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PSICODINÂMICA DAS CONDUTAS ADOLESCENTES

Evilásio A. Ramos

1 QUESTÃO contraditórios entre si, conforme os quais concreti-


zará seu desejo de autodeterminação. Tal situação
gera nele ansiedade, tensão e conflitos, Quarta. O
A psicodinâmiéa das condutas adolescentes é sentido das condutas adolescentes emana po
aqui entendida no contexto da autodeterminação, destas duas variáveis: a intencionalidade do a e
já explicada em outro trabalho como sendo a carac- cente e a contexto sociocultural.
terística nucleária do adolescente e fonte primária Essas premissas, quando devidamente le -
de suas condutas! . A idéia central de autodetermi- em conta, conduzem o educador a uma interpre -
nação condensa-se no fato, por demais visível, de o ção e compreensão corretas dos comportamento 0-

adolescente querer ser ele mesmo o sujeito de sua adolescentes; vale dizer: às mais profundas motiva-
história, o construtor de sua existência. Esta verda- ções de suas condutas - condição de primeirí im
de não excluí do processo autodeterminativo o edu- relevância para o êxito de sua educação. Este é por
cador, como sujeito auxiliar mas necessário. Além isso mesmo, nosso objetivo: investigar os pos í .eis
do mais, a energia autodeterminadora desdobra-se motivos que estão na origem das condutas dos ado-
em muitas outros motivos responsáveis pelos com- !escentes, com o escopo de conhecê-Ia e
portamentos dos adolescentes. compreendê-l os com acerto. Por isso desejamos o e-
Dai a imperiosa necessidade de o educador recer aos educadores algumas pistas que os orientem
in terp re tar e compreender adequadamente a com-segurança na inferência dos motivos verdadei-
_icodinâmica das condutas dos adolescentes. AI- ros e mais profundos das condutas adolescentes. Esta
pImas premissas embasam esta necessidade. capacidade inferencial pressupõe, evidentemente,
Primeira - O processo autodeterminador se ex- que o educador disponha de um consistente lastro
ressa em comportamentos através dos quais o ado- de conhecimentos teóricos que sirva de base a uma
c cente, às vezes explicitamente, às vezes prática educativa coerente.
mplicitarnente, torna públicas suas intenções, de-
:: jos, interesses e necessidades existenciais. Ele faz
: o de maneiras as mais contraditórias, cambiantes 2 O ADOLESCENTE NO QUADRO DO
_ imprevisíveis. Segunda. O adolescente é contra-
PROCESSO EVOLUTIVO
citório e imprevisível porque está ainda em cresci-
ento, em desenvolvimento. Está, numa palavra,
cando como auto determinar-se numa sociedade
~ uralista, multímoda e incoerente como a nossa, O primeiro passo para o desvelamento
m inúmeras alternativas de vida. Por isso seus psicodinâmica comportamental dos adolescen _ t
mportamentos não podem ser interpretados e investigá-Ia no quadro do processo evolutivo e
empreendidos com os mesmos paradigmas eles se encontram. Os adolescentes de fato. e .--
icativos dos adultos. Terceira. O adolescente, submetidos ao embate de duas forças antazô
_ mo sabem, vive num contexto sociocultural e his- pressões internas e as pressões e}!.."tern_E_- -
- rico bem determinado que o marca profundamen- te, por sua vez; desenvolve um e
- _ É neste contexto que ele encontra os modelos, psicodinârnica: as tensões e conflito .

EóJcação em Debate - For.<


A) As Pressões endógenas vêm das energias sociedade para sociedade, de cultura para cultura.
em ebulição do organismo psicossomático. do ado- Mas cada ociedade, das mais primitivas às mais com-
lescente que quer não só conservar-se mas sobretu- plexas e evoluídas, tem seu rol de tarefas evolutivas.
do expandir- e cada vez mais. Jersild expressou bem uma sociedade primitiva, são poucas e simples;
esta verdade ao afirmar: "Vista no quadro da vida, a numa sociedade industrializada e complexa, são
adolescência aparece como a época em que a onda muitas e urgentes.
da existência atinge o ponto mais alto". "De certo Hevighust, estudando os adolescentes latino-
modo, o adolescente vive numa estação exuberante, americanos, concluiu que nossas sociedades espe-
entre a primavera e o verão da existência" 2 . Esta ram dos adolescentes que cumpram as seguintes
exuberância da energia vital, como é de todos sabi- "tarefas evol utivas":
do, traduz-se em comportamentos irrequietos, em - Acei tar e aproveitar ao máximo o próprio cor-
atividades muitas vezes frenéticas, num vai-e-vem 2º. Esta tarefa evolutiva, neste final de século, é
não raro irritante. As transformações fisicofisiológicas, interpretada como um direito incondicional a todos
psicossociais e racionais-espirituais são tão profun- os prazeres sensuais, especialmente sexuais.
das e ebulientes que a vida no adolescente explode - Estabelecer relações sociais mais adultas com
em formas inopinadas e bizarras. O adolescente tem companheiros de ambos os sexos. A sociedade con-
sofreguidão de viver. temporânea, embora seja permissiva ao extremo, re-
O adolescente, segundo Jersild, tem por ob- quer dos adolescentes que mantenham entre si,
jetivos prioritários : sobretudo com colegas do outro sexo, relações res-
- a maturidade física e mental: suas capacida- ponsáveis e respeitosas.
des mentais chegam ao desenvolvimento máximo - Chegar a ser independente dos pais e de
ou quase; se tudo correr bem, ele adquire "uma con- outros, emocional e pessoalmente. Significa que ao
cepção mais ou menos realista das suas capacidades adolescente é reconhecido o direito de fazer suas
mentais"; escolhas - de profissão, vestimenta, namorado(a),
- maturidade emocional: progressivamente casamento, amigo ... - mas desde que continue liga-
adquirida graças às suas experiências de amor, ale- do aos genitores por laços afetivos.
gria, cólera, medo, dor, ternura, etc.; todavia, "o pro- - Escolha duma ocupacão e preparacão para a
cesso de maturação emocional não se completa mesma. Os adolescentes filhos de operários, via de
durante a adolescência, mas continua até a morte"; regra, começam cedo a cumprir esta tarefa. Dos ado-
- responsabilidade vocacional: sobretudo na Za lescentes das classes média e alta espera-se que es-
parte da adolescência a preocupação com a escolha tudem e se formem primeiro, mas, formados, que se
duma vocação ou profissão toma-se mais premente, ocupem numa atividade produtiva.
inclusive por causa também da pressão social; - Preparacão para o noivado e o matrimônio.
- aumento do autogoverno: é forte no adoles- Ca ar- e e exercer os papéis de pai e mãe, e de
cente o desejo de tomar-se capaz de orientação pró- esposota), ainda são valores muito estimados em
pria, de tomar suas decisões, pensar, sentir e querer nossa sociedade. Mas o casamento não é mais consi-
por si mesrno'' . derado, como antigamente, uma união estável e du-
Esses objetivos não são meras veleidades, mas radoura. É assumido pela maioria dos casais como
exercem nos adolescentes forte pressão para se rea- uma união provisória.
lizarem. Por isso é no contexto desses objetivos ou -Desenvolvimento do civismo. Vista no pre-
melhor, dessas pressões internas que devemos in- sente contexto brasileiro, é uma tarefa atualíssima.
terpretar muitas condutas adolescentes, como o gos- Deseja-se que os jovens se tornem cidadãos que tra-
to excessivo pelo desporto, o espírito crítico e a balhem pelo desenvolvimento da pátria em espírito
curiosidade pelas novidades, as reações intern- de justiça, solidariedade e honestidade.
pestivas e contraditórias, etc, - Conquista de uma identidade, uma escala
B) As Pressões exógenas são de caráter de valores e uma filosofia de vida. Numa sociedade
ociocultural. Os autores as enumeram com a nome tão confusa, agitada por ideologias contraditórias, à
e tarefas evolutivas. São assim denominadas por- mercê de um desbragado consumismo, de valores
e a ociedade espera que cada adolescente já es- em rapidíssimas mutações, é de suma conveniência
a praticá-Ias. Variam em número, grau de que os adolescentes se guiem por uma sólida filoso-
•..•.õ..;~;i-<.o1.JLiU·IA e ormas concretas de exprimir-se, de fia de vida 4 •

:: - -n!27 a 28· p. 31-50· jan./dez. 1994


A sociedade vê no cumprimento dessas tare- pontos da vista e ele está e o
fas a esperança de os adolescentes construírem uma mais cônscio de novos relacioname -
vida marcada por êxitos e no seu descumprimento a e pares. Os problemas para ajus e-
certeza duma vida fadada ao fracasso. Ora, como sa- de muitas fontes, inclusive das novas canacicades
bemos, os adolescentes são supra-sensíveis às expec- e anseios sexuais, sentimentos intensos e
tativas e influências da sociedade, apesar de lhe ódio, necessidades adultas e limitações da eaz-
fazerem severas críticas. E a sociedade, consciente nice?".
desta sensibilidade, empenha-se com pertinácia em
fazê-l os membros seus bem ajustados. E seu êxito Tudo isso é verdade. Tudo constitui psico-
não é pequenos. dinâmica das condutas adolescentes. Mas é igual-
C) Temos, pois, a seguinte situação: de um mente verdade que se o adolescente encontrar nos
lado, o adolescente com tendências naturais para país e educadores pessoas compreensivas e dialo-
crescer e desenvolver-se a seu modo, e do outro lado, gantes, pacientes embora firmes, atravessará os anos
as exigências e cobranças da, sociedade. Do con- efébicos, com problemas e dificuldades certamen-
fronto dessas duas forcas antagônicas se originam te, mas sem dramas e convulsões. Com relativa se-
muitas frustrações, tensões e conflitos. renidade.
As frustrações acontecem realmente e são uma
fábrica de tensões e conflitos. Por vezes estes são
tão dramáticos que muitos autores não duvidam de
3 ABORDAGENS
configurar a adolescência como uma fase crítica. Já
houve até quem falasse de "novo nascimento". Mas
hoje em dia é cada vez mais unânime a opinião dos
especialistas, baseados em pesquisas, de que a crise A descrição feita acima resume a psicodinâmica
adolescente não é tão dramática como apresentam, e das condutas adolescentes na sua visão geral. Da
muitos adolescentes nunca passam por crise nenhu- mesma forma que os comportamentos humanos em
ma. Os autores acham o termo "crise" - se tomado geral, também os comportamentos adolescentes são
em seu sentido de revolução interna tempestuosa, interpretados e compreendidos conforme princípios
com conflitos existenciais e psicossociais impetuo- hermenêuticos diferentes, consoante a visão teórica
sos e tensões profundas - muito forte para designar de cada autor. Todos admitem que os comportamen-
as dificuldades que as pessoas padecem na passa- tos adolescentes, como os comportamentos huma-
gem pela adolescência". nos em geral, têm um sentido. Admitem tam ém
A adolescência não é, portanto, uma fase re- que sendo o adolescente um ser sócio-histó ico, o
volucionária, como muitos romanticamente creem, meio social entra também na determinação este
mas evolucionária, que demanda adaptações ou sentido. Contudo, o valor determinante a 'b - o'
melhor, integração ao meio sociocultural. Esta influências ambientais não tem o mesmo
integração, tal como a sociedade exige para que seja todos os teóricos. Para uns o determinanze
bem sucedida, pressupõe da parte dos adolescentes mental e mais importante é o prôj '0 te
reorganização da personalidade, revisão de valores, enquanto subjetividade co e-
reformulação de ideais e projetos existenciais, acei- - ou seja, as conduras a olesceates
tação crítica das normas comportamentais socialmen- vontade, dos pensame os e
te aprovadas; em suma, o adolescente tem que se centes. Para ou os o
fazer a si mesmo certa violência. Por isso a adoles- mais importante é o m~!.2!:Q~;;,,;:~k.
cência, não sendo a rigor uma crise, é todavia um adolescente e-o
terreno fértil à eclosão de conflitos, tensões e pro- biente
blemas.
Pikunas vê assim o surgimento de conflitos
e problemas na adolescência: Ao aprender a se
ajustar a seu corpo e motivação que se modi 1 condutas adolescentes: compre-
assaltados por impulsos e desejos insaciáveis e centrada na subjetividade co .e te e na su b-
prichosos, muitas vezes o adolescente tem I biê cia e na relação
internas. A vida está oferecendo novas metas e

