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CONJECTURASEREFUTAÇÕES

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FUNDAÇAO UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA


CONSELHO D IR E T O R

Abílio M achado Filho


A m adeu Cury
Aristides Azevedo Pacheco Leão
Isaac Kerstenetzky
José Carlos de A lm eida Azevedo
José Carlos Vieira de Figueiredo
José Ephim M indlin
José Vieira de Vasconcellos

Reitor: José Carlos de Alm eida Azevedo


Vice-Reitor: Luiz Otávio Moraes de Sousa Carm o

ED ITO R A UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA


CONSELHO ED ITO R IA L

Afonso Arinos de Melo Franco


A rnaldo M achado Cam argo Filho
C ândido Mendes de Almeida
Carlos Castello Branco
G eraldo Severo de Souza Ávila
H eitor A quino Ferreira
Hélio Jaguaribe
Josaphat M arinho
José Francisco Paes L andim
Miguel Reale
O ctaciano Nogueira
Tércio Sam paio Ferraz Júnior
V am ireh Chacon de A lbuquerque N ascim ento
Vicente de Paulo B arretto

Presidente: Carlos H enrique C ardim


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Karl R. Popper

Conjecturas e Refutações

Coleção Pensamento Científico

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í Biblioteca João Batista Bertbier

898

^X^EdàmlMoetmbdedeBmsdia
Este livro ou p arte dele
não pode ser reproduzido sob nenhum a form a
sem autorização por escrito do Editor.

Impresso no Brasil

Editora Universidade de Brasília


Cam pus Universitário — Asa N orte
70910 Brasília — Distrito Federal

Conjectures a n d R efutations, de
Karl R. Popper
First published 1963
by R outledge & Kegan Paul Lim ited
39 Store Street
Londres, WC1E 7DD, G rã-B retanha

Copyright c Karl R. Popper 1963, 1965, 1969, 1972

T ad u ção da Q u arta Edição, revista, 1972


Conjecturas e Refutações
(O Progresso do Conhecimento Científico )
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Popper, Karl Raymund, 1902 —


P831c Conjecturas e refutações. Trad, de Sérgio Bath. Brasí­
lia, Editora Universidade de Brasília.
449p. (Coleção Pensamento Científico, 1)

Título original: Conjectures and refutations: the growth


of scientific knowledge.

1. Ciência — Metodologia 2. Conhecimento — Teoria 3.


Metodologia I. Título II. Série.

CDU - 001.8
165
SU M Á R IO

Prefácios 17

IN T R O D U Ç Ã O 27

As origens do conhecim ento e da ignorância 31

C O N JEC TU RAS 59

r l .| Ciência: conjecturas e refutações 63


Apêndice: Alguns problem as da filosofia da ciência 89
2. A natureza dos problem as filosóficos e suas raízes científicas 95
^ S \T r ê s pontos de vista sobre o conhecim ento hum ano 125
w 1- A ciência de Galileu novam ente atraiçoada 125
2. O que está em jogo 127
3. Prim eiro ponto de vista: a explicação definitiva pelas essências 131
4. Segundo ponto de vista: as teorias como instrum entos 135
iç Crítica do ponto de vista instrum entalista 138
6} Terceiro ponto de vista: conjecturas, a verdade e a realidade 141
4. Rum o a um a teoria racional da tradição 147
5. Retorno aos pré-socráticos 161
Apêndice: Conjecturas históricas: a opinião de H eráclito sobre a m udança 179
6. N ota sobre Berkeley — um precursor de M ach e de Einstein 193
7. Crítica e cosmologia de Kant 203
1. Kant e o iluminismo 204
2. A cosmologia new toniana de K ant 205
3. A “C rítica” e o problem a cosmológico 205
4. O espaço e o tem po 206
5. A “Revolução de C opérnico” de K ant 207
6. A doutrina da autonom ia 209
8. O status da ciência e da metafísica 211
1. K ant e a lógica da experiência 211
2. O problem a da irrefutabilidade das teorias filosóficas 219
9. Por que os cálculos lógicos e aritm éticos são aplicáveis à realidade? 227
10. V erdade, racionalidade e a expansão do conhecim ento científico 241
1. A expansão do conhecim ento: teorias e problem as 241
2. T eoria da verdade objetiva: correspondência com os fatos 248

À
3. V erdade e conteúdo: verossim ilhança versus probabilidade 254 4. Exemplos num éricos 433
4. C onhecim ento contextuai e progresso científico 263 5. Linguagens artificiais e form alizadas 435
5. Três condições p ara a expansão do conhecim ento 266 6. N ota histórica sobre a verossimilhança (1964) 435
A pêndice: U m a assertiva não em pírica presum ivelm ente falsa porém de 7. Algumas indicações adicionais sobre a verossim ilhança (1968) 438
elevada p ro babilidade form al 275 8. Novas observações sobre os pré-socráticos, especialm ente Parm enides
(1968) 441
REFUTAÇÕES 277 9. Os pré-socráticos: unidade ou novidade? 449
y ^ ll A A distinção entre ciência e m etafísica 281
1. Introdução 281
2. Meu ponto de vista. 283
3. P rim eira teoria de C arnap sobre a ausência de sentido 286
4. C arnap e a linguagem da ciência 292
5. T estabilidade e significação 301
—q6. P robabilidade e indução 308
12. A linguagem e o problem a das relações entre corpo e m ente 323
1. Introdução 323
2. As q u atro funções principais d a linguagem 325
3. Um conjunto de teses 325
4. O argum ento da m áquina 326
5. A teoria causal da denom inação 327
6. Interação 328
7. Conclusão 329
13. N ota sobre o problem a das relações entre corpo e m ente 331
14. A uto-referência e significação na linguagem ordinária 335
15. Que é a dialética? 343
1. A dialética explicada 343 f
4
2. A dialética hegeliana 354
3. A dialética depois de Hegel 361
Previsão e profecia nas ciências sociais 367
A opinião pública e os princípios liberais 379
ÍL O m ito da opinião pública 379
2. Os perigos da opinião pública 381
3. Os princípios liberais: um conjunto de teses 382
4. A teoria liberal do livre debate 383
5. As form as da opinião pública 384
Alguns problem as práticos: a censura e os m onopólios de publicidade 385
Algumas ilustrações políticas 385
8. Sum ário 386
18. U topia e violência 387
19. A história do nosso tem po: um a visão otim ista 397
20. H um anism o e razão 411

Apêndices: 419

Notas técnicas 421

1. O conteúdo em pírico 421


2. P robabilidade e o rigor dos testes 424
3. Verossim ilhança 428
Dedicado a F. A von Hayek
*

-■
“Experiência é o nome que todos damos a nossos erros’

Oscar Wilde

“Todo o nosso problem a consiste em fazer com que nossos erros sejam tão
breves quanto possível!...”

John A rchibald Wheeler


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II

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Prefácio
Os textos que com põem este livro — ensaios e conferências — constituem
variações em torno de um tem a m uito simples: a tese de que podem os aprender
com os erros que com etem os. Desenvolvem um a teoria do conhecim ento e do seu
progresso: um a teoria da razão que atribui aos argum entos racionais a função
m odesta - mas im portante — de criticar nossas tentativas, m uitas vezes equivo­
cadas, de resolver os problem as com que nos defrontam os. E um a teoria da ex­
periência que reserva p ara nossas observações o papel igualm ente modesto e quase
igualm ente im portante de experim entos que podem ajudar-nos a identificar erros.
Em bora acentue nossa falibilidade, não se resigna a um a atitude de ceticismo, e n ­
fatizando tam bém o fato de que o conhecim ento pode crescer, de que a ciência
pode progredir — justam ente porque aprendem os com nossos erros.

Nosso conhecim ento — em particular o conhecim ento científico — progride


por meio de antecipações justificadas (ou não), “palpites”, tentativas de soluções,
por meio de conjecturas, enfim . Conjecturas que são controladas pelo espírito
crítico; isto é, por refutações, que incluem testes rigorosam ente críticos. Elas p o ­
/ dem vencer esses testes, mas nunca são justificadas de m odo positivo: não se pode
dem onstrar que sejam verdades seguras, ou mesmo “prováveis” (no sentido do cál­
culo probabilístico). O exam e crítico das nossas conjecturas tem im portância
decisiva: põe em evidência nossos erros e nos leva a com preender as dificuldades do
problem a que pretendem os solucionar. É assim que nos fam iliarizam os com os
problem as e podemos propor soluções mais m aduras: por si m esm a, a refutação de
um a teoria — isto é, de qualquer tentativa séria de solucionar nossos problem as —
constitui sempre um passo que nos aproxim a da verdade. Desta form a, aprendem os
com os erros.

À m edida que aprendem os com os erros cometidos, nosso conhecim ento


aum enta — em bora possa acontecer que não tenham os consciência (ou segurança)
disso. Como nosso conhecim ento cresce, não há razão p ara desesperar da razão. E
como nunca podemos saber com certeza, não podemos tam bém adotar um a atitude
autoritária, pretensiosa ou orgulhosa em relação ao que sabemos.

Dentre as teorias que sustentamos, algum as são m uito resistentes às críticas


e, num determ inado m om ento, parecem constituir um a m elhor aproxim ação da
verdade: estas podem ser descritas — ju ntam ente com os resultados dos testes a elas
aplicados — como a “ciência” daquela época. Mas, como nenhum a teoria pode ser
justificada de form a positiva, a racionalidade da ciência reside essencialmente no
seu caráter crítico e progressivo — no fato de que podemos debater sua pretensão
de solucionar problem as m elhor do que as explicações competitivas.

Em poucas palavras, esta é a tese fundam ental desenvolvida neste livro, que
é aplicada a m uitos tem as — de problem as de filosofia e da história das ciências
físicas e sociais a problem as históricos e políticos.

E essa tese central que dá unidade ao livro; a variedade dos assuntos torna Prefácio à Segunda Edição
aceitável a sobreposição de alguns capítulos. Revisei, aum entei e reescrevi a m aior
parte deles, mas evitei alterar o caráter distintivo das conferências e exposições Esta nova edição apresenta, além de um a revisão geral do texto, um a q u a n ­
feitas pelo rádio. Não teria sido difícil libertá-las do estilo narrativo característico tidade considerável de m aterial histórico acum ulado desde que a prim eira edição
do conferencista, mas acho que os leitores preferirão tolerar esse estilo a sentir que foi publicada. Procurei m an ter a paginação, sempre que possível, de m odo que as
o autor não os trato u com confiança. M antive algum as repetições, de m odo que referências à prim eira edição concordarão quase sem pre com a segunda edição.
cada capítulo se sustenta por si mesmo. Houve tam bém um acréscimo à parte final do capítulo 5, e mais um A pêndice (6).
Alan Musgrave contribuiu m uito p ara aperfeiçoar o livro.
Como contribuição p ara os críticos potenciais deste livro incluí, como c a ­
pítulo final, um a crítica a ele que contém p arte essencial do argum ento (que o No m eu prefácio original procurei sintetizar a tese deste volume num a frase
leitor não enco n trará em nenhum a outra seção do livro). Excluí todos os trabalhos — a afirm ativa de que podem os aprender com os erros que com etem os. Valeria a
que pressupõem fam iliaridade com aspectos técnicos nos campos da lógica, da pena talvez acrescentar algum as palavras aqui. M inha tese im plica que todo o nos­
teoria da p robabilidade, etc. Nos A pêndices, contudo, reuni algum as notas téc­ so conhecim ento aum enta exclusivamente por meio da correção dos nossos erros.
nicas que poderão ser úteis aos que se interessam por essas coisas. Os Apêndices e Por exemplo: o que conhecemos hoje como “retroalim entação negativa” (“negative
quatro dos capítulos vão publicados aqui pela prim eira vez. feed -b a c k ”) é apenas um a aplicação particular do m étodo genérico de aprendizado
por meio dos erros. ^
P ara evitar equívocos, quero deixar bem claro que uso sem pre os termos
“lib eral” , “liberalism o” , etc. no sentido em que são em pregados, de m odo geral, na A parentem ente, p ara em pregar esse m étodo precisamos ter algum objetivo
Inglaterra (mas não necessariam ente nos Estados Unidos): “lib eral”, p ara m im , não em vista: erram os quando nos afastamos dele. (Um term ostato retroalim entado
é o sim patizante de um determ inado partido político, m as aquele que valoriza a depende da existência de um objetivo — um a tem p eratu ra determ inada — que
liberdade individual e que é sensível aos perigos intrínsecos de todas as form as do precisamos escolher previaínente.) C ontudo, em bora seja necessário selecionar um
poder e da autoridade. objetivo antes de aplicar o m étodo do aprendizado pelo erro, isto não quer dizer
que nossos objetivos não se subordinem , por sua vez, ao m étodo em pregado: eles
K .R .P . podem ser substituídos, e m uitos o são. (Da m esma form a, podemos alterar o te r­
m ostato, escolhendo, pelo m étodo das tentativas, a tem p eratu ra mais apropriada
Berkeley, Califórnia, prim avera de 1962 p a ra um certo fim .) E nosso sistema de objetivos não só m uda mas tam bém se
desenvolve, de m odo m uito sem elhante à form a como cresce o conhecim ento.

K .R .P .

Penn, Buckingham shire, janeiro de 1965


Prefácio à Terceira Edição
Além de num erosas alterações de pequena m onta, o texto teve vários acrés­
cimos, entre eles um a exposição mais clara sobre o que penso a respeito da teoria
da verdade de Tarski. H á tam bém alguns novos Apêndices.
K. R . P.

Penn, B uckingham shire, abril de 1968


Prefácio à Edição Brasileira
Contra a* Indução
(Uma A rgum entação Dentre M uitas)
I

Muitos anos atrás — em 1954 —, escrevi um trabalho, “T he Aim of Scien­


ce” !, publicado pela prim eira vez em inglês e alem ão em dezem bro de 1957. Esse
trabalho continha, entre outras coisas, um a refutação do ponto de vista m antido
por grandes homens como Isaac Newton e Max Bprn, de que a teoria de Newton
pode ser derivada das leis de Kepler, seja por meio de um a argum entação indutiva
seja de um a argum entação dedutiva.

Na época, não dei m uita ênfase à refutação do m ito histórico de que a


teoria de Newton é resultado da indução, pois pensava haver destruído a teoria da
indução vinte anos antes; e era otim ista o suficiente p a ra acreditar que toda resis­
tência ainda proveniente dos defensores da indução deveria desaparecer em breve.
(C ontudo, critiquei de m odo até certo ponto circunstanciado a então corrente
teoria da indução probabilística de C arnap, com o resultado de que ele a a b a n ­
donou; e a últim a m aneira como ele defendeu a indução foi com pletam ente diversa
da famosa teoria que desenvolvera no seu volumoso porém , na m inha opinião, in ­
defensável livro Logical Foundations o f Probability.)

Desde então, os indutivistas tom aram algum alento, em parte porque não
tenho mais respondido as suas argum entações, que foram todas claram ente re ­
futadas em várias partes de meus escritos anteriores. N ão mais as respondi porque
pensava, como ainda penso, que o assunto já havia sido definido há m uito tem po e
que era portanto entediante.

II

T odavia, pode ser bom agora repetir aqui, de m odo m uito breve, um a das
mais interessantes argum entações contra o indutivism o.

Por indução quero dizer um a argum entação tal que, dadas algum as prem is­
sas em píricas (singulares ou particulares), leva a um a conclusão universal, a um a
teoria universal, seja com um a certeza lógica, seja “probabilisticam ente” (no sen­
tido em que este term o é utilizado no cálculo de probabilidades).

A argum entação que desejo reenunciar aqui é m uito simples.

1. Publicado pela primeira vez em Rativo, vol. i, n.° I,_dezembro de 1957. Uma versão revisada constitui
agora o capítulo 5 do meu Objective Knowledge, Oxford University Press, 5.a impressão, 1979,
pp. 191-205. A presente reenunciação do argumento contra a indução, implícito neste trabalho, foi
escrita em abril de 1980.

é
24 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES PREFÁCIOS 25

M uitas teorias que, como a de Newton, pensava-se serem resultado da in ­ Mas desde que as supostas premissas indutivistas são, em term os estritos, in ­
dução são n a realidade inconsistentes em relação a suas supostas premissas in d u ­ consistentes em relação às supostas conclusões indutivistas, seria m uito errôneo
tivas (parciais). falar, nesse caso, de um a inferência indutiva, ou de um a relação de indução
probabilística.
Mas, sendo isto verdade, então a indução rui, em todos os seus aspectos
relevantes. Isso q uanto à indução não probabilística.
V
No que respeita à argum entação indutiva probabilística: segundo o cálculo
Esta espécie de situação é tradicional na história da ciência. A relação entre
de probabilidades, se nos forem dadas algum as premissas indutivas consistentes,
então qualq u er conclusão inferida que seja inconsistente com as mesmas somente a teoria new toniana da gravitação e aquela de Einstèin é um outro exem plo m uito
poderá ter, em relação a elas, um a probabilidade igual a zero. im portante e sim ilar de um tal caso.

VI
III
Que eu saiba, nenhum a resposta séria foi d ad a a esta argum entação, até
agora, especialm ente por p arte dos defensores das atuais teorias probabilísticas da
A teoria de Newton indubitavelm ente deveu m uito às teorias de Galileu e de indução.
Kepler; tan to , que o próprio Newton as considerou como sendo premissas indutivas K a rlR . Popper
(parciais). n h rild e 1980

A teoria de Galileu sobre a queda dos corpos continha um a constante, g, a


constante da aceleração. Segundo a teoria de N ewton, g não é um a constante, mas
um a variável que depende (a) da massa do corpo atraente (no caso de Galileu, a
T erra), e (b) da distância do centro de massa.

C onseqüentem ente, a teoria de Galileu é inconsistente em relação à de New­


ton.

Evidentem ente, na suposição de que somente observamos os corpos em


queda livre próxim os à superfície da T erra, o que determ ina que todos eles estejam
a quase a m esm a distância do centro da T e rra; podem os explicar porque g {er­
roneam ente) parece ser um a constante.

A situação em relação às leis de Kepler é bastante sim ilar.

P ara qualq u er sistema de dois corpos dos quais um é m uito pesado, e o


outro de peso desprezível, podemos derivar as três leis de Kepler da teoria de New­
ton e conseqüentem ente explicá-las. Mas, desde que Kepler form ulou suas leis para
um sistema de m uitos corpos consistindo do som atório de vários planetas, elas são,
do ponto de vista da teoria de Newton, inválidas. Assim, essas leis não poderiam
constituir um sistema seja parcial seja total de premissas (indutivas ou dedutivas) da
teoria de Newton.

Isso q u an to a um a derivação indutiva ou dedutiva da teoria de Newton a


p artir d a teoria de Kepler e da de Galileu.

IV

Evidentem ente, toi um êxito decisivo da teoria de Newton poder explicar as


teorias de Kepler e Galileu; isto é, que essas teorias pudessem ter sido deduzidas da
de Newton segundo certas suposições sim plificadoras (e, em termos estritos, falsas).
Introdução
“Deixarei contudo que o pouco que aprendi seja conhecido, de m odo que
alguém m elhor do que eu possa adivinhar a verdade, provando e refutando meus
erros com seu trabalho. Isso me d ará prazer, pois terei sido um meio p ara trazer à
luz a verdade” .

A lbrecht Dürer

“Posso alegrar-m e agora até mesmo com a dem onstração de que um a teoria
que estimo é falsa — isso constituiria tam bém um êxito científico” .

John Carew Eccles


I

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i As Origens do Conhecimento e da Ignorância*


Segue-se, portanto, que a verdade se manifesta...”
Benedictus de Spinoza
“Todo homem traz consigo os critérios... para distinguir... a verdade das
aparências”.

Î “...é impossível pensar em algo que não tenhamos anteriormente sentido,


John Locke

I
através de nossos sentidos interiores ou exteriores”.
David H um e

Tem o que o título desta conferência possa ser criticado, pois em bora as ex­
pressões “origens do conhecim ento” e “origens do e rro ” estejam corretas, a expres­
são “origens da ignorância” é um caso diferente. “A ignorância é algo negativo: é a
ausência de conhecim ento. Mas, de que m aneira pode a ausência de algo ter a l­
gum a origem?” 1 Esta pergunta me foi feita por um amigo quando lhe confiei o
título que havia escolhido para esta conferência. Pressionado, surpreendi-m e im ­
provisando um raciocínio p ara explicar que o curioso efeito lingüístico do título era
na verdade intencional. Disse-lhe que esperava, pelo enunciado do título, cham ar
atenção p ara um a série de doutrinas filosóficas não registradas, e especialm ente
(além da doutrina que afirm a que a verdade é evidente) para a teoria da cons­
piração, que in terpreta a ignorância não como a m era ausência de conhecim ento,
mas como a ação de um a força sinistra, origem de influências im puras e maléficas
que pervertem nossa m ente e nos impõem o hábito de resistir ao conhecim ento.

* Annual Philosophical Lecture da British Academy de 20 de janeiro de 1960. Publicada pela primeira
ve’ nos Proceedings o f the British Academy (46, 1960) e separadamente pela Oxford University Press, em

’artes e Spinoza foram além, afirmando que o erro, além da ignorância, é “negativo” — uma
de conhecimento e até mesmo do uso apropriado da nossa liberdade (Descartes, Princípios, I,
bém a Terceira e a Quarta Meditações', vide também a Ética de Spinoza (11,35) e Princípios
v ' Descartes (1,15). Esses filósofos se referem, contudo (por ex.: na Ética, 11,41), à “causa”
do erro), como o faz Aristóteles (M et. 1046a — 30/35; vide também Met. 1052a — 1 e
35).
CONJECTURAS E REFUTAÇÕES AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA
32 33

N ão estou bem certo se a explicação tranqüilizou as apreensões do m eu a noção de que a verdade é o mesmo que a utilidade) estão intim am ente ligados às
am igo, mas certam ente o silenciou. N ão sei se poderia dizer o mesmo deste a u ­ idéias autoritárias e totalitárias. (Cf. L et the People Think, 1941, pág. 77).
ditório, m an tid o em silêncio pelas norm as que regem este encontro. Espero, con­
tudo, tê-lo tranqüilizado o suficiente p ara poder com eçar pelo outro extrem o, ou O bviam ente, a posição de Russell está sujeita a discussão. Alguns filósofos
seja, pelas origens do conhecim ento. Mais adiante, retornarei à questão das origens recentes têm desenvolvido a doutrina da im potência essencial e da irrelevância, na
da ignorância e tam bém à “teoria da conspiração”. prática, de toda filosofia genuína — incluindo po rtan to (pode-se supor) a epis­
temologia. Esses mesmos filósofos afirm am que, por sua p ró p ria natureza, a fi>
losofia não pode ter conseqüências significativas e, p o rtan to , não pode influenciar a
I ciência e a política. Creio, no entanto, que as idéias são coisas perigosas e pode­
rosas, e que mesmo os filósofos têm algum as vezes produzido idéias. N a m inha
O problem a que pretendo exam inar nesta conferência (e espero não apenas opinião, esta nova doutrina da im potência da filosofia é largam ente rejeitada pelos
exam inar m as tam bém resolver) pode ser descrito como um dos aspectos da velha fatos.
disputa entre as escolas de filosofia britância e continental — a disputa entre o em ­
pirism o de Bacon, Locke, Berkeley, H um e e Mill e o racionalism o clássico ou in ­ Com efeito, a situação é m uito simples. A crença de um liberal — crença na
telectualism o de Descartes, Spinoza e Leibniz. Nessa disputa, a escola britânica in ­ possibilidade do im pério das leis, da justiça igualitária, dos direitos fundam entais
sistia em que a origem fundam en tal de todo conhecim ento está na observação, e n ­ e na sociedade livre — pode conviver facilm ente com o reconhecim ento de que os
quanto a escola continental insistia em que sua origem reside na intuição intelec­ juízes não são oniscientes e com etem erros; que a justiça absoluta jam ais se realiza
tual de idéias claras e distintas. plenam ente. Mas a crença na possibilidade do im pério das leis, da justiça e da
liberdade certam ente não resistirá à aceitação de um a epistemologia que propugne
M uitas destas questões estão ainda hoje bastante vivas. O em pirism o, que a inexistência de fatos objetivos, não só neste caso particu lar mas em qualquer
ainda é a d o u trin a dom inante na In glaterra, não só conquistou os Estados Unidos, outro; e que diga que o juiz não pode com eter erros factuais um a vez que não pode
m as é hoje tam bém largam ente aceito no próprio continente europeu como a ver­ estar equivocado a respeito dos fatos, da m esma form a como não pode ter certeza
dadeira teoria do conhecim ento científico. O intelectualism o cartesiano, infeliz - deles.
m ente, tem sido dem asiadam ente distorcido pelas várias formas do irracionalism o
m oderno.
III
N esta conferência, procurarei dem onstrar que as diferenças entre as escolas
em pirista e racionalista são em verdade bem menos expressivas do que as sem e­ O grande movim ento de liberação que com eçou n a Renascença e desem ­
lhanças, e que am bas estão erradas. Sustento que estejam erradas em bora eu m es­ bocou, após as vicissitudes da Reform a e das guerras religiosas e revolucionárias,
m o seja um em pirista e um racionalista. Mas acredito que, em bora tan to a razão nas sociedades livres (nas quais os povos de língua inglesa têm o privilégio de viver)
como a observação desem penhem funções im portantes, essas funções pouco se as­ inspirou-se, d u ran te todo o seu desenrolar, em um otimismo epistemológico sem
sem elham às que seus defensores clássicos lhes atrib u íam . Mais precisam ente, paralelo: num a visão extrem am ente otim ista do poder do hom em de discernir a
procurarei d em onstrar que nem a observação nem a razão podem ser descritas verdade e adquirir conhecim ento.
como fontes do conhecim ento, no sentido em que até hoje têm sido definidas.
No centro desta nova visão otim ista da possibilidade do conhecim ento está a
II doutrina de que a verdade é evidente. A verdade pode encontrar-se velada, mas
pode revelar-se. Se não se revelar por si só, poderem os revelá-la, em bora isto nem
Nosso problem a pertence à teoria do conhecim ento, ou epistemologia, que sempre seja fácil. Mas, quando a verdade nua se apresenta diante de nós, podemos
tem a reputação de ser o cam po da filosofia p u ra mais abstrato, mais rem oto e vê-la, distingui-la da falsidade e saber que é a verdade.
com pletam ente irrelevante. H um e, por exem plo, um dos maiores pensadores neste
cam po, predisse que, tendo em vista o caráter rem oto e o nível de abstração do as­ O nascim ento da ciência e da tecnologia m odernas inspirou-se nesta epis­
sunto, bem como a irrelevância, na p rática, de alguns de seus resultados, nenhum temologia otim ista, cujas figuras mais proem inentes foram Bacon e Descartes. Esses
leitor os aceitaria por m ais de um a hora. filósofos ensinavam que não havia necessidade de apelar p ara a autoridade em as­
suntos relacionados com a busca da verdade porque cada hom em traz consigo as
A atitude de K ant era diferente. Segundo ele, a pergunta “Que posso sa ­ fontes do conhecim ento: seja na sua capacidade de percepção pelos sentidos, que
ber?” estava entre as três mais im portantes que um hom em podia propor a si m es­ pode utilizar ao observar cuidadosam ente a natureza, seja no poder de intuição in ­
m o. Em bora m ais próxim o de H um e em term os de tem peram ento filosófico, Ber- telectual — que em pregará para distinguir a verdade da falsidade, recusando-se a
tra n d Russell parece concordar com K ant neste ponto. Penso que Russell tem razão aceitar qualquer idéia que não seja clara e distintam ente percebida pelo intelecto.
em a trib u ir à epistem ologia conseqüências práticas para a ciência, a ética e mesmo
a política. Russell, de fato, afirm a que o relativismo epistemológico (ou seja, a O hom em pode conhecer: logo pode ser livre. E esta a fórm ula que explica a
idéia de que não existe a verdade objetiva) e o pragm atism o epistemológico (ic* ligação entre o otimismo epistemológico e as idéias liberais.
CONJECTURAS E REFUTAÇÕES
34 AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA 35

Existe tam bém a ligação oposta. A descrença no poder da razão hum ana, verdade é evidente. A teoria da conspiração, um a curiosa ram ificação da anterior,
na capacidade do hom em de discernir a verdade, está quase sem pre ligada à des­ é a mais estranha do grupo.
confiança no próprio hom em . Assim, o pessimismo epistemológico está histori­
cam ente ligado à dou trin a da depravação do hom em ; tende a gerar a necessidade Como os senhores estarão lem brados, por “doutrina da verdade evidente”
de tradições fortes e de um a autoridade poderosa que poderia salvar o hom em da refiro-me à visão otim ista de que a verdade é sempre reconhecível quando colocada
sua loucura e m aldade. (Em O Grande Inquisidor (Os Irm ãos K aram azov), de Dos- diante de nós: se ela não se revelar por si só, precisará apenas ser desvelada ou des­
toievski, há um im pressionante esboço desta teoria do autoritarism o e um a des­ coberta. Depois disso, não haverá mais necessidade de argum entos adicionais.
crição do ônus daqueles que estão investidos de autoridade). Recebemos olhos para ver a verdade, e a “luz n a tu ra l” da razão para poder enxer­
gá-la.
O contraste entre pessimismo e otim ismo epistemológicos pode ser consi­
derado o mesmo que existe entre o tradicionalism o e o racionalism o epistem oló­ Essa doutrina constitui o âm ago dos ensinam entos de Descartes e Bacon.
gicos. (Estou utilizando o últim o term o no seu sentido mais am plo, de m aneira a Descartes baseou sua epistemologia otim ista na im portante teoria da veracitas Dei:
opô-lo ao irracionalism o e a fazê-lo ab arcar não só o intelectualism o cartesiano mas aquilo que distinguimos claram ente como sendo a verdade será de fato verdadeiro;
tam bém o em pirism o). De fato, podemos in terp retar o tradicionalism o como a do contrário, Deus nos estaria enganando. Logo, a autenticidade de Deus forço­
crença de que, na ausência de um a verdade objetiva e discernível, temos a escolher sam ente torna a verdade evidente.
entre a autoridade da tradição e o caos; en quanto o racionalism o, obviam ente,
sem pre reivindicou o direito da razão e do em pirism o de criticar e rejeitar qualquer Em Bacon encontram os um a doutrina sem elhante, que pode ser descrita
tradição e qualq u er autoridade, considerando-as baseadas na irracionalidade mais como a doutrina da veracitas naturae: a autenticidade da natureza. A natureza é
com pleta, no preconceito ou em circunstâncias acidentais. um livro aberto, e quem o ler com a m ente pura, não o interp retará erradam ente.
Só incorrerá em erro quem tiver a m ente d eturpada.

IV Este últim o com entário dem onstra que a doutrina da verdade m anifesta sus­
E inquietante observar que mesmo um estudo abstrato como a epistemologia cita a necessidade de se explicar a falsidade. O conhecim ento, ou seja, a posse da
p u ra não é, na verdade, tão puro quanto se possa pensar (e como acreditava Aris­ verdade, não necessita ser explicado. Mas, como podemos incorrer em erro se a
tóteles), que as idéias nela contidas podem ser em grande p arte motivadas e incons­ verdade é evidente? Pode-se responder assim: incorremos em erro pela recusa
cientem ente inspiradas por ideais políticos ou sonhos utópicos. Este fato deve cons­ pecaminosa de enxergar a verdade evidente; porque nossas m entes abrigam p re ­
tituir um a advertência ao epistem ologista. Mas, que pode ele fazer? Como epis- conceitos inculcados pela educação, pela tradição e outras influências maléficas
tem ologista, tenho apenas um interesse: descobrir a verdade sobre os problem as da que perverteram nossas m entes originalm ente puras e inocentes. A ignorância pode
epistem ologia e verificar se esta verdade se coaduna ou não com m inhas idéias resultar da ação de forças que conspiram para nos m anter ignorantes e para p e r­
políticas. Mas não me estarei deixando influenciar inconscientem ente pelos meus verter nossas mentes, enchendo-as de falsidade e cegando nossos olhos para que não
próprios ideais e crenças políticas? possam enxergar a verdade evidente. Tais preconceitos e tais forças são, portanto,
Acontece que não sou só um em pirista e uúi racionalista, mas tam bém um as fontes da ignorância.
liberal (no sentido britânico do term o); mas, justam ente porque sou um liberal,
sinto que há coisas mais im portantes do que subm eter as várias teorias do liberalis­ A teoria da conspiração é bastante conhecida, na form a m arxista, como a
mo a um agudo exam e crítico. conspiração da im prensa capitalista que perverte e suprim e a verdade, incutindo
falsas ideologias no espírito dos trabalhadores. Entre elas estão, obviam ente, as
E nquanto engajado num exam e crítico deste tipo, descobri a função de cer­ doutrinas religiosas. É surpreendente a pouca originalidade da teoria m arxista. O
tas teorias epistemológicas (sobretudo das diversas formas de otimismo episte­ sacerdote m alvado e fraudulento em penhado em p erp etu ar a ignorância do povo
mológico) no desenvolvimento das idéias liberais. V i-me forçado a rejeitá -las por se era um a figura típica do século XVII e, tem o, constituir um a das inspirações do
terem revelado insustentáveis. Esta experiência pessoal serve p ara ilustrar a afir­ liberalismo, a qual rem onta à crença protestante na ação conspiratória da Igreja de
m ação de que ideais e esperanças não influenciam necessariam ente nossas con­ Roma e tam bém à opinião dos dissidentes que tinham pontos de vista semelhantes
clusões; que, na busca da realidade, talvez seja m elhor com eçar pela crítica de nos­ em relação à Igreja estabelecida. (Já tive a ocasião de expor a pré-história desta
sas crenças m ais enraizadas. T al procedim ento poderá parecer um plano perverso, crença a p a rtir de C rítias, tio de Platão; vide m eu livro Open Society, cap. 8,
mas não p ara aqueles que não tem em a verdade e desejam descobri-la. seção ii).

V Esta crença curiosa num a conspiração é a conseqüência quase inevitável da


visão otim ista de que a verdade, e, portanto, a virtude, só prevalecerão se lhes for
Ao exam inar a epistem ologia otim ista inerente a certas idéias liberais, des­ dada um a oportunidade. “Deixem a verdade lu tar contra a falsidade; quem já viu
cobri um certo núm ero de doutrinas que, em bora im plicitam ente aceitas, pelo que a verdade levar a pior num a luta aberta e livre?” (Areopagitica. Com pare com o
sei não têm sido explicitam ente discutidas ou mesmo percebidas pelos filósofos e provérbio francês: La vérité triom phe toujours). Assim, quando a V erdade de M il­
historiadores. Já m encionei a mais im portante dessas doutrinas, que afirm a que a ton levou a pior, concluiu-se necessariam ente que o encontro não havia sido livre:
36 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA 37

Muitos epistemologistas, portanto, abandonarão decepcionados sua posição


se a verdade evidente não prevalece, deve ter sido suprim ida m aliciosam ente. O b ­
otim ista para construir um a im ponente teoria au to ritária baseada num a episte­
servamos que um a atitude tolerante, baseada na convicção otim ista no triunfo da
m ologia pessimista.
verdade, pode ser abalada facilm ente, tornar-se um a teoria da conspiração difícil
de conciliar com a atitude tolerante. (Vide J. W. N. W atkins sobre M ilton, em The
VII
Listener de 22 de janeiro de 1959).
Platão tem um papel decisivo na pré-história da doutrina da veracitas Dei
Não afirm o que a teoria da conspiração jam ais se baseou na verdade, mas
de Descartes (que afirm a que a intuição intelectual não nos ilude porque Deus é
sim que é essencialm ente um m ito, da mesma form a como o é tam bém a teoria da
autêntico e tam bém não nos engana; em outras palavras, nosso intelecto é um a
verdade evidente.
fonte de conhecim ento porque Deus tam bém o é). Essa doutrina tem um a longa
história, que podemos acom panhar pelo menos a p artir de Hom ero e Hesíodo.
O fato é que a verdade é freqüentem ente difícil de ser encontrada e se perde
novam ente com grande facilidade. Crenças errôneas têm a capacidade supreen-
Consideramos n atu ral que os sábios e os filósofos façam referência às fontes
dente de sobreviver m ilhares de anos, com ou sem a ajuda de um a ação conspi- do seu conhecim ento. Por isso, talvez nos surpreendam os ao descobrir que esse
ratória, desafiando a própria experiência. Sob este aspecto, a história da ciência, e hábito se originou nos poetas gregos. De fato, eles se referem às fontes dos seus
sobretudo da m edicina, nos fornece bons exemplos, entre os quais podemos citar,
conhecim entos, que têm natureza divina — as musas. Conforme observa Gilbert
de fato, a própria teoria da conspiração no seu sentido mais am plo. Refiro-me à M urray, em The Rise o f The Greek Epic (terceira edição, de 1924, pág. 96), “os
visão errônea de que os acontecim entos malignos resultam sempre da vontade de bardos gregos devem sempre o que podemos cham ar de sua inspiração e tam bém
algum a força m aléfica determ inada. Diversas formas desta crença sobrevivem ain ­ seu conhecim ento das coisas às musas. As musas estão presentes e conhecem tu d o ...
da hoje. Hesíodo sempre explica que depende delas para ad q uirir conhecim ento. O utras
fontes de conhecim ento são de fato reconhecidas... porém , no m ais das vezes, ele
P ortanto, a epistemologia otim ista de Bacon e Descartes não pode ser ver­
consulta as m usas... como o faz tam bém Hom ero p ara assuntos como o catálogo do
dadeira. O mais estranho é que essa falsa epistemologia constituiu a m aior ins­
exército grego” .
piração de um a revolução intelectual e m oral sem paralelo na história. Ela incitou
o hom em a pensar por si mesmo; deu-lhe a esperança de que, através do conhe­ Como esta citação dem onstra, os poetas costum avam afirm aria existência de
cim ento, poderia libertar a si e aos outros da servidão e da m iséria; possibilitou a fontes divinas — garantidoras da veracidade de suas histórias — não só para sua
ciência m oderna; tornou-se a base da luta contra a censura e a supressão do livre
inspiração como tam bém para seu conhecim ento.
pensam ento; a base da consciência não conform ista, do individualism o e de um
novo senso de dignidade do hom em ; suscitou a exigência da educação universal e o
Os filósofos H eráclito e Parm ênides pensam da m esma form a. H eráclito.
novo ideal de um a sociedade livre; fez o hom em sentir-se responsável por si mesmo
aparentem ente, considera-se um profeta “que fala com palavras delirantes, ... pos­
e pelos outros, pronto a m elhorar não só suas condições individuais de vida como
suído pelo deus” — por Zeus, fonte de toda sabedoria (DK2, B 92, 32; cf. 93, 41,
tam bém as da hum anidade. Este é bem o caso de um a m á idéia que inspirou
64, 50). Parm ênides, por sua vez, pode ser considerado o elo de ligação entre
m uitas boas idéias.
Hom ero ou Hesíodo, de um lado, e Descartes, do outro. Sua estrela-guia e inspi-
radora é a deusa Diké, descrita por H eráclito (DK, B 28) como a guardiã da ver­
VI dade. O próprio Parm ênides a descreve como guardiã e possuidora das chaves da
verdade, a fonte de todo o seu conhecim ento. Contudo, Parm ênides e Descartes
T al epistem ologia falsa, no entanto, teve tam bém conseqüências desastrosas. têm mais em com um do que a doutrina da veracidade divina. A divina guardiã da
A teoria da verdade evidente — segundo a qual a verdade será vista por todos que verdade, por exemplo, afirm a a Parm ênides que, p ara distinguir a verdade da fa l­
assim desejarem — constitui a base de quase todas as formas de fanatism o. De fato, sidade, deve-se recorrer apenas ao intelecto, excluindo totalm ente a visão, audição
só a m aldade mais depravada pode levar à recusa de se enxergar a verdade eviden­ e palato. (Cf. H eráclito, B 54, 123; 88 e 126 sugerem transform ações inobserváveis
te; só conspiram p a ra suprim ir a verdade aqueles que têm motivo p ara tem ê-la. produzindo opostos observáveis). Até mesmo o princípio da sua teoria física (que.
como Descartes, ele baseia na teoria intelectualista do conhecim ento) é o de Des­
Mas essa teoria não só gera fanáticos — convictos de que todos aqueles que cartes: a impossibilidade do vazio absoluto, a necessária plenitude do universo.
não enxergam a verdade devem estar possuídos pelo dem ônio — mas pode levar
tam bém ao autoritarism o, em bora talvez não tão d n etam en te quanto a episte­ No lon de Platão encontram os um a distinção precisa entre a inspiração
m ologia pessimista. Isso acontece simplesmente porque a verdade, via de regra, não divina — o delírio divino do poeta — e as fontes divinas ou origens do conhecim en­
se m anifesta por si só; aquilo que supostam ente é a verdade evidente precisa não só to verdadeiro. (O tem a é desenvolvido de modo m ais com pleto no Phaedrus, es­
de constantes interpretações e afirmações mas tam bém de reinterpretaçoes e reafir­ pecialm ente a p artir de 259e; em 275b-c, como m e fez n o tar H arold Cherniss,
mações. E preciso que praticam ente todo dia algum a autoridade se pronuncie
sobre a verdade, estabelecendo sua evidência — autoridade que pode fazê-lo a r ­
b itrária e cinicam ente. 2 — DK = Diels —Kranz, Fragmente der Vòrsokratiker.
38 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA 39

Platão chega mesmo a insistir na distinção entre questões de osigem e de veraci­ relação a esses poucos, é um a visão mais extraordinariam ente otim ista do que a
dade). Platão adm ite que os poetas sejam inspirados, mas nega qualquer au to ri­ doutrina da verdade evidente. As conseqüências autoritárias e tradicionalistas dessa
dade divina sobre o conhecim ento das coisas que alegam possuir. Não obstante, a teoria tão pessimista aparecem desenvolvidas plenam ente nas Leis.
doutrin a da origem divina do conhecim ento tem um papel decisivo na famosa
teoria da anamnesis de Platão, que em certa m edida outorga a todo hom em o aces­ Encontram os portanto em Platão a prim eira transição do otimismo para o
so às fontes divinas do conhecim ento. (O conhecim ento de que tra ta essa teoria é o pessimismo na teoria do conhecim ento. C ada um a dessas concepções constitui o
conhecim ento da natureza ou da essência das coisas, e não de fatos históricos em fundam ento de um a das duas filosofias do Estado e da sociedade diam etralm ente
particular). De acordo com o M eno de Platão (81b-d) não há n ad a que nossa alm a opostas: de um lado, o racionalism o utópico, antitradicionalista, anti-autoritário,
im ortal já não saiba antes de nascermos; como todas as naturezas são semelhantes, revolucionário, do tipo cartesiano; de outro, o tradicionalism o autoritário. O que
nossa alm a é sem elhante a todas as naturezas: conhece-as a todas e, portanto, podemos tam bém associar com a idéia de que a queda do hom em , no sentido epis-
conhece todas as coisas. (Vide tam bém Phaedo 79d; República, 611d; Leis, 899d). temológico, aceita um a interpretação pessimista, além da explicação otim ista da
Ao nascer, esquecemos; mas podemos recobrar a m em ória, e recuperar o co­ doutrina da anamnesis.
nhecim ento que já tínham os, ainda que só parcialm ente: ao ver de novo a verdade,
nós a reconhecem os. Por isso, todo conhecim ento é re-conhecim ento — a recor­ Na interpretação pessimista, a queda condena todos os m ortais — ou quase
dação da essência, da verdadeira natureza que já conhecíam os (Phaedo, 72 em todos — à ignorância. Creio que é possível discernir na analogia da caverna (e ta l­
diante; 75e). vez tam bém na história da queda da cidade, quando os homens negligenciaram as
Musas e seus ensinam entos divinos — vide R epública, 546d) um eco de form a mais
Essa teoria im plica que nossa alm a perm anece num estado divino de onis- antiga, m uito interessante, dessa idéia: a doutrina de Parm ênides, segundo a qual
ciência en quanto participa do m undo divino das idéias, essências ou naturezas, a n ­ as opiniões dos m ortais são m eras ilusões, o resultado de convenções equivocadas (o
te do nascim ento. Este corresponde à queda do estado de graça, do estado natural que pode provir da doutrina de Xenófanes de que todo conhecim ento hum ano é
ou divino em que tudo conhecemos; tal seria, p o rtanto, a causa e a origem da nossa um a espécie de trabalho de adivinhação e suas próprias teorias são, na m elhor das
ignorância. (Aí poderia estar a base da idéia de que a ignorância é um pecado, ou hipóteses, semelhantes à verdade).* As convenções equivocadas são lingüísticas:
que está pelo menos relacionada com o pecado; vide Phaedo, 76d). consistem em designar com nomes o que não existe. A m esm a idéia da queda epis-
tem ológica do hom em talvez possa ser encontrada, como sugeriu Karl R einhardt,
E óbvio que há um vínculo estreito entre a teoria da anamnesis e a doutrina nestas palavras da divindade que m arcam a transição da verdade p ara a opinião
da verdade evidente; mesmo no nosso estado de privação e esquecim ento, se virmos ilusória.34
a verdade não poderem os deixar de reconhecê-la como tal. P ortanto, o resultado
da anamnesis é a restauração da verdade ao estado do que não é esquecido nem “Mas aprenderás tam bém como a opinião ilusória.
oculto (alethes): a verdade como algo m anifesto. Confundida com a realidade, forçava sua presença
/em toda p a rte ...
E o que Sócrates dem onstra num a bela passagem do M eno, ajudando um Vou falar-te agora sobre este m undo que parece
jovem e inculto servo a “reco rd ar” a prova de um caso especial do teorem a de /integralm ente verdadeiro:
Pitágoras. Eis aí, sem dúvida, um a epistemologia otim ista, e a raiz do cartesianis- Depois disso, nunca mais te deixarás desviar
mo. Ao que parece, no M eno Platão tinha consciência do caráter altam ente otim is­ /pelas opiniões dos m ortais”.
ta da sua teoria, pois a descreve como um a d o u trina que provoca nos homens o
desejo de ap render, de expandir-se, de descobrir.
Portanto, em bora a queda afete todos os hom ens, a verdade pode ser re ­
No entanto, Platão deve ter-se desapontado, pois na R epública (e tam bém velada aos eleitos por um ato de graça — até mesmo a verdade a respeito do m u n ­
no Phaedrus) vamos encontrar o início de um a epistemologia pessimista. Na fa ­ do irreal das ilusões, opiniões, noções e decisões convencionais dos homens — o
mosa analogia dos prisioneiros da caverna (514) o filósofo m ostra que o m undo da m undo irreal da aparência, destinado a ser aceito (e aprovado) como real.
nossa experiência é apenas um a som bra, um reflexo do m undo real; ainda que um
dos prisioneiros pudesse escapar da caverna p ara ver o m undo da realidade, e n ­ A revelação experim entada por Parm ênides e sua convicção de que uns
fren taria dificuldades quase insuperáveis p ara entendê-lo — sem m encionar as poucos poderiam alcançar a certeza tanto sobre o m undo im utável da realidade
dificuldades que teria em transm itir sua experiência aos outros prisioneiros, retidos eterna, como sobre o m undo cam biante e irreal das aparências e ilusões, consti­
na obscuridade. Os obstáculos que surgem no processo de com preensão do m undo
real são quase sobre-hum anos; só uns poucos (na m elhor das hipóteses) podem a l­
cançar o estado divino de entendim ento da realidade — o estado divino de co­ 3 — 0 fragmento de Xenófanes a que aludimos aqui é DK,B 35, citado no cap. 5, xii. Sobre a idéia da
nhecim ento genuíno, de episteme. semelhança da verdade vide o cap. 10 e os apêndices 6 a 8.
4 — Vide Karl Reinhardt, Parmenides, 2.a edição, pág. 26; vide também págs. 5-11 (texto de Par­
Essa é u m a teoria pessimista, no que se refere a quase toda a hum anidade, mênides, DK, B 1: 31-32 — as duas primeiras linhas); a terceira linha é Parmênides, DK, B8:60, cf.
pois ensina que só uns poucos eleitos podem alcançar a verdade. Contudo, com Xenófanes, B 35; a quarta linha é Parmênides, DK, B 8: 61.
40 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA 41

tuíram duas das principais inspirações da filosofia de Platão: um tem a ao qual ele F undam entalm ente, esse procedim ento é p arte da indução de Bacon.
sem pre retornava, oscilando entre a esperança, o desespero e a resignação.
IX
V III E o seguinte o contorno geral da teoria da indução de B acon: o filósofo traça
um a distinção, no N ovum O rganum , entre o m étodo verdadeiro e o m étodo falso.
Mas o que nos interessa aqui é a epistem ologia otim ista de Platão — a teoria
O nom e que dá ao prim eiro. liinterpretatio naturae” , é traduzido geralm ente
da anamnesis do M eno. N a m inha opinião, ela contém não só os germes do intelec­
tualism o de Descartes mas tam bém as sementes da teoria da indução de Aristóteles por “interpretação da n atu reza” ; sua denom inação do m étodo falso “anticipatio
e especialm ente de Bacon. m entis” costum a ser traduzida como “antecipação da m en te” . Em bora essas
traduções sejam óbvias, são tam bém enganosas. N a m inha opinião, o que Bacon
quer dizer com liinterpretatio naturae” é o ato de ler (ou m elhor, de soletrar) o
Com efeito, o escravo de Meno é ajudado pelo interrogatório judicioso de
Sócrates, a recordar ou recap tu rar o conhecim ento esquecido que sua alm a possuía livro da natureza. N um a passagem famosa do I I Saggiatore, seção 6, de que fui
no estado de onisciência pré-natal. T rata-se do famoso m étodo socrático, m e n ­ lem brado am avelm ente por M ário Bunge, Galileu se refere ao “grande livro que
cionado no Theaetetus como a arte de p arteira ou m aiêutica (à qual Aristóteles temos diante dos olhos — isto é, o universo”; vide, a este propósito, o Discurso de
aludia ao dizer, na M etafísica, 1078b 17-33 — vide tam bém 987bl — que Sócrates Descartes, seção 1.
tinha sido o inventor do m étodo indutivo).
Em inglês m oderno o term o interpretation, “in terp retação ” , tem um sentido
decididam ente subjetivista ou relativista. Q uando nos referimos à interpretação do
Proponho que Aristóteles, e Bacon tam bém , por “in d ução” queriam desig­
“Concerto do Im p erad o r” por R udolf Serkin querem os dizer que há vários modos
nar não só o ato de inferir leis universais de casos particulares observados, mas o
m étodo que em pregam os p ara chegar ao ponto em que podemos intuir ou perceber de executar aquela peça — um deles, o de Serkin. N aturalm ente, não queremos
insinuar que a interpretação de Serkin não é a m elhor, a mais genuína, a mais
a essência ou natureza genuína de um a coisa.5 Como vimos, porém , esse é p re ­
próxim a das intenções de Beethoven. Mas, em bora seja impossível conceber um a
cisam ente o objetivo da m aiêutica socrática: ajudar-nos na anam nesis. Esta últim a
consiste em poder ver a natureza genuína ou essência das coisas, que conhecíamos m elhor execução do “C oncerto” , ao usar o term o “in terp retação ” deixamos e n ten ­
antes de nascer, até o m om ento da nossa queda do estado de graça. Assim, os o b ­ der que há outras m aneiras de executá-lo, ficando em aberto a questão de saber
jetivos tanto da m aiêutica como da indução são os mesmos. Incidentalm ente, Aris­ quais dessas m aneiras são “verdadeiras” .
tóteles ensinava que o resultado de um a indução - a intuição de um a essência —
deveria ser expressado pela definição daquela essência. Poderíamos falar em “leitu ra” como sinônimo de “in terp retação ”, não só
porque o sentido das duas palavras é sem elhante m as tam bém porque “leitu ra” e
“ler” passaram por m odificação análoga à de “in terp retação ” e “in te rp re ta r”. C on­
Exam inem os agora mais detidam ente os dois procedim entos, A maiêutica de
Sócrates consiste essecialmente em propor perguntas para destruir os preconceitos, tudo, no caso de “leitu ra” a palavra pode ser usada nos dois sentidos. N a frase “li a
as falsas crenças (que se revestem m uitas vezes da form a de idéias tradicionais ou carta de João”, o sentido é o tradicional, não subjetivista; mas em “m inha leitura
dessa passagem é m uito diferente” , temos outro .sentido, que é posterior, subjetivis­
atraentes), as falsas respostas, im buídas de segurança e ignorância. Sócrates não
pretende saber n ad a. Sua atitude é descrita deste m odo por Aristóteles: “ ... p ro ­ ta ou relativista.
pun h a questões mas não adiantava respostas, confessando que não as conhecia” .
O que pretendo dizer é que o sentido de “in te rp re ta r” (não no sentido de
(Sofista El., 183b 7 cf. Theaetetus, 150-cd, 157c, 161b). Portanto, a maiêutica
socrática não é um a arte que ensine algum a crença, mas busca apenas pu rg ar ou “trad u zir”) modificou-se exatam ente do mesmo m odo, com a exceção de que o sen­
lim par k alm a das falsas crenças (cf. a alusão à A m phidrom ia, no Theaetetus 160 tido original (“leitura em voz alta p ara benefício dos que não podem ler por si m es­
m os”) praticam ente se perdeu. Hoje, até mesmo a frase “o juiz precisa in terp retar
e), do conhecim ento ap aren te, dos preconceitos. Faz isso ensinando-nos a pôr em
a lei” significa que ele tem um a certa latitude ao interpretá-la; m as no tem po de
dúvida nossas próprias convicções.
Bacon o significado seria o de que o juiz tem o dever de ler a lei como ela está
enunciada, expondo-a e aplicando-a da única form a correta. Interpretatio juris (ou
legis) ou tem esse significado ou quer dizer “a exposição da lei p ara os leigos”
5 — Por. “indução” (epagoge), Aristóteles queria indicar pelo menos duas coisas diferentes — que às (Bacon, De A ugm entis VI, xlvi; T . Manley, The Interpreter: ... Obscure Words
vezes aparecem associadas entre si. Em primeiro lugar, um método pelo qual “somos levados a intuir o
princípio geral” {Anal. Pr. 67a 22; sobre a anamnesis no Meno; An. Post., 71a 7); além disso {Tópicos
and Terms Used in the Lawes o f this Realm , 1672). O intérprete legal não tem
105a 13, 156a 4, 157a 34; Anal. Posteriora 78a 35; 81 b 5), um método destinãdo a aduzir provas (par­ qualquer latitude: na m elhor das hipóteses teria a m argem concedida ao trad u to r
ticulares) positivas, em vez de evidência crítica ou contra-exemplos. O primeiro método me parece ser o ju ram entado que devesse traduzir um docum ento legal.
mais antigo, aquele que podemos associar melhor a Sócrates e sua maiêutica. O segundo parece ter tido
origem numa tentativa de sistematizar a indução logicamente ou, como diz Aristóteles {Anal. Priora, Por isso a tradução “interpretação da n atu reza” é errônea e deveria ser subs­
68b 15), de construir um silogismo válido “que parta da indução”; este último, para ser válido, precisa
naturalmente ser um silogismo de indução completa ou perfeita (com a enumeração completa dos
tituída por fórm ula como “a (verdadeira) leitura da n atu reza”, análoga a “a (ver­
casos). A indução ordinária, no sentido do segundo método aqui mencionado, não passa de uma forma dadeira) leitura da lei”. Entendo que Bacon quis dizer “lendo o livro da natureza
debilitada (e inválida) desse silogismo válido. (Vide meu livro Open Society, nota 33, Cap. 11). como ele está escrito” ou, m elhor ainda, “soletrando o livro da natu reza” (“spelling
42 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA 43

out the hook o f N ature"). O ponto essencial é que a frase deve sugerir que se evite Podemos agora ver mais claram ente, nesta epistem ologia otim ista, que o es­
qualquer “in terp retação ” (no sentido m oderno); em especial, não deve conter q u a l­ tado do conhecim ento é o estado n atu ral (puro) do ser hum ano, a situação do olho
quer sugestão no sentido de in terp retar o que se m anifesta na natureza à luz de inocente que pode perceber a verdade; o estado da ignorância se origina na injúria
causas não evidentes, ou de hipóteses — isto seria um a anticipatio m en tis, no dizer sofrida pelo olho inocente, du ran te a queda do estado de graça — um a injúria que
de Bacon. (A m eu juízo é um erro atrib u ir a Bacon o ensinam ento de que seu pode ser rem ediada em p arte pela purificação. Podemos ver tam bém mais cla­
m étodo indutivo pode levar a hipóteses ou conjecturas: a indução baconiana leva a ram ente por que razão essa epistemologia, não só na form a proposta por Descartes
como na sugerida por Bacon, é essencialmente um a d o utrina religiosa, apresentan­
conhecim entos seguros, não a conjecturas),
do a autoridade divina como fonte de todo conhecim ento.
Q uanto ao sentido de anticipatio m entis, bastará citar Locke: “Os homens
se entregam às prim eiras antecipações da sua m ente” (Conduct Underst., 26). Esta Poder-se-ia dizer que, encorajado pelas divinas “essências” ou “naturezas” de
é, praticam ente, um a tradução das palavras de Bacon; deixa bem claro que “a n ­ Platão, e pela oposição helénica tradicional entre a verdade da natureza e o engano
ticipatio ” significa “preconceito” ou mesmo “superstição” . Podemos lem brar ta m ­ da convenção, na sua epistem ologia, Bacon substituiu “Deus” por “N atureza”. Essa
bém a frase “anticipatio d eo ru m ", que significa ter idéias prim itivas ou supersti­ pode ser a razão por que precisamos purificar-nos antes de nos aproxim arm os da
ciosas sobre os deuses. P ara elucidar o assunto ainda m elhor, a palavra “prejudice” deusa N atura: um a vez purificada nossa m ente, até mesmo nossos sentidos, que
(preconceito) deriva de um term o legal; de acordo com o O xford English D ictio­ nem sempre m erecem confiança (e que Platão considerava totalm ente im puros), se
tornam límpidos. As fontes do conhecim ento precisam ser m antidas puras porque
nary, foi Bacon que introduziu n a língua inglesa o verbo “to preju d g e", usado no
qualquer im pureza poderá transform á-las em fontes da ignorância.
sentido de “prejulgar adversam ente” — isto é, violando o dever do juiz.
X
Assim, os dois m étodos são: 1) “a leitura do livro aberto da n atureza” , que
leva ao conhecim ento ou episteme\ e 2) “o preconceito da m ente que prejulga A despeito do caráter religioso das suas respectivas epistemologias, as críticas
erroneam ente a natureza, e possivelmente a julga m al” , levando à doxa, às opiniões de Bacon e de Descartes ao preconceito e às crenças tradicionais que alim entam os
e a um a leitura im própria do livro da natureza. Este últim o m étodo, rejeitado por im pensadam ente são sem dúvida antiautoritárias e antitradiçionalistas, pois exigem
Bacon, é na verdade um a “in terp retação ” , no sentido m oderno da palavra. Corres­ que rejeitemos todas as nossas crenças, com exceção daquelas cuja verdade
ponde ao m étodo da conjectura ou da hipótese (incidentalm ente, sou um advogado podemos pessoalmente perceber. Essas críticas pretendiam seguram ente dirigir-se
convicto deste m étodo). contra a autoridade e a tradição; eram parte de um a guerra contra a autoridade
que era m oda naqueles tempos — contra a autoridade de Aristóteles e a tradição
Como podem os preparar-nos p ara ler o livro da natureza adequadam ente, das escolas. Os homens não têm necessidade dessas autoridades, já que podem p e r­
do m odo verdadeiro? A resposta de Bacon é: elim inando da nossa m ente todas as ceber a verdade por si mesmos.
antecipações, conjecturas, preconceitos (Nov. O rg., i, 68, 69). H á várias coisas que
podem ser feitas a fim de “lim p ar” nossa m ente. Devemos livrar-nos de todos os N ão creio porém que Bacon e Descartes ten h am tido êxito na tentativa de
tipos de “ídolos” , as falsas crenças aceitas de m odo geral, que distorcem nossas o b ­ liberar da autoridade suas respectivas epistemologias; não tanto porque elas
servações (Nov. Org., i, 97). Mas precisamos tam bém — como Sócrates — p ro ­ apelavam afinal para um a autoridade religiosa — a natureza, ou Deus — mas
curar todos os tipos de contra-exem plos p ara destruir os preconceitos que temos a sobretudo por um a razão ainda mais profunda.
respeito do que constitui a verdadeira natureza ou essência do que pretendem os
conhecer. Como Sócrates, precisamos p re p a ra r nossa alm a, pela purificação do in ­ A despeito das suas tendências individualistas, aqueles filósofos não ousaram
telecto, p ara fazer face à luz eterna das essências ou naturezas (cf. S. Agostinho, fazer apelo a nosso julgam ento crítico; possivelmente porque pensavam que isso
Civ. Dei, V III, 3). Nossos preconceitos im puros precisam ser exorcizados pela in ­ levaria ao subjetivismo e à arbitrariedade. Com efeito, quaisquer que tenham sido
vocação de contra-exem plos (Nov. Org. ii, 16). as razões disso, não foram capazes de deixar de pensar em termos de autoridade,
por mais qu e pretendessem fazê-lo. A única coisa que conseguiram foi substituir
Só depois de lim par deste m odo nossa alm a podemos com eçar o trabalho de um a autoridade — Aristóteles, ou a Bíblia — por o u tra. Um apelou p ara a a u ­
soletrar diligentem ente o livro aberto da natureza, a verdade m anifesta. toridade dos sentidos; o outro para a autoridade do intelecto.

T endo em vista tudo o que dissemos, acho que a indução baconiana (e ta m ­ Isso significa que ambos deixaram sem solução o grande problem a: como
bém aristotélica) é, fundam entalm ente, a mesma m aiêutica socrática: o preparo da podemos adm itir que nosso conhecim ento é hum ano (absolutam ente hum ano)
m ente pela “lim peza” dos preconceitos, a fim de perm itir o reconhecim ento da ver­ sem aceitar por im plicação, ao mesmo tem po, que ele é feito de arb itrariedade e de
dade evidente — a leitura do livro aberto da natureza. caprichos individuais?

O m étodo cartesiano da dúvida sistem ática é tam bém fundam entalm ente o No entanto, esse problem a tinha sido considerado e resolvido há muitos
mesmo processo de destruição de todos os falsos preconceitos, p ara chegar à base anos; prim eiro, aparentem ente, por Xenófanes e depois por Dem ócrito e Sócrates
sólida d a verdade evidente. (o Sócrates da Apologia e não o do M eno). A solução consiste em perceber que
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AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA 45

todos podem os e rrar, individual ou coletivam ente, e que erram os com freqüência, nosso ser ordinário — o velho Adão que há em todos nós. Sem dúvida, somos “nós
mas que a p rópria idéia do erro e da falibilidade hum ana im plica um a outra idéia mesmos” os responsáveis pelos erros, já que a verdade é evidente — devemos culpar
— a da verdade objetiva, p adrão que utilizamos para avaliar as afirm ativas que nossa negligência, nossos preconceitos, nossa obstinação: somos a fonte da nossa
fazemos. Por isso a dou trin a da falibilidade não deve ser considerada como parte própria ignorância.
de epistem ologia pessimista: ela im plica que podemos buscar a verdade, a verdade
objetiva, em bora m uitas vezes dela nos afastemos am plam ente; im plica tam bém O hom em foi dividido assim num a parte h u m an a, fonte das suas opiniões
que, se é verdade que respeitam os a verdade, precisamos procurá-la com persistên­ falíveis (doxa), dos erros e da ignorância; e um a p arte super-hum ana — os sen­
cia, identificando nossos erros com a aplicação de um a crítica racional incansável, tidos ou o intelecto — fonte do conhecim ento verdadeiro (epistem e), cuja a u to ­
e de perene autocrítica. ridade sobre nós é quase divina.

Erasmo de R otterdam tentou reviver a im portante doutrina socrática do Mas não podemos aceitar essa explicação. Sabemos que a física de Descar­
“conhece a ti mesmo e adm ite o pouco que conheces” . Mas a advertência de Só­ tes, em bora adm irável sob m uitos aspectos, estava errad a; contudo, ela se baseava
crates foi varrida pela crença na verdade evidente e pelo novo surto de autocon­ em idéias reputadas claras e distintas — que, p o rtanto, deveriam ser verdadeiras.
fiança exem plificado e ensinado, de diferentes modos, por Lutero e Calvino, Bacon Q uanto à autoridade dos sentidos como fontes do conhecim ento, já os antigos —
e Descartes. como .Xenófanes e H eráclito, antes mesmo de Parm ênides — sabiam que os sen­
tidos não m erecem confiança. É o que pensavam tam bém D em ócrito e Platão.
A esse propósito, é im portante perceber a diferença existente entre a dúvida
cartesiana e a dúvida de Sócrates, Erasmo ou M ontaigne. Sócrates duvida do É estranho que esse ensinam ento da antiguidade tenha sido praticam ente
conhecim ento e da sabedoria do hom em e perm anece firm e na sua rejeição de ignorado pelos em piristas m odernos, inclusive os fenom enalistas e os positivistas;
qualquer pretensão ao conhecim ento ou à sabedoria; Descartes duvida de tudo, contudo, essa lição não foi levada em conta na m aior parte dos problem as propos­
m as term ina com um conhecim ento absolutam ente certo: descobre que sua dúvida tos pelos positivistas e fenom enalistas e nas soluções que oferecem . A razão é sua
universal o levaria a duvidar de Deus, o que é absurdo. Tendo provado portanto, crença de que não são nossos sentidos que erram , m as “nós mesmos” que erram os
que a dúvida universal é absurda, conclui que podem os conhecer com segurança; na interpretação do que é “d ad o ” aos sentidos. Estes dizem a verdade, mas nós
que podem os ser sábios, desde que tracem os um a distinção, à luz n atu ral da razão, podemos errar — por exem plo, quando traduzim os n um a linguagem convencional,
entre as idéias claras e distintas — que se originam em Deus — e todas as outras artificial e im perfeita o que nos dizem. Nossa descrição lingüística é defeituosa,
idéias, originadas na nossa im aginação im pura. A dúvida cartesiana é sim plesm en­ porque é tingida por preconceitos.
te um instrum ento m aiêutico que perm ite estabelecer um critério de verdade e, por
conseguinte, um processo p ara alcançar o conhecim ento e a sabedoria. Para o Assim, a linguagem h u m ana era culpada. Mas depois se descobriu que ela
Sócrates da Apologia, contudo, a sabedoria consistia na percepção das nossas li­ tam bém nos era “d a d a ”, num sentido im portante: que incorporava a sabedoria e a
mitações; no conhecim ento do pouco que cada um de nós conhece. experiência de m uitas gerações e que não devia ser responsabilizada pelo m au uso
que dela fizéssemos. Desta form a a linguagem se tornou um a autoridade verídica,
Foi essa dou trin a da falibilidade hum ana essencial que Nicolau de Cusa e que não nos podia enganar. Se caímos em tentação e usamos a linguagem em vão,
Erasmo de R otterdam (que se refere a Sócrates) reviveram; foi essa doutrina somos culpados pelos problem as que isso provoca. A linguagem é um deus cium en­
“h u m an ista” (que se contrapõe à d outrina otim ista em que se baseou M ilton, a to que não tolera que suas palavras sejam tom adas em vão, lançando o pecador na
d o u trin a de que a verdade prevalecerá) que N icolau e Erasmo, M ontaigne, Locke e confusão e na obscuridade.
V oltaire, seguidos por John S tuart Mill e B ertrand Russell, tom aram como base
p ara a pregação da tolerância. “Em que consiste a tolerância?” pergunta Voltaire Pondo a culpa em nós e na nossa linguagem (ou no uso im próprio que dela
no Dicionário Filosófico', e responde: “É um a conseqüência necessária da nossa fazemos) é possível sustentar a autoridade divina dos sentidos (e mesmo da própria
hum anidade. Somos todos falíveis e propensos ao erro; devemos perdoar-nos linguagem ). Mas isso só é possível ao custo da am pliação do hiato entre essa a u ­
m u tu am en te nossa insensatez. Esse é o prim eiro princípio do direito n a tu ra l”. Mais toridade e nós mesmos: entre as fontes puras das quais podemos obter um co­
recentem ente, a d o u trin a da falibilidade foi adotada como base da teoria da lib er­ nhecim ento autêntico da N atura, deusa genuína, e nossos seres im puros e culpados
dade política — isto é, da liberdade da coerção (Vide F. A. Hayek, The Consti- — um hiato entre Deus e o hom em . Como indiquei anteriorm ente, a idéia da ver­
tution o f Liberty, em especial págs. 22 e 29). dade da natureza que penso poderm os discernir em Bacon se origina nos gregos; é
parte da oposição clássica entre a natureza e a convenção (que, segundo Platão,
devemos a Píndaro), perceptível em Parm ênides e identificada por ele, por alguns
XI sofistas (Hípias, por exemplo) e em parte pelo próprio Platão como um a oposição
entre a verdade divina e o erro hum ano (ou mesmo a falsidade). Depois de Bacon
Bacon e Descartes erigiram a observação e a razão como novas autoridades, — e devido a sua influência — a idéia de que a natureza é divina e verdadeira e
dentro de cada indivíduo. Ao fazer isso, dividiram o hom em em duas partes — que todo erro ou falsidade se deve ao caráter enganoso das convenções hum anas
um a porção superior, sede da autoridade com relação à verdade (as observações, continuou a desem penhar um papel im portante, não só na história da filosofia, da
p ara Bacon; o intelecto, p ara Descartes) e um a parte inferior, que representa o ciência e da política, mas tam bém na história das artes visuais. Isso pode ser visto,
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por exem plo, nas interessantes teorias de Constable sobre a natureza, a veracidade,
o preconceito e a convenção, citadas por E. H . G om brich em A rt and Illusion. E
desem penhou tam bém um a função na história da literatu ra, e mesmo na da
I D É I A S
m úsica.

ou seja
X II

Pode-se atrib u ir a estranha idéia de que é possível decidir sobre a veracidade


de um a afirm ação averiguando-se suas fontes — isto é, sua origem — a algum erro
de lógica que precisa ser esclarecido? Será que não podemos explicá-la em termos
de crenças religiosas ou em termos psicológicos — fazendo referência, talvez, à DESIGNAÇÕES, TERM OS A FIRM ATIVAS, PRO PO SIÇÕ ES
auto rid ad e patern a? Penso que é possível discernir, de fato, um erro de lógica OU CO NCEITOS OU TEO R IA S
ligado à analogia que existe entre o sentido de nossas palavras, termos ou conceitos
e a veracidade de nossas assertivas ou proposições (veja o quadro).

É fácil perceber que o sentido de nossas palavras tem algum a ligação com
sua história ou origem . C onsideradas logicam ente, as palavras são símbolos conven­ podem ser form uladas com
cionais; em term os psicológicos, são símbolos cujo significado é estabelecido pelo
uso, pelo costum e, ou por associação. Logicam ente, o significado é estabelecido por PALAVRAS ASSERTIVAS
um a decisão inicial — algo como um a definição ou convenção prim ária, um a es­
pécie de contrato social originário; psicologicam ente, estabelece-se o significado que podem ser
quando aprendem os a usar as palavras pela prim eira vez, quando começamos a
form ar os prim eiros hábitos e associações. H á um certo fundam ento na anedota do SIGNIFICATIVAS VERDADEIRAS
estudante que reclam a do artificialism o desnecessário da língua francesa, que
cham a o pão de “p a in ”, enquanto o vernáculo prefere cham á-lo, mais n atu ralm en ­ e sua
te, de “p ão ” . O estudante queixoso com preende perfeitam ente o convencionalismo
do uso lingüístico, mas expressa o sentim ento de que as convenções originais (para SIGNIFICAÇÃO VERACIDADE
ele) deveriam ser m antidas. Seu único equívoco consiste em esquecer que pode
haver m ais de um a convenção original. Mas, quem já não com eteu im plicitam ente pode ser reduzida, por meio de
o mesmo erro? Quase todos já tom am os consciência da surpresa que sentimos ao
verificar que n a França até mesmo as crianças de pouca idade falam francês fluen­
DEFINIÇÕES DERIVAÇÕES
tem ente. Como é de esperar, sorrimos da nossa própria ingenuidade; mas não
sorrimos do policial que descobre que o nom e verdadeiro de “Samuel Jones” é a
“John Sm ith” — em bora haja aí, sem dúvida algum a, um últim o vestígio da crença
m ágica de que é possível adq u irir poder sobre um a pessoa, um deus ou um espírito PROPOSIÇÕES PRIM ITIVAS
CON CEITO S INDEFINIDOS
conhecendo seu verdadeiro nome (de posse dessa inform ação podemos convocá-lo).

H á p o rtan to um sentido fam iliar, e logicam ente defensável, na afirm ativa


de que a acepção “g en u ín a” ou “ap ro p riad a” de um term o representa sua signi­
ficação original: se o com preendem os, isto se dá porque o aprendem os corretam en­
te, de um a autoridade verdadeira — alguém que tinha conhecim ento da lin ­ a tentativa de estabelecer (e não de reduzir) por esses meios
guagem . Isso m ostra que o problem a do significado das palavras está relacionado
com o problem a da origem ou da fonte autorizada, do uso que fazemos delas. SUA SIGNIFICAÇÃO SUA VERACIDADE

A situação é diferente com respeito ao problem a da verdade de um a asser­ leva a um a situação de regresso
tiva factual — de um a proposição. Q ualquer um pode com eter um erro de fato —
mesmo em assuntos sobre os quais deveria ser um a autoridade, como a própria infinito
idade, ou a cor de um objeto que acabou de ser visto, clara e distintam ente.
Q uanto às origens, um a afirm ativa pode ter sido falsa no m om ento em que foi feita
e com preendida pela prim eira vez.
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qualidade de decisões sobre determ inadas convenções, possam ser influenciadas


Se refletirm os assim sobre a diferença entre os modos como a significação
pelo conhecim ento que temos dos fatos e tam bém , por outro lado, criem in stru ­
das palavras e a verdade das afirm ativas se relacionam com suas origens, não se­
mentos que podem influenciar a form ação de nossas teorias e p o rtanto a evolução
remos m uito tentados a pensar que o problem a da origem pode ter grande relevân­
do nosso conhecim ento dos fatos). Ao perceberm os que as definições jam ais co n ­
cia p a ra a questão do conhecim ento ou da verdade. H á, contudo, um a analogia
tribuem com q u alquer conhecim ento factual sobre a “n atu reza”, ou a “natureza
p ro fu n d a entre significação e verdade; e existe um ponto de vista filosófico —
das coisas” , percebem os tam bém a quebra do vínculo lógico entre o problem a da
cham ei-o de “essencialismo” — que procura vincular a significação com a verdade
origem e o da verdade factual — vínculo que alguns filósofos essencialistas p ro ­
de form a tão próxim a que a tentação de tratá-las da mesm a m aneira se torna
curaram estabelecer.
quase irresistível.

