Vous êtes sur la page 1sur 36

UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO

DO RIO GRANDE DO SUL

ADÃO DUTRA DE CAMPOS

UM OLHAR SOBRE O AUTISMO PELO VÍES PSICANALÍTICO

SANTA ROSA, RS
2016
ADÃO DUTRA DE CAMPOS

UM OLHAR SOBRE O AUTISMO PELO VIÉS PSICANALÍTICO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito


parcial ao curso de Psicologia da Universidade Regional do
Noroeste do Estado do Rio
Grande do Sul – UNIJUÍ, para obtenção do título de psicólogo.
Departamento de Humanidades e
Educação – DHE.

Orientadora: Ma. Betina Beltrame

Santa Rosa, RS
2016
ADÃO DUTRA DE CAMPOS

UM OLHAR SOBRE O AUTISMO PELO VIÉS PSICANALÍTICO

BANCA EXAMINADORA

_________________________
Orientadora: Ma. Betina Beltrame

__________________________
Ma. Simoni Antunes Fernandes
“Do lado de fora, olhando para dentro, você nunca poderá entendê-lo. Do lado
de dentro, olhando para fora, você jamais conseguirá explicá-lo. Isso é
autismo”.

Autism Topics
DEDICATÓRIA

Dedico a todos aqueles que acreditaram na minha capacidade. Aos meus


familiares, amigos, colegas e professores.
AGRADECIMENTO

Agradeço primeiramente a toda minha família que sempre esteve ao meu


lado, aos meus amigos que me apoiaram nos momentos difíceis, à professora
Betina Beltrame, pela orientação, e aos demais professores pelo conhecimento
compartilhado.
RESUMO

O presente trabalho de conclusão de curso partiu de uma pesquisa bibliográfica a


qual teve como tema estudar a questão do autismo, sendo que esta é uma patologia
que ganha destaque por haver altos índices dentro da população mundial e que
ainda requer maiores investigações no que concerne ao seu entendimento e
tratamento. Este tema foi estudado a partir de uma leitura histórica de como surge o
conceito e o diagnóstico e a partir da teoria psicanalítica, buscando abordar os
diferentes diagnósticos, tendo como base o DSM (Diagnóstico de Saúde Mental) e o
CID-10 (Classificação Internacional das Doenças). Relacionou-se, então, o
pensamento de diferentes autores sobre o assunto. Quanto ao viés psicanalítico,
buscou-se retomar a questão da constituição psíquica do bebê e a dificuldade no
estabelecimento da relação dual entre a mãe e a criança, restringindo, assim, o
aparecimento da subjetivação. Destacaram-se neste contexto as funções, tanto
materna como paterna, apontando as diferentes visões sobre o assunto. Entendeu-
se, assim, que pelo viés psicanalítico que o autismo trata-se de uma estrutura que
envolve a relação familiar e a falta de investimento por parte dos responsáveis. No
que concerne ao tratamento, a partir da suposição de que ali onde até o momento só
existe um automatismo biológico seja capaz de imergir um sujeito de desejo, é
preciso buscar e contar com a aposta da família, para que esta possa dar sentido às
ações exercidas pelo paciente, no intuito de ressignificar o mundo em que o mesmo
está inserido.

Palavras-chaves: Autismo. Psicanálise. Funções Materna e Paterna. Desejo.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 09

1. UM OLHAR HISTÓRICO SOBRE O AUTISMO E SUAS DEFINIÇÕES ............. 11

2. O AUTISMO EM UM VIÉS PSICANALÍTICO........................................................23

CONCLUSÃO............................................................................................................34

REFERÊNCIAS ........................................................................................................36
9

INTRODUÇÃO

A questão do autista caracteriza-se como uma questão que afeta um número


considerável de pessoas, na atualidade, torna-se importante retomar um pouco da
história, seus principais sintomas e as diferentes concepções de autismo entre os
campos de conhecimento. Tendo em vista que o curso de Psicologia da Unijuí tem
como referência o enfoque psicanalítico, busca-se a partir de então questionar o que
é o autismo para a psicanálise, relacionando o tema autismo a outras questões.

Sendo assim, o presente trabalho é uma pesquisa bibliográfica que, na


perspectiva de GIL (2010, p. 01), trata-se de “um procedimento racional e
sistemático o qual tem como objetivo proporcionar respostas aos problemas que são
propostos”. Sendo assim, segundo o autor, a pesquisa é requerida quando não
temos todas as informações para responder ao problema.

Ademais, o objetivo da pesquisa é estudar as diferentes formas de


diagnóstico. Salientando na área da neurologia as mudanças ocorridas no CID-10
com o DSM-IV e o DSM-V. Quanto à psicanálise, o trabalho visa pensar o
diagnóstico do autismo na problemática que envolve o vínculo familiar e uma
possível intervenção em busca do tratamento ao indivíduo acometido por esta
questão.

Outrossim, o interesse pelo assunto surgiu na clínica escola da Unijuí, quando


no estágio clínico o acadêmico deparou-se com um caso de autismo que, embora
inicialmente bastante intrigante pelos sintomas, instigou buscar conhecer melhor
este tema. Tais questões permitiram o questionamento de como se constitui uma
estrutura autista, como a família está inserida neste vínculo, partindo do viés
psicanalítico.
10

Para tanto, o presente estudo está organizado em dois eixos principais, sendo
que o primeiro trabalhará com a questão histórica do autismo, seu conceito em uma
concepção neurológica, relacionando, assim, as diferenças ocorridas quanto ao
diagnóstico, a partir das ferramentas como DSM-IV e o DSM-V.

O segundo capítulo volta-se, então, à questão da psicanálise, procurando


relacionar a concepção de diferentes autores como Jerulinsky (2012), Bettelheim
(1987), Laznick (2004), Freud (1915), Mahler (1958), entre outros, no intuito de
problematizar a questão do diagnóstico segundo a psicanálise, procurando estudar a
questão da função materna e paterna na constituição psíquica do sujeito. Ao final,
apresentam-se as conclusões e as referências bibliográficas que foram utilizadas
para embasar este trabalho.
11

1 UM OLHAR HISTÓRICO SOBRE O AUTISMO ATÉ AS SUAS DEFINIÇÕES

Conforme o viés que é pensado e trabalhado o autismo pode ser tratado


como uma estrutura ou como patologia que invade a relação do indivíduo com o
social. Desta maneira, tendo em vista a importância de trabalhar com o assunto,
pode-se pensar nas questões etiológicas, históricas, possíveis causas e as
consequências desta patologia, as quais serão abordadas neste capítulo.

Em pesquisas na literatura, percebe-se que o termo que se refere ao autismo


é recente, tendo pouco mais de um século de existência. Porém, se olhar para o
passado, segundo Stelzer, “o termo autismo foi introduzido na literatura médica por
Eugen Bleuler em 1911 para designar pessoas que tinham grande dificuldade em
interagir com as demais e com muita tendência ao isolamento” (STELZER, 2010, p.
08). Ressalta-se que o verdadeiro interesse de Bleuler estava voltado ao estudo da
esquizofrenia, sendo que os sintomas autistas enquadravam-se apenas como um
dos sinais desta patologia.

No entanto, o autismo ganhou espaço apenas em 1943, pelo psiquiatra Leo


Kanner, com o estudo de 11 crianças que apresentavam dificuldades em
estabelecer vínculos afetivos e em tolerar a modificações menores do ambiente e da
rotina diária. Sendo que “a principal característica diz respeito à incapacidade de se
relacionar com as demais pessoas, iniciando nos primeiros anos de vida” (KANNER,
1943 apud STELZER, 2010, p.10). Segundo Kanner, as crianças apresentavam
outras características que julgou serem secundárias, tais como:

Alterações de fala e de linguagem (como atraso de desenvolvimento de


linguagem, emprego de entonação pouco comum, uso de pronomes
trocados e perseveração), desenvolvimento cognitivo alterado,
comportamentos repetitivos e sensibilidade pouco comum a de terminados
fatos e situações. Oito das onze crianças desenvolveram linguagem, mas
12

não empregarão para a comunicação com as demais pessoas. Estas


crianças não apresentavam, contudo, deficiência mental como destacou o
autor (KANNER, 1943 apud STELZER, 2010, p. 10).

