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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE Comitê Editorial
FLUMINENSE DARCY RIBEIRO (UENF) Dr. Alcimar das Chagas Ribeiro (UENF) SUMÁRIO
Dr. Fábio da Costa Henry (UENF)
Dr. Jonas Alexandre (UENF)
Reitor Dra. Maria Clareth Gonçalves Reis (UENF) Contents
Dr. Silvério de Paiva Freitas Dr. Paulo Roberto Nagipe da Silva (UENF)
Dr. Renato Da Mata (UENF)
Vice Reitor Dr. Ronaldo Novelli (UENF)
Dr. Edson Corrêa da Silva Dr. Sérgio Arruda de Moura (UENF)
07 ED I TO R I A L
Pró-Reitor de Extensão Quadro de Avaliadores ED I TO R I A L
Dr. Paulo Roberto Nagipe da Silva Dr. Alcimar das Chagas Ribeiro (UENF)
Me. Erica Costantini Pacheco (UENF)
Ma. Fúlvia D`Alessandri (UENF) ARTIGOS
Editor Responsável
Dr. Alcimar das Chagas Ribeiro (UENF) Me. George André Rodrigues Maia (UENF) ARTICLES
Dra. Gudelia Guilhermina Morales de Arica (UENF)
Dr. Gustavo Smiderle (UENF) 11 Entendendo as Plantas da Família Orchidaceae: Conhecer para Preservar e
Lic. Lidia Larrubia (UENF) Produzir com Sustentabilidade
Dr. Manuel Antonio Molina Palma (UENF)
Understanding Plants of Orchidaceae´s Family: Knowing to Preserve and to Produce with Sustainability
Dr. Mauro Macedo Campos (UENF)
Dr. Milton Erthal (IFF) Virginia Silva Carvalho
Lic. Teresa Cristina Assed Estefan Gomes (UENF)
25 Produção da Vassoura Amiga da Natureza: um Projeto de Extensão Universitária,
Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável
Production Broom Friend of Nature: a Project of University Extension,
Solidarity Economy and Sustainable Development
Niraldo José Ponciano
Kássia Monteiro Silva
Filipe Siqueira Corrêa

41 GASTÃO MACHADO: Vida, Obra e Acervo


GASTÃO MACHADO: Life, Works and Collection
Lutiane Marques Silva
Frederico Schwerin Secco

UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense PROEX (Pró-Reitoria de Extensão) 51 Construindo Capital Social a Partir da Disseminação da História Local:
Darcy Ribeiro, PROEX - Pró-Reitoria de Extensão Uma Experiência no Âmbito da Escola em São João da Barra-RJ
Avenida Alberto Lamego, n. 2000
Revista de Extensão UENF / Pró-Reitoria de Extensão Parque Califónia - Campos dos Goytacazes, RJ Building social capital from the spread of local history: an experience at the school in São João da Barra-RJ
Universitária da Universidade Estadual do Norte CEP: 28013-602 Alcimar das Chagas Ribeiro
Fluminense Darcy Ribeiro. - v. 1, n. 1 (dez. 2014) Tel: (22) 2739-7007 Luciana Silva Boden
Campos dos Goytacazes, RJ. E-mail: extensaouenf@outlook.com
Francisco de Assis Dias Moreira
Periodicidade Quadrimestral Débora Soares Longue
ISSN 2359-1226 (versão eletrônica) Chrisson Monteiro Roza

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65 Se a Sua Velhice for Dependente – Quem Cuidará de Você?
If your old age is dependent - Who take care of you?
EDITORIAL
Carlos Eugênio Soares de Lemos
Luiz Cláudio Carvalho de Almeida Editorial
Cecília Souza Oliveira

79 Uma Nova Leitura do Espaço Urbano de Campos dos Goytacazes através


do Olhar da Criança: Contribuição Para Uma História Cultural Urbana
A New Reading of the Campos dos Goytacazes Urban Space through the Vision of the Child:
Contribution to a Urban Cultural History
Teresa P. Faria
Maria Alice Pohlmann

R EL ATO S D E E X P ER I Ê N C I A
E X P ER I EN C E R EP O R T

95 Introdução à Vida Acadêmica


Introduction to Academic Life
Eloiza Dias Neves

109 A Trajetória Recente dos Catadores de Recicláveis do lixão da CODIN em Campos É com imensa satisfação que apresento a Preciso considerar também a importância
dos Goytacazes – a luta pelo reconhecimento do direito ao trabalho
The recent trajectory of recyclable CODIN open dump Collectors in Campos dos Goytacazes –
Revista de Extensão da UENF, que acaba do apoio e colaboração dos servidores da
fighting for recognition of the right to work de nascer com esse primeiro número. De PROEX-UENF, assim como a dedicação da
Érica T. Vieira de Almeida natureza multidisciplinar, pretende ser um equipe técnica que, com muita responsabi-
instrumento de integração interna, além de lidade, foram essenciais na conclusão dessa
facilitadora da integração universidade - preciosa etapa.
empresa - governo. Mesmo correndo o risco Por fim, como editor da revista, quero deixar
de ser repetitivo, preciso reafirmar o papel meus sinceros agradecimentos aos autores
transformador da função “extensão univer- dos artigos publicados nessa edição. Espero
sitária”, o que justifica o presente esforço. que a jovem Revista de Extensão possa aten-
Sobre o árduo processo de construção, que- der as expectativas, além de manter viva a
ro acentuar o excelente nível de compro- confiança depositada por todos.
metimento dos componentes da Câmara de Desejo uma excelente leitura!
Extensão e Assuntos Comunitários, que não
mediram esforços para a materialização do Alcimar das Chagas Ribeiro
projeto, que já considero exitoso. Editor responsável

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Entendendo as Plantas da Família Orchidaceae:
Conhecer para Preservar e Produzir com
Sustentabilidade
*D.Sc. em Fitotecnia, Professora
Understanding plants of Orchidaceae´s Family: Knowing to Associada do Laboratório de
Preserve and to Produce with Sustainability Fitotecnia, do Centro de Ciências
e Tecnologias Agropecuárias, da
Universidade Estadual do Norte
Virginia Silva Carvalho* Fluminense Darcy Ribeiro.

Resumo Abstract
Para preservar e produzir com sustentabilidade é To preserve and to produce with sustainability
necessário que se conheça as plantas da família is necessary to know the plants belonging to the
Orchidaceae. Dessa forma, desde 2008, cursos vem family Orchidaceae. Thus, since 2008, courses have
sendo ministrados para orquidófilos, produtores been given to orchidophiles, producers and others
e demais interessados no cultivo de orquídeas. O interested in the cultivation of orchids. The objective
objetivo é conscientizá-los da importância da pre- is to make them aware of the importance of maintain
servação das plantas em seus habitats e da aquisição plants in their habitats and the acquisition of plants
apenas de plantas provenientes de orquidários from reputable commercial producers, avoiding
comerciais idôneos e evitar o comércio clandestino the clandestine traffic made by persons who collect
feito por mateiros. Esses cursos têm ainda o objetivo orchid in the field. These courses have the goal of
de capacitar os produtores nas técnicas de cultivo e empowering producers in cultivation techniques
na produção comercial. Mais de cinquenta cursos já and in commercial production. More than fifty
foram administrados neste período para um público courses have already been administered during
estimado em mais de mil pessoas nos estados do Rio this period to an audience estimated at more than a
de Janeiro e Espírito Santo. A produção de mudas de thousand people in the States of Rio de Janeiro and
orquídeas é feita obrigatoriamente in vitro. Assim Espírito Santo. The commercial production of orchid
sendo, outro objetivo foi desenvolver protocolos seedlings and plantlets is made obligatorily in vitro.
de redução de custos destas mudas. Um protocolo Therefore, another objective was to develop pro-
desenvolvido pelos bolsistas de extensão foi imple- tocols for reducing costs of these plants. A protocol
mentado na biofábrica do Viveiro Itamudas em Bom developed by scholars of extension was imple-
Jesus do Itabapoana. Este protocolo representou mented in the biofactory of Viveiro Itamudas in Bom
uma redução de dez vezes no custo do meio de Jesus do Itabapoana. This protocol represented a
cultura empregado na propagação seminífera in reduction of ten times the cost of the culture medium
vitro. used in vitro seed propagation.

Palavras-chave: educação ambiental; desenvolvi- Keywords: environmental education; sustainable


mento sustentável; floricultura; produção comercial development; floriculture; commercial production of
de orquídeas. orchids.

10 Entendendo as Plantas da Família Orchidaceae: Conhecer para Preservar e Produzir com Sustentabilidade 11
Introdução vo. Somente a partir do século XX devido à mercado interno e externo. Neste contexto, métodos de propagação das orquídeas de
redução das plantas nos seus habitats e ao as orquídeas estão entre as principais flores interesse, de modo a obter grande número
As orquídeas pertencem a uma das maio- aprimoramento dos métodos de propaga- de pote cultivadas e comercializadas no de plantas com qualidade em um menor
res famílias de plantas fanerógamas e se ção é que houve grande impulso no cultivo Brasil sendo que o sudeste concentra o período de tempo e que possam atender
distribuem praticamente por todo o globo comercial de orquídeas. Até então, pouco ou maior número de produtores e o maior con- não somente ao mercado consumidor ávido
terrestre embora a grande maioria das es- quase nada se sabia sobre os processos de sumo. Embora o estado de São Paulo seja o por novas plantas, mas também serem uti-
pécies se concentrem nas regiões tropicais. reprodução dessas plantas (Arditti, 1992). maior produtor nacional, há uma tendência lizadas no repovoamento de seus habitats
No Brasil, já foram descritas 2.350 espécies, Embora as orquídeas e bromélias tenham à descentralização da produção com a destruídos pela exploração indiscriminada
distribuídas em 203 gêneros (Menezes, contribuído para tornar o Brasil conhecido consolidação e o fortalecimento de pólos do homem.
1987). Devido à destruição dos habitats e ao internacionalmente por suas plantas exó- regionais e a maior diversificação do consu- Embora haja diversos laboratórios
extrativismo predatório, muitas espécies ticas, elas foram obtidas, quase sempre, do mo com introdução de espécies e cultivares comerciais de propagação seminífera e
devem ter desaparecido antes mesmo de extrativismo predatório das matas tropicais mais adaptadas às culturas regionais. O vegetativa de orquídeas no Brasil é ainda
serem descobertas. (Kämpf, 1997). Atualmente, há inúmeras fortalecimento do comércio interno e exter- incipiente a participação das instituições de
As plantas da família Orchidaceae são variedades extintas na natureza, restando no de produtos da floricultura brasileira é pesquisa neste setor. Há muito de orquidofi-
conhecidas há milhares de anos e são alguns exemplares nas mãos de poucos ou vital para a garantia de um grande número lia e pouco de orquidologia.
utilizadas na medicina, na alimentação, de apenas um colecionador (Gloeden, 1998). de empregos tanto no meio rural quanto As orquídeas são, sem dúvida, uma família
na indústria de cosméticos e como planta Ainda hoje, no Brasil, há a comercialização nas cidades e para a sobrevivência de inú- peculiar dentre as demais dos vegetais supe-
ornamental. Nas Américas, os maias e os ilegal dessas plantas. A evolução do cultivo meras propriedades e empresas agrícolas. riores. Talvez seja a única família de plantas
astecas já utilizavam a Vanilla planifolia que de orquídeas de uma elite de coleciona- Representa, dessa forma, uma alternativa onde pessoas, independente da formação
produz a baunilha, essência mundialmente dores que, até o século passado, montava altamente eficiente e eficaz para o desen- profissional, religiosa ou política, se reúnem
utilizada na indústria alimentícia e de cos- suas coleções utilizando apenas plantas volvimento econômico e social sustentável para discutir sobre as melhores formas de
méticos (Arditti, 1992). O uso mais comum retiradas da natureza, para uma produção e equânime entre as diversas macrorregiões cultivá-las, para mostrar aos demais amigos
das orquídeas é como planta ornamental. O comercial sustentável começou a ser reali- geográficas do País (Junqueira e Peetz, suas últimas aquisições, para expor o resul-
comércio de orquídeas tropicais iniciou-se dade há apenas alguns anos. Isso foi possível 2008). tado de alguns cruzamentos que levaram
no século XVIII na Europa e foi realizado até devido à escassez das plantas na natureza, Há uma grande demanda por produtos anos pra florescer pela primeira vez, enfim,
o século passado de maneira extrativista ao aumento no número de orquidários diferenciados tanto no mercado externo para compartilharem um fascínio inexplicá-
e sem nenhuma preocupação com a pre- comerciais, a maior conscientização ecoló- quanto no interno como novas cultivares e vel que a chamada rainha das flores exerce
servação dos habitats (Gloeden, 1998). Um gica da população e ao aprimoramento das híbridos de orquídeas. A qualidade das or- sobre os homens. Talvez essa paixão dos
número incalculável de plantas foi retirado técnicas de multiplicação. quídeas brasileiras e a grande demanda, en- orquidófilos se justifique pela beleza das
das florestas tropicais americanas e asiáti- A floricultura brasileira nos últimos anos tretanto, esbarram na baixa disponibilidade flores, pela forma curiosa de reprodução,
cas e as plantas foram levadas para a Europa vem passando por uma revisão de concei- de exemplares de determinadas orquídeas pelo fato de 70% das espécies serem epífitas
onde a grande maioria acabava morrendo tos e maior profissionalização, buscando e de alguns híbridos (Ribeiro, 2000). É de e, portanto, crescerem sobre outras plantas.
por desconhecimento das técnicas de culti- produtividade e qualidade para atender ao fundamental importância a otimização dos Independente do motivo, as orquídeas estão

12 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Entendendo as Plantas da Família Orchidaceae: Conhecer para Preservar e Produzir com Sustentabilidade 13
entre as principais flores produzidas no de produtos da floricultura com US$ 35,6 ves elétricas, o que também reduz significa- da preservação das plantas em seus habi-
Brasil e no mundo. A floricultura brasileira milhões, caindo para US$ 26,1 milhões em tivamente os custos. A substituição das salas tats e da aquisição apenas de plantas prove-
está em franca expansão. Em 2007 as expor- 2012 (Cardoso, 2013). Por outro lado, em de cultivo por casas de vegetação ajuda a nientes de orquidários comerciais idôneos,
tações de mudas de orquídeas cresceram 2012, a importação de produtos da flori- reduzir os custos de produção. evitando o comércio clandestino feito por
46,62% quando comparadas ao ano anterior cultura bateu o recorde de 40 milhões de Neste contexto, o presente trabalho obje- mateiros. Esses cursos têm ainda o objetivo
(Junqueira e Peetz, 2007). No Brasil, a pro- dólares, sendo US$ 13,0 milhões com mudas tivou difundir o atual nível de conhecimento de capacitar os produtores nas técnicas de
fissionalização e o dinamismo comercial da de plantas ornamentais. Desses 13 milhões, existente sobre o cultivo das plantas da cultivo e na produção comercial.
floricultura são recentes embora a atividade 8,8 milhões foram com mudas de orquídeas família Orchidaceae bem como desenvolver Outra linha de ação é o aprimoramento
já contabilize números bastante significa- oriundas principalmente da Ásia. Esses da- protocolos mais simplificados para a produ- das técnicas de propagação seminífera e
tivos. São mais de quatro mil produtores, dos refletem a alta demanda por mudas de ção em larga escala de mudas para atender vegetativa in vitro no Setor de Horticultura
cultivando uma área de aproximadamente orquídeas que não está sendo suprida pela aos produtores da região Norte e Noroeste (LFIT/CCTA). Estão sendo desenvolvidos e
seis mil hectares anualmente, em 304 muni- produção nacional. do estado do Rio de Janeiro. Além disso, não aperfeiçoados protocolos para a multipli-
cípios brasileiros em 12 pólos de produção. Cada vez mais se faz necessário o desen- é possível desenvolver alguma atividade cação seminífera in vitro de orquídeas de
Embora ainda fortemente concentrada no volvimento de métodos para a produção em agrícola que não seja compatível com a interesse, preferencialmente de espécies
Estado de São Paulo, particularmente nas larga escala de orquídeas visando atender preservação ambiental e o desenvolvimen- nativas da região Norte-Fluminense, vi-
regiões dos municípios de Atibaia e Holam- tanto o mercado externo quanto interno. A to sustentável. Assim sendo, é necessário sando ao aperfeiçoamento dos protocolos
bra, a floricultura brasileira evidencia fortes excelência em qualquer atividade humana impulsionar o desenvolvimento da floricul- atualmente empregados na biofábrica do
tendências de descentralização produtiva passa pela busca constante pelo conheci- tura na região norte e noroeste fluminense Viveiro Itamudas em Bom Jesus de Itabapo-
e comercial por várias regiões de todo o mento e pelo aprimoramento das técnicas sem, contudo, esquecer da importância ana.
País. Atualmente, assiste-se ao notável já existentes. Os métodos utilizados para o de reintroduzir plantas em ambientes de Os trabalhos envolvendo a simplificação
crescimento e consolidação de importan- semeio in vitro de orquídeas podem e devem conservação e da reconstituição de habitats do meio de cultura na propagação seminífe-
tes pólos florícolas no Rio Grande do Sul, ser o mais simplificado possível visando degradados pela ação indiscriminada do ra in vitro possuem três linhas básicas:
Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio de à redução dos custos de produção. Neste homem. - Utilização de diferentes formulações mi-
Janeiro, Goiás, Distrito Federal e na maioria contexto, a substituição de componentes nerais no meio de cultura para a germinação
dos estados do Norte e do Nordeste. O Rio de do meio de cultura por outros mais simples e para o desenvolvimento das mudas.
Janeiro importa cerca de 90% das flores que como, por exemplo, sacarose P.A. por açúcar Metodologia de Ação - Substituição do ágar como agente ge-
consome, sendo o segundo maior consumi- cristal, sais minerais P.A. por adubos comer- leificante do meio de cultura por diferentes
dor do Brasil, o que se traduz em um grande ciais solúveis, ágar por amido, simplificam Para preservar é preciso conhecer as concentrações de amido de milho e de man-
potencial de crescimento da floricultura no o preparo do meio de cultura e reduzem os plantas da família Orchidaceae. Assim dioca.
estado. custos de produção. Métodos alternativos sendo, desde 2008, estão sendo ministrados - Substituição da esterilização física
O Brasil vem acumulando reduções para desinfestação química do meio de cursos a orquidófilos, produtores e demais (autoclave) pela esterilização química, mais
gradativas nas exportações desde 2008, cultura podem substituir os métodos físicos interessados no cultivo de orquídeas com o simples e mais econômica.
quando atingiu seu auge na exportação usados atualmente como o uso de autocla- objetivo de conscientizá-los da importância Em 2014 foram iniciados os trabalhos de

14 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Entendendo as Plantas da Família Orchidaceae: Conhecer para Preservar e Produzir com Sustentabilidade 15
criopreservação de sementes de orquídeas quídeas em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Itabapoana. Vários experimentos envolven- simplificação do meio de cultura para a
para futura implementação de um banco de Espírito Santo. do o emprego de diferentes concentrações propagação seminífera in vitro consistiram
germoplasma de espécies ameaçadas de Em novembro de 2010 foi criada a AOVI – de sais minerais no meio de cultura, a subs- na utilização de diferentes meios de cultura.
extinção. Associação Orquidófila Vale do Itabapoana tituição do agar como agente solidificante Foram comparadas diferentes composições
em Rosal, terceiro distrito de Bom Jesus do do meio de cultura por diferentes tipos e de meio de cultura na produção de mudas:
Itabapoana-RJ. A AOVI é o primeiro passo concentrações de amido e a substituição da o meio MS completo com sacarose P.A., tra-
Resultados para uma futura cooperativa de produtores esterilização física (autoclave) pela esteri- dicionalmente utilizado nos cultivos in vitro
de orquídeas. O presidente da AOVI é o Sr. lização química já foram publicados. Essa (Murashige e Skoog, 1962), o adubo solúvel
Desde novembro de 2008 vem sendo mi- Evaldo Gonçalves Junior. Em 2011, 2012, 2013 etapa ainda não foi concluída e os novos B&G com açúcar cristal, o meio de cultura
nistrados cursos para orquidófilos e demais e 2014 ocorreram, respectivamente, a I, II, III protocolos estão sendo implementados na comercial para orquídeas B&G e o meio de
interessados no cultivo de orquídeas. e IV Mostra de Orquídeas da AOVI em Rosal. biofábrica pelos bolsistas de extensão. Na cultura comercial para orquídea importado
O público-alvo dos mini-cursos são os or- As mudas produzidas na biofábrica do Viveiro fase inicial de implantação da biofábrica e utilizado especificamente na germinação
quidófilos e demais interessados no cultivo Itamudas estão sendo distribuídas aos produ- foram utilizados os protocolos já estabele- e no desenvolvimento de mudas de orquí-
de orquídeas. Essas pessoas, muitas vezes tores associados da região Norte e Noroeste cidos para a propagação seminífera in vitro. deas. Em todos esses meios há a adição de
por falta de informação ou de outras alter- do estado do Rio de Janeiro onde está sendo Os novos protocolos envolvendo a definição carvão ativado que é fundamental na etapa
nativas mais atraentes, coletam orquídeas feito o cultivo até a comercialização. do meio de cultura já foram adotados em de desenvolvimento dos protocórmios in
na natureza ou compram de mateiros. O Em dezembro de 2012 e 2013 ocorreram, larga escala pela biofábrica, mas novas vitro, conforme foi comprovado em experi-
que é feito durante os cursos é um trabalho respectivamente, a I e II Exposição de Orquí- pesquisas, envolvendo a substituição do mentos anteriores. Já em 2012 os trabalhos
de educação e de conscientização sobre a deas da AOVI em Bom Jesus do Itabapoana. ágar como agente geleificante e a mudança envolvendo a simplificação do meio de
importância de adquirir as plantas de orqui- Em setembro de 2013 e 2014 ocorreram a I da esterilização física para a esterilização cultura para a propagação seminífera in
dários comerciais idôneos demonstrando e II Mostra de Orquídeas de Itaperuna organi- química, ainda se fazem necessárias antes vitro consistiram em novos experimentos
a qualidade genética e fitossanitária das zada pelo viveiro Itamudas em parceria com de serem utilizadas pela biofábrica. Estas envolvendo a substituição total ou parcial
plantas melhoradas comparadas às extra- a Prefeitura Municipal. pesquisas envolvendo a simplificação do do ágar por amido de milho ou de mandioca
ídas da natureza. Dessa forma, valoriza-se As reuniões da Orquidecampos, Associa- meio de cultura estão sendo conduzidas no como agente geleificante e, em 2013 o foco
o produtor e o melhorista, toda a cadeia da ção Orquidófila de Campos, acontecem na Setor de Horticultura LFIT/CCTA/UENF. As foi o estabelecimento de um protocolo para
floricultura é beneficiada e a natureza é UENF desde 2012. plantas produzidas na biofábrica, depois de esterilização química do meio de cultura
preservada. Além dos cursos, esse trabalho Desde 2008, estão sendo desenvolvidos devidamente aclimatizadas, estão sendo utilizando carvão ativado. Essa etapa ainda
de conscientização é também realizado du- e aperfeiçoados protocolos para a multi- distribuídas aos produtores associados se encontra em andamento e deverá ser
rante as reuniões mensais da Orquidecam- plicação seminífera in vitro de orquídeas de da AOVI (Associação Orquidófila Vale do concluída em 2014.
pos (Associação Orquidófila de Campos) e interesse, preferencialmente de espécies na- Itabapoana) que farão o cultivo até a co- Ainda em 2011, um novo protocolo desen-
bimestrais da AOVI (Associação Orquidófila tivas da região Norte e Noroeste Fluminense, mercialização. Desde 2011 essas vem sendo volvido e testado pelos integrantes deste
Vale do Itabapoana), bem como nas visitas visando à produção em grande escala na bio- entregues aos produtores. projeto foi adotado na biofábrica do Viveiro
a diversas exposições e produtores de or- fábrica do Viveiro Itamudas em Bom Jesus de Em 2011, os trabalhos envolvendo a Itamudas: substituição do meio de cultura

16 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Entendendo as Plantas da Família Orchidaceae: Conhecer para Preservar e Produzir com Sustentabilidade 17
importado por meio de cultura nacional Conclusões CARDOSO J.C. 2013. Melhoramento de
espécies ornamentais como estratégia para o
Figura 01: Curso ministrado
com uma redução de dez vezes no custo do no IFES de Alegre-ES em
desenvolvimento e autossuficiência do setor. setembro de 2014
meio de cultura. - Difusão tecnológica: cursos sobre o Horticultura Brasileira 31(1): 171-171.
Em fevereiro de 2014, foi defendida a pri- cultivo de orquídeas vêm sendo ministrados
meira dissertação envolvendo o emprego GLOEDEN, H. 1998. A jóia da bruxa e outras
regularmente a orquidófilos, produtores e histórias de orquídeas e orquidófilos.
de casas de vegetação em substituição às demais interessados em orquídeas. São Paulo, Ativa. 170p.
salas de cultivo com grande redução nos - Desenvolvimento tecnológico: estão
custos de produção e sem prejuízo para o JUNQUEIRA, A. H.; Peetz, M. S. 2007. Exportações
sendo desenvolvidos protocolos para a de flores e plantas ornamentais superam US$ 35
crescimento das plântulas de orquídeas. propagação e conservação in vitro de orquí- milhões em 2007. Análise conjuntural da evolução
A dissertação foi defendida no dia 03 de deas. das exportações de flores e plantas ornamentais do
fevereiro de 2014 pela estudante Luciene - A AOVI já consolidada movimenta-se no
Brasil janeiro a dezembro de 2007.
(http://www.ibraflor.org/userfiles/file/Balana%20
Souza Ferreira (voluntária deste projeto). sentido de criar uma cooperativa. Comercial%20Floricultura%202007.pdf consultado
O título foi: Cultivo in vitro de orquídeas em - Médio prazo: multiplicação de espécies em 15 de dezembro de 2008). Figura 02: Reunião mensal da
Orquidecampos na UENF em
dois ambientes (sala de crescimento e casa em risco de extinção para serem reintrodu- Campos dos Goytacazes-RJ
de vegetação): crescimento e capacidade JUNQUEIRA, A. H.; Peetz, M. S. 2008. Mercado
zidas em áreas de preservação. Criação de em setembro de 2014.
interno para os produtos da floricultura brasileira:
fotossintética. um banco de germoplasma de espécies de características, tendências e importância
Os resultados das pesquisas envolvendo a orquídeas brasileiras ameaçadas de extin- socioeconômica recente. Revista Brasileira de
propagação seminífera in vitro de orquídeas Horticultura Ornamental. 14(1): 37-52.
ção.
estão sendo divulgados em congressos e KÄMPF, A. N. 1997. A floricultura brasileira em
revistas da área. números. Revista Brasileira de Horticultura
Em 2014 foi iniciada a etapa de criopre- Agradecimentos Ornamental, 3(1):1-7.
servação de sementes de orquídeas para
MENEZES, L.C. 1987. Cattleya labiata Lindley.
futura implementação de um banco de À FAPERJ pelo apoio financeiro; ao Viveiro Orquídeas brasileiras. 1.ed. Rio de Janeiro,
germoplasma de espécies ameaçadas de Itamudas; ao Sr. Evaldo Gonçalves Júnior; à Expressão e Cultura. 112p.
extinção. Associação Orquidófila de Campos (Orqui- MURASHIGE, T.; Skoog, F. 1962. A revised médium
Nos seis anos deste projeto foram minis- decampos) e à Associação Orquidófila Vale for rapid growth and bioassays with tobacco tissue
trados mais de 50 cursos de extensão com do Itabapoana (AOVI); a toda equipe envol- cultures. Physiology Plantarum, 15:473-497.
um público estimado de mais de mil pessoas vida neste projeto.
RIBEIRO, R. 2000. Exportação: uma boa opção
(Figura 1 e 2). Os bolsistas de extensão parti- para produtores brasileiros. Revista O Mundo das
cipam ativamente de todo o processo como Orquídeas 3(10):40-41.
monitores dos minicursos, no desenvolvi- Referências
mento das pesquisas e na transferência das ARDITTI, J. 1992. Fundamentals of orchids biology.
novas tecnologias. 1.ed. New York, John Wiley & Sons, Inc. 691p.

18 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Entendendo as Plantas da Família Orchidaceae: Conhecer para Preservar e Produzir com Sustentabilidade 19
Tabela 01: Cursos de extensão ministrados (2008-2014)

20 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Entendendo as Plantas da Família Orchidaceae: Conhecer para Preservar e Produzir com Sustentabilidade 21
22 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 23
*Doutorado Economia Rural;
Professor da Universidade
Produção da Vassoura Amiga da Natureza: Estadual do Norte Fluminense
Darcy Ribeiro (UENF), Campos - RJ.
um Projeto de Extensão Universitária, Economia njponciano@gmail.com

Solidária e Desenvolvimento Sustentável **Graduada em Turismo; Bolsista


Universidade Aberta da UENF,
Campos dos Goytacazes RJ.
kassiamonteiro@uol.com.br
Production Broom Friend of Nature: a Project of University
Extension, Solidarity Economy and Sustainable Development ***Estudante de Agronomia e
bosista da UENF, Campos dos
Goytacazes RJ.
Niraldo José Ponciano*, Kássia Monteiro Silva**, Filipe Siqueira Corrêa*** filipesiquera@hotmail.com

Resumo Abstract
O presente artigo tem por objetivo descrever e ana- This paper aims to describe and analyze the partial
lisar os resultados parciais do projeto de extensão results of university extension in question. His line
universitária em questão. Sua linha de extensão, extension, employment and income, covers the
emprego e renda, abrange a promoção de um tra- promotion of alternative employment and income
balho e renda alternativos para empreendedores for informal entrepreneurs through coordinated
informais por meio de ações cooperadas/associadas actions / associated cultivation handmade brooms
do cultivo e fabricação artesanal de vassouras and sorghum (Sorghum bicolor (L.) Moench) in
de sorgo (Sorghum Bicolor (L.) Moench) em áreas urban areas. The project is capable of promoting the
urbanas. O projeto é capaz de promover o desenvol- sustainable development of economic activity and
vimento sustentável de uma atividade econômica e influence awareness by use of best practices for the
influenciar a conscientização pelo uso das melhores environment through environmental education and
práticas para o meio ambiente por meio da educação solidarity economy introduced in workshops using
ambiental e economia solidária introduzidas em participatory methodologies. Study and cultivation
oficinas que utilizam metodologias participativas. techniques for selecting sorghum broom in small
Estudar e selecionar técnicas de cultivo para o urban areas. Demonstration workshops were ini-
sorgo-vassoura em pequenas áreas urbanas foi um tiated in Educandário São José Operário, enabling
dos objetivos almejados. Oficinas de fabricação da ascertain and analyze the results of selected
vassoura no Educandário São José Operário permitiu methodologies , and understand the importance of
averiguar e analisar os resultados das metodologias university extension and the principles of sustainable
selecionadas, além de entender a importância da development as a result indicator.
extensão universitária e os princípios do desenvolvi-
mento sustentável como indicador de resultado.

