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ARTIGO ORIGINAL | ORIGINAL ARTICLE 13

Violência doméstica e trabalho: percepções


de mulheres assistidas em um Centro de
Atendimento à Mulher
Domestic violence and work: perceptions of women attended at a
Women’s Care Center

Jasmin Gladys Melcher Echeverria1, Maria Helena Barros de Oliveira2, Regina Maria de Carvalho
Erthal3

RESUMO O presente artigo tem como objetivo analisar as relações entre mulheres em situa-
ção de violência doméstica e o seu trabalho, a partir das percepções de mulheres agredidas
por seus companheiros ou ex-parceiros atendidas em um Centro de Atendimento à Mulher
no estado do Rio de Janeiro. A metodologia seguiu uma abordagem qualitativa, por meio de
levantamento bibliográfico, trabalho de campo, utilização de observação participante, levan-
tamento documental e entrevistas individuais. Como resultado, destaca-se que a violência
doméstica afeta o rendimento e rotina de trabalho dessas mulheres. Entretanto, o trabalho
também é visto como uma saída da situação de violência a qual estão submetidas.

1 Fundação Oswaldo PALAVRAS-CHAVE Violência doméstica. Trabalho. Mulher. Assistência.


Cruz (Fiocruz), Escola
Nacional de Saúde
Pública Sergio Arouca ABSTRACT The present article aims to analyze the relations between women in situations of
(Ensp), Departamento de
Direitos Humanos, Saúde domestic violence and their work, from the perceptions of women abused by their partners or
e Diversidade Cultural ex-partners, attended at a Women´s Care Center, in the state of Rio de Janeiro. The methodology
(DIHS) – Rio de Janeiro
(RJ), Brasil. followed a qualitative approach, through bibliographical survey, field work, utilization of par-
jasmin.melcher@hotmail. ticipant observation, documental survey, and individual interviews. As a result, it is emphasized
com
that domestic violence affects the yield and work routine of those women. However, work is also
2 Fundação Oswaldo
seen as a way out of the situation of violence to which they are subjected.
Cruz (Fiocruz), Escola
Nacional de Saúde
Pública Sergio Arouca KEYWORDS Domestic violence. Work. Woman. Assistance.
(Ensp), Departamento de
Direitos Humanos, Saúde
e Diversidade Cultural
(DIHS) – Rio de Janeiro
(RJ), Brasil.
mhelen@ensp.fiocruz.br

3 Fundação Oswaldo
Cruz (Fiocruz), Escola
Nacional de Saúde
Pública Sergio Arouca
(Ensp), Departamento de
Direitos Humanos, Saúde
e Diversidade Cultural
(DIHS) – Rio de Janeiro
(RJ), Brasil.
regerthal@gmail.com

DOI: 10.1590/0103-11042017S202 SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 41, N. ESPECIAL, P. 13-24, JUN 2017
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Introdução (2009), a justificativa para tal diferença era


