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Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Programa de Pós-Graduação em Educação – Curso de Doutorado.


Disciplina EDU 2287: Questões Atuais da Educação
Professores: Ana Waleska Mendonça e André de Lemos Freixo
Aluna: Camila Moura Pinto

Entre o civismo, o educar para a cidadania e a educação cívica:


em que direção tomará a formação política da juventude em uma sociedade “midiatizada”?

Resumo: O objetivo deste trabalho é desenvolver uma reflexão sobre a formação política da atual
geração de jovens, situando-a em um contexto de “midiatização” da sociedade (Barros, 2012). A
escolha do tema justifica-se por sua ligação com minha pesquisa de doutorado, que tem como
enfoque os usos políticos do espaço virtual feito por jovens integrantes de grêmios escolares e sua
interface com a formação política dos estudantes. Parto da hipótese de que é preciso estar atento à
novos estilos de aprendizagem, levando em consideração um novo arranjo de sociedade, que
imbricado aos usos que fazemos da mídia, tem como consequência um novo escopo na formação
política dos jovens. Considero que este novo desenho possui também relações, tanto com a crise
institucional, quanto da forma escolar (Vincent, Lahire e Thin, 2001), cuja formação política dos
jovens, cada vez mais distancia-se da ideia de uma educação moral e cívica, tal como ministrada,
tradicionalmente, nas escolas. O trabalho dialoga com a disciplina Questões Atuais da Educação,
por indagar-se acerca de novos direcionamentos possíveis da formação política dos jovens em um
contexto social e politicamente “midiados”. Para tal trilhar tal percurso, o trabalho dialoga com
dois conceitos, trabalhados ao longo do curso: nação e escola. No caso do primeiro, destacando o
papel histórico da Educação Moral e Cívica na formação de um civismo. E no segundo, chamando
atenção para a emergência de um novo espaço pedagógico, que possui nos usos da mídia e no
compartilhamento de conteúdo político, as bases de uma educação cívica, destacando seu
rompimento com a forma escolar de transmissão de conteúdos disciplinares. À guisa de conclusão,
relativizo algumas questões relacionadas à implantação da educação cívica em sua forma midiática,
elucidando alguns de seus limites, chamando atenção para a situação embrionária, que ainda
encontra-se.
Introdução

