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OQUEÉAREALIDADE?

ReflexõesemtornodaobradeStéphane

Lupasco

BasarabNicolescu

Traduçãode

MarlySegreto

OQUEÉAREALIDADE? ReflexõesemtornodaobradeStéphane Lupasco BasarabNicolescu Traduçãode MarlySegreto

Títulooriginal:

Qu’est-cequelaréalité?

2009©Liber,Montréal

Direitosparaalínguaportuguesareservadosa

TRIOM–CentrodeEstudosMarinaeMartinHarvey

EditorialeComercialLtda.

www.triom.com.br/editora@triom.com.br

Tradução:MarlySegreto

Revisão:RuthCunhaCintraeVitoriaMendonçadeBarros

Capa,editoraçãoeletrônica:CasadeTiposBureaueEditoraLtda.

Imagemdacapa:Shutterstock

EdiçãopatrocinadaporVitoriaMariaMendonçadeBarros

DadosInternacionaisdeCatalogaçãonaPublicação(CIP)

(CâmaraBrasileiradoLivro,SP,Brasil)

Nicolescu,Basarab Oqueéarealidade?:reflexõesemtornodaobradeStéphaneLupasco/BasarabNicolescu;

traduçãodeMarlySegreto.--SãoPaulo:TRIOM,2012.

Títulooriginal:Qu`est-cequelaréalité?:réflexionsautourdel`oeuvredeStéphaneLupasco. Bibliografia.

ISBN978-85-85464-87-5

1.Filosofiaromena2.Lupasco,Stéphane-1900-1988-Críticaeinterpretação3.Realidade

I.Título

12-04456CDD-194

Índiceparacatálogosistemático:

1.Lupasco:filosofiaromena194

ParaAnne

Sumário

Introdução

Capítulo1-AobradeStéphaneLupasco:visãopanorâmica

Aciência,ainvariânciaeauniversalidade

Oterceiroincluído

Porqueoterceiroincluídofoiumescândalointelectual?

Alógicadaenergiaseriaumalógicaquântica?

Bohr,Lupascoeoterceiroincluído

Adialéticaternáriadarealidade

Engendramentoedinâmicadossistemas:asistemogênesedeLupasco

Astrêsmatérias

Não-separabilidadeeunidadedomundo

Asagadaantimatéria

Anaturezadoespaço/tempo

Existiriamconstituintesúltimosdamatéria?

SeriaLupascoumprofetadoirracional?

Oterceirovivido

Capítulo2-Nocentrododebate:oterceiroincluído

Oterceiroincluídoeanão-contradição

AontológicadeLupasco

Acriptografiaquântica,oteletransporte,oscomputadoresquânticoseoterceiroincluído

Capítulo3-NíveisderealidadeemúltiploesplendordoSer

Osníveisderealidadeeoreencantamentodomundo

Osníveisderealidadesãocompatíveiscomoterceiroincluído?

Aestruturagödelianadanaturezaedoconhecimento

Oterceirooculto

Osagradoeoproblemasujeito/objeto

Heisenbergeosníveisderealidade

Avisãotransdisciplinardomundo

Capítulo4-Jung,PaulieLupascodiantedoproblemapsicofísico

Coincidentiaoppositorumeoirracionalismohermético

Ocernedoproblema:nósmergulhamosexcessivamentenoséculoXVII

Atarefamaisimportantedenossotempo:umanovaideiaderealidade

OsníveisderealidadeestãopresentesemJungePauli?

Novosesclarecimentossobreodebateternário/quaternário

OequívocológicoeepistemológicodeUmbertoEco

Algumasobservaçõessobreoproblemadasincronicidade

Reducionismo,antirreducionismoetransreducionismo

Oqueéarealidade?

Capítulo5-StéphaneLupascoeGastonBachelard:sombraseluzes

Capítulo6-Domundoquânticoaomundodaarte

AndréBreton:daadmiraçãoàexclusão

GeorgesMathieueoengaiolamentodeAristóteles

SalvadorDalieoobscurecimentodaluz

FrédéricBenrath,KarelAppel,RenéHuygheeosoutrosamigos

Oquepodemosconcluir?

Capítulo7-Oterceiroincluído,oTeatrodoAbsurdo,apsicanáliseeamorte

Porumsimouporumnão

LupascoeoTeatrodoAbsurdo

Apsicanáliseeamorte

Capítulo8-Deus

OorgasmodeDeus

Odiálogojubiloso

Daalquimiaàreligião

Capítulo9-Odiálogointerrompido:Fondane,LupascoeCioran

OsromenosdeParis

Danão-contradiçãocomopactocomodiabo

Oquequeriaele,esseHomem?

Capítulo 10 - Abellio e Lupasco. Um ideal compartilhado: a conversão da ciência

Oraciocíniológicoéseguro,porémcego

Aestruturaabsolutaésenária,setenáriaounonária?

Abellio,Gonsetheoterceiroincluído

Conversãodaciênciaouconversãodocientista?

Oproblemacentral:arelaçãoentresujeitoeobjeto

Capítulo11-ConversacomEdgarMorin

Capítulo12-Paranãoconcluir

DadosbiográficosdeS.Lupasco

Bibliografia

Introdução

Apalavra“realidade”éumadasmaisprostituídasemtodososidiomasdo mundo. Todos nós acreditamos saber o que é a realidade, mas, se nos interrogarmos, descobriremos que há tantas acepções dessa palavra quanto habitantessobreaterra.Nãoé,então,surpreendentequeinumeráveisconflitos agitemincessantementeosindivíduoseospovos:realidadecontrarealidade. Éumaespéciedemilagreque,nessascondições,aespéciehumanaainda exista.Aexplicaçãoérelativamentesimples:umacrençaestatísticasobreoque éarealidadeemumdadomomentoécriadacomoresultado–inconsciente–da tecnociência.Dessemodo,oconceitoderealidadedominantenoúltimoséculo fundamentava-senaciênciaclássica.Elenosasseguravadequenósvivíamosem um mundo racional, determinista e mecanicista, destinado a um progresso

ilimitado.Oespantosoacontecimentode11desetembrode2001fezvoarem

pedaços essa crença da modernidade. Mas, como nossa capacidade de esquecimentoéinfinita,atualmentenósretornamosaela. Noentanto,atriplarevoluçãoqueatravessouoséculoXX–arevolução quântica,arevoluçãobiológicaearevoluçãoinformática–deveriamodificar profundamenteanossavisãodarealidade.

Nestelivro,tornominhaaafirmaçãofeita,em1948,porWolfgangPauli,

prêmio Nobel de Física e um dos fundadores da mecânica quântica: “( ) a formulaçãodeumanovaideiaderealidadeéatarefamaisimportanteeamais árdua de nosso tempo”.1 Mais de sessenta anos depois, essa tarefa continua inacabada. Para ilustrar essa busca trago, como caso exemplar, a obra de Stéphane

Lupasco(1900-1988).Suafilosofiadoterceiroincluídoéimportantíssimano

caminhorumoaumnovoconceitoderealidade.Maselaassumetodooseu sentidoaoentraremdiálogocomminhaprópriaabordagemtransdisciplinar,

baseadananoçãodeníveisderealidade,noçãoqueintroduziem1982.

TiveoprivilégiodepartilhardaamizadedeLupascode1968atéasuamorte.

Estelivrodesejariaprolongarnossastrocasintelectuaiseespirituaisparaalém dessetermo.OquesignificadizerqueestelivronãoéumlivrosobreLupasco, masemtornodeLupasco,consideradonãocomo“mestreaserpensado”,mas antescomoum“mestreaserrepensado”emfavordoséculoXXI,segundoa belaformulaçãodeJean-FrançoisMalherbe.2 Defato,opensamentodeLupasco

éumsistemaaberto,submetidoaumperpétuoquestionamentoconstrutivo.Ele nosajudaaavançarrumoaumasabedoriaemconformidadecomosmaiores desafiosdenossoséculo. Noprimeirocapítulo,ofereçoaoleitornãofamiliarizadocomopensamento deLupascoumavisãopanorâmicadesuaobra. Osegundocapítuloestácentradonanoçãodeterceiroincluído. Osníveisderealidadesãointroduzidosnoterceirocapítulo,queabordao problemadarelaçãoentresujeitoeobjetodentrodaabordagemtransdisciplinar. Noquartocapítulo,estabeleçoumdiálogoentreJung,PaulieLupascoem tornodoproblemapsicofísico. OquintocapítuloestácentradonarelaçãocomplexaentreStéphaneLupascoe GastonBachelard. OsextocapítuloédedicadoàsrelaçõesdeLupascocomomundodaartee, mais particularmente, a sua relação com André Breton, Georges Mathieu e SalvadorDali. Nosétimocapítulo,analisoopapeldoterceiroincluídonagênesedoTeatro doAbsurdodeEugèneIonesco,etambémsuasrelaçõescomapsicanáliseecom amorte. OoitavocapítuloéconsagradoaodifícilproblemadeDeus. OscapítulosnoveaoonzesãodedicadosàrelaçãodeLupascocomBenjamin Fondane,EmilCioran,RaymondAbellioeEdgarMorin. Após minhas conclusões, a última parte do livro fornece uma riquíssima bibliografiadeStéphaneLupasco,eissonãoporpurogostopelasreferências, masparacolocaràdisposiçãodospesquisadoresedosjovensestudantesum instrumentodetrabalhoindispensável. ExpressomeusagradecimentosaJean-FrançoisMalherbe,queesperoucom paciênciaeconfiançaodifícilnascimentodestelivro,eàsÉditionsLiberporter acolhidoestetexto.

1CartadePauliaFierz,12deagostode1948,emK.vonMeyenn,WolfgangPauli.Wissenchaftlicher

Briefwechsel,BandIV,TeilI,1940-1949,Berlin:Springer,1993,p.559.

2Comunicaçãoparticular,9desetembrode2004.

Capítulo1

AobradeStéphaneLupasco:visão

panorâmica

“( )quemconsideraacontradição consideraomundo.” StéphaneLupasco,Lestroismatières A física quântica contém o germe de uma revolução conceitual sem precedentesnaépocamoderna.Nãosetrataapenasdealterarnossaimagemdo mundo,esimdereconhecerumpotencialdevidaedetransformaçãoquediz respeitoaonossomundo,aonossouniversoe,emúltimainstância,aonosso própriolugarnouniverso.Essefatofoiplenamentepercebidopelosfísicosque fundaram a física quântica – Planck, Einstein, Bohr, Heisenberg, Pauli, Schrödinger, Fermi, Dirac, Born, de Broglie: seus debates apaixonados e apaixonantesprovamamplamentequeelesestavamconscientesdehavertocado emalgoqueultrapassavadelongeoquadroestreitodafísica. No entanto, seus debates permaneceram, em larga medida, num âmbito restrito.Afilosofiacontemporânea,excessivamentetributáriaaoseufundamento literário,tevedificuldadeemadmitirqueaciência–essaparentepobre,essa moscaáptera1 (comoéchamadapelohistoriadordasreligiõesIoanP.Couliano2) –pudessecontribuirparaoconhecimentodoprópriohomem.Alémdisso,a compreensãodaseventuaisconsequênciasdafísicaquânticaexigiaumesforço de assimilação de um formalismo matemático complexo, esforço ao qual os filósofosdeofício,devidoasuaprópriaformação,nãoestavampreparados. Nãoé,pois,surpreendentequeasprimeirastentativasdeformulaçãodeuma visão quântica do mundo tenham sido efetuadas à margem do movimento filosóficocontemporâneo,graçasaostrabalhosdeumfísico(NielsBohr),deum engenheiro(AlfredKorzybski)edeumepistemólogocomformaçãocientífica (StéphaneLupasco).Pode-seassimconstatarosurgimento,naprimeirametade

doséculoXX,detrêsdireçõesprincipais:(1)adeBohr,convencidodequeo

princípiodecomplementaridadepodiaconstituiropontodepartidadeumanova

epistemologia, abrangendo tanto a física quanto a biologia, a psicologia, a história,apolíticaouasociologia;3 (2)adeKorzybski,propondoumsistemade pensamentonãoaristotélico,comumainfinidadedevalores;4 (3)adeLupasco, baseadanalógicadeantagonismoenergético. Nessecontexto,ostrabalhosdeStéphaneLupascoocupamumlugaràparte. O princípio de complementaridade representava uma base muito restrita e a abordagem de Korzybski, apesar de importantes contribuições para a compreensão das estruturas da linguagem, continuava muito vaga e não preditiva.Lupascofoioúnicoqueconseguiuidentificarumaleideinvariância que permitiu, em princípio, a unificação dos diferentes campos do conhecimento. Decididamente,Lupasconãoeraumfilósofo“damoda”,comoenfatizavao pintorGeorgesMathieu.5 Adespeitodeseusquinzelivrosedofatodeartistas, cientistas,pensadoresehomensdeculturadaqualidadedeGastonBachelard, Benjamin Fondane, Gilbert Durand, Edgar Morin, Henri Michaux, André Breton, Salvador Dali, Georges Mathieu, René Huyghe, Yves Barel, Thierry MagninouAndrédePerettiteremreconhecidoaimportânciadeseustrabalhos, Lupasco continuava sendo um filósofo ignorado. Um importante congresso internacional“StéphaneLupasco:l’hommeetl’œuvre”foirealizado,emmarço

de1998,noInstitutdeFrance.Emseguidaaessecongresso,umlivrocoletivo

trouxeàluztodaaatualidadedafilosofiadeLupasco.6

Nãotemosaintençãodeaquiapresentarumaexposiçãodidáticadaobrade Lupasco.Oleitorinteressadoporumaapresentaçãosistemáticadesuasideias poderáconsultaratesededoutoradodeMarcBeigbederouamonografiade GérardMoury.7 Nósnoslimitamosàanálisedealgunsaspectosdavisãode Lupasco sobre a natureza da realidade e de suas consequências na vida do homemdehoje.

Aciência,ainvariânciaeauniversalidade

Aconvicçãodequeosresultadosmaisgeraisdaciênciadevemserintegrados emtodaabordagemfilosóficaatravessa,comoumeixo,atotalidadedaobrade Lupasco:“( )nenhumateoria,nenhumadoutrina,nenhumaconcepção nãoé maisverdadeiramentepossívelignorando-seosdadosdaexperiênciacientífica, queinundatudo,e,poroutrolado,nósnãopodemosextrairquasenadadas aquisições teóricas do conhecimento constituído, porque elas não mais respondem( )”.8 UmadasmelhoresilustraçõesdalógicaantagonistadeLupascoéfornecida pelaevoluçãohistórica,notempo,deseuprópriopensamentofilosófico.Esse

pensamentoseapresentasoboduplosigno:dadescontinuidadeemrelaçãoao pensamentofilosóficoconstituídoedacontinuidade(escondida,poisinerenteà própriaestruturadopensamentohumano)emrelaçãoàtradição.Eletemcomo duplafonte:alógicadedutiva,forçosamenteassociativa;eaintuição,quenãoé associativa. Enfim, em um nível mais apurado, pode-se trazer à tona essa abordagemantagonistaapartirdasgrandesetapasquemarcaramaconstituição dafilosofiadeLupasco.Oprincípiodedualismoantagonistafoiplenamente formulado,em1935,emsuateseDudevenirlogiqueetdel’affectivité.9 Seu pontodepartidafoiumameditaçãoaprofundadasobreocarátercontraditóriodo espaçoedotempo,reveladopelateoriadarelatividaderestritadeEinstein,teoria que constituiu o apogeu da física clássica. As noções de atualização e de potencialização já estavam presentes, ainda que elas só tenham se tornado precisas gradualmente no nível da compreensão, assim como no nível terminológico. UmsegundopassofoidadocomL’expériencemicrophysiqueetlapensée

humaine,editadoem1940.Aí,Lupascoassimilouegeneralizouoensinamento

dafísicaquânticaatravésdeumaverdadeiravisãoquânticadomundo.

As relações de Heisenberg ofereceram um esclarecimento extremamente impressionante sobre a dinâmica das partículas quânticas. Segundo a interpretação de Lupasco, a atualização da localização espacial acarreta a potencialização da quantidade de movimento, e a atualização da localização temporal acarreta a potencialização da extensão em energia. O conceito de identidade de uma partícula, no sentido clássico do termo, não tem mais validade,então,nomundoquântico. Acontradiçãoentreaidentidadeeanão-identidade–contradiçãoinerenteao mundo do infinitamente pequeno, ao mundo das partículas – foi aceita por Lupascocomoumdadoinevitáveldaexperiênciaecomoindíciodeumarelação

reveladora entre progresso e contradição: “( a ciência somente progride

porquetantoaexperiênciacomoopensamentocolidemincessantementecomas contradições”.10 Essa aceitação resultava de um ato de coragem intelectual e moral diante de um mundo fortemente dominado pela imagem do realismo clássico. É preciso ressaltar que até mesmo os pais fundadores da física moderna, com exceção, em certa medida, de Pauli, Heisenberg e Bohr, não ousaramdaressepasso.Lupascoapreendeu,emtodaasuaamplitude,oalcance universal da descoberta de Planck: “Certamente, não há problema mais enigmáticoqueodosurgimentodosquanta.Comoessaideiaprodigiosada quantificação11 teria atravessado o cérebro de Planck? Trata-se aí de um acontecimentopsicológicoehistóricoquetemsuaorigem nosredemoinhos

)

metafísicosmaislongínquosdopensamentoedodestinodoshomens.”Elevia nessasúbitaemergênciadadescontinuidadeosinalqueanunciavaumamudança nocursodahistória:“AintuiçãodePlanck( )ésemelhanteaalgunsdesses breves,modestoseincompreensíveisatoshistóricosquemodificam,pormuito tempo,ocursodoseventoshumanos”.Lupascosentiu-se,então,fundamentado paraformulara questãocapital,a daextrapolaçãode umaideiacientífica à realidadeemsuaglobalidade:“Aquantificaçãoqueé,paranós,precisamentea

introdução irresistível – e inconsciente – da contradição no seio dos fatos

microfísicos

conceitodeantagonismocontraditórioquesurgiudaciênciapode,emtroca,

esclareceralgunsaspectosobscurosdaprópriaciência:“Se( )nosdecidirmosa

introduzirnopensamentocientíficoanoçãodeantagonismocontraditório(

compreenderemoscomoumcampo,enquantocontínuohomogêneo,estásempre ligadoaumcorpúsculo,enquantodescontínuoengendradoporumaexclusão heterogeneizante( )”.13 EmL’expériencemicrophysiqueetlapenséehumaine,Lupascoapreendeu tambémaimportânciafilosóficadoprincípiodeexclusãodePauli,verdadeiro princípiodeindividuaçãonomundoevanescentedaspartículas.Umapartículaé definidacomoumconjuntodepropriedadesintrínsecas,denominadasnúmeros quânticos,eumacertaenergia/impulsoestáassociadaaela.Aspartículaspodem serclassificadasemférmions–partículasdespinsemi-inteiro(oelétronouo próton,porexemplo),ebósons–partículasdespininteiro(porexemplo,ofóton ouopíon).OprincípiodePaulipostulaquedoisférmions,mesmoquetenham os mesmos números quânticos (eles são, então, idênticos), excluem-se, no entanto,mutuamente.Emoutraspalavras,nãopodehavermaisdeumférmion em um estado quântico determinado. É desse modo (pela aplicação desse princípioaocasodoselétrons)queariquezadoselementosquímicosobservados nanaturezaéengendrada.OprincípiodePauliintroduz,portanto,umadiferença naidentidadesupostadaspartículas,umatendênciarumoàheterogeneizaçãoem ummundoqueparecesuperficialmentedestinadoàhomogeneização. Finalmente, o último passo decisivo foi dado em 1951, com Le principe d’antagonisme et la logique de l’énergie, que representa o ensaio de uma formalização axiomática da lógica do antagonismo. Essa formalização foi importanteparaacristalizaçãodopensamentodeLupasco,poiselaintroduziu, umrigor,umaprecisão,semosquaisessepensamentopoderiaserconsiderado comoumimensodevaneio,fascinantemasnebuloso.Háummedoinstintivo, que vem das profundezas de nosso ser, diante da aceitação do princípio do terceiroincluído–existeumterceirotermoTqueéaomesmotempoAenão-A

)

O

deveriaserestendida,assimcompreendida,atodososfatos?”.12

–,poisessaaceitaçãopareceriapôremdúvidanossaprópriaidentidade,nossa própriaexistência.Essemedoéatémesmoencontradonalinguagemcientífica. AsrelaçõesdeHeisenbergforamdenominadas,erroneamente,derelaçõesde incerteza.Elassãoantesrelaçõesdecerteza,poiscálculosprecisos,baseados nessasrelações,sãoverificadosexperimentalmente,desdeadimensãodoátomo atéosparâmetrostécnicosdosgrandesaceleradoresdepartículas.Demaneira análoga,Lupascomostrouqueaaceitaçãodoprincípiodoterceiroincluído, longedeconduziràimprecisão,aoarbitrário,aocaos,conduzaumformalismo lógicoprecisoepreditivo. Concluindo, a filosofia de Lupasco toma como ponto de partida a física moderna e a lógica axiomática, o que a singulariza no contexto atual. Os resultadosmaisgeraisdaciênciapodemedevemserintegradosàspróprias basesdeumaabordagemfilosófica,caso,verdadeiramente,anaturezanãoseja um acidente da existência. Nesse sentido, a filosofia de Lupasco é bastante inovadora,abrindoumcaminhocujaimportânciaaindanãopodeseravaliada. Essafilosofiapartedaciênciae,emseguida,retornaàciência,parafertilizá-la, paraenobrecê-lapormeiodeumavisãounificadadomundo,oquesópode acelerarasgrandesdescobertascientíficas. Mas uma grande objeção poderia ser formulada imediatamente: como a filosofia,emseudesejodeestabilidadeedepermanência,poderiaaceitarcomo fundamentoaciência,queseencontranumestadodeperpétuaefervescência,de contínuamudança?MasnãofoijustamenteLupascoquemdizia:“Aaventura experimentaldaciênciadenossoséculoécomoumtufãoquevarretudoemsua passagem–inclusiveasteoriascientíficas daquelesmesmosqueasiniciame queasalimentamirresistivelmente”?14 Aobjeçãoéimportanteenãodeveser evitada. EssaobjeçãosedesfazcomumaanálisedetalhadadafilosofiadeLupasco, queultrapassadelonge,porsuasgeneralizações,oquadroestreitodafísica.É verdadequeafilosofiadeLupascopartedosresultadosmaisgeraisdaciência contemporânea,maselatentaextrairdessesresultadosoqueéaindamaisgeral, numabuscadeinvariânciaedeuniversalidade.Eé,porsinal,nessainvariância, nessabuscadeleisgeraisqueatravessamtodasasescalasequegovernamos fenômenosemtodasasescalas,quereside,emminhaopinião,oparentesco íntimoentreafilosofiadeLupascoeatradição.SegundoLupasco,ainvariância éalógicadaenergia.

Oterceiroincluído

Oterceiroincluídonãosignifica,demodoalgum,quesepossaafirmaruma

coisaeseucontrário,oque,poranulaçãorecíproca,destruiriatodapossibilidade deprediçãoe,portanto,todapossibilidadedeabordagemcientíficadomundo. Trata-se bem mais de reconhecer que, em um mundo de interconexões irredutíveis(comoomundoquântico),executarumaexperiênciaourealizaruma interpretação dos resultados experimentais equivale, inevitavelmente, a um recorte do real que afeta o próprio real. Aentidade real pode, desse modo, mostraraspectoscontraditóriosquesãoincompreensíveiseatémesmoabsurdos dopontodevistadeumalógicabaseadanopostulado“ouissoouaquilo”.Esses aspectoscontraditóriosdeixamdeserabsurdosdentrodeumalógicafundada

sobreopostulado“eissoeaquilo”,ouantes,“nemissonemaquilo”.15

OdesenvolvimentorigorosodeseuformalismoaxiomáticoconduziuLupasco apostularaexistênciadeumterceirotipodedinâmicaantagônica,quecoexiste com a da heterogeneização que governa a matéria viva e com a da homogeneização que governa a matéria física macroscópica. Esse novo mecanismodinâmicoservedebaseparaaexistênciadeumestadodeequilíbrio rigoroso,exato,entreospolosdeumacontradição,noqualasemiatualizaçãoea semipotencializaçãosãoestritamenteiguais.Esseestado,chamadoporLupasco deestadoT(“T”sendoainicialdo“terceiroincluído”),caracterizaomundo microfísico,omundodaspartículas.Anovadinâmicaagecomoumaverdadeira forçaconciliadoraentreaheterogeneizaçãoeahomogeneização.Aestrutura bináriahomogêneo/heterogêneoquepareciaseradoantagonismoenergéticoé, dessemodo,substituídaporumaestruturaternária,cujasconsequênciasgerais sobreoplanoconceitualforamanalisadaspelopróprioLupascoemLestrois matières.Asconsequênciasdessaestruturaternáriaemrelaçãoaodiálogoentrea ciência e a religião foram exploradas e essas investigações são bastante

estimulantes.16

Porqueoterceiroincluídofoiumescândalointelectual?

O desenvolvimento da física quântica, assim como a coexistência entre o mundoquânticoeomundomacrofísicoconduziram,noplanodateoriaeda experiênciacientíficas,aosurgimentodeparesdecontraditóriosmutuamente exclusivos (Ae não-A): onda e corpúsculo, continuidade e descontinuidade, separabilidade e não-separabilidade, causalidade local e causalidade global, simetriaequebradesimetria,reversibilidadeeirreversibilidadedotempoetc. Oescândalointelectualprovocadopelamecânicaquânticaconsistiunofatode queosparesdecontraditóriosqueelaevidenciousão,efetivamente,mutuamente contraditóriosquandoanalisadosatravésdagradedeleituradalógicaclássica.

Essalógicaébaseadaemtrêsaxiomas:(1)oaxiomadeidentidade:AéA;(2)o

axiomadenão-contradição:Anãoénão-A;(3)oaxiomadoterceiroexcluído:

nãoexisteumterceirotermoTquesejaaomesmotempoAenão-A.Nahipótese daexistênciadeumúniconívelderealidade,osegundoeoterceiroaxiomassão, evidentemente, equivalentes. Isso talvez explique por que, até mesmo nos manuais de lógica, o axioma do terceiro excluído é raramente mencionado enquantoaxiomaindependentedosdeidentidadeedenão-contradição. Aceitando-sealógicaclássica,chega-seimediatamenteàconclusãodequeos paresdecontraditóriospostosemevidênciapelafísicaquânticasãomutuamente exclusivos,poisnãosepodeafirmaraomesmotempoavalidadedeumacoisae oseucontrário:Aenão-A.Aperplexidadegeradaporessasituaçãoébem compreensível:seriapossívelafirmar,emsanidadedeespírito,queanoiteéo dia,opretoéobranco,ohomeméamulher,avidaéamorte? Noentanto,noplanosocial,alógicadoterceiroexcluídoagecomouma verdadeira lógica de exclusão: o bem ou o mal, a direita ou a esquerda, as mulheresouoshomens,osricosouospobres,osbrancosouosnegros.Seria reveladorempreenderumaanálisedaxenofobia,doracismo,doantissemitismo oudonacionalismoàluzdalógicadoterceiroexcluído. Atualmente,nósvivemosemplenoescancaramentoobscenodopensamento binário.Alógicabináriadaverdadeabsolutaedafalsidadeabsolutaagecom umafaltadepudordecausarperplexidade.“AlutadoBemcontraoMal”,“Deus está conosco!”, são os tantos slogans que fazem as massas ferverem em aprovaçãoeculminamnessaincrívelafirmaçãoqueretoma,semosaber,um sloganleninistabemconhecido:“Quemnãoestáconoscoestácontranós!” É interessante ressaltar a inversão que o pensamento totalitário opera em relaçãoàafirmaçãodoNovoTestamento:“Efetivamente,quemnãoestácontra

nósestáanossofavor”(SãoMarcos9,40).EmsuaepístolaaosRomanos(8,31),

SãoPauloexplicaosentidodessaafirmação:“Irmãos,seDeusestáanosso favor,quemestarácontranós?”Opensamentototalitário,mesmoodenatureza religiosa,17 éumpensamentosemDeus.EmnomedeDeus,mata-seDeus.Ali, ondeoNovoTestamentoéinclusivo,ototalitarismoéexclusivo.18 Encontra-seaí oimensodesafiocontemporâneodaaceitaçãooudanão-aceitaçãodoTerceiro. Oassassinatodatranscendênciaéaculminaçãodopensamentobinário.O relativo torna-se um absoluto de tal maneira que se pode afirmar simultaneamentequalquercoisaeseucontrário.Osadversáriosagiriam,cada um,“emnomedeDeus”?QueDeus?HaveriatantosDeusesquantoreligiões?

