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SÓCRATES & CASAGRANDE

Uma história de amor


Casagrande e Gilvan Ribeiro
Copyright © 2016 by Walter Casagrande Junior e Gilvan Ribeiro
Copyright © 2016 Editora Globo S.A. para a presente edição

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida — em qualquer meio ou forma, seja
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autorização da editora.

Texto fixado conforme as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo no 54, de 1995).

Editor responsável: Estevão Azevedo


Editora assistente: Juliana de Araujo Rodrigues
Editor digital: Erick Santos Cardoso
Preparação de texto: Huendel Viana
Revisão: Lucas de Sena Lima
Diagramação: Crayon Editorial
Capa: Gisele Baptista de Oliveira
Foto da capa: Alfredo Rizzutti/Agência Estado
Foto quarta capa: J.B. Scalco/Abril Comunicações S.A.

cip-brasil. catalogação na publicação


sindicato nacional dos editores de livros, rj

C33s

Casagrande Junior, Walter , 1963-


Sócrates & Casagrande : uma história de amor / Walter Casagrande Junior, Gilvan Ribeiro. - 1. ed. - São Paulo : Globo Livros,
2016.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-250-6294-9

1. Casagrande Junior, Walter , 1963- . 2. Sócrates, 1954-2011. 3. Jogadores de futebol - Brasil - Biografia. 4. Futebol - Brasil -
História. I. Ribeiro, Gilvan. II. Título.

16-33722 CDD: 927.96334


CDU: 929:796.332

1a edição, 2016

Editora Globo S.A.


Av. Nove de Julho, 5229 — 7o andar
São Paulo — SP — 01407-200 — Brasil
www.globolivros.com.br
Sumário
Capa
Folha de rosto
Créditos
Dedicatória
Sumário
Prefácio
Introdução
1 - O choque
2 - O reencontro
3 - A relação na arena
4 - As desavenças
5 - O início de tudo
6 - Salvo pela loucura
7 - Dores de amores
8 - Nos bares da vida
9 - Professor aloprado
10 - A Europa de cada um
11 - O despertar da política
12 - Comunhão com a música
13 - O trauma do Sarriá
14 - A segunda chance
15 - Sempre Flamengo
16 - Irmãos de fé
17 - Filhos da discórdia
18 - Pai por um dia
19 - A dor do adeus
Papo de louco
Agradecimentos
Sobre a dupla
Bibliografia
Caderno de fotos
Dedico este livro ao meu amigo Sócrates; ao pai dele, Raimundo; e a minha mãe, Zilda; sem os
quais essa história não existiria.

Walter Casagrande Júnior


Dedico este livro a todas as pessoas que são movidas pela paixão, sem medo de se entregar para
a vida, e assim conseguem transformá-la. Aos meus pais, Gilson e Sarah, por tudo o que sei, por
tudo o que sou e, acima de tudo, por terem me ensinado a amar.

Gilvan Ribeiro
Sumário
Prefácio 9
Introdução 15
1 – O choque 19
2 – O reencontro 29
3 – A relação na arena 39
4 – As desavenças 59
5 – O início de tudo 77
6 – Salvo pela loucura 91
7 – Dores de amores 103
8 – Nos bares da vida 125
9 – Professor aloprado 147
10 – A Europa de cada um 165
11 – O despertar da política 183
12 – Comunhão com a música 197
13 – O trauma do Sarriá 229
14 – A segunda chance 247
15 – Sempre Flamengo 265
16 – Irmãos de fé 287
17 – Filhos da discórdia 305
18 – Pai por um dia 321
19 – A dor do adeus 333
Papo de louco 349
Sobre a dupla 371
Bibliografia 375
Prefácio

Em 1981, eu era um frágil menino de vinte e poucos anos, magro de doer, com seis novas
cicatrizes pelo corpo, cinco cirurgias, duas pneumonias, recém-saído de uma clínica de
reabilitação. Prognóstico: tetraplegia incompleta, depois de um mergulho num açude. Cadeira de
rodas para o resto da vida.
Uma dose de pânico e ansiedade (não) me moviam. Dancei. Que merda de vida eu teria? Mas
a crueza e a beleza dela prosseguiam. Que delícia ainda ter amigos, que delícia namorar —
mesmo paralisado —, que delícia escrever, dialogar, conhecer, viajar, ler, ver, combater. A vida
mudou, a vida segue. Que fase maravilhosa acompanhar o rock brasileiro renascendo. Que
momento do futebol brasileiro. Do meu Corinthians!
Um enfermeiro contratado pela minha mãe perguntou no primeiro dia de trabalho: É
Corinthians? Claro, porra. Vi Garrincha estrear pelo Timão no Pacaembu. Estive no Morumbi
em 1977. Vibrei com o gol de Basílio. Vi Rivelino ir, e Sócrates chegar. Vi Zé Maria sangrar, a
raça. Wladimir brilhar, veloz, ágil, o saci. Palhinha brilhar. Biro-Biro dominar o meio-campo.
Zenon chegar do Guarani e com seu bigodon mexicano orquestrar o time. A torcida maravilhosa
invadir a praia dos outros e lotar o Maracanã em 1976. E o mago Sócrates fazer o impossível,
fazer do futebol, arte, uma pintura, uma escultura, poesia, um balé.
Eu andava afastado do estádio. Meu novo enfermeiro tocava repinique na Gaviões. Seu irmão
era do chocalho. Seu cunhado, do bumbo. Me vi de volta ao Pacaembu. Nos concentrávamos na
Charles Miller. Entrávamos bateria, bandeira, sob aplausos, um desfile protocolar. Subíamos a
arquibancada no lugar marcado. Subiam-me. Agarravam a minha cadeira de rodas e me levavam
com eles. E o show ia começar.
Chegara ao time um garotão igual a mim, cabeludo, magro, cara de enfezado, roqueiro,
desconfiado, arrogante, brigão. Era Casagrande, um garotão igual a todo jovem roqueiro rebelde
daquela década. Que na estreia fez quatro gols! Parecia um sonho. Além da máquina de futebol
comandada por Sócrates, o maestro da orquestra, chegou um guitarrista. E, para mexer com as
nossas cabeças, dar esperança, eles lutavam pela democracia, inovavam, balançavam as
estruturas sólidas de uma organização careta e autoritária, aboliam a concentração, votavam,
coisa rara naqueles tempos, iam a comícios e shows de rock, a baladas e pés-sujos.
Eu, como todos, me reabilitava com aquele time, que era mais que uma equipe esportiva, era
uma filosofia de vida. Nos sentíamos representados. Torcedores notórios de outros clubes, como
Evandro Mesquita, da Blitz, apaixonado pelo Fluminense e pelo Santos, viravam corinthianos.
Meu cunhado tricolor das Laranjeiras veio do Rio morar em Sampa. A lógica era torcer para o
tricolor daqui. A Democracia Corinthiana rompia a lógica. Hoje ele é um dos corinthianos mais
fanáticos.
Era um time tão apaixonante que num jogo da semifinal do Campeonato Paulista de 1983, a
delegação saiu em cima da hora para o Morumbi. Perto do estádio, com o trânsito parado, não
teve jeito, os atletas desceram do ônibus e completaram o percurso a pé. Foram saudados e
aplaudidos por torcedores do rival Palmeiras pelo caminho.
“Washington Olivetto, que fazia parte da diretoria e estava presente nessa ocasião, destaca
que foram até cumprimentados e receberam votos de boa sorte. ‘Vocês merecem ganhar, porque
são muito mais legais’, chegaram a falar alguns rivais, sobretudo para Sócrates, Casagrande e
Wladimir, segundo o publicitário. Casão se lembra das caras de espanto de um grupo de
palmeirenses que comiam sanduíche de linguiça e bebiam cerveja nas barraquinhas em frente ao
Morumbi. A imagem dos jogadores corinthianos já uniformizados para o jogo, correndo com as
chuteiras nas mãos, apressados no meio da multidão, não podia ser mais surpreendente”,
escreveu Gilvan Ribeiro.
Um dia chegou em casa o maior presente da minha vida: uma camisa com o logo criado por
Olivetto, Democracia Corinthiana, assinada por todo o time. “Ao exemplo da raça Corinthiana”,
estava escrito. Ganhei mais força, mais movimento, mais vontade de viver. Vi lá a assinatura de
cada um. Abracei como se quisesse um pouco daquela magia para mim.
Casão e Magrão se completavam. Como Pelé e Coutinho, Zico e Adílio, Ronaldo e Rivaldo,
Romário e Bebeto. Casão conta aqui que tinha que adivinhar o que Sócrates ia fazer, e
conseguia, sabia que era para ele que o Doutor passaria a bola. Que um pensava no outro. Que
ambos eram compridos, não tão rápidos, e compensavam com inteligência. Até na seleção, a
dupla funcionou.
Mas na vida, começaram como iguais, mestre e pupilo, irmãos. Só que, ao final, os caminhos
se cruzaram. Cada um foi para um lado. Casão levou a vida mais a sério. Teve uma carreira bem-
sucedida na Europa. Deixou de ser criança quando nasceu o primeiro filho. Se afundou e se
reergueu. É o maior comentarista da maior emissora do país.
Magrão fez da vida um Carnaval. Bebia até amanhecer. Sempre cercado por amigos fiéis.
Falastrão, gozador, futebol era secundário. Arte e política em primeiro. Se deu mal na Itália. Não
entrava em forma. Se deu mal como treinador, chegava atrasado — até quando foi chamado para
ser padrinho do Casão —, às vezes, bêbado. Muitos casamentos, muita paixão. Humor sagaz que
podia machucar os mais sensíveis, como Casão. Passional. Falava o que pensava.
A vida seguiu. Por coincidência, morei no mesmo prédio do Raí. Conheci Magrão na
intimidade. Frequentei bares com ele. Palestras, entrevistas. Peças na Praça Roosevelt.
Frequentei sua casa. Conheci namoradas. “Pênalti”, apelido dado por ele a uma namorada
partidão, era minha amiga. Pênalti, porque ele dizia que não podia perder aquele(a). Kátia, sua
última mulher, ficou minha amiga.
Kiko Zambianchi me apresentou Casão. A idolatria do passado virou amizade. Identificação:
pensávamos o mundo da mesma maneira. Com rock & roll na veia. Procurei ajudá-lo como dava
na solidão, longe das drogas. Um dia perguntei a ele como andava a amizade com o Doutor.
Casão me disse que não andava. Rolaram alguns mal-entendidos. Especialmente porque Sócrates
nunca o procurara na clínica de reabilitação, em que Casão ficou um ano. E porque ele
trabalhava na emissora que o outro repudiava.
Semana seguinte, eu jantava com Magrão na sua casa. Macarrão, vinho e cigarros. O
cervejeiro se gabava de só tomar vinho agora. Contei da mágoa de Casão e da disposição para o
reencontro. Sócrates disse que tentou procurá-lo na época da internação, mas fora aconselhado a
não contatá-lo. E que agora fazia um programa num canal pago da mesma emissora do Casão. A
época do radicalismo acabou.
Contei tudo no dia seguinte para Casão. Sugeri se reencontrarem. Eu poderia patrocinar, como
muitos tentavam.
Gilvan escreveu aqui brilhantemente: “Casagrande teve a mesma sensação e, se pudesse
voltar atrás, teria superado quaisquer divergências para evitar o distanciamento e aproveitar ao
máximo a companhia de Sócrates. Independentemente da série de comportamentos de Magrão
com os quais não concordava. Incomodava-se, sobretudo, com a sua inconstância. E ficava com
raiva do amigo por entender que ele dava munição para seus críticos o atacarem. No fundo,
queria preservá-lo. Sabia que Magrão sairia com a imagem desgastada cada vez que iniciava um
projeto sem concluí-lo. Como aconteceu em suas aventuras na área cultural, nas breves
investidas na medicina ou quando quis brincar de técnico. Toda a sua irritação, em suma, não
passava de uma adoração pelo avesso”.
Descreveu o reencontro histórico dos dois ao vivo no programa Arena Sporttv , dias depois de
eu ter jantado com Sócrates. Narrou o desespero do Casão quando via que o amigo não admitia o
alcoolismo, a doença, o vício, e que, se ele não admitisse, morreria sem se tratar. No pé da cama
da uti, com o amigo em coma, Casão falou com ele por telepatia, como na música de Rita Lee,
idolatrada e fã dos dois. Queria salvá-lo. Inútil. Tarde demais. O mago do futebol não queria ser
salvo. Reproduzia um ditado de Charles Bukowski: “Find what you love and let it kill you”.
[Encontre o que você ama e deixe-o te matar]. Sócrates morreria dias depois.
Neste livro, Casagrande resolve falar o que faltou ser dito. Confessar um amor absoluto. Falar
de dor, expurgar a culpa.
Gilvan reconta a história de cada um. O começo no futebol, o começo da dupla no
Corinthians, o fiasco das seleções de 1982 e 1986 (em que os dois jogaram), a carreira europeia
de cada um, o nascimento do vício de ambos. A carreira de ambos no Flamengo. A
aposentadoria. A relação com os filhos.
É um livro completo.
Sócrates é o herói quixotesco. Muitas histórias hilárias são reproduzidas. Mas ninguém é
poupado: “Num de seus arroubos, Sócrates chegou a montar, em 1992, um moderno instituto de
fisioterapia em Ribeirão Preto. Mas o flerte com a medicina logo arrefeceu. Apesar do
investimento de 300 mil dólares, ele decidiu fechar a clínica poucos anos depois e pediu para
Casagrande ajudá-lo a encontrar um destino para tantos aparelhos de última geração. Casão
conversou com Joaquim Grava, responsável pelo departamento médico do Corinthians, que
acabou comprando os equipamentos. Apesar de ter socorrido o amigo, Casão também deu uma
bronca em Sócrates por mais esse passo em falso. ‘Porra, Magrão, você não leva nada até o
fim!’, cobrou, enfaticamente. Juca Kfouri, que estava presente nesse encontro, ficou surpreso ao
constatar que o garoto inconsequente do passado havia amadurecido profissionalmente, a ponto
de ter uma postura paternal com o amigo mais velho, que antigamente assumia essa função ao
alertá-lo sobre o perigo de ser flagrado com drogas. ‘Ele começou a dar um esporro no Magro
mesmo. Eu vi o Sócrates olhando pra mim, e o Casão falando, falando, e não pude deixar de
pensar: caralho, os papéis se inverteram!’, conta Juca.”
Ao final, Casão, o Big, cria na cabeça um “Papo de louco”, com o próprio Sócrates, numa
praça no meio da madrugada. Como um Hamlet que reencontra o fantasma de um pai, tira
dúvidas, dá uma dura, relembra, ri. Faz um acerto de contas sem guardar nenhuma carta na
manga, jogo limpo, aberto, livre, sem esconder o jogo. Curado dos seus vícios, lamenta a morte
do amigo, que não admitia os seus, nem os curou.
Aqui tem tudo. Vida, amor, desencontro, desespero, solidão. É um livro sobre amor e
saudades. Ninguém se faz de vítima. Ninguém é melhor que outrem. O trem corre. O trem vai. O
trem descarrilha. Atropela. Leva a paisagens de sonhos, neste mundo imperfeito.

Marcelo Rubens Paiva


Escritor, corinthiano, maloqueiro e sofredor, graças a Deus!
Introdução

Este livro nasceu da necessidade quase orgânica, mas sobretudo espiritual, de Casagrande passar
a limpo sua história com Sócrates. Os dois tinham uma impressionante simbiose nos tempos da
Democracia Corinthiana, nos anos 1980, e mantiveram a intensa amizade — incomum no
ambiente competitivo e superficial do futebol — ao longo dos anos. Até que uma tirada de
humor ferino do Doutor, uma de suas marcas registradas, atingiu o parceiro em um ponto
sensível e provocou um prolongado afastamento. A reconciliação nos últimos meses de vida de
Magrão, promovida com urgência quando Casão soube da gravidade da doença do velho
companheiro, na primeira internação que se tornou pública, foi essencial para aplacar o coração
do ex-centroavante e hoje comentarista da tv Globo. Ele jamais viveria em paz se a morte tivesse
ocorrido com a dupla rompida.
A emocionante reaproximação, contudo, não satisfez integralmente a expectativa de
Casagrande. Ele teve a oportunidade de declarar seu amor ao parceiro, inclusive em rede
nacional de tv, mas o pouco tempo de convivência depois disso frustrou seus planos de estreitar
novamente a relação e levar a cabo tantas conversas represadas durante o período de hibernação
da amizade. Como forma de suprir essa lacuna, surgiu a ideia de fazermos esse livro que exala
sentimento.
Assim como a biografia Casagrande e seus Demônios, lançada em 2013, foi uma maneira de
exorcizar as assombrações da dependência química, esta nova obra também cumpre um papel
terapêutico. Uma maneira de Casão falar para Magrão tudo o que gostaria de ter lhe dito em vida.
Não à toa o último capítulo é uma conversa imaginária entre os dois. O diálogo ficcional não tem
a pretensão de representar o pensamento de Magrão em toda sua extensão, com autenticidade
atestada pelos anjos e firma reconhecida no cartório do Paraíso. Trata-se simplesmente de um
exercício criativo que tenta traduzir a personalidade de Sócrates, num bate-papo com seu grande
parceiro dentro e fora dos campos, a partir de nossa concepção a respeito dele. Também tivemos
o cuidado de submeter esse diálogo à apreciação de Juca Kfouri e Fernando Kaxassa, dois dos
melhores amigos de Magrão, que colaboraram para compor os traços de sua natureza.
O título do livro não poderia ser outro. Sócrates e Casagrande deixaram uma história de amor
para o (tantas vezes) agressivo mundo do futebol. Além do carinho que sempre permeou a
relação da dupla, fio condutor da narrativa, cada gesto deles é uma explosão de paixão. Assim foi
na criação da Democracia Corinthiana, na luta política contra a ditadura militar, na sede
insaciável por expressões artísticas, no perigoso mergulho no álcool e nas drogas, ou na entrega
sem freios ao amor de uma mulher — no caso de Magrão, muitas, muitas delas.
Sintomaticamente, um texto de Sócrates reproduzido nesta edição utiliza um caso particular
de Casagrande para falar sobre paixão em geral. Magrão conta o episódio no qual os jogadores
do Corinthians decidiram, por votação aberta, se o então jovem centroavante seria ou não
liberado para voltar ao Brasil, durante excursão do clube ao Japão, a fim de matar a saudade de
Mônica, namorada recente que se tornaria sua mulher no futuro. A partir daí, faz revelações
íntimas e discorre sobre a força desse sentimento, o “mais vigoroso e arrebatador de todos que
podemos vivenciar”, em suas próprias palavras. Para em seguida completar: “Já me apaixonei
dezenas de vezes, talvez essa seja a característica mais marcante da minha existência”.
Por tudo isso, quando Casão me ligou eufórico com a ideia de fazermos um novo livro, aceitei
prontamente. Afinal, Sócrates e Casagrande me influenciaram na adolescência e marcaram a
própria formação da minha personalidade — assim como a de tantos jovens dessa geração.
Magrão era meu maior ídolo, ao lado de Chico Buarque, e embora tenha tido a oportunidade de
conhecê-lo pessoalmente, de entrevistá-lo inúmeras vezes e até de ter sido eventualmente seu
companheiro de bar, jamais lhe expressei a importância que exerceu em minha vida. Nesse
sentido, escrever este livro também é uma declaração de amor libertadora para mim. Assim como
espero que seja para todos os fãs que adoram essa dupla, a mais maluca do futebol mundial.

