Vous êtes sur la page 1sur 14

Em 2 de julho de 2003, o evento cultural Tribunais na Tela IV, promovido pela

Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ) exibiu o filme M, O Vampiro de


Dusseldorf, de Fritz Lang, seguido por palestras de Carlos Augusto Peixoto Júnior
(Psicanalista e Professor – PUC/Rio) e Sergio de Souza Verani (Desembargador – TJ/RJ).
Eu estive lá, gravei em fita K7 e transcrevi o que fui capaz, embora não tenha
conseguido decifrar como escrever alguns nomes estrangeiros de pessoas e localidades.
Infelizmente o segundo palestrante parecia muito inseguro e nervoso, não produzindo um
discurso tão fluente quanto o primeiro.
— Shirlei Massapust.
Palestra de Carlos Augusto Peixoto Júnior
(Psicanalista e Professor – PUC/Rio).

Boa noite... A minha intervenção vai se dividir em dois pontos. O primeiro é


mais ou menos breve e vai se referir diretamente ao filme que a gente viu. O
segundo ponto vai ser um pouco mais extenso e vai ter como eixo um personagem
verídico que, duma certa forma, serve de mote para o filme.
Começando então com o filme: “M” de “Mörder”, assassino em alemão, é
uma obra prima de Fritz Lang. O primeiro filme sonorizado desse grande mestre do
expressionismo e me parece fundamentalmente o retrato de uma época; um libelo
contra a decomposição da sociedade alemã pré-hitlerista do início dos anos 30. A
patética figura do monstro Hanz Bekett, interpretado de maneira magnífica pelo
Peter Lore, de aparência tão inofensiva, surge como um símbolo do então
ascendente nazi-fascismo. Algo como um prenúncio das atrocidades que poucos
anos mais tarde seriam perpetradas nos campos de concentração.
Nesse sentido, os assassinatos cometidos por Bekett, sem qualquer valor
propriamente histórico, são tomados como sintomas, no sentido psicanalítico do
termo, que denunciam as enfermidades sociais do poder. Essa impressão minha é
corroborada pelo fato de que o subtítulo original do filme “M: assassinos entre nós”,
teria sido modificado para “uma cidade procura um assassino” em função de
algumas ameaças do partido nacional-socialista, já em franca ascensão naqueles
tempos, que julgava o título original desonroso para a Alemanha.
Mesmo com toda a pressão, Fritz Lang consegue lançar seu filme, que logo
foi censurado e retirado de cartaz. Posteriormente, Hitler se confessou fã do
trabalho do diretor e Goebbels (ministro da cultura de Hitler) procurou contratá-lo
para dirigir a indústria de filmes de propaganda nazista alemã. Filho de mãe judia, e
totalmente avesso à ideologia hitlerista, Lang foge imediatamente do país, deixando
para traz sua esposa simpatizante do regime e todos os seus bens. Estabelecendo-
se inicialmente na França e na Inglaterra, ele seguirá mais tarde para os Estados
Unidos, onde viverá até falecer em 1976.
Fritz Lang, portanto, estaria usando o seu filme como um instrumento de
repúdio às mudanças sociais e políticas que vinham ocorrendo com a crise sócio-
econômica e moral da República de Weimar. É fácil notar que os personagens
desprovidos de qualquer virtude, com suas faces cruéis, escondidos nas sombras,
nas fumaças de seus charutos, em becos escuros e sempre conspirando, são
indícios de uma sociedade doente, paranóica e decadente.
Trata-se não apenas de um retrato do nazismo, mas também da passividade
do povo alemão em aceita-lo, o que se evidencia metaforicamente ao final do filme
na fala por uma das mães cuja filha fora morta: “Todos nós devemos tomar conta
melhor de nossos filhos”. Por todas estas razões, diria que M combina
magistralmente o psicológico com o sobre-humano, o simbolismo com a realidade
e o bem com o mal onipresente.
Feitas essas rápidas considerações sobre o filme, passo agora ao segundo
ponto; a apresentação do personagem verídico que faz parte o subtítulo do filme
em português, “o Vampiro de Düsseldorf” que, segundo grande parte da crítica, foi
tomado por Fritz Lang como fonte de inspiração para o seu trabalho. Trata-se de
Peter Kurten, que violou e assassinou nove pessoas entre mulheres e crianças, além
de mais sete tentativas do mesmo gênero.
Em seguida, vou traçar um pequeno panorama crítico a partir da obra de
Michael Foulcault sobre as articulações em seus discursos jurídicos e psiquiátricos a
propósito dos chamados “anormais”. Vejamos então o que diz uma manchete do
jornal paulista Folha da Manhã datado de 27 de maio de 1930. A manchete se
intitula O Monstro de Düsseldorf.

