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I.

INTRODUÇÃO
AO SISTEMA
DE DIREITOS HUMANOS

DIGNIDADE HUMANA
DIREITOS HUMANOS
EDUCAÇÃO PARA OS DIREITOS HUMANOS
SEGURANÇA HUMANA

“A campanha recorda-nos que, num mundo ainda a despertar dos horrores da Segunda
Guerra Mundial, a Declaração foi a primeira afirmação global daquilo que agora toma-
mos como adquirido – a inerente dignidade e igualdade de todos os seres humanos.”
Sérgio Vieira de Mello, Alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. 2003
44 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

A. COMPREENDER
OS DIREITOS HUMANOS
A aspiração de proteger a dignidade humana A solidariedade relaciona-se com os di-
de todas as pessoas está no centro do concei- reitos económicos e sociais, tais como o
to de direitos humanos. Este conceito coloca direito à segurança social, remuneração
a pessoa humana no centro da sua preocu- justa, condições de vida condignas, saú-
pação, é baseado num sistema de valores de e educação acessíveis, que são parte
universal e comum dedicado a proteger a integrante do sistema de direitos huma-
vida e fornece o molde para a construção de nos. Aqueles pilares surgem em detalhe,
um sistema de direitos humanos protegido sob cinco títulos, sendo estes os direitos
por normas e padrões internacionalmente políticos, civis, económicos, sociais e cul-
aceites. Durante o século XX, os direitos hu- turais, juridicamente definidos em dois
manos evoluíram como um enquadramen- Pactos paralelos que, juntamente com a
to moral, político e jurídico e como linha DUDH, formam a Carta Internacional dos
de orientação para desenvolver um mundo Direitos Humanos.
sem medo e sem privações. No século XXI,
é mais imperativo do que nunca tornar os “Todos os direitos humanos para todos”
direitos humanos conhecidos e compreendi-
dos e fazê-los prevalecer. foi o lema da Conferência Mundial sobre
O artigo (artº) 1º da Declaração Univer- Direitos Humanos de Viena, em 1993.
sal dos Direitos Humanos (DUDH), ado- Os direitos humanos empoderam os in-
tada pelas Nações Unidas em 1948, refere divíduos, bem como as comunidades de
os principais pilares do sistema de direi- modo a procurarem a transformação da
tos humanos, isto é, liberdade, igualda-
sociedade rumo à completa implementa-
de e solidariedade. Liberdades tais como ção de todos os direitos humanos. Os con-
a liberdade de pensamento, consciência flitos têm de ser solucionados através de
e de religião, bem como de opinião e de meios pacíficos, fundamentados no prima-
expressão estão protegidas pelos direitos do do Direito e no âmbito do sistema de
humanos. Do mesmo modo, os direitos direitos humanos.
humanos garantem a igualdade, tal como Contudo, os direitos humanos podem in-
a proteção igual contra todas as formas de terferir entre si; eles são limitados pelos
discriminação no gozo de todos os direitos direitos e liberdades dos outros ou por
humanos, incluindo a igualdade total en- requisitos de moralidade, de ordem pú-
tre mulheres e homens. blica e do bem comum de uma sociedade
democrática (artº 29º da DUDH). Os di-
“Todos os seres humanos nascem livres e
reitos humanos dos outros têm de ser res-
iguais em dignidade e em direitos […] de-
peitados, não apenas tolerados. Os direitos
vem agir uns para com os outros em espíri-
humanos não podem ser utilizados para
to de fraternidade.”
violar outros direitos humanos (artº 30º
Artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Hu-
da DUDH); assim, todos os conflitos têm
manos. 1948.
de ser resolvidos no respeito pelos direitos
A. COMPREENDER OS DIREITOS HUMANOS 45

humanos, embora em tempos de emergên- fação, cumprimento e prática dos direitos


cia pública e em casos extremos possam humanos.
sofrer algumas restrições.
Deste modo, todos, mulheres, homens, “A educação, a aprendizagem e o diálogo
jovens e crianças necessitam de saber e para os direitos humanos têm de evocar
compreender os seus direitos humanos o pensamento crítico e a análise sistémi-
como relevantes para as suas preocupa- ca com uma perspetiva de género sobre as
ções e aspirações. preocupações políticas, civis, económicas,
sociais e culturais, no âmbito do sistema
“Na recente história da humanidade, ne- dos direitos humanos.”
nhuma expressão tem tido maior privilégio Shulamith Koenig, PDHRE.
de suportar a missão e o peso do destino
da Humanidade do que [a expressão] “di- O direito à educação para os direitos huma-
reitos humanos”[…] - o melhor presente do nos poderá fundamentar-se no artº 26º da
pensamento humano clássico e contempo- DUDH, segundo o qual “Toda a pessoa tem
râneo é a noção dos direitos humanos. De direito à educação. […] A educação deve
facto, mais do que qualquer outra lingua- visar à plena expansão da personalidade
gem moral que esteja disponível neste tem- humana e ao reforço dos direitos humanos
po histórico, [encontra-se] a linguagem dos e das liberdades fundamentais[…].”
direitos humanos[…]”.
Direito à Educação
Upendra Baxi. 1994. Inhuman Wrongs and Human
Rights.
A Resolução da Assembleia-Geral das
Isto pode ser conseguido através da edu- Nações Unidas (AGNU) 49/184, de 23 de
cação e aprendizagem para os direitos hu- dezembro de 1994, proclamou a Década
manos, que poderá ser formal, informal e das Nações Unidas para a Educação em
não-formal. A compreensão dos princípios Matéria de Direitos Humanos, a ser im-
e procedimentos de direitos humanos ha- plementada no âmbito do Plano de Ação
bilita as pessoas a participar nas decisões da Década da ONU para a Educação em
determinantes para as suas vidas, funcio- Direitos Humanos 1995-2004. Aí pode
na na resolução de conflitos e manutenção encontrar-se uma definição detalhada do
da paz segundo os direitos humanos, e é conteúdo e métodos da Educação para
uma estratégia viável para um desenvolvi- os Direitos Humanos. Em 18 de dezem-
mento humano, social e económico cen- bro de 2007, a Assembleia-Geral das Na-
trado na pessoa. ções Unidas declarou 2009 como sendo
A educação para os direitos humanos o “Ano Internacional da Aprendizagem
(EDH) e a sua aprendizagem têm de ser para os Direitos Humanos” (Res. 62/171
assumidas por todos os atores e interes- da AGNU). A abertura decorreu a 10 de
sados, pela sociedade civil, bem como dezembro de 2008, no 60º aniversário da
pelos governos e pelas empresas transna- DUDH. No seguimento, adotou-se a Res.
cionais. Através da aprendizagem dos di- 66/173 da AGNU, em dezembro de 2011.
reitos humanos, uma verdadeira “cultura A principal força motriz subjacente a esta
de direitos humanos” pode ser desenvol- iniciativa foi Shulamith Koenig, a funda-
vida, baseada no respeito, proteção, satis- dora da People’s Decade for Human Rights
46 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

Education (PDHRE) - motivada pela visão (c) Promover a compreensão, a tolerân-


de, a longo prazo, tornar os direitos hu- cia, a igualdade de género e a ami-
manos acessíveis a todos, no nosso pla- zade entre todas as nações, povos in-
neta, “para que as pessoas os conheçam e dígenas e grupos raciais, nacionais,
os reclamem”. Em concordância, o objeti- étnicos, religiosos e linguísticos […]”.
vo da educação para os direitos humanos
é “literacia em direitos humanos para to- A 10 de dezembro de 2004, a AGNU pro-
dos”. Ou, parafraseando Nelson Mandela, clamou um novo Programa Mundial para
“desenvolver uma nova cultura política a Educação em Direitos Humanos (Res.
baseada nos direitos humanos”. AGNU 59/113A) que deverá ser implemen-
Notas Gerais sobre a Metodologia tado através de planos de ação a adotar de
da Educação para os Direitos Hu- três em três anos. O Plano de Ação para
manos a primeira fase (2005-2007, alargada até
2009) do Programa Mundial para a Educa-
ção em Direitos Humanos realça os sistemas
escolares, primário e secundário. A segun-
A Resolução 49/184 da Assem-
da fase (2010-2015) centra-se na educação
bleia-Geral, de 23 de dezembro de 1994,
superior e em programas de formação em
ao anunciar a Década das Nações Unidas
direitos humanos para professores e educa-
para a Educação em Matéria de Direitos
dores, funcionários públicos, agentes poli-
Humanos, refere: “[…] a educação para os
direitos humanos deve envolver mais do ciais e militares. A 2 de dezembro de 2011,
que o fornecimento de informação e deve a AGNU adotou a Declaração das Nações
constituir um processo abrangente e contí- Unidas sobre Educação e Formação para os
nuo pelo qual as pessoas em todos os níveis Direitos Humanos, preparada por um Gru-
de desenvolvimento e de todos os estratos po de Trabalho e adotada, primeiramente,
sociais aprendam a respeitar a dignidade pelo Conselho da ONU dos Direitos Huma-
dos demais e os meios e métodos para ga- nos em Genebra. Esta Declaração estabele-
rantir tal respeito em todas as sociedades”. ce uma nova base para todas as vertentes
da educação para os direitos humanos, as-
O Plano de Ação das Nações sim como uma definição de educação para
Unidas para a EDH sublinhou que: “[…] os direitos humanos:
a educação para os direitos humanos (a) A educação sobre direitos humanos
será definida como os esforços de forma- que inclui a transmissão de conheci-
ção, divulgação e informação destinados mentos e compreensão das normas
a construir uma cultura universal de di- e princípios de direitos humanos, os
reitos humanos através da transmissão valores subjacentes aos mesmos e os
de conhecimentos e competências e da mecanismos para a sua proteção;
modelação de atitudes, com vista a: (b) A educação através dos direitos huma-
nos que inclui aprender e ensinar no
(a) Reforçar o respeito pelos direitos hu-
respeito pelos direitos de educadores e
manos e liberdades fundamentais;
alunos;
(b) Desenvolver em pleno a personalidade (c) A educação para os direitos humanos
humana e o sentido da sua dignidade; que inclui o empoderamento de pesso-
B. DIREITOS HUMANOS E SEGURANÇA HUMANA 47

as, de forma a gozarem e exercerem os educação e a formação para os direitos hu-


seus direitos e respeitarem e protege- manos, para as quais devem elaborar pla-
rem os direitos de outros. nos de ação e programas que promovam
a sua implementação, designadamente,
“A educação para os direitos humanos “através da sua integração nos curricula
é toda a aprendizagem que desenvolve o das escolas e da formação”. Todos os inte-
conhecimento, as capacidades e os valores ressados relevantes devem ser envolvidos,
dos direitos humanos, que promove a equi- em harmonia com o Programa Mundial da
dade, a tolerância, a dignidade e o respeito Educação para os Direitos Humanos, assim
pelos direitos e pela dignidade dos outros.” como se espera que a sociedade civil de-
Nancy Flowers, Human Rights Center of the Univer- sempenhe um papel importante. Os Planos
sity of Minnesota de Ação para a Primeira e Segunda Fases
do Programa Mundial da Educação para
A Declaração identifica cinco objetivos os Direitos Humanos estabelecem uma
principais da EDH que são a conscienciali- estratégia de implementação que delimita
zação, o desenvolvimento de uma cultura quatro etapas:
universal de direitos humanos, a realização Etapa 1: análise de situações atuais da
de forma efetiva dos direitos humanos, a EDH
atribuição de oportunidades iguais para to- Etapa 2: estabelecimento de prioridades e
dos e a contribuição para a prevenção das desenvolvimento de uma estra-
violações dos direitos humanos. Os Esta- tégia nacional de implementação
dos e os governos têm a responsabilidade Etapa 3: implementação e monitorização
primordial de promover e de assegurar a Etapa 4: avaliação

B. DIREITOS HUMANOS
E SEGURANÇA HUMANA

A DUDH foi redigida na sequência das foi declarado que a segurança humana
mais graves violações da dignidade huma- visa proteger os direitos humanos, isto
na, em particular, a experiência do Holo- é, através da prevenção de conflitos e do
causto durante a Segunda Guerra Mundial. tratamento das verdadeiras causas para
O ponto central é a pessoa humana. O pre- a insegurança e a vulnerabilidade. Uma
âmbulo da DUDH refere-se à liberdade de estratégia de segurança humana pretende
viver sem medo e sem privações. A mes- estabelecer uma cultura política global, as-
ma abordagem é inerente ao conceito de sente nos direitos humanos. Neste contex-
segurança humana. to, a educação para os direitos humanos é
Na Sessão de Trabalho (Workshop) In- uma estratégia rumo à segurança humana,
ternacional sobre Segurança Humana e uma vez que capacita as pessoas na pro-
Educação para os Direitos Humanos que cura de soluções para os seus problemas,
decorreu em Graz, em julho de 2000, com base num sistema global de valores
48 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

comuns e numa abordagem orientada Responsabilidade de Proteger, como parte


para as normas e direitos, em vez de uma do conceito de segurança humana.
abordagem orientada para o poder. A se-
gurança humana é promovida no seio da “A maioria das ameaças à segurança hu-
sociedade, de um modo descentralizado, mana revelam uma dimensão direta ou
começando pelas necessidades básicas indireta dos direitos humanos.”
das pessoas, mulheres e homens de forma 2ª Reunião Ministerial da Rede para a Segurança
idêntica. Referimo-nos a problemas de se- Humana. Lucerna. Maio 2000.
gurança pessoal, pobreza, discriminação,
justiça social e democracia. A vida sem Esta doutrina entrou no documento final
exploração e sem corrupção começa quan- da Cimeira da Assembleia-Geral das Na-
do as pessoas deixam de aceitar a violação ções Unidas, em 2005 [Fonte: Independent
dos seus direitos. As organizações da so- International Commission on Intervention
ciedade civil (como a Transparência Inter- and State Sovereignty. 2001. The Responsi-
nacional) apoiam este processo de eman- bility to Protect and GA-Res. 60/1 (2005)].
cipação com base no conhecimento dos As violações dos direitos humanos represen-
direitos humanos. tam ameaças à segurança humana e, conse-
Há diversas relações entre os direitos hu- quentemente, são usadas como indicadores
manos e a segurança humana. A “Segu- em mecanismos de alerta precoce na preven-
rança”, no sentido de segurança pessoal ção de conflitos. Contudo, também os direitos
(ex. proteção contra a detenção arbitrá- humanos desempenham um papel na gestão
ria), de segurança social (ex. suprimento de conflitos, na transformação de conflitos e
de necessidades básicas, como a seguran- na construção da paz pós-conflito. A educação
ça alimentar) e de segurança internacional para os direitos humanos, através da transmis-
(ex. o direito a viver numa ordem inter- são de conhecimentos, do desenvolvimento de
nacional segura), corresponde a direitos competências e do moldar de atitudes, consti-
humanos já existentes. As políticas de se- tui a base de uma genuína cultura da preven-
gurança têm de ser integradas muito mais ção de conflitos. Além de os direitos humanos
intimamente com estratégias de promoção serem um instrumento essencial na prevenção
dos direitos humanos, da democracia e do de conflitos, também são um conceito chave
desenvolvimento. Os direitos humanos, para a construção da governação e para a de-
o direito humanitário e o direito dos re- mocracia. Conferem uma base para resolver
fugiados fornecem o enquadramento ju- problemas sociais e globais através da partici-
rídico em que a abordagem da segurança pação ativa, de um aumento da transparência
humana se baseia. (Fonte: Departamento e da prestação de contas. A construção da
dos Negócios Estrangeiros e do Comércio governação consiste em duas formas comple-
Internacional, Canadá. 1999. Segurança mentares de desenvolvimento de competên-
Humana: Segurança para as Pessoas num cias: “a construção do Estado” e o “desenvolvi-
Mundo em Mudança.) mento da sociedade”.
O governo do Canadá solicitou a redação
de um relatório, por uma Comissão Inter- “O mundo nunca estará em paz enquanto
nacional Independente sobre Interven- as pessoas não tiverem segurança nas suas
ção e Soberania Estatal, que esteve na vidas diárias.”
base do desenvolvimento da doutrina da PNUD. 1994. Human Development Report 1994.
B. DIREITOS HUMANOS E SEGURANÇA HUMANA 49

