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Sidney Chalhoub

Sidney Chalhoub Muitos livros são bons. Raríssimos


são eternos. Poucos podem ser lembra-
dos como marcos importantes pelos
contemporâneos. Trabalho, lar e bo-
O cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle
tequim faz parte desse seleto grupo.
époque é o tema central desse grande livro [...] Em meio à
A oportuna reedição vem sanar a inex-
escravaria recém-libertada, o Rio de Janeiro se civilizava,
plicável ausência, nas livrarias, de um
com a ajuda de um urbanismo despótico que limpava o po- texto que foi capaz de apontar cami-
pulacho de toda a cidade. Em 1890 [...] 34% da população nhos para os especialistas de sua gera-
eram negros. As classes cultas fingiam não ver, para não ção: no interior de uma história social
empanar um Champs Elysées tropical. voltada quase exclusivamente para
[...] movimentos sociais ou propostas de
revolução, Sidney Chalhoub foi buscar
Que as classes dominantes tentassem enquadrar os popu-
histórias de amor, brigas de botequim,
lachos nas suas disciplinas, nada a espantar. O que Sidney
tensões entre indivíduos, grupos ét-
Chalhoub mostra com elegância (criticar sem destroçar o
nicos e nacionalidades, a trama do
Sidney Chalhoub nasceu na cidade do acumulado de conhecimento) é a que ponto o esforço da dia-a-dia, as formas de ganhar a vida
Rio de Janeiro em 1957. É professor ideologia dominante penetrou as análises acadêmicas. no Rio de Janeiro da chamada belle
de história na Unicamp desde 1985. Não se pretende dizer que tudo antes de Chalhoub pere- époque, para descobrir, no cotidiano
Publicou, além de Trabalho, lar e ça: simplesmente muitas pesquisas sobre as classes tra- da classe, um outro lugar da política.
botequim (1986), Visões da liberdade: balhadoras ganham novos e estimulantes significados. Escrito na metade da década de 1980,
uma história das últimas décadas da
[...] o livro constitui um exercício exemplar
escravidão na Corte (1990), Cidade
com processos criminais. Com eles,
febril: cortiços e epidemias na Corte Não se trata de celebrar a “sabedoria” popular, mas re-
devolveu a personagens anônimos a
imperial (1996) e Machado de Assis, cuperar a contradição, o conflito, a inovação, a invenção.
capacidade de falar sobre si mesmos
historiador (2003). Participou da orga- Tudo escrito com a seriedade de um folhetim, onde o rigor para revelar valores, formas de soli­
nização de quatro livros coletivos: A não empana o gozo da leitura. dariedade ou de conflito — e nos fa-
História contada: capítulos de história
zer sentir o seu inconfundível “cheiro
social da literatura no Brasil (1998),
Paulo Sérgio Pinheiro de carne humana”, como dizia Lucien
Artes e ofícios de curar no Brasil
Extraído de “Viagem ao lado escuro da belle époque carioca”, Febvre. Mas Paschoal, Júlia, Zé Galego
(2003), História em cousas miúdas:
e outros que povoam estas páginas
capítulos de história social da crônica Folha de S. Paulo, Ilustrada, 4 de maio de 1986
deixam entrever também, além dos
no Brasil (2005) e Trabalhadores na
significados históricos que o autor evi-
cidade: cotidiano e cultura no Rio de
dencia, o notável talento para a pes-
Janeiro e em São Paulo, séculos XIX
quisa e a narrativa histórica que marca
e XX (2009). É pesquisador do Centro
o conjunto da sua obra.
de Pesquisa em História Social da
Cultura (Cecult–Unicamp). Maria Clementina Pereira Cunha

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T rabalho , lar e botequim

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universidade estadual de campinas

Reitor
Fernando Ferreira Costa

Coordenador Geral da Universidade


Edgar Salvadori De Decca

Conselho Editorial
Presidente
Paulo Franchetti
Alcir Pécora – Christiano Lyra Filho
José A. R. Gontijo – José Roberto Zan
Marcelo Knobel – Marco Antonio Zago
Sedi Hirano – Silvia Hunold Lara

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Sidney Chalhoub

T rabalho , lar e botequim


O cotidiano dos trabalhadores no
Rio de Janeiro da belle époque

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ficha catalográfica elaborada pelo
sistema de bibliotecas da unicamp
diretoria de tratamento da informação

C35t Chalhoub, Sidney.


Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos traba­lhadores no Rio de Janeiro da belle
époque / Sidney Chalhoub. – 3a ed. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012.

1. Trabalhadores – Rio de Janeiro (RJ) – Condições sociais. 2. Rio de Janeiro


(RJ) – Usos e costumes. 3. Lazer. I. Título.

cdd 301.24098153

isbn 978-85-268-0985-7 790.0135

Índices para catálogo sistemático:

1. Trabalhadores – Rio de Janeiro (RJ) – Condições sociais 301.24098153


2. Rio de Janeiro (RJ) – Usos e costumes 301.24098153
3. Lazer 790.0135

Copyright © by Sidney Chalhoub


Copyright © 2001 by Editora da Unicamp

1a edição, 1986 Editora Brasiliense


2a edição, 2001 Editora da Unicamp

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em


sistema eletrônico, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos
ou outros quaisquer sem autorização prévia do editor.

Editora da Unicamp
Rua Caio Graco prado, 50 – Campus Unicamp
cep 13083-892 – Campinas – sp – Brasil
Tel./Fax: (19) 3521-7718/7728
www.editora.unicamp.br  –  vendas@editora.unicamp.br

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P refácio à segunda edição

Prefaciar não é ofício leve — como raspar mandioca,


exem­p lo de cousa tida por suave no Brasil oitocentista. Pre­
faciar nova edição de livro próprio, passados 15 anos da
pu­b licação original, é tarefa canhestra, quase improvável.
Não­sei como isso foi acontecer. Talvez eu queira finalmen­
te dar resposta sorridente às várias pessoas que perguntam,
ain­d a hoje em dia, quando haverá nova edição de Trabalho,
lar e botequim. Cá está. Escrevo essas linhas e fico em paz­.
O tempo e lugar de um livro explicam muito de seu
fei­t io. A pesquisa e redação deste aqui ocorreram em meio
a um turbilhão político contínuo: ressurgimento dos movi­
mentos sociais de massa no país, luta pela derrubada da
ditadura militar, anistia, redemocratização, eleições para
governador, campanha para as Diretas-Já. Tempo que deixou
saudade, não apenas pelo motivo próprio da juventude vi­
vida e ida. Era um momento histórico raro, desses em que
a crença no futuro vira experiência coletiva. À história vivi­
da pertencia também a empreitada de produzir conhecimen­
to histórico. Surgiam novos programas de pós-graduação,
os debates teó­r icos alargavam-se, possibilidades de pesqui­

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sa e exploração de fontes inéditas apareciam a cada dia. O
que lembro deste livro e daquela época é de um estado de
excitação política e intelectual constante, que parecia mais
do que idiossincrasia individual.
Penso que o autor de Trabalho, lar e botequim formula­
va, ao lado de outros estudiosos do período, uma crítica à
maneira como a sociologia e a historiografia sobre movi­
mentos sociais em geral, e sobre movimento operário em
particular, “representavam” os trabalhadores e sua experiên­
cia na história, isto é, havia a tendência de reduzir a história
dos trabalhadores àquela dos movimentos políticos organi­
zados, julgados todos a partir de um modelo determinado
de desenvolvimento da “consciência de classe”. Era uma
visão evolucionista e teleológica, que além disso excluía da
história a maior parte dos trabalhadores — todos aqueles
que nunca haviam participado de uma revolta, de uma gre­
ve, ou aderido a sociedades operárias. 1 
O interesse em ler e analisar processos criminais estava
exatamente na expectativa de que tais documentos flagras­
sem trabalhadores — homens e mulheres — agindo e des­
crevendo os sentidos de suas relações cotidianas fora do
espaço do movimento operário, do lugar da fala política
articulada. A hipótese era a de que os conflitos fora dos
momentos coletivos de resistência política ajudariam a ex­
plicar as características e os limites desses movimentos. Por
exemplo, a importância das rivalidades nacionais — especial­
mente entre brasileiros e portugueses — no Rio do iní­c io
do século XX esclareceriam, em parte, os problemas do
movimento operário carioca do período, e assim por diante.
Essa maneira de formular o problema parece-me um tanto
mecânica ou simplista — quiçá seja eu agora quem atribua
simplismo ao jovem autor do livro —, mas o fato é que, à

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época, era “libertadora” em dois sentidos. Primeiro, abria
uma enorme possibilidade de buscar novas fontes e proble­
mas de pesquisa, pois tornava-se “legítimo” recuperar a
experiência dos trabalhadores em geral, e não apenas a da­
queles mais articulados, dotados de uma determinada forma
de “consciência de classe”. Segundo, na conjuntura do início
dos anos 1980, “libertava” a atividade política da política
tradicional, contida em partidos, sindicatos etc. — isto é,
ajudava a fundamentar historicamente a idéia de que havia
uma pluralidade de sujeitos políticos na sociedade, lutando
a seu modo para atingir objetivos que lhes eram caros e
assim governar a própria vida. Nesse sentido, foi importan­
te, em seguida, repensar a história da escravidão, e mostrar
que os sujeitos históricos mais estereotipados da história do
país — pois escravos, por definição, eram heróis da resis­
tência ou vítimas indefesas do arbítrio senhorial — foram,
na verdade, muito mais ati­v os, sutis e complexos do que
muitos logravam imaginar. 2 
Há coisas que ainda aprecio neste velho livro. Talvez
não apenas porque goste de lembrar o gosto de descobri-las
e escrevê-las. Por exemplo, a forma de apresentar, logo ao
início, o modo de conceber e utilizar processos criminais
como testemunho histórico. Questão candente à época. Se
as fontes para o estudo da experiência dos trabalhadores já
não podiam se reduzir a jornais operários e outras que tais,
onde buscar alternativas? Havia um contingente de pesqui­
sadores céticos quanto à possibilidade de utilizar processos
penais para estudar temas outros que não a própria crimi­
nalidade ou as representações jurídicas sobre determinados
assuntos. Tais fontes “mentem”, os depoimentos são mani­
pulados, respondem a uma multiplicidade de interesses que
os tornam praticamente inúteis para os historiadores. Outros

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achavam que seria possível utilizar essas fontes para recupe­
rar o cotidiano dos trabalhadores, seus valores e formas de
conduta. Os seminários de pós-graduação pegavam fogo.
Trabalho, lar e botequim é quase um libelo em defesa da uti­
lização abrangente de processos criminais em estudos de
história social. O livro foi bem sucedido neste sentido, pois
outros pesquisadores logo dialogaram com seu modo de ler
tais documentos. A polêmica, todavia, era até certo ponto
equivocada. Dois ou três anos depois, Martha Abreu publi­
cava livro primoroso mostrando que com processos judiciais
podia-se fazer uma e outra coisa, e outros belos estudos se
seguiram, culminando com o de Sueann Caulfield, que faz
com processos muito mais do que imaginávamos há 15 ou
20 anos, e ainda mais, que aparentemente só as geringonças
da infor­m ática tornaram viáveis. 3 
Desde a primeira edição deste meu livro, a histo­riografia
brasileira mudou muito, diversificou-se, sofis­t icou-se, am­
pliou horizontes teóricos e apurou o rigor das pesquisas
empíricas. A produção acadêmica sobre o Rio de Janeiro, já
significativa em meados dos anos 1980, não cansa de sur­
preender em abrangência e qualidade. 4  Seria tolice minha
tentar “atualizar” o livro para esta segunda edição. Trabalho,
lar e botequim continua a ter o seu lugar na sólida tradição
da história social marxista, preocupada em descrever e in­
terpretar a cultura política dos trabalhadores, escravos ou
“livres”, homens ou mulheres, integrantes de movimentos
sociais organizados ou não, e assim por diante. Num país
em que o costume acadêmico e político de “coisificar” os
trabalhadores — isto é, de imaginar que as suas formas de
lidar com as políticas de dominação são historicamente ir­
relevantes — continua duro de matar, Trabalho, lar e botequim
deve estar disponível a quem desejar lê-lo. Com os anos,