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3./ Compreensõo centraáa na consciência va mas tal como é percebida pelo adolescente Yv _
Saint-Amaud observa que "o primado da subjetivi-
Segundo o senso comum e uma tradição que dade não significa que a realidade objetiva careça
remonta aos primórdios da cultura filosófica, a de importância. Ao contrário, esta conserva uma in-
inteligibilidade das condutas humanas deve ser bus- fluência capital sobre o comportamento, pois per-
cada na subjetividade racional. O homem se distin- manece um critério de validade das percepções. Mas,
gue das outras criaturas pela razão, liberdade e seja qual for o grau de acordo no qual posso chegar,
responsabilidade. Outras forças subjetivas, como por o postulado atual supõe que sempre há certa distân-
exemplo, as paixões, emoções e desejos, e ambien- cia entre a realidade em si e a realidade tal como a
tais, como as pressões de grupos, podem dominá-Io, percebo; ele permite acrescentar que, de qualquer
mas nunca invalidar-lhe por completo a razão, a li- modo, é! a percepção que tenho desta realidade que
berdade e a responsabilidade. Sempre lhe resta al- determina meu comportamento"? .
guma possibilidade de discernimento, autodomínio Pela consciência o adolescente não só deter-
e decisão pessoal. rmna seus comportamentos, mas como se expressa
Este postulado, feitos os descontos por conta Marcos Bach, "se descobre, se identifica e se afirma
de sua maturidade ainda em processo, também vale como pessoa, como indivíduo distinto e diferente
para os adolescentes. Estes, como se sabe, já domi- dos demais, como portador de direitos e deveres e
nam o pensamento formal. São capazes, por isso como criador de si próprios" 10.
mesmo, de ações orientadas pela racionalidade, não Além da consciência, entra também na deter-
obstante seus freqüentes impulsos emocionais. minação das condutas adolescentes a liberdade. Os
No campo da psicologia, o postulado da psicólogos de tendência existencial-humanista con-
racionalidade - inteligência, liberdade e responsabi- sideram a liberdade uma das mais engrandecedoras
lidade -, como' princípio compreensivo das condutas características do homem. Todos eles certamente
adolescentes, continua presente nas correntes de concordam com Agostinho Gemelli quando afirma
pensamento que elegeram a consciência psicológica que "a liberdade pessoal caracteriza-se por um pro-
e a experiência pessoal como princípio hermenêutico cesso psíquico, mediante o qual o sujeito, conscien-
dos comportamentos humanos. Entre essas corren- te, embora influenciado, em seu agir, por situações
tes psicológicas, merece destaque a Psicologia Exis- concretas está em condições de se auto determinar,
tencial-humanista 8. sem precisar subjugar-se à ação impelente de forças
É graças à consciência, liberdade e responsa- externas ou internas"!".
bilidade que o adolescente se toma um ser humano Ora, o adolescente tem consciência de que é
capaz de autodeterminação. É no quadro destas in - um ser livre. E, como demonstram seus repetidos
tâncias que devemos investigar e interpretar as mo- comportamentos arrogantes, zela por esta liberdade.
tivações mais profundas de suas condutas. É aí que Ser livre é uma exigência da natureza e da psicolo-
se determina o sentido das condutas adolescentes. gia adolescente. Naturalmente, o adolescente ainda
Mesmo admitindo que o adolescente, ao se está aprendendo a usar sua liberdade. O educador
comportar numa dada situação. não esteja totalmen- deve entender e aceitar esta situação benevolente-
te cônscio do que está fazendo ainda lhe resta uma mente, e agir com o adolescente como sendo uma
boa margem de consciência. Consciência entende- pessoa em exercício do uso da liberdade. "para o
se aqui como capacidade de autoconhecer-se, de educador consciente, opina Charbonneau, a liber-
descobrir o sentido que se esconde em cada situa- dade do adolescente nunca será um desafio, mas
ção e dar-se conta do que está pensando, querendo sempre um anseio que ele saberá alimentar para que
e fazendo ao agir. Dela faz parte um conjunto de essa jovem existência possa expandir-se" 12.
idéias, informações, valores, atitudes e controles in- Reconhecer que o adolescente é um ser-livre
ternos, graças aos quais o adolescente sabe, em grau implica aceitar seu direito de fazer escolhas, se não
suficiente, o que é certo ou errado e quais são suas de forma absoluta, pelo menos numa larga margem
responsabilidades e deveres. de liberdade. Aliás, o adolescente, a despeito de ser
Estes conteúdos refletem a realidade ambien- dependente dos adultos em muitos aspectos, faz
tal, cultural e social. Mas a realidade que chega à questão de mostrar que é capaz de tomar decisões
consciência e é vivenciada não é a realidade objeti- próprias, fazer as escolhas que melhor lhe convêm.

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Sendo um ser consciente e Livre, o adoles- geral, envolvendo tudo aquilo que f-~f-:.·n-.....,...
me é igualmente sujeito de responsabilidade. senvolvimento integral do indivíduo pelo crescizaea-
- mem este conceito em seu duplo sentido: como to de tudo o que possui e de tudo q e é.
.pacidade de responder de maneira adequada aos importância, seu saber, seu poder, sua felicidade,
blemas e dificuldades, obstáculos e desafios que seus talentos, seu prazer, suas posses e tudo
.da proporciona, e como decisão moral de assumir que aumenta a satisfação que ele obtém disso" H •
(;;Qnseqüênc~·a.sue suas opções. () adolescente,
Outra meta da tendência arualizance é "dirigir o de-
zérn do mais, se vê e é visto por muitos como "cria- senvolvimento do organismo (isto é, do adolescen-
de si mesmo", como "projeto existencial" cuja te) no sentido da autonomia e da unidade; isto é
. ação cabe em primeiro lugar a ele mesmo exe- "num sentido oposto ao da heteronomia resultante
_ta! num mundo cheio de circunstâncias as mais da submissão às vicissitudes da ação das forças exre-
· =etses e contraditórias ,''. Seus comportamentos riotcs?"
- perfeitamente interpretáveís e compreensíveis Transformar as potencialidades em realiza-
o respostas a sua natural tendência de realizar, ção concreta - estilo de vida, profissão, militância,
orma satisfatória, seu projeto existencial. empreendimento etc - é responsabilidade em pri-
Uma quarta categoria - a experiência pessoal- meiro lugar do adolescente. Seja qual for o poten-
• rte obrigatória da análise e compreensão das con- cial que este herde, consigna Saint-Arnaud, a
. .rtas adolescentes. Inclui-se entre os conceitos que energia de que dispõe normalmente lhe permite
. freqüentam as análises existenciais-humanistas assumir seu próprio futuro e dirigir satisfatoria-
comportamentos humanos. Tem o sentido de mente o processo da atualização pessoal". Outro
. rência". Engloba: a) a consciência, pois refere- eminente psicólogo existencial, Rollo Maw, refor-
tudo que é apreensível por esta instância psico- ça este ponto de vista: "o homem, escreve ele, não
ica; b) a afetividade - a experiência vem sempre cresce automaticamente como uma árvore, mas
mpanhada dos sentimentos de agradabilidade ou realiza suas potencialidades somente quando pla-
gradabilidade; c) subjetividade - a experiência neja e escolhe conscientemente"!".
transferível, pessoalíssima. Por isso, diante da Isto não quer dizer que se as forças ambientais
ma situação, os adolescentes experienciam-na de - natureza, sociedade, cultura, econômicas e históri-
eira diferente. É quando mais experiências os cas, etc - não condicionem o processo autorealizador.
colescentes acumularem, tanto maior será sua ma- Este não é automático, não se efetiva sem as facilita-
ridade psicológica. Já dá para inruir que os com- ções do meio e a sábia orientação de pais, educado-
rtamentos dos adolescentes estão intimamente res ou outros agentes, mas acima de tudo está a
culados às experiências que eles armazenam vi- decisiva atividade da próprio adolescente como ser
ndo num mundo tão matizado e delirante,. Daí a consciente, livre e responsável. Esta decisiva ativi-
ssidade de facilitarmos aos adolescentes a aber- dade abrange, entre outras, mais estas três condi-
ra à experiência. Isso não significa deixá-los à pró- ções necessárias ao êxito da autorealização: abertura
· sorte mas orientá-los sem autoritarismo e sem à experiência, ou receptividade positiva a si mesmo
baraços à sua liberdade. e ao ambiente; assumir-se a si mesmo, ou capacida-
É dentro desse contexto de consciência, liber- de de autocontrole, análise crítica e avaliação das pró-
e responsabilidade e experiência que devemos pria experiências e escolhas particulares; e ação sobre
:ender outro postulado existencial-humanista cen- o meio ambiente, ou competência para concretizar
· na inteligibilidade das condutas adolescentes - a suas potencialidades em modos de vida satisfatórios
dência à atualização. qualquer que seja o ambiente em que vive'".
O adolescente, como sabem, está em proces- Vemos assim, em conclusão, que a psico-
e desenvolvimento. Na interpretação centrada dinâmica das condutas adolescentes, na visão exis-
. subjetividade, significa que ele é um ser consti- tencial-humanista, é compreendida à luz das
o de potencialidades e duma energi"'ou tendên- categorias de consciência, liberdade, responsabilida-
_ . natural para desenvolver e atualizar estas de, experiência e autorealização. Estes cinco
~ ncialidades. A meta desse espontâneo desen- psicodinamismos comporramentais, mesmo dando-
virnento é a conservação e enriquecimento do ado- se importância às influências ambientais, atuam sob
nte como pessoa. O termo enriquecimento" o controle dum comando central: o eu. Este consti-
.ca Kinget, "deve ser entendido no sentido mais tui a central de decisões do indivíduo que integra

