Vous êtes sur la page 1sur 9

OpenEdition

Nuevo Mundo Mundos Nuevos

Nouveaux mondes mondes nouveaux - Novo Mundo Mundos Novos - New world New worlds

Débats | 2011
Recherche
Atravesando fronteras. Circulación de población en los márgenes iberoamericanos. Siglos XVI-XIX –
Coord. Maria Regina Celestino de Almeida et Sara Ortelli

INDEX

Flávio Gomes
Auteurs

Mots clés Migrações, populações indígenas e etno-genese na América Portuguesa


Géographique
(Amazônia Colonial, s. XVIII)
Chronologique
[31/01/2011]
Index thématique

Années
Résumé | Index | Plan | Texte | Notes | Citation | Auteur

RUBRIQUES
Résumés
Débats
English Español
Questions du temps présent
We still know little about the expectations, identities, perceptions and policies of the indigenous
Images, mémoires et sons
populations involved in colonial processes. In different parts of the vast Amazon region
Colloques – particularly areas where there were missionary villages and compulsory labor, as well as
Comptes rendus et essais economic ties – there are records of increased numbers of escapes and the establishment of
historiographiques new communities by these fugitives in a process of ethno-genesis that is still little understood.
Extraits de thèses In this paper, I analyse the interfaces between Indianist and indigenous policies in the colonial
Amazon. We know very little about how countless indigenous societies and micro-societies
Guide du chercheur américaniste
– as well as colonial sectors, including recently arrived enslaved Africans – perceived
Liens - Notre sélection de sites colonization policies on the basis of their own logic and cultures, adapting patterns of
américanistes settlement, migration, kinship, geographic shifts, funeral practices.

PRÉSENTATION Entrées d’index

Présentation et normes éditoriales Keywords : 18th century, Amazon, colonial settlement, ethno-genesis, indigenous peoples and
ethno-genesis in Portuguese America, maroon communities, migrations
Modalités d’évaluation

Rédaction et comités Palabras claves : Amazonía, comunidades de fugitivos, etnogénesis, Migraciones, ocupación
colonial, poblaciones, siglo XVIII
Référencement

Plan
ANCIENNES RUBRIQUES NUEVO
MUNDO 2001-2010 1ERE 1. Introducción
ÉPOQUE
2. Fronteiras de avanços e de recuos
3. Etno-genese fugidias
Nuevo Mundo Anniversaire 2010 - Une
décennie américaniste en ligne 4. Espaços das misturas
Bibliographies 5. Considerações finais

Critiques de sites web

Mémoires de l'américanisme
Texte intégral
Matériaux de séminaires

Images en mouvement

Varia
Signaler
Expositions virtuelles

Carnets de voyage 1. Introducción


Bibliothèque des Auteurs du Centre
1 Neste artigo analisamos algumas interfaces e processos envolvendo políticas indigenistas e
1 Reis, Arthur Cezar Ferreira, A
políticas indígenas na Amazônia colonial. Nas historiografias ainda marcadas com a perspectiva
expansão Portuguesa na
INFORMATIONS de história nacional conhecemos pouco sobre espaços e tempos nas fronteiras da Amazônia, Amazônia nos séculos XVII e
muitas das quais transnacionais. Para as áreas coloniais e pós-coloniais entre os séculos XVI a XVIII, Rio de Jan (...)
Contacts XIX muitos estudos se limitaram as interpretações sobre as lógicas dos impérios e as 2 Farage, Nádia, “As Muralhas
Mentions légales et Crédits estratégias – nem sempre convergentes – de domínio e poder 1. O que hoje denominamos dos Sertões: os povos indígenas
Amazônia compreendia uma vasta região com diferentes fronteiras, formatações sócio- no Rio Branco e a colonização”,
Politiques de publication Rio de (...)
econômicas e ritmos demográficos. Em 1621, o Estado do Maranhão e Grão-Pará instituído pela
Coroa Portuguesa – como unidade administrativa, separada do Estado do Brasil – estava ligado 3 Ver Russel-Wood, “Centro e
diretamente a Lisboa. Até meados do século XVIII, a chamada Amazônia da América Portuguesa Periferia no mundo luso-
SUIVEZ-NOUS
brasileiro, 1500-1808”, Revista
alcançava até as áreas do Ceará e Piauí 2. Sem necessariamente conexões e outras vezes Brasileira de Hi (...)
funcionando num eixo centro-periferia colonial, no inicio foi tentado o sistema de plantation,
principalmente com açúcar e tabaco 3. Uma experiência que fracassou devido à falta de 4 Cardoso, Ciro Flamarion S.,
La Guyane Française (1715-
investimentos articulados, captação e controle (incluindo preços) da mão-de-obra, epidemias e 1817): Aspects économiques et
LETTRES D’INFORMATION dificuldades geográficas. Açúcar e tabaco acabaram destinados ao consumo interno e tentativas sociaux. Contri (...)
de montagem de plantation foram combinadas com a produção de aguardente e o extrativismo
Lettre de Nuevo Mundo com a pesca e chamadas “drogas do sertão”. Desde o século XVI com povoamento escasso e
uma economia assentada no extrativismo predominava a mão-de-obra indígena, fossem com
La Lettre d’OpenEdition
trabalhadores livres ou escravos. Segundo Ciro Cardoso esta imensa região conheceria uma
“debilidade estrutural”, se transformando numa “área colonial periférica” 4.

2 O processo de etno-genese em variadas regiões, as cosmologias indígenas, as expectativas dos


5 Pensamos aqui nas
contatos e as primeiras gerações de colonos e trabalhadores assim como as línguas e cultura
perspectivas críticas de
material são muitas vezes faces históricas, arqueológicas e antropológicas ocultas em análises Alencastro, Luiz Felipe, "O
que acentuam as dinâmicas coloniais de ocupação e economia cristalizadas 5. Sabemos muito aprendizado da Colonização",
(...)
pouco sobre como inúmeras micro-sociedades indígenas – assim como setores coloniais,
incluindo africanos escravizados recém-chegados – perceberam as políticas de colonização a 6 Fausto, Carlos, “Se Deus
partir das suas próprias lógicas e culturas, adaptando padrões de assentamento, migração, fosse Jaguar: Canibalismo e
Cristianismo entre os Guarani
parentesco, deslocamentos geográficos, práticas fúnebres etc 6. Em diferentes partes da extensa (séculos XVI a X (...)
Amazônia – especialmente onde havia aldeamentos e organização do trabalho compulsório, além
de vinculações econômicas – há registros sobre o aumento das fugas e o estabelecimento de 7 Ver Hill, Jonathan (ed.),
History, Power and Identity.
fugitivos em novas comunidades num processo de etno-genese ainda pouco conhecido. Ethnogenesis in the Americas,
Conectamos neste artigo perspectivas teóricas para se pensar o fenômeno do ressurgimento de 1492-1992, Uni (...)
identidades étnicas indígenas com a possibilidade de testar metodologias da pesquisa empírica
nos arquivos coloniais. Para a Amazônia colonial seria o caso de analisar a formação de
comunidades de fugitivos indígenas, dos aldeamentos, fazendas, missões e migrações
milenaristas, como parte de um processo – encoberto e ainda pouco conhecido – de formação
étnica histórica de várias populações indígenas. Considerando a etnologia, relatos coevos de
missionários e viajantes e narrativas da documentação colonial seria possível avançar na reflexão
etno-histórica das mudanças e dos conflitos contextuais – colapso demográfico, escravização,
migração, genocídio etc – envolvendo povos e culturas indígenas diversas 7.

2. Fronteiras de avanços e de recuos


3 Na Amazônia dos séculos XVII e XVIII entre o improviso de vilas, fortalezas provisórias,
8 Ver por exemplo, Sommer,
entrepostos e aldeamentos, as denominadas unidades produtivas foram montadas nas margens
Barbara A, “Cracking Down on
dos grandes rios e afluentes em áreas de várzea. Esta reorganização geoecológica marcaria as the Cunhamenas: Renegade
relações de contatos e trocas entre as primeiras gerações de colonos e as populações indígenas Amazonian Traders un (...)
envolventes. Eram guias, carregadores e fundamentalmente remadores e farinheiras. Porém,
epidemias, migrações, deslocamentos para o interior, conflitos étnicos, ação missionária, guerras
e expectativas milenaristas redefiniram as experiências coloniais de vastas áreas 8. Num tempo
não-cronológico – como aqueles dos projetos coloniais – houve transformações simbólicas,
rituais e demográficas nos padrões de assentamentos de inúmeras micro-sociedades. Levas
migratórias se associaram a formação de aldeamentos que se deslocavam. Tais embates foram
operados em diferentes ritmos demográficos, culturais e religiosos. Vilas e aldeamentos ora
populosos ora esvaziados se refaziam constantemente.