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corrigi rumos e arrependi-me de um ou outro argumento
presente no livro. Fiz até uma auto­c rítica relativamente
detalhada em trabalho posterior (Visões da liberdade). Nun­
ca me afastei, por um minuto sequer, do impulso original
de combater produções acadêmicas que, intencionalmente
ou não, contam a história do país a partir do mote da des­
qualificação política dos trabalhadores, escravos ou não.
Esta nova edição sai então com pouquíssimas emendas
e correções. Todavia, resolvi introduzir material que ficara
ausente da publicação original devido a exigências editoriais.
Há aqui mais fotos encontradas nos processos criminais, um
anexo, lista de fontes e bibliografia. O fato é que nada disso
altera a feição do livro. Nem podia ser de outro modo. En­
cerro com Machado de Assis, em “advertência” ao leitor
numa reedição de Helena, ocorrida muitos anos após a pu­
blicação original:

Ele [o livro] é o mesmo da data em que o compus e


imprimi, diverso do que o tempo me fez depois, cor­
respondendo assim ao capítulo da história do meu es­
pírito, naquele ano de 1876.
Não me culpeis pelo que lhe achardes romanesco. [...]
Agora mesmo, que há tanto me fui a outras e diferentes
páginas, ouço um eco remoto ao reler estas, eco de
mocidade e fé ingênua. É claro que, em nenhum caso,
lhes tiraria a feição passada; cada obra pertence ao seu
tempo.

Machado de Assis explicou-me. Agora posso raspar


mandioca, que é ofício leve.

Sidney Chalhoub
U nicamp , abril de 2001

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N otas

1
Para uma resenha da produção acadêmica que foi muito influente à
época, ver Maria Célia Paoli, Eder Sáder e Vera da Silva Telles, “Pen­
sando a classe operária: os trabalhadores sujeitos ao imaginário acadê­
mico”, Revista Brasileira de História, vol. 3, n o 6, set., 1983, pp. 129-49;
para um balanço mais recente, Cláudio H. M. Batalha, “A historiografia
da classe operária no Brasil: trajetória e tendências”, in Marcos Cezar
de Freitas (org.), Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo:
Contexto, Universidade São Francisco, 1998, pp. 145-58.
2
Quanto à escravidão, participei de um esforço coletivo de reinterpreta­
ção que resultou na publicação de vários trabalhos importantes a partir
de meados dos anos 1980; ver, por exemplo, Célia M. Marinho de
Azevedo, Onda negra, medo branco. O negro no imaginário das elites: sé-
culo XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987; Silvia H. Lara, Campos da
violência: escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988; João José Reis, Rebelião escrava no
Brasil: a história do levante dos malês (1835). São Paulo: Brasiliense, 1986,
entre outros. Bastante representativo da produção do período é o núme­
ro especial, intitulado “Escravidão” e organizado por Silvia Hunold
Lara, da Revista Brasileira de História, vol. 8, n o 16, mar.-ago., 1988.
Minha própria contribuição ao tema é Visões da liberdade: uma história
das últi­m as dé­c adas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das
Letras, 1990.
3
Martha de Abreu Esteves, Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do
amor no Rio de Janeiro da belle époque. Rio de Janeiro: Paz e Terra,

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1989; Sueann Caulfield, Em defesa da honra: moralidade, modernidade e
nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da U nicamp ,
C ecult , 2000.
4
Três exemplos recentíssimos, da melhor cepa: Martha Abreu, O Império
do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999; Maria Clementina Pereira Cunha,
Ecos da folia: uma história social do carnaval carioca entre 1880 e 1920. São
Paulo: Companhia das Letras, 2001; Leonardo Affonso de Miranda
Pereira, Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro,
1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

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Para Sandra, como uma declaração de amor;
para Beto, que renasceu; para Zé Galego, Paschoal e Júlia,
protagonistas desta história.

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S umário

Prefácio à segunda edição ..........................................................v

Agradecimentos . ...................................................................... 17

Introdução — Zé Galego, Paschoal e Júlia ............................. 23


A vida e a morte de Zé Galego ................................................... 23
Zé Galego e seus companheiros na história ................................... 42

Sobrevivendo... ........................................................................ 59
Inquietações teóricas e objetivos ................................................... 59
Trabalhadores e vadios; imigrantes e libertos: a construção
dos mitos e a patologia social ....................................................... 64
Companheiros de trabalho, desempregados e gatunos . ................... 89
Patrão e empregado . ............................................................... 114
Senhorio e inquilino ................................................................ 130
Conclusão — Ambigüidades e paradoxos na experiência de
vida da classe trabalhadora; o caso dos estivadores ....................... 147

...Amando... . ........................................................................... 171


Inquietações teóricas e objetivos ................................................. 171

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O modelo dominante de relação homem–mulher . ....................... 177
Parentes, compadres e amigos ................................................... 184
Mulheres trabalhadoras . ......................................................... 202
Mulheres “da gandaia”? ......................................................... 211
Epílogo .................................................................................. 239

...“Matando o bicho” e resistindo aos “meganhas” ................ 247


Inquietações teóricas e objetivos ................................................. 247
Lazer e controle social: o dono do botequim e seus
fregueses; meganhas e populares ................................................ 256
Lazer e ritual (I): o surgimento da rixa
e a preparação do conflito ......................................................... 301
O surgimento das rixas na hora do lazer
e o botequim como “observatório popular” .............. 309
A escalada das tensões: o papel do machismo;
o significado do desafio . ........................................... 320
Lazer e ritual (II): a prática do delito e suas seqüelas;
o comportamento dos circundantes ............................................ 327

Epílogo — A volta de Zé Galego e seus companheiros,


ou a reinvenção da história . ................................................. 345

Anexo — Um quarto numa casa de cômodos .......................... 349

Fontes . .................................................................................. 357

Bibliografia ............................................................................ 359

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A gradecimentos

Uma versão anterior deste livro foi defendida como


dissertação de mestrado em história na Universidade Fede­
ral Fluminense em outubro de 1984. A versão que o leitor
tem em mãos neste momento está um tanto medicada, mas
não totalmente curada, das bizantinices acadêmicas comuns
em textos dessa natureza.
Encontrei muita gente e acumulei dívidas ao longo do
caminho. Lembro inicialmente, com muito carinho e agra­
decimento, dos funcionários do Arquivo Nacional, local onde
realizei quase toda a pesquisa. Freqüentei as­siduamente o AN
durante mais de dois anos, intrometendo-me assim no traba­
lho cotidiano de pessoas atenciosas como “dona” D­a lila,
“dona” Yara, “seu” Eliseu e tantos outros. Registro aqui es­
pe­cialmente o meu agradecimento aos funcionários anônimos
das galerias, rostos sempre vistos em movimento e de relan­
ce, a carregar nos braços quilos e mais quilos de papel velho
empoeirado. Sem o trabalho dessas pessoas, eu, como pes­
quisador, simplesmente não existiria.
Vários amigos me ajudaram e incentivaram de dife­
rentes formas. Celeste Guimarães, Hebe Castro, Oswaldo

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Rocha, Rachel Soihet e Sheila Faria estão entre eles. Quatro
amigos têm sido meus instigadores constantes nos últimos
anos, e nossas memoráveis conversas amenizaram em muito
a luta solitária e estafante necessária para redigir um texto
como este: Gladys Ribeiro, José Antonio Dabdab Trabulsi,
Martha Esteves e Silvia Lara.
Tive sorte de contar também com o auxílio de diver­s os
professores do curso de mestrado da UFF. O professor Vic­
tor Valla leu e comentou o projeto de pesquisa e o segun­d o
capítulo da dissertação. O professor Ciro Cardoso auxiliou
na elaboração do projeto de pesquisa, criticou detalha­d a­
mente o texto e incentivou muito a sua publi­c ação­. As pro­
fessoras Margarida Neves e Maria Yedda Li­n hares acom­­­­
panharam a pesquisa desde seu início e, como membros da
banca, leram e debateram comigo todo o texto. As críticas
e os incentivos que esses professores dedicam conti­nua­m ente
ao meu trabalho são para mim ­m otivo de orgu­lho­­­.
Não sei como agradecer ao meu orientador, professor
Robert Slenes, mas vou tentar. Primeiro, e mesmo que isto
seja um pouco esquisito, obrigado pelo seu profis­s io­n alismo
e competência, pela sua capacidade de indicar que tipo de
documento eu precisava explorar, pela sua possibilidade
de adivinhar sempre que texto eu necessitava ler e pela
sua habilidade em misturar em doses certas, por alguma al­
quimia que nunca consegui entender, crítica e enco­r aja­
mento. Segundo, obrigado pela paciência e pela amizade
com as quais me brindou.
Meus familiares agüentaram as variações do meu humor
durante quase quatro anos. Minha mãe, Ermelinda, e minha
tia, Luzia, fizeram ainda mais que isso: durante o período
em que estive sobrecarregado com aulas, elas decifraram,
cor­r igiram e datilografaram uma boa parte do manuscrito.

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Sandra suportou meus momentos de ansiedade e incerteza
e, como idéias se fecundam com paixão, ela é a minha cúm­
plice nas eventuais ousadias do texto.
Agradeço, ainda, à C apes e à F inep , que financiaram
parcialmente a pesquisa com a concessão de bolsas de es­tudo.
Maria Rita Coriolano datilografou a versão final do texto
com interesse.
Finalmente, como forma de último agradecimento a
todos, registro que o texto que se segue é resultado não só
de longas e árduas horas de angústia e de trabalho, mas tam­
bém de muito prazer e diversão. Cada página foi ­e scrita com
muita garra e sentimento, porém estas três, que acabo de
es­crever e que são as últimas, foram as que escrevi com maior
emoção.

Rio, janeiro de 1986

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Folha de rosto do processo criminal no qual foi réu Antônio Paschoal de Faria
(n o 2.069, maço 995, galeria b, 1907).

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Introdução
Z é G alego , P aschoal e J úlia

A vida e a morte de Zé Galego

Era no tempo de Pereira Passos. Há apenas alguns me­


ses, o famoso prefeito da cidade do Rio de Janeiro no início
do século XX se havia despedido do cargo que ocupara por
menos de quatro anos, passando então a figurar nos anais
de uma certa história como o grande espírito propulsor das
reformas urbanísticas que mudaram substancialmente o
panorama da cidade no período. Diz a lenda que Passos
superou o atraso colonial, transformando “a cidade bárbara
em metrópole digna da civilização ocidental”. O Rio, dizia,
“civilizou‑se”. 1 
Se estes foram tempos eufóricos para uns, foram tem­
pos difíceis para outros. Assim, Antônio Domingos Gui­
marães, vulgo Zé Galego, levantara‑se ainda de madrugada,
como de hábito, naquele dia fresco e cinzento de 18 de abril
de 1907. 2 Vestiu uma calça de casemira escura, uma cami­
sa de fustão branco e um paletó preto, calçou as bo­t inas de
pelica amarela, equilibrou o chapéu preto na cabeça e ganhou

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a rua em direção à Estação Marítima. Pouco tempo depois
de deixar a casinha da avenida em Santo Cristo onde mo­r ava
com a mulher e três filhos pequenos, Zé Galego chegava a
um dos armazéns da Hard, Rand & Companhia, onde tra­
balharia pela manhã no carregamento de café de um navio
que deveria partir ainda naquele dia. O trabalho foi efetiva­
mente realizado, sob a coordenação de Zé Galego, que era
ultimamente capitão de tropa de carga e descarga de navios
transportadores de café, serviço este que realizava por em­
preitadas. Por volta de meio‑dia, Zé Galego e outros estiva­
dores companheiros seus já se encontravam sentados numa
catraia que estava ancorada no cais, distraindo‑se num jogo
a dinheiro.
Mas o jogo não fora tranqüilo e se encerrara após uma
discussão entre os estivadores envolvidos. O grupo diri­giu‑se
depois para o botequim do Cardozo, na Rua da Gamboa,
com o intuito de tomar café e conversar. Era também ali,
no botequim, que seria feito o pagamento da tropa. No en­
tanto, o clima continuava tenso depois daquele jogo aciden­
tado. Zé Galego e um outro estivador, Antônio Pas­c hoal,
embrenharam‑se numa discussão acalorada na porta do bo­
teco. Cerca de uma hora da tarde, estava tudo terminado.
Dispararam-se diversos tiros de revólver, e Zé Galego jazia
agonizante no chão. Uma das balas lhe havia perfurado o
crâ­n io. A padiola da União dos Estivadores transportou-o
ainda com vida para a delegacia e para o hospital, onde mor­
reria horas depois. Antônio Paschoal tentou escapar à prisão,
correndo e se ocultando finalmente num quarto de uma casa
de cômodos na Rua da Gamboa, onde foi preso por dois
bombeiros e conduzido à delegacia­.
Esta versão linear e pouco controvertida dos antece­
dentes mais imediatos da morte de Zé Galego foi baseada

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em aspectos em geral recorrentes nos diversos relatos ou
ver­s ões dos fatos que o caso suscitou. Mas os noticiários dos
jornais e os depoimentos que constam do processo criminal
movido contra o estivador Antônio Paschoal — depoi­
mentos estes tomados em dois turnos: o primeiro na de­
legacia, logo após o crime, e o segundo na pretoria, semanas
depois — são ricos em detalhes e carregados de contradi­
ções entre si. O Jornal do Commercio, por exemplo, dá sua
versão caracte­r isticamen­t e sóbria e econômica dos fatos. O
noticiá­r io sobre o crime no jornal vem sob o título “Entre
estivadores”:

Na rua da Gamboa, ontem à tarde, passou‑se uma rápi­


da e violenta cena, de que resultou a morte de um ho­
mem, por um motivo aparentemente frívolo.
Encontraram‑se ali Antônio Domingos Guimarães e
Antônio Paschoal Faria, estivadores e desafetos desde
algum tempo por causa de uma amante que fora do
primeiro e agora é do segundo.
Davam‑se os dois, com alguma prevenção recíproca,
mas não fugiam de falar uma ou outra vez.
Jogavam ali, no chão, alguns estivadores, entre os quais
se encontravam os dois; que, numa indisposição súbita,
por causa de uma parada, altercaram e trocaram alguns
insultos.
Antônio Paschoal, porém, não se limitou a isso: sacou
de um revólver e atirou quatro vezes contra Antônio
Domingos.
O último tiro penetrou‑lhe no crânio, tendo entrado
por cima do olho direito.
O estivador atingido caiu estertorando.
O criminoso fugiu, em seguida, sendo perseguido por
vários indivíduos que haviam assistido à cena.
Paschoal, ao passar em frente ao quartel dos bombeiros
da Gamboa, perseguiram‑no as praças n os 37 e 32, que

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conseguiram prendê‑lo na casa de cômodos da rua da
Gamboa, n o 127, onde se homiziara.
O criminoso foi levado depois do quartel dos bombeiros
para a sede do 8 o distrito policial, onde o delegado, Dr.
Mello Tamborim, fez lavrar o auto de prisão em ­flagrante.
O ferido, cujo estado foi logo julgado desesperador, foi
transferido para o Hospital da Misericórdia, acompa­
nhado por uma comissão de sócios da União dos Esti­
vadores.
O criminoso interrogado pela autoridade, negou que
tivesse dado tiros em Guimarães e disse que este sim, lhe
dera dois tiros que o obrigaram a fugir. Depois disso
ainda ele ouviu dois tiros, que não sabe quem disparou.
Ao seu interrogatório seguiu‑se o das testemunhas de
vista em número de 8.
Todas elas acordes declararam, perante o criminoso,
tê-lo visto atirar sobre Guimarães.
Em vista desta atitude das testemunhas, Antônio Pas­
choal resolveu fazer a confissão do crime.
O inquérito, em vista disso, foi logo encerrado.
Antônio Domingos Guimarães, apresentando feri­m ento
penetrante no frontal direito, foi, como dis­s emos, reco­
lhido já em estado comatoso à 14 a enfermaria do Hos­
pital da Misericórdia, onde, por volta das 6 horas da
tarde, exalou o último alento.
O médico que atestou o óbito deu como causa mortis
he­m orragia consecutiva a ferimento por arma de ­f o­g o­.
Antônio tinha 26 anos de idade, era português, solteiro,
residente à rua de Santo Cristo n o 5.
O seu enterro será feito hoje no cemitério do Caju, a
expensas da Sociedade União dos Estivadores.

O relato do Jornal do Commercio, então, reconhece que


houve na manhã do crime um desentendimento entre An­
tônio Paschoal e Zé Galego por motivo de jogo a dinheiro,
mas nos informa que os dois estivadores eram desafetos já

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há algum tempo devido a uma disputa amorosa. A versão
dos fatos oferecida pelo Correio da Manhã também contém
estes pontos fundamentais, apesar de o tom geral da narra­
tiva neste periódico levantar a suspeita de que seu relato da
morte de Zé Galego é fruto de uma colorida alquimia entre
informações obtidas no local do crime pelos repórteres po­
liciais do jornal e a fértil imaginação do redator da notícia.
Esta impressão se reforça ao lembrarmos que Lima Barreto,
em Recordações do escrivão Isaías Caminha, satiriza acidamen­
te a forma como eram compostas as notícias de crimes no
Correio da Manhã, que aparece com o nome de O Globo em
sua narrativa. 3 Lima Barreto conta como os jornalistas se
empenhavam em inventar detalhes extravagantes que enfei­
tassem a notícia, causando sensação ao público e asseguran­
do a venda de muitos exemplares do jor­n al. O sensaciona­
lismo começava já na “cabeça” — isto é, nas “considerações
que precedem uma notícia” — e se carac­t erizava por um
filosofar de caráter moralizador. Lima Barreto exemplifica
este procedimento do jornal com um re­lato de briga entre
amantes, no qual o repórter, após in­t itular a notícia “O
eterno ciúme”, “começa a filosofar, com muita lógica a iné­
dita psicologia”: “O ciúme, esse sentimento daninho que
embrutece a imaginação; humana e a arrasta à concepção de
crimes, cada qual mais trágico e horripilante, não cessa de
produzir seus efeitos maléficos”. 4
A forma como a morte de Zé Galego é abordada no
Correio da Manhã parece justificar inteiramente as ironias
do autor de Isaías Caminha. O título da matéria é “Ain­d a
sangue”, e a “cabeça” é a seguinte: “A um tiro certeiro de
revólver, caiu no solo um homem. Era mais uma vítima do
ciúme. O amor, que tivera por uma mulher, que leviana,
passava de braços a braços, fora‑lhe fatal”.

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Lima Barreto prossegue contando com pormenores as
exigências do diretor para que os redatores de notícias des­
se tipo inventassem “qualquer coisa, indícios, depoimentos,
quaisquer informações”. 5 Dessa forma, não é de admirar que
a morte de Zé Galego tenha ocupado duas colunas de pá­g ina
inteira no dito periódico, sendo que o relato dos “antece­
dentes do crime” começa quando Zé Galego “há muitos
anos, ouvindo falar da fertilidade da nossa terra, embarcou
em Portugal, sua terra natal, com destino a esta capital”.
Segue‑se uma descrição dos primeiros tempos de Zé Galego
no Rio de Janeiro, onde não foi difícil para ele, indivíduo
“reforçado” e “amigo declarado do trabalho”, arrumar uma
colocação na casa Hard, Rand & Companhia, comissários de
café com vários armazéns na cidade. Em pouco tempo, esse
imigrante português conquistava a confiança dos patrões e
era logo promovido a mestre de tropa. Na vida particular,
esse estivador também parecia ser exemplar, pois casara‑se
com uma patrícia, Silvéria Guimarães, e tivera com ela três
filhos. Havia, no entanto, algo de perigoso na personalida­
de de Zé Galego. Os companheiros tinham‑lhe certo medo,
pois era um indivíduo “dotado de vigorosa força, possuindo,
às vezes, um gênio impossível de conter‑se”. Enfim, no caso
de estar envolvido em alguma desavença com um compa­
nheiro, o bom Zé Galego podia se transformar rapidamen­
te num indivíduo “desejoso de sangue”.
Com o título de “Amor fatal”, o trecho seguinte da
notícia relata que Zé Galego e Antônio Paschoal eram ami­
gos íntimos até o dia em que passaram a competir pelo amor
de uma mulher chamada Júlia. O primeiro a ter um caso
com a tal mulher fora Zé Galego, mas Júlia era uma “doudi­
vanas, acostumada a passar de amante para amante”, e aca­
bara cedendo ao assédio de Antônio Paschoal, que também

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a cortejava. Zé Galego descobrira logo a “infideli­d ade de
Júlia”, começando assim uma acirrada inimizade entre os dois
estivadores. Nas palavras do jornal: “Ciente do que o seu
amigo lhe fizera, roubando‑lhe a amásia, Gui­m arães cortou
com ele as relações e, francamente, disse a Paschoal que pro­
curasse mudar de turma, pois na sua não o consentiria de
forma alguma”.
O trecho acima sugere que, apesar de a rixa entre os
dois estivadores ter começado por causa de Júlia, ela teve
conseqüências sérias nas relações entre os contendores em
seu trabalho: Zé Galego impedia que Paschoal participasse
das tropas que comandava. A narrativa prossegue com o
relato das trocas de ameaças ou “picardias” entre os inimi­
gos, o que fazia com que os outros estivadores, compa­
nheiros de trabalho dos rixosos, adivinhassem um encontro
de “conse­q üências funestíssimas” entre eles. A rivalidade
culmina no assassinato do dia 18 de abril, que se seguira
a um novo desentendimento entre os dois homens devido a
uma questão de jogo. Segundo o jornal, Paschoal disparou
seis tiros contra a sua vítima, acertando‑lhe o último tiro
logo aci­m a do olho direito. Preso quando tentava a fuga,
Pas­c hoal foi conduzido à delegacia onde “cinicamente
confes­s ou o ­c rime, dizendo que atirara contra Guimarães
porque este também lhe disparara dois tiros de revólver”.
As testemunhas, “­t odas de vista”, também teriam sido
acordes em afirmar que Paschoal fora efetivamente o as­
sassino. Na edição do dia 20 de abril, o jornal volta ao
episódio relatando o enterro da vítima, que havia sido
feito “a expensas da União dos Es­t i­v adores”. Mulher, filhos
e companheiros de trabalho de Zé Galego acompanharam o
caixão, que estava coberto com a bandeira da sociedade
operária à qual pertencia.

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O auto de prisão em flagrante lavrado na delegacia de
polícia do 8 o Distrito no próprio dia do crime contém sem
dúvida depoimentos bastante incriminadores do acusado
Antônio Paschoal. A testemunha João Ventura, por ­exemplo,
brasileiro, de 21 anos, solteiro, estivador, residente na La­
deira do Livramento, no bairro da Saúde, tendo assinado
seu nome no auto de flagrante com visível dificuldade —
letras tremidas e um tanto desenhadas —, “inquirido, pelo
Doutor Delegado, debaixo de compromisso legal disse”­

que, ele declarante, hoje a uma hora da tarde, depois de


haver com os seus companheiros de trabalho carregado
na “Estação Marítima”, um barco de café da casa Hald
[sic], Rand e Companhia, foi com os mesmos para o
botequim do senhor Manoel tomar café, aguardando ali
o pagamento da tropa e isso a mando de Antônio Do­
mingos Guimarães, “vulgo José Galego” que era o ca­
pataz ou capitão da mesma tropa a que servia ele decla­
rante. Que achando‑se, ele o declarante e os seus com­
panheiros já no aludido botequim à rua da Gamboa, em
frente à “Marítima”, viu, virem daquela “Estação” o dito
“José Galego” acompanhado de perto por Antônio Pas­
choal, também estivador; Que, ao chegar “José Galego”
à calçada do aludido botequim, foi alcançado por An­
tônio Paschoal que, empunhando um revólver, desfe­
chou contra “José Galego”, sucessivamente, seis tiros,
pegando o último na testa de “José Galego” que caiu na
calçada ferido e banhado em sangue; Que ele declaran­
te e outros seus companheiros que assistiram a essa cena,
que foi rápida, saíram atrás de Antônio Paschoal que
corria em direção à ladeira do Livramento, levando
ainda em punho a arma com que ferira a “José Galego”;
Que aos gritos de “pega, pega” a sentinela do posto de
bombeiros, bradou as armas, saindo dali duas praças que
conseguiram prender o criminoso debaixo de uma cama
do prédio de ­n úmero cento e vinte e sete da rua da

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Gamboa. Que, o ­a cusado presente era inimigo, desde
há muito tempo, de “José Galego”, e não se falavam,
apesar de, às vezes, trabalharem juntos. Que sabe o
declarante, por ouvir ­d izer, que a inimizade dos dois
teve por origem ciúmes de uma mulher por nome “Jú­lia
de Andrade”, que foi, há tempos, amásia de “José Ga­
le­g o”, com quem depois se amasiou digo Antônio Pas­
choal, digo, com quem depois se amasiou Antô­n io
­Paschoal [sic], havendo nessa ocasião, entre ambos,
forte discussão, guardando, desde então, Antônio Pas­
choal, ódio a “José Galego”. E mais não disse.

Um outro estivador presente à cena, Joaquim da Silva,


de 23 anos, casado, português, natural do Porto, confirma
em linhas gerais o depoimento de João Ventura, afirmando
que a rixa entre os dois homens devia-se à disputa pelo amor
de Júlia, acrescentando ainda o detalhe de que Paschoal ­v ivia
a provocar Zé Galego, “a quem dizia de haver tomado a
amante”. Outros quatro estivadores prestam declarações no
auto de flagrante e, apesar de pequenas divergências quanto
a detalhes, todos afirmam que a rixa entre os contendores
era por questões de amor e que “viram” o acusado dispa­
ran­d o tiros contra o ofendido. Constam ainda dos autos os
depoi­m entos que visam esclarecer as condições da tentativa
de fuga e da prisão de Paschoal. Salientam‑se neste aspecto
as declarações dos bombeiros que perseguiram o acusado e
o depoi­m ento da espanhola Josepha, de 50 anos, que relata
seu embaraço no episódio, pois estava com seu amásio no
quarto da casa de cômodos em que residia quando Pas­c hoal
entrou correndo pelo quarto adentro e, dizendo “dá licença
minha senhora”, meteu-se debaixo da cama do casal, sendo
aí ­p reso logo depois.
O acusado Antônio Paschoal de Faria, de 17 anos, sol­
teiro, brasileiro, natural do estado do Rio, residente em Vila

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Isabel, também depõe na delegacia, mas não assina o auto
de flagrante já “que não sabe escrever”. Interrogado, Pas­
choal declara que

hoje ao meio‑dia em uma catraia amarrada na Estação


Marítima jogavam Casemiro, [nome ilegível], Antônio
Domingos Guimarães e outros, se achando presente, ele
declarante, que hoje não trabalhou; que em dado mo­
mento, “José Galego” que havia perdido no jogo, puxou
de um revólver, e obrigou, a, Ca­s emiro a lhe dar trinta
e tantos ou quarenta mil réis que Casemiro lhe havia
ganho, aconselhando ele declarante a Casemiro, que
satisfizesse a vontade de “José Galego” para evitar ba­
rulho, porquanto, ali no jogo, o mais forte sempre saía
ganhando; Que, ele declarante, dali saiu, e enquanto
aguardava, junto à venda [...] que fica ao lado do bote­
quim do “Car­d ozo”, dez tostões que lhe devia Antônio
para ir para casa; saiu de dentro do botequim “José
Galego” que, dirigindo‑se a ele, declarante, começou a
injuriá-lo; que para evitar questões, ele declarante deu
as costas a “José Galego” procurando dele afastar‑se,
quando recebeu do mesmo, pelas costas, um tiro; que,
voltando‑se então, ainda recebeu de “José Galego” ou­
tro tiro, passando‑lhe a bala pela [...] sobrancelha es­
querda, e nessa ocasião, ele declarante, sacando do re­
vólver que consigo trazia desfechou seis tiros contra o
mesmo “José Galego” que caiu na calçada enquanto, ele
declarante tratou de fugir, para não ser vítima dos popu­
lares que atrás dele corriam gritando “pega, pega, pega”
[...] Que, de uns cinco meses dessa parte, ele declaran­
te, teve uma questão com “José Galego”, pelo fato de
haver, este, ­p ensado que ele, declarante, lhe houvesse
tirado a sua amante, Júlia de Andrade; que desde esse
tempo deixou de falar com “José Galego” e lhe havendo
este prometido arrancar uma costela dele declarante,
começou, ele declarante, a andar armado para se defen­
der de qualquer agressão por parte de “José Galego”;

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Que bem se recorda e aqui relata o fato de haver há uns
dois meses dessa parte, sido agredido por “José Galego”
no canto da Gamboa, não tendo sido ele declarante
vítima da agressão de “José Galego” devido à interven­
ção de outras pessoas cujos nomes não pode precisar
por não se lembrar neste momento. E mais não disse.

A versão do acusado, portanto, também confirma que


Júlia estava na origem da desavença entre os contendores, e
reaparece aqui a informação contida nos jornais de que ha­
via ocorrido um desentendimento qualquer entre Pas­c hoal
e Zé Galego durante o jogo a dinheiro pouco antes do crime.
Quanto ao crime em si, a versão de Paschoal é bastante di­
ferente das outras versões apresentadas nos jornais e nos
depoimentos que constam do auto de flagrante: o acusado
afirma que foi agredido primeiro pela vítima e que cometeu
o homicídio em legítima defesa.
Concluídos os procedimentos de praxe na delegacia,
Paschoal foi conduzido à Casa de Detenção, onde aguar­d aria
preso o prosseguimento do caso. O acusado passou tam­b ém
pelo Gabinete de Identificação e Estatística, órgão da ­p olícia
encarregado de identificar e fichar minuciosamente os in­
divíduos enviados à Casa de Detenção. Des­c obriu‑se, então,
que Paschoal já havia cumprido pena por ofensas físi­c as
leves no ano de 1906. Na ficha do órgão policial, a ida­d e
do acu­s ado é de 23 anos, sua instrução, rudimentar — sa­
bendo, contudo, “assinar o nome” —, sua cor é branca e
sua altura, de um metro e setenta e cinco centímetros. Além
de outras in­f ormações que não contradizem as constantes
no auto de flagrante, a ficha de Paschoal traz também suas
impressões digitais.
Enquanto isso, o exame de autópsia realizado em Zé
Galego concluía que ele havia morrido devido a uma “he­

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morragia cerebral consecutiva a ferimento do encéfalo por
um projétil de arma de fogo”. O laudo informa ainda que
“o tiro foi dado de frente e um pouco da direita para a es­
querda”. Iniciam‑se então os procedimentos judiciais visan­
do a tomada de depoimentos na pretoria, o que levaria à
elaboração do sumário de culpa. Os oficiais de justiça, no
entanto, encontram muitas dificuldades para localizar e
intimar as testemunhas arroladas no auto de flagrante poli­
cial. O estivador João Ventura, por exemplo, jamais foi
encontrado no endereço que forneceu à autoridade poli­c ial;
outro estivador, José Pinho, deu um endereço na Piedade,
mas a rua não era conhecida por ninguém naquelas redon­
dezas. Outras testemunhas também não puderam ser encon­
tradas, e o juiz da 8 a Pretoria só conseguiu inquirir três dos
indivíduos arrolados no auto de flagrante: o bombeiro Leo­
nídio, que havia efetuado a prisão de Paschoal, e os estiva­
dores Joaquim da Silva e Antônio Pogliesse.
Enquanto o novo depoimento do bombeiro Leonídio
em pouco se diferencia do anteriormente prestado na dele­
gacia, Joaquim e Antônio fornecem agora uma versão fun­
damentalmente diferente dos fatos. No auto de flagrante
consta que Joaquim “viu” o acusado descarregar seu revólver
contra Zé Galego; no sumário realizado na pretoria Joaquim
teria declarado o seguinte:

[...] que ele testemunha ao entrar para o botequim viu o


acusado que conversava na rua com vários companheiros
e pouco depois de achar­-se no botequim ouviu uma
discussão do lado de fora, na rua, discus­s ão essa que se
dava entre a vítima “José Galego”, que então já havia ­saído
do botequim e o acusado ­presente; que ele testemunha
não as­sistiu à toda discussão porque voltara novamente
para o interior do botequim, onde foi a sua atenção des­

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pertada pelo estampido de vários tiros de revólver e
vindo à porta aí esteve a passagem interceptada pelo
acusado presente que ­s eguidamente deitou a correr; que
ele testemunha vindo à rua viu a vítima caída no chão
e então mandou pe­d ir a ambulância da União dos Esti­
vadores para a con­­dução da vítima [...]; que por essa
ocasião ele teste­m unha ­o uviu os populares dizerem que
o acusa­d o atirara contra a vítima, porque esta o prece­
dera atirando primeiro contra o acusado e também de
revólver [...].