Edocaçao em Debate - Fortaleza - Aro 16 - n2 'Zl a 28 • p. 31-5G- janJdez. 1994


todos os aspectos de personalidade numa unidade da vida-". Tem essa visão positiva do home
e totalidade com identidade definida. É a chancela que assenta numa teoria psicológica - a P icojIG==~
da individualidade. Contudo, psicólogos existen- Existencial-humanista + que surgiu como u
ciais fazem questão de assinalar que esta noção de ção à Psicanálise, que tem uma concepção nes--
eu não seja interpretada em sentido individualista, do homem, e ao Behaviorisrno, que tran 0-
egocentrista, muito menos egoísta. Pois, segundo homem num objeto inteiramente à mercê do: -
R. May, "todas as pessoas existentes têm a necessi- dicionamentos ambientais.
dade e a possibilidade de sair de sua centralidade
para participar de outros seres' e "que o ser huma- 3.2 Compreensõo(enlradano m(onsáenfe
no não pode ser entendido como um eu se a parti-
cipação for omi tida" 19. Mas o mesmo autor ad verte
Esta maneira de compreender as CO'llUI,;LJ~

que o indivíduo não pode ir muito longe nesta


adolescentes busca, como a anterior o enti
descentralização e participação sob pena de perder
mesmas na vida intrapsíquica. Mas, ao contrário
sua centralidade-identidade. Os psicólogo da ado-
funda o sentido das condutas na vida psíqui
lescência sublinham com unanimidade que não
consciente. Sua fundamentação teórica é a .!.p-=:~. ~="==
muito aguçados no adolescente a consciência e o
lise.- corrente psicológica que mais penetro
sentimento do eu, configurando-se até numa crise
todos os ramos da cultura neste século.
de identidade.
Os psicanalistas concebem a mente hur::::Z:::ll.
É fácil perceber, pela exposição acima, que a
tripartida em consciente. subconsciente e ~in=~~
compreensão das condutas adolescentes, centrada na
ente. O consciente é a instância psíquica ilu.LU..o~"""'::
consciência, apesar dos esforços em contrário de seus
pela qual o sujeito dá-se conta dos seus atos. :
promotores, não evita boa dose de subjetivismo, in-
porque e para que está agindo. Mas sua fu çã
dividualismo e potencialismo. Pois localiza a gênese
dinâmica dos comportamentos é secundária.
do sentido das condutas adolescentes, como vimos,
quanto, na expressão de Sígmund Freud, 'n-o
primacialmente na interioridade consciente, livre,
titui a essência do psiquismo ela não é senã
experiencial e atualizante do adolescente. Inclui na
análise dos comportamentos os fatores ambientais, qualidade deste, e uma qualidade inconstante.
socioculturais, é verdade, mas como fatores secun- mais freqüentemente ausente que presente">. -
dários. A determinação primária é do sujeito consci- parte racional do homem. O subcon ciente é _ .~
ente, livre e responsável, conforme seu campo tância psíquica imersa em semi-e curi ão. ir .u..._
perceptual. Mais: a ênfase toda é posta no sujeito diária entre o consciente e o inconscien
enquanto indivíduo, apesar da sociabilidade inegá- arquivam as representações e quecid
vel do homem. A função primária na determinação pequeno esforço serão relembrad .
das condutas é da consciência, liberdade, responsa- A terceira e principal instânci
bilidade e experiência individuais. Tudo depende inconsciente, do qual são uibutári a con CIe
da percepção subjetiva da realidade com a qual o a subconsciência. É nele que re ide o mai p
adolescente interage e de como ele a experiencia do e precípuo dinami mo das conduta adote
naquele momento. Ademais, o que o adolescente teso Este constitui a e sência da vida p í -
pode e deve ser não lhe é dado pela sociedade, como humana. É nela que é encontrável o sentido'·
ensinam behaviorismo e materialismo histórico, mas mulado mas verdadeiro de nossos comportam
todo esse potencial lhe vêm do berço. À sociedade pois o sentido patente na maioria das veze
compete apenas facilitar sua realizarão num modo verdadeiro. Está totalmente mergulhado na
de vida de exclusiva escolha do adolescente. dão, fora do conhecimento e controle do indi '
Apesar de tudo, essa maneira de compreen- a não ser com a ajuda do psicanalista.
der as condutas adolescentes tem seus méritos. Re- Seus conteúdos compõem-se de enerzi
abilita a dignidade do homem como pessoa e sujeito pulsivas (pulsões) ou instintos, pensamento. sec-
capaz de fazer escolhas adequadas. Tem do homem timentos, experiências e representações recal
conceito positivo e seu projeto é a formação duma pelo sujeito desde o nascimento. Este conj --.
. e onalidade psiquicamente sadia, de funciona- de energias em constante atividade, na linguage ~
- - ó imo. capaz de se comportar adequadamen- psicanalítica, recebe o nome de ido O incon ciente
q er circun tância positiva ou negativa é tido por todas as escolas de psicologia pIO ..,
chraml, como "a pátria das moti- O instinto vital mais representativo, geratriz
ergias cuja eficácia anima o homem
er de todas as condutas positivas é a libido, ou energia
abemos que são as raizes de nos- sexual. Sua dinâmica é tão grande e abrangente que
.;__ es pe soais, mas não sabemos de onde todos os comportamentos, desde os mais simples,
_..,..-'---~e -em p icanalista nenhum poderá jamais como alimentar-se, aos mais elevados, como produ-
~=::D' __ fi ciência a totalidade do inconsciente zir cultura e rezar, em sua gênese estão contamina-
~"""_-"mo em nós. Esta "energia de motiva- dos de intenções libidinosas, de desejos sexuais
_ -- iente se insinua em nossa sensibilida- inconscientes. A energia sexual é ativa desde o nas-
en amento, nossa atividade, sem que a cimento até a morte, sendo sobremaneira intensa na
~ sonalidade se dê conta do motivo que a puberdade.
Além da libido, o indivíduo conta com outro
_ cs â, descrita em linhas gerais, a nascente instinto muito ativo - Tânatos - responsável pelos
o psicodinamismo das condutas adoles- comportamentos destrutivos de si mesmo e dos ou-
_ ~" 'ela é importante realçar as energias ins- tros, O sujeito não se apercebe dos reais motivos que
-- .....,.,.:: o recalques. o movem a se auto-agradir e agredir os outros. São
_- oria dos instintos como motivações dos motivos inconscientes. Exemplos de comportamen-
-'L...."...~~-
• zamentos não é certamente exclusividade de tos auto-agressivos: sentir-se culpado sem razão, agir
_ :: seus discípulos. Antes deles já era por ou- como se a vida não tivesse sentido, abandonar-se ao
regada como meio de inteligibilidade dos desânimo e depressão, tentar suicidar-se, autopunir-
.;;:::::r:=;:;;~-'lÃffientos.Freud fez dela um dos pontos fun- se, etc. Comportamentos hétero-agressivos, muito
--=:=~-iJ.-L.ó1J·t;:, de sua psicologia. freqüentes entre os humanos, vão desde um sim-
ara Freud o instinto é uma certa quantidade ples desejo de humilhações passando pela aversão e
_cerzia de origem biológica, constante e incons- rejeição, até atos cruéis, como mutilar, torturar, as-
ze. que atua estimulada por diferentes excita- sassinar e fazer guerra.
temas. O ponto de partida de sua atuação é a Nuttin resume assim a teoria freudiana dos
-sidade ou carência de alguma coisa - alimento, instintos: "tudo quer dizer que, ao lado de uma tor-
eição, cultura etc. - que o indivíduo experi- ça construtiva, trabalha no homem um 'impulso" de
_.~L.~ Em virtude da carência ou vazio, a pessoa destruição. A única força construtiva do psiquismo é
em estado de tensão com certo mal-estar. Por o Eros, a libido ou instinto sexual no significado
_ da tensão advêm a compulsão psíquica de sa- freudiano da palavra. O que na cultura e na vida in-
-_er a necessidade ou atender o instinto imedia- dividual ultrapasse a busca de um fim diretamente
ente. Mas acontece que, devido a inúmeras sexual nada mais é que este mesmo instinto sexual-
- _ Idades, nem sempre é possível satisfazer o ins- "sublimado" , como força recalcada, em forma upe-
- , Em conseqüência instaura-se o conflito. Para riores"!".
- e da sensação desagradável o indivíduo pro-
..•.azer alguma coisa: ou enfrenta o problema adul- Força recalcada ... É uma força motiv cional
e maduramente, ou lança mão do subterfúgio dos poderosa arquivada no incon ciente. Co te em o
_ nismos de defesa. adolescente, inconscientemente, rejeit ora da
Vê-se pela descrição acima que o instinto tem: consciência representaçõe . d ejo o
ma fonte: o organismo fisiológico; b) um objeti- toleráveis e depo itã-lo o co e
_ - a satisfação da necessidade com a conseqüente gani zam em orte p õe
ressão da tensão e do conflito; c) um objeto - como e a inco
ilo que apazigua a necessidade; d) o impulso - a pre
aantidade e intensidade de energia investida no O numa OCI-
mportamento. er, Po outro lado
A Psicanálise distingue dois tipo de ins . - ejo _tendências
: a) o que gera comportamentos construti 'o ,que te en em choque
isarn a conservação e expansão da vida - in tinto de co - co o enrai da ociedade ou
~ (Eros); b) o que gera comportamento de [IU- po icular, A repres ão ocial ou grupal,
, 'os, cuja finalidade é agredir a si mesmo ou ao co mui reqüência, é tão vigoro a que o adoles-
aos - instinto de morte (Tânatos). cente e vê impotente para transgredir o código so-

Educação em Debate, Fortaleza, Ano 16, fl'! 27 a 28, p.31'50- janJdez. 1994
e ondutas. E a única saída que depara, em objetivo primeiro do homem, em todos os compor-
siruaçõe repressoras, é recalcar suas necessida- tamentos, é a fruição de excitações agradáveis e evi-
s e de ejos. Via de, regra, sublinham os psicana- tarão de qualquer sofrimento. Isto porque as forças
ist ,as tendências mais amiúde recalcadas são as motivacionais do homem mais atuantes são as que
e natureza sexual. Dito de outra forma: as tendên- compõem o Id ou os instintos, sobressaindo-se en-
naturais do adolescente entrechocam-se com o tre elas, como já frisamos mais de uma ve~, a libido.
uperego, que é uma instância censória formada Esta energia é o núcleo dinâmico de todas as nossas
pelas convenções sociais e morais. atividades, quaisquer que sejam.
As tendências adolescentes recalcadas, de uma Ora, uma das características mais iden ti-
maneira ou de outra, tentam expressar-se mediante ficadoras do adolescente é precisamente amadure-
condutas neuróticas, ou no mínimo inusitadas. Uma cimento sexual que se manifesta com grande
destas condutas é a ansiedade. Ansioso é o adoles- veemência. É na idade adolescente, mais exatamen-
cente que, devido a experiências desagradáveis cau- te na puberdade, que, segundo a Psicanálise, a li-
sadas pelos impulsos reprimidos, sente-se inseguro bido se localiza definitivamente nos órgãos genitais.
e com medo diante de situações desconhecidas, real Este fato desenvolvimental faz com que o adoles-
ou imaginariamente ameaçadoras, cujo controle jul-
cente deseje não só o prazer, mas também a repro-
ga impossível. Se o perigo é real, a ansiedade é nor-
dução. A sexualidade adolescente, escreve Muuss
mal; se é imaginário, a ansiedade é neurótica 25.
ao comentar a visão psicanalítica de adolescência, a
Exemplos de comportamentos neuróticos são
sexualidade adolescente "manifesta-se de três mo-
as fobias, as manias, os ciúmes doentios, as obses-
dos diferentes: a) através da estimulação externa
sões, as compulsões, os sentimentos de culpa e de
das zonas erágenas; através de tensões internas e
perseguição, a racionalização, as conversões orgâni-
uma necessidade fisiológica em excretar os produ-
cas, e muitos outros. Todos estes comportamentos
tos sexuais, condição esta ausente na sexualidade
se distinguem pela excentricidade e pela falta de
infantil; c) através de "excitação sexual" psicológi-
lógica, pela irracionalidade. São dominados por uma
ca a qual pode ser influenciada pelas duas prece-
emocionalidade incontrolável e desordenada 26.
dentes. Excitação sexua\ psicoiôgica consiste em
Freqüente, porém, que o adolescente,
um sentimento peculiar de tensão de caráter muito
frustado, reprimido, tenso e ansioso, não se neurotize
urgente' ? •
mas procure alívio para seu desconforto na sublima-
Por isso há o risco de o adolescente, nos rela-
cão. Por este processo ele, inconscientemente, in-
veste as energias recalcadas em atividades tidas como cionamentos com o outro sexo, deixar-se dominar
superiores. É uma espécie de compensação e não pelos instintos libidinais (Id), Tal perigo, porém, não
deixa de ser uma conduta desfaçada. Mas proporci- deve conduzir ao moralismo repressor (Supergo). O
ona ao indivíduo uma vida suportável e até feliz. É ideal, porém, é viver a sexualidade com espontanei-
portanto um expediente positivo para se enfrentar dade, mas orientado pela racionalidade (Ego). Tal
uma vida frustrada em algum área. Como exemplo procedimento se impõe sobretudo porque as forças
podemos citar o adolescente que, fracassando nos do Id estão sempre em conflito com as forças do
estudos ou nos esportes, ou em qualquer outra área, Superego. Vale dizer, as forcas instintivo-biológicas,
em vez de entregar-se ao derrotismo, dedica-se a ati- guiadas unicamente pelo princípio do prazer, opõem-
vidades socialmente aprovadas como superiores: mo- se às forças sociais e morais, levando o adolescente a
vimentos sociais altruístas, artísticos, culturais, recalcar seus desejos e fantasias eróticas. E as conse-
religiosos, etc. Embora as condutas sublimadas te- qüências do processo recalcador já sabemos que são
nham origem nas tendências e desejos reprimidos, por demais negativas e problematogênicas.
merece atenção o conselho de Schraml: "É, portan- Temos ai em síntese a explicação freudiana
to, missão dos professores e dos educadores dos comportamentos adolescentes. Contra ela algu-
e pecializados explorar esta disponibilidade, facili- mas críticas são levantadas. Por exemplo:
tando às crianças a sublimarão, em vez de as acumu- a) Acusam-na de basear-se numa visão de ho-
e recalques" 27 • mem naturalista, materialista e biologista. Todo sis-
ubjacente a todo o processo psicodinâmico tema freudiano, como ficou patente, assenta na
uta adolescentes está, segundo a Psicaná- natureza biológica do homem, abluída de qualquer
.=....:::..::::..==-=:..::o~pc.:.r=aze=r.
Conforme este princípio, o valor espiritual 29.