primeiramente a biológica, em que o orga-
A violência contra a mulher é um evento nismo do homem, principalmente seu órgão
alarmante em todo o mundo. Encontra-se reprodutivo, é distinto do da mulher.
presente em praticamente todos os países, Segundo Carrara (2009), além do órgão re-
independentemente de suas culturas, etnias produtivo, muitos médicos e cientistas afir-
e costumes. No Brasil não é diferente: a vio- mavam que o cérebro feminino era menor
lência contra a mulher é uma realidade na do que o masculino. Essa diferença biológica
população em geral. Pesquisa de opinião, re- justificaria os papéis que cada sexo deveria
alizada pelo Data Popular e Instituto Patrícia desempenhar na sociedade. Logo, a diferen-
Galvão no início de 2013, revela que a agres- ça entre os gêneros masculino e feminino
são contra mulheres é percebida como um estava vinculada ao sexo e era tratada como
dos crimes mais recorrentes no País. Além algo natural devido, principalmente, a diver-
disso, essa mesma pesquisa mostra que 70% sas ‘comprovações biológicas’.
dos que foram entrevistados acham que as Com essa naturalização do gênero, vieram
mulheres sofrem mais violência em ambien- outras justificativas para legitimar a hege-
te doméstico, sendo a maioria das agressões monia ou dominação masculina. A sociedade
praticadas pelos companheiros. A própria era organizada de forma que o sexo definia
Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006) considera o gênero, e somente dois eram aceitáveis,
a violência doméstica e familiar como algo o gênero feminino e o masculino, em que
recorrente no Brasil. É considerada um pro- este último se apresentava como dominan-
blema de saúde pública e uma violação dos te. Assim como tinham as justificativas para
direitos humanos. Segundo Minayo, Gomes diferenciar feminino e masculino, haviam
e Silva (2005), é estimado que esse problema justificativas para alegar que o homem era
cause mais mortes do que certas doenças superior à mulher.
como o câncer ou a malária e do que situa- Eram várias as características e binômios
ções como guerras ou acidentes de trânsito. para distinguir feminino e masculino, como:
De acordo com a Declaração sobre a o homem é mais resistente fisicamente
Eliminação da Violência contra as Mulheres, do que a mulher e, por isso, é mais forte; o
proposta pela Assembleia Geral das Nações homem é ativo, e a mulher, passiva; a mulher,
Unidas sobre Direitos Humanos, realiza- que por natureza gera filhos, está mais ligada
da em Viena em 1993 (ONU, 1993), a violência à emoção e à subjetividade, enquanto o
contra a mulher é uma manifestação das homem está vinculado à razão e à objetivi-
relações de poder historicamente desiguais dade, tendo que tomar decisões pelas mulhe-
entre homens e mulheres, o que acabou con- res; estas estariam mais ligadas ao ambiente
duzindo à discriminação e à dominação das doméstico/privado, enquanto o homem está
mulheres pelos homens. ligado ao espaço público, sendo o provedor
A construção do conceito de violência da família e tendo autonomia, e a mulher,
contra a mulher poderá ser mais bem com- heteronomia. A sociedade girava em torno
preendida a partir de uma perspectiva de do gênero masculino. A partir disso, pode-se
gênero, que, como aponta Dantas-Berger perceber que essa assimetria entre feminino
e Giffin (2005), analisa como as relações e masculino é fruto de uma construção social
sociais de sexo se estabelecem e se cons- que visa manter um paradigma da diferença
troem ao longo do tempo na sociedade. e da dominação masculina.
Historicamente, nota-se a existência de uma Conforme coloca Welzer-Lang (2001),
polaridade entre o feminino e o masculino. existia e ainda existe uma pressão da socie-
De acordo com Welzer-Lang (2001) e Carrara dade chamada patriarcal, na qual o homem

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precisa se diferenciar do outro; do feminino. sexo biológico, são atribuídos papéis dife-
O autor comenta sobre toda uma postura e renciados a homens e mulheres. É importan-
comportamento que o homem precisa seguir te citar que a divisão sexual do trabalho não
para não ser igualado ao gênero feminino. A é algo rígido e imutável, seus princípios con-
virilidade, a coragem, o não ser afeminado, tinuam os mesmos, porém suas modalidades
ser ativo e dominante são comportamen- se transformam, e este conceito não deve
tos que o homem ‘normal’ deve produzir; ser pensado apenas em relação à divisão
homens que não se enquadrassem nessa de tarefas, e sim muito além disso, em que
normatividade eram considerados membros envolve desigualdade e exploração entre
do outro grupo, o grupo dos dominados, que os grupos sociais. Brito (2005) coloca que a
eram pessoas consideradas fracas e que não divisão sexual do trabalho é formada por
são classificadas como homens normais, relações de poder e mostra o quanto as re-
como mulheres e crianças; logo, esses lações de gênero estão presentes no mundo
homens que não seguiam a ordem normal da do trabalho. Algumas tarefas eram e ainda
natureza eram estigmatizados. são consideradas mais adequadas de uma
Não há uma cronologia exata da origem mulher realizar do que um homem.
das construções sociais que colocam a Harvey (1994) e Hirata (2002) afirmam que,
mulher em posição desigual ao homem. com o passar do tempo, principalmente
Essas construções acabam por ser conside- durante a segunda metade do século XX,
radas ‘naturais’ e são reproduzidas, gerando houve uma maior inclusão das mulheres no
ações que tentam justificar a divisão de mercado formal e informal de trabalho. Com
papéis entre os gêneros e, em especial, a a globalização, em que se tem a reorganiza-
ocorrência da violência nesse espaço. ção internacional do capital, que traz a fle-
xibilização do trabalho e a precarização do
Mulheres trabalhadoras e a divisão emprego, com novas formas de contratação e
sexual do trabalho desregulamentação, que surgiram principal-
mente durante a década de 1970, a vulnera-
Em diversas culturas e sociedades, é obser- bilidade e a exploração do trabalho feminino
vada a existência de uma divisão sexual do aumentaram, em que muitas ocupações de
trabalho. Kergoat (2009) explicita esse concei- trabalhadores homens mais bem remunera-
to, que é associado a uma forma de divisão dos e dificilmente demitíveis foram sendo
do trabalho derivado das relações sociais de substituídos pelo trabalho feminino mal
sexo, em que cada sociedade vive essas re- pago em tempo parcial.
lações de forma singular. Esse conceito tem
como principais atributos a vinculação prio- Os Centros de Referência de Atendi-
ritária dos homens à esfera produtiva e das mento à Mulher
mulheres à esfera reprodutiva, dando aos
homens funções de maior valor social. Seus Embora na sociedade as relações de poder se
princípios são colocados pela autora como atualizem de formas específicas nas relações
dois: o da separação entre o que é trabalho entre homens e mulheres, muito foi feito
para ser feito por homens e por mulheres; e para que houvesse mudanças em torno da
o da hierarquização, em que o trabalho rea- questão feminina estabelecida. As lutas fe-
lizado por um homem tem mais valor do que ministas são um exemplo disso: elas têm um
o realizado por uma mulher. Esses princípios papel fundamental na tentativa de mudança
podem ocorrer em uma sociedade devido à da situação da mulher no mundo e na socie-
legitimação de uma ideologia naturalista, dade brasileira.
abordada anteriormente, em que, a partir do Várias organizações e movimentos