P ara explicar isso em poucas palavras, podemos exam inar um a vez mais X III
nosso q uadro de idéias, observando a relação entre os dois lados.
Deixarei de lado agora todas essas reflexões em grande parte históricas p ara
De que m odo estão esses dois lados ligados entre si? No lado esquerdo, e n ­ debruçar-m e sobre os problem as em si e sua solução.
contrarem os a palavra “Definições” . Mas um a definição é um tipo de afirm ativa,
julga m en to ou proposição — portanto, um a das coisas que aparecem no lado Esta parte da presente conferência poderia ser descrita como um ataque
direito do q uadro. (O que, incidentalm ente, não prejudica a sim etria do quadro, contra o empirismo ilustrado pelo seguinte enunciado clássico de H um e: “Se eu
pois as derivações tam bém transcendem o que aparece com a palavra “derivação”: perguntar por que acreditas em um ponto factual determ in ad o ... precisarás dar-
da m esm a form a como um a definição é form ulada por um tipo p articular de se- me algum a razão; razão que será algum outro fato, relacionado com o prim eiro.
qüência de assertivas, em lugar de um a só afirm ativa). O fato de que as definições Contudo, como não é possível continuar assim in infinitum , precisarás p a ra r em a l­
— que aparecem no lado esquerdo do quadro — são afirm ativas sugere que de a l­ gum fato que se apresente a nossa m em ória, ou a nossos sentidos; ou então p re ­
gum a form a elas podem estabelecer um vínculo entre os dois lados. cisarás adm itir que tua crença não tem qualquer fundam ento». (Enquiry Concer-
ning H um an Understanding, V, I; Selby-Bigge, pág. 46).
Esse relacionam ento é p arte da doutrina filosófica que cham ei de “essen­
cialism o”, segundo a qual (especialm ente na versão de Aristóteles) a definição c o n ­ O problem a da validade do em pirism o pode ser form ulado, em poucas
siste n a afirm ativa da natureza (ou essência inerente) da coisa definida. Ao mesmo palavras, da seguinte form a: será a observação a fonte ultim a do nosso conheci­
tem po, a definição indica o sentido de um term o — da palavra que designa aquela m ento da natureza? Caso contrário, quais as fontes desse conhecim ento?
essência. (Por exem plo: Descartes — e K ant tam bém — sustenta que a palavra
“corpo” indica o que é essencialmente extenso). São indagações que perm anecem de pé — o que quer que tenha dito a res­
peito de Bacon e mesmo que tenha conseguido fazer com que os baconianos e
Além disso, Aristóteles e todos os outros essencialistas sustentavam que as outros em piristas se sintam pouco atraídos pelos aspectos da sua filosofia, que tive
definições constituem princípios, isto é, proposições prim itivas que não podem ser ocasião de com entar.
derivadas de outras proposições (por exemplo: “todos os corpos são extensos”) e
que form am a base, ou p arte da base, de q ualquer dem onstração, constituindo as­ O problem a da fonte do nosso conhecim ento foi reform ulado recentem ente
sim o fundam ento de toda ciência. (Cf. Open Soçiety, especialm ente as notas 27 a do seguinte modo: se faço um a afirm ativa, é preciso que a justifique; o que sig­
33, cap. 11). Note-se que em bora esse entendim ento seja um a p arte im portante do nifica que preciso ser capaz de responder a um a série de perguntas: “Como sei o
credo essencialista, está livre de referências às “essências”, o que explica o motivo que sei? Quais são as fontes da m inha afirm ativa?” O que, p ara o em pirista, corres­
por que foi aceito por alguns opositores nom inalistas do essencialismo, como Hob- ponde à pergunta: “Quais são as observações (ou m em órias de observações) que es­
bes ou, por exem plo, Schlick (vide E rkenntnislehre, deste últim o, 2 .a edição, 1925, tão por baixo dessa afirm ativa?”
pág. 62).
De m inha parte, considero essa série de indagações m uito pouco satisfatória.
Penso que temos agora os meios à nossa disposição para explicar a lógica do
ponto de vista de que problem as de origem podem decidir questões de verdade fac­ Para com eçar, a m aior parte das nossas afirm ativas não se baseiam em o b ­
tual; com efeito, se as origens podem d eterm inar o significado verdadeiro de um servações, mas em outros tipos de fonte: “Li num jo rn a l” ou “Li na Enciclopédia
term o ou um a palavra, podem tam bém d eterm inar a verdadeira definição de um a B ritânica” são respostas mais plausíveis e mais definidas á pergunta a respeito de
idéia im p o rtan te e, em conseqüência, pelo menos alguns dos “princípios” básicos — como viemos a saber de algum a coisa do que “Foi o que observei” ou “Sei o que
que descrevem a essência ou natureza das coisas, jazendo sob nossas dem onstrações digo porque fiz um a observação neste sentido no ano passado”.
e p o rtan to sob nosso conhecim ento científico. Pareceria haver, assim, fo n tes de
autoridade para nosso conhecim ento. R esponderá o em pirista: “Mas, de que form a o jo rn al ou a Enciclopédia
Britânica obtiveram aquela inform ação?” Não há dúvida de que, se desenvolvermos
Precisamos levar em conta, no entanto, que o essencialismo se equivoca ao suficientem ente nossa investigação, chegaremos a algum relato das observações de
sugerir que as definições acrescentam ao nosso conhecim ento fa c tu a l (em bora, na
filia Senador Pinh- ;
50 9 9 1 0 0 - cBr^ECTüáA^ eHiIÍfStações^ ^ AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA 51

H á um a razão simples que explica por que motivo essa tediosa seqüência de
testem unhas (‘sentenças protocolares’ ou ‘afirm ativas básicas’). Indubitavelm ente,
perguntas nunca chega a um a conclusão satisfatória. E a seguinte: cada teste­
os livros se baseiam em grande p arte em outros livros. Um historiador, por exem ­
m unha fará sem pre uso, no seu relato, do conhecim ento de pessoas, lugares, coisas,
plo, tra b a lh a rá com docum entos. Em últim a análise, porém , os outros livros ou
usos lingüísticos, convenções sociais etc. Jam ais se lim itará apenas ao que seus olhos
docum entos consultados se baseiam em observações. Se não fosse assim, precisa­
viram e ao que seus ouvidos ouviram , especialm ente se seu relato tiver algum a
riam ser descritos .como poesia, invenções ou m entiras, mas nunca como teste­
utilidade p ara justificar um a afirm ativa de im portância. Isso, como é n atu ral,
m unhos. E nesse sentido que nós, em piristas, dizemos que a observação é a fonte
levantará sem pre novas questões a respeito das fontes dos elementos do seu co­
últim a do conhecim ento”.
nhecim ento que não derivam im ediatam ente da observação direta.

Esta é a explicação dos em piristas (e a que m e dão alguns amigos positivis­ Por isso o program a recom endado, que consistiria em perseguir cada co­
tas). Procurarei dem onstrar que é tão pouco válida quanto a de Bacon; que a res­ nhecim ento até sua fonte últim a de observação, é logicam ente impossível, pois leva
posta à indagação a respeito das fontes do conhecim ento vai contra o em pirista; e, a um a situação de regresso infinito, constituindo um processo sem fim. (A doutrina
finalm ente, que toda a questão das fontes últim as — às quais precisaríam os apelar, de que a verdade é evidente elim ina esta dificuldade, o que pode explicar por que
como p a ra um trib u n al superior ou um a autoridade suprem a — deve ser rejeitada ela é tão atraente).
porque se baseia num equívoco.
Quero m encionar, incidentalm ente, o fato de que esse argum ento está es­
P rim eiram ente, pretendo m ostrar que se nos dermos ao trabalho de in te r­ treitam ente associado a um outro, que diz que toda observação im plica algum a in ­
rogar os redatores do jo rn al e seus correspondentes sobre a fonte consultada, n u n ­ terpretação, à luz do nosso conhecim ento teó rico ,6 ou que o conhecim ento baseado
ca chegarem os às observações de testem unhas indicadas pelo em pirista. Desco­ puram ente na observação, sem influência de qualquer teoria, seria de todo infértil
brirem os que cada pequeno passo que derm os nesse sentido se desdobrará — como e fútil — caso fosse possível.
um a bola de neve que se desloca, aum entando de volume e de velocidade.
O que há de mais m arcante no program a em pirista de indagação de todas
Tom em os como exem plo o tipo de afirm ativas a respeito das quais as pes­ as fontes — além do seu caráter tedioso — é o m odo como viola o senso com um .
soas razoáveis aceitarão como suficiente a resposta “Li num jo rn a l” . A dm itam os, Com efeito, se temos algum a dúvida sobre determ inada afirm ativa, o procedim ento
por hipótese, a afirm ativa de que “o presidente decidiu regressar à capital alguns norm al consistirá em testá-la, em lugar de indagar pela sua fonte; se encontrarm os
dias antes do previsto” . Vamos supor que alguém duvide dessa notícia, ou por confirm ação independente, poderem os aceitar a afirm ativa sem nos preocuparm os
qualq u er motivo considere necessário investigar sua veracidade. Que poderá fazer? mais com o problem a das fontes envolvidas.
Se tiver um am igo n a Presidência, n ad a mais fácil do que cham á-lo pelo telefone;
se o am igo confirm ar a notícia, n ad a m ais será necessário. N aturalm ente haverá casos em que a situação será diferente. O teste de um a
afirm ativa histórica, por exem plo, nos levará sem pre de volta às fontes — em bora,
Em outras palavras, se isso for possível, o investigador p ro curará exam inar o via de regra, não nos conduza ao relatório de testem unhas diretas.
próprio fa to que f o i afirm ado, em vez de identificar a fonte da notícia. Contudo,
de acordo com a teoria em pirista, a afirm ativa “Li num jo rn a l” é apenas o p ri­ Como é óbvio, nenhum historiador aceitará acriticam ente a evidência
m eiro passo num processo de justificação que nos deverá levar à fonte últim a da in ­ docum ental. H á problem as de genuinidade, de distorção, bem como problem as
form ação. Q ual será, p o rtan to , o próxim o passo? relacionados com a reconstrução de fontes anteriores. H á tam bém , naturalm ente,
problem as como o de saber se o escritor presenciou os acontecim entos que n arra.
Este, contudo, não é um problem a característico do historiador, que poderá
H á pelo menos dois passos. Um deles consistiria na reflexão de que “Li num preocupar-se com a fidedignidade de um relato mas que dificilm ente se preocupará
jo rn a l” é tam bém u m a afirm ativa, o que nos levaria a indagar: “Q ual a fonte do se em saber se o autor de um docum ento testem unhou ou não os acontecim entos ali
conhecim ento de que leu essa inform ação n um jornal, e não a ouviu pelo rádio, tratados — mesmo que adm ita que esses acontecim entos poderiam ser “observa­
por exem plo?” O outro consistiria em ind ag ar quais as fontes da notícia publicada dos” . U m a carta contendo a declaração “O ntem , m udei m inha opinião sobre esse
pelos jornais. A resposta à prim eira p erg u n ta poderia ser “Soube na notícia esta assunto” pode ser um a prova histórica de grande valor, em bora as m udanças de
m an h ã, e n u n ca ouço rádio de m a n h ã ” — o que provocaria m uitas outras p erg u n ­ opinião não sejam eventos observáveis (e mesmo que possamos conjecturar, à luz de
tas, que não exam inarem os aqui. A segunda indagação podería provocar de algum outras provas, que o escritor não está dizendo a verdade).
editor a seguinte explicação: “Soubemos d a notícia, n a redação do jornal, por meio
de um telefonem a recebido d a Presidência” . O ra, p a ra seguir com o m étodo re ­ As testem unhas diretas só são im portantes no trib u n al, onde podem ser
com endado pelos em piristas, deveríamos perguntar: “Quem recebeu esse telefo­ questionadas. Como os advogados sabem m uito bem , as testem unhas erram com
nem a?” Mas, ao receber o relato d a sua observação, teríam os que perguntar-lhe:
“Q ual a fonte do seu conhecim ento de que a inform ação transm itida telefonica­
m ente à redação do jornal foi d ad a de fato por um funcionário da Presidência?” E 6 — Vide meu livro Logic o f Scientific Discovery, último parágrafo da seção 24 e o novo apêndice X,
( 2 ).
assim por dian te.
52 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES
AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA 53

freqüência — um fato que já foi investigado experim entalm ente, com resultados O erro fundam ental da teoria filosófica sobre as fontes últim as do conhe­
m arcantes. As vezes, testem unhas ansiosas por descrever acontecim entos a que as­ cim ento consiste no fato de que ela não distingue com suficiente clareza a origem
sistiram exatam ente como eles ocorreram cometem muitos erros, especialm ente se da validade do conhecim ento. Admitimos que, no caso da historiografia, as duas
esses acontecim entos foram rápidos e excitantes. Se um evento qualquer sugere a l­ questões podem às vezes coincidir. A validade de um a afirm ativa histórica pode ser
gum a interp retação atraen te, ela contribuirá quase sempre para distorcer a lem ­ testável exclusivamente (ou principalm ente) à luz da origem de certas fontes. De
brança do que foi presenciado. m odo geral, porém , as duas questões são diferentes: não testamos a validade de
um a assertiva ou de um a inform ação procurando identificar sua fonte ou sua
origem e sim, de form a m uito mais direta, exam inando criticam ente o que foi afir­
O ponto de vista de H um e sobre o conhecim ento histórico era diverso. No
Treatise (I, III, iv; Selby-Bigge, pág. 83) ele escreve: “... acreditam os que César m ado — o próprio conteúdo da assertiva.
foi assassinado no Senado, nos idos de m arço ... porque este é o testem unho u n â ­
nim e dos historiadores, que concordam com a atribuição dessa oportunidade e Assim, a questão colocada pelo em pirista “Como sabes? Q ual a fonte da tua
local precisos p a ra o acontecim ento. Alguns caracteres e algum as letras são p e r­ afirm ativa?” não é apropriada; ela não está apenas enunciada de m odo inexato ou
cebidos pelos nossos sentidos ou retidos na nossa m em ória; caracteres que lem ­ relaxado, mas é inteiram ente errônea na sua conceituação, solicitando um a respos­
bram os ter sido usados como sinais de determ inadas idéias — idéias que existiam ta autoritária.
ou na m ente dos que presenciaram im ediatam ente aquele acontecim ento e dele as
receberam de form a direta, ou dos que as derivaram do testem unho de outros, e XV
estes de outros a in d a ... até chegarm os aos que presenciaram o evento” . (Vide ta m ­
bém E n q u iry, X; Selby-Bigge, pág. 111). Pode-se dizer que os sistemas epistemológicos tradicionais resultam de res­
postas “sim ” ou “n ã o ” dadas a indagações a respeito das fontes do nosso conheci­
Parece-m e que esse ponto de vista levará ao regresso infinito descrito acim a. m ento. Eles nunca contestam a form ulação dessas perguntas ou disputam sua
O problem a consiste, natu ralm en te, em saber se podemos aceitar o “testem unho legitim idade; as perguntas são consideradas perfeitam ente naturais e ninguém lhes
unânim e dos historiadores” ou se esse testem unho deve ser rejeitado por apoiar-se atribui nada de errado.
em fontes com uns m as espúrias. O apelo aos “caracteres e ... letras percebidos pelos
nossos sentidos ou retido na nossa m em ória” não pode ter im portância p ara este ou O que é m uito interessante, porque essas perguntas têm espírito claram ente
qu alq u er outro problem a relevante da historiografia”. autoritário; são com paráveis à questão tradicional da teoria política “Quem deve
governar?” , que solicita tam bém um a resposta au to ritária — “os m elhores” ,“os
XIV mais sábios” , “o povo” ou “a m aioria” (e sugere, incidentalm ente, algum as a lte r­
nativas bastante tolas, tais como: “Q uais devem ser nossos governantes: os capitalis­
Mas quais são, nesse caso, as fontes do nosso conhecim ento? tas ou os trabalhadores?” ; indagação análoga à seguinte: “Q ual é a fonte últim a do
nosso conhecim ento: o intelecto ou os sentidos?”). Essa questão política está e n u n ­
A resposta, creio, é a seguinte: há muitos tipos de fontes para o nosso co ­ ciada erroneam ente e provoca respostas paradoxais (como procurei m ostrar no cap.
nhecim ento, n en h u m dos quais tem autoridade. 7 de O pen Society). Deve ser substituída por um a p ergunta totalm ente diversa, as­
sim como: “De que m odo podemos organizar nossas instituições políticas de form a
Podemos dizer que um determ inado jornal constitui um a fonte de co nhe­ que os governantes m aus e incom petentes não possam causar m uito dano?” Penso
cim ento — ou a Enciclopédia B ritânica; que certos artigos publicados no “Physical que só alterando a pergunta, deste m odo, podemos ter algum a esperança de chegar
Review ", a respeito de um problem a de física, têm m aior autoridade, e possuem a um a teoria razoável a respeito das instituições políticas.
mais claram ente o característico de fo n te , do que um artigo sobre o mesmo p ro ­
blem a que encontram os num jo rn al ou na Enciclopédia. Mas seria um equívoco A indagação sobre as fontes do nosso conhecim ento pode ser substituída de
dizer que a fonte do artigo do “Physical R eview ” consiste integralm ente (ou mesmo m odo sem elhante. Ela foi sem pre proposta com o espírito de quem pergunta:'
em p arte) de observações. Essa fonte pode ser a descoberta de inconsistência em “Quais são as melhores fontes do nosso conhecim ento — as mais seguras, gue não
outro artigo ou o descobrim ento do fato de que um a hipótese, proposta em outro nos levarão ao erro — às quais nos devemos dirigir, em caso de dúvida, em .última
trab alh o , pôde ser testada de d eterm inada form a. Todas essas descobertas, que instância?” Proponho aceitarm os que essas fontes ideais não existem — da mesma
nad a têm a ver com a observação, constituem “fontes” — no sentido de que todas formo como não existem governantes ideais —, todas as nossas “fontes” podem , em
acrescentam nosso conhecim ento. certas ocasiões, induzir-nos em erro. Proponho-me p o rtan to a substituir a pergunta
a respeito das fontes do nosso conhecim ento por um a o u tra, inteiram ente diversa.
N ão pretendo negar, natu ralm en te, que os experim entos podem acres­ “De que form a podemos esperar a identificação e a elim inação do erro?”
centar o nosso conhecim ento de m odo im portante. Mas eles não representam fontes
últim as: precisam sem pre ser testados; como no caso do exemplo da notícia pu A questão sobre as fontes do nosso conhecim ento, como tantas outras p e r­
blicada pelos jornais, via de regra, não questionam os os testem unhos de um a ex­ guntas de índole au toritária, é genética: quer saber qual é a origem do conhecim en­
periência; contudo, se temos razão de dúvida sobre os resultados proclam ados, to im aginando que o conhecim ento possa ser legitim ado pelo seu pedigree. A idéia
podem os repeti-la, ou pedir a alguém que a repita. subjacente é a da nobreza do conhecim ento “racialm ente p u ro ” , sem m ácula,
54 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA 55

T endo em vista essa afirm ativa corajosa, parece estranho que, na sua fi­
derivado da m ais alta autoridade — se possível do próprio Deus. Tais são as noções losofia da ciência, K ant não tenha adotado a m esm a atitude de racionalism o
metafísicas (m uitas vezes inconscientes) que existem por trás da pergunta. O subs­ crítico, de busca crítica do erro. Tenho a certeza de que o motivo foi sua aceitação
titutivo que proponho — “De que modo podemos esperar a detecção do erro?” — da autoridade da cosmologia de Newton — devido ao êxito quase Incrível com que
deriva do ponto de vista de que não existem fontes de conhecim ento puras e a b ­ ela superou os testes m ais rigorosos. Se esta interpretação está correta, o racionalis­
solutam ente seguras, de que a origem ou a pureza do conhecim ento não deve ser mo crítico (e tam bçm o em pirism o crítico) que preconizo constituirá um simples
confundida com sua validade ou veracidade. E um ponto de vista que rem onta a retoque final na filosofia crítica de Kant — graças a Einstein, que nos m qstrou
Xenófanes: ele sabia que nosso conhecim ento não passa de opinião, conjectura — como a teoria de Newton pode perfeitam ente estar errad a, a despeito do seu g ra n ­
doxa e não epistem e — conform e podemos perceber lendo seus versos (DK. B. 18 e de êxito.
34):
Por isso m inha resposta às perguntas “Como sabes? Qual é a fonte ou a base
“Os deuses não nos revelaram desde o princípio da tua afirm ativa? Que observações te levaram a ela?” seria: “N ão sei; m inha afir­
T odas as coisas; mas, com o tem po, m ativa é simplesm ente um a opinião. Não im porta sua fonte — ou fontes; há
Se buscarm os poderem os aprender, conhecê-las m elhor. m uitas fontes possíveis e posso não ter consciência de um a boa p arte delas; de q u a l­
A verdade certa, contudo, ninguém jam ais a conheceu quer m odo, as origens e os pedigrees têm pouco a ver com a verdade. Mas, se estás
Nem a conhecerá: a dos deuses de fato interessado no problem a que procurei resolver com a afirm ativa que fiz,
O u a de todas as outras coisas. podes ajudar-m e criticando-a com toda a severidade de que fores capaz. Se puderes
Mesmo se por acaso alguém pronunciasse o nom e conceber um teste experim ental p ara refutar o que disse, terei satisfação em te
Da verdade ú ltim a, não poderia reconhecê-la ajudar a refutá-lo, o m elhor que possa” .
Nessa rede tecida com opiniões”.
Estritanqente, essa resposta 8 só será apropriada se a pergunta for dirigida a
C ontudo, a questão tradicional a respeito das fontes autoritárias do co­ um a afirm ativa científica (e não histórica). Se a conjectura for histórica, as fontes
nhecim ento continua a ser repetida — m uitas vezes pelos próprios positivistas e (no sentido de fontes não finais) entrarão, como é n atu ral, na discussão crítica
outros filósofos que pensam revoltar-se contra a autoridade. sobre a validade. C ontudo, fundam entalm ente m inha resposta seria a m esm a, con­
form e vimos.
Creio que a resposta ap ropriada à questão alternativa que propus seria:
“Podemos ter a esperança de detectar e elim inar o erro criticando as teorias e XVI
opiniões alheias e — se treinarm os p ara isso — as nossas próprias”. (Este últim o
ponto é sem dúvida altam ente desejável, mas desnecessário: se não puderm os Creio ter chegado o m om ento de form ular os resultados epistemológicos des­
criticar nossas próprias teorias e opiniões, haverá quem o faça por nós). Essa res­ ta discussão. Vou fazê-lo sob a form a de dez teses:
posta sintetiza a visão do que sugiro cham arm os de “racionalism o crítico”: um p o n ­
to de vista, um a atitu d e e um a tradição que devemos aos gregós. É m uito diferente 1. Não há “fontes últim as” do conhecim ento. T oda fonte, todas as sugestões
do “racionalism o” e do “intelectualism o” > da escola de Descartes e tam bém m uito são bem -vindas; e todas as fontes e sugestões estão abertas ao exam e crítico. Exceto
diferente da epistem ologia de K ant. C ontudo, é um a posição que, no cam po da no cam po da história, exam inam os ordinariam ente os próprios fatos em vez de
ética e do conhecim ento m oral, foi ab ordada por K ant com o seu princípio da exam inar as fontes da nossa inform ação.
autonom ia. Este principio expressa a percepção do filósofo de que não devemos
aceitar o com ando de um a autoridade — por mais sublim e que seja — como basef 2. A verdadeira questão epistemológica não tem a ver com fontes: p erg u n ­
da ética. Sem pre que defrontam os um com ando dado por um a autoridade devemos tamos se a afirm ativa feita é verdadeira — isto é, se concorda com os fatos. (A obra
julgar, criticam ente, se obedecê-lo será um ato m oral ou im oral. A autoridade de Alfred Tarski dem onstra que podemos operar com a idéia da verdade objetiva,
poderá ter o poder de obrigar-nos a obedecer-lhe; porém , como temos a capaci­ no sentido da correspondência com os fatos, sem nos envolvermos com antinom ias).
dade de escolher, a responsabilidade últim a pela ação nos pertence. O bedecer ou É o que tentam os descobrir, na m edida em que isso é possível, exam inando ou tes­
não u m a ordem é um a decisão crítica que tom am os — como tam bém o é a subm is­ tando a própria afirm ativa — diretam ente ou pelo exam e ou teste das suas con-
são a qualq u er autoridade. seqüências.
K ant transportou essa idéia, com ousadia, para o terreno da religião:
3. Com respeito a esse exam e, todos os tipos de argum entos podem ser
“... qualq u er que seja a form a com que a divindade se revele a nós, ain d a ... que se
relevantes. Um procedim ento típico consiste em exam inar se nossas teorias são
apresente em pessoa, somos nós m esm os... que precisamos ju lg ar se nos é lícito ou
não aceitá-la com o Deus e ad o rá-la” .7*

8 — Esta resposta e quase todo o conteúdo da presente seção XV foram retirados, com pequenas al­
7 — Immanuel Kant, A Religião Dentro dos Limites da Razão Pura, 2.a edição inglesa, 1794, 4.° cap., terações, de um trabalho que publiquei pela primeira vez no The Indian Journal o f Philosophy, 1, n.°
parte II, § 1, primeira nota. Esta passagem é reproduzida de forma mais completa no cap. 7 do presente 1, 1959.
livro.
56 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES
AS ORIGENS DO CONHECIMENTO E DA IGNORÂNCIA 57

coerentes com as observações que fazemos. Mas podemos exam inar tam bém , por m etria, tem um lado im portante e outro sem im portância. O lado esquerdo, que
exem plo, se nossas fontes históricas têm consistência m útua ou interna. contém palavras e significados, não é im portante; o lado direito, sim, pois contém
teorias e problem as relacionados com sua veracidade. As palavras só têm utilidade
4. Do ponto de vista da q uantidade e da qualidade, sem dúvida algum a a como instrum entos para a form ulação de teorias; os problem as verbais devem ser
fonte mais im portante do nosso conhecim ento — além do conhecim ento inato — é evitados a todo custo.
a tradição. A m aior p arte do que sabemos aprendem os pelo exemplo, por ouvir
contar, lendo livros, aprendendo a criticar, a receber e aceitar a crítica, a respeitar 10. T oda solução d ad a a um problem a levanta novos problem as; principal -
a verdade. m ente quando o problem a original é profundo e a solução apresentada é corajosa.

5. O fato de que a mais im portante fonte do nosso conhecim ento é a tr a ­ Q uanto mais aprendem os sobre o m undo, quanto mais profundo nosso
dição condena o antitradicionalism o por fútil. Mas isso não nós deve levar a um a conhecim ento, mais específico, consciente e articulado será nosso conhecim ento do
atitude tradicionalista: todo o conhecim ento tradicional (e tam bém o conhecim en­ que ignoram os — o conhecim ento da nossa ignorância. Essa, de fato, é a principal
to inato) está aberto ao exam e crítico; se necessário, poderá ser abandonado. C on­ fonte da nossa ignorância: o fato de que nosso conhecim ento só pode ser finito, mas
tudo, sem a tradição o conhecim ento seria impossível. nossa ignorância deve necessariam ente ser infinita.

6. O conhecim ento não parte do nada — de um a tabula rasa — como ta m ­ Podemos ver um relance da vastidão do que ignoram os ao contem plar os
bém não nasce da observação; seu progresso consiste, fundam entalm ente, na céus: em bora a simples dim ensão do universo não constitua a causa mais séria da
m odificação do conhecim ento precedente. Em bora algumas vezes possamos p ro ­ nossa ignorância sobre ele, é um a dessas causas. Em Foundations o f M athem atics
gredir graças a um a observação casual (em arqueologia, por exemplo), a signifi­ (pág. 291), num a passagem encantadora, F.P. Ramsey escreveu: “Divirjo de alguns
cação das descobertas que fazemos depende em geral do seu poder de m odificar as amigos que atribuem grande im portância ao tam anho físico (do universo). Não me
teorias precedentes. sinto absolutam ente hum ilde diante da vastidão do espaço. As estrelas podem ser
grandes, mas não pensam nem am am — qualidades que me im pressionam bem
7. As epistemologias otimistas e pessimistas estão igualm ente equivocadas. mais do que o tam anho. N ão acho vantajoso pesar quase cento e vinte quilos” . Sus­
A analogia pessimista da caverna, de Platão, é verdadeira: não a estória otim ista peito que os amigos de Ramsey concordariam com ele sobre a insignificância do
da anamnesis (em bora devamos adm itir que todos os homens, como os outros simples tam anho físico; mas im agino tam bém que se sentiam hum ildes diante da
anim ais e até mesmo as plantas, possuem conhecim ento inato). Mas, em bora o vastidão do espaço porque viam nela um símbolo da sua ignorância.
m undo das aparências seja de fato um m undo de sombras projetadas nas paredes
da caverna onde vivemos, todos procuram os constantem ente alcançar a realidade;
e em bora ela esteja profundam ente oculta, como disse Dem ócrito, podemos ex­ Acredito que valeria a pena ten tar aprender algo sobre o m undo, mesmo
plorar a p rofundidade. Não há um critério da verdade à nossa disposição (o que que, ao fazê-lo, descobríssemos apenas que não sabemos m uita coisa. Esse estado de
pode conduzir ao pessimismo), mas temos acesso a critérios que, se tivermos sorte, ignorância conhecida poderia ajudar-nos, em m uitas das nossas dificuldades. Vale
poderão levar-nos a reconhecer o erro e a falsidade. A clareza e a distinção não a pena lem brar que, em bora haja um a vasta diferença entre nós no que respeita
constituem critérios da verdade, mas a obscuridade e a confusão podem indicar o aos fragm entos que conhecemos, somos todos iguais no infinito da nossa ig n o rân ­
erro. Da m esm a form a, a coerência, não pode por si mesm a estabelecer a vW lade, cia.
mas a incoerência e a inconsistência revelam a falsidade. Q uando reconhecemos
nossos erros, eles próprios nos dão um aviso cpie pode ajudar-nos a encontrar um a XVII
via de escape da obscuridade da caverna.
H á um a últim a questão que desejo levantar.
8. Nem a observação nem a razão são autoridades. A intuição intelectual e
a im aginação são m uito im portantes, mas não oferecem segurança: podem in ­ Se procurarm os bem , encontrarem os m uitas vezes um a idéia verdadeira,
dicar-nos coisas com m uita clareza mas podem tam bém induzir-nos em erro. São que merece ser conservada, num a teoria filosófica que precisamos rejeitar porque é
indispensáveis como as fontes principais das nossas teorias; mas a m aioria dessas falsa. Será que encontrarem os algum a idéia assim em um a das teorias sobre as fo n ­
teorias são falsas, de q ualquer form a. A função mais im portante da observação e tes últim as do nosso conhecim ento?
do raciocínio (e mesmo da intuição e da im aginação) é ajudar-nos no exam e crítico
dessas conjecturas ousadas com as quais podemos explorar o desconhecido. 9 Creio que sim; e sugiro irmos buscá-la nas duas idéias principais subjacentes
à doutrina de que a fonte de todo o nosso conhecim ento é sobrenatural. N a m inha
9. E m bora a clareza seja valiosa por si m esm a, o mesmo não acontece com opinião, a prim eira dessas idéias é falsa, mas a segunda é verdadeira.
a exatidão ou a precisão: não tem sentido procurarm os um nível de precisão m aior
do que o problem a que enfrentam os está a exigir. A precisão da linguagem é um A prim eira idéia, falsa, a de que precisamos justificar nosso conhecim ento,
fantasm a; os problem as relativos ao significado e à definição das palavras na ver­ ou nossas teorias, por iqeio de razões positivas — isto é, capazes de dem onstrá-las,
dade não têm im portância. Por isso nosso quadro de idéias, a despeito da sua si- ou pelo menos de m ostrar que são altam ente prováveis; de qualquer form a, por
58 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES

razões m elhores do que a de que resistiram à crítica. Esta idéia im plica, penso, que
precisamos apelar p ara um a fonte últim a ou au to ritária de conhecim ento ver­
dadeiro; o que deixa em aberto ainda a natureza dessa autoridade — que pode ser
h u m an a (como a observação ou a razão) ou sobre-hum ana (e p o rtan to sobrena­
tural).

A segunda idéia, cuja im portância vital foi acentuada por Russell, é a de


que nenhum a autoridade hum an a pode estabelecer a verdade por decreto; d e ­
vemos, p o rtan to , sujeitar-nos à verdade, que está acima da autoridade hum ana.

T om adas em conjunto, essas duas idéias levam quase que im ediatam ente à
conclusão de que as fontes das quais deriva nosso conhecim ento precisam ser sobre­
hum anas — um a conclusão que tende a encorajar a assunção da verdade pelo
hom em e o uso da força contra os que se recusam a adm iti-la.

Alguns que rejeitam (como é justo) essa conclusão não rejeitam tam bém , in ­
felizm ente, a prim eira idéia — a crença na existência de fontes últim as do co­
nhecim ento. Em vez disso, rejeitam a segunda idéia — a tese de que a verdade está
colocada acim a da autoridade hu m an a. Dessa form a, põem em perigo a idéia da
objetividade do conhecim ento e dos padrões com uns de crítica ou de racionalidade.

Penso que o que devemos fazer é ab an donar a idéia das fontes últim as do
conhecim ento, adm itindo que todo conhecim ento é hum ano — que se mescla com
nossos erros, preconceitos, sonhos e esperanças; o que podemos fazer é buscar a Conjecturas
verdade, mesmo que ela esteja fora do nosso alcance. Podemos adm itir que nossa
busca é m uitas vezes inspirada, mas precisamos ficar em g u arda contra a crença
(por mais p rofunda que seja) de que nossa inspiração tem algum a autoridade —
divina ou não. Se adm itirm os que em toda a província do conhecim ento não há
qualquer au toridade que possa escapar à critica, por mais que tenham os penetrado
no reino do desconhecido, poderem os reter sem perigo a idéia de que a verdade es­
tá situada além da autoridade h u m ana. E devemos retê-la, porque sem essa idéia
não pode haver padrões objetivos de investigação, crítica das nossas conjecturas,
busca do desconhecido ou procura do conhecim ento.
“Não poderia haver m elhor destino p ara qualquer ... teoria do que o de in ­
dicar o cam inho para um a teoria mais abrangente na qual ela continue a viver,
como um caso lim ite.”

A lbert Einstein
1. Ciência: Conjecturas e Refutações*

“O Senhor T u rn b u ll tinha previsto conseqüências nefastas, ... e agora fazia


tudo o que podia efetivar suas próprias profecias.”
A n th o n y Trollope

Q uando recebi a lista dos participantes deste curso, e percebi que tinha sido
convidado a m e dirigir a colegas filósofos, im aginei, depois de algum as hesitações e
consultas, que os senhores prefeririam que falasse sobre os problem as que mais me
interessam e os desenvolvimentos com os quais estou m ais fam iliarizado. Decidi,
portanto, fazer algo que jam ais havia feito antes: um relato do m eu trabalho no
cam po da filosofia da ciência desde o outono de 1919, quando comecei a lu tar com
o seguinte problem a: “Quando pode um a teoria ser classificada com o científicaV \
ou “Existe u m critério para classificar um a teoria como científica?”

N aquela época, não estava preocupado com as questões “Q uando é ver­


dadeira um a teoria?” ou “Q uando é aceitável um a teoria?” Meu problem a era
outro. Desejava traçar um a distinção entre a ciência e a pseudo ciência, pois sabia
m uito bem que a ciência freqüentem ente comete erros, ao passo que a pseudociên-
cia pode encontrar acidentalm ente a verdade.

Conhecia, evidentem ente, a resposta mais com um dad a ao problem a: a


ciência se distingue da pseudociência — ou “m etafísica” — pelo uso do m étodo e m ­
pírico, essencialmente indutivo, que decorre da observação ou da experim entação.
Mas essa resposta não me satisfazia. Pelo contrário, form ulei m uitas vezes m eu
prpblem a como a procura de um a distinção entre o m étodo genuinam ente em ­
pírico e o não em pírico ou mesmo pseudo-em pírico — isto é, o m étodo que, em ­
bora se utilize da observação e da experim entação, não atinge padrão científico.
Um exemplo deste m étodo seria a astrologia, que tem um grande acervo de evidên­
cia em pírica baseada na observação: horóscopos e biografias.

* Conferência feita erti Peterhouse, Cambridge, no verão de 1953, como parte de curso sobre a evolução
e as tendências da filosofia inglesa contemporânea, organizado pelo British Council; publicado original­
mente sob o título “Philosophy o f Science: a Personal Report”, in ‘British Philosophy in Mid-Century
edit. C. A. Mace, 1957.
64 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 65

conflito com seus interesses de classe ou por causa de repressões ainda não an a li­
Mas, como não foi o exemplo citado que me levou ao m eu problem a, creio sadas, que precisavam urgentem ente de tratam ento.
que seria oportuno descrever brevem ente o clim a em que ele surgiu e os exemplos
que o estim ularam . Após o colapso do Im pério A ustríaco, a Á ustria havia passado O mais característico da situação parecia ser o fluxo incessante de confir­
por um a revolução: a atm osfera estava carregada de slogans e idéias revolu­ mações, de observações que «verificavam» as teorias em questão, ponto que era e n ­
cionárias; circulavam teorias novas e freqüentem ente extravagantes D entre as que fatizado constantem ente: um m arxista não abria um jornal sem encontrar em cada
me interessavam , a teoria da relatividade de Einstein era sem dúvida a mais im p o r­ página evidência a confirm ar sua interpretação da história. Essa evidência era
tante; outras três eram a teoria da história de M arx, a psicanálise de Freud e a detectada não só nas notícias, mas tam bém na form a como eram apresentadas pelo
«psicologia individual» de Alfred Adler. jornal — que revelava seu preconceito de classe — e sobretudo, é claro, naquilo
que o jornal não m encionava. Os analistas freudianos afirm avam que suas teorias
Popularm ente, falavam-se m uitas coisas absurdas sobre essas teorias, so­ eram constantem ente verificadas por “observações clínicas” . Q uanto a Adler, fiquei
bretudo a da relatividade (como acontece ainda hoje), mas tive sorte com as pessoas m uito im pressionado por um a experiência pessoal. C erta vez, em 1919, informei-o
que me introduziram a elas. Todos nós — o pequeno grupo de estudantes ao qual de um caso que não me parecia ser particularm ente adleriano, mas que ele não
pertencia — vibram os ao tom ar conhecim ento dos resultados da observação de um teve qualquer dificuldade em analisar nos termos da sua teoria do sentim ento de
eclipse em preendida por Eddington, em 1919, a prim eira confirm ação im portante inferioridade, em bora nem mesmo tivesse visto a criança em questão. Ligeiram ente
da teoria da gravitação de Einstein. Foi um a experiência m uito im portante para chocado, perguntei como podia ter tan ta certeza. “Porque já tive mil experiências
nós, com influência d u rad o u ra sobre o m eu desenvolvimento intelectual. desse tip o ” — respondeu; ao que não pude deixar de retrucar: “Com este novo
caso, o núm ero passará então a mil e u m ...”
N aquela época, as três outras teorias que mencionei eram tam bém a m ­
plam ente discutidas no meio estudantil. Eu mesmo tive um contato pessoal com Al­ O que queria dizer era que suas observações anteriores podiam não m erecer
fred Adler e cheguei a cooperar com ele em seu trabalho social entre as crianças e m uito mais certeza do que a últim a; que cada observação havia sido exam inada à
luz da «experiência anterior», somando-se ao mesmo tem po às outras como confir­
os jovens dos bairros proletários de V iena, onde havia estabelecido clínicas de
orientação social. m ação adicional. Mas, perguntei a m im mesmo, que é que confirm ava cada nova
observação? Simplesmente o fato de que cada caso podia ser exam inado à luz da
teoria. Refleti, contudo, que isso significava m uito pouco, pois todo e qualquer
D urante o verão de 1919, comecei a me sentir cada vez mais insatisfeito com
caso concebível pode ser exam inado à luz da teoria de Freud e de Adler. Posso ilus­
essas três teorias — a teoria m arxista da história, a psicanálise e a psicologia in ­
trar esse ponto com dois exemplos m uito diferentes de com portam ento hum ano: o
dividual; passei a ter dúvidas sobre seu status científico. Meu problem a assumiu,
do hom em que joga um a criança na água com a intenção de afogá-la e o de quem
prim eiram ente, um a form a simples: “O que estará errado com o m arxism o, a
sacrifica sua vida na tentativa de salvar a criança. Ambos os casos pord èm ser ex­
psicanálise e a psicologia individual? Por que serão tão diferentes da teoria de New­
plicados com igual facilidade, tanto em termos freudianos como adlerianos. Segun­
ton e especialm ente da teoria da relatividade?”
do Freud, o prim eiro hom em sofria de repressão (digamos, algum com ponente do
seu complexo de Édipo) enquanto o segundo alcançara a sublim ação. Segundo
P ara to rn ar claro esse contraste, devo explicar que, naquela época, poucos Adler, o prim eiro sofria de sentim ento de inferioridade (gerando, provavelm ente, a
afirm ariam acred itar na verdade contida na teoria da gravitação de Einstein. O necessidade de provar a si mesmo ser capaz de com eter um crime), e o mesmo
que m e incom odava, po rtan to , não era o fato de duvidar da veracidade daquelas havia acontecido com o segundo (cuja necessidade era provar a si mesmo ser capaz
três teorias; tam bém não era o fato de que considerava a física m atem ática mais de salvar a criança). Não conseguia im aginar qualquer tipo de com portam ento
exata do que as teorias de natureza psicológica ou sociológica. O que me p reo ­ hum ano que am bas as teorias fossem incapazes de explicar. Era precisam ente esse
cupava, p o rtan to , não era, pelo menos naquele estágio, o problem a da veracidade, fato — elas sempre serviam e eram sempre confirm adas — que constituía o mais
da exatidão ou da m ensurabilidade. Sentia que as três teorias, em bora se apresen­ forte argum ento em seu favor. Comecei a perceber aos poucos que essa força
tassem como ram os da ciência, tinham de fato mais em com um com os mitos p rim i­ aparente era, na verdade, um a fraqueza. Com a teoria de Einstein, a situação era
tivos do que com a p rópria ciência, que se aproxim avam mais da astrologia do que extraordinariam ente diferente. Tom em os um exemplo típico — a predição de
da astronom ia. Einstein, confirm ada havia pouco por Eddington. A teoria gravitacional de Eins­
tein havia levado à conclusão de que a luz devia ser atraíd a pelos corpos pesados
Percebi que m eus amigos adm iradores de M arx, Freud e Adler im pres­ (como o Sol), exatam ente como ocorria com os corpos m ateriais. Calculou-se p o r­
sionavam-se com um a série de pontos comuns às três teorias, e sobretudo com sua tanto que a luz proveniente de um a estrela distante, cuja posição aparente estivesse
aparente capacidade de explicação. Essas teorias pareciam poder explicar p ra ti­ próxim a ao Sol, alcançaria a T erra de um a direção tal que a estrela pareceria estar
cam ente tudo em seus respectivos cam pos. O estudo de qualquer um a delas p a ­ ligeiram ente deslocada p ara longe do Sol. Em outras palavras, as estrelas próximas
recia ter o efeito de um a conversão ou revelação intelectual, abrindo os olhos para ao Sol pareceriam ter-se afastado um pouco dele e entre si. Isso não pode ser n o r­
um a nova verdade, escondida dos ainda não iniciados. Uma vez abertos os olhos, m alm ente observado, pois as estrelas se tornam invisíveis d u ran te o dia, ofuscadas
podia-se ver exemplos confirm adores em toda p arte: o m undo estava repleto de pelo brilho irresistível do Sol; d u ran te um eclipse, porém , é possível fotografá-las.
verificações da teoria. Q ualquer coisa que acontecesse vinha confirm ar isso. A ver­ Se a mesm a constelação é fotografada du ran te um eclipse, de dia e à noite, pode-se
dade contida nessas teorias, portanto, parecia evidente; os descrentes eram n iti­ m edir as distâncias em am bas as fotografias e verificar o efeito previsto.
dam ente aqueles que não queriam vê-la: recusavam-se a isso p ara não en trar em
66 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES
CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 67

O mais im pressionante neste caso é o risco envolvido num a predição desse II


tipo. Se a observação m ostrar que o efeito previsto definitivam ente não ocorreu, a
teoria é sim plesm ente refutada: ela é incom patível com certos resultados passíveis Posso exem plificar o que acabo de afirm ar com a ajuda das diversas teorias
da observação; de fato, resultados que todos esperariam antes de E in stein .1 Essa já m encionadas. A teoria da gravitação de Einstein satisfazia nitidam ente o critério
situação é bastante diferente da que descrevi anteriorm ente, pois tornou-se evidente da “refu tabilidade” . Mesmo se, naquela época, nossos instrum entos não nos p e r­
que as teorias em questão eram compatíveis com o com portam ento hum ano ex­ m itiam ter plena certeza dos resultados dos testes, existia claram ente a possibili­
trem am ente divergente, de m odo que era praticam ente impossível descrever um
dade de refutar a teoria.
tipo de com portam ento que não servisse p ara verificá-las.
A astrologia não passou no teste. Os astrólogos estavam m uito im pres­
D urante o inverno de 1919-1920, essas considerações me levaram a co n ­ sionados e iludidos com aquilo que acreditavam ser evidência confirm adora — ta n ­
clusões que posso agora reform ular da seguinte m a n e ira . to assim que pouco se preocupavam com qualquer evidência desfavorável. Além
disso, tornando suas profecias e interpretações suficientem ente vagas, eram capazes
(1) É fácil obter confirm ações ou verificações para quase toda teoria — des­ de explicar qualquer coisa que possivelmente refutasse sua teoria se ela e as p ro ­
de que as procurem os. fecias fossem mais precisas. Para escapar à falsificação, destruíram a “testabili-
d ad e” de sua teoria. É um truque típico do adivinhador fazer predições tão vagas
(2) As confirm ações só devem ser consideradas se resultarem de predições que dificilm ente falham : elas se tornam irrefutáveis.
arriscadas; isto é, se, não esclarecidos pela teoria em questão, esperarm os um acon­
tecim ento incom patível com a teoria e que a teria refutado. Apesar dos esforços sérios de alguns de seus fundadores e seguidores, a teoria
m arxista da história tem ultim am ente adotado essa m esm a prática dos adivi­
(3) T o d a teoria científica “b o a ” é u m a proibição: ela proíbe certas coisas de nhadores. Em algum as de suas form ulações anteriores (como, por exemplo, na
acontecer. Q uanto m ais um a teoria proíbe, m elhor ela é. análise de M arx sobre o caráter da “revolução social vin d o u ra”), as predições eram
“testáveis” e foram refu tad as.23Mas em vez de aceitar as refutações, os seguidores de
(4) A teoria que não for refutada por qualquer acontecim ento concebível M arx reinterpretaram a teoria e a evidência p ara fazê-las concordar entre si. Sal­
não é científica. A irrefutabilidade não é um a virtude, como freqüentem ente se varam assim a teoria da refutação, mas ao preço de ad o tar um artifício que a to r­
pensa, mas um vício. nou de todo irrefutável. Provocaram , assim, um a “distorção convencionalista” des­
truindo-lhe as anunciadas pretensões a um padrão científico.
(5) T odo teste genuíno de um a teoria é um a tentativa de refutá-la. A pos­
sibilidade de testar u m a teoria im plica igual possibilidade de dem onstrar que é fa l­ As duas teorias psicanalíticas pertencem a o u tra categoria, por serem sim ­
sa. H á, porém , diferentes graus na capacidade de se testar um a teoria: algumas são plesm ente não /'testáveis,<’ e irrefutáveis. N ão se podia conceber um tipo de com por­
m ais “testáveis” , m ais expostas à refutação do que outras; correm , por assim dizer, tam ento hum ano capaz de contradizê-las. Isso não significa que Freud e Adler es­
m aiores riscos.
tivessem de todo errados. Pessoalmente, não duvido da im portância de m uito do
que afirm am e acredito que algum dia essas afirmações terão um papel im portante
(6) A evidência confirm adora não deve ser considerada se não resultar de num a ciência psicológica “testável” . C ontudo, as “observações clínicas” , da mesma
um teste genuíno da teoria; o teste pode-se apresentar como um a tentativa séria m aneira que as confirmações diárias encontradas pelos astrólogos, não podem mais
porém m alograda de refu tar a teoria. (Refiro-me a casos como o da “evidência ser consideradas confirmações da teoria, como acreditam ingenuam ente os analis­
corroborativa”). tas. 3 Q uanto à epopéia freudiana do Ego, Superego e Id, não se pode reivindicar
para ela um padrão científico mais rigoroso do que o das estórias de Hom ero sobre
(7) Algum as teorias genuinam ente “testáveis”, quando se revelam falsas, o O lim po. Essas teorias descrevem fatos, m as à m aneira de mitos: sugerem fatos
continuam a ser sustentadas por adm iradores, que introduzem , por exemplo, al- psicológicos interessantes, mas não de m aneira “testável” .
gum $ suposição auxiliar ad hoc, ou rein terp retam a teoria ad hoc de tal m aneira
que ela escapa à refutação. T a l procedim ento é sempre possível, mas salva a teoria
da refutação apenas ao preço de destruir (ou pelo menos aviltar) seu p adrão cien­
tífico. (Mais tard e passei a descrever essa operação de salvam ento como um a “dis­ 2 — Vide, por exemplo, meu livro Open Society and Its Enemies, cap. 15, seção iii, e as notas 13 e 14.
torção convencionalista ' oxi um “estratagema convencionalista. ”) 3 — As “observações clínicas”, como qualquer tipo de observação, são interpretações empreendidas à
luz das teorias {v\áe, a seguir, as seções ive seguintes); por esta razão, podem parecer sustentar as teorias
Pode-se dizer, resum idam ente, que o critério que define o status científico à luz das quais foram interpretadas. Mas o verdadeiro apoio a uma teoria só pode ser obtido através de
de um a teoria é sua capacidade de ser refutada ou testada. observações empreendidas como testes (“tentativas de ref&táção’7> para os quais os critérios de refutação
devem ser estabelecidos anteriormente: deve-se definir que situações observáveis refutariam a teoria se
fossem realrrTÇbte observadas. Mas, que resultados clínicos poderiam refutar satisfatoriamente não só um
diagnóstico analítico em particular mas a própria psicanálise? Os analistas têm discutido critérios e con­
cordado com eles? Não existirá, ao contrário, toda uma série de conceitos analíticos como, por exemplo,
1 — Há aqui uma ligeira simplificação, pois cerca de metade do efeito Einstein pode ser deduzido a o conceito de “ambivalência” (não estou sugerindo que esse conceito não exista) que tomariam difícil, se
partir da teoria clássica, desde que se assuma uma teoria balística da luz. não impossível, chegar a um acordo sobre tais critérios? Além disso, que progresso tem sido
68 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 69

III
Ao mesmo tem po, percebi que alguns desses mitos podem desenvolver-se e
tornar-se “testáveis” . C om preendi que, historicam ente, todas — ou quase todas — Hoje sei, é claro, que esse critério de demarcação — ó critério de “testa-
as teorias científicas se originaram em mitos; que um m ito pode conter im portantes bilidade” ou “refu tabilidade” — está longe de ser óbvio; ainda hoje seu significado
antecipações de teorias científicas. Como exemplos, citaria a teoria da evolução por é raram ente com preendido. N aquela época, em 1920, ele me pareceu quase trivial,
erros e acertos, de Empédocles, e o m ito de Parm ênides sobre o universo im utável,
em bora resolvesse um problem a intelectual que m e havia preocupado p ro fu n d a-
onde n a d a jam ais acontece. Se adicionarm os m ais um a dim ensão ao universo vi­
m ente, e tivesse conseqüências práticas óbvias (políticas, por exem plo). Mas não
sualizado por Parm ênides, teremos o universo de Einstein (no qual, tam bém , nada
havia percebido ainda todas as suas implicações ou sua im portância filosófica.
jam ais acontece, pois, em term os de q u atro dimensões, tudo está determ inado e
Q uando o expliquei a um colega, estudante do D epartam ento de M atem ática (hoje
estabelecido desde o início). Acreditava, portanto, que, se um a teoria passa a ser
um conhecido m atem ático na Inglaterra), ele sugeriu que o publicasse. Isso me
considerada não científica, ou «metafísica», nem por isso será definida como «ab­
pareceu absurdo, pois estava convencido de que o problem a, tendo em vista a sua
surda» ou “sem sentido”. 4 Mas não se poderá afirm ar que esteja sustentada por
im portância para m im , já havia decerto preocupado numerosos cientistas e filó­
evidência em pírica (na acepção científica), em bora possa facilm ente ser um “resul­
sofos, que certam ente já teriam chegado à m inha solução, um tanto óbvia. O
tado d a observação” em sentido lato. trabalho de W ittgenstein e o m odo como foi recebido m ostraram que não era bem
assim; por isso publiquei .minhas idéias treze anos depois, sob a form a de um a
(Havia um grande núm ero de outras teorias com este mesmo caráter pré ou crítica ao critério de significação de W ittgenstein.
pseudocientífico, algum as das quais, infelizmente, tão influentes quanto a teoria
m arxista d a história. Pode-se citar, como exem plo, a interpretação racista da his­
tória — o u tra daquelas impressionantes teorias que tudo explicam , e que atuam W ittgenstein, como todos sabem , procurou dem onstrar, em seu Tractatus
como revelações sobre as m entes fracas.) (vide, po r exem plo, as proposições 6.53; 6.54 e 5), que as proposições filosóficas ou
metafísicas, como são cham adas, são na verdade falsas proposições, ou pseudo-
Assim, o problem a que eu procurava resolver propondo um critério de proposições, sem sentido ou significado. T oda proposição genuína (ou significativa)
«refutabilidade» não se relacionava com o sentido ou significado, a veracidade ou a deve ser função da verdade de proposição elem entar ou “atom ística” , que descreva
aceitabilidade. T ratava-se de traçar um a linha (da m elhor m aneira possível) entre “fatos atôm icos”, isto é, fatos que em princípio podem ser verificados pela obser­
as afirm ações, ou sistemas de afirm ações, das ciências em píricas e todas as outras vação. Em outras palavras, as proposições significativas são totalm ente redutíveis a
afirm ações, de caráter religioso, metafísico ou simplesmente pseudocientífico. Anos proposições elem entares ou atom ísticas, afirm ações simples descrevendo qm pos­
mais tard e, possivelmente em 1928 ou 1929, cham ei este m eu prim eiro problem a sível estado de coisas que podem em princípio ser estabelecidas ou rejeitadas
de “problem a da d e m a r c a ç ã o O critério da “refu tab ilid ad e” é a solução p a ra o pela observação. Se cham arm os um a afirm ação de “afirm ativa resultante da obser­
problem a da dem arcação, pois afirm a que, p ara serem classificadas como cien­ vação” , ou porque im plica de fato um a observação ou porque m enciona algo que
tíficas, as assertivas ou sistemas de assertivas devem ser capazes de en trar em con­ pode ser observado, teremos de dizer (de acordo com o Tractatus, 5 e 4.52), que
flito com observações possíveis ou concebíveis. toda proposição genuína deve ser um a função da verdade de afirm ativa resultante
da observação, e dela dedutível. Q ualquer outra proposição aparente será um a
pseudoproposição sem significado; não passará de um conjunto de palavras desar­
feito na tentativa de avaliar até que ponto as expectativas e teorias (conscientes ou inconscientes) aceitas ticuladas, sem sentido algum .
pelo analista podem influenciar as “respostas clinicas” do paciente? (Sem mencionar as tentativas cons­
cientes de influenciar o paciente, propondo interpretações, etc.). Anos atrás, criei a expressão “efeito de
Édipo” para denominar a influência exercida por uma teoria, expectativa ou predição sobre o acon­ Essa idéia foi utilizada por W ittgenstein p ara um a caracterização da ciência
tecimento previsto ou descrito: vale lembrar que a seqüência de acontecimentos casuais que levaram ao em oposição à filosofia. Podemos 1er (por exem plo, em 4.11, onde a ciência natural
parricídio de Édipo começou com a predição desse evento por um oráculo. Esse é um tema caracterís­ assume um a posição oposta à filosofia): “A totalidade das proposições verdadeiras
tico, que se repete com freqüência em mitos desse tipo, mas que, talvez não por acidente, não tem corresponde a toda a ciência n atu ral (ou a todas as ciências natu rais)” . Isso sig­
atraído o interesse dos analistas. (O problema dos sonhos confirmadores sugeridos pelo analista é dis­
cutido por Freud, por exemplo, em Gesammelte Schriften, III, 1925, onde o autor afirma, na página nifica que as proposições pertencentes ao cam po da ciência são dedutívek das afir­
314: “Do ponto de vista da teoria analítica, nenhuma objeção pode ser feita à afirmativa de que a mações verdadeiras derivadas da observação, e podem ser verificadas por elas. Se
maioria dos sonhos usados durante uma análise... devem sua origem à sugestão (do analista)”. Freud pudéssemos conhecer todas as afirm ações verdadeiras derivadas da observação,
afirma ainda, surpreendentemente, que “não há nada neste fato que possa prejudicar a confiabilidade saberíamos tudo o que pode ser afirm ado pela ciência n atu ral.
dos resultados obtidos”.

4 — 0 caso da astrologia, uma típica pseudociência dos nossos dias, pode ilustrar esse ponto. Os aris- Isso nos leva a um critério de dem arcação grosseiro, p ara a verificação de
totélicos e outros racionalistas, até a época de Newton, a criticavam por um motivo errado — a asser­
teorias. P ara torná-lo um pouco menos grosseiro, podem os acrescê-lo da seguinte
ção, hoje aceita, de que os planetas influenciam os acontecimentos terrestres (“sublunares”). De fato, a
teoria da gravitação de Newton, e especialmente a teoria lunar das marés, são, historicamente, deri­ afirm ação: “As asserções que podem recair no cam po da ciência são aquelas ve­
vações do conhecimento astrológico. Newton, ao que parece, relutava em aceitar uma teoria da mesma rificáveis por afirm ações derivadas da observação; elas coincidem , ainda, com a
família da que afirmava, por exemplo, que as epidemias de gripe eram causadas por uma “influência” categoria que com preende todas as assertivas genuínas ou significativas” . Segundo
astral. Galileu, por sua vez, chegou a rejeitar a teoria lunar das marés, sem dúvida pela mesma razão. esta visão, p o rtanto, há um a coincidência da verificabilidade, do significado e do
Além disso, o receio que tinha de Kepler pode ser facilmente explicado pelo seu receio em relação à as­ caráter científico.
trologia.
70 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 71

M inhas críticas a respeito da verificação tiveram , contudo, algum resultado:


Pessoalm ente, n unca me interessei pelo problem a do significado: ele sempre levaram rapidam ente os filósofos verificacionistas do sentido e do sem-sentido à
me pareceu um problem a apenas verbal, um típico pseudoproblem a. Estava só in ­ mais com pleta confusão. O riginalm ente, a proposta que considerava a verifica­
teressado no problem a de dem arcação, ou seja, na procura de um critério para bilidade como critério de significado era pelo menos clara, simples e eficaz, o que
definir o caráter científico das teorias. Foi só esse interesse que me fez perceber não acontecia com as modificações e substituições introduzidas. ^ Devo dizer que,
im ediatam ente que p a ra a verificação de teorias de W ittgenstein o critério da sig­ hoje, as próprias pessoas que particip aram do processo percebem isso. Mas, como
nificação deveria funcionar tam bém como um critério de dem arcação; que, como sou norm alm ente c ita d a como um a delas, desejo salientar que, em bora tenha criado
tal, era com pletam ente inadequado, mesmo se não levássemos em conta os prcu a confusão, jam ais participei dela. Não propus a refutabilidade ou a testabilidade
blemas devidos ao conceito duvidoso de “significado”. De fato, o critério de d em ar­ como critérios de significado. Em bora possa me considerar culpado por haver in ­
cação de W ittgenstein — p ara utilizar m inha term inologia neste contexto — é o da troduzido ambos os termos na discussão, não os introduzi na teoria do significado.
verificabilidade, da capacidade de deduzir a teoria de afirmações derivadas da o b ­
servação. Mas esse critério é ao mesmo tem po m uito restrito e m uito am plo: exclui As críticas ao m eu alegado ponto de vista se difundiram m uito e alcançaram
da ciência p raticam ente tudo o que a caracteriza, ao mesmo tem po que deixa de êxito. 'Mas ainda não encontrei nenhum a crítica às m inhas idéias.8 A testabilidade,
excluir a astrologia. N enhum a teoria científica pode ser deduzida de afirmações por enquanto, tem sido largam ente aceita como critério de dem arcação.
derivadas da observação, ou descrita como função da verdade nelas contida.

Em diversas ocasiões dem onstrei o que acabo de expor aqui a seguidores de


W ittgenstein e m em bros do Círculo de Viena. Em 1931-32, resumi m inhas idéias IV
num livro um tan to extenso (que foi lido por vários m em bros do Círculo, mas n u n ­
ca publicado, em bora p arte dele tenha sido incorporado ao m eu livro Logic o f Discuti o problem a da dem arcação detalhadam ente porque acredito que sua
ScientificD iscovery), em 1933, publiquei um a carta escrita ao editor da revista Er- solução dá um a chave para a m aioria dos problem as fundam entais da filosofia da
kenntnis na qual tentei condensar em duas páginas m inhas idéias sobre os pro­ ciência. Mais adiante, relacionarei alguns desses problem as, mas apenas um deles
blemas de dem arcação e in d u ç ã o .5 Nessa carta e em outros trabalhos, descrevi o — a indução — poderá ser discutido am plam ente aqui.
problem a de significado como um pseudoproblem a, em contraste com o da d em ar­
cação. Os m em bros do Círculo, no entanto, classificaram m inha contribuição como Interessei-me pelo problem a da indução em 1923. E m bora ele esteja in ti­
um a proposta p ara substituir o critério de significado p ara verificação por um
m am ente ligado ao problem a de dem arcação, d u ran te cinco anos não fiz um a
critério de significado p ara d eterm inar a “refu tab ilid ad e” — o que efetivam ente es­
vaziava m inhas proposições de q ualquer sentido.5* De n ad a ad ian taram meus avaliação com pleta dessa ligação.
protestos, em bora afirmasse que estava tentando resolver não o pseudoproblem a de
significado, mas o problem a da dem arcação.

7 _ O exemplo mais recente do modo como a história desse problema pode ser mal interpretada e o
trabalho de A. R. White “Notas Sobre Significado e Verificação”, em Mind, 63, 1954, páginas 66 e
5 — Meu livro Logic o f Scientific Discovery (1959, 1960, 1961) normalmente referido aqui como L. Sc seguintes. O artigo de J. L. Evans em Mind, 62, 1953, páginas 1 e seguintes, criticado por White, é na
D., foi traduzido de Logik der Forschung (1934) com uma série de notas e apêndices adicionais, in­ minha opinião excelente e altamente perceptivo. Compreensivelmente, nenhum dos autores consegue
clusive (nas páginas 312-314) a carta do Editor da Erkenntnis mencionada no texto, publicada pela reconstruir essa história. (Pode-se encontrar algumas sugestões no meu livro Open Soaety and Its
primeira vez em Erkenntnis, 3, 1933, páginas 426 e seguintes. Enemies, Cap. 11, notas 46, 51 e 52; há uma análise mais completa no Cap. 11 deste livro).
No que diz respeito ao livro nunca publicado, mencionado acima, vide o trabalho de R. Carnap
g _ Em L. Sc. D., discuti certas objeções plausíveis que continuaram entretanto a ser levantadas, sem
“Üeber Protókollstaze” {As Proposições Protocolares), em Erkenntnis, 3, 1952Apáginas 215 a 228, onde, a
partir da página 223, o autor apresenta um esboço da minha teoria, que aceita e chama de “procedi­ qualquer referência às minhas respostas. Uma delas é a argumentação de que a refutação de uma lei
mento B , dizendo: Partindo de ponto de vista diferente do de Neurath (que desenvolveu o que Carnap natural é tão impossível quanto sua verificação. A resposta é que essa objeção confunde dois níveis de
denomina, na página 223, “procedimento A”), Popper desenvolveu o “procedimento B” como parte de análise completamente diferentes (como acontece com a afirmação de que demonstrações matemáticas
seu sistema”. Após uma minuciosa descrição da minha teoria dos testes, Carnap resume suas idéias: são impossíveis, pois por mais vezes que se repita a correção, não podemos ter certeza de que não te­
“Após comparar os diversos argumentos aqui discutidos, parece-me que a segunda forma de linguagem, nhamos* deixado de notar um erro). No primeiro nível, há uma assimetria lógica: uma única asserção —
com o procedimento B — na forma descrita aqui — é a mais adequada de todas as formas de linguagem sobre, por exemplo, o periélio de Mercúrio — pode formalmente refutar as leis de Kepler, mas estas
científica atualmente defendidas... na teoria do conhecimento”. O trabalho de Carnap contém o pri­ não poderão ser formalmente verificadas por afirmativas isoladas, qualquer que seja seu número. A ten­
tativa de minimizar essa assimetria só poderá resultar em confusão. No outro nível de análise, podemos
meiro relato publicado sobre minha teoria dos testes críticos. (Vide também minhas observações críticas
em L. Sc. D., nota 1, seção 29, página 104, onde a data 1933 deve ser corrigida para 1932; e no Cap. 11 hesitar em aceitar uma assertiva qualquer, mesmo a mais simples assertiva derivada da observação,
deste livro). podemos mostrar que toda assertiva envolve uma interpretação à luz de teorias e é, portanto, incerta.
Isso não afeta a assimetria fundamental, mas é de grande importância: antes de Harvey, a maioria dos
5 ~ P exemplo de Wittgenstein de uma pseudoproposição sem significado é o seguinte: “Sócrates é que dissecavam o coração faziam observações errôneas — justamente aquelas que desejavam fazer. Não
idêntico . Obviamente, a afirmação “Sócrates não é idêntico” também não tem significado. Logo, a pode haver observação totalmente segura, livre dos perigos da interpretação errônea. (Esse é um dos
negação de qualquer afirmativa sem significado também não terá significado, e a de uma afirmação motivos pelos quais a teoria da indução não funciona). A “base empírica consiste quase sempre em uma
com significado, será sentido. Mas, como observei em L.Sc.D. (p. ex. nas páginas 38 e seguintes) e, mais miscelânea de teorias de menor grau de universalidade (de “efeitos reproduzíveis”). De qualquer modo,
tarde, em minhas críticas, a negação de uma afirmação “testável” {ou seja, passível de ser refutada), não independentemente da base que o investigador aceite (arriscadamente), ele só poderá testar sua teoria
será necessariamente "testável”. Pode-se imaginar a confusão que surge quando se considera a “testa- tentando refutá-la.
bihdade” como um critério de significado e não de demarcação.
72 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 73

Como já indicado, essa teoria genético-psicológica está incorporada á lin ­


A proxim ei-m e do problem a da indução através de H um e, cuja afirm ativa guagem ordinária, e por isso não é tão revolucionária qu an to acreditava H um e: é
de que a indução não pode ser logicam ente justificada eu considerava correta. de fato um a teoria psicológica extrem am ente popular — p arte do “senso com um ”
H um e arg u m en ta que não pode haver argum entos lógicos válidos 910que nos p e r­ poderiam os dizer. Contudo, a despeito da m inha p rofunda adm iração por H um e e
m itam afirm ar que “aqueles casos dos quais não tivemos experiência algum a as­ pelo senso com um , estava convencido do erro dessa teoria psicológica; convencido
sem elham -se àqueles que já experim entam os anterior m en te”, Conseqüentem ente, de que podia ser refutada com base em argum entos pu ram en te lógicos.
“m esm o após observar um a associação constante ou freq u en te de objetos, não
tem os m otivo para inferir algo que não se refira a u m objeto que já experim en­ Estava convencido de que a psicologia de H um e — que é a psicologia p o ­
tam os”.10 Como a experiência ensina que os objetos que se associam constan­ p u lar — estava errad a em pelo menos três pontos: (a) o resultado típico da re ­
tem ente a outros objetos perm anecem assim associados, H um e afirm a, a seguir: petição; (b) a gênese dos hábitos; e especialm ente (c) o caráter daquelas experiên­
“Poderia renovar m inha p ergunta da seguinte form a: por que, dessa experiência, cias e tipos de com portam ento que podem ser descritos como “acreditar num a lei”,
tiramos conclusões que vão além dos casos anteriores, dos quais já tivemos expe­ ou “esperar um a sucessão ordenada de eventos”.
riência?” Em outras palavras, a tentativa de justificar a p rática da indução ap elan ­
do p a ra a experiência deve levar a um regresso infinito. Como resultado, podemos (a) O resultado típico da repetição — por exem plo, da repetição de um
dizer que as teorias nunca podem ser inferidas de afirm ações derivadas da obser­ trecho m usical difícihexecutado ao piano — é que os movimento^ que inicialm ente
vação, ou racionalm ente justificadas por elas. necessitavam de atenção são afinal executados autom aticam ente. Podemos dizer
que o processo se torna radicalm ente abreviado e deixa de ser consciente: torna-se
“fisiológico” . Esse processo, longe de criar a crença nu m a lei, ou a expectativa de
Considero a refutação da inferência indutiva de H um e clara e conclusiva.
um a sucessão de eventos aparentem ente baseados n um a lei, pode, pelo contrário,
Mas sua explicação psicológica da indução em term os de costum e ou hábito me
iniciar-se com um a crença consciente e destruí-la, tornando-a supérflua,. Ao a p re n ­
deixa to talm ente insatisfeito.
dermos a an d ar de bicicleta, podemos com eçar com a certeza de que, p ara evitar
um a queda, devemos voltar a roda p ara a direção em que am eaçam os cair; essa
Tem -se notado com freqüência que essa explicação de H um e é pouco satis­
certeza poderá ser útil p ara guiar nossos movimentos. Depois de algum a prática,
fatória em term os filosóficos. Sem dúvida, contudo, ela pretende ser um a teoria
podemos esquecer a regra: não precisamos mais dela,. Por outro lado, se é verdade
psicológica e não filosófica, pois procura d ar um a explicação causal a um fato
que a repetição cria expectativas inconscientes, estas só se tornam conscientes a
psicológico — o fa to de que acreditam os em leis, em assertivas que afirm am a
p artir do m om ento em que algo sai errado (não percebem os as batidas do relógio,
regularidade de certos eventos, ou em certos tipos de eventos constantem ente as­
mas notarem os o silêpcio, se o relógio p arar).
sociados — afirm ando que este fato é devido ao (isto é, constantem ente associado
ao) hábito ou costum e.
(b) H ábitos e costumes, via de regra, não se originam n a repetição. Mesmo os
hábitos de an d ar, falar e com er em horas determ inadas têm início antes de que a
Mas essa reform ulação da teoria de H um e é ainda insatisfatória, pois o que
repetição possa ter um papel im portante. Podemos dizer que só m erecem o nome
acabo de descrever como um “fato psicológico” pode ser descrito como um costume
de “hábitos” ou “costum es” a p a rtir do m om ento em que a repetição exerce seu
ou h ábito — o costum e ou hábito de acreditar em leis e eventos regulares; de fato,
papel típico; não podemos afirm ar, no entanto, que a práticas em questão se
não é m uito surpreendente nem esclarecedor ouvir a explicação de que tal costume
originam de inúm eras repetições.
ou hábito é devido (ou associado) a um hábito ou costume diferente. Só quando nos
lem bram os de que as palavras “costum e” e “h áb ito ” são usadas por H um e, como
(c) A crença num a lei não corresponde precisam ente ao com portam ento
tam bém na linguagem corrente, não só p a ra descrever com portam entos regulares
que revela a expectativa de um a sucessão de eventos aparentem ente baseados num a
mas sobretudo p a ra teorizar sobre sua origem (atribuída à repetição freqüente) é
lei; contudo, as duas coisas estão suficientem ente interligadas p ara que sejam
que podem os reform ular sua teoria psicológica de m aneira m ais satisfatória. Po­
tratadas em conjunto: podem talvez resultar, excepcionalm ente, da m era re ­
demos afirm ar então que, com o acontece com qualquer outro hábito, nosso hábito
petição de impressões dos sentidos (como no caso do relógio que deixa de fu n ­
de acreditar em leis é produto da repetição fre q ü e n te — da observação repetida de
cionar). Estava disposto a adm itir isso, mas norm alm ente, e na m aioria dos casos,
que coisas de um a certa natureza associam-se constantem ente a coisas de outra
elas não podem ser explicadas dessa m aneira. Como adm ite H um e, um a única o b ­
natureza.
servação pode ser suficiente p ara criar um a expectativa ou um a crença — fato
que ele procura explicar como resultado de um hábito indutivo, form ado por
inúm eras longas seqüências repetitivas que experim entam os em período anterior da
nossa v id a .11 Mas isso era apenas um a tentativa de explicar fatos desfavoráveis que
9 — Hume não usa o termo “lógico”, mas sim “demonstrativo” — terminologia que, creio, tende a am eaçavam a teoria; um a tentativa m alograda, pois esses fatos podem ser obser­
causar equívoco. As duas citações seguintes foram retiradas do Treatise o f Human Nature, tomo 1,
parte III, seções vi e xii. (A ênfase é do próprio Hume). vados em filhotes de anim ais e bebês. “Seguramos um cigarro aceso perto do fo-

10 — Esta citação e a seguinte foram do loc. cit. seção vi. Vide também o Enquiry Concerning
Human Understandmg, do mesmo autor, seção IV, parte II, e o Abstract, editado em 1938 por J.M. 11 — Treatise, seção xiii; seção xv, regra 4.
Keynes e P. Sraffa, página 15, citado em L. Sc. D., no novo apêndice* VII, texto da nota 6.
74 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 75

teoria lógica da indução. N a verdade, que pretendem os explicar? No exemplo dos


cinho de cachorrinhos” , relata F. Bãge. “Eles aspiraram um a vez e fugiram ; nada cachorrinhos, queremos explicar um tipo de com portam ento que pode ser descrito
podia induzi-los a reto rn ar à origem daquele cheiro. Alguns dias mais tarde, como o reconhecim ento ou a interpretação de um a situação como repetição de
apenas ao ver um cigarro ou mesmo um pedaço de papel branco enrolado, re a ­ outra; claram ente, não podemos esperar explicá-la apelando p ara repetições a n ­
giam , fugindo e espirrando .12 Se procurarm os explicar casos como esse postulan­ teriores, pois percebemos que tais repetições anteriores devem ter im plicado ta m ­
do inúm eras longas seqüências repetitivas prévias não só estaremos fantasiando mas bém outras repetições, de m odo que o mesmo problem a ressurge sempre: o p ro ­
tam bém esquecendo de que na cu rta vida dos filhotes deve haver tem po não só blem a de reconhecer ou interpretar um a situação como repetição de um a outra.
para a repetição mas tam bém p ara m uita novidade e, conseqüentem ente, o con­
trário da repetição. De m odo mais conciso, podemos dizer que vemos a sim ilaridade como o
resultado de um a resposta que envolve interpretações (as quais podem não ser
Mas não são apenas certos fatos em píricos que negam apoio às idéias de adequadas), antecipações e expectativas (que podem nunca se m aterializar). E
H um e; há tam bém argum entos decisivos de natureza puram ente lógica contrários à impossível portanto explicar antecipações ou expectativas como o resultado de
sua teoria psicológica. m uitas repetições — conform e sugerido por H um e. Com efeito, mesmo a prim eira
repetição (como a vemos) precisa estar baseada naquilo que p ara nós é sim ilaridade
A idéia central da teoria de H um e é a da repetição baseada na similaridade — e portanto expectativa — precisam ente o tipo de coisa que queríam os explicar.
(ou sem elhança”). Essa idéia é usada de m aneira m uito pouco crítica; somos
levados a pensar nas gotas de água a corroer a pedra; seqüências de eventos inques­ O que dem onstra que a teoria psicológica de H um e nos leva a um a situação
tionavelm ente sem elhantes im pondo-se a nós vagarosam ente, como o funcionam en­ de regresso infinito.
to de um relógio. Mas devemos n o tar que, num a teoria psicológica como a de
H um e, só se pode adm itir que tenha efeito sobre o indivíduo aquilo que p ara ele se Penso que H um e nunca aceitou plenam ente sua própria análise. Tendo
caracteriza como um a repetição, baseada em sim ilaridade que só ele poderá id en ­ rejeitado a idéia lógica da indução, ele foi obrigado a en frentar o seguinte p ro ­
tificar. O indivíduo deve reagir às situações como se fossem equivalentes; deve con­ blem a: como podemos efetivam ente alcançar o conhecim ento de que dispomos,
siderá-las similares; deve interpretá-las como repetições. Podemos presum ir que os como um fato psicológico, se a indução é um procedim ento logicam ente inválido e
cachorrinhos m ostraram , pela sua resposta — sua m aneira de agir ou reagir — que racionalm ente injustificável? H á duas respostas possíveis: 1) chegamos ao conhe­
haviam reconhecido ou interp retad o a segunda situação como repetição da p ri­ cim ento por m étodo não indutivo (resposta com patível com um certo racionalis-
m eira: esperavam a presença do elem ento principal: o cheiro desagradável. A mo); 2) chegamos ao conhècim ento pela repetição e a indução — por conseguinte,
situação foi percebida por eles como um a repetição, pois reagiram a ela antecipan­ por m étodo logicam ente inválido e racionalm ente injustificável, pelo que todo o
do sua sim ilaridade à situação anterior. conhecim ento aparente não passa de um a m odalidade de crença, baseada no
hábito (resposta que im plicaria a irracionalidade até mesmo do conhecim ento cien­
Essa crítica aparentem ente de caráter psicológico tem um a base puram ente tífico, levando à conclusão de que o racionalism o é absurdo e deve ser a b an d o ­
lógica, que pode ser sintetizada no seguinte argum ento, bastante simples (aciden­ nado). Não exam inarei aqui as tentativas im em oriais — que voltaram à m oda —
talm ente, o mesmo com que comecei m inha crítica): o tipo de repetição im agi­ de resolver o problem a afirm ando que em bora a indução seja logicam ente inválida
nado por H um e jam ais pode ser perfeito; os casos que ele expõe não são casos de se entendem os por “lógica” a lógica dedutiva, ela possui seus próprios padrões
sim ilaridade perfeita; são apenas casos de sem elhança. Logo, são repetições apenas lógicos, o que se pode com provar com o fato de que todos os homens razoáveis a
se consideradas, de u m ponto de vista em particular (aquilo que sobre m im tem o utilizam natu ra lm en te: a grande realização de H um e consistiu justam ente em des­
efeito de um a repetição poderá não ter o mesmo efeito sobre um a aranha). Mas isso truir essa identificação errônea da questão factual — quid fa c til — com a questão
significa que, por motivos lógicos, deve haver sem pre um ponto de vista — um sis­ da validade ou da justificação — quid ju risl (Vide o ponto 13 do apêndice ao
tem a de expectativas, antecipações, presunções ou interesses — antes que possa presente cap.)
existir q u alq u er repetição; o ponto de vista, conseqüentem ente, não pode ser
m eram ente resultado da repetição. (Vide tam bém o apêndice* X, (1), em
L. Sc. D.). Ao que parece, H um e nunca considerou seriam ente a prim eira alternativa.
Depois de rejeitar a explicação lógica da indução pela repetição, o filósofo “n e ­
P ara os objetivos de um a teoria psicológica que explique a origem das nossas gociou” com o bom senso perm itindo o retornó da idéia de que a indução se baseia
crenças é preciso, p o rtan to , substituir a idéia ingênua de eventos que são sem elhan­ na repetição, revestida de explicação psicológica. O que propus foi recusar essa
tes pela idéia de eventos aos quais reagimos interpretando-os como sem elhantes. teoria de H um e, explicando a repetição (para nós) como conseqüência da nossa in ­
Mas, se é assim (e não consigo ver nenhum m odo de evitá-lo) então a teoria psi­ clinação p ara esperar regularidades, da busca de repetições, em vez de explicar tal
cológica da indução proposta por H um e leva a um regresso infinito, precisam ente inclinação pelas próprias repetições.
análogo ao que foi descoberto pelo próprio H um e e usado por ele p ara d erru b ar a12
Fui levado portanto, por considerações puram ente lógicas, a substituir a
teoria psicológica da indução pelo ponto de vista seguinte: em vez de esperar pas­
12 F. Bage, “Zur Entwicklung, etc:”, Zeitschrift f. Hundeforschung, 1933; D Ratz, Animais and sivamente que as repetições nos im ponham suas regularidades, procuram os de
Men, cap. VI, nota.
76 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 77

m odo ativo im por regularidades ao m undo. T entam os identificar sim ilaridades e suas necessidades, a tarefa e as expectativas do m om ento que fornecem um ponto
interpretá-las em term os de leis que inventam os. Sem nos determ os em premissas, de vista; no caso do cientista, são seus interesses teóricos, o problem a que está in ­
dam os um salto p ara chegar a conclusões — que podemos precisar pôr de lado, vestigando, suas conjecturas e antecipações, as teorias que aceita como pano de
caso as observações não as corroborem . í fundo: seu quadro de referências, seu “horizonte de expectativas” .

