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AS RELAÇÕES ENTRE MAGIA E SEGREDO NO PALCO DA POLÍTICA ENTRE

OS SÉCULOS XV E XVI

Francisco de Paula Souza de Mendonça Júnior1

1 Introdução

O pensamento mágico enquanto manifestação histórica permanece como objeto pouco


explorado pelos historiadores, e ainda mais as suas ramificações pelas demais áreas da vida
humana, dentre as quais podemos elencar a política. Entretanto um olhar mais apurado mostra
que as reflexões sobre tal influência nos períodos conhecidos como Baixa Idade Média e
Renascimento podem revelar uma maior complexidade para as motivações e ações humanas
naquele período. O que se pretende nesta oportunidade é introduzir o tema do pensamento
mágico na Europa dos séculos XV e XVI, tendo em mente as implicações políticas desta
forma de conceber o mundo numa conjuntura de mudança e conflito.

2 O pensamento mágico e a idéia de segredo entre os séculos XV e XVI

Em vinte e seis de março de 1499, Johannes Trithemius (1462-1516), então abade de


Sponheim, escrevia ao seu companheiro da Fraternidade de Joachim2, o carmelita Arnold
Bostius (1445-1499), sobre uma obra que estava produzindo. Tratava-se de um livro chamado
Steganographia, que possuiria quatro volumes, composto por cem páginas cada um. O
primeiro volume trataria de mais de uma centena de formas de escrita secreta para a
transmissão de mensagens, sem que fosse preciso se valer de transposição de letras, e, mais
importante, sem o risco de ser pego, uma vez que a mensagem seria indecifrável aos não
iniciados nestas técnicas. O segundo volume se dedicava à transmissão de segredos a longa
distância, sem a utilização de palavras, escrituras ou mesmo sinais. O terceiro volume conteria
a forma de tornar fluente em latim um completo ignorante nesta língua, no intervalo de duas
horas apenas. O quarto e último volume desta obra estaria voltado para as formas de

1
Mestre e Doutorando em História e Culturas Políticas/UFMG, Codiretor do Centro de Estudios sobre el
Esoterismo Occidental de la UNASUR e Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais
(FAPEMIG). E-mail: kirijy@gmail.com.
2
Fundada em 1497, e contando entre os seus com Sebastian Brant (1457-1521), além de Bostius e Trithemius,
essa associação religiosa tinha como intento defender a concepção imaculada da Virgem por Sant'Ana.
(COULIANO, 1987: 168)
182
transmissão de um "pensamento secreto" diretamente para a mente do destinatário (BRANN,
1999: 86). A missiva de Trithemius chegou ao monastério de Ghent somente após a morte de
Bostius, o que implicou que o prior de Ghent interceptasse a carta e tomasse conhecimento do
seu conteúdo, iniciando assim uma longa série de acusações de demonomagia e conluio
demoníaco à Trithemius e sua obra, que terminaria inconclusa e distante do arremate glorioso
que o abade de Sponheim havia prometido ao companheiro de fraternidade (CULIANO,
1987: 168).
Por volta de 1558, o então jovem dramaturgo italiano Giambattista della Porta (1535-
1615) compôs uma de suas obras mais impactantes: o Magiae Naturalis. Nessa obra Della
Porta realizava uma primeira aproximação com temas que seriam marcantes em sua produção
futura, como a ótica, a fisiognomia e a química, tudo isso embalado pela concepção de mundo
oferecida pela chamada magia natural, uma espécie de desdobramento da filosofia natural,
muito popular na sua época. Marcadamente o Magiae Naturalis possui um capítulo
especialmente dedicado à comunicação secreta, onde Della Porta buscou aplicar as práticas da
magia natural em prol da manutenção do segredo.
É interessante que tanto Trithemius quanto Della Porta tenham se dedicado à produção
de mais de uma obra sobre a comunicação secreta. Trithemius terminou a Polygraphia (1508),
onde continuou a se dedicar ao tema da linguagem cifrada e Della Porta produziu o De
Furtivis Literarum Notis, vulgo De Zipheris (1563), também uma obra dedicada às cifras. Mas
a produção da época voltada ao mundo do segredo e das cifras não se resume aos dois
exemplos acima elencados, havendo ainda o Traité des Chiffres (1586), de autoria do
diplomata francês Blasé de Vigenère (1526-1596) e uma obra de criptografia encomendada
pela Cúria Roma ao ícone do Renascimento italiano, Leon Battista Alberti (1404-1472), que
ficou pronta em 1472 (BURKE, 1997: 31).
Para além da preocupação com a manutenção do segredo em determinados assuntos,
varias destas obras possuíam uma relação comum: seus autores mantiveram relação com o
pensamento mágico que florescia a época. O que a Steganographia propôs foi uma forma de
comunicação à distância utilizando espíritos aos quais Trithemius identificou como anjos, e
mesmo com todas as acusações de demonomagia o abade de Sponheim insistiu na mesma
direção na composição da Polygraphia, que ele afirmou estar livre de influências mágicas,
quando seu sistema de cifras foi baseado na concepção pitagórica da regra esotérica, segunda
à qual os números encerrariam mistérios acessíveis somente aos iniciados (BRANN, 1999:
130). Também em sua obra dedicada as letras secretas, as zipherae, Della Porta apontou o uso