[O texto lido integralmente se encontra no livro Voivode e eu não posso


transcrever por motivo de respeito aos direitos autorais].

Mas, afinal, o que teriam os discursos científicos a dizer sobre estes estranhos
personagens reais, tais como o Monstro de Düsseldorf? E o que teremos nós a dizer
sobre estes discursos? Muito e, ao mesmo tempo, muito pouco. Em seu curso no
ano de 1985, no colégio De France, publicado a pouco no Brasil sob o título Os
Anormais, Michael Foucault analisava uma série de laudos psiquiátricos, em matéria
penal, voltados para crimes ligados ao comportamento sexual. Estes discursos tem
o poder de determinar uma decisão da justiça sobre a liberdade ou detenção de
alguém. Funcionam, portanto, como discursos de verdade no interior da instituição
judiciária.
Discursos verdadeiros porque detentores de um estatuto científico na
medida em que são pronunciados por pessoas qualificadas para dizê-los. Discursos
que, como os de Foucault, podem prender, podem matar, ou podem mesmo fazer
rir. Estes seriam os discursos quotidianos de verdade que estariam nos cenários das
instituições judiciárias. Neles se entrecruzariam a instituição judiciária e o saber
médico. No entanto, quando observamos de perto o seu conteúdo, que
percebemos a curiosa propriedade de serem como estranhos a todas as regras,
mesmo as mais elementares, de formação de um discurso científico e, igualmente,
apresentarem a propriedade de serem estanhos às regras do direito porque dizem
coisas que fogem àquilo que interessa especificamente a lei ou sobre aquilo que
dispõe a lei. Daí, talvez, o estranhamento provocado em Foucault por esse tipo de
leitura.
Tal estranhamento parece dever-se ao fato de que tais discursos não se
referem propriamente aos criminosos ou aos inocentes, nem a indivíduos doentes
ou sãos, mas a indivíduos que pertencem a uma outra categoria: A dos anormais. O
que Foucault notava era que aqueles laudos médico-legais não eram homogêneos
nem ao direito nem a medicina. Não derivavam nem de uma área, nem da outra.
Endereçavam-se na verdade a um objeto diferente, uma espécie de terceiro termo
recoberto de um lado pelas noções jurídicas de delinqüência e reincidência e de
outro pelos conceitos médicos de saúde e doença. Partindo de seu ponto de vista –
que me parece extremamente pertinente – estes discursos estariam ligados a uma
forma de poder anônimo e sem face, que se manifesta pelos aspectos implacáveis
de seu regulamento operando uma espécie de intensificação da realidade que
acaba por levar à submissão.
Nesse sentido eles transformam o poder judiciário e o saber psiquiátrico em
instâncias de controle do anormal; e não somente em instância de controle do
crime, no caso do direito, ou instância do tratamento da doença, no caso da
psiquiatria. Mas como teria se constituído esse domínio da anomalia no século XIX?
Segundo Foucault, essa categoria teria sido historicamente forjada a partir de três
figuras no interior das quais ela irá pouco a pouco se formar: A figura do monstro
humano, a figura do onanista e a daqueles a quem seria impossível corrigir, os
chamados incorrigíveis. Estas figuras – poderíamos dizer – seriam os ancestrais dos
anormais. Assim, o anormal do século XIX seria o descendente destes três tipos: O
Monstro, o indisciplinado e o masturbador. O anormal será marcado por uma
espécie de monstruosidade, por um caráter de incorrigibilidade e por um segredo,
ao mesmo tempo comum e singular, inerente a conduta do onanista. E uma
tecnologia da anomalia humana vai se formar quando for estabelecida uma rede
singular de saber e poder que reunirá estas três figuras. Uma rede de saber e de
poder que as investirá segundo o mesmo sistema de regularidade.
Se tomarmos como exemplo apenas a figura do monstro, Foucault nos
mostra que na tradição jurídico cientifica que vai da Idade Média até o século XVIII
ele era um misto de dois reinos, o reino animal e o reino humano. Era também um
misto de dois indivíduos, um misto de dois sexos, de duas formas. Daí a figura do
monstro humano estar ligada a idéia de transgressão, seja transgressão da ordem
natural, da ordem civil ou da ordem religiosa. Já a noção de monstruosidade que
começa a ser elaborada no século XIX remete por sua vez não exatamente à idéia
de transgressão, mas a de irregularidade. Trata-se da noção de monstro moral. Ou
seja, a monstruosidade devida não propriamente a natureza, a desordem das
espécies, mas ao próprio comportamento humano. Um dos perfis desse monstro
moral, encontrado por Foucault em seus estudos sobre o final do século XVIII é o
do monstro político, o criminoso político, o rei tirânico, aquele que, por quebrar o
pacto social, é o primeiro monstro jurídico que vemos aparecer.
Outro perfil desse monstro moral é o povo revoltado que aparece na
literatura contra revolucionária. O povo revoltado não é um monstro moral devido
ao abuso do poder, como no caso do rei tirânico, mas é um monstro que rompe
igualmente o pacto social com a sua revolta. Para Foucault a grande questão era
perceber como a estatura destes grandes monstros morais, o rei e o povo, foi
reduzida aos poucos até se tornar a figura menor, quotidiana, do anormal. Como
teria se dado a passagem dessa figura do mostro a figura do anormal?
Os caminhos de tal passagem nos são apontados pela referência a três
grandes monstros, aos quais Foucault chama de ‘monstros fundadores da
