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Rev. Nº 12 de maio de 2011

ALD O MUS A CC HI O

A desigualdade no Brasil
Em 2010, o Brasil era o palco central da economia global. O país sediaria a Copa do Mundo de
futebol de 2014, os Jogos Olímpicos de 2016, e desde 2003 pertence ao grupo de mercados emergentes
de grande desempenho que Goldman Sachs chamou de "BRIC" (Brasil, Rússia, Índia e China).
Goldam previra que o BRIC seria o maior bloco econômico do mundo até 2050. Nos últimos vinte
anos, um rápido crescimento ajudou a tirar milhões de pessoa da pobreza na Índia e na China. A
questão era se o crescimento acelerado atenuaria a pobreza no Brasil, e se o fizesse, a desigualdade se
agravaria?

Em 2010, após oito anos no poder, o presidente Luis Inácio da Silva, Lula, terminou seu mandato
após ter melhorado a estabilidade da macroeconomia no país e reduzido significativamente a
pobreza e a desigualdade de renda. Os programas do Lula de transferência de renda à população
menos favorecida diminuíram rapidamente o número de pobres que viviam abaixo da linha da
miséria e trouxe o coeficiente de Gini de desigualdade de renda ao seu nível mais baixo na história
recente. Além disso, a rápida melhoria nas condições macroeconômicas, inflação e taxas de juros mais
baixas e o crescimento acelerado impulsionaram o mercado de trabalho, o que levou à criação de
novos empregos formais e permitiu que quase 30 milhões de pessoas ascendessem à classe média
(vide Anexo 2).

Não ficou claro, no entanto, se os negócios poderiam continuar lidando com as consequências da
desigualdade. Havia reclamações frequentes de empresas quanto a violência nas ruas, crimes e
corrupção generalizada. Ademais, quase metade dos trabalhos brasileiros operava no setor informal e
o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) estava insatisfeito com o estado da
distribuição de terras e queria uma reforma agrária.

A desigualdade era um problema sério no Brasil? Ela prejudicava o desenvolvimento de negócios


ou proporcionava oportunidades para novos negócios que operavam na base da pirâmide?

Em 2011, o Brasil ainda era um dos países mais desiguais do mundo, com poucas opções de
mobilidade social. Apresentava um coeficiente de Gini de 0,56: o pior da América do Sul depois da
Colômbia e um dos piores do mundo (vide Anexo 9). No Brasil, os 10% mais ricos ganhavam 40% da
renda total, enquanto que os 50% mais pobres ganhavam cerca de 20%. Além disso, o Brasil tinha
uma das mais concentradas distribuições de terras. De acordo com algumas estimativas, 1% dos
fazendeiros controlava 46% de todas as terras disponíveis do país. Para estudiosos, a desigualdade
brasileira era uma consequência de longo prazo das estratégias de colonização adotadas pelos
portugueses.1

a O Coeficiente de Gini é uma medida padrão de desigualdade de renda. Ele varia de 0 a 1, onde 0 representa uma igualdade
perfeita e 1 representa uma completa desigualdade (i.e. aqueles no topo do percentual recebem toda a renda).

Este caso é uma versão resumida do HBS nº 707-031 "Brazil Under Lulda: Off the Yellow BRIC Road". Casos HBS são desenvolvidos somente
como base para discussão em aula. Os casos não têm a intenção de servir como endosso, fonte primária de dados, ou ilustrações de gestão
eficiente ou ineficiente.

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711-086 A Desigualdade no Brasil

História colonial da desigualdade


O explorador português, Pedro Álvares Cabral, chegou à costa do que agora é o estado brasileiro
da Bahia em abril de 1500 depois que sua expedição se perdeu no oceano enquanto tentava chegar à
Índia navegando ao longo do Cabo da Boa Esperança. Após sua chegada, os portugueses criaram
pequenos postos de troca na costa, até que a ameaça de uma invasão Holandesa os forçaram a se
estabelecer em colônias maiores. Os portugueses concederam grandes lotes de terra a nobres, que, na
época, eram encarregados de estabelecê-los e desenvolvê-los utilizando a força de trabalho indígena
disponível. Inicialmente, os colonizadores focaram na exportação das famosas árvores pau-brasil (de
onde veio o nome da colônia), Logo os colonizadores perceberam que exportar açúcar poderia ser
mais lucrativo se escravizassem a população indígena para trabalhar nos canaviais e engenhos que
estabeleceram ao longo da costa nordeste. Os colonizadores portugueses não apenas trouxeram
consigo técnicas modernas de produção de açúcar como também uma gama de doenças para as quais
os índios não possuíam anticorpos. Tais doenças (ex.: varíola) dizimaram a população indígena,
forçando os colonizadores a importar escravos africanos para trabalhar na indústria canavieira.2 A
mortalidade dos colonizadores também era alta devido a doenças tropicais, tais como malária e febre
amarela.