= a28·p.31·5Q·janJdez.1994
b) As condutas adolescentes enraízam-se na Apesar de tudo a Psi .-ct.:=ri=='""
-- ~ .••
irracionalidade. Até Freud predominava a convicção positivamente não s6 a p icolo
tanto no senso comum como no pensamento erudi- cias humanas. Ela abriu enormeme te
to de que as condutas humanas eram determinadas interpretativo dos comportamento hum
pelas forças racionais - inteligência e vontade. No instrumentos conceituais e metodológico
momento em que Freud desloca o centro do dina- uma análise das profundezas mais recôndi -
mismo humano da consciência para o inconsciente, mente humana, e dos motivos mais arcanos de nos-
subjuga o homem às forças irracionais do Id. O ho- sas condutas.
mem agora não é mais definido como ser racional,
mas como ser escravizado a seus instintos irracionais. 3.3 Compreensão (entrotlo no (ontlkionomenfo
c) Em conseqüência, os comportamentos ado-
lescentes são regidos pelo determinismo psíquico.
No começo deste século teve início outra li-
Para Freud as condutas humanas são determinadas
nha de compreensão das condutas humanas. Surgiu
por causas inconscientes. Este axioma, como vimos,
como radical oposição à psicologia da consciência e à
constitui o ceme do pensamento freudiano. O ho-
do inconsciente. A primeira, como sabem, busca o
mem não tem controle sobre os reais motivos de seus
sentido dos comportamentos na intencionalidade; a
comportamentos, pois esses lhe são totalmente des-
segunda, nas motivações inconscientes. Ambas cen-
conhecidos. Até a vida consciente é influenciada
tralizam a inteligibilidade das condutas na vida
pelas potências inconscientes. Resulta, portanto, que
intrapsíquica. Para os novos psicólogos tal procedi-
o homem, em última instância, não é livre. Freud,
mento fere gravemente o princípio científico da ob-
aliás, é explícito: "Vós tendes, dentro de vós, a ilu-
jetividade. Por isso propunham uma compreensão
são de uma liberdade psíquica, que não quereis aban-
das condutas embasada na mais intransigente obje-
donar. Sinto dizê-I o, mas neste assunto, adoto a mais
tividade.
nítida oposição ao vosso ponto de vista'?". E Michel
A escola psicológica oriunda deste movimen-
Richard confirma: "Não é já possível, depois de
Freud, fazer do homem um ser consciente e senhor to oposicionista passou para a história da p icologia
de si" 31. com o nome de behaviorismo (comportamenrisrno
d) Outro axioma freudiano reza que a mola condutismo). Sua base ideológica e r ica
mestra dos comportamentos adolescentes, desde os empirismo, positivismo e evolucionismo. D s
mais simples aos mais complexos, é o princípio do primeiros herdou o ponto de vista de
prazer. Desta forma a suprema finalidade da vida é o confiável do conhecimento é a experiê
gozo sob qualquer pretexto. Os críticos não negam al, e do último guardou a idéia de q
que o homem busque a felicidade com muito afã. efetuadas com animais são legitim
Fazem porém o reparo da que é exagero ver as ações aos comportamentos humano . TIs - -
humanas, todas as ações humanas, sob um prisma dade evolutiva do animal ao ho ~
hedonista tão exacerbado, como se o prazer fosse a Transferindo o en
única motivação certa de nossas condutas. Se Freud da vida endopsíqui
[em razão, é inevitável concluir que o homem é behavioristas estav
inexoravelmente egocêntrico e egoísta, sem possi- das conduta adolescentes
bilidade de correção. Com esse exioma hedonista o minações ambie
freudisrno fundamenta uma moral individualista Vale dizer. co
ujos princípio e fim é o prazer. intelizên --
e) E prazer associado a desejos libidinosos in-
onscientes. Todos concordam, com efeito, que e
Freud carregou demasiadamente na ênfase dada à
sexualidade no conjunto do dinamismo comporta-
:nental do homem. Ele teve o mérito. sem dú i
e chamar a atenção sobre a importânci da con-
idade na vida do homem, de de a in ao
exagerou em fazer dela o eixo dinâmico
alidade 32.

~ducação em Debate- FIrtlIe.za·


__ -e e operanre. Ambos assentam no princípio do comportamos desta ou daquela maneira: dinheiro,
Jo - re po ta, segundo o qual toda resposta ou aplausos; punições, leis, costumes, e mil outros que
uta é deterministicarnente produzida por um tais.
__ 'mujo. De forma que, conhecido um destes ter- O Professor Jesus B. Lleras descreve assim o
o. abemos qual é o outro. Mas há diferença en- processo condicionador: um estimulo entrante che-
~e um e outro. ga a uma determinada região do cérebro, atua sobre
O condicionamento respondente, cognornina- ele e é produzida uma resposta determinada. A res-
do também de clássico, teve sua origem e sistema- posta ocorre por causa do estímulo, mas não por cau-
tização nas pesquisas de L Pavlov (1849-1936) sobre sa de algum estado mental dentro do indivíduo".
reações condicionadas. J.B. Watson (1878-1958) fez Vale dizer, a força motivadora das condutas adoles-
dele a espinha dorsal de seu behaviorismo. Para se centes não reside no adolescente mas no ambiente,
entender o processo deste condicionamento con- sobretudo o ambiente social e cultural. De forma que
vérn começarmos pela distinção entre comporta- se comportar de determinada maneira não é uma
mento reflexo ou incondicionado e comportamento escolha do adolescente, mas uma determinação
condicionado. Comportamento reflexo é a resposta sociocultural. Esta explicação da psicodinâmica
que o organismo dá automaticamente a um estímu- comportamental assenta em alguns pressupostos:
lo que por sua própria natureza pode provocar a - não está no adolescente o controlar as pró-
resposta. Por exemplo, um objeto quente (E) apli- prias condutas; a que chamamos de autocontrole sim-
cado ao braço provoca o afastamento súbido (R) plesmente são os controles sociais assumidos pelos
deste. Se ao estimulo "objeto quente" empare- indivíduos;
lharmos som duma campainha várias vezes, com o - o adolescente, como todo ser humano, é pas-
tempo, só em ouvirmos o som da campainha, fare- sivo, nada mais faz da que responder aos estímulos
mos o mesmo movimento do braço. Neste caso o ambientais;
movimento do braço já não é mais reflexo mas um - portanto, para se conseguir que o adolescen-
comportamento condicionado. É este o processo te se comporte como desejamos, basta organizar seu
normal pelo qual os adolescentes aprendem a mai- ambiente de forma adequada, ou seja, para contro-
oria de seus comportamentos, mesmo os mais com- larmos os adolescentes é suficiente controlar seu
plexos. ambiente;
O condicionamento operante, embora se - a perseverança do adolescente nos compor-
embase no mesmo princípio do E-R, é um dina- tamentos desejados depende dos reforços que rece-
mismo compartamental um tanto diferente. É di- bem;
ferente porque B.F. Skinner (1904-1990), seu - corrigir o adolescente de algum comporta-
formulador, convenceu-se de que a fonte mais mento indesejado basta retirar o reforço causante
importante dos comportamentos não é o estimu- deste comportamento;
lo que antecede a resposta mas as conseqüências - formar a personalidade do adolescente con-
que esta ocasiona. Estas conseqüências concre- siste em confirmá-I o num sistema da hábitos;
tamente consistem em recompensas ou ameaças - em suma educar é condicionar ...
- reforcadores na terminologia skinneriana. Está
aí, nos reforçadores, o principal dinamismo das É desnecessário dizer que um sistema
condutas adolescentes. explicativo dos comportamentos humanos como esse
tinha que receber muitas críticas, como de fato rece-
Exemplos: prometo a meu filho que se ele beu. Uma das críticas se dirige a seu reducionismo
e rudar eu lhe darei um presente. Ele efetivamente objetivista. Pois um de seus postulados é a defesa
e ruda e lhe dou o presente prometido. O presente do primado do objeto sobre o sujeita. De acordo com
az. com toda probabilidade, que ele estude mais este postulado, o sentido dos comportamentos ado-
iduarnente. Minha filha não quer ajudar a mãe na lescentes não está nas suas intenções, pensamentos
axina da casa. Um dia, por insistência da mãe, ela e sentimentos, mas única exclusivamente no ato
aiu a. Em recompensa a mãe dá-lhe um beijo ou material. Sendo um objeto, o adolescente pode ser
~ - e um elogio. Este faz com que minha filha au- manipulado pelo educador a bel-prazer deste, Edu-
'eu: na limpeza da casa. A cultura dispõe car é a mesma coisa que condicionar, chame-se isso
em conta graças aos quais nós nos condicionamento respondente ou operante. Do con-