Palavras-chave: Sorghum Bicolor (L.); complemen- Keywords: Sorghum bicolor (L.); supplementary
tação de renda; extensão universitária; desenvolvi- income; university extension; sustainable devel-
mento sustentável. opment.

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Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável
Introdução ser resumidos por meio de quatro aspectos das melhores práticas que contribuam para Diante de tais desafios, percebe-se a im-
passíveis de serem verificados: aumento da o meio ambiente por meio da educação portância da presença da comunidade aca-
O uso de vassouras artesanais fabricadas renda média mensal por família beneficiá- ambiental e interação social; introduzir e dêmica, por meio da extensão universitária,
a partir de plantas nativas ou cultivadas con- ria, capacidade de organização do trabalho avaliar técnicas de aprendizagem para as de maneira a contribuir em tais processos
siste numa prática que remete ao período coletivo, desenvolvimento pessoal e coleti- temáticas de educação ambiental e econo- com a transferência e compartilhamento de
anterior ao primeiro êxodo rural no Brasil. vo, e por fim, consciência ambiental. mia solidária por meio de metodologias par- conhecimentos, além dos conhecimentos
Nos últimos anos, a fabricação artesanal O projeto iniciou as oficinas com alunos ticipativas; e por fim, estudar e selecionar que serão adquiridos ao se aproximar da
de vassouras de fibras vegetais é utilizada que possuem mobilidade reduzida (defi- técnicas de cultivo para o sorgo-vassoura realidade destes tecidos sociais. O trabalho
como meio de complementação de renda ciência visual) do Educandário São José em pequenas áreas urbanas, de maneira a objetiva-se descrever e analisar os resulta-
do pequeno produtor rural, sendo até mes- Operário em setembro de 2012. Pode-se maximizar a produção. dos parciais do projeto de extensão univer-
mo, principal renda de algumas pequenas dizer que o projeto consiste também numa Vale ressaltar que acredita-se nos benefí- sitária.
propriedades no interior do estado de São ação capaz de elevar a auto-estima desses cios que o cultivo e fabricação da vassoura
Paulo e Minas Gerais. alunos, tendo em vista os alunos sentirem possam trazer para moradores de baixa ren-
As experiências de cultivo e fabricação da capazes de trabalhar com algo que possui da do município de Campos dos Goytacazes, Metodologia de Ação
vassoura até então divulgadas foram pro- diversas dificuldades para manuseio, mas como a promoção de uma paisagem verde e
tagonizadas por pequenos agricultores. No que tais obstáculos podem ser vencidos dia favorecer o vínculo e/ou identificação com O projeto está baseado em ações vincu-
entanto, acredita-se na potencialidade do a dia. o lugar de morada. Os resultados esperados ladas aos princípios do desenvolvimento
cultivo na zona urbana, como é o objetivo do Sendo assim, o objetivo geral do projeto é são a conservação e preservação dos espa- sustentável. O conceito clássico sobre de-
projeto de extensão universitária “Produção o cultivo e fabricação da vassoura de sorgo ços urbanos, além da construção de laços senvolvimento sustentável foi elaborado a
da vassoura amiga da natureza: Projeto de como renda complementar. Introduzir e comunitários em prol de um bem comum. partir da Wold Commission on Environment
economia solidária e educação ambiental averiguar metodologias participativas que Outra justificativa se deve ao apelo ecoló- and development (WCED) no relatório
para os moradores de baixa renda do muni- favorecem o desenvolvimento pessoal por gico do produto, sua viabilidade comercial de Brundtlad que afirma que “o desen-
cípio de Campos dos Goytacazes” iniciado meio da educação, conscientização e valo- e a utilidade como instrumento para se tra- volvimento sustentável é o que atende às
em 2012. Ou seja, o objetivo é introduzir a rização das melhores práticas que contribu- balhar os princípios de uma nova economia necessidades das gerações presentes sem
cultura e fabricação do sorgo-vassoura na am para o meio ambiente e convívio social/ que possa motivar uma nova organização comprometer a possibilidade das gera-
zona urbana, direcionado para famílias de comunitário. Vale lembrar que as metodolo- do trabalho, além de motivar melhores prá- ções futuras em atenderem suas próprias
baixa renda. gias participativas conferem autonomia aos ticas ambientais. necessidades (WCED, 1987)”. A idéia de
Como se trata de uma iniciativa que visa beneficiários do projeto, sendo considerado, O projeto possui os principais requisitos um desenvolvimento comprometido em
o desenvolvimento sustentável de uma portanto, eficiente os planos de ações do para favorecer a construção dos valores buscar formas de se relacionar com o meio
atividade econômica, o projeto prevê mesmo por estarem baseados nos princípios aqui defendidos que permitirão atingir os ambiente de maneira a garantir a continui-
impactos positivos em suas dimensões pro- do desenvolvimento sustentável. objetivos aqui traçados, como o de desen- dade de ambos cunhou o termo sustentável.
dutivas, ambientais e sociais. Isso significa a Os objetivos específicos consistem em volvimento sustentável de uma produção e Segundo Bellen, ter consciência da “relação
obtenção de alguns resultados que podem promover a conscientização e a valorização o convívio sustentável com o meio ambiente. entre desenvolvimento e meio ambiente é

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Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável
considerada hoje um ponto central na com- práticas ambientais (DIAS, 2010). Diante Impactos desejados intangíveis Universidade Estadual do Norte Fluminense
preensão dos problemas ecológicos” (2006, disto, espera-se resultados dentro de uma Darcy Ribeiro – UENF. Para entender o papel
p. 22). Tal compreensão tem influenciado o perspectiva sustentável, sendo possível, • Os resultados intangíveis estão dentro da universidade diante dos problemas so-
ritmo e forma do homem lidar com os recur- portanto, prever alguns impactos desejáveis da dimensão social, de caráter subjetivo. ciais da sua região, pode ser citado um con-
sos utilizados no seu desenvolvimento não dentro dos indicadores mencionados: Sendo assim, é esperado por parte dos bene- ceito construído no Fórum de Pró-Reitores
só econômico, mas também social, ambien- ficiários o desenvolvimento de habilidades de Extensão em 1987:
tal, geográfica e cultural (BELLEN, 2006). como os de liderança, diálogo e decisões
Para garantir que o plano de ação do pro- Impactos desejados tangíveis coletivas (DEMO, 1993). Poderão tomar
“A Extensão Universitária é o processo educa-
tivo, cultural e científico que articula o Ensino
jeto não distancie das premissas do desen- decisões voltadas para a organização do e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza
volvimento sustentável, foram selecionados • Um dos principais resultados esperados trabalho e produção dentro dos princípios a relação transformadora entre Universidade
alguns indicadores de resultados, que são está relacionado à dimensão e indicador de desenvolvimento sustentável. e Sociedade. A Extensão é uma via de mão-
entendidos aqui como indicadores de sus- produtivo relacionado no projeto, que é a • A capacidade de refletir sobre a sua -dupla, com trânsito assegurado à comunidade
tentabilidade do projeto. Esses indicadores obtenção de uma renda complementar. acadêmica, que encontrará, na sociedade, a
condição socioeconômica, os motivos do
oportunidade de elaboração da práxis de um
conferem qualificação e quantificação dos • Ainda dentro da dimensão produtiva, mesmo e de quais mecanismos lançar mão conhecimento acadêmico (...)”
impactos do projeto de maneira que sua as ações realizadas de iniciativa do grupo para mudá-la (NUNES, 2002). (NUNES, 2009, p.103)
“significância fique mais aparente”. Eles beneficiário também são passíveis de serem • Auto estima, identidade de grupo e de
favorecem a avaliação dos desdobramentos medidas e registradas, sendo, portanto, papel na sociedade, favorecendo a sua visi- Sendo assim, tais iniciativas podem ser
do projeto voltado para o desenvolvimento esperado a atuação dos mesmos na divul- bilidade e reconhecimento na mesma; entendidas como um mecanismo no qual
sustentável. Esta consiste numa forma de gação do produto, presença em feiras de • Aquisição de habilidades subjetivas a faculdade poderá compartilhar os seus
averiguar e medir os resultados do projeto, economia solidária, dentre outros. como a capacidade de trabalhar em grupo conhecimentos com a comunidade local,
permitindo aos coordenadores e parceiros, • Já na dimensão social, os comporta- e em parceria, de respeitar as diferenças, se aproximar da realidade e exercer a busca
uma forma de adaptar e flexibilizar as meto- mentos entendidos como de cooperação, de se comunicar com diferentes públicos e por soluções e melhorias para a mesma.
dologias adotadas (BELLEN, 2006, p. 42). associativismo, engajamento e comprome- defender idéias;
Sendo assim, a verificação dos dados timento são esperados dos beneficiários • Dentro da dimensão ambiental, espera-
e resultados estará apoiada em alguns do projeto e poderão ser medidos por meio -se o desenvolvimento de uma consciência Metodologia de atuação
indicadores de sustentabilidade, que são: da divisão e devida execução dos trabalhos ambiental, que será passada de geração nas oficinas
dimensão social - nível de participação decididos coletivamente, aspecto inerente a para geração, no qual serão possíveis
social e autogestão (leia-se economia participação social (DEMO, 1993). melhores práticas coletivas para amenizar É oportuno dizer que as oficinas possuem
solidária); dimensão produtiva – aumento o impacto ao meio ambiente, como evitar um papel fundamental na organização do
da renda média mensal; e, indicadores de jogar lixo e depredar a região no entorno da trabalho, condição primordial que irá ga-
educação ambiental - dimensão ambiental comunidade. rantir uma produção eficiente da vassoura
- que será medida por meio do engajamento Vale lembrar que o projeto é fruto da de maneira a conferir renda complementar
dos beneficiários nas ações para melhores Extensão Universitária promovida pela aos beneficiários. Diante disto, vale ressal-

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Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável
tar que as oficinas prevêem mecanismos em cinco etapas: A calagem a área a ser ha-1, E=200kg.ha-1).
capazes de desenvolver o trabalho coletivo, plantada, se o solo assim requerer; aduba- Foi utilizado o delineamento experi-
no qual será “promovido a auto conscienti- ção e cobertura (30 dias após germinação); mental em blocos casualizados com seis
zação dos beneficiários sobre a importância limpeza de ervas daninhas (durante os pri- tratamentos e três repetições. Cada bloco
deste tipo de trabalho e sua condição meiros 40 a 50 dias da lavoura); amontoa e foi constituída com 20 linhas de cada linha-
socioeconômica”, ou seja, nos moldes de dobra dos pendões; e por fim, colheita, seca- gem de sorgo, com espaçamento de 0.08m,
Paulo Freire e da pedagogia da participação gem (figura 02, foto 06), despalha (Figura 02, perfazendo uma área total de 3000m2.
(NUNES, 2002). foto 07) e debulhagem das sementes ( Figura Cada nível de N foi repetida em três linhas de
A estratégia de atuação selecionada 02, foto 08). cada bloco, totalizando 18 linhas com os seis
para as oficinas consiste na decisão de usar Como se trata de uma lavoura cultivada níveis crescentes de N em cada linhagem.
metodologias participativas para introduzir sem muitas exigências quanto ao manejo, o Para analisar o cultivo em questão, foram
Figura 01: Etapas da confecção da vassoura de sorgo:
todos os assuntos pertinentes a esse tema. Foto 01: Seleção e primeira costura dos pendões;
projeto tem como meta buscar o aumento coletadas amostragens de cada linhagem.
Serão momentos interativos por meio de Foto 02: “Enforcamento das panículas; da sua produtividade em lavouras com áre- Como unidades experimentais, foram
dinâmicas, sendo executados exercícios Foto 03: Formação do “pescoço”; utilizadas ao todo 540 plantas, sendo 10
as reduzidas. O cultivo de verão serviu a esse
Foto 04: Segunda costura da vassoura;
de atuação conjunta para as decisões e em Foto 05: Vassoura pronta. propósito. plantas coletadas em 1m linear em cada
grupos de execução dos trabalhos a serem O cultivo de inverno, plantada em abril linha nos respectivos blocos das linhagens
Fonte: Imagens das oficinas no
realizados para a produção da vassoura EducandárioSão José Operário, 2012. de 2012, utilizou espaçamento entre linhas em estudo, a L1-Vermelha, L2-Amarela e L3-
artesanal (NUNES, 2002; SANTOS, 2005). menor do que o usual, entre 70 a 80 cm. Não -Roxa. O objetivo foi avaliar a produtividade
As oficinas de capacitação possuem O apelo ecológico do produto, sua viabili- foi realizado calagem nesta área de cultivo. e o desenvolvimento/comprimento do sorgo
como meta o aprendizado do cultivo e con- dade e a utilidade como instrumento para se Foi possível analisar o desenvolvimento de em função das diferentes dosagens de nitro-
fecção da vassoura, além de desenvolver trabalhar os princípios de uma nova econo- cada linhagem do sorgo. gênio na adubação por cobertura.
habilidades para continuidade do projeto mia que possa motivar uma nova organiza- Para o cultivo de verão do sorgo, a se- As medições realizadas nas unidades
norteadas pelos princípios da economia ção do trabalho, além de motivar melhores meadura de 1.5kg de sementes de cada experimentais foram para averiguar a altura
solidária. A economia solidária pode ser práticas ambientais, foram decisivos para linhagem (figura 03, foto 11) foi efetuada na das plantas, peso das sementes, compri-
entendida como uma metodologia de vislumbrar que se trata de uma idéia que primeira semana de novembro/12, sendo o mento da ráquis e terceira haste secundária.
capacitação para uma nova organização deve ser multiplicada. preparo do solo e adubação (NPK 04,14,08) Vale lembrar que o comprimento da ráquis
produtiva coletiva (SILVA, 2009). O método realizada conforme a mesma metodologia (haste rígida ou pedúnculo) e terceira
de confecção da vassoura de sorgo pode do plantio executado no cultivo de inverno. haste secundária (uma das ramificações
ser resumida em cinco passos conforme Método de cultivo do sorgo: No entanto, a adubação por cobertura foi resistentes que dão suporte às sementes) da
ilustrado pela Figura 01. Por se tratar de realizada com dosagens diferentes de nitro- panícula são importantes para a confecção
um produto agro ecológico, estão previstas O sorgo vassoura possui ciclo rápido, com gênio, na forma de ureia (46% N), sendo seis de vassouras de qualidade (FARATO et al,
oficinas de educação ambiental, seguindo colheita de 90 a 100 dias após a sua germina- níveis crescentes de N (0=0kg.ha-1, A=40kg. 2011). Maior comprimento de ambos favore-
metodologias interativas e dinâmicas. ção. O manejo do cultivo pode ser resumido ha-1, B=80kg.ha-1, C=120kg.ha-1, D=160kg. ce a obtenção de uma vassoura ideal. O peso

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Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável
das sementes foi medido porque quanto com menores alturas diminui o trabalho de de ambos favorece a obtenção de uma Figura 03: Características
mais sementes produzirem as panículas, amontoa e a perda/deterioração de panícu- vassoura ideal, sendo averiguado que as relevantes no processo de
produção:
significa que houve maior desenvolvimento las, no qual busca-se apoiar a base da planta linhagens denominadas de L1-vermelha,
Foto 10: Cultivo de sorgo na
de ramificações da haste secundária, o que para que ela não tombe com os ventos tão vindas do Rio Grande do Sul e L2-amarela, área experimental da UENF;
irá favorecer numa economia de panículas comuns no município. vinda de São Paulo possuem tais requisitos Foto 11: Comparação de três
linhagens: L1 (vermelha), L2
na fabricação da vassoura. Pois, com um (Figura 03, foto 11). Já a linhagem L3-roxa (amarela) e L3 (roxa);
número menor de panículas a vassoura (Figura 03, foto 11), também de São Paulo, Foto 12: Mosaico necrótico;
já irá atingir o volume necessário. Conse- Resultados e Discussão apresenta ráquis pequena que prejudica a
Foto 13: Panícula danificada
por manchas bronzeadas;
quentemente, observou-se que, quanto confecção de uma vassoura ideal. Quanto à Foto 14: Vassoura de sorgo
mais volumoso e ou mais ramos tem essa O cultivo do sorgo vassoura produtividade das linhagens, a L1-vermelha utilizada entre Fev-Jul/2013;
Foto 15: Novo modelo de
haste secundária, maior é o diâmetro da apresentou maior volume de panículas e respondeu de forma positiva às diferentes vassoura resultado de método
ráquis, contribuindo para uma economia Nos 24 meses de atuação do projeto, fo- sementes sadias. dosagens de N. As médias dos valores obti- desenvolvido para confecção.
do número de panículas necessárias para a ram cultivados a safrinha do sorgo vassoura Foram identificadas algumas doenças dos na medição das plantas que receberam Fonte: fotos própriasdo projeto.
fabricação de uma vassoura. com 1450m² (Figura 03, foto 10), distribuídas típicas de cultivo do sorgo (Figura 03, fotos os respectivos tratamentos em questão de-
Como um dos objetivos é a instalação de em três linhagens (Figura 03, foto 11). Prio- 12,13), que se considera terem diminuído monstraram que, para alguns parâmetros,
culturas de sorgo em áreas menores que rizar o plantio serviu ao propósito de obter sua produtividade. Julgou-se necessário o o incremento da adubação por cobertura
1ha, maximizar a produção e também obter pendões para as oficinas de demonstração manejo fitossanitário das sementes com 10g com uma dosagem maior de nitrogênio al-
plantas com menores alturas consiste num e obtenção de melhor conhecimento da de cepta por quilo de semente plantada na cança êxito apenas até certo nível. Sendo
fator importante que favorecerá obtenção dinâmica do cultivo da safrinha de sorgo no cultura de verão. a exceção o parâmetro referente à altura
de panículas ideais para a fabricação da município. Com as panículas colhidas na úl- O cultivo de verão foi colhido no mês de das plantas, pois, vale lembrar, selecionar
vassoura, além de diminuir o trabalho de tima semana de agosto/2012 foram confec- março de 2013 e os dados e informações ge- plantas com menores alturas em função de
manejo do cultivo. Vale lembrar que, plantas cionadas cerca de 110 vassouras e obtidas rados foram processados. Nas amostragens sua resposta aos tratamentos consiste no
sementes para as oficinas com os alunos do colhidas foram avaliadas as características objetivo proposto pelo projeto.
Figura 02: Etapas de preparo Educandário. morfológicas e produtividade de cada li- Diante da produtividade e desenvolvi-
pós colheita do sorgo antes da
confecção das vassouras: Foi possível obter conclusões parciais nhagem em função das diferentes dosagens mento obtido em função do incremento
Foto 06: Secagem do sorgo; sobre o desempenho da produção das três de nitrogênio realizadas na adubação de nutricional do cultivo por meio das dosa-
Foto 07: Despalha da panícula;
linhagens de sorgo. O comprimento da cobertura, bem como o grau de desenvol- gens crescentes de N, coube selecionar a
Foto 08: Debulhagem das
sementes com aspadeira ráquis (haste rígida ou pedúnculo) e haste vimento/comprimento das panículas em dosagem de N que na totalidade respondeu
de burro. secundária (ramificações resistentes que comparação ao cultivo de inverno/safrinha de forma eficiente junto aos parâmetros
Fonte: Imagens feitas na dão suporte às sementes) da panícula são do sorgo. estudados. Como as unidades experimen-
Universidade e nas oficinas importantes para a confecção de vassouras Resumidamente, pois não se trata do tais responderam de forma significativa
realizadas de extensão, 2012.
de qualidade (FARATO et al, 2011). objetivo do presente artigo, pode-se dizer nos primeiros níveis de N, havendo até um
Constatou-se que o maior comprimento que cada linhagem do sorgo estudado decréscimo das médias após estes níveis, a

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Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável
Figura 04: Resultado do da vassoura seguiram a metodologia inicial realidade na qual estavam vivenciando e
incremento nutricional do apresentada na primeira figura, sendo, a pensar em soluções para resolver as limita-
cultivo por meio das dosagens
crescentes de Nitrogênio (N).
cada oficina, observadas as dificuldades e ções e entraves que impediam o projeto de
facilidades enfrentadas pelos alunos em avançar nos seus objetivos. Vale ressaltar
Fonte: Dados de experimento cada etapa de confecção. O fato de não que a troca de conhecimento, comunidade
para avaliar nutrição mineral
do sorgo vassoura, em 2013. possuírem a visão não consistiu numa difi- e universidade, permitiu aos bolsistas enten-
culdade que os impossibilitasse de partici- der os processos de levantamentos de dados
par das oficinas, ao contrário, a curiosidade - ou diagnóstico - e as maneiras de solucio-
e vontade de vencer tal obstáculo eram os nar problemas encontrados no projeto.
principais motivadores.
As oficinas consistiram numa grande Figura 05: Oficinas de
oportunidade de aprendizado no que se produção de vassouras com
alunos do Educandário
refere a metodologias de ensino, ou seja, em
São José Operário.
entender e aprimorar a melhor maneira de
ensinar as etapas de fabricação da vassoura. Fonte: fotos próprias do
projeto, em 2013.
Cada limitação percebida gerou novos mé-
todos de ensinar a confecção da vassoura.
Os alunos também contribuíram com as
oficinas por meio de idéias e maneiras de
confecção que melhor pudessem lhes aten-
der. Tal iniciativa consistiu em um dos resul-
escolha pelo tratamento B, com 80kg.ha-1 durabilidade acima do esperado (Figura 03, tados, tangíveis e intangíveis, esperados nos As limitações do próprio projeto exigiram
de N, atende a todos os quesitos, ou seja, foto 14). indicadores de sustentabilidade por meio da dos bolsistas o uso da criatividade para so-
maior desenvolvimento/produtividade e dimensão social. lucionar problemas e vencer obstáculos, de
menor altura das plantas de sorgo (Figura A partir das sugestões dos próprios alunos maneira a inovarem na elaboração de novas
04). Portanto, selecionar esse método de As oficinas de confecção e observações de cada etapa de fabricação tecnologias para a confecção da vassoura e
cultivo para o sorgo-vassoura foi um dos da vassoura da vassoura, foram realizados reuniões para metodologias de ensino.
objetivos almejados. que fossem pensados e testados maneiras Tais “processos educativo, cultural e
Por fim, vale ressaltar que testes informais As oficinas iniciadas em 12 de setembro de confecção da vassoura que pudessem fa- científico” (NUNES, op.cit.) demonstram a
sobre o uso e durabilidade da vassoura de de 2012 (Figura 05), contavam, em média, cilitar o manuseio dos alunos. Pode-se dizer importância da extensão universitária, ou
sorgo também foram iniciadas. O objetivo com a presença de 10 alunos adultos que que este foi um momento de reflexão e cria- seja, das oportunidades geradas por meio
foi medir o potencial do produto no seu uso possuem mobilidade reduzida (deficiência tividade de grande importância no projeto, de projetos de aprendizado/ensino promo-
cotidiano, sendo satisfatória a varrição, com visual). A princípio, as oficinas de confecção pois, permitiu aos bolsistas entenderem a vido pela mesma, pois contribuem para o

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Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável
exercício da teoria e elaboração de novos suas famílias, quando da introdução das vassoura. Este fato se deve à necessidade de organização e promoção das comunidades
conhecimentos e tecnologias. oficinas com as famílias dos alunos do Edu- primeiro resolver os problemas enfrentados carentes. Constata-se as oportunidades ge-
O resultado das reuniões com os bolsistas candário, pois, considera-se ser esta uma no que se refere às limitações de cada aluno. radas por meio de projetos de aprendizado/
foi o desenvolvimento de um novo método etapa na qual os alunos precisarão de auxí- Depois de averiguado que todos entendem ensino promovido pela mesma, pois contri-
de fabricação que tem atendido as neces- lio tendo tem vista as suas limitações, além as etapas de fabricação da vassoura, mesmo buem para o exercício da teoria e elabora-
sidades dos alunos, alcançando assim mais da importância do apoio das suas famílias que não possam executá-la por completo, ção de novos conhecimentos e tecnologias.
um resultado intangível dentro da dimensão neste empreendimento. será o momento de desenvolver a dimensão Projetos de economia solidária pode
social que é a auto confiança e estima. Esse O método de produção coletiva, base da social e produtiva, ou seja, a de autogestão contribuir com as comunidades carentes
novo método requereu novos testes sobre a economia solidária, foi iniciado por meio do trabalho coletivo e venda das vassouras. e apontar para alternativas de renda em
durabilidade e uso cotidiano da vassoura. da divisão do trabalho de duas etapas do Depois de introduzidas as metodologias países que ainda são afetados por crises
No que diz respeito à atuação dos bol- processo fabricação da vassoura, tendo participativas no processo de produção, econômicas. Vale ressaltar que, acredita-se
sistas, participar dos processos de ensino e em vista alguns alunos possuir dificuldades será o momento de sua avaliação com a que será um fator que irá conferir equilíbrio
aprendizado gerados pelo projeto possibi- nestas etapas. Sendo assim, o método de participação dos alunos. a dinâmica de mercado. Para países em
litou aos mesmos conhecerem seus pontos produção colaborou como estratégia de Cada metodologia de produção introdu- desenvolvimento como o Brasil, uma nova
fortes e fracos e desenvolverem habilida- produção para amenizar as limitações dos zida é discutida com os alunos e considera- organização da produção favorece o alcan-
des, favorecendo a sua tomada de decisão alunos, contribuindo para a soma das habi- das opiniões e sugestões sobre as mesmas. ce de uma vida digna por pessoas que estão
em quais rumos seguir e/ou aprimorar na lidades de cada membro do grupo e sua fu- Tais levantamentos acabam por determinar em regiões ainda privada de capacitação
carreira na qual estão se graduando e/ou tura articulação social. Assim, os alunos que se a metodologia utilizada no ensino irá per- profissional e de extrema pobreza. Assim, a
especializando. demonstraram grande dificuldade em con- manecer ou não. Os resultados de cada de- importância de promover iniciativas como
A vassoura artesanal de sorgo é consi- cluir a etapa de “enforcamento” da vassoura cisão tomada em conjunto com os alunos do esta, pautada pelo desenvolvimento susten-
derada pelos alunos um trabalho manual (Figura 01, fotos 02 e 03) faziam parte do Educandário e os devidos ajustes nos planos tável de economia solidária.
interessante, que tanto os homens quanto as grupo responsável pela etapa de debulha- de aprendizado são de interesse dos alunos O meio ambiente também precisa de
mulheres gostavam de manusear (a exceção gem das panículas com a raspadeira (Figura em avançar na produção da vassoura indivi- aliados urgentes, de novos comportamen-
foi apenas de uma aluna que não achou 02, foto 08), e, a outra parte do grupo ficava dualmente, além de influenciar na interação tos e hábitos, precisa-se de um verdadeiro
muito atrativo o tipo de trabalho realizado). responsável pela etapa de “enforcamento” do grupo no que se refere a organização do desenvolvimento sustentável, no qual as
Tal afinidade despertou em alguns alunos o das panículas. trabalho. ações de plantar, extrair, produzir, fabricar
interesse pelas demais etapas da fabricação No entanto, o método ainda não está e consumir venham acompanhados dos
da vassoura que ainda não tinham contato completo, pois, os dois grupos ainda preci- preceitos respeitar, pois os limites do meio
com o plantio do sorgo para obtenção das sam se articular, organizar a produção do Considerações Finais ambiente já são visíveis. Este é um trabalho
panículas. trabalho coletivo. Até o momento, ainda de todos para a garantia de uma vida sem
Após discussões, achou-se por bem intro- não foi possível chegar à organização e Os resultados confirmam que o trabalho escassez a longo prazo.
duzir e/ou incluir os alunos interessados na mobilização social em prol de um interesse desenvolvido até o momento demonstram a Diante disto, o desenvolvimento sus-
etapa do cultivo do sorgo juntamente com comum, ou seja, a produção e fabricação da importância da extensão universitária para tentável é hoje mais que um conceito. Ele

36 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Produção da Vassoura Amiga da Natureza: um Projeto de Extensão Universitária, 37
Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável
consiste num guia que norteia a busca pelo vida. Essa conquista não é somente voltada 1980-6477. http://www.abms.org.br SANTOS, Ailton Dias dos (org.). Metodologias
participativas: caminhos para o fortalecimento de
equilíbrio entre o crescimento econômico e para aumento de renda, mas de desenvol-
FARIA, Andréa Alice da Cunha, M.S., O uso do espaços públicos socioambientais / IEB-Instituto
o meio ambiente, afinal, o homem moderno vimento pessoal, autoestima. Dessa forma, Diagnóstico Rural Participativo em processos Internacional de Educação do Brasil. – São Paulo:
é dependente da natureza bem como a investir no próximo por meio de projetos de desenvolvimento local: Um estudo de caso. Peirópolis, 2005.
economia global. Neste sentido, primar como o apresentado aqui, é investir no futu- Orientador: Franklin Daniel Rothman. Conselheiros:
Fábio Faria Mendes e Geraldo Magela Braga. SILVA, Luiz Antonio da.;CAMPOS, Rogério Cunha.
por ações que valorizam não somente uma ro de uma localidade. Essa consiste hoje na Universidade Federal de Viçosa, Setembro de 2000. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS.
complementação de renda, mas também missão da extensão universitária, que tanto Trabalho e processos educativos no associativismo
o desenvolvimento pessoal por meio da contribui com a sua região quanto formam FARIAS, G. A. A. M.; FARIAS, J. G.; NORONHA, J. F. e cooperativismo popular solidário da região do
Rentabilidade da produção de vassouras de sorgo Vale do Aço/MG. 2009. 209 f., enc. Tese(doutorado)
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e aprendizados. Grandes desafios a serem Setores Populares: sustentabilidade e estratégias MARCIANO, C.R.& LINHARES, A.A.N. Cultivo e
de formação, Universidade Católica de salvador, fabricação artesanal da vassoura: Trabalho e WAQUIL, José M.; VIANA, Paulo A.; CRUZ, Ivan.
conquistados todos os dias por pessoas que
dez/2006. renda para a agricultura familiar. Sétima Semana Manejo de Pragas na Cultura do Sorgo. Circular
querem trabalhar e ver uma boa ideia dando técnica 27. Emprapa. Sete Lagoas, MG. Dez.2003.
do produtor Rural. Coordenação de Extensão do
frutos. Por estar em andamento, o projeto BELLEN, Hans Michael Van. Indicadores de CCTA/UENF. Outubro de 2011. ISSN 1518-4269. Disponível in: http://www.cnpms.
possui muito que explorar e acrescentar da sustentabilidade: uma análise comparativa. embrapa.br/publicacoes/publica/2003/circular/
Rio de Janeiro: Editora FGV, 256p., 2006. NUNES, Débora. Pedagogia da Participação: Circ_27.pdf. Acessado em 20/12/2013.
realidade estudada. No entanto, é sabido
Trabalhando com comunidades.
que não é possível abranger todas as ques- DEMO, Pedro. Participação é conquista: [noções Salvador: UNESCO/Quarteto, 2002.
tões pontuadas ao longo das pesquisas, o de política social participativa]. 2. ed. São Paulo:
Cortez: Autores Associados, 1993. 176p. NUNES, Débora. Incubação de empreendimentos
que poderá ser listada ao final como novos
ISBN 8524901284 (broch.) de economia solidária: uma aplicação da
enfoques de pesquisa adicionais. pedagogia da participação.
Por fim, vale dizer que, educar, capacitar DIAS, Genebaldo Freire. Dinâmicas e instrumentos São Paulo: Annablume. 350p. 2009.
para educação ambiental. 1ed. São Paulo: Gaia,
e conferir alternativas de renda são ações
2010. PEREIRA, A.A. Produção de vassoura: uma
cada vez mais de responsabilidade de todos.
alternativa para agricultores familiares de Imabaú.
Não é somente contribuir com o desenvol- FARATO, L.F.; PAULA, G.S.; ESPINDULA, M.C.;ROCHA, 06 de abril de 2006. Acessado em 20/11/2011 e
vimento de um país, mas também, com o V.S. Avaliação de linhagens de sorgo vassoura na disponível in: http://www.emater.pr.gov.br/arquivos/
região de Viçosa, MG, Brasil. Revista Brasileira File/Comunicacao/Premio_Extensao_Rural/2_
próximo, conferindo a ele ferramentas para de Milho e Sorgo, v.10, n.1, p.82-86, 2011. Versão Premio_2006/21_Prod_Vassoura_Imbau.pdf.
a conquista de uma melhor qualidade de impressa ISSN 1676-689X / Versão on line ISSN

38 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Produção da Vassoura Amiga da Natureza: um Projeto de Extensão Universitária, 39
Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável
GASTÃO MACHADO: Vida, Obra e Acervo
* Mestre, Professor da Rede Pública
GASTÃO MACHADO: Life, Works and Collection luthyenmarquez@hotmail.com

** Doutor, Professor da UENF


Lutiane Marques Silva*, Frederico Schwerin Secco** schwerin@uenf.br

Resumo Abstract
Este artigo apresenta alguns aspectos da vida e da This paper shows some aspects of the live and work of
obra do escritor campista Gastão Machado, bem the writer Gastão Machado, as well report the result
como relata o resultado de programa de extensão of the academic search dedicated to the restoration,
universitária dedicado à restauração, conservação e conservation e cataloging of public collection.
catalogação de acervo público.