Vê‑se, portanto, que as novas declarações de Joaquim


apóiam a versão de Paschoal segundo a qual Zé Galego é
quem havia atirado primeiro. Antônio Pogliesse também nega
que tivesse visto Paschoal disparar os tiros contra Zé Ga­lego
e conta que “ouviu dizer” que a vítima atirara primei­r o no
acusado. Pogliesse arremata dizendo “que acha ter­sido ­justo
o homicídio visto que [...] se o acusado não pra­t icasse o
crime era morto pela vítima”. Todos estes depoi­m entos do
sumário foram tomados no mês de maio, e a última peça do
dossiê nos informa que o réu Paschoal foi posto em liber­
dade por pedido de habeas corpus em agosto de 1907.

O que mais impressiona neste relato da vida e da mor­


te de Zé Galego são as diferentes versões ou interpretações
dos fatos contidas nos jornais e nas etapas consecutivas do
próprio processo criminal. Há aqui muitas divergências,
contradições e até incoerências que cabe enfatizar, pois é
exatamente deste emaranhado de versões conflitantes que
procuraremos partir.
Uma contradição bastante fundamental se insinua logo
de início. Em seu relato, o Jornal do Commercio afirma que
a cena foi “rápida e violenta” e que o crime havia ocorrido

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“por mo­t ivo aparentemente frívolo”. Em uma linha seme­
lhante de raciocínio — apenas com um pouco mais de sen­
sacionalismo — o Correio da Manhã utiliza para este episó­
dio o título sugestivo de “Ainda sangue”. Para ambos os
jornais, portanto, o conflito entre Zé Galego e Paschoal não
passara de um acontecimento repentino, violento e desen­
cadeado por motivo fútil, acontecimento este que envolve­
ra indivíduos nos quais as qualidades intrínsecas a qualquer
ser humano não pareciam estar presentes, pois seu compor­
tamento “embrutecia a imaginação humana”. Em outras
palavras, é quase possível argumentar que, para os nobres
jornalistas dos referidos periódicos, a notícia em questão
tratava de uma briga ocorrida entre dois brutos “desejosos
de sangue”.
Mas esta não era, obviamente, a forma como Zé Gale­
go, Paschoal e seus companheiros percebiam ou pensavam
tudo o que havia se passado. Apesar das mediações introdu­
zidas pelos interrogatórios do delegado e do juiz e pelas
anotações dos escrivães da delegacia e da pretoria, os per­
sonagens de carne e osso que protagonizam efetivamente a
trama em questão berram bem forte, e os ecos distantes de
suas vozes fazem vibrar os nossos tímpanos. E percebemos,
por exemplo, que há uma outra forma de marcar o tempo
no qual as coisas se desenrolam. Para os estivadores que
prestam depoimento no processo, a morte de Zé Galego não
foi “rápida”, nem imprevista, e muito menos ocasionada por
“motivo frívolo”. Havia uma rixa de muitos meses entre Zé
Galego e Paschoal, sendo que os dois homens vinham sem­
pre trocando provocações e insultos. O português Zé Gale­
go teria dito, por exemplo, que iria “arrancar uma costela
de Paschoal”, enquanto este vivia pro­p alando que roubara
a amante do outro. Desta forma, a contenda que teve seu

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desenlace num dia cinzento de abril, é na verdade, um lon­
go processo de luta entre dois membros de um determinado
grupo de pessoas, luta esta que é acompanhada de perto e
que conta com a participação de outros membros do grupo.
Nada aqui é rápido ou inteiramente imprevisto.
E, mais ainda, nada aqui é fútil. No discurso dos jornais
e do aparato policial e jurídico, Júlia aparece sem dúvida
como uma “doudivanas”, uma mulher “leviana”, que estava
“acostumada a passar de amante para amante”. Mas estas
são as palavras de alguns; os atos de outros revelam outras
coisas. Para os estivadores envolvidos, Júlia era uma mulher
formosa e cobiçada, por quem valia a pena correr o risco de
matar ou morrer. A disputa entre Zé Galego e Paschoal não
é estranha nem fútil; ela é compreendida e valorizada, tendo
seu significado especial para aquele grupo de pessoas.
Há também versões diferentes sobre a luta em si. O
acusado Paschoal conta na delegacia que foi Zé Galego quem
atirou primeiro, tentando alvejá-lo pelas costas. Já as outras
testemunhas do flagrante não confirmam esse ponto, afir­
mando apenas que “viram” o acusado disparando os tiros.
Se é verdade que os depoimentos das testemunhas no fla­
grante policial são uniformemente incri­m i­n adores do réu,
na pretoria as coisas se complicam. Alguns dos depoentes
“somem” e não prestam novas declarações, enquanto outros
parecem reforçar o argumento de Paschoal de que seu opo­
nente havia disparado primeiro. Estas incoerências levantam
suspeitas quanto aos procedimentos seguidos pela polícia
na elaboração de flagrantes e, ao mesmo tempo, podem
revelar algo sobre a reação dos populares ao sistema policial
e judiciário.
Há outros elementos importantes na história. É inte­
ressante notar que a luta se passa entre um português e um

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brasileiro e que, apesar de os periódicos e o aparato policial
e repressivo se referirem a estes homens em geral como
“brutos”, existem alguns matizes relevantes. O Correio da
Manhã, por exemplo, constrói a imagem do português Zé
Galego como indivíduo “reforçado” e “amigo declarado do
trabalho”, isto é, um imigrante destemido que, como tantos
outros, veio fazer a vida na nova terra. Já a figura do acu­
sado Paschoal não merece muitos retoques — ele aparece
sempre como cínico, provocador e violento.
Muitos outros aspectos poderiam ainda ser ressaltados
no episódio — como o fato de que Zé Galego trabalhava
para uma firma inglesa, ou os vários detalhes do cotidiano
destes personagens que aqui se insinuam, como o movimen­
to aparentemente freqüente entre o local de trabalho e o
botequim e vice-versa etc. —, mas o que ficou destacado já
atende ao nosso objetivo no momento. O intuito neste con­
texto é reconhecer que o ponto de partida neste trabalho
são as contradições, as incoerências, as construções ou “fic­
ções” que constituem efetivamente as fontes analisadas — e
muito especialmente os processos criminais estudados. Os
fatos de que partimos, portanto, não são como morangos,
ma­ç ãs ou peras que se recolhem ao cesto num passeio ame­
no e ecológico pelo campo. Se os fatos dessa história podem
ser comparados construtivamente a alguma coisa, é melhor
escolher algo como a neblina e a fumaça que escondem a
trilha que precisamos seguir. No entanto, a trilha existe, e
cabe segui‑la.
Convém ser menos figurativo. Para alguns historiado­
res — ainda hoje em dia! — os fatos da história são coisas
sólidas, “duras”, de forma definida e facilmente discerníveis.
Se esses fatos não podem ser encontrados assim, então a
história como conhecimento não é viável. Ou seja, se não é

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possível descobrir exatamente quais foram os atos efetivos
associados à morte de Zé Galego — quem atirou primeiro,
se houve realmente o tal jogo a dinheiro, se Júlia era mulher
de carne e osso etc. —, então o sábio recua, espavorido.
Como podemos escrever história se não é possível descobrir
“o que realmente se passou” — apenas para desenterrar a
máxima de Ranke?
Este é um problema antigo, e durante algum tempo se
pôde até pensar que Febvre, Bloch e Braudel tivessem es­
pantado definitivamente este fantasma. No entanto, basta
que a historiografia se coloque novos problemas e, princi­
palmente, passe a explorar novas fontes, para que o temível
fantasma retorne. É o que ocorre atualmente no que tange
à utilização de processos criminais como fonte para estudos
de história social. Ora, é óbvio que é difícil, senão impos­
sível, descobrir “o que realmente se passou” num episódio
imbricado como o da morte de Zé Galego. Existem, é claro,
pelo menos tantas dúvidas quanto certezas neste contexto.
Mas, por favor, de­v agar com o ceticismo: há certezas. Por
enquanto, não parece haver fundamento razoável neste mun-
do para não achar que Zé Galego tenha existido e que tenha
virado cadáver num dia de abril de 1907. (Afinal, não só os
sonhos, mas também as pedras são parte do mundo conhe­
cido!) Todas as versões dos fatos, obtidas em diferentes
fontes, concordam absolutamente neste aspecto e, mais
importante que isto, nada justifica a suspeita de que estas
sejam verdades “fabricadas” pelos agentes sociais que pro­
duziram estas fontes. Não há duvida razoável aqui, pelo
menos para os parâmetros deste mundo. E a história é um
tipo de conhecimento humano... 6
Contudo, este não é o ponto essencial a enfatizar neste
momento — e é até um tanto espantoso que tenha sido

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necessário mencionar este aspecto. Como o leitor verá logo
adiante, o texto do livro se constrói a partir da recons­tituição
de muitas dezenas de histórias análogas à de Zé Galego,
Paschoal e Júlia, sendo que os processos criminais são a
fonte principal para a recuperação destes episódios. O fun­
damental em cada história abordada não é descobrir “o que
realmente se passou” — apesar de, como foi indicado, isto
ser possível em alguma medida —, e sim tentar compreender
como se produzem e se explicam as diferentes versões que
os diversos agentes sociais envolvidos apresentam para cada
caso. As diferentes versões produzidas são vistas neste con­
texto como símbolos ou interpretações cujos significados
cabe desvendar. 7 Estes significados devem ser buscados nas
relações que se repetem sistematicamente entre as várias
versões, pois as verdades do historiador são estas relações
sistematicamente repetidas. Pretende‑se mostrar, portanto,
que é possível construir explicações válidas do social exata­
mente a partir das versões conflitantes apresentadas por
diversos agentes sociais, ou talvez, ainda mais enfaticamen­
te, só porque existem versões ou leituras divergentes sobre
as “coisas” ou “fatos” é que se torna possível ao historiador
ter acesso às lutas e contradições inerentes a qualquer rea­
lidade social. E, além disso, é na análise de cada versão no
contexto de cada processo, e na observação da repetição das
relações entre as versões em diversos processos, que pode­
mos desvendar significados e penetrar nas lutas e contradi­
ções sociais que se expressam e, na verdade, produzem-se
nessas versões ou leituras.
Em conclusão, ler processos criminais não significa
partir em busca “do que realmente se passou” porque esta
seria uma expectativa inocente — da mesma forma como é
pura inocência objetar à utilização dos processos criminais

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porque eles “mentem”. O importante é estar atento às “coi­
sas” que se repetem sistematicamente: versões que se re­
produzem muitas vezes, aspectos que ficam mal escondidos,
mentiras ou contradições que aparecem com freqüência.
Como já ficou sugerido e exemplificado na reconstituição
dos eventos associados à vida e à morte de Zé Galego, cada
história recuperada através dos jornais e, principalmente,
dos processos criminais é uma encruzilhada de muitas lutas:
das lutas de classes na sociedade, lutas estas que se revelam
na tentativa sistemática da imprensa em estigmatizar os
padrões comportamentais dos populares — estes “brutos”!;
nas estratégias de controle social dos agentes policiais e
judiciários, e também na reação dos despossuídos a estes
agen­t es — como, por exemplo, na atitude hostil dos popu­
lares em relação aos guardas‑civis, ou na estratégia utiliza­
da pelos estivadores amigos de Paschoal, e muitas vezes
repetida pelas testemunhas em outros autos, de “sumirem”
ao longo do andamento do processo, ou nos casos nume­
rosos em que acusados e testemunhas denunciam maus-
tratos; das contradições ou conflitos no interior do próprio
aparato jurídico-repressivo — como, por exemplo, no pro­
cedimento bastante comum dos juízes encarregados do in­
terrogatório na pretoria de checar as condições em que foi
elaborado o in­q uérito na delegacia de polícia; das lutas ou
contradições no interior da própria classe trabalhadora —
manifestadas, por exemplo, nos casos numerosos de confli­
tos por riva­l i­d ades de raça e nacionalidade; das disputas
que estejam tal­v ez mais estritamente no domínio da antro­
pologia social — como as relações de poder dentro de um
casal, de uma família ou de um grupo de vizinhança. Resta
ao historiador a tarefa árdua e detalhista de desbravar o seu
caminho em direção aos atos e às representações que expres­

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sam, ao mesmo tempo que produzem, estas diversas lutas e
contradições sociais.
Ficam assim indicadas, portanto, algumas das soluções
teóricas e metodológicas encontradas para os problemas
relacionados com a utilização de processos criminais como
fonte para estudos históricos. Estes problemas e soluções
serão obviamente aprofundados em vários momentos do
longo texto que se segue. Resta agora situar para o leitor a
relevância de Zé Galego e seu mundo no movimento da
história e nos debates acadêmicos sobre a classe trabalha­
dora, o que servirá também para definir de forma mais es­
pecífica os objetivos do livro.