psiquiatria criminal’: Uma anônima, conhecida como a mulher de Selestat, que
matou a própria filha, cortou-a em pedacinhos, cozinhou sua coxa com repolho e
comeu; um senhor chamado Papavoine que assassinou duas crianças de cinco e
seis anos no parque de Norssen (?) por imaginar que elas eram descendentes de
uma duquesa; e o terceiro, uma jovem que cortou a cabeça de uma menina, filha
de seus vizinhos.
Somente em torno do terceiro caso é que se cristaliza o problema da
monstruosidade criminal, justamente por remeter a uma questão que será essencial
a idéia de anomalia que irá surgir. Tal noção é a noção de instinto.
Os casos da mulher de Selestat e o de Papavoine foram explicados de uma
forma diferente do caso de Henriette Cormier. No primeiro, o da mulher que
comeu a perna da própria filha, encontrou-se uma espécie de razão inerente ao ato
praticado; por mais surpreendente que tal ato possa ter sido. Era uma mulher
pobre, miserável, e tinha fome. A fome serviu de móvel, ainda que o ato praticado
tenha sido extremo.
Aí não se pode esboçá-lo, portanto, um sintoma próprio da loucura. No caso
Papavoine, do assassinato das duas crianças no parque, quando o autor do crime
foi inquirido acerca dos motivos de seu ato, um ato aparentemente sem razão,
respondeu que por um momento teria acreditado que as crianças eram da família
real e em torno desta idéia desenvolve uma série de temas de crenças, de
afirmações que puderam ser remetidas ao delírio e a ilusão. Segundo o diagnóstico
dos especialistas, que acompanharam a fundo o seu caso, teria sido possível
identificar uma loucura em seu ato.
Diferentemente, no caso de Henriette Cormier, a mulher que degolou a filha
da vizinha, não se conseguiu encontrar nem uma razão para o seu ato nem uma
loucura capaz de explicá-la. Henriette era uma mulher que ainda jovem havia tido
filhos e os havia abandonado, ela mesma havia sido abandonada por seu primeiro
marido e trabalhava como doméstica em algumas casas de parentes. Eis que um
dia, sentindo-se triste, apresenta-se a sua vizinha e propõe cuidar de sua filha de
dezenove meses por alguns instantes. A vizinha hesita, mas acaba por aceitar.
Henriette vai até o quarto e corta a cabeça da criança. Quando a mãe vem buscar a
filha ela lhe diz: “Sua criança está morta”. A mãe, horrorizada, pergunta “Como?”,
“Por que?”, e Henriette responde: “Foi uma idéia”. O caso de Henriette Cormier, por
comportar uma ausência de interesse, que é uma razão, que é um estado de
loucura ou delírio, foi objeto de uma atenção redobrada tanto da parte dos juízes
quanto do aparelho médico.
A partir dos dossiês que foram feitos sobre tal caso, na linguagem da defesa
e da acusação que se manifestaram durante o processo, a noção que mais aparece
é a noção de instinto. Para Foucault, a psiquiatria legal estava nesse momento em
vias de descobrir que certos atos monstruosos, isto é, certos atos sem interesse,
eram produzidos por uma dinâmica mórbida dos instintos, por uma confusão dos
instintos. O instinto será então o grande vetor do problema da anomalia. É a partir
dessa noção que vai poder se organizar a figura do anormal no plano das condutas
mais elementares e quotidianas. A passagem do grande monstro ao pequeno
perverso, a figura do anormal, não pode ser feita senão por meio desta noção de
instinto.
Esta problematização do instinto, inclusive do instinto sexual, continuará a
fazer parte da genealogia do anormal no curso das investigações posteriores de
Michael Foucault sob as quais não poderia me estender no âmbito desse debate.
Os estudos sobre as noções de anomalia e de normalidade, fundamentados pelas
noções de norma e de normalização também ocuparão um espaço de enorme
importância em outros de seus trabalhos genealógicos.
Trabalhos marcados pelo estudo das modalidades de intervenção do poder
sobre os indivíduos e das formas de subjetivação na modernidade a partir dos
mecanismos de normalização. Faz pesquisas que nos mantém, num certo sentido,
restritos tema das relações entre poder e normalização. Ao considerá-los, temos a
impressão de que Foucault nos propõe quase o tempo todo que pensemos naquilo
que a sociedade moderna faz com o outro. Elas nos obrigam sim, a pensar naquilo
que fazemos do outro. O outro a que designamos como anormal. O delinqüente
diferente, o desviante da norma. Entretanto, talvez as perguntas que nos são
sugeridas por seus trabalhos; perguntas como, “o que nossas sociedades fazem de
seus outros?”, ou ainda, “o que nós fazemos do outro?”, sejam a condição de
podermos formular, de maneira coerente, uma outra questão muito importante.
Talvez a pergunta sugerida incessantemente pelas investigações
supramencionadas seja uma outra forma mais profunda de perguntar: “Afinal, o
que estamos fazendo de nós mesmos?” Com isso somos levados a considerar não
apenas a estranheza alheia que muitas vezes se explicita diante de nós de forma até
mesmo cruel, mas a ter que lidar também com o estranho que nos habita e com o
destino que estamos dando a ele. Esse problema é, ao meu ver, o mesmo que
constitui um dos temas centrais do filme de Fritz Lang que se explica na cena das
pessoas que instintivamente quase espancam um inocente que supõem ser o
assassino. Ele diz respeito ao oculto, o terrível, o sinistro e tudo que há de maldade,
de morte e de irracionalidade na natureza humana.
Muito obrigado.
Palestra de Sergio de Souza Verani
(Desembargador – TJ/RJ).