De acordo com pesquisas recentes, padrões iniciais de colonização européia no Novo Mundo
produziram um ou dois tipos de configuração institucional. Em áreas com clima temperado e baixa
mortalidade de colonizadores, os europeus chegaram em massa e estabeleceram instituições que
garantiram igualdade econômica e de direitos políticos (ex. no norte dos Estados Unidos e no
Canadá). Por outro lado, em áreas adversas de doenças e alta mortalidade, como o Brasil, os europeus
estabeleceram instituições que beneficiaram os colonizadores em detrimento dos índios e escravos
africanos. Nessas colônias, apenas um pequeno grupo de elite tinha direito a voto e participava do
governo. Este sistema criou uma distribuição desigual de terra, bens e direitos políticos. Quando as
colônias do segundo tipo se tornaram países independentes, elas continuaram a se apoiar em
instituições coloniais herdadas e acabaram com um menor investimento em bens públicos (ex.
educação e infraestrutura), taxas de crescimento mais baixas, e uma desigualdade maior do que nos
países cujas heranças coloniais proporcionaram configurações institucionais mais igualitárias.3

Principais instrumentos políticos para combater a pobreza


Desde a década de 1990, o governo brasileiro seguiu uma estratégia para reduzir a pobreza
baseada na transferência de renda. Por exemplo, o Presidente Lula utilizou duas políticas para
reduzir a pobreza. Ele instituiu um programa de transferência de renda e um rápido aumento do
salário mínimo nacional. Durante seu regime, o salário mínimo aumentou de menos de $80 (RS240)
mensais em 2003 para mais de S292 (R$510) em 2010. Essa política melhorou o poder de compra de
famílias pobres e aumentou os encargos do programa de previdência social para o governo. Além
disso, a mudança nos salários não foi acompanha de um aumento da produtividade.

Lula estendeu a cobertura e os valores distribuídos para os três programas de transferência de


renda iniciados sob a administração do Presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-1998, 1999-
2002). Em primeiro lugar, ele continuou com o programa de aposentadoria não contributiva, que
fornecia uma renda vitalícia para trabalhos idosos rurais e informais. Em segundo lugar, também
continuou com o programa conhecido como Benefício de Prestação Continuada, que transferia mais
de $150 mensais para famílias cujo principal provedor possuía alguma deficiência física ou tinha mais
de 65 anos sem aposentadoria. Em terceiro lugar, expandiu o programa Bolsa Escola de transferência
de renda condicional e o renomeou para Bolsa Família.

Por volta de 2011, o Bolsa Família chegou a 12 milhões de famílias (cerca de 45 milhões de
pessoas) a um custo total para o governo de menos de 1% do PIB. Sob este programa, o governo
forneceu a famílias vivendo na linha da miséria, que ganhavam menos de $42 por mês, um valor fixo
de $40 por mês, mais uma
2

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A Desigualdade no Brasil 711-086

bolsa de $12 por criança com menos de 16 anos de idade. O governo deu apenas 12% mensais por criança
para famílias que foram consideradas apenas pobres (em contraste com miseráveis). Famílias pobres eram
aquelas com uma renda mensal de $43 a $83. Em ambos os casos, as famílias também podiam conseguir
$19,4 por mês para cada adolescente de 16 e 17 anos que frequentassem a escola. O governo limitou as
transferências totais para
$118 por mês, por família. Em troca de todas essas transferências, os beneficiários do Bolsa Família tinham
que manter seus filhos na escola e se comprometer a receber visitas médicas e vacinação regulares em casa.