Segundo Klin (2006), em meados do século passado, houve muita confusão


quanto à natureza e a etiologia do autismo, tendo como crença mais comum de que
o autismo tinha como causa principal a hipótese da “mãe geladeira”. Termo criado
em 1960 pelo psiquiatra Leo Kanner, através do qual as mães eram tidas como
“frias” de afetos, em relação a seus filhos. Na maior parte do mundo, tais noções
foram logo abandonadas, embora ainda que possam ser encontradas em partes da
Europa e da América Latina.

No início dos anos 60, um crescente corpo de evidências começou a


acumular-se, sugerindo que o autismo era um transtorno cerebral presente desde a
infância e encontrado em todos os países e grupos socioeconômicos e étnico-raciais
investigados. Sendo assim, um marco na classificação desse transtorno ocorreu em
1978, quando Rutter apresentou:

Uma definição do autismo com base no atraso e desvio sociais não só como
função de retardo mental, problemas de comunicação, novamente, não só
em função de retardo mental associado, a comportamentos incomuns, tais
como movimentos estereotipados e maneirismos com seu início antes dos
30 meses de idade (RUTTER, 2005 apud KLIN, 2006, p.2).

Segundo Pimenta (2012), na mesma época em que Kanner expunha ao


mundo seus relatos referentes ao autismo, em 1944, Hans Asperger descreveu uma
condição que denominou de Psicopatia Autística. Essa publicação, editada ao final
da Segunda Guerra Mundial por um austríaco, ficou restrita a língua alemã até 1971,
quando foi discutida pelo inglês Van Krevelen. Sendo assim, apenas em 1981, as
ideias de Asperger tornaram-se divulgadas pela psiquiatra britânica Lorna Wing, ao
escrever seu trabalho “Asperger’s Syndrome: a Clinical Account”. Pimenta (2012)
cita a crença de que:

Asperger desconhecia o trabalho de Kanner e que se utilizou do adjetivo


“autista” de maneira diferente de seu colega austro-americano. Ele
nomeava de Psicopatia Autística uma síndrome infantil que apresentava
desvios importantes nas áreas de interação social, comunicação e nos
jogos simbólicos, tal como ocorre no autismo de Kanner (PIMENTA, 2012,
p. 23).
13

Cientificamente, busca-se um termo literário que defina o significado para o


autismo. Sendo assim, é necessário atentar para o fato de que esse termo na
verdade é uma palavra derivada do grego: “(autos = si mesmo + ismo =
disposição/orientação) e foi tomado emprestado de Bleuler (o qual, por sua vez,
subtraiu o “eros” da expressão autoerotismus, cunhada por Ellis, para descrever os
sintomas fundamentais da esquizofrenia)” (BAPTISTA, 2002, p. 26).

Todavia, busca-se transcrever em palavras uma definição que consiga


descrever o significado para o autismo. Para tanto, é possível que se encontre um
universo dominado por incertezas e pelo inexplicável, frente à complexidade com
que este termo pode apresentar. Segundo consta expresso no Diagnóstico de
Saúde Mental (DSM-V), trata-se do mais conhecido entre os Transtornos Invasivos
do Desenvolvimento (TID)1, que se caracteriza pelo desenvolvimento
acentuadamente atípico na interação social e na comunicação e pela presença de
um repertório marcadamente restrito de atividades e interesses (DSM-V, 2014).

A questão que remete à causa do autismo tornou-se um assunto de debate


intensivo e de muitas pesquisas pelos estudiosos do assunto. Segundo Bosa e Callis
(2000), há duas teorias que se opõem nesta tentativa de explicar as causas do
autismo. Sendo elas, então, a teoria psicogenética e a biológica. Sobre a teoria
psicogenética, Klin (2006) expressa que:

Segundo a teoria psicogenética a criança era normal no momento do


nascimento, mas devido a fatores familiares adversos no decorrer do seu
desenvolvimento desencadeou um quadro autista. Os sintomas eram
considerados secundários, atribuíveis, as condutas parentais impróprias.
Esta teoria deu início a pesquisa reagrupadas em quatro eixos, sendo esses
o estresse precoce, as patologias psiquiátricas parentais, quociente de
inteligência e a classe social dos pais, e por último a interação pais e filhos
(KLIN, 2006 apud MARINHO; MERKLE, 2009, p. 4).

Uma das abordagens tem sua origem biológica destacando as ideias de


Assumpção e Pimentel (2000), os quais explicitam que embora as causas do
autismo sejam desconhecidas, várias doenças genéticas e neurológicas foram
descritas como possíveis sintomas para o autismo. Ademais, problemas
1
Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (TID) compreende um amplo espectro de transtornos do
desenvolvimento caracterizados pela presença de distúrbios do comportamento que tem em comum
a diminuição ou a perda das habilidades sociais, da comunicação, da imaginação e do
comportamento, e a presença de interesses repetitivos (CID-10,1993).
14

cromossômicos, gênicos, metabólicos e mesmo doenças transmitidas ou adquiridas


durante a gestação, durante ou após o parto, também podem estar associados
diretamente ao autismo. Para tanto, cita-se Leboyer, o qual reforça as ideias já
apresentas por Assumpção e Pimentel (2000), ao mencionar que:

A lista de situações patológicas é muito extensa e inclui fatores pré, peri e


neonatais, infecções virais neonatais, doenças metabólicas, doenças
neurológicas e doenças hereditárias. Apesar da ausência aparente de
ligação entre elas, um ponto comum às reúne: todas as patologias são
suscetíveis de induzir uma disfunção cerebral que interfere no
desenvolvimento do sistema nervoso central (LEBOYER, 2005 apud
MARINHO; MERKLE, 2009, p. 5).

Na década de 80, iniciaram-se os estudos básicos de neuro-anatomia em


pessoas autistas.” Foram então descritas alterações no lobo frontal medial, temporal
medial, gânglios da base e tálamo” (DAMASIO; MAURER, 1978 apud GARCIA,
2011, p.3).

Os artigos sobre o tema relatavam que pacientes autistas, apresentavam


alterações em regiões cerebrais como no cerebelo, na amigdala, no
hipocampo, nos gânglios da base e corpo caloso. Sendo que as
anormalidades metabólicas e celulares ainda permanecem desconhecidas
(BOLIVAR, 2007 apud GARCIA, 2011, p.3).

Outras pesquisas revelaram áreas de alteração no sistema límbico, sendo


que o hipocampo, a amígdala e o córtex entorrinal mostram um tamanho diminuído
das células, e uma maior densidade das células, sugerindo, assim, um padrão
consistente com a restrição de desenvolvimento no cerebelo e na oliva inferior. No
cerebelo, no entanto, o número de células de Purkinje é reduzida e a região
posterior inferior dos hemisférios aparentam ser as áreas de maior redução. Tais
relatos apresentam mudanças relacionadas à idade, ao peso e ao volume cerebral
(KEMPER, BAUMAN, 1998 apud GARCIA, 2011).

“Para um melhor esclarecimento, as células de Purkinje têm grande


importância por serem as células que mais recebem sinapses do sistema nervoso
central podendo receber até 200 mil contatos sinápticos” (ANNUNCIATO, 1995 apud
GARCIA, 2011, p. 4).
15

Ademais, nas palavras de Garcia (2011, p. 9), “A ressonância magnética e


posteriormente a neuroimagem foram um grande passo na pesquisa sobre
alterações anatômicas no autismo”.

Segundo Cavalheira (2004), estudos atuais sobre o autismo têm apontado


uma relação entre a síndrome e problemas genéticos, tais como as convulsões, a
deficiência mental, a diminuição neural, a diminuição sináptica na amigdala, no
hipocampo e no cerebelo. Ademais, o tamanho aumentado do encéfalo e a
concentração aumentada de serotonina são causas neurobiológicas que estão
associados ao autismo (CAVALHEIRA, 2004 apud GARCIA, 2011, p. 6). Quanto ao
diagnóstico de autismo, Garcia (2011), aponta que:

Por não existir marcadores biológicos, o diagnóstico do autista é ainda


baseado em critérios comportamentais, mesmo que as pesquisas sobre o
tema estejam em constante avanço, ainda há uma distância muito grande
na compreensão deste fenômeno (MOURA, 2005, apud GARCIA, 2011,
p.7).