4 Em contextos e com motivações variadas, as fugas (individuais ou coletivas) de grupos indígenas


9 Hemming, Jonh, Red Gold.
foram partes fundamentais dos cenários que se formavam. Favorecendo fluxos de migrações,
The Conquest of the Brazilian
interiorização e assentamentos entre as áreas de terra firme e de várzea, os fugitivos e as Indians, Harvard University
comunidades formadas por eles redesenharam espaços, redefinindo territórios. A agenda de Press, 1978, pp. (...)
missionários e religiosos, as expectativas dos colonos e a flexibilidade dos significados de poder
colonial deram novos sentidos às estratégias de ocupação na Amazônia no século XVIII,
principalmente durante a administração pombalina com a implantação e, depois, a
desestruturação do Diretório dos Índios. Populações indígenas eram atraídas, “resgatadas” ou
através dos “descimentos” acabavam sendo recrutadas para o trabalho compulsório. Havia,
assim, uma constante migração de populações indígenas, transferidas compulsoriamente para
localidades de fronteiras, junto às feitorias e fortificações ou regiões emergentes de produção
extrativa e agricultura 9. Embora ainda conheçamos pouco sobre as expectativas, as identidades,
as percepções e as políticas empreendidas pelos indígenas nestes processos já é possível
avaliar o impacto das políticas indigenistas e com elas as fugas e comunidades de fugitivos
formadas.

5 Nas Américas, comunidades de fugitivos receberam diferentes nomes, como Cumbes, na


Venezuela e Palenques, na Colômbia. No Brasil, acabaram conhecidos como mocambos e
depois quilombos. As palavras quilombo/mocambo para a maioria das línguas bantu da África
Central significavam acampamentos. A palavra “mukambu” tanto em Kimbundu e Kicongo
significava “pau de fieira”, tipo suportes verticais terminados em forquilhas utilizados para erguer
choupanas nos seus “quilombos”, no caso os acampamentos. Mas por que as denominações
mocambos/quilombos se propagaram no Brasil diferente de outras áreas coloniais que também
receberam africanos centrais e tiveram várias comunidades de fugitivos ? Uma hipótese seria a
propagação do termo na própria documentação da administração colonial portuguesa. Muitas
autoridades no Brasil colonial tinham ocupado postos ou ocupariam os mesmos na África.
Podiam estar falando de coisas diferentes – acampamentos de guerra na África, prisioneiros
africanos e comunidades de fugitivos no Brasil – mas nomeando-as de forma semelhante.

6 O termo quilombo só aparece para os grandes mocambos de Palmares, na Capitania de


10 Arquivo Publico do Pará
Pernambuco, no final do século XVII. Em geral, a terminologia mais usada era mesmo mocambo,
(doravante APEPA), Códice 07
embora houvesse variações locais. Ao longo do século XVIII – na documentação colonial – as (1752-1769), Ofícios de
comunidades de fugitivos foram mais chamadas de mocambos para a Amazônia e Bahia e mais 21/01/1764 e 19/05/176 (...)
de quilombos para Minas Gerais. O fato é que as autoridades coloniais na Amazônia utilizariam à
mesma nomenclatura – no caso a palavra africana mocambo – para classificar as práticas de
fugas coletivas das populações indígenas dos aldeamentos e vilas e a formação de comunidades
de fugitivos. Em Cametá, em 1752 eram enviadas tropas contra um “mocambo principal” de
índios fugidos. Na ocasião, na confluência de um dos afluentes do rio Tapajós, se reclamava que
índios que escaparam dos aldeamentos religiosos atacavam roças nas vilas próximas. Numa
aldeia de fugitivos foram encontradas “todas as casas desertas” posto que seus habitantes
acabassem avisados antes, procurando novos refúgios. Não raras vezes, fugas coletivas podiam
se transformar em novas comunidades étnicas indígenas que se reorganizavam em aldeias e
com roças de alimentos. Na Vila de São Miguel e Almas, nas margens do rio Moju, num ataque
contra uma aldeia de fugitivos indígenas foi descoberta “casas e muitas roçarias de mandioca”.
Podia tanto haver pequenos grupos que rapidamente se dispersavam na floresta, migravam para
outras áreas bem distantes ou se juntavam com outros grupos atomizados, como núcleos que
formavam aldeias mais estáveis e desenvolviam uma base camponesa. Em 1761, na área de
Barcelos foi realizada diligência contra dois mocambos sendo capturados mais de 30 índios
estabelecidos com lavouras e ferramentas. Um processo semelhante ocorreria entre a vila do
Conde e Piriá, onde os índios tinham “já bastante gente em mocambo”. Do Gurupi, notícias sobre
índios que fugiam dos aldeamentos de missionários revelavam que os mesmos “desertam a fim
de não trabalharem”. As denúncias vindas de Portel davam conta haver aldeamentos que se
desmobilizavam diante do abandono do “serviço” por parte dos índios e que havia povoações
inteiras “compostas de mucambos que só aparecem quando querem”. Sobre as fugas coletivas
em Soure se descobriu que os índios fugidos “todos seguem no caminho de Arauari, a donde se
acham grandes mocambos”. Da Vila de Monsarás chegaria à notícia de que “nos matos de Ponte
de Pedra se acham amocambados 40 pessoas desta vila entre grandes e pequenos vivendo
como no sertão sem missa nem confissão”. Mesmo a população indígena que continuava nos
aldeamentos coloniais era acusada de fornecer ajuda aos fugitivos. Essa era fama de Thomas
Gonçalves, morador da Vila de Boim, que acabou acusado de ocultar ”certos fugidos da mesma
povoação fazendo-se cabeça de mucambo” em 1763. Não faltavam denuncias e reclamações
sobre conexões entre os fugitivos dos mais diversos locais. Como o episódio ocorrido no
engenho do Carmelo, onde se denunciou que “havia comunicação continuada de alguns índios
destes moradores com os do mucambo, que facilmente os poderão avisar”. Em 1765, em Alter
do Chão e na vizinha vila de Monte Alegre foram autorizadas diligências contra fugitivos ;
enquanto que em Benfica, em 1780, tentava-se capturar “índios amocambados” no Igarapé
Tamatatu e no rio Tanhá ; sendo que em Serzedelo em 1791 dizia-se que índios fugidos “vieram à
povoação, porém, ocultos, e com o sentido de levar consigo algumas mulheres e se
amocambarem na boca deste rio”. Nada diferente daquilo que acontecia nas vilas de Franca,
Boim e Santarém onde os habitantes reclamavam haver ”gentio do mato“ em grupos cometendo
saques e assassinatos. Já no rio Arapi se denunciava ”gentio no mocambo“ que andava
faminto 10.

7 As rotas de fugas eram muitas e as comunidades formadas pelos fugidos extremamente móveis,
11 APEPA, Códice 356, Ofício
sempre migrando para outras regiões em diversas direções. Em 1778 na Vila de Borba, as
de 05/01/1781; Códice 343,
autoridades estavam atentas para ”precaver a furtiva passagem dos índios desta capitania para a Ofício de 26/02/1778 e Códice
do Mato Grosso”. Muitos índios eram destinados a trabalhar bem longe das regiões de suas 200 (1780), Ofíc (...)
aldeias originais, uma estratégia das autoridades portuguesas que visava dispersar e desarticular
os grupos indígenas. Índios capturados em determinadas regiões eram enviados para outras
áreas bem distantes. Paradoxalmente se ampliava a circulação de indígenas para as mais
diversas regiões, conectando-se – num movimento migratório e transétnico forçado – cada vez
mais. Em 1781, por exemplo, ordenaram-se ”copiosas remessas“ de índios de Ourém, Portel,
Monte Alegre, Alenquer e Outeiro para Macapá, como castigo das deserções das viagens do rio
Negro do serviço dessas vilas 11.