O tema de minha pesquisa de doutorado são os usos do espaço virtual feito por jovens
integrantes de grêmios escolares e suas possíveis interfaces com a formação política dos estudantes.
O objetivo deste trabalho, no entanto, é desenvolver uma reflexão acerca dos atuais contornos que
envolvem a formação política da atual geração de jovens, considerando haver tanto um novo arranjo
de sociedade, que rompe com as estruturas modernas de organização, baseado nos modelos de
socialização centralizados nas funções das instituições sociais1, quanto uma nova forma de usar as
mídias enquanto espaço de formação e atuação política.
O argumento central do trabalho gira em torno do surgimento de novos estilos de
aprendizagem, que a partir de um uso mais autônomo e criativo das diferentes mídias, vem
modificado as formas de ação, participação e formação política da sociedade. Estes novos usos
tornam possível o rompimento entre a forma escolar de educação para a cidadania, baseada na
transmissão de conteúdos disciplinares com o que chamo educação cívica, desenvolvida a partir do
compartilhamento de conteúdos políticos pelas mídias. Utilizo como referência desta análise, uma
pesquisa realizada junto ao movimento 15M, atuante em Granada, espécie de braço do movimento
dos Indignados, que nasceu na Espanha, em 2011. Usarei esta investigação como exemplo de
proposta à construção de educação cívica desenvolvida fora dos espaços escolares.
Em diálogo com a disciplina Questões Atuais da Educação, procuro chamar atenção para o
fato de que este tipo de formação política não rompe, necessariamente com a instituição escolar,
enquanto espaço de aprendizagem cívica, contudo, busca romper com a forma escolar (Vincent,
Lahire e Thin, 2001) de educação para a cidadania.
A hipótese que procuro sustentar é a de que, no caso do espaço midiático, a formação
política se constrói mediante o compartilhamento de conteúdos políticos, o que rompe com a forma
escolar baseada na transmissão de conteúdos disciplinares e na existência de um tempo/espaço
dedicado à aprendizagem. Estabeleço, portanto, a diferença entre educação cívica, formação política
via espaços midiáticos e educação para a cidadania, formação política centrada nos conteúdos
disciplinares, currículos e temas transversais via instituições de ensino escolares. Procuro chamar
atenção, desta maneira, para novos estilos de aprendizagem, que possuem nos usos da mídia,
terreno fértil à formação política dos jovens.
Pensando em educação cívica, nos dias atuais, é possível colocar que os usos das mídias,
tomado em seu sentido político, podem propiciar espaços favoráveis à expressão e ao
estabelecimento de contato em redes e comunidades políticas, o que facilitaria o compartilhamento
e o fortalecimento de culturas cívicas, tanto no âmbito midiático, quanto fora dele.
Os estudos culturais, desta forma, ajudam a compreender como os meios de comunicação
condicionam os processos educativos e de socialização, relacionando apropriação e matrizes
culturais (Barbero, 1997). No caso do compartilhamento de culturas cívicas elucidam uma nova
forma política em ascensão na nossa sociedade, relacionada ao uso ativo das mídias, o que coloca o
receptor como tendo papel ativo no processo comunicativo em que se insere. Com relação ao
1 Sugiro conferir os conceitos: desinstitucionalização, Dubet, 1998; desmodernização, Touraine, 1999, para uma boa
análise da crise das instituições sociais.
político têm produzido uma nova forma de participação que situam os meios de comunicação no
centro da vida política. Distribuídas, as imagens e textos midiáticos relacionam-se fortemente à
construção de valores morais e éticos, que relacionados com a relação indivíduo e sociedade podem
ajudar a desenhar a formação política dos jovens. “A política, como a experiência, já não pode
sequer ser considerada fora de uma estrutura midiática”. (SILVERSTONE, 2002, pp-265).

Uma nova sociedade midiatizada X a tradição Moral e Cívica

A educação cívica, a que me refiro neste texto, deve ser compreendida como sinônimo de
