u c o rp o , u m m ú tu o r e c o n h e c im e n to .
E s s e tip o d e a lin h a m e n to é u m a p a rte e s s e n c ia l d o p r o c e s s o d e c u r a e m q u e o
m o v im e n to d o p ó lo p s íq u ic o p a r a o s o m á tic o v a i a o e n c o n tr o d e u m c o n tra m o v im e n to ,
q u e r u m a d o s o m á tic o p a r a o p s íq u ic o . O c o rp o a v a n ç a p a r a e n c o n tr a r o p r o c e s s o
p s íq u ic o c o m b a s e n a s u p o s iç ã o d e q u e , in d e p e n d e n te m e n te d e q u a n to tr a b a lh o s e ja
f e ito s o b re a p s iq u e , e le n ã o c o n s e g u ir á a b s o r v ê - lo , a m e n o s q u e e s te ja p re p a ra d o . K e a ts
f a la d e le v a r a té o m u n d o d a n a tu re z a — u m a av e, u m a flo r o u u m a á rv o re — "os
c u m p r im e n to s d o E s p ír ito " ,6 c o m o se a p s iq u e r e c o n h e c e s s e u m a p a r te d e si n a
s u b s tâ n c ia d a n a tu re z a . E o inconsciente responde tornando-se o objeto percebido. O
q u e a c o n te c e é, e m c e r to s e n tid o , u m a r e c ip r o c id a d e e m q u e o c o n s c ie n te e o
in c o n s c ie n te — a m e n te e a m a té r ia — se u n e m p a r a p r o d u z ir u m te r c e ir o e le m e n to : a
re u n iã o d e c o r p o e e s p ír ito q u e tr a z c o n s ig o u m a to d e ju b ilo s o re c o n h e c im e n to .
J o h n D o n n e , e m " T h e e c s ta s y " , d e s c r e v e d o is a m a n te s d e ita d o s n u m a flo re ira ,
c o m o " e s tá tu a s s e p u lc ra is " . E m b o r a s e u s c o rp o s e s te ja m p o d e r o s a m e n te a tr a íd o s u m
p e lo o u tr o , r e c u s a m - s e a f u n d ir - s e e n q u a n to s u a s a lm a s n ã o c o n s e n tire m . A s a lm a s
a b a n d o n a r a m s e u s c o r p o s p a r a n e g o c ia r a c im a d e s u a s c a b e ç a s se s e u s c o r p o s d e v e m o u
n ã o t e r lib e r d a d e p a r a r e s p o n d e r u m a o o u tro . E m su a s n e g o c ia ç õ e s , a s a lm a s a o s
p o u c o s v ã o r e c o n h e c e n d o a im p o r tâ n c ia d e s e u s c o rp o s ; s e m e s te s , n ã o p o d e r ia s e q u e r
e x is tir a u n iã o das a lm a s . E s ta s , com o g ra n d e s p r in c e s a s , te r ia m p e r m a n e c id o
p r is io n e ir a s , d e s c o n h e c id a s u m a d a o u tra . P o r ta n to , p o r g r a tid ã o a s e u s c o rp o s , d e c id e m

6 Maurice Buxton Foreman (ed.), The letters o f John Keats, p. 112.


regressar a eles, trazendo consigo não só sua aprovação para os desejos corporais, mas
também sua feliz participação na realização destes. Donne conclui então com alegria:
Aos nossos corpos voltamos então, para que
Os homens fracos no amor revelados possam contemplar,
Os mistérios do amor crescendo nas almas,
E ainda é o corpo o seu livro.
E se algum enamorado, tal como nós.
Tiver ouvido este nosso diálogo interior,
Que ele mesmo assim nos assinale; ele verá
Pouca diferença quando aos corpos regressarmos.7

Se a mulher que está presa na cisão mente/corpo puder manter contato com seu
próprio "diálogo interior", ela também poderá travar as delicadas negociações abertas
aos extáticos enamorados de Donne.

De O livro de Jó, 1825. William Blake (Museu Britânico)

7 . John Donne, "The ecstasy", linhas 69-76.


3 - O tempo todo
Sem Contrários não há progresso. Atração e Repulsão,
Razão e Energia, A m or e Ódio são necessários à existência humana.

William Blake, M arriage o f heaven and hell

V á r ia s v e z e s r e f e r i- m e à p e r v e r tid a c o n c e p ç ã o q u e L a d y M a c b e th p o s s u ía s o b re
R e in a d o e, e m b o r a e u n ã o t e n h a u s a d o a e x p r e s s ã o c o m p le x o d e p o d e r, c e rta m e n te a
o n ip o tê n c ia q u e p r e o c u p a a p e r s o n a lid a d e s u g e re u m v o r a z d e s e jo d e c o n tro la r. A
m o tiv a ç ã o s u b ja c e n te a e s s e d e s e jo , n o e n ta n to , p r e c is a s e r e x a m in a d a , p o s to q u e n ã o se
tr a ta s im p le s m e n te d e "E u s o u o s e n h o r d o c a s te lo " , re d u z in d o o r e s ta n te d o m u n d o a
" v a g a b u n d o s m a ld ito s " .
A o a s s a s s in a r D u n c a n , r e p r e s e n ta n te d e D e u s n a te rra , M a c b e th q u e b r a se u
ju r a m e n to a o rei. E m te r m o s p s ic o ló g ic o s , is s o é o e g o q u e b ra n d o se u e lo c o m o se lf.
L a d y M a c b e th , n a q u a lid a d e d e c ú m p lic e d o c rim e , r e z a a o s e s p ír ito s q u e " c u id a m d o s
p e n s a m e n to s m o rta is " , p e d in d o - lh e s que " a s s e x u e m -n a " d e s p o ja n d o - a d e to d a s as
" c o m p u n g id a s v is ita s d a n a tu r e z a " , a c re d ita n d o , n a q u e le m o m e n to , q u e e la m e s m a
e m p u n h a r ia a fa c a , u m a v e z q u e M a c b e th e s ta v a " p o r d e m a is e m b r ia g a d o c o m o le ite d a
d e lic a d e z a h u m a n a / P a r a u s a r d o c a m in h o m a is c u r t o " .1 M a s , q u a n d o e la e s tá p r e s te s a
fa z ê - lo , n ã o c o n s e g u e p o r q u e o a d o r m e c id o D u n c a n le m b r a - lh e o p ai.
E s s a é u m a d a s in d ic a ç õ e s e x p líc ita s d e q u e L a d y M a c b e th é a filh in h a q u e rid a
d o p a p a i, e m b o r a to d a s a s s u a s e s c o lh a s re v e le m u m a m u lh e r m a is d e d ic a d a a o s
p r in c íp io s d o q u e a o s s e n tim e n to s . N o m e s m o in s ta n te e m q u e n ã o e s tá m a is n a
p r e s e n ç a c o n c r e ta d e D u n c a n , e la r e to m a s e u s id e a is e m a n ip u la M a c b e th p a r a q u e e le
e f e tiv a m e n te r e a liz e o a s s a s s in a to . E la , p o ré m , é q u e m te c e a te ia . E n q u a n to e le se
m o s tr a a g o n ia d o e m m e io à s c o n s id e r a ç õ e s d a s c o n s e q ü ê n c ia s , c h e g a n d o à c o n c lu s ã o d e
q u e n ã o d e s tr u ir á s u a " jó ia e te rn a " , e la e s tá p r e p a r a n d o a s p o ç õ e s e a s a rm a s. Q u a n d o
e le d e c id e " n ã o m a is ir a d ia n te c o m , a e m p r e ita d a " ,12 e la e s tá p r o n ta p a r a a p r e s e n ta r o
p la n o fin a l, q u e e le e x e c u ta .
S e M a c b e th e L a d y M a c b e th fo re m c o n s id e ra d o s o s p rin c íp io s m a s c u lin o e
f e m in in o , f ic a a p a r e n te q u e , n o in íc io , o s d o is e s ta v a m c ie n te s d o s v a lo r e s a f e tiv o s
e n v o lv id o s e m s u a l ig a ç ã o c o m o re i. O s d o is s ã o a m e a ç a d o s p e lo s a to s d e b r u x a r ia q u e
v ã o te c e n d o , a o f u n d o , s e u s p e r tu r b a d o r e s f io s d e ilu s ã o c o m re a lid a d e . N a q u a lid a d e d e
p r in c íp io m a s c u lin o , M a c b e th a v a lia ra c io n a lm e n te o s p ró s e c o n tra s , e a c e ita q u e , se o
D e s tin o o q u e r p a r a re i, e n tã o o D e s tin o é q u e m o v a i c o ro a r. L a d y M a c b e th ,
p e r s o n if ic a n d o o p r in c íp io fe m in in o , e s tá a ta d a a o c o m p le x o d e p o d e r e, n e s s a m e d id a ,
tra i o v e r d a d e ir o p r in c íp io f e m in in o d a v in c u la ç ã o in te rp e s s o a l; p a r a lh e a g ra d a r,
M a c b e th c o m e te o a s s a s s in a to q u e o e x ila n ã o só d e D e u s c o m o d e tu d o o m a is,
in c lu s iv e d e la . A ir o n ia é q u e s u a s e n s ib ilid a d e p r e v ir a o r e s u lta d o d e tr a ir o s s e u s
p r ó p r io s v a lo r e s e s p ir itu a is ; e le , p o ré m , n ã o c o n s e g u e m a n te r - s e f ir m e e m s u a p o siç ã o .
E m v e z d is s o , c e d e a e la , q u e j á h a v ia a n iq u ila d o c o m s e u s p r ó p rio s s e n tim e n to s .
N e n h u m d e le s e s ta v a m a is a g in d o c o m b a s e e m u m a n o ç ã o p r ó p r ia d e a u te n tic id a d e .
E m c o n s e q ü ê n c ia , a s s im q u e a e s c o lh a é fe ita , e le e n tra d e c a b e ç a n a tr a g é d ia d e su a
p r ó p r ia a u to d e s tr u iç ã o c o n s c ie n te , e n q u a n to e la m e r g u lh a n a p a té tic a a u to d e s tr u iç ã o d o
p e s a d e lo in c o n s c ie n te .
M u ito s c a s a m e n to s d o s é c u lo X X e o s filh o s e n c o n tra m -s e n e s s a situ a ç ã o ,

1 Shakespeare,Macbeth, ato 1, cena 5, linhas 38, 42, 13-4.


2 Shakespeare, Macbeth, cena 7, linha 31.
envergando os trajes do reinado sem a elegância pessoal para vesti-los. Não pode existir
elegância onde está rompido o relacionamento com o self, isto é, onde não existe amor
entre o humano e o divino; em termos psicológicos, onde não existe uma ligação
consciente entre ego e self em razão de o ego estar assustado demais para receber do
inconsciente. Sem essa comunicação, o ego tenta instituir seu próprio reinado. Mas, nos
casos em que pais, avós e demais antepassados não estiveram em contato com seus
próprios sentimentos e instintos, seus filhos nas gerações subseqüentes padecem de um
progressivo esvaziamento psíquico. Falando do medo cada vez maior que assola aquele
que se esquiva de adaptar-se à realidade, Jung escreve:
O medo da vida não é só um espectro imaginário, mas um pânico muito real, que só parece
desproporcional porque sua verdadeira fonte é inconsciente, portanto, projetada. A parte jovem da
personalidade, que está em crescimento, se estiver impedida de viver ou detida, gera medo e se
transforma em medo. Este parece vir da mãe mas, na realidade, é o medo mortal do homem interior,
instintivo, inconsciente, exilado da vida por seu contínuo recuo diante da realidade. Se a mãe é percebida
como um obstáculo, então ela se torna a perseguidora vingativa. Naturalmente, não é a mãe real, embora
também ela possa prejudicar seriamente o filho com a mórbida ternura com a qual persegue-o até a vida
adulta, prolongando assim a atitude pueril muito além do período em que esta seria adequada. Antes, foi a
imago materna que se transformou em lâmia. A imago materna, no entanto, representa o inconsciente, e é
uma necessidade tão vital o inconsciente ser integrado ao consciente quanto este não perder o contato
com o inconsciente.3

Sem uma base materna positiva, o comer compulsivo cria uma base concreta
com a qual o ego, em muitos casos, está identificado. Por isso, nos regimes de
emagrecimento, a perda de peso corporal desencadeia uma ansiedade e um luto
genuínos. Simbolicamente, trata-se da perda da mãe. Se o bebê é ameaçado desde o
princípio, ele institui um pseudo-ego que pode parecer muito forte mas, essencialmente,
é um mecanismo de defesa, capaz de reagir de maneira agressiva ou polida, no intuito
de sobreviver. O ego real não está agindo a partir de seu próprio cerne criativo e, por
isso, tem de fingir que é forte; essa força, contudo, está mais em sua rigidez e na
dimensão concreta de seu corpo. A mãe que está pessoalmente nessa situação, em
virtude de seu próprio legado, não consegue oferecer ao seu bebê o forte vínculo com a
terra que é possível à mãe enraizada em seus próprios instintos. Mãe e filha podem ter
uma relação de proximidade, entretanto as duas talvez tenham um complexo de mãe
negativa e, em decorrência, as duas se sintam aterrorizadas com "o homem [e a mulher]
interior, instintivo e inconsciente... exilado da vida". Esse terror do inconsciente
instintivo inferniza a vida diária. É esse demônio que tentamos desvendar na análise
pois, enquanto existir, a psique provavelmente necessita da segurança do corpo pesado
que a firme à terra. Mesmo depois que o complexo houver sido enfrentado, qualquer
situação que represente uma ameaça à vida pode levar o corpo à elevação de peso sem
que tenha havido aumento na ingestão calórica.
Quando "a melhor garotinha do mundo", que sempre fez tudo o que a mamãe
quis e acreditou em tudo o que papai disse, chega à puberdade pode de repente se
revoltar. Talvez se transforme num bebê monstrinho ou num esqueleto masculinizado.
De qualquer modo, terá conseguido destruir eficientemente sua feminilidade em via de
desabrochar. O que pode dar a impressão de ser rebeldia muito provavelmente seja um
colapso interno. O que parece um acesso de poder talvez revele o lamento disfarçado da
derrota. Ela é chamada a ser mulher, todavia não tem um modelo de papel que possa
aceitar. Pode achar sua própria mãe uma mulher que nunca cresceu mas, não obstante,
tem muita firmeza, vive de acordo com seus princípios mais elevados e é quem veste as
calças na família. Existem duas opções para ela: ou obedece e se identifica com a mãe,

3 Jung, Symbols o f transformation, OC 5, par. 457.


ou desobedece porque não será nada do que a mãe é. Uma opção não está disponível:
ela não pode agir de acordo com seu próprio sistema de valores uma vez que não tem
nenhum. Tampouco, aos 12 anos, tem a força necessária para mapear seu mundo
interior. Ela pressente que ter seios grandes o bastante para segurar um lápis embaixo
não é tudo o que significa ser mulher. Nesse ínterim, a mãe ansiosa, assistindo à
repetição amplificada de sua própria meninice, sente-se um fracasso total. Tudo o que
tentou fazer em termos de alcançar a sua independência e viver segundo seus princípios
ecoa, em seu coração, como um fracasso.
Viver segundo princípios não é viver a própria vida. É mais fácil tentar ser
melhor do que você é do que ser quem você é. Se está tentando viver de acordo com
ideais, está constantemente sendo assolada por um sentimento de irrealidade. Você acha
que, em algum lugar, tem de existir alguma alegria; não pode ser só "deve", "tem de", "é
preciso que". E na hora do aperto é preciso admitir a verdade: você não estava lá. Então
o castelo de cartas desmorona. Ao tentar viver segundo seus princípios e ideais, a parte
que mais importa ficou perdida. A ironia detestável tem então de ser encarada com
firmeza. Como se expressou determinada mulher:
Tenho tudo e não tenho nada. Pelos padrões do mundo, tenho tudo. Pelo critério do meu coração,
não tenho nada. Venci a batalha de minha preciosa independência e perdi o que me era mais querido.
Quero amar e ser amada, mas algo em mim está mandando o amor embora. Não entendo.

Para a pessoa que está vivendo segundo seus ideais, o problema essencial nos
relacionamentos em geral envolve a diferença entre amor e poder. Se uma pessoa é
alimentada e emocionalmente abastecida pela mãe, ou por uma mãe substituta tal como
o marido, amigos, a Igreja, valores coletivos, ela provavelmente está à míngua em
relação a si. Depende da mãe e, portanto, está vulnerável a ser manipulada por ela, a
seus elogios e rejeições. Não está se abastecendo por si, e seus próprios sentimentos não
estão sendo reconhecidos ou são recusados. Ela está morrendo de fome. Tem de se
desempenhar à perfeição para ser amada. Sua estabilidade emocional é determinada pela
reação do outro. De um lado, está sendo manipulada e, de outro, é uma manipuladora
porque tem de sê-lo para poder ser amada. Ela não pode confiar num amor que a aceite
como é. Os manipuladores originais ainda permanecerem ou não mais em sua vida é um
fato que não importa; em sua psique eles continuam vivos como complexos e, se ela não
os está projetando em seus "entes queridos", está voltando-os contra si mesma.
Na tentativa de ser madura e independente, essa mulher busca ser cada vez mais
perfeita, porque a única via que conhece de alívio de sua dependência em relação à voz
condenatória é ser tão perfeita até que ela se cale. Mas não há como calá-la. Ela quer
mais, mais, mais. Desse modo, os opostos se encontram numa aterrorizadora
contradição. Quanto mais depressa corre atrás de sua independência mediante a
perfeição, mais corre na direção de seu ser famélico, totalmente dependente e suplicante
por comer. A mãe superpermissiva pode ser tão negativa quanto a crítica porque, se
estiver projetando na filha seus próprios ideais, sua expectativa pode levar a criança a
adotar um falso conjunto de valores. A identidade inconsciente está envolvida com o
poder: uma pessoa está esperando que outra viva segundo as suas expectativas. A filha
capta a inconsciência do genitor e carrega esse peso consigo.
Uma de minhas analisandas obesas, Rachel, tem uma mãe bastante criativa que
fora uma atriz destacada, porém desistira da carreira para cuidar de sua família. Rachel
conta a história de ter perdido suas luvas quando era bem pequena. Ficou com medo de
contar à mãe mas finalmente adquiriu coragem para isso. Sua mãe reagiu com lamúrias
histéricas: "Eu sabia que nunca deveria ter casado. Sabia que nunca deveria ter tido
filhos". Rachel acrescentou depois, com um riso entristecido: "Eu ainda acho que minha
vida depende de ficar firmemente agarrada a minhas luvas. Quando tento me privar de
comer, sinto que posso ser extinta".
A criança achava que era o fracasso da mãe, e a mulher vivia tentando justificar
sua própria existência sendo perfeita em tudo o que fazia, ou desaparecendo
completamente numa montanha de chocolate. Aos 30 anos, Rachel agora raramente vê a
mãe, mas a guerra recomeça assim que ela tenta se disciplinar: "Não quero ser
disciplinada", ela diz:
Acima de tudo, não quero ser culta. Cultura é minha mãe dizendo: "Faça melhor". Olho para o
mundo aculturado e não o quero mas, de alguma forma, minha mãe se toma responsável pela confusão
toda— a morte do meu gato, a crise nas ilhas Malvinas, a guerra no Líbano. Sinto uma raiva terrível. Não
consigo pôr na cabeça que a guerra terminou. Ainda acho que preciso lutar para sobreviver. Mal consigo
acreditar que as pessoas possam me amar.

Enquanto sua energia estiver investida na guerra contra o complexo, ela não tem
energia para dedicar à descoberta de quem é e de qual alimento carece.
A maneira pela qual o princípio do poder se manifesta está ilustrada nos
seguintes comentários de outra mulher:
Uma grande bolha com dois olhos pretos está sempre a olhar, sempre pronta a me devorar. Tudo
cai nos meus ombros e tenho de fazer tudo certo. Ninguém mais consegue fazer como eu. Minha mãe age
de modo totalmente incompetente. M inha irmã também. Meu marido não toma a iniciativa. Sinto que
tenho de fazer alguma coisa. Coloco-me num estresse incrível, mas estou convencida de estar fazendo o
que é certo. Existe um vício em ação que me faz sentir um vazio terrível, e depois cólera total. Por mais
que dedique energia ao que faço, no fim, termino com nada. Isso é desespero. Resolvo desistir. Vou até o
fim com os compromissos que já assumi e depois chega. Uma depressão terrível vem na esteira dessa
decisão. Ou despejo minha cólera nas pessoas a um custo pessoal incrível, ou desisto e assumo as
conseqüências. Sou viciada em tentar ver as coisas do jeito certo.
Os adultos de minha vida não foram responsáveis. O animus de minha mãe era destrutivo. O
meu é criativo desde que as coisas saiam como eu quero. Se afundo, arrasto tudo comigo. Vou como um
trem de carga, esmagando tudo no caminho. Eu poderia acionar o freio mas, às vezes, resolvo que não. Se
acontece de ser um homem, ele vai também. Malditos torpedos: velocidade total adiante! Minha cólera
vem de sentir que não provoco nenhum impacto no ambiente. Estou vivendo o que minha mãe se recusou
forçar-se a fazer: sou um a guerreira — meu pai à revelia.
Meu marido decidiu certa vez cortar as minhas unhas. Resisti. Brigamos, mas ele cortou. Achei
que podia me suicidar. Achei que se eu não podia me defender deveria me destruir. Cortar as minhas
unhas foi uma invasão da minha pessoa. Tosei meu cabelo. Sentia-me impotente e morta. Então tive de
me alimentar. Senti-me completamente destruída.

A tênue linha divisória entre poder e Eros é muito difícil de encontrar. Se, por
exemplo, uma garotinha está fazendo biscoitos com sua mãe, está olhando e tentando
imitar. Suas pequenas mãos sovam a massa com toda a força que têm, os biscoitinhos
vão ficar duros. Isso importa? A mãe pode manter a filha dependente ao não lhe dar o
livro de receitas para que ela mesma o use. Ela pode proteger a criança das eventuais
queimaduras se lidar sozinha com as panelas quentes, e pode evitar os derramamentos
colocando ela mesma os ingredientes sem permitir que a criança faça as doses. Isso
parece inocente e sensato. Mas, para que haja a satisfação das necessidades emocionais
da criança, os biscoitinhos têm de ser criação dela mesma. Senão, embora possa ser
elogiada por seus excelentes biscoitinhos, algo em seu íntimo saberá que não são seus
de verdade.
Parece uma trivialidade, mas se esse for o padrão do relacionamento a mocinha
ficará esforçando-se para ganhar elogios mas, quanto mais é elogiada, mais está
negando a si mesma. Nada está ligado a ela. Quanto mais ela realiza, menos se acha
vinculada a si própria. Dá assim início a um padrão masoquista inconsciente, que talvez
se manifeste em beber ou comer demais, e que consiste em se esforçar cada vez mais e
receber cada vez menos. Quanto mais perfeito seu desempenho, menos está conectada a
si mesma. A mãe que faz tudo o que é necessário e depois elogia a filha pelo resultado
não só a priva de toda medida de sua própria capacidade de desempenho como, o que é
pior, convence-a de que a idéia passada para o mundo talvez seja a de que seus
resultados são mérito de outrem. Quanto mais ela é bem-sucedida, mais sabe, no íntimo,
que seu sucesso não lhe pertence, mas sim é da mãe dentro dela. Sua noção íntima de
fracasso está, por conseguinte, em proporção direta ao nível de seu êxito externo.
Essa situação é graficamente ilustrada pelo sonho de uma bem-sucedida
profissional:
Estou subindo por uma escada escura que dá num sótão sufocante que eu não tinha percebido
existir em nossa casa... No topo da escadaria encontra-se um magnífico gato persa do tamanho de um
leão. Num sofá em estilo vitoriano, no meio do aposento, está um fiapo de mulher, fraca demais até para
erguer a mão. Tento chegar até ela, mas a cada movimento que faço o gato abana o rabo peludo contra
meu rosto, enquanto caminha em torno dela. Ele não parece hostil, apenas nobre e distante, mas não
consigo aproximar-me dela...

Em seu original estudo das escritoras e da literatura imaginária do século XIX,


Sandra Gilbert e Susan Gubar analisam a cisão da mulher criativa. Falando do Jane
Eyre de Charlotte Bronté, escrevem:
Examinando as implicações psicossociais de uma mansão ancestral "mal-assombrada", esse
conto explora a tensão entre a sala de visitas e o sótão, a cisão psíquica entre a dama que se submete às
injunções do macho e a lunática que se revolta. Mas, ao examinar essas questões, a história feminina
paradigmática considera, inevitavelmente, também as igualmente incômodas opções espaciais da
expulsão para o frio exerno ou a sufocação do calor de dentro da casa. Além disso, a narrativa corporifica
em geral uma ansiedade obsessiva, tanto a respeito de uma fome que atinge o ponto da aniquilação como
de uma monstruosa condição de domicílio.4

A lunática famélica que se revoltou neste sonho é tiranizada pelo imenso gato
branco, perfeitamente alimentado e tratado — um instinto arrogante, espiritualizado. O
sonho também sugere a sufocação, "a ansiedade obsessiva a respeito da fome que atinge
o ponto da aniquilação e a monstruosa condição de domicílio". O ego onírico está sendo
forçado a reconhecer a parte dessa mulher que está morrendo no sótão, aprisionada pelo
que, na verdade, é um animus elegante. Alimentado pelas expectativas da sonhadora a
seu próprio respeito, ele é o trickster que furta o alimento da boca da anoréxica.
Se esse animus "nobre" e elegante for projetado, a mulher poderá apaixonar-se
por um homem que tenha a vida inteira tentado agradar à mãe. Ele pode associar
sentimentos à idéia de ser perfeito. Assim, entará ser um pai perfeito, um marido
perfeito, um filho perfeito, mas ao mesmo tempo poderá estar renegando seus próprios
sentimentos reais. Ele acha que tem de ser melhor do que é e, portanto, rejeita-se como
é. Dedica-se a agradar ao que julga ser a mãe positiva e fica no aguardo das
recompensas maternas por seu comportamento perfeito. Ele a alimenta, mas ela se torna
negativa e joga fora os presentes dele. O espírito dela não pode agradecer a ele. Ele é o
homem que diz: "Quanto mais tento agradar-lhe, pior fica". Isso é estar preso no
complexo.
A mulher que está tentando se relacionar com ele pode estar dizendo: "O que
será preciso que eu faça para conseguir que ele sinta alguma coisa?". Se ele deixar cair a
máscara e disser o que realmente sente, então o comportamento masoquista e seus
sintomas podem ser enfrentados. Em lugar de tentar agradar à mãe, à esposa, à filha e ao
mundo, ele começa a pensar em termos de ser quem é. Até que isso comece a acontecer,

4 Sandra Gilbert e Susan Gubar, The madwoman in the attic, p. 86.


ele não está formulando a verdadeira pergunta: "Quais são os meus sentimentos?" e, por
conseguinte, não estará assumindo a responsabilidade por quem é. Estará vivendo uma
psicologia masoquista de negação que, em geral, leva-o a rejeitar as outras pessoas antes
que elas o rejeitem.
Se a mulher puder eliminar a projeção e, em lugar de reclamar do marido,
reconhecer que trata a si mesma dessa forma, ela acaba descobrindo que o animus
correto é uma combinação do animus de sua mãe e de seu pai. (Por bem ou por mal os
cônjuges parecem de fato merecer um ao outro.) Numa antiga história indígena, uma
mulher se corta ao meio na linha da cintura. A metade de cima ela gruda em seu marido
para que possa devorar tudo o que sair da boca dele. As entranhas dela, transbordando
de sua cintura, ficam penduradas atrás, para que tudo o que ele faça seja obliterado
pelos excrementos dela. A metade de baixo ela espalha pela casa para ter certeza de que
ele regressará.
É isso que o animus correto (o mágico atrás da bruxa) pode fazer com um
homem ou com o animus positivo da própria mulher. Quando a mãe negativa está
pronta para devorar cada palavra que sai da boca da outra pessoa, essa pessoa terá muito
pouco a dizer, a menos que seja considerado perfeitamente adequado à ocasião visto que
o "você não é bom o suficiente" está estrangulando o que quer sair. A espontaneidade é
destruída. Isso pode transcorrer de uma forma muito sutil. A mulher que se mostra
solícita quando o marido ou um filho estão às voltas com algum afazer pode mascarar
sua atitude real, que é "Eu sei que você não consegue fazer isso. No final, vai acabar
sobrando para mim". Essa é a maternidade positiva que tenta se incumbir de tudo. Mas
maternidade positiva ainda é maternidade, acoplada à suposição de que existe uma
criança a quem dar apoio. Os sentimentos pessoais da mulher adulta, o ego feminino,
ainda podem estar presos no âmbito do ser mãe. As mulheres que, desde muito
pequenas, começaram a servir de mãe para irmãos menores, ou até mesmo para a
"querida" mãe, podem projetar essa criança desamparada em outras pessoas. Por trás
disso, acumula-se um ressentimento considerável porque elas mesmas nunca tiveram
permissão para viver sua própria infância e, ironicamente, ressentem-se da
responsabilidade que de imediato assumem na maioria das situações.
Outra área em que a mãe negativa se alia ao pai perfeccionista para produzir o
caos é a redação de textos, ou o preparo para exames. O diálogo interior pode ser mais
ou menos assim: "Não li Kant e devia ler Marx. Ah, sim, tem um trecho excelente em
Nietzsche. Não fiz isto nem aquilo. Poderia abordar o tema deste ângulo — ou desse, ou
daquele". E o rodopio prossegue, com o fio se tornando tão torcido em torno de si
mesmo que a mulher pode ficar até várias horas coletando material sem conseguir
elaborar um plano claro de referência e, ao final do dia, acabar com pilhas e pilhas de
livros e anotações, entretanto ainda sem nenhuma abordagem coerente do material.
Esse caos pode levar a mulher a comer e beber na tentativa tanto de escapar
como de permanecer no chão. Ela pode a princípio ter sentido um genuíno interesse
pelo artigo, mas quando o complexo se apodera da cena montanhas de material se
acumulam e sob isso tudo sufoca o animus positivo, criativo. Quando o espírito criativo
não está respirando com esse material, ele morre. O ensaio se torna um encargo
esmagador. Uma das coisas que o complexo mais detesta é diversão. Tudo ele reduz à
mais lúgubre responsabilidade. Novamente, a atitude perante essa situação é crucial. Se
o ego é rígido, está com medo da avassalaora fertilidade do lado positivo do complexo
materno, pois embora ela queira cada vez mais também tem um interminável
suprimento de sementes e possibilidades. O ego pode usufruir disso, mas deve usar sua
própria força, que é considerável, para decidir o que irá crescer e o que não irá. Se ele
tentar controlar todas as coisas, entrará em colapso. O único modo de se safar do peso e
sair de debaixo dele é tomando consciência da mãe negativa. "Será que quero mesmo
escrever esse artigo, ou não? Quero. Eu quero. Eu, por mais egoísta que seja, quero
fazer isso.
Sim, por egoísta que seja, eu quero assumir essa responsabilidade e vou ter
prazer com isso. Quero fazê-lo e quero fazê-lo ao meu modo."
A mãe negativa não quer que a pessoa se desenvolva pessoalmente; ela não quer
alegria, nem a excitação criativa, nem liberdade, à sua volta. Repetidamente, as
mulheres jovens ao fazer regime compram uma roupa nova para uma festa com grande
expectativa, mas se entregam a uma desregrada comilança na noite anterior e terminam
se empanturrando a ponto de ficar dois tamanhos acima. A possibilidade de se divertir
— seja no trabalho, seja no lazer — é uma zona de perigo que deve ser antecipada e
cuidada com toda atenção, senão o complexo assume o comando com seu manto escuro
de obrigações.
Se acontece de essa mulher ser casada com um homem que tem o mesmo
complexo de mãe negativa, ele também está correndo o perigo de ficar sufocado na teia
da aranha. Ele observa a esposa agonizando sobre a pilha indigerível de papéis e, se é
inconsciente, fica ainda mais maluco que ela. Mesmo se não estiverem conversando a
respeito do material, a ansiedade dela constelará a dele e, ou está aprisionado e se
afunda ainda mais na teia com ela, ou recua enraivecido e se sentindo ameaçado. Se ele
penetra ao lado dela a garganta do lobo, os dois se atolam no miasma. Se ele conseguir
manter a consciência, atento à sua própria posição racional, esse posicionamento pode
em si mesmo constelar a força de ego dela. Ambos precisam estar muito cientes de seus
próprios complexos, conversar sobre isso quando o momento não for ameaçador e
encontrar modos e maneiras de não se deixar arrastar por ele.
O complexo de Medusa em sua forma extrema de fato petrifica, pois detém o
fluxo da vida, o dar e receber natural de energia. O complexo fica feliz enquanto está
dando visto que, sem o ego consciente fazendo as suas próprias escolhas, dar pode ser
mera manipulação. A criança que foi manipulada por um "dar abnegado" da mãe
negativa não espera ser reconhecida como quem é e, portanto, é arisca demais quando se
trata de receber. Nas primeiras semanas de análise, esse tipo de pessoa pode mostrar
uma forte persona e falar como se tudo estivesse bem. Então, certo dia, o analista diz:
"Mas como é que você se sente?".
Nesse momento, o dique ou é reforçado ou rompe, ou a mulher pode ter de
perceber seus sentimentos pessoais pela resposta do analista. E em geral uma sensação
de milagre quando o "eu" é finalmente reconhecido.
Certa vez tive uma analisanda cuja história de vida era um incidente catastrófico
atrás de outro. Por três meses ela me contou sua história, sem reações emocionais.
Parecia estar envolta por um véu. Então, um belo dia ela encontrou um cachorrinho
abandonado e projetou nele todos os seus sentimentos por si mesma. Estava sentada
dura e calada. Estendi a mão e toquei a sua. Ela me olhou nos olhos como se estivesse
me vendo pela primeira vez e rompeu num choro convulsivo. Depois, a análise
começou. Ela me contou sua história toda de novo, como se não se recordasse de tê-lo
feito antes. Desta vez, os seus sentimentos faziam parte do relato. O complexo que a
enfeitiçava não pôde transformar o meu toque num jogo de poder. Não pôde convencê-
la de que eu era só uma analista fazendo meu trabalho. Poderia até lhe dizer que eu só
estava tentando explorá-la e mais tarde os motivos escusos viriam à tona. Ela, porém,
sabia que tinha sido um gesto espontâneo, transparente, de amor e reconhecimento. A
reação da analisanda foi forte o suficiente para quebrar a pedra de gelo dentro da qual
vivera a sua vida toda. Claro que dúvidas e temores reapareceram periodicamente mas,
naquele momento, ela pôde saber que era amada e conseguiu receber esse amor sem
m edo.
A s lá g r im a s q u e a m o le c e m a p e d ra , o g e lo , o v id r o e a s p a re d e s d e c o n c re to d o s
s o n h o s s ã o c o m o a s lá g r im a s d e q u e f a la V ik to r F ra n k l e m s u a h is tó r ia d o c a m p o d e
c o n c e n tr a ç ã o . " N ã o h a v ia n e c e s s id a d e d e s e n tir v e r g o n h a d a s lá g r im a s p o is e la s s e r v ia m
d e te s te m u n h a d e q u e a p e s s o a tin h a a m a io r d a s c o ra g e n s : a c o ra g e m d e s o fre r." D e
to d o s o s p r is io n e ir o s d o c a m p o , só u m c o n s e g u iu e n f ia r o s p é s in c h a d o s n a s b o ta s.
Q u a n d o F r a n k l lh e p e r g u n to u c o m o p u d e r a v e n c e r o e d e m a , o h o m e m re s p o n d e u : " E u
c h o re i to d o e le p a r a f o ra d e m im " .5 F ic a r c o m o s lá b io s d u ro s e a p e rta d o s a g ü e n ta n d o a
d o r é u m a c o is a ; s e r c a p a z d e se lig a r à p r ó p r ia r e a lid a d e d a s itu a ç ã o q u e se e s tá
v iv e n d o é o u tra . A m ã e n e g a tiv a a d o r a a in c o n s c iê n c ia . E n q u a n to e s tiv e r m o s
p e tr if ic a d o s n u m m u n d o e s tá tic o , n ã o e x is te o p e r ig o d e n o s e n tr e g a r m o s a o c h o ro , d e
d e r r a m a r m o s n o s s a s p r ó p r ia s lá g r im a s , n e m d e c a n ta r n o s s a p r ó p r ia c a n ç ã o .
A m ã e b r u x a te m r e c e ita s in f a lív e is p a r a tu d o ; se fo re m s e g u id a s à ris c a (e se g u i-
la s é f a z ê - lo à ris c a ), g a r a n te m s u c e s s o . E la n ã o te m p a c iê n c ia c o m o s e rro s , n e m e s p a ç o
p a r a e le s , p o is n ã o h á n e c e s s id a d e d isso . E la é u m a e f ic ie n te e s p e c ia lis ta . T o d o a q u e le
q u e f a z s e u a p r e n d iz a d o s o b s u a ju r is d iç ã o s e rá d e s d e o p r in c íp io o rie n ta d o a d e f in ir
c la r a m e n te s u a s m e ta s e se u s o b je tiv o s . O m u n d o re a l é u m m u n d o d e c o is a s , e a ta r e f a
hum ana é g a r a n tir q u e e la s f u n c io n e m com e f ic iê n c ia . A p e r f e iç ã o não p e rm ite
f r a q u e z a s o u s e n tim e n to s in d iv id u a is . A f ilh a d e s s e tip o d e m ã e a c a b a se s e n tin d o u m a
c o is a q u e v a i s e n d o m a n ip u la d a a té a tin g ir u m a lto n ív e l d e e fic iê n c ia . O q u e e la ta lv e z
n ã o s a ib a é q u e o c o n h e c im e n to d e s u a m ã e c a re c e d e s a b e d o ria . F a lta m - lh e u m a
s ig n ific a ç ã o h u m a n a e a m o r p e s s o a l. A f ilh a p e n s a q u e é u m o b je to . D e q u a lq u e r fo rm a
q u e s e ja d is f a r ç a d o — lin d a , in te lig e n te , e fic ie n te , v a lio s a , r a r a — c o n tin u a , n ã o
o b s ta n te , d e s u m a n iz a d a . E s s a f ilh a n ã o te m u m p o n to d e v is ta p ró p rio .
E is e m e s s ê n c ia a tr a g é d ia d a m u lh e r o b e s a e d a a n o ré x ic a a s s im c o m o a d e
m u ita s o u tr a s m u lh e r e s in f e liz e s e m n o s s a c u ltu ra . S e u s e s f o r ç o s e s p ir itu a is e su a
e x c e s s iv a d is c ip lin a s ã o re a liz a d o s p a r a a c o n s e c u ç ã o d e m e ta s q u e , n a r e a lid a d e , n ã o
t ê m n a d a a v e r c o m ela. A o s e re m e x a m in a d a s d e p e rto , sã o m e t a s q u e in v o c a m a
o b lite r a ç ã o fin a l d e s u a p e s s o a . E s s a s m e ta s im p lic a m s u a p r ó p r ia m o rte . E m to r n o
d e la s , a s f o r ç a s c r ia tiv a s n ã o c o n s e g u e m se m o b iliz a r. N a d a , e m s u a v e r d a d e ir a n a tu re z a
f e m in in a , p o d e v i r e m s e u a u x ílio . A e n e r g ia q u e e s tá le v a n d o à e x tin ç ã o é a d e m o n ía c a
d a b ru x a . A s s im , o c u lta n a in e v itá v e l d e rro ta d a m u lh e r e c o a o la m e n to fin a l d a c ria n ç a
a b a n d o n a d a — o s tr ê s a n g u s tia d o s "O o o h s " d e L a d y M a c b e th , q u a n d o e la te n ta a g ra d a r
sua p e q u e n a m ão.
E s s e p r o c e s s o p o d e c h e g a r a ta l p o n to q u e q u a lq u e r te n ta tiv a d a p a r te d a f ilh a d e
in tr o d u z ir u m a s ig n if ic a ç ã o h u m a n a e m s u a v id a d e s p e r ta ta l a n s ie d a d e q u e e sta , e m s u a
m e n te , te r m in a se to r n a n d o um a tr a iç ã o da m ãe. P a ra ela, to r n a r - s e h u m a n a é
d e c e p c io n a r a m a m ã e q u e fe z d e tu d o a o se u a lc a n c e p a ra q u e a filh a fo s s e u m a m u lh e r
b e m - s u c e d id a . C o m o e s ta , p a r a h u m a n a m e n te s o b re v iv e r, d e v e s u p e ra r o s id e a is d e su a
m ã e , a v e r d a d e ir a e s p e r a n ç a d e r e s o lu ç ã o d e s e u p ro b le m a r e s id e n a c o m p r e e n s ã o d a
n e c e s s id a d e d o q u e e s tá f a z e n d o . O m a l e s tá n o id e a l q u e n ã o é h u m a n o . F ic a r p r e s o a
e le é, e m ú ltim a in s tâ n c ia , e s ta r in a c e s s ív e l à re a lid a d e . E la te m d e e n x e r g a r a re a lid a d e
d a q u a l e s tá f u g in d o p a r a p o d e r e n te n d e r o s ig n if ic a d o d e s e u s a to s. A s s im q u e d e s c o b re
a q u ilo a q u e s u a m ã e n u n c a a a p r e s e n to u — o r ic o e p r o f u n d o a m o r p o r e s ta r v iv a — ,
s u a v id a p a s s a a e s ta r so b s u a p o sse . E n tã o , e s tá liv r e p a ra m o ld á -la p o r si. E s s a
m u d a n ç a r a d ic a l, d a id e n tif ic a ç ã o c o m a m ã e p a r a p ô r - s e e m c im a d a s p r ó p r ia s p e rn a s ,
e m s e u p r ó p r io c h ã o , é a m u d a n ç a a rq u e típ ic a d a b r u x a e m S o fia . M e d u s a é a a u s ê n c ia
d a s ig n if ic a ç ã o h u m a n a ; S o fia é o s ig n ific a d o h u m a n o .
A o fin a l d o C a p ítu lo 2 , m e n c io n e i a r e u n iã o d e c o rp o e e s p írito . Q u a n d o e s s a

5 Viktor Frankl,Man's search for meaning, p. 125.


cisão radical ocorre, acredito que o continente somático deve estar preparado para o
parto psíquico. Deve haver uma recepção para o espírito, um cálice para receber o
vinho. O sonho de uma mulher que estava em análise havia três anos ilustra a harmonia
que pode existir entre corpo e espírito. A energia espiritual está firmemente ancorada
em suas raízes instintivas, ao mesmo tempo que mantém seu relacionamento com o self.
O sonho deixa clara a diferença entre a bruxa má e Sofia:
M inha amiga e eu estamos numa rústica igreja campestre feita de pedras. Há duas alas laterais e
uma nave central que vai até o altar. A igreja está cheia de pastores e pessoas simples. Uma mulher, com
ama longa capa de couro, usando um a coroa primitiva e levando um cetro, que usa para apontar, vem pela
lateral tentando fazer os pastores cantar. Ela insiste, recrimina, fica muito zangada, mas só enquanto ela
olha na direção deles é que, com relutância, eles cantam. Depois que ela passa, eles ficam resmungando
infelizes uns com os outros. Ela conversa em particular com um homem vestido de rei, que também está
circulando pela igreja, mas ele está ainda mais enraivecido.
"Isso não é rainha", sussurro à minha amiga.
Então outra mulher entra pela mesma porta lateral, alta e régia, vestida numa túnica simples, sem
coroa nem cetro, mas assim mesmo uma rainha.
Ela vai passando pela ala lateral e todos cantam. Os camponeses a adoram, e ela os ama. Sua
radiosidade está ligada a um homem genuinamente régio que agora está em pé no altar. Embora os olhos
dela nunca se voltem para ele, as antenas dela parecem guiá-la inevitavelmente até ele. Ela coloca suas
mãos na dele que está estendida, e a igreja inteira rompe num canto triunfal de casamento. Coloco minha
mão na de minha amiga. "Ela tem a Graça", ele diz.

O cenário é uma igreja campestre construída de pedras, um lugar sagrado que se


ergue diretamente do chão, e seus ocupantes são pastores simples que vivem em contato
próximo com a natureza. Em seu processo de análise, a mulher tinha tentado reunir o
instintivo e o espiritual, como esse cenário revela, mas o ego ainda não havia
encontrado sua forma legítima de relacionamento com ambos os níveis.
Esse sonho ilustra que a sonhadora tinha chegado a uma crise em sua análise e
também em sua vida. Claramente, o sonho constela sua escolha entre o se//falso e o
verdadeiro, assim como deixa claro que a reconciliação deve vir do sei/(igreja),
profundamente ancorado na natureza. Ela observa duas rainhas que simbolizam duas
atitudes diferentes. Uma se vale do próprio ego e do princípio do poder, bloqueando
assim o fluxo criativo que procede do inconsciente. A outra submeteu seu ego ao que o
sonho chama de "Graça" e, com isso, se abre ao amor, à harmonia interior e à energia
que vem desde suas mais profundas fontes criativas.
A sonhadora percebeu que tinha de escolher entre regressar ao mundo coletivo e
rígido que sempre lhe fora conhecido, ou se entregar ao seu guia espiritual interno,
movendo-se, nesse sentido, ao encontro de seu próprio destino. Ela considerava essa
escolha decidir entre cair de volta na inconsciência e confiar-se ao self. Se escolhesse
regressar, temia ser condenada por sua própria Realidade. Se escolhesse entregar-se,
sentia muito receio de perder sua integridade em meio a um mundo que não entendia.
Essa é uma crise em que todos entram pelo menos uma vez, durante o processo de
individuação. Como falsa rainha, está identificada com o arquétipo e revestiu seu
homem com o traje arquetípico de rei. Ela é desprovida de Graça. Faz o que faz por
força de ego, movida por seus interesses pessoais. Tenta arrancar apoio das pessoas para
suas causas mas sua motivação é ter poder; por isso, ocorre uma cisão entre a energia
consciente e o significado inconsciente. A sonhadora relacionou essa imagem a suas
próprias tentativas de usar a força de vontade contra seus sentimentos e instintos
naturais, forçando-se dessa maneira a assumir a compulsividade masculina. Essa espécie
de atitude, porém, obstaculiza o desenvolvimento, pois a energia criativa não está
alimentando a consciência; desse modo, não pode haver um crescimento genuíno tanto
dos sentimentos como da capacidade de discernimento.
Como rainha autêntica, ela é uma mulher simples, assim como sua túnica, sem
os adereços pertinentes, mas com a elegância interna da aceitação. Ela não está
identificada com o arquétipo, isto é, seu ego não tenta usurpar um poder que não lhe
pertence legitimamente. É dessa forma que ela permite que o deus se dê a conhecer.
Essa atitude faz com que Eros possa transbordar dela, consente espaço para suas
emoções e imagens inconscientes e, assim, ela pode construir uma relação pessoal com
a amiga, sem transcender suas limitações humanas. Em seguida, todas as partes
desconectadas da psique entram automaticamente em harmonia ao cantarem juntas. O
tom que afina o coro é a rendição do ego à dádiva da Graça, ou, em termos psicológicos,
o estabelecimento de uma rica ligação entre a consciência e o inconsciente.
A dupla imagem do oferecer as mãos — a rainha ao rei, a sonhadora à amiga —,
sugere uma mútua expressão de confiança, o reconhecimento de que cada vida é
intrinsecamente modificada por suas interações com a outra. Num nível mais profundo,
simboliza a entrega da sonhadora à singularidade masculina. Estamos no terno
reconhecimento da vulnerabilidade e de uma ainda mais profunda rendição do ego, uma
vez que tal vulnerabilidade a deixa aberta a mágoas ainda maiores. Nessa altura da
análise, a confiança é muito difícil, pois é por essa época que a pessoa terá visto e
reconhecido a própria sombra, dando-se conta de que deve confiar no qae não é
confiável. Entretanto, não há mais nada a fazer senão confiar, trabalhar e aguardar. Esse
é o território de Deus. Nesse sonho, é a forte figura de animus, confiante em pé, no altar,
que a sustenta no desenrolar de sua jornada rumo a si mesma e a ele, com o tipo de amor
provedor de apoio que ama quem ela realmente é, não dando margem a auto-enganos.
Quando ela se dá a ele, longe de se render com relutância ao ego masculino dele, na
verdade está ingressando em sua própria autenticidade.
Muitas mulheres hoje estão buscando o feminino autêntico que por séculos foi
forçado a viver no nível subterrâneo pela cultura patriarcal. Tanto Jung como Marie-
Louise von Franz discutiram extensamente a significação do dogma da Assunção de
Maria, na medida em que reflete uma enantiodromia maior, de afastamento do esgotado
e destrutivo patriarcado rumo a um novo matriarcado em que a matéria é libertada.
Aqui, por exemplo, Marie-Louise von Franz diz em 1959, em suas palestras sobre
alquimia:
Em toda a civilização cristã [existe]... um secreto e discreto retorno ao matriarcado e ao
materialismo. Essa enantiodromia tem a ver com o fato de a religião judaico-cristã não ter encarado o
arquétipo da mãe de maneira suficientemente consciente. Até certo ponto, tinha excluído essa questão.
Também é igualmente sabido que, quando o papa Pio XII declarou a Assunção de Maria, sua meta
consciente era atacar o materialismo comunista elevando, por assim dizer, um símbolo da m atéria na
Igreja Católica, a fim de fazer murchar as velas içadas do comunismo. Há uma implicação muito mais
profunda mas essa foi sua intenção consciente, a saber, que a única maneira de combater o aspecto
materialista seria elevando a uma posição mais excelsa o símbolo feminino da divindade, e com ele a
matéria. Como é o corpo da Virgem M aria que foi elevado aos céus, a ênfase recai sobre o aspecto físico
material.6

Meu interesse, neste livro, não tem sido as implicações políticas e religiosas da
doutrina comunista do materialismo dialético, embora um momento de reflexão possa
mostrar, a meu ver, que sua corporificação no mito é a bruxa acabando no gulag russo.
Em vez disso, tenho me concentrado no processo psíquico relacionado à cura da mulher
cujo complexo de comida tem ligação com a mãe. O fato de seu pesadelo e a resolução
deste estarem sendo encenados num palco mundial mais amplo, que a Igreja tinha em
mente com sua doutrina da Assunção, sugere fortemente a importância dessas mulheres,
6 Marie-Louise von Franz, Alchemy: an introduction to the symbolism and thepsychology, p. 215.
e m te r m o s d o q u e e s tã o lu ta n d o p a r a a lc a n ç a r d e n tr o d e si m e s m a s , p a r a o fu tu ro d a
n o s s a c iv iliz a ç ã o .
E m s e u s te x to s , Jung r e to m o u n u m e ro sa s vezes a c o n v ic ç ã o de que as
e n f e r m id a d e s p s íq u ic a s d e s e u s p a c ie n te s , ta n to o s n e u r ó tic o s c o m o o s p s ic ó tic o s ,
c o n tin h a m e m s e u c e r n e o p r ó p r io e s p írito d e s u a é p o c a , o W e lta n s c h a u u n g . A o in ic ia r a
a n á lis e , a s m u lh e r e s e m p a n tu r r a d a s p e la p r o s p e r id a d e d o e n tia d e u m a s o c ie d a d e , o u
e m a c ia d a s p e la p r iv a ç ã o d e a lim e n to s d e o u tra , e s tã o r e p r e s e n ta n d o o d r a m a o c id e n ta l
d a c o n d iç ã o d e f im d e m u n d o e m q u e , iro n ic a m e n te , a s fa m é lic a s e a s e m p a n tu rra d a s
p e r te n c e m à m e s m a s o c ie d a d e . D e s n e c e s s á r io d iz e r q u e u m a m u lh e r s o fre n d o d e s s a
s ín d r o m e n ã o se in te r e s s a p e la s q u e s tõ e s m u n d ia is m a is a m p la s ; e la s im p le s m e n te q u e r
p e r d e r p e s o . N ã o v ê n e n h u m a lig a ç ã o e n tre a s u a c o n d iç ã o p s íq u ic a e a lu ta d a I g re ja
c o m o c o m u n is m o . O p a p a a tu a l n ã o a p a re c e e m s e u s s o n h o s c o m o a m ã e p o s itiv a . N o
e n ta n to , c o n f o r m e a a n á lis e te m p r o s s e g u im e n to , s u p e r a n d o a n e c e s s á r ia fa s e n a r c is is ta
d a c o n s o lid a ç ã o d o e g o e d o c o rp o , e la c o m e ç a a v e r o m u n d o à s u a v o lta . S u a p r im e ir a
re a ç ã o é re c u a r, n a d a te r a v e r c o m is s o tu d o , b ru ta l, e n g a n a d o r, c ru e l, e n q u a n to e la é
p u ra . C h e g a o p o n to , p o r é m , e m q u e e n tr e e la e o m u n d o , a s s im c o m o e n tr e e la e se u
c o rp o , o c o r r e a c o n f r a te r n iz a ç ã o e n tre c o r p o e e s p írito q u a n d o e la s e n te n ã o só s u a
in te r a ç ã o c o m o m u n d o , m a s ta m b é m a s s u m e a lg u m a re s p o n s a b ilid a d e p o r ele. M e lh o r
a in d a , e la d e ix a d e s e r o q u e e r a a o c o m e ç a r a a n á lis e — u m a L a d y M a c b e th la v a n d o
d a s m ã o s o s a n g u e in v is ív e l, s a b e n d o q u e e la s ja m a is p o d e r ã o s e r in o c e n te s .
G o s ta r ia d e d e s c r e v e r a g o r a u m p r o c e s s o d e e n a n tio d ro m ia , ta l c o m o a p a re c e n a
a n á lis e . M in h a im a g e m c e n tra l é u m a e s p ira l, q u e se p o d e d e s lo c a r e m d o is s e n tid o s:
p a r a fo ra , r u m o à lib e r ta ç ã o , o u p a r a d e n tro , r u m o à d e s tru iç ã o , c o m o re c o n h e c im e n to
c ru c ia l d e q u e d e s tr u iç ã o e lib e rta ç ã o , c o m o c r u c if ic a ç ã o e r e s s u rre iç ã o , s ã o u m a só e a
m e s m a d in â m ic a , c o m u m lo n g o e n o m e io . E s s a c o n s ta ta ç ã o é o m is té r io fe m in in o ,
e x p r e s s o p o r C r is to n o p a r a d o x o " A q u e le q u e o e n c o n tr a r p e r d ê - lo - á " .7 E m b o r a R u th e
E le a n o r ( n o c a p ítu lo a n te r io r ) e s tiv e s s e m tr a b a lh a n d o c o m e s s e p a r a d o x o , p a r a e la s,
à q u e la a ltu ra , não se tr a ta v a de um p a rad o x o m as de um a c o n tra d iç ã o . O que
e n c o n tr a m o s n o s m is té r io s f e m in in o s é o p r o c e s s o p o r m e io d o q u a l a c o n tr a d iç ã o é
tr a n s fo r m a d a e m p a r a d o x o . E s s a tr a n s f o r m a ç ã o é o tr a b a lh o d o fe m in in o . E n c o n tr a r a
q u ie tu d e n o m e io d o r e d e m o in h o , n o o lh o d o fu ra c ã o , e n ã o se a g a rra r a e le c o m a
r ig id e z f r u to d o m e d o , é o q u e , n a a n á lis e , lu ta m o s p a r a a tin g ir. E u c h a m o e s s e c e n tro d e
S o fia , a S a b e d o r ia f e m in in a d e D e u s . N ã o é a p e r s p e c tiv a m a s c u lin a , o d o g m á tic o "eis
m in h a p o s iç ã o " . N ã o é M a r tin L u th e r m a r te la n d o s e u s 95 a rtig o s n a p o rta . N ã o é u m
m a n ife s to . É u m c e n tro in v is ív e l s ó e n c o n tra d o n o p r o c e s s o c ria tiv o , n ã o r e c o n h e c id o d e
m a n e ir a c o n s c ie n te a p r in c íp io m a s r e v e la d o , a o s p o u c o s , à m e d id a q u e se d e s e n r o la o
p ro c e s s o . E m o u tr a s p a la v r a s , e s s e p o n to n ã o e x is te f o r a d e s s e p ro c e s s o ; se u e x is tir
s e m p r e e s tá e m s e u d e v ir, c o n f e r in d o a o p r o c e s s o a c e r te z a d e s u a p r ó p r ia re a lid a d e .
Q u a n d o M a tis s e se p e rg u n to u : " A c re d ito e m D e u s ? " , r e s p o n d e u : "S im , q u a n d o
e s to u t r a b a lh a n d o " .8 A n a tu r e z a é, a o m e s m o te m p o , e s tá tic a e c o n tin u a m e n te m u tá v e l;
n ã o se p o d e d e s ta c a r u m a s p e c to d o o u tro . P o d e m o s a c e ita r to d a s a s m u d a n ç a s d a
n a tu r e z a — a s e s ta ç õ e s d o a n o , o s d ia s, a s fa s e s d a L u a — p o r q u e e n te n d e m o s , n u m
n ív e l a in d a m a is p ro fu n d o , q u e h á u m a p e r m a n ê n c ia e m se u se io . E s s e p ro c e s s o
c o n tín u o n o c e r n e d o e te r n o é o q u e c o n c e b o c o m o S o fia , a S a b e d o r ia p r ó p r ia à m u lh e r,
a D iv in d a d e fe m in in a .
C o m o v o n F r a n z s u g e r e e m s u a s p a le s tr a s s o b re a lq u im ia , a d e u s a ê m in in a ,
e m b o r a p r e s e n te n o g n o s tic is m o , n ã o e s tá a d e q u a d a m e n te r e p r e s e n ta d a n a tr a d iç ã o
ju d a ic o - c r is tã :

7 Mateus 10:39.
8 Louis Aragon, Henri Matisse: a novel, p. 21.
Há algumas alusões obscuras a uma massa-mãe escura e caótica, que existe sob a superfície, idêntica à
matéria, e uma figura feminina sublime que é a Sbedoria de Deus, mas até mesmo esta foi eliminada no cristianis­
mo, pois Deus foi declarado idêntico ao Espírito Santo ou à alma do Cristo, enquanto a matéria passou a ser
supostamente regida pelo demônio.9

Von Franz descreve a tendência demonstrada pelo cristianismo de se inclinar na


direção do patriarcado: o Deus pai masculino revelado em seu filho, estando o princípio
feminino atribuído à matéria, supostamente regida pelo demônio — em suma, o
princípio feminino como Eva ligada à serpente, trazendo a morte ao mundo e todo o
cortejo de padecimentos, ou seja, o princípio feminino como bruxa.
A mulher obesa ou anoréxica é, por motivos muito pessoais que têm a ver com
seus pais, prisioneira dessa situação patriarcal. Portanto, ela está intimamente conectada
ao mesmo problema envolvido na redenção, para o cristianismo, da unilateralidade de
seu princípio masculino. Esse processo, em particular nos textos alquímicos, é
entendido como a mulher decaída, ou a Sabedoria de Deus, enterrada na matéria,
clamando por um ser humano- compreensivo que a resgate e traga para cima. Em
determinado texto citado por von Franz, o feminino suplica: "Esse em cujos braços meu
corpo todo se derrete, para quem serei o pai e ele será meu filho"10. Aqui o amante e a
amada, a Sabedoria de Deus e seu consorte masculino, substituem o pai e o filho do
antigo patriarcado. A Sabedoria de Deus, escreve von Franz, é "simplesmente uma
experiência do Próprio Deus, mas em Sua forma feminina" ,n A súplica da mulher
obesa, seu anseio de ser libertada da matéria em que está enterrada, pode ser
arquetipicamente ouvida como o chamado da Sabedoria de Deus, que deve ser
transmitido à matéria tosca ou não redimida, à qual, assim como a Eva decaída, o
cristianismo patriarcal a relegou.
Uma de minhas analisandas sonhou com Cristo nascendo de suas coxas gordas,
enquanto outra, em seu sonho, quando foi ao banheiro do cinema local, viu um estábulo
repugnante pela janela traseira e, vindo da palha, uma luz que cegava. Assim Cristo,
nascido no estábulo porque não havia espaço para ele na hospedaria, pode servir de
imagem do self nascido do corpo rejeitado da mulher obesa.
O que está envolvido aqui é uma enantiodromia que leva ao reconhecimento de
que o que Cristo simboliza está em todos e ele pode ser contatado diretamente, uma
visão que levou inúmeras Joanas D'Arc à fogueira, para serem queimadas como bruxas.
Seu terror está inconscientemente presente em cada mulher que sofre da síndrome
obesa/anoréxica, em particular na medida em que, em sua luta para sobreviver, ela adota
cada vez mais uma persona masculina que, na verdade, está destruindo sua natureza
feminina. O fogo que a consome é destrutivo e não transformador, pois é o fogo do
princípio masculino — uma perspectiva fixa e rígida que, em vez de fazer deslanchar,
destrói o processo feminino. É o fogo ao qual Santa Joana foi condenada quando a
Igreja foi entregue aos ingleses.
Para mim é possível descrever Sofia como um padrão arquetípico emergente,
ainda não inteiramente conscientizado, que está oferecendo à nossa cultura ocidental um
novo entendimento da relação entre espírito e matéria. A Sabedoria masculina de Deus,
como muitos de nós já a conhecemos por experiência própria, reside na teologia, no
dogma e na filosofia moral. Por se tratar de uma Sabedoria passível de ser conhecida, é
acessível à razão e, nessa medida, codificável. Pode ser, como muitas vezes o é,
reduzida ao catecismo. Trata-se de uma Sabedoria coletiva e institucionalizada. A*1

9 Von Franz, Alchemy, p. 212.


10 Idem, ibidem, p. 219.
11 Idem, ibidem.
Sabedoria de Sofia, por outro lado, é a Sabedoria do incognoscível. É o não-racional,
irrepetível e inconsistente. Pertence ao momento imediato, ao aqui-e-agora. William
Blake descreve-o como o momento, a cada dia, que Satã não consegue encontrar e dura
tão pouco quanto a pulsação de uma artéria.12 É o momento em que a vida é concebida,
mas não segundo algum molde reproduzível, pois que se trata de um processo ímpar e
peculiar.
Da mesma maneira como existe um lado escuro da Sabedoria de Deus passível
de ser conhecido — a tirania da Igreja —, também há um lado escuro na Sabedoria do
Deus incognoscível. É o caos absoluto, o Vazio. O lado escuro de Sofia é o Vazio
primordial, antes de haver sido penetrado pela Luz, isto é, a matriz em que a Luz pela
primeira vez tornou-se manifesta.
Nas palestras de von Franz sobre alquimia dá-se um interessante intercâmbio
entre um teólogo e ela:
Dra. von Franz Se você está com um analisando, a única forma de talvez ajudá-lo seja dizendo
sempre: "Eu não sei, mas vamos perguntar a Deus". Dessa maneira, você impede que o analisando tire
conclusões conscientes precipitadas ou seduza-a a fazer isso e, portanto, toda experiência religiosa se
torna um evento único. Em cada experiência, Deus é experimentado de forma singular e específica, e isso
inclui até o enxofre vermelho (sexualidade), o que significa que se você apresenta a questão do enxofre
vermelho perante Deus, Ele dará Sua resposta única para cada caso.

Comentário-. Acho que Deus já deu Sua resposta única em cada caso.

Dra. von Franz: Ê nisto que diferimos. Você acha que Deus editou regras gerais que mantém só
para Si, e nós pensamos que Ele é um espírito vivo aparecendo na psique do homem, que sempre pode
criar algo novo.

Comentário: Dentro do referencial do que Eleja editou.

Dra. von Franz: Para um teólogo, Deus está atado a Seus próprios livros e é incapaz de outras
publicações posteriores. É aí que nós divergimos.13

Essa é a Sabedoria de Sofia.


Se você quiser experienciar uma enantiodromia imediata, só precisa se levantar
da cadeira onde esteve sentado a manhã inteira, trabalhando num problema enigmático e
ir dar um mergulho nas águas geladas da Georgian Bay. Ocorre um deslocamento
instantâneo da energia, da mente para o corpo. O resultado disso pode ser
surpreendente. O choque sofrido pelo corpo soluciona o enigma mental. As coisas que,
à mesa, se mostravam cada vez mais opacas de repente adquirem uma limpidez de
cristal, tão nítidas quanto as águas cristalinas da Georgian Bay. Por que isso acontece?
Saltar na água libera os instintos; estes prontamente irrompem na superfície onde se
tornam luz para o corpo. Para o tipo intuitivo, a questão mental pode, muitas vezes, ser
respondida pelos instintos. Mergulhar na água fria, depois do calor de horas de reflexão,
é situar essa indagação no território dos instintos, onde ela deixa de ser rígida e começa
a fluir, acompanhando as abissais profundezas do inconsciente, onde reside a resposta.
Sofia é a iluminação instantânea que irrompe das águas geladas. É o mistério.
Em linguagem psicológica, ocorre quando o ego cessou de se identificar com algum dos
opostos à exclusão do outro, seja o corpo, seja a mente. Depois de haver vivenciado essa
interação, o ego pode se tornar seu ponto de reconciliação, ao passo que estar
identificado com um é ser inimigo do outro: corpo e mente em pé de guerra. O ego
ancorado na realidade pode dizer: "Sim, estes dois são partes de mim. Eu sou parte123

12 William Blake, "Milton", 29:3, Poetry and prose, David Erdman (ed.).
13 Von Franz, Alchemy, p. 142.
corpo, parte mente, e ao mesmo tempo nem corpo ou mente; sou corpo e mente. Posso
ser arremessado de lá para cá como um veleiro num tufão, mas o tempo inteiro sou
capaz de afirmar minha posição, aqui no centro; e aqui, porque agora tenho olhos para
ver e ouvidos para ouvir, posso entregar-me. A vida pode acontecer; pode fluir de mim.
Quando antes estava morto, agora estou vivo; onde antes perdido, agora encontrado".
E preciso um ego muito forte e um trabalho bastante extenso para se render a
Sofia. A pessoa pode oscilar infinitamente entre pares de opostos, ora num pólo, ora
noutro. É bem melhor se concentrar naquele ponto de quietude que é a posição do ego
ao se render. Sem esse ponto, não há dança. Quem já vivenciou pacientemente as longas
horas despendidas no trabalho de introduzir consciência nos músculos do corpo,
momento a momento, guiando a energia do plexo solar para cada membro desse
microcosmo, quem já se dedicou ao extenuante esforço de criar esse ponto, tendo então,
um dia, de repente experimentado a leveza da dança, mesmo que só por um instante,
soube, nessa hora, tudo o que de fato importa:
Ó corpo embalado pela música, Ó olhar faiscante,
Como distinguir da dança quem a dança?14

Aquelas imagens magistrais porque completas


Brotaram em mente pura, mas do que começaram?
Um punhado de refugos ou a sujeira das ruas,
Velhas chaleiras, garrafas antigas, e uma lata quebrada,
Ferro velho, ossos velhos, trapos velhos, aquela puta delirante
Que cuida da registradora. Agora que a minha escada desapareceu,
Tenho de me deitar no chão de onde começam todas as escadas,
No espantoso brechó do coração.
W. B. Yeats, "The circus animals Desertion"

A libertação é conquistada mediante a diferenciação... quando o espírito se torna "úmido e tosco"


afunda nos planos inferiores, ou seja, fica emaranhado com o objeto, mas quando é purgado pela dor se
torna "seco e quente", e novamente se eleva, pois é exatamente essa sua qualidade ígnea que o diferencia
da úm ida natureza de seu domicílio subterrâneo.
C. G. Jung, Tipos psicológicos

A primeira coisa que deve ser dita, evidentemente, é que Santa Sofia é o próprio Deus. Deus não
é só Pai, mas Mãe também. Ele é ambos ao mesmo tempo, e é o "aspecto feminino" ou o princípio
Feminino na divindade que constitui Santa Sofia. Mas, é claro, assim que se diz isso, a coisa toda se torna
enganosa: uma divisão de uma divindade "abstrata" em dois princípios abstratos. Não obstante, ignorar
essa distinção é perder o contato com a plenitude de Deus. Essa é uma intuição muito antiga da realidade,
que remonta ao mais primordial dos conhecimentos orientais... O relacionamento "masculino-feminino" é
básico em toda realidade, simplesmente porque toda realidade é um reflexo da realidade de Deus...
O princípio feminino no universo é a inexaurível fonte das constatações criativas da glória do Pai
no mundo e, de fato, a manifestação de Sua glória. Levando um pouco mais adiante esse ponto, Sofia, em
nós, é a M isericórdia de Deus, a ternura que, pelo poder infinitamente misterioso do perdão, transforma a
escuridão de nossos pecados na luz do amor de Deus. Sofia é a contraparte feminina escura, cordata,
terna, do poder, da justiça e do dinamismo criativo do Pai.

