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Giovanni Seabra

Ivo Mendonça
(organizadores)

Educação ambiental:
Responsabilidade para a
conservação da sociobiodiversidade

Editora Universitária da UFPB


João Pessoa - PB
2011
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
reitor
RÔMULO SOARES POLARI
vice-reitora
MARIA YARA CAMPOS MATOS

EDITORA UNIVERSITÁRIA
diretor
JOSÉ LUIZ DA SILVA
vice-diretor
JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS FILHO
supervisor de editoração
ALMIR CORREIA DE VASCONCELLOS JUNIOR
Arte Gráfica: Cláudia Neu
Capa: Ivo Thadeu Lira Mendonça
Editoração: Ivo Thadeu Lira Mendonça
E-mail: gs_consultoria@yahoo.com.br

E24 Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da


sociobiodiversidade / Giovanni Seabra, Ivo Mendonça
(organizadores). – João Pessoa: Editora Universitária da
UFPB, 2011.

V. 1

1.782 p.: il.

ISBN: 978-85-7745-938-4

1. Educação Ambiental. 2. Meio Ambiente. 3. Biogeografia


e Biodiversidade. 4. Mudanças Climáticas. 5. Agroecologia. 6.
Recursos Hídricos. 7. Degradação Ambiental. I. Seabra,
Giovanni de Farias. II. Mendonça, Ivo Thadeu Lira

UFPB/BC CDU: 37:504

As opiniões externadas nesta obra são de responsabilidade exclusiva dos seus autores.

Todos os direitos desta edição reservados à GS Consultoria Ambiental e Planejamento do Turismo Ltda.
Apresentação

A Assembléia Geral das Nações Unidades elegeu 2011 como o Ano Internacional das Florestas.
Coincidentemente, neste mesmo ano, o Congresso Nacional emerge como cenário para os debates
aquecidos envolvendo a aprovação do novíssimo Código Florestal do Brasil, cujos principais atores
são os parlamentares, os empresários rurais, ambientalistas e membros da sociedade civil organizada.
Contrariamente ao movimento ecológico nacional, houve no Brasil aumento na queima das florestas, os
problemas e desastres ambientais urbanos foram acentuados e os danos decorrentes da exploração do
petróleo em águas marinhas nacionais são agravados e, a curto e médio prazo, irreversíveis.

Estas e outras questões de natureza socioambiental foram abordadas no II CNEA & IV ENBio. Os 21
eixos temáticos pautados nas principais temáticas socioambientais serviram de base para elaboração dos
850 trabalhos apresentados nos eventos e publicados neste livro na forma de artigos. Os temas enfocados
incluem a preservação dos ecossistemas através do manejo sustentável, a conscientização da sociedade e o
papel que ela deve exercer no desenvolvimento global sustentável.

Conservar florestas é preservar não somente a vida das árvores. E sim manter viva toda a
biodiversidade do Planeta, e com ela as sociedades humanas. A Educação Ambiental como política efetiva
governamental, com o uso dos meios de comunicação de massa, de modo a atingir o nível familiar e todos
os níveis de ensino, é o principal instrumento para conservar a natureza e o ambiente em que vivemos.

O II Congresso Nacional de Educação Ambiental e o IV Encontro Nordestino de Biogeografia


ocorreram simultaneamente em João Pessoa, no período de 12 a 15 de outubro de 2011, reunindo 1.500
participantes, entre pesquisadores, professores, estudantes e cidadãos de todos os setores da sociedade.
Os participantes do II CNEA e IV ENBio, conforme constatado nos artigos publicados neste livro,
demonstraram, talento, conhecimento e responsabilidade ao apontar os Caminhos para a Conservação da
Sociobiodiversidade.

Giovanni Seabra
Ivo Thadeu Lira Mendonça
Sumário

APRESENTAÇÃO .................................................................................................................................................. 5

SUMÁRIO ............................................................................................................................................................ 6

1. EDUCAÇÃO AMBIENTAL E SAÚDE GLOBAL................................................................................................15

RISCOS AO MEIO AMBIENTE E A SAÚDE HUMANA DECORRENTES DO DESCARTE INADEQUADO DE


BATERIAS E APARELHOS CELULARES ......................................................................................................16
O TERMO ZOONOSES NA CONCEPÇÃO DOS MORADORES DO BAIRRO MULTIRÃO, LOCALIZADO NO
MUNICÍPIO DE SERRA TALHADA/PE .......................................................................................................24
AVALIAÇÃO DAS CONDIÇÕES ALIMENTÍCIAS DA POPULAÇÃO DA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA/PB
EM COMPARAÇÃO COM 50 ANOS ATRÁS ..............................................................................................29
EDUCAÇÃO AMBIENTAL VOLTADA PARA O CONTROLE DA DENGUE E A PERCEPÇÃO DAS CRIANÇAS EM
UMA COMUNIDADE DO SERTÃO DE PERNAMBUCO ..............................................................................36
APRENDIZAGEM BASEADA EM PROJETOS/PROBLEMAS: ESTUDO DE CASO DO MONITORAMENTO
ESTUDANTIL DE DOIS CORPOS D'ÁGUA DO MUNICIPIO DE ITABAIANA/SERGIPE ..................................43
MODELAGEM DA PROPAGAÇÃO DA ESQUISTOSSOMOSE EM BOM CONSELHO- PE ........................................51
AS CONDIÇÕES SOCIO AMBIENTAIS E SUA RELAÇÃO COM A DENGUE: UM ESTUDO DE CASO NO
BAIRRO NATAL, ITUIUTABA/MG .............................................................................................................59
VIGILÂNCIA AMBIENTAL E A IMPORTÂNCIA DO MONITORAMENTO DE MOSQUITOS DE IMPORTÂNCIA
DE SAÚDE PÚBLICA .................................................................................................................................68
ÁLGEBRA DE MAPAS NA ECOEPIDEMIOLOGIA DA ESQUISTOSSOMOSE MANSONI NO MUNICÍPIO DE
SANTO AMARO, BAHIA, NO PERÍODO DE 2006 – 2008. ..........................................................................77
CONCEPÇÕES E PERCEPÇÕES SOBRE A DENGUE: DIAGNÓSTICO SOCIOAMBIENTAL NO ENTORNO DE
UMA ÁREA DE PRESERVAÇÃO EM VARZEA PAULISTA/SP .......................................................................85
DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DE TRIATOMA SPP. (HEMIPTERA, REDUVIIDAE) NAS ECORREGIÕES DO
ESTADO DA BAHIA ..................................................................................................................................93
MOBILIZAÇÃO SOCIAL PARA O CONTROLE DE SIMULÍDEOS NO RIO GRANDE DO SUL ...................................100
EDUCAÇÃO ALIMENTAR: UTILIZAÇÃO DA PALMA FORRAGEIRA NO COMBATE A FOME ENDÊMICA NO
MUNICÍPIO DE GILBUÉS-PI....................................................................................................................104
PROBLEMAS SOCIOECONÔMICO E DE SAÚDE DA POPULAÇÃO ATENDIDA PELA UNIDADE DE SAÚDE DA
FAMÍLIA MANDACARU IX (JOÃO PESSOA/PB) ......................................................................................112
OS BARBEIROS E A DOENÇA DE CHAGAS SEGUNDO OS MORADORES DA ZONA RURAL DO MUNICÍPIO
DE TREMEDAL, SUDOESTE DA BAHIA: UMA ABORDAGEM ETNOPARASITOLÓGICA ............................119
A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA O ENSINO DA ENGENHARIA SANITÁRIA E
AMBIENTAL NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ .............................................................................126
DETERMINAÇÃO DE ISOTERMA DE ADSORÇÃO DA PROTEÍNA BSA EM RESINA ANIÔNICA ............................133
EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA O SANEAMENTO DA HABITAÇÃO RURAL .......................................................139
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E SAÚDE GLOBAL COMO INSTRUMENTO PARA A MELHORIA DO ENSINO
INFANTIL ...............................................................................................................................................145
A INFLUÊNCIA DE ELEMENTOS MICROMETEOROLÓGICOS NA INCIDÊNCIA DOS CASOS DE DENGUE NA
AMAZÔNIA OCIDENTAL ........................................................................................................................151
CULICÍDEOS CAPTURADOS EM AMBIENTE DE CERRADO MARANHENSE. ......................................................158

2. BIOGEOGRAFIA E BIODIVERSIDADE ........................................................................................................162


COLORAÇÃO COMO DETERMINANTE NA COLHEITA DE SEMENTES DE ERVA-DOCE ......................................163
PERCEPÇÃO SOBRE OS ANFÍBIOS EM ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS E POPULARES DE COMUNIDADES
INTERIORANAS DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE. ....................................................................169
CONHECIMENTO, UTILIZAÇÃO E DIVERSIDADE DE PLANTAS MEDICINAIS ENTRE ALUNOS DA REDE
PÚBLICA EM ESPERANÇA, PARAÍBA ......................................................................................................175
FENOLOGIA REPRODUTIVA DE PERIANDRA MEDITERRANEA MART. EX BENTH. (FABACEAE) E SUA
INTERAÇÃO ECOLÓGICA COM POLINIZADORES EM REMANESCENTE DE MATA ATLANTICA. ..............182
“PEIXE OU MAMÍFERO?”: CONHECIMENTO ETNOBIOLÓGICO DE ESTUDANTES DE ESCOLAS PÚBLICAS
NO ESTADO DO PARÁ-UMA CONTRIBUIÇÃO À CONSERVAÇÃO DOS MAMÍFEROS AQUÁTICOS. .........190
FLORÍSTICA E FITOSSOCIOLOGIA EM UMA ÁREA INVADIDA POR SESBANIA VIRGATA (CAV). PERS. NA
PARAÍBA ...............................................................................................................................................195
BIOGEOGRAFIA APLICADA À GESTÃO AMBIENTAL .........................................................................................202
RECONHECIMENTO DE PLANTAS MEDICINAIS NATIVAS DA CAATINGA ATRAVÉS DA IDENTIFICAÇÃO DE
FRUTOS E SEMENTES ............................................................................................................................209
ANÁLISE FITOSSOCIOLÓGICA DE UMA ÁREA DE ECÓTONO CAATINGA/CERRADO EM BARBALHA - CE,
BRASIL...................................................................................................................................................217
BIOMETRIA DE FRUTOS DE POINCIANELLA PYRAMIDALIS TUL. NO SEMIÁRIDO DA PARAÍBA, BRASIL ...........224
VIABILIDADE E VIGOR DE SEMENTES DE CEREUS JAMACARU DC.: EM DIFERENTES TEMPERATURAS E
VOLUMES DE ÁGUA NO SUBSTRATO ....................................................................................................231
LEVANTAMENTO ETNOBOTÂNICO DE PLANTAS MEDICINAIS UTILIZADAS NA COMUNIDADE
QUILOMBOLA DOS MACACOS, SÃO MIGUEL DO TAPUIO, PIAUÍ ..........................................................238
APLICAÇÃO DO ÍNDICE DE VEGETAÇÃO POR DIFERENÇA NORMALIZADA (NDVI) NA AVALIAÇÃO DO
EFEITO DE BORDA: MANGUEZAL DO PINA - PE.....................................................................................248
AVALIAÇÃO DA QUALIDADE FISIOLÓGICA DE SEMENTES DE SABIÁ (MIMOSA CAESALPINIIFOLIA
BENTH.) DE DIFERENTES TAMANHOS E PROCEDÊNCIAS ......................................................................255
COLETA, BENEFICIAMENTO E GERMINAÇÃO DE SEMENTES DE SEIS ESPÉCIES ARBÓREAS NATIVAS DA
CAATINGA PARAIBANA .........................................................................................................................262
UM ESTUDO ECONÔMICO E FITOGEOGRÁFICO DA CAATINGA DO NORDESTE BRASILEIRO...........................268
A PRESERVAÇÃO DAS TARTARUGAS MARINHAS NO LITORAL DO IPOJUCA-PE NA PERSPECTIVA DE
PESCADORES ARTESANAIS ...................................................................................................................274
AVALIAÇÃO DE LINHAGENS DE LEVEDURAS E BACTÉRIAS ISOLADAS DE SOLOS DO SEMIÁRIDO
POTIGUAR QUANTO AO POTENCIAL DE DEGRADAÇÃO DE PETRÓLEO ................................................280
CONHECIMENTO POPULAR E USO DAS PLANTAS DA RESTINGA PELA COMUNIDADE DE BARRA DE
SERINHAÉM, APA DE PRATIGI-BAHIA ...................................................................................................288
CARACTERÍSTICAS FLORÍSTICAS DO INSELBERGUES ESPINHO BRANCO NO MUNICÍPIO DE PATOS-PB ..........297
LEVANTAMENTO DE ESPÉCIES ARBÓREAS DO CAMPUS OESTE DA UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO
SEMI-ÁRIDO ..........................................................................................................................................305
UMA ANÁLISE SOBRE O MANEJO DO BIOMA CAATINGA NA PARAÍBA: OS CASOS ESPECÍFICOS DAS
CIDADES DE AREIA E BOA VISTA. ..........................................................................................................311
LEVANTAMENTO ETNOBOTÂNICO DE PLANTAS COM POTENCIAL ECÔNOMICO EM UM ECÓTONO
LOCALIZADA NA CIDADE DE BARBALHA – CE ........................................................................................319
PRESERVAÇÃO E CONSERVAÇÃO DA VIDA SILVESTRE ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL DO BARCO
ESCOLA CHAMA MARÉ/RN ...................................................................................................................326
ANÁLISE FLORÍSTICA E FITOSSOCIOLÓGICA DA VEGETAÇÃO EM FRAGMENTOS DE CAATINGA NA
MICROBACIA HIDROGRÁFICA RIACHO CAJAZEIRAS, RN .......................................................................334
CARACTERIZAÇÃO DAS FORMAÇÕES FLORESTAIS NO DOMÍNIO DA MATA DO SERÓ, NO MUNICIPIO DE
DONA INÊS/PB. .....................................................................................................................................341
ESTUDO SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DA ALGAROBA PROSOPIS JULIFLORA (SW.) DC. NO MUNICÍPIO DE
CAICÓ/RN. ............................................................................................................................................350
UTILIZAÇÃO DE FORMALDEÍDO NA COLETA DA MACROFAUNA DO SOLO EM ÁREA DE CAATINGA NO
SEMIÁRIDO DA PARAÍBA ......................................................................................................................354
COMPARAÇÃO DE LEVANTAMENTOS FITOSSOCIOLÓGICOS NA RESERVA LEGAL RIACHO PACARÉ-PB..........359
LEVANTAMENTO FITOGEOGRÁFICO E DIVERSIDADE FLORÍSTICA DA CAATINGA ARBUSTIVO-ARBÓREA:
SÍTIO BOA VENTURA, SERRA DA RAIZ – PARAÍBA .................................................................................366
EXTRATOS VEGETAIS E SEUS EFEITOS NA SANIDADE E FISIOLOGIA DE SEMENTES DE FLAMBOYANT-
MIRIM (CAESALPINIA PULCHERRIMA L.)...............................................................................................373
INVENTÁRIO FLORÍSTICO DO SEMI-ÁRIDO NORDESTINO NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ-RN .........................378
BANCOS DE SEMENTES DE PLANTAS DANINHAS EM ÁREA DE ALGODOEIRO HERBÁCEO, ANTES E APÓS
DIFERENTES TRATAMENTOS HERBICÍDICOS.........................................................................................384
BIODIVERSIDADE VEGETAL DO PARQUE ESTADUAL DO BACANGA, MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS – MA ..............394
UMEDECIMENTO DO SUBSTRATO E TEMPERATURA NA GERMINAÇÃO E VIGOR DE SEMENTES DE INGA
INGOIDES (RICH.) WILLD .......................................................................................................................402
COMPARAÇÃO DO BANCO DE SEMENTES ENTRE ÁREAS PRESERVADA E ANTROPIZADA DE CAATINGA .......408
ANALISE DA DENSIDADE DE VEGETAÇÃO DA BACIA HIDROGRAFICA DO RIO DOCE/RN. ................................416
A BIOGEOGRAFIA E SUA CONTRIBUIÇÃO NOS ESTUDOS DA VEGETAÇÃO: UMA ANÁLISE TEÓRICA...............423
UTILIZAÇÃO DE ESPÉCIES CARISMÁTICAS DA MASTOFAUNA COMO FERRAMENTA PARA A EDUCAÇÃO
AMBIENTAL ..........................................................................................................................................427
A BIOGEOGRAFIA COMO ELEMENTO NA CONFIGURAÇÃO DE INICIATIVAS PLANIFICADORAS
INTEGRADAS.........................................................................................................................................435
A BIODIVERSIDADE NA REGIÃO DO LAGO DA USINA HIDRELÉTRICA DE TUCURUÍ, UMA VISÃO A PARTIR
DO SISTEMA DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA.......................................................................................447
BIODIVERSIDADE E INTERFERÊNCIAS ANTRÓPICAS: UM ESTUDO FITOGEOGRÁFICO DA BACIA DO RIO
VAZA BARRIS EM SERGIPE ....................................................................................................................454
RIQUEZA, ABUNDÂNCIA E USO DAS ESPÉCIES VEGETAIS EM UMA CAATINGA, SANTA QUITÉRIA, CE ............462
MATA ATLÂNTICA, ANÁLISE BIBLIOGRÁFICA SOBRE O BIOMA FRAGMENTADO (2000 – 2009) .....................467
LEVANTAMENTO DE MAMÍFEROS DEPOSITADOS NO CENTRO DE TRIAGEM DE ANIMAIS SILVESTRES
(CETAS) DO IBAMA NA PARAÍBA NOS ANOS 2009 E 2010.....................................................................474
RIQUEZA ICTIOFAUNÍSTICA DO AÇUDE BOQUEIRÃO: RELAÇÃO DO CONHECIMENTO ECOLÓGICO
LOCAL COM INFORMAÇÕES CIENTÍFICAS JÁ EXISTENTES .....................................................................481
BIOGEOGRAFIA E POTENCIAL DAS ESPÉCIES FLORÍSTICAS DA BACIA HIDROGRÁFICA DO CURU - CE .............488
ANÁLISE DE PROTEÍNAS DIFERENCIALMENTE EXPRESSAS DE BURKHOLDERIA SP. EXPOSTAS AO FENOL ......497
CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DA MAMOMEIRA BRS ENERGIA SUBMETIDA A DIFERENTES
DOSES E FONTES DE MATÉRIA ORGÂNICA E COBERTURA DO SOLO .....................................................505
CLADONIA SALZMANNII NYL. (LÍQUEN) NA MODIFICAÇÃO DOS ATRIBUTOS QUÍMICOS DE UM SOLO
ARENOSO DO NORDESTE BRASILEIRO ..................................................................................................514
OCORRÊNCIA DE BARATAS (BLATTODEA) DOMÉSTICAS NA CIDADE DE CHAPADINHA (MA), BRASIL. ...........520
A SERRA DE SANTA CATARINA E A TEORIA DOS REDUTOS E REFÚGIOS: REGISTROS PALEOCLIMÁTICOS
NO SERTÃO PARAIBANO .......................................................................................................................525
DIFERENÇAS NA COMPOSIÇÃO FLORÍSTICA DE ESPÉCIES HERBÁCEAS EM TRÊS MICROHABITES DA
CAATINGA.............................................................................................................................................531
ESTUDO DA COMUNIDADE EPIFÍTICA VASCULAR PRESENTE EM UM FRAGMENTO DE FLORESTA
OMBRÓFILA ABERTA SITUADO NO MUNICÍPIO DE AREIA, PB ..............................................................538
EFEITO DA INFLUÊNCIA SAZONAL SOBRE A DINÂMICA POPULACIONAL DE POINCIANELLA
PYRAMIDALIS (TUL.) L. P. QUEIROZ EM UMA ÁREA DE FLORESTA SECA NO BRASIL .............................545
EMERGÊNCIA DE PLÂNTULAS E CRESCIMENTO INICIAL DE PIMENTA CAYENNE EM MEIO ORGÂNICO E
SUBMETIDA A TIPOS E QUANTIDADES DE ÁGUAS DIFERENTES............................................................552
PRODUTOS NATURAIS E SEUS EFEITOS SOBRE A MICOFLORA E FISIOLOGIA EM SEMENTES DE SABIÁ
(MIMOSA CAESALPINIAEFOLIA BENTH) ................................................................................................559
ETNOBOTÂNICA DE PLANTAS DE CAATINGA, FAZENDA MOURÕES, ASSU-RN, BRASIL ..................................565
QUALIDADE FISIOLÓGICA DE SEMENTES DE CNIDOSCOLUS PHYLLACANTHUS PAX & K. HOFFM
TRATADAS COM ÓLEO NATURAL ..........................................................................................................571
LEVANTAMENTO FITOGEOGRÁFICO DA MATA ATLÂNTICA, DA RESERVA LEGAL RIACHO PACARÉ, RIO
TINTO /PB .............................................................................................................................................580
EMERGÊNCIA E CRESCIMENTO INICIAL DE PLÂNTULAS DE CLITORIA FAIRCHILDIANA EM FUNÇÃO DA
PROFUNDIDADE E POSIÇÃO DE SEMEADURA ......................................................................................587
MANEJO HÍDRICO DA MAMONEIRA BRS ENERGIA EM DIFERENTES LÂMINAS. ..............................................595
COMÉRCIO ILEGAL DE ANIMAIS SILVESTRES: UM LEVANTAMENTO DA PROBLEMÁTICA NO MUNICÍPIO
DE MOSSORÓ – RN ...............................................................................................................................604

3. MUDANÇAS CLIMÁTICAS E SOCIOBIODIVERSIDADE ...............................................................................610

IMPACTOS CLIMÁTICOS – A VARIABILIDADE DO BALANÇO HÍDRICO NAS ÚLTIMAS 04 DÉCADAS – UMA


CONTRIBUIÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL PARA A PRODUÇÃO DE GRÃOS EM
GILBUÉS ................................................................................................................................................611
GEOGRAFIA DOS TRANSPORTES: SISTEMA DE TRANSPORTE COLETIVO E SUAS IMPLICAÇÕES NO CLIMA
URBANO. ..............................................................................................................................................617
A POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL: EXPERIÊNCIAS E DESAFIOS NO
TRABALHO INTERDISCIPLINAR EM UMA ESCOLA PRIVADA DE CONTAGEM.........................................622
URBANIZAÇÃO E SISTEMA VIÁRIO: INFLUÊNCIAS DAS ILHAS DE CALOR E ILHAS DE FRESCOR NA
QUALIDADE DE VIDA NA CIDADE DE BELÉM-PA ...................................................................................628
DIFERENÇAS NA SENSAÇÃO DE CONFORTO TÉRMICO EM DETERMINADOS PONTOS NA CIDADE DE
JOÃO PESSOA-PB ..................................................................................................................................636
SAZONALIDADE NA COMPOSIÇÃO E ABUNDÂNCIA DE FAMÍLIAS DE MOSCAS (BRACHYCERA E
CYCHLORRHAPHA) NO PARQUE ESTADUAL DO RIO DOCE ...................................................................641
IMPLICAÇÕES DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E OUTRAS AÇÕES ANTRÓPICAS PARA O TURISMO NO RIO
DAS MORTES, MATO GROSSO ..............................................................................................................646
PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ESTUDANTES MACAENSES SOBRE OS RISCOS OCASIONADOS PELAS
MUDANÇAS CLIMÁTICAS ......................................................................................................................652
ANÁLISE GEOAMBIENTAL DO NÚCLEO DE DESERTIFICAÇÃO EM GILBUÉS - PIAUÍ .........................................660
INFLUÊNCIA DAS CONDIÇÕES METEOROLÓGICAS AVALIADAS NA MESOREGIÃO DO AGRESTE
PARAIBANO ..........................................................................................................................................668
FATOS SOBRE O ANTROPISMO NA CAATINGA ................................................................................................673
ANÁLISE METEOROLOGICA DE PRECIPITAÇÃO E TEMPERATURA DO AR EM CATOLÉ DO ROCHA,
ESTADO DA PARAÍBA ............................................................................................................................680
POTENCIALIDADE DE ESTOQUE DE CARBONO NOS SOLOS SOB VEGETAÇÃO NATIVA DA BACIA DO RIO
ARAGUARI, MG .....................................................................................................................................685
PERCEPÇÃO AMBIENTAL: UMA CONTRIBUIÇÃO NO ESTUDO DO PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO NO
SERIDÓ ORIENTAL NORTE-RIO-GRANDENSE ........................................................................................694
IMPACTOS CLIMÁTICOS NO ESPAÇO GEOGRÁFICO DE CAMPINA GRANDE – UM ESTUDO DA
VARIABILIDADE DA TEMPERATURA DO AR SOBRE A ÁREA URBANA ....................................................702
POLÍTICA DE COMBATE Á SECA E ESTRATÉGIAS DE CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO: O CONTEXTO DO
ESTADO DO CEARÁ ...............................................................................................................................709
IMPACTOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS GLOBAIS NAS CULTURAS DO ALGODOEIRO E DA
MAMONEIRA ........................................................................................................................................716
INDICADORES E ÁREAS DE DESERTIFICAÇÃO NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO .....................................................722
CONCENTRAÇÃO DE OZÔNIO TROPOSFÉRICO NO MUNICÍPIO DE SERRA TALHADA-PE .................................730
DEGRADAÇÃO E DESERTIFICAÇÃO: EVOLUÇÃO DOS ESTUDOS NA PARAÍBA COM UTILIZAÇÃO DE
GEOTECNOLOGIAS ...............................................................................................................................736

4. EDUCAÇÃO AMBIENTAL, CONSCIENTIZAÇÃO E MOBILIZAÇÃO SOCIAL ..................................................746

EDUCADORES AMBIENTAIS NO SERTÃO DAS GERAIS: UMA ABORDAGEM DAS ESCOLAS ATENDIDAS NO
MUNICÍPIO DE VARZELÂNDIA – MG .....................................................................................................747
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MEIO RURAL: UMA EXPERIÊNCIA COM AGRICULTORAS BENEFICIADORAS
DE FRUTAS NATIVAS NO CURIMATAÚ PARAIBANO ..............................................................................756
NÍVEL DE CONSCIENTIZAÇÃO E DE AÇÃO DE JOVENS ALUNOS DO ENSINO MÉDIO DE ESCOLAS
PÚBLICAS DO MUNICÍPIO DE CORRENTES/PE EM RELAÇÃO A PRESERVAÇÃO AMBIENTAL .................762
CONSTRUINDO UMA ÉTICA AMBIENTAL: REFLEXÕES SOBRE O POTENCIAL DA ENERGIA SOLAR NA
ATUALIDADE .........................................................................................................................................767
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL MEDIATIZADA PELA ARTE NA FORMAÇÃO CONTINUADA DE EDUCADORES........772
EDUCAÇÃO AMBIENTAL FORMAL: UM INSTRUMENTO DE CONSCIENTIZAÇÃO E MOBILIZAÇÃO SOCIAL ......777
CAMPANHAS E EVENTOS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL – DA MOBILIZAÇÃO À EDUCAÇÃO – A
EXPERIÊNCIA PROMATA .......................................................................................................................783
EDUCAÇÃO AMBIENTAL: A PERCEPÇÃO SOBRE MEIO AMBIENTE ENTENDIDO POR ALUNOS DE ENSINO
FUNDAMENTAL NO MUNICÍPIO DE PARAUAPEBAS-PA........................................................................788
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NOS ENSINOS MÉDIO E FUNDAMENTAL II, ESTUDO DE CASO NA ESCOLA
ESTADUAL SIGISMUNDO GONÇALVES, OLINDA – PE (BRASIL) .............................................................793
“CONSTRUÇÃO DE UM BLOG PARA SENSIBILIZAR E MOBILIZAR A COMUNIDADE ESCOLAR DO CEFET -
MG SOBRE COLETA SELETIVA”..............................................................................................................797
A SEMANA DA FLORESTA: EXPERIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL FORMAL NA ZONA OESTE DO RIO
DE JANEIRO. ..........................................................................................................................................801
INSTRUMENTO CONSCIENTIZADOR NAS RELAÇÕES HOMEM AMBIENTE: EDUCAÇÃO E PRÁXIS
AMBIENTAL ..........................................................................................................................................806
ANÁLISE DA SUSTENTABILIDADE DO SERIDÓ ORIENTAL NORTE-RIO-GRANDENSE: SEGUINDO A TRILHA
DA PEGADA ECOLÓGICA .......................................................................................................................811
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO PROCESSO FORMADOR DE POLICIAIS MILITARES NO MARANHÃO ................819
O DISCURSO AMBIENTALISTA NA MÍDIA (RE) SIGNIFICADO POR ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO ..............826
UNIVERSIDADE E ESCOLA: CONSTRUINDO SABERES E PRÁTICAS EM EDUCAÇÃO SOCIOAMBIENTAL............835
CAMINHANDO PELAS TRILHAS DO BACANGA, EM SÃO LUÍS DO MARANHÃO: CONSTRUINDO A
HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA AMBIENTAL COM AS COMUNIDADES LOCAIS.............................................843
CONCEPÇÃO SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DOS ALUNOS DO CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS E
AMBIENTAIS – UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO – UFMA. .....................................................851
EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA A FORMAÇÃO DO CIDADÃO SOCIOAMBIENTALMENTE CRÍTICO ...................859
DIAGNÓSTICO DO PROJETO SALA VERDE EM INSTITUIÇÕES PÚBLICAS NO RIO GRANDE DO NORTE - RN .....864
HISTÓRIA AMBIENTAL: NOTAS SOBRE O CULTIVO DE TOMATE EM PESQUEIRA ............................................872
O COLETIVO, O SOCIAL E O SOCIOAMBIENTAL NAS REPRESENTAÇÕES ATRAVÉS DO DISCURSO DO
SUJEITO COLETIVO EM PESQUISA QUALITATIVA ..................................................................................878
A CONTRIBUIÇÃO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL QUANTO A INFLUÊNCIA DA MÍDIA PARA O CONSUMO ........886
O PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS ESCOLAS .............................................893
A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO SOBRE AS QUESTÕES AMBIENTAIS EM ALUNOS DO ENSINO
MÉDIO DE UMA ESCOLA PÚBLICA DE SANTANA DO IPANEMA/AL .......................................................898
OS INDIOS XUKURU E OS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS NO AGRESTE PERNAMBUCANO ...........................905
NOVOS RUMOS PARA A EUCAÇÃO NO CAMPO ATRAVÉS DA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO POPULAR E
DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ..................................................................................................................914
CONSUMO CONSCIENTE: UMA PROPOSTA SUSTENTÁVEL NO AMBIENTE ESCOLAR .....................................920
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS ESCOLAS PÚBLICAS: O CASO DO PROJETO SOCIEDADE E NATUREZA...............926
EDUCAÇÃO AMBIENTAL: FATORES QUE INFLUENCIAM A PERCEPÇÃO DOS ALUNOS E PROFESSORES
RELACIONADA ÀS QUESTÕES AMBIENTAIS ..........................................................................................932
A TEMÁTICA AMBIENTAL: UMA APRECIAÇÃO HISTÓRICA ..............................................................................938
PERCEPÇÃO DOS MORADORES SOBRE POTENCIAL TURÍSTICO DO DISTRITO DE MIRAPORANGA,
UBERLÂNDIA, MG: UMA PROPOSTA DE VALORIZAÇÃO AMBIENTAL ATRAVÉS DO TURISMO..............946
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E MOVIMENTOS SOCIAIS: O QUE NOS ENSINA O MOVIMENTO
“TERMOELÉTRICAS, JAMAIS!” ..............................................................................................................952
EDUCAÇÃO AMBIENTAL: ABORDANDO TEMAS QUE CONTRIBUEM PARA A MELHORIA DA QUALIDADE
DE VIDA DA POPULAÇÃO ......................................................................................................................959
OS CONCEITOS DE NATUREZA, MEIO AMBIENTE E LUGAR E SUA RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO
AMBIENTAL ESCOLAR ...........................................................................................................................965
FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA SUSTENTABILIDADE ................................973
GESTÃO AMBIENTAL PARTICIPATIVA ALIADA À EDUCAÇÃO AMBIENTAL CAMINHOS PARA A
SUSTENTABILIDADE, UMA EXPERIÊNCIA NO PARANÁ DO ARANAPÚ NA RDSM/AM. ..........................978
EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA A SUSTENTABILIDADE NA LAGOA DO PIATÓ, RIO GRANDE DO NORTE. .........984
CONCEPÇÃO AMBIENTAL DOS EDUCANDOS DA EJA SOBRE OS RESÍDUOS SÓLIDOS ......................................989
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO FERRAMENTA DE CONSCIENTIZAÇÃO NA IMPLEMENTAÇÃO DA NBR
ISO 14.001:2004 – ESTUDO DE CASO....................................................................................................995
A CONSCIÊNCIA E O SUJEITO/ASSUJEITADO .................................................................................................1003
GESTÃO AMBIENTAL E ESCOLA: ANÁLISES EM PROL DA CONSTRUÇÃO DE UMA ATITUDE AMBIENTAL ......1009
O DESAFIO DA INTERDISCIPLINARIDADE NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO MEDIADO PELA
EDUCAÇÃO AMBIENTAL .....................................................................................................................1016
SOBRE O EMPODERAMENTO DE ESTUDOS DIVULGADOS EM PERIÓDICOS DIVERSOS: A EMERGÊNCIA
DO ENFOQUE COMUNITÁRIO.............................................................................................................1023
FONTES DE INFORMAÇÕES E PROBLEMAS AMBIENTAIS LOCAIS: UM ESTUDO EM ESCOLAS PÚBLICAS
DE JOÃO PESSOA-PB ...........................................................................................................................1030
O LUGAR DA MEMÓRIA NOS PROJETOS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL: O CASO DA INTERVENÇÃO SOCIAL
“EM PASSAGEM PELO AMBIENTE”- ANDARAÍ (BA) ............................................................................1036
ECO-PERCEPÇÃO E CULTURA RELIGIOSA: O CASO DE ESTUDANTES DE ENSINO FUNDAMENTAL, ILHÉUS,
BAHIA. ................................................................................................................................................1045
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO ESTRATÉGIA DE CONSCIENTIZAÇÃO E MOBILIZAÇÃO SOCIAL AOS
FREQUENTADORES E COMERCIANTES DA PRAÇA DA PAZ, LOCALIZADA EM JOÃO PESSOA - PB........1051
CORREDOR AMBIENTAL: UMA PROPOSTA DE INTERVENÇÃO PEDAGOGICA ...............................................1059
EDUCAÇÃO AMBIENTAL, CULTURA DE PAZ E JUVENTUDES EM TEMPOS DE CONSUMO EXCESSIVO ...........1065
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL ENQUANTO ESTRATÉGIA DE CONSCIENTIZAÇÃO PARA O ENFRENTAMENTO
DA CRISE SOCIOAMBIENTAL ...............................................................................................................1070
PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DE SERRA TALHADA – PE SOBRE ARBORIZAÇÃO URBANA ......1077
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA NA UFCG: PRÁTICA DE CONSCIENTIZAÇÃO
AMBIENTAL NA CIDADE DE SOUSA-PB ...............................................................................................1082
EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA O USO SUSTENTÁVEL DO LITORAL PERNAMBUCANO: O PROJETO VERÃO
AMBIENTAL: ESSA É A NOSSA PRAIA ..................................................................................................1088
NAS TRILHAS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ATRAVÉS DA AUTOÉTICA: UM OLHAR SOB A LUZ DA
COMPLEXIDADE..................................................................................................................................1095
CICLO DE PALESTRA: MEIO AMBIENTE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL................................................................1100
EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UM CAMINHO PARA A FORMAÇÃO INTEGRAL DO SER HUMANO........................1105
24 ANOS DE CONSCIENTIZAÇÃO AMBIENTAL: EXPERIÊNCIA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL DA ESCOLA
SANTA CECÍLIA, ÁGUAS BELAS-PE .......................................................................................................1112
DIREITO A QUALIDADE DE VIDA E ANÁLISE DE INDICADORES APOIADA PELA TECNOLOGIA DO
GEOPROCESSAMENTO .......................................................................................................................1118
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: A SUSTENTABILIDADE A PARTIR DAS
PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL................................................................................................1126
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA FORMAÇÃO DOS ALUNOS DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DE
CAMPINAS, SP.....................................................................................................................................1132
CONSCIÊNCIA AMBIENTAL – REFORMULANDO A AÇÃO ...............................................................................1138
HÁBITOS DE CONSUMO E PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ADOLESCENTES. .....................................................1144
OFICINA SOBRE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO: UMA ABORDAGEM PARA FORMAÇÃO DE
PROFESSORES .....................................................................................................................................1150
POR ENTRE CONCEPÇÕES E PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO E SUSTENTABILIDADE: EDUCAÇÃO AMBIENTAL
NAS COMUNIDADES AO LONGO DA BR-230 (TRANSAMAZÔNICA). ...................................................1157
PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UM INSTRUMENTO DE CONSCIENTIZAÇÃO E MOBILIZAÇÃO
SOCIAL. ...............................................................................................................................................1163
GEOGRAFIA: TOMADORES DE DECISÃO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ...........................................1170
EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO ESTRATÉGIA PARA PREVENÇÃO DE ACIDENTES OFÍDICOS NA
CAATINGA POTIGUAR .........................................................................................................................1175
A CONTRIBUIÇÃO DA EDUCAÇÃO E PERCEPÇÃO AMBIENTAL PARA O DESENVOLVIMENTO LOCAL
SUTENTÁVEL .......................................................................................................................................1183
ESTRATÉGIAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM ESPAÇOS CORPORATIVOS: 1ª SEMANA DO MEIO
AMBIENTE EM EMPRESA DO SETOR DE TRANSPORTES......................................................................1190
LIXO UM PROBLEMA DE TODOS: COOPERATIVA “ACORDO VERDE” FRENTE SUA PERSPECTIVA SOCIAL E
AMBIENTAL ........................................................................................................................................1197
INSERÇÃO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA ESCOLA PÚBLICA: MEIO DE CONSCIENTIZAÇÃO PARA A
CONSERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO ESCOLAR .......................................................................................1203
ATITUDES AMBIENTAIS ENTRE ALUNOS DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS EM ESCOLA DO
MUNICÍPIO DE MACEIÓ, ALAGOAS .....................................................................................................1210
CONSCIÊNCIA AMBIENTAL: CONHECIMENTO DOS ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL DE UMA
ESCOLA PÚBLICA DE DOIS RIACHOS-AL SOBRE O DESTINO E A APLICAÇÃO DO LIXO .........................1216
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA ESCOLA EEB JOSÉ GONÇALVES DA SILVA – SÃO DANIEL - ITAPIPOCA, CE:
RELATO DE EXPERIÊNCIAS ..................................................................................................................1225
CONSELHOS CONSULTIVOS E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: CONCIENTIZAÇÃO E PARTICIPAÇÃO COLETIVA
EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO ......................................................................................................1232
EDUCAÇÃO AMBIENTAL INTEGRADA: MEIO AMBIENTE, SAÚDE E CIDADANIA NA PERSPECTIVA
SERTANEJA .........................................................................................................................................1237
PARA ALÉM DA SALA DE AULAS: TROCANDO SABERES AMBIENTAIS COM ESTUDANTES DAS SÉRIES
INICIAIS ...............................................................................................................................................1243
AS CONTRIBUIÇÕES DA MEMÓRIA E DA EXPERIÊNCIA DO SUJEITO IDOSO NAS PRÁTICAS DE PESQUISA
EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL ...............................................................................................................1249
CONSCIENTIZAÇÃO AMBIENTAL COMO FORMA DE PRESERVAÇÃO DOS ANIMAIS SILVESTRES DA ÁREA
DE PROTEÇÃO AMBIENTAL BOMFIN-GUARAÍRA/RN..........................................................................1255
ALTERAÇÕES SOCIOAMBIENTAIS DE ACORDO COM A PERCEPÇÃO DOS IDOSOS DO MUNICÍPIO DE
PARAUAPEBAS, PARÁ. ........................................................................................................................1262
EDUCAÇÃO E SENSIBILIZAÇÃO AMBIENTAL ENTRE PROFESSORES INDÍGENAS DE RONDÔNIA E
NOROESTE DE MATO GROSSO............................................................................................................1268
PARADOXOS E CONTRADIÇÕES DE UM PROCESSO PARTICIPATIVO: O CASO DE MARAGOJIPE E SEU
DESTINO .............................................................................................................................................1274
EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM GARGAÚ: A PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA NO PROJETO MANGUE
SUSTENTÁVEL .....................................................................................................................................1279
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA SOCIEDADE CIVIL ORGANIZADA: O CASO DO GRUPO DE INTERESSE
AMBIENTAL – GIA, FORTALEZA/CE. ....................................................................................................1286
EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM DUAS COMUNIDADES DA ZONA SUL DE PORTO ALEGRE – RS. ........................1292
A VISITA A UM LIXÃO PARA DESPERTAR A CIDADANIA .................................................................................1302
O QUE A CIÊNCIA DIZ SOBRE OS ANIMAIS.....................................................................................................1307
RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL UNIVERSITÁRIA EM COMUNIDADES RURAIS DO MUNICÍPIO DE
IBIMIRIM, PERNAMBUCO ...................................................................................................................1313
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS ESCOLAS DE ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO DO MUNICÍPIO DE
JUAZEIRO DO NORTE / CEARÁ: UMA CONTRIBUIÇÃO À CONSCIENTIZAÇÃO AMBIENTAL –
RELATO DE EXPERIÊNCIAS ..................................................................................................................1319
EDUCAÇÃO AMBIENTAL: RESPONSABILIDADE DE TODOS. ...........................................................................1328
A CONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA AMBIENTAL COMO ESTRATÉGIA DIDÁTICA PARA ABORDAGEM DAS
RELAÇÕES SOCIEDADE E NATUREZA NA ILHA DE MARÉ – SALVADOR - BA .........................................1336
MARCO REGULADOR DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL BRASILEIRA E A QUALIDADE DE VIDA ............................1344
ANÁLISE DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL JUNTO A MORADORES DA COLÔNIA DE PESCADORES Z3,
PELOTAS .............................................................................................................................................1351
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS NO
MUNICÍPIO DE RIO TINTO – PB ...........................................................................................................1359
A ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR E SUA INFLUÊNCIA NA PERCEPÇÃO DE ALUNOS DO 6° ANO
QUANTO AO RISCO DE EXTINÇÃO DO PAU-BRASIL (CAESALPINIA ECHINATA) ...................................1367
A CONSCIÊNCIA AMBIENTAL DAS MARICULTORAS DE RIO DO FOGO/RN EM CONCOMITÂNCIA COM A
MOBILIZAÇÃO SOCIAL VOLTADA PARA O CULTIVO DE MACROALGAS ...............................................1378
EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMUNITÁRIA NO CONTEXTO DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA DE SANTO ANTÃO -
PE: ESTUDOS, DESAFIOS E PRÁTICAS ..................................................................................................1384
RECICLANDO ESPERANÇA: ECONOMIA SOLIDÁRIA E SUSTENTABILIDADE A SERVIÇO DA GERAÇÃO DE
RENDA E PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE....................................................................................1391
MEIO AMBIENTE E EDUCAÇÃO: UM DIAGNÓSTICO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL FORMAL NO
SEMIÁRIDO ALAGOANO .....................................................................................................................1398
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA ESCOLA RIO CAETÉ: UMA EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA
ESCOLA PÚBLICA.................................................................................................................................1406
EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E PERCEPÇÃO AMBIENTAL NO MUNICÍPIO DE SANTANA DO CARIRI-CEARÁ.....1414
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE PROFESSORAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL ...1422
CONCEPÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DE PROFESSORAS DAS SÉRIES INICIAIS EM FORMAÇÃO
EM SERVIÇO. .......................................................................................................................................1430
CONCEPÇÕES DE PROFESSORES DO ENSINO MÉDIO ACERCA DA INSERÇÃO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
EM SUAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS ....................................................................................................1438
INVESTIGANDO A AMBIENTALIZAÇÃO CURRICULAR DE UM CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS
BIOLÓGICAS ........................................................................................................................................1445
A DIMENSÃO AMBIENTAL E OS CURRÍCULOS DOS CURSOS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES....................1453
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA .........................................................................1460
TRANSFERÊNCIA DA INFORMAÇÃO PARA MANTER HOMEM / TERRA SUSTENTÁVEL ..................................1465
A GESTÃO AMBIENTAL PARTICIPATIVA COMO ESTRATÉGIA DO DESENVOLVIMENTO LOCAL: O
SEMIÁRIDO PERNAMBUCANO. ..........................................................................................................1473

5. ECOPEDAGOGIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL ..........................................................................................1481

A IMPORTANCIA DA PESQUISA AMBIENTAL EM PROGRAMAS DE POS-GRADUAÇÃO ..................................1482


ECOPEDAGOGIA: UM DIFERENTE OLHAR PARA A ABORDAGEM EDUCACIONAL..........................................1489
EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UMA EXPERIÊNCIA EM ESCOLAS INDÍGENAS .......................................................1497
A ECOLOGIA NO ENSINO BÁSICO E SUA APLICABILIDADE NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ................................1504
DIAGNÓSTICO DA AMBIENTALIZAÇÃO CURRICULAR DO CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS
BIOLÓGICAS DA UESB - CAMPUS DE JEQUIÉ/BA .................................................................................1511
O MAPA MENTAL E AS REPRESENTAÇÕES SOBRE MEIO AMBIENTE DE ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA
DE PALMAS (TO) .................................................................................................................................1520
OFICINAS DE RECICLAGEM COMO RECURSO DIDÁTICO E INCENTIVO A PRÁTICA DA EDUCAÇÃO
AMBIENTAL NO AMBIENTE ESCOLAR .................................................................................................1528
TRABALHOS NA ÁREA AMBIENTAL INFLUENCIAM O COMPORTAMENTO DOS ALUNOS EM
INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR? ................................................................................................1535
PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS DA ESCOLA ESTADUAL BURITI, EM UMA TRILHA INTERPRETATIVA
NA RESERVA BIOLÓGICA GUARIBAS, RIO TINTO, PB. ..........................................................................1542
EDUCAÇÃO AMBIENTAL: COMO MEIO DE PRESERVAÇÃO DO MAIOR REMANESCENTE DA MATA
ATLÂNTICA NO ESTADO DE PERNAMBUCO, RECIFE - BRASIL. ............................................................1548
O QUE É “MEIO AMBIENTE”? ANÁLISE DA PERCEPÇÃO DE ESTUDANTES DE UMA ESCOLA DO SERTÃO
DO PAJEÚ/SERRA TALHADA – PE ........................................................................................................1552
O PODER DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL PELA PRÁTICA VIVIDA. .....................................................................1557
ANÁLISE DAS PERCEPÇÕES SOCIOAMBIENTAIS DE ALUNOS DO ENSINO MÉDIO EM UM COLÉGIO
ESTADUAL NO RIO DE JANEIRO ..........................................................................................................1563
AS QUESTÕES SOCIOAMBIENTAIS NO EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO (2006 A 2010)......................1570
PERCEPÇÃO E EDUCAÇÃO AMBIENTAL SOBRE O RIO BELÉM (CURITIBA – PR) EM ESCOLAS MUNICIPAIS
DE SEU ENTORNO ...............................................................................................................................1576
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA DE SURDOS ..................................1583
PAISAGENS E ECOLOGIAS: IMPRESSÕES DE ALUNOS DO COLÉGIO MUNICIPAL PROFESSORA DIDI
ANDRADE............................................................................................................................................1589
AFINAL, A EDUCAÇÃO AMBIENTAL CHEGOU ÀS ESCOLAS? ..........................................................................1597
VIVEIRO EDUCADOR: UMA EXPERIÊNCIA NA AMAZÔNIA.............................................................................1603
OFICINA PEDAGÓGICA “DESVENDANDO AS VANTAGENS E DESVANTAGENS DA ENERGIA NUCLEAR”:
UMA PROPOSTA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL ....................................................................................1610
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E PEDAGOGIA: REFLEXÕES E PRÁTICAS .................................................................1615
A PRESENÇA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO COTIDIANO ESCOLAR EM CHAPADINHA - MA .......................1622
O OLHAR DE DISCENTES DO ENSINO FUNDAMENTAL SOBRE AS PRAIAS DO LITORAL PIAUIENSE ................1628
EDUCAÇÃO AMBIENTAL, CURRÍCULO ESCOLAR E ENSINO MÉDIO INTEGRADO ...........................................1634
O QUE É MEIO AMBIENTE? QUESTIONANDO ALUNOS SURDOS E OUVINTES NA ESCOLA PÚBLICA .............1641
SENSIBILIZAÇÃO DE UMA EQUIPE MULTIDISCIPLINAR, ATRAVÉS DA ARTETERAPIA, PARA ATUAÇÃO EM
EDUCAÇÃO AMBIENTAL .....................................................................................................................1651
PRODUÇÃO ACADÊMICA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL: TRABALHOS DE CONCLUSÃO DE CURSO ................1658
EDUCAÇÃO AMBIENTAL: VISÃO DOS ALUNOS AOS PROBLEMAS AMBIENTAIS ............................................1666
ECOPEDAGOGIA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO SEMIÁRIDO CEARENSE ....................................1671
ECOPEDAGOGIA: O HAICAI COMO INSTRUMENTO PARA A PERCEPÇÃO AMBIENTAL. ................................1677
MODELO DE AVALIAÇÃO DE DISSERTAÇÕES E TESES EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM MINAS GERAIS ........1682
PRÁTICAS EDUCATIVAS PARA O ENSINO DA EA PARA ESTUDANTES DE PEDAGOGIA EM FOZ DO IGUAÇU
(PR) .....................................................................................................................................................1692
PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE MORADORES DA COMUNIDADE DE VILA FELICIDADE, RECIFE-PE ...................1700
ENSINO DE ECOLOGIA: A VISÃO E AS DIFICULDADES DOS PROFESSORES DOS ENSINOS FUNDAMENTAL
E MÉDIO DE JOÃO PESSOA, PB - DADOS PRELIMINARES....................................................................1707
ECOPEDAGOGIA E A CONSTRUÇÃO DO SUJEITO ECOLÓGICO ......................................................................1710
PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS ALUNOS DA REDE PÚBLICA DO MUNICÍPIO DE TIBAU DO SUL/RN SOBRE
O ECOSSISTEMA MANGUEZAL. ...........................................................................................................1715
NARRATIVAS COMO FERRAMENTA DE ESTUDO NA FORMAÇÃO DE EDUCADORES AMBIENTAIS ................1722
EDUCAÇÃO AMBIENTAL: A IMPORTÂNCIA DA ECOPEDAGOGIA E DA SUSTENTABILIDADE PARA A
SOCIEDADE E A ESCOLA ......................................................................................................................1729
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: PERCEPÇÕES E PRÁTICAS DOS ESTUDANTES DO CURSO TÉCNICO
EM EDIFICAÇÕES LAGARTO/SE ...........................................................................................................1734
A CONTRIBUIÇÃO DA HISTÓRIA AMBIENTAL NA ELABORAÇÃO DE INSTRUMENTOS PEDAGÓGICOS
PARA PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL. .....................................................................................1741
PEDAGOGIA DA FRATERNIDADE ECOLÓGICA: EDUCAÇÃO PARA A SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL..........1749
O PAPEL DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA ESTUDANTES DO 1º ANO DO ENSINO MÉDIO DA ESCOLA
ESTADUAL TONICO FRANCO, EM ITUIUTABA – MG............................................................................1755
A CAATINGA VAI À ESCOLA: A IMPORTÂNCIA DA BIODIVERSIDADE .............................................................1764
CONCEPÇÕES EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS DO CURSO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS DA
FACULDADE DE EDUCAÇÃO DE ITAPIPOCA, CEARÁ: UMA ANÁLISE CONCEITUAL ..............................1769
CONEXÕES DE SABERES E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL: SOMANDO SABERES E EXPERIÊNCIAS PARA A
INOVAÇÃO DA PRÁTICA ECOPEDAGÓGICA EM COMUNIDADES POPULARES ....................................1776
1. Educação Ambiental e Saúde Global
16

RISCOS AO MEIO AMBIENTE E A SAÚDE HUMANA DECORRENTES DO


DESCARTE INADEQUADO DE BATERIAS E APARELHOS CELULARES
Adriana dos Santos BEZERRA
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais (UFCG)
Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFPB/UEPB)
Docente do curso de Administração da Faculdade Maurício de Nassau Campina Grande/PB adriana_bezerra@hotmail.com
Silvana Câmara TORQUATO
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais pela UFCG
silvana.torquato@hotmail.com
Prof. Dr. Wilton Silva LOPES
Doutor em Química pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Pós-Doutor em Saneamento pela Universidade de São
Paulo (USP)
wiltonuepb@gmail.com

RESUMO
Dentre os problemas ambientais atuais mais graves, destaca-se a preocupação com os resíduos
sólidos, sobretudo quando se tratam de resíduos sólidos perigosos, representando riscos sanitários e
ambientais causando a contaminação de pessoas, animais, lençóis freáticos e subsolo. Essa preocupação se
manifesta devido ao rápido crescimento das taxas de geração de REEE e pela presença de substâncias
tóxicas na composição dos mesmos. O presente estudo tem como objetivo averiguar quais os riscos ao
meio ambiente e a saúde humana estão associados ao descarte inadequado de baterias e aparelhos
celulares e ainda qual a destinação mais adequada para este tipo de resíduo, considerando que os resíduos
tecnológicos, por suas características, são considerados resíduos Classe I – perigosos, pois algumas partes
contêm metais pesados e necessitam de cuidados específicos e gerenciamento apropriado da
armazenagem à disposição final.
Palavras-chave: metais pesados; resíduos tecnológicos; baterias e aparelhos celulares.

INTRODUÇÃO
Nos últimos anos o mercado mundial de celulares sofreu grandes transformações. Os avanços
tecnológicos no setor de comunicação são constantes, especificamente na produção de celulares, tornando
o aparelho celular cada vez mais acessível a todos, fazendo com que tais produtos passem a ser vistos como
um sonho de consumo tecnológico rapidamente descartado e substituído, transformando-se em tecnologia
obsoleta, resultando em uma desmedida quantidade de aparelhos que tem como destino o descarte
inadequado.
Dados da Anatel indicam que o Brasil terminou o mês de Maio de 2011 com 215 milhões de
celulares e uma densidade 110,5 cel/100 hab, considerando ainda que a média de troca de aparelho celular
é de apenas um ano (TELECO, 2011), surge a preocupação com o destino dado aos aparelhos descartados
por seus proprietários.
Como todo equipamento eletro-eletrônico, as baterias e aparelhos celulares são confeccionados
com grandes quantidades de substâncias tóxicas, nocivas ao meio ambiente e a saúde das populações,
como cádmio, arsênio, chumbo, níquel, entre outros, porém esta ainda é uma preocupação recente por
parte dos governantes. Em localidades em que há a ausência de um gerenciamento adequado dos resíduos
sólidos urbanos que destinem adequadamente os Resíduos de Equipamentos Elétricos e Eletrônicos (REEE)
tais resíduos tem como destino lixões e aterros sanitários, incorrendo em graves riscos sanitários e
ambientais.
Diante deste cenário, o presente estudo tem como objetivo averiguar o quais os riscos ao meio
ambiente e a saúde humana associados ao descarte inadequado de baterias e aparelhos celulares.

METODOLOGIA
Marconi e Lakatos (2007) observam que os critérios para a classificação dos tipos de pesquisa
variam de acordo com o enfoque dado pelo autor. Considerando-se o critério de classificação de pesquisa
proposto por Vergara (2007), quanto aos fins a pesquisa será exploratória, pois foi realizada em área na
qual há pouco conhecimento acumulado e sistematizado.

João Pessoa, outubro de 2011


17

Quanto aos meios, a pesquisa será bibliográfica, porque para a fundamentação teórico-
metodológica do trabalho recorreu-se ao uso de material publicado em livros, revistas, teses, dissertações,
jornais, redes eletrônicas, ou seja, material acessível ao público em geral.
Segundo Cervo e Bervian (2003), a pesquisa bibliográfica procura explicar um problema a partir de
referências teóricas publicadas em documentos e qualquer espécie de pesquisa, em qualquer área, supõe e
exige uma pesquisa bibliográfica prévia, quer para o levantamento do estado da arte do tema, quer para
fundamentação teórica ou ainda para justificar os limites e contribuições da própria pesquisa.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS: CONTEXTUALIZAÇÃO
Os resíduos sólidos urbanos (RSU) e sua destinação adequada estão entre as principais
preocupações da sociedade na atualidade. Tal preocupação é evidenciada por estes serem importantes
agentes causadores de degradação do ambiente urbano e natural, constituindo meios para o
desenvolvimento e proliferação de vetores transmissores de diversas doenças infecciosas. De acordo com
Mazzer & Cavalcanti (2004), o crescimento da população, o desenvolvimento industrial e a urbanização
acelerada, atrelados à postura individualista da sociedade, vêm contribuindo para o aumento do uso dos
recursos naturais e para a geração de resíduos. Na maioria das vezes, esses resíduos são devolvidos ao
meio ambiente, de forma inadequada, levando à contaminação do solo e das águas, trazendo vários
prejuízos ambientais, sociais e econômicos.
O volume crescente de resíduos sólidos não é uma preocupação recente e está atrelado ao
aumento da capacidade produtiva e ao crescimento populacional. Entretanto, a elevação do teor tóxico dos
resíduos sólidos urbanos tem despertado ultimamente maiores atenções. Tais alterações estão
relacionadas às mudanças nas características dos resíduos sólidos gerados nas áreas urbanas, trazendo
dificuldades técnicas e operacionais para a destinação final e tratamento apropriados.
Lima et al (2008) afirmam que o manejo inadequado de resíduos sólidos de origens diversas gera
desperdícios, contribuindo de forma significativa à manutenção das desigualdades sociais, tornando-se
uma ameaça a saúde pública e agravando a degradação ambiental comprometendo ainda a qualidade de
vida das comunidades dos centros urbanos.
A ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas (2004), define resíduos sólidos como resíduos
nos estados sólido e semi-sólido, que resultam de atividades de origem industrial, doméstica, hospitalar,
comercial, agrícola, de serviços e de varrição. Ficam incluídos nesta definição os lodos provenientes de
sistemas de tratamento de água, aqueles gerados em equipamentos e instalações de controle de poluição,
bem como determinados líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública
de esgotos ou corpos de água, ou exijam para isso soluções técnica e economicamente inviáveis em face à
melhor tecnologia disponível.
Os resíduos, segundo a ABNT (2004), são classificados em:
Resíduos classe I – Perigosos: apresentam riscos à saúde pública, provocando mortalidade,
incidência de doenças ou acentuando seus índices, ou ao meio ambiente, quando o resíduo for gerenciado
de forma inadequada. Podem ter características como inflamabilidade, corrosividade, reatividade,
toxicidade e patogenicidade.
Resíduos classe II – Não perigosos, divididos em:
Resíduos classe II A – Não inertes: aqueles que não se enquadram nas classificações de resíduos
classe I - Perigosos ou de resíduos classe II B- Inertes. Podem ter propriedades, tais como:
biodegradabilidade, combustibilidade ou solubilidade em água.
Resíduos classe II B – Inertes: que não se degradam ou não se decompõem quando dispostos no
solo.

RESÍDUOS DE EQUIPAMENTOS ELÉTRICOS/ELETRÔNICOS


Em meio aos resíduos sólidos gerados nos grandes centros urbanos há um tipo particular: os
Resíduos de Equipamentos Elétricos e Eletrônicos (REEE), denominados Resíduos Tecnológicos ou ainda e-
resíduos, como é o caso de pilhas, baterias, lâmpadas fluorescentes, telefones celulares, computadores,
televisões, rádios e impressoras etc.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


18

Hofmann-Gatti (2008) ressalta que a partir do incremento da indústria da informática e das


telecomunicações verifica-se um aumento e diversificação de produtos - gerados pelo avanço de uma
tecnologia cada vez mais complexa - que são descartados com muita rapidez, justamente pela aceleração
do desenvolvimento tecnológico.
Os equipamentos elétricos e eletrônicos se tornam resíduos após o esgotamento de sua vida útil e
este processo de obsolescência tem sido antecipado devido ao acelerado desenvolvimento tecnológico.
Segundo a United Nations Environment Programme – UNEP (2009), cerca de 20 a 50 milhões de toneladas
são descartadas no mundo inteiro anualmente, representando 5% de todos os resíduos sólidos urbanos. Na
União Européia está previsto um aumento de 3 a 5% ao ano e os países em desenvolvimento devem
triplicar sua produção de e-resíduos até 2010.
Para Leite (2006, p.34) houve uma aceleração no desenvolvimento tecnológico experimentado pela
humanidade principalmente após a Segunda Guerra Mundial, permitindo a introdução constante, e com
velocidade crescente, de novas tecnologias e de novos materiais, contribuindo para a melhoria da
performance técnica e para a redução de preços e dos ciclos de vida útil de grande parcela dos bens de
consumo duráveis e semiduráveis.
Conforme Lima et al (2008), o e-lixo apresenta características próprias que o diferem do lixo
comum. É um lixo volumoso ocupando grandes espaços físicos e, alguns possuem componentes perigosos
(metais pesados e compostos bromados, entre outros) necessitando de gestão eficaz e políticas públicas
para direcionar produtores e consumidores a um gerenciamento adequado de uso e descarte. Aliado ao
fato tem-se ainda a falta de incentivo à reciclagem, os altos preços dos serviços de manutenção, do
tratamento dos elementos químicos e a falta de peças para equipamentos obsoletos.
Os impactos causados pelo crescente descarte dos REEE sem a devida destinação são imensos.
Atualmente as questões de saúde ambiental e humana, relacionadas ao descarte e destinação inadequada
dos diversos tipos de equipamentos elétricos e eletrônicos após sua vida útil, têm gerado grande
preocupação e amplas discussões. Tal preocupação se manifesta devido ao rápido crescimento das taxas de
geração de REEE e pela presença de substâncias tóxicas na composição dos mesmos.
Os resíduos tecnológicos, por suas características, são considerados resíduos Classe I – perigosos,
pois algumas partes contêm metais pesados e necessitam de cuidados específicos e do gerenciamento
apropriado da armazenagem à disposição final.
A destinação dada a esse material pós-consumo está diretamente relacionada ao fator cultural,
econômico e as legislações específicas de cada país. Na ausência de políticas públicas específicas para estes
resíduos o armazenamento e disposição não segura em terrenos baldios, mares, lixões, provocando
poluição ambiental. No Brasil, entre 2002 e 2016 a geração dos resíduos tecnológicos poderá chegar a
493.400 toneladas/ano, representando uma média por habitante de 2,6 kg/ano (RODRIGUES, 2007). Diante
deste cenário, torna-se evidente a necessidade de encontrar alternativas que possam minimizar os
impactos ambientais causados pela destinação inadequada destes resíduos.

DESTINAÇÃO DOS RESÍDUOS DE EQUIPAMENTOS ELÉTRICOS E ELETRÔNICOS


No Brasil, após mais de duas décadas de discussões e vários trâmites, a Lei nº 12.305 de 2 de agosto
de 2010 que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) foi sancionada e entrando em vigor na
data de sua publicação. Além de Estados e municípios, as empresas e empreendimentos privados terão que
se ajustar à Lei Federal. Conseqüentemente, serão necessárias alterações operacionais e na conduta
empresarial, com o compartilhamento de responsabilidades pelo ciclo de vida dos produtos, e sendo assim,
a responsabilidade não se restringe apenas aos fabricantes. A responsabilidade compartilhada se estenderá
a todos os geradores de resíduos sólidos, incluindo pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou
privado, que gerem resíduos por meio de suas atividades, inclusive o consumo (PNRS, 2010).
A União Européia, por meio de duas diretivas publicadas em 2003, padronizou a produção,
comercialização e o descarte de equipamentos elétricos e eletrônicos: a Diretiva 2002/96/CE sobre
Resíduos de Equipamentos Eletroeletrônicos (WEEE) e a Diretiva 2002/95/CE sobre a Restrição do Uso de
Substâncias Perigosas (RoHS)1.

1
RoHS sigla da expressão: Restriction of the Use of certain Hazardous Substances in Electrical and Electronic
Equipment.

João Pessoa, outubro de 2011


19

Conforme Ansanelli (2007), a diretiva WEEE é um regulamento em vigor desde 2006, com o
objetivo de prevenir e diminuir os resíduos de uma lista de equipamentos eletro-eletrônicos selecionados
segundo o estágio atual de análise científica. Fundamenta-se nos princípios do poluidor pagador, precaução
e na responsabilidade estendida do produtor. A responsabilidade do produtor está associada às etapas de
coleta seletiva, tratamento, recuperação, reciclagem e financiamento. A RoHS visa eliminar e/ou reduzir as
substâncias perigosas presentes nos equipamentos eletroeletrônicos. Esta é complementar à WEEE na
medida em que substitui substâncias perigosas nos equipamentos eletroeletrônicos por materiais mais
seguros facilitando a reciclagem.
Kumar & Putnam (2008) observam que a diretiva REEE essencialmente se aplica a todos os
equipamentos que podem ser conectados a um circuito elétrico ou que funcionam com pilhas. Ela inclui
grandes e pequenos equipamentos, eletrodomésticos, equipamentos de tecnologia da informação e
telecomunicações, equipamentos de iluminação, ferramentas eletrônicas, brinquedos e equipamentos
desportivos, alguns dispositivos médicos, instrumentos de acompanhamento e controle.
O objetivo da Diretiva REEE's é a prevenção de resíduos de equipamentos e procura para melhorar
o desempenho ambiental de todos os envolvidos no ciclo, incluindo produtores, distribuidores,
consumidores e, especialmente, as operações diretamente envolvidos no tratamento de resíduos de
equipamentos elétrico e eletrônico.
Para viabilizar gerenciamento adequado dos REEE, a exemplo da União Européia, são necessárias
medidas legislativas que propiciem a padronização não apenas da comercialização, como também do
processo produtivo, utilização e descarte dos produtos. Tais condições são necessárias e essenciais para a
redução da degradação do meio ambiente, sendo estas medidas indispensáveis para que se aumentem as
quantidades de materiais reciclados, disciplinem os processos de recuperação dos materiais e a destinação
final adequada de seus rejeitos.

ELEMENTOS NOCIVOS PRESENTES NOS CELULARES E BATERIAS


Os telefones celulares passam por um aumento mundial de utilização sem precedentes. Este fato,
aliado a velocidade de obsolescência decorrente dos avanços tecnológicos que criam continuamente novos
produtos com características desejadas pelo consumidor, contribui para significativo volume de resíduos
gerados.
Geyer & Blass (2009) ressaltam que os incentivos econômicos de fabricantes de telefones celulares
e recondicionadores não estão atualmente bem alinhados com o desempenho ambiental de reutilização.
Mesmo com os avanços tecnológicos e a mudança no design dos celulares, percebe-se que não há
um avanço no desempenho ambiental nos novos produtos lançados e comercializados. Wu et al (2008)
realizaram uma investigação quantitativa sobre o desempenho ambiental de dois aparelhos celulares, um
modelo mais antigo e outro mais novo, onde os mesmos foram avaliados em termos de Indicador Potencial
de Toxicidade (IPT) e verificou-se que a composição e as percentagens dos componentes nos dois aparelhos
são semelhantes, mesmo com o peso do aparelho mais antigo sendo o dobro do modelo mais recente haja
vista, as porcentagens de cada elemento em relação ao peso total dos dois modelos são semelhantes.
O impacto causado ao meio ambiente e aos seres humanos é decorrente não apenas das baterias,
mas também do aparelho celular e seus componentes. O crescente volume de resíduos gerados pelo
descarte de aparelhos e baterias de celular representa um dos mais sérios riscos ao meio ambiente e à
saúde das populações na atualidade, mais precisamente pelo nível de toxicidade presente nas diversas
partes que os constituem.
Telefones celulares descartados em aterros sanitários ou incinerados criam a possibilidade de
liberar substâncias tóxicas (metais pesados) que antes estavam nas baterias, circuitos impressos, displays
de cristal líquido, carcaças de plástico ou fiação (FRANKE, 2009). Nnorom e Osibanjo (2009) colocam que
no caso de telefones celulares, a caixa de plástico representa entre 15 e 55% do peso total, sem bateria.
Elementos como chumbo, cádmio, cromo, mercúrio, bromo, estanho e antimônio são ou foram
adicionados aos polímeros como pigmentos, cargas, estabilizadores UV e retardadores de chama.
Segundo Wu et al (2008), os constituintes metálicos primários dos aparelhos celulares são Al, Fe,
Cu, Co, Zn, Ni, Sn, Cr e Pb e salienta ainda que o chumbo é uma substância bastante problemática,
conhecida como perigosa, com uso fortemente restringido ou proibido em eletrônicos pela legislação da
(UE), baseada na legislação (RoHS). Outros 15 elementos também foram confirmados em pequenas

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


20

quantidades, alguns dos quais, como Be, Cd, As e Sb, pode ser altamente tóxico para o meio ambiente e
seres humanos. De acordo com o relatório da Basel Action Network2 (2004), um estudo feito na
Universidade da Flórida, indicou que a composição média dos celulares
foi de 45% de plástico, 40% placa de circuito (placa mãe), 4% de cristal líquido (LCD),
3% de placa de magnésio e 8% de metais diversos. Estes números não incluem a bateria do telefone celular.
São encontradas nestes materiais as seguintes substâncias tóxicas: chumbo, cobre, bromatos retardadores
de chama, berilo, cromo hexavalente, arsênio, cádmio, prata, ouro e níquel.
Os tóxicos bioacumulativos persistentes ou PBTs (Persistent Bioaccumulative Toxins) são
substâncias que estão presentes em telefones celulares como chumbo, cádmio, bromatos retardantes de
chama, berílio, mercúrio, cromo e cobre.
Segundo o relatório da Basel Action Network (2004), estas substâncias são particularmente
perigosas porque são persistentes no ambiente e não degradam por um longo período de tempo,
movendo-se facilmente no ambiente, propagando-se no ar, na água e no solo, resultando na acumulação
de toxinas longe da fonte poluidora original. Tais substâncias se acumulam no tecido adiposo dos seres
humanos e animais, sendo gradativamente concentradas, colocando em risco a saúde humana e os
ecossistemas.

POTENCIAL POLUIDOR DOS ELEMENTOS QUÍMICOS UTILIZADOS EM PILHAS E BATERIAS


Elemento EFEITOS SOBRE O HOMEM
Dores abdominais (cólica, espasmo e rigidez)
Disfunção renal
Pb
Anemia, problemas pulmonares
Chumbo*
Neurite periférica (paralisia)
Encefalopatia (sonolência, manias, delírio, convulsões e coma)
Gengivite, salivação, diarréia (com sangramento)
Dores abdominais (especialmente epigástrio, vômitos, gosto metálico)
Congestão, inapetência, indigestão
Hg Dermatite e elevação da pressão arterial
Mercúrio Estomatites (inflamação da mucosa da boca), ulceração da faringe e do esôfago, lesões
renais e no tubo digestivo
Insônia, dores de cabeça, colapso, delírio, convulsões
Lesões cerebrais e neurológicas provocando desordens psicológicas afetando o cérebro
Manifestações digestivas (náusea, vômito, diarréia)
Disfunção renal
Cd Problemas pulmonares
Cádmio* Envenenamento (quando ingerido)
Pneumonite (quando inalado)
Câncer (o cádmio é carcinogênico)
Câncer (o níquel é carcinogênico)
Ni
Dermatite
Níquel
Intoxicação em geral
Distúrbios digestivos e impregnação da boca pelo metal
Ag
Argiria (intoxicação crônica) provocando coloração azulada da pele
Prata
Morte
Li Inalação – ocorrerá lesão mesmo com pronto atendimento
Lítio Ingestão – mínima lesão residual, se nenhum tratamento for aplicado

2
Basel Action Network (BAN) é a única organização no mundo centrada em combater a exportação de
resíduos tóxicos, tecnologias e produtos tóxicos de sociedades industrializadas para os países em desenvolvimento,
servindo como uma guardiã e promotora da Convenção de Basiléia e suas decisões. A Convenção de Basiléia trata do
Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e seu Depósito e surgiu no início de 1981, sendo
patrocinado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

João Pessoa, outubro de 2011


21

Disfunção do sistema neurológico


Mn
Afeta o cérebro
Manganês
Gagueira e insônia
Problemas pulmonares
Zn
Pode causar lesão residual, a menos que seja dado atendimento imediato
Zinco
Contato com os olhos – lesão grave mesmo com pronto atendimento
* Mesmo em pequenas quantidades.
Quadro 1 - Potencial poluidor dos elementos químicos utilizados em pilhas e baterias
Fonte: adaptado de MONTEIRO et al (2001)

Conforme Monteiro et al (2001), as pilhas e baterias podem conter um ou mais dos seguintes
metais pesados: chumbo (Pb), cádmio (Cd), mercúrio (Hg), níquel (Ni), prata (Ag), lítio (Li), zinco (Zn),
manganês (Mn) e seus compostos. As substâncias das pilhas que contêm esses metais possuem
características de corrosividade, reatividade e toxicidade e são classificadas como "Resíduos Perigosos –
Classe I". As substâncias contendo cádmio, chumbo, mercúrio, prata e níquel causam impactos negativos
sobre o meio ambiente e, em especial, sobre o homem. Alguns dos elementos químicos utilizados em
pilhas e baterias e o respectivo potencial poluidor de cada um deles, que causam problemas ao meio
ambiente e afetam a saúde humana, podem ser vistos no Quadro 1.
Segundo Nnorom e Osibanjo (2007), esses resíduos de componentes eletrônicos podem
representar potencial perigo para o ambiente e a saúde humana nos países em desenvolvimento,
considerando as diversas práticas de gestão de baixo custo. Nnorom e Osibanjo (2009) relatam em uma
pesquisa realizada para examinar os níveis de metais pesados (Pb, Cd, Ni e Ag) em resíduos de carcaça
plástica em telefones móveis. Os resultados do estudo mostraram que os níveis de chumbo, cádmio, níquel
e prata nestas unidades não constituem perigo significativo se forem adequadamente geridas.

DESTINAÇÃO ADEQUADA DE RESÍDUOS DE EQUIPAMENTOS ELÉTRICOS E ELETRÔNICOS


Em localidades em que não há incentivo e investimentos apropriados para dar a destinação
adequada a tais resíduos, estes passam rotineiramente a ser queimados abertamente, descartados em
águas superficiais ou com resíduos sólidos urbanos, causando danos a meio ambiente e afetando a saúde
da população local, sobretudo comunidades com baixo nível de renda e condições sanitárias desfavoráveis
em que estão expostas a diversos vetores de doenças, insetos e animais peçonhentos.
De acordo com dados divulgados na Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (IBGE, 2002), estima-
se que são gerados no país cerca de 157 mil toneladas de resíduos domiciliares e comerciais por dia.
Entretanto, 20% da população brasileira ainda não conta com serviços regulares de coleta. Observando em
número de municípios, o resultado não é favorável, pois 63,6% utilizam lixões e 32,2%, aterros adequados
(13,8% sanitários, 18,4% aterros controlados), sendo que 5% não informaram para onde vão seus resíduos.
Para Abreu e Palhares (2006), os lixões são a maior ameaça às populações de baixa renda por
estarem localizados nas periferias, perto de áreas pobres. O lixo é depositado deliberadamente a céu
aberto e não recebe nenhuma forma de tratamento. Com isso, há liberação de gás metano (gás oriundo da
decomposição de matérias orgânicas, extremamente poluente e tóxico) e chorume (líquido de cor negra
que se forma no lixo pelo acúmulo de água, no caso, decorrente das chuvas, e provocador do mau cheiro).
Ambos, gás metano e o chorume, são extremamente poluentes e tóxicos, o primeiro polui o ar e o segundo
representa forte ameaça aos lençóis freáticos e rios. Além de gerar poluentes, o lixão atrai uma série de
animais vetores, como ratos, baratas e outros insetos, responsáveis pela transmissão de diversas doenças
graves.
De acordo com Monteiro et al (2001), a única forma de se dar destino final adequado aos resíduos
sólidos é através de aterros, sejam eles sanitários, controlados, com lixo triturado ou com lixo compactado.
O aterro sanitário consiste em uma área especialmente preparada para receber os resíduos, o que
justifica os elevados custos de implantação. Segundo Abreu e Palhares (2006), os aterros sanitários
recebem altos investimentos em infra-estrutura, pois seu solo é inteiramente impermeabilizado, o que
evita que o chorume contamine o subsolo.
Monteiro et al (2001) destacam que o aterro sanitário é um método para disposição final dos
resíduos sólidos urbanos, sobre terreno natural, através do seu confinamento em camadas cobertas com

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


22

material inerte, geralmente solo, segundo normas operacionais específicas, de modo a evitar danos ao
meio ambiente, em particular à saúde e à segurança pública.
Para Abreu e Palhares (2006), o aterro controlado foi criado em vias de amenizar os problemas
oriundos dos lixões. Pode ser considerado como uma espécie de “lixão controlado”, já que o lixo é
depositado e acumulado sem receber nenhum tipo de tratamento anterior e à medida que vão se
formando camadas de lixo, estas são intercaladas por uma camada de terra que diminui o mau cheiro e a
presença de animais. Porém, esta medida não impede que haja contaminação do solo e dos lençóis
freáticos e nem a liberação do gás metano.
Conforme Monteiro et al (2001, p.150), o aterro controlado também é uma forma de se confinar
tecnicamente o resíduo coletado sem poluir o ambiente externo, porém, sem promover a coleta e o
tratamento do chorume e a coleta e a queima do biogás. O autor afirma ainda que todos os demais
processos ditos como de destinação final (usinas de reciclagem, de compostagem e de incineração) são, na
realidade, processos de tratamento ou beneficiamento do lixo, e não prescindem de um aterro para a
disposição de seus rejeitos. Abreu e Palhares (2006), acrescentam ainda que a incineração visa reduzir o
volume e peso do lixo, transformando-o em cinzas entretanto, não é aconselhável porque há emissão de
dióxido de carbono e liberação de substâncias tóxicas que, se não controladas, causam problemas sérios à
saúde.
Todavia, a destinação apropriada para a disposição de resíduos sólidos tecnológicos, exatamente
pela toxicidade que representam, como é o caso de celulares e baterias, seria em aterros industriais classe
I. Conforme Monteiro et al (2001), os aterros industriais podem ser classificados nas classes I, II ou III,
conforme a periculosidade dos resíduos a serem dispostos, ou seja, os aterros Classe I podem receber
resíduos industriais perigosos; os Classe II, resíduos não-inertes; e os Classe III, somente resíduos inertes.
Considerando as diversas técnicas de gestão de resíduos de baixo custo, a exemplo dos lixões,
praticadas em localidades em que não há maiores investimentos e uma política de resíduos sólidos que
funcione efetivamente, os resíduos de componentes eletrônicos representam perigo para o ambiente e a
saúde humana, pois passam a ter uma destinação inadequada. Rotineiramente estes resíduos são
queimados, descartados em águas superficiais ou com resíduos sólidos urbanos, causando prejuízos ao
meio ambiente e afetando a saúde da população, principalmente para aquelas comunidades de baixa renda
próximas aos lixões e aterros.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Atualmente as questões de saúde ambiental e humana, relacionadas ao descarte de resíduos
tecnológicos têm gerado amplas discussões sobre a responsabilidade de fabricantes e consumidores. Os
impactos causados pelo crescente descarte de baterias e aparelhos celulares sem a correta destinação são
incontestáveis. No presente estudo foi possível apresentar os principais males ao meio ambiente e a saúde
humana causados pela destinação inadequada de baterias a aparelhos celulares e ainda a destinação
adequada para este tipo de resíduo. No Brasil, na ausência de legislações que funcionem efetivamente
normalizando o uso de substâncias tóxicas na produção de equipamentos eletroeletrônicos, ainda com a
PNRS carecendo de detalhamento e prazos da logística de retorno destes resíduos e a lenta adequação dos
empreendimentos à nova lei, é de extrema importância que os consumidores sintam-se responsáveis pelo
retorno de seus produtos pós-consumo ao ciclo produtivo ou dando a destinação apropriada, estes
resíduos que podem causar prejuízos sanitários e ambientais incalculáveis.