Na busca do diagnóstico do autismo, torna-se importante retomar a


Classificação Internacional das Doenças (CID-10), que classifica duas categorias de
autismo, sendo elas o autismo infantil e o autismo atípico. Assim, o diagnóstico de
autismo infantil dá-se a partir de sintomas que surgem antes dos 3 anos de idade,
tornando-se característico o funcionamento anormal em todas as três áreas da
interação social, como a comunicação, o comportamento restrito e repetitivo. As
diretrizes diagnósticas, a partir do CID-10, são:

Comprometimentos qualitativos da interação social reciproca. Estes tomam


a forma de apreciação inadequada de indicadores sócio–emocionais, como
demonstra por uma falta de respostas para emoções e outras pessoas e/ou
falta de modulação do comportamento, de acordo com o contexto social,
uso insatisfatórios de sinais sociais e uma fraca integração dos
comportamentos sociais, emocionais e de comunicação e, especialmente,
uma falta de reciprocidade sócio–emocional. Similarmente,
comprometimentos qualitativos da comunicação são universais (CID-10,
1993, p. 247).

O autismo atípico, segundo o CID-10 (1993), já difere do autismo infantil em


critérios como a idade quando o comprometimento se manifesta, sendo então
superior aos 3 anos de idade. Surge, então, com mais frequência em indivíduos
16

profundamente retardados e, pode ocorrer também em indivíduos com graves


transtornos específicos do desenvolvimento e da linguagem receptiva. Já o
Diagnóstico de Saúde Mental (DSM-IV) baseia-se nos seguintes critérios para
diagnosticar a síndrome:

Alteração qualitativa das interações sociais, como: incapacidade de


estabelecer relações com os pares correspondendo ao nível de
desenvolvimento; desinteresse de espontaneamente compartilhar seus
prazeres; falta de reciprocidade social ou emocional; atraso ou ausência
total de desenvolvimento da linguagem; incapacidade de acentuada de
iniciar ou sustentar uma conversa; uso estereotipado e repetitivo da
linguagem; ausência do jogo do “faz de conta”; tiques estereotipados e
repetitivos; preocupação persistente com certas partes de objetos; adesão a
hábitos ou rituais específicos (DSM-IV, 2012, p.86).

Sendo assim, o DSM V busca ser mais sucinto nesta questão do


diagnóstico, passa a utilizar, então, o termo déficits, para trabalhar esta questão da
dificuldade do autista em iniciar e manter um vínculo com o social.

Déficits persistentes na comunicação social e na interação social, déficits na


reciprocidade sócio emocional, déficits nos comportamentos comunicativos
não verbais usados para a interação social, déficits para desenvolver,
manter e compreender relacionamentos (DSM-V, 2014, p, 94).

Os autores do DSM-V ressaltam que “a gravidade baseia-se em prejuízos na


comunicação social, e em padrões de comportamentos restritos e repetitivos” (DSM-
V, 2014, p. 94). Ainda, segundo o DSM-V, quanto ao comportamento repetitivo e
restritivo, o indivíduo deve apresentar ao menos dois dos seguintes
comportamentos:

Apego extremo a rotinas, e padrões de resistência a mudanças nas rotinas,


sinais ritualísticos. Fala ou movimentos repetitivos e estereotipados.
Interesses intensos e restritivos, dificuldade em integrar informação
sensorial ou forte procura ou evitar comportamentos de estimulo sensoriais,
caracterizando problemas de transtorno sensoriais (DSM-V, 2014, p. 98).

A partir dos dados apresentado por José de Jesus Mari, em uma pesquisa
apresentada no site sobre o autismo: “Projeto Integrar”, o autor aponta que, com o
lançamento da quinta edição do DSM, o autismo não faz mais parte dos
“Transtornos Invasivos do Desenvolvimento”, que até então era composto pelo
Autismo Infantil, Síndrome de Asperger, Transtorno Desintegrativo, Autismo Atípico
e Síndrome de Rett, os quais passam, então, a fazer parte do diagnóstico do
“Transtorno do Espectro Autista”, com a exceção da Síndrome de Rett. O DSM-IV
17

tinha três critérios principais para o diagnóstico do autismo. Eram estes: desafios de
linguagem, déficits sociais, comportamento estereotipados ou repetitivos. Enquanto
que no DSM-V um critério seria déficits de comunicação social, e o outro relativo ao
comportamento/interesses restritos e repetitivos.

Contudo, através dos manuais, é possível perceber que o autismo consiste


em um transtorno que invade as diferentes áreas do desenvolvimento tais como: a
comunicação e a linguagem, a socialização, os interesses e o comportamento. E
cada vez mais desperta um crescente interesse, pois os índices estão aumentando.
Bem como, ainda se apresenta como um transtorno complexo que mobiliza estudo e
entendimento para o enfrentamento dos sintomas e a busca de tratamento.

A reportagem de Paiva Junior, na Revista Autismo (2014), ressalta que


“Casos de autismo sobem para 1 a cada 68 crianças”, também aponta que, segundo
a Organização Mundial de Saúde (OMS), só no Brasil estima-se que a síndrome
atinja cerca de 2 milhões de pessoas.

Sendo assim, para pensar em frentes de trabalho, no que concerne ao


autismo, no âmbito da saúde, do social e da aprendizagem faz-se necessário
exemplificar possíveis causas. Kanner (1943) citado por Dumas (2011) trabalhou
com um grupo de crianças, com o diagnóstico de autismo, chegando à conclusão
inicial de que a causa seria biológica. Kanner (1943) salienta, então, que:

Devemos postular que essas crianças vêm ao mundo com uma


incapacidade inata de formular o laço afetivo origem biológica desenvolvido
habitualmente com as pessoas próximas, assim como outras crianças vem
ao mundo com uma deficiência física ou mental inata (KANNER, 1943 apud
DUMAS, 2011, p. 99-100).

No entanto, esta concepção sobre a causa do autismo logo muda. Em 1954,


Kanner, citado por Dumas (2011), defende a ideia de que a origem do autismo
provinha de fatores psicológicos e familiares, destacando assim os efeitos da “frieza
afetiva”, onde as crianças seriam objetos por parte dos seus pais. Neste sentido,
Betelheim (1969), inspirado no trabalho de Kanner, vai valar que “filhos de
profissionais frios, distantes e autossuficientes ou, pior ainda, que rejeitavam os
18

filhos aos quais eram incapazes de amar” (BETELLHEIM, 1969 apud DUMAS,
2011).

O Diagnóstico de Saúde Mental (DSM-IV, 1994) traz como possíveis causas


do autismo condições neurológicas, como também, outras condições médicas
gerais, como “encefalite, fenilcetonúria, esclerose tuberosa, síndrome do x frágil,
anóxia durante o parto, rubéola materna”. Já o DSM-V (2014, p. 56) permite pensar
em dois fatores responsáveis pela causa do autismo, sendo o primeiro, os fatores
ambientais: “Uma gama de fatores de riscos inespecíficos, como idade parental
avançada, baixo peso ao nascer ou exposição fetal a ácido valpróico”. O segundo
fator então seriam questões genéticas e fisiológicas como:

Estimativas de herdabilidade para o transtorno do espectro autista variam


de 37% a mais de 90%, com base de concordância entre gêmeos.
Atualmente, até 15% dos casos de transtorno do espectro autista, parecem
estar associados a uma mutação genética conhecida, com diferentes
variações no número de cópias de novo, ou mutações de novo em genes
específicos associados ao transtorno em diferentes famílias (DSM-V, 2014,
p. 57).

Dumas aponta vários fatores que influenciam na causa do autismo, sendo o


primeiro deles o fator genético. “Estudos de famílias indicam que cerca de 5% das
crianças autistas têm irmão ou irmã com o mesmo transtorno (essa cifra é de mais
de 15% quando são incluídos os irmãos e irmãs que apresentam um transtorno do
espectro autístico)” (LE COUTEUR et. al., 1996 apud DUMAS, 2011, p. 115).