Thomas Merton, em M onica Furlong, M erton, a biography

14 William Butler Yeats, "Among school children", linhas 63-4.


4 - Acordo com a deusa
Mas, ó dor, quanto tempo, até onde
De nossos corpos p o r que temos de nos abster?
Eles nos pertencem, embora nós não; somos
As inteligências, eles a esfera.
Devemos-lhes agradecimentos porque eles assim,
Nos fizeram logo de início,
Cederam suas forças, sentidos, para nós,
E não nos são um fardo, mas alívio.

John Donne, "The ecstasy"

Embora sua intenção não fosse essa, John Donne, em "The ecstasy", cria o tipo
de situação que pode ocorrer quando uma mulher em análise não tem um vínculo
genuíno com a mãe; em outras palavras, não está segura no solo- de seu próprio corpo.
Quando esse vínculo está ausente, a mulher tende a uma atitude de intelectualização.
Por mais esclarecedor que isso possa ser em termos de novas percepções sobre a
natureza de seus problemas, as constatações em si continuam não-materializadas; nos
termos de Donne, as esferas não estão conectadas às inteligências. Analista e analisanda
são então como as duas almas de Donne, negociando num plano acima dos corpos dos
dois amantes.
Na intelectualização de um problema, o corpo é cruelmente abandonado. O
choque que ocorre depois da sessão de análise é o retorno ao corpo. Ou seja, assim que
a alma regressa ao corpo, subitamente parece que nada realmente mudou. Tudo o que
aconteceu na sessão é que a alma experimentou uma momentânea libertação de seu
sepulcro e conseguiu se deslocar como os abençoados do Paraíso, antes de retornar à
sua sepultura terrestre para, mais uma v?z, sentir-se enterrada viva. Essa sensação de
estar enterrado vivo é uma metáfora precisa da condição obesa, e a sensação de se ver
livre do túmulo é a que experimenta a anoréxica "sem peso". A função da análise não é
incentivar ainda mais esse hiato corpo/ alma, mas saná-lo, até que, finalmente, o corpo
se sinta como tendo passado por uma "pequena mudança", em que, a partir desse
momento, corpo e alma passam a ser um só. No fim, depois de as verdadeiras limitações
do nível intelectual terem sido reconhecidas e superadas, o diálogo entre os amantes em
processo de negociação de sua relação corpo/alma se torna "um diálogo interior" (ver, p.
79).
Conforme a análise avança, especialmente nos casos em que a distância
psique/soma é grande, nem o analista nem o analisando ousam assumir que o corpo não
passa de um animal idiota encapsulando um espírito muito falaz, com elevadas
pretensões. A linguagem do corpo, para substituir a metáfora, é muito mais do que os
sons emitidos por um bebê de dez meses enquanto envia sinais instintivos que
identificam certas necessidades animais e não muito mais que isso. Assim que o vínculo
analítico está firmemente estabelecido, fingir que não há um corpo, ou tratá-lo com
indiferença, é fingir que não existe sombra — uma inversão que o trickster efetua, com
as roupas do imperador, ou seja, o jogo que ele como obeso tanto gosta. Em algum
momento, de todas as sessões, mesmo nos estágios iniciais, as mensagens do corpo
devem ser reconhecidas, mesmo que só por um instante. Deixar que a mulher saia da
sessão exuberante, com suas iluminações mentais, e então encarar sua sombra no
espelho enquanto veste o casaco, é um cruel reforço do hiato. Os corpos, como diz
Donne, devem ceder "suas forças, sentidos, para nós". Analista e analisando devem
reconhecer que essas forças não "nos são um fardo, mas um alívio".
A imagem de Donne para a sensação corporal como alívio em vez de fardo vem
da metalurgia , que tem por trás a história da alquimia. Refugo é uma impureza que
enfraquece o metal; liga é uma impureza que o fortalece. A alma, como o ouro, se
refinada ou pura demais, fica mole e não retém sua forma. Precisa conter algum teor de
impureza para poder endurecer até alcanaçar alguma forma identificável. Se a alma acha
que está acima de toda identidade, sendo pura demais para ter uma forma (como se
sentem a obesa e a anoréxica), então para ela a liga do corpo é refugo. A tarefa da
mulher consiste em perseverar com o corpo até reconhecer que não é refugo mas liga. E
a maneira de conseguí-lo é permitindo que o corpo brinque, dando-lhe espaço e
deixando que faça todos os movimentos que quiser.
A mudança na percepção de refugo em liga ocorre quando o ego começa a se
ancorar na Grande Mãe, no corpo da própria criação; em termos de mitologia bíblica, é
quando a virginal e desencarnada Maria se torna, enfim, capaz de se sentar no colo da
sábia Sofia. Nessa situação, o instinto atrofiado é capaz de entrar em contato com a
imagética curadora da psique, a qual está, nos sonhos, em busca de contato com os
instintos comprometidos. Essa imagética, em sua condição "amolecida" nos sonhos,
quer endurecer ou densificar-se a ponto de ingressar no mundo vivo do corpo até que
este experimente "pequenas mudanças" no movimento de ida e vinda entre os mundos
interno e externo.
O que é importante perceber é que liberar o corpo para uma movimentação
espontânea ou para brincar constela o inconsciente exatamente da mesma maneira que o
sonho. Por esse motivo, cheguei à conclusão de que, para muitos analisandos, um
trabalho prático com o corpo era tão necessário quanto a análise de seus sonhos. Como a
maior parte deles estava sofrendo de alguma forma de hiato profundo entre psique e
soma, constatei que a exclusão do corpo da investigação do inconsciente era, no
mínimo, tão unilateral quanto teria sido excluir os sonhos.
Os movimentos corporais, como pude perceber, podem ser entendidos como
sonhos tidos em vigília. Em sua movimentação espontânea, o corpo é como um bebê
chorando alto para ser ouvido, compreendido, atendido, tal qual o sonho que envia seus
sinais desde o inconsciente.
A grande vantagem do movimento corporal numa situação vivencial controlada
é que as pessoas envolvidas tornam-se agentes participantes de seu próprio sonhar numa
extensão muito menos aparente do que quando estão dormindo, ou sozinhas. Portanto, é
mais fácil trabalhar mais diretamente com o sonho em vigília (a saber, o movimento
corporal), do que com o tão mais facilmente esquecido sonho havido durante o sono, e
do qual a única testemunha terá sido o sonhador. Um sonho não pode ser verificado, não
pode participar diretamente do mundo vígil concreto. Diferentemente do corpo que não
mente, o sonho pode ser esquecido, parcialmente recordado, reduzido a um fragmento
de sua totalidade, ou até mesmo grosseiramente distorcido ao ser recriado em vigília. A
tentativa de instilar uma coerência narrativa na estrutura do sonho sujeita-o a uma lógica
gramatical que talvez não tenha correspondência com a lógica simbólica do estado
onírico, o qual se aproxima mais da poesia que da prosa. Embora o sonho seja e
continue sendo nossa mais rica fonte de informações procedentes do inconsciente, o
movimento corporal pode nos conduzir ainda mais perto da verdadeira essência do
sonho, da mesma forma como o sonho pode aprofundar nosso entendimento da
dimensão psíquica da musculatura do corpo. Os dois processos trabalham juntos porque
são equivalentes. O corpo é o inconsciente em sua forma mais imediata e contínua; o

No original, "allay" (alloy) e "dross", que significam respectivamente liga" ou "combinação" [em geral de
metais inferiores], e "refugo". (N. T.)
sonho também é o inconsciente, embora, na qualidade de corpo de imagens, faltem-lhe
os atributos da instantaneidade e continuidade que caracterizam o corpo físico.
O inconsciente, em si, é incognoscível; é uma realidade que se infere a partir de
coisas tais como movimentos corporais involuntários ou espontâneos e sonhos. Em
última análise, podemos concluir que o movimento corporal ou o estado onírico são
manifestações, não de inconsciência, mas de uma consciência que opera sobre nós e
dentro de nós. Certamente existem muitas pessoas que acreditam que o que hoje
consideramos o inconsciente é equivalente ao conceito tradicional de Deus como um
Ser interior que nunca dorme, como uma presença interior onisciente. Da mesma forma,
falo de Sofia ou da Virgem porque são os seres femininos divinos associados à
dimensão feminina de Deus. Ao localizá-los no inconsciente, estou seguindo o caminho
de Deus de fora para dentro, caminho que caracteriza o movimento da própria
consciência. Além disso, estou sugerindo que aquilo a que hoje chamamos de
inconsciente seja, em termos da realidade psicológica, a consciência que simplesmente
ficou tempo demais enterrada. Na alquimia, há o conceito do deus absconditus
(masculino), o deus escondido na matéria.1 Mas o inconsciente inclui, também, dea
abscondita, a Madona Negra, a deusa que escolheu se ocultar a fim de proteger a
humanidade das devastadoras conseqüências de matarem-na.
A sociedade moderna, numa escala muito maior do que nos damos conta, é
produto da declaração de Nietzsche: "Deus está morto". Entretanto nem Ele nem a
Deusa estão mortos. Estão apenas escondidos. Seu esconderijo é o inconsciente. Quando
não lhes for mais necessário esconderem-se para que possam proteger o homem de se
autodestruir ao destruir seus deuses, Deus e Deusa, juntos, reaparecerão. E quando isso
se der, veremos o que é o inconsciente: a consciência que Deus tem de sua criação, a
qual inclui a consciência que o corpo tem de si. Esse movimento Nietzsche identificou
com Dioniso.
O retorno de Deus é uma das mais antigas esperanças da raça humana. Toda
religião mundial tem-se apresentado em preparativos para Seu retorno. Toda religião
ainda aguarda por esse momento. O que implica essa expectativa? Já conhecemos Deus
em sua manifestação externa, por meio de suas leis, seus mandamentos, suas palavras.
Esse é Logos, o lado masculino de Deus. O que esperamos com sua Segunda Vinda é o
que nos falta: a dinâmica ou o processo interior de Deus. Isso — Deus em sua
criatividade e não em sua criação — é a essência do feminino, tradicionalmente
reencenado nos antigos Mistérios. O retorno, portanto, é o surgimento do lado feminino
de Deus que vem gradualmente ganhando forma nos últimos séculos, na dimensão que
chamamos de inconsciente. É chegado agora o momento de podermos lidar
criativamente com o conceito de Deus como união de opostos, e portanto ver o feminino
não mais sombrio, por trás de lentes masculinas, mas frente a frente, numa perspectiva
andrógina.
A Grande Mãe é o lado feminino de Deus. Na Bíblia, ela é Sofia (a Sabedoria);
no desenho feito por Leonardo Da Vinci (ver p. 177), ela é Sant’Ana, em cujo colo
senta-se a Virgem — o feminino tanto em homens como em mulheres, o Ser receptivo
em quem se reúnem o humano e o divino. É interessante assinalar que esse poderoso
tema foi retratado por Da Vinci num desenho extremamente frágil feito com lápis e
carvão, tendo de ser protegido por uma folha de vidro, que fica dentro de uma sala
escura no interior da Galeria Nacional de Londres. Se a luz do Sol entrasse nessa
câmara, o desenho terminaria por desaparecer completamente. Como símbolo do papel
que o feminino tem podido desempenhar no mundo patriarcal, talvez essa seja a mais

1 Ver Jung, "The visions of Zosimos" ,Alchemical studies, OC 13, par. 138.
exata das imagens que se poderíam conceber.
O termo "virgem" requer alguns esclarecimentos porque contém muitas
conotações religiosas e sociais. Não o estou empregando no sentido de castidade física,
nem com nenhum sentido ortodoxo relativo ao dogma da Igreja Cristã. Um estudo dos
variados conceitos que cercam a Virgem Maria, como Virgem Rainha, Noiva, Mãe,
Intercessora, é desenvolvido com eloqüência por Marina Werner em seu livro Alone of
ali her sex. Tendo examinado as contradições inerentes a essa mulher "ideal", ela
conclui:
A Virgem M aria inspirou algumas das mais elevadas formas arquitetônicas, algumas das mais
comoventes poesias e algumas das mais belas pinturas do mundo. Ela tem proporcionado a homens e
mulheres profundo júbilo e ardente confiança; tem sido uma imagem do ideal que vem cativando e
mobilizando homens e mulheres a experimentar as mais nobres emoções do amor, da piedade e da
reverência. Mas a realidade que seu mito descreve não existe mais; o código moral que ela defende está
esgotado...
Na qualidade de uma criação reconhecida da mitologia cristã, a lenda da Virgem perdurará em
seu esplendor e lirismo, mas será esvaziada de seu significado moral, perdendo assim seus poderes reais
presentes de curar e fe rir 2

Virgem Negra e Criança (século XV). Einsiedeln, Suíça. (Ver texto, p. 114)

2 Marina Warner, Alone o f all her sex, pp. 338-9.


A Virgem Maria é certamente um padrão arquetípico de feminilidade, apesar de
atravancado pelos temores e ideais de 20 séculos. Warner aponta, contudo, que
conforme o culto à Virgem foi se desenvolvendo Maria usurpou as qualidades das
deusas pagãs, e portanto ela incorpora muitos mais elementos do feminino sombrio do
que o patriarcado lhe permitiu.
Pois, ao mesmo tempo que M aria serve de foco para o mais puro ascetismo, ela também é o
maior dos símbolos de fertilidade. A montanha floresce espontaneamente; a mãe virgem também. A
antiga significação da Lua e da serpente como atributos divinos sobrevive em santuários como o cfe
M ontserrat, pois ali ela é venerada como fonte de fertilidade e deleite...
A imagem que existe nesse local é a Virgem Negra... Quando os artistas restauraram as imagens,
voltaram a pintar os mantos e as jóias que revestiam a M adona e a Criança mas, em sinal de reverência,
deixaram negras suas faces. Essa reverência, porém, não brotou só da simples veneração de suas sagradas
imagens... mas, provavelmente, também porque a m isteriosa e exótica escuridão de seus semblantes havia
de pronto inspirado um culto especial. Nos países católicos, em que o negrume é o ambiente dos
demônios e não dos anjos, e está associado quase que apenas à magia e ao ocultismo, as Madonas Negras
são consideradas especialmente capazes de operar maravilhas, como detentoras de conhecimentos e
poderes herméticos.
Na Sicília, floresceu o culto a Deméter, a deusa do milho, e foram escavadas estatuetas em sítios
arqueológicos mostrando que ela brincava nos braços com sua filha bebê Core-Perséfone, ou que a
embalava no ombro para dormir, compondo assim uma imagem muito próxima da de M adona com a
criança que havia em Ena... local em que Perséfone foi arrastada para o mundo inferior. Essa catedral
mantinha exposta em seu altar uma estátua grega de Deméter e sua filha...
Na qualidade de guardiã de cidades, nações e povos, como portadora da paz ou da vitória, sua
imagem como o paládio dos exércitos reais, a Virgem lembra Atena. Em Atenas, inclusive, ela
efetivamente usurpou a deusa grega da paz.3
São judaico-cristãs nossas raízes psíquicas, raízes que remontam a vários
séculos atrás, chegando até a absorver as primeiras deusas e cultos lunares. Nossas
vidas, no entanto, têm transcorrido sob o influxo da literatura, da música e da arte da
grande tradição cristã, e a energia arcaica que ecoa em nós, quando estamos
experimentando o plenilúnio, não ousa se separar da energia espiritual que ecoa quando
ouvimos o coro inteiro e a orquestra entoando o "Messias" de Handel, na Catedral de
São Paulo. Se o fizesse, estaria apenas criando outra cisão. Se o conceito da virgem e do
lado feminino de Deus (ou de Cristo) pode ser vivenciado de um novo modo, então as
algemas da ortodoxia podem ser removidas; uma fé nova e viva pode ressoar em nossas
vidas, oferecendo novas dimensões à nossa realidade física e espiritual, de tal sorte que,
em vez de sermos separados de nossa herança cultural, reunimo-nos com ela. O que
pareciam imagens mortas e versos decorados podem se tornar vivos, carregados de uma
profunda verdade interior e energia dinâmica.
Esther Harding, em Os mistérios da mulher, examina o significado original do
termo "virgem". Cito-a aqui numa passagem extensa, porque um aspecto sem o outro
distorceria de forma grosseira a unidade da imagem:
Entrar no bote da deusa implica aceitar a pulsão do instinto num espírito religioso como uma
manifestação da força de vida criativa propriamente dita. Quando essa atitude é alcançada, o instinto não
pode ser mais considerado uma vantagem a ser explorada para o bem da vida pessoal; em vez disso, deve
ser reconhecido que o eu pessoal, o ego, deve se submeter às exigências da força assim como o faria
perante um ser divino.
A principal característica da deusa, em sua fase crescente, é ser virgem. Seu instinto não é usado
para capturar ou possuir o homem que atrai para si. Ela não se reserva para o homem escolhido que deve
retribuir-lhe sua devoção, assim como tampouco seu instinto é usado para lhe conquistar a segurança de
um marido, de uma casa e de uma família. Ela permanece virgem, mesmo sendo deusa do amor. Ela é
essencialmente una-em-si. Não se reduz a ser apenas a contraparte feminina de um deus masculino com

3 Marina Warner, Alone o f allher sex, pp. 274-6,314.


características e funções similares, modificadas para se ajustar à sua forma feminina. Pelo contrário; ela
tem um papel a desempenhar que lhe é próprio, suas características não duplicam as de nenhum outro
deus. Ela é a Ancestral e a Eterna, a Mãe de Deus. O deus a quem está associado é seu filho e
necessariamente ela o precede. Seu poder divino não depende de seu vínculo com um marido-deus, e,
nesse sentido, seus atos não dependem de sua necessidade de apaziguá-lo, nem de ser cordata diante das
qualidades e atitudes dele. Pois ela é em si mesma a portadora do divino.
Nesse mesmo sentido, a mulher que é virgem, una-em-si, faz o que faz, não por causa de algum
desejo de agradar, ou de ser querida, ou aprovada, inclusive por si mesma, nem por causa de um desejo de
obter poder sobre alguém, ou atrair seu interesse ou amor, mas porque o que faz é verdadeiro.4

Essa é uma passagem crucial ao meu entendimento do termo "virgem" no


sentido em que o aplico neste estudo. Quando a virgem, entendida dessa maneira como
o ego ou a identidade feminina, está firmemente ancorada em sua própria sabedoria —
que tradicionalmente recorre na imagem do colo ou trono da Grande Mãe —, a mulher
autêntica emerge de sua própria herança biológica, cultural e espiritual.

O corpo como vaso sagrado

Todo arquétipo tem um lado negativo assim como um positivo. O aspecto


negativo da virgem pode ser talvez mais bem visualizado numa exigência paralisante de
perfeição. Nessa condição de paralisia, ela enverga o disfarce demoníaco da mãe
negativa ou bruxa. Distante da sabedoria do corpo, a virgem fica imobilizada. Para a
perfeccionista que se treinou a fazer, simplesmente ser parece tão-só um eufemismo
para nada, ou deixar de existir. Quando a energia que foi dirigida para tentar justificar
sua existência é redirecionada para a descoberta de si mesma e para amar a si própria,
irrompe na superfície uma intensa insegurança. Um vazio abissal questiona se ela está
mesmo ali ou não. Sua luta vitalícia pela perfeição criou bolsões de desespero. Essas
ansiedades e resistências devem ser respeitadas porque estão mascarando um terror e
uma fúria muito profundos, os quais devem ter permissão para vir à superfície só
quando o momento for apropriado, isto é, quando o ego estiver forte o suficiente para
lidar com tais emoções.
O primeiro obstáculo é o compromisso interior. "Eu realmente acredito que
valho uma hora por dia dedicada a mim? Eu que doei minha vida aos outros sou egoísta
o bastante para gastar uma hora por dia para me encontrar? Onde posso encontrar uma
hora? O que precisa sair?" Esse é um problema mais profundo do que pode parecer a
princípio, porque a mãe negativa odeia a alegria, e fazer qualquer coisa de que goste
produz culpa. Enquanto a pessoa estiver às voltas com suas responsabilidades, ainda que
de forma compulsiva, isso é aceitável. Parar de investir energia no dever, para poder
liberar algum montante para algo criativo para si própria, dá a sensação de ser jogada
dentro da lavadora de roupas que primeiro bate de um lado e depois do outro. Parar de
dar é cessar de ser mãe, e, como o ego está identificado com ser mãe, no começo ele não
sabe o que fazer. Está tão acostumada a dar que não acredita que sej a digna de receber,
ou então julga que receber é egoísmo ou depreciativo.
Assim que o ego se abre, no entanto, tão logo as energias esquecidas comecem a
fluir no dançar, pintar, cantar, a alegria não é mais vivida como egoísta ou lasciva mas
como uma absoluta necessidade. Então, a virgem negativa se torna positiva. E então o
perigo é querer muito cedo demais. O importante é concentrar a atenção, não no
objetivo, mas no processo. Estar no presente. Deixar o inconsciente agir. Northrop Frye,
numa palestra recente, citou um trecho dos Provérbios, em que Sabedoria proclama que
"existia desde o início dos inícios, desde o começo, desde o instante em que houve a

4 M. Esther Harding, Woman’s mysteries, pp. 146-7.


te rra " , e q u a n d o D e u s c rio u o c é u e a te r r a " e n tã o e s ta v a e u a o se u la d o , c o m o a q u e foi
c r ia d a j u n t o com ele ; e t o d o d ia e u e ra s e u d e le ite , s e m p re r e g o z ija n d o à s u a v o l t a " .5
F r y e a s s in a la q u e " re g o z ijo " é u m te r m o q u e v e m p a r a tr a d u z ir o te r m o r a iz d e " b rin c a r"
e p r e f e r ia a s c o n o ta ç õ e s d e " b rin c a r" . P a r a ele, a g a ro tin h a s a ltita n te é a im a g e m d a
s a b e d o ria . N e s s a im a g e m , n o m e u e n te n d e r, c o rp o e e s p írito sã o u m só; S o fia é o a m o r
e n tr e e le s.
O m e d o d e r e c e b e r e c o a n o s m a is p ro fu n d o s e s tra to s d a p s iq u e . R e c e b e r é
p e r m itir q u e a v id a a c o n te ç a , a b r ir - s e a o a m o r e a o d e le ite , a o s o f r im e n to e à p e rd a .
S o fia é a p o n te , o a m o r q u e a b re o c o rp o p a r a r e c e b e r o e sp írito . E x is te u m p ro b le m a
im e n s o , n o e n ta n to , q u a n d o a p e s s o a n ã o e s tá e n ra iz a d a e m se u c o rp o . Q u a n d o a m ã e
n ã o e s tá s u f ic ie n te m e n te e m c o n ta to c o m s e u c o rp o , e la n ã o c o n s e g u e o f e r e c e r à c r ia n ç a
a v in c u la ç ã o n e c e s s á r ia a in s tila r n e la u m a s e n s a ç ã o d e c o n f ia n ç a e m s e u s in s tin to s . A
c r ia n ç a n ã o c o n s e g u e s e s e n tir à v o n ta d e n o c o r p o d a m ã e n e m , m a is ta rd e , n o seu . O
m e d o la te n te d a v id a e d e s e r a b a n d o n a d a só é m in im a m e n te a te n u a d o , e o e g o
a te m o r iz a d o e s tá o t e m p o to d o c o r r e n d o o r is c o d e s e r tr a g a d o p o r f o r ç a s d e s c o n h e c id a s
q u e p o d e m a r r a s tá - lo , ta n to v in d a s d e fo ra c o m o d o in c o n s c ie n te . S o b re tã o f r á g e is
a lic e r c e s é c o n s tr u íd a u m a s o b r e - e s tr u tu r a ríg id a , baseada em v a lo r e s c o le tiv o s :
d is c ip lin a , e f ic iê n c ia , dev er. A e n e r g ia q u e q u e r f lu ir n o c ria r, n o v iv e r, n o b rin c a r, é
f o r ç a d a a e n c o n tr a r s a íd a e m c o m p u ls õ e s c e g a s.
Q u a n d o o e g o n ã o te m a e x p e r iê n c ia d e u m a s e g u ra n ç a c o n c re ta , f a lta - lh e a
im a g e m a p a r tir d a q u a l se c o n s o lid a r. S e a im a g in a ç ã o c ria tiv a n ã o r e c e b e te m p o o u
e s p a ç o p a r a c r ia r s e u s p r ó p r io s f u n d a m e n to s , e n tã o a p s iq u e fa z a ú n ic a c o is a q u e p o d e :
c o n c r e tiz a o s ím b o lo . N o c a s o d a o b e s id a d e , is s o s ig n ific a q u e a m ã e p o s itiv a a u s e n te é
c o n c r e tiz a d a p e lo c o rp o g r a n d e o b a s ta n te p a r a s e g u ra r o e s p írito a q u i e m b a ix o . Q u a n to
m a io r o r is c o d e d e s a p a r e c e r n o e s p írito , m a io r a c o m p u ls ã o a e m p a n tu r r a r d e p ã o o
e s tô m a g o . M a s o p ã o p o d e s e r s e n tid o c o m o u m a p e d ra , q u a n d o e s s e p r o c e s s o v a i lo n g e
d e m a is . P e r s e v e r a r n e s s e c o m p o r ta m e n to d e s tru tiv o , e s ta b e le c e r e s s a c o m p e n s a ç ã o
a lim e n ta n d o o s in s tin to s , a p e n a s a c e n tu a a c isã o .
O p ã o q u e v i r a p e d r a n a b a r r ig a d a o b e s a , d a a n o r é x ic a e d a b u lím ic a é u m a
p a r ó d ia c ru e l d o p ã o e s p ir itu a l q u e e la s n ã o c o n s e g u e m a s s im ila r. S u a c o n d iç ã o é
id ê n tic a à d o s c re n te s c u ja fé re s id e n a p a la v r a lite ra l, e m lu g a r d a s im b ó lic a , a q u e le s
q u e , p o r ta n to , n o s te r m o s d e S ã o P a u lo , s ã o " m o rto s p e lo v e rb o " q u e , se e s p ir itu a lm e n te
a s s im ila d o , d o a v id a . E s s a s p e s s o a s c o m p u ls iv a s s e n te m u m a a tra ç ã o fa ta l p e lo q u e é
lite ra l. I s s o é e v id e n te , p o r e x e m p lo , e m s u a p r o p e n s ã o a se c o n v e rte re m a c re n ç a s
f u n d a m e n ta lis ta s q u e r e je ita m a in te r p r e ta ç ã o s im b ó lic a d a B íb lia . A d e r r a d e ir a iro n ia
d e s u a s itu a ç ã o é q u e , e m s u a fo m e d e m ã e , n e g a m a m ã e . Q u a n to m a is a fu n d a m n a
m a té r ia , m e n o s s a tis f e ita s se s e n te m . Q u a n to m a is c o m e m , m a is s e n te m fo m e . N u m
n ív e l a in d a m a is tr á g ic o , p o d e m a c a b a r d e v o r a n d o se u c o ra ç ã o .
P a r a s a n a r e s s a c is ã o , é p r e c is o c h e g a r a o e n te n d im e n to c o n s c ie n te d o
c o m p o r ta m e n to d e s tr u tiv o , d is c e r n in d o o q u e e le e s tá te n ta n d o d iz e r. P o r q u e p r e c is o d e
c o m id a ? P o r q u e p r e c is o d e u m c o rp o g ra n d e ? P o r q u e p r e c is o d e c o is a s d o c e s ? Q u a l é
o b u r a c o n o c e n tr o ? Q u a l é o m e d o ? P a r a c a d a p e s s o a h a v e r á r e s p o s ta s d ife re n te s , m a s o
d iá lo g o c o m o c o r p o é c r u c ia l a o e n te n d im e n to . O p r o b le m a se s itu a e m a lg u m p o n to d a
m a tr iz m a te r n a . S u g iro q u e q u a n d o o r e la c io n a m e n to c o m o c o r p o é s e g u ro , m e s m o q u e
só r e la tiv a m e n te , o s s ím b o lo s p r e s e n te s n o s s o n h o s le v a m d e f a t o o e g o a u m a r e la ç ã o
c o m e s s a e n e r g ia in te r io r e tr a n s f o r m a m a v id a e x te rn a . E n tr e ta n to , q u a n d o o h ia to e n tre
c o r p o e e s p ír ito f o r tã o a c e n tu a d o q u e o s in s tin to s se e n c o n tr e m c o m p r o m e tid o s , a
p s iq u e p o d e a té e s ta r p r o d u z in d o im a g e n s c u ra tiv a s , m a s a e n e rg ia in s tin tiv a n ã o
c o n s e g u e c o n e c ta r - s e c o m e la s . O c o r p o q u e n ã o e x p e r im e n to u a s e g u r a n ç a n ã o

5 Provérbios 8:23, 30.


c o n s e g u e i m a g in á - la ; o te r r o r d a a n iq u ila ç ã o e s tá a p r is io n a d o n o s m ú s c u lo s d e ta l so rte
q u e , e m b o r a a m e n te e s te ja d e ix a n d o a s c o is a s a c o n te c e r, o c o rp o n ã o . E a s m e n s a g e n s
q u e d e v e r ia m e s ta r f lu in d o d o c o r p o p a r a o c é re b ro , p a r a f a c ilita r a tr a n s f o r m a ç ã o d a
e n e r g ia n e g a tiv a , n ã o c o n s e g u e m c o n c lu ir s u a tr a v e s s ia . A té d u r a n te a s e s s ã o d e a n á lis e ,
u m a c o n f ia n ç a c a d a v e z m a io r p o d e se e v id e n c ia r n o d iá lo g o a o m e s m o te m p o q u e o
c o r p o a in d a se c o n to r c e o u se m a n té m p e trific a d o . E a v o z , e m b o r a e n u n c ie o q u e
p a r e c e m s e r s e n tim e n to s sin c e ro s , a in d a c o n tin u a v in d o d a m e n te .
Q uando a m a tr iz m a te r n a l e s tá c o m p r o m e tid a , a c ria n ç a n ã o c o n s e g u e se
e n r a iz a r e m s e u p r ó p r io c o rp o , e p o r m a is q u e se e s fo rc e te n ta n d o e n c o n tr a r s e g u ra n ç a
n a m e n te s e m p r e se rá , e m a lg u m n ív e l, d e p e n d e n te d o s o u tro s e, p o rta n to , s e n tin d o o
m e d o d e s e r a b a n d o n a d a . A p s iq u e f a r á tu d o o q u e e s tiv e r a o se u a lc a n c e p a r a o f e r e c e r
b a s e s s e g u ra s p a r a a c u r a se d a r, m a s , se a s m e n s a g e n s p r o v e n ie n te s d o c o rp o fo re m
e x p e r im e n ta d a s c o m o c o n tr a d itó r ia s e m re la ç ã o à s q u e o s s o n h o s e n v ia m , e n tã o o
p r o c e s s o d e r e tif ic a ç ã o n ã o p o d e o c o rre r. A s o m b ra e s tá n o c o rp o , lo n g e d e m a is d a
c o n s c iê n c ia p a r a a p a r e c e r n o s s o n h o s , e n ã o h á S o fia c o n s c ie n te o b a s ta n te p a r a fa z e r a
lig a ç ã o e n tr e c o rp o e p s iq u e . E n tã o M a te r se c o n c re tiz a e m m a té ria e m a n té m s ó lid o n a
c a r n e o q u e d e v e r ia s e r m a n tid o j u n t o p e lo a m o r. A s e s s ã o d e a n á lis e , o u o tr a b a lh o
p r á tic o c o m o c o rp o , p o d e m s e r v ir d e e s p a ç o p a r a q u e o a m o r c o m e c e a se in c o r p o r a r e
in v e r ta o p r o c e s s o , d a m a té r ia e m M a te r.
O s w o r k s h o p s q u e e v o lu ír a m d e m in h a p r á tic a sã o u m a e x p e riê n c ia d ife re n te
p a r a c a d a p a r tic ip a n te , p o r q u e c a d a u m p a s s o u p o r a n á lis e s u fic ie n te p a r a e s ta r b e m
in s ta la d o e m s e u p r ó p r io c a m in h o ; n o s s o o b je tiv o p r in c ip a l é s im p le s m e n te c r ia r u m
e s p a ç o n o q u a l o c o rp o p o s s a f a la r à p e s s o a . S e m s o m b ra d e d ú v id a , e n tra e m o p e ra ç ã o
u m a d in â m ic a g r u p a i m a s , e m b o r a o g r u p o s e ja r e s p e ita d o c o m o te m e n o s , c a d a u m n o
in te r io r d e le e s tá c ie n te d a n e c e s s id a d e d e m a n te r s e u p r ó p r io e s p a ç o s a g ra d o . O s
s ím b o lo s p a r tic u la r e s s ã o r e s p e ita d o s c o m o m in ú s c u la s s e m e n te s q u e p r e c is a m g e r m in a r
e m s e u p r ó p r io s o lo e s c u r o a n te s d e c h e g a r e m à lu z d o S o l, d a m e s m a f o r m a c o m o o s
s o n h o s p r e c is a m m a n te r s ilê n c io e n q u a n to o p ro c e sso d e tr a n s f o r m a ç ã o e s tá se
d e s e n ro la n d o . E x p ô - l a s c e d o d e m a is à lu z é c o n ta m in á - la s c o m o m a te ria l d a s o u tra s
p e s s o a s , o u m in á - la s c o m e x c e s s o d e c o n s c ie n tiz a ç ã o , o u d e s c a r r e g a r a te n s ã o d e ta l
m o d o q u e n ã o a c o n te c e n e n h u m a tra n s fo rm a ç ã o .
A p r o p o s ta d o s w o r k s h o p s n ã o é a p e r d a d e p e s o o u m a lh a r o c o rp o , e m b o r a
e s s a s c o is a s p o s s a m a c o n te c e r e m d e c o r r ê n c ia d o tra b a lh o . O o b je tiv o é in te g r a r c o r p o e
p s iq u e : r e c o lh e r o s s ím b o lo s d e c u r a d o s s o n h o s , c o lo c á - lo s n a s á re a s in c o n s c ie n te s d o
c o r p o e p e r m itir q u e s u a e n e r g ia e fe tu e o tr a b a lh o d e c u ra . U m d o s p e rig o s d a a n á lis e é
q u e im a g in a m o s te r f e ito o tr a b a lh o q u a n d o a c h a m o s q u e e n te n d e m o s a s im a g e n s
o n íric a s ; f ic a m o s f a s c in a d o s p e la s in te rp re ta ç õ e s . S e o s ím b o lo n ã o f o r c o n te m p la d o ,
e n tr e ta n to , s e u p o d e r c u r a tiv o se p e rd e . T e m d e e n tr a r n o fo g o d o c o ra ç ã o p a r a p o d e r s e r
tr a n s f o r m a d o . C o m o a s s in a la v o n F ra n z : " A e m o ç ã o é a p o r ta d o r a d a c o n s c iê n c ia " .6
C a d a w o r k s h o p c o m e ç a c o m r e la x a m e n to , p a r a p e r m itir q u e o c o r p o e n c o n tr e
s e u s p r ó p r io s ritm o s . E d a d a ê n f a s e à r e s p ir a ç ã o n a tu ra l e à r e s p ir a ç ã o f o c a liz a d a , p a ra
d e s p e r ta r e m o b iliz a r a s e m o ç õ e s p re s a s n o s m ú s c u lo s . E n q u a n to a re s p ira ç ã o n ã o f o r
n a tu ra l, a s im a g e n s c o m fr e q ü ê n c ia fic a m p re s a s n o c é re b ro . O m e d o e a a n s ie d a d e
b lo q u e ia m nossa r e s p ira ç ã o . D esde bem cedo na v id a a p re n d e m o s que to d a
d e m o n s tr a ç ã o d e s e n tim e n to s a rc a ic o s o u p r im itiv o s é in a c e itá v e l, e ta m b é m
a p r e n d e m o s ( in c o n s c ie n te m e n te ) q u e a m a n e ir a d e c o n tr o la r a s e m o ç õ e s in te n s a s é
d e ix a n d o o m e n o s p o s s ív e l e n tr a r a r d o p e s c o ç o p a r a b a ix o . A s re s p ir a ç õ e s c o m p le ta s e
p r o f u n d a s q u e d e v e r ia m a lim e n ta r o s ó rg ã o s v ita is , n ã o só c o m o x ig ê n io mas ta m b é m
c o m a c o n s c iê n c ia d a s e m o ç õ e s , s ã o re tid a s r ig id a m e n te n o a lto d o p e ito , e o v e n tr e

6 Von Franz, Alchemy, p. 252


a r r e d o n d a d o q u e a c o m p a n h a a r e s p ir a ç ã o p r o f u n d a é ta b u n o m u n d o d a m o d a . T o d a a
d iv e r s id a d e d a s e m o ç õ e s f ic a tr a n c a d a , a b a ix o d o p e s c o ç o , e o u v im o s q u e ix a s
c o n s ta n te s d e to r c ic o lo s , o m b r o s d o lo rid o s , d o re s n a s c o s ta s , q u a n d o o f a r d o se to r n a
e x c e s s iv o . Q u a n d o o s o p ro d o e s p írito (o m a s c u lin o ) n ã o te m p e r m is s ã o p a r a p e n e tr a r a
m a té r ia d o c o r p o (o fe m in in o ) , n ã o é p o s s í v e l a c o n c e p ç ã o . N o s s a s o c ie d a d e te n d e a
r e je ita r o c o r p o c o n s c ie n te , o c o n tin e n te n a tu ra l d o s o p ro d iv in o ; o q u e c e le b ra , e m v e z
d is s o , é a m á q u in a s e m fa lh a s c u jo íc o n e é u m c a d á v e r n a c a p a d a V o g u e . N o s s o s c o rp o s
se to r n a r a m tã o r íg id o s e d e m a r c a d o s p e la s e m o ç õ e s n ã o - e x p r e s s a s q u e n ã o h á lu g a r
n e le s p a r a a c r ia tiv id a d e . S e v o c ê d u v id a d is s o , p e n s e e m q u a n to s b a n h e ir o s n o s o n h o
v o c ê n ã o p o d e e n tra r: b a n h e ir o s e n tu p id o s , b a n h e ir o s q u e tr a n s b o r d a m , o u q u e n ã o se
c o n s e g u e m e n c o n tr a r , q u e f ic a m n o m e io d a s a la , e x ib in d o c o n te ú d o s a b s u rd o s . N o
N o v o T e s ta m e n to , is s o e s tá e x p r e s s o d e m a n e ir a m a is re fin a d a : " N e m o s h o m e n s
c o lo c a m v in h o n o v o e m g a r r a f a s v e lh a s p o is e la s p o d e m q u e b r a r " .7 A e x p re s s ã o
b lo q u e a d a le v a à d e p re s s ã o , e, e m ú ltim a a n á lis e , e s ta p r o v o c a u m c o la p s o .
O s o n h o s e g u in te d e ix a c la ro o p o d e r do p n e u m a (d o g re g o , s ig n if ic a n d o s o p ro
o u e s p írito ):

Estava num quarto grande com uma m ulher morta num ataúde. Eu estava com ela. As pessoas
entravam para prestar-lhe seus respeitos. Alguém percebeu que ela se mexera um pouco. Mais tarde virei-
me para olhá-la e as roupas dela estavam desalinhadas. Logo senti seus movimentos mesmo estando de
costas para ela. Aproximei-me dela, enlacei-a e falei com ela. Ela reviveu. Atravessamos a porta e
chegamos do lado de fora. Ela disse: "Obrigada por me ajudar a vencer essa crise de pneumonia".

E sse sonho fo i n arrad o por um a m u lh e r d e m e ia - id a d e c u ja s em oções e


s e n tim e n to s tin h a m s id o e m u d e c id o s n a in f â n c ia p o r u m c o m p le x o d e m ã e n e g a tiv a . O s
a c o n te c im e n t o s d e s u a v id a tin h a m -s e to r n a d o d o lo r o s o s d e m a is p a r a s e re m v is to s
d ir e ta m e n te ; o c u lta n d o s e u s p a d e c im e n to s e la c o n tin u o u a d ia n te , c o m ta n ta c o ra g e m
q u a n to p o s s ív e l, m a n te n d o s e u c a s a m e n to e se u tra b a lh o . P a s s o u p e la v id a , d iria -s e , d e
m o d o f ig u r a tiv o — e, m u ita s v e z e s , lite ra lm e n te — s e g u ra n d o o fô le g o , q u e e r a u m a
r e a ç ã o a u to m á tic a a o m e d o q u e se n tia . E n tre g a r-s e , d e ix a r a s c o is a s a p e n a s a c o n te c e r
s e r ia o m e s m o q u e se r e n d e r a o in im ig o . S u a r e s p ir a ç ã o s u p e rfic ia l d is ta n c ia v a - a d e se u
p r in c íp io fe m in in o , p r o f u n d a m e n te e n te r r a d o e m se u ín tim o ; p o rta n to , s o fria d e d o r n o
c o ra ç ã o . A c e ita v a p r o n ta m e n te a s m e n s a g e n s d o s s o n h o s , e ta m b é m e s ta v a c a d a v e z
m a is a d m itin d o a p r o g r e s s iv a d is tâ n c ia e n tre a c a b e ç a e o c o r p o — o u , m a is e x a ta m e n te ,
e n tr e o e s p ír ito e a m a té ria .
N o e s f o r ç o d e r e f a z e r a lig a ç ã o e n tre s e u s s e n tim e n to s e a in tro v is ã o , fe z
e x e r c íc io s d e r e la x a m e n to e le v o u , c o n s c ie n te m e n te , a r a té a s á re a s in c o n s c ie n te s d e se u
c o rp o . E m p o u c o s d ia s , o a m o r q u e in v e s tiu n e s s e ritu a l r e n d e u ju r o s , n a f o r m a d o
s o n h o a n te r io r m e n te d e s c r ito e d e u m a re n o v a d a s e n s a ç ã o d e v id a q u e v e io c o m ele. A
c a b e ç a r e c o n h e c e ; o c o r p o e x p e r im e n ta . S e m d ú v id a , a f r a s e in tr o d u tó r ia " E s ta v a n u m
q u a rto g r a n d e c o m u m a m u lh e r m o rta " ilu s tra o q u a n to é c ru c ia l p a ra n ó s to d o s
e n c o n tr a r n o s s a p r ó p r ia fo n te c ria tiv a , p o rq u e a n a tu r e z a a p r e s e n ta s u a c o n ta se n ã o
o b e d e c e m o s a n o s s o s in s tin to s . E c e r ta m e n te a ú ltim a s e n te n ç a — " O b rig a d a p o r m e
a ju d a r a v e n c e r e s s a c r is e d e p n e u m o n ia " — id e n tif ic a o p n e u m a , o e s p ír ito c ria tiv o ,
c o m o o e lo d e lig a ç ã o . E n q u a n to M e d u s a d e s e ja q u e tu d o s e ja p e r m a n e n te e p e rfe ito ,
e n ta lh a d o e m p e d r a , S o fia q u e r a s c o is a s se m e x e n d o , re s p ira n d o , c ria n d o .
A s s im q u e o c o r p o e s tá r e la x a d o e o e s p ír ito c r ia tiv o flu i e n tr e c a b e ç a e c o rp o ,
n o s s o s w o r k s h o p s se c o n c e n tr a m n o s s ím b o lo s q u e s u rg ira m n o s s o n h o s . A s p e s s o a s
tra b a lh a m in d iv id u a lm e n te c o m s e u s c irc u ito s e n e r g é tic o s p ró p rio s , te n ta n d o id e n tif ic a r
o n d e o c o r p o é c o n s c ie n te e o n d e é in c o n s c ie n te , d if e r e n c ia n d o e n tre r e a ç õ e s h a b itu a is e

7 Mateus, 9:17.
r e s p o s ta s c o r p o r a is c o n s c ie n te s . O nde a m u lh e r d e sc o b re que seu c o rp o e s tá
" e n e g re c id o " — is to é, a e n e r g ia se r e c u s a a e n tr a r n e s s a á re a — , e la e x p e r im e n ta p e g a r
u m s ím b o lo p o s itiv o d e c u r a d e u m d e se u s s o n h o s e l e v á - l o a té e s s a á re a ,
c o n c e n tr a n d o - s e n e le a té q u e a e n e r g ia c o m e c e a se m o v e r e tra n s fo rm a r. E s s e é u m
p r o c e s s o m u ito d if e r e n te d e c o n c r e tiz a r o s ím b o lo , o u d e c o n s id e r á - lo lite ra lm e n te . J u n g
a c r e d ita v a q u e a c u r a e s ta v a n o s ím b o lo , p o is e s te re ú n e c o rp o , m e n te e a lm a p o r m e io
d a im a g in a ç ã o c ria tiv a . O p o e ta e m c o n ta to c o m o in c o n s c ie n te c o le tiv o r e c o lh e o
s ím b o lo e x a to q u e , a o s e r lid o , n o s fa z a r r e p ia r a p e le , c o lo c a s e n tid o n a n o s s a m e n te ,
n o s tr a z lá g r im a s a o s o lh o s . P o r u m m o m e n to , s o m o s u m . É a s s im q u e , q u a n d o o jo v e m
E T a b a n d o n a d o d o f ilm e d e S te v e n S p ie lb e rg m u rm u ra : " P a ra c a s a , E llio tt, p a r a c a s a " ,
m ilh õ e s d e p e s s o a s e m to d o s o s p a ís e s c h o ra m . E m n o s s o s w o r k s h o p s , m e d ita m o s s o b re
n o s s o s s ím b o lo s in d iv id u a is te n ta n d o c r ia r h a r m o n ia e n tre c o rp o , m e n te e a lm a .
U m a p a r tic ip a n te , S y lv ia , j á f a z ia a n á lis e e p a r tic ip a v a d e w o r k s h o p s h a v ia d o is
a n o s . A o lo n g o d e to d a a v id a m a n tiv e r a u m a re la ç ã o b a s ta n te a m b iv a le n te c o m o p ai.
A te r r o r iz a v a - s e a o c h e g a r p e r to d e le , m a s a o m e s m o te m p o a d o r a v a - o e s e m p re te n ta r a
s e r a " q u e r id in h a d o p a p a i" . Q u a n d o c ria n ç a , to d a v e z q u e fic a v a z a n g a d a s u a m ã e d iz ia :
" V o c ê é b r a v a c o m o u m a v e s p a " . S e m p re fo ra p r o p e n s a a g rip e s m u ito in te n s a s e
in f e c ç õ e s re s p ir a tó r ia s . N a é p o c a e m q u e te v e o s o n h o s e g u in te , e s ta v a , p e la p r im e ir a
v e z n a v id a , t e n ta n d o d e f e n d e r s u a s o p in iõ e s n o tra b a lh o . R e c o n h e c ia s e u s ta le n to s
p e s s o a is e e s ta v a d e te r m in a d a a o b te r r e c o n h e c im e n to para e le s m a s , às v e z e s , is s o
im p lic a v a z a n g a r - s e c o m o s c o le g a s , e a s filh in h a s d e p a p a i n ã o fa z e m isso . E is o so n h o :

Entro num a sala com meu pai. Há vespas voando para todo lado, grandes e pretas. Meu pai
atravessa rapidamente a sala e entra em outro aposento.
Devo segui-lo, mas as vespas me assustam. Observo uma das grandes na minha mão, tento
sacudi-la mas ela não sai. Acho que não posso entrar no outro aposento com aquela vespa enorme na
minha mão. Chamo por meu pai para que venha e me ajude, mas ele não vem. Acordo aterrorizada.

E la d e s p e r to u d e s s e s o n h o s e n tin d o u m m e d o " h o rre n d o " , m u ito m a is in te n s o d o


q u e n a v id a re a l. N o d ia s e g u in te s e n tiu u m a g ra n d e te n s ã o n o s o m b ro s e te v e d o r d e
c a b e ç a . S u a c a b e ç a p e s a v a e m r a z ã o d o re s fria d o . N e s s a n o ite , n o w o r k s h o p , p a s s o u
p e la s e g u in te im a g in a ç ã o a tiv a :

A vespa enorme está em minha mão (como no sonho). Eu lhe pergunto se ela quer entrar em
meu corpo. Ele voa até a porta por onde meu pai passou mas ela está fechada; ela volta para a minha mão.
Eu lhe pergunto de novo se ela quer entrar em meu corpo. Ela sobe pelo meu braço até ficar embaixo do
meu queixo e sobe pelo lado direito do meu rosto até chegar no nariz. Ali ela pousa. Pergunto se ela pode
falar comigo. Ela zumbe. Pergunto se pode me explicar seu significado. Ela zumbe. Pergunto se pertence
à minha cabeça e ela zumbe um nítido sim. Depois, sobe pela minha narina direita até a cavidade nasal,
que está congestionada. Ela sobe e sai pela narina esquerda. Nesse ínterim, pergunto se ela está
procurando uma casa para si ali dentro (ela me lembra as câmaras de argila que as vespas constróem). Ela
zumbe. Sai da narina esquerda carregando o que parece um pedaço de pele ou tecido. Depois sai voando
com a pele e pousa na palm a da minha mão esquerda. Deixa a pele cair e sai voando. A pele se transforma
numa cobrinha enrolada. Todos os meus dedos têm cabeças de cobras, minha mão está aquecida e viva,
com energia. A energia sobe pelo meu braço, atravessa os ombros e desce pelo meu braço direito onde
agora todos os dedos têm rabo de cobra. Meus pés também começam a formigar com a energia.
P.S.: É importante reconhecer meus sentimentos pela enorme vespa. Acordei aterrorizada por
causa dela, fiquei bastante apreensiva de conjurá-la novamente, mas eu sabia com muita clareza que era
preciso. Custou-me tudo o que eu tinha deixá-la rastejar até entrar no meu nariz e quase encerrei ali o
exercício. Foi só a genuína tentativa da enorme vespa de se comunicar que me tranqüilizou de que isso
explicaria seu significado.

S y lv ia d is s e q u e c o n s id e r a v a a e n o rm e v e s p a se u " la d o in s tin tiv o n e g a tiv o " , q u e


s e u p a i p a r e c ia c o n s te la r:
Eu o considerava negativo mas, na verdade, era positivo. Sempre achei a raiva algo feio — raiva
de animus, como a minha mãe despedaçando as pessoas. Mas, depois dessa experiência, consegui entrar
no escritório e dar vazão à minha raiva, bater o pé e dar socos na mesa, o que antes eu nunca fizera em
minha vida. Estava com raiva. Uma verdadeira energia masculina foi descarregada. Não era uma raiva
feminina. Quando meu feminino está enraivecido, meus olhos ficam arregalados, minhas narinas abrem,
labaredas cospem de mim. Não, aquela era uma raiva masculina. Eu estava me posicionando
profissionalmente. M inha cabeça clareou e eu pude sentir melhor o cheiro de tudo, desde aquele
momento.
A e n o r m e v e s p a a q u i fo i u m s ím b o lo d a r a iv a q u e p r e c is a v a se r d e s c a rre g a d a ,
r a iv a q u e e s ta v a a s s o c ia d a c o m s e r a f ilh in h a d e p a p a i. Q u a n d o a q u e la r e m o v e u a p e le e
d e s o b s tr u iu a c a v id a d e , a p e le q u e tin h a f u n c io n a d o c o m o b lo q u e io fo i tr a n s f o r m a d a n a
f o r ç a v ita l d e u m a s e rp e n te . T o d o s o s d e d o s a s s u m ira m e s s a e n e rg ia , q u e se e s te n d e u a té
o s o m b r o s , d e s c e u p e lo o u tr o b r a ç o e a c a b o u o c u p a n d o , e n fim , o c o r p o to d o . E s s a
e n e r g ia to r n o u - s e im e d ia ta m e n te d is p o n ív e l n a v id a d e S y lv ia : a r a iv a tr a n s f o r m a d a e m
c o n f ia n ç a p r o f is s io n a l e p e s s o a l.
U m a s p e c to d a im a g in a ç ã o a tiv a d e S y lv ia s o b re o s o n h o c o m a e n o rm e v e s p a é
o m o tiv o d o in c e s to . D if e r e n te m e n te d e F re u d , J u n g a c r e d ita v a q u e o in c e s to , e m te r m o s
s im b ó lic o s , n ã o é n e c e s s a r ia m e n te r e g r e s s iv o (v er a d ia n te , p. 1 91). O ta b u a s s o c ia d o ao
in c e s to p r o p r ia m e n te d ito in ib e , d e fa to , a r e g r e s s ã o in fa n til, m a s a in te n ç ã o d e le é
r e d ir e c io n a r a e n e r g ia p a r a u m a fin a lid a d e s u p e rio r e m q u e a f ig u r a d o p a i d e s e m p e n h a
u m p a p e l im p o r ta n te n o e s ta b e le c im e n to d e u m g e n u ín o e g o fe m in in o . N a m e d ita ç ã o d e
S y lv ia , o in c e s to e s tá n o s e r v iç o a tiv o p re s ta d o à v irg e m . A tr a n s f o r m a ç ã o d a e n o rm e
v e s p a e m s e r p e n te s q u e a tiv a m s e u s d e d o s in d ic a a tr a n s f o r m a ç ã o d e se u m e d o
in c o n s c ie n te d e in c e s to n u m a a f ir m a ç ã o p o s itiv a d e s e u a m o r p o r s u a p r ó p r ia n a tu r e z a
fe m in in a . O r e d ir e c io n a m e n to d a e n e r g ia in c e s tu o s a re m o d e la , c o m o a s m ã o s d o
e s c u lto r , o p a i te m id o n u m a f ig u r a p o s itiv a e q u e rid a , c u ja a f ir m a ç ã o d a n a tu r e z a
f e m in in a , tã o f o r te m e n te lo c a liz a d a p o r S y lv ia e m se u c o rp o , se to r n a u m a a f ir m a ç ã o d e
si m e s m a . O q u e m a is se d e s ta c a n e s s a m e d ita ç ã o é o ín tim o c o n ta to d e S y lv ia c o m a
s a b e d o r ia f e m in in a d o c o rp o . N e s s a re c e n te d e s c o b e r ta d e s u a v irg in d a d e , e la se s e n to u
n o c o lo d e S o fia .
A e n e r g ia in c o n s c ie n te , p re s a n o c o rp o , pode se s o lta r o u n ã o de m odo
a u tô n o m o . A s e m e lh a n ç a d e s e n tim e n to s in c o n s c ie n te s , a p e n a s r e a g e c o m o u m a n im a l.
N ã o é u m a e n e r g ia r e d im id a , p o s to q u e n ã o se e n c o n tra so b c o n tro le c o n s c ie n te .
E n q u a n to e s s a e n e r g ia f a z o q u e q u e r, e n c o n tr a m o - n o s a tu a n d o n o s s o s a f e to s d e
m a n e ir a p u r a m e n te a n im a l. O o b je tiv o , n a a n á lis e , é le v a r a m a g n íf ic a e n e r g ia d o c a v a lo
s e lv a g e m a o c o n tr o le d o c a v a le ir o , s e m r e c o r r e r a o c h ic o te q u e a n iq u ila r á s e u e s p írito .
O q u e d e s c o b r im o s n o tr a b a lh o c o rp o ra l ( c o m o n o tr a b a lh o c o m s o n h o s ) é
q u a n ta e n e r g ia f ic o u a p ris io n a d a . A s s im q u e e la é lib e r a d a (o q u e a c o n te c e m u ito
ra p id a m e n te ), h á o g r a n d e p e r ig o d e a c e itá - la se m re s e rv a s , c o m o u m a g r a ç a sa lv a d o ra .
M a s e s s a é a e n e r g ia d a s o m b r a e o q u e e s ta q u e r te m d e s e r m e d ia d o p o r u m a
c o n s c iê n c ia c iv iliz a d a . A s o m b r a n ã o o u s a s e r s im p le s m e n te a c o lh id a c o m o u m a irm ã
h á m u ito p e rd id a . O e g o d e v e m a n te r u m a s a u d á v e l su sp e ita . A p e n a s d a r v a z ã o à
s o m b ra , a o la d o a té e n tã o in c o n s c ie n te d a p e r s o n a lid a d e , n ã o é in te g rá -la . A in te g ra ç ã o
e x ig e q u e se m a s tig u e b e m o m a te r ia l p r im itiv o p a r a q u e se p o s s a d ig e ri-lo .
P r o p o r c io n a r c o n s c iê n c ia a o s in s tin to s , p e r m itir a o e g o r e c o n h e c ê - lo s e a in d a a ssim n ã o
lib e r á - lo s im p u ls iv a m e n te é c o lo c a r u m c a v a le iro n o d o rs o d o c a v a lo e d e ix a r q u e to m e
a s d e c is õ e s . I s s o é c o lo c a r a n a tu r e z a h u m a n a c iv iliz a d a a c a r g o d o s in s tin to s , e n v o lv id a
d e m a n e ir a r e s p o n s á v e l c o m o r u m o q u e a e n e r g ia q u e r to m a r.
O s o n h o a s e g u ir ilu s tr a o r e la c io n a m e n to p r o g r e s s iv o e n tre c o r p o e e s p írito
n u m a m u lh e r d e p o u c o m a is d e 3 0 a n o s, q u e tin h a fe ito to d o u m tra b a lh o d e tre in o
p r o f is s io n a l c o m o c o rp o , m a s só h á p o u c o te m p o a p r e n d e r a a a m á - lo :
Amanhece e é domingo. As ruas da cidade estão desertas. Estou galopando Leah (uma égua
magnífica) pelo lado esquerdo da rua, que vai até o coração da cidade. Ela responde imediatamente ao
toque de meus joelhos, ou ao movimento das rédeas. Meus comandos são desajeitados e fico maravilhada
com a precisão desse animal fantástico em reagir à direção que lhe dou, e ele compensa minha falta de
destreza como amazona. Sinto-me em casa, no controle. Ou é Leah que está no controle? Ela é confiante,
cheia de energia. Ela e eu somos um a só.
Levo-a até o pasto. Sussurro em seus ouvidos: "Você é maravilhosa!", responde imediatamente,
acariciando o meu rosto com seu focinho, entendendo e amando. Depois a dona dela me diz: "Leah não
tem feito muitos exercícios ultimamente. Ela é doce". A dona tem a intenção de fazê-la exercitar-se cinco
vezes ao dia.

O a m o r q u e é m o b iliz a d o e m r e c o n h e c e r e s s a e n e r g ia e e m p e r m itir - lh e v iv e r e
m a n if e s ta r - s e n a v id a f a z p a r te d o q u e é s im b o liz a d o p e la S a b e d o r ia d e S o fia . P e r m itir
q u e e s s a e n e r g ia a n im a l se tr a n s f o r m e n u m a e n e r g ia e s p iritu a l é o u tro a s p e c to d e S o fia.
O s p o d e r o s o s im p u ls o s in s tin tiv o s sã o s a g ra d o s , p o ré m o e g o te m d e p o n d e r a r p a r a
p o d e r t r a n s f o r m a r a e n e r g ia a n im a l e m f o r ç a e s p iritu a l. M a r ia s e n ta d a n o c o lo d a
G r a n d e M ã e é u m a im a g e m q u e r e c o n h e c e e s s a tr a n s f o r m a ç ã o . D e s s e a lic e rc e , p o r m e io
d e r e f le x õ e s , v ê m o s s e n tim e n to s in d iv id u a is p r ó p r io s d a m u lh e r. S o m e n te e n tã o e la se
to r n a c a p a z d e r e la c io n a r - s e p e la e m p a tia , e m lu g a r d e p e la d e p e n d ê n c ia o u p e lo p o d e r.
E n tã o e la p o d e d e s a g r a d a r à m ã e , à m ã e - m a r id o , à m ã e - I g r e ja , e s a b e r q u e e s tá a g in d o
c o m b a s e e m s u a p r ó p r ia in d iv id u a lid a d e . N o v ir g in a l, re ú n e m -s e o d iv in o e o h u m a n o .
N o s s o s w o r k s h o p s tr a n s c o r r e m e m e s tá g io s b a s ta n te e x p e rim e n ta is .
E s s e n c ia lm e n te , n ó s p a r e c e m o s e s ta r e v o lu in d o n a m e s m a d ire ç ã o q u e J o a n
C h o d o r o w d e s c r e v e e m s e u tr a b a lh o :

Embora a propensão básica da pessoa possa permanecer uma ou outra, o movimento autodirigido
tende a desenvolver um relacionamento tanto com o reino sensorial como com o imaginário. Quando a
sensação experimentada no corpo emerge como ação física, pode aparecer uma imagem que outorga
significado ao movimento. Ou, quando uma imagem emerge como ação física, a vivência proprioceptiva
cinestésica pode facilitar para a pessoa a vinculação com seu corpo instintivo. As mais ricas experiências
de movimentação parecem envolver tanto a sensação como a imagem, quer flutuando seqüencialmente
um a após a outra, quer ocorrendo simultaneamente.8
E s s a é a n o s s a f ilo s o fia b á s ic a n o s w o r k s h o p s , u m a f ilo s o fia tã o a n tig a q u a n to o
ta n tr a y o g a . N o e n ta n to , p a r a a q u e le s d e n ó s q u e e s tã o e x p e r im e n ta n d o o e s p írito
tr a n s f o r m a n d o - s e e m m a té r ia , e e s ta e m e s p írito , o n o s s o w o r k s h o p é u m lo c a l p a r a o s
M is té r io s fe m in in o s .
N o d e c o r r e r d e s te e s tu d o , te n h o f o c a liz a d o a v irg e m c o m o u m "m o d o " fe m in in o
d e c h e g a r n a c o n s c iê n c ia . E lu c id a n d o o ta o , J u n g e s c re v e :

Se considerarmos o tao como o método ou meio consciente por meio do qual unir o que está
separado, provavelmente teremos chegado perto do significado psicológico desse conceito.9

A v ir g e m te m d o is la d o s , e q u a n d o o p o d e r d o la d o e s c u ro é b lo q u e a d o , e le p o d e
irro m p e r. S e u m a m u lh e r v iv e u so b o p e tr ific a n te e n c a n to d e u m a b r u x a m a lig n a , e la
q u a s e n ã o te m e g o p a r a c o n te r e s s a e n e rg ia . N e s s e c a s o , o e g o d e v e s e r c u id a d o s a m e n te
p r e p a r a d o p a r a q u e se e v ite u m e p is ó d io p s ic ó tic o o u u m a r e g r e s s ã o à c o m p u ls ã o . A
v ir g e m é u m " c a m in h o " p a r a o e g o fe m in in o se e n c a m in h a r r u m o à c o n s c iê n c ia .
U m p a d r ã o b i p o l a r q u e e m e r g e n a s itu a ç ã o d o w o r k s h o p é o a s p e c to b ip o la r d a
D e u s a . S y lv ia B r in to n P e r e r a , e m D e s c e n t to th e g o d d e s s , d e ix a m u ito c la ro e sse d u p lo
r e la c io n a m e n to (n o w o r k s h o p a s p e s s o a s sã o liv re s p a r a p a r tic ip a r o u n ã o , d a n d o a s s im
e s p a ç o p a r a q u e o s d o is a s p e c to s p o s s a m s e r v iv e n c ia d o s ):

8 Joan Chodorow, "Dance movement and body experience in analysis".


9 Jung, "Commentary on 'The secret of the golden flower'", Alchem icalstudies, oc 13, par. 30.
Psicologicamente, vemos esses dois padrões de energia nas modalidades empática e auto-
isolacionista, básicas à psicologia feminina, em relação a todos os parceiros internos e externos — filhos,
projetos criativos, amores, e até mesmo as próprias emoções, percepções e os pensamentos autônomos da
mulher. O envolvimento ativo que quer o outro, que enlaça o vínculo num abraço afetuoso ativo e
contundente, eis Inanna; o rodeio que vem e vai, desinteressado do outro, isolado, até mesmo frio, eis
Ereshkigal...
O que se encontra reprimido naquelas filhas intelectuais movidas a realizações profissionais,
identificadas com o patriarcado, não é sempre o que está desvalorizado e ignorado pelas que se encontram
presas nos papéis de mãe e esposa.101

N o s s o s w o r k s h o p s e m g e ra l te r m in a m c o m d a n ç a c ria tiv a . A in te n s a
c o n c e n tr a ç ã o c r io u u m e s p a ç o e u m te m p o s a g ra d o s e, n e s s e m u n d o , n o s r e c o n e c ta m o s
c o m a s e n e r g ia s a n c e s tr a is s e m p r e tã o p r o n ta s a e m e r g ir q u a n d o o c o n tin e n te e s tá
a d e q u a d a m e n te p r e p a r a d o . D a n ç a r é e n tr a r n o a q u i- e - a g o r a e s a b e r q u e o A g o r a é tu d o o
q u e e x is te . U m m o v im e n to d e d a n ç a n ã o te m p a s s a d o , n e m fu tu ro . S ó te m o in s ta n te d o
m o v im e n to . Q u a n d o ti v e r te r m in a d o , a c a b o u . O m o v im e n to n ã o p o d e s e r re p e tid o . E s s e
S er n o te m p o p r e s e n te , n o c o rp o , é a e s s ê n c ia d o b rin c a r, a e s s ê n c ia d a d a n ç a . É n o s s a
m a n e ir a w o r k s h o p d e d iz e r S IM à D e u s a .