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Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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O TERMO ZOONOSES NA CONCEPÇÃO DOS MORADORES DO BAIRRO


MULTIRÃO, LOCALIZADO NO MUNICÍPIO DE SERRA TALHADA/PE
Aline Cristina Ferreira NUNES
Graduanda Bolsista do Programa de Iniciação Científica (PIBIC/UFRPE) Universidade Federal Rural de Pernambuco -
Unidade Acadêmica de Serra Talhada, (UFRPE/UAST)
E-mail: alinenunesje@hotmail.com
Valéria Judite de SÁ
Graduanda do Curso de Bacharelado em Ciências Biológicas (UFRPE /UAST)
Marilene Maria de LIMA
Professora Adjunta I UFRPE/UAST

RESUMO
Zoonoses são doenças ou infecções naturalmente transmissíveis entre animais vertebrados e seres
humanos. O trabalho objetivou avaliar a concepção dos moradores do bairro Mutirão, localizado no
município de Serra Talhada, em Pernambuco, sobre o termo zoonoses. A coleta dos dados foi realizada
mediante a aplicação de questionários, por meio de entrevistas. Foram selecionados 20 moradores, de
modo aleatório, como amostra representativa da comunidade. Tratando-se do nível de escolaridade, 5%
dos entrevistados possuíam ensino fundamental completo (1ª a 4ª série), 50% ensino fundamental
incompleto, 5% 1° grau completo, 10% 2° grau completo e 30% analfabetos. Em relação ao conhecimento
do termo zoonose, 30% dos entrevistados alegaram já ter ouvido falar no termo e 70% o desconheciam
totalmente. As doenças zoonóticas assinaladas pelos entrevistados foram: tuberculose 25%, raiva 95%,
calazar (leishmaniose) 85%, larva migrans (cobreiro) 65%, sarna 95%, leptospirose 45%, bicho-do-pé 50%,
toxoplasmose 20%, brucelose 50% e peste bubônica 20%. Notou-se que doenças não zoonóticas presentes
na lista ofertada foram assinaladas como tendo caráter zoonótico, como por exemplo, lepra 25%, sarampo
15%, dengue 75%, filariose 20%, cólera 5%, catapora 20%, meningite 5% e AIDS 10%. Duas das doenças não
zoonóticas, rubéola e tétano, não foram citadas pelos entrevistados como tendo caráter zoonótico. Apesar
de não possuir conhecimento científico, a comunidade tem percepção de que os animais podem transmitir
doenças causando danos à saúde.
Palavras-chave: zoonoses, Multirão, escolaridade, saúde.

INTRODUÇÃO
Segundo o comitê da Organização Mundial de Saúde (OMS), zoonoses são doenças ou infecções
naturalmente transmissíveis entre animais vertebrados e seres humanos. Existem mais de 150 doenças de
caráter zoonótico, entre elas estão à leptospirose, toxoplasmose, leishmaniose, larva migrans cutânea
(LMC), larva migrans visceral (LMV), raiva, doença de Chagas, febre maculos, dentre outras (LANGONI,
2004). Uma série de agentes infecciosos, tais como, vírus e príons, bactérias, protozoários, helmintos e até
fungos e microsporídias, são responsáveis por enfermidades de caráter zoonótico (MARTINS, 2008).
Um grande número de fatores sociais, culturais, econômicos e ambientais exerce um papel
fundamental na criação de condições favoráveis para o surgimento destas enfermidades (MARTINS, 2008).
A relação entre o homem e o animal, vem se tornando cada vez mais próxima, principalmente com os
animais de estimação que possuem um papel importante na estrutura familiar e social (ANTUNES, 2001).
De maneira geral, a incidência de tais doenças ocorre, geralmente, sob condições adversas de vida
que se atrelam a processos de degradação ambiental, sendo, muitas vezes predominante em áreas
populacionais de baixa renda, com má estrutura sanitária, onde o homem altera as condições do meio e
modifica as paisagens naturais. Dessa forma, os elos de ligação entre o homem e o meio em que vive
tornam-se um fator de risco à saúde, pois os elementos ambientais e antrópicos são constantemente a
base para a proliferação e desenvolvimento de agentes patogênicos (COMIS et al., 2005).
As propagações dessas doenças, no semi-árido nordestino, vêm atingindo um percentual de
pessoas relativamente alto, quando relacionados a áreas de baixa renda ou expostas a condições de
saneamento básico precário, ambos associados ao nível de escolaridade da comunidade (WIJEYARATNE et
al., 1994). Tendo em vista as condições favoráveis da comunidade, o trabalho foi aplicado como método de

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análise, com o objetivo de avaliar a concepção dos moradores do bairro Mutirão, localizado no município
de Serra Talhada, em Pernambuco, sobre o termo zoonoses.

MATERIAL E MÉTODOS
2.1. Área de Estudo
O município de Serra Talhada está localizado no Sertão do Pajeú no estado de Pernambuco, com
uma área territorial de 2.952,8 Km2, situa-se a 427 km de Recife e conta com uma população
aproximadamente de 78.960 habitantes (IBGE, 2006; 2010) (Fig. I). O bairro Mutirão encontra-se localizado
na periferia da cidade e apresenta condições precárias de saneamento básico.

Figura I. Mapa indicando a localização de Serra Talhada - Pernambuco. Fonte: BELTRÃO et al.
(2005).

2.2. Coleta de Dados


Os dados foram obtidos entre o período de Março a Julho de 2010, mediante a aplicação de
questionários estruturados com perguntas abertas e fechadas. Foram selecionados 20 moradores, de modo
aleatório, como amostra representativa da comunidade. Os questionários continham perguntas sobre o
nível educacional do entrevistado, grau de conhecimento sobre o tema específico, quais doenças
reconheciam como sendo zoonose, se o entrevistado possuía algum animal de estimação e, caso possuísse,
qual a espécie.
3.3. Análise dos Dados
Para observar a existência de associação significativa em relação ao conhecimento do significado do
termo zoonoses, foi realizada análise estatística através do teste do qui-quadrado (χ2) de acordo com
Callegari- Jacques.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram entrevistados 20 moradores, destes, 30% (6/20) alegaram já ter ouvido falar em zoonoses,
descrevendo-as como sendo doenças de animais transmitidas ao homem, o restante dos entrevistados, ou
seja, 70% (14/20) desconheciam o termo, sendo que deste total, 14,3% (2/14) alegaram que zoonoses são
doenças que só afetam os animais e 85,7% (12/14) que são doenças de animais transmitidas ao homem
(Tab. I). Ao finalizar as entrevistas foram expostas as explicações e orientações acerca do termo por parte
dos entrevistadores e pôde-se perceber que apesar do desconhecimento do termo técnico, zoonoses, há
uma conscientização dos entrevistados, de que animais transmitem doenças aos seres humanos. O que se

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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constitui em um fator importante, pois ao saber que pode adquirir alguma doença de um animal as pessoas
preocupam-se em prevenir (LIMA, 2003).
Com relação ao nível de escolaridade, 5% (1/20) dos entrevistados possuíam ensino fundamental
completo (1ª a 4ª série), 50% (10/20) ensino fundamental incompleto, 5% (1/10) 1° grau completo, 10%
(2/20) 2° grau completo e 30% (6/20) analfabetos. Tais resultados corroboram com as observações de
Lima-Costa (2004), o qual afirma que o nível de escolaridade exerce influência na qualidade de vida e
promoção da saúde da população pelo acesso a informação.
Para avaliar a percepção dos entrevistados sobre as doenças que eles reconheciam como sendo
zoonoses, ofertou-se uma lista contendo tanto doenças zoonóticas como não zoonóticas. As doenças
zoonóticas assinaladas pelos entrevistados foram: tuberculose (5/20), raiva (19/20), calazar (leishmaniose)
(17/20), larva migrans (cobreiro) (13/20), sarna (19/20), leptospirose (9/20), bicho-do-pé (10/20),
toxoplasmose (4/20), brucelose (10/20) e peste bubônica (4/20) (Tab. II). Notou-se que doenças não
zoonóticas presentes na lista ofertada foram assinaladas como tendo caráter zoonótico, como por
exemplo, lepra (5/20), sarampo (3/20), dengue (15/20), filariose (4/20), cólera (1/20), catapora (4/20),
meningite (1/20) e AIDS (2/20). Vale ressaltar que duas das doenças não zoonóticas, rubéola (0/20) e
tétano (0/20), não obtiveram nenhum percentual, não sendo, portanto citadas pelos entrevistados como
tendo caráter zoonótico (Tab. III). Apesar de haver informação, através da mídia, do agente comunitário de
saúde (ACS) e de campanhas de vacinação, infantil e para adultos, a população ainda desconhece a cadeia
de transmissão de enfermidades comuns nos centros urbanos.
As doenças zoonóticas que apresentaram maior percentual foram sarna 95% e raiva 95%, seguidas
de calazar (leishmaniose) 85%.
A sarna (escabiose) é causada por um ácaro pertencente à classe Arachnida, família Sarcoptidae
(BOTELHO, 2002). Segundo Rey (2002), a família Sarcoptidae reúne pequenos ácaros, quase invisíveis a olho
nu, com pernas curtas e sem garras, corpo ovóide e esbranquiçado. Apesar de muitas espécies serem
parasitos de mamíferos, somente Sarcoptes scabiei é encontrada no ser humano. A sarna sarcóptica é uma
doença encontrada em todo mundo, em todas as regiões e climas, porém, costuma predominar onde a
aplicação de medidas de higiênicas pessoais e coletivas é escassa. Botelho (2002) relata que a transmissão
da sarna se dá por contato direto, ou seja, um doente entra em contato com uma pessoa sadia.

Tabela I: Percepção dos moradores do bairro Mutirão sobre o significado do termo zoonoses
Você conhece o significado
do termo zoonoses? FA FR
Sim 06 30,0%
Não 14 70,0%
Total 20 100,0%
FA: Frequência absoluta; FR: Frequência relativa
p-valor = 0,0736
Tabela II. Percepção dos moradores do bairro Mutirão em relação às doenças zoonóticas
Quais doenças você reconhece como
sendo zoonose? FA FR%
Tuberculose 05 25,0
Raiva 19 95,0
Calazar (leishmaniose) 17 85,0
Larva migrans (cobreiro) 13 65,0
Sarna 19 95,0
Leptospirose 09 45,0
Bicho de pé 10 50,0
Toxoplasmose 04 20,0
Brucelose 10 50,0
Peste bubônica 04 20,0
FA: Frequência absoluta; FR: Frequência relativa

João Pessoa, outubro de 2011


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Tabela III: Doenças não zoonóticas assinaladas pelos moradores do bairro Mutirão como tendo
caráter zoonótico
Quais doenças você reconhece como
sendo zoonose? FA FR%
Lepra 05 25,0
Sarampo 03 15,0
Dengue 15 75,0
Filariose 04 20,0
Cólera 01 5,0
Catapora 04 20,0
Meningite 01 5,0
Rubéola 00 0,0
Tétano 00 0,0
AIDS 02 10,0
FA: Frequência absoluta; FR: Frequência relativa

O vírus da raiva pertence à família Rhabdoviridae e ao gênero Lyssavirus (RACZ e MENCK, 2004).
Segundo Kotait e Carrieri (2004) a raiva é transmitida ao homem pela inoculação do vírus da raiva contido
na saliva de animais infectados, principalmente por meio de mordeduras. Murray et. al. (2004) alegam que
o vírus ataca o sistema nervoso central, gerando distúrbio de comportamento e causando dificuldade ao
paciente em respirar e até mesmo engolir água. Também segundo os autores, a raiva é uma das mais
antigas doenças conhecidas e mesmo nos dias atuais, ainda representa um sério problema de saúde
pública.
A leishmaniose é uma doença causada por parasitos intracelulares obrigatórios pertencentes ao
gênero Leishmania (ROSS, 1903 apud GENARO, 2002). O protozoário completa seu ciclo biológico em dois
hospedeiros, um invertebrado (insetos hematófagos conhecidos como flebotomíneos pertencentes à
ordem Díptera) considerado natural, no qual dificilmente a Leishmania causa doença e o outro é um
vertebrado (grande variedade de mamíferos entre eles o homem, embora as infecções sejam mais comuns
em canídeos e roedores) considerado casual, neste a infecção por Leishmanias normalmente provoca
lesões de pele (GENARO, 2002; MICHALICK, 2002).
Em relação à posse de animais, 80% (16/20) dos entrevistados declararam possuir algum animal de
estimação. Observou-se que a maioria dos entrevistados tem preferência por aves, representando 45%
(9/16). Entretanto, deve-se salientar que alguns entrevistados possuíam concomitantemente mais de um
animal, onde os cães representaram 25% (5/16) e os gatos 20% (4/16).
Segundo Mcnicholas et al. (2005) a ligação emocional proporcionada por este convívio pode trazer
benefícios físicos e psicológicos, além de melhorar a integralização social de portadores de doenças
imunossupressoras, idosos, crianças e pessoas com necessidades especiais. Porém, Corrêa et al. (1993)
alertam que esse convívio próximo entre o homem e seus animais de estimação não fica limitado apenas a
uma situação de coabitação familiar, pois esses animais frequentam áreas públicas e, com frequência,
acabam se contaminando e ao depositarem seus dejetos nesses locais, acabam contagiando o solo com
formas evolutivas infectantes de endoparasitos e provocando doenças em seres humanos e outros animais.
Capuano e Rocha (2005) relatam que a população infantil corresponde ao grupo mais exposto devido ao
hábito de brincar em contato com o solo e aos hábitos de geofagia, de andar descalço, de se deixar abraçar,
lamber e morder por seus animais.

CONCLUSÃO
Com este trabalho pôde-se concluir que mesmo não possuindo conhecimento científico, a
comunidade tem percepção de que os animais podem transmitir doenças causando danos à saúde.

REFERÊNCIAS
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João Pessoa, outubro de 2011


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AVALIAÇÃO DAS CONDIÇÕES ALIMENTÍCIAS DA POPULAÇÃO DA BACIA


HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA/PB EM COMPARAÇÃO COM 50 ANOS ATRÁS
1
André Aires de FARIAS
2
Marcelo Meira LEITE
3
Telma Lucia Bezerra ALVES
1
Licenciado em Ciências Agrárias e Mestrando em Recursos Naturais, na Universidade Federal de Campina
Grande, UFCG. E-mail: andreaires61@hotmail.com;
2
Eng. Eletrônico, MBA Gestão e Marketing, Mestrando em Recursos Naturais, UFCG. E -mail:
marcelomeiraleite@gmail.com;
3
Graduada em Geografia, Mestranda em Recursos Naturais na Universidade Federal de Campina Grande –
UFCG. E-mail: telmalu@yahoo.com.br.

RESUMO
O trabalho objetivou fazer um levantamento das condições alimentícias, buscando averiguar se
houve mudanças significativas de hábitos, estilos de vida, alterações ambientais e principalmente o registro
da percepção e leitura, da comunidade e da realidade vivenciada, feita pelo idoso, utilizando como
delimitação e base territorial a bacia hidrográfica da Ribeira de Cabaceiras-PB. O maior interesse nesta
pesquisa vem do fato de que já está plenamente comparado que a alimentação de um povo influencia
diretamente na saúde deste povo, assim como na percepção da qualidade de vida, de uma forma geral.
Foram aplicados questionários para avaliar a situação das variáveis relacionadas às condições alimentícias:
balanceamento da dieta, facilidade na aquisição de alimentos, qualidade dos alimentos quanto à idade,
conservação e agrotóxicos, qualidade das carnes, alimentos produzidos na propriedade, tipo, origem dos
frangos e ovos, consumo de açúcar, adoçante e fonte de gordura. Verificou-se uma melhoria significativa
nas condições de alimentação da população pesquisada. Esta melhoria pode ser atribuída, principalmente,
à disponibilização de melhores subsídios por parte do poder público, na forma de aposentadorias,
possibilitando um maior poder de compra, pela facilidade de aquisição, diversidade, aumento da
quantidade consumida e conservação dos produtos. Por outro lado, houve uma queda na produção local de
alimentos, bem como uma diminuição da qualidade dos mesmos, além do aumento de gêneros cultivados
com a utilização de defensivos químicos. Ficou constatado também, um aumento no consumo de produtos
industrializados (frangos, ovos, adoçante, óleo), fazendo-se necessárias pesquisas futuras mais detalhadas
sobre implicações em decorrência dessas adições e/ ou substituições na alimentação dos idosos e da
população em geral.
Palavras-chave: Bacia Hidrográfica; Condições alimentícias; Base Territorial.

INTRODUÇÃO
Condições alimentícias – uma das mais importantes necessidades do ser humano. O ser humano
deve se alimentar corretamente para assegurar sua saúde. Uma alimentação na quantidade adequada, e
com qualidade, é condição primordial a partir da qual vem às demais perseguidas como condicionais para
uma boa condição de vida. Vale observar, entretanto, que quando se trata de alimentação é muito
importante o aspecto do balanceamento dos gêneros consumidos. Ou seja, não basta comer, tem que
saber comer.
Entretanto, muitas vezes, o fato de não se utilizar de certos tipos de alimentos não é devido à falta
de hábito, ou à falta de conhecimento sobre como consumir uma dieta balanceada. Uma das principais
causas para isto pode ser simplesmente a falta de condições financeiras, ou mesmo de disponibilidade dos
alimentos na região em que se encontra a pessoa.
Outro fator importante a ser observado é que a alimentação é dinâmica e depende dos costumes
regionais. Assim, para se fazer uma avaliação isenta da influência dos gostos pessoais, os hábitos
alimentares devem ser analisados com base no balanceamento e no teor nutritivo. Alguns exemplos
mostram a importância desta isenção de percepções neste tipo de análise. É o caso do consumo de miolo
da gado, ou de miúdos de bode, que para alguns pode parecer um tanto excêntrico. Na China, por exemplo,

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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são consumidos cobras, escorpiões e os mais variados tipos de insetos – costume totalmente contrário aos
hábitos correntes da população brasileira.
Para se ter uma visão da evolução ao longo do tempo é preciso consultar as bases de dados da
região ou, de forma, mais direta, pesquisar diretamente junto a pessoas que vivenciam o momento atual e
estiveram presentes no passado. Os idosos residentes na região se enquadram no perfil desejado, podendo
tanto falar sobre os hábitos atuais como relatar a experiência alimentar do passado.
Desde os tempos antigos os seres humanos têm uma relação direta com a natureza, utilizando a
mesma para garantir a manutenção da espécie. De modo que, com o passar dos anos, e devido
principalmente à revolução industrial, observa-se uma intensa utilização dos recursos naturais disponíveis,
gerando verdadeiras agressões ao meio ambiente e comprometendo o seu equilíbrio. Desta maneira é
válida a investigação dos residentes veteranos de um determinado local, com vistas à aquisição de
informações concernentes às modificações percebidas pelos atores locais ao longo do tempo, nos aspectos
relacionados às condições alimentícias.
De acordo com a Lei n° 10. 741/2003 os idosos, população consultada neste trabalho, são pessoas
com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do
Poder Público assegurar ao idoso, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, às
culturas, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência
familiar e comunitária. Nesse sentido, é necessário identificar aspectos relacionados às condições de vida,
que estejam ou não ligados as questões ambientais, compreendendo que o meio ambiente não se refere
somente aos aspectos dos recursos da natureza, mas também a todos os elementos que compõem o
habitat da comunidade (BRASIL, 2003).
Correa e França (2006), observam que, considerando a grande experiência de vida, “um dos papéis
sociais atribuídos ao idoso é o de ser a memória coletiva de seu grupo social, na arte de contar histórias e
de transmitir seu legado cultural. A sobrevivência do passado depende das lembranças que emergem da
memória e que são traduzidas para outrem. Apropriar-se da memória e transmitir esse legado cultural é
reconstruir o passado, dar a ele a possibilidade de ser atualizado e narrado de uma forma diferente. É ter
de volta o sentimento de pertencer a uma história ou mesmo à própria sociedade”.
Para Machado et al (2006), a proposta de que os idosos transmitam informações sobre as
transformações sociais, econômicas e do meio ambiente para os mais jovens confere um modelo
alternativo extra-escolar desses conhecimentos, o conhecimento do que assistiram no passado. Nesse
contexto de investigação, os aspectos relacionados ao meio ambiente, como tipo e origem das carnes,
produção de alimentos, consumo de alimentos orgânicos, utilização de agrotóxicos, são elementos
fundamentais para se efetuar um comparativo das práticas passadas com o presente, assumindo papel
relevante para o conhecimento agrícola.
Este estudo procura identificar, através de pesquisa junto a idosos residentes na comunidade de
Ribeira-PB, as condições alimentícias da região, comparando com a situação 50 anos atrás. É decisivo para a
obtenção de resultados confiáveis e representativos se definir uma base territorial que contemplasse uma
comunidade de pessoas e ao mesmo tempo um conjunto de recursos naturais passíveis de alterações. A
bacia hidrográfica da Ribeira, município de Cabaceiras-PB, atende a estas necessidades pela produção de
conhecimentos a respeito dos aspectos tradicionais e contemporâneos da região.
Há um entendimento, devido a múltiplas razões, de que a bacia hidrográfica é uma importante
unidade territorial, delimitada naturalmente, correspondendo a uma área limitada por um divisor de águas
que drena a água de chuvas por ravinas, canais e tributários, para um curso principal, desaguando
diretamente no oceano ou num lago, onde é possível realizar vários diagnósticos - Ambiental, Físico-
Conservacionista e Sócio-econômico. O diagnóstico da população idosa pode ser compreendido como um
conjunto de informações que enriquece o conhecimento e as percepções sobre as condições gerais de vida.
Dentre estas condições se encontra o aspecto relacionado às condições alimentícias, que podem estar
intimamente ligada às questões da super exploração dos espaços e recursos naturais (ROCHA, 1997).
A bacia hidrográfica é uma unidade básica de análise e planejamento ambiental, por permitir
conhecer e avaliar os seus diversos componentes, processos e interações. Pressupõe ainda, múltiplas
dimensões e expressões espaciais (bacias de ordem zero, microbacias e sub-bacias). Por isso, numa bacia é
possível avaliar de forma integrada as ações humanas sobre o ambiente e seus desdobramentos sobre o
equilíbrio hidrológico (BOTELHO & SILVA, 2004).

João Pessoa, outubro de 2011


31

Nos últimos anos algumas mudanças na alimentação dos agricultores vêm se tornando
comuns. Alguns agricultores diminuíram a produção de alimentos e, com isso, buscam esses
produtos no mercado local. O espaço rural brasileiro sofre profundas transformações
provenientes das ações políticas, sociais, econômicas, ambientais e culturais. Essas mudanças
acontecem tanto nas grandes propriedades quanto nas pequenas e em todo o território brasileiro.
Zanetti & Menasche (2011), conversando com os agricultores, observou que eles são unânimes em
afirmar que a variedade de alimentos hoje é bem maior que a de antigamente e destacam a facilidade de
acesso a esses alimentos nos supermercados locais. Porém, quando indagados sobre a alimentação de
antigamente, é possível identificar uma certa nostalgia e saudades da comida de épocas passadas. Dona
Carmem relata:
O pão de antigamente era gostoso, bem gostoso. A farinha, também ela tinha junto aquelas partes
do trigo que eu digo, a flor da farinha, sei lá o que, a farinha comprada não tem aquele gosto, a gente
sentia o perfume do pão, antigamente, que se tu passava na frente de uma casa que tinha a mulher
cozinhando o pão no forno a lenha, vinha aquele cheirinho, que dava vontade.
De acordo com Zanetti & Menasche (2011), além da disponibilidade de carnes, outro fator que
influenciava muito no consumo ou não desse alimento era sua conservação. Como as famílias não
possuíam energia elétrica e, consequentemente, refrigeradores que conservassem a carne, outros métodos
de conservação eram utilizados para prolongar a vida útil desse alimento. Dona Amália, 66 anos, relata bem
como faziam para conservar as carnes no tempo de sua infância e juventude:
Antigamente, quando se matava uma galinha, não é como agora, que tu pega dois quilos, três, vai
tudo na panela. Uma vez não, tu matava e tinha que dividir, metade hoje e metade amanhã. Aí, pra
conservar a galinha, penduravam fora da janela e, se tu tinha o poço, amarrava a galinha e soltava lá
embaixo, não encosta na água, mas bem perto, pra ficar fresquinho. Eu lembro que na nona fazia assim.
Colocava a galinha dentro do balde, que descia pra pegar água, e conservava. E com o porco, era feito
salame e banha, e a carne era tudo picada e cozida e guardada nas latas, junto com a banha, assim tinha
que ser. Uma rês, em casa nunca se matava, porque o que tu ia fazer?
Em seu trabalho, Menasche et al., (2008), relatam que, antigamente, no meio rural, a carne
mais consumida era a de suíno que, armazenada em barril cheio de banha, conservava-se por mais
tempo do que a carne bovina. No entanto, com a chegada dos congeladores e refrigeradores, essa
prática foi alterada. A possibilidade de armazenamento favoreceu o consumo de carne bovina,
presente quase que cotidianamente na mesa das unidades familiares, e o consumo de carne suína
diminuiu.
Por outro lado, Castro (2008), relata de maneira detalhada a problemática da fome no Brasil, em
específico na região Nordeste, evidenciando a carência alimentar pela qual passou os habitantes dessa
região, em decorrência das grandes secas registradas ao longo da história. Toda a deficiência nutritiva é
exposta com riqueza de detalhes, evidenciando os ciclos epidêmicos de fome no sertão nordestino:
“Se o sertão do Nordeste não estivesse exposto à fatalidade climática das secas, talvez não
figurasse entre as áreas de fome do continente americano. Infelizmente, as secas periódicas,
desorganizando por completo a economia primária da região, extinguindo as fontes naturais de vida,
crestando as pastagens, dizimando o gado e arrasando as lavouras, reduzem o sertão a uma paisagem
desértica, com seus habitantes sempre desprovidos de reservas, morrendo à míngua de água e de
alimentos. Morrendo de fome aguda ou escapando esfomeados, aos magotes, para outras zonas, fugindo
atemorizados à morte que os dizimaria de vez na terra devastada”
A leitura que se faz da evolução dessas circunstâncias não consiste nas modificações das
mudanças climáticas, porém a logística de armazenamento, distribuição e circulação de alimentos
atualmente é certamente mais favorável a sobrevivência humana, dentre outros aspectos.
A alimentação talvez tenha sido o ato social mais facilitado pelas técnicas e objetos técnicos
domésticos. Desse modo, a energia elétrica e alguns eletrodomésticos têm influenciado nos hábitos
alimentares das unidades familiares, seja nos tipos de alimentos consumidos, seja na oferta destes
por um período mais prolongado. A praticidade também é buscada pelas famílias rurais, sendo um

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


32

dos fatores que têm favorecido o aumento do consumo de alimentos comprados que poderiam ser
produzidos no próprio estabelecimento (GRISA, 2007).
O trabalho objetivou fazer um levantamento das condições alimentícias, buscando averiguar se
houve mudanças significativas de hábitos, estilos de vida, alterações ambientais e principalmente o registro
da percepção e leitura, da comunidade e da realidade vivenciada pelo idoso, utilizando como delimitação e
base territorial a bacia hidrográfica da Ribeira de Cabaceiras-PB.

METODOLOGIA
A pesquisa foi realizada na comunidade do distrito de Ribeira, pertencente ao município de
Cabaceiras, estado da Paraíba, localizada nas coordenadas geográficas 07º 29’ 20” Sul e 36º 17’ 13” Oeste.
Um roteiro de entrevista sobre o idoso foi empregado para obter informações que servissem para avaliar as
condições de vida da população hoje em comparação com aquelas de um horizonte de até 50 anos atrás.
Foi dada ênfase à identificação de modificações alimentícias ocorridas ao longo destes últimos cinqüenta
anos, bem como as conseqüentes melhorias ou prejuízos para as condições de vida da comunidade.
O trabalho teve uma duração aproximada de um mês, em que foram efetivados coleta de dados e
elaboração e aplicação dos questionários. Os idosos precisavam ter 60 anos ou mais e residirem
atualmente na comunidade de Ribeira – PB.
O questionário continha 71 perguntas, sendo 7 abertas e 64 fechadas. As questões abertas
permitiram a expressão livre em linguagem corrente. As questões fechadas disponibilizavam escolhas
determinadas, para as quais foram atribuídas pontuações, como segue: pontuação 1 para “péssimo/ muito
baixo/ muito difícil”, 2 para “ruim/ baixo/ difícil”, 3 para “regular” e 4 para “Bom”, e 5 para “Excelente”.
Os dados coletados foram processados no aplicativo Excel 2007, permitindo a realização facilitada
de análises estatísticas, com o objetivo de identificar o perfil do grupo de idosos e suas principais
características. Para o tratamento estatístico foi utilizada a moda, o valor que ocorre com maior freqüência
em uma série de valores (CRESPO,1996).
Todas as etapas deste trabalho obedeceram às diretrizes da Resolução Nº 196 de 10 de Outubro de
1996, sendo os participantes informados dos objetivos do trabalho, além de concordarem com a publicação
científica dos resultados compilados, assinando o termo de consentimento competente.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dos entrevistados 56% têm entre 60 e 70 anos e 44 % têm entre 70 e 80 anos; 67% habitam a
região desde que nasceram, 17% há mais de 50 anos e 16% há mais de 30 anos. Com relação ao nível de
instrução 72% dos idosos são alfabetizados, 22% com ensino fundamental e apenas 6% tem o ensino
médio. A investigação contou com uma amostra composta por 18 idosos pertencentes ao Clube Social da
Melhor Idade, na Ribeira. O que equivale a, aproximadamente, 20% da população idosa local.
Para avaliação da alimentação procurou-se averiguar a disponibilidade e consumo, no passado e no
presente, de seis grupos de alimentos necessários para uma dieta nutritiva. Os resultados obtidos
mostraram que atualmente as pessoas têm acesso a uma diversidade maior de alimentos do que no
passado, apresentando moda 4 (consumo dos seis grupos pelo menos seis vezes por semana). Isso pode ser
justificado pelo recebimento de uma renda fixa (aposentadoria), assim como pela ampliação de pontos
comerciais de distribuição dos alimentos. Ficou evidenciado que no passado as condições de acesso a
alimentos era muito mais difíceis, sobretudo pela falta de recursos e dificuldade de deslocamento até a
sede municipal, Cabaceiras, além da existência freqüente de períodos de seca, que impossibilitavam as
colheitas.
Os alimentos, no aspecto qualidade, quanto à idade e conservação, foram considerados como eram
velhos e mal conservados no passado, ocorrendo o contrário no presente. Isso se explica pela utilização de
geladeiras e freezers e da existência atual de controle de qualidade quanto à composição e validade dos
produtos. Antigamente os alimentos eram acondicionados em tonéis de zinco, envolvidos em “papel de
embrulho” e dispostos em feiras livres sem padronização. Conhecia-se a procedência das carnes, mas não
existia, nem existe ainda, na comunidade controle de qualidade ou observância de aspectos sanitários,
exceto quando se consome a carne industrializada.
Uma informação muito importante que se obteve foi com relação aos alimentos orgânicos,
observando-se que no passado mais da metade dos alimentos consumidos eram orgânicos, produzidos

João Pessoa, outubro de 2011


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localmente sem agrotóxicos, e no presente consome-se mais “alimentos industrializados” cuja procedência
não se conhece, mas se subentende que foram cultivados com agrotóxicos.
Com o surgimento da Revolução Verde e com a expectativa de aumentar potencialmente a
produção e a resistência das culturas, houve uma expansão e proliferação da utilização de defensivos
químicos, para atender a demanda de uma população que estava deixando de ser predominantemente
rural, para se tornar urbana, necessitando de abastecimento.
Esse dado corrobora com a análise do item “Alimentos produzidos na propriedade”, ficando
evidenciado que essa população produzia mais da metade do que consumia e atualmente produz menos da
metade ou quase nada, sendo a produção orgânica local mínima.
Foram questionados o consumo de açúcar, a fonte de gordura e o tipo e origem de ovos e aves
(frangos, galinhas, perus etc.). No passado as pessoas da comunidade utilizavam apenas o açúcar como
adoçante. Com o transcorrer das décadas (cinco, no mínimo), passou-se a utilizar além do açúcar o
adoçante dietético. Observando-se, entretanto, que o consumo de antes era oriundo de fontes como a
rapadura e em quantidade muito menor do que a consumida atualmente.
A fonte de gordura era o toucinho, banha ou sebo e o consumo de aves e ovos era oriundo de
criatórios domiciliares. Atualmente são utilizados o óleo vegetal e a margarina, e incorporado ao consumo
de ovos e aves de criatórios aqueles derivados de “granjas”, ou seja, industrializados. O gráfico 1 sintetiza
as informações supracitadas.

Gráfico 1: Condições de vida na Ribeira: Alimentação

Embora as famílias estudadas em Ribeira-PB não relatem, em relação a seu passado, tempos de
fome e necessidades, como fazem aqueles escutados por Woortmann (2007), eles mencionam os tempos
antigos como tempos difíceis, quando, às vezes, especialmente as crianças, gostariam de comer “algo
diferente”, mas tinham que se contentar em comer o que lhes era servido à mesa.
Indicações muito importantes dizem respeito a características dos hábitos alimentares forçados
devido à indisponibilidade de alternativas na região, ou mesmo por causa das precárias condições
financeiras reinantes. Algumas situações parecem até inverossímeis para os dias de hoje. Ao serem
perguntados sobre que alimentos comem hoje e que não comiam no passado, foram obtidas repostas das
mais variadas, sendo que as mais contundentes estão listadas na tabela 1:

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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Tabela 1: Alimentos que não eram utilizados 50 anos atrás


ALIMENTOS QUE NÃO ERAM UTILIZADOS PERCENTUAL DE RESPONDENTES (%)
Arroz 56
Macarrão 39
Enlatados 33
Encaixados (congelados) 33
Embora em percentual menor, os seguintes alimentos também foram mencionados como não
utilizados no passado: carne de vaca, carne de sol, peixe, carne de frango, frutas, verduras, massas em
geral, pães, bolos, iogurtes, aveia e granola. Observando que até feijão, tão comum, nos dias de hoje,
também não era consumido por parte da população.
Por outro lado, a comodidade e a disponibilidade de gêneros industrializados fizeram com que
alguns alimentos anteriormente preparados pelas próprias pessoas, hoje só sejam encontrados na forma
de produtos prontos, adquiridos no comércio. Isto pareceu comum, apesar de haver quase uma
unanimidade sobre a maior qualidade dos alimentos no passado. Opinião esta quase sempre acompanhada
com uma ponta de saudade. Exemplos destes casos são mostrados na tabela 2:

Tabela 2: Alimentos anteriormente processados “em casa” e que não são mais consumidos
ALIMENTOS NÃO MAIS UTILIZADOS PERCENTUAL DE RESPONDENTES (%)
Xerém "de milho moído" 83
Mugunzá "de milho pisado" 61

Além daqueles mencionados na Tabela 2, também foram citados como não mais consumidos os
seguintes alimentos: feijão de corda, beju, rapadura preta, feijão com rapadura, miúdo de gado, cabeça de
gado. Isto demonstra que os hábitos alimentares do passado eram radicalmente diferentes daqueles
observados nos dias atuais.

CONCLUSÕES
A partir dos dados coletados, foi possível verificar uma melhoria significativa nas condições de
alimentação da população pesquisada. Esta melhoria pode ser atribuída, principalmente, à disponibilização
de melhores subsídios por parte do poder público, na forma de aposentadorias, possibilitando um maior
poder de compra, pela facilidade de aquisição, pela diversidade hoje existente, pelo aumento da
quantidade consumida e pela conservação dos produtos. Por outro lado, houve uma queda na produção
local de alimentos, representados por gêneros de qualidade assegurada devido aos cuidados com o cultivo
e o não uso de defensivos agrícolas.
Ficou constatado um aumento no consumo de produtos industrializados (frangos, ovos, adoçante,
óleo), fazendo-se necessárias pesquisas futuras mais detalhadas sobre implicações, em decorrência dessas
adições e/ ou substituições na alimentação dos idosos e da população em geral.

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MACHADO, R.F.O; VELASCO, F.L.C.G.; AMIM, V. O Encontro da Política Nacional da Educação
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Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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EDUCAÇÃO AMBIENTAL VOLTADA PARA O CONTROLE DA DENGUE E A


PERCEPÇÃO DAS CRIANÇAS EM UMA COMUNIDADE DO SERTÃO DE
PERNAMBUCO
Cássia Poliana PRÍNCIPE NUNES¹;
Thays Sharllye ALVES PINHEIRO¹;
Mauro de MELO JÚNIOR²
1Alunas bolsistas de Extensão (PRAE/UFRPE – 2011), da Unidade Acadêmica de Serra Talhada, Universidade Federal Rural
de Pernambuco (UAST/UFRPE), Fazenda Saco, s/n, Caixa Postal 063, Serra Talhada - PE. CEP 56.900-000.
E-mails: cassiaprincipe@hotmail.com, thays.sharllye@hotmail.com;
2Professor Adjunto, UAST/UFRPE. E-mail: mmelojunior@gmail.com.

RESUMO
O Brasil é, dentre os países da América, um dos que vem registrando grandes epidemias de dengue
atualmente. O município de Serra Talhada se apresenta como uma das cidades com alto índice de
infestação da doença no estado de Pernambuco. O presente trabalho foi realizado com jovens do Programa
de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) de uma comunidade carente do município. Essa população é
caracterizada pelo baixo índice de informação, prevenção e ocorrência de muitos casos da doença, e, a
partir desse contexto, achamos pertinente realizar uma intervenção de conscientização ambiental. O
objetivo principal das atividades propostas é possibilitar o acesso destes jovens atores às informações
sobre a dengue, desde o ciclo de vida do vetor até a transmissão da doença, de modo que as crianças
absorvam o conhecimento, despertando o senso crítico a respeito da relação entre a realidade ambiental
vivida por eles e a proliferação da doença na comunidade. Utilizando uma metodologia simples e dinâmica,
procurou-se analisar duas vertentes da percepção dos jovens envolvidos no projeto: (i) informações prévias
que eles possuíam sobre a dengue, através de desenhos e dinâmicas, e (ii) assimilação posterior do
conteúdo abordado em aula expositiva, peça de teatro e jogos. Os resultados confirmaram um
conhecimento prévio limitado e muito associado às campanhas públicas de combate à dengue, mas com
pouco senso crítico a respeito da biologia do vetor e da doença. A assimilação dos conhecimentos após a
intervenção foi considerada satisfatória, apesar da dificuldade de quebrar alguns “pré-conceitos”,
provavelmente provenientes de métodos informativos usuais pouco eficientes.
Palavras-chave: Dengue; PETI; Semiárido; Conscientização ambiental;

INTRODUÇÃO
A dengue é uma doença febril aguda, de etiologia viral e de evolução benigna na forma clássica, e
grave na forma hemorrágica. A dengue é, hoje, a mais importante arbovirose (doença transmitida por
artrópodes) que afeta o homem e constitui-se em sério problema de saúde pública no mundo,
especialmente nos países tropicais, onde as condições do meio ambiente favorecem a proliferação do
Aedes aegypti, principal mosquito vetor (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002). No Brasil, à semelhança do que
vem ocorrendo em vários países das Américas, nas últimas décadas vêm se registrando epidemias de
dengue em vários Estados (LIMA, 1999).
Segundo Tauil (2002), uma justificativa para a multiplicação e disseminação do mosquito vetor da
dengue no Brasil, atualmente, está relacionada a um alto contingente populacional nas zonas urbanas
decorrente de um intenso fluxo rural-urbano nos últimos 30 anos. Esse deslocamento resultou em uma
porcentagem de 80% da população brasileira vivendo hoje em área urbana. Em decorrência disso, as
cidades não oferecem as condições favoráveis à população de forma geral, e cerca de 20% dessa população
passa a viver em lugares deficientes no que se refere a fatores como o abastecimento de água e a coleta de
degetos. Nessas condições, a necessidade de armazenamento de água torna essa população mais
susceptível à dengue pelo fato de favorecer a proliferação do mosquito.
Outro fator relevante para uma intensa proliferação do mosquito vetor da dengue diz respeito ao
descarte de forma incorreta de embalagens plásticas, pneus usados, garrafas e qualquer outro resíduo que
possa vir a acumular água. Em locais onde há uma quantidade relativamente alta de resíduos lançados

João Pessoa, outubro de 2011


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diretamente no ambiente, o número de casos notificados se apresenta maior, se comparado a outros locais
com menos resíduos. E, segundo Silva (2003) esse descarte dos resíduos associados ao baixo poder
aquisitivo e ao baixo nível cultural da população, sem dúvida, torna favorável a disseminação do mosquito
Aedes aegypti. A partir disso, é possível então relacionar esses fatores com a realidade do município de
Serra Talhada. Segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano, o município apresentou um aumento no IDH
entre os anos de 1991 e 2000, de 0,591 para 0,682. Apesar dessa melhoria, o Índice de Desigualdade Social
no município é considerado alto (Índice de Gini: 0,59) (PNUD, 2000), além de estar associado a elevados
índices de analfabetismo e pobreza que agravam as condições da população. Além disso, segundo o
Ministério da Saúde (2010), Serra Talhada apresenta-se como um dos 10 municípios com risco de surtos de
dengue em Pernambuco, com um índice de infestação de 8,2, sendo um dos maiores do sertão do Estado.
Diante do exposto, observa-se que dentre todos os bairros de Serra Talhada, considerando-se as
condições ambientais, o bairro do Mutirão representa a parcela da população que está mais suscetível à
dengue no município. Esse trabalho teve como objetivo principal a realização de uma intervenção de
conscientização ambiental com as crianças do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do
bairro, possibilitando o acesso destes jovens atores às informações sobre a dengue. Neste caso, o programa
abordou didaticamente desde o ciclo de vida do vetor até a transmissão da doença, de modo que as
crianças absorvessem o conhecimento, despertando o senso crítico a respeito da relação entre a realidade
ambiental vivida por eles e a proliferação da doença na comunidade.

DESCRIÇÃO DE ÁREA
O município de Serra Talhada está localizado no sertão de Pernambuco, a cerca de 420 km da
capital, Recife. Com uma população de aproximadamente 79.232 habitantes (IBGE, 2010), distribuídos nos
11 bairros da cidade, dentre eles o bairro do Mutirão (conhecido oficialmente por José Tomé de Sousa
Ramos), comunidade esta localizada próxima ao Campus da Unidade Acadêmica de Serra Talhada, da
Universidade Federal Rural de Pernambuco.
O bairro do Mutirão é conhecido por abrigar uma parcela significativa da população do município
que não tem acesso as condições básicas de saneamento. Grande parte das ruas do bairro não possui
calçamento, observando-se uma grande quantidade de esgotos a céu aberto próximos às residências e até
mesmo crianças brincando em suas intermediações (Figura 1). Outras características observadas são a
quantidade significativa de lixo jogado em todo o bairro e, segundo os moradores, a freqüente falta de
água. Para contornar esse problema no abastecimento hídrico, muitos moradores recorrem à prática de
armazenamento de água, tornando o bairro um local propício para o desenvolvimento do vetor da dengue,
o que pode ser comprovado pelo elevado índice de casos relatados durante entrevistas informais com os
moradores.

Figura 1. Flagrantes de crianças brincando próximo a esgotos e água acumulada a céu aberto
(direita), bem como passando dentro de obras em construção e com acúmulo de água (esquerda), no bairro
do Mutirão (Serra Talhada, PE).

MATERIAL E MÉTODOS

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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As atividades de conscientização foram realizadas com um grupo de alunos do Programa de


Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), do bairro do Mutirão (Serra Talhada, PE). Este é um programa
desenvolvido pelo Governo Federal e administrado pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a
Fome e tem como objetivo, segundo o site Portal da Transparência do Governo, garantir a retirada de
crianças e adolescentes de até 16 anos das atividades ligadas ao trabalho infantil. Na unidade do programa
presente no bairro do Mutirão encontram-se inseridas 150 crianças e adolescentes distribuídos entre os
turnos da manhã e tarde, dos quais, entre 30 e 40 participaram das três intervenções aplicadas, entre maio
e junho de 2011.
 AVALIAÇÃO INICIAL
De início, após um momento de interação com as crianças, estas foram questionadas a respeito do
tema dengue, com perguntas como: “Alguém aqui sabe o que é dengue?”, “Quem já teve dengue ou
conhece alguém que teve?”, “O que é que lembra a palavra dengue?”. Essa interação foi feita com objetivo
de identificar o conhecimento desses atores sem uma orientação prévia a respeito da doença.
Para solidificar as informações observadas durante o questionamento utilizou-se o método de
desenhos. A partir do desenho a criança organiza informações, processa experiências vividas e pensadas,
revela seu aprendizado e pode desenvolver um estilo de representação singular do mundo (GOLDBERG et
al, 2005). As crianças foram organizadas em grupos de três alunos, de forma a dinamizar a discussão em
torno do tema, e cada grupo recebeu folhas e lápis coloridos para que então ilustrasse seus conhecimentos
prévios sobre a dengue.
 APLICAÇÃO DA OFICINA
Alguns dias após a avaliação inicial dos jovens atores houve a aplicação da oficina de
conscientização sobre a doença. Com duração de cerca de uma hora, a oficina teve início com uma
apresentação expositiva de slides abordando informações gerais sobre o mosquito Aedes aegypti, todos os
estágios do seu ciclo de vida, os locais propícios para o seu desenvolvimento, os sintomas da doença, o
tempo que o vírus permanece no organismo e as formas de prevenção da doença (Figura 2).
Com o intuito de aproximar as informações passadas no primeiro momento à realidade dos atores
mirins, foi apresentado um teatro educativo. O teatro tinha como personagens duas crianças
hipoteticamente com a mesma idade dos atores e o mosquito vetor, conversando sobre a doença. Para a
realização deste teatro, foi montado um pequeno cenário onde havia um local com possíveis condições de
proliferação do mosquito (com garrafas, lixo, potes plásticos com água) e outro que não oferecia estas
condições (lixo jogado no lugar correto, garrafas e recipientes que acumulam água com a boca para baixo).

Figura 2. Momento inicial da oficina de conscientização ambiental dos atores, com apresentação de
slides informativos sobre a doença.
Durante a apresentação do teatro, os personagens interagiam com os jovens atores
fazendo perguntas sobre as informações passadas inicialmente, questionando as relações entre os cenários
criados e o desenvolvimento do vetor, bem como os instigando a colocar em prática o conteúdo abordado
de forma interativa e prazerosa (Figura 3).

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Figura 3. Durante a aplicação da oficina houve interação entre os participantes e as crianças.

 AVALIAÇÃO APÓS A APLICAÇÃO DA OFICINA


A avaliação dos atores após a oficina foi realizada por meio de atividades do Folheto da
Turma da Mônica “Vamos Combater a Dengue”, de Maurício de Sousa (disponíveis no site
http://espacoeducar-liza.blogspot.com/2009/04/dengue-pode-matar-baixe-aqui-gibizinho.html). As
atividades utilizadas foram escolhidas como forma de avaliar a assimilação do conhecimento obtido de
forma mais dinâmica, principalmente pela faixa etária que exige atividades mais interativas. As atividades
consistem na interação de jogos de raciocínio e ilustrações acerca dos pontos abordados na oficina.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Durante as etapas iniciais do trabalho, a maioria das crianças reagiu com resistência aos trabalhos
propostos, porém através do uso de atividades interativas e um período de contato direto com eles, foi
obtido o vínculo necessário para o desenvolvimento da atividade sugerida.
Por meio dos materiais disponibilizados para os grupos, os jovens atores expuseram das mais
variadas maneiras o que conheciam sobre a dengue (Figura 4). Ao entregarem o desenho, muitos
explicavam o que haviam colocado no trabalho. Em um dos desenhos, ao ser questionado sobre o que
havia dentro da caixa d’água desenhada, um dos atores afirmou “é um balde cheio de dengue” (Figura 5).
Isso confirma a idéia de que muitos relacionavam a dengue exclusivamente ao mosquito, ou seja, o próprio
mosquito era considerado a doença em si, como foi demonstrado por Chiaravalloti Neto (1998), em um
estudo semelhante desenvolvido em Umuarama no estado do Paraná. A maior parte das crianças
demonstrou uma visão consciente em relação a alguns hábitos dos moradores do local (como o descarte do
lixo em terrenos, o armazenamento inadequado da água) e a sua influência na ocorrência da doença.

Figura 4. Exemplos de diferentes percepções das crianças do Programa de Erradicação do Trabalho


Infantil, do bairro do Mutirão (Serra Talhada, PE), sobre a dengue.

Apesar de grande parte possuir conhecimento da prevenção quanto à proliferação do mosquito,


percebeu-se, devido à semelhança entre os desenhos, que essas informações estavam quase sempre

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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relacionadas a informativos distribuídos em campanhas (Figura 6), ou seja, eles provavelmente não tinham
conhecimento real da relação, por exemplo, entre a água acumulada e os estágios de desenvolvimento do
mosquito. Neste caso, estariam apenas transmitindo o que observou em panfletos e cartazes.

Figura 5. Exemplo de percepção infantil de uma criança que considerava o mosquito da dengue
como a própria doença.

Figura 6. Exemplo de um dos desenhos que refletem o conhecimento associado ao que é divulgado
em folhetos e cartazes educativos de campanhas nacionais de combate à dengue.

Quanto à visão geral da doença, percebe-se uma desorganização de idéias em quase todos os
desenhos apresentados. Muitos demonstram ter alguma noção do tema, por exemplo, sabem que a
doença é transmitida por um mosquito, têm alguma idéia dos sintomas, mas não conseguem relacionar de
forma correta. Isso pode ser observado na diversidade de formas do mosquito (Figura 7), na relação das
manchas avermelhadas com a catapora (Figura 8) e no ciclo do mosquito, pois muitos acreditavam que de
um mosquito “nascia” outro, sem estágios larvais.

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Figura 7. Variedade de formas do mosquito apresentada nos desenhos das crianças do Programa de
Erradicação do Trabalho Infantil do bairro do Mutirão (Serra Talhada, PE).

Figura 8. Desenho de uma criança do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do bairro do


Mutirão (Serra Talhada, PE), que associou as manchas vermelhas da dengue com a catapora.

Durante a apresentação do teatro, ao serem questionados pelos personagens, os atores se


revelaram mais interativos e dispostos a expressar o conhecimento acerca do tema, demonstrando terem
assimilado a maior parte das informações apresentadas nos slides, durante a intervenção educativa. Os
resultados observados no decorrer do teatro reforçam a idéia apresentada por Dallabona et al. (2004),
segundo a qual a atividade lúdica contribui para uma melhoria no ensino infantil, já que esta permite que a
criança desenvolva seu poder de expressão, de análise, de crítica e até de transformação da realidade e da
sociedade na qual está inserida.
Porém observou-se que eles não tinham idéia do nome científico do mosquito, referindo-se a ele
por “mosquito da dengue” mesmo com a explicação. Segundo Leite (2003), as dificuldades na organização
de idéias em crianças é um fator ligado a classes sociais, ou seja, o fato de serem crianças carentes
possivelmente contribui para que ocorra certa lentidão no desenvolvimento. E que essa dificuldade pode
ser superada através de atividades artísticas, assim pressupõe-se que o incentivo a métodos em que haja
possibilidade de uma maior interação, como o que foi realizado, pode resultar em uma aprendizagem mais
eficaz.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do exposto, é possível perceber que as dificuldades do primeiro momento cessaram à
medida que as atividades foram proporcionando um ambiente mais interativo. Os resultados confirmaram
um conhecimento prévio limitado e muito associado às campanhas públicas de combate à dengue, mas
com pouco senso crítico a respeito da biologia do vetor e da doença. A assimilação dos conhecimentos após
a oficina foi considerada satisfatória, apesar da dificuldade de quebrar alguns “pré-conceitos”
provavelmente provenientes de campanhas e métodos informativos pouco eficientes.

AGRADECIMENTOS
Agradecemos a Pró-reitoria de Atividades de Extensão da UFRPE, pelas bolsas de Extensão cedidas
às duas alunas e à equipe do PETI, bairro do Mutirão (Serra Talhada, PE), pelo apoio e disponibilidade do
espaço dos jovens para a realização do trabalho, e, em especial, agradecemos à coordenadora do PETI, a
Sra. Regina Silva. Aos demais participantes do projeto Caracterização Ambiental Participativa e sua relação
com a saúde na comunidade do Mutirão (Serra Talhada, PE), coordenado pelo último autor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHIARAVALLOTI NETO, F. C.; MORAES, M. S.; FERNANDES, M. A. Avaliação dos resultados de
atividades de incentivo à participação da comunidade no controle da dengue em um bairro periférico do

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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Município de São José do Rio Preto, São Paulo, e da relação entre conhecimentos e práticas desta
população. Caderno Saúde Pública, Rio de Janeiro, 14(Sup. 2):101-109, 1998.
DALLABONA, S. R.; MENDES S. M. S. O lúdico na educação infantil: Jogar, brincar, uma forma de
educar. Revista de divulgação técnico-científica do ICPG. Vol. 1 n. 4 - jan.-mar./2004.
FILHO, C. T. L. Denominação de bairros de Serra Talhada. Disponível em
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GOLDBERG, L. G.; YUNES, M. A. M.; FREITAS, J. V. O desenho infantil na ótica da ecologia do
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LEITE, C. O.; PINHO, F.; KOEHLER, S. M. F. Um estudo sobre as dificuldades de aprendizagem das
crianças: contribuição da arte. Congreso internacional la nueva alfabetización: um reto para la educación
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LENZI, M. F.; COURA, L. C. Prevenção da dengue: a informação em foco. Revista da Sociedade
Brasileira de Medicina Tropical, Rio de Janeiro,jul./ago. 2004.
LIMA, V. L.C.; FIGUEIREDO, L.T.M; CORREA , H. R. LEITE, O. F.; RANGEL, O; VIDO, A .A.; OLIVEIRA, S.
S.; OWA,M. A.; CARLUCCI, R. H. Dengue: inquérito sorológico pós-epidêmico em zona urbana do Estado de
São Paulo (Brasil). Revista de Saúde Pública vol.33 n.6. São Paulo, Dez. 1999.
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PNUD. Índice de Desenvolvimento Humano - Municipal, 1991 e 2000. Disponível em:
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%20dados%20de%202000).htm. Último acesso em: 06 de julho de 2011.
PORTAL DA TRANSPARÊNCIA. Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Disponível em:
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TAUIL, P. L. Aspectos críticos do controle do dengue no Brasil. Caderno de Saúde Pública, Rio de
Janeiro, p.867-861, mai./jun. 2002.

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APRENDIZAGEM BASEADA EM PROJETOS/PROBLEMAS: ESTUDO DE CASO


DO MONITORAMENTO ESTUDANTIL DE DOIS CORPOS D'ÁGUA DO
MUNICIPIO DE ITABAIANA/SERGIPE
Fernanda Tatiane dos Santos REIS
Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Sergipe
nandareis.bio@gmail.com
Paulo Sérgio MAROTI
Professor Adjunto do Departamento de Biociências da Universidade Federal de Sergipe paulo_teo@yahoo.com.br

RESUMO
Este artigo tem por finalidade apresentar o estudo de caso do projeto: “O que tem na água que
você bebe?”, uma parceria entre a Universidade Federal de Sergipe por meio do Programa de Iniciação a
Docência (PIBID) e duas escolas da rede estadual de ensino público, desenvolvido no ano letivo de 2010
que teve como fio condutor a Aprendizagem Baseada em Projetos/Problemas (ABP). A situação problema
utilizada no projeto girou em torno da questão orientadora “o que tem na água que você bebe?” tendo o
monitoramento da “saúde” de dois corpos d’água locais pela equipe do projeto através de técnicas do
ensino investigativo como o estudo do meio, ecologia da paisagem e expedições cientificas estudantis
monitoramento levantamento, como metodologias adotas. Os resultados do projeto que serão
apresentados, vão desde os dados coletados pelas diferentes técnicas utilizadas no estudo, até o caráter
social e de pesquisa pedagógica da pratica vivenciada.
PALAVRAS-CHAVES: ABP- Aprendizagem Baseada em Problemas; Estudo do meio; Expedições
Científicas;

INTRODUÇÃO
A falência do modelo atual de ensino, considerado ultrapassado e utilizado na maioria das escolas
baseado na transmissão de conceitos, tem sido comprovada pelas provas de indicadores escolares do
governo federal. Já que o índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) 2009 mostra claramente
que nossos alunos estão aprendendo pouco, pois as notas estão a anos-luz da nota seis, um padrão
definido como aceitável para os membros de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A fim de
evitar generalizações ou simplificações, sabe-se que existem diferentes variáveis que influenciam na
qualidade atual do ensino básico no Brasil, mas uma das mais importantes razões a nosso entender e que
nos interessa para o desenvolvimento deste trabalho, é a qualidade da formação dos professores e
conseqüente, da aprendizagem do aluno.
As universidades que formam professores (licenciaturas), não diferente das escolas, adotam
também o modelo fragmentado de transmissão do conhecimento criando assim um “fosso” que separa a
teoria da prática. O professor, formado sob este modelo, tende a fazer o mesmo em sala de aula, não
promovendo a interligação das disciplinas e mesmo dos conteúdos conceituais da disciplina que é
responsável. Tal situação é agravada pela não contextualização da realidade vivida pelo aluno.
Por conta disso, muitos educadores apontam que o desafio da educação no século XXI é o
desenvolvimento de diferentes habilidades dos alunos durante o processo de ensino-aprendizagem. A
bióloga argentina Melina Furman é uma das representantes da nova corrente de ensino, a investigativa,
que propõe se basear em uma situação-problema para oferecer aos alunos a oportunidade de observar,
levantar hipóteses, fazer registros e tirar conclusões. Assim como os entusiastas praticantes da ABP, sigla
da metodologia norte-americana “Aprendizagem Baseada em Projetos”, que por conta das técnicas
adotadas é também conhecida como “Aprendizagem Baseada em Investigação” ou “Aprendizagem Baseada
em Problemas”. Apesar de ser uma alternativa instigante para a resolução das lacunas educacionais do
século XXI, as técnicas utilizadas pelos educadores/pesquisadores da nova corrente de ensino não são
novas, como atesta os professores da linha da ABP:
Por mais de 100 anos, educadores como John Dewey descreveram os benefícios da aprendizagem
experimental, prática e dirigida pelo aluno. A maioria dos professores, cientes do valor de projetos que

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envolvam e desafiem os alunos, tem utilizado viagens de campo, investigações laboratoriais e atividades
interdisciplinares que enriquecem e ampliam o programa de ensino. “Fazer projetos” é uma antiga tradição
na educação estadunidense. (BUCK INSTITUTE FOR EDUCATION, 2008, p.17)
E não só na educação estadunidense. O Brasil teve um marco histórico no tocante à preocupação
com o ensino centrado no aluno e no desenvolvimento de habilidades em sistema de projetos, o
“Movimento Escola Nova”, que teve suas primeiras manifestações no período político do estado novo.
Dentre as contribuições políticas (pela prioridade não nos cabe espaço comentar) e cientificas dos três
educadores brasileiros que lideraram o Movimento Escolanovista, Anísio Teixeira, Lourenço Filho e
Fernando de Azevedo, este sintetizou nos seus trabalhos o ideal da Escola Nova, que de certa forma é
comungado entre os adeptos das metodologias para o século XXI citadas anteriormente.
Para ele o ideal da Escola Nova envolvia três aspectos: escola única, escola do trabalho, escola-
comunidade... A escola única foi entendida como uma educação uniforme, uma formação comum,
obrigatória e gratuita [...]
Quanto à escola do trabalho [...] o que esta em causa, aí, é o estimulo às observações e experiências
da criança, levando-a desenvolver o trabalho com interesse e prazerosamente, satisfazendo sua curiosidade
intelectual: “o aluno observa, experimenta, projeta e executa. O mestre estimula, aconselha, orienta" (idem,
p.74).
No que se refere ao terceiro principio, o da escola-comunidade, postula que a escola seja organizada
como uma comunidade em miniatura, incentivando o trabalho em grupo preferencialmente ao individual.
(SAVIANE, 2008, Pg. 211 e 212)
O educador/pesquisador experimental Celestin Freinet foi o precursor do movimento da Escola
Nova na França e também defendia e praticava uma escola voltada para o trabalho/comunidade e uma
educação pela vida. Para demonstrar o grau de vanguarda deste educador, segue duas citações, a primeira
de Celestin Freinet do ano de 1968 e a segunda dos entusiastas da ABP publicada em 2008, ambas sobre o
desafio de uma educação mutante:
[...] No passado o mundo mudava ao ritmo dos séculos; o que se ensinava às crianças ainda era
válido trinta anos depois. O que ensinamos hoje talvez não vigore dentro de dois, ou dentro de um ano. [...]
Eis a nova realidade. Hoje é preciso que nos preocupemos menos em dar noções, princípios e conhecimentos
às crianças, do que em prepará-las para que se adaptem com habilidade e inteligência ao mundo mutante no
qual logo terão que integrar-se. Precisamos preparar os processos válidos para preparar essa adaptabilidade.
(FREINET, 1979, p. 164 apud FREINET, 1964)
[...] o mundo mudou. Quase todos os professores compreendem como a cultura industrial moldou a
organização e os métodos das escolas nos séculos XIX e XX e reconhecem que as escolas agora precisam se
adaptar a um novo século. Não há duvida de que as crianças precisam tanto de conhecimento quanto de
habilidades para ter êxito. Essa necessidade é determinada não apenas pelas demandas da força de trabalho
por empregados com alto desempenho que possam planejar, trabalhar em equipe e se comunicar, mas
também pela necessidade de ajudar todos os jovens a adquirir responsabilidade cívica e a dominar suas
novas funções como cidadãos do mundo. (BUCK INSTITUTE FOR EDUCATION, 2008, p.17)
Através da pesquisa prática os educadores já citados, entre outros, desenvolveram técnicas para o
trabalho investigativo do ensino. Segue a descrição de algumas destas: Estudo do Meio Local, Expedições
Científicas Estudantis, Aulas-passeio da Pedagogia Freinet, utilizadas no projeto desenvolvido pelos autores,
melhor detalhadas no tópico Metodologia.
As expedições Científicas Estudantis foram Inspiradas tanto nas grandes Expedições Científicas
realizadas no passado em nosso país (Langsdorff, Spix e Martius, Saint-Hilaire, entre outros), quanto nas
aulas-passeio propostas pela Pedagogia Freinet (MARQUES, 1994 apud SAMPAIO, 1989). Estas consistem
num recurso metodológico do ensino das Ciências que visa resgatar a visão naturalista no trato das
questões ambientais e promover à iniciação a docência, em que os grupos de alunos organizam-se em
torno de temas ou problemas ambientais específicos da região, e saem a campo devidamente
instrumentalizados e motivados a observar, analisar e coletar dados através de fichas de observação e
coleta, desenvolvendo atitudes e habilidades científicas. O resultado esperado em cada expedição é um
estudo abrangente do local escolhido, revelando problemas e gerando temas para trabalho posterior.
O Estudo do meio é definido por Pontuschka (1991) como uma metodologia em que alunos e
professores são colocados em situação de pesquisa e juntos analisam o espaço humanizado e
problematizam situações contatadas em busca de respostas, portanto professores e alunos juntos
produzem o conhecimento e a finalidade da referida metodologia seria, justamente favorecer a percepção,

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ou seja, ao estudar seu meio o aluno/docente aprende a criticar suas imperfeições e injustiças, de
participar da realização de uma realidade mais justa, se aproximando por sua vez das características da
pesquisa-ação.
Ainda segundo Pontuschka (op. Cit.) o estudo do meio contribui para superar a visão fragmentada,
tão fortemente disseminada, em função da própria estrutura do currículo escolar que insiste em aprisionar
cada saber em sua respectiva disciplina. Com este estudo, tais fragmentos de disciplinas utilizados pela
maioria das escolas, são interligados com a finalidade de facilitar a aprendizagem dos alunos, que
perceberão que História, Biologia, Geografia e outras disciplinas têm muitas coisas em comum.
As Aulas-passeio da Pedagogia Freinet consistem em uma das técnicas da linha de pensamento
pedagógico de Célestin Freinet, também denominada Escola Moderna, um marco referencial para muitos
professores que se propõem a realizar trabalhos em que o tema principal é o ambiente e a vida das pessoas
nas comunidades onde estão as escolas.
A aula passeio é de especial interesse, podendo ser definida como uma atividade realizada a partir
de um planejamento existente, ou de um emergente centro de interesse dos estudantes (mas, sempre a
partir de um plano estruturado coparticipativamente), tendo em vista o estudo dos diferentes ambientes
(naturais e sociais), em suas múltiplas relações e como as outras técnicas fundamenta-se em quatro eixos
principais, a cooperação, a afetividade, a documentação e a comunicação. (SAMPAIO, 1989)
Como visto acima as diferentes técnicas utilizadas na aprendizagem por projetos enfatizam o
pensamento crítico e criativo; a resolução de problemas; a tomada de decisões; análise; o aprendizado
cooperativo; e a capacidade de comunicação, atitudes que convergem para a contextualização dos temas
trabalhados. Lidando assim com inteligências infelizmente ainda pouco trabalhadas nas escolas, que vão
alem da escrita, leitura e matemática. (LEGAN, 2007). Percebe-se a partir da descrição das diferentes
técnicas que as mesmas compartilham características como: 1- Comprometimento com uma concepção
curricular de trabalho, funcionando até mesmo como momento de culminância das atividades de um
período e fornecendo subsídios para o período posterior; 2- Preparação para a realização das atividades,
utilizando-se os mais variados métodos, técnicas e equipamentos para o estudo do meio; 3- Diferenciação
do tradicional excursionismo ou das aulas de campo, em que a mesma dinâmica tradicional da sala de aula
é adotada (aula expositiva); 4- Realização de atividades sócio-interativas (entrevistas, produção coletiva de
textos, jornalzinho e rádio escolar ou rádio corredor) e artísticas: livre expressão ou manifestação, painéis
decorativos e informativos e dramatização;
Como se pode perceber no item um do parágrafo anterior, as técnicas usadas na corrente
investigativa de ensino preocupam-se com a concepção curricular, ou seja, as atividades não buscam
separar-se do currículo. Os professores adeptos da ABP orientam que os projetos não sejam uma atividade
a parte, que despenda o curto tempo do professor, mas que realmente substitua uma parte dos assuntos
que seriam trabalhados em aulas expositivas:
“[...] é útil não pensar a ABP como algo que toma tempo do programa regular de ensino. Em vez
disso considere um projeto focado em padrões como um método central de ensino e aprendizagem que
substitui o ensino convencional de uma parte de seu programa.” (BUCK INSTITUTE FOR EDUCATION, 2008,
p.17)
Como defendia Freinet, se achamos que os modelos atuais de ensino são inadequados, pois não se
adaptam ao novo século, devemos experimentar técnicas novas como ele o fez, assim como adaptar
experiências bem sucedidas para a realidade da classe, da escola, dos alunos e de nós próprios, os
professores, alem de publicar/divulgar os resultados obtidos através das praticas/pesquisas pedagógicas
que utilizaram tais técnicas do ensino investigativo. Para ampliar tal divulgação é que relatamos a
experiência do projeto intitulado “O que tem na água que você bebe?”. O projeto intitulado “O que tem na
água que você bebe?” desenvolvido durante o ano letivo de 2010 foi uma parceria entre a Universidade
Federal de Sergipe, Campus de Itabaiana (expansão), e duas escolas estaduais (E.E) da rede de ensino
publico e que teve como objetivo principal incentivar o caráter investigativo dos escolares ao comparar a
"saúde" de dois açudes da cidade de Itabaiana/Sergipe.

METODOLOGIA
As escolas contribuíram sempre que puderam com as suas instalações (biblioteca, pátio, sala de
informática, sala de vídeo, cozinha etc.) e materiais de apoio (giz, pincel, cartolinas, televisão, DVD etc.)

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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para o desenvolvimento das atividades do projeto e na disponibilização de transporte para as atividades


realizadas fora da escola. Os participantes da E.E César Leite foram alunos do 9º ano do ensino
fundamental e da E.E Murilo Braga foram alunos do 1º ano do ensino médio, além de um
professor/supervisor por escola. Tais supervisores, o coordenador/orientador do projeto e as quatro
graduandas participantes receberam apoio no formato de bolsas do Programa Institucional de Iniciação a
Docência (PIBID/CAPES), uma iniciativa plausível de estímulo às licenciaturas, cursos atualmente mal vistos
pela sociedade, infelizmente, por conta de sua desvalorização social e econômica.
Aproximando-nos um pouco mais das características já apresentadas de uma aprendizagem
baseada em Projetos/Problemas/Investigação o projeto trabalhou em consonância com a investigação
pelos diferentes características relatadas à seguir: numa edição anterior do PIBID tentou-se desenvolver
projetos em conjunto com os professores de ciências das duas escolas mencionadas, no horário de suas
aulas. Os resultados foram desanimadores, pois não se teve um satisfatório envolvimento dos docentes, a
preocupação se concentrava em concluir o cronograma escolar e muitas vezes as temáticas acabavam
sendo trabalhadas de forma superficial e separadas. Outro problema sentido, foi sobre a necessidade de
"Poder" em sala de aula, os alunos muitas vezes não respeitavam as bolsistas por estes não estarem
diretamente ligados à decisão das notas, um vicio a ser trabalhado a longo prazo.
Por conta de tal experiência, foi decidido desenvolver o projeto no período contrário do escolar, e
com alunos e professores que se interessassem, tendo os primeiros que se inscrever no projeto na
secretaria da escola e os últimos, recebido carta convite para participação. Para os alunos, as inscrições se
limitaram a 25 alunos por escola. Este limite se deu por conta da previsão de trabalhos de campo,
atividades que demandam um número mediano de alunos para a própria segurança dos mesmos e do
ambiente a ser visitado. Como as atividades de campo incluiríam visitas a corpos d’água com coletas, pela
bibliografia referencial utilizada no projeto o melhor período para tal realização é o matutino. Dessa forma
decidimos trabalhar com alunos do turno da tarde, pois eles não precisariam perder aula para participarem
das atividades do projeto que aconteceriam de manhã.
A escolha dos corpos d'água açude da Marcela (AM) e Barragem Jacarecica (BJ) (figura I A) se deu
por diferentes motivos: conhecimento prévio do local pelos integrantes do PIBID, que já haviam feito o
monitoramento do AM e BJ no ano de 2007; a presença dos corpos d'água no imaginário da população por
seus valores históricos. O AM foi criado para o abastecimento público de água, tendo seu uso modificado
para irrigação e atualmente é o receptor da maior parte do esgoto doméstico da cidade (não tratado). A BJ
mais recente que o AM, já foi criada para o abastecimento público e para irrigação; pelas diferenças no
tocante a saúde dos dois corpos d'água, o AM situado na parte urbana do município em situação crítica e a
BJ, situada na porção rural do município, encontra-se em melhor situação que o AM. Tal dicotomia
(ambientalmente equilibrado e totalmente desequilibrado) é sugerido por Shiel et al, 2003 para a
realização de trabalhos com escolas, uma vez que se torna muito didática tal comparação.
A cerca da séries adotadas, observou-se o potencial de padrões curriculares que trabalhassem em
consonância tanto com os objetivos do projeto como com os parâmetros curriculares nacionais como o
tópico da físico-química do 9º ano, com assuntos como pH, misturas e elementos químicos.
Quanto à autonomia dos alunos, ou seja, o grau de envolvimento dos mesmos, pode-se perceber
que pelas decisões/precauções tomadas pelos integrantes do PIBID/Biologia a cerca da serie, turno,
período do trabalho, padrão curricular, determinação dos corpos d'água a serem monitorados, os alunos
tiveram uma participação limitada no tocante ao planejamento do projeto.
Entretanto na determinação das situações problemas, apesar de se ter o tema gerador água como
fio condutor, não obedeceu uma seqüência linear de assuntos a seguir ditadas, os alunos que
apresentavam as demandas (dúvidas ou curiosidades apresentadas, por exemplo) para o planejamento das
atividades por conta dos integrantes do PIBID, e estes sempre que possível, estruturavam um link com os
padrões curriculares.
A primeira atividade, de apresentação do projeto, foi dirigida pela situação-problema que o intitula:
O que tem na água que você bebe? Os alunos especularam de onde vinha a água usavada nas atividades
cotidianas e foram instigados à refletir sobre a qualidade da mesma, sendo convidados para uma vista de
campo nos dois corpos d'água que seriam estudados no projeto. Como tal campo teria o objetivo de
reconhecimento do local, e levando em consideração que boa parte dos alunos não conhecia os corpos

João Pessoa, outubro de 2011


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d'água a serem visitados/estudados, na 1ª atividade não foi apresentada fotos ou qualquer informação que
viesse a influenciar a percepção dos alunos.
O campo de reconhecimento dos locais foi orientado pela técnica de estudo do meio local, muito
utilizada nas aulas-passeio da Pedagogia Freinet, em que o aluno é instigado a olhar a sua volta, apontando
em cadernos/fichas de campo, suas principais observações, incluindo as relativas à paisagem (natural ou
humanizada).
Foram utilizadas duas fichas de campo. A primeira (Figura I D) para anotação dos dados
climatológicos e de localização que contou com os seguintes instrumentos: GPS, maquete didática do
município, cartas cartográficas (relevo, hidrografia e Bacia hidrográfica/1:60.000), bússola, caixa didática de
análise da direção do vento, caixa didática de análise da velocidade do vento e anemômetro digital; a
segunda (Figura I E) para os dados de observação da paisagem, com o complemento de câmeras
fotográficas.
Nesta atividade de estudo do meio os escolares foram divididos em dois grupos mistos, ou seja,
com alunos da zona rural e da zona urbana pelos diferentes olhares do ambiente que poderiam existir. Os
instrumentos que possibilitaram “medir” tais diferenças foram os depoimentos/relatos dos alunos, as fotos
e os mapas mentais (mapas de trajeto) do local, produzidos pelos mesmos. (Figura 1B)
Após as observações da paisagem realizadas durante o estudo do meio, quando indagados, os
alunos responderam com clareza que a “saúde” do AM estava numa situação bem pior do que a da BJ. Mas
isso não bastava, eles necessitariam de mais “provas” (alem das fotos) para tal afirmação, foi nesse
contexto de investigação que os alunos foram convidados para responderem a tais indagações participando
das atividades que antecederiam as Expedições Científicas Escolares.
Além da repetição das análises feitas no campo de estudo do meio, foram acrescentadas às
atividades das Expedições Cientificas Estudantis um aspecto mais técnico, o da análise físico-químico da
água (pH, condutividade, nitrato, fosfato, entre outros). Antes, foi apresentado aos alunos o funcionamento
dos instrumentos (figura 1 C) que seriam utilizados: o Eco Kit - kit educativo composto por frascos e
reagentes utilizados para medição de fosfato, nitrato e turbidez da água e o kit microbiológico composto
por cartelas com meio de cultura que quando mergulhadas na amostra de água e aquecidas em estufa
apresentam pigmentos relativos à colônia de bactérias E. coli e salmonela, ambos da empresa Alfakit
(www.alfakit.com.br); os aparelhos: pHmetro, oxímetro, condutivímetro, termômetros e psicrômetros para
as medidas respectivas de Ph, oxigênio dissolvido, condutividade elétrica, temperatura (água e ar) e
umidade relativa do ar; materiais de apoio como luvas, piceta com água destilada, béquer, papel toalha,
garrafa PET e bolsa plástica para descarte. Para anotação de tais dados foi apresentada uma terceira ficha
de campo, a referente aos dados físico-químicos. (figura 1 F)
Como os integrantes do PIBID já haviam selecionado os pontos de coleta de água, foi estendida aos
alunos a decisão de quantas e quando seriam realizadas as expedições – chegou-se a decisão de duas na
estiagem e duas na época chuvosa. Esta decisão se deu por conta das duas principais situações-problemas
criadas pelo grupo: 1ª- Quais as diferenças nos dados da qualidade da água entre a represa de ambiente
rural (BJ) e o de ambiente urbano (AM)? 2ª Quais as diferenças entre os dados do período chuvoso (Abril a
julho- 2010) e do período da seca (Agosto de 2010 a Abril- 2011).
Os produtos produzidos pelos integrantes do projeto variaram desde a tabulação dos dados
coletados nas expedições proveniente das fichas de campo (dados do clima, da paisagem e físico-químicos)
que posteriormente foram transformados em gráficos para a comparação dos dados e discussão da
validação ou não das hipóteses/situações-problemas levantados sobre a “saúde” dos corpos d'água, até
produtos indiretos provenientes das atividades anteriores e posteriores ao campo como fotografias,
produção textual, produção audiovisual, relatórios técnicos, apresentações orais, confecção de cartazes,
desenho a lupa, mapas mentais etc.