:: - .31-50· janJdez. 1994


O::u.'ü:!.lDento operante afirma Skinner que ele "mo- tes se relacionam com eu meio s
o comportamento como o escultor modela a ar- por exigências ocasionais e e porádicas mss ~:Z-":3!
gências de sua condição humana; não - o
=
É também criticável a idéia de reduzir a edu- de existência humana, a não ser numa re e :: re --
um processo de condicionamento mecani- ções com o mundo dos objetos, das pes o e
a5ncamente concebido. Em primeiro lugar fere a acontecimentos. O adolescente é um ser oci
-.=, idade do adolescente como pessoa, porquanto natureza e não por acidente.
_ e. como sublinha Japiassu, "é condicionado (gri- Por isso a chave da inteligibilidade das con-
autor), como um animal de laboratório, a reagir dutas adolescentes está no vínculo relacional entre
si ações condicionadas cujas condições lhe são os adolescentes e o mundo em que vivem. Conside-
Irada "35. Em segundo, o adolescente não tem rar os dois - adolescente e mundo - em separado é
ssibilidade de escolher entre alternativas, pois, considerá-Ios como abstrações, como salientou
-= rante Skinner, "quando todas as variáveis relevan- Nuttin!". Um não tem sentido sem o outro. Assim, o
--_ tiverem sido organizadas, um organismo respon- dado que serve de ponto de partida para a análise
:.e-rá ou não. Se não o faz, é porque não pode. Se compreensiva dos comportamentos adolescentes é
e, o fará" . a unidade adolescente-mundo, cujos componentes
Em suma, a psicodinâmica das condutas ado- não existem psicologicamente senão em função um
escentes, na explicação behaviorista, consiste nas do outro.
, - es condicionadoras de agentes ambientais que a "A compreensão centrada na relação", convém
s u talante determinam o que o adolescente vai ser insistir, quer evitar, na determinação das condutas,
"ida. O adolescente, neste caso, executaria suas o privilegiamento tanto do sujeito como do meio ob-
reações ou respostas como um autômato, sem ne- jetivo. Quer transmitir a idéia que tanto um como
ahurna participação de sua racionalidade, consciên- outro participam concomitantemente desta determi-
cia. intencionalidade, liberdade e responsabilidade= . nação. As condutas adolescentes, com efeito, englo-
bam e sintetizam a vida psíquica inteira do
O que sobra afinal do homem?
adolescente. O mundo natural e sociocuttural for-
nece os conteúdos da vida psíquica adolescente. Mas,
3.4 Compreensãocenlraáana relafão por outro lado, a ação dele sobre os adolescentes não
é determinística. Passa pelo crivo das percepções,
A - Adolescente: existente contextualizado da intencionalidade e da capacidade de aceitar ou
rejeitar dos adolescentes. Os adolescentes adaptam-
Uma quarta maneira de compreender os com- se sem dúvida aos modelos e às injunções da ocie-
portamentos adolescentes é examiná-l os como de- dade, mas também é certo, como todo po em
corrência da relação entre o adolescente e seu meio observar, que eles adaptam-nos a seu modo a 01 -
ocial e cultural. Comportamento, neste contexto cente de comportar-se40• Consequentemenre. -ida
ignifica, na definição de Nuttin, "a categoria de ati- psíquica do adolescente consiste da ínte e ubjeti-
"idades dirigi das, pelas quais um organismo, enquan- vidade-mundo.
o centro de elaboração e de utilização de informação, É indiscutível que há mui
age sobre as relações que o unem ao meio"?". Ou maneira de os adolescente perce re-
eja, "ação de um sujeito que age no mundo" . Con- enderem seu "mundo' ... u
orme o autor, três são os componentes essenciais posição neste mundo. Tam -
do comportamento: 1°) a situação presente na qual aspirações e projeto existcncaais
. . .
o sujeito se encontra; 2°) a situação-fim que ele al- InspIram-se nas mamzes ..,•.•....•.••.
0..:>

meja conseguir, isto é, o resultado esperado; e 3°) a sim que a p icodin ~


operação executada para passar da situação presente le cente ur 0-

à situação-fim. à do ado esceazes


Portanto, as condutas adolescentes, vistas sob
a ótica da teoria relacional, são ações significati . mu
executadas pelos adolescentes como respostas a uma
situação que para eles é também significativa. ão
respostas oriundas deste fato básico: os adole cen-

41 Educacão em Debate- Fortaleza- Ano 16· ~ 27 a 28· o 31-5G- . z.l994


de, o espaço social e cultural, e a época. Ou, se pre- conservação da vida, busca também a expansão e
ferirem: só compreenderemos adequadamente as enriquecimento nas esferas afetiva, social, intelec-
condutas dos adolescentes se os tomarmos como tual e espiritual. A nascente deste dinamismo para a
sujeitos sócio-históricos. progresso não é a privação de alguma coisa, mas
Os comportamentos são precisamente formas necessidade de autotranscender-se na direção e
concretas, carregadas de sentido, do encontro dos novos e melhores modos de vida biológica, psicol '
adolescentes com seu mundo sociocultural e histó- gica, social, cultural e espiritual, individual ou cole-
rico, com o objetivo de satisfazer suas necessidades tiva.
fundamentais ou realizar alguma tarefa. Atém de seu caráter dinamostático, as nece -
sidades são também de natureza relacional. Em pri-
B - Necessidades fundamentais meiro lugar, porque a ser humano, social por essênci
não dispõe de outra maneira de existir a não ser te :-
Constituem a mais vigorosa e intensa psico- do por múltiplas relações com os outros e com a n -
dinâmica das condutas adolescentes. Segundo este tureza; em segundo lugar, o atendimento às su
paradigma os comportamentos adolescentes, em úl- necessidades vem da sociedade, que tanto lhe cria
tima instância, são psicodinamizados por um siste- muitas delas, como dita as formas de satisfazê-I
ma de necessidades ou motivação, em parte Em suma, as necessidades básicas são psic -
originárias da própria natureza humana, em parte dinamismos que impulsionam os adolescentes a =::
inculcadas pela sociedade. relacionarem comportamentalmente com a socie
O termo "necessidade" de fato freqüenta os de e com a natureza com o expresso objetivo de _-
tratados de psicologia amiudadas vezes como princí- desenvolverem construtivamente 42.
pio hermenêutico dos comportamentos humanos, O caráter construtivo e progressista das ne
servindo muito bem para a análise e inteligibilidade sidades fundamentais não é produto de meras e
dos comportamentos adolescentes. É utilizado pe- culações abstratas. Fundamenta-se em pesqui _
los autores em dois sentidos: homeostático e científica'". Dessa pesquisa se deduz que o ser
dinamostático. mano, pelo menos na maioria de suas atividade . --
No sentido homeostático, a necessidade é visa em primeiro lugar o prazer, como teorizou Fre -
apresentada como uma carência, um vazio, que de- mas tende a realizar alguma coisa ou melhor. --
sequilibra e tenciona o organismo psicofisiológico. prazer está em realizar seu projeto de vida. É o
É a carência tensiogênica que dinamiza o indivíduo resultado desta realização que lhe interessa a .
a praticar as ações indispensáveis à satisfação das de tudo.
necessidades, com o escopo de descarregar a tensão É nessa perspectiva relacional-construtiva
e recuperar a reequilibração psicoorganísmica. Esta devemos interpretar e compreender os compo
consiste em imobilizar-se num repouso saciado, pelo mentos adolescentes.
menos enquanto a necessidade não é despertada Observação atenta desses comportamento
outra vez. Por exemplo, alguém se sente carente de ta-nos que se efetuam em três níveis de complexi -
alimento, amor, segurança aceitação, cultura, ou de psicossomático. psicossocial e racional-espirital. E-
qualquer outra coisa. A tensão causada por esta sen- cada nível predomina um psicodinamismo com se
sação de vazio o faz agir para preencher o vazio com matizes peculiares. Cencini e Manenti fazem
alimento, amor, estudo, etc. Satisfeito, o indivíduo peito este reparo: "O nível especifica o âmbi
pára de lutar por estas coisas. Coffer e Appley citam nossos conhecimentos e dos nossos interesses. o E:-
numerosas pesquisas que comprovam a existência de altura com que observamos a nós mesmos e a -
da homeostase psiquica 41 • do. Mudando de nível, muda a perspectiva,
No sentido dinamostáticos a necessidade nem quando se desce pelos diversos andares de um
"44
sempre é uma carência. Mesmo nos casos em que se cIO
&

.
configura carência e provoca tensão, trata-se duma - Nível psicossomático. Seu psicodinarni
tensão, não para o repouso, mas para novas ativida- compõe-se das necessidades somatoqênicas. E
des. novos ideais. novos objetivos. mais plenificação necessidades não constituem uma distinta psicolo-
exi tencial. social. afetiva. cultural. É inegável em gia dinâmica da adolescência, como ressal ~
odo er vivo o impulso vital para crescer e desen- Schneiders e Zavalloni" . Contudo, quando exami-
'01 'er- e. '0 er humano este impulso vai além da nadas no marco da adolescência, adquirem conter-

•. 3 -50.~ 1994
nos que lhes conferem certa especificidade. Pois são portes, perambulacõe . enfim, u.••'~._ ii;.'OC~!~:!::.i;=~
matizadas pelas transformações pubertárias. ção. Este gosto pelas ati i
As condutas geradas pelo dinamismo psicos- preensível se tivermo prese -
somático são todas aquelas pelas quais os adolescen- adolescente está esruando de en
tes estão buscando a conservação e expansão da vida do para descarregar-se. Sabemo q e o
na biosfera. Condutas visando alimentar-se, repou- adolescente, notadamente na fase pubertánz,
sar, preservar a saúde, etc. Expressam os impulsos carregado de hormônios que o tomam altame te s
adolescentes para conservar a vida. Condutas rela- sível à estimulação e aos apelos do ambiente .. ~ _
cionadas com a satisfação sexual e com o prazer de educadores e pais não resta outra saída enão pr
agitar-se ou movimentar-se (esporte, por ex.) expres- porcionar-lhe ocasiões sadias para este de carrcso.
am os impulsos para expandir a vida. O organismo
ao se sentir carente nessa área dá o alarme denunci- b) Autoconservação. O desejo de con erv -
ando o perigo. A tensão causada psicodimamiza o se na vida é muito vívido em todas as pessoas. 1
sujeito à procura de satisfação de suas necessidades no adolescente guarda uma particularidade .. E -
e assim garantir sua sobrevivência e crescimento. quanto o adulto agarra-se à vida porque a sente e -
Digo "psicodinamiza" porque a necessidade, embora gorar-se e definhar, o adolescente quer vivê-Ia em
de cunho fisiológico, é vivida também no nível psi- plenitude e intensidade. Com sofreguidão. Infeliz-
cológico. mente um bom número experimenta a vida como
As necessidades somatogênicas, alias, são vi- uma realidade extremamente dura, juncada de ad-
vidas não só nos níveis fisiológico e psíquico, mas versidade. Uns tentam superar as asperezas da vida
igualmente nos níveis social e espiritual. De fato, pelo trabalho produtivo. Outros, por condutas anti-
elas têm origem no organismo fisicofisiológico, não sociais ou delinqüentes. Outros ainda fogem pela
são portanto adquiridas, mas as possibilidades e os via da toxicômana. Tais condutas, vistas em conjun-
modos concretos de satisfazâ-las são socioculturais. to, são gritos desesperados dos adolescentes contra
É a cultura que determina quais atividades são ou aqueles que lhes embargam satisfazerem a nece i-
não lícitas aos adolescentes; quais alimentos são co- dade de viver a vida a seu modo.
mestíveis e como são preparados; regulamenta com
maior rigor ainda quando, como e em que circuns- c) Auto-expansão. Vista no âmbito da p
tâncias é permitida a atividade sexual. dade, esta necessidade estimula os adolescen
Convém consignar ainda, para maior clareza, contatos com os outros, especialmente do ou
que as condutas dos nível psicossomático são comuns A dinâmica do processo puberal cujo
a homens e animais. Há todavia uma diferença subs- amadurecimento sexual, desperta no crescentes
tancial entre ambas. Nos animais são causadas por forte tendência para o outro percebido e '''''-,~f=--U.
impulsos instintivos, geneticamente determinados. porém, como ocasião para expandi e - ansems
São simples reações a estímulos internos e externos. novas experiências. Dai o prazer
os adolescentes, em virtude da racionalidade e deleite das amizades do namoro e COIS CU;:;i;:':::~
intencionalidade deles (eles têm objetivos consci- íntimos. Quando bem orie : e iJ=:C:::!..::ns
entes e voluntários), elas têm um significado que autocontrole equilibrado.
transfigura o ato material. É graças a este significado tribuem poderosamen c. _e~ dÚlnlà
específico e a seu caráter cultural que as condutas volvimento con tru c ,; e'
deste nível "se h umanizam". ível P ico _o .~ .~.,...,...,.,.,..
Não podemos exemplificar o psicodinamismo social dos adolescentes,
somático nomeando todas as necessidades que o tas das neassi.
constituem. Destacamos porém três: as necessida-
des de atividade, de conservação e expansão.

a) Atividade. Não é novidade alguma o fato


de o adolescente ser dominado pelo desejo qu e sentindo -
compulsivo de movimentar-se e agitar-se. É-lhe in-
suportável ficar quieto. Se dependesse da .onta e
dele gastaria boa parte de seu tempo em e tas.