Estudo de caso de bulimia

O e n f e itiç a m e n to , a e x p e r iê n c ia d e s e r p o s s u íd o , é a d e c o r r ê n c ia d a e n e r g ia
in c o n s c ie n te d e s g o v e r n a d a , f u n c io n a n d o à m a r g e m d o c o n tr o le e g ó ic o . N o s c a p ítu lo s
a n te rio re s , a s s in a le i q u e a c r ia n ç a p e q u e n a v iv e p r ó x im a d o in c o n s c ie n te d o s p a is, e
p o r ta n to c a rre g a , in c o n s c ie n te m e n te , a s a m b iç õ e s e o s s o n h o s in s a tis f e ito s d e s e u s p a is
a s s im c o m o s e u s p r o b le m a s e c o n f lito s n ã o r e s o lv id o s . J u n g e x p r e s s a is s o , d e f o r m a
in e q u ív o c a , e m s u a I n tr o d u ç ã o a o liv r o d e F r a n c ê s W ic k e s , T h e in n e r w o r l d o f
c h ild h o o d :

Os pais deveriam estar sempre conscientes do fato de que eles mesmos são a causa principal da
neurose de seus filhos...
O que costuma surtir o mais poderoso efeito psíquico sobre a criança é a vida que os pais (e
ancestrais, também, pois estamos lidando aqui com o remotíssimo fenómeno psicológico do pecado
original) não viveram. Essa declaração seria bastante redundante e superficial se não lhe acrescêssemos
como detalhamento: aquela parte de suas vidas que poderia ter sido vivida caso algumas desculpas
esfarrapadas não tivessem impedido os pais de vivê-la. De forma mais contundente: trata-se daquela parte
da vida que sempre evitaram, provavelmente com o recurso de alguma piedosa mentira. É o que semeia
os mais virulentos germes.11
A v id a n ã o v iv id a d o s p a is p o d e se m a n ife s ta r n a filh a m e d ia n te a lg u m tip o d e
d is tú r b io d e a lim e n ta ç ã o . N o c a s o d e u m a b u lím ic a , e la fre q ü e n te m e n te n ã o e s tá
c o n s c ie n te d e q u e t e n ta e n g o lir a lg o q u e n ã o c o n s e g u e o u n ã o d e v e r ia e n g o lir, e su a
p s iq u e , n a te n ta tiv a d e p u r if ic á - la , f o r ç a - a a v o m ita r. U m b r e v e e x e m p lo s e rv irá d e
ilu s tr a ç ã o d e c o m o a p s iq u e t e n ta lib e r ta r a m u lh e r p a r a q u e e la v iv a su a v id a.
E liz a b e th te m 2 6 a n o s , é u n iv e r s itá r ia , e a f ilh a c a ç u la d e u m p a i a r tis ta e d e u m a
m ã e s e n s ív e l e in te lig e n te . D u r a n te a in fâ n c ia , v iv e u fe liz c o m a f a m ília (o s p a is , d o is
ir m ã o s e u m a irm ã ), s a iu -s e e x c e p c io n a lm e n te b e m n a e s c o la , fo i u m a a tle ta n o tá v e l, e
a d o ra v a p in ta r b e m com o m ú s ic a e e s c re v e r. E m b o r a ta m b é m tiv e s s e a m esm a
c r ia tiv id a d e a r tís tic a d o p a i, e r a m a is p r ó x im a d a m ã e . S u a in te n s a n a tu r e z a in tu itiv a
to r n a v a - a v u ln e r á v e l à a tiv id a d e in c o n s c ie n te d a s o m b r a e m se u a m b ie n te .
Q u a n d o c r ia n ç a , n ã o te v e n e n h u m p r o b le m a c o m se u p e s o . A o s 18 a n o s , c o m a

10 Perera, pp. 44-5.


11 Jung, The development of personality, OC 17, pars. 84, 87.
p e r d a d e s e u p r im e ir o a m o r, c o m e ç o u se u p r o b le m a d e p e s o , g r a n d e m e n te e x a g e ra d o
a o s s e u s p r ó p r io s o lh o s . S e u p e s o v a ria v a , d e p e n d e n d o d e e la re c u s a r - s e o u n ã o a
c o m e r. I n ic io u a n á lis e p o r q u e q u e ria a s s u m ir a r e s p o n s a b ilid a d e p o r s e u p r ó p r io c o rp o ,
m a s , a p e s a r d e to d a s a s s u a s b o a s in te n ç õ e s , tin h a c o m e ç a d o a v o m ita r ritu a lis tic a m e n te .
F a r ta v a - s e e v o m ita v a q u a tr o v e z e s a o d ia. D e p o is d e o ito m e s e s d e a n á lis e , u m h o m e m
q u e a m a r a q u a n d o c r ia n ç a c o m e ç o u a a p a r e c e r c o m f r e q ü ê n c ia e m s e u s s o n h o s , tã o
in te n s a m e n te q u e e la te v e d e s e p e r g u n ta r o q u e e le s ig n if ic a v a p a r a ela. E le tin h a sid o
a p e n a s u m b o m a m ig o d a fa m ília . S e u s s in to m a s f ís ic o s to rn a ra m -s e m a is s e v e ro s: o s
v ô m ito s a u m e n ta r a m , o p e s o a u m e n to u , a s g rip e s n ã o r e s p o n d ia m a o s tra ta m e n to s .
D e p o is d e o ito m e s e s te v e u m a s é rie d e s o n h o s o s q u a is se in tro d u z ia m c o m o a se g u ir,
d e s c r e v e n d o s u a s itu a ç ã o p s íq u ic a :

Estou passando um tempo num chalé com minha mãe. Vamos sair para visitar alguém e não
tenho nada adequado para vestir. Mamãe insiste para que eu use emprestado seu terninho verde. Eu
experimento. Serve, embora repare que estou gorda. No pescoço fica muito apertado.

A id e n tif ic a ç ã o d e m ã e e f ilh a fic a c la ra q u a n d o e s ta v e s te a ro u p a d a q u e la . A


r o u p a e s tá m u ito a p e r ta d a n o p e s c o ç o , s u g e rin d o a s e n s a ç ã o d e e s tr a n g u la m e n to e
s u f o c a ç ã o q u e ta n ta s v e z e s a c o m p a n h a a in c a p a c id a d e d e se lib e r ta r d a m ã e .
D e z d ia s d e p o is , E liz a b e th p e d iu p a r a te r u m s o n h o q u e a a ju d a s s e a " d a r u m
je ito " e m s e u p e s o . O s o n h o s e g u in te fo i a re s p o s ta :

Sou instrutora de condicionamento físico numa academia de ginástica. Estou testando uma
amiga que está fora de forma. Ela chegou atrasada e não está cooperando muito. Decidi chamar a
academia de "Confronto".

N a q u e la m e s m a n o i t e ( ta m b é m e m r e s p o s ta à s u a s o lic ita ç ã o e d e p o is d e te r
a s s is tid o a o f ilm e R e s u r r e c tio n ) e la s o n h o u :

Há um grande túnel de luz como quando a alma passa para a próxima esfera. Edward [um velho
amigo da família] aparece andando, vindo da fonte de luz, na minha direção. Estamos numa casa grande e
escura. Mamãe está no mesmo aposento que Edward e eu, e fico surpresa ao vê-la.

O s s o n h o s s e g u in te s d e s e n v o lv e r a m u m a lig a ç ã o m a is p r o f u n d a e n tr e E liz a b e th
e E d w a rd , e m q u e e le lh e a p o n ta v a q u e u m e rro h a v ia sid o c o m e tid o , a c e n tu a n d o q u e
" n ã o é im p o r ta n te q u e m c o m e te u o e rro m a s s a b e rm o s c o rrig i-lo " . E le a in c e n tiv o u a
n a d a r, p r a tic a n d o o n a d o d e c o s ta s . E n tã o e la so n h o u :

Há dois homens. Estou num piquenique com minha tia Kate e outra mulher. Estou olhando um
dos homens, mas só enxergo seu jovem perfil. Duas crianças fazem alguma coisa absurda e esse homem
as detém com delicadeza.
Eu o respeito. Ele sai. Ou percebo ou minha tia Kate me diz estar tendo um caso com aquele
rapaz e, por causa disso, ela se sente enorme mente cheia de vida e feliz.
Agora estou numa casa procurando pela mãe de Kate para poder falar com ela sobre esse
maravilhoso romance. Falo com meus pais sobre a minha tia e de como estou feliz de vê-la tão bem.
Mamãe fica chocada. Digo que até meu tio parece mais feliz e acessível. Mamãe começa a gritar comigo:
"O que você sabe a respeito de sua tia e seu tio? Um romance é errado. Coitado do tio Jim! É imoral".
Quando grito de volta com ela, percebo que ela pode ter razão a respeito do coitado do tio Jim e eu só o
tinha visto superficialmente. Tia Kate estava tão rosada que ele deveria estar também. Mamãe e papai
saem dali, andando. Abro a porta e grito: "Somos seres humanos. Somos essa espantosa coleção de
células e organismos e ainda assim ficamos gritando por causa de coisa nenhuma. Estamos agindo como
bebês primitivos e nos enganando redondamente. A questão não é a moralidade, mas sim a transformação
de tia Kate".
Estou totalmente exausta. Mamãe e papai voltam.
Tudo ficou resolvido e nós podemos nos relacionar. Sinto alívio e gratidão.
O r e s u lta d o d e s s e s o n h o fo i d o r d e c a b e ç a , e x a u s tã o , e c z e m a , e m p a n tu r r a r - s e e
v o m ita r . T rê s d ia s d e p o is v e io o s e g u in te so n h o :

Estou num restaurante. Vejo minha mãe com um amigo. Estou sentada perto dela embora ela não
consiga me ver. Não consigo decidir se vou ou não até onde ela está. Ela está parcialmente escondida
detrás do cardápio. Ela quer ficar escondida.

T rê s s e m a n a s d e p o is , E liz a b e th p in to u s u a p r ó p r ia " c ria n ç a n ã o - n a s c id a " . I s s o


r e n o v o u s e u e s p ír ito e e la d e c id iu c o n f ia r " n o v a z io " . T rê s s e m a n a s m a is ta r d e e la
so n h o u :
Estou no Yukon. Estou em cima de um sapo na água. Não estou dentro da água por causa da
menstruação. O sapo se transforma numa tartaruga enquanto estou em cima dele. Uma mulher índia ou
Innuit está na margem estendendo-me seu bebê. Ela está me mostrando o nenê.

E s s a é u m a f ig u r a o n ír ic a in ic iá tic a q u e p r e f ig u r a se u p r ó p rio n a s c im e n to c o m o
m u lh e r, m a s s e u c o rp o a in d a n ã o e s tá p ro n to . E la a c o rd o u n a m a n h ã s e g u in te se n tin d o -
se f o r a d e se u c o rp o , " g r a n d e d e m a is , v a s to e f e io p a ra v o lta r a ele, c o m o u m a b a le ia
e n c a lh a d a n a p ra ia . M e d o d e n ã o c o n s e g u ir v o lta r p a r a d e n tro d e le , m e d o d e n ã o q u e re r
e s ta r d e n tro , m e d o d e q u e r e r m e s m o a s s im , m a s d e n ã o s a b e r c o m o v o lta r" .
D o is m e s e s m a is ta r d e e la ja n to u c o m se u s p a is. T a n to e la c o m o a m ã e e s ta v a m
s e n tin d o a m e s m a d o r n o p e s c o ç o . N o d iá rio , e la e s c re v e u :

Sinto claramente um afastamento cada vez maior em relação à minha mãe. Sinto que tenho de
m anter a distância ou serei totalmente aniquila da por ela. Não consigo entender, mas ergui uma barreira
forte e impenetrável. Mamãe está sofrendo por eu a estar abandonando, mas sei que tenho de me salvar.
Visto-me mal de propósito para poder separar-me de seus valores.

A c o m p a n h a n d o e s s a d e s e s p e r a d a n e c e s s id a d e d e v e io o s e g u in te s o n h o :

Estou olhando um homem que anda pela rua. Ele se parece com meu pai. Num instante sou o
homem e, no entanto, continuo fora dele. Do outro lado da rua há uma mulher enlouquecida andando na
direção oposta. Consciente como o homem, me acalmo internamente tentando não criar uma vibração na
qual ela possa se enganchar. Não dá certo. Desesperada, percebo que ela me viu e vem na minha direção.
Fico assustada mas continuo calma, mantendo-me ciente de que sou um executivo sem emoções. A
mulher tem uma arma e vai atirar em mim.
Ela está muito perto agora e a arma dispara. Fui atingida no coração e, no entanto, ela se
aproxima ainda mais. Caio no chão. Meus pensamentos são ainda frios e analíticos. Estou totalmente
consciente das sensações em meu corpo. Sinto dor. Estou triste e surpresa por sentir tanta dor e, até certo
ponto, furiosa por minha cabeça ainda estar pensando em termos lógicos, tabulando, enquanto essa dor se
instaura dentro. Quero parar de pensar. Observo a mulher louca sobre a minha cabeça. Não consigo
acreditar no que estou vendo. Ela está apontando a arma só um pouco acima e entre meus olhos, e
chegando mais perto. Fico aterrorizada porque sei que ela vai encostar o cano na minha pele antes de
atirar. Sinto o contato da boca do revólver e um estremecimento de meu corpo todo quando ela atira.
Acordo no mesmo momento do impacto.

No e s f o r ç o d e se s a lv a r, E liz a b e th id e n tif ic a - s e c o m s e u p a i- a n im u s "sem


e m o ç õ e s " , e te n ta f ic a r lo n g e d a b ru x a . N ã o d á c e rto . S e u la d o E r o s — o c o r a ç ã o — é
a tr a v e s s a d o p o r u m a b a la . E la a in d a é c a p a z d e a n a lis a r a s u a s itu a ç ã o , e m b o r a c h e ia d e
d o r. E n tã o o a n im u s m a ta d o r d a b r u x a (o re v ó lv e r fá lic o ) to c a su a c a b e ç a (a m e n te
a n a lític a ) e p u x a o g a tilh o . I s s o d e s p e r ta a s o n h a d o r a p a r a q u e se d ê c o n ta d e q u e d e v e
se lib e r ta r o u s e rá a n iq u ila d a . O g e s to d a b ru x a , a q u i, p o d e ta m b é m s e r v is to
p o s itiv a m e n te ( u m a f e l i x c u lp a ) n o s e n tid o d e q u e e la e s tá fo r ç a n d o a m o ç a a a c o rd a r. A
v id a a n tig a te m d e m o r r e r p a r a d a r e s p a ç o à n o v a .
D u a s s e m a n a s d e p o is , a p ó s u m a sé rie in c o m u m d e e v e n to s s in c r ô n ic o s , s e u s p a is
d is c u tir a m e E liz a b e th , c o m o d e h á b ito , a g iu c o m o m e d ia d o ra . S e u d iá r io p ro s s e g u e :
Papai vai embora. Mamãe diz que tem de falar com ele porque ela acha que estou cada vez mais
distante dela — me separando dela de maneira muito fria, clínica. Fico aliviada por ela haver mencionado
esse assunto, pois nos comunicamos bem e tínhamos perdido isso entre nós. Mamãe se abre totalmente e
me pede que lhe explique sobre a minha vida, para que ela possa entender. Conversamos. Mamãe joga
uma bomba. Ela teve um amante por 18 anos. O romance começou logo depois de ela ter engravidado de
mim. Intuí que fosse "tio Edward". Ela confirmou com um aceno de cabeça. As peças se encaixam.
Ela me contou que duas vezes pensou em abandonar a família mas não conseguia largar os
filhos, e por isso se concentrou na criação de uma família muito unida. Senti bastante amor por ela
quando ela me contava essas coisas, um grande alívio por ter existido em sua vida uma paixão tão intensa.
Eu havia recolhido toda a dor, a raiva e a culpa que eram de minha mãe. Era isso que eu vinha tentando
desemaranhar — o que eu precisava saber para dar início à minha própria evolução.

A s o m b r a d e s u a m ã e — a d o r, a c u lp a e a r a iv a — tin h a s id o in c o n s c ie n te m e n te
a s s u m id a p o r E liz a b e th , s u a v id a to d a . C o m o n ã o e ra m p r o p r ia m e n te s e u s s e n tim e n to s ,
e la n ã o p o d ia e n g o li- lo s e s u a p s iq u e a tu a v a p o r m e io d e se u c o rp o o q u e e s ta v a
te n ta n d o d iz e r - lh e e m s e u s s o n h o s . A b u lim ia n ã o c e s s o u d e p ro n to . N a re a lid a d e , h o u v e
u m p e r ío d o m u ito a g u d o d e a ju s ta m e n to , m a s a g o r a e la e s tá liv r e p a r a tr a z e r s u a c r ia n ç a
in te r io r à lu z.
E ssa fo i um a h is tó r ia m u ito d o lo ro s a m as b a s ta n te tr a n s p a re n te de
e n f e itiç a m e n to . D e u m j e i t o o u o u tro , to d o s a s s u m e m o in c o n s c ie n te d o s p a is e as
c o n s e q ü ê n c ia s p s ic o ló g ic a s d e c a d a s itu a ç ã o e x ig e m u m a e la b o r a ç ã o in d iv id u a liz a d a ,
c a d a u m a a s e u te m p o . A m ã e e a filh a , n e s te c a so , fo ra m le v a d a s a u m p a ta m a r m a d u ro
d e r e la ç ã o p o r q u e a s d u a s e ra m s e n s ív e is à s n e c e s s id a d e s u m a d a o u tra e b a s ta n te
c a p a z e s d e a m a r s e m ju lg a r . C a d a u m a o lh o u n o s o lh o s d a o u tra e v iu S o fia.
A d if e r e n ç a e n tr e o lh a r n o s o lh o s d e M e d u s a e n o s d a s o m b ria S o fia (a V irg e m
n e g r a o u a E r e s h k ig a l b a b ilô n ic a ) e s tá c la r a m e n te d e lin e a d a n a d e s c r iç ã o d a s d e p r e s s õ e s
q u e a a s s e d ia v a m a n te s e d e p o is d e s e r lib e r ta d a p o r s u a m ã e :

Para me aproximar de meu eu feminino estava tão mal equipada que precisei abrir mão de tudo o
que não desse a sensação de pertencimento. Terminei sentindo que eu não tinha nada e era nada, e não
podia me relacionar com ninguém. A separação em relação aos meus amigos e familiares estava
acontecendo, uma separação fria e dura que só me fazia sentir mais vazia. Na noite em que minha mãe me
informou sobre os fatos de seu passado começou a existir um calor em meu coração e"uma saída para
emoções há muito contidas. Mais uma vez eu podia sentir. Podia chorar. Estava viva. Rápidas mudanças
ocorreram. Da euforia eu caía em depressão, e depois voltava à euforia, como uma balança. No entanto,
por baixo dessa pendulação havia uma riqueza, uma profundidade de vida anímica que fora despertada e
estava lutando para se tornar conhecida. Antes disso, mudanças emocionais e a oscilação
euforia/depressão teriam me deixado em cacos e vazia, depois de acalmarem. Era como se não houvesse
nada a resgatar, por isso eu ficava à deriva, arrastada pelas diferentes correntezas. M eu corpo tornou-se
meu inimigo, inflando e desinflando com as marés em minha cabeça. M eu corpo se fragmentava e se
tornava "a gangue" que eu conscientemente levava comigo onde quer que fosse. Com o novo patamar de
profundidade atingido, esse padrão começou a mudar. Minhas depressões lentamente se tornaram lições
para guardar e cultivar, em meu útero, para manter contidas até que estivessem prontas para nascer com o
esclarecimento da lição e as percepções conscientes adquiridas. Tudo tinha significado, um significado
que eu podia remeter a mim mesma e pelo qual me responsabilizar, fosse ele negativo ou positivo. Sinto-
me segura acerca de mim mesma.

E liz a b e th tin h a , e f e tiv a m e n te , s id o e n fe itiç a d a p o r s u a m ã e p a r a s e r a p o r ta d o r a


d a a n s ie d a d e e d a c u lp a d a m ã e . E m v e z , p o rta n to , d e c a r r e g a r o s g e n u ín o s s e n tim e n to s
m a te r n o s f e m in in o s (a v ir g e m v e r d a d e ir a , e x p r e s s a e m s e u a m o r p o r E d w a rd ), E liz a b e th
s ó c a r r e g o u s e u s a s p e c to s n e g a tiv o s , a v ir g e m com o b ru x a . Q u a n to m a is se s e n tia
p r ó x im a d e s u a m ã e , m a is in c o r p o r a v a a c u lp a d e la . O q u e e la d e s e ja v a n a r e la ç ã o c o m
s u a m ã e (is to é, a V ir g e m n o c o lo d e S o fia ) e la n ã o p o d ia n a re a lid a d e d ig e rir. A o se
a b r ir p a r a s e r a lim e n ta d a , e la r e c e b ia v e n e n o . D a í s u a b u lim ia . Q u a n d o , fin a lm e n te , su a
m ã e c o n f e s s o u s e u r o m a n c e d e 18 a n o s d e d u ra ç ã o , n u m a é p o c a e m q u e o s a s p e c to s
n e g a tiv o s d e s s e c a s o h a v ia m s id o p le n a m e n te c o n s te la d o s n o s s o n h o s d e E liz a b e th (e,
e r a in e v itá v e l, p r o v o c a v a m - lh e v ô m ito s ), e la s e n tiu u m a lív io im e d ia to . E s s e a lív io
ta m b é m tin h a s id o c o n s te la d o p o r q u e , e m s e u s s o n h o s , E liz a b e th h a v ia , c a d a v e z m a is ,
s e n tid o o a m o r g e n u ín o d e s u a m ã e p o r E d w a rd . N ã o só e la n ã o tin h a q u a lq u e r m o tiv o
p a r a j u l g a r o u c o n d e n a r s u a m ã e c o m o , a o c o n trá rio , e la só p o d ia s e n tir o m a is p ro f u n d o
a m o r e c o m p a ix ã o p o r q u e a c o n f is s ã o d e s u a m ã e to rn o u -s e p a r a e la u m a a f ir m a ç ã o d e
s u a p r ó p r ia id e n tid a d e v ir g in a l. E n fim , e la a g o ra e s ta v a e m c o n d iç õ e s d e e n c o n tr a r se u
p r ó p r io lu g a r n o c o lo d e S o fia.
A té q u e a m u l h e r p o s s a a s s u m ir e s s a p o s iç ã o , p e r m a n e c e e m e s ta d o p r e e x is te n te
o u a in d a n ã o n a s c id o . É u m a a lm a e m b u s c a d e c o rp o . P a r a a m u lh e r, p e lo m e n o s , su a
id e n tid a d e é in d is tin g u ív e l d e s e u c o rp o e, a té q u e a p r e n d a a c o n s id e r á - lo a fo n te
a b a s te c e d o r a d e s u a id e n tid a d e fe m in in a , e la c o n tin u a r á f o r a d e c o n ta to c o n s ig o m e s m a ,
a e s m o n u m m u n d o a lh e io a o s e u e g o fe m in in o . M u lh e r e s c o m o E liz a b e th , n o s
p r im e ir o s a n o s d e a n á lis e , s ã o p r a tic a m e n te d e s p ro v id a s d e e g o e, p o rta n to ,
p a te tic a m e n te s u s c e tív e is à s in v a s õ e s d o in c o n s c ie n te , ta n to o p r ó p r io c o m o o a lh e io .
S ã o m é d iu n s n a tu r a is , s u je ita s a e n fe itiç a m e n to s . S u a s v id a s sã o p s e u d o v id a s q u e
c a p ta m s u a p r e te n s a fo r ç a d e a to s e m g r a n d e m e d id a c o m p u ls iv o s o u in v o lu n tá rio s d e
id e n tif ic a ç ã o com os o u tro s . A p s e u d o - id e n tid a d e de E liz a b e th r e s id ia , quase
to ta lm e n te , em s u a id e n tif ic a ç ã o in c o n s c ie n te com a m ãe. Com o essa e ra u m a
id e n tif ic a ç ã o c o m a m ã e n e g a tiv a , n ã o c o m a p o s itiv a , b a s e a d a e m c u lp a n ã o e m a m o r,
e la se v i a f o r ç a d a a c o n f r o n ta r s u a p r ó p r ia c o n d iç ã o p s íq u ic a , p a r a c o n s e g u ir in c lu s iv e
s o b r e v iv e r . F e liz m e n te , fo i c a p a z d e s e g u ir c o m o c o n fro n to , d o c o m e ç o a o fim , c o m o
s e u s o n h o c o m a a c a d e m ia d e g in á s tic a lh e h a v ia re q u is ita d o .
S e, n u m a s itu a ç ã o c o m o a d e E liz a b e th , a m u lh e r é a n o ré x ic a , e n tã o a a n á lis e
p o d e se to r n a r u m a c o r r id a c o n tra a m o rte , p o is a f ilh a p o d e e s ta r lite r a lm e n te d a n d o
v a z ã o , e m s u a v id a , à n e g a ç ã o d e v id a d e s u a m ã e . Q u a n d o e la f in a lm e n te c o n f r o n ta a
c a u s a o u f o n te d e s e u p r ó p r io m o r r e r c o m p u ls iv o e é lib e r ta d a d e le , p o d e m o c o r r e r d u a s
c o isa s: p o r u m la d o , u m e g o fe m in in o (a v ir g e m ) p o d e f in a lm e n te n a s c e r d o ú te r o d e su a
p r ó p r ia s a b e d o r ia re c é m - d e s c o b e r ta ; p o r o u tro , a fo n te e x te r n a d e s s e m o r r e r (e m g e ra l, o
p a i o u a m ã e ) p o d e r e c u p e r a r to d o o m a te r ia l d e s o m b r a q u e , c o m o m é d iu m , a f ilh a te m
c a rre g a d o . E n tã o , a f ilh a e s tá liv r e d e s e u d e s e jo in c o n s c ie n te d e m o rte , e o g e n ito r d e v e
a s s u m ir a r e s p o n s a b ilid a d e p o r s e u p r ó p r io d e s e jo d e m o rte . S e a id e n tid a d e f e m in in a
r e a lm e n te v e io à lu z , e n tã o e la p o d e a c o lh e r a m o rte p r e c is a m e n te d a m e s m a fo rm a
c o m o p o d e a c e ita r s u a p r ó p r ia v id a . A v e r d a d e ir a m e d id a d a id e n tid a d e v irg in a l re s id e
n e s s a s a b e d o r ia im e m o r ia l q u e r e c o n h e c e e a f ir m a q u e v id a e m o r te s ã o u m a c o is a só. É
a s a b e d o r ia q u e , fin a lm e n te , v in c u la m ã e e f ilh a n u m n ív e l q u e tra n s c e n d e o
e n te n d im e n to m a s c u lin o d o s a c rifíc io . A v e r d a d e ir a v ir g e m a c e ita c o m a m o r o seu
d e s tin o . O p re s e n te d a m ã e p a r a a f ilh a é lib e r tá - la p a ra a v id a . O p r e s e n te d a f ilh a p a ra
a m ã e é lib e r tá - la d e u m a v id a n e g a d a p a r a a a u te n tic id a d e d e s e u p r ó p rio e x is tir o u d e
s e u p r ó p r io m o rre r.

O diário como espelho de prata

" P a r a e le [J u n g ], a ir r e a lid a d e s e m p re fo i 'a q u in te s s ê n c ia d o h o rro r'.


O d iá rio é c o m o u m e s p e lh o . Q u a n d o o o lh a m o s p e la p rim e ira v e z , a s p á g in a s
e m b r a n c o n o s m ir a m c o m u m v a z io o m in o s o . M a s se c o n tin u a m o s o lh a n d o e c o n f ia n d o
n o q u e R ilk e c h a m a d e " a p o s s ib ilid a d e d e se r" ( v e r p . 1 3 9 ) c o m e ç a m o s a o s p o u c o s a
v e r a f a c e q u e n o s e s tá o lh a n d o d o la d o d e lá. S e n o s c o lo c a m o s n u s d ia n te d e le , o
e s p e lh o r e f le te a s c o is a s ta is c o m o e la s são. E m s u a ra iz e m la tim , o te r m o e s p e lh o 12

12 Barbara Hannah, Jung, his life and work: a biographical memoir, p. 188.
s u g e re a s s o m b r o e c u r io s id a d e .13 É quem p o r ta o j ú b i l o se c re to , a ju d a n d o - n o s a
d e s e m a r a n h a r o s m u n d o s in te r n o e e x te rn o , p r o p o r c io n a n d o - n o s a o b je tiv id a d e d e r ir d e
n ó s m e s m o s . O e s p e lh o é m a is q u e o re fle x o . A s lo n g a s h o r a s d e s o lid ã o e m q u e o s
a u to - e n g a n o s são d e s p id o s , d e s m a n te la d a a a u to p ie d a d e a rtific ia l, in te r r o m p id a a
m u tila ç ã o a u to - im p o s ta , c o n s tr ó e m a c o n e x ã o e m E r o s e n tre o s m u n d o s c o n s c ie n te e
in c o n s c ie n te d e u m a m a n e ir a ta l q u e a m b o s e s te ja m in te rlig a d o s . C o m o e s p e lh o , n ó s
a tra v e s s a m o s , le v a m o s n o s s a r e a lid a d e a té o u tro m u n d o , o m u n d o d o in c o n s c ie n te , e
e n c o n tr a m o s u m a lig a ç ã o c o m n o s s a p r ó p r ia a lm a . E s c r e v e r u m d iá rio é u m a f o r m a d e
a s s u m ir a r e s p o n s a b ilid a d e p o r d e s c o b r ir q u e m E U S O U .
E d o lo r o s o e n c a r a r n o s s o s la d o s e sc u ro s. E m a is fá c il s a b e r só a lg u m a s c o is a s e
b a s ta . E m a is fá c il d e s v ia r m o s d e n o s s o p r ó p r io c h a r c o d e a n g ú s tia s e a g re s s õ e s ,
d iz e n d o : " N ã o im p o rta . T e n h o a m ig o s . E s to u b e m a d a p ta d o a o m e u tra b a lh o . T o d o s
g o s ta m d e m im " . O e s p e lh o n ã o n o s d e fe n d e rá . E le diz: " F a z d ife re n ç a , sim . S e v o c ê
n ã o e s tá s e n tin d o a v id a , is s o im p o rta . O n d e e s te v e s u a r is a d a h o je ? O n d e e s tã o su a s
lá g r im a s ? P o r q u e v o c ê se tr a iu ? V o c ê n ã o te m e s tô m a g o s u fic ie n te p a r a e n c a r a r a
p r ó p r ia v e r d a d e ? E n q u a n to f ic a r p r e s a d e n tro d a q u e la im a g e m p e rfe ita , v o c ê e s tá fa d a d a
a s e r u m a u r n a g r e g a p e lo r e s ta n te d e s u a v id a in e x is te n te . N o iv a p e r f e ita m e n te im ó v e l,
n ã o a rre b a ta d a !" . E s s a é a f a la d a D e u s a e s c u ra , in s is tin d o p a r a q u e n o s to r n e m o s re a is.

Essa é a criatura que nunca existiu.


Eles nunca a conheceram, e no entanto, apesar disso.
Adoravam o jeito como se movia, sua agilidade
Sua nuca, seu modo de olhar, manso e sereno.
Não ali, porque a amavam, comportava-se
Como se estivesse. Sempre deixaram um pouco de espaço.
E naquele claro de espaço, despovoado, pouparam-na
Sua cabeça erguida com leveza, mal trazendo o vestígio
De não estar ali. Eles a alimentaram, não com milho.
M as somente com a possibilidade
De ser. E isso fo i capaz de conferir-lhe
Tanta fo rça que de sua lesta irrompeu um chifre. Um único.
Alvamente se acercou da virgem —para estar
Dentro do espelho de prata e nela.

Rainer Maria Rilke, Sonnets to Otpheus

Nu n° 1, 1971-72. Jack Chambers. (Cortesia Olga Chambers)

13 Russell Lockhart, em palestra para Insights 1980, Toronto.


A o s 3 2 a n o s , c a s a d a e c o m filh o s , J a n e d e c id iu d e s tr u ir o p o te d a p e rfe iç ã o .
D e p o is d e q u a tr o a n o s d e a n á lis e e tr a b a lh o d e c o n s c ie n tiz a ç ã o c o rp o ra l, o p r o b le m a d e
p e s o c e s s o u d e e x is tir m a s a e n e r g ia d a b r u x a fo i tr a n s f e r id a d a c o m id a p a r a a
s e x u a lid a d e e, d e p o is , p a r a a e s p iritu a lid a d e . O s e x c e rto s d e d iá rio a q u i tra n s c r ito s
fo r a m r e d ig id o s a o lo n g o d e u m an o .

Eu só conseguia ver o palhaço gordo e triste de Picasso, pesado e cheio de dor. Rezei: "Por
favor, Deus, permita-me ser leve. Permita-me ser feliz". Então eu disse a mim mesma: "Eu lhe dou
permissão para ser feliz. Vá em frente, Jane, ame seu corpo. Ele é lindo. Eu lhe dou permissão para ser a
luz do Sol". Então uma criança, linda, radiante, deu uns passos adiante, timidamente. Eu lhe disse: "Certo,
Pequena, dance". E ela dançou. Espírito e corpo estavam unidos numa única forma, inseparável e perfeita.
Chorei de alegria. Ela não parecia estar ciente de ter sido prisioneira, a vida inteira, daquela concha gorda.
Ela não estava irada nem amarga. Confiava em mim. Eu era como uma mãe. Então chorei por todos os
seus anos perdidos, dentro da gaiola. Tampouco em mim havia amargura ou raiva. Só dor, uma dor
sombria a me consumir. M as a radiosidade da Pequena trouxe luz para o centro de minha escuridão.
Percebi meu velho corpo dançando a dança da criança para os deuses.

Poema da paixão da bruxa

para o inferno com todos os símbolos


não adianta nada tentar me enganar
quero abrir minhas pernas
abrir minhas coxas macias e quentes
para você
quero consumir a tua masculinidade
vou enroscar minhas pernas em você
entrelaçar meu ser em torno de tua força
m inha maciez consumindo a tua dureza.
você não tem força para me tomar?
é tão fraco assim?
viro bruxa, começo a detestar você
devo abortar meus sentimentos, tornar-me prostituta
e tendo me prostituído
sei que no centro de mim
traí meu deus, me traí.
como vingança, exijo que você me ame
você testemunhou a minha alma,
eu te permiti isso
agora quero o teu sangue

A d e c a p ita ç ã o é u m m o tiv o c o m u m n a im a g é tic a d a s b ru x a s . O te x to s e g u in te


fo i e s c r ito a p ó s s o n h a r c o m u m r a p a z a tr a e n te se m c a b e ç a ( o b s e r v e o u s o d o "eu "
g ra fa d o c o m m in ú s c u la , p a r a d e s ig n a r o e g o c o m p le x a d o , e c o m m a iú s c u la , E u , p a r a o
e g o c o n s c ie n te ) :

eu pareço ter resolvido meu problema do nosso relacionamento


decepando sua cabeça
não parece que isso me afete
na verdade, gosto disso,
desse jeito eu não tenho de admitir
que você existe
você é só um corpo
para fazer o que eu quiser
(essa falando é a bruxa?)
eu ouso dizer que é
eu a vejo,
Eu vejo seu sorriso rasgando em meu rosto
meu ombro esquerdo vem um pouquinho para a frente
o queixo cai — os olhos ficam mais estreitos — sorrisos de
desprezo adornam-me o rosto

eu quero controlar, você


com a cabeça perdida
eu posso ser seu cérebro
fazer de você o que eu bem entender
e me servir de suas partes
"vamos, garotão, de pé"
como eu rio!
enquanto você continuar sendo o garotinho
eu domino você pelo saco
eu vou te alimentar, amamentá-lo em meu seio, buscar-lhe o café
vou torná-lo dependente de mim para sobreviver
mas, em troca, quero sua riqueza
empurro você porta afora para se dar muito bem no mundo
traga algumas preciosidades para a mamãe em casa, queridinho,
mantenha-me feliz com peles e jóias
e desse jeito posso ficar em casa
brincando de m enininha que é cuidada pelo homem grande
menininho, você cai nessa encenação
você não é homem de jeito nenhum
em pé com isso, garoto,
eu ordeno.

M as que droga, Eu quero um homem


Eu quero um homem com cabeça
e com um a cabeça
vem a virilha
Eu quero estar num relacionamento

Oh, eu te devolvo tua cabeça


mas menininho com uma cabeça você deve ser responsável
enquanto eu a tive era eu quem estava no poder
você só precisava obedecer
se eu te devolver a tua cabeça
e você decidir mantê-la
então deve assumir responsabilidade por tua sabedoria
e o que será de mim?
Eu não posso ser a m enininha com papai cuidando de mim
Fim de jogo!
Eu assumo a responsabilidade por
Mim.
m as o que é isso?

na busca do eu feminino
onde começar
m eu deus, isso é assustador
Eu não conheço começo algum
onde estão meus deuses femininos?
onde está a Mulher?
onde está tua voz?
minha paixão, você é o amante demoníaco?
aquele homem perfeito de poder
força m asculina que desconhece a maciez
um homem que me deixa sangrá-lo em sua virilidade
e ainda tem mais
quanto eu tomo dele
mais ele tem para dar
eu sempre espero
sim, este é o homem!
mas como ele poderia ser?
um deus
e nesta vida quem é que afinal ainda quer um deus
Eu não sou deusa,
é a fragilidade humana
que redime essa energia
é a compaixão pelo que não pode ser
porque somos de m atéria e espírito
de dois mundos, interagindo
tomando-se um só dentro de mim
sabendo que esta
é a minha redenção
minha humanidade aceita
Eu posso entrar na realidade
neste mundo de matéria
e ser
mulher
não deusa buscando deus

mas humana
criando espírito na matéria
posso Eu assumir a responsabilidade por esse mal
que eu bruxa perpetuei?
meu deus, homem, tome de volta a tua cabeça
Eu te devolvo a tua virilidade
Eu te deixo partir
sair de meu útero que se torna escuridão
finda toda a luz

Eu te deixo ir, bruxa,


esse mal não pode mais prosseguir
esta é a nossa vida
que você iria destruir
se você vencer a vida toda será destruída
nosso estágio adolescente terminou
devemos crescer
à luz do Sol, juntas
ficamos presas juntas

você e eu
eu achava que tinha sido você que havia roubado o meu
feminino
eu culpei você, esbravejei com você, e gritei
NUNCA M A IS ! EU COMO MULHER DEVO SER OUVIDA!
mas agora Eu vejo
que eu estava mantendo você em suspenso
eu segurava sua cabeça
e nesse segurar havia tanta devoção
(oh como o mal é desonesto)
que eu não conseguia encontrar energia para mim
e eu culpava você
eu pensava que você tinha me apunhalado pelas costas
eu sabia muito pouco
era eu quem tinha segurado a faca.

E m a n á lis e é c ru c ia l s u s te n ta r a te n s ã o e m a n te r c o e s a a " p ro v a " , a s s im c o m o


te n t a r to m a r c o n s c iê n c ia d e c o m o o s c o m p le x o s a fe ta m n o s s o s p e n s a m e n to s e a to s.
Q u a n d o o e s ta d o d e â n im o se a p o d e r a d e n ó s , e s s a é a h o r a d e e s c re v e r: d e ix a r q u e
e x tr a v a s e d o in c o n s c ie n te . E s c r e v e r u m d iá rio s a tis fa z a n e c e s s id a d e d e e x tr a v a s a r o
c o ra ç ã o . A m a io r ia d a s p e s s o a s a c h a m u ito d ifíc il a in tim id a d e , a té a in tim id a d e c o n s ig o
m e s m a s . C o m o a a n á lis e se b a s e ia , a n te s d e m a is n a d a , ju s ta m e n te n e s s a in tim id a d e , a
m a n u te n ç ã o d e u m d iá r io é e s s e n c ia l p a r a o r e c o n h e c im e n to d a q u e la s p a r te s e m n ó s d a s
q u a is n o s te m o s e s q u iv a d o . A in c o n s c iê n c ia p r e c is a d o o lh o d a c o n s c iê n c ia ; a
c o n s c iê n c ia p r e c is a d a e n e r g ia d o in c o n s c ie n te . E s c r e v e r p e r m ite q u e e s s a in te r a ç ã o
a c o n te ç a .
S e e s to u m e s e n tin d o " fo ra d e m im " , "trê s p a s s o s a n te s d e m im " , "n a m in h a
f r e n te " , e n tã o u m c o m p le x o fo i a tiv a d o . S e e u e s c r e v e r e n q u a n to e s tiv e r so b o e fe ito
d e s s e e s ta d o d e â n im o , d e s p e ja n d o p e la c a n e ta tu d o o q u e v ie r à to n a , e n tã o m a is ta rd e ,
q u a n d o o e g o e s tiv e r n o v a m e n te n o c o n tro le d a situ a ç ã o , p o s s o re to m a r e s s e m a te ria l,
o lh á - lo e v e r d e q u e m o d o o c o m p le x o a f e ta m e u c o m p o rta m e n to . P o s s o a té c o n s e g u ir
r e c o n h e c e r o q u e o c o n s te la e o p o n to e m q u e o e g o " a tra v e s s a o e s p e lh o " e m e r g u lh a n o
in c o n s c ie n te . D e s p e ja r s im p le s m e n te , se m re f le tir s o b re n a d a , to r n a - s e m e ra a u to -
in d u lg ê n c ia q u e a p e n a s a lim e n ta o c o m p le x o . Q u a n to m e n o s o e g o e s tá n o c o n tro le ,
m a is e x u b e r a n te o c o m p le x o se to r n a . T o d o a r tis ta q u e n u tr e r e s p e ito p o r si m e s m o e s tá
c ie n te d a d if e r e n ç a e n tr e e s c r e v e r m o v id o p e lo se u c e n tro d e c r ia tiv id a d e e e s c r e v e r à
b a s e d o c o m p le x o .
N a s a n o ta ç õ e s d o d iá rio d e J a n e p o d e m o s v ê - l a te n ta n d o s u s te n ta r a p o s iç ã o d o
e g o (o " E u " ), e d e p o is g r a d u a lm e n te e s c o r r e g a n d o p a r a o â m b ito d a b r u x a , c re s c e n d o
e m e lo q ü ê n c ia , e d e p o is , s u b ita m e n te , s u s p e ita n d o q u e e s tá n o c o m p le x o e in d o e m
fre n te , m e s m o a s s im . M a is u m a v e z o e g o lu ta p a r a r e to m a r o c o n tro le e e n x e r g a d o
o u tr o la d o a c h e g a d a d a q u e r id in h a d o p a p a i. E m te r m o s a rq u e típ ic o s , e la v a i d e
M a r le n e D ie tr ic h d e c a lç a s a M a r ily n M o n r o e d e b a b y -d o ll. O e g o n ã o é f o r te o
s u f ic ie n te p a r a se r e la c io n a r c o m u m h o m e m . A lg u m a f o r ç a m a lig n a e s tá in te rfe rin d o .
E l a c o m e ç a c o m u m a f a n ta s ia sexual q u e p o d e r ia d e v o r a r o m a s c u lin o e d e s tr u ir o
fe m in in o .
A té e n q u a n to e s c re v e , e la d ir e c io n a m a is a s u a e n e rg ia a té a c a b e ç a , a tin g in d o o
p o n to e m q u e s e u s s e n tim e n to s e s u a s s e n s a ç õ e s c o r p o ra is sã o to ta lm e n te n e g a d o s . E la
e s tá se d e s lig a n d o d e si m e s m a , e s p r e m e n d o - s e c o m c a d a v e z m a is fo rç a , a lie n a n d o -s e
d a q u e le c e n tr o c a lm o e d e s c o n tr a íd o d o q u a l n a s c e o f e m in in o r e c e p tiv o . D e s s e m o d o ,
n o p r ó p r io a to d e e s c r e v e r , e la e s tá c r ia n d o u m a f a n ta s ia m a s o q u is ta q u e n e g a s u a
p r ó p r ia f e m in ilid a d e e in s ta u r a n o h o m e m u m a re a ç ã o sá d ic a . A o p ro je ta r n o h o m e m a
d e c a p ita ç ã o , e la m e s m a é d e c a p ita d a p o r se u p a i e p e lo a n im u s n e g a tiv o d e su a m ã e .
N e s s a s p a s s a g e n s , o e g o e s tá se d a n d o c o n ta d e s u a p r ó p r ia in fla ç ã o . A fa n ta s ia é
m e ra fa n ta s ia . M u lh e r a lg u m a p o d e ria f a z e r o q u e J a n e im a g in a . E la c o m e ç a a
r e c o n h e c e r o e le m e n to d e m o n ía c o e m su a in f la c io n a d a fe m in ilid a d e . E s s e tip o d e
" f e m in ilid a d e " e x is te n a c a b e ç a e n a d a te m a v e r c o m o e r o tis m o g e n u ín o , p o is n ã o e s tá
v in d o d o c o rp o .
O d iá r io d e J a n e p r o s s e g u e a b o rd a n d o o r e la c io n a m e n to m ã e /filh a .
E la te v e u m s o n h o c o m u m a " S u p e rm ã e " : " O lh o n o s o lh o s d e J u d ith [u m a
S u p e rm ã e ] e e le s e s tã o s a n g ra n d o , v e r te n d o lá g rim a s d e s a n g u e v iv o " .
J a n e e s c re v e u :

Querida criança, eu choro lágrimas de sangue


eu as derramo por você
fiz dê você meu cesto de lixo
e coloco dentro toda a minha merda
e eu o chamei de você
eu sinto em mim essa grande coisa negra
e em vez de guardá-la em casa
eu a coloco dentro de você, tiquinho de alma,
e depois eu te detestei
pois em você eu me vi
e tirei de você sua pequena alma
eu devorei o seu ser
oh querida criança, perdoe-me,
Eu sinto um a dor tão grande, tanto sofrimento
em vez de lhe dar vida
eu a tom ei
e tudo em nome da supermãe
eu a fiz ser o que você é
para mim
querido Deus, perdoe-me, pois eu não sabia
eu chorarei as lágrimas de sangue rubro
e a deixarei partir
guiando aquela alma querida
e amando-a seja ela como for.

eu sou bruxa inconsciente


ela deve funcionar só nas trevas do inconsciente
assim que se torne consciente, m ulher alguma deve deixar
que ela jam ais governe a casa
ela é regida por deus o pai
o pai que estipula padrões
aos quais nenhuma mulher mortal pode um dia corresponder
a cólera é contra esse homem
o amante demoníaco
a quem a bruxa atende

foram mamãe/papai
que me fizeram fazer o que eu fiz com a minha criança
era aquele deus me dizendo
para ser em todas as coisas perfeita

eu tentei fazer minha criança satisfazer seus padrões


criança querida, um peão de sua maldade nada mais
e tudo aconteceu por meu intermédio
a bruxa nas trevas atendeu você
levando-me a matar o Ser de minha criança
levando-me a satisfazer o seu deus
seu maldito filho da puta
arrebatando minha alma mais querida, minha filha, e matando
seu espírito
Eu vou deter essa bruxa em mim
Eu vou mandar a bruxa para a fogueira
trazê-la até a consciência e deixar que prevaleça
o verdadeiro espírito da mulher
aos raios de Sol da luz do amor,
oferecendo nova vida a todas as coisas.

O te x to p r o s s e g u e p e lo o u tro la d o d o a rq u é tip o (a " c o ita d in h a d e m im " ) e, a o s


p o u c o s , o e g o se to r n a m a is p e r c e p tiv o d e s u a p r ó p r ia p o s iç ã o :

Eu suponho que, para mim, a tragédia


seja que isso é só fantasia
que a bruxa nunca teve voz de verdade
que ninguém ouviu
que ninguém vai acreditar que eu escrevi que
um dia fui descrita como
aquela menininha tímida da
aula de latim
aterrorizada demais para falar.
eu vivia apavorada de ser flagrada
fazendo não sei o quê
mas o pavor existia mesmo assim
e por isso eu tentava desaparecer
ser qualquer coisa que quisessem que eu fosse
só não me perguntem nada, eu suplico
e essa fantasia se tornou minha realidade.
tão logo fiquei forte nessa realidade
eu descobri que as pessoas gostavam de mim
e então eu tinha de ser muito boa
ser uma tela, uma projeção
dando vida a suas fantasias
assim eu logo esqueci que era fantasia
o retorno era bom, consegui um homem para casar
um emprego, uma vida na TV
o mito perfeito completo
jovem e próspero casal de profissionais
deliciosamente felizes
nunca discutimos não era preciso
eu conhecia o seu roteiro, desempenhava o papel
e nós amávamos
inocentes.

era maravilhoso
esse jogo
m as nos sonhos eu sabia que era jogo
eu suplicava pela realidade
mas não podia abalar o mito
eu era o mito
destruo o mito
e me destruo
isso era aterrorizante demais

E o tempo todo ela trabalhava no meu inconsciente


devorando meu eu feminino

bruxa querida
você é tão sorrateira e cruel
graças a Deus você é contrabalançada
pelo meu medo
foi meu medo da vida
do fracasso
da sobrevivência
que te manteve até certo ponto impotente
mas você cobrou seu preço de mim
com seu ódio dos hom ens
prostituindo minha sexualidade para seus fins
minhas dores de cabeça tensionais
e minha sensação de que tudo isso era de algum modo irreal

você me fez dizer coisas


que pareciam certas
mas não tinham nada a ver com quem Eu era
eu não sabia quem Eu eia
estava assustada demais para saber
pois de algum jeito eu sentia
que eu era, no mais íntimo de mim
era intrinsecamente má
eu não conseguia encontrar defeito em ninguém
eu os via... eu lhes dizia que eram perfeitos
porque eu tinha de ser perfeita

mas nisso está o mal


Eu não sou perfeita
Eu sou intrinsecamente boa
é a camada de cima
que mente
nas mentiras está o mal
eu tolero bruxaria
para a bruxa gostar de mim
porque eu achava que eu precisava da bruxa para sobreviver

quando eu olhei no espelho


o terror era que não houvesse ninguém me olhando de lá
a alma não estava lá
eu era uma concha vazia
temendo encarar o mal a escuridão
conjurei a bruxa para me dar poder
sobre todos... a chefe do ringue
e assim
Eu sobrevivi, e bem
até Eu ter dado voz àquela criança desesperada, até Eu tê-la
visto agir
conscientemente, e não se tornar uma bruxa passivamente,
Eu estarei servindo ao ego e não a Deus.
Ela faz meus dentes e queixo doer.
é por isso que minhas coxas são tensas
meus orgasmos nos músculos tensos
pois eu me recuso a confiar
pelos que me amam
no medo está a sementeira da bruxa
pois enquanto eu não puder confiar na terra mãe
eu estou paralisada pelo medo de cair
meus músculos enrijecem de ódio com essa situação
e meu ser interior chora pela crueldade deste mundo
um mundo sem amor incondicional
meus músculos enrijecem para se proteger da queda
no medo fervo de ódio
com um sorriso na cara
disfarçada de supermãe, abelha rainha

se Eu conseguir aprender a confiar nos meus queridos


c depois na terra
e depois em deus
pois todos são um só
no cerne disso tudo
Eu confio em mim, o deus interior
Se Eu puder aprender a confiar
para que o toque de um homem
possa me rem eter até o miolo de minha natureza de mulher
vibrando com a intensidade da VIDA
com todas as células vivas de meu SER
explodindo em minha paixão

é essa paixão que temo


ela é a paixão reprimida pela vida
que minha vida inteira ficou adormecida
e então vem o padecimento
tanta dor pela vida perdida, amor perdido, paixão perdida
Eu estou de luto pela criança perdida
a criança que ainda vive em mim
a criança que não pode pedir vida
amor,
pois ela sabe que isso não lhe será dado
então ela foge de medo
rezando por algum sinal de amor
e a qualquer momento ficando inflada quando algum doido
afetuoso atravessa seu caminho
e tão amedrontada quando a vida parece enfim estar indo a seu
favor
quando os amigos falam dela
dê-me amor
anseio tanto por isso que fico inflada
eu começo a pensar que sou grande
mas por baixo disso tudo
está o medo,
a criança esperando que tudo lhe seja arrancado
e eu grito EU FAÇO QUALQUER COISA PARA VOCÊS ME QUEREREM,
ME ACEITAREM
e eu vivo com medo de ser apanhada, pois talvez eu tenha
feito alguma coisa errada,
de, se eu não corresponder a suas expectativas, ser rejeitada
e com essa rejeição vem a morte
eu não posso pedir amor
eu não o mereço
eu não posso pedir ajuda
eu não posso gastar dinheiro comigo pois não presto para nada
e aí está o desespero
o desespero crônico
e então de dentro sai
e aparece a criança da sombra
MALDITA SEJA EU NÃO VOU M ORRER
EU QUERO O QUE QUERO QUANDO QUERO
completamente enfurecida ela se rebela
sem sentir nada pois nos seus sentimentos está o desespero,
exilada de seus sentimentos, ela ferve de ódio
Eu quero vida
está na hora de entrar no medo
naquele medo que vive
girando em círculos na minha barriga
dando voltas e mais voltas
o remoinho de energia
não consegue escapar
está trancado
aquela cicatriz no meu coração fala
grita com m uita dor
uma imensa incisão que vai do pescoço até o diafragma
fazendo um entalhe em volta do meu coração
o tecido cicatrizado aprisiona os sentimentos
a dor me prende
ela me observa
por isso não tenho sentimentos

mas meu deus


Eu quero aquela paixão
Eu sou aquela paixão
Eu quero sair dessa gaiola
oh Deus, faça-m e confiar em Deus
para que eu agora tenha a sabedoria
Eu sei que é a paixão dos instintos
que vai me ligar à vida
e no entanto são justam ente esses instintos que eu reprimi
para poder sobreviver
com mamãe eu não podia ter instintos
pois ela estava desprovida deles
e a cicatriz, o coração ferido
aquela criança que amava a vida com tanta paixão
teve seu coração amputado
todos os sentimentos extirpados
ela costurou no coração
o buraco
a vida foi removida
ela foi removida da vida
e conseguiu sobreviver.
meu olho esquerdo se fecha para a vida
recua da visão do viver
eu certamente uso óculos
pois não conseguia ver a vida

a vida era o inimigo


e enquanto eu não a visse
estava a salvo de sua maldade, de sua loucura, de sua paixão
e com a tentação afastada
eu podia ter um a vida que fosse aceita
A gora Eu quero ver
Eu quero aquela paixão
aquele desespero não deve assomar e assumir
aquela paixão surgirá
levando-me devagar até onde eu sou sentir
fazendo-me chegar mais perto de mim inteira
da vida
de Deus.

O s a s p e c to s p s ic o ló g ic o s e n v o lv id o s n e s te s e x c e r to s d o d iá rio s e rã o d is c u tid o s
c o m m a is d e ta lh e s n o C a p ítu lo 6. E s s a s p a s s a g e n s ilu s tr a m a c o ra g e m n e c e s s á r ia a
e n f r e n ta r a p r o v a ç ã o q u e é r e c u p e r a r a p r ó p r ia a lm a . T a m b é m ilu s tr a m o v a lo r d e te r u m
d iá r io e o v a lo r d a c o n s c iê n c ia c o r p o ra l p a r a o re c o n h e c im e n to d e fa n ta s ia s , p a r a p o d e r
d e s c o n s id e r á - la s e r e to m a r a c o n e x ã o c o m o e g o . A s s im c o m o o c o n ta to c o m a S o fia
in te r io r , q u e J a n e b u s c a tã o a r d o r o s a m e n te , o q u e r id o d iá rio a n c o r a o e g o n a s d u a s
d ire ç õ e s , d a r e a lid a d e in te r n a e e x te rn a .
S e o lh a m o s n o e s p e lh o d e p r a ta e d e te s ta m o s o q u e v e m o s , e s ta m o s d e te s ta n d o
n o s s a p r ó p r ia r e a lid a d e . E s ta m o s in s titu in d o u m a c is ã o e n tre n o s s o s m u n d o s in te rn o e
e x te rn o . O q u e é a in d a p io r, se o lh a r m o s n o e s p e lh o e n ã o p u d e r m o s v e r o q u e d e fa to
e s tá lá, e n tra m o s n u m a c is ã o e s q u iz o frê n ic a . E m a lg u m lu g a r d e n tro d e n ó s, e x is te u m a
im a g e m p e rfe ita , u m a o b ra d e a rte p e rfe ita , u m a m á s c a r a m u ito b e m u r d id a a n o s
a r r a n c a r d e n o s s a p r ó p r ia c a r n e e s a n g u e . S e e s c o lh e r m o s n o s p a u ta r p e lo p r in c íp io
m a s c u lin o , a v a n ç a m o s r u m o à p e r f e iç ã o m o r ta d a " n o iv a a in d a n ã o d e flo ra d a " ; se
e s c o lh e r m o s n o s p a u ta r p e lo p r in c íp io fe m in in o , a v a n ç a m o s r u m o à im p e r f e iç ã o v iv a d a
r a d ia n te m u lh e r d e f lo r a d a — a v ir g e m c o m se u u n ic ó rn io .
O m is té r io f e m in in o v ic e ja n o A g o ra . S u a s e n e rg ia s e s tã o c o n c e n tr a d a s n o q u e
a c o n te c e n e s te m o m e n to : o m io s ó tis f a is c a n d o d e o rv a lh o , o a r o m a d e u m ú m id o
p in h e ir a l, a m ã o h e s ita n te — tu d o se u n in d o d e u m a m a n e ir a ím p a r, n e s te A g o ra . O
m is té r io f e m in in o r e la x a n a c o n c e n tr a ç ã o to ta l e é. O f e m in in o n ã o se p o u p a p a r a a lg u m
f u tu ro m o m e n to g lo r io s o , n e m se la m e n ta p o r a lg u m m o m e n to p e r d id o d o p a s s a d o .
N a d a re té m . O a g o r a é tu d o o q u e e x iste .
T a m b é m a q u i e s tá o v e r d a d e iro m is té rio d o c o rp o e m m o v im e n to . C a d a in s ta n te
d o m o v im e n to é o in s ta n te d a c ria ç ã o . T o c á - lo , tr a z e r c o n s c iê n c ia a e s s e m o v im e n to , é
a tin g ir o d o m ic ílio d o c e r n e m e s m o d e S er, s a b e r d isso , a o m e s m o te m p o , n u m g e s to
q u e é ju s ta m e n te S er. S e r e c o a c o m S IM à D e u s a .

Virgem domando unicórnio. Castello di Grinzane, Itália.


Sugestões Práticas para Criar Rituais Positivos de Alimentação
1. Reconhecer a diferença entre espaço sagrado e profano. Reconhecer onde estou
inconscientemente tentando unir-me aos deuses quando, na realidade, preciso prestar atenção a
minhas necessidades e limitações propriamente humanas.
2. Reconhecer hábitos crônicos, disciplinando o ego com amor. Encarar os fatos.
3. Fazer dieta para entrar na vida, não para afastar-me dela. Quero cuidar do meu
corpo. Quero transformá-lo, de um monte de carne, num corpo consciente. Quero escutar sua
sabedoria. Ele sabe como se curar se eu lhe der chance.
4. Confiar em meu senso de humor, especialmente para lidar com o animus. Quando ele
se tornar aborrecido ou cheio de sua própria importância, leve-o para dançar ou caminhar em
meio à natureza.
5. Reconhecer as zonas de perigo de cada dia. Mude criativamente os ritmos. Em vez de
correr para a geladeira para uma happy hour às cinco da tarde, tome um banho luxuriante,
dance, ouça música.
6. Reconhecer as zonas de perigo na mudança da imagem corporal. Reconhecer como a
nova imagem está afetando a mim e minha reação diante de mim mesma, e a reação dos outros
em relação a mim. Ocorre uma reação inconsciente diferente em relação a mim? Como sinto a
minha sexualidade? Quem é essa nova eu que está nascendo?
7. Reconhecer o momento do luto pelo velho corpo.
8. Reconhecer a comida como um símbolo que funciona entre os mundos interno e
externo, e entre os mundos interno e espiritual.
9. Reconhecer os truques de minha própria caixa de Pandora. Comer pode ser uma
trama diabólica que eu arquitetei contra mim mesma.
10. Reconhecer a diferença entre a fome de verdade e um vazio agudo. Encontrar
alimento espiritual para uma fome espiritual.
11. Reconhecer decisões que precisam ser tomadas agora e agir nesse sentido. Faxinar
todo o velho material de sombra do meu armário. Abandonar as atitudes, roupas e os sapatos
antigos que não são mais Eu.
12. Reconhecer a minha própria responsabilidade diante de meu corpo lindo, seja ele
grande ou pequeno. Essa é a minha vida.

Este é o tempo da tensão entre morrer e nascer


O sítio da solidão onde três sonhos se encontram
Entre as pedras azuis
M as quando as vozes caídas dos teixos se afastam flutuando
Deixe que o outro teixo seja sacudido e responda.
Abençoada irmã, mãe sagrada, espírito da fonte, espírito do jardim,
Não nos condenem a zom bar de nós mesmos com falsidades
Ensinem-nos a nos im portar e a não nos importar
Ensinem-nos a fic a r imóveis
M esmo quando entre estas pedras.
Nossa p a z na vontade Dele
E mesmo entre estas pedras
Irmã, mãe
E espírito do rio, espírito do mar,
Não me condene a estar separado
E p erm ita que meu apelo chegue a Ti.

T. S. Eliot, "Ash-Wednesday"

Quando a alma deserta a sabedoria (sapientia) do amor, que é sempre imutável e una, e deseja
conhecer (scientia) a experiência das coisas temporais e mutáveis, torna-se inchada em vez de mais
consistente. E, dessa form a avaliada, a alma perde sua condição abençoada, como se despencasse por
causa de seu próprio peso.

Santo Agostinho, De trinitate


5 - O mito de ser ms
Eu queria parar isso,
esta vida achatada contra a parede,
muda e sem cor.
fe ita de pura luz,
esta vida só de visão, dividida
e remota, um impasse lúcido.
Eu confesso: isto não é um espelho.
é uma porta
atrás da qual estou presa.

M argaret Atwood, "Tricks with mirrors"

E r a u m a v e z u m re i q u e v iv ia n u m lin d o c a s te lo c h a m a d o C a s a L o m a . A g o r a o
re i e s tá v e lh o e s o z in h o , a c o s s a d o p e la s le m b r a n ç a s d a jo v e m e s p o s a q u e u m d ia a m o u e
d e s e u s q u a tr o f ilh o s , a g o r a e s p a lh a d o s p e lo s q u a tro c a n to s d o m u n d o . E e le p e n s o u c o m
s e u s b o tõ e s : " D e v o c a s a r - m e d e n o v o . E n c o n tra re i u m a n o v a e s p o s a e te re i n o v o s
filh o s " . C o m is s o , m a n d o u s e u e m is s á rio à s p r o v ín c ia s p a r a ir e m b u s c a d a n o iv a
p e rfe ita .
Q u a n d o o e m is s á r io v o lto u , tr o u x e c o n s ig o u m a lin d a m u lh e r — e le g a n te d e
c o rp o , in s tr u íd a — c u jo ú n ic o a n s e io n a v id a tin h a sid o to r n a r - s e ra in h a , e c u ja ú n ic a
f o b ia n a v id a e r a m o s c ã e s . R a in h a e la se to rn o u , e a o m a r id o d e u tr ê s filh a s a n te s q u e
e le m o rre s s e .
A p rim o g ê n ita , d e q u e m o s p a is g o s ta v a m m a is q u e a s o u tra s , fo i c h a m a d a d e
E le c tr ic a . F o i q u e m h e r d o u o m e lh o r d a in te lig ê n c ia e d a b e le z a d e s e u s p a is. S u a m ã e
tr e in o u - a p a r a s e r r a in h a , n ã o p o u p a n d o e s f o rç o s p a r a fa z e r d a f ilh a a ra in h a p e rfe ita .
E la a f a m ilia r iz o u c o m Y v e s St. L a u re n t, E s té e L a u d e r e a b ib lio te c a d a U n iv e r s id a d e d e
H a rv a rd . A b r i u - l h e a p o r ta d e u m c u rs o d e p ó s - g r a d u a ç ã o e m O x fo rd , a o la d o d o s
m e lh o r e s p r ín c ip e s q u e a a c a d e m ia p o d e r ia o fe re c e r. E E le c tr ic a e n v e r g a v a a c o ro a re a l
e m s u a r é g ia c a b e ç a , d e s e m p e n h a n d o m e tic u lo s a m e n te se u p a p e l. S o rria n o s m o m e n to s
c e rto s ; c h o r a v a n a s h o r a s c e rta s ; s a b ia q u a n d o le v a n ta r o s lo n g o s c ílio s e q u a n d o
a b a ix á - lo s p a r a c ria r u m m o m e n to d e m isté rio .
M a s E le c tr ic a n ã o p r o s p e r a v a c o m s e u s p rin c ip e s c o s a c o m p a n h a n te s . E m v e z
d is s o , to r n o u - s e a r a in h a d e W a ll S tre e t, r é g ia e m s e u c o s tu m e d e tr ê s p e ç a s , d e r is c a d e
g iz , u s a n d o s a p a to s d e c o r a z u l- e lé tric o e s a lto a g u lh a . E la s e m p re p o r ta v a s u a in s íg n ia
d e e s c ritó rio : a p a s ta p re ta , c h e ia d e p a p é is im p o rta n te s , A n a c in e C a s c a r a e p o m a d a d e
e s te r ó id e s p a r a s u a s d o r e s d e c a b e ç a , c o n s tip a ç ã o e p la c a s d e p s o ría s e .
E a n te s d e i r p a r a a c a m a , e m se u a p a r ta m e n to to d o e m v id r o e a ç o c ro m a d o , e la
d e s lig a v a s e u f o r n o d e m ic r o o n d a s , o e s té re o e a s lu z e s re o s ta to . L ig a v a o c o b e rto r
e lé tr ic o e o u v ia a v o z d e s u a m ã e c a n ta ro la n d o .

VovóH ubbard
Foi até o armário
Pegar um osso para seu velho cão.
Mas quando chegou lá
O armário estava vazio
E o pobre do cão fico u sem nada.