Gilvan Ribeiro, 20 de maio de 2016


1
O choque
P assava das onze horas da noite quando uma figura atormentada irrompeu no setor de Unidade
de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein. O andar apressado e um tanto desengonçado, a
expressão de desespero gravada no rosto, a urgência no olhar e a respiração ofegante
contrastavam com a dor resignada dos poucos familiares de pacientes que cruzaram seu caminho.
Ele chamava a atenção das pessoas não só pela ansiedade incontida, mas também por se tratar de
Walter Casagrande Júnior, ex-centroavante do Corinthians e da seleção brasileira e presença
constante na tv como comentarista esportivo da Rede Globo.
A sua passagem provocou comentários e cochichos dos funcionários e das raras testemunhas.
Ele já ficara internado ali diversas vezes, por variadas razões, desde uma cirurgia para a retirada
de parte do intestino grosso, devido a uma diverticulite, até casos de overdose e o acidente de
carro em 2007, também provocado por uso excessivo de cocaína, heroína e álcool. Os menos
informados chegaram a temer que fosse uma recaída e que o ex-jogador estivesse em busca de
socorro. Mas quem tinha conhecimento de que o Doutor Sócrates — seu parceiro nos gloriosos
anos da Democracia Corinthiana na década de 1980 — encontrava-se em coma, num daqueles
quartos, logo imaginou o real motivo da chegada de Casagrande ao hospital.
A sua agonia não era produto apenas da preocupação com o estado de saúde do amigo. Havia
uma razão particular que lhe assombrava a alma. Fazia vários anos — já até perdera as contas —
que não estabelecia contato com Sócrates. Exceto nas pouquíssimas vezes em que foram
convidados para um mesmo evento público, quando ainda assim mantiveram uma postura
protocolar, não se encontraram mais. Um rompimento não declarado os distanciara em
determinado momento de suas trajetórias. Mordidos pelo ressentimento, cada um seguiu seu
caminho, apartados por divergências aparentemente insignificantes, mas suficientes para impor
uma dolorosa separação à dupla que encantou o país, tanto pela afinação em campo quanto pela
ação política na luta contra a ditadura militar que dominou o Brasil de 1964 a 1985.
A disposição de se manter longe do velho amigo caiu por terra tão logo ele soube que
Sócrates havia sido internado, em estado grave, por complicações decorrentes da cirrose
hepática. Assim como Casagrande tivera um surto psicótico e quase morrera anos antes por
causa da dependência de drogas, Sócrates não passara impune pelo abuso de álcool desde a
época da adolescência.
O gelo da mágoa se derreteu diante da notícia alarmante, e o amor que sempre sentiu pelo
maior parceiro de sua vida agora o queimava por dentro. Momentos antes, ele havia comido
pizza com a amiga Regina Martins — ou simplesmente Regininha, como a ex-jogadora de vôlei
do Corinthians é chamada até hoje — na padaria e pizzaria A Poesia, na rua São Jorge, Tatuapé,
curiosamente bem perto do clube. Também um local familiar para Sócrates, onde os dois tantas
vezes trocaram ideias e confidências. Depois de pagar a conta e deixar a panificadora, já no carro
a caminho de casa, na Marginal Tietê, o celular tocou. Era uma de suas terapeutas, Daniela
Gallias, que acabara de ver a notícia da internação do Doutor e, apreensiva com o efeito que a
notícia poderia causar em Casagrande, antecipou-se para lhe pôr a par da “bomba”.
Imediatamente, Casão avisou Regininha da mudança de planos. Eles teriam de ir com
urgência ao hospital. A amiga se prontificou a acompanhá-lo, embora eles não estivessem certos
de que o hospital permitiria visitas àquela hora. O bom senso recomendava que deixassem para ir
na manhã do dia seguinte. Já era tarde da noite, Sócrates estava na uti e dificilmente eles
poderiam vê-los naquele momento. Mas Casagrande estava tomado por um pensamento
obsessivo: precisava ver Sócrates logo, superar as diferenças, falar o quanto o amava, apoiá-lo no
instante mais dramático de sua existência.
Finalmente se via obrigado a reconhecer a importância daquele cara em sua vida. Tinham
uma estranha simbiose. Não era apenas um ex-colega do futebol. As suas vidas estavam
entrelaçadas em todos os sentidos, e Casagrande sentia como se uma parte dele estivesse doente,
correndo risco de morte. Era hora de comunhão, de mandar às favas os desentendimentos.
Na chegada ao Einstein, foi informado de que as visitas a pacientes na uti eram muito
restritas, praticamente proibidas, como já alertara a amiga Regininha.
“No balcão de recepção, tomado pelo desespero, ele queria que as portas se abrissem no
mesmo instante e o tapete vermelho rolasse para levá-lo diretamente até a cama do Sócrates. Mas
não é assim, né? A gente precisa falar com os recepcionistas, que ligam para o andar e se
informam se dá para subir, se não dá… tem que falar com a família e tudo o mais. Mas ele estava
hiperimpaciente, querendo entrar, querendo entrar, então pegou o celular e ligou para o médico
dele, que também trabalha no hospital, sem dar tempo de as coisas acontecerem. Mas nesse meio
tempo, enquanto ele falava com o médico, fomos autorizados a subir até o andar da uti”, conta
Regininha.
Se a cena não fosse trágica, seria até engraçada. Regininha admite ter dado risada ao vê-lo
perdido como uma barata tonta pelos corredores. Para tornar a situação ainda mais patética, ele
manquitolava, embora andasse freneticamente — consequência da ruptura do tendão de aquiles
do pé esquerdo no mês anterior, durante uma pelada com colegas da Globo que cobriam a Copa
América de 2011, disputada em julho, na Argentina. Não jogava futebol havia anos e, ao aceitar
o convite para participar da partida entre amigos, acabara se dando mal devido ao impulso
natural de um jogador de ponta, gravado em seu dna, que o levara a tentar arrancadas como as
dos velhos tempos, sem preparo físico para tanto. Pagava agora um preço doloroso. “Apesar do
nervosismo, não tinha como não rir daquela situação, até tirei sarro dele. Acho que o Casa não
estava conseguindo raciocinar e andava mancando, de um lado para o outro, à procura do
elevador certo. Então eu me informei com a mulher da limpeza e finalmente subimos para o
andar onde estava o Sócrates.”
Informado de que o paciente acabara de passar por um procedimento cirúrgico e que não seria
recomendável receber visitas naquele momento, Casagrande insistia em ver o amigo. Diante de
sua obstinação, as enfermeiras explicaram que, para abrir uma exceção, precisariam contar
necessariamente com a autorização da mulher de Sócrates, a jornalista e empresária Kátia
Bagnarelli, com quem até então Casagrande nunca tivera contato. Pois então que venha a esposa!
Ao ver Casagrande à sua frente, Kátia ficou estarrecida. “Foi o primeiro amigo, aliás, a
primeira pessoa que apareceu no hospital para visitar o Sócrates. Antes mesmo da família.
Estávamos só nós dois lá, até porque havíamos optado por não avisar a imprensa. Na verdade,
aquela era a terceira internação dele, o segundo coma, mas as anteriores não se tornaram de
conhecimento público.”
Kátia titubeou diante de Casagrande, afinal Sócrates fazia questão de que seu drama
permanecesse em sigilo. “Por um motivo muito simples: ele sempre dizia que participaria ao
povo dele à medida que se recuperasse, pudesse voltar e falar. Sempre acreditou que a gente ia
superar todos os momentos e não queria que quem não costumasse estar com ele no dia a dia,
mesmo em relação à família e aos amigos, se fizesse presente durante o coma. Então, não avisar
a imprensa era uma questão muito importante para ele. Porém, sem a minha permissão, a
comunicação do Einstein soltou uma nota no início da noite.” Exatamente o que atraíra Casão até
lá.
Ao mesmo tempo, Kátia tinha consciência de que Casagrande era um caso especial. “Eu não o
conhecia pessoalmente, mas Sócrates já havia conversado muito comigo sobre a relação dos
dois. Algumas pessoas tinham tentado reaproximá-los, sem sucesso, e eu percebia o quanto
aquilo seria importante.”
Uma das tentativas de que os dois fizessem as pazes se dera durante um evento organizado
pelo ex-craque Paulo César Caju, em outubro de 2006, para expor a experiência da Democracia
Corinthiana, no Jockey Club de São Paulo. Claro que a presença dos dois seria obrigatória, assim
como a de Wladimir, lateral-esquerdo daquele time histórico. Apesar do encontro forçado e do
extraordinário entrosamento da dupla no palco, assim que o show terminou, Casagrande deixou o
local rapidamente, de forma discreta, sem sequer se despedir. Frustrou, assim, a reconciliação
idealizada por mim, Gilvan Ribeiro, num jantar particular que havia sido combinado para logo
após a apresentação, a fim de selar a paz.
A última mulher de Sócrates relata uma outra tentativa, posterior, arquitetada pelo jornalista
Jorge Kajuru, na comemoração de aniversário do Doutor, na residência do casal. “O Kajuru
trouxe o número do celular do Casa e tentou fazer com que meu marido ligasse na hora.” Ela
reconstitui como foi a conversa com o Doutor, também infrutífera. Kajuru abordou o assunto
assim: “Eu falei com o Casagrande, acho que vocês têm de se encontrar. Ele se propôs a vir aqui,
Magrão, você precisa convidá-lo para o seu aniversário”, disse o jornalista. Em vez de discar, o
aniversariante deu uma risada, cujo significado a esposa não compreendeu muito bem, pegou o
papel com o número de telefone e lhe entregou: “Guarda pra mim, linda”. E assim tentou
encerrar o assunto.
Kajuru ainda insistiu para que Sócrates ligasse naquele mesmo momento, sem êxito. Depois
que os convidados foram embora, Kátia questionou o marido. Queria saber por que ele resistira,
já que costumava resolver as coisas na hora. “Não, eu não quero, não vou ligar. E eu também não
quero que ele venha aqui. A gente está num momento nosso, linda, deixa pra lá…”, cortou
Sócrates.
“Naquele momento, vi que tinha um monte de coisa pra ser resolvida, havia um caminhão de
histórias, de situações, de questões que nunca foram solucionadas”, relembra Kátia.
Por isso, ao se deparar com Casagrande pela primeira vez à sua frente, ávido por rever o velho
companheiro, a mulher do craque quase desmontou. Sabia da grandeza daquele gesto, da força
da relação entre os dois e até mesmo da importância histórica do reencontro. Ela estava física e
emocionalmente desgastada, por isso ficou alguns segundos sem reação. “Eu me encontrava
completamente sozinha ali, não tinha absolutamente ninguém.”
Do outro lado da porta, onde Sócrates enfrentava o estado de coma, o cenário era aterrador.
“Ele sangrava muito, muito, muito. Tinha hemorragia digestiva intensa. Todo o quarto da uti
estava cheio de sangue. As golfadas de vômito chegavam às paredes, e não era só vômito, saía
sangue por todas as partes do corpo. Passei por esse cenário quatro vezes. Essa foi apenas a
segunda…”, desabafa Kátia.
Embora percebesse o quanto era premente para Casagrande aquele encontro e reconhecesse a
sinceridade de seu sentimento, Kátia visualizou mentalmente esse ambiente dantesco e temeu
que fosse demais para a sensibilidade do amigo. A última dúvida, em permitir ou não que ele
cruzasse aquela porta, foi liquidada por uma questão de consciência: não podia submeter o
marido ao risco de qualquer contaminação externa. E Casão parecia longe de se apresentar
esterilizado para um contato direto com o paciente. “Ele estava muito suado, esse foi o real
motivo pelo qual eu não permiti que entrasse. Estava muito aflito, emocionado, e transpirava
demais.”
Ela agora procurava as palavras para explicar isso a Casagrande. Acostumado a fugir de
marcação cerrada a vida inteira, sobretudo para tabelar com Sócrates, ele driblou com facilidade
as enfermeiras e, ao se deparar com Kátia, o último obstáculo que o separava do parceiro, se
mostrou disposto a entrar com bola e tudo. “Ele não sabia quem eu era, mas quando lhe disseram
que tinha de falar comigo para poder entrar, chegou como um caminhão a cem quilômetros por
hora numa via de quarenta.”
Kátia teve de ser forte para conter o ímpeto de Casagrande. “Eu fiquei numa encruzilhada.
Pensei: meu Deus, ele está aqui, eu pedi tanto para que esse encontro acontecesse, para que os
dois se olhassem. Sócrates está em coma, mas o Casa veio, ele chegou! Agora a decisão só
depende de mim”, refletiu por um instante. “Ao mesmo tempo, precisava zelar pela vida do meu
marido. Eu tinha de escolher, e escolhi pedir a ele que voltasse no dia seguinte.”
A maior dificuldade foi convencer Casagrande de que havia recomendações médicas
explícitas para restrição a visitas. A ordem era evitar ao máximo qualquer contato com o
paciente, e se fosse mesmo fundamental, seria necessária uma esterilização rigorosa do visitante
para minimizar o risco de infecção após a recém-realizada cirurgia para cauterização das varizes
esofágicas. “Esse procedimento iria demorar e, quando acabasse, já seria madrugada, quase com
luz do sol. Insisti que o melhor a fazer seria voltar na manhã seguinte.”
Sem alternativa, frustrado e ansioso, Casão voltou para casa. Mas não conseguiu dormir.
Pedia aos céus que lhe fosse dada a chance de reatar com o velho parceiro de bola, farras e
ideais. Ficou de olho no relógio, contando as horas. Sócrates não poderia partir sem que
houvesse essa reaproximação.
2
O reencontro
A s horas insistiam em passar lentamente. O tique-taque do relógio não batia no mesmo ritmo do
coração acelerado de Casagrande, e ele não sabia mais o que fazer para se acalmar e distrair a
espera angustiante. Ligou a tv no canal Viva, no qual gosta de rever sucessos do passado, shows
dos anos 1980, o programa do Chacrinha, novelas e minisséries antigas. Quem sabe encontrasse
alguma preciosidade com Tarcísio Meira ainda novo, como galã, ao lado de Glória Menezes.
Algo assim. Sempre curtiu viajar no tempo. Mas logo percebeu que seria inútil, não conseguia
sequer prestar atenção na televisão.
Saiu à sacada do apartamento e olhou o horizonte. Sentia-se estranho. Lembrou-se dos
momentos ruins vividos sob o efeito da cocaína, quando o estado de euforia passava e sobravam
apenas a ansiedade, a pulsação disparada, a fissura por mais uma carreira que nem sequer faria o
mesmo efeito, uma certa culpa, uma ponta de depressão, o desejo de se acalmar e dormir. A
sensação era bem parecida. E o sono não vinha.
Só pensava em Sócrates. Por um instante, desencadeou-se o processo mental comum aos
dependentes químicos de procurar uma maneira de anestesiar a dor emocional. A música
“Cálice”, de Chico Buarque, um dos compositores favoritos do amigo, lhe veio à cabeça. “Quero
lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado”, diz um dos versos. E a canção
termina assim: “Quero cheirar fumaça de óleo diesel, me embriagar até que alguém me esqueça”.
Qualquer coisa seria bem-vinda para aliviar o desconforto. Mas Casagrande sabia que a fuga
seria impossível, muito menos por meio de qualquer droga. “O rombo no peito, se já está desse
tamanho, depois que passar o efeito ficará muito maior”, falou para si mesmo. Felizmente, após
anos de terapia e tratamento, havia desenvolvido recursos para conter o impulso autodestrutivo.
Voltou para a cama e ficou quieto, no escuro, tentando dormir. Jogadas com o parceiro em
campo, aventuras conjuntas fora de campo, as divergências que agora pareciam bobagens, o
desejo de expressar seus sentimentos e abraçá-lo, tudo passava por sua mente conturbada.
Sentiu-se um pouco egoísta. Embora estivesse preocupado com a saúde de Sócrates, admitiu para
si mesmo que a dor mais aguda talvez fosse provocada por uma necessidade própria de expressar
seu carinho ao amigo. Não suportaria conviver com esse peso se o companheiro partisse sem que
os dois reatassem os laços.
Praticamente não pregou o olho naquela madrugada. Breves cochilos eram interrompidos, aos
sobressaltos, para conferir o horário no relógio. Embora tivesse acionado o despertador do
celular, não havia jeito de relaxar.
Quando finalmente amanheceu, colocou para tocar “Coração noturno”, de Raul Seixas, e a
voz peculiar do roqueiro baiano invadiu o apartamento localizado na região do Alto de Pinheiros:
“Bom dia, Sol! Bom dia, Sol”, ecoava a canção. Casagrande entrou no banho disposto a irradiar
as melhores energias para Sócrates e com a fé cega de que conseguiria transmitir ao amigo todo o
seu imenso sentimento, embora o paciente estivesse desacordado.
Mais uma vez, Casagrande foi o primeiro a chegar naquele sábado para visitar Sócrates no
hospital. Dessa vez, estava limpo, de banho recém-tomado e, embora inquieto e ansioso pelo
reencontro, livre da sudorese excessiva causada pelo susto inicial.
O paciente havia resistido ao desgaste da hemorragia e da intervenção cirúrgica naquela
primeira noite crítica, para alívio não só de Casão, mas também da esposa. Além de estar ao lado
do marido na luta pela vida, Kátia ainda tinha um motivo adicional para pedir a Deus que ele
sobrevivesse. Não queria carregar a culpa de ter impedido o reencontro dos dois na véspera.
“Rezei muito a madrugada inteira para ele sobreviver. No dia seguinte, logo no início da
manhã, o Casagrande foi a primeira visita a aparecer. E aí, sim, entrou no quarto”, relembra ela.
Quando Casagrande finalmente ultrapassou a barreira da porta do apartamento da uti,
deparou-se com um Sócrates bem diferente daquele que ficara fixado em sua memória. Os
efeitos da cirrose hepática se revelavam sem retoques no rosto enrugado e de uma cor estranha,
entre o amarelo, o verde e o cinza. Mas ele já se preparara mentalmente para não se chocar e,
movido pela emoção do encontro, conseguia enxergar ali o irreverente parceiro de sempre.
“Eu me lembro nitidamente do Casagrande aos pés da cama, de camiseta, óculos… e
emocionado. Aí eu saí do quarto. Por algum motivo, mesmo com o Sócrates em coma,
completamente desacordado, entendi que eu não devia estar ali. Foi a única pessoa, nem os filhos
ficaram sozinhos com ele, porque meu marido havia me pedido para não deixá-lo a sós com
ninguém, mesmo entubado, mesmo em coma”, relata Kátia. Ela diz ter seguido sua intuição.
“Pensei assim: essa história não começou comigo, não caminhou comigo, não pode terminar
comigo. Se vai ser uma retomada ou o fim, é entre eles.”
Naquele momento íntimo, Casagrande chorou ao lado de Sócrates, disse com todas as
palavras o quanto o admirava, o quanto sentia sua falta, que sua personalidade apaixonante tinha
marcado sua vida como nenhum outro amigo jamais chegara perto de fazer. E finalmente libertou
a declaração que trazia enterrada no peito — e entalada na garganta — havia tanto tempo: “Eu te
amo, cara!”.
Casão pediu para Sócrates viver, o mundo ainda precisava dele, da sua inteligência, do
espírito revolucionário, das suas transgressões, da luta incansável contra o sistema e as normas
vigentes. Acima de tudo, ele próprio precisava do parceiro.
Propôs que ambos deixassem de lado as diferenças, que agora não tinham a menor
importância, e retomassem a antiga camaradagem. Pediu perdão por ter se mantido distante
durante tantos anos, assim como também perdoou as alfinetadas dadas pelo companheiro — por
julgar que Casagrande havia se rendido ao establishment, abdicado da irreverência para se
adaptar às exigências da maior rede de televisão do país e manter seu emprego confortável.
Casão argumentou que mantinha os valores de sempre, que o fato de trabalhar na Globo não
mudara em nada seu pensamento, e que tampouco se sentia tolhido. De uma forma geral, eles
compartilhavam os mesmos princípios, com diferenças apenas na maneira de cultivá-los e
propagá-los. Sentia, no fundo da alma, que ainda formavam uma dupla.
Em coma, Sócrates não esboçava qualquer reação, evidentemente. Mesmo assim, Casão se
sentiu aliviado por colocar para fora seus sentimentos. Enxugou as lágrimas e se recompôs para
sair da uti e encarar o mundo externo. Logo em seguida, Raí chegou para visitar o irmão.
Casagrande o cumprimentou e conversaram rapidamente. Nem tinha cabeça para relações sociais
àquela altura.
“Coincidiu de eu chegar no mesmo horário, e fiquei admirado de ver o quanto o Casagrande
estava realmente sentido. Acho que cada um reage de uma forma, mas ele demonstrou estar
muito abalado mesmo. Foi uma das pessoas que mais me impressionaram nesse aspecto”,
recorda-se Raí.
Mais aliviado após o contato direto com Magrão, Casão foi embora com a convicção de que
Sócrates iria se recuperar daquela internação. E de que ainda teria a oportunidade de expressar
seu afeto, dessa vez olhando nos olhos do amigo já consciente. Isso era algo fundamental para
ficar em paz. Acreditava que havia dado o primeiro passo, mas ainda havia um caminho maior a
percorrer.
Assim que Sócrates saiu do coma, sua mulher se surpreendeu com a primeira pergunta que ele
fez: “O Casão esteve aqui ou eu sonhei?”. A princípio, Kátia aventou a hipótese de ter sido
apenas um sonho mesmo, que coincidiu com a visita do amigo. “Então, pedi para ele me contar
suas lembranças, e a descrição da cena foi idêntica. É uma experiência sobrenatural, porque seria
impossível ele saber que o Casagrande havia estado lá, de óculos, com a camisa de determinada
cor, parado à sua frente. Só eu sabia disso e não havia comentado. Ele não sonhou, ele viu!
Como foi essa percepção, não sei explicar.”
A ligação entre os dois era algo muito claro para qualquer pessoa que tenha convivido com a
dupla. A sintonia de pensamento, que se refletia nitidamente dentro de campo, também se
manifestava quando um completava a frase do outro ou aprofundava alguma ideia sem atropelar,
com a intervenção em exata sincronia com a pausa do parceiro. Além do ritmo frenético das
tiradas de humor que pareciam, de tão encadeadas, ter sido ensaiadas.
Detentora do vasto material que Sócrates deixou escrito, incluindo uma autobiografia
inacabada, Kátia revela que o marido chegou a fazer textos sobre Casagrande e até poemas
inspirados no parceiro. “Ele abriu o coração em várias situações, e isso é belíssimo. Entre tantas
pessoas que o visitaram no hospital, inclusive familiares, por que ele foi lembrar exatamente do
Casa, que o encontrou em coma? Que elo era esse? Que ligação era essa? Que culpa ele tinha
também, e que falta fazia a convivência?”, questiona.
Quando Casagrande voltou ao hospital e encontrou Sócrates já acordado, experimentou uma
torrente de emoções. Uma mistura de alívio, esperança, carinho e ansiedade extrema, que
chegava quase a doer, para expressar logo seus sentimentos. Também tinha o ímpeto de falar
sobre o que aprendera durante o tratamento da dependência química. Desejava ajudá-lo a superar
o alcoolismo. Queria tanta coisa… Mas nem sabia por onde começar.
Mais uma vez, Kátia os deixou a sós. Assim que ele se aproximou do leito, o amigo arriscou
as primeiras palavras: “Casão, eu sonhei com você”, disse em voz baixa, ainda um tanto
combalido. “Pô, Magrão, eu tava aí, né?”, emendou Casagrande, satisfeito com a constatação de
que Sócrates percebera a sua presença, em alguma medida, mesmo estando em coma. Porém, a
frase seguinte o desestabilizou completamente. “Desta vez, Big, eu pensei que fosse morrer
mesmo. Mas agora já estou pronto pra outra.” Esse comentário aparentemente trivial, bastante
comum para doentes em recuperação, teve efeito devastador sobre Casão.
“Aquilo me deixou muito mal. Porque, quando ouvi isso, eu percebi que ele não entendia
nada do que estava acontecendo. Ele não estava pronto pra outra. O pensamento dele não podia
ser aquele. Aí eu vi claramente a distância que nos separava. Eu tinha uma consciência muito
grande sobre dependência química. Hoje tenho mais ainda, mas naquela época já tinha porque
havia sido internado. Então eu sei que, pra mim, recaída é morte. E quando ele falou aquilo, me
machucou muito. Fiquei muito decepcionado e triste”, explica Casagrande.
Talvez ele tenha dado tamanha importância a uma expressão banal porque viu desmoronar a
sua fantasia de que a dupla voltaria a se reunir para marcar mais um golaço. Sonhava em vencer
as drogas e o álcool juntamente com o parceiro, rever os estilos de vida e até servir como
exemplo para tanta gente que enfrenta o mesmo drama. “Ele não podia ter falado aquilo pra mim
de jeito nenhum. Podia ter falado pra qualquer outra pessoa, menos pra mim, sabendo que eu
também sou dependente químico. Nós sofríamos da mesma doença, e não teríamos outra chance
pra nós. Se eu sair daqui e voltar pra cocaína, se eu não morrer imediatamente, sei que vou
morrer daqui a um mês, um ano ou dois, sei lá. Se voltar a usar droga, eu jogo a moeda para o
alto, sabe? Pode cair cara ou coroa.”
A cabeça de Casão entrou em pane, a ponto de ele não se recordar do que falou para Sócrates
depois disso. “Eu não me lembro de mais nada a partir daí. Fiquei chocado. Não há imagem ou
qualquer registro na memória. Acho que nem falei mais nada. Aquela frase ecoava na minha
cabeça. Talvez outra pessoa entendesse aquilo como uma tentativa de ele demonstrar força. Só
que pra mim não era um sinal de garra, mas de burrice. Soou como derrota, ele estava se
entregando pra morte. Se ele pensou que ia me deixar mais tranquilo e animado, enganou-se
profundamente. Ali eu vi um futuro trágico, e com toda a razão, tanto que ele de fato morreu.”
Mesmo com o raciocínio confuso após esse abalo emocional, Casão sabia que não adiantava
tentar chamá-lo à realidade naquelas circunstâncias. Então travou diante do amigo entubado e
fragilizado. Intuitivamente, concluiu que seria algo muito intenso para aquele momento e lugar.
Controlou o ímpeto inicial e julgou mais apropriado se fazer simplesmente presente. Estar ao seu
lado já era suficiente, um sinal inequívoco de solidariedade na hora difícil. Decidiu esperar a alta
hospitalar para aprofundar a conversa. Para quem havia aguardado tanto tempo, não faria mal
segurar mais um pouco.
Nas visitas seguintes, Casagrande manteve a estratégia. Procurava falar pouco, apenas de
assuntos amenos, à espera da saída do amigo para tentar estreitar outra vez o contato, passar
definitivamente por cima das desavenças do passado e revelar a intensidade de seu sentimento,
com o amigo plenamente consciente.
Raí teve oportunidade de presenciar um desses encontros. “O Magrão não estava dormindo, já
tinha acordado, mas ainda não podia conversar. Mesmo assim, a gente percebia pela reação dos
dois, na troca de olhares, a força dessa relação”, relata.
A conversa em que finalmente Casão declarou seu amor ao velho companheiro se daria ao
vivo e em cores para todo o Brasil, durante o programa Arena Sportv. A presença de Sócrates ali,
para Kátia, foi mais um indício de que o marido ouviu tudo o que havia sido falado durante o
período de coma. Afinal, antes disso, ele sempre evitava se reencontrar com o antigo parceiro,
além de ter recusado convites para ir a outros programas logo após deixar o hospital. “Seria
impossível o Sócrates ter aceitado participar daquela forma, em rede nacional, durante duas horas
e meia, se não tivesse havido um entendimento anterior entre os dois, mesmo que mentalmente.
Isso é certo.”
A dupla proporcionou um momento único da televisão brasileira, que emocionou muita gente,
corinthianos ou não. Não é toda hora que um jogador de futebol tem a coragem de expor
publicamente seu afeto por um colega, num meio machista, dissimulado e superficial como o
futebol. Mas esse encontro vale um capítulo à parte.
3
A relação na arena
J amais o Arena SporTV teve uma edição tão profunda e sentimental como a do dia 17 de outubro
de 2011. Apresentado por Bob Faria e com a presença do também jornalista Marco Antônio
Rodrigues, o programa trouxe como convidado Sócrates, recém-saído do hospital, ao lado de
Casagrande. Um encontro único na televisão brasileira entre os dois ídolos corinthianos na
maturidade, que marcou a reconciliação definitiva da dupla e eternizou esse momento para a
história do futebol.
Na abertura, Bob anuncia a presença do Doutor e lembra que “a saúde andou pregando uma
peça nele e deixou todo mundo preocupado”. Bastante abatido, com o semblante cansado, muitas
rugas na pele e uma bandana na cabeça — adorno que adotou na última fase da vida —, o Doutor
não perde o senso de humor e emenda com um trocadilho: “Peça de Shakespeare. Não é A divina
comédia…”.
Perguntado se vinha se recuperando bem, Sócrates responde com exagerado otimismo:
“Praticamente zerado. Saí do hospital muito fraco, tinha perdido muita massa muscular, muito
peso. Mas nesses quinze dias já deu pra recuperar bem”. Instado a explicar melhor, como
médico, o seu problema no fígado, o Doutor prossegue cheio de esperança: “Na verdade, eu
tenho um foco cirrótico no pior lugar que tem. Se fosse no lóbulo esquerdo, não teria nenhuma
consequência, mas houve consequências circulatórias, um aumento de pressão na veia porta. Isso
gerou duas ou três hemorragias durante uns três meses, uma delas não necessariamente ligada a
isso, mas consequência dos tratamentos anteriores. E agora está tudo sob controle, está tudo
ótimo. A tendência é que tenhamos vida normal pela frente”.
Casagrande, comentarista do canal, dá as boas-vindas ao amigo. “É um prazer ter o Magrão
aqui no programa, a última vez que eu o vi foi no hospital…”, diz ele, quando Sócrates o
interrompe, novamente com humor. “Foi me assustar”, dispara o Doutor. Casão ri e continua:
“Fui assustar o Magrão no hospital e agora estamos aqui pra fazer o programa em condições
legais. Estou bastante feliz”.
De fato, ele se sentia contente pela oportunidade de reencontrar o parceiro, com quem já havia
conversado um pouco nos bastidores, e tinha a intenção de externar seu afeto na frente das
câmeras, até para dividir esse momento tão importante com todos os torcedores e fãs do esporte.
Porém, Casagrande não chegava a estar tranquilo. Pressentia que a saúde do amigo não ia tão
bem quanto ele apregoava. “No dia em que eu fui ao hospital pela primeira vez, não fiquei tão
chocado quanto no dia em que ele foi fazer o Arena, quando chegou com a pele escurecida, uma
cara debilitada, em nítido declínio orgânico. Mas, sinceramente, não pensei que ele fosse morrer,
apesar de saber da gravidade da situação. Acreditava que ele pudesse melhorar. Mas fiquei um
pouco chocado com a imagem”, confessa Casagrande.
Outra coisa que estranhou foi a nova realidade de Sócrates, agora limitada pela doença, que o
impedia terminantemente de ingerir álcool — algo que havia feito sempre, todos os dias, desde a
manhã até a noite. Não tinha como não associar Magrão a uma conversa animada numa mesa de
bar. “É meio esquisito, por exemplo, cruzar o Sócrates e não poder tomar uma cerveja com ele e
bater papo. É estranho. O cara estava se recuperando de uma internação gravíssima, é claro. Mas
foi a primeira vez que o encontrei sem tomar cerveja. A primeira coisa que ele fazia ao encontrar
um amigo era pedir uma gelada.”
A falta de perspectiva de um animado bate-papo no boteco, quando saíssem do ar, só
reforçava a necessidade de Casão de abrir todo o jogo ali mesmo na frente das câmeras. Mas,
antes, o programa tinha de mostrar a história da dupla durante a Democracia Corinthiana, com a
conquista do bicampeonato paulista em 1982-83, competição muito valorizada à época por
clubes e torcidas, muito mais do que atualmente.
Bob Faria destaca durante o programa que o Brasil vivia um momento de transição nos anos
1980, muito tumultuado, com o desejo crescente de se livrar da ditadura militar, e o movimento
dos jogadores do Corinthians teve papel importante nesse processo. Para ilustrar, são citadas
mensagens explícitas contra o regime, até mesmo por meio de faixas exibidas pelo time, e
manifestações políticas de atletas que partiam do Parque São Jorge e contagiavam toda a
sociedade.
Sócrates se anima com o assunto e tenta trazê-lo para o presente, cobrando que os jogadores
sejam mais atuantes. “O futebol é o que nós temos de mais político no país, atinge todas as
regiões, todas as classes. Acho que unifica um país com comportamentos, linguagens e culturas
absolutamente distintas. O nordestino é muito diferente do gaúcho, por exemplo. E o futebol te
dá um peso político muito grande. O que é estranho e surpreendente é que não seja utilizado de
forma mais incisiva, principalmente pelos jogadores. Porque eles são os artistas, com um peso
social fundamental para as transformações de que o país precisa. Infelizmente, uma parte não
tem formação, mas mesmo aqueles que têm, de alguma forma, estão limitados. O cara com o
poder político e econômico do jogador de futebol deveria ter uma ação muito mais pesada nesse
aspecto. Um compromisso com a nação.”
O apresentador questiona se na época da Democracia Corinthiana todos os jogadores da
equipe eram politizados ou se apenas alguns, como Sócrates, tinham essa consciência. O Doutor
explica:
“A formação era distinta, mas a prática estimulava que todos reconhecessem sua importância
no contexto daquela sociedade. E, sem dúvida, todos cresceram muito. Você pega um
depoimento, a colocação de cada uma daquelas pessoas hoje em dia, e talvez seja muito diferente
de como elas se viam na época. Aquela experiência deu muita base. Você pega, sei lá, o Biro, o
Ataliba, essas pessoas cresceram como seres humanos de forma absurdamente clara. A prática
era para que todos se manifestassem, todos tomassem posições, dessem opiniões. De alguma
forma, todos foram estimulados a isso.”
Simultaneamente, são exibidas imagens de um dos comícios das Diretas Já em São Paulo,
movimento de mobilização popular para pressionar o Congresso Nacional a aprovar a emenda
constitucional Dante de Oliveira, que restabelecia eleições diretas para presidente da República.
Naquele 16 de abril de 1984, com 1,5 milhão de pessoas no Anhangabaú, Sócrates aparece no
palanque ao lado dos colegas Casagrande, Wladimir e Juninho, do vice-presidente de futebol do
Corinthians, Adilson Monteiro Alves, do futuro presidente da República Fernando Henrique
Cardoso e do locutor Osmar Santos. Apesar de estar praticamente acertada a sua transferência
para a Fiorentina, da Itália, o Doutor promete publicamente, no calor do momento, permanecer
no Brasil caso as eleições diretas fossem aprovadas. Osmar Santos passa o microfone para
Sócrates falar em alto e bom som: “Não vou embora do nosso país!”. O povo no Vale do
Anhangabaú se agita, vai à loucura e puxa o coro: “Já ficou, já ficou, já ficou!”. Osmar se volta
para Sócrates: “Olha aí, Doutor!”, diz, entusiasmado, e lhe estende novamente o microfone.
“Quem dera eu ficasse”, acrescenta o jogador, empregando um tempo verbal que já revelava
certo descrédito em relação à aprovação da emenda das Diretas, que de fato acabou rejeitada pelo
Congresso naquela ocasião.
No estúdio, Marco Antônio Rodrigues destaca que na decisão do Campeonato Paulista de
1983, contra o São Paulo, o time do Corinthians entrou em campo levando uma faixa com a
seguinte inscrição: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. A equipe seria campeã, e a
imagem da ação política no Morumbi lotado, exibida pela tv, teria grande repercussão em todo o
país e até no mundo.
Indagado sobre a importância do técnico nesse contexto em que o time tomava as decisões
com base na votação de atletas, comissão técnica, massagistas, roupeiros e demais integrantes da
trupe, todos com o mesmo peso, Sócrates esclarece: “Cada um tinha sua função, quer dizer, nós
escolhíamos o treinador, mas ele tinha o papel dele. Era o [Mario] Travaglini, que tinha de fazer
o trabalho dele direito, assim como a gente, como o roupeiro, cada função era absolutamente
respeitada. Votávamos aquilo que era de interesse coletivo”.
Casagrande aproveita também para falar daqueles tempos românticos, repletos de idealismo e
conquistas, mostrados em imagens de arquivo. “É gostoso ver, principalmente momentos assim,
acho que foi o período mais rico, mais importante de toda a minha carreira de jogador. E eu
joguei treze anos. Principalmente 1982, 83… esse processo todo da Democracia Corinthiana e a
convivência com o Sócrates. Quando eu vejo, não tenho saudosismo de sentir falta, é uma
lembrança gostosa. Em 82, eu tinha dezoito anos.” Sócrates pega o gancho para tirar onda com o
amigo: “Garotinho ‘véio’ já, bem rodado…”.
A essa altura, Casagrande passa a dar ênfase à importância do Doutor em sua vida. “Em
relação ao Magrão, especificamente no nosso relacionamento, eu era fã dele. Eu jogava no
juvenil do Corinthians quando o Magrão estava lá e foi campeão em 79. Comecei a treinar com
os profissionais e tal, era um prazer enorme, uma satisfação absurda estar ali, treinando ao lado
dele”, admite.
Na sequência, Casão recorda a primeira vez que dirigiu a palavra a Sócrates, quando havia
sido emprestado à Caldense em 1981. “O primeiro ponto mais importante no nosso
relacionamento, talvez ele não vá se lembrar, foi quando eu joguei na Caldense por um ano e a
seleção foi fazer temporada de treinamento em Poços de Caldas. Nós fizemos um jogo amistoso,
a seleção contra a Caldense. Eu não sabia se ele ia se lembrar de mim. Eu era juvenil, tinha saído
de lá [do Corinthians], mas o cara lembrou! Falamos rapidamente, tiramos foto lá com o time
todo, e um ano depois estava jogando ao lado dele, sendo campeão paulista.”
Entusiasmado com as recordações, Casagrande expõe mais diretamente o seu sentimento em
relação ao parceiro do qual ficara tantos anos afastado. “E ter a amizade dele… como falei antes
ali [nos bastidores], nós ficamos um bom tempo sem nos ver, e acho que nem é necessário.
Porque com o carinho e o amor que eu tenho pelo Magrão, não há necessidade de vê-lo todo dia,
entendeu? Tem um lugar reservado mesmo, fixo ali. Não vai modificar nunca. Se eu conseguir
conviver com ele mais vezes, vai ser muito melhor, vai alimentar esse sentimento que eu tenho
por ele. Mas, se eu não conseguir, não vai diminuir, entendeu? Ele já existe e está dentro de mim.
E de dentro do coração não sai, já está lá.”
Casagrande também reconhece o papel do amigo, nove anos mais velho, em sua formação,
como um mestre, algo que antes relutava em admitir claramente, talvez por conta do orgulho
próprio dos caçulas que rejeitam a condição de café com leite. “Aprendi muita coisa com ele,
conceitos de vida. Eu era um garoto querendo saber muita coisa, muito curioso, e tive, entre
aspas, um professor ali que me deu a chance de aprender. Ou não… Eu não era obrigado, era
democrático.”
Ao escutar a declaração pública de amor, Sócrates fica por um instante sem capacidade de
reação, completamente desarmado. Depois, emocionado, entra na jogada e fala sobre o parceiro
na juventude: “Era uma bombinha ambulante, né? Tinha de controlar a saída de gás dele,
roqueiro… Eu já era de outro lado mais calmo, mas a afinidade foi imediata. Talvez uma troca
assim de sentimentos, de essências que nos davam muita coisa de positivo um ao outro.
Basicamente, era isso”.
Na sequência do programa, é abordada a dependência química de ambos. Casagrande discorre
sobre o período de internação de aproximadamente um ano, numa clínica especializada em
Itapecerica da Serra, para se livrar da cocaína, entre 2007 e 2008. Naquela ocasião, ficou um
longo período sem ter qualquer contato externo, não podia receber visitas nem da família.
“Fiquei isolado por oito meses, completamente introspectivo. Eu tinha de cuidar de coisas
internas minhas. Não podia esperar nada do externo, e aprendi isso dentro do meu tratamento. Eu
é que tinha que me mover, me mexer. Quem tinha de mudar era eu, tinha que olhar pra dentro e
falar assim: meu, tá errado! Nós temos de mudar o funcionamento desta máquina aqui.
Funcionou errado por muito tempo. Nós temos que mudar e fazer uma programação diferente
para este mecanismo de funcionamento aqui. Quando eu saí, continuei introspectivo, eu ainda
estou em tratamento, ainda estou resolvendo coisas internas.”
Casagrande traça um paralelo com a internação de Sócrates para tratar da hemorragia
digestiva decorrente da cirrose hepática, causada pelo uso excessivo de álcool, e como sentiu
necessidade de apoiá-lo, mesmo com a amizade por tanto tempo na geladeira. “Quando eu soube,
estava na rua, tinha ido comer pizza. Estava dentro do carro com uma amiga, e minha psicóloga
me ligou e falou assim: ‘Você viu o que aconteceu com o Sócrates?’. Era uma sexta-feira, ele
tinha sido internado em estado grave no Einstein. Naquela hora ali, eu não levei em consideração
o relacionamento que eu tinha com ele, a amizade que eu tinha com ele, nós termos jogado
juntos, nada. Veio à minha cabeça assim: um ser humano que eu conheço em dificuldade como a
minha, entendeu? E o tanto que eu necessitei de pessoas ali do meu lado no momento difícil.”
A solidariedade nessa situação dramática fez com que Casão superasse qualquer
ressentimento, o que acabou proporcionando o reencontro com o parceiro. “Naquele momento,
tudo que havia em volta parou, meu mundo parou, eu só tinha ele na cabeça. Eu tenho certeza de
que no caso dele comigo foi a mesma coisa, só que no meu caso o acesso era difícil. Infelizmente
— eu falo infelizmente, mas acho que tudo que acontece na vida da gente é para um aprendizado
— foi esse problema que ele teve que forçou a reaproximação.”
Casagrande fecha sua explanação minimizando o conflito com Sócrates, assume uma postura
de humildade em relação às discordâncias e revela a disposição de voltar a gozar de seu convívio
dali em diante. “Não é que nós não estávamos próximos porque tínhamos tido algum problema.
Nós não tivemos problema algum, nunca discuti com o cara. Abaixo a minha orelha e está tudo
certo. Depois, eu contesto. Mas ali [no hospital], tudo bem… Foi daquele jeito que foi escolhido
para ser? Beleza, nos aproximou, o cara está de pé, nós estamos aqui do lado batendo papo. Não
vou perder mais o contato. Para mim, o que importa é isso.”
O apresentador Bob Faria intervém a essa altura para perguntar a Sócrates se a experiência de
quase morte mudou sua perspectiva de vida. O Doutor expõe a semelhança entre seu histórico de
abuso de álcool com os excessos de Casagrande com a cocaína.
“Acho que a correlação que existe entre esses dois processos tem a sua devida importância.
Esses problemas que nós tivemos foram frutos de comportamentos que nós assumimos em
determinados momentos de nossas vidas e que mantivemos por um período bastante longo.
Absolutamente questionáveis. É aí que você questiona as opções que você fez. Obviamente que
elas são bastante estimuladas, de uma forma geral, pela sociedade em que você vive. Nem
sempre você está imune a isso. E talvez seja o nosso papel, também, tentar mostrar que algumas
opções que a gente faz na vida não são exatamente aquelas que deveríamos tomar, até porque
não precisamos. No meu caso específico, por exemplo, o fato de consumir álcool nunca me deu
nada de positivo. Absolutamente nada. Eu não preciso de álcool pra ficar mais bonito, até porque
é impossível (risos), pra ficar mais inteligente, pelo contrário, pra ficar mais forte, pelo contrário.
Ele não te dá nada de positivo, nada em troca. Você apenas se aproxima dele por uma carência
que você eventualmente tenha em determinado momento. Particularmente, na adolescência. Isso
é muito claro. E o que se vende, inclusive midiaticamente, é exatamente isso. Quer dizer, é na
fragilidade de formação do indivíduo que ele se aproxima de algo que não é dele. Então, a
grande lição é exatamente esta: reconhecer que essa opção foi a pior possível.”
Sócrates ressalta, porém, um ponto positivo de sua internação. Ele pôde constatar o quanto era
querido pelo público. Algo de que ele não tinha a real dimensão. “É difícil quantificar isso. Você
percebe o sentimento das pessoas, mas o contato que você tem é escasso. A sua circulação é
limitada. E nesse período surgiu uma imensidão de pessoas que estavam ao meu lado, torcendo,
rezando, sei lá… Até oferecimentos de fígado surgiram, para se eventualmente tivesse
necessidade de um transplante. E esse carinho acho que foi fundamental para minha recuperação,
porque essa energia, por menos que você reconheça e seja palpável, ela é passada pra você.”
Casagrande acrescenta ter vivido experiência parecida quando foi internado para tratar a
dependência química. Uma solidariedade do público percebida até hoje, embora não de forma tão
calorosa como durante a fase crítica. “Eu a recebo diariamente. Hoje as pessoas estão
acostumadas a me ver na rua, eu saí da internação em 2008, nós estamos em 2011. Já voltei a
trabalhar há bastante tempo, então as pessoas já estão mais habituadas a me ver. Mas quando eu
saí da internação e comecei a aparecer nos lugares, era emocionante as pessoas olharem para
mim e dizerem: ‘Torci por você pra caramba, você vai conseguir’. Ouvia isso quando parava na
rua, no sinal vermelho, em todos os lugares. Inicialmente, era o que me dava o gás para o
processo todo, porque não é fácil. O [processo] do Magrão é muito difícil. O meu também é
muito difícil, porque meu problema tá aí. É muito fácil eu voltar a cometer os mesmos erros ou
voltar com comportamento antigo, é o caminho mais fácil. Meu cérebro já está acostumado com
esse comportamento de anos e, se eu bobear, o funcionamento dele volta a ser o de antes. Estou
tentando reprogramá-lo com comportamentos novos, com filosofia nova, com nova perspectiva
de vida. E as pessoas me lembram sempre desse meu problema: ‘Ó, força aí!’. E essa ‘força aí’ é
assim: não vai, não esquece. Para mim, é um alerta.”
O assunto pesado é quebrado com a exibição de um vídeo de um show da roqueira Rita Lee,
em 1982, no ginásio do Ibirapuera, em que Sócrates, Casagrande e Wladimir são chamados a
subir ao palco. Eles aparecem dançando ao lado da cantora numa cena impagável. Casão é ainda
um garotão com pinta de adolescente, de camiseta regata e bolsa de couro a tiracolo. Sócrates usa
uma camisa do Corinthians por cima de outra camiseta e calça branca. Ele se aproxima da
cantora, tira o uniforme do time e o entrega para Rita, que o veste imediatamente e continua a
dançar e a cantar o refrão “Meu amor, por favor, vote em mim” com o trio de jogadores. A
música “Vote em mim” foi escolhida para essa participação especial, claro, por remeter à ideia
de eleição e democracia.
O Doutor conta essa inacreditável história da camisa, já relatada por Casão em sua biografia,
Casagrande e seus demônios, e dá mais detalhes desse acontecimento inesquecível. “Depois de
um jogo, nós fomos assistir a um show da Rita, na gravação de um especial de final de ano da
Globo. E aí, no meio da história, lotado o Ibirapuera, resolvemos dar uma camisa de presente pra
ela. Só que nós não tínhamos a camisa e começamos a procurar no público quem estava com a
camisa do Corinthians. Aí achamos um garoto e fomos lá negociar com ele: ‘Ó, dá essa camisa
pra gente entregar pra Rita?’. O cara ficou sem camisa”, diverte-se Sócrates.
Casagrande faz um aparte para relatar a incredulidade do fã diante daquela inversão de papéis.
Provavelmente, foi a única vez na história que um ídolo pediu a camisa do clube para um
torcedor. Casão dá risada com a reconstituição da cena. “Vocês estão brincando…”, diz o fã.
“Depois você passa lá no Parque São Jorge, a gente arruma outra”, argumentam os ídolos. “Ah,
não é possível que vocês não tenham uma camisa do Corinthians!”, rebate o rapaz, que acabou
cedendo a peça, pagando o mico de ficar a noite inteira com o peito e as costas nus.
Ao ver Casagrande levantar a bola, dizendo que o show se chamava Circo e o cenário tinha
picadeiro, palhaços e anões, Sócrates emenda de primeira: “E um deles [um anão] subiu nas
minhas costas. Então eu estava dançando com ele, o palco era giratório… Tinha um espaço entre
o [que era] fixo e o que girava, quando caí no meio, com o anão nas costas”. Por sorte, o craque
do Corinthians não se machucou na queda. Nem o anão.
Sócrates também é questionado a respeito de não comemorar os gols que marcava, gesto que
desagradava a massa corinthiana. Ele explica que isso aconteceu apenas numa fase específica e
havia um motivo. “Na verdade, não tem melhor palco para uma ação política do que um campo
de futebol. Tem até o público do teu lado. Isso ficou marcado quando eu me manifestei contra o
Vicente Matheus, que era nosso presidente, e tínhamos uma disputa, uma discussão [Sócrates
recebia salário muito abaixo da média de um jogador de seu nível e exigia aumento]. Aí, pra
chamar a atenção, pra ter espaço, pra criar uma comunicação com a torcida, tem que produzir
esse evento. E não comemorar foi a forma que encontrei, só que ficou bem marcado. Foi um
período só. Mas era uma forma de eu me comunicar com a torcida do Corinthians, porque é
fundamental, se você trabalha com público, ter essa comunicação. Pra que você possa expor
exatamente aquilo que você pensa, que está executando, em contraponto a quem tem opinião
contrária.”
Diante da observação de que hoje em dia os jogadores abrem mão de usar esse canal no
momento em que balançam a rede, Sócrates analisa as comemorações contemporâneas: “São
gestos políticos, mas, pra onde eles caminham, cada um opta. Há algumas bizarrices, algumas
infantilidades, e coisas interessantes. Aliás, existe a preocupação das próprias instituições do
futebol, que tentam limitar essas manifestações, porque têm medo do peso político que elas
denotam”.
Aparece na tela a imagem do time da Democracia Corinthiana em campo com a inscrição
“Dia 15 vote” nas costas do uniforme, uma ação para incentivar os torcedores a irem às urnas no
momento em que o regime militar cedeu às pressões da sociedade civil e restabeleceu as eleições
para governador de estado. Trata-se da primeira propaganda exibida numa camisa de clube
brasileiro, muito antes de as marcas e empresas entrarem de forma maciça na exploração
comercial desse espaço. Também é mostrada a imagem da faixa “Ganhar ou perder, mas sempre
com democracia”, levada a campo pela equipe e já citada no início do programa. Indagado se não
houve retaliação física por parte dos órgãos de repressão da ditadura, que se incomodavam com o
uso político do futebol, Sócrates surpreende: “Não, seria ótimo!”, diz, imaginando a repercussão
que teria qualquer truculência contra os jogadores corinthianos.
Como assunto inevitável, é claro, entra em pauta a discussão sobre a concentração obrigatória
para os atletas antes de jogos, algo a que Sócrates sempre se opôs e que se transformou em uma
de suas bandeiras. Na época da Democracia Corinthiana, a concentração se tornou opcional.
Quando a partida era no domingo à tarde, a reserva do hotel era feita a partir do sábado ao meio-
dia, porém o jogador podia ir ou não. Quem preferisse ficar em casa, com a família, tinha de se
apresentar apenas ao meio-dia de domingo, para jogar às quatro da tarde. O Doutor revela que
conseguir esse avanço não foi nada fácil. “Para tornar opcional, demorou um tempão, porque a
maioria não queria. A maioria preferia a concentração mesmo. No começo, né? Tem o trato
político, a discussão, o debate…”
Sócrates ressalta que sempre sustentou essa opinião e considera um absurdo a prática perdurar
até hoje. “Isso é bobagem, jogar dinheiro fora. Quando você concentra, o momento mais
importante do domingo é o final do jogo, porque você vai ficar livre, sair da prisão. Quando não
concentra, o momento mais importante é o jogo, porque vai se divertir. Então, teoricamente, vai
jogar muito melhor.”
O debate caminha para a precária mobilização dos jogadores de futebol como classe. Paulo
André, zagueiro que defendeu o Corinthians e o Cruzeiro, além de ter encabeçado a criação do
Bom Senso F.C. — movimento que propõe mudanças na organização do esporte, controle
externo sobre as federações e participação dos jogadores nas decisões —, é citado como uma das
poucas vozes a desafinar o coro dos contentes. Sócrates incentiva a sua iniciativa quase solitária,
que aos poucos e timidamente passou a receber adesões de colegas. “Tem que continuar falando,
sim, isso é trabalho de formiga. Você não pode esperar que as respostas venham imediatamente.
Na verdade, principalmente quando se está num meio extremamente conservador e até
reacionário como é o futebol, tem que cutucar mais ainda, cada vez mais.”
Casagrande aproveita para concordar com o parceiro. “O importante é falar. Eu acho que o
mundo hoje está totalmente virado para si, muito egoísta, como a maioria dos jogadores de
futebol. Principalmente aqueles com mais destaque, são os que mais olham para si mesmos e
esquecem da importância de passar uma mensagem, de levar adiante uma ideia diferente,
modificar alguma coisa. Quanto mais sucesso se faz hoje no futebol, menos importa o que tem ao
redor. Então eu acho que o Paulo André vai ter muita dificuldade, e eu concordo que ele tem de
continuar falando mesmo, expondo as ideias. Porque ele não tem a mesma projeção, por
exemplo… ele não é o Adriano, né? Se partisse de um cara como o Rogério Ceni, um Adriano,
como o Neymar, ia se ouvir mais rapidamente.”
Capitão da seleção brasileira de 1982, Sócrates também teria de falar no programa sobre esse
trauma em sua vida. Um time que encantou o mundo com futebol-arte na Copa disputada na
Espanha, mas ficou marcado pela tragédia do Sarriá, estádio no qual acabou derrotado pela Itália
por 3 a 2, na segunda fase (se vencesse, iria às semifinais). Uma equipe mágica, formada por
Waldir Peres; Leandro, Oscar, Luisinho e Júnior; Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico;
Serginho Chulapa (Paulo Isidoro) e Éder. “Era um prazer absurdo jogar com essa turma aí. Só
tinha nego que sabia jogar, a bola ia redonda e voltava redonda. Duro é quando você dá um passe
e a bola volta quadrada. Então todas as vezes que nos encontrávamos para jogar era uma grande
festa futebolística. É realmente o time mais cultuado no mundo todo, talvez o Brasil seja a nação
que menos cultua esse time. Não sei exatamente o porquê. Se você comparar, o time da Holanda
em 1974 era um timaço, talvez tenha sido a equipe mais revolucionária da segunda metade do
século passado. A Hungria [campeã olímpica em 1952 e vice-campeã mundial em 1954], eu não
vi jogar, mas a Holanda, com certeza. Ninguém fala do time da Holanda de 74, é um timaço, eu
colocaria no mesmo nível. Talvez, até pela tragédia [do Sarriá]… Deu um peso maior o fato de
todo mundo estar esperando vencer e [o time] não vencer.”
Apesar da reunião de estrelas de primeira grandeza, Sócrates ressalta a harmonia entre aqueles
jogadores. “Conseguimos uma unidade, coisa difícil no futebol. Porque tem concorrência interna
numa equipe, uns querem chamar mais a atenção, outros menos. Se conseguir equilibrar essa
disputa de egos, é o primeiro passo para formar uma grande equipe. Foi o que nós conseguimos
no Corinthians em 82, porque todos nós jogávamos por um ideal, jogávamos por uma equipe,
com visão coletivista do processo. Na seleção de 82, também.”
Magrão fala com carinho do técnico Telê Santana, que conseguiu fazer com que ele se
preparasse fisicamente para aquele Mundial como jamais ocorreu em qualquer outra situação.
Apesar de exigente e disciplinador, o velho mestre sempre se deu bem com Sócrates, por quem
tinha especial admiração. Em conversas reservadas com jornalistas, o treinador o classificava
acima de Rivellino na escala de genialidade. “O Telê era da geração do meu pai, com uma visão
de mundo também muito semelhante. Claro que existiam conceitos diferentes, distintos,
conflitantes, mas ele tinha muito respeito. O Telê era muito coerente, e acho que a coerência é
fundamental porque, mesmo que você discorde de uma postura, sabe com quem está tratando,
né? Dos treinadores que eu tive, o Telê, sem dúvida, foi o mais democrático, apesar de ser uma
pessoa extremamente conservadora. Sempre formou grandes equipes exatamente por isso.
Porque ele escolhia os jogadores que ele achava que se adequavam melhor entre si e fazia esse
time treinar até cansar. O time achava o seu jeito de jogar, não era imposto, como hoje
percebemos muito, o treinador querer impor uma forma de jogar ao jogador, e a gente vê
claramente que ele precisa de liberdade. Alguns, não, porque não têm habilidade, não têm
técnica, não têm talento. Mas quem tem precisa de liberdade para criar, e o Telê dava toda a
liberdade do mundo para suas equipes. Por isso que todo time do Telê era um grande time.”
Praticamente três anos antes do vexame da seleção brasileira na semifinal da Copa de 2014,
com a goleada de 7 a 1 para a Alemanha, no Mineirão, tragédia aliás que Sócrates nem chegaria a
ver, ele já colocava o dedo na ferida. “A seleção brasileira de hoje é muito limitada, muito sem
filosofia, sem saber exatamente o que quer. Acho que continuamos tendo bons jogadores, mas
não sabemos para onde andar. Eu não vislumbro uma proposta, então fica tudo meio perdido,
meio jogado. E não é de hoje, é de algum tempo para cá. O futebol brasileiro perdeu a
identidade, nós abrimos mão da nossa cultura futebolística, queremos ser mais europeus do que
os próprios europeus. Eles querem ser como a gente, e a gente está abrindo mão do que somos
para tentar nos aproximar deles. Tem uma frase muito boa do Cruyff [craque holandês, cérebro
do carrossel de 1974] na Copa anterior, da África do Sul: ‘Não gosto do time brasileiro porque
deixou o futebol brasileiro pra lá’. Mais ou menos isso.”
Diante da questão sobre a possibilidade de o Brasil resgatar sua maneira de jogar bola,
Casagrande não demonstra qualquer esperança. “Se for deixar de lado tudo o que se sabe da
escola brasileira de futebol, não se pode criar expectativas em cima daquilo que é atual, porque
está fazendo igual a todo mundo. Eu prefiro muito mais o estilo da Copa de 82, resgatar o estilo
brasileiro de jogar, com toque de bola, ultrapassagens, um futebol mais leve, mais empolgante. É
aquilo que eu desejaria, mas não tenho a mínima expectativa de ver isso novamente.”
Para demonstrar que a volta às origens não é algo impossível, Sócrates cita o time do Santos
que conquistou o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil em 2010, montado pelo técnico
Dorival Júnior com garotos vindos da base, como Neymar, André e Paulo Henrique Ganso, além
da repatriação de Robinho. A equipe ainda seria campeã da Libertadores do ano seguinte. Porém,
quando Robinho e André deixaram o clube, e já sob o comando de Muricy Ramalho, perdeu
parte de sua vocação ofensiva. “Não precisa ir muito longe, o time do Santos de dois anos atrás
jogava com a nossa cultura e foi uma festa. Todo mundo assistia, não precisava ser santista, todo
mundo queria ver o time do Santos jogar naquele Campeonato Paulista em que a molecada
apareceu. E tem consequência muito além do futebol. Por exemplo, com o tipo de futebol que era
jogado ali, diminui a violência dentro e fora dos estádios, as pessoas são mais felizes.”
O papo rola descontraído quando a questão da dependência química volta a ser abordada.
Sócrates diz que não bebe mais e fuma pouco. “Isso é muito particular. Eu nunca tive
dependência química em relação ao cigarro nem à bebida, o que é uma grande vantagem. A
decisão é mais política do que uma ingerência direta numa necessidade que você tem.” Por não
admitir o próprio vício, ele deixa Casagrande visivelmente incomodado. Mesmo calado, Casão
dá sinais de inquietação. Leva o dedo mínimo da mão direita à boca, começa a roer a unha, mas
se lembra que está na tv e interrompe a ação. Ao mesmo tempo, balança o pé direito, cruzado
sobre a perna esquerda, em mais um sinal de impaciência. Chega a fechar os olhos. Mas
Sócrates, alheio à reação do amigo, continua: “Eu conheço gente que, pra fazer voo
internacional, o cara põe doze adesivos de nicotina. Não aguenta ficar sem fumar. Eu, não.
Absolutamente não sinto falta nenhuma. Tive o hábito de conviver com o álcool o tempo todo,
então é mais fácil pra mim. Não sinto nenhuma falta, mas quem tem necessidade química, aí tem
que mudar o hábito, o comportamento, até o fluxo de convivência com outras pessoas. Não é
simples, não.”
Casagrande levou um choque. Percebeu que Sócrates se iludia ao não reconhecer o enorme
desafio que teria pela frente para deixar de beber. O primeiro passo para não lograr êxito. Por ter
feito tratamento numa clínica de desintoxicação, com sessões diárias de terapia, sabia muito bem
que a reação inicial de um dependente é a negação. Um processo pelo qual já havia passado —
foram cerca de quatro meses de internação, isolado de qualquer contato com o mundo exterior,
até admitir para si mesmo que precisava de ajuda. A perspectiva do parceiro não era nada
animadora.
De fato, numa viagem a Cuba logo após uma de suas internações, Sócrates, mesmo naquele
estado crítico, voltaria a consumir cerveja. O fato de estar num país diferente serviu como uma
espécie de salvo-conduto. Os dependentes sempre encontram um subterfúgio para usarem a
droga. Coisas assim: “hoje é dia de festa”, “para brindar com um amigo”, “vou tomar só um
pouquinho por uma questão social”, “a partir de amanhã nem uma gota” ou… “só aqui em
Cuba”. Os efeitos da cerveja cubana no organismo são idênticos aos da bebida brasileira, é claro.
Como médico, mais do que ninguém, Sócrates deveria ter total consciência disso. Porém, antes
de mais nada, se enganava como qualquer alcoólatra.
Sem perceber a pulga atrás da orelha de Casagrande, Sócrates segue em seu maravilhoso
mundo da fantasia até o final do programa. Faz planos ousados para os próximos anos sem levar
em consideração que poderia sofrer crises de abstinência ou novos sangramentos causados pela
cirrose hepática. “Tenho mil projetos, por exemplo, com o Fagner e o Zeca Baleiro. Estamos
montando um show com dvd, discos… um ou dois. Para 2013, já está tudo pronto, muito a ver
com futebol. Vamos compor juntos, pegar outras obras que já tenhamos que sejam ligadas ao
futebol. Juntar cultura musical brasileira com a cultura futebolística, por causa dos eventos que
nós temos pela frente.”
Os tais eventos eram a Copa do Mundo do Brasil, em 2014, e a Olimpíada do Rio, em 2016.
Nem passava por sua cabeça que ele poderia não chegar até lá. “Tem um projeto para a tv, que é
acompanhar o que está ocorrendo no país, as transformações que esperamos que ocorram. Não
necessariamente estádios, mas infraestrutura, investimentos em recursos humanos, melhoria na
questão da saúde e educação do país, aproveitar o ensejo para ver que tipo de investimento está
sendo feito.”
Os planos eram múltiplos e intermináveis. “Tem muita coisa… Tem o Doutorzinho,
personagem infantojuvenil com o qual eu quero passar para esse público mensagens positivas
ligadas à não violência, tentar brigar contra a miséria e contra a fome que existem em nosso país
ainda, uma série de coisas. Projetos é que não faltam. Espero colocá-los em prática logo, logo.”
Até a hipótese de um transplante de fígado, talvez a sua única salvação, é desconsiderada
naquele momento pelo Doutor, tão ingenuamente otimista. Perguntado se ele era um paciente
com essa necessidade, ele completa de bate-pronto: “Nunca fui, na verdade foi pura especulação.
Estou muito longe do transplante. Isso não quer dizer que no futuro não se torne uma
necessidade. Não sei como vai evoluir, mas a tendência é o contrário, que tenhamos alguma
regeneração hepática e que eu tenha o órgão praticamente zerado”.
Sócrates se despede, no encerramento do Arena Sportv, com uma frase que agora soa triste:
“Vou ficar muito tempo aí incomodando”. Foram exatos 48 dias até a sua morte.
4
As desavenças
C asagrande nunca teve uma briga, de fato, com Sócrates. Nem sequer uma discussão. Mas o
conflito tácito e o ressentimento alcançaram uma dimensão bem maior do que Casão sinalizou
diante das câmeras, na gravação do Arena Sportv, na frente do amigo. O afastamento se deu de
forma silenciosa e não declarada, o que fez com que a ruptura se estendesse por muito tempo. Se
tivesse ocorrido um bate-boca, um confronto aberto de opiniões, teria havido também a
possibilidade de eles lavarem a roupa suja, revelarem o que incomodava um em relação ao outro
e, a partir do diálogo, se entenderem. Porém, como não houve nada disso, restaram apenas o
distanciamento e a guerra fria de egos.
Antes mesmo de qualquer discordância, o relacionamento começou a se tornar menos estreito,
gradativamente, a partir do momento em que eles deixaram de jogar juntos. Um processo natural
da vida, imposto pela separação física e geográfica, já que Sócrates se transferiu para a
Fiorentina em 1984. Eles não viviam mais grudados, deixaram de beber em parceria no dia a dia,
frequentar shows, salas de cinema e peças de teatro, tudo o que ajudava a criar a admirável
sintonia da dupla. “Ele foi pra Itália, eu pro São Paulo por empréstimo. Inicialmente, eu ligava
pra casa dele em Firenze, pois sabia que ele não estava bem, não tinha se adaptado lá. Depois, eu
fui pra Itália, ele voltou, cada um foi fazendo a sua vida”, explica Casão.
Embora não se falassem mais com tanta frequência, o carinho de um pelo outro continuava
enorme. Era apenas falta de oportunidade. Tanto assim que tão logo voltou a morar no Brasil, em
1993, após sete anos na Europa, Casagrande fez questão de procurar Sócrates. “Uma das
primeiras coisas que fiz quando retornei da Itália e me transferi pro Flamengo foi ligar pra casa
dele. A Silvana Campos [ex-tenista e segunda mulher do Doutor] atendeu. Ela não gostava que o
Sócrates falasse com os amigos antigos, mas me deixou falar e o chamou”, relembra.
De volta ao Brasil, Casagrande passou a morar no Rio de Janeiro, afinal defendia um clube
carioca. Enquanto isso, Sócrates residia em Ribeirão Preto e, mais tarde, em Santos e São Paulo.
As conversas permaneceram esporádicas, portanto. “A gente acabou se afastando. Tivemos
alguns contatos eventuais apenas. Quando eu havia encerrado a carreira fazia pouco tempo, por
exemplo, o Sócrates me ligou perguntando se eu queria jogar no Japão. Ele estava numa dessas
de empresário, algo assim… Mas eu falei que não tinha interesse.”
Uma das raras vezes em que tiveram chance de se encontrar depois disso ficou especialmente
marcada por proporcionar um convívio mais prolongado. No final da década de 1990, quando já
trabalhava como comentarista da Globo, Casagrande recebeu o convite para participar do
Brazilian Day, em Nova York, no qual brasileiros comemoram o dia da Independência do país
com uma celebração que reúne migrantes e turistas em eventos culturais e gastronômicos. “Há
uma festa gigantesca, e são amigos meus que organizam. Assim que eles me convidaram,
perguntei se podia levar o Sócrates. Claro que eles toparam e mandaram duas passagens para a
gente. Imagina eu e o Magrão em Nova York, no meio das comemorações. Foi muito divertido.”
Os dois se esbaldaram na Big Apple, tomaram incontáveis cervejas juntos, trocaram confidências
e falaram muita bobagem, o que mais gostavam de fazer. Talvez essa tenha sido a última vez em
que foi retomada a cumplicidade dos tempos da Democracia Corinthiana. Uma sessão nostalgia
que alimentou o carinho mútuo e serviu como uma espécie de despedida, antes que se iniciasse
um longo período de hibernação da amizade.
Tempos depois, Casagrande estava no prédio da tv Globo quando recebeu uma ligação de
Sócrates no celular. “Oi, Big, tudo bem? Fiquei sabendo que a Globo está querendo mais um
comentarista em São Paulo. Só tem você aí… Dá uma sondada, vê se interessa eu ser
comentarista também”, disse o Doutor. A contratação de Sócrates pela emissora não se
concretizaria, e isso daria margem ao rompimento.
“Naquela mesma semana, três ou quatro dias depois, eu fui ao restaurante Lellis para
entrevistar um convidado para a coluna que eu tinha no Estadão. E encontrei lá o Sócrates, numa
mesa com o [José] Trajano, o Juca Kfouri e outros jornalistas. Eu me aproximei para
cumprimentá-los e aí, na frente de uma porrada de gente, ele falou: ‘Taí o cara que se vendeu
para a tv Globo’. Eu fiquei muito puto”, conta Casão. Juca também se recorda do clima de
constrangimento entre os presentes. “O Magro foi agressivo. Disse assim: ‘Porra, Casão, você
agora é plim plim, tá manietado, não pode falar as coisas”.
Estava aceso o estopim da crise que azedou a relação da dupla por anos a fio. Como costuma
fazer quando uma pessoa querida o magoa, Casagrande não disse uma palavra. Absorveu o golpe
e ficou remoendo a ofensa no peito. Naquele dia, teve até dificuldade para conduzir o bate-papo
com o entrevistado. A sua cabeça girava, e ele perdia a concentração nos assuntos abordados
para a coluna. A partir dali, afastou-se do velho parceiro.
“Essa era uma característica do Sócrates, sempre provocativo pra caralho. Às vezes, podia ser
só uma gozação pra sacanear um amigo. Mas, normalmente, era o jeito dele de falar alguma
coisa que achava de você, num tom que as pessoas não sabiam se ele estava brincando,
ironizando ou o que estava fazendo”, analisa Casão.
A percepção de que a alfinetada do amigo não tinha sido apenas uma brincadeira de mau
gosto — ainda mais inconveniente por acontecer na frente de terceiros — estava correta. Havia
realmente a intenção de lhe passar um recado. Muitos sentimentos em relação ao parceiro se
misturavam na cabeça do Doutor, e nem ele próprio tinha clareza de todos os aspectos. Difícil
saber até que ponto a patrulha ideológica de Sócrates, habitualmente radical em seu propósito de
usar os meios de comunicação para transmitir mensagens políticas e pregar transformações
sociais, o levara a fustigar o companheiro. Pois também havia ali, certamente, grandes doses de
ciúme e vaidade envolvidas.
Sócrates sempre fora o protagonista da dupla. Era o mais velho, o mais estudado e culto, o
gênio com a bola nos pés. Casão tinha o mérito de possuir a inteligência imprescindível para
entender e até antever as jogadas imprevisíveis do craque — pérolas que fugiam da lógica
convencional —, além da técnica e capacidade de finalização para dar prosseguimento aos lances
e concluí-los com êxito. Qualidades importantes, ainda mais valorizadas pelo parceiro porque
vinham acompanhadas de lucidez política, ideias progressistas, interesses culturais em comum,
irreverência e atração pela noite. Casão também disputou uma Copa do Mundo e se tornou um
atacante de projeção internacional, porém era o Doutor quem tinha sido líder da Democracia
Corinthiana, capitão da lendária seleção de 1982, médico, cantor, compositor, escritor, produtor
teatral e pintor de quadros nas horas vagas, além de colunista do jornal Agora e da revista Carta
Capital.
Sócrates se orgulhava de ter múltiplos talentos e desenvolver as mais diversas atividades.
Porém, a partir de 1997, quando Casagrande foi contratado pela Globo, o ex-centroavante passou
a ganhar mais projeção a cada dia, por sua exposição constante na maior emissora de televisão
do país. Após o Doutor procurá-lo, pedindo sua indicação para ser comentarista da tv, como a
ideia não prosperou, talvez tenha imaginado que o amigo não tivesse se empenhado o suficiente.
Para os mais próximos, Sócrates sustentava que não havia ido para a Globo porque não aceitaria
abrir mão de sua independência. Mas a situação era bem mais complexa.
A mulher de Sócrates reproduz aqui a versão passada pelo marido: “Ele não foi para a Rede
Globo, naquela oportunidade, porque sabia que ia precisar se conter em relação à sua postura de
enfrentamento. Da colisão com o Casagrande até o momento em que conheci o Sócrates, alguns
anos se passaram, então não sei avaliar o quanto, naquela época, a questão dos ideais podia ser
tolhida pela emissora. Mas ele afirmava firmemente que aquela emissora, naquele momento, não
seria porta-voz de tudo o que eles tinham construído. E ao aceitar esse trabalho, ou seja, por uma
retribuição financeira, o Casa estaria quebrando o elo de fidelidade aos ideais, fidelidade à causa
toda, de ser porta-voz de um processo que até hoje está em trâmite”.
Anos mais tarde, casada com Sócrates e disposta a promover a paz entre os parceiros, Kátia
chegou a argumentar que talvez Casagrande não estivesse sendo tolhido pela Globo. E relata o
tom de sua conversa com o marido: “Pode ser que esse espaço seja proveitoso, que vocês possam
modificar e transformar através desse pequeno espaço de comentar uma partida de futebol, que
isso possa agregar algo às pessoas”, disse para ele. “Mas Sócrates não conseguiu ver dessa
forma. Ele entendeu como uma separação mesmo, falava que não foi pra lá porque sabia que não
ia ter liberdade pra ser quem era. A gente não sabe se seria assim, mas ele acreditava nisso.”
Ironicamente, na fase final da vida, Sócrates ganharia espaço em uma produção ligada às
organizações Globo, segundo Kátia, por seu intermédio. Em 2011, ele estreou o programa Brasil
+ Brasileiro, no Canal Brasil, da Globosat. Fazia entrevistas descontraídas com amigos de
diversas áreas, como o cantor e compositor Zeca Baleiro, o ex-jogador e técnico Zico, o
publicitário Washington Olivetto, o ator Otávio Augusto, o cineasta Ugo Giorgetti, o cenógrafo e
artista plástico Elifas Andreato, o escritor Marcelo Rubens Paiva e os jornalistas José Trajano,
Juca Kfouri, Xico Sá e Mino Carta.
“Entreguei pra ele um meio de comunicação dentro do grupo Globosat, onde ele tinha
liberdade pra falar tudo o que queria. Até ganhamos um prêmio pelo programa, em que ele
entrevistava os melhores amigos. Nós tivemos uma temporada inteira sem cortes, quem fazia a
edição era eu, então nunca houve nenhuma censura ou regra a seguir”, atesta Kátia.
O episódio de sua não ida para a Globo como comentarista tem diversos aspectos, e não foi
tão simples quanto a versão sustentada por Magrão. Em primeiro lugar, provavelmente a
emissora não tivesse interesse em contratá-lo para atuar ao lado de Casagrande. A presença da
dupla criaria uma identificação imediata e exagerada com o Corinthians, o que poderia causar
desconforto a torcedores de outros clubes — as passagens de Sócrates por Flamengo e Santos
foram muito breves. A aposta em Caio Ribeiro, que surgiu no São Paulo, mas também jogou no
Santos, Flamengo, Grêmio e Botafogo, trouxe mais diversidade aos quadros da emissora, que
passou a utilizá-lo em rede aberta a partir de 2008. Nessa mesma época, o Doutor se integrou à
bancada do Cartão Verde, da tv Cultura, onde tinha audiência bem menor, mas num programa
com um perfil no qual ele se encaixava melhor e podia ficar mais solto.
Além disso, Sócrates provavelmente estava certo ao prever que não teria condições de agir
livremente na Globo. Porque muitas vezes o Doutor enfiava o pé na jaca, como se diz
popularmente, e fugia de forma deliberada aos padrões de profissionalismo. Algo que certamente
não seria tolerado pela emissora que, a exemplo de qualquer grande organização, estabelece
normas de conduta. A sua rápida passagem pelo Sportv, em 1995, já havia deixado alguns
desgastes.
Convidado pela direção do canal esportivo por assinatura para comentar o Campeonato
Paulista daquele ano, ele causou mal-estar nas finais entre Corinthians e Palmeiras, em Ribeirão
Preto. A ideia, se ele se saísse bem, era contratá-lo como integrante fixo da primeira equipe de
comentaristas do Sportv, que estava começando a se estabelecer na ocasião. Mas por pouco ele
não foi dispensado logo após o primeiro jogo decisivo. Em vez de chegar com três horas de
antecedência, como combinado, pois as primeiras entradas ao vivo do estádio ocorreriam a partir
das duas da tarde, Sócrates só apareceu na cabine de transmissão quando as equipes já estavam
em campo, pouco antes do início do jogo. Os colegas e a chefia beiravam o desespero,
imaginando àquela altura que ele fosse dar o cano, o que seria um vexame, após sua participação
ter sido anunciada ao longo de toda a semana. E o alívio por sua presença, ainda que em cima da
hora, durou pouco. Em sua primeira participação, embalado a cerveja, pediu desculpas no ar pelo
atraso e explicou que vinha de um churrasco com amigos em um sítio.
Mais tarde, chamado para analisar taticamente a partida, ele se comportou como um
integrante da Fiel, tendo sempre o Corinthians como referência. O duelo terminou empatado em
1 a 1, pipocaram reclamações de assinantes palmeirenses por causa da parcialidade de Sócrates, e
a direção do canal cogitou tirá-lo do segundo e definitivo jogo da final, no domingo seguinte. Ou
pelo menos procurar outro astro ligado ao Palmeiras para contrabalançar. O jornalista Mauro
Beting, que formava a dupla de comentaristas da emissora com o Doutor, foi instruído a buscar
uma alternativa rapidamente. “Pensamos no Ademir da Guia, mas essa função nunca foi a dele.
Cheguei a ligar para o Vanderlei Luxemburgo, porém ele alegou que enquanto atuasse como
treinador, não seria comentarista. Anos mais tarde, até mudou de opinião e comentou a Copa do
Mundo do Brasil pela Fox. Mas naquela ocasião, recusou o convite”, conta Beting.
Não restou alternativa a não ser dar outra chance a Sócrates, dessa vez com a recomendação
expressa de que não bebesse antes do trabalho e chegasse com alguma antecedência ao estádio.
No dia da grande final, Sócrates apareceu uma hora antes do início da decisão, o que, para
seus padrões, já estava ótimo. Porém, provocou outra saia justa para o canal ao entrar no
gramado, antes de se dirigir à cabine de imprensa, e levantar a massa alvinegra. “Doutor, eu não
me engano, seu coração é corinthiano”, cantava a torcida organizada Gaviões da Fiel, enquanto o
ídolo levantava os braços e saudava a galera nas arquibancadas. Tudo isso vestindo uma camisa
com o símbolo do Sportv. “Ele retribuiu o carinho batendo palmas para a torcida. Talvez
qualquer um fizesse isso, mas não era normal, ainda mais para o padrão global, o comentarista
agir assim. Ficou uma situação bastante delicada”, avalia Beting.
Para fechar com chave de ouro, já durante a transmissão na cabine da emissora, ele gritou gol
junto com o locutor Carlos Fernando Schinner quando Elivelton balançou a rede e deu o título ao
Corinthians. Após essa experiência malsucedida, as portas se fecharam para Sócrates.
Dois anos depois, a direção da Globo resolveu apostar num comentarista com perfil
semelhante, mas que já tinha experiência de um ano na espn Brasil e vinha se mostrando lúcido e
equilibrado: Walter Casagrande Júnior.
Sócrates, aliás, também chegou a comentar algumas partidas na espn Brasil, então comandada
por José Trajano, seu amigo íntimo. Porém, nem mesmo o afeto e a cumplicidade que sempre
houve entre os dois fizeram o diretor da tv contratá-lo. “O Sócrates não trabalhou na espn, mas
teve algumas participações, porque, na verdade, eu nunca quis contratá-lo como um cara fixo.
Ele era muito inconsequente, porra-louca. Eu queria o Sócrates perto de mim, mas não como
comentarista, porque um dia ele podia não ir”, confessa Trajano. O Doutor às vezes até lhe dava
alguma indireta sobre essa questão, ou direta mesmo, mas com um tom de humor para não
constranger o velho companheiro e comprometer a relação de camaradagem. “Às vezes, ele
aparecia lá na tv e brincava: ‘Não vai me contratar, não?’. Aí eu ia com ele até a padaria Real, ali
do lado, e ele vinha sempre com muitos planos. Sempre com uma coisa que começava, às vezes
nem começava, e quando começava, terminava dois dias depois. Uma hora ia empresariar
torneios de tênis, outra cantar música sertaneja, fazer cineclube, filme, o escambau.”
Em relação a Casagrande, Trajano sentia muito mais firmeza. E ficou impressionado com o
profissionalismo dele até no momento em que surgiu a proposta para mudar de emissora. “O
Casão teve comportamento exemplar comigo. Estava terminando o Campeonato Paulista quando
o contrato dele acabou e houve o convite da Globo. Na ocasião, ele ganhava um cachê de merda.
Então podia ter ido no dia seguinte, ia assinar um contrato com grana muito boa, mas preferiu
manter a palavra. ‘Conversei lá e só vou depois que o campeonato acabar’, ele me disse. Teve
uma atitude digna, leal”, reconhece.