43 Educação em Debate- Fortaleza- Ano 16· n! 27 a 28· p. 31-5(}. janJdez. 1


Por isso as amizades, sobretudo as heterossexuais, prováveis, como por uma linguagem ch ocanr
são sumamente benéficas ao amadurecimento sócio- Quer, a seu gosto e modo, que a sociedade - família,
afetivo dos adolescentes. Falo, naturalmente, das escola, os outros - reconheça e facilite a realização
amizades sadias. de seu projeto de vida.
Aparece clara aí a indispensabilidade do "ou- A maior ou menor veemência com que os ado-
tro" - pais, amigos, namorado(a), ete- para a satisfa- lescentes t.ent.am se afirmar na sociedade depende
ção das necessidades sócio-afetivas. Suas origens, de muitos fatores, como por exemplo, o tempera-
dlnamlcldade e sacrarne axo est.ão nas re\ações rnenxo de cada um, a educação recebida, os valores
interpessoais, reais ou imaginárias. Não é novidade internalizados e a estimularão positiva ou negativa
adolescentes, com muita freqüência, viverem essas da sociedade. Cobranças, proibições, controles e
necessidades em fantasia, sendo este estado de âni- autoritarismo exagerados geralmente provocam rea-
mo fontal, v. gr., de condutas auto-eróticas. Pode- ções violentas. O ideal é os adultos dialogarem com
mos até afirmar que o adolescente, em que pese seu os adolescentes democraticamente mas com firme-
egocentrismo, ostenta visível tendência para o za, discernimento e bom senso.
alocentrismo, para o outro afetivamente vivenciado
como fonte de satisfação'". b) Comunicação. Batalhar para ser algué
Já dá para concluir que os adolescentes, pela que conta implica comunicar-se com os outros e c
satisfação de suas necessidades sócio-afetivas, dese- as instituições sociais. Comunicar-se com os ou
jam conservar e desenvolver suas vidas em socieda- sem perder a identidade e autonomia pessoais p
de. Contra essa sociedade levantam protestos e supõe dispor duma consistência interna com dec-
criticas, mas estão conscientes de que sem ela suas sidade suficiente para opor-se aos golpe
existências não terão consistência e continuidade. domesticacão muito comuns em toda socied =
Verifica-se até que a maioria auto determina-se con- Noutras palavras, a necessidade de comuni
forme o sistema de vida dominante na sociedade. está intimamente ligada à necessidade de au
Numa pesquisa entre cerca de mil adolescentes, ten- mação.
do por objetivo avaliar em que medida os valores- A necessidade de comunicação nos adol
do-ser e os valores-do-ter determinavam as condutas tes é tão ativa e premente quanto as outras necesss-
adolescentes, a conclusão foi esta: 98.1% orientam dades fundamentais. Qual é o pai ou a mãe q e -
suas existências pelos valores-do-ter e apenas 1,9% reclama, até à irritação, do filho ou da filha que
pelos valores-do-ser. Sabemos, à saciedade, que nossa versa tempo sem fim ao telefone, ou "vive só n
sociedade se rege pelos valores-do-ter 48. "nas casas alheias", "nas festas barulhentas". -
Entre as muitas necessidades que represen- etc.? A tudo isto, e muito mais, o adolescente é
tam o psicodinamismo deste nível queremos subli- pelido pela necessidade interior de contato. e
nhar duas: auto-afirmação e comunicação. ca, de compartilhamento, de dom de si me m .
comunicação, enfim. Por isso a solidão, o isola _
a) Auto-afirmarção. Para entender corretamen- to, a rejeição são dolorosamente intolerávei ao_ - - -
te a importância desta necessidade para o adoles- lescentes.
cente, convém enfatizar o fato de que ele tem A necessidade comunicativa é tão fund
consciência de existir no mundo, inserido numa so- tal aos adolescentes que a amizade entre eles - - -
ciedade, da qual retira os conteúdos - ideologias, vi- terpretada mais por motivos sócio-afetivo de
são de mundo e de homem, pensamento, normas e por motivos eróticos. Até o namoro e o casamen;
padrões comportamentais, valores, costumes, etc, - consolidam quando assentam em motivos de
de sua vida psíquica personalizada. Não raro esta zação sócio-afetiva, além dos motivos sexuais.
aprendizagem é acrítica. assim que é muito forte na psicologia contem
Aceitando crítica ou acriticamente o processo nea a tendência para interpretar as condutas a
socializador, o que a adolescente quer mesmo é con- centes como o esforço para a auto-realizaçã
serva-se e desenvolver-se socialmente. Percebe logo, sócio-afetiva e não para simples fluição do prazer
porém, que para alcançar este objetivo tem que se mera redução de tensões.
impor. e auto-afirmar como alguém que tem valor, - Nível racional-eSpiritual. A satisfação -
e co ta.. que merece ser levado a sério. Ele diz necessidades psicossomáticas e psicossociai e
:1"-:> - por condutas louváveis ou bizarras e re- prescindível mas não suficiente à realização e . -
cial do adolescente. A realização plena se dará com Vivendo no seio duma soei
satisfação das necessidades do nível racional-espiri- tura tão complexas e confusas. co
tual. Seu psicodinamismo é especificamente huma- pluralistas, é inevitável que o adolescente
no. As condutas geradas nesta esfera é de necessidade de esclarecer sua vida. sabe-
complexidade superior às condutas dos níveis ante- do ela tem. Esta necessidade se patente-
riores. É graças ao psicodinamismo racional-espiri- resse pela escolha acertada dum ide .
tual que os comportamentos psicossomáticos e profissão, da efetuação de algum projeto -
psicossociais "se humanizam'. cultural, econômico, político, educacional ou o
Chamamos de nível racional-espiritual o con- qualquer.
junto das atividades humanas que envolvem Quando a necessidade de sentido da existê -
racionalidade, intencionalidade, liberdade, respon- cia não é devidamente atendida, o adolescente
sabilidade, valores, moralidade, significados, proje- na frustração existencial ou vazio existencial. que é
ções, transcendência. "Com esse poder, escrevem um profundo sentimento de nulidade, insignificân-
Cencini e Manenti, o homem pode formular concei- cia, inutilidade. Daí emanam condutas passivas sub-
tos, conhecer coisas abstratas, julgar, transcender o missas, conformistas, destituídas de aspirações e
"aqui e agora" para afirmar e perseguir valores espi- prospectivas. Numa palavra, jovem é dominado pela
rituais". "O motivo que está na origem desse traba- convicção de que não adianta lutar. Em casos extre-
lho da mente não é, portanto, encontrado num déficit mos, pode até chegar ao suicídio S3 •
dos tecidos orgânicos, nem na consciência da pró- A angústia causada pelo vazio existencial se
pria insuficiência, mas num desejo-necessidade de agrava quando o adolescente descobre, desolado, que
saber resolver problemas fundamentais como o co- as pessoas em quem ancorava sua autoconfiança são
nhecimento de si, do próprio lugar no mundos do falíveis, incoerentes, incongruentes, hipócritas até.
sentido da vida, da morte ... "4'J. O homem, em suma, Simone de Beauvoir interpretou bem os sentimen-
é a única criatura na natureza que pode examinar tos adolescentes em situações como esta ao escrever
reflexivamente sua própria existência no mundo, que "os homens deixam de aparecer-lhe como deu-
perceber-se transcendendo a si mesmo e ao mundo ses, e, ao mesmo tempo, o adolescente descobre o
circundante, projetar-se no Absoluto, orientar-se por caráter humano das realidades que o cercam: a . -
valores e fazer escolhas livres. . guagem, os costumes, a moral, os valores te s
Isso é afirmado do homem em geral. Mas apli- fonte nessas criaturas precárias ..." 54.
ca-se com maior razão aos adolescentes. É na ado- Não é fora de propósito, portanto declarar n'H
lescência, com efeito, que a capacidade intelectual a educação tem papel fundamental nessa uu"'-""' ..•..a .•'"
atinge seu ápice evolucionário'". Por isso o adoles- jovens pelo sentido de suas existências e
cente tem muito aguçada a necessidade de dar res- de autodeterminação". E um bom le
postas honestas a seus problemas existenciais. Entre posto aos jovens é este: "a vida não é ,-:!_.~.'l{.~.
eles dois merecem atenção particular: o sentido da sa, mas é uma oportunidade par
existência e o impulso para a transcendência. (Friedrich Hebbel, poeta alemão .

A) O sentido da existência. O adolescente, a B) Autotranscendên .


despeito de certo sentimento de auto-suficiência mos numa sociedade visceracnente 5i::c'1!!hri::ae.2.,
generalizado entre os de sua idade, tem nítida cons- profundamente mate ..
ciência de suas limitações, incomptetude e perfecti- toda parte movime
bilidade. É cônscio também de que precisa da "espirituais : 50 ..
sociedade e da cultura para suprir suas deficiências xi mo religião. apr''':::lO:~~~:C
e realizar seus desejos de desenvolvimento. Por isso etc, Ohome
afirma [ersild que uma das tarefas do adolescente é progressívameare, =-..:: ~ •.;.-,.-,,< -'~iSCC:~:ctI:::S
'achar o papel que lhe cabe no mundo em que vive" . começando
É um esforço, continua o mesmo autor, "para ser e
vir-a-ser - para perscrutar o significado de sua exis-
tência"!' . "Esta busca de sentido, garante o psicó o- in eren-
go americano, constitui uma qualidade essen de o. diante dessa onda
todos os adolescentes" 51. -se hoje em dia. com