Palavras-chave: Acervo Gastão Machado; Restau- Key Words: Gastão Machado Collection; Preservation
ração e conservação de acervos públicos; História and restoration of public collection; History of
do teatro brasileiro; Acervo literário da cidade de Brazilian Theater; Literary collection of Campos dos
Campos dos Goytacazes . Goytacazes Municipality.

40 GASTÃO MACHADO: Vida, Obra e Acervo 41


Gastão Machado – vida e obra inteligente e dedicado que era, logo passou micas, além de comédias, dramas, burletas Essa Mulher é minha, de autoria do jornalis-
para a redação dos jornais; cresceu na e revistas com temas urbanos, privilegiando ta e escritor Raimundo Magalhães Júnior. O
Gastão Machado nasceu em 25 de março profissão de jornalista. Profissionalmente, a caracterização dos costumes e hábitos de próximo espetáculo apresentado por Procó-
de 1899, na cidade de Campos dos Goyta- começou como redator do jornal A Notícia, sua cidade. Produziu em 1924, fortemente pio, na noite seguinte, seria As mulheres não
cazes, município do Rio de Janeiro. Em uma em 1920. A sua produção literária inicial pos- influenciado pelo teatro musical que as- resistem, comédia de Aldo Benedetti, com
poesia sobre Campos, ele menciona: “Sou sui características da primeira fase do Mo- sistira no Rio de Janeiro e em Campos, e em tradução de Magalhães Júnior e revisada
da rua da Quitanda/ Por trás da Igreja do vimento Modernista no Brasil (1922–1930). parceria com o maestro Benedito Trancretti, por Gastão Machado. A terceira peça ence-
Terço”. Ainda na juventude, destaca-se na imprensa uma revista em dois atos intitulada Campos nada foi Lição de Felicidade, de Gourmer,
local e passa a ser admirado pelos literatos em camisa. A peça foi apresentada no antigo com tradução de Geysa Boscoli. E, final-
Figura 01: Gastão Machado da época, como, por exemplo, pelo histo- Teatro Trianon, em uma época de glória para mente, Esta noite choveu prata e As mãos de
riador e escritor Alberto Lamego, o qual lhe o panorama dramático da Cidade, com a Eurídice, ambas de autoria de Pedro Bloch,
presenteia com as primeiras edições de A presença de companhias famosas e artistas além de Deus lhe pague, de Joracy Camargo.
Terra Goitacá e Efemérides da Terra Goitacá. renomados. No mesmo ano escreve outra Podem ser apreciados, no acervo de Gas-
obra: Pega-cachorro... É o início do sucesso. tão Machado, interessantes documentos
Em 1925, em parceria com o jornalista dessa época, como fotos e primeiras edições
Sílvio Fontoura, produz peças que recebem de livros de Procópio Ferreira com dedicató-
aplausos do público e da crítica, tais como rias dirigidas ao amigo Gastão Machado.
P.M.I., a comédia; Os Milagres do Professor Através do incentivo e da estima de inte-
Mozart; Pinga, miséria & companhia. lectuais e escritores de fama nacional, como
Em 1926 Gastão leva à cena O homem Raul Bopp, Múcio da Paixão, Raimundo Ma-
que ninguém viu, uma comédia; e em 1927, galhães Júnior, José Cândido de Carvalho,
adapta o romance A Escrava Isaura, clássico entre outros, o dramaturgo campista não
Figura 02: 1ª edição das obras de Alberto Frederico nacional escrito por Bernardo Guimarães, para mais de escrever.
de Moraes Lamego (09/10/1870 – 24/11/1951) num drama em quatro atos. Em 1928, tendo como parceiro o famoso
com dedicatória a seu amigo Gastão Machado.
Na década de 1940, passa a se corres- escritor Raimundo Magalhães Júnior, leva
ponder e a encontrar-se com o grande ator ao palco a peça Feijoada completa. Com um
Gastão estreou no teatro como autor em e renovador do teatro nacional Procópio espírito revolucionário e dinâmico, Gastão,
1923, com a peça O Alisador, aproveitando Ferreira, no Rio de Janeiro e em Campos. A em 1929, escreve a burleta em dois atos O
os boatos pitorescos a respeito de um certo amizade e a admiração se tornam mútuas. toque de Assueiro e a peça Comigo, não,
personagem misterioso... “que à noite, pe- Em 19 de julho de 1954, Procópio Ferreira e cujo título cai no gosto do público e se torna
Menino pobre, logo cedo aprendeu tipo- netrava nas residências para simplesmente sua companhia de comédias se apresentam expressão popular.
grafia e foi trabalhar na oficina do jornal A acariciar... matronas e donzelas...” Seu tea- no teatro Trianon. O espetáculo fica com a
Notícia. Familiarizando-se com as letras, tro é recheado de histórias românticas, cô- casa superlotada. Foi a estreia da comédia

42 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 GASTÃO MACHADO: Vida, Obra e Acervo 43


Figura 03: 2ª edição do 1º livro o marco da retomada da parceria com Rai- daquela época, chegando a sentenciar: Figura 05: Detalhes gráficos
de Gastão Machado. mundo Magalhães Júnior e escrevem Abafa “Campos, para um hospício, só falta cercar”. do Jornal O DIA, em que
Gastão era redator, ilustrador,
a banca e Capacete de aço. No ano de 1942, produz: O careca não é de
chargista e assinava a coluna
Com a carência de companhias teatrais Campos; O Burro Canário; Petróleo no Turfe; RECORDAR É VIVER.
apropriadas do Rio de Janeiro e da cidade de a comédia musicada A Menina do Açúcar e o
Campos, Gastão Machado interrompe seus drama em sete atos Rua das Cabeças. Nesse
trabalhos em 1940. Muda-se para a cidade mesmo ano Gastão leva ao ar, pela Rádio
do Rio de Janeiro onde entrou para a direção Cultura de Campos, o programa Recordar é
do Diário Oficial do Estado e transforma seu Viver, com a apresentação do Dr. Mário Fer-
apartamento na Rua do Senado em abrigo raz Sampaio, direção musical de Corta-Frio
para campistas que deixavam a terra natal e participação do conjunto Seresteiro Cam-
Em 1930 publica seu primeiro livro, Os
em busca de melhores oportunidades na ca- pista e do cantor Almir Soares. Em 1943, com
crimes célebres de Campos, em que, além
pital. Neste apartamento ele teria convivido músicas de Miguel Miranda, Gastão escreve
das pesquisas sobre antigos crimes que aba-
com o amigo e parceiro de inúmeros textos, três novas peças: Campos depois das Dez;
laram a cidade, traçou um perfil urbano da
Raimundo Magalhães Júnior, que mais tarde Pérola do Sul; e Campos está progredindo.
cidade desde o Brasil Colônia até o Império. e discípulos, entre eles: Almeidinha, Celeste
seria eleito para a Academia Brasileira de No ano de 1944 torna-se representante do
O livro foi publicado com o pseudônimo de Ainda, Cole, Galvão, Juju, José Braga, Marie-
Letras. Em 1941 sabendo transformar a Diário Oficial e um dos redatores do suple-
Gil de Mantua. ta Braga, Castro Brasil, Malagueta, Santana,
rotina de sua cidade natal em cenas teatrais, mento de O Dia, e dedica-se exclusivamente
Mas a saudade do teatro o faz Zé Pimenta e muitos outros.
cria a peça Campos em revista, com música à imprensa. Segundo relato de seu filho mais
retornar em 1931, produzindo a comédia Se- O jornalista Osvaldo Lima escreveu, no
do maestro João Nunes Ribeiro, e a burleta novo, Gastão Machado Júnior (Gastãozinho),
gredos do Oriente. Em 1932, com música de Monitor Campista, o artigo “Um Anjo da
O Macumbeiro do Turfe. Ainda em 1941, “a paixão dele por Campos era tão grande
Sá Pereira, escreve Itararé. O ano seguinte é Noite”, em que contava:
Gastão cria o que a crítica afirma ser a obra- que logo daria um jeito de retornar. O Diário
-prima do teatro campista, a peça Campos Oficial abriu uma espécie de sucursal na
“Uma vez, houve quem perguntasse a Gastão
Figura 04: Manuscrito é assim! O espetáculo fica muito tempo em Cidade e ele foi designado para comandar”.
datilografado de peça Machado por que não ia dormir cedo. Isso lhe
de Gastão Machado. cartaz, no Teatro Paris, instalado na Rua Retorna às atividades teatrais em 1945 e faria bem à saúde. O jornalista respondeu que se
13 de Maio (atual Banco dos Lavradores). A escreve suas últimas peças: Casamento no fosse para casa às 10 horas, por exemplo, levaria
parte musical é confiada ao maestro e com- Uruguai; Uma festa no Capão e Campos de só o corpo. O espírito ficaria na rua. E continuou
pilheriando: eu tenho medo de encontrar-me
positor Álvaro de Andrade Reis (Lóquinha), e meu Coração. Após o sucesso de suas peças
comigo mesmo. Quando o meu corpo for saindo
regida pelo maestro Miguel Miranda. Com no Teatro Paris, Gastão ainda presenciaria a pela manhã, pode o meu espírito estar chegando”.
um elenco de atores cariocas e alguns da encenação de suas obras no Teatro Floriano,
terra, o espetáculo é um sucesso. transferido da Rua Treze para a Rua Oliveira Segundo um jornal da época, Gastão
Campos é assim! retrata com ironia e Botelho. Muitos dos intérpretes das peças de Machado mudou-se para o céu no dia 26 de
crítica mordaz os acontecimentos da cidade Gastão tornaram-se seus amigos, afilhados março de 1964.

44 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 GASTÃO MACHADO: Vida, Obra e Acervo 45


A saudade e a admiração dos amigos
fizeram com que fosse erguido um busto
em sua homenagem em plena Praça de São
Salvador, sendo este transferido posterior-
mente para a praça em que está localizada
a Academia Campista de Letras. Seu nome
está inscrito numa das placas de rua de sua
cidade: RUA GASTÃO MACHADO: Início –
Rua Conselheiro José Fernandes; término
– Rua Coronel André Chaves.
De acordo com o relato do jornalista Her- Figura 06: Casa de Cultura Villa Maria/UENF

vé Salgado Rodrigues, de quem Gastão era Figura 07: Laboratório de restauração


e digitalização da CCVM/UENF
amigo íntimo, o busto era uma homenagem quisa e entretenimento. Possui uma fonote-
que o jornalista e dramaturgo teria rejeitado ca, uma videoteca, uma sala de leitura, um
em vida. Certa vez Gastão Machado teria auditório para palestras, audições musicais encontrava-se guardado em instalações
dito a Hervé: e exibição de vídeos, salas de informática, impróprias, o que ocasionou a deterioração
uma hemeroteca, uma sala para espetácu- das obras que faziam parte de sua coleção
“Se algum dia eu morrer e alguém tentar erguer
los musicais e exposições de pequeno porte. pessoal. Trata-se de um material de imenso
um busto em minha homenagem, por favor, não
permitam. Não quero ficar sujo na praça e ter No ano de 2006, foi criado, nas depen- valor histórico e literário, encontrando-se
passarinhos cagando sobre minha cabeça”. dências da CCVM/UENF, um laboratório de entre as obras uma quantidade considerável
restauração, preservação e conservação do de material original, seja oriundo da pena do
acervo Gastão Machado. próprio Gastão Machado, seja de obras co- Figura 08: Etapas de restauração e conservação
do acervo Gastão Machado
O Acervo Gastão Machado Participaram das diferentes etapas do lecionadas e adquiridas em livrarias e sebos
projeto diversos profissionais e alunos bol- na cidade do Rio de Janeiro.
O ACERVO GASTÃO MACHADO está sistas da Universidade Estadual do Norte O trabalho iniciou-se em março bibliográfico tanto para o estudo da história
localizado na Casa de Cultura Villa Maria, de 2006 pela constituição de um espaço do município de Campos dos Goytacazes
pertencente à Universidade Estadual do Fluminense Darcy Ribeiro/UENF, bem para limpeza, recuperação, restauração, quanto do país.
Norte Fluminense Darcy Ribeiro/UENF. como técnicos da própria Universidade. catalogação e encadernação da biblioteca Alguns dos resultados mais importantes
A Casa de Cultura Villa Maria é um prédio O Acervo Gastão Machado foi doado à particular do escritor, teatrólogo e jornalista do trabalho de restauração do ACERVO
histórico, situado no município de Campos UENF pela família do escritor e dramaturgo Gastão Machado (1899/1964), além de GASTÃO MACHADO, foram a catalogação
dos Goytacazes, e dedica-se à produção e à campista e encontrava-se em condições documentos avulsos, compreendidos entre das obras teatrais de Gastão Machado; a
difusão de atividades culturais. É um espaço impróprias para consulta e manuseio. Desde os séculos XVIII e XX. O material analisado recuperação e a encadernação de centenas
público que oferece diversas opções de pes- a morte de Gastão Machado, seu espólio constitui uma significativa fonte de material de revistas e livros da referida coleção; a res-

46 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 GASTÃO MACHADO: Vida, Obra e Acervo 47


tauração de documentos, cartas e material acadêmica é um documento importante,
iconográfico pertencente ao acervo e o le- entre tantos outros, para a
vantamento de todo o material pertencente compreensão de alguns aspectos e
ao ACERVO GASTÃO MACHADO, bem como fatores decisivos da formação histórica e
a digitalização de grande parte do acervo, cultural da nação brasileira.
com vistas a futuras consultas virtuais em
sítio a ser criado com esta finalidade.
Referências

MACHADO, Gastão - manuscritos pertencentes ao


acervo particular do escritor, nunca editados.

Figura 09: etapas da restauração de uma


caricatura de Gastão Machado feita por
Claudinier Martins, nos anos 50.

Conclusão

A responsabilidade pela preservação


e conservação dos acervos nacionais é de
todos nós. Que nos sirva de exemplo de
desprendimento e consideração pelo pa-
trimônio nacional a doação, pela família do
jornalista e escritor Gastão Machado, de seu
acervo para uma instituição pública, com
vistas a sua difusão. Cada obra recuperada
e disponibilizada para a leitura ou pesquisa

48 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 49


*D. Sc. Universidade Estadual do
Norte Fluminense Darcy Ribeiro
professoralcimar@gmail.com

Construindo Capital Social a Partir da **Graduando em Engenharia


de Produção - UENF

Disseminação da História Local: Uma Experiência lu_boden@yahoo.com.br

***Animador Cultural - Bolsista


no Âmbito da Escola em São João da Barra-RJ Universidade Aberta - UENF
fadmamm@gmail.com

Building social capital from the spread of local history: an ****Estudante - Bolsista
Universidade Aberta - UENF
experience at the school in São João da Barra-RJ deborah_longue@hotmail.com

*****Estudante - Bolsista
Alcimar das Chagas Ribeiro*, Luciana Silva Boden**, Francisco de Assis Dias Moreira***, Universidade Aberta - UENF
Débora Soares Longue****, Chrisson Monteiro Roza***** chrisson-90@hotmail.com

Resumo Abstract
O presente trabalho busca contribuir no contexto do This paper aims to contribute in the context of efforts
esforço de construção do capital social, através da to build social capital through the development and
formulação e implantação da estratégia de resgate e deployment of rescue and dissemination of local
disseminação da história local, em Atafona, São João history in Atafona, São João da Barra strategy. The
da Barra. O programa de ações se desenvolveu na program of action developed in the State School
Escola Estadual Newton Alves, com o envolvimento Newton Alves, with the involvement of principals,
de diretores, professores e alunos. Diversas ativi- teachers and students. Various activities involving
dades envolvendo pesquisa bibliográfica, seleção literature search, selection of photos, plays, lectures
de fotos, peças de teatro, palestras e debates, foram and debates, have been developed, with the spread
desenvolvidas, com os resultados disseminados in other local schools and various events results.
em outras escolas do município e eventos diversos. Aspects of the methodology used enabled a sig-
Aspectos da metodologia utilizada possibilitaram nificant integration among students, principals and
uma importante integração entre os estudantes, dire- teachers of the school, ensuring progress in gaining
tores e professores da escola, garantindo avanços na knowledge about the proposed object. Away from
obtenção de conhecimento sobre o objeto proposto. the power transformer, the project has significant
Longe do poder transformador, o projeto apresenta contributions in promoting citizenship and sense
contribuições importantes no resgate da cidadania e belonging, fundamental elements for endogenous
senso pertencimento, elementos fundamentais para economic development.
o desenvolvimento econômico endógeno.

Palavras-chave: capital social; história local; cida- Keywords: social capital; local history; citizenship;
dania; desenvolvimento endógeno. endogenous development.

50 Construindo Capital Social a Partir da Disseminação da História Local: 51


Uma Experiência no Âmbito da Escola em São João da Barra-RJ
Introdução do, foi implementado um projeto de exten- aspecto, ações dessa natureza tendem a Unidade de Análise
são dirigido para o resgate e disseminação fortalecer as relações sociais e podem im-
Pesquisa no campo socioeconômico da história local. A premissa da existência pactar positivamente na melhoria da visão A Escola Dr. Newton Alves iniciou suas ati-
sobre as atividades de pesca artesanal e de acentuada de desconhecimento dos estu- sobre a importância do coletivo, do senso vidades na casa de Dona Carmelita Moraes
piscicultura em São João da Barra-RJ, apon- dantes sobre a história do município de São de pertencimento, da colaboração e da Nascife e passou a funcionar na atual sede,
ta características importantes sobre o perfil João da Barra, fortaleceu a iniciativa e o pro- cooperação entre os atores e agentes de um como escola, em 1970 onde os alunos que
dos atores envolvidos, as quais representam jeto que teve início na Escola Estadual Dr. determinado ambiente. tinham aula com Dona Carmelita vieram to-
gargalos inibidores ao processo de organi- Newton Alves em Atafona, berço histórico O projeto ainda traz como justificativa, a dos para essa nova sede doada pelo Senhor
zação produtiva e desenvolvimento local. do surgimento dos primeiros povoados (SÁ, expectativa de que a geração de novos co- Newton Alves. Esse relato esta registrado no
A presente pesquisa, desenvolvida ao 1995; 2009). nhecimentos, através do compartilhamento livro (Uma Dona chamada Atafona de João
longo da execução do projeto de extensão O tratamento da problemática pelo entre o conhecimento formal e o conheci- Noronha). Atualmente, a escola funciona
“Piscicultura integrada como fator de resgate da história local consistiu na tese de mento informal, possa induzir um processo com aproximadamente 500 alunos, matri-
geração de emprego e renda”, registrou im- que a recomposição do capital social é fun- de mudanças no comportamento desses culados no ensino fundamental e ensino
portantes resultados intangíveis, tais como: ção do fortalecimento das relações huma- atores e agentes. Ainda, do momento em médio, nos três turnos.
confiança, cooperação com reciprocidade nas, que por sua vez, decorre de um maior que eles se reconheçam na trajetória evolu-
e conhecimento, porém pouco evoluiu na entendimento dos atores sobre a sua própria tiva de história local, estarão mais prepara-
vertente do emprego e renda, em função do origem. O fato dos jovens desconhecerem a dos para os importantes questionamentos Revisão Bibliográfica
comportamento dos interessados. sua história torna-se um grande obstáculo sobre os velhos hábitos e as práticas impro-
Os atores apresentaram um perfil indivi- a evolução sociocultural, daí o incentivo ao dutivas e inibidoras do desenvolvimento. Na exploração dos principais aspectos do
dualista, com forte dependência econômica mergulho às origens na busca de conheci- A partir desse ponto, espera-se que novas capital social, destaca-se Robert Putnam
ao poder público, um alto grau de desinte- mento da história local e posterior dissemi- práticas de trabalho possam ser potenciali- (2005), que trata a questão pela sua relação
resse sobre questões coletivas e ausência nação entre a população nos seus diferentes zadas em decorrência do fortalecimento da com o desempenho institucional. O autor
de iniciativa empreendedora, atributos que seguimentos. capacidade de adaptação desses atores. postula que oportunidades de proveito mú-
evidenciam um ambiente desprovido de Dessa forma o objetivo de intervenção O trabalho está organizado pela intro- tuo são perdidas quando os atores não assu-
uma estrutura de capital social necessária local, através da presente estratégia, se dução na sessão 1; unidade de análise na mem compromissos entre si, acentuando a
à evolução socioeconômica. Capital social estabeleceu no sentido de contribuir para a sessão 2; revisão bibliográfica na sessão 3; desconfiança. Enfatiza que o desempenho
visto através das suas dimensões: organi- mudança cultural, fundamento essencial do metodologia na sessão 4; análise e resul- das instituições sociais depende da forma
zação social, ação coletiva, cooperação e processo de indução ao desenvolvimento tados na sessão 5 e considerações finais na como os atores confiam uns nos outros e que
confiança, solidariedade e reciprocidade, local. sessão 6. os dilemas coletivos podem ser mais bem
Athayde e Ribeiro (2010) e facilitador da A premissa central tratada nesse contexto superados nas comunidades cooperativas.
coordenação e cooperação para benefícios é de que o ambiente sociocultural precisa Essa cooperação, afirma, depende de que
mútuos (MILANI, 2005, p.18-19). ser dotado minimante de uma estrutura de a comunidade tenha um estoque de capital
Em decorrência do problema identifica- capital social para se desenvolver. Nesse social “sob a forma de regras de recipro-

52 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Construindo Capital Social a Partir da Disseminação da História Local: 53
Uma Experiência no Âmbito da Escola em São João da Barra-RJ
cidade e sistemas de participação cívica” Argumenta-se que a teoria do capital levado em consideração para a realização dirigidas e reprimidas pelo contexto social,
(PUTNAM, 2005, p.177). social tem no âmago de sua análise o de- de um efetivo desenvolvimento sustentável. pelas normas, pela confiança interpessoal,
De acordo com Albagli e Maciel (2002), sempenho das instituições democráticas Concluem que o êxito desse desenvolvimen- pelas redes sociais, e pela organização so-
uma das razões da difusão do conceito de (BAQUERO, 2003) e cita-se que, para o Banco to depende do engajamento da população cial, que são importantes no funcionamento
capital social é o reconhecimento dos recur- Mundial, por exemplo, esse conceito está local, sem a qual ele não irá acontecer. Além não somente da sociedade, mas também da
sos embutidos em estruturas e redes sociais sendo considerado como o “elo perdido” do disso, inferem que este pode levar a uma economia (COLEMAN, 1988).
não contabilizados por outras formas de desenvolvimento (FINE, 1999 apud BAQUE- maior habilidade de cooperar, por parte dos Nos contextos modernos, a confiança so-
capital. RO, 2003), promovendo um novo entendi- agentes. cial pode provir das regras de reciprocidade
A organização social, a ação coletiva, a mento da análise da redução da pobreza e O tema da confiança como termo ex- e dos sistemas de participação cívica (PU-
cooperação, a confiança, solidariedade e da promoção da democracia social. plicativo da emergência de cooperação TNAM, 1993b, p. 182-183). O autor, citando
reciprocidade são algumas importantes A função econômica do capital social é tem sido explorado em vários campos das James Coleman, coloca que as regras são
dimensões de capital social que devem ser reduzir os custos de transação associados ciências sociais. Nas duas últimas décadas, incutidas através de modelos e sociali-
consideradas (GROOTAERT; BASTALAER, com os mecanismos de coordenação formal constituiu-se em fator importante para o zação (também por meio de sanções). A
2001). como contratos, hierarquias regras burocrá- processo de desenvolvimento local. Duas reciprocidade generalizada se refere a que
De acordo com o Banco Mundial, evidên- ticas e outros. É claro que é possível atingir perspectivas sobre confiança podem ser haja expectativas mútuas de que um favor
cias crescentes mostram que a coesão social ações coordenadas em grupos sem capital apontadas nesse contexto: uma de natureza feito hoje possa ser retribuído no futuro. O
é crítica para as sociedades prosperarem social, mas se presume haveria custos adi- sociológica, na qual a confiança seria “um intercâmbio é favorecido quando as pessoas
economicamente e para que o desenvolvi- cionais de monitoria, negociação, litígios e produto de longo prazo de padrões históri- acreditam que a confiança será retribuída.
mento seja sustentável. O capital social se- imposição de acordos formais (FUKUYAMA, cos de associativismo, compromisso cívico A continuidade do intercâmbio incentiva a
ria então, uma espécie de cola que une essas 1999). e interações extrafamiliares” (LOCKE, 2001, reciprocidade generalizada e “a interação
sociedades e de grande importância para o As colocações de Fukuyama (op. cit.) são p. 254) e a outra, do âmbito da economia, pessoal é um meio econômico e seguro de
incremento dos demais capitais disponíveis, ampliadas por diversos autores, argumen- a qual aponta como “elemento promotor obter informações acerca da confiabilidade
tornando possíveis objetivos que seriam tando que as diferenças na performance desse tipo de comportamento o interesse dos demais atores” (PUTNAM, Op. Cit., p.
mais difíceis sem esse recurso (ONE NORTH econômica dos países surgem das diferen- próprio de longo prazo e o cálculo de custos 172).
EAST, 2005). ças nas propensões sociais de criar confian- e benefícios de atores maximizadores de O autor ainda defende que as relações
O saber econômico nessa linha, também ça para além das famílias nucleares (LOCKE, utilidade” (LOCKE, 2001, p. 255). sociais existentes são fomentadoras de
é construído sob pilares sociais. Defende-se 2001, p. 255). A primeira perspectiva sobre confiança confiança e as relações continuadas neu-
que o capital social está se tornando um Nas sociedades onde tal fato ocorre, acima descrita direciona-se para o conceito tralizam o oportunismo. A combinação de
ingrediente vital no desenvolvimento eco- constroem-se organizações mais eficientes, de capital social. Coleman aponta para essa cooperação e o oportunismo nesse contexto
nômico ao redor do mundo, constituindo-se necessárias à competição nas indústrias de corrente, representada pela visão dos soció- “irá depender dos intercâmbios preexisten-
como uma via de acesso para a formulação alta tecnologia e crescimento rápido. Mene- logos, a qual vê os atores como socializados. tes” (PUTNAM, Op.Cit. p. 173).
de novas estratégias de desenvolvimento gasso e Carelli (2006), indicam que o capital As ações das pessoas seriam governadas por As redes sociais são potencialmente cria-
(FUKUYAMA, 1999). social existente em um território deve ser normas sociais, regras e obrigações. Seriam doras de capital social, podendo contribuir