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Figura I: A- Localização da Barragem Jacarecica e do Açude Marcela no município de


Itabaiana/Sergipe; B- Mapa mental do percurso até chegar ao corpo d'água feito por um dos escolares; C-
Materiais utilizados nas expedições científicas estudantis; D- Ficha de campo de analise do clima; E- Ficha
de campo da observação da paisagem; F- Ficha de campo para a coleta dos dados Físico-Químicos;

RESUSTADOS E DISCUSSÕES
Como já esperado, ocorreu uma diminuição significativa entre o número de alunos que iniciaram o
projeto e o de concludentes, pois ao trabalhar com projetos é depositada uma parte maior de
responsabilidade aos adolescentes, esta precisa ser proveniente de valores pessoais, pois em nenhum
momento foram condicionadas sua participação à motivações relacionadas às notas ou algo do tipo. Outra
conclusão que parece simples, para entender a redução dos concludentes, esta relacionada às respostas
dadas pelos mesmos no inicio do projeto quanto à pergunta das expectativas de participação. A maioria
dos alunos respondeu ser uma oportunidade de conhecer lugares novos e passear, já que souberam que
teríamos visitas de campo e outra característica marcante nas repostas, foi à oportunidade do uso de
equipamentos não existentes na escola, presentes nos laboratórios da Universidade para a realização de
experimentos, o que indica que atividades como estas, não vem sendo desenvolvidas em suas escolas.
Quanto à hipótese gerada pelos integrantes do PIBID, no estudo do meio realizado, da existência de
diferentes olhares entre os alunos por conta de suas diferentes experiências de vida, justificando assim a
divisão dos alunos em dois grupos mistos: com alunos da zona rural e da zona urbana, ela foi confirmada
pelas observações ligadas ao conhecimento botânico e da agricultura local por parte dos alunos de zona
rural, destoantes das dos alunos da zona urbana que se fixaram em principio nas construções humanas,
como o caso de uma estátua presente na represa (BJ). Cabe destacar que a observação do aluno agricultor
Gabriel, fundamenta a prova clara da importância do conhecimento rural: ele mostrou em campo duas
árvores, uma denominada de Juremeira macho e a outra Juremeira Fêmea (gênero Mimosa). Quando
indagado do por quê da diferenciação de gênero para uma mesma espécie de planta, explicou que existem
dois motivos, a quantidade de espinhos: macho (mais espinhos) e Fêmea (menos espinhos) e as diferentes

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utilizações: a planta macho para a lenha e a planta fêmea, suas cinzas são utilizadas como cicatrizante para
ferimentos.
As Expedições Científicas para análise dos aspectos físico-químicos da água foram bastante
produtivas do ponto de vista didático, pois facilitou aproximação dos alunos com materiais e métodos
científicos tratados de forma tão superficial nas aulas teóricas na escola. Os próprios alunos nos relataram
como ficou mais fácil por participarem das atividades do projeto a aprendizagem de assuntos como o Ph
(potencial hidrogeniônico).
Quanto aos resultados provenientes das coletas dos dados acima, vários são os cruzamentos
possíveis para se trabalhar com as duas situações-problemas utilizadas no projeto. Mas como o foco
principal deste trabalho é mostrar a importância da aproximação dos escolares de métodos científico-
investigativos usados na resolução de problemas que envolvem o estudo do seu meio local, não nos cabe
fazer uma análise do ponto de vista técnico, tanto por que o espaço que nos resta para escrita seria
insuficiente, como também porque a maioria dos materiais utilizados faz parte de kits educativos, ou seja,
não possuem o rigor necessário para confecção de laudos técnicos.
No entanto segue descrição de uma das atividades teóricas (que ocorriam tanto antes como depois
das expedições científicas) que utilizou dois parâmetros físico-químicos: o nitrogênio e o fosfato. Tal
levantamento objetivava a comprovação que associações científico-investigativas representam ótimas
oportunidades para instigar atividades de ensino-aprendizagem junto ao público escolar.
Ao tabular os dados de nitrogênio e nitrato de uma das expedições científicas, os alunos
observaram que o nível de fosfato e nitrato presentes na água da BJ estava variando muito entre os pontos
de coleta de água, alem de estar mais alto que os dados das expedições anteriores. Na verdade antes
mesmo de tabular os dados, ainda em campo, sabendo que produtos como sabão e detergentes tinham os
elementos (Nitrato e fosfato) como ingredientes, os alunos elaboraram a hipótese ao observar a presença
de mulheres lavando roupa no dia da coleta no ponto um, a quantidade de fosfato seria maior neste ponto
do que nos outros dois pontos devido ao sabão utilizado na lavagem das roupas. Mas quando os alunos
observaram os dados, se surpreenderam, pois o ponto dois havia maior índice de fosfato. Logo os alunos
elaboraram outra hipótese, de que o vento seria o responsável de levar o sabão usado pelas lavadeiras até
o ponto dois, aumentando assim a quantidade de fósforo no referido ponto. Aproveitando dessa iniciativa,
os integrantes do PIBID elaboraram uma atividade teórica movida pelo tema: Os malefícios do deposito do
fósforo e do nitrogênio nos corpos d'água estudados, tendo como principal objetivo aproximar os alunos do
seu cotidiano ao refletir sobre o uso de detergentes e agrotóxicos e como estes produtos afetam a
dinâmica e a “saúde” dos corpos d'água estudados por meio de diferentes práticas como comparação dos
dados com os parâmetros estabelecidos pelo CONAMA, observação dos rótulos de sacos de adubos
agrícolas, exibição de filme e realização de experimento para mostrar a perda da tensão superficial da água
quando do depósito dos produtos já mencionados.
Como qualquer experiência nova, também tivemos alguns desafios no desenvolver do projeto. Uma
das dificuldades sentidas pelos alunos foi o preenchimento das fichas de campo, pois continham termos
que apesar de serem tratados antes da visita eram ainda muito abstratos para eles, reafirmando assim a
importância das atividades prévias-preparatórias para o estudo do meio.
Outra dificuldade foi à confusão inicial de que o estudo do meio fosse um simples passeio, em que
os alunos se “libertariam” das atividades escolares. Como Freinet e tantos outros acolhedores da sua
pedagogia, temos dificuldades de implementar essa forma de trabalho, já que, os alunos não foram
habituados a isto desde pequenos- afinal trabalhamos com alunos da 9º ano do ensino fundamental e 1º
ano do ensino médio, como o próprio educador apontava, a tarefa não seria fácil, sendo necessário certo
tempo para fazer com que os alunos se acostumassem com a nova forma de aprendizado. No entanto a
falta de receptividade não foi uma exclusividade dos alunos, já que nenhum professor da escola, e tão
pouco da Universidade, que foram convidados a participar, aderiram ao projeto. Os picos emocionais
também foram freqüentes nas atividades de campo, o entusiasmo dos alunos ao chegarem à área de
estudo e o posterior desapontamento por parte de alguns quando perceberam a quantidade de trabalho
que precisariam desempenhar, alem de reclamações relacionados ao sol e da falta de algum lugar para
sentar. Como o projeto durou um ano ficaram evidentes picos de entusiasmo. O momento que exemplifica
tal fato refere-se ao meio do projeto, em que se forma a famosa “barriga” dos projetos, ou seja, as
atividades passam a ser familiares e menos empolgantes para os alunos. Quanto à relevância social dos

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estudos do projeto aqui descritos, pretende-se fazer uso dos diferentes produtos: fotos, mapas mentais dos
alunos, tabelas e gráficos dos dados físico-químicos, para auxílio na composição de um laudo ambiental. A
função do laudo é dar credibilidade no tocante à preocupação da comunidade, representada pela
Universidade e escolas envolvidas, quanto a providencias necessárias para melhoria da qualidade da água
dos dois corpos d'água estudados, principalmente o AM.

CONCLUSÃO
No tocante aos resultados do projeto/pesquisa descritos, do ponto de vista científico que
comprovem a eficácia pedagógica das técnicas descritas, podemos citar algumas manifestações de
melhorias sutis nas habilidades e hábitos mentais dos alunos como: melhoria na expressão oral, expressão
textual, leitura, capacidade crítica de elaboração de hipóteses etc. Acreditamos na verdade que resultados
mais concisos na pesquisa em educação não são mensuráveis num intervalo tão curto de tempo. No
entanto, muitos outros trabalhos que utilizaram tais técnicas nos deram e nos darão confiança através de
seus bons resultados para que sigamos as práticas de projetos baseados na investigação do meio local, um
grande exemplo é o itinerário de Celestin Freinet (FREINET, 1979, apud FREINET 1965) que após um longo
amadurecimento, fruto de quarenta anos de experiências, tem suas técnicas invocadas até hoje por toda
parte onde se considera objetivamente a situação difícil da pedagogia contemporânea, e a necessidade
urgente de recuperar um atraso que se arrisca a comprometer para sempre a educação democrática.
Espera-se que as bases do projeto descritos neste trabalho sirvam como incentivo para os profissionais da
educação que desejam desenvolver atividades inovadoras como as apresentadas. Sendo o papel principal
da educação a formação do cidadão, o estudo do meio ao qual o indivíduo se insere não constitui um
complemento, mas uma importante ferramenta para o ensino.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Orientações curriculares para o ensino médio - Ciências da
natureza, matemática e suas tecnologias. volume 2.Brasília, DF : 2006.
BUCK INSTITUTE FOR EDUCATION. Aprendizagem baseada em Projetos: guia para professores de
ensino fundamental e médio. Tradução Daniel Bueno. 2. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2008.
FREINET, Élise. O Itinerário de Célestin Freinet. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora S. A. 1979.
LEGAN, Lucia; A escola sustentável: eco-alfabetização pelo ambiente. 2ª edição. São Paulo:
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Pirenópolis, GO: Ecocentro IPEC, 2007.
MARQUES, Paulo Henrique Carneiro. 1994. Expedição Científica Estudantil. Monografia de
graduação. Curitiba: Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná, 1994.
PONTUSCHKA, Nídia Nacib (Org.). O Estudo do meio como trabalho integrador das práticas do
ensino. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, n.70, 1991.
SAMPAIO, Rosa Maria Whitaker Ferreira. Evolução histórica e atualidades. São Paulo: Scipione,
1989.
SAVIANE, Dermeval; Historia das idéias pedagógicas no Brasil. 2. Ed. Ver. E ampl. - Campinas, São
Paulo: Autores Associados, 2008.
SCHIEL, Dietrich; MASCARENHAS, Sérgio; VALEIRAS, Nora; SANTOS, Silvia. A .M. O estudo de Bacias
Hidrográficas uma estratégia para a educação ambiental. 2a edição. Ed. Rima, São Carlos - SP, 2003

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MODELAGEM DA PROPAGAÇÃO DA ESQUISTOSSOMOSE EM BOM


CONSELHO- PE
Gabryella Vasconcelos da SILVA
Universidade de Pernambuco - Campus Garanhuns (UPE – FACETEG). Graduanda do curso de Licenciatura em Matemática
gabryellavasconcelos@gmail.com
Pâmela Maciel SOBRAL
Universidade de Pernambuco - Campus Garanhuns (UPE – FACETEG). Graduanda do curso de Licenciatura em Matemática
pamela.nett@gmail.com
Willames de Albuquerque SOARES
Universidade de Pernambuco - Campus Garanhuns (UPE – FACETEG). Professor Doutor e Coordenador do curso de
Licenciatura em Matemática- UPE/FACETEG
willames.soares@upe.br

RESUMO
A água é de fundamental importância para a sobrevivência de todos os seres vivos, foi a partir dela
que surgiram às primeiras formas terrestres. Porém, atualmente, este recurso torna-se cada vez mais
escasso devido a sua má utilização, neste sentido, a diluição de esgotos se mostra como um dos seus piores
usos desenvolvendo diversas doenças infecciosas. Este trabalho objetivou verificar se o modelo
matemático de equações diferenciais ordinárias, denominado modelo SIR, proposto por Kermack e
McKendrick em 1927 apresenta-se viável para a determinação de doenças infecciosas, para tanto,
utilizamos o mesmo para determinar a propagação da esquistossomose na cidade de Bom Conselho-PE, no
período de 2002 a 2008, verificando, deste modo, à importância dos modelos matemáticos na
determinação de doenças infecciosas. Os dados utilizados no modelo foram obtidos anualmente pela
Secretaria Municipal de Saúde de Bom Conselho situada no agreste Pernambucano. Após a realização do
trabalho pode-se observar que, o modelo supracitado se apresenta apto para determinação da
esquistossomose, evidenciando a relevante importância dos modelos matemáticos na determinação da
estabilidade da doença e indicando as melhores estratégias de controle para doenças infecciosas.
Palavras-Chave: Modelo Matemático, Esquistossomose e Bom Conselho.

INTRODUÇÃO
A água é fundamental para o planeta. Nela, surgiram às primeiras formas de vida, e a partir dela,
originaram-se as formas terrestres, as quais somente conseguiram sobreviver na medida em que puderam
desenvolver mecanismos fisiológicos que lhes permitiram retirar água do meio e retê-la em seus próprios
organismos. Não é por acaso que as primeiras civilizações se instalaram em regiões onde havia solo
produtivo, e sempre às margens de rios onde havia disponibilidade de água essencial ao atendimento de
suas necessidades básicas. Desde o início, o homem se preocupou com os problemas relativos à qualidade
e à quantidade de água suficiente para seu consumo, embora sem grandes conhecimentos sobre a mesma
(FUNASA, 2006).
À medida que o mundo evolui e se globaliza, este recurso torna-se cada vez mais escasso devido a
sua má utilização, por exemplo, a diluição de esgotos se mostra como um dos seus piores usos. Vale
ressaltar que, a falta de serviços de saneamento e de abastecimento de água potável pode trazer grandes
problemas para muitos indivíduos, principalmente, os que residem em municípios de pequeno porte.
Dentre as inúmeras doenças causadas por veiculação hídrica destaca-se, a esquistossomose causada pelo
verme Schistosoma Mansoni. A propagação desta doença depende da existência de caramujos (hospedeiro
intermediário) e do contato do homem (hospedeiro definitivo) com águas que contenham caramujos
contaminados.
Uma maneira auxiliar no controle da propagação dessa e outras epidemiologias são os modelos
matemáticos, pois, entre as informações fornecidas destacam-se dois parâmetros epidemiológicos
relevantes: a força de infecção, caracterizada pela ocorrência de uma doença ou a taxa de como essa
doença se propaga na população, este parâmetro pode determinar não somente a dimensão da
propagação de uma doença infecciosa como também o esforço necessário para combatê-la; e a razão de

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reprodutibilidade basal, definida no caso de doenças infecciosas, é obtida em função de parâmetros


introduzidos no modelo, cujo objetivo é extinguir a doença (ALVARENGA, 2008).
A representação por meio de modelos matemáticos destrincha a rede de inter-relações, apontando
efeitos indiretos e características-chave do sistema, o que facilita o seu monitoramento e permite que se
façam prognósticos sobre o comportamento futuro do sistema ou sua reação a diferentes tipos de
perturbações (BARROS, 2007). Sendo assim, a utilização de modelos matemáticos para a verificação da
expansão da esquistossomose é um recurso viável para que se busquem possíveis soluções para o controle
desta doença. Além disso, outras medidas podem ser tomadas pelos órgãos públicos de saúde como, por
exemplo, a construção de sistemas de esgotos que tem como principal objetivo a não acumulação de água.
Os modelos mais recomendados para o estudo de macroparasitas são denominados modelos
estocásticos. Estes modelos são compostos com base na definição de uma variável aleatória representando
o que se quer modelar. Os modelos determinísticos por sua vez, por apresentarem médias, podem ser
relevantes caso uma população seja considerada suficientemente grande, determinando a estabilidade da
doença e indicando as melhores estratégias de controle (YANG & BARROSO, 1999). O objetivo deste
trabalho é verificar se o modelo matemático de equações diferenciais ordinárias, denominado modelo SIR,
proposto por Kermack e McKendrick em 1927 apresenta-se viável para a determinação de doenças
infecciosas, para tanto, utilizamos o mesmo para determinar a propagação da esquistossomose na cidade
de Bom Conselho-PE no período de 2002 a 2008, verificando, deste modo, à importância dos modelos
matemáticos na determinação de doenças infecciosas.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1- Área de estudo
A cidade de Bom Conselho possui uma área de 792,182 Km² e uma população estimada em 45.503
habitantes. Apresenta uma densidade demográfica de 57,44 habitantes por quilometro quadrado, é
formado pelos distritos Bom Conselho (sede), Barra do Brejo, Caldeirões, Lagoa de São Jose e Rainha Isabel
e pelos povoados logradouros dos Leões, Cachoeira do Pinto, e Igreja Nova. Possui clima ameno e de
transição, entre quente e úmido e semiárido quente, com temperatura média anual em torno de 24 graus,
está distante 282 km da capital Recife, fica no agreste meridional, com coordenadas geográficas latitude 9º
10’ 10 e longitude 36º 28’ 15, fazendo fronteira com o estado de Alagoas (IBGE, 2010).
A vegetação nativa é composta por caatinga hiperxerófila com trechos de Floresta Caducifólia
(MOREIRA & SENE, 2005). A base da economia gira em torno da pecuária de corte e leite que são as
atividades mais expressivas, junto com a produção artesanal, semi-artesanal e industrial de laticínios no
estado. Produz para o consumo da região, café, mandioca, macaxeira, inhame, batata-doce, jaca, caju,
manga, carambola, hortaliças e folhagens comercializadas em feira livre. Bom Conselho dispõe como
principais atrativos turísticos suas cachoeiras (do Pinto e da Rainha Isabel). A cachoeira do Pinto localiza-se
ao largo da vila Cachoeira do Pinto. Além da vila, é rodeado por uma vegetação de caatinga arbustiva
degredada e alguns arvoredos espaçados.

2.2- A Modelagem da Esquistossomose


A modelagem se trata de uma construção de modelos que são representações simplificadas e
abstratas de um fenômeno ou situação concreta, baseado em descrições formais de objetos, relações e
processos permitindo simulações de efeitos de alterações em fenômenos, possibilita por sua vez descrever
toda a dinâmica de evolução da esquistossomose, tornando-se um relevante auxiliador para que se possa
chegar ao seu controle ou erradicação.
A esquistossomose é uma endemia cuja ocorrência está intimamente ligada às condições de vida da
população, é desenvolvida no organismo pelas espécies do Schistosoma, sendo que na América encontra-se
apenas a espécie Schistosoma mansoni. São parasitas que tem no homem seu hospedeiro definitivo, mas
que necessita de caramujos de água doce como hospedeiros intermediários para desenvolver seu ciclo
evolutivo.
Para o desenvolvimento do Schistosoma mansoni, agente etiológico da doença, é necessário o
acasalamento de machos e fêmeas em vasos do sistema mesentérico. Após as posturas, os ovos do parasita
chegam à luz do intestino e são eliminados com as fezes ou pela urina. Em contato com a água, os ovos
libertam uma larva ciliada denominada miracídio que penetra no caramujo. (VRANJAC, 2007). As cercarias

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são larvas que infectam o homem, quando este entra em contato com ambientes hídricos de água doce,
desenvolvendo a doença. A quantidade de homens infectados é representada no modelo SIR por I.
Assim, resumidamente, a transmissão dessa doença se dá pela liberação de ovos através da urina
ou fezes do homem infectado, os ovos eliminados evoluem para larvas na água, estas se alojam e se
desenvolvem em caramujos. Estes últimos liberam a larva adulta, que ao permanecer na água contaminam
o homem. No sistema venoso humano, os parasitas se desenvolvem se reproduzem e eliminam ovos,
desenvolvendo um ciclo de reprodução (RIBEIRO, 2008).
Vale ressaltar que, recursos de saneamento básicos como: abastecimento de água tratada,
instalações sanitárias e destino adequado dos esgotos sanitários, são capazes de prevenir essa doença em
pequenas cidades ou bairros periféricos das cidades maiores. No entanto, obras de drenagem e construção
de um sistema de canalizações para águas pluviais se apresentam também necessários. Essas medidas são
exigidas pela urbanização, independentemente da ocorrência da esquistossomose.

2.2.1- Descrição do Modelo


Para que uma modelagem seja considerada relevante, é necessário o conhecimento do máximo de
informações daquilo que se deseja descrever. Após isso, escolhem-se as que são essenciais para o estudo
do fenômeno. Quanto mais informações forem inseridas num modelo, mais realístico ele se torna.
Portanto, existe a necessidade de se conhecer com antecedência o fenômeno a ser modelado, a fim de se
ter condições para escolher as informações essenciais e retirar do modelo (caso seja necessário) aquelas
menos relevantes, pelo menos num primeiro momento de análise.
Contudo, para que se possa determinar a propagação da esquistossomose em Bom
Conselho, é preciso, inicialmente, descrevermos o modelo matemático a ser aplicado delineando suas
particularidades. Só assim, será possível trabalhar em função dos dados característicos desta cidade.

2.2.2- Modelo de Kermack e McKendrick


Este modelo foi desenvolvido em 1927, e descreve a propagação das doenças infecciosas
de transmissão direta pessoa-a-pessoa e retrata a dinâmica de uma população dividida em três classes,
(figura 1), denominado Modelo SIR.

Susceptíveis

Infecção

Infectados

Morte ou Remoção

Removidos

Figura 1: Dinâmica da população.

A primeira classe corresponde a das pessoas susceptíveis, ou seja, aquelas que ainda não foram
contaminadas pela doença. A segunda classe caracteriza-se pelas pessoas infectadas, isto é, as que tiveram
contato com a doença e, por consequência, foram contaminadas. A última classe é a das pessoas
removidas, seja em casos de cura ou de óbito.

As taxas de transição entre as classes estão definidas abaixo:


: Taxa de mudança de suscetíveis;
: Taxa de mudança de infectados;

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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: Taxa de mudança de removidos.


Este modelo considera uma população constante, desprezando-se os nascimentos e as
migrações, assim temos:
N = S + I + R= cte (1)
Onde: N = total da população;
S = número de pessoas suscetíveis
I = número de pessoas infectadas;
R = número de pessoas removidas.
Esse modelo baseou-se em duas hipóteses: 1) a razão de variação da população susceptível é
proporcional ao número de encontros entre a população susceptível e infectada; e 2) a razão de variação
da população removida é proporcional à população infectada. Utilizando essas hipóteses de acordo com as
taxas de transição, temos:
Taxa de mudança de S = - Taxa de infecção.
Taxa de mudança de I = Taxa de infecção – taxa de remoção.
Taxa de mudança de R = Taxa de remoção.
Sabendo que a taxa de infecção = βSI, β = cte, resulta-se no seguinte sistema de equações
diferenciais:
= - βS I (2)
= βSI – yI (3)
= yI (4)

MATERIAIS E MÉTODOS
3.1- Métodos de Resolução Numérica de Equações Parciais
Para a resolução das equações diferenciais apresentadas no modelo SIR, será utilizado o método de
Runge-Kutta de 4ª ordem.
Analogamente, tendo-se que integrar o sistema de equações diferenciais:
y´ = f(x,y,z) (5)
z´ = g(x,y,z) (6)
t´ = h(x,y,z) (7)
A partir dos valores (xv, yv, zv) e para o intervalo h, calculam-se os valores:
k1 = hf (xv,yv,zv) (8)
k2= hf (xv + , yv + , zv + ) (9)
k3 = hf (xv + ,yv + , zv + (10)
k4= hf (xv + h, yv + k3, zv + l3) (11)
l1= hg (xv,yv,zv) (12)
l2= hg (xv + , yv + , zv + ) (13)
l3= hg (xv + ,yv + , zv + (14)
l4= hg (xv + h, yv + k3, zv + l3) (15)
m1= hh (xv,yv,zv) (16)
m2= hh (xv + , yv + , zv + ) (17)
m3= hh (xv + ,yv + , zv + (18)
m4= hh (xv + h, yv +k3, zv +l3) (19)

Com estes valores se calculam:


yv + 1 = yv+ (k1 + 2k2 + 2k3 + k4) (20)
zv + 1 = zv+ (l1 + 2l2 + 2l3 + l4) (21)
t v + 1 = t v+ (m1 + 2m2 + 2m3 + m4) (22)

João Pessoa, outubro de 2011


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3.2- Mapas da Propagação da Esquistossomose


Para determinarmos a propagação da esquistossomose serão construídos mapas a partir de
dados obtidos anualmente pela Secretaria de Saúde no município de Bom Conselho. Nestes dados estará
contida a quantidade de pessoas contaminadas pela esquistossomose em diferentes regiões do município
que foram discretizadas. A partir da análise destes mapas determinaremos como se sucedeu a propagação
da esquistossomose em Bom Conselho no período de 2002 a 2008.
Os gráficos tridimensionais serão construídos utilizando o SoftWareSurfer.

3.3- Aplicação do Modelo SIR (1927).


A partir das informações obtidas na Secretaria de Saúde de Bom Conselho como dados sobre a
quantidade de pessoas infectadas pela esquistossomose em cada região dessa cidade no período de 2002 a
2008 e o número total da população em cada ano, será possível calcular o número de indivíduos que se
apresentavam infectados ou não. Para tal procedimento será utilizado o intervalo de tempo (h) em que a
doença se propaga determinado pelos dias que compõe um ano, ou seja, 365 que serão convertidos em
horas e o número total de habitantes (N) determinados de acordo com número da população de cada
localidade que compõe Bom Conselho. Assim, será desenvolvida cada equação, sempre a seguinte com
dados da equação anterior. Deste modo, possibilitará apresentar os resultados correspondentes ao número
de indivíduos suscetíveis (y’), infectados (z’) e removidos (t’).

4- RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.1- Propagação da Esquistossomose diante da Análise dos Mapas.
A propagação da esquistossomose na cidade de Bom Conselho no ano de 2002 apresentou um
maior número de pessoas infectadas na região de Rainha Isabel com 271 casos dos quais foram tratados
209, outra região com número significativo de pessoas infectadas foi a Vila Lagoa de São José com 58 casos,
onde 46 foram tratados nesse ano. Em contrapartida, houve regiões que apresentaram casos da doença em
uma menor quantidade tais como: Sítio Carneiro e o Sítio Capim Grosso que apresentaram 10 e 5 casos da
doença, respectivamente.
Na expansão desta doença no ano de 2003, observou-se claramente que a mesma foi se
propagando aos poucos, havendo uma leve expansão em regiões próximas as supracitadas. As regiões que
mostram um número de casos significativos são Bom Conselho-Trecho II com 95 casos e Bom Conselho
trecho IV com 55 casos, dos quais foram tratados 78 e 45 casos, respectivamente. Porém, em Rainha Isabel
houve um pequeno decréscimo apresentando agora 247 casos dos quais 231 foram tratados.
A propagação da esquistossomose correspondente ao ano de 2004 se mostrou um pouco menos
acentuada em relação ao ano anterior em determinadas regiões como em Rainha Isabel que apresenta
agora 207 casos com 201 tratados e em Bom Conselho- trecho II com 48 casos, onde todos os
contaminados foram tratados. Em Bom Conselho trecho IV não houve casos da doença. Isso nos mostra
que foram tomadas providências adequadas para combater a esquistossomose, obtendo resultados
satisfatórios.
No ano de 2005, houve um controle bastante significativo da doença, observou-se que as regiões
onde apresentavam menor concentração da mesma, se comparado ao ano de 2004, agora se mostram
totalmente erradicadas, restando apenas poucas regiões com expressivo número de casos, por exemplo,
Bom Conselho trecho III com 236 casos. Contudo, pode-se considerar que houve uma maior eficiência no
combate contra a esquistossomose.
Em 2006, houve um aumento considerável do número de casos da doença, o que mostra o número
pessoas infectadas em Bom Conselho trecho I, Bom Conselho trecho II e a vila de Caldeirões com 210, 116 e
94 casos, respectivamente. Observou-se então que, se comparado ao ano anterior, diversas regiões que
não apresentavam casos da doença agora se mostram de maneira significativa. Isso se evidencia, pois,
neste ano não foram tomadas nenhuma providência para controlar a expansão desta doença.
Durante 2007, a doença se propagou de maneira mais expressiva, apresentando com maior
número de casos Rainha Isabel, Bom Conselho- Trecho III e Bom Conselho- Trecho I com 264, 253 e 204
casos da doença, respectivamente. Estes dados se comparados ao ano de 2004, que apresentou para estas
mesmas regiões 207, 19 e 14 casos, respectivamente, observou-se que apesar de controlada em 2005 após

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


56

este ano a doença só aumentou o que prejudicou toda a população desta cidade. Vale ressaltar que, em
2007 foi o ano que apresentou o maior número de casos da doença nas regiões supracitadas, este ano
totalizou 1.283 casos da doença, se analisado os dados de 2002 à 2008.
Já em 2008, a doença volta a apresentar um novo controle, onde o maior número de pessoas
infectadas registrou-se em Bom Conselho-Trecho I com 117 casos da doença, logo em seguida destaca-se a
vila de Caldeirões e Rainha Isabel com 70 e 64 casos, respectivamente. Em relação ao ano anterior mostra-
se uma redução bastante significativa, visto que, no ano de 2008 totalizou-se apenas 508 casos da doença,
perdendo apenas para o ano de 2002 com 440 casos de pessoas infectadas no decorrer de todo o ano. Vale
salientar que, este foi o ano que apresentou o menor número de casos da doença em termos percentuais
correspondendo a apenas 2% do total da população contaminada.

4.2- Resultados da Modelagem


Por meio da resolução das equações propostas no modelo SIR (1927) foi possível demonstrar a
expansão da esquistossomose nos anos de 2002 a 2008 (figura 2), a partir do número de habitantes e a
quantidade de pessoas suscetíveis, infectadas e removidas, correspondente a cada ano. Vale ressaltar que,
em 2003 e 2004 a quantidade de pessoas infectada correspondeu a 3% do total da população em cada ano,
já em 2005 e 2006 obtiveram uma população contaminada correspondente a 4% em cada ano e 2007 e
2008 apresentaram 7 e 2% da população contaminada, respectivamente.
Observou-se que em 2002 foi o ano que apresentou o maior número de casos da doença em taxas
percentuais correspondente a 440 indivíduos infectados numa população de 4497 habitantes, o que
equivale a 10% deste total. Em 2008 foi o ano que menos apresentou casos da doença, foram 508 casos
numa população de 24749 habitantes, o que corresponde a apenas 2% deste total.

Figura 2: Propagação da Esquistossomose de 2002 a 2008.

João Pessoa, outubro de 2011


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Figura 3: Propagação da Esquistossomose mantendo as condições de 2002.

Caso fossem mantidas as condições do ano de 2002 (figura 3) que apresentou 701 casos da doença
numa população de 4497 de habitantes o que corresponde a 10% do total da população.
Independentemente do número de casos dos outros anos a estimativa de pessoas infectadas de 2003 a
2008 seria 701,116, 26, 7, 2 e 1 casos, respectivamente. Ou seja, mantendo-se o mesmo número de casos
apresentados em 2002 ao longo dos anos a doença chegaria a sua erradicação.

5- CONCLUSÕES
Os modelos matemáticos se mostram como um relevante instrumento capaz de subsidiar no
controle ou erradicação da esquistossomose, pois, auxiliam na compreensão de muitos fenômenos
biológicos. O modelo de Kermack e McKendrick, (1927) denominado modelo SIR se mostra um dos modelos
mais utilizados na representação de doenças infecciosas, ressaltando, que por meio deste modelo são
adquiridos parâmetros básicos para a construção conceitual de outros modelos.
Utilizamos tal modelo para determinar a expansão da esquistossomose na cidade de Bom
Conselho-PE, onde o mesmo determina três parâmetros fundamentais: taxa de população infectada, taxa
de população removida e taxa de população apta a adquirir a doença. Verificamos no decorrer da pesquisa,
que esta doença se mostrou em constantes oscilações no decorrer de todo o período analisado, onde a
mesma se apresentou em alguns anos controlada e em outros sem controle algum prejudicando
significativamente os habitantes da cidade de Bom Conselho. Fato este decorrente da falta de manejo dos
recursos hídricos existente nesta cidade, juntamente com a falta de saneamento básico e de orientação à
população.
Concluímos que, mesmo este modelo apresentando poucas características, por meio dele foi
possível chegar à determinação da expansão da esquistossomose no período de 2002 a 2008 da referida
cidade, tornando-o viável para na determinação de doenças infecciosas. Assim, este modelo, tal como
outros modelos epidemiológicos, pode ser utilizado como mais uma ferramenta auxiliar pelos órgãos
públicos de saúde com o propósito de obter dados que contribuam para desenvolver estratégias de
controle para doenças infecciosas minimizando ou até mesmo erradicando tais doenças.

6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVARENGA, L. R., Modelagem de epidemias através de modelos baseados em indivíduos. Programa
de Pós-graduação em Engenharia Elétrica Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2008.
BARROS, A. M. R., Modelos matemáticos de equações diferenciais ordinárias aplicados à
epidemiologia, 2007, p. 62- 67.
FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE, MINISTÉRIO DA SAÚDE (FUNASA). Manual de saneamento. 3°
edição revisada, Brasília, 2006.
IBGE. Censo demográfico: Contagem da população. IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, 2010. Disponível em: < www.ibge.gov.b>. Acesso em 02 de maio de 2011.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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MOREIRA, J. C.; SENE, J. C. E. Geografia: volume único. Ed. Scipione. São Paulo-SP, 2005, p. 410.
RIBEIRO, J. O. Modelos matemáticos para esquistossomose. Dissertação de mestrado, Universidade
Federal de Pernambuco Centro de Ciências Exatas e da Natureza Departamento de Matemática. Recife-PE,
2008.
VRANJAC, A., Vigilância Epidemiológica e Controle da Esquistossomose: Normas e instruções. Centro
de Vigilância epidemiológica (CVE), 2007.
YANG, H. M., BARROSO, S., Modelagem matemática para macroparasitas com ênfase em
esquistossomose, 1999. Disponível em: http://www.ime.unicamp.br/~biomat/bio9art_6.pdf. Acesso em:
15 de maio de 2011.

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AS CONDIÇÕES SOCIO AMBIENTAIS E SUA RELAÇÃO COM A DENGUE: UM


ESTUDO DE CASO NO BAIRRO NATAL, ITUIUTABA/MG
Hosana Maria Oliveira BARCELOS
Graduanda Curso de Graduação em Geografia/UFU
Glece Eurípedes da Silva ALVES
Graduanda Curso de Graduação em Geografia/UFU
Gerusa Gonçalves MOURA
Professora Curso de Graduação em Geografia/UFU
gerusa@pontal.ufu.br

RESUMO
O trabalho objetiva compreender as condições sociais, econômicas e ambientais do bairro Natal em
Ituiutaba/MG, relacionando-o com a proliferação de doenças, como a dengue, com o intuito de propor,
junto à comunidade local, tendo a escola como o centro difusor, ações intervencionistas que visem o
combate e a prevenção dessa doença no município. Para isso, os objetivos específicos propostos são
elaborar um banco de dados socioambiental do bairro Natal; propor projetos de intervenção que visem o
combate e a prevenção à doença; promover alternativas de inserção da família em atividades de cunho
socioambiental promovidas pela escola e pelos alunos, através da formação da “brigada-mirim” de
combate à Dengue. Para desenvolver esse trabalho, a metodologia empregada baseou-se no levantamento
e revisão bibliográfica sobre a temática em livros, periódicos, internet, jornais e outras fontes de pesquisa;
levantamento e avaliação de dados epidemiológicos dessa endemia junto ao setor de epidemiologia
municipal; levantamento das condições socioambientais do bairro Natal, em Ituiutaba (MG), por meio de
observação direta e aplicação de questionários/entrevistas com os moradores, desenvolvimento de
metodologias e ações para o controle e combate dessa endemia, por meio da mobilização da sociedade e
do Poder Público, tendo como centro de difusão de conhecimento, atitudes e comportamentos, as escolas
localizadas no bairro Natal.
Palavras-chaves: dengue, periferia, ambiente, condições sociais, escola.

INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, apesar das melhorias do Ministério da Saúde, várias das doenças tropicais, com
destaque para a doença de Chagas, Leishmaniose e a Dengue, continuam a causar vítimas, principalmente
em famílias de menor poder aquisitivo, que habitam o espaço rural ou os bairros periféricos das cidades,
onde a infraestrutura é insuficiente para atender à todos que neles habitam. E foi pensando nessa situação
que esse trabalho foi proposto com o objetivo de compreender as condições sociais, econômicas e
ambientais do bairro Natal em Ituiutaba/MG, relacionando-as com a proliferação de doenças como a
Dengue e, a partir desse diagnóstico, propor atividades de intervenção que pudessem contribuir com a
comunidade local, no sentido de evitar a proliferação da Dengue na cidade, cujos índices apresentam-se
altos.
Para desenvolver essas atividades, buscou-se, como parceira, a Escola Estadual Cônego Ângelo, que
se tornou o centro difusor das ações intervencionistas que visaram o combate e a prevenção dessa doença
no município. Para isso, os objetivos específicos propostos foram elaborar um banco de dados
socioambiental do bairro Natal em Ituiutaba/MG; propor, junto à comunidade escolar do bairro Natal
projetos de intervenção que visassem o combate e a prevenção da Dengue; promoção de alternativas de
inserção da família em atividades de cunho socioambiental promovidas pela escola e pelos alunos, a partir
da formação da “brigada mirim” de combate à Dengue.
A dengue é na atualidade uma significante e preocupante infecção viral e se faz um grave problema
para a saúde pública no mundo. É conceituada como uma doença tropical por ter maior incidência nos
trópicos e por estar intimamente relacionada às variáveis climáticas. Para Pessoa (1960), as doenças
tropicais são as moléstias de ocorrência frequente nos trópicos e de observação rara, quando ainda vistas,
nos países de clima temperado.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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As doenças tropicais são conceituadas por três principais correntes, a primeira dá destaque aos
aspectos do ambiente como temperatura e umidade; outra correlaciona as condições de
subdesenvolvimento e uma terceira relaciona os dois critérios, valorizando os aspectos geográficos
regionais.
A dengue manifesta-se como uma enfermidade infecciosa aguda caracterizada por um amplo
espectro clínico, que varia desde formas de infecção assintomática ou febre indiferenciada, até as graves
formas de hemorragia e/ou choque. Os casos típicos da dengue, segundo Pontes e Ruffino-Netto (1994),
podem ser agrupados em duas categorias principais: a) síndrome de febre da dengue ou dengue clássica;
febre hemorrágica da dengue ou dengue hemorrágica/síndrome de choque da dengue.
A dengue clássica caracteriza-se por uma febre alta de início abrupto, cefaleia intensa, dor
retrorbitária, dores articulares e musculares, prostação, acompanhada algumas vezes de exantema máculo-
papular, podendo ocorrer alguns fenômenos hemorrágicos sem maiores conseqüências (petéquia, epistaxe,
gengivorragia). A dengue hemorrágica/ síndrome de choque da dengue é caracterizada por um quadro de
febre alta, inicialmente indiferenciável do quadro dengue clássica, que se segue quando da normalização da
temperatura entre o terceiro e o quinto dia da enfermidade de fenômenos hemorrágicos (petéquia,
púrpura, equimose, epistaxe, sangramento gengival, sufuções hemorrágicas, hematêmese, melena) e/ou
insuficiência circulatória com ou sem choque hipovolêmico (PONTES, RUFFINO-NETTO, 1994).
Segundo Andrieus (2008 apud SILVA, 2002), o primeiro relato de caso de doença semelhante à
dengue foi registrado numa enciclopédia chinesa da Dinastia Chin (265 a 420 anos a.C). Por achar que a
doença estava associada a insetos, eles a denominaram de veneno da água. Vários autores divergem em
relação á primeira epidemia de dengue no mundo. Para alguns, os primeiros relatos sobre a dengue
ocorreram na Ilha de Java em 1779 e, posteriormente, em 1780, nos EUA. Outros autores acreditam que a
primeira epidemia da doença aconteceu em 1784 no continente Europeu e, outros, preferem acreditar que
o primeiro registro de casos aconteceu em Cuba, em 1782.
No século passado aconteceram várias epidemias, como na Austrália (1904 a 1905), no Panamá
(1904 a 1912), na África do Sul (1921), África Oriental (1925), Grécia (1927 a 1928), Filipinas (1956),
Tailândia (1958), Vietnã do Sul (1960), Cingapura (1926), Malásia (1963), Indonésia (1969) e Birmânia
(1970). (COSTA, 2001 apud SILVA, 2008, p.166).
Pontes e Ruffino-Neto (1994) afirmam que o Aedes aegypti provavelmente é originário da África, da
região da Etiópia, posteriormente introduzido na América no período de colonização por meio das
embarcações da qual se distribuiu para regiões tropicais e subtropicais do globo terrestre. O Aedes
albopictus, espécie com ampla distribuição no Sul da Ásia Oriental e no Pacífico do Sul, até a bem pouco
tempo não havia se introduzido de forma definitiva no Ocidente. Provavelmente, percorrendo as grandes
rotas do comércio internacional, em 1985 penetrou no Texas e, posteriormente, em vários outros estados
dos EUA. Em 1986, o Aedes albopictus foi encontrado também no Brasil, no Estado do Rio de Janeiro, em
Minas Gerais e Espírito Santo pelo intercâmbio marítimo entre o Japão no sistema portuário do Estado do
Espírito Santo, disseminando-se a partir daí para vários estados brasileiros.
O Aedes albopictus é uma espécie originalmente silvestre e possui capacidade de sobrevivência e
multiplicação em ambientes mais amplos do que aqueles restritos ao domicílio e peridomicílio. Tem boa
adaptação aos criadouros artificiais compartilhando locais com o Aedes aegypti. Porém, é bem adaptado
aos ambientes onde predominam os espaços abertos com vegetação nas áreas urbanas ou suburbanas, e
na zona rural com embricamento de folhas em orifícios de bambus entre outros (PONTES, RUFFINO-NETTO,
1994).
Segundo Câmara et all (2007, p.25), em uma pesquisa feita para a Revista da Sociedade Brasileira
de Medicina Tropical a partir de dados da Fundação Nacional de Saúde - FUNASA (1986 a 2003), observou-
se que “[...] as regiões Nordeste e Sudeste do Brasil apresentam 86% dos casos de dengue do país sendo
que, um número significativo menor concentra-se nas regiões Sul, Centro-Oeste e Norte”. Nesta pesquisa,
os autores analisaram o comportamento histórico da dengue segundo as regiões anteriormente citadas e
as relações entre casos notificados da doença, tamanho de populações e densidade vetorial, constatando-
se assim, que as regiões Sudeste e Nordeste comparadas às demais, apresentam uma porcentagem
bastante significativa nos casos da doença devido a predominância dos climas tropical úmido e quente e
úmido.

João Pessoa, outubro de 2011


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O autor ainda ressalta que se encontram hoje em 27 Estados da Federação, 3.794 municípios com
um total de 60% de notificações da doença na América. A incidência dos casos de dengue hemorrágica
ocorre com significância apesar das tentativas de controle, que por razões complexas, necessita de estudos
para uma melhor elucidação. O primeiro caso de dengue no Brasil consta no Período Colonial, em 1865, na
cidade de Recife, onde sete anos depois uma nova epidemia de dengue levou a morte 2.000 pessoas em
Salvador/BA.
O fato não é diferente na região do Pontal do Triangulo Mineiro, especificamente na cidade de
Ituiutaba/MG, onde o clima e as altas temperaturas favorecem a reprodução do mosquito transmissor. O
bairro Natal, escolhido como área de estudo sobre a incidência da dengue, localiza-se na área periférica do
município, sendo considerado um dos bairros mais antigos da cidade, onde se concentra, também, uma
população de nível socioeconômico baixo, que vivem em condições precárias, rodeadas por terrenos
baldios. Essas situações aliadas ao clima quente e úmido da região Sudeste fazem uma perfeita combinação
na proliferação do Aedes Aegypti, mosquito vetor da doença, como veremos a seguir.
A dengue é hoje objeto da maior campanha de saúde pública do Brasil, que se concentra no
controle do Aedes aegypti, vetor reconhecido como transmissor do vírus da dengue em nosso meio
(CAMARA, 2007). Segundo estimativas do IBGE (2010), aproximadamente 40% dos casos registrados de
dengue ocorrem em municípios com menos de 100.000 habitantes. O mosquito (Figura 1) distribui-se
amplamente nas regiões tropicais e subtropicais, pois se trata de um mosquito de hábitos essencialmente
domésticos. As condições domiciliares ou peridomiciliares ofertadas pelo modo de vida das populações
humanas proporcionam locais de ovoposição, pois a urbanização juntamente com a larga utilização de
modernos recipientes artificiais, determina crescente proliferação do mosquito.

Figura 1: Mosquito Aedes aegypti.


Fonte: http://dengue.org.br. Acesso em: agosto 2010.

Apesar das leis e determinações do uso do solo, o espaço é, na verdade, organizado por ações
particulares, que, selecionando áreas, realizando empreendimentos e induzindo a aplicação de
investimentos públicos, criam padrões diferenciados de organização espacial para as classes de alta e baixa
renda, que resultarão numa segregação espacial cada vez mais periférica, o que contribuirá efetivamente
para a incidência maior de doenças, como a Dengue, na periferia da cidade.

O bairro Natal em Ituiutaba/MG


Um dos motivos que justifica a escolha do bairro Natal como objeto de nossas pesquisas, é sua
localização na parte periférica da cidade, apresentando áreas que propiciam a presença do vetor da
dengue, devido às formas de ocupação e organização espacial, bem como seus aspectos sociais, financeiros
e culturais da população que nele habita.
O bairro Natal tem sua origem marcada pela Lei nº220, decretada pela Comarca e sancionada pelo
prefeito Davi Ribeiro de Gouveia, no ano de 1953, promovendo o loteamento em que foi aprovado o Plano
Diretor no artigo 2º parágrafo B; na então, denominada Vila Natal, Setor Sul da cidade, conforme o traçado
constante do plano de urbanização com loteamentos para residências (Mapa 1).

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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Mapa 1: Ituiutaba/MG: localização do bairro Natal.

De acordo com dados obtidos pelo Sr. José Tanús (Secretaria de Planejamento da Prefeitura
Municipal de Ituiutaba/MG), o bairro Natal possui, hoje, 2.092 imóveis, sendo que destes, 1.925 são
edificados e 168 são terrenos vagos. Devido ao seu acentuado crescimento urbano, a proporção maior
desses terrenos vagos encontram-se próximos a divisa com o córrego Pirapitinga, cujo curso d’água passa
por esta área do bairro de menor adensamento, propiciando, assim, uma característica de rural – urbano.
De acordo com o trabalho realizado, a partir do questionário socioambiental pode-se obter alguns
dados sobre a comunidade envolvida no projeto, dentre outros, as condições socioeconômicas, bem como
o tempo de moradia no bairro, a renda e o conhecimento que tem sobre a dengue e medidas a tomar para
evitá-la.
Foi possível observar que a maior parte do bairro é caracterizada por população de baixa renda, a
qual convive com situações desfavoráveis à sua saúde como a presença de terrenos baldios, lixo espalhado
a céu aberto, casas desprovidas de infraestrutura e com deficiência no saneamento básico. Devido a tais
problemas socioambientais nesta localidade, ocorre uma maior probabilidade de proliferação do Aedes
aegypti, facilitando também a dispersão do vetor.
Verificou-se que a população entrevistada é composta por pessoas de faixa etária de 26% até os 30
anos de idade; 34% com idade de 30 a 50 anos e 40% com mais de 50 anos, como demonstra o Gráfico 1,
que nos ajuda a analisar que no bairro há o predomínio de pessoas mais velhas, que nasceram e cresceram
no mesmo lugar, como pode ser comprovado pelo Gráfico 2, que representa o tempo de moradia da
população no bairro. E, como pode ser verificado no mesmo, 72% da população vive no bairro há mais de
10 anos; 20% vivem a menos de dez anos e apenas 8% vivem menos de um ano.

João Pessoa, outubro de 2011


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Gráfico 1 – Ituiutaba/MG: faixa etária dos moradores do Bairro Natal, 2010.


Fonte: Pesquisa direta, 2010.

Gráfico 2 – Ituiutaba/MG: tempo de moradia no Bairro Natal, 2010.


Fonte: Pesquisa direta, 2010.

Quanto à renda familiar foi observado também que 24% da população do bairro têm uma renda de
até um (1) salário mínimo; 66% até três salários mínimos; 8% de cinco a sete salários mínimos e 2% de sete
a dez salários mínimos (Gráfico 3). Com esses dados pode-se perceber que, em geral, a população do bairro
é considerada como de baixa renda, pois mais da metade da população no máximo 3 salários mínimos, que
não é suficiente para manter a família, que é composta, geralmente, por até quatro pessoas, como
demonstra o Gráfico 4.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


64

Gráfico 3 – Ituiutaba/MG: renda familiar dos moradores do Bairro Natal, 2010.


Fonte: Pesquisa direta, 2010.

Gráfico 4 – Ituiutaba/MG: nº pessoas por casa no Bairro Natal, 2010.


Fonte: Pesquisa direta, 2010.

Quanto à situação da moradia pôde-se observar que 63% das residências são próprias; 20% são
alugadas; 10% cedidas e apenas 5% financiadas (Gráfico 5), o que demonstra a fixação da população no
bairro há um tempo significativo, pois mais da metade dos moradores já são proprietários das residências
onde moram.

João Pessoa, outubro de 2011


65

Gráfico 5 – Ituiutaba/MG: condição da moradia no Bairro Natal, 2010.


Fonte: Pesquisa direta, 2010.

Foi possível ainda constatar que das atividades desenvolvidas pela população do bairro são
diversificadas, ou seja, cerca 24% da população são autônomos; 20% são donas de casa; 30% são
aposentados e 22% exercem diferentes atividades com renda fixa (domésticas, vendedores, torneiros,
motoristas, entre outros, o que acaba explicando a renda familiar média encontrada no bairro, como foi
demonstrado no Gráfico 3. Além disso, pode-se verificar que a escolaridade dos moradores também
justifica a ocupação profissional dos morados.
Analisando o grau de conhecimento dos moradores do bairro sobre a Dengue, averiguamos a partir
dos questionários que 60% dos entrevistados já contraíram ou possuem algum familiar que já foi infectado
pela Dengue; e os 40% restantes da população não tiveram contato com a doença, o que demonstra um
alto grau de infestação do vetor no bairro e reforça ainda mais a importância de um trabalho de
conscientização da população sobre a Dengue.
Quanto ao nível de conhecimento da população a respeito da doença, grande parte da população
demonstrou bom conhecimento sobre a mesma, principalmente quanto aos meios de prevenção
necessários, os sintomas que ela apresenta e as medidas a serem tomadas em casos de infecção.

As ações intervencionistas: procedimentos e resultados


A base metodológica deste trabalho baseou-se em pesquisa qualitativa, utilizando o método da
pesquisa-ação participante, que objetivou a inserção e participação direta da comunidade nas pesquisas,
especialmente os alunos da Escola Estadual Cônego Ângelo, localizada no bairro Natal, em Ituiutaba/MG.
A primeira etapa deste trabalho consistiu em revisão bibliográfica sobre o assunto, com leituras de
autores que trabalham com a temática e que realizaram trabalhos semelhantes ao proposto pelo projeto.
Já com um embasamento teórico acerca da temática, a segunda etapa de desenvolvimento deste trabalho
pautou-se em visitas in loco para elaborar o diagnóstico socioambiental do bairro Natal. A partir desta
identificação, foi selecionada a escola do bairro (Figura 2) para o desenvolvimento da pesquisa-ação.
Após o reconhecimento da área de estudo, os pesquisadores voltaram ao local para aplicar um
questionário afim de obter alguns dados sobre a população, tais como as condições socioeconômicas (faixa
etária, tempo de moradia, renda, escolaridade, ocupação profissional, número de moradores por casa),
bem como o entendimento/conhecimento da população local sobre a Dengue e as medidas a tomar para
prevenir a mesma.
A quarta etapa consistiu na identificação e aplicação de ações de mobilização da comunidade local
para o controle e combate à Dengue. Para isso, foram ministradas palestras sobre a Dengue (doença,
transmissão, vetores, tratamento, etc.) para os alunos da Escola Estadual Cônego Ângelo. Além das
palestras, alguns alunos foram selecionados e treinados para atuarem como “Agentes Ambientais Mirins”,
compondo a “Brigada Mirim de Combate à Dengue”, em que contamos com o apoio dos técnicos da

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


66

Secretaria Municipal de Saúde, que os ajudaram a criar critérios para avaliar as áreas residenciais e
identificar os possíveis focos do mosquito transmissor no bairro.
Após o treinamento os agentes mirins foram às ruas, acompanhados pelos Agentes do Centro de
Zoonoses e os executores do projeto, visitar as residências, observando as condições dos quintais e
orientando os moradores sobre os cuidados para a prevenção o foco do mosquito Aedes Aegypti e, com
isso evitar a Dengue.
A etapa seguinte constituiu na confecção de mosquitéricas pelos alunos da Escola Estadual Cônego
Ângelo, que consiste em uma armadilha para capturar o ovo do mosquito. A mosquitérica é utilizada como
local de reprodução do mosquito adulto, que deposita os ovos nas laterais da armadilha, que devido a
diferença de pressão entre o dia e a noite, a água percorre pelas paredes da armadilha transportando os
ovos para baixo do tule, que após se transformarem em mosquito ficam aprisionados abaixo do tule,
evitando assim o contato com o meio.
A última etapa contou com a realização de uma palestra envolvendo os Agentes de Saúde do
Centro de Zoonose de Ituiutaba, os executores do projeto e toda a equipe escolar. Nesta palestra, os alunos
foram indagados sobre o que aprenderam em relação a doença e seu vetor, durante as atividades
efetuadas na escola. Os agentes mirins participaram da palestra, relatando aos demais colegas a
experiência que vivenciaram no campo, contribuindo para o enriquecimento do aprendizado dos demais
alunos. Na mesma ocasião, foi produzido um vídeo com todas as etapas das atividades desenvolvidas, que
foram repassados para a Secretaria de Educação para a divulgação do trabalho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados com o desenvolvimento deste projeto foram positivos, pois além de permitir o
levantamento de dados socioambiental do bairro Natal, pode-se observar que para se ter eficácia quanto
ao controle e prevenção do vírus da Dengue, necessita-se de esclarecimentos para que o vetor não se
prolifere e para que isso aconteça é preciso uma ação conjunta da comunidade local, que a partir do
momento que conseguir reconhecer que as más condições de moradias, os hábitos incorretos e demais
problemas em relação ao meio ambiente devem ser combatidos e, que o trabalho para isso é intenso e
participativo e; esperamos que o desenvolvimento desse trabalho tenha contribuído para que a população
escolhida para o desenvolvimento do trabalho tenha adquirido essa consciência.
No entanto, é importante ressaltar que esses resultados só foram possíveis a partir da participação
da comunidade e das autoridades locais. Dentre os nossos parceiros, tivemos o apoio do Pároco (Padre
João Clemente) da Igreja Nossa Senhora Aparecida, que nos disponibilizou o barracão da Paróquia para a
realização de uma palestra de esclarecimento sobre o mosquito Aedes aegypti, sua prevenção e os
cuidados sobre o vírus da dengue. A parceria com a Escola Cônego Ângelo, que tem como diretora a Sra.
Maria da Luz e a Supervisora Betânia, forma de suma importância, pois sem a participação dos alunos (seja
como ouvintes ou participantes da Brigada-Mirin de Combate à Dengue) e o apoio na organização das
atividades o trabalho não teria alcançado os resultados esperados. Outra parceria importante foi a
estabelecido com a coordenadora do Centro de Controle Zoonoses, Sra. Rosália, que disponibilizando os
agentes do órgão e alguns microscópicos para serem utilizados nas palestras da escola.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Guia de vigilância epidemiológica.
Brasília: Ministério da Saúde, 2002.
______. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Diretoria Técnica de Gestão.
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Paulo, 2001.
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COSTA, M. da C. N.; TEIXEIRA, M. da G. L. C. A concepção de “espaço” na investigação
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João Pessoa, outubro de 2011


67

LEFEVRE, Fernando et al. Representações sociais sobre relações entre vasos de plantas e o vetor da
dengue. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v.38, n.3, jun. 2004.
MENDONÇA, F. A.; SOUZA, A. V.; DUTRA, D. A. Saúde Pública, Urbanização e Dengue no Brasil.
Sociedade & Natureza, Uberlândia, v.21, n.3, dez. 2009.
MOURA, Gerusa Gonçalves. Imagens e representações da periferia de Uberlândia (MG): um estudo
de caso do Setor Oeste. 2003. 317f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal de
Uberlândia, Uberlândia, 2003.
OLIVEIRA, B. S. Ituiutaba (MG) na rede urbana tijucana: (re) configuração sócio-espaciais no período
de 1950 a 2000. 205 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal de Uberlândia,
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PEDROSO, L. B.; MOURA, G. G. Diagnóstico epidemiológico de dengue no município de Ituiutaba-
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do Brasil: aspectos epidemiológicos. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v.28, n.3, jun. 1994.
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erradicação às políticas de controle. Revista Hygeia. Uberlândia, v.3, n.6, jun. 2008.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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VIGILÂNCIA AMBIENTAL E A IMPORTÂNCIA DO MONITORAMENTO DE


MOSQUITOS DE IMPORTÂNCIA DE SAÚDE PÚBLICA3
Suélem Marques OLIVEIRA
Graduanda em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia
suelemarques@live.com
Igor Antônio SILVA
Graduando em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia
igorgeoufu@hotmail.com

RESUMO
Dentre a fauna entomológica de interesse médico-sanitário, os mais importantes pelas endemias
que estabelecem no Brasil, destacam-se os dípteros hematófagos flebotomíneos e culicídeos. É com esses
que o Laboratório de Geografia Médica e Vigilância Ambiental em Saúde trabalha, realizando capturas,
identificando as espécies e relacionado-as aos nichos ecológicos. Este é realizado em um empreendimento
localizado no estado de Goiás, e atinge três municípios: Catalão, Campo Alegre de Goiás e Davinópolis. O
monitoramento tem como objetivo identificar alterações na distribuição e densidade da fauna
entomológica que poderão ser provocadas pelas modificações ambientais relacionadas com a construção
da barragem do AHE Serra do Facão. As capturas noturnas foram feitas por meio de instalação de uma
armadilha tipo Shannon com lâmpada de 100 w ligadas à bateria de 12 volts e 4 CDC (Center on Disease
Control) no seu entorno, num raio máximo de 50m uma da outra. Elas foram realizadas num período de 3
horas, das 18 às 21h. As preocupações deste projeto de controle de vetores é com o monitoramento das
espécies potencialmente transmissoras de leishmanioses, malária, febre amarela e filarioses. A pesquisa foi
realizada nos meses de Janeiro a Junho de 2011. No total foram capturados 228 mosquistos, dentre eles 42
anófeles, 12 flebótomos e 174 culex. O gênero de mosquito que apresentou maior número de espécies
capturadas e identificadas foram os Culex, com 13 espécies, seguido respectivamente pelos Anófeles com 2
espécies e os Flebótomos com 1 espécie identificada. Em relação ao sexo, em todos os gêneros
predominaram mosquitos fêmeas.
Palavras – Chaves: Vigilância; monitoramento; mosquitos; saúde ambiental; Goiás.

INTRODUÇÃO
Dentre a fauna entomológica de interesse médico-sanitário, os mais importantes pelas endemias
que estabelecem no Brasil, destacam-se os triatomíneos e os dípteros hematófagos flebotomíneos e
culicídeos. É com esses que o Projeto de Controle de Vetores trabalha, realizando capturas, identificando as
espécies e relacionado-as aos nichos ecológicos. O monitoramento tem como objetivo identificar
alterações na distribuição e densidade da fauna entomológica que poderão ser provocadas pelas
modificações ambientais relacionadas com a construção da barragem do AHE Serra do Facão.
Este empreendimento foi construído no estado de Goiás e afetará os municípios de Catalão e
Campo Alegre de Goiás. Decidiu-se então concentrar as atividades de Vigilância Epidemiológica nestes dois
municípios e também em Davinópolis, município este que contempla o rio São Marcos. As áreas para
monitoramento de vetores foram definidas a partir de critérios ambientais e de proteção epidemiológica das
populações na Área diretamente afetada pelo AHE Serra do Facão.
Como critérios ambientais utilizamos os seguintes parâmetros:
Presença de nichos ecológicos relacionados à mata;
Presença de nichos ecológicos relacionados ao cerrado;
Presença de nichos ecológicos relacionados à ambientes antropizados.
Como critério de proteção epidemiológica das populações utilizou o seguinte parâmetros:
Locais de maiores densidade demográfica.

3
Esta pesquisa é realizada pelo Laboratório de Geografia Médica e Vigilância Ambiental em Saúde da
Universidade Federal de Uberlândia. Ambos os alunos são orientados pelo Professor Paulo Cezar Mendes e Samuel do
Carmo Lima.

João Pessoa, outubro de 2011


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Um critério secundário utilizado foi:


localização de pontos de captura de mosquitos nas margens do rio e na cota máxima de inundação
do reservatório da Usina Hidrelétrica, para que o monitoramento possa ter continuidade, após o
enchimento do reservatório.

Os principais mosquitos monitorados são os: flebotomíneos, anófeles e os outros culicídeos.


Os flebotomíneos são os vetores das leishmanioses. As leishmanioses acometem todos os anos
cerca de dois milhões de pessoas no mundo e ainda assim, é uma das doenças negligenciadas, ignoradas
pelas grandes indústrias farmacêuticas, por que atingem majoritariamente as populações menos
favorecidas. As leishmanioses são causadas por protozoários do gênero Leishmania, com dois tipos principais:
leishmaniose tegumentar, que ataca a pele e a mucosa, e a leishmaniose visceral (ou Calazar), que ataca as
vísceras (fígado, o baço, os gânglios linfáticos e a medula óssea), a mais letal.
O parasita é transmitido ao homem pelos flebotomíneos, popularmente conhecido como
mosquito-pólvora, palha, birigui, asa branca. A transmissão acontece quando uma fêmea infectada passa o
protozoário a uma vítima saudável, enquanto se alimenta de seu sangue. Além do homem, vários
mamíferos silvestres (como o gambá, alguns roedores, dentre outros) e domésticos (cão, cavalo etc.)
também podem ser contaminados, e se tornam hospedeiros. Alguns desses hospedeiros, por desempenhar
papel importante na manutenção do parasita na natureza são então chamados de reservatórios. O cão
doméstico é considerado o reservatório epidemiologicamente mais importante para a leishmaniose visceral
americana.
Os Culicídeos são popularmente conhecido como “pernilongo” e podem ser vetores de muitas
doenças, dentre elas a malária (anópheles), a febre amarela (haemagogus) e as filarioses (Culex, Anopheles
ou Aedes).
A malária é uma doença infecciosa aguda causada por protozoários do gênero Plasmodium,
transmitidos pela picada do mosquito Anopheles, da família Culicidae, gênero Anopheles, sendo a principal
espécie o Anopheles darling. São conhecidos popularmente como “carapanã”, “muriçoca”, “sovela”,
“mosquito-prego”, “bicuda”. A doença se manifesta com um quadro febril, com calafrios, suores e cefaléia.
O Brasil registrou 545.696 casos de malária em 2006, dado este concentrado quase exclusivamente na
região Amazônica (99,7%). Em outras regiões podem ocorrer surtos, relacionados com a chegada de
doentes em áreas que possuem o mosquito.
A Filariose ou elefantíase é a doença causada pelos parasitas nematóides Wuchereria bancrofti,
comumente chamados filária, que se alojam nos vasos linfáticos, causando linfedema. Os principais
acometimentos das filirioses são inchaço e aumento dos membros, geralmente das pernas (elefantíase),
hidrocela: inchaço do escroto (lesão genital) e dor e inchaço das glândulas linfáticas, freqüentemente com
náuseas, febre e vômitos (infecção linfática). Esta doença é também conhecida como elefantíase, devido ao
aspecto de perna de elefante do paciente com esta doença. O mosquito transmissor é o Culex
quinquefasciatus. Estima-se que no Brasil haja cerca de 50 mil pessoas são portadores de filarososes e 3
milhões estejam em áreas consideradas de risco (BRASIL 2005).
A febre amarela é uma doença causada por um vírus do gênero Flavivirus, da família Flaviviridae. Os
sintomas da doença são febre alta, dor de cabeça, vômito e insuficiência dos rins e do fígado. Se o paciente
se recupera fica imune. Durante as epidemias, os sintomas tendem a ser mais severos, com icterícia e
hemorragias; até metade das pessoas infectadas podem morrer. Não há nenhum tratamento específico,
com exceção de uma boa assistência médica. A vacinação é a medida eficaz de proteção, com validade de
dez anos, e, além disso, as pessoas devem se proteger contra as picadas dos mosquitos.
É transmitida através da picada de um mosquito infectado ou de um mosquito que transporta o
sangue infectado de um humano ou de um macaco. Desde 1942, o Brasil não registra nenhum caso de
febre amarela urbana. No ciclo urbano, a transmissão se daria pelo conhecido Aedes aegypti, transmissor
da dengue. Os casos recentes de febre amarela ocorridos no Brasil foram de febre amarela silvestre, ou
seja, de transmissão no meio rural, cujo vetor são mosquitos do gênero Haemagogus (H. janthinomys e
H.albomaculatus) e os do gênero Sabethes, sendo a espécie H. janthinomys a que mais se destaca na
manutenção do vírus (BRASIL 1999).

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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MÉTODOS E MATERIAIS UTILIZADOS


Após estudos preliminares sobre a imagem de satélite da área, reuniões de discussão dos critérios
para a definição dos locais de monitoramento de vetores, no Laboratório de Geografia Médica da UFU e no
SEFAC, com a equipe de Fauna e Flora, os seis (6) pontos de amostragem ficaram assim definidos:

FIGURA 1: Mapa de localização dos pontos de captura no AHE Serra do Facão, Goiás
Fonte: COSTA, I.M., junho, 2009.

Canteiro de obras do AHE Serra do Facão - DAVINÓPOLIS


218309 / 8002223
Comunidade Pires Belo - CATALÃO
204820 / 8017000
Margem do rio próximo à Ponte dos Carapinas - CATALÃO
216273 / 8018201

Margem do rio próximo à Balsa Porto Pacheco - CAMPO ALEGRE DE GOIÁS

João Pessoa, outubro de 2011


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222032 / 8033774
Margem do rio próximo à Balsa Manoel Souto - CAMPO ALEGRE DE GOIÁS
228551 / 8062983
Comunidade Varão - DAVINÓPOLIS
223207 / 8001421
Cada um dos seis pontos de captura são monitorados uma vez a cada dois meses. Deste modo, as
capturas nos meses impares são feitas nos pontos 1, 2 e 3, e nos meses pares 4, 5 e 6. São utilizadas
armadilhas CDC luminosas (automáticas) e armadilha tipo SHANNON. As capturas se iniciam ao entardecer,
ao aparecimento do primeiro mosquito de importância sanitária e prossegue por três períodos horários. A
armadilha denominada Shannon (figura 2) é instalada próximo a mata e no interior é colocado uma lâmpada de
100w ligada a bateria de 12 volts.

FIGURA 2: Armadilha Shannon utilizada nas capturas


Fonte: Laboratório de Geografia Médica e Vigilância Ambiental em Saúde – UFU

FIGURA 3: Capturar de Castro utilizado para prender os insetos.


Fonte: Laboratório de Geografia Médica e Vigilância Ambiental em Saúde – UFU

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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FIGURA 4: Armadilha CDC instalada em locais com presença de vegetação, água ou animais.
Fonte: Laboratório de Geografia Médica e Vigilância Ambiental em Saúde - UFU

Utilizamos a armadilha luminosa do tipo CDC (Center on Disease Control), também alimentada com
baterias de 12 Volts (cf. Figura 4). Estas são de captura automática. Instalam-se 4 CDCs num raio distante
cerca de 30 metros da armadilha de Shannon e com a mesma distância uma das outras, para que a influência da
luminosidade de cada uma não interfira uma nas outras.
As medidas de temperatura e umidade relativa do ar foram realizadas a cada hora, utilizando-se um
aparelho termo-higrômetro com termômetros de bulbo seco e úmido. A velocidade dos ventos era
observada utilizando-se a escala de ventos de Beaufort. Em cada ponto é feito uma descrição das condições
climáticas, de vegetação e dos problemas existentes e causados por causa da construção da barragem.
Quando há alteração quanto ao nível da água, destruição de residências e dispersão de animais todas essas
são registradas em fotografias.

RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os resultados apresentados neste trabalho referem-se ao monitoramento realizado entre os meses
de janeiro e junho de 2011. Os dados de captura estão dispostos por ponto de coleta. No total foram
capturados 228 mosquitos, sendo, 42 do gênero Anófeles, 12 Flebótomos e 174 Culex. O gênero de
mosquito que apresentou maior número de espécies capturadas e identificadas foram os Culex, com 13
espécies, seguido respectivamente pelos Anófeles com 2 espécies e os Flebótomos com 1 espécie
identificada. Em relação ao sexo, em todos os gêneros predominaram mosquitos fêmeas. Os anófeles
somam um total de 42 sendo todos fêmeas, os flebótomos são no total 12 sendo 6 machos e 6 fêmeas e
174 Culex sendo 14 machos e 160 fêmeas.

GÊNERO GÊNERO GÊNERO


LOCAL DE
CAPTURA Anópheles Flebótomos/Lutzomyia Culex
ESPÉCIE M. F. T. ESPÉCIE M. F. T. ESPÉCIE MFT
...
- - - - - - - - Culex carrollia - 11
- - - - - - - - Culex - 11
melanoconion
- - - - - - - - Haemagogus - 11
Ponto1: Canteiro
spegazzini
de Obras do AHE
Serra do Facão - - - - - - - - Culex sp - 22

João Pessoa, outubro de 2011


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- - - - - - - - Culex lutzia - 11
TOTAL 0 0 0 TOTAL 0 0 0 TOTAL 066
Anópheles darlingi - 12 12 - - - - Culex anoedioporpa - 55

Ponto2: Ponte Anópheles sp - 11 11 - - - - Culex carrollia - 33


dos Carapinas, - - - - - - - - Culex aedinus - 11
margem
esquerda do rio - - - - - - - - Culex sp - 44

TOTAL 0 23 23 TOTAL 0 0 0 TOTAL 011


33
Anópheles darlingi - 1 1 - - - - Culex carrollia 66
Anópheles sp - 6 6 - - - - Culex coronator 33
Ponto3: Ponte - - - - - - - - Haemagogus 11
dos Carapinas, spegazzini
acima da cota de - - - - - - - - Culex sp 344
inundação 14
- - - - - - - - Culex nigripalpus - 11

- - - - - - Culex 235
melanoconion
- - - - - - - Culex anoedioporpa - 22
Culex lutzia - 66
TOTAL 0 7 7 TOTAL 0 0 0 TOTAL 566
38
- - - - - - - - - ---
Ponto 4: Balsa - - - - - - - - - ---
Porto Pacheco. TOTAL TOTAL TOTAL
Anópheles darlingi - 2 2 - - - - Haemagogus - 11
spegazzini
Ponto 5: Faz. Anópheles sp - 1 1 - - - - Culex sp - 11
Rancharia 00
(Embaúba) - - - - - - - - Culex - 11
melanoconion
- - - - - - - - Culex - 11
quinquefasciatus
TOTAL 0 3 3 TOTAL TOTAL 011
33
Anópheles darlingi - 4 4 Lutzomyia neivai 6 6 12 Culex coronator - 11
Ponto 6: Balsa Anópheles sp - 5 5 - - - - Culex sp 934
Manoel Souto, 43
margem direita - - - - - - - - Culex anoedioporpa - 22
- - - - - - - - Culex - 88
quinquefasciatus
- - - - - - - - Culex lutzia - 11
- - - - - - - - Culex - 55
melanoconion
- - - - - - - - Culex tinolestes - 44
- - - - - - - - Culex aedinus - 22
- - - - - - - - Culex carrollia - 66
- - - - - - - - Haemagogus sp - 11
- - - - - - - - Haemagogus - 11
tropicalis

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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TOTAL 0 9 9 TOTAL 6 6 12 TOTAL 967


65
6 MESES TOTAL GERAL 0 42 42 TOTAL GERAL 6 6 12 TOTAL GERAL 111
467
04
NÚMERO DE MOSQUITOS CAPTURADOS DE JAN/11 A JUN/11 = 228
Fonte: Laboratório de Geografia Médica e Vigilância Ambiental em Saúde / UFU -2011

Gráfico 1: Serra do Facão: Anófeles, Flebótomos e Culex capturados no período de Janeiro a Julho
de 2011.
Fonte: Laboratório de Geografia Médica e Vigilância Ambiental em Saúde / UFU - 2011

A análise do número de mosquitos capturados demonstra que os culex atingiram os maiores


índices de captura (76%). As anófeles e flebótomos atingiram respectivamente 19% e 5% (Gráf.1). Apenas
no ponto 4 não houve captura de mosquitos e em todos os outros pontos houve uma quantidade
significativa de coleta.

João Pessoa, outubro de 2011


75

Gráfico 2: Serra do Facão: Espécies de Culex capturados no período de Janeiro a Julho de 2011.
Fonte: Laboratório de Geografia Médica e Vigilância Ambiental em Saúde / UFU - 2011

Neste gráfico temos representado a quantidade de culicídeos capturados nos primeiros seis meses
deste ano. Destacamos que houve 103 unidades de Culex sp, 16 unidades de C. carrollia e 12 C.
melanoconion. A maioria destes foram capturados nos pontos 3 ( Local de área íngreme, em posição
topográfica imediatamente acima da cota máxima de inundação do reservatório) e 6 (Localizado na margem do
rio São Marcos, onde a mata ciliar apresenta-se alterada, com ocorrência de mata secundária composta de
vegetação arbustiva e arbórea. O solo apresenta uma espessa cobertura de matéria orgânica, composta
principalmente por folhas e ramagens em processo de decomposição).
No ponto 4 podemos observar que não houve captura. Esse local sofre constantemente influência
antrópica. Como está área é de fácil acesso a margem da represa algumas pessoas vão para pescar, alocam
barcos e canoas e ficam longos períodos naquela área. Quando vão embora, ateam fogo por toda a área e
depositam grande quantidade de lixo em buracos. Este cenário devido a grande movimentação não é um local
propicio a proliferação dos insetos.

Figura 5: A esquerda estrutura montado pelos visitantes e no lado direito lixo queimado após
deixarem o local. Fonte: Laboratório de Geografia Médica e Vigilância Ambiental em Saúde – UFU/2011

Vale ainda salientar que o Ponto 1 é que apresenta menor número de mosquitos capturados.
Sendo atribuído como possíveis fatores a intensa movimentação de veículos e máquinas, a iluminação dos
postes de luz e refletores, a poeira e a fumaça gerada pelo intenso transito e, por fim a grandes alterações
ambientais na área de vegetação no entorno da barragem.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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CONSIDERAÇÕES FINAIS
As preocupações deste projeto de controle de vetores com o monitoramento das espécies
potencialmente transmissoras de leishmanioses, malária, febre amarela, filarioses, não são de modo
nenhum, desnecessárias. As alterações ambientais que já ocorrem, desde muito tempo na Área
Diretamente Afetada pelo AHE Serra do Facão, e as que estão sendo produzidas pelo empreendimento
estão desestabilizando a fauna entomológica.
Consideramos que as metodologias utilizadas para o monitoramento dos vetores são sensíveis para
identificar rapidamente as alterações ambientais e modificações na distribuição e densidade das espécies
monitoradas, o que é de fundamental importância para o controle do aumento da incidência das doenças
endêmicas e mesmo prevenir surtos epidêmicos.
O Laboratório de Geografia Médica e Vigilância Ambiental em Saúde com a finalidade de
complementar a pesquisa busca parcerias com centros de pesquisas capazes de detectar a infectividade
dos insetos através de procedimentos como ELISA. Nosso objetivo é fechar nosso estudo com o máximo de
informações possíveis para assegurar aquela população condições seguras de bem-estar.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Manual de vigilância epidemiológica da febre amarela. Brasília: Ministério da
Saúde/Fundação Nacional de Saúde, 1999.
BRASIL. Doenças infecciosas e parasitárias: guia de bolso. 6. ed. rev. Brasília. Ministério da Saúde.
Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica, 2005, 320 p.
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Brasília. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, 2005, 816 p.
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MARTINS, F.; SILVA, I. G. da; BEZERRA, W.A.; MACIEL, I.J.; SILVA, H.H.G.da; LIMA, C.G.; CANTUÁRIA,
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Psychodidae) em áreas com transmissão de leishmaniose, no Estado de Goiás. Rev. patol. Trop 31(2):211-
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OLIVEIRA, A.W.S. de; SILVA, I.G. da Distribuição geográfica e indicadores entomológicos de
triatomíneos sinantrópicos capturados no Estado de Goiás. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina
Tropical 40(2):204-208, 2007

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ÁLGEBRA DE MAPAS NA ECOEPIDEMIOLOGIA DA ESQUISTOSSOMOSE


MANSONI NO MUNICÍPIO DE SANTO AMARO, BAHIA, NO PERÍODO DE
2006 – 2008.
Jefferson de Campos Costa
Ardemírio de Barros Silva
Maria Emilia Bavia
Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Universidade Federal da Bahia (UFBA)

RESUMO
O estudo ecoepidemiológico da esquistossomose mansônica, no município de Santo Amaro na
Bahia justifica-se pelo registro da presença e manutenção da doença no ambiente, que apresenta taxas
crescentes e preocupantes de endemicidade, que passa a ser de suma relevância para o entendimento do
aumento da prevalência da doença e sua dispersão espacial dentro do município no período de 2006 a
2008.
Os mapas temáticos da divisão administrativa por setores censitários do município de Santo Amaro,
mapas de solo, MDT, hidrografia e informações epidemiológicas georreferenciadas dos indivíduos caso e da
presença de moluscos na área, servirão de base para a construção do mapa ecoepidemiológico da
esquistossomose mansônica do município em estudo, com delimitação das áreas favoráveis de
contaminação.
A metodologia clássica do Programa de Controle da Esquistossomose que se baseia na busca ativa
dos portadores de Schistosoma mansoni por meio de inquéritos coproscópicos censitários periódicos e
tratamento dos portadores com droga específica, não tem conseguido reduzir a magnitude da doença. A
dispersão da endemia tem colocado em pauta de discussão a metodologia empregada, e exigido a adoção
de novas estratégias de ação.
De acordo com a orientação da Organização Mundial de Saúde, que postula o enfoque de risco
para o estudo de doenças endêmicas em países sub-desenvolvidos e em desenvolvimento
econômico,objetivou-se com este trabalho delimitar as áreas geográficas favoráveis para a
esquistossomose mansônica no município de Santo Amaro-Bahia através das geotecnologias, bem como,
estabelecer o perfil ecoepidemiológico, e assim contribuir para um processo de remodelação e adequação
das estratégias dos programas de controle dessa endemia no município em estudo.
O trabalho consta de uma abordagem interdisciplinar que integra a biogeografia digital, ecologia
epidemiológica, hidrografia, limnologia, parasitologia, malacologia e geoprocessamento, que em conjunto
fundamentarão hipóteses e resultados esclarecedores para a pesquisa.
Palavras-Chave: Esquistossomose Mansônica, epidemiologia espacial, Sistemas de Informações
Geográficos.

ABSTRACT
Schistosomiasis mansoni is a serious public health problem with approximately six million infected
individuals in Brazil. The ecoepidemiological study of schistosomiasis is justified by the confirmed presence
and persistence of this disease in the environment, with increasing rates of endemicity, which is now of
paramount importance in understanding its increased prevalence and spatial dispersion within the city over
the period of 2006 to 2008. The thematic maps of the administrative division of census tracts in the city of
Santo Amaro, soil maps, MDT, hydrography, georeferenced epidemiological information of individuals, and
the presence of shellfish in the area, serve as a basis for the construction of an ecoepidemiological map of
schistosomiasis mansoni in the studied municipality, with delineation of favorable areas for disease spread.
The classical methodology of the Schistosomiasis Control Program, based on the active search of patients
with Schistosoma mansoni through periodic coproscopic surveys and treatment of positive patients with
specific drugs, has not been able to reduce the magnitude of this disease. The spread of this disease has
brought up questioning of the current methodology and a search for new strategies. Following the

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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guidance of the World Health Organization, which delineates the approach to risk studies of endemic
diseases in underdeveloped and developing countries, this study aims to define the geographical areas
favourable for schistosomiasis in Santo Amaro, Bahia through the use of geotechnologies, and to establish
an ecoepidemiological profile, contributing to a process of reshaping and adapting strategies of programs
designed to control this disease in the municipality of Santo Amaro. The work includes an interdisciplinary
approach integrating digital biogeography, ecology, epidemiology, hydrology, limnology, parasitology,
malacology, and geoprocessing, which together will generate research hypothesis and serve to answer
them.
Keywords: Schistosomiasis, spatial epidemiology, Geographic Information Systems.