A sigla m., recém-criada pela língua inglesa, serve para designar a mulher econômica e
socialmente independente, que recusa o designativo mrs. (sra.) usado na malha social para a mulher
casada sustentada pelo marido, e o miss (srta.), da solteira dependente. (N. T.)
A o d o rm ir, E lé c tr ic a s o n h a v a c o m u m c o m p u ta d o r m o n ito r a n d o s o n s — a s n o ta s
ia m s e n d o lid a s p o r u m f u r o n o p a p e l. E la fic a v a fa s c in a d a p e la m e d id a ta n g ív e l d o
so m . E , n o s o n h o , e la a p r e n d ia a o u v ir m ú s ic a o lh a n d o a s n o ta s q u e p a s s a v a m p e lo s
fu ro s .
C o m is s o , a s á b ia E lé c tr ic a p ro s p e ro u .
A s e g u n d a f ilh a e r a c h a m a d a L e s b ia . E L e s b ia e r a a s e g u n d a s e m p re a se g u n d a .
S e u p a i ra r a m e n te a p e r c e b ia e e la s e n tia m e d o d a m ã e . E la só s a b ia d e u m a c o is a c o m
c e rte z a : o q u e s u a m ã e e ra e la n ã o era. F o i s e n d o le v a d a p e la v id a , u s a n d o se u C a p e z io
v e r m e lh o . A p a ix o n o u - s e p o r u m lin d o m o n g e q u e , e v id e n te m e n te , e m b o ra a a m a s s e ,
te v e d e r e je itá - la . C o m o c o ra ç ã o a p u n h a la d o p e la d o r, v e io a se c o n h e c e r m e d ia n te
d e lic a d o a m o r d e u m a m u lh e r e m q u e m p ô d e c o n fia r.
E , c o m o p o e ta , L e s b ia p ro s p e ro u .
O re i e a r a in h a n ã o h a v ia m d e s e ja d o u m te r c e ir o f ilh o e q u a n d o a c r ia n ç a
c h e g o u n ã o tin h a m a m e n o r id é ia d e q u e n o m e lh e d ar. C h a m a r a m - n a s im p le s m e n te
B o b a lin a . N in g u é m d a v a a m e n o r a te n ç ã o à p e q u e n in a , f e ia e r e c h o n c h u d a B o b a lin a .
E l a p e r a m b u la v a p e la c o z in h a d o c a s te lo , a b r a ç a d a à s u a b o n e q u in h a . A d o r a v a
c o n v e r s a r c o m o j a r d i n e i r o q u e a e n s in o u a o u v ir a s flo re s . E n tã o , u m d ia , d is p a r o u p e lo
p o r tã o d a fre n te , g a n h o u a r u a e e n tro u n a ra v in a . E n q u a n to c o rria , c a iu n u m b u ra c o .
C a iu , c a iu , p o r m u ito te m p o . E s ta v a c e rta d e q u e a q u ilo d e v ia s e r o q u e o s a d u lto s
c h a m a m m o rre r. M a s a te r r is s o u n u m c h ã o e s c u ro , d e te r r a q u e n te e m a c ia so b seus p é s
n u s. E u m r a p a z m u ito a lto se a p ro x im o u .
" Q u e m é v o c ê ? " , e la in d a g o u .
" U m c o r o in h a " , e le d isse .
" V o c ê é a lto d e m a is p a r a s e r c o ro in h a " , e la re s p o n d e u .
" D e p e n d e d o a lta r, v o c ê n ã o a c h a ? "
E c o m is s o o f e r e c e u a m ã o a B o b a lin a e c o n d u z iu - a p e la m a ta a té u m a g ru ta
f o r r a d a c o m fo lh a s d e v id e ira . A li e le lh e d e u c rista is, flo c o s d e n e v e , lá g rim a s e u m
a rc o -íris .
" V o c ê d e v e d e s c o b r ir c o m o e s ta s c o is a s se r e la c io n a m e n tre si", e le d isse . E
B o b a lin a c h o r o u m u ita s v e z e s q u a n d o o a r c o - ír is d e s a p a r e c e u d o s c ris ta is e as lá g rim a s
v ir a r a m f lo c o s d e n e v e . A n s ia v a e m v o lta r p a r a s u a m ã e , m a s n ã o h a v ia m ã e p a r a q u e m
v o lta r. E la n ã o s a b ia m a is s e ia d o r m ir p a r a s o n h a r, o u se a c o rd a v a p a r a so n h a r.
M a s o te m p o p a s s o u e e la c re sc e u . S e u r o s tin h o n ã o e s ta v a m a is f r a n z id o pelo
q u e b r a - c a b e ç a . P o d ia c o n te m p lá - lo a c e r ta d is tâ n c ia e d e s c o b r iu q u e , a p e r ta n d o u m
p o u q u in h o o s o lh o s , e la c o n s e g u ia v ê - l o c o m m a is n itid e z . E n tã o , u m d ia , p o r a c a s o , e la
v iu o v e r d e , o a m a re lo , o r o s a d o a r c o - ír is e m a n a n d o d o s c ris ta is , a s lá g rim a s e o s flo c o s
d e n e v e . E r a o d e s e n h o m a is s in g u la r q u e j á h a v ia v is to n a v id a . S e n tia - s e m a is a lta e
m a is b a ix a , m a is f e liz e m a is tr is te , m a is r ic a e m a is p o b re , d o q u e e m q u a lq u e r o u tro
m o m e n to d e s u a v id a . S e n tia - s e n a p r e s e n ç a d e A lg u é m . V iro u o ro s to e v iu dois p é s
g r a n d e s — b r a n c o s , m a c io s e fo rte s. R e c o n h e c e u o n d e e s ta v a , o n d e n a v e r d a d e e s tiv e r a
o te m p o to d o . V iu o a lta r d e p e d r a e o c o ro in h a , q u e n ã o e r a d e n e n h u m m o d o a lto
d e m a is p a r a a q u e le e le v a d o a lta r d a D e u s a .
A g o r a e le e s ta v a c o m u m c a p a c e te e s a n d á lia s d e p ra ta . E la e r g u e u o s o lh o s m a s
n ã o v iu a f a c e d a D e u s a . E m v e z d isso , v iu u m a lu z a z u l v ib ra n te , b rilh a n d o c o m o u m a
in te n s a L u a c h e ia . I n s tin tiv a m e n te p re c is o u se c u rv a r e, a o se a jo e lh a r, o d e s e n h o q u e
t e c e r a c o m o s o lh o s d e s c e u - lh e so b re o s o m b r o s c o m o u m m a n to d e filó . C a iu c o m a
d e lic a d e z a d a c h u v a , c o m o b ê n ç ã o d a D e u s a . E n f im , h a v ia e n c o n tr a d o a m ã e q u e n u n c a
tiv e ra .
E , a o e s ta r a jo e lh a d a , a v o z d a D e u s a d isse : " M a is b a ix o " . E la a b a ix o u o c o rp o
m a s n o v a m e n te d is s e a v o z : " M a is b a ix o " , a té e la s e n tir a te r r a m a c ia e m b a ix o d e s e u
rosto e seus braços. E entendeu que precisava sentir o amor desse grande corpo para ser
capaz de levar a luz azul de volta para o mundo de onde viera.
De que maneira Bobalina levou sua recém-descoberta sabedoria até o reino de
Casa Loma não estou bem certa. Trazer o tesouro a salvo de volta para casa é sempre a
tarefa mais misteriosa do conto de fadas. Vou ser bem moderna e deixar que você
chegue à sua própria conclusão.
Bem, este conto tem muitas falhas inautênticas. Foi montado a partir dos sonhos
e das fantasias de meus analisandos. Sou-lhes profundamente grata por me haverem
permitido o acesso a seu material, pois é somente por intermédio dos sonhos que
podemos observar o problema coletivo inconsciente a roer o coração de nossa
sociedade. Essa história ilustra o esqueleto da questão que estamos discutindo: como as
perfeccionistas compulsivas, que só se interessam por metas, descobrem o caminho de
volta ao antigo relacionamento com o próprio coração?
Na interpretação psicológica dos contos de fadas, consideramos todas as
personagens como partes de uma psique que está buscando sua totalidade, e essa única
psique como representante de uma cultura social. Temos, neste conto, um rei velho e
moribundo, símbolo dos valores espirituais e políticos que um dia mantiveram a cultura
como um todo. Sua primeira rainha está morta; em outras palavras, os valores afetivos
que haviam tornado significativo e vital o convívio com o velho rei não existem mais.
Os filhos que a antiga cultura produziu estão espalhados pelos quatro cantos do mundo.
Em termos da cultura do século XX, o mito coletivo que manteve esse reino unido por
séculos está debilitado. Somos como a tribo australiana primitiva que recebeu sua
árvore sagrada dos deuses. Eles carregavam o tronco consigo para onde quer que
fossem. Suas comunicações entre céu e terra eram efetuadas por intermédio desse
tronco. Ele era o centro de seu universo, o meio pelo qual estabeleciam seu sistema de
valores, seu amor, suas esperanças, sua sensação de autoconfiança, sua alegria. O
espaço delimitado em torno do tronco era sagrado — cosmo organizado. Fora desse
espaço sagrado era o caos. Quando o tronco quebrou, a tribo inteira se lançou ao solo,
esperando a morte. A vida tinha deixado de ter sentido.1
Em nossa cultura, os pilares da Igreja deixaram de ser troncos sagrados. O
cosmo que antigamente os circundava desapareceu e mais uma vez é o caos. O centro
não se sustentará. Na ausência de um mito coletivo, alguns de nós somos forçados —
por uma questão de sobrevivência — a tentar estabelecer seu próprio espaço sagrado em
meio ao caos. Mas, no corre-corre da vida moderna, não conseguimos encontrar nosso
mito pessoal. Nesse sentido, fé, esperança e amor não se encontram mais.
Em seu lugar, temos uma falsa rainha cujo sistema básico de valores está
baseado no poder. Rápida em se aproveitar da debilitada virilidade do rei, antes
cultivada por seu relacionamento com Deus, a falsa rainha coloca no trono sua ambição.
Tudo é distorcido de modo a alimentar o anseio egocentrado e materialista de ter, cada
vez mais, tudo. Mas não há como satisfazer uma bruxa pois seus apetites não estão
ancorados em seus instintos e, portanto, não conhecem o ponto natural da saciação.
Enquanto isso, os verdadeiros instintos estão à míngua.
A bruxa traz ao mundo três filhas, cada uma um aspecto da moderna Ms., cada
uma em busca de seu próprio mito, pois sem este a vida não tem significado. Não há
rituais ou instituições modernas fortes o bastante para conter a confusão até que o
conflito esteja resolvido, se torne obsoleto ou seja transcendido. A moderna Ms. está
rodopiando no limbo, sem passado ao qual recorrer em busca de modelo, sem um
presente seguro e tampouco um futuro conhecido. Ela é uma pioneira de grande

1 Mircea Eliade, Sacred and profane, pp. 33-4.


c o r a g e m . R e c u s a - s e a s e r s e n h o r ita (m is s ) p o is n ã o se a c e ita m a is c o m o a f ilh a s o lte ira
d e s e u s p a is . E l a r e je ita s u a id e n tif ic a ç ã o c o m a fa m ília . P o d e r e c u s a r - s e a s e r s e n h o r a
ta l (m rs .), e x c e to e m c e r ta s s itu a ç õ e s , p o rq u e n ã o q u e r m a is s e r id e n tif ic a d a c o m se u
m a rid o . S e f o r e x p e r ie n te , p e r c e b e q u e o s h o m e n s e m s u a v id a e s tã o n u m lim b o
s e m e lh a n te p o rq u e , tã o lo g o s u a s p ro je ç õ e s d e a n im a s e ja m r e je ita d a s o u r e c o lh id a s , o s
p a d r õ e s e s te r e o tip a d o s d e r e la c io n a m e n to n ã o f u n c io n a m m a is . E e s te r e ó tip o é a p a la v r a
c e rta a q u i, p o r q u e e le n ã o c o n té m q u a lq u e r n u m in o s id a d e , n e n h u m a e n e r g ia v iv a ,
n e n h u m a in te n s id a d e de s e n tim e n to s . O e s te re ó tip o é u m a v is ã o d e s g a s ta d a , u m
a r q u é tip o m o rto , o u , ta lv e z a in d a p io r, u m a p a r ó d ia d ele.
M u ita s p e s s o a s d e m in h a g e r a ç ã o fo ra m c ria d a s p o r m ã e s e d u a r d ia n a s , n a s q u a is
e s ta v a c in d id o o a r q u é tip o fe m in in o . C o n s c ie n te m e n te , a m u lh e r te n ta v a v iv e r s e g u n d o
o a s s im c h a m a d o p a p e l d e M a d o n a : a m ã e p e r f e ita , a m o ro s a , c o m p a s s iv a , tr a b a lh a d e ira ,
c a s ta . I n c o n s c ie n te m e n te , e la c o n tin h a a a s s im c h a m a d a p r o s titu ta e m s e u c o rp o , d o q u e
r e s u lta v a a d is s o c ia ç ã o d e s e u e g o f e m in in o d e se u c o rp o fe m in in o . I n c o n s c ie n te m e n te ,
o s f ilh o s se r e la c io n a v a m c o m o la d o e s c u ro , a V ir g e m N e g ra . E la é q u e m e s tá , a g o ra ,
e x ig in d o a te n ç ã o e m n o s s a s o c ie d a d e . A V ir g e m N e g r a s e m p re e s te v e p r e s e n te , é ó b v io ,
m a s n e m s e m p r e fo i re c o n h e c id a . N a I n g la te r r a v ito r ia n a , u m h o m e m tin h a e s p o s a e
f ilh o s e m c a s a e, e m s e g re d o , a a m a n te . E m a lg u m a s s o c ie d a d e s , e la e ra a c e ita c o m o u m
fa to . N a s s o c ie d a d e s p u r ita n a s , e la e ra a v a g a b u n d a , o q u itu te s e c re to , o b r in q u e d in h o
e ró tic o . A g o r a e s ta m o - n o s d e s v e n c ilh a n d o d e n o s s a s m o r ta lh a s p u r ita n a s e
r e c o n h e c e n d o a e n e r g ia d a V ir g e m N e g ra . O s s o n h o s c o le tiv o s e s tã o fo r ç a n d o u m a
a p r o x im a ç ã o c o m n o s s a p r ó p r ia te rra , c o m n o s s o s c o rp o s , e s tã o n o s f o r ç a n d o a um a
r a d ic a l r e o r ie n ta ç ã o d e n o s s a s a titu d e s p a r a c o m o fe m in in o . A p r im e ir a d e s c a r g a d a
e n e r g ia d e s s a V ir g e m N e g r a p o d e r e s u lta r p a r a a m u lh e r n u m a v iv ê n c ia d e si c o m o
p ro s titu ta ; ta m b é m o s h o m e n s se p e r c e b e m c h o c a d o s o u a s s u s ta d o s p e la d e s c a r g a d e s s a
fo rç a . A in te g r a ç ã o d a s o m b r a é u m tr a b a lh o p e rig o s o p a r a a m u lh e r, e a in te g r a ç ã o d a
a n im a é a o b r a - p r im a d a a n á lis e , p a r a o h o m e m . E s s a é a tra iç o e ir a te r r a d e n in g u é m
q u e d e v e m o s e x p lo ra r, se q u is e r m o s ro m p e r c o m n o s s o v íc io d e p e rfe iç ã o .
P r o v a v e lm e n te , o l e g a d o m a is n e g a tiv o q u e a s m ã e s p o d e m d e ix a r p a r a a s filh a s
— e o tê m fe ito h á g e ra ç õ e s — é a r e p re s s ã o d e s u a s e x u a lid a d e e d e se u c o rp o . Is s o
te m r e s u lta d o e m m u lh e r e s q u e h o je e s tã o te n d o d e in te g r a r à s u a a u to - im a g e m , c o m o
p e s s o a s e m o c io n a is , p e n s a n te s e e s p ir itu a is , a n o ç ã o d e q u e s ã o ig u a lm e n te c r ia tu r a s
s e x u a is e p a s s io n a is . E la s e s tã o te n ta n d o r e tin ir s e u s a trib u to s d iv in o s e a n im a is .
E r ic a é u m e x e m p lo típ ic o . T e m 35 a n o s, é lin d a , id e a lis ta e g o z a d e a lta
r e p u ta ç ã o p ro fis s io n a l. T e m u m a p e r s o n a á u re a , m a s ta m b é m u m la d o "e sc u ro " a o q u al
d á v a z ã o e m s e g re d o . E s tá n u m a lu ta h e r ó ic a p a r a d e s c o b r ir se p e r te n c e o u n ã o a e s ta
s o c ie d a d e . D e p o is q u e s e u p a i a b a n d o n o u a fa m ília , s u a m ã e d e d ic o u a e x is tê n c ia a c ria r
o s f ilh o s e r e p r im iu s u a s p r ó p r ia s n e c e s s id a d e s e s e n tim e n to s . D iz E ric a :

Aos 20 anos, eu não queria ser mulher. Se o Canadá tivesse entrado em guerra com os
muçulmanos, eu teria ido para a frente de batalha com uma metralhadora porque o mundo representava a
degradação da mulher. Eu desejava abater a tiros tudo o que representasse o papel subserviente e restrito
dentro do qual eu tinha sido criada. Odiava aquele papel de mártir que minha mãe me havia transmitido.
Não me curvava a homem algum. E não podia fingir que não tinha um corpo com necessidades e prazeres
próprios.
Quando estava na universidade, pesava 75 quilos porque sentia fome o tempo todo. Eu comprava
meio quilo de bolo e comia tudo. Sexo era muito importante para mim, mas eu não entendia por que,
nessa época. Agora eu sei que é o modo como me sinto no meu corpo. Mas e a culpa! Eu me sentia muito
culpada em relação à minha mãe; procurava então um homem que fosse como uma mãe para mim, me
amasse incondicionalmente, me pusesse no colo, me abraçasse — fosse minha MÃE. E então o meu
desprezo assomava e eu o esmagava sob meus pés. Odiava-me e odiava o homem. Odiava-o por me
perm itir ser a menininha que eu queria ser.
A c o n tr a d iç ã o n o c e r n e d a p s ic o lo g ia d e E r iç a é n ítid a . A o se e x p e r im e n ta r c o m o
q u e r ser, e la se s e n te u m a p ro s titu ta , o q u e n ã o é o q u e e la d e s e ja ser. E la q u e r ro m p e r
c o m s u a m ã e ; e la n ã o q u e r r o m p e r c o m a m ã e . E la q u e r s e r u m a m u lh e r; e la n ã o q u e r
s e r m u lh e r. S e r m u lh e r é s e r c o m o s u a m ã e , s u b s e rv ie n te a o h o m e m q u e a d e s tru iu . M a s
e la é p r is io n e ir a d e s u a p r ó p r ia s e x u a lid a d e q u e , ju n t o c o m o m e io q u ilo d iá rio d e b o lo ,
a m a n té m p r e s a a o c o rp o . A c o n tra d iç ã o se r e s o lv e n o se g u in te : a o ro m p e r
c o n s c ie n te m e n te c o m o s v a lo r e s d e s u a m ã e , e la in c o n s c ie n te m e n te o s re a firm a . A o se
e m a n c ip a r , e la se t o r n a a o s p r ó p r io s o lh o s u m a p ro s titu ta . Os p ra z e re s d o c o rp o sã o
a n u la d o s p e la c u lp a , a té c u lp a e p r a z e r se id e n tific a re m . E is a v e r d a d e ir a c u lp a !
F e lic id a d e é s e n tir c u lp a , e s o m e n te a q u e le s p r a z e re s p r o ib id o s c o n tê m a e n e rg ia
m a g n é tic a , a n u m in o s id a d e d a V ir g e m N e g ra .
A m ã e d e E r iç a n ã o te m c o n s c iê n c ia d e s u a f e m in ilid a d e , m a s a m ã e d e L is a é
u m a m u lh e r b a s ta n te c o n s c ie n te , p r o f is s io n a l, c r ia d a n a d é c a d a d e 1 9 5 0 . E o p r o b le m a
d e L is a é ig u a lm e n te p a ra lis a n te :

Adoro a minha mãe. Ela é suave, compreensiva, inteligente, quer que eu seja quem eu sou, de
verdade. Ela é exatamente a minha idéia do que uma mulher deve ser. Se me percebo falando e me
vestindo como ela, sinto culpa. Acho que a traí por não ter lutado para descobrir minha própria
identidade, tal como ela fez.

E m a g u d o c o n tr a s te c o m L is a e s tá J u d ith :

O que tenho a dizer é que não serei como minha mãe. Tudo o que ela é eu não sou. E sabe o
pior? Ela agora está me copiando. Ela tenta se vestir como eu; ela até quer que eu a ajude com a
maquiagem. Ela observa todas as minhas reações e me imita.

E s s a s tr ê s j o v e n s m u lh e r e s m o s tra m s in a is d e e s ta re m c o n fin a d a s n u m a
p a r t i c i p a t i o n m y s tiq u e c o m a m ã e e s e u s s o n h o s , c o m o o s d e m u ito s h o m e n s e m u lh e re s
m o d e r n o s , s ã o p e r m e a d o s p o r s ím b o lo s q u e m o s tr a m o q u ã o p r o f u n d a m e n te se
e n c o n tr a m e n r e d a d a s n o c o m p le x o m a te rn o .
H á u m n ú m e r o in c o n tá v e l d e m u lh e r e s n a s c id a s n a s d é c a d a s d e 1 9 6 0 e 7 0 q u e se
r e s s e n te m p r o f u n d a m e n te d o m o d o c o m o o p a tr ia r c a d o d e s tr u iu s u a f e m in ilid a d e , e a d e
s u a s m ã e s , q u e d e c la r a ra m g u e r r a c o n tr a o p a tr ia r c a d o m a s , c o m is s o , se id e n tific a ra m
c o m o la d o m a s c u lin o d e s e u p r ó p rio p s iq u is m o .2 E m a lg u n s c a s o s , a c a b a ra m se
to r n a n d o o m e s m o q u e m a is te m ia m : o la d o b r u x a d e s u a s m ã e s , o u , e m te r m o s
ju n g u ia n o s , o a n i m u s n e g a tiv o .
P o r m a is a s s o m b r o s o q u e e s s e p r in c íp io d o p o d e r p o s s a s e r q u a n d o se p õ e e m
m o v im e n to n u m a a ç ã o d e s tr u tiv a , e le a in d a a s s im p o d e s e r p s ic o lo g ic a m e n te n e c e s s á rio .
C o n s id e r a n d o o d e s e n v o lv im e n to in d iv id u a l d a s m u lh e re s , v e jo a p e q u e n a P e r s é f o n e
c h e g a n d o a o m e u c o n s u ltó r io , v ir g e m d e lic a d a m e s m o a o s 5 0 a n o s , b a s ic a m e n te
id e n tif ic a d a c o m s u a m ã e o u , n u m n ív e l a rq u e típ ic o , c o m se u in c o n s c ie n te . E m se u s
s o n h o s , e la e s tá c o m s u a m ã e , f e liz o u in fe liz , c o lh e n d o flo re s ; c a m in h a m cam po
a d e n tr o e s ã o q u a s e m o r ta s p o r u m a v a n q u e e s tá p a s s a n d o o u p o r u m im e n s o c a m in h ã o
c o m d o is o u três r e b o q u e s a tre la d o s . E s s e s v e íc u lo s re p r e s e n ta m o c o m p le x o m a te rn o
d e s p e r s o n a liz a d o . À s v e z e s , e m s e u s s o n h o s , a m ã e a p a r e c e c o m o u m a b r u x a m a lv a d a
q u e a m a n té m p ris io n e ira . N e s s e a s p e c to é im p o rta n te re c o r d a r a b r u x a q u e m a n té m
J o ã o z in h o e M a r ia c a tiv o s . P o r m a is m a lv a d a q u e fo s s e m a n te n d o -o s p re s o s , ela, a o
m e s m o te m p o , e s ta v a f o r ç a n d o - o s a d e s e n v o lv e r to d a a s u a e n g e n h o s id a d e p a r a
p o d e r e m e s c a p a r e s o b re v iv e r. E fo i o p rin c íp io fe m in in o , M a ria , q u e n u n c a d e s is tiu d e
s u a f é n a v id a , q u e m c o n tin u a m e n te e n c o r a jo u o d e s e s p e r a d o J o ã o z in h o . Q u a n d o

Um exemplo clássico é Mary Daly, a autora feminista de Beyond God the rather, cuja
reputação prosperou à base de virulentos ataques desfechados contra os homens.
c h e g o u o m o m e n to c e rto , e le s e s ta v a m e s p e rto s o s u fic ie n te p a r a j o g a r n o fo g o a su a
n e g a tiv id a d e e s a ir c o r r e n d o . M a s a q u e la b r u x a f o r ç o u o d e s e n v o lv im e n to d e s u a
m a tu r id a d e e o r e c o n h e c im e n to d o q u e , p a r a e le s, tin h a v a lo r (n o v a m e n te , o m o tiv o d a
f e l i x c u lp a ).
D e m o d o s e m e lh a n te , n a h is tó ria d e D e m é te r e P e rs é fo n e , é G a ia — a T e rra
M ã e , m ã e d e D e m é te r — q u e m c o n s p ir a p a r a q u e H a d e s r a p te C o re , e s tu p r e - a e
a r r a n q u e - a d o s a f e tu o s o s c u id a d o s d e s u a m ã e . C o re , c o m o d iz o m ito , d e s c o b riu -s e n o
le ito c o m H a d e s , " m u ito c o n tra s u a v o n ta d e , e a n s ia n d o p e la m ã e " .3 D e p o is d e te r
p e r d id o s e u la r, s e u s c o m p a n h e ir o s d e f o lg u e d o e o m u n d o q u e e ra s e u c o n h e c id o , C o re -
P e r s é f o n e d e s c o b r e - s e s o z in h a , c o m o p rin c íp io m a s c u lin o , n o m u n d o in fe rio r. E s s e é o
p a d r ã o a r q u e típ ic o : a m u lh e r te m d e s e r s e p a ra d a d a m ã e e, p a r a q u e is s o o c o rra , e la te m
d e se r e n d e r a o p r in c íp io m a s c u lin o , s e ja in te rn a , s e ja e x te rn a m e n te . O u o h o m e m
e x te r n o a le v a e m b o r a s e x u a lm e n te , o u e la se id e n tif ic a c o m o h o m e m in te rio r; e m to d o
c a s o , e la c o r r e o r is c o d e s e r p o s s u íd a p e lo a n im u s .
O c a m in h o f e m in in o n a tu ra l a té a m a tu rid a d e fe m in in a p a s s a p e lo c o rp o . É is s o
o q u e e s s e n c ia lm e n te c o n s titu i o s a n tig o s r ito s d e in ic ia ç ã o . E le s a s s e n ta v a m a m e n in a
e m s e u p r ó p r io c o r p o q u e e ra , e n tã o , r e c o n h e c id o c o m o p a r te d o c o s m o f e m in in o — u m
v e íc u lo p a r a a fe rtilid a d e , o c o n tin e n te q u e a to r n a v a u n a c o m a D e u s a , p o r m e io d o q u a l
a v id a m a n tin h a - s e e te r n a m e n te e m m o v im e n to .
E m n o s s a s o c ie d a d e , c o n tu d o , n ã o te m o s r ito s e h á p o u c a s m u lh e r e s m a is v e lh a s
c a p a z e s d e n o s in ic ia r e m n o s s a fe m in ilid a d e . A m a io r ia d o s h o m e n s e d a s m u lh e re s
e s tá in c o n s c ie n te m e n te i d e n tif ic a d a c o m o p r in c íp io m a s c u lin o (o s is te m a c o n s c ie n te d e
v a lo r e s d e n o s s a s m ã e s ) e te m p o u c a o u n e n h u m a c o n s c iê n c ia d e n o s s o s in s tin to s
f e m in in o s p ró p rio s . A s s im , f ic a m o s c o n fu s a s . A lg u m a s m u lh e r e s te n ta m e n c o n tr a r a
v a lid a ç ã o d e s u a f e m in ilid a d e m e d ia n te u m re la c io n a m e n to h o m o s s e x u a l; o u tra s f a z e m
d e s e u s a m a n te s m ã e s a f e tu o s a s , e n q u a n to o u tr a s a in d a , in c o n s c ie n te m e n te , fentam
c a lç a r o s s a p a to s a p e r ta d o s d e s u a s m ã e s.
N e s s a s s itu a ç õ e s , o p r in c íp io m a s c u lin o g e n u ín o n ã o e s tá p re s e n te . O f e m in in o
a d o le s c e n te , ta n to e m h o m e n s c o m o e m m u lh e re s , n ã o p o d e se r e la c io n a r c o m o
m a s c u lin o , p o r q u e a p o la r iz a ç ã o n ã o e s tá aí. N ã o e x is te u m m a s c u lin o g e n u ín o , n e m u m
f e m in in o g e n u ín o . A s s im , n ã o é a " o u tro " q u e o f e m in in o jo v e m e s tá se e n tre g a n d o .
S e m a a lte rid a d e , a r a z ã o to d a d e C o re s e r s e q ü e s tr a d a p o r H a d e s e tr a n s f o r m a d a e m
P e r s é f o n e f ic a p e rd id a . A s e n h o r ita (m is s ) n ã o é tr a n s f o r m a d a e m "M s." o u s e n h o ra
(m rs .). Q u a n d o m a s c u lin o e f e m in in o sã o in d if e r e n c ia d o s , o a to d a u n iã o é m e r a m e n te
u m a id e n tif ic a ç ã o . E m te r m o s m ito ló g ic o s , e la s e ria o h e r m a f r o d ita n e u tro . E la p o d e
a c re d ita r q u e é u m a n d ró g in o , u m a m u lh e r in d e p e n d e n te , m a s, d e f a to , e la a b d ic o u p a ra
s e m p r e d e s e r u m a m u lh e r e d e c id iu in c o n s c ie n te m e n te , e m v e z d is s o , n ã o s e r n a d a . O
v e r d a d e ir o a n d r ó g in o c o r p o r if ic a a u n iã o c o n s - c ie n te d o m a s c u lin o e d o fe m in in o
d if e r e n c ia d o s , o q u e é m u ito d if e r e n te d o h e r m a f r o d ita n e u tr a liz a d o e m q u e m o s o p o s to s
e s tã o s im b o lic a m e n te u n id o s .
O g r a n d e p e r ig o d e n o s s a s o c ie d a d e é q u e a m u lh e r p o s s a a c r e d ita r q u e se to r n o u
u m a M s . in d e p e n d e n te q u a n d o , n a v e rd a d e , e la a p e n a s fo i p o s s u í d a p e l o a n im u s . N e s s e
c a s o , e la se to r n a u m a p a r ó d ia a m b u la n te d o s h o m e n s. E n r e d a d a p e lo m a s c u lin o
in d if e r e n c ia d o , e la e s tá com os o lh o s v e n d a d o s p e lo m ito fa ls o . Longe de se r
in d e p e n d e n te , e la e s tá p o la r iz a d a c o n tr a s u a m ã e e, e m ú ltim a in s tâ n c ia , c o n tr a si
m e s m a e s u a p r ó p r ia n a tu r e z a f e m in in a . D e s s a fo rm a , e s tá ta m b é m p o la r iz a d a c o n tr a o
h o m e m a q u e m e la m e s m a tr a n s f o r m o u e m s u a m ã e . T a l m u lh e r p o d e a c a b a r n u m
c o n f lito d e s e s p e r a d o r , o u n u m c o n flito q u e se m a n if e s ta c o m o e n fe rm id a d e ; p o d e

3 Bruce Lincoln, Emerging from the chrysalis, p. 78 (citando The homeric hymn).
também ir adiante com sua vida montada em sua vassoura fálica, odiando ou temendo
todo homem que encontrar. A maternidade, tanto em sua forma positiva como negativa,
é o aspecto da feminilidade que se tornou uma vaca sagrada em nossa cultura. A cortesã
tem sido a pária. Para que a verdadeira Ms. possa vir à tona, o feminino pleno deve ser
diferenciado e integrado em relação ao masculino maduro.
Para tanto, a fim de viver esse rito de passagem, temos de pagar com sangue. E
pagar, pagar, pagar. Todo rito de passagem envolve uma morte e um renascimento. O
preço é o sacrifício. Parte desse sacrifício é abdicar das antigas seguranças e ilusões. O
perigo atual porém é que, fazendo esse sacrifício, estamos procedendo levianamente
com os valores que foram conquistados ao longo de séculos de um heróico cultivo da
consciência, e com isso nossa cultura pode desembocar numa inconsciência caótica. A
consciência que, no passado, foi alcançada por heróis que conquistaram suas vitórias em
lutas renhidas para se desvencilhar da voracidade da Grande Mãe — defendendo-se
dentro de armaduras contra as seduções da sensualidade — está correndo sério perigo.
Na sociedade ocidental, muito pouco é sagrado; estão rompidas as ligações entre o
homem e a natureza, entre o homem e Deus. Estamos desprovidos de imagens
arquetípicas, de rituais sagrados, não temos um mito a servir de referência e orientação
para nossos egos. Ao desistirmos do "tu não deves...", ou "tens de...", "é imperioso
que...", demos livre curso a uma tempestade de paixões e, com isso, ao medo, à culpa e
à ira de nossas sombras.
A angústia de cada pessoa não é menor que a angústia da cultura. Sem os ritos
sagrados para conter e ajudar a transformar nosso medo e nossa culpa, nós, como
indivíduos, tendemos a cair no isolamento e, quando este é grande demais, resvalamos
para a inconsciência. Em séculos anteriores, o herói (o espírito masculino corajoso)
exercia sua força para conquistar suas arrebatadoras pulsões instintivas. Sentia vergonha
de se render em batalha. Tinha medo de se entregar a braços amorosos, temendo se
perder. Nossa civilização é a flor dessa coragem.
Agora, porém, esse princípio masculino (tanto em homens como em mulheres),
antes tão necessário, tornou-se não uma força sadia de ego mas uma impiedosa força de
vontade que tem pouco respeito pelo homem, pelos animais ou por Deus, e muito menos
ainda pelo feminino. Abandonar essa compulsividade faz parte de nosso sacrifício de
sangue, que começa dando a sensação de que é um desistir da vida em si, quando a
pessoa houver vivido num redemoinho frenético de atividades para conquista de metas
que não abrem qualquer espaço para o amor. Como diz Jung: "Onde reina o amor não
há o desejo do poder; do o desejo de poder é soberano, está ausente o amor".4 Uma de
minhas analisandas expressou-se da seguinte forma:
Tento parar de fazer tantas listas. Tento ser menos rígida. Estou convencida a deixar que as
coisas fluam. Vou para o meu apartamento vazio, às seis horas, abro a porta determinada a escrever, a
Ser, só para mim. Dou um a olhada naquele espaço vazio. Ouço o silêncio, recuo e saio batendo a porta.
Não é terrível? Para ser dependo do existir de outrem. Tenho de estar fazendo alguma coisa ou aquela voz
terrível começa a sussurrar no meu ouvido: "Você não está feliz. Não está conquistando nada. Essas
coisas todas sobre as quais está escrevendo nada têm de importantes. E quem é você, afinal? Você não é
uma mulher. Os homens lhe tratam como lixo. Você está recebendo exatamente o que merece. Poderia
muito bem estar morta. E sabe o que iriam escrever na lápide? 'Esta nasceu, morreu e nunca viveu"'.

Muitas mulheres estão sentindo precisamente isso: nunca viveram. Agora estão
decididas a se encontrar. Mas, em seu desejo de sacrificar as velhas atitudes, estão
experimentando uma morte muito real. O que começa com uma tentativa de mudar seus
relacionamentos pode terminar em perder marido, casa, amigos, até os filhos. O terror

4 The problem of the attitude-type", Two essays on analyticalpsychology, OC 7, par. 78.


d e s u a s itu a ç ã o m u ita s v e z e s é a u m e n ta d o p e la c o n s ta ta ç ã o d e q u e n ã o h á p o s s ib ilid a d e
d e u m a r e la ç ã o im e d ia ta — n ã o h á u m h o m e m n e m u m a a m ig a ín tim a . A e n e rg ia foi
to d a e m p r e g a d a e m s a ir d o s v e lh o s e s q u e m a s e e m te n ta r a ju s ta r - s e a o m u n d o e x te rn o .
D e r e p e n te , a v id a s e t o r n a u m v á c u o . O d e s tin o p a r e c e te r - s e v o lta d o c o n tr a e la . A
m u lh e r q u e e ra e s tá m o rta ; a n o v a a in d a n ã o n a s c e u . E la e s tá "n a fa s e d e c a su lo .
E m v e z d e se a te r r o r iz a r p e la s u a s o lid ã o e p e la s e n s a ç ã o d e a b a n d o n o e
r e je iç ã o , e la p o d e u s a r e s s e te m p o p a r a tr a b a lh a r e m si m e s m a . U m a d a s c o is a s q u e e la
c e r ta m e n te t e r á d e e n c a r a r é s e u p r ó p r io m a ta d o r in te r n o — o m a s c u lin o h ip e r tr o f ia d o
q u e , e m s e u ín tim o , a s s a s s in a s u a f e m in ilid a d e . D u r a n te e s s a fa s e d e r e c o lh im e n to , e la
p o d e d a r v a z ã o à s u a p r ó p r ia V ir g e m N e g r a e c o n f ro n ta r se u a n im u s n e g a tiv o a té q u e
e s s a e s p a d a s e ja q u e b r a d a . S e e la n ã o tr a b a lh a r e m si m e s m a , ir á in e v ita v e lm e n te re p e tir
o s m e s m o s p a d r õ e s d e a n te s e t e r m in a r c o m a m e s m a s e n s a ç ã o d e e te r n a a g o n ia . Se
p o r é m tr a b a lh a r e m si m e s m a , p o d e r á e n tã o , c o m a a ju d a d e D e u s , e n c o n tr a r u m
P e tr u c io q u e te n h a a c o r a g e m d e m a n d a r u m a b a la d ire to c o n tra o c o ra ç ã o d e seu
a n im u s K in g K o n g . V a i d e p e n d e r d a n a tu re z a d e s s e h o m e m , e d a n a tu r e z a d a r e la ç ã o
e n tr e o s d o is , o d is p a r o d e s s a b a la s e r c a rre g a d o c o m ra iv a o u c o m c o ra g e m e fé
in a b a lá v e is .
O e q u ilíb r io d o s r e la c io n a m e n to s é e x tr a o r d in a r ia m e n te d e lic a d o q u a n d o o s d o is
e s tã o d e d ic a d o s à s u a b u s c a p e s s o a l d e c o n s c ie n tiz a ç ã o . E v e n to s m u ito e s tra n h o s
o c o r r e m . U m a m u lh e r q u e j á e s ta v a e m a n á lis e h a v ia a lg u m te m p o v in h a te n ta n d o e m
v ã o c o n s e g u ir q u e s e u m a r id o f o s s e a u m a n a lis ta . E n tã o , c e r to d ia , p a r a s u a s u rp re s a ,
e le se v e s tiu d e te r n o e g ra v a ta , e fo i.
N a q u e la n o ite e la a c o rd o u e p e rc e b e u um a lu z tê n u e no q u a rto , fa z e n d o
m o v im e n to s e s tr a n h o s n o te to . E la a b riu o s o lh o s a p e n a s o s u fic ie n te p a r a te r u m
v is lu m b r e d e s e u m a r id o e s c r e v e n d o c o m u m a m in ú s c u la c a n e ta - la n te r n a , e e le e s c re v ia ,
e s c re v ia , e s c re v ia .
" P o r q u e e le te m e s s e s s o n h o s tã o m a ra v ilh o s o s ? " , e la p e n s o u . " E u c o n s ig o n o
m á x im o u m s o n h o in s ig n if ic a n te , só d e d u a s lin h a s ."
N ã o d is s e n a d a . S ó s u s p ir o u alto . E le p e s c o u a d e ix a e fo i te r m in a r d e e s c re v e r
n o b a n h e ir o . M a s q u a n d o v o lto u e n tro u n a c a m a c o m a im p e tu o s id a d e d e q u e m
e x e c u to u m u ito b e m s u a ta re fa . N ã o c o n s e g u ia se c o n te r.
" V o c ê e s tá a c o r d a d a ? " , e le s u s s u rro u .
" V o c ê q u e r q u e e u e s te ja ? " , e la p e rg u n to u .
" T iv e u m s o n h o " , e le d e c la ro u .
E la d e c id iu q u e n ã o ir ia o u v ir. Q u e ir ia v ir a r p a r a o o u tro la d o e d o rm ir.
" E ra c o m v o c ê ", e le d is s e .
" C o m ig o ? ... O h ... v o c ê v a i m e m a n te r a c o rd a d a , s u p o n h o ."
" B o m , se é a s s im p a r a v o c ê , v o lte a d o rm ir."
O s u s p iro d e a u to - s a tis f a ç ã o d e le p e n e tr o u - a c o m o o s d o is e s p in h o s d o d ile m a
q u e s e m p r e h a v ia p e r tu r b a d o s e u c a s a m e n to . E la n ã o e s ta v a s e g u ra d e e le e s ta r a c o r d a d o
o u t e r v o lta d o a d o rm ir. A r r is c o u , e m to d o c a so .
" T a m b é m tiv e u m s o n h o " , e la d isse .
"O h ? "
" S o b r e p o r c e la n a .'*
"É m e s m o ? " , e le d is s e . " E u s o n h e i q u e e s ta v a n a C h in a e v o c ê e s ta v a lid e ra n d o
u m b a n d o d e g u e r r ilh e ir o s e fa z e n d o m u ito b e m o s e u tr a b a lh o ."
" B o m , e e u s o n h e i q u e v o c ê liq u id o u c o m a p o r c e la n a in g le s a d e m in h a m ã e ."

*No original "china", que, quando grafado com "c" minúsculo, se refere a porcelana, artigo que o Ocidente
conheceu quando foi trazido da China (N. T.).
S o n h a r c o m o s s ím b o lo s u m d o o u tro , o u c o m o q u e se p a s s a n o in c o n s c ie n te d e
s e u p a rc e iro , n ã o é in c o m u m ; a p r e n d e r a re c o n h e c e r a s p ro je ç õ e s é o m a io r p r o b le m a
d o s r e la c io n a m e n to s . E l im in a r a s p r o je ç õ e s , o u v iv e r o p r o c e s s o d e e la s s e re m re tira d a s ,
é o m a is d o lo ro s o . M a s , a n te s d e e n tr a r n a s q u e s tõ e s d o r e la c io n a m e n to e n tre h o m e n s e
m u lh e r e s , d e v e m o - n o s d e s lo c a r p a r a o u tr o a n e l d a e s p ira l e n o v a m e n te a n a lis a r o
s ig n if ic a d o d o fe m in in o .
P r im e ir o , a c r e d ito q u e f e m in ilid a d e é a s s u m ir a re s p o n s a b ilid a d e p o r n o s s o s
c o rp o s , d e ta l m o d o q u e se to r n e m a e x p re s s ã o ta n g ív e l d o e s p írito q u e h á d e n tro d e le s.
P a r a to d a s e n tre n ó s q u e le v a r a m a v id a c e n tra d a s e m s u a s c a b e ç a s , e sse é u m lo n g o ,
á r d u o e a g o n iz a n te p r o c e s s o p o is , a o te n ta r s o lta r n o s s o s m ú s c u lo s , ta m b é m s o lta m o s o
m e d o , a d o r e a r a iv a la te n te s q u e a li f o r a m e n te rra d o s , p r o v a v e lm e n te d e s d e o n a s ­
c im e n to , o u a in d a a n te s . E m n o s s o ín tim o e n c o n tr a m o s u m a n im a l a b a tid o , q u a s e m o r to
p e la fo m e e p o r m a u s - tr a to s . P o r te r s id o p u n id o ta n to te m p o , n o in íc io o c o r p o a g e
c o m o u m a c r ia tu r a n e u ró tic a , q u e n u n c a c o n h e c e u o a m o r. A o s p o u c o s , p o ré m , e le se
t o r n a n o s s o a m ig o e, c o m o e n te n d e d e in s tin to s m e lh o r q u e n ó s , to r n a - s e n o s s o g u ia
p a r a o c a m in h o n a tu ra l e e s p iritu a l d e v iv e r.
E m B o r d e r c r o s s in g s , D o n W illia m s d e s c r e v e o D o m J u a n d e C a r lo s C a s ta n e d a
in g r e s s a n d o n u m te m p o s a g r a d o e a d a p ta n d o - s e a o c e rv o m á g ic o , d e p e r n a s p a r a o a r e
c h o ra n d o :

Desse modo, ele equilibra o júbilo do homem prestes a descobrir sua vida com a tristeza do
homem que ficou sozinho, toma-se tolo e, talvez, até atemorizado por sua visão. A tristeza e o júbilo são
ambos genuínos. E talvez seja a alma que, como o cervo radiante não mais ameaçado, sussurre: "Não
fique triste".5
E n c o n tr a r o s ritm o s n a tu r a is d e n o s s o c o rp o , a n d a r, v e r, o u v ir, s e n tir c o m
s e n s ib ilid a d e e p e r c e p ç ã o r e n o v a d a s , é r e to m a r n o s s o d ire ito n a tu ra l, u m a d á d iv a q u e
r e c e b e m o s d a D e u s a . E m m e u c o n to d e fa d a s , m e d ia n te se u a m o r p e la M ã e re c é m -
e n c o n tr a d a , B o b a lin a a o se c u r v a r e a b a ix a r a c a b e ç a a té e n c o s tá - la n o c h ã o p e r c e b e q u e
n u n c a c o n s e g u ir ia e n tr e g a r - s e à b e le z a d a lu z tra n s lú c id a se m e n ra iz a r se u c o rp o n o
c h ã o . D a m e s m a f o r m a q u e o s m u ç u lm a n o s , e la se d e u c o n ta d e q u e r e z a r é d e ita r a -J
c a b e ç a n a te rra , é a b a ix á - la a té o c h ã o .
E m s e g u n d o lu g a r , f e m in ilid a d e é a s s u m ir a r e s p o n s a b ilid a d e p o r q u e m e u so u
— n ã o p e lo q u e e u fa ç o , n ã o p e lo q u e p a re ç o ser, n ã o p e lo q u e c o n q u is to . Q u a n d o tu d o
o q u e h o u v e r p a r a f a z e r e s tiv e r fe ito e e u p r e c is a r m e o lh a r d e fre n te , e n c a ra n d o m in h a
r e a lid a d e n u a e c ru a , q u e m s o u e u ? Q u a is sã o m e u s v a lo re s ? Q u a is sã o m in h a s
n e c e s s id a d e s ? S o u fie l a m im m e s m a o u e u m e tra io ? Q u a is sã o m e u s s e n tim e n to s ?
E s to u c a p a c ita d a p a r a o a m o r? S o u v e r d a d e ir a a o m e u a m o r?
O tr a b a lh o d iá r io s o b re e s s a s q u e s tõ e s é o q u e c h a m o d e d if e r e n c ia r o fe m in in o .
E s s e é o p r o c e s s o d e se to r n a r v irg e m : a m u lh e r q u e é o q u e é, p o rq u e é is s o a v e rd a d e .
E la v iv e , se m o v im e n ta e o b té m s e u S e r p o r in te r m é d io d e u m p o d e r e x is te n te e m se u
in te rio r.
E e sse p o d e r se b a s e ia n o f e m in in o a rq u e típ ic o , n a G ra n d e M ã e c o m s e u s
a s p e c to s ta n to lu m in o s o s q u a n to s o m b rio s . A D e u s a , a m e u v e r, é o m o v im e n to d a
e s p ira l. C o m o ta n ta s o u tr a s c o is a s n a n a tu r e z a — a s p la n ta s , a s e s ta ç õ e s d o a n o , a L u a
— , a D e u s a se m o v im e n ta d e m o d o c irc u la r, p e la lu z e p e la e s c u rid ã o , p e la m o r te e p e lo
re n a s c im e n to , c o n f ia n d o n a s tr e v a s ta n to q u a n to lu z E la v iv e n o p r e s e n te e a v a lia n o
m o m e n to . O q u e h o je p o d e s e r c e rto , a m a n h ã p o d e s e r e rra d o . E la v iv e s e g u n d o o
e s p írito não segundo a lei. P o r ta n to , e la e x ig e u m a c o n s ta n te c o n s c ie n tiz a ç ã o e

5 Donald Lee Williams, Border crossings: a psychological perspective on Carlos Castaneda’s path of
knowledge, p. 48.
e s p o n ta n e id a d e . E la a m a o p o te n c ia l q u e h á n a s c o is a s : a s p o s s ib ilid a d e s d a p la n ta q u e
c re s c e , a c r ia n ç a q u e c re s c e , a s e s p e ra n ç a s e o s s o n h o s q u e se re n o v a m . C o n fia n a v id a ,
n a m u d a n ç a , n o a m o r, e n ã o r e té m n a d a e s tá tic o . E la a m a e d e ix a q u e a s c o is a s se d ê e m .
E la a m a c o m a to ta lid a d e d e s e u S er, d e ta l s o rte q u e s u a v u ln e r a b ilid a d e t o r n a - s e s u a
m a io r fo rç a . O q u e é c o n tr a d iç ã o p a ra o s q u e n ã o a a m a m to r n a - s e o se u p a r a d o x o p a ra
os que a am am .
P a r a q u e a v id a s e ja v iv id a d e m a n e ir a s a d ia e s a g ra d a , o s a r q u é tip o s q u e n u tr e m
a im a g in a ç ã o d e v e m v e r te r s u a e n e rg ia n o eg o . D e v e se d a r o d iá lo g o e n tre c o n s c iê n c ia
e in c o n s c ie n te p a r a q u e p o s s a m o s v iv e r c r ia tiv a m e n te . P o r c o n s e g u in te , é c ru c ia l
r e c o n h e c e r q u a n d o tiv e r m o s p e r d id o o c o n ta to c o m n o s s a b a s e a rq u e típ ic a . Q u a n d o is s o
a c o n te c e , s o n h a m o s c o m a lic e r c e s d e s m o r o n a n d o , p o r õ e s in u n d a d o s , e s ta c io n a m e n to s
s u b te r r â n e o s d e s p e n c a n d o , p a r e d e s d e c o n te n ç ã o q u e d e s a b a m , a d e g a s s o te rra d a s .
T o r n a - s e n o s s a ta r e f a , e n tã o , d e s c e r e f a z e r a lg u m a c o is a c o m o c a o s in s ta la d o e m b a ix o .
A s m u lh e r e s ta m b é m s o n h a m e s ta r e m s e n d o le v a d a s a té s u a a v ó , a G r a n d e M ã e , e m
fa s e s d e c rise .
S e o b s e r v a r m o s n o s s o s s o n h o s p o r u m te m p o s u fic ie n te m e n te lo n g o , v e r e m o s a
r e p e tiç ã o d e te m a s , d e s ím b o lo s q u e r e a p a r e c e m c o m v a r ia ç õ e s . E se c o n te m p la r m o s
e s s e s p a d r õ e s e m e r g e n te s c o m e ç a r e m o s a v e r, g r a d u a lm e n te , q u e e x is te c e rta o rd e m n o
c a o s. C o m e ç a r e m o s a v e r n o s s o s s ím b o lo s in d iv id u a is fo r m a n d o c o n f ig u r a ç õ e s e s e n d o
c o n f ig u r a d o s , g e r a n d o p a d r õ e s m a io re s . D a r e m o s in íc io a o r e c o n h e c im e n to d e n o s s a
id e n tid a d e in d iv id u a l n o q u e a n te s e ra c o n fu s ã o . A o s p o u c o s , e s ta b e le c e m o s u m d iá lo g o
e n tr e n o s s o e g o e o S e r q u e e s tá te c e n d o o p a d rã o . E s s e d iá lo g o c o n s titu i a c o n s o lid a ç ã o
d a a lm a . O d iá lo g o e n tr e e g o e s e l f c r ia a a lm a . O s c r is ta is e f lo c o s d e n e v e e as
lá g r im a s , to d o s m a n if e s ta ç õ e s d o e s p írito e m f o r m a c o n c re ta , v ã o a o s p o u c o s s e n d o
e n tr e la ç a d o s p a r a c o m p o r o s f io s c e le s te s d o a rc o -íris . E a tú n ic a d e f iló q u e c a i s o b re o s
o m b r o s d e B o b a lin a t o r n a - s e a b ê n ç ã o d a D e u s a . E m b o r a d e lic a d o c o m o a c h u v a , fa z
c o m q u e o q u e b r a - c a b e ç a s e m s e n tid o d a v id a se to r n e u m a v ia g e m e s p e ta c u la r.

Desenho feito por analisanda, retratando a Grande Mãe e a si mesma.


Desenho de Santa Ana, Leonardo da Vinci. (Galeria Nacional, Londres)

N o s s a c u ltu r a te m 2 0 s é c u lo s d e c r is tia n is m o p o r tr á s e, e m b o r a o s m ito s a n tig o s


s e ja m p s ic o lo g ic a m e n te m u ito v a lio s o s e in te le c tu a lm e n te b a s ta n te in te re s s a n te s ,
p e r d e r a m a n u m in o s id a d e q u e p o d e r ia a lim e n ta r n o s s a s a lm a s . A s a n tig a s d e u s a s
c tô n ic a s n ã o e r a m c o n s c ie n te s , e a s m u lh e r e s q u e c o n s e g u ir a m d e s b r a v a r s e u c a m in h o e
a lc a n ç a r a lg u m n ív e l d e c o n s c iê n c ia c h e g a r a m a e s s e r e s u lta d o d e p o is d e m u ita s h o ra s
d e tr a b a lh o tr a z e n d o a s o m b r a à lu z. H á 2 m il a n o s s e p a ra n d o o d e ix a r in ­
c o n s c ie n te m e n te a s c o is a s a c o n te c e r e o p e rm itir, c o n s c ie n te - m e n te , q u e e la s s e ja m . N ã o
p o d e m o s re tr o c e d e r .
C a d a u m a d e n ó s te m d e e n c o n tra r o a rq u é tip o fe m in in o p a r tic u la r q u e to r n a
n o s s a s v id a s s ig n if ic a tiv a s . S ó p o s s o lh e s f a la r d o q u e te m s e n tid o p a r a m im . N o ú ltim o
v e r ã o , e u a in d a e s p e r a v a q u e a s im a g e n s d is p a ra ta d a s e n tra s s e m e m fo c o . E u tiv e r a
d iv e r s o s s o n h o s p o d e r o s o s , h a v ia e x p e r im e n ta d o a n u m in o s id a d e d a D e u s a e c o n h e c ia a
o p in iã o d e J u n g s o b re o D o g m a d e M a r ia ser, d e fa to , a a c e ita ç ã o d a m a té ria ; m a is
a in d a , u m a s a n tif ic a ç ã o d a m a té r ia .6 M a s o p a d r ã o g e ra l c o n tin u a v a m e e s c a p a n d o .
E n tã o , u m d ia , e n tre i n a G a le r ia N a c io n a l d e L o n d r e s e c o n te m p le i o d e s e n h o q u e D a
V in c i fe z d a V ir g e m s e n ta d a n o g r a n d e c o lo d e su a m ã e , A n a , s e g u ra n d o o filh o d iv in o
e m s e u s b r a ç o s e s te n d id o s , e n q u a n to o m e n in o J o ã o e s tá e m p é , a o la d o .
O r o s to d e A n a é a c e n tu a d o c o m s o m b re a d o s e s c u ro s e s e u s o lh o s a rd e m c o m o
d o is c a rv õ e s . E la p a r e c e u m a c ig a n a m a je s to s a , firm e m e n te s e n ta d a n a te rra , c o m se u

Ver, por exemplo, Jung, "Psychological aspects of the mother archetype", The archetypes and the
collective unconscious OC 9i, pars. 196-7.
d e d o e s te n d id o a p o n ta n d o p a r a o c é u . A V ir g e m e s tá r a d ia n te , s e re n a , r e la x a d a ,
a b s o lu ta m e n te c o n f ia n te . S e u s o lh o s e s tã o b a ix o s , e n q u a n to , n o c o r a ç ã o , a v a lia a b e le z a
d e s e u filh o . E le , c o m s u a f a c e a n tig a , re p e te o g e s to d e s u a a v ó , e m d ire ç ã o a o céu .
O lh a n d o p a r a a e x p r e s s ã o r e c e p tiv a d e J o ã o , p a r e c e a b e n ç o á - lo . E le s sã o u m d o o u tro ,
o s d o is m e n in o s — a c r ia n ç a d iv in a e a c r ia n ç a h u m a n a , s e g u r a s e m s e u r e la c io n a m e n to
p e lo a m o r tr a n s f o r m a d o r d a M ã e .7
E s s a im a g e m v iv e e m m im . A li e s tá a G ra n d e M ã e , c o m s e u a o m e s m o te m p o
in te n s o e a m o ro s o , s u a m ã o u n in d o a te r r a e o céu . E m se u s la rg o s jo e lh o s s e n ta -s e a
V ir g e m , c u jo s tr a ç o s le m b r a m o s d a s u a m ã e , m a s s u rg e m d o ta d o s d e u m a s e n s ib ilid a d e
e s p iritu a l, ilu m in a d a n o ín tim o p o r u m a m is te r io s a b e le z a . E la se a c e ita c o m o p a r te d o
p la n o m a io r, p o r m e io d o q u a l a v id a se m o v im e n ta e te rn a m e n te . S u a v u ln e r a b ilid a d e é
s u a f o r ç a — d e lic a d a , a m o r o s a e só d e s a p e g a d a o b a s ta n te p a r a d e ix a r q u e a s c o is a s
a c o n te ç a m . A c r ia n ç a é s e u filh o , m a s n ã o é d e la , e n q u a n to v a i n a d ire ç ã o d a o u tra
c ria n ç a . E la a c e ita o p o d e r d a G r a n d e M ã e e m c u jo c o lo se se n ta , e d iv a g a s o b re o
M is té r io d a d iv in a d á d iv a q u e lh e fo i c o n c e d id a . O r e s to é silê n c io .
E s s e é o m e u m ito d a m u lh e r M s . P o d e n ã o s e r o seu . M a s , se v o c ê f o r d e fa to
lo n g e e m s u a j o r n a d a , u m d ia ir á r e c o n h e c e r - s e n e s s a e s tra d a , v in d o a o e n c o n tr o d e si
m e s m a . E v o c ê e n tã o d irá S IM .

Irá a velada irmã orar pelos


Que caminham na escuridão, que te escolhem e te refutam,
Que estão dilacerados pela angústia de escolher entre estação e
estação, momento e momento, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, aqueles
que aguardam
No escuro?Irá a velada irmã orar
Pelas crianças no portão
Que não se afastam e não conseguem rezar:
Orar pelos que escolheram e refutaram
O meu povo, o que fiz com vocês.
Irá a velada irmã entre os esguios
Teixos orar pelos que a ofenderam
E estão aterrorizados e não conseguem se entregar
E afirmam perante o mundo e negam entre as pedras
No derradeiro deserto entre as derradeiras rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da sede, cuspindo da boca a semente fenecida da macieira.
O meu povo.
T. S. Eliot, "Ash-Wednesday"

Você se coloca ao lado do quadro-negro, papai.


No quadro que tenho de você,
Uma fen d a no seu queixo em vez de no seu pé
M as não menos diabólico p o r isso, não não
Não menos que o homem preto que
M ordeu meu lindo coração e o dividiu em dois.
Eu tinha dez anos quando te enterraram.
Aos vinte tentei morrer
E voltar, voltar, voltar para você.
Achava que mesmo os ossos serviriam.

Sylvia Plath, "Daddy", Ariel

Para uma discussão do motivo das "duas crianças", ver Nathan Schwartz-Salant, Narcissism and
character transformation, pp. 159-64.
6 - Estupro e o amante demoníaco
Senti uma Fenda em minha M ente —
Como se meu Cérebro tivesse se dividido —
Tentei uni-lo — Borda com B orda—
M as não conseguia fa ze r com que casassem.

Emily Dickinson

N o s é c u lo X X , a id é ia c r is tã d o in f e r n o se r e a lo c o u n a im a g in a ç ã o p o p u la r.
A g o ra , te m o s m e d o d o s u b m u n d o d o c rim e q u e fu n c io n a e m s o c ie d a d e s h ie rá rq u ic a s , d e
in tr in c a d a o r g a n iz a ç ã o , c o m o a M á f ia o u a s o r g a n iz a ç õ e s te r r o r is ta s in te rn a c io n a is .
C a d a v e z m a is , a s b o m b a s te r r o r is ta s e x p lo d e m e m c a m in h o n e te s e s ta c io n a d a s ,
p a s s a g e ir o s d e B o e in g 7 4 7 s ã o s e q ü e s tr a d o s c o m o re fé n s , d ro g a s e n tra m n o s p á tio s d a s
e s c o la s , to d o s c o lo c a m o s tr ê s d if e re n te s c a d e a d o s e f e c h a d u r a s e m n o s s a s p o rta s ,
s e n tim o s , e n fim , q u e n o s s a s o c ie d a d e e s tá s e n d o p ro g r e s s iv a m e n te in v a d id a p e la v id a
s u b te rrâ n e a . O e s tu p r o d a c o n s c iê n c ia p e la s e n e rg ia s o c u lta s , s o b re a s q u a is te m o s
p o u q u ís s im o c o n tro le , a m e a ç a o s s o n h o s d e p r a tic a m e n te to d o o m u n d o c o m u m m e d o
in f e c c io s o e s in is tro . N o s s o a p a r e n te d e s a m p a r o p e r a n te o a v a s s a la d o r tr a n s b o r d a m e n to
d e s s e m u n d o b o r b u lh a n te , ta n to in te r n o c o m o e x te rn o , tr a n s f o r m a a s o c ie d a d e e a
p s iq u e h u m a n a s n u m c a m p o m in a d o .
Jung fo i m u ito e x p líc ito a esse re s p e ito . Seu p r im e ir o e n c o n tro com o
in c o n s c ie n te o c o r r e u a n te s d a d e f la g r a ç ã o d a P r im e ir a G u e r r a M u n d ia l, e, c o m o e le
a s s in a la e m M e m ó r ia s , s o n h o s , r e fle x õ e s , n ã o lh e e ra p o s s ív e l d is tin g u ir e n tre o q u e
e s ta v a e m e r g in d o d e s e u p r ó p r io in c o n s c ie n te e a s f o r ç a s q u e o p e r a v a m n o c e n á rio
m u n d ia l:

Em meados do outono de 1913, a pressão que eu tinha sentido em mim parecia estar se movendo
para o plano externo, como se houvesse alguma coisa no ar. A atmosfera realmente me parecia mais
sinistra do que antes. Era como se a sensação de opressão não brotasse mais exclusivamente de uma
situação psíquica, mas da realidade concreta. Essa sensação se tornava cada vez mais intensa...
Perguntava a mim mesmo se essas visões [mar de sangue cobrindo toda a área ao norte e os
países baixos, entre o m ar do Norte e os Alpes] apontavam para alguma revolução, mas não conseguia
realmente imaginar nada parecido com isso. Por isso concluí que tinham a ver comigo mesmo, e decidi
que estava correndo o risco de uma psicose. A idéia da guerra não me ocorreu em absoluto.1

P o r v o lta d o fin a l d e 1 9 1 4 , J u n g d e u u m a p a le s tr a n a A s s o c ia ç ã o M é d ic a
B r itâ n ic a , " S o b re a im p o r tâ n c ia d o in c o n s c ie n te n a p s ic o p a to lo g ia " . N o d ia 1° d e a g o s to
e s to u r o u a g u e rra . N o e s f o r ç o d e e n te n d e r a té q u e p o n to s u a s v iv ê n c ia s h a v ia m
c o in c id id o c o m a d a h u m a n id a d e e m g e ra l, e le se d e d ic o u a in v e s tig a r o s a b is m o s d e su a
p r ó p r ia p s iq u e . A n o ta r s u a s fa n ta s ia s e ra ta m b é m r e d ig ir a h is tó r ia in c o n s c ie n te d e s u a
p r ó p r ia é p o c a . Q u a n to m a is e le d e s e n v o lv ia s u a s p e r c e p ç õ e s p s ic o ló g ic a s , m a is
p r o f u n d a m e n te e x p e r im e n ta v a s e u tr a b a lh o c o m o u m a c o r r id a c o n tr a o te m p o .
F in a lm e n te , p e r c e b e u q u e e s ta v a e m b u s c a d e a lg o q u e p u d e s s e c o n te r a m a r é d e
d e s tr u iç ã o h u m a n a q u e , n a q u e le m o m e n to , e s ta v a à so lta , se m c o n tro le . E le s a b ia q u e ,
n o p a s s a d o , a I g r e ja C r is tã h a v ia c u m p r id o e s s e p a p e l m a s , a g o ra , n ã o c o n s e g u ia m a is.
O q u e p o d e r ia o c u p a r s e u lu g a r? N o h o riz o n te , J u n g d iv is o u u m a sé rie d e d ita d u ra s
g o v e r n a d a s p e la e x p lo r a ç ã o d o m e d o p s ic ó tic o . V iu q u e o m u n d o d e s p e n c a v a n u m re in o
g lo b a l d o te rro r.
É d e n tr o d e s s e c o n te x to m a io r q u e o s m o v im e n to s d a s m u lh e re s d e v e m se r

1 . Jung, Memories, dreams, reflections, pp. 199-200.


c o m p re e n d id o s . A o s p o u c o s , u m n ú m e r o c a d a v e z m a io r d e m u lh e r e s fo i e n x e rg a n d o
n o s e v e n to s d o s é c u lo X X m a im a g e m g e n u ín a d e s u a p r ó p r ia c o n d iç ã o c o m o p e õ e s d e
u m m u n d o p a tria rc a l. O q u e e s s e s é c u lo tr o u x e à lu z , p o r tê - lo d e m o n s tr a d o d a m a n e ira
m a is p ú b lic a e e x p líc ita p o s s ív e l, fo i a c o n d iç ã o p s ic o ló g ic a d a m u lh e r v io le n ta d a . N a
r e a lid a d e , a m u lh e r e s tu p r a d a s u b s titu iu , a té c e rto p o n to , o C ris to c r u c if ic a d o c o m o o
m a is p o d e r o s o e s ig n if ic a tiv o d e to d o s o s íc o n e s . O r o m a n c e d e D . M . T h o m a s , T h e
w h ite h o t e l ( 1 9 8 1 ), d e ix a n itid a m e n te c la ro o d e s tin o c o n te m p o r â n e o d o fe m in in o .
P o r u m te m p o e x c e s s iv a m e n te lo n g o p ro c la m o u -s e q u e a p s ic o lo g ia d e F r e u d só
se d ir ig ia à s m u lh e r e s j u d i a s v ie n e n s e s , ric a s e h is té ric a s . T a m b é m se d is s e q u e J u n g
v iv ia c e r c a d o p r in c ip a lm e n te d a s e q u iv a le n te s e n tre o s g e n tio s . O e le m e n to re a l
e x is te n te e m tu d o is s o é q u e a s d e s c o b e r ta s ta n to d e F r e u d c o m o d e J u n g fo ra m
p r in c ip a lm e n te f e ita s p o r in te r m é d io d e se u p ró p rio e n c o n tro p e s s o a l e d ire to c o m o
f e m in in o , q u e r e m si m e s m o s , q u e r n o s o u tro s . A e x p e r iê n c ia d o f e m in in o é a c h a v e
p s ic o ló g ic a t a n to p a r a a d o e n ç a c o m o p a r a a c u r a d o s n o s s o s te m p o s . E m b o r a e s s e s d o is
h o m e n s tiv e s s e m a n a lis a d o a d o e n ç a c o m u m a p r o f u n d id a d e e e x a tid ã o a in d a n ã o
s u p e ra d a s , a m b o s , n a q u a lid a d e d e p r o d u to d e s u a s c u ltu ra s , n ã o p u d e r a m v e n c e r se u
m e d o p a r tic u la r d o f e m in in o , im p o s to p e la tr a d iç ã o p a tria rc a l a q u e p e r te n c ia m o s
j u d e u s e o s c ris tã o s . F o i e n fim ju s ta m e n te e s s a tr a d iç ã o p a tria rc a l q u e te r m in o u p o r
s e p a rá -lo s .
O f e m in in o , q u e a m b o s a p e n a s c o m e ç a r a m a in v e s tig a r , p o d e s e r lib e r ta d o a g o r a
p a r a g o z a r d e u m a v id a c r ia tiv a e r e d e n to ra . N e s te c a p ítu lo e n o s e g u in te , p r o c e d e r e i à
a v a lia ç ã o , n o e s tu p ro , d o a r r e b a ta m e n to e m q u e e le p o d e v i r a se to rn a r. E m n o s s a
c u ltu ra , o e s tu p r o é u m f a to q u e n ã o p o d e s e r n e g a d o . Q u a n d o o f e m in in o é re p r im id o
n o h o m e m , to r n a - s e d e s tr u tiv o ; d a m e s m a fo rm a , q u a n d o o m a s c u lin o é r e p rim id o n a
m u lh e r , é in e v itá v e l q u e se a p o d e r e d a p e r s o n a lid a d e . A s f o r ç a s c o n tr a s s e x u a is
c u ra tiv a s , q u e a tu a m n o in c o n s c ie n te , só sã o c u ra tiv a s se fo re m b u s c a d a s c o m e m p e n h o
e c u ltiv a d a s , m a s n ã o p a r a q u e se a p o d e r e m d a p e r s o n a lid a d e . D e v e m o s r e c o r r e r
c r ia tiv a m e n te a o f a to d e q u e , ta n to h is tó r ic a c o m o p s ic o lo g ic a m e n te , o e s tu p r o te m
a c o n te c id o ta n to c o m h o m e n s c o m o c o m m u lh e re s . S a ib a m o s d is s o o u n ã o , s o m o s to d o s
p r o d u to s o u v ítim a s d e le . O q u e v is o a r g u m e n ta r é q u e n ã o p r e c is a m o s m a is s e r v ítim a s .
A f iló s o f a H a n n a h A r e n d t é u m a m u lh e r q u e c o n s c ie n te m e n te e la b o r o u e s s e
p r o b le m a . L e n d o s e u s e n s a io s e s e n tin d o a g e n e r o s id a d e d e se u c o m p r e e n s iv o c o ra ç ã o ,
p e n s e i n o q u e d is s e J u n g : " U m a p a rte d a v id a e s ta v a p e rd id a , m as o s ig n if ic a d o d a v id a
f o r a p o u p a d o p a r a e la " — r e f e r in d o - s e à m u lh e r q u e re fle te s o b re s u a v id a d o p o n to d e
v is ta d a m a tu r id a d e c o n s c ie n te , e " e n x e rg a o m u n d o p e la p rim e ira v e z " .2
H a n n a h A r e n d t, u m a j u d i a re fu g ia d a , e s c a p o u d a A le m a n h a n a z is ta . E la p o n d e r a
s o b r e e s s a e x p e r iê n c ia a té q u e s u a r e a lid a d e se lh e to r n a c la ra ; a o s p o u c o s , d a n d o - s e
c o n ta d o q u e s ig n if ic a v a v i v e r e m fu g a , e la c o m e ç a a p e r c e b e r o q u e s ig n if ic a v a v iv e r
liv r e m e n te a v id a :

Somos contemporâneos só na medida em que nossa compreensão alcança. Se quisermos ficar à


vontade neste planeta, mesmo que ao preço de o conseguirmos neste século, devemos tentar fazer parte
do interminável diálogo com sua essência.3

H a n n a h A r e n d t, e m s u a fu g a d o to ta lita r is m o n a z is ta , p e r s o n if ic a a v id a
in c o n s c ie n te d e m u ita s m u lh e r e s m o d e r n a s q u e , e m s e u s s o n h o s , se v ê e m p r is io n e ir a s d e
c a m p o s d e c o n c e n tr a ç ã o , to r tu r a d a s p o r s o ld a d o s d a S S , e s tu p r a d a s p o r G o e r in g o u

2 Jung, "Psychological aspects of the mother archetype", The archetypes o f the collective unconscious, OC
9i, par. 185.
3 Hannah Arendt, "Understariding and politics", Partisan review. vol. 20, n2 4 (julho-agosto, 1953), p. 392.
H itle r. M u ita s e m u ita s v e z e s , e la s la n ç a m j ó i a s p r e c io s a s s o b re o a ra m e f a r p a d o e
te n ta m r e c u p e r á - la s , e a p e n a s c o n s e g u e m s e r a r r a s ta d a s d e v o lta . N o s s o n h o s , o c h e fe ,
d e r e p e n te , p o d e se to r n a r Id i A m m in ; s e u p a i, M u s s o lin i; s e u m a rid o , D rá c u la . Q u e r o s
h o m en s em s u a v id a e s te ja m e f e tiv a m e n te f a z e n d o e s s a s e x ig ê n c ia s , q u e r e la s as
e s te ja m p r o j e t a n d o neles, e s tã o e s c u ta n d o e m s e u in te r io r e s s a s c o b r a n ç a s lh e s s e n d o
f e ita s e, c o m is s o , d is p o n d o - s e c o n tin u a m e n te a s e r e s tu p ra d a s . Q u e m e la s sã o , q u a is
s ã o s u a s n e c e s s id a d e s , r a r a m e n te e m s u a v id a e s s e s a s p e c to s f o ra m c o g ita d o s . O
a n ím u s - p o d e r a s v e m a n iq u ila n d o d e s d e a in fâ n c ia .
C o le tiv a m e n te c o n s id e r a d o s , e s s e s s o n h o s s ig n ific a m m a is r a ra s e x p e riê n c ia s d e
in f â n c ia d a s m u lh e r e s . E m s e u s s o n h o s , o s h o m e n s ta m b é m e s tã o s e n d o a ta c a d o s . S e
e s s e é o m u n d o q u e n o s s o in c o n s c ie n te e n x e rg a , to r n a - s e n o s s a r e s p o n s a b ilid a d e p e n s a r,
a n te s q u e s e ja ta r d e d e m a is . O lh a n d o a v id a c o m o u m a re fu g ia d a , e m v e z d e c o m o u m a
f u g itiv a , ta lv e z , c o m o H a n n a h A re n d t, p o s s a m o s a p r e n d e r a v e r e m f o c o a n o s s a
s itu a ç ã o e, e n tã o , o f e r e c e r m o s a n ó s m e s m o s n o s s a p r ó p r ia v id a . N a d a p o d e m u d a r
e n q u a n to n ã o a c e ita r m o s is s o . A lg u n s d e n ó s tê m d e r e c o n h e c e r q u e f o m o s f o r ç a d o s a
fu g ir; h á q u e m n e c e s s ita se d a r c o n ta d e q u e , e fe tiv a m e n te , e s tá v iv e n d o n u m c a m p o d e
c o n c e n tr a ç ã o , q u e a v id a se t o r n o u u m a p r is ã o d e r e n ú n c ia s , e m q u e , c o m o n o s s a s m ã e s
c o s tu m a v a m d iz e r, " A c o is a q u e f a lta n a v id a a ju d a m a is d o q u e o q u e e la tra z " . S e e s s a
é a r e a lid a d e q u e a v id a n o s d e u , e n tã o e s s a é a r e a lid a d e s o b re a q u a l te m o s d e p o n d e r a r
p a r a tr a n s fo rm a r. P o n d e r a r n ã o é se to r n a r a m a rg o o u re s s e n tid o , m a s , p e la im a g in a ç ã o ,
in v e s tir n e s s a s itu a ç ã o d a s p o s s ib ilid a d e s d e S er. S e h á u m a c o is a q u e H a n n a h A r e n d t
n o s e n s in a é q u e , n o c o le tiv o , n ã o h á s a ú d e n e m re d e n ç ã o . É o in d iv íd u o q u e d e v e
t r i l h a r s e u p r ó p r io c a m in h o p e r ig o s o :

[...] ser fiel à vida, não criar ficção e aceitar o que ela está lhe dando, mostrar-se digno do que
quer que seja com as recordações, ponderar sobre elas, e assim repetir na imaginação: "Esse é o modo de
perm anecer viva".