T ratava-se de um a teoria baseada em processo de tentativas — de conjec­ O problem a “Que vem em prim eiro lugar: a hipótese (H) ou a observação
turas e. refu ta çõ es. Um processo que perm itia com preender por que nossas tentativas (O)?” pode ser solucionado; como tam bém se pode resolver o problem a “Que vem
de im p o r interpretações ao m undo vinham , logicam ente, antes da observação de em prim eiro lugar: a galinha (G) ou o ovo (O)?” (A resposta ad eq u ad a à prim eira
sim ilaridades. Como havia razões lógicas p ara agir assim, pensei que esse proce­ pergunta é “Uma hipótese an terio r”; a resposta apro p riad a à segunda é ‘TJm ovo
dim ento poderia ser aplicado tam bém ao cam po científico; que as teorias cientí­ ^ an terior” . É verdade que qualquer hipótese particu lar que adotem os será sem pre
ficas não eram um a composição de observações mas sim invenções — conjecturas precedida de observações — por exemplo, as observações que ela se destina a ex­
apresentadas ousadam ente, p ara serem elim inadas no caso de não se ajustarem às plicar. Contudo, essas observações pressupõem a adoção de um quadro de referên­
observações (as quais raram en te eram acidentais, sendo coligidas, de m odo geral, cias — um a teoria. Se as observações “iniciais” têm algum a significação, se p ro ­
com o propósito definido de testar um a teoria p rocurando, se possível, refutá-la). vocaram a necessidade de um a explicação, dando origem assim a um a hipótese, é
porque não podiam ser explicadas pelo quadro teórico precedente, o antigo h o ­
V rizonte de expectativas. Aqui não corremos o perigo de en contrar um regresso in ­
finito: se recusarmos a teorias e mitos cada vez mais primitivos, chegarem os fin al-
A crença de que a ciência avança da observação p ara a teoria é ainda aceita m ente a expectativas inconscientes e inatas.
tão firm e e am plam ente que m inha rejeição dessa idéia provoca m uitas vezes
reação de incredulidade. Já fui até acusado de ser insincero — de negar aquilo de É claro que a teoria das idéias inatas é absurda; mas todos os organismos
que ninguém pode razoavelm ente duvidar. têm reações ou respostas inatas — entre elas, respostas adaptadas a acontecim entos
im inentes. Podemos descrever essas respostas como “expectativas” sem im plicar que
N a verdade, porém , a crença de que podemos com eçar exclusivamente com tais “expectativas” sejam im inentes. Assim, o bebê recém -nascido “tem a expec­
observações, sem qu alq u er teoria, é um absurdo, que poderia ser ilustrado pela es­ tativa” de ser alim entado (bem como — poderíam os dizer tam bém — a expectativa
tória absurda do hom em que se dedicou d u ran te toda a vida à ciência n atu ral — de ser protegido e am ado). T endo em vista a relação estreita entre a expectativa e o
anotando todas as observações que pôde fazer, legou-as a um a sociedade científica conhecim ento, podemos falar mesmo, de m odo m uito razoável, em “conhecim ento
p ara que as usasse como evidência indutiva. Uma anedota que nos deveria m ostrar • in ato ”: um conhecim ento que não é válido “a p rio ri” — um a expectativa inata, por
que podem os colecionar com vautageni insetos, por exemplo, mas não observações. mais forte e específica que seja, pode constituir um equívoco (o bebê recém -nascido
pode ser abandonado e m orrer de fome).
H á um q u arto de século, procurei cham ar a atenção de um grupo de es­
tudantes de física, em V iena, p ara este ponto, com eçando um a conferência com as
seguintes instruções: “T om em lápis e papel; observem cuidadosam ente e anotein o Nascemos, portanto, com expectativas — com um “conhecim ento” que,
que puderem observar” . Os estudantes quiseram saber, n aturalm ente, o que d e ­ em bora não seja válido a p r i o r i é psicológica ou geneticam ente apriorístico — is­
veriam observar: “Observem — isto é um absurdo!”1314 De fato, não é mesmo h a ­ to é, anterior a toda a experiência derivada da observação. Uma das mais im p o r­
bitual usar dessa form a o verbo “observar” . A observação é sem pre seletiva: exige tantes dessas expectativas é a de encontrar regularidades — ela está associada à in ­
um objeto, um a tarefa definida, um ponto de vista, um interesse especial, um clinação inata p ara localizar regularidades — ou à necessidade de encontrar re ­
problem a. P ara descrevê-la é preciso em pregar um a linguagem apropriada, im ­ gularidades —, como podemos perceber pelo prazer que a criança sente em satis­
plicando sim ilaridade e classificação — que, por sua vez, im plicam interesses, p o n ­ fazer esse impulso.
tos de vista e problem as.
Esta expectativa “instintiva” de encontrar regularidades, que é psicologi­
Katz escreveu 14: “Um anim al fam into divide o am biente em objetos cam ente a priori, corresponde estreitam ente à “lei da causalidade” que K ant con­
comestíveis e não comestíveis. Um anim al que foge enxerga cam inhos p ara a fuga e siderava um a parte do nosso equipam ento m ental, válida a priori. Poder-se-ia dizer
esconderijos... De m odo geral, os objetos m u d a m ... de acordo com as necessidades que K ant deixou de traçar a distinção entre as form as de pensar e de reagir psi­
do an im al” . Poderíam os acrescentar que só dessa fo rm a — relacionando-se com cologiam ente apriorísticas e , as crenças válidas a p rio n . N ão creio, porém , que seu
necessidades e interesses — podem os objetos ser classificados, assemelhados ou equívoco tenha sido tão elem entar — de fato, a expectativa de encontrar regula­
diferenciados. A m esm a regra se aplica tam bém aos cientistas. Para o anim al são ridades é apriorística não só psicologicamente mas tam bém logicam ente; em termos
lógicos, é anterior a toda a experiência derivada da observação, precedendo, como
vimos, o reconhecim ento das semelhanças; e toda observação envolve o reconhe­
13 — Vide a seção 30 de L. Sc. D. cim ento do que é sem elhante e do que não o é. Mas, a despeito de ser logicam ente
14 — Katz, loc. cit. apriorística, neste sentido, a expectativa não é válida a prion. Ela pode falhar:

k
78 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 79

Esse dogm atism o é, em certa m edida, necessário: corresponde a um a exigência de


poderíam os facilm ente construir um am biente (que seria letal) de tal form a caó­ situação que só pode ser tra ta d a pela aplicação das nossas conjecturas ao universo;
tico, em com paração com nosso am biente ordinário, que nos fosse totalm ente im ­ além disso, ele nos perm ite ab o rd ar um a boa teoria em estágios, por aproximações
possível enco n trar nele quaisquer regularidades. (Todas as leis naturais poderiam — se aceitam os a derrota com m u ita facilidade podem os deixar de descobrir que
co ntinuar válidas; am bientes desse tipo foram usados p ara experiências com estivemos m uito perto do cam inho certo.
anim ais, conform e indicado na próxim a seção.)
Está claro que essa atitude dogm ática que nos leva a g u ard ar fidelidade às
Assim, a resposta de K ant a H um e estava quase certa: a distinção entre um a prim eiras impressões indica um a crença vigorosa; por outro lado, um a atitude
expectativa válida a priori e um a outra genética e logicam ente anterior à obser­ crítica, com a disponibilidade p ara alterar padrões, adm itindo dúvidas e exigindo
vação, sem ser contudo válida a priori, é de fato bastante sutil. K ant, porém , foi testes, indica um a crença mais fraca. O ra, de acordo com o pensam ento de H um e
m uito longe na sua dem onstração. P rocurando dem onstrar como o conhecim ento é e com a concepção popular, a força de um a crença resulta da repetição, devendo
possível, propôs um a teoria que tinha a conseqüência inevitável de condenar ao portanto crescer com a experiência, apresentando-se sem pre m aior nas pessoas
êxito nossa busca de conhecim ento — o que é evidentem ente um erro. K ant tinha menos prim itivas. Mas o pensam ento dogm ático, o desejo incontrolado de im por
razão ao dizer que “nosso intelecto não deriva suas leis da natureza, mas impõe suas regularidades e o prazer m anifesto com ritos e a repetição per se caracterizam os
leis à n a tu reza” . Ao im aginar porém que essas leis fossem necessariam ente ver­ primitivos e as crianças; a grande experiência e m atu rid ad e criam algum as vezes
dadeiras ou que necessariam ente teríam os êxito em impô-las à natureza, ele se um a atitude de cautela e de crítica, em vez do dogm atism o.
enganou. 15 M uitas vezes a natureza resiste com êxito, forçando-nos a rejeitar nos­
sas leis — o que não nos im pede de ten tar outras vezes. M encionaria aqui um ponto de concordância com a psicanálise. Esta afirm a
que os neuróticos interpretam o m undo de acordo com um m odelo pessoal fixo,
Para sum arizar esta crítica lógica da psicologia da indução de H um e p o ­ que não é facilm ente abandonado, e cujas raízes podem rem ontar às prim eiras
demos considerar a idéia de construir um a m áquina de indução. Posta num fases da infância. Um m odelo ou esquem a adotado m uito cedo se m antém e «erve
universo sim plificado essa m áquina poderia, pela repetição, “ap ren d er” as leis como padrão interpretativo p ara toda experiência nova, verificando-a, por assim
vigentes nesse m undo — ou mesmo “form ulá-las” . Se é possível construir tal m á ­ dizer, e contribuindo p ara enrijecê-la. Esta é um a desçrição do que cham ei de
quina (não tenho dúvida de que isso é possível) pode-se argüir que m inha teoria es­ “atitude dogm ática” , por com paração com a atitude crítica que tem em com um
tá equivocada — de fato, se um a m áquina pode praticar a indução na base da com ela a facilidade da adoção dç um; sistema de expectativas — um m ito, talvez;
repetição, não há razão lógica p ara que não possamos fazer o mesmo. hipótese ou conjectura —, mas que estará sem pre p ro n ta a m odificá-lo, a corrigi-lo
e até mesmo a abandoná-lo. Estou inclinado a achar que a m aioria das neuroses
O argum ento parece convincente, mas é falso. Ao construir um a m áquina pòdem ser devidas ao não desenvolvimento da atitude crítica — a um dogm atism o
de indução precisarem os, como seu arquiteto, decidir a priori em que consiste seu enrijecido (e não natural); à resistência às exigências de adaptação de certas in te r­
“universo” — que coisas devem ser consideradas “sem elhantes” ou “iguais” ; que pretações e respostas esquem áticas. Resistência que em si pode ser explicada, em
m odalidade de “leis” desejamos que a m áquina “descubra”. Em outras palavras, alguns casos, por um a injúria ou um choque que provocou m edo e o aum ento da
precisamos incorporar à m áquina um quadro de referências que determ ine o que é necessidade de segurança, analogam ente ao que acontece quando ferimos um
relevante e interessante no seu “m u n d o ” — a m áquina funcionará então na hase de m em bro, que depois temos m edo de usar — o que o enrijece. (Pode-se até mesmo
princípios seletivos “inatos” . Os problem as da sim ilaridade serão solucionados para argum entar que o caso do m em bro é não só analógico à resposta dogm ática mas
a m áq u in a pelos seus fabricantes, que lhe d arão um a “in terp retação ” do m undo. um exemplo desse tipo de resposta.) Em qualquer caso concreto, a explicação
precisará levar em conta o peso das dificuldades envolvidas nos ajustam entos neces­
VI sários — dificuldades que podem ser consideráveis, especialm ente num m undo
complexo e cam biante: experiências feitas com anim ais nos ensinam que variando
Nossa inclinação p ara procurar regularidades e para im por leis à natureza as dificuldades impostas, podemos provocar vários graus de com portam ento
leva ao fenôm eno psicológico do pensamento^ dogmático ou, de m odo geral, do
neurótico.
com portam ento dogm ático: esperamos encontrar regularidades em toda parte e
tentam os descobri-las mesmo onde elas não existem; os eventos que resistem a essas Identifiquei muitos outros vínculos entre a psicologia do conhecim ento e
tentativas são considerados como “ruídos de fu n d o ” ; somos fiéis a nossas expec­ campos psicológicos afastados (na concepção geral): por exem plo, a arte e a
tativas mesmo quando elas são inadequadas — e deveríamos reconhecer a derrota. * música. Na verdade, m inhas idéias sobre a indução tiveram origem num a conjec­
tu ra a respeito da evolução da polifonia ocidental. Mas essa é um a outra estória, de
™ "V Kant acreditava que a dinâmica de Newton fosse válida a priori. (Vide seu livro Fundamentos que vou poupá-los.
Metafísicos da Ciêncm Natural, publicado entre a primeira e a segunda edições da Crítica da Razão
ura.) Contudo, se podemos explicar a valida de da teoria de Newton, como pensava, pelo fato de VII
que nosso intelecto impõe suas leis à natureza, o que se segue, na minha opinião, é que esse esforço do
intelecto tera exito necessariamente — o que torna difícil entender por que motivo o conhecimento a M inha crítica lógica da teoria psicológica e as considerações correspondentes
priori corno o de Newton, é tão difícil de alcançar. No cap. 2, especialmente na seção X, e também nos (a m aior parte das quais datam de 1926/27, quando preparei um a tese intitulada
caps. 7 e 8 deste livro o leitor encontrará uma exposição mais ampla desta crítica.
80 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CIÊNCIA:-CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 81

mas porque é impossível descobrir as implicações dessas teorias (para poder criticá-
“O H ábito e as Crenças nas Leis” 1617) podem parecer um tanto afastadas do cam po
las efetivam ente) em pregando exclusivamente o raciocínio dedutivo. Como disse, a
da filosofia da ciência. Mas a distinção entre o pensam ento crítico e o dogm ático
crítica é um a tentativa de identificar os pontos fracos das teorias — pontos que, de
nos traz de volta ao problem a central. Com efeito, a atitude dogm ática está cla­
modo geral, só vamos encontrar nas suas conseqüências lógicas mais rem otas. É aí
ram ente relacionada com a tendência p ara verificar nossas leis e esquemas, buscan­
que o raciocínio puram ente lógico desem penha um papel im portante.
do aplicá-los e confirm á-los sem pre, a ponto de afastar as refutações, enquanto a
atitude crítica é feita de disposição p ara modificá-los — a inclinação no sentido de
H um e tinha razão ao acentuar o fato de que nossas teorias não podem ser
testá-los, refutando-os se isso for possível. O que sugere a identificação da atitude
inferidas validam ente do que podemos conhecer como verdadeiro — nem de obser­
crítica com a atitude científica e a atitude dogm ática com a que descrevi q u ali­
vações nem de qualquer outra coisa. Sua conclusão era a de que nossa crença nes­
ficando-a de pseudocientífica.
sas teorias é irracional. Se “crença” significa neste caso a incapacidade de pôr em
dúvida as leis naturais e a constância das regularidades que a natureza nos oferece,
Acho tam bém que geneticam ente a atitude pseudocientífica é mais p ri­
H um e estava certo: esse tipo de fé dogm ática tem um a base “fisiológica”, por assim
mitiva do que a científica, e anterior a ela: é um a atitude pré-científica. Esse
dizer, e não racional. Contudo, se o term o “crença” é em pregado p ara denotar
caráter prim itivo e essa precedência têm tam bém seu aspecto lógico. Com efeito, a
nossa aceitação crítica das teorias científicas — um a aceitação tentativa, com bi­
atitude crítica não se opõe propriam ente à atitude dogm ática; sobrepõe-se a ela: a
nada com um a disposição p ara rever a teoria se conseguirmos refutá-la experim en­
crítica deve dirigir-se contra as crenças prevalecentes, que exercem grande influên­
talm ente —, H um e não tinha razão neste ponto. Com efeito, não há n ad a de ir ­
cia e que necessitam um a revisão crítica — em outras palavras, ela se dirige contra
racional na aceitação de um a teoria, como nada há de irracional na admissão de
as crenças dogm áticas. A atitude crítica requer — como “m atéria-p rim a”, por as­
teorias bem testadas, para fins práticos — nenhum outro tipo de com portam ento é
sim dizer — teorias ou crenças aceitas mais ou menos dogm aticam ente. mais facionai.
A ciência com eça, portanto, com os mitos e a crítica dos mitos; não se
Vamos adm itir que aceitam os deliberadam ente a tarefa de viver neste m u n ­
origina num a coleção de observações ou na invenção de experim entos, mas sim na
do desconhecido, ajustando-nos a ele tanto quanto possível, aproveitando as op o r­
discussão crítica dos m itos, das técnicas e práticas m ágicas. A tradição científica se
tunidades que nos oferece; e que queremos explicá-lo, se possível (não será preciso
distingue da tradição pré-científica por apresentar dois estratos; como esta últim a,
presum ir esta possibilidade) e na m edida da nossa possibilidade, com a ajuda de
ela lega suas teorias, mas lega tam bém com elas, um a atitude crítica com relação a
leis e de teorias explicativas. Se essa é nossa tarefa, o procedim ento mais racional é
essas teorias. As teorias são transferidas não como dogmas mas acom panhadas por
o m étodo das tentativas — da conjectura e da refutação. Precisamos propor teo­
um desafio p ara que sejam discutidas e se possível aperfeiçoadas. Essa tradição é
rias, ousadam ente; tentar refutá-las; aceitá-las tentativam ente, se fracassarm os.
helénica e rem onta a Tales, fun d ad o r da prim eira escola (digo, deliberadam ente,
da prim eira escola, e não da prim eira escola filosófica) a não se preocupar fu n ­
Deste ponto de vista, todas as leis e teorias são essencialm ente tentativas,
dam entalm ente com a preservação de um d o g m a .^
conjecturais, hipotéticas — mesmo quando não é mais possível duvidar delas. Antes
de refutar um a teoria não temos condição de saber em que sentido ela precisa ser
A atitude crítica, tradição de livre debate sobre as teorias p ara identificar
m odificada. A afirm ativa de que o sol continuará a se levantar e a se pôr um a vez
seus pontos fracos e aperfeiçoá-las, é um a atitude razoável e racional. Em prega ex­
cada vinte e quatro horas é, proverbialm ente, um conhecim ento “estabelecido pela
tensam ente a observação e os argum entos verbais — mas a prim eira é função dos
indução, além de qualquer dúvida razoável”. E curioso n o tar que ainda hoje
segundos. A descoberta do m étodo crítico pelos gregos provocou, inicialm ente, a
usamos esse exemplo, que serviu tam bém nos dias de Aristóteles e de Pítias de Mas-
esperança enganosa de que ele levaria à solução de todos os grandes problem as do
sália — o grande viajante que ganhou reputação de m entiroso devido à sua des­
passado; de que estabeleceria o conhecim ento certo; de que ajudaria a. provar nos­
crição de Tule, com o m ar gelado e o “sol da m eia-noite” .
sas teorias, a justificá-las. Essa esperança não passava de um resíduo da m en tali­
dade dogm ática: na verdade, nada pode ser justificado ou provado (fora do cam po
O m étodo das tentativas não se identifica sim plesm ente com o método
da m atem ática e da lógica). A exigência de provas racionais p ara o conhecim ento
crítico ou científico — o processo de conjecturas e refutações. O prim eiro é e m ­
científico revela u m a falha na separação que seria preciso m an ter entre a am pla
pregado não só por Einstein mas — de form a m ais dogm ática — pela am eba; a
região da racionalidade e o cam po estreito da certeza racional; é um a exigência
diferença reside não tanto nas tentativas mas na atitude crítica e construtiva as­
irrazoável, que não pode ser atendida. sum ida com relação aos erros. Erros que o cientista procura elim inar, consciente e
cuidadosam ente, na tentativa de refutar suas teorias com argum entos penetrantes
No en tan to , o argum ento lógico, o raciocínio lógico dedutivo, continua a — inclusive o apelo aos testes experim entais mais severos que suas teorias e engenho
exercer um a função de grande im portância na abordagem crítica; não porque nos lhe perm item prep arar.
perm ite provar nossas teorias ou inferi-las de afirm ativas derivadas da observação,
A atitude crítica pode ser descrita como um a tentativa consciente de su b ­
m eter nossas teorias e conjecturas, em nosso lugar, à “luta pela sobrevivência”, em
16 — Tese não publicada, submetida ao Instituto de Educação de Viena, em 1927, sob o título “Ge­
wohnheit und Gesetzerlebnis' .
que os mais aptos triunfam . Ela nos dá a possibilidade de sobreviver à elim inação
de um a hipótese inadequada — quando um a atitude mais dogm ática levaria à nos-
17 — Nos caps. 4 e 5 deste livro o leitor encontrará comentários adicionais sobre o tema.
82 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES
\ CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 83

m em bros de ligas contra a vacinação e seguidores da astrologia. É inútil discutir


sa elim inação. (H á um a estória tocante a respeito de com unidade indiana que ^ com eles: não posso obrigá-los a aceitar os mesmos critérios de indução válida nos
desapareceu por causa da sua crença na santidade da vida — inclusive a vida dos j quais acredito — o código científico” . Essa passagem deixa bem claro que a “m-
tigres.) i dução válida” é usada aq u i como critério de demarcação separando a ciência da
pseudo ciência.
Adotam os assim a teoria mais apta a nosso alcance, elim inando as que são
menos aptas. (Por “a p tid ão ” não qupro dizer apenas “utilid ad e” , mas tam bém ver­ E óbvio, porém , que a regra da “indução válida” não chega a ser metafísica:
dade; vide os caps. 3 e 10 deste livro.) N a m inha opinião, este procedim ento nada ela simplesmente não existe. N ão há regra que possa g aran tir um a generalização
tem de irracional, nem precisa de m aior justificação racional. inferida de observações verdadeiras, por m aior que seja sua regularidade. (O
> próprio Born não acredita na verdade da física new toniana, a despeito do seu
V III
êxito, em bora acredite que ela se baseia na indução.) Por outro lado, o êxito da
ciência não se fundam enta em regras indutivas mas depende da sorte, do engenho
Voltemo-nos agora da crítica lógica da psicologia da experiência p ara nosso dos cientistas e das regras puram ente dedutivas do raciocínio crítico.
problem a real: o problem a da lógica da ciência. E m bora algum as das coisas que
com entei aqui possam ajudar-nos, na m edida em que elim inaram certos precon­ Poderia, portanto, sintetizar da seguinte form a algum as das m inhas con­
ceitos em favor da indução, o tratam ento a que me proponho do problem a lógico clusões:
da indução independe totalm ente da crítica que fizemos, e de todas as conside­
rações psicológicas expostas. Desde que o leitor não aceite dogm aticam ente o 1) A indução — isto é, a inferência baseada em grande núm ero de obser-
alegado fato psicológico de que fazemos induções, poderá esquecer tudo o que dis­ I vações — é um m ito: não é um fato psicológico, um fato da vida corrente ou um
se, com a exceção de dois pontos de lógica: m inhas observações sobre a testabili- I procedim ento científico.
dade ou refutabilidade como critério de dem arcação e a crítica lógica feita por
i
H um e à indução. 1 2) O m étodo real da ciência em prega conjecturas e salta p ara conclusões
genéricas, às vezes depois de um a única observação (conform e o dem onstram H um e
Do que disse aqui é óbvio que havia um a estreita ligação entre os dois j e Born).
problem as que me interessavam então: a dem arcação e a indução — ou o m étodo
científico. Era fácil entender que o m étodo da ciência é a crítica, isto é, as te n ­ | 3) A observação e a experim entação repetidas funcionam na ciência como
tativas de refutação. C ontudo, levei alguns anos p ara perceber que os dois p ro ­ % testes de nossas conjecturas ou hipóteses — isto é, como tentativas de refutação.
blem as (o da dem arcação e o da indução) num certo sentido eram um só.
4) A crença errônea na indução é fortalecida pela necessidade de termos
P erg u n tav a-me por que tantos cientistas acreditam na indução; descobri um critério de dem arcação que — conform e aceito tradicionalm ente, e equivo­
que isso se devia ao fato de acreditarem que a ciência n atu ral se caracteriza pela cadam ente — só o m étodo indutivo poderia fornecer.
indução: um m étodo que tem início em longas seqüências de observações e ex­
periências e nelas se baseia. A creditavam que a diferença entre a ciência genuína e 5) A concepção de tal m étodo indutivo, como critério de verificabilidade,
a especulação m etafísica ou pseudocientífica dependia exclusivamente do em prego im plica um a dem arcação defeituosa.
do m étodo indutivo. Pensavam, portanto (para usar m inha própria term inologia)
que só o m étodo indutivo fornecia um critério de demarcação satisfatório. 6) Se afirm arm os que a indução nos leva a teorias prováveis (e não certas)
nada do que precede se altera fundam entalm ente. (Vide em especial o cap. 10 des-
Encontrei recentem ente um a interessante form ulação dessa crença num ^ te livro.)
notável livro de filosofia, escrito por um grande físico — N atural Philosophy o f
Cause and C hance, de Max B o rn .18 Escreve o autor: “A indução nos perm ite
generalizar um certo núm ero de observações, sob a form a de regra geral: a de que
a noite segue o dia, por exem plo... Mas, em bora na vida quotidiana não tenham os 1 IX
um critério definido de validade p ara a indução, ... a ciência desenvolveu um I Se é verdade, como sugeri, que o problem a da indução é apenas um exem-
código ou norm a p ara sua aplicação” . Born não revela o conteúdo desse código da , pio ou um a faceta do problem a da dem arcação, a solução dad a a este últim o
indução mas salienta que “não há um argum ento lógico” que apoie sua aceitação; ] deverá solucionar tam bém o prim eiro. É esta a m inha opinião, em bora a conclusão
trata-se de “um a questão de fé” , pelo que o autor se inclina a qualificar a indução ’ possa não parecer im ediatam ente óbvia.
de “princípio m etafísico” . Por que razão a crença de que deve existir um código de í
regras indutivas válidas? A resposta fica clara quando o autor se refere ao “grande * Para um enunciado sucinto do problem a da indução podemos reto rn ar a
núm ero de pessoas que ignoram ou rejeitam a regra da ciência, entre as quais os Born, que escreve: “... não há observação ou experim entação, por mais extensas,
que possam proporcionar a não ser um núm ero finito de repetições”. P ortanto, “a
proposição de um a lei — B depende de A — transcende sem pre a experiência.
18 — Oxford, 1949, pãg. 7.

i ________________________________
84 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 85

X
C ontudo, fazemos todo o tem po esse tipo de afirm ativa, baseando-nos às vezes em
fun dam entação m uito lim itad a” . 19
Assim se soluciona o problem a da indução. C ontudo, n ad a parece menos
necessário do que um a solução tão simples p ara problem a filosófico tão antigo.
Em outras palavras, o problem a lógico da indução se origina (a) na des­
W ittgenstein e seus discípulos sustentavam que não existem problem as filosóficos
coberta de H um e (tão bem expressa por Born) de que é impossível justificar um a
genuínos;21* de onde se conclui que eles não podem ser solucionados. N a m inha
lei pela observação ou por meio de experiências, um a vez que ela “transcende sem ­
geração há outras pessoas que acreditam na existência de tais problem as e se
pre a experiência” ; (b) no fato de que a ciência enuncia e usa leis todo o tem po.
aproxim am deles com respeito; às vezes porém parecem respeitá-los demais,
(Como H um e, Born se im pressiona com a “fundam entação lim itad a” em que se
acreditando talvez que sejam insolúveis ou que constituem um tab u . Essas pessoas
pode basear um a lei — isto é, o pequeno núm ero de observações.) A crescenta­
ficam chocadas e horrorizadas diante da alegação de que pode haver um a solução
ríamos tam bém o princípio do em pirism o, (c) o fato de que na ciência só a obser­
simples, clara e lúcida para qualquer um desses problem as. Se algum a solução é
vação e a experiência podem decidir a respeito da aceitação ou rejeição das afir­
possível, ela deve ser profunda — ou, pelo menos, com plicada.
mativas, inclusive das leis e teorias.
De qualquer m odo, estou ainda à espera de um a crítica simples, lúcida e
Esses três princípios parecem à prim eira vista contradizer-se — nisso consiste
clara à solução que propus pela prim eira vez em 1933, na carta ao editor de Erken-
o problem a lógico da indução.
ntnis 22, reproduzida mais tarde em The Logic o f Scientific Discovery.
i
D iante dessa contradição, Born abandona o princípio do em pirism o (da
Como é n atu ral, é possível inventar novos problem as relacionados com a in ­
m esm a form a como K ant e m uitos outros antes dele, inclusive B ertrand Russel) em
dução, diferentes dos que form ulei e solucionei (sua form ulação representou já um
favor do que denom ina de “princípio m etafísico” — um princípio metafísico que
bom passo p ara a solução). Mas ainda não encontrei qualquer reform ulação do
não chega sequer a form ular, descrevendo-o vagam ente como um “código”, ou
problem a que não possa ser solucionada facilm ente a p a rtir da velha solução que
“reg ra” . Incidentalm ente, jam ais encontrei q ualquer enunciado desse princípio que
propus. Vamos exam inar aqui algum as dessas reform ulações.
parecesse promissor e respeitável.
Uma indagação que se pode fazer é a seguinte: como “saltam os” de um a
Mas na verdade os princípios (a) a (c) não se chocam . E o que podemos p e r­
afirm ativa derivada da observação p ara um a teoria?
ceber quando entendem os que a aceitação de um a lei ou teoria pela ciência é
apenas ten ta tiva; isso quer dizer que todas as leis e teorias são simples conjecturas,
Em bora a pergunta pareça ser mais psicológica do que filosófica, é possível
ou hipóteses (posição que cham o às vezes de “hipotetism o”); podemos rejeitar q u a l­
respondê-la de form a até certo ponto positiva sem invocar a psicologia. Podemos
quer lei ou teoria com base em novas evidências, sem que isso im plique o descarte
dizer, em prim eiro lugar, que o “salto” não se dá a p artir de um a afirm ativa d e ­
da antiga evidência que nos levou originalm ente a a c e itá-la.20
rivada da observação, mas de um a situação-problem a; a teoria precisa perm itir a
explicação das observações que criaram o problem a (isto é: precisa perm itir sua
O princípio do em pirism o (c) pode ser preservado de form a integral, pois o dedução da teoria, ju n tam en te com outras teorias aceitas e outras afirm ativas
destino de um a teoria — sua aceitação ou rejeição — é decidido pela observação e derivadas da observação — conjunto a que cham am os de ^‘condições iniciais”). Isso
pela experim entação: pelo resultado de testes. E nquanto um a teoria resiste aos tes­ significa que há um núm ero m uito grande de possíveis teorias — “boas” e “m ás”
tes mais rigorosos que podemos conceber, ela é aceita; quando isso deixa de acon­
—, o que parece indicar que nossa pergunta não foi ainda respondida.
tecer, ela é rejeitada. Mas a verdade é que as teorias nunca são inferidas d ire ta ­
m ente da evidência em pírica. N ão há nem um a indução psicológica nem um a in ­
dução lógica. Só a falsidade de um a teoria pode ser inferida da evidência em pírica, Por outro lado, fica bem claro que, quando propusem os nossa pergunta,
inferência que é puram ente dedutiva. tínham os em m ente mais do que chegamos a p erg u n tar (“De que form a saltamos
de um a afirm ativa derivada da observação para um a teoria?”). A parentem ente, o
H um e dem onstrou que não é possível inferir um a teoria de afirm ativas
que queríam os p erg u n tar era: “Como saltamos de um a afirm ativa derivada da o b ­
derivadas da observação; mas isso não afeta a possibilidade de refutar um a teoria
servação para um a “òoa” teoria?” A resposta seria: “Saltando prim eiro p ara um a
por meio de afirm ativas desse tipo. É o pleno reconhecim ento dessa possibilidade
teoria qualquer; depois, testando essa teoria, p ara ver se ela é boa ou m á — isto é,
que torna perfeitam ente clara a relação entre as teorias e as observações.
aplicando reiteradam ente o m étodo crítico, de m odo a elim inar m uitas teorias
inadequadas e inventando m uitas teorias novas” . N em todos são capazes disso, mas
Isso resolve o problem a da alegada contradição entre os princípios (a), (b) e
não há outro meio.
(c); e resolve tam bém o problem a da indução proposto por H um e.

19 — Natural Philosophy o f Cause and Chance, pág. 6.


20 — Não duvido de que Born e outros concordassem com a afirmativa de que as teorias só são aceitas 21 — Wittgenstein ainda pensava assim em 1946.
tentativamente. Mas a crença difundida na indução demonstra que as implicações mais amplas deste 22 — Vide nota anterior sobre o assunto, neste mesmo cap.
ponto de vista raramente são percebidas.
86 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CIÊNCIA: CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 87

H á outras perguntas que são tam bém propostas. Já se disse que o problem a Creio que aqueles que form ulam o problem a da indução em termos da
original da indução é o da sua justificação — como justificar a evidência indutiva. razoabilidade das nossas crenças têm toda a razão em não se satisfazerem com um
Se responderm os alegando que a cham ada “inferência indutiva” é sempre inválida desespero cético da razão, hum eano ou pós-hum eano. Precisamos com efeito re ­
— que p o rtan to não pode ser justificada — surge im ediatam ente um novo p ro ­ jeitar o ponto de vista de que a crença na ciência é tão irracional quanto a crença
blem a: como justificar o m étodo das tentativas. A resposta será: esse m étodo eli­ nas práticas mágicas prim itivas — que os dois tipos de crença im plicam a mesma
m ina as teorias falsas por meio de afirm ativas derivadas da observação; sua ju s­ aceitação de um a “ideologia to tal” — tradição ou convenção baseada na fé. Mas
tificação é a relação p uram ente lógica da dedutibilidade que nos perm ite afirm ar a precisamos ter todo o cuidado se form ulam os nosso problem a, como H um e, em
falsidade de assertivas universais se aceitam os a verdade de afirm ativas singulares. termos da razoabilidade das nossas crenças. N a verdade, deveríamos dividir o
problem a em três partes — o conhecido problem a da dem arcação (como distinguir
O u tra p ergunta que tam bém se ouve é a seguinte: por que razão é razoável a ciência da m ágica prim itiva); o problem a da racionalidade do procedim ento
preferir afirm ativas que não foram refutadas a outras que puderam ser refutadas? crítico ou científico (e o papel exercido pela observação); finalm ente, o problem a
Tem havido respostas bastante peculiares a essa pergunta — por exemplo, respostas da racionalidade da nossa aceitação das teorias, p ara fins práticos e científicos.
pragm áticas. Do ponto de vista pragm ático, porém , o problem a não existe, já que Tivemos a ocasião de propor soluções aqui p a ra esses três problem as.
as teorias falsas m uitas vezes são eficazes; assim, por exemplo, m uitas das fórm ulas
usadas em engenharia e em navegação são reconhecidam ente falsas, mas como É necessário ter cuidado tam bém p ara não confundir o problem a da r a ­
oferecem excelentes aproxim ações e são fáceis de usar são em pregadas com toda zoabilidade do procedim ento científico e da aceitação (tentativa) dos resultados
confiança por pessoas que não ignoram sua falsidade. desse procedim ento — isto é, das teorias científicas — com o problem a da r a ­
cionalidade ou não da crença na eficácia desse pro ced im en to . N a p rática, na inves­
A única resposta correta, portanto, é a mais direta: porque estamos sem pre tigação cientítica, essa crença é inevitável e razoável, já que não existe alternativa
buscando a verdade (em bora nunca possamos ter a certeza de havê-la encontrado) m elhor. Ela é injustificável, porém , num sentido teórico, como dem onstrei (na
e porque a falsidade das teorias refutadas é conhecida ou aceita, enquanto as seção V). Além disso, se pudéssemos provar, com base em argum entação lógica de
teorias ainda não refutadas podem ser verdadeiras. Aliás, não é verdade que te ­ caráter geral, que a busca científica tem grande probabilidade de êxito, não p o ­
nham os preferência por todas as teorias não refutadas — somente por aquelas que, deríam os com preender a razão por que o êxito foi sem pre m uito raro, na longa his­
à luz da nossa avaliação crítica, parecem m elhores do que suas concorrentes: as que tória dos esforços hum anos dirigidos para o conhecim ento do m undo.
resolvem nossos problem as, foram bem testadas e a respeito das quais pensamos
(m elhor dito: conjecturam os ou esperamos, tendo em vista outras teorias aceitas O utra m aneira de propor o problem a da indução é fazê-lo em termos
provisoriam ente) que continuarão resistindo à experim entação. probabilísticos. Se T é um a teoria e E a evidência em seu favor, podem os indagar a
probabilidade de T , em função de E = P(T, E). H á quem acredite que o problem a
Já se afirm ou tam bém que o problem a da indução é o seguinte: “Por que é da indução pode ser form ulado assim: como arm ar um cálculo de probabilidade
razoável acred itar que o futuro repetirá o passado?” Uma resposta satisfatória a essa que nos perm ita estim ar a probabilidade de qualquer teoria (T), à luz da evidência
pergunta deveria deixar claro que essa crença é efetivam ente razoável. Respondo em pírica disponível (E). Seria possível dem onstrar que P(T ,E ) cresce com a
que é sem dúvida razoável acreditar que o futuro diferirá m uito do passado sob acum ulação da evidência em pírica E, alcançando valores elevados — valores pelo
vários pontos de vista; por outro lado, é perfeitam ente razoável agir com base na menos maiores do que 1/2.
prem issa de que ele repetirá o passado em m uitos aspectos; que as leis que foram
bem testadas continuarão em vigor (não temos um a premissa m elhor na qual
Em The Logic o f Scientific Discovery expliquei por que acredito que essa
pudéssemos basear nossa conduta). No entanto, é tam bém razoável adm itir que es­
abordagem seja fundam entalm ente e rrô n e a .23 Para to rn ar isso bem claro, in ­
sa conduta nos criará às vezes problem as sérios, porque algum as das leis nas quais
troduzi um a distinção entre probabilidade e grau de confirm ação (ou corrobú-
hoje temos confiança podem não merecê-la. (Lembrem-se do “sol da meia-noite”!)
ração) — o term o “confirm ação” tem sido de tal form a usado, e abusado, nos ú l­
Poder-se-ia mesmo dizer que, a julgar pela nossa experiência passada e pelo co­
timos tempos, que decidi abandoná-lo aos verificacionistas, passando a usar ex­
nhecim ento científico geral de que dispomos, o futuro não será como o passado
clusivamente a expressão “g ra u .d e corroboração” ; já o term o “probabilidade é
possivelmente na m aior parte dos aspectos. A água algum as vezes não m atará a
m elhor em pregado em alguns dos muitos sentidos que satisfazem o conhecido cál­
sede e o ar sufocará aqueles que o respirarem . Uma solução aparente para esta
culo de probabilidade — axiom atizado, por exem plo, por Kaynes, Jeffreys e por
contradição é afirm ar que o futuro se assem elhará ao passado no sentido de que as
mim mesmo. N aturalm ente, a escolha da term inologia não será decisiva, desde que
leis naturais não se alterarão — mas essa não é um a resposta elucidativa, porque só
não se presum a, de form a acrítica, que o “grau de corroboração deve ser ta m ­
nos referim os a um a “lei n a tu ra l” quando estamos convencidos de que observamos
bém um a probabilidade — isto é, que precise satisfazer o cálculo de probabilidade. 23
um a regularidade im utável; se descobrirmos algum a alteração na form a como ela
se m anifesta não continuarem os a cham á-la de “lei n a tu ra l” . Como é n atu ral, nossa
busca pelas leis n aturais indica que esperamos encontrá-las; acreditam os que elas
23 — L. Sc. D., cap. X, especialmente seções 80 a 83; e também a seção 34. Vide também minha nota
existem . Mas nossa crença em q ualquer lei n atu ral específica só pode ter como fu n ­ sobre “Um Conjunto de Axiomas Independentes para a Probabilidade”, m Mtnd, N.S. 47, 1938, pág.
dam ento o fracasso das tentativas críticas feitas para refutá-la. 275).
88 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES

No m eu livro expliquei por que razão nos interessamos por teorias que
apresentam um grau de corroboração elevado. Expliquei tam bém por que seria um
erro concluir daí que estamos interessados em teorias altam ente prováveis, lem ­
brando que a probabilidade de um a afirm ativa (ou de um conjunto de afirm ativas)
é tan to m aior q uanto menos ela inform ar; é o inverso do seu conteúdo ou poder
dedutivo — e, por conseguinte, da sua capacidade de explicação. Por isso, toda
afirm ativa interessante e poderosa terá necessariam ente um a probabilidade re ­
duzida — e vice-versa. Assim, um a afirm ativa de alta probabilidade terá pouco in ­
teresse científico, porque dirá pouco, terá pouca capacidade de explicação. Em bora
procurem os teorias com um grau elevado de corroboração, como cientistas não es­
tamos interessados em teorias de alta probabilidade, mas sim em explicações; isto
é: queremos teorias poderosas e improváveis .24 Q ponto de vista oposto — de que a Apêndice
ciência procura a alta probabilidade — é um desenvolvimento característico do
verificacionismo: se não podemos verificar um a teoria, ou certificar-nos dela por
meio da indução, voltamo-nos p ara a probabilidade como um a espécie de Ersatz, ALGUNS PROBLEM AS DA FILOSOFIA DA CIÊN CIA
de substituição da certeza, na esperança de que a indução poderá nos dar pelo
menos um a certa g aran tia. Os prim eiros três itens desta lista de problem as adicionais se relacionam com
o cálculo de probabilidade.
Exam inei os dois problem as da dem arcação e da indução de form a exten­
siva. C ontudo, como estou procurando relatar o trabalho que realizei neste cam po, (1) Teoria probabilística baseada na frequência. Q uando escrevi The Logic
terei que acrescentar, num apêndice, algum as palavras sobre outros problem as aos o f Scientific Discovery, estava interessado em desenvolver um a teoria da p ro b a ­
quais me dediquei entre 1934 e 1953. Fui levado à m aior parte desses problem as bilidade consistente, como ela é em pregada na ciência: quer dizer, um a teoria
pela tentativa de exam inar quais seriam as conseqüências das soluções apresentadas probabilística estatística, baseada na freqüência. Mas em preguei tam bém outro
aos dois problem as básicos — da dem arcação e da indução. O tem po não me p e r­ conceito, que denom inei “probabilidade lógica” . Senti a necessidade de generalizar
m ite continuar a n arrativa, nem contar-lhes como os antigos problem as deram — de chegar a um a teoria form al da probabilidade que perm itisse diferentes in ter­
origem a novos problem as. Como não posso sequer d ar início aqui a um exame pretações: a) como um a teoria da probabilidade lógica de afirm ativas relacionadas
desses novos problem as, terei que lim itar-m e a fazer um a lista deles, com algumas com determ inada evidência, incluindo um a teoria da probabilidade lógica absoluta
palavras de explicação. Contudo, mesmo um a lista simples como esta poderá ter — isto é, da m edida da probabilidade de um a afirm ativa baseada em evidência
sua utilidade, servindo p ara d ar um a idéia da fertilidade do m étodo que em ­ zero; b) como um a teoria da probabilidade de eventos de qualquer conjunto de
preguei. Ilustrará a aparência que têm nossos problem as e poderá m ostrar quantos eventos. Para solucionar esse problem a, elaborei um a teoria bastante simples, que
problem as existem, convencendo-nos assim de que não é necessário que nos perm ite um certo núm ero de interpretações adicionais, podendo ser usada como
preocupem os em saber se os problem as filosóficos existem realm ente, ou em saber um cálculo do conteúdo, de sistemas dedutivos ou de classes (de álgebra booleana);
em que consiste a filosofia. Por im plicação, essa lista contém um a desculpa pela ou ainda como cálculo de inclinações (propensities). 25
m inha falta de disposição para rom per com a antiga tradição que consiste em te n ­
tar resolver os problem as com a ajuda de argum entos racionais, em m inha in ca­
pacidade de p articip ar plenam ente de certos desenvolvimentos, tendências e in ­ 25 — Vide minha nota em Mind, loc. cit. O sistema axiomático que aparece ali para a probabilidade
clinações da filosofia contem porânea. 24* elementar (não contínua) pode ser simplificado da seguinte forma (“x” denota o complemento de x; “xy”
denota a intersecção ou conjunção de x e y):
(Al) P (xy) > P (yx) comutação
24 — Uma definição probabilística (vide nota seguinte) de C (T,E) — isto é, do grau de corroboração (A2) P (x (yz)) > P ((xy) z) associação
(de uma teoria T, relacionada com a evidência E) — que satisfaz as exigências indicadas em L. Sc. D.,
seções 82 e 83, é a seguinte: (A3) P (xx) ^ P (x) tautologia
C (T,E) = E (T,E) (1 + P (T) P (T,E) (Bl) P (x) > p (Xy) monotonia
onde E (T,E) = (P (E,T) — P(E)) / (P (E,T) T P (E)) mede, de modo não aditivo, b poder expli- (B2) P (xy) + P (xy)= P (x) adição
catório de T com relação a E: Note-se que C(T,E) não é uma probabilidade, pode ter valor entre —1
(refutação de T por E) e C (T,T) 4* + 1. Afirmativas T enunciadas como leis e que não podem ser (B3) (x) (Ey) (P (y) # O e P (xy) = P (x) P (y) multiplicação
verificadas não chegam a alcançar C (T, E) = q (T,T), com base na evidência empírica E. C (T,T) é (Cl) Se P (y) * O, então P (x,y) = P (xy)/P (y)
o grau de corroborabilidade de T, igual ao grau de testabüidade, ou ao conteúdo de T. Devido às
exigências implicadas pelo ponto (6), no fim da seção I, acima, não creio porém que seja possível for­ (C2) Se P (y) O, então P (x,y) = P (x,x) = P (y,y) = definição da probabilidade relativa.
malizar completamente a idéia da corroboração (ou, como costumava dizer antes, da confirmação).
Acrescentado em 1955: Vide também minha nota “Grau de Confirmação”, no British Journal for the
Phtlosophy o f Science, 5, 1954, pág. 143. Consegui simplificar a definição da seguinte forma: O axioma C2 é válido, nessa forma, só para a teoria finitista; pode ser omitido, desde que estejamos
C (T,E) = (P (E,T) - P (E) / (P (E,T) - P (E,T) + P (E)) preparados para aceitar uma condição tal como P (y) 4 O na maior parte dos teoremas sobre a pro­
Vide também o B.J.P.S., 6, 1955, pág. 56. babilidade relativa. Para a probabilidade relativa, A l) — (B2) e (Cl) —(C2) é o suficiente; (B3) não é
90 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES ALGUNS PROBLEMAS DA FILOSOFIA DA CIÊNCIA 91

(2) O problem a da interpretação da probabilidade em termos de incli­


nações teve origem no m eu interesse pela teoria quântica. Acredita-se geralm ente (4) H á um certo núm ero de problem as adicionais relacionados com a in te r­
que a teoria q u ântica precisa ser in terp retad a estatisticam ente; não há dúvida de pretação do form alism o de um a teoria quântica. N um dos capítulos de The Logic
que a estatística é um instrum ento essencial p ara os testes em píricos. Neste ponto, o f Scientific Discovery critiquei a interpretação “oficial” — e ainda estou conven­
porém , considero que os perigos da teoria do significado que se baseia na testa - cido de que m inha crítica é válida, exceto num ponto: um exem plo que usei, e r­
bilidade se tornam bastante claros. Em bora os testes da teoria sejam estatísticos, e radam ente (na seção 77). Mas, desde que escrevi aquele texto, Einstein, Podolski e
em bora a p ró p ria teoria (por exem plo, a equação de Schr^dinger) possa im plicar Rosen publicaram um experim ento m ental que pode substituir m eu exemplo —
conseqüências estatísticas, não é necessário dar-lhe um a significação estatística: em bora a tendência desses autores (determ inista) seja bem diferente da m inha. A
pode-se ter exemplos de inclinações {propensities) objetivas (semelhantes a forças m eu ver, a crença de Einstein no determ inism o (que tive a oportunidade de debater
generalizadas) e de “cam pos de inclinações” {fields o f propensities), mensuráveis com ele) não tem fundam ento e é infeliz: enfraquece sua crítica que, deve-se e n ­
por processos estatísticos sem que em si mesmos eles tenham caráter estatístico. fatizar, é bastante independente do seu determ inism o.
(Vide o últim o parág rafo do cap. 3 deste livro).
(5) Q uanto ao problem a do determ inism o propriam ente dito, tenho p ro ­
(3) A estatística é em pregada de m odo geral, nesses casos, em testes e m ­ curado dem onstrar que mesmo a física clássica, que é determ inista num certo sen­
píricos de teorias que, em si mesmas, não precisam ser puram ente estatísticas — o tido prim a facie, pode ser interp retad a erroneam ente se usada p ara sustentar um a
que levanta o problem a da refutabihdade das afirmativas estatísticas, tratad o (mas visão determ inista do m undo físico, no sentido de Laplace.
não de form a com pletam ente satisfatória) na edição de 1934 de The Logic o f
Scientific Discovery. Descobri mais tarde, porém , que naquele livro se encontram , (6) Sob esse aspecto, posso m encionar tam bém o problem a da sim plicidade
prontos p ara ser usados, todos os elementos necessários para elaborar um a solução — a sim plicidade de um a teoria, que procuro relacionar com seu conteúdo. Pode-
satisfatória; alguns exemplos que forneci perm item a caracterização m atem ática de se m ostrar que a sim plicidade de um a teoria, como é habitualm ente cham ada, está
um a classe de infinitas seqüências casuais que são, num certo sentido, as sequências associada à im probabilidade lógica e não à probabilidade, como m uitas vezes se
mais curtas do seu tipo. 26 tem suposto. Isso, de fato, nos perm ite deduzir, a p a rtir da teoria da ciência es­
boçada acim a, a razão pela qual é sempre vantajoso testar as teorias mais simples
em prim eiro lugar. Elas são as que m elhor se subm etem a testes severos: um a teoria
necessário. Para a probabilidade absoluta, (Al) —(B3) é necessário e suficiente: sem (B3) não será pos­ simples tem sempre m aior grau de testabilidade do que um a m ais com plicada. 27
sível, por exemplo, derivar a definição do absoluto em termos de probabilidade relativa, (Creio, contudo, que isso não resolve todos os problem as a respeito da sim plicidade.
P ( x ) = P (x, XX) Vide tam bém o cap. 10, seção xviii.)

nem seu corolário mais fraco (7) O problem a do caráter ad hoc de um a hipótese, e dos graus que esse
caráter pode assumir, está intim am ente ligado ao problem a m encionado acim a.
(x) (Ey) (P (y) * O e P (x) = P (x, y»
Pode-se m ostrar que a m etodologia da ciência (assim como sua história) se torna
do qual (B3) é. o resultado imediato. Assim,(B3), como todos os outros axiomas, com a possível exceção inteligível num m aior nível de detalham ento se presum irm os que o objetivo da
de (C2), expressa parte do sentido desejado dos conceitos envolvidos, e não devemos considerar 1 P(x) ou ciência é obter teorias explicativas de caráter ad hoc o menos acentuado possível:
1 P(x, y), que são deriváveis de (Bl), com (B3) ou com (Cl), “convenções não essenciais” (como Carnap ao contrário da Teoria “m á ”, a “b o a ” teoria não tem caráter ad hoc. Por outro
e outros já sugeriram). Acrescentado em 1955: Desenvolvi mais tarde um sistema de axiomas para a lado, pode-se m ostrar que as teorias probabilísticas d a indução im plicam inadver­
probabilidade relativa que pode ser aplicado a sistemas finitos ou infinitos (no qual a probabilidade ab­
soluta pode ser definida como na penúltima fórmula acima). Os axiomas são: tidam ente (porém necessariam ente) um a regra inaceitável: usa-se sempre a teoria
de caráter ad hoc m ais acentuado, isto é, a que transcende o menos possível a
(Bl) P (x,z) > P (xy,z) evidência disponível. (Vide tam bém m eu trabalho. “The A im o f Science”, m e n ­
(B2) Se P (y,y) ^ P (u,y), então P (x,y) + P(x,x) = P (y,y) cionado em nota, mais adiante.)

(B3) P (xy,z) = P (x,yz) P (y,z) (8) Um problem a im portante é o dos estratos de hipóteses explicativas e das
relações entre eles, que encontram os nas ciências de m aior desenvolvimento teórico.
(Cl) P (x,x) - P (y,y) Afirma-se com freqüência que a teoria de Newton pode ser induzida ou mesmo
deduzida das leis de Kepler e Galileu. Pode-se dem onstrar porém que a teoria de
(Dl) Se ((u) P (x,u) = P (y,u), então P (w,x) = P (w,y)
Newton (inclusive a teoria do espaço absoluto) contradiz, em term os estritos, a de
(El) (Ex) (Ey) (Eu) (Ew) P (x,y) = P (u,w) Kepler (mesmo se nos restringirm os ao problem a dos dois co rp o s,28 ignorando a
Esse sistema é um pouco melhor do que o publicado em B. J. P. S., 6, 1955, pág. 56. O “postulado 3” é
chamado aqui “D l”.
Acrescentado em 1961: Um tratamento bastante completo de todas estas questões poderá ser encontrado 27 — Ibid., seções 41 a 46. Vide também cap. 10, seção xviii.
nos novos apêndices de L. Sc. D. 28 — As contradições mencionadas foram observadas, no caso do problema de vários corpos, por P.
Duhem, The Aim and Structure o f Physical Theory (1905; traduzido para o inglês por P.P. Wiener,
26 — Vide L. Sc. D., pág. 163 (seção 55) e especialmente o nóvo apêndice x vt.
ALGUNS PROBLEMAS DA FILOSOFIA DA CIÊNCIA 93
92 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES

É interessante analisar, do mesmo ponto de vista, a função da língua como


atração m ú tu a entre os planetas) e a de Galileu, em bora, obviam ente, aproxi­ instrum ento. Ao em preender essa análise, descobrimos im ediatam ente que usamos
mações dessas d u as teorias possam ser deduzidas da de Newton. Mas é evidente a linguagem descritiva para fa la r sobre o m undo, o que fornece novos argum entos
que, p artin d o de premissas consistentes, um a inferência dedutiva ou indutiva não em favor do realismo.
pode levar a conclusão que contradiga essas teorias. Essas considerações nos p e r­
m item analisar as relações lógicas entre estratos de teorias, assim como a idéia de Acredito que o operacionalism o e o instrum entalism o devem ser substituídos
aproxim ação em seus dois sentidos: (a) a teoria x é um a “aproxim ação” da teoria y; pelo “teoricism o” , se assim o posso cham ar: o reconhecim ento de que operamos
e (b) a teoria x é um a “boa aproxim ação dos fatos”. (Vide tam bém o cap. 10.) sempre dentro de um a com plexa estrutura de teorias; que nosso objetivo não é sim ­
plesm ente encontrar correlações, m as sim explicações.
(9) A d o u trin a do operacionalismo, ou seja, de que os conceitos teóricos
(10) O próprio problem a da explicação. Tem -se afirm ado com freqüência
devem ser definidos em term os de m edição de operações, suscita um a série de que a explicação científica é a redução do desconhecido p ara o que passamos a
problem as interessantes. C ontra essa d o u trin a, pode-se m ostrar que a m edição conhecer. Se nos referimos à ciência p ura, nenhum a afirm ação poderia estar mais
pressupõe a existência de teorias. N ão há m edição sem teoria, e nenhum a operação longe da verdade. Pode-se afirm ar, sem paradoxo, que, ao contrário, a explicação
pode ser satisfatoriam ente descrita em term os não teóricos. As tentativas de fazer científica é a redução do conhecido p ara o desconhecido. N a ciência p u ra, em
isso são sem pre circulares; por exem plo: p a ra descrever a m edição do com prim en­ oposição a um a ciência aplicada que a considere como “d a d a ” ou “conhecida”, a
to, precisa-se de u m a teoria (rudim entar) do calor e da m edição da tem peratura; explicação é sem pre a redução de certas hipóteses a outras de m aior grau de
esta, no en ta n to im plica o uso de m edidas de com prim ento. universalidade; de fatos ou teorias “conhecidos” a suposições que ainda conhecemos
m uito pouco, e que precisam ser testadas. Neste contexto, são exemplos de grande
A análise do operacionalismo revela a necessidade de um a teoria geral de
interesse a análise do grau de capacidade explicativa e da relação entre a expli­
medição; um a teoria que não considere ingenuam ente a prática da m edição como
cação genuína e fraudulenta, assim como entre a explicação e a previsão.
“d a d a ” , m as que analise sua função nos testes de hipóteses científicas. Isso pode ser
realizado com a ajuda da doutrin a dos graus de testabilidade.
(11) Isso me leva ao problem a da relação entre explicação nas ciências
naturais e explicação histórica (que, de m aneira estranha, é logicam ente um tanto
A d o u trin a do behaviorismo, isto é, de que as teorias devem ser form uladas análogo ao problem a da explicação na ciência pu ra e aplicada); e ao vasto núm ero
em term os de com portam entos prováveis, um a vez que todas as afirm ativas resul­ de problem as no cam po da m etodologia das ciências sociais, especialm ente os da
tantes de testes descrevem com portam entos, está intim am ente ligada ao o p era­ predição histórica, historicismo e determ inism o histórico, e relativismo histórico.
cionalism o, colocando-se em paralelo com ele. Mas essa inferência é tão pouco Eles estão, por sua vez, ligados aos problem as de ordem mais genérica do d e te r­
válida q uanto a d a d o u trin a fenom enológica que afirm a que as teorias devem ser minismo e do relativismo, inclusive os problem as de relativismo lingüístico. 29
form uladas em term os de observações prováveis, um a vez que todas as afirm ativas
resultantes de testes são obtidas m ediante a observação. Essas doutrinas são sem pre (12) Um outro problem a é a análise do que é conhecido como “objetividade
form as da teoria do sentido baseada na verificabilidade, isto é, do indútivism o. científica”. T enho tratad o desse problem a em diversas oportunidades especialm en­
te em relação à crítica da “sociologia do conhecim ento”, como é c h a m a d a .2930
O instrum entalism o, d o u trin a que in terp reta as teorias científicas como ins­
trum entos práticos destinados a finalidades tais como a previsão de acontecim entos (13) Uma m odalidade p articular de solução p ara o problem a da indução
im inentes, está tam bém relacionada intim am ente com o operacionalism o. É deve ser novam ente m encionada, (vide seção iv, acim a), pois m erece um a adver­
inegável que as teorias podem ser usadas desse m odo; o instrum entalism o, contudo, tência. (Soluções deste tipo são apresentadas, via de regra, sem um a form ulação
afirm a que elas são m elhor com preendidas como instrum entos; tenho procurado clara do problem a que se propõem a resolver.) A visão a que me refiro pode ser
dem onstrar que essa visão é errônea com parando as diversas funções das fórm ulas descrita assim: prim eiram ente, pressupõe-se que ninguém duvida seriam ente de
da ciência p u ra e aplicada. Nesse contexto, pode-se igualm ente resolver o problem a que somos capazes, de fa to , de induções bem sucedidas. (M inha sugestão de que is­
da função teórica, isto é, não prática, das previsões. (Vide o cap. 3, seção 5.) so é um m ito, e de que os casos aparentes de indução, quando analisados com
cuidado, revelam-se como aplicações do m étodo das tentativas é tra ta d a com o des­
prezo que recebem as sugestões com pletam ente irrazoáveis.) Afirma-se, então, que
o papel de um a teoria da indução é descrever e classificar nossos planos de ação ou
1954). No caso do problema de dois corpos, as contradições surgem em relação à terceira lei de Kepler,
que pode ser reformulada da seguinte forma: “Considere-se um conjunto qualquer S de dois corpos, de
maneira que um dos corpos possua massa igual à do nosso Sol; então, a ^/T ^ = constante, para qual­
quer conjunto S.” Essa teoria contradiz nitidamente a de Newton, que dá, para unidades adequada­ 29 — Vide meu livro Poverty o f Historicism, 1957, seção 28 e notas 30 a 32; e o apêndice ao segundo
mente definidas, /T% = mQ + m j (onde m0 = massa do Sol = constante, e n q = massa do segun­ volume de Open Society (adicionado à quarta edição, de 1962).
do corpo, que varia segundo o corpo que o problema considere). “aV T ^ = constante”, contudo, é uma
aproximação excelente, desde que a massa variável do segundo corpo seja sempre desprezível em com­ 30 — Poverty o f Historicism, seção 32; L. Sc. D., seção 8; Open Society, cap. 23 e apêndice ao segundo
paração com a do nosso Sol. (Vide também meu trabalho “The Aim of Science ”, Ratio, 1, 1957, págs. 24 volume (quarta edição). Os trechos são complementares.
e seguintes; a seção 15 do pós- escrito ao meu livro Logic o f Scientific Discovery.)
94 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES

procedim entos indutivos e possivelmente discernir os mais eficazes e seguros; q u a l­


quer outra justificativa estará deslocada. A visão a que me refiro se caracteriza, por­
tanto , pela alegação de que a distinção entre o problem a factual de descrever a
m an eira pela qual argum entam os indutivam ente (quid fa cti}) e o de justificar nos­
sos argum entos indutivos {quid, juris}) está deslocada. Afirma-se igualm ente que a
justificação necessária é irrazoável, pois não podemos esperar que argum entos in ­
dutivos sejam “válidos” no mesmo sentido que o são os argum entos dedutivos: a in ­
dução sim plesm ente não é dedução; é irrazoável exigir dela um a conform idade aos
padrões da validade lógica — isto é, dedutiva. Devemos, julgá-la, portanto, segun­
do seus próprios padrões — padrões indutivos — de razoabilidade.
2. A Natureza dos Problemas
Considero essa defesa da indução um equívoco. Ela não só confunde um
m ito com um fato, e o fato alegado com um p ad rão de racionalidade, como ta m ­ Filosóficos e suas Raízes Científicas*
bém pro p ag a um princípio que pode ser usado p ara defender qualquer dogm a
contra qualquer crítica. Além disso, engana-se q uanto ao “status” da lógica form al i
ou “ded u tiv a” . Está tão eng an ad a q uanto aqueles que viam nela a sistematização
das “leis de p ensam ento” factuais, ou seja, psicológicas. Defendo a posição de que a Foi com algum a hesitação que decidi tom ar como ponto de p artid a para es­
indução não se to rn a válida a p a rtir do m om ento em que decidimos adotar suas ta conferência a situação atual da filosofia inglesa, pois acredito que a função do
regras com o p ad rão , ou decretam os que devem ser aceitas; a indução é válida p o r­ cientista e do filósofo é solucionar problem as científicos ou filosóficos e não falar
que adota e incorpora as regras pelas quais a verdade é transm itida de premissas sobre o que ele e outros filósofos estão fazendo ou deveriam fazer. Q ualquer te n ­
(logicam ente mais fortes) p a ra conclusões (logicam ente mais fracas), e pelas quais a tativa honesta e dedicada de resolver um problem a científico ou filosófico, mesmo
falsidade é retransm itida das conclusões p ara as premissas. Essa retransm issão faz que não tenha bons resultados, parece-m e m ais im portante do que um debate
da lógica form al o Organon da crítica racional — isto é, da refutação. sobre problem a como a natureza da ciência ou da filosofia. Mesmo se nos dirigir­
mos a esta últim a questão de form a mais precisa (indagando, por exemplo, qual o
Aos que sustentam a visão que estou criticando, pode-se fazer um a conces­ caráter dos problem as filosóficos), m inha inclinação seria não d ar m uita im p o rtân ­
são no seguinte ponto: ao arg u m en tar das premissas para a conclusão (a “direção cia a esse exercício: acho que ele tem pouco peso, ainda quando com parado com
dedu tiv a”), passamos da veracidade, certeza ou probabilidade das premissas p ara a um problem a m enor da filosofia — como o de saber se toda discussão e toda crítica
correspondente propriedade da conclusão; por outro lado, se argum entam os da devem p artir sem pre de “prem issas” ou “suposições” que perm anecem em si m es­
conclusão p a ra as premissas (num a “direção ind u tiva”), passamos da falsidade, in ­ mas fora do d e b a te .*1
certeza, im possibilidade ou im probabilidade da conclusão p ara a correspondente
propriedade das premissas; em conform idade com o que acabo de afirm ar, deve-Se Q uando disse que a indagação sobre o caráter dos problem as filosóficos é
adm itir que certos critérios (especialm ente o da certeza), aplicáveis na direção mais apropriada do que a pergunta “Que é a filosofia?”, quis insinuar um a das
dedutiva, não se aplicam aos argum entos na direção indutiva. Mesmo essa concep­ razões da futilidade da atual controvérsia a respeito da natureza da filosofia: a
ção se volta, contudo, no final das contas, contra aqueles que sustentam a visão que crença ingênua de que existe de fato um a entidade que podemos cham ar de “fi­
critico; há aí um a presunção errônea de que é possível argum entar na direção in ­ losofia” ou de “atividade filosófica” , com um a “n atu reza” , essência ou caráter
dutiva, em bora não se chegue a um a certeza, mas sim a um a probabilidade de nos­ determ inado. A idéia de que a física, a biologia e a arqueologia existem por si m es­
sas “generalizações” . Essa suposição, contudo, é errônea com relação a todas as mas, como campos de estudo ou “disciplinas” distinguíveis entre si pela m atéria que
idéias intuitivas de probabilidade que já foram sugeridas. investigam, parece-m e resíduo da época em que se acreditava que qualquer teoria
precisava p a rtir de um a definição do seu próprio c o n te ú d o .2 N a verdade não é
Esta é um a lista de apenas alguns dos problem as da filosofia da ciência que possível distinguir disciplinas em função da m atéria de que tratam ; elas se distin­
encontrei no estudo de dois problem as férteis e fundam entais, cuja história p ro ­ guem um as das outras em parte por razões históricas e de conveniência adm inis­
curei relatar a q u i.31
* Pronunciamento na qualidade de presidente do Grupo de Filosofia da Ciência da Sociedade Britânica
para a História da Ciência (hoje conhecido como Sociedade Britânica para a Filosofia da Ciência).
Publicado pela primeira vez no The British Journal for the Phüosophy o f Science, 3, 1952.
3 1 — 0 item (13) foi adicionado em 1961. Entre 1953, quando proferi a conferência, e 1955, quando 1 — Trata-se de um problema menor, na minha opinião, porque pode ser resolvido facilmente, com â
revi seu texto impresso, para as correções tipográficas, a lista do apêndice cresceu consideravelmente; rejeição da doutrina (“relativista”) que dá origem a essa indagação. A resposta, portanto, será negativa
outras contribuições recentes, que tratam temas não incluídos na lista, estão neste volume (especialmen­ (vide o apêndice ao vol. 2o de Open Society, acrescentado à 4a edição do livro, de 1962).
te no cap. 10) e em outros livros meus (vide os novos apêndices de L. Sc. D. e do segundo volume de
Open Society, este último, adicionado à quarta edição de 1962). Vide também meu trabalho “Proba­ 2 — Este é o ponto de vista que chamei de “essencialista” (cf. por exemplo os caps. 2 e 11 de Open
bility Magic, or Knowledge out o f Ignorance", em Dialectica, 11, 1957, pp. 354-374. Society, e a seção 10 de The Poverty o f Historicism).
96 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES 97
A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS

trativa (como a organização do ensino e do corpo docente), em p arte as teorias Em conseqüência, a filosofia não poderia conter nen h u m a teoria. De acordo
que form ulam os p ara solucionar nossos problem as têm a ten d ên cia3 de se desenvol­
com W ittgenstein, sua verdadeira natureza não seria a de u m a teoria, mas sim a de
ver sob a form a de sistemas unificados. Mas essa classificação e essas distinções são um a atividade. A função d a filosofia genuína seria desm ascarar os absurdos fi­
superficiais e têm relativam ente pouca im portância. Estudam os problem as, não
losóficos e ensinar as pessoas a falar de m odo que faça sentido.
matérias: problem as que podem ultrapassar as fronteiras de qualquer m atéria ou
disciplina.
Meu plano consiste em tom ar essa d o u trin a 6 de W ittgenstein como ponto de
Em bora esse fato possa parecer óbvio p ara algum as pessoas, ele é tão im p o r­ p artid a. Procurarei explicá-la (na seção II); defendê-la, até certo ponto; e criticá-la
tante p a ra a presente discussão que vale a pena ilustrá-lo com um exemplo. N ão é (na seção III). Nas seções IV a X I apresentarei exemplos extraídos d a história das
preciso dizer que os problem as estudados pelos geólogos — como a avaliação da idéias científicas.
possibilidade de en co n trar petróleo ou urânio num a determ inada região — p re ­
cisam ser resolvidos com a assistência de certas teorias e técnicas classificadas o r­ Antes de desenvolver m eu plano desejo reafirm ar a convicção de que os
dinariam ente como m atem áticas, físicas e quím icas. E menos evidente porém que filósofos devem filosofar — devem ten tar resolver problem as filosóficos, em vez de
mesmo um a ciência “fu n d am en tal”, como a física atôm ica, pode ter a necessidade falar sobre a filosofia. Se a d o utrina de W ittgenstein fosse verdadeira, ninguém
de em pregar u m a investigação geológica — técnicas e teorias geológicas — p ara poderia filosofar, nesse sentido. Se pensasse assim, ab an d o n aria a filosofia. A con­
resolver problem a relacionado com suas teorias m ais abstratas: por exemplo, o tece porém que não só estou profundam ente interessado em certos problem as fi­
problem a representado pelo teste de predições da estabilidade ou instabilidade losóficos (não me im porta m uito se é “correto” cham á-los assim) m as alim ento a es­
relativa dos átom os com núm ero atôm ico p ar ou ím par. p erança de poder contribuir — um pouco, e m ediante m uito trabalho — p a ra a
sua solução. A única desculpa que posso d a r por estar aqui falando a respeito da
Estou pronto a adm itir que m uitos problem as “pertencem ” de algum a fo r­ filosofia, em vez de filosofar, é a esperança de que, ao cum prir o program a que me
m a a u m a das disciplinas tradicionais, em bora sua solução envolva as disciplinas propus p a ra o preparo desta conferência, poderei enco n trar um a oportunidade
mais diversas. Os dois problem as que m encionei, por exem plo, “pertencem ” à
p ara filosofàr.
geologia e à física, respectivam ente. C ada um deles tem origem n um a discussão
que é característica d a tradição d a disciplina em causa — da discussão de algum a II
teoria, ou de testes em píricos relacionados com essa teoria; e as teorias, ao co n ­
trário dos assuntos, podem constituir um a disciplina (que poderíam os descrever Desde a ascensão do hegelianism o tem havido um a perigosa separação entre
como um a constelação de teorias, um tanto “soltas”, que sofrem constantes d e ­ a ciência e a filosofia. A credito que com razão os filósofos têm sido acusados de
safios, alterações e crescim ento). Mas isso não afeta m eu argum ento no sentido de “filosofar sem conhecim ento factu al” e seus sistemas têm sido descritos com o “sim ­
que a classificação das disciplinas tem relativam ente pouca im portância; que es­ ples fantasias, e até mesmo fantasias im becis” . 7 E m bora o hegelianism o ten h a sido
tudam os problem as, não disciplinas. a influência predom inante no continente europeu e na Inglaterra, a oposição a
Hegel e o desprezo pelo seu caráter pretensioso n u nca désapareceram com pleta-
Mas, haverá problem as filosóficos? A posição atual da filosofia inglesa — m ente. O hegelianism o foi derru b ad o por um filósofo que — como Leibniz, B er­
m eu ponto de p a rtid a — se origina, creio, na doutrina de Ludwig W ittgenstein, keley e K ant — tin h a um sólido conhecim ento da ciência e especialm ente da
que responde negativam ente a essa perg u n ta — todos os problem as genuínos se­
riam científicos; os alegados problem as filosóficos não passariam de pseudopro- m atem ática: B ertrand Russell.
blem as e as alegadas teorias ou proposições filosóficas seriam pseudoteorias e
pseudoproposições: não falsas (se o fossem, suas negações constituiriam verdadeiras
proposições ou teorias) mas simples com binações de palavras sem sen tid o ,45não
mais significativas do que o balbucio inconseqüente de um a criança que não 6 — Há uma falha que se pode perceber desde logo nessa doutrina: ela própria é uma teoria filosófica
apren d eu ain d a a falar. 5 que pretende ter sentido e ser verdadeira. É possível porém que esta crítica seja um pouco vulgar, po­
dendo ser rebatida de duas formas, pelo menos: 1) afirmando que não tem sentido enquanto doutrina,
3 — Tendência que pode ser explicada pelo princípio de que as explicações teóricas são tão mais satis­ mas sim qua atividade (é o que alega Wittgenstein; no fim do seu Tractatus Logico-Philosophicus ele
fatórias quanto melhor apoiadas por provas independentes, porque só sendo muito abrangente pode afirma que quem compreendeu bem o livro deve perceber que não tem sentido, rejeitando-o como se
uma teoria encontrar apoio em provas independentes. afasta uma escada depois de usá-la para atingir uma certa altura); 2) afirmando que não se trata de
4 — “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros” é um excelente exemplo de uma doutrina filosófica, mas sim empírica, enunciando o fato histórico de que todas as aparentes
uma expressão despida de sentido, na acepção técnica de Russell e Wittgenstein, embora tenha cer­ “teorias” propostas pelos filósofos não se ajustam às regras inerentes à linguagem em que são formuladas
tamente sentido no contexto de Animal Farm de Orwell. É interessante que Orwell considerou a pos­ (sendo, portanto, agram atiçais); que não é possível corrigir esse defeito e que todas as tentativas de
sibilidade de introduzir uma linguagem, de uso obrigatório, em que a frase “Todos os homens são enunciá-las com propriedade levaram à perda do seu caráter filosófico (revelando-as, por exemplo,
iguais” deixaria de ter sentido — na acepção técnica de Wittgenstein. como truísmos empíricos ou falsas proposições). Penso que estes dois contra-argumentos resgatam a
doutrina da sua alegada inconsistência, tornando-as assim resistentes ao tipo de crítica mencionado nes­
5 — Como Wittgenstein descreveu seu próprio Tractatus como carente de sentido (vide a nota seguinte), ta nota (vide também a segunda próxima nota).
ele admitiu — pelo menos por implicação — a diferença entre falta de sentido relevante e irrelevante, o
7 — Essas duas citações não são de um crítico científico; ironicamente, constituem a caracterização,
que não afeta seu ponto de vista principal, que estou examinando aqui, a respeito da inexistência de
problemas filosóficos. (Nas notas de Open Society,especialmente as de n.°s 26, 46, 51 e 52, do cap. 11, c pelo próprio Hegel, da filosofia natural do seu predecessor e ex-amigo Schelling. Cf. Open Society, nota
leitor encontrará um exame de outras doutrinas de Wittgenstein). 4 (e texto) do cap. 2.
CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 99

que o filósofo pode fazer é desm ascarar e dissolver os quebra-cabeças lingüísticos


Russell é tam bém o auto r da classificação, estreitam ente relacionada çom a
süa fam osa Teoria dos T ip o s, que fundam enta a visão da filosofia de W ittgenstein: propostos pela filosofia tradicional.
a classificação (criticada no cap. 14) das expressões lingüísticas em: M eu ponto de vista pessoal sobre o assunto é o de que só continuarei a me
1) afirm ativas verdadeiras interessar pela filosofia enquanto tiver problem as filosóficos genuínos p a ra resolver.
2) afirm ativas falsas Não com preendo a atração que pode ter um a filosofia sem problem as. N a tu ra l­
3) expressões desprovidas de sentido, entre as quais seqüências de palavras m ente, sei que há m uitas pessoas que fazem declarações sem sentido; que caiba a
sem elhantes a proposições: as “pseudoproposições”. alguém a tarefa (desagradável) de desm ascarar essas pessoas é concebível, porque a
falta de sentido pode ser perigosa. Acredito porém que algum as pessoas já disseram
Russell em pregou essa distinção p a ra resolver o problem a dos paradoxos coisas sem m uito sentido e que desrespeitavam a gram ática — no entanto extre­
lógicos que tin h a descoberto. P ara isso era essencial distinguir mais especialm ente m am ente interessantes e excitantes, mais valiosas talvez do que certas coisas com
entre 2) e 3). Poderíam os dizer, usando a linguagem o rdinária, que um a afirm ativa sentido ditas por outros. Poderia exem plificar com o cálculo diferencial e o integral
falsa como t “3 vezes 4 é igual a 173” ou ‘‘Todos os gatos são bois” não tem sentido. que, especialm ente na sua form a inicial, eram sem dúvida paradoxais e absurdos
Mas Russell reservou a qualificação “desprovida de sentido” p ara afirm ativas do pelos critérios de W ittgenstein.
tipo que é preferível não descrever sim plesm ente como “afirm ativas falsas” (com
efeito, a negativa de um a proposição falsa, que tenha sentido, será sempre ver­ Esses dois tipos de cálculo alcançaram , depois de cem anos de grandes esfor­
dadeira ; m as a negação prim a fa cie da pseudoproposição “Todos os gatos são ços, um a fundam entação razoável — mas ainda hoje necessitam de algum a elu ­
iguais a 173” é: “alguns gatos não são iguais a 173” — o u tra pseudoproposição, tão cidação. 10 A esse propósito, vale a pena lem brar que foi justam ente o contraste e n ­
insatisfatória q u an to a prim eira. As negativas de pseudo-afirmativas são tam bém tre a ap arente precisão absoluta da m atem ática e o caráter vago e im preciso da
pseudo-afirm ativas, da mesma form a como as negativas de proposições válidas linguagem filosófica que im pressionou profundam ente os prim eiros seguidores de
(verdadeiras ou falsas) são sem pre proposições válidas (falsas ou verdadeiras, res­ W ittgenstein. Se tivesse surgido então um W ittgenstein, usando suas arm as contra
pectivam ente). os pioneiros do cálculo, e conseguisse elim inar sua falta de sentido (o que queriam
os críticos da época — inclusive Berkeley, que fundam entalm ente tin h a toda r a ­
Foi essa distinção que perm itiu a Russell elim inar os paradoxos (que para zão), um dos desenvolvimentos mais fascinantes e filosoficamente m ais im portantes
ele eram pseudoproposições sem sentido). Mas W ittgenstein foi além: movido pos­ da história do pensam ento teria sido estrangulado no nascedouro.
sivelmente pela sensação de que os filósofos (em esçecial os filósofos hegelianos) es­
tavam propondo algo m uito sem elhante aos paradoxos da lógica, usou a distinção W ittgenstein escreveu: “É preciso silenciar a respeito daquilo sobre o que
de Russell p ara denunciar toda filosofia como sendo~estritamente sèm sen tid o . não se pode fa la r”. Se m e lem bro bem , foi Erwin Schrõdinger que retrucou: “Mas é
justam ente quando vale a pena falar!” A história do cálculo o dem onstra bem
Em conseqüência, não poderia haver problem as filosóficos genuínos. Todos — como talvez a história da teoria do próprio Schrõdinger .
os supostos “problem as filosóficos” poderiam ser classificados em q u atro catego­
rias8 9: 1) os p u ram en te lógicos ou m atem áticos, que deveriam ser solucionados por Não há dúvida de que todos devemos trein ar p a ra falar do m odo m ais claro,
preciso, simples e direto que nos for possível. A credito porém que não h á um a só
meio de proposições lógicas ou m atem áticas; 2) os factuais, a serem respondidos
com algum a afirm ativa de ciência em pírica; 3) os que com binam 1 e 2; obra clássica da ciência ou da m atem ática — qualquer livro que m ereça ser lido —
onde não se possa encontrar m uitas pseudoproposições sem sentido (e o que alguns
4) pseudoproblem as sem sentido, tais como: “Todos os gatos são iguais a 173?”
cham ariam de “tautologias”), m ediante a aplicação habilidosa da análise lingüís-
“Sócrates é idêntico?” ou “Existirá um Sócrates invisível, intocável e aparentem ente
impossível de ser conhecido?” tica.