Ademais, Dumas cita Lainhart et. al. (2002) e destaca que “Pais e irmãos de
crianças autistas têm uma probabilidade elevada de apresentar traços autísticos:
são distantes, rígidos ou inábeis em relações sociais e as vezes, sentem dificuldade
de se expressar ou de compreender o que lhes dizem” (LAINHART, et al., 2002
apud DUMAS, 2011, p. 115).

Outra informação oportuna quanto à questão genética que Dumas explicita ao


citar Veenstra-Vanderweele e Cook (2003) é que “gêmeos monozigóticos, que
compartilham com seu irmão autista um patrimônio genético quase idêntico,
apresentam cerca de 60% de chance de ter o transtorno, além disso, mais de 90%
19

de ter um transtorno do espectro autista” (VEENSTRA-VANDERWEELE; COOK,


2003 apud DUMAS, 2011, p. 116).

Estudos tentam provar disfunções neurobiológicas como: “o tamanho do


cérebro do autista é superior à média, mas as redes de conexão entre as partes do
cérebro, em geral são menos desenvolvidas” (AYLWARD; MINSHEW, 2002 apud
DUMAS, 2011, p. 116). “Imagens cerebrais revelam também disfunções localizadas
em regiões do cérebro, como o cerebelo” (ALLENE COURCHESNE, 2003 apud
DUMAS, 2011, p. 117).

Quanto ao desenvolvimento precoce, Rodier (2002) aponta que “crianças


autistas têm, em média, mais problemas de saúde antes, durante e após o
nascimento do que as crianças sem transtornos psicopatológicos (por exemplo,
prematuridade, exposição a diferentes agentes patógenos)” (RODIER, 2002 apud
DUMAS, 2011, p. 118). Sendo assim, Dumas (2011) toma como referência a opinião
de Fombonne (1995) ao salientar que “É pouco provável que estes problemas
estejam na origem do transtorno. Porém, eles aumentam sua vulnerabilidade e, na
presença de fatores etológicos, poderiam contribuir diretamente para o transtorno ou
para a sua gravidade” (FOMBONNE, 1995 apud DUMAS, 2011, p. 118).

Tratando-se de fatores psicológicos e ambientais, Bettelheim (1987)


expressa que o autismo seria fruto de uma reação da criança frente a sentimentos
de rejeição e abandono por parte dos pais. Porém, Dumas (2011) comenta que
estas concepções já não são mais aceitas na atualidade, pois não dá para
considerar o autismo como um aprendizado, considerando-se que o autismo tem um
início muito precoce, e em geral está associado a um retardo mental importante.
Sendo assim, segundo Dumas (2001), pode-se aceitar que uma criança rejeitada, ou
com comportamentos positivos quase sempre ignorados desenvolva problemas de
adaptação relevantes. Contudo, segundo o mesmo autor, seria muito difícil explicar
como estas experiências levariam ao transtorno.

Estudos apontam que o autismo é uma síndrome que pode apresentar


algumas comorbidades. E, na perspectiva de Dumas (2011), estudos comprovam
que, em quase dois terços dos casos, o autismo é acompanhado de retardo mental.
20

O autismo manifesta-se antes dos 3 anos de idade, atingindo de 3 a 4 vezes


mais meninos que meninas, caracterizando-se a partir de problemas sérios
na interação social, na comunicação e comportamento. Apresenta
comportamento bastante limitado, de natureza repetitiva e estereotipada,
sendo que quase 50% das crianças autistas são mudas, e em quase dois
terços dos casos, o autismo é acompanhado de retardo metal (DUMAS,
2011, p. 98-99).

Sendo o autismo uma síndrome bastante complexa, que afeta todas as áreas
do desenvolvimento, podendo ainda surgir acompanhado de outras questões,
estudos vêm sendo realizados então no intuito de conhecer quais seriam as
possíveis causas desta patologia. Neste sentido, Freitas (2012) salienta que:

Nos anos 1970, uma série de pesquisas comprovou que o autismo e um


quadro neurobiológico, que acomete os mecanismos cerebrais básicos de
sociabilidade. Hoje, sabe-se que o autismo tem diversas causas, ou
etiologias, sendo as genéticas as principais (FREITAS et. al, 2012, p. 53).

Ainda, segundo o mesmo autor, na década de 70 o autismo era classificado


dentro do diagnóstico de psicose, sendo conhecido psicopatia autística. Porém, “Em
1976 Rtivo relaciona pela primeira vez o autismo a um déficit cognitivo, passando a
considerá-lo não mais como psicose, mas sim distúrbio do desenvolvimento”
(FREITAS et. al, 2012, p. 53-54).

Ainda para o mesmo autor, este destaca que “As manifestações


comportamentais que definem o autismo incluem déficits qualitativos da interação
social e na comunicação, padrões repetitivos e esteriotipados de comportamento, e
um repertório restrito de interesses e atividades” (FREITAS, et. al., 2012, p. 54).
Devido ao fato de que as causas do autismo tratarem-se de uma questão
bastante complexa, torna-se importante refletir sobre o pensamento de Foster
(1999), que vai falar sobre possíveis prognósticos para o autismo infantil. O mesmo
autor ainda revela que os sintomas autísticos podem surgir como uma reação ante a
impossibilidade de tolerar certos estímulos ou situações no meio externo. Tendo em
vista também que pode ocorrer possíveis desconexões, se a criança perde sua
figura materna. A criança pode também não responder à estimulação materna por
padecer de transtornos neurológicos, congênitos ou adquiridos, com ou sem retardo
mental.
21

Sendo assim, segundo Foster (1999), a presença destes transtornos na


criança pode acarretar o que ele denominou de “conduta de desconexão” consciente
ou inconsciente na mãe, que não consegue investir mais em seu filho. Segundo o
mesmo autor, esta falta de investimento por parte da mãe surge também quando a
criança não é desejada, não faz parte da fantasia de sua mãe. Ocorre, a partir de
então, uma fratura nesta função, acabando a criança por se desenvolver de forma
inadequada, desarmônica, emocional e também neurologicamente.

Foster (1999) ainda ressalta a importância do desejo materno, na questão da


qualidade do tônus muscular e atitudes corporais na criança. Neste sentido, o
mesmo autor destaca quanto ao afeto que:

A qualidade tônica da criança, isto é, se é hipo ou hipertônica, ou de tônus


normal, não apenas determina como e vista e sentida, mas como sente a si
mesma. Também como assimila os dados que seu aparelho proprioceptivo
lhe proporciona para a valorização da imagem do seu corpo e do mundo. A
percepção esta regida por uma atitude e muda quando esta muda
(FOSTER, 1999, p. 151).

Segundo ainda o mesmo autor, os reflexos de maturação neurológica


desenvolvem-se e modificam-se, adaptando-se às circunstâncias do momento.
Surgindo, a partir de então, as primeiras bases do desenvolvimento cognitivo. Sendo
que alterações em tais reflexos podem produzir importantes anomalias na
maturação. Podendo, assim, surgir um transtorno do tipo autista, como fruto de uma
estrutura de maturação neurológica desarmônica e disfunção cerebral. Porém, se
conseguir buscar os signos de maturação desarmônica e os signos mínimos de
disfunção, poderá se obter a detecção precoce e, desta forma, o tratamento
antecipado do autismo (FOSTER, 1999). Sobre os primeiros signos ou sinais que
podem levar a um diagnóstico de autismo, o mesmo autor ainda indica que:

Os primeiros signos de alarma iniciais poderiam ser a pobreza ou ausência


do reflexo de antecipação e aproximação oral ao peito materno (pelo qual o
recém-nascido põe-se em linha com o bico do seio e abre a boca mesmo
antes de entrar em conato com ele) e o rechaço ao entrar em contato com
o peito; a pobreza ou ausência do reflexo de busca ou dos quatro pontos
cardeais, do reflexo de sucção e dos reflexos de fixação e seguimento
ocular, assim como, mais tarde do sorriso social (FOSTER, 1999, p. 152).
22

Ainda na perspectiva do mesmo autor, nas crianças autistas, é possível


encontrar percepções distorcidas, como insensibilidade diante de certos estímulos,
como, por exemplo, as:

Sensoriais: não ver, não ouvir, não cheirar, não provar o gosto, com
insensibilidade frente a cheiros e sabores desagradáveis. Emocionais:
negar-se a receber caricias e afeto, sensitivos: insensibilidade ás
temperaturas extremas ou a dor de origem exteroceptiva ou proprioceptiva,
até a automutilação (FOSTER, 1999, p. 154).