Alógicadaenergiaseriaumalógicaquântica?

Apartirdaconstituiçãodefinitivadamecânicaquântica,porvoltade1930,os

fundadoresdanovaciênciasequestionaramcomacuidadesobreoproblemade

umanovalógica,conhecidapor“quântica”.Em1936,BirkhoffevonNeumann

apresentaramumaprimeirapropostadetallógicaquântica.Desdeentão,houve umnúmerosignificativodetrabalhos(Mackey,Jauch,Pironetc)dedicadosao estudodeumaformulaçãocoerentedeumalógicaquântica. Aambiçãodetallógicaeraresolverosparadoxosengendradospelamecânica quânticaetentarchegar,namedidadopossível,aumpoderpreditivomaisforte do que o obtido com a lógica clássica. Seu estatuto continua, ainda hoje, ambíguo: duvida-se de seu poder preditivo e até mesmo de sua existência, enquantoteoriageraldasinferênciasválidas.19 Asituaçãofoibemresumidapor Pagels:“amaioriadosfísicos,assimcomodosnãofísicos,hesitaemabandonar suamaneirahabitual,booleana20 depensar( )queécalcadanamaneirapela qualalinguagemusualcorrespondeaomundodaexperiência.Elessuspeitam queaadoçãodeumalógicaquântica,nãobooleana,sejaumaespéciedeartifício queatribuiainquietanteestranhezaquânticaàsuacabeçamaisdoqueaomundo físico,aoqual,segundoeles,essaestranhezapertence( )”.21 A maioria dos lógicos quânticos modificou o segundo axioma da lógica clássica–odanão-contradição–introduzindoanão-contradiçãocomvários valoresdeverdadenolugardaqueladoparbinário(A,não-A).Essaslógicas multivalentes,cujoestatutoéaindacontrovertidoquantoaoseupoderpreditivo, nãoconsideraramumaoutrapossibilidade:amodificaçãodoterceiroaxioma–o doterceiroexcluído. FoiméritohistóricodeLupascoodehaverafirmadoquealógicadoterceiro

incluído é uma verdadeira lógica, formalizável e não-contraditória. Lupasco haviatidorazãocedodemais.Aausênciadanoçãode“níveisderealidade”em suafilosofiaobscureciaoconteúdo.Muitosacreditaramquesualógicaviolavao princípio de não-contradição – de onde veio o nome, um pouco infeliz, de “lógicadacontradição”–equeelacontinhaoriscodeinfindáveisdeslizamentos semânticos. Além disso, o medo visceral de introduzir a noção de “terceiro incluído”,comsuasressonânciasmágicas,sófezaumentaradesconfiançaem

relaçãoatallógica:comosepoderiaconceberumterceirounificadordeAenão-

A? NãosepodeafirmarqueoformalismoaxiomáticodeLupascosejaperseuma lógica quântica, no sentido de que ele poderia ser aplicado diretamente às inferências específicas, detalhadas da mecânica quântica. Ele deveria, inicialmente,sertraduzidoparaaterminologiadafísicaquântica.Porexemplo, comocomentavaJ.S.Bell,noçõescomo“sistemasobservados”e“aparelhosde

observação” que medem os “observáveis” devem desaparecer numa teoria quânticafundamental.22 Bellpropõesubstituiranoçãodeobservávelpelade beable(oque,numatraduçãoaproximativa,significa“podesercapazdeser”), queparecefazerecoaoconceitodepotencializaçãodeLupasco.Emminha opinião, o formalismo geral axiomático que este último desenvolveu em Le principed’antagonismeetlalogiquedel’énergieconstituiaprópriaossaturada lógicaquântica.

Bohr,Lupascoeoterceiroincluído

A originalidade da abordagem de Lupasco torna-se ainda mais evidente quandocomparadaàdeBohr:“Éimportantereconhecer,demaneiradecisiva, que por mais longe que os fenômenos possam transcender o alcance das explicaçõesdafísicaclássica,adescriçãodetodososresultadosdeexperiência deveserexpressaemtermosclássicos.Arazãoésimples:pormeiodapalavra ‘experiência’nósnosreferimosaumasituaçãoemquepodemosdizeraoutros homens o que nós fizemos e o que ficamos sabendo; disso resulta que a descriçãododispositivoexperimentaledosresultadosdasobservaçõesdeveser expressa numa linguagem despida de ambiguidade, servindo-se convenientemente da terminologia da física clássica”.23 Encontramos aqui a misturahíbrida:físicaquântica/linguagemnatural/físicaclássica,queengendra, pelaco-existênciadosopostos,paradoxosintermináveis.Seriatãoevidentequea linguagemnaturalsejaaúnicaconcebívelparaatransmissãodosresultadosde uma experiência? Em todo caso, um compromisso histórico foi traçado progressivamente,consistindoemtransferiracontradiçãodoplanodoserparao planodalinguagem,onde,porsinal,elatambémtendeaseapagar:“Bohrtirou umaconclusãosobreaqualseconhecepoucosexemplosnahistóriadasideias, optando por lançar explicitamente um thema*24 novo, ou, ao menos, por identificarumthemaqueaindanãohaviasidoreconhecido,conscientemente, comoinerenteàfísicacontemporânea”,escreveGeraldHolton.“Nessecaso, BohrpropunhaaosfísicosqueadmitissemaomesmotempoQenão-Q–mesmo que eles jamais se manifestassem simultaneamente no mesmo plano de investigação.EnãosetratamaisdetransmutarQenão-Qemalgumaentidade nova.Bemmaisqueisso,elescoexistemsobaformaouQounão-Q,alternativa decididaapartirdaeventualescolhadasquestões,teóricasouexperimentais,

quesepretendefazer”.25

O deslizamento progressivo da contradição rumo à não-contradição é flagrante na maioria dos físicos por sua interpretação do princípio de complementaridade,nosrastrosdeBohr:emqueconsistiriao“themanovo”se

“nãosetratadetransmutarQenão-Qemalgumaentidadenova”?Eoque significariadizer:“admitiraomesmotempoQenão-Q“seeles“coexistemsob aformaouQounão-Q“?Écomosefosseditoquealuanosmostraàsvezes umametade,àsvezesaoutra.Nãohá,evidentemente,nadademisteriosooude novoemtalsituação:acomplementaridadedosaspectosmutuamenteexclusivos dálugar,pelodeslizamentonalinguagemnatural,àcomplementaridadehabitual, queébemmaisumajustaposição.Nãoé,portanto,surpreendentequeatémesmo osmaterialistasdialéticosdogmáticos,tãoexigentesemrelaçãoaosaspectos “duvidosos” da física quântica, tenham acolhido com satisfação essa interpretaçãodoprincípiodecomplementaridade. Oproblematodoéqueosfenômenosquânticosnosmostramaspectosde natureza diferente: é como se fosse dito que observando a mesma metade iluminadadaluaseriapossívelconcluir,pormeiodeumacertaexperiência,que setratadeumapartedeumcorpoceleste,aopassoque,atravésdeumaoutra experiência,sededuziriaquecertamentenãosetratadeumapartedeumcorpo celeste.Umevento quânticoqueé e continuo edescontinuo é um exemplo semelhante. Paradoxalmente, não foi Bohr, e sim Lupasco quem desvelou as consequênciaslógicasdoprincípiodecomplementaridade,mostrandoquese tratadeumprincípiodecontradição,organizadoreestruturantedeumanova visãodarealidade.

Adialéticaternáriadarealidade

Lupascocentrasuameditaçãofilosóficanoconceitodeenergia.Nafísica clássica, o papel central é desempenhado pela noção de objeto; a noção de energiasendoumanoçãoderivada,secundária.Afísicamoderna,relativistae quântica,inverteuessahierarquia.Comovimos,anoçãodeobjetofoisubstituída peladeevento,derelação,deinterconexão.Overdadeiromovimentoéoda energia. Esse dinamismo energético rege o conjunto dos fenômenos físicos. “Concebercientificamenteamatériaemsicomorealidadesubstancialdascoisas enãocomoenergiaemPotênciadeformas”,observavaLudovicdeGaigneron, “significa condenar-se a nada compreender na ‘passagem ao limite’ que caracterizaoatocausaleaobjetividadedaImagoMundi( )”.26 De acordo com a lógica formulada por Lupasco, a energia, “em seus constituintes mais fundamentais, possui ao mesmo tempo a propriedade da identidadeeapropriedadedadiferenciaçãoindividualizadora”.27 Amanifestação de um fenômeno qualquer é equivalente a uma certa atualização, a uma tendência para a identidade, mas essa mesma manifestação implica uma

contenção,umapotencializaçãodetudooqueessefenômenonãoé,emoutras palavras, da não-identidade. A potencialização não é uma aniquilação, um desaparecimento,massimplesmenteumaespéciedememorizaçãodoaindanão manifestado. Muitas polêmicas foram desencadeadas pela introdução do conceitodepotencializaçãoporLupasco,ignorandoqueesseconceitoéuma traduçãodiretadasituaçãoquântica.Nateoriaquântica,cadaobservávelfísico temváriosvalorespossíveis,cadavalortendoumacertaprobabilidade.Portanto, umamedidapoderiadarlugaraváriosresultados.Mas,evidentemente,somente umdessesresultadosseráobtidoefetivamente,oquenãosignificaqueosoutros valoresdoobservávelemquestãoestejamdespidosdetodocaráterderealidade. Umaoutrafacetadoconceitodepotencialização,talcomoelesemostranafísica quântica, é revelada pela interpretação (analisada anteriormente) feita por LupascodasrelaçõesdeHeisenberg.Portanto,oconceitodepotencialização encontrasuaorigemnafísicaquântica,maseleconstituiumageneralizaçãoque vaibemalémdocampodafísica.Umaconsequênciaimediatadaintroduçãodo conceitodepotencializaçãoéqueacausalidadelocal(adaatualização)está sempreassociada,naabordagemdeLupasco,aumafinalidadeantagônica.A causalidadelocalnãoexistesenãodentrodeumcamporestritodarealidade.A causalidadeglobalestápresenteemtodasasescalasdarealidade.Arealidade totalnãoésenãoumaperpétuaoscilaçãoentreaatualizaçãoeapotencialização. Aconsideraçãounicamentedaatualizaçãoconduz,inexoravelmente,aumreal truncado.Nãoháatualizaçãoabsoluta. Masaatualizaçãoeapotencializaçãonãosãosuficientesparaumadefinição lógicacoerentedarealidade.Omovimento,atransição,apassagemdopotencial paraoatualnãoéconcebívelsemumdinamismoindependentequeimpliqueum equilíbrioperfeito,rigoroso,entreaatualizaçãoeapotencialização;equilíbrio este que permite, precisamente, essa transição. De acordo com as próprias palavrasdeLupasco,“todaenergianãosomentepossuidinamismosantagônicos, comoessesdinamismossãoedevemsertaisqueaatualizaçãodeumimpliquea potencializaçãodooutro,ouainda,queambosestejamemduastrajetórias,da passagem do potencial ao atual e do atual ao potencial, rumo à ou simultaneamenteemumestadodeigualpotencializaçãoedeigualatualização, umemrelaçãoaooutro( )”.28 A realidade possui, então, segundo Lupasco, uma estrutura ternária. Na análise científica de um sistema físico, biológico, sociológico ou psíquico, certamente devemos procurar evidenciar seu antissistema, seu sistema contraditório(eaciênciaéricaemachadosdesses“antissistemas”).Masum trabalho bem mais delicado é necessário para que seja evidenciado esse

evanescenteterceirotermo,queseencontranoestadoTdeequilíbriorigoroso entreoscontraditórios(aliás,mesmonafilosofiadeLupasco,anoçãodeestado

Tsomenteapareceutardiamente,porvoltade1950,nomomentodaelaboração

deseuformalismoaxiomático).

Afísica,abiologia,asociologiaouapsicologiaapenasestão,nessadireção,

emseusbalbucios.Ecomonosimpedirmosdepensarqueéjustamentenessa

direçãoquedescobertascapitaispoderãoserfeitasnasdécadasporvir,caso,

verdadeiramente,odinamismoenergéticodoestadoT,submetendo-seaoque

Lupascochamadeortodeduçãoquântica,sejaoprópriosubstratodarealidade?

Um esclarecimento diferente da estrutura ternária da filosofia de Lupasco pode ser obtido considerando-se as noções de homogeneização e de heterogeneização,introduzidasporele.Ahomogeneizaçãoéoprocessodirigido paraoidêntico,paraumaacumulaçãocontínuadetodosossistemasemum

mesmoestado,paraumadesordemtotal,paraamorteconcebidacomonão-

movimento. A origem física desse conceito é o segundo princípio da termodinâmica(ouprincípiodeCarnot-Clausius)queindicaque,noquediz respeitoaumsistemamacrofísicofechado,háumaumentodaentropia,um crescimentodadesordem,umadegradaçãodaenergiaemdireçãoaocalor.No mundomicrofísico,ahomogeneizaçãoregeaevoluçãodaspartículas,comoos fótons,quenãosesubmetemaoprincípiodeexclusãodePauli:elaspodemse acumularindefinidamentedentrodeummesmoestadoquântico.“Ouniverso, portanto,seextinguenaluz”,escreveLupasco.Seriaprecisoacrescentar:senão houvesse a contradição. Com efeito, segundo a lógica de Lupasco, a homogeneização e a heterogeneização encontram-se numa relação de antagonismo energético. A heterogeneização é o processo dirigido para o diferente.Elaéresultante,enquantoconceito,doprincípiodeexclusãodePauli, que age como dinamismo de individuação. Uma heterogeneização absoluta conduzparaumaordemestática,emquetodomovimentoestáausente,paraa mortedevidoàextremadiferenciação.Paraqueomovimentosejapossível,é precisoqueohomogêneoeoheterogêneocoexistam:“Paraqueosdinamismos

possam ser antagonistas, é preciso que sua natureza energética participe

O antagonismo

simultaneamente do homogêneo e do heterogêneo (

heterogeneização/homogeneização é, assim, um dinamismo organizador,

)

estruturante.Lupascoobservacomexatidãoque“exclusãonãoquerdizer(

anarquia,precisamenteporqueelaimplicaaheterogeneizaçãoemlutacomas forçasdehomogeneização,e,portanto,umantagonismoorganizador( ),visto queeleé( )acondiçãoeoprincípioformadordetodasistematização( )”.29

Novamente, o par antagônico heterogeneização/homogeneização não é

)”.

suficienteparaasseguraromovimento.Umterceirodinamismoénecessário, implicandooequilíbrioperfeito,rigoroso,entreohomogêneoeoheterogêneo(e quenãoé,portanto,nemhomogêneonemheterogêneo). AlógicaaxiomáticadeLupascoextrai,então,trêsorientaçõesprivilegiadas, três dialéticas: uma dialética de homogeneização, uma dialética de heterogeneizaçãoeumadialéticaquântica.Lupascoutilizaotermotridialética paracaracterizaraestruturadeseupensamentofilosófico;termoqueexprimea estrutura ternária, tripolar (homogêneo/heterogêneo/estado T) de toda manifestaçãodarealidade,acoexistênciadessestrêsaspectosinseparáveisem tododinamismoacessívelaoconhecimentológico,racional. Emumsentidoaproximativo,sepoderiafalardetrêslógicas,30 mastrata-se mais de três orientações privilegiadas de uma única e mesma lógica. A

tridialética de Lupasco, tendo sua origem na física quântica, constitui, no entanto,umagradegeraldeleituradefenômenosdeumaampladiversidade. Além disso, a presença do princípio de terceiro incluído determina um parentescoricoemmúltiplasconsequênciasentreaabordagemdeLupascoeo pensamento simbólico. Fatos tão distantes da física quântica, como os etnográficos ou antropológicos, encontram na filosofia de Lupasco uma possibilidadedeinterpretaçãocoerente.OtestemunhodeGilbertDuranté,nesse sentido, significativo: “Nossa investigação empírica desembocava sobre um

planodeclassificaçãodeimagens,regidotambémportrêsprincípios,e(

)

StéphaneLupasco,sempassarpelamediaçãodainvestigaçãoetnográficaouda investigaçãoantropológica( ),estabeleciaumsistemadelógicacom( )três termosquecoincide,aproximadamente,comas‘trêslógicas’queRogerBastide eeumesmoconstatamosemnossapesquisaantropológica.Assim,acoerência (isotopismo)concretadossímbolosnoseiodeconstelaçõesdeimagensrevelava tambémessesistemadinâmicode‘forçasdecoesões’antagônicas,cujaslógicas

nãoconstituemsenãoaformalização”.31

Engendramentoedinâmicadossistemas:asistemogênesede

Lupasco

Os dinamismos antagônicos, em seus variados equilíbrios, engendram os

sistemas.Essessistemasrepresentamaestruturaçãodaenergia;apercepçãopor meiodosórgãosdossentidossendoapenasumaaparência,umailusão:“Mais difícilainda( )”,escreveLupasco,“éacreditarrealmente,viveraconvicção teóricadequetodososobjetosquenoscercam( )nãotêmnadade‘material’, nosentidomuitasvezesmilenareinstintivodanoçãodematéria,equeelessão

energia( )”.Essaconvicçãoé,porsinal,apenasteórica.Onúcleoeoselétrons deumátomoocupamumlugarínfimoemrelaçãoàdimensãodoátomoe,não obstante,sãoelesquedeterminamamassadoátomo.Nóssomosfeitos,nesse sentido,devazio,masdeumvaziopleno,deumvazioquântico,energético:“Éa

resistência relativa dos sistemas de eventos, que são eles próprios apenas

relações energéticas ( que confere à nossa representação sensível essa

impressão de realidade física consistente e opaca que nós chamamos de matéria”.32 O vazio, no sentido de “nada”, é incompatível com a lógica do antagonismoenergético.

Um conceito mais apurado de matéria é assim definido na filosofia de Lupasco. O antagonismo energético implica um encadeamento ilimitado de

contraditórios: “Dois dinamismos antagônicos engendram um sistema, esse

sistema ( implicará um sistema antagônico da mesma ordem; esses dois sistemasimplicarãoumsistemadesistemasantagônicos,eassimpordiante,de

acordocomoquedenominamosasistemogênese( escreveLupasco.

),

)

)”,33

Acontribuição de Lupasco ao desenvolvimento do pensamento sistêmico (ainda que ele prefira o termo sistemologia ao invés de sistêmica) é

considerável.34

Astrêsmatérias

Aestruturaternáriadesistematizaçõesenergéticassetraduzpelaestruturação

detrêstiposdematéria,quenãoestãoisoladas,separadas:“Amatérianãoparte

do ‘inanimado’ (

complexidade, até o psiquismo e mesmo para além dele: seus três aspectos constituem( )trêsorientaçõesdivergentes,emqueuma,dotipomicrofísico

(

conclusãodequetodamanifestação,todosistemacomportaumtriploaspecto– macrofísico, biológico e quântico (microfísico ou psíquico) – é, certamente,

surpreendenteericaemmúltiplasconsequências. Lupascojamaisafirmouqueomundomicrofísicoéomundopsíquico.Ele simplesmenteevidenciouoisomorfismoentreessesdoismundosdevidoaofato dequenadanelesédeumaatualidade(realidade)absolutaedequenadanelesé deumapotencialidade(irrealidade)absoluta.Lupascojamaisdissequeaalmase encontranoelétronounopróton,ounomúon,ounopíon;afirmaçãoqueseria, aliás, absurda, pois das centenas de partículas conhecidas umas são tão fundamentaisquantoasoutras.Omundomicrofísicoeomundopsíquicosão duas manifestações diferentes de um mesmo dinamismo tridialético. Seu isomorfismo–semelhanteàqueleconsideradoporPaulieJung–éassegurado

A

)nãoéumasíntesedasduas,masantessualuta,seuconflitoinibidor”.35

para se elevar, pela biologia, de complexidade em

)

pelapresençacontínua,irredutível,doestadoTemtodamanifestação.Ludovic deGaigneronchegavaaumaconclusãosemelhante:“Resultaqueoessencialdo Sujeito,assimcomoodoObjeto,devesubsistiremumaesferasintéticaondese conciliamaafirmaçãoeanegaçãodeumespetáculodoqualaciênciadissocia somenteoaspectonegativo.Suameditaçãoexaustivasobreodivisívelculmina, comefeito,emumnadadeobjetividade( ).Masporqueanaturezadesse ‘nada de espaço’seria incompatível com o ‘nada de espaço’de onde brota

consciênciahumana?”.36

Frequentemente,atridialéticadeLupascofoiconsideradacomoumavariante dadialéticadeHegel,ignorando-se,porumlado,opapelfundamentaldoestado Tenquantomecanismodinâmicoindependentee,poroutrolado,acoexistência a cada instante das três polaridades distintas e contraditórias em cada manifestação.AnoçãodesistemaemLupascoéclaramentediferentedade sínteseemHegel:“Lupascobemmostrou,comefeito”,escreveGilbertDurand, “que se trata muito mais de um sistema, no qual subsistem intactas as polaridades antagônicas, do que de uma síntese, na qual a tese e a antítese perdem até mesmo sua potencialidade de contradição”.37 Hegel tenta superar/abolir (aufheben) as polaridades antagônicas, enquanto que Lupasco tenta,antesdetudo,assumi-laseintegrá-las.

Não-separabilidadeeunidadedomundo

Alguém poderia crer, superficialmente, que o antagonismo, a luta dos contraditóriosimplicaaseparação.Eoinversoéqueéverdadeiro.Alógica formaldeLupascoconduz,demaneirainevitável,ànão-separabilidade:“Não háqualquerelemento,evento,pontonomundoquesejaindependente,quenão estejanumarelaçãoqualquerdeligaçãoouderupturacomumoutroelemento, ouevento,ouponto,apartirdomomentoemquehámaisdeumelemento,ou evento,oupontonomundo( ).Tudo,então,estáligadonomundo( )casoo

Essaafirmaçãonãoéumpostulado,

mundo,evidentemente,sejalógico(

masumresultadoquetodoleitorfamiliarizadocomalógicadeLupascopoderá verificar por si mesmo. Esse resultado é compreensível até mesmo intuitivamente:setodosistemaimplicaaexistênciadeumsistemaantagônico, resulta que dois sistemas quaisquer estarão ligados por uma certa cadeia de sistemas antagônicos. O antagonismo energético é, portanto, uma visão da unidadedomundo,unidadedinâmica,unidadedeencadeamentoilimitadodos contraditóriosbaseadaemumaestruturaternáriauniversal.

Asagadaantimatéria

)”.38

AfísicasobreaqualestábaseadaafilosofiadeLupascoé,essencialmente, aquela anterior a 1950. Uma evolução considerável no plano teórico e experimental ocorreu desde então, sobretudo na física das partículas elementares. No momento da publicação de L’expérience microphysique et la pensée humaine,haviasomentealgumaspartículasconhecidas.Atualmente,háalgumas centenasdepartículasquesãoigualmentefundamentais,tantoumasquantoas outras,dopontodevistadesuasinterações.Essaspartículasestãomuitolonge da imagem de objetos estáveis e harmoniosos. Os eventos se apresentam experimentalmente bem mais como uma criação/aniquilação contínua de partículas.Afísicadaspartículasconfirma,plenamente,avisãodoantagonismo energéticodopontodevistaqualitativo.Elaconfirmaque“acontradiçãoéum princípiodeconcentraçãoedeintensificaçãodaenergia”eque“umsistemaé tantomaisresistentequantoémaisdifícilassuasforçasantagônicasescaparem aoequilíbrioacarretadoporsuaigualintensidade”.39 Omundodaspartículas aparece,dessemodo,comoumadasmanifestaçõesexperimentaispossíveisdo estadoTpostuladoporLupasco. O potencial da visão lupasciana do antagonismo energético revela-se de maneira espetacular na descoberta experimental das antipartículas, que conduzem ao conceito de antiuniverso ou de antimatéria. É preciso logo esclarecerqueapalavra“antimatéria”presta-seaconfusão,poisossistemas formados de antipartículas são também de matéria. Trata-se de uma pura convenção.Chama-seopróton,porexemplo,departículaeoantiprótonaparece, então,comosuaantipartícula.Mastambémsepodechamaroantiprótonde partículae,então,oprótonaparececomosuaantipartícula.Oqueéessencialéo fatodequeaspartículaseasantipartículasencontram-seligadasporumasutil relaçãodeantagonismoenergéticoentreamassaeaenergia.Setivermosànossa disposiçãoumacertaquantidadedeenergia,poderemosproduzir,apartirdessa energia,umparpartícula/antipartícula.Reciprocamente,quandoumapartícula encontra uma antipartícula, produz-se um desaparecimento dessas entidades, uma aniquilação, acompanhada pela produção de uma certa quantidade de energia. Quandoumaporçãodematériaencontra-seempresençadeumaporçãode antimatéria, elas aniquilam-se reciprocamente desprendendo uma imensa quantidadedeenergia,muitomaiordoqueacorrespondenteàenergiaatômica. Razão pela qual, mesmo que haja em alguma parte do universo estrelas ou galáxiasfeitasdeantimatéria,nósnãopoderemosjamaisvisitá-las.Aantimatéria éamatériamaisexplosivaconcebívelatualmente.

Éinteressanteressaltarqueoconceitodeantipartícula,queestápresentede maneira natural na lógica de antagonismo energético, em seu surgimento encontrouumaresistênciaflagranteporpartedosfísicos.Ocasodaprimeira antipartículadescoberta–opósitron(ouantielétron)–éexemplar.Seguimos aquiodepoimentodeDirac,quepreviuteoricamenteaexistênciadopósitron, muitotempoantesdeletersidoobservadoexperimentalmente. Estudandoaequaçãodeondarelativistadoelétron,Diracchegouàconclusão de que um novo tipo de partícula devia estar presente. Ele se deu conta, rapidamente,dequeessanovapartícula,quetemumacargaopostaàdoelétron, deveria também ter a mesma massa que o elétron. Mas Dirac hesitou em

apresentar sua descoberta: “Eu não ousei postular uma nova partícula nesse momento,poisaopiniãodaépocaeracontraasnovaspartículas”.40 Defato, conhecia-seoelétron,portadordaeletricidadenegativa,eopróton,portadorda eletricidadepositiva,eissoeraconsideradosuficienteparaexplicarosdoistipos

deeletricidade.Dirac,então,modificoupenosamenteasuateoria,apresentando-

acomoumateoriadoselétronsedosprótons,adespeitodofatodequeamassa doprótonéclaramentemaiorqueadoelétron.Foiummatemático,Weyl,que mostrouqueapartículasuplementardeve,necessariamente,teramesmamassa que o elétron e que, portanto, ela deve corresponder a uma nova partícula. Alguns anos mais tarde, essa nova partícula, o pósitron, foi descoberta experimentalmente.

Apósadescobertadopósitron,foiprecisoesperarmaisdevinteanosparase notarumaoutraantipartícula,oantipróton,observadaem1955,noBevatron41 de Berkeley. Nas experiências feitas em laboratório, pôde-se evidenciar, posteriormente,umgrandenúmerodeantipartículas.Foipossívelatémesmo produzirátomosdeantimatéria. Certos bósons (por exemplo, os mésons carregados) também têm suas antipartículas.Atémesmoosquarkstêmseusantiquarkseassupercordassuas antissupercordas.

Anaturezadoespaço/tempo

Um dos aspectos mais desconcertantes e mais fascinantes da filosofia de Lupasco é o estado T. O equilíbrio rigoroso entre a atualização e a potencialização, que acarreta uma densificação máxima da energia, parece querer indicar, como já explicamos, que nenhuma manifestação direta desse estadoemnossoespaço/tempocontínuoépossível:oespaço/tempoassociadoao estadoTédeumanaturezadiferentedoespaço/tempocontínuo.Mas,sejaqual foroeventoenergético,elepossuiumaestruturaternária.OestadoTdeve,

necessariamente,coexistircomosestadosdamanifestação,sejaosdetendência heterogeneizante ou homogeneizante. Chega-se assim à conclusão aparentemente paradoxal de que o espaço/tempo contínuo não basta para a descriçãodarealidade:umespaçomaisamplo,queenglobedeumamaneiraou de outra o espaço/tempo contínuo, deve ser definido. A causalidade local, forçosamentedefinidanoespaço/tempocontínuo,nãotemmaisvalidadenesse espaçomaisamplo.Oprópriotempocontínuoaparececomoumaaproximação. EsseestadoTseriaaorigemdaindeterminaçãoquântica,dadescontinuidade,da não-separação,danão-localidade,dasdimensõessuplementaresdateoriaM? A teoria elaborada por Roger Penrose renuncia à hipótese de continuum espaço/temporal;hipóteseque,comoescreveomatemático,nãotem“nenhuma provafísicareal”.42 AteoriaelaboradaporT.D.Lee,prêmioNobeldeFísica,é baseadanamesmaideia.AteoriaMdesuperunificaçãodasinteraçõesfísicasvai aindamaislonge:oespaço/temponãoémaisumconceitofundamental. A reflexão filosófica de Stéphane Lupasco em relação à natureza do espaço/tempoémuitooriginal.Primeiramente,eleconstata,comoresultadode sualógica,aprimaziadarelaçãosobreoobjeto:“Éaoperaçãoqueengendrao elemento.Oselementos,emsuma,apresentam-secomoparadasdodinamismo,

eles marcam o limite relativo de uma

atualização

do devir de uma implicação (

)

diante

da

potencialização contraditória (

)”.