A grande queda na desigualdade e pobreza, no entanto, ocorreu em 2001. De fato, o Coeficiente de Gini
de desigualdade de renda caiu para seu nível mais baixo da história em 2005 (vide Anexo 3). De acordo
com Marcelo Medeiros, pesquisador do International Poverty Center of the United Nations Development
Program in Brazil (Centro Internacional de Desigualdade Social do Programa das Nações Unidades para o
Desenvolvimento no Brasil), "Muito da rápida queda na desigualdade foi explicada por um rápido
aumento na renda dos menos favorecidos e uma redução na renda dos brasileiros mais ricos." A pobreza
também caiu rapidamente em 2001. Para Medeiros, "A maior parte do rápido declínio na pobreza foi
explicado pelo aumento na cobertura do Bolsa Família e nos Benefícios do Programa de Serviço
Continuado durante o primeiro mandato de Lula [vide Anexo 4]."

Para alguns especialistas em desenvolvimento, uma distribuição desigual de renda não era um sinal de
fraqueza econômica. No final da década de 1950, o Laureado com o Nobel de Economia Simon Kuznets
argumentou que um aumento na desigualdade era uma consequência natural da industrialização e do
movimento de pessoas de meios rurais para urbanos. Por exemplo, a desigualdade entre moradores rurais
e urbanos aumentaria, pois empregos urbanos em fábricas e serviços tinham um maior crescimento de
produtividade do que os na agricultura. De acordo com Kuznets, no entanto, era esperado que a
desigualdade caísse após certo nível de desenvolvimento, em parte devido a intervenção do governo na
forma de tributações de caráter redistributivo, e em parte devido à mobilidade social proporcionada por
oportunidades de empreendimentos nas cidades. Ainda assim, em países em desenvolvimento, as
oportunidades de mobilidade social eram mais escassas, e não era claro se a democracia estava estabelecida
o suficiente para promover uma tributação redistributiva.4 Kuznets, no entanto, também concluiu que para
países em desenvolvimento era importante existir alguma desigualdade. Ele argumentou que cidadãos
mais ricos tendiam a economizar mais do que os pobres. Descobriu que nos Estados Unidos os 5% da
população com maior renda representavam 75% das poupanças totais.5 Dados recentes sobre a
desigualdade e poupanças no Brasil mostraram, no entanto, um padrão oposto.

A Vida na Base da Pirâmide: Negócios, crime e desigualdade


Desigualdade e Crime
Embora a teoria econômica reservasse um lugar para a desigualdade no processo de desenvolvimento
econômico, para muitos brasileiros reduzir a desigualdade era uma prioridade em seu cotidiano. Por
exemplo, pesquisas de economistas brasileiros relacionavam diretamente a desigualdade ao crime. O
Laureado com o Nobel de Economia Gary Becker defendia a ideia de que no Brasil, como em outros países,
cidadãos cometiam crimes quando o lucro esperado de atividades ilegais era mais alto do que o lucro
esperado do mercado de trabalho. Seguindo as ideias de Becker, um grupo de economistas brasileiros
mostrou que um nível mais alto de desigualdade levava a crimes mais violentos. De acordo com seu
estudo, brasileiros de baixa renda tinham quase nada a perder quando cometiam crimes. Além disso,
cidadãos de baixa renda se tornavam mais propensos a cometer crimes violentos e a procurar atividades
ilegais devido a frustrações, ao perceber que os padrões de consumo de brasileiros ricos exibidos na TV e
em revistas eram inalcançáveis, mesmo se trabalhassem duro como cidadãos honestos.6

O crime estava disseminado e exercia uma grande influência nos negócios. A taxa anual de homicídio
de 27 a cada 100.000 habitantes no Brasil era maior do que a dos Estados Unidos (5 por ano) e de qualquer
país europeu,

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ultrapassada apenas pela Colômbia e, mais recentemente, o México na América Latina. Para investidores,
crime e violência adicionavam um elemento de incerteza à sua avaliação de riscos do Brasil. Por exemplo,
analistas do mercado rebaixaram a classificação a curto prazo do Brasil quando uma onda de violência de
crimes organizados paralisou a cidade de São Paulo no inverno de 2006. Os analistas argumentaram que
"a desigualdade que dá origem às favelas, que, por sua vez, são altamente controladas por traficantes
fortemente armados, é uma grande fonte de risco político, social e econômico."7