A Declaração de Graz também refere que


“[A segurança humana] é, na essência, os direitos humanos e a segurança huma-
um esforço para construir uma sociedade na estão inextricavelmente relacionados,
global onde a segurança do indivíduo está uma vez que a promoção e a implementa-
no centro das prioridades internacionais ção dos direitos humanos são um objetivo
[…], onde as normas internacionais dos e parte integrante da segurança humana
direitos humanos e o primado do Direito (artº 1º).
são antecipados e tecidos numa rede coe- A Comissão para a Segurança Humana,
rente protegendo o indivíduo […]” criada em 2001, sob a codireção de Sadako
Lloyd Axworthy, anterior Ministro dos Negócios Es- Ogata (ex-Alto Comissário da ONU para
trangeiros do Canadá. os Refugiados) e de Amartya Sen (Prémio
Nobel da Economia), juntamente com o
A construção do Estado propicia a “segu- Instituto Interamericano de Direitos Hu-
rança democrática”, que pode ser obser- manos e a Universidade para a Paz, orga-
vada sobretudo no esforço de reabilitação nizaram uma sessão de trabalho sobre a
e reconstrução pós-conflito. “O desenvolvi- relação entre Direitos Humanos e a Segu-
mento da sociedade implica uma educação rança Humana, em San José, Costa Rica,
amplamente baseada nos direitos huma- em dezembro de 2001. A Comissão elabo-
nos, de forma a empoderar as pessoas para rou uma Declaração sobre Direitos Huma-
reclamarem os seus direitos e para demons- nos como Componente Essencial da Segu-
trarem respeito pelos direitos das outras”. rança Humana (www.humansecurity-chs.
(Walther Lichem, PDHRE). org/doc/sanjosedec.html). O seu relatório
A Declaração de Graz sobre os Princípios “Segurança Humana Já” refere várias pre-
da Educação para os Direitos Humanos e ocupações relacionadas com os direitos
para a Segurança Humana, aprovada pela humanos. De acordo com Bertrand G. Ra-
5ª Reunião Ministerial da Rede de Seguran- mcharan, ex-Alto Comissário em exercício
ça Humana, em Graz, a 10 de maio de 2003, da ONU para os Direitos Humanos, o direi-
pretende reforçar a segurança humana atra- to internacional e o direito dos direitos hu-
vés da educação para os direitos humanos, manos definem o significado da segurança
começando no direito de cada um de co- humana.
nhecer os seus direitos humanos, passando
pela identificação da responsabilidade de “A sujeição aos interesses da segurança na-
todos os agentes relevantes ligados à Edu- cional, estritamente concebidos, e a insis-
cação para os Direitos Humanos e, por fim, tente adesão a visões míopes da soberania
acolhendo o Manual “Compreender os Di- do Estado triunfaram sobre os interesses da
reitos Humanos”, que deverá ser traduzido, segurança humana das vítimas apesar de,
distribuído e utilizado amplamente. ironicamente, ser a segurança da sua popu-
lação – não só coletivamente, mas também,
“Precisamos de uma nova cultura de rela- de forma crucial, individualmente – que
ções internacionais que tenha a segurança permite a segurança do Estado.”
humana no seu centro.” Louise Arbour, Alta Comissária das Nações
Srgjan Kerim, Presidente da Assembleia-Geral das Unidas para os Direitos Humanos. 2005. Res-
Nações Unidas. 2009. ponsibility to Protect in the Modern World.
50 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

O artº 3º da DUDH e o artº 9º do Pacto Direito a Não Viver na Pobreza


Internacional sobre os Direitos Civis e Po- Direito à Saúde
líticos (PIDCP) protegem o direito da pes- Direito ao Trabalho
soa à sua liberdade e segurança humana
que, por sua vez, se refere em particular De acordo com o Relatório de Desenvol-
ao direito de viver sem medo (freedom vimento Humano de 2000, do PNUD, os
for fear). Mais, o artº 22º da DUDH e o direitos humanos e o desenvolvimento hu-
artº 9º do Pacto Internacional sobre os mano partilham uma visão e um propósito
Direitos Económicos, Sociais e Culturais comuns. O Índice de Desenvolvimento Hu-
(PIDESC) reconhecem o direito à segu- mano, usado pelos Relatórios de Desen-
rança social que, juntamente com outros volvimento Humano do PNUD, contém
direitos económicos e sociais, correspon- vários indicadores, tais como o acesso à
dem ao direito de viver sem privações educação, a segurança alimentar, os ser-
(freedom from want). A relação entre a viços de saúde, a igualdade de género e
globalização e a segurança humana é tra- a participação política, que correspondem
tada no Relatório do Milénio do anterior diretamente a direitos humanos. Em con-
Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi clusão, os conceitos de segurança huma-
Annan, em 2000. Também este distingue na, direitos humanos e desenvolvimento
entre o direito de viver sem medo e o humano são coincidentes, contingentes e
direito de viver sem privações, uma dis- reforçam-se mutuamente.
tinção que regressa às quatro liberdades
e direitos proclamados pelo Presidente “Assim, não se desfrutará do desenvolvi-
dos Estados Unidos da América, Franklin mento sem segurança, não se desfrutará
Roosevelt, em 1940, durante a Segunda da segurança sem desenvolvimento e não
Guerra Mundial, apresentados como uma se desfrutará nem de um, nem de outra
visão da ordem a estabelecer no pós- sem respeito pelos direitos humanos […]”
guerra. O Relatório “In Larger Freedom”, Kofi Annan, Secretário-Geral da ONU. 2005.
de 2005, do Secretário-Geral da ONU, In larger freedom: towards development, security and
concentra-se em como “aperfeiçoar o tri- human rights for all.
ângulo do desenvolvimento, da liberdade
e da paz” (§12).
A Assembleia-Geral das Nações Unidas, “Hoje, demasiados atores internacionais
no seu “Documento Final” da Cimeira de seguem políticas baseadas no medo, pen-
2005, pediu a elaboração de uma definição sando que assim aumentam a segurança.
de Segurança Humana. Depois de um rela- Porém, a verdadeira segurança não pode
tório do Secretário-Geral, a Assembleia-Ge- ser construída sobre esta base. A verdadei-
ral realizou consultas, em 2008. ra segurança tem de se basear nos princí-
A luta contra a pobreza e pelos direitos pios estabelecidos dos direitos humanos.”
económicos, sociais e culturais é tão rele- Sérgio Vieira de Mello, Alto Comissário das Nações
vante para a segurança como a luta pela Unidas para os Direitos Humanos. 2003.
liberdade política e pelas liberdades fun-
damentais. Uns não podem ser separados A UNESCO dá também especial atenção
dos outros, são interdependentes, interli- à Segurança Humana, inspirando-se nas
gados e indivisíveis. abordagens regionais relativas à Segu-
C. HISTÓRIA E FILOSOFIA DOS DIREITOS HUMANOS 51

rança Humana. Desde 2005, é publicado Na década que se seguiu à destruição ter-
um Relatório sobre Segurança Humana, rorista do World Trade Centre, em 11 de
sob a direção de Andrew Mack, que se setembro de 2001, tem havido mais ênfase
centra nas ameaças violentas à seguran- sobre a soberania nacional e os interes-
ça humana. Este Relatório mostra a rela- ses de segurança, também como resulta-
ção entre conflitos e governação demo- do da “Guerra ao Terror”, declarada pelos
crática, demonstrando que um aumento Estados Unidos e que, porém, teve lugar
de governos democráticos no mundo em detrimento dos direitos humanos. Na
conduz a uma redução dos conflitos vio- Europa, a preocupação central tem sido o
lentos (Relatório sobre Segurança Huma- equilíbrio entre a segurança, a liberdade e
na 2009/2010). os direitos humanos.

C. HISTÓRIA E FILOSOFIA
DOS DIREITOS HUMANOS
A ideia de dignidade humana é tão an- A ONU, sob a liderança de Eleanor Roose-
tiga quanto a história da humanidade e velt, René Cassin e Joseph Malik, elaborou
existe de variadas formas, em todas as a DUDH, com a participação de 80 peritos
culturas e religiões. Por exemplo, o im- do Norte e do Sul, que moldaram as ideias
portante valor atribuído ao ser humano e linguagem do documento. Os direitos
pode ser encontrado na filosofia africana humanos tornaram-se num conceito uni-
de ubuntu ou na proteção de estrangei- versal, com fortes influências do Oriente
ros no Islão. A “regra de ouro” segundo a e do Sul, designadamente, o conceito de
qual devemos tratar os outros como gos- direitos económicos, sociais e culturais, o
taríamos de ser tratados existe em todas direito à autodeterminação e ao desenvol-
as grandes religiões. O mesmo vale para a vimento, a proteção contra a discrimina-
responsabilidade da sociedade de cuidar ção racial e o apartheid.
dos seus pobres e para as noções funda- Atendendo a que, historicamente, os ci-
mentais de justiça social. dadãos se tornaram os primeiros bene-
Contudo, a ideia de “direitos humanos” é ficiários dos direitos humanos constitu-
o resultado do pensamento filosófico dos cionalmente protegidos, em virtude das
tempos modernos, com fundamento na fi- suas lutas pelas liberdades fundamentais
losofia do racionalismo e do iluminismo, e pelos direitos económicos e sociais, os
no liberalismo e democracia, e também no estrangeiros só poderiam ser titulares de
socialismo. Ainda que o conceito moder- direitos em casos excecionais ou com base
no de direitos humanos tenha emanado em acordos bilaterais. Os estrangeiros ne-
sobretudo da Europa, deve ser sublinhado cessitavam da proteção do seu próprio Es-
que as noções de liberdade e de justiça so- tado, que representava os seus nacionais
cial, que são fundamentais para os direitos no estrangeiro, enquanto o conceito de
humanos, são parte de todas as culturas. direitos humanos obriga qualquer Estado
52 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

a proteger todos os seres humanos no seu


território. “Consideramos estas verdades como evi-
Para o desenvolvimento de normas de pro- dentes por si mesmas, que todos os homens
teção de não nacionais, o direito huma- são criados iguais, dotados pelo Criador de
nitário era de extrema importância. Tinha certos direitos inalienáveis, que entre estes
como objetivo estabelecer regras básicas estão a vida, a liberdade e a procura da
para o tratamento a conferir aos soldados felicidade. Que a fim de assegurar esses di-
inimigos, mas também aos civis envolvi- reitos, os governos são instituídos entre os
dos em conflitos armados. homens, derivando os seus justos poderes
do consentimento dos governados.”
Direitos Humanos em Conflito Declaração da Independência dos Estados Unidos
Armado da América. 1776.

As primeiras disposições referentes aos


atuais direitos humanos podem ser en- “A primeira é a liberdade de discurso e de
contradas nos acordos sobre liberdade de expressão – em todo o mundo. A segun-
religião, contidos no Tratado de Vestefália da é a liberdade de cada um de adorar a
de 1648, e na proibição da escravidão, Deus, de forma pessoal – em todo o mun-
como a Declaração sobre Tráfico de Es- do. A terceira é o direito de viver sem pri-
cravos do Congresso de Viena de 1815, a vações – que, traduzida em termos de al-
constituição da Sociedade Americana con- cance mundial, significa um entendimento
tra a Escravatura de 1833 e a Convenção económico que irá assegurar a cada nação
contra a Escravatura de 1926. uma vida saudável e em paz, para os seus
habitantes – em todo o mundo. A quarta é
Liberdades Religiosas o direito de viver sem medo […]”
Não Discriminação Franklin D. Roosevelt, 32º Presidente dos Estados
Unidos, 1941.
A proteção dos direitos das minorias tam-
bém tem uma longa história e foi um tema
Estes direitos estavam agrupados segundo
da máxima importância no Tratado de Paz
as categorias da liberdade, igualdade e da
de Versalhes de 1919 e da Sociedade das
solidariedade, que foram recuperados na
Nações fundada no mesmo ano. Com a
Carta dos Direitos Fundamentais da União
dissolução da União Soviética e da Jugos-
Europeia de 2000. Olympe de Gouge foi uma
lávia, voltou a ser um tema central.
das primeiras a pedir direitos iguais para as
A Luta Global e Contínua pelos mulheres, através da sua “Declaração dos
Direitos Humanos, Recursos Adi- Direitos da Mulher e da Cidadã” de 1791.
cionais
Direitos das Minorias
Direitos Humanos das Mulheres
A Revolução Francesa, inspirada pela De-
claração Americana da Independência e O conceito de direitos humanos univer-
pela proclamação da Carta de Direitos da sais para todos os seres humanos só foi
Virgínia, em 1776, proclamou os Direitos aceite pelos Estados depois dos horrores
do Homem e do Cidadão, em 1789. da Segunda Guerra Mundial, quando se
D. CONCEITO E NATUREZA DOS DIREITOS HUMANOS 53

conseguiu o acordo sobre a DUDH, na mundial”, sob a direção de Klaus Küng,


altura entre 48 países, com a abstenção descobriu que todas as grandes religiões
de 8 países socialistas e da África do Sul, partilham valores comuns, que correspon-
como uma componente indispensável do dem, em larga medida, aos direitos huma-
sistema das Nações Unidas, interpretan- nos básicos.
do as disposições pertinentes da Carta
Liberdades Religiosas
das Nações Unidas (Preâmbulo e artos 1º,
nº 3 e 55º, al. c)). Desde então, os Es-
tados-membros das Nações Unidas já são Uma “ética da responsabilidade” (Hans Jo-
193, mas nenhum Estado se atreveu real- nas) e uma “ética global a favor dos direi-
mente a questionar esta Declaração, con- tos humanos” (George Ulrich) foram pro-
siderada, em muitas partes, como direito postas de modo a fazer face aos desafios
consuetudinário internacional. da globalização.
Os debates acerca de certos direitos prio-
Conceito Africano de Dignidade Humana: ritários e o universalismo versus o relati-
“Eu sou um ser humano porque os teus vismo cultural fizeram parte das agendas
olhos me veem como tal…” das duas conferências mundiais sobre
Provérbio africano, Mali. direitos humanos, em Teerão e em Vie-
na, respetivamente. A conferência de
O Direito Internacional dos Direitos Hu- Teerão, em 1968, clarificou que todos os
manos tem o seu fundamento em valores direitos humanos são indivisíveis e in-
comuns, tal como acordado no quadro terdependentes, e a Conferência de Vie-
das Nações Unidas, e que constituem ele- na, de 1993, acordou, por consenso, que
mentos de uma ética global. Filósofos, tais “Embora se deva ter sempre presente o
como Jean-Jacques Rousseau, Voltaire e significado das especificidades nacionais
John Stuart Mill debateram a existência de e regionais e os diversos antecedentes
direitos humanos. As “teorias contratuais” históricos, culturais e religiosos, compete
prevalecentes garantiam os direitos em aos Estados, independentemente dos seus
troca da lealdade para com o poder execu- sistemas políticos, económicos e culturais,
tivo, ao passo que a perspetiva cosmopo- promover e proteger todos os Direitos Hu-
lita de Immanuel Kant, reclamava a exis- manos e liberdades fundamentais”. (Fon-
tência de certos direitos para o “cidadão te: Declaração e Programa de Ação de
universal”. O projeto internacional “ética Viena. 1993, §5).