formação política inserida em uma sociedade fortemente midiatizada. Há de se levar em
consideração que, nos dias atuais, a tecnologia apresenta-se como forte aliada na aprendizagem
cívica, tendo na juventude e os usos que fazem das mídias a vanguarda de uma nova forma de fazer
política, centrada no compartilhamento de conteúdos políticos e no fortalecimento de culturas
cívicas, geradas em ambientes comunitários midiáticos.
Essas palavras alinham-se à concepção de que a sociedade atual encontra-se “midiatizada”,
tendo na comunicação um de seus centrais alicerces. A mídia encontra-se, portanto, fortemente
presente em nosso cotidiano, atravessando, estruturando e reconstruindo nossa relações sociais,
nossas afetividades e a forma como direcionamos nossas condutas sociais. O fato da mídia
encontrar-se, deste modo, fortemente presente, afetaria, portanto, também nossos processo de
formação.
Essa Midiatização (Barros, 2012) a que estaríamos submetidos pode ser traduzida como a
mediação da mídia em todos os espaços da vida na nossa sociedade, seja no lazer, no trabalho, ou na
escola; presente em nossas redes de amizades e contatos e até na comunicação com nossa família. É
possível dizer, desta maneira, que há um imbricamento entre tecnologia e sociedade, que colocadas
em posições intercruzadas e complementares, estruturam, modelam e, consequentemente,
participam da criação de nossas visões de mundo, também atuando em nossa formação política.
Neste sentido, a mídia é central também na criação de locais de pertencimento, de interação com o
outro, de formação da moral e de condutas éticas, incluindo, portanto, a política. “Ou seja, a
sociedade contemporânea está estruturada em uma lógica midiática que dá sustentação à
consciência e à contrução de identidades do indivíduo e do grupo” (BARROS, 2012, pp-85). Neste
sentido, o mais importante, ao pensar a interface entre a formação política e uso das mídias, não
rapousa sobre a tecnologia e seus avanços, mas como sua inserção na vida cotidiana influencia e
modifica as interações sociais, influenciando na educação cívica. É possível dizer, contudo, que esta
formação, da forma como seria construída, rompe com a educação ética e formação para a
cidadania, tal como apresentada tanto como tema transversal dos Parâmetros Curriculares
Nacionais, quanto do que fora a Educação Moral e Cívica, implantada no decorrer do século XX, no
Brasil.
Nas primeiras décadas do mesmo século, o projeto de homogeneização cultural e moral, era
marcante, aliando-se, cada vez mais, às Políticas Nacionais de Educação, com objetivo de
padronizar o ensino. Nos projetos políticos de Vargas, por exemplo, nos anos trinta, foi dada forte
atenção à educação, marcada pela moral e civismo como veículo ao projeto de unidade nacional 2.
Havia naquela época, uma formação política que tinha na construção de uma consciência cívica, via
ensinamento moral e ético, a construção de um sentimento de patriotismo, de pertencimento à nação
e de obediência cidadã. A Educação Moral e Cívica, enquanto disciplina escolar, desde seu início
buscava garantir a formação política pelo civismo via instituição escolar. No período militar, a partir
do Decreto-Lei n.89, de 12 de setembro de 1969, tornaria-se obrigatória à todas as instâncias do
ensino, incluindo-se o Ensino Médio e Superior.
É possível colocar, que de acordo com um pequeno trecho do Decreto-Lei, a Educação
Moral e Cívica tinha como finalidade principal promover a formação política e moral dos
estudantes, a partir de uma determinada concepção de moralidade:
“(...) o fortalecimento da unidade nacional e do sentimento de solidariedade humana; o culto à
Pátria, aos seus símbolos, tradições, instituições e aos grandes vultos da história; o aprimoramento
do caráter com apoio na moral, na dedicação à família e a comunidade; a compreensão dos direitos e
deveres dos brasileiros (…) o preparo do cidadão para o exercício das atividades cívicas com
fundamento na moral, no patriotismo e na ação construtiva, (…); o culto à obediência à Lei, da
fidelidade ao trabalho e da integração na comunidade”. 3