A idéia de W ittgenstein de errad icar a filosofia (e a teologia) com a ajuda de Acredito tam bém que mesmo a adaptação original feita por W ittgenstein da
um a adap tação da teoria dos tipos de Russell era engenhosa e original (ainda mais teoria de Russell se baseia num erro lógico. Do ponto de vista da lógica m oderna
radical do que o positivismo do Com te, do qual se aproxirpa m uito). 9 Essa idéia não parece haver mais qualquer justificativa p ara falar em pseudoproposições (ou
inspirou um a vigorosa escola contem porânea de analistas da linguagem que h e r­
d aram sua crença de que não existem problem as filosóficos genuínos; de que tudo
10 — Aludo à recente construção, por G. Rreisel, de uma seqüência limitada e monótona de racionais,
cujos termos podem ser computados, mas que não possui um limite computável — contrariando assim o
8 -- Wittgenstein Continuava sustentando a doutrina da inexistência de “problemas filosóficos”, com a que parece ser a interpretação prima facie do clássico teorema de Bolzano eWeierstras, mas em concor­
argumentação aqui descrita, quando o vi pela última vez (em 1946, presidindo u ^ tempestuoso encon­ dância aparente com as dúvidas de Brouwer sobre esse teorema.
tro do Clube de Ciências Morais de Cambridge, na oportunidade da apresentação de um trabalho que 10a — Depois da publicação deste trabalho, Schrõdinger disse-me não se lembrar de ter feito essa ob­
escrevi sobre “Existem problemas filosóficos?’’); como nunca vi nenhum dos seus manuscritos inéditos, servação, e que acreditava não ser o autor da frase; mas admitiu que gostava dela. Mais tarde, descobri
circulados particularmente por alguns dos seus alunos, fico a imaginar se chegou a alterar o que des­ o verdadeiro autor: meu velho amigo Franz Urbach.
crevo aqui como sua “doutrina”. Sobre este ponto, contudo — a parte mais fundamental do que en­
sinou, e de maior influência — encontrei seu ponto de vista inalterado. 11 — Antes de Max Born propor sua famosa interpretação probabilística, alguns autores pensavam que
9 — Cf. nota 51 (2), cap. 11. Open Society. a equação de ondas de Schrõdinger era desprovida de sentido (não é essa contudo minha opinião;.
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Rua Senau-ji' PL.: •■■■'. .... ; Rua Sena;
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CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS fI l Os Ô f Íc Ò^E fuW slk^ífeS C lB j® F IC A S 101

erros de tipo ou categoria) nas linguagens ordinárias, que cresceram n atu ralm ente H á pessoas que sentem a necessidade de resolver um problem a — p a ra elas
(ao contrário do que acontece com os cálculos artificiais), desde que as regras con­ um determ inado problem a se torna algo real, de que precisam se lib e ra r.13 Essas
vencionais do costum e e d a g ram ática sejam observadas. Pode-se mesmo dizer que pessoas podem d a r um a contribuição à filosofia m esm o que se p rendam a um
o positivista que nos afirm a, com um ar de iniciado, que estamos usando palavras m étodo ou técnica p articu lar. H á outros porém que não sentem tal necessidade,
sem sentido ou exprim indo coisas sem sentido não sabe literalm ente o que diz — não têm qualquer problem a sério ou urgente para resolver, m as que ainda assim
está apenas repetindo o que ouviu de outras pessoas, que se encontravam na m esma form ulam exercícios nos métodos que estão em m oda — p a ra eles a filosofia é um a
situação. Mas isso im plica um a questão técnica que não posso tra ta r aqui. (Ela é aplicação (um a técnica ou visão especial) e não um a procura. São eles que levam a
desenvolvida, porém , nos caps. 11 a 14 deste livro.) filosofia p ara um pân tan o de pseudoproblem as e charadas verbais, form ulando
pseudoproblem as como se fossem problem as reais (perigo reconhecido por W itt­
genstein) ou persuadindo-nos a nos concentrarm os n a tarefa sem fim e sem sentido
III de desm ascarar o que tom am (com ou sem razão) por pseudoproblem as ou
“charada$” (arm adilha em que caiu W ittgenstein).
Prom eti dizer algum a coisa em defesa do ponto de vista de W ittgenstein. O
que p retendo dizer é, prim eiro, que há m uitos escritos filosóficos (especialm ente da M inha segunda tese é a de que o m étodo prim a fa c ie usado no ensino da
escola hegeliana) que podem ser criticados com justiça por constituírem m ero filosofia pode produzir um a filosofia que atenda à descrição de W ittgenstein. Por
palavrório sem sentido; em segundo lugar, que esse tipo de publicação irrespon­ “m étodo prim a fa c ie usado no ensino da filosofia” (aparentem ente o único m étodo)
sável foi reprim ido — pelo pienos d u ran te algum tem po — pela influência de W it­ quero dizer o convite ao estudante (que adm itim os não estar inform ado sobre a his­
tgenstein e dos analistas da linguagem (em bora provavelm ente a influência mais tória das idéias m atem áticas, cosmológicas e outras idéias científicas e políticas)
saudável nesse sentido tenha sido a de Russell que, com a clareza e o encanto in ­ p a ra ler as obras dos grandes filósofos, como por exem plo Platão, Aristóteles, Des­
com paráveis do seu estilo, dem onstrou o fato de que a sutileza do conteúdo é com ­ cartes, Leibniz, Locke, Berkeley, K ant e Mill. Q ual o efeito dessas leituras? Um
patível com a lucidez e a singeleza do estilo). m undo novo, de abstrações extraordinariam ente vastas e sutis, se abre diante do
leitor — abstrações de nível m uito elevado e difícil. Sua m ente é exposta a idéias e
Estou p rep arad o p a ra conceder mais ainda. P ara defender parcialm ente as argum entos que parecem às vezes não só difíceis de com preender mas tam bém
idéias de W ittgenstein, aceito as duas teses seguintes: irrelevantes — porque o estudante não consegue identificar sua relevância. No e n ­
tanto, ele sabe que são grandes filósofos e que esse é o estilo da filosofia. Fará p o r­
A p rim eira é a de que toda filosofia — especialm ente toda “escola filosófica” tanto um esforço p ara ajustar sua m ente ao que pensa (erradam ente, como vamos
— pode degenerar de tal form a que seus problem as se tornem praticam ente in- ver) serem seus pontos de vista. O estudante te n ta rá usar aquela" estranha lin ­
diferenciáveis de “pseudoproblem as” , e seu jargão praticam ente indistinguível de guagem , seguir as espirais tortuosas da argum entação apresentada,chegando talvez
um ling u ajar destituído de q ualquer sentido. Conform e procurarei dem onstrar, es­ a se am arrar nos seus nós. Alguns aprenderão esses truques de form a superficial;
ta é u m a conseqüência da cum ulatividade e da falta de ab ertu ra do pensam ento outros com eçarão a se deixar fascinar. Mas considero digno de respeito aquele que,
filosófico; a degeneração das escolas filosóficas, de seu lado, é u m a conseqüência da depois desse esforço, chega ao que se poderia descrever como a conclusão de W itt­
crença errônea de que é possível filosofar sem ser a isso obrigado po r problem as sur­ genstein: “A prendi o jarg ão tão bem quanto qu alq u er o u tra pessoa: um a lin ­
gidos fo ra do cam po da filosofia — na m atem ática, por exem plo, na cosmologia, guagem inteligente e atrativa. N a verdade, perigosam ente cativante, porque a ver­
política, religião ou n a vida social. Em outras palavras, m inha prim eira tese é de dade simples é que se tra ta de um a tem pestade num copo d ’água — um m onte de
que os problem as filosóficos genuínos têm sem pre raízes em problem as urgentes absurdos”.
fo ra do cam po da filo so fia , e m orrem se perdem essas raízes. Nos esforços que
fazem p a ra resolvê-los, os filósofos podem seguir o que parece a alguns um a téc­ A m eu ver há um grande equívoco nessa conclusão; contudo, é a conclusão
nica ou m étodo filosófico, um a chave segura p ara o êxito filosófico. 12 N a verdade, quase inescapável do m étodo prim a fa cie de ensinar filosofia, que descrevi. N ão
porém , não existem tais m étodos ou técnicas. Aliás, n a filosofia os m étodos têm nego, n atu ralm en te, que alguns estudantes m uito bem dotados podem encontrar
pouca im portância: desde que produza resultados susceptíveis de discussão r a ­ nas obras dos grandes filósofos m uito m ais do que o exem plo sugere — e sem se
cional, qualquer m étodo é legítim o. O que im porta não é o m étodo ou as técnicas, deixar iludir. De m odo geral, contudo, a possibilidade que tem o estudante de des­
mas a sensibilidade aos problem as e um a paixão ardorosa pela sua solução: como cobrir os problem as extrafilosóficos (m atem áticos, científicos, m orais e políticos)
diziam os gregos, o dom de m aravilhar-se com o m undo. que inspiraram os grandes filósofos é bem reduzida. G eralm ente esses problem as só
podem ser identificados pelo estudo da história das idéias científicas, especialm ente
12 — É interessante notar que os imitadores sempre se inclinaram a acreditar que o “mestre” que lhes
da m atem ática e das ciências, d u ran te o período em questão; o que pressupõe, por
serve de modelo usava um método ou truque secreto. Diz-se que nos dias de J.S.Bach alguns músicos sua vez, considerável fam iliaridade com a m atem ática e a ciêilcia. Só ao com preen­
acreditavam que ele tinha uma fórmula secreta para construir temas de fuga. E também interessante der a situação das ciências em determ inada época, o estudante entenderá que os
observar que todas as filosofias que se tornaram moda ofereceram a seus discípulos uma espécie de grandes filósofos daquela época p ro curaram resolver problem as concretos e u rgen­
método para alcançar resultados filosóficos. Foi o que aconteceu com o essencialismo de Hegel, que en­
sinava como elaborar ensaios sobre a essência, a natureza ou idéia de qualquer coisa — a alma, o
universo ou a universidade; o mesmo se pode dizer a respeito da fenomenologia de Husserl, do existen­ 13 — Aludo aqui a uma observação do professor Gilbert Ryle, que afirma na pág. 9 dò seu livro Con­
cialismo e da análise da linguagem. cept o f Mind\ “Fundamentalmente, estou procurando eliminar do meu sistema alguns distúrbios.”
102 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 103

de duas classes exclusivas: as afirm ativas factuais (sintéticas “a posteriori”), p e rte n ­


tes, que não podiam ser afastados. E só assim poderá ter um quadro diferente das
centes às ciências em píricas, e as afirm ativas lógicas (analíticas “a p rio ri,f), p erten ­
grandes filosofias — q uadro que lhe m ostrará como ós aparentes absurdos têm um
centes exclusivamenté à lógica form al ou à m atem ática. Em bora extrem am ente
sentido.
valiosa para um a descrição superficial, essa dicotom ia simples é simples dem ais
T en tarei ilustrar essas duas teses com exemplos. Antes, porém , vou su- p ara m uitos pro p ó sito s.1415 Feita sob encom enda, por assim dizer, p ara excluir a
m arizar m inhas idéias sobre o assunto e “ajustar as contas” com W ittgenstein. existência dos problem as filosóficos, não consegue chegar a esse resultado; mesmo
se a aceitarm os podemos sem pre alegar que os problem as factuais, lógicos ou h í­
bridos, em certas circunstâncias, podem ser filosóficos.
M inhas duas teses correspondem à afirm ativa de que como a filosofia tem
raízes profundas em problem as não filosóficos, o julgam ento negativo dé W ittgens­
IV
tein é de m odo geral apropriado, na m edida em que se aplica a filosofias que es­
queceram suas raízes extrafilosóficas; e na m edida em que essas raízes são facilm en­ Volto-me agora p ara o m eu prim eiro exem plo: Platão e a crise do
te esquecidas pelos filósofos que “estudam ” filosofia, em vez dè serem forçados à a tomismo original grego.
atividade filosófica pela pressão de problem as não filosóficos.
M inha tese é que a d o utrina filosófica central de Platão, a cham ada teoria
R esum iria da seguinte form a m inha opinião sobre a d o u trina de W ittgens­
das form as ou idéias, não pode ser entendida ad equadam ente exceto dentro de um
tein : talvez seja verdade, de m odo geral, que não existem problem as filosóficos
contexto extrafilosõfico 15 — mais especialm ente, o contexto da situação -
“puro s” ; na verdade, q uanto mais puro um problem a filosófico m ais se perde sua
problem a da ciência g re g a 16, em p articular no que se refere à noção de m atéria
significação original, m aior o risco de que sua discussão degenere num verbalismo
resultante do descobrim ento do caráter irracional da raiz q u a d ra d a de dois. Se
vazio. Por outro lado, existem não só problem as científicos genuínos m as tam bém
m inha tese está correta, a teoria de Platão até hoje não foi perfeitam ente com­
problem as filosóficos genuínos. Mesmo q uando a análise revela que esses problem as
preendida . (N aturalm ente, é duvidoso que um a “ perfeita com preensão” seja pos­
contêm com ponentes factuais, não é preciso classificá-los como científicos. Por
sível algum dia). Um a conseqüência m ais im portante seria a de que ela não pode
outro lado, ainda quando podem ser solucionados com meios exclusivamente ló ­
gicos, não precisam ser qualificados como p uram ente lógicos ou tautológicos. H á
situações análogas na física, por exem plo, onde o problem a de explicar as séries de
14 — Já numa tese defendida em 1934, tive a oportunidade de mostrar que uma teoria como a dé New-
linhas espectrais (com o em prego de um a hipótese sobre a estrutura atôm ica) pode ton pode ser interpretada como factual ou como consistindo em definições (no sentido de Poincaré e Ed-
ser solucionado m ediante cálculos m atem áticos. O que tam bém não quer dizer que dington); que a interpretação adotada por um físico se manifesta na atitude que assume com respeito
se trate de um problem a de m atem ática p u ra, e não de física. E perfeitam ente ju s­ aos testes que dão resultados contrários à teoria (e não propriamente no que afirma). Observei também
tificável d enom inar um problem a de “físico” se ele se relaciona com teorias e outros que há teorias nãoi analíticas que não podem ser testadas (e portanto não a posteriori), mas que exer­
problem as discutidos tradicionalm ente pelos físicos (como o problem a da consti­ ceram grande influência no desenvolvimento científico (exemplos são a teoria atômica original ou a
teoria inicial da ação pelo contato). Chamei essas teorias não testáveis de “metafísicas”, asseverando que
tuição da m atéria), mesmo que os meios em pregados p ara solucioná-lo sejam tinham sentido. O dogma da dicotomia simples foi atiçado recentemente, com argumentos bastante
p u ram en te m atem áticos. Como vimos, a solução de problem as pode ultrapassar as diferentes, por F.H. Heinemann (Proc. o f the X th Intern. Congress o f Philosophy, Fase. 2, 629, Amster-
fronteiras de m uitas ciências. Da m esm a form a, um problem a pode ser chám ado dam, 1949), W.V. Quine e Morton G. White. Note-se, de outro ponto de vista, que aquela dicotomia se
de “filosófico” , apropriad am en te, se verificarmos que em bora tenha surgido, por aplica com precisão só às linguagens formalizadas, o mesmo podendo não acontecer com respeito às lin­
exem plo, no cam po da teoria atôm ica, se relaciona màis estréitam ente com as guagens que precisamos empregar antes de qualquer formalização, isto é, às linguagens nas quais todos
os problemas tradicionais foram concebidos.
teorias e os problem as discutidos pelos filósofos do que com as teorias que interes­
15 — Em Qpen $ociety and Its Enemies procurei explicar com alguma minúcia outra origem extrafi-
sam atu alm en te os físicos. losófica da mesma doutrina — sua origem política. Examinei igualmente (vide nota 9, cap. 6 da 4a
ediçâó revista de 1962) o problema a que me dirijo efn particular nesta seção — embora de um ponto de
Por outro lado, não im porta absolutam ente que m étodos em pregam os para vista algo diferente. A nota mencionada e esta seção se sobrepõem ehi certa medida, mas também se
solucionar um problem a. A cosmologia, por exem plo, terá sem pre grande interesse suplementam amplamente. Algumas referências relevantes (especialmente a Platão) omitidas aqui serão
filosófico, em bora se tenha aliado, em p arte da m etodologia que em prega, com o encontradas na nota. ív
que poderíam os ch am ar mais precisam ente de “física” . A firm ar que a cosmologia 16 — Alguns historiadores negam que se possa usar apropriadamente o termo “ciência” aplicando-o a
pertence à ciência é p edante e resulta claram ente de um dogm a epistemológico qualquer desenvolvimento anterior ao século XVI, ou mesmo ao século XVII. Contudo, independen­
(filosófico, p ortanto). Da mesma form a, não há razão p ara que se nêgué a um temente do fato de que devemos evitar controvérsias a respeito de denominação, creio que não pode
problem a solucionável por meios lógicos o atributo “filosófico” : ele pode m uito bem haver mais nenhuma dúvida sobre a extraordinária semelhança (para não falar em identidade) entre os
objetivos, os interesses, as atividades, a argumentação e os métodos de Galileu e Arquimedes; de Copér-
ser tipicam ente filosófico, físico ou biológico. A análise lógica desem penhou um a nico e Platão, Kepler e Aristarco (o “Copérnico” da Antiguidade). Qualquer dúvida sobre a observação
função considerável na teoria especial da relatividade, de Einstein; em p arte foi is­ científica e os cálculos dos ahtigoá — baseados ná observação — foi eliminada pela descoberta de novos
so que tornou essa teoria filosoficam ente interessante, dando origem a um a am pla fatos relativos à história da astronomia pré-helênica. Podemos agora comparar não só Tico e Hiparco,
gam a de problem as filosóficos correlatos. mas Hansen (1857) e Cidenas, da Caldéia (314 a.C.), cujos cálculos das “constantes para o movimento
do Sol e da Lua” são assemelháveis, sem exceção, aos dos melhores astrônomos do século dezenove.
(Vide J.K. Fotheringham, “The Indebtedness of Greek to Chaldean Astronomy”, The Observatory,
A d o u trin a de W ittgenstein resulta da tese de que todas as afirm ativas 1928, 51, n.° 653).
genuínas (e p o rtan to todos os problem as genuínos) podem ser classificadas em urna
104 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 105

+
ser en ten d id a por filósofos treinados de acordo com o m étodo prim a fa cie, já des­
crito — a não ser que fossem inform ados especialm ente, ad hoc, dos fatos relevan­
tes (que precisariam aceitar n um a base de autoridade — isto é, abandonando o • •
m étodo p rim a fa c ie de estudo da filosofia).

Parece provável!7 q u e a teoria das form as de Platão esteja intim am ente as­
sociada, n a sua origem e no seu conteúdo, à teoria pitagórica de que todas as coisas • • •
são, essencialm ente, núm eros. Os porm enores dessa associação, bem como o re ­ Vemos im ediatam ente que cada núm ero d a seqüência de núm eros ím pares
lacionam ento entre o atom ism o e o pensam ento de Pitágoras e seus discípulos, ta l­ 1,3,5 ,7 ... form a o gnom on de um q u ad rad o , e que as somas
vez não sejam bastante conhecidos; falarei, p o rtanto, um pouco sobre o assunto, d a U 1 + 3, 1 + 3 + 5, 1 + 3 + 5 + 7 ... são núm eros quadrados; se n é o lado de um
m aneira com o o vejo atualm ente. quad rad o (isto é, o núm ero de pontos que corresponde ao seu lado), a área corres­
pondente (o núm ero total de pontos = n 2) será igual à soma dos prim eiros n n ú ­
Ao que parece, o fun d ad o r da ordem ou seita pitagórica estava p ro fu n ­ meros ím pares.
dam ente im pressionado com duas descobertas: a de que um fenôm eno n a aparência O mesmo com relação aos triângulos equiláteros: a figura seguinte pode ser
p u ram en te qualitativo, como a h arm onia m usical, dependia de razões num éricas considerada um triângulo em crescim ento (para baixo), m ediante o acréscimo
— 1:2 ; 2:3 ; 3:4 ; e a de que o ângulo “reto ” refletia as razões num éricas 3:4:5 ou sucessivo de linhas horizontais de pontos:
5:12:13 (os lados de um triângulo retângulo). Essas duas descobertas teriam levado
Pitágoras à generalização algo fantástica de que todas as coisas são, em essência,
núm eros ou proporções; de que o núm ero é a razão (logos = razão), a essência
racional das coisas, d a sua natureza real. • •

E m bora seja um a idéia fantástica, ela teve algum a utilidade. Uma das suas • • #
aplicações de m aior êxito foi às figuras geom étricas simples — quadrados, triâ n ­
gulos retangulares e isósceles — e a alguns sólidos simples, como as pirâm ides. O • • • •
tratam en to de alguns desses problem as geom étricos se baseava no cham ado gno-
Neste caso, cada gnom on é a últim a linha horizontal de pontos; cada
m on.
elem ento da seqüência 1,2,3,4 ... é um gnom on. Os “núm eros triangulares” são as
somas 1 + 2 ; 1 + 2 + 3; 1 + 2 + 3 + 4 ..., isto é, as somas dos prim eiros n núm eros
Podemos explicá-lo assim: se indicam os um q u ad rad o por meio de quatro naturais. Se colocarmos dois triângulos lado a ladot
pontos,
• •

isso pode ser interp retad o como o acréscimo de três pontos a um ponto
original, situado no lado esquerdo superior. Esses três pontos — que constituem o
prim eiro gnom on — seriam indicados assim:

teremos um paralelogram a com o lado horizontal n + l e e outro lado, n, contendo


n ( n + 1) pontos. Como esse paralelogram a consiste em dois triângulos isóceles, seu
núm ero é 2(1 + 2 + ... + n ), de m odo que chegamos à equação
# •
(1) 1 + 2 + ... + n — l_ n(n 4, 1)
e po rtan to 2
A crescentando um segundo g n o m o n , com outros cinco pontos, chegaríam os
(2) <f ( l +2 + ... + n) = d n(n + 1).
à seguinte figura:
2

A p a rtir desse ponto é fácil chegar à fórm ula geral p a ra a soma das séries a rit­
m éticas.
17 — Se podemos confiar no famoso relato de Aristóteles, na sua Metafísica.
A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 107
106 CONJECTURAS Ë REFUTAÇÕES

que podemos ter, nesse m undo de som bras, são opiniões inseguras e preconcei-
T eríam os tam bém “núm eros oblongos” — isto é, núm eros correspondentes a tuosas (doxa) dos falíveis m o r ta is ^ , em lugar da epistem e. Nesta sua interpretação
figuras oblongas retangulares, das quais a mais simples é a seguinte: do Q uadro de Oposições, Platão recebeu a influência de Parm ênides, o pensador
cujo desafio provocou o desenvolvimento da teoria atom ística de D em ócrito.
#
' , vi ■
• • §
A teoria de Pitágoras, com seus diagram as feitos de pontos, contém sem
• • • • % dúvida a sugestão de um atom ism o m uito prim itivo. É difícil avaliar em que m e­
dida a teoria atom ística de Dem ócrito foi influenciada pelo pensam ento pitagórico.
# • m • • Suas influências principais parecem ter vindo dos eleatas: Parm ênides e Zeno. O
com os núm eros oblongos 2 + 4 4- 6 ...; o g nom on de um oblongo é um núm ero p ar problem a básico dessa escola de pensam ento (e de Dem ócrito) era o da com preen­
e os núm eros oblongos são somas dos núm eros pares. são racional da m udança. (Neste ponto divirjo da interpretação de C ornford e
Esse raciocínio foi estendido aos sólidos. Assim, por exemplo, chegou-se aos outros.) Parece-m e que esse problem a vem de H eráclito — p o rtan to , do pensam en­
núm eros piram idais, som ando os prim eiros núm eros triangulares. C ontudo, a to jónico e não do pitagórico *9 e que contínua a ser o problem a fundam ental da
aplicação mais im p o rtan te foi às figuras olanas. ou “form as” — que se acreditava filosofia da natureza.
serem caracterizadas por u m a seqüêncía ap ro p riada de núm eros, e, p o rtanto pelas
razões dos núm eros sucessivos da seqüência. Em outras palavras, as “form as” eram Parm ênides pode não ter sido um físico (como seus grandes predecessores
jónicos), mas há razão p ara considerá-lo como o pai da física teórica: elaborou um a
consideradas núm eros, ou razões entre núm eros. Por outro lado, qualidades ab stra­
teoria antifísica181920 — não a-física, como disse Aristóteles —, que foi contudo o
tas, como a harm onia e a retidão, eram vistas tam bém como núm eros. Desse m odo se prim eiro sistema hipotético-dedutivo, o princípio de um a longa série de sistemas
chegou à teoria geral de que os núm eros são as essências racionais de todas as coisas. desse tipo, teorias físicas cada vez mais aprim oradas. Via de regra, esse aprim o­
Parece provável que o desenvolvimento desse ponto de vista foi influenciado ram ento se tornava necessário devido à consciência de que o sistema anterior era
pela sem elhança dos diagram as de pontos com constelações, tais como a do Leão, refutado por alguns fatos da experiência em pírica. Essa refutação em pírica das
do Escorpião ou da Virgem . Se o Leão, por exem plo, é um arranjo de pontos, ele conseqüências de um sistema dedutivo levava a um esforço dirigido à sua recons­
deve ter um núm ero. Desta form a a d o u trin a pitagórica parece associada à crença trução e assim a novas teorias, aperfeiçoadas, as quáis qúase sem pre exibiam
de que os núm eros, ou ^form as” , são figuras celestiais das coisas. claram ente m arcas da sua origem , das teorias originárias e da experiência que
as refutou.
Um dos elem entos principais dessa antiga teoria era o cham ado “Q uadro de Essas experiências ou observações eram a princípio m uito cruas, tornando-se
Oposições” , que se baseava na distinção entre núm eros pares e ím pares. Esse contudo cada vez mais sutis, à m edida que as teorias se tornavam gradualiriehtè
quadro continha conceitos como os seguintes:
18 — A distinção platônica entre episteme e doxa deriva de Xenófanes (a verdade e a conjectura, ou
UM M U ITO S , QUADRADO O BLONGO aparência), por meio de Parmênides. Platão percebia claramente que todo o conhecimento do mundo
ÍM PA R PAR RETO CURVO visível, o mundo cambiante das aparências, consiste na doxa; ele é tingido pela incerteza, mesmo quan­
M ASCULINO FEM IN IN O D IR EITO ESQUERDO do utiliza ao máximo a episteme, conhecimento da pura matemática e das “formas” definidas — ainda
REPOUSO MUDANÇA LUZ OBSCURIDADE quando interpreta o mundo cambiante com a ajuda de uma teoria do mundo invisível, (cf. Crátilo,
D ETER M IN A D O IN D ETERM IN A D O BOM MAU 439b, República, 476d, e em especial Timeu, 29b, onde essa distinção é aplicada às partes da teoria do
próprio Platão que chamaríamos hoje de “física”, “cosmologia” ou, de modo mais geral, “ciência na­
Esse estranho quad ro nos dá um a idéia de como funcionava a m ente p i­ tural”. Segundo o filósofo, elas pertencem ao reino da doxa — a despeito do fato de que ciência =
tagórica — porque não só as “form as” de figuras geom étricas eram consideradas scientia = episteme). Um ponto de vista diferente sobre as relações entre o pensamento de Platão e o de
como núm eros, em sua essência, m as tam bém idéias abstratas como a justiça e, Parmênides é Ô de Sir David Ròss, Plato’s Theory o f Ideas, Oxford, 1951, pág. 164.
n atu falm en te, a harm onia e a saúde, a beleza è o conhecim ento. É interessante 19 — No seu livro Parmênides (1916; segunda edição, 1959, pág. 220), Karl Reinhardt diz, com muito
n o tar que o q uadro pitagórico foi adotado por Platão com m uito pequenas a lte­ vigor: “A história da filosofia é a história dos seus problemas. Quem quiser explicar Heráclito precisará
rações. A versão mais antiga da fam osa teoria das “form as” ou das “idéias” , de dizer em primeiro lugar qual era o seu problema”. Concordo inteiramente e acredito que o problema de
Heráclito era o problema da transformação das coisas — mais precisamente, da identidade (e nâõ-
Platão, poderia ser descrita, em linhas gerais, como a doutrina de que o lado identidade) das coisas, durante sua mutação (vide Open Society, cap. 2). Se aceitarmos a evidência
“b o m ” do Q uadro de Oposições constitui um universo invisível — um m undo de apontada por Reinhardt sobre o estreito relacionamento entre as idéias de Heráclito e as de Parmênides,
realidade superior, povoado pelas form as im utáveis e determ inadas de todas as este ponto de vista sobre o problema de Heráclito faz com que o sistema de Parmênides se torne uma
coisas; de que a verdade e o conhecim ento seguro {episteme = scientia — ciência) tentativa para resolver a questão dos paradoxos da mudança, considerando toda mudança irreal, Gorn-
só se podem dirigir a esse universo real e constante, de que o m undo visível de tra n s­ ford e seus discípulos acompanham a doutrina de Burnet de que Parmênides foi um pitagórico (dissi­
dente) — o que pode ser verdade, mas a evidência nesse sentido não prova que ele nao teve também um
form ação e fluxo em que vivemos e m orrem os — o m undo da geração e d a des­ professor jónico (vide cap. 5 deste livro).
truição, da experiência — não passa de um reflexo ou cópia: é um universo ex­ 20 — Platão, Theaetetus, 181a; Sèxtus Empiricus, Adv. Mathem. (Bekker), X.46, pág. 485, 25.
clusivam ente de aparências, onde não há lugar p ara o verdadeiro conhecim ento. O
108 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 109

aptas a in te rp re ta r as observações mais grosseiras. No caso da teoria de Parm ê- 6) O m ovim ento é impossível, pois não há nenhum espaço vazio, que pudes­
nides, o choque com a observação era tão óbvio que pareceria talvez fantasioso des­ se ser percorrido.
crevê-la como o prim eiro sistema hipotético-dedutivo da ciência física. Podemos
As conclusões 5) e 6) obviam ente contradiziam os fatos. Assim, Demócrito
descrevê-la, p o rtan to , como o derradeiro antecessor dos sistemas dedutivos físicos argum entava a p artir da falsidade das conclusões p a ra chegar às premissas:
— cuja refutação provocou o surgim ento da p rim eira teoria física sobre a m atéria:
a teoria atom ística de Dem ócrito. 6’) O m ovim ento existe (portanto ele é possível).
A teoria de Parm ênides é simples: p ara ele é impossível entender racio n al- 5’) O m undo é form ado de partes: não é uno, porém , vário.
m ente a m u d an ça ou o m ovim ento; daí a conclusão de que não há realm ente
m ud an ça — ela é apenas aparente. Mas, antes de sentirmos superioridade diante 4’) P ortanto o m undo não pode ser co m p acto .22
de teoria tão irrem ediavelm ente irrealista, precisamos tom ar conhecim ento do sério
problem a que ela apresenta. Se um a coisa “X ” se m odifica, obviam ente deixa de 3’) O vazio (ou não-ser) existe.
ser a m esm a coisa “X ” . Por outro lado, não podem os dizer que “X ” se m odifica
sem im plicar que continua a existir d u ran te o processo de m udança: que é a m es­ Neste ponto, p o rtan to , a teoria precisaria ser m odificada. Com relação ao
m a coisa “X ” , no princípio e no fim daquele processo. Parece que estamos diante ser ou à pluralidade das coisas existentes (em contraposição ao vazio), Demócrito
de um a contradição: que a idéia de que um a coisa pode m u d ar é impossível; p o r­ adotou a teoria de Parm ênides: os átomos eram indivisíveis porque com pactos; não
tan to , que a m u d an ça é impossível. havia nenhum vazio no seu interior.
T u d o isso soa m uito filosófico e abstrato. A verdade, porém , é que a dificul­
dade indicada sem pre se fez sentir no desenvolvimento da física. 21 Um sistema O que há de im portante nessa teoria é o fato de que ela explica racional-
determ inístico como a teoria do cam po de Einstein poderia até mesmo ser descrito m ente as m udanças: o m undo consiste em espaço vazio, povoado de átom os. Os
como um a versão em q u atro dimensões do universo tridim ensional im utável de átomos não se alteram : são, em m in iatu ra, universos com pactos, na concepção de
Parm ênides — num certo sentido, no universo com pacto em quatro dimensões de Parm ênides. 23 T oda m u dança corresponde a um rearran jo dos átomos no espaço;
Einstein n ad a m uda: todas as coisas perm anecem no seu locus quadridim ensional. assim, toda m udança é u m m ovim en to . Como o único tipo de novidade relacio­
As m udanças se to rn am u m a espécie de “m ud ança ap aren te”; é “só” o observador nado com esse ponto de vista tem a ver com a distribuição no espaço,24, será pos­
que desliza pelo seu world-line, tornando-se consciente, sucessivamente, dos d i­ sível, em princípio, prever todas as alterações fu tu ra s a ocorrer no m undo, desde
ferentes loci no curso da sua linha — isto é, da sua vizinhança espaço-tem poral... que possamos predizer o m ovim ento de todos os átom os (ou, p ara usar term inologia
m oderna, de todos os pontos-de-m assa).
P ara deixar este novo Parm ênides, voltando ao velho criador da física
teórica, poderíam os parafrasear sua teoria dedutiva mais ou menos assim: A teoria da m udança de Dem ócrito teve enorm e im portância no desenvol­
vim ento da ciência física; foi aceita parcialm ente por Platão, que preservou em boa
1) Só o que é existe. parte a concepção atom ística — em bora explicasse a m ud an ça não pelo conceito de
átomos que se m ovim entam sem se m odificar, m as por outras “form as”, in d epen­
2) O que não é não existe. dentes da m udança e do m ovim ento. Mas foi condenada por Aristóteles, que e n ­
sinou 25 que a m udança era sem pre o desenvolvimento de potencialidades inerentes
3) O não-ser (o vazio) não existe. das substâncias essencialmente im utáveis. A teoria de Aristóteles passou a preva­

4) O m undo é com pacto.


22 — A inferência que nos leva da existência do movimento à do vazio não é válida; da mesma forma,
5) O m undo não tem com ponentes: é um só bloco (porque é com pacto). a inferência feita por Parmênides da impossibilidade do movimento, a partir do caráter compacto do
mundo, também não é válida. Platão parece ter sido o primeiro a notar, ainda que pouco claramente,
que num mundo compacto o movimento circular ou em vórtice é possível, desde que haja um meio
fluido. (As folhas de chá se movem na xícara com o movimento circular do próprio chá). Esta idéia,
apresentada a princípio timidamente no Timeu (onde o espaço aparece “preenchido”, 52e), constituirá
21 — 0 que se pode comprovar lendo Identity and Reality, de Emile Meyerson, um dos estudos filo­ a base do cartesianismo e da teoria do “éter luminífero”, aceita até 1905. (Vide também nota 44, adian­
sóficos mais interessantes sobre o desenvolvimento das teorias físicas. Hegel (seguindo Heráclito — ou o te).
relato de Aristóteles sobre suas idéias) admitiu que o fato da mudança (que ele considerava contradi­
23 — A teoria de Demócrito admitia também átomos compactos maiores, mas a grande maioria deles
tório) prova a existência de contradições neste mundo, refutando assim a “lei da contradição” — isto é,
o princípio de que nossas teorias precisam evitar a contradição a qualquer custo. Hegel e seus seguidores era de tamanho muito reduzido, invisíveis.
— especialmente Engels, Lenin e outros marxistas — começaram a enxergar “contradições” em toda 24 — Vide The Poverty o f Historicism, seção 3.
parte, denunciando as filosofias que sustentavam a “lei da contradição” como “metafísicas” — termo 25 — Inspirado pelo Timeu de Platão (55), onde as potencialidades dos elementos são explicadas pelas
usado para denotar que essas filosofias ignoravam o fato de que o mundo muda. Vide o cap. 15 deste suas propriedades geométricas (portanto, pelas formas substanciais) dos sólidos correspondentes.
livro.
110 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 111

lecer — m as se revelou pouco fé rtil2627; a teoria m etafísica de Dem ócrito, de que Além disso, a teoria de D em ócrito levou aos prim eiros êxitos do m étodo da
exaustão (precursor do cálculo da integração); o próprio A rquim edes reconheceu
toda m u d an ça precisa ser explicada pelo m ovim ento, constituiu a base tácita da in ­
vestigação, na física, até os nossos dias — e é ainda parte da filosofia da física, a que Dem ócrito foi o prim eiro a form ular a teoria sobre o volume dos cones e das
despeito de ter sido ultrapassada pela pró p ria física e tam bém pelas ciências sociais p irâm id es.31 O elem ento m ais fascinante da teoria de D em ócrito talvez seja sua
e biológicas. N o sistema de Newton en tram em cena, além de pontos-de-m assa, forças doutrina da quantização do espaço e do tem po. Refiro-m e à d o utrina — que u l­
de intensidades e direções variáveis. É verdade que as forças new tonianas podem tim am ente tem sido m uito discutida 32* — de que há um a distância m ínim a e um
intervalo de tem po mínimo:, isto é, que há distâncias no espaço e no tem po —
ser explicadas como sendo devidas ao m ovim ento (ou dele dependentes); isto é, es­
tariam condicionadas à posição cam biante das partículas. Contudo, elas não são elementos tais de extensão e de tem po (o a m e r é s ^ de D em ócrito, cliferente do seu
idênticas às m odificações na posição das partículas — devido à lei do inverso dos “átom o”) que não poderia haver menores.
quadrados, essa dependência não é linear. Com Faraday e Maxwell, os campos de
forças cam biantes são tão im portantes quanto as partículas atôm icas m ateriais. O 7 ..’ ' v ii ; /
fato de que a concepção m oderna do átom o adm ite que ele seja um a entidade
com posta é m enos im portante — do ponto de vista de D em ócrito, o que c h a ­ Q atom ism o de D em ócrito foi desenvolvido e exposto sob a form a de res­
m am os de “partículas elem entares” seriam os verdadeiros “átom os” (com a exceção posta d e ta lh a d a 34 aos argum entos minuciosos dos seus predecessores eleáticos —
de que essas partículas são tam bém susceptíveis a m udanças). Chegamos, assim, a Parm ênides e Zeno.
um a situação m uito interessante: a filosofia, que procurava um a explicação r a ­
cional p ara a m u d an ça, serve à ciência d u ran te m ilhares de anos, sendo u ltrap as­ A. doutrina das distâncias atôm icas e dos intervalos de tem po de Demócrito
resulta em especial, de form a direta, dos argum entos de Zeno — ou, m ais p reci­
sada pelo desenvolvimento da p rópria ciência — fato que passa praticam ente in a d ­
sam ente, da rejeição das suas conclusões. C ontudo, em tudo o que conhecemos de
vertido pelos filósofos, ocupados em negar a existência de problem as filosóficos.
Zeno não há nenhum a alusão à descoberta dos irracionais, que tem im portância
decisiva p ara o assunto.
A teoria de D em ócrito foi um a realização m aravilhosa, que proporcionou
um a base teórica p a ra explicar a m aior p arte das propriedades da m atéria, co­
N ão sabemos d a ta r a prova da irracionalidade da raiz q u ad rad a de 2, ou
nhecidas em piricam ente (e já discutidas pelos jónicos), tais como a compressibi-
sua divulgação. Em bora haja um a tradição que atribui a Pitágoras (no sexto século
lidade, a dureza e a resistência, a rarefação e a condensação, a coerência, a desin­
antes de Cristo), e em bora alguns au to res35 a cham em de “teorem a de Pitágoras” ,
tegração, a com bustão e m uitas outras. Mas a teoria só era im portante como ex­
não pode haver m uita dúvida de que essa descoberta não foi feita, e certam ente
plicação do fenôm eno experim ental. Em prim eiro lugar, ela estabelecia o princípio
não foi divulgada, até o ano 450 antes de Cristo — provavelm ente não antes de
m etodológico de que um a teoria ou explicação dedutiva precisa “respeitar os fe­
nôm enos” ; 27 isto é, ajustar-se à experiência. Em segundo lu g a r, m ostrava que um a 420. É incerto se Dem ócrito a conhecia; hoje, inclino-m e a pensar que não — que o
teoria pode ser especulativa, baseando-se no princípio fundam ental (de Parm ê- título das duas obras perdidas de Demócrito, Peri A logón G ram m ón kai Nastón,
nides) de que o m undo com preendido pelo intelecto é diferente do m undo da ex ­
periência prim a fa c ie — conform e é visto, ouvido, provado, cheirado e to c a d o ;28
31 — Cf. Diels, frag. 155, que precisa ser interpretado à luz de Arquimedes (ed. Heiberg) II 2, pág.
que, contudo, um a teoria especulativa pode aceitar o “critério” em pirista de.que é 428. Vide também o importante artigo de S. Luria, “Die Infinitesimalmethode der antiken Atomisten”
o visível que vai decidir a aceitação ou rejeição de um a teoria sobre o invisível. 29 (Quellen & Studien zur Gesch. d. Math., B, 2, Heft 2, 1932, pág. 142).
Esta posição continua a ser fundam en tal p a ra todo o desenvolvimento da física; 32 — Cf. A. March, Natur und Erkenntnis, Viena, 1948, pág. 193.
continua a conflitar com as tendências filosóficas “relativista” e “positivista” . 30 33 Cf. S. Luria, opus cit., em especial a partir das páginas 148 e 172. A. T. Nicols argumenta, em
“Indivisible Lines” (Class. Quarterly, XXX, 1936, 120), que “duas passagens, uma de Plutarco, a outra
de Simplício, mostram por que Demócrito “não podia acreditar em linhas indivisíveis”; o autor não
examina, porém, o ponto de vista oposto, de Luria (1932), que considero muito mais convincente — es­
26 — A pouca fertilidade da teoria “essencialista” da substância está ligada ao seu antropomortismo; pecialmente se recordamos que Demócrito tentou refutar Zeno (vide a nota seguinte). Qualquer que
de fato, como Locke viu bem, as substâncias derivam sua plausibilidade da experiência do homem: um tenha sido a opinião de Demócrito a respeito das distâncias atômicas, ou indivisíveis, Platão parece ter
ser idêntico que no entanto muda e se desenvolve. Mas, embora possamos aceitar o fato de que a subs­ acreditado que o atomismo de Demócrito precisava ser revisto à luz da descoberta dos irracionais. Con­
tância aristotélica tenha desaparecido da física, não há nada de mal — como diz o professor Hayek tudo, Heath {Greeh Mathematics, 1, 1921, pág. 181), referindo-se a Simplício e a Aristóteles, declara
em pensar antropomorficamente a respeito do homem; não há qualquer razão filosófica, ou apriorística, também acreditar que Demócrito não ensinou a existência de linhas indivisíveis.
para que essa idéia desapareça da psicologia. 34 — Essa resposta pormenorizada foi preservada no trabalho de Aristóteles Sobre a Geração e a
27 — Vide a sexta nota do cap. 3 deste livro. Corrupção, 316a, 14 e segs. — uma passagem muito importante que foi a princípio qualificada como
refletindo a posição de Demócrito (por I . Hammer Jensen, em 1910), e depois examinada cuidadosa-
28 — Cf. Demócrito, Diels, frag. 11 (cf. Anaxágoras, Diels, frag. 21 e também frag. 7). mente por Luria, que diz (pág. 135, opus cit.) a respeito de Parmênides e de Zeno: “Demócrito toma
29 — Cf. Sextus Empiricus, Adv. Mathem. (Bekker), vii, 140, pág. 221, 23B. emprestada sua argumentação dedutiva, mas chega a conclusões opostas”.
33 — Cf. G. H. Hardy e E. M. Wright, Introduction to the Theory o f Numbers, 1938, págs. 39 e 42,
30 — “Relativista” no sentido do relativismo filosófico, como por exemplo o da doutrina do homo men­ onde encontramos uma observação histórica muito interessante sobre a prova de Teodoro, conforme o
sura de Protágoras. Infelizmente, ainda é necessário enfatizar que a teoria dé Einstein nada tem em Theaetetus de Platão. Vide também o artigo de A. Wasserstein, “Theaetetus and the History of the
comum com esse relativismo filosófico. O termo “positivista” denota tendência como a de Bacon, por Theory of Numbers”, Classical Quarterly, 8, N. S., 1958, págs. 165-79 — o melhor exame desse ponto
exemplo; a teoria da primitiva Royal Society (teoria mas não a prática, afortunadamente); e, no nosso que conheço.
tempo, as idéias de Mach (que se opôs à teoria atômica) e dos teoristas dos dados sensoriais.
112 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 113

diretam ente, já que são invisíveis, e que na verdade não contamos núm eros ou
deveria ser traduzido como Sobre as Linhas Ilógicas e os Corpos Compactos unidades naturais, mas m edim os — isto é, contam os unidades visíveis arbitrárias.
(Á to m o s) 36 — esses dois livros não deviam conter qualquer referência à descoberta
C ontudo, p a ra eles essas medições revelavam, indiretam ente, as razões verdadeiras
da irracionalidade. 37
das unidades naturais: os núm eros naturais.
M inha crença em que Dem ócrito não estava consciente do problem a dos
núm eros irracionais se baseia no fato de que não há vestígio de qualquer defesa da Daí o fato de que o m étodo de Euclides p a ra provar o cham ado “T eorem a
sua teoria contra o golpe que ela recebeu com aquela descoberta — golpe que foi de Pitágoras” (Euclides, 1, 47), segundo o qual se a é o lado de um triângulo oposto
tão letal p a ra o atom ism o, como p ara o pensam ento pitagórico. Essas duas teorias a seu ângulo reto entre b e c,
se fu ndam entavam , de fato, n a d o u trin a de que toda m edida pode ser reduzida a (1) a 2 - b 2 + c2,
núm eros puros. Assim, a distância entre dois pontos atômicos quaisquer precisa
consistir em um certo núm ero de distâncias atôm icas — por isso todas as distâncias é um m étodo estranho ao espírito da m atem ática pitagórica. Parece agora geral-
são com ensuráveis. Mas isso é impossível, mesmo na hipótese mais simples da dis­ m ente aceito que esse teorem a já era conhecido dos babilônios, que o haviam
tância entre os ângulos de um q u ad rad o , devido à incom ensurabilidade da d ia ­ dem onstrado geom etricam ente. C ontudo, nem Pitágoras nem Platão parecem ter
gonal d com o lado a . conhecido a prova geom étrica de Euclides (que usa diferentes triângulos com base e
altura com uns); conhecida a fórm ula (1), o problem a p ara o qual ofereceram
soluções, o problem a aritm ético de encontrar soluções integrais p a ra os lados dos
O term o “incom ensurável” não é m uito feliz. O que se quer dizer é que não triângulos retângulos, ppde ser solucionado facilm ente pela fórm ula
há um a razão de núm eros naturais. Por exemplo: o que pode ser provado, no caso
da diagonal do q u ad rad o unitário, é que não existem dois núm eros naturais, n e (2) a = m 2 + n2 b = 2mn c = m ^H -n^
m, cuja razão, n / m , seja igual á sua diagonal. “Incom ensurabilidade” não significa (onde m e n são núm eros naturais e m >n).
p o rtan to incom parabilidade por m étodos geométricos ou pela m edição , m as in-
com parabilidade pelos processos aritm éticos de contagem com núm eros naturais — Mas a fórm ula (2) era aparentem ente desconhecida por Pitágoras e mesmo
inclusive o m étodo caracteristicam ente pitagórico de com parar razões de núm eros por Platão — é o que depreendem os da tra d iç ã o 38 segundo a qual Pitágoras
naturais (incluindo, n atu ralm en te, a contagem de unidades de extensão). propôs outra fórm ula:

Retornem os, por um m om ento, às características deste m étodo do^ núm eros (3) a = 2n (n + 1) + 1 b = 2 n ( n + l) c = 2n + 1
naturais e suas razões. A ênfase pitagórica no N úm ero foi frutífera, do jponto de
vista do desenvolvimento de idéias científicas, o que se costum a expressar com
(obtida da fórm ula (1) m ediante m = n + 1), que pode ser depreendida do
freqüência — mas vagam ente — com a afirm ativa de que Pitágoras deu início à
m edição num érica científica. O que pretendo acentuar aqui é que p ara os pita- gnom on dos núm eros quadrados, m as que é menos geral do que (2), pois falha, por
góricos isso era contagem , não medição: a contagem de núm eros, essas essências ou exem plo, no caso de 17:8:15. A Platão, que parece ter aperfeiçoado a fórm ula
“naturezas” invisíveis. Eles sabiam que não podem os contar esses pequenos pontos p itag ó rica39, atribui-se um a outra fórm ula que tam bém não tem aplicação geral.

Para m ostrar a diferença entre o m étodo pitagórico, aritm ético, e o geo­


36 — Em vez de Sobre as Linhas Irracionais e os'Átomos (On Irrational Lines and Atoms), como traduzi
na nota 9, cap. 6, de Open Society (2.a edição). O sentido provável desse título, considerando a pas­ m étrico, pode-se m encionar a prova de Platão de que o quad rad o construído com a
sagem de Platão mencionada na nota seguinte, levaria à tradução “On Crazy Lines and Atom s” (Cf. H. diagonal do quadrado unitário (isto é, o q u adrado com lado 1 e área de m edida 1)
Vogt, Bibl. Math., 1910, 10, 147 — contra quem Heath argumenta, em op. cit., 156, na minha opinião tem área que é o dobro da do quadrado unitário (isto é, um a área de m edida 2).
sfcm grande êxito — e S. Luria, opus cit., pág. 168, onde se sugere, de modo convincente, que De insec. Essa prova consiste em desenhar um q u adrado com a seguinte diagonal:
lin. 968b 17 (Arist.) e De comm. notit., 38,2, pág. 1078 (Plut.) contêm vestígios do trabalho de De­
mócrito. De acordo com essas fontes, o argumento de Demócrito era o seguinte: se as linhas são infi­
nitamente divisíveis, são compostas por uma infinidade de unidades últimas, todas elas relacionadas en­
tre si como oo:oo isto é, são todas “não comparáveis” (sem uma proporção). De fato, se considerarmos
as linhas como classes de pontos, o número cardinal (potência) relativo a todos os pontos de uma linha
será o mesmo (segundo o ponto de vista moderno), sejam as linhas finitas ou infinitas. Esse fato já foi
qualificado de “paradoxal” (por exemplo, por Bolzano) — e poderia perfeitamente ser chamado de
“irrazoável” (em inglês, crazy) por Demócrito. Note-se que, segundo Brouwer, mesmo na teoria clássica
de Lebesgue a medida, de um continuum leva fundamentalmente ao mesmo resultado; Brouwer afirma
que todos os continua clássicos têm medida zero, de modo que a inexistência de uma proporção pode ser m ostrando em seguida que o desenho pode ser am pliado assim :
expressada por 0 :0 .0 resultado de Demócrito (e sua teoria do ameres) pareeta inescapável, na medida em
que a geometria se baseia no método aritmético de Pitágoras — isto é, na contagem de pontos.
37 — Isso estaria de acordo com o fato, mencionado na nota citada de Open Society, de que o termo 38 — Prodi Diadochi in Primum Euclidis Elementorum Librum Commentarn, ed. Friedlein, Leipzig,
alogos só muito mais tarde parece ter sido usado com o sentido de “irracional”; ao aludir ao título de 1873, págs. 487, 7-21.
Demócrito, na República (534d), Platão usa alogos na acepção de “irrazoável” — nunca o utiliza como 39 — Por Proclus, op. cit., págs. 428, 21-429, 8.
sinônimo de arrhétos.
114 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 115

Essa prova usa apenas a aritm ética dos núm eros naturais — p ortanto,
métodos puram ente pitagóricos. Não precisamos questionar a tradição segundo a
qual ela foi descoberta pelos pitagóricos; m as é improvável que a descoberta tenha
sido feita pelo próprio Pitágoras, ou que tenha sido feita num a época rem ota: Zeno
e D em ócrito não parecem tê-la conhecido. Além disso, como destruiu a base do
pensam ento pitagórico, é razoável presum ir que não foi concebida m uito antes de
aquela ordem ter atingido o ápice da sua influência — pelo menos não antes de
que estivesse perfeitam ente estabelecida.

A p a rtir desse ponto chegamos a um resultado por contagem . Mas a transição da


A tradição de que a descoberta foi feita dentro da ordem , mas m antida em
prim eira figura p ara a segunda não pode ser provada válida pela aritm ética dos
segredo, parece-m e bastante plausível, e poderia ser apoiada pela consideração de
pontos — e tam bém não pelo m étodo das razões. que o term o antigo p ara “irracional” (arrhétos, “im pronunciável” ou “não men-
cionável”) insinua um segredo. De acordo com essa tradição, o m em bro da escola
É o que dem onstra a fam osa prova da irracionalidade da diagonal, isto é,
que revelou o segredo foi m orto pela sua tra iç ã o .40 De qualquer m odo, não há
da raiz q u ad rad a de 2, que se presum e ter sido bem conhecida por Platão e Aris­
m uita dúvida de que a percepção de que existem m agnitudes irracionais (n a tu ra l-
tóteles. Consiste em m ostrar que a premissa m ente, não eram concebidas como núm eros) e de que sua existência podia ser
dem onstrada m inou a fé que dava consistência à ordem pitagórica, destruindo a
= n /m esperança de que fosse possível derivar a cosmologia, ou mesmo a geom etria, da
aritm ética dos núm eros naturais.
— isto é, de que ^ 2 é igual à razão de quaisquer dois núm eros naturais, n e m —
leva a um absurdo. V III

Observamos, inicialm ente, que é possível adm itir que Foi Platão que percebeu isso; foi ele que, nas Leis, acentuou a im portância da
(2) dos dois núm eros naturais, n e m , um só é par. descoberta nos termos m ais vigorosos, denunciando os com patriotas por não en ten ­
derem suas implicações. Estou seguro de que toda a sua filosofia — especialm ente a
Com efeito, se ambos fossem pares, poderíam os sempre cancelar o fator 2, teoria das “form as” ou “idéias” — sofreu a influência desse fato.
obtendo dois outros núm eros naturais, n ’ e m ’, tais que n /m — n /m , dos quais
n ’ou m \ seria p ar. O ra, elevando (1) ao qu ad rado, temos: Platão se situava m uito perto dos pitagóricos e dos eleatas; em bora pareça
ter sentido an tipatia com relação a Dem ócrito, ele próprio era um a espécie de
(3) 2 = n 2/ m 2 atom ista. O ensinam ento atomístico constituiu um a das tradições da sua A cade­
e daí: m ia .41 Isso não nos supreenderá se levarmos em conta a estreita relação que há
(4) 2 m 2 = n 2 entre as idéias pitagóricas e atomísticas. T udo isso foi am eaçado pela descoberta
logo: dos núm eros irracionais.
(5) n é p ar.
Penso que a principal contribuição platônica à ciência teve suas raízes na
Assim, deve haver um núm ero n atu ral a, que faça com que percepção do problem a dos irracionais, na m odificação das idéias pitagóricas e
atomísticas que ele precisou prom over p ara salvar a ciência de um a situação catas­
(6) ti = 2a; trófica.
de (3) e (6) extraím os
Platão percebeu que a teoria puram ente aritm ética da natureza estava
(7) 2 m ^ = n^ = 4a^ derrotada; que era necessário criar um novo m étodo m atem ático p ara descrever e
portanto: explicar o m undo — por isso incentivou o desenvolvimento de um m étodo geo­
m étrico autônom o, que daria frutos nos Elem entos de Euclides — um pensador que
(8) m2 = 2a.2
seguiu a linha platônica.
pelo que:
(9) m é par.
40 — 0 delator seria um certo Hipaso, figura que aparece com pouca nitidez na penumbra da história.
Diz-se que esse Hipaso morreu no mar (cf. Diels). Vide também o artigo de A. Wasserstein, já men­
Está claro que (5) e (9) contradizem (2). Assim, a premissa de que há dois cionado.
núm eros n aturais, n e m, cuja razão é igual a 1Í2, leva a um a conclusão absurda.
41 — Vide S. Luria, especialmente a respeito de Plutarco, Loc. cit.
Por conseguinte, l f 2 não é um a razão, mas um núm ero “irracional”.
116 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES
A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 117

Quais são os fatos históricos? T entarei relacioná-los em poucas palavras: hoje se im agina, de m odo geral), mas sim o organon de um a teoria do m undo. De
acordo com este ponto de vista, os Elem entos não são um “com pêndio de geo­
1) N a form a como se m anifestam em Dem ócrito, tanto as idéias atomlsticas m etria”, m as um a tentativa de resolver sistem aticam ente os principais problem as
como as pitagóricas se baseiam fundam entalm ente na aritm ética — isto é, na con­ da cosmologia platônica — o que conseguiu com tal êxito que, um a vez solucio­
tagem . nados, aqueles problem as desapareceram e foràm quase esquecidos. D eixaram um
vestígio, contudo, em Proclus, que escreveu: “Alguns têm im aginado que o assunto
2) Platão acentuou o caráter catastrófico da descoberta dos irracionais. dos vários livros (de Euclides) dizem respeito ao cosmos, tendo por objetivo ajudar-
nos n a contem plação do universo e na sua teorização” . T odavia, nem mesmo
3) Ele m andou escrever no portão da sua A cadem ia: “N ão E n trará Nesta Proclus m enciona nesse contexto o problem a m ais im portante — os irracionais
Casa Q uem N ão Souber G eom etria” . Mas, de acordo com Aristóteles, que foi seu (em bora se refira a ele em outras passagens). Mas o m esmo Proclus ap o n ta, co r­
alu n o 42, e tam bém de acordo com Euclides, a geometria tra ta tipicam ente dos in ­ retam ente, que os Elem entos culm inam com a construção dos poliedros regulares
comensuráveis ou irracionais, em contraposição à aritm ética, que tra ta dos n ú ­ “cósmicos” ou “platônicos” . Desde Platão e Euclides46, m as não antes deles, a
meros “pares e ím pares” — quer dizer, dos núm eros inteiros e suas relações. geom etria aparece, em lugar da aritm ética, como o instrum ento fundam ental de
todas as explicações e descrições físicas, na teoria da m atéria e na cosm ologia.47*
4) Pouco tem po depois da m orte de Platão, sua escola produziu um a obra
— os Elem entos de Euclides — que teve com o um de seus efeitos principais libertar
a m atem ática da prem issa “aritm ética” da com ensurabilidade e da racionalidade. IX

5) O próprio Platão contribuiu p ara esse desenvolvimento — especialm ente Esses são os fatos históricos, que contribuem m uito p a ra dem onstrar m inha
no cam po da geom etria sólida. tese principal: o m étodo prim a fa cie usado no ensino da filosofia não pode levar à
com preensão dos problem as que inspiraram Platão, como tam bém não pode levar
6) Mais especialm ente, ele elaborou, no T im eu, um a versão geom étrica da à apreciação do que se pode qualificar com justiça sua m aior realização filosófica
teoria atom lstica, que em sua origem era p u ram ente aritm ética: versão que co n ­ — a teoria geom étrica do m undo. Ao se voltarem de Aristóteles p ara Platão, os
cebia partículas elem entares (os famosos corpos platônicos) a p artir de triângulos grandes físicos da Renascença — Copérnico, Galileu, Kepler, G ilbert — p re te n ­
que incorporavam as raízes q uadradas irracionais de dois e de três. Em quase todos deram com isso substituir as substâncias ou potências aristotélicas, qualitativas, por
os outros aspectos, Platão preservou as idéias pitagóricas, bem como algumas das um m étodo geom étrico da cosmologia. Com efeito, isso foi, em grande p arte, o que
idéias m ais im portantes de D em ócrito.43 Procurou, ao mesmo tem po, elim inar o o Renascim ento significou, em termos científicos: o ressurgim ento do m étodo
conceito de “vazio” de Dem ócrito, porque percebeu 44 que o m ovim ento é possível geom étrico, em que se basearam Euclides, A ristarco, A rquim edes, Copérnico,
mesmo num m undo “com pacto” , desde que seja concebido como vórtices num Kepler, Galileu, Descartes, Newton, Maxwell e Einstein.
fluido. G uardou, portanto, algum as das idéias mais fundam entais de Parm êni-
des. 45 Podemos qualificar esse desenvolvimento propriam ente como filosófico} Não
será na verdade um capítulo da física — um a ciência factual — e da m atem ática
7) Platão encorajou a construção de modelos geométricos do m undo, es­ pu ra — que para os seguidores de W ittgenstein é um ram o da lógica tautológica?
pecialm ente m odelos que explicassem os movimentos planetários. A credito que a
geom etria de Euclides não pretendia ser um exercício de geom etria p u ra (como Creio que neste ponto podemos perceber claram ente por que a realização
platônica foi filosófica — em bora apresente tam bém com ponentes físicos, lógicos,
híbridos e até mesmo sem qualquer sentido; por que sua física e filosofia da n a ­
42 - An. Post., 76b9; Meta/., 983a20, 1061M; Epinomis, 990d. tureza pelo menos em parte resistiram ao tem po, e continuarão a resistir.
43 — Platão aceitou a teoria dos vórtices, de Demócrito, (Diels, fragm. 167, 164; cf. Anaxágoras, Diels
9, 12 e 13) e sua teoria do que chamaríamos hoje de fenômenos gravitacionais (Diels, 164; Anaxágoras,
12, 13, 15 e 2), a qual foi ligeiramente modificada por Aristóteles e rejeitada depois por Galileu. 46 — Uma exceção seria o reaparecimento de métodos aritméticos na teoria quântica, isto é, na teoria
44 — A passagem mais clara a este respeito é a do Timeu, 80c, onde se diz que nem no caso do âmbar do sistema periódico de órbitas eletrônicas baseado no princípio da exclusão de Pauli — uma inversão
friccionado nem no da “pedra heracliana” (magneto) há de fato qualquer atração: “não existe o vazio; da tendência platônica para geometrizar a aritmética. A respeito da tendência moderna para a “arit-
as coisas deslizam umas sobre as outras”. Por outro lado, Platão não foi muito claro sobre esse ponto, metização da geometria” (que não é característica de todos os trabalhos geométricos modernos), ou da
pois suas partículas elementares (excetuadas o cubo e a pirâmide) não podem ser aproximadas sem análise, vale notar que apresenta pouca semelhança com a abordagem pitagórica, pois emprega conjun­
deixar algum espaço entre si (vazio?), como observou Aristóteles em De Caelo, 306b5.'Vide também o tos, ou sequências infinitas, de números naturais — e não os próprios números naturais. Só os que se
Timeu, 52e. limitam ao emprego dos métodos “construtivos”, “finitistas” ou “ii^tuicionistas” poderiam alegar que
suas tentativas de reduzir a geometria à teoria dos números se aproximam das idéias pitagóricas ou pré-
45 — A reconciliação do atomismo e da teoria do plenum (“a natureza rejeita o vácuo”), por Platão, platônicas. Um passo importante nesse sentido foi tomado recentemente, ao que parece, pelo mate­
tem a maior importância para a história da física, até os nossos dias. Influiu fortemente em Descartes, mático alemão E. de Wette.
tornou-se a base da teoria do éter e da luz e, portanto,em última análise, da mecânica ondulatória de
Broglie e de Schrodinger. através de Huyghens e Maxwell. Vide meu relatório em A tti d. Congr. Intem. 47 — Vide G. F. Hemens, Proc. o f the Xth. Intem. Congress o f Philosophy (Amsterdam, 1949), Fase
deFilos (1958), 2, 1960, pág. 367. 2, 847, a propósito da influência de Platão e de Euclides.
118 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 119

Esses dois triângulos podem ser descritos como cópias50 de “form as” ou
O que encontram os em Platão e nos seus predecessores é a construção
“idéias” imutáveis, o que significa que figuras especificam ente geométricas são a d ­
deliberada, a invenção de um a nova abordagem do m undo e do conhecim ento a
m itidas no céu das form as-núm eros aritméticas concebido por Pitágoras.
respeito do m undo. A bordagem que transform a um a idéia originalm ente teológica,
a idéia de explicar o m undo visível por u m m u ndo invisível que é postulado, 48 no
Não há m uitas dúvidas de que a razão para isso é a tentativa de solucionar a
instrum ento fu n d am en tal da ciência teórica. Essa idéia foi form ulada explicita-
crise do atom ism o incorporando os irracionais aos elem entos de que o m undo está
m ente por A naxágoras e por Dem ócrito 49 como o princípio da investigação da
construído. Pode-se vencer, assim, a dificuldade relacionada com a existência de
natureza da m atéria ou de um corpo; a m atéria visível deveria ser explicada por
distâncias irracionais.
um a hipótese a respeito dos invisíveis, sobre um a estrutura invisível, pequena
demais para poder ser vista. Com Platão, essa idéia é conscientem ente aceita e
Por que Platão escolheu justam ente esses dois triângulos? Em outra o p o r­
generalizada: o m undo visível das m udanças é explicável, em últim a análise, pelo
tu n id a d e ,51 m anifestei m eu ponto de vista (um a conjectura) de que Platão
m undo invisível das “form as” (“substâncias” , “naturezas” ou “essências” — isto é,
acreditava possível obter todos os outros irracionais som ando aos núm eros racionais
figuras geom étricas) im utáveis.
os m últiplos da raiz q u ad rad a de dois e da raiz q u ad rad a de três. 52534Sinto-me agora
mais seguro de que essa doutrina (equivocada, conform e dem onstraria Euclides) es­
Esta concepção da estrutura invisível da m atéria é física ou filosófica? Se um
tá im plicada n a passagem crucial do T im eu a este respeito, na qual Platão afirm a
físico apenas age com fundam ento nessa teoria, se a aceita — talvez inconscien­
claram ente: “Todos os triângulos derivam de dois triângulos, cada um dos quais
tem ente — aceitando os problem as tradicionais do seu cam po de estudo, indicados
tem um ângulo reto ” ; e prossegue na especificação desses dois triângulos origi­
pela situação-problem a que o confronta, e se, ao agir assim, elabora um a nova
nários: o m eio-quadrado e o sem i-equilátero. No contexto, porém , a afirm ativa só
teoria específica sobre a estrutura da m atéria, não diria que é um filósofo. Mas, se
pode significar que todos os triângulos podem ser compostos m ediante combinações
ele reflete sobre a teoria e, por exem plo, a rejeita (como Berkeley e M ach), p re ­
desses dois — um ponto de vista que equivale à teoria errônea da com ensurabi-
ferindo ad o tar um a física positivista e fenom enológica, e não um a física teórica e
lidade refativa de todos os núm eros irracionais com somas dos núm eros racionais
até certo ponto teológica, então é um filósofo. Da m esm a form a, os que elab o ­
com a raiz qu ad rad a de dois e de três. 55
raram conscientem ente a abordagem teórica, form ulando-a explicitam ente —
transferindo assim os m étodos hipotético e dedutivo da teologia p ara a física —
Mas Platão não pretendia possuir um a prova da teoria em questão. Ao con­
eram filósofos, em bora fossem tam bém físicos, na m edida em que atu aram com
trário, o filósofo afirm ava adm itir os dois triângulos como princípios, “de acordo
base nos seus próprios preceitos, tentando fo rm ular teorias efetivas sobre a es­
com um ponto de vista que com bina a conjectura provável com a necessidade”.
tru tu ra invisível da m atéria. Mais adiante, depois de explicar que aceita o triângulo sem i-equilátero como o seu
segundo princípio, diz: “A razão disso é um a história por dem ais longa; mas se a l­
Mas não m e dem orarei na questão do rótulo filosófico — esse problem a, que
guém exam inar o assunto, e conseguir provar essa propriedade (im agino que a
é o de W ittgenstein, tem a ver com o uso lingüístico; é um pseudoproblem a, que
propriedade de que todos os outros triângulos podem ser compostos por esses dois),
aliás já deve estar aborrecendo o leitor. Desejaria, no entanto, acrescentar algum as
a vitória será sua, o que reconhecerei de boa vontade” . 54 A linguagem aqui é um
palavras a respeito da teoria platônica das form as, ou idéias — o ponto 6 d a lista tanto obscura, e a razão provável disso é que Platão tin h a consciência de que lhe
de fatos históricos reproduzida acim a.
faltava um a prova da sua conjectura (errônea) relativa aos dois triângulos “o ri­
ginários” — prova que ele esperava fosse fornecida por alguém .
A teoria de Platão sobre a estrutura da m atéria pode ser encontrada no
Tim eu; tem um a sem elhança pelo menos superficial com a teoria m oderna dos
sólidos, que os considera como cristais: os corpos físicos são compostos por p a rtí­
culas elem entares invisíveis, de diferentes form as — responsáveis pelas propriedades
m acroscópicas d a m atéria visível. As form as das partículas elem entares são d e te r­ 50 — Vide Open Society, nota 15, cap. 3, a respeito do processo pelo qual os triângulos são impostos ao
espaço (a “mãe”) pelas idéias (os “pais”); ao admitir triângulos irracionais no seu paraíso de formas
m inadas, por sua vez, pelas figuras planas que constituem seus lados — as quais, divinas, Platão está admitindo o que é “indeterminável”, no sentido pitagórico — o que pertence ao
finalm ente, se com põem de dois triângulos elem entares: o m eio-quadrado (ou lado mau do Quadro de Oposições. É no Parmênides (130b-e) que Platão declara pela primeira vez
triângulo isósceles retan g u lar), que incorpora a raiz quadrada de dois; e o triângulo que coisas “más” podem precisar ser aceitas — admissão atribuída ao próprio Parmênides.
retan g u lar sem i-equilátero, que incorpora a raiz quadrada de três am bos ir ­ 51 — Em Open Society, na nota citada.
racionais. 52 — 0 que significa que todas as distâncias geométricas (magnitudes) seriam comensuráveis com uma
de três “medidas” (ou uma soma de duas ou de todas elas), relacionadas entre si do seguinte modo:
1 : \J2 : \f3. Parece provável que Aristóteles chegou mesmo a acreditar que todas as magnitudes geo­
métricas são comensuráveis com uma de duas medidas — 1 e \Í2 , pois escreve (Metafísica, 1053a 17):
48 — Cf. a explicação homérica sobre o mundo visível em torno de Tróia com a ajuda do mundo in­ “A diagonal e o lado de um quadrado e todas as magnitudes (geométricas) são medidas por duas
visível do Olimpo. Com Demócrito, a idéia perde uma parte do seu caráter teológico (que ainda é bas­ (medidas)”.
tante forte em Parmênides, e menos em Anaxágoras) para reavê-lo com Platão — perdendo-o pouco 53 — Na nota 9, cap. 6, de Open Society, conjecturei igualmente que a aproximação deTT*poiV^ + N/1
depois. encorajou Platão a essa concepção equivocada.
54 — As duas citações são do Timeu, 53 c/d e 54 a/b.
49 — Vide Anaxágoras, frags. B4 e 17, Diels-Kranz.
CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 121
120