Boa noite... [Depois de elogiar o filme, o diretor, etc. o desembargador


começa]: Mas há algumas questões do filme que eu acho que da para pegar um
pouco para o Direito. Preliminarmente, logo que comecei a ver o filme me lembrei
duma história um pouco parecida, que houve aqui no Rio de Janeiro em 1927,
quando tinha uma pessoa chamada Febrônio Índio do Brasil (1895-1984).
O Febrônio era um homossexual e ele matou dois rapazes com quem tinha
relação sexual. Ele foi considerado um monstro na época e até se falava que era
comum dizer “o Febrônio vem aí”. — Aquela musiquinha que a menina canta no
começo dizendo: “o Febrônio vem aí”. — O Febrônio era o bicho papão.
Eu conheci Febrônio no manicômio judiciário. Isso foi no começo da década
de trinta, indo [até] por volta de 1980... Eu fui com uns alunos no manicômio Heitor
Carrílio, que não é mais chamado de “manicômio”. Agora chamam de “Casa de
Custódia e Tratamento”. O Febrônio estava lá. Ele ficou 60 anos internado e morreu
no Heitor Carrílio... Ele morreu algum tempo depois, em 1984, mas quando vi o
Febrônio há cerca de 20 anos ele já era bem velho, estava deitado na cama, era
uma pessoa obesa e falava com as meninas: “Me da um cigarro. Você não quer
casar comigo?” Estava absolutamente destruída a sua vida.
Imagina passar sessenta anos internado num manicômio! O Carlos Augusto
mencionou também essa ondulação dentro do poder e do saber jurídico, o saber
médico, especialmente o saber psiquiátrico que produz aí uma perversidade
absoluta, incontrolável. Esses laudos de internação são de um absoluto terror contra
a pessoa que é submetida aquele exame. Curiosamente o laudo do Febrônio foi
produzido por Heitor Carrílio, primeiro diretor do Manicômio Judiciário1 (instituição