54 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Construindo Capital Social a Partir da Disseminação da História Local: 55
Uma Experiência no Âmbito da Escola em São João da Barra-RJ
na redução de comportamentos oportu- Metodologia um questionário contemplando perguntas retores e servidores que “vestiram a camisa”
nistas e na promoção da confiança mútua sobre: 1) o grau de conhecimento da história do projeto e se doaram em busca dos melho-
entre os agentes econômicos. Granovetter O planejamento metodológico consi- de São João da Barra antes e depois do res resultados.
critica as duas visões do comportamento derou na primeira fase, a escolha de dois projeto, 2) o papel do projeto no desenvol- Importante relatar que diversos obstácu-
econômico: a visão neoclássica, que classi- alunos do 3ª ano do ensino médio para a vimento pessoal e, 3) o papel do projeto los foram superados até o ponto de aceita-
fica de sub-socializada, visto que percebe pesquisa e um animador cultural, da mesma na integração entre professores, alunos e ção do projeto. Durante a busca de intera-
apenas os indivíduos de forma atomizada, escola, para as atividades de coordenação servidores. Como apoio foi proposta uma ção com outras escolas, pode-se verificar
desconectada das relações sociais; e a visão e articulação interna e externa. Comple- escala de cinco níveis (insuficiente, baixo, uma certa rejeição a iniciativa e a evidencia
estruturalista e marxista, que qualifica de mentarmente, os três bolsistas receberam médio, alto e excelente), de forma a ordenar de desconfiança e acomodação. Tal fato,
supersocializada, porquanto os indivíduos treinamento sobre princípios do método de a percepção dos respondentes e facilitar longe de desanimar, fez com que os esforços
são considerados em dependência total de pesquisa cientifica, além de informações a ponderação na busca da efetividade do fossem dirigidos para a escola de origem,
seus grupos sociais e do sistema social a que relacionadas ao papel do projeto. A segunda projeto. onde se sucederam as apresentações e
pertencem, destacando que o capital social fase se constituiu da pesquisa propriamente a consequente construção da confiança
seria ao mesmo tempo um bem público e dita e da elaboração das apresentações junto a direção. Nos eventos da escola, como
um bem privado (ATHAYDE e RIBEIRO 2011 na forma de seminários e palestras para Análise dos Resultados conselho de classe e outras comemorações
apud MILANI, 2005). estudantes do ensino médio. A terceira fase do calendário, seminários e palestras eram
Coleman (1988) cita as contribuições de se constituiu no processo de articulação Os resultados observados convergem apresentadas pelos pesquisadores bolsistas
Mark Granovetter, o qual argumenta que há com a direção da escola para viabilizar as com as expectativas geradas inicialmente. e também alunos da mesma escola.
uma falha para reconhecer a importância apresentações junto ao alunado. A quarta Conforme já diagnosticado, existem aspec- A figura 01, a seguir, apresenta a escola
das relações interpessoais concretas e redes fase se desenvolveu com a implementação tos culturais instalados no ambiente local em ação durante o momento de exposição
de relações, as quais chama de embedded- de diferentes atividades para os diversos que são inibidores da ação coletiva e, por de fotos antigas de São João da Barra, onde
nes (imersão). Gerar confiança, estabelecer grupos de alunos (seminários, palestras, te- consequência, dificultam o processo de todas as séries do ensino fundamental e do
expectativas, criar e reforçar normas. A ideia atro, exposição de fotografias e outras ma- desenvolvimento. ensino médio participaram. Nesses momen-
de Granovetter de embeddedness pode nifestações lúdicas). A quinta e última fase As ações implementadas seja como tos acentuam-se o senso de pertencimento
ser vista como uma tentativa de introduzir, se constituiu na construção de uma cartilha palestras, seminários e atividades lúdicas, do alunos e o orgulho de ampliar seus
dentro da análise econômica, a organização ilustrada sobre os aspectos da história local sem a pretensão de transformar o quadro conhecimentos sobre a sua origem e de sua
social e as relações sociais não meramente para o processamento da disseminação no curto prazo, teve um papel importante família.
como uma estrutura para preencher uma entre os diferentes segmentos da sociedade. na escola durante o ano letivo de 2013. Com Na figura 02, os alunos respondem os
função econômica, mas como uma estrutu- Complementarmente, foi estruturado a decisão da direção de institucionalizar o questionários finais no momento de culmi-
ra com história e continuidade que lhe dá um um método quantitativo para medir a per- projeto neste ano como instrumento princi- nância do projeto, onde diversos eventos,
efeito independente do funcionamento do cepção do professor e aluno em relação a pal, pode-se observar uma melhor dinâmica como: canto, poesia, dança, ocorrem no
sistema econômico. eficiência das atividades implementadas nas praticas diárias e, consequentemente, ambiente da escola, com a participação dos
durante os eventos na escola. Foi utilizado uma contaminação positiva dos alunos, di- diretores, professores, pais e colaboradores.

56 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Construindo Capital Social a Partir da Disseminação da História Local: 57
Uma Experiência no Âmbito da Escola em São João da Barra-RJ
Figura 01: Escola Newton
te) subiram de 11,1% para 44,4%, mostrando Gráfico 04: Evolução do
Alves em ação que o projeto cumpriu o seu papel, segundo conhecimento da história
o objetivo. na ótica dos alunos de
ensino médio.
O gráfico 3 a seguir, apresenta a percep-
ção do professor sobre o papel do projeto Fonte: Elaboração própria
na integração entre os alunos, diretores e
professores.
Gráfico 01: estrutura da amostra.

Fonte: Elaboração própria. Os dados permitem deduzir que 32,5% dos


alunos de ensino médio tinham um padrão
de conhecimento insuficiente e/ou baixo so-
Figura 02: Momento de bre a história do município antes do projeto.
culminância do projeto, com A metade do grupo tinha um conhecimento
os alunos respondendo os
questionários finais médio e somente 15% tinha um padrão de
conhecimento alto e excelente. Depois do
projeto, o quadro muda indicando que 71,5%
Gráfico 03: Percepção do professor sobre passaram a ter um padrão de conhecimento
o papel do projeto na integração escolar. alto e/ou excelente.
Gráfico 02: estrutura da amostra.
Fonte: Elaboração própria O gráfico 5 a seguir, apresenta a percep-
ção do aluno de ensino médio sobre o papel
Fonte: Elaboração própria.
do projeto na integração entre alunos, dire-
tores e professores.
Os resultados na ótica quantitativa pude- Conforme pode-se observar, antes do pro- Observa-se que quase 90% dos profes-
ram também confirmar a percepção inicial jeto, 11% do total dos professores tinham co- sores indicaram na escala excelente a im-
do baixo conhecimento dos alunos e profes- nhecimento insuficiente sobre a história de portância do projeto na integração entre os
sores sobre a história do município. O gráfico São João da Barra, 22% desses professores professores, alunos e servidores, enquanto Gráfico 05: Papel do projeto
11,1% indicaram na escala alto a mesma na integração escolar.
1 a seguir, apresenta o resultado correspon- tinham conhecimento baixo e 44% tinham
dente a aplicação dos 192 questionários, conhecimento médio. Na faixa aceitável, importância. Fonte: Elaboração própria
amostra equivalente a 40,17% do universo 11,1% tinha conhecimento alto e 11,1% O gráfico 4 a seguir, apresenta a evolução
total. A amostra se compõe de 9 professores, excelente. Depois do projeto, enquanto as do conhecimento da história na ótica dos
77 alunos de ensino médio e 106 alunos do faixa inferiores (insuficiente, baixo e médio) alunos de ensino médio.
ensino fundamental. caíram, as faixas superiores (alto e excelen-

58 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Construindo Capital Social a Partir da Disseminação da História Local: 59
Uma Experiência no Âmbito da Escola em São João da Barra-RJ
A percepção do aluno de ensino médio trabalho coletivo, atua na melhora do com- O papel do projeto no crescimento pesso-
sobre o papel do projeto na integração portamento. O exercício continuo dessas al do alunos de ensino fundamental foi con-
escolar também apresentou resultados im- atividades fazem muito bem ao indivíduo e siderado por 49% do grupo no padrão alto
portantes. Verificou-se que 70% dos alunos a sociedade. e/ou excelente, enquanto 39,6% indicou um
indicaram um padrão alto e/ou excelente O gráfico 7 a seguir apresenta a evolução padrão médio. Menos de 10% consideraram
do projeto na dinâmica de integração entre do conhecimento da história local, segundo um padrão insuficiente e/ou baixo.
alunos, professores e diretores. Esse resul- a percepção dos alunos do ensino funda-
tado é relevante quando o propósito a ser mental.
alcançado é incentivar o aumento do capital
Gráfico 08: Percepção sobre o
papel integrador do projeto.
Considerações finais
social no ambiente de interesse.
O gráfico 6 a seguir, apresenta a percep- Fonte: Elaboração própria Diante do quadro de dificuldade obser-
ção do aluno de ensino médio sobre o papel vado no âmbito das relações sociais em São
do projeto no seu crescimento pessoal. Sobre o papel integrador do projeto, João da Barra, optou-se pela implementa-
considerando alunos, professore e diretos, ção do projeto de resgate e disseminação da
observou-se que 70,7% do grupo indicaram história local, ainda como instrumento pi-
um padrão alto e/ou excelente, ratificando loto, na Escola Estadual Newton Alves, cuja
Gráfico 06: Percepção do a importância das atividades do projeto na participação maciça dos estudantes, profes-
aluno de ensino médio Gráfico 07: Evolução do conhecimento da
sobre o papel do projeto no melhoria da dinâmica escolar e no fortaleci- sores, diretores e demais atores, confirmou a
história pelos alunos do ensino fundamental.
seu crescimento pessoal. mento da ação conjunta. premissa de que ações dirigidas nas escolas
Fonte: Elaboração própria O gráfico 9 apresenta a percepção do podem mudar o quadro de acomodação
Fonte: Elaboração própria
aluno de ensino fundamental sobre o papel e falta de comprometimento coletivo. A
A percepção dos alunos do ensino fun- do projeto em seu crescimento pessoal. experiência do debate com um farto volume
damental ficou bem próxima da percepção de informação mexeu positivamente com os
dos alunos do ensino médio. No que diz grupos envolvidos. Observou-se um maior
Na verificação do papel do projeto no respeito a evolução do conhecimento da interesse dos estudantes sobres aspectos
crescimento pessoal dos alunos de ensino história local, 34,9% do grupo declararam culturais e históricos e, fundamentalmente,
médio, a percepção de 55% do grupo é ter conhecimento insuficiente e/ou baixo um maior interesse dos mais adultos pela
de uma influencia de padrão alto e/ou antes do projeto. Depois do projeto, pode-se universidade. A decisão da direção da
excelente, enquanto 30% indicaram uma verificar que 67% já apresentava padrão alto escola em institucionalizar o projeto como
padrão médio. Um maior conhecimento e/ou excelente. referência para o ano letivo de 2013, repre-
desses jovens sobre a Universidade Esta- No gráfico 8, foi medida percepção desse Gráfico 09: O papel do projeto no crescimento sentou uma mudança importante depois de
pessoal do aluno ensino fundamental.
dual do Norte Fluminense, o contato com a grupo de alunos sobre o papel do projeto na diversas apresentações sobre a pesquisa
historia local, a participação em oficinas e o integração escolar. Fonte: Elaboração própria histórica realizada pelos alunos bolsistas. A

60 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Construindo Capital Social a Partir da Disseminação da História Local: 61
Uma Experiência no Âmbito da Escola em São João da Barra-RJ
recondução das atividades do projeto para Produtivo COAGRO. Revista Brasileira de Gestão e NORONHA, J. Uma Dama chamada Atafona.
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2011.
pelo interesse dos mesmo, também deve
ONE NORTH EAST. Social Capital and Economic
ser considerado como energia para a con- COLEMAN, J. S. Social Capital in the Creation of Development in the North East of England:
tinuação desse esforço. A divulgação dos Human Capital. The American Journal of Sociology, Promoting Economic Inclusion through Community
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histórica do município, em termos de semi- BAQUERO, M. Construindo uma outra sociedade: Consultin Ltd and White Young Green Ltd). Durham,
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Dionélia Gonçalves Santos, Escola Munici- <http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n21/a07n21.pdf.>
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Complementarmente, uma pesquisa Oxford, v. 30, 1999, p. 1-19. PUTNAM, R. Comunidade e Democracia: A
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62 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Construindo Capital Social a Partir da Disseminação da História Local: 63
Uma Experiência no Âmbito da Escola em São João da Barra-RJ
*Doutor em Ciências Humanas
(Sociologia) pelo IFCS-UFRJ.
Professor na Universidade
Federal Fluminense - Polo
Se a Sua Velhice for Dependente – Quem Cuidará Campos dos Goytacazes.
eugeniodelemos@hotmail.com

de Você? **Mestre em Direito pela


Faculdade de Direito de Campos
(RJ). Promotor do Ministério
If Your Old Age is Dependent - Who Take Care of You? Público Estadual.
luizc@mp.rj.gov.br

***Doutora em Ciências Médicas


pela USP – Ribeirão Preto.
Professora da Universidade
Federal Fluminense – Campus
Carlos Eugênio Soares de Lemos*, Luiz Cláudio Carvalho de Almeida**, Campos dos Goytacazes.
Cecília Souza Oliveira*** ceci.psioliveira@gmail.com

Resumo Abstract
Realizou-se uma análise da experiência do Centro An analysis of the role of government in the process
Dia no processo de transferência de apoio para of transfer of support for the poor elderly who are
idosos pobres em situação de dependência. Para dependent. Therefore, we carried out an exploratory
tanto, realizou-se uma pesquisa exploratória em um to a comprehensive care program for the elderly who
programa de atenção integral a idosos que possuem have difficulty carrying out activities of daily living.
dificuldades para realização das Atividades de Vida There was, then, the general profile of users, the limi-
Diária e Atividades Instrumentais de Vida diária tations of the services offered care and responsibility
(AVDS e AIVDS). Verificou-se, então, o perfil geral dos in the domestic sphere.
usuários, as limitações dos serviços oferecidos pela
instituição pública de saúde e a responsabilidade
atribuída ao cuidador informal na esfera doméstica.

Palavras-chave: Família; Dependência; Envelheci- Keywords: Family; Addiction; Aging; Public Power.
mento; Saúde Pública.

64 Se a Sua Velhice for Dependente – Quem Cuidará de Você? 65


Introdução Aspectos Metodológicos idosos e os seus familiares. Dentre as poucas iniciativas do poder
Assim, mesmo reconhecendo as especifi- público municipal para a família que en-
O presente trabalho é resultado de uma Da rede de assistência à saúde do idoso cidades do recorte proposto e o seu alcance frenta o problema da velhice dependente
pesquisa exploratória sobre o processo de que existe no município de Campos dos limitado, é possível falar das demandas da encontra-se a do Centro Dia,
transferência de apoio a idosos em situa- Goytacazes, centro produtor de açúcar e aldeia consciente de que se trata de uma
ção de dependência e semi dependência petróleo, situado no norte do Estado do Rio realidade global (ELIAS, 2000). Os dilemas
É um programa de atenção integral às pessoas
num Centro Dia, ou seja, num complexo de Janeiro, utilizou-se para este trabalho aqui retratados também são encontrados idosas que por suas carências familiares e fun-
geriátrico de atendimento público. Deste um estudo de caso sobre a experiência dos em outras configurações urbanas. Nestes cionais não podem ser atendidas em seus pró-
modo, procura caracterizar o perfil social usuários do Centro-dia – um complexo geri- termos, a narrativa da experiência carac- prios domicílios ou por serviços comunitários.
do usuário e o tipo do apoio recebido. Con- átrico público de acompanhamento diurno terizada poderá servir de complemento, Caracteriza-se por ser um espaço para atender
idosos que possuem limitações para realização
tudo, é importante destacar que, embora se do idoso “semi” dependente. Foi realizada analogia, contraponto, indicativos para aná-
das Atividades de Vida Diária (AVD), que convi-
reconheça como o faz o Estatuto do idoso a uma análise das fichas funcionais dos usuá- lises efetuadas em outros lugares em que a vem com suas famílias, porém, não dispõem de
importância da família nessa transferência rios do Programa no ano de 2012, de modo a pergunta título se mostra pertinente. atendimento de tempo integral no domicílio.
de apoio, a análise pretende discorrer sobre produzir uma tipologia básica sobre o perfil (PORTARIA N. 73, de 10 de maio de 2001,
a natureza do apoio do poder público àque- social do idoso, levando em consideração DO MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIAE
las famílias que não possuem estrutura para informações como gênero, idade, estado A Experiência do Centro Dia ASSISTÊNCIA SOCIAL).

cuidarem de seus idosos dependentes. civil, renda, nível de instrução, cor, tempo na
De forma secundária, também se preten- instituição, configuração familiar, estado de O envelhecimento com dependência é
Trata-se de um centro geriátrico público
de destacar o fato de que a dependência e a saúde e condições habitacionais. um dos sérios desafios com o qual as famí-
que, de acordo com o proposto pelo Estatuto
autonomia são partes constitutivas da expe- Por outro lado, empreendeu-se também lias brasileiras e o poder público vêm se
do Idoso, busca resgatar os vínculos dos usu-
riência de viver em sociedade. Essa equação um estudo do relatório institucional do deparando. O adiamento dessa discussão
ários para com os seus familiares, de forma
se modifica ao longo do curso de vida e de Inquérito Civil de 2010 e do Termo de Ajus- e da busca de soluções para enfrentá-lo
que a situação de abandono não chegue a
acordo com os condicionantes sócio-econô- tamento de Conduta do Centro Dia, ambos poderá num futuro próximo ser desastroso,
ocorrer. Nesse sentido, oferece uma rede
micos e a biografia das famílias em questão levados a cabo pelo Ministério Público pois a mudança na pirâmide etária do país
de serviços profissionais para recuperar
(BALTES & SILVERBERG, 1995; LEMOS, 2010). Estadual a partir de denúncias feitas pelos vem sendo alardeada há anos – a projeção
a saúde do idoso e diminuir o seu nível de
Muito embora a velhice e a infância sejam familiares dos usuários. Concomitante ao é a de que em 2030 seremos mais de trinta
dependência. Estes serviços são oferecidos
fases em que a dependência parece estar trabalho documental, foram realizadas milhões de idosos. Embora a tônica dos
em horários diferenciados e cada idoso tem
mais presente, os estudos atuais apontam entrevistas informais com os profissionais discursos seja o da gestão bem sucedida do
o tratamento personalizado de acordo com
para o fato de que em toda e qualquer fase da área de saúde, ou seja, psicólogos e assis- envelhecimento, a situação de fragilidade
o seu quadro.
do desenvolvimento humano, o equilíbrio tentes sociais que lidam diretamente com os apresenta-se como uma realidade cons-
O atendimento é temporário, pois assim
entre esses dois fatores, dependência e au- usuários. E, num futuro próximo, tendo em tante nos asilos, nos hospitais e nos espaços
que o idoso se recupera deve dar lugar a
tonomia, mostra-se primordial para o bem vista a ampliação do projeto, serão realiza- domésticos (DEBERT, 1999).
outros que também precisam. Mesmo assim,
estar do indivíduo. das entrevistas semi-estruturadas com os

66 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Se a Sua Velhice for Dependente – Quem Cuidará de Você? 67
o seu ambulatório geriátrico continua a Sexo se situarem em desvantagem em relação Dependência
atender a todos, tanto os usuários do projeto aos demais (VIANNA et al, 2001; LOPES,
quanto os não usuários. Diante do apelido A população atendida é majoritaria- 2005; TELLES, 2003). Os dados do Censo do Os usuários que utilizam os serviços
de “creche dos idosos”, os profissionais mente feminina, pois a sua longevidade é IBGE 2010 para a cor da população seguem do Centro Dia possuem algum tipo de
entrevistados percebem a instituição mais superiora à masculina, havendo um número uma proporção similar à verificada no aten- dependência, decorrente de doenças
como um centro de reabilitação e resgate da maior de usuárias dependentes de ajuda dimento, ou seja, 48,5% de brancos, 36,6% de como acidente vascular cerebral, diabetes,
autonomia do que uma mera instituição de especializada para enfrentar as limitações pardos e 14,1% de pretos e o restante para as infarto, depressão e alcoolismo. Do ponto de
cuidado formal do usuário. A preocupação decorrentes de doenças que são regulares demais cores. vista geriátrico, o conceito de dependência
que parece evidente é a de não ser identifi- em tal fase da vida. A maioria, nascida nas está associado à idéia de vulnerabilidade
cada com uma espécie de asilo diurno. décadas de 30 e 40 do século XX, tem entre aos condicionantes do meio externo. Para
O Centro Dia funciona das 07h00min às 62 e 80 anos, sendo 56% de viúvos, 12% de Nível de Instrução avaliar o seu grau, que pode ser leve, parcial
19h00min horas, de segunda a sexta-feira. separados, 20% de casados e 12% de soltei- e total, recorre-se ao método de avaliação
Não há funcionamento nos finais de semana ros. Esses aspectos estão em sintonia com Os dados coletados para a escolaridade funcional, relacionada à execução das ativi-
e nos feriados, o que casa com a idéia de que as pesquisas que já foram realizadas sobre demonstram que aproximadamente 50% dades básicas da vida diária (AVD básica) e
nestes dias os idosos estarão em casa, acom- o perfil da população idosa no Sudeste e\ dos atendidos possuem apenas o primário, atividades instrumentais da vida diária (AVD
panhados dos seus familiares. Os usuários ou atendida pelo Centro Dia (RAMOS, 1987). 27% de analfabetos, 20% com Ensino Médio instrumental). No caso das AVDs básicas,
do programa têm direito a três refeições, Elas apontam para o fato de que a velhice é e 3% sem registro. Todos são oriundos de são levados em consideração ações como
o café da manhã às 08h00min h, o almoço feminina, oriunda dos setores de baixa ren- classe baixa, recebendo uma aposentado- tomar banho, vestir-se, higiene pessoal,
às 12h00minh e o lanche às 15h30minh. Os da e possui uma história pregressa ligada à ria de salário mínimo e, ao longo da vida, locomoção, continências das necessidades
horários podem ser modificados de acordo migração da zona rural. desenvolveram atividades como as de faxi- fisiológicas e alimentar-se. Nas AVDs ins-
com as recomendações médicas. Um veícu- neiro, cozinheiro, motorista, pedreiro, entre trumentais, ações como conseguir atender
lo da prefeitura vai buscá-los em casa pela outras de status similar. Cabe destacar que telefone, fazer compras, usar transportes,
manhã e, quando chega à noite, levá-los de Cor o período em que foram crianças e jovens o preparar as refeições, passar roupas, tomar
volta. acesso a educação no país era restrita e a ex- os remédios na dose e na hora certa, entre
Em relação ao critério cor dos usuários pansão da escolaridade popular ainda lenta outras.
atendidos, verificou-se que 46% foram (RIBEIRO, 1978; ROMANELLI, 1980; SAVIANI, Pela natureza das doenças de que foram
O perfil do usuário identificados como brancos, 27% de pardos, 1988). Estudam demonstram que o nível de acometidos, os usuários apresentaram um
24% de negros e cerca de 3% sem registro. Os instrução é uma importante variável que se comprometimento maior nas atividades
O Centro Dia atende atualmente a 26 dados encontrados são corroborados por relaciona com o cuidado que uma pessoa instrumentais da vida diária. Essa limitação
idosos com níveis diferenciados de depen- pesquisas que, partindo de questões estru- tem para com a sua própria saúde (LIMA- tem um impacto importante na rotina da
dência e que podem ser caracterizados do turais da sociedade brasileira, destacam o -COSTA, 2004; ALVES & RODRIGUES, 2005). família e do cuidador informal, tendo em
seguinte modo: fato da expectativa de vidas dos negros e do vista que o idoso precisará de uma atenção
acesso de qualidade aos serviços de saúde redobrada, principalmente porque a ma-

68 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Se a Sua Velhice for Dependente – Quem Cuidará de Você? 69
nutenção de sua saúde dependerá de que uma obrigação que lhe vem sendo imposta da população idosa local. Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985.
outros possam assisti-lo ao longo do dia. ao longo da história Nestes termos, elas É importante salientar que no curso do in- Em linhas gerais, o termo ou compromisso
Contudo, deve-se levar em consideração enfrentam uma tripla jornada de trabalho, quérito civil ficou claro que historicamente a de ajustamento de conduta pode ser consi-
que a dependência é processual e pode tendo em vista o emprego, o cuidado com a administração do Centro Dia de Campos dos derado “um acordo firmado entre o órgão
sofrer modificação ao longo do tempo. De casa e os familiares. Goytacazes dava-se à revelia das normati- público legitimado para a ação civil pública
qualquer modo, o poder público precisa es- vas existentes sobre o tema, funcionando e aquele que está vulnerando o interesse
tar solidário, pois o idoso pode ser incluído de maneira improvisada e sem parâmetros difuso ou coletivo protegido pela lei” (CAR-
no perfil de alta necessidade, alta predis- O Centro Dia sob o olhar técnicos. A gerência do Centro sempre foi VALHO, 1995). Após algumas tratativas, o
posição e baixa capacidade, o que chama a do MPE conduzida por coordenador indicado por acordo foi pactuado em 08 de julho de 2009
atenção para a necessidade de intervenções critérios puramente políticos e sem qual- por meio de termo de ajustamento de con-
governamentais que dêem conta desse Em 2009, no âmbito do Ministério quer formação técnica na área de saúde ou duta no qual foram previstas 16 cláusulas
grupo que concentra alta morbidade e Público, foi instaurado o inquérito civil de gerontologia. Detectou-se que tal forma dividas em três grupos, referentes a critérios
importantes limitações e tem na saúde e no nº 2008.00196381 para apurar notícia de de administração do órgão em questão para atendimento, recursos humanos e
seu adequado acompanhamento numa das irregularidades no Centro Dia de Campos de criou vícios que em última análise causavam estrutura física.
principais aspirações para o alcance de uma Goytacazes, encaminhada pela Ouvidoria prejuízos para a proteção dos direitos da O objetivo fundamental do compromisso
velhice digna. (LEBRÂO, 2007). Geral do próprio MP. A referida investigação população idosa. era, de forma inédita em Campos dos Goyta-
foi conduzida pela Promotoria de Justiça Salienta-se que o Centro Dia disponibi- cazes, adequar o funcionamento do Centro
de Proteção ao Idoso e à Pessoa com Defi- lizava pouco mais de 20 (vinte) vagas, o que Dia aos atos normativos reguladores da ma-
Configuração Familiar ciência do Núcleo Campos dos Goytacazes, diante da demanda bem superior à oferta téria, que são a Lei nº 8.842, de 04 de janeiro
sendo detectada a procedência do informe gerava um grande poder para o adminis- de 1994, o Decreto nº 1.948, 03 de julho de
A maioria dos usuários mora com os inicial, sobretudo em razão de dois aspec- trador em função da discricionariedade 1996, a Portaria nº 810, de 22 de setembro de
familiares. Cabe destacar que os “outros” do tos. Em primeiro plano, observou-se que o na indicação das pessoas acolhidas. Outra 1989, do Ministério da Saúde, e a Portaria nº
gráfico são os enteados, noras e sobrinhos. Centro Dia de Campos dos Goytacazes não consequência do número reduzido de vagas 73, de 10 de maio de 2001, do então Ministé-
Os que vivem sozinhos moram no mesmo era coordenado por pessoa tecnicamente era a necessidade de desligamento perió- rio da Previdência e Assistência Social.
quintal dos filhos. Em todos os casos, ainda capacitada em desacordo com o previsto dico de idosos para permitir a abertura de Além de fixar alguns conceitos extraídos
que os homens estejam presentes, são pela Portaria nº 73, de 10 de maio de 2001, novas vagas, o que gerava questionamentos dos atos normativos acima elencados
esposas, filhas, irmãs, sobrinhas e noras que do então Ministério da Previdência e Assis- da família sobre as razões do desligamento e definir o horário de funcionamento, o
cuidam dos idosos semi dependentes ou de- tência Social. Além disso, verificou-se que do familiar idoso. Feito o diagnóstico do compromisso de ajustamento de conduta
pendentes. Contudo, a situação vem se tor- a equipe técnica precisava ser ampliada problema, o Ministério Público iniciou as estabeleceu, em sua cláusula segunda,
nando insustentável já que a dedicação aos para fazer frente às necessidades dos idosos tratativas no intuito de celebrar um termo um rol de atividades a serem desenvolvi-
estudos, ao trabalho e à busca da realização atendidos no Centro Dia. Em segundo lugar, de ajustamento de conduta visando a buscar das, quais sejam: I - Atendimento e apoio
profissional empurrou a mulher para o espa- verificou-se um número reduzido de vagas uma solução extrajudicial para a questão, individual e sócio familiar; II - Atendimento
ço público, restando-lhe pouco tempo para oferecidas em comparação com o número nos moldes do que autoriza o art. 5º, § 6º, da biopsicossocial aos idosos, de acordo com