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feministas eclodiram pelo mundo no século mesmas. O Estado deve garantir o cumpri-
XX, e no Brasil não foi diferente. A luta por mento desses direitos e o acesso das mu-
igualdade de gênero e maior visibilidade da lheres a esses serviços especializados. Esses
condição feminina ganhou destaque princi- serviços, por intermédio de suas interven-
palmente na década de 1980, em que houve ções, possuem um papel fundamental para o
um número maior de contribuições teóricas enfrentamento da violência contra a mulher
que trataram a situação feminina em suas no País.
diversas questões, como o tema da violência,
tendo também a categoria trabalho como um
destaque desta pauta. Metodologia
As lutas pela igualdade empreendidas
pelos movimentos feministas construíram Para a realização deste trabalho, utilizou-se
várias ações e políticas públicas em torno uma abordagem qualitativa que, segundo
de questões do gênero feminino. As polí- Minayo e Sanches (1993), é uma forma de in-
ticas públicas começaram a ser redefini- vestigação que valoriza a fala, que destaca as
das em torno de temas nos quais a mulher representações de grupos, com suas condi-
encontra-se presente, promovendo e esti- ções socioeconômicas, históricas e culturais
mulando a criação de diversos serviços no singulares, abordagem que bem se adequa
País favoráveis à desconstrução da desigual- ao objetivo deste estudo. Flick (2009) coloca
dade de gênero. Um desses serviços foram que a pesquisa qualitativa permite ter acesso
os Centros de Referência de Atendimento à a experiências, interações e documentos em
Mulher, instrumento criado visando forne- seu contexto natural.
cer atendimento psicológico, social e, muitas Na primeira etapa, para o desenvolvimento
vezes, orientação jurídica para mulheres em deste trabalho, foi realizado levantamento bi-
situação de violência. bliográfico em fontes tanto nacional como es-
Esses e outros serviços de atendimento trangeira, a partir de artigos, livros e pesquisa
à mulher em situação de violência fazem virtual. Também se utilizou a base de dados
parte de uma rede, na qual se relacionam Biblioteca Virtual em Saúde, com os seguintes
de forma complementar. Uma Delegacia descritores: violência doméstica AND traba-
Especializada de Atendimento à Mulher lho AND mulher$; violência doméstica AND
pode, por exemplo, depois de fazer um gênero AND trabalho. O levantamento desta-
boletim de ocorrência da agressão sofrida cou poucos trabalhos que pudessem contri-
por uma mulher, optar por encaminhar buir para o objetivo proposto, evidenciando
o caso a um Centro de Referência onde, assim a importância deste estudo.
após os procedimentos adequados, poderá O trabalho de campo foi realizado no
também ser feito o encaminhamento a uma Centro Especial de Orientação à Mulher
Casa-Abrigo. A utilização desses serviços Zuzu Angel (Ceom Zuzu Angel), em São
pela mulher em situação de violência pode se Gonçalo, Rio de Janeiro, dando destaque às
dar de diferentes combinações e maneiras, e falas das mulheres, essenciais para o desen-
tudo dependerá de cada caso e de suas par- volvimento deste trabalho. Foram realiza-
ticularidades. Essas formas de auxílio para o das entrevistas individuais com mulheres
enfrentamento da violência contra a mulher maiores de 18 anos atendidas nessa institui-
têm como um dos objetivos a ampliação do ção, consideradas em situação de violência
acesso e descentralização de informação doméstica e que têm ou tiveram um trabalho
sobre a questão da violência contra a mulher, remunerado durante o período de violência.
suas consequências, serviços e direitos que Também foi feito levantamento documental
podem ser acionados e reivindicados pelas das fichas de acompanhamento das mulheres