1
O Manicômio Judiciário foi fundado em 1921, tendo Heitor Carrílio sido o seu primeiro diretor. Em
1955 o Manicômio Judiciário do Serviço Nacional de Doenças Mentais teve o seu nome alterado pelo
Decreto 37.990 de 27/09/1955 passando a designar-se Hospital de Custódia e Tratamento
Psiquiátrico Heitor Carrilho.
que antes não existia). Os chamados doentes mentais criminosos ficavam no
Hospício dos Alienados da Praia Vermelha, um hospício comum na Praia Vermelha,
depois em Engenho de Dentro. Em 1921 se construiu o primeiro manicômio
judiciário que foi dirigido por Heitor Carrílio.
O laudo do Heitor Carrílio é um documento de uma importância muito
grande, mas ele é um laudo ainda atual. Ainda existe toda essa fundamentação da
exclusão, da segregação, da eliminação humana da pessoa, da desclassificação
humana, dessa identificação do monstro.
O monstro tem que ser eliminado: Este é o discurso. É a fala do filme. É a fala
das pessoas. “Ele é um monstro. Ele tem que ser eliminado. Ele é um cão danado.
Ele tem que ser tornado inofensivo, mas ele só pode ser tornado inofensivo sendo
morto”. É o extermínio absoluto. Eu me lembro que no final do laudo do Heitor
Carrílio é dito assim: “O Febrônio tem que ficar internado, tem que ficar segregado
ad perpetuam”. Quer dizer, no primeiro laudo ele já decreta a prisão perpétua do
Febrônio e ele cumpre essa prisão perpétua até a morte.
Então, era essa uma questão do filme que eu também acho importante. A
questão dessa aliança, desses dois saberes que se vinculam para estabelecer uma
subjugação e uma destruição humana absoluta e radical. E isso permanece ainda
até hoje. Há uma coisa na questão da “medida de segurança” – para dar um
exemplo de como é essa segregação, que o filme denuncia muito bem, como é que
ela permanece numa grande intensidade. – O Código Penal, que data de 1940,
determina que o autor dum crime desprovido de responsabilidade penal não é
condenável. O inimputável não tem consciência de sua conduta, não pode se auto-
determinar pela doença mental. Mas aí se impõe uma medida de segurança que é a
internação manicomial, a internação no manicômio judiciário.
O código determina que a internação compulsória, obrigatória, deve ser feita
pelo prazo mínimo de um ano. Isso ainda continua assim até hoje, no começo do
século XXI. O inimputável é compulsoriamente, obrigatoriamente, internado pelo
prazo mínimo de um ano ainda que os peritos digam no laudo que não há
necessidade da internação. Ainda assim se concretiza essa norma penal, que é uma
norma do século passado, daquele início de século XX, com esse conceito de
periculosidade e mantêm-se ainda essa internação obrigatória que é um absurdo.
Do ponto de vista de saúde mental todo um trabalho, toda uma mobilização
do movimento de luta anti manicomial que resultou na Lei nº 10.216 de 6 de abril
de 2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica) que estabelece a reforma da política pública
de saúde mental e que normatiza aí no sentido de que a internação será alguma
coisa excepcional. Não tem que ter internação compulsória manicomial, mas se
continua fazendo essas internações e com a legitimação dos tribunais. Os tribunais
de um modo geral, a jurisprudência em sua grande predominância entende que
essa norma tem que ser cumprida.
Você pode pegar o Código Penal Brasileiro, no artigo 97, que diz:

Se o agente for inimputável, o juiz determinará sua internação. Se, todavia, o


fato previsto como crime for punível com detenção, poderá o juiz submetê-lo a
tratamento ambulatorial.