A Educação Moral e Cívica, enquanto orientação acadêmica, permaneceu nos currículos


escolares ainda depois do fim da ditadura militar. No Colégio Pedro II, por exemplo, manteve-se até
meados da década de 1990, por experiência própria. Mesmo perdendo boa parte do seu caráter de
civismo4, a formação cidadã permaneceria como um dos focos da educação nacional. Atravessadas
pelo tema tranversal ética, a formação para a cidadania deveria estar presente no conteúdo
curricular das disciplinas escolares, tal como previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais, em
1997. De acordo com as orientações dos PCNs, a formação para a cidadania deveria cortar de forma
transversal todas as disciplinas escolares. Abre-se espaço, desta forma, para a formação política
enquanto criação de uma consciência cidadã, organizada sob a forma de pertencimento comunitário,
de solidariedade individual e na relação dos indivíduos com a sociedade.
Neste sentido, tanto o civismo, quanto a cidadania, apesar de possuírem propostas distintas

2 Cf, HORTA, 1994, apud, texto do Seminário: o lugar do civismo na educação brasileira, apresentado por colegas
do curso de Questões Atuais da Educação, primeiro semestre de 2013.
3 Trecho retirado do trabalho apresentado em seminário pelas colegas, Gabriela Scramingon, Janaína de Azevedo
Corenza e Marta Nidia Varella Gomes Maia.
4 Considero, para efeito de análise, civismo, como sentimento de pertencimento à nação, possuindo forte
identificação entre os cidadãos e o Estado, como pátria. Considero cidadania, como sentimento de pertencimento à
nação inclinado à uma consciência política cidadã, relacionada com os direitos e deveres do cidadão, no sentido de
pertencimento à uma comunidade.
quanto à formação política dos jovens, tinham em comum sua atuação nas instituições escolares,
tornando-as espaços centrais na formação política dos estudantes. Sob a ideia de uma Educação
Moral e Cívica, tanto sua implementação como disciplina escolar, quanto sua incorporação em
temas transversais, ainda possui na instituição escolar um dos meios de construir em nossas crianças
e jovens sua formação política. Mas, pensando em termos de uma sociedade “midiatizada”, tal
como já colocado, em que compartilhamento de informações, experiências e conteúdos politicos
tornam-se cada vez mais uma realidade globalizada, seria a escola o único local, ou o lugar central
da formação política da atual geração?