Assim,

consequentemente,osprópriostempoeespaçosãooresultadodalógicado

antagonismocontraditório.

Otempoéoresultadodomovimento,damudança,dodinamismológico:

“Quemdizpassagemdeumestadoparaumoutro,deumacertaquantidadede

energia potencial para uma certa quantidade de energia atualizada, diz movimento,dizsucessão,diztempo”.Otempoé,portanto,engendradopelo conflitoentreaidentidadeeadiversidade“queconstituiapróprianoçãode mudança”.Oespaçotambéméumresultadododinamismológico:“Umespaço nãoénadamaisqueasimultaneidadedoseventosouelementos,comosistemas

Mas como se poderia

de sistemas, que engendra a lógica da energia (

conceberasimultaneidade?“Paraquehajasimultaneidadeeconjunçãoépreciso

( )quehajaelementosaomesmotempoidênticosediversos,equantomaisa

contradiçãodaidentidadeedadiversidadeforfortementeequilibrada,maiselas serãosimultâneas,constituindoprecisamenteessanoçãodeconjunto( ).”

Oespaçoaparece,então,comoumaconjunçãocontradicional,aopassoqueo tempoaparececomoumadisjunçãocontradicional:oespaçoeotempoestão ligados por uma relação de contradição. De acordo com a formulação de

Lupasco,“haverásempreespaçonotempoetemponoespaço”.43

)”.

A atualização e a potencialização não acontecem no espaço/tempo, é o espaço/tempo que é engendrado pela contradição atualização/potencialização. Assim,“umelemento,umevento,umfenômeno,precisamentedevidoàsua estruturalógica( )nãosedesenrolanotempo,masdesenrolaumtempo”.Da mesmamaneira,“osfenômenos,quaisquerquesejam,nãosedesenrolamno espaço,masdesenrolamumespaço.Nãoháobjetosnoespaço,masespaçonos objetos;osobjetosnãosãolocalizados,maslocalizam,criamlocalizações.Tanto oespaçocomootemposãofunçõesdoselementos,ouantes,dosconjuntos,dos sistemasdeelementos( )”.44 Enfim, cada polo da estrutura ternária homogêneo/heterogêneo/estado T conduzaumespaço/tempopróprio.Consequentemente,otempocorrespondente aumaatualizaçãoseránecessariamentedescontínuo,poiseleresultadaação concomitante desses três polos com seus espaços-tempos associados: “Todo tempoevoluiporsolavancos,porsaltos,poravançoserecuos,devidoàprópria constituiçãodadialéticaquelhedánascimento( ).Atemporalidadelógicaé,

Afecundidadedaabordagemlupascianarelativaao

espaço/tempodentrodamúsicaedaliteraturaéimpressionante.46

Existiriamconstituintesúltimosdamatéria?

portanto,descontínua(

)”.45

Háumarelaçãodiretaentreanaturezadoespaço/tempoeoantigoproblema dosconstituintesúltimosdamatéria.

Lupascoabordouoproblemadosconstituintesúltimosdamatériadesde1951,

muito tempo antes da voga dos quarks. Ele demonstrou que a lógica de

antagonismo energético não tolera a existência experimental de um sistema formado por um único par de dinamismos antagônicos; sistema que seria, portanto,otijolofundamentaldouniverso:“Nãoexistesistemaexperimental quepossaserconsideradocomosimples,primeiroouelementar,ouseja,como

composto de um único e último par de dinamismos antagônicos ( Todo sistemarevela-secomoumsistemadesistemas( )”.47 Acrençanosconstituintesúltimosdamatériaémuitoantigaebaseadano bomsenso(naacepçãomacroscópicadapalavra).Lupascomostrou,demodo pertinente,ofundamentometafísicodetalcrençabaseadanobomsenso:“O elemento( )serásempre,porsuavez,compostodeelementos,sempreconterá estruturalmente outros elementos, sem que se possa chegar jamais a um elementoúltimoquesignificaria( )aidentidadeperfeitaeanão-contradição absoluta( )equereduziria,portanto,todacoisaaumelementoúnico,emsuma,

aoUMmetafísico”.48

E,noentanto,obomsensopareciatriunfar.Foipossívelmostrarqueamatéria

).

éfeitademoléculas,queasmoléculassãofeitasdeátomos,foipossívelquebrar osátomos,quebraronúcleoatômicoevidenciandosuaspartículasconstituintese pôde-seatémesmoevidenciar(indiretamente)osquarks.Seriapossívelverum dia, em nossos telescópios, algumas supercordas fósseis do Big-Bang? O conceito de constituinte último da matéria é um conceito assintótico49, um conceitolimite.AdemocraciadimensionaldateoriaMnãoécompatívelcom este conceito.50 A busca dos constituintes últimos da matéria parece ser infindável.

SeriaLupascoumprofetadoirracional?

Algunscomentadoresdafilosofialupascianaestãoconvencidosdequeele viola o axioma de não-contradição. O mal-entendido é criado pela confusão bastante comum entre o axioma de terceiro incluído e o axioma de não- contradição.Alógicadoterceiroincluídoénão-contraditória,nosentidodeque oaxiomadenão-contradiçãoéperfeitamenterespeitado,comacondiçãodeque asnoçõesde“verdadeiro”ede“falso”sejamampliadasdetalmaneiraqueas regrasdeimplicaçãológicanãosejammaisreferentesadoistermos(Aenão-A), masatrêstermos(A,não-AeT)quecoexistemsimultaneamente.Elaéuma lógicaformal,amesmotítuloquequalqueroutralógicaformal:suasregrassão traduzidasporumformalismomatemáticorelativamentesimples. SaberhojequeStéphaneLupascoévistocomoumprofetadoirracionalé, simplesmente,risível.Nofundo,todoodesviodaargumentaçãodeDominique TerréemseurecentelivroLesderivesdel’argumentationscientifique51 tempor origemumaterrívelconfusão:acreditarquea“ciência”significaexclusivamente “predizer” é uma visão obsoleta e falsa. A ciência inclui a compreensão, fundamentodeumacertavisãodanaturezaedarealidade.Elarecorrecadavez mais, em sua tentativa de unificação, a seres virtuais, abstratos, o que dá a impressãodeirracionalidadeàquelesquedesejariamreduzirtudoàinformação oferecidapelosórgãosdossentidosepelosinstrumentosdemedida.Arazãoé

contraditóriaporsuapróprianatureza.52

Ondeterminaoracionaleondecomeçaoirracional?GillesGastonGranger distingue,comexatidão,trêstiposdeirracional:oirracional“comoobstáculo, ponto de partida de uma reconquista da racionalidade”, “o irracional como recurso, como meio de renovar e de prolongar o ato criador” e, enfim, o irracional “por renúncia” que corresponde a “uma verdadeira rejeição ao racional”.53 Toda a história das ciências testemunha a luta incessante e encarniçadacontraodesconhecido,eseriapossívelafirmarqueodesconhecido éaprópriafontedoprogressocientífico.Muitosaspectosque,emcertaépoca,

foram considerados como irracionais, bizarros, paradoxais tornaram-se, em seguida, pela abordagem científica, racionais, normais, integrados numa descriçãocientíficacoerente.Daíaafirmarquetudooqueexistenomundoé racional,háumpassoimportanteaserdado,cujasconsequên-ciasemtodosos planosnãodevemsersubestimadas. Assim, a visão materialista dialética do mundo nos diz que tudo o que é desconhecido no mundo será um dia desvelado, conhecido. O irracional é, portanto, concebido como um ponto assintótico, abstrato, despido de todo caráterderealidade.Oqueérealéoracional,ouseja,oqueésubmetidoà reprodutibilidade,àexperimentaçãoeàcompreensãocientíficas. Pode-se visualizar essa descrição materialista dialética do conhecimento representandooconhecimentocientíficoporumaesfera,comopropõeofísico David Gross54 (ainda que ele próprio certamente não assuma, ao menos explicitamente,avisãomaterialistadialética).Asuperfíciedaesferaéafronteira entreoconhecidoeodesconhecido.Aesferaécompacta:todosospontosno interiordaesferarepresentamoqueéconhecidoemumdadomomento.Por meiodeseusconstantesesforçosaolongodesuahistória,ohomemafastaa fronteiradaesferacadavezparamaislonge,numprocessoinfindável.Nesse processo de conhecimento científico, o volume da esfera (logo, o que é conhecido)aumentae,simultaneamente,asuperfíciedaesfera(logo,afronteira entreoconhecidoeodesconhecido)aumentatambém.Masovolumedaesfera aumenta mais rápido que a sua superfície: a relação entre o volume e a superfícietende,comocorrerdotempo,paraoinfinito,garantindoassimo progressocontínuoeinfindáveldaracionalidadecientífica.Essaimagem,mais finaemaissutildoqueaqueéproposta,tradicionalmente,pelomaterialismo dialéticoleva,contudo,àmesmaconclusão:oirracionalnãotemnenhumvalor derealidade. Noentanto,épossívelformular,apartirdavisãosistêmicaequânticado mundo,umavisãoradicalmentediferente,adespeitodasanalogiassuperficiais. Tomemos novamente uma esfera como representação do conhecimento científico,masumaesferanãocompacta:nointeriordaesferadoconhecido encontram-se também pequenas esferas representando o desconhecido. No processodeconhecimentocientífico,aspequenasesferasdiminuemtantoem volumequantoemsuperfície,arelaçãoentreovolumeeasuperfícietendendo, comocorrerdotempo,parazero.Há,então,tambémaqui,umaprogressãodo conhecimento científico no tempo. Mas o desconhecido está continuamente presente,deumamaneirairredutível:elesemanifestapormeiodospontosque estarãopresentes,oquequerquesefaça,naesferadoconhecido.Enãoseria

possíveldefinirosagradocomosendo,justamente,tudoaquiloqueéirredutível

emrelaçãoàsoperaçõesmentais?Tudosepassa,nomodeloquepropomos,

comosenãohouvesseumaoposição,masumacooperaçãopermanenteentreo

racionaleoirracional,quesemanifestamcomodoispoloscontraditóriosdeuma

mesmarealidade,quetranscendetantoumcomoooutro.Tudoacontececomose

houvesseumainteraçãomútua,umatransformaçãorecíprocaentreoracionaleo

irracional.Oirracionalnãoaparececomoumatributodeumaentidadeexteriorà

esferadocognocível,mascomopolodeumdinamismoqueoenglobaeno

centrodoqualseencontraohomem.Essedinamismoéfontedeliberdade,de

espontaneidade,decriatividadenaevoluçãodossistemasnaturais.

Aimagemquepropomosébastantepróximadasconclusõesquesedesenham naobradeEdgarMorin.55 EmseulivroScienceavecconscience,eleressaltaa necessidadedeumnovomododepensar:“Pensar,nãoéserviraordemoua desordem;éseservirdaordemoudadesordem.Pensarnãoésedesviarda irracionalidade e do inconcebível. É trabalhar apesar de/contra/com a irracionalidade e o inconcebível.” Edgar Morin propõe a adoção de um pensamento aberto, que aceita a negociação com o desconhecido, e de um conhecimentoqueéconscientedaignorânciaqueeletraz.Essepensamento abertodevesernecessariamentebaseadoemumanovaracionalidade:“Uma nova racionalidade deixa-se entrever. A antiga racionalidade não procurava senãopescaraordemnanatureza.Pescava-senãoospeixes,masasespinhas.A novaracionalidade,permitindoconceberaorganizaçãoeaexistência,permitirá perceberospeixesetambémomar,ouseja,tambémaquiloquenãopodeser

pescado”.56

“O racionalizador necessita do inimigo irracional”, disse Edgar Morin na conversaquetivemosemtornodaobradeLupasco,“elespercebemque,cada vezmais,asconcepçõescientíficasnãocorrespondem,demodoalgum,aoseu padrão, são totalmente ininteligíveis em seu modo de racionalização

demasiamentefechadoetendemadizer:éirracional.Nãosevêemqueaauto-

organização possa ser irracional. Em que Espinoza pode ser bruscamente irracional, em relação aos deístas, por que ele diz que o mundo criou a si mesmo?Háumaespéciededelírioracionalizadorquedesconheceestarnamais puradesrazão”.57 NãoésurpreendentequeumpoetacomoBenjaminFondane tenhapodidoseaprofundarmaisnaobradeLupascodoquealgunscientistase

filósofos.58

NossaimagemétambémpróximadaconcepçãodeMaxPlancksobreopapel doirracionalnoconhecimentocientífico:“Afísica,comoqualqueroutraciência, contém um certo núcleo de irracionalidade, impossível de ser reduzido

inteiramente.Entretanto,consideraresseirracionalcomoestandoforadaciência pordefinição,seriaprivá-ladetodooseudinamismointerno.Acausadessa irracionalidade,comoafísicamodernavemressaltandodemodocadavezmais claro, reside no fato de que o próprio homem de ciência é uma das partes

constitutivasdouniverso”.59

À luz das duas imagens do conhecimento científico discutidas acima, se poderiaobjetarquesóexisteentreelasumadiferençadepalavras.Afinalde contas,aprogressãoilimitadadoconhecimentocientíficoestápresentetantoem umacomonaoutra.Ambasreconhecemumcertopapeldodesconhecido,ainda que, para uma, esse papel seja temporário e se desvaneça assintoticamente, enquantoque,paraaoutra,essepapelestejacontinuamentepresente(masuma propriedadeassintóticanãoseria,pordefinição,irrealizável?).Alémdisso,não parece haver nelas nenhuma consequência diferente no que diz respeito à prediçãocientífica.Asduasimagensseriam,então,essencialmenteequivalentes. Essas objeções são justificadas caso se adote como critério exclusivo de realidadeaeficácianoplanodamaterialidadedireta.Masasconsequênciasno quedizrespeitoànossaatitudeemrelaçãoaoqueconhecemossãoradicalmente diferentesnosdoismodelos:avaidadeluciféricalevandoirremediavelmenteà destruiçãoemumcaso;orespeitopelaorganizaçãocósmicaharmoniosaemque ohomemtemseuprópriolugar,nooutrocaso.Paradoxalmente,anossaatitude em relação à realidade é um componente inseparável e ativo da própria realidade.

Oterceirovivido

Aestruturaternáriadarealidadeencontra-seinscritanoprópriohomem:o centrointelectualrepresentaodinamismodaheterogeneização;ocentromotor,o dinamismodahomogeneização;eocentroemocional,odinamismodoestadoT. Avidainteiradohomemencontra-seemumacontínuaoscilaçãoentreostrês polosdoternário.Odinamismointelectual(pormeiodesuaformatruncada, como“mental”)podeconduziràmortedevidoàextremadiferenciação(oque poderá acontecer caso a ciência venha a ser a única e absoluta religião do homem).Odinamismomotorpodeconduziràmorteatravésdarealizaçãoda identidadeabsoluta,nãocontraditória(oquepoderáacontecerseobem-estareo confortomaterialsetornaremaúnicapreocupaçãodohomem).Odinamismo emocionalaparece,então,comoasalvaguardadavida. Omentaleocorpofísicoacreditamunicamentenaexistênciadaatualização, eles têm obsessão pela atualização absoluta. Mas, segundo a lógica de antagonismodeLupasco,considerarapenasaatualizaçãoreduzarealidadea

umarealidadetruncada,aproximativa,conduzindoàilusãoeàutopia. Associedadestotalitárias,detendênciahomogeneizante,sãoedificadassobre

a crença na atualização absoluta, sobre a vontade de transformar os

contraditórios em contrários. Essas sociedades ignoram que estão destinadas previamenteàmorte.Caso,evidentemente,omundosejalógico.Poroutrolado, associedadesdemocráticas estãotambémbaseadas nacrençana atualização absoluta:adaheterogeneização.Adespeitodesuasconsideráveisdiferenças,as

sociedadestotalitáriaseassociedadesdemocráticaspossuemumacaracterística

fundamentalcomum:adapotencializaçãoprogressivadoestadoT.Seráque,um

dia,omundoconheceráumnovotipodesociedade,tridialética,baseadana

atualizaçãoprogressivadoestadoT,implicandoumequilíbriorigorosoentrea

homogeneização e a heterogeneização, entre a socialização e a realização

máximanoplanoindividual?

Asguerrasestãobaseadasnomesmofanatismodaatualizaçãoabsoluta.O

desequilíbriodoternário,arealizaçãoqueprivilegiaumadireçãoouaoutrapela

supressãodacontradiçãoequivalente,segundoalógicaeafilosofiadeLupasco,

contêm uma assustadora patologia. As guerras são, neste sentido, imensas psicosescoletivas.

Afilosofiadoterceiroincluídosurge,então,comoumafilosofiadaliberdade

e da tolerância. Jean-François Malherbe mostrou, em um estudo muito

estimulante,comoainteraçãoentreoterceiroincluídoeosjogosdelinguagem

deWittgensteinpoderiaterrepercussõesimportantesnaformulaçãodeumaética

contemporânea.60 Como toda filosofia digna deste nome, para que ela seja operatória,oterceiroincluídodeveservivido,aplicadonavidadiária.

Oterceiroincluídológicolupascianoéútilemtermosdaampliaçãodaclasse

defenômenossujeitosaseremcompreendidosracionalmente.Eleexplicaos

paradoxosdamecânicaquântica,emsuatotalidade,começandocomoprincípio

da superposição. Indo mais longe ainda, grandes descobertas na biologia da

consciênciasãoprevistas,casoasbarreirasmentaisemrelaçãoànoçãodeníveis

derealidadedesapareçamgradualmente.

1N.T.Áptera:quenãopossuiasas.

2I.P.Couliano,ErosetmagieàlaRenaissance[ErosemagianoRenascimento],Paris:Flammarion,1984,

p.237-245.

3N.Bohr,Essays1958-1962onAtomicPhysicsandHumanKnowledge,NewYork:Interscience,1963;ver

tambémG.Holton,L’imaginationscientifique[Aimaginaçãocientífica].Paris:Gallimard,1981,p.124-

129.

ed.1933);vertambémG.Bachelard,“Lalogiquenonaristotélicienne”,Laphilosophiedunon.Essaid’une

philosophiedunouvelespritscientifique[“Alógicanãoaristotélica”,Afilosofiadonão.Ensaiodeuma

filosofiadonovoespíritocientífico].Paris:PUF,1940,p.127-134.

5G.Mathieu,L’abstractionprophétique[Aabstraçãoprofética],Paris:Gallimard,“Idées”,1984,p.83;ver

tambémp.63,85-86,89,91,129,144,331.

6 H. Badescu e B. Nicolescu (dir.), Stéphane Lupasco. L’homme et l’oeuvre. Mônaco: Rocher, “Transdisciplinarité”, 1999 [Stéphane Lupasco: o Homem e a Obra. São Paulo: TRIOM, 2001]; ver

igualmenteB.Nicolescu,“StéphaneLupasco(1900-1988)”,emEncyclopædiaUniversalis,Paris,1989,

seção“Viesetportraits”;B.Nicolescu,“StéphaneLupasco(1900-1988)”,emEncyclopédiePhilosophique

Universelle,t.3,Lesoeuvresphilosophiques,Paris:PUF,1992.

7M.Beigbeder,Contradictionetnouvelentendement[Contradiçãoenovoentendimento].Paris:Bordas,

1972;G.Moury,StéphaneLupasco:pouruneNouvelleLogique–lalogiquedynamiqueducontradictoire

[StéphaneLupasco:porumaNovaLógica–alógicadinâmicadocontraditório],Paris:InstitutNationalde

RechercheetdeDocumentationPédagogiques,1976.

8S.Lupasco,Lestroismatières[Astrêsmatérias],Paris:UGE,“10/18”,1970,p.58.

9S.Lupasco,Dudevenirlogiqueetdel’affectivité[Dodevirlógicoedaafetividade],vol.I,Ledualisme

antagonisteetlesexigenceshistoriquesdel’esprit[Odualismoantagonistaeasexigênciashistóricasdo espírito], vol. II, Essai d’une nouvelle théorie de la connaissance [Ensaio de uma nova teoria do

conhecimento],Paris:Vrin,1935,2ªed.1973;Laphysiquemacroscopiqueetsaportéefilosofique[Afísica

macroscópicaeseualcancefilosófico],Paris:Vrin,1935(tesecomplementar).

10 S. Lupasco, L’expérience microphysique et la pensée humaine [A experiência microfísica e o

pensamentohumano].Paris:PUF,1941,p.1(umaediçãopreliminarfoipublicadaem1940,emBucareste,

pela Fundatia Regala pentru Literatura si Arta). Na edição francesa, o capítulo “Considerações preliminares”daediçãoromenafoisuprimido.

11N.T.Quantificaçãonosentidodamecânicaquântica.

12Ibid.ediçãoromena,p.20,7e14.

13S.Lupasco,Lestroismatières,op.cit.,p.30-31.

14S.Lupasco,Leprinciped’antagonismeetlalogiquedel’énergie.Prolégomènesàunesciencedela

contradiction [O princípio de antagonismo e a lógica da energia. Prolegômenos a uma ciência da

contradição],Paris:Hermann,“ActualitésScientifiquesetIndustrielles”,1951.

15B.Nicolescu,“Letiersinclus–Delaphysiquequantiqueàl’ontologie”[Oterceiroincluído.Dafísica

quânticaàontologia],emH.BadescueB.Nicolescu(dir.),op.cit.,p.113-144;B.Nicolescu,“Levelsof

complexityandlevelsofreality”,emB.Pullman(dir.),TheEmergenceofComplexityinMathematics, Physics,Chemistry,andBiology,ProceedingsoftheplenarysessionofthePontificalAcademyofSciences,

27-31Outubro1992,Vatican:PontificiaAcademiaScientiarum,1996(distribuídoporPrincetonUniversity

Press);B.Nicolescu,“Gödelianaspectsofnatureandknowledge”,emG.AltmanneW.A.Koch(dir.), Systems. New Paradigms for the Human Sciences, Berlin e New York: Walter de Gruyter, 1998; B. Nicolescu, “Hylemorphism, quantum physics and levels of reality”, em D. Sfendoni-Mentzou (dir.),

AristotleandContemporaryScience,NewYork:PeterLang,2000,p.173-184.

16M.Camus,T.Magnin,B.NicolescueK.-C.Voss,“Levelsofrepresentationandlevelsofreality:

towardsanontologyofscience”,emN.H.Gregersen,M.W.S.ParsonseC.Wassermann(dir.),The

ConceptofNatureinScienceandTheology(partII),Genève:LaboretFides,1998,p.94-103;T.Magnin,

Entrescienceetreligion.Quêtedesensdanslemondeprésent[Entreciênciaereligião.Buscadesentidono

mundopresente],Mônaco:Rocher,“Transdisciplinarité”,1998;H.R.Pagels,TheCosmicCode,NewYork:

BantamBooks,1983,p.155.

17P.Sloterdijk,LafoliedeDieu.Ducombatdestroismonothéismes[AloucuradeDeus.Docombatedos

trêsmonoteísmos],Paris:Libella-MarenSell,2008.

18SougratoaJean-FrançoisMalherbeporhaverchamadominhaatençãoparaesseaspecto(comunicação

particular,13dejaneirode2009).

19T.A.Brody,“Onquantumlogic”,FoundationsofPhysics,vol.14,nº.5,1984,p.409-430.

20N.T.ReferenteaGeorgeBoole(1815-1864),lógico,matemáticoefilósofoinglês,criadordalógica

baseadaemumaestruturaalgébricaesemântica,denominadaÁlgebradeBooleemsuahomenagem.

21H.R.Pagels,op.cit.,p.155.

22J.S.Bell,BeablesforQuantumFieldTheory,Genève,OrganisationEuropéennepourlaRecherche

Nucléaire,CERN-TH,nº4035,1984.

23N.Bohr,Physiqueatomiqueetconnaissancehumaine[Físicaatômicaeconhecimentohumano],Paris:

Gauthier-Villars,1961,p.66-67.

24N.T.SegundoLauraCâmaraLima,oconceitode“thema”foiinicialmenteutilizadoporGeraldHolton,

aopostular,apartirdesuaspesquisasempíricas,aexistênciadoqueeledenominouthemaouthemataeque

definiucomo:“concepçõesprimeirasàsquaisoshomensdeciênciaaderem,quemodulamamaneirapela

qual a imaginação deles é governada. Trata-se de concepções fundamentais, estáveis, largamente difundidas,comunsaumgrandenúmerodecientistas;queseconcretizamemconceitos,métodosou hipóteses,queorientamaatividadedepesquisaequenãopodemserreduzidasnemàobservação,nemao cálculo”;emArticulação“Themata-Fundostópicos”:porumaanálisepragmáticadalinguagem,em<

http://www.scielo.br/pdf/ptp/v24n2/14.pdf>,acessoemabril/2010.

25G.Holton,L’imaginationscientifique[Aimaginaçãocientífica],Paris:Gallimard,1981,p.98-99.

26L.deGaigneron,Dumétaphysiqueauphysique.Essaideréalismetranscendant[Dometafísicoao

físico.Ensaioderealismotranscendente],Paris:LeCercleduLivre,1958,p.161.

27S.Lupasco,Psychismeetsociologie[Psiquismoesociologia],Paris:Casterman,1978,p.10.

28S.Lupasco,Lestroismatières,op.cit.,p.19-20.

29Ibid.,p.66,72e35.

30P.Ioan,StéphaneLupascoesestroislogiques[StéphaneLupascoesuastrêslógicas]Iasi:ediçõesda

FondationStéphaneLupasco,2000(emromeno).

31G.Durand,L’imaginationsymbolique[Aimaginaçãosimbólica],Paris:PUF,“Quadrige”,1984,p.95-

96;vertambémG.Durand,“L’anthropologieetlesstructuresducomplexe”[Aantropologiaeasestruturas

docomplexo],emH.BadescueB.Nicolescu(dir.),op.cit.,p.61-74.

32S.Lupasco,Lestroismatières,op.cit.,p.38e15.

33Ibid.,p.75.

34Y.Durand,“L’apportdelaperspectivesystémiquedeStéphaneLupascoàlathéoriedesstructuresde

l’imaginaireeàsonexpérimentation”[AcontribuiçãodaperspectivasistêmicadeStéphaneLupascoà teoriadasestruturasdoimaginárioeasuaexperimentação]eG.Lerbet,“L’‘Universpsychique’etla penséecomplexe”[O“Universopsíquico”eopensamentocomplexo],emH.BadescueB.Nicolescu(dir.),

op.cit.,respectivamentep.75-92ep.93-112.

35S.Lupasco,Lestroismatières,op.cit.,p.52.

36L.deGaigneron,L’imageouledramedelanullitécosmique[Aimagemouodramadanulidade

cósmica],Paris:LeCercleduLivre,1956,p.184-185.

37G.Durand,L’imaginationsymbolique,op.cit,p.71.

38S.Lupasco,Leprinciped’antagonismeetlalogiquedel’énergie,op.cit.,p.70.

39S.Lupasco,Lestroismatières,op.cit.,p.48e20.

40P.A.M.Dirac,ThePredictionofAntimatter(H.R.CraneLecture),AnnArbor,UniversityofMichigan,

1978,p.13.

41N.T.Bevatron:aceleradordepartículasdoLawrenceBerkeleyNationalLaboratory,quecomeçoua

operarem1954efoidesativadoem1993.

42R.PenroseeM.A.H.MacCallum,“Twistortheory:anapproachtothequantizationoffieldsandspace-

time”,PhysicsReports,vol,6C,nº4,1973,p.243.

43S.Lupasco,Leprinciped’antagonismeetlalogiquedel’énergie,op.cit.,p.71,99,112e114.

44Ibid.,p.101e110.

45Ibid.,p.105.