1. INTRODUÇÃO
A Esquistossomose Mansônica é considerada atualmente pela Organização Mundial de Saúde
(OMS) como um sério problema de Saúde Pública que afeta mais de duzentos milhões de pessoas em 74
países. Essa doença é uma helmintíase causada pela infecção humana de Schistosoma mansoni com focos
em vários países do mundo. No continente americano, além do Brasil, existem focos na Venezuela,
Suriname, Santa Lucia, Martinica, Guadalupe, República Dominicana, Montserrat, Porto Rico, Haiti,
Dominica e San Martin (DOUMANGE7 et. al., 1987).
No Brasil, a doença é considerada endêmica, com seis milhões de infectados, distribuídos em
dezenove estados da Federação. (KATZ & PEIXOTO8, 2000; BINA & PRATA³, 2003). As estimativas sobre a
esquistossomose no Brasil indicam a existência de até 12 milhões de casos (REY11, 2001). Entretanto,
segundo Katz & Almeida9(2003) a inclusão da oxamniquine nos programas de controle da endemia a partir
de 1972, para o tratamento dos casos diagnosticados com a administração em dose única, reduziu o
número de portadores do verme para 6 milhões de pessoas na atualidade.
Ainda que essa estimativa se aproxime da realidade, o panorama epidemiológico em relação à
esquistossomose segue preocupante, pois é certo que o número de pessoas que vivem sob o risco
permanente de infecção supere muito o número de casos existentes. A par do aumento do número de
casos, em decorrência das más condições do saneamento básico, pelo menos 70 milhões de brasileiros
vivem sob o risco permanente da infecção por S. mansoni segundo Barbosa¹ (1980) discutiu essas questões
e assinalou que, o número de indivíduos sujeitos ao contágio e desenvolvimento das formas graves da
doença, debilitantes e irreversíveis, mantém a esquistossomose como um sério problema de saúde pública,
que afeta negativamente a capacidade de trabalho de uma parcela significativa da população brasileira.
A Bahia é o estado com a segunda maior área endêmica do país, com média de 165,8 internações
/ano e 40,2 óbitos /ano, notificados em 65% (271/417) dos municípios (BRASIL4, 2006a).
Como o processo saúde-doença é o produto direto das inter-relações complexas e dinâmicas entre
o homem e o meio-ambiente num espaço geográfico definido (BAVIA3, 1996; NEVES12, 1998), tem-se
observado que a situação da saúde de uma população em determinado tempo e espaço é influenciada,
pelas transformações de caráter econômico e ocorrências de origem natural (temperatura, umidade,
precipitação, latitude, solo, topografia, vegetação). A análise ecológica de dados ambientais e
epidemiológicos pode permitir mais que uma verificação de associações entre estes fenômenos, uma
melhor compreensão do contexto em que se produzem os processos sócio espaciais.
Os Sistemas de Informações Geográficas (SIG) têm sido utilizados como ferramenta de consolidação
e análise de grandes bases de dados sobre saúde e ambiente. Estes sistemas permitem a captura,
armazenamento, manipulação, análise e exibição de dados georreferenciados, isto é, relacionados a
entidades gráficas com representação espacial (SUSSER14, 1994).
A espacialização de informações permite agregar o evento ao local em que ele ocorreu com a
associação das geotecnologias como instrumento fundamental na avaliação do impacto dos processos
ambientais e mensuração do risco da população (CÂMARA6 et. al.; 2002; TAVARES15, 2006).
A identificação de grupos populacionais submetidos a risco é uma tarefa imprescindível para a
elaboração de programas preventivos e como meio de avaliação de exposições diferenciadas. A localização
desses grupos no espaço permite um maior detalhamento do contexto social e ambiental em que estas
exposições ocorrem, ao mesmo tempo em que introduz novas variáveis, intrínsecas ao espaço, que podem
dificultar sua interpretação (JOLLEY10 et. al., 1992; BARCELLO & SANTOS2, 1996).

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A Organização Mundial de Saúde preconiza o uso das geotecnologias, como nova ferramenta para o
estudo das doenças endêmicas em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento.
Esta pesquisa revela resultado do modelamento das ocorrências positivas dos casos investigados
pelo exame laboratorial croposcópico da população, registradas no período de 2006 a 2008 no município
de Santo Amaro na Bahia, por meio do levantamento biogeográfico da Biomphalaria sp e através da
superposição de mapas de Solo, Hidrografia, MDT (retenção, textura e fluxo de água) com o uso da álgebra
de mapas, para identificar áreas mais propícias para a doença ocorrer no município em estudo.

ÁREA DE ESTUDO
O estudo foi realizado no município de Santo Amaro, distante da capital Salvador 75 km, localizado
geograficamente na latitude 12°32’49’’S e longitude 38°42’43’’W, com 518,260 Km ² de área, 57.675
habitantes e densidade demográfica de 118 habitantes / km ².
Localizado no Recôncavo Baiano o município em estudo, além de haver uma concentrada atividade
agropastoril, possui um histórico de fomento da economia muito importante na região com a monocultura
da cana-de-açúcar, desde o período colonial durante os séculos XVI, XVII e XVIII. Essa atividade, viabilizada
pela ocorrência de solos férteis conhecidos como massapê, era voltada para o mercado externo através do
sistema de plantation. Tal conjuntura contribuiu para o adensamento demográfico do município diante da
demanda de mão de obra, surgimento do trabalho escravo, da infraestrutura canavieira (engenhos,
armazéns, casarões etc.) e consequente povoamento. Em 1872, Santo Amaro, Cachoeira, e Maragogipe se
tornaram uma das áreas mais urbanizadas do Brasil, (SEI13, 2000).

3. MATERIAL E MÉTODOS
A pesquisa utilizou os casos positivos diagnosticados na área do município, no período de
2006/2007/2008, através do Programa de Controle da esquistossomose (PCE) realizado pela Secretaria
Municipal de Saúde de Santo Amaro (SMS) e pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB). A
sequência de procedimentos metodológicos incluiu:
I. Seleção das Bases Cartográficas, da área de estudo (setores censitários e logradouros obtidos da
Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI);
II. Construção do Banco de Dados Epidemiológico: Casos positivos para a Esquistossomose
Mansônica (número de indivíduos positivos, sexo, idade, localidade, ano);
III. Georreferenciamento através do receptor GPS dos locais de coleta do planorbídeo Biomphalaria
sp. As coordenadas serão medidas em sistema de projeção UTM, datum SAD 69 (South América, 1969);
IV. Utilização do software Arcgis 9.3 para georreferenciamento dos mapas de Solo, MDT e
Hidrografia;
V. Utilização o software Global Mapper 8.0 para conversão de formatos.
VII. Plotagem dos Pontos georreferenciados nos mapas digitalizados, para identificação dos setores
censitários com maior numero de casos positivos, com o auxílio do software IDRISI;
VIII. Álgebra dos mapas selecionados neste estudo, para a geração de uma carta síntese de situação
da Esquistossomose Massoni, com o auxílio do software IDRISI;
IX. Identificação das áreas favoráveis para a esquistossomose usando os softwares IDRISI e SURFER.

4. RESULTADOS
O presente estudo foi realizado com o método de modelagem Cartográfica em Sistemas de
Informações Geográficas (SIG) da Esquistossomose mansoni no município de Santo Amaro, Bahia.
Na equação algébrica final dos mapas, já padronizados quanto à resolução espacial com seu
número de colunas e linhas, foi realizada a superposição dos mapas com os seguintes dados: / informações
dos infectados totais nos setores censitários, e distribuição espacial da Biomphalaria sp no município, rios,
solos, acúmulo de água e fluxo.
A composição final com as áreas favoráveis para a doença foi reeditada, para que os setores
ficassem dispostos juntos com os atributos que estivessem agregados aos seus valores da composição
aritmética da álgebra de mapas.
Com base nos dados de esquistossomose mansoni e inquérito malacológico, disponibilizados pelo
Programa de Controle da Esquistossomose (PCE) da Secretaria Municipal de Santo Amaro e pela Secretaria

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


80

de Saúde do Estado da Bahia (SESAB), foram produzidos mapas temáticos do município de Santo Amaro. A
figura 1 apresenta o mapa com a distribuição espacial das 18 localidades de infectados nos dezesseis
setores do município.

Figura 1: localidades por setores Censitários ( SEI , 2000).

A tabela 1 apresenta os dados disponibilizados pela Secretaria Municipal de Saúde com o número
de infectados por ano / setor:

Tabela 1: Infectados por setor e ano. (SESAB)


Setores 2006 2007 2008
Censitários
4 4 x 355
8 26 x x
9 x x 43
10 x x 26
11 306 87 x
12 86 303 x
14 x 108 x
15 x 8 x
Total 422 506 424

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A tabulação dos dados por setor possibilitou fazer a modelagem epidemiológica espacial no
município de Santo Amaro e editar o número de infectados por gênero e sua faixa etária nos anos de 2006,
2007 e 2008. A modelagem cartográfica foi realizada gerando cartogramas sínteses por ano e sexo,
conforme exemplifica a figura 2.

60
8 50
6 40
4 30
2 20

0 10
1 2 3 4 5 6
infectados 1 2 6 4 8 6 0
1 2 3 4 5 6
infectados 19 42 43 53 22 19
5

2
TOTAL - 240 INFECTADOS
1

0
1 2 3 4 5 6
infectados 0 4 2 5 5 1

Figura 2: Cartograma síntese - Infectados do sexo masculino por idade e setor no ano de 2008.

5. DISCUSSÃO
Com a tabulação cruzada dos dados, obteve-se o resultado que ilustra os oito setores onde foram
encontradas pessoas infectadas pelo parasito nos anos de 2006, 2007 e 2008. A etapa seguinte destinou-se
á elaboração de um mapa no qual se pode visualizar a distribuição dos moluscos Biomphalaria sp dentro do
município (figura 3), distribuídos nos setores buscando similaridade com a distribuição do parasito e na
composição final para as áreas de risco.
Com os infectados e moluscos já georreferenciados e padronizados na mesma escala e resolução,
foram elaborados mapas temáticos geoambientais para serem usados na tabulação cruzada da álgebra de
mapas. A Esquistossomose mansoni é uma doença, que depende de veiculação hídrica, portanto a
hidrografia tem o papel relevante.
Outra variável estudada refere-se ao comprometimento do solo onde se encontram esses moluscos
e o substrato ao qual eles possam sobreviver durante o tempo em que não estão diretamente em contato
com a água. As áreas de acúmulo de água, após precipitação pluviométrica seriam os possíveis lugares de
se encontrar os vetores de transmissão da doença.
O modelo digital do terreno também utilizado para a álgebra dos mapas possibilitou calcular os
vetores de fluxos d’água. O fluxo d’água é importante, porque aponta a presença de pequenos canais
d’água e a sua distribuição no município.

A figura 3 representa a modelagem cartográfica da álgebra de mapas por superposição dos


atributos da esquistossomose mansoni com utilização do procedimento de overlay.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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SETOR 1 SETOR 2 SETOR 3


INFECTADOS
+ INFECTADOS
1
+ INFECTADOS

+
SOLOS SOLOS
1
+ ACÚMULO
ÁGUA + 2

+
RIOS

+
RIOS PERMANENTES
+ FLUXO INTERMITENTES

+ MAPA
MOLUSCOS DE
SUPERPOSIÇÃO
Figura 3: Metodologia utilizada para a álgebra de mapas.

Após a inferência média ponderada para sobreposição dos atributos ambientais e dados de
relevância epidemiológica, foi gerado o mapa síntese (figura 4).

Figura 4: Mapa síntese resultante da inferência média ponderada

João Pessoa, outubro de 2011


83

O mapa síntese foi reclassificado para identificar as áreas onde a esquistossomose pode ocorrer
(figura 5).

Figura 5: Mapa síntese – Resultado da álgebra de mapas de acordo com o grau de urgência para o
controle da doença em áreas favoráveis.

A abordagem metodológica apresentada mostrou ser eficiente quanto à utilização do SIG no estudo
em epidemiologia espacial e na composição dos fatores determinantes para a presença do parasito. A
superposição dos mapas de acúmulo de água e sua retenção em diferentes tipos de solos, fluxos d’água,
hidrografia, distribuição espacial do molusco e do parasito através dos infectados, possibilitou obter
resultados que definem claramente as áreas onde as chances de ocorrer a doença são mais favoráveis e a
sua disseminação. Esses resultados podem auxiliar no processo de reformulação e adequação das
estratégias do controle de endemias do município com a otimização de suas atividades, recursos
financeiros além de ajudar na gestão pública da área de saúde.
A aplicação do geoprocessamento e SIG revelou-se indispensável para esse tipo de estudo, já que
possibilitou avaliar com precisão as áreas de interesse em relação à doença estudada, bem como modelar,
mapear e interpretar a vulnerabilidade socioambiental a partir dos critérios passíveis de mensuração.

6. REFERÊNCIAS
BARBOSA, F.S.1980. Considerações sobre os métodos profiláticos no controle da esquistossomose.
Ci e Cult 32:1628-1632.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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BARCELLOS, C.; SANTOS, S.M. Georreferenciamento de dados secundários sobre ambiente e saúde.
In: SEMANA ESTADUAL DE GEOPROCESSAMENTO 1., 1996, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: Fórum
Estadual de Geoprocessamento, 1996.
BAVIA, M. E. 1996. Geographic information systems for schistosomiasis in Brazil.. 99 f. Tese
(Doutorado) - Louisiana State University, Baton Rouge, Louisiana.
BINA, J.C. & PRATA, A. 2003. Esquistossomose na área hiperendêmica de Taquarendi. I – Infecção
pelo Schistosoma mansoni e formas graves. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 36, n.
2, p. 211-216.
BRASIL, 2006. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Sistema Nacional de
Vigilância em Saúde, Relatório de Situação, Bahia. Brasília, 26p.
CÂMARA, G.; MONTEIRO, A.M.; FUKS, S.D.; CARVALHO, M.S. 2002. Análise espacial e
geoprocessamento. São Jose dos Campos, SP: INPE.
DOUMENGE JP, Mott KE, Cheung G, Villenave D, Chapuis P, Perrin MF, Thomas GR,. 1987. Atlas de
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CEGET/CNRS, Genève, OMS/WHO, 400 p.
KATZ, N.; PEIXOTO, S.V. 2000. Análise crítica da estimativa do número de portadores de
esquistossomose mansoni no Brasil. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 33, n. 3, p.
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KATZ, N., ALMEIDA K. 2003. Esquistossomose, xistosa, barriga d’água. Ci e Cult 55: 38-41.
JOLLEY, D. J.; JARMAN, B. & ELLIOT, P. Socioeconomic confounding. In: Geographical and
Environmental Epidemiology: Methods for Small- Area Studies (P. Elliot, J. Cuzick, D. English & R. Stern,
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TAVARES, A.C.Q. Distribuição espaço-temporal do crime contra a vida em Salvador entre 2000 e
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Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, 2006.

João Pessoa, outubro de 2011


85

CONCEPÇÕES E PERCEPÇÕES SOBRE A DENGUE: DIAGNÓSTICO


SOCIOAMBIENTAL NO ENTORNO DE UMA ÁREA DE PRESERVAÇÃO EM
VARZEA PAULISTA/SP
juliana Rink
Docente do Centro Universitário Padre Anchieta/ Doutoranda em Educação – FE/Unicamp
julianar@anchieta.br
Diego Meleiro Novaretti
Aluno do Centro Universitário Padre Anchieta / Mestre em Engenharia Urbana -UFSCar
dnovaretti@ymail.com

Resumo
Este trabalho apresenta os resultados de um projeto de iniciação científica em andamento, cujo
objetivo é identificar, mapear e categorizar as concepções e percepções socioambientais dos moradores do
entorno de uma área de preservação ambiental, localizada no município de Várzea Paulista (SP) a respeito
da dengue, com ênfase no vetor Aedes aegypti. Para isso, foi aplicado um questionário semiestruturado em
uma amostra aleatória de 50 domicílios, durante janeiro de 2011. O questionário, composto por doze
questões abertas, contou com uma caracterização sociográfica dos indivíduos e com um grupo de questões
referentes aos conceitos e percepções dos entrevistados sobre a dengue, seu modo de transmissão, seu
agente transmissor e medidas profiláticas. Constatou-se desconhecimento de vários elementos do ciclo de
vida do vetor e do vírus causador da doença, relacionando-a diretamente com o mosquito Aedes aegypti. A
grande maioria relacionou o contágio com a água parada/acumulada, não citando a necessidade de picada
do vetor (72%). Mais de 70% demonstraram não discriminar adequadamente o tipo de água/condições
apropriada para estabelecer criadouros do vetor e somente 20% dos entrevistados afirmaram que os
resíduos sólidos teriam alguma relação com os criadouros do vetor. Os resultados evidenciam uma forte
fragmentação dos conhecimentos por parte dos moradores, que pode agravar o cenário de possível
proliferação do vetor no local. Assim, com base no mapeamento das concepções e percepções dos
indivíduos residentes às margens do parque, será possível criar e executar um programa de EA que tenha
possibilidades mais reais de provocar mudança na realidade local.
Palavras-chaves: dengue, concepções e percepções, saúde pública, educação ambiental.

1. Introdução
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dengue é um dos principais problemas de
saúde pública no mundo. Estima-se que entre 50 a 100 milhões de pessoas se infectem anualmente, em
mais de 100 países, de todos os continentes, exceto a Europa. Cerca de 550 mil doentes necessitam de
hospitalização e 20 mil morrem em conseqüência da dengue.
O panorama brasileiro também não é otimista. As condições socioambientais favoráveis à expansão
do Aedes aegypti possibilitaram a dispersão do vetor no país desde sua reintrodução em 1976 e o avanço
da doença é cada vez mais rápido. Programas e iniciativas pouco integradas e sem participação ativa da
comunidade mostraram-se incapazes de conter um vetor com altíssima capacidade de adaptação ao novo
ambiente criado pela urbanização acelerada e pelos novos hábitos. De acordo com as diretrizes nacionais
para prevenção e controle de epidemias de dengue, a situação epidemiológica está se agravando dentro
dos estados e municípios e, apesar dos esforços do Ministério da Saúde, há epidemias nos principais
centros urbanos do país (BRASIL, 2009).
Sabe-se que o setor de saúde, por si só, não consegue derrubar tal cenário, já que há uma rede de
fatores que favorecem a proliferação do vetor da dengue. Historicamente, a rápida urbanização do país
gerou deficiência na infra-estrutura de saneamento básico, tais como falta de abastecimento de água,
coleta e destinação inadequada de resíduos sólidos (BRASIL, 2008). Assim, é cada vez mais necessária a
presença de projetos e ações articulados que transcendam o setor da saúde, fornecendo subsídios para que
o problema seja discutido sob uma perspectiva interdisciplinar. Ainda conforme o Ministério da Saúde
(BRASIL, 2001), o combate ao Aedes aegypti sempre foi desenvolvido seguindo as diretrizes da erradicação

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


86

vertical, onde a participação comunitária não era tida como atividade essencial. Contudo, hoje a
abordagem ampla e a participação comunitária são consideradas fundamentais e imprescindíveis para
controlar o vetor.
Entra em cena, então, a Educação Ambiental (EA). Considerada desde 1965 como “medida sócio-
educativa para melhoria da qualidade ambiental” (BRASIL, 1965), a EA é definida pelo PRONEA (Programa
Nacional de Educação Ambiental) como:

“os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais,
conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem
de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade” (BRASIL, 1999).

Nesse contexto, a EA está vinculada a todos os objetivos de proteção ao meio ambiente e


desenvolvimento sustentável por ser um instrumento capaz de proporcionar o aumento da consciência
pública, envolvendo a comunidade na busca por soluções para os problemas existentes e na construção de
um senso pessoal de responsabilidade em relação à temática aqui discutida. O próprio Ministério da Saúde
tem elencado a adoção de atividades, ações e programas em EA como uma das principais formas de
promover a participação comunitária no saneamento domiciliar, visando contribuir para a eliminação de
criadouros potenciais do vetor da dengue (BRASIL, 2009); diretriz exemplificada pelo investimento de mais
de R$ 40 milhões em campanhas publicitárias de sensibilização no ano de 2009.
Ao considerarmos o controle ao vetor como uma das maneiras mais eficazes para combater a
dengue, a participação popular no combate ao Aedes aegypti é essencial. Assim, é de extrema importância
propor ações de EA que façam intervenção em populações locais, a fim de provocar uma mudança de
atitude da população que combata o panorama atual da doença.
É nesse contexto que se situa a presente pesquisa. A ideia do estudo surgiu a partir de alunos do
Curso Superior de Tecnologia em Gestão Ambiental do Centro Universitário Padre Anchieta (Jundiaí/SP),
durante a disciplina intitulada “Tópicos em Saúde Ambiental”, ministrada no segundo semestre de 2010.
Uma das atividades propostas para a turma foi a escolha de um local com condições favoráveis para
proliferação de animais sinantrópicos e/ou vetores, com intuito de realizar um diagnóstico socioambiental
do entorno e, se possível, realizar ações de EA junto à população.
Dessa forma, os alunos que trabalhavam nas imediações do Parque Ecológico Chico Mendes
(Várzea Paulista/SP) o escolheram para realizar o diagnóstico preliminar requisitado pela disciplina. O
relatório destacou que o panorama de acelerada urbanização do município gera um déficit na infra-
estrutura de serviços urbanos, cuja manifestação mais visível é a carência de saneamento e problemas
constantes com enchentes. Essa situação, aliado ao regime de chuvas alterado ocorrido no final de 2009 e
início de 2010 e conceitos equivocados sobre a biologia do vetor caracterizam-se como risco
socioambiental. A despeito dos esforços da prefeitura local, dos agentes comunitários de saúde e das
campanhas preventivas e informativas, a maioria das pessoas entrevistadas pelos alunos não consideravam
a “simples” presença do vetor Aedes sp. como um risco provável à saúde, acreditando que o inseto não
esteja contaminado ou, ainda, que não seja realmente o inseto transmissor da dengue (FRANCO & RINK,
2011). A esse respeito é interessante citar os estudos realizados por Chiaravalloti Neto et al. (1998) e
Chiaravalloti et al (2002) – os autores mostram que mesmo que os conhecimentos sobre a dengue e os
vetores sejam incorporados por um conjunto de indivíduos, não haverá necessariamente uma mudança de
hábitos e, conseqüentemente, a redução do número de criadouros a ponto de evitar a transmissão da
doença.
Tais resultados levaram a uma sistematização do estudo, que foi apresentado para a Secretaria de
Obras e Meio Ambiente do município. Após aprovação institucional pelo Comitê de Pesquisa e Extensão e
pelo Comitê de Ética, o projeto recebeu aval e apoio do poder público para execução.
Assim, nasceu esse projeto de iniciação científica, cujo objetivo geral é identificar, mapear e
categorizar as concepções e percepções socioambientais dos moradores do entorno do Parque Ecológico
Chico Mendes (Várzea Paulista/SP) a respeito da dengue, com ênfase no vetor Aedes aegypti.
A pesquisa sobre concepções e percepções socioambientais é declarada desde 1973 pela
Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (UNESCO) como sendo extremamente
importante, já que consiste na investigação sobre valores, expectativas e atitudes que os sujeitos possuem

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87

em relação ao entorno onde vivem. Portanto, a partir desses conceitos e percepções, os indivíduos
interagem com o mundo e provocam interações positivas ou relativas sobre o ambiente (FERNANDES et al.,
2009). Nesse sentido, acredita-se que o estudo das concepções e percepções socioambientais da
comunidade de entorno do Parque Ecológico Chico Mendes constitui-se de ferramenta essencial para o
planejamento de ações de EA que promovam a sensibilização e desenvolvimento de novas posturas por
parte da população, principalmente no que tange ao controle da dengue.

2. Caracterização do local de estudo


Várzea Paulista é um município localizado na microrregião econômica da cidade de Jundiaí.
Emancipada desde 1965, possui população estimada em 110 mil habitantes, onde mais de 40% possui
ingresso familiar de 0 até 4 salários mínimos. Apesar de ter o IDH Municipal de 0,795, satisfatório se
compararmos com o IDH médio do Estado de São Paulo, 0,82, é notório o vertiginoso declínio quando
analisada as regiões periféricas, onde se concentram as populações socialmente vulneráveis (classes D e E)
(VÁRZEA PAULISTA, 2010).
A população é predominantemente de trabalhadores pertencentes à classe de renda C (57%) e, D e
E (23%). A renda per capita é de 1,5 salários mínimo, semelhante à média nacional, mas bem abaixo de
Jundiaí (2,5). Por ter sido emancipada apenas há 43 anos e, como toda cidade que experimenta um
processo acelerado de crescimento, o município teve seu desenvolvimento espacial de forma
desorganizada e sem o devido planejamento urbano e, consequentemente, ambiental.
Apresentadas a caracterização do município, passaremos agora a focar nos dados obtidos
sobre a situação ambiental do mesmo e, em específico, sobre a criação e funcionamento do Parque
Ecológico Chico Mendes.
De acordo com os dados obtidos na Secretaria de Obras e Meio Ambiente da Prefeitura de
Várzea Paulista, o Parque conta com 133.400 m² dos quais, 63% constituem um bosque denso sobre
uma encosta íngreme, com desnível médio de 60 m, com predominância de árvores nativas em estágio
médio de recuperação14. Também conta com um Centro de Educação Ambiental (CEA), utilizado em
geral para receber visitas dos alunos da escola básica. O Parque e o CEA foram criados em 2008 através de
uma compensação ambiental de empresa metalúrgica instalada na cidade. Na ocasião, a empresa detectou
danos ambientais e fez uma comunicação espontânea a CETESB, Prefeitura e Promotoria Pública. Como
consequência, foi criado um Termo de Ajuste de Conduta para que a empresa fizesse um trabalho de
recuperação do solo e das águas e um projeto de compensação ambiental no valor de R$ 500 mil, que
originou a criação do Parque.
Com anfiteatro, mini viveiro de mudas, orquidário, área de compostagem, playground, biblioteca,
sala de pesquisas, o Parque é ladeado com mais de 50 mil metros de mata nativa em uma área de 133 mil
metros quadrados. O CEA é referencia municipal nas atividades de sensibilização e conscientização popular
sobre várias questões ambientais e também abriga ações do programa municipal de mobilização social para
o controle do Aedes aegypti.
Conforme a prefeitura, a implantação do projeto do Parque Ecológico teve como objetivo primário
a preservação da fauna e flora numa perspectiva socioambiental, integrando a qualidade de vida da
população e também oferecendo a ela um espaço físico de lazer e conscientização ambiental (VÁRZEA
PAULISTA, 2009).
As áreas no entorno do parque já são intensamente utilizadas pelos moradores e encontram-se em
estágio de degradação antrópica. A população que vive nas imediações foi se apropriando dos trechos mais
planos, criando espaços para práticas esportivas e caminhadas, praças e mirantes para descanso e
contemplação da paisagem, parquinhos para as crianças brincarem, plantando árvores frutíferas e
floríferas, verduras, legumes, plantas medicinais e flores, improvisando equipamentos e mobiliário para a
prática de atividades variadas.

4
A floresta em estágio médio de sucessão apresenta único estrato arbóreo, com altura máxima de 12 metros
e diâmetro de caule de até 30 cm.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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Figura 1: Fotografia aérea do Parque Ecológico Chico Mendes.


Fonte: Arquivo da Secretaria Municipal de Obras e Meio Ambiente, Prefeitura de Várzea Paulista,
2007.

Sendo um parque urbano, o projeto visava dar-lhe grande diversidade de usos e de usuários, com
alamedas, equipamentos, mobiliários e jardins adequados a crianças, jovens, adultos, idosos, portadores de
deficiência, entre outros; os limites do local não são murados, contanto apenas com cerca-viva. De acordo
com essa concepção, murar o Parque prejudicaria suas relações com o entorno e diminuiria os fluxos de
circulação e dos fluxos visuais, o que não ocorre ao utilizar árvores, arbustos e forração que permitem a
visibilidade do bosque e das várzeas.
Todavia, mesmo após a implementação do Parque, a população continua a ocupar, desmatar e
destinar resíduos de forma inadequada no local. Sabe-se que o acúmulo de resíduos sólidos e de
construção civil tem sido apontado como elementos potencializadores dos criadouros para o Aedes aegypti
(TORRES, 2005), cenário que evidencia a situação de risco socioambiental existente no entorno do Parque.

3. Aspectos metodológicos
A presente pesquisa possui cunho quali-quantitativo e baseia-se principalmente na análise de
questionários abertos, aplicados aos moradores do entorno do Parque a fim de identificar a percepção da
população do entorno em relação à doença e aos possíveis focos de vetores e, conseqüentemente, a inter-
relação entre a disposição irregular de resíduos e a proliferação de criadores do mosquito transmissor no
local.
Inicialmente optou-se pela realização de uma amostragem piloto, tendo em vista que a área de
abrangência que envolve todo o entorno do Parque é muito extensa e será coberta pela presente pesquisa
em etapas posteriores.
Assim, para esta amostragem inicial, foi selecionada a área de entorno do Parque considerada mais
degradada ambientalmente e que recebe maior impacto antrópico. Ainda, de acordo com a prefeitura
municipal, a área escolhida abrange os moradores mais antigos do bairro que muitas vezes fazem usos
indevidos da área, como criação de animais, plantação de exóticas e disposição irregular de resíduos, fator
relevante para a determinação da referida área como interesse principal da aplicação do questionário
piloto (FRANCO & RINK, 2011).
Após a realização do mapeamento e da caracterização do local a ser investigado, de acordo com
identificação de condições favoráveis para proliferação do vetor e de posse das informações levantadas
acima, foram selecionadas quatro ruas – Rua Catanduva, Rua Guarujá, Rua Orindiuva e Rua Cafezal –
destacadas no mapa abaixo.

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Figura 2: Fotografia aérea da região do Parque Ecológico Chico Mendes e suas relações com o
entorno, destacando as ruas em que o questionário piloto foi aplicado. Fonte: Arquivo da Secretaria
Municipal de Obras e Meio Ambiente, Prefeitura de Várzea Paulista, 2008, modificado pelos autores.

Tanto na amostragem piloto quanto nas posteriores etapas da pesquisa, o questionário apresenta
dois grandes conjuntos de questões.
O primeiro serve para caracterizar os indivíduos entrevistados - um dos passos iniciais para o
estudo da percepção ambiental, já que os resultados obtidos estão diretamente associados a essas
características, pois, elas influenciam direta e indiretamente a percepção que as pessoas têm do ambiente
a sua volta. Para tanto, foram elaboradas algumas questões sócioculturais, tais como idade, gênero, nível
de instrução, entre outros, que irão nos indicar o contexto sociocultural dos sujeitos entrevistados.
Já o segundo conjunto de questões refere-se aos conceitos e percepções dos entrevistados sobre
meio ambiente, saúde e principalmente vetores de doenças, totalizando doze perguntas. Para análise das
percepções sobre os conceitos de Meio Ambiente tomaremos como referencial as categorias sugeridas por
Sato (2001).
Desta forma a amostragem piloto foi realizada em 50 domicílios nas ruas citadas, iniciando-se em
cada rua à partir da primeira casa mais próxima ao Parque, alternando-se linearmente uma casa sim, e
outra não, de acordo com a recepção dos moradores. Quando havia recusa de entrevista ou ausência do
morador, considerava-se o imóvel seguinte.
Após a aplicação dos questionários modelos, as respostas foram tabuladas por meio do uso de
planilha eletrônica e analisadas de acordo com o intento desta primeira etapa. Os resultados e as análises
apresentadas servirão de diretrizes para a continuidade do projeto, que envolverá mais duas fases,
comentadas a seguir.
Na etapa procedente, a partir da análise já feita e conseqüente readequação do questionário, o
mesmo será aplicado em todo o entorno do Parque, abrangendo uma maior parte dos moradores.
Com essas duas etapas propostas busca-se fortalecer as bases do ciclo proposto pelas atividades de
Iniciação Científica que servem de apoio a qualquer comunidade universitária: a interligação entre o
Ensino, a Pesquisa e a Extensão Universitária.

4. apresentação e discussão dos resultados


Conforme dito anteriormente, as entrevistas foram realizadas com 50 moradores (23 do sexo
masculino e 27 do sexo feminino), com faixa etária compreendida entre 15 e 93 anos, sendo que a faixa
etária predominante foi dos 20-40 anos (35%). Quanto ao nível de escolaridade dos entrevistados, a

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


90

pesquisa revelou que 50% possuem o Ensino fundamental incompleto, 32% concluíram o Ensino
Fundamental, 12% concluíram o Ensino Médio e 6 % são analfabetos.
Também foi considerado importante o tempo em que os moradores residem no domicílio onde foi
realizada a entrevista. Cerca de 5% responderam que moravam a menos de 5 anos, 15% moravam entre 5 e
10 anos, 20% moravam entre 11 e 20 anos e 60% moravam a mais de 20 anos. Todos os entrevistados
afirmaram nunca ter contraído dengue.
Em relação à pergunta “O que é dengue?”, 80% dos indivíduos responderam que a mesma é um
mosquito. Apenas 14% dos indivíduos disseram se tratar de uma doença. Respostas com caráter religioso,
como “é um castigo divino”, compuseram 4% da amostra. Com base nesses resultados, é possível afirmar
que a percepção predominante dos moradores associa a doença ao mosquito e à sua picada, considerando
a doença como sendo o próprio vetor. Consideramos que tal concepção é amplamente reforçada pelo
discurso dos meios de comunicação e das próprias campanhas de prevenção da doença, que na grande
maioria das vezes trazem como símbolo o inseto sendo exterminado ou ainda personificam os desenhos do
vetor. A existência do vírus é quase que totalmente ignorada, tendo sido citada por apenas um morador
entrevistado.
Mediante a questão “Como se contrai dengue?”, a grande maioria relacionou o contágio com a água
parada/acumulada, não citando a necessidade de picada do vetor (72%). Dez indivíduos (20%) citaram que
a doença é adquirida pela picada do mosquito transmissor. Surpreendentemente, quatro indivíduos (8%)
afirmaram que a doença pode ser transmitida diretamente de pessoa para pessoa (contágio direto).
No que se refere à pergunta “Você sabe explicar por que eliminar a água parada é tão importante
para a prevenção doença?”, as respostas obtidas revelam uma série de concepções errôneas relativas à
biologia e ciclo de vida do Aedes aegypti. Mais de 70% dos entrevistados responderam que a água parada
“junta” ou “cria” o mosquito da dengue e, desses moradores, quase todos disseram que a água em questão
tem que ser suja para que ocorra tal “criação” do transmissor. Isso nos mostra que a população
entrevistada não discrimina adequadamente o tipo de água/condições apropriada para estabelecer
criadouros do vetor. Outro aspecto relevante foi o desconhecimento da fase de ovo no ciclo reprodutivo do
agente. Esse dado nos permite inferir que a percepção da população em relação aos potenciais recipientes
e ao transporte passivo dos ovos é praticamente nula. Além disso, foi possível observar certa inquietação
por parte dos moradores nessa questão, principalmente nas mulheres. Respostas como “na minha casa
não tem dengue, não, é limpinha” ; “eu lavo o quintal sempre e não deixo água acumulada nunca” ; “aqui é
tudo limpo, mas no Parque é uma sujeira só”, revelam que a presença de mosquitos (e, portanto, do vetor
da dengue) é vinculada a ambientes descuidados, sujos ou insalubres. Tal percepção pode acarretar no
aumento do risco socioambiental no entorno, favorecendo certamente a proliferação do vetor. O uso
indiscriminado de inseticidas também apareceu em várias respostas dadas nessa questão.
Por fim, a questão “Você acha que existe alguma relação entre lixo (resíduos sólidos) e a dengue? Se
sim, qual?” teve resultados preocupantes. A grande maioria dos entrevistados (80%) respondeu que sim,
estabelecendo uma relação positiva entre os resíduos sólidos e a doença. Contudo, somente 20% dos
entrevistados afirmaram que os resíduos seriam recipientes que acumulariam água e poderiam se tornar
criadouros do vetor. Os demais não souberam exemplificar a relação. Quatorze por cento dos moradores
declararam que não havia relação alguma, já que “o mosquito se cria em água e não em lixo”; enquanto
que 6% dos indivíduos declararam não saber responder.

5 consideraçoes finais
Apesar de a pesquisa contar com dados preliminares, a análise qualitativa e quantitativa efetuada
permite traçar alguns indicativos sobre as concepções e percepções sobre a dengue e seu vetor, por parte
dos moradores do entorno do Parque Ecológico Chico Mendes (Várzea Paulista/SP).
Tal como em Lefrève (2007), é possível afirmar que os conhecimentos sobre os vários aspectos da
doença revelados pelo conjunto de entrevistados são incompletos, muitas vezes equivocados e fortemente
influenciado pelas informações veiculadas pelos veículos midiáticos. É importante considerar os aspectos
sociais dos moradores: a baixa escolaridade dificulta o acesso e a compreensão das informações veiculadas
campanhas e iniciativas no combate à doença. Há grande desconhecimento do ciclo reprodutivo do vetor,
elemento que eleva o risco de proliferação do vetor na localidade, já que influencia diretamente nas ações
que a população ali estabelece.

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Também foi constatada a intensa fragmentação dos conhecimentos por parte dos entrevistados: os
elementos água, vegetação do Parque, mosquitos, vírus, lixo, resíduo, aparecem nas respostas, mas sem
relação intrínseca entre esses elementos. Isso pode significar mera reprodução de discursos apreendidos
por meio de diversas fontes, sem mudança conceitual efetiva por parte do cidadão.
Os resultados indicam a necessidade de ações planejadas de EA que levem em conta tais
representações e conhecimentos prévios dos indivíduos. Ao levar o mapeamento das percepções dos
moradores para os gestores públicos, será possível criar e executar um programa de EA que tenha
possibilidades mais reais de provocar mudança na realidade local. Os materiais informativos e atividades
pontuais são importantes, mas a população deve ser efetivamente envolvida na análise do contexto onde
está inserida, a fim de promover mudança de atitudes nesse grupo social e no ambiente que o circunda.
Após a reaplicação e nova tabulação dos dados, com a conseqüente re-análise dos resultados
obtidos, pretende-se fazer atividades de discussão da temática com a comunidade, através de audiências
públicas, atividades nas escolas do entorno da área pesquisada, Unidades Básicas de Saúde e intervenções
junto ao Centro de Educação Ambiental do Parque.

Agradecimentos
Os autores agradecem ao apoio da Secretaria Municipal de Obras de Várzea Paulista/SP e à Polícia
Ambiental do Município.

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DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DE Triatoma spp. (HEMIPTERA, REDUVIIDAE)


NAS ECORREGIÕES DO ESTADO DA BAHIA
OLIVEIRA, K. C. S.1, COSTA NETO, E. M.2, GURGEL-GONÇALVES, R.3
1Graduanda do curso de Licenciatura em Geografia, Bolsista de IC. Universidade Estadual de Feira de Santana,
Departamento de Ciências Humanas e Filosóficas. E-mail: karyne_fsa@hotmail.com
2Professor Orientador. Universidade Estadual de Feira de Santana, Departamento de Ciências Biológicas. E -mail:
eraldont@hotmail.com
3Professor. Universidade de Brasília, Faculdade de Medicina. E -mail: rgurgel@unb.br

Resumo
A Bahia é o estado brasileiro que apresenta a maior variedade de espécies de triatomíneos, vetores
da doença de Chagas. Espécimes infectados por Trypanosoma cruzi têm sido frequentemente
encontrados em áreas rurais e urbanas da Bahia, entretanto, a distribuição geográfica desses
triatomíneos ainda não foi bem investigada, nem os fatores que influenciam a domiciliação. O presente
trabalho discute a distribuição geográfica das espécies de Triatoma no território baiano de acordo com
ecorregiões definidas para o Estado. Os registros de ocorrência dos triatomíneos foram obtidos a partir
de dados de capturas domiciliares nos municípios baianos entre 2001 e 2009, fornecidos pelo
Programa de Controle da Doença de Chagas. As coordenadas geográficas foram obtidas e os mapas de
distribuição das espécies foram criados e editados usando o programa ArcView. Foram registradas dez
espécies do gênero Triatoma no estado da Bahia: T. sordida, T. pseudomaculata, T. infestans, T. brasiliensis,
T. petrocchiae, T. melanocephala, T. lenti, T. tibiamaculata, T. costalimai e T. vitticeps. Os resultados
mostraram uma associação entre a ocorrência das espécies de Triatoma na Bahia e as ecorregiões; por
exemplo, T. pseudomaculata e T. brasiliensis ocorreram predominantemente na caatinga, diferente de T.
tibiamaculata, cuja ocorrência foi relacionada a áreas de floresta atlântica. Por outro lado, T. sordida
ocorreu em mais de três ecorregiões. Os mapas indicaram ainda uma maior ocorrência de triatomíneos na
região semiárida da Bahia, coincidindo com áreas de caatinga. T. sordida, T. pseudomaculata e T.
brasiliensis apresentaram maior importância epidemiológica considerando a ampla ocorrência no estado da
Bahia e o potencial sinantrópico. Os principais desafios para o controle e vigilância entomológica da doença
de Chagas na Bahia são a eliminação dos focos residuais de T. infestans e a redução da infestação e
colonização das casas por espécies nativas com ampla distribuição e alto potencial sinantrópico descritas
no presente trabalho.
Palavras-chave: Triatoma, ecorregiões, Bahia, vigilância entomológica, doença de Chagas.

Introdução
A doença de Chagas, também conhecida por Tripanossomíase Americana, é uma zoonose endêmica
do continente americano, que tem como agente etiológico o parasito hemoflagelado Trypanosoma cruzi
(CHAGAS, 1909). A principal forma de transmissão é a partir da contaminação de mucosas com fezes de
insetos hematófagos da subfamília Triatominae (Hemiptera, Reduviidae). Algumas espécies de triatomíneos
colonizam casas de baixa qualidade, favorecendo a transmissão do parasito ao homem e animais
domésticos (Lent e Wygodzinsky, 1979).
Essa doença é considerada a infecção parasitária de maior importância na América Latina devido
ao impacto econômico e social (DIAS, 2007). O número de pessoas infectadas pelo T. cruzi foi estimado
entre 16 e 18 milhões em 1990 (WHO, 1991). Atualmente, essa estimativa caiu para 7,7 milhões,
evidenciando o sucesso das campanhas de controle vetorial (OPAS, 2006; RASSI et al., 2010). Entretanto,
ainda há o risco de transmissão do parasito por espécies de vetores silvestres que podem invadir o
ambiente doméstico e iniciar novos focos, mantendo cerca de 109 milhões de indivíduos (20% da América
Latina) sob risco de adquirir a infecção (OPAS, 2006). Dessa forma, é necessária uma estratégia de
intervenção periódica nas áreas onde vetores silvestres e peridomésticos ocorrem e mantêm o risco de
transmissão do T. cruzi ao homem (Schofield et al., 2006).

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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Atualmente, são conhecidas 142 espécies de triatomíneos (Galvão et al., 2003; Forero et al., 2004;
Schofield e Galvão, 2009; Frías-Lasserre, 2010). A Bahia é o estado brasileiro que apresenta a maior
variedade de espécies de triatomíneos. Estudos pioneiros sobre as espécies e distribuição geográfica de
triatomíneos na Bahia foram realizados por Sherlock e Serafim (1972). Segundo Dias et al. (2000), 21
espécies ocorrem no estado entre as 27 registradas para a região Nordeste. Em 1998, 35 dos 111
municípios baianos investigados apresentaram infestação das casas por triatomíneos, sendo que dos cerca
de 28.500 triatomíneos examinados, 1,25% deles estavam infectados por T. cruzi (DIAS et al. 2000).
Adicionalmente, espécimes de triatomíneos infectados por T. cruzi têm sido frequentemente encontrados
em áreas urbanas no estado da Bahia (DIAS-LIMA e SHERLOCK, 2000; SANTANA et al., 2011). Entretanto, a
origem desses triatomíneos ainda não foi bem investigada, nem os fatores que influenciam a domiciliação.
Entre 1990 e 1997, o estado da Bahia apresentou o maior número de internações por doença de
Chagas comparando com outros estados da região Nordeste (Dias et al., 2000), mostrando, dessa forma, o
grande impacto da doença na Bahia, que conseqüentemente leva a um sério problema de saúde pública.
Algumas das espécies do gênero Triatoma estão relacionadas à transmissão do T. cruzi na região
Nordeste, principalmente por manter uma relação direta com as habitações humanas. A domiciliação
desses triatomíneos pode estar associada à ação antrópica, uso e ocupação do solo propiciando
modificações na dispersão e distribuição geográfica das espécies, permitindo crescimento populacional
destes insetos e, consequentemente, maior risco de transmissão da doença de Chagas (Forattini, 1980).
Isso mostra a importância de se conhecer melhor a distribuição geográfica dos potenciais vetores do T.
cruzi ao homem. Nesse sentido, o presente trabalho discute a distribuição biogeográfica das espécies de
Triatoma no território baiano de acordo com ecorregiões definidas para o Estado.

Metodologia
Área de estudo
De acordo com o IBGE (censo 2010), o estado da Bahia é dividido em 417 municípios, ocupando
uma área de 567.295,669 km2 e possuindo uma população de 13.633.969 habitantes, sendo que a maior
parte da população (74%) é residente em áreas urbanas. O estado da Bahia está localizado na região
Nordeste do Brasil, apresentando grande variabilidade climática, topográfica e ecológica. De acordo com
similaridades ambientais, são conhecidas 49 ecorregiões no Brasil, sendo que o estado baiano apresenta
sete ecorregiões: cerrado, caatinga, florestas seca, floresta atlântica, floresta do interior da Bahia (mata de
cipó), manguezal e restinga.
As áreas de cerrado estão localizadas principalmente no oeste baiano, caracterizadas pela
vegetação savânica, variando de campos abertos a florestas fechadas. O clima é marcado por duas
estações, uma seca entre maio e setembro e outra chuvosa entre outubro e abril. A vegetação savânica
também está presente na Chapada Diamantina, na região central da Bahia, entre 700 e 2.000 m de altitude.
Na região central e nordeste da Bahia, predomina a caatinga, abrangendo 258 municípios
distribuídos em uma área de 388.274 km². A vegetação é xerófita, as árvores são baixas com troncos
retorcidos. O clima é semiárido com baixa umidade e pouco volume pluviométrico, o que define a paisagem
e os hábitos dos moradores nesta ecorregião.
As florestas secas são consideradas áreas de transição entre o cerrado e a caatinga. O clima é
principalmente tropical, com uma estação de cinco meses secos. As florestas secas são bastante densas,
com árvores alcançando até 25-30m de altura.
A floresta atlântica estende-se por toda a costa leste da Bahia. As principais formações vegetais
encontradas na região são as florestas (vegetação arbórea), as matas de tabuleiros e matas semidecíduas.
O clima é essencialmente tropical, quente e úmido. A floresta do interior da Bahia é uma ecorregião
formada por um mosaico de florestas perenes misturado com florestas semidecíduas. Estes habitats estão
espalhados por uma região de colinas, chapadas, pequenas montanhas e vales de rios entre a caatinga e a
floresta atlântica. Dentre estas se encontra a floresta estacional semidecidual do planalto da Conquista
(mata de cipó). Este ambiente possui biota singular, mas está altamente ameaçada por ações antrópicas,
principalmente pelo estabelecimento de pastagens.
As restingas são ecossistemas costeiros distribuídos ao norte e sul da Bahia. Ao norte o clima é mais
seco com temperaturas médias de 28ºC e ao sul o clima é mais úmido com pluviosidade média de 1.600

João Pessoa, outubro de 2011


95

mm anuais. Finalmente, os manguezais ocorrem em áreas alagadas com solos salinos de praias, ocorrendo
desde a zona intertidal até a marca de maré alta (WWF, 2001).

Coleta de dados
Os registros de ocorrência das espécies de triatomíneos foram obtidos a partir de dados de
capturas em ambiente domiciliar entre 2001 e 2009, fornecidos pelo Programa de Controle da Doença de
Chagas do estado da Bahia. Dados de ocorrência das espécies de triatomíneos em ambiente domiciliar
entre 1975 e 1983 também foram considerados (Silveira et al., 1984). Este programa mantém a vigilância
ativa (pesquisa dos agentes em unidades domiciliares pelo menos uma vez ao ano) e passiva (notificação
pelo morador nos Postos de Informações de Triatomíneos – PITs) de acordo com uma classificação de risco
(Silveira, 2004).
Os registros de ocorrência das espécies foram relacionados com as ecorregiões (WWF, 2001)
presentes no Estado e as coordenadas geográficas (longitude e latitude da sede do município) foram
obtidas usando a base de dados do IBGE (http://www.ibge.gov.br). Os mapas de distribuição geográfica
das espécies de Triatoma na Bahia foram criados e editados usando o programa ArcView (versão 3.2).

Resultados e Discussão
Foram registradas dez espécies do gênero Triatoma em ambiente domiciliar entre 2001 e 2009 no
estado da Bahia: T. sordida, T. pseudomaculata, T. infestans, T. brasiliensis, T. petrocchiae, T.
melanocephala, T. lenti, T. tibiamaculata, T. costalimai e T. vitticeps (Fig. 1). Outras espécies recentemente
descritas como T. sherlocki e T. juazeirensis (PAPA et al., 2002, COSTA e FELIX, 2007) e a espécie
cosmopolita T. rubrofasciata (DIAS et al., 2000) também já foram registradas na Bahia, porém não foram
detectadas em ambiente domiciliar entre 2001 e 2009. Considerando estes registros, são reconhecidas 13
espécies de Triatoma no estado da Bahia.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


96

Figura 1. Distribuição geográfica de Triatoma spp. no estado da Bahia por ecorregião.

João Pessoa, outubro de 2011


97

A espécie mais amplamente distribuída foi T. sordida (148 registros), seguida de T. brasiliensis (95
registros) e T. pseudomaculata (67 registros). T. sordida é a espécie de triatomíneo mais capturada no
Brasil, sendo característica do cerrado (Diotaiuti et al., 1993). Na Bahia, T. sordida foi a principal espécie em
áreas de cerrado do oeste baiano, porém também ocorreu em campos rupestres, áreas de caatinga,
florestas secas e úmidas, mostrando capacidade adaptativa a diferentes ecorregiões. Apesar disso, T.
sordida ocorre predominantemente no peridomicílio e alimenta-se geralmente de sangue de aves, o que
reduz as chances de transmissão do T. cruzi ao homem por esse vetor (Diotaiuti et al., 1993; DIAS et al.,
2000). T. brasiliensis e T. pseudomaculata ocorreram em áreas mais secas, predominantemente na
caatinga, o que está de acordo com Costa et al. (1998) e Machado-de-Assis et al. (2007). T. pseudomaculata
vive naturalmente sob cascas de árvores secas na caatinga (Carcavallo et al., 1998) e um dos fatores de
risco de domiciliação desta espécie pode ser o transporte passivo de lenha para uso diário e madeira
para construção de cercas. O clima semiárido da região central e nordeste da Bahia, com temperaturas
médias anuais entre 27ºC e 29ºC e chuvas irregulares, são favoráveis à ocorrência destas espécies nessas
áreas.
A quarta espécie mais amplamente distribuída foi T. melanocephala ocorrendo desde áreas de
caatinga na região central da Bahia até a floresta Atlântica. Já T. lenti apresentou uma distribuição mais
restrita a florestas secas e caatinga, não ocorrendo em áreas mais úmidas. Esta espécie também foi
detectada em áreas rupestres da Chapada Diamantina. A ecologia de T. melanocephala e T. lenti ainda não
é bem conhecida (Carcavallo et al., 1998) e futuros estudos nessas áreas poderão esclarecer o potencial de
domiciliação dessas espécies.
A ocorrência residual de T. infestans em vários municípios na Bahia após os esforços de
controle sinaliza a importância de uma vigilância entomológica continuada com a finalidade de eliminação
dessa espécie no estado (Silveira e Dias, 2011).
T. tibiamaculata apresentou uma distribuição geográfica mais restrita às ecorregiões florestais
(floresta atlântica e floresta de cipó). Essa espécie foi registrada somente na porção leste da Bahia em
algumas poucas áreas de restinga e de caatinga, além do sul do Estado com apenas um registro da espécie.
No território baiano, espécimes de T. tibiamaculata infectados por T. cruzi têm sido frequentemente
encontrados em áreas urbanas, principalmente nos meses mais quentes (SANTANA et al., 2011).
Outras espécies de Triatoma ocorreram raramente na Bahia, como T. petrocchiae com um registro
na região da Chapada Diamantina, T. costalimai com dois registros na região oeste da Bahia e T. vitticeps
com um registro na região do sudoeste baiano.
Os resultados mostraram uma associação entre a ocorrência das espécies de Triatoma na Bahia e
as ecorregiões; por exemplo, T. pseudomaculata e T. brasiliensis ocorreram predominantemente na
caatinga, diferente de T. tibiamaculata, cuja ocorrência foi relacionada a áreas de floresta atlântica. Por
outro lado, T. sordida apresentou uma distribuição mais ampla, ocorrendo em mais de três ecorregiões. Os
mapas de distribuição geográfica indicaram ainda uma maior ocorrência de triatomíneos na região
semiárida da Bahia, coincidindo com áreas de caatinga. T. sordida, T. pseudomaculata e T. brasiliensis
foram as espécies de Triatoma com maior importância epidemiológica considerando a ampla ocorrência no
estado da Bahia e o potencial sinantrópico.
Os principais desafios para o controle e vigilância entomológica da doença de Chagas na Bahia são a
eliminação dos focos residuais de T. infestans e a redução da infestação e colonização das casas por
espécies nativas com ampla distribuição e alto potencial sinantrópico descritas no presente trabalho. Para
isso, recomenda-se reforçar o controle nos municípios de maior risco de transmissão (com registro de T.
infestans) com a visitação rotineira dos agentes de saúde e reforço de programas como o PETi (Programa
de Eliminação de T. infestans). Nos outros municípios, recomenda-se reforçar a vigilância das espécies
nativas com ampliação dos PITs (Postos de Informações de Triatomíneos), estímulo à notificação pelo
morador com medidas educacionais, controle químico seletivo e manejo ambiental. Essas ações devem ser
realizadas principalmente nas áreas semiáridas da Bahia, onde a ocorrência e os índices de infestação são
maiores.

AGRADECIMENTOS
A Jorge Mendonça, da Secretaria Estadual de Saúde de Salvador, Bahia.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


98

Referências
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Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


100

MOBILIZAÇÃO SOCIAL PARA O CONTROLE DE SIMULÍDEOS NO RIO


GRANDE DO SUL
Lucia Beatriz Lopes Ferreira MARDINI;
Secretaria da Saúde/Centro Estadual de Vigilância em Saúde
Médica Veterinária
lucia-mardini@saude.rs.gov.br
Tânia Marli Stasiak WILHELMS,
Arquiteta
tania-wilhelms@saude.rs.gov.br
Secretaria da Saúde/Centro Estadual de Vigilância em Saúde
Tânia Maria AZAMBUJA
Engenheira
Secretaria da Saúde/Centro Estadual de Vigilância em Saúde
tania-azambuja@saude.rs.gov.br

RESUMO
O ataque de insetos da família simuliidae (DIPTERA:SIMULIIDAE) no Rio Grande do Sul causa
agravos à saúde, motivo pelo qual são considerados como um problema de saúde pública. Atualmente 42%
dos municípios do estado estão vinculados a este Programa e realizam alguma ação para o controle do
inseto. Em Bom Jesus, localizado a 237 km de Porto Alegre, na serra gaucha, a população tanto na área
urbana quanto na área rural, passou a sofrer ataque deste inseto em 2009. Devido a esta situação, a
Secretaria Estadual da Saúde, Centro Estadual de Vigilância em Saúde (SES/CEVS) orientou a implantação
de ações para seu controle. Avaliações das condições ambientais do município indicaram a ocorrência de
depósito de lixo nos cursos de água, ausência de esgotamento sanitário, desmatamento das matas ciliares
e desinformação da população sobre o vínculo desta situação com a presença do inseto. Foi reunido um
grupo técnico no CEVS para desenvolver um estudo de caso e encaminhar sugestões em apoio ao municio,
nas ações necessárias para minimizar o problema. Como resultados, foi criada uma agenda de atividades no
município, incluindo palestras de sensibilização para a comunidade. Como parte desta agenda foram
realizadas duas reuniões. A primeira com a participação de 250 servidores da prefeitura que serão
multiplicadores das informações e recomendações para a comunidade. Foram repassadas as informações
de todas as ações desenvolvidas até o momento e a situação ambiental como causa do ataque do inseto. A
segunda reunião de sensibilização foi com as 50 famílias em situação de vulnerabilidade social, residentes
na periferia do município e que receberão banheiros construídos pela prefeitura em parceria com a
Secretaria Estadual de Habitação. A importância do saneamento para redução do ataque de simulídeos fez
parte da oficina com as famílias.
Palavras chave: Simulídeos, controle, Bom Jesus, mobilização social

INTRODUÇÃO
Simulídeos são insetos cosmopolitas que no Brasil recebem o nome vulgar de pium no norte e
borrachudos no sul e sudeste (HAMADA & MARDINI, 2011). Algumas espécies da família Simuliidae são
antropofílicas. Os ataques destes insetos no Rio Grande do Sul, além de extremo desconforto, geram
agravos à saúde com o desenvolvimento de reações alérgicas e infecções secundárias causadas por suas
picadas (MARDINI, 2009). O controle destes insetos envolve manejo ambiental, controle entomológico da
fase larval com inseticidas biológicos e educação ambiental. Por se constituir num problema de Saúde
Pública, a coordenação estadual do Programa está a cargo da Secretaria da Saúde no Centro Estadual de
Vigilância em Saúde (SES/CEVS) e tem como objetivo assessorar os municípios na implantação de ações que
resultem na diminuição do ataque do inseto. Atualmente 42% dos municípios do estado estão vinculados
ao Programa Estadual, entre eles, Bom Jesus, com 11 mil habitantes,localizado a 237 km de Porto Alegre,
na serra gaúcha, a 1046 metros de altitude (MARDINI et al.2011) (Figura 1 e 2).
Em 2009 o município registrou intenso ataque de borrachudos. Na avaliação epidemiológica
realizada para avaliar a situação do ataque, 82% da população entrevistada apresentou reações alérgicas
decorrentes das picadas do inseto (MARDINI et al. 2011). Para a identificação das espécies envolvidas no

João Pessoa, outubro de 2011


101

ataque, foram realizadas quatro coletas de pupas em riachos na periferia da cidade. Nestas coletas foram
identificadas seis espécies, das quais três são conhecidamente antropofílicas e duas suspeitas de
antropofilia (Tabela 1).

Tabela 1. Espécies coletadas em 2010 no município de Bom Jesus, RS


Espécie Situação
Simulium inaequale antropofílico
Simulium grupo incrustatum antropofílico
Simulium grupo subnigrum Não antropofílico
Simulium orbitale Suspeito de antropofilia
Simulium pertinax antropofílico
Simulium riograndense Suspeito de antropofilia

Frente a esta situação, em 2010, umas séries de atividades foram desenvolvidas para implantação
das ações técnicas de controle do inseto sob orientação da SES/CEVS, iniciando com a capacitação da
equipe municipal encarregada do trabalho. A seguir, os riachos foram mapeados, georeferenciados e
receberam estacas numeradas com o objetivo de facilitar seu percurso por ocasião da aplicação do
biolarvicida.
Foi realizado um levantamento hidrológico para definir o melhor local para a construção do
medidor de vazão tipo “Parshal” modificado (SILVEIRA et al, 1995; SILVEIRA, 1997), estrutura que permite
determinar a vazão do curso de água no momento da aplicação do biolarvicida, assim como determinar as
doses do produto e os pontos de aplicação conforme o Guia de Orientação da SES/CEVS (RIO GRANDE DO
SUL, 2006) Após a construção do medidor de vazão, todos os riachos do município foram correlacionados
com a calha em porcentagens, permitindo o cálculo da dose a ser aplicada nestes cursos de água.
Paralelamente a implantação da técnica que permite o controle entomológico do vetor, a equipe do
Programa Estadual realizou levantamento ambiental nas localidades com registro de ataque do inseto. O
levantamento possibilitou verificar a deposição irregular de lixo orgânico e inorgânico nos riachos, ausência
de esgotamento sanitário, favorecendo o desenvolvimento do ciclo do inseto pela maior oferta de alimento
e substrato de fixação, além de desmatamento das margens dos cursos de água. Verificou-se também que
a população conhecia o inseto, mas desconhecia que fatores associados ao meio ambiente favorecem seu
ciclo de vida. Com base nestas informações foi reunido um grupo técnico para realizar um estudo de caso.

MEDODOLOGIA
Estudo de caso com avaliação das variáveis ambientais presentes no levantamento ambiental nas
áreas urbana e rural. Criação de grupo técnico no CEVS para análise dos dados coletados e elaboração de
relatório com recomendações de curto, médio e longo prazo. Planejamento de ações, cronograma de
reuniões com os gestores do município, servidores municipais incluindo mobilização popular.

RESULTADOS
Com base na avaliação do município foram realizadas reuniões no CEVS para o estudo do caso Bom
Jesus. Este estudo teve a participação de técnicos da Vigilância Ambiental em Saúde, da Vigilância
Epidemiológica e residente do CEVS. O estudo apontou as áreas de vulnerabilidade no município relativas a
enchentes, deslizamentos, localização inapropriada de moradias, situação de poluição dos cursos de água,
desmatamento, deposição inadequada de lixo e do esgotamento sanitário, vinculando estas situações
levantadas com o aumento do ataque do inseto (figura 3).Como produto deste estudo, foi construído um
relatório entregue ao gestor municipal e seu secretariado com propostas para o desenvolvimento de
atividades em curto, médio e longo prazo. Em curto prazo, o relatório indicou a emergência da realização
do controle entomológico do inseto com o objetivo de reduzir sua população e com isto seu ataque.
Também foi apontada a necessidade imediata da sensibilização da comunidade para mudanças de hábitos
na deposição do lixo orgânico e inorgânico. Em médio prazo, revisão da situação do esgotamento sanitário
no município e em longo prazo, implantação de sistemas de tratamento de esgoto residencial.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


102

Na etapa de sensibilização para mudança de comportamento, o grupo técnico do CEVS promoveu


junto com o município, uma reunião com todos os seus servidores em um evento que durou 3 horas e teve
a participação de 250 pessoas. Nesta reunião foram relatados os trabalhos realizados até o momento,
mostrando a realidade da situação ambiental no município e indicando a necessidade de cada um ser
agente transformador desta situação, com o compromisso da multiplicação das informações junto a sua
localidade (Figura 4). A seguir a equipe trabalhou com 50 famílias moradoras de áreas de vulnerabilidade
social e que estão sendo contempladas com banheiros construídos pela prefeitura em parceria com a
Secretaria de Habitação, Saneamento e Desenvolvimento social (SEHADUR-RS). O objetivo deste trabalho
foi mostrar de forma clara e objetiva a ligação entre a presença do inseto e o saneamento residencial,
transferindo para cada família a responsabilidade como agente de transformação e disseminação das
informações (Figura 5).

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
O problema apontado pelo município de Bom Jesus, com base na reclamação de seus moradores
era o forte ataque dos insetos conhecidos como borrachudos. A avaliação dos técnicos do Programa
Estadual de Controle do Simulídeos da SES/CEVS indicou que havia grande proliferação do inseto e que a
população estava desenvolvendo reações alérgicas decorrentes das picadas, conforme o instrumento
epidemiológico aplicado. As etapas do protocolo técnico necessárias ao enfrentamento do problema para
o controle entomológico do inseto foram desenvolvidas pelo município com a assessoria da equipe do
Programa Estadual do CEVS, o que fez com que a população do inseto baixasse a níveis aceitáveis.
Entretanto, era importante encontrar a causa do problema e para isto foi mobilizada uma equipe
multiprofissional com o objetivo de realizar uma avaliação por diferentes focos. Esta análise indicou as
variáveis ambientais e sociais envolvidas no problema, com população de baixa renda e baixo nível de
educação formal, deposição de lixo nos riachos, ausência de saneamento, baixa estima dos moradores,
convivendo com um ambiente desordenado e poluído. Embora não existam movimentos sociais no
município, o que dificulta o envolvimento da comunidade em ações participativas, o apoio do gestor
municipal foi positivo. As ações concretas como o projeto de construção de banheiros, foram marcos
importantes para começar a mudar a situação ambiental e de mobilização no município. Após este
primeiro passo, com a mobilização política do executivo e social da comunidade, a caminhada continua
para a ampliação do saneamento ambiental no município.

FIGURAS

Figura 1: Município de Bom Jesus, Figura 2: Mapa aéreo de Bom Jesus


Rio Grande do Sul com a rede hidrológica em vermelho

João Pessoa, outubro de 2011


103

Figura 3: Riacho em Bom Jesus,RS

Figura 4: Reunião e palestra de sensibilização Figura 5: Reunião com as 50 famílias contemplados


para os servidores, Bom Jesus, RS com banheiros, Bom Jesus, RS

REFERÊNCIAS:
HAMADA, N. ; MARDINI, L.B.L.F.. Entomologia médica e veterinária., Ed. Atheneu org. Carlos
Brisola Marcondes. p.71-93, 526p. 2011.
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MARDINI, LBLF; WILHELMS, TMS; FLORES,E.R.;KIELING,E.; AZAMBUJA,T.; DIAS,V.º; COSTA,IA.
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Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, v.3, n.4, p.31-39, 1995.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


104

EDUCAÇÃO ALIMENTAR: UTILIZAÇÃO DA PALMA FORRAGEIRA NO


COMBATE A FOME ENDÊMICA NO MUNICÍPIO DE GILBUÉS-PI
Maria da Conceição Marcelino PATRÍCIO1
Raimundo Mainar de MEDEIROS2
Virgínia Mirtes de Alcântara SILVA3
1Mestranda em recursos naturais
2Doutorando em meteorologia
3 Graduada em Ciências Biológicas
Centro de Tecnologias e Recursos Naturais - CTRN - UFCG-Universidade Federal de Campina Grande
Campus Campina Grande - Avenida Aprígio Veloso, 882, bairro do Bodocongó-pb, Brasil
Caixa Postal 10078 - 58109-970
3Universidade Vale do Acaraú – UVA
Av. da Universidade, 850 - Campus da Betânia CEP. 62.040-370 - Sobral - Ceará
Telefone para contato: (88) 3677-4271
Emails: ceicca@gmail.com; mainarmedeiros@gmail.com; virginia.mirtes@ig.com.br

RESUMO
A fome é um problema de dimensão global, ocorre principalmente em países subdesenvolvidos. As
conseqüências das desigualdades socioeconômicas passam a ser demarcadas como ausência do
desenvolvimento em nível mundial. O subdesenvolvimento caracteriza o atraso, o responsável pela
existência da pobreza, da fome, da exclusão e da vulnerabilidade social. Fome é um termo que se dá a
sensação fisiológica, no qual, o corpo percebe que necessita de alimentos para manter suas atividades
inerentes à vida. Mas, a ideia desse trabalho não é discutir a fome epidêmica e sim fornecer uma ampla
visão das coletivas fomes parciais (endêmica) em sua infinita variedade. O município de Gilbués-PI possui
uma população carente e além disso, as hortaliças e olericulturas são vindas de outra cidade, Barreiras-BA
uma vez por semana. Portanto, o consumo da palma na alimentação humana nesse município é bastante
viável por ser uma cultura de fácil manejo e de adaptação ao clima semiárido. Essa hortaliça do sertão,
assim chamada por alguns pesquisadores possui alto teor nutricional, como vitaminas cálcio e ferro. O
principal objetivo desse artigo é levar o conhecimento e o incentivo ao consumo da palma como sendo uma
das formas de combater a subnutrição. Este trabalho deve começar pelas escolas, com participação de
alunos, professores e merendeiras, desenvolvendo e incentivando plantios de palmas, no intuito de
eliminar a escassez nutricional através de uma educação alimentar, como também abolir os efeitos do
preconceito com a utilização da palma, uma vez que esta só é utilizada pelos nordestinos para a
alimentação animal. Espera-se que as informações aqui apresentadas possam subsidiar futuras pesquisas
na região com a implantação de projetos que viabilizem o consumo da palma e contribua com o
desenvolvimento sustentável.
Palavras chaves: Palma forrageira, fome endêmica, educação alimentar.

1. INTRODUÇÃO
A fome é um problema tão antigo quanto à vida, afirma Josué de Castro. A grande ameaça do
problema da fome não é a insuficiência alimentar e sim a alimentação mal constituída, ou seja, pobre em
nutrientes. Com isso, a ausência de proteínas e vitaminas determinará o mau funcionamento do
organismo, ocasionando defeitos nas crianças e fraquezas nos adultos. Os efeitos da má alimentação são
muito mais profundos do que se pensava influi no aprendizado, na longevidade e na qualidade de vida.
Grupos inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome, apesar de comerem todos os dias.
Neste artigo, apresenta a palma forrageira como uma das alternativas de combate a fome
endêmica, principalmente em comunidades carentes de regiões propícias a longa estiagem. A palma é uma
cultura de fácil manejo e de riquíssimos nutrientes, além de se adaptar a solos semiáridos. Conforme
Domingues (1963), a palma forrageira é cultivada com sucesso no semi-árido nordestino e nas regiões
áridas e semi-áridas dos Estados Unidos, México, África do Sul e Austrália tendo sido introduzida no

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Brasil em 1880, no Estado de Pernambuco, por meio de raquetes provenientes do Texas,


Estados Unidos.
O Município de Gilbués-PI, é muito carente em hortaliças e olericultura. As hortaliças são trazidas
uma vez por semana de Barreiras-BA, implicando diretamente em sua qualidade no mercado e as frutas
regionais sazonais não são necessárias o suficiente para se ter um estoque após um período de entresafra,
ocorrendo assim, um desequilíbrio nutricional.
O broto da palma está sendo usado na alimentação humana, como hortaliças do deserto, com altos
teores nutricionais e de sabor agradável. Até então, os produtores só conheciam a utilização da palma
como forrageira para alimentação animal. A proposta contida neste artigo é inserir a cultura da palma em
unidades de ensino no Município de Gilbués-PI. Essa é uma das alternativas plausível, de trabalhar com a
comunidade escolar em prol de uma boa educação alimentar, como também erradicar com o preconceito
da palma forrageira, e assim, gerar futuros cidadãos nutridos e pensantes.

2.1. Localização geográfica


O município de Gilbués está localizado na microrregião do Alto Médio Gurguéia, compreendendo
2 o
uma área de 3.495 km . A sede municipal tem as coordenadas geográficas de 09 49’55’’ de latitude sul e
o
45 20’38’’de longitude oeste de Greenwich e está a cerca de 800 km de Teresina, capital do estado do
Piauí. No mapa, ilustrado na Figura 1, está a localização do Piauí dentro do Brasil, no detalhe superior em
vermelho e do município de Gilbués em vermelho na parte inferior do mapa do Piuaí.
O Município está inserido na faixa de transição entre o domínio dos cerrados do Brasil Central e o
domínio do semi-árido do nordeste brasileiro. Como conseqüência sua cobertura vegetal caracteriza-se por
uma variação entre Cerrado, Cerradão e Caatinga.

Figura 1: Localização do Município de Gilbués em relação ao Estado do Piauí


Fonte: http://www.wikipedia.org. Adaptado.

4 - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

4.1 - A fome no mundo


Logo nas primeiras páginas do livro “Geografia da Fome” de Josué de Castro, é enfatizado o
problema da fome como sendo algo tão antigo quanto à vida. Seguindo os princípios de Lavoisier no séc.
XIX, considerado o criador da química moderna, os elementos químicos são encontrados na natureza e nos
seres vivos, supunham que seriam imutáveis e indestrutíveis. Portanto, o organismo não sabe fabricar
elementos químicos. Por essa razão, os indivíduos devem encontrá-los todos na sua alimentação. Já no
século XX acreditava-se que de posse dos alimentos os seres vivos poderiam sintetizar todas as moléculas
de que precisariam. Mas os indivíduos são químicos incompletos. Descobriu-se também uma série de
moléculas (vitaminas, ácidos graxos, ácidos aminados) dos quais não sabemos produzir e que é preciso
encontrá-las preparadas dentro da alimentação e que são indispensáveis à vida.
Castro (1984), já dizia que a grande ameaça do problema da fome não é a insuficiência de
alimentos e sim a alimentação mal constituída, ou seja, pobre em nutrientes. Com isso, a ausência de

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moléculas no alimento determinará o mau funcionamento do organismo ocasionando defeitos nas crianças
e fraqueza parcial nos adultos. Os efeitos da má alimentação são muito mais profundos do que se pensava,
influi na longevidade e na qualidade de vida. A fome, como objeto, no discurso de Josué de Castro, é bem
definida. Diferentemente da fome provocada por contingências excepcionais, ele se refere à fome oculta,
na qual, pela falta permanente de determinados elementos nutritivos, em seus regimes habituais, grupos
inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome, apesar de comerem todos os dias.
O princípio das Teorias de Thomas Robert Malthus no séc. XVIII e XIX defendem que o ritmo
do crescimento populacional cresce de forma progressiva e geométrica e quanto ao crescimento dos
alimentos seria de forma progressiva e aritmética, ou seja, ao passar dos tempos o crescimento
populacional ultrapassaria o crescimento da produção de alimentos, chegando a conclusão que as áreas
cultiváveis de todos os continentes estariam completamente esgotadas e que no entanto a população
mundial continuaria a crescer, gerando dessa forma uma fome generalizada. O que Malthus não previu foi
o avanço da tecnologia no setor agrícola (mecanização, irrigação, melhoramento genético e entre outros).
A produção de alimentos se acelerou graças ao desenvolvimento tecnológico (HENRIQUES, 2007).
O progresso da ciência, permite produzir alimentos em larga escala, trava epidemias e
melhora as condições de vida. Infelizmente os recursos são maus distribuídos, as más gestões políticas são
cada vez mais presentes num mundo complexo e desequilibrado.
O problema da fome não é fácil de ser resolvido, não restam dúvidas. Mas pode ser exposto
claramente. A Revista eletrônica Mundo e Missão traz um relato das verdadeiras causas da fome do
mundo, são elas: as grandes áreas com monoculturas, que na maioria das vezes é destinada à exportação;
diferentes condições de comércio entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos os quais exportam a
matéria prima a preços manipulados pelos países desenvolvidos e na busca de incentivos fiscais e mão de
obra barata; e ainda os conflitos armados, dívidas externas, desigualdades sociais e o neo-colonialismo.
Tudo isso, contribui para o alastramento da pobreza e miséria em todo mundo.

- A fome no Brasil
A fome no Brasil é endêmica (e não epidêmicas ocasionadas pelas guerras, grandes catástrofes
naturais), ou seja, também chamada de fome oculta que tem o mesmo significado de desnutrição.
Portanto, se a alimentação não for balanceada pode desencadear no indivíduo uma série de problemas de
saúde, principalmente a desnutrição pela ausência de alimentos vitais que pode levar a morte. São
principalmente essas coletivas fomes parciais e específicas que em sua infinita variedade constituem os
estudos de Josué de Castro.
Conforme Valente et al, o desequilíbrio de peso, para mais ou para menos está relacionado à má
alimentação, uma vez que os açucares e as farinhas consumidas em excesso provocam aumento de peso,
mas não alimentam. A desnutrição atinge cerca de 800 milhões de pessoas em todo mundo afirma Eliane
Percília da Equipe Brasil Escola.
Os avanços tecnológicos no Brasil e no mundo já conseguiram resolver problemas tão complexos
como: o domínio da energia nuclear, eólica, solar e tecnologia de ponta, fazendo com que se entendam o
domínio espacial e terrestre, mas, ainda não conseguiram formular meios para abolir com a fome e a
miséria humana.
Estudos comparativos entre a fome e outras calamidades (fome e epidemias) verifica-se que a fome
é a menos debatida, a menos conhecida em suas causas e efeitos (CASTRO, 2011 p.12).
Castro em viajem pelo Brasil elaborou cartas temáticas para as áreas da Amazônia, do Nordeste
compreendendo o litoral e o sertão e para as regiões Centro Oeste e Sul, mostrou e analisou que para cada
uma dessas áreas constatou que o processo de colonização juntamente com o da produção de alimentos e
do aparecimento de doenças, está abotoar ao mal uso de consumo irregular de proteínas e vitaminas que
não decorrem de fenômenos naturais e sim da gestão mal aplicada dos tomadores de decisões publicas e
privadas. Para o autor a reforma agrária seria a solução para a fome. Sendo que, a Reforma Agrária no
Brasil não funciona, devido à corrupção generalizada dos assentados e governantes.
A fome no Brasil não sendo um problema epidêmico, sua natureza é política, social e econômica, ou
seja, não provém de guerras, catástrofes ambientais ou de um regime de escassez, mas, sim, da falta de
recursos que a população carente se depara para adquirir sua alimentação cotidiana. A fome também
produz mais fome, em um ciclo vicioso no qual populações famintas, debilitadas e impossibilitadas de

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produzir alimentos realizam atividades predatórias dos recursos naturais, gerando pobreza de solo e
conseqüentemente levando a desertificação, extinção de espécies animais e vegetais e o
comprometimento do próprio futuro. Entre as causas econômicas da fome, a pobreza continua a ser a mais
importante e profunda (CASTRO et. al. 2003).
E, como o que garante o acesso das pessoas aos alimentos é o seu poder de compra, a perversa
concentração de riqueza produz a miséria de milhões de pessoas e gera o episódio da fome endêmica no
mundo. Vale ressaltar o quanto à fome tem sido objeto de políticas governamentais ou, pelo contrário, o
quanto tem sido desconsiderada.
- Regiões semi-áridas nordestina
Segundo Castro, a flora e a fauna da região semiárida são pobres em recursos alimentares, devido
as dificuldades naturais do clima, precipitação pluvial média anual inferior a 800 mm, e a variabilidade da
salinidade do solo e do lençol freático e espelho de água, exceção feita ao rio São Francisco.
O Nordeste sempre foi uma região cujo destino esteve muito associado a sua condição de colônia
de exploração. Portanto, devido as suas características climáticas e a proximidade com a Europa, não
diferentemente do resto do Brasil, desde o período de sua ocupação passou por diferentes ciclos de
atividades predatórias de seus recursos naturais, de ordem agrícola, pecuária, industrial ou de extrativismo,
que resultaram em danos irreversíveis aos seus biomas e respectivos ecossistemas.
Ainda em Castro, para enfrentar relativa pobreza natural do sertão, a ocupação econômica desta
região se deu por meio da pecuária extensiva, iniciada no século XVI, impulsionada pelo mercado que se
formava nas zonas canavieiras cada vez mais carentes de animais para utilização como força de tração e
para atender ao mercado consumidor de carne e de mineração. Os rebanhos caprinos, ouvinos e bovino
(pé-duro), rústicos e resistentes a altas variações climáticas, também se adaptaram às condições
ambientais da região semi-árida, contribuindo para aumentar a oferta local de carne e leite, gerando desse
modo as atividades pecuárias extensivas e a lavoura de algodão na região.
A questão de segurança alimentar e nutricional no semiárido nordestino não podem ser dissociadas
do processo estrutural de desigualdade que desfigura, historicamente, o desenvolvimento socioeconômico
do país. O Brasil é um país de enormes desigualdades econômico e grandes problemas sociais. A renda de
1% da sua população mais rica é quase igual aquela dos 50% mais pobres, o que leva o Brasil a fazer parte
da lista dos países com maior desigualdade em distribuição de renda do mundo (FORACHE apud YOUNG,
2004).
Segundo o PAN-Brasil (2004), a região semiárida brasileira, foi definida pelo Decreto no 11.701 de
10/03/2003, abrangendo partes estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco,
Alagoas, Sergipe, Bahia e Minas Gerais, abrangendo uma área de 969.589,4km2 onde vivem cerca de 20,8
milhões de habitantes. (BRASIL, 2005). Constituindo a mais extensa e mais populosa área de pobreza de
todo o mundo, em termos de terras contínuas de um só país e com um baixo nível de desenvolvimento
humano.