U m a d a s r a z õ e s p e la s q u a is a s p e s s o a s s o fre m h o je , n u m a in te n s id a d e q u a s e
in to le rá v e l, é p e lo f a to de esse s o frim e n to m e c â n ic o não te r n e n h u m a conexão
c o n s c ie n te c o m s u a s r a íz e s a rq u e típ ic a s . E x ila d a s d e s s e s a lic e rc e s , s e n te m q u e e s tã o
s o z in h a s e s e u s o f r im e n to n ã o te m se n tid o . N ã o p e r c e b e m q u e e s s a a titu d e d e
s o f r im e n to e s tá p r e s e n te n o s e io d a p r ó p r ia c ria ç ã o : o s d e u s e s e d e u s a s d a r e lig iã o e d a
m ito lo g ia j á e s tiv e r a m a n te s aí. A a g o n ia d e s e u s o f r im e n to é c a u s a d a p e la h y b r is q u e
d e sc re v e com o "o o r g u lh o d e s g o v e rn a d o ... d a c o n s c iê n c ia in d iv id u a l que,
n e c e s s a r ia m e n te , d e v e c o lid ir [c o m a s v e r d a d e s e te rn a s ] e le v a r a u m a d e s tr u iç ã o
c a ta s tr ó f ic a d a p e s s o a " .45 O s o f r im e n to e m si p o d e s e r f a c ilm e n te e x a lta d o ,
a u to d r a m a tiz a d o q u a n d o n o s f a lta o d e u s o u a d e u s a n o c e n tro . S o lid a r iz a r - s e c o m e s s e
s o f r im e n to e m n ó s o u e m o u tre m , a lé m d e c e rto p o n to , é c o n s e n tir c o m a a rro g â n c ia ;
c o n s e n tir c o m a a r r o g â n c ia é p a r a lis a r o s o fre d o r. O n e u ró tic o , d is ta n te d e s u a s b a s e s
a r q u e típ ic a s , e s tá e f e tiv a m e n te e n a m o r a d o d e s u a s d o re s e s u a e x a lta d a c u lp a . O
s o f r im e n to a te u é ir ô n ic o , e s p e c ia lm e n te p a r a q u e m n a s c e u n a r e lig iã o ju d a ic o - c r is tã , n a
q u a l u m D e u s P a i e m s u a f o r m a c tô n ic a e n tro u c la n d e s tin a m e n te n u m ja r d im v irg in a l e
o e s tu p r o u , e p a r a q u e m to d o o r e s ta n te d a h is tó r ia é u m a e la b o r a ç ã o d a E x p ia ç ã o . V is to
p o r e s s e p r is m a , p o d e m o s a tin g ir a q u e le d e s a p e g o a p e n a s n e c e s s á r io p a r a d a r u m a b o a
g a r g a lh a d a d ia n te d o n o s s o p a p e l n a d iv in a c o m é d ia .
O s te r m o s " e s tu p ro " e " d e flo ra ç ã o " e m b o r a te n h a m s ig n ific a d o e s s e n c ia lm e n te

4 Hannah Arendt, Men in dark times, p. 97 (a citação é extraída de "The blank page", um ensaio de Isaac
Dinesen).
5 Jung, Psychology and alchemy, OC 12, par. 559.
s e m e lh a n te p o s s u e m c o n o ta ç õ e s m u ito d ife re n te s . E s tu p r o s u g e re s e r a p o d e r a d a e
l e v a d a e m b o r a p o r u m a e n e r g ia m a s c u lin a a d v e rs a , p o r m e io d e u m a s s é d io s e x u a l
b ru ta l; d e f lo r a ç ã o s u g e re s e r a p o d e ra d a e le v a d a e m b o ra p o r u m a m a n te m a s c u lin o , p o r
m e io d o ê x ta s e e d o e n le v o . E s tu p r o te m a v e r c o m p o d e r; d e flo ra ç ã o te m a v e r c o m
a m o r. N e s te c a p ítu lo , v is o c o n c e n tr a r - m e n o s im b o lis m o p s ic o ló g ic o d o e s tu p ro ; o
ú ltim o c a p ítu lo e s tá d e d ic a d o a o s im b o lis m o p s ic o ló g ic o d a d e flo ra ç ã o .
A té a g o ra , n e s te e s tu d o , d e i p o u c a ê n fa s e a o p a i, e m b o ra e le te n h a s id o u m a
f ig u r a o n ip r e s e n te n a d is c u s s ã o d o m a s c u lin o . A m ã e n e g a tiv a , d a f o r m a c o m o a
d e s c r e v i, é a m ã e q u e , p e s s o a lm e n te , é u m a q u e r id in h a d o p a p a i, u m a m u lh e r q u e n ã o
e s tá e m c o n ta to c o m s e u s p r ó p r io s v a lo r e s a f e tiv o s fe m in in o s , u m a m u lh e r m a is o u
m e n o s id e n tif ic a d a c o m o s id e a is d o p a tria rc a d o . S e u p a r c e ir o se rá , c o m u m e n te , u m
f ilh in h o d e m a m ã e , u m in d iv íd u o p o r ta n to m a is p r ó x im o d e se u la d o f e m in in o d o q u e
d o m a s c u lin o c tô n ic o , u m h o m e m m a is re la c io n a d o c o m se u p r ó p rio m u n d o in te r io r d o
q u e c o m o m u n d o d a r e a lid a d e e x te rn a . C o n f o r m e a v a n ç a u m c a s a m e n to d e s s a n a tu re z a ,
e la te n d e a e s c o r r e g a r p a r a o p a p e l d e m ã e , e e le p a r a o d e filh o ; d e s s a m a n e ir a , q u a n d o
n a s c e a filh a , s u a b e m - a m a d a in te r io r é p r o je ta d a n o b e b ê . E is a s e m e n te ira p e r f e ita p a r a
o a m a n te d e m o n ía c o .
A m o ç a m a is v u ln e r á v e l a o a m a n te d e m o n ía c o é a q u e a d o r a o u te m e o p a i
id e a liz a d o . (S e e le e s tá a u s e n te , p o r fo r ç a d e d iv ó rc io , a lc o o lis m o o u m o rte , a a d o ra ç ã o
d a f ilh a p o d e s e r a in d a m a is in te n s a .) T e n d o a c e ito a p ro je ç ã o d a a n im a d o p a i d e s d e a
in fâ n c ia , e la v iv e u p a r a lh e a g ra d a r, p a r a p a r tilh a r o s in te r e s s e s in te le c tu a is d e le e
c o r r e s p o n d e r a o s s e u s p a d r õ e s d e p e r fe iç ã o . N a d in â m ic a d e s s e re la c io n a m e n to , a m ã e é
v iv e n c ia d a o u c o m o a u s e n te , o u c o m o riv a l. E m b o r a a f ilh a se s in ta a q u e r id a d o p a i, e la
c o n s c ie n te m e n te n ã o o u s a r e p a r tir c o m e le a cam a; n ã o o b s ta n te , in s tin tiv a m e n te su a s
e n e r g ia s p e r m a n e c e m in c e s tu o s a s . D e s s e m o d o , s e u a m o r é s e p a r a d o d e s u a
s e x u a lid a d e . N a f a n ta s ia , e la s o n h a c o m s e u a m a n te e s p iritu a l; n a r e a lid a d e , e la
p e r m a n e c e in c o n s c ie n te d e s u a s e x u a lid a d e , p r a tic a - a s e m a m o r, o u a te m e c o m o se
f o s s e a lg u m p o d e r e x p lo s iv o c a p a z d e d e s tru í-la . T e n d e a " a p a ix o n a r-s e p e r d id a m e n te "
p o r u m h o m e m q u e n ã o p o d e se c a s a r c o m e la e e m to r n o d e q u e m e la c ria u m m u n d o
id e a l n o q u a l e la o u é a d o r a d a o u d r a m a tic a m e n te re je ita d a . N a v id a , v iv e e m se u
c o rp o ; n o s s o n h o s , a p a r e c e p o r tr á s d e u m v id ro , d e n tro d e s a c o s p lá s tic o s o u d e
g a rra fa s .
O v id r o é u m is o la n te q u e n ã o c o n d u z c a lo r, e a m u lh e r p r e s a n u m c a ix ã o d e
v id r o n ã o e s tá e m c o n ta to c o m s u a p a ix ã o p e la v id a . F ic a d o la d o d e fo ra , o lh a n d o p a ra
e la , a n s ia n d o p e lo q u e , p a r a o s o u tr o s , é a r e a lid a d e c e rta . D e d e n tr o d e s u a p ris ã o , o s
m a is tr iv ia is d e ta lh e s d a v id a a s s u m e m u m a b e le z a m ís tic a . E m se u is o la m e n to , e la
f a n ta s ia a s s u a s e m o ç õ e s m a s n ã o te m u m “ e u ” c o m o q u a l e x p e r im e n ta r s e n tim e n to s
v e r d a d e ir o s . A v id a n ã o flu i p o r in te r m é d io d e la . T e n d o a v id a in te ir a s id o p r e e n c h id a
p o r s e u p a i, e la a p r e n d e u e x a ta m e n te c o m o e s p e lh a r u m h o m e m , to d a v ia c o n tin u a
a p e n a s s e n d o u m re fle to r. J u n g a c h a m a d e " m u lh e r a n im a " . E la é M a r ily n M o n r o e d e
lá b io s f e n d id o s e o lh o s lím p id o s . É a b o n e q u in h a d o p a p a i e, p o r m a is d o c e e e ró tic a
que in c o n s c ie n te m e n te s a ib a ser, p o ssui um a p s ic o lo g ia p s e u d o m a s c u lin a .
C o n s c ie n te m e n te é u m a s u p e r c o m p a n h e ir a , u m a g r a n d e m u lh e r p a r a u m h o m e m , e,
c o m o e s p o s a , é c a p a z d e s a c r if ic a r s u a v id a p a r a s e r v ir o m a rid o . N o e n ta n to , se e le
a m a d u r e c e r , f ic a r á e n te d ia d o c o m a f a lta d e in d iv id u a lid a d e d e la e c o m o c o rp o
e c to p lá s m ic o q u e e la s u s te n ta . E le n u n c a c o n s e g u e re a lm e n te a lc a n ç á - la . E m b o ra a
p r in c íp io e le se s in ta lis o n je a d o p o r s e r p e r c e b id o c o m o u m deus, n ã o co n seg u e
s u s te n ta r e s s a p r o je ç ã o e, p o r fim , a c a b a r á re je ita n d o a n e g a ç ã o d e s u a p e rs o n a lid a d e ,
s a b e n d o q u e n ã o p o d e c o r r e s p o n d e r à s e x ig ê n c ia s d e la . N e s s e ín te rim , e la c o n tin u a
p r e s a n a f a n ta s ia d e q u e s e u v e r d a d e ir o a m o r é se u p a i.
O p a i, e n tr e ta n to , é a u m te m p o a m a n te e c a r c e re iro ; o s a s p e c to s p o s itiv o e
n e g a tiv o d e s u a in f lu ê n c ia s ã o p r ó x im o s o s u fic ie n te p a r a s e re m p ra tic a m e n te id ê n tic o s .
E liz a b e th B a r r e tt, p a r a lis a d a n a c a s a d e se u p a i, e s c r e v ia p o e m a s q u e se to r n a r a m u m a
p o e s ia a in d a m a io r q u a n d o fo i lib e r ta d a p o r R o b e r t B ro w n in g .
A q u e r id in h a d o p a p a i a n d a n a c o r d a - b a m b a e s te n d id a s o b re u m a b is m o ,
c o lo c a n d o u m p é c u id a d o s a m e n te n a f r e n te d o o u tro , n u m p r e c á r io e q u ilíb r io e n tre
a b s o lu ta m e n te n ã o v iv e r e v iv e r n u m m u n d o e s p iritu a l a lta m e n te c a r r e g a d o . S e e la
s u c u m b ir a o s e u a m a n te in te rio r, e le se in te r p o r á e n tre e la e u m r e la c io n a m e n to
g e n u ín o , f a z e n d o c o m q u e o h o m e m re a l p a r e ç a d e s p re z ív e l e a s e x u a lid a d e ,
p r o s titu iç ã o ( c o m o J a n e d e s c r e v e e m se u d iá rio ; v e r p. 1 40). S u a c o n s e n tid a s u b m is s ã o
a s e u a m a n te d e m o n ía c o m a n if e s ta - s e n o m u n d o e x te rn o a p e n a s m e d ia n te s e u s e fe ito s :
r e la c io n a m e n to s d e s f e ito s , a titu d e s e x a c e r b a d a m e n te c rític a s , c o m p u ls iv id a d e ,
e n x a q u e c a s e o u tr o s s in to m a s d e te n sã o . S e e s s e p o d e r se to r n a r m a g n é tic o , e n tã o a
m u lh e r e s tá c o r r e n d o o r is c o d e m o r r e r p o rq u e , in c o n s c ie n te m e n te , e s tá s e n d o a tra íd a
p a r a c a ir n a a r m a d ilh a d e le , e s e m u m c h ã o f e m in in o p r ó p r io e la n ã o te m u m a lig a ç ã o
s u f ic ie n te m e n te f o r te c o m s e u s p r ó p rio s in s tin to s p a r a p e r m a n e c e r n a v id a . E la é
v u ln e r á v e l a m o d o s s u a v e s , à e lo q ü ê n c ia v e rb a l, a o p e r f e c c io n is m o e a o s id e a is d o s
q u a is o re v e s te ; s u a p r e s e n ç a n a v id a é tã o tê n u e q u e e la se to r n a c a p a z d e s e r m o rta ,
s e ja p e lo h o m e m q u e e s tá c a r r e g a n d o s u a p r o je ç ã o , s e ja p o r s e u p r ó p r io a m a n te in te rio r.
A f o r ç a q u e e la p r o je ta n o s e u a m a n te d e m o n ía c o n ã o e s tá m a is à s u a p r ó p r ia
d is p o s iç ã o . N a r e a lid a d e , a p r o je ç ã o a e s g o ta e d e ix a - a frá g il, ta n to f ís ic a c o m o
e m o c io n a lm e n te .
O ir ô n ic o é q u e , n o c e rn e d o c o m p le x o p a i-a m a n te e s tá o d e u s - p a i a q u e m e la
a d o r a e a o m e s m o te m p o o d e ia , p o is , e m a lg u m n ív e l, s a b e q u e a e s tá s e d u z in d o p a r a
q u e se r e tir e d e s u a v id a . N ã o f a z d if e r e n ç a e la a d o r á - lo o u o d iá - lo p o is , n o s d o is c a s o s ,
e la e s tá lig a d a a e le e c a r e n te d e u m a e n e r g ia s e n d o d ir e c io n a d a a d e s c o b r ir q u e m e la é
d e fa to . E n q u a n to c o n s e g u ir f a n ta s ia r se u a m o r, id e n tif ic a - s e c o m o la d o p o s itiv o d o
d e u s -p a i; p o r é m , a s s im q u e e s s a f a n ta s ia é d e s tru íd a , e la n ã o te m e g o p a r a se s u s te n ta r e
p ê n d u la p a r a o la d o o p o s to , e m q u e v iv ê n c ia a a n iq u ila ç ã o n o s b ra ç o s d o deus q u e se
v o lto u c o n tr a si.
E s c r ito r a s s ã o p a r tic u la r m e n te p r o p e n s a s a o a m a n te d e m o n ía c o : E m ily B ro n té ,
E m ily D ic k in s o n , V ir g ín ia W o o lf, S y lv ia P la th . A s m u lh e r e s a in d a p o d e m c a ir d e
a m o r e s p o r H e a t h c l i f f e a m á - lo p r o f u n d a m e n te q u a n d o e le s u rg e c o m C a th e r in e m o rta
n o s b r a ç o s , e x ta s ia d o p o r q u e a g o r a e la é su a. N ã o e n x e r g a m q u e e s s e é u m c a s a m e n to
d e m o rte . A s m u lh e r e s q u e s e n tim e n ta liz a m o s p o e m a s d e a m o r d e E m ily D ic k in s o n
te n d e m a ig n o r a r o s p o e m a s d e a g o n ia in te n s a , e s c rito s n u m a h e r ó ic a te n ta tiv a d e
p e r m a n e c e r s ã e v iv a . Q u a n d o o a m a n te d e m o n ía c o é o c o m p le x o q u e c o n tr o la a p s iq u e ,
o s p ó lo s d o a m o r e d a p e r d a e s tã o p re s e n te s , u m c o n tr a b a la n ç a n d o o o u tro . A p e r fe iç ã o
d a m o r te e s tá n o c e n tro d e c a d a u m a . Q u a n d o o " R a io im p e ria l... e s c a lp e la a A lm a
d e s n u d a " ,6 d e ix a "u m E le m e n to d e V a z io " 7 q u e p o d e le v a r a o s u ic íd io . E s s e r a io se
to r n a " im p e r ia l" , p o r q u e d e f in e a d is tâ n c ia a p a r e n te m e n te in tr a n s p o n ív e l e n tr e o re a l e o
im a g in a d o . O e g o s o f r e u u m e s tu p r o p s ic o ló g ic o , te n d o s id o to m a d o d e a s s a lto p o r
c o n te ú d o s d o in c o n s c ie n te .
D o p o n to d e v is ta p s ic o ló g ic o , o a s p e c to m a is p e r n ic io s o d o a m a n te d e m o n ía c o
é s u a q u a lid a d e tr ic k s te r . E m g e ra l e le a p a re c e c o m o o n o iv o p e rfe ito , m a s a p e s a r d e
to d a a a p a r ê n c ia d iv in a q u e p o s s a te r a in d a é u m g a ro tin h o q u e re n d o a m a m ã e e x ig in d o
c o n tin u a m e n te a a titu d e m a te rn a l d e s u a v ítim a . U m a s o lid ã o e n c o n tra o u tra s o lid ã o e
a m b a s se e n g a n c h a m , c o n f ig u r a n d o u m e lo sim b ió tic o . U m a c ria n ç a , n o e n ta n to , n ã o se

6 Emily Dickinson, The completepoems. p. 148.


7 Idem, ibidem, p. 323.
r e la c io n a c o m s u a m ã e c o m o in d iv íd u o ; a m ã e e s tá a li p a r a s u p rir a s n e c e s s id a d e s do
filh o . Q u a n d o as e x p e c ta tiv a s d o p a i p a r a a f ilh a e n tra m e m c o n lu io c o m as
n e c e s s id a d e s d o a n im u s n e g a tiv o d a m ã e , a id e n tid a d e d a m u lh e r c o m o in d iv íd u o n ã o se
d e s e n v o lv e . A v o z c o m p o s ta d o a n im u s s u s s u rra in c e s s a n te m e n te : " V o c ê te m d e, v o c ê
d e v e , é im p e r io s o q u e " . N o v á c u o d e ix a d o p e la p e r d a d o s s e n tim e n to s , a ta c a o a n im u s
n e g a tiv o d iz e n d o - lh e q u e e la n ã o e s tá q u a lif ic a d a p a r a s e r a m a d a , q u e e la n ã o te m
v a lo r e s , q u e é f e ia e s e r á u m a p r is io n e ir a p a r a s e m p re . E n q u a n to e la se m a n tiv e r so b o
f e itiç o d e s s a v o z , p r o je ta n d o o a n im u s e m h o m e n s e x te rn o s , a r e je iç ã o q u e te m e
c o m e ç a r á a o c o r r e r p o rq u e , a o p r o je ta r o a n im u s n e g a tiv o , e la c o n s te la rá n o m e s m o
in s ta n te a m ã e n e g a tiv a n o h o m e m . E n tã o e la se r e la c io n a c o m e le n o p la n o d o lo g o s ,
e m g e r a l f a z e n d o o j o g o do " ju iz e s u a s s e n te n ç a s " . E la a s s u m e o p a p e l m a s c u lin o , e
f ic a m o s d o is d e s p r o v id o s d o se n tir.
A o to m a r c o n s c iê n c ia , a m u lh e r p o d e d e s c o b r ir q u e é c a p a z d e se p r o te g e r d o
e s tu p r o d o p r in c íp io m a s c u lin o d o p o d e r. P a r a ta n to , e la te m d e p e r m a n e c e r fie l a s e u s
p r ó p r io s s e n tim e n to s , p o r m a is in s e g u r o s q u e p o s s a m ser. E la p o d e o u v ir o s a r g u m e n to s
d e le (a ló g ic a q u e a p r e s e n ta é e x c e le n te ) e, e n tã o , r e s p o n d e r c o m firm e z a : " S im , é
v e r d a d e . V o c ê a r g u m e n ta b e m , m a s n ã o te m s e n tim e n to s . E s s e s a rg u m e n to s n ã o tê m
n a d a a v e r c o m a m in h a e s s ê n c ia . O s m e u s s e n tim e n to s s ã o e s te s , m e s m o q u e v o c ê a c h e
q u e e s to u m e e n g a n a n d o . E e le s sã o a m in h a v e rd a d e " . O e g o f e m in in o p o d e se r
a te r r o r iz a d o p e la in v a s ã o m a s c u lin a ; s u a ú n ic a d e fe s a sã o s e u s s e n tim e n to s g e n u ín o s .
O u tro m o tiv o p s ic o ló g ic o q u e se p o d e d e s e n v o lv e r d a c o m b in a ç ã o a m a n te
d e m o n ía c o /m ã e n e g a tiv a é o d a c r ia n ç a ó rfã . N e s s a s itu a ç ã o a m u lh e r n ã o v iv e n c io u u m
r e la c io n a m e n to n e m c o m o p a i, n e m c o m a m ã e . S e o p a i te m u m c o m p le x o m a te rn o
m u ito fo rte , s u a e s ta b ilid a d e e m o c io n a l d e p e n d e d a s r e a ç õ e s d o s o u tr o s a e le . S e u s
s e n tim e n to s p e s s o a is p r o v a v e lm e n te n ã o e s ta rã o d e s e n v o lv id o s e, p o rta n to , e le é
in c a p a z d e se r e la c io n a r c o m b a s e e m s e u s p r ó p r io s v a lo r e s a fe tiv o s , v a le d iz e r, su a
a n im a . A filh a , n e s s e c a s o , se to r n a s u a a n im a , s u a p o n te a té s e u p r ó - r io in c o n s c ie n te .
E la s e to r n a u m a r q u é tip o a m b u la n te , u m a d e u s a , u m a d e u s a q u e s a c rific o u su a p ró p ria
h u m a n id a d e , r e s p o n s á v e l p e lo b e m - e s ta r d o p a i e a té p e la c r ia tiv id a d e d e le . O g r a n d e
p r o b le m a é q u e s e u p r ó p r io p r o c e s s o c r ia tiv o fic a in te r d ita d o : c r ia r q u a lq u e r c o is a q u e o
p a i d e s e ja q u e e la c rie , e a té s e r q u a lq u e r c o is a q u e s e u p a i q u e r q u e e la s e ja ( is s o s e n d o
o u n ã o n a tu ra l p a r a e la ) é a g r a d a r a o p a p a i, e o s e g u n d o a s p e c to n e g a tiv o é q u e a g ra d a r
a o p a p a i im p lic a in c e s to . S e e la e s tiv e r c a s a d a c o m u m h o m e m c ria tiv o , p r o v a v e lm e n te
te r á r e c r ia d o a m e s m a s itu a ç ã o .
E m a lg u m p o n to , e la d e v e re c o n h e c e r q u e fo i p s ic o lo g ic a m e n te e s tu p ra d a p e lo
p a i. S e s e u e s p ír ito ti v e r s id o r e p e tid a m e n te a p o d e r a d o p o r e le , e la s e n tir á u m m e d o
a v a s s a la d o r q u a n to a se a b r ir p a r a a lg u é m o u a lg u m a c o isa . E m a n á lis e , u m s o n h o d e
e s tu p r o c o m a f ig u r a d o p a i é m u ita s v e z e s c ru c ia l p a r a c o n s e g u ir q u e a m u lh e r
r e c o n h e ç a s u a s itu a ç ã o . F a c e a f a c e c o m o ta b u d o in c e s to , e la p o d e e n tã o d e d ic a r-s e a
e la b o r á - lo c o n s c ie n te m e n te , c o m o u m a s p e c to d e se u p r ó p r io p ro c e s s o d o ta d o d e u m a
fin a lid a d e e s p e c ífic a . E s c r e v e J u n g : "O in c e s to s im b o liz a a u n iã o d a p e s s o a c o n s ig o
m e s m a , s ig n if ic a a in d iv id u a ç ã o o u o to r n a r-s e si m e s m a e, p o r s e r tã o v ita lm e n te
im p o r ta n te , e x e r c e u m a fa s c in a ç ã o d ia b ó lic a " .8
S e u m a m u lh e r h o u v e r in c o n s c ie n te m e n te a s s u m id o a re s p o n s a b ilid a d e p e lo
b e m - e s ta r e m o c io n a l d e s e u p a i, te n d o e n tã o id e n tif ic a d o o se u p r ó p r io b e m - e s ta r
e m o c io n a l c o m o d e le , s u a f e lic id a d e e s ta r á n a d e p e n d ê n c ia d ir e ta d e e le s e r fe liz . E la se
s e n te a fo n te d e v id a p a r a ele. S e o v ín c u lo f o r fo rte o s u fic ie n te , ela, in c o n s c ie n te m e n te ,
p o d e s e r a m ã e /a m a n te d e s e u p a i. C o m o m e d is s e u m a m u lh e r, s e u s n a m o r a d o s s e m p re
e r a m b e m - v in d o s e m s u a c a sa . S e u a m á v e l p a i c o s tu m a v a d iz e r : "D e ix e q u e v e n h a m ,

8 Jung, "The psychology of the transference", Thepractice ofpsychotherapy OC 16, par.419.


A lic e . N ó s o s a m a r e m o s a té m o rre r" . N o p la n o d e s e u s in te r e s s e s in te le c tu a is e
e s p ir itu a is , p a i e f ilh a e s tã o u n id o s p o r u m in c e s to p s ic o ló g ic o in c o n s c ie n te . O in s tin to
n a tu r a lm e n te q u e r d a r p r o s s e g u im e n to a ta l a m o r. O ta b u d o in c e s to , p o r é m 'in te rv é m
p a ra s e m p r e " .9 I n s tin to e a m o r, e n tã o , se a fa s ta m . O in c e s to in c o n s c ie n te a c o n te c e n u m
n ív e l e s p iritu a l; o s in s tin to s f ic a m f lu tu a n d o d e m o d o a u tô n o m o n o in c o n s c ie n te ,
d e s c o n e c ta d o s d o e g o . A m u lh e r, n e s s a c o n d iç ã o , to r n a - s e in c o n s c ie n te m e n te
id e n tif ic a d a c o m s u a s e x u a lid a d e e, c o m o se u a m o r e s u a s e x u a lid a d e e s tã o c in d id o s , a
s e x u a lid a d e é d e d ic a d a a o p o d e r. A c e r c a d o e g o id e n tif ic a d o c o m o p o d e r, E r ic h
N e u m a n n e s c re v e :

O ego... permaneceu... uma vítim a das forças inconscientes. ... Foi submetido a e dominado por
essas forças e instintos que dele se apossaram na forma da sexualidade, do desejo de poder, da crueldade,
da fome, do medo e da superstição. O ego foi seu instrumento, estando totalmente alheio ao fato de,
efetivamente, estar sendo possuído pois dava cegamente vazão a essas forças e se mostrava incapaz de
interpor qualquer espécie de distância entre seu campo e o poder que se havia apossado dele. Mas para
um ego de quem se exige que aceite responsabilidades, esse estágio de inconsciência e possessão equivale
a um pecado.10
E m b o r a o a m o r c o n tin u e v in c u la d o a o p a i, n o a to se x u a l o c o rp o p o d e s ó
a u to n o m a m e n te d a r e re c e b e r, p o rq u e o "eu " é s e n tid o d e s c o n e c ta d o d o in s tin to .
E s p ir itu a lm e n te , a m u lh e r p o d e v iv e n c iá - lo c o m o a m o r, m a s o c o rp o n ã o e s tá e m
s in to n ia c o m o e s p írito . E r o s n ã o e s tá re la c io n a d o c o m o e ró tic o . E r o s é u m p rin c íp io
f e m in in o , m a s é u m d e u s m a s c u lin o . E m b o r a o s e x o d e v e s s e s e r u m s ím b o lo d e u n iã o ,
to r n a - s e u m s ím b o lo d e p o d e r A u n iã o to ta l n ã o é p o s s ív e l q u a n d o o e g o te m e se re n d e r;
q u a n d o o e g o n ã o e s tá f ir m e m e n te a lic e r ç a d o e m s e u s in s tin to s , n ã o o u s a se e n tr e g a r a o
p o d e r tr a n s p e s s o a l.
O p r o b le m a se c o m p lic a p o rq u e , n o v ín c u lo e n tre p a i e filh a , a m ã e é e m g e ra l
p e r c e b id a c o m o h o s til. S e ja e s s a h o s tilid a d e re a l o u im a g in a d a , e l a a lim e n ta u m c o n flito
g e n u ín o : a g r a d a r a o p a i é a lie n a r a m ã e . Q u a n d o e la " c a ir d e a m o re s " , p ro v a v e lm e n te
s e rá c o m u m a f ig u r a "id e a l" . E m r e la ç ã o a e sta , m o v id a p e la fe lic id a d e , e la d e v e a g ir
c o m o m ã e e, s e n d o a s s im , n a e f e tiv a c o n s u m a ç ã o d o c a s a m e n to , e la se v ê s u b ita m e n te
d ia n te d o d in a m is m o d o in c e s to e d a r e je iç ã o d e s u a p r ó p r ia m ã e in te rio r. S e a té e sse
m o m e n to e la fo i p r o m ís c u a (o u seja, v iv e u a v id a n ã o - v iv id a d e s u a m ã e ), n ã o
c o n s e g u ir á le v a r e s s a s e x u a lid a d e a o s e u c a s a m e n to "perfeito ".
A m u lh e r c o m u m a m a n te d e m o n ía c o te m u m a v is ã o a m p lia d a d o f e m in in o
im a g in a l e u m a v is ã o r e d u z id a d o f e m in in o re a l. E m b o r a s u p e r e s tim e o m a s c u lin o ,
e s p e r a n d o d o s h o m e n s q u e v e n h a m s a lv á - la , a s u a f e m in ilid a d e s u b d e s e n v o lv id a o u
s e n te te r r o r d o m a s c u lin o a g r e s s iv o o u o d e s a fia . S u a f e m in ilid a d e in s e g u r a e n c o n tra u m
D o m J u a n c a r e n te d e a le g r ia e m p e n h a d o e m p r o v a r s u a m a s c u lin id a d e — a m b o s
e s s e n c ia lm e n te d e s v in c u la d o s d e s u a s e x u a lid a d e — , e o u tr o e s c a lp o s e rá a c r e s c e n ta d o
a o s e u c in tu rã o . N e s s a s itu a ç ã o , a re la ç ã o se x u a l n ã o te m n a d a a v e r c o m

9 Dickinson, p. 42:
Nossas vidas são Suíças —
Tão imóveis — tão Frias
Até que nalguma velha tarde
Os Alpes esquecem suas Cortinas
E nós olhamos muito mais longe!
A Itália está do outro lado!
Enquanto guarda de fronteira —
Os solenes Alpes —
Os Alpes sereia
Interferem para sempre!

10 Erich Neumann, Depth psychology and the new ethic, pp. 65-6.
re la c io n a m e n to . A s e re ia m a g n é tic a , o u m u lh e r fa ta l, d e s v in c u la d a d e s u a p ró p ria
m u lh e r in te r io r , n ã o a s s u m e r e s p o n s a b ilid a d e p e lo s h o m e n s q u e se d e ix a m e n f e itiç a r p o r
ela. C o m o m e d is s e u m a m u lh e r:

No passado, eu não conseguia ter certeza de nada, exceto da comida na minha barriga. Minha
mãe dava com uma mão e tirava com a outra. Agora sinto que se eu me doar para um homem ele
desaparece. Eu morro sem homem. Ele me traz para o meu corpo, por isso sou dependente dele. Mas,
assim que ele começa a pensar que sou dele, parte para outra conquista. Sou cuidadosa com o que dou. É
a conquista dele ou a minha.

E s s a m u lh e r, e m s u a " in o c ê n c ia " , se p e r g u n ta p o r q u e o s h o m e n s a a c u s a m d e
c ru e l. D a p a r te d e si m e s m a q u e r e s p e ita p o is c o n té m s u a a lm a , n e n h u m h o m e m c o m u m
te m p e r m is s ã o d e se a p ro x im a r. E la e s p e ra p e lo h o m e m q u e p o d e " a r re b a tá -la " . N a
ó p e r a L u lu , e la o e n c o n tr a e m J a c k , o e s trip a d o r. E m O th e llo , ela o e n c o n tra n o m a rid o
q u e , m e s m o e n q u a n to a m a ta , p o n tif ic a a se u re s p e ito . A m u lh e r q u e n ã o a s s u m e
r e s p o n s a b ilid a d e p o r s u a p r ó p r ia f e m in ilid a d e p o d e o c a s io n a r tr a g é d ia s o u e n c o n tr a r e la
m e s m a u m fim trá g ic o , p o r q u e s u a in o c ê n c ia lú d ic a e s tá r e p le ta d e u m a in d ife re n ç a
c rim in o s a . A c e r c a d o d e s e n v o lv im e n to d o e g o , E v a M e tm a n e s c re v e :

Quando, porém, uma mulher está ciente do direito de ser uma anima sem ser possuída por ela —
isto é, se ela entra no conflito entre ser a anima totalmente incalculável ou a fanática rejeitadora desse
papel — , o que ela realmente quer não é confundir ou intimidar seu homem mas ficar livre do poder das
forças que rugem por seu intermédio... Essa situação contém todas as potencialidades do desenvolvimento
de uma transferência de animus. Se essa transferência for plenamente experimentada, exibirá uma curva
de subida e de descida: primeiro, vem a exigência de que seja ativada uma magia ainda mais poderosa do
que aquela que a mantém aprisionada. Em outras palavras, é esperado do homem real que seja uma
espécie de superanimus. A qualidade positiva dessa transferência se expressará primeiro numa tentativa
de fazer com que o homem aceite esse papel. No estágio seguinte, quando a curva desce, a transferência
será desarticulada e, se tudo correr bem, o arquétipo será despotencializado. Na alça dessa curva se dá o
encontro com a sombra, pois essa é a única experiência capaz de desencadear a m udança.11

U m e x e m p lo e s c la r e c e r á a s tr ê s f a s e s d e s s a c u rv a . E s th e r e r a c a s a d a c o m P a u l,
u m h o m e m b o m e s im p ló rio , m a s s e c r e ta m e n te e la e s ta v a a p a ix o n a d a p o r u m a rd e n te
re b e ld e , J a k e . E la d e c id iu f u g ir d a m o n o to n ia d e se u c a s a m e n to p a ra c a ir n o s b ra ç o s d e
s e u a m a n te m a c h ã o . P a u l, e n tre ta n to , e m v e z d e a c e ita r se u p a p e l d e c a rc e re iro ,
m o s tr o u - s e d is p o s to a d e i x á - l a p a rtir. O s u rp re e n d e n te r e c o n h e c im e n to d a p a r te d e le
q u a n to a o q u e e r a p r e c is o n a q u e le m o m e n to d e ix o u -a a rra s a d a . D e r e p e n te , e s ta v a liv re .
E d e c id iu fic a r. A o s p o u c o s fo i c o n s ta ta n d o q u e se u c a p to r n ã o e ra se u m a rid o m a s se u
a m a n te d e m o n ía c o . P o s s u íd a p o r e le , e la te n ta r a m a n ip u la r P a u l p a r a q u e a s s u m is s e
p a p e l d e p a i- c a r c e r e ir o , q u e a m a n tin h a p r is io n e ir a n o se u c a m p o d e c o n c e n tr a ç ã o , e
c o m is s o p o d ia p r o je ta r o s a lv a d o r d e m o n ía c o e m J a k e . O r e c o n h e c im e n to e x ib id o p o r
P a u l, a r e s p e ito d o v e r d a d e ir o p r o b le m a d e E s th e r — s u a n e c e s s id a d e d e lib e r d a d e — ,
f o r ç o u - a a a s s u m ir a r e s p o n s a b ilid a d e p o r s u a p r ó p r ia e s c o lh a . E l a é q u e m iria te r d e
a b a n d o n a r u m d e s s e s d o is h o m e n s . P a u l a fe z e n c a r a r s u a p r ó p r ia s o m b ra : a m u lh e r q u e
e s ta v a tr a in d o o s d o is h o m e n s . D e s s e c o n fro n to , e la c h e g o u a c o n s ta ta r q u e se u re a l
v a lo r e s ta v a e m s u a le a ld a d e a P a u l. O s ig n if ic a d o d a c ris e , p a r a E s th e r, fo i se u e n c o n tro
c o m a p r ó p r ia s o m b ra , q u e f o r ç o u s e u e g o a a s s u m ir u m a p o s iç ã o . E la n ã o p o d ia m a is se
id e n tif ic a r c o m s e r a e s p o s a p e r f e ita d e P a u l; e m o u tra s p a la v ra s , e la ro m p e u su a
id e n tif ic a ç ã o c o m a p s ic o lo g ia m a s c u lin a . A o a s s u m ir a re s p o n s a b ilid a d e p o r si m e s m a ,
lib e r to u - s e d e s u a p r ó p r ia p ris ã o .
C o m e n ta n d o s o b r e o " m is te rio s o e n c a n to " d o a m a n te d e m o n ía c o , J u n g e s c re v e : 1

11 Eva Metman, "Woman and the anima", p. 12.


Era a espiritualidade de miss M iller que... estava demasiadamente exaltada para que ela
tampouco pudesse encontrar um parceiro entre os homens mortais. Por mais razoável e não minuciosa
que a atitude consciente possa ser num caso desses, não surtirá o menor efeito sobre as expectativas
inconscientes do paciente. Mesmo depois que as maiores dificuldades e resistências forem superadas, e
um casamento supostamente normal for realizado, só mais tarde é que ela irá descobrir o que quer o
inconsciente; isso se afirmará ou por meio de uma mudança no estilo de vida, por rima neurose, ou ainda
por uma psicose.12

O q u e a m u lh e r e s tá r e a lm e n te p r o je ta n d o é s u a im a g e m in te r io r d e u m d e u s -
h o m e m ; q u a n d o e la n ã o c o n s e g u e e n c o n tr á - lo o u n ã o é c a p a z d e s e g u rá -lo , m e s m o q u e
e m s u a im a g in a ç ã o s u a d e s ilu s ã o se to r n e u m a f ú r ia q u e c o n s te la o d e m o n ía c o . S e ela se
id e n tif ic a r c o m e s s a fú ria , ir á v iv e n c iá - la c o m o o p ró p rio S a tã v in d o p a r a a ta c á -la .
U m c a s o d e s s a n a tu r e z a é o d e A n d re a , u m a m u lh e r d e p o u c o m a is d e 3 0 a n o s,
d iv o r c ia d a , c o m tr ê s filh o s . N ã o c o n ta v a c o m u m p rin c íp io f e m in in o fo r te fu n c io n a n d o
e m s u a v id a : s u a m ã e e ra d e d ic a d a a o s p r in c íp io s m a s c u lin o s d a o rd e m , d a e fic iê n c ia e
d a p e rf e iç ã o ; s e u p a i n u n c a tin h a c o n s e g u id o se r e la c io n a r c o m e la n o p la n o a fe tiv o . E m
s in a l d e p r o te s to , d e c id iu n ã o p e r s e g u ir u m a p r o m is s o r a c a r r e ir a a r tís tic a e, e m v e z
d isso , se to r n o u u m a a d e p ta d o m o v im e n to h ip p ie . E m b o r a le v a s s e a v id a " d e ix a n d o as
c o is a s a c o n te c e r " , in c o n s c ie n te m e n te e s ta v a v iv e n d o s e m u m a d ire ç ã o d ita d a p e lo eg o .
E m b o r a e la m e s m a se h o u v e s s e to r n a d o m ã e , n ã o tin h a a f e m in ilid a d e n e c e s s á r ia p a ra
se r e la c io n a r c o m o p r ó p r io c o rp o , n e m f o r ç a m a s c u lin a s u fic ie n te p a r a a s s u m ir a
r e s p o n s a b ilid a d e p o r s e u s c o n s id e r á v e is ta le n to s . Q u a n d o o m a r id o p a rtiu , e la d is s e a si
m e s m a : " A g o r a e le se fo i. E u v o u v e s tir a s c a lç a s n e s ta fa m ília . S e re i a m ã e p e r f e ita e o
p a i p e rfe ito . E n tr a r e i n a u n iv e r s id a d e e s e re i a a lu n a p e rfe ita . V o u fa z e r u m c u rs o d e
s e r v iç o so c ia l e a s s u m ir o m u n d o to d o , e c u r á - lo ta m b é m " . E s s a b u s c a d a p e r f e iç ã o e ra a
su a L u z.
N o ú ltim o a n o d e s u a fa c u ld a d e , d u ra n te o s e x a m e s fin a is , q u a n d o e s ta v a se
e s f o r ç a n d o p a r a f a z e r o m e lh o r , A n d r e a te v e o s e g u in te so n h o :

Estou na cama com o diabo. Ele não parece o diabo mas eu sei que é ele. Estamos os dois nus.
Um menino bebê está deitado entre nós. O diabo me obriga a masturbar a criança. O pênis dele cai e o
sangue jorra. Ou ele me induz, ou eu decido colocar a boca onde o pênis estivera. Há sêmen misturado
com sangue. O bebe sumiu. O diabo pega um instrumento curto e pontiagudo como um compasso. Quero
sair. Eu peço que ele me deixe ir, ele sorri e diz: "Você não pode sair. Eu vou estar sempre aqui". Ele me
fere na boca. Estou gritando. A ponta enfia em minha boca. Ele a arranca. Decido cuspir todo o sangue de
minha boca em sua cara. Mas quando faço isso ele ri, e percebo que ele adora sangue. É isso que ele quer
que eu faça. Então ele me fere várias vezes a boca aberta. Acordo gritando: "Oh, meu Deus, oh, meu
Deus".
Nunca fiquei tão aterrorizada. Sinto-me totalmente impotente, mas é como se o sonho estivesse
me dizendo que embora eu achasse que era impotente nunca tinha entendido o que era a impotência até
esse momento.

O s o n h o m o s tr a q u e a s p o d e ro s a s e n e rg ia s d e A n d r e a v o lta - s e c o n tra e la e su a
f o r ç a v ita l, s e u p r ó p r io s a n g u e , e s tá r e tr o a lim e n ta n d o o d e m o n ía c o . T e n d o c r e s c id o se m
u m v e r d a d e ir o r e la c io n a m e n to c o m se u p a i re a l, e la c rio u u m m u n d o p e r f e ito e m s u a
im a g in a ç ã o , u m m u n d o e m q u e o s v a lo r e s p a tria rc a is e ra m id e a liz a d o s . A o se d e d ic a r a
e s s e m u n d o im a g in á r io , e la n ã o e s ta v a c ie n te d e se u o p o s to , q u e e s ta v a se c o n s te la n d o
e m s e u in c o n s c ie n te . D e s s e m o d o , q u a n d o a p r o je ç ã o id e a liz a d a e m se u m a r id o v e io p o r
á g u a a b a ix o , e la e m p r e e n d e u a r e a liz a ç ã o d e s e u s p r ó p r io s id e a is , e d e s e s p e r a d a e
c e g a m e n te s a iu c o r r e n d o a in d a m a is d e p re s s a n a d ire ç ã o d a L u z a té q u e a s fo rç a s
e s c u r a s d a f ú r ia e d a d e s ilu s ã o a c u m u la ra m f o r ç a s u fic ie n te p a r a liq u id a r c o m se u
c o m p o r ta m e n to o b s e s s iv o e s u r g ir c o m o S a tã . O s e x a m e s f in a is p r e c ip ita r a m e s s e

12. Jung, Symbols o f transformation, OC,5, par. 273.


c o n fro n to .
Q u e h u m o r n e g ro ! A m u lh e r p e n s a q u e e s tá c o rre n d o p a r a a L u z e,
in c o n s c ie n te m e n te , e s tá c o r r e n d o d ir e to p a r a o s b r a ç o s d o a m a n te d e m o n ía c o ! N o p la n o
m ito ló g ic o é u m c a s a m e n to d e m o rte , u m a u n iã o m ís tic a c o m o la d o e s c u ro d e D e u s.
E s s e é u m r e la c io n a m e n to s a d o m a s o q u is ta , q u e f a s c in a p o r q u e c o n té m e m s e u b o jo o s
e le m e n to s d e u m e r o tis m o v io le n to . N o s o n h o , a c o n s u m a ç ã o é u m a p a ró d ia h e d io n d a
d a c o n iu n c tio a m o ro s a : a c a b e ç a é a ta c a d a p o r u m in s tru m e n to fá lic o . O m a s c u lin o
s u p e r e s p ir itu a liz a d o , s u p e r in te le c tu a liz a d o , tr a n s f o r m a - s e e m f ú r ia c o n tr a o f e m in in o e
b e b e s e u s a n g u e . A f o r ç a v ita l q u e n ã o fo i c a p a z d e e n c o n tr a r s e u c a n a l p r ó p r io e m
r e la c io n a m e n to s a fe tiv o s re a is é e n tre g u e e m s a c rifíc io p a r a a lim e n ta r a fú r ia q u e , p o r
s u a v e z , fe re v ic io s a m e n te c o m o u m p u n h a l su a v ítim a fe m in in a .
A a titu d e e x te r m in a d o r a c o m a q u a l é a ta c a d a é p o r s u a v e z a d o ta d a p o r e la
c o n tr a a c ria n ç a . A c o n iu n c tio d e m o n ía c a é a tiv a d a q u a n d o e la é c o m p e lid a a m a s tu r b a r
o b e b ê a té q u e s e u p ê n is c a ia . A s s im c o m o e la p r ó p r ia q u e fo i d e s tro ç a d a , e la ta m b é m
d e s tro ç a , e a e n e r g ia d ia b ó lic a se a v o lu m a .
A r a z ã o d o c o n ta to o ra l c o m a c ria n ç a f ic a a m b íg u a , n o so n h o . S e fo i o d e m ô n io
q u e lh e d is s e p a r a s u g a r o s a n g u e e o s ê m e n , e m o u tra s p a la v ra s , q u e re p ita o e s tra g o
s u g a n d o a v id a e a c r ia tiv id a d e d e s u a p r ó p r ia d im e n s ã o m a s c u lin a jo v e m , e n tã o o
r e s u lta d o é d e s a s tr o s o . S e e la e s ta v a e s c o lh e n d o o f e r e c e r a lg u m tip o d e a ju d a p o s s ív e l
m e d ia n te u m a r e la ç ã o a m o r o s a c o m o s a n g u e e o s ê m e n d a c ria n ç a , e n tã o ela, n o
m ín im o , te m e s s a f o r ç a e m si. E m a m b o s o s c a s o s , o v a m p ir o é c o n tra a c u ra ; e le se
a lim e n ta d o s a n g u e d e s u a f e m in ilid a d e e d e s u a c ria n ç a c ria tiv a , z o m b a n d o d e s u a
te n ta tiv a d e re v id a r.
U m p o u c o a n te s d e s s e s o n h o , A n d r e a c o m e ç a r a a s o f r e r d e in te n s a s d o re s d e
c a b e ç a , p e r d a d a s e n s ib ilid a d e n a r e g iã o u r o g e n ita l e d e s m a io s m o m e n tâ n e o s . D e p o is o s
a ta q u e s d e s a p a r e c e r a m p o r tr ê s a n o s , e n e s s a a ltu r a s u a m ã e m o rre u . O e lo e n tre m ã e e
f ilh a tin h a s id o m u ito e s tre ito , e m b o r a a m ã e n ã o lh e tiv e s s e p o d id o f a c ilita r a
v in c u la ç ã o c o m a te rra . " Q u a n d o m in h a m ã e m o rre u " , d is s e A n d re a , "eu n a s c i" . A m o rte
d a m ã e lib e r to u a filh a p a r a u m a n o v a v id a .
L o g o a p ó s A n d r e a in c lu iu e m s u a " n o v a v id a " u m a d o e n ç a lim ita n te . A
d e v a s ta ç ã o in te r n a a n te r io r tin h a s im p le s m e n te se p r o lo n g a d o p o r u m te m p o lo n g o
d e m a is . M a s e la n ã o se m o s tr a n e m a m a rg a , n e m re s s e n tid a , e se u e s p írito c o ra jo s o é
u m te s te m u n h o v iv o d a tr a n s f o r m a ç ã o p s ic o ló g ic a . A g o r a c o m e ç a a d e s c o b r ir o E r o s e a
c r ia tiv id a d e q u e n ã o h a v ia c o n s e g u id o e n c o n tr a r n o in íc io d e s u a v id a . R e to m a n d o o se u
s o n h o c o m o d e m ô n io , e la e n x e r g a u m a e n o rm e s ig n ific a ç ã o s im b ó lic a e m se u g e s to d e
c u ra p a ra c o m o b eb ê:

Tive de curar onde achei que podia. Agora não tenho mãos nem pés. Só posso dar pela minha
boca. Oferecendo meu sopro de vida à criança, parei o sangramento. A ferida estava no masculino; a cura,
na boca feminina. Posso dar e receber como nunca antes me fora possível. Estou fisicamente mais fraca e
espiritualmente mais forte. Fui expulsa do sistema de valores coletivos. Não tem nenhum sentido racional,
mas sei que estou vivendo o meu próprio destino.

M u ita s m u lh e r e s m o d e r n a s e stã o , p s ic o lo g ic a m e n te , n a s itu a ç ã o e m q u e A n d r e a


e s ta v a d e p o is d a d is s o lu ç ã o d o s e u c a s a m e n to : p r a tic a m e n te s e m c o n s c iê n c ia fe m in in a ,
a c r ia n ç a f e m in in a p s ic o ló g ic a c o n tin u a n ã o n a s c id a ; a c o n s c iê n c ia m a s c u lin a
d e s v in c u la d a d e s e u s s e n tim e n to s fe m in in o s a s e d u z p a r a u m m u n d o fa n ta s io s o d e
p e r f e iç ã o to ta lm e n te d e s v in c u la d o d a v id a e d e se u p r ó p r io c o rp o . A in c a p a c id a d e d e
lid a r c o m a r e a lid a d e é v iv id a c o m o im p o tê n c ia . V io le n ta d a e m se u ín tim o p e la p ró p ria
b r u x a - v a m p ir o , e e x te r n a m e n te p e la m e s m a a titu d e n a c u ltu ra , e s s a m u lh e r n ã o o u s a se
a b r ir à v id a . E la te n ta se a g a r r a r tã o rig id a m e n te q u a n to p o s s ív e l a q u a lq u e r e s tru tu ra ,
c o n q u a n to f r á g il, q u e c o n s ig a m a n u f a tu r a r p a r a si. S e e s s a e s tr u tu r a f o r d e m o lid a —
n o r m a lm e n te p e la p e r d a d e a lg u m a lig a ç ã o a f e tiv a im p o r ta n te — , e la é in u n d a d a p o r
c o n te ú d o s in c o n s c ie n te s r e p r im id o s . E s tu p r a d a p o r se u a m a n te d e m o n ía c o , e la , n ã o
o b s ta n te , c o n tin u a s e n d o "a n o iv a a in d a n ã o a rre b a ta d a " .
P o r tr á s d a r ig id e z e s tá o m e d o d e u m a in e v itá v e l d e rro ta . E n tã o , u m d ia , a
tr a g é d ia a tr a v e s s a o s e u c o tid ia n o e n ã o h á u m m o tiv o ló g ic o p a r a isso . S e m o p r in c íp io
f e m in in o p r o p o r c io n a n d o u m tip o d if e r e n te d e s ig n ific a d o , a v id a se to r n a u m a b a ta lh a
c o n s ta n te c o n tr a o c a o s e o c o la p s o . O a m a n te d e m o n ía c o m o s tr a - s e te n ta d o r e in f la o
e g o c o m o r g u lh o , d e s a f ia n d o o s d e u s e s e d e u s a s in te rio re s ; in c o n s c ie n te m e n te , p o r é m , a
p e s s o a s a b e q u e o d e s f e c h o s e r á a d e r r o ta e a f u g a d o c o m b a te , s e ja m e d ia n te o s u ic íd io ,
u m a d o e n ç a te r m in a l o u u m a c id e n te fa ta l. À s v e z e s o c o r a ç ã o p á ra , n ã o p o rq u e a M o r te
d e le se a p o s s e , m a s s im p le s m e n te p o rq u e fo i d e s tro ç a d o .
Q u a n d o u m a m u lh e r e n tr a n o m u n d o p ro fis s io n a l, n o e s f o r ç o d e a s s u m ir a
r e s p o n s a b ilid a d e p o r s e u p r ó p r io a n im u s ( r e s p o n s a b ilid a d e q u e fo i a n te s p r o je ta d a e m
a lg u m h o m e m ) , e la e m g e ra l se p e r c e b e a p lic a n d o o s m e s m o s p a d r õ e s m a s c u lin o s d e
p e rfe iç ã o q u e a v id a in te ir a c o n h e c e u . F ic a e x a u s ta . N u n c a h á te m p o p a r a u m p a s s e io
d e s c o m p r o m is s a d o n u m p a rq u e , n e m p a r a u m a d e m o r a d a x íc a r a d e c h á c o m o m a rid o ,
o u h o r a s s e m c o m p r o m is s o e m c o m p a n h ia d o s filh o s . A o rg a n iz a ç ã o e a e f ic iê n c ia
to r n a m - s e d e u s e s . O s p e r ío d o s d e s ilê n c io m e d ita tiv o sã o ra ro s , o u n e m a c o n te c e m .
Q u a n to m a is r e f in a d o s se to r n a m o s p r in c íp io s m a s c u lin o s , m a is d e v a s ta m o fe m in in o .
P r e s a e m s e u a m o r in c e s tu o s o p e la p e r f e iç ã o m a s c u lin a , e la s e n te e m s e g re d o o u
d e s p r e z o , o u p ie d a d e p o r s e u p a r c e iro . S u a in ic ia ç ã o n o q u e e n fim v ir á a se to r n a r u m
c a s a m e n to d e m o r te o c o r r e q u a n d o se to r n a o b c e c a d a p o r s u a c o m p u ls iv id a d e
m a s c u lin a , v o lta - a c o n tr a s u a p r ó p r ia c ria tiv id a d e e e n tã o a e s tu p ra — c o m o fic o u
ilu s tr a d o n o s o n h o d e A n d re a .
E m te r m o s p s ic o ló g ic o s , s e u a n im u s - b r u x a — o p o d e r — e x te rm in a se u a n im u s
e s p ir itu a l c ria tiv o . L o n g e d e p e r m itir q u e s e u a n im u s p o s itiv o a c o n d u z a p o r s u a p r ó p r ia
d im e n s ã o p r o f u n d a m e n te e s p ir itu a l, e la o d e s tr o ç a e c a s tra . D e fa to , c o n s e g u iu s a ir d o
c a m p o d e c o n c e n tr a ç ã o , m a s n ã o e n c o n tro u o e q u ilíb r io a d e q u a d o : n ã o s a b e c o m o
c a n a liz a r o s id e a is p e r f e c c io n is ta s a té a d im e n s ã o h u m a n a . E s s a e n e rg ia v a m p ir e s c a é
c o n tr a b a la n ç a d a p e la f e m in ilid a d e r e je ita d a e a c e n tu a d a p e la s e x u a lid a d e in c o n s c ie n te ;
u m a v e z q u e a m u lh e r n ã o te n h a u m re la c io n a m e n to g e n u ín o c o m s e u c o rp o , s u a
s e x u a lid a d e b r o ta d e f o r m a in c o n s c ie n te . N o s s a c u ltu ra se to rn a , a s s im , re p le ta d e u m a
f e r o z c o m p u ls ã o m a s c u lin a p e lo p o d e r, c a r r e g a d a c o m u m a m a s c u lin id a d e in d ig n a d a e
u m a f e m in ilid a d e e n r a iv e c id a . O e s tu p r o p s ic o ló g ic o é a b u n d a n te ; o e s tu p r o c o n c r e to
e s tá se to r n a n d o e p id ê m ic o , ta n to d e n tro c o m o f o r a d e c a sa .
C o m o u m p a r a d ig m a d a v is ã o d e u m m u n d o h u m a n o v io le n ta d o , R . D . L a in g ,
e m T h e v o ic e s o f e x p e r ie n c e , a n a lis a o n a s c im e n to d e u m a c ria n ç a . E le o b s e rv a q u e o
p a r to fo i v ir tu a lm e n te d e s f ig u r a d o p e la o b s te tr íc ia te c n o lo g iz a d a :

Em algumas unidades obstétricas não vemos mais partos. O que acontece parece tanto um parto
quanto a inseminação artificial parece uma relação sexual, ou uma alimentação endovenosa parece uma
refeição... A obliteração do parto tem seu lugar junto com a obliteração da mente e da morte, ou seja,
notas de rodapé da abolição científica de nosso mundo e de nós mesmos.13

A títu lo d e ilu s tra ç ã o , e le d e s c re v e a re a ç ã o de um m é d ic o a um p a rto


d o m é s tic o :

Ela teve o bebê em casa, em segurança.

13 R. D. Laing, The voices of experience, p. 82.


"Mas por quê?", indagou seu obstetra, conselheiro e amigo. "Você não precisava passar por tudo
isso! Poderia ter vindo para a minha clínica e lido o jornal durante todo o procedimento. Você não teria
precisado saber de nada até eu lhe trazer o bebê."
"Mas", e ela está estupefata quando responde, "eu quis passar por tudo isso!"
Ele não conseguia perceber como um sentimento desses podia ter qualquer valor. Evidentemente
parecia farejar alguma heresia histérico-masoquista. Parto: abolido como uma vivência pessoal direta.
Mulher: de pessoa ativa em paciente passiva. Vivência: dissolvida no esquecimento. De sujeito sensível
ela é traduzida em objeto anestesiado.
Uma programação químico-cirúrgica se apossa do processo fisiológico. Resultado final:
desaparecimento do ato, do evento e da experiência coerente do parto. Em lugar do parto de um bebê
temos uma extração cirúrgica.14

O r e s u lta d o d e tu d o is s o é q u e n ã o n a s c e m o s m a is. C o m e ç a m o s c o m o e x tra ç õ e s


c ir ú r g ic a s e te r m in a m o s c o m o e x tin ç õ e s c irú rg ic a s . E n tr e o c o m e ç o e o fim , s o m o s u m a
m á q u in a q u im ic a m e n te a c io n a d a , s u je ita a u m a te c n o lo g ia c a d a v e z m a is re fin a d a .
O c o n to d e f a d a s d e G rim m , "A g a r o ta se m m ã o s " , s u g e re u m p o s s ív e l c a m in h o
p a r a o f e m in in o fe rid o . N e s s e c o n to , u m m o le iro p a s s a n d o p o r s é ria s d if ic u ld a d e s
f in a n c e ir a s é v is ita d o p e lo d ia b o , q u e v e m d is fa rç a d o . E m tr o c a d e r iq u e z a s , o m o le ir o
p r o m e te tu d o o q u e e s tiv e r a trá s d e se u m o in h o , p e n s a n d o q u e a li só e s tá u m a v e lh a
m a c ie ir a . J a m a is im a g in a r ia q u e s e u b e m m a is p re c io so , s u a filh a , é o p e ã o e m jo g o .
S u a s lá g r im a s e s u a p r ó p r ia f e m in ilid a d e c e r c a m -n a d e e n e r g ia s u fic ie n te p a r a s a lv á - la
d e s e r p le n a m e n te e s tu p r a d a p e lo d e m ô n io , m a s e la te m s u a s m ã o s d e c e p a d a s . D e
a c o r d o c o m M a r ie - L o u is e v o n F ra n z , e la e s c o lh e " s a c r if ic a r s u a p a r tic ip a ç ã o n a v id a
p a r a n ã o c a ir n a s g a r r a s d e l e " .15 E m o u tr a s p a la v r a s , se u c o m p le x o p a te r n o é tã o fo rte
q u e , a s s im q u e d á in íc io a q u a lq u e r a tiv id a d e , ca i n a s g a r r a s d a c o m p u ls iv id a d e
p a to ló g ic a e, e m v e z d e s u c u m b ir a e s s a a rm a d ilh a , p re fe re p e r m a n e c e r p a s s iv a . O filh o
d o r e i a e n c o n tr a , d á - l h e m ã o s d e p ra ta , c a s a - s e c o m e la e v a i p a r a a g u e rra . E la te m u m
filh o , A flito , f r u to d e s e u s o f r im e n to tr a n s f o r m a d o e m s a b e d o ria . E n tã o o d e m ó n io
in te r f e r e n o v a m e n te e, p o r m e io d e u m a s é rie d e e q u ív o c o s , e la e o f ilh o sã o le v a d o s a té
a f lo r e s ta o n d e s e u re i, fin a lm e n te , e n c o n tr a a b e m -a m a d a m a is u m a v e z . N u m a d a s
v e r s õ e s d e s s a m e s m a h is tó ria , é só n o m o m e n to e m q u e o filh o e s tá q u a s e se a fo g a n d o
q u e a d o n z e la s e m m ã o s , n u m tr a n s b o r d a m e n to d e a m o r e i n c e n tiv a d a p e la s p a la v r a s d e
u m v e lh o , e n f ia o s b r a ç o s n a á g u a e d e re p e n te a s m ã o s lh e c r e s c e m o u tr a v e z , e c o m
is s o e la c o n s e g u e s a lv a r a c ria n ç a .
V o n F r a n z a s s in a la q u e o m o le ir o a c r e d ita só e s ta r s a c r ific a n d o u m a v e lh a
m a c ie ir a — a n a tu r e z a — q u a n d o , n a re a lid a d e , e s tá in a d v e r tid a m e n te s a c r if ic a n d o se u
b e m m a is p re c io s o . O â m b ito d o f e m in in o c o m o u m to d o , r e p r e s e n ta d o p e la n a tu re z a , é
d a d o d e m ã o b e ija d a a o d ia b o , e s e u p r e ç o é a a lm a f e m in in a . A f ilh a é tã o d e v a s ta d a
p e lo p a i d e m o n ía c o e p e lo c o m p le x o d e m ãe n e g a tiv a — c u jo s e fe ito s sã o v ir tu a lm e n te
o s m e s m o s — q u e te m d e v o l t a r a o " im a c u la d o te r r itó r io v ir g in a l d e s u a a lm a " , n u m a
r e g r e s s ã o d e c u r a a té o c e r n e d a n a tu r e z a , p a r a p o d e r e n c o n tr a r s u a p r ó p r ia f o r ç a v i t a l .16
A s m ã o s d e p ra ta , q u e s u g e re m u m r e la c io n a m e n to a rtific ia l e m E ro s , v is to q u e u m a
e s p o n ta n e id a d e in s tin tiv a n ã o é p o s s ív e l à e s p o s a , só p o d e m s e r s u b s titu íd a s p o r m ã o s
v iv a s q u a n d o o c o r r e a in te r c e s s ã o d o m ila g r e d e a m o r .
N a lin g u a g e m d e s te e s tu d o , q u a n d o a m u lh e r fo i e x c lu íd a d a p a r tic ip a ç ã o n a
v id a p o r te r s id o e s tu p r a d a p o r u m p r in c íp io m a s c u lin o q u e in a d v e r tid a m e n te a e n tre g a
d e m ã o b e ija d a a o d e m ô n io , s u a ú n ic a s a lv a ç ã o é re g r e s s a r a o s p r ó p r io s in s tin to s e
tr a b a lh a r e m s ilê n c io e p a c ie n te m e n te , e m se u m u n d o in tr o v e r tid o , a té e s ta b e le c e r a

14R. D. Laing, The voices o f experience, p. 83.