46Nocampomusical,verC.Cazaban,“Letempsdel’immanencecontrel’espacedelatranscendance:

œuvreorganiquecontreœuvrecritique”[Otempodaimanênciaversusoespaçodatranscendência:obra

orgânicaversusobracrítica],emH.BadescueB.Nicolescu(dir.),op.cit.,p.225-236;C.Cazaban,“Temps

musical/espacemusicalcommefonctionslogiques”[Tempomusical/espaçomusicalcomofunções

lógicas],emH.Dufourt,J.-M.FouqueteF.Hurard,L’espritdelamusique.Essaisd’esthétiqueetde

philosophie[Oespíritodamúsica.Ensaiosdeestéticaedefilosofia],Paris:Klincksieck,1992;M.Vial-

Henninger,Essaidemythe-analyseduprocessusdecréationmusicale[Ensaiodemito-análisedoprocesso

decriaçãomusical],SeptentrionPressesUniversitaires,1996.Emliteratura,verP.Craciunescu,“L’‘étatT’

etlatranscosmologiepoétique”[O“estadoT”eatranscosmologiapoética],emH.BadescueB.Nicolescu

(dir.),op.cit.,p.183-216.

47S.Lupasco,Lestroismatières,op.cit.,p.20-21.

48S.Lupasco,Leprínciped’antagonismeetlalogiquedel’énergie,op.cit.,p.80.

49N.T.Assintótico:referenteaassíntota,dogregoasymptotas,“quenãopodecoincidir”.EmGeometria

Analítica,assíntotasignifica:tangenteaumacurvanoinfinito;retalimitedafamíliadastangentesauma curvaquandoopontodetangênciatendeparaoinfinito(NovoDicionárioAuréliodaLínguaPortuguesa).

50Sempreinventivosnoplanoterminológico,osfísicoschamamde“democraciadimensional”aseguinte

propriedade,queaparecenateoriadesuperunificaçãoM(aletraMsignifica,segundodiferentesautores, “magia”,“mistério”ou“membrana”,amembranasendoumobjetoestendido,quegeneralizaanoçãode cordavibrante):cadamembranaédefinidaemfunçãodetodasasoutrasmembranas.Issoimplicaquecada dimensãoqueaparecenateoriafísicaétãoimportantequantotodasasoutrasdimensões.

51D.Terré,Lesdérivesdel’argumentationscientifique[Osdesviosdaargumentaçãocientífica],Paris:

PUF,1998.

52J.-J.Wunenburger,Laraisoncontradictoire.Sciencesetphilosophiemodernes:lapenséeducomplexe

[Arazãocontraditória.Ciênciasefilosofiamodernas:opensamentodocomplexo],Paris:AlbinMichel,

1990.

53G.G.Granger,L’irrationnel[Oirracional],Paris:OdileJacob,1998.

54D.Gross,“Ontheuniquenessoffieldtheories”,emC.DeTar,J.FinkelsteineC.I.Tan,APassionfor

Physics, Proceedings of the G. F. Chew Jubilee, September 29, 1984, New Jersey: World Scientific

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55E.Morin,Laméthode[Ométodo],t.I,Lanaturedelanature[Anaturezadanatureza],Paris:Seuil,

1977;t.II,Laviedelavie[Avidadavida],Paris:Seuil,1980;t.III,Laconnaissancedelaconnaissance

[Oconhecimentodoconhecimento],1,Anthropologiedelaconnaissance[Antropologiadoconhecimento],

Paris:Seuil,1986.

56E.Morin,Scienceavecconscience[Ciênciacomconsciência],Paris:Fayard,1982,p.118.

57Aconversaencontra-seemH.BadescueB.Nicolescu(dir.),op.cit.,p.43-59.

58B.Fondane, L’être et la connaissance. Essai sur Lupasco [O ser e o conhecimento. Ensaio sobre

Lupasco],Paris:Paris-Méditerranée,1998.

59M.Planck,Initiationsàlaphysique[Iniciaçõesàfísica],Paris:Flammarion,1941,p.6.

60 J.-F. Malherbe, “Jeux de langage” et “tiers inclus”: de nouveaux outils pour l’éthique appliquée [“Jogosdelinguagem”e“terceiroincluído”:novosinstrumentosparaaéticaaplicada],Sherbrooke:GGC,

2000;Lenomadepolyglotte.L’excellenceéthiqueenpostmodernité[Onômadepoliglota.Aexcelênciaética

napós-modernidade],Montréal:Bellarmin,2000,p.163-201.

Capítulo2

Nocentrododebate:oterceiroincluído

Leprinciped’antagonismeetlalogiquedel’énergie:prolégomènesàune sciencedelacontradictionéoensaiodeumaformulaçãoaxiomáticadalógica doantagonismo.Oterceiroincluído–chavedeabóbadadafilosofialupasciana –neleestáplenamentepresentepelaprimeiraveznaobradeLupasco.Éo terceiro incluído que permite a cristalização do pensamento de Lupasco, introduzindoumrigoreumaprecisãosemosquaiselepoderiaservistocomo um imenso devaneio, fascinante porém nebuloso. Esse rigor e essa precisão explicamainfluência,abertaousubterrânea,daobradeLupasconacultura francesa.Masfoitambémoterceiroincluídoquedesencadeoutodaumasérie intermináveldemal-entendidoseumahostilidadequeiadosilêncioembaraçado àexclusãodeliberadadeLupascodomundouniversitárioedosdicionários.

Oterceiroincluídoeanão-contradição

Aprimeira frase do Principed’antagonisme foi suficiente para afastar da leitura do livro de Lupasco todo filósofo ou todo lógico normalmente constituído:“Oqueaconteceriasefosserejeitadooabsolutismodoprincípiode não-contradição,sefosseintroduzidaacontradição,umacontradiçãoirredutível, na estrutura, nas funções e nas próprias operações da lógica?”.1 Esta frase condensa, ainda hoje, o importante mal-entendido concernente à obra lupasciana:alógicadeLupascoviolariaoprincípiodenão-contradição.Sua filosofiaseria,então,marcadacomoselodainsignificânciaeclassificadacomo uma curiosidade barroca no museu de excentricidades intelectuais. Como veremos,Lupasconãorejeitouoprincípiodecontradição:elesimplesmentepôs emdúvidaseu“absolutismo”.Mascontinuemosnossaviagemaointeriordo livro,queconsiderocentralparaacompreensãodaobra. Lupascoagravouaindamaisasuasituaçãoalgumaspáginasadiante,onde formulaseu“postuladofundamentaldeumalógicadinâmicadocontraditório”:

“A todo fenômeno ou elemento ou evento lógico qualquer e, portanto, ao

julgamentoqueopensa,àproposiçãoqueoexprime,aosignoqueosimboliza

(e,porexemplo),devesersempreassociado,estruturalefuncionalmente,um

antifenômeno,ouantielemento,ouantieventológico,eportanto,umjulgamento,

umaproposição,umsignocontraditórionão-e(

pode ser potencializado pela atualização de não-e, mas não desaparecer. Do mesmomodo,não-esópodeserpotencializadopelaatualizaçãodee,masnão desaparecer.

Pode-seimaginar,muitobem,aperplexidadedemuitoslógicosefilósofos diantedetalpostulado:seapalavra“proposição”ébemdefinidaemlógica,qual poderiaserasignificaçãodepalavrascomo“fenômeno”,“elemento”e“evento”, pertencentes muito mais ao vocabulário da física do que ao da lógica? E, principalmente,comocompreenderqueumúnicoemesmosímbolo“e”possa significarasquatropalavrasaomesmotempo?EstariaLupascocometendoum grandeerrodelógicadesdeoiníciodeseulivro?Ouestariafundandoumanova lógica, aberta para a ontologia? A lógica de Lupasco seria, de fato, uma ontológica? Não é fácil responder tais questões sem uma leitura atenta do Principed’antagonismeedosoutroslivrosdeLupasco. OfamosoestadoT(“T”do“terceiroincluído”)fazsuaapariçãobemnoinício dolivro.Eleédefinidocomoumestado“nematualnempotencial”.Apalavra “estado” refere-se aos três princípios lupascianos – a atualização A, a potencialização P e o terceiro incluído T – subjacentes ao “princípio de antagonismo”.Noplanoformal,eenão-etêmassimtrêsíndices:A,P,eT,oque permiteaLupascodefinirsuas“conjunçõescontradicionais”ouquantalógicos, fazendointervirseistermoslógicosindexados:aatualizaçãodeeéassociadaà potencializaçãodenão-e,aatualizaçãodenão-eéassociadaàpotencializaçãode

e,eoterceiroincluídodeeé,aomesmotempo,oterceiroincluídodenão-e.3

Lupascoespecificaquee

)”.2

Estaúltimaconjunçãomostraasituaçãoparticulardoterceiroincluído.Este terceiro é um terceiro unificador: ele unifica e e não-e. Nós veremos, no próximo capítulo, o sentido profundo dessa unificação não fusional, que é impossíveldesercompreendidasemrecorrerànoçãode“níveisderealidade”. Os três quanta lógicos lupascianos são diretamente inspirados na física quântica.Elessubstituemasduasconjunçõesdalógicaclássica,fazendointervir quatrotermoslógicosindexados:“seeé‘verdadeiro’,não-edeveser‘falso’”e “seeé‘falso’,não-edeveser‘verdadeiro’”. Compreende-seassim–seforfeitooesforçodelercomatençãoasonze primeiras páginas do Principe d’antagonisme – que Lupasco não rejeita o princípio de não-contradição: ele amplia seu campo de validade, do mesmo modoqueafísicaquânticatemumcampodevalidademaisamploqueoda

físicaclássica.Masaquestãocrucialpersiste:comosepoderiaconceberum terceirounificadordeeenão-e?Ou,segundoasprópriaspalavrasdeLupasco, comosepoderiaconceberquetoda“não-atualização/não-potencialização”possa implicaruma“não-atualização/não-potencializaçãocontraditória”?4 Aliás,qual poderiaserosentidodaexpressão“não-atualização/não-potencialização”? Um capítulo muito interessante é “La contradiction irrédutible et la non- contradictionrelative”,5 ondeLupascointroduzasprópriascontradiçãoenão- contradiçãoenquantotermoslógicos.Mas,seestesdoistermossãoindexados emfunçãodeAeP,oíndiceTestáausente.Emoutraspalavras,naontologia lupasciana, não há terceiro incluído da contradição e da não-contradição. Paradoxalmente,acontradiçãoeanão-contradiçãosubmetem-seàsnormasda

lógicaclássica:aatualizaçãodacontradiçãoimplicaapotencializaçãodanão-

contradição e a atualização da não-contradição implica a potencialização da

contradição.Nãoháestadonematualnempotencialdacontradiçãoedanão-

contradição.Oterceiroincluídointervém,todavia,deumamaneiracapital:o quantum lógico que faz intervir o índice T é associado à atualização da contradição,enquantoqueosdoisoutrosquantalógicos,quefazeminterviros índicesAeP,sãoassociadosàpotencializaçãodacontradição.Nessesentido,a contradiçãoéirredutível,poissuaatualizaçãoéassociadaàunificaçãodeee não-e.Consequentemente,anão-contradiçãonãopodesersenãorelativa.Como veremos,osentidodessasafirmaçõesseesclareceapósaintroduçãodosníveis

derealidadeesuaincompletude.6

AontológicadeLupasco

Le principe d’antagonisme dissipa um outro mal-entendido: Lupasco não rejeitaalógicaclássica,eleaengloba.Alógicaclássicaé,paraele,“ uma macrológica,umalógicautilitáriaemlargaescala,quetemmaioroumenor

êxitonaprática”.7

SeLupascoestádeacordocomFerdinandGonsethsobreaimpossibilidadede umjulgamentocientíficoabsoluto,eledeleseafastaemtermosdacompreensão dessaimpossibilidade.8 ParaLupasco,comofoivisto,umjulgamentocientífico está intrinsecamente ligado ao julgamento científico antagônico: é essa contradição irredutível, ligada ao próprio sujeito, que é o próprio motor do avançocientífico.Oprogressocientíficoqueoperariapormeiodeumacontínua aproximaçãodasleisabsolutaseimutáveis,é,segundoele,umasimplesilusão, tenaz, mas sem qualquer fundamento. As próprias leis devem submeter-se à contradição irredutível. “Ahistória da ciência está aí, aliás, para desapontar

impiedosamentetodacrençaemumaverdadeabsoluta,emqualquerleieterna”.9

Essa afirmação de Lupasco mereceria ser longamente meditada atualmente, quando,naspegadasdocasoSokal,vê-seoreaparecimentodosdemôniosda

“verdadeabsoluta”edas“leiseternas”.10

ParaLupasco,tudopodeserreconduzidoaeouanão-e.“Emaisainda,sefor observadoagoraqueeenão-e( )nãosãoelementosoueventossubstanciais, suportesfinais,termos‘materiais’,porassimdizer,deumarelação,masqueeles própriossãosemprerelações”.11 Assupercordas–comoaparecemhojenamais ambiciosa teoria de unificação da física quântica e relativista, e que supostamenterepresentamaspartículaseasantipartículas–nãosãobemmais

relaçõesdoqueelementossubstanciais?12

O terceiro incluído está associado à dialéticaquântica, a da “contradição atualizada relativamente pelo possível ambivalente, pelo equívoco”. Ela dá acessoà“lógicaconcretaquereinamuitasvezesnasprofundezasda‘alma’,à lógicamaisparticularmente‘psíquica’”.Aqui,aterminologiaésignificativa.De fato,paraLupasco,devehaverisomorfismo(enãoidentidade)entreomundo microfísicoeomundopsíquico.Seuisomorfismoéengendradopelapresença contínua,irredutíveldoestadoTemtodamanifestação.Adialéticaquânticaé,

segundoasbelíssimaspalavrasdeLupasco,ada“dilataçãodadúvida”.13

AnoçãodetrêsmatériasjáestápresenteemLeprinciped’antagonisme.A dialética quântica dá “nascimento a uma terceira matéria, a matéria que poderíamosdesignarsobonomedematériaT,queseriatalvezcomoqueuma matéria-fonte,umamatéria-mãe,espéciedecrisolfenomenalquânticodeonde jorrariamasduasmatériasdivergentes,físicaebiológica( )eparaondeestas

últimasretornariamrítmicaedialeticamente,parasedesenrolarnovamente”.14

Atridialética lupasciana é uma visão da unidade do mundo, de sua não- separabilidade. Lupasco reconcilia-se com a tradição esclarecendo, de uma maneiranova,oantigoprincípiodeinterdependênciauniversal.Maseletambém antecipa, em uma década, o princípio de bootstrap, introduzido na física quânticaporGeoffreyChewesegundooqualcadapartículaéoqueéporque todasasoutraspartículasexistemaomesmotempo.15 Emcertosentido,toda partículaéfeitadetodasasoutraspartículas.Nãoé,então,surpreendenteque Lupascopartilhe,comateoriadobootstrap,aideiadequenãopodehaver constituintesúltimosdamatéria. Nãosepodeduvidarque,paraLupasco,aciência,aomenosumaciência digna deste nome, possui necessariamente um fundamento ontológico. Caso contrário,elasereduziriaa“umprocessoverbalmontadonocontatocoma sucessãodosfatos”.16 Aontologialupascianatrazconsequênciasextremamente importantesparanossacompreensãodoespaçoedotempo.Oterceiroincluído

induzadescontinuidadedoespaçoedotempo.Lupascochegaassimaumadas principaisconclusõesiniciaisdamecânicaquântica,masquenãofoilevadaa efeitonateoriaposterior,poisosfísicoscontentaram-se,comalgumasexceções, emsobreporàmecânicaquânticaoespaço/tempocontínuodafísicaclássica, procedimentocertamentecontestável,mascômodo.ParaLupasco,tantootempo comooespaçosãodescontínuos.Oespaço/tempoquânticoéaqueledaterceira

matéria,dosfenômenosquânticos,estéticosepsíquicos.17

Como verdadeiro pesquisador, Lupasco considera, portanto, que seu livro constitui apenas “os prolegômenos a uma ciência da contradição”.18 Assim terminaLeprinciped’antagonismeetlalogiquedel’énergie. Alógica do terceiro incluído não é simplesmente uma metáfora para um ornamento arbitrário da lógica clássica, permitindo algumas incursões aventurosas e passageiras no campo da complexidade. Ela é bem mais uma lógica da complexidade e até mesmo, talvez, sua lógica privilegiada, por permitiratravessar,demaneiracoerente,osdiferentescamposdoconhecimento. Alógicado terceiroincluídonão abolealógica doterceiroexcluído:ela somente restringe seu campo de validade. A lógica do terceiro excluído é certamente válida em situações relativamente simples como, por exemplo, a circulaçãodeveículosemumaautoestrada:ninguémsonhaemintroduzir,em uma autoestrada, um terceiro sentido em relação ao sentido permitido e ao sentidoproibido.Poroutrolado,elaénocivaemcasoscomplexos,comono camposocialepolítico,porexemplo. Arrisco-meapredizerque,napróximadécada,oterceiroincluídovaifazer suaentradanavidadiáriaatravésdaconstruçãodecalculadoresquânticos,que vãomarcaraunificaçãoentrearevoluçãoquânticaearevoluçãonainformação. Asconsequênciasdessaunificaçãosãoincalculáveis.

Acriptografiaquântica,oteletransporte,oscomputadores

quânticoseoterceiroincluído

Asideiaseoformalismodamecânicaquânticaforaminvestidosemoutros

ramosdafísica(físicanuclear,físicadaspartículas,físicaatômicaemolecular,

físicadoestadosólidoedosmeioscondensados–nestesentidopode-sefalarde

umafísicaquântica),mastambémnaquímica,nabioquímicaeatémesmona

cosmologia.

Naverdade,osefeitosquânticosnãoselimitamàescaladoinfinitamente

pequeno.Sistemasmacroscópicoscomoosfeixesdelaser,ohéliosuperfluidoou

osmetaissupercondutoresapresentamefeitosquânticosemgrandeescala.Mas,

apesardetudo,omundoquânticocontinuaaser,paraograndepúblico,um mundodistante,paradoxal,ambíguo,nafronteiraentreorealeoimaginário.E, noentanto,umacontecimentoextraordináriofoiproduzido,justocercadofinal do século XX, como se o conhecimento científico quisesse celebrar, a sua maneira, o centenário do nascimento da mecânica quântica: a passagem repentinadasideiasquepareciamreservadas,apenasháalgunsanos,aosdebates deiniciados–anão-separabilidade,oindeterminismo,areduçãodopacotede ondas,asrelaçõesdeincerteza–paraasaplicaçõespráticasnoquedizrespeitoa nossavidacotidiana.Umanovateoria,ateoriaquânticadainformação,veioà luzgraçasaofelizeinesperadocasamentodateoriadainformaçãocomateoria quântica. Palavras novas como criptografia quântica, intricação ou computadoresquânticoscomeçaramaaparecernasrevistascientíficasdemaior prestígio. E até mesmo uma palavra como “teletransporte”, que fascina a imaginaçãodeleitoresdeobrasdeficçãocientíficaoudejovensespectadoresde filmes de ficção científica, fez sua entrada no mundo sério da ciência: o teletransportequântico.Umaverdadeiraexplosãodepublicaçõessobreesses novoscamposfoiacompanhadaporinvestimentosfinanceirosconsideráveis.E se o dinheiro estava envolvido, significa que não se trata, seguramente, de metafísicaoudepoesia.Doquesetrataria? No centro de todos esses desenvolvimentos encontra-se o princípio de superposição quântica, ilustrado pelo célebre gato quântico de Schrödinger, morto e vivo ao mesmo tempo. Esse gato bizarro está vivo com uma certa probabilidade e morto com uma outra probabilidade, a soma dessas duas probabilidades sendo de 100%. Nenhuma medida em nosso próprio mundo, mostrando-nosclaramentequeogatoestáouvivooumorto,podeaboliroque acontecenomundoquântico,ondeogatonãoestánemmortonemvivo.É precisamenteesseprincípio desuperposiçãoquântica queengendratodos os supostosparadoxosquânticos easgrandes dificuldadesdecompreensão dos fenômenos quânticos quando eles são vistos através da grade do realismo clássico.Masomesmoprincípiopoderiapresidironascimentodeumanova espéciedecomputadores:oscomputadoresquânticos. Oprincípiodesuperposiçãoquânticanãopodesercompreendidodeoutro modoanãoserpeloterceiroincluído.Nomundoquântico,acombinaçãoentreo estado“sim”eoestado“não”éumestadofísicopermitido.Então,nãoédese estranharque,nalinguagemdateoriaquânticadainformação,sefaledeportas quânticascomo,porexemplo,“araizquadradade‘sim’”.Essasportasquânticas vão reger o funcionamento dos calculadores quânticos de amanhã e, particularmente,osfuturosmecanismosdepesquisa.Um“Googlequântico”vai

permitirquealinguagemdoterceiroincluídoestejapresenteemnossavida diária. Teriasidoumacasoqueoprimeiropesquisadorapensarnapossibilidadede computadoresquânticostenha sidoofísico teóricoRichardFeynman, figura emblemática da física do século XX e homem de uma grande abertura de espíritoemrelaçãoaoutroscamposdoconhecimento?19 Masaquelequemostrou

efetivamente,em1985,quetalcomputadorérealizávelfoiofísicoteóricoDavid

Deutsch,daUniversidadedeOxford.20

Aideia fundamental dos computadores quânticos é relativamente simples. Todossabemquetodainformaçãoreferenteaumtexto,umaimagemouumsom

écodificadanoscomputadorespelasériede0ede1.Aunidadefundamentalde

informaçãoéobit(palavraquevemdoinglêsbinarydigit),quepodeterdois

valores:0e1.Essebitjáéquânticoporsuanatureza,poiselesignificauma

propriedadequântica:umspin,umapolarizaçãoouumnívelenergético.Massua leitura,emnossoscomputadoresatuais,éclássica:umbitserádescritoporum número,doisbitspordois,trêsbitsportrês,nbitsporn.Sualeituraquântica seráradicalmentediferente:obitquântico–ouqubit–terásimultaneamenteos

valores0e1,cadavalorsendoafetadoporumacertaprobabilidade.Então,dois

qubitsserãodescritospor4coeficientes,trêsqubitspor8coeficientesenqubits

por n coeficientes. Por exemplo, se n = 50, então 1015 números serão

necessários para descrever todos os estados do computador quântico, o que ultrapassaascapacidadesdenossoscomputadoresatuais.Àproporçãoqueo

cálculovaisendofeito,osestadosquânticossãocadavezmaisintricados:anão-

separabilidadequânticadesempenhaplenamenteseupapel.Tudoacontececomo se um computador quântico fosse equivalente a um imenso número de calculadores clássicos calculando simultaneamente, cada um em um mundo paraleloaonosso(interpretaçãofavoritadeDavidDeutsch). É claro que ainda estamos muito longe da realização efetiva desses computadoresquânticos,poisadecoerênciaameaçaaexistênciadeles.Masos progressos–aomesmotempoteóricoseexperimentais–sãomuitorápidose essescalculadorespoderãofazersuaapariçãoemnossavidadiárianocursodas próximasdécadas. Ofenômenodeintricaçãodosestadosquânticospermiteatransmissãodeuma mensagemquânticaàdistância.Intricaçãoquânticasignificadizerqueoestado quânticodedoisobjetosdeveserdescritoglobalmente,sempodersepararum objeto do outro, ainda que eles possam estar espacialmente separados. São obtidas assim correlações entre as propriedades físicas observadas dos dois objetos, que não estariam presentes se fosse possível atribuir propriedades

individuais a cada um deles. Mesmo que estejam separados por grandes

distânciasespaciais,osdoisobjetosnãosãoindependenteseéprecisoconsiderá-

loscomoumsistemaúnico. Masnãosetratadoteletransportedeumobjeto,deumapessoaoudeuma alma,esimdepropriedadesquânticas.EstamoslongedeStarTrek[Jornadanas Estrelas],masnósnosencontramosemummundoigualmenteperturbador.O fenômenodeteletransportequânticofoiinventadoporCharlesH.Benneteseus colaboradores em 1993 e, alguns anos depois, uma série de experiências de teletransportequânticofoirealizadaporAntonZeilingereseuscolaboradores, naUniversidadedeInnsbruck,Áustria.21 Oteletransportequânticopõeemjogo trêsfótons:umfótonmensageiroM,codificadocomoAlicedentrodeumestado específicodepolarização,edoisoutrosfótonsintricadosAeB.OsfótonsMeA sãodirigidosparaomesmoaparelhoetornam-se,porsuavez,intricados.M perdesuaidentidadeinicial.OfótonBcontinuasuarotarumoaBob,eéeleque vailevar,graçasàsmaravilhosaspropriedadesquânticas,amensagemaBob:a polarizaçãodeBseráprecisamenteadeM.Umparmíticofazassimsuaentrada noquadroausterodasrevistascientíficas:BobeAlice,umaespéciedeAdãoe Evaquânticos. Oprincípiodesuperposiçãoquânticaapresentaconsequênciasimportantesna criptografia,termoquedesignaaelaboraçãodeumcódigodecifrávelsomente pelo emissor e pelo destinatário. A ideia de uma criptografia quântica foi

difundida,em1983-1985,porS.Wiesner,CharlesH.BenneteGillesBrassard.22

Aprimeiraexperiênciadecriptografiaquânticafoiefetuada,porvoltade1990,

nolaboratóriodaIBM,cobrindoumadistânciade30cm.Atualmente,como

vimos,asdistânciassãodaordemdoquilômetro.Aparticularidadedocódigo quântico é que ele é invencível. Qualquer espião que tentasse decifrar a mensagemtransmitidaentreAliceeBobencontrariaumamensagemfalsa,pois suaprópriaintervençãoaboliriaasleisquânticas:oespiãonãoéumobjeto quânticoe,portanto,nãopodeentrarnojogosutildaintricaçãoquântica.Desse modo,seriapostoumfimaopesadelodaviolaçãodoscódigosdenossoscartões bancários. Indomaislongeainda,osefeitosquânticostêmatémesmoumadeterminada influênciaemnossaprópriavidabiológicaepsíquica.Comoressaltavaofísico HeinzPagels,umexemploé“acombinaçãoaleatóriademoléculasdeADNno momentodaconcepçãodeumacriança,quandoascaracterísticasquânticasda ligaçãoquímicadesempenhamumcertopapel”.23 Osefeitosquânticostambém desempenham,certamente,umpapelnofuncionamentodenossocérebroede

nossaconsciência.24

O mundo quântico e o terceiro incluído não estão, afinal de contas, tão distantes. Eles estão em nós e, brevemente, estarão conosco em nossa vida diária.Ese,enfim,onossoprópriomundoéquefosseoverdadeiroValedo Espanto?

1S.Lupasco,Leprinciped’antagonismeetlalogiquedel’énergie.Prolégomènesàunesciencedela

contradiction,Mônaco:Rocher,“L’espritetlamatière”,1987,p.3(1ªed.,Paris:Hermann,“Actualités

ScientifiquesetIndustrielles”,1951).

2Ibid.,p.9.

3Ibid.,p.10e11.

4Ibid.,p.12.

5Ibid.,p.14.

6B.Nicolescu,Latransdisciplinarité,Mônaco:Rocher,“Transdisciplinarité”,1996.

7S.Lupasco,op.cit.,p.20.

8F.Gonseth,“ÀproposdedeuxouvragesdeM.StéphaneLupasco”[Apropósitodeduasobrasde

StéphaneLupasco],Dialectica,vol.1,nº4,1947.

9S.Lupasco,op.cit.,p.21.

10B.Nicolescu,“Scientisme,l’autreaffaireSokal”[Cientificismo,ooutrocasoSokal],Esprit,nº7,julho

de2006,p.194-198.

11S.Lupasco,op.cit.,p.36.

12B.Nicolescu,“Relativitéetphysiquequantique”[Relatividadeefísicaquântica],emDictionnairede

l’ignorance[Dicionáriodaignorância],Paris:AlbinMichel,1998.

13S.Lupasco,op.cit.,p.40e63.

14Ibid.,p.63.

15 G. F. Chew, “Hadron bootstrap: triumph or frustration?”, PhysicsToday, vol. 23, nº 10, 1970; B.

Nicolescu,Nous,laparticuleetlemonde[Nous,apartículaeomundo],Paris:LeMail,1985,cap.“Le

principedebootstrap”[Oprincípiodebooststrap],p.89-110.

16S.Lupasco,op.cit.,p.82.

17Ibid.,p.116.

18Ibid.,p.131.

19R.Feynman,“Simulatingphysicswithcomputers”,InternationalJournalofTheoreticalPhysics,vol.

21,1982,p.467.

20D.Deutsch,TheFabricofReality,Londres:PenguinBooks,1997.

21C.H.Bennet,G.Brassard,C.Crépeau,R.Josza,A.PereseW.K.Wooters,“Teleportinganunknown

quantumstateviadualclassicalandEinstein-Podolsky-Rosenchannels”,PhysicalReviewLetters,vol.70,

1993,p.1895;J.-W.Pan,D.Bouwmeester,M.Daniell,H.WeinfurtereA.Zeilinger,Nature,vol.403,3de

fevereirode2000,p.515.

22Paraumexamemaisrecentesobreacriptografiaquântica,verN.Gisin,G.Ribordy,W.TitteleH.

Zbinde,“Quantumcryptography”,ReviewsofModernPhysics,vol.74,2002,p.145-195.

23H.R.Pagels,TheCosmicCode,NewYork:BantamBooks,1983,p.126.

24H.P.Stapp,Mind,Matter,andQuantumMechanics,NewYork:Springer,1993;R.Penrose,Shadowsof

theMind:aSearchefortheMissingScienceofConsciousness,NewYork:OxfordUniversityPress,1995;

J.Eccles,Commentlaconsciencecontrolelecerveau[Comoaconsciênciacontrolaocérebro],Paris:

Fayard,1997.

Capítulo3

Níveisderealidadeemúltiploesplendor

doSer

O principal impacto cultural da revolução quântica foi, certamente, o questionamentododogmafilosóficocontemporâneodaexistênciadeumúnico nívelderealidade.Arevoluçãoquânticadesempenhouumpapelimportanteno nascimentodeumanovaabordagem,aomesmotempocientífica,cultural,social eespiritual:atransdisciplinaridade. Oconceitochavedatransdisciplinaridadeéodeníveisderealidade.1 Aideia de níveis de realidade impôs-se a mim durante uma estadia no Lawrence

BerkeleyLaboratory,em1976,porqueeunãocompreendiadeondevinhaa

resistênciaàunificaçãodateoriadarelatividadecomamecânicaquântica.Tal foiopontodepartidademinhareflexão.EutrabalhavanaépocacomGeoffrey Chew,ofundadordateoriadobootstrap.Asdiscussõesquetivecomeleecom outros colegas de Berkeley estimularam-me muito para que eu chegasse a formular essa ideia. Foi em Berkeley que comecei a redação de um livro referenteaosprolongamentosepistemológicosefilosóficosdafísicaquântica. Em 1981, fiquei intrigado com a noção de “real velado” de Bernard d’Espagnat,2 quenãomepareciaserumasoluçãosatisfatóriaparaoproblema que me preocupava, e decidi tornar pública a minha noção de “níveis de

realidade”.Introduzi,então,essanoçãoemumartigopublicadoem1982,na3e

Millénaire,3 revistaemqueLupascotambémcolaborava.Aformulaçãodesse conceitofoiretomadanaprimeiraediçãodemeulivroNous,laparticuleetle

monde.4

Emplenapreparaçãodesselivro,compreendi,repentinamente,queessanoção

tambémofereciaumaexplicaçãosimpleseclarasobreainclusãodoterceiro.

Comumacertaapreensão(comoumgrandecriadorcomoeleiriareagiraminha

intrusãonoterritóriodesuafilosofia?),abri-mecomLupasco.Aoinvésdeuma

resistência,houveumaexplosãodealegriaeLupascoencorajou-me,comsua

proverbialgenerosidade,apublicaromaisrápidopossívelaminhadescoberta. Depois,comocorrerdosanos,desenvolviaideiadeníveisderealidadeem

livros,artigoseconferências.Falecidoem1988,Lupasconãopôdeconheceros

desenvolvimentosaceleradosdatransdisciplinaridade.Justamenteumanoantes de sua morte, fundei o Centro Internacional de Pesquisas e Estudos Transdisciplinares (CIRET) e Stéphane Lupasco aceitou, sem qualquer hesitação,figurarentreosmembrosfundadores.Foiumatosimbólicodeuma grande importância, pois Lupasco foi um dos grandes precursores da transdisciplinaridade.

Em1992,fuiconvidado,comoespecialista,paraumasessãodaPontifícia

AcademiadasCiências,dedicadaaoestudodacomplexidadenasciências.Falei sobre a natureza, considerada sob o ponto de vista da física quântica, e apresenteiminhaabordagemreferenteaosníveisderealidade.5 Ograndefísico austríacoWalterThirring,presentenocongressodeRoma,apresentou-meum pequenoartigo,aindainédito,ondeencontreisuasimportantesconsiderações

sobreanaturezadasleisfísicas,nocasodeníveisdiferentesderealidade.6

Poucotempodepois,conheciostrabalhosdeLaurentNottale,físicoteóricoda EscolaNormalSuperiordeParis,queformulavaamesmaquestãoqueeu,ou seja,“deondeviriaaaparenteimpossibilidadedeunificaçãoentreateoriada relatividade e a mecânica quântica?”7 Nottale não se propunha a estabelecer passarelasentreasduasteorias,darelatividadeedamecânicaquântica.Ele queriaumateoriaquenãofossenemafísicaclássicanemafísicaquântica,uma terceirateoria,ondeseencontrasse,comocasoparticulareemcertasescalas,a mecânica quântica e a mecânica clássica. Tratava-se de um programa, evidentemente,enãodeumateoriaacabada.Emseutrabalhoencontreiaideia deníveis,deumamaneiraimplícitaemuitosutil,ouseja,atravésdosfractais.A ideiadequeopróprioespaço/tempodevesersubmetidoàrelativizaçãodeescala estavainteiramentedeacordocommeupontodevista.

Masagrandesurpresaaconteceuem1998,quandodescobriaobradeWerner

Heisenberg,Philosophie.Lemanuscritde1942.8 Esselivroprovocouemmim umverdadeirodeslumbramento,porqueneleencontreiamesmaideiadeníveis derealidade,sobumaformadiferente,écerto,masmuitofecunda.Olivrode

Heisenbergteveumahistóriaespantosa:elefoiescritoem1942,massófoi

publicadoemalemãoem1984.Efoitraduzidoparaofrancêsem1998.Ainda

nãohá,queeusaiba,umatraduçãodessaobraparaoinglês.

Osníveisderealidadeeoreencantamentodomundo

Anoçãodeníveisderealidadeofereceumaexplicaçãosimpleseclarasobrea

inclusãodoterceiro.Atribuímosàpalavra“realidade”seusentidoaomesmo tempopragmáticoeontológico.Entendoporrealidade,acimadetudo,aquilo que resiste às nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizaçõesmatemáticas.Afísicaquânticanosfezdescobrirqueaabstração nãoéumasimplesinterme-diáriaentrenóseanatureza,uminstrumentopara descreverarealidade,masumadaspartesconstitutivasdanatureza.Nafísica quântica,oformalismomatemáticoéinseparáveldaexperiência.Eleresiste,a suamaneira,tantoporseucuidadocomaautoconsistênciainterna,comoporsua necessidade de integrar os dados experimentais sem destruir essa autoconsistência.Aabstraçãoéparteintegrantedarealidade. É preciso atribuir uma dimensão ontológica à noção de realidade, pois a naturezaparticipadoserdomundo.Anaturezaéumaimensaeinesgotávelfonte dedesconhecidoquejustificaaprópriaexistênciadaciência.Arealidadenãoé somenteumaconstruçãosocial,oconsensodeumacoletividade,umacordo intersubjetivo. Ela possui também uma dimensão trans-subjetiva, pois um simplesfatoexperimentalpodearruinaramaisbelateoriacientífica. Éprecisoentenderpornívelderealidadeumconjuntoinvariantedesistemas sobaaçãodeumnúmerodeleisgerais:porexemplo,asentidadesquânticas submetidasàsleisquânticas,asquaisestãoemrupturaradicalcomasleisdo mundo macrofísico. Isto significa dizer que dois níveis de realidade são diferentesse,passandodeumaooutro,houverrupturadasleiserupturados conceitosfundamentais(como,porexemplo,acausalidade).Ninguémconseguiu encontrarumformalismomatemáticoquepermitisseapassagemrigorosadeum mundo ao outro. Há até mesmo fortes indicações matemáticas de que a passagem do mundo quântico ao mundo macrofísico seja, definitivamente, impossível. Osníveisderealidadesãoradicalmentediferentesdosníveisdeorganização, taiscomoforamdefinidosnasabordagenssistêmicas.Osníveisdeorganização não pressupõem uma ruptura dos conceitos fundamentais: vários níveis de organizaçãopertencemaumúnicoemesmonívelderealidade.Osníveisde organização correspondem a estruturações diferentes das mesmas leis fundamentais.Porexemplo,aeconomiamarxistaeafísicaclássicapertencema umúnicoemesmonívelderealidade. Aemergênciadeaomenostrêsníveisderealidadediferentesnoestudodos sistemas naturais – o nível macrofísico, o nível microfísico e o ciber- espaço/tempo (aos quais convém acrescentar um quarto nível, por enquanto puramenteteórico,odassupercordas,consideradopelosfísicoscomoatextura últimadouniverso)–éumacontecimentocapitalnahistóriadoconhecimento.

Elepodenosconduzirarepensarnossavidaindividualesocial,afazeruma nova leitura dos conhecimentos antigos, a explorar de outra maneira o conhecimentodenósmesmos,aquieagora. Nocampodossistemassociais,nóspodemosdistinguir,então,osseguintes níveis:nívelindividual,níveldascomunidadesgeográficasehistóricas(família, nação),nívelplanetário,níveldascomunidadesnociber-espaço/tempoenível cósmico. Diantedeváriosníveisderealidade,oespaçoentreasdisciplinasealémdas disciplinasestáplenodeinformações,comoovazioquânticoestáplenodetodas aspotencialidades:dapartículaquânticaàsgaláxias,doquarkaoselementos pesadosquecondicionamosurgimentodavidanoUniverso. A unidade que liga todos os níveis de realidade, caso ela exista, deve necessariamente ser uma unidade aberta. É desse modo que hoje compreendemosoantigoprincípiodeinterdependênciauniversal.Defato,uma vastaautoconsistênciapareceregeraevoluçãodouniverso,doinfinitamente pequenoaoinfinitamentegrande,doinfinitamentebreveaoinfinitamentelongo. Esseéumfatofundamentalparaoreencantamentodomundo.Emummundo regidopelaautoconsistênciauniversal,tudoésigno.Nósreencontramosassim nossoelomatricial,nãosomentecomaTerra,mascomtodoocosmos.

Osníveisderealidadesãocompatíveiscomoterceiroincluído?

Acompreensãodoaxiomadoterceiroincluído–existeumterceirotermoT

queéaomesmotempoAenão-A–clareiacompletamentequandoanoçãode

“níveisderealidade”éintroduzida.Paraseobterumaimagemclaradosentido

doterceiroincluído,representemosostrêstermosdanovalógica–A,não-AeT

–eseusdinamismosassociadosporumtriânguloemqueumdosvérticessitua-

seemumnívelderealidadeeosoutrosdoisvérticesemumoutronívelde realidade.Permanecendo-seemumúniconívelderealidade,todamanifestação aparececomoumalutaentredoiselementoscontraditórios(exemplo:ondaAe corpúsculonão-A).Oterceirodinamismo,odoestadoT,éexercidoemum outro nível de realidade, onde o que aparece como desunido (onda ou corpúsculo) está de fato unido (quanton), e o que parece contraditório é percebidocomonãocontraditório.

ÉaprojeçãodeTsobreumúnicoemesmonívelderealidadequeproduza

aparênciadeparesantagônicos,mutuamenteexclusivos(Aenão-A).Umúnico

emesmonívelderealidadesópodeengendraroposiçõesantagonistas.Eleé,por

suapróprianatureza,autodestruidor,casosejacompletamenteseparadodetodos

osoutrosníveisderealidade.Umterceirotermo,digamosT’,queestejasituado nomesmonívelderealidadequeosopostosAenão-A,nãopoderealizarsua conciliação. Seria possível objetar que, desse modo, o problema é somente deslocado. Casosejatoleradaaexistênciadeumainfinidadedeaspectosparadescreverum mundodeinterconexõesirredutíveis,sechegaráfatalmenteadissolverorealem uma multiplicidade para sempre inacessível em seu conjunto. Encontra-se justamenteaíoméritohistóricodeLupasco:elesoubereconhecerqueainfinita multiplicidadedorealpodeserreestruturada,derivadaapartirdesomentetrês termoslógicos,concretizandoassimaesperançaformuladaanteriormentepor Peirce. Qualseriaanaturezadateoriaquepoderiadescreverapassagemdeumnível derealidadeparaumoutro?Haveriaumacoerênciaemesmoumaunidadedo conjuntodosníveisderealidade?Qualseriaopapeldosujeito/observadorno casodeexistirumaeventualunidadedetodososníveisderealidade?Haveria um nível de realidade privilegiado em relação a todos os outros níveis? A unidade do conhecimento, caso ela exista, seria de natureza objetiva ou subjetiva?Qualseriaopapeldarazãonocasodaexistênciadeumaeventual unidadedoconhecimento?Qualseria,nocampodareflexãoedaação,opoder preditivo do novo modelo de realidade? Afinal, a compreensão do mundo presenteseriapossível? A realidade comporta, segundo a abordagem transdisciplinar, um certo númerodeníveis.Asconsideraçõesqueseseguirãonãodependemdofatode queessenúmerosejafinitoouinfinito.Emfavordaclarezaterminológicada exposição,vamossuporqueessenúmerosejainfinito.Doisníveisadjacentes estãoligadospelalógicadoterceiroincluído,nosentidodequeoestadoT presenteemumcertonívelestáligadoaumpardecontraditórios(A,não-A)do nívelimediatamentevizinho.OestadoToperaaunificaçãodoscontraditóriosA enão-A,masessaunificaçãoéoperadaemumníveldiferentedaqueleemque estão situados Ae não-A. O axioma de não-contradição é respeitado nesse processo. Esse fato também significaria que obteremos assim uma teoria completa,quepoderiadarcontadetodososresultadosconhecidosevindouros? Alógicadoterceiroincluídoécapazdedescreveracoerênciaentreosníveis

derealidadepormeiodoprocessoiterativoqueconsistenasseguintesetapas:(1)

umpardecontraditórios(A,não-A)situadoemumcertonívelderealidadeé unificadoporumestadoTsituadoemumnívelderealidadeimediatamente

vizinho;(2)porsuavez,esseestadoTestáligadoaumpardecontraditórios(A’,

não-A’)situadoemseupróprionível;(3)opardecontraditórios(A’,não-A’)é,

por sua vez, unificado por um estado T’situado em um nível diferente de

realidade,imediatamentevizinhoàqueleemqueseencontraoternário(A’,não-

A’,T’).Oprocessoiterativocontinuainfinitamenteatéoesgotamentodetodos osníveisderealidadeconhecidosouconcebíveis.Emoutrostermos,aaçãoda lógicadoterceiroincluídosobreosdiferentesníveisderealidadeinduzuma

estruturaaberta,gödeliana,doconjuntodeníveisderealidade.9

Essaestruturatemumalcanceconsiderávelnateoriadoconhecimento,pois elaimplicaaimpossibilidadedeumateoriacompleta,fechadaemsimesma.De fato, o estado T realiza, de acordo com o axioma de não-contradição, a unificação do par de contraditórios (A, não-A), mas ele está associado, ao mesmotempo,aumoutropardecontraditórios(A’,não-A’).Issosignificaqueé possívelconstruir,apartirdeumcertonúmerodeparesmutuamenteexclusivos, umanovateoriaqueelimineascontradiçõesemumcertonívelderealidade,mas essa teoria é apenas temporária, pois ela conduzirá, inevitavelmente, sob a pressãoconjuntadateoriaedaexperiência,àdescobertadenovosparesde contraditórios,situadosnonovonívelderealidade.Então,essateoria,porsua vez,serásubstituída,àmedidaquenovosníveisderealidadesejamdescobertos porteoriasaindamaisunificadas.Esseprocessocontinuaráperpetuamente,sem jamaispoderculminaremumateoriacompletamenteunificada.Oaxiomade não-contradiçãosaicadavezmaisfortalecidonesseprocesso.Nessesentido, podemosfalardeumaevoluçãodoconhecimento,semjamaispoderchegara uma não-contradição absoluta, implicando todos os níveis de realidade: o conhecimentoestáabertoparasempre. As considerações precedentes permitem responder de maneira rigorosa à interessantíssimaquestãoformuladarecentementepelológicoPetruIoan:por queselimitaraoterceiroincluído?Porquenãointroduziro“quartoincluído”,o “quintoincluído”etc?10 Àluzdoesquemaqueacabadeserdescrito,oquarto incluído,porexemplo,deveriaunificarA,não-AeT.Ora,éprecisamenteo termo T’que realiza essa unificação! O termo T’seria, então, um “quarto incluído”?Certamentequenão,poiseleé,porsuavez,oterceirounificadorde A’enão-A’,estesdoisúltimostermosaparecendonomesmonívelderealidade queT.Emoutraspalavras,aestruturadequartoincluído(A,não-A,T,T’)

decompõe-seemduasestruturasdeterceiroincluído:(A,não-A,T)e(A’,não-

A’,T’).Nãohá,portanto,necessidadedeum“quartoincluído”,deum“quinto incluído” etc. Nesse sentido, o terceiro incluído é infinitamenteterceiro, ou, como é denominado por Christian Duchemin, o terceiro-sem-nome.11 Essa conclusãoésimilaraocélebreteoremadePeirce,demonstradocomaajudada teoriadosgrafos:“Todapolíadesuperioraumatríadepodeseranalisadaem

termosdetríades,masumatríadenãopodeseranalisada,demodogeral,em termosdedíades”.12 Nãosetratadeumasimplesanalogia.Nossoesquemapode ser desenvolvido biunivocamente sobre os grafos.13 Consequentemente, o teoremadePeircedeveserrespeitado.

Aestruturagödelianadanaturezaedoconhecimento

Aestruturaabertadoconjuntodeníveisderealidadeestáemconcordância comumdosresultadoscientíficosmaisimportantesdoséculoXX:oteoremade Gödel,quedizrespeitoàaritméticae,consequentemente,atodamatemáticaque incluiaaritmética,equenosdizqueumsistemadeaxiomassuficientemente ricoconduz,inevitavelmente,aresultadosquerindecidíveis,quercontraditórios –asserçãofrequentementeesquecidanasobrasdevulgarização. Esseteoremaexprimeumapofatismo14 matemáticoelógico,comoumecodo apofatismoreligioso.15 Seualcanceemtodateoriamodernadoconhecimentoé considerável. Primeiramente, ele não diz respeito somente ao campo da aritmética,mastambématodaa matemáticaqueincluiaaritmética.Ora, a matemática,queéoinstrumentobásicodafísicateórica,contém,evidentemente, a aritmética. Isso significa que toda busca de uma teoria física completa é ilusória.Seessaafirmaçãoéverdadeiraparaoscamposmaisrigorososdoestudo dossistemasnaturais,comosepoderiasonharcomumateoriacompletadentro deumcampoinfinitamentemaiscomplexo–odasciênciashumanas? Defato,abuscadeumaaxiomáticaqueconduzaaumateoriacompleta(sem resultadosindecidíveisoucontraditórios)marcasimultaneamenteoapogeueo ponto de partida do declínio do pensamento clássico. O sonho axiomático desmoronoudevidoaovereditodosantodossantosdopensamentoclássico–o rigormatemático.

OteoremaqueGödeldemonstrouem1931,nãoteve,contudo,senãoumeco

muitofracoparaalémdeumcírculomuitorestritodeespecialistas.Issoexplica, provavelmente,oestranhosilênciodeLupascosobreesseteoremaesobresua significaçãoepistemológica,noentanto,tãolupasciana.Aestruturagödelianado conjuntodeníveisderealidade,associadaàlógicadoterceiroincluído,implicaa impossibilidadedeconstruirumateoriacompletaparadescreverapassagemde umnívelaooutroe,afortiori,paradescreveroconjuntodeníveisderealidade. Aunidade que liga todos os níveis de realidade, caso ela exista, deve ser, necessariamente,umaunidadeaberta.

EmNous,laparticuleetlemonde,cujaprimeiraediçãoéde1985,chegueià

conclusão,baseadonoteoremadeGödel,deque,àmedidaqueateoriaunificada das interações físicas seja axiomática e inteiramente formalizada, ela será

necessariamenteincompleta.Consequentemente,o ambiciosoprojetode uma “teoria de tudo” (theory of everything), sonho de unificação partilhado pela grande maioria da comunidade dos físicos teóricos, não poderia jamais ser realizado. Fiquei feliz em constatar que Stephen Hawking chegou à mesma

conclusão,em2002,emsuaconferência“Gödeleofimdafísica”,apresentada

nacelebraçãodocentenáriodonascimentodePaulDirac.16

Oterceirooculto

Há,certamente,uma coerência entre os diferentes níveis de realidade, ao menosnomundonatural.Defato,umavastaautoconsistênciapareceregera evoluçãodouniverso, doinfinitamentepequeno aoinfinitamentegrande, do infinitamentebreveaoinfinitamentelongo.Essacoerênciaéorientada: uma flecha é associada a toda transmissão de informação de um nível ao outro. Consequentemente, a coerência, caso seja limitada somente aos níveis de realidade, para no nível mais “alto” e no nível mais “baixo”. Para que a coerência continue para além desses dois níveis limites, para que haja uma unidade aberta, é preciso considerar que o conjunto dos níveis de realidade prolongue-seatravésdeumazonadenão-resistência,detransparênciaabsoluta, as nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizações matemáticas.Essazonadenão-resistênciacorresponde,emnossaabordagemda realidade,ao“véu”doqueBernardd’Espagnatdenomina“orealvelado”17 eestá,

seguramente,ligadaàafetividadelupasciana.18

Onívelmais“alto”eonívelmais“baixo”doconjuntodosníveisderealidade unem-seatravésdeumazonadetransparênciaabsoluta.Mascomoessesdois níveissãodiferentes,atransparênciaabsolutaaparececomoumvéu,dopontode vista de nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizaçõesmatemáticas.Efetivamente,aunidadeabertadomundoimplica queaquiloqueestá“embaixo”sejacomooqueestáno“alto”.Oisomorfismo entreo“alto”eo“baixo”érestabelecidopelazonadenão-resistência. Anão-resistênciadessazonadetransparênciaabsolutadeve-se,simplesmente, àslimitaçõesdenossocorpoedenossosórgãosdossentidos,quaisquerque sejam os instrumentos de medida que os prolonguem. A afirmação de um conhecimento humano infinito (que exclui toda zona de não-resistência), ao mesmotempoemqueseafirmaalimitaçãodenossoprópriocorpoedenossos órgãosdossentidos,parece-nosumilusionismolinguístico.

Oconjuntodosníveisderealidadedoobjetoesuazonacomplementardenão-

resistênciaconstituemoobjetotransdisciplinar.Osdiferentesníveisderealidade do objeto são acessíveis ao conhecimento humano graças à existência de

diferentesníveisderealidadedosujeito,queseencontramemcorrespondência biunívocacomosníveisderealidadedoobjeto.Essesníveisderealidadedo sujeitopermitemumavisãocadavezmaisgeral,unificadora,englobadorada

realidade,semjamaisesgotá-lainteiramente.19

Acoerênciadosníveisderealidadedosujeitopressupõe,comonocasodos

níveis de realidade do objeto, uma zona de não-resistência à percepção. O

conjuntodosníveisderealidadedosujeitoesuazonacomplementardenão-

resistênciaconstituemosujeitotransdisciplinar.

Asduaszonasdenão-resistência,doobjetoedosujeitotransdisciplinares, devemseridênticasparaqueosujeitotransdisciplinarpossasecomunicarcomo objeto transdisciplinar. Ao fluxo de informação que atravessa de maneira coerenteosdiferentesníveisderealidadedoobjetocorrespondeumfluxode consciênciaqueatravessademaneiracoerenteosdiferentesníveisderealidade dosujeito.Osdoisfluxosestãonumarelaçãodeisomorfismograçasàexistência de uma única e mesma zona de não-resistência. A zona de não-resistência desempenha o papel de terceirooculto, que permite a unificação, com suas diferenças,dosujeitotransdisciplinaredoobjetotransdisciplinar.Elapermitee requerainteraçãoentreosujeitoeoobjeto. Há uma grande diferença entre o terceiro oculto e o terceiro incluído: o

terceiroocultoéalógico,poiseleestáinteiramentesituadonazonadenão-

resistência,aopassoqueoterceiroincluídoélógico, pois ele se refere aos contraditóriosAenão-A,situadosnazonaderesistência.Mashátambémuma similaridade. Ambos unem contraditórios: A e não-A no caso do terceiro incluído,esujeitoeobjetonocasodoterceirooculto.Osujeitoeoobjetosãoos contraditóriossupremos:elesatravessamnãosomenteazonaderesistência,mas tambémazonadenão-resistência.Compreende-se,então,porqueparaalguns pensadorescristãos,comoJacobBoehme,quandoDeusdecidecriaromundo(e, portanto,conheceraSimesmo),Eleintroduzacontradiçãonosfundamentosdo mundo.20 Compreende-setambémporqueéoterceiroocultoquedásentidoao terceiroincluído,pois,parauniroscontraditóriosAenão-A,situadosnazonade resistência,eledeveatravessarazonadenão-resistência:oterceiroincluídoé, efetivamente,um“terceiro-sem-nome”.Encontra-seprecisamenteaíagrande dificuldadeparaformularumaverdadeiralógicadoterceiroincluído,quedeve, obrigatoriamente,integrarosaltodescontínuoentreosníveisderealidade.Essa nova lógica será transcategórica. Se a compatibilidade entre os níveis de realidade e o terceiro incluído não traz nenhuma dúvida, inversamente, sua reuniãoemumalógicanãopoderáserrealizadapormeiodostiposdelógicajá conhecidos. A despeito dos esforços já efetuados,21 o problema permanece

aberto.

O papel do terceiro oculto e do terceiro incluído na abordagem transdisciplinardarealidadenãoé,afinal,tãosurpreendente.Aspalavrastrêse transtêmamesmaraizetimológica:“três”significa“atransgressãododois,o quevaialémdedois”.Atransdisciplinaridadeéatransgressãodadualidadeque opõe os pares binários: sujeito/objeto, subjetividade/objetividade,

simplicidade/complexidade,

reducionismo/holismo,diversidade/unidade.Essadualidadeétransgredidapela unidade aberta que engloba o Universo e o ser humano. Na visão transdisciplinar,apluralidadecomplexaeaunidadeabertasãoduasfacetasde umaúnicaemesmarealidade. Oterceirooculto,emsuarelaçãocomosníveisderealidade,éfundamental para a compreensão do unus mundus descrito pela transdisciplinaridade. A realidadeéuna,simultaneamenteúnicaemúltipla.Quandonoslimitamosao terceirooculto,aunidadeseránãodiferenciada,simétrica,elaestarásituadano não-tempo.Quandonoslimitamosaosníveisderealidade,sóhaverádiferenças, assimetrias, situadas no tempo. A consideração simultânea dos níveis de realidade e do terceiro oculto introduz uma quebra da simetria do unus mundus.Defato,osníveisderealidadesãoprecisamenteengendradosporesta quebradesimetriaintroduzidapelotempo. O conhecimento não é nem exterior nem interior: ele é simultaneamente exterioreinterior.OestudodoUniversoeoestudodoserhumanosustentam-se umaooutro.Oqueévividoeaexperiênciadesitêmtantovalorcognitivo quantooconhecimentocientífico.

Osagradoeoproblemasujeito/objeto

matéria/consciência,

natureza/divino,

Azonadetransparênciacorrespondeaosagrado,ouseja,àquiloquenãose submeteanenhumaracionalização.Aproclamaçãodaexistênciadeumúnico nívelderealidadeeliminaosagrado,sobopreçodaautodestruiçãodestemesmo nível. Convém lembrar a distinção feita por Edgar Morin entre racional e racionalização.22 Osagradoéracional,maselenãoéracionalizável.Osagrado nãoseopõeàrazão:namedidaemqueeleasseguraaharmoniaentreosujeitoe oobjeto,osagradoéparteintegrantedanovaracionalidade. Osagradoéaquiloqueliga,poiselenãoé,porsimesmo,oatributode qualquerreligião:“OsagradonãoimplicaacrençaemDeus,emdeusesouem espíritos.Eleé( )aexperiênciadeumarealidadeeaorigemdaconsciênciade

existirnomundo”,23 escreveMirceaEliade.Sendoosagrado,acimadetudo,uma experiência,eleétraduzidoporumsentimento,odapresençadoNous,daquilo queligaossereseascoisaseque,consequentemente,induz,nasprofundezasdo serhumano,orespeitoabsolutopelasalteridadesunidaspelavidacomumsobre uma única e mesma Terra. Enquanto experiência de um real irredutível, o sagradoé,efetivamente,oelementoessencialnaestruturadaconsciênciaenão umsimplesestágionahistóriadaconsciência. Arealidadeenglobaosujeitoeoobjetoeoterceirooculto,quesãoastrês facetas de uma única e mesma realidade. Sem uma dessas três facetas, a realidadenãoémaisreal,esimumafantasmagoriadestrutiva. Oproblemasujeito/objetoestevenocentrodareflexãofilosóficadospais fundadores da mecânica quântica. Pauli, Heisenberg e Bohr, assim como Husserl,Heidegger,GadamereCassirer,refutaramoaxiomafundamentalda metafísicamoderna:aseparaçãototalentreosujeitoeoobjeto.Adivisãobinária (sujeito,objeto)quedefineametafísicamodernaésubstituída,naabordagem transdisciplinar, pela repartição ternária (sujeito, objeto, terceiro oculto). O terceirotermo,oterceirooculto,nãoéredutívelnemaoobjetonemaosujeito. Essanovarelaçãoentreosujeitoeoobjetonoconhecimentotransdisciplinar poderápermitir,alongoprazo,umaconversãodatecnociência. Aunidadeabertaentreoobjetotransdisciplinareosujeitotransdisciplinaré traduzida pela orientação coerente do fluxo de informação que atravessa os níveisderealidadedoobjetoedofluxodeconsciênciaqueatravessaosníveisde realidade do sujeito. Essa orientação coerente dá um novo sentido à verticalidadedoserhumanonomundo.Éessaverticalidadequeconstitui,na visãotransdisciplinar,ofundamentodetodoprojetosocialviável. Umextraordinário,inesperadoesurpreendenteErosatravessaosníveisde realidadeeosníveisderealidadedosujeito.Osartistas,poetas,cientistase místicosdetodosostempostestemunharamsuapresençanomundo.