A origem da palma forrageira no nordeste


Desde no início do século passado, a palma forrageira é cultivada com sucesso no semi-árido
nordestino e nas regiões áridas e semi-áridas dos Estados Unidos, México, África do Sul e Austrália tendo
sido introduzida no Brasil em 1880, no Estado de Pernambuco, por meio de raquetes
provenientes do Texas, Estados Unidos. Ainda nesse século já se recomendava a utilização das
cactáceas como alimento para o gado. Os custos são baixos, reproduz bem e depois de quatro anos, lucros
sem despesa alguma. A colheita é constante anualmente, durante um período de quatro décadas sem a
menor despesa de cultivo e os frutos aparecem sempre na época do verão (DOMINGUES apud RODRIGUES,
1963).
Conforme Texeira et al. (1999), a palma forrageira foi adotada no Brasil por apresentar
características morfofisiológicas que a tornam apropriada a regiões semi-áridas, constituindo-se uma das
mais importantes bases de alimentação para bovinos.
Na região Nordeste brasileiro, estima-se uma área plantada com palma forrageira em torno de
550.000ha, destacando-se Pernambuco e Alagoas, estados que possui no momento, a maior área cultivada
com esta cactácea (ARAÚJO, 2005).

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4.4 - A palma forrageira na alimentação humana


A palma forrageira é cultivada principalmente para suporte alimentar às cadeias produtivas
dos bovinos, caprinos e ouvinos, além de ser usada também em vários municípios da Chapada Diamantina
como verduras em diversas preparações culinárias para a alimentação humana, aponto de ser
comercializadas nas feiras livres (CHIACCHIO, 2008).
Para as pastagens, o emprego da palma forrageira é bastante conhecido nas regiões onde há longos
períodos de estiagem, água escassa e pouca alternativa de alimento. Já na alimentação humana, o vegetal
vem sendo utilizado em preparações culinárias, tradicionalmente, no México, desde o Império Asteca. Só
muito depois, chegou à Itália, difundindo-se pela Europa.
Conforme Bezerra (2010), hoje, esses preparos recebem toques sofisticados da alta gastronomia,
em pratos e bebidas saborosos e nutritivos. Principalmente, porque a palma forrageira passou a ser vista
como uma das possibilidades de combater a fome e a desnutrição, tão presentes no semi-árido nordestino.
Inclui o fato de esta planta ser aliada nos tratamentos de saúde.
Estudos sobre os componentes nutricionais da palma forrageira indicam se tratar de um vegetal
mais nutritivo do que os comumente encontrados na culinária vegetariana, como a couve, a beterraba e a
banana, com a vantagem de ter baixo custo, sem pesar no orçamento das populações mais carentes. Vale
reforçar que em países como o México, os Estados Unidos e o Japão têm esse vegetal como um alimento
nobre, tradicionalmente servido em restaurantes e hotéis de luxo, em preparos como sucos, saladas, pratos
guisados cozidos e doces. Enquanto no Brasil, o preconceito impede o consumo da palma, principalmente
os nordestinos que no máximo plantam para a ração animal (BEZERRA, 2010).
Os diversos micronutrientes contidos neste vegetal (incluindo, uma grande quantidade de vitamina
A, do complexo B e C, e minerais como o ferro, cálcio potássio e outros), de acordo com a professora da
Universidade Federal da Paraíba e engenheira de alimentos, Ione Diniz, ajudam a evitar a cegueira noturna
nos recém nascidos, além de colaborar para o crescimento das crianças. Ao alimentá-las desde cedo com a
hortaliça, é observada uma melhora na saúde geral por se tratar de uma excelente fonte de nutrientes
essenciais. Comparações nutricionais de alguns alimentos com palma, ver tabela 01.

Alimento Vitamina A (mg) Ferro (mg) Cálcio (mg)


Palma 220 2,8 200
(broto)
Tomate 180 0,8 10
Pimentão 150 0,6 07
Vagem 120 1,3 55
Quiabo 90 0,6 60
Chuchu 20 0,5 07
Couve-flor 05 0,7 120
Tabela 01: Comparação dos valores nutricionais do broto de palma com os das verduras mais utilizadas em
100g de hortaliça.
Fonte: SEBRAE, 2001

Além da ração para animais, como é usada comumente, a palma, que tem três variedades, a
gigante, a doce e a redonda, serve para alimentação humana. “No México, a palma é considerada uma
terceira hortaliça para o consumo humano”, disse o diretor técnico da FAEC (Federação da Agricultura e
Pecuária do Estado do Ceará, engº agrônomo Jorge Prado. De acordo com ele, em todo o País tem gente
morrendo de fome enquanto alimentos como a palma ainda não são explorados devidamente.
A cactácea pode além de ser uma importante aliada nos tratamentos de saúde, já que é rica em
vitaminas A, complexo B e C e minerais como Cálcio, Magnésio, Sódio, Potássio além de 17 tipos de
aminoácidos. A palma é mais nutritiva que alimentos como a couve, a beterraba, a maçã e a banana com a
vantagem de ser um produto mais econômico. Em outras partes do mundo, a palma forrageira é usada na
alimentação humana, arraçoamento animal, como fonte de energia, na medicina, na indústria de
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cosméticos, na proteção e conservação do solo, dentre outros usos nobres, a exemplo da fabricação de
adesivos, colas, fibras para artesanato, papel, corantes, mucilagem, ornamentação e até antitranspirantes
(NUNES, 2011).

- Sugestões para o plantio da palma forrageira em unidades escolares no município de Gilbués-PI


.
O avanço do processo de desertificação nesta região tem reduzido bastante a capacidade
produtiva. As reduções dos recursos hídricos, devido os assoriamentos, empobrecimento dos pequenos
produtores, têm estimulado o seu refúgio. O município é repleto de contrastes ambientais e
socioeconômicos. De um lado, a pobreza extrema, onde predomina o terreno irregular cheio de crateras e
ondulações formadas pela desertificação. Por outro lado, na parte mais alta e plana terras férteis onde há
investimentos agrícolas na produção de grão de soja, milho, milheto, sorgo e algodão. A terra avermelhada
é pobre em cobertura vegetal e ganha espaço a cada dia sobre o município ampliando a miséria da
população mais carente (FERNANDES, 2004).
De acordo com o PAN-Brasil (2004), a desertificação é o resultado final da exploração inadequada
dos recursos naturais de uma região, caracterizada pela degradação do solo, dos recursos hídricos, pelo
desmatamento e principalmente pela extinção da biodiversidade. Dessa forma, aumenta diretamente o
empobrecimento das comunidades, principalmente rurais, reduzindo ou extinguindo a capacidade
produtiva da terra, afetando a sustentabilidade do desenvolvimento comprometendo o futuro das
próximas gerações.
Matallo Junior (2001), afirma que a desertificação está relacionada a uma ruptura no sistema de
equilíbrio do meio ambiente e o sistema de exploração humana, gerando uma crise climática
desencadeando outros processos de degradação, e que a “ideia de degradação de terra é ela mesma uma
ideias complexa com diferentes componentes”. Sejam esses componentes físicos, biológicos, hídricos e
socioeconômicos. Os impactos desses componentes no ambiente geram: degradações de solo, vegetação,
recursos hídricos e redução da qualidade de vida da população.
Com a exaustão do garimpo diamantífero restaram apenas fome e degradação ambiental. Uma
parcela considerável da população de Gilbués vive com grandes dificuldades, mal podendo se sustentar,
devido à escassez de nutrientes no organismo. Além da deficiência de gramíneas e pastos para a
manutenção, alimentação e engorda dos rebanhos bovinos, caprinos e ouvinos.
O município de Gilbués-PI é muito carente em hortaliças e olericultura, uma vez que estas vêm de
outro Estado, Barreiras-BA, uma vez por semana e muitas não chegam com qualidade adequada no
mercado, quanto as frutas regionais não são suficientes para garantir um estoque no período de entresafra,
ocorrendo assim um desequilíbrio nutricional.
O broto da palma está sendo usado na alimentação humana, como hortaliça do deserto, com altos
teores nutricionais e de sabor agradável. Até então os produtores só conheciam a utilização da palma
forrageira para alimentação animal.
Para acabar com o proconceito dessa cultura, é preciso que haja políticas públicas voltadas para a
educação alimentar, esse processo passaria pelas escolas, com palestras, vídeos e outras mídias para
mostrar a importancia dessa cultura na alimentação humana. Dentro da própria escola, como
mostra a Figura 01, é possível iniciar o processo de implantação da palma. Os alunos deverão participar de
todo o processo de plantação, o principal objetivo é fazer com que as crianças cresçam com a certeza de
que o cultivo da palma não tem que ser somente para forragem. Para o manejo do pequeno cultivo é tirado
um grupo de alunos, mães, professores, merendeiras para uma capacitação culinária. Dessa forma, os
alunos aprendem a manejar a palma e a produzir vários alimentos como: sucos, sorvetes, picolé, sopa.
Saladas, cremes, tortas, guisados, ensopados e bolos.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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Figura 01: Exemplo de horta dentro da unidade escolar


Fonte: Ione Alves Diniz

O Projeto Palma é um exemplo desse beneficiamento que começa nas escolas com filhos de
produtores rurais e vai até o campo em vários municípios da Paraiba como: Itabaiana, Taperuá, Barra de
Santa Rosa, Cabaceiras, Monteiro e entre outros que vivem com escassez nutricional devido às poucas
chuvas nessas regiões Esses municípios que participam do projeto, as prefeituras cedem a terra e a infra-
estrutura necessária para implantar uma unidade de demonstração e os produtores de forma associativa
entram com o trabalho, ao final a produção é dividida entre eles. O SENAR (Serviço Nacional de
Aprendizagem Rural) e a FAEPA (Federação da Agricultura e Pecuária da Paraíba) montam o Núcleo de
Tecnologia Social, com equipamentos para processamento da palma, transformando-a em concentrado
para suplementar a alimentação humana e animal.
O combate às carências alimentares é visto pelo Projeto Fome Zero como um esforço que deve
envolver não apenas o governo federal, mas também as administrações estaduais, municipais, cooperativas
e a sociedade de modo geral, por meio de políticas locais de segurança alimentar, adequada à realidade
urbana ou rural, aprofundando experiências existentes, como os bancos de alimentos, os restaurantes
populares e o apoio à agricultura familiar. O objetivo desse artigo é mostrar que é possível erradicar a fome
endêmica por meios de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento sustentável, juntamente com
uma boa educação alimentar.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho consistiu em uma análise contextualizada que levanta as questões
relacionadas à fome endêmica na região de Gilbués sudoeste do Piauí. Essa região se encontra diante de
um quadro avassalador devido o processo de desertificação e como consequencia disso o solo torna-se
inadequado para a agricultura, principalmente de hortaliças e olericulturas. É preciso desenvolver
programas que possa contribuir para a divulgação de conhecimento no domínio da educação alimentar
como também a ambiental.
Resultados satisfatórios deverão surgir após o estabelecimento da horta, juntamente com a
comunidade escolar, coleta e beneficiamento da palma como suplementos alimentares nos seres humanos.
A priori deve-se se vencer as barreiras e os preconceitos dessa cultura, para que de um modo geral a palma
venha enriquecer o nosso cardápio.
As doenças infecciosas, a ausência e carência em grandes proporções de avitaminoses e minerais
nos hábitos alimentares, fazem com que ocorra uma maior parcela de fome endêmica. A fome endêmica é
um problema estrutural, esta realidade vem silenciosamente afetando a população em sua maior parcela,
mesmo se alimentando todos os dias. Portanto, a importância da utilização da palma forrageira como
alternativa de suprir todas as carências nutricionais, principalmente em comunidades carentes que há um
grande número de crianças em idade escolar que precisa de uma boa alimentação para um bom
rendimento cognitivo.
Os benefícios de uma boa alimentação são muitos, além de trazer disposição, previnem doenças e
obesidade. E quando se trata de crianças e adolescentes, que estão em pleno estágio de desenvolvimento,
uma alimentação que ofereça nutrientes necessários ao organismo é fundamental. As escolas possuem um

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papel prepoderante na educação. Com a educação alimentar não poderia ser diferente. Apostar na
melhoria da qualidade de vida de seus alunos é um desafio a ser encarado, principalmente vencer a
resistência e o preconceito do uso da palma como alimento humano.

6 - BIBLIOGRAFIA
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Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


112

PROBLEMAS SOCIOECONÔMICO E DE SAÚDE DA POPULAÇÃO ATENDIDA


PELA UNIDADE DE SAÚDE DA FAMÍLIA MANDACARU IX (JOÃO
PESSOA/PB)
Maria de Fátima Dantas Pereira1;
José A. Novaes da Silva2.
1 Estudante do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas - CCEN – UFPB; E-mail: fattima_danttas@hotmail.com;
2 Professor do DBM – CCEN – UFPB; E-mail: baruty@gmail.com

Resumo
O estudo foi desenvolvido com a Comunidade atendida pela Unidade de Saúde da Família
Mandacaru IX, no bairro de Mandacaru, localizado no município de João Pessoa, Paraíba. O objetivo é
analisar a qualidade de vida dos moradores bem como montar um quadro relativo à hipertensão arterial.
Para isso utilizou-se como métodos: coletas de dados a partir das Fichas A, questionário individual
estruturado e o WHOQOL-HIV BREF. A população apresenta um universo de aproximadamente 568
pessoas, das quais 369 foram pesquisadas e constatadas que a comunidade é formada majoritariamente
por negros que representam 75,5% dos moradores. Em relação ao sexo a comunidade é formada por 46,6%
de homens e 53,4% de mulheres. De acordo com análise dos dados verificou-se que a comunidade
apresenta baixa qualidade de vida, além de problemas sociais e econômicos referente à moradia,
localização geográfica, infraestrutura, educação, qualificação profissional, emprego e renda, o que afeta de
forma direta a saúde da população no que se refere aos agravantes de saúde, principalmente a hipertensão
arterial a qual se mostra prevalente na população negra.
Palavras-chave: 1. População negra. 2. Hipertensão arterial. 3. Saúde. 4. Unidade de Saúde da
Família Mandacaru IX. 5. Bairro Mandacaru.

Introdução
O presente estudo busca caracterizar as condições sociais e de saúde dos moradores do bairro de
Mandacaru, localizado na região Norte no Município de João Pessoa. O grupo avaliado corresponde à
população da microárea 03 da Unidade de Saúde Mandacaru IX (USF IX). De acordo com o censo do IBGE
do ano 2000 residem nesta área cerca 12.776 pessoas. Segundo Macedo (2009) o bairro de Mandacaru
surgiu a partir de um acordo firmado entre o Padre Zé e Dona Iaiá Paiva proprietária do Sítio Mandacaru,
que decidiu doar suas terras para construção de casas para as pessoas carentes, sensibilizada com o
trabalho filantrópico do instituto São José. Atualmente a unidade urbana de habitação faz divisa com os
seguintes bairros (Ipês, Estados, Padre Zé, Roger) e com a cidade Portuária de Cabedelo.
Uma característica importante do bairro é a sua riqueza cultural, onde sobrevivem várias
expressões da cultura popular. Nele encontramos três tribos indígenas, uma delas a Tupinambá, foi
fundada em 1948, Quadrilhas Juninas e Grupos de Ciranda. Em relação a sua estrutura encontramos uma
Biblioteca Comunitária Mandacaru que é um "Ponto de Leitura" da Associação Comunitária de Educação e
Cultura - CACTOS em parceria com o Ministério da Cultura (O NORTE ON LINE, 2009). Nele ainda
encontramos uma pedreira em atividade, uma fazenda de camarão marinho. Com relação à infraestrutura
85% do bairro é calçado, possui saneamento básico e água encanada. Infelizmente esta face da localidade é
menos conhecida sendo a mesma muito conhecida da imprensa pessoense devido aos altos índices de
violência. O nome da unidade de urbanização é uma homenagem a um cacto muito freqüente no nordeste
brasileiro.
A saúde passou a ser legitimada como um direito humano pela Organização Mundial de Saúde
(OMS) a partir da Constituição de 1946, onde foi definida, não apenas como a ausência de doença, mas, o
bem-estar físico, mental e social (DALLARI, 1988). Com isso, a saúde passa a ser definida como o bem-estar
completo do indivíduo, além da ausência de patologias, é preciso ter-se uma alimentação saudável,
moradia adequada, boas condições de emprego e renda, nível da instrução, corpo e mente saudável, como
também o acesso aos serviços de saúde pública que respeite os direitos e a individualidade de cada um,

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113

assim, independente de raça/cor, religião, sexo, gênero, classe social, como também ambiente em que
vivem.
O Ministério da Saúde (MS), tem se preocupado com grupos vulneráveis e específicos formadores
de nossa população. Dois exemplos recentes são a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra
(PNSIPN), aprovada em 2006 pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), a Política Nacional de Saúde Integral
de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, aprovada em 2010 e a Política Nacional de Atenção
Integral à Saúde do Homem aprovada em 2008. A grande dificuldade é que estas políticas necessitam de
planos de ação, envolvendo a preparação dos profissionais de saúde nos estados e municípios, e muitas
vezes esta etapa, por demandar verbas e também a presença de pessoas capacitadas para ministrarem
cursos e formações, não saem do papel ou não chegam a desempenhar o impacto desejado Barboza; Rocha
(2010) e Figueiredo; Peixoto (2010).
Esta nova visão do Ministério da Saúde vem em resposta a crescente “política de criação de
identidades”. Por meio deste diferentes grupos historicamente excluídos e vivenciando situações adversas
buscam conquistar seus direitos (SILVA, 2009). Dentro desta grande gama identitária encontramos os
Movimentos Sociais Negros, que a partir da Conferência de Durban, ocorrida em agosto de 2001, passou a
reivindicar atenção para doenças e agravos nela prevalentes. Dentre os agravos podemos citar a doença
falciforme, o câncer de próstata, diabetes melitos e a hipertensão (BRASIL, 2005).
Objetivo
Com base no exposto este trabalho objetiva apresentar as condições socioeconômicas e de saúde
da população adescrita pela USF Mandacaru IX, para analisar a qualidade de vida de seus moradores. Os
resultados irão contribuir para orientar sobre futuras ações educativas voltadas para a educação em saúde.

Metodologia
O campo de estudo é a microárea 03 da área 175 filiada a Unidade de Saúde da Família Mandacaru
IX (USF IX). A coleta de dados é baseada nas fichas A, que são fichas produzidas pela secretaria municipal
de saúde para o cadastro das famílias junto ao Sistema de Informação de Atenção Básica (SIAB). Estas nos
forneceram informações tais como número de pessoas por moradia, doenças, tamanho da casa. Um
questionário individual foi aplicado para 106 pessoas e a partir do mesmo coletaram-se informações tais
como o pertencimento etnicorracial, e a religião. A este grupo também foi aplicado, WHOQOL-HIV BREF,
um instrumento voltado para a coleta de informações relativas à qualidade de vida previamente validado
pela Organização Mundial de Saúde.
Os dados foram coletados no período de abril a maio, num espaço de tempo de 30 dias, com o
consentimento dos participantes, através de questionários aplicados no domicílio. Os mesmos foram
digitados, organizados e filtrados por meio do programa Excel.

Resultados e discussão
Na microárea 03 residem, 163 famílias, num total de 568 pessoas. Trabalhamos com uma amostra
de 106 famílias, totalizando 369 pessoas havendo 46,6% do sexo masculino e 53,4% do feminino. A
distribuição das mesmas em função do sexo e das diferentes faixas etárias são apresentadas na tabela 01.
De acordo com a autodeclaração das pessoas no quesito “raça”/cor da comunidade tem-se que
autodenominaram pretas como 10,38%, mulatas 0,94%, pardas 32,08%, morenas 32,1%. Amarelos, brancos
e indígenas representaram, respectivamente, 1,9%; 21,7% e 0,9%. A soma dos pertencentes a cores A
população negra local (originada pelo somatório de mulatos, pretos, pardos e morenos) foi de 75,5%.
Pensar a população tendo por base o pertencimento etnicorracial é de profunda relevância, pois desvela
assimetrias em saúde que muitas vezes se ocultam quando se esta é vista e trabalhada em um plano mais
amplo e geral.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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Tabela 01. Distribuição percentual por faixa etária e sexo.

O gráfico 01 compara o percentual, segundo “raça”/cor da população pessoense, segundo o censo


do IBGE do ano 2000, com a autodeclaração dos moradores atendidos na microrregião alvo do presente
estudo. Pode-se perceber que a população negra constitui a maioria dos moradores. Os dados aqui
apresentados corroboram os apresentados por Silva; Fonseca (2010) que também trabalharam com
mulheres residentes em bairros populares da Grande João Pessoa.

Gráfico 01. Pertencimento etnicorracial dos moradores da comunidade.

A ocupação de 369 pessoas, de acordo com os dados coletados a partir das Fichas A, nos mostram
que (47,41%) dos habitantes (homens e mulheres) não exercem nenhum tipo de atividade remunerada, os
aposentados representam um grupo de (7,32%) e o restante dos habitantes representam um grupo de
(45,27%), desempenham alguma atividade econômica. A grande maioria recebe baixos salários devido à
falta de qualificação profissional e a baixa escolarização. Em relação ao quantitativo mensal de dinheiro
frente às despesas mensais 0,9% de homens brancos e 2,8% de negros afirmam que o valor recebido é
muito baixo em relação às despesas. Entre as mulheres encontram-se nesta mesma condição 3% de
mulheres brancas e 7,3% de negras. As autodeclaradas indígenas e amarelas representam 0,3% e 0,5%. Em
relação à diferença da renda entre negros e brancos observa-se que “ao longo das duas últimas décadas do
século 20, a renda per capita dos negros representou apenas 40% da dos brancos. Os brancos em 1980
ainda teriam uma renda per capita 110% maior que a dos negros de 2000” (PNUD, 2005, p. 16).
No que tange a escolaridade, as Fichas A, fornecem apenas informações sobre as matrículas das
crianças e jovens, mas não informa a série na qual o estudante está matriculado, o que impossibilita de
analisar a defasagem entre série e idade ou evasão escolar. De acordo com os dados coletados, das 115

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crianças e jovens de ambos os sexos, (68,7%) freqüentam a escola. Dos 32 jovens na faixa etária entre 15 e
18 anos de ambos os sexos, (90,63%) freqüentam a escola. Isto é bastante preocupante, pois se trata de
uma comunidade urbana, fato esse que influencia nas desigualdades sócias, no que se refere a emprego e
renda, como também as dificuldades de absorção pelo mercado de trabalho (ALMEIDA, et al., 2009).

Infraestrutura e condições de moradia


Os domicílios da comunidade em estudo, construídos com tijolos, são caracterizados como
aglomerados urbanos, pois apresentam diversas casas em um mesmo terreno, construídas e cobertas com
materiais de baixa qualidade, tamanhos dos cômodos inadequados, mal acabados, sem espaços adequados
para as crianças brincarem, além de a localização geográfica apresentar ladeiras, o que dificulta o
deslocamento de idosos, e cadeirantes. Das residências 26,2% possuem entre 2 a 4 cômodos; 65% são
formadas por 5 a 6 compartimentos e apenas 8,7% das casas apresentam entre 8 a 11 cômodos.
De acordo com a amostra em estudo dos 106 domicílios, todos são cobertos pelos serviços de
abastecimento de água, de energia e coleta de lixo. Em relação à água consumida (58,49%) dos habitantes
desta comunidade, consomem água clorada, tratamento realizado pela Companhia de Água e Esgoto da
Paraíba (CAGEPA), (38,68%) consomem água filtrada e (2,83%) água fervida. Quanto ao destino das fezes e
urinas (90,57%), utiliza o sistema de esgoto da CAGEPA e os demais utiliza fossa seca. O nível de satisfação
dos moradores com as condições da moradia é apresentado no gráfico 02 e a observação do mesmo nos
mostra que 71,7% dos entrevistados estão satisfeitos ou muito satisfeitos com as condições nas quais
vivem.

A B

C
D

Figura 01. (a) Aglomeramento de casas. (B) Vista panorâmica de uma das ladeiras. (C) Escola Pública. (D) Posto de Saúde.

O estado geral da moradia é um fator relevante para conhecer a qualidade de vida das
comunidades, de acordo com a organização Pan-americana de Saúde, a saúde é influenciada pelas
condições socioeconômicas do indivíduo, além das predisposições genéticas e seu estilo de vida. No
presente trabalho entende-se a qualidade de vida como: “a percepção do indivíduo sobre a sua posição na
vida, no contexto da cultura e dos sistemas de valores nos quais ele vive, e em relação a seus objetivos,

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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expectativas, padrões e preocupações” (SEIDL; ZANON, 2004), sendo, portanto um conceito que extrapola
o poder aquisitivo.
As condições das habitações e o suporte das mesmas, no que concerte ao suprimento de água e da
coleta de lixo se constituem em um fator protetor contra várias doenças. Um ponto que favorece o
presente ponto de vista é ausência da descrição nas Fichas A, de ocorrência de diarréia e de parasitoses
entre as crianças. Em relação a estas afecções, Lima; Vasconcelos; Silva (1998) ao trabalharem com uma
comunidade de assentados, que não disponham de água tratada, observaram que 56,5% dos moradores
apresentavam algum tipo de parasitose.

Gráfico 02. Nível de satisfação com as condições da moradia.

A habitação é um fator determinante de saúde da população, pois seus moradores estão


relacionados com o ambiente em que vive, levando em consideração o território geográfico e social onde
se localiza como também os materiais usados para a construção, à qualidade desses materiais, como foi
construída, o tamanho dos cômodos, a qualidade dos acabamentos e coberturas, a segurança e a
combinação de todos esses elementos para uma habitação de qualidade. A habitação é um espaço
importante para o desenvolvimento de uma família saudável, pois é nela onde ocorrem as interações
familiares (AZEREDO, et al., 2007).
Em relação à infraestrutura o bairro do Mandacaru consta com nove unidades de PSF, Centro de
Saúde, templos católicos, evangélicos, bem como de umbanda e candomblé.

Hipertensão arterial: um exemplo de assimetria na saúde


De acordo com os dados das Fichas A, no que se refere às doenças, a hipertensão arterial atinge
(4,1%) dos homens e (9,5%) das mulheres. De acordo com os dados coletados a doença apenas tem sido
reportada por pessoas acima dos trinta anos de idade. O cruzamento dos casos de pressão alta com a
“raça”/cor dos moradores nos mostra que entre os homens 3,8% dos casos são de negros um valor que
alcança 9,0% entre as mulheres negras, demonstrando a prevalência da doença na população negra e de
forma mais marcante entre as mulheres negras. Na epidemiologia da doença chamaram de imediato a
atenção da elevada prevalência em negros americanos (LESSA, 2001). Cooper et al. (1999) sugerem que a
ancestralidade negra, ligada a fatores hereditários, não explicam totalmente a prevalência da hipertensão
na população negra. Estes autores demonstram que a prevalência de hipertensão na área rural da Nigéria
era de 7% com um aumento nas áreas urbanas, ao passo que 26% dos negros jamaicanos e 33% dos negros
norte-americanos sofriam. Estas variações nos sugerem que fatores tanto ambientais quanto culturais, tais
como, os lugares ocupados pelas populações negras em diferentes espaços estejam ligados a níveis
pressórios mais elevados. Lessa e colaboradores (2006) também observaram uma maior percentual de
casos da doença na população negra de Salvador, sendo que os níveis pressórios mais elevados eram o de
mulheres negras. O fato de encontrarmos um maior percentual de mulheres hipertensas pode estar ligado
ao fato destas apresentarem um maior cuidado com a saúde, procurando as unidades de saúde com mais

João Pessoa, outubro de 2011


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freqüência (NOBLAT et al, 2004). Muito embora uma maior preocupação com a saúde tenha sido descrito,
com maior freqüência entre a população do sexo feminino é importante que seja citado dado descrito por
Sampaio (2011) segundo o qual de um grupo de 15 mulheres com diagnóstico positivo para a hipertensão,
08 só iniciaram o seu tratamento após uma crise.
A maior prevalência da hipertensão nas mulheres negras pode estar ligada as diferentes formas de
discriminação que estas podem sofrer. No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece a existência de um
potencial patogênico decorrente das discriminações. No caso das mulheres negras submetidas às
discriminações de raça, de gênero e de classe social, observa-se um risco maior do comprometimento de
sua identidade, da imagem corporal, de seu autoconceito e autoestima, tais práticas excludentes as
impedem de desenvolverem estratégias positivas de enfrentamento, tornando maior o risco de
comprometimento para sua saúde (CORDEIRO; FERREIRA, 2009).
Estes números podem estar diretamente relacionados ao quantos homens e mulheres consideram
como estão aproveitando suas vidas. Em relação a este ponto temos que 0,9% de brancos e 1,9% de negros
aproveitam pouco. Entre as mulheres brancas e negras estes números sobem, respectivamente, para 9,4%
e 29,2%, um percentual mais elevado de mulheres consideram que estão aproveito pouco sua vida. Um
maior percentual de mulheres hipertensas também foi detectado por Silva (2007) entre os moradores da
comunidade quilombola de Caiana dos Crioulos.
A hipertensão arterial, a doença crônica de maior incidência no mundo contemporâneo (BRASIL,
2006), é um dos exemplos de assimetria encontrados na saúde, pois sua prevalência esta ligada tanto a
aspectos raciais quanto ao gênero, observando-se uma nítida prevalência na mulher negra. O
desenvolvimento da hipertensão vai muito além do consumo elevado de sal, estando frequentemente
associados à baixa escolaridade, aos problemas sociais crônicos, como pobreza, hostilidade e racismo
pontos estes que têm sido utilizados para tentar explicar as grandes diferenças de prevalência de
hipertensão entre os negros americanos (Lessa, 1998). Araújo (1994) demonstrava a maior probabilidade
(9%) de aparecimento desta doença nas mulheres negras e alertando ainda para as conseqüências no
processo gravídico e na morte materna por toxemia decorrente de hipertensão arterial. Paixão; Carvano
(2008, p. 49) apontam para um número mais elevado de óbitos entre a população negra. Segundo os
autores, entre os anos de 1999 e 2005 “a mortalidade de pretos e pardos por hipertensão cresceu 81,6%,
ao passo, que entre brancos, 67,8%” e no que tange as mulheres, entre os anos de 2000 a 2005 a
mortalidade por “hipertensão das pretas e pardas cresceu mais (70,1%) do que a das brancas (58,1%)”.
Assim o quadro relativo à pressão alta observada entre as mulheres negras da comunidade atendida
acompanha um quadro de vulnerabilidade a doença observada a nível nacional.

Considerações finais
O presente trabalho demonstrou a grande assimetria a qual estão submetidos brancos e negros
moradores da microárea analisada. Embora os dois grupos dividam e vivam o no mesmo espaço urbano
encontramos na população negra os piores indicadores de qualidade de vida, sustentabilidade, sendo
também este grupo mais vulnerável a hipertensão que um maior número de mulheres em particular as
mulheres negras. Para alterar este quadro uma proposta seria uma maior aproximação entre as secretarias
da saúde, educação e ação social para juntas encontrarem resolutividade para os problemas que afetam a
comunidade da USF Mandacaru IX. Um ponto essencial para a melhoria seria a criação e implantação de
políticas públicas específicas que atendessem a diversidade/assimetria encontrada na comunidade.

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João Pessoa, outubro de 2011


119

OS BARBEIROS E A DOENÇA DE CHAGAS SEGUNDO OS MORADORES DA


ZONA RURAL DO MUNICÍPIO DE TREMEDAL, SUDOESTE DA BAHIA: UMA
ABORDAGEM ETNOPARASITOLÓGICA
SOUZA, N. S.1, COSTA NETO, E. M.2, GURGEL-GONÇALVES, R.3
1Graduanda do curso de Licenciatura em Geografia, Bolsista de IC. Universidade Estadual de Feira de Santana,
Departamento de Ciências Humanas e Filosóficas. E-mail: marasaturnino4@hotmail.com
2Professor Orientador. Universidade Estadual de Feira de Santana, Departamento de Ciências Biológicas. E-mail:
eraldont@hotmail.com
3Professor. Universidade de Brasília, Faculdade de Medicina. E -mail: rgurgel@unb.br

Resumo
Doença de Chagas, uma zoonose endêmica do continente americano, é considerada a infecção
parasitária de maior importância na América Latina devido ao impacto econômico e social. A Bahia é o
estado nordestino que apresenta a maior variedade de espécies de triatomíneos: 21 espécies ocorrem no
estado entre as 27 registradas para a região Nordeste. Esse artigo registra como os moradores da zona
rural do município de Tremedal, no sudoeste da Bahia, percebem a doença de Chagas. Essa abordagem
etnoparasitológica considera aspectos etnotaxonômicos (identificação dos triatomíneos) e socioculturais
(fatores antrópicos que contribuem para a domiciliação dos barbeiros), buscando-se elaborar medidas que
subsidiem propostas culturalmente viáveis relacionadas com saúde pública na região, bem como
estratégias que levem a um menor risco de contato com espécies de barbeiros vetores. Os dados
etnobiológicos foram obtidos mediante realização de entrevistas semiestruturadas no período de 20 a 25
de fevereiro de 2011, com 58 moradores. As representações socioculturais registradas na zona rural de
Tremedal podem ter um impacto significativo sobre a eficácia das intervenções, uma vez que as crenças
locais sobre a causa da doença devem ser avaliadas para determinar se programas de educação em saúde
pública são efetivos para garantir uma melhor forma de controle. Ações dirigidas aos indivíduos visando à
promoção da saúde devem estar voltadas aos seus hábitos, comportamentos e práticas sociais. O processo
de detecção de triatomíneos com a participação da população significa uma vigilância contínua, se
comparado às atividades rotineiras realizadas pelas equipes de profissionais de campo do Ministério da
Saúde. A maioria dos entrevistados (93,2%) reconheceu positivamente os insetos mostrados no teste
projetivo como barbeiros. Entretanto, poucos souberam características relacionadas à sazonalidade,
formas de reprodução e alimentação. Apesar dos respondentes (64%) relatarem que os barbeiros vêm do
“mato”, poucos reconheceram a galinheiros como locais de alojamento dos mesmos. A maioria dos
entrevistados (91%) afirmou que o barbeiro causa doença e sabia alguma forma de prevenir a infestação
dos insetos nas casas. As práticas citadas no caso de encontro de barbeiros nas casas foram captura e envio
para os agentes de endemias (58%) e matar o inseto (40%). Esses resultados mostram que moradores de
áreas rurais de Tremedal possuem um conhecimento satisfatório sobre a identificação, formas de
prevenção e práticas em relação ao barbeiro, porém não tem uma noção adequada do impacto da doença
transmitida pelo inseto. Programas de educação em saúde enfatizando a doença de chagas poderiam
incentivar ainda mais a população na vigilância e controle dos barbeiros em Tremedal.
Palavras-chave: Triatominae, doença de Chagas, saúde pública, educação ambiental, Bahia.

Introdução
A Tripanossomíase Americana ou doença de Chagas é uma zoonose endêmica do continente
americano tendo como agente etiológico o parasito hemoflagelado Trypanosoma cruzi, que é transmitido
pelas fezes de barbeiros, insetos hematófagos da subfamília Triatominae (Hemiptera, Reduviidae) (Chagas,
1909). Essa doença é considerada a infecção parasitária de maior importância na América Latina devido ao
impacto econômico e social (Dias, 2007).
O número de pessoas infectadas pelo T. cruzi na América Latina foi estimado entre 16 e 18 milhões
em 1990 (WHO, 1991). Atualmente, essa estimativa caiu para 7,7 milhões, evidenciando o sucesso das
campanhas de controle vetorial (OPAS, 2006; Rassi et al., 2010). Entretanto, ainda há o risco de transmissão

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


120

do parasito por espécies de vetores silvestres que podem invadir o ambiente doméstico e iniciar novos
focos, mantendo cerca de 109 milhões de indivíduos (20% da América Latina) sob risco de adquirir a
infecção (OPAS, 2006). Importante levar em consideração a modificação do homem no ambiente natural,
que pode contribuir para a dispersão destes insetos de seus ambientes silvestres para o domicílio humano.
Dessa forma, é necessária uma estratégia de intervenção periódica nas áreas onde vetores silvestres e
peridomésticos ocorrem e mantêm o risco de transmissão do T. cruzi ao homem (Schofield et al., 2006).
A Bahia é o estado nordestino que apresenta a maior variedade de espécies de triatomíneos.
Estudos pioneiros sobre as espécies e distribuição geográfica de triatomíneos foram realizados por Sherlock
e Serafim (1972). Segundo Dias et al. (2000), 21 espécies ocorrem no estado entre as 27 registradas para a
região Nordeste. Após o controle da principal espécie vetora (Triatoma infestans), outras espécies de
triatomíneos têm recebido atenção da vigilância entomológica, sendo frequentemente encontradas no
perimomicílio e intradomicílio, como T. sordida, T. pseudomaculata, T. brasiliensis, Panstrongylus megistus
e Rhodnius neglectus. Em 1998, 35 dos 111 municípios baianos investigados apresentaram infestação das
casas por triatomíneos, resultando em 291 unidades domiciliares positivas, sendo cerca de 28.500
triatomíneos examinados, estando 1,25% deles infectados por T. cruzi (DIAS et al., 2000). Entretanto, a
origem desses triatomíneos ainda não foi bem investigada, nem os fatores que influenciam a domiciliação.
Finalmente, o estado da Bahia apresentou entre 1990 e 1997 o maior número de internações por doença
de Chagas comparando com outros estados da região Nordeste (Dias et al., 2000), mostrando, dessa forma,
o grande impacto da doença na Bahia.
A incapacidade laboral associada a esta doença se traduz em dificuldade de inserção no mercado
de trabalho, desemprego e aposentadorias precoces (Dias e BORGES Dias, 1979), transformando a vida dos
indivíduos infectados e gerando alto custo para a sociedade. Assim, estratégias de saúde pública devem
estar voltadas para incluir as representações (maneiras de pensar) e os comportamentos (maneiras de agir)
que os indivíduos possuem para alcançar uma eficiente vigilância epidemiológica do T. cruzi (Uchôa et al.,
2002).
A etnobiologia pode ser entendida como o estudo do conhecimento e das conceituações
desenvolvidas por qualquer sociedade a respeito da biologia (Posey, 1987). No caso de estudos
etnoparasitológicos, o pesquisador, a partir de metodologia adequada, busca registrar os conhecimentos e
as atitudes dos indivíduos sobre os parasitos e as doenças parasitárias, incluindo as formas tradicionais de
tratar os sintomas decorrentes. Estudar, documentar e utilizar esse conjunto de saberes e práticas é muito
importante para encurtar os caminhos da investigação científica com a finalidade de aprender novas
maneiras de lidar com as parasitoses e suas formas de controle, auxiliando novas práticas médicas (Gurgel-
GonçaLves et al., 2007).
Há poucos estudos disponíveis sobre as representações populares relativas à doença de Chagas
(Uchôa et al., 2002). Estudos sobre concepção dessa doença e de triatomíneos em Mambaí-GO (Bizerra et
al., 1981) e Posse-GO (Willians-Blangero et al., 1999) demonstraram que a maioria da população tinha um
alto grau de conhecimento sobre o tema. Por outro lado, em um estudo realizado na Guatemala, 11% dos
soropositivos não reconheciam sinais e sintomas da doença de Chagas (Nix et al., 1995). Estudos realizados
sobre atitudes e conhecimentos referentes à doença de Chagas entre profissionais de saúde da rede
pública de Maringá-PR e Paiçandu-PR indicaram que um grande percentual de profissionais de todas as
categorias apresentou dúvidas relacionadas aos mecanismos de transmissão da doença, reconhecimento
de triatomíneos e encaminhamento de denúncias desses insetos, testes para confirmação do diagnóstico e
possibilidades de tratamento (Colosio et al., 2007). Esses autores indicam que o sucesso ou fracasso do
controle dessa doença nas Américas depende da participação da população local em detectar os vetores
(barbeiros) e avisar às autoridades governamentais, responsáveis pela aplicação dos inseticidas.
Além disso, os indivíduos geralmente reconhecem diferentes tipos de insetos que apresentam
aparência morfológica semelhante aos triatomíneos como barbeiros, eliminando espécimes não
prejudiciais; e utilizam recursos terapêuticos tradicionais (matérias-primas vegetais e orações) no
tratamento de suas doenças (Costa-Neto, 2004).
As representações socioculturais podem ter um impacto significativo sobre a eficácia das
intervenções, uma vez que as crenças locais sobre a causa da doença devem ser avaliadas para determinar
se programas de educação em saúde pública são efetivos para garantir uma melhor forma de controle.
Ações dirigidas aos indivíduos visando à promoção da saúde devem estar voltadas aos seus hábitos,

João Pessoa, outubro de 2011


121

comportamentos e práticas sociais. O processo de detecção de triatomíneos com a participação da


população significa uma vigilância contínua, se comparado às atividades rotineiras realizadas pelas equipes
de profissionais de campo do Ministério da Saúde (Falavigna-Guilherme et al., 2002).
Esse artigo registra como os moradores da zona rural do município de Tremedal, no sudoeste da
Bahia, percebem os barbeiros e a doença de Chagas. Essa abordagem etnoparasitológica considera
aspectos etnotaxonômicos (identificação dos triatomíneos) e socioculturais (fatores antrópicos que
contribuem para a domiciliação dos barbeiros), buscando-se elaborar medidas que subsidiem propostas
culturalmente viáveis relacionadas com saúde pública na região, bem como estratégias que levem a um
menor risco de contato com espécies de barbeiros vetores.

Metodologia
Os dados etnobiológicos foram obtidos mediante realização de entrevistas semiestruturadas
(Sturtevant, 1964) no período de 20 a 25 de fevereiro de 2011. O universo amostral foi constituído de
indivíduos de ambos os sexos e de faixas etárias diferentes. Os indivíduos participantes do estudo
assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) concordando em fornecer as
informações aos pesquisadores. As entrevistas ocorreram em contextos individuais e coletivos, buscando-
se sempre registrar as percepções sobre os insetos, a doença de Chagas, os sintomas e como prevenir-se da
doença.
Os dados foram analisados quali-quantitativamente, seguindo o modelo de união das diversas
competências individuais (Marques, 1991), considerando toda informação fornecida. Os controles foram
feitos por meio de testes de verificação de consistência e de validade das respostas, recorrendo-se a
entrevistas repetidas em situações sincrônicas, em que uma mesma pergunta é feita a indivíduos diferentes
em tempos bastante próximos.
Todo material etnográfico (entrevistas, fotografias, mapas etc.) está guardado no Laboratório de
Etnobiologia e Etnoecologia da Universidade Estadual de Feira de Santana para fins comprobatórios.

Resultados
Um total de 58 indivíduos foi entrevistado, sendo 19 do gênero masculino e 39 do feminino. A
idade média dos participantes foi de 48 anos. A média de filhos na amostra investigada é de 4,2. O grau de
instrução está assim distribuído: 43% são analfabetos, 29% têm o primário, 10% possuem o fundamental
incompleto, 6% têm o fundamental completo, 8% têm o ensino médio e apenas 1% tem ensino superior.
Das 58 residências visitadas, 36 possuíam despensa dentro de casa, enquanto 19 não possuíam
despensa. Apenas três casas tinham despensa fora da casa principal. Do total de casas, 55 (96%) contam
com eletricidade. O tempo médio de construção da residência é de 23,9 anos. O número médio de
cômodos das casas do meio rural de Tremedal é de 8, e de janelas é de 7.
Quanto à estrutura física das casas: 48 têm abertura entre telhado e parede; 48 apresentam
buracos na parede; 43 possuem fendas no piso; 30 têm buracos que dão acesso ao meio externo. Um total
de 98% das casas tem cobertura de telha e 76% (n=44) delas apresentam paredes constituídas de tijolos
com revestimento. No entanto, observam-se casas com paredes de taipa (7%), adobe (8%), de tijolo com e
sem revestimento (5%). Quanto ao acabamento do piso, a maioria das casas possui piso de cerâmica (38%)
ou uma mistura de cerâmica e cimento (33%); 20% das casas apresentam piso de cimento e apenas 12%
têm piso de cimento e terra batida.
A média de animais criados na zona rural de Tremedal, segundo as comunidades visitadas, é:
suínos: 8,39; eqüinos e bovinos: 5,07; caprinos: 6,7; gatos: 4,75; cães: 4,32; animais de granja (galinhas,
patos, perus, gansos, galinhas-de-angola): 76,92.
As distâncias médias dos locais de criação desses animais são: galinheiro, 11,4m; chiqueiro, 7,8m;
curral, 8,3m. O poleiro onde as galinhas dormem fica a aproximadamente 10,7 metros da casa. Entulhos
foram observados na maioria das casas e ficam a 9,5 metros. Palmeiras, como Syagrus coronata e Coccus
nuccifera, estão a apenas 1,6 metro de distância.
Dos 58 entrevistados, 54 (93,2%) reconheceram positivamente os insetos mostrados no teste
projetivo como barbeiros. Além de serem denominados localmente como barbeiros, os triatomíneos são
também conhecidos pelos seguintes nomes comuns: chupão, besouro e bicho-chupança.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


122

Perguntados sobre a época do ano em que os barbeiros aparecem, 34,4% disseram ser o período
de verão, enquanto 14% falaram ser no inverno. A maioria (52%), no entanto, não soube responder.
A maioria dos respondentes (N=37) disse que os barbeiros vêm do “mato”. Poucos reconheceram a
existência de galinheiros e de casas velhas como locais de alojamento de barbeiros: 5% e 7%,
respectivamente.
Quando perguntados sobre quando viram o barbeiro pela última vez, as respostas foram: dentro de
casa (26%), por meio dos agentes da vigilância epidemiológica (8%), no quintal (5%). Nove moradores (15%)
não disseram quando viram o barbeiro pela última vez, enquanto que 6% deles afirmaram nunca ter visto
esse inseto.
Quando perguntados sobre o modo como o barbeiro se reproduz, 48 (83%) não souberam
informar; apenas 8 (14%) comentaram sobre oviposição. No que se refere ao tempo de vida de um
triatomíneo, 98% não souberam informar e o único que respondeu disse ainda que o barbeiro vive por 7
anos.
Com relação à alimentação, 38% dos respondentes afirmaram que o barbeiro se alimenta de
sangue e 6% disseram que ele se alimenta de outros animais. No entanto, mais da metade dos
entrevistados (56%) não soube dizer do que o barbeiro se alimenta.
Um total de 53 respondentes (91%) afirmou que o barbeiro causa doença, enquanto apenas cinco
disseram que não. A maioria também já tinha ouvido falar em doença de Chagas (n = 56; 96%). Um total de
31 entrevistados (54%) não conhece quem tem ou teve a doença de Chagas, enquanto 27 (46%) deles
conhecem alguém com a doença.
Quando perguntados sobre o que se deve fazer para evitar que os barbeiros entrem dentro
de casa, 20 (34%) falaram sobre casa limpa, 16 (27%) não sabem o que fazer. Dedetizar a casa e o entorno
foi a resposta dada por seis entrevistados (10%). Queimar fezes de gado, queimar algo que tenha cheiro,
evitar fendas nas casas, evitar criar animais perto da casa e usar inseticida foram respostas que apareceram
apenas uma única vez cada. Houve quem confundiu com o controle do mosquito da dengue e disse sobre
não deixar água parada (n = 2; 3,5%)
O que faz quando vê um barbeiro: 34 disseram prender o animal numa caixa de fósforos para
entregar ao agente de saúde da comunidade ou levar pessoalmente à vigilância de endemias. Cerca de 40%
dos respondentes disseram que matam o barbeiro ou insetos parecidos com triatomíneos. Apenas um
entrevistado disse não saber o que fazer.
Perguntados o que deve ser feito para evitar contrair a doença de Chagas, 31 dos respondentes não
souberam informar o que fazer; das 17 pessoas que responderam saber o que fazer, as respostam foram:
manter a casa limpa, evitar o contato com o barbeiro, dedetizar a casa, acabar com o mosquito.

Discussão
A maioria dos entrevistados não possui grau de instrução, o que contribui para a percepção que os
mesmos apresentam sobre a doença e o barbeiro. Sendo assim, o conhecimento destes moradores está
associado aos seus relatos de experiências, suas percepções e concepções sobre ambos. Dessa forma,
constatou-se que apesar da maioria dos moradores não apresentar um nível de escolaridade, os mesmos
reconheceram o inseto, sabendo diferenciá-lo dos demais, reconhecendo-o por outros nomes populares,
como: chupão, besouro e bicho-chupança.
No Brasil e na América Latina, registram-se diferentes nomes populares para esse grupo de
hemípteros hematófagos (Lenko e Papavero, 1996; Schofield e Galvão, 2009). Daly (1998) enfatiza que o
nome de um animal ou de uma planta aponta para um conceito, categoria ou táxon, que é um arquivo de
história natural cheio de informação, uma vez que pode revelar, assim como, às vezes, obscurecer, como os
processos de percepção, identificação e nominação foram e estão organizados. Para Atran (1990), a
obtenção do vocabulário (léxico) adotado por determinada população local seria o primeiro passo para
acessar as informações sobre os diversos domínios cognitivos que compõem a mente e também uma forma
de aproximação indireta da formação e difusão de conceitos relacionados ao universo pesquisado.
Cerca de 34,4% disseram ser o período de verão a época do ano em que os barbeiros são vistos.
Isso está de acordo com a biologia desses insetos, pois várias espécies dispersam em épocas mais quentes
e, consequentemente, são mais capturadas ou percebidas pela população (Dias e DIAS, 1968; Forattini et
al., 1982, 1984; Mendes et al., 2008).

João Pessoa, outubro de 2011


123

Através da análise do universo comportamental acerca dos modos de agir e pensar a doença e o
inseto, ficou evidente que a maioria da população entrevistada não soube responder em qual época do ano
o inseto é mais freqüente, assim como os entrevistados não tiveram conhecimento sobre a reprodução por
oviposição, quanto tempo vive e seus hábitos alimentares. Quando perguntados de onde esse inseto vem,
uma porcentagem maior de entrevistados respondeu que ele vem do mato. Muitos não associaram a
ligação do barbeiro com galinheiros, chiqueiros, currais e suas residências, uma vez que a proximidade das
residências a esses locais pode contribuir com a domiciliação dos barbeiros (Forattini, 1980).
Os triatomíneos reproduzem-se por oviposição, as fêmeas põem os ovos dez a trinta dias após a
cópula. As posturas são depositadas nos locais onde o inseto se abriga. O total de ovos varia conforme a
espécie e está em consonância com a alimentação, temperatura e umidade. O período de incubação é de
trinta dias após a oviposição e as ninfas passam por cinco mudas de pele e começam a sugar sangue de dois
a três dias depois de terem eclodido, condição essa essencial necessária para a ecdise. A duração do estágio
de ninfa varia conforme as espécies e tem relação com as condições de temperatura, umidade e repastos
sanguíneos. O ciclo evolutivo de ovo a adulto pode durar 300 dias e em algumas espécies nunca termina
antes de dois anos (Carrera, 1991).
O fato de que mais da metade dos entrevistados não soube reconhecer o hábito hematófago do
barbeiro é algo que desperta preocupação, visto que a transmissão do parasita ocorre devido à
alimentação quando o inseto, desde que parasitado, suga o sangue da vítima e neste momento transmite o
protozoário (Lent e Wygodzinsky, 1979). Necessita-se então que campanhas de educação sobre aspectos
da biologia e ecologia dos triatomíneos sejam mais eficazes para permitir um melhor conhecimento sobre
esses insetos e a forma pela qual o indivíduo pode ser contaminado e acabe contraindo a doença de
Chagas.
É reconhecida pela maioria dos entrevistados de Tremedal que o barbeiro causa algum tipo de
doença, pois muitos dos moradores das áreas rurais pesquisadas ouviram até falar sobre a doença de
chagas, mas não associaram esta ao seu vetor.
Sobre as formas de prevenção relacionadas ao contato do barbeiro com as residências a maioria
falou em limpeza, cerca de 10% disseram “foliar” (detetizar) a casa, houve quem confundiu com o controle
do mosquito da dengue e comentou sobre não deixar água parada. Já em relação ao que fazer para se
prevenir da doença de chagas muitos não souberam o que responder, falaram manter a casa limpa, evitar
contato com o barbeiro, detetizar a casa e acabar com o mosquito.
A maioria dos entrevistados de Tremedal relatou alguma atitude relacionada ao encontro do
barbeiro nas casas, sendo a captura e envio para o agente de saúde a mais citada. Entretanto, a outra
prática citada (matar o barbeiro, 40%) não ajuda a vigilância da doença de Chagas, pois os barbeiros devem
ser encaminhados vivos para realização dos exames parasitológicos que irão indicar se os mesmos estavam
ou não infectados, uma informação epidemiológica importante para as estratégias de controle. Essa
informação deveria ser transmitida para os moradores pelos agentes de endemias locais, tornando a
vigilância mais eficiente.
Das 58 residências visitadas 36 apresentam dispensas dentro de casa e 19 não apresentaram e três
tiveram dispensas fora da casa. O local da dispensa associado à proximidade com galinheiro, chiqueiro,
curral, palmeira e outros pode estar contribuindo para um maior contato do triatomíneo ao homem e,
consequentemente, a doença de chagas, caso o barbeiro esteja contaminado pelo parasito Trypanosoma
cruzi.
Estudos realizados em Goiás sobre a avaliação do sistema de vigilância entomológica da doença de
chagas com participação popular (Silveira et al., 2009) apontaram resultados similares aos de Tremedal, em
ambos os estudos notou-se a influencia da idade dos entrevistados, do seu grau de instrução e da
experiência vivida em relação à doença e sua transmissão pelo vetor no conhecimento existente.
As representações socioculturais registradas na zona rural de Tremedal permitem dizer que os
sujeitos participantes até possuem conhecimento adequado em relação à identificação, formas de
prevenção e medidas acertadas de encaminhamento de espécimes de barbeiros aos agentes da vigilância
epidemiológica, porém são têm boa noção em relação ao impacto da doença causada por esses insetos.
Isso deve acontecer porque os efeitos da doença de Chagas são silenciosos e crônicos. Um programa de
educação em saúde focando este aspecto e o impacto da doença de Chagas crônica (manifestações

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


124

patológicas e perda de qualidade de vida) poderia incentivar ainda mais a população na vigilância e
controle desses insetos

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125

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Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


126

A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA O ENSINO DA


ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO
PARÁ
5
Camila Rodrigues e RODRIGUES
6
Maria Ludetana ARAÚJO
7
Rodrigo Silvano Silva RODRIGUES

RESUMO
A Educação Ambiental busca a formação do indivíduo a partir do intercâmbio com o meio e com
outros sujeitos. Parte da formação acadêmica de um Engenheiro Sanitarista consiste em conhecer as bases
de Desenvolvimento Sustentável e Educação Ambiental Participativa e, dessa forma, esse profissional deve
utilizar tais conceitos no decorrer de seus projetos para atender à sociedade, já que, teoricamente, é o mais
comprometido dentre os engenheiros com a questão social, não podendo, embora, rejeitar o crescimento
econômico e o meio ambiente. O objetivo deste trabalho é demonstrar a importância da Educação
Ambiental na formação acadêmica de Estudantes do Curso Engenharia Sanitária e Ambiental e no perfil
profissional dos futuros engenheiros. Este estudo foi fundamentado na conceituação e concepção da
Educação Ambiental, da formação, gestão e capacitação de pessoas, através da análise de bibliografias e
projetos existentes, e nele foram abordados: o sentimento, o pensamento e a forma de agir do profissional;
a participação, a responsabilidade, o diálogo e a cidadania; o pertencimento; o cuidado, o entendimento e
a preservação da vida. Além disso, foram aplicados questionários a alguns destes estudantes com o intuito
de obter dados referentes a essas questões, e foi consultado o Projeto Pedagógico do Curso. No âmbito
educativo, o Sanitarista pode enfrentar diversas dificuldades associadas ao comportamento da população
devido a valores arraigados em sua cultura, porém, apesar destes empecilhos, a Educação Ambiental é, de
fato, uma realidade necessária para o desenvolvimento de ações sustentáveis. De acordo com o art.8 da lei
nº 9.795 de 27 de Abril de 1999, (Política Nacional de Educação Ambiental - PNEA), as atividades vinculadas
devem ser desenvolvidas na educação em geral e na educação escolar. Logo cabe empregá-las, também, ao
ambiente de formação profissional, o que justifica que cada vez mais estão se formando profissionais bem
qualificados na questão ambiental.
Palavras-chave: Educação Ambiental, Engenharia Sanitária, Formação e gestão de pessoas.

INTRODUÇÃO
A Educação Ambiental é uma das mais importantes exigências educacionais da atualidade, não
somente em nível de nação, mas também de mundo. Esta nasceu da sensibilidade de aliar os
conhecimentos científico, tecnológico, artístico e cultural a uma nova consciência de valores de respeito
aos recursos humanos e naturais, buscando sempre uma estratégia ética que desencadeie em
Desenvolvimento Sustentável. Empenha-se em estabelecer a construção de uma sociedade justa e
igualitária para todos e ecologicamente equilibrada, onde os seres humanos relacionem-se
harmoniosamente entre si e com outras formas de vida. A Educação Ambiental poderá contribuir para a
formação de cidadãos conscientes, aptos para se decidirem a atuar na realidade socioambiental de um
modo comprometido com a vida, com o bem-estar de cada um e da sociedade local e global (ZACARIAS,
2000). Além disso, busca demonstrar a importância da interdependência econômica, social, política e

5
Graduanda do Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental do Instituto de Tecnologia, Faculdade de
Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal do Pará – Universidade Federal do Pará. Rua Augusto
Corrêa, 01. Guamá. CEP 66075-110 – calmi_rr@hotmail.com
6
Doutoranda em Ciências da Educação. Universidade de Madrid. UNDE. Professora Especialista em Educação
Ambiental da Universidade Federal do Pará. PAFOR/UFPA – ludetana@yahoo.com.br
7
Graduando do Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental do Instituto de Tecnologia, Faculdade de
Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal do Pará. Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFPA –
rodrigo.rodrigues@itec.ufpa.br

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ecológica. Para isso, faz-se necessário formar uma prática educacional sincronizada e sintonizada com a
vida em sociedade.
De acordo com os pressupostos descritos pela Educação Ambiental, o planejamento das ações deve
ser participativo, onde todos os sujeitos envolvidos contribuem de forma a facilitar a compreensão e
atuação sobre a realidade a ser explorada, tendo assim uma participação ativa na elaboração teórica e
prática das ações para a superação dos problemas diagnosticados. Além disso, é muito importante a
participação de estudantes de diferentes cursos de graduação no debate sobre Educação Ambiental e
Desenvolvimento Sustentável, por permitir uma visão ampla e crítica sobre o assunto, contextualizada e
problematizada na realidade de suas práticas.
A Universidade Federal do Pará (UFPA) é considerada uma das maiores universidades brasileiras em
extensão e em número de estudantes. A Cidade Universitária Professor José da Silveira Netto, Campus
Guamá, Cidade de Belém, Estado do Pará, Região Amazônica, pertencente aos bairros do Guamá e
Montese, abrange área de 4.500.000 m², com estimativa populacional diária de 40.572 pessoas entre
estudantes, servidores e visitantes.
Dentre as mais de 100 Faculdades existentes, encontra-se a Faculdade de Engenharia Sanitária e
Ambiental (FAESA), anteriormente chamada apenas de Engenharia Sanitária, a qual foi criada após estudo
elaborado mediante convênio entre o extinto Banco Nacional de Habitação (BNH) e a Associação Brasileira
de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), que concluiu a necessidade de 3.000 Engenheiros Sanitaristas
para o cumprimento das metas do Plano Nacional de Saneamento (PLANASA), concebido pelo Governo
Federal na década de 70, com o objetivo de atender às demandas do setor saneamento, sendo implantado
na UFPA em 1978. No início da década de 90, passou-se a buscar um novo perfil de Grade Curricular,
adaptando o termo “saneamento básico” ao termo “saneamento ambiental”, que é mais amplo. Assim,
deixou-se de adotar uma grade curricular restritamente baseada no tripé do saneamento básico
(abastecimento de água, esgotamento sanitário e resíduos sólidos) para incorporar atividades como
saneamento ambiental, introdução ao estudo de impactos ambientais, aproveitamento de águas
subterrâneas, poluição da água, e atividades como Resíduos Sólidos e Limpeza Pública, Qualidade do Ar e
do Solo ganharam a complementação das atividades curriculares como Técnicas de Controle dos Resíduos
Sólidos e Técnicas de Controle de Poluição do Ar, fortalecendo um enfoque mais ambientalista,
considerando sempre a preservação dos reservatórios ambientais: água, solo e ar.
Segundo o Projeto Pedagógico do Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental (PPCESA), os cursos
de Graduação em Engenharia têm como perfil do formando egresso (o profissional engenheiro) a formação
generalista, humanista, crítica e reflexiva, sendo este capacitado a absorver e desenvolver novas
tecnologias, estimulando a sua atuação crítica e criativa na identificação e resolução de problemas,
considerando seus aspectos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais, com visão ética e
humanística, em atendimento às demandas da sociedade.
As atribuições do Engenheiro Sanitarista e Ambientalista são regidas pelas resoluções 310/86 e
447/00 do CONFEA. Na Resolução 310/86 são discriminadas as atividades do Engenheiro Sanitarista. A
Resolução 447/00 dispõe sobre o registro profissional do Engenheiro Ambientalista e discrimina suas
atividades profissionais.
Os Engenheiros Sanitaristas e Ambientalistas são os profissionais capazes de atender aos anseios
populacionais presentes nas diretrizes do saneamento ambiental, sendo na administração pública ou
privada, e são capacitados para atenuar os impactos sócio-econômicos e ambientais causados pela ação
antrópica. Para muitos, são tidos como os engenheiros mais voltados às necessidades sociais, tendo em
vista que seus projetos não buscam somente alargar quantitativos em obras e serviços, e sim o quantitativo
e qualitativo quanto ao atendimento populacional.
Sendo a Educação Ambiental um componente essencial e permanente da educação nacional, e
devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em
caráter formal e não formal (Art.2 da Lei nº 9795 de 27 de abril de 1999 da Política Nacional de Educação
Ambiental), viu-se a necessidade de avaliar a inserção e dedução do referido assunto na formação
profissional dos futuros Engenheiros Sanitaristas e Ambientalistas.
É inquestionável a relação positiva entre os investimentos em conforto ambiental e a qualidade da
vida da população, porém são grandes os desafios quando se procura direcionar as ações para a melhoria

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


128

das condições de vida no mundo. Um deles é relativo à mudança de atitudes na interação com o
patrimônio básico para a vida humana, que é o meio ambiente.
O principal objetivo desse trabalho é demonstrar a importância da Educação Ambiental na
formação acadêmica de estudantes do curso Engenharia Sanitária e Ambiental e no perfil profissional dos
futuros engenheiros.

MATERIAIS E MÉTODOS
As práticas de Educação Ambiental requerem sólidas fundamentações conceituais, dessa forma, o
estudo foi baseado nos conceitos e concepções da Educação Ambiental, da formação, gestão e capacitação
de pessoas.
Outras ferramentas foram análise de bibliografias e projetos existentes que relacionam as
temáticas, entre outros relevantes para pesquisa.
No estudo foram abordados:
Sentimento, pensamento e forma de agir:
Missão, papel, propósito continuativo da Educação Ambiental, identidade da Educação Ambiental;
Participação, responsabilidade, diálogo e cidadania;
Pertencimento: a busca do ‘nós’;
Cuidado, entendimento e preservação da vida.
Além disso, neste estudo, buscou-se associar as relações dos estudantes do Curso de Engenharia
Sanitária e Ambiental da UFPA com as questões ambientais na Cidade Universitária, seus hábitos e sua
percepção quanto ao ambiente que compartilham. Do mesmo modo, observaram-se as propostas
empregadas pelo Projeto Pedagógico (PP) do Curso.

Para a obtenção dos dados, foram aplicados questionários a aproximadamente 40% destes
Estudantes, com o intuito de obter dados referentes a essa questão. Também, foi consultado, o PPCESA, a
fim de verificar as bases para a regulamentação do Curso referentes aos temas saneamento ambiental e
meio ambiente, buscando analisar se este objetiva desenvolver nos estudantes a preocupação e o juízo
crítico referentes às questões ambientais.
Aos estudantes, foram enfatizadas perguntas alusivas à preocupação, conservação e
comportamento mediante ao ambiente de estudo, tais como, seus sentimentos em relação à infra-
estrutura da Cidade Universidade; se descartavam seu lixo em locais adequados, utilizando os contêineres
da coleta seletiva ou as lixeiras das salas e dos corredores; sua percepção quanto aos serviços de
saneamento e meio ambiente prestados pela Instituição, buscando verificar até que ponto o meio
universitário influência em seu cotidiano e suas atitudes.

RESULTADOS E DISCUSSÕES
Através do estudo realizado, onde os discentes foram agrupados pelo tempo em que freqüentam a
UFPA, observou-se que a maioria dos entrevistados relatou satisfação entre bom e regular em relação à
infra-estrutura da Cidade Universitária.
Em relação a preocupações e práticas ambientais, foram questionados assuntos como tipos de
consumo de água, formas de deposição de resíduos sólidos, uso racional de energia elétrica, papel e água,
cuidados com a saúde coletiva, problemas socioambientais e, principalmente, em a relação aos usos da
infra-estrutura urbana da Cidade Universitária.
Por meio do tratamento de dados, notou-se que, através da média, 79,64% dos discentes afirmam
praticar a conservação ambiental na Cidade Universitária e preocupar-se com ela, conforme mostra o
tabela 1.

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Tabela 1. Pesquisa de prática de conservação ambiental.


Tempo que freqüenta a UFPA % de prática de conservação
De 6 meses à 1 ano 83,30%
De 1,5 a 2 anos 83,30%
De 2,5 a 3 anos 76,20%
De 3,5 a 4 anos 73,30%
De 4,5 a 5 anos 83,30%
De 5,5 a/ou mais 77,80%
Não responderam 80,30%
Média da % 79,64%

Através da análise do estudo realizado, podemos relacionar esses dados ao que propõe o Curso de
Engenharia Sanitária e Ambiental, que é principalmente garantir a utilização do espaço ambiental de modo
consciente e sustentável. Sustentabilidade, neste contexto, seria saber manusear o espaço, de modo que se
possa visar o controle dos impactos advindos das atitudes da comunidade, para que tais ações não
interfiram no futuro das próximas gerações.
Sobre a infra-estrutura da Cidade Universitária, pode-se observar que grande parte dos estudantes
entrevistados mostrou conhecer os tipos de serviços de saneamento existente na Universidade, como
mostra a tabela 2.

Tabela 2. Pesquisa de conhecimento dos tipos de serviços de saneamento na UFPA.


% Conhecimento referente aos tipos de serviços de saneamento na UFPA
Pergun
tas Não
Sim Não
Responderam
1* 97,76 % 1,44 % 0,79 %
2* 86,12 % 9,04 % 4,84 %
3* 57,43 % 27,64 % 14,94 %
4* 59,34 % 21,85 % 18,81 %
5* 82,21 % 11,33 % 6,46 %
6* 79,04 % 10,16 % 10,80 %
1*. A UFPA possui sistema de abastecimento de água? Resposta correta: Sim.
2*. A UFPA possui sistema de drenagem? Resposta correta: Sim.
3*. A UFPA possui sistema de tratamento de água? Resposta correta: Sim.
4*. A UFPA possui coleta convencional de lixo? Resposta correta: Sim.
5*. A UFPA possui rede coletora de esgoto? Resposta correta: Não.
6*. A UFPA possui coleta seletiva de lixo? Resposta correta: Sim.

As respostas informadas, maiormente, foram corretas. A maior dúvida adveio sobre a questão da
rede coletora de esgoto, onde a maioria dos estudantes afirmou a sua existência, porém, atualmente, assim
como na maior parte do município de Belém, a Cidade Universitária possui seus esgotos lançados no
sistema de drenagem.
Segundo o PPCESA, ao egresso do Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFPA, caberá,
considerando as peculiaridades da região amazônica, uma maior sensibilidade às questões ambientais e a
busca permanente da autossustentabilidade dos ecossistemas naturais. Dessa forma, os profissionais
egressos devem atender a características bem definidas, a fim de demonstrar sólida formação teórica e
competência técnica e político-social; desenvolver e utilizar tecnologias inovadoras voltadas para a
construção de novos saberes; competência técnica, que lhes permita associar soluções tecnológicas
eficientes, compatibilizadas com a real situação socioeconômica da área a ser trabalhada; exatidão na

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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elaboração e implantação de projetos, evitando com isso qualquer tipo de agressão ambiental;
compreender a sua realidade histórica e intervir de forma criativa para o desenvolvimento do seu meio;
propor e desenvolver trabalho coletivo e cooperativo; habilidade numérica devido aos estudos
contemplarem freqüentemente cálculos matemáticos, físicos, químicos e orçamentários; meticulosidade
que permita detalhar minuciosamente todos os sistemas de controle sanitário e ambiental; raciocínio
abstrato, observando a lógica e a clareza de problemas muitas vezes complexos, que obrigam uma
ordenação acurada para a sua solução; sociabilidade, característica de extrema importância, já que a área
prescinde primordialmente do papel das populações atendidas, que terão sua qualidade de vida mantida e
até melhorada; ter respeito à liberdade, à ética e à democracia. Em resumo, o profissional da Engenharia
Sanitária e Ambiental a ser formado deverá apresentar competência para o exercício profissional, dirigida
principalmente ao controle de resíduos como um todo, integrando sempre as suas ações de uma forma
geral com as questões econômicas, sociais e ambientais.

CONSIDERAÇÕES
Quando se trata do sentir, pensar e agir, a missão do Sanitarista é conscientizar a população,
orientando-a sobre os efeitos da poluição e a forma de evitá-las, buscando, assim, estratégias de tentar
modificar o curso histórico da degradação socioambiental. O objetivo dessa missão é defender a
preservação/conservação da natureza e a luta pelos direitos da vida em todos os espaços, compreender o
mundo e os valores éticos, estéticos, democráticos e humanizados, bem como despertar os indivíduos para
os laços que constituem a espécie coletiva em vários sentidos.
Além do mais, esse profissional deve ser participativo, baseando-se na “Reflexão-Ação”, e ter
envolvimento individual na esfera pública. O diálogo e a percepção dos direitos e deveres e a intervenção
consciente na realidade não devem ser deixados de lado, bem como a tolerância-respeito ao outro e ao
princípio da liberdade. Não significa renunciar a sua própria verdade ou indiferença, mas respeitar o outro
e o princípio da liberdade (BOBBIO, 1986). É necessário distanciar-se da cultura política arraigada em
valores (privilégio, servilismo e resignação) que sustentam uma educação elitista que forma os que
mandam e os que obedecem.
O estudante deve buscar em sua formação a “Identidade da Educação Ambiental” com o objetivo
de estimular o desenvolvimento de uma consciência ambiental de forma ecológica, social, política, cultural
e econômica, contribuindo para um espírito de responsabilidade e solidariedade entre os indivíduos. Essa
Identidade não é solução para todos os males; só existe na estreita relação de produção de fazer educação
mais ampla com o processo de transformação de toda a educação. Ela também é produto da sociedade.
Quanto ao significado de Pertencimento, pode-se perceber que o meio ambiente, na concepção
desses Sanitaristas, depende de:
Estreitar laços entre o indivíduo e a coletividade. Educar não se reduz meramente à informação do
acesso à instrução, mas envolve subjetividade, aliança com o desconhecido, solidariedade e
comprometimento com o futuro;
Buscar o aperfeiçoamento da pessoa, cuja ação de aperfeiçoar pode incorporar o compromisso à
preservação ambiental;
Despertar a co-responsabilidade em relação às questões socioambientais, sentir-se parte do
processo, demonstrando interesse e preocupação pelo meio ambiente, e sensibilizar-se por estas questões,
tendo consciência do meio ambiente global e participando ativamente das tarefas que tem por objetivo
resolver problemas ambientais;
Requerer conhecimento para embasar uma leitura crítica da realidade, adquirir diversidades de
experiências e compreensão fundamental do meio ambiente e dos problemas anexos, e buscar
instrumentos e habilidades necessárias para determinar e solucionar problemas ambientais concretos;
Promover um aprendizado sobre a importância da defesa da qualidade ambiental, que significa
despertar os cidadãos para a responsabilidade de cada um na defesa da vida.

A solução dos problemas ambientais tem sido considerada cada vez mais urgente para garantir o
futuro da humanidade e depende da relação que se estabelece entre sociedade e natureza, tanto na
dimensão coletiva como na individual. Esta preocupação é percebida em nossa Constituição Federal, no

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artigo 225, onde fica claro que devemos atender ao desenvolvimento do país de forma sustentável,
garantindo condições de vida às futuras gerações.
De acordo com a pesquisa realizada em meio aos Discentes de Engenharia Sanitária e Ambiental da
UFPA, foi verificado que suas relações ambientais estão em conformidade com o que propõe sua formação
profissional em seu Projeto Pedagógico.
As respostas alcançadas se enquadraram positivamente ao estudo realizado. Vale ressaltar, de
acordo com as opiniões dos discentes, que muitos se mostraram conhecedores quanto aos serviços de
saneamento que atendem a população universitária, pois para relatar a existência destes, basta efetuar
uma observação simples para identificá-los, como é o caso do sistema de drenagem urbana, do sistema de
abastecimento e tratamento de água, do sistema de coleta seletiva de resíduos sólidos, que se encontram a
mostra de todos.
Com base nos dados alcançados junto aos questionamentos levantados para os Estudantes do
Curso, pôde-se analisar o seu desempenho nos aspectos de observação dos serviços de saneamento
ambiental e meio ambiente, pois muitos relataram a existência dos mesmos, demonstrando assim seus
conhecimentos sobre o assunto. De certa forma, isso passa a ser um parâmetro importante para analisar o
grau de interesse que os graduandos possuem em relação à sua área de atuação, já que para a futura
atuação profissional, devem apresentar afeição pelo assunto, tendo ainda que levar em consideração que o
Engenheiro Sanitarista e Ambientalista possui uma forte relação com a infra-estrutura urbana e com as
necessidades da sociedade. Do mesmo modo, foi observada certa insatisfação dos entrevistados quanto à
infra-estrutura da Cidade Universitária, declarando que mudanças ainda são necessárias.
O Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFPA, segundo o PPCESA, possui por objetivos a
formação de profissionais para atuarem nas áreas de saneamento, meio ambiente, recursos hídricos, saúde
pública e outras atividades para atender a demanda da sociedade, especialmente da Região Amazônica.
Essa atuação deve ser de maneira crítica, debatendo temas atuais, relacionando a globalidade,
universalidade, localidade e particularidade. Além de habilitar profissionais com conhecimento nas áreas de
hidráulica e recursos hídricos, abastecimento e tratamento de água, coleta e tratamento de águas
residuárias, sistemas integrados de resíduos sólidos, controle da qualidade de alimentos e controle de
resíduos e vetores; preparar profissionais com uma visão crítica dos problemas da Região Amazônica,
possibilitando o uso de técnicas preservacionistas e mitigadoras, aliadas às questões socioeconômicas;
propiciar um exercício eficaz do domínio das técnicas de controle de resíduos adotando e desenvolvendo
metodologias que agilizem os profissionais da área; apoiar as entidades governamentais e não-
governamentais, prefeituras municipais, companhias de saneamento, ministério público, políticas
ambientais e as comunidades como um todo, especialmente aquelas de condição socioeconômicas
debilitadas.
O PPCESA deixa claro que pretende desenvolver no aluno um senso crítico de cidadania, que
possibilite a prática permanente, busca da atualização profissional, postura pró-ativa e empreendedora,
compromisso com a ética profissional durante a sua vida profissional.
De acordo com o art.8 da lei nº 9.795 de 27 de Abril de 1999, Política Nacional de Educação
Ambiental (PNEA), as atividades vinculadas devem ser desenvolvidas na educação em geral e na educação
escolar. Logo cabe empregá-la, também, ao ambiente de formação profissional, o que justifica que cada vez
mais estão se formando profissionais bem qualificados na questão ambiental. Vendo a este modo,
podemos destacar que é de extrema importância que os discentes do Curso já possuam uma boa relação
com o assunto, assim, potencialmente há expectativas de profissionais que se mostrem bem instruídos e
preocupados com as questões levantadas no estudo, passando a ter boas conceituações.
No âmbito educativo, o Sanitarista pode enfrentar inúmeras dificuldades associadas ao
comportamento da população devido a valores arraigados em sua cultura, assim como a falta de percepção
por parte da própria sociedade, atrelada a problemas socioambientais. Na região Nordeste, por exemplo,
existem problemas relacionados à escassez de água, enquanto que na região Norte, os problemas estão
associados ao excesso, o que diferencia o modo como essas realidades são tratadas pelos governantes e
pela população. Porém é imprescindível o respeito aos processos culturais específicos de cada comunidade,
uma vez que há diversas formas de relacionamento socioambientais.
Apesar das dificuldades, a prática da Educação Ambiental não é utopia, é uma realidade necessária
para o desenvolvimento de ações sustentáveis, sendo bastante eficiente quando resulta de um projeto

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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político-pedagógico orgânico em que há uma forte interação entre os profissionais e a comunidade, ambos
comprometidos com a preservação da vida, até mesmo como um exercício pleno de cidadania.
Como fechamento, deve-se um tom especial à palavra ‘cuidado’, que possui inúmeros significados e
que, no contexto da ação, revelou-se como um bem necessário impresso nas manifestações dos
Sanitaristas como uma forma para buscar a qualidade de vida para todos na satisfação de suas
necessidades humanas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOBBIO, N. O. Futuro da Democracia: uma defesa das regras do jogo. Trad. Marco Aurélio
Nogueira. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
BRANCO, S. Educação Ambiental, metodologia e prática. Rio de Janeiro: Dunya, 2003.
BRASIL. Lei nº 9795 de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a educação ambiental, institui a Política
Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Lei nº 9795 de 27 de abril de 1999 da Política
Nacional de Educação Ambiental.
CARVALHO, V. S. de. Educação Ambiental & Desenvolvimento Comunitário. Rio de Janeiro: Wak,
2006.
COIMBRA, A. de S. Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental. Rio Grande:
Universidade Federal do Rio Grande, 2005.
CONFEA. Resolução n. 310, de 1986. Discrimina as atividades do Engenheiro Sanitarista. CONFEA,
Brasília, 23 JUL 1986.
CONFEA. Resolução n. 218, de 1973. Discrimina atividades das diferentes modalidades profissionais
da Engenharia, Arquitetura e Agronomia. CONFEA, Rio de Janeiro, 29 JUN 1973.
CONFEA. Resolução n. 447, de 2000. Dispõe sobre o registro profissional do engenheiro ambiental e
discrimina suas atividades profissionais. CONFEA, Publicada no D.O.U. de 13 OUT 2000 - Seção I – Pág.
184/185.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ. Instituto de Tecnologia.
<http://www.itec.ufpa.br/index.php?option=com_content&view=article&id=293&Itemid=130> 26 de
setembro de 2010.
QUINTAS, J. S. Pensando e praticando a educação ambiental na gestão ambiental. Brasília: IBAMA,
2002.
SOARES, Ana Maria Dantas et al. Educação Ambiental: Construindo Metodologias e Práticas
Participativas. Disponível em: <
http://www.anppas.org.br/encontro_anual/encontro2/GT/GT10/ana_maria_dantas.pdf>. Acesso em: 03
de julho de 2011.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ. Instituto de Tecnologia. Faculdade de Engenharia Sanitária e
Ambiental. Projeto Pedagógico do Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental. 2010.
ZACARIAS, R. Consumo, lixo e educação ambiental: uma abordagem crítica. Juiz de Fora: FEME,
2000.