Em resum o, parece provável que a teoria das form as de Platão e tam bém
A obscuridade dessa passagem teve ap arentem ente um estranho efeito: o sua teoria da m atéria tenham sido reform ulações de teorias dos seus predecessores
enunciado platônico de um a escolha de triângulos que introduz irracionais no seu — respectivam ente os pitagóricos e Demócrito —, à luz da percepção de que os
m undo de form as escapou à atenção de quase todos os com entaristas — a despeito irracionais exigiam que a geom etria passasse à frente da aritm ética. Ao encorajar
da ênfase d ad a pelo filósofo à irracionalidade, em outras passagens. Por sua vez, is­ essa em ancipação, Platão contribuiu p ara o desenvolvimento do sistema de Eu-
so pode explicar por que a teoria das form as pôde parecer a Aristóteles fu n d am en ­ clides, a teoria dedutiva mais im portante e de m aior influência já elaborada.
talm ente igual à teoria pitagórica das form as-núm eros; 55 por que o atom ism o de A dotando a geom etria como um a teoria do m undo, iria proporcionar a Aristarco,
Platão parecia a Aristóteles sim plesm ente um a variação m enor do atom ism o de Newton e Einstein as ferram entas intelectuais que eles utilizaram . A calam idade do
D em ócrito. 56 A despeito de adm itir a associação da aritm ética com “os pares e os atomismo grego se transform ou, assim, num a realização m om entosa. Mas os in ­
ím pares” , e a da geom etria com os irracionais, Aristóteles não parece ter consi­ teresses científicos de Platão foram em parte esquecidos: hoje, a situação-problem a
derado seriam ente o problem a dos irracionais. P artindo da interpretação do T im eu da ciência que deu origem a seus problem as filosóficos é pouco com preendida. Sua
que identifica o espaço de Platão com a m atéria, parece ter aceito natu ralm en te o m aior contribuição, a teoria geom étrica do m undo, influenciou-nos de tal modo
program a platônico de reform a da geom etria — esse program a já tinha sido que a adm itim os im plicitam ente, sem reflexão.
executado em p arte por Eudoxus, antes do ingresso de Aristóteles na A cadem ia;
por outro lado, seu interesse no cam po da m atem ática era apenas superficial: ele X
nunca alude, por exem plo, à inscrição existente no portão da Academ ia.
Um exem plo isolado nunca é suficiente. Como segundo exem plo escolhi,
dentre m uitas possibilidades interessantes, K ant. Sua Crítica da Razão Pura é um
dos livros mais difíceis já escritos. K ant escreveu-o às pressas, 57 p ara tra ta r de um
55 — Penso que nossa observação pode elucidar em parte o problema representado pelos dois “prin­ problem a que, como procurarei dem onstrar, era não apenas insolúvel mas tam bém
cípios” famosos de Platão — “a unidade” e “a díade indeterminada”. A interpretação seguinte desenvol­ m al concebido. Contudo, não se tratava de um pseudoproblem a, m as sim de um
ve sugestão apresentada por van der W iden {De Ideegetallen van Plato, 1941, pág. 132), defendida problem a inescapável, provocado pela situação da ciência no seu tem po.
brilhantemente por Ross {Plato's Theory o f Ideas, pág. 201) contra as críticas do próprio van der
Wieleii. Admitamos que a “díade indeterminada” é uma linha reta ou distância, não devendo contudo ser O livro foi escrito adm itindo que o leitor conhecesse algo da dinâm ica es­
interpretada como unidade de distância (com efeito, não teria sido medida de nenhuma forma). Admita­ trelar de Newton, e que tivesse pelo menos um a idéia geral a respeito dos seus
mos também que um ponto (limite, “unidade”, monas) é colocado sucessivamente em posições tais predecessores — Copérnico, Tycho Brahe, Kepler e Galileu.
que divida a díade de acordo com a proporção 1: n (sendo n qualquer número natural). Podemos então
descrever a “geração” dos números como segue. Para n = 1, a díade é dividida em duas partes, com Não é fácil p ara o intelectual contem porâneo, que o espetáculo do êxito
a razão 1:1 — o que pode ser interpretado como a “geração da duplicidade, a partir da unidade” (1:1 = 1) científico tornou blasé, perceber o significado da teoria de Newton, não só para
e da díade, já que dividimos esta última em duas partes iguais. Depois de “gerar” o número 2, po­ K ant, m as para qualquer pensador do século dezoito. Depois das ousadas tentativas
demos dividir a díade de acordo com a razão 1:2 (a maior das seções seguintes, como antes, segundo a com que os antigos tinham abordado o enigm a do universo, sucederam -se longos
razão ltl) , gerando portanto três partes iguais e o número 3. Em geral, a “geração” de um número n
provoca uma divisão da díade conforme a razão 1: n; com isso, a geração dó número n + 1. Em cada períodos de decadência e de recuperação, seguidos por um grande sucesso: a des­
fase a “unidade” intervém novamente como o ponto que introduz um limite, forma ou medida na díade coberta, por Newton, do segredo há tanto procurado. Sua teoria geom étrica,
indeterminada, para criar outro número. Esta observação pode reforçar a argumentação de Ross çontra m odelada em Euclides, foi recebida a princípio com grandes hesitações, mesmo
van der W iden. Compare com os trabalhos de Toeplitz, Stenzel e Becker em Quellen & Studien z. pelo seu fo rm u lad o r.5859 O motivo era a força gravitacional da atração, que parecia
Gesch. d. Math., 1, 1931. Nenhum desses trabalhos, porém, menciona qualquer geometrização da arit­
mética. Note-se que embora esse procedimento “gere” (pelo menos no primeiro caso) somente a série dos “oculta” , exigindo algum a explicação. Contudo, em bora não se tivesse encontrado
números naturais, ele contém um elemento geométrico — a divisão de uma linha, primeiro em duas nenhum a explicação plausível (e Newton desprezava as hipóteses ad hoc) todas es­
partes iguais e, em seguida, em duas partes segundo uma determinada proporção — 1: n. Os dois tipos sas relutâncias tinham desaparecido m uito antes de K ant propor sua im portante
de dívisao requerem métodos geométricos e o segundo exige, mais especialmente, um método como o da contribuição à teoria new toniana, 78 anos depois dos Principia. $9
teoria das proporções de Eudoxus. Na minha opinião, Platão começou a se perguntar por que não
dividir a díade também na proporção 1 : e 1: y3. Deve ter sentido que assim se afastaria do método
pelo qual os números naturais eram gerados — o processo seria ainda menos “aritmético”, exigindo es­ N enhum árbitro q u alificad o 60* podería ter ainda qu alq u er dúvida de que
pecificamente métodos “geométricos”. Contudo, ele “geraria”, em lugar dos números naturais, elemen­ Newton tinha razão. Sua teoria fora testada pelas medições mais rigorosas, com
tos lineares na proporção l : \ f 2 e / l : s 3, que podem ser idênticos às “linhas atômicas” {Metafísica,
992al9 com os quais os triângulos atômicos eram construídos. Ao mesmo tempo, a caracterização da
díade como “indeterminada” seria muito apropriàda, tendo em vista a atitude pitagórica (cf. Filolaos, 57 — Temia morrer antes de completar o trabalho.
Diels, frags. 2 e 3) com relação ao irracional. Admitindo que este ponto de vista esteja correto, pode­
riamos conjecturar que Platão se aproximou gradualmente da posição de que os irracionais são nú­ 58 — Vide as cartas de Newton a Bentley, 1693.
meros, pois a) são comparáveis com os números {Met. 1021a 4) e b) tanto os irracionais como os nú­
meros naturais são “gerados” por processos similares, essencialmente geométricos. Contudo, quando se 59 — A chamada hipótese Kant-Laplace, publicada por Kant em 1755.
chega a esse ponto de vista, mesmo os triângulos irracionais do Timeu se tornam “números” (caracte­ 60 — Tinha havido, é verdade, algumas críticas muito pertinentes (especialmente de Leibniz e Ber-
rizados por proporções numéricas, embora irracionais). Nesse ponto, porém, a contribuição peculiar de keley) mas, tendo em vista o êxito da teoria, acreditava-se (a meu ver apropriadamente) que os críticos
Platão, e a diferença entre sua teoria e a de Pitágoras, podem ficar indistinguíveis — o que explicaria a não tinham percebido seu sentido central. Não podemos esquecer que ela permanece de pé ainda hoje,
razão por que ela não foi percebida nem mesmo por Aristóteles (que suspeitava tanto da “geometri­ com pequenas modificações, como uma excelente primeira aproximação (ou, à vista de Kepler, como
zação“ como da “arítmetizaçãp”). uma segunda aproximação).
56 — Luria mostrou que esse foi o ponto de vista de Aristóteles {op. cit.).
122 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES A NATUREZA DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E SUAS RAÍZES CIENTÍFICAS 123

resultados sem pre corretos. T in h a perm itido a previsão de desvios m uito pequenos a episteme que se teria alcançado — não era um fa to . Como sabemos agora, ou
das leis de Kepler, levando a novas descobertas. N um a época como a nossa, em que acreditam os saber, a teoria de Newton não passa de um a m aravilhosa conjectura,
as teorias se sucedem rapidam ente, e todo estudante já ouviu dizer que a concepção um a excelente aproxim ação da realidade; insólita, de fato, m as não como verdade
de Newton foi substituída pela de Einstein, é difícil im aginar a convicção inspirada divina, apenas como invenção do gênio hum ano. N ão era epistem e, mas do xa .
pela teoria de Newton — o sentim ento de distensão e liberação que ela produzia. Portanto, o problem a de K ant desaparece, e com ele suas m aiores perplexidades.
N a história do pensam ento tinha acontecido um evento insólito, que nao se re ­
petiria facilm ente: um sonho secular da h u m anidade se havia concretizado, com a A solução proposta por K ant para esse problem a insolúvel consistia no que
obtenção de conhecim ento — real, certo, indubitável e dem onstrável. Era um a ele cham ava, com orgulho, sua “revolução de Copérnico” da epistem ologia. O
m anifestação d a divina scientia ou episteme, e não apenas da doxa, a opinião dos conhecim ento — episteme — era possível porque não somos meros receptores pas­
sivos de dados sensoriais, que processamos ativam ente. Ao assimilá-los, nós os o r­
hom ens.
ganizamos num cosmos — o universo da natureza. Com esse processo, impomos ao
Assim, p ara K ant a teoria de Newton era simplesmente verdadeira; a crença m aterial que se apresenta a nossos sentidos as leis m atem áticas que participam do
na sua verdade durou um século depois da m orte de K ant. Até m orrer, o filósofo nosso mecanism o de assimilação e organização. Nosso intelecto não descobre leis
aceitou o que ele e todos os seus contem porâneos acreditavam ser um fato, um a universais na natureza, mas prescreve suas próprias leis, im pondo-as à natureza.
p arte da scientia ou epistem e. A princípio, aceitou-a sem questioná-la: o período
Essa teoria é um a estranha m istura de verdade e de absurdo. É tão absurda
de “dorm ência dogm ática” , de que foi despertado por H um e.
quanto o falso problem a que procura resolver — vai m uito longe, pois foi con­
H um e ensinara que não podia haver conhecim ento seguro de leis universais, cebida p ara ir longe dem ais. De acordo com a teoria de K ant, a “ciência natu ral
p u ra ” não só é possível mas (em bora ele não o perceba, e contrariam ente à sua in ­
ou epistem e: tudo o que sabíamos tínham os conhecido por meio da observação,
tenção) resulta necessariamente do nosso equipam ento m ental. Com efeito, se o
que só se podia aplicar a casos singulares — assim, todo conhecim ento teórico era
inseguro. C ontudo, havia um fato (ou o que aparecia como um fato) a desafiar essa fato de termos alegadam ente alcançado a episteme pode ser explicado pelo fato de
que nosso intelecto legisla e im põe à natureza suas próprias leis, então o prim eiro
afirm ativa — a epistem e alcançada por Newton.
desses dois fatos não pode ser m ais contingente d o que o segundo. 62 O problem a
H um e despertou Kant p ara o quase-absurdo daquilo de que ele nunca passa a ser, assim, por que nenhum a outra pessoa descobriu o que Newton pôde
duvidara. Ali estava um problem a que não podia ser desprezado. De que form a descobrir. Por que razão nosso mecanismo de processam ento dos dados da obser­
teria podido Newton chegar àquele conhecim ento — conhecim ento geral, preciso, vação não funcionou antes de Newton?
m atem ático, dem onstrável e indubitável, como a geom etria euclidiana, e contudo
capaz de d ar um a explicação causal a fatos observados? Esta é, naturalm ente, um a conseqüência absurda da idéia de K ant. Não
bastaria, contudo, desprezá-la, e afastar seu problem a como um pseudoproblem a.
Surgiu assim o problem a central da Crítica: “Como é possível haver ciência De fato, podemos perceber um elem ento de verdade na sua concepção (e um
n a tu ra l p u ra ? ” Por “ciência n atu ral p u ra ” {scientia, episteme) K ant queria dizer reajuste m uito necessário a algum as noções de H um e), se reduzimos o problem a às
sim plesm ente a teoria de Newton. Infelizm ente, não o diz de m odo explícito; por dimensões justas. Sua indagação — sabemos agora, ou acreditam os saber — d e ­
isso um estudante que leia sua prim eira C rítica, de 1781 e 1787, não poderá des­ veria ter sido a seguinte: “Como é possível que certas conjecturas tenham êxito?”
cobri-lo por si mesmo. Mas a referência fica clara nos Fundam entos Metafísicos da D entro do espírito da “revolução de C opérnico” , nossa resposta deveria ser mais ou
Ciência N atural, de 1786, onde o filósofo form ula um a dedução a priori da teoria menos assim: “Porque não somos receptores passivos dos dados sensoriais, mas sim
de Newton — vide em especial os oito teorem as da Segunda P arte Principal, com organismos ativos; porque nem sempre reagimos ao am biente instintivam ente, mas
seus adendos, especialm ente o de n .° 2, n ota 1, parágrafo 2. K ant expõe a teoria algum as vezes com consciência, livremente; porque podem os inventar mitos, es­
de Newton no quinto p arágrafo da “N ota Geral Fenom enológica”, final. A referên­ tórias, teorias; porque temos sede de explicação, um a curiosidade insaciável, um
cia fica clara tam bém n a “Conclusão” da Crítica da Razão Prática, de 1788, onde desejo de conhecer; porque não só inventam os estórias e teorias, m as as testamos
a m enção aos “céus estrelados” é explicada, no fim do segundo parágrafo, por um a p ara ver se funcionam , e como funcionam ; porque fazendo um grande esforço e
referência ao caráter a priori da. nova astronom ia. Kant afirm a, ali, que Newton com etendo m uitos erros podemos às vezes, com sorte, en contrar um a estória, um a
nos deu “um a visão da estru tu ra do universo que perm anecerá im utável em todos explicação que “respeita os fenôm enos” — quem sabe, elaborando um m ito sobre
os tem pos; em bora haja esperança de que essa visão se am pliará sem pre, pela o b ­ “invisíveis”, como os átomos ou as forças gravitacionais, que explica o visível. P o r­
servação co n tin uad a, não se precisará jam ais tem er um recuo” . que o conhecim ento é um a aventura com idéias. É bem verdade que somos nós que
produzim os essas idéias — não é o m undo que as produz; elas não refletem apenas
E m bora a Crítica não tenha sido bem escrita, apresentando m uitas im p er­ sensações ou estímulos repetidos. Neste ponto, K ant tinha razão. C ontudo, somos
feições gram aticais, o problem a de que tratava não era um simples quebra-cabeça
lingüístico. Tratava-se do conhecim ento: como teria sido possível a N ew ton alcan­ 62 — Um requisito muito importante que qualquer teoria do conhecimento precisa satisfazer, para ser
çá-lo? A questão era inescapável 61 e tam bém insolúvel, porque o fato aparente — adequada, é o de não explicar demais. Qualquer teoria não histórica que tente explicar por que mn&a
certa descoberta tinha de ser feita é inadequada, porque não poderia explicar por que a descoberta não
61 — Ainda em 1909 o problema perturbava Poincaré. foi feita um pouco antes.
124 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES

mais ativos e mais livres do que o filósofo foi capaz de im aginar — observações
sem elhantes ou situações am bientais similares não produzem as mesmas explicações
em pessoas diferentes, como a teoria de K ant pode im plicar. Nem o fato de que
criam os nossas teorias e procuram os im po-las ao m undo explica o sucesso dessas
teo ria s.63 N a verdade, a esm agadora m aioria das nossas teorias e idéias estão des­
tinadas ao insucesso: não resistem aos testes, e são rejeitadas, pois a experiência as
refu ta. N a lu ta pela sobrevivência que é a sua com petição, só um as poucas alcan ­
3. Três Pontos de Vista sobre
çam a vitória. 64 o Conhecimento Humano*
XI
1. A Ciência de Galileu N ovam ente Atraiçoada.
Poucos sucessores de K ant parecem ter entendido claram ente a situação -
problem a precisa que deu origem à obra daquele filósofo. Havia dois problem as Houve um a vez um cientista famoso, cham ado Galileu Galilei, que foi ju l­
dian te de K ant: a dinâm ica celestial de Newton e os padrões absolutos da fra te r­ gado pela Inquisição e obrigado a renunciar a suas idéias. Isso provocou um a
nidade h u m an a e da justiça proclam ados pelos revolucionários franceses — como grande excitação; por mais de duzentos e cinqüenta anos o episódio continuou a
disse K ant, “os céus estrelados no alto e a lei m oral dentro de m im ” . Mas os “céus levantar indignação — m uito tem po depois de a opinião pública ter alcançado a
estrelados” raram en te são entendidos como alusão a Newton. A p artir de Fichte, 65* vitória e a Igreja com eçado a tolerar a ciência.
m uitos copiaram o “m étodo” de K ant e o estilo difícil de algum as porções da sua
Crítica. A m aior parte desses im itadores, ignorando os interesses e os problem as Mas esta é um a história m uito antiga, que já deve ter perdido interesse.
originais de K ant, ten taram em vão explicar a dificuldade em que o filósofo in a d ­ A parentem ente, a ciência de Cralileu não tem m ais inimigos; sua existência é b as­
vertidam ente se deixou envolver. tante segura. A vitória — alcançada há m uitos anos — foi definitiva e tudo está
tranqüilo no fro n t. Por isso adotam os hoje um a posição distendida a respeito do
Precisamos tom ar cuidado p ara não confundir as sutilezas sem sentido e caso, com preendendo os dois lados da disputa, porque aprendem os finalm ente a
relevância dos im itadores com os problem as genuínos do pioneiro. E preciso não es­ pensar em termos históricos. E ninguém presta atenção ao im portuno que não con­
quecer que esse problem a, em bora não seja em pírico no sentido ordinário do te r­ segue esquecer um a velha rixa.
m o, se to rn a inesperadam ente factual num certo sentido (K ant cham ou esses fatos
de “transcendentais”), por se ter originado em um exemplo aparente, em bora Afinal, de que se tratava? Do estatuto atribuído ao “sistema do m u n d o ” de
irreal, de scientia ou episteme. Penso que deveríamos considerar seriam ente a Copérnico que, entre outras coisas, explicava o m ovim ento diurno do Sol como um
sugestão de que a resposta d ad a por K ant, em bora seja parcialm ente absurda, co n ­ movim ento aparente, devido à rotação da T e r r a .1 A Igreja estava pro n ta a adm itir
tin h a o núcleo de um a verdadeira filosofia da ciência. que o novo sistema era m ais simples do que o antigo: um instrum ento mais con­
veniente p ara os cálculos e previsões dos astrônom os, que a reform a do calendário
do Papa Gregório utilizou na p rática. N ão se objetava a que Galileu ensinasse sua
teoria m atem ática, desde que deixasse claro que ela tin h a apenas valor instrum en­
tal — de que não passava de um a “suposição” , p a ra usar as palavras do cardeal
B elarm ino,2 ou “hipótese m atem ática” — um a espécie de tru q u e m atem ático “in-

* Publicado originalmente em Contemporary British Philosophy, 3.a série, ed. H. D. Lewis, 1956.
1 — Acentuo o movimento diurno (em lugar do anual) porque era precisamente a teoria do movimento
diurno que se chocava com a Bíblia — Josué, 10, 12 — e também porque a explicação dada a esse
movimento é um dos principais exemplos que usarei em seguida. (Esta explicação, naturalmente, é
muito mais antiga do que Copérnico — mais antiga ainda do que Aristarco — e tinha sido redescoberta,
repetidamente, por Oresme, para dar um exemplo).
2 — “... Galileo será prudente”, escreveu o Cardeal Belarmino (que fora um dos inquisidores contra
Giordano Bruno) “se falar hipoteticarhente, ex suppositione ...; é próprio dizer que descrevemos melhor
as aparências admitindo que a Terra se move e o Sol está parado, em vez de falar em excêntricos e
63 — Aplicando a observação da nota anterior, nenhuma teoria pode explicar por que nossa busca de epiciclos; não há nenhum perigo nisso, e é só o que o matemático exige”. (Cf. H. Grisar, Gaiüeistudien,
teorias explicativas tem êxito. Uma explicação exitosa deve guardar, para qualquer teoria válida, a 1882, Apêndice ix). Embora essa passagem faça de Belarmino um dos fundadores da epistemologia que
probabilidade zero — admitindo que a medida dessa probabilidade seja, aproximadamente, a razão en­ Osiandro havia sugerido anteriormente e que passarei a chamar dê “instrumentalismo”, o próprio
tre as hipóteses explicativas “bem sucedidas” e todas as hipóteses que poderiam ser formuladas. Belarmino — ao contrário de Berkeley — não era um instrumentalista convicto, como demonstram
64 — As idéias principais desta “resposta” foram elaboradas em L. Sc. D. outros trechos da carta. Apenas considerava o instrumentalismo uma das maneiras de lidar com hi­
póteses científicas inconvenientes. Pode-se afirmar o mesmo de Osiandro.
65 — Cf. Open Society, nota 58, cap. 12.
126 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 127

de que a aceitação da veracidade da ciência new toniana im plicava renunciar à


ventado e adotado p ara abreviar e facilitar os cálculos”.^ Em outras palavras, não afirm ação de que descobrira o m undo real, oculto pelas aparências — era, de fato,
havia objeções enq u an to Galileu concordasse com A ndré O siandro, que afirm ara, um a teoria verdadeira da natureza, mas a natureza, do m odo como se revela a nos­
no prefácio ao De Ftevolutionibus de C opérnico: “As hipóteses nao precisam ser sas m entes assimiladoras, constitui precisam ente o universo dos fenômenos. Mais
verdadeiras, nem parecidas com a verdade; basta que nos perm itam fazer cálculos tarde, certos pragm atistas fu n d am en taram sua filosofia na concepção de que a
que estejam de acordo com nossas observações” . idéia do conhecim ento “p u ro ” é errônea; que só existe conhecim ento instrum ental:
o conhecim ento é poder, e a verdade, utilidade.
O próprio Galileu, obviam ente, estava disposto a enfatizar a superioridade
do sistema de Copérnico como instrum ento de cálculo. Ao mesmo tem po, Galileu Com algum as exceções brilhantes 56*, os físicos perm aneceram indiferentes
conjecturava (e acreditava mesmo) que o sistema era um a descrição verdadeira do com relação a esses debatei filosóficos (que se m ostraram totalm ente inconclusivos).
m undo, o que p a ra ele (e p ara a Igreja) era o aspecto mais im portante da questão. Fiéis à tradição de Galileu, dedicaram -se à busca da verdade como ele a havia
De fato, ele tin h a boas razões p ara acreditar na veracidade da teoria, pois havia com preendido.
observado pelo telescópio que Jú p iter e suas luas form avam um modelo em m i­
n iatu ra do sistema solar descrito por Copérnico (segundo o qual os planetas eram Isso durou até recentem ente e hoje é p arte da história. A tualm ente, a visão
luas do Sol). Além disso, se Copérnico estava correto, os planetas mais próximos do da ciência física fu ndada por O siandro, o cardeal B elarm ino e o bispo Berkeley 6
Sol (e só estes) deveriam apresentar fases, do mesmo m odo que a nossa lua; e venceu a disputa sem gastar nenhum outro cartucho; sem mais debate sobre a
Galileu observou com seu telescópio as fases de Vénus. questão filosófica, e sem apresentar outros argum entos, a visão instrum entalista
(como a cham arei aqui) tornou-se um dogm a aceito. A dotada pela m aioria dos
A Igreja relutava em contem plar a verdade de um Novo Sistema do M undo físicos teóricos (em bora não por Einstein e Schrõdinger), pode ser considerada hoje
que parecia contradizer um trecho do Antigo T estam ento. Este, no entanto, dificil­ a “visão oficial” da teoria física, tendo sido incorporada ao ensino dessa disciplina.
m ente seria o motivo principal; um a razão m ais profunda foi claram ente exposta
pelo bispo Berkeley, cerca de cem anos mais tarde, em sua crítica de Newton. 2. O Que Está em Jogo

N a época de Berkeley, o sistema do m undo de Copérnico havia-se desenvol­ T udo isso parece um a grande vitória do pensam ento filosófico crítico sobre
vido p a ra form ar a teoria da gravitação de Newton, que Berkeley considerava um ó “realismo ingênuo” dos físicos. Duvido, no entanto, de que essa interpretação es­
sério com petidor da religião. Estava convencido de que o declínio da fé e da a u ­ teja correta.
toridade religiosa seria o resultado de um a interpretação correta d ad a pelos livres
pensadores” à nova ciência, cuja eficácia provaria a capacidade do intelecto de Poucos dos cientistas que aceitaram a visão instrum entalista do cardeal
desvendar os segredos do universo — a realidade oculta pelas aparências — sem o Belarmino e do bispo Berkeley percebem que ad o taram um a teoria filosófica.
auxílio de revelações divinas.

Berkeley acreditava que essa in terpretação da nova ciência era errônea.


5 As mais importantes são: Mach, Kirchhof, Hertz, Duhem, Poincaré, Bridgman e Eddington todos
Analisou com total im parcialidade e grande agudeza filosófica a teoria de Newton; representando diversas correntes do instrumentalismo.
após um exam e crítico dos conceitos, estava convencido de que a teoria não re ­
6 — Em seus conhecidos trabalhos Sózein ta phainómena (Ann de philos. chrétienne, année 79, tom. 6,
presentava m ais do que um a “hipótese m atem ática” , ou seja, um instrum ento con­
1908, n.os 2 a 6), Duhem reivindica para o instrumentalismo uma descendência muito mais ilustre e
veniente p ara calcular e prever fenômenos ou aparências; nao podia ser conside­ antiga do que pode ser provado. De fato, o postulado de que os cientistas devem explicar os fatos obser­
rad a um a descrição verdadeira da realidade 4. vados com suas hipóteses, em lugar de “violentá-los, procurando fazer com que caibam nas suas teo­
rias (Aristóteles, De Caelo, 293a25; 296b6; 297a4; b24 e seguintes; Met 1073b37, 1074al) tem pouco
Os físicos m al tom aram conhecim ento da crítica de Berkeley que foi aco­ a ver com a tese instrumentalista (de que nossas teorias só podem fazer isso). Esse postulado, contudo, é
lhida, no en tan to , pelos filósofos céticos e religiosos. Como arm a, revelou-se um essencialmente o mesmo que afirma que devemos “respeitar os fenômenos”, ou “salvá-los” (dia-sózein
ta phainómena). Essa expressão parece estar ligada ao ramo astronômico da tradição platônica. (Vide
verdadeiro “boom erang” : nas mãos de H um e, tornou-se um a am eaça a qualquer especialmente o trecho muito interessante sobre Aristarco em De Facie in Orbe Lunae, de Plutarco,
crença e a todo conhecim ento, hum ano ou revelado. Nas mãos de K ant, que .923a; vide também 933a, para a “confirmação da causa” pelos fenômenos, e, na edição de Cherniss do
acreditava firm em ente em Deus e na veracidade da ciência new toniana, desenvol­ trabalho de Plutarco, a nota a na pág.168. Além disso, os comentários de Simplício sobre o De Caelo,
veu-se até form ar a d o u trin a da im possibilidade do conhecim ento teórico de Deus; onde encontramos a expressão, p. e. nas páginas 497 1.21, 506 1.10 e 488 1.23f, na edição de Heiberg,
em comentários sobre De Caelo 293a4 e 292M0.) Podemos aceitar o relato de Simplício sobre Eudoxus,
que, influenciado por Platão, dedicou-se à tarefa de desenvolver um sistema geométrico abstrato de es­
3 — Citação retirada da crítica a Copérnico publicada por Bacon em Novum Organum, II, 36. Na feras rotativas para explicar o fenômeno observável dos movimentos planetários, ao qual não atribuiu
citação seguinte (retirada de De Revolutwnibus), traduzi o termo “verisimilis por parecido com a ver­ realidade física. (Parece haver alguma semelhança entre esse programa e o do Epinomis, 990-
dade” — ele certamente não poderia ser traduzido por “provável”, pois a questão gira em torno da in­ 1, onde o estudo da geometria abstrata — da teoria dos irracionais, 990d — 991b — é descrito como
dagação sobre se o sistema de Copérnico é semelhante, em sua estrutura, ao mundo, ou semelhante à requisito preliminar da teoria planetária; outro requisito é o estudo do número — isto é, dos números
verdade. A questão dos graus de certeza ou probabilidade não surge aqui. Sobre o importante problema pares e ímpares, 990c.) Isso não significa, contudo, que Platão ou Eudoxus aceitaram uma epistemò-
logia instrumentalista: possivelmente se restringiram consciente e sabiamente a um problema preli­
da Verossimilhança, vide também o cap. 10, especialmente as seções iii, x e xiv; e o apêndice 6. minar.
4 — Vide também o cap. 6.
128 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 129

T am b ém não percebem que rom peram com a tradição de Galileu. Pelo contrário, b) Em vez de resultados devidos ao princípio d a com plem entaridade, outros
resultados, m ais práticos, foram obtidos, no cam po d a física atôm ica — alguns
m uitos acreditam ter m antido a filosofia à distância; em todo caso, a m aioria nem
sequer dem onstra interesse no assunto. Como físicos, estão interessados: (a) no deles com repercussões retum bantes. N ão há dúvida de que os físicos tinham toda
dom ínio do form a lism o m atem ático, isto é, no instrum ento, e (b) nas suas apli­ razão em in terp retar essas aplicações exitosas como corroboração das suas teorias.
Estranham ente, eles a tom aram tam bém como confirm ação do credo instrum en­
cações. Pensam que, tendo excluído deste m odo tudo o mais, estão livres das fi­
talista.
losofias sem sentido. Essa m esm a atitude inflexível, contudo, não lhes perm ite con­
siderar seriam ente a visão científica de Galileu, em bora sem dúvida tenham ouvido
Isso, naturalm ente, era um erro. O ponto de vista instrum entalista afirm a
falar de M ach.7 P o rtan to , a vitória da filosofia instrum entalista dificilm ente pode
que as teorias são apenas instrum entos; o ponto de vista de Galileu é o de que elas
ser atrib u íd a à consistência de seus argum entos.
não são só instrum entos, mas tam bém — principalm ente — descrições do m undo
ou de certos aspectos do m undo. Está claro que nesse desacordo até mesmo um a
Como foi possível então essa vitória? Até onde percebo, pela coincidência de
prova dem onstrando que as teorias são instrum entos (adm itindo que fosse possível
dois fatores: (a) as dificuldades na in terpretação do form alism o da teoria quântica,
“provar” tal coisa) não poderia ser usada p ara apoiar qualquer dos lados, já que as
e (b) o êxito espetacular de suas aplicações práticas.
duas posições concordavam sobre este ponto.
(a) Em 1927, Niels Bohr, um dos m aiores pensadores no cam po da física
Se m inha m aneira de ver o problem a está correta, pelo menos aproxim a­
atôm ica, introduziu o cham ado princípio da com plem entaridade, que resulta na
dam ente, os filósofos — mesmo os filósofos instrum entalistas — não têm razão para
“ren ú n cia” de in terp retar a teoria atôm ica como a descrição de algo. Bohr obser­
se orgulhar da sua Vitória. Ao contrário, deveriam reexam inar seus argum entos.
vou que só podem os evitar certas contradições (que am eaçam interpor-se entre o
C oitt efeito, pelo menos p ara os que, como eu, não aceitam o instrum entalism o, há
form alism o e suas diversas interpretações) lem brando que o form alism o, como tal, m uito ainda a resolver neste assunto.
é autoconsistente, e que cada caso p articu lar de sua aplicação (ou cada tipo de
caso) é consistente com ele. As contradições surgem apenas da tentativa de incluir A questão, do m eu ponto de vista, é a seguinte:
em um a única interpretação o form alism o e mais de um caso, ou tipo de caso, de
aplicação experim ental. Segundo Bohr, é fisicam ente impossível com binar em um a Um dos ingredientes mais im portantes da civilização ocidental é o que
única experiência duas aplicações conflitantes. Logo, o resultado de cada experiên­
poderia cham ar de “tradição racionalista”, que herdam os dos gregos: a tradição do
cia é consistente com a teoria, estabelecido por ela sem am bigüidade. Isso, disse
livre debate — não a discussão por si m esm a, m as na busca da verdade. A ciência e
Bohr, é o m áxim o que podemos obter. Devemos renunciar à intenção e mesmo à
a filosofia helénicas foram produtos dessa tradição, 9 do esforço p ara com preender
esperança de obter sem pre m ais; a física só é consistente se não procurarm os in te r­
o m undo em que vivemos; e a tradição estabelecida por Galileu correspondeu ao
p re ta r ou com preender suas te o ria s.8 seu renascim ento.
A filosofia instrum entalista, portanto, foi usada ad hoc p ara que a teoria
Dentro dessa tradição racionalista, a ciência é estim ada, reconhecidam ente,
pudesse escapar a certas contradições que a am eaçavam . Foi usada com espírito
pelas suas realizações práticas, mais ainda porém pelo conteúdo inform ativo e a
defensivo — p a ra salvar a teoria existente; por essa razão, acredito, esse princípio
capacidade de livrar nossas mentes de velhas crenças e preconceitos, velhas cer­
perm anece com pletam ente estéril dentro da física. Em vinte e sete anos nada
tezas, oferecendo-nos em seu lugar novas conjecturas e hipóteses ousadas. A ciência
produziu além de algum as discussões filosóficas e argum entos p ara confundir os
é valorizada pela influência liberalizadora que exerce — um a das forças mais
críticos (especialm ente Einstein).
poderosas que contribui para a liberdade hum ana.
Não acredito que os físicos teriam aceito tal princípio aà hoc se tivessem
De acordo com a visão da ciência que estou procurando defender aqui, isso
com preendido seu caráter ad hoc\ que se tratava de um princípio filosófico — p a r­
se deve ao fato de que os cientistas têm ousado (desde Tales, D em ócrito, o Tim eu
te da filosofia da ciência de Belarm ino e Berkeley. Lem braram -se, contudo, do
de Platão e Aristarco) criar mitos, conjecturas e teorias que contrastam d ra m a ­
precedente “princípio da correspondência” de Bohr, que tivera extrem a utilidade,
ticam ente com o m undo da experiência quotidiana, em bora sejam capazes de ex­
esperando (em vão) resultados sem elhantes.
plicar alguns dos seus aspectos. Cralileu presta hom enagem a Aristarco e a Copér-
nico precisam ente porque ousaram ultrapassar o m undo conhecido dos nossos sen­
tidos. Escreve:10 “N ão posso exprim ir com o vigor necessário m inha adm iração
ilim itada pela grandeza desses homens que conceberam (o sistema heliocêntrico),
7 — Parecem esquecer, contudo, que Mach foi levado pelo seu instrumentalismo a combater a teoria considerando-o v erd adeiro..., em oposição violenta à evidência dos sen tidos...” Esse
atômica — um exemplo típico do obscurantismo do instrumentalismo, assunto tratado na seção 5.
8 — Já expliquei o “princípio da complementaridade” de Bohr da maneira como o interpreto após anos
de esforço. Sem dúvida, pode-se afirmar que minha formulação do problema é insatisfatória. Neste 9 — Vide o cap. 4.
caso, estou em boa companhia, pois Einstein se refere a ele como “o princípio da complementaridade de
Bohr, que não consegui formular claramente, ... não obstante o grande esforço que fiz para isso”. Cf. 10 ~ É o que afirma Salviati, várias vezes, praticamente sem qualquer variação, no Terceiro Dia de Oò
Dois Sistemas Principais.
Albert Einstein: Philosopher-Scientist, ed. por P. A. Schilpp, 1949, pág. 674.
130 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 131

denom inarei de terceira visão, isto é, o que perm anece do ponto de vista de Galileu
é o testem unho dado por Galileu sobre o efeito liberalizador da ciência. Essas
depois d a elim inação do essencialismo ou, mais precisam ente, depois de se adm itir
teorias seriam im portantes mesmo que não passassem de exercícios para nossa
o que era justificável na crítica instrum entalista.
im aginação. C ontudo, são mais do que isso, como nos revela o fato de que as su b ­
metem os a testes rigorosos, procurando delas deduzir algum as das regularidades do
m undo conhecido da experiência o rdinária — isto é, tentando explicar essas re ­
3. Primeiro Ponto de Vista: A Explicação D efinitiva Pelas Essências
gularidades. As tentativas de explicar assim o conhecido pelo desconhecido —
como as descrevi em o u tra oportunidade 11 — estenderam im ensam ente o reino do
O essenciàlismo, o prim eiro dos três pontos de vista sobre a teoria científica
conhecido; elas acrescentaram aos fatos do m undo quotidiano o ar invisível, os a n ­
que vamos exam inar aqui, é parte da filosofia da ciência de Galileu. Dentro dessa
típodas, a circulação do sangue, os m undos do telescópio e do microscópio, da
filosofia há três elementos ou doutrinas que nos interessam . O essencialismo é ju s­
eletricidade e dos isótopos que nos m ostram em porm enor os movimentos da
tam ente a p arte da filosofia de Galileu que não pretendo defender: consiste num a
m atéria dentro dos organismos vivos. N ão são apenas instrum entos: testem unham a com binação das doutrinas 2) e 3). São essas as três doutrinas a que me refiro:
conquista intelectual do m undo por nossa m ente.
1) O cientista procura um a teoria verdadeira, que descreva o m undo (es­
Mas há um outro m odo de ver tudo isso. Para alguns, a ciência não passa de pecialm ente suas regularidades ou “leis”) e explique os fa to s observáveis. (O que
um a form a glorificada de m ecânica, m uito útil — constituindo porém um perigo significa que um a descrição desses fatos precisa ser deduzida da teoria em conjun­
p ara a “cu ltu ra v erdadeira”, am eaçando-nos com o dom ínio pelos semi- ção com çertas afirm ativas — as cham adas “condições iniciais”).
analfabetos. P ara os que têm essa opinião, não se deve jam ais citar a ciência ju n ­
tam ente com a literatu ra, as artes e a filosofia. As descobertas científicas não pas­ Esta é um a doutrina que aceito, e que form ará p arte da “terceira visão”.
sam de invenções m ecânicas; suas teorias são instrum entos que não podem revelar e
não nos revelam um novo m undo, por trás do m undo da nossa experiência. O 2) O cientista é capaz de dem onstrar a verdade dessas teorias além de qual­
m undo físico é superficial: não tem qualquer profundidade. O m undo é só o que quer dúvida razoável.
parece ser. Apenas as teorias científicas não são o que parecem . Uma teoria cien­
tífica não explica o m undo, nem o descreve: é apenas um instrum ento. A m eu ver, esta segunda doutrina precisa ser corrigida. T udo o que o cien­
tista pode fazer é testar suas teorias, elim inando as que não resistem aos testes mais
N ão pretendo que o m oderno instrum entalism o se reduza a isso — em bora
rigorosos que pode conceber. Mas ele nunca terá a certeza de que novos testes (ou
tenha feito, penso, um bom resumo de p arte da sua fundam entação filosófica
mesmo um a nova discussão teórica) não o levará a m odificar ou a rejeitar sua
original. Hoje, um com ponente m uito mais im portante é o surgim ento e a afir­
teoria. Neste sentido, todas as teorias são e perm anecem hipóteses: são conjecturas
m ação do m oderno “m ecânico” ou engenheiro. 12 Creio, porém , que não se deve
(<doxa), em contraposição ao conhecim ento indubitável {epistem e).
situarão tem a entre um racionalism o crítico e aventureiro — o espírito das des­
cobertas — e um credo estreito e defensivo, segundo o qual não podemos nem
3) As melhores teorias, as verdadeiram ente científicas, descrevem as “essên­
precisamos ap ren d er sobre o m undo mais do que já sabemos: credo que, além de
cias” das coisas — sua “natureza essencial”, realidades que existem por trás das
tudo, é incom patível com a avaliação da ciência como um dos maiores feitos 'do es­ aparências. Essas teorias não necessitam explicações adicionais, nem são suscep­
pírito hum ano. tíveis de tais explicações — são em si mesmas explicações últimas. Encontrá-las é o
objetivo final do cientista.
São essas as razões por que tentarei defender, neste trabalho, pelo menos em
parte, o ponto de vista de Galileu sobre a ciência, contra a visão instrum entalista.
Esta terceira doutrina (juntam ente com a segunda) constitui o que cham ei
N ão posso sustentá-lo integralm ente; há um aspecto que os instrum entalistas fi­ de “essencialismo”. Acredito que seja um erro.
zeram bem em atacar — a noção de que podemos alcançar pela via científica um a
explicação jfltim a do m u n d o ; por meio de essências. A força e o interesse filosófico O que os filósofos da ciência instrum entalista — de Berkeley a M ach,
\a lis m o residem justam ente nessa oposição ao aristotelismo — ao que Duhem e Poincaré — têm em com um é o seguinte: todos afirm am que p ara a ciên­
Tesseiicialismo”. Precisarei assim exam inar e criticar duas visões do cia física explicar não é um objetivo, pois a ciência não pode descobrir “a essência
^im ano — o essencialismo e o instrum entalism o, opondo-lhes o que oculta das coisas”. O argum ento indica que o que têm em m ente ao fazer essa o b ­
V servação é o que cham ei de explicação d efin itiva M Alguns, como M ach e Ber-
\^cap. 1, ponto 10, bem como o penúltimo parágrafo do cap. 6.
a ciência natural não é episteme indubitável (scientia) levou ao ponto de H ~~ Este Ponto já se prest u algumas vezes a confusão, pois a crítica instrumentalista dirigida contra
Ij/mé (técnica, arte, tecnologia,) enquanto a visão adequada, a meu juízo, é a as explicações (definitivas) ioi enunciada por alguns por meio da fórmula de que o objetivo da ciência é
liões, conjecturas) controladas pela discussão crítica e também pela techné a descrição, não a explicação. Por descrição o que se queria dizer era a descrição do mundo empírico
ordinário; o que a fórmula expressava, indiretamente, era o fato de que as teorias que não descrevem
naquele sentido não passam de instrumentos convenientes para ajudar-nos na descrição dos fenômenos
1° f Histoncism, bem como Open Society and Its Enemies, vol. 1, cap. ordinários.
i e ii.
130 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 131

denom inarei de terceira visão, isto é, o que perm anece do ponto de vista de Galileu
é o testem unho dado por Galileu sobre o efeito liberalizador da ciência. Essas
teorias seriam im portantes mesmo que não passassem de exercícios para nossa depois d a elim inação do essencialismo ou, mais precisam ente, depois de se adm itir
im aginação. C ontudo, são mais do que isso, como nos revela o fato de que as su b ­ o que era justificável na crítica instrum entalista.
m etem os a testes rigorosos, procurando delas deduzir algum as das regularidades do
m undo conhecido da experiência o rdinária — isto é, tentando explicar essas re ­
3. Primeiro Ponto de Vista: A Explicação D efinitiva Pelas Essências
gularidades. As tentativas de explicar assim o conhecido pelo desconhecido —
como as descrevi em o u tra oportunidade 1112 — estenderam im ensam ente o reino do
O essenciàlismo, o prim eiro dos três pontos de vista sobre a teoria científica
conhecido; elas acrescentaram aos fatos do m undo quotidiano o ar invisível, os a n ­
que vamos exam inar aqui, é parte da filosofia da ciência de Galileu. D entro dessa
típodas, a circulação do sangue, os m undos do telescópio e do microscópio, da
filosofia há três elementos ou doutrinas que nos interessam . O essencialismo é ju s­
eletricidade e dos isótopos que nos m ostram em porm enor os movimentos da
tam ente a parte da filosofia de Galileu que não pretendo defender: consiste num a
m atéria dentro dos organismos vivos. N ão são apenas instrum entos: testem unham a
com binação das doutrinas 2) e 3). São essas as três doutrinas a que m e refiro:
conquista intelectual do m undo por nossa m ente.
1) O cientista procura um a teoria verdadeira, que descreva o m undo (es­
Mas há um outro m odo de ver tudo isso. Para alguns, a ciência não passa de
pecialm ente suas regularidades ou “leis”) e explique os fa to s observáveis. (O que
um a form a glorificada de m ecânica, m uito útil — constituindo porém um perigo
significa que um a descrição desses fatos precisa ser deduzida da teoria em conjun­
para a “cu ltu ra v erdadeira”, am eaçando-nos com o dom ínio pelos semi- ção com certas afirm ativas — as cham adas “condições iniciais”).
analfabetos. P ara os que têm essa opinião, não se deve jam ais citar a ciência ju n ­
tam ente com a literatu ra, as artes e a filosofia. As descobertas científicas não pas­ Esta é um a d o u trina que aceito, e que form ará parte da “terceira visão” .
sam de invenções m ecânicas; suas teorias são instrum entos que não podem revelar e
não nos revelam um novo m undo, por trás do m undo da nossa experiência. O 2) O cientista é capaz de dem onstrar a verdade dessas teorias além de qual­
m undo físico é superficial: não tem q ualquer profundidade. O m undo é só o que quer dúvida razoável.
parece ser. A penas as teorias científicas não são o que parecem . Uma teoria cien­
tífica não explica o m undo, nem o descreve: é apenas um instrum ento. A m eu ver, esta segunda doutrina precisa ser corrigida. T udo o que o cien­
tista pode fazer é testar suas teorias, elim inando as que não resistem aos testes mais
N ão pretendo que o m oderno instrum entalism o se reduza a isso — em bora
rigorosos que pode conceber. Mas ele nunca terá a certeza de que novos testes (ou
tenha feito, penso, um bom resumo de p arte da sua fundam entação filosófica
mesmo um a nova discussão teórica) não o levará a m odificar ou a rejeitar sua
original. Hoje, um com ponente m uito mais im portante é o surgim ento e a afir­
teoria. Neste sentido, todas as teorias são e perm anecem hipóteses: são conjecturas
m ação do m oderno “m ecânico” ou engenheiro. 12 Creio, porém , que não se deve
(doxa), em contraposição ao conhecim ento indubitável (epistem e).
situarão tem a entre um racionalism o crítico e aventureiro — o espírito das des­
cobertas — e um credo estreito e defensivo, segundo o qual não podemos nem
3) As melhores teorias, as verdadeiram ente científicas, descrevem as “essên­
precisamos ap ren d er sobre o m undo mais do que já sabemos: credo que, além de
cias” das coisas — sua “natureza essencial” realidades que existem por trás das
tudo, é incom patível com a avaliação da ciência como um dos maiores feitos do es­
aparências. Essas teorias não necessitam explicações adicionais, nem são suscep­
pírito hum ano, tíveis de tais explicações — são em si mesmas explicações últimas. Encontrá-las é o
objetivo final do cientista.
São essas as razões por que tentarei defender, neste trabalho, pelo menos em
parte, o ponto de vista de Galileu sobre a ciência, contra a visão instrum entalista.
Esta terceira doutrina (juntam ente com a segunda) constitui o que chamei
N ão posso sustentá-lo integralm ente; há um aspecto que os instrum entalistas fi­ de “essencialismo”. Acredito que seja um erro.
zeram bem em atacar — a noção de que podemos alcançar pela via científica um a
explicação últim a do m u n d o ; por meio de essências. A força e o interesse filosófico O que os filósofos da ciência instrum entalista — de Berkeley a M ach,
do instrum entalism o residem justam ente nessa oposição ao aristotelismo — ao que Duhem e Poincaré — têm em com um é o seguinte: todos afirm am que p ara a ciên­
ch a m e i13 de “esseiicialismo” . Precisarei assim exam inar e criticar duas visões do cia física explicar não é um objetivo, pois a ciência não pode descobrir “a essência
conhecim ento hum ano — o essencialismo e o instrum entalism o, opondo-lhes o que oculta das coisas” . O argum ento indica que o que têm em m ente ao fazer essa o b ­
servação é o que cham ei de explicação definitiva.14 Alguns, como M ach e Ber-

11 — Vide Apêndice ao cap. 1, ponto 10, bem como o penúltimo parágrafo do cap. 6.
12 — A consciência de que a ciência natural não é episteme indubitável (scientia) levou ao ponto de 14 — Este ponto já se prest u algumas vezes a confusão, pois a critica instrumentalista dirigida contra
vista de que seria apenas techné (técnica, arte, tecnologia,) enquanto a visão adequada, a meu juízo, é a as explicações (definitivas) ioi enunciada por alguns por meio da fórmula de que o objetivo da ciência é
de que consiste em doxai (opiniões, conjecturas) controladas pela discussão crítica e também pela techné a descrição, não a explicação. Por descrição o que se queria dizer era a descrição do mundo empírico
experimental. Vide cap. 20. ordinário; o que a fórmula expressava, indiretamente, era o fato de que as teorias que não descrevem
naquele sentido não passam de instrumentos convenientes para ajudar-nos na descrição dos fenômenos
13 - Vide a seção 10 de Poverty o f Historicism, bem como Open Society and Its Enemies, vol. 1, cap. ordinários.
3, seção vi; vol. 2, cap. 11, seções i e ii.
132 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 133

doutrina essencialista que contesto é apenas a doutrina de que a ciência busca um a


keley, pensam assim porque não acreditam que as coisas físicas tenham um a essên­ explicação definitiva — isto é, um a explicação que, essencialmente, pela sua
cia; M ach, porque não aceita a própria noção de essência; Berkeley, porque só própria natureza, não possa ser am pliada, que não exija explicações adicionais.
acredita nas essências espirituais: p a ra ele Deus é a única explicação essencial do
m undo. D uhem parece pensar, lem brando K an t15, que existem essências, porém Fica claro, p ortanto, que m inha crítica do essencialismo não visa estabelecer
não são perceptíveis pela ciência hum an a (em bora possamos, de algum m odo, nos a inexistência das essências; procura simplesmente m ostrar o papel obscurantista
aproxim ar delas); d a m esm a form a que Berkeley, ele acha que as essências podem desem penhado pela idéia das essências na filosofia da ciência de Galileu (até M ax­
ser reveladas pela religião. Mas todos esses filósofos estão de acordo em que a ex­ well, que se inclinava a aceitá-las, mas cujas investigações destruiram sua crença).
plicação científica (definitiva) é impossível. Da inexistência de um a essência oculta Em outras palavras, m inha crítica tenta dem onstrar que, existam ou não as essên­
que pudesse ser descrita pelas teorias científicas eles concluem que essas teorias (as cias, a crença nelas não nos ajuda de nenhum m odo; na verdade, pode prejudicar-
quais claram ente não descrevem nosso m undo ordinário da experiência com um )
nos; por isso não há qualquer razão para que o cientista presum a sua existência. 17
nad a descrevem — são meros instrum entos.16 O que pode aparecer como cres­
cim ento do conhecim ento teórico não é mais do que um aperfeiçoam ento ins­
Pode-se dem onstrar isso, creio, com um exem plo simples — a teoria new-
trum en tal. toniana da gravidade.
Os filósofos instrum entalistas rejeitam , portanto, a terceira doutrina — a
dou trin a das essências. (T am bém a rejeito, mas por razoes algo diferentes.) Ao A interpretação essencialista dessa teoria é devida a Roger C otes.171819 Segun­
mesmo tem po, recusam obrigatoriam ente a segunda doutrina; de fato, se a teoria é do Cotes, Newton descobriu que todas as partículas de m atéria possuem gravidade,
apenas um instrum ento, não pode ser verdadeira (pode, sim, ser conveniente, sim ­ isto é, um a força inerente de atração da m atéria, bem como inércia, um poder
ples, econôm ica, poderosa, etc.). F reqüentem ente cham am as teorias de “h ip ó ­ inerente de resistência a qualquer alteração no seu m ovim ento (poder de m anter a
teses” , em bora não em preguem o term o no sentido em que o utilizo: de que se pode direção e a velocidade do m ovim ento). Como tanto a gravidade quanto a inércia
conjecturar que um a teoria é verdadeira — que é um a afirm ação descritiva, em ­ são inerentes à m atéria, segue-se que devem ser estritam ente proporcionais à q u a n ­
bora talvez falsa (mas pretendem dizer que as teorias não são seguras). Escreve tidade de m atéria que compõe um corpo; daí a lei da proporcionalidade da massa
Osiandro: “E a respeito da utilidade das hipóteses ninguém deve esperar que surja inerte e em gravitação. Como a gravidade se irrad ia de todas as partículas, che­
algo seguro da astronom ia; n ada disso poderá originar-se jam ais dessa ciência”. gamos à “lei do quadrado da atração ”: em outras palavras, as leis da dinâm ica
O ra, concordo inteiram ente em que não se pode ter certeza das teorias (que são new toniana apenas descrevem em linguagem m atem ática a situação devida às
sem pre refutáveis); concordo mesmo em dizer que são instrum entos, mas não que
propriedades inerentes da m atéria: descrevem a natureza essencial da m atéria.
isso justifique não term os certeza sobre elas. A razão correta, a m eu ver, é simples­
m ente a de que nossos testes não podem ser exaustivos. H á assim um a área de co n ­ Como a teoria de Newton descrevia deste m odo a natureza essencial da
cordância considerável entre meus opositores instrum entalistas e o ponto de vista m atéria, podia explicar o com portam ento da m atéria pelo processo da dedução
que defendo a respeito da segunda e da terceira doutrinas. Com relação à prim eira m atem ática. De acordo com Cotes, porém , ela não exige explicações adicionais,
dou trin a, no en tan to , o desacordo é total. nem pode dá-las — pelo menos dentro do cam po da física. A única possível ex­
plicação adicional é a de que Deus atribuiu à m atéria essas propriedades essên­
V oltarei mais adiante a falar a respeito desse desacordo. N a presente seção cias. 19
procurarei criticar a doutrin a essencialista da ciência; farei isso em linhas algo
diferentes das dos argum entos usados pelos instrum entalistas, que não posso
aceitar. Com efeito, seu argum ento de que não pode haver “essências ocultas” se
baseia na convicção de que não pode haver nada oculto (ou de que se há algo ocul­ 17 — Esta crítica é portanto francamente utilitarista, e poderia ser descrita como instrumentalista... O
to, só pode ser conhecido por meio da revelação divina). O que disse na últim a que me interessa aqui é o problema do m étodo__que é sempre um problema de adequação de meios a
seção terá deixado claro que não posso aceitar um argum ento que leva à rejeição fins. Minha crítica ao essencialismo, isto é, à doutrina da explicação definitiva, tem sido objetada com a
do papel da ciência na descoberta d a rotação da T erra, dos núcleos atômicos, da observação de que eu próprio (talvez de forma inconsciente) funciono com a idéia de uma essência da
ciência,(ou do conhecimento humano)-, explicitado, meu argumento seria o seguinte: O fato de que não
radiação cósmica e das “radio-estrelas” . podemos conhecer, ou buscar, coisas como as essências ou naturezas é um fato que pertence à essência
ou à natureza da ciência humana (ou do conhecimento humano). Respondi, por implicação, em L. Sc.
Estou pronto p o rtan to a conceder aos essencialistas que há m uito oculto da D., seções 9 e 10, antes mesmo de que a objeção fosse levantada — na verdade, antes de descrever ou
nossa percepção, e que poderem os descobrir m uito do que nos está oculto. (Discor­ atacar o essencialismo. Vale notar ainda que seria possível admitir que certos objetos que fabricamos —
os relógios, por exemplo — tivessem uma “essência”, isto é, um “propósito”. Como a ciência é uma
do p ro fundam ente do espírito do dictum de W ittgenstein: “O enigm a não existe”). atividade imbuída de propósito (é um método), poderia portanto ser concebida como tendo uma “essên­
Não preten d o criticar os que procuram com preender a “essência do m u n d o ”. A cia”, mesmo que negássemos que os objetos naturais têm essências (negativa que, no entanto, não está
implícita na crítica que faço ao essencialismo).

15 — Cf. carta escrita por Kant a Reinhold, 12-5-1789, na qual declara que a “essência real” ou “na­ 18 — Prefácio de R. Cotes à segunda edição dos Principia de Newton.
tureza” de uma coisa (por exemplo, da matéria) é inacessível ao conhecimento humano. 19 — Há uma teoria essencialista do tempo e do espaço (semelhante a esta teoria da matéria), que
devemos ao próprio Newton.
16 — Vide o cap. 6.
134 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 135

A concepção essencialista da teoria de Newton e ra r de m odo geral, sua in ­ pulsos uns sobre os outros?” pode ser feita (conform e Leibniz viu em prim eiro
terpretação “oficial” até as últim as décadas do século dezenove. Está claro que era lugar), e é mesmo um a indagação m uito fértil (Acreditam os agora que isso é pos­
sível devido a certas íorças elétricas repulsivas). Mas o essencialismo cartesiano e
um a in terp retação obscurantista, pois im pedia a colocação de indagações fr u tí­
feras, tais como: “qual é a causa da gravidade? ou “será possível explicar a g ra ­ newtoniano poderia ter evitado essa pergunta, especialm ente se Newton tivesse tido
êxito ao tentar explicar a gravidade.
vidade deduzindo a teoria de Newton, ou um a boa aproxim ação dela, de um a
teoria m ais geral (que pudesse ser testada independentem ente)?”
Acho que esses exemplos deixam claro que a crença nas essências (seja ver­
dadeira ou falsa) pode criar obstáculos ao pensam ento — à postulação de p ro ­
É elucidativo constatar que o próprio Newton não considerava a gravidade
blemas novos e férteis. Além disso, ela não pode ser p arte da ciência (mesmo se e n ­
um a p ropriedade essencial da m atéria (em bora considerasse a inércia essencial,
contrássemos, por sorte, um a teoria que descrevesse as essências, nunca poderíam os
como a extensão — acom panhando Descartes). Newton parece ter recebido de Des­
ter certeza da sua adequação). Contudo, um a crença que conduz com p ro b ab i­
cartes a noção de que a essência de um a coisa é necessariam ente um a sua p ro ­
lidade ao obscurantism o não é decerto um a dessas crenças extracientífícas (tais
priedade verdadeira ou absoluta — isto é, um a propriedade que não depende da
como a fé no poder da discussão crítica) que um cientista precisa aceitar.
existência de outras coisas, tal como a extensão ou o poder de resistir a m udanças
no seu m ovim ento, e não um a propriedade “relacional” , isto é, um a propriedade
que, como a gravidade, determ ina as relações (interações espaciais) entre os corpos. Concluo assim m inha crítica do essencialismo.
Por isso ele sentia claram ente o caráter incom pleto da sua teoria, e a necessidade
de explicar a gravidade, tendo observado:20 “A dm itir que a gravidade seja inata, 4. Segundo Ponto de Vista: As Teorias como Instrum entos
inerente e essencial à m atéria, de form a que os corpos possam agir entre si à dis­
tâ n c ia ... é p a ra m im um absurdo tão grande que não acredito que alguém que A visão instrum entalista tem grandes atrativos: é m odesta e m uito simples,
tenha a faculdade de pensar com com petência sobre assuntos filosóficos possa nele especialm ente quando com parada com o essencialismo.
re c a ir.”
De acordo com o essencialismo podemos distinguir entre: i) o universo da
É interessante ver que Newton condenou nessa passagem, antecipadam ente > realidade essencial; ii) o universo dos fenômenos observáveis; e iii) o universo da
a m aior p arte dos seus seguidores. Sente-se a tentação de dizer que p ara estes as linguagem descritiva e da representação simbólica. Representare; cada um desses
propriedades que ap renderam na escola pareciam essenciais (e até mesmo eviden­ universos por um quadrado:
tes), em bora o mesmo não acontecesse com Newton, com sua form ação cartesiana,
p ara quem elas precisavam de explicação (chegando mesmo a parecer quase p a ­
radoxais).

No en tan to , Newton era um essencialista, que se havia esforçado por encon­


tra r u m a explicação definitiva aceitável da gravidade procurando deduzir a “lei do
q u a d ra d o ” da prem issa de um impulso m ecânico — o único tipo de ação causal
adm itida por Descartes, pois podia ser explicada pela extensão, essa propriedade
essencial de todos os corpos. 21 Newton, porém , fracassou. Se não fosse isso, p o ­
deriam os ter certeza de que teria im aginado que o seu problem a tinha sido fin al-
m ente resolvido — que encon trara um a explicação definitiva p ara a gravidade 22*
— e teria com etido um erro. A pergunta: “por que os corpos podem produzir im ­

20 — Carta a Richard Bentley, 25-2-1693, e também a carta de 17 de janeiro. A função das teorias poderia ser descrita da seguinte m aneira: a e b são
21 — Newton tentou explicar a gravidade pela ação por contato cartesiana (precursora de uma action fenômenos, A e B são âs realidades correspondentes, que existem por trás das
at vamshing distances). Sua Opticks (Qu. 31) mostra que ele de fato considerava que “... aquilo que aparências; (X e f i são as descrições ou representações simbólicas dessas realidades.
chamo atração pode ser executado pelo impulso” (antecipando assim a explicação da gravidade por
Lesage como um “efeito de guarda-chuva” numa chuva de partículas).
E são as propriedades essenciais de A e B; £ é a teoria que descreve E. O ra, a p artir
de £ e d e £ f podemos ded u zir/?, o que significa que podem os explicar, com a ajuda
22 — Newton foi um essencialista, para quem a gravidade era inaceitável como explicação definitiva; da nossa teoria, por que a leva a b (é causa de b).
mas era crítico demais para aceitar até mesmo suas próprias tentativas de explicá-la. Na mesma si­
tuação, Descartes teria presumido a existência de algum mecanismo de impulsão, propondo o que
chamaria de “hipótese”. Newton, porém, aludindo criticamente a Descartes, acentuou que pretendia Pode-se representar o instrum entalism o, com esse esquem a, simplesmente
“argumentar com base em fenômenos, sem conceber hipóteses (arbitrárias ou ad hoc).” (Qu. 28) Como é om itindo (i) — o universo das realidades por trás das várias aparências, (fi des­
natural, ele não podia evitar todo o tempo o emprego de hipóteses, e sua Opticks contém muitas es­ creverá diretam ente a e/ 3 descreverá diretam ente b. £ não descreverá nada: será só
peculações ousadas. Contudo, sua rejeição explícita e reiterada do método das hipóteses deixou uma im­ um instrum ento para ajudar-nos a deduzir j 3 de Of. O que pode ser expresso dizen­
pressão duradoura; e Duhem a usou para apoiar a concepção do instrumentalismo.
136 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 137

B astará avançar m ais um passo na m esma direção p a ra chegarm os a um a r ­


do — como o fez Schlick, seguindo W ittgenstein — que um a teoria ou lei universal gum ento instrum entalista que é m uito difícil de criticar — se não impossível: nosso
não é p ropriam ente um a afirm ativa, mas “um a regra, ou conjunto de instruções, problem a — saber se a ciência é descritiva ou instrum ental — ficará exposto então
p ara derivar um as afirm ativas singulares de o u tra s.” 23 como um p seu d oproblem a.24*
Esse é o ponto de vista instrum entalista. P ara com preendê-lo m elhor p o ­
demos to m ar m ais um vez a dinâm ica new toniana como exem plo: a e b são duas Esse passo consiste sim plesm ente em não só a trib u ir sentido — sentido ins­
posições de dois focos luminosos (ou duas posições do planeta M arte); c( e / i são as trum ental — aos term os e expressões referentes a disposições, mas em adm itir ta m ­
fórm ulas correspondentes; £ é a teoria fortalecida pela descrição geral do sistema bém que têm um sentido descritivo. Os termos como “quebrável” , que se referem a
solar (por um “m odelo” do sistema solar). N ada corresponde a £ no m undo (no disposições (no caso, a disposição de quebrar ou de ser quebrado) seguram ente des­
universo ii): entidades como forças atrativas, por exem plo, simplesm ente não exis­ crevem algum a coisa: de fato, dizer que um a coisa é “quebrável” é descrevê-la
tem . As forças propostas por Newton não são entidades que determ inam a ace­ como um a coisa que pode ser q uebrada. Contudo, dizer que algo é quebrável, ou
solúvel, é descrever de m odo p articular, com um m étodo diferente do que está im ­
leração dos corpos: são apenas instrum entos m atem áticos cuja função consiste em
plicado na afirm ativa de que algo está quebrado, ou dissolvido. Se não fosse assim,
perm itir-nos d e d u z i r ^ d e (£.
não usaríam os o sufixo “ ável”. A diferença é exatam ente esta: ao usar termos dessa
natureza descrevemos o que pode acontecer à coisa em questão, em determ inadas
Sem dúvida temos aqui um a sim plificação atraente, um a aplicação radical
da “navalha de O ckham ” . Mas, em bora essa sim plicidade tenha provocado a con­ circunstâncias. Da mesma form a, as descrições em term os de disposição são des­
crições, sem dúvida, em bora tenham um a função p u ram ente instrum ental: pode-se
versão de m uitos cientistas e filósofos ao instrum entalism o (por exemplo: M ach),
dizer a* seu respeito que constituem um caso em que o conhecim ento é poder — o
está longe de ser o argum ento mais forte em seu favor.
poder de prever. Q uando Galileu disse, referindo-se à T e r r a ,“e, contudo, se m ove”,
O argum ento mais forte dado por Berkeley em apoio do instrum entalism o se fez, sem dúvida, um a afirm ativa descritiva; mas o sentido ou função dessa afir­
baseava na filosofia da linguagem nom inalista, segundo a qual a expressão “força m ativa é exclusivamente instrum ental, lim itada à ajuda que presta na dedução de
de a tra ç ã o ” não teria sentido, já que forças desse tipo não podem ser observadas. O certas afirm ativas não referentes a disposições.
que observamos são m ovim entos, não suas alegadas “causas” , ocultas. Para B er­
De acordo com este argum ento, por conseguinte, a tentativa de dem onstrar
keley isso seria suficiente p a ra dem onstrar que a teoria de Newton não pode ter
que as teorias têm um sentido descritivo, além do seu sentido instrum ental, é
qualq u er conteúdo inform ativo ou descritivo.
produto de um erro de concepção — todo o problem a — o ponto de discordância
O ra, este argum ento de Berkeley pode talvez ser criticado pela teoria do sig­ entre Galileu e a Igreja — seria, na verdade, um pseudoproblem a.
nificado intoleravelm ente estreita que im plica; se a aplicássemos de form a consis­
tente, todas as palavras referentes a disposições não teriam sentido. N ão só as “fo r­ Já se alegou, em apoio dessa tese de que Galileu foi condenado por um
ças de a tra ç ã o ” new tonianas seriam desprovidas de significado, m as tam bém outras pseudoproblem a, que à luz de um sistema de física logicam ente m ais avançado o
palavras e expressões como “quebrável” (que pode ser quebrado, diferente de problem a de Galileu de fato perde 6 sentido. Ouve-se m uitas vezes a afirm ativa de
“q u e b ra d o ”), ou “eletro co n d u to r” (que pode conduzir eletricidade, diferentç de; que o princípio geral de Einstein deixa claro que não tem sentido falar em m o ­
que está conduzindo eletricidade). De fato, “quebrável” e “eletrocondutor” não são vimento absoluto, mesmo no caso da rotação — podem os escolher o sistema que
nomes de qualq u er coisa observável; precisariam p o rtanto ser tratados em ig u al­ quisermos para postulá-lo como sendo (relativam ente) fixo. Por isso, o problem a de
dade de condições com as “forças” new tonianas. C ontudo, seria naturalm ente e m ­ Galileu se desvaneceria, precisam ente pelas razões que avançam os acim a: o co­
baraçoso qualificar todas essas expressões como carentes de sentido — e do ponto nhecim ento astronôm ico não pode ser senão o conhecim ento de como os astros se
de vista do instrum entalism o isso é desnecessário: tudo o que precisamos é um a com portam , o poder de descrever e prever nossas observações — ora, como estas
análise do sentido dos term os referentes a disposições — o que revelará que pos- v devem ser independentes da nossa escolha do sistema de coordenadas, percebemos
suem um sentido. Do ponto de vista instrum entalista, porém , não têm um sentido mais claram ente por que o problem a de Galileu não podia ser real.
descritivo: sua função não seria referir eventos, ocorrências, “incidentes” , ou des­
crever fatos; seu significado se lim itaria à permissão ou licença que nos dão p ara Não pretendo criticar o instrum entalism o nesta seção, ou replicar a seus
extrair inferências ou p a ra arg u m en tar a p a rtir de certas questões de fato para argum entos — exceção feita do últim o, relacionado com a relatividade geral.
outras. As afirm ativas que não dizem respeito a disposições, e descrevem fatos o b ­ T rata-se de um argum ento baseado num equívoco. Do ponto de vista da relati­
serváveis (“sua p erna está q u e b ra d a ”) seriam como o dinheiro, que tem valor vidade geral faz m uito sentido — mesmo em termos absolutos — dizer que a T erra
im ediato; as assertivas que concernem disposições (incluindo as leis científicas) tem um m ovim ento de rotação: ela tem um m ovim ento de rotação precisam ente no
seriam como instrum entos de crédito, que criam direitos resgatáveis em dinheiro. mesmo sentido em que um a roda de bicicleta ta m b ém o te m : com relação a qual-

23 — Vide a análise e crítica desse ponto de vista em L. Sc. D., especialmente na nota 7 da seção 4; e 24 — Até aqui não pude encontrar nos trabalhos que conheço sobre o assunto essa modalidade par­
também na nota 51, cap. 11 de Open Society. A idéia de que afirmativas universais podem funcionar ticular do argumento instrumentalista; se lembrarmos porém o paralelismo existente entre problemas
dessa forma pode ser encontrada na Logic de Mill, Livro II, cap. III, 3: “Toda inferência parte de par­ relativos ao sentido de uma expressão e aqueles relacionados com sua veracidade veremos que ele corres­
ticulares para particulares”. Vide também G. Ryle, The Concept o f Mind (1969), cap. V, pág. 121 ponde estreitamente à definição de “verdade” de William James — que a entende como “utilidade”.
para uma formulação mais cuidadosa e crítica do mesmo ponto de vista.
138 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 139

nológica; que o instrum entalism o pode propiciar um a descrição perfeita dessas


quer sistem a de inércia local que for escolhido como referência. Com efeito, a
regras, m as não é capaz de explicar a diferença existente entre elas e as teorias. Des­
relatividade descreve o sistema solar de tal m odo que dessa descrição podemos
ta form a, o instrum entalism o perde sua sustentação.
deduzir que qualquer observador, situado em qualquer corpo em m ovim ento,
suficientem ente afastado (a Lua, outro planeta ou um a estrela fora do sistema),
A análise das m uitas diferenças funcionais que há entre as regras de com ­
observaria a T e rra g irando e poderia deduzir dessa observação que seus habitantes
putação (relacionadas com a navegação, por exemplo) e as teorias científicas (como
estariam percebendo um m ovim ento ap aren te diurno do Sol. Está claro que esse é
a de Newton) é um tem a interessante. As relações lógicas que podem existir entre as
precisam ente o significado da expressão “a T e rra tem um m ovim ento de ro tação ”
teorias e as regras de com putação não são simétricas e diferem das que se aplicam a
que estávam os discutindo; p arte da questão consistia em saber se o sistema solar é
várias teorias, bem como das que se referem a várias regras de com putação. O
um sistema como o de Jú p iter e suas luas, apenas m aior; e se pareceria tal sistema,
m odo como as regras de com putação são experim entadas é diferente da m aneira
visto de fora. Em todos esses pontos, Einstein apóia Galileu sem qualquer ambi-
como as teorias são testadas. A habilidade exigida p ara a aplicação das regras de
güidade. com putação é bem diferente da que é necessária p ara sua discussão (teórica) e para
a determ inação (teórica) dos limites da sua aplicabilidade. Estas são apenas a l­
Meu argum ento não deve ser interpretado como admissão de que todo o gum as indicações, m as que podem ser suficientes p ara m ostrar a direção e a força
problem a pode ser reduzido a um a questão relativa a observações, ou a possíveis do argum ento.
observações. S eguram ente, tanto Galileu q u an to Einstein p ro curaram , entre outras
coisas, deduzir o que um possível observador veria; contudo, esse não é o problem a Vou explicar agora um desses pontos com um grau m aior de detalhe, p o r­
principal que confrontaram . Ambos investigaram os sistemas físicos e seus m ovi­ que ele pode dar origem a um argum ento sem elhante ao que em preguei contra o
mentos — só o filósofo instrum entalista afirm a que o que estudaram , ou “p re te n ­ essencialismo: trata-se do fato de que as teorias são testadas por meio de tentativas
deram realm en te” estudar, não eram sistemas físicos, mas apenas os resultados de de refutação (que nos ensinam m uito); mas não há n ad a que corresponda a essas
observações possíveis — que seus cham ados “sistemas físicos”, que pareciam cons­ tentativas, no caso das regras tecnológicas de com putação.
titu ir os respectivos objetos de estudo, eram , na realidade, meros instrum entos para
prever observações. Não é simplesm ente pela sua aplicação, ou experim entação, que se testa
um a teoria, mas aplicando-a a casos m uito especiais — casos em que ela deve
5. Crítica do Ponto de Vista Instrum entalista. produzir resultados diferentes daqueles que esperaríam os sem a teoria em questão,
ou à luz de outras teorias. Em outras palavras, procuram os escolher p ara nossos
Já vimos que o argum ento de Berkeley depende da aceitação de um a certa testes os casos cruciais, em que esperaríam os a teoria falh ar se não fosse verdadeira.
filosofia da linguagem — talvez convincente à prim eira vista, mas não necessa­ Esses casos são “cruciais” no sentido de Bacon: indicam encruzilhadas de duas ou
riam ente verdadeira. Além disso, depende do problem a do significado,25 co­ mais teorias. De fato, alegar que sem a teoria em questão esperaríam os resultados
nhecido pelo seu caráter vago e que não oferece m uitas esperanças de solução. A diferentes im plica que nossa expectativa poderia resultar de algum a outra teoria,
posição se torn a ainda mais desesperada quando consideram os alguns desenvol­ possivelmente anterior — por menos clara que seja nossa consciência desse fato.
vimentos recentes da argum entação de Berkeley, conform e expostos sum ariam ente Mas, enquanto Bacon acreditava que um a experiência crucial pode dem onstrar ou
na seção precedente. Procurarei, portan to , forçar um a decisão inequívoca para o verificar um a teoria, diremos que ela pode na m elhor das hipóteses r e f u t á - l a . 26
nosso problem a m ediante abordagem diferente — fazendo um a análise da ciência, T rata-se de um a tentativa de refutação; se essa tentativa não for bem sucedida,
em lugar de fazer um a análise da linguagem . dizemos que a teoria foi corroborada pela experiência — corroboração que é tanto
m aior quanto menos esperado, ou menos provável, o resultado da experiência.2627
A crítica que proponho ao ponto de vista instrum entalista pode ser sinte­
tizada como segue: Poder-se-ia objetar à concepção desenvolvida aqui — de acordo com
Duhem;28 — que em cada teste não é só a teoria sob investigação que está envol­
O instrum entalism o pode ser enunciado como a tese de que as teorias cien­ vida, mas tam bém todo o sistema de nossas teorias e premissas — de fato, mais ou
tíficas — as teorias das cham adas “ciências p u ras” — não passam de regras de menos a totalidade do nosso conhecim ento —, de m odo que nunca podemos ter
com putação (ou de inferência), que têm fu n dam entalm ente o mesmo caráter das certeza de qual dessas premissas foi refutada. Mas essa crítica não leva em conta o
regras de com putação das cham adas “ciências aplicadas” . Poder-se-ia mesmo fo r­ fato de que se tom arm os cada um a das duas teorias que vão ser testadas por um a
m ulá-la como a tese de que “ciência p u ra ” é um a denom inação equivocada, pois
toda ciência é “ap licad a” .
26 — Na sua famosa crítica das experiências cruciais, Duhem (in Aim and Structure o f Physical Theory)
consegue demonstrar que as experiências cruciais nunca podem provar uma teoria, mas não consegue
M inha resposta aos instrum entalistas consiste em dem onstrar que há d i­ demonstrar que essas experiências não podem refutá-la.
ferenças profundas entre as teorias “p u ras” e as regras aplicáveis à com putação tec- 27 — 0 grau de corroboração aumentará portanto com a improbabilidade dos casos de corroboração.
Vide meu trabalho “Degree o f Confirmation", Brit.Jour. Phil. Sei., 5, pág. 143, incluído agora entre os
apêndices de L. Sc. D.; vide também o cap. 10 deste livro.
25 — A respeito do problema do significado vide meus dois livros, L. Sc. D. e Open Society, bem como 28 — Loc. cit.
os caps. 1, 11, 13 e 14 desta obra.
140 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 141

“C orreta” , aqui, significa “aplicável” ; p o rtanto, a assertiva significa apenas


experiência crucial, ju n ta m e n te com todo o restante do nosso conhecim ento (como que “a m ecânica clássica é aplicável onde quer que seus conceitos podem ser
é necessário), decidirem os a respeito de dois sistemas que diferem apenas a respeito aplicados” — o que não é dizer m uito. De qualquer form a, a verdade é que, ao
das duas teorias em questão. A crítica não considera tam bém que não afirm am os a negligenciar a refutação, e acentuar a aplicação, o instrum entalism o é um a filo ­
refutação de um a das teorias como tal, mas da teoria acrescentada de todo o res­ sofia tão obscurantista quanto o essencialismo. De fato, só pelas tentativas de re ­
tante do nosso conhecim ento — partes do qual poderão ser responsabilizadas, no futação pode a ciência ter esperança no progresso. Só pelo exam e de como suas
futuro, pelo insucesso da experiência, graças a outras experiências cruciais. Po­ várias teorias respondem à experim entação podemos distinguir entre as teorias
demos assim caracterizar mesmo um a teoria que está sendo investigada como m elhores e as menos boas, e encontrar um critério de progresso científico (vide o
aquela p arte de um am plo sistema p ara qual podemos ter um a alternativa em cap. 10).
m ente, ainda que pouco precisa, e p ara a qual estamos procurando conceber testes
cruciais. P ortanto, um simples instrum ento de previsão não pode ser refutado. O que
nos parece às vezes como um a refutação não passa de advertência, acau telan d o -nos
No que diz respeito aos instrum entos e regras de com putação não encon­ sobre os limites da sua aplicabilidade. É por isso que o ponto de vista instrum en­
trarem os n ad a que seja suficientem ente sem elhante. E bem verdade que um ins­ talista pode ser usado ad hoc p ara salvar um a teoria científica am eaçada por con­
trum ento pode apresentar um defeito, ou tornar-se obsoleto; mas não faz sentido tradições — como fez Bohr (se está certa m inha interpretação, do seu princípio da
dizer que subm etem os um instrum ento aos testes mais rigorosos que podemos co n ­ com plem entaridade). Se as teorias são apenas instrum entos p ara previsão, não
ceber, p ara rejeitá-lo caso não passe nesses testes; um a aeronave, por exemplo, precisamos rejeitar nenhum a teoria em particu lar, mesmo quando deixamos de
pode ser “testada até a destruição”; mas esse teste rigoroso não tem por objetivo acreditar na consistência da interpretação física do seu enunciado form al.
rejeitar todas as aeronaves a que for subm etido, pela sua destruição, m as sim obter
inform ações (isto é, testar um a teoria), de m odo a utilizá-la dentro dos limites da Em sum a, podemos afirm ar que o instrum entalism o não pode explicar a
sua aplicabilidade (ou seja, dentro de um a m argem de segurança). im portância que representa p ara a ciência pu ra a experim entação rigorosa mesmo
das implicações m ais rem otas das suas teorias; não tem condições de justificar o in ­
P ara os objetivos instrum entais relacionados com a aplicação p rática, um a teresse que o cientista puro tem pela veracidade e falsidade das teorias. C o n trastan­
teoria pode continuar sendo em pregada m esm o depois da sua refutação — dentro do com a atitude altam ente crítica do cientista puro, a posição do instrum entalis­
dos limites da sua aplicabilidade, é claro; inform ado de que a teoria de Newton é mo (como a da ciência aplicada) é com placente no que concerne o êxito das suas
dem onstradam ente falsa, um astrônom o não hesitará em aplicá-la, dentro dos aplicações. Por isso o instrum entalism o pode ser responsável pela recente estag­
limites em que pode ser aplicada. nação da teoria quântica (escrito antes da refutação da paridade).