A prevalência de sequestros também dificultava a vida de executivos e aumentou o custo total com
segurança para empresas. Executivos brasileiros se tornaram compradores regulares de SUVs à prova de
bala para evitar sequestros e assaltos à mão armada. Insegurança e engarrafamentos tornaram a utilização
de helicópteros essencial para executivos de alto escalão em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
Empresas como HeliSolutions ofereceram um plano acessível de posse parcial para helicópteros de
passeio com uma entrada de US$ 52.000, um pagamento mensal de US$ 1.000 e um custo por hora de voo
de apenas US$ 250. De fato, em 2002, a cidade de São Paulo tinha 220 helipontos, mais do que Nova York,
Tóquio, Los Angeles, Frankfurt, Londres, Roma e Chicago juntas.8

Empresas na Base da Pirâmide


As empresas no Brasil tiveram que adaptar suas estratégias para lidar com a desigualdade. Ernesto
Silva, presidente da FEMSA Mercosul, a maior engarrafadora e distribuidora da Coca-Cola na América do
Sul, baseou sua estratégia de crescimento na "multisegmentação" do mercado:

Quando chegamos ao Brasil, o design da composição da embalagem da Coca-Cola seguia


predominantemente os padrões do consumidor estadunidense, mas o poder de aquisição e as
condições sociais no Brasil eram muito diferentes. A FEMSA assumiu alguns riscos e lançou novos
tamanhos de recipiente em garrafa de vidro reutilizáveis de 6,5 onças e 1 litro. A estratégia compensou
e nós atraímos consumidores das classes sociais mais baixas para as quais uma embalagem mais
acessível fazia a diferença.9

Do mesmo modo, a revendedora Magazine Luiza baseou sua estratégia na venda de seus produtos a
crédito para consumidores de baixa renda. Por exemplo, clientes com empregos no setor informal
precisavam de mais avaliações de crédito, e alguns deles não possuíam uma renda estável para utilizar na
análise padrão de classificação de crédito. Luiza Helena, CEO da empresa, declarou que alguns de seus
clientes "possuem dificuldade em ler manuais de produtos ou preencher formulários de solicitação de
crédito."10

As Casas Bahia, uma grande cadeia de varejo, enfrentou problemas semelhantes ao tentar vender
utensílios no crédito para clientes de baixa renda. De acordo com Roberto Macedo, um economista
formado por Harvard, "O sucesso das Casas Bahia se dá por ela entregar utensílios em bairros pobres e
favelas para ver onde seus clientes moram. Após descobrir onde o cliente mora, fica mais fácil recuperar a
posse do produto em caso de inadimplência por parte do cliente."11

A ABN AMRO Real, a subsidiária brasileira da empresa holandesa ABN AMRO Holdings N.V.,
enfrentou desafios semelhantes quando decidiu expandir sua iniciativa de microcrédito para as favelas de
São Paulo. A empresa percebeu que os moradores das favelas não estavam acostumados a lidar com
bancos. Gilberto Lopes Martins, proprietário de uma locadora na favela de Heliópolis, declarou que "foi
uma surpresa quando a [ABN AMRO] Real trouxe gente para cá. Antes disso, as únicas pessoas que os
bancos tinham trazido. . . vieram para cobrar dívidas." De fato, o banco teve que curvar seus critérios de
classificação de crédito para emprestar a mutuários pobres sem histórico de crédito e uma renda familiar
combinada de menos de US$ 300 por mês.12

Em uma sociedade tão desigual, oportunidades de mobilidade social eram limitadas. Brasileiros de
baixa renda, mesmo com boas ideias, eram excluídos de mercados de crédito por não possuírem bens para
oferecer como garantia. Para muitos brasileiros, a única opção para uma mobilidade social parecia ser
seguir carreira como

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jogador de futebol profissional. Jogadores de futebol profissional recebiam salários generosos e
automaticamente se tornavam superstars queridos. O goleiro do Real Madrid Roberto Carlos nasceu
numa plantação de café no interior de São Paulo, onde seus pais trabalharam recebendo menos do
que um salário mínimo. Seu único jeito de sair da pobreza foi se tornar jogador de futebol em São
Paulo e, mais tarde, na Itália e na Espanha. O jogador superstar do FC Barcelona, Ronaldinho, vivia
em relativa pobreza em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, até que seu irmão se tornou jogador de
futebol profissional. A renda da família de Ronaldinho foi impulsionada novamente quando ele foi
contratado na Europa. Por volta de 2006, ele possuía uma renda acima de US$ 30 milhões.13