A disputa pela mesma bola, na qual Casagrande levou vantagem e conseguiu iniciar uma nova
carreira, foi mais um episódio que poderia incomodar Sócrates e provocar ruído na amizade.
Porém, como Magrão era instável e cultivava muitos outros planos simultaneamente, não consta
que isso o tenha deixado mordido ou provocado ciúme no início.
Já a inesperada e tardia amizade de Casagrande com Emerson Leão jamais foi bem assimilada
por Sócrates, inimigo declarado do ex-goleiro e treinador. Os três jogaram juntos em 1983, na
campanha do bicampeonato paulista da Democracia Corinthiana, e a dupla não se bicava com o
camisa 1, um sujeito personalista que se tornaria o principal opositor, entre os jogadores, do
movimento libertário instalado no Parque São Jorge. Ironicamente, Sócrates votou a favor de sua
contratação, enquanto Casagrande se revoltou com a chegada do colega.
Pela personalidade controvertida de Leão, houve muita polêmica quando o técnico Mário
Travaglini sugeriu seu nome para o elenco. Ele convenceu o então vice-presidente de futebol,
Adilson Monteiro Alves, de que seria necessário um goleiro com mais tarimba do que Solito,
titular do time campeão em 1982, para assegurar mais um ano de conquistas. Com o negócio já
encaminhado, o dirigente resolveu consultar, dessa vez, apenas quem já tivesse trabalhado com
Leão. Foram ouvidos Sócrates, Zé Maria e Wladimir, além do preparador físico Hélio Maffia, e
prevaleceu ali o reconhecimento das qualidades técnicas de Leão e de seu profissionalismo. O
currículo era inquestionável: fizera parte da seleção tricampeã do mundo em 1970, como reserva,
e jogara as Copas de 1974 e 1978. Posteriormente, ainda seria convocado para a de 1986.
Wladimir, que também entraria em choque com Leão, relembra: “Votei a favor porque,
embora seja amigo até hoje do Solito, o Leão sempre foi um grande goleiro. Eu achava,
inclusive, que ele iria ajudar o Solito e o Solitinho, que eram jovens, a se desenvolverem na
posição. Foi essa a ideia que nos levou a aprovar a sua vinda. Só que ele chegou com aquela
postura dele que todo mundo conhece, muito individualista, o que prejudicou o ambiente”.
Não pegou bem o fato de a decisão de contratá-lo não ter sido submetida à votação de todo o
elenco. O mais indignado era Casagrande, que acabou afastado do time por quarenta dias por
criticar publicamente a chegada do novo colega. Ao voltar a treinar com a equipe, o clima entre
os dois continuou tenso. Eles não se falavam dentro ou fora de campo, e a primeira vez que
trocaram palavras foi com o intuito de um cutucar o outro. Pouco antes de entrar em campo para
estrear pelo Corinthians na derrota para o Fluminense por 1 a 0, no Maracanã, pelo Campeonato
Brasileiro de 1983, Leão se aproximou de Casão no vestiário, pegou a chuteira branca do
atacante, que o distinguia dos demais jogadores, porque na época só havia pretas, e provocou: “É
bonita, hein? Será que ela faz gol?”, indagou, com olhar e sorriso irônicos, esperando a reação.
Casagrande rebateu: “Sua luva também é bonita. Só tem de agarrar a bola, né?”.
Para essa chuteira branca de Casagrande, aliás, vale abrir parênteses. Assim como causou
estranheza a Leão, o calçado já havia dado margem a muita polêmica na época. Algo até difícil
de imaginar hoje em dia, quando os jogadores usam modelos de todas as cores, algumas
berrantes, como verde-limão, laranja, lilás e até cor-de-rosa choque. Nos anos 1980, a parcela
mais conservadora da imprensa esportiva reagia com intolerância, enquanto alguns jogadores
adversários interpretavam como provocação.
Na realidade, a chuteira branca havia sido comprada nos Estados Unidos pelo zagueiro
uruguaio Daniel González. Mas ficou folgada nos pés dele. Por isso, o gringo procurou o
centroavante para revendê-la. “Cazón, eu o escolhi porque acho que você é o único aqui que teria
cara de pau pra usá-la. Você quer comprar?”, ofereceu. Embora também tenha achado a chuteira
bonita, Casagrande se interessou principalmente porque tinha travas baixas, adequadas para os
campos de grama sintética norte-americanos. “Eu joguei futebol de salão de 1974 a 1980,
inclusive simultaneamente com o campo, e não me adaptava às travas altas. Esse foi o principal
motivo que me levou a comprá-la, mas algumas pessoas achavam que eu queria aparecer. Criou
um impacto muito grande. Também havia gente que elogiava, porque saía da mesmice, coisa e
tal.”
Diante de tamanha controvérsia, Casão passou a usar a novidade só em alguns jogos no
Campeonato Paulista de 1982, escolhidos a dedo. “Normalmente em casa, contra times do
interior que não estavam ameaçados pelo rebaixamento. Se não, já iriam dizer que eu estava
menosprezando o adversário e apanharia o tempo todo. Era sempre um risco.”
Nesse aspecto, Casão e Leão se identificavam. O goleiro também gostava de peças
extravagantes. Tanto que após a troca de farpas com o centroavante, ele entrou para fazer sua
estreia vestindo uma camisa com listras largas horizontais brancas e pretas, igual aos meiões, e
com a palma das luvas vermelha. “Assim não sou mais um na multidão”, justificou ao pisar no
gramado do Maracanã. Também apresentou suas credenciais logo de cara, com fina ironia a
respeito do sistema democrático no Parque São Jorge. “O Corinthians é o melhor clube por que
já passei. A gente pode chamar o diretor de burro e, se você falar com honestidade, está tudo
bem”, disparou para os repórteres que lhe perguntaram sobre as primeiras impressões na nova
equipe.
A presença incômoda de Leão acabou rachando o grupo. “O Leão não concordava com uma
série de coisas, inclusive com o fato de o peso do voto dele ser igual ao dos reservas. Ele achava
que tinha de valer mais”, diz Wladimir. O goleiro se aproximou de atletas menos expressivos e
passou a combater as ideias liberais defendidas pelos jogadores mais progressistas. “A
permissividade exagerada se chocava com o profissionalismo. O foco principal estava na
política, e não no futebol. Aquele grupo até vencia campeonatos, por mérito e qualidade técnica
dos jogadores, mas poderia ter ido ainda mais longe”, argumenta Leão, atualmente. Ele contesta
até mesmo o rótulo de Democracia Corinthiana. “Até hoje se fala de uma democracia que eu
achava não existir. Só uma turma mandava: o Sócrates, o Adilson Monteiro Alves, o Casagrande
e o Flávio Gikovate, psicólogo do time que ganhava até bicho.”
Mesmo com o relacionamento do grupo levado aos trancos e barrancos, o Corinthians
conseguiu se sagrar bicampeão paulista com Leão no gol. Mas o camisa 1 e o Doutor se tornaram
desafetos para sempre. “Ele não gostava da postura do Sócrates, que era muito claro em seus
posicionamentos, então os dois não se falavam. Podiam estar juntos no mesmo elevador, mas um
não olhava para o outro, não trocavam uma palavra, e foi o campeonato inteiro assim”, conta
Wladimir.
Já com Casagrande ocorreu uma surpreendente aproximação anos mais tarde, quando o
atacante já havia pendurado as chuteiras. A atitude de Leão de visitá-lo no hospital quando ele
enfrentou problemas de saúde, como a diverticulite que o obrigou a extirpar parte do intestino
grosso, comoveu Casagrande. “Ele foi uma das poucas pessoas que jogaram comigo a ir me
visitar no hospital. Um gesto muito bacana”, reconhece.
Os dois continuam discordando em quase todas as questões, têm visões políticas antagônicas
até hoje, mas mantêm uma relação de respeito e até de afeto. Algo que Sócrates nunca conseguiu
entender.
A provocação a Casagrande em relação ao fato de o colega ter se adaptado ao padrão global,
portanto, vinha acompanhada de outros fatores que colaboravam para que o Doutor julgasse que
o amigo havia se afastado dos antigos ideais.
Ao mesmo tempo, aflorava em Casagrande alguns sentimentos negativos em relação a
Sócrates. Questões aparentemente superadas, tratadas até ali com bom humor, passaram a ter
uma leitura mais crítica. Como o hábito de o amigo se atrasar sempre — e bastante — para os
compromissos. “De um período da minha vida em diante, isso passou a ser muito desagradável.
Por ter morado fora tanto tempo, eu me habituei ao modo europeu, chego sempre no horário ou
até antes”, ressalta Casão.
Um desses atrasos o incomodava particularmente: o ocorrido em seu casamento, quando o
padrinho ilustre chegou muito depois da hora marcada para a cerimônia, superando de longe a
noiva, Mônica Feliciano — ex-jogadora de vôlei do Corinthians e do São Paulo. Por causa disso,
o casal se viu obrigado a substituí-lo às pressas no altar.
Esse episódio costumava ser contado aos risos por Casão, entre outras peculiaridades daquele
casamento um tanto fora dos padrões convencionais, realizado num sítio em Perus, distrito de
São Paulo, no dia 28 de outubro de 1985. O clima era de descontração durante a celebração, com
convidados de calças jeans, camisas de mangas curtas (algumas com os primeiros botões abertos
no peito), camisetas estampadas ou até mesmo de regatas. Em respeito à noiva, Casagrande se
espremeu em um smoking branco, com uma faixa azul na cintura e gravata borboleta. Porém,
desconfortável dentro do traje social, logo deu um jeito de trocar de roupa. Durante os
cumprimentos, ele pediu, cochichando, a seu camarada de infância Wagner de Castro — a quem
chama de Magrão, assim como Sócrates — que o jogasse na piscina. O amigo titubeou, mas pela
insistência do noivo, obedeceu a ordem. Casagrande ainda o puxou junto para a água, além de
um outro conhecido do bairro da Penha, onde crescera. Não satisfeito, ao sair da piscina, também
empurrou o zagueiro Oscar, do São Paulo, e o lateral Wladimir para dentro d’água.
Nesse contexto de acontecimentos inusitados e engraçados, Casão também incluía o enorme
atraso de Sócrates, muito além do aceitável. Casão precisara contornar a irritação de Mônica, o
desconforto dos convidados e a impaciência do padre, até que o sacerdote exigiu que se desse
início à celebração, pois tinha outros compromissos na paróquia. O jeito foi providenciar a
substituição do padrinho — Oscar, seu ex-companheiro no São Paulo, acabou escalado de última
hora. Assim como o zagueiro uruguaio Hugo de León tomou o lugar de Juninho, também
atrasado porque se encarregara de buscar o Doutor em casa, que estava com uma perna
imobilizada. A cerimônia estava marcada para as onze horas da manhã, mas Sócrates só chegou
quando já passava das treze — e provocando tumulto ainda por cima.
“O que é isso? Já começou? Espera aí, eu tenho algo contra esse casamento… ele não pode
ser consumado sem o padrinho”, gritava, com indisfarçável euforia etílica, para gargalhadas da
plateia e um ou outro comentário de desaprovação de parentes por aquela conduta invasiva. Nem
o padre conteve um risinho no canto da boca. Sócrates roubara a cena mais uma vez, num dia em
que os noivos deveriam ser os protagonistas.
Contada assim numa mesa de bar, como um “causo”, essa passagem parece bem divertida.
Porém, no momento em que aconteceu, não caiu bem. O comportamento de Sócrates foi, no
mínimo, indelicado com os noivos e seus familiares. Esse sentimento, mantido normalmente
submerso, viria à tona anos mais tarde, em 2006, durante um evento sobre a Democracia
Corinthiana organizado por Paulo César Caju no Jockey Club de São Paulo. Naquela ocasião, a
ideia era levá-los depois a um restaurante, para que os dois pudessem conversar e acertar os
ponteiros. Eu mesmo, Gilvan Ribeiro, havia combinado com ambos o encontro reservado — e
serviria como mediador. Porém, quando o atraso de Sócrates completou exatamente uma hora,
Casão se aproximou e me falou ao pé do ouvido: “Esqueça aquela ideia de sairmos juntos depois.
O cara não respeita ninguém, deixa todo mundo sempre esperando por ele, quer ser o centro das
atenções… Fez isso até no dia do meu casamento, mas já me cansei! Só não vou embora agora
em respeito ao Caju”, desabafou. Só naquele momento foi possível perceber o quanto a mancada
anterior do amigo o havia ferido.
Logo em seguida, Sócrates despontou no salão, provocando correria dos repórteres e
cinegrafistas que queriam registrar sua presença. O Doutor se aproximou da mesa, abraçou o
velho companheiro sem se desculpar ou ouvir qualquer reclamação, e os dois caminharam lado a
lado até o palco para se juntar a Wladimir e Caju. O evento transcorreu normalmente, com um
incrível entrosamento da dupla, que demonstrava tamanha afinidade a ponto de suscitar o
seguinte comentário de Caju durante a apresentação: “Esses caras são geniais, se entendem por
pensamento, estão fazendo tabelinhas com palavras!”.
Mas, intimamente, não havia todo aquele entendimento que transparecia em público. Embora
desse a impressão de que o mal-estar inicial fora superado, assim que terminou o show
Casagrande saiu rapidamente do local, sem se despedir do parceiro nem de ninguém. Atendeu
apenas a pedidos de fotos e autógrafos dos fãs que o interceptaram no caminho até a porta de
saída e arrastou-me pelo braço em direção ao seu carro. Por mais que eu argumentasse para ele
dar uma chance à paz, não houve jeito. Dirigiu transtornado, ansioso, costurando no trânsito
como não era seu hábito. Ligou do celular para um traficante, marcou encontro num posto de
gasolina e comprou um papelote de cocaína. Para meu constrangimento e apreensão, esticou
quatro carreiras ali mesmo, sobre a capa de um cd, o que me levou a pedir que me deixasse em
casa. Não iria suportar sua companhia naquele estado. Depois foi embora para seu apartamento
ruminar as sensações provocadas por aquele encontro com Sócrates e matar o que sobrara da
porção da droga.
“Teria mexido comigo muito menos se durante o evento nós não tivéssemos nos entrosado
tanto. Mas o cara deu uma mancada do caralho, inclusive com as pessoas que foram assistir ao
evento e pagaram para nos ver. Porque ele não foi de graça, nós fomos pagos para fazer aquilo.
Aí ele chega uma hora depois, com a maior cara de pau, e nem desculpas ele pede para ninguém.
Simplesmente me abraça, ‘e aí, Casão, beleza?’, e acha que está tudo certo. Subimos ao palco e
fizemos uma apresentação realmente bacana, superentrosados. Se eu continuo lá, a gente acaba
saindo de mãos dadas, de tão legal que estava. E não podia ser assim, tinha que cortar aquilo ali.
Aquele relacionamento lindo e maravilhoso, em público, não era real”, explica agora Casão, com
a clareza na análise proporcionada pelo tempo.
Porém, naquele exato instante, a sua cabeça dava voltas. Havia um sentimento dúbio. A raiva
e a indignação eram consequências do enorme amor que sentia pelo velho parceiro, transformado
em dor ao se julgar de alguma forma desprezado, posto em segundo plano. Já em casa, ainda
tinha ímpetos de regressar ao Jockey Club e tentar se acertar com o companheiro. Lembranças
boas do passado, recordações afetivas e aventuras em comum passavam como um filme por sua
cabeça. Uma equação que ainda levaria tempo para ser resolvida.
5
O início de tudo
C asagrande ainda era um moleque quando tomou conhecimento da existência de Sócrates, um
jovem e talentoso jogador do Botafogo de Ribeirão Preto que prometia se consagrar em breve
como craque. Por ser estudante de medicina na prestigiosa Universidade de São Paulo (usp) na
cidade do interior, Magrão treinava pouco com o time. Os dirigentes lhe abriam exceção porque
sabiam se tratar de um fora de série e esperavam lucrar com ele não só dentro de campo, com
suas jogadas geniais para a equipe, mas sobretudo financeiramente, quando fossem negociá-lo
com um grande clube no futuro.
Aos dezoito anos, Sócrates estreou pelo time profissional do Botafogo-sp numa excursão ao
Mato Grosso, em 1972, e recebeu outras oportunidades no ano seguinte. Mas foi no Paulistão de
1974 que ele se firmou como um armador cerebral no meio de campo, com passes que
transformaram em artilheiro o centroavante Geraldão, contratado na temporada posterior pelo
Corinthians. A chegada do reforço, um goleador trombador e desprovido de técnica, deu origem
a uma piada no Parque São Jorge: a de que o presidente Vicente Matheus havia trazido a flecha e
deixado em Ribeirão Preto o arco, que evidentemente era Sócrates.
Com onze anos nessa época, Waltinho, como Casagrande era chamado pela família, começou
a ouvir seu pai, Walter, elogiar aquele jogador magrelo, em conversas com seus tios. Mas ele
mesmo só passaria a acompanhar e ter lembranças de Magrão a partir do Campeonato Paulista de
1977, quando o Botafogo-sp montou um esquadrão com Sócrates, Lorico e Zé Mário, sob o
comando do técnico Jorge Vieira, e conquistou a Taça Cidade de São Paulo, referente ao
primeiro turno da competição.
“A primeira vez que vi o Sócrates em ação foi exatamente na decisão daquele turno, contra o
São Paulo, no Morumbi, porque esse jogo passou na televisão”, recorda Casagrande. “Ele até fez
um puta golaço. Como tinha a perna comprida, ele a esticou e chegou antes do adversário, deu
um biquinho na bola para tirá-la do marcador, depois driblou o Waldir Peres e fez o gol. O juiz
anulou, alegando que ele tinha solado, mas não houve a falta.” O jogo terminou com o placar em
branco, e o Botafogo-sp foi campeão porque jogava pelo empate.
O que mais impressionava Waltinho era o porte físico de Sócrates. “Por ser tão alto e magro,
ele desenvolveu um estilo próprio de jogar, usando bastante o calcanhar e a inteligência. Numa
partida contra o Santos, na Vila, ele fez dois gols na vitória por 3 a 2, um deles, inclusive, de
calcanhar. Era um jeito diferente de jogar futebol, que ele encontrou porque seus pés, número 41,
eram pequenos para sua altura. Então, para não se desequilibrar ao tentar virar o corpo, e também
para dar velocidade ao jogo, adotou esse recurso. Começaram a falar muito nele, ele chegou a ser
cogitado inclusive para a seleção antes da Copa de 1978, mesmo atuando por um clube do
interior.”
Mas quem acabaria convocado para a seleção pelo técnico Cláudio Coutinho, e se tornaria
aliás o primeiro atleta do país a ser chamado enquanto defendia uma equipe interiorana, foi seu
companheiro Zé Mário. O ponta-direita disputaria apenas duas partidas com a camisa canarinho.
Em exames de rotina realizados pelo médico Lídio Toledo, descobriu que sofria de leucemia,
doença que o levou à morte pouco tempo depois, aos 21 anos.
Casagrande ficou chocado com a triste notícia e a perda precoce de um jogador tão promissor.
Nunca as atenções estiveram tão voltadas para o time de Ribeirão Preto, e Waltinho também não
conseguia entender por que Sócrates permanecia tanto tempo no Botafogo-sp, mesmo se
destacando desde 1974. “Eu via notícias de que o São Paulo, o Corinthians, vários clubes
estavam interessados em contratá-lo, mas a temporada seguinte começava e ele continuava lá.
Não compreendia esse comportamento, até que li uma reportagem que explicava o motivo: o
Sócrates estava estudando medicina e queria concluir a faculdade. Achei sensacional! Precisa ter
muita personalidade para recusar ofertas financeiras atraentes, além da realização do sonho de
jogar num clube grande, para completar os estudos. Passei a admirá-lo ainda mais”, ressalta
Casão.
Até que, em 1978, finalmente, Sócrates foi contratado pelo Corinthians. Alertado por um
dirigente de que o São Paulo estava prestes a comprar o passe do Doutor, o folclórico presidente
Vicente Matheus idealizou uma estratégia digna de sua fama de velha raposa do futebol.
Orientou seu irmão, Isidoro Matheus, que também integrava a diretoria, a fazer uma proposta ao
clube do Morumbi para contratar o volante Chicão — os são-paulinos então passaram a contar
com esse dinheiro, que entraria no caixa, para concluir a transferência de Sócrates. Enquanto os
tricolores negociavam com Isidoro, que propositalmente esticava ao máximo as tratativas,
Vicente Matheus embarcava na surdina para Ribeirão — oficialmente, anunciara que iria a
Buenos Aires tentar fechar com ninguém menos que Maradona — e acertava tudo para levar o
craque do Botafogo-sp.
Pronto: o destino havia se incumbido de colocar Sócrates no caminho de Casagrande, que
desde 1976, aos treze anos, passara a treinar no dente de leite do Corinthians, seu time de
coração. “Antes eu jogava na Portuguesa, mas era supercorinthiano, assim como toda a minha
família. Então, um dia, eu passei de ônibus em frente ao Parque São Jorge e vi uma faixa
estendida no portão: ‘Abertas as inscrições para a peneira no dente de leite do Corinthians’. Aí
eu desci do ônibus na hora, preenchi um formulário, depois fiz o teste e fui aprovado. O acaso
mudou minha vida.”
Waltinho praticamente não saía do Parque São Jorge. Além de treinar nas categorias de base,
gostava de acompanhar a preparação da equipe profissional para ver seus ídolos de perto, como o
lateral-direito Zé Maria, e até os treinamentos de outros esportes, como basquete e vôlei, tanto do
time masculino como do feminino. Assim, testemunhou os primeiros treinos de Sócrates no
clube alvinegro. Ficava encantado com a classe, a habilidade e a visão de jogo daquele magrelo
espetacular.
“Eu observei o Sócrates por três anos, pois me interessava muito saber como um cara daquele
tamanho conseguia fazer jogadas com rapidez. Porque nosso porte físico era parecido e, assim
como ele, eu não tinha tanta velocidade. Os outros tinham muito mais do que a gente. Então
estudei muito o estilo dele para construir a minha carreira profissional. Eu não possuía a
categoria do Magrão para dar um passe de calcanhar, mas percebi que podia desenvolver minha
inteligência para jogar.”
Enquanto aprendia com o ídolo, sem sequer imaginar que um dia formariam uma dupla
histórica, Casagrande vibrava com outra parceria de sucesso do Doutor no Corinthians: aquela
formada com Palhinha. As tabelinhas dos dois se tornaram célebres e provocaram comparações
com a troca de passes entre Pelé e Coutinho no Santos das décadas de 1950 e 1960.
Àquela altura, embora na base, Casão já vivia a emoção de participar de um ou outro treino
entre os profissionais. Mas era como torcedor que ele acompanhava com prazer a afinação dos
dois ídolos. “Eu jogava com a molecada na preliminar e depois ia para a arquibancada assistir
aos jogos do time profissional. Tenho alguns flashes na cabeça, como aquele toque de calcanhar
do Sócrates para o Palhinha na decisão do primeiro turno do Campeonato Paulista de 1978, no
Morumbi. Foi um dos lances mais maravilhosos que já vi no futebol.”
Não é exagero. Nessa jogada de rara beleza plástica, Sócrates desmonta a marcação de seis
santistas com um único passe magistral. Após receber a bola na intermediária do campo de
ataque, no lado esquerdo, de costas para o gol, dá um lançamento longo de calcanhar para
Palhinha, que invade a área. O atacante dribla o goleiro Vitor e é derrubado. Na cobrança do
pênalti, Zé Maria desperdiça a chance. Mas Palhinha se encarregaria de fazer o gol da vitória aos
35 minutos do segundo tempo, garantindo a conquista da Taça Cidade de São Paulo, como
campeão do primeiro turno.
Palhinha, aliás, é menos cultuado no Parque São Jorge do que merece. A sina de acabar
encoberto parece persegui-lo. Em 1977, quando o Corinthians quebrou o jejum de 22 anos sem
título, era ele o craque do time, o mais habilidoso e decisivo jogador. Fez um campeonato
brilhante e o gol no primeiro jogo da final contra a Ponte Preta: após chutar da entrada da grande
área, a bola bateu no goleiro Carlos, que se adiantara, retornou em direção ao rosto do atacante e,
após explodir em seu nariz, caprichosamente se encaminhou para o fundo da rede. Aquele gol foi
tão importante para a conquista da taça quanto o de Basílio, no terceiro e derradeiro confronto
com o time de Campinas, mas, como Palhinha estava suspenso e não saiu na foto de campeão,
terminou relegado quase ao esquecimento. E Basílio, um meia eficiente, porém sem tanto brilho,
viu-se bafejado pelos deuses do futebol. Até hoje é celebrado como herói alvinegro.
Processo semelhante se deu em relação à dupla com Sócrates. Embora tenha formado uma
parceria de sucesso com Magrão, Palhinha seria eclipsado pela união entre Sócrates e
Casagrande, que, além de se entenderem perfeitamente em campo, ainda se tornaram símbolos
da Democracia Corinthiana, com toda a mística que cerca o movimento que influenciou até os
rumos políticos do país. Não resta dúvida de que o entrosamento deles fora dos gramados
também alimentou a performance dentro das quatro linhas. Criou-se uma admirável simbiose.
Em 1980, enquanto Palhinha deixava o Corinthians, o garoto Casagrande subia para o elenco
profissional, pelas mãos do técnico Orlando Fantoni, que permaneceu pouco tempo no cargo,
depois de ter entrado em choque com Vicente Matheus. Em seus passos iniciais entre as feras
consagradas, o novato procurou ficar na dele, tentando mostrar serviço e se inspirando nas cobras
criadas. Extasiava-se, sobretudo, com Sócrates. “O cara era diferente mesmo, jogava muita bola.
Muito superior aos outros nos treinos do Corinthians.”
Porém, o estilo “amigão” de Fantoni, que durou apenas treze jogos no comando da equipe, foi
logo substituído pelo pulso firme de Oswaldo Brandão, bem mais durão e disciplinador.
Treinador que mais vezes comandou o time alvinegro, Brandão tinha a autoridade de quem
ganhou títulos importantes para o clube, como o do Campeonato Paulista do iv Centenário da
Cidade de São Paulo, em 1954, e a joia da coroa: o Paulistão libertador de 1977.
Não demorou para que Brandão e Casagrande entrassem em colisão. Certo dia, o treinador se
aproximou do iniciante, que até então apenas treinava entre os profissionais, e comunicou sem
rodeios: “Arruma a mala, garoto, que tu vais viajar com o time”. O atacante ficou eufórico, afinal
seria a primeira vez que ele faria parte da delegação principal do Corinthians. Apressou-se em ir
para casa, mal podia esperar para contar a boa nova aos pais. A notícia foi recebida com
entusiasmo pela família. Após abraçar o filho e lhe dar parabéns, seu Walter saiu imediatamente,
com uma ponta de preocupação. Completamente duro, ele se virou do avesso com o propósito de
conseguir o dinheiro necessário para comprar roupas e uma mochila para o filho não fazer feio
diante dos jogadores já consagrados. No fim do dia, retornou exultante com os presentes para
Waltinho. Era uma alegria só. Mas o que parecia um sonho logo se transformaria em pesadelo.
Casagrande mal conseguira dormir naquela noite, de tanta ansiedade. Na manhã do dia
seguinte, pulou da cama cedinho, para não correr o menor risco de se atrasar, e foi se juntar à
delegação. Já no aeroporto, seu castelo desmoronou com uma frase direta de Brandão, que quase
o nocauteou, como se fosse um murro no queixo: “Pode voltar, menino, você não vai com a
gente, não! O Geraldão renovou contrato nessa madrugada e a sua presença não é mais
necessária. Volta para treinar lá no Parque São Jorge”.
O garoto entrou em parafuso. Sentiu-se humilhado com sua mochila recém-comprada nas
costas e a expressão de desilusão estampada no rosto, ali na frente de todos os outros jogadores.
E o que iria falar para a família quando voltasse para casa, após os pais terem celebrado com ele
a suposta ascensão na carreira? Numa explosão juvenil, partiu para cima do treinador com toda a
sua indignação. Faltou pouco para eles se engalfinharem no aeroporto.
Depois de tamanho sururu com o chefe, claro que Casagrande precisou conversar com o
presidente Vicente Matheus para resolver a questão disciplinar. O cartola se surpreendeu com a
audácia daquele fedelho que falava de igual para igual e não demonstrava qualquer
arrependimento ou disposição de se desculpar com Brandão. Ouviram-se berros e tapas na mesa.
No final do encontro, Casagrande comunicou ao cartola que não jogaria mais pelo Corinthians e
deixou a sala da presidência inclinado até mesmo a encerrar a carreira no futebol.
A partir dali, para desespero dos pais, Casão deixou de comparecer aos treinos. Inflexível e
alheio aos conselhos da família, mantinha-se firme à ideia de abandonar o esporte. Porém, ao
perceber que a ausência do garoto no clube se prolongava além da conta, Matheus mandou um
carro pegá-lo em casa para resolver a questão de uma vez por todas. A saída foi emprestá-lo para
a Caldense, de Minas Gerais.
Dessa forma, afastou-se o risco de o Corinthians perder um talento lapidado desde a infância
nos campos de treinamento do clube, e Casagrande pôde estrear como profissional pelo time
mineiro, em 1981. Ele terminaria o Campeonato Mineiro como vice-artilheiro e apontado como
principal revelação. Ficou valorizado e não pretendia retornar ao Parque São Jorge ao final do
empréstimo. Ainda não engolira os desaforos de Brandão e o autoritarismo de Matheus. O
treinador havia caído em julho, após uma série de maus resultados, mas o cartola parecia ser uma
figura eterna ali. Portanto, julgava melhor se transferir para o Atlético ou o Cruzeiro, clubes
mineiros que haviam manifestado interesse em sua contratação após a boa performance no
campeonato estadual. Chegou a ficar bem perto do Cruzeiro, que traçou até um plano para levá-
lo por um custo mais baixo. O projeto consistia em usar como ponte o América-rj, que tinha um
time forte na época, mas dimensão menor. O preço haveria de ser mais em conta, então ele
atuaria lá uma temporada e iria para o Cruzeiro na seguinte, driblando Matheus.
Os planos mudaram, entretanto, pela intervenção do técnico Mário Travaglini, que havia
assumido o comando do Corinthians. O treinador acompanhara de longe o sucesso do prata da
casa em Poços de Caldas, tomara referências dele com conhecidos e estava disposto a incluí-lo
no elenco para a temporada de 1982. Isso não era o que Casagrande tinha imaginado, mas ele
saiu bem impressionado da conversa com Travaglini, um sujeito de fala mansa, ponderado e
aparentemente aberto ao diálogo. Além do mais, o passe de Casão estava preso ao Corinthians,
que tinha o poder de trazê-lo de volta por força do vínculo. Não restava alternativa, portanto, a
não ser suportar o caudilho Matheus.
Os caprichos do destino, porém, conspiravam para que uma nova era nascesse no Parque São
Jorge. Casagrande retornou no exato momento em que uma guinada política acontecia no clube.
Nas últimas eleições, impedido pelo estatuto de se reeleger mais uma vez, Matheus driblara a
legislação ao lançar Waldemar Pires, seu vice nas duas administrações anteriores, como cabeça
de chapa. Ele próprio ficaria como vice, numa inversão de posições apenas no papel, pois era
público e notório que o até então inexpressivo Pires seria só um testa de ferro. Na prática,
Matheus continuaria a exercer o poder: estacionava seu carro na vaga reservada ao presidente,
sentava-se na cabeceira da mesa nas reuniões de diretoria e, acima de tudo, mandava e
desmandava no clube. Ele só não contava que o tratamento de subalterno dispensado a Pires
fosse levá-lo a virar a mesa. Cansado de ser destratado pelo cacique do clube, e ignorado por
jornalistas, jogadores e membros da comissão técnica, que sempre se dirigiam a Matheus para
resolver qualquer questão, o presidente decorativo decidiu fazer valer seu cargo e exercer de fato
o mandato conquistado nas urnas.
Assim que Pires pôs as mangas de fora, Matheus resistiu a perder a hegemonia, travou um
braço de ferro, mas acabou gradativamente anulado. Para viabilizar sua gestão, o novo presidente
tratou de fazer uma composição de forças com outros caciques do clube e, nesse contexto,
nomeou o sociólogo Adilson Monteiro Alves para cuidar da administração do futebol. Jovem e
inexperiente naquele meio, ele vinha por indicação do próprio pai, o conselheiro e vice-
presidente de futebol Orlando Monteiro Alves. A princípio, o novo cartola foi recebido com certa
desconfiança. A indicação nepotista soava como mais um brinquedo para o filhinho de papai se
divertir ao lado dos ídolos de seu time do coração.
Porém, quando foi apresentado ao elenco, logo nas primeiras conversas, mostrou
personalidade e ideias avançadas. Formado pela usp, trazia na bagagem a militância no
movimento estudantil em oposição à ditadura militar. Ex-dirigente da União Estadual dos
Estudantes (uee) e da União Nacional dos Estudantes (une), chegara a ser preso, em 1968,
durante o Congresso da une em Ibiúna, no interior de São Paulo. Ao tomar conhecimento desse
histórico combativo e ouvir as propostas que Adilson pretendia pôr em prática, Sócrates resolveu
lhe dar um voto de confiança. Com o apoio do principal líder do time e a disposição do novo
cartola para mudar as rígidas estruturas vigentes no futebol, estava montado o cenário para o
surgimento do movimento mais revolucionário da história do esporte brasileiro.
Diante das novidades que se anunciavam, Casagrande ficou mais animado em permanecer no
Corinthians. Em uma conversa franca com Adilson Monteiro Alves, ficou acertada a renovação
de seu contrato por três meses, tempo suficiente para ele comprovar se as promessas de
modernização administrativa seriam cumpridas e, por outro lado, para o clube avaliar se aquele
garoto que explodira na Caldense iria prosseguir em ascensão e justificar sua presença em um
clube dessa grandeza.
Faltava agora a chance para mostrar serviço com a camisa alvinegra. Casagrande foi
incorporado ao elenco como reserva de Mário, e ainda havia diversas alternativas de jogadores
mais rodados para o ataque. Ele sabia do risco de nem sequer ter a chance de provar seu valor,
pois o tempo de contrato era curto. Mais uma vez, no entanto, o desenrolar dos acontecimentos o
ajudou: o centroavante titular se machucou, outros reservas não estavam bem, e Mário Travaglini
decidiu escalá-lo na partida contra o Guará, no Pacaembu, pela Taça de Prata do Campeonato
Brasileiro, dia 3 de fevereiro de 1982. A sua estreia não poderia ter sido um melhor cartão de
visitas: fez quatro gols na vitória por 5 a 1.
Com um início desses, ele naturalmente cavou seu espaço na equipe. No jogo seguinte,
voltaria a balançar a rede no triunfo por 3 a 1 sobre o Leônico, na Fonte Nova, em Salvador. O
Corinthians disputava a segunda divisão do Campeonato Brasileiro porque terminara o Paulistão
de 1981 apenas na oitava colocação — e o torneio estadual servia como ranking para o
Brasileirão. Porém, havia a ambição de alcançar a série principal, ao lado de clubes à altura de
suas tradições, naquela mesma temporada. O regulamento absurdo previa um cruzamento entre
as duas divisões, com o ingresso na Taça de Ouro — já em sua fase decisiva — dos times com
melhor desempenho na Taça de Prata. E o Corinthians seguia firme nesse caminho com um
centroavante formado na base que acendia a esperança da Fiel. Antes de sua estreia, a equipe
havia vencido o América-rj, mas apenas empatara com o Colatina-es, por 1 a 1, no Pacaembu, e
com o Catuense em Alagoinhas-ba, em 0 a 0. Agora, com a presença daquele novo número 9
cabeludo, o ataque nitidamente ganhara força.
Casagrande andava feliz da vida, com o peito estufado e cheio de si. Mas ainda lhe faltava
algo fundamental: jogar ao lado de Sócrates, ausente das duas partidas anteriores por causa de
uma contusão. O sonho do novato de formar dupla com o craque que tanto admirava, desde a
infância, iria ser realizado na partida seguinte, contra o Fortaleza, no Castelão. Em decorrência
da lesão do craque, os dois praticamente não puderam treinar juntos. “Eu só percebi que
combinávamos bem em campo no meio desse jogo. Nós ganhamos por 4 a 2, com três gols do
Zenon e um do próprio Sócrates, mas eu participei dos quatro gols. Em tabelas com ele, nós
deixamos o Zenon em condições de marcar. E o gol do Sócrates também saiu após tabelar
comigo”, recorda Casão.
Na sequência, veio a vitória sobre o Campinense-pb por 2 a 1, no Pacaembu, com um gol de
Casagrande. Novamente os dois se entenderam bem. “Depois de um cruzamento, ele ajeitou de
cabeça para eu marcar. Aí nossa parceria começou a fluir, ele dava passe para eu fazer gol, eu
dava passe pra ele, o caramba, a coisa foi evoluindo cada vez mais.”
O time alvinegro parecia ter se ajustado, sobretudo com o entendimento dessa dupla de
ataque. Restava, porém, uma prova definitiva contra um adversário mais graduado. Isso
aconteceria com o ingresso do Corinthians na Taça de Ouro, num grupo com Internacional,
Atlético-mg e Flamengo. “Aí houve mais uma confirmação de que a gente se encaixava
perfeitamente. Esse pensamento me ocorreu novamente durante o jogo contra o Inter, um time
forte, difícil de ser batido, principalmente em Porto Alegre. Ganhamos por 2 a 0, com o primeiro
gol meu e o outro, dele. Pensei: caraca, essa dupla é capaz de decidir jogos difíceis! Começou a
ficar claro pra todo mundo que a gente era importante, tanto para o time como um para o outro.”
Mal sabia ele que aquilo era apenas o começo. Não só muitos gols ainda viriam pela frente,
como também uma parceria nos botecos, na noite, nas salas de espetáculo e, surpreendentemente,
nos movimentos políticos em combate ao autoritarismo no futebol e à repressão da ditadura
militar. De alguma forma, a sua personalidade desafiadora cativaria a estrela principal da
companhia.
6
Salvo pela loucura
Q ualquer jovem jogador ficaria tenso por formar dupla com Sócrates no início da carreira.
Sentiria a responsabilidade de atuar ao lado de um astro, capitão da seleção brasileira que iria
disputar naquele ano de 1982 a Copa do Mundo, na Espanha, e tão especial que mais tarde
entraria na lista dos cem melhores jogadores da história, elaborada por Pelé para a Fifa. Ainda
mais sendo um ídolo do próprio Casagrande, que antes de mais nada era torcedor corinthiano
desde a infância. Tudo isso poderia pesar em suas costas, afinal ele não passava de um novato
recém-chegado da modesta Caldense. Mas Casão não se intimidou em nenhum momento, ao
contrário, deixou todos boquiabertos ao ter o topete de reclamar e até dar broncas na estrela da
companhia durante as partidas. “Esse cara é louco”, comentavam torcedores, entre si, ao ver
aquele moleque cabeludo, de andar desengonçado e meiões arriados na canela, gesticular como
um doido para o craque do time do Corinthians.
“Eu tinha uma vantagem… Com o passar do tempo, ficou sendo um defeito, uma coisa que
me fez mal e prejudicou minha vida pra caramba, lá na frente, mas no início eu ser um cara
muito louco me ajudou bastante. Porque eu era completamente desencanado. Eu não ficava
pensando muito: pô, é o Sócrates! Nada disso. Eu entrava em campo pra jogar, foda-se! Fumava
minha maconha no sábado à noite, concentrava no domingo, ia lá, jogava, e não estava nem aí.
Por isso, a parceria funcionou. Eu ser muito louco naquela época, com dezenove anos, me ajudou
a não ficar pensando na dificuldade de jogar com um gênio do lado”, analisa Casagrande.
Ele contesta o senso comum de que é muito fácil jogar ao lado de um fora de série. Sem falsa
modéstia, tem consciência do seu valor como principal parceiro do Doutor no futebol. “É
completamente o contrário do que as pessoas pensam. Já ouvi muita gente falar assim do
Coutinho: ‘Pô, jogar ao lado do Pelé é moleza!’. Mas nós sabemos como é muito mais difícil
entender a cabeça de um gênio. Então, eu me vejo com méritos nessa história.”
Quando começaram a jogar juntos, Casagrande não tinha noção de que os dois acabariam se
tornando tão próximos. A primeira percepção de que havia uma sintonia especial surgiu com a
constatação de que as jogadas de um quase sempre encontravam correspondência no toque do
outro. “Foi um lance muito interessante o que aconteceu comigo e com o Magrão. Uma coisa
meio inexplicável e, pode-se dizer assim, até mágica e assustadora. Você pegar um gênio como o
Sócrates, com toda aquela inteligência futebolística, classe, habilidade, técnica, visão de jogo,
sensibilidade, percepção de jogadas… é algo fora do comum. Porque o Sócrates era muito
imprevisível, ele antecipava tudo, e o seu parceiro precisava entender o seu pensamento com
rapidez.”
Casagrande nem sabe explicar racionalmente, mas o fato é que de forma intuitiva conseguia
acompanhar a geometria que se desenhava na cabeça do Doutor. “É até engraçado falar, mas as
jogadas dele eram tão elaboradas, às vezes complexas mesmo, que podiam acabar fodendo o
centroavante. Quando ele pegava na bola, a gente não sabia o que ia acontecer. Se você marcasse
bobeira e não acompanhasse minimamente o pensamento dele, iria ficar perdido e acabar
desmoralizado. Porque ia correr toda a hora para o lado errado. Nesse sentido, é mais cômodo
atuar com um jogador comum, porque a gente sabe exatamente o que se pode esperar dele”,
acrescenta.
Rapidamente Casão percebeu que era o jogador mais acionado por Sócrates em campo. Em
parte, claro, por ser o centroavante, teoricamente o atleta especializado em finalização, mas
também porque o parceiro percebeu que ele tinha condições de dar prosseguimento às jogadas.
Muitas vezes, até invertiam as funções, com o camisa 9 preparando a bola para a conclusão do
colega. “Eu sabia que ele ia me procurar, porque nós formávamos uma dupla de ataque, então a
minha primeira opção sempre era passar a bola para ele, assim como a primeira opção dele era
passar a bola para mim. Só que eu precisava descobrir a forma como ele ia passar essa bola. Ele
ia dar de calcanhar, de chaleira, ia enfiar a bola na frente, atrás, jogar em cima de mim? Quando
começou a ficar claro o quanto nós nos entrosávamos, isso se tornou algo surpreendente. Até
certo ponto inacreditável.”
Mas havia uma explicação: Casagrande não se limitava a um centroavante com faro de gol,
sólida estrutura física, alto, cabeceador eficiente, com ótima técnica e certa habilidade. Ele
descobriu ali que também podia ser um pensador. “Eu precisava ter na cabeça várias hipóteses
que podiam se concretizar com a genialidade do Sócrates. Eu não era gênio nem o craque que ele
foi, mas tinha características de jogador que completavam as dele, além de ser inteligente
jogando. Acho que essa foi a minha maior virtude como jogador de futebol: futebolisticamente,
era inteligente. Eu ocupava o espaço vazio certo e, quando um companheiro meu pegava na bola,
já imaginava três ou quatro possibilidades do que ele poderia fazer.”
A afinidade em campo também passou a se refletir no dia a dia. Naquela altura da carreira,
Sócrates tinha uma personalidade ainda contida e conversava pouco com os colegas de equipe.
“O Magrão era realmente fechadão. Entrava no vestiário, falava ‘bom dia, bom dia’, sentava no
banco para se trocar, ia para o campo e treinava quieto. De repente, eu comecei a perceber que
ele passou a ficar mais perto de mim, me procurava para fazer exercícios em dupla,
alongamentos. Durante o treino, ele falava: Big [essa era a forma como costumava se referir a
Casão], vamos tomar uma cerveja lá no Bar da Torre [tradicional boteco dentro do próprio
clube]? Aí eu saquei: porra, o cara gosta de mim e se deu bem comigo, tanto jogando quanto fora
de campo.”
Casagrande ainda teve a sorte de ter deixado boa impressão em Sócrates desde a largada. O
craque ficou tão impressionado com a desenvoltura daquele moleque na primeira vez que
jogaram juntos, na goleada por 4 a 2 sobre o Fortaleza, no Castelão, que o convidou para
acompanhá-lo na noite cearense. Juntamente com o lateral-direito Zé Maria — justamente o
Super Zé, o maior ídolo de Casão na infância, ao lado de Rivellino —, foram a um barzinho se
encontrar com o cantor e compositor Fagner. “Aquilo para mim, um moleque de dezoito anos,
foi sensacional. Conhecia o Fagner dos lps e da televisão. Achava incrível estar ali tomando
cerveja com aqueles três caras que eu admirava tanto. Eram meus ídolos. A noite estava tão
bacana que ficamos lá até as cinco da manhã, quando fechamos o bar e voltamos para a
concentração”, recorda Casagrande.
O que se iniciou como um acontecimento extraordinário, destinado a comemorar a goleada e
o entendimento da dupla que disputara uma partida pela primeira vez, iria se tornar habitual com
o tempo. Acabava o treino, e lá iam os dois para o Bar da Torre, o que provocava comentários
críticos da oposição, que não se conformava em ver dois jogadores profissionais tomando cerveja
ali mesmo, no boteco encravado no coração do Parque São Jorge, na frente de todo mundo,
associados, conselheiros e diretores. Mas eles não estavam nem aí, se divertiam a valer, davam
tanta risada que a musculatura da barriga chegava a doer. E também tratavam de assuntos sérios.
Como a possibilidade de se instituir votações no elenco para deliberar a respeito das decisões
referentes ao time. Entre um gole e outro de cerveja, debatiam a ideia da concentração opcional,
a participação dos atletas na arrecadação dos jogos do Corinthians, então a principal fonte de
receita do clube, e, claro, a inserção política para combater o aparelho repressivo instalado pela
ditadura militar dezoito anos antes.
Depois de ficarem bebendo até o início da noite, falando bobagens ou confabulando e
tramando contra o regime, frequentemente os dois passavam rapidamente em casa, tomavam um
banho para se renovar e voltavam a sair mais tarde, uma espécie de segundo turno em barzinhos
ou casa de shows. Quase sempre Sócrates ia acompanhado de sua primeira mulher, Regina,
enquanto Casão, ainda saindo da adolescência, aparecia sozinho em busca de aventuras. A
diferença de idade, de nove anos e dois meses, não criava uma barreira para o relacionamento.
“Era uma troca. Eu dava a juventude pra ele e recebia conhecimento”, diz Casagrande. Mesmo
numa fase bem mais madura da vida, e casado, Magrão tinha prazer em conviver com aquele
garotão porra-louca — termo em moda na época para designar sujeitos impulsivos, contestadores
e sem muito juízo, usado inúmeras vezes em referência ao camisa 9 corinthiano.
“Acho que uma das coisas que nos ligaram, no início, foi exatamente isso. Ele achava
engraçadas certas coisas que aconteciam comigo durante a madrugada. Eu tinha dezenove anos e
era muito atirado. Não precisava dar satisfação a ninguém, não era casado nem namorava, não
fazia porra nenhuma além de jogar bola. E ele ficava olhando os meus movimentos, eu estava
começando a carreira de jogador de futebol e me deslumbrava com as facilidades que tem uma
pessoa famosa. O Sócrates encontrava-se em outro estágio, já jogava havia um tempão, tinha
disputado Copa do Mundo, estava ali com a mulher, então ele se divertia com minhas atitudes e,
de certa forma, talvez até rejuvenescesse.”
Certa vez eles foram ao Victoria Pub, na alameda Lorena, em São Paulo, e Casagrande se
apaixonou por uma das garçonetes. Houve os flertes iniciais, ela correspondeu, e o atacante
corinthiano ficou eufórico com a possibilidade de conhecer a linda garota, digamos, mais
intimamente. “Porra, o bar fechava às sete horas da manhã e, para sair com ela, eu tinha que
esperar o sol nascer. O Magrão ficou horas tirando onda da minha cara porque eu estava
deslumbrado com a moça”, conta Casão. “Agora se fodeu, hein? Se tivesse se apaixonado por
outra menina, tudo bem, você sairia com ela já. Mas, para rolar alguma coisa com a garçonete,
vai ter de esperar até amanhã de manhã. Isso que é legal, o amor não segue conveniências”,
dizia-lhe Sócrates, às gargalhadas.
Em outra ocasião, durante uma excursão do Corinthians, a delegação chegou ao aeroporto de
Miami às dez horas da manhã. Porém, o voo de volta ao Brasil sairia somente às onze horas da
noite. Os dois não tiveram dúvidas sobre o que fazer para passar o tempo. “Nós sentamos num
bar do aeroporto e ficamos bebendo cerveja o dia inteirinho, sentados ali durante dez horas, sem
sair do lugar, até o horário de embarque. Não comemos nada, porra nenhuma, e só nos demos
conta disso quando chamaram nosso voo pelo alto-falante”, relata Casão. Deu tempo só para
pagar a conta e juntar mochilas e sacolas antes de se reunir com o restante da equipe.
“Aí entramos no avião com uma puta fome e perguntamos para o pessoal que estava nas
poltronas mais próximas se eles tinham alguma coisa para comer. Os caras falaram assim: ‘O
Solitão comprou um cachorro-quente gigante e guardou dentro da bolsa para dar ao Solitinho no
Brasil’. A gente ficou louco pelo sanduíche do cara, salivava só de pensar naquele salsichão que
os americanos colocam no hot dog. Mas não teve acordo”, lamenta Casão. O goleiro defendia o
lanche como se fosse a bola decisiva de um jogo pelo título. A dupla esperava o colega se distrair
ou cochilar para tentar tirar o objeto de desejo escondido na mala de mão. Mas Solito sempre
percebia e fechava o ângulo: “Vão se foder, tô levando para o meu irmão!”, rebatia. Sócrates e
Casão não se conformavam. “O Solito era bobo, um absurdo guardar o hot dog dentro da bolsa.
Imagina como ia chegar ao Brasil! Até o Solitinho pegar aquele embrulho, o cachorro quente já
deveria estar passado, com mostarda e ketchup vazando pra todo lado. Então nós ficamos metade
do voo tentando pegar o sanduíche dele”, recorda Casão.
Nem sempre, porém, Casagrande acompanhava Sócrates na cerveja. “Na realidade, eu não era
muito de beber. Comecei a beber para fazer companhia a ele, para ficar batendo papo no boteco.
Não que o Sócrates tenha me incentivado, foi algo natural”, conta o ex-atacante. No entanto,
quando os dois saíam juntos e Casão se recusava a dividir uma gelada, o amigo ficava
ressabiado. “Ele tinha uma teoria maluca em relação a mim, coisa da cabeça dele. Bastava eu
pedir uma coca-cola para ele pensar que eu havia usado alguma droga. Já ficava puto,
resmungando: ‘Caralho, já vi tudo…’”, relembra.
O Doutor nunca aprovou que o parceiro usasse drogas, embora evitasse lhe passar sermão.
Em primeiro lugar, porque cultivava um espírito liberal, com respeito às opções pessoais de cada
um, e também porque não teria moral para criticá-lo, afinal tomava quantidades industriais de
cerveja. No máximo, preocupado com a exposição de Casagrande e o risco de ser preso pela
polícia, que lhe submetia a blitze praticamente diárias, o amigo o advertia para tomar cuidado.
Um escândalo dessa natureza colocaria em xeque sua carreira promissora e até mesmo o projeto
da Democracia Corinthiana. Algo que de fato iria acontecer na noite do dia 23 de dezembro de
1982, em frente à casa de um amigo, seu vizinho na Penha. Embora admita que tivesse cheirado
cocaína na véspera, até hoje Casão sustenta que não portava droga naquele momento. Porém, os
policiais apresentaram um vidrinho com pequena quantidade de pó supostamente encontrado em
sua bolsa. Como também acharam o canhoto de um ingresso de um show de Gilberto Gil, ao
qual ele havia assistido no Rio, logo trataram de estabelecer uma conexão absurda, sugerindo que
o cantor baiano havia lhe dado o entorpecente. “Pois é, o Gilberto Gil e a Rita Lee já foram
pegos. Um garoto de bosta, como você, não ia escapar, né?”, provocou um dos pms.
Em vez de levá-lo diretamente à delegacia para registrar o flagrante, os policiais primeiro
avisaram a imprensa e deram voltas com o camburão pela região, até que os jornalistas
chegassem ao distrito para filmá-lo e fotografá-lo. Um duro golpe na imagem da Democracia
Corinthiana, usado pelos adversários políticos na tentativa de desmoralizar o movimento.
Sócrates, evidentemente, ficou preocupado com o incidente. Tanto pelas consequências
penais que poderiam prejudicar a carreira do amigo, quanto pelo desgaste do projeto no clube.
Mesmo assim, foi solidário e fez tudo para ajudar Casão a se livrar do processo penal. Inclusive
se dispôs a ser uma das testemunhas de defesa, para atestar que se tratava de um atleta
profissional que sempre agira corretamente no ambiente de trabalho. Porém, nem a gravidade da
situação impedia o seu humor característico. “Pode ficar sossegado, Big, eu vou falar lá que
nunca te vi com droga. Só estranhava quando você ia lá na risca branca do campo e se
agachava”, provocava, aos risos. “Isso é sério, Magrão, não vai me ferrar, né?”, rebatia o jovem
centroavante. Ao mesmo tempo, o Doutor aproveitou o escândalo para reforçar para o novato os
riscos que envolviam as suas atitudes. Casagrande acabou absolvido por falta de provas, já que
ficou a sua palavra de que fora vítima de armação contra a versão dos policiais. Mas teria de
redobrar os cuidados dali em diante.
Nesse cenário, por respeito, Casão não consumia drogas diante de Sócrates. Só duas vezes
fumou maconha na frente dele. “Uma vez, a gente estava voltando de um jogo do Campeonato
Paulista no interior, com amigos dentro do carro, quando um deles acendeu um baseado. O
Magrão só abriu a janela e foi o único que não fumou, mas também não falou nada.” Por sua
reação, no entanto, mesmo sem o parceiro ter se expressado verbalmente, Casagrande teve a
convicção de que jamais deveria repetir a dose. Mesmo assim, durante uma viagem a Fortaleza,
voltou a forçar a barra. Ele estava no quarto do hotel com Sócrates e Wágner Basílio quando
resolveu fumar um baseado. A desaprovação ficou clara.
Depois disso, houve uma outra saia justa num barzinho na Vila Madalena, quando os dois
saíram com um grupo de amigos. Dois deles, figuras conhecidas publicamente, convidaram
Casão para cheirar cocaína no banheiro. O trio foi ao toalete, como as mulheres costumam fazer
juntas, mas no caso deles com propósito apenas de conseguir alguma privacidade para bater o pó
e cheirá-lo, fora da vista dos demais clientes. Só que eles se distraíram, tocados pela cocaína, e
ficaram trancados ali batendo papo, alheios ao local apertado e ao cheiro de urina. Até que o
Doutor precisou se aliviar dos litros de cerveja ingeridos e se dirigiu ao mictório. Ele esperou
impaciente, parado junto à entrada, até não aguentar mais. Não houve jeito a não ser bater na
porta. “Acho que ele ficou vários minutos do lado de fora, ouvindo nossa conversa, e só bateu
quando se apertou para fazer xixi. O engraçado é que tomamos um susto. Quando abri a porta,
ele entrou rapidamente, falando assim: ‘Beleza, beleza, a conversa de vocês tá legal, mas eu
preciso mijar agora’.”
Apesar dessa diferença, os dois tinham muitos pontos em comum. As drogas não seriam
capazes de afastá-los se tantas afinidades os aproximavam, como a parceria no futebol, a visão
política semelhante, o interesse por eventos culturais e a propensão a paixões avassaladoras. Os
dois já haviam trocado muitas confidências a respeito de mulheres, e o maior caso de amor na
vida de Casagrande contaria com a intervenção direta de Sócrates. Um sentimento tão poderoso
que entraria na pauta de discussões coletivas durante uma assembleia da Democracia Corinthiana
no Japão.
7
Dores de amores
D urante bastante tempo Sócrates transmitiu a imagem de um sujeito muito racional e até mesmo
frio. O seu estilo cerebral de jogar, o discurso político com linguajar às vezes um tanto rebuscado
e o tom de voz monocórdio provocavam essa sensação. Suas análises objetivas e imparciais das
partidas das quais tomara parte como protagonista e a atitude de não comemorar gols — restrita a
certo período, como explicou no Arena Sportv — também reforçavam essa impressão de parte
do público. Mas nada mais falsa do que essa ideia. Na verdade, o Doutor era uma pessoa
vibrante, sempre com projetos ambiciosos, afetuoso com os amigos, dado a arroubos de alegria
quando tocado pelo álcool e, sobretudo, voltado para a realização amorosa. Tinha uma
necessidade visceral de estar permanentemente apaixonado e se doava sem limites quando uma
mulher conquistava seu coração.
Desde a adolescência, acusava esse ponto fraco. Incontáveis garotas de Ribeirão Preto o
haviam feito gemer sem sentir dor. Mas amor mesmo ele experimentou pela primeira vez quando
começou a namorar uma vizinha, Regina Cecílio, na cidade do interior. Ela morava na avenida
Presidente Vargas, e ele, logo virando a esquina, na rua Arthur Bernardes. “O Magro era um cara
muito apaixonado, né? Ele já fazia cursinho na época, mas acordava bem cedinho, todos os dias,
para ir com a Regina a pé para o Colégio Marista, que ficava a uns dois quilômetros de casa. Isso
todos os dias. Não faltava, era incrível!”, conta Sóstenes, o irmão mais próximo de Sócrates. Por
ser apenas um ano mais novo, Sóstenes estranhava tamanha disposição. “Ninguém fazia coisas
assim na nossa idade, com dezesseis, dezessete anos. Por mais paixão que tivesse, esse tipo de
atitude era atípica. É quase como o cara colocar o casaco para a mulher passar em cima. Uma
coisa assim exageradamente romântica.”
Tanta dedicação não foi em vão. No dia 29 de dezembro de 1974, aos vinte anos, Sócrates
subiu ao altar ao lado de Regina, completamente entregue à companheira que lhe daria quatro
filhos: Rodrigo, Gustavo, Marcelo e Eduardo. O casamento durou catorze anos, relação mais
estável e extensa de sua vida.
Além de Regina, Sócrates teve filhos com outras duas mulheres: a ex-tenista Silvana Campos,
mãe de Sócrates Júnior, o Juninho; e a dentista Maria Adriana Cruz, mãe de Fidel, o caçula,
nascido em setembro de 2005. Este último foi o único a quem o pai fez questão de dar o nome,
em homenagem ao ex-líder guerrilheiro que se tornou comandante “eterno” de Cuba. Havia um
acordo com as mães: se o rebento fosse homem, elas poderiam batizá-lo, mas caberia a ele essa
prerrogativa caso nascesse menina. Como todos foram garotos, o Doutor bateu o pé para pelo
menos uma vez deixar sua marca.
Não houve, porém, conflito com Adriana por esse motivo. Ela aprovou a ideia do marido de
batizar o filho de Fidel, ao contrário de dona Guiomar, mãe de Sócrates, e outros parentes, que
tentaram dissuadi-lo. O casal havia viajado para Cuba em 2001 na caravana de Luiz Inácio Lula
da Silva, então candidato a presidente da República, e ambos se encantaram com os avanços
sociais do país comunista. “Ficamos impressionados, todas as crianças falavam duas línguas e
praticavam esportes. Até pensei: quero criar os meus meninos aqui”, conta Adriana, que já tinha
dois filhos do primeiro casamento. A admiração aumentou com a leitura da biografia de Fidel
Castro. “Ganhei o livro de presente e conheci melhor a sua história. Era um cara rico que se
tornou revolucionário para lutar pelo povo. No princípio, ele cumpriu as ideias que pregava, mas
todo mundo que chega lá em cima acaba mudando para permanecer no poder”, acrescenta.
Se o nome do caçula não foi motivo de discórdia, os romances paralelos do Doutor
começaram a desgastar a relação. A intensa vida noturna, que no início a divertia, passou a
incomodar a mulher. “Ele levantava cedo, sete ou oito horas da manhã, tomava café, dava uma
caminhada e, por volta das dez horas, já abria uma latinha de cerveja e ia escrever no
computador. Às vezes, também jogava paciência. Depois do almoço, dormia um pouco e saía
para beber com os amigos a partir das quatro ou cinco horas da tarde. Bebia muita cerveja, mas
não ficava alterado. Só voltava pra casa às duas horas da manhã, no mínimo, quase todos os dias.
Até quando chegava às cinco da manhã, acordava cedo mesmo assim, tinha um pique difícil de
acompanhar. A vida dele era sempre uma festa, e eu me cansei um pouco disso. Quando um bar
fechava, mudávamos para outro e, se um desconhecido o convidasse para uma festa, a gente ia
mesmo sem conhecer ninguém”, conta Adriana.
Com a gravidez e o posterior nascimento do bebê, ela parou de acompanhá-lo nas
madrugadas. “Eu fiquei de resguardo, e ele começou a me trair pra caramba. Em 2006, ele
chegou a namorar uma moça em São Paulo.” No fim daquele mesmo ano, com o término do caso
extraconjugal, o casal viajou para a Grécia e a França. “Eu era apaixonada por ele, aguentei
bastante. O meu filho mais velho, então com treze anos, até me cobrava. Dizia que por muito
menos eu havia me separado do pai dele. Não dava para aguentar a loucura dessa vida. Então eu
quis a separação, pedi para ele sair de casa.” A contragosto, em outubro de 2008, Sócrates deixou
a cobertura em Ribeirão Preto, após nove anos de relacionamento.
Sócrates evitava, porém, oficializar a separação na Justiça. Depois de insistir no assunto, sem
convencê-lo, Adriana tomou a iniciativa de entrar com um processo em 2009 para estabelecer a
pensão alimentícia. Ele parou de pagar a conta de luz do apartamento, sem avisá-la, o que
provocou o corte de energia. “Eu não podia ficar pedindo dinheiro pelo amor de Deus, mas ele
ficou muito bravo comigo. Partiu para o revide e tentou obter a guarda do nosso filho. Alegou
que eu era alcoólatra, uma louca que não poderia cuidar direito da criança.” Para mostrar que a
acusação não fazia sentido, Adriana ressalta que seu filho mais velho, Kim, cursou engenharia na
Universidade Federal de Minas Gerais, e o segundo, Nick, entrou em física na usp de São Carlos.
“Os dois sempre foram os primeiros alunos da classe, isso mostra que eu sempre cuidei bem
deles.”
O litígio acabou em um acordo: Adriana manteve a guarda de Fidel, e Sócrates o direito de
pegar o menino a cada quinze dias e o dever de pagar uma pensão estabelecida. Os dois voltaram
a ter relação amistosa, com atritos eventuais, como costuma ocorrer com ex-casais, mas também
sujeitos a recaídas amorosas. “Em abril de 2009, quando fiquei sabendo por um grupo de amigos
médicos que ele tinha cirrose, com indicação de transplante, eu o convidei para voltar a morar
comigo, para que pudesse cuidar dele, com almoço, jantar, tudo direitinho. Mas ele negava que
tivesse qualquer problema”, revela Adriana. Nessa época, Sócrates chegou a morar com outra
parceira por cerca de oito meses, porém, logo depois do rompimento, ainda tinha ímpetos de
reatar com Adriana. Em maio de 2010, com dificuldades para pagar o alto condomínio do prédio
da cobertura, ela resolveu se mudar. Os dois combinaram um encontro na choperia Pinguim do
shopping Santa Úrsula, em Ribeirão, para a devolução das chaves. “De lá, fomos para um
motel”, confessa a ex-mulher, sem conter o riso. Ela só lamenta que Sócrates não tenha
conseguido parar de beber, após poucos meses de abstinência, período em que tomava cerveja
sem álcool. “Logo passou para vinho, mas não eram duas taças, e sim duas garrafas por dia.”
Muito antes de Adriana, a segunda mulher do Doutor, Silvana Campos, já havia enfrentado o
mesmo problema em oito anos de relacionamento. “Eu me casei com um Sócrates que poucas
pessoas conhecem. Um homem bonito, fantástico, extremamente tímido, que não gostava de
glamour, mas sim de conhecimento. Era o oposto do personagem que ele criou”, define Silvana.
No auge da paixão, Magrão conseguia alterar o estilo de vida e se rendia às expectativas da
amada. “Quando ele deixou o envolvimento com o futebol e fez pós-graduação na Escola
Paulista de Medicina, viajava três vezes por semana a São Paulo. Ia dirigindo, assistia às aulas e
voltava à noite. Não bebia, até mesmo por dirigir na estrada, e também tinha prazer de voltar
para casa.” Porém, com o passar do tempo e o estabelecimento da rotina, retomava os velhos
hábitos. “Eu queria que a essência dele fosse mais forte que o personagem do jogador famoso e
revolucionário. Sem nenhum artifício externo, sem cerveja, cigarro, nada.” Mas Silvana perdeu
esse jogo. Eles se separaram quando Juninho tinha quatro anos.
Sócrates ainda se casaria uma última vez, com a jornalista e empresária Kátia Bagnarelli. A
união civil foi oficializada em 11 de novembro de 2010, um ano antes de sua morte, embora já
vivessem juntos havia alguns meses. Obcecado pela ideia de ter filhas, ele chegou a tentar
realizar esse sonho com Kátia. “Nós fizemos inseminação artificial em Cuba, ainda estão lá os
embriões de duas meninas gêmeas”, conta a viúva. Porém, com a morte do marido, ela desistiu
de utilizar os embriões. “Deus não me colocou na vida do Sócrates para ter filho. Além de lhe
dar uma passagem digna, com amor verdadeiro, eu fui colocada na vida dele para concretizar três
coisas que antes de morrer ele me pediu: ajudá-lo a se aproximar dos filhos, voltar a ter
comunicação com o povo dele, inclusive atendendo como médico em praça pública, e cuidar do
seu legado, zelando por sua memória.”
Ao longo de sua agitada existência, no entanto, muitas outras mulheres passaram sem deixar
rastro ou herdeiros. Antes de terminar o primeiro casamento e enfileirar uma série de romances, a
maioria meteóricos, ele parecia projetar esse prazer nas aventuras de Casagrande. Como
valorizava o sentimento amoroso como o aspecto mais importante da epopeia humana, gostava
de ver o jovem centroavante empolgado com as garotas quando saíam juntos e de certa forma se
alimentava do ímpeto juvenil do parceiro de se atirar em novas relações sem amarras ou
impedimentos. Enquanto se divertia com os arroubos de paixão do amigo, dedicava-se a Regina
de corpo e alma.
Não foram poucas as vezes que Sócrates varou madrugadas, durante viagens da equipe,
queixando-se ao companheiro de saudade de Regina. Casão costumava até sair de perto ou pedir
para ele mudar de assunto, tamanha a insistência em bater na mesma tecla. Quanto mais cerveja
bebia, mais sentimental ficava o pobre coração do Doutor. “Não tenho dúvida de que a Regina
foi a mulher mais importante para o Magrão. Ele tinha verdadeira adoração por ela, que marcou
uma fase especial na vida dele e lhe deu quatro filhos”, afirma o irmão Sóstenes.
Porém, em outras ocasiões, quando estava distante de casa e batia a solidão, cedia a
empolgações momentâneas por mulheres que acabara de conhecer. Um exemplo disso aconteceu
durante uma excursão do Corinthians ao Caribe. “Ele conheceu uma mina em Trinidad e Tobago,
ficou maluco por ela e a carregou junto no restante da viagem, para Curaçao, Guatemala, pra
todo lugar. A garota era loirinha, parecia o Rod Stewart, então a gente ficava tirando onda dele:
‘Pô, Magrão, você tá saindo com o Rod Stewart? Vai se foder!’. Era um cara extremamente
emocional, já vi ele se apaixonar uma porrada de vezes”, atesta Casagrande.
Quem estranha a presença de “Rod Stewart” na delegação corinthiana, algo que nos dias de
hoje seria praticamente impossível, não imagina a loucura que foi essa viagem da equipe
alvinegra. O time ficou hospedado em um hotel de luxo em Port of Spain, capital de Trinidad e
Tobago, bem em frente à praia. Os jogadores se esbaldavam durante o dia todo, bebiam à
vontade e farreavam mais do que qualquer turista em férias. Ainda mais diante do baixo nível
dos adversários, incapazes de oferecer qualquer resistência aos brasileiros. “Era balada, balada,
balada, praia, reggae, sem parar”, revela Casão. Mesmo assim, o Corinthians goleou a seleção
local por 8 a 2, com um detalhe folclórico: Biro-Biro e Wágner Basílio começaram como
titulares, foram substituídos e depois retornaram ao campo. O juiz permitiu por absoluto
desconhecimento das regras do jogo.
Em meio àquela várzea, houve outra ocorrência curiosa. O Corinthians já marcara seis gols no
primeiro tempo e, com a partida liquidada, voltou para a etapa final com a escalação quase
inteiramente mudada. Como não havia limite de substituições, apenas Casagrande, Wladimir e
Ataliba atuaram o jogo inteiro. O goleiro Solito deu lugar ao irmão mais novo Solitinho, amigo
de Casão desde a infância, e o centroavante não perdeu a chance de provocá-lo. “Eu o conhecia
como a palma da minha mão e sabia que ele era nervoso, estourado. Então falei assim: ‘Se você
tomar gol de cabeça do Bob Marley, vai ser sacanagem, hein?’”, disse, referindo-se ao jogador
Bakerin, que tinha o cabelo rastafári igual ao do cantor jamaicano. Não deu outra. Aos catorze
minutos, após cruzamento na área, “Bob Marley” mergulhou e marcou de peixinho. Solitinho
ficou irado, tirou as luvas e partiu para cima de Casagrande disposto a sair no braço com o
colega. “Vai tomar no cu, seu filho da puta, foi você quem me secou!”, xingava Solitinho,
enquanto era contido pelos outros atletas corinthianos.
Essa viagem ainda teve um episódio cômico digno do filme Esqueceram de mim. No último
dia na cidade, mais uma vez os jogadores viraram a noite na balada. Como tinham de pegar o
voo de manhã, combinaram ir diretamente para o aeroporto, sem dormir. Porém, Daniel
González e Wágner Basílio subiram para arrumar as malas, resolveram dar um breve cochilo de
alguns minutos e apagaram de vez. Quando a delegação entrou no ônibus, o preparador físico
Hélio Maffia ainda perguntou: “Está todo mundo aí?”. A resposta, em uníssono, foi positiva.
Afinal, naquelas condições, com sono e ressaca, ninguém conseguia reparar em mais nada, só
havia o desejo de entrar logo no avião e descansar. Apenas no aeroporto se deram conta da
ausência dos dois colegas.
Sem celular na época, a dificuldade de telefonar para o hotel, fazer com que um funcionário
fosse ao quarto acordar a dupla e arrumar um táxi a tempo de pegar o voo pode ser medida por
um fato acontecido com Casagrande naquela semana. “Eu tinha pedido uma ligação para São
Paulo, queria falar com a Denise, a minha primeira namorada. Mas a telefonista não deu retorno,
então já tinha até desistido quando o telefone tocou no quarto, dois dias depois”, diverte-se
Casão. “Senhor, a sua ligação foi completada”, escutou ele, surpreso, pois não pedira qualquer
telefonema naquele momento. Ele lembrou desse episódio e previu o pior, porém, com muito
esforço e alguma tensão, a delegação corinthiana conseguiu resolver o problema de Daniel
González e Wágner Basílio. Em meio a tantas confusões na excursão, o affair de Sócrates com
“Rod Stewart” era o que menos incomodava a comissão técnica.
A predisposição de Magrão para ser pego pela rede do amor era um clássico. Certa vez,
durante uma viagem ao Recife, ele e Casão foram se divertir numa boate, mas o craque era a
imagem da tristeza. “Eu estava lá no meio da pista, dançando com umas garotas, quando o
Sócrates, sentado no bar, me chamou. Eu me aproximei e ele me sussurrou ao ouvido: ‘Pô,
Casão, que saudade que eu tô de uma mulher por quem estou completamente apaixonado… Não
sei o que eu faço’. Fiquei até meio puto, já não aguentava mais essa história. Falei assim: ‘Pô,
Magrão, vai se foder! São três horas da manhã, tô na boate curtindo, e você me chama pra ficar
dizendo que está apaixonado, o caralho! Dá licença!’. O Magrão era sentimentalmente
desequilibrado.”
Mas um amor mantido em sigilo durante toda a vida do Doutor o marcaria profundamente e
por um tempo bastante prolongado: o caso com a cantora Rosemary. Os dois viveram uma
relação intensa, apesar da distância geográfica, já que ele jogava no Corinthians, em São Paulo, e
ela morava no Rio de Janeiro. Os seus colegas de equipe o ajudavam a guardar o segredo, mas se
preocupavam ao vê-lo transtornado pela distância, consumido pela paixão e, ao mesmo tempo,
culpado por ser casado e não querer magoar sua esposa, por quem também tinha adoração.
Naquela época, com certeza era o recordista de viagens na ponte aérea. Fazia bate-volta ao
Rio o tempo todo. Porém, sempre mantendo a máxima discrição. “Esse negócio da Rosemary, eu
fui saber muito depois aqui no Rio. Foi um negócio muito escondido, né? A gente mesmo, do
Flamengo, não sabia dessa história, não. Eu soube bem depois de ele ter se separado, já. Se fosse
hoje, estaria roubado, porque na mesma hora, no primeiro encontro, as colunas noticiariam, os
sites todos estariam falando. Mas, naquela época, jogador de futebol não costumava sair em
coluna social. Então essas coisas não eram muito divulgadas”, diz Zico, seu companheiro no
clube da Gávea, quando Sócrates voltou da Itália e passou a morar no Rio.
Mas Sócrates não era o único sentimentalmente desequilibrado, não. O próprio Casagrande
também é capaz de perder o rumo quando o amor o pega de jeito. A diferença é que isso não
acontece tão frequentemente quanto ocorria com Sócrates. Tanto assim que ele só se casou uma
vez, com Mônica Feliciano, mãe de seus três filhos: Victor Hugo, Leonardo e Symon. O
casamento durou vinte anos e só terminou quando Mônica descobriu que ele usava escondido
drogas pesadas. A revelação ainda veio de forma dramática: o marido teve uma overdose no
banheiro de casa, após se autoaplicar uma mistura de cocaína e heroína, chamada speed, e
precisou ser socorrido por Leonardo, que se preparava para ir jantar fora com o pai.
Depois disso, Casagrande se envolveu com a psiquiatra de uma clínica na qual teve uma breve
internação de quarenta dias, em 2006. Os dois resolveram assumir o relacionamento, o que
provocou a demissão dela do trabalho, e ficaram até noivos. A festa foi no bar A Marcenaria, na
Vila Madalena, ao som da banda Expulsos da Gravadora, formada por Luiz Carlini (guitarra),
Mr. Ruffino (baixo), Franklin Paolillo (bateria) e Nando Fernandes (vocal). Outros roqueiros
amigos do noivo se revezaram no palco, em canjas descontraídas, como Marcelo Nova (Camisa
de Vênus), Nasi (Ira!) e Simbas (Casa das Máquinas). Os integrantes do Sepultura também
marcaram presença, mas apenas como convidados, ao lado de outras figuras ilustres, como a
apresentadora Adriana Galisteu e o jogador e agora comentarista Roger Flores, então seu
namorado. Havia ainda vários jornalistas amigos do noivo: José Trajano e Juca Kfouri (espn
Brasil), Ari Borges (então na Band) e Mauro Naves (Globo), além do comentarista de arbitragem
Arnaldo Cezar Coelho, colega de Casagrande na mesma emissora.
Todos os presentes constataram o entusiasmo dos noivos e saíram de lá crentes de que o
casamento ocorreria em breve. Os dois até viajaram juntos para a Alemanha, quando Casagrande
cobriu pela Globo a Copa do Mundo de 2006. Tudo parecia caminhar para um final feliz, mas, na
volta ao Brasil, Casagrande sofreu uma recaída, com consequências ainda mais severas, tema do
livro Casagrande e seus demônios. Trancou-se dentro do apartamento por quase um mês,
injetando cocaína na veia. Na fase final daquele período, extremamente magro e abatido, teve um
surto psicótico após ficar em torno de dez dias sem dormir e sem comer, sob o efeito da droga. A
privação do sono o levou a ter alucinações com demônios dentro de casa. Ao tentar fugir
daquelas visões dos infernos, acabou capotando seu Jeep Cherokee, no qual estava com a noiva,
na rua Tito, no bairro da Lapa, em São Paulo. Levado para o hospital Albert Einstein,
permaneceu três dias sedado, recuperando-se dos traumas do acidente, e em seguida foi
transferido para uma clínica especializada em dependência química em Itapecerica da Serra. Sua
mãe, dona Zilda, e o filho mais velho, Victor Hugo, assinaram o documento para a longa
internação involuntária, contra a qual se revoltou no início.
Casagrande permaneceu na clínica, fora de circulação, durante um ano. Quando saiu, voltou a
manter contato com a noiva, mas o período de afastamento e o desgaste emocional daquele
período crítico que antecedera o acidente resultaram no fim do relacionamento. Nessa época, ele
ficou bastante abalado e dividido. Ao mesmo tempo que se convencera de que aquela união não
poderia dar certo, sofria com a ruptura. Coisas do coração. Escreveu poemas e textos sobre o
amor, passou noites em claro e teve de ser forte até a cicatrização.
Mas ainda é pouco, se comparado à intensidade de sentimentos que experimentou ao conhecer
Mônica em 1983. Foi amor à primeira vista. Ele estava tomando cerveja no Bar da Torre quando
viu passar aquela bela garota, jogadora de vôlei do próprio Corinthians, e seu coração disparou.
Faltou-lhe ar naquele momento, e ele perdeu o fio da meada da conversa com os amigos. A sua
atenção voou para longe, mais precisamente para o caminho tomado pela musa. Começava ali
uma longa batalha para conquistar a mulher com quem se casaria.
Aos dezessete anos, com corpo escultural de atleta, Mônica impunha um distanciamento à
maioria dos rapazes no clube, a fim de evitar assédios inconvenientes, sobretudo dos jogadores
de futebol. Ela os via com certa prevenção, pois os achava presunçosos, muito seguros de si, mal
acostumados pela fama que facilitava suas aventuras sexuais. Portanto, não dava a menor chance
para nenhum deles, deixando claro que não era do mesmo naipe de tantas fãs que praticamente se
ofereciam para deitar com os ídolos.
Casagrande precisou cumprir um longo percurso até conseguir se aproximar dela. Além de
tudo, ele travava diante da amada, ficava tímido, não sabia o que falar, onde colocar as mãos,
tomado por uma timidez adolescente. Com a ajuda de Wagner, amigo de infância a quem
também chamava de Magrão, traçava os planos mais mirabolantes na esperança de conseguir seu
intento. Comprou ingressos para um show de Caetano Veloso no Anhembi, inventando a história
de que ganhara os convites da produção do espetáculo, só para convidar toda a turma de
jogadoras de vôlei que andava com Mônica e disfarçar seu real objetivo. Na hora de distribuir as
entradas, no entanto, tomou o cuidado de deixá-la na cadeira exatamente a seu lado.
Ali ele conseguiu estreitar um pouco o contato, mas ela ainda mantinha uma margem de
segurança que o impedia de cruzar a linha da simples amizade. Ela resistiu por cerca de cinco
meses às suas investidas, e a obsessão do atacante se tornou conhecida no Parque São Jorge. Ele
suspirava como um pobre-diabo no vestiário, desabafava com os colegas mais próximos, ouvia
conselhos e também gozações. Mas contava com a ajuda das outras jogadoras, que lhe passavam
dicas de onde encontrar Mônica, desde os locais de treinos e jogos até os passeios combinados
com as amigas nas horas de folga. E assim Casão sempre aparecia, numa perseguição
implacável.
Ao mesmo tempo, dava provas incontestáveis de seu real interesse em namorá-la. Ele pediu
ao fiel escudeiro Magrão — o amigo da Penha — para gravar uma fita cassete com sucessos da
mpb, especialmente canções do disco Coração selvagem, de Belchior, para amolecer o coração
da amada. Também lhe deu uma bolsinha do personagem Cebolinha, de Mauricio de Sousa, com
a mensagem: “Fica comigo, vai!”. Na noite em que lhe entregou os presentes, os dois saíram
juntos de carro, passeando pelas ruas de São Paulo, enquanto ele lhe mostrava as pichações que
fizera em muros, com declarações de amor, em diversos locais: estádio do Pacaembu, túnel da
avenida Paulista, estádio do Morumbi e Parque São Jorge. Mônica finalmente se convenceu da
sinceridade do pretendente e capitulou.
Casão entrou em estado de graça, não pensava em mais nada a não ser na namorada, e passou
as festas de fim de ano sentindo-se no paraíso. Depois de tanta espera, da paciência que precisou
ter até conquistá-la, fazia questão de aproveitar cada minuto grudado em Mônica. Só havia um
problema: o Corinthians agendara uma excursão ao Oriente para o mês de janeiro de 1984. A
turnê por Japão, Hong Kong, Indonésia e Tailândia lhe parecia uma sentença de morte. Ele tinha
a sensação de que não iria sobreviver longe da amada, além da insegurança de que o afastamento
nesse momento em que o namoro estava tão verde, ainda, pudesse esfriar o relacionamento.
Os pais, amigos e a própria Mônica tentavam dissuadi-lo da ideia irresponsável de se negar a
viajar com o time. Em férias no litoral, o atacante postergou ao máximo o retorno e só chegou
em casa, na Pompeia, no final da tarde no dia do próprio embarque. Cultivava a esperança de se
atrasar e perder o voo, porém, ciente do estado de espírito do jogador, a diretoria do clube já
deixara uma perua a sua espera na porta do prédio e enviara o zagueiro Juninho para escoltá-lo
ao aeroporto. Um esquema de segurança máxima.
Sem alternativa, Casão tomou o avião, emocionalmente destruído. Não desistia da ideia de
retornar no primeiro voo com destino ao Brasil, e sua tristeza era tão presente que Sócrates
resolveu convocar uma assembleia para a equipe votar a proposta de liberar o enamorado Casão
daquela excursão, a fim de que pudesse voltar para os braços da amada. A Democracia
Corinthiana experimentou, assim, a curiosa experiência de discutir uma questão amorosa.
Sócrates e Casão perderam a votação, e o centroavante teve de continuar na Ásia.
O Doutor fala sobre esse episódio num texto de sua autobiografia inacabada, cedido pela
viúva Kátia Bagnarelli, que mostra o quanto ele valorizava a paixão.