Podemos às vezes ficar desapontados ao verificar que a gam a de aplicabi­ 6. Terceiro Ponto de Vista: Conjecturas, a Verdade e a Realidade.
lidade de um instrum ento ê m enor do que esperávamos; isso porém não nos leva a
rejeitar aquele instrum ento — trata-se de um a teoria ou de um aparelho. Por outro Nem Bacon nem Berkeley acreditavam que a T e rra tinha um m ovim ento de
lado, esse desapontam ento significa que conseguimos nova inform ação pela re ­ rotação; hoje, todos acreditam nisso, inclusive os físicos. O instrum entalism o é
futação da teoria segundo a qual aquele instrum ento podia ser aplicado a' um a adotado por Bohr e H eisenberg exclusivamente como um meio p ara resolver certas
gam a m ais am pla. dificuldades especiais surgidas no cam po da teoria q uântica.
Conform e vimos, mesmo as teorias — na m edida em que são instrum entos
Esse motivo não é suficiente. É sempre difícil in terp retar as teorias mais
~~ não podem ser refutadas. A interpretação instrum entalista não poderá p o rtanto
recentes, que às vezes deixam perplexos seus próprios criadores, como aconteceu
explicar os testes reais, que são tentativas de refutação, e não irá além da assertiva
com Newton. Maxwell, por exem plo, a princípio se inclinava no sentido de in te r­
de que diferentes teorias têm diferentes gam as de aplicação. Por outro lado, ela
pretar sua teoria do ponto de vista do essencialismo — em bora ela tenha co n tri­
não pode tam bém explicar o progresso científico. Em vez de dizer (como afirm o)
buído mais do que qualquer outra para o declínio do essencialismo. Einstein
que a teoria de Newton foi refu tad a por meio de experiências cruciais que não
inicialm ente teve um a visão instrum entalista da relatividade, aplicando um a es­
refu taram a teoria de Einstein, e que portan to esta últim a é m elhor do que a de
pécie de análise operacional ao conceito de sim ultaneidade — que contribuiu para
Newton, o instrum entalista coerente terá que repetir, a respeito do seu “novo” p o n ­
a presente m oda instrum entalista mais do que qualquer outra coisa; mais tarde,
to de vista, as palavras de Heisenberg: “segue-se que não declaram os mais: a
m ecânica de Newton é falsa... Em vez disso, usamos a seguinte form ulação: a porém , se arrependeu. 30*
m ecânica clássica... é “co rreta” onde quer que seus conceitos possam ser aplica­
dos” . 29 Confio em que os físicos não tard arão a perceber que o princípio da com ­
plem entaridade é ad hoc e (o que é mais im portante) que sua única função é evitar
29 — Vide W. Heisenberg, Dialectica, 2, 1948, pág. 333. O instrumentalismo de Heisenberg não é
consistente, e há muitas observações antiinstrumentalistas que lhe podem ser atribuídas. O artigo que
citamos aqui pode ser qualificado como uma tentativa radical de provar que sua teoria quântica leva 30 — Quando este texto foi composto, Einstein estava ainda vivo, e pretendia enviar-lhe uma cópia.
necessariamente a uma Filosofia instrumentalista, e portanto ao resultado de que a teoria física nunca Minha observação se refere a uma conversa que tivemos em 1950.
poderá ser unificada, nem tornada coerente.
142 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 143

a crítica e im pedir a discussão das interpretações físicas, em bora a crítica e o m esma realidade, com pletam ente diversos e todos igualm ente reais). É um erro,
debate sejam urgentem ente necessários p ara reform ar qualquer teoria. A p artir portanto, dizer que m eu piano, na form a como o percebo, é real, mas que suas
desse m om ento, deixarão de pensar que o instrum entalism o lhes é imposto pela moléculas e átomos são apenas “construções lógicas” (ou qualquer outra expressão
pró p ria estru tu ra da teoria física contem porânea. que denote sua irrealidade); da m esma form a, é um equívoco dizer que a teoria
atôm ica dem onstra que o piano do m eu m undo ordinário é só um a aparência —
De q ualquer form a, o instrum entalism o não é mais aceitável do que o essen- d o utrina que é perfeitam ente insatisfatória, pois os átomos podem ser explicados
cialismo, como procurei dem onstrar. E não é necessário aceitar um ou o outro, tam bém como distúrbios, ou estruturas de distúrbios, num cam po quântico de for­
porque há um terceiro ponto de v ista.31 ças (ou possivelmente de probabilidades). Todas essas conjecturas têm igual direito
a descrever a realidade, em bora algum as sejam m ais conjecturais do que outras.
Esse terceiro ponto de vista não é espantoso nem chega sequer a su rp reen ­
Por isso não devemos, por exemplo, descrever só as cham adas “qualidades
der. Preserva a dou trin a de Galileu de que o cientista busca um a descrição ver­
prim árias” de um corpo (tais como sua form a geom étrica) como reais, co n trastan ­
dadeira do m undo, ou de alguns dos seus aspectos, e um a explicação verdadeira
do-as como faziam outrora os essencialistas — com “qualidades secundárias”
dos fatos observáveis, com binando-a com o conceito (que não encontram os em
(tais como a cor). De fato, a extensão e mesmo a form a dos corpos já se tornaram
Galileu) de que em bora esses perm aneçam como objetivos do trabalho científico,
objetos de explicação, em termos de teorias de grau de abstração mais elevado —
nunca se pode saber com certeza se os resultados das investigações feitas são ver­
teorias que descrevem um estrato mais profundo da realidade: forças e campos de
dadeiros, em bora algum as vezes se possa com provar com razoável segurança que
forças, relacionados com as qualidades prim árias da m esm a form a como os essen­
um a d eterm inada teoria é fa lsa .32 cialistas acreditavam que estas estavam relacionadas com as secundárias. E as
qualidades secundárias, como as cores, são tão reais quanto as prim árias — em bora
Pode-se form ular o terceiro ponto de vista a respeito das teorias científicas
nossas experiências com as cores não se confundam com as propriedades de cor dos
em poucas palavras, dizendo que elas são conjecturas genuínas, altam ente in fo r­
objetos físicos, exatam ente como nossas experiências com as form as geom étricas
mativas, que, em bora não verificáveis (isto é: passíveis de ser provadas) resistem a
precisam ser distinguidas das propriedades de form a geom étrica das coisas físicas.
testes rigorosos. São tentativas sérias de descobrir a verdade. Sob este aspecto, as
Do nosso ponto de vista os dois tipos de qualidades são igualm ente reais — esta é a
hipóteses científicas são exatam ente como a famosa conjectura de G oldbach a
conjectura que fazemos. Assim tam bém as forças e os cam pos de forças, a despeito
propósito da teoria dos núm eros. G oldbach pensou que ela pudesse ser verdadeira
do seu caráter indubitavelm ente hipotético ou conjectural.
o que pode acontecer, embora não saibam os, e talvez nunca cheguemos a saber
se de fa to é verdadeira ou não.
Todos esses vários níveis são igualm ente reais num determ inado sentido da
palavra “real” ; há contudo um outro sentido em que poderíam os dizer que os níveis
Vou lim itar-m e aqui a m encionar só uns poucos aspectos desse “terceiro
mais elevados e mais conjecturais são mais reais — a despeito de serem mais con­
ponto de vista” os que os distinguem do essencialismo e do instrum entalism o. jecturais. Isso porque, de acordo com as nossas teorias, são mais estáveis em in ten ­
Em prim eiro lugar, o essencialismo:
ção, m ais perm anentes, no mesmo sentido em que um a mesa, um a árvore ou um a
estrela são mais reais do que qualquer um dos seus aspectos particulares.
Os essencialistas consideram o m undo ordinário como um conjunto de
aparências, por trás das quais existe um m undo real. É um a concepção que re ­
Mas, não é justam ente esse caráter conjectural ou hipotético das nossas
jeitam os ao ad q u irir consciência do fato de que p m undo de cada um a das nossas
teorias que nos leva a não atrib u ir realidade aos m undos que descrevem? Não
teorias pode ser explicado por outros m undos, que por sua vez são descritos por
-deveríamos (em bora consideremos a fórm ula de Berkeley — “ser é ser percebido”
novas teorias num nível mais elevado de abstração, de generalidade e de tes-
- por demais estreita) cham ar de “reais” só aquelas situações descritas por afir­
tabilidade. A dou trin a que postula um a realidade essencial entra em colapso ju n ­
mativas verdadeiras, evitando d ar esse qualificativo às situações associadas a con­
tam ente com a da explicação definitiva.
jecturas — que, afinal, podem ser falsas? Essas indagações nos levam de volta à dis­
cussão da doutrina instrum entalista, que, com sua asserção de que as teorias são
Uma vez que, de acordo com nosso tercei to ponto de vista, as novas teorias meros instrum entos, procura negar a alegação de que haja q u alquer coisa de real
científicas são, como as anteriores, conjecturas genuínas, elas constituem tentativas
no m undo que descrevem.
autênticas de descrever esses m undos. Por isso somos levados a considerá-los a todos
(inclusive nosso m undo ordinário) como igualm ente reais — m elhor ainda, talvez,
Aceito o ponto de vista, im plícito na teoria clássica da v erdade33, de que só
como aspectos ou estratos igualm ente reais do m undo real (se, ao olhar num devemos dizer que um a situação é real se a afirm ativa que a descreve é verdadeira.
m icroscópio, alteram os sua m agnificação, veremos vários aspectos ou estratos da

33 — Vide A. Tarski, Concept o f Truth (Der Wahrheitsbegriff, etc., Studia Philosophica, 1935, texto
da nota 1: “verdadeiro = de acordo com a realidade”). A tradução inglesa consta de Logic, Semantics,
31 — Cf. seção v do cap. 6. Metamatkematics, de A. Tarski, 1956, pág. 153; a tradução enuncia a fórmula asám: “true = corres­
ponding with reality" (prefiro: “true - in agreement with reality"). As observações seguintes (e também
32 - Cf. a discussão deste ponto na seção v, acima, e em L. Sc. D. (passim); vide também o cap. 1 des­ o penúltimo parágrafo antes daquele a que se refere esta nota) foram acrescentadas ao texto numa ten-
te livro e os fragmentos de Xenófanes mencionados ao fim do cap. 5
144 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES TRÊS PONTOS DE VISTA SOBRE O CONHECIMENTO HUMANO 145

jecturais; m as o mesmo se pode dizer das explorações geográficas. As conjecturas de


Seria um grave erro, no entanto, concluir que a incerteza de um a teoria — isto é, Colombo a respeito das terras que descobriu estavam equivocadas; e Peary só podia
caráter conjectural e hipotético — dim inui sua pretensão de descrever a realidade. conjecturar (na base de teorias) que havia chegado ao pólo. Mas esses elementos de
T o d a assertiva a equivale à afirm ativa de que a é real. Q uanto ao caráter conjec­ cónjectura não fazem com que suas descobertas tenham sido menos reais ou menos
tural de a, é preciso não esquecer, que, antes de mais nad a, um a conjectura pode significativas.
ser verdadeira, e descrever um a situação real; em segundo lugar, se for falsa, co n ­
tra d ita rá algum a situação real (descrita pela sua negação verdadeira). Além disso, H á um a distinção im portante entre dois tipos de previsão científica — dis­
se testarm os nossa conjectura, e conseguirmos refutá-la, perceberem os claram ente a tinção que o instrum entalism o não pode fazer, e que está associada ao problem a da
existência de um a realidade, contra a qual ela se chocou. descoberta científica. T rata-se da distinção entre a previsão de eventos de tipo
conhecido e de novos tipos de eventos (o que os físicos cham am de “novos efeitos”).
P ortanto, nossas refutações indicam os pontos onde tocamos a realidade , Parece-me que o instrum entalism o só pode explicar as descobertas da prim eira
por assim dizer. Nossas teorias m elhores e mais recentes correspondem sem pre à categoria. Se entendem os que as teorias são instrum entos de previsão, precisamos
tentativa de incorporar todas as refutações num determ inado cam po, explicando-as adm itir que seu objetivo pode ser determ inado previam ente, como acontece com
de m odo mais simples — o que quer dizer, do m odo mais facilm ente testável (como outros instrum entos. As previsões do segundo tipo só podem ser com preendidas
procurarei dem onstrar em The Logic o f Scientific Discovery, seções 31 a 46). perfeitam ente como descobertas.

Se não souberm os como testar um a teoria poderem os ter dúvidas sobre se Acredito que nossas descobertas são guiadas pela teoria, nesses casos e quase
haverá algum a realidade do tipo (ou do nível) que a teoria pretende descrever; se sempre; não acredito que as teorias resultem de descobertas “devidas à observa­
souberm os positivam ente que ela não pode ser testada, nossa dúvida crescerá — ção”, pois a própria observação tende a ser orientada pela teoria. Mesmo as des­
poderem os suspeitar que seja um mito, um a fábula. Mas, se um a teoria é testável, cobertas geográficas (Colombo, Franklin, os dois N ordenskjõld, N ansen, W egener e
isso im plica que eventos de um certo tipo podem ocorrer; assim, essa teoria a fir­ a expedição Kon-Tiki de H eyerdahl) são m uitas vezes em preendidas com o objetivo
mará algo sobre a realidade. Por isso exigimos que quanto mais conjectural for de testar um a teoria. Não se lim itar a fa zer previsões, mas criar novas situações,
um a teoria, m aio r seja sua testabilidade. As conjecturas estáveis se referem , p o r­ para novos tipos de testes — esta é um a função das teorias que o instrum entalism o
tanto, à realidade. Seu caráter incerto ou conjectural faz com que nosso conhe­ não pode explicar sem o abandono das suas características mais im portantes.
cim ento sobre a realidade que procuram descrever seja tam bém incerto ou conjec­
tu ral. E em bora só se possa conhecer com segurança aquilo que é certam ente real, O contraste mais interessante entre o instrum entalism o e nosso proposto
é um erro pensar que só é real o que é conhecido como tal. Não somos oniscientes; “terceiro ponto de vista” talvez seja o que diz respeito à rejeição instrum entalista da
não há dúvida de que há m uita coisa real que não conhecemos. Esse é o velho e n ­ função descritiva dos termos abstratos, e das palavras que denotam disposições.
gano de Berkeley (enunciado como “ser é ser conhecido '), que ainda perm eia o ins- D outrina que revela, aliás, um vestígio essencialista — a crença de que os eventos,
trum entalism o. ocorrências ou “incidentes” (diretam ente observáveis) devem ser, num certo sen­
As teorias são nossas invenções, nossas idéias — não se impõem a nós, são tido, mais reais do que as disposições (que não o seriam ).
instrum entos de pensam ento que fabricam os. Os idealistas o percebem m uito bem .
Algumas dessas teorias podem chocar-se com a realidade; quando isso'acontece, Sobre esse ponto, a terceira concepção é diferente. Acho que a m aior parte
ficamos sabendo que há um a realidade: algo nos avisa que nossas idéias podem es­ das observações são mais ou menos indiretas; é duvidoso que a distinção entre in ­
tar erradas. Por isso o realista tem razão. cidentes diretam ente observáveis e aquilo que só pode ser observado de form a in ­
direta nos leve a algum lugar. Não posso deixar de pensar que é um erro denunciar
Concordo p o rtan to com o essencialismo no que diz respeito à noção de que a como ocultas as forças new tonianas (“causas de aceleração”) e ten tar afastá-las, em
ciência é capaz de descobertas reais, e tam bém à noção de que ao descobrir novos troca de acelerações. De fato, as acelerações não podem ser observadas de modo
m undos o intelecto triunfa sobre nossa experiência sensorial. Mas não incorro no mais direto do que as forças; e refletem da m esma m aneira determ inadas dispo­
erro de Parm ênides — negar realidade a tudo que é colorido, variado, singular, sições: a afirm ativa de que a velocidade de um corpo sofreu aceleração nos indica
indeterm inado e indescritível. que a velocidade desse corpo, daqui a um segundo, será m aior.

Como acredito que a ciência pode fazer descobertas reais, uno-m e a Galileu
contra o instrum entalism o. Adm ito, sem dúvida, que nossas descobertas são con- Na m inha opinião, todos os universais refletem disposições. “Q uebrado” ,
neste particular, não difere m uito de “quebrável ’ — considerando, por exemplo,
tativa de responder a uma crítica amigável que me foi comunicada privadamente pelo professor Alexan­ como um médico decide se um osso está ou^aão quebrado. N ão diríam os que um
dre Koyré, a quem fico muito agradecido. Não creio que, se aceitarmos a sugestão de que “de acordo vidro está “qu eb rad o ” se todos os seus pedaços se fundissem no m om ento em que
com a realidade” seja equivalente a “verdadeiro”, estejamos correndo sério perigo de trilhar um ca­ fossem reunidos: o critério que determ ina o “estar q u eb rad o ” consiste no com por­
minho que leve ao idealismo. Não proponho definir “real” com a ajuda dessa equivalência. Mesmo que o tam ento sob determ inadas condições. Da mesma form a, “verm elho’ reflete um a
fizesse, aliás, não há razão para crer que uma definição necessariamente determina o estado ontológico
do termo definido. O propósito da equivalência deve ser ajudar-nos a perceber que o caráter hipotético disposição -- um objeto é vermelho se reflete um certo tipo de luz — ele parecerá
de uma afirmativa (isto é, nossa incerteza a respeito da sua veracidade) implica que estamos tentando verm elho” em determ inadas condições. Até mesmo “parecer vermelho reflete um a
fazer suposições a respeito da realidade.
146 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES

disposição — descreve a disposição de um corpo p ara fazer com que seus obser­
vadores concordem em que é vermelho.
H á, sem dúvida, graus de disposição — “capaz de conduzir eletricidade”
tem um g rau m aior do que “conduzindo eletricidade ag o ra” — que, no entanto,
reflete tam bém um a disposição. Esses graus correspondem estreitam ente ao caráter
conjectural ou hipotético das teorias. N ão tem sentido, contudo, rejeitar a re a ­
lidade das disposições, mesmo que rejeitemos a realidade de todos os universais e de
todas as situações, inclusive incidentes, lim itando-nos a utilizar aquele significado
do term o “re a l” que, do ponto de vista do uso corrente, é mais estreito e mais
seguro: cham aríam os de “reais” só os corpos físicos que não são pequenos ou g ra n ­
des dem ais (ou que não estão distantes dem ais), de m odo que podem ser facilm ente
vistos e m anipulados. 4. Rumo a uma Teoria Racional da Tradição*
Mesmo assim perceberíam os — como escrevi há vinte a n o s3435 — que:

“T o d a descrição em prega ... universais; toda afirm ativa tem um caráter de No título desta conferência deve-se enfatizar a expressão “rum o a ”: de fato,
um a teoria, u m a hipótese. A assertiva “Eis aqui um copo d ’ág u a” não pode ser não pretendo enunciar um a teoria com pfeta, mas apenas explicar, com exemplos, sò
tipo de indagação a que um a teoria da tradição deveria responder, form ulando
verificada com pletam ente pela experiência sensorial, porque os universais que nela
sum ariam ente algum as idéias que podem ser úteis p ara a sua elaboração.
aparecem não podem ser correlacionados com q u alq u er experiência sensorial em
p articu lar. U m a “experiência im ed iata” é única: ela é “dada im ediatam ente” um a
A título de introdução pretendo contar como m e interessei por este tem a e
só vez. Com a palavra “copo”, por exem plo, denotam os certos corpos físicos que
dizer por que acredito na sua im portância, descrevendo algum as atitudes possíveis
têm um determ inado com portam ento que se m anifesta de fo rm a sem elhante a leis ;
a seu respeito.
com a palavra “ág u a ” acontece o mesm o.

N ão creio que pudéssemos usar um a linguagem que não tivesse universais. E Sou um racionalista especial. Não estou certo de que m eu racionalism o será
o uso dos universais nos obriga a afirm ar — por conseguinte, a conjecturar (pelo aceito pelos que me lêem; é o que veremos. Interesso-me m uito pelo m étodo cien­
menos) a respeito d a realidade das disposições, em bora não a respeito das que fos­ tífico. Depois de estudar du ran te algum tem po os m étodos das ciências naturais,
sem definitivas e inexplicáveis, isto é, das essências. Podemos expressar isso dizendo achei que seria interessante estudar tam bém os m étodos das ciências sociais; foi
que a distinção h ab itu al entre “term os observacionais” (ou “não teóricos”) e “te r­ quando deparei pela prim eira vez com o problem a da tradição. No cam po da
mos teóricos” é enganosa, já que todos os termos são teóricos em algum a m edida, política, da teoria social, etc., os anti-racionalistas costum am sugerir que esse é um
em bora alguns sejam mais teóricos do que outros — da m esma form a como dis­ problem a que não pode ser abordado por qualquer tipo de teoria racional: sua
semos que todas as teorias são conjecturais, em bora algum as o sejam mate do atitude consiste em aceitar a tradição como um dado. É preciso adm iti-la; não se
que outras. pode racionalizá-la: a tradição desem penha função im portante na sociedade e o
que se deve fazer é com preender seu significado e aceitá-la.
Se estamos em penhados, porém , em conjecturar a respeito da realidade das
torças e dos cam pos de forças (ou pelo menos preparados p ara isso), não há motivo O nom e mais im portante associado a esse ponto de vista and-racionalista é o
por que não devêssemos conjecturar que um dado tem um a inclinação, ou dis­ de E dm und Burke que, como sabemos, lutou contra as idéias da Revolução F ra n ­
posição (propensity) p ara cair sobre um dos seus lados; que essa inclinação pode ser cesa; sua arm a m ais efetiva foi a análise da im portância desse poder irracional que
alterad a, se interferirm os com o dado; que inclinações desse tipo podem m udar conhecemos como “trad ição ” . M enciono Burke porque não creio que tenha sido
constantem ente; que podem os operar com campos de disposições (fields oj propen- jam ais refutado adequadam ente pelos racionalistas; estes tendem a ignorar suas
sities), ou entidades que determ inam disposições. Uma interpretação da p ro b a ­ críticas, perseverando na atitude antitradicionalista sem responder ao desafio. Sem
bilidade dentro dessas linhas poderia oferecer-nos um a nova interpretação física da dúvida há um a hostilidade tradicional entre o racionalism o e o tradicionalism o. Os
teoria quân tica — diferente da interpretação puram ente estatística, que devemos a racionalistas se inclinam a adotar a posição seguinte: “N ão me interesso pela
Born — em bora estejamos de acordo com ele em que as afirm ativas probabilísticas tradição. Prefiro julgar tudo na base dos m éritos próprios, descobrindo as respec­
só podem ser testadas em piricam ente. 55 Essa interpretação talvez pudesse ajudar- tivas vantagens e desvantagens independentem ente de qualquer tradição. Quero
nos um pouco nos nossos esforços p ara resolver as graves dificuldades surgidas na julgar com m eu próprio cérebro, e não com os cérebros de outras pessoas, que
teoria qu ân tica, que hoje parecem pôr em perigo a tradição de Galileu. viveram há m uito tem p o .”
34 — Vide L. Sc. D., fim da seção 25, bem como o cap. 1 do presente volume.
35 — A respeito da teoria da probabilidade baseada nas disposições (propensities) vide meus trabalhos
* Conferência pronunciada na Terceira Conferência Anual da Associação da Imprensa Racionalista,
in Observatian and Interpretation, ed. S. Kõrner, 1957, pág. 65, e também no B.J.P.S., 10, 1959, pág. em Magdalen College, Oxford, 26 de julho de 1948 (sob a presidência do Professor A.E. Heath). Pu­
25. blicada pela primeira vez em The Rationalist Annual, 1949.
148 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RUMO A UMA TEORIA RACIONAL DA TRADIÇÃO 149

O fato de que o racionalista que diz essas coisas está ele próprio ligado a N aturalm ente poderia d a r exemplos colhidos em outros cam pos, além do
um a “tradição racionalista” , que tradicionalm ente repete tais alegações, m ostra científico, p ara dem onstrar que não é só na ciência que a tradição é im portante.
que o assunto não é tão simples. Vejamos a música: quando estava na Nova Zelândia recebi discos norte-am ericanos
do “R equiem ” de M ozart; ao ouvi-los, percebi o que significava a falta de tradição
O presidente desta conferência nos disse que não precisamos preocupar-nos — tinham sido gravados sob a direção de um m aestro obviam ente pouco fam iliar
com a reação anti-racionalista, que é m uito fraca, se não negligível. Na m inha com a tradição m ozartiana. O resultado foi devastador. N ão pretendo d em o rar-me
opinião, porém , existe um a reação anti-racionalista de tipo m uito sério, entre pes­ nessa exem plificação: quis d ar essas ilustrações p ara deixar bem claro que ao
soas inteligentes, que está associada a este problem a particular. Um bom núm ero desenvolver o tem a da tradição científica ou racional não a considero necessa­
de pensadores de renom e fizeram do problem a da tradição um a arm a para atacar riam ente a única ou a mais im portante.
0 racionalism o. Poderia d a r o exemplo de M ichael O akeshott, um historiador de
C am bridge, pensador originai, que recentem ente atacou o racionalism o no Cam- Entenda-se que só há duas atitudes fundam entais a respeito da tradição.
bridge Journal. 1 Uma consiste em aceitá-la acriticam ente, m uitas vezes sem ter consciência sequer
do que significa. Pode acontecer que não consigamos escapar deste perigo — com
Discordo em grande parte dessa crítica, mas sou obrigado a adm itir que o freqüência não chegamos a perceber que estamos sendo tocados por um a tradição.
ataque foi poderoso. Q uando foi lançado, não havia m uito que se pudesse co n ­ Ao usar m eu relógio no pulso esquerdo não preciso ter consciência de que obedeço
siderar um a defesa adequada contra seus argum entos. Existem algum as respostas, a um a tradição. Todos os dias fazemos centenas de coisas sob a influência de
mas duvido da sua adequação — este é um dos motivos por que acho que o assunto tradições das quais não temos consciência. Mas, se não sabemos que nosso com por­
tem grande im portância. tam ento reflete um a tradição só podemos aceitá-la acriticam ente.

O u tra coisa que me induziu a escolher este tem a foi m inha própria expe­
A outra possibilidade consiste em assumir atitude crítica — o que pode
riência pessoal a m udança de am biente social por que passei. Cheguei à I n ­
glaterra vindo de Viena; pude verificar que a atm osfera neste país é m uito diferen­ resultar na aceitação, na rejeição ou talvez num a conciliação. E preciso porém
conhecer e com preender um a tradição antes de criticá-la; antes de poder dizer:
te daquela em que tinha crescido. Ouvimos do doutor J. A. C. Brown 2 algumas
“Rejeito a tradição por motivos racionais.” Não creio, todavia, que possamos livrar-
observações interessantes sobre a im portância do que cham a de “atm osfera” de
um a fábrica. Estou seguro de que ele concordaria em que essa atm osfera tem algo nos inteiram ente da influência da tradição. N a verdade, essa “liberação” não passa
a ver com a tradição. M udei-me da atm osfera ou tradição continental para a in ­ de m udança — de um a tradição para outra. Podemos contudo liberar-nos dos
glesa, e mais tarde, d u ran te algum tem po, p ara a da Nova Zelândia. Essas m u d a n ­ tabus de um a tradição — não pelo seu afastam ento, mas pela aceitação crítica.
ças sem dúvida me estim ularam a refletir sobre o assunto, procurando investigá-lo Libertam o-nos de um tab u ao refletir sobre ele, perguntando-nos se devemos
mais profundam ente. aceitá-lo ou recusá-lo. Para isso, é preciso em prim eiro lugar perceber a tradição
claram ente; entender de m odo geral qual pode ser a função e o significado das
tradições. Por isso o problem a é tão im portante que nós, racionalistas — pessoas
Certos tipos de tradição de g rande im portância são locais; não podem ser
prontas a contestar e a criticar tudo, inclusive, espero, sua própria tradição ra-
transplantados facilm ente. Essas tradições são delicadas, sendo difícil restaurá-las
quando se perdem . Estou pensando na tradição científica, pela qual tenho um in ­ cionaiista. Pessoas capazes de tudo questionar, pelo m enos m entalm ente; que não
se subm etem cegam ente a qualquer tradição.
teresse especial. Sei que é m uito difícil transplantá-la dos poucos lugares onde ela
deitou raízes firmes. H á dois mil anos essa tradição foi destruída na Grécia e levou
m uito tem po a reviver. Tentativas recentes p ara transplantá-la da Inglaterra p ara Deveria dizer que na nossa valiosa tradição racionalista (que os racionalistas
alguns lugares no além -m ar não tiveram grande êxito. N ada é mais m arcante do m uitas vezes aceitam acriticam ente) há alguns pontos que deveríamos contestar:
que a inexistência de um a tradição de pesquisa em alguns países de outros co n ­ por exemplo, a idéia m etafísica do determ inism o. Aqueles que discordam do d e te r­
tinentes: iniciá-la onde ela falta representa um a lu ta duríssim a. (Quando p arti da m inism o são geralm ente objeto de suspeitas por p arte dos racionalistas, temerosos
Nova Zelândia, o Reitor da Universidade prom oveu um extenso levantam ento sobre de que, ao aceitar o indeterm inism o, estejamos obrigados a aceitar a doutrina do
a questão da pesquisa científica; em conseqüência, fez um excelente discurso, em livre arbítrio, envolvendo-nos assim no debate teológico a respeito da alm a e da
que criticava a Universidade por ter negligenciado as atividades de investigação. graça divina. Costumo evitar a m enção ao livre arbítrio, porque não tenho m uita
Mas seria ingênuo pensar que esse discurso prom overá o estabelecim ento de um a certeza sobre o que significa; suspeito mesmo que nossa intuição possa desviar-nos
tradição de pesquisa científica na Nova Zelândia — o que seria um em preendim en­ do que é a vontade livre do hom em . Penso, contudo, que o determ inism o é um a
to m uito difícil. Pode-se convencer as pessoas de que um a tradição é necessária, teoria insustentável por m uitas razões; não temos qu alq u er m otivo p ara aceitá-la.
mas isso não quer dizer que ela irá nascer, e que florescerá. Com efeito, acredito que é im portante livrar-nos do elem ento determ inista da
tradição racionalista: ele não só é insustentável como nos cria m uitos problem as.
1 — Artigo republicado em Rationalism in Politics and Other Essays, de M. Oakeshott, 1962, págs. Por isso é im portante perceber que o indeterm inism o — isto é, a negativa do d eter­
1 -3 6 .
minismo — não nos envolve necessariam ente em q u alq u er d o utrina relativa à nossa
2 — Alusão à conferência sobre “Comportamento Racional e Irracional em Grupos Industriais”, de que
foi publicado um sumário em The Literary Guide, outubro de 1948. “vontade”, ou à “responsabilidade”.
150 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RUMO A UMA TEORIA RACIONAL DA TRADIÇÃO 151

sua casa abaixa o preço de m ercado daquela casa. Q uem deseja vender algum a
O utro elem ento da tradição racionalista que devemos questionar é a idéia
coisa deprim e o m ercado com prador; quem quer com prar algo contribui para
do observacionalism o — de que conhecemos o m undo porque o exam inam os, com
elevar o preço do que quer com prar. Isso só acontece, naturalm ente, em m ercados
olhos e ouvidos bem abertos, anotando o que vemos e ouvimos — essa seria a
pequenos e livres — mas é o que Çende a acontecer em qualquer econom ia de m er­
m atéria-p rim a do conhecim ento. T rata-se de um preconceito que tem raízes
cado. Seria desnecessário provar que quem quer vender algo não tem em geral a
profundas; um a idéia que im pede a com preensão do m étodo científico. Voltarei a
intenção de deprim ir o seu preço no m ercado, e vice-versa. Aí está um exemplo
este ponto m ais adiante.
típico das conseqüências não desejadas a que me referi.
Como introdução, basta. Farei agora um breve sum ário do papel de um a
teoria da tradição. U m a teoria sobre a tradição precisa ser um a teoria sociológica, O que descrevi é típico de todas as situações sociais — sem pre há indivíduos
porque a tradição é obviam ente um fenôm eno social. M enciono isso porque desejo que fazem coisas, que querem coisas, que têm determ inados objetivos em vista. Na
exam inar brevem ente a fu n ç ã o das ciências sociais teóricas, que tem sido m al in te r­ m edida em que essas pessoas agem no sentido em que desejam , alcançando os fins a
p retad a com m uita freqüência. P ara poder explicar em que consiste, na m inha que se propõem , não se coloca nenhum problem a p ara as ciências sociais — exceto
opinião, a função básica da ciência social, gostaria de com eçar pela descrição de o problem a de saber se seus objetivos e impulsos podem ser explicados socialm ente,
um a teoria, aceita por muitos racionalistas, que na m inha opinião leva exatam ente por certas tradições, por exem plo. Os problem as característicos das ciências sociais
ao objetivo oposto ao da ciência .social — o que cham arei de “teoria conspiratória só aparecem em função do nosso desejo de conhecer as conseqüências não a lm e­
da sociedade” . T rata-se de teoria mais prim itiva do que quase todas as m o d ali­ jadas das nossas ações — especialm ente as conseqüências que queremos evitar.
dades do teísmo; lem bra a teoria da sociedade de H om ero, que concebia os poderes Desejamos prever não só as conseqüências diretas do que fazemos, mas tam bém as
divinos de tal form a que o que quer que acontecesse na planície de T róia refletia conseqüências indiretas e não desejadas. Por que razão? O u por curiosidade cien­
sem pre as várias conspirações urdidas no O lim po. A “teoria conspiratória da so­ tífica ou porque queremos estar preparados para enfrentá-las — p ara evitar que se
ciedade” corresponde a um a versão desse teísmo — da crença em divindades cujos tornem m uito graves. (O que significa, por sua vez, novas ações, e conseqüente-
caprichos governam o m undo. Deriva do gesto de quem abandona Deus p ara m ente novos efeitos imprevistos).
depois p erg u n tar quem deve tom ar o seu posto; da sua substituição por grupos e
hom ens poderosos — sinistros grupos de pressão, responsabilizados por todos os Acho que quem se aproxim a das ciências sociais com um a teoria conspi­
males que nos afligem . ratória já pronta abandona a possibilidade de chegar a atender o papel dessas ciên­
cias; presum e que é possível explicar praticam ente tudo na vida social perguntando
A “teoria conspiratória da sociedade” é m uito difundida, e contém m uito “quem o quis assim” — quando, na verdade, a função real das ciências sociais3 è
pouca verdade. Só quando os que a sustentam chegam ao poder ela se torna um a explicar o que ninguém deseja — um a guerra, um a depressão. A revolução leninis-
explicação de coisas que acontecem realm ente (um exemplo do que denom inei ta e especialm ente a revolução e a guerra de H itler são exceções: resultaram efe­
“efeito de É dipo”). Assim, quando H itler chegou ao poder, como acreditava no tivam ente de conspirações, mas tam bém do fato de que os teóricos da conspiração
m ito da conspiração dos Sábios de Sião, tentou um a contraconspiração. Mas o in ­ chegaram ao poder — tendo fracassado, significativam ente, na tentativa de con­
teressante é que as conspirações desse tipo nunca — ou quase nunca — se desertvol- sum ar as conspirações que idealizaram .
vem conform e previsto pelos conspiradores.
O objetivo da teoria social é explicar como se realizam as conseqüências não
Essa observação já insinua qual é o verdadeiro objetivo de um a teoria social, alm ejadas das nossas intenções e das nossas ações; que tipos de efeitos ocorrem
Como disse, H itler tram o u um a conspiração que fracassou. Fracassou por quê? Não quando se age de um a m aneira ou de outra, em determ inada situação social. De
apenas p orque outras pessoas conspiraram contra H itler, m as sim plesm ente porque modo mais especial, sua função é analisar a existência e o funcionam ento de ins­
um a das coisas mais m arcantes da vida social é que nada tem exatam ente os resul­ tituições (como a polícia, as empresas, as escolas, os governos) e as coletividades
(Estados, Inações, classes e outros grupos). Quem aceita a teoria conspiratória
tados previstos. As coisas sem pre acontecem de m odo um pouco diferente do es­
acredita que as instituições podem ser com preendidas perfeitam ente como o re ­
perado. Quase nunca conseguimos produzir na vida social precisam ente o efeito a l­
m ejado — é com um .receberm os um “troco” inesperado. N aturalm ente, agimos
tendo em m ente determ inados objetivos; no en tanto, ao lado desses objetivos (que 3 — No debate que se seguiu à conferência, fui criticado por rejeitar a teoria conspiratória; houve quem
podem os ou não atingir), há sem pre um a série de conseqüências não desejadas que afirmasse que KarI Marx tinha revelado a enorme importância que tem a conspiração capitalista para a
compreensão da sociedade. Ao responder, disse que devia ter mencionado minha dívida para com Marx,
acom panham nossas ações. N orm alm ente, essas conseqüências não podem ser
um dos primeiros críticos da teoria da conspiração e um dos primeiros a analisar as conseqüências não
elim inadas. Explicar por que isso acontece é a principal tarefa da ciência social. almejadas das ações voluntárias das pessoas que agem dentro do contexto de certas situações sociais.
Marx disse, clara e incisivamente, que o capitalista está tão enredado na situação social (ou “sistema
Vou d ar um exem plo m uito simples. Digamos que alguém precise vender social ) quanto o trabalhador; que não pode deixar de agir como age. O capitalista é tão pouco livre
sua casa, n u m a pequena vila. Pouco antes houve quem comprasse um a o u tra casa, quanto o trabalhador — os resultados das suas ações são em grande parte não intencionais. Mas a ver­
dadeira abordagem científica de Marx (embora, a meu ver, muito determinista) foi abandonada pelos
porque precisava enco n trar m oradia com urgência. Surge agora um vendedor: ele seus discípulos recentes, os marxistas vulgares, que propõem uma teoria conspiratória da sociedade em
verá que, em condições norm ais, não en contrará oferta igual à do com prador que termos bastante populares, que não tem mais seriedade do que o mito dos Sábios de Sião aceito por
precisou com prar u m a casa sem elhante. O simples fato de que alguém quer vender Goebbels.
152 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RUMO A UMA TEORIA RACIONAL DA TRADIÇÃO 153

Creio que a inovação que os prim eiros filósofos gregos introduziram foi mais
sultado da deliberação consciente e atribui às coletividades um a espécie de “p e r­
ou menos a seguinte: eles com eçaram a discutir esses assuntos. Em vez de aceitar a
sonalidade g ru p a i” , tratando-as como agentes conspiradores, como se fossem in ­
tradição religiosa acriticam ente, como algo inalterável, passaram a contestá-la e
divíduos. C ontrariam ente a essa concepção, o teorista social deve reconhecer que a
chegavam mesmo a inventar às vezes um novo m ito, p ara substituir um m ito
persistência das instituições e coletividades cria um problem a a ser resolvido ta m ­
tradicional. Temos que adm itir que as novas estórias que propuseram , em lugar
bém em term os de um a análise das ações sociais dos indivíduos e seus efeitos sociais
das antigas, eram fundam entalm ente mitos — exatam ente com as explicações
não p retendidos. A função de um a teoria da tradição pode ser vista igualm ente
abandonadas. Mas tinham duas coisas interessantes.
dessa form a: só m uito raram en te as pessoas deliberam criar um a tradição; mesmo
nesses casos, é provável que não o consigam. Por outro lado, pessoas que nunca
Em prim eiro lugar, não eram apenas repetições ou rearranjos das velhas es­
sonharam em criar u m a tradição podem chegar a isso, sem ter jam ais tal intenção.
tórias — continham alguns elementos novos. Não que isso fosse em si um a grande
D eparam os assim com um dos problem as básicos da teoria da tradição: saber como
vantagem . Mas a segunda coisa, a principal, era o fato de que constituíam um a
surgem as tradições e, o que é mais im portante, como elas se m antêm , na qu ali­
nova tradição — a adoção de atitude crítica com relação aos mitos, de discuti-los;
dade de conseqüências (possivelmente não deliberadas) de ações hum anas. de não só n a rra r os m itos antigos mas tam bém questioná-los. Ao contar um m ito
esses filósofos se dispunham a ouvir o que os outros pensavam — adm itindo, p o r­
O utro problem a, mais im portante, é saber qual a função da tradição na tanto, a possibilidade de que tivessem um a explicação m elhor. Isso era algo que
vida social. T erá ela algum a função racionalm ente compreensível (como o que não acontecia até então: surgia portanto um novo processo de form ular indagações.
acontece com as escolas, a polícia, as lojas, a bolsa de valores e outras instituições
Juntam ente com a explicação — o m ito — colocava-se a pergunta: “H averá um a
sociais)? Poderem os analisar as funções da tradição? Este talvez seja o objetivo mais
explicação m elhor?”. O utro filósofo poderia responder: “Sim ” ; ou então: “N ão sei,
im p o rtan te da teoria. Pretendo ab o rd ar o tem a analisando um a tradição em p a r­
mas tenho um a explicação m uito diferente, que é igualm ente boa. Como as duas
ticular — a racional ou científica —, de form a exem plificativa, usando depois essa
não podem ser verdadeiras, deve haver algo de errado aí. N ão podem os aceitar as
análise com outros propósitos.
duas explicações, e não temos qualquer motivo p a ra preferir um a delas. Como
querem os conhecer m elhor o assunto, precisamos discuti-lo para verificar se nossas
Meu objetivo principal será traçar um paralelo entre as teorias que acei­ explicações realm ente satisfazem, tendo em vista o que sabemos, e se podem ser
tam os em função da nossa atitude racional ou crítica, depois de subm etê-las a testes aplicadas a algum a outra coisa que não levamos em consideração.”
(de m odo geral, as hipóteses científicas) e as crenças, atitudes e tradições em geral
— considerando, por outro lado, o m odo como um as e outras nos orientam neste Defendo a tese de que o que cham am os de “ciência” se distingue dos antigos
m undo, especialm ente na nossa vida social. mitos não só por ser diferente deles, mas por vir acom panhada de um a tradição de
segunda ordem — a de discutir criticam ente o m ito. Antes, só havia a tradição de
Já se discutiu m uito o que cham am os de tradição científica. M uita gente já prim eira ordem : um a estória era transm itida. Agora, continuava a haver n a tu ra l-
especulou a respeito dessa coisa estranha que aconteceu de algum a form a num m ente um a estória a ser transm itida, mas com ela se com unicava tam bém algo
lugar da G récia, no sexto e no quinto séculos antes de Cristo — a invenção da como um texto de acom panham ento: “Passo-te esta tradição, mas deves dizer-me o
filosofia racional. Alguns pensadores m odernos afirm am que os filósofos gregos que pensas dela. Reflete: talvez possas dar-m e um a explicação d istin ta.” Essa
foram os prim eiros a com preender o que acontece na natureza: pretendo dem ons­ tradição de segunda ordem era a atitude crítica e analítica: algo novo, que é o
trar que essa explicação não é satisfatória. fundam ental da tradição científica. Se com preenderm os isso, teremos um a atitude
com pletam ente diferente a respeito de muitos problem as relacionados com m étodo
Os prim eiros filósofos gregos ten taram de fato entender o que acontecia na científico. Com preenderem os que, num certo sentido, a ciência produz mitos —
natureza — m as o mesmo faziam antes deles os primitivos, com os mitos que inven­ tanto quanto a religião. Poderá surgir a objeção: “Mas os mitos científicos são
tavam . Como caracterizar então esse tipo prim itivo de explicação que foi substi­ m uito diferentes dos religiosos!” C ertam ente são diferentes. Mas, por quê? Porque
tuído pelos padrões dos filósofos helénicos — os fundadores da nossa tradição cien­ quando adotam os essa atitude crítica, os nossos mitos se tornam diferentes: eles se
tífica? P ara explicá-lo de m odo grosseiro, ao sentir a aproxim ação de um a tem pes­ m odificam , p ara fornecer um a explicação cada vez m elhor do m undo — das várias
tade, os prim itivos pré-científicos diziam: “Zeus está zangado!” E quando viam o coisas que podemos observar. Passam a nos desafiar a observar coisas que nunca
m ar encapelado, com entavam : “Poseidon está irritado!” Esse tipo de explicação era observaríamos sem tais mitos ou teorias.
considerado satisfatório antes de a tradição racionalista im por novos padrões de ex­
plicação. Q ual era a diferença decisiva entre esses padrões? Não se pode dizer que Nos debates críticos então levantados surgiu, pela prim eira vez, algo como a
as novas teorias introduzidas pelos filósofos gregos fossem com preendidas mais observação sistemática. Ao receber um m ito, acom panhado pela pergunta silen­
facilm ente do que as antigas teorias. Acho que é m uito m ais fácil com preender a ciosa e tradicional — “Que tens a dizer sobre isso? Podes criticar o que contei?”
afirm ativa de que Zeus está zangado do que u m a explicação científica de um a tem ­ — as pessoas o aplicavam às várias coisas que ele alegadam ente deveria explicar,
pestade; a assertiva de que Poseidon está irritad o me parece m uito mais simples e tais como o m ovim ento dos planetas. E diziam, por exemplo: “N a m inha opinião
compreensível do que u m a explicação das vagas em termos da fricção do ar sobre a esse m ito não é m uito bom , porque não explica os m ovimentos observáveis dos
superfície do m ar. planetas” . Assim, são os mitos, ou as teorias, que nos levam à observação siste-’
154 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RUMO A UMA TEORIA RACIONAL DA TRADIÇÃO 155

m ática, o rien tan d o -a — observação em preendida com o propósito de investigar sua T udo isso quer dizer que um jovem cientista que deseja fazer descobertas
veracidade. Deste ponto de vista, o desenvolvimento das teorias científicas não receberá um m au conselho se alguém lhe disser: “Observe o que existe à sua volta”.
deveria ser considerado o resultado da acum ulação de observações; pelo contrário, A orientação correta seria: “Procure saber o que se discute hoje na ciência. Des­
as observações — e sua acum ulação — devem ser vistas como conseqüência do cubra onde estão surgindo dificuldades e se interesse pelos desacordos — essas são
desenvolvimento* das teorias científicas. A isso cham ei a teoria do refletor — o p o n ­ as questões que você deve a b o rd a r.” Em outras palavras, deve-se estudar a situação-
to de vista de qüe é a própria ciência que projeta luz sobre novas coisas — ela não problem a atual; isto é: é preciso explorar a linha de investigação associada a todo o
soluciona problem as, m as, ao fazê-lo, cria novos problem as; não só se beneficia com desenvolvimento pregresso da ciência — seguir a tradição científica. Este é um
a observação, m as conduz a novas observações. ponto simples e decisivo, que contudo m uitas vezes não é suficientem ente percebido
pelos racionalistas — não podemos com eçar da estaca zero; precisamos utilizar o
Se procurarm os deste modo novas observações, com o objetivo de explorar a que nossos antecessores fizeram . Se começarmos do zero, não ultrapassarem os o
veracidade dos nossos mitos, não nos espantarem os ao descobrir que, assim tes­ ponto ao qual Adão e Eva conseguiram chegar (ou o hom em de N eanderthal). N a
tados, eles m u d am de caráter, tornando-se com o tem po mais realistas, ajustando- ciência, querem os fazer progresso, o que significa que precisamos subir nos ombros
se m elhor aos fatos observados. Em outras palavras, sob a pressão da crítica os dos nossos predecessores. Precisamos desenvolver um a certa tradição. Do ponto de
mitos são forçados a se a d a p ta r à tarefa de nos fornecer um quadro mais detalhado vista do que queremos como cientistas — com preensão, previsão, análise, etc. — o
do m undo em que vivemos. Isso explica por que os mitos científicos, sob a pressão m undo em que vivemos é extrem am ente complexo; estaria tentado a dizer que é
da crítica, se to rn am tão diferentes dos mitos religiosos. Penso contudo que d e ­ infinitam ente complexo, se*a frase tivesse sentido. N ão sabemos onde e como
vemos deixar bem claro que na sua origem continuam a ser mitos ou invenções; com eçar nossa análise deste m undo. N ão há sabedoria capaz de nos esclarecer
não são o que acreditam alguns racionalistas, adeptos da teoria da observação sen- sobre isso — mesmo a tradição científica não nos ajuda neste p articu lar: ela só nos
sorial: digestos de observações. Este é um ponto m uito im portante, que vale a pena aponta onde e como outras pessoas com eçaram , e até onde chegaram . Diz-nos que
repetir: as teorias cientificas não resultam da observação; são, de m odo geral, outros já construíram um quadro teórico — talvez não m uito bom , mas que fu n ­
produtos da nossa capacidade de form ular m itos, e de testes. Os testes se apoiam ciona m ais ou menos, servindo como um a espécie de rede, de sistema de coorde­
em p a rte na observação, daí a im portância que esta tem ; mas sua função não é nadas com a ajuda do qual podemos indicar as várias com plexidades do m undo.
produzir teorias: tem um papel a desem penhar na crítica e na rejeição de teorias — Nós o em pregam os verificando-o e criticando-o: é assim que nosso conhecim ento
desafia-nos a produzir novos m itos, novas teorias que podem resistir a testes b a ­ progride.
seados na observação. Só com preenderem os a im portância da tradição p ara a ciên­
cia se entederm os isso. E necessário tom ar consciência de que, dos dois modos priiicipais com que
se pode explicar o desenvolvimento científico, um tem pouca im portância e o outro
é m uito im portante. O prim eiro explica a ciência pela acum ulação do conhecim en­
Proponho que os que pensam de m odo contrário, e acreditam que as teorias to; como um a biblioteca ou m useu em expansão: à m edida que mais livros são
científicas derivam da observação, comecem a observar im ediatam ente, aqui m es­ acum ulados, o conhecim ento acum ulado aum enta. O outro tem a ver com a
m o, d a n d o -me os resultados científicos da sua observação. Isso poderá parecer crítica: cresce por um processo que é mais revolucionário do que a simples a c u ­
pouco justo, pois não há n ad a de notável p a ra ser observado aqui e agora. 'Con­ m ulação — um m étodo que destrói, altera tudo — inclusive seu instrum ento mais
tudo, mesmo que passemos toda a nossa vida de caderno de notas na m ão, regis­ im portante, a linguagem em que são form ulados nossos m itos e teorias.
tran d o tudo o que puderm os observar, se a Real Sociedade receber em doação esse
caderno pod erá preservá-lo como curiosidade, mas não como fonte de conhecim en­ E interessante n o tar que o prim eiro m étodo, o cum ulativo, é m uito menos
to. 4 im portante do que se pensa. N a ciência há m uito menos acum ulação de conhe­
cim ento do que um a transform ação revolucionária de teorias científicas. Este é um
No en tan to , encontrarem os objetos p ara o nosso interesse científico se nos ponto m uito interessante, porque à prim eira vista poderíam os pensar que a tr a ­
for dito: “Eis aqui algum as teorias form uladas por cientistas. Essas teorias indicam dição fosse mais im portante para o crescimento cum ulativo do conhecim ento do
que tais e tais coisas poderiam ser observadas em tais e tais condições. Vejamos se é que p ara o processo revolucionário. É exatam ente o contrário: se a ciência se
possível observá-las. “Em outras palavras: se selecionarmos nossas observações pudesse desenvolver pela m era acum ulação, a perda da tradição científica não
tendo em vista os problem as científicos e a situação geral da ciência num d e te r­ representaria m uito, porque seria sempre possível recom eçar a acum ulação. Algo se
m inado m om ento, poderem os d ar um a contribuição efetiva à ciência. N ão quero perderia, mas a perda não seria grave. C ontudo, como a ciência progride
ser dogm ático e negar que haja exceções, tais como as cham adas “descobertas principalm ente pela tradição de alterar seus mitos tradicionais, precisamos co ­
casuais” — em bora m uitas vezes até mesmo essas descobertas sejam devidas à in ­ m eçar com algum a coisa: se não houver nada p ara transform ar, não chegaremos a
fluência de teorias. N ão digo que as observações só têm im portância quando as­ parte algum a. Precisamos portanto de pontos de p artid a p a ra a ciência: novos
sociadas a teorias, m as qiíero salientar qual é o procedim ento m ais im portante para mitos e um a nova tradição que nos leve a alterá-los criticam ente. Mas esses inícios
o desenvolvimento científico. são m uito raros. Da invenção da linguagem descritiva — o m om ento em que o
hom em se hum anizou, poderíam os dizer — ao início da ciência passou m uito tem ­
po. D urante esse período, a linguagem — futuro instrum ento científico — se
4 — Vide cap.l, seção iv. desenvolveu, ju n tam en te com o m ito — toda linguagem in c o rp o ra e preserva
156 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RUMO A UMA TEORIA RACIONAL DA TRADIÇÃO 157

inúm eros m itos e teorias, até mesmo na sua estrutura gram atical — e com a tr a ­ crítica: de poder sofrer m odificações. Assim tam bém as tradições têm a im portante
dição, que usa a linguagem p ara descrever fatos, explicá-los e discutir sobre eles. função dupla de não só criar um a certa ordem ou estru tu ra social,m as tam bém de
(V oltarem os a esse p o n to .) Se a tradição desaparecesse, não se teria podido iniciar o nos d ar algo p ara criticar e alterar. Este é um ponto decisivo p ara os racionalistas e
processo de acum ulação: faltaria o instrum ento apropriado. os reformistas sociais. Destes últim os, m uitos acham que seria possível “lim par a
tela” do m undo social (como diria Platão), p artindo p a ra a construção de um novo
Depois de exem plificar com a função da tradição num campo especial — m undo, sem nad a aproveitar do antigo. Esta é um a idéia sem sentido, impossível
ó científico —, tra ta re i agora, com um certo atraso, do problem a da teoria so­ de pôr em prática. Se construirm os um m undo novo a p a rtir do n ad a não há razão
ciológica da tradição. Q uero referir-m e o u tra vez ao Dr. J.A .C . Brown, que m e p ara crer que seria um m undo feliz. Não há motivo p ara pensar que um m undo
precedeu hoje: ele disse m uitas coisas relevantes p a ra o assunto; por exemplo: disse artificialm ente planejado seria m elhor do que o m undo que temos p ara viver. Por
que q u ando falta disciplina num a fábrica “os operários ficam ansiosos e a te rro ­ que razão seria m elhor? Um engenheiro não cria um m otor apenas com planos; ele
rizados” . N ão p retendo discutir a necessidade da disciplina — esse não é o m eu o desenvolve a p artir de modelos anteriores, que m odifica constantem ente. Se o
tema. Mas poderia form ulá-lo d a seguinte form a: se os trabalhadores naO tèn* nada m undo social em que conhecemos desaparecesse, com suas tradições, substituído por
a que se ater, com portam -se com ansiedade e terror. O u, de m odo mais geral: sem ­ um m undo novo artificialm ente concebido, não tardaríam os a precisar reajustá-lo.
pre que nos encontram os em am biente n a tu ra l Ou social a respeito do qual sabemos O ra, se esses reajustes são necessários, por que não com eçar reajustando o m undo em
tão pouco que não podem os prever o que vai acontecer, nos tornam os ansiosos e que vivemos? N ão im porta como ele é, e onde devemos com eçar. Será m uito m ais r a ­
aterrorizados. Isso acontece porque se não podem os prever o que acontecerá — por zoável aceitar o que temos, p ara fazer as alterações possíveis — deste m odo teremos
exem plo, com o as pessoas se com portarão — não nôs é possível reagir racionalm en­ certeza pelo menos a respeito das dificuldades e dos defeitos a corrigir. Saberemos,
te. Isso acontece seja em am biente n atu ral ou social. q uando menos, que há certas coisas que são más, e precisam ser m udadas. No brave
new world concebido como um projeto inteiram ente novo passará algum tem po até
A disciplina pode aju d ar as pessoas a encontrar seu cam inho num a d e te r­ que possamos perceber o que ele tem de errado. Além disso, a idéia da “limpeza da
m in ad a sociedade; m as estou certo de que o Dr. Brown concordará em que ele é só tela” (que está associada a um a tradição racionalista equivocada) é impossível; se fos­
um a das coisas que pode ter esse efeito; há outras, especialm ente instituições e se possível praticá-la, elim inando a tradição, seríamos elim inandos com ela — nós e
tradições, que podem d a r às pessoas um a idéia clara sobre o que esperar, e como todas as nossas idéias e planos p ara o futuro.
agir. Isso é m uito im portante: o que cham am os de “vida social” só existe quando
podem os saber com confiança que certas coisas e certos acontecim entos têm d e te r­
m in ad a form a, e não podem ser diferentes. Com efeito, os planos não têm qualquer sentido num vácuo social, mas
somente dentro de um conjunto de tradições e instituições — mitos, poesia e
valores — que nascem da sociedade em que vivemos, fora da qual perdem a sig­
Neste p articu lar, é compreensível o papel desem penhado pela tradição na
nificação. Assim, um a vez desaparecida a tradição, o próprio incentivo p ara refazer
nossa vida. Se o m undo social não apresentasse um coeficiente elevado de ordem ,
grande núm ero de regularidades às quais nos podemos ajustar, viveríamos ansiosos, o m undo desaparecerá tam bém . No cam po da ciência, por exem plo, haveria um a
perda trem enda se disséssemos: “N ão estamos fazendo m uito progresso. A b an ­
frustrados e aterrorizados. A simples existência de tais regularidades talvez seja
donemos todos os conhecim entos científicos já acum ulados p ara recom eçar de
m ais im p o rtan te do que seus m éritos e dem éritos peculiares. Necessárias enquanto
novo.” O racional seria corrigir e revolucionar esses conhecim entos. Pode-se criar
regularidades, elas são transm itidas como tradições — sejam ou não racionais,
necessárias, boas, belas, etc. A vida social exige a tradição. um a nova teoria, mas ela será criada p ara solucionar os problem as que a antiga
teoria não pôde resolver.
Por isso, a criação de tradições tem um a função sem elhante à criação de
teorias. As teorias científicas são instrum entos com os quais procuram os im por a l­ Exam inam os brevem ente a função da tradição na vida social. Os resultados
gum a ordem ao caos em que vivemos, de m odo a torná-lo racionalm ente predi* desse exame podem ajudar-nos a responder à indagação sobre como surgem as
zível. N ão quero fazer esta afirm ativa como um pronunciam ento filosófico de g ra n ­ tradições, como são transm itidas e como se tornam estereotipadas — conseqüên-
de profu n d id ad e — estou apenas dizendo qual é um a das funções práticas das cias não deliberadas de ações hum anas. Podemos entender agora por que razão as
teorias. Da m esm a form a, a criação de tradições (como de boa p arte das nossas leis) pessoas não só procuram aprender as leis do seu am biente n atu ral (ensinando-as a
tem a m esm a função: im por um a certa ordem , e previsibilidade, ao m undo social outras pessoas, m uitas vezes sob a form a de mitos) mas tam bém as tradições do a m ­
em que vivemos. N ão seria possível agir racionalm ente se não tivéssemos idéia de biente social; por que as pessoas (especialm ente as crianças e os prim itivos) têm a
como o m undo responderia a nossas ações. T o d a ação racional presum e um sistema inclinação de aderir a tudo o que possa representar um a uniform idade na sua vida.
de referências que reage de m odo pelo menos parcialm ente previsível. Da mesma Por isso aceitam os mitos e as uniform idades do seu próprio com portam ento — em
form a como a invenção de m itos e teorias tem um a função no cam po da ciência prirriêiro lugar, porque tem em a irregularidade e a m ud an ça: em segundo lugar,
social — ajudar-nos a o rd en ar os eventos da natureza —, a criação de tradições porque desejam causar aos outros um a impressão de racionalidade e previsibili­
cria ordem n a sociedade. dade, na esperança talvez de levar os outros a agir da m esm a form a. T endem assim
a criar tradições e a reafirm ar as tradições que encontram , ajustando-se c u id a ­
A analogia vai m ais longe: é preciso lem brar que a grande im portância dos dosam ente a elas e insistindo — com ansiedade — em que os outros ajam do m es­
mitos, no m étodo científico, consistia na sua capacidade de tornar-se objetos de mo m odo. E assim que surgem e persistem os tabus tradicionais.
158 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RUMO A UMA TEORIA RACIONAL DA TRADIÇÃO 159

oposição parlam en tar, que tem como um a das suas funções p n m a fa cie im pedir o
Isto explica em p arte a intolerância altam ente em ocional que caracteriza governo de m alversar os recursos públicos, funciona em alguns países de outra for­
todo tradicionalism o — um a intolerância contra a qual os racionalistas sempre se m a, como instrum ento p a ra a divisão proporcional de despojos. A am bivalência
levantaram , justificadam ente. C ontudo, vemos agora que ao atacar a tradição em das instituições sociais está relacionada com seu caráter — com o fato de que
si m esm a os racionalistas com etiam um erro. Podemos dizer, talvez, que o que real- executam certas funções prim a fa cie e só podem ser controladas por pessoas (fa­
m ente queriam era substituir a intolerância dos tradicionalistas por nova tradição líveis). Essa am bivalência pode sem dúvida ser m uito reduzida por meio de “freios”
— u m a tradição de tolerância. Q ueriam , de m odo m ais geral, substituir o respeito institucionais cuidadosam ente organizados, mas é impossível elim iná-la com ple­
aos tabus pela atitu d e que consiste em considerar criticam ente as tradições existen­ tam ente. O funcionam ento das instituições — e das fortalezas — depende das pes­
tes, sopesando seus m éritos e dem éritos, sem esquecer o m érito que representa o soas que as servem. O m elhor que podemos fazer p ara assegurar o controle insti­
fato de serem tradições estabelecidas. Mesmo que se term ine por rejeitar um a tucional é dar um a m aior oportunidade àquelas pessoas (se existirem) que p reten ­
tradição, p a ra substituí-la por o u tra m elhor (que acreditam os ser m elhor) p reci­
dam dirigi-las p ara sua função social “a p ro p riad a”.
samos ter consciência do fato de que toda crítica social — e todo aperfeiçoam ento
social — precisa relacionar-se com um quadro de tradições sociais, em que algum as Neste ponto as tradições podem exercer um a função im portante in term e­
são criticadas com a ajuda de outras — da m esm a form a como todo progresso cien­ diando entre pessoas e instituições. É bem verdade que as tradições tam bém podem
tífico precisa ser feito dentro de um contexto de teorias científicas, algum as das ser pervertidas. H á algo como a am bivalência institucional que descrevi que ta m ­
quais são criticadas com a ajuda de outras. bém as ataca. C ontudo, como seu caráter é menos instrum ental do que o das ins­
tituições, essa am bivalência as afeta menos. Por outro lado, são quase tão im pes­
M uito do que dissemos aqui a respeito das tradições poderia ser aplicado às soais quanto as instituições — menos pessoais e m ais predizíveis do que os indiví­
instituições — de fato, as instituições se assemelham sob m uitos pontos de vista às duos que conduzem as instituições. Talvez se possa dizer que o funcionam ento
tradições. C ontudo, parece desejável (em bora possivelmente não m uito im portante) “apro priado” das instituições, no longo prazo, depende sobretudo de tais tradições:
preservar a diferença que podemos enco n trar no em prego ordinário dessas duas são elas que dão às pessoas (que chegam e vão) um a base e um a segurança de
palavras. T erm inarei esta conferência procu rando salientar as semelhanças e as propósitos que lhes perm ite resistir à corrupção. A tradição pode projetar algo da
diferenças entre esses dois tipos de entidades sociais. atitude pessoal do seu fundador m uito além da sua vida pessoal.
N ão creio que seja boa prática distinguir os term os “trad ição ” e “instituição” Do ponto de vista do em prego típico dos dois term os, pode-se dizer que um a
m ediante definições form ais,5 mas é preciso explicar o seu uso com exemplos. N a
das conotações do term o “trad ição ” é a alusão a im itação como sua origem ou o
verdade, já o fiz, m encionando escolas, a polícia e a bolsa de valores como insti­
m odo como é transm itida. Essa conotação está ausente do term o “instituição
tuições sociais; o interesse pela investigação científica, a atitude crítica do cientista, um a instituição pode ou não originar-se na im itação; pode ou não continuar exis­
a tolerância ou intolerância do tradicionalista — ou do racionalista —, como
tindo por meio da im itação. Vale n o tar que algum as das coisas que conhecemos
tradições. As instituições têm de fato m uito em com um com as tradições: entre
como “tradições” podem ser descritas tam bém como “instituições” — especialm ente
outras coisas, precisam ser analisadas pelas ciências sociais em term os de indivíduos
como instituições daquela sociedade, ou daquele grupo social em que a tradição é
— suas ações, atitudes, crenças, expectativas e inter-relações. Mas podemos dizer
geralm ente seguida. Poderíam os dizer, portanto, que a tradição racionalista, ou a
que nos inclinam os a falar em instituições sem pre que um grupo observa um con­
adoção de um a atitude crítica, é institucional entre os cientistas (ou que a tradição
ju n to de norm as, p u executa determ inadas funções sociais prim a fa cie (por exem ­
de não pisar o adversário caído é — ou quase — um a instituição inglesa). Da m es­
plo: ensinar, policiar ou vender), p ara servir a determ inados propósitos sociais
m a form a, podemos dizer que, em bora transm itida tradicionalm ente, q u alquer lín ­
prim a fa c ie (por exem plo: a propagação do conhecim ento, a defesa contra a
gua falada por um povo é um a instituição — mas a prática de usar o “tu ” em vez
violência ou a fom e); falam os em “tradições” principalm ente p ara descrever certa de “você” , por exemplo, é um a tradição (em bora possa ser institucional, dentro de
uniform idade de atitudes ou de com portam entos, objetivos, valores ou gostos. As
determ inado grupo).
tradições possivelmente estejam associadas m ais de perto às pessoas, suas p referên­
cias, medos e esperanças, do que as instituições. Assumem um a posição in te r­ Alguns dos pontos em que toquei aqui podem ser exem plificados adicional-
m ediária, por assim dizer, entre as pessoas e as instituiçoesk, em termos de teoria m ente, se considerarm os certos aspectos dessa instituição social que é a linguagem .
social.
K. Bühler distinguiu três aspectos na função prim ordial da linguagem — < l co­
municação: 1) a função expressiva, destinada a m anifestar os pensam entos e
Essa diferença pode ser elucidada fazendo referência ao que tenho cham ado emoções de quem fala; 2) a função de estímulo ou sinalização, destinada a p ro ­
de “am bivalência das instituições sociais” — o fato de que em certas circunstâncias vocar certas reações em quem ouve (por exemplo, as respostas lingüísticas); e 3) a
um a instituição social pode funcionar de m odo que contrasta m arcadam ente com função descritiva. Esses três aspectos são separáveis na m edida em que cada um
sua função “ap ro p ria d a ” ou prim a fa cie. Dickens escreveu m uito sobre a perversão deles de m odo geral está acom panhado pelo precedente, m as não precisa fazer-se
dos internatos-; já tem acontecido que em lu g ar de proteger a população contra a acom panhar do sucessivo. Os dois prim eiros se aplicam tam bém a linguagens
violência, um a força policial a am eace e agrida. Da m esm a form a, a instituição da anim ais, mas o terceiro parece ser caracteristicam ente hum ano.
É possível (e na m inha opinião necessário) acrescentar um quarto aspecto,
5 Vide uma crítica dessa prática no cap. 11 de The Open Society and its Enemies. especialm ente im portante do nosso ponto de vista — a função argum entativa ou
160 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES

explicativa, relacionada com a apresentação e com paração de argum entos e ex­


plicações.67 U m a certa linguagem pode ter as três prim eiras funções, m as não a
q u a rta — por exem plo, a linguagem usada por um a criança que se encontra ainda
n a fase de só “ n o m ear” as coisas. 7 N aturalm ente, como a linguagem enquanto ins­
tituição tem todas essas funções, ela pode ser am bivalente. Pode ser usada, por
exem plo, p a ra ocultar emoções ou pensam entos tan to qu an to p ara expressá-los; ou
p a ra reprim ir um argum ento, em vez de estim ular a discussão. H á diferentes
tradições associadas a cada um a dessas funções — por exem plo, de m odo m a rc a n ­
te, n a Itália e n a Ing laterra (onde temos a tradição do understatem ent) a propósito
da função expressiva. Isso é realm ente im p o rtante no concernente às duas funções
caracteristicam ente hum anas da linguagem — a descritiva e a arg u m entativa. Com
respeito à prim eira, podem os dizer que a linguagem é um “veículo da verdade ,
em bora possa ser tam bém um veículo da falsidade. Sem um a tradição que trabalhe 5. Retomo aos Pré-Socráticos*
contra essa am bivalência, em favor do uso da linguagem com o objetivo da des­
crição correta (pelo menos nos casos em que não haja um a forte razão p ara m en ­
tir), a função descritiva da linguagem desaparecerá, porque as crianças não
chegariam a aprendê-la. Talvez mais valiosa ainda é a tradição que trab alh a con­
“Back to M ethuselah”, de Shaw, pro p u n h a um program a progressista com ­
tra a am bivalência associada à função argum entativa — contra o m al uso da lin ­
parado com “De Volta a T ales” ou “De Volta a A naxim andro” — o que Shaw nos
guagem que consiste na utilização de pseudo-argum entos e de propaganda. E a
oferecia era um aprim oram ento inesperado da nossa vida; algo que se podia sentir
tradição e a disciplina do falar e do pensar com clareza — a tradição da crítica e
pairando no ar, pelo menos na época em que escrevia. Tem o n ad a ter a oferecer
da razão. que esteja atualm ente p airando no ar; na verdade, proponho o retorno à racio­
nalidade franca e simples dos pré-socráticos. O nde está essa tão discutida “r a ­
Os inimigos m odernos da razão querem destruir essa tradição, destruindo e cionalidade” dos pré-socráticos? Em p arte, na sim plicidade e ousadia das in d a ­
pervertendo a função argum entativa da linguagem e possivelmente tam bém a fu n ­
gações que form ulavam ; de acordo com a m inha tese, está sobretudo na atitude
ção descritiva: voltando-se rom anticam ente p a ra suas funções emotivas — a expres­
crítica que, como procurarei dem onstrar, foi desenvolvida originalm ente pelos p e n ­
siva (fala-se m uito hoje em “expressão”) e talvez a sinalizadora. Sentimos essa te n ­ sadores irônicos.
dência, de form a m uito clara, em certos tipos atuais de prosa, de poesia e de fi­
losofia — u m a filosofia que não argum enta porque não lida com problem as sus­
As perguntas que os pré-socráticos procuravam responder eram fu n d am en ­
ceptíveis de discussão. Os novos inimigos da razão são às vezes antitradicionalistas,
talm ente cosmológicas, mas havia tam bém questões relativas à teoria do conhe­
em busca de m étodos inovadores e eficazes de auto-expressão ou de “com unicação” ,
cim ento. Acredito que a filosofia precisa reto rn ar à cosmologia e à simples teoria
como tam bém podem ser tradicionalistas que exaltam a sabedoria da tradição lin-
do conhecim ento. H á pelo menos um problem a filosófico pelo qual todos os h o ­
güística. Nos dois casos sabemos que têm im plícita um a teoria da linguagem que só
mens pensantes se interessam : o problem a de como com preender o m undo onde
leva em conta a prim eira e talvez a segunda das suas funções — na p rática o que
vivemos (e, portanto, a nós mesmos, que fazemos p arte dele, e nosso próprio co­
fazem é preconizar a fuga. da razão e da grande tradição da responsabilidade in ­
nhecim ento). Creio que toda ciência é cosmológica; p ara m im o interesse da fi­
telectual.
losofia reside, não menos que o da ciência, exclusivam ente na sua ousada tentativa
de acrescentar ao conhecim ento que temos do m undo, e à teoria a respeito desse
conhecim ento. Interesso-me por W ittgenstein, por exem plo, não por causa da sua
filosofia lingüística, m as porque o Tractatus é um tratad o de cosmologia (em bora
grosseiro) e sua teoria do conhecim ento está estreitam ente associada à sua cos­
mologia.