Desigualdade e Educação
Talvez a melhor opção de mobilidade social para os pobres fosse frequentar a escola. Lula e o
Presidente Cardoso estavam cientes das dificuldades de se conseguir mobilidade social e tentaram
facilitá-la por meio de melhorias no sistema educacional. Até 1980, os brasileiros tinham em média
apenas três anos de escolaridade.14 Na década de 1960, 50% dos brasileiros com mais de 15 anos não
possuíam nenhuma escolaridade. Até mesmo no fim da década de 1990, 16% dos brasileiros nunca
tinham ido à escola, e 40% da população adulta havia completado apenas o ensino fundamental.

De acordo com o antigo Ministro da Educação Paulo Renato de Souza, "Percebemos que o mundo
mudou" e "importar tecnologias requeria trabalhadores qualificados. É por isso que mudamos a
estratégia para a educação." O programa Bolsa Escola (renomeado para Bolsa Família pelo governo
de Lula) forneceu incentivos para famílias manterem seus filhos na escola. Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF) transferiu
fundos para municípios que fizeram crescer o número de matrículas no ensino fundamental. No
governo de Lula, o FUNDEF foi reformado para incluir transferências para financiar também o
ensino superior para brasileiros de baixa renda. O resultado foi um aumento no número de
matrículas em todos os níveis. Em 2005, o Brasil possuía uma porcentagem quase universal de
matrículas no ensino fundamental e secundário (vide Anexo 6).15

Gustavo Ioschpe, economista e especialista em educação, destacou que a política de educação da


administração de Lula focava muito na quantidade (i.e., taxas de matrícula. Para ele, o problema
principal do sistema educacional estava em sua má qualidade: "Uma qualidade baixa levou a altas
taxas de reprovação." Estudantes brasileiros de 15 anos recebiam uma das pontuações mais baixas
nos exames comparativos internacionais de PISA para matemática e ciências. O teste foi projetado
para avaliar a qualidade do ensino em escolas secundárias, mas de acordo com Paulo Renato de
Souza, "O Brasil obteve pontuações baixas pois muitos brasileiros de 15 anos avaliados ainda estavam
no ensino fundamental"16 (vide Anexo 7).

Para Ioschpe, o problema estava principalmente no ensino de escolas fundamentais e secundárias


pois " o Brasil possuía excelentes universidades públicas."17 A disparidade entre os diferentes níveis
de educação foi mantida pois o Brasil gastava desproporcionalmente mais com o ensino superior
(Anexo 6). De fato, algumas das universidades fundadas pelo estado no Sul e no Sudeste eram líderes
mundiais em engenharia e ciências. Essa excelência no ensino superior, no entanto, não se traduziu
em mobilidade social, pois a admissão em universidades públicas era dominada por estudantes ricos.
Em 2006, apenas 20% dos estudantes de universidades públicas vinham de famílias relativamente
pobres.18

Exportações agrícolas e o Movimento dos Sem-Teto (MST) Para muitas organizações de base, a
concentração de terra em latifundiários era vista como um grande obstáculo para o desenvolvimento
do Brasil. A maior parte dos produtos agrícolas era comumente cultivada em propriedades
mecanizadas de mais de 1.000 hectares pertencentes a uma única família. O Movimento dos Sem-Teto
(MST) era o principal defensor de um plano audacioso de redistribuição de terras. Para o MST, a
reforma agrária tinha o potencial de se tornar um "meio igualitário de distribuição de riquezas."19 De
acordo com Delwek Mateus, da

5
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presidência do MST em São Paulo, "havia dois problemas principais com o estado da agricultura no
Brasil. Em primeiro lugar, a distribuição de terra era altamente desigual, e latifundiários deixavam
grandes lotes de terra inativos. Em segundo lugar, a maior parte dos latifundiários estava adotando
tecnologias que geravam desemprego e faziam com que pequenos agricultores perdessem seus
negócios." O MST acreditava que sob o governo de Lula, movimentos sociais como o deles poderiam
ter um papel mais importante para incentivar reformas estruturais. Eles queriam uma "transformação
radical da estrutura da propriedade." Sua proposta era criar "cooperativas com apoio do governo
para facilitar a adoção de tecnologias sustentáveis." Mateus declarou que a questão não era
"redistribuir terras, mas sim mudar o modelo de desenvolvimento do país." Sob a administração de
Lula, o MST continuou com as invasões de terras para exercer pressão sobre o governo e para chamar
atenção para suas reivindicações.20