8 Por que tantas fugas ? E a possibilidade de comunidades trans-étnicas indígenas a partir destes
12 Maria Regina Celestino de
fugitivos ? Quais eram as políticas indigenistas ? E as expectativas das micro-sociedades
Almeida, "Trabalho Compulsório
indígenas ? Na Amazônia, nos séculos XVII e XVIII o trabalho se baseou fortemente na mão-de- na Amazônia: séculos XVII-
obra indígena dividida até a era pré-pombalina entre escravos e livres. A escravização dava-se XVIII", Revista (...)
por “guerra justa”, resgate, “descimentos” além da compra de prisioneiros de guerra. Havia muita 13 Dauril Alden, "El indio
escravização ilegal empreendida por particulares, com cumplicidade de autoridades coloniais e Desechable en El Estado de
religiosas. A população livre estava dividida em aldeamentos indígenas organizados por Maranhão durante los siglos
XVII y XVIII", Améri (...)
missionários, sendo os escravizados nas aldeias de serviço das ordens religiosas, nas aldeias do
serviço Real e nas aldeias de repartição. As disputas e conflitos entre luso-brasileiros e religiosos
(principalmente os jesuítas) pelo controle da mão-de-obra indígena eram constantes. Ao longo da
última década do século XVII e a primeira metade do século XVIII, conflitos e desacordos entre
jesuítas, moradores e colonos em torno do tratamento e controle sobre as populações indígenas
aldeadas foram permanentes. Representou o período das aldeias-missões com a crescente
demanda de mão-de-obra, sendo realizadas várias entradas e expedições de resgates para a
captura de índios. As estatísticas sobre o número de índios convertidos pelos religiosos são
incompletas. Em 1696 falava da existência de 11.000 somente nos aldeamentos de jesuítas, um
contingente que quase dobrou em 1730. Em meados do século XVIII se calculava que para todas
as ordens religiosas juntas na Amazônia (jesuítas, franciscanos, mercedários e carmelitas) havia
63 aldeias com cerca de 50.000 índios aldeados 12. Nas incompletas estatísticas sobre a
população dos aldeamentos acabavam não sendo computadas as vítimas de varíola e de outras
epidemias assim como a enorme quantidade de índios fugidos. Ao analisar o impacto das
epidemias Alden destacou que somente em Belém e seus arredores teriam morrido
4.900 pessoas em 1749, um percentual que dobraria no ano seguinte. Nas áreas do interior e nas
franjas das fronteiras, os índices de mortalidade certamente ainda eram maiores, afetando não
só os indígenas aldeados. Sabe-se que nas missões dos rios Negro e Solimões mais de
2.000 índios morreram. Só num aldeamento jesuíta na foz do rio Madeira houve 700 mortes. Em
1750, havia a confirmação da morte de mais de 18.000 pessoas com previsões de que poderiam
ultrapassar 40.000. Enfim, cálculos e estimativas que não incluía o grande número de foragidos
que formavam comunidades nas florestas, cuja presença preocupava sobremaneira as
autoridades coloniais e metropolitanas 13.

9 Não foram apenas os cenários demográficos que conheceram mudanças em meados do


14 Azevedo, João Lúcio d', Os
século XVIII. Com o projeto ilustrado pombalino, no início da segunda metade dos Setecentos, é
Jesuítas no Grão-Pará, suas
decretado o fim da escravidão dos índios e a retirada do poder temporal dos missionários missões e colonização.
religiosos sobre os aldeamentos, desmanchando-se assim parte da estrutura de controle da mão- Borguejo histórico co (...)
de-obra indígena na Amazônia 14. Reapareceram mais fortes os conflitos entre o Estado 15 Salles, Vicente, O Negro no
Português, os colonos e os jesuítas pelo controle sobre os indígenas. Um processo de Pará, Rio de Janeiro, FGV,
secularização das missões avançou sob a perspectiva de se criar as chamadas “muralhas do 1971, p. 32 e segs. e Farage,
Nádia. As Mura (...)
sertão”: índios transformados em colonos e/ou súditos. Em 1757 o sistema das missões jesuíticas
é extinto, sendo criados os Diretórios Pombalinos, pelo então Governador Mendonça Furtado. 16 Maclachlan, Colin M., "The
Povoações indígenas de antigos aldeamentos se transformam em vilas, surgindo normas para Indian Labor Structure in the
Portuguese Amazon, 1700-
reger a vida nas vilas com o objetivo de controlar a população indígena 15. Assim, a 1800", in Alden, D (...)
administração portuguesa ampliaria as formas de domínio e poder, sendo a criação dos
Diretórios parte de uma política colonial de, ao mesmo tempo, controle da mão-de-obra e
ocupação efetiva. Havia assim uma expectativa de integração, domínio e ocupação colonial.
Entre as imposições dos Diretórios estavam: linguagem, vestuário, educação, família e
integração sócio-econômica. Na perspectiva desta política indigenista colonial, os índios
poderiam continuar sendo utilizados nas lavouras, porém, cabia aos moradores pedir licença
através do Juízo de Órfãos. Sob a ótica da ”moralidade“ e da ”civilização“ articular-se-ia
compulsão ao trabalho e disciplinarização da mão-de-obra. Somente em 1798 os Diretórios
seriam extintos 16.

3. Etno-genese fugidias
10 A Amazônia e especialmente as áreas de fronteiras das Guianas – séculos XVII e XVIII – com as
17 Farage, Nádia, p. 89, 92 e
ocupações espanhola, inglesa, holandesa e francesa se constituíram em espaços originais de
125.
políticas coloniais indigenistas e indígenas transnacionais. As formas e estratégias de ocupação,
contato, comércio e escravização eram dialógicas. Numa área de disputa colonial, por exemplo, a 18 Coelho, Mauro Cezar, “A
construção de uma lei: o
perspectiva indigenista holandesa de manter comércio, mas não aldear índios nem converter em Diretório dos Índios”, Revista do
termos religiosos era vista como expansionista pelos espanhóis e portugueses. As populações Instituto Histór (...)
indígenas e os próprios setores coloniais – a despeito das expectativas de domínio e poder
europeus – tinham as suas próprias lógicas. Neste sentido, avaliavam, adaptavam-se,
protestavam e tiravam vantagens dos antagonismos e conflitos entre setores coloniais
internacionais e as disputas nas fronteiras. Grupos indígenas que comerciavam com os
holandeses – segundo o missionário espanhol Benito de La Garriga – “recusavam aldear-se e
retiravam-se para a floresta”. Entre as conexões envolvendo aldeamentos, comércio intertribal,
escravização e tráfico de índios houve conflitos, gerando grandes levantes e fugas coletivas entre
1780 e 1781 na área do Rio Branco 17. Mais recentemente vários estudos têm analisado as
transformações das políticas indigenistas na Amazônia, especialmente aquelas implementadas
por Pombal com a liberdade indígena e a criação dos Diretórios em meados do século XVIII 18.
Mas ainda sabemos pouco o quanto tais transformações foram operadas a partir das próprias
lógicas das populações indígenas envolventes. Fossem aquelas aldeadas nas missões que
passaram a serem vilas com os diretórios, fossem aquelas que migraram na condição de
associada ou fugindo das formas de escravização. Pode ter sido um momento crucial para vários
povos indígenas, inclusive aqueles num processo de transformação étnica e mesmo em termos
de etno-genese. Tema ainda pouco explorado é o recrudescimento – e novos significados – das
fugas e da formação de comunidades de fugitivos, tanto próximas as vilas e diretórios assim
como a migração pelas áreas de fronteiras.

11 Embora anterior a este contexto, as fugas já eram vistas como um obstáculo nas negociações
19 Ver Farage, Nádia, As
entre religiosos e colonos na repartição da mão-de-obra indígena. Em 1754 o Governador do
Muralhas do Sertão..., p. 52 e
Grão-Pará já destacava: “não há meio algum de fazê-los parar [de fugir], porque nas aldeias não Carta do Governador do Pará,
só não são castigados, mas, contrariamente, favorecidos e amparados, e sem estes índios já 14/06/1754 transc (...)
Vossa Excelência sabe que nada se pode fazer” 19. No período da desestruturação das missões 20 Maclachlan, Colin M., "The
e da criação dos diretórios e vilas, as fugas passaram a ser em massa, sendo que na Indiam Directorate...", p. 380-1.
documentação colonial cada vez vai parecer com freqüência a utilização da expressão
“mocambos de índios” para denunciar comunidades de fugitivos que aumentavam e faziam
migrações. Na Amazônia Colonial, duas questões poderiam ser sugeridas na utilização/tradução
desta nomenclatura pela administração colonial. A primeira, a tradução do processo histórico de
fugas escravas e no caso de índios aldeados e a formação de comunidades. A outra: a própria
lógica das populações indígenas em questão para enfrentar a nova formatação da política
indigenista. Quais populações indígenas estariam envolvidas nos aldeamentos e o que
significaria em termos de etno-genese a fugas delas e a formação de novas comunidades de
fugitivos ? Desde o século XVII, populações indígenas já vinham conhecendo as políticas
coloniais de resgates, entradas, “descimentos” e aldeamentos, sendo até a primeira metade do
século XVIII inúmeros os conflitos entre colonos, autoridades e jesuítas em torno das missões. A
resistência às missões já acontecia com fugas coletivas e também rebeliões. Ao mesmo tempo,
grupos indígenas que não tinham realizado “descimentos” e/ou foram efetivamente aldeados
migravam. As experiências seculares de migrações de grupos indígenas aconteciam agora num
novo quadro de ocupações de fronteiras, disputas e implementações de políticas do Império
Português na Amazônia 20.