Saudade insuportável

Estive pela primeira vez no Japão no início dos anos 80. Jogava no Corinthians e
realizávamos três partidas contra a seleção olímpica japonesa. Havia um sentimento de
estranheza no ar. Jamais imaginei que pudesse haver interesse do público daquele país pelo
futebol, até porque sabia que esse esporte não fazia parte da cultura daquele povo, que enchia
os ginásios para assistir às competições de sumô e judô, mas não de futebol.
Foi nessa viagem que ocorreu um dos fatos marcantes da nossa experiência na Democracia
Corinthiana. É que um dos nossos companheiros se apaixonara. Paixão, bendita paixão. Esse
sentimento é o mais vigoroso e arrebatador de todos que podemos vivenciar. Quando estamos
apaixonados, todo o resto é secundário, a única força de que necessitamos é a presença da
razão de nossa paixão. Física, de preferência. A sua imagem não nos sai do pensamento e todas
as ações estão voltadas para ela.
Já me apaixonei dezenas de vezes, talvez essa seja a característica mais marcante da minha
existência. Sem a paixão, me parece que a vida tem um sentido menor, tornando-se mais
cinzenta e triste. E que os dias se tornam mais longos e cansativos. Não há brilho, não há cor,
um verdadeiro caos.
Já fiz todas as loucuras possíveis por uma paixão. E acompanhei outras semelhantes.
Quando o Casagrande, o nosso colega em questão, apaixonou-se por sua futura mulher,
transformou-se. Ele, que pouco estava preocupado com qualquer coisa que seja até então,
apegou-se de tal forma a esse sentimento que quase jogara fora a sua carreira esportiva. Por
paixão, tudo vale.
Pois foi poucos dias depois de conhecê-la que tivemos de voar para o Japão. Notamos que
ele estava muito diferente do que sempre foi. Em vez de expansivo e alegre, estava calado e
triste. Encostou-se na poltrona e quase nada falou durante as 24 horas de viagem.
Quando lá chegamos, ele provocou, talvez, a primeira reunião importante da Democracia
Corinthiana, para discutir uma possível volta antecipada para casa para poder revê-la
imediatamente. Alguns argumentaram que aquele gesto poderia atrapalhar os seus planos
profissionais e que deveria tentar suportar a ausência da melhor forma possível. Eu, como havia
passado por aquilo algumas vezes, fiquei do seu lado, sabedor da dor que estava sentindo. Foi
quando o Edu, Eduardo Amorim, pediu a palavra e expôs que em nossa profissão tínhamos que
passar por muitas coisas difíceis, pois ficávamos muito tempo longe das pessoas de que
gostávamos. E que nem ao enterro de seu pai ele havia tido oportunidade de comparecer devido
à distância em que se encontrava naquele dia. Aquela revelação nos derrubou. E o Casão se
conformou em carregar a sua saudade por quinze longos dias.
Eu, certa vez, no auge desse sentimento, fiz pior. Em determinada ocasião, cheguei a tomar a
ponte aérea, já que ela morava no Rio de Janeiro, e eu em São Paulo, umas quatro vezes no
mesmo dia. Tudo isso respeitando os meus compromissos profissionais. Acordei de madrugada
para tomar o café da manhã com ela. Logo após, voei para São Paulo para o treinamento da
manhã. Ao meio-dia, voei de volta para o Rio para almoçar com ela. No começo da tarde, nova
travessia para a capital paulista. Algumas horas depois, retornei para jantar junto da amada.
Quando desembarquei em Congonhas, aeroporto de São Paulo, naquela que seria a última
viagem, lá pelas dez da noite e ainda na sala de desembarque, bateu uma saudade no meu peito.
Uma vontade de ficar ao lado de quem amava, daquelas impossíveis de revelar. Eu sentia a
necessidade, o desejo, a loucura de dormir com ela. E quase sem racionalizar, acabei voltando
para os braços queridos.
Aquele último voo representava o êxtase, a comunhão de sentimentos, a felicidade plena.
Nada, nem mesmo a vivência física do sentimento, é maior do que aquilo que rumina na alma.
Nem o sexo é fundamental. É que quando estamos apaixonados, parece que quem é foco do
sentimento somos nós mesmos. Vemo-nos com muito mais carinho e respeito, e acreditamos
piamente que estamos acima de qualquer eventual decisão que o cotidiano nos coloque à frente.
A paixão nos torna fortes como jamais supúnhamos. E esse choque nos potencializa em tudo o
que fazemos.
No trabalho, também, principalmente para quem pratica um esporte ou exerce um ofício
ligado a qualquer tipo de arte. Com a emoção à flor da pele, podemos expressar com mais
intensidade nosso talento, e o resultado é excepcional. Só existe um problema: a dependência é
plena. Temos que a qualquer instante sentir que nosso sentimento está sendo correspondido na
mesma intensidade e desejo. Uma briga boba que seja qualquer pode nos destruir, nos jogar no
chão. E aí não conseguimos fazer mais nada enquanto não resgatamos a paixão ameaçada.
Como se a felicidade nos escapasse entre os dedos.