Em contrapartida, o autista pode apresentar hipersensibilidade frente a outros


estímulos, tais como:

Auditivos: produzidos por esfregar superfícies, ou apertar os ouvidos, ficar


horas escutando música, bater ritmicamente. Visuais: predileção por olhar
para a luz, movimentar a mão frente aos olhos, produzindo jogos de luz e
sombra, brincar com a sombra, apertar os olhos. Olfativos: cheirar tudo.
Gustativos: por tudo na boca. Vestibular: dar voltas ou ensimesmar-se com
coisas que dão voltas (FOSTER, 1999, p. 155).

Tendo em vista a complexidade que envolve o diagnóstico do autismo, tomou-


se como referência às questões neurológicas, físicas, psicológicas e afetivas, para
se pensar a síndrome. Porém, ainda se realizam estudos que buscam esclarecer
melhor a origem desta patologia, tendo como referência diferentes áreas do
conhecimento. Nesta perspectiva, neste estudo, busca-se trabalhar tal questão a
partir de um viés psicanalítico. Dados estes que serão explicitados no capítulo
seguinte.
23

2 O AUTISMO EM UM VIÉS PSICANÁLITICO

Este capítulo apresenta um breve olhar da questão do autismo a partir da


psicanálise, buscando autores clássicos e contemporâneos que estudam esta
temática, pensando também nas funções maternas e paternas, descritas por Freud.
Desta forma, trabalhando a questão do autismo, pela teoria psicanalítica, busca-se
retornar um pouco a constituição do sujeito, no intuito de esclarecer a importância
dada a família como “peça” fundamental no desenvolvimento da subjetividade.
Segundo a psicanálise, para que nos tornemos seres humanos, além de pertencer a
uma determinada família, é preciso estar inscrito no desejo desta, desejo este que
será inscrito ou não pelos representantes da função materna e paterna
(JERUSALINSKY, 2012).

Segundo a psicanálise, o recém-nascido não é considerado um sujeito. Nesta


perspectiva, cita-se Waskieewiz, Víctor, Vendrusculo et. al. (2012), ao estudarem
Freud e explicitarem que:

Tomando o viés psicanalítico enquanto linha de investigação, tem-se em


Freud que o recém-nascido (infans) não é ainda sujeito, mas um objeto
totalmente dependente dos cuidados do outro primordial”. É o inconsciente
materno (tomada ai maternidade como função) que ira marcar e delinear o
destino da criança, ao revelar, na relação com o pequeno bebê a posição
que este vira a ocupar para a mãe ante a sua condição de faltante. Isto tudo
não se limita aos cuidados físicos com o filho, mas inclui a expressão pura
de um desejo que possibilita a transmissão e a inserção na linguagem
(WASKIEEWIZ, VÍCTOR, VENDRUSCULO et. al., 2012, p. 30).

Sendo assim, para pensar em função materna, é preciso compreender a


importância do desejo que se faz presente na sua realização. Sendo o representante
da função tanto materna como paterna, quem irá auxiliar na criação de um lugar
para este ser que vem ao mundo.

Cita-se Waskieewiz, Víctor, Vendrusculo et. al. (2012) ao lerem Kupfer (2000)
que, ao ler Kanner, aponta ter este um conceito sobre mãe. Este diz que:
24

Mãe de Kanner é aquela posta no exercício de uma “função” que


desconhece o exercer, sustentando para o filho o lugar de outro primordial.
Impelida pelo desejo, antecipara para o bebê uma existência subjetiva que
ainda não está lá e que só será possível por conta da aposta feita.
Desenhara por meio do olhar, gestos e palavras, o mapa libidinal que
recobrirá o corpo no infans. Essa construção se faz possível por meio de um
cotidiano de pequenos e imperceptíveis reconhecimentos entre mãe e filho
(WASKIEEWIZ, VÍCTOR, VENDRUSCULO et. al., 2012, p. 31).

A partir de então, é possível compreender a importância da função materna


para a constituição psíquica do sujeito. No entanto, precisa-se de pensar que
apenas isto não é o suficiente para que ocorra a formação de um sujeito psíquico. É
preciso também de que se faça presente a função paterna, para que esta mãe esteja
delimitada pela falta, sendo que a partir de então consiga desejar, tendo como
interdição esta função que só assim inscreverá seu desejo no simbólico
(JERUALINSKY, 2012). Nesta perspectiva, Jerusalinsky (2012), destaca que:

Não há verdadeiro agente materno sem referência a função do pai, por que
este agente se constitui como tal só no seu nome. Só assim o filho é objeto
de desejo, e só assim, então, a mãe inscreve no corpo dele as marcas do
simbólico (JERUSALINSKY, 2012, p. 72).

Ainda, segundo o mesmo autor, a função paterna vai se inscrever como um


corte no dualismo, uma castração simbólica que remete ambos a uma referência e a
um terceiro, o representante da lei da proibição incestuosa, uma restrição do gozo
que acaba por lançar a mãe e a criança no campo do desejo que é simbolizado pelo
falo (representante simbólico da lei).

Jerusalinsky (2012) ainda afirmar que “Não existe na espécie humana


nenhum automatismo genético que garanta o sujeito como ser de linguagem. Sendo
a operação que o define, se situa no nível do significante” (JERUSALINSKY, 2012,
p. 11). Ademais, o mesmo autor aponta que na perspectiva de Lacan (1983):

As palavras fundadoras, que envolvem o sujeito, são tudo aquilo que o


constitui, seus pais, seus vizinhos, toda a estrutura da comunidade, que o
constitui não somente como símbolo, mas no seu ser. São leis de
nomenclatura as que determinam; ao menos até um certo ponto, que
canalizam as alianças a partir das quais os seres humanos copulam entre si
e acabam por criar, não só outro símbolo, mas também seres reais que, ao
chegar ao mundo, logo possui essa pequena etiqueta que é o seu nome,
símbolo essencial do que lhes está reservado (LACAN, 1983, p.37 apud
JERUSALINSKY, 2012, p. 11).
25

A partir de então, é possível pensar na constituição do sujeito como um


processo em desenvolvimento. Para nos constituirmos como seres humanos, é
preciso estar inscrito em uma cadeia simbólica de significantes, que serão
transmitidos através do desejo, da suposição de que ali onde até o momento só
existe o automatismo biológico, possa se constituir um sujeito. Esta função é
fundamental para a constituição psíquica, e é realizada por todos aqueles que estão
envolvidos, principalmente por aqueles que realizam a função materna e paterna
(JERALINSKY, 2012).

Conforme Wajntal (2004), a dependência do nenê em relação aos cuidados


maternos explicita a importância do acolhimento de quem executa esta função. O
desamparo primordial faz com que o bebê fique exposto sem proteção contra os
estímulos endógenos, dependendo diretamente da intervenção do outro, que venha
a apaziguar ou diminuir a intensidade do estímulo (WAJNTAL, 2004).

Nas palavras do mesmo autor, a função materna é a base da comunicação e


tem o poder de organizar o psiquismo do bebê. Sendo assim, não bastam ser dadas
respostas que amenizam uma determinada excitação, como, por exemplo, uma
mamadeira a um bebê que tem fome. Faz-se, assim, necessária a presença do outro
para mediar a eliminação de suas excitações internas, uma alteridade que tem como
potência eliminar a dor. Estabelecendo, desta maneira, uma organização psíquica
em torno de um objeto (WAJNTAL, 2004).

Em relação a esta cisão entre o desejo materno e o bebê, Wajntal (2004) cita
Faint (1981) o qual ressalta que “No início da relação mãe-bebê há um psiquismo
para dois, no qual mãe e filho funcionariam como uma unidade homeostática”
(WAJNTAL, 2004, p. 78).