12 Como grupos indígenas podem ter percebido com sentidos e significados próprios as mudanças
21 Serulnikov, Sérgio, "Disputed
coloniais ocorridas na segunda metade do século XVIII, principalmente com a lei da emancipação
Imagens of Colonialism: Spanish
e a criação e regulamentação dos Diretórios ? Indígenas podem ter provocado novos processos Rule and Indian Subversion in
migratórios, inclusive transpondo fronteiras em disputas. Nas vilas formadas pelos Diretórios Norther (...)
– com inúmeros indígenas aldeados – sempre ocorreram fugas em massa. Cabe destacar que
houve nos Diretórios tentativas de unificar e assentar diferentes grupos étnicos. Com os
“descimentos”, populações indígenas de algumas áreas – como já destacamos – eram
transferidas para outras mais distantes. Neste caso, grupos indígenas foram divididos e
distribuídos em vários aldeamentos. Com as fugas coletivas e a formação de “mocambos de
índios” que tanto as autoridades coloniais reclamaram na Amazônia Colonial, vários indígenas
refugiados devem ter tentado – tanto diante da impossibilidade de retornar as suas áreas de
origem e/ou com suas tribos ou como estratégia política baseada novas lógicas políticas – se
estabelecer em comunidades na floresta, reorganizando-se em emergentes grupos étnicos e
sócio-econômicos. É fundamental analisar o quanto podia haver de significados de reinvenções
culturais e readaptações sócio-ecológicas, onde aldeamentos, a não-permanência (fugas), podia
representar, entre outras coisas, resistência às práticas econômicas implementadas. Assim
micro-sociedades indígenas – muitas das quais surgidas de comunidades de fugitivos – podiam
estar readaptando cultura material e práticas sócio-econômicas. Destacando a possibilidade dos
significados políticos na formação dos mocambos de índios e fugas coletivas no contexto de 1755
a 1780 – quando as missões foram extintas e foram criados os Diretórios (conflitos étnicos com
os “principais” das aldeias) e as várias mudanças na legislação – talvez seja possível analisar as
percepções das populações indígenas a respeito da legitimidade do poder colonial 21.

13 Fugir e estabelecer comunidades de fugitivos podia significar resistir às imposições dos


22 Almeida, Maria Regina
aldeamentos e realinhar as políticas indigenistas na Amazônia, especialmente nas áreas de
Celestino de, "Trabalho
fronteiras. São nos anos de 1780 que as fugas indígenas aumentaram em diferentes regiões Compulsório na Amazônia...",
como Nogueira, Colares, Soure, Barcelos, Melgaço, Joanes, Ourém, Monte Alegre, Cintra, pp. 114 e segs. e Farage (...)
Alenquer e Rio Negro. Neste mesmo contexto havia aumentado a retenção dos índios,
permitindo-se o reassentamento privado, assim como os “descimentos”. Acontecia, também, a
excessiva demanda de mão-de-obra por parte do Estado. Cada vez mais se precisava de mão-
de-obra para a construção e guarnição de fortalezas, manutenção de estradas e pontes, canoas
de vigilância, etc. Igualmente cresciam os trabalhos nas expedições demarcatórias. Ainda que
em 1755, a Coroa Portuguesa determinasse aos índios das Capitanias do Grão-Pará e Maranhão
“a liberdade de suas pessoas, bens e comércio sem outra inspeção temporal que não fosse a que
devem ter como vassalos”, a sua utilização compulsória continuou. Vinte anos depois, em Baião,
índios eram denunciados “por não quererem absolutamente trabalhar e com suas fugas,
causarão inconsiderável prejuízo” às canoas de negócio 22. Havia ao mesmo tempo ausência de
controle e vistas grossas das autoridades luso-brasileiras. Os próprios colonos reclamavam da
falta de mão-de-obra para as lavouras e a produção extrativa. Por sua vez mesmo as
autoridades sabiam da vital necessidade de mão de obra nas fazendas reais, equipação das
canoas, etc. Com a falta de gêneros na região tentava-se sem sucesso “promover as lavouras
particulares dos índios persuadindo-os”. Enquanto isso a população indígena diminuía. Não
bastassem as deserções, havia ainda o problema das epidemias. Com a continuidade das fugas,
os índios perceberam não só o impacto das doenças, mas também as mudanças na política
colonial.

14 Uma visita pastoral à região do rio Negro, em 1762, denunciou que os índios Ariquena tinham
23 Farage, Nádia, Muralhas do
fugido em massa, “muitos das nossas terras para os castelhanos”, no caso os espanhóis. Ainda
Sertão..., pp. 47; Queiroz, Fr.
em 1780, noticiava-se que índios escravizados “por não quererem servir a seus senhores se João de São José, Visitas
amocambaram em as cabeceiras deste rio [em São Bento] e com a notícia que tiveram da lei das Pastorais. Mem (...)
liberdades voluntariamente foram descidos”, tendo a Coroa cedido terras para que 24 Ver Almeida, Maria Regina
produzissem 23. Ao mesmo tempo em que continuavam os descimentos de grupos indígenas, se Celestino de, "Trabalho
multiplicavam as comunidades de fugitivos. Da vila de Portel, em 1781, se enviavam tanto Compulsório na Amazônia..." e
Perrone-Moisés, Bea (...)
diligências para acompanhar o descimento dos índios do Pacajaz, como para destruir um
mocambo no rio Arapari. Na área do rio do Taqueri, ilha do Marajó, falava-se que ”junto à fazenda
de Angélica de Barros está um mocambo”. Na área de Tabatinga e em outros locais definidos
pelos tratados como fronteiras com os domínios espanhóis também se noticiava a existência de
inúmeros mocambos. Em Santarém, só nos lagos do Capim Tuba e Paracari, em Alenquer foram
presos 25 índios amocambados. Em 1789, do Bujaru, junto ao rio Jabutiapepú, foi enviada uma
diligência para prender fugitivos índios. Em não raras ocasiões, havia o temor de ataques às vilas
por índios amocambados. Na década de 1780, a deserção dos índios – seja pela freqüência e
quantidade – acabava desorganizando parte da economia extrativa no Grão-Pará, tanto dos
colonos como das fazendas e propriedades da Coroa 24.

15 Para compreender as estratégias da população indígena na Amazônia Colonial seria


25 Farage, Nádia, p. 125.
fundamental acompanhar os contextos específicos da etno-história em diversas áreas. Já
destacamos como os próprios aldeamentos se constituíam em espaços multiétnicos. Segundo os 26 Ver Dossiê MUNDURUKU.
cronistas coloniais, os aldeamentos na área do Rio Branco, por exemplo – eram compostos por Uma contribuição para a história
indígena da Amazônia Colonial.
etnias Wapixana, Parauana, Otarauí, Sapará, Wayumará, Paraviana, Erimissana, Amariba, Boletim Infor (...)
Pauxiana, Caripuna, Macuxi, Securi, Carapi e outros 25. Havia ainda as lógicas de colonização
envolvendo várias tribos e diversas populações indígenas. Na área do Solimões desde o final do 27 Cf. Howard, CatherineV,
“´Pawana: a farsa dos ´visitantes
século XVIII, existia um comércio intertribal intenso. Houve contatos com as missões espanholas ´ entre os WaiWai da Amazônia
e também com colonos ingleses e holandeses nas fronteiras com a Guiana Inglesa. Outro fator Setrentional (...)
importante foi o deslocamento permanente, em parte uma tradição indígena de migração e
28 Cf. Farage, Nádia, pp. 105.
mobilidade. Por exemplo, na área do Tapajós tal tradição ajuda a explicar os significados das
fugas indígenas, especialmente a partir da reconstrução etno-histórica dos processos migratórios
e de contatos interétnicos dos índios Munduruku 26. A entrada das comunidades de fugitivos e
outros setores coloniais em determinados contextos acabava por provocar alterações nos
circuitos das redes e relações intertribais. Como pode ter sido o caso dos índios WaiWai que
tinham desde o período colonial uma vasta rede de trocas nas Guianas e com expedições para
contatar e assimilar tribos vizinhas. Enfim as comunidades de fugitivos podiam acabar se
envolvendo com conexões de grupos indígenas no eixo comércio, migração e mesmo
intercasamento 27. O processo de etno-genese poderia aparecer mesmo nas designações e
classificações de nomes para grupos indígenas. A designação Caribe/Caripuna – por exemplo –
nas áreas de fronteiras não se restringia a uma etnia específica, comparando as fontes coloniais
holandesas e espanholas 28.