Críticos do MST insistiam que seu plano político não passava de uma proposta anacrônica de uma
"revolução socialista". Para esses críticos, a concentração de terra no Brasil era o produto natural da
urbanização; Eles argumentavam que grandes propriedades eram importantes no Brasil devido a sua
alta produtividade e economias de escala, que permitiam que a agricultura brasileira competisse com
os agricultores subsidiados nos Estados Unidos e na União Européia. Isso fez com que o Brasil se
tornasse o líder mundial em exportação de açúcar, soja, suco de laranja, frango e carne bovina. Em
adição, grandes propriedades tinham um rendimento de investimento 2,5 vezes maior do que de
propriedades com menos de 100 hectares (vide Anexo 8).

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Anexo 1 . Mapa do Brasil

Colômbia

Fonte: Escritor do caso.

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Nota: Classes sociais definidas de acordo com a renda doméstica mensal da seguinte forma: Classe E, R$0-705; classe D, R$ 705-1.126; classe C, R$ 1.126 -4.854; classe B, R$4.854-6.329.
constitui violação de direitos autorais.

Fonte: Criado pelo escritor do caso com dados de Alexandre Pizarro and Thomas Humpert, “Brazil Demographics Primer,” Bank of America-Merrill Lynch Country Overview, October 20, 2010.

Anexo 3 Desigualdade de renda no Brasil (Coeficiente de Gini), 1978-2005 Anexo 4 Taxa de pobreza (% da população), Brasil, 1992-2005

0,64 40%
0,634

0,62 0,623 0,623 35%


0,615 0,612 35%
0,602
0,604 0,596 0,599 0,599 0,6 0,598
0,6 0,594 32%
0,5985 0,593 0,591 0,60 0,593
0,589 0,588 0,587 0,592 0,587 30% 28,4% 28%
0,58 0,58 28,2%
26,7%
0,582 0,581 28,8% 29% 28,5% 27,6%
0,569 27,2%
0,56 0,568 25% 25%
Média histórica = 0,59
23%
0,54
20%

0,52
15%
1978
1979
1980
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
1988
1989
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005

1992

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005
Gini (Dados Domésticos do Brasil) Gini
Fonte: Adaptado de Sergei Soares, “Distribuição de Renda no Brasil de 1976 a 2004. Com ênfase Fonte: Adaptado de Fundação Getúlio Vargas, CPS, “Poverty, Inequality and Stability: The
no período entre 2001 e 2004,” Instituto Brasileiro de Pesquisa Econômica Aplicada Second Real.”
(IPEA), Brasília, 2006. Nota: Linha da pobreza definida como uma renda mensal de US$56 (R$121) por mês em 2006
na área metropolitana de São Paulo (PPC ajustado para outras partes do Brasil).
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Anexo 5 Distribuição de famílias que receberam Anexo 6 Estatísticas da educação em países selecionados, 2003

dinheiro do Bolsa Família, por região, em 2010.


% de matrícula Despesas por estudante (US$ PPC)
Primário Secundário
Porcentagem de educação educação Fundamental Secundária Superior
famílias recebendo
Chile 86 76 1.400 1.900 6.900
Bolsa Família
Argentina 100 81 1.600 2.300 5.600
Norte 24,6%
Brasil 97 75 900 1.100 13.600
Nordeste 35,9%
China n.a. 67 n.a. n.a. n.a.
Centro-oeste 5,4%
Índia 83 n.a. n.a. n.a. n.a.
Sudeste 10,3%
México 100 60 1.100 1.500 4.800
Sul 10,4%
Malásia n.a. n.a. 1.000 1.800 8.000
constitui violação de direitos autorais.

Fonte: Adaptado de Alexandre Pizarro e


Thomas Humpert, “Brazil Demographics Peru 100 69 n.a. n.a. n.a.
Primer,” Bank of America-Merrill Lynch Country Estados Unidos 99 86 6.600 8.100 19.200
Overview, October 20, 2010.
Japão n.a. n.a. 5.200 6.000 10.200

Fonte: Taxas de matrícula estimadas de UNESCO, World Education Indicators, 2003.