Casagrande guarda com gratidão o empenho do amigo em tentar acalmar seu coração e liberá-
lo daquela excursão, mesmo não tendo tido êxito. Porém suas paixonites agudas eram bem mais
raras. “Eu também sou movido por paixão, mas a diferença em relação ao Magrão é que eu não a
direciono exclusivamente para mulher. Sou apaixonado pelo meu trabalho de comentarista, por
ter sido jogador de futebol, pelos meus filhos, pelos amigos, por música, consigo diversificar
meus sentimentos entre várias coisas. Então a paixão não me sufoca mais.”
Tanto assim que Casão teve poucos relacionamentos depois do fim de seu casamento. Além
do noivado, que acabou não dando certo, namorou uma colega dos tempos de adolescência, Vera
Rocha. Na juventude, não houve nada entre os dois, que se encontravam esporadicamente em
festas no bairro da Penha, onde ela também morava. “Nós pertencíamos a turmas diferentes.
Enquanto eu era do rock, ela curtia mais discoteca”, resume Casão.
O maior contato entre eles ocorreu durante três viagens ao Guarujá quando tinham dezesseis
anos. Ficavam no apartamento de um amigo de Wagner, o Magrão, parceiro inseparável de
Casão. Os jovens iam com o carro do pai de Vera, dirigido pela irmã mais velha dela, Valéria, a
única com idade para tirar carteira de motorista. “Nunca rolou nada entre a gente. Às vezes
virávamos a noite na praia, mas ficávamos só conversando. Ele também nunca usou droga na
nossa frente, sempre fui muito careta”, conta Vera.
Certa vez, em 1978, Casagrande viu Vera vencer um concurso de dança com o namorado,
Márcio, no Clube Esportivo da Penha, no qual ganharam uma moto. Embora se encantasse com a
desenvoltura da garota na pista, jamais dava o braço a torcer. “Ele era bicho-grilo e nos achava
burguesinhas. A turma dele falava mal da gente, mas hoje o Walter admite que rolava uma certa
inveja. Eles eram muito duros, não conseguiam dançar”, diverte-se Vera.
Em 1980, o namorado que dançava com Vera morreu em um acidente de carro. Abalada, ela
chegou a provar maconha, porém não teve uma boa experiência e nunca mais usou qualquer
droga. “Fiquei muito mal com a minha primeira experiência de enterrar alguém. Pensei que fosse
morrer de tanta tristeza. Foi aí que eu fumei, mas deu taquicardia, então logo parei.”
O reencontro, 36 anos depois, aconteceu por intermédio de Wagner, o Magrão, que
reconheceu Vera no clube da Penha, aonde ela havia ido para o aniversário de um primo. “Nunca
tive tanto contato com esse pessoal da minha família, mas dessa vez resolvi ir à festa com minha
irmã. Estava um pouco deslocada, pois conhecia pouca gente lá. Então começou a tocar música
dos anos 80, eu me animei e fui dançar um pouco. Aí o Magrão me abordou e puxou conversa.
Na hora, eu não me lembrei dele, mas aí ele falou das viagens ao Guarujá junto com o Walter”,
relata. O amigo então avisou Casagrande por WhatsApp, e ele respondeu com uma pergunta:
“Elas estão bonitas ainda?”. Para demonstrar que sim, Magrão tirou uma foto das irmãs e a
enviou para o amigo. Animado com a imagem, Casão pediu o telefone de Vera, e os dois
passaram a conversar por mensagens de texto quase todo dia.
O primeiro encontro aconteceu na casa de Claudine, a Clô, viúva do cantor Jair Rodrigues, em
Cotia, próximo à Granja Viana, onde Vera organizava um evento. Casagrande levou o filho
Leonardo com a namorada dele, Vanessa, para comer a famosa feijoada da anfitriã. Ele
aproveitou para conversar com Clô sobre a possibilidade de fazer outros eventos na casa, com a
participação de amigos dele de bandas de rock. Um bom pretexto para voltar lá duas vezes e se
encontrar com Vera, que mora ali perto.
Casagrande visitou Vera acompanhado de um psicólogo da clínica na qual ele faz manutenção
do tratamento para dependência química. “Eu estava sendo analisada, para ver se não
representava algum risco de recaída para ele, e não sabia.” Acabou convidada para ir ao teatro
ver Mulheres à beira de um ataque de nervos, adaptação musical do filme de Pedro Almodóvar
realizada por Miguel Falabella. Ao final do espetáculo, ele a levou para jantar no Lellis, e depois
foram para a casa dela. “Minhas duas filhas estavam dormindo, então ficamos conversando a sós,
até que ele me pediu em namoro. Eu me surpreendi com essa atitude de cavalheiro, na nossa
idade não é comum um pedido formal assim, né?”
Embora se sentisse um tanto apreensiva, Vera aceitou a proposta. “Estava assustada,
desconfiada, cismada de me relacionar com uma pessoa que passou a vida inteira fazendo um
monte de doideira. Não queria tomar um tombo de novo. Mas quem tem sensibilidade percebe
que o cara é legal, bacana, com nítida expressão de bondade no rosto.”
Curiosamente, apesar da diferença dos estilos de vida, o casal possui um ponto em comum:
ambos já sofreram com visões de demônios. Casagrande teve surto psicótico pouco antes de ser
internado em 2007. Na época, atribuía as aparições apenas ao uso de drogas injetáveis e à
privação de sono. Porém desenvolveu a religiosidade anos mais tarde, quando entrou em
depressão após a morte da mãe, voltou a tomar bebidas alcoólicas em grande quantidade e as
visões demoníacas retornaram. Em desespero, descobriu na internet a oração de São Miguel
Arcanjo, que tem fama de afastar seres maléficos. Quando proferia essa oração e também dizia
que Jesus estava em seu coração, conseguia afugentar as criaturas do mal. “Alguns deles se
pulverizavam, e outros se distanciavam”, relata.
Casagrande não segue uma religião específica. Acredita que não precisa de intermediários
para se conectar a Deus. Ele passou a cultivar a proximidade com Jesus como uma forma de
proteção. Também retomou espontaneamente o tratamento contra a dependência química na
mesma clínica em que ficara internado e parou de vez de beber álcool. Desde então, ficou livre
das alucinações.
Já o drama de Vera se desencadeou sem uso de qualquer droga. Durante uma década, dos
dezenove aos 29 anos, ela foi atormentada por pesadelos e visões de seres demoníacos, sempre
durante a noite. “Quando isso começou, minha mãe não sabia o que fazer, então me dava
remedinhos para eu voltar a dormir. Mas não resolvia o problema”, conta. Até que certa vez o
pastor e cantor Jayme de Amorim Campos foi à sua casa, para orar por outra pessoa doente, e
também lhe ofereceu ajuda. Ela resistiu no início, com certo ceticismo, mas acabou cedendo.
“Falei para ele que era perturbada. Não tinha paz à noite, espíritos negativos me agarravam e eu
via o próprio corpo na cama. Cheguei a pesar 43 quilos. Ele encostou dois dedos na minha testa,
o indicador e o anelar, bem levemente. Fez até cócegas nas sobrancelhas. Daquele dia em diante,
comecei a dormir bem.”
Vera passou a frequentar a Igreja Internacional da Graça de Deus, até 2003, quando se
separou do marido. Ela se afastou dos cultos e as perturbações voltaram. “De dia, controlava um
pouco mais. O inferno começava a partir das dezoito horas. Eu sentia mal-estar e a sensação de
que podia desmaiar.” Então, em 2006, ingressou na Igreja Apostólica Casa Firme. “A primeira
vez que fui lá não conseguia entrar, fiquei parada na porta, como se tivessem cortado meus pés.
O pastor foi ao meu encontro e orou por meia hora comigo no carro, até eu conseguir ficar em
pé.”
Como nunca frequentou igrejas e sempre as encarou com desconfiança, pela possibilidade de
haver desvio dos propósitos religiosos e manipulação por parte de seus líderes, Casagrande
resistiu à ideia de acompanhar Vera. Ele se sentia amparado por ela, que compreendia como
ninguém as aflições pelas quais tinha passado, porém não via necessidade de seguir um pastor.
Durante aquele período, a então namorada teve papel importante para que Casão conseguisse
estabilidade emocional e espiritual, porém as diferenças entre os estilos de vida acabaram
provocando a separação. Mas continuam muito amigos.
Sócrates também se aproximou da religião, sobretudo nos últimos oito anos de vida, embora
antes já visitasse eventualmente o centro espírita do Tio João, famoso médium e fundador do Lar
do Jovem Idoso, em Ribeirão, que morreu em 2013. A primeira vez que foi levado a uma sessão
teve crise de choro e percebeu que possuía uma sensibilidade especial. O espiritismo também o
confortava diante do risco da morte. Quando era casado com Adriana, costumava ler o
Evangelho em casa uma vez por semana com a família. Assim como fazia orações com Kátia,
também bastante religiosa, e cultivava com devoção a imagem de Jesus. Chegou a aplicar passes
espirituais em pessoas queridas, com as mãos estendidas para lhes transmitir energias positivas e
curativas.
Nos tempos da união com Silvana Campos ainda não despertara para esse lado religioso. Por
isso ela estranhou quando soube da novidade. “Inclusive eu tenho uma passagem engraçada com
esse negócio de espiritismo do Sócrates. Um dia ele chegou em casa, eu morava em Matão, e me
contou: ‘Agora tô frequentando a religião espírita e dando passe’. Aí eu falei: ‘Meu, mas você
não bebe para dar passe, né? Como é que você vai dar passe bebum?’. E ele: ‘Lá vem você…
Fica sempre me zoando, enchendo o saco’. Mas falar que o Sócrates era espírita soa engraçado.
Parece uma grande incoerência. Como a pessoa se considera médium e não se trata? Eram
sempre muitas novidades, muita coisa para uma pessoa só: médium, médico, craque,
revolucionário, cantor, compositor, pintor… É uma busca infinita de caminhos. Na verdade, tem
uma direção e milhões de bifurcações. Se entrar em todas, acaba não se aprofundando em
nenhuma”, questiona Silvana.
De fato, Sócrates não chegou a ter atividade religiosa regular ou frequentar sistematicamente
um centro. Ao longo de toda a existência, o seu templo sempre foi o bar. Era ali que vencia a
timidez, confraternizava com os amigos, cantava suas músicas preferidas e dava asas aos
sentimentos amorosos. Tudo o que lhe era mais sagrado.
8
Nos bares da vida
O s botecos eram o ambiente em que Sócrates se sentia mais à vontade. Ali ele se soltava,
divertia-se tanto com parceiros de longa data como com desconhecidos que eventualmente se
sentavam à mesa. Gostava de contar “causos”, provocar os companheiros com tiradas de humor,
discutir política e falar sobre música. Fazia do bar, inclusive, uma espécie de escritório. Muitas
de suas colunas para jornais e revistas eram produzidas ali, entre um gole e outro de cerveja.
Também compunha canções, escrevia poemas em guardanapos de papel, cantava e declamava
versos. Tornou-se personagem típico da boemia paulistana e ribeirão-pretana nos bares que mais
frequentava.
Em Ribeirão, um de seus amigos inseparáveis atende pelo apelido de Kaxassa. Que ninguém
se engane: apesar da grafia exótica, criada pelos amigos, a alcunha vem de cachaça mesmo.
“Comecei a fazer teatro ainda na infância e, por ser muito tímido, a partir dos doze anos já bebia
uma cachacinha para tomar coragem de subir ao palco”, conta Fernando José da Silva, diretor do
programa Papo com Dr., exibido pela tv Thathi, emissora local, no qual Magrão entrevistava
personalidades das mais diversas áreas. Kaxassa também fundou o tradicional cineclube Cauim,
patrimônio cultural da cidade desde 1979, que já funcionou em diferentes endereços, mas sempre
na região central. Atualmente possui sala de exibição para novecentas pessoas. Um local em que
Sócrates batia ponto, com lugar cativo na choperia do saguão de entrada. “Fiz um balcão de
mármore da altura do braço dele para que pudesse ficar do jeito que gostava e escrever ali as suas
colunas.”
Sócrates participava ativamente dos projetos culturais criados pela ong que mantém o
cineclube, com sessões grátis e ônibus para buscar alunos em escolas. Também gostava de ver —
e de se apresentar — no projeto “Tomara que dê certo”, que surgiu com o propósito de revelar
novos músicos, mas com o tempo abriu espaço para todos os artistas que se dispunham a tocar
gratuitamente no hall de entrada do cinema. Magrão costumava cantar “A Rita”, de Chico
Buarque, um clássico de seu repertório. “Interpretava com sotaque carioca”, diverte-se Kaxassa.
O Doutor também tinha especial carinho pelo Templo da Cidadania, complexo cultural com
biblioteca, teatro, shows, palestras, cursos e atividades artísticas gratuitas para a população, além
de feira orgânica com produtos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (mst). O
espaço ficou fechado por dois anos após a morte do Doutor, um de seus principais mantenedores,
mas reabriu em abril de 2014. “Quase tudo que existe aqui, nos últimos quinze anos, tem a mão
dele”, diz Kaxassa, também responsável pelo Templo.
Há histórias memoráveis dos dois em diversos botecos da cidade. Durante muito tempo, os
amigos se encontravam no famoso Pinguim. Porém, quando Sócrates se separou de Silvana
Campos, ele foi morar sozinho num prédio a poucos metros do Empório Brasília, que se tornou
seu novo quartel-general. Até hoje existe a mesa dele na calçada, com uma placa entalhada em
madeira com a inscrição “Mesa do Magrão Sócrates”, datada de 5 de agosto de 2005. Depois de
sua morte, foi acrescentada uma foto dele com a frase profética dita numa entrevista em 1983:
“Quero morrer num domingo, e com o Corinthians campeão”. Tal premonição é citada por vários
amigos como sinal de que o Doutor era uma espécie de bruxo, com poderes sensoriais para
prever o futuro.
Certa vez, sentado nessa mesa com amigos, ele percebeu um carroceiro parar na calçada para
observá-lo, com expressão de quem via uma miragem. “Era por volta de seis e meia da tarde,
com o bar já lotado, quando esse catador de lixo estacionou ali na frente. Então o Sócrates o
chamou para a mesa. O rapaz, de uns vinte e poucos anos, custou a acreditar. Aproximou-se
meio sem jeito, descalço e sem camisa, e disse que só queria um autógrafo para alegrar o pai que
estava doente. O Magrão lhe estendeu a mão, perguntou se estava com fome e lhe pagou um
lanche. Depois pegou um guardanapo do balcão para fazer a dedicatória, mas eu vi a cena e
arrumei uma folha de sulfite, onde ele desejou melhoras ao pai dele”, relata Márcio Pallandri,
dono do bar. “O cara ficou tão emocionado que mal conseguia falar. Ele contou que tinha vindo
de Pernambuco havia pouco tempo, estava sem emprego e começou a catar latinhas e papelão na
rua. Depois de comer, ainda ficou um tempão ali com a gente”, completa Roberto Sebastião
Bueno, principal parceiro do Doutor nas composições musicais.
A dupla já fez inúmeras canções em mesas de bar. Em geral, Bueno chegava com a melodia
pronta, cantarolava e dedilhava no violão, enquanto Sócrates escrevia a letra. “Nós nunca
contamos, mas são mais de cinquenta e menos de sessenta composições que fizemos juntos. Só
no Empório Brasília, foram umas trinta. No final, quem estava perto da nossa mesa, no bar,
cantava junto com a gente a música pronta.” Magrão chegou a fazer uma letra para homenagear o
próprio Bueno, na qual exalta a figura generosa e excêntrica do companheiro, sempre com
chapéu panamá, bermuda e sapatos brancos, além da camisa havaiana estampada.
Assim como todos os amigos de Sócrates, Bueno assegura que o craque nunca manifestou
qualquer mágoa em relação a Casagrande e sempre se referia a ele com carinho, admiração e
saudade. “Amava mesmo, como um irmão. Talvez nem o Casão saiba o quanto o Magrão
gostava dele.” Porém, o músico jamais presenciou uma ligação do craque para o antigo parceiro,
consequência do gelo imposto pelo ex-centroavante, algo que o Doutor nunca compreendeu bem.
Já para Zico, ele se sentia à vontade para telefonar da mesa do bar, como Bueno e Kaxassa viram
diversas vezes. Adorava o Galinho e não permitia que falassem mal dele na sua frente. “Eu vi o
Sócrates perder a calma uma única vez. Foi quando um cara folgado aqui de Ribeirão, que se
acha parecido com o Maradona e até tenta falar com sotaque argentino, aproximou-se da nossa
mesa e criticou o Zico. Falou que ele tinha amarelado na Copa. O Magrão ficou furioso,
defendeu o companheiro e partiu para o revide: ‘Você dá a bunda? Você cheira cocaína? Você é
craque? Então você não parece em nada com o Maradona’. Precisei intervir para acalmá-lo”,
narra Kaxassa.
Bueno às vezes era levado para casa por Magrão, no fim das noitadas. Na primeira vez que
isso aconteceu, ele estranhou o fato de o amigo parar em todos os semáforos, inclusive nos
verdes, e o questionou. A resposta foi direta: “Pois é, Buenão, eu aprendi com o meu pai que
boêmios e bêbados andam de madrugada e passam no sinal vermelho. Por isso, eu sempre paro”.
Por redobrar os cuidados ao dirigir sob o efeito do álcool, e pela resistência incomum à bebida,
ele nunca provocou nenhum acidente de carro, numa época em que não havia as rigorosas blitze
da Lei Seca.
Sócrates também não tomava bebidas destiladas, com maior teor alcoólico. “Eu convivi com
ele por pelo menos dezoito anos, em bares, e nunca o vi tomar pinga, uísque, vodca, nada. Dizia
que era cervejeiro. Se o dono do boteco o presenteava com uma garrafa de cachaça ou uísque, ele
agradecia por educação, mas me dava na hora em que íamos embora. Dizem que bebia de tudo
na época de estudante, mas depois ficou só na cerveja e no chope”, conta Bueno.
Os outros amigos atestam a mesma coisa. O jornalista Xico Sá, seu colega no programa
Cartão Verde e parceiro constante nos bares paulistanos, viveu situação parecida. “Numa viagem
que fizemos a Minas Gerais, o dono de um restaurante lhe deu uma garrafa de cachaça especial,
envelhecida por não sei quantos anos, e o Magrão aceitou por respeito ao admirador, mas
colocou debaixo da mesa e depois me deu de presente. Era um bebedor de merda”, brinca.
Normalmente as noitadas com Xico começavam na Mercearia São Pedro, na Vila Madalena, e
se estendiam para o bar Filial, no mesmo bairro. Quando amanhecia o dia, Sócrates topava
qualquer parada para prolongar a boemia. “Se alguém o convidava para uma festa,
principalmente se tivesse mulher bonita, ele aceitava mesmo sem conhecer as pessoas. Certa vez,
eram cinco horas da manhã quando um grupo de estudantes nos chamou para continuar a balada
na casa de um deles lá no Ipiranga. Eu ponderei que ficava muito longe, mas não adiantou. O
Magrão decretou: ‘Bora, Xico!’. E lá fomos nós.”
Nessa festa, a garotada quis saber histórias da dupla com Casagrande, algo bastante comum,
segundo Xico. “A meninada não via um sem o outro. E o Magrão falava do velho parceiro com
muito carinho e entusiasmo. Ele via no Casão uma desobediência linda, uma irreverência que
combinava com o mundo dele. Ficava tão empolgado ao falar do amigo que chegava a narrar
gols do Corinthians com tabelas entre os dois. Os garotos adoravam.”
Quando Sócrates percebia que algum amigo ia ao banheiro cheirar cocaína, tanto em botecos
como em festas na casa de alguém, ele também se lembrava do antigo parceiro. “Porra, já não
basta o Casão?”, resmungava, em tom de reprovação.
O jornalista Mauro Beting é outro que conviveu bastante com o Doutor — faziam juntos
eventos nos quais contavam histórias do futebol. Inicialmente ao lado de Paulo César Caju,
Nelinho e Raul Plasmann, mais tarde apenas os dois. “Muitas vezes a gente se apresentava em
bares, então o Sócrates já ficava calibrado. Houve um dia em que ele não estava em boas
condições, aí eu levantava a bola para ele prosseguir, mas nem assim se lembrava do episódio.
Eu falava: ‘E aquela vez do treino sem bola em Ribeirão Preto?’. E ele: ‘Não lembro! O que
aconteceu?’. ‘O Machado era o treinador…’, eu tentava clarear a memória dele, mas não tinha
jeito. Esse caso, em especial, eu acabei contando inteiro. Todo mundo riu, e o Magrão emendou:
‘Pô, eu não preciso vir aqui, fica você contando as minhas histórias e pronto’. Ele era
sensacional!”, relata Beting.
Depois dos eventos, os dois prosseguiam na noite, e o jornalista recorda-se de várias situações
em que Sócrates fez amizades instantâneas com fãs. “Numa noite, dois advogados corinthianos
roxos se aproximaram apenas para abraçá-lo, mas ele os convidou para se sentarem à mesa, e a
conversa durou duas horas. Engraçado que o Magrão contava histórias sobre a intimidade dele,
parecia que conhecia os caras desde que nasceram. Falou sobre o Raí, de política, do Lula, do
relacionamento que teve com a Rosemary… Começou a falar de tudo, e os caras só arregalando
os olhos. Um deles morava perto da casa de Sócrates, e acabou indo embora junto com ele no
final da noite. Virou o melhor amigo de todos os tempos, ainda que apenas por um dia.”
Magrão não perdia a chance de fazer piadas para constranger os parceiros, com seu humor
provocativo. “O Mauro Beting é o único cara que eu conheço que é falso apenas da testa para
cima, no resto ele é verdadeiro”, disparava, para risos da plateia, referindo-se ao implante de
cabelos do jornalista. Não poupava ninguém, nem mesmo o irmão Raí, de quem tanto gostava.
“O Raí tem aquele beiço grego, apolíneo, aquele sex appeal, e eu feio pra cacete, né?”, dava uma
pausa, com um sorriso irônico nos lábios. “Aliás, três homens vivem cercados por mulheres: o
cabeleireiro, o estilista e o Raí. Só que nenhum deles faz nada com elas”, completava, às
gargalhadas. Chegava a contar que uma famosa atriz da Globo, no auge do sucesso, ligava para a
casa do caçula com intenção de sair, mas o ex-jogador do São Paulo não dava bola. Apesar da
atitude correta de Raí, que, segundo o Doutor ainda era casado com a primeira esposa na época,
Sócrates não perdoava: “Pô, já falei para o Pivete para ele passar meu telefone quando essas
artistas da Globo ligarem. Sou feio, mas muito mais experiente nesses assuntos”.
Muitas vezes desconcertava as pessoas. Em certa ocasião, na Mercearia São Pedro, um amigo
dele lhe disse que havia aberto uma clínica de massagens, com profissionais treinadas em
diversos tipos de massoterapia. Indiferente ao orgulho do interlocutor com o novo
empreendimento, seu comentário foi cortante: “Porra, já entendi, você virou cafetão depois de
velho!”, disparou, para gargalhada geral dos presentes e indisfarçável constrangimento da vítima.
Esse tipo de atitude dá aos amigos a convicção de que a tirada depreciativa para Casagrande, em
relação ao seu trabalho na Globo, que levou a tantos anos de ruptura da dupla, na verdade não
expressava desaprovação ao emprego do amigo. “O Sócrates nem se deu conta de que havia
ofendido o Casão. Foi apenas uma brincadeira, uma sacanagem, como fazia com todos nós. Ele
nunca compreendeu o motivo desse afastamento”, assegura Marcelo Carneiro, dono da cervejaria
Colorado, de Ribeirão Preto, e também amigo próximo do Doutor.
A informalidade e as brincadeiras provocativas, por outro lado, às vezes também serviam para
aproximá-lo das pessoas. Companhia constante de Sócrates, inclusive tendo servido como
motorista de Magrão nos últimos anos, Waldemar Chubaci Filho, ou simplesmente Mazinho,
estabeleceu intimidade imediata com ele logo no dia em que se conheceram. Convidado por
amigos em comum para se sentar à mesa do craque, no bar Flerte, em Ribeirão, num domingo de
1994, Mazinho ficou tímido a princípio, apenas escutando a conversa, até que os outros
integrantes da turma começaram a ir embora. Nesse momento, o dono do boteco, José Flávio,
sugeriu que o Doutor continuasse ali na companhia do então desconhecido, pois os parceiros
casados tinham de voltar para casa. “Aí o Magrão olhou pra mim, com aquele jeitão dele, e
falou: ‘Não tem outro mesmo, vou ficar com você’. Caiu na risada, me abraçou e ficou
superamigo.”
Esse “superamigo” não é figura de linguagem. Os dois trocaram de bar quando o Flerte
fechou e, no fim da noite, Sócrates foi dormir na casa de Mazinho, pois acabara de se separar de
Silvana Campos. “Ele estava de camiseta regata, chinelo e bermuda. Então abriu pra mim que
havia saído de casa daquele jeito, sem pegar sequer as roupas.” Mazinho cedeu seu quarto ao
hóspede ilustre e dormiu num colchão na sala. De manhã, saiu para trabalhar e deixou Sócrates
no apartamento. Começava ali uma grande amizade.
Mais tarde, Magrão descobriu que Mazinho era filho do ex-deputado estadual Waldemar
Chubaci, presidente do comitê suprapartidário do movimento pelas Diretas Já, que conhecia dos
comícios nos anos 1980. Isso os aproximou ainda mais. Em 1997, os dois tomavam cerveja num
barzinho quando duas jovens passaram. Como sempre, Sócrates se derreteu diante dos encantos
femininos, e Mazinho as chamou para a mesa. Assim o craque conheceu Simone Corrêa, dentista
então recém-formada com quem se casaria meses depois. Mazinho foi até padrinho e viajou
junto com o casal para ver a Copa do Mundo de 1998, na França. Essa união durou pouco tempo,
como tantas outras de Magrão, o que dava margem a piadas dos amigos. Convidado para
também ser padrinho, o ex-zagueiro Juninho Fonseca se desculpou porque não poderia
comparecer na data, mas nem se sentiu tão desapontado. “Não tem problema, já fica combinado
que no próximo eu comparecerei”, disse, com ironia. Oportunidade, certamente, não iria faltar.
Bueno, por exemplo, foi padrinho em duas ocasiões, nos matrimônios com Simone e Adriana.
Outra coincidência curiosa unia Mazinho a Sócrates. Formado em educação física, o amigo
chegou a trabalhar no futebol como auxiliar de preparação física do Palmeiras, em 1988, e foi
dispensado exatamente quando o técnico Emerson Leão assumiu o comando da equipe. “Então,
assim como o Sócrates, eu também já não gostava do Leão. Mais um ponto em comum entre a
gente.” Com tantas afinidades, passaram a andar sempre juntos.
Em 1999, Sócrates ligou para Mazinho e o convocou para ir à Festa do Peão, em Barretos. Na
realidade, queria se hospedar na casa do amigo, em Guaíra, a quarenta quilômetros de distância.
“O José Victor Oliva me convidou para o camarote da Brahma, ele pôs avião, hotel, tudo, mas eu
não quero. Prefiro ficar na sua casa”, disse Magrão, que gostava mais de circular no meio do
povo do que de permanecer em espaços vips. Durante o evento, a notícia da presença do ex-
jogador se espalhou, e o cantor Reginaldo Rossi o chamou ao palco para cantarem juntos a
música de encerramento do show. “Na cabeça do Reginaldo Rossi, eles iam cantar ‘Garçom’,
mas o Magrão tinha tomado todas e, na hora, bateu o pé que preferia ‘A raposa e as uvas’, outra
canção do artista. E já começou a cantar, mas a orquestra não sabia direito a música, então o
acompanhamento ficou todo bagunçado.” Por sorte, o amor da plateia pelo ídolo superou a
questão musical, e a breve apresentação acabou aplaudida com entusiasmo.
No fim de 1998, quando Mazinho resolveu comprar um apartamento em Ribeirão, Sócrates
lhe propôs vender um imóvel que possuía na cidade por 65 mil reais. “O meu pai iria me ajudar,
mas teria de ser 10 mil reais a menos, e com pagamento parcelado. Aí ele sugeriu uma
contrapartida: toda vez que saíssemos juntos, eu teria de pagar as cervejas dele.” Ao saber desse
acordo comercial, um tanto heterodoxo, digamos assim, os outros amigos o preveniram de que
seria um mau negócio. “Eles apostaram que eu iria quebrar.” E não deu outra. A conta estava
saindo cara, e Mazinho ainda perdeu o emprego no banco em que trabalhava. “Já que você não
aguenta pagar em cerveja, então vai ser meu motorista em São Paulo”, decretou Magrão. “Topei
na hora. Mesmo com a gasolina, ficava muito mais barato”, calcula Mazinho.
Kaxassa também já levou muito chapéu do craque. Principalmente quando viajavam juntos,
com uma data estabelecida para voltar, e Sócrates ia adiando o retorno. Numa dessas vezes, ao
ver o Doutor à espera de táxi no aeroporto de Brasília, um taxista furou a fila especialmente para
pegá-lo, pois tinha adoração pelo astro corinthiano. No caminho até o hotel, o motorista o
convidou para a festa de seu aniversário que seria no sábado. Algo que Kaxassa nem levou em
consideração, até porque não estariam mais na cidade. “Ainda era segunda-feira e nós
voltaríamos na quarta, mas acabamos ficando também na quinta, por insistência do Magrão.
Quando chegou sexta-feira, eu avisei que voltaria de qualquer jeito, mesmo que fosse sozinho.”
Estirado na cama, sem qualquer intenção de fechar a mala, Sócrates sugeriu que saíssem para
tomar uma saideira com os amigos. Conhecedor dos truques do parceiro, Kaxassa tentou lhe dar
um xeque-mate: “Você quer beber cerveja? O.k., então a gente toma lá no aeroporto”. Sem
argumento melhor, Magrão disparou: “Mas e o aniversário do taxista, como é que fica?”.
Os dois iam bastante a Brasília, sob o pretexto de fazer entrevistas para o programa de tv. Mas
do que eles gostavam mesmo era de tomar todas nos botecos de Jorge Ferreira, professor, poeta,
sindicalista, agitador cultural e empresário responsável pela fundação de doze dos mais
badalados bares do Distrito Federal, morto em 2013, aos 54 anos, em decorrência de acidente
vascular cerebral. Sócrates fazia turnê pela rede de estabelecimentos, que incluía Mercado
Municipal, Feitiço Mineiro, Bar Brasil, Bar Brasília e Armazém do Ferreira. Em todas as
viagens, o Doutor dava um jeito de adiar a volta para São Paulo. “A gente se sentava à mesa com
Jaguar, Fernando Brandt, Ziraldo… gente que o Magrão adorava, e ele não queria mais sair de lá.
Além do mais, o Jorge Ferreira era muito amigo do Lula e sempre encontrávamos algum político
de expressão. A pauta caía no nosso colo, nem precisava correr atrás”, relembra Kaxassa.
Quando completou cinquenta anos, Ferreira convidou amigos do Brasil inteiro — intelectuais,
políticos e artistas — para celebrar o aniversário em Brasília. “A festa durou três, quatro dias, e
encontramos o Zé Dirceu, o Lula, todo mundo. Eu dirigia dois programas na tv em Ribeirão, não
só o dele, tinha o cineclube para cuidar, mas o Magrão não queria voltar de jeito nenhum. Numa
tarde, eu já estava puto, então falei pra ele que dormiria um pouco, depois de dois dias em claro,
e em seguida tomaria um banho e iria embora. Passou um tempo, eu estava lá deitado, quando
ele entrou com uma mulher no quarto. Ela ficou constrangida com a minha presença, mas o
Magrão a tranquilizou: ‘Não se preocupe, esse cara dorme como uma pedra!’. Logo eu, que sofro
de insônia e não durmo nunca. Aí fiquei fingindo que dormia enquanto os dois trepavam. A
mulher falava assim pra ele: ‘Meu craque! Meu herói!’. E o Magrão respondia: ‘Menos, menos!’.
Aí a mulher foi ao banheiro, eu levantei, e ele me disse: ‘Dorme aí, pedra!’. Nessa hora, acabou
minha paciência. ‘Vou te matar, seu filho da puta!’, reagi, irritado. Saí do quarto e fui fechar a
conta do hotel.”
Em face da situação, ao perceber que não dava mais para postergar o retorno a Ribeirão,
Sócrates acompanhou o amigo. Quando eles chegaram ao aeroporto de São Paulo, enquanto
esperavam outro voo para a cidade do interior, com a sala de embarque lotada de passageiros,
Sócrates só pensava em beber. “Não tinha nada ali, e ele ficava enchendo o saco. Quero beber,
quero beber…”, relata Kaxassa. “Até que uns fazendeiros conseguiram uma jarra de vinho lá em
cima e desceram pela escada rolante, com o maior cuidado para não derramar a bebida no meio
daquela muvuca.” Ao ver a cena, Kaxassa se exasperou. “Nós enchemos a cara por cinco dias em
Brasília, você não pode ficar sem beber durante um voo, porra? Tem que dar um vexame
desses?”, questionou.
A bronca surtiu efeito, pareceu ter acendido a luz amarela na cabeça do Doutor em relação
aos sintomas de dependência. Segundo Kaxassa, esse foi o real motivo que levou Sócrates a
parar de ingerir álcool por cerca de sete meses, e não o alerta dado por seus amigos da faculdade
de medicina, como acredita o irmão Sóstenes. “Tanto que ele foi me buscar no dia seguinte, para
gravarmos o programa, e não pediu para que eu pegasse duas latinhas de cerveja, como sempre
fazia. Só perguntou se tinha Kronenbier [cerveja sem álcool] no local em que iríamos gravar. Eu
estranhei, e ele disse que assim como eu tinha ficado um ano sem beber, quando tive hepatite C,
ele também ia dar um tempo.”
Kaxassa tinha esse poder de chacoalhar Sócrates se fosse preciso. Embora nem sempre desse
resultado, ele intervinha quando julgava necessário. Até por não gostar de futebol e ser
completamente analfabeto nessa área, não via o Doutor com os olhos de fã. “Muita gente o
mimava, e praticamente só eu brigava com ele. Até a dona Guiomar, quando queria alguma
coisa, meio brava, me ligava para eu conversar com o Magrão. Ela me pedia: ‘Kaxassa, fala isso
ou aquilo, diz pra ele operar para não ter mais filho’. Era cada assunto…”
Em vez de se aborrecer com as intromissões do amigo, Sócrates gostava dessa intimidade. De
alguma forma, identificava essas iniciativas com atitudes que seu pai, severo e com valores
rígidos, adotava com o intuito de lhe apontar o melhor caminho. Um dia ele expressou isso
abertamente: “O Kaxassa é igual ao meu pai, me dá cada dura!”. O parceiro não se sentiu
confortável ao ser colocado no papel paterno, que lhe pareceu incongruente com sua
personalidade anárquica. “Eu sou como seu pai? Que palhaçada é essa?”, retrucou. “Tá vendo?
Já tá me dando uma dura agora”, concluiu Sócrates, exultante.
E Kaxassa muitas vezes sofreu mesmo como um pai diante dos desatinos de um filho rebelde.
O esforço para fazer com que Sócrates voltasse das viagens a Brasília era uma constante. O
Doutor amarrava o jogo enquanto podia, segurava a bola, fazia cera, lançava mão de todos os
artifícios para prolongar a estada. Quando finalmente cedia, não abria mão de fazer a última
parada no bar do aeroporto. “Certa vez, enquanto esperávamos o embarque, baixou o médico
nele. Então disse assim: ‘Pô, Kaxassa, faz quanto tempo que a gente não come? Precisamos
glicosar’. Aí pediu para o garçom dois chopes e dois sundaes de chocolate.” Diante da
desaprovação do amigo e do argumento de que sorvete não combinava com chope, Sócrates não
titubeou. “Então, traz dois sundaes, um chope pra mim e um uísque pra ele”, corrigiu o pedido ao
garçom. O sorvete era um artifício para forrar o estômago, já que ele ficava muito tempo sem
comer durante as maratonas etílicas. Costumava citar uma frase atribuída a Antonio Carlos, o
compositor baiano que fazia dupla com Jocafi em canções como “Você abusou”, e com quem
Sócrates tinha grande amizade: “A comida entristece a bebida”.
Tanto em Brasília como em qualquer cidade do mundo, quando ficava animado na noite,
Sócrates defendia um antigo lema: “Nunca saia do lugar que está bom para ir a um outro que
você não sabe como vai estar”, dizia, com ares de sabedoria. “Na verdade era uma tentativa de
manter todo mundo ali à sua volta”, explica Kaxassa. Quando recebia gente em casa, usava a
estratégia de trancar os convidados e impedir a saída das pessoas queridas, como já fez com
Zico, Fagner, Júnior, Casagrande e tantos outros. “Isso era até uma praxe, principalmente quando
um casal ia à casa dele, porque chegava uma hora que a mulher e os filhos queriam ir embora, e
ele propunha que dormissem lá. Aí ele trancava a porta, colocava a chave no saco, dentro da
calça, e ia tirar um cochilo de no máximo vinte minutos. O Magrão chamava isso de sono da
beleza e, para não haver debandada durante o descanso, fechava a saída. Depois levantava
renovado e prolongava a festa até o dia seguinte.”
Sócrates gostava de contar histórias sobre Kaxassa e tinha grande admiração por suas frases
de efeito. Julgava que o amigo, após ouvir elogios da equipe do diretor Ugo Giorgetti à atuação
do ídolo corinthiano no filme Boleiros 2, no qual Sócrates interpreta a si mesmo, formulara a
mais perfeita definição de sua personalidade irrequieta: “O Sócrates é o melhor ator do Brasil. O
cara é formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e nunca operou uma galinha. O
cara joga futebol na sombra e, enquanto todo mundo chuta a bola pra frente, ele chuta pra trás, de
calcanhar. É realmente um grande ator, engana todo mundo”. O Doutor repetia essa máxima com
o prazer estampado no rosto, e logo emendava uma outra pérola do amigo. Era entusiasta, por
exemplo, da ideia do “casamento distrital misto”, proposta por Kaxassa diante da profusão de
uniões de Sócrates. “Se o Congresso aprovasse, ele poderia ter uma mulher em cada cidade e, em
metrópoles como São Paulo, uma em cada distrito: Pinheiros, Mooca, Perdizes, Santana… e
assim por diante.”
O próprio Doutor era especialista em tiradas de humor. Numa ocasião, quando conversava
sobre o fato de Kaxassa estar casado há tantos anos, enquanto ele não conseguia manter
relacionamentos duradouros, teve uma sacada instantânea: “Já descobri por que você não se
separa. É porque sua mulher se chama Bárbara!”, justificou. “E daí, Magrão?”, perguntou o
amigo, sem entender a lógica do comentário. “Bárbara, porra! Tem dois ‘bar’ no nome”,
explicou, às gargalhadas.
Bárbara tinha de ser realmente muito compreensiva para não entrar em rota de colisão.
Comumente Sócrates tocava a campainha do apartamento do casal durante a madrugada, quando
chegava tarde de São Paulo. “Numa das vezes, estávamos no início da semana e não havia mais
bar aberto na cidade àquela hora. Mas ele não se rendeu. Teve a ideia de alugar um quarto de
hotel só para nos deixarem tomar cerveja na recepção.”
Essa impulsividade era uma de suas marcas. Numa viagem da dupla a São Bernardo, ele fez
Kaxassa parar num boteco ao ver garrafas de Colorado Cauim sobre as mesas. “Vamos ficar
aqui, que tem a nossa cerveja”, impôs o Doutor. “Por coincidência, era aniversário do dono do
bar, e havia um monte de pôsteres do Corinthians nas paredes. O cara era um torcedor doente e
achou que fosse pegadinha, imaginou que alguém tinha pago para o Sócrates ir lá. Ficamos até as
sete horas da manhã, e o sujeito teve o aniversário mais incrível da vida dele.”
No Carnaval de 2004, quando o desfile das escolas de samba de Ribeirão Preto acabou
cancelado devido ao corte da verba da prefeitura de 1,2 milhão de reais, Sócrates garantiu a farra
nas ruas. Na comemoração de seus cinquenta anos, ele foi homenageado pelo bloco Berro — o
mais antigo da cidade, do qual participou da fundação juntamente com Kaxassa. Fazia questão de
ir em cima de uma caminhonete distribuindo chope — fornecido pela cervejaria Colorado — aos
foliões. Dessa vez, contou com a ilustre companhia do ator Paulo César Pereio e, melhor ainda,
da atriz Luciana Caruso. O Doutor enlouqueceu diante do corpo escultural da musa, com quem
iniciou um namoro. Tempos depois, ao voltar de uma viagem a Brasília, resolveu ir diretamente
do aeroporto de São Paulo para Ribeirão Preto, em vez de se encontrar com Luciana na capital.
Kaxassa ficou inconformado: “Você já perdeu um pênalti na Copa! Vai perder outro? É um
mulherão!”. A partir dali, o apelido da atriz passou a ser Pênalti, e Sócrates ainda contou para a
amada essa brincadeira, para constrangimento de Kaxassa.
Magrão fazia troça sobre si mesmo o tempo todo. Aparentava ser desprovido de vaidade,
embora não fosse completamente. A sua autoestima às vezes se manifestava às avessas. Falava
com orgulho que sempre era voto vencido nas eleições da Democracia Corinthiana — um
argumento que usava até para derrubar a tese defendida pelo goleiro Leão de que o processo
igualitário no clube não passava de uma lenda, pois quem mandava na realidade eram os líderes
do movimento, sobretudo o próprio Sócrates.
Se um jornalista elogiava demais a sua atuação em campo, comumente contestava a
avaliação, como se recorda Juca Kfouri. “Quando eu descia ao vestiário e falava: ‘Porra, Magro,
você jogou pra cacete hoje!’, ele rebatia: ‘Joguei nada! Quem jogou foi o Tatá [Ataliba], se o
Tatá não corre hoje, eu não tinha pego na bola’. Ou então: ‘Quem jogou mesmo foi o Casão’, e
invariavelmente era um jogo em que o Casagrande não tinha feito gol. ‘Você não viu, Juca? O
Casão abriu, fez isso, fez aquilo’, argumentava. Mas quando eu falava pra ele: ‘Porra, Magro,
você jogou uma merda, hein?’, ele também discordava: ‘Você viu outro jogo, eu joguei pra
caralho!’. Achava isso engraçadíssimo.”
Ao final das partidas, Sócrates e Casagrande costumavam fazer uma mesa-redonda informal
com os amigos. “Era muito gostoso sair com eles depois de jogos que o Corinthians tinha
ganhado e jogado bem, porque eles ficavam muito felizes com o jogar bem. Dava prazer vê-los
comentando o que tinha sido a partida, numa mesa de bar, ou então íamos para a casa do Magro,
na rua Maranhão [em Higienópolis]”, lembra-se Juca.
Numa dessas ocasiões, ele testemunhou a dupla se divertindo com as sacanagens que haviam
aprontado com o zagueiro Márcio Alcântara, do Palmeiras, escalado como volante pelo técnico
Rubens Minelli com a missão de marcar Sócrates individualmente na semifinal do Paulistão de
1983. O jovem defensor, então com 21 anos, obedeceu ao pé da letra a ordem do treinador e
seguiu o Doutor como uma sombra por todos os lados do campo. Assim conseguiu anulá-lo no
primeiro jogo, embora Sócrates tenha feito o gol de empate em cobrança de pênalti aos 31
minutos da etapa final. Depois da partida, enquanto tomavam cerveja, o vice-presidente
corinthiano, Adilson Monteiro Alves, chegou a questionar o craque por ter aceitado a marcação.
“Calma, são dois jogos, então as armas têm de ser guardadas para o segundo”, respondeu o
Doutor. Márcio não perdia por esperar.
No confronto seguinte, com mais de 95 mil torcedores no Morumbi, Sócrates e Casão
procuraram minar a confiança do novato. “Deixar de jogar só pra seguir o Magrão pelo campo
não tem nada a ver! Sai dessa, você vai se foder”, dizia Casagrande para Márcio, que não lhe
dava ouvidos, nem sequer respondia. Até que, com a bola parada para a cobrança de um
escanteio, Sócrates teve uma ideia genial para desmoralizá-lo. Plantado no meio de campo, com
o marcador grudado nele, Magrão correu inesperadamente em direção à lateral, onde se
encontrava a torcida corinthiana. Márcio se surpreendeu com o movimento e, ingenuamente, foi
atrás. Ao fazer papel de bobo, o rival recebeu uma vaia homérica da Fiel, o que o desestabilizou
momentaneamente. Pouco depois, aos 21 minutos do primeiro tempo, numa vacilada de Márcio,
que se afastou do craque, Sócrates recebeu a bola de costas e, num belo giro de corpo, livrou-se
da marcação de Carlão e Rocha para tocar com categoria, num chute rasteiro de fora da área, no
canto direito do goleiro João Marcos. Era o gol da vitória.
Magrão chegou a apontar esse jogo como o mais marcante em sua carreira. Para Márcio,
então, nem se diga. Os dois conversaram sobre esse episódio memorável em entrevista a Rodrigo
Linhares, na rádio Paiquerê, de Londrina, em janeiro de 2010. “Foi muito cômico, até porque eu
segui à risca aquilo que o Minelli tinha me pedido. Mas a dificuldade era tão grande que eu
pensei assim: eu vou dentro da passada dele. Teve uma hora até que o Sócrates saiu do campo e
passou por fora da mesa do representante [da Federação Paulista] e eu fui junto também.
Realmente filmaram isso. Foi um jogo que marcou muito a minha vida, e eu sei que marcou a
dele também”, comentou Márcio. “Era para derrubar a confiança, um artifício psicológico dentro
do futebol”, explicou Sócrates. Nesse bate-papo, quase 27 anos depois daquele duelo, os dois
descobriram um ponto em comum: a antipatia por Emerson Leão, o desafeto número um do
Doutor. “O Sócrates jogou com o Leão, eu joguei e fui treinado por ele. Na verdade, na época
que eu saí do Palmeiras, foi por uma discussão com o Leão. Bati de frente. Para quem é jogador,
realmente não dá para conviver com ele”, revelou Márcio.
A rivalidade com o Palmeiras, numa época em que o Corinthians levava vantagem nas
disputas, não impediu que Sócrates conquistasse corações da família Beting, apaixonadamente
palmeirense. Mauro até se emociona ao relembrar o dia em que o Corinthians foi pentacampeão
brasileiro, contra o Palmeiras, no Pacaembu, em 2011, no mesmo horário em que o Doutor era
enterrado em Ribeirão Preto. “Eu estava na transmissão do jogo com o [narrador] José Silvério e,
na hora em que os jogadores do Corinthians ergueram os braços para homenageá-lo, eu me
levantei e também ergui o punho. Uma das poucas vezes em que chorei numa transmissão. O
Silvério até ia passar a bola pra mim, mas viu o choro e continuou falando. Foi uma coisa linda,
tanto que quando voltei pra casa encontrei meu filho mais velho, o Luca, megapalmeirense,
então com doze anos, vestido com a camisa da Democracia Corinthiana que o Sócrates tinha lhe
dado.” Mais uma prova de que a admiração pelo ídolo ultrapassa barreiras clubísticas.
Embora tenha sido santista na infância e se tornado corinthiano apaixonado, Sócrates não
cultivava o menor ressentimento em relação aos clubes rivais. Como demonstrou durante a
gravação de um programa de Jorge Kajuru na cantina Jardim de Napoli, em São Paulo. “O clima
estava bem descontraído. O Nasi, do Ira!, que é são-paulino, fez uma música na hora para o
Muricy Ramalho, e tudo. Aí o Luiz Gonzaga Belluzzo [economista e ex-presidente do Palmeiras)
chegou com uma bandeira do seu clube. Na brincadeira, o Magrão deu até um beijo na bandeira
do Palmeiras”, conta Kaxassa. “O Kajuru começou a encher o saco dele, falava que tinha virado
casaca, essas coisas, mas ele bateu de pronto: ‘Deixa de ser idiota! O futebol é bonito por causa
das torcidas. Todas são povo!’. Com ele, não tinha distinção. Tanto que começou a fazer, nos
últimos anos de vida, um trabalho de conscientização política com as torcidas organizadas. Eu
sei que chegou a ir até a Gaviões da Fiel, mas também planejava ir a uniformizadas de outros
clubes”, acrescenta.
Outra vez, Kaxassa chegou a São Paulo e ligou para Sócrates, que o convidou para ir a um
boteco onde estava. “Quando passei o endereço ao taxista, ele ficou até com medo de me levar.
Tinha receio de ser hostilizado porque havia um distintivo do Corinthians no carro dele, e o bar
era conhecido como reduto palmeirense. Mas nós fomos, eu entrei lá e peguei o Magrão gozando
dos torcedores adversários, mas num clima bem amistoso.” Ao comentar seu estranhamento com
o dono do bar, Kaxassa soube que a situação tinha sido ainda mais curiosa. “O proprietário
contou que nem havia aberto a casa para o público quando o Sócrates começou a bater palmas.
Então foi ver o que era e se deparou com o astro corinthiano querendo entrar. O dono permitiu,
antes do horário de funcionamento, e mais tarde, com a chegada dos fregueses, o Magrão ainda
ficou tirando onda dos palmeirenses. Era uma figura!”
Abrir bares antes da hora não chegava a ser novidade para Sócrates. Numa ocasião, o Doutor
foi convencido por Kaxassa a ir a pé da rua Frei Caneca, próximo à avenida Paulista, até o Bar
Brahma, na esquina da São João com a Ipiranga. “Ele gostava de caminhar, a preocupação era só
a de ser parado toda hora para dar autógrafo. Por isso, ele colocou a camisa na cabeça e fomos
andando rapidamente. Quando chegamos na praça da República, ao lado do bar, ele já estava
exausto e começou a reclamar. Para piorar, o Brahma estava fechado, e ele se sentou na calçada
em frente ao portão de entrada e passou a me xingar. Dizia que não aguentava dar mais nem um
passo e exigia que eu arrumasse um chope para ele ali mesmo. Quem passava na rua pensava que
eu tinha feito alguma coisa grave para ele estar tão bravo. Até que os garçons perceberam o que
acontecia e ligaram para o dono, que autorizou nossa entrada. Ficamos tomando chope enquanto
eles limpavam e arrumavam as coisas para receber os clientes.”
É fácil constatar que as conexões de Sócrates se estabeleciam em mesas de bar. Foi assim
com todo o seu círculo de amigos. Mesmo com aqueles que conhecia em outros lugares, acabava
estreitando a relação em conversas regadas a cerveja. Com o próprio Casagrande, a aproximação
se deu dessa forma, embora o atacante nunca tenha feito dos botecos o seu habitat natural — um
fator a mais que dificultava os encontros depois que deixaram de jogar juntos. Enquanto
formavam dupla e circulavam pela noite paulistana, o maior atrativo para Casão sempre foi a
música, tanto que escolhia os barzinhos a partir dos grupos que tocavam na noite.
Sócrates tinha gosto eclético e, mesmo quando não se tratava do seu tipo de som favorito, não
se opunha a acompanhar o amigo. “Ele gostava de cerveja, podia tocar qualquer coisa, desde que
tivesse companhia para um bom bate-papo. Se eu o chamasse para o De Repente, que era um bar
na rua Bela Cintra, onde tocava rock dos anos 70 e 80, ele me acompanhava numa boa. Eu já era
mais radical. Para eu ir, tinha de gostar da música. Se ele me chamasse para ouvir moda de viola,
já ficava puto, nem sei se eu iria”, admite Casão.
Embora com o passar do tempo Kaxassa tenha se tornado muito mais próximo de Sócrates do
que Casagrande, ele assegura que o sentimento em relação ao antigo parceiro manteve a
intensidade, a despeito da distância. “Apesar de a mãe do Magrão, os irmãos e os filhos me
considerarem o seu melhor amigo, eu tenho certeza de que foi o Casão. Acho que o reencontro
dos dois no hospital foi um dos momentos mais felizes da vida dele. Durante a minha visita, após
ele sair do coma, falou extremamente emocionado: ‘Kaxassinha, sabe quem estava aqui quando
eu abri os olhos? O Casão, com aqueles oclinhos dele… Ele veio me ver!’. Ali eu percebi a
importância da reaproximação. A expressão no seu rosto dizia: como pudemos ficar tanto tempo
longe?”
Casagrande teve a mesma sensação e, se pudesse voltar atrás, teria superado quaisquer
divergências para evitar o distanciamento e aproveitar ao máximo a companhia de Sócrates.
Independentemente da série de comportamentos de Magrão com os quais não concordava.
Incomodava-se, sobretudo, com a sua inconstância. E ficava com raiva do amigo por entender
que ele dava munição para seus críticos o atacarem. No fundo, queria preservá-lo. Sabia que
Magrão sairia com a imagem desgastada cada vez que iniciava um projeto sem concluí-lo. Como
aconteceu em suas aventuras na área cultural, nas breves investidas na medicina ou quando quis
brincar de técnico. Toda a sua irritação, em suma, não passava de uma adoração pelo avesso.
9
Professor aloprado
V isto com desconfiança pelos clubes brasileiros, que discordavam frontalmente de suas ideias
liberais ou temiam sua instabilidade e estilo de vida desregrado, Sócrates teve poucas
oportunidades como técnico. A estreia aconteceu no Botafogo de Ribeirão Preto, sempre o seu
berço, onde dirigiu o time por cerca de dois meses apenas, em 1994. A curta passagem rendeu
histórias folclóricas contadas com humor, até hoje, por funcionários e associados.
Algumas das mais divertidas são relatadas pelo massagista Sebinho, que se tornou uma lenda
viva no clube, no qual começou a trabalhar em 1967. Ele viu Sócrates iniciar a carreira, tanto de
jogador como de técnico, e guarda-o na memória com grande carinho. No único clássico Come-
Fogo que teve o Doutor como treinador, ele testemunhou uma atitude inédita do comandante da
equipe, algo que jamais imaginara presenciar num time profissional. “Quando eu cheguei ao
estádio Santa Cruz, pouco antes do jogo, o Sócrates me disse assim: ‘E aí, Sebinho, vamos tomar
uma?’. Eu respondi que naquela hora, não; só depois que tivéssemos ganho a partida, para
comemorar. Mas ele continuou bebendo junto com dois dirigentes, no departamento médico,
enquanto os jogadores faziam aquecimento. Havia uma sacola vermelha com as latinhas de
cerveja no freezer. Aí fomos para o jogo e, durante o intervalo, quando o time voltou para o
vestiário, ele tomou mais uma no momento da preleção. Ele era assim, não tinha jeito”, constata.
O empate por 2 a 2 com o Comercial até podia ser considerado um bom resultado, pois
Sócrates assumira o cargo justamente porque a equipe não vinha bem na temporada. Mas o seu
estilo pouco convencional de dirigir o time não lhe daria longevidade na função. De uma maneira
geral, os jogadores gostavam do Doutor, que não gritava com eles na beirada do campo, nem
dava as costumeiras broncas de técnico. Um comportamento que destoava completamente da
cultura vigente no meio do futebol.
“Ele não levava jeito para treinador, era muito liberal. Eu lembro que estávamos concentrados
para uma partida e, na hora do almoço, percebi a ausência do Biro-Biro e do Edson Abobrão
[dois jogadores com quem Sócrates havia atuado no Corinthians]. Fui avisar o Magrão, que me
informou que havia liberado os dois para comer em casa”, conta Sebinho. “E os demais atletas, o
que eles vão pensar? Assim, você não vai conseguir nada!”, ainda o advertiu o massagista. “Está
tudo bem, sou contra a concentração”, respondeu ele.
Durante uma viagem para Sorocaba, Sebinho também viu com preocupação outra atitude do
chefe. “Ele foi bebendo cerveja no ônibus ao longo de todo o trajeto, desde que saímos de
Ribeirão, na frente de todo mundo.” O massagista ressalta, entretanto, que Sócrates não bebia
antes das partidas na época em que atuava como jogador. “Só tomava depois. Quando ia para o
antidoping, já começava ali.” Enquanto atleta do Botafogo-sp, a sua única contravenção
alcoólica, digamos assim, aconteceu durante um tratamento que fazia para ganhar peso no início
da carreira. “O Magrão comparecia ao clube diariamente para eu aplicar uma injeção de
vitaminas na veia dele. Seriam quatro dias seguidos, mas, no terceiro, ele buzinou em frente à
minha casa [Sebinho morava no estádio] e, quando saí, ele estava no carro com uma sacola cheia
de cerveja, queijo e salaminho. O tratamento foi retomado apenas no dia seguinte.”
Outro ponto que causava estranhamento era a forma como passava as suas instruções à
equipe. “Nas palestras, ele falava baixo, muito diferente de todos os outros com quem já
trabalhei. O Magrão não nasceu para ser técnico. Embora o sonho dele, conforme me
confidenciou, fosse dirigir o time do Corinthians”, acrescenta Sebinho.
Os treinamentos do “professor Sócrates” tinham curta duração e corriam soltos, praticamente
sem intervenções do chefe. A despeito da simpatia do grupo, porém, ao perceber que seus
métodos de trabalho passaram a ser questionados pela diretoria, e que o supervisor técnico
Milton Bueno, o Tiri, às vezes agia como interventor, desligou-se do Botafogo-sp após poucos
jogos sob sua direção.
Com as portas dos clubes brasileiros fechadas, só lhe restou a alternativa de tentar a sorte no
exterior. Em 1996, ele assumiu o comando da Liga Universitária de Quito (ldu), um dos times
mais tradicionais do Equador, com dez títulos nacionais (na época, possuía quatro). Futuramente,
em 2008, a equipe ganharia a Taça Libertadores da América, sinal de sua grandeza. Os
equatorianos são apaixonados por futebol, com grande admiração pela seleção brasileira de 1982
e, consequentemente, pelo craque e capitão Sócrates. Ele chegou lá, portanto, cercado de grandes
expectativas.
O projeto do Doutor, nem seria preciso dizer, consistia em desenvolver uma versão
equatoriana da Democracia Corinthiana, com liberdade para os jogadores, participação deles nas
decisões por meio de voto e fim da concentração obrigatória. Também defendia um esquema de
jogo ofensivo. Na teoria, os dirigentes da ldu acharam tudo aquilo muito bom, mas não tiveram
paciência para mantê-lo no cargo além de dois meses. A equipe não apresentava padrão de jogo
consistente e, após um tropeço diante do rival Nacional, por 1 a 0, o terceiro em cinco partidas, a
torcida passou a pedir sua cabeça. Fim da linha.
A terceira chance lhe foi dada em novembro de 1999 pelo amigo Leandro, lateral-direito da
seleção de 1982 que se tornara coordenador-técnico da Cabofriense. O braço direito de Leandro
era Renato Gaúcho, exatamente o parceiro de baladas que levara o lateral a abdicar da Copa de
1986, em solidariedade ao atacante, então cortado pelo técnico Telê Santana após os dois terem
se atrasado na volta de uma folga e chegado bêbados à concentração. Como apenas Renato foi
banido do grupo, porque Telê acumulava outras broncas dele, Leandro entrou em crise de
consciência e abandonou o barco no dia da viagem para o México. Ao lado desses dois velhos
companheiros, quase tão malucos quanto ele, Sócrates estava praticamente em casa.
Os ideais democráticos começaram a ser empregados logo de saída. Diante da notícia de que
o nome do time seria trocado de Associação Desportiva Cabofriense para Cabo Frio Futebol
Clube, ele aproveitou os ventos de mudança e propôs à direção do clube, bancado pela prefeitura,
que houvesse um plebiscito na cidade para a população escolher as cores do novo uniforme.
Também sugeriu a adoção de técnicas de capoeira e tai chi chuan na preparação física dos
jogadores, além de palestras sobre doenças sexualmente transmissíveis e a contratação de um
psicólogo. Novidades que deveriam ser submetidas à votação dos atletas antes de serem
implantadas. Um princípio do qual não abria mão.
Ao mesmo tempo, Sócrates levou um choque ao constatar a deficiência na formação
educacional do elenco e passou a despender esforços para subir o nível de informação de seus
integrantes. “Quando foi convidado para assumir a Cabofriense, ele me chamou à casa dele para
ajudá-lo a carregar o porta-malas do carro com um monte de livros”, conta o amigo Bueno. “Vou
fazer todo mundo ler”, disse o Doutor na ocasião. Ele também começou a usar o mural do
vestiário para uma prática jamais vista pelos atletas, que todos os dias deveriam colar ali uma
manchete de jornal para discuti-la em grupo. Segundo Bueno, essas iniciativas renderam frutos,
apesar de Sócrates ter ficado por pouco tempo à frente da equipe. “Já vi várias vezes, ao seu lado
em mesas de bar, o Magrão receber ligações de jogadores da Cabofriense para lhe agradecer por
eles terem desenvolvido o hábito da leitura.”
No campo de treinamento, falava menos do que fora dele. Passava poucas instruções táticas
para os jogadores e os deixava à vontade para se divertirem em busca sempre do gol. Acreditava
que dessa forma a criatividade de cada um seria despertada e, com o tempo, naturalmente as
peças se encaixariam. Explicava que se inspirava no mestre Telê Santana, que havia dado
liberdade para os craques da seleção se entrosarem nas Copas de 1982 e 86. Mas havia uma
diferença crucial: a qualidade do elenco da Cabofriense era incomparavelmente inferior à do
grupo formado por Zico, Falcão, Cerezo, o próprio Sócrates e o restante daquela talentosa turma.
Algo que ele não levava em consideração. Também seguindo seus princípios, extinguiu a
concentração e liberou os seus comandados para beberem e curtirem os prazeres da noite sem a
menor restrição.
O time até que não ia mal na disputa da segunda divisão do Campeonato Carioca. Ao
contrário, chegou à liderança, mas com uma estranha campanha: em seis jogos, três vitórias por 1
a 0, porém beneficiado sempre por gols contra dos adversários. Durante uma entrevista, o Doutor
não segurou a piada: “A nossa única jogada ensaiada é o gol contra dos outros”.
O Cabo Frio — como passou a se chamar a Cabofriense por esse breve período, pois em 2001
retomou o nome original — conseguiu subir para a primeira divisão carioca naquele ano, mas
Sócrates não permaneceu para comandá-lo. Segundo ele, foi demitido por razões políticas, já que
o clube era administrado pela prefeitura. “Ninguém me quer porque sou um revolucionário. Na
divisão de elite, com toda a mídia em cima, as minhas ideias também teriam maior repercussão”,
justificava.
A interpretação de Casagrande é bem diferente. Ele nunca conseguiu enxergar Sócrates como
técnico e não se surpreendia com os voos curtos do amigo nessa direção. “Eu não via nenhuma
afinidade dele com a profissão de treinador. Acho que ele seria muito bom como diretor de
futebol, em um cargo administrativo, mas o estilo de vida dele parecia incompatível com a
função de comando atlético de uma equipe”, avalia Casão.
Quando era um jovem centroavante que experimentou o sucesso muito cedo, ainda na fase
final da adolescência, Casagrande tinha ideias completamente transgressoras, defendia a
liberação absoluta para que os jogadores fizessem o que bem entendessem e não via problema
algum em virar a noite à base de álcool e outros aditivos. Porém, com o passar do tempo, ele
amadureceu e passou a buscar um meio termo nesse aspecto. Manteve intactos os princípios
básicos de liberdade com responsabilidade, participação do elenco nas decisões referentes ao
time e respeito à livre expressão do pensamento. Mas se convenceu de que os treinadores
precisam orientar principalmente os atletas mais novos, que quase sempre se deslumbram com as
facilidades da fama e o poder do dinheiro, além de zelar para deixá-los em boa forma física.
Reconheceu, ainda, que o futebol evoluiu, assim como as técnicas de preparação e os
conhecimentos de fisiologia, o que tornou o jogo mais veloz e desgastante. Concluiu ser
necessário impor limites para que o jogador tenha alto desempenho.
“Acho que as pessoas vivem do modo que querem. Eu não estou aqui para julgar nem a
minha vida, nem a do Sócrates, nem a de ninguém. Só que algumas profissões exigem um
comportamento mais equilibrado, porque para comandar pessoas é preciso dar o exemplo. É
complicado o chefe proibir algo e ele próprio fazer aquilo. Ou então liberar tudo, que também vai
dar problema. Se você falar para um jogador de futebol que pode sair todo dia, beber, fumar,
virar a noite, ele acabará não conseguindo jogar direito no domingo. O cara perde o
condicionamento, imprescindível para obter uma boa performance.”
Muito mais sectário em suas posições, Sócrates estranhava esse tipo de ponderação de
Casagrande. Eventualmente, até mesmo se irritava com alguma argumentação dele em
comentários durante as transmissões de jogos na tv. Julgava essa visão conservadora, o que
reforçava nele a impressão de que o antigo parceiro havia se rendido ao sistema. Não entendia
que a mudança podia ser consequência natural da idade e das experiências de vida. Ainda mais
de alguém que passou por situações dramáticas e se esforçou bastante para mudar antigos hábitos
que lhe faziam mal, reinventando-se pela própria sobrevivência. O Doutor dançava o samba de
uma nota só e talvez por isso tenha partido tão cedo.
Casagrande não vivenciou a experiência de ser técnico e, muito provavelmente, também teria
quebrado a cara caso derivasse para a nova função quando foi cogitado para assumir o São Paulo
ou o Corinthians, em 2003. Afinal, na época, ainda usava cocaína e teria dificuldades para dar o
exemplo a seus comandados — exatamente o que cobrava de Sócrates. Mesmo assim, animou-se
com a possibilidade ao ver seu nome aparecer na imprensa e até em uma pesquisa de opinião que
o colocava como opção preferida por são-paulinos e corinthianos. “O Márcio Aranha [então
vice-presidente do São Paulo] me ligou e fez uma sondagem de minha disposição de me tornar
treinador, caso o Oswaldo de Oliveira fosse dispensado”, revela Casão.
Porém, isso não se concretizou, e o próprio comentarista tratou de pôr um ponto final nas
especulações ao perceber que o técnico da equipe do Morumbi passava por processo de fritura
em guerra declarada por Márcio Aranha. Para cortar o mal pela raiz, almoçou com Oswaldo e
deu declarações públicas de que não aceitaria assumir o cargo naquelas condições. “Não fui
convidado e, mesmo que fosse, não aceitaria pelo cenário que foi criado. O que estão fazendo
com o Oswaldo é uma grande sacanagem. Só aceitaria o convite em situação normal, se ele não
renovasse contrato ou saísse após uma série de insucessos”, afirmou na ocasião.
Em relação ao Corinthians, nem sequer houve contato da direção do clube, mas Casagrande
passou a ser cotado a partir do pedido de demissão de Geninho, após humilhante derrota para o
Juventude por 6 a 1. No auge dessa onda, conversou até com a direção da Rede Globo sobre uma
eventual licença da emissora. Empolgado com a perspectiva de virar treinador, foi mais além:
reuniu-se com profissionais que formariam a sua hipotética comissão técnica. Por ser
completamente virgem no cargo, escolheu Mario Travaglini, treinador nos tempos da
Democracia Corinthiana, para coordenador técnico, a fim de ter sustentação com sua experiência.
Nelsinho, ex-lateral esquerdo do São Paulo e do Corinthians, seria seu auxiliar. E o ex-zagueiro
corinthiano Juninho Fonseca assumiria o papel de treinador de defesa.
“Eu iria enfrentar muitos problemas, pois minhas ideias eram modernas demais para a época.
A função que eu imaginava para o Juninho, por exemplo, nem existia no país. E precisaria de um
zagueiro rápido, assim como o Baresi [ex-líbero do Milan e da seleção italiana], pois iria tomar
muitas bolas nas costas, porque queria montar uma linha defensiva com marcação adiantada.
Com a posse de bola, o time atacaria em bloco, com todo mundo no campo ofensivo, baseado no
carrossel holandês de 1974”, explica Casão. Mas não havia um Baresi no Corinthians, muito
menos um Cruyff, e a barca furada na qual pensou em ingressar ficou evidente com a contratação
de Júnior, seu parceiro na Copa de 1986, para o lugar de Geninho. O Capacete suportou apenas
dez dias no comando do Corinthians e pediu demissão depois de dois jogos em que a equipe
alvinegra saiu derrotada por 3 a 0, contra São Caetano e São Paulo.
A aventura de Casagrande como técnico, portanto, não passou de um curto sonho de verão —
ou melhor, de primavera — logo deixado de lado. Hoje ele avalia que foi bem melhor assim.
Além de gostar do trabalho de comentarista, admite que talvez não reunisse todos os atributos
necessários para exercer o cargo de comando — pelo menos naquela fase de sua vida. Havia o
risco de também se tornar um professor aloprado. Por ser tão criterioso, exigente e realista, até
consigo mesmo, Casão era crítico das investidas de Sócrates não só como treinador, mas também
em outras áreas de atuação em que não persistia, sempre pulando de galho em galho.
Sócrates, por sua vez, sentia prazer em ser multifacetado. E deixou um interessante legado,
apesar de suas iniciativas pontuais e esparsas. Em 2002, por exemplo, publicou o livro
Democracia Corintiana: a utopia em jogo, com o jornalista Ricardo Gozzi, pela Boitempo
Editorial, no qual retrata a sua visão do movimento mais ousado do futebol brasileiro. O
lançamento em São Paulo, é claro, ocorreu num bar: o Brahma, na esquina das avenidas Ipiranga
e São João, imortalizada por Caetano Veloso na música “Sampa”.
Os seus projetos, em geral, nasciam durante a euforia etílica. Conhecia artistas na madrugada,
empolgava-se, formava parcerias, aventurava-se como produtor, decidia ler um clássico da
literatura recomendado por um companheiro de boteco, embarcava nas mais diversas direções.
Se conhecesse um artista plástico durante uma noitada, fazia questão de conferir sua obra.
Inclusive porque gostava de pintar quadros, abstratos em sua maioria, que normalmente
despertavam a admiração de quem tinha oportunidade de vê-los. Porém, ficavam restritos a um
círculo íntimo, pois nunca quis uma exposição oficial. Quando algum amigo se interessava por
uma de suas telas, expostas nas paredes de seu apartamento, ele descartava a possibilidade de
vendê-la e, generosamente, lhe dava de presente, com a condição de que a obra continuasse em
sua própria casa. “Todos os quadros têm donos, mas eu não os entrego. Alguns, inclusive,
pertencem a vários proprietários”, brincava. “Cada um deles é como um filho pra mim.”
Sócrates ainda era um apaixonado por teatro. No auge da carreira como jogador, em 1983, foi
produtor da peça Perfume de camélia, com a atriz Maria Isabel de Lisandra, no teatro Ruth
Escobar. Em 2002, escreveu e produziu outra peça, O futebol, em parceria com o maestro,
escritor e dramaturgo Kleber Mazziero. Ali procurou desvendar os bastidores de um universo
que conhecia bem: o de um jogador consagrado. A história se passa em um estúdio de televisão,
onde ocorre um blecaute durante uma entrevista do protagonista. No escuro, começam a aparecer
os traços mais humanos do ídolo, cercado pelo empresário ganancioso, a maria-chuteira e outras
figuras típicas. O espetáculo resistiu em cartaz por quarenta dias no teatro Gazeta.
Casagrande via com um pé atrás essa característica do amigo de atirar para todos os lados. Por
uma razão muito simples: ele nunca ia a fundo em nenhum desses projetos. “Sempre me
incomodou esse negócio de ele começar as coisas e não acabar. E eu participei de tudo,
acompanhei desde o início essas aventuras. Fui a um ensaio de Perfume de camélia, assim como
à estreia, mas eu encarava como algo esporádico, uma iniciativa bacana do Sócrates, um jogador
da seleção brasileira, de apoiar a realização de uma peça. O teatro naquela época enfrentava
muitas dificuldades financeiras, aliás como enfrenta até hoje, para escalar um elenco, arrumar
patrocinador, alugar uma sala de exibição. O que eu não levava a sério era a sua disposição de
continuar investindo em tantas atividades que não tinham nada a ver com o ramo dele. Acho que
poderia ter feito muito mais se tivesse se direcionado para áreas que ele conhecia bem.”
Atualmente, Casagrande vai a peças de teatro praticamente todas as semanas. Depois gosta de
comentar os espetáculos com os amigos e incentivá-los a ir também. Voltou animado de Antes
tarde do que nunca, musical da Broadway adaptado e estrelado por Miguel Falabella, e Mulheres
à beira de um ataque de nervos, outro musical adaptado por Falabella, baseado no filme de
Pedro Almodóvar, com as atrizes Marisa Orth, Helga Nemeczyk e Totia Meireles. Também se
empolgou com a adaptação do filme francês Intocáveis, com Ailton Graça e Marcelo Airoldi nos
papéis principais. Depois dos espetáculos, em vez de ir beber em um boteco, à moda socrática,
normalmente prefere jantar com a namorada ou amigos numa cantina. Logo que retomou esse
hábito cultural, enquanto falava sobre as apresentações, a lembrança de Sócrates foi inevitável:
“Aprendi a gostar de teatro por influência do Magrão, mas também fiquei um tempão sem ir por
causa dele. Saí traumatizado de Perfume de camélia, de tão ruim, e só consegui voltar agora”,
brincou, aos risos.
Para Casão, no afã de querer abraçar o mundo, Sócrates deixava tudo escapar por entre os
dedos, sem desenvolver nenhum projeto ou deixar frutos mais consistentes. As suas investidas
sempre se mostravam breves, descartáveis, instantâneas. “O Sócrates era genial, mas não havia
necessidade de tentar demonstrar genialidade em todas as coisas: no teatro, como compositor,
cantor, ator, pintor, médico, treinador, comentarista esportivo, colunista de jornal e revista. Você
tem que ver seus limites, avaliar as reais condições, aquilo que realmente acrescentará.”
Ele ressalta que essa observação não se refere ao fato de Sócrates ter investido em produtos
ou atividades que não dariam retorno financeiro. Casão entende que isso pode ser secundário,
desde que alcance outros objetivos. “Não estou falando em relação íntima com a grana. É uma
questão de fazer coisas que lhe deem prazer, mas que também não o façam perder recursos sem
qualquer realização palpável. O Magrão não possuía o mínimo conhecimento de teatro, meu!
Ficou empolgado por alguém, por algumas pessoas, e entrou naquela parada completamente
despreparado.”
Mais preocupante foi constatar que o Doutor não se aprofundava nem mesmo nas atividades
que faziam parte de sua formação, como a medicina e o futebol. Embora tenha se graduado na
usp, universidade de maior prestígio do país, e feito especializações na Itália, no Rio de Janeiro e
em São Paulo, notadamente em ortopedia, também não se fixava na área de saúde. Um
desperdício de capacidade, pois exibia grande conhecimento sobre o assunto e revelava-se um
craque nos diagnósticos.
O jornalista Juca Kfouri pôde comprovar isso na prática. “O Magro fazia diagnósticos à
distância, aí você ia ver… e ele tinha razão. Eu sei disso, inclusive, por uma coisa aqui de casa.
Minha filha, Camila, de repente começou a engordar, engordar e engordar. Um médico dela,
endócrino, disse que era síndrome de Cushing e que não havia tratamento aqui no Brasil.
Teríamos de levar para Boston”, relembra. A família chegou a levantar informações sobre um
hospital especializado nos Estados Unidos, mas os planos mudaram quando ele contou o caso
para Sócrates. Na época, os dois trabalhavam juntos no Bola na Rede, na Redetv!, e se
encontraram no fim de semana. “Síndrome de Cushing? O quê? A Camila? Você tá maluco! Ela
não tem nenhum sintoma disso. Ela engordou, né? Eu sei, eu vi, mas não é síndrome de Cushing.
A Camila está com algum problema na glândula suprarrenal”, cravou o Doutor. Juca reagiu com
alguma incredulidade, apesar de já saber das qualidades do parceiro nesse ramo: “Mas você
nunca a examinou, já faz um mês que você a viu lá em casa”, ponderou. A resposta veio certeira:
“Juca, posso te garantir… pode até ser que eu esteja enganado e não seja nada na suprarrenal,
mas síndrome de Cushing, ela não tem”, assegurou, detalhando os sintomas e a aparência de um
doente acometido por esse mal. Bingo! Um outro endocrinologista foi procurado e os exames
comprovaram disfunção na suprarrenal.
Kaxassa também elogia a capacidade de Sócrates como médico. “O Magrão me tratou quando
tive hepatite C, me orientou durante um regime de engorda e fiquei ótimo. Era um puta médico!
Pude até voltar a beber”, comemora. Ele ainda relata uma história que se passou durante uma
expedição científica no Pantanal em 2008, organizada pelo professor Paulo Teixeira de Sousa
Júnior, da Universidade Federal de Mato Grosso, com a participação de estudiosos de oito
países, além do Brasil. Por ser de Ribeirão Preto, amigo de Sócrates e cofundador do cineclube
Cauim, juntamente com Kaxassa, o cientista os convidou para a viagem.
Durante o trajeto de barco, o grupo parou numa fazenda encravada no coração do Pantanal, e
eles conheceram o capataz, um homem rústico, cuja mulher não andava havia muitos anos por
causa de uma enfermidade no joelho. O pantaneiro pediu a ajuda do Doutor, que se viu numa
saia justa, pois o caboclo, ciumento demais, não deixava ninguém tocar nas pernas da paciente.
O enorme facão pendurado na cintura impunha respeito. E medo. Mas Sócrates o convenceu da
necessidade de um exame mais minucioso, com privacidade para uma conversa a respeito do
histórico da doença. “Doutor, o senhor pode tocá-la, mas só o senhor, que foi capitão da mais
linda seleção que eu vi jogar”, assentiu o capataz. “O Magrão entrou na casa e ficou por meia
hora sozinho com a mulher. Depois pegou um papel e prescreveu o tratamento que julgava
correto. É incrível, ele acertou na mosca, porque ela voltou a andar”, revela Kaxassa.
A comprovação da cura se deu dois ou três meses depois, quando a cozinheira do barco,
Matilde, que ficara amiga de Sócrates e Kaxassa durante a expedição, foi passar o Carnaval em
Ribeirão Preto a convite da dupla. “Ela trouxe fotos da mulher andando. O Magrão tinha coisas
maravilhosas! Dava receitas assim… uma coisa de louco.”
Assim como Kaxassa é grato ao Doutor por tê-lo ajudado a superar a hepatite C, o amigo
Bueno também lhe agradece por ter se curado de uma dor persistente na região abdominal.
Porém, nesse caso, a intervenção se deu com auxílio da fé. “Eu sou espírita há mais de vinte anos
por causa do Sócrates. Ele me levou para uma cirurgia espiritual, feita por uma mulher que
recebia o espírito de um médico alemão que havia feito muito mal durante a Segunda Guerra
Mundial e, para se redimir, passou a ajudar as pessoas depois que desencarnou. O Magrão ficou
do lado, ajudando no procedimento, e depois me enfaixou. Nunca mais senti aquelas dores
horríveis. Estou convencido — e ele também acreditava nisso — de que me livrei de um câncer.
Além de médico, era um médium sensacional. Às vezes, previa as coisas.”
O dom curativo de Sócrates, entretanto, estava embasado sobretudo na ciência. O
reconhecimento de seu potencial contava com a chancela de grandes acadêmicos da área, como o
médico e pesquisador Sérgio Henrique Ferreira, um dos cientistas mais renomados do país,
responsável por descobrir que o veneno da jararaca contém uma substância capaz de
potencializar os efeitos farmacológicos da bradicinina. Esses estudos deram origem a
medicamentos eficazes no tratamento de insuficiências cardíacas. Professor de Sócrates na usp,
ele não se cansava de elogiar as qualidades do pupilo, que embora perdesse aulas por causa de
jogos e viagens com o Botafogo-sp, possuía espantosa capacidade de entendimento a partir da
leitura dos livros, o que o levava a tirar notas excelentes. Certo dia, enquanto tomava chope com
os amigos, Ferreira aproveitou uma ida de Sócrates ao banheiro para confidenciar a Kaxassa e
Bueno: “Não queria falar na frente dele, mas o Sócrates foi o aluno mais brilhante que eu já tive,
e eu dei aulas no mundo inteiro. Se ele tivesse seguido a carreira, teria sido um médico ou
cientista dos mais respeitados”.
Num de seus arroubos, Sócrates chegou a montar, em 1992, um moderno instituto de
fisioterapia em Ribeirão Preto. Mas o flerte com a medicina logo arrefeceu. Apesar do
investimento de 300 mil dólares, ele decidiu fechar a clínica poucos anos depois e pediu para
Casagrande ajudá-lo a encontrar um destino para tantos aparelhos de última geração. Casão
conversou com Joaquim Grava, responsável pelo departamento médico do Corinthians, que
acabou comprando os equipamentos. Apesar de ter socorrido o amigo, Casão também deu uma
bronca em Sócrates por mais esse passo em falso. “Porra, Magrão, você não leva nada até o
fim!”, cobrou, enfaticamente. Juca, que estava presente nesse encontro, ficou surpreso ao
constatar que o garoto inconsequente do passado havia amadurecido profissionalmente, a ponto
de ter uma postura paternal com o amigo mais velho, que antigamente assumia essa função ao
alertá-lo sobre o perigo de ser flagrado com drogas. “Ele começou a dar um esporro no Magro
mesmo. Eu vi o Sócrates olhando pra mim, e o Casão falando, falando, e não pude deixar de
pensar: caralho, os papéis se inverteram!”, conta Juca.
Na ocasião, o Doutor havia perdido o interesse na clínica por causa de mais um de seus planos
volúveis. “Ele estava com o projeto de reformar um cinema em Ribeirão, com o intuito de fazer
um clube de cinéfilos, algo assim. Porque ele era um insatisfeito permanente, aquele tipo de cara
que quando chegava a um objetivo já tinha que buscar outro. Não se contentava mais com o
atual. Uma inquietude absurda”, diz Juca.
A despeito de seu amor incondicional pelo amigo, Casão passou a se tornar crítico dessa
ausência de limites e de comprometimento com as responsabilidades assumidas. A falta de
pontualidade do parceiro, que tanto o incomodava, além da questão pessoal de se sentir
desrespeitado, soava como mais uma manifestação da propensão do Doutor a ignorar o
cumprimento dos deveres.
“Eu acho que as portas foram se fechando para o Sócrates, com o tempo, por causa desse
comportamento. Não foi aquele negócio que muita gente fala: ah, porque ele era revolucionário,
começou a ser podado, não davam espaço para ele. Nada disso. Vamos reconhecer, falar a coisa
certa: o Magrão era genial, poderia fazer qualquer coisa que quisesse profissionalmente, ser
comentarista de televisão, colunista de jornal e revista e muitas outras atividades, principalmente
algo relacionado ao futebol ou à medicina, só que o comportamento dele foi desgastando as
iniciativas das pessoas que lhe ofereciam algum tipo de trabalho”, conclui Casagrande.
A descontinuidade em tudo que Sócrates fazia — com a tendência de largar os projetos no
meio, seja por inflexibilidade, por indisposição para qualquer tipo de sacrifício ou pela baixa
resistência às decepções inerentes à existência humana — limitou o seu campo de ação. Apesar
da genialidade, ficou aquém do que poderia ter sido em todas as atividades exercidas. “Eu acho
que o Magrão nunca encontrou aquilo que ele realmente queria. Não dava para programar nada
com ele, simplesmente porque ele não levava nada adiante”, analisa Casão.
A trajetória cumprida pelos dois quando jogaram na Europa exemplifica bem essa diferença
de visão.
É quase uma versão da fábula da cigarra e da formiga.
10
A Europa de cada um
A esperança de Sócrates de permanecer no Brasil, conforme sua promessa em praça pública
durante a campanha pelas Diretas Já, foi enterrada no dia 25 de abril de 1984, quando o
Congresso Nacional rejeitou a emenda constitucional Dante de Oliveira, que restabelecia
eleições diretas para presidente da República. Estava aberto o caminho para ele se transferir para
a Fiorentina, da Itália, no mês seguinte, e dar início a uma conturbada fase na carreira e na vida
pessoal.
Já Casagrande só seguiria para a Europa em novembro de 1986, depois de entrar em conflito
com o técnico Jorge Vieira no Corinthians. Pouco antes da Copa disputada no México, o
centroavante recusara uma proposta atraente da Internazionale. Embora tenha ficado balançado e
com desejo de ir para Milão, ele preferiu se concentrar no Mundial e empurrou a decisão para a
frente. Passado esse período, já no final daquele ano, em crise com o treinador e insatisfeito com
a chegada ao poder, no Parque São Jorge, de seu antigo desafeto Roberto Pasqua — que
derrotara a chapa Democracia Corinthiana, encabeçada por Adilson Monteiro Alves —, o camisa
9 entendeu que era hora de ir embora. Ciente desse clima pesado no clube, o uruguaio Juan
Figer, um dos empresários mais atuantes no futebol brasileiro, aproveitou para comprar seu passe
e emprestá-lo ao Porto. Casão iria para Portugal obstinado em vencer no exterior e evitar repetir
a experiência malsucedida de Sócrates na Itália.
O time de Florença ganhara a concorrência com Inter de Milão e Napoli para levar o Doutor,
que já havia descartado Roma e Juventus. Uma proposta estratosférica para os padrões da época:
2,7 milhões de dólares para o Corinthians, além de 480 mil dólares para Sócrates, referentes aos
15% do valor do passe mais bônus. Receberia ainda 800 mil dólares por ano, livre de impostos,
mais o prêmio de 100 mil dólares por título conquistado. O craque estava ansioso pela
experiência de morar fora e conhecer uma nova cultura. Além da independência financeira,
também iria se ver livre do técnico Jorge Vieira, com quem estava rompido. Outro ponto em
comum com Casagrande: ambos não suportavam o estilo autoritário do chefe. Nada melhor do
que novos ares.
Porém, antes da mudança, Sócrates ainda voltaria ao time do Corinthians para terminar a
disputa do Campeonato Brasileiro. O time se classificara para as quartas de final sem sua
presença. Ele ficara fora de um jogo decisivo contra o Atlético Paranaense por causa de uma
lesão muscular sofrida num evento beneficente em Ribeirão Preto, às vésperas da partida oficial.
Adilson Monteiro Alves o liberara para participar da competição festiva em que sua família iria
enfrentar a do ex-jogador de basquete e técnico Hélio Rubens. Aparentemente, nada que pudesse
colocar em risco sua integridade, embora ele tivesse acabado de se recuperar de dores
musculares. Houve apenas uma partida de basquete, na qual Sócrates pôs os pés na quadra por
poucos minutos, com um copo de cerveja na mão, e outra de futebol de salão, em que também só
entrou no final. Porém, teve o azar de sofrer um estiramento ao dar o primeiro chute. Jorge
Vieira ficou furioso e a relação se deteriorou mais.
Como o Corinthians se classificou mesmo sem Sócrates, que também foi vetado para o
primeiro jogo das quartas de final, vencido pelo Flamengo por 2 a 0, no Maracanã, o camisa 8
reapareceu como a grande esperança no segundo duelo contra o rubro-negro carioca, no
Morumbi. E não decepcionou: comandou a goleada por 4 a 1 sobre o adversário que possuía um
timaço, com o goleiro argentino Fillol, Mozer, Leandro, Júnior, Adílio, Bebeto e companhia.
Assim a equipe alvinegra passou para as semifinais, quando acabou eliminada pelo Fluminense
de Washington e Assis.
Sócrates ainda participaria de dois amistosos, contra o Vasco, em Juazeiro do Norte, e a
seleção da Jamaica, em Kingston, que marcaram sua despedida do clube. Depois viajou para
Florença cheio de planos, mas ao mesmo tempo com certo temor. Era muito apegado às raízes
brasileiras, à cultura nacional e à sua rede de amizades. Mergulhar num universo desconhecido
lhe causava algum desconforto. Apesar de estar ao lado da mulher, Regina, sentia-se inseguro, à
beira do pânico.
E desde a chegada à Itália, as dificuldades que enfrentaria por lá começaram a se delinear. Se
ele travara vários braços de ferro com cartolas no Parque São Jorge, até a ascensão da
Democracia Corinthiana, percebeu instantaneamente que também não seria nada fácil a
convivência com os mandachuvas na Fiorentina, então controlada pelo conde Flavio Pontello,
ex-senador pela Democrazia Cristiana, partido alinhado à corrente política conservadora. Dono
do clube, ele nomeara seu filho, Ranieri Pontello, para a presidência. Na apresentação à torcida,
no estádio Comunale, dia 16 de junho de 1984, Sócrates fez o tradicional gesto com que
costumava comemorar gols, com o braço direito levantado e a mão fechada, identificado lá com
o Partido Comunista Italiano (pci). Imediatamente, foi advertido por Ranieri para jamais repetir
aquilo. Quanta ingenuidade do cartola… Sócrates se virou para Waldemar Pires, presidente
corinthiano que o acompanhava na solenidade, e retrucou: “Agora é que vou fazer toda hora”.
Na primeira entrevista coletiva para a imprensa italiana, Sócrates respondeu às perguntas com
a habitual transparência. Admitiu que fumava e bebia cerveja todos os dias, acrescentou que
também passaria a tomar vinho, bebida tradicional do país, além, é claro, de classificar como
desnecessária a concentração antes dos jogos. Também se assumiu como um homem de
esquerda, para desgosto da aristocrática direção da Fiorentina.
Porém, para transmitir suas ideias com fidelidade ao que dizia, precisou antes dispensar o
intérprete. Embora não falasse italiano, ficou bastante atento à tradução e, a partir da base latina
das duas línguas, conseguiu perceber que o tradutor mudava o teor de suas frases para torná-lo
mais palatável ao gosto dos conservadores dirigentes do clube. Abriu mão daquele telefone sem
fio na mesma hora.
Começava assim a acidentada trajetória de Sócrates na Itália, fadada a durar apenas uma
temporada. No início de agosto, estreou pela Fiorentina num amistoso contra um time amador de
Pinzolo, onde o clube fazia a pré-temporada, sem balançar a rede na goleada de 7 a 1. Mas
chamou a atenção com oito passes dados de calcanhar, o que deixou a imprensa italiana
entusiasmada. No entanto, ele ficaria fora dos amistosos seguintes, por dores musculares,
despertando as primeiras desconfianças.
De saída, deparou-se com um ambiente um tanto hostil no vestiário. O argentino Daniel
Passarela, um dos líderes do elenco, ficou enciumado com toda a badalação em torno da chegada
do brasileiro e com seu salário superior. Passou a exigir ganhar no mesmo patamar de Sócrates e
a indispor os demais companheiros contra ele. Outro ponto de desgaste foi o afastamento do
também argentino Daniel Bertoni, atacante dispensado para abrir uma vaga dentro da cota de
estrangeiros reservada a cada equipe.
A pouca dedicação de Sócrates aos treinamentos físicos parecia ser incompatível com a
característica de jogo do time italiano, baseado na força e na correria. O estilo cerebral do meia
também era incompreendido por dirigentes, jogadores, integrantes da comissão técnica e boa
parte dos torcedores. Ao constatar a pouca mobilidade do craque, o técnico Giancarlo De Sisti o
colocou mais adiantado, para jogar enfiado entre os zagueiros, o que limitou seu poder de
criação. À medida que a impaciência de todos para que ele justificasse o alto investimento em
sua contratação crescia, o Doutor se sentia mais desamparado.
A saudade da cantora Rosemary, após a relação ter sido cortada de forma traumática pela
mudança de país, também o castigava. Logo que chegou à Itália, às vezes atravessava a noite em
claro, bebendo e escutando canções de dor de cotovelo, e ligava de madrugada para desabafar
com amigos mais chegados no Brasil. Para tentar afastar o banzo, passou a fazer festas em sua
casa de quinhentos metros quadrados incrustada no alto de uma colina em Grassina, pequena
cidade com 10 mil habitantes na época, localizada a oito quilômetros do centro de Florença.
Mantinha quatro barris de cerveja e incontáveis garrafas de vinho sempre à disposição das
visitas, cada vez mais frequentes. A agitação noturna causava estranheza aos vizinhos e
moradores do pequeno povoado, sobretudo por julgarem essa rotina imprópria para um jogador
de futebol.
Carente de companhia, o Doutor convidou José Trajano para morar em sua casa. Recém-
separado da mulher, o jornalista acabara de deixar o emprego de editor de esportes da Folha de
S.Paulo e pulsava em sintonia com o anfitrião. Ao seu lado, o craque desbravava a noite de
Florença e se dedicava a se desenvolver culturalmente muito mais do que a jogar futebol. “Ele
fingia que jogava”, define Trajano. Sempre havia alguma novidade a mobilizar seu interesse.
Estimulado por um show de Bob Dylan em Roma, Sócrates comentou com o amigo que não
entendia bem as letras das canções do cantor norte-americano, até por não dominar o inglês.
“Bob Dylan é foda! Você tem que conhecer melhor!”, decretou Trajano. Os dois saíram de uma
cantina e foram direto para uma loja de discos, onde o Doutor comprou dez lps do astro do rock e
do folk.
Ávido por cultura e sempre movido a cerveja, Sócrates despendia muita energia fora do clube
e chegava com as reservas em baixa para os treinos. “Não digo que ele fosse treinar bêbado, mas
bebido, né? Aí dormia na mesa de massagem e dizia que estava com dor aqui, dor ali…”, conta
Trajano.
O campeão do mundo Giovanni Galli, goleiro da Fiorentina na época de Sócrates, revelou
uma história impagável do colega brasileiro em um documentário da espn. Um técnico do clube
— ele não cita o nome, mas provavelmente era Ferruccio Valcareggi, o segundo treinador do
Doutor na equipe de Florença — impôs regras disciplinares rígidas e estabeleceu que, em dias de
jogos, os atletas deveriam almoçar no estádio. Havia horário controlado para iniciar e terminar a
refeição, o que desagradava demais a Sócrates. Em seguida, o time todo tinha de caminhar em
volta do campo para fazer a digestão, antes de se recolher para descansar. “O Magrão ficava puto
com aquilo, queria comer do jeito dele, demorar o tempo que quisesse. Então um dia, como
forma de protesto, foi para o campo ainda comendo, com o prato na mão. Enquanto todo mundo
caminhava, ele enrolava o macarrão… Está no documentário, essa história eu não conhecia”,
diverte-se Trajano, ex-diretor do canal.
O jornalista testemunhou muitas outras, como a inesquecível festa de Carnaval que Sócrates
organizou em casa, com duração de três dias. A princípio, a ideia era convidar apenas seus
colegas de Fiorentina, numa tentativa de unir o time e superar conflitos. Mas animou-se ao
cruzar com jogadores brasileiros no encontro com o presidente eleito Tancredo Neves no Hotel
Excelsior, em Roma, e ampliou a celebração. Como a comemoração popular — também
cultivada na Itália em cidades como Veneza e Viareggio — coincidia com seu aniversário de 31
anos, resolveu botar pra quebrar. A folia se iniciou no domingo de Carnaval, quando o anfitrião
retornou de um jogo em Bérgamo e alguns amigos italianos já o esperavam embalados por
cerveja, caipirinha, vinho, samba, confete e serpentina. Viraram a madrugada e, na segunda-feira,
os convidados brasileiros começaram a chegar.
Quatro craques — alguns acompanhados pelas famílias — partiram em caravana de Turim,
onde a Udinese de Zico e Edinho enfrentara o Torino de Júnior. O lateral Pedrinho Vicençote, do
Catania, cumprira suspensão naquela rodada e, assim, pôde se juntar ao grupo. Toninho Cerezo,
em Roma, avisou que iria mais tarde.
Júnior encarou a cansativa viagem de seis horas com mulher, filho, mãe e padrasto num Fiat
Uno, apesar da dor que o obrigara a enfaixar o peito. “Só mesmo o Magrão para me tirar de casa
enfaixado desse jeito”, desembarcou resmungando do veículo.
O lateral-esquerdo havia sido chamado por Sócrates por telefone. “Vou fazer uma festa de
Carnaval aqui em casa que vai durar três dias”, disparou o Doutor. “Porra, Magrão, são quase
setecentos quilômetros”, chiou Júnior. “Não tem essa, vem pra cá e traz aquele seu camarada que
toca cavaquinho pra gente fazer uma bagunça aqui”, rebateu o amigo. “Ele queria que eu levasse
o Frank, um engenheiro que trabalhou num projeto da Embraer em Turim. Eu o conheci numa
festa na embaixada. O cara até hoje é meu amigaço, meu irmão, e mora em São José dos
Campos, embora seja do Rio.” Júnior ponderou que Frank tinha quatro filhos: “Como é que vai
caber todo mundo aí?”. Mas Sócrates não viu qualquer problema. “Traz todo mundo pra cá, que
aqui a gente se arruma.”
Assim que entrou na casa, Júnior se deparou com Sócrates reabastecendo seu copo numa
chopeira instalada na passagem da cozinha para a sala. “Tá vendo o seu amigo? Ele não pode
passar por aqui sem botar o copo dele ali embaixo”, comentou Regina. O anfitrião providenciara
duzentos litros de birra Alla Spina (similar a chope), incontáveis garrafas do saboroso vinho
Chianti produzido na região e de cachaça brasileira para as caipirinhas. Para forrar o estômago,
leitão assado, salame e uma grande variedade de tira-gostos.
Sócrates produzira tudo com grande prazer. Na semana anterior, gravara fitas com músicas de
escolas de samba do Rio de Janeiro, Beth Carvalho, João Nogueira, Ivone Lara, Gonzaguinha,
Gilberto Gil, Simone e Chico Buarque. Aliás a canção que mais tocava, repetida várias vezes por
sua iniciativa, era “Vai passar”, de Chico e Francis Hime.
A chegada de Toninho Cerezo, acompanhado da mulher, de dois filhos e da empregada
Helena, colocou mais lenha na fogueira. Mulata mineira com samba no pé, Helena não se fez de
rogada, foi para a pista e deixou os italianos de queixo caído com seu ritmo e requebrado. Os
convidados foram ficando cada vez mais eufóricos, então Júnior vestiu o pesado casacão de lã
para ir ao carro pegar os instrumentos, com temperatura a três graus abaixo de zero. Além do
amigo Frank no cavaquinho, ele se garantiu bem no pandeiro — enquanto Zico, no tamborim, e
Sócrates, no chocalho, atravessavam o samba.
O dono da casa estava disposto mesmo a fazer um Carnaval com tudo o que tinha direito em
plena Itália. Como não conseguiu lança-perfume, improvisou com frascos de laquê cedidos por
um amigo cabeleireiro e andava pelo salão colocando um lenço embebido no produto químico no
nariz de cada convidado. Com laquês de todas as cores, o resultado é que os craques saíam da
abordagem com os narizes pintados de amarelo, verde, laranja, vermelho, azul… Uma farra
como a pacata Grassina jamais imaginara. Do lado de fora, no portão do casarão, curiosos e
jornalistas espremiam-se na tentativa inútil de entrar, ou pelo menos ver um pouco do que
acontecia lá dentro.
Lá pelas tantas, Júnior com sua família e Zico foram descansar num hotel na região, reservado
por Sócrates, enquanto Cerezo preferiu regressar diretamente para Roma. Edinho varou a
madrugada sambando com a mulher e o filho, assim como Pedrinho Vicençote aguentou o pique
até o sol raiar.
Foi feita uma pausa para algumas horas de sono a fim de suportar o terceiro turno, que
começou por volta de quatro da tarde, quando o gaúcho Dércio, amigo que morava havia oito
anos em Florença, inaugurou os trabalhos na churrasqueira: vinte quilos de carne esperavam os
jogadores da Fiorentina. Os italianos compareceram em massa, para surpresa de Sócrates, que
sabia não gozar da simpatia de todos. Uma constelação ia cruzando o portão da residência: o
goleiro Giovanni Galli, reserva da seleção, os campeões mundiais Gentile, Oriali, Antognoni e
Masseron, o goleador Monelli, o meia Pecci e o argentino Daniel Passarella, também campeão
do mundo — ele mesmo, que não se bicava com o Doutor.
Pouco habituados com o Carnaval brasileiro e a descontração de Sócrates, a maioria apareceu
de terno e gravata. Formalidade cortada, literalmente, pelo dono da casa logo ao recepcioná-los
na porta. Nem Passarella escapou. “Não sei onde foi que ele arrumou uma daquelas tesouras
gigantes de podar árvore. Quando eu o vi cortar as duas primeiras gravatas, eu falei para o Frank:
isso aí vai dar merda! Eram peças de grife, Armani, Gabbana… temi pelo pior”, recorda-se
Júnior. Porém, com exceção de Galli, que se ajoelhou e pediu inutilmente para ser poupado,
alegando tratar-se de um presente da mãe, não houve reações tão exacerbadas. “Engraçado… os
caras não ficaram bravos e ainda riram pra caramba. Como, eu não sei, porque as histórias que a
gente conhecia era que dentro do vestiário rolava um pega pra capar danado. O Magrão queria
levar uma vida, e a vida lá era outra, completamente diferente. Ele queria levar vida de jogador, e
lá era uma vida de atleta profissional. Isso deve ter criado uma crise braba no vestiário, porque os
caras realmente levam as coisas muito a sério. Mas ali ninguém reclamou de nada, os caras
aceitaram tudo numa boa, o que nos deixou até espantados, né? A gente se divertiu à beça, uma
zorra danada.”
O curioso é que quatro anos mais tarde, em 1989, quando Júnior voltou para o Brasil e fez
uma festa de aniversário em casa, Sócrates apareceu… com uma gravata! “Acho que ele fez de
sacanagem. Aí eu falei assim: ‘Não acredito que você está de gravata! Por quê? É pra eu cortar?’.
E foi o que eu fiz.”
Em Grassina, o último dia de folia na casa de Sócrates propiciou um clima de
confraternização entre os jogadores da Fiorentina como nunca se vira até então. Os gringos
entraram na onda do Carnaval, deixaram as desavenças de lado e, pela primeira vez, Magrão
pensou ser possível acabar com as divisões que rachavam a equipe. “Agora, sim, somos um time
de futebol. O espírito da Democracia Corinthiana bem que poderia baixar aqui de vez”,
comentou com Trajano. Ele irradiava alegria como uma criança. No fim da festa, quando a
maioria dos convidados já havia ido embora e os poucos remanescentes, íntimos da casa,
arriavam no sofá, Sócrates e Regina ainda giravam pelo salão. Pouco importava se a última fita
já tivesse chegado ao fim e se ouvisse apenas um quase imperceptível chiado nas caixas do
aparelho de som. O casal estava feliz e dançava a sua música imaginária. O Doutor sonhava em
finalmente iniciar uma fase em que se sentisse incluído no clube italiano. Mas era só fantasia.
Veio a Quarta-Feira de Cinzas, e tudo voltou ao normal.
Essa cena de Sócrates dançando com Regina, já sem música, foi testemunhada por Trajano.
No tempo em que dividiu o mesmo teto com o casal, ele não sentia Sócrates desesperado com
saudade de Rosemary. Por isso, discorda da visão de alguns amigos do craque que atribuem seu
insucesso na Fiorentina sobretudo à desilusão amorosa. “Eu morava na casa dele, então saíamos
para comer, beber, às vezes para jogar pôquer, e nesse tempo todo ele só citou a Rosemary duas
vezes. E falou como uma coisa do passado. A primeira vez foi na volta de um jogo em Milão,
dentro do carro, quando contou que tinha tido um caso, gostado dela e tal, mas não transparecia
estar abalado. Não posso dizer que não tivesse peso, mas a dificuldade de adaptação dele lá era
muito mais por saudade do Brasil, dos amigos, da música, do chope de Ribeirão, pelo desejo de
participar do momento político, essas coisas”, avalia Trajano.
Essa percepção coincide com a visão de Sóstenes, irmão de Sócrates, que também minimiza a
influência de Rosemary na passagem malsucedida dele pela Itália. “Acho que foi muito mais
pelo momento que ele estava vivendo como um todo. Essa coisa de paixão não era só por uma
pessoa, por uma mulher, tinha o envolvimento dele com as Diretas, o Magro estava vivendo
intensamente as coisas que aconteciam no Brasil. Se fosse a pessoa, teria havido algo mais
duradouro, né?”
O desempenho sofrível da Fiorentina no Campeonato Italiano fazia as cobranças se tornarem
mais agudas. A pressão da torcida e dos dirigentes recaía sobretudo em suas costas, e vários
companheiros de equipe continuavam a isolá-lo. A hipótese de voltar a jogar no Brasil parecia
cada vez mais ser a melhor solução. Mas o alto custo da transferência representava o maior
obstáculo.
Casagrande, por sua vez, acompanhava preocupado a experiência do parceiro no exterior e
procurava tirar lições. Quando finalmente chegou a sua hora de encarar o futebol europeu, foi
disposto a dar certo a qualquer custo. O seu primeiro filho, Victor Hugo, nascera quando estava
concentrado com a seleção brasileira para a disputa da Copa do Mundo de 1986, no México, e a
paternidade o tornara mais responsável. Mesmo sem abrir mão de sua personalidade
contestadora, decidiu encarar a mudança com o máximo de profissionalismo, o que incluía ter
hábitos saudáveis, evitar uso de drogas, cumprir horários, treinar com afinco e compreender as
exigências táticas do futebol europeu. Planejava enfrentar o desafio como formiga, não como
cigarra.
Na época, não existia tv por assinatura, muito menos internet, então poucas informações a
respeito do futebol português — e especificamente do Porto — chegavam ao país. Ele se
convenceu a jogar lá quando o empresário Juan Figer lhe disse que o clube iria disputar a Copa
dos Campeões, principal campeonato europeu. A sua apresentação oficial coincidiu com a final
da Supercopa de Portugal, entre Porto e Benfica, e a torcida o recebeu com festa no Estádio das
Antas lotado. Ficou animado ao constatar a força da equipe campeã, base da seleção portuguesa,
que também contava com destaques estrangeiros como o goleiro polonês Józef Mlynarczyk e o
argelino Madjer. Havia ainda os brasileiros Juary (ex-atacante do Santos), Elói (ex-meia de
Santos, Vasco e Portuguesa) e Celso Gavião (ex-zagueiro do Vasco).
Os conterrâneos do time ajudaram na adaptação do recém-chegado, mas, mesmo assim, a
exemplo de Sócrates, ele sofreu com a rejeição da maioria dos companheiros. Entre os
portugueses, apenas Paulo Futre, principal jogador do país na época, foi receptivo. Os demais o
ignoravam no vestiário e dificilmente lhe passavam a bola. “Havia um claro ciúme por eu ter
vindo de fora, pelo investimento feito na minha contratação e pelo fato de eu ser jogador da
seleção brasileira. Mas, com o tempo, as coisas acabaram melhorando.”
A riqueza cultural de conhecer outro continente, as viagens pelos países vizinhos e o bom
desempenho do Porto na Copa dos Campeões o estimulavam a fazer carreira no exterior. Ele só
não contava com uma séria lesão sofrida na partida contra o Brondby, em Copenhagen, na
Dinamarca, pelas quartas de final da competição internacional. No campo coberto pela neve,
fraturou a fíbula e rompeu os ligamentos do tornozelo esquerdo em uma jogada aos quinze
minutos de jogo. Era o fim da linha para ele no torneio europeu, conquistado exatamente pelo
seu clube. Casão dedicou-se ao tratamento intensivo e quase conseguiu disputar a final. A
comissão técnica pretendia escalá-lo na decisão, mas o atacante acabou vetado no teste na
véspera do jogo. Só conseguia correr em linha reta e acusava dor em qualquer mudança de
direção. Ficou no banco e viu seus colegas levantarem a taça.
Após as comemorações, a equipe entrou em férias. A família de Casagrande viajou para o
Brasil, e ele permaneceu no Porto sozinho por mais alguns dias. Livre das obrigações
profissionais e sem a presença da mulher e do filho, resolveu botar as asinhas de fora e saciar
uma antiga curiosidade. Foi a um pub bem barra pesada da cidade, conseguiu uma porção de
heroína e experimentou a poderosa droga que provocara a morte de vários de seus ídolos, como
Janis Joplin e Jim Morrison. Felizmente, não passou de um escorregão isolado. Ele sabia do risco
de ficar dependente rapidamente e não tinha intenção de colocar a vida em perigo, tampouco de
comprometer sua trajetória no futebol europeu.
Àquela altura, o atacante almejava uma transferência para a Itália, rumo ao campeonato mais
badalado do mundo. A pressão para se dopar, prática disseminada em vários países da Europa,
também o incomodava. Chegou a tomar injeção de Pervitin quatro vezes, mesmo a contragosto,
porque era o procedimento padrão. A ação da substância bloqueava o cansaço do atleta e
proporcionava o alongamento máximo dos músculos. Mas contrariava seus princípios, por ele
entender que aviltava a lisura esportiva. Pode parecer contraditório para alguém habituado a usar
as chamadas drogas recreativas. Porém, são coisas bem diferentes. Julgava desonesto melhorar o
desempenho atlético de forma artificial. Nem precisava daquilo, por ser tão jovem.
No dia em que sofreu a séria lesão em Copenhagen, estava prestes a consumar sua
transferência para o Torino. Ainda havia o plano B, com uma proposta do Racing, de Paris, em
mãos. Dirigentes de ambos os clubes estavam na capital dinamarquesa com os contratos já
preparados para ele assinar um deles. A gravidade da fratura, no entanto, melou ambos os
negócios. Ele viu o austríaco Toni Polster, que até então estava engatilhado com o Ascoli, acertar
com o clube de Turim na vaga que seria sua.
Na volta das férias, o Porto propôs a renovação de seu contrato, mas Casagrande convencera-
se de que deveria sair, apesar do atrativo da disputa do Mundial Interclubes no Japão, contra o
Peñarol (Uruguai), e a Supercopa Europeia, diante do Ajax (Holanda). A opção que sobrou foi ir
para o Ascoli, que ficara sem Polster e buscava um centroavante de alto nível.
A ideia de seu agente — e dele mesmo — era ficar apenas a temporada de 1987-88 no Ascoli,
para ingressar no mercado italiano, e depois se transferir provavelmente para o Torino ou a
Fiorentina. Mas a recepção calorosa da população de 30 mil habitantes da pequena província,
localizada a cerca de 150 quilômetros de Roma, cativara o forasteiro. “Fui tratado como rei e
retribuí jogando pra caralho”, afirma Casão, sem falsa modéstia. Pela avaliação da imprensa
especializada, ele foi o segundo melhor atacante do Campeonato Italiano, atrás apenas de Vialli,
da Sampdoria.
Em alta, Casagrande passou a ser cobiçado por vários clubes e, durante a pré-temporada do
Ascoli, o volante Dunga lhe telefonou para informá-lo sobre o interesse da Fiorentina, onde
jogava, em contratá-lo. O colega fez a ponte para ele conversar com o técnico Sven-Göran
Erickson, que iniciou a negociação. Porém, o atacante se sentia grato ao Ascoli e não achou
correto abandonar o time que fizera todo o planejamento para a temporada contando com sua
presença, inclusive contratando reforços que combinavam com seu estilo de jogo. E decidiu
ficar.
Uma nova lesão, entretanto, voltaria a tirá-lo de ação. Ainda durante a pré-temporada, rompeu
o ligamento cruzado do joelho esquerdo, teve de ser operado e passou seis meses de molho. Sem
sua principal estrela, o time entrou em declínio, à beira do rebaixamento. Quando Casão
finalmente se recuperou, a oito rodadas do final, encontrou uma situação dramática. O clube
somava cinco pontos a menos do que o primeiro concorrente fora da zona de descenso e, naquela
época, cada vitória valia apenas dois pontos. Apesar do tempo em que ficou inativo, o
centroavante voltou com tudo e foi fundamental para a reação de sua equipe, que escapou da
queda na rodada derradeira. Os torcedores consideraram a salvação um milagre e passaram a
chamá-lo de Jesus, também porque estava barbudo e cabeludo.
Mas, no ano seguinte, não houve messias capaz de salvar o clube. Casão sofreu o campeonato
inteiro com dores e inchaços no joelho e, para complicar ainda mais, pegou hepatite química por
causa da medicação pesada que tomava. Sem poder ajudar a equipe, ele a viu cair para a Segunda
Divisão. “Não achei legal ir embora e deixar o Ascoli na Série B, apesar de ter ficado livre, pois
meu contrato havia terminado. Acabei aceitando a proposta deles para renovar o acordo por mais
um ano, com o mesmo salário, mas haveria bônus a cada meta atingida.”
Assim, além de uma premiação especial se o clube conseguisse o acesso, ele ganharia
quantias adicionais se disputasse mais de trinta jogos, se superasse a marca de onze gols e se
fosse negociado ao final da temporada. Todos os objetivos foram alcançados. Dos 34 jogos da
competição, ele participou de 33; fez 22 gols; e o clube subiu para a Primeira Divisão. Para
completar, transferiu-se para o Torino. Deixou Ascoli com a conta recheada e reverenciado como
ídolo.
A passagem pelo Torino serviu para consolidar o sucesso de Casagrande na Itália. Transferiu-
se para uma cidade grande e passou a viver intensamente a rivalidade com a tradicional Juventus,
o outro clube local. Saiu de campo consagrado após a vitória sobre a Velha Senhora por 2 a 0,
pelo Campeonato Italiano, com dois gols dele. “Fazia seis anos que nenhum jogador marcava
dois gols nesse clássico. O último tinha sido o Platini, pela Juventus.”
Casagrande ainda foi artilheiro do Torino na campanha do vice-campeonato da Copa Uefa,
com seis gols, e brilhou contra adversários de primeira linha, como o Real Madrid. Marcou,
inclusive, dois gols no primeiro jogo da final contra o Ajax, em Turim, no empate por 2 a 2. No
entanto, outro empate sem gols, na última partida, deu o título ao adversário holandês.
A boa fase em campo era consequência direta do bom ambiente no vestiário. Além dele, havia
outros dois estrangeiros, o belga Scifo e o espanhol Martín Vásquez, e todos foram muito bem
recebidos pelos colegas italianos. “A gente brincava bastante, com nítida cumplicidade entre os
jogadores. Foi uma fase maravilhosa na minha vida”, atesta. Até hoje ele mantém contato com os
parceiros daquela época por intermédio do Facebook.
A ligação entre Corinthians e Torino também ajudou na identificação de Casagrande com seu
novo clube. Cultuado como o melhor time do mundo em 1948, o Torino excursionara pelo Brasil
e perdera para a equipe do Parque São Jorge por 2 a 1, no Pacaembu. Ao final da partida,
aconteceu uma confraternização com os jogadores visitantes, que se tornaram muito queridos
pelos corinthianos. Quando houve uma tragédia no ano seguinte, com a morte de dezoito atletas
na queda do avião que levava toda a delegação da agremiação italiana, foi um choque. Em
homenagem às vítimas, quatro dias depois do acidente, o Corinthians atuou com uma camisa
grená, cor do Torino, na vitória sobre a Portuguesa por 2 a 0. Esse uniforme histórico seria
relançado em 2011.
Essa história é relembrada todos os anos, com a celebração de uma missa na basílica de
Superga, onde fica o morro contra o qual se chocou o avião em 1949. O trauma do extermínio da
melhor equipe do Torino de todos os tempos deixou marcas eternas. Naquela época, o time havia
ganho quatro Campeonatos Italianos seguidos e se aproximava do quinto. Sem elenco, nas quatro
últimas rodadas, o clube precisou escalar atletas juvenis. Num gesto de solidariedade, vários
concorrentes fizeram o mesmo, e a taça do pentacampeonato foi levantada. Porém, dizimado, o
time entraria em decadência e só voltaria a ser campeão em 1976. “É uma história de arrepiar.
Por isso, fazia questão de participar daquela missa especial. É emocionante constatar como o
Torino preserva a sua memória”, ressalta Casão. Por tudo isso, sentia-se em casa no clube de
Turim.
Paralelamente, ele vivia um momento gratificante na vida pessoal, com o nascimento do
segundo filho, Leonardo, e dias de intensa paixão no casamento com Mônica. Essa combinação
de fatores contribuiu para que ele experimentasse um período de equilíbrio emocional e paz
interior. Durante os seis anos em que morou na Itália, conseguiu ficar longe das drogas.
A sua trajetória, nesse sentido, é diametralmente oposta à cumprida por Sócrates, que
sobreviveu apenas por um ano na Fiorentina. Atormentado por uma paixão mal resolvida e às
voltas com a rejeição dos colegas de time, a saudade do Brasil e o excesso de álcool e festas, o
Doutor procurava tirar da militância política a sua realização pessoal. Mesmo que sacrificasse o
futebol para isso. Em Florença, ele consolidou a ideologia que nortearia seu pensamento até o
final da vida. O Partido Comunista Italiano ganhava um de seus maiores entusiastas.
11
O despertar da política
U ma das marcas que distinguem Sócrates e Casagrande dos demais jogadores é a preocupação
com questões sociais e políticas. Poucos atletas profissionais mostraram interesse nessa área, e
mais raros ainda são os que atuaram na luta pelas liberdades civis e pela redemocratização do
país, numa época em que os aparelhos de repressão da ditadura militar impunham medo. Os dois
corinthianos chegaram a ser monitorados por agentes do Departamento de Ordem Política e
Social (Dops), a temida divisão da polícia que prendeu e torturou políticos, artistas, estudantes,
guerrilheiros e cidadãos comuns, detidos sob o genérico rótulo de “subversivos”. Assim
chamava-se qualquer um que questionasse as ações do governo ou se indispusesse contra a
censura. Naqueles tempos sombrios, a leitura de um livro proscrito ou o acesso a um filme
proibido, por exemplo, já podiam ser punidos com cadeia.
A imagem que ficou no imaginário popular remete à dupla corinthiana em comícios pelo
restabelecimento de eleições diretas, participações em shows para levantar fundos para o recém-
criado Partido dos Trabalhadores (pt), campanhas do time do Corinthians pela volta da
democracia plena ou entrevistas críticas ao regime militar. Mas houve um processo de
amadurecimento de cada um até que eles chegassem a esse grau de envolvimento.
Ainda na fase inicial de sua trajetória no Corinthians, em 1979, numa edição especial que a
revista Placar fez com ele, Sócrates se mostrava cheio de contradições. Instado a dar notas a
personalidades de diversos segmentos, por exemplo, ele surpreendeu ao dar 10 para o general
João Baptista Figueiredo, o último presidente militar do Brasil. “Ele era inteiramente
despolitizado em 1979, eu o sacaneei a vida inteira por causa disso”, comenta Juca Kfouri, que
dirigia a revista e mais tarde se tornaria amigo íntimo do craque.
Pode-se ponderar que Magrão julgasse Figueiredo um representante da ala mais liberal do
Exército, sinalizando o início da abertura do regime. Por isso, sua ascensão a presidente seria
mais palatável do que a de outros nomes, de setores radicais da extrema direita das Forças
Armadas, que ainda tramavam um recuo nesse processo com ações violentas, como o atentado ao
Riocentro. Nesse episódio, na noite de 30 de abril de 1981, o sargento Guilherme Pereira do
Rosário e o então capitão Wilson Dias Machado, que mais tarde se tornaria coronel, tentaram
plantar bombas no local onde se realizava um show comemorativo do Dia do Trabalhador. O
plano consistia em deflagrar um ato terrorista, com grande número de vítimas, que seria atribuído
a organizações de esquerda para provocar um recrudescimento da repressão. Porém, uma das
bombas explodiu acidentalmente dentro do carro, no estacionamento, matando o sargento e
ferindo com gravidade o capitão.
Ainda que Figueiredo pertencesse a outra linha de pensamento, estivesse comprometido com
o lento e gradual processo de redemocratização e trabalhasse para neutralizar esses extremistas,
causa estranheza Sócrates dar nota máxima a um ditador que dizia, mesmo que fosse para
defender a abertura política, coisas assim: “É para abrir mesmo. E quem quiser que não abra, eu
prendo e arrebento. Não tenha dúvidas!”. Ou ainda: “Prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo”,
“Todo povo é uma besta que se deixa levar pelo cabresto” e “Um povo que não sabe nem
escovar os dentes não está preparado para votar”.
Ao mesmo tempo, Sócrates também deu nota 10 para Luiz Inácio Lula da Silva, então
presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. O líder
sindical sacudia o país com greves que mobilizavam milhares de trabalhadores. Acabou preso
pelo Dops em 1980 por comandar uma greve no abc paulista que durou 41 dias. Julgado pela
Justiça Militar no ano seguinte, recebeu pena de três anos e seis meses de prisão, posteriormente
revogada pelo Superior Tribunal Militar, após grande pressão popular e de personalidades de
destaque no país. No futuro, Lula se tornaria amigo de Sócrates e uma de suas principais
referências na política.
Na mesma edição da revista, o Doutor deu nota 7 para Paulo Maluf, o governador que
coordenou a ação policial para prender Lula em casa, evidentemente respaldado pelo presidente
Figueiredo e toda a cúpula militar. O cantor Caetano Veloso mereceu apenas um ponto a mais do
que Maluf: 8. Já Roberto Carlos e Milton Nascimento levaram 10.
O comandante cubano Fidel Castro, que se transformaria num dos maiores ídolos de Sócrates,
a ponto de o craque ter dado o nome dele ao filho caçula nascido em 2005, ficou com nota 9 —
bem avaliado, mas abaixo do general Figueiredo. Aliás, curiosamente, Magrão copiou uma ideia
de Casão ao batizar o filho de Fidel. Em 1986, o centroavante tentara fazer isso com o
primogênito, Victor Hugo. “A família não deixou, a minha mulher… todo mundo. O Sócrates
ainda me pressionava para bater o pé: ‘Põe, sim, Casão!’, insistia. Então, posteriormente, ele
próprio teve essa ousadia. Hoje, pensando melhor, acho que meus parentes estavam certos. É um
peso do caralho alguém carregar esse nome.”
Nesse mar de contradições, o Doutor apontou o ator, diretor e dramaturgo Gianfresco
Guarnieri como o brasileiro que mais admirava, e Chico Buarque de Holanda como seu
compositor preferido. Dois expoentes da esquerda que combatiam o governo militar. Porém,
indagado se preferia Arena, partido de sustentação da ditadura, ou mdb, que aglutinava a
oposição, ficou em cima do muro: “Sou o homem, não sou o partido”, disse, apesar da ressalva
de que nos últimos pleitos votara mais no mdb. Ele acrescentou que em 1978 votaria em
Fernando Henrique Cardoso para senador, mas não o fez porque estava em São Paulo e o seu
título de eleitor era de Ribeirão Preto. Ou seja, num momento crucial para mudanças no país, ele
não se deu ao trabalho de viajar para sua cidade ou transferir o domicilio eleitoral para votar.
Anos mais tarde, quando Juca o azucrinava com essas questões, ele reagia com um sorriso
amarelo, mas não perdia a pose e disparava: “Eu sou uma metamorfose ambulante mesmo”. Ou
soltava uma de suas frases lapidares: “Não me cobrem coerência. Não tenho compromisso com
os meus erros”. Dessa forma, sentia-se à vontade para defender ideias aparentemente
contraditórias, como fez em 1993, quando houve um plebiscito para os brasileiros escolherem a
forma de governo no país. Na ocasião, surpreendeu muita gente ao manifestar apoio ao regime
monarquista — historicamente associado à aristocracia — junto com o sistema parlamentarista.
“O custo de um rei é muito mais barato que o de um presidente a cada cinco anos”, argumentava.
A essa altura, já tinha informação suficiente para tomar decisões embasadas. Com o passar do
tempo e a convivência com artistas e jornalistas, Sócrates se tornou bastante politizado. Também
recebeu influência do lateral-esquerdo Wladimir, que frequentava encontros culturais e políticos
realizados no Colégio Equipe, próximo ao hotel onde o Corinthians se concentrava e cuja elite
intelectual combatia a ditadura militar.
Assim como Casagrande, Wladimir se filiou ao pt logo que o partido foi fundado, ainda com
o frescor do idealismo. Sócrates se manteve por algum tempo mais inclinado para o mdb e só
posteriormente se aproximaria da legenda de José Dirceu e Lula, à qual foi filiado de junho de
1993 a dezembro de 2009, quando se desligou para se integrar ao Partido Socialista Brasileiro.
Ele fez essa mudança após ter entrevistado Ciro Gomes, um dos principais líderes do psb, por
quem se entusiasmou na ocasião. Mas nem sequer militou pela legenda, agiu mais por afinidade
pessoal com o ex-governador do Ceará e ministro da Fazenda no governo do presidente Itamar
Franco. O impacto de Ciro Gomes foi semelhante ao que Lula havia tido sobre ele, ao conhecê-lo
no passado.
O primeiro encontro com Lula aconteceu em 1981, num programa especial de fim de ano na
tv Gazeta, com Juca Kfouri como entrevistador. “Ele ficou encantado com o Lula à primeira
vista, embora ali os dois ainda fossem chucros, chucros. Mostraram-se incomodados ao tocar em
assuntos como o homossexualismo, por exemplo. A gente percebia que tinha um puta
preconceito ali”, relata Juca. O pensamento de ambos iria evoluir bastante ao longo do tempo,
mas o futuro presidente já exerceu seu poder de sedução sobre o jogador instantaneamente, algo
fundamental para o Doutor abraçar uma causa. “Apesar de o Magro ter amadurecido
politicamente uma barbaridade, entre a chegada a São Paulo e a maturidade, não era exatamente
um ser político. Ele era um ser sensível, à flor da pele. Um cara que se comovia com a massa.
Aquele arroubo no Vale do Anhangabaú, quando prometeu não ir para a Itália se as eleições
diretas fossem aprovadas, foi muito porque se arrepiou diante de 1 milhão de pessoas e seguiu a
empolgação do momento”, analisa Juca.
Sensível às desigualdades sociais, Sócrates defendia maior distribuição de renda e acesso à
saúde e à educação de qualidade para a população carente. Essas questões o levaram a ser um
entusiasta do regime cubano, apesar de Fidel Castro ter restringido as liberdades individuais e se
mantido no poder com mão de ferro de 1959 até 2008, quando se afastou por problemas de saúde
e, ainda assim, transferiu o trono para seu irmão Raúl Castro — efeitos colaterais que o Doutor
relutava em enxergar. Preferia dar ênfase à elevação dos índices de desenvolvimento humano e
social, à erradicação do analfabetismo e da desnutrição infantil, à saúde pública eficiente e à
baixíssima taxa de mortalidade das crianças.
Durante uma de suas internações em 2011, em entrevista a Juca Kfouri, para a Folha de
S.Paulo, ele expôs dessa forma a realidade de Cuba: “Quanto ao Fidel Castro, símbolo da
Revolução Cubana, como Che Guevara, as pessoas estão mal informadas. No nosso país se
conhece muito pouco o que acontece fora daqui e mesmo aqui dentro. A estrutura política cubana
é extremamente democrática. Eu queria que meu filho nascesse lá, eu queria ser um cubano. Nós
estivemos lá agora, nós fomos passear! Peguei minha mulher e fui lá, passear, curtir lampejos de
humanidade. Um povo como aquele, numa ilhota, que há mais de sessenta anos briga contra um
império, só pode ser muito forte. E ditadura alguma faz um povo tão forte. Ditadura não é tempo
de serviço, necessariamente, é qualidade de serviço. Em Cuba, o povo participa de tudo, em cada
quarteirão. E aqui? Pra quem você reclama? Você vota e não tem pra quem reclamar”.
O próprio Juca, que já foi militante comunista e defensor de Cuba, hoje tem uma visão bem
menos romântica, apesar de reconhecer os avanços sociais. “Porra, o Sócrates nunca foi capaz de
ser crítico em relação a Cuba, que possui uma porção de qualidades, é claro, mas tem uma
porção de defeitos também, né? E a gente que briga por uma ideia de democracia precisa admitir
que há uma ditadura lá. Podia ter feito aquilo com democracia, não podia? Ainda mais em um
lugar tão pequeno! Eu falava para ele: ‘Magro, se nós vivêssemos lá, estaríamos fodidos’.”
Apesar da proximidade com o amigo, ele nunca conseguiu convencer Sócrates de que
aconteceram distorções, após a revolução, que limitam demais a liberdade do povo cubano. “Ele
não aceitava, assim como Chico Buarque não aceita, o Fernando Morais não aceita, como um
bando de gente boa não aceita…” Magrão tinha algumas opiniões enraizadas, com pouca
disposição para analisar suas nuances e complexidades. Juca faz um paralelo com a implicância
do Doutor em relação ao fato de Casagrande trabalhar na Globo, o que os afastou durante tantos
anos, por causa de uma ideia pré-concebida. “Nesse aspecto, o Casão sempre foi mais coerente.
Dentro da tv Globo, ele deu muito mais cotoveladas, criou muito mais espaço para as coisas
serem ditas. É o comentarista da emissora que teve a coragem de falar: ‘Essa é a pior seleção
brasileira que eu já vi na vida!’. Imagina um comentarista da Globo dizer isso!”, ressalta.
O publicitário Washington Olivetto, que atuou como vice-presidente de marketing da
Democracia Corinthiana, responsável inclusive por batizar o movimento, segue na mesma linha.
“Eu tenho que concordar com uma coisa: apesar de se considerar um personagem político de
vanguarda, o Magrão era uma figura bastante reacionária. Era de uma esquerda antigona, do tipo
que culpa a Rede Globo por tudo.”
Casagrande, por sua vez, mesmo sem a formação acadêmica e o embasamento intelectual de
Sócrates, começou desde cedo a se colocar contra o regime militar por conta do próprio
temperamento irreverente. Roqueiro desde garoto, se já contestava os costumes e instituições
vigentes na sociedade da época, quanto mais a rigidez imposta pelos milicos. Até mesmo o
cabelo comprido e o uso de drogas não deixavam de ser expressões de seu inconformismo.
Aficionado por música e cinema, revoltava-se contra a censura, por tirar discos de circulação,
proibir filmes de serem exibidos no país e impedir apresentações de vários artistas de que
gostava.
A primeira vez que ele teve contato com expoentes do mundo artístico foi exatamente no
ginásio do Corinthians, em 1979, num show em prol da anistia aos brasileiros exilados. Ele ainda
era um jogador desconhecido, integrante do time juvenil, mas conseguiu acesso aos músicos
porque os camarins foram improvisados nos alojamentos destinados aos atletas da base. “Dei
uma bicada rápida, parei discretamente num canto, mas vi de perto a Elis Regina e o pessoal do
Made in Brazil. Fiquei entusiasmado, excitadíssimo”, lembra.
No entanto, como era comum naqueles tempos, o show acabou em correria e violência. Por
volta da uma e meia da manhã, o batalhão de choque da Polícia Militar invadiu o local, munido
de escudos e cassetetes. “Foi um corre-corre danado. Para fugir das agressões e não ser preso, eu
invadi o prédio de propriedade do presidente Vicente Matheus, bem em frente ao clube, e dormi
ali mesmo, num cantinho.”
Em 1982, já como parceiro de Sócrates e artilheiro corinthiano, Casão continuou a marcar
presença em espetáculos com viés político. Na manhã do dia 24 de outubro, a dupla participou
no Parque São Jorge do “Futebol das Estrelas”, uma partida em defesa da democratização do
país, ao lado de artistas como Gonzaguinha, Toquinho, Fagner e até Bete Mendes, para
desespero do cantor cearense, que leva todo jogo a sério e não se conformava na ocasião com as
presepadas da atriz em campo.
À noite, ainda haveria um show no ginásio do clube, intitulado “Estrelas no Parque”, com o
propósito de levantar fundos para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva ao governo de São
Paulo. Um documento secreto preparado por agentes do Dops, hoje aberto para consulta pública,
aponta a participação de Fagner, Henfil, Belchior, Tetê Espíndola, Bete Mendes e Gonzaguinha,
além dos jogadores Sócrates, Wladimir e Casagrande. Como se fosse algo subversivo à ordem.
A convivência com artistas engajados, jornalistas e intelectuais levou Casão a se aproximar
cada vez mais do ambiente político. Passou a frequentar o bar Spazio Pirandello, na rua Augusta,
reduto de intelectuais de esquerda, e assembleias do pt. Ele cultiva até hoje ideais semelhantes
aos da época da juventude, com defesa de movimentos sociais e da liberdade de expressão,
embora não abra mão da visão crítica em relação a líderes partidários que, após chegarem ao
poder, adotaram práticas que antes combatiam. Não esconde a decepção com Lula, José Dirceu e
José Genoíno, por exemplo, entre outras figuras de quem esperava comportamento exemplar.
Nesse aspecto, Sócrates manteve uma postura mais sectária ao se alinhar ao projeto político
estabelecido pelo pt. Também se decepcionou com alguns dos caciques do partido, mas sempre
acreditou fielmente na lisura e nas boas intenções de Lula, que, para ele, às vezes era traído por
alguns de seus colaboradores. Em sua opinião, diante dos avanços sociais nos dois mandatos de
seu camarada, o saldo era positivo.
Sócrates evitava atacar publicamente as pessoas com quem tinha amizade, embora,
pessoalmente, às vezes as cobrasse. Também tinha o cuidado de não passar recibo em branco
para ninguém. Em 2004, em entrevista à revista Revide, de Ribeirão Preto, instado a citar
personalidades que considerava exemplos de vida, mostrou-se cauteloso: “Não confio na raça
humana. Antes de morrer, ninguém é referência. Meus dois ídolos, Che Guevara e John Lennon,
morreram cedo, antes que pudessem me decepcionar e queimar o filme. Nem eu me indico,
quanto mais terceiros”. Isso não o impediu, no entanto, de batizar o filho de Fidel no ano
seguinte.
A fascinação por Fidel Castro e Cuba se desenvolveu quando ele morou na Itália e passou a
frequentar as reuniões do Partido Comunista Italiano (pci), inimigo visceral da corrente política à
qual pertenciam os dirigentes da Fiorentina. No dia 22 de janeiro de 1985, Sócrates foi capa do
jornal L’Unità, publicação do partido, para irritação da família Pontello, proprietária do clube.
No ano anterior, inclusive, o periódico publicara uma série de reportagens em que denunciava a
ligação do então prefeito de Nápoles, Vincenzo Scotti, expoente da Democracia Cristã e próximo
aos Pontello, com a máfia da Camorra. Desnecessário dizer que esse fato desgastou ainda mais a
relação com seus patrões.
Na entrevista ao L’Unità, o jogador saudava a vitória do presidente Tancredo Neves no
Colégio Eleitoral brasileiro, formado por deputados, senadores e delegados indicados pelas
Assembleias Legislativas, contra o candidato Paulo Maluf, que representava a situação. O
Doutor via o político mineiro como uma boa solução na transição do regime autoritário para a
democracia. Posteriormente, com sua morte antes da posse, que abriu caminho para a ascensão
do vice José Sarney, Sócrates ficaria desolado. Além de falar sobre questões do Brasil, ele
também criticou abertamente as ideias conservadoras que eram tão caras aos Pontello e à
aristocracia italiana em geral. Em outra oportunidade, chegou a faltar à festa de fim de ano
promovida pelos cartolas para comparecer ao congresso do pci, em Bolonha. A convivência com
os donos da Fiorentina tornava-se insustentável.
A proximidade com a prática partidária propriamente dita, não mais se limitando a defender
propostas progressistas, levou Sócrates a flertar com a carreira política quando mais tarde
retornou ao Brasil e pendurou as chuteiras. Em 1992, chegou a ser cotado para candidato a
prefeito em Ribeirão Preto por uma coligação de sete partidos que incluía pt e psdb. Porém,
quem acabou indicado para disputar o pleito foi um futuro ministro da Fazenda do governo Lula:
o médico e então deputado estadual Antonio Palocci Filho, que ao ser eleito convidou Sócrates
para assumir a secretaria de Esportes. O Doutor ficaria no cargo apenas por cerca de um ano.
Logo se decepcionaria com a falta de recursos para implantar seus projetos, além de ter entrado
em choque com Palocci.
Em março de 1993, a seleção brasileira foi a Ribeirão Preto disputar um amistoso com a
Polônia e, na condição de secretário de Esportes, Sócrates recebeu a delegação canarinho, da
qual o irmão Raí fazia parte. Na ocasião, como repórter designado para cobrir aquela partida, eu,
Gilvan Ribeiro, lhe telefonei para pedir uma entrevista e, imediatamente, ele se prontificou a ir
ao hotel onde eu me encontrava hospedado — o mesmo da equipe do técnico Carlos Alberto
Parreira. Ao chegar ao local, por volta das onze horas da manhã, com o propósito de ficarmos
mais à vontade, ele fez a gerência do estabelecimento abrir o bar, que ainda não estava liberado
aos clientes, e começou a beber incontáveis garrafas de cerveja. Por volta das três da tarde,
alertado de que tínhamos de encerrar o bate-papo, pois se aproximava a hora do treino, ele
cruzou o saguão do hotel, já coalhado de jornalistas e jogadores da seleção, com indisfarçável
euforia etílica.
Atitudes desse tipo eram corriqueiras. Quando ele decidiu receber o Intermed — jogos de
integração das faculdades de medicina — em Ribeirão, não viu mal nenhum em atender ao
pedido dos estudantes para montar um bar dentro do ginásio. Para horror de uma parte da
sociedade ribeirão-pretana, o próprio secretário sentava-se ali com a rapaziada para beber
cerveja. Foi acusado de desvirtuar a natureza esportiva dos jogos e de ser mau exemplo para a
juventude. Ao que dava de ombros, alegando que os estudantes eram maiores de idade e
responsáveis pelos próprios atos.
Mas o seu maior voo político quase foi dado em 2002, na primeira eleição que Lula venceu
para presidente. Próximo ao Barba, como o chamava, Sócrates chegou a ser cogitado para
concorrer ao Senado, juntamente com Aloizio Mercadante, que acabaria eleito com a maior
votação da história. Houve uma reunião no comitê eleitoral do Ipiranga com a presença do
próprio Lula, além de José Dirceu, Antonio Palocci, Aloizio Mercadante e Juca Kfouri. “O
Sócrates pediu para eu acompanhá-lo para não deixá-lo fazer merda, porque qualquer coisa que
lhe oferecessem, ele aceitava”, lembra Juca. Segundo o jornalista, foi Mercadante quem impediu
que o Doutor concorresse ao Senado. “O Lula deu até uma gozada no Aloizio, dizendo que ele
tinha medo de perder a eleição para o Sócrates.” Ao final do encontro, houve o convite para se
candidatar a deputado federal. No entanto, convencido por Juca de que seria só um coadjuvante
na Câmara, sem poder para implantar suas propostas, recusou a oferta.
Anos mais tarde, após ter desistido de se tornar político profissional, Sócrates reconheceria a
incompatibilidade de seu temperamento com as exigências dessa carreira. “A política não é o
meu meio. Detesto reuniões e não gosto de conviver com cobras e ratos. Não suportaria essa
rotina.”
Em 2001, também lançou sua “anticandidatura” a presidente da Confederação Brasileira de
Futebol. Uma forma de marcar posição e expor a necessidade de mudança na fórmula viciada de
escolha do mandatário da cbf, feita a partir de votos das federações estaduais e de clubes da
primeira divisão. Sabia que não teria a menor chance de contar com apoio desses cartolas,
comprometidos até a medula com o sistema vigente, mas sua intenção era criticar o modelo e
discutir sua reforma. Entendia que a entidade, apesar de privada, explorava símbolos oficiais do
país, como a bandeira, o Hino Nacional e o patriotismo do povo, e portanto deveria ser aberta à
aprovação pública. Propunha que se fizesse eleição popular para a escolha de seu presidente e até
mesmo do treinador da seleção brasileira.
Já Casagrande, depois dos anos 1980, paulatinamente afastou-se da militância política. Jamais
se interessou por ocupar cargos na administração pública, muito menos por candidatar-se a
qualquer cargo eletivo. Deu-se por satisfeito com a redemocratização do país e saiu de cena após
as instituições voltarem a funcionar normalmente. Da época em que subiu em palanques e
conviveu com os líderes partidários, ficaram apenas as amizades com os artistas que também
lutavam pelas mesmas causas. Uma herança preciosa que também coube a Sócrates. Ambos
sempre gostaram de transitar nesse meio, sobretudo o musical, e mantiveram essas relações ao
longo da vida. Cultivaram uma diversificada rede de contatos nessa área, que constitui um dos
aspectos mais interessantes em suas biografias. Som na caixa!
12
Comunhão com a música
S ócrates e Casagrande proporcionaram uma comunhão entre futebol e música jamais vista no
país. A imagem da dupla, juntamente com Wladimir, dançando e cantando no palco com Rita
Lee, durante o show “Circo”, em 1982, ficou marcada como um dos momentos mais
significativos da Democracia Corinthiana. A música “Vote em mim”, executada naquele
momento histórico, traduzia os anseios de toda a nação por liberdade de expressão e eleições
diretas. Na final do Campeonato Paulista, em dezembro, o centroavante ainda convidaria a maior
roqueira brasileira para ir ao Morumbi e a homenagearia com o “Gol Rita Lee”, o terceiro na
vitória do Corinthians sobre o São Paulo por 3 a 1, dedicado à ilustre torcedora corinthiana. Foi a
única vez que ele deu nome a um gol.
A narração de Osmar Santos na rádio Globo, com seu talento particular para transmitir
emoções, tornou-se célebre por eternizar aquele instante mágico em que o time mais charmoso e
transgressor do país conquistou o primeiro título. Ele descreve o lance no qual Ataliba dá um
gingado de corpo ao passar entre dois são-paulinos, que caem no chão após trombarem, e serve
na medida para Casagrande dominar a bola, na grande área, e tocar com categoria para o fundo
da rede. Na sequência, Osmar já antecipa que o “Gol Rita Lee” selaria a conquista da taça aos 41
minutos do segundo tempo. “E que gooooool! Golaço do Corinthians! Um golaço! Que beleza é
o espetáculo! Casagrande faz o ‘Gol Rita Lee’ para decidir o título”, grita o Pai da Matéria, como
era chamado. Entra a famosa vinheta da rádio: “Que bonito é/ As bandeiras tremulando/ A
torcida delirando/ Vendo a rede balançar”. Nessa época, as bandeiras com mastros ainda não
haviam sido proibidas nos estádios de São Paulo. Em seguida, Osmar emenda: “O Corinthians de
Sócrates e Casagrande, o Corinthians de Biro-Biro, o Corinthians de Wladimir e Zenon, o
Corinthians dele também, de Adoniran Barbosa!”, ressalta o radialista, enquanto ao fundo ouve-
se a música “Trem das onze”, de Adoniran, cantada por Gal Costa. “O poeta do povo continua
vivo! O poeta do povo está sorrindo como nunca com você, Corinthians!”, arremata o locutor.
Apaixonado torcedor do clube, o sambista-símbolo de São Paulo morrera dezenove dias antes
e, ao longo da semana, além da promessa de Casagrande de fazer o gol em homenagem a Rita
Lee, tanto o atacante como Sócrates haviam manifestado o desejo de levantar a taça como tributo
ao autor de “Samba do Arnesto”, “Tiro ao Álvaro” e “Saudosa maloca”, entre outros sucessos.
Assim, em um único gol, três grandes nomes da música acabaram cultuados: Rita, Adoniran e
Gal. Essa narração de Osmar Santos se tornou peça de colecionador. O publicitário Washington
Olivetto, por exemplo, é um dos aficionados que guardam a gravação, como uma relíquia, desde
aquela época. Com o surgimento da internet, no entanto, hoje em dia também pode ser
encontrada no Soundcloud, Youtube e em outros sites especializados.
A interação entre futebol e música aconteceu naquele time corinthiano porque Sócrates e
Casagrande tinham especial interesse nessa área. Magrão, inclusive, não se contentava apenas em
apreciar o som. Fazia questão de também soltar a voz, interpretar canções famosas e criar
composições próprias. Se foi nos bailes da vida ou num bar, em troca de pão, que muita gente
boa pôs os pés na profissão, como canta Milton Nascimento, o Doutor também iniciou dessa
maneira a sua aventura artística. A diferença é que, embora cantasse nos botecos sem se importar
se a plateia queria ouvir, ele garantia o ganha-pão por meio do futebol e fazia daquela atividade
apenas uma fonte de satisfação pessoal. Ainda bem, porque se dependesse de seu talento como
cantor, morreria de fome.
Antes mesmo de conhecer Casagrande, ele já gravara um disco em 1980, Casa de caboclo,
pela rca Victor, com clássicos da música sertaneja, como “Luar do sertão”, de Catulo da Paixão
Cearense, “Vida do viajante”, de Luiz Gonzaga e Hervé Cordovil, e “Cabocla Tereza”, de Raul
Torres e João Pacífico. Mas a tiragem de 50 mil exemplares encalhou nas lojas, a despeito do
inegável apelo de se tratar de um ídolo corinthiano, exatamente o que levara a gravadora a fazer
tão arriscada aposta.
Trinta anos mais tarde, o jornalista Mauro Beting teve a oportunidade de pôr essa gravação
para o próprio Magrão escutar no carro, numa das vezes em que saíram juntos. “Um amigo em
comum havia passado os lps dele para cd. Então eu coloquei pra tocar só de brincadeira, mas
nem ele aguentava ouvir”, conta. “Olha, eu desafinei aqui!”, reconhecia o Doutor. “Só aqui?
Não, Magrão, não dá!”, completava Beting, com o propósito de sacaneá-lo.
Mas há quem veja méritos nesse trabalho, até mesmo entre profissionais de primeira linha. É
o caso do cantor e compositor Zeca Baleiro, que também se tornou próximo de Sócrates e tomou
conhecimento do lp numa visita a sua casa. “Achei muito bacaninha, ele canta só clássicos
caipiras, é bem charmoso o disco. Eu até emprestei dele para digitalizar, masterizar e passar para
cd. Se um dia quiserem relançar, já está pronto”, revela. Talvez influenciado pela admiração por
Sócrates, Baleiro demonstrava enorme disposição para ouvir suas interpretações. “Ele tinha
muita vontade de cantar e, embora não fosse muito afinado, era bastante musical.”
A pedido de Magrão, o compositor maranhense compôs o tema de abertura do programa
Brasil + Brasileiro, o talk show do craque no Canal Brasil. Além de fazer a música, ainda
atendeu a outro desejo do ídolo: “Vou lhe pedir uma coisa: eu canto mal pra cacete, mas eu
quero cantar com você”. Gentilmente, Baleiro o levou a seu estúdio, comprou duas garrafas de
vinho por sugestão do visitante e deixou registrada a parceria. “Aí ele relaxou rapidinho e gravou
direitinho. Fizemos vários takes de voz e tiramos o melhor. Ficou bem bacana, até postei no
Facebook e deu a maior repercussão. Ele era muito querido”, derrete-se o músico. O Doutor não
parecia ter o menor constrangimento em fazer dupla com feras da música. Em 1982, já havia
participado da gravação do lp Aquarela, de Toquinho, com participação na música “Corinthians
do meu coração”.
Zeca é santista, mesmo assim jamais vai se esquecer do dia em que conheceu Magrão, um
ícone corinthiano que teve breve passagem pela Vila Belmiro. “Eu sempre fui um grande fã dele,
mas há certas pessoas que a gente julga assim tão distantes do próprio universo que jamais
imagina se tornar amigo delas. E essa coisa de amizade no mundo do showbiz pode ter muitos
significados, né? Às vezes é uma coisa frívola e superficial, às vezes também é um jogo de
interesses, em que eu me favoreço sendo amigo de alguém e vice-versa. Muitas relações se
estabelecem assim no showbiz e no futebol, esses grandes meios onde rolam dinheiro, fama,
celebridades, essas coisas todas. Mas é incrível porque, com o Sócrates, pintou uma afinidade
muito louca. Ele era uma pessoa superacessível, para além daquela imagem de pensador que ele
criou ao ultrapassar as fronteiras do universo do jogador de futebol. Era um cara que escrevia,
que gostava de música, amigo de artistas e tal, líder da Democracia Corinthiana, mas tinha uma
coisa muito doce, quase infantil, pura num certo sentido.”
Zeca percebeu isso logo no primeiro contato, ao final de um show em Ribeirão Preto que teve
Raimar, irmão de Sócrates, como produtor, em 2002. “Toda a família foi ver o show no teatro
Pedro ii: desde a sogra até o Raí, que então era um jovem avô e estava com a filha [Emanuella]
que tinha sido mãe recentemente, pessoas muito simpáticas e agradáveis. Aí o Sócrates chegou já
meio alterado e falou assim, como se me conhecesse (risos): ‘Ô Magrão [chamando Zeca pelo
mesmo apelido pelo qual ele mesmo era tratado pelos amigos], a gente tá saindo daqui e vai
tomar um chope não sei onde… Não pode ser no Pinguim, que é do lado do teatro, por sinal,
porque lá eles nos expulsaram a última vez em que fui com o Toquinho e ficamos até as sete da
manhã. Falaram para eu nunca mais voltar, então sou impopular lá, vai ser em outro lugar, mas a
gente troca os telefones e vai se falando’. Eu respondi o.k., e quando saí com a banda, fizemos
um pit stop no Pinguim e depois fomos para a Vila das Flores, um bar mais distante, onde eles
estavam. Tomamos um porre daqueles míticos, de se lembrar para sempre, sabe? Porque todo
mundo ficou bêbado, e ele já estava naquele estado de esfinge, aquela coisa solidificada ali, em
que ficava meio de cara, bebesse o quanto bebesse. Mas a gente não tinha a mesma resistência.
Então aconteceu até um episódio que o Sócrates adorava contar para me zoar: perdi o meu voo
no dia seguinte e fiquei desesperado”, confessa.
Convidado a participar de um show de Margareth Menezes em Salvador, Zeca precisava
embarcar no único voo de Ribeirão Preto a São Paulo que chegaria a tempo de ele pegar a
conexão para a capital baiana. “A produtora, minha mulher que estava junto, todo mundo tentou
me chamar, mas eu chapei o coco e não conseguia acordar. Quando finalmente levantei, o voo já
tinha partido.” Para não faltar ao compromisso, só havia uma alternativa: alugar um helicóptero
que o levasse até São Paulo. “Foi o maior prejuízo, a primeira e última vez na vida que andei de
helicóptero. Na época, custava uma fortuna, isso porque o Raimar ainda conseguiu desconto, eu
parcelei, uma loucura assim.”
Apesar da tensão, ele embarcou no voo para Salvador, mas ainda tinha um outro desafio pela
frente: reunir condições de subir ao palco e se apresentar. “Cheguei completamente estragado. As
pessoas me diziam: ‘Liga para a Margareth, explica que não vai dar para você ir’. Mas meu pai
me ensinou a honrar os compromissos e decidi ir de qualquer jeito. Então toquei, fiz o show
mesmo com aquela sensação ruim e depois fui para o hotel, ainda bebaço, com um mal-estar
desgraçado. Abri a porta do quarto, desmontei na cama e liguei a televisão. Para minha surpresa,
na Redetv!, estava lá o Sócrates com o Juca Kfouri no programa Bola na Rede. O Magrão
impassível, como se nada tivesse acontecido, e eu vendo aquilo lá, acabado, pensei na hora: filho
da puta! Fui um amador, e o cara é um profissional!”
Ainda houve outro encontro deles em Ribeirão Preto, quando Zeca Baleiro se apresentou no
Bar do Val. Dessa vez, já escaldado, o cantor tomou cuidado para não entrar no ritmo de
Sócrates. Por isso, conseguiu acordar cedo no dia seguinte para a gravação do programa Papo
com Dr., na tv Thathi. “Às dez horas da manhã, ele estava nos esperando num restaurante da
cidade, já bebendo, e me disse assim: ‘Esse negócio de programa é pretexto, cara, eu quero estar
com vocês aqui. Se der, a gente vai lá…’. Mas eu respondi que tinha acordado para isso, então
fomos gravar, tocamos, foi bem divertido. A partir daí, nos aproximamos, e ele sempre vinha a
São Paulo nos meus shows. Ele amava o Baile do Baleiro, no Carioca Club, em Pinheiros, um
projeto de memória musical que já teve Fagner, Luiz Ayrão, Robertinho de Recife, caras mais
próximos até da geração dele. O Sócrates curtia demais.”
Depois dos shows, é claro, os dois saíam para beber cerveja, juntamente com os músicos. A
afinidade crescia a cada encontro. “Uma vez até fiz um rango para ele e a Fafá de Belém em
casa, porque os dois são conterrâneos, ambos paraenses, militaram juntos na campanha das
Diretas, mas não se conheciam pessoalmente. A Fafá era fã dele, e vice-versa, então resolvi
matar dois coelhos com um cajadada só.” Ali no quintal da residência alugada no Alto da Lapa,
que pertencia a Pita, ex-jogador do São Paulo, entre bananeiras e jabuticabeiras, Sócrates sentiu-
se tão à vontade com os músicos que até cogitou participar de peladas com a turma num campo
perto da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), no Jaguaré.
“Tem cerveja? Tem churrasco? Então, eu vou! Nem que seja pra jogar dez minutos e depois ficar
esperando vocês para a resenha.” Naquela altura, o Doutor já não jogava mais bola, nem de
brincadeira, mas por alguns momentos se deixou seduzir pela antiga paixão, ainda que em sonho.
No último encontro que tiveram, quando Zeca e Fagner foram visitá-lo em casa, após uma de
suas internações, Sócrates propôs aos dois amigos a gravação de dois discos, com temas que
envolviam futebol, tendo em vista a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. “A gente achou a ideia
bacana. Um disco seria autoral, com letras dele, que a gente iria musicar e produzir. E o outro
reuniria canções da sua discoteca afetiva. Dei até uma sugestão: como ele era amigo de vários
músicos, de Chico Buarque a João Gilberto, de Fagner a Toquinho, etc. e tal, poderia fazer
duetos com esses caras. O Sócrates se interessou por essa possibilidade, mas logo depois houve
uma nova internação e, infelizmente, não deu tempo.”
Zeca Baleiro não resiste a comparar sua relação com Sócrates à que Chico Buarque mantinha
com Garrincha, quando o compositor conviveu com o craque das pernas tortas na Itália, em 1969
e 1970. “Eu me lembro de uma história que o Chico contou da época em que era vizinho do
Garrincha e da Elza Soares em Roma. Eles saíam juntos, iam a umas cantinas lá, e o Garrincha
só queria falar de música, enquanto o Chico preferia conversar sobre futebol. Ao contrário do
que as pessoas pensam, o Garrincha era um cara bem informado, muito ligado, ele gostava de
João Gilberto, bossa-nova, sambas antigos. Comigo e o Sócrates, guardadas as devidas
proporções, acho que acontecia a mesma coisa. Ele tinha muito interesse por música, mas eu só
queria saber dos bastidores do futebol”, diverte-se.
O próprio Chico chegou a manter relação próxima com Sócrates. Além da militância política
e dos ideais de esquerda que os uniam, o compositor era fã do estilo elegante do Doutor jogar
futebol e não perdia chance de levá-lo para defender o seu time, o Politheama, no Recreio dos
Bandeirantes, no Rio. Em setembro de 2015, antes de uma partida contra uma equipe formada
por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Chico elogiou a escolha do
nome Sócrates Brasileiro para batizar o campo de futebol da Escola Nacional Florestan
Fernandes, centro de formação de quadros do mst, em Guararema-sp. “Tem tudo a ver, se
estivesse aqui, estaria apoiando a escola e o mst. Ele participou de todas as lutas pela
democracia, o Sócrates sempre foi muito firme na defesa de sua classe, dos trabalhadores de
futebol, nas lutas pelas Diretas e tudo o mais”, disse em entrevista ao economista João Pedro
Stédile, um dos fundadores do movimento.
Chico costuma falar, inclusive, que Sócrates não se aposentou nem pelo Flamengo (onde
encerrou a carreira pela primeira vez) nem pelo Santos ou Botafogo-sp. Mas, sim, pelo
Politheama. “É um grande amigo e jogador, a gente sabe a bola que ele batia. Além disso, ele
jogou pelo nosso time, o Politheama, nesse campo aqui. Aliás, quando falam que ele se
aposentou pelo Flamengo, não é verdade. Depois disso foi campeão conosco em mil novecentos
e lá vai fumaça, não lembro, noventa e alguma coisa. É um amigo que faz muita falta e é bom
que seja lembrado com esse campo de futebol.”
Obcecado por ganhar as peladas, encaradas como se fossem jogos profissionais, já que Chico
só seguiu a carreira musical porque não teve sucesso na tentativa de se tornar jogador, ele jamais
aceitou que Sócrates atuasse por equipes rivais do Politheama. “Imagina… Nunca joguei contra
ele, não sou bobo nem nada”, brinca. As recordações do Doutor fazem os seus olhos azuis
brilharem. “São muitas lembranças, grande companheiro de peladas e de cerveja e de tudo mais.
A gente ia buscá-lo em casa, se não ele não vinha, né? Ele acordava já com aquela latinha, aí
vinha para cá, jogava e se divertia. Era uma grande farra, um grande prazer, sempre. O Sócrates
era muito inteligente, criativo, e a última vez que eu estive com ele foi lá em Ribeirão Preto,
onde jogávamos com a família Brasileiro: ele, Raí, Sóstenes, os irmãos todos, os filhos jogavam
também com a gente… Era um grande companheiro”, conclui Chico.
Essa proximidade com Chico proporcionou ao parceiro de composições de Sócrates em
Ribeirão Preto, Bueno, a chance de conhecer o compositor carioca pessoalmente. “O Magrão
sabia o quanto eu gostava do Chico e, num desses jogos aqui, em Ribeirão, me falou assim:
‘Buenão, se você quiser fazer alguma pergunta para o Chico, faça até chegar no vestiário, porque
lá dentro todo mundo vai começar a conversar e você não vai conseguir falar com ele mais’”,
relata Bueno, que interpelou o ídolo no percurso de cerca de trinta metros entre o saguão de
entrada do clube e o vestiário. “Só me fala uma coisa: qual a técnica que você usa para
compor?”, questionou. O autor de “Construção” explicou que costuma pegar um bloquinho para
anotar todos os termos que se referem ao assunto da canção e depois vai combinando as palavras
e procurando as rimas.
“Ele deu como exemplo a música ‘As vitrines’, disse que pegou o bloquinho e entrou num
shopping. De repente, acabou a sessão de cinema, ele viu as pessoas saindo da sala e colocou
isso na letra: ‘Eu te vi suspirar de aflição e sair da sessão, frouxa de rir’. O Magrão me
possibilitou momentos inesquecíveis. Foi o maior amigo que eu tive na minha vida.”
Em 1999, eles gravaram o cd Sócrates, Bueno e convidados, com participações especiais de
Toquinho, Carlinhos Vergueiro, Simone Guimarães e a dupla sertaneja Marcelo e Maurício. A
obra não foi distribuída comercialmente por nenhuma gravadora. As 5 mil cópias circularam
entre amigos e um grupo restrito de admiradores, principalmente em Ribeirão Preto. Uma dessas
composições é uma homenagem de Sócrates ao Corinthians e à Fiel, cantada por Simone
Guimarães, mas com algumas intervenções da voz do craque. A letra é a seguinte:

Festa corinthiana

Escuridão iluminada
No sonho de um eterno campeão
A Fiel se abraçava
Amor reunindo a multidão
E quando a rede balançou: Goooooooooool
Esqueci a solidão

Corinthians!
É tanta paixão
Sorriso do meu coração

Corinthians!
Seja onde for
Pra sempre o meu grande amor

Já raiou a liberdade
Negro e branco construindo uma nação
Com as mãos entrelaçadas
A fé na mais pura expressão

E quando a rede balançou: Goooooooooool


Liberei a emoção

Corinthians!
É tanta paixão
Sorriso do meu coração

Corinthians!
Seja onde for
Pra sempre o meu grande amor.

Por intermédio de Sócrates, Bueno também teve oportunidade de musicar dois poemas de
Nando Antunes, o irmão de Zico que foi preso e torturado pela ditadura militar. No início da
carreira no futebol, Nando jogava nas categorias de base do Fluminense e ainda estudava na
Faculdade Nacional de Filosofia. Por ter aderido ao Plano Nacional de Alfabetização (pna), com
método revolucionário desenvolvido pelo educador Paulo Freire, o jovem atleta foi tachado de
“subversivo” pelo regime, que passou a persegui-lo e a pressionar os clubes em que jogava a
dispensá-lo. Por meio de concurso, Nando tornara-se professor do pna, enquanto sua irmã, Zezé,
era coordenadora, mas o projeto logo foi extinto pelos militares. Após rodar por Santos de
Vitória-es, América-rj, Madureira e Ceará, onde viveu seu melhor momento como atleta, ele se
transferiu para o Belenenses, de Portugal. Porém, a polícia política do ditador Salazar o forçou a
retornar ao Brasil, onde acabou preso pelo Dops. Ficou encarcerado por cinco dias, submetido a
cruéis sessões de interrogatório, e só foi solto por causa da interferência dos irmãos Edu e
Antunes, que já eram jogadores famosos e fizeram plantão na porta da Polícia do Exército para
pedir que também fossem presos. Torcedor fanático do América, que tinha Edu como principal
craque, o coronel Homem de Carvalho então mandou soltar Nando, que voltou para casa
desfigurado.
Em parceria com Nando, Bueno compôs “Meu velho pai”, em homenagem a José Antunes
Coimbra, o patriarca da família de jogadores cariocas, e “Ceará, meu grande amor”, que pode ser
encontrada no Youtube. No mesmo canal de vídeos, também dá para conferir a gravação de
“Minha cidade”, esta com letra de Sócrates e participação vocal de Raí. Apesar das frequentes
críticas e gozações até de amigos por sua voz desafinada, Magrão não abria mão do prazer de
cantar. “Eu fui jogador do Corinthians, do Flamengo e da Fiorentina, capitão da seleção
brasileira, disputei duas Copas do Mundo e sou médico formado pela usp. Deus me deu tantas
coisas, só faltava me dar voz boa também…”, respondia quando confrontado.
Já Casagrande nunca se arriscou a esse ponto. Porém, exercia atividades na área artística que
ajudavam a criar outras conexões com Magrão na época em que jogavam juntos. O centroavante
tornou-se sócio da fwm, agência de eventos culturais que organizou inclusive a festa do título
paulista de 1982, no Parque São Jorge. No ano seguinte, a empresa com sede em um edifício na
esquina das avenidas Rebouças e Faria Lima passou a se chamar Casagrande Produções, e o
jogador decidiu promover um show de grandes proporções para alavancar o negócio. Alguns
nomes foram cogitados, como Fagner, Simone, Sandra de Sá e Tim Maia. Mas Casão bateu o pé
por Raul Seixas, seu grande ídolo do rock.
O projeto tinha, é claro, um desejado efeito colateral: proporcionou que o jogador se
encontrasse diversas vezes com o cantor baiano para acertar os detalhes do espetáculo. Em
declínio físico, debilitado pelo uso prolongado de drogas e álcool, Raulzito enfrentava um
momento de baixa na carreira. Qualquer produtor temia contratá-lo porque às vezes ele faltava às
apresentações ou aparecia bêbado, sem condições de subir ao palco. Casão ignorou os riscos e
abraçou a ideia de levar o show para Marília por sugestão de um amigo, cuja família era da
cidade do interior, que via ali a oportunidade de atrair uma população carente de opções de lazer.
Lá haveria, ainda, um campeonato de motocross, com presença de jovens de todo o país, o que
aumentava a expectativa de público naquele fim de semana.
Em plena disputa de campeonato, o atacante delegou a seus malucos escudeiros a missão de ir
a Marília alugar um ginásio para a exibição, contratar hotel para o cantor e a produção, enfim,
tratar de todos os preparativos. Porém, ainda jovens e inexperientes, seus amigos fizeram uma
trapalhada dos diabos. Confundiram-se com a data e reservaram o local uma semana antes do
evento de motocross. Tampouco se atentaram para o fato de que não havia linha de ônibus aos
sábados à noite para o campus universitário, onde seria realizado o show. Em resumo, em vez
dos 5 mil espectadores esperados, apenas 2 mil compareceram, e a receita de bilheteria foi
insuficiente para cobrir as despesas. No fim das contas, os parceiros de Casão tiveram de sair
fugidos da cidade.
O início pode não ter sido tão animador do ponto de vista financeiro, mas o envolvimento
com esse universo o aproximava cada vez mais de Sócrates, que marcava presença em shows de
grandes nomes do cenário musical. Além do som caipira, gênero que procurava divulgar para
quebrar o preconceito do público, o Doutor tinha especial interesse por samba e mpb. O rock não
era muito a sua praia, mas, mesmo assim, quase sempre levado por Casagrande, também podia
ser visto na plateia em shows de Rita Lee, Blitz e demais grupos dos anos 1980. Ele respirava
esse ambiente artístico, apreciava ver de perto as bandas, o manejar dos instrumentos, e depois ia
ao camarim para confraternizações ao final dos eventos.
Sócrates nunca combinara com ninguém no futebol como se entrosava com o garoto nove
anos mais jovem. “Tínhamos uma identificação muito grande em todos os sentidos.
Compartilhávamos ideias políticas, com contestações parecidas e tudo, mas também gostávamos
de nos divertir e ir a eventos culturais. A gente curtia cinema, teatro, shows. Então as pessoas nos
viam, naquela época, muitas vezes juntos fora do campo de futebol. Normalmente, eu é que
proporcionava isso, porque era amigo — sou ainda — do produtor Manoel Poladian e de um
pessoal que trabalhava com a maioria das apresentações no Anhembi e Ibirapuera”, conta Casa.
Com uma rede de amizades assim, Casagrande ganhava convites e tinha acesso a um amplo
leque de espetáculos. Poladian é um dos principais produtores do país, tendo trabalhado com
extensa lista de artistas nacionais e internacionais, como Elis Regina, Rita Lee, Roberto Carlos,
Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Sarah Vaughan, Tina Turner, Sting, Ray Charles, Miles
Davis, James Taylor e tantos outros. “Eu tinha esse papel de conferir a programação da semana e
organizar nossa ida. Eu avisava os mais chegados: ‘Pô, meu, vai ter a Maria Bethânia no
Anhembi, vamos? O.k., vai o Magrão, vai o Wladimir, vai o Adilson [Monteiro Alves]? Beleza,
deixa comigo!’. Então eu passava e pegava os ingressos na maioria das vezes”, relembra Casão.
O centroavante já estava acostumado a ver Sócrates soltar a voz no ônibus que levava a
equipe para os estádios. “Ele gostava muito de cantar, principalmente sambas-enredos das
escolas do Rio de Janeiro, enquanto outros jogadores iam batucando no busão.” Muito antes de
os versos de “É hoje”, de Didi e Mestrinho, estourarem nas paradas de sucesso com gravações de
Caetano Veloso e Fernanda Abreu, o Doutor já elegera essa composição como uma das mais
belas da Sapucaí, lançada no desfile da União da Ilha do Governador, que levantou o público no
Carnaval de 1982. “A minha alegria atravessou o mar/ E ancorou na passarela/ Fez um
desembarque fascinante/ No maior show da Terra/ Será que eu serei o dono dessa festa?/ Um
rei… no meio de uma gente tão modesta”, cantava o Doutor, para depois emendar a plenos
pulmões: “Acredito ser o mais valente/ Nesta luta do rochedo com o mar (E com o mar!)/ É hoje
o dia/ Da alegria/ E a tristeza… nem pode pensar em chegar/ Diga, espelho meu!/ Se há na
avenida alguém mais feliz que eu”.
Sócrates também gostava de interpretar músicas de Gonzaguinha, Fagner e Chico Buarque.
Um de seus clássicos no ônibus era “O que é, o que é?”, de Gonzaguinha: “Viver e não ter a
vergonha de ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser um eterno aprendiz”, esgoelava-se
o Doutor no trajeto até o estádio, antes de conquistas históricas para o Corinthians. “Na seleção,
era a mesma coisa. Eu me lembro que durante a Copa de 1986, no México, ele ia puxando o
samba”, acrescenta Casagrande.
Uma coisa é improvisar uma cantoria com a delegação dentro do ônibus. Outra, bem mais
ousada, é subir ao palco em um barzinho para se apresentar para todo mundo ali presente.
Quando viu pela primeira vez Sócrates fazer isso, Casão se surpreendeu, achou curioso, até
engraçado, e atribuiu o atrevimento à elevada quantidade de cerveja ingerida. Porém, logo iria
perceber que aquilo se tornara um hábito e o quanto o amigo levava suas ambições artísticas a
sério.
Naturalmente, os dois passaram a compartilhar a amizade de alguns músicos. O primeiro a
estreitar relação com Casagrande foi Fagner, com quem o Doutor já tinha proximidade por tê-lo
conhecido na seleção brasileira. O cantor adora futebol, pensou em ser jogador na infância e não
perdia oportunidades de conviver com os boleiros. Chegou até a treinar com a equipe de Telê
Santana durante a Copa do Mundo de 1982, disputada na Espanha.
Depois de ter conhecido Fagner em Fortaleza, após a partida em que atuou pela primeira vez
ao lado de Sócrates, na noitada já relatada no capítulo 6, Casagrande ficaria hospedado na casa
do cantor no Rio, logo em seguida à conquista do campeonato estadual. Ele viajara à Cidade
Maravilhosa para participar de um amistoso entre as seleções paulista e carioca. Praticamente
sem dormir, pois virara a madrugada na comemoração do título, pediu para ser substituído no
intervalo do jogo e, sentado no banco ao lado de Fagner, recebeu o convite do anfitrião. Os dois
saíram juntos no domingo à noite, mas como Casão não levara roupas, regressou a São Paulo na
segunda-feira apenas para fazer a mala e retornar ao Rio. Aproveitou para levar junto o amigo de
infância Wagner Magrão e, sem cerimônia, estabeleceram-se na casa de Fagner. Tiveram o
privilégio de acompanhar de perto ensaios do cantor com seus músicos por alguns dias. Quando
o dono da casa avisou que iria passar as festas de fim de ano com a família em Fortaleza, os
visitantes ficaram com a chave do apartamento no Leblon.
“Eu já era amigo do Sócrates, com quem tinha afinidade adicional por ele ser filho de um
cearense, que ainda por cima também se chamava Raimundo como eu”, explica Fagner. “E aí, de
repente, surgiu o Casão, a luz da galera, o artilheiro, o cara mais jovem que se ligava em música.
Era um momento fascinante, eles fizeram a relação do futebol com a política, e isso foi de uma
importância enorme. Eu me sentia um deles. Como curtiam música, e eu sempre gostei de
futebol, nós vivemos uma irmandade de ideologias, de admirar o que o outro fazia. Por isso,
houve essa química tão incrível, porque além de formar um time que dava gosto de ver jogar,
eles defendiam os mesmos ideais políticos, o movimento pelas Diretas, o sonho de liberdade da
nossa geração.”
No apartamento de Fagner, sem a presença do dono da casa, Casagrande atendeu o telefone
numa tarde e reconheceu a voz do outro lado da linha. Era Belchior, autor de músicas que ele
tanto apreciava, como “Apenas um rapaz latino-americano”, “Como nossos pais” e “Paralelas”,
entre outras. O atacante ficou eufórico pela chance de conversar com o compositor, o que ficou
gravado em sua memória afetiva. Também por causa disso, em 1983, ele daria para Mônica, ao
iniciar o namoro com sua futura mulher, uma fita cassete com sucessos de Belchior.
O poder de sedução da Democracia Corinthiana era tamanho que conquistou fãs no país
inteiro. Muitos seguidores de equipes rivais acabavam torcendo pelo sucesso daquele time que
levantava bandeiras que eram de todos os brasileiros progressistas. Isso também aconteceu com
Fagner, torcedor do Fortaleza, mas que em São Paulo tem preferência pelo Tricolor do Morumbi.
Exceto no início dos anos 1980. “Todo mundo torcia para esse time do Corinthians, né? Porque a
gente sabia que a vitória deles também era a vitória de um projeto. Eles eram unidos, a equipe
era muito boa, tinha o Adilson Monteiro Alves, um dirigente jovem e com perfil diferente dos
demais. Tudo era novo, e a gente tinha essa sede de transformação”, argumenta Fagner.
Há um episódio que ilustra bem o quanto esse time do Corinthians era querido e respeitado
até por adversários. Antes de um jogo da semifinal do Campeonato Paulista de 1983, contra o
Palmeiras, aconteceu uma reunião na concentração para resolver a crise de relacionamento do
goleiro Emerson Leão com os principais expoentes da Democracia Corinthiana. Encostado
contra a parede por Sócrates e Adilson Monteiro Alves, o camisa 1 foi acusado de fomentar a
divisão do elenco e avisado de que ele seria responsabilizado publicamente pelos companheiros,
caso a equipe fosse eliminada. A conversa tensa se estendeu demais, e a delegação saiu em cima
da hora para o Morumbi. Já nas imediações do estádio, com o trânsito parado, não houve
alternativa a não ser os atletas descerem do ônibus e completarem o percurso a pé. “Nós
chegamos muito tarde e, para não perdermos por W.O, a gente seguiu correndo para o estádio.
Quase fomos barrados na portaria”, relembra Wladimir. Por uma pequena abertura no portão de
ferro, os funcionários custaram a reconhecê-los no meio da confusão. “Os seguranças estavam
acostumados com a chegada do ônibus e, de repente, surgiu um monte de caras ofegantes,
dizendo que iriam jogar”, acrescenta. Claro que eles cruzaram com uma porção de torcedores
palmeirenses no caminho, mas não houve hostilidades.
Washington Olivetto, que fazia parte da diretoria e estava presente nessa ocasião, destaca que
foram até cumprimentados e receberam votos de boa sorte. “Vocês merecem ganhar, porque são
muito mais legais”, chegaram a falar alguns rivais, sobretudo para Sócrates, Casagrande e
Wladimir, segundo o publicitário. Casão se lembra das caras de espanto de um grupo de
palmeirenses que comia sanduíche de linguiça e bebia cerveja nas barraquinhas em frente ao
Morumbi. A imagem dos jogadores corinthianos já uniformizados para o jogo, correndo com as
chuteiras nas mãos, apressados no meio da multidão, não podia ser mais surpreendente. “Olha os
caras aí!”, falou o primeiro a avistá-los aos amigos incrédulos.
Entre os artistas, essa identificação se repetia, e o Corinthians se tornou um fenômeno
nacional. O cantor e ator carioca Evandro Mesquita, por exemplo, torcedor do Fluminense,
também foi seduzido pelo time da democracia. “Em São Paulo, eu sou Santos por causa do Pelé,
mas a dupla Sócrates e Casagrande me cativava. Era mais humana, mais perto da gente, por lutar
contra a ditadura e ter uma voz política atuante.” Num tempo de autoritarismo, a ação de quem
tinha influência na sociedade e usava o espaço de que dispunha na mídia para contestar o regime
era muito valorizada. “Minha mãe, que era professora e militante política, escondia em casa
gente perseguida pelos agentes da repressão, para desespero do meu pai, porque aquilo era muito
arriscado, né? Então achava o máximo ver jogadores defendendo ideias avançadas, exigindo
direitos e saindo daquele cabresto de atleta de futebol. Isso despertava a simpatia da galera do
Rio e de todo o Brasil.”
Além do aspecto político, Evandro se entusiasmava com a beleza das jogadas da dupla. Ele é
amante do futebol e quase seguiu a carreira esportiva. Por isso, valoriza a arte dentro de campo.
“Fui peladeiro em São Cristóvão e ganhava bolsa na Universidade Gama Filho jogando bola.
Curto esse universo, e algumas duplas me encantam pela maneira como se encaixam tão bem. Se
começo a pensar, me vem à cabeça Pelé e Coutinho, Assis e Washington, Zico e Doval, Romário
e Bebeto, Ronaldo e Rivaldo… Assim como Sócrates e Casagrande, também tinham isso de se
completar. Era prazeroso vê-los atuar juntos.”
Porém, mais prazeroso ainda foi vê-los no show da Blitz em São Paulo, no Anhembi. Uma
apresentação cercada de expectativa porque o estilo de rock da banda representou uma revolução
na música da época e às vezes não era bem recebido. “O Rio sempre foi o berço do samba, São
Paulo era rock and roll, só que uma coisa mais dark. Então a gente veio com um colorido no
visual e um tipo de humor que provocaram críticas duríssimas. Embora fosse onde vendíamos
mais discos, onde tínhamos mais fã-clubes e tal, ainda buscávamos uma aceitação naquele nosso
primeiro grande show em Sampa. Aí quando me avisaram que o Sócrates e o Casagrande
estavam na plateia, fiquei muito emocionado, tocado mesmo”, relembra Evandro.
“Pô, adorei ver os dois no camarim falando com a gente. Eu tinha uma puta admiração pela
dupla. Ainda me lembro que pensei assim quando fiquei perto do Sócrates: ‘Caramba, o cara é
alto a pampa…’. Apesar de ter uma veia caipira, mais para o lado do sertanejo, ele foi lá nos
prestigiar. Talvez levado pelo Casão, que tem essa pegada rock and roll”, comenta o cantor.
Casagrande pode até ter estimulado Sócrates a ir ver a Blitz no Anhembi, mas dessa vez os
dois não foram juntos para lá. O atacante levara outro Magrão, o seu amigo de infância, e embora
os dois estivessem acompanhados por suas namoradas, eles haviam driblado as garotas para ir ao
camarim. Existia um motivo forte para isso. “Também achei o Casão um sujeito simpático, mas
percebi que ele estava, sei lá, mais impressionado com a Fernanda… Eu sabia que ela sempre
causava esse fervorzinho na rapaziada, então deixei o cara mais na dele.” Pena que não tenha
adiantado. De fato, Casão babava por Fernanda Abreu, mas, normalmente tímido com o sexo
oposto, travou e não conseguiu falar uma palavra para a musa da banda.
Já com outra musa de sua juventude, Casagrande deu um jeito de superar o embaraço e se
aproximar, embora muitos anos mais tarde. E por meio do Facebook. Em 2011, ele adicionou
como amiga a cantora Leiloca, das Frenéticas, grupo feminino que explodiu no final dos anos
1970, sobretudo quando gravou a música tema da novela Dancing Days, da Rede Globo. Desde a
adolescência, embora a dança não seja o seu forte, o atacante já chacoalhou muito o esqueleto ao
som de “Abra suas asas, solte suas feras, caia na gandaia, entre nessa festa…”. Cerca de três
décadas depois, finalmente passou a fazer parte do círculo de Leiloca na rede social.
Embora tenha aceitado a solicitação enviada por um tal de Walter, mais um entre quase 5 mil
seguidores, ela demorou a perceber de quem se tratava. Somente em 2015, após alguns
comentários dele que ela considerou interessantes, sentiu curiosidade de saber mais a respeito
daquele camarada. Quase caiu de costas ao reconhecê-lo na foto do perfil. “Que louco, sou a
maior fã desse cara!”, falou para si mesma. Ela o chamou em particular, explicou que só então o
havia identificado, e a partir daí começaram a conversar com frequência, inclusive sobre Raul
Seixas, com quem Leiloca tivera um romance no passado.
Essa, aliás, é uma marca de Casagrande. De repente, ele surge assim do nada. Evandro
Mesquita teve experiência parecida. Os dois haviam perdido contato desde aquela época da Blitz,
até que um dia ele recebeu uma mensagem pelo WhatsApp. “Oi, aqui é o Casagrande, tô com o
Kiko Zambianchi e estamos produzindo uma parada musical aí. Queria a sua opinião… e não sei
o que mais”, conta Evandro. Sem contato com Casão havia tanto tempo, ele pensou que podia ser
trote. “Será que é o Casagrande mesmo? Eu duvidei um pouco e demorei a responder. Mas aí,
com a troca de mensagens, percebi que era autêntico.”
Na ocasião, Casão andava entusiasmado com um grupo de punk rock, sobretudo com a
vocalista, uma jovem que também compõe, e cogitava reativar os contatos de produtor musical
para ajudar a garotada. Mas Evandro jogou um balde de água fria: “Bicho, eu vou ser verdadeiro.
Acho que será preciso eles ralarem muito até acharem a personalidade deles. E se pretendem
fazer sucesso aqui no Brasil, vale arriscar umas letras em português”. Todas as músicas do
grupo, gravadas num cd para divulgação, eram cantadas em inglês. “Eu não gostei, sem tirar o
mérito, claro, porque de repente esse pessoal estoura aí (risos), como também já aconteceu de
recusarem a gente. O que achei é que as músicas se pareciam com muita coisa que a gente já
ouviu. Um lance assim rebelde, mas que soava fake, meio teatral, não senti muita autenticidade.
Mas também falei que isso é totalmente natural na idade deles, ficar inspirado por seus ídolos,
pelas referências musicais, só que é preciso encontrar a própria sonoridade.” A partir dessa
retomada de contato, inicialmente por uma questão profissional, os dois continuaram a trocar
ideias e se reaproximaram por meio virtual.
Com Leiloca, há ainda mais proximidade. Primeiro, falavam pelo Facebook ou por
WhatsApp, mas tornaram-se tão parceiros que passaram a se ver pessoalmente quando
Casagrande viaja ao Rio, ou ela visita São Paulo. O primeiro encontro aconteceu por acaso em
Ipanema. “Levantei naquele domingo com a sensação de que iria encontrá-lo. E foi incrível,
porque à noite eu estava num restaurante e ele passou em frente.”
Além das atividades musicais, Leiloca também escreve livros e tem um programa de
astrologia às segundas-feiras na rádio Globo do Rio. Ela faz mapa astral desde 1972 e tornou-se
especialista em desvendar as pessoas a partir disso. “Eu li Casagrande e seus demônios… poxa,
que livro corajoso! Tinha que ser ariano mesmo! O planeta Marte tem a ver com dinamismo,
liderança, músculo, precipitação, tudo que envolve ação. E também briga, discussão, guerra…
Mas o Marte de Sócrates e o de Casagrande, no dia do nascimento de cada um, estavam
harmonizados. Ou seja, já havia uma sintonia entre os dois. Isso promoveu a grande e profunda
amizade entre eles. Porém, Marte é um planeta que estimula também o nosso lado afoito, infantil,
não é à toa que os arianos são crianças grandes, mesmo com cem anos de idade. Então é claro
que a relação deles não seria como a de dois mestres budistas. Como Marte é impulsivo, um dia
eles iriam se estranhar, desenvolver uma competitividade mesmo sem ser explícita.”
Apesar de tantos pontos em comum, Leiloca destaca as particularidades de Sócrates. “Peixes
já nasce ligado na subjetividade da vida: música, poesia, boemia, sensitividade, escapismo da
realidade, contemplação… Ou seja, a realidade é muito limitada para o pisciano. Em
contrapartida, o ascendente Escorpião trouxe para ele a liderança, o controle, a sensualidade, a
sedução. Escorpião é tenaz, estrategista, focado. Mas nem sempre ele conseguiu concretizar os
planos porque, quando o lado pisciano entrou em cena, foi tudo ou quase tudo por água abaixo.
Literalmente! Ele era o próprio boêmio, mais do que o Casa, até pelo fato de gostar mais de
álcool”, analisa. Leiloca encontrou-se com Sócrates poucas vezes. Numa delas, no Carnaval
carioca de 1986, quando o jogador foi convidado para ser jurado de bateria, e ela convocada para
ficar na reserva. “Recebi uma ligação da Riotur e falaram assim: ‘Leiloca, a gente tá com um
problema aqui. A gente chamou o Sócrates pra julgar o quesito bateria das escolas de samba, mas
tem uma porção de gente dizendo que às vezes ele dá bolo, toma todas e não aparece. Você topa
ser suplente dele?’. Bicho, eu não queria, já estudei piano e violão com onze anos de idade, até
bateria eu já estudei, mas não sou expert. É uma responsabilidade imensa, fora a pressão. Só se
eu der dez pra todo mundo! Conheço muitas pessoas de várias escolas, já saí em uma porção
delas, não queria ficar mal com ninguém.” No entanto, diante da insistência da organização, ela
acabou aceitando. Mas ficou rezando para o Doutor aparecer relativamente sóbrio na Marquês de
Sapucaí. “Graças a Deus ele chegou em condições de ser jurado”, recorda.
Nem todo mundo teve essa mesma impressão. Com toda a polêmica em torno do consumo de
álcool pelo ilustre jurado, o bicheiro Waldemir Garcia, o Miro, patrono do Salgueiro, tentou
articular um movimento para anular as notas de Sócrates, antes mesmo da abertura dos
envelopes. Mas seu temor se mostraria injustificado. O Doutor deu nota dez para o Salgueiro,
assim como para Mangueira (a campeã), Beija-Flor, Estácio de Sá, Império Serrano, Caprichosos
de Pilares, União da Ilha e Imperatriz. Depois da apuração quem declarou guerra a Magrão foi a
Portela, cuja bateria recebeu nota nove, assim como Vila Isabel, Mocidade e Império da Tijuca.
Questionado pela revista Placar sobre as acusações de estar bêbado durante os desfiles, o craque
emendou de primeira: “Este é o país em que mais cachaça se bebe no mundo e parece que eu
bebo tudo sozinho”. Em seguida, completou: “Não querem que eu beba, fume ou pense? Pois eu
bebo, fumo e penso. Fui para a avenida brincar, bebi direitinho. Não fico me escondendo para
fazer as coisas”.
Se as escolas de samba soubessem qual critério norteou as notas do Doutor, a gritaria teria
sido ainda maior. Inicialmente, a ideia da organização era convidá-lo para julgar os sambas-
enredos, porém ele avisou que não poderia aceitar esse quesito porque já tinha se apaixonado
pelo samba da Império Serrano, o que contaminaria sua avaliação. Diante disso, ficou como
jurado de bateria, embora não tivesse conhecimento para tanto. “Mas não me apertei: seguindo a
máxima de que quem está com o povo está com Deus, dei todas as minhas notas a partir das
reações populares”, confessou anos mais tarde.
Algo que jamais passaria pela cabeça de Leiloca, tão ciosa dessa responsabilidade e
preocupada, naquela noite, com o risco de a batata quente parar em suas mãos. A frenética só se
lembra de ter cruzado com Sócrates mais uma vez, em novembro de 1987, no aniversário de
quinze anos de Manuela, filha do ator Otávio Augusto, amigo pessoal de Magrão. Apesar do
pouco contato, ela sempre acompanhou sua trajetória — e a de Casagrande — com interesse e
admiração. “O envolvimento deles no movimento pela redemocratização do Brasil foi muito
importante. Mesmo lá atrás, em 1968, por exemplo, eu ainda era uma garota e estive presente na
passeata dos 100 mil, manifestação no Rio contra a ditadura, organizada pelos estudantes, com
participação de artistas e intelectuais. Fui escondida do meu pai e da minha mãe. Eu me sentia
responsável pelo meu país ali, fugindo da polícia, correndo feito uma louca, porque via muita
gente tomando cacetada e tudo. Enfim, eu tinha todo aquele gás, também acreditei muito que a
gente iria mudar o mundo. Então qualquer pessoa que lutava por liberdade e democracia era
bem-vinda no meu círculo. Achava o Sócrates e o Casagrande bacanérrimos.”
Os ideais em comum aproximavam as pessoas naquela época, dando origem a relações que se
tornavam sólidas e se estendiam por muito tempo. Assim aconteceu entre Casagrande e
Gonzaguinha, por exemplo. Os dois se conheceram no “Futebol das Estrelas”, um jogo cívico
pela redemocratização, realizado no Parque São Jorge em 24 de outubro de 1982. Eles passaram
a tarde toda conversando e desenvolveram amizade instantaneamente. A ponto de o atacante ter
sido designado, na noite daquele mesmo dia, para ir até o teatro Tuca, onde Gonzaguinha se
apresentava, com a missão de convencê-lo a participar também do espetáculo musical no clube,
ao lado de Fagner, Belchior, Tetê Espíndola e outros astros. Como aquele show destinava-se a
levantar fundos para a campanha petista de Lula ao governo de São Paulo, e Gonzaguinha
rejeitava se atrelar a qualquer partido, Casão precisou usar a afinidade com o cantor para fazê-lo
voltar ao Corinthians mais tarde.
Depois disso, a relação dos dois se tornou cada vez mais próxima. Casagrande chegou a ser
homenageado por Luiz Gonzaga num show que o rei do baião fez com o filho no Ibirapuera, em
1983. “Aqui no ginásio há um garoto de dezenove anos que está lutando para ser alguma coisa na
vida, começando a carreira no futebol, e já se tornou vítima da repressão neste país”, disse
Gonzagão, referindo-se à prisão do jogador por porte de cocaína. Durante a preparação para a
Copa de 1986, Gonzaguinha ia praticamente todos os dias de bicicleta aos treinos da seleção na
Toca da Raposa, em Belo Horizonte, para se confraternizar com Casagrande e Sócrates. Só a
morte de Gonzaguinha, num acidente de carro em 1991, pôs fim a essa convivência. Foi uma das
perdas mais traumáticas para Casagrande, juntamente com o adeus prematuro de Marcelo
Fromer, guitarrista dos Titãs e outro amigo íntimo, vítima de atropelamento em 2001.
Por ser roqueiro, Casão tem mais entrada com artistas desse gênero. Já comandou programas
de rádio com Marcelo Fromer na 89 fm e na Brasil 2000; com Paulo Miklos e Luiz Carlini na
Transamérica; e com Nasi e o ex-goleiro Ronaldo Giovanelli na Kiss. Em 15 de fevereiro de
2016, ele reestreou o Rock Bola, na 89, ao lado do escritor Marcelo Rubens Paiva e do
apresentador Zé Luiz, com participação de Branco Mello, baixista dos Titãs. Inicialmente, Kiko
Zambianchi também integraria a equipe, mas acabou desistindo do projeto.
Embora seja santista fanático, Kiko admite ter tido imediata afinidade com o ex-atacante
corinthiano. “Casagrande foi o primeiro jogador a se revelar fã de rock. Isso aí já aproximou
todos os jovens do cara, né? Ele fugia do estereótipo do atleta que curte pagode e sertanejo.
Também era maluco, como toda a moçada da nossa época, então havia uma identificação. Que se
reforçava ainda mais com o lance da política, porque era legal ver a Democracia Corinthiana.
Ninguém aguentava mais a ditadura. Como santista, eu torcia não para o Corinthians, mas para
que aquilo fosse um exemplo para o Brasil. O Sócrates e o Casagrande tiveram uma importância
até nacional, pela visibilidade que um jogador tem aqui, no país do futebol. Eles conseguiam
atingir todos os públicos e davam a cara para bater enquanto lutavam por um ideal que era de
todos nós.”
Por ser de Ribeirão Preto, como Sócrates, Kiko também se encontrava eventualmente com o
Doutor em bares e festas na cidade. “Havia uns amigos em comum que faziam rodinhas de
samba e mpb com o Sócrates. Eu me lembro dele feliz, bebendo e cantando alto, era uma
figuraça. Mas eu sempre fui rock and roll (risos), então minha proximidade maior com o Casão é
essa. Ele gosta de rock e também de falar sobre rock. Curte ajudar artistas novos sem ganhar
nada em troca. Ele faz algumas coisas assim que realmente são louváveis.”
De fato, Casagrande tem prazer em orbitar em torno dos roqueiros e procura promover artistas
iniciantes, como tentou fazer com aquele grupo de punk rock apresentado a Evandro Mesquita.
Mas não são apenas os novatos que o fazem despender energias em busca de divulgação. Mesmo
músicos consagrados, como o lendário guitarrista Luiz Carlini, ex-Tutti Frutti, por exemplo,
entram na sua mira. Uma de suas diversões favoritas é ir à casa de Carlini, na Pompeia, ver o
músico tocar no estúdio montado na entrada da residência. São sessões caseiras, descontraídas,
em que o amigo executa o que lhe vem à cabeça ou então músicas propostas pelos
parceiros.Numa dessas visitas, Casão se entusiasmou tanto com o som que lhe veio a ideia de
levar Carlini e o vocalista Simbas, ex-Casa das Máquinas e Tutti Frutti, para se apresentarem no
Bem Amigos, do Sportv. Não houve problema para convencer o diretor do programa, Ingo
Ostrovsky. Difícil, mesmo, foi dobrar Simbas, que relutava em se expor ao público sem
aparelhagem adequada e uma banda de apoio.
A dupla ensaiava na casa de Carlini quando Casão tomou a iniciativa de combinar o
repertório para o Bem Amigos. A primeira música a ser escolhida foi “Agora só falta você”,
grande sucesso de Carlini com Rita Lee. “Pega na mentira”, de Erasmo Carlos, também
rapidamente se tornou consenso. Afinal, nesse minishow destinado a celebrar os pioneiros do
rock brasileiro, não podia faltar o Tremendão, com quem Carlini ganhara o Grammy Latino em
2014, com o disco Gigante gentil. O caldo começou a entornar quando Casão propôs a inclusão
de “Casa de rock”, uma das canções mais conhecidas do Casa das Máquinas. “Essa música eu
não canto mais”, decretou Simbas. Diante da insistência de Casão e Carlini, ele empacava. “Eu
tenho ética, não vou cantar uma música sem os outros integrantes do grupo só para me promover
na tv. Demorei 38 anos para aceitar o convite para cantar com o Casa das Máquinas de novo”,
argumentava, referindo-se a sua participação numa apresentação da banda no Sesc Belenzinho
em 2015.
Simbas carrega cicatrizes pesadas do passado. Em 1977, quando ele tinha apenas 25 anos, o
grupo foi se apresentar no programa Raul Gil, na tv Record, e houve um incidente com morte. O
vocalista e o irmão dele, na época menor de idade, haviam parado o carro na porta da emissora
para descarregar instrumentos, quando um motorista da rede de televisão e um câmera saíam
com um ônibus para gravações externas. Simbas avisou que só iria guardar uma sacola no saguão
do prédio, mas, ao retornar, o ônibus havia batido em seu Opala e o irmão dele brigava com os
dois funcionários. O músico, então, entrou na confusão. “Foi uma briga boba, ninguém tomou
soco na cara, não teve sangue, nada. Mas o cinegrafista levou um chute que quebrou a costela
dele. Na hora, ninguém percebeu nada”, conta. A banda se apresentou normalmente no
programa, e o cinegrafista foi para casa e só começou a passar mal de madrugada. Levado pela
família a um hospital em Santo André, foi constatado que a costela quebrada perfurara o fígado,
o que causou sua morte, pois ele já sofria de problemas hepáticos.
Em 1983, Simbas foi condenado a um ano e meio de prisão por coautoria de homicídio
culposo (sem intenção), mas beneficiado por sursis por ser primário. Posteriormente, o promotor
recorreu e conseguiu estender a pena para dois anos e seis meses, também com sursis.
Depois disso, o vocalista ainda seria preso por porte de cocaína. Ele estava com um amigo e
um grupo de garotas no bar Riviera, na esquina das avenidas Consolação e Paulista, onde fez
amizade com um italiano, que lhe ofereceu um papelote. “Era um cara muito bem vestido, com
blazer azul-marinho e echarpe branca, parecia um conde. Lá pelas quatro da manhã fomos para
casa. Só os homens cheiraram, duas fileiras para cada um, e pronto. Quando as visitas iam
embora e fui acompanhá-las até a porta, havia duas equipes do Garra (divisão da Polícia Civil)
no corredor. Estavam atrás do italiano, que era um traficante internacional, o que eu nem
imaginava. O delegado queria apenas que eu servisse de testemunha contra o gringo. Se eu
fizesse isso, seria liberado, mas aí colocaria toda a minha família em risco. Então, com a minha
recusa, ele aproveitou o fato de que faltavam três meses para acabar o meu sursis e me colocou
na cadeia. Fiquei um mês preso. Emagreci cinco quilos em dez dias, pois não comia nada. Mas
depois fui absolvido no julgamento.”
Todos esses dramas fazem Simbas se sentir um sobrevivente. Mas não o tornam um sujeito
amargo. “Claro que essas coisas me marcaram muito, mas como sou espírita, entendo que
também me ajudaram a evoluir. Naquela época, o Casa das Máquinas fazia muito sucesso e eu
me sentia o máximo, um ídolo do Brasil. Eu era um lixo e amadureci demais”, diz o cantor, que
atualmente se sustenta principalmente com locação de equipamentos musicais e apresentações
em shows particulares.
Excelente contador de “causos”, Simbas interrompia o ensaio na casa de Carlini para ressaltar
que não fazia a mínima questão de aparecer na tv e gostava mesmo de cantar entre amigos, em
ambientes íntimos como aquele. Emendava histórias de suas origens indígenas e lembrava com
saudade do avô, seu José, que morava na Vila do Pau Queimado, no Tatuapé, perto do
Corinthians. A sua casa era grande, com uma ampla tapera no quintal, feita de galhos
entrelaçados e barro, coberta por sapé, onde reunia amigos da comunidade em animados
churrascos nos fins de semana. O avô saía de lambreta para caçar gatos com rede, pela região, e
pegar peixes e rãs no rio Tietê a fim de servir aos convidados. Quando algum gato de estimação
sumia, os donos corriam para perguntar se seu José o havia capturado. Em geral, o bichano já
virara churrasco, e só sobrara a pele secando ao sol para decorar a tapera. “Esse aqui parece o
meu gato”, reclamava o vizinho. “Imagina! Há vários semelhantes, angorá é tudo igual”, rebatia,
malandramente, o avô de Simbas.
Entre uma história e outra para diversão de Casagrande, o vocalista voltava a roer a corda.
Reforçava que não pagaria o mico de cantar no Bem Amigos acompanhado apenas de Carlini.
Para um roqueiro, uma banda é fundamental, argumentava Simbas. E lá ia Casão gastar mais
saliva para convencê-lo. Até que ficou acertado que a dupla levaria mais três parceiros: Brasa na
bateria eletrônica, Renato Muniz no baixo e Ronaldo Paschoa, outro ex-integrante do Tutti Frutti,
na segunda guitarra. Foi essa a formação dos Casagrandes, nome adotado por brincadeira durante
a breve exibição no programa esportivo. Com exceção do palmeirense Ronaldo Paschoa, os
demais eram todos corinthianos. Inclusive Carlini, convertido nos tempos da Democracia
Corinthiana. “Não apreciava futebol, eu torcia pelos Rolling Stones. Mas me tornei corinthiano
justamente por causa do Casão.”
Já Simbas é corinthiano desde a infância. Ele se empolgava quando via Casagrande e Sócrates
em suas apresentações pelo Tutti Frutti, ao lado de Carlini, no Victoria Pub, nos anos 1980. Na
época, ainda não tinha amizade com o centroavante, mas ficava orgulhoso ao constatar que seus
ídolos do futebol também eram fãs. Na verdade, fazia mais o gosto de Casão, que vivia cercado
dessa gente maluca do rock. Magrão costumava ser arrastado pelo parceiro, pois pessoalmente
preferia orbitar em torno do pessoal da mpb, sobretudo de Fagner.
A relação com o cantor cearense se tornou ainda mais íntima durante a Copa de 1982, com a
presença dele na concentração da seleção brasileira. Essa convivência resultou num círculo de
amigos em comum — o compositor até o colocaria em contato com João Gilberto, fã ardoroso
do Doutor. A perda inesperada — e traumática — do Mundial em que o Brasil resgatou o
futebol-arte criou uma ferida que os unia pela dor. Embora também fossem parceiros de copo e
alegria. Uma coisa levava à outra.
13
O trauma do Sarriá
S ó houve um período na carreira de Sócrates que ele se dispôs a se sacrificar para atingir o
máximo de sua condição atlética. Foi durante a preparação para a Copa do Mundo de 1982, na
Espanha. Ele tinha consciência de que fazia parte de uma geração especialmente talentosa,
admirava os outros craques daquele time e, sobretudo, se sentia bem ao lado deles. A maioria,
como ele próprio, iria disputar pela primeira vez um Mundial. Houve uma renovação depois de a
seleção canarinho ter caído nos dois anteriores, em 1974 e 1978, sem conseguir empolgar a
torcida. Acostumados a levantar a taça, depois do tricampeonato quase seguido em 1970 —
apenas com um hiato em 1966 —, os brasileiros se tornaram exigentes com a qualidade do
futebol apresentado e já viviam uma espécie de síndrome de abstinência.
Nesse cenário, Sócrates vislumbrava a chance de aquele time de Telê Santana fazer história.
Perfeccionista e amante do futebol-arte, o treinador apostou num meio de campo extremamente
técnico, formado por Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Sem um volante tipicamente de
marcação, os craques sabiam que precisariam se desdobrar a fim de cumprir essa tarefa, que
normalmente cabia a um carregador de piano, para que a ousadia do chefe desse certo. Ao dar
liberdade para os jogadores criarem, deixando que as peças se encaixassem naturalmente, sem
impor amarras a ninguém, Telê conquistou a confiança de todos.
O brilho daquela equipe, além de tudo, não se concentrava apenas no meio de campo.
Leandro e Júnior, nas laterais, tinham categoria e poder ofensivo. Até os zagueiros Oscar e
Luizinho mostravam qualidade e sabiam sair jogando. Na frente, Éder formaria dupla com
Careca, um dos centroavantes mais habilidosos e letais da história. Mas uma grave lesão
muscular tiraria o camisa 9 da Copa. Uma perda irreparável. Escolhido para substituí-lo,
Serginho Chulapa inicialmente despertou desconfiança. Ele também era artilheiro, excelente
definidor, mas estava longe de possuir os recursos de Careca. Mesmo assim, para surpresa de
muita gente, Serginho entrou no time sem destoar. A única posição que provocava discussão era
a de goleiro. Telê abriu mão da experiência e qualidade de Emerson Leão, que disputara as três
Copas anteriores, as duas últimas como titular, por fazer restrições a sua personalidade. Entendia
que ele iria estragar o ambiente e criar cisões no grupo. Apostou em Waldir Peres, que não
transmitia a mesma segurança, mas era um sujeito mais afável e poderia dar conta do recado.
À medida que se aproximava o Mundial, crescia a confiança da torcida e dos próprios
jogadores. O lateral-esquerdo Júnior, que estreou na seleção juntamente com Sócrates, em 1979,
conta como a euforia contagiava progressivamente o elenco. “Os amistosos contavam pouco, a
gente tinha goleado o Paraguai por 6 a 0, por exemplo, no Serra Dourada, em Goiânia, mas o
adversário não era essas coisas. Somente a partir do Mundialito, disputado no Uruguai, no início
de 1981, quando a coisa foi pra valer, nós tivemos realmente ideia de onde poderíamos chegar.
Sem o Zico, que estava machucado, nós perdemos a final para os uruguaios, mas voltamos com a
convicção de que aquele time ainda ia dar banho.”
Em seguida, veio a excursão à Europa contra adversários tradicionais, e a ascensão da equipe
era evidente. “Batemos a Inglaterra por 1 a 0 no estádio de Wembley, em Londres, coisa que
nunca tinha acontecido. Ganhamos da Alemanha Ocidental por 2 a 1, em Stuttgart, e depois da
França por 3 a 1 no Parc des Princes, em Paris. Os caras não nos conheciam direito e ficaram
impressionados. Assim como eu e o Sócrates, o Falcão também não tinha disputado a Copa de
1978. Então aquilo nos deu moral e percebemos que tínhamos reais condições de ganhar o
Mundial na Espanha.”
Àquela altura, Sócrates já estava voando baixo. O preparador físico da seleção era o exigente
Gilberto Tim, que trouxera avanços nessa área, com novas técnicas aprendidas no exterior,
inclusive as sessões de alongamento muscular — um procedimento corriqueiro hoje em dia, mas
ainda pouco utilizado naquela época no Brasil. Ele tirava o couro dos atletas e, às vezes, chegava
a ser rude ao menor sinal de preguiça de seus comandados. Não havia dúvida de que o Doutor
precisaria se adequar para entrar no ritmo dos demais. Os seus hábitos pouco saudáveis, com
noitadas, consumo cotidiano de álcool e tabagismo avançado, não eram segredo para ninguém.
Então, assim que Telê assumiu o comando da seleção, em fevereiro de 1980, ele incumbiu Tim
de fazer um plano de trabalho para colocar Sócrates em ponto de bala. A sua admiração pelo
craque não se resumia ao reconhecimento de sua genialidade em campo. Ele também se
impressionava com a capacidade de liderança, pela qual se impunha diante de feras como Zico,
Falcão e Júnior. Já estava convencido de que encontrara o jogador talhado para vestir a
braçadeira de capitão.
Decidido a brilhar em seu primeiro Mundial, Magrão começou ainda no Corinthians a
cumprir o programa que Tim passara para o preparador físico do clube, Hélio Maffia. Assim, ele
ganhou massa muscular, força nas arrancadas e muito mais resistência. O golaço que ele fez na
vitória contra o Internacional, por 2 a 0, no Beira-Rio, em Porto Alegre, pela Taça de Ouro do
Campeonato Brasileiro, serviu como prova enfática disso. Depois de Casagrande ter aberto o
placar, o Doutor partiu com a bola dominada antes da linha do meio de campo, passou como quis
por Mauro Galvão e Müller e tocou com precisão no canto do goleiro Benitez. Uma explosão
que ele não costumava ter até então.
Para alcançar esse nível, foi necessário Sócrates comprar a ideia de Telê e Gilberto Tim.
Mesmo que tenha sofrido horrores até se adaptar ao novo ritmo. “A gente fazia com o Tim
treinamentos muito pesados mesmo. Quem não tivesse o mínimo de condição física, como era o
caso do Magrão no começo, não aguentava. Então, ele vomitava pra caramba. Depois de
completar o percurso de um quilômetro e meio, dentro do tempo exigido pelo Tim,
invariavelmente ele vomitava devido ao esforço”, conta Júnior.
Além de se dedicar aos treinamentos como jamais fizera, o Doutor reduziu drasticamente a
quantidade de cerveja e cigarro. Algo cobrado, inclusive, pelos próprios colegas, como relata
Júnior. “Tinha aquela história de ele fumar pra caramba, né? Eu também fumava, mas eram três
cigarros por dia, enquanto o Magrão fumava três por hora. Então a gente dava uns toques: ‘Você
vai ter de segurar, coisa e tal’. Foi quando ele começou a dar uma bela diminuída no cigarro. Não
adiantava jogar toda a bola que ele jogava se não conseguisse acompanhar o ritmo. A galera
também gostava de cerveja, gostava de não sei o quê, mas o pé na bunda era cascudo na hora do
treinamento, né? Quer dizer, acho que até pela própria inteligência dele, o Sócrates se
conscientizou, e isso fez com que ele disputasse uma Copa do Mundo em altíssimo nível,
reconhecido como um jogador extraclasse. Porque eu conheci o Magrão em 1977 e o
acompanhei até 1986, então posso dizer que aquele foi o único período em que realmente ele foi
atleta.”
Além da ambição natural de qualquer jogador pela taça de campeão do mundo, Sócrates ainda
imaginava o efeito que aquilo certamente iria causar no país. Com o status de capitão da seleção
brasileira tetracampeã, as suas ideias teriam muito mais repercussão na sociedade, em escala
nacional. Ganharia vulto para desafiar o regime militar, que teria de engolir suas ideias libertárias
por se tratar de um herói da pátria. “Claro que o Magrão sonhou alto nesse sentido. Se ele já
incomodava com a Democracia Corinthiana, imagine o cara empoderado como capitão da
seleção campeã do mundo. A ditadura ia tremer”, avalia Casagrande, que também torceu demais
para que isso se tornasse realidade.
Desde a Copa de 1970, o Brasil não se identificava tanto com uma seleção. As ruas estavam
pintadas de verde-amarelo, e papéis picados eram jogados dos prédios nas capitais de todo o país
para saudar a entrada da equipe de Telê em campo pela primeira vez no Mundial da Espanha,
contra a União Soviética, em Sevilha, no dia 14 de junho. Sem Toninho Cerezo, que cumpriu
suspensão por ter sido expulso no último jogo das eliminatórias sul-americanas, diante da
Bolívia, Telê escalou Dirceu, remanescente da Copa anterior, na Argentina. Apesar de o time
estar afinado e autoconfiante, sempre existe o nervosismo da estreia. E dessa vez não foi
diferente. O Brasil dominava as ações, mas, para aumentar a tensão, os soviéticos saíram na
frente. Bal arriscou um chute de fora da área, aos 33 minutos, e Waldir Peres engoliu um frango
daqueles.
No intervalo, Telê tratou de acalmar os ânimos, além de trocar Dirceu por Paulo Isidoro,
escalado aberto pela ponta-direita. O jogo continuava duro, até que Sócrates trouxe o alívio aos
29 minutos. O capitão deu um drible seco em seu marcador, que ficou no chão, aplicou outra
finta no adversário que veio na sobra, e disparou uma bomba bem no ângulo do goleiro Dasaev.
Golaço! O estádio veio abaixo, e toda a população brasileira ligada na tv também explodiu de
alegria. Mas o empate ainda era pouco, não fazia jus ao futebol de classe jogado por aquele time.
A expectativa se arrastou até o final. Somente aos 43, quando Paulo Isidoro tocou para Falcão,
que abriu as pernas e deixou a bola passar para Éder, num corta-luz, veio a salvação. E em
grande estilo. O ponta-esquerda ainda teve a calma de levantar a pelota antes de bater forte, sem
chance de defesa. O sonho do tetra decolara de vez.
Apesar da alegria pela virada, a análise da partida deixou uma pulga atrás da orelha de muita
gente: Serginho Chulapa, que havia ido tão bem no período de preparação, teve uma atuação
apagada. Alguns jornalistas e torcedores já começavam a sugerir sua substituição. O mais
convicto disso era o cantor João Gilberto. Ele sabia que Fagner estava na Espanha, com trânsito
livre na concentração da seleção, e pedia para o amigo cearense convencer Telê a modificar o
time. “O João me ligava todos os dias, e vinha com o mesmo papo: ‘Fagner, diga a Telê para não
botar nem Waldir Peres nem Serginho’. Eu tentava explicar que isso não seria possível, como é
que eu ia sugerir ao Telê uma coisa dessas? Mas o João ficava inconformado e insistia com
aquilo de forma obsessiva. Cada ligação dele durava duas horas…”
Além de Fagner não ser louco de interpelar Telê com uma proposta invasiva daquelas — logo
para um técnico conhecido por ser turrão, teimoso e personalista —, ele nem sequer concordava
com a ideia. Não era hora de queimar Waldir Peres por causa de um frango, ainda mais depois de
o time ter reagido e vencido a partida. Um gesto assim certamente iria revoltar seus colegas e
provocar uma crise desnecessária. Muito menos tirar Serginho, que provavelmente sentira o peso
da estreia e tinha totais condições de se soltar dali em diante.
A partida seguinte, contra a Escócia, seria uma boa oportunidade para o time subir de
produção e levar junto Chulapa. De fato, o Brasil atropelou os escoceses por 4 a 1, mas o
centroavante mais uma vez decepcionou. Além de não ter balançado a rede, parecia um peixe
fora d’água em meio a um cardume vistoso que se movimentava com graça pelo campo. João
Gilberto ganhava mais adeptos para a sua ideia de escalar Roberto Dinamite no comando do
ataque. Cresciam os questionamentos a Serginho, e a crítica especializada, sobretudo a carioca, já
levantava essa hipótese nos programas esportivos. Mas Telê, é claro, não daria o braço a torcer.
Sorteado para o exame antidoping após essa partida, Sócrates aproveitou a chance para matar
a saudade de cerveja. Como sempre fazia nessas ocasiões, tomou todo o estoque de garrafas
oferecido pela Fifa como diurético. Foram quinze latinhas da marca Cruzcampo entornadas uma
atrás da outra. Só depois de esvaziar a última, finalmente fez xixi, para alívio dele mesmo, que
segurava a urina propositalmente, e dos fiscais da comissão antidoping que aguardavam aquele
desfecho com ansiedade.
O terceiro rival na Copa seria perfeito para Serginho desencantar, talvez até tirar a barriga da
miséria com mais de um gol: a frágil Nova Zelândia. Mas nem assim Chulapa soltava o freio. No
intervalo do jogo, Sócrates chegou a interpelá-lo, ao perceber seu semblante carregado,
provavelmente sentindo a pressão nas costas. Pediu para que o colega jogasse com mais alegria e
irreverência. Possivelmente o papo tenha ajudado, porque o centroavante deixaria finalmente a
sua marca na goleada por 4 a 0.
Depois da partida, para celebrar a boa campanha, Sócrates conseguiu que Telê antecipasse a
folga, prevista somente para o dia seguinte, a fim de que os jogadores pudessem ir ao show de
Fagner, em Sevilha. O treinador também gostava do cantor, que inclusive chegou a treinar com a
seleção na Espanha, numa concentração extremamente fechada. Tão blindada que o taxista
tentou convencê-lo a não ir, o local estava cercado por militares, e o motorista julgava que seria
uma viagem perdida. “O cara não acreditou quando chegamos lá e eu não só entrei, como ainda
fui recebido pelos jogadores e por Telê na porta do castelo”, relembra Fagner.
O que nem Fagner poderia imaginar é que o técnico ainda o convidaria para participar de um
treino coletivo. “Eu me achava um craque de bola, então quando o Telê mandou eu treinar, aí é
que me sentia um deles mesmo”, diverte-se. “E ele ainda me levava a sério, dava instruções:
‘Fagner, joga solto!’. No final do treino, a imprensa estrangeira veio toda em cima de mim. Os
repórteres queriam saber quem era aquele jogador que eles não conheciam (risos).”
Ao saber dessas aventuras e da camaradagem de Fagner com Telê, João Gilberto batia sempre
na mesma tecla com o amigo: ele tinha que dar um jeito de tirar Waldir Peres e Serginho do time.
Se lhe faltasse coragem para falar diretamente com o treinador, que chamasse o parceiro Sócrates
para uma conversa reservada, explicasse a urgência da mudança e o convencesse a levar essa
questão de suma importância para Telê. Assim como costuma passar madrugadas inteiras
tocando violão e cantando a mesma música, às vezes apenas um trecho de determinada canção,
em busca do sibilado e da batida perfeitos, João ficara com aquela ideia fixa.
O pai da bossa-nova é compulsivo assim mesmo. Quatro anos mais tarde, ele voltaria a
atormentar Fagner diariamente com outro assunto referente a Sócrates. Queria porque queria que
o amigo convencesse o craque a não desistir da dupla com Zico no Flamengo, quando o Doutor,
às voltas com uma hérnia de disco, cogitava abreviar a carreira. “Meu Deus, vai acabar o futebol-
arte, não deixa ele fazer isso!”, choramingava ao telefone. Certo dia, Sócrates chegou à casa de
Fagner, no Rio, no momento em que João buzinava na sua orelha. O cantor cearense nem
titubeou. Colocou os dois na linha: “Magro, senta aí e conversa com esse cara, que ele tá
enchendo o meu saco pra tu não parar de jogar”. Depois de o Doutor ficar mais de uma hora na
linha só ouvindo os argumentos de João, ele desligou e fez só um comentário: “Esse cara é
louco!”.
Mas, voltando à Copa da Espanha, o show de Fagner descontraiu o ambiente na seleção, que
já estava bom por conta da campanha na primeira fase. No entanto, a sequência do caminho seria
complicada. Na segunda etapa, em Barcelona, o Brasil teria de se confrontar com dois
adversários fortes e tradicionais: a Argentina, então campeã do mundo, e a Itália, dona de uma
camisa com tanto peso quanto a canarinho. Quem somasse mais pontos nesse triangular se
classificaria para a semifinal.
A disputa começou com o duelo entre os dois rivais brasileiros, com vitória da Itália por 2 a 1.
Na sequência, o Brasil pegou a Argentina, que precisava ganhar a qualquer custo para se
recuperar do tropeço anterior e se manter com chances de seguir em frente. Porém, a equipe de
Telê era bem superior ao conjunto do técnico César Luis Menotti e mostrou isso em campo sem
sombra de dúvidas. Com mais uma grande atuação do time comandado por Sócrates, o triunfo
por 3 a 1 se concretizou com gols de Zico, Serginho e Júnior. Tomado pela raiva, o jovem craque
Diego Maradona, então com 21 anos, acabou expulso por entrada violenta em Batista. O placar
mais dilatado colocava a seleção em vantagem no confronto com a Itália: o empate já garantiria a
classificação.
Àquela altura, a empolgação já tomara até o mais pessimista dos torcedores. Enquanto o
Brasil conquistara a admiração de todo o mundo, e liderava a bolsa de apostas para ser o
campeão, a Itália vinha um tanto desacreditada devido à campanha medíocre na primeira fase,
quando passou raspando com uma sequência de três empates, contra Polônia, Peru e Camarões.
O técnico Enzo Bearzot havia confiado na volta do atacante Paolo Rossi, que cumprira dois anos
de suspensão por envolvimento num esquema de fabricação de resultados no Campeonato
Italiano. Fora de ritmo de jogo, o artilheiro ainda não fizera um gol sequer até ali, e sua equipe,
como um todo, não entusiasmava ninguém. A ponto de as críticas ácidas da imprensa italiana
terem levado a Azzurra a se fechar e decretar lei do silêncio com os jornalistas.
O dia 5 de julho amanheceu irradiando alegria. Muita gente no Brasil tirou folga para
desfrutar daquele jogaço, cujo resultado favorável era dado como favas contadas. E mesmo quem
trabalhou saiu mais cedo do serviço para acompanhar em casa mais um espetáculo de Sócrates,
Zico, Falcão, Cerezo, Júnior e companhia. Impossível não se lembrar da Copa de 1970, tanto
pelo futebol mágico que voltava a encantar o planeta, como pelas imagens da goleada de 4 a 1
que a seleção de Pelé, Gérson, Rivellino, Jairzinho e Tostão impusera à Azzurra na final,
reprisadas a todo momento na tv. Já se colava o rótulo de fregueses nos italianos por antecipação,
afinal parecia impossível aquela equipe sem graça nem eficiência aprontar alguma surpresa.
Seria, acima de tudo, injusto.
E foi esse o sentimento — de injustiça — que dominou corações e mentes quando Paolo
Rossi abriu o placar no estádio Sarriá, completando de cabeça um cruzamento de Cabrini, logo
aos cinco minutos. Aquilo não era possível! Fugia completamente ao roteiro… Porém, muita
calma nessa hora, pois todos sabiam que a virada seria questão de tempo. De fato, o susto inicial
se transformou em comemoração pouco depois, quando Sócrates recebeu passe magistral de Zico
pelo lado direito do campo, invadiu a grande área e, quase sem ângulo, bem em cima da marca
de cal que delimitava a linha lateral da pequena área, tocou no cantinho, no contrapé do goleiro
Dino Zoff.
O empate restabelecia a ordem natural das coisas. O Brasil estava predestinado a ser campeão,
pensavam todos, ou quase todos. Faltara combinar isso direitinho com o destino, e sobretudo
com Paolo Rossi, que resolveu trocar o papel de vilão condenado pelo de herói do tricampeonato
da Itália. Após falha de Cerezo, que errou um passe na saída de bola da defesa brasileira e deu de
bandeja mais um gol para o carrasco italiano, outra vez a Azzurra se pôs à frente. A torcida
verde-amarela nem podia acreditar no que estava acontecendo. Porém, ainda incrédula, viu
Falcão empatar novamente o jogo com um belo chute da entrada da área. Ufa! Ninguém
imaginava que fosse ser assim tão dramático ao contrário, esperava-se um passeio, mas, menos
mal, o empate já bastava para o Brasil ir para a semifinal. Era isso o que importava.
Até que veio o choque final. Em novo erro da defesa brasileira, após cobrança de escanteio,
Paolo Rossi marcou seu terceiro gol e liquidou o sonho dos brasileiros. A partida passou para a
história como a Tragédia do Sarriá, só comparável em dor e decepção ao Maracanazo da Copa de
1950, quando os uruguaios estragaram a festa na final disputada em pleno Maracanã.
Os jogadores desabaram com o apito final em Barcelona, e o Brasil virou terra devastada,
pelo menos emocionalmente. As crianças choravam. Muitos adultos também. Os craques
brasileiros pareciam zumbis saindo de campo. Não se tratava apenas de um jogo perdido.
Enterravam-se ali as ilusões de um país que voltara a sorrir, a acreditar em sua magia, a seguir
um capitão libertário que prometia levantar a taça de campeão do mundo bem nas fuças da
ditadura militar. Não existe justiça nesta vida. Inevitavelmente, esse pensamento dominava a
alma de uma nação.
Até hoje os integrantes daquela seleção têm apenas flashes dos momentos imediatamente
posteriores à Tragédia do Sarriá. No vestiário, ninguém teve ânimo para falar qualquer palavra
de consolo. Na volta para o hotel, dentro do ônibus, o silêncio só foi cortado por um suspiro do
zagueiro reserva Juninho: “Isso aqui foi um pesadelo, o jogo mesmo é amanhã”. Muitos repetiam
aquilo mentalmente, como um mantra. Inclusive Sócrates, que esperava acordar a qualquer
momento daquele transe diabólico.
O capitão só caiu na real ao chegar no hotel, quando buscou forças para encarar a realidade e
exercer seu papel de líder à frente de toda a delegação, como recorda Júnior. “A gente nunca
falou muito desse episódio, porque acho que enterramos isso assim que acabou aquele jogo.
Depois que chegamos ao hotel, houve uma reunião com toda a delegação, cinquenta homens ali,
todo mundo chorando, todo mundo… e o Sócrates pediu a palavra. Ele deu o seu recado assim:
‘Gente, nós podemos ter perdido o jogo, mas não vamos perder isso aqui. Essa união
maravilhosa vai ficar para o resto de nossas vidas. E é isso o que vale’. E eu pude comprovar que
era verdade oito anos mais tarde, quando reuni aquela seleção para minha despedida do futebol.
Só não foram o Éder, o Edinho e o Paulo Isidoro, que ainda estavam jogando. Eu fiz o jantar
antes de um amistoso contra a Itália, e houve uma festa depois da partida também. O clima de
irmandade entre a gente sobreviveu, assim como a intimidade tanto tempo depois. Aí alguém me
avisou que o Cerezo estava chorando, e eu fui falar com ele, preocupado: ‘Toninho, o que tá
havendo, cara? Tá chorando, meu irmão?’. E ele explicou: ‘Pois é, parceiro… Estava olhando
para vocês ali e, de repente, comecei a chorar de emoção e alegria’. Fiquei só imaginando o filme
que passava na cabeça dele e, naturalmente, na cabeça de todo mundo que fez parte daquela
seleção.”
Em setembro de 1983, numa entrevista à revista Placar, Sócrates tocou na ferida ao relembrar
o que sentiu após a derrota. “O mundo desabou, mesmo para mim, que procuro me condicionar
para qualquer acontecimento. Aquela derrota, porém, não estava nas cogitações. Só consegui
desabafar duas horas depois, já no hotel, quando fizemos uma reunião e eu agradeci a todos pelo
companheirismo e pelo trabalho. Só aí eu pude chorar. Aliás, todos choraram. Até o Juninho, que
era o cara que procurava erguer o ânimo, foi quem mais chorou. Mas isso foi bom, porque até a
hora do choro o ambiente era fúnebre. A viagem de ônibus, do estádio para o hotel, dava a
impressão de que cada um viajava num carro diferente, indo para o mesmo cemitério, para ser
enterrado. O Giulite Coutinho [então presidente da cbf] falou, vários falaram. Eu fui o último e
falei do que aqueles três meses de convivência tinham significado para mim. Pessoas de origens
distintas, numa estrutura competitiva, entenderam que o básico era o respeito e a camaradagem.
Tentei demonstrar que o resultado daquele jogo não valia nada diante do que fizemos. Sempre
que uma coisa não dá certo, a gente pensa no que teria faltado. Mas todos ali sabiam que não
faltara nada, pelo contrário”, relembrou o Doutor.
Magrão concluiu seu pensamento, nessa entrevista, dando uma ideia do quanto aquela
eliminação o levara à lona. “Não só no futebol, foi o momento mais triste da minha vida. Nunca
me aconteceu nada comparável, nunca tive, por exemplo, a morte de alguém próximo, ou quando
tive estava preparado para enfrentá-la. Depois daquele dia não consegui assistir a nenhuma outra
partida da Copa. A nível pessoal, a derrota foi uma experiência inesquecível, principalmente
porque eu vivi a expectativa dessa Copa pelo menos durante sete anos. Eu adiei o exercício da
medicina por causa dela. Em 1978, fiquei frustradíssimo por não ter sido convocado, porque
coloquei a participação numa Copa do Mundo como algo muito importante para mim. Então, em
1982, talvez tenha sido a única vez que admiti me sacrificar para me entregar a um trabalho. Eu
me isolei de tudo, me alienei, fiz concessões — como passar três meses concentrado —
simplesmente para estar ali, materializar um sonho.”
Esse desmoronamento psicológico, com a constatação de que o sonho acabara, não foi
exclusividade dos jogadores. Poucas pessoas no Brasil ficaram imunes à derrota naquele fatídico
5 de julho. Curiosamente, Casagrande foi uma delas. Ele aproveitara o dia de folga para se
entregar a outro tipo de sonho, sob o efeito do ácido lisérgico que tomara com os amigos da
Penha. Ele havia mastigado um pequeno pedaço de papel, com a estampa do personagem Pateta,
e vivia uma outra realidade. Assim que terminou a partida, saiu de carro com a turma, mas
acabou destituído da direção ao comentar sobre as incríveis curvas do traçado. Afinal, eles não
estavam na estrada de Santos, que inspirou a famosa canção de Roberto e Erasmo Carlos, mas na
antiga rodovia dos Trabalhadores, atual Ayrton Senna, que se caracteriza exatamente pelo
percurso quase todo reto. Com visões e ataques de riso, o atacante não parecia nada abatido com
a eliminação brasileira no Mundial. Somente no dia seguinte, e nos subsequentes, ele iria
compartilhar a dor da nação. Havia conseguido driblar a tristeza no primeiro momento, como
mandava seu instinto de fuga, mas seria impossível evitar a frustração definitivamente. Assim
que a ficha caiu também se sentiu destruído, porque tinha paixão por aquela seleção que jogava o
fino da bola, mas sobretudo porque a imagem de Sócrates levantando a taça não saía de sua
cabeça.
Quando o Doutor voltou a defender o Corinthians, Casão pôde constatar o quanto o amigo
estava devastado. Evitavam tocar no assunto, como um escudo para se protegerem do pesadelo, e
todas as energias foram direcionadas para o projeto da Democracia Corinthiana. Felizmente o
êxito no clube, tanto dentro como fora de campo, teria um efeito terapêutico para o capitão de
Telê.
No primeiro momento, Sócrates se mostrava inclinado a não disputar o Mundial seguinte. O
esforço despendido, sem recompensa, minara seu entusiasmo pela seleção. Passou a viver
intensamente a conquista do bicampeonato paulista com o Corinthians, a evolução do processo
democrático na equipe, o envolvimento com os movimentos políticos e a aproximação com o
mundo artístico. Aos poucos, a ferida foi cicatrizando, mas o objetivo de ir a mais uma Copa
ainda lhe parecia algo nebuloso.
Atendeu, quase por inércia, às convocações do técnico Carlos Alberto Parreira, que substituíra
Telê após a Copa de 1982. Sócrates foi chamado, também como capitão, para uma série de seis
amistosos e mais oito partidas válidas pela Copa América de 1983, de agosto a novembro, sem
sede fixa. Porém, estava longe de se sentir entusiasmado. Além da frustração pelo Mundial
perdido e da decepção pela troca de comando — foi um dos poucos jogadores que criticaram a
dispensa de Telê —, Magrão não tinha afinidade com o novo chefe. Um episódio ocorrido em
Estocolmo, onde o Brasil disputaria amistoso com a Suécia, serviu para reforçar a impressão
negativa em relação ao técnico. Após um treinamento, o craque descansava no quarto do hotel,
lendo um livro, quando bateram à porta. Sem levantar-se, ele avisou que a porta não estava
trancada, e ficou surpreso ao ver Parreira e toda a comissão técnica irromperem no cômodo, sem
qualquer justificativa. “Ninguém falou nada, aparentemente eles esperavam que eu estivesse
fazendo alguma coisa errada e se surpreenderam ao me ver com o livro nas mãos. Depois de um
longo silêncio, como ninguém se manifestava, retomei a leitura, e eles saíram do quarto sem me
explicar o motivo de tão estranha visita. Provavelmente esperavam me flagrar enchendo a cara
ou comendo alguém, sei lá, e se retiraram sem coragem de dizer palavra”, relatou o Doutor,
tempos mais tarde.
Parreira, no entanto, não teve vida longa no cargo. A fraca campanha na Copa América, com
duas vitórias, quatro empates e duas derrotas, provocou sua demissão. Edu Coimbra, irmão de
Zico, assumiu a seleção para apenas três amistosos, em junho de 1984, exatamente durante a fase
em que Magrão se despedia do Corinthians e viajava para se apresentar à Fiorentina, na Itália.
Portanto, nem foi chamado dessa vez. Começava ali o período de um ano em que o Doutor
ficaria longe da equipe canarinho, pois Evaristo de Macedo, o treinador seguinte, era seu
desafeto declarado. A perspectiva de disputar um novo Mundial ficava mais remota.
Casagrande, por sua vez, tinha se determinado a ir para a Copa do México, em 1986. Tratava-
se de uma questão de honra viver essa experiência e, apesar de tudo, estava convencido de que
Sócrates iria junto.
14
A segunda chance
C asagrande tinha os títulos conquistados pelo Corinthians, em 1982 e 83, e a consagração como
artilheiro como trunfos para ser lembrado para a seleção. Na sequência, em 1984, devido ao
confronto com o técnico Jorge Vieira, que fora embora do clube por causa dele, e já sem
Sócrates para apoiá-lo, o centroavante transferiu-se para o São Paulo por empréstimo de seis
meses, após o presidente do Conselho Deliberativo, Roberto Pasqua, ter encabeçado um abaixo-
assinado para que ele deixasse o Parque São Jorge. Saiu ferido do clube do coração, onde
crescera e despontara para o futebol, pela falta de consideração da diretoria. Porém, a curta
temporada no Tricolor do Morumbi iria consolidá-lo como um candidato natural à seleção
canarinho.
Determinado a mostrar seu valor e dar uma resposta aos desafetos que haviam minado seu
terreno no time alvinegro, Casão não só jogou em alto nível no antigo rival como ainda provou
ser capaz de atuar no meio de campo. “O fato de ter mostrado personalidade em dois clubes de
tanta tradição, mesmo tão jovem, me colocou em outro patamar. Principalmente porque passei a
atuar na armação para formar dupla com o Careca, o que comprovou minha capacidade técnica.”
Depois desse breve período no São Paulo, voltou valorizado ao Corinthians e continuou a
jogar como meio-campista, pois o clube contratara o centroavante Serginho Chulapa. Logo
começaram os rumores de sua convocação. Primeiro foi o árbitro José Roberto Wright quem lhe
trouxe essa informação dos bastidores da cbf, durante a goleada sobre o Goiás por 4 a 0, em
Goiânia, em que Casão balançou a rede duas vezes. Logo após ter feito um golaço, o juiz lhe
confidenciou isso ao pé da orelha. A perspectiva o deixou alegre, claro, mas ele tratou de conter
a euforia com receio de alimentar falsas ilusões e se decepcionar quando saísse a convocação do
técnico Evaristo de Macedo, que acabara de assumir o posto.
Cerca de um mês depois da sinalização de Wright, viria a confirmação. Na concentração para
o jogo de volta contra o Goiás, no Pacaembu, o treinador corinthiano Carlos Alberto Torres
mandou chamar Casão ao quarto dele para lhe comunicar a boa-nova. O capitão do tri fora
avisado pela cbf da convocação do jogador, a ser anunciada à noite. Na ocasião, ele recebeu em
casa o repórter Luiz Ceará, então na tv Globo, e a celebração dele e de sua família passou ao vivo
no Fantástico.
Casagrande foi chamado para o meio de campo. Os atacantes relacionados eram Careca e
Reinaldo. Apesar da imensa alegria, o início de sua trajetória com a camisa canarinho seria
bastante conturbado. O time montado por Evaristo de Macedo não se encaixava, oscilava demais
a cada jogo, e o temperamento às vezes rude do treinador o indispunha com alguns jogadores,
parte da imprensa e a torcida. De saída, o técnico já tinha avisado que Sócrates era carta fora do
baralho. Classificou o capitão da Copa anterior como um líder negativo e acrescentou que o
Doutor e Zico, por serem da mesma posição, não poderiam atuar juntos, para incredulidade da
imprensa e do público, que já haviam constatado o excelente entrosamento dos dois em 1982.
O veto do chefe a Magrão, nem seria preciso dizer, desagradou demais a Casagrande. Além
de achar absurda a argumentação de Evaristo, sempre sonhara em repetir a dupla com Sócrates
na seleção. No entanto, aquele não era o momento para fazer qualquer questionamento. Como
marinheiro de primeira viagem, não podia ficar marcado como um atleta indisciplinado, dado a
motins. O jeito foi engolir em seco as bobagens ditas pelo treinador.
O ambiente conturbado levaria Casão a viver um grande dilema. Chamado por jogadores mais
experientes a participar de um boicote à imprensa, que criticava duramente a seleção, ele aderiu
ao chamado Manifesto de Santiago. Àquela altura, o time colecionava três vitórias e duas
derrotas em amistosos. A sua estreia pelo Brasil acontecera no triunfo sobre a Colômbia por 2 a
1, no Mineirão, com um gol dele e outro de Alemão. Em seguida, houve o tropeço diante do
Peru, por 1 a 0, no estádio Mané Garrincha, em Brasília, quando subiram o tom das críticas. Nem
mesmo as vitórias sobre o Uruguai por 2 a 0, no estádio do Arruda, em Recife, e contra a
Argentina, por 2 a 1, na Fonte Nova, em Salvador, serviram para fortalecer o grupo. Apesar dos
resultados positivos, as exibições não foram convincentes. A fragilidade ficaria mais evidente na
queda diante da Colômbia, por 1 a 0, no estádio El Campin, em Bogotá. A derrota até então
inédita para os colombianos teve enorme repercussão negativa e fez o caldo ferver de vez.
Nesse panorama, surgiu a reação dos jogadores em Santiago, onde seria disputado mais um
amistoso. Casão estava no quarto do hotel com febre, em consequência de um machucado
contaminado por erisipela na passagem por Bogotá, quando Mário Sérgio, Oscar e Reinaldo
foram procurá-lo. Os três veteranos queriam sua participação em um movimento de repúdio à
imprensa. “Eles estavam bastante aborrecidos, sobretudo com a publicação de uma reportagem
que falava sobre aventuras sexuais dos jogadores nas viagens. Aquilo havia provocado crises
familiares para os caras casados, que propunham uma retaliação.”
Não cairia bem para um ídolo associado à luta por liberdade de expressão tomar parte de uma
ação dessa natureza. No entanto, Casão também estava dominado pela raiva. Pouco antes de o
trio bater à sua porta, ele assistira a um programa esportivo chileno no qual o jornalista carioca
Oldemário Touguinhó esculhambava a seleção brasileira. O experiente e respeitado repórter só
poupara de seus ataques os conterrâneos Bebeto e Branco. Dessa forma, o centroavante se deixou
levar pela onda de indignação.
A atitude intempestiva fez com que Casagrande levasse uma bronca do amigo Juca Kfouri,
que desembarcara no Chile para cobrir a partida e se deparara com o silêncio imposto pelos
atletas. “Casão, você enlouqueceu?”, cobrou o jornalista. “Você assinou manifesto contra a
imprensa? Você, Casão? Cadê a sua liderança? Como é que você deixou fazerem um troço
desses? Não sabe que os caras que fizeram o Manifesto de Glasgow ficaram marcados? E não é
corporativismo, não! Você quer o quê? Que a imprensa fale que esse time está jogando bem? Tá
uma merda esse time!”, disse Juca. A citação de Glasgow refere-se à atitude semelhante tomada
pela seleção em 1973 durante excursão à Europa.
Existem até fotos dessa conversa no vestiário, nas quais Juca aparece gesticulando à frente de
Casagrande, que saiu dali e procurou os colegas para rediscutir a questão. Aquela iniciativa
ficava ainda pior por ter ocorrido no Chile, país que enfrentava violenta ditadura do general
Augusto Pinochet, com censura de imprensa e assassinatos de opositores. Mesmo a contragosto,
Casagrande já havia recusado uma proposta do repórter Roberto Cabrini, então da tv Globo, para
se encontrar com Caszely, combativo jogador chileno que se opunha ao governo militar. Ele
ficara com vontade de participar dessa entrevista, mas precisou cumprir o acordo com o grupo.
Tudo isso fez Casão repensar a situação e expor aos companheiros o seu desconforto. Outros
jogadores acabaram expressando o mesmo sentimento, e a greve contra a imprensa caiu por terra.
Houve entrevistas constrangidas após a derrota para o Chile por 2 a 1 — o gol de honra foi de
Casagrande — e o técnico Evaristo de Macedo não resistiu à pressão. Demitido no avião, durou
apenas 38 dias no cargo.
A mudança de comando abriu as portas para Telê Santana voltar à seleção e, com ele, a
mesma base do timaço de 1982. Além de ter seus homens de confiança, com os quais sonhava
dar a volta por cima, o treinador dispunha de pouco tempo até a estreia nas eliminatórias para a
Copa: apenas doze dias. Não havia condições para fazer muitos testes e experimentações. Nessas
circunstâncias, tão logo assumiu, ele anunciou seu time titular: Carlos; Leandro, Oscar, Edinho e
Júnior; Toninho Cerezo, Sócrates e Zico; Renato Gaúcho, Casagrande e Éder.
Inicialmente, Casão se viu nas nuvens. Não só saía como titular da equipe, como ainda iria
jogar ao lado de Sócrates, Zico, Júnior, Cerezo, craques que admirava e por quem tanto tinha
torcido no Mundial da Espanha. Do quadrado mágico do meio-campo de 1982, faltava apenas
Falcão, que estava machucado. No dia 2 de junho de 1985, a seleção estreou nas eliminatórias
com vitória sobre a Bolívia por 2 a 0, no estádio Ramón Tahuichi, em Santa Cruz de la Sierra,
com gols de Casagrande e Miguel Noro (contra).
No jogo seguinte pelas eliminatórias, Telê repetiu a escalação na vitória contra o Paraguai por
2 a 0, no Defensores Del Chaco, em Assunção, gols de Casagrande e Zico. Os jogadores
brasileiros foram caçados nessa partida, o que levou os atacantes a combinarem devolver na
mesma moeda quando houvesse o duelo de volta, uma semana depois, no Maracanã. “O Zico e o
Renato apanharam o jogo inteirinho, eu levava socos nas costas o tempo todo, e o Éder também
sofreu demais. Não podíamos deixar barato”, explica Casão.
Uma decisão não compartilhada com Telê, avesso a todo tipo de violência, inclusive a
motivada por vingança. Sem saber de nada, o treinador ficava esbravejando na lateral do campo
contra o excesso de entradas duras de seus jogadores, especialmente de Casagrande e Éder,
advertidos com cartão amarelo no empate por 1 a 1, com gols de Sócrates e Romerito. “Às vezes,
estávamos mais próximos da bola, mas dávamos uma segurada para esperar o adversário chegar
e fazer a falta”, admite o centroavante.
A relação com Telê se deteriorava rapidamente. O ataque formado por Renato Gaúcho,
Casagrande e Éder reunia três jogadores irreverentes e contestadores, que passaram a ter
discussões com o chefe em quase todos os treinamentos. Eles se incomodavam com a diferença
de tratamento em relação aos craques com quem o treinador tinha mais afinidade. “O Telê
pegava o tempo todo no pé da gente, mas não dizia nada para o Zico, o Sócrates e o Cerezo,
depois também para o Falcão, quando ele se recuperou de contusão. Aquilo não era justo e nos
irritava demais”, admite Casão.
O comportamento dos três contra o Paraguai os desgastou ainda mais aos olhos de Telê. Por
causa do cartão amarelo, Casagrande teve de cumprir suspensão no empate com a Bolívia, por 1
a 1, no Morumbi, no encerramento das eliminatórias. Foi substituído por Careca, que fez o gol
brasileiro. Essa partida também marcou a despedida de Cerezo, que acabou cortado devido a uma
distensão muscular.
Classificada para o Mundial, a seleção iniciou mal o período de amistosos. Com a equipe
bastante modificada, perdeu para a Alemanha Ocidental por 2 a 0, em Frankfurt, e para a
Hungria por 3 a 0, em Budapeste. Contra os alemães, Casagrande atuou com a camisa 10, pois
Zico iniciara um período de tratamento nos joelhos e condicionamento físico. Apesar de ser uma
fase de testes, com a entrada de vários jogadores, como o medalhão Falcão (recuperado de
contusão) e representantes da nova geração como o lateral-direito Édson (Corinthians), os
zagueiros Mozer (Flamengo), Mauro Galvão (Internacional) e Júlio César (Guarani), os laterais-
esquerdos Dida (Coritiba) e Branco (Fluminense), os volantes Alemão (Botafogo) e Elzo
(Atlético-mg) e os atacantes Müller e Sidney (ambos do São Paulo), as cobranças sobre a equipe
começavam a se acentuar.
O time se recuperou ao golear o Peru por 4 a 0, em São Luís, com gols de Casagrande (dois),
Alemão e Careca. A despeito do resultado, explodiu aí a primeira grande crise. Já na mira de
Telê por seu comportamento violento diante dos paraguaios, Éder desferiu uma cotovelada em
um adversário peruano, recebeu cartão vermelho e, dessa vez, não houve perdão. Foi cortado
pelo treinador.
Nos últimos amistosos, o Brasil ganharia da Alemanha Oriental (3 a 0, gols de Müller,
Alemão e Careca), da Finlândia (3 a 0, gols de Marinho, Oscar e Casagrande) e da Iugoslávia (4
a 2, três gols de Zico e um de Careca), além de empatar com o Chile em 1 a 1 (gol de
Casagrande). Mas o time ainda sofreria outras duas baixas antes do Mundial. Num dia de folga
em Belo Horizonte, Renato e Leandro encheram a cara, voltaram depois do horário estipulado e
foram flagrados pulando o muro da Toca da Raposa. Telê decidiu cortar apenas Renato, levando
em conta seu histórico de indisciplina, e provocou um drama de consciência no lateral. Sentindo-
se culpado pela punição do amigo, que o acompanhara à balada e fora solidário ao tentar
encobrir seu porre, Leandro roeu a corda no dia do embarque para o México. Ele se embriagou,
caiu em depressão e não apareceu no aeroporto. Zico e Júnior, seus parceiros no Flamengo, ainda
foram à casa dele buscá-lo, mas não conseguiram fazê-lo voltar atrás.
Esse episódio abalou bastante os colegas. Em diversas ocasiões, ao longo dos anos, Sócrates
abordou o assunto sempre com muita dor. Incomodava-o, sobretudo, as maledicências que
surgiram a partir do gesto de solidariedade de Leandro. Na época, fofocas sugeriam que havia
um relacionamento amoroso entre o lateral e o atacante, o que todos na seleção sabiam ser
mentira. “Eu me arrependo de uma coisa na minha vida: o dia em que o Renato foi cortado da
Copa de 1986, eu deveria ter dito que eu também não iria sem ele. Poderia ter feito exatamente o
que o Leandro fez”, repetiu várias vezes o Doutor em mesas de bar para os amigos.
Dessa forma, além de a seleção perder o lateral-direito titular, restou apenas Casagrande
daquela linha de frente que se destacara nas eliminatórias. O centroavante não só já estava
entrosado com Renato Gaúcho e Éder, como também tinha afinidade com a dupla. Ele ficou
inconformado com a atitude de Telê, e a relação com o comandante se tornou horrorosa. “Acho
que o Telê só não me cortou porque não tinha um motivo forte, e também porque eu estava numa
fase excelente. Um pouco antes do embarque para o México, numa enquete com jornalistas que
cobriam a seleção para escalar o time ideal, só houve três unanimidades: eu, o Zico e o Leandro”,
lembra Casão.
As discussões com Telê se tornaram quase diárias. Para piorar, Casagrande atingira o ápice da
forma antes da hora, de tanto que se dedicara aos treinamentos, inclusive por conta própria,
meses antes da Copa. Assim, ao chegar ao México, já entrara em declínio técnico e físico, que se
acentuava, à medida que se aproximava a abertura da competição. “Acho que essa foi a razão
principal para eu perder a vaga no time. Se me encontrasse tão bem como estava até uns meses
antes, não teria como treinador algum me sacar.”
Telê passou a tirá-lo do time titular no meio das atividades, rotineiramente, para testar outras
opções. Até que em um coletivo realizado no centro de treinamento do América do México,
Casão se revoltou ao ser sacado para a entrada de Zico, que tratava do joelho até aquele
momento. Irritado e sentindo-se perseguido, ele deixou o campo e se recolheu em seu quarto.
Pensava seriamente em desertar e pegar o primeiro voo de volta ao Brasil. Quem contornou a
situação foi o próprio Galinho, que o procurou na concentração para acalmá-lo e lhe pedir que
tivesse paciência. “O meu problema não era com o Zico. O Telê quis ver se o joelho dele iria
aguentar, mas poderia ter tirado outro jogador, porque eu estava muito bem naquele coletivo.
Parecia que tinha a intenção de me desestabilizar emocionalmente.”
Zico se recorda com detalhes dessa saia justa e acrescenta que também teve de intervir para
que o lateral-direito Josimar não abandonasse o grupo em um episódio semelhante. “O Telê
pegava muito no pé e, quando eu percebia que havia algum conflito mais sério, procurava agir
como apaziguador. Porque o Telê não estava muito bem, inclusive passou por um problema com
a própria comissão técnica. Ele se isolou de todo mundo. Como já estávamos lá, e não havia mais
volta, a gente tentava colaborar de todas as maneiras para acalmar a situação”, revela.
Em meio a esse ambiente de tensão, o camisa 10 vivia dias difíceis, esforçando-se ao máximo
para superar as dores e conseguir jogar a Copa. “Eu me sentia chateado por estar na reserva e
percebia a falta de confiança do Telê em me botar para jogar por causa do problema no joelho. E
quando era testado, acabava entrando no lugar de alguém, né? E aí, pela minha experiência, eu
tinha sempre de procurar conversar com quem saía do time. Lógico que eu queria jogar, mas
também se não jogasse, eu entenderia perfeitamente. Porque eu nem queria estar ali, fiz tudo para
não ir, por saber que precisava operar o joelho. Era uma lesão de ligamento cruzado… Então foi
um negócio ruim e parece que eu estava adivinhando como ia ser aquele final. E hoje uma
grande marca na minha carreira é justamente aquilo”, lamenta, referindo-se à traumática
eliminação contra a França nas quartas de final.
Por seu papel de liderança e por gostar de Casagrande, Zico tomou a iniciativa de procurá-lo
no quarto. “Eu tinha grande admiração por ele, a gente mantinha um bom relacionamento. Era
um garoto alegre, com os seus desejos, aquela vontade de aproveitar a juventude, então a gente
que era mais velho compreendia isso.”
Em relação a Josimar, mesmo sem ter tido envolvimento direto na crise do lateral com o
treinador, Zico também procurou ajudar a contorná-la. “O Josimar estava com a mala pronta para
ir embora quando fui ao quarto dele e o convenci a ficar. Ele não tinha nem jogado, aí entrou e
fez dois gols. Com o Casagrande, agi de forma parecida.”
Poucos dias depois da conversa com Zico no quarto, ao ser repreendido por Telê durante um
treino, houve nova explosão do centroavante: “Pô, só reclama comigo? Não enche mais o saco,
meu!”, disparou. Telê fechou o cenho e, a partir daquele instante, só lhe dirigiu a palavra uma
única vez, antes da estreia contra a Espanha. “Olha, por ser mais conhecido, você vai sair
jogando. O seu papel é cansar o touro, para depois o Müller entrar e matar o touro.” Ele tomou a
instrução como mais uma provocação, afinal sempre fora um matador. Que papo era aquele de
cansar o touro? “O Telê estava me testando, queria saber até que ponto iria aguentar. E realmente
não foi fácil, muitas vezes tinha o ímpeto de chutar o balde.”
Enquanto isso, Sócrates se esforçava para melhorar o condicionamento físico. Ele já evoluíra
bastante desde que começara o período de preparação para o Mundial, mas tinha partido de um
estágio muito ruim. Além da falta de motivação na Fiorentina, ele andava às voltas com
problemas musculares e dores crônicas nas costas. Contratado pelo Flamengo pouco antes da
Copa, mostrava-se completamente fora de forma.
Por mais uma chance de ganhar a taça de campeão do mundo, e para corresponder à confiança
de Telê, que bancara sua convocação apesar dos questionamentos de parte da imprensa e de
dirigentes, Sócrates voltou a se desdobrar para render em alto nível. Mas não com igual empenho
demonstrado em 1982. Em primeiro lugar, porque já estava com 32 anos, enfrentava limitações
físicas significativas e a resposta do organismo demorava bem mais. Mas também porque a
decepção anterior minara um pouco a sua gana. “Já não era a mesma coisa. Ele nunca
confidenciou isso, nunca falou nada, mas a perda de 1982 mudou a maneira de ele ver as coisas.
Depois de todo aquele esforço, sem alcançar o objetivo, a minha impressão é que ele pensava
assim: ‘Ah, não vai adiantar eu me sacrificar tanto se as injustiças estão aí e vão acontecer
mesmo’. Eu não ouvi isso dele, mas o Sócrates transmitia isso”, opina Júnior, um de seus
parceiros mais próximos.
Sócrates e Casagrande continuavam, é claro, bastante ligados. Porém, instintivamente,
tomavam cuidado para não exagerar na cumplicidade. Por ser mais jovem, o centroavante não
queria ficar sob as asas do companheiro veterano e transparecer fragilidade. Além do mais, a
posição do antigo capitão não estava tão fortalecida naquele momento. Cada um precisava lutar
pelo próprio espaço. “Os dois sempre foram muito próximos, mas são pessoas muito agradáveis,
de fácil relacionamento, então, na seleção, onde havia um grupo legal, não rolava aquela coisa de
um ficar só com o outro, não. Até mesmo pela própria inteligência deles, ambos sabiam que não
seria bacana passar a impressão de que formavam uma dupla separada dos demais, né?”, analisa
Zico. “Mas a afinidade deles era clara. Isso tinha reflexos não só fora de campo, mas dentro
também. Se você vai jogar ao lado de alguém em quem tem confiança e com quem se sente
seguro, é lógico que a tendência é sempre acontecer o melhor. São coisas que a gente não tem
como explicar, quando duas pessoas se conhecem e passam a ter sintonia impressionante.”
Júnior vai na mesma linha e conta um episódio que aconteceu no ônibus da CBF, depois de
um treinamento, para exemplificar essa união. “O Gilberto Tim havia se tornado preparador
físico em 1982 graças à eficiência de seus métodos, mas as coisas tinham evoluído, e ele
continuava o mesmo quatro anos depois. O cara não ia mudar nunca, mas eram métodos que não
davam mais, a gente já não tinha 25 ou 26 anos. A gente já estava com mais de trinta, pô, então
surgiam alguns questionamentos. Aí estávamos voltando para o hotel quando o Casão fez algum
comentário nesse sentido. O Tim não gostou e o pegou pelo pescoço dentro do ônibus. O
Sócrates tomou as dores imediatamente. ‘Porra, tá maluco? Solta o Casa agora!’, ele ordenou. Aí
também saímos em defesa, e tal, mas o Magrão olhava o Casão muito mais como um irmão mais
novo. Um negócio bonito de se ver. Isso é uma coisa do espiritismo que a gente não vai
conseguir decifrar. Vem de outras vidas.”
O Brasil estreou no dia 1o de junho, contra a Espanha, no estádio Jalisco, em Guadalajara,
com os dois na equipe titular. A formação foi a seguinte: Carlos; Edson, Júlio César, Edinho e
Branco; Elzo, Alemão, Júnior e Sócrates; Casagrande e Careca. Baleados fisicamente, Zico e
Falcão ficaram no banco. Uma gafe histórica aconteceu nessa partida: em vez de executar o Hino
Nacional brasileiro, a organização do Mundial tocou o Hino à Bandeira. Sócrates não era mais o
capitão — o zagueiro Edinho ficara com a braçadeira —, mas partiu dele a ordem para que o
time não perfilasse com a música errada. O Doutor também entrara em campo com uma faixa na
cabeça em que se lia México, sigue em pie (México, ainda em pé), para homenagear o país-sede
que havia sofrido um terremoto de grande magnitude em setembro do ano anterior, com milhares
de vítimas.
Coube a Sócrates ser o protagonista da partida. Além da mensagem de apoio aos mexicanos,
ele fez o único gol do jogo aos dezesseis minutos do segundo tempo, de cabeça, após rebote de
um chute de Careca na trave. Quer dizer, único gol reconhecido pela arbitragem, que pouco antes
deixara de dar um tento legítimo para a Espanha. A finalização de Michel bateu no travessão e
ultrapassou a linha fatal, mas o bandeira holandês Jan Keizer não assinalou. O time do Brasil não
havia exibido bom futebol e só ganhou por ter sido beneficiado nesse lance.
Ao final do jogo, os espanhóis reclamaram muito, é claro, e a repercussão aumentou por causa
de uma entrevista de Sócrates. Ele disse à agência de notícias efe que o Brasil teria de terminar
em primeiro lugar do grupo para atender aos interesses econômicos da Fifa, a quem interessava a
permanência do time em Guadalajara para lotar os hotéis da cidade. O brasileiro João Havelange,
então presidente da Fifa, ficou incomodado com tal declaração, negou qualquer interferência e
acionou o vice-presidente da cbf e chefe da delegação, Nabi Abi Chedid, para conter a língua do
polêmico jogador. Sem êxito.
Sorteado para o exame antidoping, Sócrates chamou Júnior para lhe fazer companhia. Queria
um parceiro para tomar cerveja, sempre oferecida como diurético pela organização. “Isso é Copa
do Mundo, não dá pra fazer isso…”, tentou argumentar o antigo lateral, a essa altura já utilizado
como meia para a escalação do jovem Branco no lado esquerdo. Porém, diante da insistência do
colega, capitulou. Lá pelas tantas, Júnior pediu para Sócrates urinar logo para irem embora.
“Cara, já fui ao banheiro três vezes, agora vai você também”, disse ao amigo. “Não, não, temos
que esvaziar a geladeira. Deixa a Coroninha acabar, e aí a gente vai embora”, decretou Magrão.
Por sua vez, Casagrande havia sido substituído por Müller aos 21 minutos da etapa final,
como Telê já antecipara. Ele voltaria a ser titular na partida seguinte em mais uma vitória magra,
contra a Argélia, com gol de Careca. Mas foi trocado novamente por Müller, aos catorze minutos
da etapa final, atuando menos do que na estreia. Nesse jogo, Sócrates entrou em campo com uma
nova faixa na cabeça, dessa vez com a inscrição “Amor, não terror”. Apesar de a mensagem ser
genericamente de paz, ela acabou entendida como uma crítica cifrada à política beligerante do
presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, que mandara bombardear as cidades de Trípoli e
Benghazi, na Líbia. Preocupada com a possibilidade de as frases se tornarem cada vez mais
políticas, a Fifa instituiu a proibição desse tipo de iniciativa, em vigor até hoje.
Depois de duas exibições ruins, apesar de ter saído com a vitória, a seleção brasileira
conseguiu finalmente um placar mais elástico no triunfo contra a Irlanda do Norte por 3 a 0, gols
de Careca (dois) e Josimar. Sócrates atuou bem, embora tenha sido substituído no segundo tempo
por Zico, que precisava ganhar ritmo para as oitavas de final. Já Casagrande começou no banco.
Ele entrou no lugar de Müller no decorrer do jogo, mas seria essa a sua última participação no
Mundial.
Casão e Alemão ainda envolveram-se numa polêmica ao serem fotografados bebendo cerveja
e sem camisa num show de Alceu Valença no Circo Voador — trupe de artistas que surgiu nos
anos 1980 com uma casa de espetáculos no bairro carioca da Lapa e que havia montado uma
instalação em Guadalajara durante a Copa. “De manhã, o Gilberto Tim jogou todos os jornais em
cima da mesa e olhou na minha direção. Mas eu não tinha de me justificar, afinal estava de folga
e não havia voltado bêbado nem atrasado para a concentração”, diz Casagrande. A parte da
imprensa mais conservadora criticou muito os dois jogadores, mas Telê reconheceu que os
atletas estavam no direito deles e não os puniu.
Nas oitavas de final, o Brasil goleou a Polônia tranquilamente, por 4 a 0, com gols de
Sócrates, Josimar, Edinho e Careca. O time ganhou moral para enfrentar a França na fase
seguinte. Um adversário com quem tinha semelhanças: uma equipe também técnica, mas com
jogadores igualmente envelhecidos.
Nesse embate, a seleção canarinho abriu o placar com Careca aos dezesseis minutos, mas
Platini empatou no fim do primeiro tempo. Na etapa final, Telê substituiu Müller por Zico.
Mesmo fisicamente limitado, o Galinho fez a diferença assim que pisou no gramado, com um
lançamento primoroso para Branco, que invadiu a área e foi derrubado. O próprio Zico se
encarregou da cobrança, mas, ainda frio no jogo, bateu mal e facilitou a defesa do goleiro Bats.
A partida estendeu-se para a prorrogação com ambas as equipes esgotadas. O Brasil se arrastava
em campo, sobretudo Sócrates.
Quando viu Magrão chegar sem pernas na área e desperdiçar um cruzamento de Careca, com
o gol aberto, Casagrande se levantou do banco de reservas e desabafou aos gritos com Gilson
Ribeiro, então repórter da tv Bandeirantes, que se encontrava mais distante dele do que o próprio
treinador, posicionado bem à sua frente. “O Telê tá louco! Eu e o Müller tínhamos de estar em
campo! A gente ganhava esse jogo!” Evidentemente, Telê ouviu, mas se calou.
Na disputa de pênaltis, Bats pegou a cobrança de Sócrates, e Júlio César chutou na trave.
Novamente, a equipe de Telê amargava a eliminação do Mundial, mesmo tendo jogado melhor
do que o adversário. O abatimento tomou conta dos jogadores, mas nada que se comparasse à
Tragédia do Sarriá. Dessa vez, além de calejado, o time já não encantava.
Sócrates e Casagrande não disputaram a Copa de seus sonhos, mas tiveram a satisfação de
jogar juntos a competição mais importante do planeta, o que não deixava de ser reconfortante.
Porém, na volta ao Brasil, cada um seguiria um caminho bem diferente. Enquanto o Doutor
embarcou para o Rio, onde tinha o desafio de finalmente deslanchar no Flamengo, Casão se
reintegrou ao time do Corinthians, cujo ambiente nem de longe lembrava o dos tempos
românticos da Democracia Corinthiana. O atacante suportaria apenas mais quatro meses de
conflitos com a diretoria e o técnico Jorge Vieira — com quem voltaria a trabalhar depois da
grave crise de relacionamento que resultara na saída do treinador em 1984 — antes de se
transferir para o Porto. Já Magrão enfrentaria uma série de problemas na Gávea, devido a suas
limitações físicas, e ganharia destaque muito mais por seu envolvimento no cenário político e
cultural da Cidade Maravilhosa do que por sua classe dentro de campo. A sua brilhante carreira
claramente caminhava para o fim.
15
Sempre Flamengo
O utra coincidência nas trajetórias de Sócrates e Casagrande é a de que ambos tinham o sonho de
defender o Flamengo, clube mais popular do Brasil, e o realizaram já em final de carreira.
Sócrates foi contratado pelo clube rubro-negro em setembro de 1985, com enorme expectativa
em torno da dupla que formaria com Zico. Ele desembarcou no aeroporto do Galeão numa sexta-
feira 13, mas ninguém interpretou aquilo como sinal de azar. Ao contrário, os flamenguistas
vislumbravam atingir o Olimpo com os dois maiores craques do país. A legião de torcedores que
o aguardava no saguão o recepcionou com o coro “Entornar é viver/ Doutor, vou beber com
você”, numa demonstração clara de que não seria patrulhado por seu estilo de vida boêmio, ao
contrário do que ocorrera em sua passagem pela Fiorentina.
O reforço tinha tamanha importância que o próprio Zico acordou de madrugada para ficar à
sua espera no aeroporto. Sócrates apareceu no setor de desembarque exatamente às 7h35 e não
cabia em si de tanta felicidade ao ver a festa preparada para a sua chegada, com direito à
batucada da bateria mirim da Estação Primeira de Mangueira. “Sou um privilegiado. Primeiro, o
Corinthians; agora, o Flamengo. Isso é tudo que um jogador pode ambicionar em sua carreira”,
foi o seu primeiro comentário.
Sobravam-lhe motivos para se sentir acolhido. Depois de viver um ano infernal na Itália, às
turras com dirigentes conservadores, boicotado por colegas de equipe, obrigado a se adaptar a
uma visão de futebol que não lhe agradava e com saudades do Brasil, finalmente se reencontrava
com seu povo. A perspectiva de disputar a Copa do Mundo no ano seguinte começava a
entusiasmá-lo. Primeiro pelo retorno do técnico Telê Santana, que o convocara para a disputa das
eliminatórias havia pouco mais de três meses, e agora pela perspectiva de aprimorar no dia a dia
o entrosamento com Zico, que sempre fora muito bom.
Parecia estar saindo de um pesadelo. Quando não suportava mais jogar na Fiorentina, chegara
a flertar com o Corinthians, mas embarcara numa canoa furada do empresário Juan Figer. O
agente uruguaio engendrara uma intrincada operação que envolvia um grupo norte-americano
dono de cassinos em Las Vegas. Os investidores comprariam o passe, mas, por questões
tributárias, usariam um obscuro time de Curaçao para repassá-lo ao clube do Parque São Jorge.
Um esquema mirabolante que não se concretizou.
Logo em seguida, havia posto seus pezinhos 41 numa barca ainda mais à deriva, ao confiar
num projeto proposto pelo locutor e empresário Luciano do Valle, que pretendia levá-lo para a
Ponte Preta. A ideia, de saída, soava absurda: como o modesto time de Campinas poderia bancar
um dos craques mais famosos do mundo? A garantia seria a participação do consórcio Luqui-
Bandeirantes, do qual Luciano era sócio, que controlava a programação esportiva da tv
Bandeirantes. O principal produto era o programa Show do Esporte, que durava todo o domingo,
com uma rede de anunciantes estabelecida e o histórico positivo de ter tornado o vôlei o segundo
esporte mais popular no país. Assim como transformara o pugilista Adilson Maguila Rodrigues
num fenômeno de audiência. Até o campeão de sinuca Rui Chapéu se tornaria conhecido do
público. Diante dessas credenciais, e desesperado para se ver livre da Fiorentina, Sócrates
abraçou aquele plano.
Como o clube de Florença também não via a hora de se livrar daquele craque caro e indigesto,
mais preocupado com política e noitadas do que em jogar bola, o negócio poderia ter um
desfecho positivo. A Fiorentina não precisaria desembolsar os 800 mil dólares referentes à
temporada seguinte e também economizaria os 400 mil dólares que ainda restavam a ser quitados
naquele ano. Esse valor ficaria a cargo do consórcio brasileiro, que negociava com os dirigentes
italianos outras compensações financeiras. Ansioso para voltar ao Brasil, Sócrates confiou na
promessa de que receberia 10% dos 400 mil dólares assim que desembarcasse em São Paulo. O
restante seria pago tão logo os contratos com os patrocinadores fossem assinados. Infelizmente,
nada deu certo. Luciano do Valle e seus sócios não conseguiram os recursos, o Doutor veio em
vão ao Brasil, e a Fiorentina passou a alegar que não lhe devia mais nada, pois ele acertara um
novo vínculo com o time campineiro.
A esse respeito, Sócrates expressou em entrevistas e até deixou registrada em seus escritos a
decepção com Luciano do Valle: “A única condição que coloquei foi a de que ele me garantisse
uma determinada soma que correspondia a 10% do total do pretenso contrato de dois anos.
Assinei a rescisão confiando na palavra de que aquela quantia se encontrava em seu cofre
particular. Qual foi meu espanto quando, em meio às discussões de pequenos detalhes do
contrato, fiquei sabendo que aquele dinheiro não existia”.
Proibido até de entrar no clube de Florença para treinar, Sócrates meteu-se num desgastante
litígio para receber, pelo menos, os 400 mil dólares pelos serviços já prestados. O imbróglio só
foi solucionado quando o publicitário Rogério Steinberg, da Estrutural Propaganda, que já havia
desenvolvido o projeto que levara Zico da Udinese para o Flamengo, também conseguiu
estruturar um plano para contratar Sócrates.
Depois de passar por tudo isso, o Doutor esperava dias muito melhores na Gávea. No entanto,
outros problemas surgiram. Poucos dias depois de sua apresentação, quando se preparava para
estrear em um importante clássico, dia 22 de setembro, contra o Fluminense, Sócrates fraturou o
tornozelo esquerdo num treino. O ano terminava assim melancolicamente para ele, sem ao
menos ter tido oportunidade de atuar ao lado de Zico, que quinze dias antes da chegada do
companheiro havia levado uma entrada criminosa do lateral Márcio Nunes, numa partida contra
o Bangu. A voadora do adversário em suas pernas provocara torção dos dois joelhos e do
tornozelo esquerdo e contusão no perônio, além de escoriações deixadas pelos cravos das
chuteiras nas canelas. Numa época em que as técnicas cirúrgicas e métodos de fisioterapia ainda
eram precários, e lesões de joelho comumente encerravam a carreira de atletas, Zico teve de se
sacrificar para continuar jogando após o tratamento. Mesmo assim, nunca mais seria o mesmo.
A tão esperada estreia da dupla flamenguista só aconteceria no ano seguinte. O seu breve
momento de glória aconteceu no dia 16 de fevereiro, também num clássico contra o Fluminense,
no Maracanã. O Tricolor das Laranjeiras, então tricampeão estadual e campeão brasileiro de
1984, era o time a ser batido. Sócrates e Zico repetiram a afinação dos tempos de seleção na
goleada por 4 a 1, com três gols do Galinho, que ainda deu o passe para Bebeto fazer o dele. O
camisa 10 estava mordido com as provocações da torcida rival, que o chamava de “bichado”, e
respondeu em campo.
A grande exibição despertou a esperança da galera rubro-negra, da imprensa especializada e
dos amantes do futebol em geral. Todos apostavam que aquele seria apenas o começo de uma
dupla genial que marcaria uma era, o que não se concretizou.
“Infelizmente, a gente só jogou uma partida no Brasil, que foi exatamente esse Fla-Flu na
abertura do campeonato. Depois fomos para a seleção, eu voltei machucado do México e,
quando me recuperei, o Sócrates tinha sido operado da hérnia de disco e depois acabou tendo um
problema e saiu do Flamengo”, lamenta Zico.
Além do clássico, os dois só atuaram juntos com a camisa do Flamengo em dois amistosos no
exterior: na estreia do Doutor, dia 27 de janeiro de 1986, com vitória sobre o West Riffa por 3 a
1, no Bahrein; e no triunfo por 2 a 0 sobre a seleção do Iraque, em Bagdá, dia 5 de fevereiro.
Entre esses dois jogos, ainda houve um amistoso com a Fiorentina, que fazia parte das
negociações para contratá-lo. O clube italiano venceu por 3 a 2, em Florença, mas Zico não
atuou.
Sob o comando do técnico Sebastião Lazaroni, preparador físico alçado ao cargo de treinador,
o Flamengo seria campeão carioca de 1986, título que está no currículo de Sócrates por ele ter
disputado aquele Fla-Flu. Logo em seguida, ele e Zico foram para a Copa do Mundo e, na volta,
Magrão precisou passar pela cirurgia de hérnia de disco.
O Doutor permaneceu quatro meses fora do time, em recuperação do problema na coluna.
Durante esse período longe dos campos, aproveitou para ingressar de vez na vida carioca, com
envolvimento em ações políticas e culturais. Encantou-se com as propostas do antropólogo e
escritor Darcy Ribeiro, vice-governador do Rio no primeiro mandato de Leonel Brizola,
responsável pela implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (Cieps) — projeto
revolucionário no país que trouxe o conceito de educação integral, com alimentação, atividades
artísticas e recreação para as crianças dentro das escolas. Sócrates apoiou a candidatura de Darcy
para a sucessão de Brizola, mas o representante do pdt acabou derrotado por Moreira Franco, do
pmdb. O craque ainda fez campanha para Afonsinho — primeiro jogador a conseguir passe livre
no Brasil, médico e ativista político de esquerda, tido como ídolo também por Casagrande —
para deputado federal constituinte. Mas o amigo também não conseguiu se eleger pelo psb.
Quando morou no Rio, Sócrates ficou ainda mais próximo de Fagner. Ele ia quase
diariamente ao apartamento do cantor para conversar, beber cerveja e ouvir música. Também
participava de peladas na casa de Chico Buarque, fanático por futebol e fundador do Politheama,
time que reunia seus amigos. Magrão era fascinado por Chico como compositor e personagem.
Uma das histórias que mais gostava de contar em mesas de bar, ao longo de toda a vida, era a do
dia em que Chico acabou com o jogo. Literalmente. Os dois foram a Belo Horizonte participar de
uma partida beneficente organizada pelo ex-centroavante Reinaldo, do Atlético-mg, juntamente
com outras personalidades do futebol e das artes. Antes do jogo, Fagner protestou por julgar que
o time adversário havia ficado muito mais forte, com o próprio Reinaldo, Cerezo, Paulo Isidoro,
Chico e companhia. No time de Sócrates e Fagner, uma porção de barrigudos e pernas de pau,
como Wagner Tiso. A discussão serviu para incendiar o cantor cearense, que entrou disposto a
ganhar a peleja. De fato, Fagner fez grandes jogadas e dois gols, mas o público torcia
apaixonadamente por Chico, que tinha dificuldade em escapar da marcação e concluir as jogadas.
Lá pela metade do segundo tempo, quando ele aproveitou uma chance e balançou a rede, os
espectadores invadiram o campo para comemorar com o ídolo, o que obrigou o jogo a terminar
antes.
Envolvido com a agitação da noite carioca, rodeado por amigos artistas como o ator Octavio
Augusto e a cantora Nana Caymmi, Sócrates mantinha um ritmo de vida que irritava Lazaroni.
Quando lia alguma nota na imprensa sobre a presença do craque em shows, peças teatrais ou
festas, o treinador se convencia cada vez mais de que Magrão não queria mais nada com o
futebol. E não perdia a chance de lhe dar cutucadas, como numa entrevista à revista Placar, feita
por Marcelo Rezende, publicada em 13 de outubro de 1986. Perguntado se teria convocado
Sócrates e Zico para a Copa, ele disparou: “Zico, sim, porque é fora de série. Sócrates, talvez
não. Eu não o considero um extraclasse. Hoje, Sócrates não seria titular do Flamengo. O dono da
posição é e será Aílton, até que o Doutor mostre futebol individual e coletivo”.
Quando Magrão estava prestes a retornar ao time, o capitão Leandro procurou o treinador
para lhe sugerir que passasse sua faixa para o companheiro. O lateral-direito e zagueiro o
considerava mais indicado para ser o líder em campo. Lazaroni cortou imediatamente a conversa.
Alegou que Sócrates era um jogador identificado com o Corinthians e, portanto, não seria justo
torná-lo capitão do Flamengo. Ao saber disso, pelo próprio Leandro, o Doutor sentiu o orgulho
ferido. Após 132 dias de recuperação, em sua primeira exibição após a cirurgia, na goleada sobre
o Goiás por 4 a 0, no Serra Dourada, pelo Campeonato Brasileiro, ele foi o dono do jogo. Com
um passe açucarado, deixou Kita na cara do gol para abrir o placar; depois iniciou a jogada do
segundo gol do centroavante (que também faria o último, após a saída do craque); e ainda
balançou a rede em uma bela cobrança de falta.
Ao deixar o campo, lembrou-se do amigo Rogério Steinberg, o publicitário que o havia
levado para o Flamengo e morrera pouco tempo antes em um acidente de carro. “Parece que foi o
Rogério quem colocou a bola dentro do gol”, disse, referindo-se à cobrança de falta. Em meio à
empolgação geral pela apresentação de gala, ele descartou prorrogar o contrato que terminaria
em setembro do ano seguinte. Disse que pensava em cumprir o compromisso e então largar o
futebol, porém nem mesmo quanto a isso foi taxativo. “Até lá, entretanto, não sei nem o que vou
falar, quanto mais o que vou fazer. Não quero nenhum jogo-homenagem. Só posso garantir que
vou parar interrompendo um treino na Gávea. Colocarei então um barril de chope no meio do
campo para todo mundo brindar minha despedida”, afirmou na ocasião.
Duas coisas incomodavam Sócrates: a dor na coluna, não sanada inteiramente mesmo após a
operação, e o comando de Lazaroni. Além das declarações do chefe nada simpáticas a seu
respeito, das quais tomava conhecimento pela imprensa, a própria mentalidade tática e o perfil do
treinador lhe desagradavam. A visão “científica” do jogo, como se tudo pudesse ser programado
numa prancheta, e a ênfase na preparação física lhe soavam ridículas. Assim como a ambição
desmedida do técnico, que aproveitou a eliminação do Brasil nas quartas de final da Copa de 86
para desmerecer o trabalho daquela comissão técnica. “Telê não poderia ser o treinador porque
seu conhecimento estacionou em 1982”, afirmara Lazaroni na mesma entrevista à Placar em que
fustigara o Doutor. Aquilo lhe soara oportunista e antiético. Não continha a ironia ao comparar a
estatura e a história de ambos no esporte.
A falta de pudor de Lazaroni em se oferecer para assumir a seleção chegava a ser
constrangedora. Perguntado sobre quem deveria comandar a equipe canarinho, respondeu assim:
“Carlos Alberto Parreira é um ótimo nome. Apesar de estar afastado do futebol brasileiro, tem
tempo de ver os jogadores e de fazer um trabalho de base. Além do mais, foi campeão brasileiro
pelo Fluminense em 1984. Eu digo, sem constrangimentos, que aceitaria ser auxiliar técnico de
Parreira, numa espécie de colegiado. Largo o Flamengo para ser seu assistente. Parreira, como
Zagallo e Minelli, tem muito o que me ensinar. E falo sem demagogia. Meu tempo de treinar a
seleção ainda chegará, se Deus quiser”.
E esse tempo chegou logo, já na Copa seguinte. Inicialmente, o escolhido pela cbf para
substituir Telê foi Carlos Alberto Silva, mas ele não resistiu nem um ano e cinco meses no cargo.
Lazaroni assumiria o comando em março de 1989 e, ironicamente, levaria o Brasil a ser
eliminado pela rival Argentina ainda nas oitavas de final do Mundial na Itália, com campanha
inferior às de Telê nas duas edições anteriores.
Antes disso, contudo, além das dores nas costas, Sócrates tinha de ter estômago para conviver
com Lazaroni no Flamengo. Depois de sua volta triunfal contra o Goiás, ele disputou mais oito
jogos em 1986 e começou bem em 1987, quando fez dois gols no triunfo sobre o Vitória por 2 a
0, válido ainda pelo confuso Campeonato Brasileiro do ano anterior. Magrão disputou mais dois
jogos como titular, mas as limitações físicas o impediam de render o máximo. Então resolveu ter
uma conversa franca com a comissão técnica. Acreditava que se fosse poupado de alguns
treinamentos e aliviado da tarefa na marcação, com mais liberdade para criar, poderia fazer a
diferença com a sua técnica. “A resposta à minha honestidade foi ser afastado do time titular”,
reclamou o Doutor em sua autobiografia. “Resisti a essa arbitrariedade por alguns jogos, sendo
que sempre que entrava em campo conseguia melhorar o desempenho da equipe. Mas para tudo
há limite, e na estreia do Carioca de 1987 decidi interpelar o treinador questionando o que ele
entendia por justiça. Como não recebi resposta, decidi naquele instante deixar o futebol”,
completou.
Antes desse último confronto com Lazaroni — nunca mais um voltou a dirigir a palavra ao
outro —, Sócrates ficou no banco em três amistosos. No primeiro deles, na vitória sobre o Avaí-
sc por 2 a 1, ele entrou no decorrer do jogo, no lugar de Adílio, e fez um gol. No seguinte, na
derrota para o Santos por 3 a 2, ele substituiu Aílton, e no terceiro, no triunfo sobre a
Cabofriense por 2 a 0, Bebeto. Na abertura do Campeonato Carioca, logo após sua discussão
com o chefe, o Flamengo ganhou do Bangu por 1 a 0, sem que ele tenha participado da partida.
No jogo posterior, a última dele pelo Flamengo, veio a gota d’água. O time perdia para o Porto
Alegre por 2 a 0, em Itaperuna, quando o treinador o colocou na vaga de Adílio a poucos
minutos do apito final. “Ainda recebi um último agrado ao ser chamado a entrar em campo para
jogar pouco mais de cinco minutos, quando a derrota do time se tornava inevitável. No dia
seguinte, ao sair do campo de treinamento na Gávea, peguei a chuteira e, com somente uma
testemunha [Leandro], a joguei na lixeira ao lado do gramado.” Uma despedida sem barril de
chope e brinde com os colegas no campo, como havia imaginado quatro meses antes.
Sócrates sumiu por alguns dias sem avisar nada, o que alimentou polêmicas com Lazaroni na
imprensa, e depois reapareceu para rescindir o contrato. Decidido a justificar o apelido de
Doutor, imediatamente iniciou a residência médica no Hospital Universitário Clementino Fraga
Filho, na Ilha do Fundão, na zona norte do Rio. Ali trabalhava arduamente a partir das sete horas
da manhã. Não aceitava qualquer privilégio, e passou a ser ainda mais respeitado pelos colegas e
mestres por causa disso. Só não abria mão de uma coisa: nas horas de folga, acompanhava os
alunos em animadas cervejadas no espaço de convivência improvisado num prédio anexo.
Em 1988, Sócrates regressou a Ribeirão Preto para fazer cursos de atualização na usp e
especialização em gastroenterologia. Também se separou da mulher, Regina, e iniciou o romance
com a tenista Silvana Campos, com quem se casaria no ano seguinte e teria um filho. Aos 34
anos, ele só lamentava a censura dos familiares e o preconceito da sociedade conservadora do
interior paulista naquela época. Por ter se separado da esposa com quem tinha quatro filhos, após
catorze anos, sentia-se discriminado por namorar Silvana, doze anos mais jovem. “Eu sou o filho
da puta, e ela é a puta”, dizia ao reclamar das maledicências na cidade. Àquela altura, a saudade
do futebol o incomodava e, estimulado pela namorada, resolveu retomar a carreira de jogador.