A m eu ver, tanto a ciência quanto a filosofia deixam de ser atraentes a p a r­


tir do m om ento que desistem dessa busca — quando se tornam especialidades e
deixam de ver e adm irar os enigmas do m undo. A especialização pode ser um a
grande tentação para o cientista, mas p ara o filósofo é um pecado m ortal.

6 —^ Compare com o cap. 12. O motivo por que considero a função argumentativa igual à explicativa
não pode ser examinado aqui; fundamenta-se na análise lógica da explicação e no seu relacionamento
com a dedução (ou argumento).
* Oração do presidente da Sociedade Aristotélica, pronunciada na sessão do dia 13 de outubro de 1958.
7 — Um mapa comum é também exemplo de descrição não argumentativa — embora possa ser usado Publicada pela primeira vez nos Proceedings o f the Aristotelian Society, N.S. 59, 1958-9. As notas e o
para apoiar um argumento, dentro de linguagem argumentativa. apêndice foram acrescentados na presente versão impressa.
162 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES
RETORNO AOS PRÉ-SOCRÁTICOS 163

II dúvida, Tales havia observado terrem otos e o balanço de um navio, antes de chegar
à sua teoria. Mas seu propósito era explicar a sustentação ou suspensão da T erra e
Falo, neste trab alh o , como am ador, um am ante d a esplêndida estória dos os terrem otos pela conjectura de que a T erra flutuava sobre a água; para essa con­
p ré -socráticos. N ãô sou especialista nem perito: sinto-m e totalm ente deslocado jectu ra (que, de m aneira tão estranha, antecipa-se à teoria m oderna dos deslizes
quando um entendido no assunto se põe a discutir sobre quais as palavras ou ex­ continentais), não poderia encontrar fundam ento em suas observações.
pressões que H eráclito teria ou não usado. Porém , quando u m entendim ento subs­
titui u m a b onita estória, baseada nos textos m ais antigos que conhecemos, por Não devemos esquecer que a função do m ito de Bacon é explicar a razão
o u tra que não tem sentido, (pelo menos p ara m im ), sinto que mesmo um am ador pela qual as asserções científicas são verdadeiras, afirm ando que a observação é a
pode levantar-se p ara defender um a antiga tradição. Exam inarei, p o rtanto, os a r ­ “fo n te verdadeira ’ do conhecim ento científico. A p a rtir do m om ento que perce­
gum entos apresentados pelos entendidos, e sua consistência. É um a ocupação bemos que todas as asserções científicas são hipóteses, suposições ou conjecturas, e
inofensiva; e se algum entendido ou qualq u er o u tra pessoa se der ao trabalho de que (inclusive as conjecturas de Bacon) se têm m ostrado falsas, o m ito de Bacon
refu tar m inha crítica, sentir-m e-ei grato e h onrado. I passa a ser irrelevante. N ão tem sentido argum entar que as conjecturas da ciência
— tanto as que já foram refutadas quanto as que ainda aceitam os — se fu n d am en ­
T ra ta re i das teorias cosmológicas dos p ré -socráticos, mas apenas na m edida tam na observação.
em que se relacionam com o desenvolvimento do problem a da m u d a n ça , e na
m ed id a era que são necessárias p ara com preender a visão — p rática e teórica dos De qualquer m odo, a bela teoria de Tales sobre os terrem otos e a suspensão
p ré -socráticos com rçlàção ao problem a do conhecim ento. da T erra, inspirou-se, quando menos, num a analogia em pírica ou derivada da o b ­
servação, em bora não diretam ente nesta últim a. Porém , nem mesmo isto se pode
E de fato interessante observar como sua prática e teoria do conhecim ento se dizer, apropriadam ente, a propósito de outra teoria, proposta por um im portante
ligam às perguntas cosmológicas e teológicas que p ro punham . Sua teoria do co­ discípulo de Tales — A naxim andro. Com efeito, a teoria de A naxim andro sobre a
nhecim ento não se fundam entava em perguntas assim: “Como posso saber que isto suspensão da T erra ainda é altam ente intuitiva, em bora não se utilize mais de
é um a laran ja?”; ou: “Como posso saber que o objeto que neste m om ento percebo é analogias associadas à observação; podemos descrevê-la como “co n tra -observa­
um a laran ja?” P artia de problem as como: “De que fnodo podemos saber que o cional” . De acordo com A naxim andro, “A T e rra ... não está sustentada por
m undo é feito de água?” ; ou: “Como podemos saber se o m undo está repleto de n ada, perm anecendo estacionária porque está situada a um a distância igual de
deuses?” ; ou ainda: “Como podemos aprender algum a coisa sobre os deuses?” todas as demais coisas. Sua form a é... como a de um tam b o r... C am inham os sobre
um a das superfícies planas, enquanto a outra está situada do lado oposto.” O ta m ­
H á um a crença generalizada (rem otam ente atribuível, creio, à influência de bor, obviam ente, é um a analogia derivada da observação. Mas a idéia da livre sus­
Francis Bacon), de que se deve estudar os problem as da teoria do conhecim ento em pensão da T erra no espaço e a explicação de sua estabilidade não têm analogia em
relação ao conhecim ento de um a laranja, e não do cosmos. Discordo dessa crença, todo o cam po dos fatos observáveis.
e um dos objetivos principais do presente trab alho é expor alguns dos motivos que
me levaram a tal posição. É bom lem brar que nossa ciência ocidental — parece N a m inha opinião, a idéia de A naxim andro é um a das mais ousadas, re ­
não haver o u tra — não começou colecionando observações sobre laranjas, más» sim volucionárias e portentosas de toda a história do pensam ento. Abriu cam inho para
form ulando teorias ousadas sobre o m undo. as teorias de Aristarco e Copérnico. Mas o passo dado por A naxim andro foi ainda
mais difícil e audacioso que o de Aristarco e Copérnico. Ao visualizar a T erra li­
III vrem ente suspensa em pleno espaço, e afirm ar que ela “perm anece imóvel devido à
eqüidistância ou ao equilíbrio” (como diz Aristóteles, parafraseando A naxim an­
A epistem ologia em pirista tradicional e a historiografia tradicional da ciên­ dro), a teoria antecipa até certo ponto a própria concepção de Newton de forças
cia foram p ro fundam ente influenciadas pelo m ito de Bacon de que toda ciência gravitacionais im ateriais e invisíveis 2
com eça por observações p a ra depois proceder vagarosa e cautelosam ente à fo r­
m ulação de teorias. Estudando-se os p ré -socráticos mais antigos, aprendesse que os IV
fatos são m uito diferentes. Encontram os idéias ousadas e fascinantes, algum as das
quais são antecipações estranhas e mesmo surpreendentes de resultados m odernos, Como chegou A naxim andro a essa notável teoria? C ertam ente não m ediante
enq u an to outras são totalm ente errôneas; mas a m aioria dessas idéias, e as m e­ observações, mas pela razão. Ela é um a tentativa de solucionar um problem a para
lhores, n ad a têm a ver com a observação. Tom em os por exemplo algum as das
teorias sobre a form a e a posição da T erra. Sabemos que Tales afirm ou: “a T erra é
sustentada pela água, sobre a qual navega como um navio; quando dizemos que 2 — 0 próprio Aristóteles entendia Anaximandro dessa maneira; ele faz uma caricatura da sua teoria
houve um terrem oto, o m undo foi estrem ecido pelo m ovim ento da á g u a .” Sem “engenhosa porém falsa” descrevendo a situação de um homem igualmente faminto e sedento, mas
situado à mesma distância tanto da comida como da bebida, e portanto incapaz de se mover. {De Caeto,
295b32. Essa idéia tornou-se conhecida com o nome de “o asno de Buridan”.) Na concepção de Aris­
tóteles, o homem é mantido em equilíbrio por forças de atração imateriais e invisíveis, semelhantes às de
1 — Com prazer, registro que o Sr. G. S. Kirk de fato respondeu ao meu discurso. Vide o apêndice a este Newton; é interessante observar que este caráter “animista” ou “oculto” das forças foi fortemente (em­
capítulo. bora erroneamente) sentido como um defeito pelo próprio Newton e por seus oponentes, como Berkeley.
164 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RETORNO AOS PRÉ SOCRÁTICOS 165

o qual Tales, seu m estre, fundador da Escola M ilesiana ou Jónica já havia proposto que se situam do mesmo lado da T erra, enquanto não há nad a do outro p ara m a n ­
um a solução. Gonjecturo, portanto, que A naxim andro chegou à sua teoria pela ter o equilíbrio. Parece que A naxim andro solucionou essa objeção com outra teoria
crítica da teoria de Tales. Creio que m inha conjectura pode apoiar-se na consi­ audaciosa — a teoria da natureza oculta do Sol, da L ua e dem ais corpos celestes.
deração da estru tu ra da teoria de A naxim andro.
Ele visualiza as bordas de duas imensas rodas de carruagem girando em
Possivelmente, A naxim andro argum entou contra a teoria de Tales (segundo torno da T erra: um a delas é 27 vezes m aior que a T erra; a outra, 18 vezes. Cada
a qual a T e rra flu tu a sobre água) de acordo com as seguintes linhas: a explicação um a dessas bordas (ou tubos circulares) está cheia de fogo e tem um respiradouro
de Tales pertence a um certo tipo de teoria que, quando consistentem ente desen­ através do qual ele pode ser visto. A esses dois orifícios denom inam os,respectiva­
volvida, leva a um regresso infinito. Se explicamos a posição estável da T erra pela m ente, Sol e L ua. O resto da roda é invisível, presum ivelm ente por ser escuro (ou
suposição de que está suspensa sobre a água — flutuando no oceano (Okeanos) — nevoento) e distante. As estrelas fixas (e supostam ente os planetas) são tam bém
não precisarem os explicar a estabilidade do oceano por um a hipótese análoga? Mas orifícios em rodas mais oróxim as da T erra que as do Sol e da Lua. As rodas das es­
isso significaria enco n trar um a prim eira sustentação p ara o oceano, e um a segunda trelas fixas giram em torno de um eixo com um (que hoje cham am os o eixo da
sustentação p a ra a prim eira. Esse m étodo de explicação é insatisfatório: p rim ei­ T erra) e form am um a esfera em seu redor, de m aneira a satisfazer grosseiram ente
ram ente, solucionamos o problem a criando um outro análogo; em segundo lugar, o postulado da equidistância da T erra. Isso faz de A naxim andro tam bém o fu n ­
pode-se perceber (este é um motivo menos form al e mais intuitivo) que em q u a l­ dador da teoria das esferas.(Sobre a relação entre esta e as rodas ou círculos, vide
quer sistema desse tipo, form ado por suportes e apoios, qualquer falha pode levar Aristóteles, De Caelo, 289bl0 a 290M 0).
ao colapso de toda a construção.
VI
Sentimos assim, intuitivam ente, que a estabilidade do m undo não pode estar
g aran tid a por um sistema de apoio e suportes. A naxim andro, por outro lado, apela Não há dúvida de que as teorias de A naxim andro são críticas e especulativas
p ara a sim etria in tern a ou estrutural do m undo, que assegura que não há direção e não em píricas: consideradas como modos de enxergar a verdade, suas especu­
preferencial p a ra os colapsos. Aplica o princípio de que quando não existem d i­ lações abstratas è críticas foram mais úteis do que a experiência da observação ou
ferenças não pode haver m udança. Dessa m aneira, explica a estabilidade da T erra a analogia.
pela distância igual que a separa de todas as demais coisas.
Um discípulo de Bacon podería argum entar, contudo, que essa é ex atam en­
A parentem ente, este era o argum ento de A naxim andro. E im portante n o tar te a razão pela qual A naxim andro não era um cientista. Precisam ente por isso,
que ele elim ina, em bora não m u ito conscientem ente ou de m aneira m uito coerente, falamos em filosofia, e não em ciência grega antiga. Todos sabem que a filosofia é
a idéia da direção absoluta — o sentido absoluto de “para cim a” ou “p ara baixo” . especulativa. Todos sabem tam bém que a ciência só aparece quando o m étodo es­
Isso não só é contrário a q ualquer experiência,m as tam bém singularm ente difícil de peculativo é substituído pelo m étodo da observação, e a dedução pela indução.
ser com preendido. Ao que parece, Anaximenes ignorou esse fato e o próprio
A naxim andro não o com preendeu plenam ente. De fato, a idéia da equidistância de Esse argum ento consiste obviam ente na tese de que as teorias, por definição,
todas as coisas deveria ter levado à concepção da T erra como um globo. Más ele são científicas se têm origem em observações, ou nos cham ados “procedim entos in ­
acreditava que a form a da T erra correspondia à de um tam bor, com superfícies dutivos” . A credito, no entanto, que poucas teorias físicas podem ser definidas desse
planas superior e inferior. No entanto, o com entário “Cam inham os sobre um a das m odo. T am bém não vejo qual a im portância da origem em relação a esse p ro ­
superfícies planas, enq u an to a outra está situada do lado oposto” contém a insi­ blem a. O mais im portante de um a teoria é sua capacidade de explicar, de enfren­
nuação de que não há superfície superior absoluta, mas de que, ao contrário, a tar crítica e testes. A questão da origem, de como se chegou à teoria — seja por
superfície sobre a qual cam inham os é a que podemos considerar superior. “procedim ento indutivo” , como dizem alguns, ou pela intuição — pode ser ex­
trem am ente interessante p ara um biógrafo ou p ara quem inventou a teoria, mas
Que im pediu A naxim andro de chegar à teoria de que a T erra é um globo e pouco tem a ver com seu padrão ou caráter científico.
não um tam bor? N ão pode haver m uita dúvida: pela experiência da observação,
ele ap rendeu que a superfície da T e rra é de m odo geral p lana. P ortanto, foi um VII
argum ento especulativo e crítico, a discussão crítica e abstrata da teoria de Tales,
que quase o levou à verdadeira teoria sobre o form ato da T erra; e a experiência da Q uanto aos p ré -socráticos, sustento que há um a continuidade perfeita entre
observação que o desencam inhou. suas teorias e os desenvolvimentos posteriores da física. A m eu ver, pouco im porta
que sejam cham ados de filósofos, pré-cientistas ou cientistas. Mas a verdade é que
V a teoria de A naxim andro abriu cam inho para as teorias de Aristarco, Copérnico,
Kepler e Galileu. Ela não apenas “influenciou” os pensadores posteriores; “influên­
H á um a objeção evidente à teoria da sim etria de A naxim andro, segundo a cia” é um a categoria m uito superficial. Diría, mais apropriadam ente, que a
qual a T e rra é equidistante das demais coisas no espaço. Pode-se perceber facil­ realização de A naxim andro tem valor intrínseco, como um a obra de arte. Além
m ente a assim etria do universo pela existência do Sol e da Lua, e especialm ente disso, possibilitou realizações posteriores, inclusive as dos grandes cientistas m en ­
pelo fato de que às vezes ambos não estão m uito distantes um do outro, de m aneira cionados.
166 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RETORNO AOS PRÉ-SOCRÁTICOS 167

fechados (“obstruídos”), o que o ab afav a5: tal era sua teoria dos eclipses e das fases
Mas as teorias de A naxim andro não são falsas, e portanto não científicas? da Lua. Os ventos eram responsáveis pelas m udanças clim áticas34 . Havia tam bém
Adm ito que sejam falsas; mas o mesmo acontece com m uitas teorias, baseadas em vapores, que resultavam da secagem da água e do ar e causavam os ventos e os sols­
inúm eras experiências e aceitas até recentem ente pela ciência m oderna; em bora tícios do Sol e da Lua.
reconhecidas como falsas, ninguém pensaria em negar seu caráter científico. (Um
exem plo seria a teoria de que as propriedades quím icas típicas do hidrogênio p e r­ Temos aqui a prim eira insinuação do que viria a seguir: o problem a geral
tencem a um só tipo de átom o — o mais leve de todos.) Já houve historiadores da da m u d a n ça , que se tornou o problem a central da cosmologia grega e levou por
ciência que tendiam a considerar não científica (ou mesmo supersticiosa) qualquer fim, com Lêucipo e Dem ócrito, à teoria geral da m udança, aceita pela ciência
teoria que não fosse mais aceita na época em que escreviam; essa atitude, no en ­ m oderna até quase o início do século XX. (Só foi rejeitada após o fracasso do
tanto, é insustentável. U m a teoria falsa pode ser um a realização tão im portante modelo do éter de Maxwell, um acontecim ento histórico pouco notado até 1905 )
quan to um a teoria verdadeira. Além disso, m uitas teorias falsas têm sido mais úteis
na busca da verdade do que algum as teorias menos interessantes que são ainda O problem a geral da m udança é um problem a filosófico; nas mãos de Par-
aceitas. As teorias falsas, de fato, podem ser úteis de diversas m aneiras; podem mênides e Zenão quase se tornou um problem a lógico. De que m aneira é possível
sugerir, por exem plo, modificações mais ou menos radicais, ou então estim ular a a m udança, em termos lógicos? Como pode algo m u d ar sem perder sua identidade?
crítica. A teoria de Tales de que a T erra flutua sobre a água reapareceu de form a Se perm anecer no mesmo estado, não sofrerá um a m udança; se perder sua id en ­
m odificada em Anaxim enes, e, em época mais recente, na teoria de W egener sobre tidade, não será mais aquilo que sofreu a m udança.
os deslizes continentais. Já dem onstrei a m aneira pela qual a teoria de Tales es­
tim ulou a crítica de A naxim andro. IX

A teoria de A naxim andro, de m odo sem elhante, sugeriu um a teoria m o ­ A m eu ver, a história excitante do desenvolvimento do problem a da m u d a n ­
dificada — a visão do globo terrestre livrem ente suspenso no centro do universo, ça corre o risco de ficar totalm ente soterrada pela crescente acum ulação de m i­
rodeado por esferas nas quais estavam m ontados os corpos celestes. Estim ulando a núcias da crítica textual. O bviam ente, é um a história que não pode ser relatada,
crítica, levou tam bém à teoria de que o brilho da L ua se deve ao reflexo da luz; à em toda a sua extensão, num trabalho curto como este. R esum indo-a ao m áxim o é
teoria de Pitágoras sobre um fogo central; por fim, ao sistema de m undo heliocên­ o que se segue:
trico de Aristarco e Copérnico.
Segundo A naxim andro, nosso m undo, nosso edifício cósmico é apenas um
V III em infinidade de m undos — sem limites no espaço e no tem po. Esse sistema de m u n ­
dos é eterno e está em m ovim ento. Não há, p o rtan to , necessidade de explicar o
Acredito que os milesianos, assim como seus antecessores orientais, que viam m ovim ento, de oferecer um a teoria geral de m u dança (no sentido do problem a e
o m undo como u m a tenda, o concebiam como um a espécie de m orada — a m o ­ da teoria gerais da m udança que vamos encontrar em H eráclito; vide a seguir),
rad ia de todas as criaturas, o nosso lar. N ão havia, p o rtanto, necessidade de p e r­ mas sim de explicar as m udanças ordinárias que ocorrem em nosso m undo. As
gu n tar qual a sua utilidade, mas sim de investigar sua arq u itetu ra. As qúestões m udanças mais óbvias — do dia p ara a noite, dos ventos e do clim a, das estações,
sobre sua estru tu ra, desenho e m aterial de construção constituíam os três p ro ­ da época de cultivo para a de colheita, do crescim ento das plantas, anim ais e pes­
blem as principais da cosmologia m ilesiana. H avia tam bém o interesse especulativo soas — estão ligadas ao contraste de tem peraturas, à oposição entre o frio e o calor,
na origem do m undo: a questão da cosmogonia. Parece-m e que o interesse cos- o seco e o úm ido. Afirma-se que “as criaturas vivas foram geradas pela um idade
mológico dos milesianos excedia m uito o interesse cosmogônico, especialm ente se evaporada pelo sol” . O calor e o frio tam bém contribuem p ara a gênese do m undo:
considerarm os a forte tradição cosmogênica, e a tendência quase irresistível de
descrever um a coisa contando como foi feita (portanto de apresentar um relato
cosmológico em form a cosmogônica). O interesse cosmológico, em com paração 3 — Não sugiro que o abafamento do fogo se devesse ao bloqueio dos poros de entrada de ar; de acordo
com o cosmogônico, deve ser m uito forte, se a apresentação de um a teoria cos- com a teoria do flogístico, por exemplo, o fogo poderia ser abafado pela obstrução de orifícios de saída
do ar. Mas não quero atribuir a Anaximandro a teoria do flogístico ou uma antecipação das idéias de
mológica se liberta mesmo em parte, dos ornam entos d a cosmogonia.
Lavoisier.
A credito que Tales foi o prim eiro a discutir a arq u itetu ra do cosmos — sua 4 — Na forma como esta conferência foi originalmente publicada, este trecho prosseguia assim: “e de
fato por todas as demais mudanças dentro do edifício cósmico”. Baseava-me em Zeller, que escrevera
estrutura, p la n ta e m aterial de construção. Em A naxim andro encontram os respos­ (apelando para o testemunho de Meteor, de Aristóteles, 353b6); “Ao que parece, Anaximandro explica
tas p a ra as três questões. Já m encionei brevem ente sua resposta à questão da es­ o movimento dos corpos celestes pelas correntes de ar responsáveis pelo movimento giratório das esferas
tru tu ra . Q uanto ao problem a d a p lan ta do m undo, ele tam bém a estudou e ex­ estelares.” (Phil. d. Griechen, 5.a edição, vol. I, 1892, p.223; vide também p. 220, n.° 2; Aristarchus, de
plicou, como indica a afirm ativa tradicional de que foi o prim eiro a elaborar um Heath, 1913, p. 33; e a edição de Lee de Meteoreologica, 1952, p. 125.) Porém, não devia ter inter­
pretado “correntes de ar” como “vento”, especiaímente porque Zeller deveria ter usado a palavra
m ap a do m undo. A naxim andro tam bém tinha, obviam ente, um a teoria sobre o
“vapores” (as “correntes de ar” são evaporações resultantes de um processo de secagem). Em duas
m aterial de construção — o “a peiron”: “infinito”, “ilim itado” “sem fo rm a” . ocasiões, inseri “vapores e” antes de “vento”, e “quase” antes de “todos”, no segundo parágrafo da seção
ix; no terceiro parágrafo da seção ix, substituí “ventos” por “vapores”. Fiz essas mudanças para fazer
No m undo concebido por A naxim andro, ocorria todo tipo de m udanças. face à crítica de G. S. Kirk, na página 332 de seu artigo (discutida no apêndice deste capítulo).
O fogo necessitava de ar e de orifícios p a ra ventilação — que às vezes perm aneciam
168 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RETORNO AOS PRÉ SOCRÁTICOS 169

Esse, creio, é o relato de H eráclito; sua “m ensagem ” , a “palavra verdadeira”


são tam bém responsáveis pelos vapores e ventos, concebidos por sua vez como agen­
(logos) que todos devem ouvir: “Ouvindo não a m im , m as ao relato verdadeiro, a
tes de quase todas as dem ais m udanças.
sabedoria consiste em adm itir que todas as coisas são um a só: um fogo eterno,
flam ejando e m orrendo em graus diferentes” .
Anaxim enes, discípulo e sucessor de A naxim andro, desenvolveu essas idéias
d etalh ad am en te. Como A naxim andro, interessou-se pela oposição entre o calor e o
Sei m uito bem que, hoje, a interpretação tradicional da filosofia de H e­
frio, a u m idade e a secura; explicou a transição entre esses opostos por um a teoria
ráclito, reform ulada acim a, geralm ente não é aceita. Mas os críticos não a subs­
da condensação e da rarefação.
tituíram por nada — isto é, por n ad a que tenha interesse filosófico. N a seção se­
guinte discutirei brevem ente esta nova interpretação. Agora, quero apenas e n ­
Como A naxim andro, acreditava no m ovim ento eterno e na ação dos ventos; fatizar que, ao apelar p a ra o pensam ento, a palavra, o argum ento, a razão e ao
parece provável que tenha chegado a um dos dois pontos de discordâpcia com observar que vivemos num m undo de coisas cujas m udanças escapam aos nossos
A naxim andro m ediante a crítica da noção de que o apeiron, em bora am orfo e sentidos (em bora saibamos que elas m udam ), a filosofia de H eráclito criou dois
totalm ente sem limites, pode ter m ovim ento. Substituiu o apeiron pelo ar — ta m ­ novos problem as — o problem a da m udança e do conhecim ento. Problem as que se
bém am orfo e quase ilim itável, porém , de acordo com a antiga teoria dos vapores to rnaram urgentes na m edida em que seu próprio relato das m udanças era de
de A naxim andro, capaz de m ovim entar-se e de ser o principal agente do m ovim en­ difícil com preensão. Mas isso, creio, se deve ao fato de que ele via, com mais
to e da m u d an ça. Um a unificação de idéias sem elhantes foi prom ovida pela teoria clareza que seus antecessores, as dificuldades envolvidas n a p rópria idéia da m u ­
de Anaxim enes de que “o Sol é constituído de terra, e se aquece devido à rapidez dança.
do seu m ovim ento” . A substituição da teoria ab strata do apeiron sem limites pela T oda m udança, de fato, é a m udança de algum a coisa: a m udança pres­
teoria do ar, menos abstrata e mais razoável, pode ser eq u ip arad a à substituição supõe algo que m uda. Pressupõe ainda que, d u ran te a m udança, essa coisa deve
da ousada teoria de A naxim andro sobre a estabilidade da T erra pela idéia mais perm anecer a m esm a. Podemos dizer que um a folha verde m uda quando a m a ­
razoável de que “o achatam ento da T e rra é responsável pela sua estabilidade, pois relece, mas não podemos afirm ar que houve m udança se a substituirm os por um a
e la ... cobre o ar subjacente como um a ta m p a ” . Logo, a T erra flutua no ar da m es­ folha am arelada. O princípio de que aquilo que m u d a retém sua identidade é es­
m a m aneira que a tam p a de um a panela suspensa pelo vapor; a pergunta e a res­ sencial à idéia da m udança. C ontudo, o que m u d a deve tom ar-se algo diferente:
posta de Tales são renovadas e o argum ento de A naxim andro, que m arcou época, era verde, tornou-se am arelado; era úm ido, tornou-se seco; era quente, tornou-se
não é com preendido. Anaxim enes é eclético, sistem atizador, em pirista, um hom em frio.
de senso com um . Dos três grandes milesianos, é o que menos produziu idéias re ­ P ortanto, toda m udança é a transição de um a coisa p ara outra que possui,
volucionárias, o que possui o espírito menos filosófico. de certa form a, qualidades opostas (como observaram A naxim andro e A naxi­
menes). Ao m ú d ar, contudo, a coisa deve perm anecer idêntica a si própria.
Os três milesianos viam o m undo como nossa m oradia. Nela havia m ovi­
m ento e m u d an ça, calor e frio, fogo e um idade. Havia fogo na lareira; sobre o Esse é o problem a da m udança, que levou H eráclito a um a teoria que (an ­
fogo, um a caldeira com água. A casa, um tanto sujeita a correntes de ar, estava tecipando-se parcialm ente a Parm ênides) distingue entre as aparências e a reali­
exposta aos ventos, m as era nossa residência, representando um a certa segufãjiça e dade. “A verdadeira natureza das coisas prefere esconder-se. Uma harm onia in ­
estabilidade. P ara H eráclito, no entanto, a casa estava pegando fogo. visível é mais forte do que um a harm onia ap a re n te .” E m sua aparência (e p ara nós)
as coisas são opostas, m as na verdade (e p ara Deus) são iguais.
N a concepção de H eráclito, não há estabilidade no m undo. “T udo está em
“A vida e a m orte, estar desperto ou adorm ecido, a juventude e a velhice,
fluxo, n ad a perm anece em repouso.” Tudo está em fluxo, até mesmo as vigas, a
tudo é o m esm o... pois o contrário de um a coisa é a o u tra; e a o utra, invertida, é a
m adeira, o m aterial de que é feito o m undo: a terra e as pedras, o bronze de um a
p rim eira... O cam inho que leva p ara cim a e o que leva p ara baixo são o m esm o...
caldeira — tudo está em fluxo. As vigas apodrecem , a terra é levada e soprada pelas
O bem e o m al são idênticos... Para Deus, tudo é freio, bom e justo, mas os homens
chuvas e pelos ventos, as próprias rochas quebram e se desfazem, o caldeirão de presum em que algum as coisas são injustas e que outras são ju stas... N ão pertence à
bronze adquire um a p átin a verde. Como disse Aristóteles, “em bora nossos sentidos
natureza ou caráter do hom em possuir o conhecim ento verdadeiro, e sim à n a ­
não o percebam , todas as coisas estão em m ovim ento o tem po todo”. Aqueles que
tureza d ivina.”
não sabem disso acreditam que só o combustível queim a, enquanto o vaso dentro
do qual ele queim a (cp. DK, A 4) perm anece im utável, pois não vemos o vaso
Assim, verdadeiram ente (em Deus) os opostos se identificam : só p ara o
queim ar. No entan to ele tam bém queim a; é comido pelo fogo que abriga. Não hom em parecem não ser idênticos. Todas as coisas são, n a verdade, um a só parte
vemos nossos filhos crescerem , m udarem e envelhecerem , mas é o que acontece. do processo do m undo, essa cham a eterna.
N ão há corpos sólidos. As coisas na verdade não são objetos: são processos,
Essa teoria da m udança apela p ara a razão, o logos: a “palavra verdadeira”.
estão em fluxo. São como o fogo, um a cham a que, em bora tenha form a definida, é
Para H eráclito, n ad a é m ais real do que a m u dança. Contudo, sua doutrina da
um processo; um a corrente de m atéria, um rio, todas as coisas são cham as: o fogo é
unidade do m undo, da identidade dos opostos, da aparência e da realidade,
o próprio m aterial de construção do nosso m undo; a estabilidade aparente se deve
am eaça sua concepção da realidade da m udança.
apenas às leis e m edidas às quais estão sujeitos os processos em nosso m undo.
170 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RETORNO AOS PRÉ-SOCRÁTICOS 17l

X
De fato, a m ud an ça é um a transição entre dois opostos. P ortanto, se na ver­
dade os opostos são idênticos, em bora pareçam diferir, a m udança em si m esm a
Fiz um esboço da história da teoria da m u dança dos p ré -socráticos, da
poderia ser apenas aparente. Se na verdade, e p ara Deus, todas as coisas são um a
m aneira como a entendo. Estou consciente, é claro, de que m inha história (baseada
só, na verdade não há m udança real.
em Platão, Aristóteles e na tradição doxográfica), en tra em conflito, em m uitos
pontos, com a visão de alguns entendidos ingleses e alemães, especialm ente com a
Esta conseqüência foi derivada por Parm ênides, aluno (pace Burnet e de G.S. Kirk e J.E . Raven, expressa em seu livro The Presocratic Philosophers, de
outros) do m onoteísta Xenófanes, que disse a respeito do Deus único: “Ele está sem ­ 1957. O bviam ente, não posso exam inar aqui detalhadam ente seus argum entos, e
pre no mesmo lugar, nunca se move. Não seria próprio que se deslocasse p ara m uito menos suas exegeses m inuciosas de vários trechos, alguns dos quais relevantes
diferentes lugares, em m om entos diversos... N ão se assemelha absolutam ente aos para com preender as diferenças entre sua intrepretação e a m inha. (Vide. p. e., a
m ortais, no corpo ou na m en te” . discussão de Kirk e Raven sobre a questão de saber se há um a referência a He-
ráclito em Parm ênides.)
Parm ênides, discípulo de Xenófanes, ensinou que o m undo real era uno e
perm anecia sem pre no mesmo lugar, sem qualquer m ovim ento. Não era apro­ Desejo afirm ar, contudo, que exam inei os argum entos apresentados e con
priado que se deslocasse p ara diferentes lugares, em m om entos diversos; e não se sidero-os pouco convincentes e freqüentem ente inaceitáveis.
parecia à im agem que dele tinham os m ortais. Era um a unidade, sem divisão,
sem com ponentes, hom ogêneo e imóvel. O m ovim ento era impossível nesse m undo M encionarei apenas alguns pontos sobre H eráclito (em bora haja outros p o n ­
— na verdade, a m u d an ça era inexistente: o m undo das transform ações era ilu ­ tos igualm ente im portantes, como os com entários sobre Parm ênides).
sório.
H á qu aren ta anos B urnet criticou a visão tradicional segundo a qual a
Parm ênides baseou sua teoria sobre a realidade im utável em algo como a doutrina fundam ental é a de que todas as coisas estão em fluxo. Seu argum ento
prova lógica — prova que pode ser form ulada a p a rtir de um a única premissa: “o principal (discutido por m im extensam ente na nota 2 do 2.° capítulo de m eu livro
que não é não é ” . Dela podem os inferir que o nada — o que não é — não existe; o Open Society), é que a teoria da m udança não era inédita, e só um a nova m en ­
sagem poderia justificar a urgência com que fala H eráclito. Esse argum ento
que Parm ênides in terp reta como significando que o vácuo não existe. O m undo es­
é reiterado por Kirk e Raven, que escreveram (pág. 186 e seguintes): Todos
tá repleto: consiste em um só bloco, sem divisões — pois qualquer divisão em partes
im plicaria a separação dessas partes pelo vazio. Nesse m undo com pacto, o m ovi­ os pensadores p ré -socráticos, no entanto, estavam impressionados pelo próprio
predom ínio da m udança em nosso m undo de experiências” . Sobre essa atitude,
m ento é impossível. Essa era a “verdade com pleta” que a deusa revelara a P a r­
afirmei em Open Society: “Aqueles que sugerem ... que a d o utrina do fluxo univer­
mênides.
Só a crença ilusória na realidade dos opostos — na existência não só do que sal não era in éd ita... são, a m eu ver, testem unhas inconscientes da originalidade de
é , mas tam bém do que não é — pode levar à ilusão de um m undo de m udanças. H eráclito, pois não percebem hoje, transcorridos 2.400 anos, seu aspecto p rin cip al.”
Em poucas palavras, não percebem a diferença entre a m ensagem dos milesianos
(“há fogo na casa”) e a de H eráclito (“a casa está pegando fogo”) — um tanto mais
A teoria de Parm ênides pode ser descrita como a prim eira teoria hipotético- prem ente. Pode-se encontrar um a resposta im plícita a essa crítica na página 197 do
dedutiva do m undo. Os atom istas a consideraram assim; afirm aram que, um a vez livro de Kirk e Raven: “H eráclito acreditava realm ente que um a pedra ou um cal­
que o m ovim ento não existe, ela é refu tad a pela experiência. Aceitando a validade deirão de bronze estavam passando por m udanças invisíveis do seu m aterial? T a l­
do argum ento de Parm ênides, inferiram a falsidade de sua premissa a p artir da vez, mas n ad a se pode encontrar nos fragm entos existentes que sugira tal coisa.”
falsidade da conclusão a que chegara Parm ênides. Mas isso significava que o nada Será verdade? Os fragm entos existentes de H eráclito sobre o fogo (Kirk e Raven,
— o vácuo ou espaço vazio — existe. C onseqüentem ente, não havia mais neces­ fragm . 220-2) são interpretados pelos próprios autores da seguinte m aneira: “O
sidade de presum ir que “o que é ” — aquilo que ocupa espaço — não possui partes fogo é a form a arquetípica da m a té ria .” Não estou certo do significado da palavra
diferentes, pois elas seriam separadas pelo vácuo. Existem, portanto, m uitas partes, “arqu etípica” nesse trecho (especialm ente tendo-se em vista o fato de que podemos
cada qual “p le n a ”: há, no m undo, partículas “plenas” , separadas pelo espaço vazio ler, um pouco adiante: “Não há cosmogonia em H eráclito”). Porém , independen­
e capazes de m ovim entar-se nele. C ada p arte é “p len a”, una, indivisível e im utável. tem ente do significado da palavra, um a vez adm itido que H eráclito afirm a, nos
P ortanto, existem os átom os e o vácuo. Os atom istas chegaram , assim, a um a fragm entos, que toda m atéria, de algum a m aneira (arquetipicam ente ou não) é
teoria da m udança que dom inou o pensam ento científico até 1900. Segundo ela, fogo, deve-se adm itir tam bém a afirm ação de que toda m atéria, tal como o fogo, é
toda m udança, especialm ente de caráter qualitativo, deve ser explicada pelo um processo; esta é precisam ente a teoria que Kirk e Raven alegam não existir em
m ovim ento espacial de pequenas partes im utáveis de m atéria — átom os m o vim en­ H eráclito.
tando-se no vácuo.
Im ediatam ente após afirm ar que “n ad a se pode encontrar nos fragm entos
existentes” que sugira que H eráclito acreditava em m udanças contínuas e invisíveis,
O próxim o passo im portante da cosmologia e da teoria da m udança ocorreu
Kirk e Raven fazem o seguinte com entário metodológico: “N ão se pode enfatizar
quando Maxwell, ao desenvolver certas idéias de Faraday, substituiu-as pela teoria
dem asiadam ente a afirm ação de que (nos textos) anteriores a Parm ênides, e na sua
as intensidades variáveis dos cam pos.
172 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RETORNO AOS PRÉ-SOCRÁTICOS 173

em seu favor” seja substituído pelo princípio mais claro e im portante de que os
prova aparente de que os sentidos são com pletam ente falhos... só se pode aceitar
afastam entos im portantes do senso com um quando há evidência poderosa em seu afastamentos im portantes da tradição histórica só podem ser aceitos quando há
favor” . A intenção desse com entário é insinuar que a doutrina de que os corpos (de evidência poderosa em seu favor. Esse é, de fato, um- princípio universal da his­
qualquer substância) passam por m udanças constantes e invisíveis representa um toriografia, sem o qual a história seria impossível. Princípio que é, contudo,
afastam ento im portante do senso com um , que não se esperaria encontrar em constantem ente violado por Kirk e Raven: quando, por exemplo, p ro ­
H eráclito. curam to rn ar suspeitas as evidências de Platão e Aristóteles, usando argum entos
parcialm ente circulares e que (como acontece com o argum ento do senso com um )
Segundo H eráclito, contudo, “Aquele que não esperar pelo inesperado não contradizem suas próprias afirm ações. Q uanto à afirm ativa de que “Platão e Aris­
o perceberá: p a ra ele, o inesperado será impossível de ser detectado, e inabordável” tóteles não ten taram seriam ente com preender seu significado p ro fundo” (referindo-
(DK, B 18). De fato, m uitos argum entos invalidam a últim a afirm ação de Kirk e se a H eráclito), posso apenas dizer que a filosofia de Platão e Aristóteles possui, a
Raven. M uito antes de Parm enides, encontram os, em A naxim andro, Pitágoras, m eu ver, significado e profundidade reais. E um a filosofia digna de um grande
Xenófanes e sobretudo H eráclito, idéias m uito afastadas do senso com um . De fato, filósofo. Quem, senão H eráclito, foi o grande pensador que observou pela prim eira
a sugestão de que devemos testar a historicidade das idéias atribuídas a H eráclito vez que os homens são cham as e as coisas processos? Devemos acreditar que essa
— como tam bém daquelas atribuídas a Anaximenes — usando como padrão o grande filosofia foi u m “exagero posterior a H eráclito” (pág. 197) sugerido a Platão
“senso com um ” , é um tanto surpreendente (qualquer que seja o sentido da expres­ “talvez especialmente por C ratilo”? Quem foi esse filósofo desconhecido — talvez o
são neste contexto). A sugestão, de fato, co ntraria não só a notória obscuridade e o m aior e mais audacioso dos pensadores p ré -socráticos? Q uem , senão Heráclito?
estilo o racular de H eráclito, confirm ados por Kirk e Raven, mas tam bém seu g ra n ­
de interesse na antinom ia e no paradoxo. Por fim, contradiz igualm ente a d o u ­ XI
trina (a m eu ver um tanto absurda) que Kirk e Raven atribuem a H eráclito (a ê n ­
fase é m inha): “ ...to d o tipo de m udança n atu ral (e presum ivelm ente os terrem otos A história antiga d a filosofia grega, especialm ente de Tales a Platão, é es­
e grandes incêndios) é regular e equilibrada; e causa desse equilíbrio é o fo g o , plêndida: quase boa dem ais para ser verdadeira. Em cada geração encontram os
elem ento constituinte de todas as coisas, ta m b ém denom inado logos'. Mas, por que pelo menos um a nova filosofia, um a nova cosmologia de im pressionante origi­
razão seria o fogo a “causa” de um equilíbrio — seja “desse equilíbrio” ou de q u a l­ nalidade e profundidade. Como foi isso possível? C ertam ente não há explicação
quer outro? O nde se encontram essas afirm ações em Heráclito? Se esta tivesse sido, para originalidade e a genialidade, mas pode-se ten tar com preendê-las. Q ual era o
de fato, a filosofia de H eráclito, não vejo razão p ara me interessar por ela; ela es­ segredo dos antigos? Sugiro que a tradição — a tradição da discussão crítica.
taria m uito mais afastada do senso com um do que a inspirada filosofia atribuída
pela tradição a H eráclito, e que é rejeitada, em nom e do senso com um , por Kirk e Procurarei expor o problem a de m aneira m ais clara. Em todas ou quase
Raven. todas as civilizações encontram os o ensino religioso e cosmológico; em m uitas so­
ciedades há escolas. Todas as escolas, sobretudo as prim itivas, possuem, ao que
Mas o fato decisivo é que, obviam ente, essa filosofia inspirada é, pelo que parece, estrutura e função características. Longe de fom entar a discussão crítica,
sabemos, verdadeira^. Com sua intuição incom um , H eráclito viu que as coisas são assumem a tarefa de divulgar um a doutrina definida e preservá-la, p u ra e im u ­
processos; que nossos corpos são cham as; que “um a pedra ou caldeirão de bronze... tável. A função da escola é passar adiante, à geração seguinte, a doutrina do seu
passa invariavelm ente por m udanças invisíveis” . Kirk e Raven afirm am (pág. 197, fundador e prim eiro m estre; para isso é extrem am ente im portante m anter a
nota 1; o argum ento parece um a resposta a Melissus): “C ada vez que o dedo es­ doutrina inviolada. Esse tipo de escola jam ais adm ite idéias novas. As idéias ino­
frega o m etal, desprende um a quan tid ad e invisível do m aterial; quando isso não vadoras são consideradas heréticas e geradoras de cismas; o m em bro da escola que
acontece, que razão há p ara acreditar que o m etal continua a m udar? A razão é ten tar m udar a doutrina será expulso como herético. Via de regra, o herético alega
que o vento erode o m etal, e sem pre há vento; pela oxidação — isto é, um a queim a que a sua é a verdadeira doutrina. Nem o próprio inovador, portanto, adm ite estar
vagarosa — ele se transform a de m odo invisível em ferrugem : o m etal antigo tem inovando; ele acredita estar retornando à verdadeira ortodoxia, que teria sido p e r­
aparência diferente da do novo, assim como um velho não se confunde com um a vertida.
crian ça” (DK, B 88). Como dem onstram os fragm entos existentes, era esse o e n ­
sinam ento de H eráclito. Dessa m aneira, todas as m udanças de d o u trina são sub-reptícias; apresen­
tam-se sempre como reform ulações dos ensinam entos verdadeiros do mestre: de
Sugiro que o princípio m etodológico de Kirk e Raven de que “só se pode suas próprias palavras, seu significado e intenção genuínos.
aceitar afastam entos im portantes do senso com um quando há evidência poderosa
E claro que num a escola desse tipo não encontrarem os um a história de
idéias, nem m aterial para ela. N ão se adm ite, de fato, a novidade das idéias; tudo é
atribuído ao mestre. Só conseguiremos reconstruir um a história de cismas, e talvez
5 — Isso confirma que de qualquer maneira a teoria faz sentido. Espero que o texto tenha deixado claro a história da defesa de certas doutrinas contra os heréticos.
que apelei para a verdade de maneira a: (a) mostrar que minha interpretação pelo menos faz sentido; e
(b) refutar os argumentos de Kirk e Raven (discutidos mais adiante no mesmo parágrafo) de que a teoria Obviamente, nesse tipo de escola não pode haver qualquer discussão r a ­
é absurda. Uma resposta a G. S. Kirk, demasiadamente longa para ser incluída aqui (embora se refira a
este trecho) pode ser encontrada no apêndice a este capítulo). cional. Pode haver argum entos contra dissidentes e heréticos, ou contra escolas
174 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RETORNO AOS PRÉ-SOCRÁTICOS 175

Isso sugere, a m eu ver, que Tales fundou a nova tradição de liberdade —


concorrentes; de m odo geral, porém , a dou trina é defendida m ediante assertivas, baseada em novo relacionam ento entre m estre e aluno — criando um tipo de escola
dogm as e condenações — não com argum entos. totalm ente diferente da de Pitágoras. Ao que parece, ele não só tolerava a crítica
como instituiu a tradição de que a crítica deve ser tolerada.
Sob esse aspecto, a Escola Italiana, fu ndada por Pitágoras, constitui um
exem plo im po rtan te dentre as escolas filosóficas gregas. C om parada com a Escola Prefiro im aginar que Tales fez mais ainda. T enho dificuldade em conceber
Jónica ou com a de Elea, assemelhava-se a um a ordem religiosa, apresentando um um relacionam ento entre m estre e aluno no qual o m estre apenas tolera a crítica,
m odo de vida característico e um a doutrina secreta. deixando de estim ulá-la ativam ente. A m eu ver, um aluno treinado em atitude
dogm ática jam ais ousaria criticar um dogm a (especialm ente de um sábio famoso),
V erdadeira ou não, a estória de um dos seus m em bros, Hipaso de M etapon- de form a aberta. Parece-m e um a explicação mais fácil presum ir que o mestre
to, aíogado por ter revelado o segredo da irracionalidade de certas raízes q u a ­ tenha estim ulado a atitude crítica — talvez não desde o princípio, mas depois de
dradas, é característica do clima que cercava a Escola de Pitágoras. ter ficado impressionado com a pertinência de algum as perguntas feitas pelo aluno,
sem intenção crítica.
Mas essa era um a exceção entre as escolas filosóficas gregas. Deixando-a de
lado, podem os dizer que o caráter da filosofia grega, e das suas escolas filosóficas, é De qualquer m aneira, a conjectura de que Tales estim ulou ativam ente a
nitidam ente diferente do tipo dogm ático descrito. Já dem onstrei isso com um crítica de seus pupilos explicaria o fato de que a atitude crítica diante da doutrina
exemplo: a história do problem a da m udança que relatei é a história de um debate do mestre tornou-se p arte da tradição da Escola Jónica. Gosto de im aginar Tales
crítico, de um a discussão racional. Idéias novas eram expostas como tal, resultando como o prim eiro mestre a dizer a seus discípulos: “E assim que vejo as coisas —
de crítica aberta. Se realm ente há m udanças sub-reptícias, são poucas. Ao invés da como creio que elas são. Procurem aperfeiçoar meus ensinam entos” . Os que
anonim idade, temos um a história de idéias e daqueles que as geraram . acharem que não é apropriado atrib u ir essa atitude não dogm ática a Tales devem
lem brar que, apenas duas gerações mais tarde, encontrarem os um a atitude sem e­
lhante form ulada clara e conscientem ente nos fragm entos de Xenófanes. Resta, de
Esse é um fenôm eno singular, ligado intim am ente à im pressionante lib er­
qualquer form a, o fato histórico de que os jônios estabeleceram a prim eira escola
dade e criatividade da filosofia grega. Como explicá-lo? O que há a explicar é o
na qual os discípulos criticavam os mestres, geração após geração. Não há m uitas
surgim ento de um a tradição, que perm ite e estim ula a discussão crítica entre várias
dúvidas de que a tradição de crítica filosófica grega teve sua origem principal na
escolas e, o que é ainda mais surpreendente, dentro de cada escola. De fato, não
encontram os em parte algum a, excetuando-se os seguidores de Pitágoras, um a es­ iônia.
cola dedicada à preservação de determ inada do utrina. Em lugar disso, observamos Foi um a inovação im portantíssim a, que representou um rom pim ento com a
m udanças, novas idéias, modificações e crítica aberta ao m estre. tradição dogm ática que perm ite um a só doutrina nas escolas — substituindo-a pela
tradição que adm ite um a pluralidade de doutrinas, todas em busca da verdade
(Em Parm ênides, pode-se mesmo observar, em período mais antigo, um m ediante a discussão crítica.
fenôm eno extrem am ente interessante: um filósofo a expor duas doutrinas, um a,das
quais afirm a ser a verdadeira, e a outra, falsa. No entanto, não se lim ita a criticar Essa inovação levou, quase necessariam ente, à tom ada de consciência de
e condenar a d o u trin a falsa; ao invés disso, ele a apresenta como a m elhor des­ que nossas tentativas de encontrar a verdade nunca são definitivas, e sem pre podem
crição possível da opinião ilusória dos m ortais e do m undo das aparências — a ser aprim oradas; que nosso conhecim ento é conjectural: consiste em suposições,
m elhor descrição que um m ortal é capaz de fazer.) hipóteses, e não em verdades certas e definitivas; de que a crítica e a discussão/
crítica são os únicos meios que temos para nos aproxim arm os da verdade. Levou,
assim, à tradição de crítica livre e conjecturas audaciosas que criou a atitude r a ­
Como e quando foi fund ad a essa tradição crítica? O problem a merece um a cional ou científica, e, com esta, a civilização ocidental, a única baseada na ciência
consideração séria. Podemos ter certeza do seguinte: Xenófanes, que levou a (em bora, é claro, não só na ciência).
tradição jónica p ara Elea, estava plenam ente consciente de que seus ensinam entos
eram p u ram ente conjecturais, e que outros mais sábios poderiam vir após ele. Essa tradição racionalista não proíbe m udanças audazes nas doutrinas. Pelo
Retornarei a esse ponto na próxim a seção. contrário, estim ula a inovação e a considera um êxito, um aprim oram ento, desde
que se baseie no resultado de um a discussão crítica das doutrinas precedentes. A
própria ousadia da inovação é adm irada, pois pode ser controlada pela severidade
Ao p ro cu rar os prim eiros sinais dessa nova atitude crítica, essa liberdade de
do exame crítico a que é subm etida. Por isso, as m udanças de doutrina, longe de
pensam ento, retornam os à crítica feita por A naxim andro a respeito de Tales.
ocorrerem sub-repticiam ente, são passadas adiante com as doutrinas mais antigas e
Tem os aqui um fato m uito interessante: A naxim andro critica seu mestre e co n ­
os nomes dos inovadores. Assim, o m aterial para um a história das idéias torna-se
terrâneo, um dos Sete Sábios, fundador da Escola Jónica. Segundo a tradição, ele parte da tradição ensinada.
era aproxim adam ente quatorze anos mais jovem do que Tales, e deve ter desenvol­
vido sua crítica e novas idéias enquanto o m estre ainda vivia. (Ao que parece,
Pelo que sei, a tradição racionalista ou crítica foi inventada um a só vez.
m orreram com pouco tem po de diferença.) Nas fontes históricas não encontram os Perdeu-se após dois ou três séculos, provavelm ente devido ao surgim ento da
qualquer vestígio de dissenção, contenda ou cisma.
176 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES RETORNO AOS PRÉ-SOCRÁTICOS 177

d o u trin a da epistem e, de Aristóteles: o conhecim ento certo e dem onstrável — Se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos e pudessem desenhar e esculpir
desenvolvimento da distinção traçad a pelos eleáticos e por H eráclito entre a ver­ como os homens, os cavalos fariam seus deuses como cavalos; os bois como um boi:
dade certa e as m eras suposições; mas foi redescoberta e conscientem ente revivida cada um deles daria form a ao corpo das suas divindades conform e a imagem da
d u ran te a R enascença, especialm ente por G alileu Galilei. sua própria espécie.

Os deuses não nos revelaram , desde o princípio, todas as coisas, mas, no


curso do tem po, procurando, podemos aprender, conhecê-las m elhor...
X II
Supomos que essas coisas são como a verdade.
Passo agora a m eu últim o e mais im portante argum ento: a tradição ra-
cionalista, da discussão crítica, representa o único meio praticável p ara expandir o Com respeito à verdade segura, ninguém a conheceu, nem a conhecerá, nem
conhecim ento conjectural ou hipotético. N ão há outra m aneira. Mais especifi­ a respeito dos deuses, nem sobre tudo o que falamos. Mesmo se por acaso p ro n u n ­
cam ente, não há um processo que comece pela observação ou pela experiência. No ciássemos a verdade definitiva, não a reconheceríam os — pois tudo é um a tram a de
desenvolvimento da ciência, as observações e experiências têm apenas a função de opiniões”
argum entos críticos; desem penham essa função ao lado de o u tra, a de argum entos
n ã o -observacionais. É um papel im portante, mas o significado das observações e P ara m ostrar que Xenófanes não estava só, reproduzo aqui dois ditos de
experiências depende inteiram ente da sua capacidade de criticar teorias. H eráclito (DK, B 78 e 80), que já citei anteriorm ente em outro contexto. Ambos
exprim em o caráter conjectural do conhecim ento hum ano; o segundo faz referên­
Segundo a teoria do conhecim ento esboçada aqui, há, de m odo geral, só cia à sua ousadia, à necessidade de antecipar, com coragem , o que não sabemos:
duas m aneiras de um a teoria ser superior a outras: explicar m elhor; e poder ser tes­
tad a m elhor — isto é, ser discutida de m aneira m ais com pleta e crítica, à luz de “Não pertence à natureza do hom em possuir o conhecim ento verdadeiro,
tudo que conhecem os, de todas as objeções em que podemos pensar, especialm ente mas à natureza divina... Quem não espera o inesperado não o perceberá; p ara ele
de testes experim entais ou de observação designados p ara criticá-la. o inesperado será impossível de ser detectado, e inabordável”

H á apenas um ingrediente de racionalidade em nossas tentativas de co­ M inha últim a citação será de passagem fam osa de Dem ócrito (DK, B 117):
nhecer o m undo: o exam e crítico das teorias. Em si mesmas, as teorias são supo­
sições. N ão sabemos; supomos. Se alguém me perg u n tar “Como você sabe?”, m inha “Mas, na verdade, n ad a sabemos por ter visto; a verdade está oculta na
resposta será “N ão sei, apenas proponho um a suposição. Se está interessado no m eu p ro fu n d id ad e.”
problem a, ficarei grato se criticar m inha suposição; e se m e oferecer contrapropos­
tas, deverei criticá-las igualm ente” . Desta form a, a atitude crítica dos p ré -socráticos prenunciou e preparou o
racionalism o ético de Sócrates: sua crença em que a busca da verdade, pela discus­
Essa, acredito, é a verdadeira teoria do conhecim ento (que desejo subm eter são crítica, era um m odo de vida — o m elhor que ele conhecia.
à crítica do leitor): a verdadeira descrição de um a p rática que surgiu na iônia e es­
tá in corporada à ciência m oderna (em bora m uitos cientistas ainda acreditem no
m ito da indução de Bacon): a teoria de que o conhecim ento se processa através de
conjecturas e refutações.

G alileu e Einstein foram duas das figuras mais importanjtes a perceberem


que não existia o procedim ento indutivo; com preenderam claraínente aquilo que
considero a verdadeira teoria do conhecim ento. Os antigos, contudo, tam bém o
sabiam . Por incrível que pareça, vamos en contrar o claro reconhecim ento e a for­
m ulação dessa teoria quase im ediatam ente após o início da prática da discussão
crítica. Sob esse aspecto, os indícios mais antigos que conhecem os são os de Xe-
nófanes. A presentarei aqui cinco deles, num a ordem que sugere que a audácia da
sua crítica e a gravidade dos problem as de que trato u o to rnaram consciente de que
todo o nosso conhecim ento é suposição; que, procurando o “melhor” conhecim ento,
poderem os encontrá-lo em tem po. Aqui estão os cinco fragm entos (DK, B 16 e 15;
18; 35; e 34) da obra de Xenófanes:

“Os etíopes dizem que seus deuses têm o nariz achatado e são negros; os
trácios, que os seus têm olhos azuis e cabelos ruivos.
Apêndice
CONJECTURAS HISTÓ RICA S: A O PIN IÃ O DE
H E R Á C L IT O SOBRE A MUDANÇA*

N um artigo intitulado “Popper a Propósito da Ciência e dos Pré-Socráticos”


(M in d , NS 69, julho de 1960, págs. 318 a 339), o Senhor G.S. Kirk respondeu ao
desafio e à crítica contidos em conferência que pronunciei na Sociedade Aristo-
télica sobre o tem a: “Retorno aos Pré-Socráticos” . C ontudo, o artigo em questão
não se dirige principalm ente à m inha crítica; procura descobrir como e por que caí
vítim a de um a atitude “com relação à m etodologia científica” que está fu n d am en ­
talm ente errad a, e que m e levou a afirm ativas equivocadas a respeito dos pré-
socráticos, baseando-m e em princípios errôneos de historiografia.

Um contra-ataque desse tipo poderia seguram ente ter m érito e interesse in ­


trínsecos. O fato de que o senhor Kirk adotou esse procedim ento dem onstra de
qualquer form a que há pelo menos dois pontos sobre os quais estamos de acordo:
nossa divergência fundam ental é filosófica; e a atitude filosófica que adotam os
pode ter um a influência decisiva sobre nossa interpretação d a evidência histórica —
por exem plo, no que diz respeito à evidência relativa aos pré-socráticos.

O ra, o senhor Kirk não aceita m inha atitude filosófica, como eu não aceito
a sua. Por isso acha, justificadam ente, que deve d ar as razões pelas quais rejeita a
m inha posição.

Não creio, contudo, que tenha conseguido fazer o que pretendia, simples­
m ente porque sua concepção do que pensa ser m eu ponto de vista e as conclusões
devastadoras que deriva dessa concepção não estão relacionadas com o que real-
m ente penso f conform e dem onstrarei.

H á outra dificuldade ainda. O m étodo de con tra-ataq u e escolhido tem um


inconveniente peculiar: não se presta facilm ente ao desenvolvimento do debate *392

*) Este apêndice, resposta ao artigo de Mind, foi publicado em parte sob o título: “Kirk a Propósito de
Heráclito — o Fogo como Causa do Equilíbrio”, na mesma revista, N.S. 72, julho de 1963, págs. 386 a
392. Quero agradecer ao editor de Mind pela permissão para reproduzir aqui todo o artigo, conforme*
lhe foi submetido originalmente.
180 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES
CONJECTURAS HISTÓRICAS: A OPINIÃO DE HERÁCLITO SOBRE A MUDANÇA 181

sobre os pontos de crítica específicos levantados na m inha conferência. Por exem ­


plo: Kirk não explica claram ente que pontos aceita (se é que aceita algum deles) e acrescentado): “O mais im portante de um a teoria é sua capacidade de explicar, de
quais os que rejeita; em lugar disso, a aceitação e a rejeição ficam submersas na enfrentar crítica e testes. A questão da origem, de como se chegou à teoria — seja
rejeição genérica do que supõe ser m inha “atitude com relação à metodologia cien­ por procedim ento in d u tivo *, como dizem alguns, ou pela intuição... tem pouco a
tífica” e de algum as conseqüências dessa atitude im aginária. ver com seu p adrão ou caráter científico.”

Kirk cita essa passagem e a discute. Mas o fato indiscutível ali indicado —
I de que nem acredito na indução nem na intuição — não o im pede de me atribuir
constantem ente um ponto de vista intuicionista. E o que faz, por exemplo, na pas­
M inha prim eira tarefa será dem onstrar a alegação de que a m aneira como sagem citada acim a; ou na pág. 324, ao exam inar a questão de saber se é aceitável
Kirk tra ta a “atitu d e com relação à m etodologia científica* atrib u íd a á m im se m inha alegada “premissa de que a ciência tem seu ponto de p artid a em intuições”
baseia am plam ente em incom preensões e interpretações errôneas do que tenho es­ (em bora afirm e que ela tem seu ponto de p artid a em problem as); ou ainda na pág.
crito, bem como nu m a concepção p opular equivocada, de caráter indutivista, a 326, quando pergunta: “Devemos portanto inferir, com Popper, que a teoria de
respeito da ciência n a tu ra l — tem a exam inado extensam ente no m éu livro The Tales deve ter-se baseado n um a intuição não-em pírica?”
Logic o f Scientific Discovery.
Mas o m eu ponto de vista é m uito diferente. N ão digo que a ciência parte
Kirk m e apresenta, corretam ente, como oponente do dogm a indutivista sus­ de intuições, mas sim de problem as; que de m odo geral chegamos a um a nova
tentado por m uitas pessoas — a idéia de que a ciência tem como ponto de p artid a teoria, tentando resolver problem as; que esses problem as aparecem nas tentativas
a observação, p a ra chegar, pela indução, a generalizações, e por fim a teorias. Seu que fazemos p ara com preender o m undo da nossa “experiência” (“experiência” que
erro consiste em acreditar que pelo fato de ser um oponente do indutivismo tenha consiste em grande parte de expectativas ou teorias, e tam bém em p arte em co­
de ser um discípulo do intuicionism o, e que m inha abordagem se deva à tentativa nhecim ento derivado da observação — em bora ache que não existe conhecim ento
de defender um a filosofia da intuição — que ele cham a “filosofia tradicional” — derivado da observação pura, sem mescla de teorias e de expectativas). Alguns
contra o em pirism o m oderno. N a verdade, em bora não acredite na indução, não desses problem as — dos mais interessantes — surgem da crítica consciente de
acredito tam bém na intuição. Aliás, os indutivistas tendem a pensar que a intuição teorias aceitas até então acriticam ente, ou da crítica consciente de um a teoria
é a única alternativa possível p ara a indução, mas nisso se equivocam : há outras precedente. Um dos objetivos principais que procurei alcançar em m eu trabalho
aproxim ações, além dessas duas. A m inha poderia ser descrita apropriadam ente sobre os p ré -socráticos era a sugestão de que a teoria de A naxim andro pode p e r­
como um em pirism o crítico. feitam ente ter-se originado num a tentativa de crítica às idéias de Tales; essa pode
ter sido a origem da tradição racionalista, que identifico com a tradição da discus­
No entan to , Kirk me atribui um intuicionism o quase cartesiano, ao des­ são crítica.
crever a situação da seguinte form a (pág. 319): “A filosofia do tipo tradicional
presum ia que as verdades filosóficas tivessem conteúdo m etafísico e que pudessem Não acredito que essa concepção seja m uito sem elhante à filosofia in tu i­
ser apreendidas pela intuição — o que foi negado pelos positivistas do Círçtílo de cionista tradicional. Fiquei surpreso ao descobrir que Kirk sugere que o erro da
Viena. Ao discordar destes últimos, Popper afirm ava sua crença em algo não m uito m inha abordagem pudesse ser explicado como o equívoco de um filósofo espe­
diferente da concepção clássica do papel da filosofia.” O que quer que se com ente culativo sem fam iliaridade suficiente com a prática científica, ao dizer, por exem ­
a esse respeito, há seguram ente um a “filosofia tradicional” — a de Descartes e plo, na pág. 320: “Parece possível que sua concepção da ciência não resulte de um a
Spinoza, por exem plo — que considera a “intuição” como fonte do conhecim ento; observação objetiva do m odo como trabalham os cientistas, m as que tenha resul­
mas sem pre me opus a e la .1 A p a rtir desse ponto, Kirk escreve “intuição”, no sen­ tado ela própria de um a aplicação inicial da teoria desenvolvida por Popper —
tido em que uso o term o aqui, várias vezes entre aspas, e outras tantas sem aspas — um a “intuição” relacionada de perto com as dificuldades atuais da filosofia e com ­
contudo, ao que parece, sempre sob a impressão (e certam ente criando essa im ­ p arad a posteriorm ente com o procedim ento científico real” .3 Seria de esperar que
pressão) de que me está citando, ao me atribuir idéias intuicionistas: idéias que mesmo um leitor sem grande conhecim ento científico tivesse percebido que pelo
nunca defendi. Com efeito, a única vez que a palavra “intuição” aparece no texto menos alguns dos meus problem as se originaram no cam po das ciências físicas, e
da m in h a conferência2, é usada num contexto ao mesmo tem po antiindutivista e que m inha fam iliaridade com a prática e a investigação científicas não é in tei­
antiintuicionalista. Falando sobre o caráter científico de um a teoria, disse (itálico ram ente de segunda m ã o .

O tipo de discussão crítica a que me refiro é, n aturalm ente, um a discussão


em que a experiência desem penha um papel m uito im portante: apelam os constan­
1 — Kirk cita, a páginas 322, L. Sc D. (pág. 32); contudo, lendo-se o que precede aquela minha re­ tem ente p ara a observação e a experim entação como testes das nossas teorias. No
ferência a Bergson, veremos que a admissão de que toda descoberta contém um “elemento irracional”
entanto, Kirk chega ao extrem o (na pág. 332; itálico acrescentado) de m encionar
(além de outros elementos) — uma “intuição criadora” —, não é irracionalista ou intuicionista, no sen­
tido de qualquer “filosofia tradicional”. Vide também a introdução do presente volume.
2 ■— Ocorrem também referências casuais, em que a palavra é empregada sem sentido técnico, quase
depreciativamente. 3 — Kirk coloca a palavra “intuição” entre aspas, sugerindo assim que eu esteja empregando “intuição”
nesse sentido especial.
182 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CONJECTURAS HISTÓRICAS: A OPINIÃO DE HERÁCLITOSOBRE A MUDANÇA 183

“a tese de Popper de que todas as teorias científicas se baseiam inteiram ente em in ­ II


tuições
Posso voltar-me agora p a ra um ponto mais relevante — a história dos pré-
Como a m aior p arte dos filósofos, estou acostum ado a ver meus pontos de socráticos. Vou dedicar-m e, nesta seção, a esclarecer dois dos erros de Kirk a res­
vista distorcidos e caricaturizados. Tem os aí, porém , algo diferente de um a c a ­ peito do m étodo histórico que utilizei e da m inha concepção do m étodo da his­
ricatu ra (que sem pre se apoia num a sem elhança reconhecível com o original): tória, de m odo geral. N a seção seguinte tocarei nas nossas divergências reais.
n enhum dos m eus amigos, críticos e opositores, em piristas ou positivistas, jam ais
me atacou por sustentar ou reviver um a epistemologia intuicionista; ao contrário, 1) Kirk discute, na pág. 325, um a observação que fiz p ara confessar m inha
de m odo geral eles afirm am que m inha teoria do conhecim ento não se afasta de falta de com petência no que se refere à análise lingüística dos textos. A passagem
em questão reza: “ ... sinto-me totalm ente deslocado quando um entendido no as­
m odo significativo da que subscrevem.
sunto se põe a discutir sobre quais as palavras ou expressões que H eráclito teria ou
Do que segue veremos que Kirk apresenta várias conjecturas sobre o con­ não u sado.”
teúdo da m inha filosofia e sua origem ; mas não parece ter consciência do caráter
conjectural dessas construções. Ao contrário, acredita haver evidência textual a C om entando esse trecho, Kirk exclam a: “Como se as palavras ou expressões
sustentá-las. De fato, diz que m inha “atitude de m etodologia científica... formou-se que H eráclito teria ou não usado não fossem relevantes p ara avaliar o que p e n ­
ao escrever o prefácio de 1958 de The Logic o f Scientific Discovery, num a reação sava!”
contra as tentativas do Círculo de Viena de basear toda a verdade científica e fi­
O ra, nunca disse que esse aspecto não era relevante. Confessei apenas que
losófica (52c) n a verificação experim ental” (pág. 319). Seria desnecessário com entar
a descrição errônea da filosofia de W ittgenstein e do Círculo de Viena. Contudo, não havia estudado bastante os usos lingüísticos de H eráclito (e outros autores) para-
me sentir em condições de discutir o trabalho realizado nesse cam po por eruditos
como se tra ta de um historiador da filosofia que tece com entários sobre o que es­
como, por exem plo, B urnet, Diels, R einhardt ou, mais recentem ente, Vlastos e o
crevi, creio oportuno esvaziar um m ito histórico a esse respeito. No prefácio a que
próprio Kirk.
Kirk se refere, não disse um a só palavra sobre a origem do m eu ponto de vista e da
m inha atitu d e. N a verdade, n ad a poderia ter escrito nas linhas indicadas por Kirk,
Mas Kirk prossegue, dizendo:
p orque a realidade é bem diversa. Uma parte dessa estória, publicada pela p ri­
“Essas ‘palavras e expressões’, com outros fragm entos verbatim dos próprios
m eira vez em 1957, o Senhor Kirk poderia encontrar num a conferência que
p ré -socráticos, constituem ‘os textos m ais antigos de que dispom os’, e não os relatos
pronunciei em C am bridge, recolhida agora neste volume, sob o título “Ciência:
de Platão, Aristóteles e dos doxógrafos, como Popper parece acre d ita r... Deveria
C onjecturas e R efutações” ; nesse trabalho contei como se desenvolveu m inha
ser óbvio, mesmo p ara um ‘am ad o r’, que a reconstrução do pensam ento pré-
atitu d e de reação contra as tentativas de M arx, Freud e Adler — nenhum dos quais
socrático deve basear-se, ao mesmo tem po, na tradição mais recente e nos frag ­
foi positivista, ou pertenceu ao Círculo de Viena. Parece improvável que essa in ­
m entos existentes.”
com preensão inexplicável por p arte do Senhor Kirk se deva à obscuridade hera-
Não posso im aginar como pude induzir Kirk a pensar que essas coisas, não
cliana do m eu estilo: de fato, a fazer um a com paração com o “R etorno aos, Pré-
são “óbvias” — mesmo p ara este am ador. Ele poderia ter observado a freqüência
Socráticos” (pág. 318), descreve o mesmo prefácio de 1958, a que se refere a pas­
com que cito, traduzo e discuto aqueles fragm entos (m uito mais do que os relatos
sagem acim a, qualificando-o de “form ulação mais lú cida”.
de Platão e de Aristóteles, em bora concordem os, agora, que estes tam bém são
relevantes), tanto em “R etorno aos Pré-Socráticos ”, como em Open Society, onde
O utro exem plo da interpretação errônea de The Logic o f Scientific Dis­ examinei m uitos dos fragm entos existentes de H eráclito. Kirk faz referência a esse
covery é tam bém inexplicável — pelo menos p ara quem tenha lido aquele livro até livro na pág. 324. Por que, então, interpreta aquela m inha frase, na pág. 325,
a pág. 61 (para não m encionar as págs. 274 ou 276), onde me refiro ao problem a como se manifestasse desinteresse por esses fragm entos, ou pelo seu status histórico?
da verdade e à teoria da verdade de Alfred Tarski. Kirk declara que “Popper 2) P ara exem plificar o m odo insatisfatório como Kirk responde às m inhas
ab an d o n a o conceito da verdade científica absoluta” (pág. 320). Ele não parece ver críticas, cito agora a p arte final da sua resposta (pág. 339), em que diz:
que, quando afirm o que não temos condições de saber se até mesmo um a teoria
científica bem corroborada é verdadeira ou não, estou na verdade presum indo um “Mais espantoso ainda, (Popper) aplica o critério da verdade possível como
“conceito de verdade científica absoluta” — exatam ente como alguém que diz tese da historicidade de um a teoria. N a pág. 16, observa que “a sugestão de que
“N ão consegui alcançar o objetivo” aceita um “conceito absoluto de objetivo”, cuja testemos a historicidade das idéias de H eráclito ... pelos padrões do senso com um ”
existência é presum ida independentem ente de ser ele alcançado ou não. é um tanto surpreendente. Não será o caso de considerarm os o teste que propõe
m uito mais surpreendente?” Mas o ponto decisivo é, n aturalm ente, que essa fi­
losofia inspirada (isto é, o hom em visto como um a cham a, etc.) é verdadeira, tanto
É surpreendente encontrar essas incompreensões tão óbvias, e citações q u an to sabem os.”
ocasionalm ente equivocadas, em trab alh o escrito por um em inente estudioso, his­
A isso se pode responder simplesmente que nem disse, nem deixei im plicado
toriad o r da filosofia. Elas tornam desnecessária um a defesa filosófica dos meus
que a verdade, ou a possível verdade de um a teoria, é um “teste” da sua histori-
pontos de vista reais a respeito da ciência.
184 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CONJECTURAS HISTÓRICAS: A OPINIÃO DE HERÁCLITO SOBRE A MUDANÇA 185

cidade. (O que se pode ver, a p a rtir das páginas 16 e 17 da-m inha conferência, e
no segundo parág rafo da seção vii; incidentalm ente, terá Kirk esquecido sua tese de Assim, todas as coisas aparentem ente estáveis constituem fluxos; algumas
que abandonei a idéia da verdade?)' Por outro lado, ao pôr “teste” entre aspas, in ­ delas — as que têm aparência de clara estabilidade — estão em fluxo invisível.
dicando assim que em preguei o term o nesse contexto, ou nesse sentido, Kirk Desta form a, a filosofia de H eráclito prep ara o cam inho p ara a distinção esta­
claram ente faz u m a falsa atribuição. T u d o o que disse, ou deixei im plicado, é que belecida por Parm ênides entre a aparência e a realidade.
a verdade da teoria sobre a m udança tradicíonalm ente (e apropriadam ente)
atrib u íd a a H eráclito dem onstra que essa atribuição pelo menos dá sentido à fi­ Para que tenha o aspecto de um a coisa estável, o processo (a realidade, por
losofia de H eráclito — mas não com preender o significado da filosofia atribuída a trás da coisa) precisa ser regular, sem elhante a um a lei — m edido. Assim, a lâm ­
H eráclito por Kirk. Incidentalm ente, creio que um princípio im portante e até pada cuja cham a é estável precisa suprim i-la com um a m edida definida de óleo.
mesmo evidente d a historiografia e da interpretação das idéias e o de procurar Não parece improvável que a idéia de um processo m edido, sem elhante a um a lei,
sem pre a trib u ir a um pensador um a teoria interessante e verdadeira, em lugar de tenha sido desenvolvida por H eráclito a p artir de sugestões dos milesianos — em es­
um a teoria falsa e sem interesse, desde, naturalm ente, que a evidência histórica a pecial de A naxim andro — a respeito do sentido das m udanças cósmicas periódicas
isso nos autorize. N ão se tra ta decerto de um critério, ou de um “teste”, m as, quem (tais como a noite e o dia, possivelmente tam bém as m arés, as fases da lua, e es­
não o fizer provavelm ente não com preenderá um grande pensador como foi H e­ pecialm ente as estações do ano). Essas regularidades podem m uito bem ter con­
ráclito. tribuído p ara a concepção de que a aparente estabilidade das coisas, e mesmo do
III cosmos, pode ser explicada como um processo “m ed id o ” — regido por lei.