Percebe-se, então, a importância do desejo materno como fundamental para


a constituição psíquica do sujeito. Nesta perspectiva, Jerusalinsky (2012) especifica
que o desejar do filho, gira em torno de como está estabelecido a falta para a mãe.
Parte-se de como se deu este processo de castração simbólica na mãe, a criança
não está colocada então como uma complementariedade da mãe, mas como um
objeto inscrito na dialética do seu desejo.
26

Quanto à função materna, Jardim, (2000) aponta que o exercer desta função
se dá de diferentes maneiras, como através do investimento em um sujeito a de vir,
a antecipação de um nome, a imaginação de sua aparência. O acolhimento após o
nascimento, a interpretação do choro, a suposição de que naquele ser que tem em
sua frente está uma subjetividade diferente da sua, mas totalmente ligada à sua
própria. Também, segundo a mesma autora, a função materna se estabelece nos
momentos em que a mãe é capaz de saber e não saber sobre o seu bebê,
conseguindo, assim, alternar entre a presença e a ausência diante do mesmo,
permitindo que os outros saibam sobre o seu bebê.

Já, em relação à função paterna, Jardim (2000) comenta que o representante


desta função não barra apenas o desejo materno, como também impede o bebê de
apreender-se como único objeto de desejo de sua mãe. A função paterna traz,
assim, consigo a lei da castração.

Outrossim, Lacan (1949) traz a passagem do bebê de um estado de ser a um


estado de subjetividade, denominando este momento de estádio do espelho:

A passagem pelo estádio do espelho possibilita ao bebê partir da


insuficiência a antecipação, ou seja, antes mesmo que tenha autonomia
para falar, andar, etc. a criança pode reconhecer uma imagem psíquica de
si mesma da imagem que um outro lhe oferece (LACAN, 1949 apud
JARDIM, 2000, p. 4).

A dependência do bebê em relação aos cuidados maternos é absoluta. Sendo


assim, Wajntal (2004) cita Freud (1895), o qual destaca um desamparo primordial
para especificar este período, onde o bebê fica exposto, sem proteção contra as
excitações dos estímulos endógenos, sendo que nenhuma ação e eficaz contra eles.

Segundo a teoria psicanalítica, o ser humano é um ser pulsional, Wajntal


(2004, p. 17) apresenta que Freud (1915) define a pulsão como “ um conceito limite,
como representante psíquico dos estímulos que, originados das entranhas,
alcançam a psique, como uma quantidade de trabalho exigido, o qual e imposto ao
psíquico por sua conexão com o corpóreo”. Ainda, quanto à pulsão, Wajantal (2004)
apresenta Freud (1915), ao explicitar que:
27

A pulsão tem por finalidade a satisfação, esvaziando assim a fonte do


estimulo. Como nem sempre isto é possível, a pulsão acaba sendo inibida
em sua finalidade. O objeto através do qual a pulsão encontra sua
finalidade, pode ser modificado ou deslocado, tantas vezes for necessário,
em função das vicissitudes que a pulsão sofre no decorrer de sua vigência.
A estreita ligação entre pulsão e seu objeto foi denominada “fixação” por
Freud. A fonte da pulsão é o processo somático que ocorre em um órgão ou
parte do corpo, cujo estimulo e representado, na vida mental, pela pulsão
(FREUD, 1915 apud WAJNTAL, 2004, p. 17).

Wajntal (2004) comenta que o que se apresenta no psiquismo são estímulos


provindo das sensações dos órgãos, contando que o destino depende da mediação
de uma alteridade. Representações que acabam sendo construídas desde os
primeiros contatos com o outro e que, dependendo de como foi estabelecida esta
construção, pode provocar transformações no funcionamento dos órgãos da criança.

A partir da teoria psicanalítica, pode-se conhecer melhor a importância do


vínculo primordial para toda a constituição psíquica do sujeito. A função materna é
descrita principalmente pelo desejo. Ou seja, a capacidade em supor um sujeito
neste novo ser que vem ao mundo. Já a função paterna está relacionada ao desejo
também. Porém, é um desejo que interdita tanto a mãe, quanto o bebê, para que
este vínculo não se torne uma simbiose. Quanto ao autismo, pode-se pensar em
uma falha da função materna, onde a mesma, por não estar remetida a uma
castração simbólica, não consegue situar o bebê como objeto de desejo
(JERUSALINSKY, 2012).

Ademais, para a psicanálise, o autismo está relacionado diretamente ao


vínculo do bebê com o Outro, sendo a partir de então e descrito como a função
materna e paterna. Pode-se a partir de então relacionar a opinião de diferentes
autores sobre esta questão. Bettelheim (1987) permite pensar o autismo como a
falta de investimento do agente materno, onde ocorre convicção de que seus
esforços não têm poder para influenciar o mundo, classificando, então o mundo
como insensível a suas reações.

Especifica-se, também, que a teoria de Bettelheim, (1987) sobre o autismo


leva em consideração a sua experiência própria, com crianças vítimas dos campos
de concentração nazistas. A partir de então, o mesmo autor ainda vai relacionar o
28

comportamento do autista como uma reação ao mundo insensível em que está


inserido. A incapacidade em iniciar e manter um diálogo, a grande resistência a dor,
como maneiras de resistir e sobreviver à barbárie em que estavam expostas.

Nesta perspectiva, para Bettelheim (1987), embora considere a questão


familiar como algo que interfere no autismo, não o impede de que faça uma relação
com o contexto social onde o indivíduo está inserido. A teoria de Bettelheim teve
como referência o tempo em que o autor passou em um campo de concentração, na
época do nazismo. O autismo então, a partir de Bettelheim, pode ser pensado como
uma patologia que protegeria o sujeito das agressões externas, servindo, assim, de
defesa frente a este um mundo externo invasor.

Em outro olhar, Laznick (2004) apresenta o que entende como sinais clínicos
que levariam a um suposto diagnóstico de autismo. Do ponto de vista da autora,
seriam eles o não olhar entre a mãe e seu bebê e a não instauração do terceiro
tempo do circuito pulsional. O primeiro tempo seria ativo, onde a criança busca o
objeto, o seio materno. E o segundo tempo, então, seria reflexivo, retornando assim
a pulsão ao próprio corpo, tomando uma parte do mesmo como auto-erótico. Já, o
terceiro tempo, descrito como passivo, ocorreria um assujeitamento ao outro, que se
tornará o sujeito da pulsão para o bebê, o mesmo ficaria então em posição de
espera deste outro que venha a significar suas ações.

Como explicita Laznick, (2004), o autismo estaria preso ao segundo tempo do


circuito pulsional. A mesma autora ressalta ainda que esta impossibilidade de
alcançar o terceiro tempo seria o que então condiciona o autismo. Sendo que é no
assujeitamento do terceiro tempo que a criança poderá ascender ao campo do outro,
se sujeitando aos significantes do outro.

Mahler já em (1958) também descrever a condição do autista. Porém, a


autora trabalha com a concepção de estágios do desenvolvimento, onde ocorreriam
três períodos, do nascimento até os três anos de idade. O primeiro, então, seria a
fase autística normal, onde, segundo a autora, ocorreria o que ela chamou de
simbiose social, sendo que a dependência do bebê em relação a sua mãe é total,
não conseguindo, assim, diferenciar realidade interna de realidade externa. Seguido
29

então, pela fase simbiótica normal, onde já começa a ocorrer um conhecimento do


mundo externo. E o terceiro período seria o processo de separação – individuação,
onde inicia um rompimento nesta relação simbiótica de total dependência.

Segundo ainda a mesma autora, o autismo seria fruto de uma deficiência do


ego, o que acabaria por impedir o bebê de perceber a mãe como representando o
mundo externo. Acarretando, então, a regressão ou fixação patológica nesta
primeira fase do desenvolvimento.

A partir da concepção de Mahler (1958), é possível apresentar o conceito de


Jerusalinsky (2012) sendo que para este o autismo seria fruto de um desiquilíbrio no
encontro do agente materno com a criança. O desejo materno não se articula devido
à impossibilidade da mãe em deixar cair o objeto real restitutivo de sua castração.
Ou seja, esta mãe não se coloca em posição de falta perante a criança, ficando,
segundo o mesmo autor, dessujeitada em relação ao filho, o que gera, então, a falta
de investimento na relação com o mesmo.