De quebra, poderiam se afastar das fofocas de Ribeirão.
Por pouco ele não retornou ao Corinthians, time pelo qual torcia sua musa, e como desejava o
diretor de futebol Henrique Alves. O presidente Vicente Matheus inicialmente aprovou a ideia,
mas mudou de opinião com receio de que Sócrates liderasse novamente um movimento no clube
nos moldes da Democracia Corinthiana. Numa fase ruim, em crise financeira e com jogadores
sem expressão, o Santos não pensou duas vezes e contratou logo o craque veterano, que ficou
feliz pela oportunidade de defender o clube pelo qual torcia na infância.
A estreia foi na noite de 29 de novembro de 1988, num amistoso na Vila Belmiro contra o
Cerro, do Uruguai, vencido pelo Santos por 4 a 2, com uma exibição acima das expectativas de
Sócrates. Durante os 75 minutos que permaneceu em campo, fez um gol de peixinho, deu passe
para outro e desfilou seu repertório de jogadas de classe. Muitos toques de calcanhar, tabelinhas
e uma arrancada do meio de campo inacreditável para um jogador que estava sem atuar havia um
ano e oito meses. Ele aplicou o drible da vaca no primeiro marcador, uma finta de corpo no
segundo, meteu a bola por debaixo das pernas do terceiro, invadiu a área e tocou por cobertura,
na saída do goleiro, bem próximo à trave. Ao receber o prêmio como melhor jogador em campo,
brincou:
“É um grande incentivo para quem está começando.”
De certa forma, era assim mesmo que se sentia. Não só recomeçava a carreira, como iniciava
uma intensa relação amorosa. E como sempre fazia, mergulhou de cabeça nessa paixão. Os dois
não se desgrudavam. Silvana assistia aos jogos das tribunas, com direito a beijinhos mandados
pelo craque, e até viajava com a delegação. “Não fico longe dela nem um dia”, derretia-se. Ainda
muito jovem, ela tinha surgido como um fenômeno ao se tornar a melhor tenista juvenil do
mundo em 1984. Porém, no ano seguinte, quando ocupava a 104a posição no ranking mundial
adulto, abandonou o esporte. Entusiasmada com o retorno de Sócrates aos gramados, ela também
ensaiou a retomada da carreira de tenista, mas não obteve o mesmo desempenho de anos
anteriores.
O próprio Magrão oscilava bastante pelo Santos. Com sua genialidade, era capaz de encantar
o público com jogadas de efeito e decidir uma partida. Porém, não conseguia manter a
produtividade. Ele sempre teve a consciência de que não desenvolvera o físico como costumam
fazer os atletas profissionais. Por ter estudado medicina, iniciou tardiamente os treinos diários e a
preparação de alto rendimento. Uma das histórias que ele gostava de contar exemplifica bem essa
situação. No fim de 1973, de férias na faculdade, finalmente concordara em se integrar ao elenco
profissional e se dirigira ao Botafogo-sp para seu primeiro treino com o time adulto. Chegara
animado, esperando participar de um coletivo com bola, mas, para sua decepção, o colocaram à
margem do campo para fazer exercícios com pesos. “Aguentei por pouco tempo, pois era muito
magro e jamais fizera qualquer atividade parecida. Aproveitando que estava sozinho, abandonei
aquela atividade desgastante e sumi, literalmente sumi até o ano seguinte, quando começou
minha epopeia futebolística. Quase que um simples treino derruba uma história de vida”, relatou
em suas memórias.
Na maturidade, a estrutura muscular pouco desenvolvida — aliada à vida desregrada — o
deixava em desvantagem em relação aos atletas mais fortes e novos. Mas era sempre uma
atração, e a diretoria santista se aproveitava disso para fazer excursões ao exterior e faturar
algum dinheiro para amenizar a situação de penúria do clube. Em fevereiro de 1989, a delegação
embarcou para o Chile a fim de disputar três amistosos, dois em Concepción e um em Viña del
Mar. Porém, não conseguiu atrair o público esperado e recebeu somente 16 mil dólares, em vez
dos 60 mil dólares esperados. O time teve que abandonar o hotel sem pagar a conta e deixou as
malas retidas no local.
Em agosto, o Santos colocou os pés na estrada para mais uma aventura, dessa vez na China.
Mesmo sem ter recebido o pagamento combinado pelos jogos disputados no Chile, Sócrates
encarou mais essa excursão. Embarcou junto com Silvana, obviamente, e acompanhado pelo
lateral Wladimir, seu parceiro dos tempos de Corinthians que havia sido contratado. A
curiosidade de conhecer um país comunista, com uma cultura oriental totalmente diversa, os
estimulava.
Sob o comando de Deng Xiaoping, a China começava a promover as reformas econômicas
que a transformariam na potência mundial de hoje. Mas a repressão da ditadura era duríssima.
Dois meses antes da viagem, acontecera o massacre na Praça da Paz Celestial, no qual o exército
atacou milhares de manifestantes com tanques de guerra. Não há um número de vítimas oficial.
Estima-se que tenham sido assassinadas entre mil e 7 mil pessoas. No dia seguinte à tragédia,
uma imagem entrou para a história: a de um rapaz que rompeu o cerco de soldados e, sozinho,
conseguiu parar uma coluna de tanques na praça. O tanque que vinha à frente tentou desviar, mas
o jovem acompanhou o movimento e continuou a impedir a passagem. Depois de várias
tentativas, o soldado que dirigia o tanque desligou o motor, embora tivesse autorização para
matar. O manifestante subiu no tanque e tentou conversar. Ao descer, ele foi retirado às pressas
por companheiros e levado para se misturar à multidão. Esse herói desconhecido jamais teve a
identidade revelada, e não se sabe até hoje se está vivo ou morto. Todos esses acontecimentos
aguçavam o interesse de Sócrates e Wladimir, que puderam conferir de perto o clima opressivo
do regime chinês.
Embora Sócrates fosse a estrela da companhia, e o convite para a excursão só tivesse
acontecido por causa dele, a diretoria santista continuou sem lhe pagar os 2 mil dólares
prometidos por partida. Depois de nove jogos em 24 dias, os dirigentes avisaram que a turnê
seria estendida para a América do Norte. Enquanto o Doutor exigia receber seu dinheiro para
continuar com a equipe, Silvana decidiu que voltaria de qualquer forma ao Brasil. Como não
estava disposto a ficar nem um dia distante da amada, conforme avisara desde sua contratação,
ele abandonou a delegação assim que o time chegou a Los Angeles. O casal passeou pela Disney
e, em seguida, regressou ao país. O contrato com o Santos acabou rescindido antes do término.
Magrão ainda faria uma curta temporada no Botafogo de Ribeirão Preto, com contrato de três
meses, de outubro a dezembro. A partida que marcou seu retorno ao clube de origem foi
disputada no dia 16 de novembro de 1989, contra o Uberlândia, pela segunda divisão do
Campeonato Brasileiro. Mas ele teve de deixar o campo ainda no primeiro tempo, depois de
tomar uma joelhada nas costas de um zagueiro adversário. Ele voltaria a ser substituído nas
quatro partidas seguintes. O único jogo oficial inteiro que disputou foi no empate sem gols com o
São José. Depois se despediu num amistoso em Ribeirão Preto, sem ter feito gol nessas sete
exibições.
Assim como Sócrates, Casagrande vestiu a camisa do Flamengo ao regressar ao país, mas a
passagem durou muito menos do que esperava: apenas o segundo semestre de 1993. “Tão logo
resolvi voltar para o Brasil, estava fechando com o São Paulo, o primeiro time interessado. Mas
quando a notícia saiu na imprensa, o presidente do Flamengo [Luiz Augusto Veloso] apareceu e
se propôs a fechar o negócio na hora, então eu topei a parada. Topei porque tinha um sonho
muito grande de jogar no Flamengo”, conta Casão, que assim evitou trabalhar novamente com
Telê, o responsável por sua indicação ao clube do Morumbi, a despeito das brigas do passado.
Desde menino, ele era fã de Zico e ficava maravilhado com seus dribles, precisão dos chutes,
golaços e visão de jogo. Em seu imaginário infantil, acalentava a fantasia de um dia também
fazer ferver a geral do Maracanã ao balançar a rede para o time rubro-negro. “Para mim, foi
muito mais importante ter vestido a camisa do Corinthians e do Flamengo do que a da seleção
brasileira. É uma questão de valor mesmo. Não é que eu desfaça da seleção, mas é que desde os
tempos de garoto meu sonho era defender esses dois clubes de massa”, explica.
Casagrande se integrou ao Flamengo durante a intertemporada e participou de uma excursão à
Europa e à África. A estreia ocorreu num amistoso contra o Brugge, no dia 31 de julho de 1993,
quando entrou no decorrer da partida, vencida pela equipe da Bélgica por 2 a 0. Ainda estava
entrando em forma, sob o comando de Evaristo de Macedo, outro ídolo flamenguista como
centroavante na década de 1960 e o primeiro técnico a convocá-lo para a seleção brasileira, em
1985. Gradualmente, foi se soltando, em amistosos contra Genoa (1 a 1), Milan (0 a 0), Napoli
(vitória por 1 a 0), Espérance da Tunísia (vitória por 1 a 0), Nacional de Portugal (vitória por 2 a
1), União da Madeira (derrota por 3 a 2), Sporting (derrota por 4 a 3), Zaragoza (vitória por 1 a
0), Internazionale (derrota por 2 a 1), Piacenza (0 a 0), Reggiana (derrota por 3 a 0), Atlhetic
Bilbao (2 a 2) e Sevilha (2 a 2). Quando retornou ao Brasil, Casão já estava adaptado à equipe,
tanto assim que fez seu primeiro gol pelo clube rubro-negro logo na abertura do Campeonato
Brasileiro, no empate com o Bahia por 1 a 1, na Fonte Nova, no feriado de 7 de setembro.
Na rodada seguinte houve novo empate, dessa vez com o Bragantino, em Caio Martins, e
Evaristo de Macedo saiu para a entrada de Júnior, que pouco antes vinha atuando no meio de
campo rubro-negro. O ex-companheiro de Casão na Copa de 86 chegou a disputar sete amistosos
ao lado do amigo durante aquela excursão, mas despedira-se na partida contra a Internazionale.
Agora voltava à Gávea como treinador, na terceira rodada do Brasileiro. Ele fez sua estreia como
técnico com vitória sobre o Cruzeiro por 2 a 1, no Mineirão.
O jogo seguinte marcaria o duelo do Flamengo, então campeão brasileiro, com o São Paulo,
campeão mundial. Além da importância do confronto, esperado por torcedores do país inteiro, o
centroavante entrou em campo com a motivação adicional de derrotar o badalado tricolor de
Telê. Não chegavam a ser inimigos, como ficara claro com o pedido de sua contratação pelo
treinador, antes de ele fechar com o Flamengo. Mas ele também não tinha a menor simpatia pelo
Velho Mestre e, sinceramente, sentira-se aliviado por ter ido para a Gávea em vez de arriscar
uma nova convivência com Telê no Morumbi.
Por todos ingredientes envolvidos, essa partida foi uma das mais memoráveis de Casão pelo
Flamengo. Ele abriu o placar no Maracanã aos catorze minutos do primeiro tempo: após receber
belo passe de Marcelinho Carioca dentro da área, matou a bola no peito e tocou rasteiro, no canto
esquerdo do goleiro Zetti, com categoria. Edu Lima ainda ampliaria a vantagem aos trinta
minutos da etapa inicial: 2 a 0.
O Mengão manteve o embalo sob a batuta de Júnior ao bater o rival Botafogo por 1 a 0, gol
de Rogério. Casagrande voltaria a deixar sua marca na vitória por 3 a 0 sobre o Internacional,
também no Maracanã. Depois de Marcão (contra) e Marcelinho Carioca colocarem a equipe em
vantagem no primeiro tempo, o centroavante fechou a conta aos sete minutos da etapa
complementar. A boa sequência o enchera de confiança, aumentando a expectativa para o jogo
seguinte, apenas quatro dias depois, contra o Corinthians em pleno Pacaembu.
Casagrande fez a preparação psicológica para esse reencontro com a fiel torcida. Esperava ser
vaiado e xingado pela massa alvinegra, que em outros tempos o tratava como herói e gritava seu
nome nos estádios. Isso fazia parte do jogo, tinha plena consciência, e se sentia pronto para
suportar a pressão. Quem sabe, ainda balançaria a rede outra vez. Mas o roteiro do destino o iria
surpreender completamente, mudar o rumo da história e abreviar sua passagem pela Gávea.
Assim que pisou no gramado do Pacaembu, ao invés de escutar os insultos imaginados, se
emocionou ao ouvir a Fiel torcida cantar em coro: “Doutor, eu não me engano, o Casagrande é
corinthiano!” e “Volta, Casão, seu lugar é no Timão!”. Aquilo o desmontou e influenciou a sua
atuação. Quando tocava na bola, recebia aplausos, e mal conseguia articular as jogadas. Com a
cabeça dando voltas, ainda levou a massa ao delírio quando desviou a bola para o fundo da rede
— de seu próprio gol. Após cobrança de falta do meia corinthiano Valber, Rivaldo escorou de
cabeça, e a caprichosa pelota desviou justamente em Casão, posicionado próximo à linha fatal,
antes de entrar. O centroavante curvou-se, lamentou-se e ficou até constrangido com a situação.
Quase um gol contra. Na súmula, Rivaldo consta como o autor, porque o último toque não foi
intencional, mas a torcida corinthiana comemorou como se fosse mais um presente do eterno
ídolo.
Ao sair de campo, com a cabeça girando, Casagrande correu para o vestiário e foi abordado
na porta por Juca Kfouri, que havia saído da tribuna de imprensa antes de o jogo terminar
exatamente com o propósito de pegar o artilheiro ainda dominado pela perplexidade. A imagem
de Casão desorientado, com a camisa do Flamengo na mão, ficou gravada na memória. “Porra,
Juca, o que é isso?”, comentou ele, sem entender o que acabara de acontecer. “Pô, os caras te
amam”, disse o jornalista, com um sorriso amigável. “Não pode ser, não pode… Eu tinha de
fazer gol neles, eu sou do Flamengo!”, rebateu o atacante. Desamparado naquele instante, ele
abraçou Juca e ficou assim por uns dois minutos, enquanto repetia para si mesmo: “Nunca vi
isso, nunca vi isso, nunca vi isso…”. O amigo lhe deu um beijo na testa e o liberou para tomar
banho, ainda com a estranha sensação de que aquele vestiário não lhe pertencia.
A partir daquele momento, ficou claro para todo mundo que Casagrande precisava encerrar a
carreira no Parque São Jorge. Até os dirigentes do Flamengo perceberam que não seria possível
impedir o curso natural dos acontecimentos. “Naquele dia mesmo eu resolvi voltar para o
Corinthians. Fui para o Rio de Janeiro no domingo à noite e, na segunda-feira, um diretor
corinthiano me ligou querendo me levar para lá. Acabei rescindindo o contrato com o
Flamengo”, recorda o ex-centroavante.
Claro que a mudança não foi imediata, até porque a temporada estava em andamento. Ele
disputaria mais quinze jogos pelo Flamengo, inclusive mais um contra o próprio Corinthians, no
empate por 1 a 1 no Maracanã. Também marcou mais quatro gols: nas vitórias contra Olimpia do
Paraguai (3 a 1) e Nacional do Uruguai (2 a 1), ambos pela Supercopa dos Campeões da
Libertadores, e Cruzeiro (2 a 1) e Botafogo (2 a 0), pelo Brasileiro.
A eliminação da Supercopa pelo São Paulo, nos pênaltis, após empate em 2 a 2 no tempo
regulamentar, no Morumbi, marcou sua despedida da Gávea. Já havia acertado com os dirigentes
que sairia assim que o Flamengo decidisse a sua sorte no torneio sul-americano. Rescindiu o
contrato a cinco rodadas do fim do Brasileiro e livrou-se, assim, de disputar mais dois jogos
contra o Corinthians, no quadrangular que definiria os finalistas. No total, participou de 21 jogos
oficiais e marcou sete gols, além dos catorze amistosos na intertemporada.
Em 1994, satisfez o desejo da Fiel ao voltar a vestir a camisa do Corinthians. Após estrear no
dia 19 de janeiro em um amistoso contra o Comercial de Ribeirão Preto, com vitória por 1 a 0,
no Pacaembu, permaneceu dezenove jogos oficiais afastado da equipe (dezoito pelo Paulistão e
um pela Copa do Brasil). As dores nos joelhos, que haviam passado por diversas cirurgias, o
obrigavam a fazer tratamento. Só foi reaparecer em 2 de abril, no empate por 1 a 1 com o
América de São José do Rio Preto, no Pacaembu. Três dias depois, marcaria seu primeiro gol
nessa nova passagem pelo Parque São Jorge, na vitória sobre o crb, também no Pacaembu, por 3
a 1, pela Copa do Brasil. Nesse período, conseguiu emendar uma sequência de partidas e chegou
a fazer dois gols no clássico contra o Santos, pelo Paulistão, apesar da derrota por 4 a 3. Embora
mantivesse o faro de artilheiro, o declínio físico o levava muitas vezes a ser substituído no
decorrer dos jogos ou começar na reserva.
Nesse seu retorno, participou ao todo de 33 jogos, com dez gols marcados. A despeito das
limitações físicas, sempre era saudado com carinho pela torcida. A volta valeu, sobretudo, para
que ele ultrapassasse a marca de cem gols pelo Corinthians. Encerrou a carreira com 103 gols
com a camisa do clube. A despedida aconteceu contra o São Paulo, pela Taça Conmebol. O rival
venceu o primeiro duelo por 4 a 3 no Pacaembu — Casagrande fez um dos gols. No segundo
confronto, no Morumbi, o Corinthians ganhou por 3 a 2 e levou a decisão para os pênaltis.
Embora o centroavante tenha convertido sua cobrança, o time alvinegro acabou eliminado por 5
a 4, no dia 9 de dezembro. Era o fim da linha. Depois disso, Casão teve apenas passagens
relâmpago por Lousano Paulista e São Francisco-ba, onde ficou apenas um mês, em contratos
voltados ao marketing. A carreira futebolística, de fato, encerrara-se no Parque São Jorge.
Há algumas coincidências com a aposentadoria de Sócrates, que, embora não tenha tido
oportunidade de retornar ao Parque São Jorge, jogou as suas últimas partidas pelo time que torcia
na infância (Santos) e pelo clube em que iniciou a carreira (Botafogo-sp). No caso de
Casagrande, o Corinthians reunia esses dois aspectos. Além disso, ambos se viram obrigados a
parar devido a problemas físicos.
Essa linha comum que costura suas trajetórias reforça a impressão de unidade entre os
personagens. Em face disso, muitos fãs pensavam que os dois fossem irmãos, pela proximidade
que existia e a identificação das personalidades. Até Raí, irmão de sangue de Sócrates que
despontou para o futebol logo em seguida, tinha essa sensação. Algo que ficou ainda mais claro
após a morte do Doutor, quando Casagrande passou a receber condolências.
16
Irmãos de fé
A confusão que muitas pessoas fazem até hoje com a ideia de que Sócrates e Casagrande são
irmãos não é por acaso. Além de certa semelhança física — os dois são altos, magros e têm
cabelos compridos e encaracolados —, a identidade de pensamento, a personalidade contestadora
de ambos e a frequência com que saíam juntos sugerem o parentesco. Já foram tantas as vezes
que fãs cometeram esse equívoco, ao abordá-lo na rua, que Casão até desistiu de corrigi-los. Há
algum tempo, ele os lembrava de que Raí, sim, é o mano do Doutor. “Mas tudo bem, está certo,
somos como irmãos”, emendava na sequência. Agora, em geral, somente agradece os elogios a
Magrão ou as manifestações de sentimento por sua morte prematura, e segue o jogo sem gastar
energia.
Quando jogava a seu lado, às vezes Casão se incomodava com comentários de que Sócrates o
havia adotado como irmão mais novo. Nove anos mais jovem, não queria ser visto como um
garoto seguindo os passos do ídolo. Evitava admitir qualquer influência dele em sua forma de
pensar ou agir. Não tolerava, sobretudo, a suposição de que o parceiro fosse responsável por sua
militância política e o hábito de tomar bebidas alcoólicas. De fato, Casão já tinha simpatia pela
esquerda e esperneava contra a censura imposta pelo regime militar antes de ter trocado palavra
com o Doutor. E ele nem era um contumaz bebedor de cerveja, embora sempre provocasse
polêmica ao ser visto, eventualmente, com uma garrafa na mão, como ocorrera no Circo Voador,
durante a Copa do Mundo de 1986.
Essa resistência, contudo, se abrandou com a maturidade e, hoje em dia, Casão reconhece que
Sócrates contribuiu para sua formação. Isso não quer dizer que tenha copiado a maneira de
pensar do outro. Até porque o inverso também acontecia. Ao conviver com aquele garotão
irrequieto no começo da carreira, Magrão rejuvenesceu em muitos aspectos. A postura defensiva
do centroavante em rejeitar o senso comum de que o craque veterano lhe servisse como guia,
aliás, era mais uma manifestação típica dos irmãos mais novos.
No dia a dia da dupla, muitas vezes Casagrande também teve atitudes de um caçula folgado,
que se apodera de pertences do irmão sem sequer pedir licença. Como ocorreu após o primeiro
jogo de despedida de Sócrates do Corinthians, em Juazeiro do Norte, no Ceará, contra o Vasco,
dia 3 de junho de 1984. O clima era de celebração. Uma multidão recebeu os jogadores no
desembarque e os seguiu do aeroporto até o hotel. Em ritmo de adeus, e para disputar um
amistoso ainda por cima, Magrão bebeu mais do que nunca. Tanto antes como depois do jogo. E
não foi o único, claro. Alguns atletas até visitaram um alambique na cidade e provaram pinga
artesanal. O time do Vasco manteve-se bem mais comportado, mas, mesmo assim, perdeu por 3
a 0, com gols de Biro-Biro, Gallo e Dicão. Feliz da vida com as homenagens da torcida
nordestina, o Doutor voltou para o hotel e pendurou a camisa suada do jogo em um cabide no
quarto para secar.
Ao final da partida, vários admiradores lhe haviam pedido o uniforme de presente, mas o
craque queria guardá-lo como recordação de sua última apresentação pelo Corinthians no país.
Uma semana depois, haveria mais um jogo de despedida, mas em Kingston, contra a seleção da
Jamaica. Não era a mesma coisa. Por isso, apesar da insistência de alguns fãs, que tentaram até
arrancar a camisa do Doutor no campo, ele conseguiu manter a posse da relíquia e, após deixá-la
em local seguro, desceu para o lobby para continuar a comemoração.
Enquanto Sócrates cantava e bebia animadamente no bar do hotel, Casagrande se engraçou
com uma linda tiete e subiu ao quarto para, digamos, conhecê-la melhor. Depois de transar, a
garota lhe pediu uma camisa do Corinthians para guardar de recordação daquele momento tão
significativo. O atacante estava nas nuvens, sob o efeito do orgasmo, e tinha vontade de atender a
todos os desejos daquela moça que o cativara. Só tinha um problema: ao contrário de seu
parceiro de quarto, ele não havia resistido ao assédio e dera sua camisa no estádio para um
torcedor. Disposto a não frustrar a acompanhante, ele olhou para o lado, viu a camisa número 8
ali dando sopa no cabide, ponderou por um instante, e concluiu que o melhor a fazer era dá-la à
menina.
Plenamente satisfeito, Casagrande desceu para se juntar ao restante do time na festa do hotel.
Lá pelas tantas da madrugada, quando subia com Magrão para o quarto, ainda no elevador,
resolveu abrir o jogo. Explicou que se tratava de uma situação especial e, como não encontrara
outro jeito, tomara a liberdade de presentear a jovem com a camisa do parceiro. “Porra, eu iria
guardá-la como lembrança da minha despedida, Casão…”, lamentou o Doutor. Mas
imediatamente conformou-se: “Pensando bem, foi por uma boa causa. Tá limpo!”, absolveu o
irmão postiço.
Ainda houve tempo para mais um gesto de solidariedade de Magrão para Casagrande em seu
derradeiro jogo pelo Corinthians. O técnico Jorge Vieira queria fazer uma reformulação no
elenco, andava às turras com o centroavante e pressionava a diretoria a negociá-lo. Ao saber que
o treinador cortara Casão da viagem à Jamaica, o Doutor avisou que não iria sem o companheiro,
o que equivalia a um xeque-mate, pois não teria sentido fazer um jogo de despedida de Sócrates
sem o próprio Sócrates, é claro. Além de os organizadores do amistoso exigirem a presença do
astro do time como condição para pagar a cota estabelecida em contrato. Adilson Monteiro
Alves, que já não concordava com a imposição do comandante, ganhou um argumento
irrefutável para ignorar tal exigência.
Jorge Vieira levantou-se no dia da viagem, leu os jornais e ficou sabendo que a dupla seria
mantida na delegação. Mesmo assim, para cumprir seu dever, dirigiu-se ao aeroporto de
Guarulhos. Ele ficou na sala vip, conversando com o presidente Waldemar Pires até o momento
do embarque. No último instante, ao confirmar que os dois jogadores viajariam mesmo, resolveu
roer a corda. O painel do aeroporto exibia a seguinte mensagem: “Boa viagem, Sócrates e
Casagrande”, o que o deixou mais enfurecido. “Aí o Jorge Vieira pegou a mala dele e saiu
cuspindo marimbondos”, recorda-se Casão.
Esse tipo de cumplicidade e a convergência de opiniões criavam uma relação fraternal.
Enquanto isso, em Ribeirão Preto, o irmão caçula de fato de Sócrates, o menino Raí, chamado de
Pivete pelo mano famoso, iniciava sua trajetória no futebol no Botafogo-sp. Sem desfrutar desse
contato diário com Magrão. Além do mais, a sua personalidade era bem diferente. Um sujeito
mais contido, com disciplina e dedicação maiores para alcançar os objetivos. Cuidava do físico
com esmero, sem os excessos característicos do Doutor. Havia dado uma escorregada, é verdade,
ao engravidar sua namorada quando ainda eram menores de idade. Mas isso teve o efeito de
torná-lo ainda mais responsável. Casou-se cedo demais, antes de seu salário ser o suficiente para
proporcionar conforto à família, o que elevou sua determinação em vingar como jogador de
futebol e o obrigou a abandonar a faculdade de história.
À distância, ele acompanhava o sucesso da dupla Sócrates e Casagrande com especial
interesse. “Apesar de nunca ter sido corinthiano, eu tinha uma identificação com o Casão por ele
ter despontado ainda muito molecão. Teve o privilégio de surgir na fase da Democracia
Corinthiana e da liderança do Magrão, e isso acelerou o processo de vivência política dele, de
questionamentos, algo que ele já tinha naturalmente e foi amplificado. Eu acho que os jovens em
geral se identificavam porque, além do lado roqueiro, ele desenvolveu o lado político, mas sem
perder a juventude. Porque muitos jovens que começam a discutir política viram velhos, né? Ele,
não… o Casão conseguia fazer isso com aquele estilo dele que transmitia autenticidade. Então
havia uma admiração por ele ser jovem, como eu, e estar do lado do meu irmão. Desde o
começo, eu percebia que existia uma cumplicidade entre eles, tanto dentro como fora de campo,
a ponto de nem saber o que tinha começado primeiro. O fato de o Casagrande expressar aquela
rebeldia, que tinha tudo a ver com o Sócrates, também ajudou a aproximá-los”, diz Raí, que tinha
dezesseis anos quando a dupla corinthiana estreou.
Raí assegura que jamais sentiu ciúme por Casagrande ser visto como irmão de Sócrates.
“Muito pelo contrário, eu via a alegria deles de estarem juntos, como eles se curtiam, e esse
negócio de irmãos só fazia com que eu admirasse mais o Casagrande. Gostava ainda mais dele
porque o Sócrates claramente gostava, e ele também gostava do Sócrates. Então a gente via os
cabelos enrolados, os dois grandes assim, e sentia essa identificação. A maneira como as pessoas
se abraçam fala muito, né? E eles se abraçavam realmente como irmãos, mas eu nunca senti
ciúme, ao contrário, eu admirava essa relação dos dois”, ressalta.
Naquele momento, nem era interessante para Raí colar na figura de Sócrates ou ficar à sombra
dele. Até seria melhor se desvincular ao máximo de sua imagem. Afinal, já previa que iria sofrer
demais pelas comparações com o irmão genial. No início da carreira, esse era um dos temas
principais de suas sessões de terapia. “Foi uma pressão terrível, com cobranças que tive de
superar. Acho que uma coisa que surgiu aí, e que todo atleta de alto nível precisa ter, é o instinto
de competidor. Aquilo se transformou num desafio pra mim. Eu pensava assim: eu vou conseguir
ser um grande jogador, mesmo com essa pressão, mesmo sendo comparado ao Sócrates. É
sempre difícil, né? Então virou para mim um objetivo a mais a ser alcançado na carreira.”
Embora não tenha demorado a se tornar o principal jogador do Botafogo de Ribeirão Preto, o
que o levou a ser convocado para a seleção brasileira pelo técnico Carlos Alberto Silva em 1987,
Raí custou a estourar no São Paulo, que o contratou em setembro daquele ano. A enorme
expectativa em suas costas certamente o prejudicou, e muita gente duvidava de sua capacidade
para se consolidar como craque. Enfrentou lesões musculares no Morumbi, chegou a ser vaiado
pela torcida, e a diretoria cogitou emprestá-lo. Foi campeão paulista em 1989, mas só assumiu o
papel de protagonista no título estadual de 1991, com a chegada do técnico Telê Santana, quando
se consagrou como artilheiro, com vinte gols.
A partir daí, virou ídolo tricolor e deslanchou com as conquistas do Brasileiro de 1991, o
Paulista de 1992, o bicampeonato da Libertadores em 1992-93 e o Mundial Interclubes de 1992.
Depois de também ter brilhado no Paris Saint-Germain, com as taças do Campeonato Francês de
1994, da Copa da França de 1995 e 1998, da Copa da Liga Francesa de 1995, da Supercopa da
França de 1995 e 1998, além da Recopa Europeia de 1996, retornou ao São Paulo para ganhar
mais os Paulistas de 1998 e 2000. Ainda foi campeão mundial pela seleção brasileira em 1994,
na Copa dos Estados Unidos — começou como capitão, mas entrou em declínio na competição e
perdeu a posição de titular após o terceiro jogo.
Basta passar os olhos por essa extensa lista de títulos para constatar que Raí conseguiu muito
mais taças do que seu irmão mais velho. As principais conquistas de Sócrates foram os três
Paulistas pelo Corinthians, em 1979, 1982 e 1983 — com a necessária observação de que o
campeonato estadual na época era longo e tinha grande importância, com a preferência de grande
parte da torcida porque colocava em confronto direto os rivais históricos. Ele também participou
da campanha do título carioca do Flamengo em 1986, mas, já em decadência física por causa da
hérnia de disco, praticamente não jogou. Apesar de não ter a mesma genialidade, Raí obteve
resultados de maior expressão justamente por ser mais dedicado.
Como Sócrates, Raí tem preocupações sociais e, juntamente com o ex-lateral da seleção
Leonardo, criou a Fundação Gol de Letra, com a missão de complementar a formação
educacional e cultural de crianças carentes. Mas o temperamento é completamente diverso ao de
Sócrates. Ele é centrado, discreto e planejado em cada gesto ou atitude. A tal ponto que o Doutor
costumava brincar: “Eu nasci antes, mas o mais velho é o Raí. Ele ficou conservador, aquele
período na Europa o deixou muito mais velho do que eu”, comparava.
Além de Raí, o primogênito Sócrates tem mais quatro irmãos: Sóstenes, Sófocles, Raimundo
e Raimar. Apenas um ano mais novo, Sóstenes é com quem tinha mais proximidade, com quem
brincava na infância e se divertia na adolescência. Mesmo com ele, o craque não chegou a falar
sobre o longo afastamento de Casagrande. “Eu sabia desse distanciamento, mas o Sócrates
sempre foi muito discreto nessas coisas. Era muito fechado, principalmente quando havia algum
problema.” Nas poucas vezes em que se referia ao parceiro, o comentário vinha em tom
carinhoso. “Ele falava do Casão com a boca cheia. Pelo brilho nos olhos, pela forma de falar,
dava para ver como ele se identificava com a personalidade dele, desde o início da relação. É
engraçado, porque o Casagrande era muito mais novo, mas o Magrão tinha admiração como se
ele fosse um cara mais velho, mais vivido”, conta.
Já Casagrande experimentou um cotidiano familiar bem diverso. A começar por não ter tido
irmãos homens. Ele era muito apegado à irmã mais velha, Zildinha, que ajudara a cuidar dele
desde o nascimento. Mas ela morreu em 1979, com apenas 22 anos, de infarto do miocárdio.
Estava em casa, brincando com os dois filhos, quando caiu desfalecida no sofá da sala. Aquele
acontecimento foi um choque para toda a família, mas especialmente para Casão, ainda
adolescente e extremamente ligado a ela. Ao saber da notícia, transtornado, ele correu para a casa
de seu amigo de infância Wagner de Castro, que jamais esqueceu a cena dramática. “Chovia
muito forte quando ouvi o Casa me chamar no portão. Abri a porta e o vi todo encharcado, com
água escorrendo dos cabelos e a roupa colada no corpo. A sua expressão era de horror, então
logo percebi que alguma coisa muito grave tinha acontecido”, relembra. Casagrande foi direto:
“Você vem comigo ao Hospital da Penha? Pô, meu… a minha irmã morreu”, disparou.
Os dois garotos foram ao velório e enterro de Zildinha como se aquilo fosse um pesadelo. O
fato de ela morrer tão jovem de ataque cardíaco parecia irreal. “O Casa nunca foi muito de
demonstrar seus sentimentos. Mas uma das poucas vezes que o vi chorar foi no enterro da
Zildinha”, acrescenta Wagner. A tragédia marcou demais Casagrande, que passou a encarar a
vida com mais destemor, como se a desafiasse dali para a frente. Afinal, de que adiantava ser
prudente e cuidadoso se a morte podia bater à porta sem qualquer razão ou aviso?
Restou-lhe somente a irmã Zenaide, quase cinco anos mais velha, com quem mantém uma
boa relação, mas sem contato frequente. “A morte da Zildinha foi muito difícil para o meu irmão,
os dois tinham um relacionamento forte, ele estava sempre na casa dela, que por ser sete anos
mais velha tinha um sentimento mais maternal mesmo. Depois veio a fama, um ritmo de vida
mais intenso que afastou um pouco o Waltinho do convívio familiar. Eu também me casei
jovem, e ele acabou saindo do Brasil, foi fazer a vida dele em Portugal e na Itália. Sempre
mantivemos contato, por telefone ou mensagens de texto, mas às vezes ficamos bastante tempo
sem se ver pessoalmente”, relata Zenaide.
A ligação familiar mais estreita de Casagrande era com a mãe, dona Zilda, sempre cercada de
cuidados do filho. Ele se acostumou a protegê-la desde a infância, quando saía para brincar com
os amigos e jogar bola nas redondezas da casa da família na Penha, mas voltava praticamente de
hora em hora para verificar se tudo estava bem. Preocupava-se com a possibilidade de sua mãe
ser vítima de violência doméstica, pois seu pai, Walter, às vezes ficava agressivo ao abusar do
consumo de álcool. Casão chegou a interná-lo numa clínica de recuperação na época em que
morava na Itália e, à distância, não tinha condições de manter dona Zilda segura.
Com a chegada da idade, seu Walter parou de beber, tornou-se católico praticante e passou a
frequentar uma igreja na Pompeia ao lado da esposa. Quando Casagrande encontrava-se no
fundo do poço em 2007, injetando cocaína nas veias, sem dormir por cerca de dez dias e em um
surto psicótico que o levava a ver demônios dentro do apartamento, era para a mãe que ele ligava
em busca de salvação. O telefone da casa dela tocava de madrugada, e o filho não tinha coragem
de falar nada do outro lado da linha. Mas ouvir seu “alô” e a simples respiração materna já o
fazia sentir-se de alguma forma amparado. Até que um dia pediu socorro e a chamou para tentar
tirá-lo daquele estado deprimente.
A morte de dona Zilda, no dia 18 de setembro de 2013, o desequilibrou totalmente.
Mergulhou numa crise depressiva, começou a beber bastante, a se isolar em casa e ficava dias
sem pôr os pés para fora do apartamento ou atender o telefone. A família e os amigos se
preocupavam com o risco de ele sofrer uma recaída com cocaína em grandes proporções. Algo
que provavelmente teria ocorrido se não fosse o zelo de suas psicólogas. “Fiquei bastante
preocupada com o Waltinho nessa fase, ele é muito sensível a essas perdas, mas também é uma
pessoa difícil de a gente conseguir tirar alguma coisa em relação a sentimento. Ao mesmo tempo,
é transparente, porque dá para perceber quando há algo errado”, diz Zenaide.
No dia 15 de abril de 2014, dia em que completou 51 anos, comemoramos seu aniversário no
Grazie a Dio, casa noturna na Vila Madalena, juntamente com seus três filhos, a mulher do
primogênito Victor, grávida na ocasião, e a terapeuta Daniela Gallias com seu marido. Casão já
havia bebido em casa quando chegou ao bar, e continuou tomando incontáveis doses duplas de
Campari. Em determinado momento, chorou à mesa e desabafou em meus ouvidos, totalmente
revoltado: “Isso não podia ter acontecido agora, quando estou em recuperação da dependência
química. Deus não foi justo comigo! Poderia ter me tirado qualquer pessoa, mas foi levar
justamente a minha mãe, com quem eu podia contar em toda situação. Só ela me amava
incondicionalmente, sem esperar nada em troca”, disse, encoberto pela música ao vivo, com os
olhos marejados, mas tentando disfarçar a dor para as outras pessoas na mesa não perceberem
sua crise emocional.
Logo enxugou o rosto, pediu mais uma dose e voltou a conversar animadamente com os
presentes. Não queria se fazer de vítima, nem estragar a festa ao lado dos filhos, embora
estivesse em frangalhos. Na hora de ir embora, Daniela o levou até a porta do prédio para
assegurar que não sofreria qualquer tentação no caminho. O período depressivo durou vários
meses até que ele, numa prova de maturidade, procurou auxílio da mesma clínica em Itapecerica
da Serra que o livrara do vício em cocaína. Voltou a fazer terapia intensiva, às vezes em grupo,
quando podia expor seus sentimentos aos demais pacientes e a cuidar da dor enraizada no fundo
da alma. Saía só para fazer transmissões pela tv, resolver questões práticas ou mesmo almoçar
com algum amigo, mas depois retornava à segurança da clínica. Essa precaução foi essencial
para não pôr por água abaixo todo o processo de reabilitação.
“A morte dela mexeu muito comigo. Eu ficava me cobrando, pensava que poderia ter visto
minha mãe mais vezes, dado mais carinho. Entrei num movimento psicológico de me chicotear:
eu dormia pouco, fumava muito e também exagerava na bebida. Até reconhecer que precisava
buscar ajuda, pois aquele estilo de vida era um fator de risco para um dependente químico. Foi aí
que procurei suporte terapêutico e parei de beber”, explicou Casagrande em entrevista publicada
no jornal Agora.
Livre do álcool e superada a depressão, ele sofreu um infarto no dia 29 de maio de 2015.
“Comecei a sentir dores no braço, no peito, nas costas e no pescoço. Pensei que algum nervo
estivesse pinçando, inflamado, e queria fazer shiatsu. Como o desconforto aumentava, o
Leonardo [filho dele] me levou ao hospital. Foi fundamental porque a rapidez no socorro
impediu a necrose do coração.” Submeteu-se a intervenções de cateterismo e angioplastia
(procedimentos para fazer o diagnóstico e desentupir artérias), com a colocação de dois stents
(pequenos tubos que impedem o estreitamento da artéria). “Estava sem beber álcool havia quatro
meses. Já tinha cortado até mesmo bombom com recheio de licor, creme de papaia com cassis…
Mas fumava e comia de tudo, sem preocupação com gordura, sal, açúcar. Agora, além de não
beber, parei de fumar e entrei numa dieta rigorosa. Como não morri, o infarto só me trouxe
coisas boas”, disse na época, logo após a alta.
Em relação ao pai, Casagrande está longe de ter a mesma proximidade que mantinha com a
mãe. Raramente vai visitá-lo, embora morem perto. E, quando vai, suporta permanecer lá por
pouquíssimos minutos. Fica, visivelmente, incomodado. Ele nega que haja qualquer mágoa do
passado. “Eu gosto do meu pai, que já está velhinho e doente, coitado, mas o apartamento lembra
a minha mãe. Vejo as coisas dela que ainda restam e sinto uma agonia muito forte. Preciso sair
rápido de lá.”
Com Sócrates, acontecia o oposto. Ele tinha verdadeira fascinação pelo pai, que sempre
exerceu enorme influência em sua vida. Admirava, sobretudo, a determinação que o levara a
evoluir intelectualmente e dar condições confortáveis à família, mesmo sem ter tido oportunidade
de estudar de maneira formal. Nascido em Messejana, periferia de Fortaleza, trabalhava como
vendedor de rapadura na feira. A humilde casa não tinha água encanada nem luz elétrica, mas ele
perseverava à luz de lampiões para estudar por conta própria e ler clássicos da literatura mundial
e da filosofia grega.
O nome incomum que deu a seu primogênito, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de
Oliveira, aliás, foi inspirado na leitura de um livro de Platão, A República, cujos diálogos são
narrados em primeira pessoa por Sócrates, o filósofo, nada menos do que o professor de Platão.
Não fazia muito o gosto da mãe, dona Guiomar, que inicialmente estranhava aquele nome
pomposo. Ela tentou resistir, sugerindo opções mais corriqueiras, mas acabou cedendo. O marido
estava empolgado com as suas descobertas literárias, a ponto de repetir a dose com os dois
próximos filhos: Sóstenes, inspirado na leitura dos Atos dos Apóstolos, do Novo Testamento, e
depois Sófocles, tirado evidentemente do autor da tragédia grega Édipo Rei. Os três últimos
integrantes da prole atenderam ao gosto de dona Guiomar: Raimundo (como o pai), Raimar
(mistura de Raimundo e Guiomar) e finalmente Raí.
Essa disposição de autodidata levou seu Raimundo a progredir profissionalmente. Primeiro
passou no concurso dos Correios e mudou-se para Belém, no início da década de 1940, ainda
solteiro, onde conheceu a futura esposa. Mais tarde, em 1948, foi aprovado no concurso para
fiscal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (ibge) e transferiu-se com dona Guiomar
para Igarapé-Açu, no interior do Pará. Mesmo com a promoção, o casal ainda enfrentava
dificuldades financeiras e morava em uma casa simples, de terra batida, quando os filhos
começaram a nascer, em Belém, pois não havia hospital na pequena cidade em que viviam. O
grande salto de seu Raimundo foi dado com a aprovação em outro concurso, este disputadíssimo,
com 36 vagas para cerca de 15 mil candidatos, para ser fiscal da Receita Federal.
A família, então, se mudou para Teresina, no Piauí, e um ano depois se estabeleceu em
Ribeirão Preto, onde seu Raimundo comprou um terreno num loteamento distante da região
central da cidade e construiu com as próprias mãos uma casa grande e confortável para acomodar
todos os filhos. Além de matriculá-los no tradicional Colégio Marista e colocar como questão de
honra formá-los no Ensino Superior, também fez no lar uma ampla biblioteca acessível aos
garotos. “Quando completei doze anos, a família já estava completa: Sóstenes, Sófocles,
Raimundo filho, Raimar e o pivete Raí de um ano de idade. Alguns anos antes eu havia assistido
a uma cena que muito me marcou e que de certa forma transformou minha visão de mundo: vi
meu pai queimando livros quando do golpe militar de 31 de março de 1964. Logo ele, que os
possuía como joias da Coroa”, escreveu Sócrates numa caderno de anotações que mantinha com
a mulher Kátia.
Essa disposição heroica do pai — para se aprimorar, adquirir cultura e melhorar de vida —
despertava a idolatria de Sócrates por seu Raimundo, que desde cedo começou a levá-lo ao
estádio. “Adquiri a paixão pelo futebol e me tornei santista. Acompanhava sempre que podia,
junto a meu pai, o extraordinário time do Santos de Gilmar, Zito, Mengálvio, Dorval, Coutinho,
Pelé e Pepe. Um dos episódios mais marcantes dessa época foi quando pela primeira vez pude
sentar ao lado do velho — e não em seu colo, como sempre ocorria — porque o vizinho
surpreendentemente faltara ao espetáculo”, deixou registrado o craque em suas anotações.
Graças à ferrenha dedicação de seu Raimundo para fazer com que os filhos se graduassem,
Sócrates se dispôs a levar até o fim a faculdade de medicina na usp, em Ribeirão Preto, com toda
a dificuldade de conciliar os estudos com a carreira de jogador de futebol. Também adiou o
sonho da transferência para um grande clube, somente realizada em 1978, para o Corinthians.
Porém, mesmo depois, manteve o interesse acadêmico em cursos de extensão. Tornou-se
especialista em medicina esportiva pela Escola Paulista da Universidade Federal de São Paulo,
em 1991, e fez mba em administração desportiva pela Fundação Getúlio Vargas, em 2000.
Da mesma forma, Sóstenes se formou como engenheiro de produção pela Universidade
Federal de São Carlos, com mestrado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e
fez curso de extensão para profissionais do esporte na Fundação Getúlio Vargas. Sófocles se
tornou engenheiro civil pela Universidade de Brasília. Raimundo, médico pela Santa Casa de
São Paulo, com especialização em obstetrícia pela usp de Ribeirão Preto. E Raimar é bacharel
em direito pela Universidade de Ribeirão Preto, além de produtor de espetáculos artísticos.
Apenas Raí abandonou a faculdade de história para se dedicar ao futebol, por conta de ter sido
pai tão cedo, mas ao final da carreira de jogador retomou os estudos no curso de filosofia na puc
de São Paulo.
Isso dá a dimensão do quanto seu Raimundo dirigia a vida dos filhos e de seu êxito em
transmitir aos descendentes a valorização do conhecimento. Também era muito presente em cada
decisão importante na família. Durante muito tempo controlou cada passo de Sócrates na
carreira. O momento de sair do Botafogo de Ribeirão de Preto, a assinatura de contrato com o
Corinthians, a transferência para a Fiorentina… tudo passava por seu crivo. Atuava como pai,
agente, conselheiro. Mas o fazia de uma forma tão afetiva que Sócrates não se sentia tentado a
escapar de seu raio de ação, como é comum ocorrer com os filhos em geral.
Uma das histórias que Magrão gostava sempre de contar era a marcação cerrada de seu pai
quando ele começou a jogar como profissional no Botafogo-sp. Avesso ao esforço físico desde
sempre, o jovem de dezenove anos costumava se posicionar do lado esquerdo do campo, no setor
onde não batia sol no estádio Santa Cruz, sobretudo em dias de grande calor, e com o placar
favorável, no segundo tempo. Pois seu Raimundo, como um torcedor exigente, irritava-se ao ver
a atitude preguiçosa do filho. “Oito, sai da sombra!”, gritava da arquibancada, referindo-se ao
número da camisa. Ele repetia essa cobrança o tempo todo até que surtisse efeito. Mas, esgotado
com o calor abrasador da cidade do interior, Sócrates não conseguia deixar de procurar o
conforto da sombra. E lá vinha a indignação de seu Raimundo, cada vez mais contundente:
“Oito, sai da sombra!”.
Até que um grupo de torcedores, certo dia, se revoltou com a perseguição sistemática daquele
senhor ao jovem astro do time, responsável pela maior parte das vitórias do Botinha, e foi lhe dar
uma prensa. Ameaçado pelos fãs do filho, não restou alternativa a não ser se identificar. “O
número 8 é meu filho, pô! Eu tenho esse direito”, explicou. Assim não apanhou dos torcedores e
ainda recebeu parabéns por ser um pai tão empenhado em tirar o melhor de seu filho.
Sócrates recebia as cobranças com o máximo de respeito e poucas vezes tentou driblar a
vigilância do pai. Até porque quando o fez, ainda no juvenil do Botinha, logo descobriu que seu
Raimundo não dormia no ponto. Às vésperas de prestar o vestibular para medicina, Magrão tinha
um simulado no cursinho num domingo de manhã, no mesmo horário de uma partida contra o
Comercial. O garoto não estava disposto a perder o tão esperado clássico da cidade, o Come-
Fogo. “Caí na besteira de tentar enganá-lo pela primeira e única vez na vida e me dei mal”,
escreveria anos mais tarde em seu caderno de anotações. O pai o levou até a porta do cursinho e
foi embora crente de que Sócrates faria a prova. Mas o rapaz deu meia-volta e caminhou até o
estádio Santa Cruz, onde comandou a vitória de seu time, com dois gols. A sua atuação
destacada foi amplamente comentada, claro, durante o jogo dos profissionais, à tarde, ao qual seu
Raimundo foi assistir. “Nunca mais me esquecerei do sermão que recebi.”
O irmão Sóstenes atesta o quanto seu Raimundo era apegado ao primogênito. “Os dois tinham
uma ligação muito forte, e recíproca, porque para o meu pai ele sempre foi o preferido. Era uma
relação fortíssima mesmo. Ele também considerava meu pai uma referência, para o bem e para o
mal, né? Aquela coisa de pai, o cara que pega no pé e orienta, mas sempre com muita
proximidade.”
Embora também existisse afetividade com a mãe, o nível de influência dela não era o mesmo.
Como em toda família, fora do mundo encantado do Facebook, onde tudo parece perfeito,
também havia conflitos. A viúva Kátia presenciou momentos tensos. Desde a sua entrada nesse
círculo, com a apresentação à dona Guiomar e demais parentes, na comemoração de um
aniversário de Raí, em Ribeirão Preto, ela não foi bem aceita por alguns deles. O vasto currículo
amoroso de Sócrates incomodava especialmente a mãe, que no primeiro contato com a nova
paixão do filho desandou a lhe falar sobre as incontáveis mulheres que já haviam passado pela
vida dele. Em tom cordial, com um sorriso no rosto, a matriarca deu seu recado no momento de
tirar a foto em família: “Acho melhor você não sair nessa foto porque em breve ele vai estar com
outra”, disse para Kátia. O constrangimento foi inevitável, sobretudo para o próprio Sócrates.
Kátia também viria a presenciar, já casada, o último encontro de Sócrates com a mãe, que foi
visitá-lo na casa de Alphaville, em São Paulo. Eles tomavam café na sala quando dona Guiomar
cobrou o filho de suas responsabilidades familiares. Àquela altura, havia uma cisão explícita por
causa da incompatibilidade da maior parte dos parentes e dos amigos de Magrão em Ribeirão
Preto com a nova esposa. Combalido pela doença, Magrão mais ouvia do que falava. Pelo tom
grave da conversa, Kátia entendeu que deveria deixá-los a sós por algum tempo. Depois voltou
com o convite para o almoço, numa tentativa de amenizar o clima. Mas a mãe alegou que tinha
outros compromissos e logo foi embora. Sócrates ficou praticamente calado o restante do dia e, à
noite, segundo Kátia, chorou bastante. O seu coração estava dividido.
O Doutor também enfrentou algumas crises na relação com os filhos. Na última fase da vida,
ele tentou reunir todos eles, mas sem sucesso.
17
Filhos da discórdia
C riar filho é sempre uma tarefa difícil, embora prazerosa. Confrontos são inevitáveis, pois cabe
aos pais impor limites, cobrar disciplina, transmitir valores nem sempre aceitos com facilidade,
preparar a criança para enfrentar os desafios da vida. Por sua vez, o filho tem a missão de
absorver uma enorme carga de informação, desenvolver plenamente seu potencial, fazer
questionamentos e se tornar independente, até o momento da necessária ruptura do cordão
umbilical. Impossível percorrer esse longo caminho sem conflitos, que são ainda mais
inflamados se ocorre a dissolução do casamento. Nesse caso, o filho fica no meio de um tiroteio,
às vezes é impelido a tomar partido, a se distanciar de um dos lados, e o que já era complicado
torna-se ainda mais delicado. Tanto Sócrates quanto Casagrande enfrentaram separações
conjugais e suas dolorosas consequências.
Magrão encarou mais de uma vez esse calvário. A primeira foi a mais sentida. Afinal, vivera
com Regina por catorze anos, amara aquela mulher loucamente, tinha grande admiração por sua
personalidade, e os dois desenvolveram laços estreitos desde a adolescência. Acima de tudo,
haviam tido quatro filhos. Uma ruptura sempre machuca e deixa cicatrizes. Ao mesmo tempo, foi
a separação mais amigável possível. Eles sempre mantiveram o respeito e, apesar do desgaste
emocional, costumavam se referir um ao outro com carinho. E Regina jamais tentou impedir que
ele continuasse a ver os meninos.
Mais tarde, quando se separou novamente, a situação foi mais desgastante porque Juninho,
chamado assim pela família por ter o mesmo nome do pai, tinha apenas quatro anos. Uma
situação semelhante à da última separação, quando o caçula Fidel estava com três anos. Por isso,
na fase final da vida, em que já se deparava com as consequências do alcoolismo e problemas de
saúde cada vez mais frequentes, estabeleceu como prioridade se aproximar dos filhos.
Ao longo da vida, Sócrates teve sua parcela de responsabilidade pelo distanciamento da prole.
Absorvido pela rotina imposta aos jogadores de futebol, com treinos, concentrações, jogos aos
fins de semana e viagens, naturalmente já lhe sobrava pouco tempo para se dedicar à família.
Também mantinha um estilo de vida intenso, com festas, participações em eventos e projetos
culturais diversos. Além disso, o próprio temperamento não colaborava para estreitar os laços.
Ele se jogava de cabeça nas paixões, era meloso com as mulheres, beijoqueiro, dado a arroubos
nas declarações de amor. Porém, muito mais contido com os filhos, inclusive por serem todos
homens. Acreditava que devia lhes dar autonomia e criá-los para construírem a própria história,
sobretudo a partir da adolescência. “Cresceu, vai pra vida!”, costumava falar. “Essa era a visão
dele mesmo. Achava que os garotos tinham de ter independência. Se precisassem dele, estaria
disponível, mas não era um pai de se aproximar, nem muito carinhoso também”, avalia o irmão
Sóstenes.
Juninho referenda a análise do tio: “Ele era de fato assim, mas eu também sou parecido. Então
é uma característica que eu não sei se é genética, de família, mas a gente costuma externar pouco
os sentimentos, com carinho, esse tipo de situação. Mas meu pai é uma referência para mim em
diversos fatores e princípios. Por mais que a gente não tenha tido uma convivência diária, como
talvez devesse ter tido, eu me enxergo muito nele”.
Sócrates cumpria o papel de provedor, mas até certo ponto, sem lhes dar nada de mão beijada.
Tanto assim que entrou em choque com Rodrigo quando o primogênito saiu da casa da mãe para
morar sozinho. Depois de ponderar os prós e os contras da mudança, recusou-se a ajudá-lo
financeiramente nessa empreitada. Argumentou que já supria todas as necessidades dele na casa
da mãe, mas se ele queria seguir sua trajetória por conta própria, o desafio seria justamente se
sustentar. Dali em diante, houve um distanciamento, mas Magrão julgava ter agido certo. Afinal,
Rodrigo superou todos os obstáculos, também se formou em medicina pela usp de Ribeirão Preto
e se estabeleceu em Araçatuba, no interior de São Paulo. Até pelos mais de quinhentos
quilômetros que os separavam, viam-se pouco.
O Doutor sempre falava dele com carinho, lembrava que era um meia-armador de mão cheia,
que chegou a jogar na categoria sub-13 do Nova Geração, time de meninos que era dirigido por
Zico, no Rio. Naquele tempo, entretanto, raramente o pai conseguia acordar no sábado de manhã
para vê-lo jogar, a despeito dos pedidos insistentes do Galinho. “Magrão, pô, dá uma
moralzinha”, dizia Zico, que não economizava nos elogios à técnica e visão de jogo do garoto.
Anos depois, a situação se inverteu. Magrão é quem lamentava a ausência de Rodrigo, a ponto de
referir-se a ele como “A Lenda”, por ter praticamente sumido do seu círculo.
O segundo filho, Gustavo, nascido em 1977, também tentou ser jogador na juventude, tendo
atuado na Portuguesa, mas tornou-se advogado, formado pela usp do largo São Francisco.
Depois fez curso de extensão em direito esportivo e de administração para profissionais do
esporte, o que o levou a se tornar gerente de futebol do São Paulo, time pelo qual torce por
influência de Raí. “Por termos uma idade não tão distante da do meu pai — o meu irmão
Rodrigo [o primogênito] é apenas vinte anos mais jovem —, e como meu pai teve aquela vida
dele [agitada] depois, a gente tinha uma relação quase como a de irmãos. É uma relação
parcialmente de pai e filho, hierarquicamente mais igual. Tem um pouco de lateralidade nessa
história”, explica.
Marcelo, formado em administração de empresas pela Universidade Estadual de Londrina, e
Eduardo, o Dudu, que cursou administração e gestão empresarial pela Unicoc, completam a prole
do primeiro casamento. A exemplo de seu Raimundo, Sócrates tinha grande orgulho dos títulos
acadêmicos dos descendentes. Dudu até aproveitou sua formação para ajudar o pai
profissionalmente e conseguiu se aproximar dele na maturidade.
Da mesma forma, Juninho assegura não sentir qualquer carência em relação ao pai. “Eu era
muito pequeno quando houve a separação, então me lembro muito pouco disso, não me causou
nenhum trauma, nem me influenciou negativamente. Minha mãe também foi muito tranquila
quanto a isso e sempre me estimulou a vê-lo.” À medida que cresceu, aproveitou a chance de
conhecer melhor Magrão e até lhe deu conselhos de como agir para conseguir ter mais contato
com o pequeno Fidel. “Procurei estimular a proximidade dos dois. Queria que o Fidel crescesse,
assim como eu cresci, com a figura dele muito presente. Claro que eu gostaria de ter visto mais
meu pai, de ter estado mais com ele, mas apesar de fisicamente vê-lo pouco, sempre o tive como
uma referência”, explica. No fim das contas, por decisão judicial, Sócrates assegurou o direito de
receber o caçula em um fim de semana a cada quinze dias.
A história de Casagrande, nesse quesito, é menos complicada. Possui três filhos de um único
casamento, desfeito em 2006, quando sua mulher se sentiu traída por ele ter escondido dela o uso
de drogas pesadas. Quando ele sofreu uma overdose no banheiro de casa, após injetar uma dose
de cocaína misturada com heroína na veia, tendo sido socorrido por Leonardo, o filho do meio,
Mônica resolveu se separar. Foi exatamente nessa fase que passara a se drogar diariamente e,
para driblar a vigilância da família, distanciara-se dos filhos. Os dois mais velhos acusaram
menos o golpe. Mas Symon, o caçula, em meio aos conflitos da adolescência, revoltou-se e fez
até um desabafo em rede nacional de tv no programa do Faustão.
O primogênito, Victor Hugo, nasceu durante o período em que Casagrande estava
concentrado com a seleção brasileira para a disputa da Copa de 1986. Por isso, só houve o
primeiro contato após o centroavante ter voltado do Mundial. No auge da carreira, assim como
ocorreu com Sócrates, Casão ficava ausente por causa de jogos, concentrações e viagens. Porém,
nos momentos em casa, dispensava atenção às crianças. “Nas folgas dele, costumávamos ver
vídeo ou televisão, normalmente desenho, comédia ou filme de terror. A gente ficava de pijama o
dia inteiro, petiscando no sofá”, recorda-se Victor.
Calmo e de personalidade afável, Victor foi o que menos se abalou com a separação do casal,
até porque havia acabado de sair da casa dos pais. “Para mim, tudo foi muito natural. Não me
lembro nem de eles terem brigado. Eu preferia, claro, que continuassem juntos, mas a notícia
veio de uma forma tranquila.”
Na ocasião em que Casagrande teve o surto psicótico e sofreu o acidente de carro, em
setembro de 2007, Victor estava com 21 anos. E partiu dele a decisão de internar o pai à revelia
em uma clínica especializada em dependência química. Mesmo nas situações de crise, ele
mantém a lucidez e o equilíbrio. Formado em rádio e tv pela Universidade Anhembi Morumbi, é
jornalista e trabalha como redator no programa Hoje em Dia, da tv Record. Também foi
responsável por ter dado a Casagrande o primeiro neto, Henrique, nascido em junho de 2014.
Pelo convívio com o pai, Victor herdou seus gostos musicais. Chegou a fazer parte de uma
banda de heavy metal, Lethal Eyes (Olhos Letais, em português), como vocalista e baixista, e
compunha letras em parceria com os outros integrantes. Também é fascinado por histórias em
quadrinhos e desenhos animados, outra influência paterna. Nas horas vagas, ainda gosta de
escrever roteiros e desenvolver projetos para programas de rádio e televisão. “Ele me transmitiu
esse prazer de criar. Quando era pequeno, imaginávamos juntos histórias de super-heróis, o que
acabou me direcionando para a minha profissão”, reconhece. Exibe uma tatuagem no bíceps
direito com a imagem do rosto de Casagrande, com a assinatura dele.
Foi Victor Hugo o filho que quase foi batizado de Fidel, ideia vetada pela mãe, que concordou
com a segunda opção, Victor Hugo, em homenagem ao autor de Os miseráveis e O corcunda de
Notre Dame, entre outros clássicos. Depois de Casagrande sair da internação, os dois moraram
juntos, do final de 2008 a outubro de 2011, quando Victor se casou.
O segundo filho, Leonardo, nascido em outubro de 1989, sempre teve Casagrande como seu
grande ídolo e tentou até seguir os passos do pai como jogador de futebol. Forte como um touro,
também era centroavante, com estilo parecido ao de um certo camisa 9 do Corinthians na
conquista do bicampeonato de 1982 e 83. Só que jogava nas categorias de base do Palmeiras,
onde era conhecido como Ugo, seu primeiro nome. Ele ainda passou por Juventude, Osasco,
Luverdense, Botafogo de Ribeirão Preto e Mirassol, seu último clube, no fim de 2014. Precisou
desistir da carreira por causa de uma sequência de lesões nos dois joelhos. Ele completou o
Ensino Médio e hoje trabalha com o pai, organizando seus compromissos profissionais.
A crise mesmo foi com Symon, exposta sem anestesia no Domingão do Faustão, no dia 10 de
julho de 2011. A aparição do comentarista no programa fez parte da estratégia da emissora para
reintegrá-lo às atividades na tv. Depois de ter se tornado pública a sua dependência de drogas,
que resultou em um ano de afastamento para que ele se tratasse, era necessário reintroduzi-lo nas
casas dos espectadores com cuidado para que não sofresse rejeição ou preconceito. Afinal, a rede
aberta atinge todo o tipo de público, com diversos níveis sociais, econômicos e culturais, com
diferenças inclusive regionais, dada a extensão continental do país. Portanto, nesse amplo
universo, há pessoas mais ou menos esclarecidas, liberais e conservadoras, incluindo aquelas
para quem drogas é um assunto tabu.
A melhor forma de trazer Casagrande de volta era mostrar a sua realidade com transparência.
Ele tinha sido vítima de um mal que aflige muitas famílias, com profundo sofrimento dele e de
todos que o cercam. Escapara por pouco da morte e havia se esforçado em busca da recuperação.
A experimentação da época da adolescência, com uso recreativo sobretudo de maconha e
cocaína, terminara muito mal quando a aposentadoria precoce dos campos lhe tirou uma das
principais fontes de prazer.
“A vida de jogador de futebol é muito intensa. Treina todo dia, tem muita visibilidade… o
tempo passa rápido e você não percebe. Quando vê, já está com trinta anos, tendo de parar de
jogar, sem nada armado para depois. Então, quando o cara para, a primeira impressão é de
sossego, de paz. Pô, agora vou estar na minha casa, vou fazer o que eu quiser, vou poder me
divertir com meus filhos e tudo mais. Mas aí ele começa a sentir falta de alguma coisa”, explicou
Casão. “Você tem muitos prazeres naquela vida. Veja o exemplo do Ronaldo: não existe nada,
daqui pra frente, que possa substituir a intensidade da emoção e do prazer por ter feito dois gols
numa final de Copa do Mundo contra a Alemanha. Mesmo que faça sucesso em outra profissão.
Porque o maior defeito do ser humano é tentar substituir ou preencher o vazio deixado por outra
coisa que lhe deu prazer”, acrescentou, em seu depoimento a Faustão.
A opção pelas drogas, para tentar suprir o que lhe faltava, revelou-se o maior dos enganos. “O
meu relacionamento com as drogas foi quase de curiosidade inicial na adolescência. Mas,
quando parei de jogar, encontrei erroneamente o falso prazer que a droga dá. Naquele momento,
conseguia anular o vazio que eu sentia, mas é uma coisa muito falsa, porque o vazio era deste
tamanho (mostrou com as mãos), eu usava droga e me sentia aparentemente melhor, e quando
passava o efeito, o vazio estava ainda maior.”
Na sequência, entraram no ar depoimentos dos familiares, previamente gravados. Leonardo
descreveu o episódio em que teve de socorrer o pai, trancado no banheiro, ao ouvir ele se debater
numa convulsão provocada pela overdose da mistura de cocaína com heroína. Visivelmente
constrangido, Casão se desculpou com o filho do meio. “Lamento pela situação em que coloquei
o Leonardo. Isso deve ter acarretado problemas psicológicos a ele. Eu o ajudo ainda hoje… ele
tem uma psicóloga e vai ao psiquiatra para aprender a lidar com essa situação.”
Victor apareceu na tela em seguida para explicar como tomara a decisão de interná-lo numa
clínica de reabilitação, totalmente isolado do convívio social, por orientação de um médico.
Sempre doce, o rapaz comoveu a plateia. “Tudo o que meu pai fez a ele mesmo trouxe uma
tristeza particular a cada membro da família, mas eu só cresci com essas experiências. Aprendi
com os erros dele, com os meus erros, e hoje acho que sou uma pessoa muito melhor do que era
antes. E ele é uma pessoa muito melhor, também, depois do que aconteceu.”
Os pais, seu Walter e dona Zilda, também falaram ao programa. Ela disse que viveu um
grande dilema quando teve de assinar, juntamente com Victor, a ordem para a internação
involuntária. Temia que o filho se sentisse traído e se voltasse contra ela ao sair da clínica. Mas
concluiu, convencida pelo neto, que aquela seria a melhor solução. Uma forma de amor, embora
vista de maneira negativa por Casão no primeiro momento. A fala de seu Walter ampliou aquele
caso particular para um problema que pode ocorrer com qualquer um quando menos se espera.
“A gente pensa que essas coisas nunca acontecem na vida da gente; eu não notava nada diferente
nele quando o via, é difícil perceber. Mas agora só quero lhe mandar um abraço bem apertado,
agradecer por todas as alegrias que você deu para mim e para sua mãe. Aquela fase já passou e
nunca mais vai acontecer. Fica com Deus, meu filho!”, concluiu o pai. A essa altura, a plateia e
os espectadores já estavam envolvidos com o drama familiar, mas ainda faltava o ponto alto do
programa.
Antes de exibir o depoimento de Symon no ar, Faustão preveniu Casagrande de que seria
impactante o que viria pela frente e lhe ofereceu até um copo d’água para se equilibrar. Não era
jogo de cena. Realmente Casão não havia visto antes a gravação e não tinha ideia do teor da
entrevista do caçula, que expôs seus sentimentos de forma direta, sem floreios ou preocupação de
poupar o pai publicamente. Ao contrário, colocou-o na berlinda ao lembrar da intimidade
estabelecida entre eles na infância e o gradual afastamento à medida que ele crescia. Sentiu-se
desamparado justamente na adolescência, fase crítica do desenvolvimento de qualquer jovem.
“Eu gostava quando ele ia me pegar na escola, era algo que não via os pais dos meus colegas
fazerem. Gostava porque passava mais tempo com ele. Quando comecei a crescer e cheguei mais
ou menos aos doze, treze anos, ainda tinha proximidade grande com meu pai, mas sentia que
começava a haver um declínio. Quando sentia saudade, pensava que ele estava resolvendo coisas
de trabalho, então eu não interferia, porque acreditava no que ele me falava. Era meu melhor
amigo e não tinha por que não acreditar”, disse Symon, às vezes cobrindo o rosto com a mão,
numa mistura de emoção e vergonha pela exposição.
Apesar do trauma da separação, Mônica não criou obstáculos para que Casagrande visse os
rapazes, até porque eles estavam crescidos. Mas a rotina do uso de drogas, às escondidas,
provocara o mesmo efeito, e o caçula se ressentira disso como se fosse uma rejeição. A figura do
pai herói caíra por terra. “Quando houve o acidente, fui visitá-lo no hospital, vi como estava mal
e não entendi o porquê. E aí teve a reunião com o médico… até então eu não queria participar,
porque não queria ouvir coisa ruim sobre ele, eu não acreditava no que falavam. A família inteira
já sabia e, por eu ser o mais novo e ter contato maior com ele, as pessoas resolveram me blindar
dos problemas que aconteciam. Senti raiva… A coisa que eu mais senti foi raiva. E tristeza.
Porque ele fez uma coisa que fala para a gente não fazer. E aí senti raiva dele, senti raiva de todo
mundo.”
Enquanto ouvia essas palavras cortantes, Casagrande desmoronava no palco do programa.
Com o coração apertado, não conseguiu segurar as lágrimas, que já escorriam por seu rosto
quando Symon jogou a última pá de cal. “Chegou um momento que eu não sabia o que ia fazer
da vida. Hoje, não tenho melhor amigo. Se tenho, é a minha mãe, que me ajudou muito. Esse
problema me aproximou dela, e hoje ela é a minha melhor amiga”, admitiu Symon. Ao mesmo
tempo em que castigava o pai sem clemência, também sinalizava um pedido de socorro: “Ele
pode me reconquistar do jeito que era antes. Quero que ele seja meu melhor amigo, como sempre
foi, como é dentro de mim, mas quero que ele prove pessoalmente isso pra mim”.
A temperatura atingira seu ponto máximo, e o auditório elevara junto o nível de comoção. Ao
ver Casagrande fragilizado na frente de todos, mas disposto a reconquistar o garoto, os
espectadores o aplaudiram de pé. Ele levou alguns instantes para se recompor e comentou o que
acabara de ouvir. “A princípio, vendo o depoimento dele, foi me dando uma tristeza… Fiquei
pensando: era isso mesmo! Quando o Victor e o Leonardo nasceram, eu ainda jogava e não
tínhamos muito contato. Já o Symon nasceu no meu último ano no Torino, vim para o Flamengo
e logo parei de jogar. Então estava com o Symon todo dia mesmo, eu o levava ao clube, ia buscá-
lo na escola… Era pequenininho e, quando eu chegava na porta da escola, ele abria um sorriso
tão gostoso, tão natural, tão verdadeiro, né? Com o decorrer do depoimento dele, fui tendo outra
visão. Foi muito legal eu ter visto isso. Se tenho vários objetivos na vida, agora tenho um mais
importante ainda: reconquistar a amizade do meu filho.”
A partir dali, iniciou-se esse grande desafio. Um processo lento e gradual que ainda se
encontra em curso. “A nossa relação não chega a ser como era antes, mas já nos aproximamos
bastante. Não sei se vai dar para recuperar totalmente, porque antes morávamos juntos”, pondera
Symon.
As coisas na vida real não são mágicas, instantâneas, como numa edição de um filme ou
programa de televisão. Desde que saiu do estúdio da Globo naquele dia, Casagrande passou a
colocar os encontros com os filhos como prioridade. Toda semana, reserva tempo para fazerem
algo juntos. Eles almoçam fora, vão a shows de música, ao cinema, em atividades que se
tornaram obrigatórias na agenda do comentarista, mas lhe proporcionam grande prazer. Também
trocam ideias por WhatsApp e compartilham postagens pelo Facebook.
Uma das conquistas que lhe deram mais satisfação foi ter passado a noite de Natal, em 2015,
ao lado de Leonardo e Symon, depois de vários anos em que ficara sozinho em seu apartamento.
Eles ceiaram com a então namorada de Casagrande, Vera, e as duas filhas dela numa tradicional
cantina italiana em São Paulo. Só faltou Victor, mas por um bom motivo. Ele e a esposa tinham
de cuidar do pequeno Henrique, na época com apenas um ano e seis meses. Um outro advento
familiar que ajudou a amolecer o coração de Casão: ele se tornou um típico vovô coruja, que
presenteou o neto com um triciclo em forma de aviãozinho. O menino adorou o brinquedo, mas
quem voava mais alto com a aeronave de plástico era o próprio avô.
Sócrates não teve a mesma sorte. Na reta final da vida, ele tentou trazer para mais perto de si
os seis filhos, mas não houve tempo para remendar totalmente o passado. Numa ocasião, chegou
a reunir na chácara de Ribeirão Preto os filhos Dudu e Juninho, além de Fidel, mas este numa
rápida passagem por volta de meia-noite, levado pela mãe, pois tinha apenas quatro anos de
idade. A viúva do craque narra esse episódio no livro que escreveu, com Regina Echeverria,
Sócrates Brasileiro: Minha vida ao lado do maior torcedor do Brasil. Segundo esse relato, o
clima ficou tenso porque Adriana teria chegado bastante alterada ao local e, após discussão com
Sócrates, logo levou Fidel embora. Segundo Kátia, Magrão se recolheu no quarto, onde terminou
a noite chorando.
Adriana, no entanto, contesta essa versão. Ela reclama de ter sido colocada como uma espécie
de vilã pela mulher que a substituiu na linha sucessória de casamentos do Doutor. Alega que
nunca tentou afastar Fidel de Sócrates e que o ex-marido só entrou na Justiça pedindo a guarda
da criança em retaliação pelo fato de ela ter ingressado com processo de separação judicial.
“Quando fui chamada pela assistente social, até comecei a chorar. Ela falou que ele havia
alegado que eu era alcoólatra… mas aí só dando risada mesmo. Sempre cuidei bem dos meus
filhos. Os dois mais velhos, do primeiro casamento, eram ótimos alunos e era eu quem os levava
à escola, e meu ex-marido poderia servir de testemunha. Então ficou estabelecido que o Sócrates
veria o Fidel a cada quinze dias. Mas, na prática, poderia vê-lo na hora que quisesse. Porque eu
sabia que ele viajava muito, então quando chegava a Ribeirão pegava o filho na escola, levava
para a casa da mãe, sem problema.”
Alguns amigos, porém, sustentam que Sócrates teria tomado a iniciativa de recorrer à Justiça
porque Adriana passara a dificultar seus encontros com Fidel a partir do momento em que ele
iniciou o relacionamento com Kátia. Uma crise de curta duração, provavelmente motivada por
ciúme.
Para enfatizar que sempre procurou propiciar a união familiar de Sócrates, Adriana conta que
os filhos dos outros casamentos frequentavam sua casa na época em que vivia com o Doutor.
“Os meninos todos se davam muito bem com o pai e nos visitavam frequentemente. Quando
morávamos em São Paulo, inclusive, o Gustavo estava na faculdade ainda, e a gente saía direto
com ele. Até a Regina mesmo ia à minha casa com o marido, e eu frequento a casa dela até hoje,
pois as reuniões de família normalmente são feitas lá. O Gustavo é apaixonado pelo Fidel,
sempre vem buscá-lo para passar o dia lá. Quando tem festa, vai todo mundo. A gente sempre foi
muito unido.”
Adriana revela que Fidel atravessou uma fase difícil após a morte do pai, ocorrida quando o
garoto tinha apenas seis anos. O impacto se estendeu por bastante tempo. “Um ano depois, ele
teve um início de síndrome do pânico e não queria ir para a escola. Eu precisei ficar quatro meses
com ele. Falava que tinha medo de que eu morresse também. Acho que ali caiu a ficha da perda,
né? Chorava muito à noite com saudade do pai. Eu o botei na psicóloga, e hoje ele está ótimo,
graças a Deus.”
No último Dia dos Pais com Sócrates vivo, houve mais uma tentativa de reunir todos os
filhos. Novamente sem êxito. Mas Marcelo, Dudu, Juninho e Fidel estiveram presentes. Por
iniciativa de Kátia, que comprara as tintas, os três maiores fizeram desenhos para o pai, como
lembranças, numa das paredes da cozinha da chácara. O caçulinha deixou a marca de sua mão.
Rodrigo e Gustavo, infelizmente, não puderam comparecer.
“O encontro dos seis filhos não aconteceu com o meu pai vivo, mas nós nos reunimos na
semana da morte dele. A gente passou uma semana gostosa, ainda que triste, claro, mas
acabamos nos aproximando muito a partir dali. Mais do que antes. Para mim, particularmente,
que não sou filho da mesma mãe dos meus quatro irmãos mais velhos, foi muito legal”, conta
Juninho. “Foi um legado da morte dele. Se a gente pode chamar algum ponto de positivo, é esse.
Essa reunião que ele tanto desejava não deu certo em vida, mas acredito que meu pai deve se
sentir muito feliz, onde estiver agora. Os irmãos passaram a se ver sempre. Então, essa missão
ele cumpriu, mesmo que involuntariamente.”
Os conflitos familiares, porém, não cessaram completamente mesmo depois da morte. Os
parentes de Sócrates entraram em choque com Kátia no momento de fazer o inventário. A viúva
queria que a ação corresse em Barueri, onde o casal morava em Alphaville, enquanto os filhos e
irmãos preferiam Ribeirão Preto, cidade onde Magrão também tinha residência. Depois de ouvir
testemunhas e analisar provas documentais, a Justiça decidiu que o processo ficaria na Segunda
Vara de Família e Sucessões de Ribeirão Preto, para concluir a partilha dos bens: um
apartamento, duas casas, dois lotes de terreno e uma chácara em Ribeirão Preto, 99% do capital
de duas empresas, dois carros financiados com saldo a pagar e a casa de Alphaville, também por
quitar na ocasião da morte.
Ainda existe a possibilidade de surgir mais um herdeiro. Um rapaz nascido em 1980, que só
muito tempo depois recebeu a informação de que seria filho de Sócrates. Uma novidade que
precisa ser confirmada por exame de dna. Mas a história é tão interessante — houve inclusive
um único encontro entre os dois em 1989 — que merece ser contada.
18
Pai por um dia
S ócrates pode ter tido um filho, aos 26 anos de idade, fruto de uma relação isolada com uma
linda mulata chamada Raimunda. Uma paixão sem rima e sem solução. O caso ficou soterrado
pelo tempo e somente após sua morte, em 2011, o suposto descendente, então com 31 anos,
resolveu tirar a história a limpo. Nascido em 10 de outubro de 1980, ele foi rejeitado pela mãe
quando tinha cinco meses, assim que ela perdeu a esperança de que o jogador do Corinthians
assumisse o romance. O bebê chegou à mãe adotiva, Elza Verzimiase, magro, malcuidado e em
precário estado de saúde. Sem conseguir engravidar havia vários anos e ávida por uma criança,
ela o recebeu com alegria e o registrou como se fosse seu filho natural, com o nome de Fernando
Verzimiase Martinez.
Tudo começou quando Regina, tia de Elza, lhe ofereceu um bebê que nasceria cerca de quatro
meses mais tarde. Segundo lhe foi dito, a moça que engravidara não tinha condições de criá-lo e
iria dá-lo, como já fizera antes em circunstâncias parecidas. Ansiosa para formar uma família
com seu marido, Elza concordou com a ideia imediatamente. “Comprei o bercinho, as roupas
para o enxoval, e fiquei à espera da chegada da criança. Mas pouco antes da data prevista, minha
tia avisou que a mãe havia desistido, porque estava na luta para ver se conseguia que o pai fosse
morar com ela e o filho. Para mim, foi um balde de água fria, fiquei desiludida”, conta.
Porém, no dia 5 de março de 1981, Regina apareceu na casa da sobrinha, acompanhada por
dona Nina, uma amiga parteira, com o bebê em mãos. Queria saber se ainda se interessava pela
criança, apesar das más condições em que se encontrava. “Era tão feio, coitadinho, estava
esquelético. Falaram que a mãe não o havia amamentado no peito e lhe dava só mamadeira com
farinha. Isso provocou muitas complicações de saúde, o intestino ficou empedrado, e o bebê não
conseguia evacuar. Um sofrimento muito grande que o levava até a desmaiar. Um farmacêutico
vizinho ia em casa e fazia massagem na barriguinha dele, mas não tinha jeito de resolver o
problema.”
Elza levou a criança a um pediatra, e as perspectivas eram sombrias. “O médico falou para
providenciarmos logo o registro de nascimento porque achava que o bebê iria morrer, e aí não
teria como fazer o atestado de óbito. Fiquei num desespero tremendo junto com meu marido.”
Nesse momento, a tia dela se prontificou a ajudá-los a arrumar o documento. Inventaram que o
parto ocorrera na casa de Elza, e uma enfermeira amiga assinou como testemunha. “Então, o
Fernando não foi adotado, oficialmente é nosso filho biológico. Sei que talvez isso seja fora da
lei, mas agora já caducou.”
Esse foi mais um motivo pelo qual Elza sempre evitou buscar informações sobre os pais
naturais da criança. Para todos os efeitos, eram ela e o marido. Demorou anos para saber que se
tratava, supostamente, de um filho de Sócrates. Tampouco eles tinham conhecimento de que a
mãe se chamava Raimunda, uma empregada doméstica diarista que trabalhava na casa de sua tia.
Além do risco de mexer nesse vespeiro, que na época poderia lhe render processo por
falsificação de documento, ela também tinha receio de perder a guarda do menino. Embora tenha
engravidado logo em seguida da filha Amanda, nascida em 7 de outubro de 1981, amava
Fernando com a mesma intensidade e temia que escapasse por entre os dedos.
Quando sua tia lhe entregou o bebê, disse que era filho de um jardineiro e da empregada de
um advogado, assim por alto, sem fornecer detalhes — o que também pouco lhe interessava.
Porém, cerca de cinco anos mais tarde, surgiu o primeiro indício de que Fernando tinha outra
procedência. Todos os meses sua tia a visitava, acompanhada da parteira — algo que também a
intrigava, pois não mantinha relação de amizade com aquela mulher. Certo dia, ao ver o garoto
jogar futebol e mostrar intimidade com a bola, a parteira sorriu e comentou: “Tal pai, tal filho! É
igualzinho, o mesmo jeito de correr e de chutar”. Elza percebeu ali a existência de um segredo
que lhe escondiam. “Como assim? Jardineiro jogador de futebol?”, questionou. “Que jardineiro,
que nada, o pai dele é o Sócrates!”, disse a parteira, imediatamente repreendida por sua tia, que
cortou o assunto.
Como não tinha o menor interesse de cavoucar o passado, Elza deixou para lá, mas ficou com
a pulga atrás da orelha. Ela não compreendia por que a parteira fazia tanta questão de
acompanhar o crescimento de Fernando. Até que um dia a mulher apareceu em sua casa com
uma proposta absurda: “Olha, você vai preparar esse menino direitinho, bem arrumadinho,
porque eu vou levá-lo para o pai conhecê-lo lá em Santos”. A mãe subiu nas tamancas. Não
podia concordar com aquela ideia. Tinha medo de acabar sem o filho e ficou ainda mais
ressabiada ao não ser incluída na viagem. Resolveu averiguar melhor: “Tudo bem, dona Nina,
mas se for para levar meu filho, é claro que eu vou junto”. A mulher titubeou, disse que seria
melhor tratar daquela questão sozinha e, diante da negativa, foi embora contrariada.
Porém, sua tia e a parteira continuaram a visitar a casa, sem falta, uma vez por mês. E a
desconfiança de Elza só aumentava: “Fiquei com isso na cabeça: por que tanto interesse delas?”.
Ao expor sua apreensão para a irmã, Cleide, foi alertada sobre a possibilidade de que as duas
estivessem recebendo dinheiro de Sócrates, sem o seu conhecimento. Resolveram, então,
procurar o jogador para esclarecer a situação.
Àquela altura, o Doutor já havia deixado o Santos e estava jogando pelo Botafogo de Ribeirão
Preto. Em novembro de 1989, Elza e Cleide pegaram um ônibus da viação Cometa, com destino
à cidade, e procuraram o craque durante um treino da equipe. Ao chegarem ao estádio, foram
informadas de que ele estava no banho e orientadas a esperá-lo perto do vestiário. “De repente, o
Sócrates apareceu. Ele nos cumprimentou de uma forma carinhosa, com uma atenção que jamais
vou esquecer. Logo vi que era uma pessoa nota mil.”
Elza lhe explicou toda a questão e abriu o jogo sobre as suas preocupações: “Olha, Sócrates,
se o Fernando é seu filho, eu não sei. Mas vim aqui só pra avisar que se você estiver mantendo
essa criança, deve parar com isso. Porque jamais recebemos um centavo.” Desarmado pela
atitude da mãe, que não lhe pediu qualquer ajuda financeira, ele olhou com interesse as fotos do
garoto que haviam sido levadas. “Ele me disse que não podia confirmar ou negar a paternidade,
mas que eu havia acabado de ganhar um amigo para a vida inteira, e me orientou a não deixar
mais aquela mulher se aproximar do meu filho. Ainda falou para eu levar o Fernando para
Ribeirão, porque pretendia colocá-lo para jogar no Botafogo.”
Isso jamais aconteceu. Elza se separara do marido metalúrgico, voltara a morar com os pais e
enfrentava dificuldades para manter os três filhos — tinha tido mais um menino. “O pior de tudo
é que eu nunca pude levá-lo. Trabalhava em casa como cabeleireira, mas fazia de tudo um pouco.
Costurava panos de prato e até lixava carro para funilaria.” Não sobrava dinheiro para a viagem a
Ribeirão Preto.
De qualquer forma, o rápido encontro com Sócrates valeu a pena. Daquele dia em diante, a
parteira nunca mais apareceu em sua casa. Elza acredita que dona Nina realmente estivesse
extorquindo dinheiro de Magrão e, ao ser desmascarada, tirou o time de campo. “Eu adorava
minha tia, irmã do meu pai, e achava simplesmente que ela tinha me ajudado a arrumar um filho.
Mas depois descobri que as duas estavam envolvidas em coisas erradas, em venda de crianças,
inclusive isso deu cadeia para elas por um tempo. Foi uma sujeira muito grande.”
Fernando é bom de bola, centroavante matador que chuta com os dois pés, mas não teve a
chance de contar com a ajuda de Sócrates para passar por um teste no Botafogo na infância.
Mesmo assim, chegou a conhecer o craque pessoalmente e até jogou futebol com ele no quintal
— sem saber da possibilidade de ser seu pai. Uma história que o emociona até hoje. O encontro
aconteceu quando tinha entre dez e doze anos, ele não sabe bem, logo após ser diagnosticado
com espinha bífida. Trata-se de uma má-formação congênita no desenvolvimento da coluna
vertebral, que não se fecha completamente, talvez provocada por falta de ácido fólico durante a
gravidez ou ingestão de álcool nos três primeiros meses da gestação. Existem diversos tipos
dessa anormalidade, com variados níveis de comprometimento. Os casos mais graves necessitam
de tratamento cirúrgico e podem provocar paralisias. Elza se desesperou ao ouvir de um médico
que o menino corria risco de ficar paralítico caso sofresse algum trauma no local, com a
recomendação de que parasse de praticar esportes. “O Fernando adorava jogar futebol e andar de
skate. Tinha recebido medalhas e tudo… Como eu poderia proibi-lo de jogar bola?”
Ela resolveu, então, telefonar para Sócrates e pedir que o examinasse. Afinal, além de ser
médico formado pela usp, também sofria de problema na coluna, conforme Elza tinha lido nos
jornais — algo bem diferente, é verdade, mas em sua crença cega de mãe essa coincidência o
credenciava ainda mais para cuidar do garoto.
“Liguei para a casa dele, falei que já o tinha encontrado uma vez em Ribeirão, e o Sócrates se
lembrou na hora. Aí ele me disse que vinha a São Paulo regularmente para fazer um curso na
Vila Olímpia e, assim, poderia ver o menino”, conta Elza. Ela preparou uma feijoada na casa da
irmã, em Santo André, onde havia melhores condições para recebê-lo. “Na minha casa, não tinha
nem mesa. Então marcamos na casa da minha irmã, que é mais espaçosa”, explica.
No dia da visita, ela nem conseguiu dormir de ansiedade. Foi com os pais e os filhos para a
casa da irmã, mas tomada pelo medo de que o ídolo não aparecesse e frustrasse toda a família.
Esse pensamento martelava em sua cabeça quando o caçula entrou correndo na sala: “Mãe, mãe,
corre! O Sócrates taí na porta!”, anunciou. Todo mundo saiu em disparada para recepcioná-lo.
“Vi aquele cara grande, com cabelo comprido, barbado… E nunca me esqueço — porque sou
apaixonado por carros — que ele tinha um Santana preto com as rodas douradas e o estofado cor
de caramelo”, recorda Fernando.
Magrão parecia incrédulo ao ver toda a agitação e constatar que chegara ao destino. Ele havia
parado na frente da casa por acaso, apenas para pegar o papel onde anotara o endereço guardado
em sua bolsa no porta-malas. “Foi um dia maravilhoso. O Sócrates fez questão que meu pai se
sentasse na ponta da mesa, ao seu lado, e ficaram conversando sobre futebol. Ele riu muito, se
divertiu, e depois foi jogar bola com as crianças no gramado do quintal. Uma coisa de que eu não
esqueço é que, por ser muito alto, o lustre da casa batia na cabeça dele”, relembra Elza.
Embora nem imaginasse que aquele homem podia ser seu pai, o garoto guardou aquele
momento como um dos mais importantes de sua vida. Não é todo dia que uma criança tem a
oportunidade de jogar com um craque de seleção brasileira e ainda ser tratado de forma
carinhosa. “Nós brincamos, ele jogou bola comigo, me examinou e foi embora. Nunca mais
tivemos contato. Só o via às vezes em programas de televisão. Chegamos a fazer uma foto
juntos, mas sumiu, eu continuo a procurá-la até hoje.”
O Doutor constatou o problema na coluna ao examiná-lo, mas seria necessário fazer exames
de imagem para um diagnóstico mais preciso. Por isso, chamou Elza para uma conversa. “Ele
disse que estava montando uma clínica de medicina esportiva em Ribeirão e pediu para que eu
levasse o Fernando até lá. Acho que queria também fazer um vínculo, conhecer mais o menino.”
Mais uma vez, o convite ficou no ar. Provavelmente a falta de dinheiro não tenha sido o motivo
principal para novamente a viagem não ter se concretizado. No fundo, Elza se sentia ameaçada
pela possibilidade de o filho encontrar um novo lar. “Na verdade, me sinto uma tremenda
culpada. Eu tirei a chance de, talvez, o Fernando ter tido um pai. Se isso realmente acabasse
sendo comprovado…”
Somente por volta dos quinze anos Fernando descobriu que Sócrates era apontado como seu
pai e entendeu aquela estranha visita do Doutor durante a infância. Sobretudo quando ia jogar
bola, ouvia comparações. De tanto lhe falarem que lembrava bastante o craque, não só nos
movimentos do futebol, mas também nos traços do rosto e até no timbre e nas entonações de voz,
começou a unir os pontos. Cobrou explicações de sua mãe, que lhe contava os fatos a conta-
gotas.
“Toda vez que eu tocava nesse assunto, o semblante dela ficava muito triste. Era como se eu
quisesse sair da família. Mas vou amá-la eternamente. Ela me deu uma vida e sempre me tratou
com muito carinho e dedicação. Se eu chegava do treino com a chuteira molhada, ela lavava e até
colocava no forno para no dia seguinte eu poder usá-la novamente. Nunca vou ter outra mãe, ela
é a única.”
Fernando compreende a resistência de Elza em lhe revelar a sua provável origem quando era
pequeno. Sem qualquer ressentimento, relata histórias que comprovam o quanto ela se
desdobrava para realizar seus sonhos. Como no dia em que o acompanhou para fazer um teste no
Juventus, aos treze anos. “Todos os outros meninos foram levados por seus pais. Ela era a única
mãe lá. Acordou de madrugada, antes de o sol raiar, para não perdermos a hora.” Emocionada a
seu lado, a mãe coruja fala até hoje com indignação por ele não ter sido selecionado naquela
manhã: “O Fernando foi o único do time dele que fez gol, de voleio ainda por cima, e não foi
escolhido. Depois fiquei sabendo que todos os que ficaram para ser aproveitados haviam pagado
para empresários”.
Dois anos depois, Fernando marcou um teste no Corinthians, e mais uma vez Elza ficou na
torcida. Na tarde do dia anterior, quando viu o garoto saindo com o skate embaixo do braço,
chegou a preveni-lo sobre o perigo de se machucar. Pena que ele tenha dado de ombros para o
conselho materno. “Foi a clássica praga de mãe! Levei um tombo e torci o tornozelo direito. Não
faltei ao teste. Fui enfaixado com Gelol, mas fui… só que a dor impedia alguns movimentos.
Rendi no máximo 60% da minha capacidade.”
Fernando também tentou a sorte no time da Estância Santa Luzia, em Mauá, sob supervisão
do ex-zagueiro Luís Pereira, e na escolinha de futebol de Marcelinho Carioca, unidade da Penha.
“Como não estava conseguindo nada, decidi parar de tentar para cuidar da vida. Precisava
trabalhar”, resume.
Já sua mãe tentou retomar o contato com Sócrates, anos depois daquela feijoada, com o
propósito de pedir ajuda para Fernando concluir os estudos. Por coincidência, a prima de uma
amiga tinha uma chácara em Ribeirão Preto, vizinha à do Doutor e se dispôs a lhe entregar uma
carta. A moça disse que deu o envelope para o caseiro, mas Elza acredita que a correspondência
não chegou ao destinatário. “Fernando queria fazer faculdade, mas não tínhamos condições nem
de pagar o material. Então procurei auxílio por uma boa causa, mas não houve resposta.”
Com muito esforço da família, o rapaz cursou até o segundo ano de administração de
empresas na Uninove, na Vila Maria, quando trancou a matrícula para trabalhar numa
construtora. Ele já havia concluído o curso técnico de administração financeira na Etec Professor
Camargo Aranha e passou a prestar serviços à empresa nessa área. Mas mantém a meta de um
dia voltar a fazer faculdade, de preferência para estudar fisioterapia. “Sempre gostei de esportes e
tenho facilidade para aprender as modalidades. Além do futebol e do skate, também já joguei
tênis e pratico surfe até hoje. Com a fisioterapia, ficaria mais próximo desse tipo de atividade.
Além de poder cuidar da minha mãe, porque sei que ela vai precisar, e eu não tenho condições de
pagar convênio médico.”
Pouco antes da morte do Doutor, Fernando viveu pela última vez a expectativa de reencontrá-
lo. Quando soube da internação no Einstein e da necessidade de ele receber sangue, cogitou de ir
ao hospital como doador. “Eu tenho um amigo que trabalha lá e conversei com ele sobre a
possibilidade de facilitar o meu acesso. Pensei em dar uma de louco, falar para o Sócrates que
talvez fosse seu filho e que desejava lhe doar sangue como uma forma de estar junto dele
naquela hora. Mas fiquei meio assim…”
Até que a notícia de sua morte estourou na imprensa. Um choque para Fernando, que queria
até deixar a barba crescer para ficar ainda mais parecido com Sócrates. Naquele momento,
convenceu-se de que o sonho de saber quem era realmente seu pai chegara ao fim. Abatido,
procurou Elza para uma conversa que julgava ser definitiva sobre o assunto. “Bom, se era meu
pai mesmo, a gente nunca vai saber. O que eu queria saber dele foi junto para o túmulo. Então,
essa história morreu”, decretou.
A decepção dele por desconhecer sua origem, no entanto, ainda incomodava demais a mãe e a
irmã. A esperança de esclarecer a paternidade renasceu algum tempo depois quando as duas
foram até seu trabalho. “Precisamos conversar com você agora”, disse Amanda. “A gente falou
com a mulher do Sócrates, e ela quer conhecê-lo”, completou a irmã. “Pô, minhas pernas
amoleceram”, conta Fernando.
Tudo aconteceu por causa da participação de Kátia Bagnarelli no programa Superpop,
apresentado por Luciana Gimenez na Redetv!, no qual a viúva recebeu uma suposta carta do
marido, psicografada pelo médium Rogério Leite. “O Sócrates pedia, na carta, para a Kátia
reunir todos os seus filhos. Aí a Amanda pensou assim: ‘Opa, se meu irmão for filho dele
mesmo, então precisa juntá-lo também’. E resolveu procurar a Kátia”, relata Elza.
Amanda adicionou a mulher de Sócrates no Facebook e, mesmo sem conhecê-la, foi aceita em
seu círculo de amizades. Na ocasião, fragilizada pela morte do marido, a viúva buscava
acolhimento nas mensagens de solidariedade enviadas pelas redes sociais. Ao tomar
conhecimento do caso, Kátia se dispôs a encontrar Fernando para se informar melhor a respeito e
tentar esclarecer a questão. “Ela nos recebeu na casa dela e ficou impressionada com a
semelhança. Foi incrível, porque assim que um olhou para o outro, os dois se abraçaram e
choraram”, descreve Elza. Diante do entusiasmo da mãe ao falar da emoção desse encontro,
ainda ressabiado por não ter a confirmação da paternidade, Fernando tratou de baixar a
expectativa: “Calma! E se o exame der negativo, para onde vai essa história toda? Volta à estaca
zero…”.
Kátia cedeu cabelo de Sócrates, encontrado numa roupa, para a realização do exame de dna.
Porém, não foi possível concluir o procedimento porque o fio não continha o bulbo capilar (a
raiz do cabelo), de onde se extrai o dna nuclear, imprescindível para se determinar a linhagem
paterna. Houve a tentativa, então, de procurar a ajuda de Sóstenes. Mas, depois do primeiro
contato, o irmão de Sócrates não deu mais retorno. “Acho estranho, o Sócrates nunca comentou
nada sobre isso, e não é uma coisa para a qual ele não daria muita importância. Esse é o tipo de
coisa que ele comentaria”, acredita Sóstenes.
Só restou a Fernando buscar o caminho judicial para tirar a dúvida que o persegue por toda a
existência. O processo corre em segredo de Justiça no Fórum de Ribeirão Preto. Os familiares de
Sócrates vão ser notificados para a realização do exame de dna. “Eu queria que um deles
concordasse em esclarecer essa questão, sem que eu precisasse entrar com processo e tudo, para
evitar esse desgaste”, diz Fernando. Porém, mesmo que o material genético comprove a
descendência, o seu maior desejo jamais será realizado. “Gostaria de ter tido a oportunidade de
conhecer a verdade com o Sócrates ainda vivo. Conversar com ele, olho no olho, seria muito
emocionante. Nunca podia esperar que fosse falecer assim precocemente, mesmo depois da
internação.”
Muito menos o próprio Magrão, que deixou uma série de projetos inacabados. Por mais que
soubesse da gravidade de sua doença, jamais imaginara partir assim tão cedo.
19
A dor do adeus
S ócrates se enganou o quanto pôde a respeito do risco de morte que o hábito de beber
diariamente lhe impunha. Jamais admitiu o alcoolismo, como se o consumo de cerveja — ou de
vinho, na fase final da doença — fosse uma opção que ele deliberadamente escolhia,
considerando apenas como um prazer, não como um vício que o escravizara. Os amigos não se
conformavam com a teimosia dele em negar a dependência química, algo ainda mais
inexplicável pelo fato de ele ter sido médico.
Zico era uma dessas pessoas que se sentiam impotentes diante da resistência do Doutor em
reconhecer o problema e tomar providências. Mais do que colega na seleção brasileira, o Galinho
se transformou num parceiro com quem Magrão tinha intimidade e com quem manteve ligação
até o fim da vida. “Só lamento, pô, que com toda a inteligência que Deus lhe deu, ele não tenha
sabido utilizá-la no momento de cuidar da saúde dele. Porque o Sócrates foi um gênio, um cara
que criou uma forma de jogar por causa do biotipo dele, a questão do passe de calcanhar, né?
Para superar a dificuldade de virar o corpo com todo aquele tamanho, ainda mais com os pés
pequenos que prejudicavam o equilíbrio, ele conseguiu desenvolver uma maneira de dar
velocidade ao jogo. Algo que o levou a um nível diferenciado. Mas não foi capaz de fazer algo
bem mais simples: enxergar a importância de se tratar. Acabou deixando-se levar, apesar de tudo
o que os amigos mais chegados lhe falavam. Acho que no final, quando viu que o negócio era
brabo mesmo, ele até tentou reagir, mas daí já não deu mais tempo.”
Nem os irmãos encontravam abertura para ajudá-lo nesse sentido. O outro jogador da família,
Raí, adotou um estilo de vida praticamente oposto, o que fez com que chegasse à meia-idade, na
casa dos cinquenta anos, em condições físicas bem superiores. Ele sentia o desejo de “contagiá-
lo” com um pouco dessa disposição de se cuidar, mas Sócrates não costumava abrir a guarda
para ouvir conselhos. Raí conta um episódio com Joaquim Cruz, campeão olímpico dos
oitocentos metros nos Jogos de Los Angeles-1984, para ilustrar essa dificuldade. Depois de levar
uma dura do ex-atleta, que o encontrou bebendo quando já estava debilitado, Sócrates reagiu
assim: “Joaquim, eu sei do que eu vou morrer. Você não sabe…”. Joaquim Cruz ficou sem
resposta e parou por ali mesmo.
Uma única vez Raí tocou no assunto, mas bastante tempo antes de os problemas se
intensificarem, na época em que o craque são-paulino acabara de pendurar as chuteiras, no início
dos anos 2000. “Era Carnaval e eu também tinha tomado umas e outras, estava mais solto para
poder falar isso para ele. Daí eu peguei uma garrafa de água, joguei na cabeça dele e lhe pedi
para parar de beber daquele jeito. Ele me deu um puta abraço, um puta beijo, e não falou nada.
Percebi que ele gostou da preocupação, mas na prática não adiantou muito. Então eu fiz pouco,
por ser o caçula e tudo, mas a gente conversava entre os irmãos para os outros falarem.”
Raí julga que Sóstenes, por ser o irmão mais próximo, talvez tivesse mais possibilidade de
abordar o assunto incômodo. Mas nem ele tinha êxito. “A conversa que surtiu mais efeito foi a
de um grupo de amigos que haviam feito faculdade de medicina com ele e, preocupados com a
situação, decidiram bater um papo com o Magrão. Isso aconteceu uns dois ou três anos antes de
sua morte. Os colegas o alertaram de que ele precisava se tratar, maneirar, já estava com
problema de refluxo [doença que faz a comida voltar para o esôfago, ou até mesmo para a
garganta e a boca, e pode provocar sintomas como azia, queimadura de esôfago e garganta,
sangramento e tosse]. Aquilo o fez segurar por um tempo. No casamento do [filho] Gustavo, por
exemplo, ele não bebeu. Começou a tomar cerveja sem álcool”, relata Sóstenes. “Depois voltou,
parece que estava num processo de ligar o foda-se mesmo”, conclui.
Mas mesmo nessa fase em que Sócrates deu uma leve pisada no breque, Sóstenes não
convivia com o irmão 24 horas por dia. Impossível ter certeza de que ele chegou a cortar
completamente a ingestão de álcool. Porque, embora não reconhecesse sofrer síndrome de
abstinência, ele seguiu bebendo inclusive após o agravamento de seu quadro clínico, quando não
restava dúvida de que o fim seria trágico.
Desde o outono de 2010, quando Sócrates vomitou sangue de madrugada e foi internado no
Einstein pela primeira vez, o médico deu o diagnóstico de cirrose e foi taxativo quanto à
proibição de beber álcool. O fígado dele enrijecera e se tornara menos poroso, o que impedia a
passagem do sangue, que voltava em forma de vômito. Com o mau funcionamento do
organismo, surgiram varizes no esôfago, que precisavam ser cauterizadas quando sangravam. O
quadro era gravíssimo. “Ele não poderá beber sequer uma gota de álcool daqui para frente e, se
tivermos sorte, poderemos fazer um transplante de fígado em breve”, decretou o médico.
Porém, Sócrates relutava em admitir a necessidade do transplante de fígado, com a convicção
de que o órgão iria se regenerar. Na linha do autoengano, muito comum entre os dependentes
químicos, buscava soluções mágicas, como a de trocar a cerveja pelo vinho, sem levar em conta
o maior teor alcoólico. Numa visita a Juca Kfouri, o amigo lhe ofereceu cerveja sem álcool,
comprada especialmente para a ocasião, o que o deixou extremamente irritado. Ficou revoltado
quando Juca se recusou a servir bebida alcoólica e exigiu cerveja comum. Quando viajou com
Kátia a Cuba, logo depois de uma de suas internações, não se privou de vinho durante o voo de
volta ao Brasil.
O discurso com o cigarro era idêntico. Dizia ser capaz de parar de fumar quando quisesse. No
entanto, não resistiu a dar umas tragadas nem mesmo durante uma das internações no Albert
Einstein. De tanto insistir com a mulher para que comprasse cigarro, ela chamou um médico a
fim de dissuadi-lo desse propósito. O profissional explicou que não podia, é claro, ele estava
muito debilitado, além do mais é proibido por lei fumar dentro do hospital. “Eu fumo só um, aqui
no banheiro”, implorou. O médico voltou a negar o pedido, evidentemente, mas tocado pelo
desespero do paciente, montou um esquema por debaixo dos panos.
Minutos depois, uma equipe formada por enfermeiros e seguranças foi até o quarto para saciar
o desejo do craque. “Doutor, recebemos ordens para levá-lo escondido até o terraço para um
passeio”, disse um deles, para sua evidente satisfação. Imediatamente, pediu um cigarro à
mulher, que não tinha, pois nem é fumante. Ele sorriu quando o segurança lhe mostrou um
cigarro em sua mão e, feliz da vida, brincou: “Operação 008”. Como estava havia treze dias sem
sair da cama, foi conduzido ao terraço numa cadeira de rodas, com equipamentos médicos e até
um desfibrilador, para caso de emergência. Lá em cima do prédio, matou a necessidade de fumar,
mas a ação secreta não permaneceu totalmente confidencial. Da janela de um edifício ao lado,
um fã o reconheceu, assoviou para ele e o saudou: “Fala, Doutor!”, o que chamou a atenção de
outras pessoas que também passaram a acenar para o ídolo. Aliviado após fumar, Sócrates
levantou o braço para retribuir os cumprimentos e voltou mais tranquilo ao quarto.
As internações haviam se tornado tão frequentes que se estabeleceu essa cumplicidade com os
funcionários do hospital. Se não bastasse toda a história de Sócrates no futebol, que o tornara
ídolo principalmente dos corinthianos, mas também de muita gente que o admirava por ter sido
capitão da seleção brasileira de 1982 e lutado pela democracia no país, Magrão ainda era um cara
carismático. Costumava sair das regras sem provocar indignação ou reações adversas. Ele seguia
a máxima de que é proibido proibir, lançada por Caetano Veloso no Festival Internacional da
Canção de 1968, e quase sempre conquistava admiração por isso.
A questão do transplante, novamente levantada pelos médicos, também mereceu uma
transgressão do Doutor. Ele sempre se negou a dar “carteirada” para obter qualquer vantagem,
nem sequer para furar fila de espera em restaurante, quanto mais para conseguir um órgão vital
do qual depende a vida das pessoas. Por acreditar piamente que todos têm direitos iguais como
cidadãos, refutou de imediato passar na frente de outros doentes para obter um doador graças à
sua fama. Incomodado com a situação, entendeu que precisava dar uma entrevista sobre o
assunto. Porém, seria preciso driblar a vigilância do Einstein, que proibia gravações em suas
dependências.
A solução foi pedir para a mulher ligar para o repórter Renato Peters, da Globo, com quem
estabelecera bom relacionamento, a fim de realizar uma manifestação pública. “Amor, você
acabou de sair do coma, não pode andar nem descer, o que pretende fazer?”, Kátia o questionou.
Combinaram, então, que o jornalista mandaria uma câmera, por meio de um conhecido, para a
própria esposa gravar o depoimento. Porém, nervosa por estar desrespeitando o regulamento e
acuada pela possibilidade de ser flagrada por um médico ou enfermeira, ela se atrapalhou e não
conseguiu preparar o equipamento. Sócrates ordenou, então, que fosse autorizada a entrada de
Peters como um amigo pessoal. O repórter subiu e gravou escondido uma matéria que seria
exibida em rede nacional, no Jornal da Globo, naquela mesma noite. “Não tenho nada contra
transplante cardíaco, de rim, de pâncreas, de fígado ou qualquer outro. Só que é o seguinte: eu
tenho de estar na lista. Se eu não estiver na lista, eu não furo fila, não. E eu não estou em
nenhuma lista dessas”, avisou o sempre democrático Doutor.
Quando recebeu alta dessa primeira internação que havia se tornado pública, com uma
multidão de jornalistas e câmeras à sua espera na porta do Einstein, houve um dilema. O chefe da
segurança do hospital e alguns dos filhos ali presentes tentaram convencer Sócrates a sair pela
porta dos fundos, para se preservar e evitar tumulto. O funcionário argumentou que esse esquema
havia sido utilizado com êxito com a apresentadora Hebe Camargo e pretendia repeti-lo. Magrão
não concordava com o plano, queria atender os profissionais que faziam plantão havia dias na
frente do prédio e se comunicar com o público, que lhe enviava mensagens de apoio e rezava por
sua recuperação. Kátia apoiou o marido, os dois bateram o pé, e houve uma entrevista coletiva.
“Eu vou sair pela porta da frente. Desço na cadeira de rodas, mas quero sair caminhando”,
determinou. Assim teve a chance de explicar seu problema de saúde, agradecer o carinho dos fãs
e ainda defender eleições diretas para a presidência da Confederação Brasileira de Futebol (cbf).
Mesmo fragilizado, Sócrates não deixava nunca de ser Sócrates.
Mais tarde, após a sua quinta internação na uti do Albert Einstein (a terceira de conhecimento
público) num período de poucos meses, infelizmente Magrão não pôde sair andando pela porta
da frente, muito menos dar entrevista. No dia 1o de dezembro de 2011, quinta-feira, ele acordou
na casa em Alphaville com febre de 39 graus, dores no corpo e enjoo. Com dificuldade,
levantou-se para vomitar no banheiro. Kátia enviou uma mensagem à equipe médica relatando o
ocorrido e se preparou para novamente levá-lo ao hospital. Sentindo-se muito fraco, ele pediu
para não ir, preferia ficar com ela na cama, tratando-se em casa. Ela não concordou e pediu ajuda
a uma vizinha, que levou o motorista junto, para tirá-lo do quarto, descer as escadas e colocá-lo
no carro. Sócrates não conseguia parar em pé.
Primeiro ele foi levado à unidade do hospital próxima à sua casa, onde recebeu os primeiros
socorros e, em seguida, houve a transferência de ambulância até o hospital no Morumbi. Apesar
do mal-estar, Magrão ainda conseguia fazer piadas no caminho, arrancando risadas da equipe de
plantão. Ele acreditava que sairia em breve de mais aquela internação e pediu para a mulher não
avisar ninguém, nem mesmo a família. Foi realizada uma tomografia computadorizada, com o
diagnóstico de infecção intestinal. Ao sair da sala de exames, a caminho do quarto, o Doutor
recebeu uma ligação de Zico, que pretendia convidá-lo para o “Jogo das Estrelas”, pelada festiva
organizada pelo Galinho todos os finais de ano, há mais de uma década, e que pela primeira vez
seria realizada no Morumbi. Kátia deu a notícia ruim ao amigo, o primeiro a saber dessa última
internação, e declinou do convite. O futebol estava tão distante de sua realidade, naquele
momento, que Sócrates não resistiu a uma tirada de humor: “Linda, avisa o Galinho que eu não
jogo bola faz tempo…”, brincou.
Poucos dias antes, Casagrande havia feito um pacto com Juca Kfouri de eles se alternarem em
visitas todos os domingos de manhã à casa do amigo, para lhe fazer companhia naquela fase
difícil. No fim de semana anterior, Juca havia ido até Alphaville. Já Casão nem teria chance de
cumprir sua parte no trato, por causa da piora do quadro clínico.
Sem saber da nova internação, liguei na sexta-feira para Sócrates a fim de combinar a
próxima visita, na qual eu iria junto com Casagrande. Porém, foi Kátia quem atendeu, aos
prantos. Conversamos rapidamente, ela se encontrava ao lado do Doutor, que estava consciente.
Procurei acalmá-la, mas percebi a gravidade da situação. Ela ainda pediu para eu segurar a
notícia até que a família fosse avisada, para que a informação não chegasse por meio da
imprensa.
O nervosismo da mulher devia-se ao fato de a equipe médica ter proposto uma diálise
preventiva para o caso de os rins, posteriormente, apresentarem dificuldade em fazer a filtragem.
Garantiram-lhe que o equipamento era moderno e que ele não sentiria desconforto. Sócrates
ouviu quieto a proposta e, quando os profissionais saíram para buscar a máquina, orientou Kátia
a pegar seu prontuário e conferir a quantidade de urina eliminada nas últimas oito horas. Ao
tomar conhecimento desse dado, ele comentou: “Não preciso de diálise, a urina diminuiu, mas
ainda está no índice”. Pela primeira vez, o Doutor discordava de um procedimento determinado
pelos especialistas, o que deixou a esposa ainda mais confusa. Mesmo assim, a diálise foi
iniciada, e o paciente ficou mais enfraquecido, reclamava de exaustão e dificuldade para respirar.
Foi nesse instante que ela atendeu a minha ligação.
Mais tarde, Kátia me mandou uma mensagem de texto, na qual dizia que já comunicara à
família e pedia que eu publicasse no jornal, do qual era editor, um apelo para que os amigos e fãs
rezassem pelo marido. Corri para mudar a edição e deu tempo de incluir a chamada no alto da
primeira página do Diário de S. Paulo de sábado, dia 3 de dezembro: “Sócrates é internado às
pressas e mulher pede oração”. Na matéria interna, no caderno de esportes, a frase dela enviada
pelo celular: “É muito importante que as pessoas continuem orando e enviando energias
positivas neste momento. Nós acreditamos que isso ajudou bastante nas outras internações.
Também fez muito bem ao Sócrates no processo de recuperação. Ele mesmo disse que há tempos
não se sentia tão bem com o carinho das pessoas”.
Com o vazamento da notícia, a imprensa voltou a fazer plantão na porta do hospital. Do lado
de dentro, as coisas iam muito mal. Como Sócrates respirava com dificuldade, foi providenciado
um respirador mecânico não invasivo, prontamente rejeitado por Magrão, que se sentia
incomodado pela máscara colocada sobre sua boca e nariz. Ele reclamava de falta de ar, chegou a
empurrar a máscara e, durante esse processo, acabou machucando-se no nariz, o que provocou
abundante sangramento. Em face da resistência do paciente, a equipe médica decidiu sedá-lo.
Kátia teve de sair do quarto e, ao retornar, encontrou o marido novamente em coma induzido.A
essa altura, a mulher pressentia que Sócrates estava por um fio e rezava com todas as suas forças,
quando Sóstenes, Raí e Gustavo chegaram para vê-lo. O filho se ajoelhou ao lado do leito e fez
uma oração. Em seguida, todos foram embora, ficou apenas a esposa. Ainda foi providenciada a
cauterização no nariz dele para estancar o sangramento, concluída pouco depois das duas da
manhã. Kátia pegou nas mãos do marido e percebeu que estavam se arroxeando. Os pés também.
Chorou desesperada, enquanto via a marcação da pressão arterial em dois por dois e o batimento
cardíaco em trinta por minuto, às vezes elevado a 230, por conta de uma arritmia, baixando em
seguida a menos de trinta.
A concunhada Li apareceu naquele momento e a consolou. Em seguida, o médico líder da
equipe chamou Kátia para uma conversa no corredor e pediu para que se preparasse para o triste
desfecho. Ela precisava se despedir de Sócrates, não havia mais possibilidade de salvação. A
mulher se aproximou de Magrão, suspirou fundo em busca das últimas energias que lhe restavam
e lhe disse bem de perto: “Amor… descanse meu amor”. No mesmo instante, o monitor apitou e
os sinais vitais cessaram: o jogador mais genial da história do Corinthians estava morto.
Eram quatro e meia da manhã. Só restava avisar a família, a imprensa e todos os seus
admiradores. Naquele domingo, dia 4 de dezembro de 2011, o Corinthians iria disputar a última
rodada do Campeonato Brasileiro, contra o Palmeiras, no Pacaembu. A Fiel torcida estava toda
mobilizada, tanto pela possibilidade de título, pois lhe bastaria apenas o empate diante do rival,
como pelo drama do grande ídolo. Porém, seus fãs não tiveram chance de se despedir do Doutor.
Ao amanhecer, Raí foi ao hospital e providenciou a remoção do corpo para Ribeirão Preto. A
família decidira fazer um sepultamento discreto, na cidade do interior, sobretudo para poupar
dona Guiomar, que, além de idosa, mostrava-se emocionalmente frágil.
A esposa imaginava algo bem diferente. Pela história de Sócrates, por seu desejo de sempre
estar próximo ao povo, por tudo o que representava na história não só do Corinthians, mas do
próprio país, ela pretendia fazer um velório aberto ao público em São Paulo. Para que o maior
número de pessoas que o amavam pudesse lhe dar adeus e, ao mesmo tempo, o craque recebesse
todas as homenagens merecidas. No entanto, ela não foi ouvida. No primeiro momento,
dilacerada pela dor e extenuada pela maratona de horror dos últimos meses, ligou para uma
amiga buscá-la no hospital. Depois de descansar por algumas horas em casa e de receber um
telefonema de Fagner, resolveu se manifestar pela imprensa ainda naquela tarde. Segundo ela, o
cantor pedia para que ela interferisse, pois ele também queria se despedir do amigo e não
conseguiria chegar a tempo do sepultamento em Ribeirão Preto. A viúva explicou que nada mais
poderia fazer, mas expressou sua decepção numa entrevista para Renato Peters, exibida no
Fantástico. “Eu tinha que mostrar minha indignação por terem levado o corpo do meu marido
sem o meu consentimento.”
Assim que levantei naquele domingo e soube da morte de Sócrates, liguei para dar a notícia a
Casagrande. Ele ficou em silêncio do outro lado da linha. Demorou algum tempo para absorver a
informação. Perguntou mais de uma vez se eu tinha certeza, se estava confirmado, parecia não
querer acreditar. Para minha surpresa, perguntou se eu me lembrava de Shazzan, desenho
animado dos estúdios Hanna-Barbera, no qual um casal de irmãos encontra duas metades de um
anel que, ao serem unidas, lhes dão o poder de chamar o poderoso gênio. “O Magrão tinha a
outra metade do meu anel mágico. O que vou fazer agora com a que restou? É uma sensação
estranha, como se uma parte de mim também tivesse morrido”, disparou. Em seguida, lhe propus
que publicasse um texto no jornal para manifestar seus sentimentos. Peguei uma caneta e anotei
o que ele me disse naquele momento, ainda tomado pela emoção. Casão se expressou dessa
forma:

Confesso que te amei

Por Walter Casagrande Júnior

Claro que fiquei muito triste com a morte do Sócrates, mas, de forma até egoísta, o
sentimento predominante é de alívio. Isso porque tive a chance de falar para o cara, olhando
bem nos seus olhos, o quanto gosto dele. Precisava me sentar à mesa com o Magrão, reconhecer
a importância que ele teve na minha história e recordar momentos especiais que vivemos juntos.
Para mim, era algo fundamental.
Nós passamos muitos anos sem nos falar. Nunca brigamos, mas havíamos nos separado em
decorrência da vida. Ficaram uma distância e alguns ruídos na relação, por conta de visões
diferentes sobre algumas questões. Mas nunca deixei de amá-lo e precisava lhe falar isso antes
de sua partida. Felizmente, essa oportunidade surgiu por conta das internações anteriores. Se
não tivesse acontecido, agora estaria carregando um peso insuportável.
Sem dúvida, foi meu maior parceiro no futebol. Quando eu era juvenil no Corinthians, eu o
tinha como ídolo e costumava ficar ao lado do campo para vê-lo nos treinamentos do time
profissional. Depois, em 1981, fui jogar na Caldense e houve um amistoso lá contra a seleção
brasileira. Fiquei ansioso, não sabia se ele me reconheceria. Mas o Magrão se lembrou de mim
e até tiramos fotos no campo.
No ano seguinte, voltei para o Corinthians e fiz minha estreia contra o Guará sem a presença
do Sócrates. No segundo jogo, ele também não estava. Só fomos jogar juntos no terceiro, na
vitória sobre o Fortaleza, com três gols do Zenon e um do Sócrates. Eu participei de todos os
gols e percebi que daria liga.
A partir dali, formamos uma dupla memorável, com tabelinhas e troca de passes em que
antecipávamos o pensamento do outro. As minhas características combinavam com as dele, nós
nos completávamos. Podíamos até perder, o que faz parte do jogo, mas poucas vezes não
rendemos bem juntos.
Nós também nos identificávamos no aspecto político. Foi sensacional ter vivido a
Democracia Corinthiana a seu lado, lutado por eleições diretas para presidente e participado
da fundação do pt. Como jogadores, aproveitamos a popularidade para passar mensagens
contra a ditadura militar.
Compartilhávamos também da dependência química: tive problemas com drogas, e ele, com
álcool. Pagamos caro por isso. Sócrates não sobreviveu, mas parte em paz. Você deixou uma
história fantástica, parceiro, e ajudou a tornar o mundo um pouco melhor. Tínhamos uma
estreita aliança… Vou jogar meu anel fora. Fazer o que com um anel pela metade?

Casagrande foi cercado por uma legião de repórteres quando chegou ao Pacaembu naquele
domingo. Toda a imprensa queria ouvir o que ele tinha a dizer sobre o velho parceiro. Afinal, a
dupla havia se tornado indissociável, de tal forma que era impossível falar de um sem pensar no
outro. Ele deu inúmeras entrevistas, repetiu a história do anel de Shazzan e subiu para a cabine
de transmissão da Globo para comentar a grande final do Campeonato Brasileiro. Aquele jogo
decidiria o título, mas Casão estava ansioso mesmo para ver como a galera iria homenagear
Magrão.
Mesmo sem corpo presente, por obra do destino, Sócrates acabaria tendo a despedida mais
fabulosa que jamais um ídolo recebeu na história do futebol. Antes do início da partida, com o
Pacaembu lotado, não só houve um minuto de silêncio em respeito ao Doutor, como os jogadores
corinthianos e torcedores ainda levantaram o braço direito, com o punho cerrado, imitando seu
gesto característico. Uma cena de arrepiar, que levou muita gente às lágrimas, tanto nas
arquibancadas como nos lares de quem acompanhava a decisão pela televisão. Curiosamente, a
ideia partiu de um dirigente polêmico, Andrés Sanchez, que, apesar das diferenças com Magrão
— e das críticas dirigidas a ele nas colunas publicadas pelo craque no jornal Agora e na revista
Carta Capital —, teve a grandeza de espírito de separar a questão pessoal. “Ele foi filho da puta
comigo, mas a história dele no Corinthians está acima de tudo”, justificou Andrés, com olhos
marejados, numa conversa com Juca Kfouri, com quem também mantém uma relação
conturbada.
O Corinthians tornou-se pentacampeão brasileiro naquele dia e, para comemorar o triunfo,
muitos torcedores voltaram a levantar os braços com os punhos cerrados. Em meio à festa
alvinegra, diante daquela cena no estádio, Casagrande se emocionou novamente. Tinha a
sensação de que Sócrates estava ali, vivo junto com a massa, naquela celebração popular.
Brotava no fundo de sua alma a certeza absurda de que ainda voltaria a encontrar o amigo.
Papo de louco
C asagrande acordou pela enésima vez na madrugada. Não conseguia dormir com a barulheira
produzida por um casal de maritacas, talvez com os filhotes, que resolvera fazer o ninho bem ali,
em um vão sob o teto da sacada do seu apartamento. Não sabia se os ovos já haviam eclodido, ou
se ainda continuavam sendo chocados, mas o fato é que os pássaros faziam uma algazarra dos
diabos. Nem tinha ideia de como aqueles periquitos metidos a papagaios, que ficaram para trás
na escala evolutiva — estava com raiva dos bichos, e era assim que se referia a eles para si
mesmo —, foram encontrar um buraco para entrar, onde ele não via absolutamente nada. Apenas
ouvia o ruído insuportável das maritacas esfregando as unhas no forro, dando bicadas na
superfície, às vezes piando, ou seja lá como se chama o som que emitem. O tormento começara
havia alguns dias e, enlouquecido durante o martírio, ele já pensara até em jogar veneno ou pedir
ao zelador para dar um jeito de expulsá-las dali. Mas acabava com dó dos bichinhos, não
aguentaria a culpa de matar um sopro da natureza que lutava para sobreviver e se reproduzir em
meio à selva urbana de concreto.
O jeito foi pular da cama e fugir para longe daquele barulho irritante. Vestiu calça e camiseta
para descer e caminhar até a praça das Corujas, na Vila Beatriz, bem pertinho de sua casa. No
trajeto, para se sentir menos trouxa por ter sido desalojado do próprio aposento por um casal de
aves intrometidas, lembrava-se de que já impedira noites de sono de muita gente, quando fazia
festas na juventude que duravam até o sol raiar. E ninguém tinha jogado veneno para expulsá-lo.
No máximo, haviam chamado a polícia, coisa que evidentemente não iria fazer. Afinal, nunca se
deu muito bem com policiais, que lhe submetiam a blitze diárias nos anos 1980, e não seria agora
que iria pedir arrego. Enquanto ria dos próprios pensamentos, deu uma olhada na horta
comunitária e sentou-se num banco da praça.
Era uma noite de verão, a lua cheia iluminava a vegetação e projetava reflexos no córrego que
passa por ali. As estrelas cintilavam no céu, num cenário incomum para a cidade de São Paulo.
Um morcego cruzou o seu campo de visão como um raio. Assustou-se e se sentiu meio bobo por
isso. Lembrou-se de uma frase que um amigo lhe falava nas baladas de antigamente: “Passarinho
que anda com morcego acaba dormindo de ponta-cabeça”. Essa imagem o fez rir novamente,
pensou que as maritacas notívagas deviam voar com os morcegos nos embalos secretos dos seres
alados. Agora foi uma coruja que deu um voo rasante e pousou num galho de árvore. A cena o
encheu de alegria, sem saber exatamente o porquê. Talvez porque costumava se perguntar a
razão daquele lugar ser chamado de praça das Corujas, se nunca avistara nenhuma na região em
tantos anos. Sempre há uma primeira vez, refletiu com seus botões, e ficou satisfeito com a
descoberta.
Olhou para o alto de um morro — essa praça fica num terreno irregular, com vários níveis —
e avistou um grande cão escuro à espreita. Parecia um lobo. A sua imaginação estava solta, e
logo lhe veio à mente O lobo da estepe, livro de Hermann Hesse que marcara a sua geração com
um personagem desajustado chamado Harry Haller. Ele se identificava com o conflito entre o
lobo solitário e o lado humano do protagonista, que conviviam naquela personalidade
transtornada. Algo só para loucos.
Os grilos cricrilavam na noite, o que fez Casão instintivamente esperar que começasse a tocar
“Wingless Angels”, de Keith Richards, que se inicia exatamente com esse som. Mas, em vez
disso, uma voz familiar ecoou às suas costas: “Paixão, não, ô saudade!”. Um arrepio percorreu
sua espinha. Aquela frase era uma marca registrada de Sócrates, cujo significado jamais
compreendera muito bem, mas que o amigo sempre lhe dizia quando o encontrava distraído,
pensativo ou divagando.
— Magrão?!
— Poxa, que decepção! Pensei que você fosse tomar um puta susto e sair correndo como um
louco! Aí eu ia contar ao Gonzaguinha e a gente ia rolar de rir da sua cara. Esperava uma reação
tipo A hora do espanto, sei lá, algo assim, e você me reconhece de cara. Assim não tem graça,
iniciei mal a minha carreira de assombração.
— Você é feio pra caralho, Magro, mas pra quem já conviveu com demônios enormes e
horrorosos dentro de casa, isso aqui é fichinha. Senta aí, meu!
— O que você quer comigo, Big House?
— Porra, você sempre se sentindo o último bombom da caixa! Eu não te chamei, cara, vim
aqui pra fugir das maritacas e, de repente, você surgiu do nada.
— O quê? Fugindo de maritacas a essa hora da madrugada? Continua muito louco, hein?
— Deixa isso pra lá… É verdade, eu não te chamei nesse momento, mas ando pensando
muito em você e com uma vontade danada de conversar, assim como nos velhos tempos. Acho
que você sentiu a vibração.
— Diga lá, meu irmão!
— Pode parecer maluco falar disso a essa altura do campeonato, mas vou aproveitar essa
oportunidade, talvez única, pra perguntar uma coisa que sempre me martelou na cabeça.
— Ih… lá vem!
— Você ia mesmo ficar no Brasil, Magrão, se a emenda das Diretas fosse aprovada em 1984?
— Isso não pode ser verdade, me belisca pra eu ver que não tô sonhando, que isso tá
acontecendo mesmo. E você ainda disse que podia parecer maluco… Porra! É completamente
maluco me perguntar isso agora. Eu pensando que você viria com alguma curiosidade metafísica,
transcendental, o sentido da vida, qualquer coisa desse gênero, e você vem com uma questão tão
concreta assim? Que horizonte mais estreito!
— O.k., também não precisa tripudiar. Eu ia chegar lá, calma, é que ainda tô meio zonzo com
a surpresa. Mas, beleza, vamos direto ao ponto então, me fale sobre os mistérios do outro lado da
vida.
— Não tenho permissão pra fazer esse tipo de revelação. Nem seria justo. Iria acabar com o
mistério da criação, tirar de você a emoção da descoberta no instante em que chegar a sua vez de
fazer a passagem espiritual. Seria pior do que dar spoiler… sei lá, é assim que fala? Quando
aqueles chatos contam a trama do filme antes de a gente ir ao cinema?
— Ah, então vai se foder, Magrão, e me fala logo como é que você faria pra ficar no Brasil
com tanto interesse envolvido. Você já tava vendido pra Itália, tinha uma grana preta em jogo,
tinha o Corinthians, a lei do passe, a Fiorentina…
— E daí? Nada disso poderia me obrigar a ir embora contra a minha vontade.
— Achei do caralho o seu gesto no Vale do Anhangabaú! Mas depois, pensando bem, fiquei
com a impressão de que você falou aquilo levado pela emoção, na frente de mais de 1 milhão de
pessoas. Se a emenda Dante de Oliveira passasse no Congresso, acho que não teria jeito de
bancar a sua promessa, Magrão.
— Até parece que você não me conhece, Big. Claro que eu não iria pra Itália se as eleições
diretas para presidente fossem aprovadas naquele momento histórico tão especial. Eu ficaria não
só pra honrar a minha palavra, mas também pra ajudar a construir o país com que a gente
sonhava.
— Mas como você iria romper o contrato?
— Ainda nem tinha assinado nada. Mesmo assim, daria uma confusão tremenda, eu sei. O
Corinthians e a Fiorentina iriam espernear e tudo, mas ninguém poderia me levar amarrado pra
Firenze. Ainda existia o passe naquela época, mas a escravidão já tinha sido abolida com a Lei
Áurea. Quer dizer, em termos, claro, porque o sistema deu um jeito de perpetuar uma forma mais
sutil de dominação e exploração de todos os cidadãos. Mas essa é outra história… Não vem ao
caso agora, né?
— Tá bom, acho até que você é doido o suficiente pra bancar uma situação dessas mesmo.
Mas ainda tenho as minhas dúvidas.
— Engraçado, você vivia dizendo que eu era porra-louca, intempestivo, jogava tudo pro alto e
não concluía nada. Mas quando eu tomo uma atitude corajosa, patriótica, em prol da cidadania,
você vem pôr em dúvida se eu teria peito de mandar tudo às favas. Porra, já deixei de ganhar
tanta grana na minha vida pra seguir os meus princípios e ser feliz… Muitas vezes você até
criticava. O meu temperamento impulsivo serve só pra me descer a lenha, então? Quando se trata
de algo positivo, dessa grandeza, eu agiria como um bundão? É assim?
— Não, cara, você é um sujeito sensacional, por quem tenho uma puta admiração. Nunca
seria um bundão. Às vezes, eu buzinava na sua orelha pra seguir em frente com seus projetos
porque achava que você precisava aprender a engolir alguns sapos, não muitos, mas ter algum
jogo de cintura pra conquistar resultados maiores lá na frente. Você deixou uma obra magnífica,
mas, com a sua genialidade, poderia ter feito muito mais se tivesse determinação e disciplina.
Principalmente no próprio futebol.
— Se eu tivesse me dedicado mais como atleta, ou a outro objetivo qualquer, eu não teria me
tornado uma pessoa completa, Casão. Carpe diem. Você sabe, esse sempre foi o meu lema. Viver
intensamente o momento, sem pensar no futuro, até porque a gente nem sabe como será o
amanhã. Eu sou assim, para o bem e para o mal.
— Mas em relação ao álcool, Magrão, você não se arrepende de ter ido tão fundo? Você é
médico, porra! Não é possível que não tenha percebido que chegaria a um ponto sem volta. Por
que não se segurou um pouco e procurou tratamento antes?
— As coisas não são assim tão simples, Casão. Não recomendo a ninguém que faça como eu,
claro, mas também não me arrependo de nada. O álcool entrou na minha vida na adolescência,
pra superar traumas e inseguranças da idade, e influenciou diretamente o adulto que me tornei.
Não dá pra saber como teria sido de outra maneira. Eu poderia ter virado um superatleta, ter sido
mais produtivo, vivido mais? Claro que sim! Mas também poderia ter sucumbido a meus
traumas, minhas inseguranças, minha timidez, que pouca gente conhece. Virado um sujeito mais
introspectivo e amargo, sei lá. Impossível prever esse outro curso hipotético.
— Mas às vezes, Magrão, você não pensa que poderia ter feito de forma diferente?
— Isso é natural. Sempre nos questionamos se agimos da melhor maneira e refletimos sobre
nossos erros. Em várias situações, até dá para corrigir o rumo, mas, em geral, somos levados pela
correnteza. Sinceramente, não olho pra trás com a sensação de que errei ou desperdicei
oportunidades. Pelo contrário. Provei tanta coisa sensacional na vida, paixões que me levaram às
máximas sensações que um ser humano pode experimentar, a Democracia Corinthiana, duas
Copas do Mundo, a luta política, a criação artística com gente muito talentosa, porra, tive uma
existência profícua. Mas, como diz o Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.
— Tá certo, Magro. Mas eu enchia seu saco porque queria o melhor pra você, simplesmente
porque amava você.
— Eu sei, Casão, acaba sendo como um pai que cobra do filho comportamentos que ele
próprio não conseguiu ter. A intenção é boa, mas cada um sabe os seus limites e como atingi-los.
O curioso é que somos muito parecidos. Você foi fundo demais nas drogas, algo com que eu
também nunca concordei, e até poderia ter morrido. Chegou bem perto várias vezes. Hoje você
se recuperou, mas o jogo não está ganho, a luta contra a dependência química será eterna.
— Isso é verdade, mas o fato é que quando cheguei ao fundo do poço eu fui procurar ajuda,
me tratar.
— Pensa que engana quem, parceiro? Você deu sorte de não ter morrido de overdose ou
naquele acidente de carro. Aí foi pro hospital, ficou sedado e, quando acordou, nem sabia onde
estava ou o que acontecia. Parecia o Rodrigo Santoro no Bicho de sete cabeças, meu chapa. Se a
sua família não o internasse na marra, você não estaria aqui agora posando de bacana. Então a
linha que separa o êxito do fracasso é muito tênue. Aliás, como no futebol, né?
— Como assim?
— Por exemplo, o Brasil podia ter passado pela Itália na Copa de 82, tivemos chances pra
isso, mesmo com os erros defensivos que cometemos. E se aquele chute do Chulapa, cara a cara
com o goleiro, não saísse torto? E se a finalização do Falcão, que tirou tinta da trave, tivesse
entrado no gol? Ou se o Paolo Rossi errasse pelo menos uma das vezes? É algo quase aleatório
num jogo. E caso o Brasil tivesse seguido em frente e sido campeão do mundo, nós seríamos
todos geniais, o Telê não teria ficado com fama de pé-frio durante tanto tempo, nem haveria
oportunistas defendendo futebol pragmático, escalação de brucutus, essas bobagens todas.
— Concordo com tudo isso, Magrão, mas queria que você tivesse se tratado pra eu não ficar
aqui nesse mundo sem você. No fundo, é até um lance assim meio egoísta. Dá a impressão de
que só estava preocupado com o seu bem, mas eu pensava acima de tudo na minha própria dor
de perdê-lo. De qualquer forma, aproveitando essa analogia que você fez com o futebol, a perda
da Copa de 82 não foi determinante pra você ter morrido em decorrência do alcoolismo?
— Que papo é esse, Casão? Eu bebo desde a adolescência, não vamos botar a culpa na
seleção.
— Eu sei, mas quando você bebia por prazer, pra descontrair e se divertir com os amigos, era
uma coisa. Outra bem diferente era beber pra tapar uma ferida. Organicamente, o álcool podia
fazer o mesmo mal, mas do ponto de vista emocional descia rasgando, Magrão. Principalmente
quando parou de jogar. Aposto que você martelava: “Porra, eu perdi aquela Copa do Mundo com
um time que merecia ter sido campeão, agora não jogo mais em lugar nenhum, estou ficando
velho e todos meus amores não tiveram um fim legal, nem concluo os meus projetos…”. Então
esse álcool de que tô falando tinha o efeito de uma facada no fígado. Era o álcool da melancolia,
da angústia, da dor. Enquanto o outro descia suave.
— Foi fundo agora, hein, Big? Virou psicanalista? Claro que a perda daquela Copa do Mundo
teve um efeito devastador… Tenho certeza de que nenhum dos jogadores que viveram aquilo
conseguiu se livrar completamente do fantasma. Mas, por outro lado, se tivéssemos sido
campeões do mundo, acho que a gente ia ficar bestinha demais. Todo mundo se sentindo o tal.
Pra mim, isso talvez fosse o fim. Então, a vida tira de um lado e dá de outro.
— Muito bonito ouvir isso, mas não acho que seja verdadeiro. Você não tem perfil de um cara
que fica bestinha ou mascarado. Muito menos acredito que você veja alguma vantagem naquela
derrota.
— A gente precisa se enganar pra tocar o barco. Às vezes criamos uma história na nossa
mente, uma justificativa qualquer, pra amenizar um pouco o impacto dos fracassos.
Necessitamos disso, mesmo depois de mortos (risos).
— Cara, eu sei disso, e sinceramente não consigo imaginar o tamanho do rombo que você
carrega no peito. Falo isso por experiência própria. Quando eu parei de jogar, apesar de ter me
direcionado logo para outra profissão, fiquei perdido emocionalmente. Sentia falta de muita
coisa. Faltava o prazer de ouvir a torcida gritar meu nome, faltava o tesão de fazer um gol… E
vinham à minha cabeça derrotas importantes na minha carreira.
— Isso é interessante… Fala uma delas, Big.
— Em 1992, perdi a Copa Uefa para o Ajax, em Amsterdã. Foi um trauma do caralho! Até eu
me tratar, eu sonhava às vezes com aquilo. Então, quando essas coisas me oprimiam, eu cheirava
cocaína pra amortecer a dor. Aí a droga começou a ser muito mais maléfica pra mim. Eu não
usava mais por curtição, mas para tentar anestesiar um sofrimento. Por isso, imagino que se eu
tivesse jogado em 82, teria um vazio muito grande dentro de mim, porque a proporção da
frustração seria ainda maior. Eu não ia aceitar aquilo, nem suportar conviver com tamanho peso.
Precisaria me tratar daquilo pra tocar a vida.
— Por isso que eu te amo, Big. Você é um cara especial. Nunca tinha visto as coisas serem
colocadas dessa forma tão lúcida por nenhum jogador. Apesar de ser uma puta loucura, né?
(risos) Tô gostando desse assunto. Conta outro trauma…
— Ah, existe um em comum com você… Pelo menos, imagino que sim. O fato de não termos
conquistado a Libertadores e o Mundial pelo Corinthians também me causou muita frustração. A
gente chegou a lançar o projeto Tóquio, depois da conquista do bicampeonato paulista, lembra?
— Claro, Casão, fizemos aquela excursão ao Japão, no início de 1984, com a missão de tornar
o Corinthians conhecido lá e criar um ambiente favorável. A ideia era montar um time pra ser
campeão do Brasileiro e da Libertadores. E quase deu certo, né? Chegamos à semifinal do
Nacional e fomos derrotados pelo Fluminense, que tinha um grande time e acabou sendo
campeão com toda justiça. Mas, cá entre nós, acho que o nosso era ainda melhor. Basta um dia
em que as coisas não se encaixam direito, numa disputa de mata-mata, pra tudo ir por água
abaixo. Aquela eliminação doeu demais mesmo.
— Nem diga, Magrão, a Democracia Corinthiana foi uma revolução no futebol, mas não era
só isso. Tínhamos um time talentoso, que jogava muito bem, com um craque excepcional
chamado Sócrates. Aliás, acho que você foi mais brilhante como jogador do que como Che
Guevara, é até injusto a sua imagem ser tão associada a esse viés político. Porque se tratava de
um dos maiores craques de todos os tempos. Então, havia todas as condições pra ganharmos
aqueles títulos. E se fôssemos campeões em Tóquio, os jornais de todo o planeta iriam dar a
manchete: “Democracia Corinthiana chega ao topo do mundo”. Já imaginou a repercussão?
— Claro que sim, Big, você botou o dedo numa das minhas piores feridas. Seria uma puta
propaganda da democracia em nível mundial. Na América do Sul, a Argentina, o Uruguai e a
Bolívia estavam saindo de ditaduras sangrentas, e o Brasil logo em seguida. Mas, no Chile, o
Pinochet ainda se manteve no poder por mais alguns anos. Nossa mensagem política, por meio
do futebol, teria grande efeito. Sem falar no principal, a alegria da Fiel com os títulos inéditos da
Libertadores e do Mundial.
— Mas pelo menos isso, Magrão, eu pude ver de perto. Não como jogador, claro, mas eu
estava no Japão como comentarista no dia em que o Corinthians foi campeão contra o Chelsea.
— Isso deve ter sido sensacional, Big. Como foi a emoção daquele momento?
— Porra, Magrão, chorei antes mesmo do jogo começar. O Galvão Bueno me chamou quando
eu estava com lágrimas nos olhos. Expliquei que o projeto havia se iniciado conosco em 1984,
então me lembrei de você naquela hora e de toda a minha história dentro do clube. Foi uma
transmissão atípica. Até falei pro Galvão que, como ele costuma dizer, o Corinthians era o Brasil
no Mundial. Portanto, eu tinha o direito de torcer.
— Que genial, Big! Sem aquela assepsia esterilizada do comentarista que tem de manter o
distanciamento crítico. Emoção na veia! Do jeito que eu gosto.
— Você precisava ver a loucura que tomou conta do estádio quando o Paolo Guerrero fez o
gol do título…
— Tinha muito corinthiano lá?
— Tudo dominado, Magrão! Eu estava lá, eu vi a invasão de Tóquio! Depois do jogo, a Fiel
tomou conta das ruas, do metrô, do aeroporto. Parecia que só havia corinthiano e japonês lá. Em
Dubai, onde fiz escala, também. Nunca vi isso na minha vida. Você ia ficar arrepiado se
estivesse vivo, porque agora não vai se arrepiar com mais nada, né? (risos)
— Digamos que há outros tipos de manifestações emocionais, talvez ainda mais intensas do
que o arrepio. Você não perde por esperar.
— Magrão, eu torço pro Corinthians desde que nasci. Eu fui criado lá dentro. Já você fala
tanto em Corinthians, Corinthians, Corinthians, mas torcia pro Santos na infância, né? Cresceu
idolatrando Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
— Vai se foder, Big! Tinha de vir com sacanagem… Realmente eu tive o prazer de ver aquele
time do Santos da década de 1960, que me deu muitas alegrias, eu admito. Mas, desde que botei
os pés no Parque São Jorge, o Corinthians entrou no meu sangue. Vivi e morri corinthiano.
Quanto a você, sei não… Li em algum lugar que seu time é o São Paulo. Virou a casaca?
— O que é isso, companheiro? Uma das maiores honras da minha carreira foi ter jogado no
São Paulo em 1984, com Careca, Pita, Sidnei, Oscar, Dario Pereyra, Nelsinho e outras feras. Mas
daí a virar a casaca tem uma grande distância, hein?
— Foi você que começou a desvirtuar a conversa, Big. O papo era sério, a gente falava de
traumas. Quero saber como você lida com eles atualmente.
— Já melhorei muito, mas continuo me tratando. Tanto da dependência química quanto
dessas feridas abertas. É um processo longo. Imagine pensar que há trinta e poucos anos eu tava
fazendo gol numa final de campeonato no Morumbi lotado. A torcida delirando com o “Gol Rita
Lee”, o caralho! E agora, o que eu faço? Acordo, vou à padaria e tomo um café (risos). Quanta
diferença! Não adianta eu tentar substituir, porque nunca mais vou experimentar uma emoção
como aquela. Então preciso buscar outras fontes de prazer, de satisfação pessoal, mas sem cair na
armadilha da comparação.
— Jogador nenhum para de jogar futebol. É o futebol que para com a gente. Essa é a mais
dura realidade.
— Pois é, Magrão, e eu ainda por cima sou um cara exagerado, igual o Cazuza, né? O meu
primeiro diagnóstico na terapia foi exatamente esse. Eu aumento demais a proporção das coisas
que acontecem comigo. Tudo é muito intenso, eu amo demais, me entrego demais, sofro demais,
vibro demais. Preciso equilibrar um pouco as coisas. Pra você ter uma ideia, mesmo antes de
pendurar as chuteiras, já sentia um vazio imenso porque não jogava mais do seu lado. Também
ficou um buraco.
— Sério? Não sabia disso, você nunca falou nada.
— Não ia ficar choramingando feito uma donzela abandonada, né, Magrão? Mas tive muita
dificuldade depois que você saiu do Corinthians, porque eu estava acostumado com o gênio. E o
meu raciocínio corria rápido pra acompanhar seu pensamento. Então estranhava atuar ao lado de
outros jogadores. A única vez que atingi um nível próximo foi com o Careca no São Paulo. Mas
com o papel invertido, comigo na armação. A jogada que eu pensava em fazer, o Careca
entendia. E vice-versa, porque ele era genial, também sabia colocar a bola de uma forma
totalmente imprevisível.
— Cara, imagina se o Careca tivesse jogado em 82. Ia ser como na Copa de 70… Ele era
demais mesmo, mas agora não adianta sonhar.
— Mas nada se equipara a jogar a seu lado, Magrão. Depois da nossa dupla, eu tive vários
momentos bons, até ótimos na carreira, mas muito diferente da época da Democracia
Corinthiana, porque não consegui encontrar outro jogador tão genial como você.
— Para com isso, Big, já tô ficando sem graça. Desse jeito, vou acabar chorando aqui.
— É a pura verdade! Por exemplo, o meu ídolo de infância é o Rivellino. Quando eu encontro
com ele, fico até meio travado, sinto o peso do mito e tudo. Mas a admiração que eu tenho por
você é ainda maior. Mesmo daquela seleção de 82, que só tinha craques, pra mim, você foi mais
jogador do que todos ali. O mais criativo, inteligente e imprevisível. Lia o jogo de uma maneira
única, com visão de 360 graus pra fazer uma jogada. De costas, inclusive.
— Casão, não é pra retribuir os elogios, não, até porque sou incapaz de falar o que não sinto.
Mas, porra, queria que você soubesse que você também é o maior parceiro da minha vida. Nunca
repeti com ninguém a sintonia que estabelecíamos em campo.
— Pensa bem, você jogou com o Zico na seleção…
— Jogar com o Zico foi sensacional, um dos maiores prazeres da minha carreira. Aliás, uma
outra frustração foi a de não ter concretizado a dupla com o Galinho no Flamengo. Infelizmente,
já havíamos passado do ponto, ele com problemas no joelho, eu com a hérnia de disco. A gente
também se entendia por pensamento. Mas você, Big, marcou o período mais feliz da minha vida.
Além de nunca ter me entrosado tão bem com nenhum outro centroavante, nós
compartilhávamos sonhos.
— Sonho que se sonha só, já dizia o Raulzito, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que
se sonha junto, Magrão, é realidade.
— É exatamente isso, Big! As nossas grandes exibições e as conquistas no futebol geravam
energia para que lutássemos por um mundo melhor. Só agora, olhando em perspectiva, a gente
percebe o quanto foi importante a Democracia Corinthiana como exemplo pro país em plena
ditadura militar. E se você não estivesse ali, Walter Casagrande Júnior, estou certo de que nada
daquilo teria acontecido. E vou parar por aqui, porque agora já comecei a chorar mesmo.
— Porra, Magrão, e faltou muito pouco pra que a gente jogasse junto também no Flamengo.
Já pensou?
— Poxa, eu li nos jornais da época e fiquei torcendo pra dar certo. Foi logo depois da Copa de
86, né? Mas não me lembro direito. Qual a história mesmo?
— Então, eu voltei do México bem desanimado, depressivo pra caramba. Fomos eliminados
pela França daquele jeito dramático, e eu tinha ido muito mal na Copa, né?
— Deve ter sido duro, hein, Big? Você era uma das maiores esperanças do Brasil naquela
Copa. Tinha arrebentado nas eliminatórias, marcado gols importantes. Lembro até que a
imprensa fez uma enquete e você era uma das poucas unanimidades entre os titulares do Telê.
Mas entrou em declínio justamente no Mundial. Algo parecido com o que o Raí viveu na Copa
de 1994, quando começou como capitão, caiu de produção e perdeu a posição.
— Exatamente, Magrão, voltei superchateado. Tanto que o Corinthians deu quinze dias de
folga pra mim, pro Carlos e pro Edson, mas eu quis jogar antes pra ver se me animava um pouco.
Até fiz alguns jogos bons pelo Paulistão, mas nem assim consegui sair da crise. Aí, na
concentração para a estreia no Brasileiro, eu estava no quarto com o Edson e comecei a
desabafar. O Abobrão perguntou onde eu gostaria de jogar, e respondi que era no Flamengo.
Então ele me sugeriu que ligasse pro Mozer ou pro Leandro, meus amigos na Gávea, pra eles
fazerem a ponte.
— E você ligou, Big?
— Sim, eu pedi uma força pra eles, e o Mozer disse que iria conversar com a diretoria. No dia
seguinte, depois do almoço, o Jorge Vieira e o Gilberto Tim me procuraram pra avisar que eu
deveria arrumar a mala e ir pra casa, porque o presidente do Flamengo, o George Helal, estava
negociando minha contratação. Infelizmente não houve acordo financeiro com o Corinthians.
Seria maravilhoso a gente formar dupla novamente, e no Mengão, hein?
— Dentro de campo, seria difícil por causa da minha hérnia de disco. Mas a gente iria agitar
um bocado a noite carioca e o cenário cultural do Rio. No mínimo, seria muito mais feliz com
você do meu lado. Quem sabe criaríamos a Democracia Flamenguista…
— Alguma coisa boa certamente sairia.
— Bem, o papo tá bom, Big, mas preciso voltar para o meu mundo.
— Calma aí, Magrão, ainda quero saber como você vê a situação atual do país. Pra mim,
depois de toda a nossa luta, é muito decepcionante constatar que antigos companheiros
abandonaram os ideais e passaram a se aproveitar do poder, com corrupção para enriquecimento
pessoal.
— Isso realmente é inaceitável.
— Jamais podia esperar uma coisa dessas, Magrão. Não que eu tenha me arrependido da
nossa militância política. Muito pelo contrário, agora há liberdade de expressão e direitos civis
no Brasil, conquistas da época que devem ser valorizadas. Não existe nada pior do que a
arbitrariedade e a violência do Estado. Hoje até autoridades graúdas do governo estão sendo
investigadas e punidas. Mas, porra, eu me senti traído por muita gente.
— Não tenho acompanhado as coisas muito bem lá de cima, mas também acho inadmissível
que políticos que chegaram ao poder com uma proposta de renovação, para melhorar as
condições sociais, tenham se desviado desse objetivo. Porém, é preciso analisar as coisas com
cautela. A corrupção não surgiu agora, nem é algo exclusivo do Brasil. É um câncer que ameaça
todas as sociedades desde o surgimento da espécie humana. Casos assim devem ser investigados
e punidos, com o prosseguimento do projeto de governo voltado para as camadas mais carentes
da população. Por causa de uma cárie, você não vai arrancar todos os dentes da boca.
— Concordo plenamente, Magrão. Uma coisa que me incomoda são os oportunistas que se
aproveitam da situação pra defender o retrocesso. Dá medo de navegar pelas redes sociais, há
ignorantes que pedem até a volta do regime militar. Gente sem noção. Como se não tivesse
havido desvios em outros governos… O que pode trazer à tona a corrupção, inclusive, é a
liberdade de imprensa, que antes não existia. Porque na época da ditadura não se podia sequer
denunciar. Então o meu papel continua sendo esse: usar a visibilidade que eu tenho pra defender
a democracia e os direitos iguais para toda a população. Mas, ao mesmo tempo, não posso deixar
de admitir que estou até envergonhado…
— Envergonhado de quê?
— Talvez você fique puto, mas eu me envergonho até de ter acreditado tanto no Lula.
— Calma lá, Casão. O Barba precisou fazer concessões, alianças políticas questionáveis, mas
esse foi o preço que ele teve de pagar pra conseguir os avanços sociais. O povo mais humilde
saiu da zona da miséria. Então, enquanto a classe média reclama por eventualmente perder
alguma regalia, o pobre lá no sertão do Nordeste comemora a comida no prato. E se o Lula não
fizesse concessões, ele não governaria nem 24 horas. As oligarquias do país teriam derrubado.
— Sabe, Magrão, aí a gente vai entrar em conflito. Hoje eu me sinto traído pelo Lula, pelo Zé
Dirceu e pelo Genoíno. Quando o Lula se elegeu pela segunda vez, eu me olhava no espelho de
casa, quando ia fazer a barba, e me achava do caralho! Eu me sentia orgulhoso de ter participado
de tudo isso. Depois eu comecei a ficar com vergonha de me olhar no espelho. Porque eu
comecei a me sentir mal com aquilo.
— O Lula é um cara realista, que sabe onde o calo aperta… Fico preocupado de pegarem ele
como bode expiatório pra abrir caminho para políticos elitistas e conservadores e governos em
que certamente também existirão casos de corrupção. Se bem que na última conversa que
tivemos, por telefone, quando eu estava internado no hospital, ele me convidou pra participar de
um almoço com o Ricardo Teixeira. Confesso que achei o Barba mudado…
— As coisas mudaram muito por aqui. Mas não quero te aborrecer com esse assunto, o papo
antes estava muito melhor. Nem sei se você tem acompanhado tudo o que aconteceu desde 2011,
quando morreu.
— Claro que não, né, Casão? Ou você acha que eu assino a Folha, o Estadão, o Agora, o
Globo, o Extra, o Dia… Lá onde eu moro, esses jornais não chegam. No máximo, o saudoso
Jornal da Tarde, que já morreu também (risos). Nem sintonizo o Jornal Nacional.
— E a internet? (risos)
— Muito menos, o sinal não pega de jeito nenhum.
— Bem, então não serei eu quem irá atualizá-lo sobre as últimas notícias daqui. Não me sinto
preparado pra ser seu único formador de opinião. Além do mais, onde você vive, a honestidade e
a justiça social devem ser valores consolidados.
— Não é bem assim, não! Eu não posso falar muita coisa, mas só pra ter uma ideia: você acha
que nesse universo imenso vão existir apenas a Terra, o Céu e o Inferno? Essa é uma visão
simplista demais, vem lá da Idade Média, né? Ou até de antes… Tudo é bem mais complexo do
que isso, e a nossa luta continua, sim, em outros parâmetros e outras dimensões. Não pense que
eu vivo de túnica branca e asinhas de anjo em cima de uma nuvem.
— Que louco, Magrão, isso me fez lembrar de um cartum em que você aparece exatamente
assim.
— Eu sei, é do Latuff, aquele em que comemoro o pentacampeonato nacional do Corinthians
bem no dia em que morri. Às vezes tenho acesso a algumas coisas da Terra e achei esse desenho
do caralho, me senti honrado com a homenagem. Mas é apenas uma caricatura. Na realidade, o
Universo vive em contínua transformação, então nossa evolução não tem fim. Somos
basicamente energia, como tudo o que existe. E não há só flores. Existe o lixo também, né? Esse
monte de gente ruim precisa ter uma destinação. Ou você acha que some? Os nossos adversários
são os mesmos, só em forma diferente.
— Porra, Magrão, então um dia ainda vamos voltar a atuar juntos nesse jogo maluco da
existência?
— Pode apostar que sim! Embora eu também não saiba de tudo. Aliás, eu não conheço nem
um milésimo dos mistérios do Universo. Já estou falando demais, mas vou dar uma última dica.
Pense que toda criação se materializa de alguma forma. Você quase foi morto pelos demônios
que você mesmo criou. Deus é tão democrático que dá a suas criaturas a capacidade de criação
também. Shakespeare, por exemplo, concebeu um mundo paralelo, em que os personagens não
só têm uma determinada aparência, mas também possuem ideias, sentimentos, emoções, ações,
contradições, com uma profundidade que proporciona suas vidas. O bardo deu à luz os
Montecchios, os Capuletos, Hamlet, Rei Lear, Macbeth e todos os outros, que passaram de fato a
existir.
— Como assim, Magrão, tá delirando?
— A partir do momento em que milhões de pessoas leram essas obras e formataram os
personagens em suas mentes, a energia deles se integrou ao cosmos. Assim como todas as
demais criações. O George Lucas filmou Guerra nas estrelas, que você curtiu comendo pipoca,
mas provavelmente um dia ainda tenhamos que lutar contra o lado negro da força. Faço essa
suposição porque eu já tive o prazer de ser apresentado, por exemplo, ao Rodion Românovitch
Raskólnikov, o protagonista de Crime e castigo, do Dostoiévski. Hoje ele virou um ser
independente.
— Magrão, você bebeu?
— Não, Big, você é que ainda não está pronto pra ter esse entendimento. Nem eu mesmo
tenho toda a compreensão. Só sei que existem infinitas dimensões e, nessa linha de raciocínio,
ainda vamos passar por experiências incríveis. Quer saber algo em que tenho pensado bastante?
Deve haver alguma dimensão em que o Brasil tenha vencido a Itália em 1982, chegado à final e
levantado a taça de campeão. Não é demais?
— Acho que você tem visto muito De volta para o futuro na sessão da tarde lá do Paraíso.
Você tá me deixando maluco. Só me diga uma coisa: como vou saber se não estou tendo mais
um surto psicótico?
— Você não vai saber. E eu preciso ir agora.
— Valeu, então, Magrão! Adorei conversar com você, sendo ou não piração da minha cabeça.
— Essa sua cabeça é pirada de qualquer jeito (risos).
— Quero falar uma última coisa. Em 82, eu fui ao seu aniversário e, quando deu duas horas
da manhã, você fechou a porta da casa e falou: “Agora, você só vai embora amanhã, Big!”. Se eu
tivesse a chave do mundo, eu também teria fechado essa porta. E falaria assim: “Agora, você não
vai embora nunca mais, Magrão!”.
— Que lindo ouvir isso! Um beijo, parceiro. Ah, já ia me esquecendo, não expulse as
maritacas do seu apartamento. Foram elas que te trouxeram até mim.
Agradecimentos

Sócrates Brasileiro, Cristina Maiello, Aida Veiga, Jussara Soares, Ana Candida Tofeti de
Oliveira, Keith Richards, Marcos Alves, Praia da Almada, Santo Antônio do Pinhal, Marcio
Molinari, Evandro Ruivo, Wilson Garbelotti, Iemanjá, Santo Expedito, São Miguel Arcanjo e a
todos os entrevistados. Além das maritacas, é claro!
Sobre a dupla

“O sucesso do Casagrande na tv tem muito a ver com esse período em que ele jogou com o
Sócrates. Tanto quanto as tabelas dentro de campo. Eles trocaram experiências de vida,
conhecimento, ousadia, coragem e amizade, num dos capítulos mais importantes na história do
futebol brasileiro: a Democracia Corinthiana.”

Fausto Silva

“Era muito gostoso sair com eles depois de jogos que o Corinthians tinha ganhado e jogado bem,
porque eles ficavam muito felizes com o jogar bem. Dava prazer vê-los comentando o que tinha
sido a partida, numa mesa de bar, ou então íamos para a casa do Magro.”

Juca Kfouri

“A afinidade deles era clara. Isso tinha reflexos não só fora de campo, mas dentro também. Se
você vai jogar ao lado de alguém em quem tem confiança e com quem se sente seguro, é lógico
que a tendência é sempre acontecer o melhor. São coisas que a gente não tem como explicar,
quando duas pessoas se conhecem e passam a ter sintonia impressionante.”

Zico

“Eu já era amigo do Sócrates, com quem tinha afinidade adicional por ele ser filho de um
cearense, que ainda por cima também se chamava Raimundo como eu. E aí, de repente, surgiu o
Casão, a luz da galera, o artilheiro, o cara mais jovem que se ligava em música. Era um momento
fascinante, eles fizeram a relação do futebol com a política, e isso foi de uma importância
enorme. Eu me sentia um deles. Como curtiam música, e eu sempre gostei de futebol, nós
vivemos uma irmandade de ideologias, de admirar o que o outro fazia. Por isso, houve essa
química tão incrível, porque além de formar um time que dava gosto de ver jogar, eles defendiam
os mesmos ideais políticos, o movimento pelas Diretas, o sonho de liberdade da nossa geração.”

Raimundo Fagner

“Havia uma identidade inexplicável, ainda mais se levarmos em consideração a diferença de


idade. Os dois gostavam praticamente das mesmas coisas, com uma empatia e uma sintonia
gratuitas. Nunca vi nada parecido”

Wladimir

“O Magrão olhava o Casão muito mais como um irmão mais novo. Um negócio bonito de se ver.
Isso é uma coisa do espiritismo que a gente não vai conseguir decifrar. Vem de outras vidas”

Júnior
“O fato de o Casagrande expressar aquela rebeldia, que tinha tudo a ver com o Sócrates, também
ajudou a aproximá-los. Eu via a alegria deles de estarem juntos, como eles se curtiam, e esse
negócio de irmãos só fazia com que eu admirasse mais o Casagrande. Gostava ainda mais dele
porque o Sócrates claramente gostava, e ele também gostava do Sócrates. Então a gente via os
cabelos enrolados, os dois grandes assim, e sentia essa identificação. A maneira como as pessoas
se abraçam fala muito, né? E eles se abraçavam realmente como irmãos, mas eu nunca senti
ciúme, ao contrário, eu admirava essa relação dos dois”

Raí

“Em São Paulo, eu sou Santos por causa do Pelé, mas a dupla Sócrates e Casagrande me
cativava. Era mais humana, mais perto da gente, por lutar contra a ditadura e ter uma voz política
atuante. Minha mãe, que era professora e militante política, escondia em casa gente perseguida
pelos agentes da repressão, para desespero do meu pai, porque aquilo era muito arriscado, né?
Então achava o máximo ver jogadores defendendo ideias avançadas, exigindo direitos e saindo
daquele cabresto de atleta de futebol. Isso despertava a simpatia da galera do Rio e de todo o
Brasil.”

Evandro Mesquita

“O planeta Marte tem a ver com dinamismo, liderança, músculo, precipitação, tudo que envolve
ação. E também briga, discussão, guerra… Mas o Marte de Sócrates e o de Casagrande, no dia
do nascimento de cada um, estavam harmonizados. Ou seja, já havia uma sintonia entre os dois.
Isso promoveu a grande e profunda amizade entre eles. Porém, Marte é um planeta que estimula
também o nosso lado afoito, infantil, não é à toa que os arianos são crianças grandes, mesmo
com cem anos de idade. Então é claro que a relação deles não seria como a de dois mestres
budistas. Como Marte é impulsivo, um dia eles iriam se estranhar, desenvolver uma
competitividade mesmo sem ser explícita.”

Leiloca

“O Sócrates e o Casagrande tiveram uma importância até nacional, pela visibilidade que um
jogador tem aqui, no país do futebol. Eles conseguiam atingir todos os públicos e davam a cara
para bater enquanto lutavam por um ideal que era de todos nós.”

Kiko Zambianchi

“Sócrates e Casagrande possuem um porte físico avantajado e muita técnica, além de grande
espírito de luta, coisa difícil de se encontrar em jogadores tão técnicos.”

Rubens Minelli
Bibliografia

Bagnarelli, Kátia e Echeverria, Regina. Sócrates Brasileiro: minha vida ao lado do maior
torcedor do Brasil. São Paulo: Prumo, 2013.
Cardoso, Tom. Sócrates: a história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
Unzelte, Celso Dario. Almanaque do Timão. São Paulo: Editora Abril, 2000.
Casagrande Junior, Walter e Ribeiro, Gilvan. Casagrande e seus demônios. São Paulo: Globo
Livros, 2013.
Sócrates e Gozzi, Ricardo. Democracia Corintiana: a utopia em jogo. São Paulo: Boitempo
Editorial, 2002
Sócrates. Sócrates, Brasileiro: as crônicas do Doutor em CartaCapital. São Paulo: Editora
Confiança, 2012
Placar. Arquivo digital da revista da Editora Abril.
Caderno de fotos

Jorge Araújo / Folhapress.

Em 11 de fevereiro de 1979, na partida contra o Santos no estádio do Morumbi, a torcida do Corinthians ergue faixa de protesto e
exige anistia para os brasileiros perseguidos pelo governo ditatorial.

Ronaldo Kotscho.

Sócrates comemora seu gol ao lado de Casagrande e a sintonia entre os dois transparece até na postura.
Placar/ Edição 650/ Abril Comunicações S.A.

A singularidade da Democracia Corinthiana na capa da edição 650 da revista Placar, de novembro de 1982.
J.B. Scalco/ Abril Comunicações S.A.

O placar eletrônico anuncia mais um gol do Corinthians na temporada de 1982, e Casagrande, Sócrates e Zenon retornam da
comemoração.

Irmo Celso/ Abril Comunicações S.A.

Em 1982, nas cinco partidas anteriores à primeira eleição direta em dezessete anos para o Governo Estadual, o Senado e a
Câmara dos Deputados, a equipe do Corinthians exibiu no uniforme a mensagem conclamando os brasileiros a ir às urnas. Na
foto, Biro-Biro, Ataliba, Zenon, Casagrande, Sócrates e Solito posam com a camisa.
Gazeta Press.

A dupla genial deixa no chão o jogador da Ferroviária, de Araraquara, em partida do Paulista de 1982.
Rolando de Freitas / Agência Estado.

Cumplicidade também fora do campo, no aeroporto de Congonhas.

J.B. Scalco / Abril Comunicações S.A.

O time campeão paulista de 1982 posa para a foto. Solito, Ataliba, Sócrates, Casagrande, Zenon e Biro-Biro. O massagista
Rocco, Mauro, Daniel González, Alfinete, Paulinho e Wladimir.
Irmo Celso / Abril Comunicações S.A.

Na final do Paulistão de 1983, defendendo o lema: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

Lucas Lacaz Ruiz / Agência O Globo.

A dupla comemora mais um gol pelo Corinthians.


José Ribeiro / Diário de S. Paulo.

Vestido com camiseta do Lula, desenhada por Henfil, Casão mostra sua chuteira branca, novidade na época.

Jorge Araújo / Folhapress.


Casagrande e Sócrates se abraçam depois do título paulista do Corinthians contra o São Paulo, em dezembro de 1983.
José Pinto / Abril Comunicações S.A.

A foto icônica de Casagrande com o slogan “Democracia Corinthiana”, idealizado pelo publicitário Washington Olivetto.
Orlando Brito/ Abril Comunicações S.A.

Sócrates e Casagrande durante comício pelas Diretas Já, em 16 de abril de 1984, no Anhangabaú, ao lado do locutor Osmar
Santos e de outros jogadores do Corinthians como Wladimir e Juninho, e do diretor Adilson Monteiro Alves.

A Gazeta Esportiva estampa na capa da edição de 19 de maio de 1984 o adeus da Fiel ao ídolo Sócrates, de partida para a
Fiorentina, na Itália.
Placar / Edição 783 / Abril Comunicações S.A.

A edição 783 da revista Placar, de maio de 1985, estampa na capa a crise da seleção brasileira e o “Manifesto de Santiago”,
como ficou conhecida a lei do silêncio dos jogadores determinada às vésperas de partida contra o Chile.

Luiz Novaes / FolhaPress.

A dupla Sócrates e Casagrande. Eterna parceria.


Acervo pessoal de Juca Kfouri

Juca Kfouri tenta convencer Casagrande a falar com a imprensa durante a crise da seleção em 1985.

Gilberto R. dos Santos / Folhapress.


Acervo pessoal de José Carlos Ferrelli.

Flashes do casamento de Casagrande com Mônica, no sítio em Perus, em 28 de outubro de 1985: os noivos e o padrinho atrasado
e, pouco depois, Casão abraça o grande companheiro.
Bob Thomas / Getty Images.

No jogo contra a Argélia, na Copa de 1986, no México, Sócrates usa faixa com a mensagem “amor não terror”. De pé: Carlos,
Sócrates, Júlio César, Edinho, Édson, Branco e o roupeiro Ximbica. Agachados: o massagista Nocaute Jack, Casagrande, Júnior,
Elzo, Careca e Alemão.
Acervo pessoal de Roberto Sebastião Bueno.

Na caligrafia do Doutor, letra de canção de sua autoria, escrita em 1996 para o parceiro musical Bueno.

Acervo pessoal de Roberto Sebastião Bueno.


Sócrates entre os amigos músicos: Bueno, Carlinhos Vergueiro, Paulinho da Viola e Toquinho.

Acervo pessoal de Marcos Alves.

Outras facetas do Doutor: além de médico, jogador e compositor, Sócrates pintava quadros, com os quais presenteava os amigos,
desde que as obras permanecessem em sua casa.

Lucas Lacaz Ruiz / Agência O Globo.

Em outubro de 2006, em evento sobre a Democracia Corintiana, em São Paulo, Sócrates e Casagrande estiveram juntos, mas a
reconciliação não aconteceu.
Acervo pessoal.

Casagrande e os filhos Symon, Victor Hugo e Leonardo.

Acervo pessoal.

Fernando, possível filho de Sócrates.

Acervo pessoal.

Casagrande com seu pai, seu Walter; os filhos Victor Hugo, Leonardo e Symon; e o netinho, Henrique no colo do pai.
Acervo pessoal de Marcos Alves.
Acervo pessoal Kátia.
Jonas Tucci.

1. O quadro que Gilvan Ribeiro recebeu de presente do amigo Sócrates, com a condição de deixá-lo na casa do Doutor, um trato
que fez com que cada obra tivesse vários donos. 2. Kátia, a última esposa, que esteve ao lado do Doutor no fim da vida. 3.
Sócrates, que nunca deixou de beber, mesmo depois dos graves problemas de saúde, em Veneza, em 2010.

Léo Pinheiro / Fotoarena.

Na madrugada de 4 de dezembro de 2011, o mundo se despediu do ídolo Sócrates. Horas depois, na partida diante do arquirrival
Palmeiras que garantiu ao Corinthians o título do Campeonato Brasileiro, os jogadores do alvinegro homenageam o Doutor
fazendo seu característico gesto de erguer os punhos durante o minuto de silêncio.