Heisenbergeosníveisderealidade

ParaHeisenberg,arealidadeé“aflutuaçãocontínuadaexperiênciatalcomoé

apreendida pela consciência. Como tal, ela não é jamais identificável

inteiramenteaumsistemaisolado( Arealidadenãopodesereduzirà

)”.24

substância. Para nós, físicos de hoje, isso é uma evidência: a matéria é o complexosubstância/energia/espaço/tempo/informação.

ComoescreveCatherineChevalley,“ocamposemânticodapalavrarealidade

inclui,paraele,tudooquenosédadonaexperiênciaconsideradaemseusentido

maisamplo,desdeaexperiênciadomundoatéadasmodificaçõesdaalmaou

dassignificaçõesautônomasdesímbolos”.25

Heisenbergnãofalaexplicitamentede“resistência”emrelaçãoàrealidade, masestesentidoestáplenamentepresente:“Arealidadesobreaqualpodemos falar”,escreveHeisenberg,“nãoéjamaisarealidade‘emsi’,massomenteuma realidadesobreaqualpodemosterumsaber,emesmo,emmuitoscasos,uma realidade à qual nós mesmos demos forma”.26 Como a realidade está em flutuaçãoconstante,tudooquepodemosfazerérealizarrecortes,graçasao nossopensamento,extraindoprocessos,fenômenos,leis. Nessecontexto,éclaroquenãopodehavercompletude:“Nãosepodejamais chegaraumretratoexatoecompletodarealidade”,27 escreveHeisenberg.A incompletudedasleisfísicasestá,portanto,presenteparaele,mesmoquenão façanenhumareferênciaaosteoremasdeGödel.Paraele,arealidadesedácomo “tecidosdeconexõesdegênerosdiferentes”,comouma“abundânciainfinita”, semnenhumfundamentoúltimo.EssavisãoépartilhadaporPauli,queescreve:

“Afamosa ‘incompletude’da mecânica quântica está certamente aí de uma maneiraoudeoutra,maséclaroqueelanãopodesereliminadaporumretorno àfísicaclássica(issoésimplesmenteum‘mal-entendidoneurótico’deEinstein). Trata-seantesdeumarelaçãoholísticaentre‘dentro’e‘fora’,quenãoélevada

emcontapelaciênciaatual”.28

Heisenbergafirmavacontinuamente,concordandocomHusserl,Heidegger, GadamereCassirer(queeleconheciapessoalmente),queéprecisosuprimirtoda distinçãorígidaentresujeitoeobjeto.Eletambémafirmavaqueéprecisoacabar comareferênciaqueprivilegiaaexterioridadedomundomaterialequeaúnica maneiradeabordarosentidodarealidadeéaceitandosuadivisãoemregiõese níveis. Asemelhançacomminhaprópriadefiniçãodarealidadeéimpressionante. Heisenberg distingue “regiões de realidade” (derBereichder Wirklichkeit)e “níveisderealidade”(dieSchichtderWirklichkeit).“Pelaexpressão‘regiãode realidade’( )nósentendemos( )umconjuntodeconexõesnomológicas”,29 escreveele.Essasregiõessãoengendradasporgruposderelações.Elasestão imbricadas, ajustadas, sobrepostas, entrecruzadas, sempre respeitando o princípiodenão-contradição.Asregiõesderealidadesão,defato,estritamente equivalentesaosníveisdeorganizaçãodopensamentosistêmico. Heisenbergestavaplenamenteconscientedequeasimplesconsideraçãoda existência de regiões de realidade não é satisfatória, pois isso equivaleria a colocarnomesmoplanoamecânicaclássicaeamecânicaquântica.Foiessaa razãoessencialqueoconduziuareagruparessasregiõesderealidadeemníveis

diferentesderealidade.Suamotivaçãofoi,portanto,idênticaàminha. Heisenberg reagrupou as numerosas regiões de realidade em três níveis distintos. “É claro”, afirma ele, “que o agenciamento das regiões deveria substituir a divisão grosseira do mundo em uma realidade subjetiva e uma realidadeobjetivaesedesdobrarentreessespolosdosujeitoedoobjetodetal maneiraque,emseulimiteinferior,mantenham-seasre-giõesemquepodemos objetivardemaneiracompleta.Aseguir,deveriamserreunidasasregiõesem queosestadosdecoisasnãopodemsercompletamenteseparadosdoprocessode conhecimentoatravésdoqualacabamosdeestabelecê-los.Finalmente,deveria manter-senotopoonívelderealidadeemqueosestadosdecoisasnãosão

criadossenãoemconexãocomoprocessodeconhecimento”.30

Oprimeironívelderealidade,nomodelodeHeisenberg,correspondeaos estadosdecoisasobjetiváveisindependentementedoprocessodeconhecimento. Elesituanesseprimeironívelamecânicaclássica,oeletromagnetismoeasduas teorias da relatividade de Einstein, em outras palavras, a física clássica. O segundonívelderealidadecorrespondeaosestadosdecoisasinseparáveisdo processodeconhecimento.Elesituaaquiamecânicaquântica,abiologiaeas ciênciasdaconsciência.Porfim,oterceironívelderealidadecorrespondeaos estadosdecoisascriadosemconexãocomoprocessodeconhecimento.Ele situa nesse nível de realidade a filosofia, a arte, a política, as metáforas de “Deus”, a experiência religiosa e a experiência da inspiração. Se os dois primeirosníveisderealidadedeHeisenbergcorrespondeminteiramenteaminha própriadefinição,inversamente,seuterceironívelmeparecemisturarníveise não-níveis(ouseja,aszonasdenão-resistência).Defato,afilosofia,aarteea políticasãodisciplinasinteiramenteconformesàresistênciaintrínsecadeum nívelderealidade.Atémesmoasmetáforasde“Deus”,namedidaemquesão integradas a uma teologia, podem corresponder a um nível de realidade: a teologia é, afinal de contas, uma ciên-cia humana como as outras. Mas a experiênciareligiosaeaexperiênciadainspiraçãosãodificilmenteassimiláveis emumnívelderealidade.Elascorrespondembemmaisàtravessiadediferentes níveisderealidadeatravésdazonadenão-resistência. Há,portanto,umaimportantediferençaentreasduasdefiniçõesdanoçãode níveisderealidade.Aausênciadaresistênciaeaausênciadadescontinuidadena definiçãodeHeisenbergexplicamessadiferença. Efetivamente, Heisenberg não impõe explicitamente o princípio de não- contradição, que teria podido conduzi-lo a descobrir a descontinuidade dos níveisderealidade.E,noentanto,adescontinuidadeémencionadamuitasvezes no Manuscrit de 1942, mas somente em relação à história: a história das

representações,ahistóriadoindivíduo,ahistóriadahumanidade. Heisenberginsistetambémsobreopapeldaintuição:“Somenteopensamento intuitivo”,escreveele,“podetransporoabismoqueexisteentreosistemade conceitos já conhecido e o novo sistema de conceitos; a dedução formal é impotente para lançar uma ponte sobre esse abismo”.31 Mas Heisenberg não chegaàconclusãológicaqueseimpõeapartirdaimpotênciadopensamento formal: somente a não-resistência às nossas experiências, representações, descrições,imagensouformalizaçõesmatemáticaspodelançarumapontesobre oabismoentreduaszonasderesistência.Anão-resistênciaéachaveparaa compreensãodadescontinuidadeentredoisníveisderealidadeimediatamente vizinhos.OterceiroocultoestáausenteemHeisenberg. Heisenberg e Lupasco não se conheceram. Não obstante, a noção de “potencialização”surgiuquasequesimultaneamentenaobradosdoishomens. Além disso, Heisenberg estava inteiramente consciente de que somente uma lógica de terceiro incluído poderia nos fazer compreender os paradoxos quânticos, como ele disse explicitamente ao grande escritor romeno Vintila Horia,32 maseleignoravatotalmenteaobradeLupasco.Porsuavez,Lupasco tinhaumaadmiraçãofervorosaporHeisenbergeseuprincípiodeincerteza,mas não fez nenhum esforço para entrar em contato com ele. Foi Horia quem encontrouHeisenberg,Lupasco,Jung,Gonseth,MathieueAbellio,reunindo-os emumfascinantelivrodeentrevistasque,infelizmente,sóestádisponívelem espanhol.OgrandeencontrofísicoentreHeisenbergeLupasconãoocorreu. Assimquisodestino.

Avisãotransdisciplinardomundo

Navisãotransdisciplinar,apluralidadecomplexaeaunidadeabertasãoduas facetasdeumaúnicaemesmarealidade.Aestruturadoconjuntodosníveisde realidadeéumaestruturacomplexa:cadaníveléoqueéporquetodososoutros níveisexistemaomesmotempo. Osníveisderealidadedoobjetoederealidadedosujeito,oterceiroincluídoe acomplexidadedefinemametodologiadatransdisciplinaridade.33 Elesinduzem um isomorfismo entre os diferentes campos do conhecimento, determinando assimumaestruturafractaldarealidade.Essestrêspilaresdoconhecimento transdisciplinar são, portanto, a origem de novos valores, graças ao caráter gödelianodanaturezaedoconhecimento. Umnovoprincípioderelatividadeemergedacoexistênciaentreapluralidade complexa e a unidade aberta: nenhum nível de realidade constitui um lugar privilegiadoapartirdoqualsepossacompreendertodososoutrosníveisde

realidade.Esseprincípioderelatividadeéfundadordeumnovoolharsobrea cultura,areligião,apolítica,aarte,aeducação,avidasocial.Equandonosso olharsobreomundomuda,omundomuda.Elenosindicaquenenhumacultura enenhumareligiãoconstituemolugarprivilegiadoapartirdoqualsepossa julgarasoutrasculturaseasoutrasreligiões.Éoserhumano,emsuatotalidade aberta,queéolugarsemlugardotransculturaledotransreligioso,ouseja,do que atravessa e ultrapassa as culturas e as religiões. O transcultural e o transreligioso dizem respeito ao tempo presente da trans-história, que é ao mesmotempododomíniodoimpensáveledaepifania. Aatitudetransculturaletransreligiosanãoéumsimplesprojetoutópico:ela está inscrita nas profundezas de nosso ser. Através do transcultural, que desembocanotransreligioso,aguerradascivilizações,ameaçacadavezmais presenteemnossaépoca,nãoteriamaisnenhumarazãodeser. O autonascimento do Universo e o autonascimento do homem são inseparáveis. Ciência e consciência, os dois pilares da futura democracia universal,sustentam-seumaàoutra.Aciênciasemconsciênciaéaruínadoser humano,masaconsciênciasemciênciaétambémsuaruína.Aresponsabilidade pelaautotranscendência–nossaresponsabilidade–éoterceiroincluídoqueune ciênciaeconsciência.Ohomosuitranscendentalisestánascendo.Elenãoéum “homem novo” qualquer, mas um homem que nasce de novo. Esse novo nascimento é uma potencialidade inscrita em nosso próprio ser. Ninguém, e coisaalguma,podenosobrigaraevoluir.Nóstemosaescolhaentreevoluirou desaparecer.Nossaevoluçãoéumaautotranscendência.Étodooproblemada relaçãoentreodespertarindividualeodespertarcoletivoqueestánocentrode nossaevoluçãopossível.Eaevolução,atualmente,sópodeseradaconsciência. Criar as condições para a atualização dessa evolução torna-se assim uma responsabilidade política. A palavra “revolução” não foi esvaziada de seu sentidopelofracassodarevoluçãosocial.Arevolução,atualmente,sópodeser umarevoluçãodainteligência,transformandonossavidaindividualesocialem umatotantoestéticocomoético,oatodedesvelamentodadimensãopoéticada existência.Umavontadepolíticaeficaznãopodeser,hojeemdia,senãouma vontadepoética.Dessemodo,sepoderáinauguraraeradafraternidade,depois daquelasdaigualdadeedaliberdade. Hánãomuitotempoatrás,proclamava-seamortedohomemeofimda História. A abordagem transdisciplinar nos faz descobrir a ressurreição do sujeitoeoiníciodeumanovaetapadenossahistória.Estaríamosnolimiarde umanovaépocadasLuzes?Estouconvencidodisso.Aluzemquestãoésempre amesma:adarazão.Masumarazãoampliada,aberta,emdiálogopermanente

comaquiloqueaultrapassa.Opensamentodoslimitesestáintimamenteligado

aoconhecimentodoslimitesdarazão.Essepensamentodoslimites,quevai

integrararazãoeomistério,éonovohorizontedoconhecimentonoséculo

XXI.

Nós esperamos, nos próximos anos, avanços importantes no estudo da

consciênciagraçasàintroduçãodessasduasnoções.Nãoseriaaconsciênciao

melhor laboratório para a inclusão do terceiro e para a coexistência dos diferentesníveisdarealidade?QuandoacaixadePandorafoiaberta,osmales

quedelaescaparamameaçaramoshumanosquepovoavamaTerra.Nofundoda

caixa,estavamescondidasaaspiraçãoeaesperança.Éessaaspiraçãoeessa

esperançaqueatransdisciplinaridadepretendetestemunhar.

1B.Nicolescu,Latransdisciplinarité,Mônaco:Rocher,“Transdisciplinarité”,1996.

2B.d’Espagnat,Àlarechercheduréel[Embuscadoreal],Paris:Gauthier-Villars,1981.

3B.Nicolescu,“Sociologieetmécaniquequantique”[Sociologiaemecânicaquântica],3eMillenaire,nº1,

março-abril1982,p.68-77.

4 B. Nicolescu, Nous, la particule et le monde [Nous, a partícula e o mundo], Mônaco: Rocher,

“Transdisciplinarité”,2002(2ªed.).

5B.Nicolescu,“Levelsofcomplexityandlevelsofreality”,emB.Pullman,TheEmergenceofComplexity

inMathematics,Physics,Chemistry,andBiology,ProceedingsoftheplenarysessionofthePontifical

AcademyofSciences,27-31outubro1992,Vaticano,PontifíciaAcademiaScientarum,1996(distribuído

porPrincetonUniversityPress),p.393-417.

6W.Thirring,“Dothelawsofnatureevolve?”,emM.P.MurphyeL.A.O’Neil,WhatIsLife?TheNext

FiftyYears:SpeculationsontheFutureofBiology,Cambridge:CambrigeUnivesityPress,1995.

7L.Nottale,FractalSpace-TimeandMicrophysics.TowardsaTheoryofScaleRelativity,NewJersey:

WorldScientific,1992.

8W.Heisenberg,Philosophie.Lemanuscritde1942[Filosofia.Omanuscritode1942],Paris:Seuil,1998.

9B.Nicolescu,“Levelsofcomplexityandlevelsofreality”,art.citado;B.Nicolescu,“Gödelianaspectsof

natureandknowledge”,emG.AltmanneW.A.Koch,Systems:NewParadigmsfortheHumanSciences,

BerlineNewYork:WalterdeGruyter,1998.

10P.Ioan,“StéphaneLupascoetlapropensionverslecontradictoiredanslalogiqueroumaine”[Stéphane

Lupascoeapropensãoaocontraditórionalógicaromena],emB.NicolescueH.Badescu(dir.),Stéphane

Lupasco.L’hommeetl’œvre,Mônaco:Rocher,“Transdisciplinarité”,1999.

11C.Duchemin,comunicaçãoparticular,agosto2008.

12D.D.Roberts,TheExistentialGraphsofCharlesS.Peirce,Illinois:Mouton,1973,p.115;vertambém

P.Thibaud,LalogiquedeCharlesSandersPeirce.Del’algèbreauxgraphes[AlógicadeCharlesSanders

Peirce.Daálgebraaosgrafos],Aix-en-Provence:Éditionsdel’UniversitédeProvence,1975.

13 B. Nicolescu, “Hylemorphism, quantum physics and levels of reality”, em D. Sfendoni-Mentzou,

AristotleandContemporaryScience,vol.I,NewYork:PeterLang,2000,p.173-184.

14N.T.Apofatismo:relativoaapófase,dogregoapóphasis,proposiçãonegativa.

15B.Nicolescu,“Towardsanapophaticmethodologyofthedialoguebetweenscienceandreligion”,emB.

NicolescueM.Stavinschi,ScienceandOrthodoxy,aNecessaryDialogue,Bucarest:CurteaVeche,2006,p.

19-29.

16S.Hawking,“Gödelandtheendofphysics”,<http://www.damtp.cam.ac.uk/strings02/dirac/hawking>.

17B.d’Espagnat,Àlarechercheduréel,op.cit.;Leréelvoilé.Analysedesconceptsquantiques[Oreal

velado.Análisedosconceitosquânticos],Paris:Fayard,1994.

18S.Lupasco,emcolaboraçãocomS.deMailly-NesleeB.Nicolescu,L’hommeetsestroiséthiques[O

homemesuastrêséticas],Mônaco:Rocher,“L’espritetlamatière”,1986.

19B.Nicolescu,“Hylemorphism,quantumphysicsandlevelsofreality”,art.citado.

20B.Nicolescu,L’hommeetlesensdel’Univers.EssaisurJakobBoehme[Ohomemeosentidodo

Universo.EnsaiosobreJacobBoehme],Paris:LeFélinetPhilippeLebaud,1988.

21J.E.Brenner,LogicinReality,NewYork:Springer,2008.

22E.Morin,Laméthode[Ométodo],t.III,Laconnaissancedelaconnaissance[Oconhecimentodo

conhecimento],1,Anthropologiedelaconnaissance[Antropologiadoconhecimento],Paris:Seuil,1986.

23 M. Eliade, L’épreuve du labyrinthe, entretiens avec Claude-Henri Rocquet [Aprova do labirinto,

conversascomClaude-HenriRocquet],Mônaco:Rocher,“Transdisciplinarité”,2006,p.176.

24Ibid.,p.166.

25Ibid.,p.145.

26W.Heisenberg,op.cit.,p.277.

27Ibid.,p.258.

28CartadePauliaFierz,10deagostode1954,emK.vonMeyenn,WolfgangPauli.Wissenchaftlicher

Briefwechsel,BandIV,TeilII,1953-1954,Berlin:Springer,1993,p.744-745.

29W.Heisenberg,op.cit.,p.273.

30Ibid.,p.372.

31Ibid.,p.261.

32V.Horia,ViajealoscentrosdelaTierra.Encuestasobreelestadoactualdelpensamiento,lasartesy

lasciencias,Barcelona:EdicionesdeNuevoArteThor,1987,p.298,305e306.

33B.Nicolescu,Latransdisciplinarité,op.cit.

Capítulo4

Jung,PaulieLupascodiantedo

problemapsicofísico

Oproblemapsicofísico,tãocentralnopensamentodeJung,PaulieLupasco, apresentademaneiraagudaaquestãodeseuconflitocomoreducionismo.Para esclarecer esse aspecto é preciso primeiramente distinguir “redução” e “reducionismo”. Osentidocientíficodapalavrareduçãoéoseguinte:reduz-seAaB,BaC,C aDetc,atéopontoemquesechegaàquiloqueseconsideraseronívelmais fundamental.Opensamentohumanosegue,efetivamente,omesmoprocessode redução.Areduçãoé,emváriosaspectos,umprocessonaturaldopensamentoe não há nada de mal nisso. A única questão é a de compreender o que é encontradonofinaldacadeiaderedução:essacadeiaseriacircular?Casonão seja,comosepodejustificaroconceitodefinaldecadeia? Quanto ao reducionismo científico, ele é muito diferente. Ele significa a explicaçãodeprocessosespirituaisemtermosdeprocessospsíquicosque,por sua vez, são explicados pelos processos biológicos que, por sua vez, são explicados pelos processos físicos. Em outras palavras, um cientista que se conformaàvisãodesuacomunidadereduzaespiritualidadeàmaterialidade. O reducionismo filosófico inverte a cadeia: ele reduz a materialidade à espiritualidade. Os dois tipos de reducionismo pertencem ao que podemos denominar monorreducionismo. Alguns filósofos adotam uma abordagem dualista:elesconsideramquematerialidadeeespiritualidadesãoradicalmente distintas.Aabordagemdualistaéumavariante:elacorrespondeaoquepodemos chamardemultirreducionismo.Nóspodemostambémidentificar,naliteratura newage,umaformaaindadiferente,adeinter-reducionismo:atribui-sealgumas propriedades de ordem material às entidades espirituais ou, inversamente, atribui-sealgumaspropriedadesdeordemespiritualaosobjetosmateriais. Aposiçãoopostaaoreducionismo,oantirreducionismo,exprime-sepormeio

doholismo(significandoqueotodoémaisdoqueasomadesuaspartese determinaaspropriedadesdesuaspartes)epeloemergentismo(quesignifica que novos comportamentos, estruturas e propriedades são engendrados por interações relativamente simples, que engendram, por sua vez, níveis de complexidade crescente). O holismo e o emergentismo têm suas próprias dificuldades:elesdevemexplicar,semapresentarargumentosadhoc,deonde vemanovidade. Nósveremosqueanoçãodeníveisderealidadeécrucialparareconciliaro reducionismo,quandonecessárionadémarchecientífica,eoantirreducionismo, quandonecessárionoestudodossistemascomplexos.

Coincidentiaoppositorumeoirracionalismohermético

Falandosobrearessurreiçãodopensamentohermético,UmbertoEcoescreve:

“Agênesedessaressurreiçãoécomplexa:ahistoriografianosfezsaberqueé impossível separar a corrente hermética da corrente científica, Paracelso de Galileu.OsaberherméticoinfluenciaráBacon,Copérnico,Kepler,Newton,ea ciênciaquantitativamodernanascerá,entreoutrascoisas,deumintercâmbio

com o saber qualitativo do hermetismo ( Contudo, essa influência foi

).

intimamentemisturadaaumacertezaqueohermetismonãonutria,daqualele nãopodiaenemqueriaterconsciência:adescriçãodomundosefazsegundo umalógicadaquantidadeenãodaqualidade.Assim,paradoxalmente,omodelo herméticocontribuiuparaonascimentodeseunovoadversário:oracionalismo científicomoderno.Oirracionalismoherméticomigrará,então,paraosmísticos ealquimistas,porumlado,eparaospoetasefilósofos,poroutrolado,de GoetheaNervaleYeats,deSchellingavonBaader,deHeideggeraJung.Enão seria possível reconhecer, em muitas concepções pós-modernas da crítica, a

noção de deslizamento contínuo do sentido”? Um pouco mais adiante, Eco refere-se diretamente a Jung: “Jung, quando revisita as antigas doutrinas herméticas,reintroduzoproblemagnósticodaredescobertadeumSioriginal”. Finalmente, Eco nos descreve em que consiste a deriva hermética: “A característica principal da deriva hermética nos pareceu ser a habilidade descontrolada em deslizar de significado a significado, de semelhança a semelhança, de uma conexão a outra. De modo contrário às teorias contemporâneasdaderiva,asemiósisherméticanãoafirmaaausênciadeum significadouniversal,unívocoetranscendental.Elaassumequequalquercoisa– admitindoqueaboaligaçãoretóricasejaisolada–poderemeteraqualqueroutra coisa,justamenteporqueháumfortesujeitotranscendente,oUmneoplatônico. Este – sendo o princípio da contradição universal, o lugar da Coincidentia

Oppositorum, estranho a toda determinação possível e, portanto, simultaneamente Tudo, Nada e Origem Indizível de Toda Coisa – age de maneiraquetodacoisaseconecteatodaoutracoisa,graçasaumateiadearanha labiríntica de referências mútuas. Assim, parece que a semiósis hermética identifica em todo texto, como no Grande Texto do Mundo, a Plenitude do Significado, não sua ausência. Adespeito disso, esse mundo invadido pelas assinaturasegovernadopeloprincípiodasignificaçãouniversal,deulugara

efeitosdedeslizamentoincessanteederemissãoatodosignificadopossível”.1

OdiagnósticodeUmbertoEcoésedutor,maselerepousasobreumequívoco aomesmotempológicoeepistemológico.Hácertamenteummal-entendidoque setraduzporumainaceitávelmisturadeníveisdecompreensão.Onívelde compreensão em que se situa o pensamento de Jung (e de Lupasco) é radicalmente diferente daquele, engendrado por uma ou outra redução, da parapsicologia,daNovaEraoudoirracionalismoherméticocontemporâneo. Comoummal-entendidodetalmagnitudepôdeproduzir-se? Dentre as três correntes mencionadas, a confusão com o irracionalismo herméticoéamaisdifícildeeliminare,consequentemente,amaisinquietante. Afinal, o mal-entendido referente à parapsicologia pode ser explicado pela atração indiscutível que Jung, Pauli e Lupasco sentiam em relação aos fenômenosditos“paranormais”.Poroutrolado,omal-entendidoconcernenteà NovaErapodeserexplicadopelanegligênciaintelectualdaquelesqueestão engajadosnessemovimento.Mas,aassimilaçãoaoirracionalismoherméticonão seria,afinal,legítima?

Ocernedoproblema:nósmergulhamosexcessivamentenoséculo

XVII

Adificuldadeemobterumarespostaéaumentadapelofatodequeestamosàs voltascomverdadeirosmutantes.Jungfoiummutante,necessariamentesolitário em seu campo, pertencente às ciências “humanas”, conhecidas por “moles”. Pauli também foi um mutante em seu campo, das ciências conhecidas por “exatas”ou“duras”(aspalavras“mole”e“dura”devemevocaraospsicanalistas epsiquiatrasmuitasassociaçõesinteressantesefecundas).QuantoaLupasco,ele foiomutantedosmutantes,comsualógicadacontradição. ÉverdadequePaulifoiummutantemenossolitário,poisafísicasofreuuma mutaçãocoletivasemprecedentescomosurgimentodamecânicaquântica.Mas os três mutantes enfrentaram, estritamente, o mesmo problema: a não- conformidadeentreosmodelosqueelesestudarameomodeloderealidadeque reinava, exclusivamente, em sua época. Duas atitudes eram possíveis diante

dessasituaçãoque,noplanopessoal,certamenteerasentidacomodramática. Aprimeirasoluçãoequivaliaaesquivar-sedoproblema,simplesmentepondo

a realidade entre parênteses, como um conceito ontológico obscuro e não

necessárioaoprogressocientífico.Foiocaminhoseguidoequeaindaétrilhado pelamaioriadoscientistas. Jung,PaulieLupascoescolheramocaminhoinfinitamentemaisdifícilemais penoso – o da invenção (ou, talvez, da descoberta) de um novo modelo de realidade.“Quandoohomemdaruadiz‘realidade’,elepensatratar-sedealgo evidente e bem conhecido”, escreveu Pauli. “Inversamente, para mim, a formulaçãodeumanovaideiaderealidadeéatarefamaisimportanteeamais árduadenossotempo.( )Oquetenhoemmente–demaneiraprovisória–éa ideiadarealidadedosímbolo.Porumlado,umsímboloéoresultadodeum esforçohumanoe,poroutrolado,eleindicaaexistênciadeumaordemobjetiva

nocosmos,doqualoshumanossãoapenasumaparte”.2

OencontroentreJungePauliestavainscritonocarátercomumdocentrode

suas preocupações filosóficas e existenciais. E esse encontro foi atualizado, como que por acaso, pela ocorrência da doença: em consequência de uma

depressãoprofunda,surgidanoinvernode1931,WolfgangPauli(1900-1958)

tornou-se paciente de Jung. Feliz acontecimento que iria engendrar uma interação de uma importância considerável para a nossa própria época. Certamente, a interação caminhou, como se deve, nos dois sentidos: o pensamentodograndefísicoinfluencioudemaneiraincontestável–sobretudo pelacompreensãodoprincípiodecomplementaridadedamecânicaquânticae pela ideia de ordem acausal – o pensamento do grande psicólogo, e o pensamentodograndepsicólogoincidiusobreopensamentodograndefísico. PaulireconheceumuitasvezesainfluênciadopensamentodeJungsobreseu própriopensamento.Porexemplo,emumacartaendereçadaaMarkusFierz, professordefísicateóricanaUniversidadedeBâle,apropósitodeseuartigoA física fundamental, ele escreveu: “Vejo, então, meu ensaio como uma modificaçãoeumaampliaçãodasanalogiasfeitasporBohremrelaçãoàfísicae

à psicologia, graças à aceitação do conceito de ‘inconsciente’, tal como é

utilizadopelospsicólogosmodernosdaescolajunguianaedeoutrasescolas”.3

Noentanto,essainfluênciarecíprocanãochegavaaumaidentidadedepontos de vista. Por exemplo, Pauli escreveu várias vezes que não compreendia o sentido que Jung atribuía aos fenômenos de sincronicidade e até mesmo afirmavaqueoestudoastrológicofeitoporJungeraumfracassototal.4 Mas,ao mesmotempo,Paulicontribuiudemaneiraessencialparaaelaboraçãodanoção desincronicidade.