45 Educaçãoem Debate - Rlrtalez.a -Aro 16 -1]227 a28 - p. 31..fiO.j<nJdez.1994


efeito, multiplicarem-se os movimentos de jovens obrigará a superar-se'l" . Entanto, para os adolescen-
com objetivos religiosos culturais, estéticos, de pro- tes a frustração é dolorosa, sempre.
moção humana, com preocupações morais. Há mui- Porque é dolorosa, tentam superá-Ia de inú-
ta esperança, solidariedade, compartilhamento, amor meras maneiras. Vamos dar realce apenas a estas três:
sadio, dom de si entre os jovens atuais. recalque, sublimação e canalização.
Esses comportamentos, que com clara evidên-
cia se sobrepõem aos condicionamentos biológicos a) Recalque. Para Freud, o recalque é a saída
e sócio-afetivos, brotam, garantem vários intérpre- mais freqüente que o homem utiliza para esquivar-
tes, da necessidade fundamental de autotrans- se das frustrações tensiogânicas. E consiste em afas-
cendência. É uma necessidade racional-espiritual tar do âmbito da consciência para a inconsciência,
que todo homem sente de apoiar-se num Absoluto. por repressão, as experiências e desejos não realiza-
Este foi o comportamento dos homens de todos os dos. Com isto o indivíduo quer evitar o sofrimento,
tempos, como atestam a Antropologia Cultural e a o desprazer, a sensação de fracasso.
História, e o homem hodierno não é diferente.". Uma vez inconscientizados, idéias, impulsos,
As condutas adolescentes, segundo a expli- desejos e sentimentos recalcados jamais poderão ser
cação relacional, têm, conforme o nível em que se voluntariamente recordados. São inatingível pela
produzem, sua nascente em dinamismo com carac- ação deliberada do indivíduo.
terísticas específicas. Mas não se trata de dinamis- São conteúdos psíquicos inconscientes mas
mos justapostos e incomunicáveis. O sujeito das dinâmicos. Manifestar-se-ão mais cedo ou mais tar-
condutas é um só - o adolescente, no qual os três de através de comportamentos anormais, ou no mí-
dinamismos se integram numa maneira singular de nimo extravagantes. É o caso daquela adolescente
comportar-se: a personalidade. Por personalidade que acordava quase todas as noites gritando por so-
entendemos, com Nuttin, a maneira própria de cada corro porque, dizia ela, havia um homem debaixo
um ser e comportar-se numa dada situação. Educar de sua cama. A presença do homem era realmente
o adolescente, por isso mesmo, significa formar sua sentida, embora puramente imaginária. Submetida
personalidade enquanto unidade dinâmica a um só a tratamento psicológico, descobriu-se que a origem
tempo somática, afetiva, social, racional e espiritual, de sua conduta neurótica estava nos seus desejos li-
movida por necessidades psicossomáticas, sócio- bidinosos reprimidos.
afetivas e racionais-espirituais.
As condutas neuróticas não são a única via de
C) Frustracões, tenções e conflitos escoamento dos conteúdos psíquicos recalcados.
Também o são, segundo a psicanálise, os sonhos, os
E opinião assente entre os psicólogos que 'atos falhos, os enganos involuntários, os mecanismos
o adolescente, se tiver suas necessidades bási- de defesa. O adolescente - ou qualquer ser humano
cas atendidas a contento, desenvolver-se-à cons- - dispõe de incontáveis maneiras de extravasar
trutivamente, sem graves crises. O não comportamentalmente seus recalques, sem saber
atendimento de suas necessidades, porém, leva- exatamente porquê. Uma dessas maneiras é a
o à frustração com seu cortejo de problemas. O agressividade.
adolescente frustra-se, precisamente, porque Comportamentos agressivos, como todos sa-
depara com obstáculos à satisfa obstáculos po- bemos, são muito freqüentes entre os adolescentes.
dem ser o adolescente se perceber física, psí- Via de regra, sua exacerbação prove, provém das frus-
quica e moralmente incapaz e impotente, ou trações, mormente na área da necessidade de auto-
impedimentos externos, socioculturais. Seja qual afirmação. Qualquer obstáculo nesta área provoca no
for o motivo, a frustração é indesagregável da adolescente reações violentas, cuja intensidade, é
existência humana. bom lembrar, depende naturalmente da gravidade
Seu cortejo de conseqüências é formado, en- da situação e do temperamento do adolescente.
tre muitos outros sentimentos, por tensões, ansie- O adolescente enquanto protagonista de
ades e conflitos. Contudo ela não é de todo agressividade pode assumir três atitudes, consoante
ezativa. A advertência é de Lacroix: "Quem só teve a tipologia de Rosengweig: extrapunitiva, intrapu-
.• ':0 não se conhece a si próprio e ignora do que nitiva e impunitiva. O extrapunitivo, ao frustrar-se,
.m fracasso revelará a si mesmo e o culpa o meio, os outros, que, por isso mesmo mere-

1994
ser castigados. O intrapunitivo envergonha-se procura entrar em relação comportamental c~ 8fc
-sre são, vê-se culpado e merecedor de punição. meio no qual espera achar o objeto que satisfaça sua
punitivo acabrunha-se, mas não se sente cul- necessidade. Conforme os "dados experimentais
o por isso faz apenas justificar-se perante os ou- sobre desenvolvimento da conduta humana", quan-
- . Do ponto de vista psicopedagógico e moral, do a pessoa é bem sucedida na satisfação de suas
ma destas atitudes serve de paradigma às con- necessidades, tende a manter as mesmas condutas
-.- dolescentes. O melhor paradigma é o adoles- que conduziram ao sucesso; mas tende a largar as
-e er capaz de julgar e decidir qual a atitude a condutas com sabor de fracasso (Lei do Efeito).
- conforme um padrão de honestidade. Vista neste quadro, a tendência natural do
O adolescente pode reagir às frustrações pelo adolescente não é recalcar, nem mesmo sublimar,
ânimc, a depressão. Sobretudo se é de tempera- mas ir em busca de novas formas de comportamen-
: tímido e introvertido, e as dificuldades à sa- to, ou "canais" pelos quais a necessidade se escoa e
_:;-ão de suas necessidades e desejos forem o fim colimado se realiza. Quando isto acontece o
__- se amiudadas. comportamento canalizado é incorporado ao sistema
habitual de condutas do adolescente. De forma que
b) Sublimação. Em vez de recalcarem as ne- todas as vezes que estiver sob pressão de tensões
o:! des frustradas, muitos adolescentes cornpen- causadas por alguma necessidade, lançará mão da
com a sublimacão. Consiste esta em o conduta mais adequada para aliviar as tensões.
__cente substituir o objeto de suas necessida- Além disso, em virtude das experiências acu-
ce ejos e sentimentos reprovados pela socieda- muladas, o adolescente descobre, com certa faci-
- outro superior, socialmente aprovado, e que lidade, novas formas de comportamento que
. ~ porcione igual prazer. O objetivo primário do conduzem a uma melhor e mais completa satisfação
escente também aqui é a fruição do prazer. das necessidades. Quando isto acontece, as condu-
Conforme a teoria freudiana da sublimação, as tas "antigas" são descartadas e as novas assumidas.
.=::;r:X:s artísticas e literárias, as práticas religiosas e Ou novas necessidades se impõem, e, por isso, as
=:;::::::IS, os movimentos sociais altruístas e asseme- necessidades anteriores perdem sua força mo-
- todos são sublimações de tendências tivadora.
__ . É evidente que se trata dum mecanismo Canalização é, por conseguinte, o processo pelo
-_ . 'el ao recai que. Por isso o educador, enfatizam qual o adolescente, tendo substituído uma necessi-
istas, deve conscientizar os adolescentes a dade por outra, ou uma forma comportamental por
::z de recalcar seus insucessos, sublimá-los, apli- outra forma nova de satisfazer a mesma necessida-
suas energias em atividades construtivas e de, dirige suas energias para as novas atividades, pois
iore . Estaria portanto na sublimação, de acor- as necessidades antigas perderam o atrativo. Exem-
_'~~o_ o freudismo, a essência da educação.
A ublimação é um processo inconsciente mas
plo do primeiro caso: no início da adolescência o
adolescente sente necessidade da ser egocêntrico,
.. até aconselhável, porque, por ele os jovens mas já para o final da adolescência verifica que ser
~~l.al os fracassos, desviam-se das conseqüênci- alocêntrico é mai interessante e mais satisfatório.
_= tivas do recalque, e vêem a vida com mais Exemplo do segundo caso; no começo da adolescên-
-===--)illO. _ ão obstante, não deixa de encerrar certo cia (puberdade), o adolescente satisfaz sua necessi-
e derrota, porquanto, os desejos primitivos dade erótica com condutas auto-eróticas, mas depois
_~ ••.._~ satisfeitos, mas tão somente substituídos. verifica que as formas hétero-eróticas são mais
~i.~e.m ~\:a~aRh.a a caRali.:z.acãoem vez da satisfatórias, nrazcrosas e plenificantes.
-;::'::::':"~ação.
Em que se diferenciam, então, sublimação e
Canalização. Para o psicólogo joseph Nuttin canalização? Diferenciam-se nisto: 1°) - a sublima-
a ublimação não é a melhor alternativa para ção é inconsciente, a canalização é consciente; 2°) -
~ }:I''\:)1)'\:)~'õ.'-~'\:)~'õ.
~'\,"ü'õ.'Ç'\:)~'\, ~'õ. \:..'õ.~~)'L'õ.- ~'õ. '\,~lTh.~\~,\) ~ i
~~\:'~~~-fu~~'\Th~\.'~~ \:,'V'tl\:m~'d
canalização deve ser entendida no quadro va, disfarçada sob novos comportamento enq
oncepção relacional das necessidades bási- to na canalização a necessidade frustrada é elimin
do a qual as necessidades são dinamismos perde seu valor atrativo, sua potencialidade - é si
uma pessoa, numa situação concreta, plesmente substituída por nova nece sida e:

1~r:::;çj~3:1DE!bal!!·HmJe.za. 016· o! 27 a28· p.31-50- jan./dez. 1994


na sublimação os objetivos da necessidade frustrada A compreensão centrada no inconsciente
permanecem sendo desejados, mas na canalização bém defende que o sentido das condutas ado
novos objetivos prevalecem; 4°) - a sublimação é for- centes emana da vida interior do adolescente. _ .
temente contaminada de elementos libidinosos não desloca o paradigma hermenêutico da consciê
atendidos na infância, liga-se pois ao passado ao passo para as profundezas obscuras e desconhecidas da
que a canalização não tem necessariamente conotação psíquica inconsciente. Agora o sentido das cond
libidinosa e se prende ao futuro. adolescentes não está na instância iluminad
Visto que o adolescente, por mais bem suce- racionalidade, mas na sombria instância da irra
dido que seja na vida, está sujeito a frustrações, é nalidade. Aí se agitam em contínua atividade os p
aconselhável que o educador lhe proponha a cana- cipais e verdadeiros psicodinamismos das cond
lização como saída para superá-Ias. É uma saída con- adolescentes, porém desconhecidos de todos, até
digna do adolescente como pessoa e de seu próprios adolescentes. Só serão desvendados m
desenvolvimento. Porquanto, ao contrário do ante técnicas especiais a Psicanálise.
recalque e da sublimação, a canalização é um pro- Nessa situação, é duvidoso afirmar que o
cesso consciente. Isto é, assenta em decisões vo- lescente seja sujeito de seus comportamentos. P
luntárias e soberanas do adolescente, e não em os comportamentos são determinados por forças ig
meras reações mecânicas, ou em forças instintivas notas. Liberdade e responsabilidade, neste qua
cegas. O adolescente aparece nela como sujeito. O são no mínimo discutíveis. Existe até quem .~_
esforço do educador é que o adolescente se trans- que se trata aqui dum autêntico determinismo P
forme num sujeito consciente de si mesmo no mun- colõgico'",
do, reflexivo e crítico, cônscio de sua liberdade e A compreensão centrada no condicionamer:-
responsabilidade num mundo necessitado de .m. escoimando as condutas adolescentes de elemen-
mudanção estruturais. tos subjetivos, reduz os adolescentes a meros obje
manipuláveis e modeláveis autoritarnente. Conside ..:.
os adolescentes organismos passivos, governados ;:
por um eu, mas pelos estímulos ambientais. Nega
4 CONSIDERAÇÕESFINAIS
que as ações dos adolescentes sejam determinadas.
também, por experiências internas de percepções.
de escolhas e avaliações pessoais. Não admite, -
Temos, portanto, quatro maneiras de compre- jeito nenhum, que o adolescente tenha capacida -
ender as condutas adolescentes, isto é, entender seu de autodeterminação.
sentido: compreensão centrada na consciência, no Também aqui é patente uma concepçã
inconsciente, no condicionamento e na relação. Cada determinista das condutas adolescentes. O que _
qual com seu paradigma hermenêutico diferente. adolescentes são ou vão ser está na total dependên-
A compreensão centrada na consciência vai cia da competência manipulatória dos outros. Os
buscar na vida psíquica consciente do adolescente a adolescentes, a rigor, não têm vontade própria, estã
inteligibilidade de suas condutas. Estas são objeti- subjugados aos condicionamentos educacionais, cul-
vas, por certo, e sofrem as interferências do meio, turais e sociais. Tudo aquilo que os adolescentes acre-
sobretudo do meio social e cultural. Mas a determi- ditam ser escolhas suas não passa de efeitos causado
nação final das mesmas, em última análise, é um ato por seu passado, condição social e educação.
da consciência, cujo centro de decisões é o eu. Quer A compreensão centrada na relação, por fim.
dizer, o sentido dos comportamentos adolescentes é concebe os comportamentos adolescentes como sín-
eminentemente subjetivo. tese existencial da subjetividade e do ambiente obje-
O sujeito desses comportamentos - o adoles- tivo, sociocultural. Valoriza igualmente a vida psíquica
cente - é uma pessoa multidimensional: física, raci- interior e as influências sociais. Ou mais precisamen-
onal, consciente, afetiva e social. Sendo racional e te: o sentido dos comportamentos adolescentes ema-
consciente, é também livre e responsável. É pois no na das relações que os adolescentes, seres intencionais.
contexto destas características, especificamente hu- estabelecem com a sociedade. As relações entre ado-
manas, que devemos entender sua intencionalidade lescentes e sociedade não são episódicas, acidentais,
- fonte primária do significado de suas condutas - e mas existenciais e necessárias. Um não tem sentido
interpretar a psicodinâmica destas. sem uma explícita referências à outra.