183
da comunicação cifrada pelas deidades como Hermes Trismegistos para tratar dos assuntos de
seu interesse. Vigenère em sua obra constrói seu sistema de cifras alicerçado nas permutas de
letras e números, oriundo da cabala cristã, mesma origem de boa parte da criptografia de
Alberti.
Assim, nos parece clara a relação entre a produção das cifras e o pensamento mágico
nos séculos XV e XVI, sendo o hermetismo e a cabala as tradições mágicas mais influentes.
Buscando compreender os mecanismos de contato entre a comunicação secreta e a magia,
cremos que a construção de uma concepção acerca do segredo seja a grande ponte de
comunicação entre ambas. Sendo assim, consideramos muito rico e necessário apresentar
tanto o hermetismo quanto a cabala, mantendo como elemento norteador a idéia de segredo.
Começamos pelo hermetismo, cuja mensagem se baseia na epifania recebida por Hermes
Trismegistos, personagem mítica que foi seu arauto. Uma das manifestações do deus pai, o
Noûs Pai, se apresentou a Hermes e se autonomeou como Poimandres ou Pimandro, e oferece
a sabedoria de como teriam se dado os mistérios da criação. A revelação informa que o Noûs
Pai criou o Noûs Demiurgo e este por sua vez criou os Sete Planetas da rede zodiacal, e estes
aos seres inferiores. Nessa ciranda cosmogônica, o Noûs Pai se reservou o direito de atuar
diretamente na tarefa criativa uma vez mais, quando criou ao homem à sua imagem e
semelhança. Este maravilhado pela glória da criação teria clamado ao seu Criador que lhe
permitisse possuir também potência demiúrgica, no que foi atendido. Assim, o Noûs Pai
ordena que o Noûs Demiurgo e os Sete Planetas doem parte de sua capacidade demiúrgica ao
homem, a fim de tornar ele também um demiurgo. Elevada a condição do homem, ele se
apaixona pela Natureza, por reconhecer nela a mesma fagulha de divindade demiúrgica que
também nele habitaria, e parte ao seu encontro. Porém, entre ele e a Natureza estavam
colocadas as esferas dos Planetas e suas influências, que quando foram atravessadas pelo
homem que seguia em direção à Natureza se agregaram a ele, dando existência física ao
homem por meio da criação da armadura das esferas, ou seja, seu corpo físico, surgido pela
associação das influências planetárias na essência espiritual do homem. O aparecimento da
armadura das esferas tornou o homem refém das influências planetárias, que antes só atuavam
sobre os seres inferiores, que foram criados pelas entidades planetárias. Eis o ponto no qual o
homem teria se tornado refém da Fortuna, ou seja, da atuação das influências dos planetas
governadores na qualidade de prisioneiro da rede zodiacal (TRISMEGISTOS, 2001).
Neste ponto podemos inserir os daimones. Estes seriam seres espirituais,
intermediários entre os homens e as deidades, responsáveis por atuar a influência dos planetas

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governadores sobre o mundo dos homens. São os daimones que levam o castigo ao mau e a
recompensa ao justo. Conforme a concepção hermética de que é por meio deles que as
deidades planetárias exercem suas vontades sobre o mundo engendrado, é correto afirmar que
os daimones seriam de fato os agentes da Fortuna. Entretanto, conforme o discurso de
Trismegistus, os daimones são antes de tudo amigos do homem bom, velando pelos assuntos
dos homens, e eles ocupariam papel principal na ação do homem feito duplo. A magia natural
reintroduziria a figura do daimon por meio de sua fusão ao anjo cristão, surgindo disso uma
personagem angélica susceptível as práticas mágicas.
O Poimandres lembra ao Trismegistos que o homem ainda retém sua fagulha de
divindade, e que graças a isso a armadura das esferas não deve ser percebida como grilhões,
mas como uma benção, pois a soma dessa fagulha divina e da armadura das esferas permite ao
homem atuar tanto no mundo terreno quanto no mundo celeste. Assim, o homem seria um
duplo, superior mesmo aos deuses, bastando para isso redescobrir seu quinhão de divindade e
colocá-lo para atuar em conjunto com a armadura das esferas (TRISMEGISTO, 2001),
adquirindo assim os meios para comandar a rede de antipatias e simpatias que regeriam o
universo a partir das influências planetárias. Esse homem divinizado seria capaz de mobilizar
os daimones para a satisfação dos seus desejos, colocando a rede simpática regente do
universo sob o domínio de sua vontade, dominando assim da rede zodiacal.
O grande desafio e objetivo maior da vida humana seria então obter os meios
necessários para esse redescobrimento da fagulha divina que em si repousava. A mensagem
hermética avisa que o único meio para realizar tal proeza seria reconhecer a divindade do
Noûs Pai, porém resta aí um problema, pois aquele que engendra não precisa ser visto,
necessidade exclusiva apenas aos engendrados, logo os sentidos físicos seriam inúteis para
percebê-lo, ao menos de forma direta. A única maneira de se contemplar ao Criador seria por
meio de sua criação, ou seja, descobri-lo em sua obra maior: a Natureza. O hermetismo
afirmava que o Criador deixou mensagens divinas ocultadas na Natureza, que uma vez
decifradas seriam capazes de colocar o homem diretamente em contato com sua divindade
interior e, dessa forma, com o próprio Noûs Pai (TRISMEGISTOS, 2001). Dentro da
concepção hermética, a natureza foi uma construção em camadas, entre as quais a deidade
teria ocultado sua mensagem divina. Assim, o segredo destas ações divinas só estaria
disponível aos homens que haviam sido devidamente iniciados nos mistérios herméticos, o
que coloca a relação com o segredo como um dos elementos mais centrais do hermetismo.
Tratemos agora da cabala.

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De acordo com Yates (1995: 100-101), a cabala originalmente seria uma doutrina
secreta transmitida por Moisés a um seleto grupo de iniciados, que por sua vez teriam
retransmitido tais ensinamentos aos seus discípulos mais merecedores, num processo
contínuo. A cabala teria como objetivos a contemplação mística buscando atingir a percepção
da divindade, bem como, em sua faceta mais prática, a invocação dos dez sefirots, que são os
nomes ou forças de Deus, bem como do próprio Deus para que operem maravilhas na vida
humana, e tal esforço teria como ferramenta central o idioma hebraico. A língua hebraica
seria ela mesma sagrada e tão fundamental às práticas cabalistas pela crença segundo a qual
quando da Gênese, Deus se valeu da palavra falada para criar o mundo, e teria utilizado o
hebraico em seus esforços demiúrgicos. Portanto, o hebraico conteria as forças criativas
oriundas da divindade de sua aplicação, mais do que isso, os nomes de Deus estariam contidos
nele.
Tão fundamentais quanto o hebraico seriam os sefirots, cuja doutrina foi estabelecida
no Sefer Yetzirah, o Livro da Criação, possuindo inúmeras referências também no Zohar, o
Livro do Esplendor, obra produzida na Espanha do século XII. Conforme afirmado
anteriormente, os sefirots são os dez nomes de Deus, que representam as forças divinas
atuantes na gênese, cujo conjunto formaria o verdadeiro nome de Deus. O poder dos sefirots
estava intimamente ligado às dez esferas do cosmos, a dos sete planetas, a das estrelas fixas e
das esferas mais altas, lembrando muito a relação do hermetismo entre os daimones e os sete
planetas governadores. Dessa forma, os sefirots, que foram tidos como anjos pelos cabalistas
cristãos, possuíam fundamental importância para a organização cabalística do cosmos,
havendo os bons e os maus, abrindo assim a possibilidade para uma "cabala negra", que
funcionaria da mesma maneira do que a cabala "branca", porém utilizando os nomes ou forças
de Deus para subjugar e comandar demônios (YATES, 1995: 113-114), sendo possível a
analogia com a relação entre a magia natural e a demonomagia. Entretanto, por mais
poderosos que fossem os sefirots, tanto na cabala tradicional quanto na cristã, o hebraico
permanece como instrumento central, pois a relação com os sefirots era necessariamente
mediada por ele.
Durante o Renascimento a cabala foi apropriada pelo movimento humanista, assim
como também o havia sido o hermetismo, adaptando-se aos dogmas cristãos. Essa forma de
cabala, chamada de cabala cristã, também possuía um vínculo estreito e fundamental com a
idéia de segredo. Essa manifestação cabalística trazia a ideia de que nas palavras que formam
a oração é que residiria o poder real, transformando-as em uma espécie de "encanto lícito"

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capaz de evocar anjos atuantes nos assuntos humanos e de criar uma forma efetiva de
aproximação entre Deus e os homens, tudo isso devidamente inserido no dogma cristão. Um
dos grandes nomes da cabala cristã foi o alemão Johannes Reuchlin, que foi o grande
continuador da obra de Pico della Mirandola e também um dos grandes responsáveis pela
adequação das concepções cabalísticas aos dogmas cristãos, como por exemplo, a introdução
da ideia que a evocação dos nomes de Deus opera efeitos maravilhosos não porque dotaria o
homem de poderes extraordinários, mas porque permitiria que ele se tornasse instrumento da
ação do próprio Deus (ZICA, 1976).
Em sua vigésima quinta conclusão de sua famosa obra Conclusiones philosophicae,
cabalisticae et theologicae (1486), novecentas teses que defendiam concepções acerca da
cabala, magia natural e teologia, o famoso humanista florentino, e fervoroso defensor da
cabala cristã, Pico della Mirandola defendeu que enquanto a magia natural se valia dos
caracteres relativos aos governadores ou anjos planetários para atuar, a cabala utilizava os
números derivados do alfabeto hebraico por processos complexos (YATES, 1995: 114-115).
Diversos métodos cabalísticos tinham no hebraico sua ferramenta primordial, como o
Notarikon, um sistema de abreviações, o Temurah, que lidava com transposições e
anagramas, e a gematria, que designava valores numéricos para cada letra hebraica e por meio
de técnicas matemáticas complexas, calculava as palavras em números e depois os recalculava
em forma de palavras, possibilitando assim calcular toda a organização do mundo ou o
tamanho das hostes celestiais. A cabala cristã possuía ainda uma técnica de meditação
baseada num complexo sistema de permutação e combinações das letras do alfabeto hebraico.
Um bom exemplo da importância do hebraico para a cabala, ao menos a cristã, foi a ideia de
que a divindade do Cristo e da doutrina da Trindade se validaria pela Cabala, uma vez que o
divino Pentagrammaton, IHSUH significaria Deus, o Filho de Deus e sua Sabedoria por meio
da divindade da Terceira Pessoa (YATES, 1995: 109-111).
Uma informação relevante é que na gênese cabalista está também presente a ideia da
criação primordial como uma ação em camadas, que possuíam entre si uma mensagem divina
a ser descoberta e salvaguardada pelo iniciado, da mesma maneira que no hermetismo. Assim,
como o crente da fé hermética percebe nas camadas da criação os indícios do Criador, o
cabalista percebe nas camadas do hebraico a presença criadora de Deus (YATES, 1995: 109).
Dessa maneira, tanto o hermetismo quanto a cabala teriam como um de seus elementos
centrais o segredo, tanto como ferramenta de proteção da verdade libertadora, quanto como
instrumento para atuação sobre o mundo criado. Sendo assim, o que cabalistas e hermetistas

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buscavam era a construção de uma gramática funcional para instrumentalizar a mensagem
oculta pelo Criador. Seus esforços convergiam necessariamente para decifrar a mensagem
divina e secreta presente no Livro da Natureza, e poder então construir uma ponte segura e
direta de acesso ao Criador de todas as coisas.
Essa ideia de uma mensagem oculta de Deus em sua criação, fomentou nos magi um
desejo profundo pelo segredo. Freqüentemente se dedicaram à criação de línguas mágicas
artificiais, bem como a eleição e a adoção de línguas tidas como mágicas, caso do egípcio
hermetista e do hebraico cabalista, que eram percebidas como línguas funcionais e não
meramente discursivas, como o latim e o grego. Conforme Kieckhefer (1989: 140) e Rossi
(2001: 45), tais práticas possuíam uma motivação que ia para além do desejo de decifrar a
virtude oculta da criação e abrir os portões de acesso ao Criador, pois com a adoção e criação
de línguas mágicas secretas os magi estariam criando meios de salvaguardar um tipo de
conhecimento que possuía poder, ainda que em latência. A busca por línguas mágicas
secretas, artificiais ou não, deu ideia da importância da concepção do segredo para a mecânica
da chamada magia naturalis.
A magia natural que foi muito popular no período, foi de fato um híbrido do hermetismo,
cabala e filosofia natural, que atendeu aos desejos humanistas de obter ferramentas para
sobrepujar a Fortuna e para reformar o cristianismo, ao qual se entendia como refém de uma
instituição corroída por suas preocupações temporais. Nesse sentido, os humanistas puderam
mobilizar o hermetismo e a cabala como elementos purificadores da fé cristã graças ao
conceito de prisca theologia. Conforme Walker (2000), houve entre alguns homens do
Renascimento a ideia de que as manifestações de um cristianismo anterior a vinda de Cristo
não se restringiram aquelas narradas no Velho Testamento, elas também teriam ocorrido entre
os gentios. A vinda do Messias teria sido antecipada por uma série de manifestações por meio
de profetas gentios, a fim de preparar o solo para que a semente da fé cristã pudesse germinar.
Dessa forma, Zoroastro, Hermes Trismegistos e Platão não só eram inseridos na fé cristã,
como também assumiam papel essencial em sua origem, surgindo como fonte para a
renovação espiritual procurada pelos chamados “magos cristãos”, que buscaram nessas
manifestações mágicas o frescor que o cristianismo havia perdido.
A magia natural adotada nos séculos XV e XVI foi em muitos sentidos uma forma de
extrapolar. Tal afirmação pode ser feita porque ela foi uma extrapolação da filosofia natural,
pois não bastava compreender os mecanismos e liames da obra natural, era necessário nela
atuar, e nesse mesmo tom, a magia natural também foi uma extrapolação da virtù virtutis,

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aquela qualidade perseguida pelos humanistas como única forma de lidar com a Fortuna, e
passível de obtenção por meio do programa dos Studia humanitatis. Nesse sentido, a magia
natural tornava-se a ferramenta por meio da qual o homem poderia "construir sua própria
face", como almejava Pico della Mirandola. A magia natural permitiria que o homem não
apenas lidasse com a Fortuna, mas que dela se tornasse senhor ao controlar os melindres
ocultos do mundo criado. Quando falamos em liames ocultos do mundo natural
necessariamente nos referimos à questão das virtudes ocultas.
Tanto o hermetismo quanto a cabala, e mesmo correntes mágicas de menor influência
no período como os hinos órficos, tinham em comum a ideia de que toda a criação estava
interconectada pela influência divina, intermediada pelos astros, compondo mesmo uma rede.
Essa rede era dinâmica e funcionava por meio de relações de simpatia ou antipatia, isso
porque os astros, os seres e os elementos funcionavam como meios refratários da energia
divina original, alterando suas possibilidades de atuação em função de quem ou o que a
recebia e dispersava. Com isso as qualidades dos seres e das coisas se repeliam ou se atraiam
em função de quais qualidades a influência astral atribuía a eles. O que a magia natural
buscou fazer foi instrumentalizar todo esse emaranhado de simpatias e antipatias, de forma a
possibilitar ao magus obter o efeito desejado por meio da correta manipulação dessas
relações. Como disse Marsilio Ficino, um dos grandes nomes da magia natural e do
humanismo, o universo seria como um instrumento musical, uma lira da braccio, restando
apenas saber como dele obter a melodia desejada.
A ideia de virtudes ocultas que esta na base do funcionamento da magia natural reflete
a importância do segredo para o pensamento mágico nos séculos XV e XVI. Todo esse
esforço a cerca do domínio de tais qualidades ocultas nos apresenta uma preocupação
sistemática para a construção de meios por meio dos quais se pudessem decifrar os segredos
contidos no mundo natural. Logo, a concepção de segredo então vigente tinha como principais
artífices os indivíduos que dedicaram suas vidas para decifrar os vestígios ocultos da
divindade no mundo dos homens.

3 Secretarium e Magus: os agentes do segredo

Realizado todo esse esforço reflexivo acerca do pensamento mágico nos séculos XV e
XVI, podemos apresentar um ponto interessante: a estreita relação entre os magi e os
príncipes. Retomando as personagens inicialmente aventadas, o abade Trithemius possuía

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vínculos estreitos com o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Maximiliano I, o
qual consultava a renomada biblioteca construída pelo abade em Sponheim, além de ter no
religioso uma fonte de conselhos, lembrando que a Steganographia foi dedicada ao príncipe
Philipp, eleitor-margrave do Palatinado e duque da Bavária, e a Polygraphia ao próprio
Imperador Maximiliano I. Da mesma maneira lembremos-nos de Blasé de Vigenère e sua
atuação como funcionário da corte, bem como que Della Porta dedicou a sua Magiae
Naturalis ao rei espanhol Felipe II, sucessor do imperador do Sacro Império Romano-
Germânico Carlos V, cujos domínios abarcaram a sua cidade natal, Nápoles. Esse vínculo
estreito entre os príncipes da cristandade e formas religiosas pouco ortodoxas, ainda que se
percebessem como parte de uma renovação do cristianismo, é intrigante e suscita dúvidas
cujas respostas podem residir na ascensão da figura do secretarium.
Em sua reflexão sobre a passagem do regimen medieval, onde o poder seria concedido
por Deus ao rei para que este garantisse a salvação do rebanho da cristandade, para as formas
modernas de governo, onde o poder tornou-se fim em si mesmo e não mais instrumento,
Michel Senellart (2006: 267-278) apresentou a figura dos Arcanae Imperii, que são formas de
compreender a relação entre o poder e ação política tendo como fio condutor a publicidade
dos atos e intenções do príncipe. Tais Arcanae possuíam três fases, nomeadamente o Mistério,
o Segredo e o Estratagema. O Mistério se refere ao momento dos reis-deuses, onde sua ação
não precisava ser apresentada aos súditos por ser transcendental a comunidade mortal. O
Mistério não pode ser descoberto ou ensinado, apenas revelado pelo soberano divino a um
grupo de eleitos. No último estágio dos Arcanae, o Estratagema, o poder já se tornou um fim
em si mesmo, visando as ações principescas apenas proteger a sua posse. Por causa disso, se
torna justificável a utilização de armadilhas e maquinações para buscar a posse ou a
manutenção do poder. O Segredo corresponderia ao ponto intermediário na sucessão dos
Arcanae. Neste momento não foi proibido que se conhecesse as ações principescas, mas elas
ainda que visíveis deveriam permanecer na penumbra. O Segredo poderia ser publicizado,
mas só deveria ser compreendido por poucos. E, para tanto, se fez necessário o surgimento da
figura do secretarium. Este funcionário do príncipe dominaria um conhecimento fundamental
para que o Segredo fosse possível: a arte da comunicação cifrada. Assim, o Segredo pode ser
compreendido pelo estudo, e não simplesmente pela revelação divina. Ele se torna um esforço
baseado na virtù, como buscavam os humanistas. Os secretários começaram inventariando e
cifrando as riquezas financeiras e bélicas dos reis em obras chamadas "Livros de Segredo",
que acabaram por se metamorfosear em espelhos de príncipes, voltados para ensinar ao

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soberano as maneiras e quais conteúdos deveriam permanecer ocultos ainda que sob a vista de
todos.
Quando Senellart aponta quem seriam as grandes fontes de onde bebiam os secretários
para lidar com suas cifras, os citados são o abade Trithemius, o dramaturgo della Porta e
Jacques Gohory (1520-1576). Porém, tais homens mantiveram relações estreitas com o
mundo da magia, como foi o caso de Trithemius e sua comunicação secreta à longa distância
por meio de espíritos, e suas relações com magos famosos do período, como seu auto-
proclamado discípulo Cornelius Agrippa Von Netteshein (1486-1535); Della Porta e sua
Academia dei Segreti onde só aceitava homens que tivessem contribuído para o conhecimento
do mundo natural por meios diversos, incluindo aí a magia natural que o próprio Della Porta
abraçou e o próprio Gohory e seu centro ocultista na Paris do século XVI, o Lycium
Philosophal de Saint Marceau de Paris. Senellart viu nessa relação um rompimento com a
magia em direção a técnica, porém a magia não exclui a técnica, freqüentemente vendo nela
uma parceira, e o que as fontes apontam é um entrelaçamento das duas e não um afastamento.
Em sua Steganographia, o abade Trithemius buscou fornecer os meios para que o
príncipe pudesse se comunicar secretamente e em segurança com quem julgasse preciso e
acerca das matérias que julgasse necessárias. A comunicação esteganográfica se daria por
meio de um sistema de invocação e contra-invocação. O mago emissor deveria confeccionar
uma carta de conteúdo irrelevante, em cujo cabeçalho haveria uma exortação à Santíssima
Trindade, bem como o símbolo do espírito aéreo escolhido para carregar a mensagem. Pronta
a carta, seria a hora de realizar o encantamento em conformidade com as direções geográficas,
utensílios materiais e encanto corretos para o espírito-aéreo escolhido, revelando a este a real
mensagem a ser transportada. No momento no qual o mago-destinatário recebesse a missiva,
ele deveria descobrir qual espírito-aéreo estaria encarregado de lhe transmitir a mensagem e
realizar a contra-invocação correta, a fim de que recebesse a verdadeira mensagem do
espírito-aéreo (TRITHEMIUS, 1982: 21-22). O abade de Sponheim apresenta um grande
leque de espíritos-aéreos ou anjos, como ele os identifica, um para cada tipo de segredo. O
que chama a atenção é que a grande totalidade dos usos da comunicação esteganográfica
estava voltada para as matérias políticas. Quase todos os anjos estão destinados a carregar
secretamente mensagens de caráter político, como Baruchas, responsável por portar as mais
ocultas e secretas comissões dos príncipes, nobres e mestres para seus servos (TRITHEMIUS,
1621: 47-49) e Asyriel, responsável por transmitir em segredo e segurança os planos secretos
dos príncipes (TRITHEMIUS, 1621: 23-26).

191
O abade possuía grande interesse em obter a exclusividade da atenção dos príncipes,
algo que se pode perceber em sua exortação à perseguição as feiticeiras. Trithemius
justificava tal atitude pelo desejo de proteger os príncipes dos erros e das idolatrias instigadas
pelas feiticeiras, pois elas “barulhentamente capturam a atenção de reis e príncipes,
corrompem a fé ortodoxa, destroem a pureza de nossa religião, e reintroduzem a idolatria 3”
(BRANN, 1998: p. 60, tradução nossa). O que Trithemius almejava é que a única influência
mágica sobre os príncipes viesse dos magi, os quais ele compreendia como sendo iluminados
pela luz divina. Logo, podemos afirmar que o abade de Sponheim buscou de fato garantir um
monopólio do segredo, elemento importante para as ações do soberano, retomando a
argumentação de Kieckhefer acerca do poder que os conhecimentos sobre o segredo possuíam
naquela sociedade.
Em correspondência com um admirador e auto-proclamado discípulo, o então jovem
Cornelius Agrippa, ao exortar a qualidade da obra que este havia lhe enviado para apreciação,
tratando-se da emblemática obra De Philosophia Occulta, Trithemius advertiu-o: "Dê feno
aos bois e açúcar aos papagaios, os segredos ordinários aos amigos ordinários, e os segredos
importantes aos amigos importantes". Essa frase expressa a opinião do abade de que nem todo
o conhecimento deve estar acessível a todos os homens, uma vez que

Pois, como os homens honestos, estudiosos de virtude, usam todas as descobertas


para a vantagem e o bem público, então os homens maus desonestos procuram por
eles mesmos, não apenas de instituições más, mas mesmo a partir daquelas mais
reverenciadas e boas, oportunidades pelas quais eles se tornam piores 4
(TRITHEMIUS, 1982: 18, tradução nossa).

Por essa razão que Trithemius buscou uma forma de se comunicar os assuntos
relativos ao bom governo de forma secreta e segura. Ele elegeu os espíritos aéreos/anjos por
considerar que as cartas e nem os homens eram confiáveis, segundo ele: “Por essa razão eu
decidi que isto poderia ser confiado não a um homem ou a uma carta, mas apenas para os

3
“[...]noisily catch the attention of kings and princes, corrupt the orthodox faith, destroy the purity of our
religion, and reintroduce idolatry”
4
“For, as honest men, studious of virtue, use all discoveries to public good and advantage, so wicked and
dishonest men seek for themselves, not only from evil institutions, but even from those most revered and good,
opportunities by which they become more evil”.
“Quoniam quidem sicut bonmi & virtutum studiosi homines omnib. adinuentis vtuntur ad bonum & communem
vtilitatem: ita mali & reprobi non modo ex malis, verum & ex bonis atqae sanctissimis institutis occasiones
sibi venantur, quib. deteriores fiant”. (TRITHEMIUS, 1621: 3)
192
espíritos que eu sei que são leais e confiáveis”5 (TRITHEMIUS, 1982: 87, tradução nossa).
Isso porque “a confiança nos homens muda com a fortuna. Então, por essa razão, que tudo
possa ser seguro, eu chamo um espírito para ser partícipe do segredo”6 (TRITHEMIUS, 1982:
72-73, tradução e grifo nossos).
Num mundo regido pela incerteza, onde a ordem vigente poderia se transformar a
qualquer momento de acordo com os caprichos da Fortuna, onde o Imperador e o Papa
mantinham constante atrito por soberania, a Steganographia se apresentava como uma das
únicas formas de se garantir os interesses do bom governo, pois ela seria a única capaz de
resistir aos golpes do Destino, como podemos ver nesse trecho:

O conselheiro chefe de um rei ou príncipe, no comando de um país ou de uma


província descobriu a partir da mais secreta informação que inimigos tem um
plano para invadir a província em um futuro próximo. Ele deseja advertir o
Príncipe, mas não o pode fazer por meio de mensageiros, uma vez que eles
podem ser torturados no caminho, para trair o segredo. Nem pode ele alertá-lo
por carta, já que ela pode ser aberta. Por essa razão, ele chama um espírito,
confia o segredo a ele, e inventa qualquer outra carta7 (TRITHEMIUS, 1982: 82-
83, tradução e grifos nossos).

Da mesma maneira podemos perceber a relação de Giambattista della Porta com a


comunicação cifrada, pois ela a considera parte do amplo leque de assuntos pertencentes à
magia natural. Em sua “Magiae Naturalis” ele dedicou um capítulo completo às zipherae,
onde demonstrou que acreditava que a linguagem possuía camadas distintas, uma visível e a
outra invisível, abrindo assim a possibilidade de se colocar imagens em seu interior, como ele
mesmo afirmou: “Estabelecemos uma regra dupla para marcar as letras clandestinas e secretas, que o

5
“Hence I decided it should be entrusted not to man or letter but only to spirits which I know are loyal and
trustworthy”.
“Vnde non homini, non literis, sed solis spiritibus committo perferendum, quos noui & securos & fideles”
(TRITHEMIUS, 1621: 80).
6
“[...]that trust in men changes with fortune. So, therefore, that everything may be safe, I call a spirit to be
party to the secret”.
“Homini perferendum minus confido; quippe qui nouerim fidem in hominibus cum fortuna mutari. Vt ergo sint
omnia tuta, Spiritum secreti amicum aduoco” (TRITHEMIUS, 1621: 67).
7
“The chief adviser of a King or Prince, in charge of a country or province has learned from most secret
information that enemies have a plan to invade the province in near future. He wishes to warn the Prince, but
cannot do so by messengers, since they are to be tortured by the enemies on the way to betray the secret. Nor
can he warn him by letter, since that would be open to all. Therefore, he calls a spirit, entrusts the secret to
him, and invents some other letter”.
“Prefectus regis aut principis, in terra seu prouincia constitutus, intellexit delatione secretissima hostes in
breui propositu~ habere prouinciam irrumpendi: vult auisare principem, sed nuntiis non potest, quia
torquendi sunt ab aduersariis in via vt tradant arcanum: nec literis, quoniam omnes aperiuntur per eos.
Vocat ergo spiritum, committit arcanum, literas fingit alienas” (TRITHEMIUS, 1621: 76).
193
8
vulgo chama Zipherae, à saber uma visível e uma outra oculta”. (DELLA PORTA, 1903: 116) .
Della Porta se dedicou a apresentar os mais diversos meios pelos quais a magia natural
poderia contribuir para o sucesso da comunicação secreta, buscando aproveitar toda e
qualquer alternativa disponível. Assim, mesmo um ovo pode transportar a mensagem secreta:

Esmagues o alume com vinagre e grave sobre a casca do ovo tudo que tu quiseres;
deixe secar isso à um sol ardente e mergulhe em seguida o ovo em uma salmoura ou
em vinagre bem forte; tu o deixes de molho durante três ou quatro dias depois o
secara e cozinhara. Quando o ovo estiver cozido, despoje-o de sua casca e tu
encontraras tuas letras escritas sobre o branco [clara] do ovo o qual estará duro. Eis
aqui outro meio de chegar ao mesmo resultado: tu untarás seu ovo de cera, e com um
instrumento pontiagudo tu gravaras tuas letras, e os deixes de molho no vinagre
durante um dia. Depois que tu terás tirado tua cera, tu despojes o ovo de sua casca e
tu encontraras todas tuas letras impressas sobre o branco endurecido (DELLA
PORTA, 1903: 120-121)9.

Della Porta buscou colocar as virtudes ocultas das coisas do mundo criado a serviço da
comunicação secreta, fazendo com que o segredo do mundo natural se coloque a disposição
do segredo do mundo da ação humana, como em sua fórmula para a composição de uma tinta
visível somente na escuridão da noite ou sob a ação do calor:

Podemos fazer letras que lançarão clarões e poderão ser lidas a noite. Se alguém por
um escrito secreto quer anunciar a um seu amigo qualquer caso que ele tivesse
descoberto, e o qual se possa somente ler ao mais forte da noite, que ele escreva sem
hesitar sobre papel isso que lhe parecera bom por meio do licor secreto, e a carta
aparecera de dia, se você a aquecer (DELLA PORTA, 1903: 116)10.

4 Considerações Finais

Verger (1999: 177) afirmou que durante os séculos XV e XVI foi muito comum o
modelo do príncipe "sábio" que se esforçava por ter ao seu redor um grande número de

8
"On établit une double règle pour marquer les lettres clandestines et secrètes, que le vulgaire appelle
Zipherae, à savoir une visible et une autre cachée". (DELLA PORTA, 1903: 116).
9
"Broyez de l'alun avec du vinaigre et gravez sur la coquille de l'oeuf tout ce que vous voulez; faites sécher cela
à un soleil ardent et plongez ensuite l'oeuf dans de la saumure ou du vinaigre très fort; vous l'y laisserez
tremper pendant trois ou quatre jours puis le sécherez et le cuirez. Lorsque l'oeuf sera cuit, dépouillez-le de sa
coquille et vous trouverez vos lettres écrites sur le blanc de l'oeuf qui sera dur. Voici un autre moyen d'arriver
au même résultat: vous enduirez votre oeuf de cire, et avec un instrument pointu vous graverez vos lettres, et
les laisserez tremper dans le vinaigre pendant un jour. Après que vous aurez ôté votre cire, vous dépouillerez
l'oeuf de sa coquille et vous trouverez toutes vos lettres empreintes sur le blanc durci". (DELLA PORTA,
1903: 120-121).
10
"On peut faire des lettres qui jetteront des lueurs et pourront se lire la nuit. Si quelqu'un par un écrit secret
veut annoncer à un sien ami quelque cas qu'il aurait découvert, et qui se puisse seulement lire au plus fort de
la nuit, qu'il écrive sans hésiter sur papier ce que bon lui semblera au moyen de la liqueur secrète, et la lettre
apparaîtra au jour, si vous la chauffez". (DELLA PORTA, 1903: 116).
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homens eruditos, aos quais encarregava de produzir obras de tipos variados, mais
freqüentemente ideológicas e propagandísticas, hábito marcante principalmente entre os
duques da Baviera, os Eleitores Palatinos e os margraves de Bade. O que buscamos ressaltar é
que entre os literatos e filósofos, também os magi compuseram estes círculos intelectuais ao
redor dos príncipes. Exemplo disso foi a relação entre Trithemius e Maximiliano I, onde o
abade foi consultor do imperador nos mais diversos assuntos, desde o combate às feiticeiras,
passando pela composição de genealogias, até os assuntos que diretamente lidavam com
magia, permitindo a Trithemius adquirir grande trânsito não apenas na corte imperial, mas
também junto aos príncipes-eleitores.
Ao longo dessa exposição mostramos como o pensamento mágico exerceu influência
direta na concepção de segredo que se fez vigente entre os séculos XV e XVI. O segredo de
Estado manteve uma relação estreita e de intimidade com o segredo mágico, na medida em
que as personagens responsáveis por eles se relacionavam de forma bem próxima, por vezes
chegando a se confundir num mesmo homem. A mesma comunicação cifrada a qual era
atribuída potência mágica e a capacidade de decifrar o mistério divino oculto no cosmo, era
também utilizada para salvaguardar os interesses reais, e freqüentemente deu o tom das ações
principescas. Dessa forma, magos e secretários perseguiram, ainda que por caminhos por
vezes distintos, o mesmo objetivo: salvaguardar um saber prenhe de poder, mesmo que em
latência, por meio do monopólio do segredo.

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