D. CONCEITO E NATUREZA
DOS DIREITOS HUMANOS
Atualmente, o conceito de direitos huma- pela Conferência Mundial de Viena sobre
nos é reconhecido como universal, como Direitos Humanos, em 1993, e nas Resolu-
se poderá verificar na Declaração adotada ções da ONU aprovadas por ocasião do 50º
54 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

aniversário da DUDH, em 1998. Alguns cé- social, que deverão ser “realizados progres-
ticos que questionam a universalidade dos sivamente”, devido ao facto de implicarem
direitos humanos devem ser recordados de obrigações financeiras para os Estados
que Estados tão geograficamente diversos (cfr. Artº 2º, nº1 do PIDESC).
como a China, o Líbano ou o Chile se en- No passado, alguns Estados ou grupos de
contravam entre aqueles que participaram Estados, tais como os Estados socialistas
na elaboração deste conceito, na segunda em particular, expressaram preferência pe-
metade dos anos 40. De qualquer modo, los direitos económicos, sociais e culturais,
desde então, muitos mais Estados demons- em oposição aos direitos civis e políticos, ao
traram o seu apoio à DUDH e ratificaram passo que os Estados Unidos da América e
o PIDCP e o PIDESC, que se fundamentam os Estados-membros do Conselho da Europa
na DUDH. A Convenção sobre a Elimina- demonstraram uma certa preferência pelos
ção de Todas as Formas de Discriminação direitos civis e políticos. Porém, na Confe-
contra as Mulheres (CEDM) já foi ratifi- rência Mundial de Direitos Humanos de
cada por 187 países, em janeiro de 2012, Teerão, em 1968, tal como na Conferência
embora com muitas reservas, ao passo que Mundial de Viena, em 1993, aquele debate
a Convenção sobre os Direitos da Criança improdutivo foi resolvido, tendo-se concluí-
(CDC) foi ratificada por 193 Partes. do pelo reconhecimento da igual importân-
A base do conceito de direitos humanos cia de ambas as categorias ou dimensões
assenta no conceito da inerente dignidade de direitos humanos. Em Teerão, em 1968,
humana de todos os membros da família estes foram declarados indivisíveis e inter-
humana, consagrado na Carta das Nações dependentes, uma vez que o gozo pleno
Unidas (CNU), na DUDH e nos Pactos de dos direitos económicos, sociais e culturais
1966, que também reconheceram o ideal de é praticamente impossível sem o gozo dos
seres humanos livres no exercício da sua direitos civis e políticos e vice-versa.
liberdade de viver sem medo e sem priva-
ções e enquanto titulares de direitos iguais “Os direitos humanos são a fundação da
e inalienáveis. Em concordância, os direi- liberdade, paz, desenvolvimento e justiça e
tos humanos são universais e inalienáveis, o cerne do trabalho das Nações Unidas em
o que significa que se aplicam em todo o todo o mundo.”
lado e não podem ser retirados à pessoa Ban Ki-moon, Secretário-Geral das Nações Unidas.
humana, ainda que com o seu consenti- 2010.
mento. Tal como defendido na Conferência
Mundial de Viena sobre Direitos Humanos, Nos anos 80, uma categoria adicional de
em 1993, pelo então Secretário-Geral das direitos humanos obteve reconhecimento,
Nações Unidas, Boutros Boutros-Ghali, “os ou seja, o direito à paz e à segurança, o di-
direitos humanos adquirem-se à nascença”. reito ao desenvolvimento e o direito a um
Os direitos humanos também são indivi- ambiente saudável. Estes direitos forne-
síveis e interdependentes. Podem ser dis- cem o quadro necessário ao gozo de todos
tinguidas diferentes categorias ou dimen- os outros direitos. Porém, não há condi-
sões de direitos humanos: direitos civis e cionalidade, no sentido de que uma cate-
políticos, como a liberdade de expressão, goria constitua uma condição prévia para
e direitos económicos, sociais e cultu- a outra. A terceira categoria é designada
rais, como o direito humano à segurança por direitos de solidariedade, uma vez
D. CONCEITO E NATUREZA DOS DIREITOS HUMANOS 55

que implicam cooperação internacional e da América, do Canadá, da Nova Zelândia


aspiram à construção da comunidade. Os e da Austrália que, entretanto, modificaram
direitos humanos devem ser distinguidos as suas posições e agora subscrevem a De-
dos “direitos dos animais” e dos “direitos claração.
da Terra”, propagados por alguns grupos.
Enquanto os direitos humanos são os di- A Organização Internacional do Trabalho
reitos de todas as pessoas, quer detenham (OIT), revendo uma declaração anterior,
ou não a cidadania de um determinado em 1989, adotou a Convenção nº 169 rela-
país, os direitos dos cidadãos são direitos tiva a Povos Indígenas e Tribais em Países
fundamentais que são exclusivamente ga- Independentes. Em 2001, foi nomeado um
rantidos aos nacionais de um determinado Relator Especial da ONU para os direitos
país, como o direito de voto, o direito de humanos e liberdades fundamentais dos
ser eleito ou o direito de acesso a serviços povos indígenas. Seguindo uma recomen-
públicos de um determinado país. dação da Conferência Mundial de Viena
Também é necessário distinguir direitos sobre os Direitos Humanos em 1993, foi
humanos e direitos das minorias que são criado, em 2000, um Fórum Permanente
direitos de membros de um grupo com ca- para os Assuntos Indígenas, como autori-
racterísticas étnicas, religiosas ou linguís- dade subsidiária do ECOSOC, que se reu-
ticas particulares. Individualmente ou em niu, pela primeira vez, em 2002. A Comis-
conjunto com os outros membros do gru- são Africana dos Direitos Humanos e dos
po têm o direito humano de usufruir da Povos também estabeleceu um Grupo de
sua própria cultura, de professar ou prati- Trabalho relativo aos povos indígenas.
car a sua própria religião ou de usar a sua No quadro da UNESCO, a Convenção sobre
própria língua (artº 27º do PIDCP). Po- a Proteção e Promoção da Diversidade das
dem encontrar-se regras mais detalhadas Expressões Culturais, de 2005, e a Conven-
na Declaração da ONU sobre os Direitos ção para a Salvaguarda do Património Cul-
das Minorias, de 1993, e em instrumentos tural Imaterial, de 2003, complementam os
regionais europeus de direitos humanos. direitos humanos e os direitos das minorias,
na preservação da sua identidade cultural.
Direitos das Minorias Os direitos humanos também poderão ser
um instrumento a utilizar pelas pessoas
No respeitante aos direitos humanos dos para a transformação social, ao nível na-
povos indígenas, desde 1982, um Grupo de cional, regional ou universal. Portanto, o
Trabalho da ONU sobre os Povos Indígenas conceito de direitos humanos está intima-
debate formas de promoção e de proteção mente ligado ao conceito de democracia.
dos seus direitos humanos, em particular, a
sua relação com a terra. A Declaração das Direito à Democracia
Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos
Indígenas foi adotada pela Assembleia-Ge- Os requisitos da União Europeia e do Con-
ral, em 2007 (A/RES/61/295). Quando o selho de Europa para a admissão de novos
documento foi apresentado, 143 países Estados-membros apontam nesta direção.
votaram pela sua aprovação, com apenas Contudo, o efeito transformador dos direi-
quatro votos negativos, dos Estados Unidos tos humanos dependerá do conhecimento
56 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

e compreensão que as pessoas têm dos di-


reitos humanos e da sua prontidão para os “A violência terminará apenas quando nós
usar enquanto instrumento de mudança. confrontarmos o preconceito. O estigma e a
O conceito tradicional de direitos huma- discriminação terminarão apenas quando
nos tem sido criticado por feministas, por nós concordarmos em denunciar. Tal re-
não refletir apropriadamente a igualdade quer que todos nós façamos a nossa parte;
entre mulheres e homens e pela falta de de denunciar em casa, no trabalho, nas
sensibilidade relativamente ao género. As nossas escolas e comunidades.”
Conferências Mundiais sobre as Mulheres Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU, 2010.
e a elaboração da CEDM, de 1979, con-
tribuíram, entre outros efeitos, para uma A Declaração e o Programa de Ação da Con-
perspetiva sensível ao género, no que ferência Mundial de Viena reconheceram a
respeita aos direitos humanos das mu- existência de diferentes abordagens quanto
lheres, e que também está refletida na à implementação dos direitos humanos com
Declaração de 1993 da ONU sobre a Vio- base em fatores históricos, religiosos e cultu-
lência Contra as Mulheres, na Convenção rais, mas, ao mesmo tempo, reiteraram a obri-
Interamericana de Belém do Pará, de 1995, gação de todos os Estados de implementar to-
e no Protocolo Adicional sobre os Direitos dos os direitos humanos (ver também o C.).
das Mulheres da Carta Africana sobre Di- Consequentemente, a existência de diferen-
reitos Humanos e dos Povos, de 2003. É ças culturais ou religiosas não pode ser utili-
importante referir que os instrumentos de zada como justificação para a não implemen-
direitos humanos apresentam um novo tação completa das obrigações internacionais
conceito social e político, ao reconhece- de direitos humanos. No entanto, o contexto
rem juridicamente as mulheres enquanto cultural deve ser tido em consideração. O diá-
seres humanos completos e iguais. logo de civilizações, que tem lugar na ONU,
tem precisamente como propósito o reconhe-
cimento do valor das diferentes civilizações,
Direitos Humanos das Mulheres sem se desculpar pelo não cumprimento das
obrigações decorrentes dos direitos humanos.
Alguns Estados invocam as suas particu- Um dos assuntos mais difíceis é a posição das
laridades históricas, religiosas e cultu- mulheres no seio de determinadas culturas,
rais, para argumentar que alguns direitos o que poderá conduzir a graves violações de
humanos não lhes são aplicáveis da mes- direitos humanos que têm de fazer parte de
ma forma que são a outros Estados. qualquer agenda para o diálogo.

E. PADRÕES DE DIREITOS
HUMANOS A NÍVEL UNIVERSAL

A história recente de estabelecimento 10 de dezembro de 1948, no rescaldo da


de padrões a nível global teve o seu iní- Segunda Guerra Mundial, palco das mais
cio com a DUDH, adotada pela AGNU a graves violações de direitos humanos de
E. PADRÕES DE DIREITOS HUMANOS A NÍVEL UNIVERSAL 57

sempre. A prevenção e a punição do ge- lar atenção às necessidades de grupos-alvo


nocídio, tal como foi cometido contra os específicos. No caso da Convenção relativa
Judeus durante o Holocausto, é o tema da às Mulheres, de 1979, o “problema das re-
Convenção para a Prevenção e Repressão servas”, que é um problema generalizado
do Crime de Genocídio, adotada um dia dos Tratados de Direitos Humanos, adqui-
antes da DUDH. riu uma proeminência particular, pois um
De modo a transformar os compromissos número de países tentou restringir alguns
assumidos na DUDH em obrigações juridi- direitos humanos das mulheres, através
camente vinculativas, a Comissão das Na- daquele mecanismo.
ções Unidas para os Direitos Humanos ela-
borou dois Pactos, um sobre direitos civis Resumo das convenções
e políticos (PIDCP) e o outro sobre direitos mais importantes
económicos, sociais e culturais (PIDESC). de direitos humanos da ONU
Devido à Guerra Fria, apenas foram ado-
tados em 1966 e entraram em vigor em - Convenção contra o Genocídio (1948, em
1976. Em janeiro de 2012, o PIDCP tinha janeiro de 2012 com 142 Estados Partes)
167 e o PIDESC 160 Estados Partes, respe- - Pacto Internacional sobre os Direitos
tivamente. O PIDESC foi adotado primei- Económicos, Sociais e Culturais (1966,
ro, indicando a preferência da então nova com 160 Estados Partes)
maioria, na ONU, dos países em desenvol- - Pacto Internacional sobre os Direitos
vimento e dos países socialistas, pelos di- Civis e Políticos (1966, com 165 Esta-
reitos económicos, sociais e culturais. dos Partes)
A DUDH e os dois Pactos são referidos - Convenção para a Prevenção e Puni-
usualmente como a “Carta Internacional ção do Crime de Genocídio (1948, com
dos Direitos Humanos” que também é 48 Estados Partes)
complementada por diversas outras con- - Convenção contra a Tortura e Outras
venções. Penas ou Tratamentos Cruéis, Desu-
Nos anos 60, a luta contra a discrimina- manos ou Degradantes (1984, com
ção racial e contra o Apartheid tomou a 146 Estados Partes)
dianteira, tendo como resultado a adoção - Convenção Internacional sobre a Eli-
de duas Convenções: contra a discrimi- minação de Todas as Formas de Dis-
nação racial e para a supressão do crime criminação Racial (1965, com 173 Es-
de apartheid. Outras Convenções foram tados Partes)
adotadas sobre a eliminação de todas as - Convenção sobre a Eliminação de
formas de discriminação contra as mu- Todas as Formas de Discriminação
lheres, contra a tortura e outras penas ou contra as Mulheres (1979, com 186
tratamentos cruéis, desumanos e degra- Estados Partes)
dantes, sobre os direitos da criança, sobre - Convenção Internacional sobre a
os direitos e dignidade das pessoas com Proteção dos Direitos de Todos os
deficiências e sobre a proteção de todas as Trabalhadores Migrantes e dos Mem-
pessoas contra desaparecimentos força- bros das Suas Famílias (1990, com
dos. Essas Convenções vão mais longe na 45 Estados Partes)
clarificação e especificação de disposições - Convenção sobre os Direitos da Crian-
presentes nos Pactos ou prestam particu- ça (1989, com 193 Estados Partes)
58 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