48 EducaçOOem Debate- RlrtaIeza- Aro 16- nº V a 28 - p. 31-50- janJdez. 1994


Comparando as quatro formas de compreensão 3 JERSILD, ob. CÍt. pg.
das condutas adolescentes é mais do que evidente 4 HAVIGHURST, Roberto J. Psicolozia
que a compreensão relaciona! guarda sobre as demais Ia Adolescencia, nión Panamericma,
algumas vantagens. Valoriza, é verdade, a consciên- shington, 1962.
cia, liberdade e responsabilidade, tão enfatizadas pela 5 RAMOS, Evilãsio A. "Ser e ter na adolescência"
compreensão centrada na consciência, mas evita o Educação em Debate 12: 19 86: 1-106.
subjetivismo e o individualismo por ela realçados. 6 ZAVALLONI, Roberto: "Lo sviluppo Psicolo ico
Admite os influxos dos impulsos inconscientes na della'dolescente", Encicl o pe d ia de ll
determinação das condutas, todavia insiste no predo- Adolescenza, Brescia, Queriniana, 1965, pu. - .
mínio das escolhas conscientes. Reconhece a existên- - 56
cia das ações condicionantes sobre os jovens, 7 PIKUNAS, J. Desenvolvimento Humano ão
contrapõe, porém, a capacidade que os adolescentes Paulo, McGraw- Hill, 1973, pg.319
possuem de autodeterminar-se. As condutas adoles- 8 VER MAY_, Rollo. Psicologia Existencial P.
centes são determinadas por um complexo de dina- Alegre, Ed. Globo, 1974; Willard, B. Frick;
mismos socioculturais subjetivados. Psicologia Humanista, Rio de Janeiro, Zahar
É esta compreensão relacional que aconselha- 1975; Greening, Thomas (Org.); Psicologia
mos como base duma educação desejável. Assenta Existencial-Humanista, Rio de Janeiros 1975
na idéia de adolescente como ser que se encontra 9 SAINT-ARNAUD, Yves; A Pessoa Humana, São
no mundo, não por acidente, mas por exigência Paulo, Loyola, 1979, pg. 23ss
ontológica. É, portanto, um ser social e histórico por 10 BACH, Marcos. Consciência e Identidade,
natureza. Sociabilidade e historicidade o marcam de Petrópoles, Vozes, 1985, pg. 77.
tal forma que mesmo as poucas características co- 11 GEMELLI, Agostinho. "Apresentação" do li-
muns aos adolescentes de todos os lugares e tem- vro de Roberto Zavalloni; A Liberdade Pes-
pos, se particularizam em existências concretas soal, Vozes, 1968,pg.13.
conforme cada sociedade e época. 12 CHARBONNEAU, Paul-Eugêne. Adolescên-
O adolescente vincula-se ao mundo em todos cia e Liberdade, São Paulo, EPU, 1980, pg.
os níveis de sua existência: psicossomático, sócio- 137
afetivo e racional-espiritual. Expressamos esta ver- 13 CHARBONNEAU, ob. cito
dade com o termo "consciência intencionada". 14 KINGET, G. Marian e Rogers, Carl. Psicoterapia
Dizemos então que o adolescente é uma consciên- e Relações Humanas, vol 1, B. Horizonte,
cia intencionada ao mundo, vale dizer, o mundo - interlivros, 1975, pg. 159.
dos objetos, eventos e pessoa - é objeto de sua refle- 15 KINGET- Rogers ob. cito pg. 160
xão e ação, numa palavra, de suas experiências e 16 SAINT-ARNAUD. ob. cito pg. 22
vivências. 17 MAY, R. O Homem à Procura de Si me o-
Essa vinculação do adolescente ao mundo numa zes, 1973, pg. 77.
perspectiva de educação libertadora, implica que o 18 SAINT-ARNAUD. ob. cito pg. 49 - --
19 MAY, R. Psicologia Existencial. p .
educador, num esforço dialógico, coadjuva o adoles-
cente a se tornar uma consciência reflexiva de si mes- 20 KINGET - Rogers. ob. cit, Pg.
mo no mundo-com-os-outros, num clima de liberdade, 255-274.
21 Citado por Henri Gratton, Psicanálise
assumindo a responsabilidade de contribuir para as
e de Hoje, São Paulo. L .
mudanças de que a sociedade tanto carece.
22 SCHRAML \Yalter]. b~-oC!ê~:O
Profunda para Educadores,
ED SP. 19; .
NOTAS 23

RAMOS, Evilásio A. "Adolescente: quem é ele'


Educação em debates 19/20 1990; 77 - 8 .
2 JERSILD, Arthur F. Psicologia da Adolescência. 0,
São Pauto, Ed. Nacional, 1961 P 5.

49 Educação em Debate- Fortaleza- Ano 16· o! 27 a 28· p. 31·50- jan./dez. 1994


24 ]. Iuttin. ob. cit, pu. 11~ 43 UTTI. Tâche ...
25 VER COFER, c.: -.
E Appleu .• LH. P icologia 44 GE CINI e MANE TI. ob. cito pg. 1-:
de Ia Iotivación. _ léxico. Ed. Trillas. 19 2, pg. 14 - 35.
pu. 6 - 611 45 ZAVALLONE, R. "Lo sviluppo Psicol ózi
26 DORL-\. Cri' odré. P icologia do Ajusta- dell'dolescente" ibid. pg. 64.
mento . .eurôrico. Vozes, 1974; Herry 46 MCKINNEY, John Paul e outros; Psicologia
Guntrip: Como De cobrir e Curaras Neuro- Desenvolvimento, vo1. 3, Rio de Janeiro, E
e . Voze . 19 1. Campus, 1983, pg. Zlss; pg. 103 - 119.
27 CHR.~ n, ob. cit, pg. 201. 47 MEER, Manuel Tejera de: "L'affetivitã nell e .
? . ICe . Rolf; Teorias da Adolescência, B. Ho- evolutiva e il divenire dell'amore", Orien-
rizonte. Interlivros, 1973, pg. 32. tamenti Pedagogici 98, 1970; 365 - 376.
29 ALLERS, R.; Freud - Estudo Crítico da Psica- 48 RAMOS, Evilásio A. 'Ser e ter na adoles-
nálise, Porto, Liv, Tavares Martins, 1970. cência", Educarão em Debate 12, 19
30 ZAVALLONI, R. A Liberdade Pessoal, Vozes, 81 - 106.
1968. 49 CENCINI e MANENTI. ob. cito pg. 16 - -
31 RICHARD, Michel. As Grandes Correntes do 50 CONGER, john. Adolescencia: geração
Pensamento Contempoerâneo, Lisboa pressão, São Paulo, Harper e Row do B
Moraes Editares, 1978, pg. 172. 1980, pg. 30ss.
32 ALLERS, R. ob. cit. ps. 51 JERSILD. A. ob. cit. Pg.7
33 LLERA, Jesús Beltrán. Psicologia, Petrópolis, 52 JERSILD. ob. cito pg. 34.
Vozes, 1992, pg. 14. 53 Sobre o "vazio existencial" ver Viktor F
34 SK1NNER, B. F. Ciência e Comportamento Hu- Fundamentos Antropológicos da Psico
mano, 4a ed., São Paulo, Martins Fontes, pia, Rio de Janeiro, Zahar, 1978, pg. I .
1978, pg. 59. Em Busca do Sentido, P. Alegre, Suliz
35 JAPIASSU, Hilton. A Psicologia dos Psicólogos, 1987; Rollo May: O Homem à Procura de
Rio de Janeiro, Imago, 1978, pg. 45; ver mesmo, 1973.
Morris L. Bigge, Teorias de Aprendizagem 54 BEAUVOIR, Simone. Pour une morale
para Professores, São Paulo, EPUEDUSp, l'ambiguité, 1946, pg. 57, citada por P. -
1977, capo 5 Cherbonneau; Adolescência e Liberda •
36 Para uma critica ao Behaviorismo ver H. J apiassu: pg.98.
Introducao à Epistemologia da Psicologias 55 RAMOS, E. A. "Realização existencial: um ob-
Rio de Janeiro, Imago, 1975; M. L. Bigge, jetivo para a educação", Educação em De-
ob. cir, Melvin, H. Marxe WilliamA. Hilix: bate vo1. 415, na 211; 1983; 102 - 113.
Sistemas e Teorias em Psicologia, 2a ed.; São 56 NUTTIN. Psicanálise e Personalidade, pg. 340
Paulo, Cultrix, 1976, pg. 409 - 414. - 354; Cencini e Manenti, ob. cito Pg. 16 -
37 NUTTIN: Teoria da Motivação Humana, São 35.
Pauto, Loyola, 1989, pg. 32. 57 LACROIX, Jean. O Fracasso, São Pauto,
38 NUTTIN: ob. cito Pg.37. Paulinas, 1970, pg. 15.
39 NUTTIN. Tâche, Réussite et Échec, 3a ed. 58 RONCO, ob. cito pg. 76; sobre a agressividade
Louvain, PU, 1971, pg.54. ver idem, ibid. Pg. 75 - 77; R. May: Po-
40 VER NUTTIN. Consciência, Comportamen- der e Inocência - uma busca das fontes
to e Personalidade, São Paulo, Duas Cida- da violência, Rio de Janeiro, Artenova,
des, 1982; Tâche... pg. 23 e 41 ss. 1974.
41 COFER e APPLEY. ob. cit, pg. 304 - 365 59 NUTTIN. Psicanálise e personalidade, pg. 267
42 Sobre o caráter relacional das necessidades bá- - 274; Tãche, Réussite et Échec, pg. 433 -
sicas ver J. uttin. Psicanális e Personali- 441
dade, pg. 302 - 366. 60 ALERS, R. ob. cit,

50 Educação em Debate Fortaleza- Ano 16· n2 27 a 28· p. 31·50· jan./dez. 1994