Rompendo com a forma escolar: a educação cívica como compartilhamento de


conteúdo político, o caso dos 15M

Paralelo à educação para a cidadania, via eixos transversais, nos currículos escolares, temos
observado, nos dias atuais, a ascensão de uma nova possibilidade de formação política, a que
chamo, para efeito desta análise, de educação cívica. Construída e consolidada via usos políticos
dos recursos mídiáticos, via compartilhamento de conteúdo político pelas mídias, a educação cívica
seria um processo educativo relacionado ao cultivo de culturas cívicas no ambiente virtual. Este
novo estilo de aprendizagem cívica, fruto dos usos políticos das mídias, sobretudo da internet,
rompe com a forma escolar (Vincent, Lahire, Thin, 2001) de aprendizagem cidadã, tendo em vista
que assume uma forma midiática, onde a construção de culturas cívicas, assumiria o centro da
formação política.
Dahlgren, 2011, (apud Hernandez, Robles Martinez, 2013), ao destacar o papel central das
mídias em nossa expressão, compartilhamento de experiências e formação política, apresenta seis
dimensões necessárias ao desenvolvimento de culturas cívicas, a saber:
1) Conhecimento como apropriação ativa, o que coloca os sujeitos sociais como atores
políticos, resultando em novos sentidos e significados que circulam graças a esta apropriação; 2)
Valores democráticos, ou em outras palavras, a existência de um ethos comunitário democrático e
compartilhado; 3) Confiança na participação coletiva; 4) Espaços de comunicação físicos e virtuais;
5) Novas práticas e habilidades cívicas; 6) Fortes identidades cívicas. Essas seis dimensões
encontrariam nas midias e redes sociais locais favoráveis à sua disseminação, pois possibilitariam o
compartilhamento de experiências e conteúdo político, facilitando a construção, consolidação e
cultivo de culturas cívicas.
O artigo intitulado: “Jóvennes interactivos y culturas cívicas: sentido educativo, midiático y
político del 15M”, de autoria de: E. Hernandez, M.C. Robles e J.B.Martinez (2013) aborda a
temática da formação política procurando demonstrar o quanto que ela pode passar ao largo das
instituições de ensino, construindo-se pela união entre as midias e o compartilhamento de conteúdos
políticos digitais. A pesquisa realizou um estudo de caso, em Granada, junto ao 15M, Movimento
15 de Mayo, organizado pelo facebook. O movimento teve início quando cerca de 40 pessoas
montaram um acampamento espontâneo na Plaza del Carmen, em solidariedade aos acampados na
Plaza del Sol, em Madri, organizando uma espécie de célula deste. Durante os 32 dias em que
mantiveram-se acampados, o local foi palco de diversas discussões, fóruns, plenárias e debates
políticos, espaço de trocas de informações e experiências, transformadas em conteúdos midiáticos,
compartilhados de diversas formas, que permaneceram em circulação mesmo após o término da
ocupação.
O estudo concluiu que esses conteúdos compartilhados deveriam ser compreendidos, não
somente como produção midiática, política, ou registros das ações do movimento, mas também por
seu caráter educativo. Neste sentido, o compartilhamento do conteúdo político presente nas
diferentes produções midiáticas do 15M, manifestaria uma determinada expressão de cultura cívica,
que traduzida em narrativa educativa compartilhada em diversos espaços midiáticos, criaria um
ambiente propício à formação política.
Os autores também concluíram que a formação política, presente nesta forma midiática de
educação cívica, constrói-se coletivamente. Tem-se, como forte marca do movimento a substituição
do transmitir, por “compartilhar”, criando uma espécie de sistema em redes educativas, que no caso
do compartilhamento de conteúdo político, formaria politicamente os jovens. O ambiente virtual
aparece, então, como espaço propício à educação cívica tendo no compartilhamento seu eixo
central, ressignificando o fazer, o atuar e o formar politicamente nos dias atuais.
A partir da análise dos discursos contidos no material de pesquisa, que reuniu fotos,
entrevistas, cartilhas com textos explicativos sobre o movimento e sua visão política, os
pesquisadores perceberam haver uma nova relação dos jovens com as TICs, apontando a
possibilidade de novas perspectivas e alternativas à uma educação cívica. Nas experiências e trocas
comunicativas proporcionadas pelos ambientes midiáticos podem ser trilhados novos caminhos á
formação política, construídos fora do ambiente escolar.
O movimento 15M foi considerado, portanto, um movimento educativo, devido à sua
potencialidade formadora, pois gerava narrativas educativas e as distribuíam, tanto nas reuniões e
assembléias, quanto como conteúdo midiático e virtual. Neste sentido, ao colocar à disposição uma
série de materiais com conteúdo político em blogs, cartilhas, folders, jornais, rádio e TV, permitem
que esta variada coleção chegue aos jovens com alto poder educativo, o que converteria o
movimento em uma espécie de agente educativo.
De acordo com outras considerações da pesquisa, há um novo ethos social democrático, em
uma sociedade altamente “midiatizada”, que vem modificando a relação dos jovens com a política e
da maneira como interagem face suas realidades sociais, a partir dos usos que estabelecem com as
midias. Por estarem relacionadas á interpretação da realidade e suas visões de mundo, os materiais
produzidos pelo 15M, a saber: acampanada.org; periódico Ágora; Granada TV live streaming;
Rádio Plutón; os compartilhamentos na rede social do movimento, além de cartilhas e folders
explicativos; devem ser compreendidos, também por seu cunho pedagógico e não restrito à
militância política. De acordo com a pesquisa, conceitos de cidadania, democracia, informação,
educação e política foram fortemente reconstruídos pelo movimento, assim como as relações
espaço/tempo, relacionado ao processo de formação e conhecimento, assim como o caráter
público/privado desses ensinamentos.
O compartilhamento de conteúdos políticos contidos nos usos dessas mídias relaciona-se à
formação política como processo de troca de informações e cultivo de culturas cívicas, o que rompe
com a forma escolar, que ao valorizar a transmissão de conteúdos como veículo à aprendizagem,
limita a formação política, à consciência ética, promovida via sua temática transversal às disciplinas
escolares, tal como previsto pelos PCNs.
A partir da leitura do texto “A cultura escolar como objeto histórico” de Dominique Julia
(2001), é possível perceber que a cultura escolar ainda mantém várias características que remetem
aos seus primórdios, descritas pelo autor como: “um conjunto de normas que definem
conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a
transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos” (JULIA, 2001, pp-9).
O ensino seriado, a divisão por disciplinas e um tempo/espaço específico para o
ensino/aprendizagem ainda estão presentes na grande maioria das instituições escolares. No entanto,
a educação cívica como possibilidade de formação política, via uso político das mídias, rompe com
esta forma de ensino/aprendizagem, relativizando a centralidade da forma escolar na formação
política dos jovens.
Vale dizer, antes de desenvolver esta relativização, que o arranjo da sociedade atual5, além
de apontar para uma centralidade e mediação cada vez mais intensa das mídias no cotidiano dos
indivíduos (“midiatização”), coloca em questão toda a configuração moderna de organização social,
calcada em instituições sociais e seus modelos de socialização. Nesta “crise” das instituições
sociais, a escola e sua organização, encontrariam-se também em processo de revisão, devido à
diversos questionamentos quanto sua eficácia e adequação às demandas sociais da atualidade.
Contudo, Vincent, Lahire e Thin (2001), chamam atenção para um ponto interessante, ao
refletirem sobre a “crise da escola”, diferenciando os conceitos de instituição escolar de forma
escolar. Colocam, que nos dias atuais, a escola, enquanto central na socialização e
institucionalização do que deve ser aprendido, apresenta-se em crise. Contudo, chamam atenção