Ao se fazer uma reflexão sobre a teoria defendida por Jerusalisnsky (2012) e


a de Mahler (1958), para Jerusalinsky, o autismo seria o resultado da incapacidade
da mãe em tomar o bebê como objeto de desejo, sendo assim esta falha da função
materna seria fruto de questões remetentes à sua castração. Em contrapartida,
Mahler trabalha com a hipótese de uma mãe desejante ao extremo, uma simbiose
que envolve ambos em uma relação dual, pode-se pensar em um englobamento,
onde a mãe e responsável por suprir todas as necessidades da criança, não
permitindo, que a mesma diferencie seu organismo do mundo externo.

Bettelheim (1987) também trabalhou a questão do autismo como um retorno


ao refúgio do próprio ego, como o caso onde as emoções do bebê, como o chorar e
o sorrir, passam despercebidas pelo outro, desencorajando assim o mesmo de atuar
junto aos outros, formando a partir de então uma personalidade para lidar com o
meio ambiente.

Tendo em vista a importância da família na constituição psíquica do sujeito,


pode-se pensar qual a origem do autismo. Bettelheim (1987) vai permitir pensar que
30

o autismo infantil tem como marco inicial o desejo de um dos pais de que o filho não
existisse. Ainda neste sentido, segundo o mesmo autor, a falta de acolhimento, de
ressignificação, por parte dos responsáveis, no caso de expressões emocionais
provindas do bebê, impede o mesmo de se tornar um ser humano, desencorajando
suas relações com os outros, formando, assim, uma personalidade própria, para que
através da mesma possa lidar com o meio (BETTELHEIM, 1987).

Tendo em vista a importância desta relação familiar, que gira em torno do


desejo, na constituição psíquica do sujeito é possível pensar quando este desejo
não se articula. E, nesta perspectiva, Jerusalinsky (2012) apresenta de maneira
geral que:

o que articula a estrutura autistizante na mãe, e a impossibilidade de deixar


cair o objeto real restitutivo de sua castração, e dar lugar, assim, a
constituição ou persistência do desejo materno. Essa impossibilidade se
origina no que a estruturou como sujeito, ou no que, no filho, lhe
obstaculiza, com reiteração sustentar para ele a dimensão simbólica
(JERUSALINSKY, 2012, p. 46-47).

Ainda, segundo o mesmo autor, nesta posição “a mãe fica dessujeitada em


relação ao filho, ou seja, fica lançada fora de seu papel de agente de uma função”
(JERUSALINSKY, 2012, p.47). Nesta perspectiva, é possível pensar o desejo
materno como norteador da estrutura psíquica do sujeito. A mãe precisa estar em
falta. Ou seja, a função paterna precisa ter atuado na constituição psíquica da mãe,
castrando-a simbolicamente, para que o filho venha a “suprir” parcialmente esta
falta.

Tendo vista a importância do desejo para a constituição do sujeito psíquico, é


preciso compreender como se dá a transmissão dos significantes a este novo ser.
Salientando, então, que em psicanálise a linguagem é o eixo central nesse
processo. Neste sentido, Sibemberg (1998) reforça que:

O universo da criança se organiza em torno de significações produzidas


pela linguagem. E por desta que o outro transmite a criança o saber sobre o
mundo que a rodeia. É na relação com o outro, representante do tesouro de
significantes e da articulação de significações sociais de uma dada cultura,
que o pequeno sujeito vai se organizando um saber sobre si, o objeto e o
outro (SIBEMBERG, 1998, p. 64).
31

A partir de então, é possível pensar a importância da linguagem na


transmissão significante deste novo universo onde o bebê acaba por se inserir.
Linguagem entendida como as diferentes maneiras através das quais se estabelece
a comunicação. A interpretação do balbucio emitido pelo bebê, como um diálogo, do
choro como um chamado, o sorriso entendido como uma forma de satisfação, uma
aprovação de determinado comportamento por parte do bebê. Segundo Dumas, as
crianças autistas apresentam dificuldades evidentes em termos social e pragmático
da linguagem e:

Sua expressão de estruturas sintáticas é habitualmente adequada, mas elas


têm um modo de falar ao mesmo tempo limitado e concreto que se presta
mal a troca sustentada e eficaz de informações e de sentimentos típicos de
uma conversa normal. Além disso, sua linguagem e mal sincronizada e não
tem espontaneidade, ritmo, entonação e reciprocidade (DUMAS, 2011, p.
106).

Estas crianças são também sensíveis ao contexto social, perseveram em falar


sempre sobre o mesmo tema, ou passam assim de um tema a outro sem transição,
ignoram as regras de reciprocidade que permite ao outro a vez de falar. Muitas
crianças apresentam ecolalia e a inversão ou indiferenciação de pronomes pessoais,
repetem as frases várias vezes, não relacionando com o contexto em que é falado
(DUMAS, 2011).

Neste sentido, é preciso pensar em possibilidade de intervenções. E, a partir


da constatação do diagnóstico de autismo, Jerusalinsky (2012) traz para a discussão
10 passos na tentativa de construir uma estrutura mínima de suporte para o sujeito.
São estes:

1-Identificação do analista aos automatismos da criança autista, 2-


determinação da janela pulsional – daquela formada pulsão que
eventualmente tenha ficado preservada da experiência de exclusão com o
Outro, ou, contra-senso, que constitua a forma predileta de gozo para esse
autista; 3 – montagem de uma descontinuidade mínima nos automatismos
compartilhados; 4 – alongamento do intervalo (ritmo/letra); 5 – alternância
do “sujeito” de partida da discrepância do ritmo, ora quebrando o ritmo da
criança ora obedecendo o ritmo dela em discrepância; 6 – variação da
repetição ( introdução de um movimento/fonema surpresa); 7 – alternância
de presença/ausência (Fort-Da); 8 – substituição de movimento por cenas.
Repetição de cenas com sequência; 9 - inversão da demanda: objeto
transicional; 10 – jogos de borda: transbordamentos, objeto que cai,
circunscrições, correspondências, traços (JERUSALINSKY, 2012, p. 38-39).
32

Pensa-se, assim, em um lugar de sustentação por parte do analista em busca


de possibilitar valor e significação a expressão do sujeito. Frente a isto Jerusalinsky
(2012) menciona que “O psicanalista precisa convocar o paciente para que possam
a partir de então enlaçarem em uma língua onde de início somente eles entendem”.

No que diz respeito às possibilidades de eficácia do tratamento, Waskieewiz,


Víctor, Vendrusculo et. al. (2012) especificam a importância de que a intervenção
seja realizada preferencialmente até o terceiro ano de vida, sendo que até então
ainda existe chance de se reconstruir esta relação entre mãe e filho. O terapeuta
agiria, então, como um terceiro, emprestando assim o seu desejo para que desperte
nesta mãe, o que até então ela não pôde lidar.

Segundo Tkach (2004), a eficácia do tratamento está diretamente relacionada


à eficácia da função tanto materna quanto paterna, sendo que o que eles podem
fazer estará além deles mesmo, ainda que seja através deles mesmos que se
chegará a algum resultado. Nestes termos, então, o mesmo autor ainda trabalha
com a questão da transcendência, o narcisismo que vem transmitido em outras
gerações. Tkach salienta a importância de o terapeuta trabalhar juntamente com os
pais, a posição que este filho vem a ocupar na cadeia significante, para que a partir
de então possa ser resinificado este lugar no desejo familiar.

Neste sentido, segundo Tkach (2004), a prática do terapeuta é de servir de


suporte para que se estabeleça a renúncia em relação ao posicionamento em que
os pais até então colocavam este filho, para que a partir de então algo de diferente
seja capaz de se inscrever, onde se reconstrua algo próprio e reconhecido, dando
lugar assim a um novo ser que emerge.

CONCLUSÃO
33

O autismo trata-se de um termo que vem sofrendo progressos quanto ao seu


entendimento no que diz respeito ao tratamento. Nesta perspectiva, ressalta-se que
o termo autismo inicialmente foi usado por Eugen Bleuler, em 1911, para designar
pessoas que tinham grande dificuldade de interação com as demais, apresentando
tendência ao isolamento. Leo Kanner, em 1943, usou o termo para descrever o
quadro de 11 crianças que apresentavam dificuldades em estabelecer vínculos
afetivos. Tendo em vista que ainda não se tem a causa específica do autismo, visto
serem diversos fatores que influenciam para o diagnóstico, tomou-se importante
analisar a questão do DSM-IV e DSM-V (diagnóstico de saúde mental), relacionando
ao CID-10 (classificação internacional das doenças), para a compreensão de tais
questões.