4. Espaços das misturas


16 As fugas e a formação de comunidades de fugitivos indígenas na Amazônia colonial na segunda
29 Cf. Queiroz, Fr. João de São
metade do século XVIII propiciaram – de fato – um espaço ampliado de migrações e
José, Visitas Pastorais..., p. 173.
deslocamentos, atravessando fronteiras étnicas. Setores coloniais luso-brasileiros e luso-
africanos – entre os quais desertores militares – entraram em contatos como micro-comunidades
indígenas formadas destes processos de fugas. Desertores militares classificados como brancos
e mestiços, índios aldeados e indígenas forros andavam “misturados com negros ou cafuzes” 29.
Em Soure, em 1762, um sargento-mor dava proteção e era ”mantenedor de mocambos”,
enviando ”pano e mais cousas que pode haver“ para os fugitivos. Em Cametá, diligência com
índios era enviada para prender soldados desertores e “mulatos” escravos. Na área próxima de
Baião, em 1774, denunciava-se que no rio Tocantins, “pelas praias descaradamente” andavam
“soldados fugidos com alguns negros” roubando. Havia denúncias de que os próprios moradores
das localidades davam proteção a “vadios”, soldados desertores e escravos fugidos e nas suas
casas os “recolhem“ e “amparam”.

17 Desertores militares se aliavam as comunidades de fugitivos. Em Abaeté, nas proximidades do


30 APEPA, Códice 27 (1762),
rio Cupijó havia ”um grande mocambo de desertores, pretos fugidos e criminosos”. Em 1777 eram
Ofício de 05/1762; Códice 96
efetuadas diligências para prender soldados desertores do Cia. Franca que andavam refugiados (1769), Ofício de 06/02/1769;
juntamente com índios 30. Origens e motivações das freqüentes deserções de soldados na Códice 146 (177 (...)
Amazônia Colonial podiam ser complexas. Muitos destes militares eram ex-indígenas aldeados 31 Cf. Queiroz, Fr. João de São
ou filhos destes e da segunda geração vivendo nas vilas do Diretório. Fugiam assim do José . Visitas Pastorais..., pp.
recrutamento militar e dos trabalhos nas fortalezas e vilas, preferindo viver nas matas e junto às 163 e APEPA, Códice 334,
Ofício de 24 (...)
suas roças, como o desertor Manoel Covine que foi preso em Marajó, próximo a uma ilha onde
“tem seu algodoal”. Distanciando-se o máximo possível das localidades em que ficavam seus 32 APEPA, Códice 590 (1765-
destacamentos, desertores militares escapavam para as regiões de fronteiras. Visitando a região 1771), Ofício de 12/07/1769;
Códice 291, Ofício de
de Ourém, em 1761, o Bispo Frei João de São José Queiróz, anotou que havia na região um sítio 21/11/1775 e Códice 319, (...)
chamado Casa Forte, posto que existisse “nele uma casa que ocupam alguns poucos soldados
com um comandante, para evitar os fugidios para o Maranhão ; caso que não é factível dar-se,
pois antes de chegar à cocheira deste lugar, entrando pelo mato e saindo logo adiante, evita-se a
diligência” 31. Sabe-se que o alistamento militar era uma forma de controlar a população livre, via
de regra de origem indígena. Em 1769 falava-se de companhias militares formadas por “pretos,
mestiços, ingênuos e libertos”. O sentido era menos militar e sim o controle sobre o trabalho e os
trabalhadores. Para garantir a “defesa” da região todos os homens livres disponíveis, podiam ser
utilizados na formação de tropas auxiliares. Com tantos mocambos e fugitivos, pensou-se até
mesmo na possibilidade de se utilizar soldados desertores para perseguí-los. Juntamente com os
índios, eram eles os que mais conheciam a floresta. Contra a comunidade de fugitivos encravada
entre os rios Anajás e Macacus era intenção das autoridades contarem com a ajuda de Antônio
Curto e João Moreira, soldados desertores: “há pouco recolhidos a esta cidade, tendo andado
ausentes por aqueles sítios, e por isso os mais capazes para servirem a Vossa Mercê de guias
havendo sempre com eles toda a cautela necessária como sujeitos de pouca, ou nenhuma
confiança, mas que podem ser úteis a este fim debaixo de alguma promessa”. Em 1791,
soldados “escolhidos” e índios “práticos deveriam ser enviados para as ilhas Caviana e Mexiana
para capturar fugitivos e destruir mocambos” 32.

18 Este quadro preocupava muito as autoridades coloniais. Com os índios considerados


33 APEPA, Códice 266 (1791),
emancipados, a população livre crescendo e um mar de floresta, era cada vez mais difícil
Ofício de 18/08/1791; Códice 10
identificar e capturar fugitivos e habitantes de mocambos. Com tantos fugidos, desertores e (1754-1799), Ofício de
mocambos a suspeição generalizava-se. Em Ourém, em fins de 1790, “mulatos” foram presos 27/10/1790; Códice (...)
como suspeitos de serem escravos. Em Melgaço também “homens desconhecidos” eram
detidos, não se sabendo se eram escravos fugidos ou desertores. Em Chaves, em 1800, um
“mulato” chamado Manoel José Rolim, que vivia em fazenda trabalhando como vaqueiro,
carpinteiro e marceneiro, tinha a “vida vaga ou incerta”. Ao mesmo tempo em que afirmava ser
soldado, era voz pública que ele era escravo. Pardos, cafuzos e “mulatos” eram acusados de
serem escravos fugidos e ladrões 33. Em meio a tais questões outras preocupações surgiriam.
Capturar fugitivos, destruir mocambos, conter as deserções militares, impedir roubos e
desordens significava igualmente controlar o comércio clandestino. A Amazônia era abastecida
ou mantinha relações comerciais através da via fluvial. Era no vai-e-vem das canoas, subindo e
descendo os principais rios que vários produtos chegavam e saíam do Grão-Pará. Os circuitos
das relações mercantis se estabeleciam de forma clandestina num cenário multifacetado. De
Bujaru, em 1776, vinham notícias de que o “mulato” Lino não tinha “domicílio certo” e nem estava
alistado, porém andava “vendendo continuamente aguardente de sítio em sítio aos escravos
alheios”. Em Ega, o escravo Félix era acusado de furtos de “quantia de prata e frascos de
aguardente de cana” da casa do soldado Francisco da Silva. Da Ilha de Joanes chegava notícia
que cafuzos, mamelucos, índios e pretos que lidavam com o gado, estavam burlando o fisco.