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atendidas no ano de 2014. Essas fichas foram Apresentação para Apreciação Ética (CAAE)
selecionadas segundo os critérios de inclu- nº 44038215.8.0000.5240, e aprovada com
são definidos por este estudo, e as usuárias parecer de número 1.564.925.
contactadas para entrevista. O ano de 2014 As entrevistas foram realizadas a partir
foi escolhido devido ao possível acesso às de um roteiro que, de acordo com Goode
usuárias que ainda frequentam a instituição. e Hatt (1968), permite uma maior flexibi-
As fichas do ano de 2015 não foram selecio- lidade e espaço para o aprofundamento
nadas, pois, de acordo com a coordenadoria das falas das participantes. O roteiro au-
do local, haveria uma mudança no cadas- xiliou na orientação e na lembrança de
tramento das usuárias naquele ano, o que pontos importantes a serem questiona-
poderia comprometer a pesquisa devido à dos, durante os encontros com as entre-
heterogeneidade do conteúdo das fichas. vistadas. Nas entrevistas, a fala é aspecto
Observar o funcionamento do Centro importante e nela se manifesta de forma
foi importante na aproximação e intera- diferenciada contextos e realidades singu-
ção com as mulheres atendidas. Segundo lares das entrevistadas. Como as mulheres
Minayo (2014), a observação participante, entrevistadas falaram de suas experiên-
que promove a integração do pesquisador cias e concepções acerca do tema, cada
no contexto observado e uma relação mais uma narrando de maneira distinta devido
próxima com os participantes da pesquisa, as suas singularidades, essa ferramenta
possibilitou o acompanhamento do caminho mostrou-se apropriada para a pesquisa.
percorrido pelas mulheres acolhidas desde Os dados pessoais das usuárias (como
a sua entrada nessa instituição. Essa ob- idade, etnia, escolaridade e dados de situ-
servação se deu principalmente antes do ação econômica e trabalho remunerado)
período em que ocorreram as entrevistas. foram acessados por meio da ficha de acom-
Desde setembro de 2015, o espaço permane- panhamento do Ceom Zuzu Angel.
ce fechado para obras, mas seus profissionais As entrevistas foram gravadas, mediante
encontram-se trabalhando juntamente com autorização do sujeito de pesquisa, e trans-
o Ceom Patrícia Acioli, no bairro de Jardim critas posteriormente. As entrevistadas
Catarina, também em São Gonçalo. podiam pedir para desligar o gravador a
Por isso, o local onde foram realizadas as qualquer momento.
entrevistas foi o Ceom Patrícia Acioli, em Neste trabalho os nomes das entrevista-
uma sala da instituição, onde o profissio- das foram substituídos por: Entrevistada 1,
nal que está atendendo a usuária também 2, 3, 4 e 5, a fim de manter o sigilo de suas
poderia permanecer, se esta se sentisse mais informações pessoais. A pesquisadora está
à vontade com a sua presença, sem, contudo, representada pela letra P.
poder interferir na entrevista. É importan- Para analisar os dados coletados,
te colocar que, por mais que o espaço das realizou-se leitura mais aprofundada e
entrevistas tenha sido nessa instituição, as transversal destes, possibilitando uma com-
entrevistadas eram usuárias do Ceom Zuzu paração entre eles, separando os aspectos
Angel, assim como os profissionais com que comuns encontrados e classificando-os por
a pesquisadora teve contato. As entrevistas categorias, em busca, como afirma Minayo
aconteceram ao longo de 3 meses, em que (2014), da interpretação do que foi apresenta-
foram esclarecidos e apresentados os obje- do como mais significativo e representativo
tivos da pesquisa e perguntado se a pessoa pelo grupo que foi estudado.
aceitava participar. Por fim, procurou-se compreender e in-
A pesquisa foi avaliada pelo Comitê terpretar o material coletado a partir da fun-
de Ética por meio do Certificado de damentação teórica estudada.