- Convenção sobre os Direitos das Pes- designados de direitos inderrogáveis.


soas com Deficiência (2006, com 106 As disposições de emergência têm vindo
Estados Partes) a obter maior relevância na luta contra
- Convenção Internacional para a Prote- o terrorismo. Existem disposições se-
ção de Todas as Pessoas contra os De- melhantes na Convenção Europeia dos
saparecimentos Forçados (2006, com Direitos Humanos (artº 15º). O Comité
30 Estados Partes) da ONU para os Direitos Civis e Políticos
veio clarificar as obrigações dos Estados
no seu Comentário Geral (nº29, 2001)
De acordo com o princípio da não dis-
sobre “estados de emergência” (artº 4º)
criminação, os Estados têm de respeitar
e a Comissão Interamericana para os
e de assegurar a todas as pessoas, dentro
Direitos Humanos e o Comité de Minis-
do seu território, o gozo de todos os seus
tros do Conselho da Europa adotaram,
direitos humanos, sem discriminação no respetivamente, um relatório e linhas de
que respeita à raça, cor, sexo, língua, reli- orientação sobre “Terrorismo e Direitos
gião, opinião política ou outra, nacionali- Humanos”.
dade ou origem social, património, nasci- Alguns direitos podem conter as designa-
mento ou outro estatuto (artos 2º do PIDCP das “cláusulas de salvaguarda”, que per-
e do PIDESC). mitem restrições de certos direitos, caso
tal se mostre necessário, por razões de
Não Discriminação segurança pública, de ordem pública, de
saúde pública, de moral ou respeito pe-
los direitos e liberdades dos outros. Tal
Porém, também há a possibilidade do
possibilidade tem lugar, em particular,
uso de exceções e de cláusulas de sal-
no que respeita à liberdade de movimen-
vaguarda. Perante uma emergência pú-
to, à liberdade de sair de qualquer país,
blica, ameaçadora da vida de uma na- incluindo o seu próprio, à liberdade de
ção, um Estado pode derrogar as suas pensamento, de consciência e de religião,
obrigações, no caso de o estado de emer- incluindo a manifestação de uma religião
gência ter sido oficialmente proclamado ou crença, à liberdade de expressão e de
e as medidas deverão manter-se dentro informação, à liberdade de reunião e de
dos limites estritamente necessários na- associação. Estas restrições têm de estar
quela situação. As medidas têm de ser plasmadas numa lei, o que significa que
tomadas de uma forma não discrimina- terá de ser aprovada pelo Parlamento. As
tória (artº 4º, nº1 do PIDCP). Os outros instituições tais como os tribunais, ao in-
Estados Partes têm de ser informados terpretar as respetivas leis, têm a obriga-
através do Secretário-Geral da ONU. Po- ção de controlar o uso inapropriado das
rém, não são permitidas restrições a cer- suas disposições. Consequentemente, já
tos artigos, como é o caso do direito à chegaram vários casos junto do Tribu-
vida, a proibição da tortura e da escravi- nal Europeu dos Direitos Humanos e da
dão, a não retroatividade das leis penais Comissão e Tribunal Interamericanos,
ou o direito à liberdade de pensamento, questionando a aplicação de poderes de
de consciência ou de religião (artº 4º, emergência ou o uso de “cláusulas de sal-
nº2 PIDCP). Estes direitos são, portanto, vaguarda”.
F. IMPLEMENTAÇÃO DOS INSTRUMENTOS UNIVERSAIS DE DIREITOS HUMANOS 59

F. IMPLEMENTAÇÃO
DOS INSTRUMENTOS UNIVERSAIS
DE DIREITOS HUMANOS
Os Estados têm o dever de respeitar, pro- Outro desenvolvimento digno de nota é a
teger e implementar os direitos humanos. crescente ênfase na prevenção das vio-
Em muitos casos, a implementação signi- lações dos direitos humanos, através da
fica que o Estado e as suas autoridades adoção de medidas estruturais, isto é, atra-
têm de respeitar os direitos aceites, isto é, vés da atuação de instituições nacionais de
respeitar o direito à privacidade e o direito direitos humanos ou através da inclusão
de expressão. Isto é particularmente rele- de uma dimensão de direitos humanos nas
vante para os direitos civis e políticos, ao operações de manutenção da paz. O ob-
passo que os direitos económicos, sociais jetivo da prevenção é também uma priori-
e culturais implicam obrigações positivas dade da perspetiva da segurança humana
de implementação, por parte do Estado. relacionada com os direitos humanos (ver
Ou seja, neste último caso, o Estado terá também o B.).
de garantir ou fornecer certos serviços,
tais como a educação e a saúde e assegu- Em primeiro lugar, os direitos humanos
rar certos padrões mínimos. Neste contex- têm de ser implementados ao nível na-
to, é tida em consideração a capacidade de cional. Todavia, poderá haver obstáculos,
cada Estado para o fazer. Por exemplo, o nomeadamente, os relacionados com defi-
artº 13º do PIDESC reconhece o direito de ciências de “boa governação”, tais como a
todos à educação. Porém, especifica que existência de corrupção e ineficiência no
apenas o ensino primário tem de ser gra- âmbito dos poderes executivo ou judicial.
tuito. O ensino secundário e superior tem De forma a assegurar que o Estado está a
de ser disponibilizado e acessível, de uma cumprir com as suas obrigações, foi ins-
maneira geral para todos, mas apenas se tituída a monitorização internacional do
espera que a gratuitidade da educação seja desempenho dos Estados, na maior parte
conseguida progressivamente. O conceito das convenções internacionais de direitos
de realização progressiva de acordo com a humanos. Esta monitorização pode assu-
capacidade do Estado é aplicado a vários mir várias modalidades.
direitos económicos, sociais e culturais. O sistema de apresentação de relatórios
O dever de proteger requer que o Esta- existe em muitas convenções internacio-
do evite a violência e a violação de outros nais. Desta forma, os Estados têm de apre-
direitos humanos, junto da população do sentar relatórios, regularmente, acerca do
seu território. Do mesmo modo, os direitos seu desempenho no que respeita à prote-
humanos também têm uma “dimensão ho- ção dos direitos humanos. Normalmente,
rizontal”, que está a ganhar importância um comité de peritos analisa os relatórios
na era da globalização, ao suscitar a ques- e apresenta recomendações para o forta-
tão da responsabilidade social das empre- lecimento da implementação. O Comité
sas transnacionais. também pode elaborar Comentários Gerais
60 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

quanto à interpretação correta da conven- tem os mecanismos criados pela Carta, que
ção. Em alguns casos, como o do PIDCP, se desenvolveram com base na Carta das Na-
existe um Protocolo facultativo que auto- ções Unidas e que se destinam às violações
riza o Comité dos Direitos Civis e Políticos dos direitos humanos no mundo. Um deles
a receber queixas individuais de pessoas foi o procedimento confidencial 1503, com
sobre alegadas violações dos seus direitos fundamento na Resolução 1503 do ECOSOC
humanos. Porém, tal só é possível para as de 1970, e 2000/3 de 2000, que permite o en-
pessoas que residem num dos 114 Estados vio de petições para o gabinete do Alto Co-
que ratificaram o protocolo facultativo. missário da ONU para os Direitos Humanos,
Protocolos semelhantes introduziram a em Genebra, e que são posteriormente ana-
queixa e, por vezes, também mecanismos lisadas por um grupo de peritos da Sub-Co-
de inquérito, no respeitante a outras con- missão da ONU para a Promoção e Proteção
venções, tais como o Protocolo Facultativo dos Direitos Humanos. Este procedimento,
ao PIDESC, de 2008 (6 Estados Partes2) ou que é especificamente destinado a violações
o Protocolo Opcional à Convenção sobre graves de direitos humanos, encontra-se sob
os Direitos das Pessoas com Deficiência, a responsabilidade do Conselho de Direitos
de 2006 (com 65 Estados Partes). Humanos desde 2006. As queixas sob o pro-
Algumas convenções também incluem o cedimento 1503 devem agora ser tratadas
mecanismo de queixas interestatais, mas através de dois comités (para as comunica-
esta é uma modalidade raramente utiliza- ções e para as situações), antes de chegarem
da. Só existe um procedimento judicial ao Conselho de Direitos Humanos. Durante
no âmbito das Convenções Europeia e o período de trabalho de 1947 a 2006, da Co-
Interamericana de Direitos Humanos, es- missão de Direitos Humanos e da sua Sub-
tando os respetivos Tribunais habilitados Comissão, os procedimentos especiais, isto
a emitir sentenças vinculativas para os Es- é, as atividades dos relatores especiais e dos
tados. Também se estabeleceu um Tribu- representantes da Comissão de Direitos Hu-
nal Africano dos Direitos Humanos e dos manos ou do Secretário-Geral relativamente
Povos, depois de o seu Estatuto (Protocolo aos direitos humanos, têm vindo a adquirir
à Carta Africana dos Direitos Humanos e importância. Há “relatores por país” como,
dos Povos) ter entrado em vigor com su- por exemplo, os relatores especiais e, confor-
cesso, em janeiro de 2004. Em 1 de julho me as circunstâncias, peritos independentes
de 2008, o tribunal foi fundido com o Tri- para situações específicas de direitos huma-
bunal de Justiça Africano, conhecido ago- nos no Sudão, no Haiti e Myanmar e na Re-
ra como o Tribunal Africano de Justiça e pública Democrática do Congo. Há também
Direitos Humanos. “relatores temáticos” como, por exemplo, os
De forma complementar aos mecanismos relatores especiais para a tortura ou para a
contidos nos instrumentos de direitos huma- violência contra as mulheres. O seu man-
nos, tais como as convenções, também exis- dato é normalmente de três anos, sujeito a
extensão.
No todo, existem cerca de 40 procedimen-
2
Nota da versão em língua portuguesa: O Protocolo tos especiais que recolhem informações de
Facultativo ao Pacto Internacional sobre os Direitos acordo com o seu país ou área temática de
Económicos, Sociais e Culturais entrou em vigor no
dia 5 de maio de 2013 tendo, nessa data, 10 Estados atividade, submetendo relatórios anuais.
Partes. Estes procedimentos refletem o ativismo
F. IMPLEMENTAÇÃO DOS INSTRUMENTOS UNIVERSAIS DE DIREITOS HUMANOS 61

crescente da ONU e também funcionam tuída pelo ‘Comité Consultivo para os Di-
como mecanismos de acompanhamento, reitos Humanos’, composto por peritos e
nos casos em que não tenham sido previs- realizando um trabalho substantivo a ser
tos procedimentos de cumprimento ou que adotado pelo CDH. Os procedimentos es-
se demonstre a falta de eficácia na susten- peciais continuam a ser testados. As pri-
tabilidade e na monitorização. Exemplos meiras experiências com o CDH foram de
podem ser encontrados na Declaração dos vária ordem. A intensidade das sessões
Defensores de Direitos Humanos, de 1998, aumentou, porém, os padrões de voto no
ou no caso de alguns direitos económicos Conselho deram a maioria aos países em
e sociais, tais como, os direitos humanos à desenvolvimento, especialmente do mun-
educação, à alimentação, a uma habitação do Islâmico, conduzindo a uma revisão
condigna, à saúde e a políticas de ajusta- das prioridades. Estes países pretenderam
mento estrutural. Existem ainda os “peritos que o Conselho focasse a sua atenção nos
independentes”, por exemplo do direito ao territórios palestinianos ocupados mais do
desenvolvimento e os “grupos de trabalho”, que, por exemplo, no genocídio no Sudão.
como é o caso do grupo de trabalho sobre os Também, os mandatos para os relatores
desaparecimentos forçados e involuntários. por país, de Cuba e da Bielorrússia, não
Em 2006, como parte das reformas das Na- foram renovados. Em 2010/2011, teve lugar
ções Unidas, o Conselho de Direitos Huma- a revisão dos novos procedimentos.
nos da ONU assumiu todos os mandatos, Note-se ainda que o Alto Comissariado da
funções e responsabilidades da Comissão ONU para os Direitos Humanos tem vindo
de Direitos Humanos e desde então respon- a aumentar os seus recursos, para o estabe-
de diretamente perante a Assembleia-Geral lecimento de missões do Alto Comissaria-
das Nações Unidas. O Conselho de Direitos do, em países em que existe uma situação
Humanos (CDH) é suposto levar a eficácia problemática no que diz respeito aos direi-
do sistema de direitos humanos das Na- tos humanos. Estabeleceram-se missões em
ções Unidas a um patamar mais elevado. países como o Afeganistão, a Bósnia-Her-
Para este efeito, aumentou-se o número de zegovina, o Camboja, a Colômbia, a Gua-
sessões para três por ano, assim como se temala, o Haiti, o Kosovo, o Montenegro,
atribuiu ao Conselho de Direitos Humanos a Serra Leoa, etc. Estas missões recolhem
a tarefa de rever a situação de direitos hu- informações e promovem a elevação dos
manos em todos os Estados-membros das padrões de direitos humanos, designada-
Nações Unidas, com base na DUDH e ou- mente, através da assessoria no processo de
tros tratados de direitos humanos ratifica- reforma legislativa ou da participação nos
dos [Revisão Periódica Universal (RPU)]. trabalhos da comunidade internacional.
Até 2011, todos os Estados-membros das As atividades destas instituições especiais
Nações Unidas foram submetidos à RPU têm um propósito de proteção e de promo-
que conclui com diversas recomendações e ção. Elas promovem a sensibilização para
constitui uma inovação relevante. os direitos humanos e a sua inclusão em
O Conselho de Direitos Humanos, através todas as ações, de modo a fundamentar
das suas sessões especiais, pode, rapida- solidamente as soluções adotadas em prin-
mente, responder a problemas graves de cípios de direitos humanos. Na verdade, a
direitos humanos. A Sub-Comissão para a promoção dos direitos humanos implica
Proteção dos Direitos Humanos foi substi- uma tarefa bem mais ampla que não pode-
62 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

rá ser executada apenas pelas instituições (Ombudspersons) ou Comissões Nacionais


e organismos internacionais. A promoção de Direitos Humanos. Com esta finalida-
dos direitos humanos implica, acima de de, foram adotados pela AGNU, em 1993,
tudo, que as pessoas estejam conscientes os “Princípios de Paris” que estabelecem
dos seus direitos, que os conheçam e que vários padrões relativos às competências,
os saibam utilizar da melhor forma. De responsabilidades, garantias de indepen-
modo a atingir este propósito, vários ato- dência e de pluralismo, bem como méto-
res podem ser envolvidos, incluindo uni- dos operacionais. As instituições nacionais
versidades, o setor da educação em geral, podem desempenhar um papel muito im-
mas também Organizações Não Governa- portante, em particular em países que não
mentais (ONG). beneficiem de um sistema regional eficaz
Ao nível nacional, a ONU recomendou, de proteção de direitos humanos, tal como
na Res. AG 48/134 (1993), a criação de na Ásia e nos países Árabes. Estas institui-
instituições nacionais de direitos huma- ções cooperam regionalmente e no âmbito
nos que promovam e protejam os direitos do Conselho de Direitos Humanos, onde
humanos, como os Provedores de Justiça têm um estatuto consultivo.