70 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Se a Sua Velhice for Dependente – Quem Cuidará de Você? 71
suas necessidades; III - Atividades lúdicas, o problema da centralização do serviço. Na execução foi distribuída para a 5ª Vara Cível cução proposta, conseguindo a extensão da
sociais, esportivas, laborativas, produti- realidade, o ideal seria a disseminação de de Campos dos Goytacazes recebendo o rede de atendimento da população idosa no
vas, e de integração social; IV - Atividades vários Centros Dias no Município permitindo processo o nº 0019136-53.2011.8.19.0014. Município de Campos dos Goytacazes.
terapêuticas; e V - Atividades de atenção o atendimento da população idosa o mais A judicialização da demanda traz em
médico-sanitário. próximo possível de suas residências. O si todas as dificuldades intrínsecas ao
Houve ainda a preocupação de se regis- termo de ajustamento de conduta não teve desenvolvimento de processos judiciais, O cuidador informal e a
trar o dever do Município de planejar as a pretensão de resolver o problema, mas mormente quando o réu é um ente público. velhice fragilizada
atividades elencadas em parceria e com a tão-somente deflagrar o processo de des- Notoriamente as execuções das chamadas
participação efetiva dos idosos, respeitando centralização, nada impedindo novas ações obrigações de fazer geram, por si só, difi- O envelhecimento com dependência é
suas demandas e aspectos socioculturais do do Ministério Público no sentido de dar con- culdades já diagnosticadas no campo do um dos sérios desafios com o qual a família
próprio idoso e da região onde está inserido. tinuidade ao processo de expansão da rede. direito processual. Nesse ponto, mostra-se brasileira e o poder público vêm se depa-
Exigiu-se, ainda, do Município a No que se refere ao aumento das vagas pertinente a observação de Marcos Maselli rando. O adiamento dessa discussão e da
lotação de servidores capacitados tecnica- foram estabelecidos os seguintes prazos: Gouvêa: “Importância maiúscula deve ser busca de soluções para enfrentá-lo poderá
mente e criação de estrutura adequada para 1) 120 (cento e vinte) dias a contar da assi- atribuída ao tema da execução das obri- num futuro próximo ser desastrosos, pois a
o oferecimento do serviço em tela. O Termo natura do TAC para a duplicação das vagas gações de fazer. A efetividade do processo mudança na pirâmide etária do país é algo
de Ajustamento de Conduta (TAC) previu a no Centro Dia já existente; 2) até 31 de de- procura desenvolver meios processuais alardeado há anos – a projeção é a de que
obrigação da duplicação de vagas no Centro zembro de 2010 para inauguração de novo que permitam ao titular do direito material em 2030 somaremos mais de trinta milhões
Dia já existente em Campos dos Goytacazes Centro Dia em local diverso do centro já fruição mais próxima possível àquela que de idosos. Embora a tônica dos discursos
e da criação de outro Centro Dia com capaci- existente e com oferta mínima de 20 (vinte) adviria da entrega espontânea do bem-da- em geral e o da mídia seja o da gestão bem
dade mínima para atendimento de 20 (vinte) vagas. -vida. De nada adianta tutela coletiva, tutela sucedida do envelhecimento, a situação de
vagas. Tão logo assinado o TAC, foi promovida a antecipatória e termos de ajustamento fragilidade apresenta-se como uma realida-
A ampliação da rede foi detectada como mudança na Coordenação do Centro Dia em de conduta se, diante de administradores de constante nos asilos, nos hospitais e nos
uma necessidade urgente dentro do Muni- atenção ao que previa a cláusula sétima que refratários, a obrigação reconhecida como espaços domésticos. Não há uma política
cípio, devendo ser lembrado que, segundo exigia que o Coordenador fosse obrigatoria- devida vier a se tornar letra morta” (GOU- pública sistemática voltada para responder
as normativas em vigor, o Centro Dia deve mente graduado em curso de nível superior VÊA, 2003). aos problemas decorrentes dessa situação
ser localizado dentro da malha urbana, na área de saúde, cuja definição foi remetida Contudo, apesar de suas limitações, a exe- de dependência. E essa ausência pode co-
com facilidade de acesso ao transporte ao art. 11, § 2º, do Ato das Disposições Cons- cução dos títulos executivos assinados pelo laborar para tornar a situação do cuidador
coletivo e, preferencialmente, próximo à titucionais Transitórias da Constituição do gestor público tem se apresentado como o muito estressante. Muito embora, deva se
rede de saúde, comércio e demais serviços. Estado do Rio de Janeiro. Todavia, os prazos caminho adequado à concretização dos di- tomar cuidado para não fazer uma associa-
Registra-se que Campos dos Goytacazes é estabelecidos para ampliação da rede não reitos coletivos e difusos da população ido- ção direta entre as condições de saúde do
o município de maior extensão territorial foram cumpridos o que levou o Ministério sa. Assim sendo, aguarda-se que, de posse cuidador informal e o idoso em situação de
do Estado do Rio de Janeiro o que acentua Público a executar judicialmente o termo dos mecanismos processuais disponíveis, o dependência (NERI, 2002). Mas de qualquer
de ajustamento de conduta assinado. A Ministério Público obtenha sucesso na exe- forma,

72 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Se a Sua Velhice for Dependente – Quem Cuidará de Você? 73
A relação entre o cuidador e o idoso dependente Estudos, como os realizados pelo IBGE e safio que não escolheram. E quem cuidará Considerações Finais
é complexa e, dependendo do perfil psicológico Camarano (1999), colocam em cheque a an- da saúde e da dignidade deles?
de ambos, poderá ser muito difícil, principal-
tiga visão que apresentava os idosos como Como na maioria dos casos são famílias
mente em relação à autonomia do idoso que,
dependentes financeiros. Isso é um dado Podemos imaginar o ônus desta árdua e desgas- pobres ou remediadas, sem uma estrutura
apesar de estar dependente e frágil, muitas
que pode tornar mais amena a situação de tante tarefa, forjada numa repetitividade diária
vezes tem expectativas de exercitá-la tão plena- pública de apoio não há como enfrentarem
incessante, muitas vezes durante anos, com so-
mente quanto em seu passado. um idoso fragilizado ou, então, torná-la eficazmente o desafio da velhice depen-
brecarga de atividades no seu cotidiano, sendo
(FLORIANI; FERMIN, 2004, p.3/4) dramática. Na condição de dependente, a dente. Nota-se que em todos os casos, os
quase sempre uma atividade solitária e sem des-
família pode se posicionar de forma solidá- canso, que pode levá-lo a um isolamento afetivo idosos são portadores de doenças crônicas
Estar em companhia de seus familiares ria ou se aproveitar da situação para uma e social (...) quem arcará com os potenciais danos ou vivenciam algum tipo de situação em que
não garante, necessariamente, que os apropriação indébita. Não se esquecendo físicos, emocionais, sociais e existenciais do
as atividades funcionais do dia-a-dia ficam
idosos dependentes terão mais conforto e cuidador?
que a Constituição Federal também esta- parcialmente comprometidas. De acordo
(FLORIANI & FERMIN, 2004, p.2/8)
apoio para a realização de suas atividades belece que os idosos desprovidos de renda com a doença, demanda tratamentos siste-
básicas. É de conhecimento das delegacias possam reivindicar alimento de seus filhos. máticos, remédios caros, acompanhamento
Mesmo considerando os diferentes
dos idosos que as violências de que estes se Isso abre espaço para muitas querelas, que médico, terapias físicas e cognitivas, entre
padrões de suporte familiar, considera que
queixam são, na maioria das vezes, pratica- vão dos filhos que não ganham o suficiente outros. Sem falar que esse desafio pode
aqueles idosos com o número maior de
das por familiares, vizinhos e conhecidos. para si mesmo e protestam, aos pais que ter um alto custo físico e emocional para o
filhos aumentam substancialmente a sua
No caso dos idosos dependentes e fragili- foram negligentes e omissos com a família cuidador informal – geralmente uma mulher
possibilidade de receber apoio no momento
zados, o Estatuto do Idoso estabelece que, e ameaçam com a lei, o que muitos numa que se vê obrigada a cumprir dupla jornada
de necessidade. Em termos quantitativos é
antes de qualquer instituição, a família deva análise pouco emocional não lhe dariam por de trabalho.
bem provável que sim, porém, numa análise
arcar com os seus cuidados, fazendo preva- justiça. A partir da lógica sustentada pela busca
mais qualitativa o número de filhos não é ne-
lecer a solidariedade entre gerações dentro Aqui, do ponto de vista sociológico, o inte- da autonomia do idoso com algum nível de
cessariamente uma garantia, tendo em vista
do âmbito privado, resse em torno da dependência recai sobre a dependência, o Centro Dia é pensado como
que há uma tendência de um filho esperar
questão da reciprocidade, dos conflitos que uma possibilidade de manutenção dos vín-
Em países como o Brasil, que oferecem poucas que o outro assuma a responsabilidade,
se estabelecem na transferência de apoio culos familiares e não institucionalização
alternativas de apoio formal, o amparo ofe- principalmente quando as relações entre
recido pela família e por outros membros da entre os envolvidos e sobre quem deve as- dos idosos nos asilos, tendo em vista o inves-
eles estão marcadas por conflitos e dispu-
rede informal é de fundamental importância. sumir a responsabilidade para com o idoso timento feito em sua saúde física e mental. A
tas. De forma geral, as condições materiais
As dificuldades e a sobrecarga do cuidador fragilizado. Neste processo, embora não ideia é positiva, porém, esbarra em questões
e o curso de vida dos idosos e de sua relação
familiar acontecem em parte porque as famílias se perca de vista o fato de que as agressões que serão apontadas para o caso de Campos
têm poucos filhos e porque há cada vez mais com os filhos é que vão determinar a nature-
contra os idosos partem de familiares e co- dos Goytacazes, mas que, respeitando as es-
mulheres que trabalham; em parte por causa za da transferência de apoio.
das mudanças nos valores familiares e sociais, nhecidos, é preciso tomar o devido cuidado pecificidades de cada configuração, podem
incluindo-se os relativos à solidariedade para para não sobrecarregar os cuidadores infor- ser problematizadas para outros lugares
com os idosos. mais, esquecendo de que eles são obrigados também.
(NERI; CARVALHO, 2002, p. 779) a enfrentarem sob duras condições um de- A primeira delas diz respeito à estrutura

74 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Se a Sua Velhice for Dependente – Quem Cuidará de Você? 75
de atendimento. Dentro de uma cidade em lativa autonomia do idoso pode ser recupe- ELIAS, N; SCOTSON, JL. Os estabelecidos e os RAMOS, LR; VERAS, RP; KALACHE, A.
Outsiders. Trad. Vera Ribeiro. Envelhecimento populacional: uma realidade
que a população de idosos soma mais de 40 rada, mas também ser novamente perdida.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. brasileira. Rev. Saúde Pública, 21: 211-24, 1987.
mil pessoas, e deste montante o segmento Entre os pólos da dependência e da autono-
de baixa renda é o mais expressivo, o público mia existe uma gama de condições que va- FLORIANI, CA; SCHRAMM, FR. Atendimento TELLES, E. Racismo à brasileira: uma nova
alvo prioritário do programa são aqueles riará de pessoa para pessoa e das interações domiciliar ao idoso: problema ou solução? perspectiva sociológica.
Cad. Saúde Pública vol.20, no. 4. Rio de Janeiro: Relume-Dumará; 2003.
idosos com algum tipo de dependência. O familiares. De qualquer forma, para alguns Rio de Janeiro July/Aug. 2004.
que torna pertinente perguntar se numa mais cedo, para outros mais tarde, o nível RIBEIRO, MLS. História da Educação Brasileira: a
perspectiva de política social o efeito é tão de dependência (atividades funcionais e/ou GOUVÊA. Marcos Maselli. O Controle Judicial das organização escolar.
Omissões Administrativas: novas perspectivas de São Paulo: Cortez & Moraes, 1978.
abrangente quanto é propagado pelo poder atividades instrumentais) certamente tende
implementação dos direitos prestacionais.
público municipal. A questão não é porque a aumentar. Empurrar a fragilidade para Rio de Janeiro: Forense. 2003. ROMANELLI, OO. História da Educação no Brasil
atende apenas a vinte e seis pessoas. O pro- idades cada vez mais distantes não significa (1930/1973), Petrópolis: Vozes, 1980.
LEBRÂO, ML. Saúde e independência: aspirações
blema é que existe apenas um Centro-Dia que um dia ela não chegará.
centrais para os idosos. Como estão sendo SAVIANI, D. Política e Educação no Brasil. São
para uma cidade de quase 500 mil habitan- satisfeitas? In: NERI, Anita Liberalesso. Idosos Paulo: Cortez: Autores Associados, 1988.
tes. Não perigaria de a pressão exercida no Brasil – vivências, desafios e expectativas na
pelos que precisam de uma vaga no centro REFERÊNCIAS terceira idade. São Paulo: Editora Fundação Perseu VIANNA, SM. et al. Medindo as desigualdades
Abramo, Edições SESC, 2007. em saúde no Brasil. Brasília: Organização
levar a soluções apressadas para o proble- Panamericana de Saúde. Instituto de Pesquisa
ALVES, LS; RODRIGUES, RN. Determinantes da
ma dos que já estão? autopercepção de saúde entre idosos do Município LEMOS, CES. A solidão judicializada e a Econômica Aplicada, 2001.
A segunda questão é referente ao fato de de São Paulo, Brasil. São Paulo: Rev Panam Salud solidariedade intergeracional. VÉRTICES, Campos
Publica. 2005; 17(5/6): 333–41. dos Goytacazes/RJ, v. 12, n. 2, p. 29-54, maio/ago.
que os cuidadores informais precisam de 2010.
uma formação para lidar com os seus idosos BALTES, MM; SILVERBERG, S. A dinâmica
dependentes. Algumas dessas doenças são dependência-autonomia no curso de vida. In: LIMA-COSTA, MF. A escolaridade afeta, igualmente,
NERI, Anita Liberalesso (org.). Psicologia do comportamentos prejudiciais à saúde de idosos e
complexas e requerem um tratamento mi-
envelhecimento. Campinas, SP: Papirus, 1995. adultos mais jovens? Inquérito de Saúde da Região
nucioso. O desconhecimento acerca do seu Metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais,
desenvolvimento, de suas características CAMARANO, AA. Muito além dos 60: os novos Brasil. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, v. 13, n.
e de como atingem o modo de ser do idoso idosos brasileiros. Rio de Janeiro: IPEA, 1999. 4,dez. 2004.

pode piorar o quadro clínico deste. Cuidar LOPES, F. Para além da barreira dos números:
CARVALHO FILHO, José dos Santos. Ação Civil
para que os familiares compreendam do Pública: comentários por artigo. Rio de Janeiro: desigualdades raciais e saúde. Cad. Saúde de
que se trata a doença, dos seus aspectos Freitas Bastos. 1995 Pública, v.21, n.5, p.1595-601, 2005.

psicológicos, sociais e dos melhores proce- NERI, AL. Cuidar do idoso em família – questões
DEBERT, GG. A reinvenção da velhice.
dimentos a serem adotados em relação a São Paulo: Edusp, Fapesp, 1999. psicológicas e sociais.
ela, é também uma tarefa dos que detêm o São Paulo: Alínea Editora, 2002.
poder e a informação.
Isso nos leva a terceira questão. Uma re-

76 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Se a Sua Velhice for Dependente – Quem Cuidará de Você? 77
Uma Nova Leitura do Espaço Urbano de Campos
dos Goytacazes através do Olhar da Criança:
Contribuição Para Uma História Cultural Urbana *Drª em Estudos Urbanos
LEEA/CCH/UENF
A New Reading of the Campos dos Goytacazes Urban Space through tetepeixoto@gmail.com

the Vision of the Child: Contribution to a Urban Cultural History ** Msc Políticas Sociais
LEEA/CCH/UENF
oliveira.pohlmann@gmail.com
Teresa P. Faria*, Maria Alice Pohlmann**

Resumo Abstract
O presente artigo corresponde às atividades da The present article is from one of those activities of Oficina
Oficina CEU, do projeto de extensão intitulado CEU, belonging to the Extension Project entitled “Inte-
“Integração Socioespacial, Qualidade de Vida e gração Socioespacial, Qualidade de Vida e Cidadania”,
Cidadania” (2004 – 2008), atualmente intitulado (2004 – 2008), at the present time entitled “Integração
“Integração Socioespacial, questão ambiental e Cida- Socioespacial, questão ambiental e Cidadania”. We
dania”. Escolhemos a comunidade do Matadouro, choose the Matadouro Community, firstly because
por esta ser considerada área periférica do ponto that community is considered to be a peripherical area
on a socioespatial point of view, beyond the fact that
de vista sócioespacial e por localizar-se próxima à
Matadouro was occupied by very poor group of people.
UENF. O objetivo é, a partir dos desenhos, redações
Secondly, this area is located close to UENF. The main goal
e fotografias elaborados pelos alunos do 5º ano do
of this article is, since the drawings, texts and pictures,
ensino fundamental da Escola Municipal Francisco de elaborated by students of Brazilian Education System’s
Assis, no Matadouro, participantes das atividades da Fifth Degree in Escola Municipal Francisco de Assis, in the
Oficina CEU, captar as percepções, as representações Matadouro Community, participants on activities at the
das crianças sobre o ambiente urbano. A criança é um Oficina CEU, grasp the perceptions and the representation
explorador nato do espaço, já que este se constitui of the children about the urban environment. A child is a
como o local de suas brincadeiras, e com a liberdade space natural Explorer, since that this space is its favourite
e o despojamento que possui torna-se um agente inte- place to play. From its freedom and its stripping, the child
ressante para uma leitura e/ou releitura da cidade. becomes an interesting agent, allowing to read ou reread
Nas atividades, as formas de expressão utilizadas não the city. On the research, the different ways to express
sofreram imposição de qualquer técnica, permitindo themselves didn’t suffered any imposition from any tech-
nical allowing ideas could flow without embarrassment.
que as idéias fluíssem sem constrangimento. Os temas
The developed subjects were: housing, neighborhood,
desenvolvidos foram: moradia, bairro, caminhos, o
ways, downtown, without any influence from the
centro da cidade. Concluímos que as crianças têm um
researchers. We could conclude that the children have a
domínio e conhecimento da comunidade onde vivem, domain and knowledge of the community where they live
e que o “centro” é o espaço de referência e represen- and that the Downtown Area is the main reference of the
tação da cidade de Campos dos Goytacazes. centrality of Campos dos Goytacazes city.

Palavras-chave: Representação; Práticas Culturais e Keyword: Representation, Cultural Practices and City.
Cidade

78 Uma Nova Leitura do Espaço Urbano de Campos dos Goytacazes através do Olhar da Criança: 79
Contribuição Para Uma História Cultural Urbana
Introdução pela imagem, discurso, planos e desenhos sentido. maneira de pensá-la, vivê-la ou sonhá-la.
não é livre enquanto representação. Rama Já Roncayolo (1995) diz que a cidade é a Há a projeção de uma “cidade que se quer”,
O presente artigo resulta de umas das (1984) esclarece que as cidades, antes de representação ou um conjunto de represen- imaginada e desejada, sobre a cidade que se
atividades do projeto de extensão intitulado aparecerem na realidade, existem como tações, sendo que há um sistema de idéias, tem, plano que pode vir a realizar-se ou não.
“Integração Socioespacial, Qualidade de representações simbólicas, por meio de dis- mais ou menos coerentes, daqueles que Mas o interessante é que a cidade, por
Vida e Cidadania”, desenvolvidas entre 2004 curso, imagens mentais, gráficos, desenhos “fazem à cidade”, a projetam, discutem e ser produzida por diferentes grupos sociais
e 2008. O objetivo do artigo é, a partir dos de- e planos, que traduzem uma vontade e um executam. Esses portadores de tais idéias que a habitam, tem vida própria e não po-
senhos, redações e fotografias elaborados sonho, que é de transformar o espaço no seriam identificados no interior das classes demos nos esquecer que as classes comuns
pelos alunos do 5º ano do ensino fundamen- sentido de concretização de uma idéia: fazer dominantes ou das elites dirigentes como os também constroem representações, criam
tal da Escola Municipal Francisco de Assis, da cidade que se tem a cidade que se quer. “profissionais da cidade”, os encarregados outras práticas que nem sempre são regis-
na comunidade do Matadouro, em Campos Para Chartier (1995), a noção de represen- de implementarem os equipamentos ne- tradas.
dos Goytacazes, que participavam das ati- tação é central para a concepção de história cessários à intervenção urbana. Entretanto, Aqui, especificamente, nos orientamos
vidades da Oficina CEU1, captar as percep- cultural, que se baseia na correlação entre o autor nos lembra que ao fazermos uma pelos estudos sobre a criança, realiza-
1
A Oficina CEU –
Conhecendo o Espaço ções e as representações das crianças sobre práticas sociais e representações. Para ele, leitura da cidade não podemos nos prender dos por estudiosos como Geertz (1978),
Urbano, é uma atividade o meio ambiente urbano, integrando-as aos o termo representação manifesta tensões, apenas aos construtores do espaço urbano, Áries(1988), Corsaro (1997), Méredieu
de extensão universitária por um lado, a representação como dando também temos que nos perguntar sobre as (2006), Malho (2006), que demonstram que
do Projeto Integração
nossos estudos sobre a cidade.
sócio-espacial, qualidade A criança é um explorador nato do espa- a ver um objeto ausente, o que supõe que representações da cidade que provém dos a criança, através das experiências vivencia-
de vida e cidadania, cujos ço, já que este se constitui como o local de através da representação deixa de ter a au- consumidores do espaço ou habitantes da das, seleciona, modifica e cria percepções
um dos objetivos é levar
a criança a perceber que suas brincadeiras e com a liberdade e o des- sência. Por outro lado, a representação apa- urbe que também constroem a cidade. e representações sobre o que a rodeia,
são sujeitos urbanos e que pojamento que possui torna-se um agente rece como exibição de uma presença, como Bourdieu (1982) nota que as representa- podendo assim construir a representação
podem agir como elementos
interessante para uma leitura e/ou releitura apresentação pública de algo ou alguém. ções do mundo social na cidade atribuem do espaço em que estão inseridas. Segundo
modificadores da realidade.
da cidade, contribuindo assim para a cons- Em outras palavras, a representação afirma valores, ao espaço, à cidade, à rua, aos Corsaro (1997), as crianças são agentes ati-
trução da história cultural urbana. uma presença daquilo que se expõe no lugar bairros, aos habitantes, sendo que estes não vos que constroem suas próprias culturas e
A atividade baseada na foi realizada com do outro. Pesavento (1995) concorda com são neutros, devido à consonância com as representações, contribuindo para a produ-
os alunos do 4º e 5º ano do ensino fundamen- Chartier, quando diz que a representação é relações sociais e de poder. Assim é que as ção do mundo adulto.
tal da Escola Municipal Francisco de Assis a presença daquilo que se expõe no lugar do qualificações de perigosa ou segura, limpa Desse modo, estamos convencidos de que
(EMFA) que participaram das atividades outro. ou suja, ordenada ou anárquica, bela ou feia, revelar o que está escondido nos relatos,
da Oficina CEU, em 2007. A maneira como Portanto, a relação de representação para uma cidade variavam de acordo com os desenhos e fotografias, realizados pelas
as representações da cidade, bairro e a com o objeto ausente, segundo Pesavento produtores ou consumidores do espaço. crianças, isto é os aspectos valorativos da
comunidade desses alunos foram captados (1995), é uma presentificação, o que é dado Sem dúvida, estes “produtores do espaço” percepção que elas têm do bairro e/ou
a partir de desenhos, redações e fotografias a ver segundo uma imagem, mental ou ma- concebem uma maneira de construir e/ou cidade, é uma forma de resgatar a cidade
elaborados pelos mesmos. terial, que se distância do mimetismo puro transformar a cidade, através de práticas real. Entender a questão deste modo não é
A cidade pensada, formulada, enunciada e simples e trabalha com uma atribuição de definidas, mas também constroem uma submetê-la a um mero jogo de palavras, mas

80 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Uma Nova Leitura do Espaço Urbano de Campos dos Goytacazes através do Olhar da Criança: 81
Contribuição Para Uma História Cultural Urbana
sim partir do pressuposto de que as repre- A Criança e a Cidade: o que o sobremaneira do que lhes é permitido viver biente, em que se adquire conhecimento,
sentações são partes integrantes, também, olho vê? O que ele percebe? na cidade. através dos sentidos. Segundo Di Leo (1991),
daquilo que chamamos realidade. A criança será, pois, um explorador nato o conceito de percepção, no sentido mais
Para a realização da pesquisa, primei- O mundo visto e entendido pela criança do espaço, já que este se constitui como o amplo, é caracterizado por um processo de
ramente coletamos informações sobre o não é, obviamente, como o do adulto, pela local de suas brincadeiras, seja no quintal da cognição, em que os procedimentos men-
grau de conhecimento e entendimento simples evidência de que uma criança não casa, no playground do edifício, na praça, na tais se realizam mediante o interesse ou a
das crianças a respeito da cidade, através é um adulto. O estudo de desenhos, em rua ou nas quadras da escola. E com a liber- necessidade de estruturar a nossa interface
de desenhos e redações, elaborados pelos especial de desenhos infantis, tem sido dade e o despojamento que a criança tem, com a realidade e o mundo, selecionando as
alunos. Em segundo lugar, com o intuito de objeto de investigações sobre a construção ela se torna um agente muito interessante informações percebidas, armazenando-as e
perceber qual o olhar que elas tinham sobre da identidade da mesma no espaço em que para uma leitura e/ou releitura da cidade. conferindo-lhes significado. Em concordân-
a cidade e, ao mesmo tempo aguçar este está inserida, quer seja na família, na escola, Para Piaget (1976), a origem do conhe- cia a esse conceito, temos que o estudo da
olhar, passamos à observação prática, pois na rua ou na cidade. cimento está na ação do sujeito quando representação gráfica infantil está baseado
como aborda Lynch2 (1999), ao olhar para a Para Malho (2006), as experiências sociais este interage com o objeto e como o objeto na sua percepção, associado à apropriação
2
LYNCH, Kevin. A Imagem da
Cidade percebe-se que a cada instante, há que as crianças têm, ou possam ter, estão depende das estruturas mentais que ele, e compreensão de seu mundo imediato.
Cidade. São Paulo: Editora
Martins Fontes, 1999. mais do que o olho pode ver, mais do que dependentes dos seus “contextos de vida”, sujeito, possui num determinado momento. “Desenhar é um assunto muito pessoal.
pode perceber, um cenário ou uma paisa- bem como dos ritmos da vida doméstica, da Ele considera que “o desenho é uma repre- Cada desenho é o reflexo da personalidade
gem esperando para serem explorados.” coletividade e na sua vida escolar. As ações sentação, isto é, ele supõe a construção de do individuo que o criou”. (Di LEO, 1991)
Desse modo, a prática da observação e e interações permanentes, onde a emoção uma imagem bem distinta da percepção”. Já Na pesquisa, as formas de expressão
percepção foi importante para envolver as desempenha o papel mais decisivo para a Luquet (1979), seguidor das teorias constru- utilizadas nas oficinas foram os desenhos,
crianças numa questão simples mais pre- organização dos vários sistemas de comuni- tivistas de Piaget, entende que a criança, ao sem imposição de qualquer técnica, e as re-
mente, que é “PENSAR A CIDADE”, perceben- cação, permitem à criança experiências de desenhar um determinado tema ou objeto, dações, sem restrições à caligrafia ou modo
do-a como espaço-expressão. De acordo vida que as levam a descobrir e a desenvol- inspira-se não no modelo objetivo que tem de tratamento, para que as idéias pudessem
com De Certau (1994), podemos considerar ver os seus próprios processos adaptativos, diante dos olhos, e sim na imagem que tem fluir sem constrangimento. Como o obje-
que a cidade tem sua expressão, através as suas competências para a integração em seu espírito, no momento em que dese- tivo principal era captar a maneira como
da arquitetura e do traçado, e dos registros social dinâmica. nha, ou seja, no modelo interno. as crianças vivenciam a cidade, os temas
físicos de sua linguagem, que revelam a Nesse contexto, segundo Topalov (1999), Assim, a percepção pode ser considerada desenvolvidos foram: moradia, o bairro, ca-
história, as idéias e os sonhos que deixaram inicia-se a relação material e intelectual como um grande auxílio para que os dese- minhos realizados no dia-a-dia, centro, sem
suas marcas simbólicas na forma urbana. com o espaço (com o meio, e bem assim nhos traduzam o espaço da maneira mais nenhuma influência do pesquisador.
com os recursos) e as decorrentes maneiras real, ou seja, a realidade vivenciada. Saímos com as crianças pelo bairro e de-
de viver. A visão que têm da cidade, sendo Bolis (2000), nos seus estudos sobre o pois na cidade, utilizando máquinas fotográ-
esta entendida como o habitat natural do espaço urbano na ótica infantil, diz que a ficas, por meio das quais eles registravam as
homem civilizado, depende, naturalmente, percepção é entendida como um processo imagens de maior representação para seu
das suas idéias e opiniões sobre as coisas, interativo do indivíduo com o meio am- olhar. Ferrara (2000) enfatiza que através da