João Pessoa, outubro de 2011


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DETERMINAÇÃO DE ISOTERMA DE ADSORÇÃO DA PROTEÍNA BSA EM


RESINA ANIÔNICA8
Daniel Mota de ANDRADE¹
Graduando em Engenharia Ambiental, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia(UESB)
dmandrade4@yahoo.com.br
Rúbner Gonçalves PEREIRA2
Mestrando em Engenharia de Alimentos, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)
rubnergp@gmail.com
Rafael da Costa Ilhéu FONTAN3
Professor do Departamento de Tecnologia Rural e Animal(DTRA), UESB
rafaelfontan@yahoo.com.br

RESUMO
A explosão no crescimento populacional no Brasil, sobretudo no mundo, exige um aumento similar
na produção de alimentos. No entanto essa produção deve ser avaliada também, como geradora potencial
de resíduos que agridem o meio ambiente. Na produção de grande parte dos derivados do leite, obtêm-se
resíduos impactantes aos recursos naturais, como é o caso do soro do queijo. Esse efluente, por possuir
alta carga poluidora, desperta interesses para técnicas em que se consiga elevada eficiência na purificação
de compostos de origem biológica. Dentre os processos capazes de purificar esses compostos está a
adsorção. A adsorção caracteriza-se por permitir a separação de componentes de interesses presentes em
uma solução, que são transferidos para a superfície de um adsorvente sólido, mantendo as características
físico-químicas do composto isolado. Assim, o objetivo com este estudo foi determinar as relações de
equilíbrio do processo adsortivo da proteína BSA em resina aniônica, na temperatura de 40 °C, pH=7,4 e
adição de 0,1M de NaCl. Observou-se a partir dos resultados obtidos, que o modelo de Langmuir
apresenta-se como o melhor ajuste, em relação aos parâmetros estatísticos e por propor uma explicação
do fenômeno físico da adsorção.
PALAVRAS-CHAVE: Q Sapharose Fast Flow, modelos matemáticos, soro do leite.

INTRODUÇÃO:
A EMBRAPA (2009) aponta o Brasil como um dos maiores produtores de leite do mundo, ocupando
o quinto lugar no ranking, com aproximadamente 29.112.000 litros de leite produzidos por ano, e esse
numero tende a crescer em sintonia com o desenvolvimento econômico do país e principalmente com o
aumento populacional. No entanto, essa produção deve ser avaliada também, como geradora potencial de
resíduos que influenciam adversamente o meio ambiente. Na fabricação da maior parte dos produtos
derivados do leite, obtêm-se resíduos impactantes aos recursos naturais, como é o caso do soro de queijo.
O grande volume de soro produzido mundialmente, possui alta carga poluidora, devido à sua
elevada demanda bioquímica de oxigênio (DBO), que está entre 40.000-50.000 ppm. (PEREA et al, 1993)
despertando portanto, interesses para técnicas em que se consiga elevada eficiência de adsorção e
separação de compostos orgânicos presentes no mesmo.
Dentre as técnicas de separação e extração de biomoléculas, tanto para fins de purificação quanto
para tratamento de efluentes, existe a adsorção. Esta técnica consiste em um fenômeno físico-químico
onde o componente em fase líquida é transferido para a superfície de uma fase sólida. Os componentes
que se unem à superfície são chamados adsorvatos, enquanto que a fase sólida que retém o adsorvato é
chamada adsorvente. A remoção das moléculas a partir da superfície é chamada dessorção (MASEL, 1996).
Sendo a adsorção um fenômeno essencialmente de superfície, para que um adsorvente tenha uma
capacidade adsortiva significativa, deve apresentar uma elevada área superficial específica, o que implica
em uma estrutura altamente porosa. As propriedades adsortivas dependem do tamanho dos poros, da
distribuição do tamanho dos poros e da natureza da superfície sólida (BRAGA, 2008).

8
Orientadora: Renata Cristina Ferreira Bonomo – Professora DTRA/UESB

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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Segundo Guiochon et al. (1994), o equilíbrio termodinâmico nos processos adsortivos geralmente é
apresentado na forma de isotermas de adsorção. As isotermas são apresentadas sob a forma de gráficos,
sendo dadas pela relação entre a concentração de soluto na solução (na abcissa, expressa em unidades de
massa de soluto por volume de solução) e a concentração de soluto na superfície do adsorvente (na
ordenada, expressa em unidades de massa de soluto por massa de adsorvente) (ARAÚJO, 1996).
Isotermas, tanto para compostos puros como para misturas de diferentes compostos são de grande
importância nas ciências de separação, pois permitem calcular o desempenho de unidades, comparar o
potencial de diferentes esquemas de separação e, com algumas extensões, predizer as taxas de produção e
a extensão da purificação que deverá ser alcançada. Por último, dizem claramente qual deverá ser a melhor
separação possível e permitem comparações simples entre diferentes esquemas de separação (GUIOCHON
et al, 1994).
No estudo do equilíbrio, a isoterma de adsorção representa o equilíbrio sólido-líquido de um soluto
adsorvido em uma dada massa de fase estacionária em contato com uma solução contendo o soluto. As
isotermas mais utilizadas atualmente no equilíbrio sólido-líquido são as de Langmuir e Freundlich (FONTAN
et al., 2003).
O modelo de isoterma de LANGMUIR (1916), Equação 1, aparece para explicar, de forma favorável,
os dados de adsorção obtidos em baixas ou em moderadas concentrações.
qm c (
q
kd  c 1)
Onde q é a quantidade de soluto adsorvido por unidade de massa ou por volume do adsorvente
(mg/g ou mg/mL); qm é a quantidade máxima de soluto adsorvida na fase sólida (mg/g); c é a concentração
do soluto na fase líquida, no equilíbrio (mg/mL); kd é a constante de dissociação que descreve o equilíbrio
da adsorção (mg/mL).
De acordo com Guiochon et al. (1994), o modelo de Langmuir aparece como a primeira escolha de
equação teórica para ajustes de resultados experimentais em que se considera a adsorção de um
componente.
O modelo de isoterma empírica de Freundlich (equação 2) descreve a adsorção de componentes
polares em adsorventes polares ou de compostos fortemente polares em solventes cuja polaridade é baixa
ou média:
(
q  KC 1/ n 2)
Onde: o expoente 1/n é menor que a unidade.
O modelo de Freundlich parece próprio para avaliar a adsorção de certas proteínas em
cromatografia de troca iônica (GUIOCHON et al., 1994) e tem a principal desvantagem de violar o modelo
da isoterma de Gibbs, já que não é termodinamicamente consistente.
Ambos os modelos têm uso extensivo para descrever o comportamento e a capacidade de
adsorção em vários processos de remoção de compostos orgânicos em água e são comumente usadas para
selecionar o melhor adsorvente em relação a outros, estimar a vida útil do adsorvente e testar a
capacidade de adsorção deste (OXENFORD & LYKINS, 1991).
Com base nessa necessidade de se determinar parâmetros essenciais na obtenção de um
adsorvente mais eficiente na remoção de compostos orgânicos, potenciais poluidores, presente em corpos
d’água objetivou-se analizar o comportamento de equilíbrio no processo adsortivo da proteína do soro
bovino (BSA) na resina aniônica Q Sapharose Fast Flow.

MATERIAL E MÉTODOS:
O experimento foi conduzido no laboratório de Engenharia de Processos (LEP) da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia, campus Juvino Oliveira, Itapetinga-Ba. O adsorvente utilizado no
experimento foi a resina aniônica Q Sapharose Fast Flow, e o adsorvato foi albumina de soro bovino (BSA).
A curva padrão foi construída a partir de uma solução de 1mg/mL de soro albumina bovina (BSA) e
suas diluições (20 µg.mL-1, 60 µg.mL-1, 100 µg.mL-1, 200 µg.mL-1, 300 µg.mL-1, 400 µg.mL-1, 500 µg.mL-1, 600
µg.mL-1, 700 µg.mL-1, 800 µg.mL-1, 900 µg.mL-1, 1000 µg.mL-1), sendo que a quantificação de proteínas
seguiu o método de Bradford em micro-ensaio (BRADFORD, 1976).

João Pessoa, outubro de 2011


135

Foram pesados aproximadamente 0,1 g de resina aniônica Q Sapharose Fast Flow, acondicionados
com 4 mL de solução tampão fosfato de sódio (pH 7,4) 0,02 M com adição de cloreto de sódio 0,1 M, em
tubos de ensaio, que foram colocados em rotação contínua, durante 12 horas a temperatura ambiente.
Posteriormente adicionou-se 1 mL da solução da proteína e o processo adsortivo foi mantido por
outras 12 horas com agitação constante e temperatura controlada numa estufa BOD a 40° C. Antes de se
realizar a leitura os tubos foram centrifugados a uma rotação de 3000 rpm durante 3 minutos.
Em seguida, alíquotas de 100 μL da solução foram adicionadas em tubos contendo 5 mL de solução
de Bradford para a quantificação da proteína, agitando em vórtice e deixando em repouso por 5 minutos. A
leitura da absorbância foi realizada em espectrofotômetro no comprimento de onda de 595 nm. As análises
foram feitas em triplicatas.
Foram ajustados modelos não-lineares aos dados experimentais observando o coeficiente de
determinação, a significância dos parâmetros, a análise dos resíduos e a concordância com o fenômeno
estudado. Os modelos foram avaliados e os respectivos gráficos construídos utilizando-se o software
SigmaPlot® v.11.0.

RESULTADOS E DISCUSSÃO:
A partir dos resultados experimentais plotou-se um gráfico que relaciona as concentrações na
solução e no adsorvente após atingir o equilíbrio (Figura 1). As curvas construídas representam as
isotermas de adsorção dos modelos de Langmuir e Freundlich.

Figura 1 – Dados de equilíbrio de adsorção da proteína BSA na resina Q Sapharose Fast Flow.

De acordo com a significância dos parâmetros e com o coeficiente de determinação (R2 > 0,90), os
modelos de Langmuir e Freundlich ajustaram-se satisfatoriamente aos dados experimentais (Tabela 1). As
equações obtidas foram utilizadas para calcular a concentração de BSA na resina no equilíbrio (Tabela2),
para verificar a aleatoriedade de erro.
Entretanto o modelo que se ajustou de forma mais satisfatória aos dados experimentais foi o de
Langmuir, que apresentou R2 = 0,972 e menores erros na análise de aleatoriedade de resíduos (Figura 2),

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


136

além de ser favorável para a adsorção de um componente, compreender uma extensa faixa de
concentração e considerar que o processo ocorre em monocamada.

Tabela 1 – Parâmetros dos modelos de isoterma de Langmuir e Freundlich.

Tabela 2 – Valores experimentais e preditos das concentrações no equilíbrio da proteína BSA na


resina aniônica.

João Pessoa, outubro de 2011


137

Figura 2 – Análise de resíduo da concentração de BSA na resina no equilíbrio.


Observou-se que a quantidade máxima de BSA que é adsorvida pela resina Q Sapharose Fast Flow,
utilizando 0,1 M de NaCl, na temperatura de 40°C foi de 33,503 mg.g-1. Em relação a constante kd, que
representa a razão entre a constante de dessorção e adsorção, o valor encontrado sugere que o equilíbrio
se desloca no sentido da dissociação do produto resina-BSA e consequentemente a dessorção ocorre fácil e
rapidamente.

CONCLUSÕES
O processo adsotivo utlizado demonstrou que a resina aniônica Q Sapharose Fast Flow obtém
resultados satisfatórios na separação da proteína BSA nas condições estudadas.
Utilizando os modelos matemáticos não-lineares de Langmuir e Freundlich, foram obtidas equações
que representam as relações de equilíbrio do processo. O modelo proposto por Langmuir foi escolhido
como melhor ajuste.
Para otimizar os resultados obtidos faz-se necessário outros estudos a fim de avaliar a influência
das variáveis pH, temperatura e concentração de sal.

REFERÊNCIAS
ARAÚJO, M. O. D. Adsorção de albumina de soro bovino em resinas trocadoras de íons, Campinas,
[Dissertação de mestrado], Faculdade de Engenharia Química, Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP), SP, 85 p, 1996.
BRADFORD, M., A rapid and sensitive method for the quantitation of microgram quanties of protein
utilizing the principle of protein-dye biding, Analytical Biochemistry, v. 72, p. 248-254, 1976.
BRAGA, R. M. Uso de argilominerais e diatomita como adsorvente de fenóis em águas produzidas
na indústria de petróleo. [Dissertação de mestrado] Programa de Pós- Graduação em Ciência e Engenharia
de Petróleo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal, 82 p, 2008.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


138

FONTAN, R. C. I.; MINIM, L. A.; BONOMO, R. C. F.; COIMBRA, J. S. R.; SARAIVA, S. H.; MINIM, V. P. R.
Utilização de técnicas adsortivas na purificação de proteínas do soro de queijo. Revista do Instituto de
Laticínios Cândido Tostes, v. 58, n. 333, p. 210-214, 2003.
GUIOCHON, G., SHIRAZI, S. G. and KATTI, A. M. Fundamentals of Preparative and Nonlinear
Chromatography. Academic Press, 1ª ed., London, 697p, 1994.
LANGMUIR, I., The Constituition and Fundamental Properties of Solids and Liquids.
Journal of the American Chemical Society, v. 30, p.2263-2295, 1916.
MASEL, R. I. Principles of Adsorption and reaction on solid surfaces. Canada, John Wiley & Sons, p.
112, 1996.
OXENFORD, J.L.; LYKINS, W. Jr. Conference summary: Pratical aspects of the design and use of GAC.
Jornal American Water Woorks Association. Washington, p. 58-64, 1991.
PEREA, A,. UGALDE, U., RODRIGUES, I. and SERR, J.L. Preparations and characterization of whey
protein hydrolysates: applications in industrial whey bioconversion process.
Enzyme and Microbial Technology, v. 15, p. 418-423, 1993.

João Pessoa, outubro de 2011


139

EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA O SANEAMENTO DA HABITAÇÃO RURAL


Antonio Cesar Cassol da ROCHA,
Divisão de Engenharia de Saúde Pública, Fundação Nacional de Saúde/RS antonio.rocha@funasa.gov.br
Arquiteto Sanitarista
Kátia Jobim LIPPOLD,
Kátia.lippold@funasa.gov.br
Serviço de Saúde Ambiental, Seção de Educação em Saúde, Fundação Nacional de Saúde/RS
Educadora, Sanitarista
Tânia Marli Stasiak WILHELMS,
Divisão de Vigilância Ambiental em Saúde – Secretaria Estadual de Saúde/RS
tania-wilhelms@saude.rs.gov.br
Arquiteta Sanitarista

RESUMO
A promoção da melhoria das habitações onde se verifica o favorecimento da colonização de
vetores da doença de Chagas apresenta-se com singularidade na região noroeste do estado do Rio Grande
do Sul, pois se refere a necessidade de melhorias das propriedades e da necessidade de mudanças nos
hábitos econômico-culturais de utilização dos espaços de moradia rural. A Fundação Nacional de Saúde em
parceria com a Secretaria Estadual de Saúde vem trabalhando no Programa de Melhoria Habitacional para
o Controle da Doença de Chagas desde 2001 com o objetivo de tornar as unidades habitacionais refratárias
ao Triatoma infestans (barbeiro), transmissor da doença de Chagas. O Programa desencadeou um processo
que envolveu capacitações, inquérito domiciliar, ajuste de propostas municipais, oficinas educativas,
reorganizações administrativas e técnicas e a integração dos gestores do Sistema Único de Saúde. O
investimento público nesta área de melhoria habitacional tem motivado a população contemplada em
atuar na vigilância do vetor além de levar a reflexão sobre a qualidade de vida por meio das propostas de
educação em saúde ambiental. O desenvolvimento do processo educativo, teve o papel de comprometer
os beneficiados a serem os agentes transformadores da realidade local, contribuindo para a
sustentabilidade das melhorias implantadas.
Palavras-Chave: Doença de Chagas; Melhoria habitacional; Triatoma infestans; Saneamento
domiciliar; Educação em saúde ambiental.

INTRODUÇÃO
A doença de Chagas, causada pelo Trypanosoma cruzi, é um problema de saúde pública no Brasil. A
via de transmissão mais importante desta doença é vetorial intradomiciliar, através do Triatoma infestans
seu principal vetor no Rio Grande do Sul. Em decorrência da característica da transmissão natural da
doença de Chagas as atividades prioritárias desenvolvidas no Programa de Controle da Doença de Chagas
(PCDCh) são de vigilância entomológica.
O Ministério da Saúde, na década de 80, através da Superintendência de Campanhas de Saúde
Pública (SUCAM) usou como forma de controle do vetor o tratamento químico. Anos de borrifação nas
residências e no peridomicílio das áreas com presença do barbeiro reduziram sua infestação. Os recursos
financeiros deste programa no território brasileiro, incluindo o controle entomológico tem sido alvo de
intensa discussão, mas pouco se investiu no programa de melhoria habitacional para o controle do vetor,
principalmente nas zonas rurais.
No Rio Grande do Sul a presença do vetor está vinculada às precárias condições de moradia
principalmente da população rural e a dificuldade na sua eliminação é atribuída as condições sócio-culturais
dos moradores, aos hábitos e costumes, a forma de armazenamento de madeira e implementos agrícolas,
bem como a manutenção dos depósitos de alimentos e abrigos de animais presentes no peridomicílio, os
chamados anexos da residência (anexos).
O PCDCh tem desenvolvido varias atividades, entre elas a pesquisa ativa do vetor, o
tratamento químico ou borrifação, as visitas mensais aos Posto de Informação de Triatomíneos (PITs),
elaboração do Plano Operativo Anual, a atualização dos mapas utilizando o georeferenciamento, a

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


140

vigilância epidemiológica de pacientes e exames sorológicos dos moradores de residências onde foi
encontrado triatomíneos.
Além das ações de vigilância entomológica a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em parceria
com o Centro Estadual de Vigilância em Saúde da Secretaria Estadual de Saúde (CEVS/SES) realiza o
Programa de Melhoria Habitacional para o Controle da Doença de Chagas (PMHCh) na região noroeste do
Rio Grande do Sul. A melhoria habitacional é uma medida de controle indicada para esta região, devido as
características culturais da população em manter inúmeros anexos em más condições no peridomicílio,
favorecendo o desenvolvimento deste vetor. Nesta área a economia rural é caracterizada por pequenas e
médias propriedades com vários anexos, herança do hábito dos colonizadores principalmente por
imigrantes italianos, poloneses e alemães. Fazem parte destes anexos galpões, galinheiros, pocilgas, fornos,
cercas entre outros, que configurem peridomicilio conforme a propriedade a ser atendida pelo Programa.
A parceria entre a Funasa e a SES/ CEVS tem integrado ações de vigilância ambiental com as ações
de saneamento. O programa fundamenta-se em critérios epidemiológicos e segue as orientações técnicas
dos convênios da Funasa na escolha dos municípios, localidades e moradores beneficiados.
O Projeto de Educação em Saúde e Mobilização Social – Pesms (Funasa) é parte integrante
do convênio sendo elaborado e desenvolvido pelas Prefeituras Municipais conveniadas com a participação
das comunidades beneficiadas.
O Pesms tem o objetivo de estimular a participação e a organização comunitária, por
intermédio de ações permanentes de educação em saúde, proporcionando acesso às melhorias
habitacionais. É uma estratégia integrada para alcançar os indicadores de impacto correspondentes, de
modo a estimular o controle social e a participação da comunidade.
A educação em saúde ambiental é compreendida neste processo como exercício de
cidadania, de participação social e de formação de consciência crítica dos sujeitos ao atuar na
transformação da realidade.

METODOLOGIA
Os municípios e suas respectivas localidades são selecionados a partir dos critérios técnicos
estabelecidos, indicados pelo CEVS/SES – áreas de risco ao Triatoma infestans (Figura 01). São consideradas
áreas de risco as áreas com persistência de infestação nos últimos cinco anos (critério técnico). O Estado
classifica os municípios em três grupos, conforme a presença do vetor: I) municípios com infestação
persistente (positivo mais de 2 vezes em 5 anos); II) municípios com infestação recorrente (positivo até 2
vezes em 5 anos); III) municípios com infestação esporádica (positivo uma vez em 5 anos).

João Pessoa, outubro de 2011


141

Figura 01: Áreas de risco com resíduos de infestação por


Triatoma infestans (1996-2001) RS.

A relação dos municípios contemplados é publicada pela Funasa e a Equipe Técnica


desenvolve as atividades após o empenho do recurso financeiro.
As atividades propostas para a localidade beneficiada são desenvolvidas através de equipe
multidisciplinar das áreas de engenharia, educação, agricultura e saúde. Inicialmente a equipe observa e se
apropria da realidade para identificar os problemas de saúde e suas causas além da doença de chagas que é
o objeto principal do programa. Os conhecimentos são compartilhados através das reuniões e oficinas
visando alternativas para soluções.
Fazem parte deste processo à apropriação da legislação, determinação das parcerias,
capacitações para técnicos e operários da construção civil, aplicação de inquérito sanitário, visitas
domiciliares, oficinas educativas, orientação para elaboração do projeto, assessoramento aos técnicos dos
municípios, oficinas com a comunidade, capacitação para prestação de contas, acompanhamento nas
execuções das obras e nas atividades educativas.
As famílias são sensibilizadas durante as atividades educativas e nas visitas individuais sobre
saúde ambiental enfatizando-se aspectos referentes ao meio rural; quanto à importância da limpeza e
caiação de todos os anexos até mesmo com relação às edificações que não sofreram reformas, alcançando
assim várias melhorias com custo mínimo. Apartir das oficinas educativas a comunidade organiza-se para
em conjunto contribuir com ações como mutirões de limpeza, poda de árvores, organização de hortas
entre outras.
Todas as atividades do Programa são integradas com o Projeto de Educação em Saúde e
Mobilização Social (Pesms) desde a fase de planejamento, execução das obras e avaliação dos serviços
implantados. O processo educativo permanece ao longo do desenvolvimento das ações e continua após a
conclusão das obras físicas em caráter de avaliação. Durante o desenvolvimento do projeto é realizado o
acompanhamento técnico das obras e a avaliação permanente das ações executadas.
Os técnicos da Funasa e do CEVS/SES realizam o suporte técnico aos gestores municipais
durante todas as fases do processo. Estas atividades integram as instituições unindo suas missões e seus
técnicos.

RESULTADOS

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


142

O programa já atendeu aproximadamente 1500 Unidades Habitacionais (Uds) com ações de


restaurações e/ou reconstrução juntamente com o projeto educativo atingindo em torno de 6000 pessoas.
Atualmente está tendo continuidade através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Observa-se a transformação da realidade local nas habitações bem como a satisfação das
famílias beneficiadas ao participarem e a se responsabilizarem com o processo de melhoria.
Nesta região existem muitos domicílios que são grandes. O hábito local de usar madeira na
sua construção e a necessidade de realizar inúmeras ações de restauração implica em maior aplicação de
recursos. As péssimas condições de algumas propriedades e dos seus anexos levam a decisão da sua
demolição aproveitando-se parte do material na reconstrução (figura 02).
As madeiras sem condições de uso foram picadas para serem aproveitadas como combustível
no fogão ou forno, seguindo indicação das atividades educativas onde os proprietários participavam das
decisões.

Figura 02: Propriedade rural no município de Santa Rosa – RS


Fonte: Arquivos do CEVS/SES

Os projetos mantiveram a originalidade das propriedades, embora muitas tenham sido


redimensionadas visando à organização dos espaços internos e externos.
As construções novas foram planejadas em alvenaria, pois a madeira de boa qualidade tem
custo elevado e necessita de muita manutenção, o que é difícil no meio rural. Estas foram de tipologia
simples, adequadas ao local e ao clima da região.
As casas e em alguns casos, os anexos, possuem porões aproveitando a inclinação do terreno
e proporcionando a ventilação deste devido os pisos serem de madeira, (Figura 04). É comum o porão ser
utilizado como depósito tornando-se alojamento de animais domésticos e com isto um local favorável para
o T. infestans que encontra o abrigo e alimento.
Após as reuniões educativas de informação e sensibilização do problema estes espaços foram
limpos e em certos casos fechados com tela ou alvenaria, sendo esta ação de extrema importância para o
controle do vetor.

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Figura 03: Município de Alegria - RS Figura 04: Município de Alegria - RS


Execução do Módulo Sanitário e restauração Casa após a restauração.
da casa. Fonte: Arquivos do CEVS/SES
Fonte: Arquivos do CEVS/SES

Neste projeto o módulo sanitário é edificado na extremidade da casa facilitando o aceso,


(Figura 03 e 04). As antigas fossas secas são demolidas evitando a contaminação do meio ambiente. Além
dessas obras os beneficiários realizam atividades pactuadas nas oficinas educativas como limpezas nos
porões e pátios, armazenamento correto de madeiras, podas de árvores, demolições de edificações sem
utilização, manejo adequado com animais e com o ambiente externo da propriedade.

CONCLUSÃO
As atividades de melhoria habitacional tiveram destaque na 6ª Avaliação do Programa Nacional de
Controle da Doença de Chagas no Brasil e foi recomendada a continuidade do mesmo. Os focos residuais
do vetor estão atribuídos aos hábitos e costumes no manuseio do ambiente. O saneamento e a melhoria
habitacional previnem vários agravos à saúde além de melhorar a qualidade de vida da população.
A descentralização das ações de controle das endemias para os estados, tornou premente a
parceria dos gestores do SUS para a continuidade e a viabilização deste programa, permitindo que o
ambiente de moradia, o ambiente cultural e o ambiente sócio-econômico se integrem nas ações de
habitação e de saneamento ambiental.
A criação do grupo multidisciplinar que se formou para este trabalho foi positiva, construindo
ações que resultaram em um conjunto de soluções. A inserção dos profissionais junto à comunidade foi
fundamental para o estímulo da população a participarem de todas as etapas da implantação e execução
do projeto.
Além da mudança física, onde predominaram as restaurações percebeu-se a mudança de
hábitos, elevando a auto-estima da população beneficiada, tudo isto reflexo das oficinas educativas nas
quais os envolvidos sempre participaram e se responsabilizaram pelo processo.
O saneamento e a melhoria habitacional previnem vários agravos de saúde, não somente o
controle da doença de Chagas; além de melhorar a qualidade de vida da população e o meio ambiente.
O programa está movimentando a comunidade e a circulação de recursos no município e
também motivando a integração dos gestores do Sistema Único de Saúde (SUS). A avaliação do impacto
epidemiológico de controle do vetor é contínua e permanente, procurando manter sempre a habitação
saudável.
O Pesms proporcionou a reflexão das comunidades quanto aos seus problemas de saúde
estimulando a busca de soluções individuais ou coletivas, permitindo também uma maior aproximação da
comunidade com os gestores municipais.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


144

As ações de educação em saúde são de extrema importância, pois estimulam a apropriação do


conhecimento e o exercício do controle social sobre as melhorias habitacionais que estão sendo realizadas.
A participação da comunidade em todas as fases do processo está contribuindo para a
sustentabilidade das obras implantadas, melhorando a auto-estima da população beneficiada, mantendo a
vigilância e promovendo a saúde.

BIBLIOGRAFIA
EPIDEMIOLOGIA da doença de Chagas. Revista de Patologia Tropical, Goiás, v. 29, jan./jun.2000.
Suplemento.
FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE. Controle da doença de Chagas. Brasília, 1996.
FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE. Critérios e procedimentos para aplicação de recursos financeiros.
Brasília, 2001.
BRASI Ministério da Saúde. Superintendência de Campanhas de Saúde Pública – SUCAM. Doença de
Chagas: Texto de apoio. Brasília, 1989, 52 p.
SILVA, L. J. Doença de Chagas no Brasil: sua expansão e fatores de risco perspectivas para um futuro
próximo. Revista de Patologia Tropical. Goiânia, GO, v.29, p 67-74 jan./jun. 2000 suplemento.
DIAS, J.C. DIAS, B. R. Aspectos sociais, econômicos e culturais da Doença de Chagas. Ciência e
Cultura, n: 31 p. 105–124, 1979.
FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE. Educação em Saúde - Diretrizes. Brasília, 2007.

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EDUCAÇÃO AMBIENTAL E SAÚDE GLOBAL COMO INSTRUMENTO PARA A


MELHORIA DO ENSINO INFANTIL
Thayz Rodrigues Enedino1, thayzsuzuky@yahoo.com.br;
Micheline de Azevedo Lima2, michelinealima@hotmail.com;
Évio Eduardo Chaves de Melo3, jetmelo@hotmail.com.
1 Graduanda do Curso de Ecologia, Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Rua Manoel Gonçalves, Centro, Rio Tinto, PB,
CEP 58.297-000.
2 Professora Adjunta do Departamento de Engenharia e Meio Ambiente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Rua
Manoel Gonçalves, Centro, Rio Tinto, PB, CEP. 58. 297-000.
3 Professor Adjunto do Departamento de Engenharia e Meio Ambiente da Universidade Federal d a Paraíba (UFPB) Rua
Manoel Gonçalves, Centro, Rio Tinto, PB, CEP. 58. 297-000.
Universidade Federal da Paraíba, Departamento de Engenharia e Meio Ambiente,
Rua Manuel Gonçalves, s/n. CEP. 58. 297-000 Rio Tinto, Paraíba, Brasil.

RESUMO
No ensino infantil, a educação ambiental deve ser desenvolvida com finalidade de ajudar os alunos
a construírem uma consciência ambiental para que possam assumir posições afinadas com os valores
referentes à proteção e melhoria do meio ambiente. Para isso é importante atribuir significado àquilo que
aprendem sobre a questão ambiental. O objetivo deste trabalho é identificar os problemas ambientais
presente na escola, inserir palestra no campo de saúde global e fazer ações educativas para assim
desenvolver os instrumentos mais viáveis à conduta do estudante. O projeto desenvolvido foi um
instrumento para a melhoria da qualidade do ensino infantil implantado na Escola Adailton Coelho Costa
através do projeto de extensão “Ecologia e Saúde na Escola” formado por 17 estudantes, 1 bolsista, 2
coordenadores e uma enfermeira do PSF. Nos procedimentos metodológicos foram utilizados cartazes
ilustrativos, data-show, dinâmicas interativas e foram elaborados entrevistas para saber o rendimento do
aluno em relação ao ensino da educação ambiental. A maioria dos estudantes apresentou mudanças de
comportamento a exemplo de deixarem a sala de aula limpa, separa lixo orgânico dos sólidos, saber a
importância do desenvolvimento sustentável e despertaram um novo olhar para as questões ambientais.
Portanto concluirmos que, a educação ambiental oferece os instrumentos ideais para que os alunos
possam compreender os problemas de saúde global e ambiental para assim colocar em prática o exercício
da cidadania proporcionando a construção de uma sociedade ecologicamente correta.
PALAVRAS-CHAVE: escola, meio ambiental, saúde.

INTRODUÇÃO
A Educação Ambiental surgiu como resposta à preocupação da sociedade com o futuro da vida,
cuja principal finalidade é superar a dicotomia entre natureza e sociedade, através da formação de uma
consciência ecológica das pessoas. Sustentada na aprendizagem permanente, a educação ambiental baseia-
se no respeito a todas as formas de vida e no estímulo às sociedades socialmente justas e ecologicamente
equilibradas, mantendo entre si a relação de interdependência e diversidade. Esta conduta ética e moral
são pautadas na responsabilidade individual e coletiva, tanto em nível local, como nacional e global.
Infelizmente, com raras exceções, tal conduta está ausente no modelo político de produção industrial e
agroindustrial do país, pois a lógica de mercado impede qualquer ética e o simples exercício da cidadania
(Seabra, 2009).
Educação Ambiental é um processo educativo eminentemente político, que visa ao
desenvolvimento dos educadores de uma consciência crítica acerca das instituições, atores e fatores sociais
geradores de riscos e respectivos conflitos socioambientais. Busca uma estratégia pedagógica do
enfrentamento de tais conflitos a partir de meios coletivos de exercício da cidadania, pautados na criação
de demandas por políticas públicas participativas conforme requer a gestão ambiental democrática
(Layargues, 2002).
Na Constituição Federal, na Lei nº 9.795/99, a educação ambiental é institui a Política Nacional de
Educação Ambiental e em seu Decreto regulamentador (4.281/02), deve proporcionar as condições para o
desenvolvimento das capacidades necessárias para que grupos sociais, em diferentes contextos

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


146

socioambientais do país, intervenham de modo qualificado, tanto na gestão do uso dos recursos
ambientais, quanto na concepção e aplicação de decisões que afetam a qualidade do ambiente, seja físico-
natural ou construído (Quintas, 2002).
A saúde global, em geral, indica a consideração das necessidades de saúde da população de todo o
planeta, acima dos interesses de nações em particular e está relacionada às variações de condições
ambientais (Brown, 2006). A alteração do estado de conservação do planeta Terra ocorre comumente com
o aumento do aquecimento global e ações antrópicas favorecendo um mau desequilíbrio natural. Então
ensinar aos alunos a importância de cuidar da natureza é um papel vital para uma boa qualidade de vida na
Terra. Sendo assim, atitudes favoráveis à saúde são construídas desde a infância, por meio da identificação
de valores observados nos grupos de referência (Gil, 1999). A escola é como um microorganismo social, que
cumpre um papel de destaque na formação de cidadãos para uma vida saudável, considerando-se a relação
entre o grau de escolaridade e o nível de saúde dos indivíduos e grupos populacionais (Leavell, 1977).
Segundo o Ministério da Saúde, as escolas têm apresentado diversas significações no que diz respeito à sua
função social, missão e organização, de modo que, atualmente, apresentam-se como espaços sociais nos
quais são desenvolvidas processos de ensino e aprendizagem que articulam ações de natureza diversas,
envolvendo seu território e seu entorno (Brasil, 2006a).
O principal objetivo desse trabalho é inserir a educação ambiental e saúde global como
instrumento de ensino na Escola Adailton Coelho Costa para integrar as crianças ao Meio Ambiente como
também oferecer uma melhor qualidade de saúde coletiva, proporcionando uma visão ecológica na
exploração dos recursos naturais.
MATERIAIS E MÉTODOS
Área de estudo
O estudo foi realizado na Escola Adailton Coelho Costa situada na cidade de Mamanguape-PB,
aproximadamente 50 km da capital, a qual possui uma área de 349 Km2, inserida na microrregião norte do
Estado, cujas coordenadas geográficas são: 6º50’20' de latitude sul e 35º07’33' de longitude (Figura 1).

Figura 1: Mapa de localização da cidade de Mamanguape-PB. Fonte: IBGE, 2010.

O município de Mamanguape está inserido na unidade geoambiental dos tabuleiros costeiros. O


Vale do Mamanguape possui as principais áreas de preservação ambiental do Estado, Reserva Biológica
Guaribas e Área de Proteção Ambiental peixe-boi, as quais vêm sendo foco de pesquisas e de projetos de
extensão, buscando melhorias de interação correta com a população.
A escola Adailton Coelho Costa fica situada especificamente no bairro Gurguri. Em 2010
estavam matriculados aproximadamente 315 alunos, entre crianças e adolescentes, distribuídos nos turnos
manhã e tarde.
Coleta de Dados e Atividades exercidas

No primeiro momento, foi realizada uma pesquisa com abordagem qualitativa, por meio de uma
entrevista direta com o diretor e todos os professores e funcionários da escola Adailton Coelho Costa onde

João Pessoa, outubro de 2011


147

foram desenvolvidos os trabalhos feitos pela equipe do projeto composta por 17 alunos da UFPB do curso
de Ecologia, uma coordenadora e colaborador que faz parte da equipe de professores do Departamento de
Engenharia e Meio Ambiente da UFPB, e por último uma enfermeira, colaboradora extensionista (Foto 1).

Foto1: Equipe do projeto “Ecologia e saúde na escolar” Fonte: Izolda dos Santos Rodrigues Neta.

Neste momento foi discutida uma série de questões, que teve como finalidade, construir um maior
embasamento para adentrar-se em determinadas características e diagnosticar as necessidades
apresentadas, sendo também proposto, aos mesmos, a colaboração e a sensibilização sobre a importância
desse projeto para toda a comunidade. Após a entrevista, foram lançados a todos da equipe do projeto a
incumbência de tratar os assuntos discutidos através de uma gama de possibilidades levando aos alunos a
promoção de hábitos e posturas voltadas para a melhoria das condições de qualidade de vida e
comprometimento e consciência ambiental.
A segunda parte iniciou com as ações propriamente ditas através dos grupos formados por seis
pessoas que vão à escola, a cada oito dias, visitar as salas de aulas para discutir e orientar como serem
cidadãos atuantes e comprometidos com a busca de soluções viáveis para os problemas ambientais e de
saúde, visando melhores condições de saúde.
Reuniões de planejamento foram feitas a cada quinze dias para distribuir os assuntos e designar os
nomes que formaram os grupos de visita, e que essas visitas foram feitas três vezes a mesmas salas de
aulas, a fim de avaliar e verificar se houve melhor compreensão e sensibilização do público trabalhado.
Cada assunto abordado ocorreu de acordo com o “Cronograma do Projeto”.
Os assuntos desenvolvidos em sala de aula contam com uma gama de diversidade de atividades
desenvolvidas como foco educativo e vem sendo desenvolvidas respeitando cada faixa etária dos
estudantes trabalhados. As pesquisas sobre os assuntos dos temas diagnosticados para serem abordados
foram de natureza bibliográfica, sempre com embasamento científico. Os temas trabalhados foram

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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palestras sobre cuidados com a higiene, educação ambiental, saúde global, comportamento alimentar,
plantas medicinais, saúde bucal entre outros.
As atividades educativas vêm sendo trabalhadas por meios de palestras orais e áudios-visuais,
através de cartazes e slides utilizando data-show, vídeos, oficinas, apresentações artístico-culturais de
caráter lúdico, fantoches, dinâmicas de grupos, distribuição de folhetos, construções coletivas de cartazes,
brincadeiras de caráter educativo, gincanas, músicas e etc. Em alguns temas, como saúde bucal, houve dois
momentos, o teórico (na construção da importância da higiene bucal) e prático (distribuição de escovas e
cremes dentais, além do ensino a escovação correta dos dentes) monitorado e orientado pelos membros
do projeto. A educação ambiental também seguiu a mesma linha de conduta, onde os alunos realizaram na
parte prática a implantação de pequenos coletores coloridos para coleta seletiva, o cultivo e cuidado de
plantas e as coletas de lixos espalhados na escola.
As avaliações foram executadas no decorrer das atividades através de questionários
interativos, confecção de cartazes, pinturas e outros, utilizando diferentes materiais como: cartolina,
caneta, revista, jornal, tesoura, cola, papel ofício, tecido, tinta colorida, isopor, CD e borracha (Foto 2).
Desta forma, foi possível medir o nível de aprendizado dos alunos através da compreensão dos temas
abordados.

Foto 2: Atividades exercidas pelas crianças no projeto. Fonte: Izolda dos Santo Rodrigues Neta.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A educação garante o acesso às informações necessárias para a valorização e incorporação de
hábitos saudáveis (prevenção ativa), além de promover uma cultura de paz, valorizando não só o indivíduo
e suas habilidades, mas também o coletivo, capacitando-os a resolverem problemas pessoais e da
comunidade. As informações foram transmitidas de forma lúdica, por meio de dramatizações, música,
vídeos, jogos, atividades culturais e serviços de saúde para compreender sobre a importância do
desenvolvimento sustentável e o despertar de um novo olhar para as questões ambientais (Foto 3).
O desenvolvimento do projeto proporcionou resultados positivos e satisfatórios, observados e
evidenciados a partir de reuniões com o corpo docente e diretor da escola, sendo o projeto valorizado pela
didática utilizada através de abordagem interativa com os alunos. A maioria dos discentes apresentou
interesse crescente pelos temas abordados, onde se notou a participação efetiva tanto nas atividades
teóricas como nas práticas, além do cuidado com a escola, deixando a sala de aula limpa e separando os
lixos gerados. Outro resultado do projeto foi à redução do número de evasão dos alunos nos dias
programados das atividades do projeto.

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Foto 3: Dinâmica de grupos com as crianças e a enfermeira e colaborada Káthya Daniella. Fonte:
Izolda dos Santos Rodrigues Neta

A equipe do projeto preocupou-se em gravar as reuniões de avaliação com os profissionais da


escola, bem como das atividades realizadas com os alunos, em razão de demonstrar qualitativamente e
quantativamente os resultados finais da extensão e com isso, demonstrar o potencial de importância do
referido projeto.
Os membros da escola trouxeram nas suas falas elementos importantes que indicam os resultados
das atividades desenvolvidas, onde afirmam:
“A metodologia que vocês utilizam no projeto, faz o aluno se interessar mais pelos temas”
(Professora da 2ª série);
“[...] e nós, professores, terminamos aprendendo também” (Professora da 4ª série);
“Percebe-se a mudança de comportamento do aluno até na hora da merenda” (Diretora)
“[...] mudanças nas atitudes, escovando os dentes, deixando o banheiro limpo, não jogando o lixo
no chão, isso é muito importante” (Funcionário)
“Acreditamos que cada vez mais, eles vão assimilando os temas” (Professor da 3ª série)
“É notável a participação deles, eles estão bem empolgados [...]”

As diferentes práticas e metodologias abordadas contribuíram para incentivar os professores em


desenvolver e implantar ações locais nas escolas. Esse processo é, portanto, compartilhado e construído
coletivamente, de forma que seja factível de execução. A promoção da educação para a saúde em meio
escolar é um processo em permanente desenvolvimento. Estes processos devem ser capazes de contribuir
para a aquisição de competências das crianças, permitindo-lhes confrontar-se positivamente consigo
mesmas, construir um projeto de vida e ser capazes de fazer escolhas individuais, conscientes e
responsáveis.

CONCLUSÃO
O Projeto “Ecologia e Saúde na Escola” fortaleceu a atenção à saúde básica na escola, devendo ser
visto como um núcleo motivador da atuação participativa dos diversos profissionais na comunidade
escolar, que integra suas ações com os diferentes serviços, projetos e atividades de saúde disponíveis na
área e prioriza as demandas das escolas.
A metodologia aplicada no ensino da educação ambiental na escola ofereceu instrumentos ideais
para que os alunos possam compreender os problemas ambientais e de saúde global para assim colocar em
prática o exercício da cidadania proporcionando a construção de uma sociedade ecologicamente correta.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


150

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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educação. Brasília: Secretaria de Vigilância em Saúde. Ministério da Saúde, 2006 a.
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riscos. Editora Universitária (Org.). UFPB. João Pessoa, 2009, 11-24 p.

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A INFLUÊNCIA DE ELEMENTOS MICROMETEOROLÓGICOS NA INCIDÊNCIA


DOS CASOS DE DENGUE NA AMAZÔNIA OCIDENTAL
Ronei da Silva FURTADO¹
Vinicius Alexandre Sikora de SOUZA²
Renata Gonçalves AGUIAR³
¹Graduando em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Rua Rio Amazonas, n. 351, 76900-
000, Ji-Paraná. E-mail: wayneronei@hotmail.com
²Graduando em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Rua Rio Amazonas, n. 351, 76900-
000, Ji-Paraná.
³Professora Assistente da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Departamento de Engenharia Ambiental, Rua Rio
Amazonas, n.º 351, 76900-000, Ji-Paraná e Doutoranda no PPG em Física Ambiental – UFMT.

RESUMO
A dengue é uma patologia causada por um vírus que ocorre nos trópicos, sendo transmitida apenas
pela fêmea do mosquito da espécie Aedes aegypti e sua proliferação é ocasionada principalmente por
problemas urbanos, como, por exemplo, o armazenamento de água em recipientes inadequados. No
entanto, além dos problemas ocasionados por ações antrópicas, há também fatores naturais que
influenciam nesse processo, dentre os quais se destaca o clima - pois a incidência de dengue varia de
acordo com as condições climáticas, sendo a precipitação, a umidade do ar e a radiação solar condições
que favorecem a essa proliferação. Nesse sentido, o presente trabalho avaliou a influência de elementos
micrometeorológicos nos casos de dengue no município de Ji-Paraná – Rondônia nos anos de 2002 a 2008,
o qual se encontra na Amazônia Ocidental. Foram utilizadas técnicas de correlações entre os casos da
doença estudada e os parâmetros micrometeorológicos. Foi verificado que a precipitação é o fator que
mais influencia a incidência da dengue, embora não tenha havido valores estatísticos significativos.
Palavras-chave: Precipitação, clima, patologia, radiação solar.

ABSTRACT
Dengue is a disease caused by a virus that occurs in the tropics, and is transmitted only by the
female Aedes aegypti mosquito species, in which their proliferation is caused mainly by urban problems, for
example, storing water in containers inadequate. However, problems caused by human actions, there are
also natural factors that influence this process among which stands out the weather – because the
incidence of this varies according to climatic conditions – the increase in temperature, rainfall and humidity
air, which contribute in favor of proliferation. Accordingly, the present study evaluated the influence of
meteorological variables in cases of dengue in the Ji-Paraná - Rondônia, which is in the western Amazon,
for the years 2002 to 2008, totaling a period of 84 months, using techniques of correlations between the
cases of the disease studied and meteorological parameters. It was found that precipitation is the factor
that most influences the incidence of dengue, although there were statistically significant.
Keywords: Precipitation, climate, disease, solar radiation.

INTRODUÇÃO
Atualmente a dengue causa mais enfermidades e mortes nos seres humanos do que
qualquer outra doença transmitida por insetos, pois a cada ano, estima-se que 50 a 100 milhões de
pessoas são infectadas pela dengue e que dois quintos da população mundial está em risco de contrair essa
moléstia (CAZELLES et al., 2005). A WHO (2000) destaca que a distribuição geográfica da doença, frequência
dos ciclos de epidemia, bem como o número de casos de dengue aumentou drasticamente durante as
últimas duas décadas, tornado-se dessa forma um grave problema de saúde internacional, afetando
principalmente as regiões tropicais e sub-tropicais ao redor do mundo – especialmente em áreas urbanas e
peri-urbanas.
A dengue é uma patologia causada por um vírus que ocorre nos trópicos, sendo transmitida apenas
pela fêmea do mosquito da espécie Aedes aegypti que, ao se alimentarem de sangue humano para suprir

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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as necessidades protéicas da oviposição, infectam-se picando indivíduos virêmicos, e assim, infectam


indivíduos sadios quando fazem novo repasto sanguíneo (VERONESI; FOCACIA, 1996).
A proliferação do vetor causador dessa patologia se deve principalmente a problemas
urbanos, tais como: armazenamento de água em recipientes inadequados, falta de fiscalização apropriada
em estabelecimentos e residências que armazenam pneus, vasos de plantas, assim como nos depósitos de
lixo.
No entanto, além dos problemas ocasionados por ações antrópicas, há também fatores naturais
que influenciam nesse processo, dentre os quais se destaca o clima. O clima afeta diretamente a
proliferação do Aedes Aegypti, pois sua incidência flutua com as condições climáticas e está associada com
o aumento da temperatura, pluviosidade e umidade do ar, condições que favorecem o crescimento do
número de criadouros disponíveis e também o desenvolvimento do vetor (RIBEIRO et al., 2006).
Possuindo dois terços do território coberto pela Floresta Amazônica, o Estado de Rondônia,
localizado na região Norte do país, atualmente encontra-se em plena expansão agrícola, uma condição que
favorece a proliferação dos vetores e o aparecimento de casos dessa patologia. Além disso, esse Estado faz
fronteira com a Bolívia e abriga a principal ligação rodoviária do Acre com o restante do país, a BR-364, e
assim Rondônia ocupa posição de destaque na propagação de arbovírus (HENRIQUES, 2008).
Mediante o exposto, se observou a relevância de verificar a relação entre os casos dessa doença
com os dados da precipitação, umidade relativa do ar e radiação solar incidente no município de Ji-Paraná,
utilizando uma série de dados dos anos de 2002 a 2008.

MATERIAL E MÉTODOS
O município de Ji-Paraná (Figura 1) possui 116.610 habitantes (IBGE, 2010) e está localizado na
região central de Rondônia, a 10º52 53"S e 61º30 45"O, sendo esse inserido na Amazônia Ocidental.

Figura 1 - Localização do município de Ji-Paraná.

João Pessoa, outubro de 2011


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Na classificação de Köppen, o clima da região é caracterizado como CWa (tropical-quente e úmido)


(SEDAM, 2009). Segundo Aguiar et al. (2006), a temperatura média anual oscila de 24ºC na estação
chuvosa a 25ºC na seca. A precipitação pluviométrica anual é em média acima de 2.000 mm, com umidade
relativa do ar média de 82% (WEBLER; AGUIAR; AGUIAR, 2007).
O período estudado foi de 2002 a 2008, com utilização de dados micrometeorológicos e de
doenças, em escala mensal. Os índices de pessoas infectadas pelo vírus da dengue foram obtidos junto à
Divisão de Controle de Vetores da Secretaria Municipal de Saúde de Ji-Paraná – RO (SEMUSA), onde os
mesmos foram comparados com dados obtidos nos Boletins Climatológicos através da Secretaria do Estado
e Desenvolvimento Ambiental (SEDAM).
Primeiramente foi realizado um teste de normalidade Kolmogorov-Smirnov com nível de
significância de 0,05, utilizando o software Biostat 5.0 (AYRES et al., 2007). Foi constatado que não houve
evidências estatísticas para afirmar que os dados não sejam normais, sendo possível seguir com os
tratamentos estatísticos desse estudo.
A comparação dos dados foi realizada por meio do método de regressão linear simples,
comparando os dados na forma de totais mensais com o índice de ocorrência mensal, para que as
correlações fossem realizadas de forma direta entre as variações dos parâmetros climáticos estudados e a
variação de casos, considerando que o número de casos confirmados em estudo foi por convenção
representada pelo mês epidemiológico, no total de 84 meses.
Vale destacar que para essa análise os dados atenderam os pressupostos e para confirmar
estatisticamente se os coeficientes de determinação (r²) possuem resultados significantes, foi realizado um
teste de hipótese com nível de significância (α) igual a 0,05.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Ao comparar as séries de casos de dengue e precipitação (Figura 2) foi observado que os
dados não apresentam expressiva correlação, sendo que apenas nos últimos dois anos foi apresentada uma
relação mais clara entre o aumento no índice de chuvas e a incidência da dengue no município. Tal
observação diverge do padrão encontrado por Braga et al. (2004), que constataram a existência de uma
relação bem definida entre a precipitação e os casos de dengue na Paraíba, no período de 1998 a 2002,
sendo que essa defasagem na relação entre as variáveis estudadas ocorreu somente em um intervalo de
um a dois meses do período estudado.

Figura 2 - Distribuição dos casos de dengue e precipitação no município de Ji-Paraná - RO.

Ao analisar a relação entre a incidência de casos de dengue e a umidade relativa do ar é perceptível


uma divergência nos dados (Figura 3), ou seja, não foi possível observar uma tendência na variação dessa
variável com os casos de dengue. Situação semelhante foi descrita por Johansson, Dominic e Glass (2009),

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


154

onde tal pesquisa constatou a inexistência da relação entre essas variáveis para certas regiões de Porto
Rico.
No entanto, Lima, Firmino e Gomes Filho (2008), observaram, nos estados de Alagoas e Paraíba,
que durante os períodos mais úmidos, a distribuição espacial da doença se apresentou menos intensa,
enquanto que nos períodos mais secos as possibilidades de ocorrência aumentam. Frisa-se ainda que os
estudos de Gomes Filho et al. (2001) em Campina Grande-PB e Czuy et al. (2001) no município de Maringá-
PR, ambos citados em Andrade e Dantas (2004), relataram a umidade relativa do ar como o elemento que
mais influenciou na incidência de dengue em relação aos demais elementos micrometeorológicos
analisados.
Destaca-se também na Figura 3 que nos anos 2004, 2007 e 2008 não foram possíveis obter os
dados da umidade relativa do ar, o que pode ser um dos motivos para a inexistência de uma correlação
satisfatória entre essas variáveis.
Foi evidenciado a existência de flutuações nos dados da radiação solar de um mês para outro, como
pode ser observado na Figura 4. Outro fator notório a essa variavel é a existência de dados idênticos nos
primeiro semestre dos anos de 2003 e 2004, o que pode denotar falhas no equipamento que realiza essa
medição ou erro do responsável pela coleta dos dados. Assim, essas condicionantes acrescidas da
indisponibilidade de dados nos anos de 2005, 2007 e 2008 e no segundo semestre dos anos de 2003 e 2004
podem ter tornado inviável a inferência do número de casos de dengue em relação a radiação solar,
impossibilitando dessa maneira confirmar a constatação de Santos et al. (2008), que verificou a existência
de uma relação indiretamente propocional dessa variável com a dengue, devido a mesma eliminar os locais
de procriação do vetor.

Figura 3 - Distribuição dos casos de dengue e umidade relativa do ar média no município de Ji-
Paraná - RO.

João Pessoa, outubro de 2011


155

Figura 4 - Distribuição dos casos de dengue e radiação solar média no município de Ji-Paraná - RO.

Foi constatado que em Ji-Paraná, para o período estudado, a incidência dos casos de dengue está
fracamente correlacionada com os elementos micrometeorológicos (Tabela 1), principalmente em relação
a umidade relativa do ar, sendo que em relação à radiação solar incidente não houve evidências estatísticas
para confirmar a existência de significância do coeficiente de determinação dos mesmos com a doença.
Evidenciando dessa forma uma possível confirmação para os relatos de Johansson, Dominic e Glass
(2009), onde tais autores evidenciam que a impossibilidade na criação de modelos de regressão da dengue
com certas variáveis climáticas residem nos fenômenos de auto-correlação, sendo a mesma uma
característica natural dos sistemas de doenças infecciosas, devido o número de novas infecções está
intimamente relacionado com o número de infecções recentes, isso resulta em resíduos correlacionados na
análise de regressão; e colinearidade, a qual se torna presente em tais análises por meio das grandes
sazonalidades das variáveis envolvidas, onde os casos de surgimento da dengue podem corresponder a
eventos que ocorreram a períodos anteriores do seu surgimento.

Tabela 1 - Relações estatísticas da dengue com os elementos micrometeorológicos no município de


Ji-Paraná entre os anos de 2002 a 2008.
Coeficiente de
Elemento Micrometeorológico Equação Valor-p
Determinação (R²)
8,58.10-
Precipitação y = 0,071x + 0,836 (1) 0,121
07
Umidade relativa do ar y = 0,914x - 70,94 (2) 0,095 0,0162
Radiação solar y = -0,000x + 23,61 (3) 0,142 0,7398

Ressalta-se que somente no caso da precipitação é que se registrou um coeficiente de regressão


linear acima de 0,10 (cerca 0,12), ou seja, 12% da variabilidade do índice de ocorrência de dengue é
explicada pela variação da precipitação. Provavelmente 88% da variação do índice possa ser explicado por
outros fatores como, por exemplo, infraestrutura do saneamento básico. Confirmando assim, a
necessidade de se relevar dados referentes às condições de vida da população (por exemplo, saneamento
básico, renda etc.) em relação à ocorrência da dengue.
Essa baixa correlação da dengue com a precipitação também foi observada por Andrade e Dantas
(2004), que verificaram que aproximadamente 38% dos casos de dengue ocorridos em Campina Grande -
PB, no período de 1999 a 2001, estavam associados com a precipitação e 62% dos casos restantes estavam
correlacionados com fatores ambientais, biológicos, socioeconômicos, dentre outros.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


156

No entanto, tais constatações discordam dos estudos de Monteiro et al. (2009), que encontraram
uma correlação positiva, variando de 0,68 a 0,88, entre o número de indivíduos infectados por essa
arbovirose e a intensidade pluviométrica no período 2002 a 2006, na cidade de Teresina no Piauí.
Vale salientar que o objetivo do estudo de predizer a incidência da dengue por meio de
elementos micrometeorológicos possa ter sido comprometido pela não contabilização de todos os casos de
dengue ocorridos no município. A SEMUSA apenas coleta dados em hospitais e clínicas de saúde, o que leva
a desconsideração de casos dessa moléstia que não foram registrados nesses estabelecimentos, devido aos
doentes nem sempre procurarem o sistema de saúde.
Além disso, segundo Duarte e França (2006), os dados de incidência dessa doença podem
apresentar discrepâncias da realidade devido aos casos de dengue registrados no sistema de notificação
serem aqueles de evolução mais grave e assim a totalidade de casos de enfermos internados no sistema
público de saúde não é representada, o que subestima a taxa de letalidade da doença, como confirmaram
os autores supracitados ao analisar os dados de incidência dessa doença nos sistemas de saúde em Belo
Horizonte – MG.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante dos resultados obtidos, se concluiu que a precipitação dentre os elementos
micrometeorológicos analisados foi o que demonstrou maior influência nos casos de dengue no município,
embora se acredite que não foi possível encontrar melhores resultados por haver falhas na contabilização
dos casos de dengue.

AGRADECIMENTOS
Agradecemos a SEMUSA e a SEDAM pela disponibilização dos dados para o
desenvolvimento desse estudo.

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Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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CULICÍDEOS CAPTURADOS EM AMBIENTE DE CERRADO MARANHENSE.


SILVA, M.S.S.1; LIMA, W.R2 SILVA, C. G.3.
1 Autora: Discente do curso de Ciências Biológicas da Universidade Fe deral do Maranhão.
2co-Autor: Discente do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Maranhão.
3Orientador: Docente da Universidade Federal do Maranhão-UFMA, campus IV de Chapadinha 65500-000,
fax.(98)34711201,Chapadinha.*autor por correspondência: clagsilva@hotmail.com

RESUMO
Os culicídeos (Diptera) são insetos de grande relevância para programas de saúde pública, pois
apresentam alto grau de antropização e podem vetoriar microorganismos ao seres humanos, os quais
podem inclusive levar a óbito. Este estudo teve como objetivo, avaliar em condições de campo a
preferência de oviposição e conseqüente desenvolvimento larval de Culicideos, em relação a diferentes
meios aquosos. Larvitrampas de borracha (pneus automotivos) foram distribuídas ao longo de uma trilha
de cerrado, no campus da Universidade Federal do Maranhão em Chapadinha-MA, os quais foram
abastecidos com: T1= água potável, T2= água + cereal (alpiste) e T3= água + ração comercial para cães. As
coletas foram realizadas em intervalos de dez dias durante o mês maio de 2010, sendo o material
entomológico identificado no Laboratório de Entomologia. Os dados foram analisados estatisticamente
através da ANOVA e Qui-quadrado (0,05). Um total de 4.579 imaturos foram encontrados distribuídos
entre os gêneros, Aedes, Culex e Toxorhynchites.
Não houve diferença significativa entre os tratamentos (P>0,05) a nível de subfamília
(Toxorhynchitinae e Culicinae) porém houve diferenças significativas dos gêneros Aedes e Culex entre os
tratamento T2 e T3 (P<0,05). Aedes e Culex tiveram oviposição preferencial para meios contendo matéria
orgânica, enquanto que o Toxorhynchites não demonstrou preferência para oviposição e desenvolvimento
larval em área de cerrado silvestre.
Palavras-chave: Aedes, Culex, Toxorhynchites, cerrado.

INTRODUÇÃO
Os culicídeos (Diptera: Culicidae) são insetos conhecidos popularmente como: mosquitos,
pernilongos, muriçocas ou carapanãs, sendo que os adultos são alados, as fêmeas geralmente são
hematófagas, enquanto que nas fases imaturas vivem em ambiente aquático alimentando-se de
microorganismos e podem ser encontrados em praticamente todas as regiões do globo (SOUTO 1994).
Estudos relacionados com abundância de espécies de culicídeos têm tornado cada vez mais
importantes por se tratar de vetores potenciais na transmissão de doenças, em diferentes áreas urbanas,
principalmente em áreas de reserva natural e em periferias (TAIPE-LAGOS & NATAL, 2003). Podendo
doença se manifestar na forma viral não especifica ou na forma grave e fatal conhecida como febre
hemorrágica da dengue (FHD), diversos fatores estão relacionados a infecção pelo dengue, entre eles
podemos citar: a faixa etária, condições imunológica, pré disposição genética além de características
singulares do vetor e do meio (GLUBER, 1995) segundo Mourão (2004 ), casos de FHD em lactantes, sugere
que a presença de anticorpos esta relacionada com a forma grave da doença.
Além da importância médico sanitária supracitada a fauna Culicidae pode ser utilizada para avaliar
o grau de alterações ocorridas em determinada região. Algumas espécies podem atuar como
bioindicadores dessas modificações, seja pelo aumento em sua densidade populacional ou até sua ausência
(DORVILLÉ, 1996; MASSAD, 1998). Em ambiente doméstico, os criadouros são em geral constituídos de
materiais que podem ser facilmente descartados no ambiente, ou solucionáveis, ou mesmo evitáveis (como
vasos de plantas com água e pratos de xaxins), que acabam não recebendo nenhuma atenção da
população, apenas em períodos em que a densidade populacional do vetor aumenta consideravelmente.
(BRASSOLATTI et al., 2002) segundo Forattini (2003) 60% em caixas d’água, 12% em potes, latas e garrafas,
8,0% em vasos de planta, 7,0% em pneus, 4,0% em tambores e 9,0% em outros recipientes, a maior
ocorrência se dá pela dificuldade de acesso a esses recipientes, visto a incidência, os programas de saúde
priorizam as medidas mecânicas aliadas a conscientização ambiental e programas de eliminação dos
criadouros.

João Pessoa, outubro de 2011


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Na atividade de oviposição de culicídeos, a seleção do criadouro pode estar associada a fatores


presentes na água, tais como: matéria orgânica, compostos químicos e presença de imaturos, o que leva a
preferência para atração e desenvolvimento para certas espécies de culicídeos de importância sanitária.
(MARQUES & MIRANDA,1992). Este estudo teve como objetivo conhecer em condições de campo a
preferência de oviposição de culicídeos em relação a diferentes meios aquosos.

MATERIAIS E METODOS
O experimento foi realizado ao longo de uma trilha em área de cerrado dentro da reserva do
Campus IV da Universidade Federal do Maranhão no Centro de Ciências Agrárias e Ambiental no município
de Chapadinha-MA (S 03°44’02.3 e W 043°19’00.7). O período de coletas foi de 30 (trinta) dias (maio de
2010), com precipitação pluviométrica média de 219,3 mm3 e temperaturas mínimas e máximas oscilando
entre 13,8 e 33°C (INMET- Chapadinha, Sistema meteorológico agropecuário- AGRITEMPO), condições
típicas do período chuvoso da região nordeste brasileiro e favorável para o desenvolvimento de culicídeos.
As coletas foram realizadas a cada dez dias (três coletas) utilizando como larvitrampas quinze
recipientes de borracha (pneus automotivos) método usado por RACHOU et al.(1954), FORATTINI (1962) e
NAWROCKI & GRAIG (1989). Sendo estas dispostas ao longo da trilha, e distribuídas entre três tratamentos
com cinco larvitrampas cada. O tratamento 1 (T1) era constituído de 2L de Água Potável +40 g de cereal
(alpiste), o tratamento 2 (T2) era constituído de apenas uma solução 2 L de Água Potável e o tratamento 3
(T3) era composto de 2L de Água Potável + 20 g de ração comercial para filhotes de cães e gatos.
Permanecendo por 10 dias e em seguida o material era transferido para outros recipientes (bandejas
brancas) e transportados para o Laboratório de Biologia da Universidade Federal do Maranhão-CCAA,
Campus de Chapadinha-MA. Em seguida, as larvas eram quantificadas e identificadas pelo método de
FORATTINI (1965).
As análises estatísticas aplicadas nos tratamentos foram: Análise de variância (ANOVA) para
estabelecer a existência de significância quantitativamente (P<0,05) dentro do experimento seguindo o
modelo estatístico: γij= µ + αi + βj + εijk, sendo que, γij é o valor atribuído às contagens das larvas dos
mosquitos considerando os tratamentos e os períodos de coletas, µ é a média geral, αi é o efeito atribuído
aos tratamentos, βj é o efeito atribuído aos períodos de coletas e εijk é o erro experimental. As distribuições
entre os tratamentos quanto aos gêneros identificados foram testadas pelo Qui-quadrado (χ2) com índice
de significância de 5%.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Um total de 4.579 culicídeos imaturos foram quantificados, sendo os mesmos pertencentes aos
gêneros Aedes (Linnaeus,1762), Culex (Linnaeus,1758) e Toxorhynchites (Bourroul,1904). A média de
imaturos entre os tratamentos foi de 106,1 para o tratamento T1, 98,2 para o tratamento T2 e 101,0 para o
tratamento T3, e desvio padrão de 110,36 para T1, 73,47 para T2 e 76,39 para T3.
A análise de Variância apresenta-se não significativa (P<0,05) com relação a subfamília
(Toxorhynchitinae e Culicinae) e os tratamentos, esse resultado demonstra que as diferentes soluções não
se diferenciam quanto à atratividade para oviposição, sendo totalmente ao acaso. No entanto as variações
dentro de cada tratamento são altíssimas (desvio padrão), assim, os três gêneros foram submetidos ao
teste não-paramétrico χ2 identificando que há significância (P<0,05) dos gêneros Aedes e Culex entre os três
tratamentos, ou seja, o gênero Aedes com maior freqüência de oviposição para o tratamento T2 e o Culex
para o tratamento T3, quanto ao gênero Toxorhynchites, não apresentou preferência, pelos tratamentos
utilizados (Tabela I).

Tabela I. Distribuição por gênero de mosquitos entre os tratamentos.

Gêneros
Tratamentos
Culex Aedes Toxorhynchites
T1 108 28 7
T2 21 46 2

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


160

T3 47 69 1

O gênero Aedes se desenvolve a partir de um ciclo aquático, que é influenciado pelo tipo e pela
qualidade dos reservatórios de água, podendo desenvolver-se á diferentes tipos de ambientes, desde a
água limpa até mesmo á esgotos (BESERRA et al,2009). O gênero Culex tem o desenvolvimento em
ambientes com elevados índices de temperaturas e com alto teor de matéria orgânica, ou seja, ambiente
poluído e baixo teor de oxigênio (MORAIS et al., 2006). As comparações realizadas entre as proporções do
número de indivíduos coletados por gênero entre os três tipos de tratamentos demonstraram que os
gêneros Culex e Aedes apresentam fortes tendências a diferentes ambientes para depositar seus ovos e
consequentemente o desenvolvimento das larvas.
O gênero Toxorhynchites apresenta em suas fases larvárias o comportamento alimentar predatório,
embora possam predar, são considerados predadores não obrigatórios, isto é, usam esse método de
alimentação quando falta alimento no criadouro ou em encontros casuais com a presa, demonstrando
assim ser um gênero pouco seletivo quanto às ambientes para se reproduzir (LOPES,1999).
No tratamento 2 Teve-se melhor desenvolvimento das espécies do gênero Aedes, que apresentam
um ciclo aquático influenciado pelo tipo e qualidade dos reservatórios. Segundo VAREJÃO et al. (2005), este
prefere reproduzir-se em reservatórios com água limpaembora possam se adaptar às situações impostas
pelo homem. O desenvolvimento do gênero Aedes não é limitado a águas totalmente limpas. De acordo
com BESERRA et al. (2009), a espécie A. aegypti tem capacidade de se desenvolver tanto em águas limpas
quanto em ambientes com elevados graus de poluição como, esgoto doméstico bruto, que apresenta
elevada concentração de material orgânico.
Segundo MASSAD & FORATTINI (1998), muitos fatores como: distribuição espacial, taxas de
desenvolvimento e sobrevivência e ciclo gonotrófico que atuam sobre o vetor são altamente dependentes
da temperatura. Os efeitos causados pelo desmatamento sobre a saúde são diversos, particularmente essa
mesma ação feita em sua maioria em florestas tropicais, provoca influência sobre as mudanças ambientais
do mundo (WALSH et al., 1993). Resultados semelhantes foram encontrados por KUWABARA (2008), que
verificou que no verão (período com chuva) foi o período estacional onde foi observada maior abundância.

CONCLUSÃO
Em uma região silvestre de cerrado no Estado do Maranhão, os culicídeos, a nível de subfamília
(Toxorhynchitinae e Culicinae) não apresentaram seletividade ao recipiente aquático . Contudo, os gêneros
Aedes e Culex, apresentaram preferência na oviposição em meios aquosos com consideráveis
concentrações de matéria orgânica. Enquanto que o gênero Toxorhynchites não demonstrou preferência
para oviposição e desenvolvimento larval.

REFERÊNCIAS
BESERRA,E.B.; FREITAS,E.M.; SOUZA,J.T.; FERNANDES,C.R.M.; SANTOS,K.D .Ciclo de vida de Aedes
(Stegomyia) aegypti (Diptera, Culicidae) em águas com diferentes características. Iheringia, Sér. Zool., Porto
Alegre, v.99, n.3, p.281-285, 2009.
DORVILLÉ L.F.M. Mosquitoes as bioindicators of forest degradation in southeastern Brazil, a
statistical evaluation of published data in the literature. Stud Neotrop Environ., .v. 31, p. 68-78, 1996.
FORATTINI, O. P. Entomologia Médica, Culicini: Culex, Aedes e Psorophora. São Paulo: Ed.
Universidade de São Paulo. 506 p. v. 2.1965.
FORATTINI,O.P., BRITO,M., Reservatórios Domiciliares de Água e Controle do Aedes aegypti. Rev.
Saúde Pública v. 37, p. 676-677, 2003.
FORATTTNI, O.P. Entomologia Médica. São Paulo, EDUSP, v. 1, 662p. 1962.
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Problem. Emerging Infectious Diseases v 1, p 55-57, 1995.

João Pessoa, outubro de 2011


161

INMET- Chapadinha, Sistema meteorológico agropecuário- AGRITEMPO, Disponível em


http://www.agritempo.gov.br/ acesso em: 10/06/2010
KUWABARA,E.F. Ecologia de culicidae (diptera) e fisiologia de anopheles (kerteszia) cruzii dyar &
knab, 1908 em área litorânea do estado do Paraná, Brasil. Curitiba. 2008. 160f.Tese de Doutorado pela
Universidade Federal do Paraná.
LOPES, J. Ecologia de mosquitos (Diptera, Culicidae) em criadouros naturais e artificiais de área rural
do norte do Paraná, Brasil. VIII. Influência das larvas predadoras (Toxorhynchites sp., Limatus durhamii e
Cu/ex bigotJl sobre a população de larvas de Cu/ex Quinquefasciatus e Cu/ex eduardoi. Revista bras.
Zool.,1999.
MARQUES C.C.A., MIRANDA, C. Influência de extratos de formas evolutivas sobre atividades de
oviposição de fêmeas de Aedes (S) albopictus (Skuse). Rev Saúde Pública, v.26, p.71-269, 1992.
MASSAD, E.; FORATTINI, O. P. Modelling the temperature sensitivity of some physiological
parameters of epidemiologic significance. Ecosystem Health; v.4, n.2, p.120-129, 1998.
MORAIS S. A.; M. T. MARRELLI & D. NATAL. Aspectos da distribuição de Culex (Culex)
quinquefasciatus Say (Diptera, Culicidae) na região do rio Pinheiros, na cidade de São Paulo, Estado de São
Paulo, Brasil. Revista Brasileira de Entomologia v.50, p.413-18, 2006.
MOURÃO, M.P.G., LACERDA, M.V.G., BASTOS, M. S. et al. Febre Hemorrágica em Lactentes: Relato
de Dois Casos. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical v. 37, p 175-176, 2004.
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RACHOU, R.G.; M.M. LIMA & J.A .F. NETO. Levantamento preliminar de criadouros de Culex
fatigans em Florianópolis (Estado de Santa Catarina). Rev. Bras. Malariol. Doenças tropicais v.6, p.497-500,
1954.
SOUTO R.N.P. Sazonalidade de Culicídeos (Diptera- Culicidae) e Tentativas de Isolamento de
Arbovírus em Floresta e Savana do Estado do Amapá.1994, 115f.Dissertação (Mestrado) - Universidade
Federal do Pará, Museu Paraense Emílio Goeldi.
TAIPE-LAGOS, C.B; NATAL, D. Abundância de culicídeos em área metropolitana preservada e suas
implicações epidemiológicas. Rev Saúde Pública. v.37, n.3, p.275-279, 2003.
VAREJÃO, J. B. M.; SANTOS, C. B. DOS; REZENDE, H. R.; BEVILACQUA, L.C. & FALQUETO, A.
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WALSH, J. F.; MOLYNEUX, D. H. & BIRLEY, M. H. Deforestation: effects on vector-borne disease.
Parasitology; v.106, p.55-75, 1993.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


2. Biogeografia e Biodiversidade
163

COLORAÇÃO COMO DETERMINANTE NA COLHEITA DE SEMENTES DE


ERVA-DOCE
1 2 3
Givanildo Zildo da SILVA ; Amanda Kelly Dias BEZERRA ; Riselane de Lucena Alcântara BRUNO
1
Graduando em Agronomia, UFPB/CCA/Areia – PB
2
Graduanda em Agronomia, UFPB/CCA/Areia – PB
3
Professora do Departamento de Fitotecnia e Ciências Ambientais, UFPB/ CCA/ Areia – PB
amanda_kely_@hotmail.com

RESUMO
A erva-doce (Foeniculum vulgare Mill.) pertence à família Apiacea e é cultivada em todo o Brasil,
representando uma importante fonte de renda para os agricultores; que muitas vezes, não conhecem as
técnicas ideais e o momento certo da colheita, o que pode resultar em diminuição do potencial fisiológico e
da qualidade da semente. Dessa forma, foi realizado um estudo de identificação do momento ideal para
realizar a colheita das sementes de F. vulgare, baseado na coloração do fruto. As sementes de erva-doce
foram colhidas manualmente, beneficiadas e separadas pela coloração do tegumento: V – verde; VA –
verde com listras amareladas, VM – verde com listras amarronzadas e M – marrom. Foram avaliadas as
seguintes variáveis: comprimento, largura, teor de água, massa seca e fresca da semente; porcentagem e
índice de velocidade de germinação (IVG); e comprimento e massa seca de plântulas. Os dados foram
analisados em delineamento inteiramente casualizado, com quatro repetições, sendo realizado teste de
Tukey (5%). Observou-se que as sementes VA apresentaram maior comprimento (5,79mm), largura
(2,20mm) e massa fresca (1,05g). A massa seca, nas sementes de VA (0,267) e VM (0,276), foi superior ao V
(0,177g) e M (0,174). As sementes V (75,93%) e VA (73,82%) apresentaram maiores teores de água, em
comparação ao VM (33,26%) e M (19,98%). O tratamento M proporcionou maior porcentagem de
germinação, 33%, porém não diferiu de VA (19%) e VM (22%). O vigor, avaliado pelo IVG, comprimento e
massa seca de plântulas, foi superior em VM (0,621; 14,08cm; 0,0521g) e M (0,811; 14,60cm; 0,0579g), não
diferindo estatisticamente entre si. A colheita das sementes de erva-doce deve ser realizada quando
apresentarem coloração do tegumento verde com listras amarronzadas, que é o momento em que ocorre
redução do teor de água e observa-se maior massa seca e vigor.
PALAVRAS-CHAVE: Apiaceae, Foeniculum vulgare Mill., maturação, qualidade fisiológica,
tegumento.

INTRODUÇÃO
A erva-doce (Foeniculum vulgare Mill.) pertence à família Apiacea e também é conhecida como anis
e funcho. É uma erva perene ou bienal, aromática, amplamente cultivada em todo o Brasil (LORENZI e
MATOS, 2008) e apresenta propriedades aromáticas, condimentares e medicinais; podendo ser usada
como medicamento natural e na indústria cosmética (SIMÕES et al., 2004) por apresentar óleo essencial
rico em vários princípios ativos com atividade biológica (SOUSA et al., 2005). Ela representa uma
importante fonte de renda para agricultores de todo o país, que muitas vezes, não conhecem as técnicas
ideais e o momento certo da colheita do fruto, o que pode resultar em diminuição do potencial fisiológico e
da qualidade da semente.
Um dos aspectos para obtenção de sementes com potencial fisiológico elevado é o momento da
colheita, que pode ser determinado pelo estádio de desenvolvimento do fruto ou da semente (CARVALHO
e NAKAGAWA, 2000), que influencia diretamente a germinação, o vigor e as propriedades físicas e químicas
da semente. Durante o processo de maturação, ocorrem várias transformações tanto químicas quanto
físicas no fruto e na semente, como mudança de coloração, perda de água, diminuição do peso específico e
maior atração pelos pássaros; ocorrendo também muitas vezes acúmulo de substâncias de reservas, tais
como compostos orgânicos solúveis, óleos e proteínas (DEICHMANN, 1967; DIAS, 2001). Dessa forma, a
maturidade fisiológica é alcançada quando as sementes exibem os valores máximos do poder germinativo,
do vigor e do peso da matéria seca, apresentando, geralmente, aumento em tamanho e decréscimo no
teor de água (CARVALHO e NAKAGAWA, 2000).
Contudo, na prática, o aspecto externo do fruto é um dos melhores indicadores da época da
colheita, destacando-se a coloração, odor, tamanho e textura (CARRASCO, 2003); especialmente para os

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


164

pequenos produtores. Diante do exposto, objetivou-se com esta pesquisa realizar um estudo de
identificação do momento ideal para realizar a colheita das sementes de F. vulgare, baseado na coloração
do tegumento.

