Vous êtes sur la page 1sur 9
Xll * A luta com as sombras Os acontecimentos indescritiveis que caracterizaram a tiltima dé- cada trouxeram consigo a suspeita de que possivelmente a sua causa estaria ligada a um distirbio psicoldgico especial. Decerto, ao se bus- car a opinido de um psiquiatra a esse respeito apenas se podera con- tar com uma resposta calcada em sua perspectiva especifica. Pois, en- quanto cientista, o psiquiatra néo tem a pretensao de saber tudo. A sua opiniao pode, no maximo, servir de contribuigio 4 complexa ta- refa de encontrar uma explicagao vasta e abrangente. Nao € muito facil apresentar 0 ponto de vista da psicopatologia, pois é necessario levar em consideragéo que, muitas vezes, o publico desconhece esse campo tao dificil e especializado. No entanto, uma re- gra bem simples deve ser sempre lembrada: a psicopatologia de massa tem suas rafzes na psicopatologia individual. Fendmenos psiquicos desse porte podem ser investigados no individuo. E somente quando se consegue constatar que certas formas de manifestacao ou sintomas constituem o somatério de diferentes individuos é que se pode dar inf cio a uma investigagao dos fenémenos de massa correspondentes. Como os senhores provavelmente sabem, minha investigagao compreende a psicologia da consciéncia, a do inconsciente e a pes * Conferéncia realizada no terceiro programa da British Broadcasting Corporation, 3 de novembro de 1946. Publicada pela primeira vez em The Listener, XXXVI/930, 1946, p. 615s. Londres; reproduzida como introdugio aos Ensaios sobre histéria con- tempordnea (Londres: [s.e.], 1947); posteriormente sob o titulo “Individual and Mass Psychology”, em Chimera V/3, 1947, p. 3-11. Nova York/Princeton. Revisada para as Collected Works, traduzida e publicada aqui pela primeira vez. Aspectos do drama contemporéneo 53 quisa dos sonhos. Os sonhos sao os produtos naturais da atividade psiquica inconsciente. Jé ha bastante tempo sabemos que existe uma relagao biolégica entre os processos inconscientes ¢ a atividade do centendimento consciente. Essa relagao pode ser descrita da melhor forma possivel como uma compensa¢io, 0 que significa que falta al- yuma coisa na consciéncia, ou em outras palavras, o exagero, a unila- teralidade ou queda de uma fungio se vé compensada por um proces- so inconsciente correspondente. Ja em 1918, pude verificar no inconsciente de alguns pacientes alemes certos disttirbios que nao podiam ser atribuidos A sua psicolo- yia pessoal. Tais fenémenos impessoais manifestavam-se sempre nos sonhos através de motivos mitoldgicos, como é também 0 caso nas len- das e contos de todas as partes do mundo. Denominei esses motivos mitolégicos de arquétipos, que sao os modos ou formas tipicas em que esses fendmenos coletivos sao vivenciados. Em cada um de meus paci- cntes alemaes pude constatar um distirbio do inconsciente coletivo. E possivel explicar essas derivacées pela causalidade, mas a explicagio causal no satisfaz, pois compreendemos os arquétipos mais facilmen- tc a partir de suas finalidades do que propriamente de suas causas. Os arquétipos que pude observar exprimiam primitividade, violéncia e crueldade. Como vi tais casos em demasia, concentrei minha atengéo no curioso estado mental que predominava entao na Alemanha. Entre- (unto, s6 consegui distinguir sinais de depressao e grande agitagao que, na verdade, nao emplacaram minhas inquietagdes. Num artigo publi- cado nessa ocasiao, exprimi minha suspeita de que a blonde Bestie (a besta loura) movimentava-se num sono intranquilo e uma irrupgio nao era de modo algum impossivel'. Essa conjuntura de fatos nao era apenas uma manifestagao teut6- hica, como se viu nos anos seguintes. O ataque tempestuoso de forgas arcaicas foi quase universal. A principal diferenga residia na prépria mentalidade alema que, em razao de sua extraordindria tendéncia para a massificagdo, mostrou-se mais propicia. Ademais, a derrotaea calamidade social fortaleceram o instinto gregdrio na Alemanha, au- mentando a probabilidade de vir a ser a primeira vitima dentre as na- 1, Cf. capitulo “Sobre o inconsciente”, § 17 do presente volume. 448 449 450 54 Obra Completa — Vol. 10/ ges ocidentais — vitima de um movimento de massa, desencadead. pela insurreigéo de forgas adormecidas no inconsciente, dispostas romper 0 conjunto de limites morais. Em geral, essas forcgas pode ser entendidas como compensagao. Quando essa espécie de movi mento compensatério do inconsciente nado consegue ser absorvid: pela consciéncia individual, pode gerar uma neurose ou até uma psi- cose, € o mesmo vale para o coletivo. E evidente que para se produzii um movimento compensatério desse tipo € preciso que algo este) fora de ordem na atitude consciente; algo deve estar invertido o fora de proporgées, pois somente uma consciéncia desequilibrad, pode provocar um movimento contrdrio no inconsciente. Como 0} senhores bem sabem, intimeras coisas nao estavam em ordem naque la Epoca e as opinies a esse respeito eram extremamente confusas Na verdade, a opiniao correta sé pode ser avaliada ex effectu, ou se; s6 podemos verificar as faltas na consciéncia de nossa época, obser vando 0 tipo de reagio provocada no inconsciente. Como jé mencionei aos senhores, a maré de primitividade, vio léncia, em suma, a expresso de todos os poderes obscuros que havia crescido apés a Primeira Guerra Mundial, anunciava-se nos sonhos individuais na forma de simbolos coletivos ¢ mitolégicos. No mo: mento em que esses simbolos aparecem num grande nimero de indi viduos € nao sao assimilados, eles comegam a unir com forga magné tica os individuos isolados. Assim tem origem uma massa. Rapida» mente surgira o lider no coragéo daquele que possuir a menor forg: de resisténcia, a menor consciéncia de responsabilidade e que, devid A sua inferioridade, demonstrar a mais forte vontade de poder. Liber tard das correntes tudo o que esta em estado de irrup¢ao e a massa seguird com a forga arcaica e incontrolavel de uma avalancha. JA havia observado a revolugao alem, por assim dizer, no tub de ensaio do individuo, o que me deu consciéncia do imenso perig, que a concentragaéo em massa desse tipo de pessoas representava. Na’ quela ocasiao, porém, ainda nao sabia se o seu ntimero seria suficien- te para tornar inevitavel essa irrupgdo. Tinha oportunidade de segui de perto um grande niimero de casos e, desse modo, verificar no tubo de ensaio do individuo como se desencadeava a tempestade dessas forgas obscuras. Pude observar como as forgas rompiam os limite morais, 0 autocontrole intelectual do individuo e inundavam o mun: