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Sobre o autor

Sérgio Buarque de Holanda nasceu no município de São Paulo, em 1902, e faleceu na mesma
localidade em 1982. Estudou na Escola Caetano de Campos e no Ginásio São Bento, onde foi
aluno do Afonso de Taunay, mudando-se em 1921 para o Rio de Janeiro, de onde participou
do movimento Modernista de 1922. Recebeu o título de bacharel em ciências jurídicas e
sociais em 1925 pela Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro (hoje, Universidade
Federal do Rio de Janeiro), iniciou os trabalhos como jornalista e foi enviado como
correspondente do Jornal do Brasil em Berlim pelo período de 1929 até 1931.

Em seu retorno para o Brasil manteve a ocupação de jornalista, contudo, em 1936 assumiu o
cargo de professor assistente na Universidade do Distrito Federal, e no mesmo ano publicou
Raízes do Brasil. Com a extinção da referida universidade em 1939, passou a trabalhar no
serviço público federal e em 1941 passou uma temporada como professor visitante em
universidades dos Estados Unidos.

Reuniu uma série de textos publicados na imprensa no livro Cobra de vidro, publicado em
1944, e em seguida, em 1945, publicou Monções. Em 1957 publicou Caminhos e Fronteiras,
também uma compilação de artigos publicados ao longo de anos sobre a expansão da
colonização para o oeste da América Portuguesa. Entre 1946 e 1956, atua como diretor do
Museu Paulista, onde sucedeu o seu antigo professor (por quem nutria grande admiração)
Afonso Taunay, e em 1948 passa a lecionar na cátedra de história econômica do Brasil da
Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Atuou também na Itália, como professor da
disciplina de estudos brasileiros na Universidade de Roma, no período entre 1953 e 1955.
Com a tese, que se tornaria livro, Visões do Paraíso, vence o concurso para professor da
cadeira de História da Civilização Brasileira na Universidade de São Paulo em 1958, de onde
só sairia em 1969 como forma de protesto pelas aposentadorias compulsórias impostas pelo
regime militar a diversos professores.

Foi de suam importância para a elaboração do programa de pós-graduação na universidade,


trabalhando como orientador das primeiras dissertações de mestrado de toda a universidade
em 1962. Segundo Maria Odila Leite da Silva Dias, “era um pesquisador interessado nas
possibilidades que a universidade oferecia para promover e estimular a pesquisa” (DIAS,
1994, p. 2). No mesmo ano em que inicia as orientações na pós-graduação, idealizou a
fundação do Instituto de Estudos Brasileiros, do qual foi diretor nos dois primeiros anos de
existência. Seu objetivo era promover o contato e incentivar estudos interdisciplinares,
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chamando, portanto, pesquisadores de diversas áreas acadêmicas cujos trabalhos


relacionavam-se com o Brasil.

Nessa concepção, a coleção História Geral da Civilização Brasileira, iniciada em 1960,


contribuiria o importante papel de divulgação do conhecimento produzido e congregação de
pesquisadores de todo o país, como mecanismo de animação da pesquisa.

Estrutura da obra Caminhos e Fronteiras

O livro publicado em 1957 resultou da organização de anteriores artigos publicados por


Sérgio Buarque de Holanda, então ampliados e desenvolvidos. No texto de Fernando Novais
que prefacia a edição de 1994 publicada pela Companhia das Letras o autor sugere uma chave
para a leitura do livro “reler o conjunto do ponto de vista de sua unidade”, portanto,
compreender o lugar de Caminhos e Fronteiras na grande indagação de Sergio Buarque que
perpassaria toda a sua obra: “entender por que nos sentimos desterrados em nossa própria
pátria -, isto é, sondar as estruturas mais profundas de nosso modo de ser, para visualizar as
possibilidades de modernização que nos reserva o futuro”1.

Para Fernando Novais, a eleição do recorte espacial, São Paulo, nada teria a ver com o fato de
o historiador ser paulista ou por estar residindo no Estado, nem mesmo com toda a ebulição
identitária entorno do IV Centenário da cidade. Sua escolha tem relação com o fato de a
região ser o polo modernizador no país, e, portanto precisaria ser compreendido em sua
especificidade, discussão que já teria sido iniciada em Monções. A colonização (séculos XVI
e XVII) seria um recorte temporal privilegiado para entender as raízes dessa particularidade.

A obra está dividida em três partes: Índios e mamelucos (com nove capítulos), Técnicas rurais
(com cinco capítulos) e O fio e a terra (com três capítulos) que de maneira geral, tratam da
chegada de uma nova cultura e do encontro desta com os indígenas. O indígena recebe um
papel de protagonismo durante a colonização, afinal, sem que os adventícios assimilassem
suas técnicas e conhecimentos sobre a natureza nativa a sobrevivência seria extremamente
difícil. Nesse movimento, o português impõe de maneira lenta, com avanços e retrocessos, sua
cultura entre os povos nativos sem jamais anular os importantes conhecimentos nativos.
Evidentemente, Sérgio Buarque não deseja transmitira ideia de uma colonização pacífica, um
mero encontro sem violência; mesmo não dedicando muitas páginas a essa dimensão das

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HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e Fronteiras. Cia das Letras: São Paulo, 1994, p.7.
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relações, seu foco está em olhar para essa entrada ao sertão como uma empresa que só foi
possível porque o então chamado “selvagem” detinha profundo conhecimento. Uma visão de
uma colonização como meio de tirar o indígena da “selvageria” para o contato com técnicas
“civilizadas”, portanto, simplesmente não sustenta-se após a profunda elucubração de
Caminhos e Fronteiras.

Já no primeiro capítulo da primeira seção do livro (Veredas de pé posto), o autor, ao discorrer


sobre os conhecimentos geográficos e das estradas, das vias para se rumar ao sertão pela
região do Piratininga, nos diz que:

Neste caso, como em quase tudo, os adventícios deveram habituar-se às


soluções e muitas vezes aos recursos materiais dos primitivos da terra. Ás
estreitas veredas e atalhos que estes tinham aberto para uso próprio, nada
acrescentariam aqueles de considerável, ao menos durante os primeiros
tempos. Para o sertanista branco ou mameluco, o incipiente sistema de viação
que aqui encontrou foi um auxiliar tão prestimoso e necessário quanto o fora
para o indígena. (HOLANDA, 1994, p. 19)

O autor discorre que estas veredas indígenas utilizadas pelos adventícios foram de
fundamental importância para a empresa. Mas não apenas essa dimensão material; os
conhecimentos, a capacidade de orientação do nativo no espaço. “Essa capacidade com que
sabiam conduzir-se os naturais da terra, mesmo em sítios ínvios, herdaram-na os velhos
sertanistas e guardam-na até hoje nossos roceiros” (HOLANDA, 1994, p. 20). Nessa
perspectiva, Sérgio Buarque passa a descrever técnicas, habilidades que foram assimiladas e
portanto, “viriam a animar, senão tornar possíveis, as grandes empresas bandeirantes”
(HOLANDA, 1994, p. 21), nesse movimento o indígena torna-se praticamente parte do meio,
seus sentidos já estariam adaptados às contingências do espaço como o modo de andar longas
distâncias, a visão em espaços com muitos obstáculos e na escuridão.

No mesmo capítulo o autor faz referência a capacidade indígena de conhecimento


cartográfico do espaço; tal elaboração mental abstrata seria um argumento forte contra os
defensores da perspectiva de uma “mentalidade primitiva”, ligada somente ao concreto e com
deficiências em desenvolver complexos pensamentos abstratos. Essa primeira parte do livro,
com em todo seu desenvolvimento, está em profundo diálogo com a etnologia. Supostas
deficiências da cultura material são discutidas sob a óptica da adaptabilidade às condições do
meio, e poderíamos tomar como exemplo disso a falta de calçados: para o indígenas, bem
como para o sertanista, o uso de calçados em longas caminhadas seria prejudicial e
desvantajoso, atrapalhando o percurso e possibilitando o surgimento de doenças. Somente
alguns povos da região pedregosa de Roraima são citados como portadores de alguma
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revestidura para os pés. Um motivo importante para a recusa de tal indumentária na


vestimenta revela ainda mais a capacidade estratégica dos indígenas bem como isso se
apresenta num tipo de fonte muito utilizado pelo autor, as lendas e os relatos mitológicos:

A preocupação constante entre os índio de dissimular ao inimigo todas as


pistas que possa deixar sua marcha através dos sítios mais infestados
transparece claramente de tais lendas. As marcas dos pés descalços são, entre
essas pistas, das mais evidentes e, por conseguinte, das mais perigosas. No
caso do curupira elas tem uma função particular, a de atrair o caçador que
pretende escapar-lhe, iludido por sua direção suposta e falsa. (HOLANDA,
1994, p. 31)

O autor também se debruça sobre questões alimentares e de saúde. Ao tratar das práticas de
curandeirismo assimiladas pelos portugueses, o autor informa que “essa estranha farmacopeia
explica-se, em muitos casos, pelo gosto do maravilhoso, que perseguia os doutores
quinhentistas: herança da ciência medieval, a que o descobridor de novas terras viera dar
maior relevo” (HOLANDA, 1994, p. 81). Dentre essas práticas comuns, vemos o forte apelo a
se benzer e se recorrer ao mundo natural; o uso de excrementos não se restringiria a uma
influencia indígena, mas muito provavelmente o contrário. A busca por bons ares, chegando
ao ponto de benze-lo como maneira de aplacar enfermidades e a crença no poder da palavra,
materializada no uso de patuás e outros amuletos que continham em seu interior frases de
cunho espiritual, presentes entre ainda entre os sertanejos do período em que o livro foi
redigido, seria outro importante traço de interação dos povos adventícios e nativos.

Uma discussão importante nessa primeira parte do livro gira entorno das diferenças entre as
armas indígenas e as armas de fogo utilizadas pelos portugueses. De maneira profunda e
detalhada, o autor argumenta que as flechas poderiam foram muito mais úteis naquele
contexto geográfico e climático do que o arcabuz e a escopeta europeias, diferente do que
facilmente se poderia supor. Nas caçadas, as armas de fogo poderiam espantar os animais,
bem como eram de baixo alcance de demandavam tempo para serem recarregadas. Os
indígenas possuíam grande habilidade na pontaria com as flechas, uma profunda capacidade
de cálculo e previsão, a ponto de conseguirem acertar uma ave durante o voo. Certos
mosquetes exigiam duas pessoas para funcionar, além de exigir que se andasse com a pesada
munição; o clima úmido também poderia de desvantagem para as armas de fogo. Temos,
portanto, mais um exemplo de como o colonizador aprendeu técnicas e conhecimentos com o
suporto “selvagem”, essências para o avanço terras a dentro.
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A segunda seção do livro tem o título de Técnicas rurais, com enfoque no cultivo de
determinadas culturas como o trigo e o milho, bem como seu tratamento. Sobre o impacto das
ferramentas trazidas pelos portugueses no cultivo, o autor afirma que:

Em nenhum caso parece lícito dizer que as ferramentas chegaram a alterar de


modo substancial os usos da terra. Em realidade o sistema de lavoura dos
índios revela quase sempre singular perseverança, assegurando-se vitória
plena, a ponto de ser adotado pelos adventícios. Os quais, após a primeira
geração na colônia, pareciam, não raro, ignorantes dos hábitos de seus
ancestrais, ao contrário da raça subjugada, que se mostrou de um
conservantismo e misoneismo a toda prova. Isso foi especialmente verdadeiro
com relação aos produtos vegetais importados, que não trocava pelos nativos,
mesmo onde tudo parecia favorecer uma receptividade maior. (HOLANDA,
1994, p. 168)

Vemos reafirmadas as permanências de importantes elementos do saber autóctone no


processo de desenvolvimento da vida do colono. O autor ressalta como as técnicas indígenas
foram conservadas entre eles, diferente dos métodos dos colonizadores que logo eram
perdidos pelas gerações posteriores. Novamente conseguimos perceber a linha de
argumentação de Sérgio Buarque em refutar premissas que desvalorizem as sociedades
indígenas; a eles o texto atribui uma agência e protagonismo fundamentais para a
permanência do adventício no solo recém achado. Também enfraquece argumentos que olhem
para a colonização como um caminho para os “atrasados” terem contato com as técnicas e
cultura material dos “evoluídos”: o movimento que a obra faz é de trazer evidências
exatamente do contrário.

A farinha de mandioca foi o produto nativo que mais rapidamente conquistou os povoadores,
tendo sido disseminado rapidamente por toda a colônia, e chegando a substituir o pão de trigo;
na sua produção houve uma contribuição dos adventícios: a prensa de lagar. Contudo, os
moinhos de vento que já existiam em Portugal, segundo o autor, não foram introduzidos na
colônia, como o foram os moinhos d’água, azenha e pequenos moinhos braçais. As
introduções de técnicas portuguesas não foram meramente transportar tudo o que já se fazia
na metrópole, alguns conhecimentos foram alterados, metamorfoseados, e outros, não vieram.

Outra adaptação no cultivo do solo por parte dos colonos foi a produção de milho, conforme
discutido num capítulo especialmente dedicado a isso. Mas nesse consumo houve alterações
dos hábitos alimentares, que forçaram um tratamento diferente do alimento: enquanto os
índios consumiam o milho verde, a dieta dos paulistas o incluía como grãos já amadurecidos.
Dele também foram produzidos inúmeros derivados, alguns deles pelos africanos já presentes
no território, um exemplo sendo a aguardente.
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A terceira e última parte possui o título de O fio e a teia, abordando as questões sobre
produção têxtil. Entre os adventícios, a técnica da tecelagem era vista como um oficio sem
primor e sujo, sendo, portanto, uma pratica doméstica associada mesmo a vida do lar,
diferente de outras praticas manufatureiras. Contudo, o autor afirma que a grande produção de
tecidos na região de São Paulo declina-se no século VXIII. Sobre as técnicas de produção dos
nativos, faz a seguinte afirmação:

Antes de considerar a técnica do fabrico de redes e a extensão da influência


indígena sobre essa técnica, caberia aqui o exame do processo que levou a
generalização do seu emprego. É sabido que o europeu recém-chegado ao
Brasil aceitou o costume indígena sem relutância, é há razão para crer que,
nos primeiros tempos, esses leitos maneáveis e portáteis constituíram objeto
de ativo intercâmbio com os naturais da terra. (HOLANDA, 1994, p. 245)

Mais uma vez Sérgio Buarque de Holanda conduz seu olhar sob a perspectiva de uma
assimilação de costumes e objetos por parte do europeu, ressaltando assim a cultura indígena.
Os portugueses adotaram de maneira generalizada o tear indígena: a cultura opressora
mantém uma atitude de “aquiescência formal e passiva” diante da cultura oprimida, a ser
subjugada. Como uma espécie de arremate dessa perspectiva, o autor nos informa que “é
significativo que, entre muitas tribos indígenas, ele [tipo de liço herdado pelas antigas redeiras
dos naturais da terra] alcançava uma perfeição que estão longe de conhecer nossas redeiras
civilizadas” (HOLANDA, 1994, p. 257).

Comendadores da obra

O artigo “Os outros alemães de Sérgio Etnografia e povos indígenas em Caminhos e


Fronteiras, de Mariana Françoso, debruça-se sobre uma importante característica da matriz
teórica do texto: a incorporação da etnologia alemã na análise feita pelo autor. Como
discutido nos dados biográficos, Sérgio Buarque residiu parte de sua vida na Alemanha, o que
teria proporcionado o contato com a historiografia, antropologia e etnologia alemãs que
marcaram diversas de suas obras. A autora afirma que, uma das mais importantes novidades
do livro para o corpus sergiano é que:

Ele inaugura um conjunto de trabalhos que reflete o interesse e o esforço de


pesquisa do historiador sobre o tema da colonização do interior como parte
da formação histórica do país – interesse este que perdurou por cerca de três
décadas, pelo menos. (FRANÇOZO, 2007, p. 139)

Nesse interesse, estaria também introduzindo numa obra de cunho historiográfico importantes
interrogações das ciências sociais (e aqui veremos a importância de cientistas sociais alemãs
para seu arcabouço teórico) dentro dessa sua análise da adaptação dos costumes indígenas
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pelos portugueses, bem como suas permanências no sertanismo: como o encontro, o contato,
entre culturas distintas as transforma? O que resulta quais as consequências de um encontro
desse tipo? Ao utilizarmos o termo encontro, como feito pela autora, não se deseja de maneira
alguma amenizar as violências resultantes da chegada dos povoadores portugueses, mas, focar
numa perspectiva que dá relevo também à questões sociológicas.

Algumas das técnicas de análise dos cientistas alemães do fim do século XIX aparecem em
seu trabalho, sem que Sérgio Buarque necessariamente tivesse se identificado de maneira
fechada com uma das correntes teóricas que disputavam espaço na Alemanha daquele
período. O etnólogo alemão Adolf Bastian, por exemplo, havia formulado a teoria das ideias
elementares, que consistia em defender que “existe uma unidade psíquica da humanidade que
produz nos homens em todos os lugares ideias semelhantes, isto é, todos os povos do mundo
tem essas ideias elementares graças a uma lei psíquica geral” (FRANÇOZO, 2007, p. 142). A
autora afirma que esse teórico alemão, por exemplo, não foi citado diretamente na obra,
contudo, suas ideias bem como a de outros ajudaram a formar a perspectiva pessoal de Sérgio
Buarque. A tendência a buscar a origem cultural dos costumes, muito recorrente em
Caminhos e Fronteiras (como citamos anteriormente, o uso de amuletos com palavras, o uso
de excrementos para fins medicinais, crenças religiosas presentes no sertanejo a altura da
escrita do livro), seria originária da teoria difusionista alemã. Forçozo nos informa que:

Com efeito, Sérgio Buarque não foi o único intelectual de sua geração a tratar
do tema da cultura material. Contudo, a maneira específica com que o
historiador usa este conceito o aproxima dos etnólogos alemães que ele
mesmo cita em seus trabalhos, uma vez que a cultura material era o ponto
central de atenção da etnologia alemã no século XIX, em suas duas principais
vertentes. Os etnólogos alemães citados por Sérgio Buarque tinham como
arcabouço teórico justamente as ideias destas duas correntes. Acreditava-se,
então, que o conjunto de objetos e técnicas da vida material servia para
caracterizar uma cultura e o modo de vida de um povo. Os aspectos da vida
social como o parentesco, a religião e os mitos eram também estudados, mas
a cultura material servia de instrumento privilegiado para se averiguar o
estágio de desenvolvimento de um povo e as influencias que este
possivelmente recebera do contato com o outro (FORÇOZO, 2007, p. 143)

Tal perspectiva é marcante no inteiro itinerário investigativo percorrido em Caminhos e


Fronteiras. E é facilmente justificado, já que o objetivo dessa obra era realmente dar relevo as
permanências culturais simbólicas e materiais da produção indígena na sociedade que se
desenrolou após o início da colonização. Sérgio Buarque fez, certamente, uma opção objetiva
de uma perspectiva teórica que o auxiliaria a fundamentar seu argumento central.
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Outro elemento importante que encontramos no livro, e que segundo a autora, tem origens
nessa perspectiva teórica gestada do contato com os etnólogos alemães é o relevo conferido a
uma acentuação das qualidades sensoriais dos nativos: eles detinham o conhecimento da
sobrevivência em meio à natureza, graças a uma capacidade de observação extremamente
aguçada e de tirar do meio os subsídios necessários para a sobrevivência. O corpo do indígena
parece moldado, elaborado, pela natureza para aquele tipo de meio: quando colocado em
outros espaços, campos abertos, sua visão não é a mesmo, por exemplo. Como conclusão de
sua reflexão, Mariana Forçozo defende que:

A inovação de Sérgio Buarque está em que ele deu aos índios um lugar
decisivo na história das bandeiras. Isso só foi possível, do ponto de vista da
construção dos argumentos, porque ele buscou precisamente em uma
literatura voltada para as questões indígenas, isto é, na etnologia, os dados
que lhe permitiram descrever como o modo de vida indígena foi fundamental
para o sucesso do empreendimento português. O uso da etnologia, portanto,
foi o que permitiu ao autor olhar para os grupos indígenas como partícipes da
história. (FORÇOZO, 1994, p. 148)

Já o artigo “Vozes na Fronteira: uma outra leitura para Caminhos e Fronteiras de Sérgio
Buarque de Holanda”, de Silvana Seabra, faz a leitura do texto a partir do ponto de vista das
relações dos gêneros literários com a escrita da História. Para essa autora, Caminhos e
Fronteiras difere muito de Raízes do Brasil por deslocar a história nacional para a esfera
interna, “na qual a mobilidade e o tipo da ocupação do espaço dinamizam o legado ibérico,
tornando-se passível de alterações” (SEABRA, 2010, p. 42). Sérgio Buarque, que não
participara, mas tivera contato e auxiliado o movimento modernista, estaria inserido nas
reflexões sobre o processo identitário nacional marcantes nos anos 1930, e para tanto, a
fronteira, que fora muito representada na literatura romântica do século XIX como espaço de
engendramento do nacional ganharia relevo: enquanto para Alfredo Ellis Junior, Afonso
d’Escragnolle Taunay e Alcântara Machado o “encontro” nesse espaço seria entre àquele que
leva a civilização (bandeirante) e os que necessitam desse conjunto de caracteres que os
induziram ao progresso (índios), o autor traz um novo olhar, uma nova compreensão de como
teria se desenvolvido a sociedade de seu tempo.

Assim, deixando de lado os etnólogos e antropólogos alemães do século XIX, Silvana Seabra
busca em Frederick Turner uma outra chave teórica utilizada por Sérgio Buarque na
elaboração de seu trabalho. Turner também apresentou suas ideias em fins do século XIX
(1893) para explicar a formação da cultura e valores dos Estados Unidos; em sua perspectiva,
“o homem aculturado, quando enfrenta um território desconhecido, perde a conexão com a
civilização, adapta-se às condições primitivas, para depois, num processo contínuo, voltar a
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evoluir” (SEABRA, 2010, p. 45), essa visão também pretendia explicar a história americana a
partir do desenvolvimento interno e não mais como um legado inglês.

Botica da Natureza: as associações entre o Velho e o Novo Mundo

Elegemos o capítulo seis da primeira parte da obra afim de melhor nos determos em algumas
características e argumentos do autor, que estão em harmonia com sua tese central já discutida
ao longo desse texto. Segundo o autor, a farmacopeia que se originou do encontro entre o
adventício e o indígena tornou-se uma característica tão marcante das relações no Piratininga
que, por toda a colônia, as receitas tiradas da flora eram nomeadas de “remédios de paulista”.
Contudo, tais medicamentos eram fruto exatamente do conhecimento antiquíssimo que os
indígenas possuíam sobre o meio com o qual se relacionavam, e que, como já afirmamos, na
escrita de Sérgio Buarque quase que ambos se fundem.

As reminiscências da mentalidade medieval seriam importantes para que os portugueses,


através dos sentidos, fizessem associações entre dados do Novo e Velho mundo, auxiliando
numa acomodação entre crenças trazidas e crenças já existentes. Segundo o autor, “isso
explica bem como as espécies encontradas em nossas florestas puderam ser atribuídos, com
frequência, nomes e virtudes próprios de espécies diferentes, estas tipicamente europeias”
(HOLANDA, 1994, p. 77). Características similares entre ambos teriam sido fundamentais
para esse encontro, sendo um exemplo citado, a crença compartilhada tanto por indígenas
como por portugueses nas “virtudes infalíveis de certas concreções”, como o bezoar, que se
criam no interior dos ruminantes. Esse argumento tem traços de similaridade com teorias
etnológicas já citadas, como a das ideias elementares, porém, utilizada para construir um
raciocínio que não propriamente o do teórico alemão.

O uso da aguardente de cana já seria um elemento importado que se generalizou no


tratamento de determinadas doenças, conceito que no período colonial, era destinado a
qualquer tipo de dor e incomodo. A prática de afoguear-se por meio de brasas o corpo ou
parte dele, a fim de tratar certas enfermidades, certamente seriam de escândalo para um
europeu em suas terras de origem, contudo, rapidamente foi disseminado entre os adventícios
na colônia. A ideia de que tratamentos dolorosos seriam mais eficazes para se por fim às
enfermidades pode ser a razão por trás do uso de pólvora, as vezes misturada com caldo de
limão, para tratamentos médicos; também o uso de excrementos com especial atenção para a
urina misturada com fumo. Todas essas práticas desenvolvidas desse encontro, só teriam sido
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aceitas pelo europeu devido a predisposições mentais trazidas de sua cultura, que o
permitiram fazer associações, leituras comparativas.

Portanto, tal capítulo é exemplar em corroborar os objetivos centrais dessa obra do autor, bem
como evidenciam ao longo da construção de seus argumentos alguns dos traços teóricos
discutidos por Mariana Françozo. Sérgio Buarque utiliza, neste capítulo, diversas referencias
a von Martius que fora um dos mais importantes pesquisadores alemães que vieram estudar o
Brasil e dedicara muito tempo na região da Amazônia, o que também explica o constante
movimento entre passado e presente para evidenciar as permanências culturais, não apenas na
sincronia do período colonial entre europeu e índio, mas também na diacronia entre os séculos
sobre o qual dedica seu estudo (XVI, XVII) e o presente de elaboração da obra (século XX).

BIBLIOGRAFIA
DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Sergio Buarque de Holanda na USP. Estudos Avançados,
São Paulo , v. 8, n. 22, p. 269-274, Dec. 1994.
FRANÇOZO, Mariana. Os outros alemães de Sérgio Etnografia e povos indígenas em
Caminhos e Fronteiras. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 22, n. 63, p.
137-152, fev. 2007.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e Fronteiras. Cia das Letras: São Paulo, 1994.
SEABRA, Silvana. Vozes na Fronteira: uma outra leitura para Caminhos e Fronteiras de
Sérgio Buarque de Holanda. Revista Iberoamericana, v. 76, n. 230, p. 41-61, jan/março. 2010.

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