Zé Galego e seus companheiros na história

Zé Galego e seus companheiros viveram na cidade do


Rio de Janeiro numa época durante a qual a capital da jovem
República passava por profundas transformações em sua
estrutura demográfica, econômica e social. Os personagens
do episódio de Zé Galego estão inseridos num momento his­
tórico crucial da transição para a ordem capitalista na cida­
de do Rio de Janeiro.
A demografia da cidade testemunha transformações im­
portantes em sua estrutura populacional nas últimas décadas
do século XIX e na primeira década do século XX. Em 1872,
moravam na capital 274.972 pessoas; em 1890, este número
cresce para 522.651, atingindo 811.443 em 1906. A densi­
dade populacional era de 247 habitantes por km 2 em 1872,
passou a 409 em 1890, e a 722 em 1906. Neste último ano,
o Rio de Janeiro era a única cidade do Brasil com mais de
500 mil habitantes, e abaixo dela vinham São Paulo e Sal­

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vador, com apenas um pouco mais de 200 mil habitantes
cada uma. 8
Este crescimento populacional acelerado está estreita­
mente vinculado à migração de escravos libertos da zona
rural para a urbana, à intensificação da imigração e a me­
lhorias nas condições de saneamento. 9 Os dois primeiros
fa­t ores explicam algumas características peculiares da de­m o­
grafia da cidade nos últimos anos do Império e nos pri­
mórdios do período republicano. O Rio de Janeiro concen­
trava um grande contingente de negros e mulatos — o ­m aior
de todo o Sudeste —, como registra o censo de 1890. Dos
522.651 habitantes da capital registrados em 1890, aproxi­
madamente 180 mil ou 34% foram identificados como ne­
gros ou mestiços. Infelizmente, o censo de 1906 — refle­
tindo a ideologia oficial e racista do período, que queria por
força “embranquecer” a população do país — não ­d iscrimina
os habitantes pela cor. 10
A intensificação do fluxo imigratório foi responsável
pelo aumento contínuo do número de imigrantes na cidade,
especialmente os de nacionalidade portuguesa. Em 1890,
havia na capital 155.202 habitantes de naturalidade estran­
geira, representando 30% da população total. Os portugue­
ses eram grande maioria entre os estrangeiros — 106.461
pessoas recenseadas haviam nascido em Portugal, represen­
tando este número cerca de 20% da população total do Rio
de Janeiro. O censo de 1890 contém um “quadro ge­r al dos
habitantes de naturalidade estrangeira em relação ao ano da
chegada ao Brasil”, e uma observação atenta deste quadro
revela uma grande intensificação do fluxo imi­g rató­r io na
década de 1880. Entre os 106.461 portugueses existentes
na capital em 1890, por exemplo, cerca de 50% haviam
chegado ao país nos dez anos anteriores. Apesar de o censo

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de 1906 não conter um quadro semelhante, sabe‑se que, ao
longo da década de 1890, crises de desemprego e estagnação
econômica em Portugal contribuíram para a continuação do
fluxo migratório de portugueses para a cidade. 11
O censo de 1906 não faz distinção entre a naturalidade
e a nacionalidade dos imigrantes entrevistados, o que im­
possibilita uma estimativa mais correta do fluxo imi­g ratório
entre 1890 e 1906. Não havendo, portanto, possibilidade
de distinção entre o número de imigrantes que adotaram a
nacionalidade brasileira e os que mantiveram a nacionalida­
de de seu país de origem, tudo o que se sabe é que havia
210.515 indivíduos de nacionalidade estrangeira entre os
811.443 habitantes da cidade em 1906, o que representa
26% da população total da cidade, contra os 24% de 1890.
Sabe‑se também que dentre os estrangeiros 133.393 eram
portugueses, o que representa 16% da população total da
capital, contra os 20% de 1890. Os dados, então, indicam
que houve um ligeiro aumento da representatividade dos
indivíduos de nacionalidade estrangeira na estrutura popula­
cional da cidade entre 1890 e 1906, apesar de, no caso es­
pe­c ífico da participação dos indivíduos de nacionalidade
portuguesa, ter havido uma diminuição em relação à popu­
lação total.
Outra característica da população da cidade no ­p eríodo,
diretamente ligada à demografia da imigração, é o grande
desequilíbrio numérico entre os sexos. Em 1890 havia na
cidade 293.657 homens e 228.994 mulheres, ­representando
respectivamente 56% e 44% da população total. Este de­s e­
quilíbrio entre os sexos se explica pelo fato de que, dentre
os 155.202 imigrantes estrangeiros que habitavam a cidade
por ocasião do censo, nada menos do que 109.779, ou 71%,
eram do sexo masculino. A situação permanecia praticamen­

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te a mesma em 1906, quando foram recenseados 463.453
ho­m ens e 347.990 mulheres, representando respectiva­m ente
57% e 43% da população total. Dos ­2 10­. 5­1 5 habitantes de
nacionalidade estrangeira recen­s eados­na­ocasião, 150.880,
ou 71%, eram do sexo masculi­n o.
Cabe observar, finalmente, que as características do
fluxo imigratório levavam também a uma grande concen­
tração de indivíduos na faixa dos 15 a 30 anos de idade.
O imigrante, além de homem, era em geral jovem e sol­
teiro, sendo que sua chegada em grande número no pe­r ío­
do aumentava a oferta de mão-de-obra e acirrava a com­
petição pela sobrevivência entre os populares. Em 1890,
havia no Rio de Janeiro 163.137 habitantes entre os 15
e 30 anos de idade — 31% da população total — e em
1906 havia 254.662 in­d ivíduos nesta faixa de idade — o
que representava exatamente os mesmos 31% registrados
em 1890.
Essas mudanças na demografia da cidade precisam ser
percebidas dentro do quadro mais amplo da constituição
do capitalismo no Brasil — e especialmente no Rio de Janei­
ro — no período compreendido entre o final do século XIX
e as duas primeiras décadas do século XX. Zé Galego e seus
companheiros viveram no âmago das profundas transforma­
ções socioeconômicas associadas à transição de relações
so­c iais do tipo senhorial‑escravista para relações ­s ociais do
tipo burguês‑capitalista na cidade do Rio de Janeiro no pe­
ríodo. Ressalte‑se, porém, que por ocasião da morte de Zé
Galego as relações sociais do tipo bur­g uês­-capitalista já eram
claramente dominantes na sociedade carioca, após o episódio
cataclísmico e decisivo da “obra de renovação ma­t erial, de
renovamento moral” 12 empreendida na administração do
prefeito Pereira Passos.

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Convém aqui apenas assinalar algumas coordenadas ge­rais
deste processo de imposição de uma ordem capitalista na ci­
dade do Rio de Janeiro de então. Como ponto de refe­rên­cia
mais amplo, sabe‑se que a emancipação dos escravos­ e o mo­
vimento imigratório foram os dois processos que, ao longo de
várias décadas, forjaram o homem livre — tra­ba­lhador expro­
priado que deveria se submeter ao assa­la­riamento — ao longo
da segunda metade do século XIX. É es­te homem livre — leia-
se, “livre” da propriedade dos meios de produção, isto é,
despossuído — que será a figura­ essencial da formação do
mercado capitalista de trabalho assa­lariado.
É, portanto, sobre o antagonismo trabalho assalariado
versus capital que se erguerá o regime republicano fun­d ado
em 1889, regime este que tinha como seu projeto político
mais urgente e importante a transformação do homem
li­v re — fosse ele o imigrante pobre ou o ex‑escravo — em
trabalhador assalariado. Na verdade, o regime republicano
não é o detonador deste projeto de transformação do homem
livre em trabalhador assalariado, pois tal projeto já se dese­
nha nitidamente desde pelo menos meados do século XIX,
quando a supressão definitiva do tráfico de escra­v os é acom­
panhada quase que simultaneamente por leis que regulamen­
tam o acesso à propriedade da terra — leis estas que, na
prática, vedam ao homem livre pobre a possibilidade de se
tornar um pequeno proprietário. 13 Desde a década de 1850,
então, quando a questão da transição do trabalho escravo
para o trabalho livre já se colocava de forma incontornável
para os diversos setores da classe dominante, delineia-se uma
política clara de condicionar esta transição a um projeto
mais amplo de continuação da dominação social dos proprie­
tários dos meios de produção. Conduzia‑se, assim, um pro­
ces­s o de transição que sem dúvida implicaria reajustes no

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interior da classe dominante, mas que não colocaria em ques­
tão o objetivo de garantir a progressiva expropriação dos
agentes sociais engajados no processo direto de produção.
Este traço continuísta essencial, no entanto, não ocul­
ta a complexidade e alcance das transformações sociais que
es­t avam em andamento. Para realizar efetivamente a sub­
sunção do liberto ou do imigrante pobre ao assalariamento,
não basta apenas expropriá‑lo, pois a expropriação, por si
só, poderia apenas conduzir estes agentes sociais a alterna­
tivas de sobrevivência outras que não aquelas desejadas
pelos donos do capital. Delineia‑se, então, um processo
social amplo que, após muita luta e resistência por parte dos
populares, levaria à configuração de relações sociais de tipo
burguês‑capitalista na cidade do Rio de Janeiro já nas pri­
meiras décadas do século XX. A imersão do trabalhador
previamente expropriado nas leis do mercado de trabalho
assalariado passa por dois movimentos essenciais, simultâ­
neos e não excludentes: a construção de uma nova ideologia
do trabalho e a vigilância e repressão contínuas exer­c idas
pelas autoridades policiais e judiciárias.
A questão da construção de uma nova ideologia do
trabalho nas últimas décadas do século XIX é retomada com
detalhes no primeiro capítulo, cabendo aqui, portanto, ape­
nas algumas reflexões prévias. No caso específico do Rio de
Janeiro, a redefinição do conceito de trabalho tem como
ponto de referência fundamental o problema do enqua­d ra­
mento dos elementos egressos da ordem escravista, isto é,
os libertos. 14 No período de dominância das relações sociais
do tipo senhorial‑escravista, o problema de garantir a submis­
são do produtor direto estava resolvido, no universo le­g al,
pela condição de propriedade privada deste produtor — isto
é, o trabalhador escravo — e, na prática cotidiana de vida,