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Uma breve descrição do Ceom Zuzu o maior tempo juntos foram 32 anos. Nas
Angel e das entrevistadas entrevistas, três disseram ser protestantes,
uma católica e uma não possuía religião,
Fundado no dia 26 de agosto de 1997, sendo mas acreditava em Deus. Em relação à esco-
um órgão público municipal, o Ceom Zuzu laridade, uma tem nível superior completo,
Angel carrega esse nome em homenagem à duas completaram o ensino médio, uma tem
estilista Zuleika Angel Jones, que morreu em o segundo ciclo completo (antigo ginásio)
um acidente de carro no Rio de Janeiro, na e uma possui o segundo ciclo incompleto
saída de um túnel, durante a ditadura militar. (antigo ginásio).
Localizado no bairro de Neves, no referido Cada entrevistada possuía, em 2014,
município, essa instituição faz parte da rede uma ocupação profissional diferente umas
de serviços oferecidos que visam combater a das outras: A Entrevistada 1 era secretária;
violência contra as mulheres. O Ceom Zuzu a Entrevistada 2 era recepcionista de um
Angel recebe mulheres maiores de 18 anos hotel; a Entrevistada 3 era segurança de uma
que sofreram ou sofrem violência doméstica, empresa; a Entrevistada 4 era representante
de gênero ou sexual por meio de atendimen- comercial de uma empresa e a Entrevistada 5
to psicológico, social e jurídico, tendo como disse que era revendedora de pão. Atualmente,
uma das principais finalidades o rompimento as Entrevistadas 1, 3 e 4 continuam nesses
com a violência. O conjunto de profissionais empregos, a Entrevistada 2 se aposentou e a
que ali trabalha é composto por uma coorde- Entrevistada 5 mudou de emprego.
nadora, uma advogada, uma psicóloga, dois Em relação à violência doméstica que so-
assistentes sociais, três pessoas na área ad- freram, predominou a violência psicológica,
ministrativa, um motorista e um funcionário com cinco relatos, a física, com três relatos,
nos serviços gerais, como limpeza. um relato de violência moral e um de violên-
Das 23 usuárias dentro dos critérios de cia patrimonial. Das entrevistadas, quatro
inclusão desta pesquisa, foram entrevistadas apontaram sofrer violência desde o início do
5 mulheres, entre 27 e 58 anos de idade. A relacionamento. É importante lembrar que
idade média dessas usuárias é de 36,8 anos. essas formas de violência podem acontecer
Infelizmente não foi possível entrevistar as concomitantemente.
23 usuárias, pois algumas não atenderam ao
telefone, e outras desmarcaram a entrevista e Modificação na rotina de trabalho
não deram mais retorno, ademais do esforço
para que todas fossem entrevistadas. Encontraram-se, na literatura, poucas con-
Entre as cinco entrevistadas, quatro tribuições teóricas para a discussão da
possuíam filhos. Estes eram filhos de seus relação entre violência doméstica e trabalho,
companheiros ou maridos que praticaram a proposta por esta pesquisa. Somente duas
violência. No tocante à cor/raça, três se de- contribuições que foram encontradas co-
finiram brancas, duas pardas e uma amarela. mentam sobre possíveis consequências que
Em relação ao estado civil, três eram a violência doméstica pode causar no traba-
casadas, uma solteira e uma possuía união lho das agredidas. De acordo com Swanberg,
estável quando entraram na instituição em Logan e Macke (2005), a perda de produtivi-
2014. Atualmente, três estão separadas, uma dade, atrasos e absenteísmo são alguns dos
encontra-se ainda em relacionamento com o impactos que a violência doméstica pode
companheiro e uma não vive mais com o par- causar na atividade laboral dessas mulhe-
ceiro, ‘mas às vezes tem recaídas com ele’. res. Estas muitas vezes deixam até seus em-
O tempo de relacionamento dessas usu- pregos por medo de serem perseguidas ou
árias variou: o menor tempo foi 8 anos e assassinadas.

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Nas entrevistas, foi realmente detectado na tentativa de conservar o seu papel domi-
que o trabalho é afetado por conta da vio- nante no relacionamento.
lência que as mulheres sofrem em casa. Elas O ciúme também foi um fator apontado
apontaram que a falta de concentração, triste- como uma das causas do controle que os
za, estresse e preocupação faziam com que o companheiros exerciam sobre as usuárias. A
rendimento no trabalho ficasse prejudicado: Entrevistada 4 foi a que mais apontou esse
fator em sua entrevista:
Afeta né, é muito triste né. Às vezes o trabalho
acabava não rendendo né. O pensamento ficava E as esposas dos meus tios estavam comentando
longe né... então atrapalha nessas coisas... nes- outro dia em que a gente foi em um aniversário
sas coisinhas corriqueiras né, do dia a dia e tal. de família e eu fui dar uma cochilada: ´gente, ele
Você acaba pensando né. Por mais que a gente tem um ciúme doentio por você porque ele vai
não possa ficar levando os problemas pessoais toda hora ver se você tá realmente dormindo, ele
pro trabalho, é difícil né, é difícil separar. (Entre- fica observando, ele pega o celular, toda hora ele
vistada 1). olha teu celular...´. Então quer dizer, é uma inva-
são total de privacidade. (Entrevistada 4).
Observa-se que é difícil a separação do
que essas mulheres vivenciaram com seus
companheiros, do cotidiano de trabalho, pois Fatores potencializadores para o sur-
o ser humano leva consigo todas as suas ex- gimento da violência doméstica
periências, satisfações, frustrações, alegrias
e tristezas, que podem ser motivadores de Durante as entrevistas, três das cinco entre-
determinados comportamentos diante de vistadas apontaram que um dos fatores que
uma situação vivida. Infere-se que é compli- deixava seus companheiros mais agressivos
cado para uma mulher que se encontra nessa era o álcool.
situação trabalhar sem pensar nos seus pro-
blemas e o quanto eles podem afetar o rendi- Ele às vezes era muito violento né, ainda mais
mento laboral delas. quando bebia... ele me bateu algumas vezes, eu
Entre as entrevistadas, também foi obser- apanhei... e eu aguentava tudo calada, com ver-
vado que a rotina de trabalho foi modificada: gonha. (Entrevistada 2).
quatro das cinco entrevistadas apontaram
que o marido as controlava de alguma forma A bebida influencia muito? (Pesquisadora).
enquanto estavam trabalhando.
O estresse e a tristeza mais uma vez apare-
cem como consequências de uma rotina que Muito, muito. Aí depois ele diz que não lembra de
foi alterada devido ao histórico de violência nada, que não foi ele... (Entrevistada 4).
doméstica que sofriam com seus parceiros.
O controle que a maioria das entrevistadas
apontou sofrer pelos seus companheiros De acordo com Saffioti (1987), alguns fatores
aparece como uma das formas de violência como alcoolismo e o uso de drogas podem
doméstica relatadas, podendo indicar posse ser considerados como tentativas de escape
pelas suas companheiras por meio do poder diante de um fracasso em atingir metas. O
que desejam exercer sobre elas. Esse con- homem pode, muitas vezes, tornar-se vio-
trole pode ser considerado uma das formas lento com sua companheira quando se torna
de relação de poder no qual o homem tenta financeiramente dependente dela ou quando
impor a sua vontade no relacionamento, con- a iniciativa da parceira causa constrangi-
siderando a mulher como uma aquisição sua, mento àquele que, como ‘chefe de família’,