É legítima a interrogação sobre o papel, talvez capital, que a experiência depressivadesempenhounaelaboraçãodopensamentodeJungedePauli.A experiência depressiva, enquanto morte para si mesmo seguida de um renascimento,podeservivida,pelaprofundidadevertiginosadomergulhoemsi mesmo,comoumaverdadeirainiciação.Eumearriscoatémesmoaformulara hipótesedeque,nosdoiscasos,aexperiênciadepressivaabriuascomportasdo imaginárioedaafetividade.Essasexperiênciasdepressivasforam,entretanto, assimétricas.Queeusaiba,Lupasconãopassouporumaexperiênciadepressiva. NocasodeJung,eletinhacomopanodefundoumintelectodemasiadamente vazio;opensamentoestavacomoquebloqueado,suspensoàsportasdoreinodo inconsciente.Umdostraçosmaisexpressivosdessaexperiênciaéosoberbo textoOssetesermõesaosmortos.5 OtestemunhodopróprioJungécapitalesem nenhumaambiguidade:“Osanosduranteosquaiseuestiveàescutadasimagens interioresconstituíramaépocamaisimportantedeminhavida,nocursodaqual todasascoisasessenciaissedecidiram.Poisfoiquandoelasalçaramvoo,eos detalhes que se seguiram não foram senão complementos, ilustrações, esclarecimentos.Todaaminhaatividadeposteriorconsistiuemelaboraroque haviabrotadodoinconscienteaolongodessesanoseque,acimadetudo,me

inundou.Essafoiamatériaprimaparaaobradeumavida.”6

NocasodePauli,tratava-semaisdeumintelectodemasiadamentepleno. Pauli foi uma criança prodígio. Aos dezenove anos, ele já era autor de um volume de enciclopédia sobre a teoria da relatividade, volume que recebeu elogios do próprio Einstein. Aos vinte e quatro anos, ele fez sua principal descobertacientífica–oprincípiodeexclusão–quelevaseunomeequelhe

valeuoprêmioNobel,em1945.Otraçomaisexpressivodessaexperiênciafoi

suaconvicçãodequeoproblemamaisimportantedenossotempoéoproblema psicofísico–arelaçãoentreoespíritoeamatéria–,problemaqueeleiria aprofundaratéofinalprematurodesuavida.ParaPauli,anaturezaholísticado unusmundus implica que os estados que descrevem os domínios material e psíquicoestejamimbricados.Eleconsiderouqueaciênciadofuturoconceberáa realidadecomosendosimultaneamentefísicaepsíquica,aomesmotempoindo

alémdofísicoedopsíquico.7

SeaobrafilosóficaescritadeJungedeLupascoéconsiderável,adePauli reduz-seaalgunsartigos,todosemalemão.Elaseencontraexpressabemmais emsuacorrespondência.ElarevelaumPaulidesconhecidopelograndepúblico –umgrandepensador,certamenteumdosmaioresdentreospaisfundadoresda mecânica quântica. O físico finlandês Kalervo Laurikainen, por exemplo, colocouàdisposiçãodopúblicoalgunsfragmentosdacorrespondênciadePauli

com Fierz, em seu livro Beyond the Atom The Philosophical Thought of WolfgangPauli.Umaanálisemuitointeressantedopensamentofilosóficode

PaulifoifeitarecentementeporHaraldAtmanspachereHansPrimas.8

Tudoacontececomosefosseexperimentadoumcertoincômododiantedo pensamentofilosófico,marcadopelainfluênciadeJung,daquelequefoi,no entanto,umdosmaioresfísicosdesseséculo.Obviamente,oespíritoeaalma perturbamsempre.Nocampodaciênciaconhecidapor“dura”,arepressãoao inconsciente só pode ser dura. Mas o que poderia explicar, de modo mais profundo,osentimentodifusodeperigoassociadoaopensamentodeJung,de PauliedeLupasco? Ocernedoproblemaérelativamentesimplesepodeserexpressopelafórmula lapidardePauli,numerosasvezesutilizada,sobformasligeiramentediferentes, em sua correspondência com Fierz: “Nós mergulhamos excessivamente no séculoXVII”.9 Emoutrostermos,seacivilizaçãoocidentalpersistirnocaminho perigoso de uma separação demasiadamente brutal entre sujeito/objeto, ciência/religião,física/metafísica,causal/acausal,umacatástrofeseráiminente.

Atarefamaisimportantedenossotempo:umanovaideiade

realidade

Jung,PaulieLupasconãosecontentaramemconstataraexistênciadeum focopotencialdedestruiçãodenossacivilizaçãoocidental.Elessequestionaram sobreaconstruçãodeumnovomodeloderealidade,emconcordância,porum lado, com a experiência psicológica e, por outro lado, com a experiência microfísica. Transpor a etapa seguinte era quase inevitável: Jung, Pauli e Lupasco reconheceram,porcaminhosdiferentes,aexistênciadeumisomorfismoentreo mundoquânticoeomundopsíquico.NaFrança,umpoucoantesdeJunge Pauli,Lupascochegouàmesmaconclusão.10 Aliás,osilêncioconstrangedorque cercouostrabalhosdeJung,PaulieLupasconomundodosfilósofostema mesma densidade. Pois as consequências da aceitação de tal ponto de vista seriamimensasemesmoincalculáveis:talisomorfismoporiaemquestãotodaa evolução do mundo moderno, desde Galileu até os nossos dias. Mas esse questionamento não é negador: ele requer um retorno às origens da modernidade,enriquecidoportodaaexperiênciadaaventuradatecnociência. OmodeloderealidadepropostoporPaulipodeserresumidonoesquema sugerido por Laurikainen: o observador está separado do real pelo muro do inconsciente.11 AdiferençaentreosmodelosdePauliedeBohrémuitoclara:o

papeldosinstrumentosdemedida,nocasodeBohr,ésubstituídopelodapsique doobservador,nocasodePauli. À primeira vista, o real de Pauli (que Laurikainen denomina, numa terminologia que não é muito feliz, o “real transcendente”12) é praticamente idêntico ao “real velado” de d’Espagnat. Há, no entanto, uma diferença importante:oisomorfismoentreomundopsíquicoeomundoquânticoestá ausente em d’Espagnat. Numa carta a Fierz, de 5 de março de 1957, Pauli escreveu que é razoável pensar que mesmo a matéria considerada “inerte” mostrariafracoscomponentespsíquicos.13 Taisconsideraçõesseriam,certamente,

rejeitadaspord’Espagnat,maselasestãopresentesnaobradeLupasco.14

OsníveisderealidadeestãopresentesemJungePauli?

Seriapossívelafirmarqueanoçãodeníveisderealidadeestápresenteno modelo de Pauli? A resposta é simultaneamente “não” e “talvez sim”. Superficialmente,sepoderiacrerque“não”,porqueoqueestáalémdovéu(o véudoinconsciente)nãoapresentaresistênciae,consequentemente,nãosepode verdadeiramente falar de “nível”. O que está além do véu é, por definição, incognoscível. Masarespostaétambém“talvezsim”,tendoemvistaqueadescriçãode Pauliéincompleta.Efetivamente,podemserconsideradosdoistiposdeobjetos, radicalmentedistintos:osobjetosquânticoseosobjetosclássicos. Anoçãodeníveisderealidadeestátambémpresente,implicitamente,naobra deJung.NodocumentáriotelevisivoFacetoFace,Jungnosdizque“apsique nãoestáinteiramenteconfinadanoespaçoenotempo”.15 Oespaço/tempoem questão é aquele do nível macrofísico. Portanto, existe uma categoria de fenômenosquesesubmetealeisradicalmentediferentesdaquelasqueagemno nívelmacrofísicoequepodeserdenominada“nívelpsíquico”. De fato, as concepções de realidade de Jung e de Pauli são, ambas, compatíveiscomaabordagemtransdisciplinar.

Novosesclarecimentossobreodebateternário/quaternário

Ébemevidentequeumternárioouumatríadenãoimplicamnecessariamente

oterceiroincluído.Porexemplo,atríadepai/mãe/filhopodesedecompor,em

suasucessãonotempo,emdoisbináriospai/mãeemãe/filho.Domesmomodo,

atríadehegelianatese/antítese/síntese)tambémsedecompõeemdoisbinários:

tese/antíteseeantítese/síntese.

Oterceiroincluídopossuiumcaráternecessariamenteparadoxal,vistoqueele

implicaaunificaçãodopardecontraditóriosmutuamenteexclusivos(A,não-A).

Jungevidencioumuitobemessecaráterparadoxalquandodescreveuopapel

doEspíritoSantonaTrindade:“Enquanto‘tertium’,oEspíritoSantodeveser,

então, necessariamente extraordinário, e mesmo paradoxal ( Ele é uma

).

funçãoe,enquantotal,aterceirapessoadadivindade”.Emseuensaiosobreo dogma da Trindade, Jung escreveu igualmente: “Resulta, então, uma tensão contraditóriaentreoUmeoOutro.Ora,todatensãocontraditóriatendeaevoluir paradarnascimentoaotrês.Comotrêsatensãoéanulada,poisaunidade perdidareaparece( ).Atrindadeé,portanto,aunidadequesedesenvolvepara setornarperceptível.OtrêséoUmtornadoperceptívelque,semaresoluçãodos contrários,oUmeoOutro,teriapermanecidoemumestadoimpossíveldeser determinado”.16 Masqualseriaanaturezadessaunificaçãodosopostos?Seriaela racionalouirracional?Emrelaçãoaocampopsíquico,arespostanosfoidada porJung:“Aunificaçãodosopostosemumnívelsuperiornãoéumatarefa racionalemuitomenosumaquestãodevontade,masumprocessopsíquicode

desenvolvimentoqueseexprimeatravésdossímbolos”.17

Nanatureza,essaunificaçãoéparadoxalporémracional,namedidaemque elaserevelaatravésdaexperiênciaedateoriacientíficas.Essacontradiçãoentre ofísicoeopsíquicoé,emminhaopinião,apenasaparente.Seforconsideradaa noção que propus, a de níveis de realidade, essa contradição desaparece (a expressão“nívelsuperior”utilizadaporJungé,aliás,significativa).Tudoocorre comosearealidadefísicaearealidadepsíquicaestivessemestruturadasem “níveis”,equeessesníveisseencontrassememcorrespondênciabiunívoca.Mas ametodologiaparaexploraressesníveisédiferenteemcadacaso. Nos dois casos, o três engendra uma imensa vertigem: vertigem do pensamentoemrelaçãoaomundofísicoevertigemdoserintegralquantoao mundopsíquico.Falandosobreaterceirafasedavidadohomem,Jungescreveu:

“Aspassagensdessetipopossuem,emgeral,umcaráternuminoso–trata-sede conversões, de iluminações, de abalos, de interrupções do destino, de

experiênciasreligiosas,ouseja,místicasouanálogas”.18

Seoterceiroestáincluído,forçosamenteeleestásecretamenteincluído,jáque eleapareceemumnívelderealidadediferentedonosso.Apassagemdeum nívelderealidadeparaumoutroéextremamentedifícileatémesmopercebido como impossível. Nós estamos um pouco na situação desses habitantes de “Flatland”–mundobidimensional,repentinamentepostoemcontatocomuma

realidadetridimensional.19

Jungsublinhoufortementeodesafiododilemadotrêsedoquatro:“Nós

vemosquesetrataaquidodilemaentreoqueépuramenteimaginárioea

realidade ou a atualização. Trata-se, com efeito – particularmente para o filósofo que não se contenta em ser loquaz –, de um problema de primeira ordem, tão importante quanto o problema moral ao qual está estreitamente

ligado”.20

Paulieraumentusiasmadoadeptodoquaternário.Elechegavaatéaempregar como fórmula final de suas cartas a Fierz a expressão: “saudações quaternárias”.21 Alémdessefatocurioso,Pauliacreditava,comoJung,novalor doquaternáriopararevalorizaraintuição,avidainterior,oimaginário,abrindo asportasdessefabulosoreservatóriodeenergiaqueéoinconsciente,percebido comooirracional,omal,astrevas.22 Formuladodeoutramaneira:oqueseriaa razãocomapresençadeváriosníveisderealidade? Cadanívelderealidadeestáligadoaumcertonívelderazão.Arazãoéo conjuntodosníveisderazão.Aimbricaçãoeacoerênciadoconjuntodeníveis derazãotraduzemaimbricaçãoeacoerênciadoconjuntodeníveisderealidade. Seria possível até mesmo ver a razão como engendrada pelo imaginário da natureza.Masissonoslevariamuitolonge.Épreciso,contudo,distinguir“nível derazão”e“pequenarazão”.A“pequenarazão”resultadacontraçãodetodosos níveisderealidadeemumsó.Trata-se,portanto,aomenosnoquadrodomodelo quepropomos,deumarazãodelirante,irracionaleatémesmoperigosa.Como podemosver,comapresençadeváriosníveisderealidade,oirracionalmudade lugar. Haveria, verdadeiramente, uma oposição entre o ternário que implica o terceiroeoquaternário?Oternáriopodeserconcebido,comovimos,como instrumento de transição de um nível de realidade para um outro. Há dois sentidospossíveisdessatransição,poishádoisníveisimediatamentevizinhosa umnívelderealidadebemdeterminado,ondeseencontramoscontraditóriosAe não-A. Designemos por T1 o terceiro que unifica os contraditórios no nível

imediatamente“superior”,eporT2oterceiroqueunificaoscontraditóriosno

nívelimediatamente“inferior”.Podemosdistinguir,então,oquaternárioexterior

T1AT2AdoquaternáriointeriorA(não-A)T1T2,quetemaformadeumacruz.

Seria possível atribuir um sentido simbólico a essa cruz: o eixo horizontal A(não-A) poderia ser associado ao nosso desmembramento e ao nosso

aprisionamentonalutadosopostos;oeixoverticalT1T2poderiaserassociado

àsduaspossibilidades:deevoluçãoedeinvolução;finalmente,ocentrodacruz

poderiaserassociadoaopontoemquecomeçaumainfinitaascensãoouuma

infinitadescida.

Nãoháverdadeiracontradiçãoentreotrêseoquatro.Osquaternáriosque

acabamosdediscutircontinuamnodomíniodotrês.Aqui,estamosnaesferados

metanúmerosenãodosnúmeros.23 Parece-mequeoverdadeiroquartodeque falamJungePaulisurge,nãonatransiçãológica,esimna[transição]existencial ealógicadeumnívelderealidadeparaumoutro.Nósreencontramosnesse debate ternário versus quaternário os mesmos elementos característicos do debateentreAbellioeeu.

OequívocológicoeepistemológicodeUmbertoEco

Emumnívelderealidadebemdeterminado(digamosNR0),alógicaclássica

éválida.Particularmente,oprincípiodeidentidade(A=A)éverdadeironesse nível.Ainfluênciadeumoutronívelderealidade,evidenciadopelateoriae experiência científicas, manifesta-se, no nível considerado, por meio de fenômenoscontraditóriosmutuamenteexclusivos.

Dois níveis adjacentes estão ligados pela lógica do terceiro incluído, no sentidodequeoestadoTpresenteemumcertonívelestáligadoaumparde contraditórios (A, não-A) do nível imediatamente vizinho. Em cada etapa, implicandodoisníveisderealidadevizinhos,oaxiomadenão-contradiçãoé respeitado.Aestruturarepetitivadaaçãodalógicadoterceiroincluídoengendra a imbricação dos níveis e a coerência do conjunto da natureza. Um papel particularédesempenhadopelostrêsinvólucrostopológicosdetodososestados A,não-AeT.Háumatransmutaçãoperpétua,iterativaecíclicadeumestadoT dentro de um par de contraditórios (A, não-A), ou seja, uma amplificação contínuadoprincípiodenão-contradição. Elucidemos agora o problema lógico estabelecido pelas considerações de UmbertoEcovistasanteriormente.Cito-onovamente:“Falardesimpatiaede

semelhançauniversais,significaterrefutadopreviamenteoprincípiodenão-

contradição. Asimpatia universal é o efeito de uma emanação de Deus no mundo,masnaorigemdaemanaçãoencontra-seumincognoscível,aprópria sededacontradição.Opensamentoneoplatônicocristãotentaráexplicarquenós nãopodemosdefinirDeusdemaneiraunívocadevidoàinadequaçãodenossa linguagem.Opensamentohermético,porsuavez,afirmaquequantomaisnossa linguageméambíguaepolivalente,maiselautilizasímbolosemetáforas,e melhorelaestácapacitadaparanomearumUmemqueserealizaacoincidência dos opostos. Somente então, quando triunfa a coincidência dos opostos, o princípiodeidentidadedesmorona.Tudoémantido.Resultado:ainterpretaçãoé infinita( ).Opensamentoherméticotransformaoteatrodomundoemum fenômeno linguístico e, paralelamente, retira da linguagem todo o poder

comunicativo”.24

Há,emtodasessasapreciações,umaconfusãoimportante:acoincidênciados

opostosnãorequeroabandonodoaxiomadeidentidadeedoaxiomadenão-

contradição,masoabandonounicamentedoprincípiodoterceiroexcluído,que devesersubstituídopeloaxiomadoterceiroincluído.Anão-contradiçãoea identidadenãodesmoronam,elasapenassão,bemaocontrário,amplificadas. Esseprocessodeamplificaçãodanão-contradiçãocomapresençadosníveis derealidadeémuitointeressante,poiseledemonstraqueacontradiçãonãoé jamais,defato,completamenteeliminada.Lupascoteve,porisso,finalmente razãoaonomearde“lógicadacontradição”asualógicadoterceiroincluído. Comoresultado,ainterpretaçãonãoéinfinitaesimfinita,precisaerigorosa. Oteatrodomundonãosereduzaumfenômenolinguístico,queésomenteuma faceta de uma realidade infinitamente mais rica. A deriva mais perigosa, atualmente,éadopensamentounidimensional,quereduztudoaumúniconível derealidade.Anatureza,presentemente,nãoénemmágica,nemmecânica,nem morta–elaéviva,comoPaulipressentiudemaneiramagistral.

Algumasobservaçõessobreoproblemadasincronicidade

Asconsideraçõesprecedentesnosconduzemparaumnovoesclarecimento sobre o problema, sempre controverso, da sincronicidade.25 Precisamos, primeiramente, distinguir “fenômenos de sincronicidade” e “teoria da sincronicidade”.Seaexistênciadosfenômenosdesincronicidadeémaisou menosaceita,inversamente,aprópriaexistênciadeumateoriadasincronicidade estálongedeserevidente.Essasituaçãoumpoucoparadoxalébemilustrada pela amplitude do debate entre Jung e Pauli em relação à compreensão da

sincronicidade,debatebemresumidoporLaurikainen.26

OcentrododebateéevidenciadoemumacartaendereçadaporPauliaFierz,

em26denovembrode1949:“Osegundotemadesuacarta,concernenteao

pontodevistadeJungsobre‘asincronicidade’etc,émaisdifícil.Quandoo

visitei no final do mês de julho (

importante restringir a ‘causalidade’ a causas ‘concretas’ ou ‘mensuráveis’, situadasnoespaçoenotempo(paraevitarincluirnoconceitodecausalidade tudooquepertenceàclassedascausas‘mágicas’ou‘simbólicas’,escapandoao

espaçoeaotempo)( ).Quantoamim,tenhoaimpressãodequeumaquestão aindamaisimportanteéofatodequeoestudodossupostosfenômenosde ‘sincronicidade’implicafatores( )queescapamaonossocontroleatalponto queumareprodutibilidadesatisfatóriadessesfenômenosnãoépossível( )”.27 Aquestão fundamental é, portanto, de ordem metodológica. Jung e Pauli reconheceram que os postulados metodológicos da ciência moderna não são compatíveis com os fenômenos de sincronicidade. Mas, uma vez feita essa

ele enfatizou que é particularmente

)

constatação,seuscaminhosdivergiram.Jungparecianutriraesperançadeque umageneralizaçãodessespostuladosfossecapazdeexplicarumaordemcausal, incluindoregularidadesdeumnovotipo:“asrelaçõesinconstantesatravésdas

contingências”.28

Ao contrário, Pauli parecia abandonar toda a esperança de encontrar uma explicaçãocientíficadosfenômenosdesincronicidade,aceitandoocaráternão reprodutível desses fenômenos: sua posição estava mais próxima de uma filosofiadanaturezadoquedaciênciapropriamentedita.Trata-se,certamente, deumanuança,maselaécapitalnocontextodenossadiscussão. Aestruturagödelianadanaturezaedoconhecimento,expostaanteriormente, nos permite obter um esclarecimento interessante sobre os fenômenos de sincronicidade.Convémdistinguirempiricamenteduasclassesdefenômenosde sincronicidade: os eventos raros e os eventos singulares. Os eventos raros respondemaumanecessidadenatural,tendoemvistaquedevehaveraberturade umnívelderealidadeparaosoutrosníveis.Esseseventosrarossãocomouma “piscadela” da natureza, no sentido de que eles assinalam alguma coisa importanteemtermosdofuncionamentomecânicodanatureza,semquetenham umasignificaçãopsíquicaparticular:elesrequerem,simplesmente,umacerta atençãodenossaparte,enquantoobservadoresoutestemunhas.Inversamente,os eventossingulares,quetambémtêmumlugarlógiconaestruturagödelianada natureza, requerem nossa participação efetiva e afetiva. Esses eventos são transformadores,umavezqueelesassumemumasignificaçãosimbólicanoque dizrespeitoanossavidainterior.

Pauliescreveu,numacartaendereçadaaFierzem15demarçode1957,a

propósito dos fenômenos de sincronicidade: “Para mim, eles parecem estar claramentepresentes!AformulaçãodeGödelfaz-melembrarfortementedesses fenômenos [estaletragregadenotaasincronicidade],aosquaisoconceitode probabilidadenãopodemaisseraplicado”.29 OpróprioPaulipensava,portanto, quehaviaumarelaçãoentreaestruturagödelianadanaturezaeosfenômenosde sincronicidade.Efetivamente,otemadasincronicidadeestáemolduradoporum contextomuitomaisvasto–odabuscadeumanovaabordagemdarealidade, baseadanainteraçãoentresujeitoeobjeto. Jungcaminhounomesmosentido:“Asincronicidadenãoémaisenigmática oumaismisteriosadoqueasdescontinuidadesdafísica”.30 Jungestavacoberto derazão.Masnóspodemosirmaislongeeafirmarqueasincronicidadeea descontinuidadequânticasãoduasfacetasdaunidadecomplexasujeito/objeto.

Reducionismo,antirreducionismoetransreducionismo

descontinuidadequânticasãoduasfacetasdaunidadecomplexasujeito/objeto. Reducionismo,antirreducionismoetransreducionismo

A teoria transdisciplinar dos níveis de realidade concilia reducionismo e antirreducionismo.Elaé,emcertosentido,umateoriamultirreducionista,pela existênciadeníveisderealidadedescontínuosemúltiplos.Maselaétambém umateoriaantirreducionista,graçasàpresençadoterceirooculto,querestauraa interconexãocontínuadarealidade.Aoposiçãoreducionismo/antirreducionismo é,defato,oresultadodopensamentobinário,baseadonalógicadoterceiro excluído.Ateoriatransdisciplinardosníveisderealidadenospermitedefinir umanovapercepçãodarealidade,quenósdenominamostransreducionismo. Anoçãotransdisciplinardeníveisderealidadeéincompatívelcomaredução donívelespiritualaonívelpsíquico,donívelpsíquicoaonívelbiológicoedo nívelbiológicoaonívelfísico.Contudo,essesquatroníveissãounificadospelo terceiro oculto. Mas essa unificação não pode ser descrita por uma teoria científica.Pordefinição,aciênciaexcluianão-resistência.Aciência,talcomoé definidaatualmente,estálimitadaporsuaprópriametodologia. Anoçãotransdisciplinardeníveisderealidadeconduztambémaumanova visãodapessoahumana,baseadanainclusãodoterceirooculto.Naabordagem transdisciplinar,nósestamosdiantedeumsujeitomúltiplo31 capazdeconhecer umobjetomúltiplo.Aunificaçãodosujeitoérealizadapelaaçãodoterceiro oculto,quetransformaosaberemcompreensão.“Compreensão”significaaquia fusãoentreosabereoser.Emumcertosentido,oterceiroocultoaparececomo sendoafontedoconhecimento,mas,porsuavez,eletemnecessidadedosujeito paraconheceromundo:osujeito,oobjetoeoterceiroocultoestãointerligados, ou antes, transligados. Apessoa humana aparece como a interface entre o mundoeoterceirooculto.Oserhumanotem,portanto,duasnaturezas:uma naturezaanimaleumanaturezadivina,transligadaseinseparáveis.Aeliminação doterceiroocultodoconhecimentosignificaumserhumanounidimensional, reduzidoàscélulas,neurônios,quarksepartículaselementares.

Oqueéarealidade?

AsabordagensfilosóficasdeJung,PaulieLupasco,enriquecidaspelanoção deníveisderealidade,constituemumaabordagemaberta,situadanocentroda modernidade.Elascontribuemparaosurgimentodeumavisãorenovadada natureza, conduzindo à abordagem transdisciplinar de uma realidade multidimensional, estruturada em múltiplos níveis, fundamento de nossa esperançaedenossaverticalidade. “Oqueéarealidade?”–questiona-seCharlesSandersPeirce.32 Elenosdiz quetalveznadacorrespondaanossanoçãode“realidade”.Seria,talvez,anossa tentativadesesperadadeconhecerqueproduziriaessahipótesenãojustificada?

Mas,aomesmotempo,Peircenosdiz:seháverdadeiramenteumarealidade, entãoeladeveconsistiremqueomundovive,move-seeapresentaemsimesmo umalógicadosacontecimentosquecorrespondeanossarazão. Nós somos parte integrante do movimento da realidade. Nossa liberdade consisteementrarharmoniosamentenessemovimentovivoouemperturbá-lo.A realidadedependedenós:elaéplástica.Nóspodemosresponderaomovimento da realidade ou impor nossa vontade de poder e de dominação. Nossa responsabilidadeédeedificarumfuturosustentávelemconformidadecomo movimentoglobaldarealidade.

1U.Eco,Leslimitesdel’interprétation[Oslimitesdainterpretação],Paris:Grasset,1992,p.58,61e370.

2CartadePauliaFierz,de12deagostode1948,emK.vonMeyenn,WolfgangPauli.Wissenchaftlicher

Briefwechsel,BandIV,t.I,1940-1949,Berlin:Springer,1993,p.559.

3 Carta de Pauli a Fierz, de 3 de novembro de 1948, em K. V. Laurikainen, Beyond the Atom. The

PhilosophicalThoughtofWolfgangPauli,Berlin:Springer,1988,p.74.

4CartadePauliaFierz,de3dejunhode1952,emibid.,p.141.

5C.Maillard,LesseptsermonsauxmortsdeCarlGustavJung,Nancy:PressesUniversitairesdeNancy,

1993.OtextodeJungécitadointegralmentenoiníciodolivro,natraduçãoparaofrancêsdeChristine

Maillard.

6C.C.Jung,Mavie.Souvenirs,rêvesetpenséesrecueillisparAnielaJaffé,Paris:Gallimard,“Témoins”,

1992,p.232.[Memórias,sonhosereflexões.CompilaçãoePrefáciodeAnielaJaffé,traduçãodoinglêsde

DoraFerreiradaSilva,RiodeJaneiro:NovaFronteira,4ªed.,1981].