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o controle social do escravo era obtido por um equilíbrio
dinâmico entre a aplicação do castigo exemplar e a adoção
de medidas paternalistas por parte do senhor — medidas
estas que, numa leitura talvez mais plausível, eram reivindi­
cadas e conquistadas pelos escravos. 15 Neste contexto, as
atividades do produtor direto eram bastante desqualificadas
socialmente, na medida em que se associavam diretamente
à situação degradante do cativeiro­.
Assim, a perspectiva do fim da escravidão colocava para
os detentores do capital a questão de garantir a continuação
do suprimento de mão-de-obra, e tal objetivo só poderia ser
alcançado caso houvesse uma mudança radical no conceito
de trabalho vigente numa sociedade escravista. Era necessá­
rio que o conceito de trabalho ganhasse uma valo­r ação
positiva, articulando‑se então com conceitos vizinhos como
os de “ordem” e “progresso” para impulsionar o país no sen­
tido do “novo”, da “civilização”, isto é, no sentido da cons­
tituição de uma ordem social burguesa. 16 O conceito de
trabalho se erige, então, no princípio regulador da socie­
dade, conceito este que aos poucos se reveste de uma rou­
pagem dignificadora e civilizadora, valor supremo de uma
socie­d ade que se queria ver assentada na expropria­ç ão ab­
soluta do trabalhador direto, agente social este que, assim
destituído, de­v eria prazerosamente mercantilizar sua força
de traba­lho — o único bem que lhe restava, ou que, no caso
do liberto, lhe havia sido “concedido” por obra e graça da
lei de 13 de maio de 1888. Era este princípio supremo, o
trabalho, que iria, até mesmo, despertar o nosso sentimento
de “nacionalidade”, superar a “preguiça” e a “rotina” asso­
ciadas a uma sociedade colonial e abrir desta forma as por­
tas do país à livre entrada dos costumes civilizados — e do
capital — das nações européias mais avançadas. O cronista

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Gil mostra bem a articulação existente entre a noção de
trabalho e o projeto dos donos do poder e do capital de
fazer da jovem República um prolongamento tropical da
civilização a da economia européias; o título da crônica é
“Renascimento” e se trata de uma apologia à administração
do presidente Rodrigues Alves — período áureo de remo­
delação da cidade do Rio de Janeiro:

Hoje reconhecemos que só parecíamos pobres porque


empregávamos­ mal uma extraordinária riqueza e que a
presunção de fracos vi­n ha somente porque nos falhava
a noção relativa das fraquezas e a audácia consciente do
próprio vigor. O feito do atual governo esteve justa­
mente em evidenciar por atos esta verdade. Definimos
a nossa individualidade internacional; fizemos do crédi­
to um acionador do trabalho; tornamos o trabalho um
transformador de belezas mal tra­jadas, um empresário
de conforto efetivo, um pregoeiro de capaci­d ade admi­
nistrativa. 17

Este primeiro movimento para transformar o agente


social expropriado em trabalhador assalariado tem como
alvo, então, a “mente” ou o “espírito” dos homens livres
em questão. 18 Desejava‑se, na verdade, que os homens
livres in­t ernalizassem a noção de que o trabalho era um
bem, o va­l or supremo regulador do pacto social. Note‑se,
ainda, que este movimento de controle de espíritos e
mentes lançava suas garras muito além da disciplinariza­
ção do tempo e do espaço estritamente do trabalho — isto
é, da produção —, pois a definição do homem de bem,
do homem trabalhador, passa também pelo seu enquadra­
mento em padrões de conduta familiar e social compa­
tíveis com sua situação de indivíduo integrado à socie­
dade, à nação.

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Este primeiro movimento, por si só, não era suficiente
para garantir a subsunção do trabalho ao capital. A im­
posição de uma ordem social capitalista na cidade do Rio
de Janeiro no período se fez também, na prática, “pela
transformação da rua em verdadeiro espaço de guerra”, 19 na
expressão feliz de Maria Alice R. de Carvalho. Ou seja, a
vigilância “espiritual” do agente social expropriado que
deveria se tornar trabalhador se completava, no cotidiano,
pelo exercício da vigilância policial. 20 Este segundo movi­
mento para submeter o homem livre pobre à sociedade or­
denada pelo trabalho tem como objeto de ação direta o
corpo dos despossuídos, pois estes, ao serem estigmatizados
pelas autoridades policiais e judiciárias como “vadios”,
“promíscuos” ou “desordeiros”, podem se ver arremessados,
repentinamente, ao xilindró, onde seriam supostamente
“corrigidos” — vale dizer, transformados em trabalhadores,
por mais inverossímil que isto possa parecer.

Convém agora tentar esclarecer o leitor sobre os nos­sos


objetivos mais específicos. O processo de expropriação do ho­
mem livre e o esforço de enquadrá‑lo na ordem social capita­
lista emergente, processo este que vimos de delinear nas
páginas anteriores, equivalem, historicamente, à formação
da classe trabalhadora na cidade do Rio de Janeiro no meio
século compreendido aproximadamente entre 1870 — início
do período terminante de crise do escra­v ismo — e a con­
juntura 1917-1920 — ­m arco fundamental da história do
movimento operário na Primeira República. 21 Sendo assim,
o objeto principal de investigação neste trabalho é a questão
da configuração, nas con­d ições específicas da sociedade
carioca no período ­e studado, de práticas ou mecanismos de
controle social da classe trabalhadora típicos de uma socie­

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dade capitalista. Ressalte-se, no entanto, que a reconstituição
das práticas de contro­l e social típicas de uma sociedade
capitalista neste contexto específico privilegia a experiência
ou a prática de vida da classe trabalhadora. Isto significa
trazer a questão do controle social para as práticas cotidianas
dos agentes sociais des­p ossuídos, e tentar perceber a sua
própria leitura de tal fato essencial da vida numa sociedade
capitalista. Por ­o utro lado, isto não significa desprezar as
práticas discursivas da classe dominante enquanto elementos
constituintes fundamentais do objeto a ser estudado — a
configuração do controle social da classe trabalhadora —,
mas sim que se fez aqui a opção de cercar este objeto por
outro ângulo, deslocando assim a questão da prática discur­
siva da classe dominante para a condição de referencial
importante na análise, mas não como seu âmago ou enfoque
principal.
Note‑se, ainda, que o problema do controle social da
classe trabalhadora compreende todas as esferas da vida, todas
as situações possíveis do cotidiano, pois este controle se
exerce desde a tentativa de disciplinarização rígida do tempo
e do espaço na situação de trabalho até o problema da nor­
matização das relações pessoais ou familiares dos trabalhado­
res, passando, também, pela vigilância contínua do botequim
e da rua, espaços consagrados ao lazer popular. É neste sen­
tido específico, portanto, que um estudo que procura des­
vendar o sentido do controle social na vivência da classe
trabalhadora trata, forçosamente, da reconstituição de aspec­
tos da vida cotidiana destes agentes sociais.
A opção por abordar a questão do controle social do
ponto de vista da experiência cotidiana da classe trabalha­
dora procura ressaltar o fato de que as relações de vida dos
agentes sociais expropriados são sempre relações de luta, ou

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seja, o tempo e o espaço da luta no processo histórico não
se restringem aos movimentos reivindicatórios organizados
dos dominados — como os diversos momentos do movi­
mento operário, por exemplo. Lima Barreto, com a perspi­
cácia e a consciência de quem tinha a coragem de ser “mal­
dito” na cidade do Rio de Janeiro que se “civilizava”, isto
é, que estava em processo de constituição plena da ordem
capitalista, exprime bem a relação indissolúvel entre vida e
luta na experiência da classe trabalhadora:

Admi­r ava‑me que essa gente pudesse viver, lutando


contra a fome, contra a moléstia e contra a civilização;
que tivesse energia para viver cercada de tantos males,
de tantas privações e dificuldades. Não sei que estranha
tenacidade a leva a viver e porque essa tenacidade é
tanto mais forte quanto mais humilde e miserável. 22

Finalmente, apenas uma nota complementar quanto às


fontes e à organização do texto. Como já foi indicado, os
processos criminais de homicídio ou tentativa de homicídio
foram o principal tipo de fonte utilizada neste trabalho para
a reconstituição de aspectos essenciais do mundo de Zé Ga­
lego e seus companheiros. Foram analisados 140 processos
criminais referentes à primeira década do século XX. Cada
dossiê é, na verdade, uma coleção de documentos sobre um
determinado caso de homicídio ou tentativa de homicídio e
contém em geral entre 200 e 250 páginas inteiramente ma­
nuscritas. A opção por limitar a exploração dos ­p rocessos
apenas à primeira década do século XX deve‑se a considera­
ções ao mesmo tempo teóricas e práticas: por um lado, e
como ficará claro ao longo do texto, a primeira década do
século é o período terminante e decisivo do longo processo
estrutural de implantação de uma ordem burguesa na ­c idade

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do Rio de Janeiro; por outro lado, esta opção permitiu a
análise da totalidade dos processos de homicídio ou tenta­
tiva de homicídio referentes ao 2 o Cartório do Tribunal do
Júri que se encontram no Arquivo Nacional. Estes processos
representam, talvez, uma quarta parte do total de processos
de homicídio que se abriram efetivamente na cidade no
período, mas o caráter maciço das informações ­c onstantes
da amostra analisada tornou possível a consecução dos ob­
jetivos centrais da pesquisa.
A observação atenta da própria produção social dos
processos criminais analisados fornece um primeiro pa­
râmetro de reflexão para a questão do controle social numa
sociedade capitalista. Os processos revelam de forma notó­
ria a preocupação dos agentes policiais e jurídicos em es­
quadrinhar, conhecer, dissecar mesmo, os as­p ectos mais
recônditos da vida cotidiana. Percebe‑se, então, a intenção
de controlar, de vigiar, de impor padrões e regras prees­
tabelecidos a todas as esferas da vida. Mas a intenção de
enquadrar, de silenciar, acaba revelando também a resistên­
cia, a não-conformidade, a luta: neste sentido, a leitura de
cada processo é sempre uma baforada de ar fresco, de vida,
de surpresa, baforada esta que pode vir em forma de carta
de amor, de xingamento, de ironia, ou, menos poeticamen­
te, de violência policial.
O livro está dividido em três longos capítulos. A
organi­z ação do texto está informada pelo objetivo de re­
constituir movimentos importantes de Zé Galego, Pas­c hoal,
Júlia e tan­t os outros anônimos que são os protagonistas
desta história: o primeiro capítulo trata das questões mais
diretamente ligadas­ à sobrevivência material — o trabalho
e a habitação; o segundo aborda as relações pessoais e fami­
liares dos mem­b ros da classe trabalhadora; o terceiro trata

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do mundo do la­z er popular, das ruas e dos botequins e de
sua contrapartida aparentemente obrigatória — a repressão
policial.
A praxe acadêmica talvez faça o leitor estranhar que
te­m as bastante gerais — como a construção de uma nova
ideo­logia do trabalho, ou uma maior explicitação do quadro
teórico que fundamenta a análise, por exemplo — não apa­
reçam no texto na forma de outro longo capítulo ini­c ial, que
lançaria, assim, as coordenadas gerais da análise mais verti­
cal, empírica e micro‑histórica que constitui, na verdade, a
maior parte do texto. Optou‑se por não ­e screver tal capítu­
lo, fazendo‑se apenas a indicação sucinta de alguns proble­
mas nesta intro­d ução, por dois motivos principais: primei­
ro, a tentativa de forçar uma narrativa que traga em seu bojo
a unidade orgânica entre pesquisa em­p írica e problemas
teóricos, evitando-se a divisão artificial entre teoria e práti­
ca que parece ser um vício indomável da produção acadê­
mica em nossos dias; se­g undo, porque a presente organiza­
ção do texto espelha mais fielmente a forma como o
problema foi efetivamente pensado durante estes quatro anos
de trabalho, procurando‑se dar as­s im, ao leitor, a possibili­
dade de “descobrir” o objeto e a forma como ele foi pensa­
do ao longo da leitura. Ao leitor caberá julgar a utilidade
ou não de tal procedimento.