A divergência mais im portante entre Kirk e m im , no que diz respeito aos 1 ) 0 prim eiro dos dois pontos principais a respeito dos quais critiquei a in ­
p ré -socráticos, tem a ver com a interpretação de H eráclito. Neste ponto acho que, terpretação de H eráclito por Kirk é o seguinte: Kirk sugeriu que H eráclito não
talvez de form a inconsciente, Kirk quase aceitou meus dois argum entos, que dis­ acreditava que “um a pedra, ou um caldeirão de bronze... estivessem sempre so­
cutirei adiante. frendo alterações invisíveis”. (Seria contrário ao senso com um acred itar nisso). A
De m odo geral, m inha aproxim ação a H eráclito pode ser descrita com as longa discussão que Kirk dedica à m inha crítica (pág. 334) chega por fim à seguin­
palavras de Karl R einhardt: “A história da filosofia é a história dos seus problem as. te afirm ativa:
Para explicar H eráclito é preciso dizer prim eiro qual era seu p roblem a” .4
“Neste ponto o argum ento se torna algo rarefeito. Concordo, no entanto,
M inha resposta a esse desafio consistiu em dizer que o problem a de que é teoricam ente possível que certas m udanças invisíveis da nossa experiência —
H eráclito era o problem a da m udança — o problem a geral contido na indagação: por exem plo, a oxidação gradual do ferro, citada por Popper — tenham im pres­
“Como é possível a m u d ança?” “Como é possível que um a coisa m ude sem perder sionado H eráclito fortem ente, levando-o a afirm ar que tudo estivesse em processo
sua identidade?”. (Vide “Retorno aos P ré-Socráticos”, seções viii e ix.) de m udança, visível ou não. N ão creio, porém , que os fragm entos contenham
nenhum a sugestão neste sentido” (pág. 336).
A credito que a grande m ensagem de H eráclito estava associada à descoberta
desse problem a tão estim ulante — descoberta que levou à solução de Parniênides N ão creio que o argum ento precise tornar-se rarefeito em nenhum m om en­
de que a m ud an ça é logicam ente impossível; e, mais tarde, à teoria de Lêucipo e to; por outro lado, m uitos fragm entos sugerem a teoria que atribui a H eráclito.
de D em ócrito, relacionada com a prim eira, de que as coisas na verdade não Mas, antes de citá-los, preciso reiterar um a pergunta que form ulei na m inha con­
m u d am intrinsecam ente, em bora m odifiquem a posição que ocupam no vazio. ferência: se o fogo é por assim dizer o protótipo ou m odelo estrutural (ou “forma-
arq u étip o ”) da m atéria, como querem Kirk e Raven, que pode isso significar senão
É a seguinte a solução p ara esse problem a que, seguindo Platão, Aristóteles que as coisas m ateriais são como cham as — p ortanto, são processos?
e os fragm entos, atribui a H eráclito: não há n ada que seja im utável; o que vemos
como u m a coisa na verdade é um processo. N a realidade, um a coisa m aterial se as­ N ão quero dizer, n aturalm ente, que H eráclito usou um term o abstrato
sem elha a u m a cham a — que parece ser m aterial, m as não o é: é um processo, um como “processo” , mas conjecturo que aplicou sua teoria não só à m atéria em abs­
fluxo; a m atéria transita por ela; é como um rio. trato, ou “à ordem do m undo como um todo”, como diz Kirk (pág. 335), mas ta m ­
bém a coisas concretas, isoladas; coisas que podem ser com paradas a cham as
isoladas e concretas.
Q uanto aos fragm entos, há, em prim eiro lugar, os que se referem ao sol.
4 — K. Reinhardt, Parmênides, 2.a ed., 1959, pag. 220. Não posso mencionar esse livro sem manifes­ Parece-m e bastante claro que H eráclito considerava o sol um a coisa, ou talvez
tar a enorme admiração que tenho por ele, embora me sinta levado, hesitantemente, a discordar da sua mesmo um a nova coisa, cada dia; veja-se, por exem plo, DK, B 6, onde se lê: 5 “O
tese fundamental: de que Parmênides não só deu origem ao seu problema independentemente de Sol é novo cada d ia ” — em bora isso talvez quisesse dizer apenas que, como um a
Heráclito, mas que o precedeu, transmitindo-lhe aquele problema. Creio, porém, que Reinhardt
lâm pada, ele volta a se acender cada dia. B 99 diz: “Se não houvesse o Sol, seria
apresenta razões muito poderosas para apoiar o ponto de vista de que um desses dois filósofos dependeu
do outro. Poderia dizer, talvez, que minha tentativa de “localizar” o problema de Heráclito (por assim noite, a despeito de todas as outras estrelas.” (Vide tam bém B 26, e m inha obser­
dizer) pode ser vista como um esforço para responder ao desafio de Reinhardt, reproduzido aqui. (Vide
também a seção vi do cap. 2.) 5 - Diels-Kranz. Vide B 51 m Vlastos, AJP 76, 1955, pág. 348.
186 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CONJECTURAS HISTÓRICAS: A OPINIÃO DE HERÁCLITO SOBRE A MUDANÇA 187

vação acim a a respeito de lâm padas e m edidas, com parando com B 94.) E B 125: Mas as coisas não estão apenas em fluxo — estão em fluxo invisível. É o que
“Se n ão for ag itad a, a cerveja se decom põe” — o m ovim ento, o processo, é indis­ lemos em B 88: “E sempre um a só e m esma coisa estar vivo e m orto; estar acordado
pensável p a ra a existência d a coisa que, sem ele, deixa de existir. Diz B 51: “O que e desperto; ser jovem e velho. Porque um a coisa se transform a na outra, e a outra
lu ta consigo mesm o se com prom ete consigo mesmo; h á um vínculo, um a harm onia, volta a ser a p rim eira.” Assim, nossos filhos crescem — como sabemos, de m odo in ­
provocada pelo m ovim ento de reto m o d a m o la, pela tensão, com o acontece visível; mas os pais tam bém se transform am , de algum m odo, nos seus filhos (vide
com o arco e com a lira ”. E a tensão, a força ativa, a lu ta inerente (um processo) B 20, 21, 26, 62 e 90). Tom em os B 103: “N um círculo, o começo e o fim são o
que fazem com que o arco e a lira sejam o que são — só enquanto a tensão é m a n ­ m esm o” (A identidade dos opostos — opostos que se fundem invisivelmente; vide
tid a, en q u an to a oposição das suas partes se m antém eles continuam a ser o que tam bém B 54, 65, 67, 126).
são.
É verdade que H eráclito am ava as generalizações e abstrações; prossegue, B 46 nos m ostra que H eráclito percebe que essas m udanças podem de fato
assim, p a ra u m a generalização im ediata que pode ter pretendido situar escala cós­ 5er invisíveis e que, p o rtan to , sabe tam bém que a visão e a observação são e n ­
m ica, como em B 8: “Os opostos concordam ; da discordância resulta a m elhor h a r­ ganosas: “... a visão é enganosa” B 54: “A harm onia invisível é m ais forte do que a
m o n ia” (vide tam bém B 10). Mas isso não significa que deixa de ver as coisas sim ­ visível” (vide tam bém B 8 e 51) B 123: “A natureza am a ocultar-se” (vide tam bém
ples — a lira, a lâm p ad a, a cham a, o rio (B 12, 49a): “São águas diferentes que B 56 e 113).
ban h am os que en tram no mesmo rio ... Entram os e não entram os no mesmo rio.
Somos e não somos” . Não tenho a m enor dúvida de que qualquer um desses fragm entos ou todos
eles podem ser explicados de form a diversa. C ontudo, eles m e parecem d ar apoio
C ontudo, antes de ser símbolos dos processos cósmicos, os rios são realidades àquilo que, de qualquer form a, é razoável supor — e que recebe apoio igualm ente
concretas; além disso, são símbolos de coisas concretas — inclusive do hom em . E m ­ de Platão e Aristóteles (em bora a evidência por p arte deste últim o se tenha tornado
bora a afirm ativa “Somos e não somos” (que, incidentalm ente, Kirk e Raven suspeita, especialm ente depois do trabalho im portante de H arold Cherniss, n in ­
preferem não atrib u ir a H eráclito) seja, num certo sentido, um a abstração e g e­ guém acredita — H arold Cherniss menos ainda — que essa evidência perdeu total
neralização m uito am pla, cósmica talvez, pretende ser tam bém um apelo m uito m ente o crédito, inclusive a que se apoia em Platão e nos “fragm entos”).
concreto a todos os homens: é um m em ento mori, como tantos outros fragm entos
que nos relem bram que a vida se torna a m orte, e a m orte, a vida. (Por exemplo: B 2) O últim o ponto da m inha resposta — m eu segundo e principal arg u m en ­
88, 20, 21, 26, 27, 62, 77.) to a respeito de H eráclito — tem a ver com o sum ário da sua filosofia que encon­
tram os em Kirk e Raven (pág. 214), sob o título “Conclusão” .
Se B 49a se aproxim a de u m a vasta generalização, B 90 se afasta da idéia
cósmica e geral do fogo que consome (e m orre) p ara chegar a um ponto particular: Citei um a parte dessa conclusão na m inha conferência, dizendo que achava
“T u d o se troca pelo fogo e o fogo por tudo, como as m ercadorias são trocadas pelo “absu rd a” a doutrina ali atrib u íd a a H eráclito; e p ara deixar claro o que consi­
ouro e este pelas m ercadorias” . derava “absurdo”, usei ênfase. T rata-se da d o u trin a, alegadam ente heracliana, de
que as m udanças naturais de todos os tipos (portanto, presum ivelm ente, tam bém os
Assim, q uando Kirk p ergunta (pág. 336): “Podemos dizer que a conclusão terrem otos e incêndios) são regulares e equilibradas; que a causa desse equilíbrio é
de que todas as coisas, separadam ente, estão em fluxo perm anente decorre de o fogo, a substância com um das coisas, tam bém ch am ad a seu logos.
m odo necessário de qualq u er raciocínio seguido por H eráclito?”, a resposta é e n ­
faticam ente afirm ativa, na m edida em que podemos dizer de algum a coisa que
“decorre necessariam ente” de um “raciocínio” , neste cam po perm eado pela conjec­ N ão tenho objeções a que se atrib u a a H eráclito a concepção da m udança
governada por leis, ou a doutrina, talvez mais duvidosa, de que a regra, ou re ­
tu ra e a interpretação.
gularidade, é o logos das coisas; ou ainda a idéia de que o fogo é a substância
Tom em os por exem plo B 126: “O que é frio se torna quente; o que é quente com um das coisas. P areciam -me contudo absurdas as doutrinas: a) de que todas as
se to rn a frio; o que é úm ido se torna seco; e que é seco, úm ido”. E um a afirm ativa m udanças (m udanças de todos os tipos) fossem “equilibradas”, no mesmo sentido
que pode perfeitam ente ter um significado cósmico, referir-se às estações, à em que m uitos processos im portantes podem ser assim qualificados: o fogo de um a
m ud an ça cósmica. Mas, como duvidar de que se aplica a coisas concretas, in d i­ lâm pada ou a sucessão das estações; b) de que o fogo fosse a causa desse equilíbrio;
viduais, e as m udanças que sofrem — e, incidentalm ente, a nós mesmos e a nossas e c) de que a substância com um das coisas — o fogo — fosse tam bém conhecida
como o seu logos.
alm as —, sobretudo se querem os atrib u ir a H eráclito “senso com um ”, o que quer
que isto signifique? 6
comum quanto a de Kirk, talvez mais. Sugeri igualmente que Heráclito seria a última pessoa cujas afir­
mativas devessem ser avaliadas por padrões de senso comum que não fossem os seus próprios. A “gutta
6 — Parece que Kirk não compreendeu minha crítica ao seu apelo ao “senso comum”. Critiquei o pon­ cavat” de Ovídio — uma mudança invisível — não é também senso comum? Alan Musgrave chamou-me
to de vista de que há, nessa matéria, um padrão claro de senso comum a que o historiador pudesse a atenção para um complicado argumento relacionado com a mudança invisível que podemos encontrar
apelar; sugeri (mas apenas sugeri) que minha interpretação de Heráclito talvez lhe atribua tanto senso em Lucrécio — De Rer. Nat., i, 265-321 —, que pode ter sido a fonte de Ovídio.
CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CONJECTURAS HISTÓRICAS: A OPINIÃO DE HERÁCLITO SOBRE A MUDANÇA 189
188

Além disso, não podia enco n trar vestígio dessas doutrinas nos fragm entos de Assim, a doutrina que considerei inaceitável atrib u ir a H eráclito parece ser
H eráclito ou em q u alq u er das fontes antigas, como Platão e Aristóteles. a interpretação que dá Kirk a o u tra interpretação através da qual H ipólito pode ter
tentado dem onstrar o caráter semicristão dos ensinam entos de H eráclito — pos­
O nde, então, a fonte dessa “conclusão” — isto é, a fonte dos três pontos sivelmente, como sugere Karl R einhardt, p ara lidar com certas doutrinas heréticas,
acim a indicados, que expressam a visão geral de Kirk sobre a filosofia de H eráclito, noéticas, como a de que o fogo tem poderes divinos ou providenciais.
e que dão cor tão forte à sua in terpretação dos fragmentos?
Em bora Hipólito possa ser um a boa fonte, quando cita H eráclito, está claro
R elendo o capítulo de Kirk e Raven sobre H eráclito só pude localizar um a que não pode ser levado m uito a sério quando interpreta H eráclito.
pista: as d o utrinas às quais objeto aparecem form uladas em prim eiro lugar na pág.
200, com referência ao fragm ento que classificam sob o núm ero 223. O ra, trata-se Considerando o caráter duvidoso das fontes usadas, não surpreende que não
do fragm ento DK, B 64: “É o raio que dirige todas as coisas”. tivesse podido com preender o sum ário final ou “conclusão” de Kirk e Raven. C on­
tinuo a achar que a doutrina ali atribuída a H eráclito é absurda — especialm ente
Por que razão esse fragm ento levaria Kirk a atrib u ir a H eráclito as doutrinas as palavras que salientei em itálico. Tenho a certeza, por outro lado, de que esta
em questão? N ão bastará a explicação de que o raio era o instrum ento de Zeiis? De m inha reação não é isolada. Contudo, referindo-se à passagem da m inha conferên­
fato, de acordo com H eráclito, DK B 32 = KR 231: “U m a coisa — a única coisa cia onde exam ino sua “conclusão”, considerando-a “ab su rd a”, Kirk escreve (na
sábia — exige e não exige ser conhecida pelo nom e de Zeus” . (Parece explicação pág. 338): “Popper está sozinho quando afirm a que essa interpretação de H eráclito
suficiente p a ra DK B 64. N ão ê necessário associar esse fragm ento com DK B 41 = é ‘absu rd a’.’ .No entanto, se exam inarm os cuidadosam ente sua própria apresen­
KR 230, o que só poderia reforçar m inha in terp retação.) tação, veremos que ele quase me dá razão, pois deixa de repetir quase todas as
palavras a que dei ênfase, por me parecerem absurdas (além das palavras “m u d a n ­
Nas páginas 200 e 434 encontram os a interpretação de Kirk e Raven, que é ças de todos os tipos”); om ite, em especial, a afirm ativa de que a causa desse
mais elaborada: o raio é identificado com o fogo; atribui-se-lhe um a “capacidade equilíbrio é o fo g o (bem como, “que f o i tam bém cham ado de seu logos”.)
de d ireção” ; sugere-se que o fogo “reflete a divindade” ; por fim , propõe-se sua
identificação com o logos. Na pág. 338, Kirk sugere agora que esta é “a interpretação de H eráclito”
que eu havia qualificado de absurda. Parece concordar, por exem plo, com a in te r­
Q ual é a fonte desta in terpretação algo excessiva de um fragm ento tão curto pretação dada em Open Society, onde sugeri que o logos pode ser a lei da m u d a n ­
e simples? N ão pude encontrá-la entre as fontes antigas — os próprios fragm entos, ça. Além disso, em bora objete fortem ente a que se descreva o fogo (como o
Platão ou Aristóteles. O único vestígio que localizei foi um a interpretação de fazem Kirk e Raven, e tam bém H ipólito) como causa do equilíbrio do m undo, não
H ipólito — Kirk e Raven o descrevem, na pág. 2 do seu livro, como “um teólogo de rejeito um a interpretação que ponha um a certa ênfase no equilíbrio, ou na m u ­
R om a, do terceiro século d a nossa e ra ” (quase seis séculos depois de Platão) — que dança equilibrada. De fato, se as coisas m ateriais, aparentem ente estáveis, são na
“atacou as heresias cristãs, acusando-as de reviver a filosofia do paganism o” . Ao realidade processos como â cham a, precisam queim ar vagarosa e sistem aticam ente.
que parece, H ipólito, que era um bispo cism ático, não só acusava a heresia noética Como a cham a de um a lâm pada, ou à do sol, elas “não ultrapassarão sua m edida”
de rep resentar “um renascim ento da teoria de H eráclito” , mas contribui tam bém , — não levitarão sem controle, como um a conflagração. Vale lem brar que é um
com seus ataques, p ara a respectiva elim inação. processo, um m ovim ento que im pede a decomposição da cerveja, sua separação e
desintegração; não é qualquer tipo de movim ento que tem tal efeito, mas só, por
H ipólito é a fonte tam bém de B 64, um belo fragm ento sobre o raio; ele o exemplo, os movimentos circulares, medidos. P ortanto, é a m edida que pode ser
cita, aparen tem en te, porque quer interpretá-lo como estando associado in tim a­ qualificada de causa do equilíbrio do fogo, da cham a e das coisas — desses proces­
m ente à heresia noética. Nessa tentativa, identifica o ráio com o fogo, com o fogo sos e m udanças que parecem estáveis, que são responsáveis pela preservação das
divino ou eterno; atribui-lhe um a “capacidade de direção” providencial (como Kirk coisas. A m edida, a regra, a m udança de acordo com leis, o logos (e não o fogo)
e Raven) e com prudência ou razão (o logos de Kirk e Raven); por fim, afirm a que são a causa do equilíbrio — especialm ente o equilíbrio do fogo sob controle, como
o fogo de H eráclito era “a causa da econom ia cósm ica”, ou do “governo econô­ no caso do sol, da lua e da nossa alm a.
m ico” ou “d ireção” que m antém o equilíbrio do m undo. (Kirk e Raven dizem que o
fogo seria “a causa desse equilíbrio”. ) ? Está claro que, de acordo com este ponto de vista, a m aior p arte da m udan
ça eq uilibrada precisa ser invisível: deve ser inferida pela razão, pela reconstrução
do processo que faz com que as coisas aconteçam (talvez por isso o term o logos.)
7 — A terceira dessas identificações de Hipólito poderia de fato encontrar base textual. Num artigo
publicado em Hermes, 77, 1942, Karl Reinhardt conjectura que havia um fragmento, aludido por
Hipólito, falando em “pur phronimon” ou “pur Phronoun”. Não tenho condições de avaliar os argu­
mentos de Reinhardt, embora não me pareçam muito convincentes. Contudo, esse alegado fragmento ciai”. Quanto à “causa” de Hipólito, Reinhardt diz explicitamente que não se trata de uma noção
se ajustaria bem à minha interpretação: como acredito que Heráclito queria dizer que nós — nossas al­ heracliana. O fogo como causa do equilíbrio do mundo só aparecería sob a forma de conflagração no
mas — são chamas, as expressões “fogo pensante” ou “fogo com um processo mental” seriam perfei­ Dia do Julgamento Final, como um equilíbrio de justiça. Mas Kirk não aceita que tal conflagração sejâ
tamente aceitáveis. Mas só uma interpretação cristã — ou cristã herética — falaria em “fogo providen- parte dos ensinamentos de Heráclito.
190 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CONJECTURAS HISTÓRICAS: A OPINIÃO DE HERÁCLITO SOBRE A MUDANÇA 191

Este pode ter sido perfeitam ente o cam inho que levou H eráclito à sua nova Que algum a coisa, dentro dessas linhas gerais ten h a de fato acontecido
epistem ologia, com a distinção im plícita entre realidade e aparência, e a descon­ parece-m e mais do que um a simples conjectura.
fiança com relação à experiência sensorial. Foi o que (juntam ente com as dúvidas
de X enófanes) levou possivelmente Parm ênides, mais tarde, à com paração da “ver­
dade com pleta” (o logos invariante) com a opinião ilusória, o pensam ento falível
dos m ortais. Surgiu assim, pela prim eira vez, o contraste claro entre um intelec­
tualism o ou racionalism o (sustentado por Parm ênides) e um em piricism o ou sen-
sorialismo (que ele atacou, mas que foi o prim eiro a form ular).

Com efeito, Parm ênides ensinou (B 6:5) que a horda dos m ortais falíveis,
sem pre dúplices a respeito das coisas, com idéias errantes (B 6:6) no seu coração,
consideram o ser e o não-ser como a m esm a coisa, e, ao mesmo tem po, como coisas
diversas. C o n tra eles dizia o filósofo (B 7):

“N unca acontecerá que as coisas inexistentes existam . Deves evitar percorrer


esse cam inho: não deixa que a experiência ou o hábito estabelecido im ponha li­
m ites à tu a busca. N ão perm ite que teu òlho vendado, teu ouvido surdo ou mesmo
tu a língua vagueiem por essa estrada. Que só a razão decida a respeito do a rg u ­
m ento, tantas vezes contestado, que te expus p ara m ostrar onde está a falsidade.”

Esse o intelectualism o e o racionalism o de Parm ênides, que contrasta com a


ênfase no sentido dos pobres e falíveis m ortais — que pensam , errônea e conven­
cionalm ente, que existe luz e noite, calor e frio; que essa com binação determ ina o
estado físico ou ‘n a tu reza ” dos seus órgãos sensoriais ou do seu corpo; natureza que
os transform a em pensam ento. Esta doutrin a de que não há nada no intelecto que
se equivoca (no “pensam ento equivocado” ou “errôneo” de B 6:6) que não tenha
estado previam ente nos órgãos sensoriais equivocados é citada por Parm ênides da
seguinte form a (B 16):

“O conhecim ento surge nos hom ens, em qualquer m om ento, como a com ­
binação dos órgãos sensoriais, que m uito erram . N a verdade, essas duas coisas são a
m esm a: o que pensa, e a com binação que representa a natureza dos órgãos de p e r­
cepção. Q que prevalece nessa m istura se transform a em pensam ento, em todos os
hom ens.” ®

Essa teoria anti-sensorialista do conhecim ento logo depois se tornou um a


teoria pró-sensorialista p raticam ente sem q ualquer alteração, exaltando os órgãos
sensoriais (desprezados por Parm ênides) como fontes mais ou menos autorizadas do
conhecim ento.

O que contei aqui reflete, até certo ponto, um a idealização; por outro lado,
é conjectural. Procurei apenas m ostrar como as teorias e os problem as lógicos e
epistemológicos podem ter surgido no curso de um a discussão crítica sobre teorias e
problem as cosmológicos.

8 — (Nota do tradutor) Em inglês: For as, at any one time, is the much — erring sense-
organs mixture,/So does knowledge appear in men. For these two are the same thing:/That which
thinks, and the mixture which makes up the sense-organs nature./ What in this mixture prevails bec-
comes thought, in each man and all”. O significado desse passagem e a minha tradução (que deve ser
comparada com Empédocles B 108) são examinados mais extensamente no apêndice 8, no fim deste
livro — especialmente nas seções 6-10.
:

6. N ota sobre Berkeley — um Precursor


de M ach e de Einstein*

“T in h a somente um a idéia m uito vaga a respeito do Bispo Berkeley, mas


ficava-lhe grato por nos ter defendido de um a premissa inicial incontestável.”

Sam uel Butler

O objetivo desta nota é relacionar as idéias de Berkeley, no cam po da fi­


losofia da física, que têm um a aparência m arcadam ente m oderna. São quase todas
idéias redescobertas e reintroduzidas no debate sobre a física contem porânea por
Ernst M ach e H einrich Hertz, bem como por outros filósofos e físicos, alguns deles
influenciados por M ach — como B ertrand Russell, Philip Frank, R ichard von
Mises, Moritz Schlick*1 , W erner Heisenberg, etc.

Preciso explicar antes de mais nada que discordo dessas idéias positivistas.
N a verdade, adm iro Berkeley, em bora não concorde com ele. Mas o objetivo desta
nota não é criticar Berkeley — essa crítica estará lim itada a algum as observações,
curtas e incom pletas, na seção v.2

Berkeley escreveu um único livro (De M o tu ) dedicado exclusivamente à


filosofia da ciência física; mas há passagens em m uitos dos seus escritos em que
idéias sem elhantes e suplem entares são desenvolvidas.3

* Publicada pela primeira vez no The British Journal fo r the Philosophy of Science, 4, 1953.
1 — Sob a influência de Wittgenstein, Schlick propôs uma interpretação instrumentalista das leis
universais que equivalia praticamente às “hipóteses matemáticas” de Berkeley; vide Naturwissenschaf-
ten, 19, 1931, págs. 151 e 156.
2 — Desenvolvi melhor essas idéias no cap. 3, especialmente na seção 4.
3 — Além de DM (De Motu, 1721), citarei TV (Essay Towards a New Theory of Vision, 1709); Pr
(Treatise Concerning the Principles o f Human Knowledge, 1710); HP (Three Dialogues Between Hylas
and Philonous, 1713); Ale (Alciphron, 1732); An (The Analyst, 1734); e S (Siris, 1744). Tanto quanto
eu saiba, não há uma tradução inglesa de DM que elucide o que Berkeley pretendia dizer; o
editor da mais recente edição das suas Obras se dá ao trabalho de depreciar esse ensaio, altamente
original e sob muitos aspectos singular.
194 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES NOTA SOBRE BERKELEY UM PRECURSOR DE MACH E DE EINSTEIN 195

E ncontrarem os o núcleo das idéias de Berkeley sobre a filosofia da ciência m ediante (sua identificação com) o que é cham ado de m odo m ais geral de qu a ­
no seu Criticism o f N ew ton ’s Dynamics (a m atem ática de Newton foi criticada por lidade oculta? O que é em si mesmo oculto nada pode explicar; sem m encionar o
Berkely em The Analyst e suas duas seqüelas). Berkeley sentia grande adm iração fato de que um a causa desconhecida podería ser cham ada mais propriam ente de
por Newton, percebendo, sem dúvida, que não podería encontrar objeto de crítica substância (metafísica) do que de qualidade.)
mais digno.
5) Tendo em vista essas considerações, a teoria de Newton não pode ser
II aceita como um a explicação genuinam ente causal, isto é, baseada em causas ver­
dadeiram ente naturais. O ponto de vista de que a gravidade explica causalm ente o
As vinte e um a teses que seguem nem sem pre estão enunciadas na term i­ m ovim ento dos corpos (dos planetas, dos corpos em queda livre, etc.), ou de que
nologia de Berkeley; por outro lado, sua seqüência não reflete a ordem em que Newton descobriu que a gravidade ou a atração é um a “qualidade essencial” (Pr,
aparecem nos escritos de Berkeley, ou em que poderíam ser apresentadas num 106), cuja inerência na essência ou natureza dos corpos explica as leis dos seus
tratam en to sistem ático das idéias do filósofo. movimentos, deve ser rejeitado (S, 234; vide tam bém S, 246, últim a frase). Mas é
preciso adm itir que a teoria de N ew ton leva a resultados corretos (DM, 39, 41).
P ara com eçar com um a epígrafe, cito o próprio Berkeley (DM, 29). Para com preender isso, “tem a m aior im p o rtân cia... distinguir entre hipóteses
m atem áticas e as naturezas (ou essências) das coisas 4 ... Se observarmos tal distin­
1) “P ronunciar um a palavra e n ad a querer dizer com ela é um ato indigno de ção, todos os famosos teorem as da filosofia m ecânica q u e... tornam possível sujeitar
um filósofo.” o sistema do m undo (isto é, o sistema solar) a cálculos hum anos pode ser preser­
vado; ao mesmo tem po, o estudo do movimento ficará livre de mil trivialidades e
2) O significado de um a palavra é a idéia ou qualidade sensorial com a qual sutilezas sem sentido e de idéias abstratas” [desprovidas de significação] (DM, 66).
ela está associada (que nom eia). Portanto, as expressões “espaço absoluto” e “tem po
absoluto” não têm q u alquer sentido em pírico (ou operacional); por isso a doutrina 6) N a física (filosofia m ecânica), não há explicação causal (cf. S, 231), i. e.,
de Newton sobre o espaço absoluto e o tem po absoluto deve ser rejeitada enquanto explicação baseada na descoberta da natureza oculta ou essência das coisas (Pr,
teoria física. (Cf. Pr. 97, 99, 116; DM, 53, 55, 62; An, 50, Q u. 8; S, 271: A 25). “... as verdadeiras causas efetivas do m ovim ento... não pertencem , de m odo
propósito do espaço absoluto, esse fantasm a dos filósofos da m ecânica e da geo­ algum , ao cam po da m ecânica ou da ciência experim ental, e nem facilitam a com ­
m etria, b astará observar que não é percebido pelos nossos sentidos ou provado pela preensão d estes...” {DM, 41).
nossa ra z ã o ...” ; DM, 64: “ ... p a ra ... os fins dos filósofos da m ecân ica... ba6ta
substituir seu “espaço absoluto” por um espaço relativo, determ inado pelos fir­ 7) A razão para isso é que as coisas físicas não têm um a “natureza verda­
m am entos das estrelas fixas... O m ovim ento e o repouso definidos por esse espaço deira ou real” , secreta ou oculta; um a “essência real” , ou “qualidades internas”
relativo pode ser usado com odam ente em lugar dos absolutos...”.) {Pr, 101).

3) O mesmo se aplica à expressão “m ovim ento absoluto”. O princípio de 8) Não há nada físico por trás dos corpos físicos. N ão existe um a realidade
que todo m ovim ento é relativo pode ser dem onstrado apelando p ara o significado física oculta. Por assim dizer, tudo é superfície; os corpos físicos n ad a são além das
de “m ovim ento” ou p a ra argum entos operacionalistas. (Cf. Pr 58, 112, 115 “P ara suas qualidades. Sua aparência é sua realidade {Pr, 87,88).
dizer que um corpo ‘se m oveu’ é necessário... que ele m ude sua distância ou si­
tuação com respeito a algum outro c o rp o ...” ; DM, 63: “N enhum movim ento pode 9) A função do cientista (do “filósofo m ecânico”) é descobrir “por experiên­
ser percebido, ou m edido, exceto com a ajuda de coisas sensíveis” ; DM, 62: “... o cia e pela razão” {S, 234), as leis da natureza, ou seja, as regularidades e unifor­
m ovim ento de um a pedra num a funda, ou da água num recipiente que é agitado, m idades dos fenômenos naturais,
não pode ser qualificado verdadeiram ente de m ovim ento circu lar... pelos que
definem [o m ovim ento] com a ajuda do espaço abso lu to ...”.) 10) As leis da natureza são, de fato, regularidades, sim ilaridades ou a n a ­
logias (Pr, 105) nos movimentos dos corpos físicos que percebem os {S, 234) “ ... es­
4) As palavras “gravidade” e “força” são em pregadas erroneam ente na tes, aprendem os m ediante a experiência” {Pr, 30); eles são observados, ou inferidos
física; introduzir força como a causa ou “princípio” do movim ento (ou de um a a p artir de observações (Pr, 30, 62; S, 228, 264).
aceleração) é introduzir um a “qualidade o culta” (DM, 1-4, e em especial 5, 10, 11,
17, 22, 28; Alc vii, 9). Com mais precisão, deveríamos dizer “um a substância 11) “Uma vez form adas as leis da natureza, a tarefa do filósofo é m ostrar
m etafísica o cu lta” pois o term o “qualidade oculta” é em pregado erroneam ente, que cada fenôm eno está em conform idade com elas, isto é, que seguem os p rin ­
um a vez que “q u alid ad e” deveria ser reservado, mais apropriadam ente, p ara as cípios form ados.” {DM, 37; cf. Pr, 107; e S, 231: “sendo sua tarefa (i.e., a dos
qualidades observáveis ou observadas — qualidades atribuídas aos nossos sentidos e “filósofos m ecânicos”)... a de explicar fenômenos particulares reduzindo-os a essas
que, como é n atu ral, nunca são “ocultas” . (An, 50, Qu. 9; e em especial DM, 6: norm as gerais e m ostrando sua conform idade com elas.”)
“Está claro, p o rtan to , que é inútil presum ir que o princípio do m ovim ento é a
gravidade ou a força — como podería ser esse princípio conhecido mais claram ente 4 — A propósito da equivalência das “naturezas”e das “essências” vide Open Society, cap. 5, seçáo vi.
196 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES NOTA SOBRE BERKELEY - UM PRECURSOR DE MACH E DE EINSTEIN 197.

12) Esse processo pode ser denom inado, se quisermos, de “explicação” (e


com os quais opera, nem com as dependências funcionais que aparentem ente afir­
mesmo “explicação causal”), desde que se faça um a distinção clara entre ele e a ex­
m a. Ela erige, por assim dizer, um m undo m atem ático fictício por trás do m undo
plicação verdadeiram ente causal (ou m etafísica), baseada na natureza ou essência
das aparências, mas sem afirm ar que esse m undo existe. “Mas tudo que é dito sobre
verdadeira das coisas. S, 231; DM, 37: “A explicação m ecânica de um fenôm eno
as forças contidas nos corpos, seja de atração ou repulsão, deve ser considerado
deve reduzi-lo aos princípios mais simples e universais (i.e. “as leis prim árias do
apenas como um a hipótese m atem ática, e não como algo que realm ente existe na
movim ento provadas pela e x p eriên cia...” DM, 36) e provar, m ediante raciocínio
natu reza” (S, 234; cf. DM, 18, 39 e especialm ente Alc, vii, 9, A n, 50, Qu. 35).
preciso, que elas estão de acordo com os fenômenos e ligadas a eles... Isso significa
Afirma-se apenas que conseqüências corretas podem ser derivadas de certas su ­
que deve explicar e solucionar o fenôm eno, designando sua causa. ..” Essa te r­
posições. Mas a hipótese m atem ática pode facilm ente ser m al in terp retad a, como se
m inologia é admissível (cf. DM , 71), mas não nos deve enganar. Devemos sem pre
afirmasse m uito mais — como se descrevesse um m undo real oculto pelo m undo
distinguir (cf. DM, 72) nitidam ente entre a explicação “essencialista”5, que apela
das aparências. Mas tal m undo não poderia ser descrito, pois a descrição seria
para a natureza das coisas, e a explicação “descritiva”, que apela para um a lei da
necessariam ente sem sentido.
natureza, i. e. p a ra a descrição de um a regularidade observada. Apenas o últim o
tipo de explicação é admissível na ciência física.
16) Percebe-se, assim, que as mesmas aparências podem ser calculadas com
êxito a p artir de mais de um a hipótese m atem ática, e que duas hipóteses m a te ­
13) Devemos âgora distinguir um terceiro tipo de explicação — a que apela
m áticas que fornecem os mesmos resultados em relação às aparências calculadas
para hipóteses m atem áticas. A hipótese m atem ática pode ser descrita como um
podem não só discordar, mas tam bém contradizer-se (especialm ente se m al in te r­
procedim ento p a ra calcular certos resultados. E um m ero form alism o, um u te n ­
pretadas, como a descrição de um m undo de essências oculto pelo m undo das
sílio ou instrum ento m atem ático, com parável a um a m áquina de calcular. Pode-se
aparências); não obstante, pode não haver escolha entre elas. “Os m ais sábios dos
julgá-la apenas por sua eficiência. Pode ser mais do que simplesm ente admissível;
homens proferem ... diversidade de doutrinas, e até mesmo doutrinas opostas; suas
pode ser útil e adm irável, no entanto não é ciência: em bora produza resultados
conclusões, no entanto (i. e. os resultados calculados) atingem a verdade... Newton
corretos, não passa de um truque, um artifício {An, 50, Qu. 35). C om parada à ex­
e Torricelli parecem discordar entre si... mas ambos dão p a ra isso boas explicações.
plicação pelas essências (que, na m ecânica, é simplesm ente falsa) e à explicação
Todas as forças atribuídas aos corpos, de fato, não passam de hipóteses m a te ­
pelas leis da natureza (verdadeira, desde que as leis tenham sido “provadas pela ex­
m áticas...; o mesmo fato, portanto, pode ser explicado de m aneiras diferentes.”
periência”), a questão da veracidade de um a hipótese m atem ática não surge — só {DM, 67.)
nos interessa sua utilidade como instrum ento de cálculo.
17) A análise da teoria de Newton produz, p o rtanto, os seguintes resul­
14) Os princípios da teoria de Newton que foram “provados pela experiên­
tados:
cia” — os princípios das leis de m ovim ento que descrevem simplesmente as re ­
gularidades observáveis nos movimentos dos corpos — são verdadeiros. Mas a parte
Devemos distinguir:
da teoria que envolve os conceitos criticados acim a — espaço absoluto, movimento
absoluto, força, atração, gravitação — não é verdadeira, pois consiste em , “h i­
a) Observações de coisas concretas e particulares.
póteses m atem áticas” . Se funcionam corretam ente, contudo, não devem ser re ­
jeitadas (é o caso da gravitação, da força e da atração). As hipóteses do espaço a b ­
b) As leis da natureza, que são observações de regularidades provadas
soluto e do m ovim ento absoluto devem ser afastadas, pois não funcionam corre­
{“com probatae”, DM, 36; que deve significar “su portado” ou “corroborado”; vide
tam ente (devem ser substituídas pelo sistema de estrelas fixas, e o movimento
DM, 31) por experim entos, ou descobertas por um a “observação diligente dos
relativo). “T erm os como “força” , “gravitação” e “atração ”6 são úteis p ara racio ­
fenôm enos” {Pr, 107).
cinar e fazer cálculos sobre o m ovim ento e os corpos em m ovim ento, mas nao nos
ajudam a com preender a própria natureza simples do m ovim ento, nem servem
para designar tan tas qualidades distintas... No que concerne à atração, está claro c) As hipóteses m atem áticas que não se baseiam na observação, mas cujas
conseqüências concordam com eles (ou “respeitam os fenôm enos”, como diziam os
que Newton não a introduziu como um a qualidade física verdadeira, mas m era-
platônicos).
m e n te com o u m a h ip ó te se m a te m á tic a ” {D M } 17) . 7

P ropriam ente com preendida, a hipótese m atem ática não afirm a a existência d) As explicações causais essencialistas ou metafísicas que não pertencem à
ciência física.
de n ad a a que corresponda na natureza. Não há correspondência com os termos

Dessas quatro categorias, a) e b) se baseiam na observação e podem ser


5 — 0 termo “essencialista” (e “essencialismo”) não é de Berkeley; foi introduzido por mim em The
Poverty o f Historicism e The Open Society and its Enemies. verificadas pela experiência; c) não se baseia na observação e tem im portância
apenas instrum ental — podendo haver, p o rtanto, m ais do que um instrum ento
6 — A ênfase do original em latim aparece aqui como aspas.
utilizável (cf. 16), acim a; d) é sabidam ente falso sem pre que constrói um m undo
7 — Essa era, em linhas gerais, a opinião do próprio Newton; cf. cartas de Newton a Bentley, 17 de invisível de essências por trás do m undo das aparências. Em conseqüência, sabe-se
janeiro, e especialmente 25 de fevereiro de 1692 3; e a seção 3 do cap. 3, acima.
que c) é falso sempre que interpretado no sentido de d).
198 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES NOTA SOBRE BERKELEY - UM PRECURSOR DE MACH E DE EINSTEIN 199

18) Esses resultados se aplicam claram ente a outros casos, além da teoria que cham ei aqui de “navalha de Berkeley”, na m edida em que nos perm ite não só
new toniana — por exem plo, ao atom ism o (teoria corpuscular). N a m edida em que rejeitar certos “elementos metafísicos”, mas tam bém distinguir, em alguns casos, e n ­
essa teoria p rocura explicar o m undo das aparências, construindo um m undo in ­ tre várias hipóteses diferentes e com petitivas (do tipo que Berkeley cham ou de
visível de “essências íntim as’' (Pr. 102), por trás do m undo aparente, precisa ser “m atem áticas”), com respeito à sua sim plicidade (Cf. 16), acim a. H á tam bém um a
rejeitada (cf. Pr, 50; An, 50, Qu, 56, S, 232, 235). notável sem elhança com os Princípios da M ecânica, de Herz (1894), em que ele
procurou elim inar o conceito de “força”, bem como com o Tractatus de W ittgens-
19) O trab alh o do cientista leva a algo que pode ser cham ado de< “expli­ tein.
cação”, mas que raram en te tem grande im portância p ara com preender a coisa ex­
plicada, já que a explicação a que se pode chegar não se fu ndam enta num a p e ­ O mais notável talvez seja o fato de que tanto Berkeley quanto M ach — a m ­
netração na natureza das coisas, em bora tenha im portância p rática. Ela nos p e r­ bos grandes adm iradores de Newton — criticam as idéias de tem po, espaço e
m ite aplicações e previsões, “ ...leis naturais ou movimentos nos orientam sobre m ovim ento absolutos de form a m uito sem elhante. A crítica de M ach, exatam ente
como agir, nos ensinam o que podemos esperar” (S, 234; cf. Pr, 62). A previsão se como a de Berkeley, culm ina na sugestão de que todos os argum entos em favor do
baseia sim plesm ente na seqüência regular — não na seqüência causal, pelo menos espaço absoluto new toniano (como o pêndulo de Foucault, o balde de água que
não no sentido essencialista. Uma escuridão inesperada, du ran te o dia, pode ser um gira, o efeito da força centrífuga sobre a form a da T e rra ) fracassam porque esses
indicador “prognóstico” , um “sinal de alarm e” , a “m a rc a ” de tem pestade que se movimentos são relativos ao sistema de estrelas fixas.
aproxim a; ninguém a in terp reta como causa do m au tem po. Todas as reg u lari­
dades observadas têm essa natureza, em bora os “prognósticos” ou “sinais” sejam o r­ Para dem onstrar a im portância dessa antecipação da crítica de M ach,
dinariam en te confundidos com as causas genuínas (TV, 147; Pr, 44, 65, 108; S, citaria duas passagens — um a do próprio M ach, a o u tra de Einstein. M ach es­
252-4; Alc, iv, 14,15). creveu (na 7 .a edição da M ecânica, 1912, Cap. ii, seção 6, § 11) a propósito da for-*
m a como foi recebida sua crítica do conceito de m ovim ento absoluto, proposto em
20) Um resultado prático de caráter geral dessa análise da física — que edições anteriores da M ecânica: “H á trin ta anos, considerava-se geralm ente m uito
proponho ch am ar de “navalha de Berkeley” — perm ite elim inar a priori d a ciência estranha a idéia de que a noção de m ovim ento absoluto fosse desprovida de sentido
física todas as explicações essencialistas; se elas têm um conteúdo m atem ático e e de conteúdo em pírico, e cientificam ente inútil. Hoje, este ponto de vista é susten­
preditivo, podem ser adm itidas qua hipóteses m atem áticas (elim inando-se sua in ­ tado por muitos pesquisadores reputados” . E, no necrológio de M ach (“N achruf
terpretação essencialista). Caso contrário, podem ser rejeitadas inteiram ente. Essa au f M ach”, Physikalische Zeitschr., 1916), referindo-se a essa opinião de M ach,
“n av alh a” aliás, é mais afiada que a de O ckham : todas as entidades são rejeitadas, Einstein afirm ou: “Não é im provável que ele tivesse descoberto a teoria da rela­
exceto as que são percebidas. tividade se o problem a da constância da velocidade da luz tivesse agitado os físicos,
num a época em que sua m ente era ainda jovem ” . A observação de Einstein é sem
21) O argum ento definitivo em favor desse ponto de vista, o motivo por que dúvida mais do que generosa.8 Um a parte da luz intensa que projeta sobre M ach
as substâncias e qualidades ocultas, as forças físicas, estruturas de corpúsculos, es­ deve recair em Berkeley.9
paço e m ovim ento absolutos, etc., são elim inados, é o seguinte: sabemos que não
há entidades como estas porque sabemos que os termos que alegadam ente os* desig­ IV
nam não têm sentido. Para ter um sentido, um a palavra precisa representar um a
“id éia ”, isto é, um a percepção, ou a m em ória de um a percepção; na term inologia E preciso dizer algum as palavras pelo menos sobre a relação que há entre a
de H um e, precisa representar um a impressão ou seu reflexo na nossa m em ória filosofia da ciência de Berkeley e sua m etafísica, que é m uito diferente, in d u b i­
(pode representar tam bém um a “noção” , como Deus; mas as palavras que p e rte n ­ tavelm ente, da de M ach.
cem à ciência física não podem representar “noções”). O ra, as palavras que estão
em questão aqui não representam idéias: “Aqueles que afirm am que a força ativa, M ach foi um positivista, inimigo de toda m etafísica não-positivista, especial-
a ação e o princípio do m ovim ento são na realidade inerentes aos corpos m antêm m ente de toda teologia. Berkeley, de outro lado, foi um teólogo — profundam ente
um a d o u trin a que não se baseia em q u alquer experiência, apoiando-a com termos interessado na apologética cristã. M ach e Berkeley estão de acordo em que expres­
genéricos e obscuros; p o rtan to não com preendem , eles próprios, o que querem sões como “tem po absoluto”, “espaço absoluto” e “m ovim ento absoluto” não têm
dizer” (DM, 31). sentido, devendo portanto ser elim inadas da linguagem científica; M ach, contudo,
seguram ente não teria concordado com Berkeley a respeito da razão por que a
I ll tísica não é capaz de tra ta r de causas reais. Berkeley acreditava em causas, em bora
não em causas “reais” ou “verdadeiras”; p ara ele todas as causas reais ou verda­
Todos os que lêem esta lista de vinte e um a teses devem ficar impressionados
com o seu aspecto m oderno: elas se assemelham, surpreendentem ente (em p a rti­
cular no concernente à crítica de Newton), à filosofia da física que Ernst M ach e n ­ 8 — Mach viveu mais de onze anos depois de descoberta a teoria especial da relatividade — oito dos
sinou d u ran te m uitos anos, convicto de que era nova e revolucionária — no que quais, pelo menos, foram anos muito ativos; contudo, ele se manteve em forte oposição àquela teoria; e,
era seguido por exem plo, por Joseph Petzold; e que exerceu enorm e influência na embora tenha aludido a ela no prefácio à última (sétima) edição alemã (de 1912) de Mechanik publi­
cada enquanto vivo, essa alusão foi uma forma de cumprimento a Hugo Dingler, o grande opositor de
física m oderna, especialm ente na teoria da relatividade. H á só um a diferença: o Einstein — não mencionou o nome da teoria e do seu formulador naquela oportunidade.
“princípio da econom ia do pensam ento” (D enkoekonom ine) de M ach vai além do 9 — Não é este o lugar para discutir outros predecessores de Mach, como Leibniz.
200 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES NOTA SOBRE BERKELEY - UM PRECURSOR DE MACH E DE EINSTEIN 201

deiras eram “eficientes ou finais” (S, 231) e p o rtanto espirituais... absolutam ente aparência que seja pura: o que Berkeley tinha em m ente, ao falar em observação, é
distantes da física (HP, ii); acreditava tam bém na explicação causal real ou ver­ sem pre o resultado de um a interpretação, iv) tendo, p o rtan to , um a m istura de
dad eira (S, 231) ou, como talvez se pudesse dizer, na “explicação últim a e defi­ elem ento teórico ou hipotético, v) Além disso, novas teorias podem levar a um a re-
nitiv a” — p a ra ele, Deus. interpretação de velhas aparências, alterando assim o m undo aparente, vi) A m u l­
tiplicidade das teorias explicativas que Berkeley observou (vide seção ii (16), acim a)
T odas as aparências são causadas genuinam ente por Deus, explicadas pela é em pregada, sempre que possível, p ara construir um a situação em que duas
intervenção divina. Esta, p ara ele, é a razão simples por que a física não pode des­ teorias conflitantes podem d ar resultados observáveis diferentes, perm itindo assim a
crever regularidades, nem en contrar as causas verdadeiras. aplicação de um teste crucial p ara escolher entre elas.

Seria um erro, porém , acreditar que essas diferenças dem onstram que a Um aspecto im portante da “terceira visão” é o fato de que a ciência busca
sem elhança entre Berkeley e M ach é apenas superficial. Ao contrário, tanto um teorias verdadeiras, em bora nunca possamos estar seguros de que um a teoria em
como o outro estavam convencidos de que não há um m undo físico (de qualidades particu lar é verdadeira; por outro lado, a ciência pode progredir (sabendo que
prim árias ou de átom os, cf. Pr, 50; S, 232; 235) por trás do m undo de aparências progride) form ulando teorias que, com paradas com as anteriorm ente aceitas são
físicas (Pr, 87, 88). Os dois acreditavam num a form a da doutrina que hoje co­ descritas como um a m elhor aproxim ação da verdade.
nhecem os como fenom enalism o — a concepção de que as coisas físicas são conjun­
tos, complexos ou construção (constructs) de qualidades fenom enais, de cores e sons Podemos adm itir, portanto, sem ser essencialistas, que pela ciência p ro ­
particulares; M ach cham a esses conjuntos de “complexos de elem entos”. A diferen­ curam os sem pre explicar o conhecido pelo desconhecido, o observado (e observável)
ça está em que p a ra Berkeley eles são causados diretam ente por Deus. M ach apenas pelo não observado (possivelmente inobservável). Ao mesmo tem po, podemos a d ­
constata que estão a li. Berkeley afirm a que não pode haver n ad a físico por trás dos m itir, sem ser instrum entalistas, o que Berkeley disse a respeito da natureza das
fenôm enos físicos; M ach diz que não há nad a, absolutam ente, por trás deles. hipóteses, na passagem seguinte (S, 228), que m ostra tanto a debilidade da sua
análise — a falha em perceber o caráter conjectural de toda ciência, inclusive do
V que cham a de “leis da n atu reza” — como sua força: a adm irável com preensão da
estrutura lógica da explicação hipotética.
N a m inha opinião, a grande im portância histórica de Berkeley está no seu
protesto co n tra as explicações essencialistas na ciência. O próprio Newton não in ­ Escreve Berkeley: “Um a coisa é chegar a leis naturais de caráter genérico, a
terpretava sua teoria num sentido essencialista: não acreditava ter descoberto que p artir da contem plação dos fenômenos; coisa diferente é form ular um a hipótese
por sua n atureza os corpos físicos são não só extensos, m as estão dotados de um a
p ara dela deduzir os fenômenos. Podemos pensar que aqueles que adm itiam os
força de atração que se irradia deles e é proporcional à quan tid ad e de m atéria que
epiciclos, explicando com eles os movimentos e a aparência dos planetas, não des­
contêm . Logo depois, porém , a interpretação essencialista da sua teoria passou a cobriram princípios verdadeiros da natureza. E m bora possamos inferir um a con­
prevalecer, m antendo-se até a época de M ach. clusão a p a rtir das premissas, isso não significa que podem os argum entar reci­
procam ente, inferindo as premissas a p artir da conclusão. Por exemplo: podemos
A tualm ente, o essencialismo perdeu o dom ínio, sendo substituído por um supor um fluido de com portam ento elástico, constituído por partículas m ínim as,
positivismo ou instrum entalism o à m oda de Berkeley ou de M ach. equidistantes entre si, de igual densidade e diâm etro, afastando-se um a da outra
com um a força centrífuga que é o inverso da distância entre elas; podemos adm itir
H á, contudo, um a terceira possibilidade — um a “terceira visão” , como cos­ que dessa suposição se deva concluir que a densidade e a força elástica do fluido
tum o cham á-la. m antêm um a proporção inversa ao espaço que ocupa, quando com prim ido por
um a força qualquer; contudo, não podemos inferir, reciprocam ente, que um fluido
Acho que o essencialismo é insustentável. Mas, em bora seja necessário com tal propriedade deva consistir de partículas iguais, conform e suposto”.
rejeitá-lo, isso n ão significa que precisemos aceitar o positivismo. Podemos p e r­
feitam ente ficar com a “terceira visão”.

N ão exam inarei aqui o dogm a positivista do significado — o que já fiz em


outras oportunidades. Vou fazer apenas seis observações: i) E possível trab alh ar
com algo como um m undo “por trá s” das aparências sem assumir um compromisso
com o essencialismo (especialm ente se adm itim os que não é possível saber se há a l­
gum outro m undo “real” oculto por trás do prim eiro). P ara falar de m odo mais
concreto, pode-se tra b a lh a r com a idéia de níveis hierárquicos de hipóteses ex­
plicativas. H averá algum as de nível relativam ente baixo (como as que Berkeley
tin h a em m ente ao falar em “leis da n atu reza”); outras, de nível mais elevado como
as leis de Kepler, a teoria de Newton e, finalm ente, a relatividade, ii) Essas teorias
não são hipóteses m atem áticas — isto é, apenas instrum entos p ara a previsão de
aparências. Sua função é m uito mais am pla, pois iii) não existe observação ou
H

7. Crítica e Cosmologia de Kant*

H á cento e cinqüenta anos falecia Im m anuel K ant, depois de passar os


oitenta anos da sua vida na cidade provincianà de Königsberg, na Prússia. H á
m uitos anos que o filósofo se aposentara co m p letam en te*1, e seus amigos p reten ­
diam dar-lhe um funeral discreto. Mas K ant, filho de um artesão, foi enterrado
como um rei. Q uando a notícia da sua m orte se espalhou pela cidade, o povo foi à
sua casa. No dia do funeral a vida da cidade p arou. O caixão foi seguido por
m ilhares de pessoas, enquanto tocavam os sinos de todas as igrejas. Os cronistas
dizem que nunca se vira n ad a assim em K önigsberg.2

E difícil explicar essa espantosa eclosão de sentim ento popular. Seria devida
exclusivamente à reputação de K ant como um grande filósofo e um homem, bom?
Parece-m e que havia mais do que isso; acho que aqueles sinos dobrando por K ant
em 1804, sob a m onarquia absolutista de Frederico G uilherm e, ecoavam as idéias
da Revolução N orte-A m ericana e da Revolução Francesa — os ideais de 1776 e de
1789. Para seus conterrâneos, K ant se havia transform ado num símbolo dessas
idéias.3 Eles vinham portanto dem onstrar sua gratidão ao m estre dos Direitos do
H om em , da igualdade perante a lei, da cidadania m undial, da paz universal — e,
possivelmente, o mais im portante, da em ancipação pelo conhecim ento.4

* Palestra radiofônica na véspera do 150.° aniversário da morte de Kant. Publicada pela primeira vez
(sem notas) sob o título “Immanuel Kant: Philosopher of the Enlightenment” em The Listener, 51,
í
1954.
1 — Seis anos antes da morte de Kant, Pörschke comentava (carta a Fichte, de 2 de julho de 1978) que,
devido à maneira reservada como vivia, o filósofo estava sendo esquecido até mesmo em Königsberg.
2 — C.E.A.Ch. Wasianski, Immanuel Kant in seinen letzten Lebensjahren (em Über Immanuel Kant,
Dritter Band, Königsberg, bei Nicolovius, 1804): “Os jornais de circulação pública e uma publicação es­
pecial fizeram com que se pudesse conhecer todas as circunstâncias do funeral de Kant”.
3 — A simpatia de Kant pelos ideais de 1776 e de 1789 é bem conhecidg| pois ele costumava manifestá-
la em público (Cf. testemunho de Motherby a respeito do primeiro encohtro de Kant com Green, in, R.
B. Jachmann, Immanuel Kant geschildert in Briefen — Über Immanuel Kant, Zweiter Band,
Königsberg bei Nicolovius, 1804).
4 — 0 mais importante porque a merecida ascensão de Kant, de uma situação muito próxima da
miséria até a fama, e condições de vida relativamente confortáveis, ajudou a criar no continente eu­
ropeu a idéia da emancipação pela auto-educação (sob esta forma ainda mal conhecida na Inglaterra,
onde o “self-made-man” era considerado*um arrivista inculto). A significação dessa idéia está ligada ao
fato de que nos países continentais a classe culta tinha sido durante muito tempo da classe média, m as1
na Inglaterra ela era a classe aristocrática.

ILL
204 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CRÍTICA E COSMOLOGIA DE KANT 205

1. K ant e o Ilum inism o orientação externa. Defino esse estado de tutela como auto-im posto” porque é
devido não à falta de inteligência, m as sim à falta de coragem e de determ inação
A m aior p arte dessas idéias tinham chegado ao continente, dà Inglaterra, para usar a inteligência sem a ajuda de um a guia. Sapere aude! T em a coragem de
num livro publicado em 1732 — as Cartas Sobre os Ingleses, de V oltaire. Nesse usar tu a inteligência! Este é o grito de b atalh a do Ilum inism o.”
livro, V oltaire com para o governo constitucional britânico com o absolutismo
m onárquico que prevalecia nos países continentais; a tolerância religiosa dos in ­ Nessa passagem, K ant diz algo m uito pessoal, que reflete sua própria his­
gleses com a atitude da Igreja Católica; a capacidade explicativa da cosmologia de tória. Criado’ na pobreza, dentro de am biente estreitam ente pietista — um a versão
Newton e do em pirism o analítico de Locke com o dogm atism o cartesiano. O livro rigorosa alem ã do puritanism o —, sua biografia é um a estória de em ancipação
de V oltaire foi queim ado, mas sua publicação m arca o início de um movim ento pelo conhecim ento. Já m aduro, o filósofo lem brava com horror o que cham ava de
filosófico cujo estilo intelectualm ente agressivo foi m al com preendido na In ­ sua “escravidão in fantil” . N ão seria exagero dizer que o tem a da sua vida foi a luta
glaterra, onde ele era desnecessário. pela liberdade espiritual.
Sessenta anos depois da m orte de K ant essas mesmas idéias inglesas eram 2. A cosmologia newtoniana de K ant
apresentadas na Ing laterra como “intelectualism o raso e pretensioso” ; é irônico que
a palavra inglesa E nlig h ten m en t, usada então p ara d ar nom e ao movim ento A teoria de Newton (que Voltaire difundira no continente) desem penhou
iniciado por V oltaire, ainda hoje g u ard a essa conotação de superficialidade e um papel decisivo nessa luta. A cosmologia de Copérnico e de Newton se tornou
pretensão — pelo m enos, é o que nos inform a o Oxford English D ictionary .5 Des­ um a inspiração vigorosa e estim ulante, na vida intelectual de K ant. Seu prim eiro
necessário dizer que não pretendo abrigar essa conotação, ao em pregar aqui a livro de im p o rtân cia,8 A Teoria dos Céus, tinha um subtítulo interessante: Ensaio
palavra. sobre a Composição e a Origem M ecânica do Universo, de acordo com os P rin­
cípios de N ewton. T rata-se de um a das m aiores contribuições já dadas à cosmo­
K ant acreditava no Ilum inism o; foi seu grande defensor. Estou consciente logia e à cosmogonia. Contém a prim eira form ulação não só do que conhecemos
de que este ponto de vista não é usual. Vejo K ant como o defensor do Ilum inism o, hoje como “Hipótese K ant-L aplace” ' sobre a origem do sistema solar, mas tam bém ,
em bora a ele se atrib u a mais com um ente a fundação da escola que o destruiu — a antecipando Jeans, a aplicação dessa idéia à “Via L áctea” (que Thom as W right in ­
Escola R om ântica de Fichte, Schelling e Hegel. Duas interpretações que, penso, são terp retara cinco anos antes como um sistema estrelar). Mas n ad a disso se com para
incom patíveis. com a identificação das nebulosas como outras tantas “vias lácteas” — sistemas de
estrelas m uito distantes, sem elhantes ao nosso.
Fichte (e mais tarde Hegel) procuraram apropriar-se de K ant como fu n ­ Conform e K ant explica em um a das suas cartas,5 foi o problem a cosmo
dador da sua Escola. Mas K ant viveu o bastante p ara recusar as propostas persis­ lógico que o levou à sua teoria do conhecim ento, e à Crítica da Razão Pura. Ele st
tentes de Fichte, que se proclam ava seu sucessor e herdeiro. Em Declaração Pública preocupava com o difícil problem a (que todos os cosmófpgos precisam enfrentar)
a Respeito de Fichte6 7, trab alh o pouco conhecido, K ant escreveu: “Que Deus nos do caráter finito ou infinito do universo, tanto com respeito ao espaço quanto ao
proteja dos am igos... Existem “am igos” pérfidos e fraudulentos que planejam nossa tem po. No concernente ao espaço, temos hoje um a solução fascinante, proposta
ru ín a, ao mesmo tem po em que pronunciam palavras de boa v ontade.” Foi só por Einstein: um m undo que ao mesmo tem po é finito e nao tem limites. Solução
depois da m orte de K ant, quando o filósofo não podia mais protestar, que aquele que corta o “nó gordio” de K ant, graças ao em prego de meios m ais poderosos do
cidadão rio m undo foi utilizado a serviço da Escola R om ântica nacionalista, a des­ que os existentes na época do filósofo. No relativo ao tem po, não surgiu até agora
peito de todas as suas advertências contra o rom antism o, o entusiasm o sentim ental, qualquer solução promissora para as dificuldades apresentadas por K ant.
a Schwärmerei. Mas, vejamos como o próprio K ant descreve o Ilum inism o:7
3. A ilCrítica ” e o Problema Cosmológico
“O Ilum inism o é a em ancipação do hom em de um estado de tutela que ele
K ant nos d iz10 que chegou ao problem a central da Crítica ao considerar se
im põe a si m esm o... da incapacidade de usar sua própria inteligência sem um a
o universo tivera um princípio no tem po ou não. Verificou, então, que podia fo r­
m ular provas aparentem ente válidas para as duas hipóteses. Essas duas provas11

5 — De fato, o O. E. D. define (a ênfase é minha): “Enlightenment ... 2. Termo empregado às vezes 8 — Publicado em 1755. O título principal poderia ser assim traduzido: História Natural Geral (dos
(seguindo o alemão Aufklãrung, Aufklàrerei) para designar o espírito e os objetivos dos filósofos fran­ Céus) e Teoria dos Céus — o que indica que o trabalho é uma contribuição à teoria da evolução dos sis­
ceses do século dezoito, ou outros, pretendendo associá-los à acusação implícita de intelectualismo temas estrelares.
superficial e pedante, desprezo irrazoável pela autoridade e a tradição, etc.” O O. E. D. não explica que 9 — Carta a C. Garve, 21 de setembro de 1798: “Meu ponto de partida não foi uma investigação da
o alemão “aufklarung” é uma tradução do francês “éclaircissement”, e que não tem a mesma conotação; existência de Deus, mas a antinomia da razão pura: “O mundo tem um princípio; o mundo não tem um
também não explica que “Aufklàrerei” (ou “Aufklãricht' ) é um horrível neologismo inventado (e em­ princípio”, etc., até a quarta...” (Neste ponto Kant aparentemente confundiu a terceira antinomia com
pregado exclusivamente) pelos românticos — os inimigos do “Iluminismo”. O dicionário cita J. H. a quarta). “Essas antinomias pela primeira vez me despertaram do sono dogmático, conduzindo-me à
Stirling, The Secret o f Hegel, 1865, e Caird, The Philosophy o f Kant, 1889, para exemplificar o uso do crítica da razão... para resolver o escândalo da sua aparente contradição intrínseca”.
termo nesse sentido particular.
10 — Vide a nota seguinte, e também a correspondência de Leibniz com Clarke (Philos. Bibl., edit. por
6 — A data dessa declaração é 1799. Cf. WWC (Immanuel Kant, Werke, ed. Ernst Cassier, et ai), vol. Kirchmann, 107, págs. 134. 147, 188), bem como Reflexionen zur Kritischen Philosophie, de Kant,
VIII, pág. 515; vide também Open Society, nota 58, cap. 12 (4.a edição, vol. II, pág. 313, 1962). edit. por B. Erdmann, esp. n.° 4.
7 — Que é o Iluminismo (1785); WWC, IV, 169.
11 — Vide Crítica da Razão Pura, 2.a ed., 454.
206 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES CRÍTICA E COSMOLOGIA DE KANT 207

são interessantes; é preciso atenção p ara seguir o raciocínio, m as elas não são lo n ­ da esco lh a,13 que levava as pessoas a crer que ele fosse um idealista no sentido de
gas, nem difíceis de entender. quem nega a realidade das coisas físicas, entendendo-as como simples idéias. K ant
se apressou a explicar que tinha negado apenas que o espaço e o tem po fossem reais
A p rim eira prova com eça com a análise da idéia de um a seqüência infinita e empíricos — no mesmo sentido em que dizemos que há coisas e eventos reais e
de anos (ou dias, ou q ualquer outro intervalo de tem po igual e finito) — seqüência em píricos. Mas seus protestos foram em vão: o estilo difícil com que escrevia selou
que co n tin u ará p a ra sem pre, sem chegar a um fim: não pode chegar a um fim p o r­ seu destino de “pai do idealismo alem ão”.
que u m a infinidade de anos “com pleta” é um a contradição. K ant argum enta sim ­
plesm ente que o m undo deve ter tido um princípio no tem po — se não, em q u a l­ Acho que já é tem po de esclarecer esse ponto. K ant sem pre insistiu em que
quer m om ento, já teria passado um núm ero infinito de anos, o que é impossível. as coisas físicas, situadas no espaço e no tem po, são reais. Q uanto às espe­
Conclui assim a p rim eira prova. culações metafísicas obscuras e desvairadas dos idealistas alem ães, vale lem brar que
o próprio título da Crítica foi escolhido p ara anunciar um ataque crítico contra a
A segunda prova começa com a análise da idéia do tem po “vazio” — o te m ­ sua argum entação especulativa. A Crítica se dirige à razão p u ra: critica e ataca
po antes de que houvesse o m undo: quando não havia n ada, nenhum intervalo de todo raciocínio a respeito do m undo que é “p u ro ” , no sentido de não estar asso­
tem po seria distinguível de qualquer outro pela sua relação tem poral com coisas ou ciado à experiência dos sentidos. K ant atacou a razão p u ra dem onstrando que o
eventos (já que essas coisas e eventos eram inexistentes). Contudo, o últim o in te r­ raciocínio puro sobre o m undo leva inevitavelmente a antinom ias. Estim ulado por
valo do tem po “vazio” — im ediatam ente antes do princípio do m undo — diferiria H um e, K ant escreveu a Crítica p ara d em o n strar14 que os limites da nossa expe­
de todos os outros pela sua proxim idade de um evento — o começo do m undo. riência sensorial tam bém são limites p ara o raciocínio apropriado a respeito do
H averia aí, po rtan to , um a outra contradição em term os. Nesta segunda prova, m undo.
K ant arg u m en ta sim plesm ente que o m undo não pode ter um princípio no tem po
porque de o u tra form a haveria um intervalo de tem po — im ediatam ente antes do 5. A “Revolução de Copérnico” de Kant.
início do m undo — “vazio” e, ao mesmo tem po, caracterizado pela sua relação
tem poral com um acontecim ento — o que é impossível. A crença de K ant na sua teoria do espaço e do tem po como um quadro
referencial intuitivo se confirm ou quando o filósofo descobriu que ela podia so­
Tem os aí um choque entre duas provas — o que K ant cham ou de “a n ti­ lucionar outro problem a: a validade da teoria new toniana, em cuja veracidade a b ­
no m ia” . N ão m encionarei aqui as outras antinom ias form uladas por K ant, como as soluta e inquestionável cria,15* como todos os físicos da sua época. K ant considerava
que dizem respeito aos limites espaciais do universo. inconcebível que essa teoria, de precisa form ulação m atem ática, resultasse simples­
m ente de observações acum uladas. Mas, que outra coisa poderia fundam entá-la?
4. O Espaço e o Tem po K ant abordou o problem a, exam inando em prim eiro lugar o status da geom etria.
Observou que a geom etria euclidiana não se baseia em observações, mas na nossa
Que lição podem os extrair dessas antinom ias espantosas? Kan chegou à co n ­ intuição das relações espaciais. A posição da ciência new toniana é sem elhante: em ­
clusão12 de que nossas idéias de espaço e tem po não podem ser aplicadas ao bora confirm ada por observações, não resulta dessas observações, mas do nosso m odo
universo como um todo. Podemos n aturalm ente aplicá-las às coisas e aos eventos de pensar, das tentativas que fazemos para organizar os dados sensoriais, com ­
físicos ordinários. Mas o espaço e o tem po, em si mesmos, não são coisas ou eyêntos preendê-los e assimilá-los intelectualm ente. É o nosso próprio intelecto, a orga
— são mais sutis, e não podem ser observados. Constituem um a espécie de m oldura
p ara as coisas e os eventos — algo como um sistema de escaninhos, ou arquivo, útil
para a observação. O espaço e o tem po não são parte de nosso universo em pírico de 13 — Prolegomena (1783), Apêndice: “Espécime de um julgamento sobre a Crítica, An
coisas e acontecim entos; são parte do nosso equipam ento m ental, instrum entos tecipando seu Exame”. Vide também a Crítica, 2.a ed. (1787; a primeira edição foi publicada em
para a percepção do m undo. Seu uso apropriado, portanto, é como instrum entos 1781), págs. 274-9, “A Refutação do Idealismo”, e a última nota ao Prefácio de Crítica da Razão
de observação: ao observar qualquer acontecim ento, via de regra, nós o localizamos, Prática.
im ediata e intuitivam ente, no espaço e no tem po. Por isso o espaço e o tem po 14 — Vide a carta de Kant a M. Herz, de 21 de fevereiro de 1772, na qual refere o título tentativo do
podem ser descritos como um quadro referencial que não se baseia na experiência, que seria a primeira Crítica: “Limites da Experiência Sensorial e da Razão”. Vide também a Crítica da
Razão Pura (2.a edição), pág. 738 (a ênfase é minha): “Não há necessidade de uma crítica da razão no
mas que é usado intuitivam ente na experiência, e que pode ser aplicado ad e­ que diz respeito ao seu uso empírico; de fato, seus princípios são submetidos continuamente ao teste da
quadam ente à experiência. É por isso que encontram os dificuldades se aplicamos experiência. Da mesma forma, essa crítica não é necessária no campo da matemática, cujas concepções
de m odo im próprio as idéias de espaço e tem po, usando-as num cam po que tran s­ devem ser formuladas de modo imediato e intuitivo (no que respeita o espaço e o tempo)... Todavia,
cende a experiência possível — como no caso das duas provas sobre o universo num campo em que a razão é forçada pela experiência sensorial ou pela intuição pura a seguir um
como um todo. caminho visível — quer dizer, no campo da sua utilização transcendental — ... é muito necessário dis­
cipliná-la, de modo a moderar sua tendência para ultrapassar os limites estreitos da experiência pos­
sível...”
K ant deu à concepção que descrevi acim a um a denom inação feia e d u ­ 15 — Vide, por exemplo, os Fundamentos Metafísicos da Ciência Natural, de Kant, obra de 1786 que
plam ente equívoca — “Idealismo T ran scen d en tal.” O filósofo se arrependeu logo contém uma demonstração a priori da mecânica newtoniana. Vide também a parte final do penúltimo
capítulo da Crítica da Razão Prática. Em outra oportunidade (cap. 2 deste volume) procurei demons­
trar que algumas das maiores dificuldades que encontramos em Kant são devidas à premissa tácita de
12 — Op. ctt., 518. “A Doutrina do Idealismo Transcendental como Chave para a Solução da Dialética que a ciência newtoniana é verdadeira (isto é, é episteme); com a percepção de que não é assim, de­
Cosmológica.” saparece um dos problemas mais fundamentais da Crítica. Vide também o cap. 8 deste livro.
208 CONJECTURAS E REFUTAÇÕES
CRÍTICA E COSMOLOGIA DE KANT 209

nização do nosso “sistema digestivo” m ental que é responsável pelas teorias que
6. A doutrina da autonom ia
enunciam os — não os dados sensoriais de que dispomos. A natureza conform e a
conhecem os, com sua ordem e suas leis, é p ortanto em larga m edida o resultado
das atividades de assimilação e de ordenação da nossa m ente. N a form a m arcante Passarei agora do K ant cosmólogo, filósofo do conhecim ento e da ciência
como o próprio K ant enunciou este ponto de vista 16 “Nosso intelecto não deriva p a ra o K ant m oralista. N ão sei se já se percebeu que a idéia fundam ental da ética
suas leis da natureza, m as im põe leis à n atu reza” . kan tian a corresponde a o u tra “revolução de Copérnico” análoga à que descrevi:
K ant vê o hom em como a fonte da m oralidade, da m esm a form a como o considera
Essa fórm ula sintetiza um a idéia que K ant batizou, com orgulho, de sua a fonte da lei n atu ral. R estitui-lhe, assim, a posição central tan to no universo
“revolução de C opérnico” . N a concepção de K ant, Copérnico, 17 ao perceber que m oral como no físico. Com efeito, K ant hum aniza a ética, como hum aniza a ciên­
cia.
a teoria dos céus em m ovim ento não levava a nenhum progresso, resolveu o impasse
virando a m esa, por assim dizer: adm itiu que não era os céus que giravam em torno
do observador imóvel, mas que, ao contrário, o observador se deslocava, enquanto A revolução prom ovida por K ant no cam po da é tic a 19 está contida na
o céu perm anecia fixo. Da m esm a form a, diz K ant, deve ser resolvido o problem a doutrina da autonom ia — o p rin c íp i^ d e que não podem os aceitar a ordem de um a
do conhecim ento científico — como é possível haver um a teoria verdadeira, como a autoridade, por mais elevada que seja, como base últim a da ética. Sempre que
new toniana, e como podem os chegar a conhecê-la. Devemos rejeitar a noção de defrontam os um a ordem , é nossa responsabilidade ju lg ar se ela é m oral ou não. A
que somos, m eros observadores passivos, à espera de que a natureza nos exiba sua autoridade talvez tenha o poder de nos obrigar ao cum prim ento do que ordena;
regularid ad e. Precisamos ad o tar a concepção de que ao assimilar os dados sen­ podem os não ter condições de resisti-la. C ontudo, a não ser que sejamos im pedidos
soriais de fato im pom os a eles a ordem e as leis do intelecto. O cosmos traz a m arca fisicamente de fazer um a escolha, a responsabilidade será nossa. A decisão de
da nossa m ente. obedecer a um a ordem , de aceitar um a autoridade, é um a decisão que nos perten-

<Ao acen tu ar a função do observador, do investigador, do form ulador de teo ­


rias, K ant deixou um a forte impressão não só na filosofia, mas, tam bém , na física K ant leva sua revolução ao cam po da religião. Vejamos essa passagem
e n a cosmologia. H á um “clim a” de reflexão, originado em K ant, fora do qual as no táv el:20
teorias de Einstein e de Bohr não são concebíveis; neste sentido, pode-se dizer que
E ddington é m ais kantiano, sob certos aspectos, do que o próprio K ant. Mesmo os “Por mais que m inhas palavras te espantem , não deves condenar-m e por
que (como eu) não aceitam todas as idéias de K ant acatam seu ponto de vista de dizer que cada hom em cria o seu Deus. Do ponto de vista m oral ... é preciso criar
que o experim entador não deve ag u ard ar que a natureza decida revelar seus se­ Deus p ara poder adorá-lo como nosso criador. Q ualquer que seja a fo rm a... em
gredos — é preciso q u estio n á-la,18 propor-lhe indagações à luz das nossas dúvidas, que tomemos conhecim ento da divindade; m esm o... se Deus se revelasse d ire ta -
conjecturas, teorias, idéias e inspirações. Eis aí, na m inha opinião, um a m aravi­ m ente a nós... precisaríam os decidir se nos é perm itido (pela nossa consciência)
lhosa descoberta filosófica, que torn a possível ver a ciência — teórica ou expe­ crer nele, e adorá-lo”.
rim ental — como um a criação h u m an a; ver a história da ciência como parte da
história das idéias, no mesmo nível da história da arte e da literatu ra. A teoria ética de K ant não se lim ita à afirm ativa de que a consciência do
hom em representa sua autoridade m oral. Procura dizer-nos tam bém o que nossa
A versão k an tian a da “revolução de C opérnico” tem um segundo sentido, consciência pode exigir de nós. Sobre este ponto — a lei m oral —, o filósofo
ainda m ais interessante — sentido que talvez indique um a am bivalência na atitude apresenta várias form ulações. Por exem plo:2123 “E preciso considerar sem pre cada
de K ant. Com efeito, a “revolução de C opérnico” feita por K ant soluciona um hom em como um fim em si mesmo, nunca o utilizando apenas como um meio para
problem a hum an o originado na revolução de Copérnico, pelo afastam ento do os nossos fins.” O espírito da ética de K ant poderia ser sum arizado com essas
hom em d a posição central que ocupava no universo físico. K ant m ostra não só que palavras: ter a coragem de ser livre e respeitar a liberdade dos outros.
nossa posição no universo físico é irrelevante, m as, tam bém , que, num certo sen­
tido, pode-se continuar dizendo que o universo gira à nossa volta — de fato, somos Gom base nessa ética, Kant elaborou sua teoria do Estado, 22 de grande im ­
nós que criam os, pelo menos em p arte, a ordem nele encontrada; nós próprios portância, e do direito internacional — propôs um a liga de nações 23 ou federação
produzim os o conhecim ento que temos do universo. Somos descobridores — e a a r ­ que conduziria à proclam ação e à m anutenção da paz etern a sobre a terra.
te da descoberta é um ato de criação.

19 — Vide Grundlegung zur Met. d. Sitten, 2.a edição (WWC, pág. 291): “A Autonomia da Vontade
como o Princípio Mais Elevado da Moral”; e também a 3.3 seção (WWC, pág. 305).

16 — Vide Prolegomena, fim da seção 37. A nota de Kant relativa a Crusius é interessante, porque 20 — Texto baseado em tradução livre de passagem contida em nota do Capítulo Quarto, Parte II, § 1
de A Religião Dentro dos Limites da Razão Pura (WWC, vi, pág. 318).
sugere que o filósofo suspeitava a analogia entre o que chamava de sua “revolução de Copérnico” e o
princípio ético da autonomia que havia enunciado. 21 — Grundlegung, 2.3 seção (WWC, iv, pág. 287).
17 — Meu texto é uma tradução livre da Crítica da Razão Pura.