Despesas por estudante em US$ PPC de 2004, adaptado de Organization for
Economic Cooperation and Development, Education at a Glance, 2004.

Anexo 7 Pontuações dos testes comparativos do International Student Anexo 8 Rendimento em investimento de propriedades por tamanho, Brasil,
Assessment (PISA) para estudantes de 15 anos, 2009. 2006.

Número Médio Rendimento anual em


Ciências Matemática Área (em hectares) de trabalhadores Investimento
Pontuação média Pontuação média 5 3 4%
Coréia 522 547 16 3 5%
Brasil 394 370 10 a 50 3a5 9%
México 413 406 200 a 400 3a5 7%
Argentina 397 381 acima de 500 5 a 10 10%
Média OECD 500 498 acima de 1000 acima de 15 10%
Fonte: Adaptado de Organization for Economic Co-operation and Fonte: Adaptado do Ministério da Agricultura, publicado em “Só os
Development, PISA 2006, Science Competencies for Tomorrow’s latifúndios dão lucro,” Veja, 26 de abril de 2006.
World, 2007, disponível em www.oecd.org, acesso em 19 de
agosto de 2009.
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Este documento é autorizado para uso com fins educacionais somente por Roberto Sena Filho, Universidade Estácio de Sá até junho de 2015. A cópia ou publicação Anexo 9 Indicadores Comparativos das Condições de Negócios e da Economia em Países do BRIC, 2006.

Painel A: Indicadores Econômicos e de Desenvolvimento, Países do BRIC


Países do BRIC
Brasil Rússia Índia China
PNB per capita 7.940 9.680 3.120 5.890
Estimativa da economia informal (% PNB) 39,8 46,1 23,1 13,1
População (milhões) 186,4 143,2 1.094,6 1.304,5
Taxa de economia doméstica (estimativa para 2006 % PIB) 22% 32% 27% 52%
Índice de Desenvolvimento Humano (2003) 0,792 0,795 0,604 0,755
Coeficiente de Gini para desigualdade de renda 0,593 0,456 0,325 0,447
Corrupção (Ranking mundial de Transparência Internacional) 72 143 72 72
Taxas de câmbio
Taxa de câmbio (moeda local por US$, final de 2006) 2,3 27,5 46,0 7,8
constitui violação de direitos autorais.

Taxa de câmbio efetiva de Real (baseada em CPI)b 75,5 103,8 105,3 94,6
Taxa de câmbio efetiva de Real (baseada em ULC)b 88,8 119,6 92,5 158,9
Taxas de juros
Taxa de Juros sobre Empréstimo (5) 48,7 10,7 5,7 11,3
Taxa de juros do mercado monetário (%) 15,3 6,4 2,8 6,5
Painel B: Indicadores de realização de negócios em países
Países do BRIC Estados
Brasil Rússia Índia China Unidos Chile Singapura França
Classificação de facilidade para a realização de negócios 121 96 134 93 3 33 1 31
Dias para iniciar um negócio 152 28 35 35 6 27 5 7
Custos para contratar um novo trabalhador (% de salário) 37 31 17 44 8 3 13 47
Custos para demissão (semanas de salário) 37 17 56 91 - 52 4 32
Classificação de proteção para investidores 60 60 33 83 5 33 2 64
Classificação da facilidade do sistema tributário 151 98 158 168 76 34 2 82
Taxa fiscal total (% de lucro) 72 54 81 77 46 26 23 66
Dias para executar um contrato de crédito simples 616 178 1.420 292 300 480 120 331
Anos para encerrar um negócio (falência) 4 4 10 2 2 6 1 2
Taxa de recuperação de falência (centavos de dólares) 12 29 13 32 76 23 91 48
Fonte: Adaptado da Economist Intelligence Unit, dados de países, e de relatórios de países no World Bank, Doing Business Report 2006, disponível em www.doingbusiness.org.
a. Coeficiente de Gini para a Rússia mensurado em 2002, para a Índia, em 2000, para a China, em 2001 e para o Brasil, em 2001.
b. Baseado numa cesta de moedas ponderada por transações convertida a um índice (1997=100) e ajustada segundo as mudanças no Custo Unitário da Mão de Obra e Preços do Consumir (IPC). Um
índice abaixo de 100 representa uma apreciação da taxa de câmbio do real, enquanto que um índice acima de 100 representa uma depreciação da taxa de câmbio do real.
.
A Desigualdade no Brasil 711-086