Tem que ser internado no mínimo um ano ou então cumprir a lei. Internar no
mínimo um ano é uma interpretação absolutamente despida de qualquer reflexão
teórica, crítica. Essa era uma norma lá de final do século XIX, e com base do
conhecimento psiquiátrico do final do século XIX e início do século XX, mas que
permanece aí muito assim, atual.
Outra questão interessante do ponto de vista do processo é que quem
descobre o autor do crime [neste filme] não é a polícia. Quem descobre é um
mendigo. E um mendigo cego. Ele é quem descobre o autor. A importância do
testemunho do povo, que geralmente é renegado, é coisa interessante. Como o
testemunho do povo é considerado? Repare na marca que depois o outro
personagem põe no paletó. Depois da marca ele não tem saída. Quer dizer, aquela
marca, o estigma, não lhe deixa escapatória. Depois que bota a mão ali no paletó
com aquele M, ele está assim... Não escapa.
O Carlos Augusto também da uma notícia do jornal da época que fala do
instinto pervertido. Estes termos são termos da psiquiatria (Ex: “perversão moral”).
Como o Direito pode se apropriar dos termos da psiquiatria, utilizando para
exacerbar ainda mais a repressão? No nosso primeiro código de menores, que é de
1927, quando foi criado o primeiro juizado de menores no Rio de Janeiro – que era
o Distrito Federal, a capital – esse código de menores deu um sentido à leitura
muito interessante porque trouxe conceitos normativos terríveis. Não é? Daí se tira
até esses conceitos de “o menor portador de perversão moral”, definindo aquele
que tinha que ficar lá na casa correcional. Então veio o código de 1976 que não usa
mais isso não, já usa “desvio de conduta” que é um termo mais moderno da
psiquiatria (embora esse conceito também fundamente toda uma segregação do
adolescente em relação ao qual ele se refere).
Esses conceitos da psiquiatria vão sendo apropriados pelo direito penal para
reforçar ainda mais a repressão penal. E eu acho que o que há de mais acentuado
que firma toda essa história da segregação, da eliminação do outro. Da vingança,
da destruição do outro; daquela conduta que se decreta como uma conduta
perigosa e tem que ser destruído quem age dessa forma. Não é por acaso que hoje
todo o discurso do sistema penal, do sistema político também, é no sentido de mais
pena, mais repressão, mas rigor. Os sistemas já são muito rigorosos. E os projetos
que tem agora no congresso, do ponto de vista do direito penal e do processo
penal são assim de um fascismo absoluto; coisa assim... terrorismo. Se algum deles
for aprovado vai ser um terrorismo institucionalizado através do próprio estado.
São umas coisa assim horrorosas.
Seria não só no sentido da intensa exacerbação das penas dos crimes, mas
também da eliminação de direitos constitucionais, de garantias constitucionais.
Então há todo um processo de terrorismo que vai fundamentando essa necessidade
de combate. Quer dizer, em nome do combate ao crime e defesa da ordem, de
defesa da segurança, se cria um terrorismo do estado; com revistas, todo o
terrorismo que Buch faz a partir do 11 de setembro, isto está sendo globalizado
também. Terrorismo assim de possibilitar as revistas sem as garantias
constitucionais. Quer dizer, isso já se faz, sempre se fez, porque a polícia entra nas
casas nas favelas e nos morros seja de noite ou de dia como se não houvesse a
constituição que estabelece a garantia da inviolabilidade do domicílio. Mas essa
repressão, que é essa ideologia vinculada a segregação esta sendo muito
intensificada.
Enfim, acho que ele mostra muito aí essa exclusão do outro. Ou ele é doido,
ou ele é maluco ou ele é perigoso, ou ele é assaltante, ou ele é traficante, seja lá o
que for, é muito fácil e é simples arrumar um conceito para eliminar o outro e
retirar do outro os direitos todos. Há um momento que também é muito bonito no
filme que é o advogado... O advogado faz uma defesa brilhantíssima.
A defesa do advogado é fundamental. Por que hoje também se fala
“blábláblá, não precisa de advogado, o moleque já está condenado, é culpado”?
Por que essa irrelevância que se dá à defesa? Até mais do que irrelevância, uma
desqualificação da defesa: “Está defendendo um bandido, um assassino, um
estuprador, um não sei o que”. Existe um processo de desqualificação do trabalho
da defesa; que não significa estar legitimando aquela conduta ou defendendo um
criminoso, mas defendendo a garantia de defesa que é um direito fundamental.
Então acho que o filme nos apresenta uma série de questões, de pontos que
possibilitam um grande debate em todos os níveis. Mas, acima de tudo, o filme é
muito bonito. Quer dizer, o cinema é isso: O cinema possibilita toda essa reflexão,
especialmente esse filme.
Então eram essas questões que eu queria apresentar. Obrigado.