G. DIREITOS HUMANOS
E A SOCIEDADE CIVIL
O impacto da sociedade civil, representado Helsinki Federation (IHF) influenciam os go-
sobretudo pelas ONG, tem-se revelado cru- vernos e a comunidade internacional através
cial para o desenvolvimento do sistema de da elaboração de relatórios de elevada qua-
direitos humanos. As ONG assentam na li- lidade, fundamentados na investigação dos
berdade de associação, protegida pelo artº factos e na monitorização. Uma outra forma
22º do PIDCP. Na ONU, tornaram-se uma de atuação eficaz das ONG é a elaboração
espécie de “consciência do mundo”. Normal- dos “relatórios-sombra” paralelos aos rela-
mente, prosseguem interesses de proteção tórios oficiais nacionais apresentados junto
específicos, como a liberdade de expressão e dos órgãos internacionais de monitorização.
dos meios de informação (Artº 19º) ou a pre- Algumas ONG, tais como a Avaaz (voz) ou a
venção da tortura e de tratamentos desuma- Change especializaram-se em campanhas de
nos ou degradantes (Associação para a Pre- direitos humanos, meio-ambiente ou desen-
venção da Tortura, APT). As ONG, como a volvimento, etc., utilizando para o seu esco-
Amnistia Internacional, utilizam procedi-
po, com muita eficácia, a internet.
mentos particulares, tais como os “pedidos
urgentes de ação” com o objetivo de pres-
sionar os governos. A estratégia “mobiliza- De acordo com uma resolução da AGNU,
ção da vergonha” pode ser bastante efetiva, em 1998, a Declaração dos Defensores
sobretudo, se contar com o apoio de meios dos Direitos Humanos, as pessoas e
de informação independentes. As ONG, tais as ONG que trabalham ao serviço dos
como a International Crisis Group (ICG), a direitos humanos têm de ter a liberda-
Human Rights Watch, ou a International de necessária para o fazer e têm de ser
G. DIREITOS HUMANOS E A SOCIEDADE CIVIL 63

protegidas contra qualquer tipo de per- ONU, a UNESCO, o Conselho da Europa


seguição. Em alguns Estados, organiza- ou outras instituições intergovernamen-
ções como a Amnistia Internacional ou tais. A nível global, a PDHRE, que deu
os Comités Helsinki têm sido sujeitas início à Década das Nações Unidas para
a críticas e, em alguns casos, mesmo a Educação em matéria de Direitos Huma-
perseguições pelo teor do seu trabalho. nos, também alcançou o Sul, onde pre-
Há inúmeros casos, em todo o mundo, tende a criação de Instituições Regionais
de detenção de ativistas de direitos hu- de Aprendizagem de Direitos Humanos.
manos por estes desenvolverem o seu No campo da formação contra o racismo
trabalho legitimamente. O Estado não e comportamento discriminatório, a Liga
só tem a obrigação de proteger esses ati- Anti Difamação (LAD) está ativa em todo
vistas dos seus próprios representantes, o mundo.
como é o caso da polícia, mas também A ONG Human Rights Education Associa-
de grupos violentos, nomeadamente, es- tes (HREA) organiza cursos de formação
quadrões da morte que assumem o con- através da internet e também disponibili-
trolo da lei, pelas suas próprias mãos. za recursos eletrónicos (www.hrea.org).
O Secretário-Geral da ONU nomeou um A ONG austríaca Centro de Formação e In-
Representante Especial para os Defenso- vestigação em Direitos Humanos e Demo-
res de Direitos Humanos que velará pela cracia (ETC) organiza cursos de formação
implementação da respetiva declaração de formadores no Sudeste da Europa, Ásia
da ONU. Também o Comissário dos Di- e África, com base no Manual de Educa-
reitos Humanos do Conselho da Europa ção para os Direitos Humanos.
e a UE têm o objetivo de os apoiar. As redes de ONG assumiram particular
importância na luta pela igualdade das
mulheres e a sua proteção. A UNIFEM, a
“O título de Defensor dos Direitos Huma- CLADEM ou a WIDE dão realce, nas suas
nos pode ser conseguido por qualquer um agendas, à Educação e Aprendizagem para
de nós. Não é um papel que requeira uma os Direitos Humanos, com o objetivo de
qualificação profissional. Depende apenas fortalecer o poder das mulheres de modo
da preocupação pelo próximo, da compre- a que estas ultrapassem os obstáculos à
ensão de que todos somos titulares de todos igualdade plena e a não discriminação.
os direitos humanos, do compromisso de Em África, as ONG reúnem regularmente
tornar esse ideal uma realidade.” antes da sessão da Comissão Africana de
Navi Pillay, Alta Comissária da ONU para os Direitos Direitos Humanos e dos Povos, assistem
Humanos. à sessão e organizam atividades conjuntas
de formação.

As ONG também desempenham As organizações da sociedade civil aju-


um papel determinante na Educação e dam a amplificar a voz dos não privile-
Aprendizagem para os Direitos Huma- giados, económica e politicamente. Em
nos, através do desenvolvimento de cur- campanhas sobre assuntos específicos
ricula, da organização de ações de forma- relacionados com o comércio justo, a
ção e da produção de materiais didáticos, violência contra as mulheres, os direitos
frequentemente, em cooperação com a humanos e as violações ambientais, refe-
64 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

rindo só alguns, a sociedade civil interna- volver a participação cívica nos pro-
cional tem chamado a atenção do mundo cessos económicos e políticos e para
para as ameaças à segurança humana. assegurar que os compromissos institu-
As ONG podem fortalecer e mobilizar vá- cionais respondem às necessidades das
rias organizações da sociedade civil nos pessoas.
seus países, através de uma educação ba- (Fonte: Comissão sobre a Segurança
seada nos direitos humanos, para desen- Humana. 2003. Segurança Humana Já.)

H. SISTEMAS REGIONAIS
DE PROTEÇÃO E PROMOÇÃO
DE DIREITOS HUMANOS
Além do sistema universal de proteção lho da Europa (em 2012: 47 Estados-mem-
dos direitos humanos, desenvolveram-se bros), o da Organização para a Seguran-
vários sistemas regionais de direitos hu- ça e Cooperação na Europa (em 2012: 56
manos que, habitualmente, conferem um Estados-membros) e o da União Europeia
padrão mais elevado de direitos e da sua (em 2012: 27 Estados-membros, 28 depois
implementação. da adesão esperada da Croácia, em 2013).
A vantagem dos sistemas regionais é a O sistema europeu de direitos humanos é o
sua capacidade de resolver as queixas de sistema regional mais elaborado. Desenvol-
forma mais eficiente. No caso dos tribu- veu-se em reação às violações em massa de
nais, as sentenças são vinculativas e com direitos humanos durante a Segunda Guer-
indemnizações e as recomendações das ra Mundial. Os direitos humanos, o prima-
Comissões de Direitos Humanos são geral- do do Direito e a democracia pluralista são
mente levadas a sério pelos Estados. Po- os pilares do ordenamento jurídico euro-
dem não só resultar em “casos que abrem peu. Os instrumentos principais do Con-
precedentes” na interpretação e clarifica- selho da Europa e da União Europeia são
ção das disposições contidas nos instru- vinculativos para todos os Estados Partes.
mentos de direitos humanos, mas também
na alteração das leis nacionais de modo Instrumentos Europeus de Direitos
a torná-las conformes com as obrigações Humanos
internacionais de direitos humanos. Mais, - Convenção para a Proteção dos Direitos
os sistemas regionais tendem a mostrar Humanos e das Liberdades Fundamen-
uma maior sensibilidade para com preo- tais (1950) e 14 Protocolos Adicionais
cupações culturais e religiosas, caso haja
- Carta Social Europeia (1961), revista
razões válidas para elas.
em 1991 e 1996 e Protocolos Adicio-
nais 1988 e 1995
I. EUROPA
- Convenção Europeia para a Prevenção
O sistema europeu de direitos humanos da Tortura e das Penas ou Tratamentos
tem três dimensões: o sistema do Conse- Desumanos ou Degradantes (1987)
H. SISTEMAS REGIONAIS DE PROTEÇÃO E PROMOÇÃO DE DIREITOS HUMANOS 65

- Ato Final de Helsínquia (1975) e o vado interesse tem vindo a ser depositado
respetivo processo seguinte da CSCE/ na Carta Social Europeia que foi alterada
OSCE com a Carta de Paris para uma duas vezes, em 1988 e em 1995. Atual-
nova Europa (1990) mente, confere também a possibilidade de
queixas coletivas, com base num Protoco-
- Carta Europeia das Línguas Regionais lo Adicional.
ou Minoritárias (1992) Uma significativa inovação surgiu com a
- Convenção Quadro para a Proteção Convenção Europeia para a Prevenção da
das Minorias Nacionais (1994) Tortura e das Penas ou Tratamentos De-
- Carta dos Direitos Fundamentais da sumanos ou Degradantes, de 1987, que
União Europeia (2000) criou o Comité Europeu para a Prevenção
da Tortura e das Penas ou Tratamentos De-
1. O Sistema de Direitos Humanos do sumanos ou Degradantes. O Comité envia
Conselho da Europa delegações a todos os Estados Partes da
Convenção para realizarem visitas regula-
a. Visão geral res ou especiais (Ad-hoc) a prisões, hospi-
O instrumento jurídico principal é a Con- tais psiquiátricos e todos os outros locais
venção Europeia para a Proteção dos de detenção. Assim, a lógica do sistema
Direitos Humanos e das Liberdades Fun- assenta no seu efeito preventivo ao contrá-
damentais (CEDH), de 1950, juntamente rio da proteção ex-post facto ainda da res-
com os seus 14 Protocolos Adicionais. De ponsabilidade da CEDH e do seu Tribunal.
particular importância são os Protocolos Em dezembro de 2002, a AGNU adotou um
nº 6 e nº 13, sobre a abolição da pena Protocolo Facultativo à Convenção da ONU
de morte, que distinguem a perspetiva eu- contra a Tortura que prevê um mecanismo
ropeia de direitos humanos da perspetiva semelhante a operar em todo o mundo.
dos Estados Unidos da América, e os Pro- Este prevê os “Mecanismos de Prevenção
tocolos nº 11 e nº 14, que substituíram a Nacionais” a serem estabelecidos em todos
Comissão Europeia dos Direitos Humanos os Estados Partes e visitas preventivas a se-
e o Tribunal Europeu dos Direitos Huma- rem realizadas pelo Subcomité para a Pre-
nos por um tribunal permanente de Di- venção da Tortura (SPT).
reitos Humanos, o Tribunal Europeu dos
Direitos Humanos (TEDH), e melhoraram
os seus procedimentos. A CEDH contém, Proibição da Tortura
sobretudo, direitos civis e políticos, mas
também o direito à educação. A Convenção Quadro Europeia para a
A Carta Social Europeia, de 1961, foi con- Proteção das Minorias Nacionais (1995)
cebida para adicionar os direitos económi- foi elaborada após a Cimeira do Conse-
cos e sociais, mas nunca atingiu a mesma lho da Europa em Viena, em 1993, como
importância da CEDH. Desde o início que reação aos problemas crescentes com os
sofreu de um sistema de implementação direitos das minorias na Europa. Estes pro-
débil e ineficiente. Contudo, paralelamen- blemas são o resultado da dissolução da
te à crescente atenção conferida aos direi- União Soviética e da República Socialista
tos económicos e sociais, a nível universal, da Jugoslávia e, mais genericamente, dos
desde o final da década de 80, um reno- processos de autodeterminação que ocor-
66 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

reram na Europa, na década de 90. Segun- - Comité Europeu dos Direitos Sociais
do a Convenção, os Estados têm de prote- (revisto 1999)
ger os direitos individuais dos membros de
minorias nacionais, mas também têm de - Comité Europeu para a Prevenção da
proporcionar as condições que permitam Tortura e das Penas ou Tratamentos
às minorias manter e desenvolver a sua Desumanos ou Degradantes (CPT,
cultura e a sua identidade. Contudo, o me- 1989)
canismo de efetivação da lei resume-se a - Comité Consultivo da Convenção Qua-
um sistema de apresentação de relatórios dro para a Proteção das Minorias Na-
e à existência de um Comité Consultivo de cionais (1998)
Peritos encarregado de analisar esses re-
latórios e que também realiza visitas aos - Comissão Europeia contra o Racismo e
países. a Intolerância (CERI, 1993)
A Comissão Europeia contra o Racismo - Comissário Europeu para os Direitos
e a Intolerância (CERI) foi estabelecida Humanos (1999)
na Cimeira da Europa em Viena, em 2003,
- Comité de Ministros do Conselho da
para combater o racismo, a xenofobia, o
Europa
antissemitismo e a intolerância. Para esta
finalidade, a Comissão, junto com os Esta- - Assembleia Parlamentar do Conselho
dos-membros do Conselho da Europa, pre- da Europa
para relatórios periódicos sobre a situação
nesta área. Também apresenta recomenda- Organização para a Segurança e Coope-
ções gerais de política e preocupa-se com ração na Europa (OSCE):
o envolvimento da sociedade civil, na luta
- Escritório para as Instituições De-
contra o racismo e intolerância.
mocráticas e os Direitos Humanos
O Conselho da Europa também estabe-
(ODIHR, 1990)
leceu, em 1999, um Comissário para os
Direitos Humanos que se centra nas la- - Alto Comissariado para as Minorias
cunas da proteção europeia dos direitos Nacionais (1992)
humanos, tal como a situação dos mi- - Representante para a Liberdade dos
grantes, e também realiza visitas aos paí- Meios de Informação (1997)
ses. A Assembleia Parlamentar do Con-
selho da Europa encontra-se ativamente União Europeia (UE):
envolvida nas questões dos direitos hu-
manos, enquanto o Comité de Ministros é - Tribunal de Justiça da União Europeia
o órgão funcional principal na supervisão (TJUE)
de todo o sistema. - Comissário Europeu de Justiça e Direi-
tos Fundamentais
Instituições e Órgãos Europeus de Di-
reitos Humanos - Agência dos Direitos Fundamentais
da União Europeia (2007), estabeleci-
Conselho da Europa (CdE): da a partir do Observatório Europeu
- Tribunal Europeu dos Direitos Huma- do Racismo e da Xenofobia (OERX,
nos (tribunal único em 1998) 1998)
H. SISTEMAS REGIONAIS DE PROTEÇÃO E PROMOÇÃO DE DIREITOS HUMANOS 67