No estudo do Diagnóstico de Saúde Mental (DSM-IV, 2012), o autismo ainda


fazia parte do Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (TID) que até então era
composto pelo autismo infantil, Síndrome de Asperger, Transtorno Desintegrativo,
Autismo Atípico e Síndrome de Rett. Sendo que os principais critérios para
diagnóstico eram os desafios de linguagem, déficits sociais, comportamento
estereotipado ou repetitivo. Atualmente, já no DSM-V (2014), o autismo não faz mais
parte do Transtorno Invasivo do Desenvolvimento. Passa, então, a fazer parte do
diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista, com a exceção apenas da Síndrome
de Rett. Seus critérios para diagnóstico passam a avaliar apenas a questão do
déficit da comunicação social e outro relacionado ao comportamento
restrito/repetitivo.

Enfim, a partir deste estudo, pode-se perceber, a partir do viés psicanalítico,


que a questão do autismo toma outra direção, sendo que, segundo esta teoria, os
sujeitos se constroem como seres de desejo. Sendo o sujeito autista aquele que não
está inscrito nesta posição, ou seja, seus responsáveis não conseguem,
inconscientemente, inscrevê-lo nesta relação de desejo, não significando este
mundo ao qual a criança está jogada. Para tanto, retomaram-se diferentes autores
para se pensar esta questão, tais como: Jerusalinsky (2012), que defende a opinião
de que o autismo é resultado de uma completude da mãe, não estando castrada
simbolicamente, não está em falta em relação ao filho, não conseguindo colocá-lo
como objeto de desejo. Pode-se pensar também, a partir de Bettelheim (1987), que
34

especifica o autismo como uma forma de defesa frente a um mundo externo


privador, retornando ao próprio ego como refúgio.

Realizando o presente trabalho de pesquisa bibliográfica acerca do autismo,


foi possível investigar questões relacionadas ao autismo, como conceito que envolve
todo transcorrer de estudo sobre a patologia, e quais as diferentes visões a respeito
do assunto para se pensar um adequado tratamento para estes sujeitos, tendo em
vista o papel do psicólogo que segue a teoria psicanalítica.

Para tanto, realizou-se toda uma retomada histórica acerca do conceito de


autismo, seguindo as diferentes áreas do conhecimento como, a neurologia e a
psicanálise. Entendeu-se que atualmente fala-se muito em causas orgânicas e
genéticas, porém ainda a questão psíquica não se está dando muita relevância.

No que concerne à teoria psicanalítica e ao autismo, foi possível então


pesquisar a importância da família na constituição psíquica da criança. Tanto da
função materna, colocando o bebê nesta posição de objeto de desejo, supondo ali a
existência de um sujeito que, na verdade, ainda está por vir. Como da função
paterna, interditando este desejo, para que não se transforme em uma simbiose.
Reposicionando os papéis e colocando esta mãe em falta em relação ao bebê.

Sendo assim, chega-se à questão do tratamento do autismo, em um viés


psicanalítico. A intervenção faz-se necessária sendo de suma importância que o
trabalho seja realizado nos primeiros meses de vida, para que se obtenha mais
êxito. O tratamento deve contar com o envolvimento da família onde, a partir de
então, vão se trabalhar novas formas de pensar este vínculo que está se
estabelecendo entre os mesmos.
35

REFERÊNCIAS

ASSUMPÇÃO, Francisco, B. PIMENTEL, Ana, Cristina, M. Autismo infantil. Rev.


Bras. Psiquiatria, 2000, (supl I): 37- 9.

BETTELHEIM, Bruno. A fortaleza vazia. São Paulo: Martins Fontes,1987.

BAPTISTA, Cláudio Roberto; BOSA, Cleonice e colaboradores. Autismo e


educação: reflexões e propostas de intervenção. Porto Alegre, Artmed, 2002.

BOSA, Cleonice; CALLIAS, Maria. Autismo: breve revisão de diferentes abordagens.


Psicologia: Reflexão crítica, v. 13, n. 1. Porto Alegre, 2000.

CID-10. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento. ed.


Brasileira. Porto Alegre: Artmed, 1993.

DSM-IV. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 4. ed. Porto


Alegre: Armed, 2002.

DSM-V. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. ed. Porto


Alegre: Artmed, 2014.

DUMAS, J. E. Psicopatologia da Infância e da Adolescência. 3. ed. Porto Alegre:


Artmed, 2011.

FOSTER, Owen, H. Autismo em neurologia infantil. In: JERUSALINKY, Alfredo.


Psicanálise e desenvolvimento infantil. 3. ed. Porto Alegre, 2004.

FREITAS, Alessandra. LEMOS, Mariana. MENDOZA, Melanie. ROSSETTI, Milena.


Aspectos cognitivos nos transtornos invasivos do desenvolvimento: Síndromes.
Revista Multidisciplinar de Desenvolvimento Humano, v.2, n.2, p.53-57,
março/abril, 2012.

GARCIA, Priscila Mertens. MOSQUEIRA, Carlos Fernando França. Causas


Neurológicas do Autismo: O mosaico. Revista Pesquisa e Artes da Faculdade de
Artes do Paraná, n.5, p.1-17, jan./jun., 2011.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas,
2010.

JARDIM, Gislene. Psicoses e autismo na infância: Impasses na constituição do


sujeito. Estilos clin., v. 6, n. 10, p. 52-68, 2001 .

JERUSALINSKY, Alfredo. Psicanálise do Autismo. 2. ed. São Paulo: Instituto


Langage, 2012.
36

JUNIOR, Paiva. Casos de autismo sobem para 1 a cada 68 crianças. Brasil, 28


março. 2014. Revista Autismo. Disponível em:
http://www.revistaautismo.com.br/noticias/casos-de-autismo-sobem-para-1-a-cada-
68-criancas. Acesso em: 13/11/2016.
LAZNICK, Marie Christine. A vos da sereia: O autismo e os impasses na
constituição do sujeito. Salvador: Ágalma, 2004.
MAHLER, M. As psicoses infantis e outros estudos. Porto Alegre: Artes Médicas,
1983.
MARI, Jesus. Autismo projeto integrar, simpósio de atualização sobre o autismo.
Instituto Pensi, São Paulo, outubro. 2015. Disponível em:
https://autismoprojetointegrar.wordpress.com/inicio/dsm-v-informando-o-que-e-o-
autismo/ Acesso em: 28-08-2016.
MARINHO, Eliane; MERKLE, Vânia Lúcia B. Um olhar sobre o autismo e sua
especificação: IX Congresso Internacional de Educação. (PUCPR) Pontifícia
Universidade Católica do Paraná. Outubro de 2009. Disponível em:
http://atividadeparaeducacaoespecial.com/wp-content/uploads/2015/08/UM-OLHAR-
SOBRE-O-AUTISMO-E-SUAS-ESPECIFICA%C3%87%C3%95ES.pdf Acesso em:
15/11/2016.
KLIN, Ami. Autismo e Síndrome de Asperger: uma visão geral. Revista Brasileira
de psiquiatria, v. 28, p. 2-9, 2006.
WAJNTAL, Mira. Uma clínica da construção do corpo. São Paulo: Via Lettera,
2004.
STELZER, Fernando Gustavo. Uma pequena história do autismo. São Leopoldo:
Oikos, 2010.
SIBEMBERG, Nilson. Autismo e linguagem. In: Coriat, Lídia. Escritos da criança.
N. 5, Porto Alegre: Centro Lydia Coriat, 1998.
TKACH, Carlos Eduardo. Reflexões sobre nossa prática terapêutica. In:
JERUSALINSKY, Psicanálise e desenvolvimento infantil. 3 ed. Porto Alegre,
2004.
WASKIEEWIZ, Alessandra; VÍCTOR, Dalva, F., VENDRUSCULO, Larissa, E.,
PADILHA, Laura Müller. Um estudo sobre o autismo. Falando Nisso...: informativo
da Clínica de Psicologia da Unijuí, ano 12, n. 41, p. 29-133, jul./dez, 2012.
https://autismoprojetointegrar.wordpress.com/inicio/dsm-v-informando-o-que-e-o-
autismo/,