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deveria resolver os problemas da família. na atenção aos filhos e nos afazeres de casa,
O fracasso, então, vem justamente da limi- podendo ser observada uma insatisfação
tação em atingir essas expectativas, que se diante das expectativas de papéis que tradi-
encontrariam vinculadas ao papel masculi- cionalmente deveriam ser desempenhados
no, por meio do qual se realizam condutas pelos homens.
consideradas ‘de macho’, viris. Como afirma
Bourdieu (2014), o homem torna-se um ser Ajuda no trabalho
‘castrado’ exatamente por ter que atingir
essas metas e inibir qualidades que possam Em relação a pedir ajuda para algum fun-
não ser consideradas masculinas. Logo, os cionário do seu trabalho sobre a violência
homens, assim como as mulheres, sofrem doméstica que vivenciaram, somente a
pela divisão de papéis que são destinados a Entrevistada 3 solicitou auxílio. Esta viveu
cada um pela dominação masculina. uma situação complicada no final de seu
A reestruturação produtiva, segundo casamento. Ela é segurança de uma loja de
Giffin (2002), diante da reorganização do shopping, e seu marido era vendedor dessa
capital, juntamente com políticas neolibe- mesma empresa, só que em locais diferentes,
rais, afetou as relações de gênero que estavam mas no mesmo bairro. Ela acabou descobrin-
estabelecidas. De acordo com Dantas-Berger do, diante das muitas fofocas que ocorreram
e Giffin (2005), ocorreu uma transição de no seu trabalho, que seu marido estava com
gênero, em que os homens, que antes eram uma amante, também vendedora, mas de
provedores e garantiam a renda da família, outra empresa perto da loja em que o marido
precisaram se adaptar e viver o desemprego trabalhava. Ela acabou se separando. Quando
ou trabalhos com salários inadequados para decidiu fazer as malas do marido para ele
manter economicamente suas famílias. As sair de casa, ele tentou golpeá-la. Como ela
mulheres não somente ajudam na renda da é segurança e possui técnicas de defesa, con-
casa como também se responsabilizam pela seguiu se desvencilhar do soco. Ele saiu de
provisão da renda, mudando, assim, papéis casa, e, mesmo separados de corpos, a amante
que antes eram distribuídos diferencialmen- passou a ameaçá-la no local de trabalho. Essa
te entre homens e mulheres. entrevistada contou que foi muito afetada no
A desestruturação do provedor masculi- trabalho, pois todos ficaram sabendo, e seu
no acaba provocando a sensação de fracasso, sentimento foi de vergonha e tristeza.
levando muitos homens a assumirem compor- Ela pediu auxílio para uma colega de
tamentos de violência, pânico e fuga por não trabalho, que indicou o Ceom Zuzu Angel
terem se adaptado a essas mudanças. A atu- como local de acolhimento e apoio. Além de
alização ideológica dos gêneros, que coloca a pedir ajuda a essa amiga, ela também pediu
mulher como independente, que trabalha fora apoio da empresa diante da situação em
e tem seu próprio dinheiro, na verdade, acaba que se encontrava. A empresa nada fez para
ocultando o que está por trás disso, que é o ampará-la, nem indicou qualquer instituição
aprofundamento das desigualdades de gênero na qual pudesse ter informações sobre como
e classe social, com o agravamento da dupla proceder diante do que estava acontecen-
jornada e da exploração de mulheres. do. A empresa só tentava evitar o encontro
Os relatos nas entrevistas apontaram que das duas transferindo a Entrevistada 3 para
a maioria sustentava suas casas e tomava a outras lojas e demitiu o ex-marido. Além
iniciativa para resolver os problemas, porém disso, a gerência pedia para que ela tivesse
sentiam-se sozinhas e cansadas diante da uma conduta passiva, ignorando os insultos
ausência de colaboração dos companheiros, proferidos pela amante, com insinuações de
tanto em relação à ajuda financeira como que ela poderia ser demitida.