15 Von Franz, The feminine in fairytales. p. 78.
* Ver, a respeito, a magistral versão japonesa do mesmo conto em A mulher heróica, de Alan Chinen
(Summus, 2001), que compilou nesse trabalho 12 contos de fadas sobre o feminino e suas formas de resgate. (N. T.)
16 Idem, Ibidem
lig a ç ã o c o m s u a p r ó p r ia fe m in ilid a d e , s u a p r ó p r ia v irg e m , f ir m e m e n te a s s e n ta d a n o c o lo
d e S o fia . E n tã o p o d e s u r g ir u m a s itu a ç ã o re a l q u e e x ija u m a m o r a lé m d e q u a lq u e r o u tro
q u e e la j á t e n h a e x p e r im e n ta d o . É q u a n d o e la e stá , c o m o v irg e m , p r o n ta p a r a se r e n d e r à
g r a n d e f o r ç a v ita l q u e a p e n e tr a . S e e la f o r fo r te o s u fic ie n te p a r a a b r ir m ã o d e s u a s
p r ó p r ia s p a u ta s r íg id a s e d e ix a r q u e o a m o r tr a n s b o r d e d e si, p r ó p r io s b r a ç o s c o m e ç a m a
c re s c e r, e n a s c e a s s im s u a f o r m a p a r tic u la r d e to c a r a re a lid a d e . E la e o filh o s ã o s a lv o s ,
o q u e n ã o é n a d a m e n o s q u e u m m ila g re .
A h is tó r ia d a v ir g e m sem m ãos é b a s ta n te r e le v a n te nos w orkshops que
d is c u tim o s n o C a p ítu lo 4 , e m q u e d iv e r s a s m u lh e r e s d e s c o b r e m o q u a n to s u a s m ã o s sã o
fra c a s . D e p o is d e a lg u n s m e s e s , e la s e m g e ra l p a s s a m a s e n tir u m a d o r m u ito in te n sa ,
q u a n d o a e n e r g ia s u b ita m e n te c o m e ç a a r e f lu ir a té s u a s m ã o s . S e u s s o n h o s , d e s s a é p o c a ,
tr a ta m d e s e u s p a is , n o r m a lm e n te n ã o c o m o e ra m m a s m o s tr a n d o - s e c a p a z e s d e a ju d á -
la s a se r e la c io n a r c o m a r e a lid a d e . E m o u tra s p alav ras, u m a m a s c u lin id a d e p o s itiv a
c o m e ç a a se c o n s te la r — u m a e n e r g ia f o r te e a s s e r tiv a q u e a ju d a o f e m in in o r e c e p tiv o a
se v in c u la r d e m a n e ir a c r ia tiv a c o m a v id a . E m g e ra l, e s s a m a s c u lin id a d e a s s e r tiv a n ã o é
a tiv a d a e n q u a n to a m u lh e r n ã o h o u v e r d e s c o b e r to s u a p r ó p r ia f e m in ilid a d e . E m se g u id a ,
u m a in te r a ç ã o c o m e ç a a se d e s e n v o lv e r e n tre o s d o is p ó lo s . N ã o e x is te p o r é m u m só
p a d r ã o d e c u ra ; c a d a p r o c e s s o a c o n te c e d e m a n e ir a in te ir a m e n te in d iv id u a l e, a s s im
c o m o n a a lq u im ia , a p e s s o a v o lta a o fo g o d a tra n s fo rm a ç ã o m u ita s v e z e s , p a ra
a tr a v e s s a r e m o u tro n ív e l o m e s m o p ro c e s s o .
O s o n h o a s e g u ir ilu s tr a c o m o u m re la c io n a m e n to n o v o p o d e se d e s e n v o lv e r
e n tr e o m a s c u lin o e o fe m in in o . L o u is e e s tá c o m p o u c o m a is d e 4 0 a n o s , h á v á r io s a n o s
r e a liz a u m in te n s o tr a b a lh o c o rp o ra l e h á d o is fa z a n á lise . S e u p a i m o rre u q u a n d o e la
e s ta v a c o m tr ê s a n o s , d e ix a n d o u m a im a g e m id e a l d e m a s c u lin id a d e c o m a q u a l n e n h u m
hom em com um c o n s e g u ir ia c o m p e tir. O son h o m o s tr a que e s tá o c o rre n d o um a
tr a n s f o r m a ç ã o :

Estamos num a linda casa dourada, brilhante, e estamos todos desempenhando papéis que vão se
tornando cada vez mais fantásticos. Uma famosa fem m efa ta le [estrela de Hollywood] é a dona da casa.
Vou até a cozinha e olho pela janela, com balcão. Embaixo há duas camas: uma é de casal e está coberta
com a colcha de seda cor de malva que é de David; a outra e de solteiro. Bobby [um jovem tipo puer]
entra e eu lhe digo que por algumas vezes fiquei naquele apartamento na cama de casal, mas a minha era
a de solteiro.
Bobby volta andando para sair da sala, mas se vira para olhar para trás. Nossos olhos se
encontram e acho que é possível que a atração tenha sido admitida. Bom, talvez eu fique com ele.
Agora, volto para a sala que é toda cercada de janelas, tem cortinas de veludo dourado, pé-direito
alto. Estou sentada numa poltrona, assistindo à encenação e pensando como os nossos convidados devem
estar impressionados com as nossas festas; depois, penso que não estão. Agora, Bobby se aproxima e
senta no meu colo; estou querendo levá-lo para a cama. Ele então volta para a mulher fatal. Ficávamos
elaborando fantasias.
Quando Bobby sai, de repente atrás de mim aparece [um ilustre ator britânico da velha escola]
usando uma roupa absolutamente fantástica, andando com grande dignidade com o seu terno de veludo
preto debruado de dourado. É do século XVIII, com as calças justas chegando até o joelho, adornadas de
botões dourados, camisa branca com babados, casaco preto, meias pretas, sapatos de verniz de salto com
fivelas douradas e um chapéu de veludo preto, com aplicação de jóias e ouro, que acaba parecendo um
turbante alto, equilibrado no topo de sua cabeça. Ele caminha com dignidade e está bastante ereto. Usa
uma bengala de ébano com ponteira de prata que, muito estranhamente, apresenta uma barra horizontal
embaixo, dificultando assim o seu uso.
Examino-o de cima a baixo. Ele tem um porte régio, a bengala soa estranha. A mulher fatal vê a
encenação que deve ocorrer e acho que ela nunca chegará ao nível dele, mas ela se apressa na direção dele
e diz, com grande estilo: "Oh, você pegou o meu bem mais precioso (pausa), a minha bengala".
Acho que ela é incrível. Pensei que ela fosse dizer "chapéu" mas não, é a bengala.
Ele se recosta num maravilhoso mostruário de vidro e ouro, cheio de prateleiras, que exibe os
pratos mais belos e inestimáveis de todos. A cristaleira toda desmonta junto com ele e percebemos numa
fração de segundo — era um jogo — , e agora acabou. Aqueles pratos jam ais poderão ser repostos. Ainda
consigo vê-los sumindo.

O son h o a c o n te c e num a m b ie n te re s p la n d e c e n te , a r tific ia l, no qual os


c o n v id a d o s r e u n id o s e s tã o f a z e n d o u m j o g o d e fa n ta s ia s . O j o g o s u g e re q u e a lg u m a
c o is a ir re a l e s tá se p a s s a n d o n a s itu a ç ã o d e v id a d a s o n h a d o ra . Q u a n d o e la o lh a p a ra
b a ix o , e s ta n d o n a s a c a d a , v ê d u a s c a m a s , u m a d e c a s a l (q u e tin h a re p a rtid o c o m D a v id ,
s e u p a i- a n im u s ) , e u m a d e s o lte iro , q u e é a su a. O o u tro la d o d o p a i é o p u e r B o b b y , q u e
c o n s te la n e la o u a m ã e , o u a m u lh e r fa ta l. (B o b b y s e n ta n d o e m se u c o lo , a m b o s n a
p o ltr o n a , c r ia u m a in te r e s s a n te c a r ic a tu ra d o d e s e n h o d e D a V in c i p a r a a V ir g e m e
S a n ta A n a ; v e r p. 1 7 7 .)
S e n ta d a num a p o ltr o n a (d o seu p r ó p r io p o n to d e v is ta com o v irg e m ), a
s o n h a d o r a r e v e la q u e te n to u m a n ip u la r o s c o n v id a d o s , m a s a p e s a r d is s o n ã o te m c e r te z a
d e e le s te r e m f ic a d o im p r e s s io n a d o s . O a m a n te d e m o n ía c o , c o m o a p a r e c e n o s o n h o , é o
tr ic k s te r p e rfe ito ; v e s tid o à m o d a a n tig a , n u m e le g a n te tra je p re to , s u a e x a g e ra d a
d ig n id a d e s u g e r e q u e e s tá r e p r e s e n ta n d o . S e u c h a p é u in s ó lito , c o b e r to d e jó ia s , s u g e r e a
im p o r tâ n c ia e x a g e r a d a o u to r g a d a à c a b e ç a ( a o s v a lo r e s in te le c tu a is e e s p ir itu a is ) , e u m a
f e m in ilid a d e m a l s itu a d a . E le a p r e s e n ta - s e c o m o b e m m a is p r e c io s o p a r a a s o n h a d o ra ,
s u a b e n g a la d e é b a n o c o m p o n te ir a d e p ra ta . E s s a im a g e m d e ix a c la ra a re la ç ã o e n tre a
b r u x a e o a m a n te d e m o n ía c o : e le c a r r e g a a v a s s o u r a fá lic a q u e é d e la , m a s , n e s te c a so , a
p o n te ir a d e p r a ta ( c o m o a s m ã o s d e p r a ta d a v ir g e m s e m m ã o s ) n ã o d e ix a q u e a b e n g a la
e n c o s te n o c h ã o . H á u m a c o n f u s ã o n o s g ê n e ro s , q u e a p a re c e ta n to n o c h a p é u c o m o n a
b e n g a la . Q u a n d o e la o c o n f r o n ta , e le c a i d e c o s ta s e, e m s u a q u e d a , e s tilh a ç a o s
d e lic a d o s p ra to s ; c o m is s o o j o g o te rm in a .
T o d a s a s im a g e n s d e s s e s o n h o s u g e re m u m p ro b le m a d e o rd e m a fe tiv a , m a s p a ra
n ó s b a s ta a p e n a s f o c a liz a r a b e n g a la d e é b a n o . E la n ã o é le g itim a m e n te d e le . P e r te n c e à
b r u x a f e m in in a . S e u e n e g r e s c im e n to s u g e re d e p re s s ã o , m a s e la n ã o e s tá e n ra iz a d a . A
b a s e d e p r a ta b l o q u e ia o a c e s s o d a b e n g a la p r e ta à te rra . E m a lg u m p o n to d a p s iq u e d e
L o u is e , e x is te u m a d e p r e s s ã o d is f a r ç a d a d e s e n tim e n to d e b ru x a , m a s d e s p ro v id o d e
e s p o n ta n e id a d e ; é o q u e se c o n h e c e e m p s ic o lo g ia c o m o " d e p re s s ã o s o rrid e n te " . O
a m a n te d e m o n ía c o , v in c u la d o à c o lc h a d e s e d a c o r d e m a lv a , u s u r p o u o s s e n tim e n to s
f e m in in o s , m a s e s s e s n ã o s ã o re a is. A s in s in u a ç õ e s d e h o m o s s e x u a lid a d e n o a m a n te
d e m o n ía c o s ã o n ítid a s , a s s im c o m o a m a s c u lin id a d e d a m u lh e r fa ta l. T a is a s p e c to s se
a p r e s e n ta m n u m d e s e m p e n h o s o fis tic a d o .
O fin a l s u g e re q u e a s o n h a d o ra e s tá p r o n ta p a ra d a r fim a o jo g o d a s m á s c a ra s ,
e s tilh a ç a n d o a q u e le m u n d o a rtific ia l. E s tilh a ç a r a p o r c e la n a c o n tid a n a e le g a n te
c r is ta le ir a d e s e u s v a lo r e s f a m ilia r e s tr a d ic io n a is r e q u e r d a s o n h a d o r a q u e d ife re n c ie
s e u s p r ó p r io s s e n tim e n to s f e m in in o s . L o u is e fe z o s s e g u in te s c o m e n tá r io s s o b re o
sonho:

Nunca esquecerei o momento em que vi aqueles pratos exóticos se quebrando em pedacinhos.


Ele literalmente emborcou em cima deles. Foi assombroso. Enxerguei a armadilha que a beleza é para
mini: belos objetos, belos homens, belos espetáculos. Vi o paradoxo. Ao projetar toda a minha beleza em
coisas externas, perdi o interesse por mim. Agora estou retirando do mundo perfeito essas projeções. Foi
assombroso ver aquilo despencar. Destruir qualquer coisa que seja linda é terrível! M as sinto como é
inevitável. O colapso abre a porta da transformação. Eu vi quando caiu. Não a quero mais. Quero a minha
própria vida.

O a m a n te d e m o n ía c o p o d e s e r p r iv a d o d o s s e n tim e n to s , in c lu s iv e a r e s p e ito d e
c o is a s tr iv ia is . Se, p o r e x e m p lo , u m a m u lh e r e s tá m a s s a g e a n d o o s p é s d o m a r id o e e le
a d o r m e c e , e la p o d e b e l i s c a r - l h e o s d e d o s a té q u e e le a c o rd e , p a r a re c la m a r: " M a s d e q u e
a d ia n ta e u m a s s a g e a r s e u s p é s ? V o c ê s im p le s m e n te d o rm e " .
Se, n o e n ta n to , e m v e z d e fic a r c o m ra iv a o u e n te d ia d a , e la c o n te m p la o
b e a tíf ic o e s ta d o d e s o s s e g o e m q u e e le se e n c o n tra , p o d e d iz e r a si m e s m a : " E u g o s to d e
m a s s a g e a r o s p é s d e le . E le g o s ta d e s s e s o n in h o . G o s to d e lh e d a r e s s e c a r in h o — h a n n n
— o u s e rá m a n ip u la ç ã o ? A q u e m e s to u q u e re n d o a g ra d a r? O q u e d e s e jo c o m is s o ?
F a z e r a m o r? N ã o . E s to u f a z e n d o is s o p o r m im . E n tã o , m e u a m o r, b o n s so n h o s" . A í e la
e s tá e m s in to n ia c o m o s se u s s e n tim e n to s ; s u a s m ã o s tê m v id a , n ã o sã o d e p ra ta .
A s itu a ç ã o p s ic o ló g ic a é m u ito d ife re n te q u a n d o a m u lh e r e s tá p r e s a n u m a
i d e n tif ic a ç ã o in c o n s c ie n te c o m a m ã e . P r e c is a e n tã o s e r e s tu p r a d a p a r a s a ir d e s s a
id e n tif ic a ç ã o a n te s q u e c o n s ig a e n c o n tr a r a su a in d iv id u a lid a d e . E s s e é o s ig n ific a d o d o
m ito d e D e m é te r - P e r s é f o n e , q u a n d o C o re é r a p ta d a p a r a o m u n d o in f e r io r p o r H a d e s .
C o m e n ta n d o s o b re e s s e m ito , e m " O s a s p e c to s p s ic o ló g ic o s d e C o re " , J u n g e s c re v e :

A psique preexistente à consciência (por exemplo, na criança) participa da psique maternal por
um lado e, por outro, alcança a psique da filha. Poderíamos então, dizer que toda mãe contém a filha em
si e toda filha contém a mãe, e toda mulher se estende para trás até sua mãe e para a frente até a filha... A
experiência consciente desses elos produz a sensação de que sua vida se espalha ao longo das gerações —
o primeiro passo rumo à experiência imediata e à convicção de estar fora do tempo, o que contém em si
um a sensação da imortalidade... Uma experiência dessa natureza dá à pessoa um lugar e um sentido na
vida das gerações, de tal sorte que todos os obstáculos desnecessários são removidos do caminho do
desenrolar da vida, que passa a fluir com ela. Ao mesmo tempo, a pessoa é resgatada de seu isolamento e
devolvida à completude. Toda preocupação ritual com os arquétipos tem, em última análise, esse objetivo
e esse resultado.17

O p r in c íp io f e m in in o s u p re m o , r e p r e s e n ta d o n o m ito p o r G a ia , s a b e q u e
D e m é te r , a m ã e e s ta b e le c id a , d e v e a c o lh e r a d e f lo r a ç ã o d e s u a filh a . P a r a q u e n o se io d o
p r in c íp io f e m in in o o c o r r a a r e n o v a ç ã o , a jo v e m m o ç a (q u e p o d e p r e f e r ir p e r m a n e c e r
c o m a m ã e ) te m d e s e r le v a d a à f o r ç a p a r a o m u n d o in f e r io r e a li e x p e r im e n ta r a
p e n e tr a ç ã o e a im p r e g n a ç ã o d o m a s c u lin o c ria tiv o . D e s s e m o d o , n a s c e u m a n o v a v id a .
E s s e é o c ic lo d a n a tu re z a : o v e r ã o se e n c a m in h a p a r a o o u to n o ; a s s e m e n te s d o o u to n o
r e p o u s a m n o c h ã o d u r a n te o in v e r n o e se s a c r if ic a m à n o v a v id a , n a p rim a v e ra . N a v id a
d e u m a m u lh e r, n u m c ic lo d e v id a n a tu ra l, o s is te m a a n tig o d e v a lo r e s ( D e m é te r ) e n tra
e m lu to , e n q u a n to o n o v o s is te m a d e v a lo r e s (P e r s é f o n e ) é a r r e b a ta d o p e lo d ife re n te ,
q u e a p e n e tr a e a s s im g e r a u m a n o v a v id a ; n e s s a o c a s iã o , o v e lh o e o n o v o se re ú n e m d e
m a n e ir a in é d ita . E n tr e m ã e e filh a d á -s e n a tu ra lm e n te u m a tr a n s f o r m a ç ã o s e m e lh a n te ,
c a s o h a ja o c o n s e n tim e n to p a r a ta n to . A m u lh e r s á b ia e s tá c ie n te d e q u e a v ir g e m d e v e
se e n tr e g a r à d e f lo r a ç ã o p a r a q u e a n o v a v id a p o s s a n a s c e r e o c ic lo d a v id a te n h a
c o n tin u id a d e .
P a r e c e - m e q u e o q u e e s ta m o s p r e s e n c ia n d o e m n o s s a c u ltu r a é u m c o la p s o d e s s e
m is té r io fe m in in o . G e r a ç õ e s d e m u lh e r e s tê m a s s im ila d o o s is te m a p a tria rc a l d e v a lo re s ;
c a d a g e r a ç ã o se a f a s ta m a is u m p o u c o d o p rin c íp io f e m in in o e a g o r a , n o p o n to e m q u e
e s ta m o s , D e m é te r e P e r s é f o n e f o r a m a m b a s e s tu p r a d a s p o r s e u la d o m a s c u lin o . S e a
m u lh e r n ã o c o n s e g u e e n tr a r e m c o n ta to c o m su a d im e n s ã o v irg in a l in te rio r, n ã o p o d e
s e r a r r e b a ta d a . N ã o e s tá p r e s e n te o s u fic ie n te e m s e u p r ó p r io s e r p a r a r e c e b e r o
m a s c u lin o . O p r in c íp io m a s c u lin o d o p o d e r se a p r e s e n ta c o m o u m a p a r e d e s ó lid a e n tre
e la e s u a p r ó p r ia fe m in ilid a d e . C o m o m e d is s e u m a d e m in h a s a n a lis a n d a s , e m te r m o s
b e m c o n tu n d e n te s : "A v a g in a é o d e rra d e iro b a lu a r te d o a n im u s n e g a tiv o " . E s s a m u lh e r
n ã o c o n s e g u e se e n tr e g a r à v id a ; n ã o c o n s e g u e se a b r ir a o q u e é o u tro , s e ja e m n ív e l
h u m a n o , s e ja e m n ív e l d iv in o . T e m m e d o p o r q u e "se e n tre g a r" s ig n ific a c a ir n o a b is m o ,
n o e s c u r o to ta l, q u e é o c a o s a b s o lu to , e a tr a g é d ia é q u e q u a n to m a is se e s fo rç a , m a is
e s tá se f e c h a n d o s o b re si m e s m a . E s s e "te n ta r" m a s c u lin o n ã o c o n se n te o "se e n tre g a r"

Jung, "The psychological aspects of the Kore", The archetypes and the collective unconscious.
OC 9i, par. 316.
f e m in in o , d e ix a n d o a v id a f lu ir p a ra d e n tro d e s u a v a g in a , n ã o só a tra v é s d e se u s
g e n ita is , m a s d e to d o s o s p o r o s d e s u a p e le . E la ta lv e z n ã o te n h a a m e n o r id é ia d o q u e
e s tá e rra d o , p o r q u e s u a p r ó p r ia m ã e D e m é te r e s te v e n a m e s m a s itu a ç ã o : s u a P e r s é f o n e
ta m b é m fo i e s tu p ra d a , n u n c a a rre b a ta d a , d e ta l m o d o q u e s u a m a n e ir a fe m in in a d e se
r e la c io n a r o u é in f a n til, o u a in d a se e n c o n tr a e m e s ta d o e m b rio n á rio .
S e D e m é te r e s tá f o r a d e c o n ta to c o m s u a P e rs é fo n e in te rio r, e s tá fo r a d e c o n ta to
c o m s u a p r ó p r ia e s s ê n c ia . P e r s é f o n e é a v ir g e m q u e o lh a n o e s p e lh o e a tr a v e s s a p a r a o
la d o d e lá , a b r in d o - s e à r iq u e z a d o m u n d o in te rio r, e x p e rim e n ta n d o o a r r e b a ta m e n to e
v o lta n d o c o m u m te s o u r o d e s e n s ib ilid a d e e a v iv ê n c ia d e s u a p r ó p r ia s in g u la rid a d e :
tr a z e n d o u m a n o v a v id a . S e m P e r s é f o n e , D e m é te r é e s té ril. N o m ito , e la d á a s c o s ta s à
s u a p r ó p r ia te rra .

A li vive a mais querida frescura imersa no íntimo bojo das coisas:


E embora tenham as derradeiras luzes sobre o negro ocidente sido Apagadas
Ó manhã, na castanha fím bria oriental, brota—
Porque o Divino Fantasma sobre o reclinado
M undo cisma com cálido colo e com ah! refulgentes asas.

Gerard Manley Hopkins, "God's grandeur"


A D e m é te r m o d e r n a e s tá c o m e ç a n d o a se d a r c o n ta d e q u e s u a p r ó p r ia te r r a fo i
s a q u e a d a e e s tã o to d a s e la s se to r n a n d o tã o c o n s c ie n te s d a v io la ç ã o q u e te n ta m f a z e r
a lg o a r e s p e ito n ã o s ó p o r s u a c a u s a , m a s ta m b é m e m n o m e d e s u a s P e r s é f o n e s su a s
p r ó p r ia s f ilh a s b io ló g ic a s e p s ic o ló g ic a s . A d m ite m que fo ra m e s tu p r a d a s p e la
u n ila te r a lid a d e d o p r in c íp io m a s c u lin o q u e a r r e m e te e m b u s c a d e o b je tiv o s se m
d e s f r u ta r d e m o d o a lg u m o p r a z e r d a v ia g e m . P e r c e b e m q u e a s e x u a lid a d e é m u ito m a is
q u e o rg a s m o , e u m b e lo c o rp o é m a is d o q u e c a b e r n u m v e s tid o ta m a n h o 4 2 . O u ç o
f r e q ü e n te m e n te e m m e u c o n s u ltó r io o s s e g u in te s tip o s d e c o m e n tá rio :

"Não posso me sujeitar a isso novamente. Fui para o hospital. Trataram-me como uma máquina.
Aplicaram placas de aço em mim e por toda a parte como se eu fosse parte do aço. Fui estuprada. Eles
não me disseram por que estavam fazendo aquilo. Era como se eu não tivesse a menor importância. Meu
corpo simplesmente chorou."
"O aborto é muito mais do que só se livrar de um feto. M eu bebê agora teria três meses e não
consigo parar de chorar. Eu não sabia o que estava fazendo. Parecia a coisa mais sensata a fazer."
"Era comum eu desejar ser estuprada. Havia uma terrível hostilidade nisso. Eu deixava a
'coitadinha' se apossar de mim. Queria que meu homem culto e civilizado de repente virasse um homem
das cavernas e me transportasse até o nirvana sexual. Colocava tudo nele. Agora é um grande alívio
simplesmente estar ali."
"Meu orientador de tese exige perfeição. Toda vez que nos encontramos sinto que fui violentada.
M inha realidade foi violentamente negada. M as não consigo me ater a meus valores. Identifico-me com
meu animus e minha própria raiva e autocrítica me paralisam. Não consigo escrever uma só palavra.
Sinto-me como o estudante em A aula, de lonesco."
"Não entendo essa pedra no meu peito. Sinto que não consigo respirar. Ouço minha mãe
dizendo: "Você não deveria estar cansada", mas estou esgotada. Tenho pavor de que James possa me
deixar. Odeio essa minha dependência. E a verdade é que não sou dependente, mas a idéia de ele me
deixar me mata. O tempo todo que fico tentando deixá-lo ir, estou desesperadamente me agarrando a ele.
Acho que ele sente isso."
"Eu vou ter a minha vida. Eu consigo começar a sentir isso. Acho que antes de nascer eu fui
traumatizada. M inha mãe não me queria. Vivi tentando ser invisível. Meu corpo nunca suplicou nada.
Agora estou dançando meu próprio animal, e como ela está feliz!" "Enquanto sinto o quadril sei
que estou suficientemente definida. Quanto mais direta eu for, de menos palavrório eu preciso. Quando
estou aprisionada dentro da camada de gordura, sei que estou me violentando. Perdi a minha espada do
discernimento."
"Não só estuprei a minha prostituta como tentei matá-la. O jeito como eu comia era a
enlouquecida paixão dela pela vida."
"Minha mãe era como a mãe inglesa que chorava enquanto se despedia da filha que partia para
se casar nas colônias. 'Nunca diga não a seu marido, querida. Apenas se deite, abra as pernas e pense na
Inglaterra.'"

A m u lh e r m o d e r n a e s tá se d a n d o c o n ta d e q u e s u a p s iq u e fo i e s tu p ra d a , a s s im
c o m o a n te s o fo i ta m b é m a d e s u a m ã e . S e e la é c o n s c ie n te , n ã o c u lp a rá o s p a is n e m o s
h o m e n s d e s u a v id a p e s s o a l e p r o f is s io n a l. R e c o n h e c e q u e a m b o s o s s e x o s e s tã o ju n to s
n e s s a c r is e e e la te m d e a c e ita r s u a p r ó p r ia p a r c e la d e r e s p o n s a b ilid a d e . T e n d o
c a r r e g a d o o s p a d r õ e s p e r f e c c io n is ta s d e p a is , p r o f e s s o r e s e d a s o c ie d a d e e m g e ra l, se u
m u n d o p a r tic u la r e í m p a r fo i v i o le n ta d o a ta l p o n to q u e e la te m e a té m e s m o o lh a r - s e n o
e s p e lh o , p o is ta lv e z e la n ã o e s te ja ali. S e u m a rid o , s e u s ir m ã o s e f ilh o s e n c o n tra m -s e e m
s itu a ç ã o ig u a lm e n te p r e c á r ia . A lé m d is s o , o s p a d r õ e s p e r f e c c io n is ta s n ã o p e r m ite m q u e
o c o r r a m fa lh a s . N ã o p e r m ite m a liá s q u e á v id a se d ê, e c e r ta m e n te n ã o c o n s e n te m c o m a
m o rte . C o m o a v id a n ã o p o d e s e r a c e ita n e m v iv id a n o a m o r o s o p e r d ã o q u e se e s te n d e a
si e a o s o u tro s , a m o rte é v is ta c o m o o e s tu p ro fin a l. P e r c e b e r a m o rte d e s s a m a n e ira
t o r n a im p o s s ív e l q u a lq u e r n ív e l d e r e d e n ç ã o o u re s s u rre iç ã o .
M e n c io n e i a n te r io r m e n te q u e a f e m in ilid a d e p o d e s e r a te r r o r iz a d a p e lo p o d e r
m a s c u lin o , e s u a ú n i c a d e f e s a s ã o o s s e n tim e n to s a u tê n tic o s . A tra g é d ia , n o e n ta n to , é
q u e e m m u ito s c a s o s o s s e n tim e n to s d a m u lh e r s ã o tã o d e s c o n h e c id o s q u e , n u m a crise,
n ã o p o d e r ã o s e r m o b iliz a d o s p a r a p r o te g ê - la .
U m e x e m p lo d e u m a s itu a ç ã o e m q u e o s s e n tim e n to s f o r a m m o b iliz a d o s p o d e
d e m o n s tr a r ta n to o t i p o d e p e r ig o q u e o c o m p le x o d o a m a n te d e m o n ía c o p o d e c o n s te la r
q u a n to a m a n e ir a f e m in in a d e d o m a r a e n e rg ia n u m p r o c e s s o q u e é im p re s c in d ív e l p a ra
a m u lh e r se liv r a r d e le . C o m o se to r n a r á e v id e n te , e s s a p e s s o a e s ta v a s u f ic ie n te m e n te
e m c o n ta to c o m s e u s s e n tim e n to s fe m in in o s p a r a m o b iliz á - lo s n u m a c o n d u ta q u e p ô d e
n e u tr a liz a r o c o m p le x o .
I n g r id e ra u m a m u lh e r d e q u a s e 3 0 a n o s. V ia ja r a s o z in h a e tin h a c h e g a d o n o
fin a l d a ta r d e a u m a c id a d e e s tra n h a . P r e c is a v a ir d e u m a e s ta ç ã o d e f e r r o p a r a o u tra . D e
r e p e n te fo i a b o r d a d a n u m a r u a d e s e r ta p o r u m h o m e m m u ito g r a n d e e fo r te q u e a
o b r ig o u a ir a té u m a v ie la , d i z e n d o - lh e q u e ia e s tu p r á - la e m a tá -la . A r e a ç ã o in ic ia l d e la
fo i d e p â n ic o e e la te n to u e s c a p u lir. M a s e le e ra m a is fo rte . E n tã o , n u m re lâ m p a g o , e la
v iu e m q u e s itu a ç ã o se e n c o n tr a v a : v iu o h o m e m e se v iu . A c e ito u s u a m o rte , se u c o rp o
r e la x o u e o lh o u o h o m e m d ir e to n o s o lh o s . I m e d ia ta m e n te o s d e d o s d e le a f r o u x a r a m e m
to r n o d e s u a g a rg a n ta .
" V o c ê n e m lu ta " , e le g a g u e jo u . " A s sim n ã o te m g r a ç a m a ta r."
"S e é p a r a e u m o rre r, e n tã o v o u m o rre r" , e la d is s e b a ix in h o , o te m p o to d o
o lh a n d o - o n o s o lh o s.
E le f ic o u c o n f u s o . E la c o lo c o u a s m ã o s s o b re a s d e le , e d e lic a d a m e n te re tiro u -a s
d e s u a g a r g a n ta . E le c o m e ç o u a c h o ra r, a g a rro u -a p e lo p u n h o e a rra s to u -a a té u m b a r
p ró x im o , d e o n d e e la e s c a p o u q u a n d o e le fo i a té o b a n h e iro .
In g rid , n a re a lid a d e , e ra u m a s o n h a d o ra q u e se tin h a r e tir a d o d o m u n d o re a l,
q u a n d o e s ta v a n o tre m , p e r d e n d o - s e e m s u a s fa n ta s ia s s o b re o a m a n te d e m o n ía c o . H a v ia
fe ito e s s a v ia g e m n u m e s fo rç o p a r a s u p e r a r a d o r p o r u m r e la c io n a m e n to ro m p id o , e
f a z ia p a r te d e s e u p la n o d e p u r if ic a ç ã o je ju a r . A q u e la c id a d e e r a s u a ú ltim a p a r a d a n o
c a m in h o d e v o lta p a r a c a sa . S e is s e m a n a s d e u m je ju m , q u e q u a s e a d e ix a r a e m e s ta d o
d e in a n iç ã o , tin h a m - n a le v a d o a u m a c o n d iç ã o e m q u e p r a tic a m e n te n ã o s e n tia m a is se u
c o rp o , d e s lig a n d o - s e d o m u n d o e m to rn o . A in d a e n v o lv id a p o r s e u a m a n te " id e a l" , e la
e s ta v a m a is p r o n ta p a r a se l ib e r ta r p e la m o r te d o q u e p a r a r e to r n a r à r e a lid a d e d e s u a s
r e s p o n s a b ilid a d e s e m c a sa .
Q u a n d o e fe tiv a m e n te f ic o u d ia n te d a m o rte , n o e n ta n to , In g rid v iv e n c io u su a
h u m a n id a d e e d e s e jo u v iv e r . O h o m e m e r a u m d e s c o n h e c id o e e s s a p r ó p r ia c o n d iç ã o d e
d e s c o n h e c im e n to a a r r e b a to u e m c h e io d e v o lta à re a lid a d e . E n q u a n to e le se m a n tin h a
c o m o o " e s tu p r a d o r " e m sua m e n te , e e la c o m o a " v ítim a " , a v io lê n c ia d e la e ra u m
r e f le x o c o m p le m e n ta r d a d e le . A m o r te e s ta v a c o n s te la d a . E le q u e r ia q u e e la lu ta s s e
p a r a q u e e le p u d e s s e m a tá - la . M a s q u a n d o e la d e r e p e n te se v iu c o m o u m s e r h u m a n o
s e n d o e s tr a n g u la d a p e la s g a r r a s cb o u tr o s e r h u m a n o s u a c o m p a ix ã o p o r si m e s m a
to r n o u - s e a o m e s m o te m p o c o m p a ix ã o p o r e le . E la tin h a a c e ita d o a m o rte ; e la a in d a o
v ia n a v id a , a in d a e n g a lf in h a d o e m a lg u m a ris ív e l b a ta lh a p e lo p o d e r. E la e s ta v a fo r a
d e s s e tip o d e c o n f lito e s u a c o m p a ix ã o v is c e ra l p o r e le tr a n s f o r m o u a s itu a ç ã o
d e m o n ía c a . E le n ã o p o d e r ia m a ta r o q u e j á e s ta v a m o rto . N a q u e le in s ta n te d e re n d iç ã o ,
e la lib e r to u o s d o is d o e s ta d o p o s s u íd o e m q u e e s ta v a m a m b o s . E la se e n c o n tr o u e
d e v o lv e u o a g r e s s o r a si m e s m o . E le n ã o e ra m a is o " e s tu p ra d o r" ; e r a s im p le s m e n te u m
h u m a n o . A s lá g r im a s q u e e le d e r r a m o u p o d e m te r c o n tid o s u a c u ra.
E s s e in c id e n te n ã o te v e n a d a a v e r c o m q u e r e r q u e a o u tr a p e s s o a fiz e s s e a lg u m a
c o is a , n a d a a v e r c o m m a n ip u la ç ã o o u m a g ia . N ã o h a v ia te m p o p a r a p e n s a r, ta m p o u c o
p a r a e n te n d e r. A s e x p e r iê n c ia s d e v id a d e s s a jo v e m m u lh e r n ã o p o d e ria m t ê - l a a ju d a d o
a c o m p r e e n d e r c o m o e s ta r ia p e n s a n d o o e s tu p ra d o r. N a q u e le m o m e n to , p e n s a r te r ia sid o
o m e s m o q u e m o rre r. O q u e e la p ô d e f a z e r fo i c o n c e n tr a r to d o o s e u S e r n a q u e le
m o m e n to , a b r ir - s e p a r a a q u e la r e a lid a d e e r e c e b e r o q u e e s ta v a f lu in d o p o r in te r m é d io
d e la , e x a ta m e n te o q u e e r a p e d id o p e la s itu a ç ã o . I s s o é s e m e lh a n te a o q u e J o s e p h
C h ilto n P e a r c e d e s c r e v e c o m o o p r o c e s s o p r i m á r i o e m f u n c io n a m e n to .18

18 Pearce, pp. 145-6.


E s s a e x p e r iê n c ia v ir o u a v id a d e In g r id d o a v e sso . E la e s tiv e r a n u m m u n d o q u e
b u s c a v a a p e r f e iç ã o , a n s ia n d o p e lo a m a n te p e r f e ito q u e f a r ia c o m q u e tu d o fic a s s e c e rto .
T in h a a c r e d ita d o q u e , se p u d e s s e s e r tã o p e r f e ita q u a n to p o s s ív e l e d a m e s m a f o r m a o
a m o r e o s d e s e jo s , d e a lg u m a m a n e ir a o s a n s e io s p e r f e ito s ir ia m m a g ic a m e n te se
tr a n s f o r m a r n u m a p o s s e p e rfe ita . E m se u m u n d o d e fa n ta s ia , "e u q u e ro " e ra ig u a l a e u
c o n s ig o " . T u d o n a q u e le m u n d o m á g ic o d e p e n d ia d e la p a r a a c o n te c e r. E n q u a n to e la
e s tiv e s s e m a n ip u la n d o , n u n c a p o d e r ia d e s c o n tr a ir - s e e a c e itá - lo c o m o o se u m u n d o .
E n q u a n to e la e o n a m o r a d o e s tiv e s s e m te n ta n d o c r ia r u m m u n d o c o m b a s e n a p ro je ç ã o
d e s e u s d e s e jo s , a m b o s n ã o p o d e r ia m s e r q u e m e ra m . E la q u e ria f a z e r d e tu d o p a r a q u e
s u a s f a n ta s ia s se to r n a s s e m r e a lid a d e . D e s s a m a n e ira , p e rm a n e c ia v iv e n d o n u m m u n d o
d e fe itiç a ria s , d e m a g ia . A g o r a e s ta v a c o n s ta ta n d o q u e a m a g ia é u m d e lírio , q u e o
m u n d o q u e e s ta v a te n ta n d o c r ia r n ã o lh e s e ria p o s s ív e l p o s s u ir n e m m e s m o se D e u s
a te n d e s s e a s u a s p re c e s . U m a c o is a in te ir a m e n te n o v a a h a v ia im p re g n a d o , a lg o tã o
v a s to q u e e la n ã o te v e e s c o lh a s e n ã o se re n d e r. A o a c e ita r o p o d e r im p e s s o a l, e la
p e r c e b e u o q u a n to h a v ia s id o e g o c ê n tr ic a e m a n ip u la d o ra . T in h a c o m e ç a d o a v ia g e m
c o m o u m a n o iv a a in d a n ã o a rr e b a ta d a ; v o lta v a p a r a c a s a se m te r s id o e s tu p r a d a m a s
d e flo ra d a . V o lta v a com um a p ro fu n d a e x p e r iê n c ia dos m is té r io s fe m in in o s : o
r e c o n h e c im e n to d e q u e q u a n d o o q u e e s tá d e n tro se u n e n a tu ra lm e n te c o m o q u e e s tá
f o r a o c o r r e o m ila g re , n ã o u m a m á g ic a . I n a d v e r tid a m e n te , e la se a b r ir a a u m a R e a lid a d e
m a io r.
N o r e la to d a h is tó r ia d e I n g r id n ã o e s to u d e m o d o a lg u m m in im iz a n d o a c u lp a
d o e s tu p r a d o r , a s s im c o m o n ã o e s to u c u lp a n d o I n g r id n e m a b o r d a n d o o s a s p e c to s le g a is
e m o r a is e n v o lv id o s n o in c id e n te . E s to u , p o ré m , s u g e rin d o q u e , c o m b a s e e m n o s s a
c a p a c id a d e p e s s o a l c a d a v e z m a io r d e p e r c e b e r o in c o n s c ie n te , ta lv e z u m d ia p o s s a m o s
s e r t ã o r e s p o n s á v e is p o r n o s s o in c o n s c ie n te q u a n to j á o s o m o s p e r a n te n o s s o s c ó d ig o s
m o r a is e le g a is . E m m in h a a n á lis e d o e p is ó d io , c o n s id e re i tã o - s o m e n te o s fa to re s
in c o n s c ie n te s e n v o lv id o s . S o m o s p a r tíc ip e s d o n o s s o p r ó p r io d e s tin o .
E sse in c id e n te se deu em 1957. D e sd e e n tã o , a v io lê n c ia , as d ro g a s , a
ile g a lid a d e , o ra c is m o e o s e x is m o e s tã o e m fa s e d e e x p a n s ã o , n a s ru a s d e n o s s a s
c id a d e s . A to s a b s o lu ta m e n te c r u é is d e ó d io e v in g a n ç a p a s s a r a m a f a z e r p a r te d a
r e a lid a d e q u e q u a lq u e r u m d e n ó s p o d e e n f r e n ta r a c a m in h o d e c a s a p a r a o tr a b a lh o , e m
p le n a lu z d o d ia . A f o r ç a d e I n g r id p a r a s a lv a r s u a p r ó p r ia v id a p r e s s u p õ e u m a re a ç ã o
h u m a n a n u m s e r h u m a n o , q u e p ô d e s e r a tiv a d a e m m e io a o c h a r c o d o ó d io q u e
in u n d a v a a q u e le a g re sso r. N a s a g re ssõ e s c o n te m p o r â n e a s , as d ro g a s e um ó d io
r e s s e n tid o o u u m a f r ia ir a a s s a s s in a p o d e m a p a g a r p o r c o m p le to q u a lq u e r v e s tíg io d e
u m a in te r a ç ã o h u m a n a n o rm a l. E m n o s s a s ru a s d e h o je , ta lv e z s e ja m e lh o r p a r a as
m u lh e r e s q u e te n h a m e x c e le n te d o m ín io d e a rte s m a rc ia is e a s c o lo q u e m e m p rá tic a , se
f o r p re c is o .
P o r f o r ç a d e s u a n a tu r e z a b io ló g ic a , a m u lh e r p o d e e x p e r im e n ta r a v id a c o m o
a lg o s ig n ific a tiv o , s e m se c o n h e c e r in te rn a m e n te . A o d a r à lu z e a m a m e n ta r, a n a tu r e z a
a e s tá r e a f ir m a n d o . M a s e m si a n a tu r e z a é in c o n s c ie n te . D if e r e n te m e n te d o h o m e m ,
in c a p a z d e d a r à lu z n o p la n o b io ló g ic o , a m u lh e r te m u m s e n tim e n to n a tu ra l d e
p r e e n c h im e n to e m c o n ta to c o m a n a tu re z a , n o se io d a in c o n s c iê n c ia . O e s tu p ro
p s ic o ló g ic o , p o rta n to , é tr a u m á tic o p a r a a m u lh e r p o rq u e s e p a r á - la d e s u a n a tu re z a
in c o n s c ie n te s ig n ific a , e m p r im e ir o lu g a r, u m a v iv ê n c ia d e e x tin ç ã o . E s s e é o p a ra d o x o
d o e s tu p ro . P o d e ta n to s e r d e s tr u tiv o c o m o c ria tiv o . A n te s q u e a m u lh e r c o n s ig a
c o n f r o n ta r c o n s c ie n te m e n te a s e p a ra ç ã o p rim o rd ia l e m re la ç ã o à s u a m ã e , o u se ja , o
n a s c im e n to d e s u a p r ó p r ia id e n tid a d e , e la te m d e se p r e p a r a r p le n a m e n te . S u a ta r e f a é
le v a r a n a tu r e z a a té o c a m p o d a c o n s c iê n c ia , o q u e in c lu i a s u a p r ó p r ia n a tu re z a . A
c iê n c ia b u s c a e n te n d e r a n a tu r e z a m a s , n u m e r o s a s v e z e s , s e u s m é to d o s s ã o o e s tu p ro e a
e x p lo r a ç ã o v il. O c a m in h o f e m in in o é m u ito d ife re n te . P e la a b e rtu ra d o fe m in in o , o
a m o r p o d e e n tr a r e d e s s a m a n e ir a c o n te r a c o n s c ie n tiz a ç ã o d o q u e v o u F r a n z c h a m a d e
"a e s tre la " — a s in g u la r id a d e d o in d iv íd u o n a e te r n id a d e .19 S o m e n te p o r m e io d o
f e m in in o p o d e a c r ia ç ã o se c o m p le ta r n a d im e n s ã o c o n s c ie n te .
E m a lg u m p o n to n o c e n tro d e s s e m is té rio e s tá a R e a lid a d e . E la te m a v e r c o m a
s a n tif ic a ç ã o d a m a té ria . E u m m is té rio p a ra s e r v iv e n c ia d o , q u e n ã o p o d e s e r tr a n s p o s to
e m p a la v r a s p o is r e m e te a o s a b e r . P o n d e r a r s o b re ta l m is té r io é o q u e c o n s id e r o a
in c u m b ê n c ia d a m u lh e r m o d e r n a . I n c u m b ê n c ia im e d ia ta e c ru c ia l, a liá s , p a r a a p r ó p r ia
s o b r e v iv ê n c ia d o n o s s o p la n e ta e d e n o s s a s a lm a s in d iv id u a is .

Um REPENTINO golpe: as grandes asas ainda batendo


Acim a da menina cambaleante, suas coxas acariciadas
Pelas escuras teias, sua nuca presa no bico,
Ele aperta o peito indefeso dela contra o seu peito.

Como podem aqueles terríveis dedos vagos afastar


A emplumada glória das coxas dela ao se abrirem?
E como pode o corpo, deitado naquela branca arremetida,
D eixar de sentir o estranho coração batendo onde está?

Um tremor nas virilhas engendra ali


A parede rompida, o teto e a torre em brasas
E Agamemnon morto.
Estando tão aprisionada,
Tão dominada pelo sangue bruto do ar,
Teria ela envergado o saber dele com o poder
Antes que o bico indiferente pudesse deixá-la cair?

W. B. Yeats, "Leda and the swan"

Quando o deus, precisando de alguma coisa, decidiu se tornar um cisne, fico u atônito com a beleza de
ave que era; fico u atordoado quando desapareceu dentro do cisne. M as seu ato enganador logo o lançou
no que era para fazer, antes que tivesse uma chance de testar todos os novos sentimentos dentro desse
ser. E a mulher, aberta para ele, reconheceu Aquele Prestes a Ser no cisne e soube: o que ele pedia era
algo que, misturado ás suas defesas, ela não mais poderia evitar que fosse dele. Ele a apertou mais e,
empurrando seu pescoço contra sua mão cada vez menos firm e, deixou que o deus se soltasse dentro da
linda mulher. Então, pela prim eira vez, ele achou deslumbrantes as suas penas e, deitado na fêm ea
maciez, ele se tornou um cisne.

Rainer Maria Rilke, "Leda"

19 Von Franz, in The way o f the dream (filme para TV).


7 - A noiva arrebatada
Castiga meu coração, Deus tripessoal. pois tu
Ainda quando esmoreces, respiras, brilhas e busca reparar.
Para que eu possa erguer-me e permanecer, derruba-me e curva-me
Tua fo rça a quebrar, golpear, queimar e tornar-me novo.
Eu, como uma cidade usurpada a outrem devida.
M e esforço para admiti-lo, mas ó, em vão!
A razão, teu vice-rei em mim, que me deveria defender,
M as é cativa, mostra-se débil ou infiel.
Por mais fervoroso o meu amor p o r ti, p o r mais satisfeito assim,
Estou porém prometido ao teu inimigo.
Divorcia-me de ti, desata, desfaz de novo esse nó.
Leva-me contigo, aprisiona-me, pois eu,
A menos que tu me subjugues, nunca serei livre,
Nem jam ais casto, exceto se me arrebatares.
John Donne, '"Holy sonnet"

E m to d o m ito d a c r ia ç ã o u m S e r D iv in o c ria u m c o s m o cuja im a g e m o te m


c o m o c o n tin e n te e c o n te ú d o . T o d a c u ltu ra se e n c a m in h a p a r a o a ju s ta m e n to c o m p le to
d o c o n te ú d o a o s e u c o n tin e n te . A c u ltu r a p r e s s u p õ e q u e h a b ita m o s u m u n iv e r s o q u e é
n o s s o la r. A p e r d a d e s s e la r, p o r q u a lq u e r m o tiv o q u e s e ja , é a o rig e m d a s n e u ro s e s ; o
c o n te ú d o p e r d e u s e u c o n tin e n te .
Im a g e n s d e d e s in te g r a ç ã o in u n d a m o s s o n h o s d o s h o m e n s e d a s m u lh e re s
q u a n d o s e u s c o n tin e n te s in d iv id u a is , e m o c io n a is e re lig io s o s se ro m p e m . A T e rra , lo n g e
d e s e r u m c e n tro f ix o d ir ig id o p o r u m D e u s P a i c o m p r e e n s iv o , to r n a - s e u m d e s e rto
v a z io , r o d o p ia n d o a tr a v é s d o e s p a ç o se m fim , e s e m u m p r o p ó s ito d iv in o . O s o n h a d o r,
ta l c o m o o R e i L e a r n a c h a r n e c a , e x p e r im e n ta e n tã o o e x ílio p s íq u ic o , v a g a n d o d e u m
l u g a r p a r a o u tro , te n ta n d o a c h a r s u a C a s a , e o te m p o to d o e n tris te c id o , r e c o n h e c e n d o
q u e " n ã o e r a r e a lm e n te m in h a " . S o n h o s c o m c ic lo n e s q u e d e v a s ta m a s c a s a s p o r d e n tro ,
s o n h o s d e te n ta tiv a s d e r e c o n s tr u ç ã o a p a r tir d o s is te m a d e tu b u la ç ã o , m o s tr a m a
a n g ú s tia e o c a o s in te rn o s . E s s e s s o n h o s m o s tra m c o m o é c rític a a n o s s a c o n d iç ã o d e
d e s a b rig o , ta n to n o p la n o d a c u ltu ra c o m o n o d e n o s s a in d iv id u a lid a d e . P a r a m u ita s
p e s s o a s , o s c o n tin e n te s d o m u n d o o c id e n ta l e s tã o e m f ra n g a lh o s .
S e fo s s e p o s s ív e l s im p le s m e n te r e to r n a r à Ig re ja , o u a q u a lq u e r q u e fo s s e a n o s s a
fé , se fo s s e p o s s ív e l d iz e r q u e to d o e s s e m o v im e n to m o d e r n o é u m e rro c ra s s o , o u a té
m e s m o u m p e s a d e lo d o q u a l ir e m o s d e s p e rta r, e n tã o m in h a s a la d e e s p e ra e s ta ria
v ir tu a lm e n te v a z ia . A s in s titu iç õ e s a in d a e s tã o aí. P a r a m u ito s , p o ré m , su a e fic á c ia
d e s a p a r e c e u . P a r e c e n ã o e x is tir m a n e ir a d e s o b r e v iv e r e x c e to c o n s tr u in d o u m a c a s a
in te r io r , a p a r tir d o r e s c a ld o d o s d e s a b a m e n to s d e n o s s a s e s tru tu ra s tra d ic io n a is .
E s to u b a s ta n te c ie n te q u a n to à ir o n ia d a s im a g e n s m e d ie v a is q u e d o m in a m e s te
e s tu d o . S ei q u e a M a d o n n a n o co lo d a G r a n d e M ã e , ta n to h is tó r ic a c o m o c u ltu ra lm e n te ,
p e r te n c e m a is a C h a rtre s e a o s é c u lo X II d o q u e à m u lh e r q u e se s e n ta n a p o ltr o n a à
m in h a fre n te , à s q u a tr o d a ta r d e , d e u m d ia d e 19 8 2 . A c r e d ita r q u e e la , e m m e io à
c o m p lic a ç ã o d e s u a e x is tê n c ia , s e ja c ap az d e r e c o n s tr u ir e m se u ín tim o a c u ltu r a q u e
te v e s e u á p ic e n o s é c u lo X I I s e r ia n o m ín im o ris ív e l. E s to u c ie n te d e q u e h o je e m n o s s a
c u ltu r a n ã o e x is te p r a tic a m e n te n a d a q u e o f e r e ç a u m a p o io e x te rn o e ta n g ív e l a o q u e
e s ta m o s te n ta n d o c o n s tr u ir n o p la n o in te rn o . M a s o q u e te m o s , e n ã o e s ta v a d is p o n ív e l
a o p e r e g r in o d o s é c u lo X I I I q u e se d irig ia a o tr o n o d a V irg e m , é u m a c o n s c iê n c ia m a is
p le n a m e n te in f o r m a d a d o q u e s ig n ific a , s im b o lic a m e n te , e s s a p e r e g r in a ç ã o . E s s a
c o n s c iê n c ia é m u ita s v e z e s o f r u to d e u m a n e u ro s e , d e u m a p r o f u n d a e x p e r iê n c ia
p s ic o ló g ic a d a n o s s a p r ó p r ia n a tu r e z a f e m in in a q u e , p o r in te r c e s s ã o d e u m a g r a ç a q u e
a tr a v e s s a o s s é c u lo s , to r n a a m u lh e r d o s é c u lo X X u m a v e r d a d e ir a ir m ã d o p e r e g r in o d o
s é c u lo X III, e a té d o s p e r e g r in o s q u e v ia ja v a m a E lê u s is . O s p a d r õ e s a r q u e típ ic o s q u e
n o s v in c u la m s ã o e te rn o s .
C a d a u m d e n ó s c o n s tró i n o s s o c o n tin e n te in te r io r c o m a s im a g e n s q u e n o s sã o
m a is s ig n ific a tiv a s . Q u a n d o c ria n ç a , o c o n te x to to ta l d a m in h a v id a e r a m o ld a d o p e la
I g r e ja e p e la B íb lia . C o n f o r m e c re s c ia , s e n tia c a d a v e z m a is u m a a u s ê n c ia d e re a lid a d e
in te rn a . E u q u e r ia s a b e r e m v e z d e a c re d ita r. D e p o is d e te r in ic ia d o a n á lis e , p e r c e b i q u e
a tr a m a d e m e u s s o n h o s e ra te c id a p o r m u ita s im a g e n s b íb lic a s , p o r s ím b o lo s q u e
in s tila v a m u m a e n e r g ia v ib r a n te e m m in h a v id a v íg il. D e s s a m a n e ira , fu i re lig a d a a
m in h a s r a íz e s a r q u e típ ic a s . E m b o r a o s m ito s a n tig o s o f e r e ç a m in s ig h ts p s ic o ló g ic o s
in e s tim á v e is , e n c o n tre i m e u L a r n a im a g é tic a c ris tã , c o n q u a n to n ã o d e m o d o o rto d o x o .
N ã o s o u f iló s o f a n e m te ó lo g a . S o u u m a m u lh e r e m b u s c a d e s ig n if ic a d o p a r a a m in h a
v id a , e m e u s s o n h o s e s tã o p r e e n c h e n d o a s la c u n a s f e m in in a s d e ix a d a s p e la h e r a n ç a
c r is tã q u e re c e b i. C o n s e q ü e n te m e n te , a im a g e m d a V irg e m , em te r m o s de se u
r e la c io n a m e n to c o m a G r a n d e M ã e , o G r a n d e P a i e a C r ia n ç a D iv in a , é p a r a m im
c ru c ia l. C a d a c u ltu ra , e v id e n te m e n te , te m s u a m ito lo g ia p ró p ria , d a m e s m a f o r m a q u e
c a d a p e s s o a in d iv id u a l. M a s , lo n g e d e s e r m o s s e p a r a d o s p e la s d ife re n ç a s , p e r c e b o q u e
m e u s a n a lis a n d o s — ju d e u s , b u d is ta s , c ris tã o s , a te u s — e e u e s ta m o s u n id o s p o r
s ím b o lo s s im ila r e s q u e se r e la c io n a m c o m a G ra n d e M ã e e a m u lh e r h u m a n a q u e
m ila g r o s a m e n te tr a z e m s e u v e n tr e u m b e b ê . N o s s o s c a m in h o s s ã o d iv e r s o s e m a lg u n s
a s p e c to s , m a s n o s s o o b je tiv o é o m e s m o . Is s o n o s le v a a c o n s ta ta r q u e o in c o n s c ie n te
c o le tiv o e s tá d is p o n ív e l a n ó s to d o s , a q u a lq u e r m o m e n to . C h a rtre s , J e ru s a lé m o u o L a r
e s tá o n d e q u e r q u e a c o n te ç a n o s s a e s ta d a , m e s m o q u e s e ja n u m c o n s u ltó rio , à s q u a tro d a
ta rd e . O m is té r io d e s te f a to p s íq u ic o p e r te n c e à c o n s c iê n c ia fe m in in a .
E s o b re e s s e m is té r io q u e m u ita s m u lh e r e s p o n d e ra m , e m s e u s s o n h o s. O m e d o
d a in v a s ã o p e lo in c o n s c ie n te é tã o re a l q u e e m g e ra l se p a s s a m m e s e s , e a té m e s m o
a n o s , a n te s q u e se a lc a n c e o p o n to d e c o n f ia r n o m o m e n to e f lu ir c o m ele. S e q u a s e a
v id a in te ir a f o m o s in im ig a s d e n o s s a G ra n d e M ã e in te rio r, e la n ã o e s tá d is p o s ta a n o s
d e ix a r v i v e r s e m q u e e x p e r im e n te m o s u m p o u c o d e s u a v in g a n ç a . U m a m u lh e r, d e p o is
d e tr ê s a n o s d e a n á lis e e d e tr ê s d ia s v iv e n c ia n d o u m a ir a c o m v id a p r ó p r ia q u e se
a c u m u la v a e m s e u ín tim o , r e g is tr o u o s e g u in te d iá lo g o e x tr a o r d in á r io :

Ego: O que é essa ira?


Grande Mater: Você com a sua deplorável humanidade, com essa condição finita! Eu aceito
isso. Pertence a mim. M inha matéria ruge. Eu sou a matéria, e a matéria ruge de ira.
Ego: M inha humanidade não está enfurecida.
Grande Mater: E uma questão de sobrevivência. É também a minha questão de sobrevivência.
Confiei vezes demais, vezes demais fui traída. Você acha que vou confiar de novo? NUNCA. Enquanto
vocês eram só. matéria indiferenciada, eu obrava sorrateira a minha vingança, e com tal sutileza que
ninguém percebia o que estava acontecendo. Destruía devorando os recém-nascidos, envolvendo-os com
meus braços e sufocando-os. Eles só respiravam o ar que eu lhes permitia ter. Agora vocês querem tirar
isso de mim. Realmente ousam atravessar a cerca e invadir o meu domínio. Eu não vou tolerar isso!
Vocês ousam se arrogar o que eu sou! Alegar que é de vocês? Eu dei e posso tomar de volta.
Ego: De que maneira eu poderia acalmar sua ira? De que mo do sua cólera seria apaziguada?
Grande Mater: Quem diz que pode sê-lo?
Ego: Estamos tentando, estamo -nos esforçando para tornar conscientes as suas reivindicações.
Grande Mater: Então não digam que são suas!
Ego: Mas é minha. Se, como você diz, eu sou feita de sua substância, então a sua dor, a sua
traição, a sua fúria, também são minhas. Não posso permitir que a ira destrua o que trabalhamos para
ativar sob grandes riscos e com uma grande humildade [consciente]. Você diz que, enquanto eu fui uma
bolha de matéria — uma bolha feita de você — sem capacidade de reconhecimento, então você pôde agir
à vontade. M as não era exatamente esse reconhecimento de sua substância e a aceitação da
responsabilidade o que você realmente queria? Lembra-se? Quando amamentou o seu filho, lembra-se?
Quando infundiu sua grandeza no fruto de seu útero, lembra-se? Talvez tudo tenha dado errado, mas você
está dando à luz agora um novo tipo de gente, pessoas que podem honrá-la e irão fazê-lo. Por favor, não
derrube sua cólera sobre tais criaturas. São novas, estão assustadas com a imensidão de sua
responsabilidade. Precisam de você. De seu acolhimento e de sua nutrição. Precisam aprender o que você
realmente é. Você faz parte da herança que receberam. Ajude-as. Elas são semente novas. Eas irão
sobreviver e a sobrevivência delas é a sua.