19 O problema dos roubos se articulava assim com o comércio clandestino. Através dessas redes
34 APEPA, Códice 121 (1771-
de trocas, fugitivos, amocambados e desertores vendiam os produtos de suas roças, obtendo em
1776), Ofício de 07/02/1776;
troca, sobretudo, pólvora, armas de fogo e aguardente. Além da situação crônica de falta de Códice 228 (1785), Ofício de
vigilância sobre os taberneiros, havia na vasta região amazônica o problema dos regatões. Com 21/06/1785 e Códi (...)
suas canoas levavam e traziam produtos alcançando áreas e populações coloniais mais 35 Cf. Cardoso, Ciro Flamarion
afastadas. Tentou-se mesmo proibir o comércio entre os índios das povoações – como S., O Trabalho Indígena na
aconteceu entre as vilas de Boim e Pinhel, em 1777 – algo de difícil controle e que rapidamente Amazônia Portuguesa", História
em Cadernos, (...)
se articulava com as economias dos mocambos nas diversas regiões. 34 Baseando-se em relatos
coevos de viajantes e cronistas, Ciro Cardoso destaca as formas da atividade camponesa na
Amazônia. O padre jesuíta João Daniel anotou que após 1757 muitos colonos, não podendo mais
contar com os índios como cativos e sem recursos para comprar escravos africanos, constituíram
– trabalhando com seus familiares – suas próprias lavouras. Visando a alimentação abriam
clareiras nas florestas e plantavam mandioca. Com uma pobreza crônica na região, alguns
lavradores conseguiram mesmo com o trabalho familiar (que em algumas ocasiões contava como
mão-de-obra poucos escravos e índios livres) uma produção de alimentos excedente para o
abastecimento local. No período em que não havia proibição para a escravidão indígena, os
senhores, além de fornecerem alguns alimentos, permitiam que seus escravos índios tivessem
pequenas roças e criações de porcos e galinhas, que acabava gerando excedentes que eram
comercializados na circunvizinhança. Havia também casos de roubos e desvio da produção de
mandioca das fazendas feitas pelos próprios escravos ou cativos fugidos como anotaria o Padre
João Daniel 35.

20 Com o problema crônico de escassez de alimentos os setores econômicos de subsistência


36 APEPA, Códice 13 (1759-
tinham considerável importância na Amazônia Colonial. Destruir mocambos – para além de se
1760), Ofício de 08/08/1759 e
capturar índios e soldados desertores – significava também a possibilidade de confiscar farinha. Códice 23 (1761-1776), Ofício
Em Barcelos, em 1759, o Capitão Joaquim de Mello informou: “descobri aqui um mocambo com de 12/09/1766; C (...)
que achei uma roça que mandei desfazer que me deu trezentos e seis alqueires de farinha que 37 APEPA, Códice 83 (1767-
vieram na melhor ocasião”. De Ourém, anos depois, eram remetidos “trinta e cinco paneiros de 1777), Ofício de 15/03/1767 e
farinha que mandou fazer o Tenente Diogo Luís das roças dos amocambados”. Em Cintra, índios Códice 241 (1787), Ofício de
18/01/1787.
amocambados há vários anos se entregaram ao padre, trazendo os produtos de suas roças.
Amocambados no Outeiro “tinham roçado e um tijupar feito”. Em virtude de poderem se
abastecer com a farinha e outros produtos dos mocambos, vários setores coloniais mantinham
contatos com os fugidos e mesmo davam-lhes proteção. Em Benfica, ao serem convocados para
participarem de uma diligência para prender índios amocambados no igarapé Tamatatuia,
moradores demonstraram desinteresse e “disseram que não queriam sem que lhes mostrassem
ordem por escrito”. Encravados nas brenhas das florestas, os amocambados tentavam
desenvolver uma economia camponesa. Em Nogueira, em 1783, índios fugitivos presos num
igarapé revelaram que “não tiveram tempo de se prontificarem de farinha e que estavam
esperando o socorro dos parentes”. Índios amocambados preparavam – na medida do possível –
suas roças, roubavam ferramentas e as autoridades sabiam disso. Para evitar deserções em
massa de índios, tentou-se mesmo oferecer roças para eles em algumas povoações 36. Um
extenso relatório enviado por Raimundo José ao governador do Pará, em 1767, já bem
demonstra como estava à região. Inicialmente relatava que foram encontrados alguns mocambos
nos rios Mapuá e Anajás. Porém, seus habitantes tinham fugido para as vilas de Melgaço e
Portel. Mocambos descobertos e algumas prisões tinham sido realizadas também na Vila de
Chaves e em Ponta de Pedra. Alguns “confessaram que os companheiros se tinham recolhido às
ditas vilas por aviso que tiveram e assim foram avisados os dois mais mocambos”. Nas vilas de
Veiros, Pombal e Souzel foram atacados os mocambos do Igarapé Acorahy junto ao rio Iaraucu.
Mais apreensões com moradores acusados de acoitá-los, sendo que alguns “confessaram o
mocambo novo que tinham feito para se mudarem e ninguém saberem deles a onde já tinham
feito roças e casas”. Um ataque a outro mocambo próximo foi frustrado porque os fugitivos
tinham sido avisados pelo ajudante da vila de Veiros. Em frente à vila de Monte Alegre, havia
informações de existir “alguns mocambos” tanto no lago do Curuá como no Igarapé Gonsari.
Informou ainda o referido relator que “pelos mocambos destes rios se achavam algumas roças
em um se acharam roças que dão para cima de 300 alqueires de farinha”. Nestas diligências
vários soldados desertores seriam presos. Em 1787, o governador João Pereira Caldas era
alertado sobre as comunicações entre “mulatos portugueses” e o “gentio” próximo às fronteiras
com os domínios espanhóis. Estavam tais mulatos “falando as diferentes línguas dos ditos
gentios e com eles comerciando livremente” 37.

5. Considerações finais
21 Na Amazônia Colonial, as populações indígenas de forma sistemática gestaram uma tradição de
38 Monteiro, John M.,
migrações e formação de grupos de fugitivos. Mesmo considerando a imensidão desta área, o
“Escravidão Indígena e
pouco povoamento e a dispersão de vilas e povoados, os índios em tais mocambos não ficaram Despovoamento na América
totalmente isolados. Estes processos colônias devem ser pensados também a partir das lógicas Portuguesa: São Paulo e
Maranhão (...)
das próprias populações indígenas e seus movimentos e constituição demográficas, culturais,
simbólicas e políticas. 38 Podia estar encoberto nestes contextos – em termos de história e 39 Ver Oliveira, João Pacheco
etnologia – processos de etno-genese 39. O próprio encontro – nos mundos do trabalho e da de, A Viagem da Volta –
Etnicidade, política e
cultura – de populações indígenas e aquelas africanas (escravos recém chegados no tráfico reelaboração cultural no (...)
atlântico), nas suas várias gerações ainda precisa ser mais bem conhecido. Grupos e lógicas
indígenas das mais diversas migravam, se movimentavam e eram deslocados. Na região do 40 Gallois, Dominique Tilkin,
Mairi revisitada: A Reintegração
Oiapoque segundo relatos indígenas míticos aparecem indicações – dos Tukuju – para explicar a da Fortaleza de Macapá na
origem dos subgrupos Waiãpi. Segundo o mito Tukuju seriam os fugidos do século XVIII, os tradição oral (...)
primeiros Waiãpi 40. O universo destas comunidades era refeito permanentemente, além do
41 Dreyfus, Simone, "Os
cotidiano nos aldeamentos religiosos e vilas de leigos ao longo do século XVIII. Simbologias, empreendimentos Coloniais e os
mitologias e cultura material de encontros, desencontros, mudanças e transformações ainda Espaços Políticos indígenas no
permanecem ocultos em trabalhos de etnologia e etno-história, para além e importantes estudos Interior da Guia (...)

e com indicações fundamentais para novas pesquisas 41. No Brasil indígena do passado e do 42 Cf. Oliveira, João Pacheco
presente, para além de uma suposta polarização entre etnologa, etno-história, nordeste e de (org.), A Viagem da Volta.
Etnicidade, política e
Amazônia será possível avançar na compreensão das cosmovisões, representações genéricas,
reelaboração cultur (...)
etnicidade, memória e as identidades reconstruídas, inclusive numa temporalidade mitológica.
Seria possível para os mundos coloniais repensar a idéia de “mistura”, territórios e identidades
indígenas. A etno-história – no caso os registros históricos da documentação do século XVIII –
recuperada não deve procurar evocar sentidos supostamente naturais e cronológicos do passado
no presente indígena, posto que o passado não pode ser “enfocado de forma esquemática e
simplificadora”. Ao contrário – não exclusivamente e sim mais uma ferramenta– a etno-história
pode ajudar a “desvendar a complexidade das escalas e o dinamismo dos distintos contextos
históricos” e através deles “processos migratórios historicamente identificáveis” envolvendo
setores coloniais e micro-sociedades indígenas 42.