5 Cf. conceito de desmodernização de Alain Touraine (1999) e desinstitucionalização de François Dubet (1998).
para o fato de que forma escolar, tal como conceito sociológico, originado no cerne da Sociologia
da Educação, relacionado à compreensão da estrutura da escola e sua função social, ainda é central
em nossa sociedade.
De acordo com a teoria destes autores, a escola, enquanto instituição socializadora, não
desempenharia mais uma função central na socialização dos indivíduos (crianças e jovens),
contudo, a forma escolar, ou seja, toda uma tradição pedagógica inserida em nossos processos de
socialização encontra-se, fortemente, disseminado. Basta observar a forma como aprendemos, por
exemplo uma língua ou qualquer ofício. Basicamente, todas as instituições de ensino, sejam elas
escolares ou não, utilizam-se da forma escolar para desenvolver suas atividades pedagógicas. A
forma escolar liga o aprender e nossos processo de formação educacional com o ensino
institucionalizado ministrado pela escola. E que esta forma, não encontra-se em crise. De acordo
com o ponto de vista deles, ainda há disseminada pela sociedade uma fé de que a escola deve
cumprir sua função social de ensinar.
Levando em consideração esta reflexão, é possível dizer que a educação cívica, como
formação política mediada pelos meios de comunicação via compartilhamento de conteúdos
políticos, rompe com a forma escolar de educação para a cidadania. No caso do 15M, a forma
escolar é quebrada, por exemplo, quanto ao aspecto tempo/espaço da aprendizagem cívica, questão
também central nas reflexões de Ivan Illich (1973), onde a educação deveria ser
“desinstitucionalizada” e acontecer em formas de trocas e compartilhamento de saberes, que
aconteceriam de formas mais descompromissadas entre mestres de ofício e aprendizes. 6 Outro ponto
que evidenciaria este rompimento são os conteúdos compartilhados que ao não seguirem um
direcionamento curricular padronizado, distanciam-se da forma escolar de ensino/aprendizagem. Ao
apresentarem sua concepção de política, possibilitam a circulação de novas interpretações sobre a
política, podendo ampliar e até modificar a visão de mundo daqueles que têm acesso aos conteúdos,
transformando-se em educação cívica. Outra diferença entre a forma midiática e a forma escolar é a
possibilidade do jovem tornar-se produtor e transmissor de sua visão de sociedade e de sua
concepção sobre a política, através do compartilhamento de suas experiências políticas, o que o
tornaria emissor de conteúdo político, logo, também autor de narrativas educativas.

Entre a literacia cívica e a educação cívica, à guisa de conclusão

Venho argumentando, até então, que a formação política para uma educação cívica, através