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Então hoje, até meu trabalho hoje tá ameaçado violento, o que pode resultar em anos de so-
por causa disso também. Porque tipo assim em- frimento ao lado do agressor. Além disso, a
presa, ela não resolve o problema, ela se livra do falta de informação de agredidas e também
problema. Então ela tem a capacidade de contra- de empresas em como proceder diante de
tar como tem a capacidade de mandar embora. uma situação de violência doméstica é ainda
Então tipo assim, até hoje me afeta no trabalho... presente, o que faz com que esse sofrimento
eu já digo até que em janeiro eu vou ser mandada para a mulher só se estenda, podendo chegar
embora. (Entrevistada 3). a casos extremos, como a morte.

A inércia da empresa em apoiar sua fun- Trabalho como saída para o enfrenta-
cionária diante da situação que ela estava mento da situação de violência
vivenciando só fez com que esta se sentisse
mais desamparada e ameaçada em perder seu Por mais que as entrevistadas tenham apon-
emprego. Demostra, por outro lado, o despre- tado que a violência doméstica afetou seus
paro da empresa diante da violência doméstica, trabalhos de alguma forma, impactando
sendo essa situação tratada, como aponta Leal principalmente na produtividade e na rotina
(2015), na perspectiva privada, em que somente laboral, todas disseram que percebem o seu
os envolvidos devem resolver o problema, des- trabalho como uma ‘válvula de escape’, uma
considerando as experiências e consequências fuga do que viviam no âmbito doméstico.
negativas que a violência produz. Por meio de suas atividades no trabalho, elas
A Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006) permite à tentavam se ocupar com as suas atribuições,
mulher se ausentar de seu trabalho e garante buscando esquecer os momentos vivencia-
a manutenção do vínculo de trabalho em si- dos com seus parceiros.
tuações de violência doméstica, conforme o
parágrafo 2º do artigo 9º: Na verdade tudo o que eu quero é trabalhar. Viver
esse lado. Me libertar um pouquinho do que eu
vivo com ele. Quando eu tô trabalhando eu ocupo
§ 2o O juiz assegurará à mulher em situação a cabeça, fico um pouco longe dos problemas, por
de violência doméstica e familiar, para preser- mais que ele tente me controlar né... (Entrevis-
var sua integridade física e psicológica: tada 4).

I - acesso prioritário à remoção quando ser- O contato com os colegas de trabalho


vidora pública, integrante da administração também auxiliava a esquecer dos problemas
direta ou indireta; de casa, embora a maioria das entrevistadas
não tenha contado sobre a questão da vio-
II - manutenção do vínculo trabalhista, quan- lência. O estresse, aborrecimento e a tristeza
do necessário o afastamento do local de tra- de um relacionamento agressivo poderiam
balho, por até seis meses. (BRASIL, 2006). ser deixados de lado quando essas mulhe-
res estavam em suas atividades laborais,
realizando suas tarefas, conversando sobre
As outras entrevistadas não contaram diversos assuntos, principalmente sobre as
para nenhum colega de trabalho sobre o que questões do trabalho.
vivenciavam no âmbito doméstico, alegando É importante perceber que, ao mesmo
sentirem-se envergonhadas e com receio da tempo que as atividades de trabalho geram
reação das pessoas. A vergonha pode ser um estresse, preocupação e influenciam na
dos fatores que fazem com que muitas mu- saúde da funcionária, somados com as con-
lheres permaneçam em um relacionamento sequências de uma violência doméstica