Notes

1 Reis, Arthur Cezar Ferreira, A expansão Portuguesa na Amazônia nos séculos XVII e XVIII,
Rio de Janeiro, SPVEA, 1959; Aspectos da Experiência Portuguesa na Amazônia, Manaus,
Governo do Estado, 1966 e Limites e Demarcações na Amazônia Brasileira. Rio de Janeiro,
Imprensa Nacional, 1947, 2 volumes.

2 Farage, Nádia, “As Muralhas dos Sertões: os povos indígenas no Rio Branco e a colonização”,
Rio de Janeiro, Paz e Terra, ANPOCS, 1991, p. 23-53.

3 Ver Russel-Wood, “Centro e Periferia no mundo luso-brasileiro, 1500-1808”, Revista Brasileira


de História, vol. 18, número 36, São Paulo, p. 187-250

4 Cardoso, Ciro Flamarion S., La Guyane Française (1715-1817): Aspects économiques et


sociaux. Contribution à l´étude des sociétes esclavagistes d´Amérique, Ibis Rouge Editions,
Gadaloupe, 1999 e Economia e Sociedade em Áreas Coloniais Periféricas: Guiana Francesa e
Pará, 1750-1817, Rio de Janeiro, Graal, 1981.

5 Pensamos aqui nas perspectivas críticas de Alencastro, Luiz Felipe, "O aprendizado da
Colonização", Revista do Instituto de Economia da Unicamp, número 1, agosto 1992, p. 135-162

6 Fausto, Carlos, “Se Deus fosse Jaguar: Canibalismo e Cristianismo entre os Guarani
(séculos XVI a XX)”, Mana, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 385-418, 2005 e Monteiro, John M.
“Armas e Armadilhas: história e resistência dos índios”, Novaes, Adauto (Org.). A Outra Margem
do Ocidente, São Paulo, Companhia das Letras, 1999, pp. 237-249.

7 Ver Hill, Jonathan (ed.), History, Power and Identity. Ethnogenesis in the Americas, 1492-1992,
University of Iowa Press, 1996, p. 149-151.

8 Ver por exemplo, Sommer, Barbara A, “Cracking Down on the Cunhamenas: Renegade
Amazonian Traders under Pombaline Reform”, Journal of Latin American Studies, volue 38, part
4, november 2006, p. 767-791.

9 Hemming, Jonh, Red Gold. The Conquest of the Brazilian Indians, Harvard University Press,
1978, pp. 409- 443; Amazon Frontier. The Defeat of the Brazilian Indians, MacMillan London,
1987, pp. 40-80 e Sweet, David Graham, A Rich Realm of Nature Destroyed: The Middle Amazon
Valley, 1640-1750, Tesis Ph.D, The University of Wisconsin, 1974, especialmente, capítulos 1 e
2.

10 Arquivo Publico do Pará (doravante APEPA), Códice 07 (1752-1769), Ofícios de 21/01/1764 e


19/05/1761; Códice 08 (1752-1773), Ofício de 11/07/1752; Códice 09 (1752-1777); Ofícios de
24/08/1773 e 16/11/1753; Códice 12 (1759), Ofício de 01/07/1759; Códice 14 (1759-1762), Ofício
de 19/10/1761; Códice 24 (1762), Ofícios de 07/01/1762 e 04/02/1762; Códice 26 (1762), Ofício
de 24/11/1762; Códice 59 (1765), Ofício de 01/01/1765 e 12/01/1765; Códice 96 (1769), Ofício de
17/06/1769; Códice 97, Ofício de 18/10/1769; Códice 144 (1774), Ofícios de 16 e 17/04/1774 e
Códice 150 (1774-1780), Ofício de 22/03/1774; Códice 151 (1775), Ofício de 24/10/1775 e Códice
151 (1775), Ofícios de 8 e 9/11/1775.

11 APEPA, Códice 356, Ofício de 05/01/1781; Códice 343, Ofício de 26/02/1778 e Códice 200
(1780), Ofício de 16/09/1780.

12 Maria Regina Celestino de Almeida, "Trabalho Compulsório na Amazônia: séculos XVII-


XVIII", Revista Arrabaldes, Ano I, número 2, set/dez, 1988, pp. 112; segs. e Nádia Farage,
Muralhas do Sertão..., pp. 31 e segs. e Heloísa Liberalli Belloto, "Política Indigenista no Brasil
Colonial (1570-1757)", Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, número 29, p. 55-
6.

13 Dauril Alden, "El indio Desechable en El Estado de Maranhão durante los siglos XVII y XVIII",
América Indigena, volume XLV, número 2, Abril-junho, 1985, pp. 437 e Sweet, David G, "Black
Robes and `Black Destiny': Jesuit Views of African Slavery in 17 th Century Latin America",
Revista de História de América, México, número 86, junho-dezembro/1978, p. 102-3

14 Azevedo, João Lúcio d', Os Jesuítas no Grão-Pará, suas missões e colonização. Borguejo
histórico com vários documentos inéditos, Lisboa, Liv. Edit. Tavares Cardoso & Irmãos, 1901;
Farage, Nádia & Amoroso, Marta Rosa (orgs.), Relatos da Fronteira Amazônica no Século XVIII.
Documentos de Henrique João Wilckens e Alexandre Rodrigues Ferreira, São Paulo, NHII/USP,
FAPESP, 1994; Sampaio, Patrícia M. M., “Amazônia: fronteiras, identidades e história”, Ciência e
Cultura (SBPC), v. 61, p. 26-29, 2009 e Sampaio, Patrícia M. M. “Remedios contra la pobreza.
Trabajo indigena y produccion de riqueza en la amazonia portuguesa, siglo XVIII”, Fronteras de
la Historia, Bogotá, v. 9, p 17-58, 2004.

15 Salles, Vicente, O Negro no Pará, Rio de Janeiro, FGV, 1971, p. 32 e segs. e Farage, Nádia.
As Muralhas do Sertão..., p. 48 e segs.

16 Maclachlan, Colin M., "The Indian Labor Structure in the Portuguese Amazon, 1700-1800", in
Alden, Dauril, Colonial Roots of Modern Brazil, Papers of the Newberry Library Conference,
University of Califórnia Press, 1973, pp. 228; Belloto, Heloísa Liberalli, "Política Indigenista no
Brasil Colonial.....", p. 59.

17 Farage, Nádia, p. 89, 92 e 125.

18 Coelho, Mauro Cezar, “A construção de uma lei: o Diretório dos Índios ”, Revista do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 168, p. 29-48, 2007; “Índios, negócios e comércio no
contexto do Diretório dos Índios - Vale Amazônico (1755-1798)”, in Figueiredo, Aldrin Moura,
Alves, Moema Bacelar. (org.), Tesouros da memória: história e patrimônio no Grão-Pará, Brasília,
Ministério da Fazenda, 2009, pp. 45-58; “O Diretório dos Índios: possibilidades de investigação”,
in Coelho, Mauro Cezar; Gomes, Flávio dos Santos; Queiroz, Jonas Marçal; Marin, Rosa
Elizabeth Acevedo; Prado, Geraldo. (orgs .). Meandros da História: trabalho e poder no Pará e
Maranhão, séculos XVIII e XIX, 1 ed., Belém, Associação das Universidades Amazônicas, 2005,
pp. 48-67; Do Sertão para o Mar - um estudo sobre a experiência portuguesa na América, a partir
da Colônia: o caso do Diretório dos Índios (1758-1798), Tese de Doutorado em História,
Universidade de Sáo Paulo, 2006; Sampaio, Patrícia M. M. “Entre a tutela e a liberdade dos
índios: relendo a Carta Régia de 1798”, in Coelho, Mauro Cezar; Gomes, Flávio dos Santos;
Queiroz, Jonas Marçal; Marin, Rosa E. Acevedo; Prado, Geraldo. (orgs.), Meandros da história:
trabalho e poder no Pará e Maranhão, séculos XVIII e XIX, Belém, UNAMAZ, 2005, pp. 68-84;
Espelhos Partidos: etnia, legislação e desigualdade na Amazônia Colonial, Manaus: EDUA, 2010
e “Vossa mercê mandará o que for servido...: políticas indígenas e indigenistas na Amazônia
Portuguesa, século XVIIII”, Tempo. Revista do Departamento de História da UFF, v. 12, 2007,
p. 39-55.

19 Ver Farage, Nádia, As Muralhas do Sertão..., p. 52 e Carta do Governador do Pará,


14/06/1754 transcrita em Mendonça, Marcos Carneiro de, A Amazônia na Era Pombalina. Rio de
Janeiro, IHGB, 1967, Correspondência inédita do Governador e Capitão-General do Estado do
Grão-Pará e Maranhão Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1751-1759), p. 554-555, tomo 2.