7CartadePauliàPais,de17deagostode1050,emK.vonMeyenn,op.cit.,t.I,1950-1952,Berlin:

Springer,1993,p.152.

8H.AtmanspachereH.Primas,“Pauli’sideasonmindandmatterinthecontextofcontemporaryscience”,

JournalofConciousnessStudies,vol.13,nº3,2006,p.05-50.

9VeraCartadePauliaFierz,de13deoutubrode1951,emK.V.Laurikainen,op.cit.,p.40.

10S.Lupasco,L’expériencemicrophysiqueetlapenséehumaine,Mônaco:Rocher,“L’espritetlamatière”,

1989.

11K.V.Laurikainen,op.cit.,p.177.

12Ibid.,cap.10,p.140-154.

13CartadePauliaFierz,de5demarçode1957,emK.V.Laurikainen,op.cit.,p.84-85.

14S.Lupasco,Lestroismatières[Astrêsmatérias],Paris:UGE,“10/18”,1970.

15C.G.Jung,FacetoFace,entrevistarealizadaporJohnFreeman,transmitidapelaBBCem22de

outubrode1959.

16C.G.Jung,Essaissurlasymboliquedel’esprit[Ensaiossobreasimbólicadoespírito],Paris:Albin

Michel,1991,p.198e157.

17C.G.Jung,Commentairesurlemystèredelafleurd’or[Comentáriosobreomistériodaflordeouro],

Paris:AlbinMichel,1980,p.39;ositálicossãonossos.

18C.G.Jung,Essaissurlasymboliquedel’esprit,op.cit.,p.223.

19E.A.Abbott,Flatland.ARomanceofManyDimensions,Bergenfield(N.J.):NewAmericanLibrary,

1984.

20C.G.Jung,Essaissurlasymbologiedel’esprit,op.cit.,p.160.

21CartadePauliaFierz,de14dejaneirode1956,emK.V.Laurikainen,op.cit.,p.134.

22K.V.Laurikainen,op.cit.,cap.9,“Quaternity”,p.125-139.

Psicologiadasprofundezasefísicamoderna],Paris:LaFontainedePierre,1983.

24U.Eco,op.cit.,p.55-66.

25H.Reeves,M.Cazenave,P.Solié,K.Pribram,H.-F.EttereM.-L.vonFranz,Lasynchronicité,l’âmeet

la science. Existe-t-il un ordre acausal? [Asincronicidade, a alma e a ciência. Existiria uma ordem

acausal?],Paris:Poiesis,1984.

26K.V.Laurikainen,op.cit.,p.80-86.

27Ibid.,p.82.

28Ibid.,p.85.

29Ibid.

30C.G.Jung,SynchronicitéetParacelsica,Paris:AlbinMichel,1988.

31C.Braga,Delaarhetiplaanarhetip,Iasi:Polirom,2006.

32C.S.Peirce,TheNewElementsofMathematics,TheHague:MoutonHumanitiesPress,1976,vol.IV,p.

383-384.

Capítulo5

StéphaneLupascoeGastonBachelard:

sombraseluzes

AinfluênciadeStéphaneLupascosobreaculturafrancesafoiconsiderável, porém, na maioria dos casos, subterrânea. Inclassificável, Lupasco era consideradocomofilósofopelosfísicosecomofísicopelosfilósofose,oqueé aindapior,comodedireitapelosintelectuaisdeesquerdaedeesquerdapelosde direita.Nocruzamentodaculturafrancesacomaculturaromena,dacultura científica com a cultura humanista, Lupasco prefigura o que Jean-François Malherbechamadeum“nômadepoliglota”.1 figuraemblemáticadeumaEuropa embuscadeidentidadeedeummundoquepadecedevidoàglobalização.

OproblemadasrelaçõesentreStéphaneLupascoeGastonBachelard(1884-

1962)constituiummistérioaindanãoelucidado.Bachelardteveumagrande

consideraçãopelatesededoutoradodeLupasco,de1935,eajudou-oaingressar

noCNRS.Emumacartaderecomendação,de7dedezembrode1942,quando

diretor do Instituto de História das Ciências e Técnicas, ele escreveu: “Eu acompanho,hánumerososanos,ostrabalhosfilosóficosdeStéphaneLupasco.

Desde sua tese de doutorado, ele destacou-se como um dos espíritos mais

originais e melhor qualificados para o trabalho de filosofia científica. Seu recentelivroL’expériencemicrophysiqueetlapenséehumaineéumaobrade

grande valor filosófico. ( Eu considero Stéphane Lupasco como um dos

melhoresespíritosfilosóficosdenossaépoca”.2

Lupasco, por sua vez, teve uma grande admiração pelos trabalhos de Bachelard, como se pode constatar, por exemplo, em sua crônica sobre La

dialectiquedeladurée,publicadaem1936(portanto,umanoapósapublicação

desuatesededoutorado),emThalès.Masessaadmiraçãoésempreumpouco

polêmica.Detenhamo-nosporuminstantenesseartigo,cujotomé,aomesmo

tempo,surpreendenteesignificativo.Lupascoescreveucomentusiasmo:“Este

livroquepretendeser,desdeasprimeiraspáginas,‘umapropedêuticaauma

)

filosofiadorepouso’,maldeixaretomarofôlego.( )Tudoneleédensoe

rapsódico.( )Nóssomentepoderemos,então,( )esboçarumapolêmicasobre

o que já invoca a polêmica em seu favor. (

dependebemmaisdoBaléRussodoquedoTribunaldeJustiça.”Qualseriao cernedoproblema?Lupascodeclarousemrodeios:“Umvalorexistencialque nemsempredesfrutoudaatençãoquemereciadeveria,portanto,serresgatado:a

negação.Nósmesmos,emnossostrabalhos(Vrin,1935),quetêmmuitospontos

emcomumcomoatualensaiodeBachelard,temosinsistidomuitosobreopapel fundamentaldanegação. ComoBachelard,nós tambémacreditamosque ela dependedotempo.Mas,paranós,elaéoprópriotempo;Bachelardacrescentaa afirmação,demodoqueambasengendram.”ELupascodeuumaalfinetada, alfinetadaquelhefoi,talvez,fatal:“Lamentaríamosaqui,porverBachelard disposto,talvezquasequeemdemasia,aescutarassereiashegelianas?Oque querquetenhasidoditoeredito,Hegelcontinuaaserocoveirodetodaintuição verdadeiramente dialética. Se Bachelard souber parar – como nós mesmos tentamosfazer–nadualidadedialética,eleevitaráesseterceiroefúnebretermo dohegelianismoque,tãoassintóticoquantosequeiraconcebê-lo,marcaofinal deumaépocaesópodeserevelar–comoéprovadopelahistória–comouma

perfeitaesterilidadecientífica”.3

(A) polêmica de Bachelard

)

Vê-seaquitodaainocênciadeLupasco.Eleeraincapazdeconceberomal. Aindaqueeletenhasidodeumaperfeitacortesiaedeumagrandegenerosidade emsuavidacotidiana,nãorespeitavaasconvençõessociaisemsuaobra:ele acreditavanopoderabsolutodaverdade. Um esfriamento progressivo de suas relações pode ser percebido na correspondência entre Bachelard e Lupasco, e também em suas respectivas

obras.OfatodeLupascotersidoobrigadoadeixaroCNRS,em1956,tem,

provavelmente,umaligaçãocomessasituação,porBachelardexercerafunção chavedediretordepesquisadeLupasco.Euapenasposso,noestadoatualda pesquisabibliográfica,formularumahipótese.

Em1940,BachelardpublicouseucélebrelivroLaphilosophiedunon,editado

por Presses Universitaires de France. O tom dessa obra é espantosamente lupasciano,masLupascosófoicitadodemaneiramarginal.Bachelardcitoua

tesede1935:“Nosentidodessaaproximação[entreadialéticafilosóficaea

dialéticacientífica],podemoscitarostrabalhosdeStéphaneLupasco.Emsua importantetesesobreLedualismeantagonisteetlesexigenceshistoriquesde l’esprit, Stéphane Lupasco estudou, longamente, todas as dualidades que se impõemaoconhecimento,tantodopontodevistacientíficoquantodopontode vistapsicológico.”Eacrescentou:“StéphaneLupascodesenvolveusuafilosofia

dualística relacionando-a aos resultados da física contemporânea, em um trabalho que ele gentilmente nos comunicou em manuscrito”.4 Trata-se, seguramente, de L’expérience microphysique et la pensée humaine que foi publicado,nomesmoano,nãonaFrança,masnaRomênia.Essaobrasomente seria publicada por Presses Universitaires de France em 1941.5 Bachelard dedicouumsubstancialcapítulodeseulivroa“Lalogiquenonaristotélicienne”, onde cita abundantemente um pensador menos original que Lupasco, Alfred Korzybski.OnomedeLupasconãofoicitadoumaúnicavez. Mas,prossigamosaleituradesseepisódio,ondetalvezpossamosencontrara chave do enigma. Bachelard escreveu: “Esse último trabalho extrai, vantajosamente,umasólidametafísicadamicrofísica.Seriadesejávelqueele pudesseserpublicado.Nósnãoiremos,todavia,tãolongequantoS.Lupasco. Ele não hesita em integrar, de certa maneira, o princípio de contradição na intimidadedosaber.Aatividadedualizadoradoespíritoé,paraele,incessante. Para nós, ela se limita a acionar uma espécie de caleidoscópio lógico que, repentinamente,abalaasrelações,masquesempremantémasformas.Nosso suprarracionalismo é feito, portanto, de sistemas racionais simplesmente justapostos. A dialética somente nos serve para contornar uma organização racionalpormeiodeumaorganizaçãosuprarracionalmuitoprecisa.Elasomente nosserveparavirardeumsistemaparaumoutro.”EBachelardcontinuou:

“Umafilosofiadonãoqueapenasvisasistemasjustapostos,sistemasquese colocamemumpontoprecisoemrelaçãodecomplementaridade,temocuidado inicialdejamaisnegarduascoisasaomesmotempo.Elanãotemnenhuma confiança na coerência de duas negações. A filosofia do não se negaria a subscrever, portanto, a opinião, no fundo ingênua, de Novalis: ‘Da mesma maneira que todos os conhecimentos estão encadeados, todos os não- conhecimentos também se encadeiam. Quem pode criar uma ciência, deve também poder criar uma não-ciência. Quem pode tornar uma coisa compreensível, deve também poder torná-la incompreensível. O mestre deve poderproduziraciênciaeaignorância’.”6 Oessencialfoiditonessestextos.Se Bachelardadotousemreservasaideialupascianada“atividadedualizadorado espírito”,elerecusou,noentanto,aposição“ingênua”deNovalis(edeLupasco) queconsisteemintroduzi-lana“intimidadedosaber”. Umaprofundadivergênciadepontosdevistafoiassimcriada,comotempo, entreBachelardeLupasco.Apalavra“divergência”figuraaliás,comtodasas letras, em uma carta – ademais, muito calorosa – que Bachelard enviou a

Lupascoem24deabrilde1939:“Quandoseulivroforimpresso,ficareimuito

contente em fazer uma resenha simpática na qual, apesar das divergências,

mostrarei o valor objetivo de sua concepção. É certo que se pode fazer a dualidade contraditória penetrar mais ou menos profundamente, mas, de qualquermaneira,deve-sereservar-lheumlugar.Vocêacreditadeveriratéo fundo.Eucolocoospontosdesegmentaçãoemumoutronível.”7 Apalavra “divergência”foiretomadaporLupasco,oitoanosmaistarde,noprefáciode Logiqueetcontradiction:“Bachelardesgueira-se,então,nostafetásenvolventes destaúltima[alógicadeHegel]eatribuiumsentidonovoedosmaisprudentes àdialética:umnãoincessantevitalizaedevevitalizararazão,afimdequeo espíritoelaboreetorneprecisoaquiloqueelechamadeumsuprarracionalismo. Mas,seéprecisodialetizartudo,adialéticapermanece,paraele,comonada maisqueummétodoaserviçodeumsaberdominadoreúnicojuiz.( )Ésobre esseaspecto,deumaimportânciaincalculável,cremosnós,quenossaspesquisas

divergem,tantoemrelaçãoaBachelardcomoemrelaçãoaohegelianismo.”8

Aresenha“simpática”,eatémesmogenerosa,dequefalouBachelardemsua

cartade24deabrilde1939,foiefetivamentepublicadanaRevuePhilosophique.

Bachelard saudou “um livro pleno de fatos, pleno de provas, um livro que preparaapsicologiadeumaverdadeiraliberdadedarazão”.Eobservoucom delicadeza: “Jogar, então, modifica o jogo do adversário. Contar modifica a conta. Observar modifica o objeto de observação. E se poderia dizer, para traduzirocaráterprofundodaintuiçãocontraditorialdeLupasco:averificação suscita aquilo que vai contradizer o verdadeiro. Logo que se compreende o caráter operatório do conhecimento, nota-se que toda operação de conhecimento,quedeterminaasformasdoconhecimento,preparaacontradição ativaquepropõeumaespéciedeantiformaàexperiência.Lupascofarádessa dialéticaativaumaregrademétodo( ).”AobservaçãodeBachelardsobrea relaçãoentresujeitoeobjetofoifundamental:“Logicizarumadualidadedeseres experimentaisqueosteóricosdafísicaestavamlimitadosamatematizar, tal pareceseroesforçoquedirigeametafísicadeLupasco.Sóserápossívelver melhortodooalcancedetalconcepçãoquandoLupascopublicarseustrabalhos sobreoaspectopropriamentelógicodafísicateórica.Mas,desdejá,percebe-se todoointeressedesemelhantespesquisas.Nessecampointermediárioentreas obrigaçõesexperimentaiseasobrigaçõesdopensamento,amicrofísicarequer concepçõesemqueasatividadesdoobjetoeasatividadesdosujeitosejam inseparáveis.Taisconcepções,difíceisdeseremnomeadas,têmnecessidadede ummetafísicoquesepreocupecomoaspectovital,comoaspectobiológicodo conhecimento.” E Bachelard concluiu: “Lupasco é um deles. Ele fornece à metafísicaumacontribuiçãoimportante.”9 Queesplêndidoelogio! Apesardapolêmicafilosófica,arelaçãoentreBachelardeLupascocontinuou

cordial e até mesmo íntima, como prova uma carta de Bachelard de 29 de

outubrode1946:“Meucaroamigo,suacartanoschegahoje,emDijon,onde

fomosforçadosaprolongarnossaestadia.Nósnãopoderemos,portanto,estar comvocêsnodomingo.Hámaisdetrêssemanas,Suzannesofreuumacidente. Elacaiusobreumvidronacidadeeferiu-seprofundamentenamãodireita. Depoisdemuitosofrimento,somenteagoracomeçaacicatrização.Acabamde ser retirados os últimos pontos. Não tenho forças para isso. Fiquei muito atormentadodepoisdesseacidente.Espero,noentanto,quepossamosembreve

voltarparacasa.”10

Oquepodemosconcluir?Houve,certamente,influênciadeLupascosobre Bachelard,influênciaque,talvez,opróprioBachelardignorasseemtodaasua extensão.ÉatémesmopossívelqueLupascotenhaexperimentadoumacerta amarguraaoverqueovenerávelmestrenãolheatribuíatodoocréditoquelhe era devido. Pode ser também que problemas de ordem sentimental tenham perturbadoarelaçãoentreBachelardeLupasco.Mas,paraalémdoaspecto psicológico, que ilustra, infelizmente, os costumes tão corriqueiros da tribo intelectual, o que nos parece importante é a divergência filosófica entre BachelardeLupasco,querevela,umavezmais,aposiçãosingulardeLupasco na filosofia francesa, situando-se na tradição de Novalis e não naquela de Descartes.

1J.-F.Malherbe,Lenomadepolyglotte.L’excellenceéthiqueenpostmodernité[Onômadepoliglota.A

excelênciaéticanapós-modernidade],Québec:Bellarmin,2000.

2G.Bachelard,cartade7dedezembrode1942,comocabeçalho:UniversitédeParis,Institutdes

SciencesetdesTechniques,13,rueduFour(VIe),1página(arquivosAldeLupasco-Massot).

3S.Lupasco,“‘Ladialectiquedeladurée’deGastonBachelard”,Thales,1936,p.189-194.

4G.Bachelard,Laphilosophiedunon.Essaid’unephilosophiedunouvelespritscientifique,Paris:PUF,

1940,p.136;oitálicoénosso.Dedicatóriaautografada:“AoSr.StéphaneLupasco,comotestemunhode

vivaestimaecomtodasimpatia”(arquivosBasarabNicolescu).

5S.Lupasco,L’expériencemicrophysiqueetlapenséehumaine[Aexperiênciamicrofísicaeopensamento

humano],Paris:PUF,1941.

6G.Bachelard,op.cit.,p.136-137.

7G.Bachelard,cartaaStéphaneLupasco,Dijon,24deabrilde1939,4páginas(arquivosAldeLupasco-

Massot).

8S.Lupasco,Logiqueetcontradiction[Lógicaecontradição],Paris,PUF,1947,p.VIII.

9G.Bachelard,“StéphaneLupasco:l’expériencemicrophysiqueetlapenséehumaine”[StéphaneLupasco:

aexperiênciamicrofísicaeopensamentohumano],RevuePhilosophique,nos10-12,1942-1943,p.155-

158.

10 G. Bachelard, carta a Stéphane Lupasco, Dijon, 29 de outubro de 1946, 1 página (arquivos Alde

Lupasco-Massot).SuzanneerafilhadeGastonBachelard.Elanasceuem18deoutubrode1919efaleceu

em3denovembrode2007.

Capítulo6

Domundoquânticoaomundodaarte

Na década de 1950 a 1960, o nome de Lupasco ingressou de maneira fulgurantenomundodaarte.Noentanto,elevinhademuitolonge–domundo quântico,aqueledoinfinitamentepequenoeinfinitamentebreve.Comoseria possívelexplicaressefenômenoinsólito?

AndréBreton:daadmiraçãoàexclusão

Porocasiãodeumaentrevista,em1952,AndréParinaudperguntouaAndré

Breton:“Vocênãoconsidera,então,queasciênciasfísicas,quehácinquenta anos vêm modificando a estrutura de nossa concepção do mundo, tenham influenciadoaobradosartistas?”.AndréBretonrespondeu:“Eutestemunhoque osartistastêmsidounânimes,ouquase,emseudesinteressepelateoriados QuantaepelamecânicadeHeisenberg( ).Reconheçoqueaspontesnãoforam absolutamenterompidasgraçasaalgunspensadorescomoGastonBachelard,a quemosurrealismodeve,notavelmente,apossibilidadedesemiraratravésde um‘suprarracionalismo’,eaStéphaneLupasco,quenãosomenteresgatoua honradaafetividadenoplanofilosófico,masqueainda,nofinaldeseuEssai d’unenouvellethéoriedelaconnaissance,cumprindodemodobemparticularo compromisso dos poetas, substituiu o princípio de não-contradição pelo princípiodecomplementaridadecontraditória.”1 AobraàqualBretonserefereé o segundo volume do primeiro livro de Lupasco, Du devenir logique et de l’affectivité,2 escritoem1935. André Breton e Stéphane Lupasco conheceram-se e relacionaram-se com respeito mútuo. Breton foi um dos primeiros a perceber a importância da filosofiadeLupascoparaacompreensãodaarte.Emumaentrevistapublicada

emMadri,em1950,eledisse:“Atualmente,ébemconhecidoqueosurrealismo

nãosepropôsnadaalémdefazeroespíritotransporabarreiraerguidapelas

antinomiasdotipoaçãoesonho,razãoeloucura,sensaçãoerepresentaçãoetc,

queconstituemoprincipalobstáculodopensamentoocidental.Emseuesforço

contínuonessesentido,elenãoparoudeavaliarossuportesqueencontravana

dialética de Heráclito e de Hegel (em função, recentemente, da retificação

fornecidapelostrabalhosdeStéphaneLupasco)( Nessaentrevista,Breton

).”3

refere-seaomagníficolivrodeLupascoLogiqueetcontradiction,4 peloqualele experimentava uma contínua admiração. De fato, a obra de Lupasco está centradanoquesepodechamardeasantinomiastransfiguradas.Foijustamente oqueincomodouSartre:“ParaSartre,quelocalizaarealidadenoprópriocampo daconsciência”,escreveMarkPolizzotti,“astentativasdeBretonparaunificar açãoconscienteeaçãoinconscienteemum‘certopontodoespírito’,ondeas dualidades‘deixamdeser[percebidas]contraditoriamente’,são,nomelhordos casos,frívolas.‘Aorigemprofundadomal-entendido’,escreveSartre,‘resideno fato de que o surrealismo se preocupa muito pouco com a ditadura do proletariado e vê na revolução, como pura violência, a finalidade absoluta, enquantoqueocomunismosepropõecomofinalidadeatomadadopodere justifica,atravésdessafinalidade,osanguequeverterá’.”5 SeSartrepensavaisso de Breton, pode-se facilmente imaginar o horror que ele devia sentir por Lupasco

AsapreciaçõesdeBretonsãoaindamaisclarasemL’anthologiedel’humour noironde,nocapítulodedicadoaJean-PierreDuprey,elesereferiunovamentea Logique et contradiction: “Aideia de preeminência atribuída à luz sobre a obscuridade pode, sem dúvida, ser tida como um resíduo da esmagadora filosofiagrega.Euatribuo,aesserespeito,umaimportânciafundamentaleuma virtude libertadora das mais elevadas à objeção apresentada por Stéphane LupascoemrelaçãoaosistemadialéticodeHegel,muitomaistributárioainda deAristótelesdoqueseriadesejável( )”,eacrescentando:“Essaobra–aos olhosdosartistas–tambémteráoimensointeressedeestabelecereesclarecera conexão, ‘das mais enigmáticas’, que existe entre os valores lógicos e sua

contradição,porumlado,eosdadosafetivos,poroutrolado”.6

Defato,Logiqueetcontradiction é uma surpreendente meditação sobre a afetividade,queaparececomoummundoàparteemrelaçãoaomundológico. “Em todo conhecer, na própria estrutura de todo processo cognitivo, há, portanto, um sujeito de desconhecimento e um objeto de conhecimento” – escreveuLupasco.“Eencontra-seaíaorigemdalógicainconscienteedalógica consciente, que caracterizam a experiência lógica.” A afetividade está diretamente ligada à interação entre o sujeito e o objeto. Na ausência da afetividade,osujeitotorna-seobjeto.Aafetividadetem,portanto,“umanatureza exterioremrelaçãoànaturezadouniversológico”.Ela“nãoénadadaquiloque éaexperiênciaoualógica,nãoénemidênticanemdiversa,nemextensivanem

intensiva, nem temporal, (

)

ela escapa, por isso mesmo, a toda

conceitualização”.Lupascoescreveuainda:“Aafetividade,ouoser,estácomo queemconcordânciacomasconfiguraçõesexistenciaisdonão-serlógico,sem que possamos apreender, nem enquanto configuração lógica, nem enquanto

afetividade,aorigemeasrazões,osentidodessacontribuiçãorecíproca”.7

Bretondevetertido,certamente,muitoameditarsobreoterceirocapítulo, “Lalogiquedel’Artoul’expérienceesthétique”.ParaLupasco,aarteéabusca da“contradiçãológicaexistencial”eaestéticaé“aciênciaquânticaemgerme, na infância”, uma “consciência da consciência”. Aarte de uma dada época utilizaomaterialcognitivodarespectivaetapae,consequentemente,ahistória daarteseinsere“nahistóriadoconhecer,ouseja,nodevirlógico”.Lupasco profetiza que a arte “desabrochará mais amplamente cerca do final de um desenvolvimento ‘utilitário’, ou seja, de um desenvolvimento lógico de cognição”.8 EssaprofeciadeviaterumaressonânciaparticularemBreton. FoicommuitanaturalidadequeAndréBretonsolicitouaStéphaneLupasco querespondesse,aoladodeHeidegger,Blanchot,Malraux,Bataille,Magritte, CailloiseJoyceMansour,ofamosoquestionáriopublicadoemL’ArtMagique. Em um cartão postal de 16 de setembro de 1955, André Breton escreveu a Lupasco:“Aindaqueossrs.filósofosmetenhammimado(oqueestálongede serocaso),suaopiniãodentreasdelesnãodeixariadeseramaispreciosapara

mim”.9

Lupascomenciona,emseutexto,“oconflitocosmológicodosujeitoedo objeto”econsideraqueamagiabanha-senomistério“porqueomistériodos mistérios é precisamente essa realidade indiscutível e absoluta dos estados afetivos”.Pode-sepenetraressemistério,propõeLupasco,“magicamente”,por uma “causalidade que salta”. O “psiquismo mágico”, “com suas sombras

mágicas,essassombrasquepenetramomistérioontológicodaafetividade”,10

correspondeàterceiramatériadeLupasco. AdedicatóriafeitaporAndréBretonnoexemplardeL’ArtMagiqueenviadoa Lupascoé,aomesmotempo,comoventeeinquietante:“AStéphaneLupasco,o primeiríssimo a estar qualificado para penetrar essas sombras mágicas do psiquismo (e de quem, aliás, eu me aterrorizo em pensar que tenha podido prestar-se à glorificação de medidas inquisitoriais!)”.11 De que “medidas inquisitoriais”poderiatratar-seexatamente?

GeorgesMathieueoengaiolamentodeAristóteles

Efetivamente,emsuadedicatóriaBretonrefere-seàexposição“Cerimônias

ComemorativasdaSegundaCondenaçãodeSigerdeBrabant”,organizadapor

MathieueHantaïnascincosalasdagaleriaKleber,emParis,de7a27demarço

de1957.Oprogramadessas“cerimônias”,12 quesedesenrolaramemumritmo frenéticodurantetrêssemanas,guardaalembrançadeumasérieprodigiosade cenários, encenações, obras de arte, documentos, programas musicais, conferências e declarações. Várias personalidades importantes – Carl Gustav Jung,T.S.Eliot,KarlJaspers,GabrielMarcel,JeanPaulhaneStéphaneLupasco – participaram desse evento, que teve uma grande repercussão na mídia. O objetivodainsólita,masmuitominuciosamentepreparada,manifestaçãoerade “contestarosfundamentosdenossacivilizaçãoocidental,desdeainvasãoda Europa e, portanto, da França, pelo pensamento de Aristóteles tal como foi traduzidoporSigerdeBrabant.Esseseventosqueretraçamaevoluçãoculturale

espiritualdoOcidente,desdeoéditodeMilãode313até1944,reativamas

convicçõesparticularesqueendossamoengajamentoirreversíveldeGeorges

Mathieuemfavordeum‘renascimento’.”13

Stéphane Lupasco estava presente na parte do programa intitulada “Ciclo popular 1832-1944 (Da encíclica Mirari vos à revolução de 1944-1946)”, particularmentenaseção“PrincipaisMomentosComemorados”.Emumadas salas,podiaservistoumimensoretratodeLupasco.Embaixodesseretrato,à suaesquerda,MathieucolocouumpequenobustodeAristótelesdentrodeuma gaiolafechadaporumagrade.Emtodaaáreacircundante,sobreasparedes,o piso, o teto, havia inumeráveis fotografias, objetos e inscrições. Uma das fotografias feitas durante a exposição nos mostra Mathieu contemplando LupascoeAristóteles.14 Umtriointeressante–Aristóteles,Lupasco,Mathieu– surgiuassimduranteamanifestação.Mathieuteveumapercepçãocorretaao enfatizar a oposição Lupasco/Aristóteles. Ela é uma herança da oposição

Heráclito/Parmênidesqueatravessatodaahistóriadafilosofiaocidental.15

Esseevento,certamenteprovocador,poderiajustificaraexclusãodeLupasco? Emtodocaso,osilênciofoiinstauradonasrelaçõesentreBretoneLupasco.

MathieuconheceuLupascoem1953,porintermédiodeCioran,depoisda

leituraapaixonadaquefezdolivroLeprinciped’antagonismeetlalogiquede l’énergie.16 Assim começou uma amizade exemplar que durou mais de três décadas. ÉprecisodaraCésaroqueédeCésar:foiMathieuquemabriuparaLupasco asportasdomundodaarte–pintores,jornalistas,filósofos,escritores:Dali, Michaux,Revel,Axelos,Abellio,Alvard,Parinaud,Bourgois.Mathieusolicitou acontribuiçãodeLupascoparaaluxuosaeamplamentedistribuída–quinzemil exemplares – Paris Review-US Lines e para a revista Ring des Arts.17 No

lançamentodolivroLestroismatières,elepublicouumabelacrônicaemArts.