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Contribuição Para Uma História Cultural Urbana
imagem urbana é possível perseguir cami- das atividades urbanas e dinamização do cidade inicia um processo de verticalização serviam como habitação. Este processo
nhos que nos permitem entender a fase de comércio, a cidade se expandiu em todas as e expansão urbana gerando uma nova confi- iniciou-se em Campos a partir da segunda
um processo de transformação urbana, suas direções, mas as áreas situadas a oeste fo- guração espacial. metade da década de 80 e as atividades e
características e, sobretudo, o papel que de- ram valorizadas pela presença de algumas A partir de 1980, assiste-se a expansão alguns serviços começaram a aparecer na
sempenha na teia dos significados urbanos. construções de prestígio datadas do final do urbana orientada do centro em direção à Avenida Pelinca e seu entorno, transforman-
século XIX, como a Beneficência Portugue- periferia com tendência à fragmentação. do num ponto de concentração de comércio,
sa, Liceu de Humanidades de Campos. Neste sentido, a verticalização das áreas lazer, serviços e condomínios verticais de
A Cidade de Campos Por outro lado, a população menos favo- centrais mais valorizadas, a implantação de luxo.
dos Goytacazes recida é deixada à margem deste processo loteamentos de alta renda e a construção Atualmente o centro de Campos, o seu
de modernização, vivendo em condições de condomínios horizontais fechados para “centro histórico”, está degradado, desor-
O Município de Campos dos Goytacazes precárias, em zonas mais distantes da cida- camadas de alta e média renda em áreas denado e é freqüentado apenas durante os
tem sua história vinculada à pecuária e à de, aonde ainda existiam pântanos e alaga- periféricas próximas a bairros comumente dias de semana e deixou de ser o local de
agroindústria sucro-alcooleira, se destacan- diços e os serviços de infra-estrutura ainda habitados por camadas populares e fave- passeio e de lazer da burguesia, que passou
do também pela pujança de suas atividades não haviam chegado. Os primeiros bairros las, confere outro caráter à configuração a freqüentar a Pelinca.
comerciais. Até os anos 70 do século XX era periféricos começam a surgir, após 1930, tais sócio-espacial da cidade de Campos: a pro- Contudo, o centro continua sendo a área
conhecida como cidade do açúcar. como Turf Club, Saco e Matadouro. ximidade espacial entre ricos e pobres sem, mais importante da cidade, pois se destaca
Desde os tempos de vila3, a área central No bojo da modernização da cidade que no entanto, não abreviar a distância social como o lugar de melhor acessibilidade em
3
A vila de São Salvador dos
Campos dos Goytacazes foi
da cidade sempre foi valorizada, primei- se quer, instala-se o início da segregação entre mesmos (CARVALHO, 2004). relação ao conjunto da cidade; como lugar
fundada em 1677 e elevada ramente por ser o núcleo original, com sua sócio-espacial, já que a apropriação dos me- A partir de 2003, os dados mostram que de concentração do poder, seja político ou
à categoria de cidade em praça central, onde se localizavam os prin- lhores terrenos se dará por parte da burgue- a Bacia de Campos é a maior produtora de religioso. Isso acaba se refletindo em um
1835, passando a chamar-se
Campos dos Goytacazes. cipais elementos urbanos, tais como: a Igreja sia industrial e caberá ao segmento de baixa gás natural (46% das reservas) e de petróleo simbolismo através das características dos
Matriz; a Casa de Câmara e Cadeia e o Pelou- renda a terra mais distante da área central, (83,5% das reservas) do Brasil, apesar desses seus prédios principais.
rinho; em seguida somam-se os solares dos levando-os, inclusive, a ocupar ambientes índices à cidade não apresenta uma distri-
“barões do açúcar” e o comércio sofisticado; físicos, considerados “áreas de riscos”, como: buição de renda proporcional para todos
e mais tarde (no final do século XIX) chegam beira de rio, regiões alagadiças, beira de os habitantes, encontramos uma parte con- O Matadouro: lugar da Escola
os inúmeros investimentos do poder público rodovias e de linhas férreas, acarretando siderável de pessoas vivendo em condições e de moradia das crianças
em embelezamento e infra-estrutura, o aparecimento de um “habitat” em locais precárias.
buscando urbanizar e modernizar a cidade denominados favelas. De acordo com o processo de crescimento O bairro, favela e/ou comunidade Mata-
(FARIA 2001, POHLMANN, 2004). Tudo isso A partir dos anos 70 do século passado, a da cidade, o centro se tornou pequeno para douro é uma ocupação ribeirinha, à margem
contribui significativamente para o reforço cidade passa a ser representada pela força sua expansão, então certas atividades fo- direita do Rio Paraíba do Sul. A origem do
de sua centralidade (FARIA, 2005). do petróleo, ganhando inclusive uma nova ram ocupando outras áreas, numa espécie nome vem do fato de que em 1872, instalou-
Com o crescimento urbano, favorecido representação “Campos doce como o açú- de desdobramento da área central, muitas -se neste local o Matadouro Público Muni-
pela indústria açucareira, diversificação car, forte como o petróleo”, desde então a vezes substituindo edificações que antes cipal, bem afastado da área central, como

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Contribuição Para Uma História Cultural Urbana
definiam as normas de higiene. Devido ao área periférica do ponto de vista sócio-es- estarem acompanhados por um adulto, ape-
A Escola
crescente desenvolvimento das atividades pacial, identificando-se, tradicionalmente, sar da distância entre o Matadouro e a área
do Matadouro, este local passou a atrair no- como área marginal, ocupada por um grupo central ser relativamente pequena. Aonde
A Escola Municipal Francisco de Assis, se
vos moradores, surgindo um bairro dotado social de baixa renda e que foi aproximada, vão ao comércio popular para consumir,
situa na “comunidade” do Matadouro. A re-
de linhas de bonde, tanto de cargas como de forma superficial, de uma rede de bens, principalmente roupas e sapatos, ou para
presentação da Escola na vida das crianças
de passageiros, interligando a região com o serviços e ações públicas, estas típicas de se divertir assistindo aos shows populares,
do Matadouro é muito presente, pois é no
centro da cidade. espaços mais centrais, sem deles usufruir bem como passear simplesmente no final
ambiente escolar que os alunos aprendem
A grande crise do bairro iniciou-se nos pri- (CARVALHO, 2004). Consideramos que exis- de semana, ou para prática religiosa. Mui-
a se valorizar, bem como divulgam o traba-
meiros anos da década de 1970, após o Ma- te para além da segregação em seu sentido tas dessas crianças fazem parte da Igreja
lho, isto é, a aprendizagem ultrapassando
tadouro Público ter sido desativado, intensi- concreto, físico, geométrico a segregação Universal, cuja sede principal se localiza no
os portões e muros escolares. No relato de
ficando a degradação do bairro. Este passou no campo das representações que constro- centro da cidade.
Beatriz (10 anos) do 4º ano do ensino fun-
a ganhar a denominação de favela. O termo em e determinam as condutas e atitudes no Com isso podemos afirmar que para as
damental demonstra de forma bem clara a
favela é de difícil conceituação, recebendo terreno de estudo. crianças do Matadouro, a centralidade de
representação escolar, quando diz que:
diferentes denominações e definições de Atualmente, o Matadouro possui em Campos é o antigo centro.
acordo com a realidade sócio-econômica torno de 700 habitantes, tem escola, posto Percebemos, também, que na maioria “Entrei na escola no início deste ano, não co-
e cultural do país, região ou cidade onde saúde e recentemente passou por obras de das vezes, o espaço importante para estas nhecia ninguém, hoje a escola faz uma grande
está inserida. Por outro lado, está eivado de infra-estrutura recebendo galerias pluviais, crianças é o Matadouro, onde moram. Para diferença na minha vida”.
preconceitos é substituído, na maioria das calçamento, passeios públicos e recebeu eles ali estão seguros, pois todos se conhe-
vezes, por comunidade, bairro, vila. Porém um conjunto habitacional vertical popular. cem e o entorno é o suficiente para atender Pensamos em De Certo quando este
o termo favela é o que expressa mais cla- seus anseios. Os desenhos nos mostram a afirma que “o espaço é um lugar praticado”
ramente à condição de uma aglomeração valorização do local: ali estão seus amigui- e que um lugar é uma ordem “segundo a qual
excluída dos direitos e das condições satisfa- A Cidade no Olhar das Crianças nhos, a rua para brincar, o rio para tomar se distribuem elementos nas relações de co-
tórias de sobrevivência humana. banho em dias de muito calor, a escola com existência”, para as crianças do Matadouro,
Escolhemos a comunidade do Matadouro Através dos desenhos e fotos, elaborados as atividades culturais, resgatando as práti- o espaço escolar é exatamente o local onde
como local para o desenvolvimento da pelos alunos, vimos que a cidade de Campos cas populares, como a Mana Chica e o Fado eles aprendem a ser cidadãos e praticam ci-
pesquisa pelo fato da mesma localizar-se é representada como um amontoado de português. dadania, “a escola é um lugar bom, aprendo
próxima à UENF, facilitando a troca entre sa- prédios, pontes, ruas, becos e avenidas, Para as crianças, favela é “um local que a ler e a escrever, a ter educação e a respeitar
beres científicos gerados pela Universidade barulhenta, poluída, violenta, que possui um a qualquer momento pode acontecer um as pessoas – Wallas (10 anos – 4ºano).
e saberes locais, além de reforçar a integra- vai-e-vem de pessoas, congestionamentos, tiroteio, ou mesmo uma guerra. Ninguém é Valorizam o espaço físico da escola, quan-
ção universidade com a comunidade. etc. amigo de ninguém, ninguém confia em nin- do relatam o espaço escolar como o belo, 4
Trecho da redação de
A comunidade do Matadouro é conside- A imagem da cidade é de um lugar ao mes- guém”. Elas consideram o Matadouro uma moderno perante o espaço em que está Milena, aluna do 4º ano
mo tempo bonito e perigoso. Constatamos inserida e traçam uma comparação com o do ensino fundamental da
rada, como várias outras em nossa cidade, comunidade por ser “um lugar mais calmo,
Escola Municipal Francisco
que eles não vão ao centro da cidade sem você confia nas pessoas, não tem tiroteio” 4 prédio antes da reforma, dizendo que: de Assis, Matadouro.

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Contribuição Para Uma História Cultural Urbana
“Antes ela era simples, só tinha cinco salas, um as roupas estendidas ali permanecem até o universo infantil que a criança pouco sabe lenha, com panelas, e com a chaminé fume-
refeitório pequeno, mas agora ela é grande, terminar o processo de secagem. sobre problemática urbana, mas segundo gando, os paia e irmãos, demonstrando que
moderna tem piso nos corredores e nas salas
Percebemos ainda, que os pontos de refe- VOGEL (1995) sabem que casa e família são para ele a casa é o lugar sagrado, onde se
de aula, os banheiros são grandes, o refeitório é
bonito e grande, dá para todos” rência são os estabelecimentos comerciais sinônimos, pois conceituam a casa como um alimenta, têm a presença, o aconchego e a
Thiago (10-anos – 5º ano) ou as casas dos moradores mais conhecidos conjunto de pessoas que moram nela, o de- proteção da família.
como Bar do Renê, casa da Dona Belinha, a senho e o texto de Douglas (10 anos – 4º ano
quitanda da Silvia, Oficina do André. ensino fundamental) nos relata o conjunto
A Rua: Andando pela Rua Vejo... Ao possibilitarmos o uso de máquina foto- de significados e representação tem a casa, Conclusão
gráfica, tivemos uma grata surpresa, de ver bem como a relação da casa com a família.
Ao caminharmos com as crianças em que apesar de todas as dificuldades vividas, Em primeiro lugar é preciso dizer que a
algumas áreas do bairro do Matadouro, possuem a sensibilidade de fotografar pai- “Minha casa eu adoro ela. Eu não quero mudar. investigação que realizamos é de caráter
A casa é muito importante para nós, muita gente exploratório, refere-se às nossas inquie-
notamos o quanto os alunos sentiam-se sagens no mínimo intrigantes que desper-
não tem casa..... Eu gosto de morar com minha
importantes por poder nos apresentar o seu tam curiosidade e múltiplas interpretações tações sobre uma questão simples mais
mãe, meu pai e minha irmã. Nossa casa tem seis
espaço e como eles o ocupam. dos pesquisadores: a rua, os varais, os becos, cômodos, ela é de tijolo”. premente, que é “PENSAR A CIDADE” a partir
A rua é um espaço de socialização e não a casa de dona Belinha, o rio sujo, os “fundos” (Douglas, 10 anos, 4º ano do das experiências daqueles que nela vivem.
significa apenas um lugar de circulação, de da UENF com mato, sujeira. ensino fundamental EMFA). Escolhemos a criança, por considerar que
passagem, mas é nela que brincam: soltam ela é um explorador nato do espaço, e com
pipa, jogam bola de gude, pelada, pique Mas em outro desenho, Luana (11 anos – 5 a liberdade e o despojamento que tem, a
esconde, andam de bicicleta. Já a Avenida A Casa do ensino fundamental) demonstra que criança se torna um agente muito interes-
Alberto Lamego (principal via do bairro sabe dos preconceitos que têm a favela e sante para uma leitura e/ou releitura da
Parque Califórnia, vizinho à comunidade do Em primeiro lugar não existem cidades por isto ressalta que sua casa é de tijolo, tem cidade. Além da idéia de fazer com que os
Matadouro) é temida pelas crianças, pois é sem ruas e casas. Segundo MÈRDIEU (2006) banheiro, quintal com plantas e seu próprio alunos percebam que fazem parte do espa-
considerada perigosa pelos riscos de atro- entre todos os temas possíveis, a CASA é varal de roupas. ço urbano em que estão inseridos e que são
pelamento. onde nós podemos aprender de que modo A redação e o desenho que a menina agentes sociais, podendo agir como elemen-
Os varais de roupas aparecem em quase à criança vive o espaço. É o primeiro espaço Laleska de 13 anos, do 5º ano e o título que tos modificadores da realidade.
todos os desenhos. São presenças muito explorado, é o local em que se desenvolvem deu ao mesmo - “era uma vez uma casa” - nos O instrumento utilizado foi o desenho,
fortes no cotidiano daquele local. Mesmo as primeiras relações sociais, com a família. chamou muita atenção, pois a representa- a redação e a fotografia, sendo que os mais
com as intervenções urbanas acontecidas Além de ser um espaço considerado seguro. ção de sua casa partida ao meio demonstrou utilizados foram os desenhos. Os estudos
neste espaço, os varais continuam nas ruas, MÈRDIEU (2006) afirma que a criança proje- toda a angústia que estava passando, devi- sobre o desenho, de um modo geral, favore-
calçadas e em terrenos vazios. São nos va- ta na casa suas angústias, a imagem deste do à crise familiar. cem investigações sobre o desenvolvimento
rais que os moradores tecem suas relações espaço é visto por ela com a extensão do seu Paulo representa a sua casa muito seme- infantil no que se refere à inteligência, à
de vizinhança, cada varal tem um dono e corpo e das sensações viscerais. lhante a uma manjedoura (cobertura de cognição, à motricidade e à afetividade.
ninguém usa o varal do outro, como também A representação da casa é tão vital para palha, uma estrela), mas com um fogão à Mas também nos auxilia na identificação

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Contribuição Para Uma História Cultural Urbana
de aspectos sociais e culturais do meio serviços e de poder, para uma nova área con- DI LEO, Joseph H. A interpretação do desenho TOPALOV, C. Da questão social aos problemas
ambiente das crianças, por este segundo siderada mais nobre que é a Pelinca, para as infantil. 3ª ed.Trad. Marlene Neves Strey. urbanos: os reformadores e a população das
crianças da EMFA, situada no Matadouro, este Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1991. metrópoles em princípios do século XX. Rio de
motivo, na pesquisa optamos pelo desenho Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1999.
como instrumento para apreender o conhe- centro é a principal referência de centralidade FERRARA, Lucrécia – Os Significados Urbanos.
cimento dela sobre a cidade e ao mesmo da cidade de Campos. São Paulo: Editora Da Universidade de São Paulo: VOGEL, A., LEITÃO, G. A. Como as crianças
Esperamos que ao revelarmos e valorizar- Fapesp, 2000. vêm a cidade, Rio de Janeiro: Pallas Editora e
tempo levando-a se identificar com o sujeito Distribuidora, 1995.
urbano. mos o olhar, as representações das crianças
GEERTZ, C. A interpretação das culturas.
Além de que vários estudos constataram sobre a cidade de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeriro: Zahar, 1978.

que as atividades gráficas, como o desenho, nas nossas investigações sobre a história de
LUQUET, G. H. O desenho na infância. Trad. Maria
podem reproduzir signos que indiquem co- Campos, possamos contribuir para com os
Teresa Gonçalves de Azevedo. Porto: Livraria
nhecimentos, interesses valores, dificulda- estudos que se dedicam à história cultural Civilização, 1979.
des, ou seja, através do desenho as crianças urbana.
LYNCH, K. A imagem da cidade. São Paulo: Martins
têm expressado sua subjetividade sobre o Fontes, 1997.
mundo em que vive.
O resultado do material que foi coletado Referências MALHO, M. J. A criança e a cidade: Independência
de mobilidade e representações sobre o espaço
nos revelou uma rica fonte de dados sobre ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família, Rio urbano. Anais do V Congresso Português
a cidade e como ela é representada, vivida, de Janeiro: Zahar,1988. de Sociologia. Sociedade Contemporânea:
pois foi possível verificar como esses alunos reflexividade e ação. Porto, 2006.
BOLIS FILHO, H. A percepção urbana na ótica infantil
percebem o espaço urbano, suas relações www.cori.unicamp.br/jornadas/completos/UFSM. MÈREDIEU, F. O Desenho Infantil – São Paulo:
com os limites físicos, áreas de domínio, Culytrix, 2006.
noções de territorialidade e percepção BOURDIEU, P. Ce que parler veut dire.
Paris: Fayard, 1982. PESAVENTO, S J. Muito além do Espaço: por uma
do meio em que residem. Sendo que não
História Cultural do Urbano,
podemos esquecer que a cidade revelada e CARVALHO, M. B. Proximidade espacial e www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/178.pdf ,1995.
a relações com o espaço estão muito ligadas distanciamento social: determinantes da segregação
sócio-espacial - a percepção entre segregados e auto PIAGET, J. A representação do espaço na criança.
às interações dos alunos com o ambiente
segregados. Um estudo da favela do Matadouro seu Porto Alegre, 1993.
(espacial, social, temporal e cultural), ou entorno. Dissertação de Mestrado, CCH/UENF, 2004.
seja, as suas experiências vividas, que leva- RAMA, A. A cidades das letras, São Paulo: Ed.
mos em consideração, a fim de obter o seu CHARTIER, R. A História entre as práticas e Brasiliense, 1984.
Representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.
conhecimento real. RONCAYOLO, M. La ville et ses territoires.
A pesquisa revelou que o centro da cidade CORSARO, W. The Sociology of Childhood. Paris: Gallimard,1990.
considerado como uma área degradada California: Pine Forge Press, 1997.

que vem perdendo seu valor simbólico e de


CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. artes
principal local das atividades comerciais, de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994,

90 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Uma Nova Leitura do Espaço Urbano de Campos dos Goytacazes através do Olhar da Criança: 91
Contribuição Para Uma História Cultural Urbana
92 93
Introdução à Vida Acadêmica
Introduction to Academic Life * Doutora em Educação professora
adjunta da Universidade Federal
Fluminense
Eloiza Dias Neves* edneves@id.uff.br

Resumo Abstract
Introdução à Vida Acadêmica é uma ação de Introduction to Academic Life is an extension action
extensão que tem oferecido um espaço de formação which has been offering a space of formation to uni-
de estudantes universitários e professores de todos versity students and teachers in relation to research
os níveis de ensino, no que se refere à pesquisa e and teaching for the past four years. In the face of the
ao ensino. Diante da expansão da UFF-Campos, o greater access to higher education and expansion of
projeto, anual e em sua quarta edição, é composto de Universidade Federal Fluminense Campos dos Goy-
um curso, um grupo de estudo, minicursos e palestras, tacazes (RJ, Brazil), this action, an annual project, in
que busca melhorar o desempenho dos estudantes/ his fourth edition, is made of weekly studies, courses
professores nas atividades acadêmicas. O projeto and crash courses, speeches, that aims to improve the
é especialmente pensado para a formação de knowledge of the participants in academic activities.
pessoas não somente para se inserirem no mercado The project is especially made up to the training of
de trabalho, mas, principalmente, capazes de lidar people not only prepared to the work market, but
com as regras acadêmicas e, posteriormente, produ- also able to deal with academic rules e, eventually,
zirem conhecimento. O projeto é amplo, vinculado to produce knowledge. It´s a broad project, linked to
a atividades de ensino e pesquisa, e consiste numa teaching and research activities, and it consists of
densa formação acadêmica. Mais de cem alunos e a dense academic formation. More than a hundred
professores da graduação e pós-graduação dele se graduated and post graduate students have already
beneficiaram. taken its benefits.

Palavras-chave: Formação acadêmica; Saberes aca- Keyword: Academic training; Academic knowledge;
dêmicos; Sujeito leitor; Pesquisador. Reading subject. Researcher.

94 Introdução à Vida Acadêmica 95


Introdução e contexto No que se refere à educação superior, é Goytacazes, passaram a funcionar os cursos e se distancia do contexto e da experiência
notória a exclusão da maioria dos estudan- de graduação em Geografia (licenciatura cotidiana” (CHARLOT, 2012). Este eu “(...) não
A educação no Brasil continua vivendo tes do sistema, visto que na faixa etária entre e bacharelado), Ciências Econômicas (ba- é dado; ele é construído e conquistado, (...)
um momento paradoxal e contraditório 18 e 24 anos apenas 9% dos jovens brasilei- charelado) e Ciências Sociais (licenciatura inscreve sua atividade em uma abordagem
neste início de século XXI. Por um lado, ros frequentam a universidade. Assim mes- e bacharelado), com as primeiras turmas de verdade, de objetividade, de universali-
verifica-se a enorme expansão do sistema mo, há que se considerar que, em que pese ingressando no primeiro semestre de 2010. dade” (CHARLOT, 2005, p.44). Charlot traz,
educacional, acompanhada do discurso o fato de que o número de vagas federais Em 2011, tiveram início os cursos de História ainda, a ideia de um “eu empírico”, que se
oficial apresentando a educação como a tenha dobrado de 2003 a 2010, 89,4% das ins- (licenciatura e bacharelado) e Psicologia relaciona “(...) à experiência e a questões
grande responsável pelas possibilidades tituições de ensino superior pertencem ao (bacharelado). Em relação às vagas e aos como as do bem e do mal, do permitido e do
de integração ao mundo globalizado e à so- setor privado (são 245 instituições públicas turnos, foram propostas 190 vagas anuais, proibido (...)” (idem, ibidem).
1
A chamada “sociedade do ciedade do conhecimento1.Por outro lado, de educação superior e 2.069 particulares) e sendo que os cursos com titulação exclusiva Vale adiantar que pesquisas desse autor
conhecimento” demanda o persistem os altos índices de analfabetismo, detêm cerca de 70% do total das matrículas de bacharelado funcionarão no turno diur- com jovens dos meios populares franceses
domínio de habilidades de
evasão, repetência e desigualdades de reais (BRASIL, 2014a). no, e os que envolvem licenciaturas, no tur- mostraram dificuldades de se distinguir o
caráter cognitivo, científico
e tecnológico, altos níveis oportunidades educacionais. De acordo com o Plano Nacional de Edu- no da noite, de modo que possam assegurar “eu epistêmico” do “eu empírico”. Tal dado
de competência, além cação (PNE) em vigor, 40% das matrículas também a inclusão de alunos que exerçam foi entendido como um conflito entre formas
É fato, entretanto, que a conjuntura
do desenvolvimento da
capacidade de interação atual é diferente em alguns aspectos das ativas de terceiro grau deveriam ser oferta- o magistério na rede municipal e estadual heterogêneas de se aprender, conflito este
em grupos e da criatividade. décadas anteriores, visto que houve uma das por instituições públicas no ano de 2011. de ensino, assim como os demais alunos expresso na oposição “aprender na escola”
2
O autor usa a lógica de recuperação parcial do Estado em sua face E o PNE 2011-2020 pretende elevar a taxa trabalhadores. O número de estudantes e “aprender na vida”, um problema central a
Florestan Fernandes, para social e uma ampliação intensa de políticas bruta de matrícula na educação superior universitários cresceu exponencialmente, ser enfrentado na escola (CHARLOT, 2005).
quem a classe dominante
e programas dirigidos à grande massa. para 50% e a taxa líquida para 33% da popu- portanto. Os resultados aqui mostram que a po-
brasileira, a “minoria
prepotente”, associa-se ao Isso apesar de também se considerar uma lação de 18 a 24 anos (BRASIL, 2014b). O que E quem são esses estudantes que ingres- pulação pesquisada pode ser distinguida
grande capital internacional, parece dizer que pelo menos na retórica o sam na UFF-Campos? Uma pesquisa de em pelo menos dois grupos, seja no perfil
continuidade de um projeto desenvolvimen-
com a manutenção de
grandes massas (a “maioria tista com foco no consumo, num processo de acesso mantém-se. Uma constatação final é pós-doutoramento (NEVES, 2012) buscou socioeconômico e cultural e no percurso
desvalida”) na miséria, em modernização e de capitalismo dependente que a considerável ampliação deste acesso conhecer alguns elementos dos processos escolar, sejam nas relações com o saber. Um
que pese o alívio da pobreza
empreendido, com um (FRIGOTTO, 2011)2. não tem sido acompanhada de políticas de construção do “eu epistêmico” (CHAR- grupo de estudantes concebe o ofício dis-
precário acesso de parte da Neste sentido, algumas pesquisas públicas voltadas para a permanência dos LOT, 2009), que pudessem nos ajudar a com- cente como uma conquista social, mas outro
classe trabalhadora a bens estudantes no sistema educacional de ensi- preender o exercício do ofício de estudantes grupo menor vive a afiliação à universidade
de consumo. Este fato tem
indicam que a escola, considerada o local
sido associado ao nascimento privilegiado e formal para o ato educativo no público como um todo. universitários, quer seja, suas relações com num processo unificado e simples, porque
de uma “nova classe média nos últimos três séculos, é uma instituição A Universidade Federal Fluminense a universidade e com o saber universitário. herdado das famílias.
brasileira”, ideia contra a qual
se opõem diversos cientistas que passa por um sério problema de falta participa desse processo de expansão, de “(...) é o eu do conhecimento (da Razão, Ainda de acordo com a pesquisa, os novos
sociais brasileiros, dentre o de legitimidade e de sentido na atualidade acordo com a política do MEC de expansão diria a Filosofia clássica; do saber cientifico, estudantes dessa universidade são em sua
quais destaco Souza (2010),
(DUBET, 2002; CANÁRIO, 2005; CHARLOT, universitária. Desta maneira, a partir do diria Vigotski), o eu sujeito (universal) de um maioria proveniente das classes populares
em sua obra Batalhadores
Brasileiros. 2009). segundo semestre de 2009, em Campos dos conhecimento que objetiva os seus objetos e, de algum modo, criaram as “táticas dos

96 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Introdução à Vida Acadêmica 97


dominados”. Vale lembrar que a noção de autoritário e excludente”, criado pelas elites ora explicitados e discriminados (NEVES, -se incentivar a inclusão dos diferentes
“tática” é definida como procedimentos dos agropecuárias e agroindustriais locais, de 2012). aspectos da vida social e cultural na busca
fracos, dos destituídos de poder, que, sem apropriação e uso dos recursos existentes Por tudo isso, o ofício discente desses de uma postura científica.
“base para estocar benefícios, aumentar no território do Norte Fluminense, processo estudantes universitários deve ser pensado
a propriedade e prever saídas”, operam no este que tem respondido pelos mecanismos levando-se em consideração os processos
espaço do outro, aproveitando ocasiões pro- de produção e reprodução das desigual- acadêmicos e intelectuais, sem que se Referencial
pícias. (CERTEAU, 1994, pp. 93-94). Em outras dades, da pobreza e da exclusão sociais da esqueçam os processos empíricos das rela- teórico-metodológico
palavras, os alunos conseguiram contornar região (CRUZ, 2003)? O trabalho docente ções com o saber. Para uma formação assim
obstáculos e subverter a ordem dominante nos últimos quatorze anos, com ensino demandada, o objetivo geral da ação de Introdução à Vida Acadêmica fundamen-
a seu proveito, no caso, para chegarem ao universitário (no âmbito público, privado, extensão foi pensada no sentido de melho- ta-se em referencial teórico-metodológico
ensino superior. O autor citado os denomina presencial ou a distância, com alunos porta- rar a formação acadêmica dos estudantes amplo, orgânico e articulado. Tem como
“figurantes”: dores de necessidades especiais ou não, na universitários em geral, da graduação ou uma ideia básica a que “A formação não se
graduação e na pós-graduação) e fazendo da pós-graduação, provenientes da própria constrói por acumulação (de cursos, de
Esse heroi anônimo vem de muito longe. É o mur- pesquisas em escolas públicas do ensino UFF e de outras universidades da região. conhecimentos, ou de técnicas), mas sim
múrio das sociedades. De todo tempo, anterior
básico, revela um problema comum: a falta Para que ocorresse uma efetiva melhora através de um trabalho de reflexidade
aos textos. Nem os espera. Zomba deles. Mas,
nas representações escritas, vai progredindo. de intimidade da maioria dos estudantes e no desempenho acadêmico dos estudantes, crítica sobre as práticas e de (re) construção
Pouco a pouco ocupa o centro de nossas cenas de muitos professores com a leitura em ge- os seguintes objetivos específicos foram permanente de uma identidade pessoal”
científicas. Os projetores abandonaram os ral, e, mais especificadamente, com o texto pensados: (NÓVOA, 1995, p.25).
atores donos de nomes próprios e de brasões acadêmico, a leitura em língua estrangeira e 1) Estimular a reflexão crítica e o pensamen- Nesta lógica, o ofício de estudante vem
sociais para voltar-se para o coro dos figurantes
com a pesquisa científica. to complexo; sendo pensado em sua dimensão biográ-
amontoados dos lados, e depois fixar-se enfim
na multidão do público. Associa-se a esta realidade mais dados da 2) Favorecer o desenvolvimento de uma fica e contextual. Isso significa discutir as
(CERTEAU, 1994, p.55) pesquisa anteriormente referida, quer seja, postura interdisciplinar e a autonomia dos ocorrências principais, semelhanças e espe-
para os estudantes pesquisados, os saberes participantes; cificidades das identidades dos estudantes,
Esses “figurantes” são o foco do trabalho universitários constituem-se em continua- 3) Dar subsídios metodológicos e teóricos, levando em conta a força das histórias de
aqui relatado, cuja melhora na qualificação ções de aprendizagens relacionais e afeti- incluindo aspectos históricos, econômicos, vida e, mais especificamente, a força do
acadêmica é considerada uma condição vas, e ligadas ao desenvolvimento pessoal. ecológicos, políticos, filosóficos, éticos, contexto de estudo acadêmico nas relações
básica para que se possam consolidar as Deste modo, aprender é envolver formas de pedagógicos, culturais e psicológicos, para construídas com o saber.
novas áreas de estudo planejadas para a ser e de estar que ajudem na compreensão uma compreensão integrada da vida acadê- Por isso, a base metodológica da ação
expansão da universidade e uma possível da existência, no posicionamento diante das mica e profissional; é o desenvolvimento de uma postura
melhoria nas condições educacionais da pessoas e da vida e na busca pela realização 4) Fornecer informação acerca de elabo- interdisciplinar (FAZENDA, 1994) e cientí-
população do noroeste fluminense. Não de objetivos. Para alguns estudantes, os ração e desenvolvimento de projetos de fica. A dificuldade da pronúncia da palavra
será esta uma boa maneira de se buscar saberes acadêmicos compreendem saberes pesquisa; interdisciplinaridade já sugere o desafio da
romper com o histórico processo “restrito, novos, que são ora simplesmente citados, 5) Estimular o trabalho coletivo, buscando- vivência real dessa atitude. Interdiscipli-