6 O uso dos termos mestre de ofício e aprendizes foi proposital, visto a forma como Ivan Illich (1973) apresenta sua
crítica ao ensino escolar institucionalizado, que remete, sobretudo, ao ensino desenvolvido pelos mestres de ofício,
ainda na Idade Média. Vale dizer, contudo, que não quero dizer com isso que o autor esteja sugerindo a substituição
do ensino moderno pelo medieval.
do compartilhamento de conteúdos políticos via mídias digitais, rompe com a forma escolar de
educação moral e cívica, assim como de uma formação para a cidadania, incorporada aos currículos
escolares, tal como temos vistos ao longo do século XX. Contudo, gostaria de colocar algumas
questões acerca da educação cívica e, de certa forma, problematizar a ideia de que a democratização
do uso das mídias, por si só, garantiria um upgrade na formação política dos jovens da atual
geração.
Foi colocado neste trabalho, a partir da leitura de uma pesquisa desenvolvida junto ao 15M,
que o cultivo de culturas cívicas, compartilhadas a partir da difusão dos conteúdos políticos, possui
papel central na educação cívica nos dias atuais. Retornando às seis dimensões relacionadas ao
desenvolvimento de culturas cívicas, considerados como fundamentais na educação cívica, tal como
apresentado por Dahlgren, 2011, (apud Hernandez, Robles Martinez, 2013), há um ponto que
gostaria de problematizar.
Todos os seis aspectos considerados relacionam-se à educação para a cidadania atrelada à
liberdade de uso das mídias digitais, sobretudo das redes sociais e internet. Isto significa que para
consolidar-se as dimensões básicas para o cultivo de culturas cívicas, é necessário que já haja,
previamente, a construção de uma consciência democrática-cidadã, que deve anteceder o uso das
mídias, que por sua vez, precisam de condições livres para atuarem.
Contudo, para que haja tal direcionamento nos usos das mídias é preciso criar condições
favoráveis à sua manipulação. No caso da internet, por exemplo, é necessário haver, no mínimo:
uma estrutura e organização (social e política) que possibilite a ampla disseminação de
computadores e das técnicas necessárias ao seu uso; maior liberdade e auntonomia possível no
compartilhamento e criação de conteúdos on line; capacidade crítica de “filtrar” os conteúdos
disponíveis oriundos da conexão em rede..
Estas condições, por ainda não encontrarem-se concretizadas, colocam a educação cívica,
como proposta embrionária de formação política, visto que em nossa sociedade, ainda são desiguais
tanto os acessos à rede, quanto as habilidades técnicas relacionadas ao seu uso, assim como a
capacidade crítica relacionada ao uso responsável das mídias e das possibilidade que oferecem.
Neste sentido, de acordo com Silva (2008), apesar das mídias terem o potencial de fortalecer
formas de expressão cultural que foram deixadas do lado de fora da revolução industrial
, o conceito de Conectivismo, ao mesmo tempo que reina como condição primordial nesta
expressão, a limita, por não ser igualmente disseminada em nossa sociedade. Esta teoria baseia-se
na compreensão do processo de aprendizagem como
processo de criação de redes entre pontos de contato, o que significaria entender o
conhecimento como um processo criativo e baseado em trocas de informação.
“Learning is a process of creating networks. Nodes are external entities which
we can use to form a network. Or nodes may be people, organizations, libraries,
web sites, books, journals, database, or any other source of information. The
act of learning (things become a bit tricky here) is one of creating an external
network of nodes — where we connect and form information and knowledge
sources. The learning that happens in our heads is an internal network (neural).
Learning networks can then be perceived as structures that we create in order
to stay current and continually acquire, experience, create, and connect new
knowledge (external). And learning networks can be perceived as structures that
exist within our minds (internal) in connecting and creating patterns of understanding” (SIEMENS,
2006, apud, SILVA, 2008).

O fato de reconhecer o conhecimento como bem público e por isso compartilhável, abre
uma brecha para pensar que a web seria o espaço, por excelência da formação de novos indivíduos,
mais autônomos e participativos em seus processos de aprendizagem. Contudo, é preciso dizer que
certas habilidades, fundamentais na circulação dessas informações, são fruto da criação de uma
consciência crítica dos usos das mídias e dos conteúdos postados na web, que antecede os cliques
no teclado. Esta consciência crítica, deve vir conjugada, portanto, à outras habilidades que não
estejam restritas à saber operar o computador, mas que formadas na escola, tornam-se fundamentais
ao desenvolvimento crítico e compartilhamento responsável dos conteúdos midiáticos.
Gostaria de colocar, então, que como central no processo de educação cívica, é necessário
tanto o cultivo de culturas cívicas e o compartilhamento de conteúdo político midiático, quanto o
cultivo e desenvolvimento de uma literacia cívica, construída através de uma literacia geral, em
grande parte, fruto da educação escolar7.
“A literacia cívica é entendida como 'os conhecimentos e as capacidades de que os cidadãos
dispõem para compreender o seu mundo político' (MILLNER 2002, apud, SILVA, 2008, pp-16).
Este autor, chama atenção entretanto, para o fato de que cursos de cidadania, incorporados aos
currículos escolares, tal como desenvolvido em diversos países, possuem resultados irrelevantes na
promoção da cidadania, visto que não a cultivam, apenas a encaixam nos currículos escolares, cuja
noção de cidadania adquire status de mais uma disciplina e não de uma pŕatica cultural cidadã.
Sendo assim, os ensinamentos poderiam se perder na vida adulta, tal como acontece, na maioria das
vezes, com os conteúdos disciplinares que aprendemos na idade escolar.
O autor destaca também, que estimular a formação de uma literacia geral, em especial,