E s s e tr e c h o d á p is ta s p a r a u m a d a s c a u s a s q u e ta lv e z p o s s a m e x p lic a r a
in c o m p r e e n s ív e l ir a q u e m u ita s m u lh e r e s se n te m .
Q u a n d o a m u lh e r c o m e ç a a e x p e r im e n ta r s e u p r ó p r io e g o e e f e tiv a m e n te
c o n f r o n ta o s c o m p le x o s , p a s s a p o r u m p e r ío d o a g o n iz a n te d e c o n fu s ã o . É c o m o se o
c o m p le x o (c o m o a M e d u s a ) tiv e s s e f ic a d o o te m p o to d o s e n ta d o c o m o u m a g ra n d e
b r u x a , n o m e io d a p s iq u e , s e m m a n if e s ta r s u a v e r d a d e ir a fo rç a , p o r q u e e s ta n d o n o
c o n tro le e le n ã o te v e d e lu ta r. A s s im q u e s e u p o d e r s o fre u m a a m e a ç a g e n u ín a , n o
e n ta n to , e le se e r g u e c o m p o tê n c ia to ta l c o n tr a o e g o , e a m u lh e r s e n te q u e to d a s as
h o r a s d e a n á lis e n ã o s e r v ir a m p a r a n a d a . E s s a s itu a ç ã o h o je é p io r d o q u e e m q u a lq u e r
o u tr o p e río d o . P o d e h a v e r o r is c o d o s u ic íd io , p o is e m b o r a a p e s s o a in ic ie a a n á lis e c o m
a e s p e r a n ç a d e m u d a r , q u a n d o a p o s s ib ilid a d e d e u m a tr a n s f o r m a ç ã o r a d ic a l d e f a to se
a p r e s e n ta , a b r e u m m e d o c o n s id e r á v e l. A s s im q u e e s s a p o r ta s u rg e , o p á s s a r o q u e a v id a
t o d a v iv e u e n g a io la d o r e c u a d ia n te d a lib e r d a d e e tr e m e a p a v o r a d o d ia n te d o s te r r o r e s
d o d e s c o n h e c id o .
É o s e lf, o c e n tr o o r d e n a d o r d a p e r s o n a lid a d e , q u e c o n f r o n ta o e g o c o m o d e s a f io
d e se m o v im e n ta r r u m o a u m n o v o n ív e l d e c o n s c iê n c ia . S e o e g o tiv e r re c e io d e s s a
tra v e s s ia , p r e f e r in d o f ic a r a p r is io n a d o n o q u e j á é se u c o n h e c id o d e s d e h á m u ito te m p o ,
e n tã o s u rg e m s in to m a s p s ic o ló g ic o s e f is io ló g ic o s . C o m e s te s o e g o te m d e se h a v e r,
p o is e n te n d e r o s ig n if ic a d o d e s s e s s in to m a s e d e s s a s s itu a ç õ e s é o q u e e n c a m in h a r á a o
n o v o n ív e l d e c o n s c iê n c ia e p e r c e p ç ã o e a u m n o v o e h a r m o n io s o e q u ilíb rio e n tre
c o n s c iê n c ia e in c o n s c ie n te . E n q u a n to a c o n s c iê n c ia tiv e r m e d o d e se a b r ir à v iv ê n c ia
" d o o u tro " , o u se ja , o in c o n s c ie n te , e s ta r á p e r c e b e n d o -s e c o m o v ítim a . A s s im q u e
c o n s e g u ir to r n a r - s e r e c e p tiv o à n o v a v id a q u e flu i a tra v é s d e si, to r n a - s e o b e m -a m a d o .
S e r v ítim a é s e r e s tu p r a d o ; s e r o b e m - a m a d o é e s ta r a rre b a ta d o .
O a r r e b a ta m e n to , d iv e r s a m e n te d o e s tu p ro , e n v o lv e a in te g r a ç ã o d o s c o n te ú d o s
in c o n s c ie n te s d e ta l m o d o q u e , e m v e z d e s o b re p u ja d o por fo r ç a s " m a is e le v a d a s " o u
" m a io re s " ( is to é, c o n te ú d o s a r q u e típ ic o s ), a p e s s o a e n tr a n u m a re la ç ã o a f e tu o s a c o m
e le s. O a r r e b a ta m e n to só p o d e s e r e x p e r im e n ta d o q u a n d o o e g o é u m c o n tin e n te f o r te o
s u f ic ie n te p a r a a c o lh e r a e n e r g ia d in â m ic a q u e ir r o m p e e m s e u c a m p o . P a r a d o x a lm e n te ,
e s s e p o n to só p o d e s e r a tin g id o q u a n d o o e g o é d e f a to fo rte p a r a se c o lo c a r
s u fic ie n te m e n te v u ln e r á v e l e re n d e r-s e . P a r a a m u lh e r, e s s e é o p o n to e m q u e se u
p r ó p r io e g o f e m in in o e s tá tã o f ir m e m e n te p la n ta d o e m s u a s r a íz e s b io ló g ic a s q u e e la é
liv r e p a r a a s s u m ir s u a id e n tid a d e b io ló g ic a e e s p ir itu a l p a r tic u la r . N e s s e m o m e n to e la é,
e m v e r d a d e , a v ir g e m s e n ta d a n o c o lo d e S o fia , p r o n ta p a r a d a r à lu z s u a p r ó p r ia c r ia n ç a
d iv in a .
N e s s e e s tá g io d o d e s e n v o lv im e n to p s ic o ló g ic o , a p e s s o a d e v e r e c o r r e r a o
m á x im o à s u a c a p a c id a d e d e d is c r im in a ç ã o , p o is a b r u x a m ã e c rio u u m a f ilh a b r u x a e
e s s a c ria n ç a , tir â n ic a e ig n o r a n te , p o d e te n ta r c o n tr o la r a té m e s m o o a d u lto in s tru íd o ,
d is c ip lin a d o e d o ta d o d e u m a c r ia tiv id a d e b rilh a n te . A f ilh a b r u x a v a i e x p r e s s a r to d a a
e n e r g ia r e p r im id a c o n tid a n a s n e c e s s id a d e s in s tin tiv a s q u e , e m s u a in fâ n c ia , fo ra m
re p u d ia d a s . L ib e r a d a d o s ilê n c io o p r e s s o r p e lo s s o n h o s , a f ilh a b r u x a e s tá a g o ra e m
c o n d iç õ e s d e d e s f e c h a r s u a v in g a n ç a . A lu ta c o m a m ã e n e g a tiv a , q u e a n te s n ã o p ô d e
s e r e n c a r a d a , a g o r a d e v e s e r e n f re n ta d a . E s s a filh a , q u e a p a r e c e c o m o a rro g â n c ia ,
c o m ila n ç a s , a titu d e s s u p lic a n te s , o s te n ta ç õ e s e tc , e s tá a g o ra e m b u s c a d e u m a m ã e
a m o r o s a q u e c u id e d e la ; e m tr o c a d e s s e a fe to , e la d e v o lv e r á a v id a q u e f ic o u d e tid a
q u a n d o se in ic io u o p ro b le m a . C o m o é tirâ n ic a , e la u s a r á a m u lh e r a d u lta c o m o v e íc u lo
p a r a s u a p r ó p r ia v id a n ã o v iv id a . A m u lh e r n ã o o u s a se id e n tif ic a r c o m e s s a c ria n ç a . O
p e r ig o d a r e g r e s s ã o e m a n á lis e é q u e , e m lu g a r d e e x o r c iz a r a b ru x a , a f ilh a b r u x a é
lib e ra d a . U m a p a r te d e s u a ra iv a , d e su a fo m e e d e se u lu to te m d e s e r e x p re s s a , m a s
a tr a v e s s a r e s s e c ic lo s e m se d e te r p o d e a c a b a r se to r n a n d o a u to - in d u lg ê n c ia . O s s o n h o s
d e ix a m c la r o a o n d e a e n e r g ia q u e r i r — d e p o is q u e a lo u ç a e s tiv e r la v a d a o u a s p r iv a d a s
lim p a s . A e n e r g ia n e g a tiv a , e m v e z d e s e r re p e tid a m e n te re c ic la d a , te n ta r á tra n s fo rm a r-
se se o e g o e n f r e n ta r o d e s a fio . A f ilh a b r u x a te m d e s e r s a c rific a d a .
E s s a é u m a f a s e n a a n á lis e p a r a a q u a l p e rc e b i a p a r tic u la r u tilid a d e d o tra b a lh o
c o rp o r a l. C o m o a p s iq u e , o c o r p o v iv e u s e m p r e se c o n te n d o . A g o r a e s s a c o n te n ç ã o se
t o r n o u c o n s c ie n te e a p a r e c e c o m o d o r. N a q u a lid a d e d e m ã e a m o r o s a e m r e la ç ã o a o
p r ó p r io c o rp o , a m u lh e r p o d e p e r m itir q u e e le re la x e e d e s fru te e s s e a m o r. F o r te s
s e n tim e n to s lé sb ic o s c o s tu m a m ir r o m p e r, p o r q u e o c o r p o f e m in in o p r e c is a d o a m o r d e
u m a m u lh e r a f im d e se a c e ita r. À s v e z e s , ta is v iv ê n c ia s p re c is a m s e r p r o je ta d a s p a r a se r
re c o n h e c id a s , e, n e s s e c a s o , p o d e a c o n te c e r u m re la c io n a m e n to lé s b ic o . E m g e ra l, is s o
se p a s s a no p la n o d o s s o n h o s . O e n le v o d e s e r q u e r id a p o r u m a m u lh e r, s e ja d e m o d o
s e x u a l, s e ja p la to n ic a m e n te , dá ao ego f e m in in o o e n r a iz a m e n to que p r e c is a
e x p e r im e n ta r. O tr a b a lh o c o r p o ra l é o lh a r no e s p e lh o - e s c u d o , a p r o x im a n d o - s e
g r a d u a lm e n te p a r a a tr a v e s s á - lo , s e m e n c a r a r d ir e ta m e n te a M e d u s a .
A c o n s c iê n c ia c o rp o r a l d is s ip a a o s p o u c o s o m u n d o s e d u to r d a fa n ta s ia .
E n q u a n to a m u lh e r p e r m ite liv r e c u rs o à fa n ta s ia , e la é c o m o A n d r ô m e d a n o m ito d e
P e r s e u ( v e r p p . 1 1 -1 4 ), a c o r r e n ta d a à ro c h a d a m ã e , e s p e ra n d o p a ra s e r s a c rific a d a a o
m o n s tr o d e m o n ía c o , o a m a n te . L o n g e d e f a z e r q u a lq u e r c o is a p a r a s a lv á - la , e s te e x ig e a
v id a d e la e m s a c rifíc io . A m a s s a in e rte d a ro c h a é o o u tro la d o d o d e m ô n io n o m a r —
a m b o s e s tã o c o n ta m in a d o s p e la a r r o g â n c ia e p e lo s u p e r d im e n s io n a m e n to . A o se r e c u s a r
a s e r a p a n h a d a n u m a te ia d e f a n ta s ia s in fru tífe ra s , a m u lh e r se a b re à s u a p r ó p r ia
h u m a n id a d e ; te n d o s e lo c a liz a d o n o A g o ra , e la se a b re a o m e s m o te m p o a o d iv in o
( c o m o a c o n te c e u c o m I n g r id n o e p is ó d io d e s c r ito n o C a p ítu lo 6). A r m a d a c o m a e s p a d a
d o d is c e r n im e n to , e la a g o r a s a b e o q u e o m o m e n to e x ig e e se s o lta p a r a v iv e r su a
p r ó p r ia v id a .
O lh a r n o e s c u d o q u e c o n té m a im a g e m d a M e d u s a é r e c e b e r a d ire triz d o se lf,
r e c o n h e c e n d o o s la d o s c la r o e e s c u r o d a D e u s a . G u e r r e a r c o n tr a a M e d u s a n ã o é lu ta r
c o n tr a c a r n e e s a n g u e , e m b o r a o s c a c h o s s e r p e n tin o s e a p r is io n a n te s d e M e d u s a p o s s a m
s u g e r ir u m p r o b le m a d e o r d e m s e x u a l, o u e n v o lv e n d o o c o m e r. G u e r r e a r c o n tr a M e d u s a
é c o m b a te r o m a l. R e f le tir s o b re a M e d u s a n o e s p e lh o im p e d e o c o n fro n to d ire to , o q u e
ir ia d e ta to c o n s te lá - la ; n u m c o n f r o n to d ire to , e la é q u a s e in e v ita v e lm e n te m a is fo rte q u e
o e g o . Q u a n d o se to r n a c la ro , a p a r tir d o s s o n h o s e d o s s in to m a s , q u e u m s a c r if íc io d e v e
s e r fe ito , e n tã o o e g o te m d e se a b r ir à fo r ç a q u e o a p o io d o s e l f re p re s e n ta .
Perseu e Andrômeda. Ticiano. (Coleção Wallace, Londres)

O a n im u s p o s itiv o d a m u lh e r, s im b o liz a d o n o m ito p o r P e rs e u , é o se u g u ia a té o


se lf. É a s u a e s p a d a d o d is c e r n im e n to q u e d á a e la a v e r d a d e ir a n o ç ã o d e q u e m e la é.
P e r s e u c a r r e g a o e s c u d o , o e s p e lh o d e p ra ta , q u e é o m e io o n d e se re v e la m o s s ím b o lo s
d e c u r a p r o v e n ie n te s d o in c o n s c ie n te . O e s p e lh o é o e s tá g io e m q u e a f a n ta s ia c r ia tiv a
b r in c a n a f o r m a d e s ím b o lo s . O b s e r v a r o s s ím b o lo s é lid a r in d ir e ta m e n te c o m M e d u s a ;
e s s e é o ú n ic o m o d o d e e v ita r a id e n tif ic a ç ã o c o m ela. O s s ím b o lo s n ã o p o d e m se r
re u n id o s d e f o r m a ra c io n a l, m a s , a o s e re m v is to s c o m o re fle x o , s u rg e a lg u m a c o is a n o v a
q u e p a r tilh a d e a m b a s a s d im e n s õ e s se m p o r é m s e r n e n h u m a d e la s. A e n e r g ia b r in c a p o r
in te r m é d io d o s ím b o lo s e m f ic a r p r e s a a ele. O v e n to d o E s p ír ito S a n to " s o p ro u o n d e lh e
a p ro u v e " , d o p o s itiv o a o n e g a tiv o , c o m a m e s m a f a c ilid a d e d e u m a v e la a c o m p a n h a n d o
a s m u d a n ç a s d o v e n to O e g o a p r e n d e a se a ju s ta r d e m o m e n to a m o m e n to . A p o s iç ã o d a
v e la n o b a r c o e m d a d o m o m e n to n ã o é s u a p o s iç ã o e m s e g u id a e, se te n ta r m o s fix á -la ,
n o n o v o m o m e n to , à p o s iç ã o q u e a n te s fo ra a p ro p ria d a , o b a r c o v ira . A s s im q u e fix a m o s
a v e la o u o le m e e m d a d a p o s iç ã o , e s ta m o s n o c o m p le x o , o e ix o e g o - s e l f f ic a r o m p id o , e
a fu n d a m o s n a in c o n s c iê n c ia . É c ru c ia l q u e a m ã o d ir e ita s a ib a o q u e a e s q u e r d a e s tá
f a z e n d o , p o r q u e d e v e e x is tir u m a s in c r o n ic id a d e e n tre le m e e v e la , e n tr e m a té r ia e
e s p írito . E s s a n ã o é a m ã o c r u c if ic a d a , p r e g a d a a m a r te la d a s n o s p ó lo s d a o p o s iç ã o , p o is
n ã o se tr a ta d e u m a c o is a o u ta m p o u c o d e o u tra m a s, sim , d e a m b a s. Is s o é v iv e r a v id a
s im b ó lic a , a v id a q u e se d á p e lo re fle x o .
S e f o r m u la m o s a p e r g u n ta ce rta : " E u v e jo o q u e e s to u f a z e n d o ? " , e n tã o e s ta m o s
v iv o s , n o m o m e n to . S e f o r m u la m o s a p e r g u n ta e rra d a , e n tã o n o s p a ra lis a m o s , p o r q u e a
m ã o d ir e ita p o d e n ã o s a b e r o q u e a e s q u e r d a e s tá fa z e n d o . A c o n s c iê n c ia d e v e s e r
le v a d a a té s e u o b je to p r ó p r io , q u e n ã o é a c o n s c iê n c ia p a r a lis a n te d e p e r c e b e r a s p a rte s
c o m o s e p a r a d a s ( d ir e ita e e s q u e r d a ), m a s a c o n s c ie n tiz a ç ã o d o to d o . A p e r g u n ta e r r a d a é
fa ta l. A M e d u s a p a r a lis a p o r q u e e n c a m in h a a c o n s c iê n c ia p a r a o o b je to e rra d o . E la n o s
f o r ç a a d e s ta c a r e is o la r o " b o lin h o " d o c o n te x to to ta l c o r p o /e s p ír ito e, a o a r r a n c a r
im p ie d o s a m e n te o b o lin h o d e s e u r e la c io n a m e n to o r g â n ic o c o m o to d o , e la o to r n a
n u m in o s o e u m ta b u . O b o lin h o p o d e s e r c o m id o , n ã o c o m o u m a c o is a m a s c o m o u m a
a c e ita ç ã o d o E U S O U , c o m o a u n iã o d e c o rp o e e s p írito , s o m e n te q u a n d o h á a a c e ita ç ã o
d a p r ó p r ia to ta lid a d e e d o s e u to ta l r e la c io n a m e n to p e s s o a l c o m tu d o o q u e e x is te . O
b o lin h o t o r n a - s e e n tã o p a r te d e n o s s a to ta lid a d e , lib e rta d o q u e fo i d a c o n s c iê n c ia
im o b iliz a d o r a d a M e d u s a . E le se to r n a p a r te d e u m c o s m o s in c rô n ic o n o q u a l tu d o o q u e
é e s p ír ito é m a té ria , e tu d o o q u e é m a té ria é e sp írito . C e n tra d o n e s s a e s p é c ie d e
to ta lid a d e , o e g o p a s s a a s e r f o r te o s u f ic ie n te p a r a a b d ic a r d e s u a r ig id e z , f o r te o
b a s ta n te p a r a r e c e b e r o s e l f c o m o o O u tro .
A c a d a e s tá g io d o d e s e n v o lv im e n to p s ic o ló g ic o , o s e l f e x ig e c e rto sa c rifíc io .
N ã o é m a is o c a s o d e "S e ja f e ita a V o s s a v o n ta d e — d o m e u je ito " . A s v e z e s p o d e m o s ,
n u m a a titu d e ra c io n a l o u id e a lis ta , d e c id ir f a z e r u m s a c rifíc io , m a s a m e n o s q u e o
m o m e n to s e ja c e r to e s s e s a c r if íc io n ã o p a s s a d e a u to d ra m a tiz a ç ã o . O s s o n h o s d e ix a m
c la r o o v e r d a d e ir o s a c r if íc io q u e e s tá s e n d o e x ig id o . À s v e z e s , s o m o s c o n v o c a d o s a
a b r ir m ã o d a q u e la p a r te d e n o s s a v id a q u e c o n s id e r a m o s a m a is q u e rid a , e o m e d o e a
s o lid ã o e n v o lv id o s n e s s a d e c is ã o in te r io r n ã o d e v e m a b s o lu ta m e n te s e r s u b e s tim a d o s .
A o m e s m o te m p o q u e e s ta m o s r e a liz a n d o o s a c rifíc io , ta m b é m e s ta m o s s e n d o
s o lic ita d o s a e n c a r a r o d e s a f io d e u m a n o v a v id a . E s s e é u m te m p o d e tre v a s ; r e q u e r
te m p o e p a c iê n c ia , e s p a ç o e m e d ita ç ã o . N a m e s m a m e d id a e m q u e n o s s a h e ra n ç a
p s ic o ló g ic a é s ó lid a , p o d e m o s c o n f ia r q u e o s e l f n ã o n o s e x ig irá m a is d o q u e fo rm o s
c a p a z e s d e d a r. N ã o p o d e m o s r e s o lv e r n o s s o s p r o b le m a s o f e r e c e n d o a v a c a m a g ra ; é
p r e c is o q u e s e ja a v a c a g o rd a .
S a ra h , u m a m u lh e r d e m e ia -id a d e , c o m q u a tro a n o s d e a n á lis e , a lé m d e v á r io s
o u tro s d e y o g a e d a n ç a , e s ta v a c o m e ç a n d o a p r e s s e n tir a c h e g a d a d e u m a m o m e n to s a
r e v ir a v o lta e m s u a v id a : a p e r d a d e u m re la c io n a m e n to p re c io s o . E la se m o s tr a v a
in c a p a z d e f a z e r e s s e s a c r if íc io e x ig id o p e lo s e lf. U m p o u c o a n te s d e o s a c o n te c im e n to s
e x te r n o s f o r ç a r e m o s a c r if íc io q u e p a r a e la a in d a e ra im p o s s ív e l d e su p o rta r, o s e g u in te
s o n h o lh e fo i o fe re c id o :

Estou caindo pelo espaço negro — caindo, caindo através do universo com um medo terrível. De
repente, pouso no que parece ser uma praia. Está escuro. Sento-me imóvel. Depois toco a areia com os
dedos. É estranho. Deslizo os dedos pela areia e percebo que não são grãos, mas penas. São macias mas
fortes. Depois vejo-me como um pontinho, deitada sobre imensas asas estendidas, enquanto o Sol
nascente matiza de dourado a ave magnífica. É uma pomba. Acordo Sabendo.

F o i o p o d e r d a s a s a s p e r e n e s q u e e m a n o u a tr a v é s d a a lm a e d o c o r p o d a
s o n h a d o r a . P e la p r im e ir a v e z n a v id a , e la e s ta v a c o n s e g u in d o d e ix a r s e u c o r p o r e la x a r e
se a b r ir p a r a o q u e a v id a lh e tr o u x e s s e . E la e s ta v a s e n d o c a p a z d e se d a r p e r m is s ã o p a ra
b rin c a r. S e r to r n a v a - s e a p e c u lia r b e le z a d a s f lo r e s d a a m e ix e ira " n a p r im a v e r a , o c h e iro
d a g r a m a ú m id a , o s o m c r is ta lin o d a v o z d o to r d o a o a lv o re c e r. T e n d o s e n tid o e h o n r a d o
s e u c o r p o c o m o n u n c a a n te s , e la e s ta v a e m c o n d iç õ e s d e a c e ita r c o m s e g u ra
e q u a n im id a d e o q u e , e m o u tr o m o m e n to , te r ia s id o u m g o lp e a rra s a d o r. O q u e a s u s te v e
fo i " s a b e r" , fo i a tr a n s iç ã o d o im p é r io p e s s o a l e tra n s itó rio , q u e tã o d ilig e n te m e n te h a v ia
te n d o c o n tr o la r , p a r a a e te r n a A m o r o s id a d e tra n s p e s s o a l à q u a l e n tre g o u . A e x p e r iê n c ia
d e s s a r e n d iç ã o e s ta v a e m s e u c o r p o q u a n d o e la a c o rd o u ; s u a c o u r a ç a c o n tra o m u n d o
h a v ia s id o te m p o r a r ia m e n t e re m o v id a . S e u s c in c o s e n tid o s e ra m c in c o p o r ta is p o r o n d e
a v id a p o d ia f lu ir a té s e u in te rio r, d e ta l s o rte q u e e la p ô d e c o n s c ie n te m e n te v iv e n c ia r o
m u n d o v is ív e l e s e n tir o A m o r q u e o p e r m e ia e a p e n e tra , c o m o s e r q u e p a r tic ip a d e s s a
to ta lid a d e . A m o r te f a z p a r te d e s s e m u n d o , u m a p a rte d ig n ific a d a d e u m e s q u e m a m a io r.
A p o m b a , o E s p ír ito S a n to , S o fia , o la d o f e m in in o d e C ris to — s e ja q u a l f o r o n o m e
p e lo q u a l o c h a m e m o s , é o A m o r q u e a b re o c o r p o e a a lm a p a r a o e te rn o . E m te r m o s
p s ic o ló g ic o s , é a c o n e x ã o e n tr e o s in s tin to s e a s im a g e n s a r q u e típ ic a s (a e n e rg ia d o
c o rp o que é lib e r a d a d e n tr o do e s p írito , e o e s p ír ito ilu m in a n d o o co rp o ) que
p r o p o r c io n a a h a rm o n ia .
N a s m o r tif ic a n te s s e m a n a s q u e se s e g u ira m , S a ra h n ã o fo r m u lo u a p e rg u n ta -
p a d r ã o q u e a h a v ia g o v e r n a d o a v id a to d a : " P o r q u ê ? " . E m v e z d is s o , v o lto u re p e tid a s
v e z e s a o s o n h o , r e p e tid a s v e z e s e n tre g o u -s e d e c o rp o e a lm a , s u b m e te u lite r a lm e n te
s e u s m ú s c u lo s a o lu to b e m c o m o à r a iv a e a o a m o r q u e a a v a s s a la v a m . N a e s c u r id ã o d e
s e u d e s e s p e r o , e n c o n tr o u a d ig n id a d e d e c a m in h a r c o n s c ie n te m e n te c o m s u a p e rd a .
N u n c a tr a iu s e u s s e n tim e n to s p e s s o a is . A m o u o b a s ta n te p a r a d a r liv re c u rs o a o
p r o c e s s o , e e s s e a m o r m a n te v e - a e m c o n ta to c o m s u a r e a lid a d e in te r n a e c o m o s re a is
v a lo r e s in e r e n te s à s u a s itu a ç ã o c o n c re ta . E m se u c o ra ç ã o a b a la d o e n c o n tro u u m L a r.
E e x tr e m a m e n te im p o r ta n te a c e n tu a r a q u i q u e e s s a v iv ê n c ia d a D e u s a lh e fo i
o f e r e c id a d e p o is d e a n o s d e c o m p r o m e tim e n to a o p o d e r tra n s p e s s o a l. O m e d o q u e
h o m e n s e m u lh e r e s s e n te m d e s u a s s a n g re n ta s e x ig ê n c ia s é in te ir a m e n te ju s tif ic a d o . A o
d e s c r e v e r o s r itu a is c e le b r a d o s e m h o n r a d a G r a n d e M ã e , E r ic h N e u m a n n e s c re v e :

O útero da terra clama por fertilização, e os sacrifícios de sangue e cadáveres são o alimento que
ela mais aprecia. Esse é o aspecto terrível, o lado letal do caráter da terra. Nos mais antigos cultos de
fertilidade, os pavorosos fragmentos das vítimas sacrificiais eram distribuídos pela tribo como preciosos
presentes que deviam ser ofertados à terra para torná-la fértil.1

O r e s s u r g im e n to d o f e m in in o e m n o s s a e ra c o n té m e m si to d o o m e d o
p r im o r d ia l a tr ib u íd o a o p o d e r c tô n ic o . E m b o r a a s m u lh e r e s n ã o q u e ir a m s e r p r iv a d a s d a
e n e r g ia c tô n ic a , ta m p o u c o d e s e ja m s e r re d u z id a s a ela. N a p o d e r o s a re p r e s e n ta ç ã o fe ita
p o r P ic a s s o d a s c in c o m u lh e r e s e m L e s d e m o is e lle s d 'A v ig n o n (e s te títu lo se r e f e r e a o
b a ir r o d a lu z v e r m e lh a e m B a r c e lo n a ), e la s se e n c o n tra m r e d u z id a s a fig u ra s d e fe tic h e ;
o s r o s to s d e d u a s d e la s se b a s e ia m e m m á s c a r a s c e r im o n ia is a fric a n a s . R o b e rt
R o s e n b lu m , c o m e n ta n d o s o b r e a p in tu ra , diz:

A qualidade mais imediata de Les demoiselles é um poder bárbaro, dissonante, cuja excitação e
selvageria encontram paralelos não só nas irrupções da energia vital presentes por exemplo na arte de
Matisse na fase de 1905-1910, como ainda na música da década seguinte [...] Nenhuma obra-prima da
pintura ocidental reverberou tão remotamente no tempo quanto as cinco nuas heróicas que atravessam os
séculos e milênios.12
P ic a s s o é p r o f é tic o e m s u a id e n tif ic a ç ã o d a c ria tiv id a d e , n o s é c u lo X X , c o m a
e n e r g ia c tô n ic a fe m in in a . C o m o ta n to s o u tro s a rtis ta s q u e c a p ta ra m a m e s m a fo n te , e le
n u n c a d is tin g u iu a s m u lh e r e s r e a is d e s s a im a g e m a rq u e típ ic a . A s p ró p r ia s m u lh e re s , n o
e n ta n to , r e je ita n d o s u a id e n tif ic a ç ã o c o m e la , b u s c a ra m , c o m o a in d a c o n tin u a m ,
m a n e ir a s d e r e tir a r s u a e n e r g ia f e m in in a d o p r o s tíb u lo d e B a r c e lo n a o n d e e le a s in s e riu .
A D e u s a e s tá e x ig in d o s e r c o n fro n ta d a , e o e s tá im p o n d o o n d e d ó i m a is:
m e d ia n te a p e r d a d a s â m ília s , a s c r e n ç a s tr a d ic io n a is , e m p r o b le m a s d e o b e s id a d e o u
e x c e s s iv a m a g re z a , c â n c e r etc. S e d e rm o s a s c o s ta s a e s s e c o n fro n to , p a g a r e m o s em
s a n g u e . Se, n o s ilê n c io d e n o s s a s a lm a s , v a m o s a o e n c o n tro D e la , e n c o n tr a m o s n ã o u m a
A r q u im ê n a d e d e s tr u tiv a e s e d e n ta d e s a n g u e , m a s u m a R e a lid a d e q u e tr a n s f o r m a
ra d ic a lm e n te a v id a .
E n q u a n to s e n tir m o s m e d o , e n q u a n to a ig n o r a r m o s , e la é n o s s a in im ig a ; q u a n d o
n o s e n c a m in h a m o s p a r a e la c o m a m o r, e la v a i a o s p o u c o s s e n d o v in g a d a . O e g o te m d e
se s u je ita r a o o lh o ( v e r 4 5 ); s e e s tiv e r in c o n s c ie n te , e le se re n d e à M e d u s a ; se e s tiv e r
c o n s c ie n te , se re n d e a S o fia .
M a g g ie , d e p o is d e tr ê s a n o s d e a n á lis e e tr a b a lh o c o rp o ra l, e s ta v a p r o n ta p a r a se

1Erich Neumann, The origins and history of consciousness, p. 54.


2 Robert Rosenblum, Cubism and twentieth-ceníury art, pp. 10-1.
e n c a m in h a r à D e u s a c o m a m o r. E l a r e g is tr o u a s e g u in te im a g in a ç ã o a tiv a :

Fui arrastada para o escuro. Estava cheio de imagens. Mais as senti que vi. Pareciam vozes mais
que desenhos. Foi-me mostrado que o escuro era necessário bem como o que existia no interior da
escuridão era a Luz, e o preto servia de proteção. Ainda não era chegada a hora de a Luz nascer. Estava
incubando, ganhando força no bojo da escuridão. Era como conhecer um útero por dentro. Vi tudo
mediante o Saber. Levei três dias para fazer essa pintura [ver p. 23], três dias para Saber. Eu não tinha
outra opção senão fazê-la.
O efeito singular que isso teve em mim foi haver esclarecido novamente, num nível que não
podia ser verbalizado, que eu não estava só. Era muito mais largo, bem mais cósmico do que a minha
solidão pessoal. Era como se eu tivesse enxergado através de um véu. Fortaleceu-me inacreditavelmente.
Não fiz nada com isso, de um ponto de vista analítico. Não havia necessidade. Era parte de mim, mas não
exclusivamente meu. Era como a gestação de Deus.
Era um bebê, mas só no sentido de que era novo. Era como se eu tivesse tido o vislumbre de um
bebê crescendo no útero cósmico. Vislumbrei Algo em seu momento de nascimento. Já havia nascido; só
estava esperando pelo momento certo. Não havia a percepção de nenhuma decisão sendo tomada. Não se
ressentia de eu estar presenciando. Parecia estar dizendo: "Eu tenho de esperar até ser reconhecido. Essa é
a nova revelação".
Apareceram quatro grandes serpentes, as guardiãs amorosas daquele Algo tão maravilhoso,
como suas colegas de folguedo. Tudo naquele círculo era para o novo e dele.
Então tive de me concentrar em minha própria escuridão e descobrir o que havia nele. Tive de
encarar a minha própria realidade. Era assombrosa, temível, excitante. Talvez eu tivesse uma escolha, que
desconhecia, de arriscar. Não lamento ter arriscado. Era como se esse fosse o princípio de minha
realidade e eu tivesse de encontrar a minha condição de envolvimento. Até esse momento, eu não sabia o
que estava fazendo em análise. Agora precisava admitir conscientemente essa teia de vínculos.

O in e s tim á v e l v a lo r d e s s a e x p e riê n c ia , p a r a M a g g ie , e s tá e m se u to m a fe tiv o , n a


s e n s a ç ã o d a f o r ç a e d o c o m p r o m e tim e n to q u e s u rg ira m e m se u ín tim o , e n o
re c o n h e c im e n to d e q u e n ã o e s tá só, e m b o ra v iv e s s e ali u m a e x p e riê n c ia ím p a r. T e n d o
p e r s c r u ta d o a té o c e r n e d a e s c u r id ã o e v is lu m b r a d o " a p a rtu riç ã o " d o D e u s o u d a D e u s a ,
e la re c o n h e c e q u e o m o m e n to a in d a n ã o e s tá m a d u r o e d e v e tra b a lh a r e m s u a p ró p ria
e s c u r id ã o p a r tic u la r . P a s s o u i m e d ia ta m e n te a se d e d ic a r a ta l tr a b a lh o , f a z e n d o a p in tu r a
q u e e m tr ê s d ia s c o n c lu iu , tr a z e n d o o s ím b o lo d e s s a m e d ita ç ã o p a r a a s u a r e a lid a d e d e
v id a . N o c e n tr o d a p in tu r a e s tá u m a c ria n ç a r e c lin a d a n u m a lu a c r e s c e n te , c o m o so l p o r
trá s . A o c o m e n ta r s o b re u m a im a g e m s e m e lh a n te , E s th e r H a r d in g e sc re v e u :

O deus fálico, Palias, não era considerado uma deidade rival mas, antes, era o associado da
Deusa. Cada um era portador do símbolo da fertilidade, mas só quando se uniam em suas respectivas
funções é que o "mistério" acontecia em sua plenitude.3

A m e s m a id é ia , d e q u e o p o d e r d iv in o se m a n if e s ta p o r m e io d a u n iã o d e m a c h o
e fê m e a , e s tá e x p r e s s a n u m s ím b o lo q u e à s v e z e s a p a re c e s im b o liz a n d o a d e u s a C ib e le .
E l a e r a u m d o s a s p e c to s d a M a g n a D e a r e p r e s e n ta d a p o r u m a lu a c r e s c e n te e m p e r p é tu a
u n iã o c o m o Sol.
O p o d e r d a s q u a tr o s e r p e n te s é d ig n o d e n o ta , n e s s a p in tu ra , a s s im c o m o o sã o
o s tr ê s a n im a is n a m e ta d e in fe rio r. O s a n im a is f o r m a m o s u b s tra to in s tin tiv o d o q u a l a
e n e r g ia e s p ir itu a l (a s s e r p e n te s ) e s tá p ro c e d e n d o .
E n tr e g a r - s e à D e u s a é m e r g u lh a r n o p a ra d o x o . D o is a n o s a p ó s a im a g in a ç ã o
a tiv a d e M a g g ie , e la se s e n tiu n a s c e n d o p a r a u m a n o v a r e a lid a d e . P o s te r io r m e n te ,
e s c r e v e u u m p o e m a q u e b a tiz o u d e "O la m e n to " , d o q u a l tr a n s c r e v o u m a p a rte :

Não sou mais — agora que sou!


Lutei — para aprender a não lutar!
Combati para que pudesse perder!

3 Esther Harding, Woman’s mysteries, p. 157.


Vivi para que pudesse morrer!
Choro de alegria!
Sinto o júbilo do sofrimento
Morro para poder viver
Fluo para permanecer.

M u d a n ç a s e x tr a o r d in á r ia s a c o n te c e m q u a n d o a D e u s a é a c e ita . O n d e a n te s o
c o r p o e r a o b a lu a r te c o n tr a o f e m in in o , a g o r a se to r n a o in s tr u m e n to p o r m e io d o q u a l o
f e m in in o b rin c a . A p rin c íp io , h á u m a in u n d a ç ã o d e e m o ç õ e s , u m a r e g re s s ã o in fa n til
e /o u o r e c r u d e s c im e n to d a s d e f e s a s . E s s e s c o n te ú d o s a rc a ic o s tê m d e s e r f ir m e m e n te
c a n a liz a d o s , c a s o c o n tr á r io a e n e rg ia d a s m ê n a d e s p o d e to m a r o c o n tro le . A
s e x u a lid a d e , a n te s c e n tr a d a n o s ó r g ã o s g e n ita is , c o m e ç a a ir r a d ia r p e lo c o rp o to d o . O
m ic r o c o s m o c o m e ç a a r e f le tir o m a c ro c o s m o .
A c o n s c iê n c ia c o r p o r a l é d e e s p e c ia l im p o r tâ n c ia p a r a a s f ilh in h a s d e p a p a i,
p o r q u e s u a o r ie n ta ç ã o d e v id a e s te v e p re d o m in a n te m e n te n o n ív e l m e n ta l; n e s s e s e n tid o ,
o c o r p o — s e x u a lm e n te a tiv o o u n ã o — r a ra s v e z e s e s tá e m s in to n ia c o m o e s p írito .
A s m u lh e r e s p r o f is s io n a is n o s c a m p o s d a c iê n c ia e d a s a rte s sã o g e r a lm e n te
A te n a s , q u e p r o s p e r a r a m p o r m e io d e u m ín tim o r e la c io n a m e n to c o m o s p a is e c o m se u
p r ó p r io p r in c íp io m a s c u lin o . O la d o lu m in o s o d o v ín c u lo p a i-filh a é a c ria tiv id a d e e a
e s p ir itu a lid a d e ; o la d o e s c u ro , o in c e s to . N a s g e r a ç õ e s p a s s a d a s , o p r o b le m a n ã o
a p a r e c ia ta n to p o r q u e n ã o e x is tia u m a p e r c e p ç ã o a m a d u r e c id a d a s e x u a lid a d e . A s
e v id ê n c ia s d is s o p o d e m s e r e n c o n tr a d a s n a in d ig n a ç ã o m o ra l e n a r e je iç ã o d e c la r a d a
c o m q u e a s id é ia s d e F r e u d s o b re a s e x u a lid a d e in fa n til f o ra m re c e b id a s , e n o f a to d e e le
h a v e r e n te n d id o o p e c a d o o rig in a l c o m o o c o m p le x o d e É d ip o . O p a i c u ja a n im a
p e r m a n e c e p r e s a à s u a m ã e r e p r im e s u a s e x u a lid a d e . P o r c o n ta d isso , e le n ã o te m
c o n s c iê n c ia d o e lo in c e s tu o s o c o m s u a filh a . N ã o v e m à to n a a d im e n s ã o s e x u a l d a
e n e r g ia q u e e le in v e s te n o r e la c io n a m e n to e q u e lh e r e to r n a d e s s e v ín c u lo . C o m o o
in c e s to p e r m a n e c e in c o n s c ie n te , n ã o a c o n te c e n e n h u m s a c rifíc io e m q u a lq u e r e s tá g io d o
r e la c io n a m e n to . J á q u e is s o n ã o o c o rre , a filh a , q u a n d o c h e g a n a m a tu rid a d e , c o n s id e ra
q u e s u a c a p a c id a d e c r ia tiv a é o d e s tin o q u e s e u p a i lh e r e s e r v o u e, a ssim , r e a f ir m a se u
r e la c io n a m e n to p o s itiv o c o m e le . O u s e ja , c o m p r o m e te - s e c o m o s e u p r ó p r io a n im u s
p o s itiv o e, c o m o p e s s o a c ria tiv a , v iv e d e m a n e ir a m a d u r a e c r ia tiv a o r e la c io n a m e n to
in f a n til c o m o p a i. S u a s e n s a ç ã o d e c o n tin u id a d e — a f ilh a c o m o m ã e d a m u lh e r —
p o d e s e r u m a im e n s a fo n te d e s e g u ra n ç a e fo rç a . A s s im q u e d e s c o b r ir se u d e s tin o n o se u
tr a b a lh o , p o d e t e r u m a e x is tê n c ia e x tr e m a m e n te g ra tific a n te .
P o r é m , a s m u lh e r e s q u e n ã o o b s ta n te f o ra m in ic ia d a s e m s u a " m is s ã o " p e lo
r e la c io n a m e n to p r im o r d ia l c o m s e u p a i sã o m u ito m a is c o n s c ie n te s d a d im e n s ã o se x u a l
d esse v ín c u lo . E la s não co nseguem r e p r im ir in c o n s c ie n te m e n te sua s e x u a lid a d e .
S e x u a lid a d e é o e s p ír ito d e n o s s a e ra. Q u a n d o , p o r c o n s e g u in te , a d im e n s ã o s e x u a l
ir r o m p e n a p u b e r d a d e , a s e x u a lid a d e d a f ilh a se d e s p r e n d e d o p a i e é n e g a d o o o b je to
p a r a o q u a l se e n c a m in h o u a v id a to d a . N e s s e p r o c e s s o d e c is ã o d e s u a p e rs o n a lid a d e ,
p r ó p r io c h ã o d e s u a c r ia tiv id a d e s o fre u m a irru p ç ã o n a d im e n s ã o d e u m
te r r e m o to . S e x u a lm e n te e la se s e n te a b a n d o n a d a o u traíd a. P o d e a té m e s m o v iv e n c ia r
s u a c r ia tiv id a d e c o m o s e u p a i s e d u z in d o - a , e e n tã o r e je itá - la . Q u e r d iz e r, e la p o d e s e n tir
q u e s u a c r ia tiv id a d e a e s tu p ra . A f ilh a e s tá c ie n te n u m n ív e l q u e o p a i n ã o e s ta v a . O q u e
e s te fe z in c o n s c ie n te m e n te e la te m d e e n c a r a r d e f o r m a c o n s c ie n te .
E s s a e ra a b r e - lh e m u ita s o p ç õ e s . O d e s p e r ta r d a d im e n s ã o s e x u a l e m se u
r e la c io n a m e n to c o m o p a i p o d e l e v á - l a a e n x e r g a r to d o s o s h o m e n s c o m o s e d u to re s o u
tr a id o r e s , e s tu p r a d o r e s o u m a la n d ro s . S e e la se s e n te in tim a m e n te e s tu p ra d a , p o d e
e x p r e s s a r e s s a s e n s a ç ã o n a v in g a n ç a s e x u a l d a m u lh e r fa ta l q u e e m s e u ín tim o s o fre a
p le n a d e v a s ta ç ã o d a c is ã o c o r p o /a lm a q u e a m e a ç a s e r ia m e n te s u a c ria tiv id a d e . A
m a n if e s ta ç ã o m a is e x tr e m a d e s s e p r o c e s s o é a p ro s titu iç ã o .
P a r a u m a m u lh e r c u jo im p u ls o se x u a l fo i d e s v ia d o p a r a lo n g e d e s u a s s e n s a ç õ e s ,
p o r f o r ç a d o in c e s to in c o n s c ie n te c o m o p a i, d a r v a z ã o à s u a s e x u a lid a d e m u ita s v e z e s
l e v a r á a q u e s tã o s e x u a l a té o tip o d e c ris e q u e p r o m o v e o s u r g im e n to d e u m a
c o n s c ie n tiz a ç ã o . P a r a e la , s e x u a lid a d e é o la d o e s c u ro d a v irg e m . E n q u a n to e s tá
e s p ir itu a lm e n te im p r e g n a d a p e lo p a i, s u a c ria tiv id a d e é u m p a rto v ir g e m q u e r e m e te
c o m tr a z e r à t o n a m a is a f a n ta s ia q u e a r e a lid a d e . P a r a q u e s u a s fa n ta s ia s d e c ria ç ã o
p o s s a m se to m a r re a is ( d a m e s m a f o r m a c o m o o d iv in o se to r n a h u m a n o ), e n tã o e la
d e v e s e r r e tir a d a d o a lto d e s u a to r r e d e m a r f im e tr a z id a c á p a r a b a ix o . D e v e c o n f r o n ta r
a p r o s titu ta , a s e x u a lid a d e d a v ir g e m , a p u ta q u e e s te v e e s s e te m p o to d o r e je ita n d o e m
n o m e d o p a i. E la d e v e o lh a r d e n o v o p a r a a m ã e . D e s c o b r ir á n e s ta o q u e a g o r a s e n te s e r
e la m e s m a e m r e la ç ã o a o p a i: u m a v ir g e m tra íd a . U m a p a rte d in â m ic a d o v ín c u lo c o m o
p a i p o d e t e r s id o u m a s ile n c io s a a lia n ç a c o m o p a i c o n tr a a m ã e . D e s s e m o d o , q u a n d o a
s e x u a lid a d e é e x e c r a d a , t o r n a - s e S e m -T e to . N ã o te m um f e m in in o p o s itiv o o n d e
e n ra iz a r. P o rta n to , a s e x u a lid a d e se e n c a m in h a p a r a a m ã e n e g a tiv a . E s s a é u m a
s e x u a lid a d e c o n tr á r ia à m u lh e r, c o n tra o p ó lo re c e p tiv o , c o n tra si m e s m a . S e e s s a
s e x u a lid a d e n e g a tiv a é r e f o r ç a d a p o r u m im p u ls o d e v in g a n ç a , a m u lh e r p o d e s e r
e n o r m e m e n te d e s tr u tiv a e m p r a tic a m e n te to d a s a s á re a s d e s u a v id a .
P a r a se f u r ta r a ta is a titu d e s , e la te m d e tr a b a lh a r a r d u a m e n te p a r a p r o c e s s a r o
r e la c io n a m e n to n e g a tiv o c o m s u a m ã e , a s s im c o m o a f o r m a o b je tiv a d e s u a p r ó p r ia
a titu d e n e g a tiv a p e r a n te si m e s m a . E la c h e g a à m ã e a tr a v e s s a n d o p o r d e n tro d e si. U m
v e lh o im p a s s e r e a p a r e c e u e, d e s ta fe ita , e la d e v e lid a r c o m e le c o n s c ie n te m e n te . E la te m
d e a c re d ita r q u e a s c o is a s p o d e m m u d a r, q u e o d e s e s p e ro c rô n ic o n ã o é se u in e s c a p á v e l
d e s tin o . C e d o o u ta r d e , a d e s p e ito d o q u e e la a c h e q u e s u a m ã e lh e fe z , o u d o q u e a m ã e
fe z a o p a i, o u d o q u e se u p a i d e ix o u q u e a s u a m ã e fiz e s s e c o m ele, a m u lh e r te m d e
r e to m a r a lig a ç ã o c o m se u e s p írito m a s c u lin o , p o is e la p r e c is a d e s u a e s p a d a d o
d is c e r n im e n to p a r a a b r ir c a m in h o a té a M e d u s a c o m a in te n ç ã o d e d e ix a r q u e su a
e n e r g ia c r ia tiv a s e ja tr a n s f o r m a d a . E n tã o , e m lu g a r d e p r o je ta r s u a p r ó p r ia c r ia tiv id a d e
n o s h o m e n s , o u d e e s p e r a r d e le s q u e a s a lv e m , e la a s s u m e p a r a si a re s p o n s a b ilid a d e p o r
s u a p r ó p r ia v id a . E m s u m a , se a c r ia tiv id a d e d e u m a m u lh e r e s tá a m e a ç a d a p e lo ta b u d o
in c e s to , o p r o b le m a p o d e c o m f r e q ü ê n c ia s e r re s o lv id o p o r in te r m é d io d a m ã e . A
c r ia tiv id a d e d e v e s e r e n r a iz a d a n o f e m in in o a rq u e típ ic o . S o m e n te e n tã o a v irg e m
im p r e g n a d a p e lo p a i p o d e se s e n ta r n o c o lo d e S o fia .
J u lie é u m a f ilh in h a d e p a p a i q u e m u d o u s u a r e la ç ã o c o m se u c o rp o , d e
in im iz a d e e m a m iz a d e , p o r m e io d a d a n ç a . S e g u e - s e u m a d e s u a s im a g in a ç õ e s a tiv a s:

Começou com respiração profunda, vocalização de sons, suspiros e então um canto.


Divisão na mente: o lado esquerdo ficou vermelho-brilhante e o direito, branco-brilhante.

Lado esquerdo: a voz era sexualidade; ritmo percussivo, até mesmo em batidas; movimento em
estilo "Jazz", angular, com gestos lúdicos em pulsação das mãos, quadris, ombros e pés.

Lado direito: a voz era pura, uma única nota sustentada, movimento sustentado em curvas que
iam até alto no ar, em especial envolvendo os braços. Sensação de muita pureza.

De repente, comecei a cantar, "Santo, Santo, Santo, Senhor Deus Todo-Poderoso". No começo o
canto era contínuo, e aos poucos foi se tornando o ritmo percussivo da batida da sexualidade. "Santo,
Santo, Santo" se tornou cada vez mais um absurdo oco e desprovido de sentido. O movimento da dança
foi ficando percussivo, sexualmente agressivo e tão frio e cruel quanto o vermelho original do lado
esquerdo. Meu corpo todo ficou vermelho-brilhante e o branco sumiu.
Caí de joelhos. Comecei a recolher terra com a concha das mãos. Ficava dizendo: "Sou
vermelho-escuro. Sou sangue. Sou sangue vermelho-vivo, puro! Sou da terra, compassiva, receptiva,
cheia de vida".
Rolei para deitar de costas e receber a energia vital de cima e de baixo. A dança se tornou
contínua, controlada, com movimentos muito poderosos, e bastante diferentes da vazia flutuação do
começo quando era a dança "Santo, Santo". Então meu corpo vermelho-brilhante com seu coração
pulsante encheu-se de consciência e eu me tornei o coração.
A energia desse batimento cardíaco enraizada na terra de repente acelerou-se até se tornar uma
energia espiritual inteiramente branca. Quando inspirei, o ar transformou-a no sangue vermelho do meu
corpo; depois eu tinha a energia branca dessa energia para emanar.
O tempo todo eu dizia: "Eu sou quente, vermelha e branca. Porque sou tão vermelha posso ser
branca. Como recebo energia da terra, meu sangue vermelho receptivo pode retribuir e se transformar no
branco".
Então parou a ação pulsante. Assumi a posição ajoelhada para orar. "Eu sou porque EU sou. Sei
disso. E Deus sabe disso e é tudo o que importa."
Tornei-me uma rosa selvagem cor-de-rosa. O centro é amarelo e as folhas, verdes. Estou
simplesmente aqui. Ninguém me vê. Ninguém precisa me ver. Estou enraizada numa fenda da rocha. O
vento que sopra vindo da água passa por mim. Meu rosto está virado para o Sol e para os reflexos dos
diamantes que a extensão de água emana. Sou linda porque sou uma criação de Deus. Estou segura,
embora sendo tão delicada nesta paisagem exposta. E sei que EU SOU.

P o r m e io d o v ín c u lo c o m S o fia , J u lie d e s c o b riu o e lo ín tim o d e lig a ç ã o e n tre


c o r p o e a lm a . E la d e s c r e v e e s s e e lo n a s e g u in te v is ã o :

Vi a Virgem M aria sentada, com um nenúfar em seu colo, na virilha. O caule dessa flor desce
entre suas pernas e chega até o fundo da água embaixo dela. Ela está sentada em paz, meditando sobre a
flor aberta em seu colo, mas nisso ela envolve toda a sua energia. O nenúfar não está no alto de sua
cabeça. Ela deve abaixar os olhos para ver o centro aberto da flor, o centro ligado pelo caule, que vai até o
centro da Terra.

E s s a v is ã o f a z le m b r a r a s a g r a d a f lo r d e ló tu s c u ja ra iz p e n e tr a f u n d o n a la m a ,
c u jo c a u le se e r g u e d a á g u a e c u ja f lo r d e s a b r o c h a a o S ol. A V irg e m , c o m a a te n ç ã o
f o c a liz a d a e m s e u p r ó p r io c e n tr o c r ia tiv o — n ã o n a c a b e ç a — fa z u m a lig a ç ã o d ire ta
com a e n e r g ia d a te r r a e te m d e se c o n c e n tra r p a r a m a n tê - la . A flo r d a la m a é
e s p ir itu a liz a d a p e la s u a c o n te m p la ç ã o . J u lie e s c r e v e u o s s e g u in te s c o m e n tá r io s s o b re
e s s a v is ã o :

Subitamente estou plena de dor e júbilo. A dor vem de saber que nunca encontrei um homem,
tanto dentro quanto fora, que fosse capaz de ver a Virgem como eu a vejo. Custa toda a energia e
concentração da Virgem ater-se àquela imagem da força vital explodindo na flor. É a energia sexual
divina. A Virgem sabe que deve se m anter fiel a esse momento, manter esse mo mento no centro do Ser,
pois essa é a sua verdadeira natureza sexual/espiritual feminina. Ela deve se manter fiel ao que sabe da
santificação da matéria, ao seu molde material de Ser, e esperar, esperar para que isso venha até o campo
da consciência, sem saber se esse momento sequer ocorrerá um dia. Esperar nessa intensidade é a agonia.
O júbilo é ter encontrado a pureza feminina: o momento de saber que espírito e matéria são uma coisa só.
Mas a espera bem como saber que outras mulheres estão esperando só aumenta a consciência de que é
assim que deve ser para nós nesta cultura.

Q u a n d o a p a ix ã o p e la v id a d o la d o p r o s titu ta d a V ir g e m e n tr a e m h a r m o n ia c o m
o la d o e s p ir itu a l tr a n s f o r m a d o r d e S o fia , c o rp o e a lm a s ã o u m só. O c o r p o é r e c o n h e c id o
c o m o e s p a ç o s a g r a d o c o m u m a m o r a lid a d e p ró p ria , a q u a l d e v e s e r h o n r a d a o u r e a g ir á
c o m s in to m a s f ís ic o s c o m o d e s o r d e n s v a g in a is , c is to s , f r ig id e z etc. E s s a m o r a lid a d e
c o r p o r a l te m u m a a n te n a e x tr e m a m e n te se n s ív e l. A m a té r ia é e s p ir itu a lm e n te
tr a n s f o r m a d a m e d ia n te o a m o r. A m a té r ia se to r n a a lm a ; e s ta se tr a n s f o r m a e m m a té ria .
U m a m u lh e r se e x p r e s s o u d a s e g u in te m a n e ira :

Eu sempre achei que uma m ulher não conseguia separar seu coração de sua sexualidade. Agora
acredito que são a alma e a paixão que não podem ser separadas. Uma mulher expressa sua alma pela sua
paixão sexual. Sua paixão pela vida é sua alma, e sua sexualidade manifesta isso. Uma mulher se
abandona na paixão, no momento em que a alma e o corpo são vim só. Isso só pode acontecer com um
homem em quem ela confie e, em segundo lugar ame. Primeiro a confiança, porque é sua alma que ela
está abandonando quando se entrega à paixão. Se ela ama um homem e ele toma sua alma e parte ela fica
vazia. Pois, quando uma mulher faz amor — não amor genital mas entrega inteiramente seu ser — , torna-
se criadora e criatura, e se conhece então como alma viva. Portanto, a confiança é crucial à sua essência.
As energias sexuais/espirituais entretecidas durante o intercurso sexual criam uma terceira. Não
necessariamente o nascimento de uma criança física, mas o de uma criança espiritual, um relacionamento.
Ê dentro dessa dimensão que o homem e a mulher chegam a conhecer o EU SOU. Eis o mistério: simples
e profundo.

A n o v a m u lh e r, n a s c id a d a c o n s c ie n tiz a ç ã o s e x u a l q u e p o r ta n to te m p o lh e foi
n e g a d a , e s tá e m e r g in d o s ó a g o ra . E n c o n tr a r u m h o m e m q u e p o s s a se r e la c io n a r c o m e la
d e n tr o d e s u a n o v a m a n e ir a d e se p e r c e b e r e s tá se to r n a n d o u m im e n s o p r o b le m a . S e o s
h o m e n s n ã o e s tã o p s ic o lo g ic a m e n te p r e p a r a d o s p a r a u m re la c io n a m e n to g e n u ín o c o m
e s s a e s p é c ie d e m u lh e r, o m a is p ro v á v e l é q u e se s in ta m a m e a ç a d o s . Is s o n o r m a lm e n te
se m a n if e s ta e m ira , im p o tê n c ia o u in d ife re n ç a . E s s a é o u tra q u e s tã o , q u e a n o s s a
c u ltu r a e s tá só c o m e ç a n d o a e n fre n ta r. N o e n ta n to , a d e s p e ito d a a g o n ia q u e p o s s a b r o ta r
n o s r e la c io n a m e n to s , a s m u lh e r e s e s tã o s e n d o c o m p e lid a s a a tr a v e s s a r e s s a re v o lu ç ã o
p s íq u ic a .
N e s te liv ro , c o n c e n tr e i- m e nas e x p e riê n c ia s das m u lh e re s , m as essa nova
c o n s c iê n c ia e s tá se m a n if e s ta n d o ta m b é m n o s s o n h o s d o s h o m e n s . M in h a s e n s a ç ã o é d e
q u e , v is to e s s a e n e r g ia s e r m a is n a tu ra l à s m u lh e re s , e la s sã o m a is c a p a z e s d e lid a r c o m
e la s e m se d e ix a r d o m in a r p e lo m e d o . E m m u ito s r e la c io n a m e n to s c h e g o u o m o m e n to
d e r e c o n h e c e r o " f e m in in o c to n ic o e a c e itá -lo c o m c a rin h o , d e m a n e ira a p o d e r r e d im ir
o d e s e jo a n im a l p e lo a m o r. A f e m in ilid a d e in c o n s c ie n te n o s h o m e n s e s tá tã o a ta d a à
m ã e q u a n to o frá g il e g o f e m in in o d e m in ta s m u lh e r e s m o d e rn a s . E s s a f e m in ilid a d e , p a ra
s e r lib e rta d a , r e q u e r d o s h o m e n s a m e s m a fo r ç a e o m e s m o a m o r q u e o e g o fe m in in o
p r e c is a r e c e b e r d a s m u lh e r e s . A s m u lh e r e s q u e e s tã o c o n s c ie n te s d o q u e é p a r a e la s e s s a
r e v ir a v o lta d e v e m a s s u m ir a r e s p o n s a b ilid a d e p e la d im e n s ã o a f e tiv a d e s e u s
r e la c io n a m e n to s . Q u a n d o s e u p r ó p r io e g o e s tá n u m r e la c io n a m e n to a m o r o s o c o m a
V ir g e m N e g r a , a u to m a tic a m e n te a f u n ç ã o N u m a s itu a ç ã o d e s s a s , d u ra n te s é c u lo s as
m u lh e r e s p e r m a n e c e r a m id e n tif ic a d a s c o m s e u s in s tin to s m a te rn a is , a c u a d a s e m su a
f u n ç ã o b io ló g ic a , te m e n d o s e r f o r ç a d a s a se c o n s c ie n tiz a r. R e la c io n a m -s e e m te r m o s d a
m a te r n id a d e : p e r d e r o s f ilh o s é p e r d e r su a id e n tid a d e . A ú n ic a u n iã o q u e as m ã e s
p r e c is a m é a q u e lh e s t r a r á filh o s . M a s e x is te o u tr o tip o d e u n iã o . N o m ito c ris tã o , D e u s
o u v iu a s p r e c e s d e S a n ta A n a e e la c o n c e b e u M a ria . P s ic o lo g ic a m e n te , o in s tin to
m a te r n a l, e m h a r m o n ia c o m o E s p ír ito S a n to , d á à lu z s u a c o n s c iê n c ia f e m in in a p ró p ria ,
a V irg e m . E la , q u a n d o c h e g o u o m o m e n to c e rto , ta m b é m se a b riu p a r a o a rre b a ta m e n to
d iv in o .
P a ra poder c re s c e r, is to é, a v irg e m deve ser a rre b a ta d a e ro m p e r su a
id e n tif ic a ç ã o com a G ra n d e M ãe. C o n fo rm e com eça a d e s c o b r ir sua p r ó p r ia
in d iv id u a lid a d e p e la p e n e tr a ç ã o d o o u tro , o q u e a n te s e r a v iv e n c ia d o c o m o e s tra n h o e
a te r r o r iz a d o r c o m e ç a a d a r a s e n s a ç ã o d e s e r a p r ó p r ia v id a f lu in d o p o r in te r m é d io d e la .
E s s e é o c h ifre d o u n ic ó r n io q u e só u m a v irg e m p o d e a c e ita r, p o rq u e só e la te m a fo rç a
d e se a b r ir a e s s a d ila c e r a d o ra c o n s c ie n tiz a ç ã o . E n q u a n to a s m u lh e r e s c o n tin u a re m
p r e s a s a o c in to d e c a s tid a d e q u e im p e d e a p o s s ib ilid a d e d e p e n e tr a ç ã o p e lo f a lo ( f ís ic o
o u e s p ir itu a l) , e la s d e v e m a s s u m ir a r e s p o n s a b ilid a d e p o r u m m a tr ia r c a d o r e g id o p e lo
p r in c íp io d o p o d e r, p r o d u to r d e u m p a tr ia r c a d o a d o le s c e n te . E n q u a n to a s m u lh e r e s n ã o
se d e s id e n tif ic a r e m d o p o d e r d a G r a n d e M ã e , n e m e la s, n e m se u s c o m p a n h e iro s p o d e m
s e r liv re s.
M e u tr a b a lh o c o m a s p a c ie n te s o b e s a s e a n o ré x ic a s , e s p e c ia lm e n te a s q u e sã o
f ilh in h a s d e p a p a i, d e ix o u - m e m u ito c o n s c ie n te d e q u e a s m u lh e r e s e m lu ta c o m u m
a m a n te d e m o n ía c o / M e d u s a in te r io r tê m u m a p s ic o lo g ia d if e r e n te d a q u e le s c u jo
c o m b a te é c o m u m a E r e s h k ig a l, o u se ja , o la d o e s c u ro d a D e u s a s u m é ria , tã o c la r a m e n te
d e s c r ita p o r S y lv ia P e r e r a e m D e s c e n t to th e g o d d e s s . S e u s c a m in h o s d e c u r a s ã o m u ito
d iv e rs o s . T o r n a - s e c a d a v e z m a is im p o r ta n te r e c o n h e c e r q u a l p a d r ã o a r q u e típ ic o e s tá n o
c e n tro d a n e u ro s e , p o r q u e se u m a m u lh e r e s tá te n ta n d o e n tr a r e m c o n ta to c o m se u s
in s tin to s p o r in te r m é d io d e E r e s h k ig a l, q u a n d o n a r e a lid a d e d e v e r ia e s ta r te n ta n d o
d e c a p ita r a M e d u s a , e la p o s s iv e lm e n te a c a b a r á s e n tin d o - s e to m a d a p o r u m d e s e s p e r o
p a ra lis a d o r.
Um raio vindo do céu ilumina a criança (Maria) dentro co útero de Santa Ana.
Horas da Virgem, Bruges (?), c. 1515, do Mestre do Breviário Gnmani.
(Pierpont Morgan Library, Nova York)

Vosso é o espírito, dele é o corpo, vocês dois serão um só.


H á m e s e s q u e v e n h o p e n s a n d o n e s s a d ife re n ç a , m u ito p o u c o s a tis f e ita q u a n to à
d e lic a d a A n d r ô m e d a se c o n to r c e n d o n a ro c h a s e r u m a im a g e m d a m u lh e r m o d e rn a .
E n tã o M e g a n , u m a p r o f is s io n a l d e c a rre ira , tr o u x e - m e o d e s e n h o a c im a . N o se u so n h o ,
n o m e io d e u m a e s c u rid ã o , a p a re c e u u m b a s tã o d e lu z. A lu z n u m in o s a fo i a u m e n ta n d o
a té q u e e la c o n s e g u iu e n x e r g a r o h o m e m q u e a m a v a e a si m e s m a b a n h a d o s p o r u m a
n é v o a d o u r a d a , f a z e n d o a m o r d e n tro d e u m a n e l d e fo g o . U m a v o z p r o n u n c io u
n itid a m e n te a s s e g u in te s p a la v ra s : " V o s s o é o e s p írito , d e le é o c o rp o ; v o c ê s d o is s e rã o
u m só".
E s s e s o n h o fo i tã o p o d e r o s o e p le n o d e a u to rid a d e q u e e u n ã o lh e d is s e q u e
c o n tr a r ia v a u m d o s p r e c e ito s b á s ic o s d a a lq u im ia , d e a c o rd o c o m o q u a l "o m a s c u lin o é
o c é u [e s p írito ] d o f e m in in o e o f e m in in o é a te r r a d o m a s c u lin o " .4 P o r o u tro la d o , o
s o n h o c o r r o b o r a v a in te ir a m e n te a m ito lo g ia e g íp c ia q u a n d o d iz q u e a a b ó b a d a c e le s te é
p e r s o n if ic a d a c o m o a d e u s a N u t, e a T e rra c o m o se u c o n s o rte , G e b . D e to d o m o d o ,
c o m o a s s in a la J u n g , a té m e s m o n a a lq u im ia c o r p o e e s p írito “ n ã o tê m re la ç ã o se m a
a lm a ” .5 N o s o n h o d e M e g a n , o h o m e m h a v ia a tra v e s s a d o o s e m a a n e l d e fo g o ; a a lm a
q u e o s u n e e o a m o r q u e u m s e n te p e lo o u tro . E m s e u r e la c io n a m e n to , e la , u m a filh in h a
d e p a p a i, e s te v e a ta d a a o e s p ír ito a té q u e o h o m e m a tr o u x e p a r a a v id a — p a r a o n ív e l
d a T e r r a — , a o tr a ta r s e u c o r p o c o m c a rin h o .
R e f le x õ e s s u b s e q ü e n te s le v a r a m - m e a o C ic lo d o A n e l, d e W a g n e r. A tr a m a g ira
e m to r n o d a r e n ú n c ia d o a m o r e d o r o u b o d o A n e l d o R e n o , p e r te n c e n te à s v ir g e n s d o
R e n o . E s s e te m a e x p lo r a o c o n f lito e n tre o a m o r e o p o d e r. A p o s s e d o o u ro , in c lu s iv e
d o a n e l, d á a s e u d o n o o p o d e r a b s o lu to s o b re o m u n d o . M a s h á u m a m a ld iç ã o : a q u e le
q u e to c a r o a n e l s e rá d e s tru íd o . E m r á p id a s p in c e la d a s , a p a rte d o m ito q u e a m p lif ic a o
s o n h o a c im a te m a v e r c o m B ru n h ild e . E la e s u a s o ito fo g o s a s irm ãs, a s V a lq u íria s , sã o
e s p ír ito s c r ia d o s p e lo p a i, W o ta n , p a r a v o a r a tra v é s d o s c é u s le v a n d o o s h e r ó is a té o
p a ra ís o , V a lh a lla . B r u n h ild e é u m a m u lh e r a n im a , q u e o p a i re c o b r iu c o m u m a
a r m a d u r a q u e v a i d a c a b e ç a a o s p é s. E la m o n ta se u c a v a lo a la d o , s e d u z in d o o s h o m e n s
a e n tr a r n u m a s in to n ia s e n tim e n ta l. E la é o r e la c io n a m e n to a fe tiv o d e le s le v a d o à s ra ia s
d a p e rfe iç ã o , u m r e la c io n a m e n to q u e o s le v a a p a ir a r n a s n u v e n s e lu ta r p e la "c a u sa " e
p e la b e le z a id e a l. O p a i é W o ta n , s ím b o lo d a c o b iç a d e riq u e z a s e p o d e r, h o m e m c a s a d o
c o m F r ic k a , a d e u s a d o c a s a m e n to e d o s ta tu s q u o . E s ta p e r s o n if ic a a m u lh e r q u e v iv e
s e g u n d o "o p r in c íp io d a s c o is a s " , a o p re ç o d o r e la c io n a m e n to h u m a n o : r e la ç õ e s
im p e s s o a is p o r o p o s iç ã o a p e s s o a is . Q u a n d o W o ta n é f o r ç a d o a e s c o lh e r e n tre tr a ir o
h e ró i e tr a ir o c a s a m e n to , a lia - s e a F r ic k a p o is , se a d e s tr u ís s e , d e s tr u ir ia V a lh a lla .
N e s s e ín te r im , B r u n h ild e , s u a f ilh a fa v o rita , c o n h e c e u o a m o r h u m a n o e d e c id e
d e s o b e d e c e r a s e u p a i, lu ta n d o a o la d o d o h e ró i, p o rq u e se u p a i n ã o p e r m itir á a e le q u e
le v e s u a a m a d a p a r a V a lh a lla . E la d á v a lo r a o a m o r h u m a n o m a is d o q u e a o id e a l d a
p e rfe iç ã o . S e u p a i, d e s f e c h a n d o u m a ta q u e d e v in g a n ç a e m r a z ã o d e s e u s v a lo r e s
tr a íd o s , c o lo c a - a a ta d a a u m a r o c h a e p r e te n d e m a n tê - la ali p a r a se m p re . E la , n o e n ta n to ,
p e r s u a d e - o a c o lo c a r u m a n e l d e f o g o , u m a n e l d e p a ix ã o , a o s e u re d o r, e se u m h o m e m
c o n s e g u ir a tr a v e s s a r o f o g o e le p o d e r á lib e r tá - la . W o ta n c o n c o rd a , m a s h á u m p re ç o : se
u m h o m e m o u s a r a tr a v e s s a o f o g o e d e s p e r tá - la , e la n ã o s e rá m a is u m a d e u sa ; to rn a r-s e -
á u m ser hum ano.

4 Jung, Psychology and alchemy, OC 12, par. 192n.


5 Jung, "The psychology of the transference", The practice of psychotherapy, OC 16, par. 454.
A deusa Nut e seu consorte Geb. Papiro egípcio. (Museu Britânico)

E n q u a n to e la d o r m e , o h e r ó ic o S ie g f r ie d m a ta o d ra g ã o . A p ó s b e b e r d o s a n g u e
d a c ria tu ra , e le c o n s e g u e e n te n d e r a s a v e s, e e s ta s lh e d iz e m q u e u m a lin d a m u lh e r e s tá
p r e s a a u m a ro c h a , r o d e a d a p o r u m a n e l d e fo g o . E le v ia ja a té e s s e lo c a l, m e r g u lh a n o
c ír c u lo m á g ic o d a s c h a m a s c r e p ita n te s e v ê , à s u a fre n te , u m a p e s s o a d o r m in d o d e n tro
d e s u a a rm a d u ra . C u id a d o s o , e le r e m o v e o c a p a c e te e o lh a e s tu p e fa to e n q u a n to o s
lo n g o s c a b e lo s c a c h e a d o s d e B r u n h ild e d e s c e m e m o n d a s s o b re s e u c o lo .
D e s e m b a in h a n d o s u a f a m o s a e s p a d a , e le a d e s p e d e s u a c o ta d e m a lh a , e e n tã o
B r u n h ild e , e m m a c ia s v e s tim e n ta s f e m in in a s d e m u s s e lin a , s u rg e d e ita d a à s u a fre n te .
P e la p r im e ir a v e z , e le c o n te m p la u m a m u lh e r e a d e s p e rta c o m u m b e ijo . B ru n h ild e
e n tã o e m to d a a p le n a m a je s ta d e d e s u a c o n d iç ã o d e m u lh e r. J u n to s e le s c a n ta m su a
c a n ç ã o d e ê x ta s e .
M e g a n f o r a u m a V a lq u ír ia , u m a d e u s a to ta lm e n te re c o b e r ta p o r s u a a r m a d u r a d e
g o r d u r a , f a n ta s ia n d o v ia g e n s c e le s tia is c o m s e u s p a r c e ir o s a m o ro s o s , e n q u a n to e le s a
tr a n s p o r ta v a m a té o P a r a ís o . C o m o B r u n h ild e , e la se r e v o lto u c o n tr a o p a i q u a n d o se u
e s p ír ito g r ito u e e x ig iu v id a e a m o r, m a s, s e n d o f ilh a d e le , se u c o rp o p e rm a n e c e u
a d o r m e c id o d e n tr o d o a n e l d f o g o d e s u a s p ró p r ia s p a ix õ e s . C o m a e s p a d a d e su a
p r ó p r ia m a s c u lin id a d e , e la d is s o lv e u a a rm a d u ra n u m a d ie ta m a s — a p e s a r d e se u
a n s e io p o r s e r h u m a n a — n ã o c o n s e g u ia e n tr a r e m c o n ta to c o m s u a p r ó p r ia s e x u a lid a d e .
S u a v id a in te ir a e la h a v ia v iv id o n o â m b ito d a m e n te : e s tu d a n d o , m e d ita n d o , to c a n d o
tro m p a . S u a s o m b r a p r o s titu ta e r a - lh e p ra tic a m e n te d e s c o n h e c id a . S ó d e p o is q u e se u
S ie g f r ie d m e r g u lh o u e m s e u a n e l d e p a ix õ e s e o a tra v e s s o u , e la p ô d e c o n e c ta r c o r p o e
e s p írito . O a m o r d e le p o r e la d e s p e rto u -a p a r a a p le n a b e le z a d e s u a p ró p ria
f e m in ilid a d e : c o r p o e e s p ír ito e n tã o se re u n ir a m . D e s s e m o m e n to e m d ia n te , o p r in c íp io
d o p o d e r e a b u s c a d a p e r f e iç ã o q u e a h a v ia m im p u ls io n a d o e m s u a a tiv id a d e a c a d ê m ic a
d is s o lv e r a m - s e c o m o c a lo r d o a m o r q u e s e n tia p o r a q u e le h o m e m re a l.
O b s e r v a n d o e s s e p r o c e s s o e m M e g a n e o u tr a s m u lh e r e s c u jo s p escoços
s im p le s m e n te n ã o f a z ia m a lig a ç ã o e n tre c a b e ç a e c o rp o , c o m e c e i a e n x e r g a r m u ita s
d if e r e n ç a s e n tr e B r u n h ild e s p r is io n e ir a s d e M e d u s a s e m o ç a s E r e s h k ig a l ( c o m o e u
c h a m o e s s e tip o d e m u lh e r ) . S e a m u lh e r se to r n a a a n im a d e s e u p a i, e se e s s a a n im a
e s tá a in d a p r e s a à m ã e , e la v iv e r á o m u n d o e s p ir itu a liz a d o e in te le c tu a liz a d o d e le , m a s
s u a A te n a j o g a r á s u a M e d u s a in c o n s c ie n te n a m a is f u n d a c a v e r n a d e se u c o rp o . N e s s a
s itu a ç ã o , e m g e ra l n ã o h á u m a m ã e q u e s irv a d e m o d e lo f e m in in o . E n q u a n to a
m a s c u lin id a d e c r ia tiv a d e s s a m u lh e r e s tiv e r a ta d a a o p a i, e la se to r n a p o s s u íd a p e la
m a s c u lin id a d e n e g a tiv a : v a lo re s , o p in iõ e s e ju lg a m e n to s c o le tiv o s . A v id a se to r n a u m a
r o tin a d e im ita ç õ e s e s c u lp id a s e m p e d ra . O o lh a r d a M e d u s a p e trific a ; n ã o c o n s e n te a
e s p o n ta n e id a d e . O v iv e r tr a n s c o r r e n u m a m a s c u lin id a d e d e g a ro to s a s e rv ir a M ã e
T e rrív e l. E s ta s ó q u e r c a d a v e z m a is . S e u s a d o r a d o r e s to rn a m -s e p e tr ific a d o s n a m a té ria .
A s im a g in a ç õ e s q u e tê m c o n c r e tiz a m in c lu s iv e o e te rn o , d e ta l s o rte q u e o N a s c im e n to
V irg in a l p o r e x e m p lo to r n a - s e u m fa to h is tó ric o . A V irg e m , p o r c o n s e g u in te , to r n a - s e
u m id e a l d e p u r e z a im p o s s ív e l, e x e r c e n d o u m a p r e s s ã o tir â n ic a s o b re a p s iq u e fe m in in a ,
j u l g a n d o - a c o n tin u a m e n te p o r s u a " im p e rfe iç ã o " d ia n te d e p a d r õ e s in a lc a n ç á v e is .
O e f e ito d a c o n c r e tiz a ç ã o é ó b v io n o c o r p o d a m u lh e r o b e s a o u a n o ré x ic a . F a z
p a r te d a s te n ta tiv a s v ig e n te s e m n o s s a c u ltu ra g a r a n tir a s e g u ra n ç a p o r m e io d e o b je to s
c o n c re to s , a té e s ta r m o s e n te r r a d o s v iv o s so b n o s s a s p ilh a s d e b e n s o u q u in q u ilh a ria s ,
d e p e n d e n d o d a p e r s p e c tiv a . O s f ilh in h o s d e m a m ã e q u e se to r n a r a m a s s a s s in o s n a z is ta s
a c r e d ita v a m q u e p o d ia m c o n c r e tiz a r o id e a l d e N ie tz s c h e d o " s u p e r - h o m e m " , e
la n ç a r a m o p la n e ta to d o n u m i n f e r n o d e p a d e c im e n to s e d o r e s n e s s a te n ta tiv a . A
m a s c u lin id a d e n e g a tiv a é in c a p a z d e p e n s a r p o r m e io d e m e tá fo ra s . T u d o te m d e se r
c o n c r e to , a s e r v iç o d o q u e é te m p o r a l e m v e z d e a o q u e é e te rn o . N o v a m e n te e m e r g e u m
p a r a d o x o , q u e te n ta t o r n a r o te m p o r a l tã o p e rfe ito q u a n to o e te r n o q u e re je ita . O v íc io
d e p e r f e iç ã o é u m v íc io d e ir r e a lid a d e q u e d e ix a p o u c o e s p a ç o p a r a o fe m in in o .
E s s a é a c o ta d e m a c h e z a e m q u e a B r u n h ild e p r is io n e ir a d a M e d u s a e s tá
c o n tid a . A a u to r id a d e e m s u a v id a re s id e e m s u a M e d u s a /a m a n te d e m o n ía c o , e e s ta a
o b té m d o in c o n s c ie n te c o - le tiv o . S e u e s p írito f e m in in o e s tá e m s u a c a b e ç a , e n q u a n to
s e u c o r p o é a m a s c u lin id a d e n e g a tiv a in c o n s c ie n te s e p a r a n d o - a d e s u a s r a íz e s in s tin tiv a s
e to r n a n d o - a s u s c e tív e l a e n f e r m id a d e s ( p o r e x e m p lo , c â n c e r n o s ó r g ã o s g e n ita is ). A
c u r a d e s s a m u lh e r v ir á a o a s s u m ir a s r é d e a s d e se u e s p írito m a s c u lin o , d e m a n e ir a
c ria tiv a , d e c a p ita n d o a M e d u s a p a r a q u e a s s im s e ja lib e r a d a a s u a p r ó p r ia c ria tiv id a d e .
A e s p a d a d o d is c e r n im e n to é s u a a lia d a p rin c ip a l. N o m ito d a M e d u s a , o g ê m e o e s c u ro
n a s c id o c o m P é g a s o é C ris a o r, o p o r ta d o r d a E s p a d a d e O u ro . H a r o ld B a y le y ,
a m p lif ic a n d o o c o n c e ito d e e s p a d a e m T h e lo s t la n g u a g e o f s y m b o lis m , e s c r e v e :

A Grande Espada da Justiça tem sido, esporadicamente, reverenciada como o símbolo de Deus, e
Henley portanto a considera assim em sua famosa Song o f the sword [Canção da espada]:

lançada através do fátuo,


Lançada através da colônia de fungos,

Segui, ó, segui-me
Até os distantes lugares
Por toda a orbe cinza Goteje,
como a colméia
Pinga, com a doçura
Destilada de minha força.6

É is s o q u e fa z a e s p a d a n a s m ã o s d o a n im u s p o s itiv o : a r r e m e s s a - s e a tra v é s d o
c o r p o d e la e lh e p e r m ite v iv e n c ia r n o m a is ín tim o d e se u s e r s u a n a tu r e z a fe m in in a ,
ta n to s e x u a l c o m o e s p iritu a l. N o s s o n h o s d a s m u lh e r e s B r u n h ild e , h á a p r e s e n ç a d e
m u ita s c o b r a s e m á r v o r e s , d e s c e n d o p e lo tr o n c o , r u m o a o c h ã o , à te rra . E n q u a n t o e s tá
a c o r r e n ta d a , c a r r e g a a c r ia n ç a d iv in a e m s u a c a b e ç a . E s s a im a g e m le m b r a a n o ç ã o
m e d ie v a l d a V ir g e m s e n d o p e n e tr a d a p e lo E s p ír ito S a n to a tr a v é s d o o u v id o . S e a lg u m
d ia tiv e r c o n ta to c o m s u a M a d o n a N e g r a , a s u a s e rp e n te te r á d e d e s c e r a n te s q u e c o n s ig a
s u b ir. E la te m d e tr a z e r lu z a té s e u c o rp o c o n c r e tiz a d o e se d a r c o n ta d e q u e é u m a
ta r e f a d iá ria m a n tê - la ali. ( Is s o p o d e te r a lg o a v e r c o m o s tip o s p s ic o ló g ic o s . C la ro q u e
a s in tr o v e r tid a s in tu itiv a s tê m g r a n d e d ific u ld a d e d e p e r m a n e c e r n o c o n ta to c o m se u

6 Harold Bayley, The language o f symbolism, parte 2, pp. 74-5.


c o rp o , m a s e s s a d if ic u ld a d e n ã o é a b s o lu ta m e n te e x c lu s iv id a d e d e la s .) E n q u a n to a
m u lh e r n ã o e s tá e m s e u c o rp o , e s tá f o r a d e c o n ta to c o m s e u s .in s tin to s c tô n ic o s n a tu ra is ;
s u a a f e tiv id a d e é d e p e d ra .
A B r u n h ild e , a m u lh e r a n im a , v iv e u a té aí c o m o re a g e n te m a is d o q u e c o m o
in ic ia d o r a . P o r ta n to , q u a n d o a tr a n s f o r m a ç ã o c o m e ç a , e la n ã o te m d if ic u ld a d e c o m o
c o n c e ito d e E r o s c o m o d e u s m a s c u lin o . C o m o se u s a lv a d o r é a lig a ç ã o e n tre c o rp o e
e s p írito , o a m o r é in te ir a m e n te n u m in o s o . A m e d id a q u e a lu z se in f iltr a e m s e u c o rp o ,
e la se to r n a f le x ív e l; s e u e s p ír ito m a s c u lin o p e r m ite - lh e p e n e tr a r e s e r p e n e tr a d a se m
m e d o , u m a v e z q u e a c a p a c id a d e d e c o n s c ie n tiz a ç ã o s e n d o in tr o d u z id o e m se u c o rp o
n ã o e s tá c o n ta m in a d a p e lo p r in c íp io d e p o d e r d a m ã e n e g a tiv a . Q u a n d o e la d e s v in c u la
s e u p r ó p r io a n im u s p o s itiv o d o d o p a i, p o d e p e r m itir q u e e s s e e s p ír ito p e n e tr e a té a s
p r o f u n d e z a s d e s u a m a té r ia p a r a tr a n s f o r m á - la . E la to m a p o s s e d e se u c o r p o e d e s c a r ta a
b a r r e ir a e c to p lá s m ic a . S o m e n te q u a n d o se u a n im u s e s tá d e s ta c a d o d e s e u p a i é q u e u m a
B r u n h ild e p o d e a c e ita r o a r r e b a ta m e n to . E n tã o o in c e s to é re d im id o . E la e s tá a b e r ta p a r a
o m u n d o re a l. E m m in h a e x p e riê n c ia , é s e m p re a c a b e ç a d e u m a B r u n h ild e q u e é
a ta c a d a p e lo a m a n te d e m o n ía c o , m a s o in s tru m e n to q u e e le u tiliz a é p o te n c ia lm e n te
p o s itiv o . N o s o n h o d e A n d r e a ( v e r p. 1 96), o c o m p a s s o é o in s tru m e n to q u e , se fo r
u s a d o a d e q u a d a m e n te , e s b o ç a a m a n d a la , a im a g e m g e o m é tr ic a d e D e u s . V is to d e s s a
p e r s p e c tiv a , L ú c if e r se to r n a a e s tr e la d a m a n h ã , o P o r ta d o r d a L u z .
A m o ç a E r e s h k ig a l, p o r o u tro la d o , e s tá r e la c io n a d a c o m o in c o n s c ie n te c o le tiv o ,
c u jo r e p r e s e n ta n te é a G r a n d e M ã e . E la e n te n d e a s le is d a n a tu re z a , q u e n ã o sã o a s le is
d e E r o s m a s a s d a fe rtilid a d e . E la ta m b é m te m u m a s o m b ra p ro s titu ta , to d a v ia é c a p a z
d e se r e la c io n a r c o m e la , o q u e u m a B r u n h ild e n ã o c o n s e g u e . S u a m is s ã o ta m b é m é
r e d im ir a M ã e T e rrív e l, m a s n e la a e n e rg ia c tô n ic a se m o v im e n ta p a r a c im a p ro c e d e n te
d e b a ix o , e e la se r e la c io n a c o m o m a s c u lin o c o m o filh o , o q u a l, d a e le v a d a p o s iç ã o d e
o c u p a n te d o tr o n o (o n d e e la o c o lo c o u ), e s tá s u je ito a o s c a p r ic h o s d e la e f a r á q u a lq u e r
c o is a p a r a a p la c á - la . E la c o n té m o p rin c íp io m a s c u lin o e m s e u ú te r o e n ã o d e ix a r á q u e
e le a s s o m e à s u a c a b e ç a , n ã o p e r m itir á q u e s e ja e s p iritu a liz a d o . M ã e e f ilh o e s tã o n o
c o r p o n u m e s ta d o d e in c e s to n a tu ra l. E n q u a n to e la se id e n tif ic a r c o m a G ra n d e M ã e , n ã o
c o n s e g u e p e r m itir q u e e le n a s ç a , n e m , p a ra d o x a lm e n te , p e r m itir - s e se u p r ó p rio p a rto
v irg in a l.
P a r a a m o ç a E r e s h k ig a l, a s e x u a lid a d e fa z p a r te d a v id a , p a r te d a n a tu re z a . E la
n ã o p o d e s e r d e v a s ta d a p o r is s o . E la é is s o , u n a c o m a n a tu re z a . E la te m a f o r ç a b r u ta d a
n a tu r e z a , q u e p r o te g e d o r is c o d o a r r e b a ta m e n to : se f o r p e n e tra d a , s u a e x p e r iê n c ia s e rá
d e v a s ta d o r a p o r q u e e la e s tá s e p a r a d a d e s e u e m b a s a m e n to n o in c o n s c ie n te . E s s a m u lh e r
d e v e f a z e r o p e r c u r s o d e d e s c id a , a tra v e s s a n d o su a id e n tif ic a ç ã o in d if e r e n c ia d a c o m a
m a té r ia , reco n h ecen d o sua in d iv id u a lid a d e e se s e p a ra n d o . E la , e n tã o , p o d e rá
r e la c io n a r - s e com s u a n a tu r e z a c tô n ic a e s s e n c ia l. A s s im que a m ãe se re n d e à
p e n e tra ç ã o , a f ilh a n a s c e e a m ã e é re d im id a , m e d ia n te s u a r e la ç ã o c o m ela.
A m o ç a E r e s h k ig a l te m d ific u ld a d e e m c o m p re e n d e r q u e E r o s é u m d e u s
m a s c u lin o . C o n f o r m e v a i a m a d u r e c e n d o , se e s c o lh e r n ã o se to r n a r u m a M o lly B lo o m ,
c o n s tró i u m a p a r e d e a trá s d a q u a l se c o lo c a r, e m v e z d e s e rv ir p a ra m a n te r o m a s c u lin o
d e fo ra . O p r o p ó s ito é a in d a o m e s m o , c o n tu d o é se u m e d o d e n ã o s e r c a p a z d e c o n tr o la r
a f o r ç a b r u ta q u e e r g u e a p a re d e . E la a p re s e n ta c e rta in fle x ib ilid a d e p o rq u e a m ã e
e x is te n te e m s e u in te r io r n ã o s a b e c o m o se en tre g a r. E m s e u s s o n h o s , o s h o m e n s s u rg e m
a c o r r e n ta d o s , a p r is io n a d o s e m p o rõ e s , o u c o m o ô n ib u s lo ta d o d e d e fo rm a d o s . D e p o is
e le s a c a b a m c o n s e g u in d o a c o r r e n ta r a m u lh e r, p o is a d in â m ic a p o r tr á s d a s e x u a lid a d e é
o p o d e r. S e x u a lid a d e é p o d e r ; a m o r, n ã o . A m o ç a E r e s h k ig a l te m d e a p r e n d e r a a m a r a s
o u tra s m u lh e r e s e m v e z d e e n x e r g á - la s c o m o c o m p e tid o ra s . P a r a e la , a P o r ta d o r a d a L u z
é V ênus.
E s s a p s ic o lo g ia é m u ito d if e re n te d a d e u m a B ru n h ild e , q u e n ã o te m c o n ta to c o m
o p o d e r n a tu r a l e m e s ta d o b r u to e, p o rta n to , se m m o tiv o s p a r a e r g u e r p a re d e s . E la se
r e la c io n a p la to n ic a m e n te c o m o s h o m e n s e se p e r g u n ta p o r q u e e le s n ã o to m a m
in ic ia tiv a s s e x u a is a s e u r e s p e ito . E m s e u s s o n h o s , o s h o m e n s s ã o d e u se s o u d ia b o s e
to d o c o n ta to é fe ito p o r m e io d a c a b e ç a . A s s im q u e e la e n tra e m c o n ta to c o m su a fo rç a
b r u ta , p o d e f a z e r a t r a v e s s ia d e E r e s h k ig a l, e n tr e ta n to é m a is p r o v á v e l q u e a lig a ç ã o
c o m a s u a s e x u a lid a d e s e ja tê n u e a p o n to d e t e r d e c o n s c ie n te - m e n te d e d ic a r - s e a p r e s ta r
a te n ç ã o n is s o . S u a in c lin a ç ã o n a tu ra l é n o s e n tid o d e se u p r ó p rio tra b a lh o c ria tiv o , e e la
p r e c is a se d is c ip lin a r p a r a s u s te n ta r o e q u ilíb r io e n tre s u a m a s c u lin id a d e e s u a
fe m in ilid a d e . A m o ç a E r e s h k ig a l ta m b é m p r e c is a a p r e n d e r o e q u ilíb rio , m a s v in d o d a
d ir e ç ã o in v e rs a . E la te m d e r e iv in d ic a r s u a m a s c u lin id a d e c r ia tiv a p a r a p e r m itir q u e
V ê n u s , s u a f e m in ilid a d e c o n s c ie n te , r e d im a a M ã e T e rrív e l. E m a m b o s o s c a s o s , a
m u lh e r q u e v iv ê n c ia o a r r e b a ta m e n to n ã o p r e c is a m a is b u s c a r m ã e o u p a i, p o r q u e e le s
e s tã o s a c r a m e n ta lm e n te u n id o s n a u n iã o in te rio r, q u e é o s e lf.
S e ja q u a l f o r o c a m in h o q u e a m u lh e r to m e , a c o n s c iê n c ia f e m in in a e s tá se
f a z e n d o p e r c e p tív e l e m n o s s a c u ltu ra . A ín tim a c o n e x ã o e n tr e e s tu p r o e d e f lo r a ç ã o d e v e
e s ta r c la r a c o n f o r m e v a m o s p e r c o r r e n d o n o s s o s c a m in h o s p r ó p rio s r u m o à lib e rd a d e
in d iv id u a l. E m c e r ta s tr a d iç õ e s c ris tã s , s ã o tã o d e v a s ta d o r a s a s c o n s e q ü ê n c ia s d o p e c a d o
o r ig in a l q u e o s p r ó p r io s c r is tã o s e s tã o v ir tu a lm e n te p a r a lis a d o s p e lo q u e a c r e d ita m s e r o
m a l. P le n o s d e d e s e s p e r o , la n ç a m - s e à m is e r ic ó r d ia d iv in a n u m a p a té tic a r e a f ir m a ç ã o d e
s u a p r ó p r ia im p o tê n c ia . S e e s tu p r o é u m a b ru ta l in te r r u p ç ã o d e u m a c o n d iç ã o a n te rio r
d o se r, a r r e b a ta m e n to é a r e c u p e r a ç ã o d e ta l e s ta d o , n u m p a ta m a r d e c o n s c iê n c ia m a is
e le v a d o . S e m o e s tu p r o p s ic o ló g ic o , a h u m a n id a d e te r ia p e r m a n e c id o n u m a s itu a ç ã o d e
id e n tif ic a ç ã o in c o n s c ie n te c o m a G r a n d e M ã e , u n a c o m a n a tu re z a . A in d a e s ta ría m o s
c o lh e n d o f lo r e s c o m P e r s é f o n e , a b e n ç o a d a m a n te in c o n s c ie n te s . Q u a n d o e s s e e s ta d o d e
in c o n s c iê n c ia — a v id a n o m u n d o o c e â n ic o d o ú te ro — p e r m a n e c e o id e a l a o q u a l
a n s ia m o s r e to rn a r, a c o n e x ã o ín tim a e n tre e s tu p ro e d e f lo r a ç ã o n ã o a c o n te c e . O s
n e u r ó tic o s a n s e ia m p o r r e to r n a r a u m a v is ã o in c o n s c ie n te d e u m a A tlâ n tid a a fu n d a d a .
E s s a p o d e r o s a a tr a ç ã o r e g r e s s iv a f ru s tra in c o n s c ie n te m e n te s e u s e s fo rç o s d e d e s p e rta r.
E le s n ã o q u e r e m e n tr a r n o m u n d o : q u e re m r e g r e s s a r a o ú te ro . S ã o tra u m a tiz a d o s p e lo
e s tu p r o p o r q u e n ã o c o n s e g u e m e n c o n tr a r a lig a ç ã o e n tre e le e a d e flo ra ç ã o .
O e s tu p r o d e s tró i u m a in o c ê n c ia in fe rio r; a d e f lo r a ç ã o r e c u p e r a a c o n d iç ã o d e
u m a in o c ê n c ia s u p e rio r. A d if e r e n ç a e n tre in f e r io r e s u p e r io r é a c o n s c iê n c ia e a
s a b e d o r ia p e c u lia r à c o n s c iê n c ia q u a n d o e s ta e s tá a s s e n ta d a n a in o c ê n c ia . E s tu p r o e
d e flo ra ç ã o , e m ú ltim a a n á lis e , p o d e m s e r v is to s c o m o o m e s m o e v e n to s e p a ra d o p e lo
te m p o , e s p e r a n d o p a r a s e r e m r e u n id o s n o c a m p o d a c o n s c iê n c ia , q u a n d o f o r m o s
c a p a z e s d e e n x e r g a r a p a r tir d o m u n d o a te m p o ra l d o E U S O U . A in o c ê n c ia s u p e r io r e s tá
s e n d o a r m a d a n u m m u n d o q u e , a n te s, tin h a o p o d e r d e n o s d e stru ir. A v irg e m a rm a d a é
d if e r e n te d a in c o n s c ie n te . A r m a d a e m si m e s m a , a v irg e m p o d e f a z e r s u a s e s c o lh a s
p e s s o a is ; e la p o d e s e r q u e m é p o r q u e é is s o o q u e é, p r o n ta p a r a o a rre b a ta m e n to .
E n q u a n to o m u n d o e x te rn o f o r a lh e io a o n o s s o m u n d o in te rn o , n ã o p o d e r e m o s
c o n f ia r n a v id a . T e m e m o s q u a lq u e r c o is a q u e in v a d a n o s s o p e q u e n o e s p a ç o , q u e r
p r o c e d a d a G r a n d e M ã e , q u e r d o G r a n d e P a i. A r r e b a ta d a p o ré m u m a v e z , d u a s v e z e s
c a s ta ; o s m u n d o s s u b je tiv o e o b je tiv o se to r n a m u m só e p o d e m o s a p r e n d e r a c o n fia r. O
c o n f r o n to n o s f o r ç a a to m a r c o n s c iê n c ia . A in d a s o m o s v u ln e rá v e is , m a s c o m o te m o s o
c a m p o d a c o n s c iê n c ia a o q u a l r e c o r r e r n ã o c a ím o s n a a rm a d ilh a . A a r m a d u r a é a
c o n s c iê n c ia ; n ã o s o m o s m a is v ítim a s d e r e a ç õ e s in c o n s c ie n te s c e g a s . A p e s s o a q u e v e m
a m im , p r o v e n ie n te d o m u n d o e x te rn o , é a m e s m a q u e e n c o n tre i d e n tro . S e a c o n te c e d e
e s s a p e s s o a s e r u m a m a n te d e m o n ía c o , e u o c o n h e ç o d e s d e d e n tro d e m im . E le n ã o é
m a is u m s e r m á g ic o . A f a n ta s ia se to r n a re a lid a d e . E le é u m h o m e m , p a r a s e r a in d a m a is
a m a d o e m s u a h u m a n a im p e r f e iç ã o e in d iv id u a lid a d e .
A v ir g e m p r e c is a d e u m n o iv o m a s c u lin o , q u er re a l q u e r e s p ir itu a l, p a r a
c o m p le tá - la . T rê s d if e r e n te s g r a u s d e a r r e b a ta m e n to sã o b a s ta n te d is c e r n ív e is n o s
e x c e r to s a s e g u ir. O p r im e ir o p e r te n c e à s e n te n ç a d e 4 6 p á g in a s d e M o lly B r o w n , d e p o is
d o p r o c e s s o d e ju lg a m e n to d e s u a g ló r ia c o m o M ã e T e rra . O s e g u n d o p e rte n c e a u m a
m e d ita ç ã o d e S a n ta T e r e s a d e Á v ila (1 5 1 5 - 1 5 8 2 ) e é u m e x e m p lo d e s u je iç ã o e s p iritu a l
a o p o d e r tra n s p e s s o a l. O te r c e ir o é d o d iá rio d e u m a m u lh e r q u e e s ta v a c o m e ç a n d o a
in te g r a r s u a s e x u a lid a d e e e s p ir itu a lid a d e , e se p e r c e b e n d o c o m o u m a m u lh e r h u m a n a
tr a n s f ig u r a d a p e lo a m o r. O a r r e b a ta m e n to r e q u e r s a c rifíc io , o s a c r if íc io c o n s c ie n te d a s
e x ig ê n c ia s d o e g o (o p o d e r in c o n s c ie n te ), e s ta r is e n ta d e d e s e jo s e g ó ic o s , se r
e s p ir itu a lm e n te c a s ta . S a c r if ic a r a s c o b ra n ç a s d o e g o é d iz e r S IM à v id a . I s s o é o
a rre b a ta m e n to !

Estava com aquela blusa branca, aberta na frente, para encorajá-lo tanto quanto eu pudesse mas
não de m aneira escancarada, e eles estavam começando a intumescer eu disse que estava cansada e nos
deitamos na vala da figueira, num lugar selvagem que penso tenha sido o mais alto penedo a existir... a
gente pode fazer o que quiser lá no alto, por muito tempo ele os acariciou por fora, eles adoram fazer isso
é, o redondo e ali eu estava deitada em cima dele com meu chapéu branco de palha de arroz para tirar o
frescor dele, o lado esquerdo do meu rosto, o melhor minha blusa aberta para o último dia dele, a camisa
meio transparente que ele usava me perm itia ver o seu peito rosado, ele queria tocar o meu com o dele por
um momento, mas eu não deixei, ele ficou tremendamente desconcertado, mais por medo de nunca
conhecer a consumação ou me deixar prenha de um filho.7
Vi em sua mão uma grande lança de ouro, e na ponta de ferro parecia existir um pequeno fogo.
Ele me apareceu arrojando-a contra meu coração algumas vezes, perfurando minhas entranhas; quando a
empunhava parecia também estar arrancando-as de dentro de mim e isso me deixava em brasas ardendo
de amor por Deus. A dor era muito grande e me fazia gemer; no entanto, tão superior era a doçura dessa
dor excessiva que eu não conseguia desejar livrar-me dela. A alma agora não se satisfaz com nada menos
que Deus. A dor não é corporal, mas espiritual; embora o corpo tenha sua vez nisso, e até uma grande
parte mesmo. É uma carícia de amor tão doce que agora acontece entre a alma e Deus que eu oro ao Deus
da Bondade para que ele faça passar pelo que estou passando quem pensa que eu estou mentindo.8 (Ver p.
253)
Você é a sinapse que me faz sorrir o sorriso que nunca tive antes de você, aquele sorriso quente e
com cheiro de Sol que canta eu sou e você é e o mundo é. Seus dedos deixam minha carne em brasas na
noite, e sim ela arde, ela arde o dia inteiro pelos longos corredores de meus ossos... Sou levada pela onda,
pela grande onda que se avoluma enquanto rola, o novo Sim ao seu Seja tão livre de cobranças. Estou
desatomizada. Sou Amor. Sou Luz. Sim, eu digo sim e sou transportada até o alto até a Luz. Sou uma
extensão da vagina até o topo da cabeça... Sua semente viva canta dentro de mim. Seu coração pulsa seu
silencioso mistério perto do meu, e nós somos a tradução de todos os sons que os espaços interestelares já
entoaram.

P o s to q u e r e c o n h e ç a m o s o p o d e r tra n s p e s s o a l d e D e u s e d a D e u s a , b e m c o m o
q u e e s s e p o d e r v e m p o r m e io d e n ó s , e s ta m o s a sa lv o d e c a ir n a p r o je ç ã o fa ta l d e
im a g in a r q u e é n o s s o o p o d e r d e le s. A m e n o s q u e h a ja u m g e n u ín o d a r e r e c e b e r n o se
re u n ir, o p o d e r d e le s n ã o é lib e ra d o . E x is te u m a e x p lo s ã o , m a s n a d a s ig n ific a tiv o
a c o n te c e u . O h o m e m v o lta p a r a a s u a a n im a e a m u lh e r, d a m e s m a fo rm a , p a r a o se u
a n im u s . A c o n iu n c tio g e n u ín a é u m v is lu m b r e d o p ro f u n d o m is té rio d a v id a e sp iritu a l.
U m a m o ç a , d e p o is d e v á r io s a n o s d e a n á lis e , c o m e ç o u a s e n tir m u d a n ç a s
p r o f u n d a s e m s u a a titu d e d ia n te d e s u a s e x u a lid a d e :

7 James Joyce, Ulysses, p. 774.


8 "Transverberation of the heart of Saint Teresa", in Three mystics. Padre Bruno de J.M. (ed.), p. 78.
O êxtase de Santa Teresa. Bernini. (S. Maria della Vittoria, Roma) (ver p. 251)

Esse é o começo. Estou numa fase de celibato natural. Relaciono-me comigo. Vejo meu
namorado; sua puerilidade não me atrai mais. Como uma mulher se relaciona com um menino? Tenho de
admitir que estou com medo de abdicar da numinosidade do meu poder da maternidade. Como me
relacionar com um homem? Ainda agora eu às vezes quero um homem inconsciente que ceda a mim.
Nossa ligação era magicamente incestuosa. Sinto-me nostálgica porque terminou. Não sei como me
m anter nessa numinosidade num a condição consciente.
Cheguei à constatação de minha solidão. Como me vincular com outro indivíduo? Minha
sexualidade mudou. Ela vai mais além do tesão, de qualquer superficialidade. O desejo vem do mais
fundo em mim. Conheci o que é o fazer amor: entregar-se espiritualmente ao que acontece entre nós — a
entrega ao corpo, ao processo. E completamente o espaço eu-sou, nós-somos. Esse anseio é inteiramente
primordial; é como retornar à origem das coisas, num nível consciente. O crescimento só pode acontecer
com um homem consciente, ou talvez com um homem genuinamente espiritual, porque eles têm yang, o
yang que pode dar à mulher o melhor alimento para o seu yin. Isso traz equilíbrio, gera uma totalidade
plena, a interação entre yang e yin. Se eu não puder ter isso, prefiro não fazer sexo de jeito nenhum. Tudo
o mais é como fazer sexo com um cadáver. No verdadeiro amor você sente o sangue, os ossos, o coração
batendo. Assim que conheceu isso, você não quer nada menos. Aceitar menos que isso é se trair.
Fazer um esforço nesse sentido não adianta nada. Tentei desenvolver a minha sexualidade com
um bom controle muscular, mas não funcionou. Os homens tem medo da esquartejadora. Naturalmente!
As mulheres incorporaram a competitividade dos homens sem reconhecer que competir aumenta ainda
mais o distanciamento. A mulher tem de afundar em seu próprio Ser. Como ela o tempo todo está dando,
está recebendo, e o homem deve também receber e, recebendo, está dando porque está deixando fluir. Os
dois são o continente, os dois, o conteúdo. A cabeça do pênis flutua na vagina ao seu ritmo próprio. O
corpo está entregue. O cérvix flutua em seu ritmo primordial como o oceano. Eu sou o que sou. É uma
meditação. E o espaço do grande batimento primordial.
H á m u ita s m u lh e r e s e m a n á lis e q u e te m e m o p e río d o d o " c e lib a to n a tu ra l" .
R e c e ia m p e r d e r s u a s e x u a lid a d e . N ã o é u m p e r ío d o d e frie z a , n e m d e p o d e r e m q u e a
m u lh e r se r e c u s a a o s e u p a r c e ir o . P e lo c o n trá rio , é u m p e r ío d o d e p u r if ic a ç ã o e m q u e o s
v e l h o s h áb ito s d o r e la c io n a m e n to sã o p u rg a d o s . É u m p e r ío d o e m q u e a m u lh e r e s tá
d e s c o b r in d o n o v a s r a íz e s p a r a o r e la c io n a m e n to d e n tro d a s e g u ra n ç a d e s e u s p r ó p rio s
a lic e r c e s f e m in in o s . S e a m o r a lid a d e d o c o r p o e x ig e u m a c e s s a ç ã o te m p o r á r ia d a
a tiv id a d e s e x u a l, n ã o é e s s e u m p e r ío d o p a r a s e r te m id o . É u m a fa se ; u m re la c io n a m e n to
m a is p le n o v ir á e m s e g u id a .
A m a s c u lin id a d e e a f e m in ilid a d e p re d o m in a m a té q u e c h e g u e m a o p la n o d a
c o n s c ie n tiz a ç ã o . A f e m in ilid a d e in c o n s c ie n te é u m p r in c íp io d o p o d e r q u e é
t r a n s f o r m a d o p e lo v e r d a d e ir o e s p ír ito m a s c u lin o e m p a s s iv id a d e c o n s c ie n te , e m a ç ã o
r e c e b e n d o a ç ã o . S e a m u lh e r e s p e r a , p á r a d e te n ta r , e e m r e s p o s ta a o m a s c u lin o p e r m ite
q u e a e n e r g ia f e m in in a e n tre ; e n tã o o m is té r io a c o n te c e p a r a ela. A s s im , te n d o
e x p e r im e n ta d o a m a s c u lin id a d e , e la a r e d ir e c io n a p a r a a a ç ã o . O a to s e x u a l é c o m o u m a
c o n v e rs a . O f e m in in o e s c u ta e r e s p o n d e ; o m a s c u lin o tr a d u z o q u e é o u v id o . E s s e é u m
p r o c e s s o q u e r e q u e r p le n o r e c o n h e c im e n to d e u m p e lo o u tro . Q u a n d o o m a s c u lin o
p e n e tr a e c o n h e c e o q u e e s tá p e n e tr a n d o , e o f e m in in o r e c e b e e s a b e o q u e e s tá
r e c e b e n d o , e n tã o y in e y a n g e s tã o f u n c io n a n d o e m a m b o s o s p a rc e iro s . É a s s im q u e o
ta o se m a n if e s ta n o s r e la c io n a m e n to s .
A c o n s c iê n c ia , p o r e s s e p ris m a , é E ro s . Q u a n to m a io r a c a p a c id a d e d e r e c e b e r e
d a r, m a io r a c o n s c iê n c ia d a e s s ê n c ia d e tu d o . E s s a in te r a ç ã o é c ria tiv id a d e ; n o m o m e n to
e s ta m o s c o n s ta n te m e n te c ria n d o . E u , e m m e u S er, d o u u m b o lin h o , o u u m a la r a n ja o u
u m a m a r g a r id a , d o u a v o c ê e m s e u S e r a lg u m a c o isa . A lg o a c o n te c e u e n tre n ó s.
E s s e n c ia lm e n te , e s s a é a m e n s a g e m d e C ris to , a m e n s a g e m q u e n ã o p o d e m o s
o u v ir e n q u a n to s o m o s m a n tid o s f o ra d e c u rs o p e lo s d o g m a s in d ig e s to s . E s q u e c e m o - n o s
d e q u e C r is to fo i c r u c if ic a d o p o r q u e e le o s te n s iv a m e n te d e s r e s p e ito u a s le is e s tip u la d a s
p o r Y a h w e h , o s D e z M a n d a m e n to s e n ta lh a d o s e m p e d ra . M a s o p r ó p r io C r is to d isse :
" N ã o v im p a r a d e s tru ir, m a s p a r a c u m p r ir " .9 P a r a ele, c u m p r ir s ig n ific a v a q u e b r a r a
p e d r a e tr a n s c e n d ê - l a p o r m e io d o e s p írito . Q u a n d o e le se d e s c o b r iu n u m a p o s iç ã o e m
q u e te v e d e e s c o lh e r e n tr e o b e d e c e r à le i a o p é d a le tr a e r e c o n h e c e r u m a a lm a
in d iv id u a l, e le a g iu n o e s p írito . Q u a n d o , p o r e x e m p lo , e le se a p r o x im o u d a m u lh e r
f la g r a d a e m a d u lté rio , e m v e z d e a p o ia r o s c id a d ã o s o b e d ie n te s à lei q u e e s ta v a m
p r e s te s a a p e d r e já - la a té a m o rte , e le d isse: " A tire a p r im e ir a p e d ra a q u e le d e v o c ê s q u e
n ã o tiv e r n e n h u m p e c a d o " .10 N a q u e le m o m e n to e le v iv e u , r e c o n h e c e n d o a e s s ê n c ia d o s
q u e e s ta v a m à s u a v o lta . E s s e é o la d o fe m in in o d o C ris to , q u e a g o ra se im p õ e à n o s s a
c u ltu r a e r o m p e c o m o s v e lh o s c ó d ig o s ríg id o s.
P e la p r im e ir a v e z n a H is tó ria , o s h o m e n s e a s m u lh e re s e s tã o in v e s tig a n d o
s e r ia m e n te a s p o s s ib ilid a d e s d e r e la c io n a m e n to , b a s e a n d o - s e n a s e p a r a ç ã o e m v e z d e n a
u n iã o . E m v e z d o a p e g o a Y a h w e h , a u m r íg id o c o n ju n to d e le is e s ta b e le c id a s p o r u m
D e u s - P a i e n c iu m a d o q u e te m a c e s s o s d e fú r ia q u a n d o é d e s o b e d e c id o , a s p e s s o a s e s tã o
s im p le s m e n te ig n o r a n d o e s s e s a c e s s o s , a f a s ta n d o - s e e te n ta n d o d e p o s ita r s u a c o n f ia n ç a
n o n ã o - r a c io n a l. E m o u tr a s p a la v r a s , e s tã o te n ta n d o v iv e r d e a c o rd o c o m o e s p írito . A o
r e c o n h e c e r e m a s v id a s in d iv id u a is , sã o c o m p e lid a s a le v a r e m c o n s id e r a ç ã o a
im p e r f e iç ã o h u m a n a . O s q u e r o m p e r a m c o m o s c ó d ig o s r íg id o s tiv e r a m d e e n c a r a r se u
p r ó p r io c o la p s o in te rio r. C o m o e g o fo rta le c id o e n c o n tra m u m a n o v a v id a m e d ia n te o s
re la c io n a m e n to s . E n q u a n t o u m n ã o f ic a r g r u d a d o n o o u tro , n e m te n ta r p o s s u í- lo , o a m o r
m ú tu o é o e lo d e lig a ç ã o e s ã o lib e r a d a s n o v a s d im e n s õ e s p r o f u n d a s d a p e r s o n a lid a d e . 0

9 Mateus 5:17
10 João 8:7.
q u e e m e r g e g ra d u a lm e n te é u m a m o ra lid a d e in d iv id u a l e m q u e as le is in te rio re s sã o
a b s o lu ta s .
S e, p o r e x e m p lo , u m a m u lh e r e s tá g e n u in a m e n te e m se u c o rp o , d e ta l s o rte q u e
e s p ír ito e m a té r ia s ã o u m só, n ã o c o n s e g u e s e p a ra r s u a s e x u a lid a d e d e se u a m o r. A
u n iã o s e x u a l c o m u m h o m e m q u e e la n ã o a m a é a u to tr a iç ã o e, p o rta n to , e s tu p ro . A s
p e s s o a s q u e se to r n a r a m c o n s c ie n te s d e c e rta s le is e m se u ín tim o , le is a r e s p e ito d e
a lim e n to s , á lc o o l, ta b a c o e tc , le is q u e se to r n a m m a is r e f in a d a s q u a n to m a is se
d e s e n v o lv e a c o n s c iê n c ia , d e s c o b r e m q u e in s is tir n o s v e lh o s m o d o s c a u s a e n fe rm id a d e s
f ís ic a s q u e e s p e lh a m o p r o b le m a p s ic o ló g ic o . E s s e r e la c io n a m e n to c o r p o /e s p ír ito é
o u tr o e x e m p lo d a e s p a d a s e r v in d o à f e r id a c o m p re c is ã o . E m g e ra l, a s a b e d o ria d o c o rp o
c la r if ic a o d e s e s p e r o d o e s p írito . Q u e b r a r a p e d r a n ã o n o s d á lic e n ç a p a r a f a z e r m o s a s
c o is a s a o n o s s o g o s to . A o c o n trá rio , a b r e - n o s p a ra n o s s a s p ró p ria s le is in te rn a s e p a r a o
c u m p r im e n to d o n o s s o p r ó p r io d e s tin o .
V iv e r n o e s p írito , v iv e r n o A g o ra , e x ig e a a c e ita ç ã o d o p r in c íp io f e m in in o d a
m o r te e r e s s u r r e iç ã o . N o m ito c r is tã o , a m a té r ia m o rre , c r u c if ic a d a p e la lite r a lid a d e d a
le i, m a s d e p o is d e tr ê s d ia s a p a r e c e d e n o v o , tr a n s f o r m a d a e m e s p írito . A s u b le v a ç ã o d e
n o s s a c u ltu r a p o d e s e r v is ta c o m o o a p a r e c im e n to d o e s p írito . E m b o r a im p e r f e ito e
c a ó tic o , p o d e le v a r a o f e m in in o , a o la d o ir r a c io n a l d e D e u s . P a r a a q u e le s d e nós e m
tr a n s iç ã o , o c a o s p a r e c e a d e s c id a d e tr ê s d ia s a o In fe rn o . T e n d o s a c rific a d o n o s s a s
v e lh a s a titu d e s e e s tr u tu r a s tr a d ic io n a is , n ã o e s ta m o s e m a b s o lu to s e g u r o s d e q u e
Y a h w e h n ã o n o s ir á d e s tru ir. S e g u im o s tr o p e ç a n d o e in d o e m fre n te , a n d a n d o o m a is
o r g u lh o s a m e n te q u e o u s a rm o s , c o n fia n d o n o a m o r d o s o u tro s q u e p e rc o rre m se u s
c a m in h o s p a r a le lo s , r e u n in d o a m e s m a e s p é c ie d e c o ra g e m , c o n f ia n d o q u e e x is te u m
s e n tid o n o irra c io n a l. O q u e e s ta m o s e n c o n tra n d o n ã o é u m d e u s m o rto , m a s a d iv in a
c r ia n ç a n a s c id a d a p r o s titu ta v irg e m .
S e n o s p e r m itir m o s r e c e b e r , s e r a r r e b a ta d o s p e lo ir r a c io n a l, s o m o s c o m p e lid o s a
e n c a ra r nosso p r ó p r io m a l. A c o n f ia n ç a assum e um a nova d im e n s ã o , p o is ao
c o n h e c e r m o s a n o s s a p r ó p r ia e s c u r id ã o s a b e m o s c o m b a s ta n te c la r e z a o q u e a d o o u tro é
c a p a z d e d e s p e rta r. A p r e n d e m o s a p e r d o a r e a a m a r o n o s s o " to rp e s e m e lh a n te " c o m o
n o s s o p r ó p r io " to rp e c o r a ç ã o " .11 E s s a é a te r r a d e D e u s . N e la , n ã o s a b e m o s d e u m
m o m e n to p a r a o u tr o o q u e p o d e a c o n te c e r a s e g u ir. C a d a n o v a s itu a ç ã o é r e p le ta d e
n o v a s e n e rg ia s , d e n o v a s e x ig ê n c ia s . A e n e r g ia v iv a e s tá in te r a g in d o c o m a e n e rg ia
v iv a , e a tr a n s f o r m a ç ã o a c o n te c e p o r q u e n o s r e c o n h e c e m o s u m a o o u tro . N e s s e
r e c o n h e c im e n to e s tá o a m o r q u e le v a to d o s n ó s à n o s s a m a is p le n a e s ta tu ra . V e m o s c o m
n o v o s o lh o s . O lh a m o s p a r a a f a c e a m a d a , e n x e rg a m o s n o v a s lin h a s , n o v a s s o m b ra s n o
o lh a r. A m a m o s e e s s e a m o r e s tá c o n o s c o n o ra m o d e flo re s q u e a rra n ja m o s , n a o m e le te
q u e f r ita m o s , n o s n o v o s p r o je to s q u e e s ta m o s e la b o ra n d o . A s e x u a lid a d e n ã o se lim ita
m a is a o s g e n ita is , mas se t o r n a a n o s s a r e s p o s ta to ta l p a r a o m u n d o in te iro . O a m o r
e n g e n d r a a a lm a .
E n q u a n to e s tiv e r m o s c o n c r e tiz a n d o , o a m o r e s tá p e rd id o . E s ta m o s te n ta n d o
f a z e r c o m q u e a c o n te ç a u m a c o is a a q u a l s a tis f a ç a d e s e jo s p a r tic u la r e s d e n o s s o p r ó p r io
e g o . S e , p o r e x e m p lo , c o n v id o v o c ê p a r a v ir à m in h a c a s a p a r a ja n ta r , e s p e ra n d o
im p r e s s io n á - lo c o m m in h a m o b ília C h ip p e n d a le , m e u s u c u le n to fra n g o à K ie v , m e u
j a r d im p e rfe ito , e n tã o e s to u c o n c re tiz a n d o o m e u s e lf. M e u id e a l d e p e rfe iç ã o e s tá
p ro je ta d o ; n a r e a lid a d e , id e n t i f i c o - m e c o m D e u s q u a n d o a c re d ito q u e e s to u n o c o n tro le 1

11 W. H. Auden "Birthday põem", da última stanza:


Ó fica, fica à janela
Enquanto as lágrimas queimam e caem;
Tu amarás teu torpe semelhante
Com teu torpe coração.
d e m e u p e q u e n o r e in a d o . S e, p o r o u tro la d o , e s to u e m p r ó p r io S er, e n tã o c o n v id o v o c ê
p a r a v i r à m in h a c a s a p o r q u e o a m o e e s c o lh o p a r tilh a r e s s e s lin d o s o b je to s q u e a m o
c o m v o c ê . E le s s ã o u m a m a n if e s ta ç ã o d e m in h a R e a lid a d e in te rio r, m a s a m in h a
R e a lid a d e n ã o e s tá p r o je ta d a n e le s. Q uando o ego é c o n s c ie n te o b a s ta n te p a ra
r e c o n h e c e r o s e l f — o r e in a d o d e D e u s n o ín tim o — , n ã o p r o je ta a p e r f e iç ã o n o m u n d o
e x te rn o . E o d e u s m o r to q u e é p r o je ta d o n a p e r f e iç ã o c o n c re tiz a d a ; o e g o , p r e s o n u m a
a m p lif ic a ç ã o m a c iç a , e s tá n e g a n d o a R e a lid a d e in te rio r. O s a c o n te c im e n to s n ã o p o d e m
o c o rre r. E n q u a n to e s tiv e r m o s p r o je ta n d o n o m u n d o c o le tiv o — n a s in s titu iç õ e s o u n a
m íd ia , o u n a s o c ie d a d e — u m a a u to rid a d e q u e n ã o lh e p e r te n c e p o r d ire ito , e s ta m o - n o s
p e r m itin d o s e r c o n ta m in a d o s p o r e le m e n to s e s tra n h o s . S e c o n s e n tim o s q u e o s e l f c h e g u e
à c o n s c iê n c ia , a a u to r id a d e é in te rn a . O s a c o n te c im e n to s o c o rre m . C r ia m o s e s p a ç o ,
d e s tr a n c a m o s a p o rta , e s p e r a m o s . E n tr e g a m o - n o s a o a rre b a ta m e n to .
S e r fie l à a lm a é v a lo r iz á - la , e x p r e s s á - la d a m a n e ir a m a is p e c u lia r p o s s ív e l. E
a m a r d e s d e d e n tro , e m v e z d e a c e ita r u m p a d r ã o d e f o r a q u e n ã o le v a e m c o n s id e r a ç ã o a
n o s s a e s s ê n c ia . E s f o r ç a r m o - n o s p o r p e r f e iç ã o é m a ta r o a m o r, p o r q u e a p e rfe iç ã o n ã o
r e c o n h e c e a h u m a n id a d e . P o r m a is c o m p e lid o q u e v e n h a a e sta r, o e g o n ã o c o n s e g u e
a tin g ir s e u s id e a is p e r f e c c io n is ta s p o is o u tr a R e a lid a d e e x is te n o ín tim o . T a m p o u c o e le
c o n s e g u e c u m p r ir a ta r e f a d e a m a r. S o m e n te a o n o s a b r ir à R e a lid a d e in te r io r é q u e n o s
a b r im o s à p o s s ib ilid a d e d a d á d iv a d o a m o r. E s tã o im p líc ita s n e s s e p r o c e s s o a a ç ã o e
u m a e s c o lh a d o e g o : p o d e m o s a c e ita r; p o d e m o s re je ita r; p o d e m o - n o s r e tir a r a q u a lq u e r
m o m e n to . M a s n ã o p o d e m o s f a z e r c o m q u e a c o n te ç a . O a m o r é q u e n o s e s c o lh e .
O f e m in in o v e r d a d e ir o é r e c e p tá c u lo d o A m o r. O m a s c u lin o v e r d a d e ir o é o
e s p ír ito q u e p e n e tr a n o e te r n o d e s c o n h e c id o e m b u s c a d e s ig n ific a d o . O g ra n d e
c o n tin e n te , o s e lf, é p a r a d o x a lm e n te ta n to m a s c u lin o c o m o f e m in in o e c o n té m a m b a s a s
p o la rid a d e s . S e e s ta s fo r e m p r o je ta d a s n o m u n d o e x te rn o , a tra n s c e n d ê n c ia d e ix a d e
e x is tir. O s e l f — a to ta lid a d e in te r io r — se p e trific a . S e m o v e r d a d e ir o e s p írito
m a s c u lin o , e s e m o v e r d a d e ir o a m o r fe m in in o in te rio r, n ã o e x is te v id a n o ín tim o d a
p e s s o a . S e te n ta m o s f a z e r a p e r f e iç ã o n o p la n o e x te rio r, p ro c u r a n d o c o n c r e tiz a r n o s s o
id e a l in c o n s c ie n te in te rn o , m a ta m o s a n o s s a im a g in a ç ã o . R e s ta - n o s r e te r a v id a d e n tro
d e n o s s o s m o ld e s ríg id o s . S e rm o s liv re s é r o m p e r c o m a s im a g e n s e m p e d r a e d e ix a r
q u e a v id a e o a m o r flu a m .
A m u lh e r p o s s u íd a p e la M e d u s a /a m a n te d e m o n ía c o é u m a A n d r ô m e d a a in d a
a c o r r e n ta d a à ro c h a . E la n ã o v e io à lu z n o te m p o e, p o r ta n to , n ã o p e r c e b e q u e e s tá v iv a .
S u a a u to rid a d e c o n s is te n o q u e "te m de" o u "d e v e " fa z e r n o fu tu ro , o u n o "se p e lo m e ­
n o s ..." d o p a s s a d o . S u a a u to r id a d e p e la v id a a s s u m e a f o r m a d e u m p e d r a ríg id a , e m v e z
d a d e u m a p e d r a v iv a d o r e la c io n a m e n to p e s s o a l n o p re s e n te . P a r a e la , a p e d r a d o
c r is tia n is m o se t o r n a a p e d r a d o s e p u lc ro , a p e d r a m o r ta d a lei e m lu g a r d a p e d r a v iv a d o
e sp írito . Á v id a e s tá a d ia n te o u a trá s , j a m a is a q u i. O q u e e la n ã o c o n s e g u e e n te n d e r é o
p a ra d o x o : e s ta r n o te m p o é e s ta r n o e te rn o . S e e la c o n s e g u ir e n tr a r e m c o n ta to c o m se u
a n im u s h e r ó ic o , e la o p e r c e b e r á e m b u s c a — n ã o d a p e r fe iç ã o d o m u n d o d o a lé m , n e m
d o n o s tá lg ic o P a r a ís o d o s te m p o s p e r d id o s — d a e te rn id a d e n o p re s e n te . E le v iv e n o
A g o r a e te rn o . E le a m a a v ir g e m e te rn a .
A im a g e m d e J a n o e s u a s d u a s fa c e s a m p lif ic a e s s e p a r a d o x o d a e te rn id a d e
d e n tr o d o te m p o . O n o s s o m ê s d e j a n e i r o te m e s s e n o m e e m h o n r a d e J a n o . U m a fa c e
o lh a p a r a o p a s s a d o e a o u tra , p a r a o fu tu ro . I d e n tif ic a r -s e c o m u m r o s to o u o u tro é fic a r
p r e s o n a p e d ra , v ítim a d e le is e a u to rid a d e s fix a s. U m a m u lh e r a p ris io n a d a n a s a titu d e s
p é tr e a s d e u m a o u o u tra d a s fa c e s d e J a n o d irá c o m S h e lle y : " O lh a m o s o a n te s e o
d e p o is. E n o s la m e n ta m o s p e lo q u e n ã o é " . 12 O "n ão " q u e a fa z la m e n ta r é o q u e C a rlo s

12 Percy Byshe Shelley, "To a skylark", linhas 85-6.


C a s ta n e d a c h a m a d e "o c a m in h o d o c o r a ç ã o " .13 S o m e n te d e p o is q u e a s im a g e n s e m
p e d r a f o r e m d e s tr u íd a s é q u e e la n a s c e rá p a r a a s u a c a p a c id a d e d e a m a r, n o A g o r a
e te rn o . O c a m in h o e x is te n te n o c e n tro d a c a b e ç a d e J a n o é o p r e s e n te e m p e r p é tu a
re n o v a ç ã o . E s s a é a e te r n id a d e à q u a l B u d a se r e fe re q u a n d o d iz: " P o d e e x is tir o u n ã o .
M a s é m e lh o r a b u s c a d o q u e m o n o to n a m e n te c o n c o rd a r c o m a n e c e s s id a d e " .
N e c e s s id a d e , o b rig a ç ã o , d e v e r — o s p a d rõ e s d o p a s s a d o o u o su p o s to fu tu ro — sã o a
m o r te p a r a o e s p ír ito h u m a n o . P a r a s e rm o s v ir g e n s te m o s d e s e r a r r e b a ta d a s p e la
E te r n id a d e , d e s p id a s d a s d u a s fa c e s d e Ja n o .
E n q u a n to a m u lh e r e s tiv e r p r e s a n a ro c h a , n ã o e s tá e m c o n ta to c o m se u p ró p rio
S er. E la é a v ítim a d o s d e u s e s — o s d e u s e s d a ira , d a fo m e e d a in v e ja , d e u m la d o , e os
d e u s e s d a p e r f e iç ã o , d o o u tro . V iv e e s p e ra n d o o e s p e ra d o , te n ta n d o c r ia r o m u n d o a o
s e u m o d o . S e e la r e c e b e r o q u e q u e r, f ic a fe liz ; se n ã o , é in fe liz . É u m jo g u e te d o s
d e u s e s , ilu d in d o - s e a o a c r e d ita r q u e e s tá c ria n d o se u p r ó p r io m u n d o . E , se f o r
d e s a f o r tu n a d a o s u f ic ie n te p a ra o b te r a f a ls a d iv in d a d e da r e a liz a ç ã o de suas
e x p e c ta tiv a s , p o d e a c a b a r se v e n d o s o z in h a c o m s e u s d e u s e s , c a re n te d o q u e m a is
a n s io u c o n s e g u ir n a v id a : a m a r e s e r a m a d a .
P o r o u tr o la d o , se e la a b d ic a d e se u tro n o , e n tã o se u e s p írito c ria tiv o , e m v e z d e
p a ir a r n o n ív e l d o s d e u s e s , a d e ja n d o d e u m a fe to r e p le to d e c rític a s p a r a o u tro ,
e m p u n h a r á s u a e s p a d a d o u r a d a , f e n d e r á a s u a a r m a d u r a d e m e d o e a b r in d o - a p o d e r á
e n fim lib e r tá - la p a r a a V id a . L iv re d e se u s d e u se s, e la se re u n irá à ra ç a d a " m e ra
h u m a n id a d e " . D e b r a ç o s a b e r to s e la d á a s b o a s - v in d a s à V id a e a o A m o r e, d o f u n d o d o
c o ra ç ã o , m u rm u ra :

Leva-me até você, prende-me, pois eu A menos que tu me subjugues, nunca serei livre. Nem
sequer casta, a menos que tu me arrebates.14

E la é u m s e r h u m a n o e, s e n d o h u m a n a , é c a p a z d e d a r e d e re c e b e r o m a io r d e
to d o s o s p re s e n te s h u m a n o s : " E u te a m o c o m o tu és".

Desnuda adormecida. Auguste Renoir. (Acervo particular, Suíça)

13 Williams, p. 37.
14 John Donne, "Holy sonnets", n2 14, linhas 9-14.
Glossário de termos junguianos
A n im a (la tim , "a lm a " ). O la d o f e m in in o in c o n s c ie n te d a p e r s o n a lid a d e d o
h o m e m . E la é p e r s o n if ic a d a n o s s o n h o s p o r im a g e n s d e m u lh e r e s q u e v ã o d e s d e a
p r o s titu ta e a s e d u to r a a té a g u ia e s p ir itu a l (S a b e d o ria ). E la é o p r in c íp io e ro s; p o r isso ,
o d e s e n v o lv im e n to d a a n im a d e u m h o m e m se re fle te e m c o m o e le se r e la c io n a c o m as
m u lh e r e s . A id e n tif ic a ç ã o c o m a a n im a p o d e a p a r e c e r c o m o r a b u g ic e , e fe m in a ç ã o ,
h ip e r s e n s ib ilid a d e . J u n g c h a m a a a n im a d e o a r q u é tip o d a p r ó p r i a vid a .
A n i m u s (la tim , " e s p írito " ). O la d o m a s c u lin o e in c o n s c ie n te d a p e r s o n a lid a d e d e
u m a m u lh e r. E le p e r s o n if ic a o p r in c íp io lo g o s . A id e n tif ic a ç ã o c o m o a n im u s fa z a
m u lh e r se to r n a r ríg id a , o p in iá tic a , a rg u m e n ta tiv a . E m s u a f u n ç ã o m a is p o s itiv a , e le é o
h o m e m in te r io r q u e fa z a lig a ç ã o e n tre o e g o d a m u lh e r e se u s r e c u rs o s c ria tiv o s
p e s s o a is , e x is te n te s n o in c o n s c ie n te .
A r q u é t i p o s . I r r e p r e s e n tá v e is e m si m e s m o s , s e u s e fe ito s p o re m a p a r e c e m n o
c a m p o d a c o n s c iê n c ia c o m o im a g e n s e id é ia s a r q u e típ ic a s . E s ta s s ã o p a d r õ e s o u
m o tiv o s u n iv e r s a is , q u e p r o c e d e m d o in c o n s c ie n te c o le tiv o e sã o o c o n te ú d o b á s ic o d a s
re lig iõ e s , m ito lo g ia s , le n d a s e d o s c o n to s d e fa d a . E m e r g e m n a s p e s s o a s p o r m e io d e
s e u s s o n h o s e s u a s v is õ e s .
A s s o c i a ç ã o . F lu x o e s p o n tâ n e o d e p e n s a m e n to s e im a g e n s in te r c o n e c ta d o s e m
to r n o d e u m a id é ia e s p e c íf ic a , d e te r m in a d o p o r lig a ç õ e s in c o n s c ie n te s .
C o m p l e x o . G r u p o d e id é ia s o u im a g e n s c o m c a rg a e m o c io n a l N o " c e n tro " d e
u m c o m p le x o , e x is te u m a r q u é tip o o u u m a im a g e m a rq u e típ ic a .
C o n s t e l a r . S e m p r e q u e h o u v e r u m a p o d e r o s a r e a ç ã o e m o c io n a l a u m a p e s s o a o u
s itu a ç ã o , fo i c o n s te la d o o u a tiv a d o u m c o m p le x o .
E g o . O c o m p le x o c e n tra l n o c a m p o d a c o n s c iê n c ia . U m e g o fo r te p o d e se
r e la c io n a r o b je tiv a m e n te c o m o s c o n te ú d o s a tiv a d o s d o in c o n s c ie n te (is to é, o s o u tro s
c o m p le x o s ) , e m v e z d e se id e n tif ic a r c o m e le s, o q u e a c o n te c e n o s e s ta d o s d e p o s s e s s ã o .
F u n ç ã o t r a n s c e n d e n t e . O " te rc e iro " r e c o n c ilia d o r q u e e m e rg e d o in c o n s c ie n te
( n a f o r m a d e u m s ím b o lo o u d e u m a n o v a a titu d e ), d e p o is q u e o s o p o s to s e m c o n f lito
f o r a m c o n s c ie n te m e n te d if e r e n c ia d o s e a te n s ã o e n tre e le s d e v id a m e n te s u s te n ta d a .
S e n t i m e n t o . U m a d a s q u a tro fu n ç õ e s p s íq u ic a s . É u m a f u n ç ã o ra c io n a l q u e
a v a lia o v a lo r d o s r e la c io n a m e n to s e d a s s itu a ç õ e s . O s e n tim e n to d e v e s e r d is tin g u id o d a
e m o ç ã o , q u e ir r o m p e q u a n d o u m c o m p le x o é a tiv a d o .
In d iv id u a ç ã o . A p e rc e p ç ão c o n s c ie n te da p r ó p r ia e s in g u la r re a lid a d e
p s ic o ló g ic a , a q u a l in c lu i ta n to fo r ç a s c o m o fra q u e z a s . L e v a à v iv ê n c ia d o s e l f c o m o o
c e n tr o r e g u la d o r d a p s iq u e .
I n f l a ç ã o . E s ta d o e m q u e a p e s s o a te m u m a n o ç ã o d e s u a id e n tid a d e
ir r e a lis tic a m e n te a lta o u b a ix a ( in f la ç ã o n e g a tiv a ). I n d ic a u m a re g r e s s ã o d a c o n s c iê n c ia
à in c o n s c iê n c ia , u m a o c o r r ê n c ia típ ic a q u a n d o o e g o se s o b r e c a r r e g a c o m c o n te ú d o s in ­
c o n s c ie n te s e p e r d e a f a c u ld a d e d a d is c rim in a ç ã o .
I n t u i ç ã o . U m a d a s q u a tr o f u n ç õ e s p s íq u ic a s . É a f u n ç ã o ir r a c io n a l q u e n o s d iz
q u a is s ã o a s p o s s ib ilid a d e s in e r e n te s a o p re s e n te . E m c o n tra s te c o m a s e n s a ç ã o (a
f u n ç ã o q u e p e r c e b e a r e a lid a d e im e d ia ta p o r m e io d o s ó rg ã o s fís ic o s d o s s e n tid o s ), a
in tu iç ã o p e rc e b e p o r m e io do in c o n s c ie n te , ou se ja , em fla s h e s de p e rc e p ç ão e
e n te n d im e n to q u e n ã o se s a b e d e o n d e v ê m .
P a r t i c i p a ç ã o m í s t i c a . T e r m o d e r iv a d o d o a n tr o p ó lo g o L é v y - B r u h l, p a r a d e n o ta r
u m a lig a ç ã o p s ic o ló g ic a p r im itiv a c o m o b je to s o u e n tre p e s s o a s , q u e re s u lta n u m fo rte
v ín c u lo in c o n s c ie n te .
P e r s o n a (la tim , " m á s c a r a d o a to r" ). O p a p e l so c ia l d a p e s s o a , d e riv a d o d a s
e x p e c ta tiv a s d a s o c ie d a d e e d a e d u c a ç ã o n o in íc io d a v id a . U m e g o fo rte se re la c io n a
c o m o m u n d o e x te r n o m e d ia n te u m a p e r s o n a fle x ív e l; a id e n tif ic a ç ã o c o m u m a p e r s o n a
e s p e c íf ic a (m é d ic o , e ru d ito , a r tis ta e tc .) in ib e o d e s e n v o lv im e n to p s ic o ló g ic o .
P r o j e ç ã o . P r o c e s s o p o r m e io d o q u a l u m a q u a lid a d e o u u m a trib u to in c o n s c ie n te
d e u m a p e s s o a é p e r c e b id o n u m a p e s s o a o u n u m o b je to e x te r n o e a is s o r e a g e . A
p r o je ç ã o d a a n im a o u d o . a n im u s n u m a m u lh e r o u n u m h o m e m re a is é s e n tid a c o m o
e s ta r a p a ix o n a d o . E x p e c ta tiv a s f r u s tr a d a s in d ic a m a n e c e s s id a d e d e r e tir a r a s p ro je ç õ e s
p a r a p o d e r se r e la c io n a r c o m a r e a lid a d e d a o u tr a p e s s o a .
P u e r a e t e r n u s (la tim , " e te r n a c ria n ç a " ). I n d ic a c e rto tip o d e h o m e m q u e
p e r m a n e c e te m p o d e m a is n a p s ic o lo g ia d a a d o le s c ê n c ia ; e m g e ra l e s s e d in a m is m o e s tá
a s s o c ia d o a u m a fo rte lig a ç ã o in c o n s c ie n te c o m a m ã e (re a l o u s im b ó lic a ). T ra ç o s
p o s itiv o s s ã o a e s p o n ta n e id a d e e a a b e r tu r a a m u d a n ç a s . A c o n tr a p a r tid a f e m in in a é a
p u e l l a , a " e te rn a m e n in a " , c o m s e u c o rr e s p o n d e n te a p e g o a o m u n d o d o p ai.
S e lf. A r q u é tip o d a to ta lid a d e e c e n tr o r e g u la d o r d a p e r s o n a lid a d e . Ê v iv e n c ia d o
c o m o u m p o d e r tr a n s p e s s o a l q u e tr a n s c e n d e o ego, p o r e x e m p lo , D e u s .
S e n e x (la tim , " v e lh o " ). A s s o c ia d o a a titu d e s q u e a p a r e c e m c o m o a v a n ç a r d a
id a d e . N e g a tiv a m e n te , is s o pode s ig n ific a r c in is m o , r ig id e z e um e x tre m o
c o n s e r v a d o r is m o ; tr a ç o s p o s itiv o s são re s p o n s a b ilid a d e , sen so de o r g a n iz a ç ã o e
a u to d is c ip lin a . U m a p e r s o n a lid a d e b e m e q u ilib r a d a f u n c io n a a d e q u a d a m e n te n o e ix o d a
p o la r id a d e p u e r-s e n e x .
S o m b r a . P a r te in c o n s c ie n te d a p e r s o n a lid a d e c a r a c te r iz a d a p o r tr a ç o s e a titu d e s ,
s e ja m n e g a tiv o s o u p o s itiv o s , q u e o e g o c o n s c ie n te te n d e a r e je ita r o u ig n o ra r. É
p e r s o n if ic a d a n o s s o n h o s p o r p e s s o a s d o m e s m o s e x o q u e o s o n h a d o r. A a s s im ila ç ã o
c o n s c ie n te d a p r ó p r ia s o m b r a e m g e ra l r e s u lta e m a u m e n to d e e n e rg ia .
S ím b o lo . A m e lh o r e x p r e s s ã o p o s s ív e l d e a lg o e s s e n c ia lm e n te d e s c o n h e c id o . O
p e n s a m e n to s im b ó lic o é n ã o - lin e a r , o r ie n ta d o p e lo h e m is f é r io d ire ito . É c o m p le m e n ta r
e m r e la ç ã o a o p e n s a m e n to d o h e m is f é r io e s q u e rd o , d e c a r a c te r ís tic a ló g ic o - lin e a r .
T r a n s f e r ê n c i a e c o n t r a t r a n s f e r ê n c i a . C a s o s p a r tic u la r e s d e p r o je ç ã o , e s s e s
te r m o s s ã o u s a d o s p a r a d e s c r e v e r o s e lo s e m o c io n a is in c o n s c ie n te s q u e se f o r m a m e n tre
d u a s p e s s o a s n u m a r e la ç ã o a n a lític a o u te ra p ê u tic a .
U r o b o r o s . A s e r p e n te m ític a o u o d r a g ã o q u e c o m e a p r ó p r ia c a u d a . É u m
s ím b o lo ta n to p a r a a in d iv id u a ç ã o c o m o p a r a u m p r o c e s s o c ir c u la r a u to c o n tid o , e p a r a a
a u to - a b s o r ç ã o n a rc is is ta .
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SUMÁRIO

Apresentação à edição brasileira................................................ 3


Prefácio............................................................................................ 4
Introdução........................................................................................ 8
1 - Ritual: sagrado e dem oníaco.............................................19
2 - Vício da perfeição................................................................ 36
3 - O tempo to d o .........................................................................45
4 - Acordo com a deusa............................................................. 59
O corpo como vaso sagrado............................................ 64
Estudo de caso de bulimia................................................ 71
O diário como espelho de prata.......................................75
5 - O mito de ser m s....................................................................88
6 - Estupro e o amante dem oníaco........................................100
7 - A noiva arrebatada............................................................. 120
Glossário de termos junguianos............................................. 145
Referências bibliográficas........................................................147

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