98 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Introdução à Vida Acadêmica 99


naridade pressupõe diálogo, claramente projeto, há momentos de fundamentação participação de mais de vinte estudantes a estudantes de todos os cursos e relatos in-
definido desta forma por Paulo Freire (1979): teórico-metodológica (em ensino-aprendi- dos vários cursos de graduação e da colabo- dividuais acerca das relações estabelecidas
ação e reflexão, de tal forma solidárias, em zagem e pesquisa, entre outros) e momentos ração, por dois anos consecutivos, de uma com o saber. Foram respondidos duzentos e
uma interação tão radical que, sacrificada, de diagnóstico (em sentido amplo), pauta- professora voluntária, mestre em Educação. trinta e um questionários e trezentos e treze
ainda que em parte, uma delas, se ressente, dos em cursos, encontros semanais para Acontecem reuniões semanais de estudo e inventários foram confeccionados. Parte
imediatamente, a outra (p. 91). Esta ação e estudo, palestras, mesas-redondas, nos de pesquisa, quando as seguintes atividades de seus resultados já foi apresentada neste
reflexão significam a possibilidade de cons- quais acontecem atividades como leitura, são desenvolvidas: revisão de literatura relato (NEVES, 2012).
trução de novos saberes, novas técnicas e análise, interpretação e produção de textos, sobre o ofício discente e o ensino superior Desde janeiro de 2013, está sendo rea-
conhecimentos. debates, dinâmicas de grupo e vivências, (com leitura de textos, produção e apresen- lizada a pesquisa As Relações com o Saber
Desta forma, busca-se apreender a rea- oficinas, vídeos, etc. tação de resumos); elaboração, análise e Acadêmico de Estudantes Universitários,
lidade complexa com o desenvolvimento Vale lembrar que todas as atividades interpretação dos dados de questionários e uma continuação com aprofundamento
do pensamento complexo, mas sempre se são pensadas no tripé acadêmico ensino- sua compilação; elaboração de resumos e desse estudo anterior, que quer conhecer
valorizando o conhecimento singular, sub- -pesquisa-extensão, uma vez que a ação apresentação em reuniões científicas. quem são os estudantes universitários da
jetivo e pessoal, em constante relação com objetiva formar pessoas para a vida acadê- Uma primeira pesquisa, denominada unidade (incluindo os estudantes dos novos
o outro. Em outros termos, juntamente com mica, na qual integram-se as atividades de Os Estudantes da UFF-Campos: quem são cursos de História e Psicologia); os modos
o estímulo ao desenvolvimento da postura ensino, pesquisa e extensão. e suas relações com o saber, terminou em que realizam a “afiliação” (COULON, 2008);
interdisciplinar, o pensamento complexo 2012. Ela foi realizada entre agosto de 2011 as relações que estabelecem com o saber
(como proposto por Enrique Leff, em seu a dezembro de 2012 e seu objetivo geral acadêmico, mais especificadamente.
livro Epistemologia Ambiental e por Morin Resultados foi o de mapear quem são os estudantes da Ainda sobre o assunto, vale trazer que
em suas diversas obras) tem sido estimula- UFF-Campos dos cursos de Serviço Social, a entrada na universidade é um momento
do, assim como o favorecimento à formação As principais atividades atuais da ação de Geografia, Ciências Econômicas e Ciências novo no percurso escolar, que marca a
e fortalecimento de valores relacionados à extensão Introdução à Vida Acadêmica são Sociais e os modos como se relacionam necessidade de aprendizagem de um
ética da sustentabilidade. um grupo de estudo e pesquisa em Educa- com o saber e com a universidade. O estudo ofício inédito, o de estudante universitário.
Em outras palavras, busca-se levar os par- ção, um curso sobre a linguagem acadêmica dialogou com alguns autores das ciências Aprender esse ofício significa afiliar-se à
ticipantes a perceberem-se sujeitos de sua e um curso de inglês instrumental, abaixo da educação e, mais especificadamente, universidade, afiliação esta que se dá num
própria ação, revelando aspectos de si mes- descritos: com a teoria da relação com o saber de plano tanto institucional como intelectual
mos e de seu trabalho acadêmico até então Bernard Charlot, que atuou com supervisor (COULON, 2008).
desconhecidos. Semanalmente, vem sendo da pesquisa. Nela, foi estabelecido um perfil As reuniões de estudo e de pesquisa são
oferecido o curso “Introdução à Linguagem Grupo de estudo e pesquisa socioeconômico e cultural dos estudantes; semanais.
Acadêmica” e um grupo de estudos. No ano em Educação um mapa da trajetória escolar; e as relações
de 2013 foi oferecido também um curso de construídas com a Universidade e com os sa-
inglês instrumental. O grupo de estudo e de pesquisa iniciou beres. Dois instrumentos foram usados para
Deste modo, em cada atividade do suas atividades em 2010 e já contou com a colher tais dados: um questionário aplicado

100 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Introdução à Vida Acadêmica 101


Curso Introdução à como linguagem que são, constituem a Proust (2001), Severino (2000), Serres (2013), e a escrita são práticas sociais e inseridas na
Linguagem Acadêmica consciência. Bachelard (entre outros. experiência de cada ser humano, a atividade
Frente a isso, buscando recuperar a Concomitantemente, uma vez que se de extensão constitui-se em um curso que
Se ao ler ou escutar não (te) acontece nada, qui- experiência vivida, o curso discute a leitura, acredita que a “importância do ato de ler” está oferecendo aos estudantes universi-
çá tenhas aprendido algo que antes não sabias,
compreensão, interpretação e análise de (FREIRE, 1982) dá-se principalmente porque tários atividades múltiplas e variadas em
mas a leitura ou a escrita não terão constituído
experiência e, portanto, não terão nada a ver textos acadêmicos a partir do resgate da ela é uma atividade constituinte de identi- leitura, compreensão, interpretação, análi-
com formação. consciência do sujeito leitor. Ainda, além dades, como já tratava Benjamim (1985), se e escrita de textos, com foco no desenvol-
(Jorge Larossa) de apresentar os diversos estilos de texto, são construídas narrativas pessoais sobre a vimento de uma familiaridade com o estilo
faz-se uma minuciosa análise e descrição de história de leitura de cada estudante. Para acadêmico e na consciência do sujeito leitor.
O excerto acima fala sobre a importância múltiplos textos acadêmicos. Benjamim, a narrativa como espaço do As aulas são semanais, num total de 60
da experiência pessoal com a leitura e a A metodologia básica do curso tem dois diálogo e da rememoração tem papel na horas. Até agora, o curso contemplou as
escrita. Ainda que o texto acadêmico tenha vieses, um de caráter público e coletivo e constituição do ser humano, enraizado na seguintes leituras:
pelo menos uma especificidade, a saber, outro numa perspectiva mais particular e in- coletividade. E esta narrativa pode trazer
trazer como mensagem uma investigação dividual. Isso porque se acredita, com Daus- o resgate da experiência, como nos lembra BACHELARD, Gaston. A Formação do
científica (o que significa rigor de descrição, ter et al. (2010), que há uma leitura/escrita Jorge Larossa. Trata-se do segundo viés do Espírito Científico: contribuição para uma
preocupação com a clareza, perspectiva crí- “pessoal” e uma leitura/escrita “acadêmica” trabalho. Psicanálise do Conhecimento. Rio de Janei-
tica), a arte do bem redigir é desenvolvida a e que uma completa a outra. No que se refere à avaliação, esta é en- ro: Contraponto, 2008.
partir do contato direto do leitor não somen- O primeiro viés consiste na leitura e tendida como um processo permanente,
te com textos acadêmicos, mas também discussão de textos, de livros, artigos cien- integral e sistemático da aprendizagem, na CHAUÍ, M. Convite à Filosofia.
com textos literários durante toda a vida. tíficos e outros, quando se faz uma análise perspectiva de orientação, organização e Disponível em: http://br.geocities.com/
A base conceitual do trabalho é a teoria dos estilos, elementos constitutivos, forma motivação, incluindo também um processo mcrost02/index.htm
crítica da cultura e da modernidade, espe- estética etc. Neste caso, é dada ênfase aos de auto-avaliação formativa. Ela tem sido
cialmente os trabalhos de Walter Benjamin aspectos gramaticais e formais de um texto. processual e feita tanto pelos participantes FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler.
(1985) e de Vygotsky (1998). Para Benjamim, O estudo é realizado de modo individual, como pela professora. Os seguintes itens São Paulo: Cortez, 1982.
há uma diferença entre vivência (reação em pares ou grupos, na sala de aula e em são avaliados: participação pessoal, par-
finita e momentânea) e experiência vivida casa. Os conteúdos teóricos trabalhados ticipação do grupo, conteúdo trabalhado, GARCIA, Pedro B. Literatura e Identidade:
(ação que é pensada e narrada, e que, por são os seguintes: expressão oral e escrita atividades docentes. Com base nesta ava- tecendo narrativas em rodas de leitura. In:
isso, se torna infinita, podendo ir além do e sua construção; registros de linguagem; liação dos estudantes e na vivência em sala, DAUSTER, T e FERREIRA, L. Por que Ler? Rio
tempo vivido), sendo que esta está cada vez tipos e modalidades de textos; a produção as atividades e a metodologia são revistos de Janeiro: FAPERJ, Lamparina, 2010, pp.
mais difícil de existir na vida do humano mo- de textos acadêmicos. E, para efeito de in- e mudados, quando necessário. Uma ava- 67-88.
derno. Penso que talvez daí advenha parte trodução desses conteúdos, alguns autores liação de conteúdo, de caráter individual,
da dificuldade de os estudantes escreverem. têm sido pesquisados, como Freire (1982), também está prevista. GNERRE, Maurizio. Linguagem, Escrita e
Para Vygotsky (1998), a leitura e a escrita, Fávero (1991), Garcia (2010), Gnerre (1997), Em resumo, tendo em mente que a leitura Poder. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1997.

102 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Introdução à Vida Acadêmica 103


KONDER, Leandro. A Questão da Ideologia. mentos pudessem ser usados como instru- curso junto ao MEC na sessão de exemplares 2011), para quem “A infância, a adolescência
Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2002. mento de inclusão acadêmica e profissional. para os estudantes universitários, não foi e a juventude no Brasil caminham sobre uma
Assim, o objetivo geral foi o de desenvolver possível a aquisição do material, sob a corda bamba, da qual milhões vão caindo
LOPES, A.R.C. Conhecimento Escolar: as competências e habilidades para o reco- alegação de que eram destinados apenas pelo caminho antes mesmo de chegarem à
ciência e cotidiano. Rio de Janeiro: EDUERJ, nhecimento da língua inglesa, preparando aos alunos do ensino básico (o que nos fez idade adulta”.
1999, capítulo 7. o estudante para traduzir e compreender perguntar por que esses mesmos estudantes Essa heterogeneidade parece ser grande
textos acadêmicos. Para isso, pensou-se nos ainda não eram habilitados a pelo menos e provavelmente irreversível, o que se cons-
PROUST, Marcel. Sobre a Leitura. Campinas: seguintes objetivos específicos: lerem em inglês!). titui num desafio institucional, pedagógico e
Pontes, 2001. 1) Oferecer ao aluno oportunidades para científico relevante para os professores, os
o (re) conhecimento (d)os mecanismos de funcionários e os estudantes.
SERRES, Michel. Polegarzinha. São Paulo: compreensão e o vocabulário técnico estu- Palavras finais  
Bertrand Brasil, 2013. dados durante as aulas;
2) Levar o aluno a entender e traduzir textos As ações constituintes da vida univer- Referências
SEVERINO, A. J. Metodologia do Trabalho acadêmicos das ciências humanas e sociais; sitária (o ensino, a pesquisa e a extensão)
Científico. São Paulo: Cortez, 2000. 3) Despertar no aluno a noção da necessi- estão ligadas no projeto aqui relatado, BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, vol. I: magia e
técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
dade de aprofundar constantemente seus numa espécie de círculo virtuoso, que tem
conhecimentos da língua inglesa, com o em comum o público beneficiado. Através BRASIL INEP Censo da Educação Superior.
Curso de inglês instrumental objetivo de promover seu desenvolvimento da pesquisa, os seres humanos podem Disponível em http://www.inep.gov.br/download/
superior/censo/2009/resumo_tecnico2009.pdf.
profissional e acadêmico. avançar na busca da produção/aquisição
Acesso em set. 2014, 2014a.
O já referido aumento do número de estu- A metodologia empregada foram aulas de conhecimento, conhecimento este que
dantes e das atividades de ensino e pesquisa semanais, em que havia leitura de textos circula na universidade via processo de en- BRASIL Plano Nacional de Educação. Disponível
na UFF-Campos e uma consequente deman- sino-aprendizagem. E não se pode conceber em http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/pne.pdf.
técnicos de gêneros diversos; exercícios de
Acesso em set 2014, 2014b.
da por leituras de textos em outras línguas, compreensão: skimming e scanning; identi- tal processo sem que os conteúdos sejam
especialmente a inglesa, foram os motivos ficação de cognatos; identificação de clues. compreendidos, o que pode ser facilitado BUARQUE, Cristovam. Corda Bamba. O Globo, Rio
da ação, ação esta que iniciou uma oferta Os estudantes aprendiam a pesquisar em com uma maior intimidade com a linguagem de Janeiro, 18 jun. 2011. Primeiro Caderno, p.7.

do ensino de língua inglesa, uma demanda dicionários e a estender suas pesquisas para acadêmica. CANÁRIO, Rui. O que é a Escola? Um “olhar”
dos estudantes da unidade, visto que 59% além da sala de aula. A descoberta de um O trabalho tem mostrado que esse pú- sociológico. Porto: Porto editora, 2005.
deles afirmam ter um conhecimento fraco material pedagógico de primeira, adotado blico que frequenta a universidade é novo,
CERTEAU, M. A Invenção do Cotidiano.
ou nenhum conhecimento da língua inglesa pelo governo federal no Programa Nacional heterogêneo e portador de novas relações
Petrópolis: Vozes, 1994.
(NEVES, 2012). do Livro Didático, muito auxiliou no desen- com o mundo, com os outros e consigo mes-
O curso durou um ano e ofereceu as volvimento das aulas: SANTOS, D. Take Over. mo. Esses estudantes conseguiram “equili- CHARLOT, Bernard. Relação com o saber, formação
ferramentas para a compreensão da língua brar-se sobre a corda bamba” se lembramos de professores e globalização: questões para a
São Paulo: Lafonte, 2010, vol 2 e 3. Entretan-
educação hoje. Porto Alegre: Artmed, 2005.
inglesa escrita, a fim de que esses conheci- to, apesar da insistência da coordenação do da frase de Cristovam Buarque (BUARQUE,

104 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 Introdução à Vida Acadêmica 105


________________. As novas relações FRIGOTTO, G. Os circuitos da história e o balanço da
com o saber na universidade contemporânea. educação no Brasil na primeira década do século
In: NASCIMENTO, Jorge Carvalho do (dir) XXI. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro:
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Universidade Federal de Sergipe, 2006, p. 11-31. GARCIA, Pedro B. Literatura e Identidade: tecendo
narrativas em rodas de leitura. In: DAUSTER, T e
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106 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 107


A Trajetória Recente dos Catadores de Recicláveis
do Lixão da CODIN em Campos dos Goytacazes – a
Luta Pelo Reconhecimento do Direito ao Trabalho
The recent trajectory of recyclable CODIN open dump Collectors in
Campos dos Goytacazes – fighting for recognition of the right to work * Dra. em Serviço Social,
Professora Adjunta do SSC/
UFF Campos.
Érica T. Vieira de Almeida * ericalmeida@uol.com.br

Resumo Abstract
O fechamento dos lixões de norte a sul do país em The closure of open dumps from north to south, in
atendimento à nova Política Nacional de Resíduos compliance with the new National Policy on Solid
Sólidos (PNRS, 2010) trouxe à tona um conjunto de Waste (PNRS, 2010), brought to light a series of
debates e questionamentos, dentre eles, a preocu- debates and questions, among them the concern
pação com o crescimento do volume de resíduos with volume growth of per capita waste generated
per capita gerado no Brasil e o seu enfrentamento in Brazil and their coping as a urban issue and
como questão urbana e o não menos importante the no less important debate about the working
debate acerca do processo de trabalho dos cata- process of the collectors (street and dump), the main
dores (de rua e de lixão), principais protagonistas protagonists of the reuse and recycling of waste
do processo de reaproveitamento e de reciclagem process, however, historically subjected to relations
dos resíduos, porém, historicamente submetidos of intense labor exploitation and subservience by
às relações de intensa exploração do trabalho e the recycling chain actors. In Campos, the closing of
de subalternidade pela Cadeia da reciclagem. Em the open dump, after almost 30 years of existence,
Campos, o fechamento do lixão, depois de quase 30 also provoked the reaction of collectors. Even though
anos de existência, também provocou a reação dos they don’t criticize the new legislation requiring
catadores. Sem criticar a nova legislação que obriga the closure of the dumps and its replacement by
o encerramento dos lixões e a sua substituição por sanitary landfills and by Selective Collection, with the
aterros sanitários e pela Coleta Seletiva com a par- participation of collectors, almost always omitted,
ticipação dos catadores, quase sempre omitida, os the collectors questioned the process of closing the
catadores questionam o processo de fechamento do open dump without filing alternatives for productive
lixão sem a apresentação de alternativas de inclusão inclusion. Accordingly, this report aims to discuss the
produtiva. Nesse sentido, este relato pretende refletir major role of collectors, through the right to work and
sobre o protagonismo dos catadores pelo direito recognition of their status as collector of recyclable
ao trabalho e reconhecimento da sua condição de materials, as recognized by the Brazilian Standings of
catador de materiais recicláveis, já reconhecida pela Occupations, since 2002
Classificação Brasileira de Ocupações, desde 2002

Palavras-chave: Catadores de Materiais Recicláveis; Keyword: Collectors of Recyclable Materials; PNRS; Pro-
PNRS; Inclusão Produtiva. ductive Inclusion.

108 A Trajetória Recente dos Catadores de Recicláveis do Lixão da CODIN em Campos dos Goytacazes – 109
a Luta Pelo Reconhecimento do Direito ao Trabalho
Introdução A concomitância do processo de fecha- mento do direito de continuarem realizando protagonismo dos catadores, ou melhor,
2
Os Catadores chamavam
mento do aterro de Campos com o do maior o seu trabalho na coleta seletiva previsto na pela mediação de uma nova representação de “Reciclagens”as
O fechamento dos lixões de norte a sul aterro da América Latina – Gramacho – in- nova PNRS, aprovada em 2010. política dos catadores. Embora o fechamen- dezenas de Unidades de
Triagem e prensagem dos
do país em atendimento à nova Política fluenciou os catadores da CODIN e sua luta. Entre os aproximadamente 500 catadores to do lixão constitua um divisor de águas na resíduos coletados no lixão
Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS, 2010), De um lado, os fez acreditar no fim do lixão que trabalham no lixão e nas “reciclagens”2 trajetória dos catadores da CODIN e na sua pertencentes aos compradores/
atravessadores da região do
trouxe à tona, nos últimos anos, duas impor- e, por sua vez, na impossibilidade de pros- próximas, o Diagnóstico realizado pela relação com o Poder Público municipal, foi entorno da CODIN.
tantes questões, que não por acaso, estão seguirem exercendo a atividade de catação equipe da UFF/Campos3 demonstra que o protagonismo político dos catadores, um
3
A pesquisa realizada com
completamente imbricadas: - o crescimento da maneira como vinham realizando até 86% eram mulheres, contra 14% de homens. grupo social até então invisível e completa- os catadores de materiais
exponencial do volume de resíduos per então. É preciso lembrar que mesmo depois 33% tinham entre 18 e 29 anos, ou seja, mente desprezado pelo Poder Público local recicláveis do antigo lixão
da CODIN foi realizada no
capita gerado no mundo e no Brasil e, na es- de anunciado o fechamento do aterro pela eram jovens, 42% possuíam entre 30 e 49 como interlocutor na construção da Política ano de 2013, com a aplicação
teira dele, a crítica à sociedade de consumo Empresa Vital Engenharia (concessionária anos, 18% estavam com idade entre 50 e 59 de Resíduos Sólidos no município, a grande de um formulário para uma
amostra de 111 catadores
sustentada na produção de mercadorias de limpeza pública e gestora do aterro), anos e 7% tinham mais de 60 anos. Apenas novidade e o elemento de inflexão na forma responsáveis pelo domicílio.
cada vez mais descartáveis e supérfluas e o chamou nossa atenção a descrença por 6% se declararam brancos, enquanto 89% de conduzir esta Política Pública. Em outras Se considerarmos os(as)
catadores(as) na condição
debate acerca do processo de trabalho dos parte de um número significativo de cata- reconheceram-se como negros, pardos e palavras, o que transforma o fechamento de cônjuge, a amostra cresce
catadores (de rua e de lixão) e da sua íntima, dores quanto ao fechamento do lixão. Só mulatos. Quanto ao tempo de trabalho no do lixão em “questão social” para os cata- para 163 catadores. Apoio
FAPERJ/Edital Prioridade Rio,
mas nem sempre publicizada, relação com o mais tarde, após pesquisa nos jornais locais, lixão, 29% tinham mais de 10 até 15 anos dores, não foi o drama da perda do trabalho
2013/2014.
circuito da reciclagem. percebemos que esta descrença estava de lixão; 22% tinham mais de 5 até 10 anos e da renda, mas a consciência política e o
4
Sob a Coordenação da
Nesse sentido, o presente trabalho tem diretamente ligada à forma como os catado- de lixão; 16% tinham mais de 15 até 20 anos reconhecimento da sua identidade de traba-
Professora Érica Almeida, do
como finalidade apresentar e discutir o pro- res vivenciaram, desde o início da década de de lixão; 13% tinham mais de 20 até 30 anos lhador/catador. Além disso, o sentimento de Departamento de Serviço Social
90, os vários anúncios sobre o fechamento de lixão; 13% tinham até 5 anos; 3% tinham injustiça que tomou conta dos catadores foi, de Campos, a UFF/Campos
cesso de encerramento das atividades do vem desenvolvendo, nos anos
antigo lixão da CODIN, como era conhecido do lixão da CODIN e sua substituição por mais de 35 anos de lixão e 4% não souberam sem dúvida, o sentimento responsável pela de 2013 e 2014, dois projetos
um aterro sanitário, fato que só ocorreu em declarar. 37% responderam que começaram organização coletiva e participação política juntos aos Catadores do lixão
1
Pesquisa realizada nos jornais o aterro controlado de Campos dos Goyta- de Campos: - um de pesquisa
locais Folha da Manhã e cazes/RJ, fechado há pouco mais de 2 anos, junho de 2012.1 a trabalhar com 10 anos de idade ou menos, dos mesmos na construção de respostas me- intitulado De Catadores de
Monitor Campista, no período lixo a Catadores de material
de 1983 a 2010, demonstrou depois de mais de 25 anos de existência. Na Por outro lado, a cobertura da mídia 13% entre 11 e 12 anos de idade; 35% com nos injustas e que possam reparar a situação
reciclável – o que muda com a
que desde o início da década análise, ganham relevância os conflitos nacional e no estado do Rio de Janeiro sobre idade entre 13 e 16 anos e 15% com mais de à qual eles foram submetidos. Política de Resíduos Sólidos?
de 90, os governos locais um diagnóstico da trajetória
anunciaram, consecutivamente, desencadeados pelo fechamento da única
o encerramento de Gramacho e as negocia- 16 anos. No entanto, a construção desse novo
de trabalho dos catadores
o fechamento do lixão e e/ou principal fonte de trabalho de aproxi- ções entre catadores e Poderes Públicos (es- Este e os demais fatos que serão apre- sujeito político em Campos não pode ser de material reciclável e do
sua substituição por um seu protagonismo a partir do
aterro sanitário e Usinas de madamente 500 catadores que viviam da tadual e municipal), incluindo indenização sentados no decorrer deste relato nos pensada sem levar em consideração dois
fechamento do lixão da CODIN
Triagem para os catadores. As catação de recicláveis e o protagonismo dos e inclusão dos catadores na coleta seletiva, levam a defender a tese de que a história da aspectos fundamentais: - o apoio/parceria em Campos dos Goytacazes/
reportagens também indicam RJ, que conta com o apoio
mesmos pelo reconhecimento do direito funcionou como uma importante referência construção da Política de Resíduos Sólidos da UFF/Campos4 e do MNCR/RJ e o contexto
os diversos lugares escolhidos da FAPERJ e, um outro, de
para a construção do aterro de continuarem participando da cadeia de de negociação para os catadores da CODIN, em Campos dos Goytacazes se divide em nacional pós-aprovação da PNRS (2010). Extensão, intitulado Apoio à
sanitário. O aterro só começou Organização dos Catadores de
além de contribuir para dar visibilidade à dois momentos: - antes e depois do fecha- A aprovação da nova PNRS e do Decreto
a funcionar em 2012, quando o reciclagem de maneira menos desigual e Campos, que tem o apoio do
lixão foi fechado. subordinada. luta local dos catadores pelo reconheci- mento do lixão; este último marcado pelo nº 7.404 (2010) que a regulamenta, foram, PROEXT/MEC.

110 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 A Trajetória Recente dos Catadores de Recicláveis do Lixão da CODIN em Campos dos Goytacazes – 111
a Luta Pelo Reconhecimento do Direito ao Trabalho
sem dúvida, dois importantes instrumentos críticas por parte do Conselho de Saúde e governos anunciaram o fim do lixão da voca do poder econômico das oligarquias
de apoio e de incentivo não apenas para a da própria FEEMA/RJ em função do despejo CODIN com a construção de um aterro agrárias e dos seus vínculos com o poder
luta dos catadores e de suas organizações, do lixo hospitalar, da presença de animais, sanitário e das Usinas de Triagem para a político local. Além do caráter sazonal do
como também para as Instituições (federais, pelos riscos de contaminação dos catado- inclusão dos catadores, mas nenhuma foi mercado de trabalho ligado à produção do
estaduais e municipais) e Organizações res, trabalho infantil, além dos problemas efetivada. O novo século chegou sem que açúcar do álcool, a generalização da rela-
Sociais alinhadas com a defesa dos direitos ambientais provocados pela contaminação nenhuma resposta concreta, nem sequer a ção assalariada temporária (o ‘bóia-fria’)
dos catadores, ainda que a sua implementa- do solo, do lençol freático e das lagoas próxi- incineração do lixo hospitalar, causador de criou um imenso e desqualificado exército
ção, em nível local, apresente um conjunto mas. Pressionado, o novo governo eleito em inúmeras doenças entre os catadores fosse de reserva, acentuando, ainda mais, o pro-
de problemas e desafios, como veremos a 1988, responde com a proposta de criação implementada. A Usina de Tratamento de cesso de favelização na cidade, que repro-
seguir. de uma Usina de Lixo e de incorporação dos lixo hospitalar foi inaugurada, apenas, em duz no território da cidade, a mesma lógica
catadores como operários da mesma, proje- junho de 2010. que preside a exclusão social, econômica,
to que nunca se concretizou. A única mudan- Conhecido como importante produtor de cultural e política - a lógica da desigualdade
A notícia do fechamento ça durante essas duas décadas (90 e 2000) cana-de-açúcar, desde o século XVIII, o mu- e da segregação.
do lixão da CODIN e sua foi a transferência do Vazadouro para uma nicípio Campos dos Goytacazes, no Norte do A concorrência com o estado de São
publicização e a resposta área de 160mil m2 cedida pela Companhia estado do RJ, atravessou diversos períodos Paulo, maior produtor de açúcar e de
5
Trabalho realizado em 1992
pelo CEPECAM/ Centro de
dos Catadores de Desenvolvimento Industrial do Estado do de crise que o afetaram significativamente, álcool (derivados da cana) e o processo de Pesquisa da Cândido Mendes
Rio de Janeiro ao município de Campos, no o que é muito comum entre as economias reestruturação produtiva no setor fez com de Campos.
Como já adiantamos na introdução, as próprio Distrito Industrial (CODIN/Campos), dependentes de monoculturas. Dentre elas, que dezenas de Usinas locais entrassem 6
Os dados do FIBGE dos anos
primeiras notícias relativas ao fechamento em 1990. vale destacar as mudanças técnicas no com- em processo de falência. Embora a grande 70 e 80 demonstram que o
do aterro da CODIN remetem ao ano de emprego na agropecuária,
O novo vazadouro ficava a 600m da zona plexo agroindustrial do açúcar iniciadas maioria dos trabalhadores rurais já não
no município de Campos,
1996, seis anos depois da sua inauguração urbana e tinha capacidade para receber nos anos 40 e aprofundadas em meados dos residisse mais nas fazendas, o fechamento chegava a 36,8% e a 30,3%,
e dezesseis anos antes do seu fechamento 70 t/dia de resíduos. Segundo notícias dos anos 70, pelo Pró-álcool. Estas mudanças das Usinas provocou um forte desemprego respectivamente. Em 1983,
em plena entressafra, o
real, em junho de 2012. Mesmo antes do jornais locais, em 1992, “os catadores aguar- provocaram um forte movimento migrató- entre os trabalhadores pauperizados e de trabalho na agricultura
protagonismo dos catadores diante do seu davam a chegada dos caminhões de lixo, rio para a cidade, reforçado pelas mudanças menor escolaridade. Estudos referentes às aproximava-se do trabalho
fechamento abrupto e sem alternativas de de serventia doméstica
se misturando aos animais que continuam nas relações de trabalho, pela redução famílias de baixa renda5 no início dos anos e da construção civil em
inclusão socioeconômica, o lixão da CODIN pastando e se alimentando de lixo” (Jornal das atividades de colonato e parceria, pela 90 demonstravam a redução no contingente quantidade de pessoas
já era notícia e motivo de questionamentos ocupadas; já na safra, o
Folha da Manhã, 1992), numa clara demons- perda da moradia e gradativo predomínio de trabalhadores rurais, que de uma das
trabalho na agricultura
por parte de outros sujeitos e Instituições. tração de descumprimento das normas de e generalização das relações assalariadas três principais ocupações entre os trabalha- quase que monopolizava o
Logo depois da transferência do 1º Vaza- saúde pública. Além disso, o lixo hospitalar (CRUZ, 1987). O assalariamento nas lavou- dores de baixa renda, passou a ocupar a 8ª emprego (CRUZ, José Luis
V da. Boletim técnico do
douro Municipal de que se têm notícias, em continuava sendo despejado junto com o ras de cana -de - açúcar passou a combinar posição, apresentando uma taxa de apenas SENAC. Vol. 18. nº 3, set./ dez.
1987, para uma área de propriedade privada, lixo doméstico, provocando riscos ao meio a superexploração da força de trabalho com 4,1% dos trabalhadores6. Ao contrário do de 1992, p.171), indicando a
nas proximidades do Distrito Industrial da centralidade dessa ocupação
ambiente e à saúde dos catadores. formas perversas de contratação, seleção que se ouvia dos trabalhadores nos anos entre os trabalhadores de
CODIN, o novo Vazadouro já era motivo de Até o final da década de 90, os sucessivos e pagamento, numa demonstração inequí- 70, 80 e início dos anos 90 - “a gente acaba baixa renda.