Notas Finais

1 Marcelo Cortes Neri (Coord.), Miséria, Desigualdade e Estabilidade: O Segundo Real, mimeo CPS,

Fundação Getúlio Vargas, 2006, disponível em www.fgv.br/cps/pesquisas/site_ret_port/ e no site oficial da


Presidência, www.planalto.gov.br.
2 Stuart B. Schwartz, Sugar Plantations in the Formation of Brazilian Society: Bahia, 1550–1835 (Cambridge, U.K.:

Cambridge University Press, 1985), pp. 15-34.


3 Daron Acemoglu, Simon Johnson, and James A. Robinson, “The Colonial Origins of Comparative
Development: An Empirical Investigation,” in American Economic Review 91 (2001): 1369-1401.
4 From Simon Kuznets, “Economic Growth and Income Inequality,” American Economic Review (março de 1995).
5 Ibid., p. 7.
6 Gary S. Becker, “Crime and Punishment: An Economic Approach,” Journal of Political Economy 72

(2) (March/April 1968): 176; Comment on Brazil presented at a conference at ITAM, Mexico City, November 1,
2006; Maria B. S. Gutierrez, Mario J.C. de Mendonça, Adolfo Sachsida, and Paulo R. A. Loureiro,
“Inequality and Criminality Revisited: further evidence from Brazil,” apresentado no Encontro Nacional de
Economia do Brasil, http://www.anpec.org.br/encontro_2004.htm.
7 Taxas de homicídios das Nações Unidas, Escritório Contra Drogas e Crime, Seventh United Nations Survey of

Crime Trends and Operations of Criminal Justice Systems, 2000. Citação de "Dealing with Criminality?" Latin
America Monitor: Brazil, Relatório regional mensal da Business Monitor International sobre risco político e
perspectivas macroeconômicas. 23 (7) (julho de 2006).
8 Site da HeliSolutions (www.helisolutions.com.br/propriedade3.asp) e dados de São Paulo de Sheila
Grecco, “Descontrole nos cues,” Veja, 13 de março de 2002.
9 Aldo Musacchio, “Brazil under Lula: Off the Yellow BRIC Road,” HBS No. 707-031 (Boston:
Harvard Business School Publishing, 2007), p. 10.
10 Frances X. Frei and Ricardo Reisen de Pinho, “Magazine Luiza: Building a Retail Model of ‘Courting the
Poor,’” HBS No. 606-048 (Boston: Harvard Business School Publishing, 2005), pp. 4–5.
11 Musacchio, p. 10.
12Rosabeth Moss Kanter and Ricardo Reisen de Pinho, “ABN AMRO REAL: Banking on Sustainability,”
HBS No. 305-100 (Boston: Harvard Business School Publishing, 2005), pp. 8-9.
13 Informação biográfica de www.fifa.com e do site de Roberto Carlos,
http://robertocarlos03.terra.com.br/.
14 Mário Morel, Lula. O início, Nova Fronteira, 2006. pp. 30–31; Taxas de educação de Sergio Guimarães e
Fernando Veloso, “A escassez de Educação” em Fabio Giambiagi; André Villela, Lavínia Barros de
Castro, e Jennifer Hermann, Economia Brasileira Contemporânea (1945–2004) (Elsevier e Editora Campus, 2005), p.
381.
15 Musacchio, p. 11.
16 Ibid.
17 Ibid.
18 Paulo Renato de Souza and Tendencias Consultoria Integrada, “Sector Study for Education in
Brazil,” Japan Bank for International Cooperation, novembro de 2005, p. 128.
19 Monica Dias Martins, “The MST Challenge to Neoliberalism,” in Latin American Perspectives 27 (5)

(setembro de 2000): 36.

11

Este documento é autorizado para uso com fins educacionais somente para Universidade Estácio de Sá.
A cópia ou publicação constitui violação de direitos autorais.
711-086 A Desigualdade no Brasil

20
Manuel Domingos, “Agrarian Reform in Brazil,” relatório base do país para o Brasil no site da Land
Action Research Network, http://www.landaction.org/, pp. 3–8 e entrevista com Delwek Mateus, Presidente
Nacional do MST, São Paulo, novembro de 2006.

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