MATERIAL E MÉTODOS
Foram transplantadas mudas de erva-doce, cultivar Esperança, com 45 dias após a semeadura, num
campo experimental localizado na fazenda Boa Sorte, município de Montadas, na Paraíba. Os frutos de
erva-doce são formados por dois aquênios (fruto-sementes) e por este motivo, foram considerados como
sementes neste trabalho.
As sementes foram colhidas manualmente, sendo retiradas todas as umbelas presentes em 20
indivíduos, que foram escolhidos ao acaso. As umbelas foram encaminhadas para o Laboratório de Análise
de Sementes do Departamento de Fitotecnia do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal da
Paraíba, em Areia – PB. Inicialmente, as sementes foram retiradas das umbelas, homogeneizadas e
separadas pelas seguintes colorações do tegumento: verde (V), verde com listras amareladas (VA), verde
com listras amarronzadas (VM) e marrom (M), representando quatro tratamentos.
Foram avaliadas as seguintes variáveis: comprimento e largura da semente – determinados
medindo-se com paquímetro digital, em quatro repetições de 25 sementes; teor de água da semente-
determinado utilizando-se quatro repetições de 50 sementes, acondicionadas em recipientes metálicos,
levadas à estufa a 105 ± 3°C por 24 horas e pesadas em balança analítica com precisão de 0,001g; massa
seca e fresca da semente - determinada pesando-se, em balança analítica com precisão de 0,001g, quatro
repetições de 50 sementes antes e após serem levadas à estufa a 105 ± 3°C por 24 horas; porcentagem de
germinação de sementes - correspondente à porcentagem de sementes germinadas até o 20º dia após a
semeadura, que foi realizada em papel e mantidas em caixas plásticas tipo gerbox e acondicionadas em
câmara de germinação à temperatura alternada de 20-30ºC; índice de velocidade de germinação - foram
feitas contagens diárias para o cálculo do IVG, onde utilizou-se a equação descrita por Maguire (1962);
comprimento de plântulas - as plântulas normais de cada tratamento foram medidas com paquímetro
digital no final do teste de germinação; massa seca de plântulas - após as medições, as plântulas foram
levadas à estufa a 105º C por 24 horas e após esse período, foram pesadas em balança analítica com
precisão de 0,001g. Foram consideradas normais aquelas plântulas que apresentaram características
condizentes com as prescritas pelas Regras para Análises de Sementes - RAS (BRASIL, 2009). Os dados
foram analisados em delineamento inteiramente casualizado (DIC), considerando os quatro tratamentos,
sendo realizado teste de Tukey a 5% de probabilidade para a comparação múltipla de médias.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados referentes às variáveis (análise de variância – Tabela 1): comprimento, largura, massa
fresca, massa seca e teor de água da semente de erva-doce, em função da coloração da semente, estão
representados na Tabela 2.
Observou-se que as sementes verdes com listras amareladas (VA) apresentaram maior
comprimento (5,79 mm) e largura (2,20 mm). Este tratamento também proporcionou os maiores
resultados para a variável massa fresca da semente (1,055 g), quando comparado com os demais
tratamentos (V – 0,818, VM – 0,658 e M – 0,226 g). A massa seca, nas sementes VA (0,267 g) e verdes com
listras amarronzadas (VM) (0,276 g), foi superior às verdes (V) (0,177 g) e marrons (M) (0,174 g). As
sementes V (75,93%) e VA (73,82%) apresentaram maiores teores de água, em comparação aos
tratamentos VM (33,26%) e M (19,98%).

Tabela 1. Resumo da Análise de Variância (quadrado médio e coeficiente de variação) das variáveis
comprimento, largura, massa fresca e seca e teor de água da semente de erva-doce (Foeniculum vulgare
Mill.), em função da coloração da semente.
Comprimento Largura da Massa fresca Massa seca da Teor de
da semente semente da semente semente água
QM trat 0,565** 0,157** 0,487** 0,012** 3981,60**
CV (%) 2,60 5,35 12,37 6,95 6,86
Valores significativos a 1% (**) e a 5% (*) pelo teste F.

João Pessoa, outubro de 2011


165

Tabela 2. Dados referentes ao comprimento (mm), largura (mm), massa fresca (g), massa seca (g) e
teor de água (%) das sementes de erva-doce (Foeniculum vulgare Mill.), em função da coloração da
semente.
Comprimento Largura da Massa fresca Massa seca da
Teor de água
da semente semente da semente semente
V 5,11bc 1,92b 0,818b 0,177b 75,93a
VA 5,79a 2,20a 1,055a 0,267a 73,82a
VM 5,34b 1,86b 0,658b 0,276a 33,26b
M 4,91c 1,73b 0,226c 0,174b 7,98c
Médias seguidas pelas mesmas letras nas colunas não diferem entre si, pelo teste de Tukey a 5% de
probabilidade. (V – sementes verdes; VA – sementes verdes com listras amareladas; VM – sementes verdes
com listras amarronzadas; M – sementes marrons).

A redução do tamanho e da massa fresca da semente ocorre devido à perda de água para o
ambiente, que para Carvalho e Nakagawa (2000), ocorre gradativamente no decorrer do desenvolvimento
até o final da maturação fisiológica. Apenas as sementes marrons apresentaram teor de água adequado
para comercialização, que segundo Brasil (2009), deve ser menor que 13%. As sementes verdes com listras
amarronzadas, ao serem coletadas, precisam passar por secagem, pois para (CARVALHO e NAKAGAWA,
2000), a alta umidade favorece o desenvolvimento de patógenos, principalmente bactérias e fungos.
Dornelas (2006) observou teor de água próximo para sementes secas de erva-doce coletadas em campo
experimental (11,76%); já Stefanello (2006) e Torres (2004) encontraram umidades menores, de 5,2% e
7,8%, respectivamente, em sementes de erva-doce adquiridas com empresas de produção e
comercialização de sementes.

Tabela 3. Resumo da Análise de Variância (quadrado médio e coeficiente de variação) das variáveis
IVG, % de germinação de sementes, comprimento (cm) e massa seca (g) de plântulas de erva-doce
(Foeniculum vulgare Mill.), em função da coloração da semente.
Comprimento de Massa seca de
IVG % de germinação
plântulas plântulas
QM trat 0,329** 422,66** 0,243** 0,268*
CV (%) 31,30 36,72 16,82 18,65
Valores significativos a 1% (**) e a 5% (*) pelo teste F.

Tabela 4. Dados referentes ao IVG, % de germinação de sementes, comprimento e massa seca de


plântulas de erva-doce (Foeniculum vulgare Mill.), em função da coloração da semente.
% de Comprimento Massa seca de
IVG
germinação de plântulas plântulas
V 0,136c 8b 12,11b 0,0420b
VA 0,449bc 19ab 12,85b 0,0449b
VM 0,621ab 22ab 14,08a 0,0521a
M 0,811a 33a 14,60a 0,0579a
Médias seguidas pelas mesmas letras nas colunas não diferem entre si, pelo teste de Tukey a 5% de
probabilidade. (V – sementes verdes; VA – sementes verdes com listras amareladas; VM – sementes verdes
com listras amarronzadas; M – sementes marrons).

O tratamento M proporcionou maior porcentagem de germinação (33%); porém não diferiu de VA


(19%) e VM (22%); apenas as sementes verdes apresentaram taxa de germinação inferior estatisticamente
(8%). O vigor avaliado pelo IVG, comprimento e massa seca de plântulas, foi superior em VM (0,621;
14,08cm; 0,052lg) e M (0,811; 14,60cm; 0,0579g), não diferindo estatisticamente entre si.
A menor taxa de emergência em sementes colhidas verdes também foi verificada em diversas
pesquisas com espécies oleaginosas. Estudando sementes de leiteiro (Peschiera fuchsiaefolia A. DC.),

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


166

Martins et al. (2004) verificaram que a emergência das sementes verdes e maduras de cor alaranjada, foi
de cerca de 15% e 53%, respectivamente; Vieira (2005) observou que as sementes de girassol (Helianthus
annuus L.) quando verdes germinaram 78%, enquanto as sementes maduras, 96%; em sementes de
mamona (Ricinus communis L.), o fruto deve estar com cerca de 2/3 com a coloração marrom para
apresentar germinação satisfatória (BELTRÃO et al., 2003); e em sementes de canola (Brassica napus L.),
Rosseto e Nakagawa (2000) obtiveram germinação de 4% e 16% em sementes verdes e em estádios
avançados de maturação, respectivamente.
Em algumas espécies não se verifica a influência do estádio de maturação, indicado pela coloração,
na germinação das sementes, como é o caso do gergelim (S. indicum) que apresentou variação de 96-98%
de germinação tanto em sementes verdes como em sementes secas (LAGO et al., 2001); do citrumelo
(híbrido de Citrus paradisi Macfad. e Poncirus trifoliata L.), com germinação de cerca de 80% em sementes
nos dois estádios (SILVA, 2007); e da canela-guaicá (Ocotea puberula Reich.), onde observou-se
germinação de 77% das sementes verdes e de 82%, das marrons (HIRANO e POSSAMAI, 2008), não
diferindo estatisticamente entre si. Tais resultados mostram que, nessas espécies, mesmo não estando
completamente maduras, as sementes já se apresentam aptas à germinação a partir de um determinado
momento durante o período de maturação fisiológica; fato que também ocorre com as sementes da erva-
doce.
Esta superioridade no vigor verificada nas sementes verdes com listras amarronzadas e nas
sementes marrons deve ser atribuída à umidade e consequentemente ao estádio de maturação, pois
Carvalho e Nakagawa (2000) mostram que o ponto de maturação fisiológica, quando a semente apresenta
maior vigor, está relacionado à menor umidade, bem como ao maior acúmulo de matéria seca nas
sementes. Assim como na cultura da erva-doce, outros autores também verificaram que o estádio de
maturação afetou significativamente o IVE ou IVG. Souza Júnior et al. (2007) observaram que em sementes
de araçarana (Calypthrantes clusiifolia (Miq.) O. Berg), o resultado do IVG passou de 0,4201 em sementes
verdes, para 1,3005, em sementes em estádio mais avançado de maturação. O mesmo foi observado por
Guimarães e Barbosa (2007) em sementes de jacarandá (Machaerium brasiliensis Vogel), que tiveram o
resultado do IVE de 0,19 em sementes verdes e 0,47 em sementes mais maduras. Porém, em sementes de
pessegueiro (Prunus persica (L.) Batsch.), Wagner Júnior et al. (2006) não constataram diferença
significativa da influência do estádio de maturação da semente nas características comprimento e massa
seca de plântulas, como ocorreu com a erva-doce.
Além disso, pesquisas realizadas com sementes de soja (Glycine max (L.) Merr.) (PÁDUA, 2006) e de
repolho (Brassica oleraceae var. capitata L.) (FREITAS et al., 2007) mostraram que a absorção deficiente de
clorofila das sementes pela planta reduz consideravelmente o vigor das sementes; esse processo ocorre
durante a maturação das sementes e tem como consequência a mudança da coloração do tegumento.
Zorato (2007) ressalta que sementes com cotilédones esverdeados podem sofrer efeitos deletérios
causados por deterioração advinda da não-degradação dos cloropigmento, que são bastante susceptíveis a
reações de degradação.

CONCLUSÃO
A colheita das sementes de erva-doce deve ser realizada quando o tegumento apresentar coloração
verde com listras amarronzadas, momento em que ocorre redução do teor de água e observa-se maior
vigor; porém, para comercialização, essas sementes devem ser submetidas à secagem para evitar o
desenvolvimento de patógenos. Dessa forma, o período da produção é diminuído, reduzindo os custos de
produção e as perdas por deterioração natural das sementes.

AGRADECIMENTOS
Ao CNPq e à FINEP, pelo apoio financeiro.

REFERÊNCIAS
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Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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João Pessoa, outubro de 2011


169

PERCEPÇÃO SOBRE OS ANFÍBIOS EM ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS E


POPULARES DE COMUNIDADES INTERIORANAS DO ESTADO DO RIO
GRANDE DO NORTE.
1
Autor: Amanda RODRIGUES DE AGUIAR
2
Co-autores: Carlos Alberto PEREIRA DE ARAÚJO JÚNIOR
3
Keliton GOMES FERREIRA
1
Autor: Graduanda do curso de Ciências Biológicas da Universidade Potiguar,
email: amanda_ihita@hotmail.com;
2
Co-autor: Graduando do curso de Ciências Biológicas da Universidade Potiguar;
3
Co-autor: Graduando do curso de Ciências Biológicas da Universidade Potiguar;

RESUMO
A classificação zoológica popular refere-se ao modo como os seres humanos interagem com os
animais de acordo com a cultura em que estão inseridos. No Brasil os anfíbios são bem conhecidos por suas
formas e comportamento, inspirando muitas lendas e despertando a curiosidade de muitos. O presente
artigo aborda a percepção dos anfíbios através do conhecimento científico e popular, buscando compará-
los, esclarecendo algumas divergências existentes entre eles e conferindo o nível dessa percepção tomando
como base o conceito de Etnozoologia, que faz parte de um campo de estudo mais abrangente, a
Etnobiologia. A pesquisa foi realizada através da aplicação de um simples questionário para discentes de
variados cursos da Universidade Potiguar e populares de três municípios do estado do Rio Grande do Norte,
totalizando em 147 questionários. As respostas se apresentaram bem semelhantes, com caracteres
conceituais, estéticos, ecológicos e desprezíveis. O conhecimento zoológico tradicional se faz resultado de
muitas gerações de saberes acumulados, experimentação e troca de informação, que atualmente chama
atenção da comunidade científica para pesquisas e avaliações de impactos ambientais, manejo de recursos
e desenvolvimento sustentável.
Palavras-chaves: etnozoologia, etnobiologia, cultura, conhecimento zoológico tradicional.

INTRODUÇÃO
Os anfíbios do latim Amphibia, que significa que seus representantes têm “vida dupla” constituem
uma classe de animais vertebrados, ectotérmicos que não possuem bolsa amniótica. São animais que
apresentam uma ampla diversidade de espécies, cerca de 5.500, muito bem adaptados e geralmente estão
entre os vertebrados mais abundantes e presentes em maior número de hábitats (LIMA et al, 2005).
Esta classe está dividida em três ordens: Anura, representada por sapos, rãs e pererecas, a ordem
Caudata, representada pelas salamandras e tritões e a ordem Gymnophiona, tendo como representante a
cecília ou vulgarmente chamada de cobra-cega.
Os anfíbios são elementos importantíssimos nas cadeias e teias ecológicas, pois atuam como
agentes controladores da população de insetos e outros invertebrados, evitando a proliferação de pragas e
epidemias. Também apresentam-se como bioindicadores por serem animais sensíveis à alterações
ambientais e ações antrópicas. Além disso, na sua pele apresentam compostos químicos de interesse para
grandes indústrias farmacêuticas, com poderes curativos, analgésicos ou até mesmo anti-cancerígenos, por
isso são alvos fáceis da biopirataria.
No Brasil os anfíbios anuros são animais bem conhecidos por suas peculiaridades de forma e
comportamento, inspirando muitas lendas e crenças populares e despertando a curiosidade de crianças e
adultos. O estudo da interação entre homem e animal faz parte da Etnozoologia, que também pode ser
chamada de conhecimento zoológico tradicional ou conhecimento zoológico indígena e esta faz parte de
um campo de estudo mais abrangente, a Etnobiologia.

Orientador: Miguel ROCHA NETO. Msc. Professor da Universidade Potiguar.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


170

O termo etnozoologia surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX, tendo sido cunhado e
definido por Mason (1899) como “a zoologia da região tal como narrada pelo selvagem”. Ao investigar as
técnicas de caça de alguns povos indígenas norte-americanos, Mason dissera que toda a fauna de uma
dada região, direta ou indiretamente, entra na vida e pensamento de um povo.
O prefixo “etno” se refere ao sistema de conhecimento e aquisição típicos de uma dada cultura,
portanto a etnozoologia diz respeito ao estudo dos conhecimentos, significados e usos dos animais nas
sociedades humanas. A etnozoologia se define como o estudo interdisciplinar dos pensamentos e
percepções, dos sentimentos e dos comportamentos que ligam as relações entre as populações humanas
que os possuem com as espécies de animais dos ecossistemas que as incluem.
No que se refere à classificação zoológica popular, os seres humanos percebem, identificam,
categorizam, classificam e utilizam os animais de acordo com os costumes e percepções próprios de cada
cultura, estabelecendo uma diversidade de interações com as espécies animais nas localidades onde
residem (POSEY, 1986). Assim, para essa classificação alguns anfíbios e até mesmo outros animais não
relacionados sistematicamente, como golfinho, cobra, tartaruga, peixe etc., são denominados “anfíbios”.
Tomando como base o ponto de vista etnozoológico, o seguinte trabalho tem por objetivo conferir
o nível de percepção dos anfíbios pela população de alguns municípios do interior do estado do Rio Grande
do Norte e por discentes da Universidade Potiguar afim de comparar o conhecimento científico com o
popular.

MATERIAL E MÉTODOS
O estudo foi realizado a partir da aplicação de questionários que foi disposta em duas partes. A
primeira realizada no interior do estado do Rio Grande do Norte, através do Espaço Ecológico do Museu
Itinerante, orientado pelo professor Miguel Rocha da Universidade Potiguar de Natal/RN, foi possível fazer
visitas aos municípios de Ceará-Mirim e Nísia Floresta. Também com o apoio da Caravana Ecológica, projeto
do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (IDEMA) foi
possível visitar o município de Itajá.
No segundo momento os questionários foram aplicados para discentes da Universidade Potiguar,
localizada na capital do estado, Natal.
A aquisição dos dados foi feita durante os meses de maio e junho de 2011, com o público alvo do
museu e da caravana em sua maioria alunos de ensino fundamental e nativos interessados na exposição,
além de universitários dos cursos de enfermagem, medicina, farmácia e biologia que foram abordados
pelos corredores da universidade.
O questionário constituía-se de 4 perguntas simples: 1- O que você entende por anfíbios?; 2-Cite
exemplos de anfíbios; 3- Qual a importância dos anfíbios na natureza? e 4- Qual a sua reação ao se deparar
com um anfíbio? Com os seguintes quesitos objetivos: Matar, fugir, deixar livre ou outros. Na abordagem
dos entrevistados era explicada a razão do questionário. Foi aplicado um total de 147 questionários, 74 aos
universitários e 69 a população dos municípios.
De forma surpreendente os universitários ao serem abordados se mostraram bem
dispostos à responder as perguntas que por eles foram julgadas de fácil resposta, tornando simples a
realização do trabalho. No entanto, no interior do estado, muitas pessoas por timidez mostravam
resistência às abordagens, dificultando a obtenção de dados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Nos municípios do interior do estado, quando questionados “O que você entende por anfíbios?” os
69 entrevistados responderam destacando caracteres conceituais, estéticos, ecológicos ou desprezíveis. O
caráter conceitual foi um dos mais citados, no qual foram obtidas respostas como “São animais que vivem
tanto na água como na terra”; “São animais que nascem de ovos, portanto são ovíparos. Vivem na terra e
na água.”. Empatado com o caráter desprezível, representado por respostas do tipo “São animais ruins
porque atacam.”; “É uma coisa muito nojenta.”; “Que eles são muito perigosos.”. Algumas respostas de
caráter desprezível apresentavam complementos que demonstravam a consciência das pessoas com
relação à importância desses animais, muitas respostas eram “São seres nojentos, mas se forem retirados
da natureza podem prejudicá-la.”, ou “Pra mim eles são importantes mais a rã eu não gosto porque é
nojenta.”. Tanto o caráter conceitual quanto o desprezível representaram cerca de 26% das respostas cada

João Pessoa, outubro de 2011


171

um, sendo ambos maioria. O caráter ecológico também foi citado em cerca de 10% das respostas, sendo
estas “São animais importantes para a natureza.”; “São bioindicadores.”; ou “Eles são muito sensíveis.”. 4%
das respostas evidenciavam o caráter estético, “São animais pequenos e bonitos.”, ou “Eu entendo que são
bichinhos com corpo mole.”. As outras respostas foram deixadas em branco ou foram respondidas com
“Não sei.”, ou “Não entendo nada.”.
Ao exemplificarem anfíbios, os entrevistados responderam 16 animais (Figura 1), dos quais
a maioria não se classifica como anfíbio.

Figura 1: Porcentagem dos animais mencionados pela população interiorana do RN.

Quanto a importância desses animais, a maioria das respostas, cerca de 65%, foram de forma
positiva. Muitos enfatizam a importância desses animais no equilíbrio ecológico e a atuação dos anfíbios na
cadeia alimentar para o controle de insetos. Algumas respostas obtidas foram “Prestam o seu serviço de
contribuição na preservação do meio ambiente, se alimentando de insetos nocivos à natureza.”; “Eles tem
importante atuação na cadeia alimentar.”; “Eles mantêm o equilíbrio ecológico.”; “Servem de alimento e
controlam a população de outros animais.”; “Eles também contribuem no equilíbrio do meio ambiente,
além de se alimentar de insetos.”. A porcentagem restante ficou dividida entre respostas negativas, em que
os anfíbios não possuem nenhuma importância na natureza como, “Servem pra fazer medo.”; “Pra muitas
mulheres fugirem de medo.”; ou “O sapo serve pra encher o saco.” e a outra metade representa respostas
em branco ou que não sabem.
A última questão, sendo objetiva, com quatro opções de respostas (Figura 2), indagava a reação das
pessoas ao se depararem com um anfíbio.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


172

Figura 2: Porcentagem das respostas sobre a reação do indivíduo ao se deparar com um anfíbio.

De acordo com o gráfico a resposta “Deixar livre” foi a mais assinalada, seguida da opção
“Fugir” e posteriormente, “Outros” onde alguns responderam que gritariam, pegariam para brincar ou até
mesmo para examinar. “Matar” foi a resposta menos assinalada, perdendo inclusive para as respostas em
branco.
A pesquisa realizada com 73 universitários obteve um maior número de respostas
conceituais na pergunta “O que você entende por anfíbios?”, sendo elas “ Os lisamfíbios são vertebrados
que tem sistema digestório incompleto, tem fecundação externa, vivem na terra ou na água. O termo
anfíbio significa duas vidas.”; “Animais que tem ciclo de vida tanto aquático quanto terrestre.”; “São
animais de sangue frio, possuem 2 habitats aquático e terrestre.”; Animais capazes de viver na água e na
terra que necessitam do corpo hidratado para sobreviver em terra, vivem parte da vida em terra e água.”;
ou “Animais que tem ciclo de vida tanto aquático quanto terrestre.”. O caráter estético foi apresentado por
apenas um discente entrevistado que respondeu
“Animais de pele úmida e delicada.” .O caráter desprezível apresentou o mesmo resultado, na qual
a resposta foi “É uma animal nojento.”. Ficando em segundo como o mais respondido estão os “não sei” e
as respostas deixadas em branco.
No momento de citarem exemplos de anfíbios os universitários responderam 13 animais
(Figura 3) em que alguns também não se encaixam como anfíbios.

João Pessoa, outubro de 2011


173

Figura 3: Porcentagem dos animais mencionados pelos universitários.

A pergunta “Qual a importância dos anfíbios na natureza?” recebeu cerca de 87% de


respostas positivas dos universitários dentre elas estão, “Os anfíbios tem importância fundamental para o
equilíbrio da natureza, pois os mesmos são controladores de outras espécies como por exemplo os insetos.”;
“Eles precisam existir para o funcionamento da cadeia alimentar”; “Para o equilíbrio ambiental e como
bioindicadores”. O restante da porcentagem de distribui em respostas
Em branco ou que não sabem e apenas uma resposta negativa a qual dizia que os anfíbios não
possuem nenhuma importância para natureza.
Quanto a reação ao se depararem com um anfíbio a grande maioria respondeu que deixaria o
animal livre (Figura 4).

Figura 4: Porcentagem das respostas dos universitários sobre a reação ao se depararem com um
anfíbio.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


174

Os discentes que assinalaram a opção “Outros” explicaram que apreciavam, fotografavam e


coletavam ou apenas observavam o animal.
De acordo com os dados obtidos percebe-se uma semelhança entre as respostas coletadas nos
municípios e na universidade, ambos apresentam conceitos que aprenderam no processo educativo formal,
entretanto no âmbito científico foi alcançado um conhecimento mais aprofundado sobre anfíbios.
Isso se dá porque o conhecimento zoológico tradicional é o resultado de muitas gerações de
saberes acumulados, experimentação e troca de informação segundo. O repúdio visto em algumas
respostas caracteriza esse tipo de conhecimento, tal como o de jogar sal no dorso de um sapo para matá-lo,
que não é um conhecimento cientifico, entretanto o possui, pois o animal morre devido a respiração
cutânea. Esse conhecimento popular observado, apesar de crer em alguns mitos, chama a atenção da
comunidade científica em suas diversas áreas para pesquisas e avaliações de impactos ambientais, manejo
de recursos e desenvolvimento sustentável.
No meio científico alguns anfíbios também são classificados como nocivos, mas devido às glândulas
paratóides localizadas na lateral do dorso, já o conhecimento popular afirma que o animal excreta uma
espécie de urina que atinge nossos olhos causando cegueira momentânea ou permanente. Por esse e
outros motivos como a pele rugosa e úmida, que em sua maioria causa sensações de desprezo, medo e
aversão é que surgem obstáculos para o desenvolvimento de uma estratégia eficaz de conservação das
espécies.
Tendo em vista essa perspectiva de que os anfíbios no geral são considerados animais desprezíveis,
já que as classificações faunísticas muitas vezes são influenciadas tanto pelo emocional, quanto pela cultura
que se construiu em relação aos animais, vimos através deste trabalho uma maneira de desmistificar
“histórias de pessoas antigas” que transcenderam gerações.

CONCLUSÃO
Mediante a análise dos resultados apresentados neste trabalho podemos concluir que se torna
evidente a diferença de conhecimento popular, obtido pela população interiorana do estado e o
conhecimento cientifico, alcançado pelos discentes. Esta era uma questão bem óbvia, a ver que a
população do interior é detentora de um grande conhecimento herdado de geração em geração,
levando-os assim a expressar com convicção, até os dias atuais, o saber sobre os mitos e folclores e
os induzindo a acreditar que estes são os conhecimentos válidos.
Também podemos avaliar que parte da população acadêmica, apesar de obter um nível
elevado de conhecimento, apresenta respostas com características semelhantes às obtidas junto à
população do interior com relação aos mitos e folclores, no entanto, outra parte proporcionou respostas
mais elaboradas e sem influências folclóricas.

REFERÊNCIAS
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Brasil. Revista de Biologia e Ciências da Terra, Paraíba, v. 7, n. 2, p.117-123, 2007.
COSTA-NETO, Eraldo Medeiros; CARVALHO, Paula Dib de. Percepção dos insetos pelos graduandos
da Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia, Brasil. Acta Scientiarumn: Biological Sciences,
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COSTA-NETO, Eraldo Medeiros; SANTOS-FITA, Dídac. As interações entre os seres humanos e os
animais: a contribuição da etnozoologia. Biotemas, Florianópolis, v. 20, n. 4, p.99-110, dez. 2007.
LIMA, Albertina P. et al. Guia de sapos da Reserva Adolpho Ducke, Amazômia Central. Manaus:
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POSEY, Darrell Addison. Entomologia de tribos indígenas da Amazônia. In: Ribeiro, D. (ed.). Suma
Etnológica Brasileira. Rio de Janeiro: Vozes/Finep, 1986. p. 251-272. v. 1. Etnobiologia.

João Pessoa, outubro de 2011


175

CONHECIMENTO, UTILIZAÇÃO E DIVERSIDADE DE PLANTAS MEDICINAIS


ENTRE ALUNOS DA REDE PÚBLICA EM ESPERANÇA, PARAÍBA
Maria Clerya Alvino LEITE
Licenciada em Ciências Biológicas pela UPE. Mestre em Ciências da Nutrição e Doutoranda em Produtos Naturais e
Sintéticos Bioativos pela UFPB. cleryaalvino@hotmail.com
Ana Ligia Passos de Oliveira COSTA
Bióloga. Especialista em Gestão e Analise Ambiental. Professora mediadora (tutora) do Curso de Licenciatura em Ciências
Biológicas da UPE/UEPB. analigiajg@yahoo.com.br
Pedro Henrique de Barros FALCÃO
Biólogo. Mestre em Ciências na área de Biologia Celular e Molecular. Doutorando em Ensino, Filosofia e História das
Ciências pela UFBA. Pró-Reitor de extensão da UPE.

RESUMO
Embora existam vários estudos a respeito do uso e eficácia de plantas medicinais, a literatura
científica ainda é escassa no sentido de detalhar o que pensam e o que conhecem as comunidades. Se
tratando da escola fundamental e, tendo em vista o papel que ela representa na formação do indivíduo
objetivou-se analisar o conhecimento e a utilização acerca de plantas medicinais entre alunos do ensino
fundamental da rede pública em Esperança-PB. Trata-se de um estudo descritivo com abordagem
quantitativa realizada por meio da aplicação de um questionário em duas escolas localizadas na cidade de
Esperança-PB durante o mês de outubro de 2010. A amostra foi composta por 54 alunos utilizando a
técnica de amostragem probabilística por conveniência. O questionário abordava a utilização,
conhecimento, motivo para uso, obtenção, forma de preparo de plantas medicinais, além de outros itens.
O critério de inclusão foi a presença dos alunos no período de coleta de dados e a sua disponibilidade em
participar da pesquisa por meio da assinatura do Termo Consentimento Livre e Esclarecido por seus pais ou
responsáveis. Os dados foram analisados utilizando o software Estatístico Assistat. 88,89% dos alunos
afirmaram terem conhecimento sobre as plantas medicinais, sendo este adquirido pelos familiares
(61,11%). Quase todos os alunos (98,15%) relataram utilizarem ou já ter utilizado plantas medicinais e que
às vezes (47,17%) elas têm ação benéfica no tratamento de doenças. A forma mais significativa de
obtenção das plantas foi a própria residência (39,62%) e a orientação sobre o uso foi pelas informações
com familiares (86,79%). Foram citadas 17 plantas pelos alunos, onde a mais utilizada (39,62%) foi a erva
cidreira (Lippia alba Mill), seguida (28,30%) do capim santo (Cymbopogon citratrus Stapf). A parte mais
utilizada foi a folha (81,13%) e o modo de preparo foi o chá (96,23%) e o xarope (13,21%). O principal
motivo pelo qual as utilizam está relacionado ao tratamento de doenças (50,94%). Apenas 13,21% dos
alunos citaram ter passado por reação adversa. Os resultados obtidos neste estudo indicam a significância
da utilização de plantas medicinais abrindo interesse e participação dos alunos na busca do tratamento e
cura das doenças.
Palavras-chave: Plantas medicinais, Produtos naturais, Toxicidade.

INTRODUÇÃO
A fitoterapia é a área do conhecimento que busca a cura das doenças através das plantas
medicinais. Repousa sobre uma tradição secular, sendo amplamente difundida através dos raizeiros,
curandeiros e benzedeiras. As plantas também são amplamente utilizadas pelas famílias, principalmente
em forma de chás, infusões e lambedores. Na verdade, o uso de espécies vegetais com fins terapêuticos
remonta ao início da civilização humana, confundindo-se com a própria origem do homem.
Resgatar o conhecimento sobre plantas medicinais e suas técnicas terapêuticas é uma maneira de
deixar registrado um modo de aprendizado informal que contribui para a valorização da medicina popular,
além de gerar informações sobre a saúde da comunidade local (PILLA; AMOROZO; FURLAN, 2006).
É fundamental a escola valorizar o saber popular como forma de incentivar e de abrigar a
participação da comunidade e principalmente dos alunos. Dessa forma, considerando a escola fundamental
e, tendo em vista o papel que ela representa na formação do cidadão e a sua potencialidade de estimular a
criação de conceitos, idéias, bem como sua atitude questionadora e crítica em relação à realidade, esse

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


176

trabalho tem por objetivo realizar uma investigação sobre o conhecimento, utilização e diversidade de
plantas medicinais entre alunos do ensino fundamental da rede pública em Esperança-PB.
MATERIAL E MÉTODOS
A pesquisa foi do tipo exploratória, descritiva, com abordagem quantitativa e de corte transversal
realizada com visita às escolas e aplicação de questionário estruturado orientado pelos objetivos do estudo.
O estudo foi desenvolvido em duas escolas da rede pública do município de Esperança-PB, a Escola
Municipal de Ensino Fundamental Dom Manuel Palmeira da Rocha e Escola Municipal de Ensino
Fundamental Olímpia Souto.
A população envolvida na presente pesquisa foi dos alunos do ensino fundamental II regularmente
matriculados no 8º e 9º ano do ano letivo de 2010 nas escolas citadas no item acima.
A amostra foi constituída pelos alunos utilizando a técnica de amostragem não probabilística por
conveniência, apresentando como critérios de inclusão: alunos que estiveram na sala de aula no período de
coleta de dados e que aceitaram participar da pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido (TCLE) pelos pais ou responsáveis. O critério de exclusão foi pais/responsáveis que se
recusaram a assinar o TCLE e alunos que não aceitaram participar da pesquisa. Foram distribuídos 200
questionários aos alunos, contudo, somente 54 destes retornaram com os mesmos para serem respondidos
na sala de aula, compondo assim, a amostra do presente estudo.
O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um roteiro composto por questões que
exploraram as informações referentes ao conhecimento, uso e diversidade de plantas medicinais; por parte
dos alunos. Versavam as seguintes questões: 1 Se o aluno tem conhecimento sobre plantas medicinais; 2
Onde foi adquirido este conhecimento; 3 Se o aluno já utilizou a planta medicinal sob alguma forma; 4 A
frequência do uso; 5 Se ele tem crença na cura pelas plantas medicinais; 6 Onde ele obtém as plantas que
utiliza; 7 Quem indicou ou recomendou o uso da planta e 8 As plantas mais utilizadas pelos entrevistados.
Os questionários estruturados foram aplicados pelos pesquisadores em sala de aula, e as instruções
foram feitas com relação ao preenchimento do formulário. A coleta de dados foi realizada durante o mês
de outubro de 2010. Os pesquisados tiveram sua participação autorizada através de TCLE assinado pelos
pais/responsáveis.
Os dados foram armazenados num banco de dados desenvolvido no Microsoft Excel 2007. Para a
análise quantitativa dos dados foi utilizado o software estatístico Assistat versão 7.5 beta.
Para caracterizar a amostra, foram utilizadas tabelas contendo frequências absolutas e
relativas, médias e desvios-padrão.
A pesquisa foi norteada pelos princípios éticos da Resolução n.º 196//1996 do Conselho Nacional
de Saúde.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dos formulários tabulados, observa-se pela Tabela 1, que 88,89% dos alunos relataram terem
conhecimento sobre as plantas medicinais. Leite et al. (2010), em um levantamento semelhante na cidade
de Patos, Estado da Paraíba, observaram que 100% dos alunos da escola pública e 92% da escola privada
sabem o que é uma planta medicinal e acreditam na cura de doenças através da fitoterapia. Cruz, Furlan e
Joaquim (2009) demonstraram em seu estudo que alunos do ensino fundamental, de um modo geral,
afirmaram que as plantas utilizadas são usadas para a cura de doenças. Quanto questionados quais plantas
medicinais os alunos conheciam, colocaram-se a seguinte questão: “Quais plantas medicinais vocês
conhecem?”. Neste momento, foi verificado que as plantas mais citadas foram: camomila (20,77%), boldo
(18,46%) e alecrim (10%).
Quanto ao conhecimento sobre plantas medicinais, relataram que o adquiriram por familiares
(61,11%), vizinhos e amigos (18,53%%), escola (14,81%), mídia (7,41%) e livros (3,70%). Já Cruz, Furlan e
Joaquim (2009) analisando a origem do conhecimento sobre plantas medicinais em alunos do ensino
fundamental da rede particular do município de São José dos Campos, São Paulo descreveram que tal
conhecimento foi adquirido por meio do curso de graduação (37%) e livros (18%). Neste estudo, os
antecedentes familiares responderam somente por 9% das citações. Contudo, os dados da presente
pesquisa corrobora com o estudo de Leite et al. (2010), onde o conhecimento adquirido sobre o tema de
57% dos discentes da escola pública e 53% da escola privada veio por meio da família. Esses dados
demonstram, portanto, que o aprendizado sobre a utilização das plantas medicinais é repassado de

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177

geração a geração, tendo também a influência de amigos e vizinhos no repasse de informações acerca do
tema.

Tabela 1 – Distribuição numérica e percentual conforme o conhecimento e a fonte do conhecimento das


plantas medicinais pelo aluno. Escola Municipal de Ensino Fundamental Dom Manuel Palmeira da Rocha e Olímpia
Souto, Esperança-PB, out. 2010.
Questionamento Nº %
Você tem conhecimento sobre plantas medicinais?
Sim 48 88,89
Não 6 11,11
Este conhecimento foi adquirido por (pela)?
Antecedentes familiares 33 61,11
Vizinhos e amigos 10 18,52
Escola 8 14,81
Mídia – rádio/TV 4 7,41
Livros 2 3,70
Total 54 100

A partir do levantamento dos dados obtidos junto aos alunos das escolas públicas de Esperança-PB
verificou-se que 98,15% dos participantes utilizam de plantas medicinais para fins terapêuticos, valor muito
semelhante ao encontrado por Viganó, Viganó e Cruz-Silva (2007) (98%) (Tabela 2). Leite et al. (2010), em
um levantamento semelhante na cidade de Patos-PB observaram uma porcentagem de uso de 82% de
plantas medicinais, verificando também que grande parte da população utiliza-se dessas plantas.
Cerca de 43,4% dos alunos fazem uso de plantas medicinais raramente e 37,74% com pouca
frequência. Contudo, em outro estudo, observou-se que mais de 50% dos entrevistados fazem uso de
plantas medicinais com uma frequência quase que cotidiana (VIGANÓ; VIGANÓ; CRUZ-SILVA, 2007). Nestes
casos, deve-se atentar para os casos de superdosagem, podendo estas plantas apresentarem efeitos
terapêuticos quando utilizadas na quantidade e periodicidade corretas.
Quando questionados sobre a ação benéfica das plantas medicinais no tratamento de doenças, a
maioria dos alunos acredita ter ação benéfica às vezes (47,17%) e 30,19% acreditam no uso de plantas
medicinas para tratar doenças. Os restantes (22,64%) afirmaram que algumas plantas pode ter ação
benéfica no tratamento de enfermidades. Esses dados demonstram que nem todas as plantas medicinais,
somente pelo fato de ser natural, são benéficas para o ser humano, havendo casos de serem até tóxicas
para os seres humanos.

Tabela 2 - Distribuição numérica e percentual de utilização, frequência e percepção da ação benéfica do uso
de plantas medicinais pelos alunos. Escola Municipal de Ensino Fundamental Dom Manuel Palmeira da Rocha e
Olímpia Souto, Esperança-PB, out. 2010.
Questionamento Nº %
Você utiliza ou já utilizou plantas medicinais?
Sim 53 98,15
Não 1 1,85
Caso SIM, com que frequência?
1 vez por semana 3 5,66
Mais de uma vez por semana 4 7,55
1 vez por mês 3 5,66
Pouca frequência 20 37,74
Raramente 23 43,40
Você acredita que as plantas medicinais tem ação benéfica no tratamento de doenças?
Sim 16 30,19
Algumas sim 12 22,64
Às vezes 25 47,17
Total 54 100

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


178

A maioria dos alunos obtém as plantas medicinais na própria residência (39,62%), 32,08% obtêm as
plantas dos familiares ou amigos (9,43%) e 16,98% em feiras livres e/ou em supermercados (Tabela 3). Os
resultados mostram que os alunos têm facilidade na obtenção das plantas medicinais. Um trabalho
realizado em Três Barras do Paraná (Estado do Paraná) por Viganó, Viganó e Cruz-Silva (1997), verificou que
44% das plantas utilizadas como medicinais são obtidas na própria residência, no quintal de casa, como
também através dos familiares ou amigos (31%), 11% da pastoral, 4% de farmácias, 3% da mata e 7%
adquiriram em outras fontes. Esses resultados reforçam outro dado mostrado neste trabalho, como sendo
a família a principal fonte de incentivo e obtenção das plantas medicinais para uso terapêutico.

Tabela 3 - Distribuição numérica e percentual do modo de obtenção e indicação das plantas medicinais pelos
alunos. Escola Municipal de Ensino Fundamental Dom Manuel Palmeira da Rocha e Olímpia Souto, Esperança-PB, out.
2010.
*
A soma dos valores das percentagens deu mais de 100% em virtude dos participantes haverem indicado mais
de uma resposta.
**
Foi composto por enfermeiro e agente comunitário de saúde.
Questionamento Nº %
Onde você obtém as plantas medicinais que utiliza?*
Própria residência 21 39,62
Familiares 17 32,08
Amigos 5 9,43
Mata 2 3,77
Feiras livres/supermercados 9 16,98
Vizinhos 6 11,32
Quem indicou ou recomendou o uso da planta?*
Familiares 46 86,79
Amigos 6 11,32
Vizinhos 2 3,77
Profissionais de saúde** 2 3,77
Livros medicinais 4 7,55
Total 53 100

Foram mencionadas 17 plantas medicinas, porém, as cinco mais citadas pelos alunos em ordem
decrescente foram: erva cidreira (39,62%), capim santo (28,30%), boldo (16,98%), erva-doce (16,98%) e
eucalipto (15,09%), como pode ser observado na Tabela 4. As plantas mais citadas no estudo de Pinto,
Amorozo e Furlan (2006) foram o mastruz (Chenopodium ambrosioides L.) e a erva-cidreira (Lippia alba
Mill). O número de usos terapêuticos relacionado a estas espécies está também entre os maiores. Já em
outro estudo, o boldo, o capim santo e a hortelã estão entre as plantas medicinais mais usadas (PILLA;
AMOROZO; FURLAN, 2006).
A erva cidreira, também conhecida pelo nome popular "Melissa", é uma planta da mesma família e
que têm aspecto semelhante à hortelã. Têm propriedades calmantes, sedativas e também pode ser útil em
casos de resfriados com febre. Pode também ser utilizada para combater estresse, cólicas uterinas,
problemas gastrointestinais, respiratórios (tosse, bronquite, asma) e insônia. Muito utilizada na forma de
chás e óleo essencial na aromaterapia (TAYHHO, 2006).
As indicações para uso do capim santo são o nervosismo, ansiedade, cólicas intestinais, gases e
febre. O boldo é indicado para falta de apetite, problemas do estômago e fígado; também é usado para
litíase renal (cálculo na vesícula). A erva-doce é indicada para distúrbios gastrointestinais: dispepsia, cólicas
e tosse produtiva. O eucalipto está indicado para casos de bronquites, gripes e catarro. O consumo
exagerado pode provocar vômitos e diarreia (RECANTO DAS LETRAS, [2010?]).
Em estudo realizado por Leite et al. (2010), foram mencionadas 34 plantas pelos discentes de
escola pública, onde a mais utilizada (78%) foi a erva cidreira (Lippia alba Mill), indicada pelos mesmos para
doenças gastrointestinais, dores musculares e de cabeça e como calmante; porém, apenas 9 plantas foram

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179

mencionaram pelos alunos da escola privada, onde a mais citada por 34% dos alunos foi a babosa (Aloe
vera L.).
Tabela 4 - Distribuição numérica e percentual das plantas medicinais utilizada pelos alunos. Escola Municipal
de Ensino Fundamental Dom Manuel Palmeira da Rocha e Olímpia Souto, Esperança-PB, out. 2010.
*
A soma dos valores das percentagens deu mais de 100% em virtude dos participantes haverem indicado mais
**
de uma resposta. Foi composta por mastruz, pé de laranja, arruda e raiz de urtiga.
Planta medicinal* Nº %
Nome específico Nome popular
Lippia alba (Mill.) Erva cidreira 21 39,62
Cymbopogon citratrus (DC) Stapf Capim santo 15 28,30
Vernonia condensata Beker. Boldo 09 16,98
Pimpinella anisum (L.) Erva-doce 09 16,98
Eucalyptus globulus Eucalipto 08 15,09
Labil
Sambucus nigra L Sabugueiro 03 5,66
Punica granatum L. Romã 03 5,66
Matricaria chamomilla (L.) Camomila 03 5,66
Malva sylvestris L. Malva 02 3,77
Cinnamomum zeylanicum Blum Canela 02 3,77
Psidium guajava L. Folha de goiaba 02 3,77
Menha arvensis L. Hortelã 02 3,77
Anethum graveolens L. Endro 02 3,77
Outra** 04 7,55
Não respondeu 03 5,66
Total 53 100

Nota-se pela Tabela 5 que as partes das plantas mais usadas foram a folha (81,13%), seguida da
casca, raiz e toda a planta que obtiveram 11,32 % cada, a flor (9,43%) e a semente (7,55%). O uso
acentuado da folha, também citado por Borba e Macedo (2006), mostra que os alunos procuram manter a
integridade das espécies vegetais, retirando partes delas que possam ser repostas normalmente pelas
próprias plantas, minimizando o seu risco de perda ou extinção. Contudo, é notório o grande uso da raiz e
da casca pelos alunos na preparação do remédio caseiro.
Verificou-se que existem semelhanças e diferenças na maneira de uso, principalmente quando se
refere a parte da planta a ser utilizada. Alguns preferem usar mais as folhas do vegetal, enquanto outros
acreditam que o efeito só é garantido utilizando toda a planta ou outras partes mostradas na Tabela 5.
Na cidade de Esperança-PB, a forma mais usada pelos alunos no preparo do medicamento caseiro
foi o chá (96,23%). Além desta forma, foram citados no estudo, em menores proporções, preparos como:
xarope (13,21%), suco (5,66%) e in natura (3,77%) (Tabela 5). Sobre as formas de utilização das plantas
medicinais observou-se que o chá é a forma mais conhecida. Resultado este que é também compartilhado
por outros autores (BORBA; MACEDO, 2006; COSTA et al., 2002). Entretanto, foram apresentadas outras
formas de utilização, como descritas na Tabela 5. Em trabalho de levantamento etnobotânico, Viganó,
Viganó e Cruz-Sousa (2007) observaram que prevaleceu o uso de chás por infusão (40%), decocção (28%),
no chimarrão (11%) e maceração (9%). De acordo com Martins et al. (2000), para cada caso e tipo de
material vegetal existe uma forma de preparo mais adequada e eficaz.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


180

Tabela 5 - Distribuição numérica e percentual conforme a parte da planta e o modo de preparo das plantas
medicinais utilizada pelos alunos. Escola Municipal de Ensino Fundamental Dom Manuel Palmeira da Rocha e Olímpia
Souto, Esperança-PB, out. 2010.
*
A soma dos valores das percentagens deu mais de 100% em virtude dos participantes haverem indicado mais
de uma resposta.
Questionamento Nº %
Qual (is) a(s) parte(s) da planta que você utiliza?*
Folha 43 81,13
Flor 5 9,43
Casca 6 11,32
Raiz 6 11,32
Semente 4 7,55
Toda a planta 6 11,31
Qual (is) o(s) modo(s) de preparo (forma de uso)?*
Chá 51 96,23
Suco 3 5,66
Xarope 7 13,21
In natura 2 3,77
Total 53 100

CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES
Os resultados obtidos através do presente estudo indicam a significância da utilização de plantas
medicinais abrindo interesse e participação dos alunos na busca do tratamento e de cura das doenças.
Existe uma procura enorme por esse meio alternativo na terapêutica das enfermidades. Demonstra
também que a maioria dos alunos possuem um certo conhecimento sobre as plantas medicinais, citando o
nome popular da planta e para que a utiliza, porém, outros alunos demonstraram um conhecimento
superficial acerca do tema, não se atentando, por exemplo, para o perigo do uso errado e descontrolado
destas plantas, assim como, a toxicidade de algumas. Os dados deste estudo demonstraram também a
grande influência que a família tem na obtenção e orientação sobre o uso de plantas medicinais.
Foi possível observar nas citações dos alunos da cidade de Esperança-PB uma boa diversidade de
espécies medicinais com fins terapêuticos, reflete até certo ponto a acreditação destes nos benefícios
destas plantas; todas as partes vegetais foram indicadas para o preparo de remédios, no entanto, as mais
utilizadas foram às folhas, cascas, raízes, bem como também toda a planta.
É fundamental que o conhecimento popular gerado nestas escolas públicas possa ser
compartilhado com outros alunos, tornando-se necessárias estratégias de desenvolvimento para essas
escolas que despertem o interesse desses alunos, como a criação de espaços, como os hortos medicinais ou
Farmácias Vivas, onde esse conhecimento possa ser mantido e fortalecido através de mecanismos de
geração de renda e de valorização desse conhecimento. Podendo, dessa forma, haver o retorno dos
benefícios advindos do conhecimento empírico fornecido por essas escolas em forma de melhoria de sua
qualidade de vida.

REFERÊNCIAS
BORBA, A. M; MACEDO, M. Plantas medicinais usadas para a saúde bucal pela comunidade do
bairro Santa Cruz, Chapada dos Guimarães, MT, Brasil. Acta Botânica Brasílica, São Paulo, v.20, n.4, p.771-
782, 2006.
COSTA, L.C.B. et al. Abordagem etnobotânica acerca do uso de plantas medicinais na Vila
Cachoeira, Ilhéus, Bahia, Brasil. Acta Farm. Bon., Buenos Aires, v. 21, n. 3, p. 205-211, 2002.
CRUZ, L. P; FURLAN, M. R; JOAQUIM, W. M. O estudo de plantas medicinais no ensino
fundamental: uma possibilidade para o ensino da Botânica. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA
EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS, 7., 2009, Florianópolis. Anais.....Florianópolis, 2009.
LEITE, I. A; MORAIS, A. M; GUEDES, A. F; LUCENA, D. S; LEITE, C. A; LETIE, M. C. A; MARINHO, M.
G. V. Conhecimento e utilização de plantas medicinais: análise comparativa entre alunos do ensino

João Pessoa, outubro de 2011


181

fundamental de escolas pública e privada. In: SIMPÓSIO DE PLANTAS MEDICINAIS DO BRASIL, 21., 2010,
João Pessoa. Anais.... João Pessoa: UFPB, 2010.
PILLA, M. A. C; AMOROZO, M. C. M; FURLAN, A. Obtenção e uso das plantas medicinais no distrito
de Martim Francisco, Município de Mogi-Mirim, SP, Brasil. Acta Botânica Brasílica, São Paulo, v.20, n.4,
p.789-802, out./dez. 2006.
PINTO, E. P. P; AMOROZO, M. C. M; FURLAN, A. Conhecimento popular sobre plantas medicinais em
comunidades rurais de mata atlântica – Itacaré, BA, Brasil. Acta Botânica Brasílica, São Paulo, v.20, n.4,
p.751-762. 2006
RECANTO DAS LETRAS. Indicações de plantas medicinais, [2010?]. Disponível em:
http://recantodasletras.uol.com.br/resenhas/15295. Acesso em: 02 jan. 2011.
TAYHHO. Distribuidor de produtos naturais e fitoterápicos. http://www.fitoterapicos.info/erva-
cidreira.php. Acesso em: 02 jan. 2011.
VIGANÓ, J; VIGANÓ, J. A; CRUZ-SILVA, C. T. A. Utilização de plantas medicinais pela população da
região urbana de Três Barras do Paraná. Acta Scientiarum. Health Science, Maringá, v. 29, n. 1, p. 51-58
2007.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


182

FENOLOGIA REPRODUTIVA DE PERIANDRA MEDITERRANEA MART. EX


BENTH. (FABACEAE) E SUA INTERAÇÃO ECOLÓGICA COM POLINIZADORES
EM REMANESCENTE DE MATA ATLANTICA.
Andressa Cavalcante MEIRELES
Graduanda em Ecologia, UFPB, Campus IV, Litoral Norte andressaecologia@gmail.com
Zelma Glebya Maciel QUIRINO
Orientadora, UFPB, Campus IV, Litoral Norte.

RESUMO
As relações entre planta e polinizador são muito importantes na estruturação de comunidades, pois
podem influenciar no sucesso reprodutivo, fluxo gênico, dispersão, distribuição espacial e na permanência
das espécies vegetais em suas áreas de ocorrência. Considerando a importância de tais estudos investigou-
se a fenologia, biologia reprodutiva e a ecologia da polinização de Periandra mediterranea. O estudo foi
conduzido entre agosto de 2010 á julho de 2011 através de observações diretas no campo na Reserva
Biológica Guaribas, Paraíba, Brasil. As fenofases vegetativas queda e brotamento foliar ocorreram o ano
todo enquanto as fenofases reprodutivas floração e frutificação oscilaram apresentando pico no mês de
setembro se correlacionando com o início da estação seca. A espécie apresenta flores hermafroditas,
papilionáceas, zigomorfas, ressupinadas na pré-antese, pediceladas, com bractéolas pareadas e opostas,
inseridas na base do cálice e ovadas. As pétalas são modificadas em quilha que protegem os órgãos
reprodutivos estames e estigma; alas que envolvem a quilha e a estandarte que serve de plataforma de
pouso para o visitante floral. Os órgãos reprodutivos permanecem inclusos na quilha, sendo expostos
somente durante o contato com os visitantes florais, os mais freqüentes são as abelhas Xylocopa sp. e a
Bombus sp. O mecanismo de polinização apresentado é o tripping, e a deposição do pólen no corpo do
animal é nototríbica. Testes de autopolinização demonstraram frutificação de aproximadamente 26%, na
polinização controle indicou 100% de sucesso na produção de frutos. Conclui-se que P. mediterranea
apresenta um padrão de floração e frutificação anual, continuo e de longa duração ocorrendo com
intensidade no inicio da estação seca, a queda e o brotamento foliar ocorrem durante o ano todo. Os testes
reprodutivos demonstraram a importância do polinizador efetivo a Xylocopa sp. para a espécie vegetal
confirmando que a presença dos polinizadores é fundamental para garantir seu sucesso reprodutivo.
Palavras-chaves: Ecologia reprodutiva; Fenologia; Polinização.

INTRODUÇÃO
Periandra mediterranea Mart. ex Benth. é uma espécie de Fabaceae nativa do Brasil possuindo uma
ampla distribuição biogeográfica abrangendo os biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica. Seu
domínio fitogeográfico envolve o Norte (Pará, Tocantins), Nordeste (Maranhão, Piauí, Ceará, Paraíba,
Pernambuco, Bahia), Centro-Oeste (Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul), Sudeste
(Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro), Sul (Paraná).
Estudos sobre a biologia da reprodução têm sido utilizados para a conservação e recuperação de
habitats naturais afetados pela fragmentação, pois podem fornecer informações importantes relacionadas
à facilitação e competição por polinizadores, sucesso reprodutivo e manutenção do fluxo gênico
intraespecífico (Kearns et al. 1998, Ghazoul 2006). Dentre áreas degradadas podemos se destaca os
remanescentes florestais de Mata Atlântica no Nordeste do Brasil são encontrados em maior perigo,
considerando de ter sido a sua biota muito alterada nos cinco séculos de colonização (Silqueira-Filho,
2006).
As relações entre planta e polinizador são muito importantes na estruturação de comunidades, pois
podem influenciar na distribuição espacial, na riqueza e na abundância de espécies, na estrutura trófica e
na fenodinâmica (Janzen 1970; Bawa et al. 1984). Associadas ao estudo da fenologia, estas informações são
de grande valia no planejamento de projetos que utilizem espécies vegetais capazes de atrair a fauna e que
apresentem diferentes épocas de floração e frutificação ao longo do ano, para que os agentes polinizadores
e dispersores permaneçam na área (Guimarães, 2009).

João Pessoa, outubro de 2011


183

Dentro deste contexto, a ecologia da polinização e os eventos fenológicos, tais como floração e
frutificação, exercem influência sobre os recursos disponíveis para muitos organismos (Conceição et al.
2007); e ajudam no entendimento das interações entre flores e polinizadores, sendo importante na
compreensão dos mecanismos de diversificação das características florais (Yamamoto et al. 2007),
podendo auxiliar na compreensão da dinâmica das populações do ecossistema, subsidiando a implantação
de programas de manejo e conservação (Machado e Lopes, 2003).
Considerando a importância de tais estudos, este trabalho teve por objetivo investigar a biologia
reprodutiva de Periandra mediterrânea Mart. ex Benth. uma espécie pertencente a família Fabaceae que
ecologicamente possui grande valor devido à capacidade de fixar nitrogênio, associando-se as Rhizobium e
ao Bradyhizobium, o que torna ainda mais importante em solos onde ocorre deficiência desse elemento
(Lopes, 1963 apud Dutra, 2005). Apresenta ainda uma grande importância farmacológica antinflamatória
ressaltada por Pereira et al. (2000), amplamente utilizada na etnomedicina brasileira como supressor
de tosse, expectorante, diurético e laxante.

OBJETIVO
Objetivou-se o estudo da fenologia, biologia reprodutiva e da interação ecológica de Periandra
mediterranea Mart. ex Benth. com seus polinizadores ressaltando sua importância para a permanência e
sucesso reprodutivo da espécie vegetal na área estudada.

METODOLOGIA
O projeto foi realizado na Reserva Biológica Guaribas sendo composta por remanescentes de Mata
Atlântica, localizada nos municípios de Rio Tinto e de Mamanguape (6°40’53”S e 35°09’59”W) e situada no
litoral norte da Paraíba.
O estudo foi conduzindo entre agosto de 2009 e maio de 2011 onde foram selecionados e
etiquetados 20 indivíduos da espécie Periandra mediterranea. No período de floração no campo foi feito o
registro da freqüência, duração, horário e comportamento dos visitantes às flores. A fenologia foi
acompanhada mensalmente, onde foram registradas as fenofases: floração e frutificação. Durante a
floração, foi realizada a contagem do número médio de flores por indivíduo e a descrição morfológica das
flores. Para análise do sistema reprodutivo foram conduzidos em campo experimentos de autopolinização
além do acompanhamento de populações controle.

RESULTADOS
Características da espécie
Periandra mediteranea Mart. ex Benth. é um sub arbusto de aproximadamente 1,15 metros (n=30),
apresenta flores tipicamente papilionáceas, zigomorfas, ressupinadas na pré-antese, pediceladas, com
bractéolas pareadas e opostas, inseridas na base do cálice e ovadas, durante a antese apresenta odor
adocicado e os recursos disponíveis para os visitantes consistem em néctar e pólen. A espécie apresenta 2-
3 botões por inflorescência sendo que 1-2 se encontram abertos a cada dia e 1-2 inflorescência por ramo
(n=20). As pétalas são modificadas em quilha que envolve e protege os órgãos reprodutivos estames e
estigma; alas que envolvem a quilha e a estandarte que serve de plataforma de pouso para o visitante floral
(Figura I). O nectário nesta espécie encontra-se entre a base da coluna estaminal e do ovário, sendo esse
último súpero, o pistilo apresentou tamanho inferior ao dos estames (Tabela I), entretanto seu
posicionamento proporcionava hercogamia, onde durante a visita o polinizador tocava primeiro o estigma
e depois as anteras. O androceu é composto de dez estames sendo nove unidos e um de menor tamanho
solto dos demais.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


184

Figura I- Detalhe da flor de Periandra mediterranea Mart. ex Benth., A e B- Alas; C- Quilha; D-


Estandarte; seta- guia de néctar.

Tabela I – Medidas e coloração dos verticilos florais de Periandra mediterranea Mart. ex Benth.
Fenologia reprodutiva

Com relação ás fenofases vegetativas queda e brotamento foliar os indivíduos apresentaram


comportamento diferente em ambas as estações seca e chuvosa, onde alguns indivíduos apresentavam
emissão foliar durante o ano todo e outros tiveram 100% de queda em alguns meses de estudo. Quanto ás
fenofases reprodutivas, floração e frutificação estas se intensificaram no mês de setembro se
correlacionando com o início da estação seca da área de estudo.
Visitantes florais
Periandra mediterranea apresentou variedade em espécies de visitantes entre eles se destacam a
abelhas Xylocopa spp., Apis mellifera, Bombus sp. e ainda indivíduos das ordens Trochiliformes,
Hymenopterae Lepidóptera (Tabela II). A Xylocopa sp. é o polinizador efetivo realizado suas visitas pelo
mecanismo de“tripping”, no qual as abelhas apresentavam o comportamento de pousar no estandarte e
através do peso exercido com seu corpo são capazes de expor os órgãos reprodutivos que se encontram
inclusos na quilha (figura II), posteriormente, introduziam a língua na base dos elementos florais para
alcançar o néctar. Como conseqüência, os órgãos reprodutivos das flores eram liberados e contatavam a

João Pessoa, outubro de 2011


185

região dorsal do corpo da abelha, onde o pólen ficava depositado, caracterizando a polinização nototríbica
(Figura III A).

Figura II – Vista lateral da flor de Periandra medirranea Mart. ex Benth.: A- antes e B- após a visita
do polinizador efetivo; seta- órgãos reprodutivos expostos.

Tabela II- Visitantes florais de Periandra mediterranea Marth. Ex Benth. Pe - polinizador efetivo, Pi
– pilhador, N- néctar, P- pólen.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


186

Figura III – Visitantes florais: A – Xylocopa spp. ; B- Bombus sp.; C- Esfingideo ; D- Vespidae.

O pico de visitas de Xylocopa spp. foi entre 13:00 as 14:00 ocorrendo também no período da
manhã principalmente nos intervalos entre 9:00 as 10:00, abelhas como Apis mellifera, Bombus sp.e
representantes das ordens Lepdóptera e Vespidae foram observados pilhando o néctar de P. mediterranea
ocorrendo em proporções muito baixas e apresentando o comportamento de pousar sobre a quilha e
introduzir a tromba diretamente na base da corola, acessando o nectário sem acionar o sistema que expõe as
estruturas reprodutivas. Indivíduos da ordem Trochiliformes apresentaram um comportamento territorial
repugnando outros animais, durante as visitas introduziam a bico nas flores fazendo a retirada de néctar
sem constatar nos órgãos reprodutivos da planta, foi observado ainda que a realização da mesma rota de
visitação caracterizando o comportamento “traplines” (Figuras III e IV).

Figura IV– Frequência de visitantes florais de Periandra mediterranea Mart. ex Benth. no período de
agosto de 2009 a junho de 2011.

João Pessoa, outubro de 2011


187

Experimentos de polinização
Testes de autopolinização espontânea (n=30) demonstraram baixa formação de frutos de
aproximadamente 26%, na polinização controle (n=30) indicou 100% de sucesso na produção de frutos.
DISCUSSÃO
O período de floração é variado entre as espécies, em estudos realizados com Kiill e Drumond
(2001) observando a Gliricidia sepium (Jacq.), e Agostini (2004) observando Mucuna sp. identificaram que
as espécies têm pico de floração na estação seca, podendo a redução de umidade do solo e da atmosfera
terem agido como um sinal para a floração da espécie , assim como foi verificado na tendência apresentada
por na população de P. mediterranea no local desse estudo, a qual tem um aumento da atividade
reprodutiva nos meses mais secos, no entanto, esta atividade reprodutiva pode ser estimulada pelo
aumento da precipitação em meses que antecedem a floração.
As flores de Periandra mediterranea apresentam um mecanismo de polinização compartilhado por
outras Faboideae, no qual as estruturas sexuais permanecem inclusas na quilha, sendo expostas somente
durante o contato com o visitante (Etcheverry et al. 2008, Kiill & Drumond 2001, Agbawa & Obute 2007).
Flores polinizadas por determinados visitantes, de um modo geral, compartilham um conjunto
típico de características, relacionadas ao tamanho, comportamento e outras particularidades da biologia
dos seus visitantes (Rodarte et al. 2008). As flores de P. mediterranea são papilionáceas, com diversos
atributos associados por Endress (1994) e Faegri van der Pijl (1979) à melitofilia como zigomorfia, coloração
violácea, forma tridimensional, néctar abrigado na base de uma corola tubular, odor intenso e adocicado, e
antese diurna que estão associados à atração dos agentes polinizadores. Além disso, nestas flores o
estandarte possui ranhuras radiais atuando como plataforma de pouso e coloração diferenciada, que
funciona como guia de néctar (Endress 1994). Embora esta síndrome de polinização seja predominante
nesses gêneros (Arroyo 1981), espécies são polinizadas por aves e beija flores de modo legitimo
apresentando dessa forma um sistema de ornitofilia generalista (Etcheverry et al. 2005). Apesar de P.
mediterranea apresentar morfologia próxima a essas espécies, as aves restringe á pilhar o néctar por não
contatar suas partes reprodutivas.
De acordo com Dutra (2009) Periandra mediterranea e outras espécies de Fabaceae como Clitoria
falcata var. falcata, Centrosema spp., Chamaecrista spp. e Senna spp. representam importantes fontes
alimentares para abelhas grandes, pois fornecem, em conjunto, recursos florais ao longo do ano, auxiliando
na manutenção desses insetos. A fauna de visitantes de Vigna Caracalla (Etcheverryet al. 2008) é
semelhante à observada em P. mediterranea caracterizada por abelhas dos gêneros Xylocopa e Bombus
que realizavam visitas legítimas enquanto a Apis mellifera e indivíduos da ordem Lepdóptera restringiam a
pilhar néctar.
O padrão de polinização observado em Periandra mediterranea é semelhante ao citado por Kiill e
Drumond (2001) para Gliricidia sepium (JACQ.) caracterizando-se pela distensão e reflexão do estandarte
com os órgãos reprodutivos permanecendo inclusos na quilha, sendo expostos somente durante o contato
com o visitante. Esta morfologia restringe o número de polinizadores efetivos que, além de posicionar-se
corretamente entre as peças florais, devem possuir o tamanho e peso adequados para exercer pressão
suficiente para expor os órgãos reprodutivos. Em contrapartida, os polinizadores especialistas tendem a
visitar um maior número de flores da mesma espécie, tornando a polinização cruzada mais eficiente e
menos custosa, uma vez que o pólen só é liberado quando acionado o mecanismo. Este mecanismo foi
observado também em outras espécies de Fabaceae como Centrosema pubescens Benth. (Borges, 2006),
Sophora tomentosa L. (Nogueira & Arruda, 2006), Abrus precatorius L. e Abrus Pulchellus Wall. ex Thw.
(Agbagwa&Obute, 2007) e Canavalia brasiliensis Mart. ex Benth. (Guedes et. al 2005).
O comportamento de Vespidae em Calliandra twedieii Benth. é semelhante o observado em P.
mediterranea ás vezes procuravam a recompensa floral, uma das espécies posou sobre o cálice e fazia
movimentos esfregando suas patas no aparelho bucal (Cardoso 2007).
O mecanismo“tripping” é comum em várias espécies de Fabaceae (Arroyo, 1981), como é o caso de
Centrosema pubescens Benth. (Borges, 2006).
A transferência de pólen pelos visitantes efetivos realizada através da deposição nototríbica é
comum em plantas de flores com quilha invertida. Observações de campo e de laboratório de algumas
flores com esta característica demonstram que estas possuem um forte mecanismo que impede a retirada

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


188

de néctar, o que restringe o acesso a este recurso apenas para abelhas grandes e com muita força (Amaral
2009).
O número de frutos formados em autopolinização natural foi relativamente baixo, podendo ser
explicado pelo alto número de frutos abortados. Em Fabaceae a incidência de frutos abortados é alta como
em duas espécies de Dahlstedtia (Teixeira et al., 2001) e em Mucuna sp. (Agostini, 2004).

CONCLUSÃO
Periandra mediterranea apresenta um padrão de floração e frutificação anual, continuo e de longa
duração de acordo com a classificação de Newstrom et al. (1994) ocorrendo com intensidade no início da
estação seca, a queda e o brotamento foliar ocorrem durante o ano todo. Os testes reprodutivos
demonstraram a importância do polinizador efetivo a Xylocopa sp. para a espécie vegetal estudada
confirmando que a presença dos polinizadores é fundamental para garantir seu sucesso reprodutivo.

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Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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“PEIXE OU MAMÍFERO?”: CONHECIMENTO ETNOBIOLÓGICO DE


ESTUDANTES DE ESCOLAS PÚBLICAS NO ESTADO DO PARÁ-UMA
CONTRIBUIÇÃO À CONSERVAÇÃO DOS MAMÍFEROS AQUÁTICOS.
Angélica Lúcia Figueiredo Rodrigues.
Universidade Federal do Pará, GEMAM/MPEG. E-mail: angelicagemam@yahoo.com.br. Estudante de pós-graduação em
Teoria e Pesquisa do Comportamento/ NTPC/ UFPA.
Bruna Maria Martins.
Oceanógrafa do Projeto Bicho D’Água, GEMAM/ MPEG. E-mail: bruna_oceano@yahoo.com.br
Renatha Gomes Ramos. Pesquisadora colaboradora do GEMAM/MPEG. E -mail: renathar2@yahoo.com.br

RESUMO
Esta pesquisa teve o intuito precípuo de investigar as concepções prévias de alunos de escolas
públicas na faixa etária dos 10 a 15 anos, moradores ribeirinhos da costa leste da Ilha de Marajó. Tal estudo
permitirá a construção de um projeto de educação ambiental que será aplicado e testado durante fase do
projeto, pertinente à conservação dos mamíferos aquáticos. Com base no depoimento desta população,
mediante entrevistas semi-estruturadas, organizaram-se categorias de análise baseadas nos conhecimentos
etnobiológicos a respeito, principalmente, dos cetáceos. Os resultados desta pesquisa justificam a
continuidade e um aprofundamento de estudos no campo da etnobiologia que poderá abrir precedentes
para começarmos a delinear um plano de conservação para os cetáceos da costa norte do Brasil, aliando
conhecimento tradicional e educação ambiental, e contando com a participação de diversos atores sociais,
principalmente aqueles que vivem em áreas importantes do ponto de vista da conservação da fauna
aquática.
Palavras-Chaves: mamíferos aquáticos, etnobiologia, educação ambiental.

INTRODUÇÃO
Os mamíferos aquáticos correspondem a um dos mais conspícuos componentes da diversidade
biológica marinha (Geraci & Lounsbury, 2005). O termo “mamífero marinho” compreende cinco grupos, a
saber: os cetáceos (baleias, golfinhos, toninhas, cachalotes), pinípedes (leões-marinhos, lobos-marinhos,
morsas e focas), sirênios (peixei-bois, dugongos e vaca-marinha), mustelídeos (lontras e ariranhas) e urso
polar (Jefferson, Webber & Pitman, 2008). Os dados mais recentes de estudos na costa norte do Brasil
deve-se ao esforço de monitoramentos implementados por Salvatore et al. (2008) que revelaram a
ocorrência de 24 espécies de mamíferos aquáticos (Siciliano et al., 2008; Ramos; Siciliano; Ribeiro, 2010;
Tavares et al., 2010).
A multiplicidade de interações que as culturas humanas estabelecem com os animais é abordada
pela perspectiva da Etnozoologia, ramo da Etnobiologia que investiga os conhecimentos, significados e usos
dos animais nas sociedades humanas. Desse modo a Etnozoologia apresenta-se como uma valiosa
ferramenta interpretativa quando se estudam as interações entre humanos e animais em uma determinada
região (Santos-Fita e Costa-Neto, 2007).
Algumas espécies são escolhidas estrategicamente e de acordo com o grau de interesse das
pessoas, sendo usadas como alvo nos programas de conservação. Essas espécies denominam-se espécies
bandeiras (Carrillo et al., 2007).
Betler (1995) reporta que a educação ambiental é um componente interessante aos programas de
conservação de espécies bandeiras em conjunto com outras ações tais como pesquisa, reprodução em
cativeiro e atuação política. Diversos programas de conservação com espécies bandeiras utilizam educação
ambiental e têm se mostrado promissores. Dentro dessa ótica, Trujillo et al. (2010), acreditam que os
mamíferos aquáticos podem funcionar como embaixadores dos ecossistemas aquáticos, despertando,
através do seu apelo carismático, o interesse nas pessoas pela sua conservação.

Orientadora: Maria Luisa da Silva. Coordenadora do Laboratório de Ornitologia e Bioacústica. E-mail:


silva.malu@uol.com.br

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Esta pesquisa tem o intuito precípuo de investigar quais as concepções prévias de alunos do Ensino
Fundamental II que estejam na faixa etária dos 10 a 15 anos de escolas públicas localizadas na costa leste
da Ilha de Marajó que permitirá a construção de um projeto de educação ambiental e será aplicado e
testado durante fase do projeto, pertinente à conservação dos mamíferos aquáticos.

MATERIAL E MÉTODOS
Participaram da pesquisa 33 alunos de ambos sexos da Vila de Joanes, pertencente ao município de
Salvaterra, localizado na costa leste da Ilha de Marajó, PA. Os discentes estão distribuídos entre os 7º e 9º
anos do ensino fundamental da Escola Municipal de Joanes. As séries escolhidas justificam-se pelo fato dos
alunos terem, ou ainda estarem, estudando dentro do conteúdo programático de Ciências, o assunto seres
vivos e meio ambiente.
O diagnóstico se deu por meio de entrevistas semi-estruturadas e foram executadas entre os dias
27 de abril a 22 de maio de 2011, com o intuito de sistematizar o conhecimento dos estudantes sobre os
mamíferos aquáticos e questões culturais relacionadas ao imaginário popular na comunidade pesqueira da
Vila de Joanes, Salvaterra, Ilha de Marajó, PA.
O método consiste em solicitar a participação voluntária de alunos. Em seguida, explicam-se
brevemente os objetivos da pesquisa e os alunos são cadastrados. Durante o evento, coleta-se o local de
moradia e dia e hora disponível para realização da entrevista.
Para este estudo, foi selecionada uma escola municipal sediada na Vila de Joanes, município de
Salvaterra, Ilha de Marajó, Pará. Esta escola funciona em três turnos, com ensino fundamental I (2º a 5º
anos) pela manhã, ensino fundamental II (6º ao 9º anos) à tarde e noite, e conta ainda com turmas da
Educação de Jovens e Adultos (EJA). A escola está sob jurisdição da secretaria municipal de educação, com
sede no município de Salvaterra, PA.
Na etapa seguinte, três pesquisadores devidamente treinados, seguem para casa dos alunos
cadastrados e iniciam as entrevistas perfazendo um total de 11 perguntas referentes às quatro espécies de
mamíferos aquáticos que ocorrem na região (duas de botos e duas de peixes-boi) e uma de não ocorrência
na área, mas de destaque no âmbito dos projetos de conservação, tendo cuidado de permitir que o aluno
fique à vontade para responder às perguntas sem fugir do tema norteador. Cada entrevistador tinha um
catálogo com fotos e desenhos de cada espécie alvo da pesquisa. Antecedente a esta etapa, segue uma
série de formalidades éticas, onde cada responsável do menor assina um “Termo de consentimento livre e
esclarecido” autorizando o mesmo a participar do estudo. Ao final de cada entrevista o pesquisador
solicitou que o aluno preenchesse uma prancha topográfica que continha cinco gravuras de espécies de
mamíferos aquáticos com lacunas para preenchimentos dos nomes das partes que configuravam a
morfologia externa do animal (Figura 1).

Figura 9: Topografia corporal dos cetáceos.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


192

Ao final de todo processo de diagnóstico, entregávamos uma carteirinha com as informações geral
do participante que o tornava colaborador-mirim do GEMAM (Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos
da Amazônia) (Figura 2).

Figura 10: Carteirinha Colaborador-mirim do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos (GEMAM).

Os dados qualitativos foram interpretados e categorizados através de histogramas com o intuito de


identificar rapidamente os padrões de variabilidade, para isso utilizou-se programa de computador
Statistica, StatSoft versão 7.1.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise dos resultados referentes aos questionários exploratórios permitiu avaliar as


construções de conceitos dos estudantes relacionados ao ambiente onde os cetáceos residem na região, e
principalmente, sobre os botos (história natural, ecologia, comportamento) e finalmente a conservação
desta mastofauna.
Detivemo-nos em perguntas para averiguar o conhecimento mais detalhado dos alunos sobre os
botos e baleias, abordando aspectos relacionados primeiro ao conhecimento dos animais, avistagens, local
de ocorrência (questão 1), partindo do princípio que as investigações passaram-se em comunidade
ribeirinhas assentadas em ilhas e isso podia ser um indicativo de que havia uma relação “mais estreita” com
o animal e principalmente por viverem em um ambiente pesqueiro. Quando mostramos imagens
fotográficas ou ilustrações de baleia-jubarte (Megaptera novaenglia), 87% dos alunos dizem conhecê-la e a
maior parte (66%) a viu na televisão em algum programa ambiental. A maioria dos alunos (51%) não soube
responder sobre o tipo de ambiente em que vivem esses animais, mesmo assim 27% conseguiram indicar
os oceanos como habitat para a espécie. Esse é um resultado esperado, já que a região não é usada pela
espécie durante suas rotas migratórias e em circunstâncias dos poucos encalhes documentados para a
região. Até o presente estudo, se tem apenas um registro de baleia, possivelmente da espécie
Balaenoptera musculus (baleia-azul) para a costa leste do Marajó segundo Siciliano et al. (2008).
Com relação ao conhecimento de cetáceos, 86% conhecem o boto-vermelho (Inia geoffrensis) e
utilizaram vários termos (etnoespécies) para identificá-lo tais como: boto-da-Amazônia, boto-malhado,
simplesmente boto ou ainda, peixe-espada. Outra espécie questionada para os mesmo parâmetros foi o
boto-cinza (Sotalia guianensis), sendo que a maior parcela da amostra (96%) diz conhecer o animal e o
identifica usando as etnoespécies golfinho, boto, boto-cinza, boto-malhado, boto-cuxi e boto-rosa. Quanto
ao habitat de ocorrência desses animais, para o boto-cinza verificamos que maioria das respostas indica o
ambiente aquático como preferencial, sendo que 40% apontam os rios. Os resultados demonstram que
frequentemente os alunos desta comunidade avistam botos, assim é importante frisar que parte dos

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alunos entrevistados é filhos de pescadores e alguns deles têm, além do estudo, a pesca como atividade
ocupacional. Rodrigues et al (no prelo) encontraram situação parecida em pesquisas com alunos de mesmo
perfil nos municípios de Soure e Abaetetuba, ambas no estado do Pará.
Quanto aos aspectos ecológicos (questões 4, 8 e 9), para o item alimentação dividimos questões
referentes à alimentação apenas dos cetáceos adultos e outra específica sobre alimentação dos filhotes.
Segundo os alunos, 61% relataram não ter esta informação. Já para os botos, nas duas espécies, a maior
parte da amostra indicou o forrageio de peixes. Os alunos demonstraram conhecer aspectos da
alimentação dos botos quando afirmaram que os mesmos alimentam-se de peixes. Acrescentam-se aí os
relatos dos alunos demonstrando que os mesmos possuem conhecimento sobre a dieta dos filhotes
baseada em leite. Pescadores experientes de Cananéia, no litoral sul de São Paulo, também demonstram
conhecer aspectos da ecologia trófica desses animais, inclusive dos filhotes, pois sabem que se alimentam
de leite quando nascem (Oliveira, 2007).
Quando perguntados sobre como nasciam os filhotes para cada espécie indicada nas imagens, 87%
não souberam responder e apenas 10% sugeriu respostas que indicavam placenta. Estes resultados
também foram encontrados para os botos.
No aspecto conservação, tanto para baleias (33%) quanto para os botos-cinza (75%) e botos-
vermelho (26%), parte da amostra concorda que os cetáceos sofrem ameaças do tipo interações com a
pesca, poluições e destruição do habitat entre os itens mais frequentes.
Os conhecimentos adquiridos pelos alunos pesquisados dentro do âmbito deste estudo têm
contribuição de vários caminhos, desde a família, passando pelos elementos culturais (músicas, estórias do
local) até a educação formal. As várias influências norteiam o arcabouço de conhecimento desses alunos
sobre elementos que fazem parte do seu contexto ambiental. Rodrigues (2008) relata que em comunidades
de pesca tradicional as crianças iniciam cedo as atividades relacionadas à pesca, acompanhando seus pais e
demais parentes no ofício. Muitas abandonam os estudos para dedicarem-se exclusivamente a esse tipo de
trabalho. As estórias contadas pelos alunos têm sempre um interlocutor que pode ser o pai, o avô ou um
parente próximo que guarde uma relação estreita com os ambientes lacustres e com os animais que dele
fazem parte.