b. O Tribunal Europeu dos Direitos Hu- grande número de queixas recebidas que
manos cresceu de cerca de 1.000, em 1998, para
O principal instrumento de proteção dos 56.000, em 2011, causando assim uma so-
direitos humanos na Europa é o Tribunal brecarga do sistema. Para fazer face a este
Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), problema, foi adotado, em 2004, o Proto-
em Estrasburgo, cuja jurisdição obriga- colo nº14 à CEDH, porém, são necessárias
tória é reconhecida por todos os Esta- medidas adicionais. A adesão prevista da
dos-membros do Conselho da Europa. Em União Europeia à CEDH irá aumentar ain-
cada caso está envolvido um “juiz nacio- da mais o quadro de proteção dos direitos
nal” para facilitar a compreensão do direi- humanos na Europa, mas irá aumentar
to nacional. Contudo, uma vez nomeados, ainda mais o número de processos.
os juízes servem apenas na sua capacida-
de pessoal e o exercício das suas funções 2. O Sistema de Direitos Humanos da Or-
encontra-se limitado a 9 anos. ganização para a Segurança e Coope-
Para que uma queixa seja admissível, ração na Europa (OSCE)
têm de ser preenchidas quatro importantes
condições prévias: A OSCE, que substituiu a Conferência sobre
a Segurança e a Cooperação na Europa em
a. Violação de um direito consagrado na 1994, é uma organização muito peculiar.
Convenção Europeia dos Direitos Hu- Não tem uma carta jurídica nem personali-
manos ou nos seus Protocolos Adicio- dade jurídica internacional e as suas decla-
nais; rações e recomendações têm um carácter
b. O(s) autor(es) da queixa deve(m) ser meramente político e não são vinculativas
a(s) vítima(s) da violação; para os Estados. No entanto, as listas de
c. Esgotamento de todos os mecanismos obrigações frequentemente muito detalha-
de proteção nacionais eficazes; das, adotadas em diversas conferências
d. A queixa deve ser feita num prazo de 6 de acompanhamento ou em encontros de
meses depois de esgotados os mecanis- peritos e monitorizadas pelo Conselho de
mos de recurso nacionais. representantes dos Estados-membros, e as
conferências de acompanhamento regular-
Se considerada admissível, uma secção mente organizadas são um mecanismo de
de 7 juízes decide sobre o mérito do caso. monitorização bem sucedido. O “Processo
A sua decisão será definitiva se se con- de Helsínquia” desempenhou um papel
siderar que a questão não tem particular importante no desenvolvimento da coo-
relevância ou não representa uma nova peração entre o Leste e o Oeste durante a
linha de jurisdição. Caso contrário, verifi- Guerra Fria e na criação de uma base de co-
cando-se uma destas situações, o tribunal operação na Europa alargada de 56 países,
pleno, composto por 17 juízes, poderá in- incluindo os EUA e o Canadá.
tervir com a função de recurso. As senten- Sob o título da “dimensão humana”, a
ças são vinculativas e podem prever a atri- OSCE desenvolve diversas atividades na
buição de uma indemnização por danos. A área dos direitos humanos e dos direitos
supervisão da execução das sentenças é da das minorias, em particular. Também tem
responsabilidade do Comité de Ministros. vindo a desempenhar um papel importan-
O problema principal deste sistema é o te nas várias missões de terreno, como na
68 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

Bósnia e Herzegovina ou no Kosovo. Com 3. A Política de Direitos Humanos da


este propósito, as missões da OSCE têm União Europeia
um departamento de direitos humanos,
cujos funcionários são destacados por todo Enquanto a Comunidade Económica Eu-
o país para monitorizar e relatar sobre a si- ropeia, criada em 1957, de início não se
tuação dos direitos humanos, assim como preocupava com questões políticas como
para os promover e prestar assistência em os direitos humanos, a integração política
casos de proteção. A OSCE também apoia da Europa no sentido da criação da União
instituições nacionais de direitos humanos Europeia, desde os anos 80, permitiu que
em países onde mantém missões, como foi os direitos humanos e a democracia se tor-
o caso dos provedores de justiça na Bósnia nassem conceitos chave da ordem jurídica
e Herzegovina ou no Kosovo. europeia comum. Um papel importante
Foram desenvolvidos mecanismos espe- foi desempenhado pelo Tribunal Europeu
ciais sob a forma de um Alto Comissário de Justiça que desenvolveu uma juris-
para as Minorias e um Representante dição de direitos humanos derivada das
para a Liberdade dos Meios de Informa- tradições constitucionais comuns aos Es-
ção (Direitos das Minorias, Liber- tados-membros e tratados internacionais
dade de Expressão e Liberdade dos Meios dos quais esses Estados-membros eram
de Informação) que têm os seus escritó- partes, nomeadamente, a Convenção Eu-
rios em Haia e em Viena, respetivamente. ropeia dos Direitos Humanos. Muitos di-
O Alto Comissário para as Minorias Na- reitos humanos foram construídos como
cionais constitui um instrumento de pre- princípios gerais de direito comunitário,
venção de conflitos, que tem a responsa- como o direito de propriedade, a liberdade
bilidade de lidar com as tensões étnicas de associação e religião ou o princípio da
na fase mais precoce possível. A OSCE igualdade, que é de particular importância
tem igualmente um papel importante na no direito da União Europeia.
monitorização de eleições democráticas, Desde os anos 80, a Comunidade Europeia
em vários países da Europa em transição também tem desenvolvido uma política de
para democracias pluralistas. O proces- direitos humanos nas suas relações com
so de democratização e a promoção dos países terceiros, o que se reflete igualmen-
direitos humanos são apoiados pelo Es- te nos denominados critérios de Copenha-
critório para as Instituições Democrá- ga para o reconhecimento de novos Esta-
ticas e dos Direitos Humanos (ODIHR, dos do Sudeste Europeu. Os artos 6º e 7º
em língua inglesa), localizado em Var- do Tratado da União Europeia, de 1995,
sóvia. A OSCE desempenha também um referem, explicitamente, a Convenção Eu-
papel relevante na resolução de conflitos ropeia dos Direitos Humanos de 1950. E
e na reconstrução pós-conflito na Euro- de acordo com o tratado reformador da UE
pa. Também está envolvida na promoção (Tratado de Lisboa) que entrou em vigor
da educação para os direitos humanos, em 2009, a UE iniciou negociações para
realizada através de projetos e ligações aceder à CEDH, na qualidade de membro.
com outras organizações regionais ou in- Em 2000, convocou-se uma Convenção
ternacionais, assim como ONG, sob a ex- para redigir a Carta dos Direitos Funda-
pressão “Educação para respeito mútuo e mentais da União Europeia, adotada na
compreensão”. Cimeira de Nice, em 2000. Atualmente,
H. SISTEMAS REGIONAIS DE PROTEÇÃO E PROMOÇÃO DE DIREITOS HUMANOS 69

esta Carta é o documento mais moderno tortura e a pena de morte ou à campanha


de direitos humanos na Europa e inclui, pelo Tribunal Penal Internacional.
num único texto, tanto direitos civis e po- A Agência dos Direitos Fundamentais
líticos, como económicos, sociais e cultu- da União Europeia (ADF) foi criada em
rais, à semelhança da DUDH. Com a en- Viena, em 2007. Baseia-se no trabalho do
trada em vigor do Tratado de Lisboa, em Observatório Europeu do Racismo e da
2009, a Carta de Direitos Fundamentais Xenofobia (OERX), criado anteriormente
passou a ter valor jurídico vinculativo. em Viena, em 1998, para abordar o pro-
Desde 1995, a UE inclui cláusulas de di- blema crescente do racismo e da xenofobia
reitos humanos nos seus acordos bilate- na UE. Desde então, o OERX, apoiado por
rais, como o Acordo de Cotonu, o Acordo ONG, monitorizava a situação na Europa
da Euromed e os Acordos de Estabilidade e apoiava atividades para combater o ra-
e Associação com países do sudeste euro- cismo e a xenofobia. A sua agência suces-
peu. sora, a ADF, também tem a incumbência
A União Europeia desenvolveu uma políti- de monitorizar todos os direitos contidos
ca de direitos humanos para as suas rela- na Carta da União Europeia dos Direitos
ções internas e internacionais, formando Fundamentais, na UE. Tal tem-se realizado
parte da sua Política Externa de Segurança com ênfase em áreas temáticas seleciona-
Comum. O Relatório Anual de Direitos das, mais do que através da redação de re-
Humanos, publicado pelo Serviço Euro- latórios regulares e abrangentes. Para esta
peu para a Ação Externa (SEAE), reflete finalidade, e tendo por base programas
a importância desta política de direitos multianuais, elaboram-se relatórios temá-
humanos para a União Europeia em geral. ticos e estudos com a ajuda de uma rede
O Serviço Europeu para a Ação Externa de pesquisa de pontos focais nacionais de
profere declarações públicas, mas também todos os Estados-membros da UE, denomi-
se encontra ativo nos bastidores, numa nada FRANET. Um comité científico e uma
“diplomacia de direitos humanos” casuís- plataforma da sociedade civil disponibili-
tica e, junto com a União Europeia, rea- zam aconselhamento.
liza “diálogos de direitos humanos” com O Tratado sobre o Funcionamento da
diversos países, como a China e o Irão. O União Europeia, no artº 19º, empodera a
Parlamento Europeu assumiu a liderança União Europeia para combater a discrimi-
no que respeita a manter os direitos hu- nação com base na origem racial ou étnica,
manos como uma prioridade europeia e, na religião ou crença, idade, deficiência ou
desde o início dos anos 90, também pu- orientação sexual. Em 2000, o Conselho
blica relatórios anuais sobre situações de adotou a diretiva 2000/43/EC, sobre a
direitos humanos no mundo e na UE. Por implementação do princípio do tratamen-
sua iniciativa, é disponibilizada ajuda fi- to igual entre as pessoas, independente-
nanceira para projetos de ONG na área dos mente da origem racial ou étnica, particu-
direitos humanos e democracia, por via da larmente no que respeita aos setores do
Iniciativa Europeia para a Democracia e emprego, educação, proteção social, bem
os Direitos Humanos, operacionalizada como o acesso e fornecimento de bens e
pela Europe Aid, em nome da Comissão serviços disponíveis ao público, incluindo
Europeia que define a estratégia política. É a habitação. A diretiva aplica-se tanto ao
dada importância especial à luta contra a setor público como ao privado, dentro da
70 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

UE e, desde então, tem sido complementa- venção Interamericana para Prevenir, Pu-
da por outras diretivas. nir e Erradicar a Violência contra a Mulher
Do mesmo modo, a União Europeia dá par- (Convenção de Belém do Pará), que entrou
ticular importância à igualdade. De acordo em vigor em 1995, merece ser referida de
com o artº 157º do Tratado sobre o Funciona- forma particular. Já foi ratificada por 32 dos
mento da União Europeia, os Estados-mem- 35 Estados-membros da OEA. De acordo
bros têm de aplicar o princípio da “igualdade com esta Convenção, devem ser submetidos
de remuneração entre homens e mulheres” relatórios nacionais regulares à Comissão
e de adotar medidas destinadas a assegurar Interamericana de Mulheres, criada já em
o princípio da igualdade de oportunidades. 1928. Há também um Relator Especial so-
Além disso, este princípio foi desenvolvido bre os Direitos das Mulheres (desde 1994).
por regulamentos e diretivas, como a diretiva
atualizada do tratamento igual 2002/73/EC. Direitos Humanos das Mulheres

Não Discriminação e Direitos Hu-


Sistema Interamericano de Direitos
manos das Mulheres
Humanos
II. AMÉRICAS - Declaração Americana dos Direitos e
Deveres do Homem (1948)
O Sistema Interamericano de Direitos Hu- - Comissão Interamericana dos Direitos
manos começou com a Declaração Ame- Humanos (1959)
ricana dos Direitos e Deveres do Homem, - Convenção Americana sobre Direitos
que foi adotada em 1948, juntamente com Humanos (1969, em vigor 1978, 24
a Carta da Organização dos Estados Ame- Estados Partes)
ricanos (OEA). A Comissão Interamerica- - Protocolo Adicional em Matéria de Di-
na de Direitos Humanos criada pela OEA, reitos Económicos, Sociais e Culturais
em 1959, e constituída por 7 membros é o (1988, 16 Estados Partes)
órgão mais importante do sistema. - Protocolo Adicional referente à Aboli-
Em 1978, a Convenção Americana sobre ção da Pena de Morte (1990, 12 Esta-
Direitos Humanos, adotada em 1969, en- dos Partes)
trou em vigor e, desde então, foi comple- - Tribunal Interamericano dos Direitos
mentada por dois protocolos adicionais, Humanos (1979, em vigor 1984)
um sobre direitos económicos, sociais e cul- - Comissão Interamericana de Mulheres
turais e outro sobre a abolição da pena de (1928)
morte. Os Estados Unidos não são parte da - Convenção Interamericana para Preve-
Convenção, apesar de a Comissão ter a sua nir, Punir e Erradicar a Violência con-
sede em Washington. A Convenção também tra a Mulher (1994, 32 Estados Partes)
contemplou a criação de um Tribunal Inte- - Convenção Interamericana para a Elimi-
ramericano de Direitos Humanos, que foi nação de Todas as Formas de Discrimi-
criado em 1979, com sede na Costa Rica, nação contra as Pessoas Portadoras de
onde também está localizado o Instituto In- Deficiência (1999, 19 Estados Partes)
teramericano de Direitos Humanos.
Existem vários instrumentos jurídicos que As pessoas individualmente, grupos ou
conferem direitos às mulheres, mas a Con- ONG podem apresentar queixas, designa-
H. SISTEMAS REGIONAIS DE PROTEÇÃO E PROMOÇÃO DE DIREITOS HUMANOS 71

das “petições” à Comissão Interamericana O seu preâmbulo faz referência aos valores
dos Direitos Humanos, que pode também da civilização africana que tem como obje-
pedir informação sobre medidas de direi- tivo inspirar o conceito africano dos direi-
tos humanos tomadas. Ao Tribunal Intera- tos humanos e dos povos. Além dos direi-
mericano não se pode aceder diretamente, tos individuais, consagra também direitos
só através da Comissão que pode decidir dos povos. Enuncia, ainda, os deveres dos
sobre que casos deverão ser transmitidos indivíduos, por exemplo, relativamente
ao Tribunal. Deste modo, no passado, o à família e à sociedade mas, na prática,
Tribunal não recebia muitos casos, o que aqueles deveres são pouco relevantes.
mudou desde então. O Tribunal pode tam-
bém emitir pareceres, nomeadamente, Sistema Africano de Direitos Humanos
sobre a interpretação da Convenção. Tal
como a Comissão, o Tribunal tem sete - Carta Africana dos Direitos Humanos
membros, e não tem carácter permanente. e dos Povos (1981, em vigor 1986, 53
A Comissão pode igualmente levar a cabo Estados Partes)
investigações no terreno e publica relató- - Comissão Africana dos Direitos Huma-
rios especiais sobre situações específicas nos e dos Povos (1987)
preocupantes. Há muitas ONG que ajudam - Protocolo sobre o Estabelecimento do
as vítimas de violações de direitos humanos Tribunal Africano dos Direitos Huma-
a levar casos à Comissão Interamericana de nos e dos Povos (1997, em vigor 2003,
Direitos Humanos e ao Tribunal. Também 24 Estados Partes)
existem procedimentos especiais como os - Protocolo sobre os Direitos das Mulhe-
Relatores Especiais sobre a liberdade de ex- res (2003, em vigor 2005, 28 Estados
pressão, sobre os direitos dos trabalhadores Partes)
migrantes, sobre os direitos das mulheres e - Carta Africana dos Direitos e do Bem-
sobre os direitos da criança. Estar da Criança (1990, em vigor 1999,
45 Estados Partes)
III. ÁFRICA - Tribunal Africano de Justiça e Direitos
Humanos (2008)
O sistema africano de direitos humanos foi
criado em 1981 com a adoção, pela então A Comissão Africana dos Direitos Huma-
Organização da União Africana (OUA), da nos e dos Povos tem um mandato amplo
Carta Africana dos Direitos Humanos e na área da promoção dos direitos humanos,
dos Povos, que entrou em vigor em 1986. mas pode também receber queixas de Es-
A Carta estabelece a Comissão Africana tados (o que nunca aconteceu até à data)
dos Direitos Humanos e dos Povos, for- e de indivíduos ou grupos. Os critérios de
mada por 11 membros, que tem sede em admissibilidade são amplos e também per-
Banjul, na Gâmbia. Atualmente, todos mitem comunicações de ONG ou indiví-
os 54 Estados-membros da União Africa- duos, em nome das vítimas das violações.
na (UA), que sucedeu à OUA em 2001, No entanto, a Comissão não pode emitir
ratificaram a Carta Africana que segue a decisões juridicamente vinculativas, uma
abordagem da Declaração Universal dos das razões que justificou a adoção de um
Direitos Humanos unindo todas as catego- protocolo adicional à Carta sobre o estabe-
rias de direitos humanos num documento. lecimento do Tribunal Africano dos Direitos
72 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