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a Luta Pelo Reconhecimento do Direito ao Trabalho
caindo no corte de cana”-, demonstrando os catadores como trabalhadores excluídos 2000. Como já apresentamos, em Campos, Plano de Encerramento do aterro da CODIN
a associação entre o trabalho na cana (sa- do circuito de valorização do capital. 53% dos catadores, ou seja, mais da metade, por parte da Concessionária – a abertura de
zonal) e as demais atividades (construção Não podemos nos esquecer de que, no iniciaram a atividade de catação no lixão, no uma Usina de Triagem com capacidade para
civil, faxina e biscate), assinalada por CRUZ Brasil, é pela mão dos catadores de rua e de final dos anos 90, início dos anos 2000 .8 150/200 t/dia - abarcaria apenas 90 dos 260 8
Dados do Diagnóstico
(1992), a pesquisa com os beneficiários do lixão (trabalho precarizado e desprotegido) Sem grandes novidades até a entrada da catadores registrados pela Empresa. realizado pela UFF/Campos
que 90% do material reciclável chega às Segundo o levantamento citado acima em 2013.
Programa Bolsa Família (2012)7 nos mostra década de 2010, a notícia sobre o fechamen-
7
A Pesquisa com os
beneficiários do Programa que o trabalho na lavoura de cana-de-açú- empresas recicladoras. Isso nos faz com- to do lixão foi recebida com desconfiança (2008) 258 catadores trabalhavam no
Bolsa Família de Campos foi car não só perdeu importância na economia preender melhor as elevadas taxas de lucro pelos catadores do aterro controlado da CO- “lixão”, a maioria mulheres. Para elas, a
coordenada pela profa. Érica deste setor. Até os dias de hoje, é patente a catação era a principal renda da família,
Almeida, da UFF/Campos e
local, mas, também, entre os trabalhadores DIN, sob a gestão da Empresa Vital Engenha-
teve como amostra 2% das empobrecidos, sobretudo os mais jovens. desresponsabilização tanto por parte das ria Ambiental, concessionária de serviços mesmo para aquelas que eram beneficiadas
famílias beneficiárias do Concomitante a esse processo, o empresas quanto do Estado brasileiro, em de limpeza pública, desde o final dos anos pelos programas de transferência de renda
Programa. As entrevistas
foram realizadas entre os avanço do desemprego e da precarização especial, de estados e municípios, no que diz 90. Em 2008, a Concessionária realizou um federal ou municipal. Indagados sobre o
anos de 2011 e 2012. do trabalho, durante toda a década de 90, respeito ao processo de reprodução social diagnóstico dos catadores, por intermédio trabalho de catador, a maioria respondeu
pressionou os trabalhadores a buscarem al- do catador; o que tende a se transformar de uma equipe técnica que além do diag- exercer tal atividade desde a infância e/ou
ternativas ao desemprego e à insuficiência com a implementação da nova PNRS (2010) nóstico realizava reuniões periódicas com adolescência, acompanhando os pais. Para
de renda. Para Pochmann (2002, 2004), no e do marco jurídico-legal construído recen- os catadores com a intenção de informarem outros, a proximidade do lixão favorecia a
rastro da crise do capitalismo contemporâ- temente. os mesmos acerca do fechamento do aterro catação, que desde cedo se transformou
neo, além do avanço do desemprego aberto, Como pudemos observar a combinação e da interdição da atividade de catação e, em uma estratégia de sobrevivência para a
amplia-se o segmento não-organizado entre crescimento do desemprego e do con- ainda, de produzirem as informações neces- família, sobretudo para aquelas formadas
do trabalho, responsável por ocupações junto de trabalhadores precarizados e em- sárias ao processo de seleção dos catadores por mães e filhos.
precárias e heterogêneas, como é o caso dos pobrecidos, formado, principalmente, por que seriam contratados para trabalharem A representação dos catadores sobre o
catadores de materiais recicláveis organiza- mulheres mães-trabalhadoras e chefes de na Usina de Triagem. trabalho no lixo confirmava a degradação
dos ou não em cooperativas e associações. família (arranjos monoparentais femininos), No final do ano de 2010, a equipe técnica e a superexploração a que estavam subme-
Segundo BOSI (2008), além das mudanças de um lado, e o incremento do negócio da re- contratada pela Empresa concessionária tidos, embora, a catação fosse reconhecida,
introduzidas no mundo do trabalho a partir ciclagem com a transformação dos resíduos envia ao CMAS- Conselho Municipal de também, como aquela que possibilitou a
dos anos 90, a intensificação do mercado em mercadorias, do outro, acabou por criar Assistência Social de Campos – um ofício criação dos filhos. Além de se misturarem
de trabalho dos catadores de recicláveis as condições necessárias e favoráveis à en- comunicando o mesmo sobre o fechamento com o lixo, dos inúmeros acidentes, o calor,
deve ser associada, também, à demanda trada de novos trabalhadores no mercado do aterro. No mesmo, a equipe formada o vento e a lama são citados como respon-
apresentada pelas empresas recicladoras, de trabalho da catação para além daqueles por uma Assistente Social e uma Pedagoga sáveis por inúmeras doenças, além, é claro,
considerando o grau de dependência das tradicionais constituídos pelos catadores apresentava um pequeno diagnóstico dos daquelas relacionadas ao excesso de sol
mesmas com relação ao trabalho dos cata- mais antigos e seus familiares. Isso ajuda a catadores e fazia menção ao desemprego e de peso, como problemas de coluna e
dores, fazendo-se necessário relativizar a explicar o crescimento do número de cata- de um número significativo de catadores, hipertensão. A rotina pesada de trabalho
idéia da catação como um setor marginal e dores ao final dos anos 90 e início dos anos considerando que a proposta contida no começa geralmente às 8h da manhã para

114 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 A Trajetória Recente dos Catadores de Recicláveis do Lixão da CODIN em Campos dos Goytacazes – 115
a Luta Pelo Reconhecimento do Direito ao Trabalho
pegar um bom lugar e aguardar a chegada fez diminuir o “lixo bom”, ou seja, aquele que prestados ao município como catadores de primeira referia-se ao número de catadores
dos caminhões. Entretanto, eram muitos os tem maior valor de revenda na comerciali- recicláveis. do aterro, já que o número levantado pela
que, em função das necessidades, trabalha- zação com os atravessadores locais. Empresa e pelos equipamentos de Assistên-
vam durante todo o dia até de madrugada. Embora a maioria recebesse o Cheque- cia Social era distinto daquele sugerido pelo
Aliás, não são poucos aqueles que passavam -Cidadão e o Bolsa-Família, programa de Mobilização e Protagonismo Conselho de Representantes dos Catadores.
Nome dado à sacola com
dos Catadores em Campos
9

material reciclável vendida toda a semana trabalhando (noite e dia). transferência de renda municipal e federal, Esse fato obrigou o Conselho a se organizar
para os atravessadores. De acordo com os dados do Diagnóstico da respectivamente, os catadores faziam e a realizar o seu próprio diagnóstico, que
UFF/Campos (2013), 24% trabalhavam na questão de afirmar que era do lixo que vinha Apoiados inicialmente pelo CMAS - Con- era realizado nas Assembléias e, também,
10
A SACI (Sociedade de
Apoio à Criança e ao catação todos os dias da semana, incluindo a renda pra sustentar a sua família e que os selho Municipal de Assistência Social – e pelos catadores no próprio aterro durante
Idoso) foi criada em 1994 os domingos; 56% trabalhavam de segunda “vales”, como são chamados, ajudam, mas pela Universidade Federal Fluminense/ UFF as noites e finais de semana. Havia um con-
pelo empresário Antônio
Ferreira e tinha o apoio do a sábado; 14% de segunda a sexta-feira e 3% não são suficientes para as necessidades Campos, os catadores deram início ao seu senso por parte dos catadores de que a lista-
Rotary Club de Campos. de 3 a 4 vezes na semana e 3% não declara- da família. Como foi observado, a catação processo de organização com a criação de gem realizada pela Empresa Concessioná-
Inicialmente, a proposta
ram. constituiu e, ainda, constitui um importante um Conselho de Representantes de Cata- ria não teria cadastrado todos os catadores,
da SACI era a promoção
da idéia da coleta seletiva, Perguntados sobre o material que co- mercado de trabalho para trabalhadores dores, eleito em uma Assembléia. Ao Con- em especial, aqueles que não freqüentavam
a partir de um sistema de letavam 97% responderam que catavam e trabalhadoras, especialmente idosos e selho, que contava inicialmente com dez a reunião realizada pela Equipe da Empresa.
troca, no qual a população,
empresários, comerciantes todo o tipo de material reciclável. Sobre a mulheres, com baixa ou quase nenhuma representantes, caberia a tarefa de negociar A segunda divergência evidenciada nas
e os catadores poderiam relação com os compradores, enquanto 39% escolaridade, ou para aqueles que ficaram com os interlocutores da Prefeitura, em negociações era quanto às alternativas de
trocar os recicláveis por
ticekts no valor de R$1,00 vendiam para o mesmo comprador, 48% desempregados. Mesmo submetidos a especial, o Secretário de Limpeza Pública, e inclusão socioeconômica dos catadores
e R$5,00. Para o idealista vendiam para mais de um comprador, 11% situações de extrema degradação e a um com a Empresa Concessionária, gestora do para além do assalariamento na Usina de
da ONG, esse sistema aterro, em torno de alternativas de inclusão
vendiam para quem pagasse mais e 2% não processo de superexploração do trabalho, Triagem. O Poder Público deixava claro que
ajudaria os catadores a
deixarem de vender para declararam. os catadores buscavam os lixões se expondo socioeconômica para todos os catadores, não tinha a intenção de integrá-los na coleta
os atravessadores, já que Sobre o rendimento, eles reclamavam da a todos os tipos de risco11 para evitar aquilo considerando que a Usina de Triagem pro- seletiva que já era realizada pela Conces-
a ONG pagaria um pouco
acima do preço oferecido redução do valor da “bombona”9 em 50% nos que para eles era mais grave – o desempre- posta pelo Poder Público municipal como sionária em parceria com uma ONG, como já
pelos compradores locais. últimos 5 anos, considerando o crescimento go, a criminalidade e a mendicância. contrapartida comportaria apenas 90 dos salientado.
Os ganhos da ONG eram
do volume de recicláveis oferecidos pelos Preocupados com o fim da atividade de 500 catadores que trabalhavam diretamen- Esse impasse e a intenção do Poder Públi-
revertidos para Entidades
Sociais de apoio à criança catadores do lixão e de rua, o que por sua catação de recicláveis no lixão e sem uma te na “lixeira” e na triagem do resíduo para os co de fechar o lixão antes das alternativas
e ao idoso. vez, deixava os compradores bastante à alternativa concreta de inclusão socioeco- pequenos compradores/atravessadores nas de inclusão produtiva, fez com que os cata-
11
É comum na literatura vontade para impor o preço dos recicláveis. nômica para todos, os catadores se mobi- imediações do lixão. dores e parceiros recorressem ao Ministério
especializada, assim como Além disso, reclamavam da concorrência lizaram em torno de três reivindicações: - a Logo depois das primeiras reuniões com Público e Defensoria Pública denunciando
nos relatos dos catadores
de Campos, ouvir casos dos lixeiros e da Coleta Seletiva realizada sua integração produtiva nos moldes anun- os gestores da Política de Limpeza Pública a situação e solicitando a observância da
de morte, acidentes e pela Empresa concessionária em parceria ciados pela nova PNRS (2010); a proteção so- e de outras Secretarias, como a de Família nova PNRS. Em março de 2011, um grupo de
contração de doenças e Assistência Social e de Governo, ficaram
com uma ONG, a SACI (Sociedade de Apoio cial dos catadores idosos e incapazes para representantes da sociedade civil e de cata-
graves como tuberculose
e AIDS. à Criança e ao Idoso)10 que, segundo eles, o trabalho e a indenização pelos serviços evidenciadas as principais divergências: - a dores ingressou com uma Representação no

116 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 A Trajetória Recente dos Catadores de Recicláveis do Lixão da CODIN em Campos dos Goytacazes – 117
a Luta Pelo Reconhecimento do Direito ao Trabalho
MP e na Defensoria Pública (que mais tarde bléia para a leitura pública daqueles que Engenharia. Neste mesmo dia, realizaram a náutica) em resposta às inúmeras denúncias
se transformou em uma Ação Civil Pública faziam parte da listagem. Se, por um lado, sua primeira manifestação coletiva nas ime- de pilotos com relação à existência de aves
–ACP), reinvidicando a implementação esse processo gerou muita desconfiança por diações do aterro, chamando a atenção das naquela área. Curiosamente, ainda que o
integral da PNRS, em especial, das diretrizes parte de um grupo de catadores em relação autoridades e da comunidade em geral, pela lixão ficasse próximo do aeroporto local, a
que tratam da inclusão socioeconômica dos a algumas lideranças acusadas de recebe- cobertura da mídia local. A reivindicação: - o pesquisa nos jornais locais durante o perío-
catadores, presentes no artigo 148, inciso rem vantagens e/ou benefícios para inclu- cumprimento da nova PNRS com a inclusão do de 1983 a 2010, não encontrou nenhuma
II: “implantar a coleta seletiva com a parti- írem o nome de algumas pessoas, de outro, produtiva de todos os catadores via coleta matéria relativa à questão dos urubus. O que
cipação de cooperativas ou outras formas ele contribuiu para a discussão e inclusão seletiva com a participação dos catadores, se sabe é que com os novos investimentos
de associação de catadores de materiais do grupo de catadores que trabalhava para a indenização dos catadores pela prestação na região, em especial no município vizinho
reutilizáveis formadas por pessoas físicas de as “reciclagens”, em sua maioria mulheres. de serviços ambientais ao município duran- de São João da Barra, com o super-porto do
baixa renda”. Na verdade, o fato dessas pessoas serem te quase 30 anos e a proteção dos idosos e Açu, o movimento do aeroporto aumentou
Novidade nos meios jurídicos, conside- ligadas aos compradores/pequenos atra- incapazes para o trabalho. e com isso as demandas em torno de sua
rando que a PNRS foi aprovada em agosto vessadores que compravam diretamente Recebido pelo Governo municipal, o ampliação.
de 2010, a judicialização da questão dos dos catadores na “lixeira” não impediu que Conselho resiste às propostas assistenciais e Pressionados pelos catadores diante da
catadores não substituiu a ação política dos os mesmos também fossem considerados insiste na implementação da coleta seletiva não abertura da Usina de Triagem (que per-
mesmos, pelo contrário, a constituição da catadores pelo Movimento. com os catadores, além da Usina de Tria- manece fechada até hoje), Empresa e Poder
ACP fortaleceu a luta dos catadores pelo Essas críticas e o “tempo lento” das nego- gem. A ênfase no trabalho era muito bem Público substituem a oferta de trabalho na
direito ao trabalho, além de reconhecer o ciações políticas, sobretudo para um grupo representada pelos catadores, como: - “Não Usina pelo trabalho como varredores na
papel histórico dos catadores como presta- ameaçado pela desocupação e perda da queremos viver de assistência do governo”. Empresa concessionária, que inicia a con-
dores de serviços ambientais ao município. renda, acabou reduzindo a participação do Aliás, essa frase sintetizava a indignação dos tratação dos catadores, especialmente, das
Sobre a necessidade de uma nova lista- Conselho que ficou restrito a apenas cinco catadores diante do ato que retirou deles a lideranças do Conselho, uma eficiente estra-
gem, ainda que a sua elaboração pelos pró- catadoras. Até o fechamento do lixão, as sua única fonte de renda. O sentimento de tégia de cooptação e de enfraquecimento
prios catadores tenha sido de fundamental negociações pouco avançaram em direção injustiça era claramente demonstrado pelos do movimento. Além das vagas na varrição,
importância para se contrapor aos números à inclusão socioeconômica dos catadores e catadores nas reuniões com as autoridades os catadores negociam o pagamento de seis
apresentados pelos interlocutores, o que à proteção social de um grupo de catadores municipais. Frases como: - “Nós nunca parcelas no valor de um salário-mínimo aos
por sua vez, concedeu maior autonomia ao considerados idosos e incapazes para o dependemos de governo” ou “Nós sempre catadores que não foram absorvidos pela
Conselho nas negociações, ela também ge- trabalho, considerando a idade e/ou os pro- nos viramos para sustentar a nossa família”, empresa, num total de 435 catadores.Esse,
rou muitas críticas e desconfiança por parte blemas de saúde. deixava claro a indignação dos catadores sem dúvida, foi o momento mais difícil do
daqueles, que por algum motivo, ficaram Com o fechamento, em 17 de junho de com relação à ação irresponsável do gover- movimento. A não abertura da Usina de Tria-
12
Na véspera, o Conselho
teve uma reunião com de fora da mesma. Por inúmeras vezes, o 2012, de maneira inesperada e em meio às no local que insistia em justificar o seu ato. gem e a inclusão dos catadores como varre-
os representantes do Conselho foi acusado de incorporar pessoas negociações12, os catadores foram surpre- Segundo o mesmo, a interdição do aterro dores, pressionava o movimento a reagir e
Governo Municipal e
estranhas ao mundo da catação, o que fez endidos negativamente com o fechamento pela Empresa concessionária foi fruto das a continuar lutando pela coleta seletiva e a
não foram comunicados
sobre o fechamento. com que o mesmo chamasse uma Assem- do aterro por funcionários da Empresa Vital pressões do 3º COMAR (Comando da Aero- inclusão dos demais. Mas, como continuar li-

118 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 A Trajetória Recente dos Catadores de Recicláveis do Lixão da CODIN em Campos dos Goytacazes – 119
a Luta Pelo Reconhecimento do Direito ao Trabalho
derando esse movimento na atual condição lideranças foram “pressionadas” no sentido
de trabalhadores da Empresa? Como conci- de desistirem dessa experiência. Aliás, além
liar esses dois lugares e identidades e, mais, do medo de assumir um empreendimento
como resistir às pressões e propostas de solidário, havia, também, um consenso
conciliação? Não foram poucas as tentati- contra as experiências associativas,
vas de intimidação e de cooptação, sobretu- reforçado pelos atravessadores que não
do, depois que as lideranças do movimento, queriam perder a sua mal remunerada força
mesmo empregadas, decidiram continuar de trabalho. Além disso, não podemos nos
representando o conjunto dos catadores. esquecer de que embora esses trabalhado-
Sabemos que num país onde a cidadania res tenham construído uma experiência de
não se realizou concretamente para todos, troca e de solidariedade no lixão, a falta e/
de maneira igualitária, ou seja, ainda não se ou baixíssima escolaridade, a ausência de
tornou uma mediação universal na relação Figura 01: Manifestação dos Catadores de
uma cultura política associativista na região Figura 02: Cerimônia de Assinatura do
Recicláveis da CODIN na Praça São Salvador
entre o Estado e trabalhadores, as velhas (cabe lembrar que a região é dominada pela Termo de Cooperação Técnica entre
em Campos dos Goytacazes, em janeiro de 2013
a Prefeitura Municipal e a Associação
práticas clientelistas e de compadrio ainda exploração da monocultura da cana, uma RECILCAR CAMPOS, em fevereiro de 2014
resistem como moeda de troca e, mais, foi acompanhada pela criação da RECICLAR atividade qualificada pela superexploração
como acesso a Políticas, Programas e bene- CAMPOS (Associação de Catadores de do trabalho, pela precarização e pela subal- Engenharia Ambiental, concessionária de
13
A assinatura do Termo de
Compromisso de Cooperação
fícios públicos. Nesse sentido, a decisão das Materiais Recicláveis de Campos dos Goyta- ternidade) e a falta de uma Política Pública serviços de limpeza pública, como já citado, Técnica entre a Prefeitura e
lideranças de dar continuidade às manifes- cazes/RJ), em março de 2013, forçando uma local de apoio a essas experiências solidá- os resíduos da Coleta Seletiva, estimada a Associação dos Catadores
tações públicas e passeatas, participação de Materiais Recicláveis de
nova rodada de negociação com o governo rias não motivava os catadores a assumirem em torno de 90 t/mês, são doada à SACI (So- Campos (RECICLAR CAMPOS),
em esferas públicas locais como os Conse- local e desenvolvendo uma agenda de essa nova empreitada, muito pelo contrário. ciedade de Apoio à Criança e ao Idoso), pro foi assinado em solenidade
lhos de Assistência Social, as Conferências compromissos que incluía, principalmente, Em Campos, a Coleta Seletiva com a intermédio de um Convênio assinado entre pública no auditório da
Prefeitura Municipal pela
Municipais de Assistência Social e de Meio a implementação da coleta seletiva com a participação dos catadores nunca figurou a Prefeitura Municipal de Campos e o Rotary Prefeita de Campos e a
Ambiente e, também, a Câmara Municipal, participação dos catadores, por intermédio como alternativa de integração do catador, Club/SACI 14, o que demonstra um completo Presidente da Reciclar, em
fevereiro de 2014. Nele a
espaços, quase sempre, fechados à partici- da RECICLAR CAMPOS. pelo menos até fevereiro de 2014, quando descompasso da gestão local dos resíduos Prefeitura se compromete
pação popular e aos interesses dos “de bai- Cabe salientar que durante os anos de é assinado o Termo de Cooperação Técnica sólidos com relação aos avanços conquista- com a construção e cessão
xo” causava incômodo na gestão municipal entre Prefeitura e a RECICLAR CAMPOS. 13 de um galpão, a cessão dos
2011 e 2012 foram várias as tentativas volta- dos na área com a PNRS e outras legislações
equipamentos necessários
que, não por acaso, substituiu o Secretário das para a formação de uma Associação de Não é por acaso, que a bandeira dos ca- federais e estaduais. Mais recentemente, para a triagem e prensagem
de Limpeza Pública. Catadores. Motivados pelos representantes tadores de Campos foi a inclusão dos cata- segundo informações da própria Secretaria do resíduo e a cessão de 90t/
mês de resíduos provenientes
A estratégia de continuar dando visibili- do MNCR/RJ e das Universidades (UFF e dores do lixão da CODIN na Coleta Seletiva de Limpeza Pública, esses resíduos são da Coleta Seletiva Municipal
dade à questão dos catadores através das UENF), sobretudo pós- PNRS, os catadores local. Implementada no ano de 1997, a Cole- comercializados para um comprador local realizada atualmente pela
manifestações públicas e articulações com Empresa Concessionária.
se mobilizaram duas vezes em torno de ta Seletiva municipal não incluía o catador; e os recursos oriundos da comercialização
os demais movimentos sociais e de classe uma Associação, mas nas duas vezes, suas ao contrário, realizada pela Empresa Vital são revertidos em 100 cestas básicas/mês, 14
Ver nota de rodapé nº10.

120 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 A Trajetória Recente dos Catadores de Recicláveis do Lixão da CODIN em Campos dos Goytacazes – 121
a Luta Pelo Reconhecimento do Direito ao Trabalho
além de remédios doados para Entidades Fi- Como já salientamos, não se pode pensar Referências
lantrópicas locais. Mesmo depois do fecha- o protagonismo dos catadores de Campos
ALMEIDA, Érica. Relatório Preliminar da Pesquisa
mento do lixão, a inclusão dos catadores na sem considerar a existência política do
realizada com os catadores do lixão da CODIN em
Coleta Seletiva não foi proposta pela Prefei- MNCR, interlocutor responsável pelas Campos dos Goytacazes/RJ, 2013.
tura local. Ao contrário, as negociações em diversas conquistas nacionais no campo do
torno da Coleta Seletiva com a participação _____________.Relatório de Pesquisa com
reconhecimento político do catador, e do
os beneficiários do Programa Bolsa Família do
dos catadores são fruto da ação política dos arcabouço legal – institucional existente município de Campos dos Goytacazes/RJ, 2012.
mesmos e sua articulação com o MNCR/RJ (Lei Federal 12.305 de 2010, o Decreto Fe-
(Movimento Nacional de Catadores de Ma- deral nº 7.404 de 2010 e o Decreto Federal BOSI, A. A organização capitalista do trabalho
informal - o caso dos catadores de recicláveis.
teriais Recicláveis/ Coordenação do RJ) com nº 5.940 de 2006). Aliás, esta nova institu- RBCS, vol.23, nº 67. jun., 2008. pp.66-191.
o apoio das Universidades, em especial, da cionalidade, que não pode ser pensada sem
UFF/Campos. a participação política do MNCR, tem sido CRUZ, J. L. Vianna da. Mercado de Trabalho e
exclusão em Campos/RJ. Boletim Técnico do SENAC.
O recente protagonismo dos catadores fundamental para o avanço da organização
Rio de Janeiro, v,18, n.3, p.159-178. set./dez. 1992.
bem como a sua organização e representa- política e econômica dos catadores e como
ção políticas forçando uma agenda pública uma forma de buscar uma maior autonomia ______________. Análise do perfil ocupacional da
na qual ele figurasse como prioridade, cons- população de baixa renda de Campos/RJ. In: et al.
destes na cadeia da reciclagem. Até esse
Acumulação e pobreza em Campos.
titui um novo modo de fazer política pública protagonismo, possibilitado pela constru- Edições PUBLIPUR/UFRJ, 1987.
no município, abrindo novas possibilidades ção de uma mediação política legítima, pro-
de interlocução entre governo e sociedade, cesso difícil e complexo e, em construção, os Presidência da República Casa Civil, Subchefia para
Assuntos Jurídicos. LEI Nº 12.305, DE 2 DE AGOSTO
sobretudo, quando se trata de grupos subal- catadores nunca foram representados, ou DE 2010. Disponível: <http://www.planalto.gov.br/
ternos até então marginalizados e estigma- seja, “os outros” (jornalistas, políticos, par- ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm>
tizados. Para Telles, tidos, pesquisadores, dentre outros) que, até
POCHMANN, Márcio. Economia Solidária no Brasil:
então, falaram sobre esta temática, falaram
é preciso reativar o sentido político inscrito nos possibilidades e limites. Cadernos IPEA.
sobre os catadores e não pelos catadores. Mercado de Trabalho. 2004. pp.23-34.
direitos sociais. Sentido político ancorado na
temporalidade própria dos conflitos pelos quais Não podemos nos esquecer de que esse mo-
__________________. (org.).Desenvolvimento,
as diferenças de classe, de gênero, etnia, raça ou vimento só foi possível graças ao contexto
Trabalho e Solidariedade. Novos caminhos para a
origem se metamorfoseiam nas figuras políticas de luta do MNCR e das conquistas jurídico- inclusão social. Cortez:São Paulo, 2002.
da alteridade – sujeitos que se fazem ver e re- -político-institucionais impulsionadas pela TELLES, V DA S. Direitos sociais: afinal do que se
conhecer nos direitos reivindicados, se pronun- trata? Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1996.
PNRS (2010) e seus desdobramentos,
ciam sobre o justo e o injusto e, nesses termos,
reelaboram suas condições de existência como processos extremamente importantes para
questões pertinentes à vida em sociedade. o avanço do movimento local, ainda que
(1996, p.4) estejamos só no começo.

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a Luta Pelo Reconhecimento do Direito ao Trabalho
Título Revista de Extensão UENF
Projeto Gráfico, Capa e Diagramação Diego Melo Gomes
Editoração Eletrônica Diego Melo Gomes e Tadeu André Peixoto da Silva

Formato 220 X 220 cm


Fontes Família Tipográfica Asap
Número de páginas 124

124 Revista de Extensão UENF, v. 1, n.1 A Trajetória Recente dos Catadores de Recicláveis do Lixão da CODIN em Campos dos Goytacazes – 125
a Luta Pelo Reconhecimento do Direito ao Trabalho
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