7 Sonia Livingstone (2011) entende por literacia: “um conjunto de habilidades básicas e avançadas relacionando
aptidões individuais com práticas sociais, cruzando a fronteira entre o conhecimento formal e o informal”
(LIVINGSTONE, 2011, pp-13). De acordo com sua definição o desenvolvimento de habilidades técnicas
necessárias ao uso do computador deve estar articulado ao estímulo de habilidades críticas quanto ao seu uso.
“A literacidade na internet, particularmente, pode ser diferenciada de outras formas de literacidade na
medida em que habilidades específicas, experiências, textos, instituições e valores culturais associados à internet se
diferenciam daqueles associados ao impresso, audiovisual e outras formas de comunicação. Poderíamos ir além,
fracionar os diferentes tipos de literacidade associados à diversas atividades – jogos on line, comunicação, informação,
participação a assim por diante – possibilitados pela internet (como literacidade para o jogo, literacidade para a
comunicação, literacidade para as redes etc.)” (Op.Cit, pp-21)
incentivar à leitura, é fundamental na construção de uma literacia cívica. Isto significa que para o
desenvolvimento de uma formação política “plena”, é necessário conjugar aptidões e usos políticos
do espaço virtual com aptidões envolvidas nos usos críticos das informações compartilhadas e
disseminadas. Neste sentido, a escola seria um dos locais centrais na educação cívica, por ser ainda
o espaço central no desenvolvimento de competências e habilidades críticas de leitura e pensamento
crítico.
A literacia cívica, desta maneira, apesar de romper com a forma escolar de formação para a
cidadania, precisa dos ensinamentos provenientes da escola, colocando-a em posição central na
formação política dos jovens, não por ensiná-los a serem um cidadãos, mas por prover as
competências mínimas ao cultivo de culturas cívicas críticas, a base da educação cívica.
Deste modo, embora rompendo com a forma escolar, a educação cívica, como formação
política em ambientes virtuais, apenas terá êxito se as instituições escolares, chamarem para si a
responsabilidade de uma formação para a autonomia, liberdade e para o senso crítico, elementos
básicos à vida em uma sociedade “midiatizada”.
Essas habilidades são fundamentais nos dias de hoje, cujas mídias e, sobretudo a internet,
adquirem status de espaço livre, local de compartilhamentos de conteúdos, o que rompe com o
tempo/espaço de aprendizagem tradicional. Contudo, para que o conhecimento torne-se bem
público compartilhado, é necessário haver tanto a liberdade total no uso da web, quanto o
desenvolvimento desta consciência nos jovens, que precisariam desenvolver um espírito de
solidariedade, cujos saberes não possuem uma origem e um fim, como na escola, mas provenientes
de uma criação coletiva.
Neste sentido, a educação cívica, conforme venho defendendo até aqui, encontra-se em
período embrionário, visto que ainda não encontram-se conjugadas todas as condições necessárias à
sua realização. Neste sentido, apesar de romper com a forma escolar de aprendizagem cívica, ainda
depende da instituição escolar como provedora das habilidades críticas necessárias ao
compartilhamento de culturas cívicas, central na formação política dos jovens, nos dias de hoje.
Sendo assim, torna-se necessário, diante dos novos arranjos de sociedade, indagar-se como seria
possível aliar a forma escolar, assentada na formação para a cidadania, com a forma midiática,
assentada no compartilhamento de culturas cívicas, na formação política da atual geração de jovens.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARROS, Laan Mendes, “Recepção, mediação e midiatização: conexão entre teorias europeias e
latino-americanas”. In: Mediação e Midiatização, EDUFBA, Brasília: Compós 2012.
HERNANDEZ, E. ROBLES, M.C. & MARTINEZ, J.B. “Jóvennes interactivos y culturas cívicas:
sentido educativo, midiático y político del 15M” In: Revista Comunicar n. 40, vol. XX, 2013.
ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1973.

JULIA, Dominique. “A cultura esoclar como objeto histórico”. In: Revista Brasileira de História da
Educação, n.1, 2001.
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