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
Os resultados desta pesquisa justificam a continuidade e um aprofundamento de pesquisas no
campo da etnobiologia que poderá abrir precedentes para começarmos a delinear um plano de
conservação para os cetáceos da costa norte do Brasil, aliando conhecimento tradicional e educação
ambiental, e contando com a participação de diversos atores sociais, principalmente aqueles que vivem em
áreas importantes do ponto de vista da conservação da mastofauna aquática.

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Colombia, 249 pp.

João Pessoa, outubro de 2011


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FLORÍSTICA E FITOSSOCIOLOGIA EM UMA ÁREA INVADIDA POR Sesbania


virgata (CAV). PERS. NA PARAÍBA
Ariosto Céleo de ARAÚJO
Graduando em Agronomia pela Universidade Federal da Paraíba, Campus Universitário, Cidade Universitária, CEP 58397 -
000, Areia-PB, Brasil. Fone: (83) 3362-2300 Ramal 254.Fax: (83) 3362-2259. E-mail:ariosto.agronomia@gmail.com
Juliano Ricardo FABRICANTE
Doutor em agronomia, Fundação Universidade Federal do Vale do São Francisco, Petrolina -PE, Brasil. Caixa Postal 252.
Fone: (87) 3986-3806. E-mail: julianofabricante@hotmail.com
Leonaldo Alves de ANDRADE
Professor Dr. da Universidade Federal da Paraíba, Campus Universitário, Cidade Universitária, CEP 58.397 -000, Areia-PB,
Brasil. Fone:(83) 3362-2300 Ramal 254.Fax:(83)3362-2259. E-mail: landrade@cca.ufpb.br

RESUMO
A espécie Sesbania virgata (Cav.) Pers., devido a sua característica de agressividade e, por
conseguinte, os danos expressivos causados na vegetação da caatinga, vêm recebendo enfoque especial no
que se refere ao tema invasão biológica. É de suma importância o aprofundamento de estudos que aludem
à invasão biológica, para tanto, a análise dos ambientes invadidos definem um melhor entendimento das
estratégias de invasão, de modo a subsidiar ações conservacionistas a fim de proteger o patrimônio
genético autóctone. O presente estudo foi realizado em um trecho de uma margem do rio Paraíba, no
município de Natuba - PB, com o objetivo de avaliar a influência de S. virgata sobre o componente vegetal
alvo da referida região. Na metodologia, foram alocadas dez parcelas de 10x10 (100m²), nos quais os
indivíduos adultos de todas as espécies do componente arbustivo-arbóreo foram inventariados e medidos.
Para a avaliação da estrutura, foram calculados a área basal e os valores relativos e absolutos de
Frequência, Densidade, Dominância, Valor de Importância e Diversidade. A espécie tem se demonstrado
apropria a ambientes com efetivas atividades antrópicas a exemplo da grande parte da área da Caatinga,
onde desde o inicio da sua ocupação vem passando por um processo de exploração desordenado. A baixa
diversidade, conjuntamente com os dados de estrutura das populações, revelam os graves impactos que S
virgata provoca nas comunidades invadidas.
Palavras-chave: Fitossociologia, invasão biológica, matas ciliares.

INTRODUÇÃO
Entende-se como invasão biológica o processo de introdução de determinado organismo,
intencionalmente ou não, tornando-o incoercível além de sua área natural de distribuição geográfica,
afetando assim, a resiliência dos ecossistemas e a biodiversidade local. Tais características contribuem
indubitavelmente para que as invasões biológicas sejam consideradas como a segunda maior causa global
em perdas da diversidade biológica (Ziller, 2001).
A invasão biológica apresenta um inexorável impacto sobre as biotas nativas de todo o planeta,
sendo ela um significativo agente de degradação ambiental (Novacek & Cleland, 2001; Sheil, 2001). Tais
características apontam tal problemática como um assunto preponderante no meio ecológico global, que
ainda carece de investigações efetivas em ambientes tropicais (Fine, 2002).
Estudos realizados apontam que mais de 120 mil espécies, incluindo plantas, animais e
microorganismos, possuem características invasivas, suscitando perdas econômicas na ordem de US$ 230
bilhões ao ano. Referente a danos ambientais, o custo anual ocasionado pelas invasões biológicas já
atingem US$ 100 bilhões anuais (Cenargen – Embrapa, 2005).
Diante da veemência do problema, a invasão biológica vem atualmente recebendo atenção de
pesquisadores e parte da sociedade (FAO, 2005). Nos anos noventa, estudos dessa natureza tiveram um
salto considerável. Dentre os estudos conhecidos, destacam-se os desenvolvidos por Noble (1989), Roy
(1990), Rejmanek e Richardson (1996), Williamson e Fitter (1996), Pegado et al. (2006), Lawes e Grice
(2007), Andrade et al. (2008) e Santana e Encinas (2008).

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


196

A espécie Sesbania virgata é uma Fabaceae arbustiva, com ocorrência natural na América do Sul,
atinge cerca de 6 m de altura, possui um comportamento fotossintético típico de plantas pioneiras.
Desenvolve-se naturalmente em terrenos úmidos e associa-se com Azorhizobium spp. (Chaves et al. 2004).
A espécie tem se demonstrado apropria a ambientes com efetivas atividades antrópicas a exemplo
das proximidades de estradas, margens de rios, pequenos córregos, terrenos baldios e áreas desmatadas
onde a mesma não encontra competidores. Segundo Lima (2003), Blumenthal, (2005) e Filgueiras (2005), as
regiões tropicais, a exemplo do Brasil, possuem facilitadores, como o clima favorável e a presença de nichos
vagos disponíveis aos táxons alóctones. Tais características propiciam grandes vantagens ecofisiológicas às
espécies exóticas em relação às espécies autóctones, o que ocasiona uma rápida dispersão, tornando as
primeiras invasivas nos ambientes nativos.
É de suma importância o aprofundamento de estudos que se referem à invasão biológica. Para
tanto, a análise dos ambientes invadidos definem um melhor entendimento das estratégias de invasão.
Segundo Aquino (2000), os estudos de estrutura populacional buscam analisar parâmetros quantitativos de
modo que se possam associar tais parâmetros à forma como as espécies exploram o ambiente e fornecer
dados sobre o seu crescimento e desenvolvimento.
Este trabalho teve como objetivo averiguar a estrutura populacional de Sesbania virgata (Cav.)
Pers. (Fabaceae) nas margens do Rio Paraíba de modo a subsidiar ações conservacionistas e orientar
políticas públicas destinadas ao controle e ou manejo de S. virgata.

MATERIAIS E MÉTODOS
Área de estudo
O município de Natuba, situado em uma zona de transição entre os biomas caatinga e mata
atlântica, possui área territorial de 205 km² (IBGE, 2011). A região possui precipitação anual de 900 mm e a
vegetação é representada pela Savana Estépica, com a presença de algumas entidades taxonômicas
florestais.
Para a realização deste trabalho foi selecionado uma área às margens do Rio Paraíba, situada entre
as coordenadas geográficas (07° 32' S e 35° 33' W) e altitude média de 364 m.

Figura 1- Disposição das parcelas na margem do Rio Paraíba, Natuba - PB.

Métodos
Foram instaladas 10 parcelas de 10 m x 10 m, totalizando 1.000 m² de área amostral. Todos os
indivíduos da espécie alvo do estudo e da comunidade arbustivo-arbórea inseridos no interior das unidades
amostrais foram amostrados, tendo sido mensurados o diâmetro à altura do solo (DAS) e altura total, por
meio de suta dendrométrica e vara telescópica graduada, respectivamente. Foram amostrados os
indivíduos adultos, sendo ponderados os que possuíam (DAS) maior que 3 cm.

João Pessoa, outubro de 2011


197

Para a avaliação da estrutura, foram calculados a área basal e os valores relativos e absolutos de
Frequência (FR e FA), Densidade (DR e DA), Dominância (DoR e DoA) e o Valor de Importância (VI) (Brown-
Blanquet, 1950; Müller-Dombois&Ellemberg, 1974). A diversidade da área estudada foi avaliada por meio
do índice de Shannon-Weaver (H’) (Ricklefs 1996).
As análises estatísticas foram feitas utilizando-se o Software Mata Nativa© 2(Cientec, 2002).

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram amostradas 368 plantas. Desse total, 350 eram da espécie S. virgata, seis eram da
Parkinsoniaaculeata L., seis da Geoffroeaspinosa, três da Prosopisjuliflora e três da Tabebuia caraiba Bur.
(Tabela 1).

Espécie N D D F F D D V
A R A R oA oR I
S. virgata(Cav.) Pers. 350 3500 95.11 100 47.62 7.281 93.90 236.62
P. aculeataL. 6 60 1.63 40 19.05 0.084 1.08 21.76
P. aculeataL. 6 60 1.63 30 14.29 0.192 2.47 18.38
P. juliflora 3 30 0.82 20 9.52 0.128 1.66 11.99
T. caraíba Bur. 3 30 0.82 20 9.52 0.069 0.89 11.23
Total 368 3680 100 210 100 7.755 100 300
Tabela 1- Parâmetros estruturais do extrato arbustivo-arbóreo amostrados as margens do Rio
Paraíba, Natuba, PB. Sendo: N= número de indivíduos; DR= densidade relativa (%); FR= frequência relativa
(%); DoR= dominância relativa e VI= índice de valor de importância.

No tocante à densidade, evidenciou-se que S. virgata predomina sobre as demais espécies (Tabela
1). Para estas, foram encontradas densidades, muito baixas, demonstrando ocorrência esporádica no local
estudado. Para os valores de DoA e DoR, S.virgata apresentou um valor muito alto em relação as demais
espécies, evidenciando-se uma total ocupação do ambiente (Tabela 1).
De acordo com o MMA (2002), a Caatinga sofreu, durante o seu processo de ocupação, graves
danos em seu componente vegetal devido a constante exploração realizada de forma desordenada. Devido
às características naturais da vegetação, qualquer tipo de degradação corrobora na proliferação de demais
espécies com potencialidades agressivas, como o Crotonsonderianus Muell. Arg.
Da mesma forma, no que se refere a FA e FR, S. virgata também apresentou os maiores valores.
Como afirma Ziller (2001), tal variável influencia no desempenho dos processos ecológicos naturais,
afetando diretamente aspectos como a redução das populações de espécies nativas, ocasionando perdas
consideráveis de biodiversidade e, na maioria das vezes, áreas de interesse ecosocioambiental. Como o
caso de áreas de matas ciliares, onde as mesmas desempenham funções ambientais e ecológicas
estratégicas, possuindo alto grau de endemismo e maior biodiversidade quando comparadas com áreas
adjacentes (Andrade et al., 2005)
Com relação ao índice de diversidade (H’), verifica-se um valor muito baixo (H’ = 0,26), se
comparado a áreas da região isentas de espécies invasoras, o que pode ser confirmado a partir da análise
de trabalho conduzido no mesmo bioma por Pegado et al. (2006). Este autor encontrou índice de
diversidade, para indivíduos adultos, de 2,81, valor bem superior ao encontrado no presente trabalho.
Deste modo, evidencia-se que a presença de S.virgata modificou consideravelmente a fitodiversidade do
ambiente, o que destaca a baixa equabilidade da comunidade em virtude da alta ocorrência de indivíduos
da espécie invasora.
Dentre os fatores associados para o sucesso da espécie na área, pode-se mencionar a questão da
fácil dispersão de seus propágulos através das eventuais cheias ocorrentes no rio, a dispersão via animais e,
sobretudo, a grande presença de nichos vagos, deixando o ambiente em condições ambientais favoráveis a
uma rápida dispersão de S. virgata. Segundo Campos et al. (2005), apesar de vários órgãos governamentais
indicarem o cultivo de espécies alóctones invasoras em várias situações, tais órgãos não dão o enfoque
necessário a questão da dispersão das mesmas, e assim vários problemas tem sido observados com
inúmeras espécies a exemplo de Prosopis juliflora, Pinuspallida, Acaciamearnsii e Sesbania virgata (Campos
et al., 2006; Andrade, 2006).

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


198

Conforme Sousa et al. (2011), em estudos realizados na mesma região, constatou-se que
indivíduos de S. virgata, em um período de seis meses, apresentaram valores médios de 3,1 ± 0,7 m de
altura, 3,3 ± 0,4 m de copa média e 4,7 ± 0,8 cm de DNS, ratificando a sua rápida capacidade de
crescimento e desenvolvimento. Tal característica invasiva também foi constatada por Coutinho et al.
(2005) em uma área degradada por extração de argila, onde o crescimento das plantas estabilizou-se entre
o 8º e 10º mês de avaliação.
Com relação ao Valor de Importância (VI) (Figura 2), as espécies que apresentaram os maiores
valores foram respectivamente, S. virgata (236,62) (Figura 2), P. aculeata. (21,76), G. spinosa(18,38), P.
juliflora (11.99) e T. caraiba Bur. (11,231). O VI refere-se ao grau de importância que a espécie exerce em
determinado ambiente e é composto pela somatória dos demais parâmetros estruturais da espécie. Como
afirma Parker et al. (1999), a redução na importância das espécies nativas em remanescentes é um dos
principais reflexos dos processos de invasão biológica, pois interfere na resiliência dos ecossistemas.

Figura 2.Valor de Importância (VI) das espécies ocorrentes as margens do Rio Paraíba, Natuba, PB.

Observa-se na Figura 3, que a espécie S. virgata possui, no ambiente de ocorrência, condições


favoráveis à sua dispersão (água disponível, solo, luminosidade, nichos vagos), o que favoreceu a ocupação
da área de mata ciliar e a diminuição da heterogeneidade vegetal, causando impactos na resiliência do
ecossistema avaliado.

João Pessoa, outubro de 2011


199

Figura 3. Margem do Rio Paraíba, Natuba, PB - 2010.

De acordo com Souza et al. (2011), os sítios preferenciais de S. virgata na caatinga são as matas
ciliares. Nesses locais, a espécie apresenta características agressivas. Em outras regiões ela também vem
demonstrando importância, como no município de Bauru, SP, onde a mesma já é considerada invasora em
áreas de preservação permanente (Bauru, 2007).
Não se sabe ao certo como S. virgata chegou à região, mas supõe-se que foi introduzida a fim de
recomposição de matas ciliares. Isso ratifica o que afirma Durigan e Nogueira (1990), que para a
recomposição vegetal devem ser utilizadas somente espécies de ocorrência natural da região.

CONCLUSÃO
A espécie S. virgata afetou fortemente a estrutura e a diversidade da mata ciliar do Rio Paraíba na
cidade de Natuba, PB;
O processo de invasão da espécie S. virgata prejudica de forma efetiva a resiliência do
ambiente, tornando as perdas ecológicas sob constantes acréscimos lineares, o que exige a necessidade de
soluções emergenciais de modo a eliminar os indivíduos ocorrentes e preservar as áreas não infestadas.

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Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


202

BIOGEOGRAFIA APLICADA À GESTÃO AMBIENTAL


Edson Vicente da Silva
Professor da Universidade Federal do Ceará - UFC
Pesquisador do CNPq
E-mail: cacau@ufc.br

Introdução
A Biogeografia, como área de conhecimento científico integra a Ciência Geográfica, e tem como seu
objetivo de análise a distribuição geográfica dos seres vivos, explicando suas relações com outros
componentes geoambientais e com a organização social. Assim ela se inter-relaciona diretamente com os
outros setores e disciplinas da Geografia como um todo, ou seja Geografia Física, Humana e Instrumental.
Em seu desenvolvimento científico assume um enfoque interdisciplinar que a leva a percorrer terrenos
teórico-metodológicos alheios à Geografia, como a Biologia e a Ecologia. No contexto atual contribui com a
Biotecnologia, Ciências Médicas, Bioquímica e a Análise Ambiental.
O Planejamento e a Gestão Ambiental assumem novas posturas metodológicas em razão da
extrema complexidade das relações Sociedade e Natureza, incorporando enfoques teóricos sistêmicos e
interdisciplinares. Assim a Biogeografia contribui nesse sentido, ampliando os seus conhecimentos
tradicionais e aplicando novas interações disciplinares, no intuito de estimular a interdisciplinaridade
necessária à gestão dos territórios. A essência desse artigo é relatar como a Biogeografia têm contribuído
nas diferentes etapas e processos essenciais ao desenvolvimento de planos de gestão ambientais em
diferentes escalas de análise.
A Biogeografia, em sua essência, estuda a distribuição dos seres vivos, além de explicar as suas
inter-relações com os outros componentes e processos geoambientais e biológicos. Dessa forma, a
Biogeografia encontra-se no limbo da interface entre a Geografia e a Biologia, não assumindo porém, uma
total independência com relação a essas duas áreas de conhecimento. No âmbito das ciências geográficas
ela fornece um enfoque maior aos seres vivos, subdividindo-se em Fitogeografia (estudo da vegetação, sua
estrutura, fisionomia, taxonomia, etc.) e Zoogeografia (grupos faunísticos, funções dentro das unidades
ambientais, relações com seres humanos, taxonomia, etc.). Não é uma ciência independente, compõem
sim uma disciplina dentro do conjunto das ciências geográficas, inter-relacionando-se com os estudo de
geologia, geomorfologia, solos, clima e dos recursos hídricos.
Com relação a Biologia, a Biogeografia obviamente aproxima-se da Botânica e da Zoologia,
perpassando pelas taxonomias vegetal e animal. Porém em sua aplicabilidade, ela agrega-se mais à
Ecologia, seja ela vegetal ou animal, bem como à Ecologia Humana, ao abordar as relações entre biocenose
e os seres humanos. A Autoecologia propicia um maior conhecimento das espécies quanto as suas funções
e suas possibilidades de servirem como bioindicadores de qualidades/problemas ambientais. Já a
Sinecologia, fornece as bases para o conhecimento das comunidades e sua atuação na conformação das
paisagens, através da interação com os outros componentes ambientais e as atividades humanas.
A Biogeografia, é portanto, uma área científica bastante ampla e heterogênea, que atua em três
principais direções, que se complementam na análise do conjunto paisagístico: (i) a corologia, que estuda
as áreas geográficas das unidades taxionômicas (famílias, gêneros e espécies), as origens e transformações
que ocorrem, e sua distribuição geográfica; (ii) a biocenologia, que analisa as comunidades de organismos e
sua organização, bem como sua composição taxonômica e sua dinâmica; (iii) a ecologia, que interpreta as
inter-relações dos organismos e suas comunidades com o meio biótico e abiótico.
Esses três enfoques são diferenciados, porém inter-relacionados nos estudos biogeográficos,
propiciando varias possibilidades de inserção junto a outras áreas de conhecimento geográfico, nas
diferentes etapas para se chegar até a gestão ambiental. Desde a opção por ampliar diferentes
fundamentos teórico-metodológicos, como os enfoques sistêmico, ecodinâmico, geoecológico ou da
complexidade, a Biogeografia pode inserir-se como um aporte metodológico na complementação das
diferentes vertentes da análise, diagnóstico, planejamento e da própria gestão ambiental.

A inserção da Biogeografia na análise espacial

João Pessoa, outubro de 2011


203

Para compreender as interações entre a Biogeografia e outras disciplinas aplicadas na análise,


diagnóstico, planejamento e gestão ambiental, faz-se necessário discutir alguns conceitos básicos. Esses
conceitos estão vinculados à biosfera, flora e fauna, biota, comunidades vegetal e animal, biocenose e
ecossistema. A compreensão desses conceitos é de fundamental importância para que a inserção de
procedimentos biogeográficos com os outros enfoques metodológicos sejam eficientes.
O conceito de biosfera, condiz com a envoltura superficial do planeta, onde se desenvolvem todas
as atividades biológicas, com uma espessura máxima de cerca de 20 km. Esse enfoque biogeográfico
correlaciona o conceito de biosfera com o de geosfera, utilizado pela análise geossistêmica, que a considera
como a maior e mais ampla unidade sistêmica do planeta.
A flora e fauna correspondem ao conjunto de espécies/gêneros de vegetais e animais de uma
determinada região, que é estabelecida territorialmente e pode ser devidamente cartografada. O
conhecimento taxonômico da composição biológica de uma paisagem é fundamental na etapa de
inventário, na leitura da realidade espacial, principalmente quanto à definição de funções ambientais de
cada espécie, atuação na estabilização/colonização/sucessão ecológica-ambiental, como ainda de
indicadores biológicos, fonte de recursos naturais e possíveis vetores de enfermidades humanas, por
exemplo. A biota representa a união entre a flora e a fauna, ou seja, o conjunto de espécies historicamente
formadas em um território. Ela é de fundamental importância para a caracterização do ambiente interno
de um sistema natural, bem como a definição das características próprias de cada diferente unidade de
paisagem. Reflete também o nível de amadurecimento das relações entre os componentes geoambientais,
quanto aos processos de evolução da paisagem, em razão dos efeitos do macrorelevo e das
flutuações/estabilizações climáticas.
A concepção de comunidade vegetal é de caráter fisionômico e fitoecológico, uma vez que
considera as diferentes estruturas e tipos fisionômicos dos vegetais, em função de suas distintas formas de
vida. Na interpretação da realidade espacial geográfica, as comunidades vegetais, como formações
fitogeográficas, são interpretadas em diferentes escalas, indicando limites de biomas, geossistemas e
geofacies dos territórios analisados. Os estágios de conservação de um sistema ambiental, se
correlacionam diretamente com a intensidade das formas de ocupação e o uso tecnológico do espaço pelas
diferentes sociedades.
Por outro lado, a comunidade animal é um conceito análogo ao da vegetação. A Zoogeografia
considera como comunidade animal o complexo formado pelos indivíduos de diferentes espécies animais
em uma determinada área geográfica. Por meio da analise das comunidades animais é possível identificar
níveis de estabilidade ambiental, condições climáticas presentes e pretéritas e correlações com populações
humanas tradicionais. Biocenose, é uma definição utilizada para designar as comunidades de seres vivos
(animais e vegetais) que um lugar com as mesmas condições ambientais podem comportar. A biocenose
pode ser compartimentada em fitocenose (comunidades vegetais), zoocenose (comunidades animais) e
microbiocenose (comunidades de microorganismos). Delimitando-se as distintas biocenoses, é possível a
identificação de feições paisagísticas/geossistêmicas e inclusive de geofácies e geótopos, uma vez
possibilita elementos de interpretação e representação cartográfica em diferentes escalas e dimensões
ambientais.
A concepção de ecossistema, utilizada pela Biogeografia, leva diretamente aos fundamentos
teórico-metodológicos da Teoria dos Sistemas, da Análise Geossistêmica e da Ecodinâmica de autores como
Bertallanfy (1977), Tansley (1935), Tricart (1977), Bertrand (1972), Christofoletti (1979), e Rodriguez et al
(2010). Na abordagem sistêmica, pode-se diferenciar na ciência geográfica, a identificação de dois tipos de
sistemas: o ecossistema, utilizado pela Biogeografia e o geossistema, objeto de estudo da Geografia Física.
Rodriguez et al (2010) afirmam que o termo ecossistema é utilizado em diferentes concepções,
podendo ser definido como a associação de organismos vivos, constituindo um sistema que ocupa
determinado território. Em geral os estudos de ecossistemas direcionam-se ao sentido de conhecer o
centro do sistema, seu meio físico, organismos biológicos, seres humanos e suas inter-relações. Conforme
Claro Valdés (1996), o ecossistema não tem um volume definido, já que pode ser considerado desde uma
gota de água até uma biocenose, ou inclusive a biosfera como um ecossistema de todos os organismos
vivos.
Por outra parte, o geossistema pode ser abordado com as seguintes concepções: como formação
natural, como funções terrestres complexas, que incluem a Natureza, a população e a economia, como

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


204

qualquer sistema terrestre ou como qualquer objeto sistêmico estudado pela Geografia Física. Enquanto o
ecossistema é considerado um complexo monocêntrico ou biocêntrico, geossistema absorve um nível
maior e policêntrico. Assim, o geossistema envolve um maior número de componentes e de relações que o
ecossistema. Outra peculiaridade do geossistema é o seu caráter territorial ou espacial (TROPPMAIR, 1995),
o que lhe confere dimensões diferenciadas, como critérios de análise definidas por meio de escalas. Na
visão de Claro Valdés (1996), entre o ecossistema e o geossistema existem pontos de contato, sendo que
inclusive em alguns casos seus limites espaciais coincidem. O ecossistema por sua essência é uma noção
parcial, subordinada ao geossistema na qualidade de subsistema.
Outros critérios usados na Biogeografia, com base a fundamentos teórico-metodológicos da
Ecologia, fornece as bases relativas aos ciclos biogeoquímicos, cadeias alimentares, sucessões e clímax
ecológicos. Esses enfoques são importantes não apenas para a análise da estrutura espacial, mas
principalmente para a compreensão da dinâmica temporo-espacial dos territórios a serem avaliados.
Assume ainda a interpretação dos fluxos de matéria, energia e informação, que ocorrem na natureza de
forma constante e permanente, sendo que os componentes bióticos possuem papéis relevantes quanto a
funções de fixação, reciclagem e transporte de elementos dentro de cada sistema/complexo natural. Com a
interferência humana os direcionamentos e intensidades dos fluxos biogeoquímicos são modificados,
geralmente implicando em transformações paisagísticas e impactos que causam prejuízos socioambientais.
O estudo da cadeia alimentar, geralmente é direcionada a compreensão da funcionalidade e níveis
de estabilidade de um dado sistema natural ou antropo-natural, dentro de um contexto maior de um dado
território. Não aborda apenas e exclusivamente aspectos de caráter biológico, uma vez que considera os
fluxos de matéria e de energia dentro de cada cadeia alimentar, bem como as inter-relações entre espécies
autótrofas, heterótrofas e saprófitas no contexto da cadeia alimentar. O conhecimento da estrutura e
funcionabilidade de uma cadeia alimentar, subsidia informações no estabelecimento de níveis de
estabilidade ambiental dos sistemas analisados.
A interpretação dos processos de sucessão ecológica e clímax, está relacionada a análise das
transformações qualitativas que se manifestam nas comunidades de seres vivos no tempo e espaço. Nesse
sentido, considera os diferentes estados de evolução de um sistema biológico, desde o estado inicial de
colonização até alcançar um estagio relativamente estável denominado clímax. As sucessões podem
ocorrer por modificações da drenagem, a erosão/sedimentação, ou serem resultados das alterações
ambientais resultantes das ações da própria comunidade biológica. Os conceitos de comunidade clímax, ou
das que se encontram em estágio de equilíbrio ecológico, podem ser diferenciados em fitoclímax e
pedoclímax. Na primeira os fatores climáticos favorecem a sua evolução na direção do clímax, enquanto no
segundo caso, os solos propiciam esse desenvolvimento. Esses critérios de diferentes estágios de sucessão
ecológica e clímax, utilizado na Biogeografia é considerado como um importante subsídio para a definição
de ambientes ecodinâmicos, estabelecidos por Tricart (1977).
Os procedimentos necessários para a efetivação de planos de gestão ambiental, devem ser
procedidos por etapas de análise, diagnóstico e planejamento ambiental. A complementação e integração
dessas diferentes etapas de interpretação e valoração do espaço geográfico são pré-requisitos para a fase
de gestão ambiental e o acondicionamento territorial.
A Biogeografia fornece subsídios fundamentais à concretização das etapas dos planos de gestão e
suas compartimentações metodológicas, como o inventário, a análise setorial, a abordagem geossistêmica,
ecodinâmica e na interpretação das condições geoecológicas da paisagem. O inventário das condições
bióticas é subsidiado pela Biogeografia por meio dos estudos de fitoecologia, onde se delimitam e
descrevem aspectos fisionômicos e florísticos, bem como a cartografia temática das unidades
vegetacionais. A determinação dos componentes faunísticos pode ser representado taxionomicamente em
um dos principais grupos que compõem a fauna de um território ou sistema ambiental.
Com relação à análise setorial, sempre busca-se interpretar as especificidades de cada componente
geoambiental. A vegetação, flora e fauna no caso, devem ser interpretadas de forma a se conhecer as
diferentes inter-relações que as mesmas assumem com os outros geocomponentes da paisagem. Tipologia
e dinâmica climática, substrato/sedimentos litológicos, feições do relevo, percursos e acúmulos de águas
superficiais, afloramentos hídricos e outros aspectos geoambientais, por exemplo, se interagem de forma
contínua e recíproca, com os componentes e processos bióticos, devendo serem analisados de forma

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205

integrada, uma vez que são determinantes para a identificação e delimitação cartográfica das unidades e
sistemas ambientais.
Por meio da análise geossistêmica, é possível se estabelecerem os tipos de interações existentes
entre os componentes e processos geoambientais de um geossistema ou de suas subdivisões. A
Biogeografia fornece procedimentos teórico-metodológicos adequados para a devida integração de
estudos com outras disciplinas do conhecimento geográfico essenciais à análise integrada de seus
complexos ambientais. O geossistema em seu contexto policêntrico e territorial, demanda conhecimentos
e métodos aplicados à compreensão das relações Sociedade-Natureza. Assim, as informações sobre a
biogeografia de um território, subsidia elementos para a identificação e compartimentação dos
geossistemas, principalmente através da vegetação e sua composição florístico-fisionômica. Aporta ainda,
dados referentes ao uso dos recursos biológicos diretos, e também outros atributos naturais consorciados à
vegetação, flora e fauna, através de constituição de ambientes como florestas, savanas, campos, lagoas,
etc.
Acrescenta-se que dois dos principais componentes geoambientais necessários a
indicação/delimitação de geossistemas/geofáceis, são os tipos/formas de relevo e os tipos/feições
vegetacionais. Considera-se portanto, que a ação e composição biótica de um território é fundamental para
a definição de unidades geossistêmicas, e que o conhecimento dos aspectos biogeográficos aportam
critérios básicos para a compartimentação/zoneamento geossistêmico.
A ecodinâmica recorre diretamente aos procedimentos teóricos e metodológicos da ecologia, da
mesma forma que a Biogeografia o incorpora em suas ações de análise. Tricart (1977), considera o
ecossistema como um sistema de análise da Geografia Física, sendo que o conceito de sistema, na sua
concepção, consiste no melhor instrumento lógico para análise dos problemas ambientais. Afirma que a
sua utilização permite a adoção de uma atitude dialética por meio de uma visão de conjunto do meio
ambiente.
Na visão de Tricart (1977), a ecodinâmica oferece duas vantagens:
“Melhorar a geografia física, corrigindo o excesso unilateral da atitude analítica, corrigindo
o excesso unilateral da atitude analítica, de qual sofreu, isolando-se cada vez mais das outras
ciências e permanecendo uma disciplina por demais acadêmica. Ao lado das pesquisas analíticas,
deveremos desenvolver uma geografia física global, cooperando com a ecologia no estudo do meio
ambiente e, por conseqüência, útil e apta como base de muitas citações práticas.
Reequilibrar a própria ecologia. Na verdade quase todos os ecólogos se formaram inicialmente
como botânicos ou zoólogos, a base de sistemática e fisiologia. Em decorrência disso, eles estudam mais as
relações mútuas entre seres vivos do que as vinculações entre esses seres e o seu meio ambiente. Não
devemos criticá-los: faltou-lhe o apoio da geografia física, pulverizada e totalmente alheia aos aspectos
ecológicos” (TRICART, 1977, pág 19-20)
Compreende-se nas afirmações do autor, que a Ecologia e a Geografia Física, a partir de uma
possível fusão de enfoque metodológicos, poderiam permitir uma análise do espaço geográfico com maior
capacidade de síntese. Nesse sentido, a Biogeografia é a disciplina que apresenta maior capacidade de
integração metodológica nesse sentido, podendo assim subsidiar substancialmente a análise espaço-
temporal através da ecodinâmica.
A ecodinâmica incorpora interpretações de três principais níveis dos componentes geoambientais:
nível de atmosfera, nível de parte aérea da vegetação e nível da superfície do solo. No que consiste a
análise da parte aérea e vegetação, aspectos biogeográficos são inseridos como critérios de interpretação:
a fotossíntese como base a sustentação da cadeia alimentar, a radiação absorvida pela vegetação e seu
efeito sobre a pedogênese, a interceptação das precipitações e os efeitos da rugosidade da vegetação.
Tratando sobre o nível superficial de litosfera, destaca-se a importância do provimento de detritos vegetais
na proteção contra a erosão e na própria pedogênese, o efeito dos vegetais terrestres no ciclo hidrológico e
meteorização das rochas.
Portanto, a Biogeografia se integra aos estudos da ecodinâmica através de seus conceitos e
métodos, aportando informações sobre a fito e zoogeografia, de forma a propiciar a identificação, análise e
representação cartográfica dos ambientes ecodinâmicos de caráter diferenciados: estáveis, intermediários
e instáveis. A presença, estrutura, funcionalidade, estacionalidade e nível de conservação de vegetação é

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


206

um dos critérios mais fortes para a definição de níveis de estabilidade ecodinâmica, uma vez que influi
diretamente nos processos de morfogênese e de pedogênese.
A Geoecologia, como fundamento teórico-metodológico, incorpora a paisagem como seu objeto de
estudo, direcionando em sua aplicabilidade diferentes enfoques: estrutural, funcional, evolutivo-dinâmico,
atropogênico e integrativo da estabilidade e sustentabilidade da paisagem. Na abordagem da estrutura
(vertical e horizontal) a Biogeografia possibilita a análise da biocenose, realizando interpretações na
distribuição e associação das espécies da fauna e flora, bem como das suas inter-relações espaciais com os
outros componentes geoambientais na composição de uma unidade de paisagem.
O enfoque funcional da paisagem tem a finalidade de perceber como ela está estruturada e quais
relações condicionam a organização de seus elementos, definindo assim as suas funções naturais e sociais.
Dessa forma, a Biogeografia ajuda a compreender as manifestações naturais, na formação da paisagem
com relação ao grupo de processos que atuam na formação das estruturas vertical do perfil como:
biogênese, pedogênese, migração de elementos orgânicos, infiltração, e evaporação hídrica e acumulação
biogênica. Alguns tipos de paisagem apresentam um caráter biogênico dominante em sua funcionalidade,
como é o caso dos bancos de corais, atóis e cupinzeiros.
Considerando os aspectos evolutivos-dinâmico da paisagem, o conhecimento biogeográfico é
importante para se diagnosticar alguns aspectos referentes a colonização, sucessão e clímax de uma
paisagem, estabelecendo critérios de bioestabilidade e biodiversidade, que constituem indicadores de
diferentes níveis de equilíbrio evolutivo e de sua dinâmica. No enfoque antropogênico, o nível de
interferência humana sobre a biocenose, as modificações estruturais e funcionais exercidas sobre a
vegetação e grupos faunísticos, são informações de caráter biogeográfico fundamentais nos diagnósticos
geoecológicos.
Quanto aos aspectos de estabilidade e sustentabilidade paisagística, a Biogeografia aporta à análise
geoecológica, dados referentes às funções da vegetação na estabilidade geomorfológica de uma unidade
geoambiental. Acrescenta ainda dados sobre a estrutura e funcionalidade da cadeia alimentar, e as funções
dos organismos produtores, consumidores e saprófitas, relacionado-se à estabilidade ambiental. Com
relação a sustentabilidade, a análise da produtividade, diversidade e potencialidades do recursos
biológicos, é essencial para o estabelecimento de propostas de gestão ambiental direcionadas a um
desenvolvimento sustentável.

A cartografia biogeográfica como subsídio ao diagnóstico ambiental


Os mapas de informações biogeográficas constituem parte da cartografia temática, que é essencial
para a representação das condições naturais. Esses mapas biogeográficos são necessários para diferentes
disciplinas geográficas e biológicas, bem como para a análises e diagnósticos que incluam a avaliação das
condições geoambientais (estruturas e processos), bem como da regionalização natural e econômica de um
território. Propiciam um melhor conhecimento sobre as limitações, problemas e potencialidades dos
recursos naturais e os efeitos das ocupações humanas sobre as mesmas.
Claro Valdés (1996), explica que existem diferentes modos e formas de representação
cartográfica das condições biogeográficas. Essas modalidades de mapas, variam em função de suas escalas,
dos territórios correspondentes, do grau de generalização que possuam, bem como do objeto e objetivo de
sua construção. Segundo o seu conteúdo, os mapas biogeográficos podem ser aplicados, universais,
parciais e gerais, tratando sobre complexos faunísticos e florísticos.
Os mapas aplicados, compreendem os mapas indicativos e os de espécies úteis, entre
outros. Apresenta espécies ou comunidades bioindicadoras de condições ambientais, por exemplo as
espécies de mangue e o manguezal, indicam planícies fluviomarinhas. Os de espécies úteis, representam a
distribuição de plantas silvestres de valores medicinal e econômico, além de os mais aptos à caça e a pesca.
A elaboração de mapas universais serve para indicar a distribuição e organização da biota.
Alguns deles são os mapas florísticos e faunísticos, enquanto outros constituem a representação
cartográfica da vegetação e dos grupos faunísticos. Já os mapas parciais, compreendem a indicação de
espécies individuais ou as categorias sistemáticas superiores. Os de espécies individuais demonstram a
distribuição nos diferentes ambientes do terreno, e os de população de espécies individuais, mostram as
diversas características de povoamento vegetal e animal, incluindo fenômenos de dispersão e migração.

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207

Os mapas gerais são representações espaciais de complexos de plantas e animais,


indicando extensão e localização de conjuntos fito e zoogeográficos, compreendem ordens ou classes,
podem também ser de representações de biomassa e produção animal e vegetal, cadeias de alimentação,
níveis de biodiversidade, e de população que originam a circulação de portadores de enfermidades.
De acordo com o território, os mapas podem ter caráter de abrangência global, regional ou
local. Podendo ainda assumir representações analíticas ou sintéticas. Os analíticos têm índices mais simples
e específicos, como por exemplo os mapas fenológicos, e os sintéticos são os que congregam vários índices,
como o de regionalização biótica.
No que consiste as formas de representação cartográfica, os mais utilizados são os mapas
de pontos, quadrículas, superfícies de extensão, limites absoluto de distribuição e de símbolos. São
empregados para representar áreas dos táxons e suas distribuições, os dados existentes sobre os mesmos e
os resultados das pesquisas. Em razão de suas escalas, podem ter diferentes aplicabilidades, desde
pesquisas em áreas chaves até a caracterização biogeográfica de grandes regiões. Dessa forma, os mapas
biogeográficos propiciam elementos e subsídios para a elaboração de análises e diagnósticos que podem
ser incorporados na elaboração de mapeamentos de síntese e propositivos, destinados ao planejamento e
gestão de um dado território.

A Biogeografia no âmbito da gestão local


Atualmente há um progressivo direcionamento à implantação de estratégias de gestão de caráter
local dos territórios, em razão de possibilidades de uma maior ação participativa da comunidade,
ampliando-se assim a democratização na tomada de decisões. O aprimoramento dos conhecimentos
científicos sobre os componentes e recursos biológicos, permitem a abertura de um leque mais amplo com
relação às possibilidades de gestão a nível local.
Levantamentos biogeográficos, com enfoques na taxonomia, caracterização das comunidades
bióticas e das inter-relações ecológicas, oferece diagnósticos apropriados a apresentação de soluções de
problemas, adaptações às limitações naturais e socioeconômicas, a otimização no uso dos recursos
biológicos disponíveis. Assim, tanto o inventário de espécies, as consorciações e relações com feições
ambientais, funções ecológicas na sucessão e clímax ecológico, propriedades físico-químicas das espécies, a
importância e função de cada comunidade fitoecológica e faunística, são informações apropriadas para o
estabelecimento de alternativas de gestão. É necessário compreender que no âmbito dos saberes
tradicionais, cada espécie da fauna e flora, associação ou comunidade da fito ou zoocenose, têm uma
simbologia popular e forma de uso ou aproveitamentos específicos que advêm de relações generacionais
passadas. O conhecimento de população sobre a fauna e flora é empírico e acumulativo, sendo
considerado nos estudos biogeográficos por meio de análises fito e zooetnoecológicas.
Os saberes tradicionais e os conhecimentos científicos desenvolvidos na Biogeografia, inter-
relacionados com outras áreas científicas, preenchem as lacunas existentes na complementação da
interdisciplinaridade, que é necessária ao planejamento ambiental direcionado à sustentabilidade
socioambiental. Deve-se compreender que quanto maior a biodiversidade local, mais ampla a criatividade e
a diversidade cultural que uma comunidade tende a possuir. Assim, a Biogeografia segue contribuindo não
apenas na gestão dos recursos biológicos de um território, mas sim subsidiando e integrando-se com outras
áreas de conhecimento, em rumo a um planejamento integrado e interdisciplinar, que busca as
possibilidades reais para um desenvolvimento sustentável local, de forma coerente e efetiva.

Referências
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dos complexo territoriais naturais. Georgia: Editora da Universidade de Tbilisi, 1983. (em russo)
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BERTRAND, G. La nature en geographie un paradigme dínterface. Toulouse, Gedoc, N. 34, 1991.
BERTRAND, G. Paisagem e Geografia Física Global: esboço metodológico. In: Cadernos de Ciências
da Terra. São Paulo, v. 13, p. 1-27, 1972.
CHRISTOFOLETTI, A. Análise de Sistemas em Geografia. São Paulo: Hucitec/EDUSP, 1979.
CLARO VALDÉS, A.R. Biogeografia. Havana: Editorial Pueblo y Edicación, 1996.
FERNANDES, A. BEZERRA, P. Estudo Fitogeográfico do Brasil. Fortaleza: Stylus Comunicações, 1990.

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ROUGERIE, G. e BEROUTCHACHVILI, N.L. Géosystèmes et paysages. Bilan et métodes. Paris: Armand
Colin, 1991.
SOCHAVA, V.B. Introdução à Teoria dos Geossistemas. Novosibirsk: Editora Nauka. 1978. (em russo)
TANSLEY, A.G. The use and abuse of vegetational concepts and terms. Ecology 16, 284-307, 1935.
TRICART, Jean. Ecodinâmica. Rio de Janeiro, IBGE, Diretoria Técnica, SUPREN, 91p, 1977.
TROPPMAIR, H. Biogeografia e meio ambiente. Rio Claro: Graf-set, 1995.

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RECONHECIMENTO DE PLANTAS MEDICINAIS NATIVAS DA CAATINGA


ATRAVÉS DA IDENTIFICAÇÃO DE FRUTOS E SEMENTES
1 2 3
Camila Firmino de AZEVEDO ; Katiane da Rosa Gomes da SILVA ; Riselane de Lucena Alcântara BRUNO
1
Bióloga, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Agronomia, UFPB/CCA/Areia – PB
2
Bióloga, bolsista PNPD, CAPES/UFPB/CCA/Areia – PB
3
Professora do Departamento de Fitotecnia e Ciências Ambientais, UFPB/ CCA/ Areia – PB
camfiraze@bol.com.br

RESUMO
A Caatinga é representada por uma região semiárida, onde várias espécies vegetais estão
diminuindo, principalmente devido à degradação ambiental. Muitas dessas plantas são pouco conhecidas
no que diz respeito à morfologia, fisiologia e ecologia, dificultando extremamente sua identificação. Dessa
forma, objetivou-se com essa pesquisa, descrever a morfologia de frutos e sementes de 12 espécies nativas
da Caatinga, com o intuito de auxiliar na diferenciação, disseminação e conservação. Foi descrita a
morfologia externa de frutos e sementes de 12 espécies nativas da Caatinga pertencentes a diferentes
famílias botânicas: Anacardiaceae (Myracrodruon urundeuva Fr. All. e Schinopsis brasiliensis Engl.),
Apocynaceae (Aspidosperma pyrifolium Mart.), Burseraceae (Commiphora leptophloeos (Mart.) J. B. Gillett),
Euphorbiaceae (Sapium lanceolatum Huber), Leguminosae – Caesalpinioideae (Caesalpinia ferrea Mart.,
Caesalpinia pyramidalis Tul. e Parkinsonia aculeata L.) e Leguminosae – Mimosoidea (Mimosa arenosa
(Willd.) Poir., Mimosa caesalpinifolia Benthan, Piptadenia stipulaceae (Benth.) Ducke e Mimosa tenuiflora
(Willd.) Poir.). Observou-se que caracteres como tipo de fruto, coloração, formato, tamanho, deiscência do
fruto, presença de apêndices e alas, tipo de superfície e número de sementes por fruto revelaram-se
extremamente úteis na diferenciação das plantas medicinais nativas da Caatinga avaliadas neste estudo;
pois além de várias espécies desse bioma apresentarem semelhanças na morfologia de órgãos vegetativos,
existe uma grande variação na morfologia externa de frutos e sementes, revelando-se características
bastante relevantes para a identificação desses vegetais no campo.
PALAVRAS-CHAVE: morfologia, espécies florestais, semiárido, identificação no campo.

INTRODUÇÃO
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e ocorre em todos os estados do Nordeste e
norte de Minas Gerais. Ela é caracterizada como uma região semiárida, apresentando plantas adaptadas
fisiologicamente às condições de deficiência hídrica e térmica. Muitos desses vegetais encontram-se
extremamente diminuídos em suas populações naturais, principalmente pela degradação ambiental e pelo
uso irracional dos mesmos; o que, de acordo com Alves et al. (2008), resulta em intensa devastação, por ser
menos valorizado e por ter sido por muito tempo considerado pobre em biodiversidade. Por este motivo, é
que apenas nos últimos anos a Caatinga passou a ser estudada mais detalhadamente e até hoje pouco se
sabe sobre suas potencialidades (GARIGLIO et al., 2010). As espécies vegetais desse bioma são pouco
conhecidas não apenas pela população em geral, mas também por acadêmicos e cientistas, dificultando a
realização de pesquisas, principalmente na fase de coleta e identificação.
O estudo e a conservação da diversidade biológica da Caatinga é um dos maiores desafios da
ciência no Brasil, pois é a região natural brasileira menos protegida, já que as unidades de conservação
cobrem menos de 2% do seu território (LEAL et al., 2003; VELLOSO et al., 2002). Dessa forma, é necessária
e urgente a realização de estudos com espécies deste bioma, com pesquisas que envolvam fisiologia,
morfologia, taxonomia, ecologia, entre outras; que possam contribuir para o reconhecimento,
disseminação e conservação de tais espécies.
Dentre os estudos de morfologia vegetal, a caracterização de frutos e sementes tem papel
relevante nas pesquisas de ecologia, pois auxiliam na identificação taxonômica dos vegetais e ajudam no
reconhecimento das espécies; informação essencial para a disseminação e produção de espécies florestais.
A descrição morfológica de sementes, em especial, é de bastante valia, já que são bastante resistentes às

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variações ambientais, principalmente em regiões semiáridas, podendo permanecer intactas por um longo
período aguardando as condições ideais para germinarem.
Diante do exposto, objetivou-se descrever a organização estrutural externa de frutos e sementes
de 12 espécies nativas da Caatinga, com o intuito de auxiliar na diferenciação.

MATERIAL E MÉTODOS
Foram coletados, em áreas da Caatinga paraibana, frutos e sementes maduros de 12 espécies
medicinais arbóreas pertencentes a diferentes famílias. A descrição com nome das espécies, a família, o
local (cidade) e a data de coleta estão representados na Tabela 1. Foi realizada uma descrição detalhada da
morfologia externa de frutos e sementes das espécies, dando ênfase às características que facilitam a
diferenciação no campo. Para determinação das dimensões, foram realizadas 50 medições, utilizando-se
paquímetro digital; e para pesagem das sementes, foi utilizada balança analítica com precisão de 0,001g.
Todas as espécies foram fotografadas para auxiliar a descrição e identificação. De cada espécie, foram
determinadas as seguintes características dos frutos: tipo, dimensões, coloração, formato, textura,
deiscência, número de sementes por fruto e presença de ala; e das sementes: dimensões, peso, coloração
do tegumento, tipo de superfície, formato, presença de ala e presença de apêndices.
Tabela 1. Relação das espécies medicinais nativas da Caatinga estudadas e suas respectivas famílias,
nomes comuns, local e data de coleta.
L
Nome ocal de Data de
Família Nome científico
comum coleta coleta
(PB)
Myracrodruon urundeuva Fr. Aroeira-do- Serra
Outubro/2010
All. sertão Branca
Anacardiaceae
São João
Schinopsis brasiliensis Engl. Braúna Novembro/2010
do Cariri
Serra
Apocynaceae Aspidosperma pyrifolium Mart. Pereiro Novembro/2010
Branca
Commiphora leptophloeos
Burseraceae Imburana Cuité Abril/2011
(Mart.) J. B. Gillett
Euphorbiaceae Sapium lanceolatum Huber Burra-leiteira Cuité Abril/2011
Caesalpinia ferrea Mart. Jucá Cuité Abril/2011
Serra
Leguminosae Caesalpinia pyramidalis Tul. Catingueira Outubro/2010
Branca
(Caesalpinioideae)
Serra
Parkinsonia aculeata L. Turco Abril/2011
Branca
Espinheiro-
Mimosa arenosa (Willd.) Poir. Cuité Abril/2011
branco
Mimosa caesalpinifolia Serra
Sabiá Outubro/2010
Leguminosae Benthan Branca
(Mimosoidea) Piptadenia stipulaceae (Benth.)
Jurema-branca Boa Vista Novembro/2010
Ducke
Mimosa tenuiflora (Willd.) São João
Jurema-preta Outubro/2010
Poir. do Cariri

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Myracrodruon urundeuva Fr. All. possui fruto pequeno (Figura 1), com 3,8 – 4,5 mm de
comprimento, 3,5 – 4,8 mm de largura e 2,8 – 3,8 mm de espessura; indeiscente, do tipo drupa globosa,
apresentando uma semente e cerca de 8,5 mg. O seu formato varia de redondo a ovoide, com coloração
marrom, superfície rugosa e sépalas secas e persistentes (alas). A semente da aroeira-do-sertão pode ser
considerada como fruto-semente, pois é muito difícil separá-la do fruto e para Griz e Machado (2001), toda
esta estrutura é determinada como diásporo ou unidade de dispersão. A descrição do tipo de fruto está de

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acordo com Maia (2004) e Barroso et al. (2004), porém Lorenzi (2008) o define como aquênio. De acordo
com Griz e Machado (2001) as sépalas auxiliam na dispersão pelo vento, estratégia comum em espécies da
Caatinga.

Figura 1. Myracrodruon urundeuva Fr. All. a. disposição dos frutos na planta. b. fruto com alas. c. fruto sem
alas.

Schinopsis brasiliensis Engl. apresenta fruto do tipo sâmara (Figura 2), com 30,2 – 37,7 mm de
comprimento, 11,5 – 13,8 mm de largura e 6,9 – 9,0 mm de espessura; indeiscente, com formato oblongo e
achatado, superfície lisa, coloração marrom clara, apresentando ala e apenas uma semente por fruto. A
semente possui 12,2 – 14,5 mm de comprimento, 8,6 – 10,2 mm de largura e 3,9 – 5,5 mm de espessura; é
marrom clara, ovoide, achatada, de superfície estriada e peso de 21 mg; o endocarpo envolve a semente
por completo e é extremamente rígido, sendo muito difícil desprendê-lo. A semente é dispersa pelo vento
juntamente com todas as estruturas do fruto, que apresenta uma ala para auxiliar nesse processo; por este
motivo, para (SILVA e RODAL, 2009) todas essas estruturas são consideradas como a unidade de dispersão.
De acordo com Oliveira e Oliveira (2008), o endocarpo que envolve a semente é o principal responsável
pela dormência nesta espécie, por ser completamente impermeável à água. S. brasiliensis e M. urundeuva
são muito difíceis de serem diferenciadas devido a semelhanças dos órgãos vegetativos (MAIA, 2004) e por
este motivo, a caracterização morfológica de frutos e sementes torna-se ainda mais relevante.

Figura 2. Schinopsis brasiliensis Engl. a. disposição dos frutos na planta. b. fruto. c. semente com endocarpo.

O fruto de Aspidosperma pyrifolium Mart. é do tipo folículo piriforme (Figura 3), com 47,9 – 77,6
mm de comprimento e 27,2 – 42,2 mm de largura; deiscente, lenhoso, de superfície rugosa e coloração
marrom, apresentando rugas brancas, forma de gota achatada e 4 – 9 sementes por fruto. A semente é
redonda, com 13,0 – 19,1 mm de comprimento, 13,1 – 18,2 mm de largura e 0,8 – 1,5 mm de espessura;
achatada, de coloração marrom amarelada, superfície lisa, apresentando ala e 13 mg de peso. As sementes
de pereiro apresentam certa dificuldade para serem coletadas, pois logo após a deiscência do fruto, as
sementes se desprendem e são carregadas pelo vento; dessa forma, os frutos devem ser coletados quando
estão no inicio da deiscência, para que as sementes não sejam perdidas. Para Leal et al. (2003), as alas e o
formato das sementes são os principais responsáveis pelo sucesso da dispersão, espalhando as sementes
por longas distâncias (SILVA et al., 2004).

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


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Figura 3. Aspidosperma pyrifolium Mart. a. disposição do fruto maduro na planta. b. fruto após deiscência. c.
semente.

Commiphora leptophloeos (Mart.) J. B. Gillett (Figura 4) apresenta fruto do tipo cápsula globosa,
com 19,2 – 24,3 mm de comprimento e 16,7 – 20,9 mm de diâmetro; deiscente, de coloração verde,
superfície lisa, formato variando de redondo a ovoide e contendo apenas uma semente. A semente é preta,
de formato ovoide levemente achatado, apresentando 9,2 – 11,8 mm de comprimento, 6,1 – 8,8 mm de
largura e 3,1 – 5,6 mm de espessura; superfície rugosa, peso de 11 mg e apresenta um arilo de coloração
vermelha. A imburana ainda é muito pouco estudada e são raros os trabalhos que tratam da morfologia e
ecologia da espécie. A descrição do fruto está de acordo com Maia (2004), porém Leal et al. (2003)
classifica o fruto como baga e Barroso et al. (2004), como drupa; este explica ainda que a interpretação da
morfologia dos frutos das Burseraceae ainda é muito controversa entre os autores.

Figura 4. Commiphora leptophloeos (Mart.) J. B. Gillett. a. disposição do fruto imaturo na planta. b. fruto
aberto após queda. c. semente.

O fruto de Sapium lanceolatum Huber é uma capsula globosa (Figura 8) contendo 3 sementes, de
superfície lisa quando verde e rugosa quando maduro, coloração marrom, formato arredondado e
deiscente. Quando o fruto se abre, as sementes ficam aderidas ao pedúnculo. As sementes possuem
formato de gota achatada em um dos lados, 6,9 – 8,8 mm de comprimento, 5,6 – 6,6 mm de largura e 4,4 –
5,4 mm de espessura; superfície rugosa, coloração preta com partes avermelhadas da sarcotesta, pesando
cerca de 11 mg. Para Barroso et al. (2004), a sarcotesta é praticamente impossível de se desprender da
semente e também ocorre em outras euforbiáceas.

Figura 8. Sapium lanceolatum Huber. a. disposição do fruto imaturo na planta. b. fruto maduro. c. sementes
aderidas ao pedúnculo. d. semente.

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Caesalpinia ferrea Mart. apresenta fruto do tipo legume (Figura 10), 53,9 – 118,6 mm de
comprimento, 20,1 – 27,7 mm de largura e 6,2 – 10,2 mm de espessura; contendo 3 – 10 sementes,
indeiscente, de formato oblongo achatado, coloração amarronzada e superfície rugosa. Sua semente é lisa,
com 10,7 – 13,0 mm de comprimento, 6,1 – 9,3 mm de largura e 3,6 – 5,8 mm de espessura; ovoide
achatada e marrom clara, pesando cerca de 26 mg. O tegumento de sua semente é bastante rígido e
segundo Crepaldi et al. (1998), é o principal responsável pela dormência. Queiroz (2009) explica que a C.
ferrea pertence a um grupo de espécies muito semelhantes, dessa forma, trabalhos de descrições que
enfoquem a diferenciação da espécie são essenciais.

Figura 10. Caesalpinia ferrea Mart. a. fruto maduro. b. semente.

O fruto de Caesalpinia pyramidalis Tul. é do tipo legume (Figura 11), apresenta 65,5 – 104,2 mm de
comprimento, 17,1 – 25,2 mm de largura e 2,5 – 5,6 mm de espessura; contendo 3 – 9 sementes,
deiscente, de coloração marrom escura, superfície lisa e formato oblongo achatado. A semente tem
formato ovoide achatado, com 9,5 – 13,9 mm de comprimento, 7,8 – 11,2 mm de largura e 1,8 – 3,0 de
espessura; coloração marrom clara e superfície lisa, pesando aproximadamente 15 mg. A catingueira
apresenta ampla distribuição na Caatinga e por este motivo, o seu reconhecimento no campo é essencial;
para Queiroz (2009), ela é umas das espécies que mais contribuem para a fisionomia característica desse
bioma.

Figura 11. Caesalpinia pyramidalis Tul. a. disposição dos frutos maduros na planta. b. fruto aberto e
espiralado após a deiscência. c. fruto aberto. d. semente.

Parkinsonia aculeata L. apresenta fruto do tipo legume (Figura 12), 32,9 – 83,6 mm de
comprimento, 3,2 – 3,8 mm de largura e 3,2 – 4,0 mm de espessura; contendo 1 – 5 sementes, indeiscente,
de formato oblongo pouco achatado e saliente na região da semente, com extremidades afiladas,
coloração marrom acinzentada e superfície rugosa. Sua semente é lisa, com 8,5 – 10,0 mm de
comprimento, 5,3 – 7,0 mm de largura e 4,3 – 5,4 de espessura; oblonga e marrom rajada, pesando cerca
de 8 mg. De acordo com Lorenzi (2008), os frutos de turco devem ser coletados diretamente da planta,
devido a ele ser indeiscente e permanecer por um tempo ainda aderidos após a maturação. Esta é uma
espécie ainda pouco estudada e pesquisas futuras são necessárias, principalmente sobre sua ecologia,
anatomia e fisiologia.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


214

Figura 12. Parkinsonia aculeata L. a. disposição dos frutos maduros na planta. b. fruto aberto. c. semente.

Mimosa arenosa (Willd.) Poir. apresenta fruto do tipo legume (Figura 17), 60,6 – 123,8 mm de
comprimento, 26,1 – 35,9 mm de largura e 2,0 – 3,7 mm de espessura; contendo 7 – 14 sementes,
deiscente, de formato oblongo pouco achatado e pouco saliente na região da semente, coloração marrom
clara e superfície lisa. Sua semente é lisa, com 8,3 – 10,0 mm de comprimento, 4,4 – 5,8 mm de largura, 1,5
– 2,6 de espessura; oblonga achatada e marrom rajada, pesando cerca de 7,5 mg. Estudos de descrição com
M. arenosa são escassos, para Queiroz (2009) este gênero ainda é pouco conhecido no que diz respeito à
diferenciação das espécies e a morfologia tem se mostrado uma ferramenta eficaz na identificação no
campo.

Figura 17. Mimosa arenosa (Willd.) Poir. a. disposição dos frutos maduros na planta. b. fruto. c. semente.

Mimosa caesalpinifolia Benthan tem fruto do tipo legume (Figura 18) dividido em 5 – 10 artículos
quadrangulares que contem em cada, uma semente; 51,6 – 81,2 mm de comprimento, 8,1 – 11,1 mm de
largura e 1,7 – 2,7 mm de espessura; indeiscente, de coloração marrom escura, superfície rugosa e formato
oblongo achatado. As sementes são lisas, com 6,2 – 7,1 mm de comprimento, 5,7 – 6,7 mm de largura e 1,7
– 2,0 de espessura; quadrangulares, achatadas, marrons, com cicatriz circundando cada lado e peso de 4
mg. Lorenzi (2008) identifica o tipo de fruto de sabiá como craspédio que, de acordo com Barroso (2004), é
um tipo de legume que possui carpelo fragmentado em artículos, os quais ficam íntegros após a maturação.
Confirmando essa característica, observou-se que a dispersão natural das sementes ocorre pela queda dos
artículos.

Figura 18. Mimosa caesalpinifolia Benthan. a. fruto. b. semente.

Piptadenia stipulaceae (Benth.) Ducke possui fruto do tipo legume (Figura 19), 60,2 – 104,0 mm de
comprimento e 14,3 – 19,7 mm de largura, 3 – 10 sementes, deiscente, de coloração marrom clara,

João Pessoa, outubro de 2011


215

superfície lisa, formato oblongo achatado e saliente na região da semente. As sementes são lisas, com 5,2 –
6,7 mm de comprimento, 4,3 – 5,3 mm de largura e 1,9 – 2,3 de espessura; formato variando de circulares
a ovoides, achatadas, marrons, com cicatriz na altura do eixo hipocótilo-radícula e peso de 4 mg. A jurema-
branca é endêmica e muito semelhante a outras leguminosas da Caatinga (QUEIROZ, 2009) e por este
motivo é que a diferenciação através da morfologia de frutos e sementes é tão importante. Futuras
pesquisas com esta espécie são necessárias, pois ela ainda é pouco conhecida no que diz respeito à
morfologia, fisiologia e ecologia.

Figura 19. Piptadenia stipulaceae (Benth.) Ducke. a. disposição dos frutos maduros na planta. b. fruto aberto
após a deiscência. c. semente.

O fruto de Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. é do tipo legume (Figura 20), com 32,1 – 55,4 mm de
comprimento, 5,8 – 7,7 mm de largura e 0,7 – 1,1 mm de espessura; dividido em 4 – 8 artículos
quadrangulares que contem uma semente em cada, indeiscente, de coloração marrom escura, superfície
rugosa e formato oblongo achatado. As sementes são lisas, apresentam 3,9 – 5,3 mm de comprimento, 2,7
– 3,7 mm de largura e 0,6 – 0,9 mm de espessura; são circulares achatadas e afiladas nas duas
extremidades, marrons claras e com peso de 1 mg. O fruto foi identificado como craspédio por Queiroz
(2009) e, de forma geral, apresenta as mesmas características morfológicas e de dispersão dos craspédios
de sabiá. De acordo com Camargo-Ricalde e Grether (1998), os artículos são carregados pelo vento e
podem ser disseminados por até 5 m da planta-mãe em áreas de vegetação densa e até 8 m, em áreas
abertas. A morfologia, especialmente a da semente, demonstrou-se de grande valia para a diferenciação de
M. tenuiflora e M. caesalpinifolia, já que os frutos apresentam vários aspectos semelhantes.

Figura 20. Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. a. disposição dos frutos maduros na planta. b. semente.

A descrição morfológica é uma das principais ferramentas utilizadas para identificar os vegetais,
demonstrando-se especialmente importante para a diferenciação de espécies florestais, pois cada vegetal
apresenta particularidades que podem ser utilizadas nessa identificação. A morfologia externa de frutos e
sementes é de extrema importância, pois é um dos assuntos mais complexos da morfologia vegetal
(BARROSO, 2004). Para a Caatinga tais estudos são ainda mais relevantes, pois este bioma é pouco
conhecido (LEAL et al., 2003) e segundo Gariglio et al. (2010), o aumento do conhecimento auxilia na
utilização sustentável dos recursos.

CONCLUSÕES

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


216

A caracterização morfológica de frutos e sementes de plantas medicinais nativas da Caatinga é


extremamente útil na diferenciação das espécies, pois existe grande variação na morfologia externa destes
órgãos, revelando-se aspectos bastante relevantes para a identificação destas espécies no campo.

REFERÊNCIAS
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ecogeográfica. Caminhos da Geografia. v.9, n.27, p.143-155, 2008.
BARROSO, G.M.; MORIM, M.P.; PEIXOTO, A.L.; ICHASO, C.L.F. Frutos e sementes: morfologia
aplicada à sistemática de dicotiledôneas. Viçosa: UFV, 2004.
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GARIGLIO, M.A., SAMPAIO, E.V.S.B.; CESTARO, L.A.; KAGEYAMA, P.Y. Uso sustentável e conservação
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217

ANÁLISE FITOSSOCIOLÓGICA DE UMA ÁREA DE ECÓTONO


CAATINGA/CERRADO EM BARBALHA - CE, BRASIL
Daiany Alves RIBEIRO
Graduanda do curso de Ciências Biológicas/Bolsista FUNCAP/Laboratório de Botânica/URCA
daiany_ars@hotmail.com
Ismael Meneses Moraes FEITOSA
Graduando do curso de Ciências Biológicas/Laboratório de Botânica/URCA
Thatiane Maria Souza de ARAÚJO
Pesquisadora do Laboratório de Botânica/Universidade Regional do Cariri - URCA

RESUMO
Apesar de ecótonos apresentarem uma grande riqueza florística, congregando espécies de ambas
as comunidades, estudos sobre eles ainda não são comuns no Brasil. A distribuição das formações
vegetacionais nestas áreas de transição está ligada a fatores geomorfológicos, edáficos e climáticos.
Objetivando contribuir com estudos em áreas de ecótonos, foi realizada a análise fitossociológica em uma
ecótono Caatinga/Cerrado em Barbalha – CE. Foram alocadas 15 parcelas de 20x20 m², pautadas
aleatoriamente na área, amostrando-se indivíduos vivos com diâmetro do caule ao nível do solo (DNS) ≥
3cm e altura ≥ 1m. Analisaram-se os seguintes parâmetros fitossociológicos: altura, diâmetro, densidade,
área basal e índice de valor de importância. Foram registrados um total de 46 espécies, das quais 36 foram
identificadas até o momento, sendo estas distribuídas em 15 famílias. Leguminosae foi à família mais
representativa, tanto em número de espécies (19), como em IVI (37,15%). A maior altura alcançada foi de
20m, atingida pela espécie Orbignya sp., enquanto que o maior diâmetro (118 cm) esteve com Hymenaea
velutina Ducke. Entre as espécies que se destacaram com maior densidade, área basal e IVI estão Thiloa
glaucocarpa (Mart.) Eichler, (26,83 ind./há., 21,89 m²/ha. e 56,49), Cassia curvifolia Vog. (28 ind./h., 18,55
m²/ha., e 54,31) e Croton blanchetianus Muell. Arg. (9,3 ind./ha., 4,83 m²/ha., 18,79). A densidade total e
área basal por hectare foram de 5.715 ind./ha. e 13,53 m²/ha., respectivamente.
Palavras-chave: Fitossociologia, ecótono, plantas

ABSTRACT
Although ecotones present a large number of species, bringing together species from both
communities, studies on them are yet not common in Brazil. The distribution of vegetation
formations in these transition areas is linked to geomorphological, climatic and edaphic factors. In
order to contribute to studies in areas of ecotones, it was perfomerd an ecotone phytosociological
analysis on Caatinga/Cerrado in Barbalha – CE. 15 plots of 20x20m² were allocated, guided randomly
in the area, sampling live individuals with stem diameter at ground level (DNS) ≥ 3 cm and height ≥
1m. The following phytosociological parameters were analyzed: height, diameter, density, basal
area and importance value index. Were recorded a total of 46 species, of wich 36 have been
identified so far, which are distributed in 15 families. Leguminosae was the most representative
family, both in number of species (19) and as IVI (37.15%). The greatest height reached was 20m,
achieved by the species Orbignya sp., while the larger diameter (118 cm) was with Hymenaea
velutina Ducke. Among the species that stood out with greater density, basal area and IVI are
Thiloa glaucocarpa (Mart.) Eichler (26.83 ind./ha., 21.89 m²/ha. and 56.49), Cassia curvifolia Vog.
(28 ind./h,, 18.55 m²/ha. and 54.31) and Croton blanchetianus Muell. Arg. (9.3 ind./ha., 4.83
m²/ha., 18.79). The total density and basal area per hectare were 5,715 ind./ha. and 13.53 m²/ha.,
respectively.
Keywords: Phytosociology, ecotone, plants

1 INTRODUÇÃO
Na região nordeste do país, a formação vegetacional mais expressiva é a Caatinga, em sentido
restrito ela ocupa 58% de seu território e 11% do território brasileiro. Está compreendido entre as áreas

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


218

dos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, o sudoeste do Piauí,
partes do interior da Bahia e do norte de Minas Gerais.
Ela é fortemente condicionado pelas irregularidades da distribuição das chuvas, exibe acentuadas
variações nas condições adafo-climáticas e, apesar de ser pouco conhecida quanto a biodiversidade e
distribuição geográfica dos organismos, apresenta forte heterogeneidade entre os habitats no que se refere
a composição florística e abundância das populações (SAMPAIO, 1995; TABARELLI & VICENTE 2002;
ARAUJO & TABARELLI 2002).
Segundo Figueiredo (1997), a vegetação decídua corresponde cerca de 80% da cobertura vegetal
do Ceará representada principalmente pela caatinga stricto sensu que ocorre associada a outras formações
também decíduas, porém ocupando menos extensão, como carrasco (arbustivo) e mata seca (floresta), que
ocorre também em chapadas e serras.
O termo cerrado em sentido restrito designa uma vegetação de fisionomia e flora próprias,
classificada como savana dentro dos padrões de vegetação so mundo (EITEN, 1994). Este bioma constitui a
segunda maior formação vegetacional do Brasil (MEIRA NETO & SAPORETTI JÚNIOR, 2002), onde ocupava
cerca de 23% do território nacional (AQUINO et al., 2007). O ocorre em 15 Estados distribuindo-se
principalmente em Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia e Distrito federal (ARRUDA,
2005). No Nordeste, as disjunções de cerrado podem ser encontradas nos Estados de Pernambuco
(SARMENTO & SOARES, 1971), Paraíba (OLIVEIRA-FILHO & CARVALHO, 1993) e Ceará ( FIGUEIREDO &
FERNANDES, 1987).
No sul do Estado do Ceará, nos municípios de Iguatu, Salgado, nas serras de Caririaçu e na Chapada
do Araripe (FIGUEIREDO, 1989; 1997; FERNANDES, 1990). No Planalto Araripe, o contato sob a forma de
ecótono, entre a Floresta Estacional e a Savana (cerrado), reveste parte dessa Chapada, na sua porção
oriental, estendendo-se por sua vertente sul. O litoral setentrional é representado pelo ecótono entre
Restinga, Cerrado e Caatinga, enquanto que no oriental, tem-se o ecótono Cerrado/Floresta Estacional e
Cerrado/Caatinga. Áreas de transição entre tais domínios podem ser perfeitamente observadas nessas
regiões, dando origem a fitofisionomias bem diferenciadas, principalmente no que se refere à composição
de espécies e à abundância e porte dos indivíduos (SANTOS, 2007).
Os ecótonos são áreas de transição entre duas ou mais formações vegetais com características
distintas. Contêm dimensões consideráveis e são importantes contatos de biomas, no que se refere ao
encontro e interação entre os elementos bióticos, e constituem laboratórios para se estudar os pulsos de
expansão (ARRUDA, 2005). Recentemente, o IBAMA realizou um estudo que definiu 78 ecorregiões do
Brasil, baseado em imagens de satélite que exploraram todos os biomas do país e estudo determinou que o
ecótono Caatinga/Cerrado abrange cerca de 1,33% no Brasil.
Considerando a escassez de estudos nas áreas de transição principalmente no Ceará, realizou-se
uma análise fitossociológica da estrutura vegetacional de um ecótono Caatinga/Cerrado localizado no
município de Barbalha-CE, visando melhor caracterizar esse tipo de vegetação.

2 MATERIAS E MÉTODOS
2.1 Área de estudo
A área de estudo corresponde a um fragmento de uma área de transição caatinga/cerrado, situado
nas localidades do município de Barbalha no sul do Ceará. O levantamento florístico foi realizado em área
de 0.600ha uma área de transição caatinga/cerrado situada a nordeste da chapada Araripe (07º24’S e
39º20’W e 900m de altitude), dentro da área da Floresta Nacional do Araripe (FLONA-Araripe), no
município de Barbalha, Ceará. O solo é constituído por associação de latossolos Vermelho-Distróficos
(JACOMINE, 1973). A temperatura média anual estimada por regressão foi de 24,1ºC (SUDENE, 1982),
oscilando de 22,1ºC no mês mais frio (julho) a 25,8ºC no mês mais quente (novembro). Segundo os
conceitos de Coutinho (1978) e Ribeiro & Walter (1998), a vegetação desta área pode ser enquadrada na
fisionomia de cerrado s.s..

2.2 Amostragem
Para a amostragem da vegetação foi utilizado o método de parcelas múltiplas (CAIN & CASTRO,
1971). Foram alocadas 15 parcelas de dimensões 20x20m, distribuídas aleatoriamente na área,
amostrando-se indivíduos vivos com diâmetro do caule ao nível do solo (DNS) ≥ 3cm e altura ≥ 1m.

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Na área selecionada foi coletado mensalmente todo o material botânico fértil dos estratos
herbáceo, arbustivo e arbóreo e este material foi condicionado em sacos plásticos, tratado segundo as
técnicas convencionais de herborização (MORI et al., 1989) e sua identificação foi feita com base em
bibliografia especializada, por comparação com material depositado, por envio a especialistas ou por
comparação com exsicatas do Herbário Caririense Dárdano de Andrade Lima (HCDAL) da Universidade
Regional do Cariri onde as espécies foram devidamente depositadas.

2.3 Análise de dados


Para a caracterização de arquitetura de abundância e tamanho (MARTINS, 1991) foram calculados
os parâmetros gerais de Densidade Total, Área Basal Total, Altura e Diâmetros médios e máximos e em
nível estrutural foram calculados, para cada família e espécies, os parâmetros de Densidade, Freqüência e
Dominância, absolutas e relativas, e Índice de Valor de Importância através do FITOPAC (SHEPHERD, 1995).

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Na análise fitossociológica da área estudada foram registrados 3429 indivíduos entre arbustivos e
arbóreos. O processamento e a análise dos dados revelaram um conjunto florístico representado por 15
famílias e 46 espécies (Tabela 01). Dentre as 46 espécies levantadas, apenas oito foram identificadas até
nível de gênero e até o momento 10 foram classificadas como morfoespécies.
A família com maior riqueza de espécie foi Leguminosae com 19, seguida respectivamente de
Euphorbiaceae, Sapindaceae, Anacardiaceae, que apresentaram duas espécies cada. As demais famílias
(23,91%) foram representadas por apenas uma espécie. Como conseqüência do maior número de espécies
41,30%, Leguminosae foi à família mais representativa apresentando também maior IVI (37,15%), seguida
de Combretaceae e Euphorbiaceae com IVI de 64.18 e 23.45, respectivamente o que deixa a família mais
representativa da Caatinga em terceiro lugar entre as famílias encontradas no ecótono.
As famílias mais representativas em termos de espécies na área são as mais encontradas em
estudos de vegetação de cerrado, concordando com vários outros trabalhos desenvolvidos no bioma
(FELFILI, et al. 1993; WEISER & GODOY, 2001; SILVA, 2002), onde têm-se verificado que a família
Leguminosae tem sido a mais diversificada na maioria dos levantamentos realizados. Em segundo lugar,
temos a família Euphorbiaceae que normalmente se destaca com o maior número de espécies em locais de
caatinga (RODAL, 1992; ARAÚJO et al., 1995). Isto não ocorreu na área em estudo talvez por se tratar de
um écotono.
Dentre as espécies que predominaram com relação aos parâmetros de abundância, temos em
ordem de IVI, Thiloa glaucocarpa (56,49), Cassia curvifolia. (54,31), Croton blanchetianus (18,79), Mongolia
pubescens (27,92).
A flora do écotono estudado foi caracterizada por apresentar espécies com altura média e máxima
de 6m e 20m, respectivamente e as espécies Hymenaea velutina e Orbignya sp. apresentaram indivíduos
com altura máxima de 20m. Esta medida foi superior a faixa de variação para caatinga, que segundo
(SAMPAIO, 1996), está entre 10-15m. Mais em outros trabalhos foram registrados valores de 18m
(MENDES, 2007) e 19m (RODAL, 1992; ALEOFORADO FILHO, et al., 2003) e enquanto que a maior altura
registrada para cerrado no Ceará é de 12m (SÁ, 1994), mesmo assim a maior concentração esteve na classe
de altura 2-8m. Os diâmetros médio e máximo foram 4,5cm e 118cm, respectivamente. Mongolia
pubescens com 56cm e Hymenaea velutina com 118cm foram as espécies que se destacaram com os
maiores diâmetros.
Os indivíduos amostrados apresentaram densidade de 5,715ind/ha, área basal de 13,5m²/ha., em
revisão feita por Sampaio (1996), os valores de densidade e área basal para vegetação de caatinga variam
de 1,080 a 4,250ind./ha. e de 15,6 a 52m²/ha, mostrando que na área estudada possui uma densidade
superior as de caatinga e uma áreas basal dentro da faixa de variação.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


220

TABELA 01 - Relação das famílias amostradas na área de ecótono Caatinga/Cerrado em Barbalha,

CE, com o NI = nº de indivíduos, e seus parâmetros fitossociológicos. DR = Densidade relativa; DoR =


Dominância Relativa; FR = Freqüência Relativa; IVI = Índice de valor de importância AB = Area Basal.

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Tabela 01: continuação

Tabela 01: Elaborada pelos próprios autores.

Nos levantamentos de cerrado s.s. (FELFILI, et al., 1994) as amplitudes de densidade e área basal
encontradas foram 6,64 a 1,396ind./ha. e 5,79 a 11,30m²/ha. Sendo, portanto valores menores que os
encontrados para o écotono caatinga/cerrado de Barbalha, entretanto estes valores mais altos podem está
relacionados aos critérios de inclusão.

4 CONCLUSÃO
Apesar de áreas de ecótono Caatinga/Cerrado apresentarem uma expressiva riqueza florística e
parâmetros estruturais (altura, diâmetro, densidade e área basal) na faixa de variação em que alguns dados
apresentados chegam a ser superiores as dos dois ecossistemas citados, é necessário ressaltar a
importância de trabalhos realizados em áreas de transição. E com base no que foi analisado e discutido é
visível que os estudos realizados nestas áreas são bastante escassos ou mesmo inexistentes o que dificulta
em uma comparação conclusiva.

Educação ambiental: Responsabilidade para a conservação da sociobiodiversidade


222

5 REFERÊNCIAS
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