Humanos e dos Povos, que entrou em vigor África e de outros locais que podem parti-
em 2003. No entanto, em 2004, a Assem- cipar nas reuniões públicas da Comissão.
bleia dos Chefes de Estado e de Governo Frequentemente, levam-lhe casos de vio-
decidiu fundir o Tribunal com o Tribunal da lações e apoiam o trabalho da Comissão e
União Africana, o que veio a acontecer em dos seus relatores especiais. É também im-
2008, tornando-se no Tribunal Africano de portante que os governos façam com que
Justiça e Direitos Humanos. O Tribunal a Carta seja diretamente aplicável nos seus
encontra-se em Arusha, na Tanzânia, e teve sistemas jurídicos nacionais. Isto aconte-
a sua primeira reunião em 2006. Em 2009, ceu, por exemplo, na Nigéria, tendo tido
o Tribunal proferiu a sua primeira decisão. como resultado o facto de as ONG nigeria-
Pode receber queixas através da Comissão, nas, como a Constitutional Rights Project,
tal como no sistema interamericano. Os terem levado com sucesso aos tribunais ni-
indivíduos apenas podem recorrer direta- gerianos casos de violações da Carta.
mente ao Tribunal se os Estados proferirem Depois da adoção da Convenção da ONU
uma declaração direta a esse respeito, o sobre os Direitos da Criança, em 1989, foi
que constitui até agora a exceção. adotada, em 1990, uma Carta Africana dos
Uma monitorização regular da situação Direitos e do Bem-Estar da Criança. No
nacional relativa aos direitos humanos entanto, apenas entrou em vigor em 1999 e,
é feita pela Comissão, através do exame até 2011, foi ratificada por 45 Estados-mem-
de relatórios estatais. No entanto, estes bros da UA. O Comité Africano de Peritos
relatórios são frequentemente irregulares sobre Direitos e Bem-estar da Criança reú-
e insatisfatórios. Baseando-se na prática ne-se pelo menos uma vez ao ano.
da ONU, a Comissão nomeou Relatores
Especiais sobre execuções extrajudiciais, IV. OUTRAS REGIÕES
sumárias e arbitrárias, sobre prisões e
condições de detenção, sobre liberdade de Relativamente aos países islâmicos, deve-
expressão, sobre os direitos dos arguidos, rá ser mencionada a “Declaração do Cai-
sobre refugiados, requerentes de asilo, mi- ro sobre Direitos Humanos no Islão”, de
grantes e deslocados internos e sobre os 1990, que foi redigida pelos Ministros dos
direitos das mulheres. Negócios Estrangeiros da Organização da
Na Cimeira de Maputo, Moçambique, a Conferência Islâmica (OCI)3, mas nunca
UA adotou um Protocolo Adicional à Carta adotada oficialmente. Todos os direitos
sobre os Direitos das Mulheres em África, consagrados nesta Declaração estão sujei-
em 2003. O Protocolo de Maputo entrou tos à Sharia Islâmica, o que é questionável
em vigor em 2005 e, em julho de 2010, fora em termos do direito internacional.
ratificado por 28 países. Além disso, foi elaborada uma Carta Árabe
A Comissão também envia missões de in- dos Direitos Humanos por peritos de direi-
vestigação e de divulgação, organiza ses- tos humanos árabes e adotada pelo Conse-
sões extraordinárias em casos específicos, lho da Liga dos Estados Árabes, em 1994,
como depois da execução de nove mem- mas que nunca entrou em vigor devido à fal-
bros do Movimento para a Sobrevivência
do Povo Ogoni, em 1995, e o seu julgamen-
to injusto na Nigéria. Uma parte importan- 3
Em junho de 2011, a OCI passou a designar-se Or-
te da força da Comissão vem das ONG de ganização da Cooperação Islâmica.
I. JURISDIÇÃO UNIVERSAL E O PROBLEMA DA IMPUNIDADE 73

ta de ratificações. Adotou-se, em 2004, uma reitos Humanos da ASEAN.


nova versão que entrou em vigor, em 2008,
após 7 ratificações. Também se estabeleceu Ao nível da sociedade civil, por ocasião do
um Comité Árabe de Direitos Humanos que, 50º aniversário da DUDH em 1998, mais
porém, não pode receber quaisquer queixas, de 200 ONG asiáticas, sob a liderança do
mas apenas relatórios estatais. Asian Legal Resources Centre em Hong
Na Ásia, apesar de diversas tentativas, tal Kong, elaboraram uma Carta Asiática de
como a Convenção sobre Acordos Regionais Direitos Humanos como uma Carta dos
para a Promoção do Bem-estar da Criança, Povos. Há também uma Reunião asiática-
estabelecida em 2002, pela Associação Sul- europeia (Asia-Europe Meeting - ASEM)
Asiática para a Cooperação Regional (SAARC, anual sobre Direitos Humanos, entre a UE
sigla em língua inglesa), ainda não foi possí- e, atualmente, 19 Estados asiáticos, incluin-
vel adotar um instrumento regional de Direi- do a China. Um diálogo semelhante existe
tos Humanos ou estabelecer uma Comissão entre a União Europeia e a China.
Asiática de Direitos Humanos, sobretudo, Enquanto acordo inter-regional, o Acordo
devido à diversidade na região. No entanto, de Parceria de Cotonu entre 79 Estados de
há esforços em áreas de integração regional África, das Caraíbas e do Pacífico (ACP)
como a ASEAN, que conduziram a uma nova e os 27 Estados-membros da União Euro-
Carta da Associação das Nações do Sudeste peia de 2000, no artº 9º, nº2, reitera que o
Asiático, em 2007. Também o artº 14º desta “respeito pelos direitos humanos, os princí-
Carta prevê um órgão de direitos humanos pios democráticos e o Estado de Direito […]
da ASEAN, isto é, a Comissão Intergoverna- constituem os elementos essenciais do pre-
mental sobre Direitos Humanos, que consis- sente Acordo.” No caso de violações graves
te em representantes dos Estados-membros, de direitos humanos, se as consultas ini-
com um mandato, sobretudo, promocional e ciadas na sequência dessas violações fo-
consultivo. Uma das suas incumbências é o rem infrutíferas, partes do Acordo podem
desenvolvimento de uma Declaração de Di- ser suspensas.

I. JURISDIÇÃO UNIVERSAL
E O PROBLEMA DA IMPUNIDADE
A luta contra a impunidade e pela pres- convencer governantes antidemocráticos,
tação de contas tornou-se uma preocupa- normalmente generais, a transmitirem o
ção geral e global. Uma das considerações poder a governos eleitos democraticamen-
principais é a prevenção de mais crimes, te. Não deve ser confundida com as “am-
que normalmente constituem violações nistias” dadas relativamente a ofensas me-
sérias de direitos humanos e de direito hu- nores depois de guerras ou mudanças de
manitário. regime. A impunidade viola o princípio da
A garantia de impunidade a grandes prestação de contas, que cada vez mais é
violadores de direitos humanos tem sido realizado aos níveis nacional e internacio-
prática comum por todo o mundo, para nal, por exemplo, com o estabelecimento
74 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

de tribunais penais internacionais espe- pediu-se a responsabilização pela repres-


ciais e generalistas. são violenta dos protestos. No Egito, o
Para prevenir violações de direitos huma- anterior presidente Mubarak foi levado a
nos, algumas convenções internacionais, julgamento.
como a Convenção das Nações Unidas Outras formas de assegurar a prestação
contra a Tortura de 1984 prevê uma obri- de contas, sem necessariamente punir os
gação de jurisdição universal para os per- perpetradores, são as Comissões de Recon-
petradores de crimes. No caso do General ciliação e de Verdade que foram estabele-
Augusto Pinochet, o antigo ditador chile- cidas na África do Sul e em outros países
no, um juiz espanhol, em 1998, requereu como forma de justiça não retributiva. Es-
a sua extradição do Reino Unido que, por tas Comissões dão às vítimas a oportuni-
decisão notável da Câmara dos Lordes foi dade de, pelo menos, saberem a verdade e
finalmente concedida, mas não implemen- à sociedade de aprender com o passado. A
tada devido à sua frágil condição de saúde. este respeito, o Conselho de Direitos Hu-
O princípio da jurisdição universal é apli- manos da ONU conceptualizou o “direito
cado pelo Tribunal Penal Internacional à verdade”.
(TPI) e ao nível nacional. Tal significa que
um indivíduo acusado da prática de tortu- No caso da Argentina, a Comissão Inte-
ra deve ser presente a tribunal ou deve ser ramericana dos Direitos Humanos con-
entregue para julgamento, em outro local. siderou que as leis de amnistia, conce-
Charles Taylor, o antigo chefe de estado da dendo impunidade, violaram os direitos
Serra Leoa foi inicialmente autorizado a de proteção judicial e de um julgamento
partir para a Nigéria, mas, em março de justo. Tem existido uma campanha in-
2006, voltou para ser presente à justiça. ternacional contra a impunidade, na
Ele está a ser julgado pelo Tribunal Espe- qual as ONG locais tiveram um papel
cial para a Serra Leoa, que tem sessões ex- decisivo. Finalmente, em 1998, as leis
traordinárias em Haia. de amnistia foram revogadas.
No caso da “primavera Árabe”, em 2011,

J. JURISDIÇÃO PENAL INTERNACIONAL


Nos termos do estatuto do Tribunal Penal vatura sexual, gravidez forçada
ç ou outras
Internacional (TPI), adotado em Roma, formas de violência sexual (Direitos
em 1998, e que entrou em vigor em 2002, Humanos das Mulheres), desaparecimen-
o TPI foi estabelecido em Haia como um to forçado de pessoas ou outros atos de-
tribunal permanente. A sua jurisdição sumanos que causem grande sofrimento,
engloba os crimes de genocídio, crimes como ferimentos graves que afetem a saú-
contra a humanidade “cometidos no qua- de mental ou física, crimes de guerra e o
dro de um ataque, generalizado ou siste- crime de agressão, na definição finalmente
mático, contra qualquer população civil”, conseguida numa conferência em Nairobi,
incluindo casos de violação sexual, escra- em 2010.
K. INICIATIVAS DE DIREITOS HUMANOS NAS CIDADES 75

O Tribunal Penal Internacional para a Tal como o Tribunal Penal Internacional


Antiga Jugoslávia (TPIAJ) foi estabeleci- para a Antiga Jugoslávia e o Tribunal Penal
do pelo Conselho de Segurança, em 1993, Internacional para o Ruanda, a jurisdição
em Haia, como um tribunal ad hoc para li- do TPI é complementar relativamente às
dar com as violações em massa de direitos jurisdições nacionais. Só se um Estado
humanos e de direito humanitário, no ter- não estiver disposto ou não for capaz de
ritório da antiga Jugoslávia. Deste modo, julgar os perpetradores é que o TPI pode
as suas competências incluem violações considerar o caso. Porém, o Conselho de
graves da Convenção de Genebra de 1949 Segurança das Nações Unidas pode tam-
relativa à proteção das vítimas de confli- bém apresentar casos, tal como aconteceu
tos armados, crimes contra a humanida- no caso de Kadhafi, em 2011. Todos os tri-
de, como homicídio, tortura, violações e bunais se baseiam no princípio da respon-
outros atos desumanos cometidos durante sabilidade individual, independentemente
o conflito armado, assim como genocídio. da função oficial do acusado.
Depois dos julgamentos de Karadzic e
Mladic, será sujeito a uma supressão pro-
gressiva. Como consequência do genocídio O semi-internacional Tribunal Especial
no Ruanda, em 1994, foi estabelecido em para a Serra Leoa, a funcionar desde
Arusha, na Tanzânia, o Tribunal Penal In- 2002, investiga homicídios, violações,
ternacional para o Ruanda (TPIR), tam- escravidão sexual, extermínio, atos de
bém temporário. No caso do Camboja, a terror, escravatura, pilhagens e incên-
implementação do acordo entre as Nações dios. Pretende julgar só os indivíduos
Unidas e o governo do Camboja relativo que sejam os maiores responsáveis pelo
ao Tribunal para os Crimes de Guerra do sofrimento do povo da Serra Leoa. Coo-
Camboja de 2003 foi protelada. O Tribunal perou com a Comissão de Verdade e Re-
realizou a sua primeira audiência apenas conciliação que, entretanto, terminou o
em 2008, existindo ainda problemas com seu trabalho.
o seu funcionamento.