20 Maclachlan, Colin M., "The Indiam Directorate...", p. 380-1.

21 Serulnikov, Sérgio, "Disputed Imagens of Colonialism: Spanish Rule and Indian Subversion in
Northern Potosí, 1777-1780", Hispanic America Historical Review, volume 76, número 2, maio de
1996, p. 211-212.

22 Almeida, Maria Regina Celestino de, "Trabalho Compulsório na Amazônia...", pp. 114 e segs.
e Farage, Nádia, As Muralhas do Sertão..., pp. 53 e APEPA, Códice 151 (1775), Ofício de
24/09/1775.

23 Farage, Nádia, Muralhas do Sertão..., pp. 47; Queiroz, Fr. João de São José, Visitas
Pastorais. Memórias (1761-1762), Rio de Janeiro, Ed. Melso, 1961, pp. 252 e APEPA, Códice
456, Ofício de 18/01/1790; Códice 551, Ofício de 08/08/1798 e Códice 200 (1780), Ofício de
10/02/1780.

24 Ver Almeida, Maria Regina Celestino de, "Trabalho Compulsório na Amazônia..." e Perrone-
Moisés, Beatriz, "Índios livres e Índios escravos...", pp.18. Ver APEPA, Códice 356, Ofício de
22/06/1781; Códice 190 (1782), Ofício de 19/06/1782; Códice 244 (1787), Ofício de 28/11/1787 e
Códice 246 (1787-1793), Ofício de 01/09/1789.

25 Farage, Nádia, p. 125.

26 Ver Dossiê MUNDURUKU. Uma contribuição para a história indígena da Amazônia Colonial.
Boletim Informativo do Museu Amazônico, Manaus,volume 5, número 8, 1995.

27 Cf. Howard, CatherineV, “´Pawana: a farsa dos ´visitantes´ entre os WaiWai da Amazônia
Setrentional”, in Castro, Eduardo Viveiros de e Cunha, Manuela Carneiro da (orgs.), Amazônia:
Etnologia e História Indígena, São Paulo, NHII/USP,FAPESP, 1993, p. 229-264.

28 Cf. Farage, Nádia, pp. 105.

29 Cf. Queiroz, Fr. João de São José, Visitas Pastorais..., p. 173.

30 APEPA, Códice 27 (1762), Ofício de 05/1762; Códice 96 (1769), Ofício de 06/02/1769;


Códice 146 (1774), Ofício de 11/02/1774; Códice 150 (1774-1780), Ofício de 02/04/1776 e Códice
151 (1775), Ofício de 14/10/1775. APEPA, Códice 306, Ofício de 08/01/1777; Códice 333, Ofício
de 16/07/1803; Códice 285 (1794-1796), Ofício de 04/12/1794.

31 Cf. Queiroz, Fr. João de São José . Visitas Pastorais..., pp. 163 e APEPA, Códice 334, Ofício
de 24/08/1804.

32 APEPA, Códice 590 (1765-1771), Ofício de 12/07/1769; Códice 291, Ofício de 21/11/1775 e
Códice 319, Ofício de 28/07/1778; Códice 610 (1788-1790), Portaria expedida em 01/12/1788;
Códice 266 (1791), Ofício de 21/03/1791; Códice 124, Ofício de 02/03/1791; Códice 08 (1752-
1773), Ofício de 04/02/1768 e Códice 339, Ofício de 04/07/1804.

33 APEPA, Códice 266 (1791), Ofício de 18/08/1791; Códice 10 (1754-1799), Ofício de


27/10/1790; Códice 275 (1796-1797), Ofício de 17/01/1797 e Códice 314, Ofício de 08/11/1800.

34 APEPA, Códice 121 (1771-1776), Ofício de 07/02/1776; Códice 228 (1785), Ofício de
21/06/1785 e Códice 1197 (1791-1792), Ofício de 30/03/1792.

35 Cf. Cardoso, Ciro Flamarion S., O Trabalho Indígena na Amazônia Portuguesa", História em
Cadernos, Rio de Janeiro, IFCS/UFRJ, volume 3, número 2, set/dez. 1985, pp. 18-19 e Daniel,
João, Padre, "Tesouro Descoberto no Rio Amazonas", Anais da Biblioteca Nacional, Rio de
Janeiro, Biblioteca Nacional, volume 95, tomo 1 e 2, 1975, pp. 149.

36 APEPA, Códice 13 (1759-1760), Ofício de 08/08/1759 e Códice 23 (1761-1776), Ofício de


12/09/1766; Códice 107 (1769-1770), Ofício de 22/12/1769; Códice 306, Ofício de 11/07/1777;
Códice 200 (1780), Ofício de 19/11/1780 e Códice 219 (1783), Ofícios de 25 e 30/04 e
03/05/1783.

37 APEPA, Códice 83 (1767-1777), Ofício de 15/03/1767 e Códice 241 (1787), Ofício de


18/01/1787.

38 Monteiro, John M., “Escravidão Indígena e Despovoamento na América Portuguesa: São


Paulo e Maranhão”, in Dias, Jill (org.), Brasil nas Vésperas do Mundo Moderno, Lisboa, Comissão
Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1992, pp. 137-168 e
“Mamalucos, Bastardos, Carijós: Mestizaje e Identidad Cultural En São Paulo, Siglos XVI-XVII”, in
Vangelista, Chiara (org.), Fronteras, Culturas, Etnías: América Latina, Siglos XVI-XX, Quito: Abya-
Yala, 1996, p. 111-128.

39 Ver Oliveira, João Pacheco de, A Viagem da Volta – Etnicidade, política e reelaboração
cultural no nordeste indígena, Rio de Janeiro, Contra Capa, 1999.

40 Gallois, Dominique Tilkin , Mairi revisitada: A Reintegração da Fortaleza de Macapá na


tradição oral do Waiãpi, São Paulo, Núcleo de História Indígena e do Indigenismo, USP,
FAPESP, 1994, p. 70-82.

41 Dreyfus, Simone, "Os empreendimentos Coloniais e os Espaços Políticos indígenas no


Interior da Guiana Ocidental (entre o Arenoco e o Corentino) de 1613 a 1796", in Castro, Eduardo
Viveiros de & Cunha, Manuela Carneiro da, Amazônia: Etnologia e história indígena, São Paulo,
NHII/USP, FAPESP, 1993, pp. 19-41; Gallois, Dominique Tilkin, Mairi revisitada; Price, Richard,
Alabi's world, Baltimore, The Johns Hopkins University Press, 1990; First-Time: The Historical
Vision of Afro-American People. Baltimore, The Johns Hopkins University Press, 1983 e
Whitehead, Neil L., Lords of the Tiger Spirit. A History of the Caribs in Venezuela and Guyana,
1498-1820, Foris Publications, 1988.

42 Cf. Oliveira, João Pacheco de (org.), A Viagem da Volta. Etnicidade, política e reelaboração
cultural no nordeste indígena, Rio de Janeiro, Contra Capa Livraria, 1999, p. 8, 18-19 e segs.

Pour citer cet article

Référence électronique
Flávio Gomes, « Migrações, populações indígenas e etno-genese na América Portuguesa
(Amazônia Colonial, s. XVIII) », Nuevo Mundo Mundos Nuevos [En ligne], Débats, mis en ligne le
31 janvier 2011, consulté le 23 mars 2019. URL :
http://journals.openedition.org/nuevomundo/60721 ; DOI : 10.4000/nuevomundo.60721
Auteur

Flávio Gomes
Universidade Federal de Rio de Janeiro, escravo@prolink.com.br

Droits d’auteur

Nuevo mundo mundos nuevos est mis à disposition selon les termes de la licence Creative
Commons Attribution - Pas d'Utilisation Commerciale - Pas de Modification 4.0 International.

Ce site utilise des cookies et collecte des informationsISSN personnelles vous concernant.
électronique 1626-0252
Pour plus de précisions, nous vous invitons à consulter
Plan dunotre politique
site – Contacts de confidentialité
– Mentions (mise
légales et Crédits – Flux à jour le Invalid
de syndication
Nous adhérons à OpenEdition Journals – Édité avec Lodel – Accès réservé
Date). Fermer
En poursuivant votre navigation, vous acceptez l'utilisation des cookies.