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vivenciada, o trabalho também traz prazer atividade laboral, trazendo consequências


e satisfação. Algumas entrevistadas desta- no rendimento e na rotina de trabalho, sendo
caram que, no ambiente de trabalho, fora da difícil separar os problemas de casa das atri-
relação de conflito doméstico, conseguiam buições de seus empregos. O estresse, falta
refletir melhor sobre a situação para tentar de concentração, preocupação e tristeza
romper com o ciclo de violência, eventual- foram sintomas apontados pelas entrevis-
mente pedindo ajuda a alguém. O sentimen- tadas quando estavam trabalhando e viven-
to de liberdade e independência enquanto ciando a situação da violência ocasionada
estavam no trabalho também foi apontado pelos seus parceiros. O controle e o ciúme
como uma satisfação. também foram pontos destacados pelas
entrevistadas, que influenciaram nas suas
Pedido de ajuda institucional como rotinas de trabalho.
estratégia diante da violência Por meio das entrevistas, foi possível
doméstica observar também fatores considerados po-
tencializadores para o surgimento da vio-
As entrevistadas colocaram que o Ceom lência doméstica, como o uso do álcool.
Zuzu Angel auxiliou na busca de estraté- Saffioti (1987) aponta que o consumo abusivo
gias para lidar com a situação da violência de bebidas alcoólicas pode se dar diante do
doméstica e nas suas relações com o traba- fracasso em cumprir expectativas que tradi-
lho. A instituição permitiu que elas refletis- cionalmente deveriam ser desempenhadas
sem sobre seus relacionamentos, tivessem pelo papel do homem, podendo ter como
maiores informações e acesso em relação consequência a violência. Nota-se que por
aos seus direitos, esclarecessem dúvidas e mais que já tenha ocorrido uma transição de
buscassem possibilidades de romper com a gênero, que modifica os papéis tradicional-
violência. Afirmaram que são bem atendidas mente desempenhados por homens e mu-
na instituição e que o carinho e atenção da lheres na sociedade, essa mudança é ainda
equipe auxiliam na tentativa de recuperação gradual e ‘sofrida’ devido à dominação mas-
da violência, dando ânimo e vontade de viver. culina ainda presente.
Refletir sobre suas vidas, entender que Uma questão colocada pelas entrevista-
não estão sozinhas e que podem romper com das é que por mais que a violência domésti-
o ciclo de violência são pontos proposto pelo ca afetasse seu trabalho, principalmente no
Ceom Zuzu Angel. Essas reflexões podem rendimento e na rotina de trabalho, este era
propiciar uma melhora nas suas vidas, in- uma válvula de escape, uma fuga diante dos
clusive em relação ao trabalho. Não aban- problemas que vivenciavam com seus com-
donar o trabalho, e sim o perceber como um panheiros. Ao mesmo tempo que é difícil
instrumento que pode ser uma fuga diante separar os problemas de casa e do trabalho,
da situação de violência que enfrentam, este acaba sendo um motivador para seguir
propiciando um alívio no momento em que em frente com suas vidas, em que a ocupa-
trabalham, além de trazer uma satisfação de ção com as atividades laborais se torna uma
se sentirem úteis e independentes em suas tentativa de esquecer as experiências vividas
vidas, auxiliando na ruptura com a violência. pelo relacionamento agressivo. Além disso,
o trabalho também pode ser visto como um
momento de reflexão sobre suas relações,
Considerações finais podendo trazer autonomia e liberdade para
essas mulheres, o que pode influenciar no
A pesquisa permitiu inferir que a violência rompimento com a violência.
doméstica praticada pelo parceiro afeta a Além dessas questões levantadas, nota-se

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Violência doméstica e trabalho: percepções de mulheres assistidas em um Centro de Atendimento à Mulher 23

também que a maioria das entrevistadas não contribuições teóricas que na maioria
pediu ajuda para algum colega de trabalho das vezes discutem essas esferas separa-
por vergonha da situação vivenciada, porém damente. Perceber que esses temas estão
pediram ajuda a algum conhecido ou parente, relacionados e que a questão da violência
em que, mediante esses intermediários, elas doméstica pode afetar a atividade laboral
conheceram o Ceom Zuzu Angel. De acordo de mulheres agredidas é um passo para
com as usuárias, essa instituição auxiliou na novas reflexões, implicando a discussão de
tentativa de rompimento com a violência, alternativas de apoio para o rompimento
fornecendo informações sobre seus direitos, desse problema de saúde pública. É impor-
instituições que pudessem ampará-las, como a tante, diante do grave quadro de situação de
Casa-Abrigo; principalmente, elas apontaram o violência doméstica, que seja possível es-
apoio e carinho que os profissionais do Ceom tabelecer condições de não extrapolar essa
Zuzu Angel ofereciam, criando mais alternati- violência para o mundo do trabalho e, ao
vas de romper com a violência que sofriam. contrário, garantir que o direito ao trabalho
A relação violência doméstica e traba- seja uma possibilidade de enfrentamento da
lho precisa ser mais aprofundada pelas violência doméstica. s

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Recebido para publicação em agosto de 2016
Janeiro: Fiocruz, 2015. p. 63-64. Versão final em novembro de 2016
Conflito de interesses: inexistente
Suporte financeiro: não houve

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