K. INICIATIVAS DE DIREITOS
HUMANOS NAS CIDADES

Os programas de reforço dos direitos hu- desenvolvimento da sociedade – diversas


manos ao nível municipal são uma nova cidades, como Rosario (Argentina), Bongo
abordagem ao uso da moldura dos direitos (Gana), Korogocho (Quénia), Kati (Mali),
humanos como guia para o desenvolvi- Dinapur (Bangladesh), Bucuy (Filipinas),
mento social e económico. Por iniciativa Porto Alegre (Brasil), Graz (Áustria), Ed-
do PDHRE - ao usar a educação para os monton (Canadá) e Gwangju (Coreia do
direitos humanos como estratégia para o Sul) declararam-se “cidades de direitos
76 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

humanos” ou “comunidades de direitos A estratégia de promover os direitos hu-


humanos”. No Fórum Mundial das Cida- manos nas comunidades, começando ao
des dos Direitos Humanos, em 2011, ado- nível local, tem a vantagem de poder
tou-se a Declaração de Gwangju sobre a considerar os problemas de direitos hu-
Cidade dos Direitos Humanos. manos na vida diária. O método sugeri-
Outra iniciativa foi conduzida pela cidade do pelo PDHRE e aplicado com sucesso
de Barcelona, onde, em cooperação com na prática é começar por fazer um inven-
a cidade de Saint Denis, foi elaborada, tário e identificar as aplicações dos direi-
em 1998, uma Carta Europeia de Garantia tos humanos e suas violações na cidade,
dos Direitos Humanos na Cidade que, em o que leva à elaboração de uma estra-
2011, tinha sido assinada por mais de 350 tégia traduzida num programa de ação.
cidades, principalmente na Europa me- Neste processo, os habitantes analisam
diterrânica. A Carta contém obrigações as leis e políticas sobre o uso dos recur-
políticas baseadas nos direitos humanos sos na cidade. Desenvolvem planos para
internacionais, por exemplo, no que res- reforçar a realização dos direitos huma-
peita aos direitos dos migrantes e reco- nos e ultrapassar os problemas de direi-
menda o estabelecimento de instituições tos humanos na sua cidade. Juntamente
e procedimentos locais para a proteção com as autoridades, comprometem-se a
dos direitos humanos, como o provedor fazer com que todas as decisões, políti-
de justiça, conselhos de direitos humanos cas ou estratégias, sejam guiadas pelos
ou um balanço de direitos humanos. Em direitos humanos.
reuniões regulares, como as de Veneza Com este propósito, aspira-se a uma abor-
(2002) ou Lyon (2006), são partilhadas dagem holística aos direitos humanos, o
experiências relativas a boas práticas, pe- que significa que todos os direitos huma-
las cidades e comunidades signatárias. A nos, civis e políticos, económicos, sociais
cidade de Tuzla foi anfitriã da 7ª Confe- e culturais, incluindo uma perspetiva de
rência da Carta Europeia para Salvaguar- género, são considerados como um todo.
da dos Direitos Humanos na Cidade, em De modo a sensibilizar as pessoas para os
outubro de 2010. seus direitos humanos, são extremamente
A Coligação Internacional de Cidades importantes as atividades de aprendiza-
contra o Racismo, iniciada pela UNESCO, gem e formação, incluindo programas de
aborda problemas de racismo e xenofobia formação de formadores para professores,
nas cidades, assistindo-as a tomar em con- administradores, polícia, profissionais da
sideração a diversidade cultural crescente saúde e sociais, líderes de associações lo-
dos seus habitantes. A Coligação traba- cais e ONG. Um sistema de monitorização,
lha principalmente ao nível regional, por liderado por um Comité de Direção que
exemplo, através da Coligação Europeia inclui todos os setores da sociedade, su-
de Cidades contra o Racismo iniciada em pervisiona o processo a longo prazo (ver:
2004 ou a Coligação Asiática. Muitas ci- www.pdhre.org).
dades têm também Comissões de Direitos Foi iniciada pelo PDHRE uma Campanha
Humanos e provedores de justiça ou ou- Global para as Cidades de Direitos Hu-
tras instituições, que trabalham no sentido manos, com o apoio do PNUD que está
da prevenção e reparação de violações de igualmente envolvido em projetos locais.
direitos humanos. As experiências das Cidades de Direitos
H. SISTEMAS REGIONAIS DE PROTEÇÃO E PROMOÇÃO DE DIREITOS HUMANOS 77

Humanos foram apresentadas à Confe- Exemplo de Cidade


rência UN-HABITAT na China, em 2008, de Direitos Humanos
através de uma publicação do PDHRE e de Graz, Áustria
de um filme austríaco a mostrar quatro 2001: decisão unânime da Câmara Mu-
cidades de direitos humanos de diferen- nicipal de Graz e cerimónia for-
tes regiões (ver: www.menschenrechtss- mal de inauguração na Universi-
tadt.at). dade de Graz com a presença de
Shulamith Koenig
Exemplo de Cidade 2002: apresentação do inventário e do
de Direitos Humanos projeto do programa de ação ela-
de Rosario, Argentina borado com a ajuda de mais de
1997: 35 instituições assinam um com- 100 indivíduos e organizações na
promisso, na Câmara Municipal, Câmara Municipal de Graz
na presença do presidente da 2006: junção à Coligação Europeia das
câmara e de Shulamith Koenig Cidades contra o Racismo
(PDHRE) 2007: estabelecimento do Conselho Con-
Desde então: constituição de um comité sultivo para os Direitos Humanos
executivo de ONG e instituições da Cidade de Graz
governamentais; coordenação 2007/2008: monitorização dos direitos hu-
através do Instituto do Género, manos nas eleições para a Câmara
Lei e Desenvolvimento (INSGE- Municipal, pelo Conselho Consulti-
NAR); Programas de Aprendiza- vo para os Direitos Humanos
gem e Formação em Direitos Hu- 2007: primeira entrega do Prémio de Di-
manos para a polícia, forças de reitos Humanos da Cidade de Graz
segurança, professores, futuros 2008: apresentação do primeiro Rela-
professores, etc.; sensibilização tório Anual sobre a situação dos
através de seminários, produções direitos humanos em Graz
cinematográficas, por exemplo, 2012: estabelecimento de um Gabinete
referentes à situação das mulhe- contra a Discriminação
res no Rosário, ambiente competi-
tivo, publicações, etc.; integração O processo é coordenado pelo Centro Eu-
de aborígenes (Quom) ropeu de Formação e Investigação em Di-
2005: apoio ao desenvolvimento da ci- reitos Humanos e Democracia (ETC) em
dade de direitos humanos de Por- Graz, que também oferece vários progra-
to Alegre, no Brasil. mas de educação e formação para os direi-
tos humanos.
78 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

L. DESAFIOS E OPORTUNIDADES
GLOBAIS PARA
OS DIREITOS HUMANOS
Depois de várias décadas bem sucedidas das Nações Unidas sobre os Direitos das
de estabelecimento de padrões, o desafio Pessoas com Deficiência e o seu Protoco-
maior para os direitos humanos tornou- lo Opcional. A evolução também pode ser
se a implementação dos compromissos vista no trabalho em curso no âmbito de
assumidos. Estão a ser desenvolvidos áreas temáticas, tais como a diversidade
diversos métodos novos para reforçar a cultural, as questões de direitos humanos
implementação dos direitos humanos, relacionadas com a biotecnologia e enge-
tanto ao nível local e nacional, como nharia genética ou o comércio de órgãos
internacional. Entre estes, uma atitu- humanos. Tem de se prestar mais atenção
de mais dinâmica das Nações Unidas, aos direitos humanos dos migrantes (irre-
nomeadamente, a inclusão dos direitos gulares). Do mesmo modo, as implicações
humanos em todas as suas atividades e que a degradação ambiental, por exemplo,
uma presença mais sólida no terreno por a alteração climática tem sobre os direitos
parte do Alto Comissariado para os Direi- humanos, bem como as tecnologias de
tos Humanos, com funcionários de direi- informação, de comunicação e a internet
tos humanos em missões internacionais colocam novos desafios.
(de paz), institucionalizando, assim, as Ao mesmo tempo, os direitos humanos
preocupações dos direitos humanos, o existentes podem tornar-se mais visíveis,
que se espera venha a ter um importante dando ênfase a direitos essenciais, como
efeito preventivo e promocional. A longo demonstrado nos 6 mais importantes tra-
prazo, também poderão ter êxito propos- tados de direitos humanos das Nações
tas para um Tribunal Internacional de Unidas, ou nas 8 convenções principais
Direitos Humanos. do trabalho da OIT. Novos desafios vêm
O respeito pelos direitos humanos é tam- de alguns países do Sul que questionam
bém reforçado aos níveis local e nacional, o próprio conceito de universalidade dos
através da capacitação em matéria de di- direitos humanos e da democracia. Novos
reitos humanos de instituições locais, por desafios podem também ser vistos na ne-
exemplo, cidades de direitos humanos e cessidade de se dar maior atenção às liga-
a criação de instituições nacionais para ções entre os direitos humanos e o direito
a promoção e monitorização de direitos humanitário, como os “padrões funda-
humanos, nas quais as organizações não mentais da humanidade”. O mesmo vale
governamentais, enquanto representan- para a relação entre os direitos humanos
tes da sociedade civil, desempenham um e o direito dos refugiados, que existe tan-
importante papel. Há, ainda, necessidade to ao nível da prevenção dos problemas de
de estabelecimento de parâmetros em vá- refugiados, como ao nível do regresso dos
rias áreas preocupantes, como aconteceu, refugiados. Em ambos os casos, a situação
em 2006, com a adoção da Convenção de direitos humanos no país de origem é
L. DESAFIOS E OPORTUNIDADES GLOBAIS PARA OS DIREITOS HUMANOS 79

decisiva. Esta questão levanta uma outra 2011, um Grupo de Trabalho de 5 peritos
mais ampla relativa aos direitos humanos tem trabalhado sobre a implementação
e prevenção de conflitos, assim como a destes resultados.
questão da reabilitação e reconstrução Sob proposta do Secretário-Geral da ONU,
pós-conflito, que deve ser feita com base Kofi Annan, lançou-se o Global Compact,
nos direitos humanos e no primado do Di- em julho de 2000, como uma abordagem
reito. nova e inovadora no processo de globali-
zação. As empresas participantes aceitam
Direitos Humanos em Conflito dez princípios básicos na área dos direitos
Armado, Direito ao Asilo, Prima- humanos, padrões de trabalho, ambiente
do do Direito e Julgamento Justo, e anticorrupção, e participam num diálogo
Direito à Democracia orientado para os resultados sobre proble-
mas globais, por exemplo, o papel dos ne-
Em resultado da globalização, a res- gócios em zonas de conflito.
ponsabilização por violações de direi-
tos humanos e o respeito pelos direitos Direito ao Trabalho
humanos tornaram-se uma preocupação
global, que é exigida não só de indivídu- Um dos principais desafios é manter os
os, como também de atores não estatais, padrões de direitos humanos enquanto se
como empresas transnacionais (ET) e or- combatem novas ameaças terroristas. Nin-
ganizações intergovernamentais, como o guém pode ser deixado à margem da lei,
Banco Mundial, o FMI ou a OMC. Neste nem ser despojado dos seus direitos hu-
sentido, a questão da compensação de- manos inalienáveis sendo que, ao mesmo
pois de violações graves e sistemáticas tempo, a proteção dos direitos das vítimas
de direitos humanos tornou-se atual. As- de atos criminosos ou terroristas tem de
sim, em 2003, a Subcomissão da ONU ser aperfeiçoada. O Conselho da Europa
para a Proteção e Promoção dos Direitos adotou as “Orientações sobre Direitos Hu-
Humanos preparou as “Normas sobre a manos e o Combate ao Terrorismo”, assim
Responsabilidade de Empresas Transna- como linhas orientadoras sobre a “Prote-
cionais e Outras Empresas respeitantes a ção de Vítimas de Atos Terroristas” para
Direitos Humanos” que, porém, não fo- fazer face a estes novos desafios. O Se-
ram adotadas pela Comissão de Direitos cretário-Geral da ONU e o Alto Comissa-
Humanos. riado da ONU para os Direitos Humanos
Em 2005, o Secretário-Geral da ONU no- deixaram claro que a proteção dos direitos
meou John Ruggie como seu Represen- humanos deve fazer parte da luta contra
tante Especial para a questão dos direitos o terrorismo. O Tribunal de Justiça da UE,
humanos e as empresas transnacionais nos casos de Kadi (2008 e 2010), consi-
e outras empresas, para considerar a re- derou que as medidas antiterroristas do
lação entre os negócios e os direitos hu- Conselho de Segurança da ONU também
manos. Em 2011, Ruggie terminou o seu têm de respeitar as garantias dos direitos
relatório final, que contém um “Quadro humanos, tais como o direito a um julga-
para Proteger, Respeitar e Solucionar” e mento justo, incluindo o direito de acesso
um conjunto de “Princípios Orientadores às provas e um mecanismo de proteção.
para negócios e direitos humanos”. Desde O primeiro acórdão conduziu à introdução
80 I. INTRODUÇÃO AO SISTEMA DE DIREITOS HUMANOS

de novos procedimentos, por exemplo,


de um provedor pelo Conselho de Segu- “Peço às minhas irmãs e aos meus irmãos
rança, entretanto considerado insuficiente que não tenham medo. Não temam denun-
numa decisão de 2010. Esta última deci- ciar a injustiça, embora possam estar em
são foi, porém, alvo de recurso pelos Esta- desvantagem. Não temam procurar a paz
dos-membros da UE, por receio de entrar mesmo que a vossa voz se ouça menos.
em conflito com o Conselho de Segurança. Não temam exigir a paz.”
Ellen Johnson-Sirleaf, Prémio Nobel da Paz, 2011.
Primado do Direito e Julgamento
Justo A crescente relevância da internet e das re-
des sociais, como o facebook, aumentou as
“Acredito que não é possível nenhuma preocupações sobre a proteção dos direitos
transação entre os direitos humanos e humanos, como a liberdade de expressão
o terrorismo. A defesa dos direitos hu- ou o direito à privacidade e a proteção de
manos não se opõe ao combate contra o dados na internet. Dada a importância da
terrorismo: pelo contrário, a visão moral internet para o gozo pleno dos direitos hu-
dos direitos humanos - o profundo respei- manos, foi proposto um “direito humano
to pela dignidade de cada um - está entre de acesso” à internet. Esta pretensão, con-
as nossas armas mais poderosas contra tudo, suscitou algumas controvérsias.
o terrorismo.
Ceder na proteção dos direitos huma- Liberdade de Expressão e Direito
nos daria aos terroristas uma vitória à Privacidade
que estes não conseguirão alcançar por
De um modo geral, há ainda um longo
si mesmos. A promoção e a proteção
caminho a percorrer para alcançar uma
dos direitos humanos, bem como a ob-
cultura universal de direitos humanos
servância estrita do direito internacio-
que tenha como ponto central a dignidade
nal humanitário devem, nessa medida,
humana, como pedido por ocasião do 60º
estar no centro das estratégias antiter-
aniversário da Declaração Universal dos
roristas.”
Direitos Humanos por um painel de indi-
(Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan. vidualidades que elaborou uma “Agenda
2003. para os Direitos Humanos para o Futuro”.
(Ver www.un.org/News/Press/docs/2003/ Contudo, olhando para trás, também cons-
sgsm8885.doc.htm) tatamos que foi feito um importante pro-
gresso. Este progresso tem de ser resistente
a regressões e ser desenvolvido no futuro.

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