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N otas

1
Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro do meu tempo. Rio de Janeiro: Conquis­
ta, 1957, vol. 1, p. 40.
2
O relato que se segue foi baseado no processo-crime em que foi réu
Antônio Paschoal de Faria, n o 2.069, maço 995, galeria b (1907), Ar­
quivo Nacional, e nos noticiários do Jornal do Commercio e do Correio
da Manhã do dia 19 de abril de 1907. Ao longo de todo o texto, os
documentos são transcritos respeitando‑se sempre a pontuação e a
gramática originais, mas atualizando‑se a ortografia das palavras.
3
Barbosa Lima Sobrinho, “A imprensa”, in vários autores, Brasil 1900-
1910. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1980, p. 138.
4
Lima Barreto, Recordações do escrivão Isaías Caminha. Rio de Janeiro:
Edições de Ouro, s.d., p. 198.
5
Idem, op. cit., p. 201.
6
Para uma apresentação polêmica e elaborada do pressuposto filosófico
decididamente materialista da análise histórica, ver E. P. Thompson, A
miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de
Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, especialmente o cap. 3, suges­
tivamente intitulado “Mesa, você existe?”. As observações que se seguem
também são, de certa forma, inspiradas neste livro de Thompson, já que
procuram expressar nossa estranheza diante de posturas teóricas que
cavam um abismo profundo entre o chamado “mundo real” e as chama­
das “representações” ou “ideologias”.
7
Este argumento tem muito a ver com as formulações de Clifford Geertz
a respeito da “interpretação das culturas”. Ver Clifford Geertz, A in-

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terpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, especialmente o
­c ap. 1­.
8
Eulalia Maria Lahmeyer Lobo, História do Rio de Janeiro (do capital co-
mercial ao capital industrial e financeiro). Rio de Janeiro: I bmec , 1978,
vol. 2, p. 469.
9
Ibidem.
10
Recenseamento geral da República dos Estados Unidos do Brasil, ano de
1890, e Recenseamento do Rio de Janeiro (Distrito Federal), realizado em
1906. Daí por diante, todos os dados deste pequeno esboço de demo­
grafia histórica foram obtidos nesses dois recenseamentos, a não ser
onde outra fonte for indicada.
11
Eulalia Maria Lahmeyer Lobo, op. cit., p. 509. Para um panorama
geral da imigração portuguesa para o Brasil no período, ver Miriam
Halpern Pereira, A política portuguesa de emigração (1850 a 1930). Lisboa:
A Regra do Jogo Edições Ltda., 1981.
12
Gil, “Renascimento”, in Antonio Dimas, Tempos eufóricos (análise da
revista Kosmos: 1904‑1909). São Paulo: Ática, 1983, p. 297.
13
Ver Emilia Viotti da Costa, “Política de terras no Brasil e nos Estados
Unidos”, in Da monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo:
Livraria Editora Ciências Humanas, 1979.
14
O conceito de trabalho na sociedade brasileira na passagem do século
XIX ao século XX: a formação do mercado de trabalho na cidade do Rio
de Janeiro, projeto de pesquisa do Departamento de História da PUC–
RJ, 1981.
15
Sobre a questão do controle social do escravo, ver, para uma abordagem
que privilegia a questão da violência física, do castigo, Emilia Viotti da
Costa, Da senzala à colônia. São Paulo: D ifel , 1966; e F. Henrique
Cardoso, Capitalismo e escravidão no Brasil meridional. São Paulo: D ifel ,
1962. Para uma abordagem que procura retomar a questão do pater­
nalismo, ver Katia Q. Mattoso, Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasi­
liense, 1982.
16
Sobre a articulação do conceito de trabalho com os de “ordem”, “pro­
gresso” e “civilização”, ver Maria Alice Rezende de Carvalho, Cidade
& fábrica: a construção do mundo do trabalho na sociedade brasileira.
Dissertação de mestrado, U nicamp . Campinas, jul., 1983.
17
Gil, “Renascimento”, in Antonio Dimas, op. cit., pp. 296-97.

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18
E. P. Thompson e M. Foucault têm mostrado em seus trabalhos uma
preocupação constante em destacar este aspecto fundamental do con­
trole social em sociedades capitalistas; ver, por exemplo, E. P. Thompson,
Tradición, revuelta y consciencia de clase. Barcelona: Crítica, 1969; e
Michel Foucault, Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1977.
19
Maria Alice Rezende de Carvalho, op. cit., p. 65.
20
Sobre a importância da ação policial no controle social da classe traba­
lhadora, ver Boris Fausto, Crime e cotidiano: a criminalidade em São
Paulo (1880-1924). São Paulo: Brasiliense, 1984.
21
Ver idem, Trabalho urbano e conflito social (1890-1920). Rio de Janeiro,
São Paulo: D ifel , 1977.
22
Lima Barreto, op. cit., p. 215.

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S obrevivendo ...

Inquietações teóricas e objetivos

Este primeiro capítulo aborda as rixas e conflitos en­


volvendo os membros da classe trabalhadora do Rio de
Janeiro na primeira década do século XX que estejam dire­
tamente associados aos problemas de reprodução da vida
material desses indivíduos. Sendo assim, focalizam‑se prio­
ritariamente as tensões e conflitos que emergem de situações
no trabalho e de questões ligadas ao problema da habi­t ação.
Nesta tentativa de reconstituição de alguns aspectos essen­
ciais dessas tensões e conflitos cotidianos, des­t aca‑se a im­
portância das rivalidades étnicas e nacionais en­q uanto ex­
pressões das tensões prove­n ientes da concorrência­ da força
de trabalho — em condições bastante desfavoráveis — num
mercado de trabalho capita­lista em formação.
Parece haver um certo consenso entre os historiadores
de que as rivalidades e conflitos raciais e nacionais se consti­
tuíram num dos principais elementos limitadores da efi­c á­c ia
do movimento operário brasileiro na Primeira República.
Sheldon Maram, por exemplo, escreve que “os conflitos en­

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tre brasileiros e imigrantes, e entre os próprios ­g rupos etni­
camente divididos, foram uma das principais limitações do
movimento operário brasileiro”. 1 Se isto foi verdade, con­
tudo, provavelmente refletia uma realidade experimentada
pela classe trabalhadora em seu conjunto, na prática coti­
diana da vida. Ou seja, seria necessário que estas ­d ivisões
nacionais e raciais fizessem parte da visão de mundo da
classe trabalhadora, constituindo‑se num aspecto impor­tante
da ideologia popular. Refletindo sobre a experiência histó­
rica das classes pobres no Rio de Janeiro nas décadas anterio­
res ao advento do movimento operário na República Ve­lha,
parece verdadeiro que as divisões nacionais e raciais fos­s em
elementos profundamente arraigados na mentalidade po­
pular. Afinal, na composição étnica da classe trabalhadora
do Distrito Federal predominavam imigrantes — especial­
mente portugueses — e brasileiros não‑brancos — a cidade
apresentava a maior concentração urbana de negros e mu­
latos no Sudeste. 2 Isto significa dizer que duas das ­p rincipais
clivagens da sociedade colonial e depois imperial conti­n ua­
vam a ser parte integrante da experiência de vida ­p opular:
refiro‑me às contradições se­n hor‑patrão branco ver­s us es­
cravo‑empregado negro, e colonizador‑explorador portu­guês
versus colo­n i­z a­d o­‑ex­p lorado brasileiro. 3 No nível das men­
talidades e atitudes populares, isto significava que ­m uitas
vezes a igualdade de situação de classe entre portugueses e
brasileiros pobres ficava obscurecida pelo ressentimento
mútuo: o imigrante trazia de sua terra natal — e refor­ç ava
ainda em terras tropicais — sua concepção de ser racial e
culturalmente superior aos brasileiros pobres de cor; e es­t es,
por outro lado, para quem a escravidão era ainda um passa­
do bastante recente, ressentiam‑se dos brancos em ­g eral e,
mais ainda, dos imigrantes, que vinham chegando ao Rio

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de Janeiro em grandes levas desde os últimos anos da Mo­
narquia, abo­c anhando boa parte da fatia de empregos dis­
poníveis na cidade.
A constatação, relativamente óbvia, de que as divisões
nacionais e raciais eram um elemento importante na menta­
lidade da classe trabalhadora carioca não nos leva, por si só,
muito longe na análise. Se esses elementos constituem traços
continuístas importantes no processo histórico da cidade do
Rio de Janeiro ao longo do século XIX e da Primeira Repú­
blica, é não menos relevante atentar para o fato de que essas
rivalidades nacionais e raciais são rea­t ivadas e até reelabo­
radas pela classe trabalhadora dentro do contexto mais am­
plo da transição para a ordem burguesa na cidade no perío­
do pós-Abolição. A reconstrução do preconceito racial e
nacional neste contexto passa, na verdade, tanto por uma
série de im­p osições propaladas de cima para baixo pelas
classes domi­n antes quanto pelos ajustamentos dos po­p ulares
às condições concretas da luta pela sobrevivência. Boris
Fausto, por exem­p lo, pensa que um dos dados essenciais
dessa luta pela sobre­v ivência eram as condições de oferta da
força de trabalho. A cidade do Rio de Janeiro, na época,
reunia contingentes de po­p ulação em proporção superior às
limitadas necessidades do setor industrial e de serviços. Essa
população pobre, continua­m ente engrossada por migrantes
internos e imigrantes estran­g eiros, ­l utava na prática com
uma dificuldade ingente em ar­r umar em­p rego e tinha de se
sujeitar a receber salários baixos que de­t erioravam ainda
mais suas condições de existência. Eulalia M. L. Lobo, por
exemplo, afirma que “a abo­lição da escravatura liberou mão-
de-obra do campo para a ci­d ade, for­m ando‑se um mercado
de trabalho com superabundância de oferta, na medida em
que o afluxo de imigrantes veio reforçar o contingente dos

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libertos e a melhoria das con­d ições de higiene, reduzir a
mortalidade”. 4 Para com­p licar ainda mais o quadro, essa
abundante oferta de força de tra­b alho, aumentando a com­
petição entre os trabalhadores, difi­c ultava a organização das
lutas reivin­d i­c atórias. 5
A complexidade do período estudado salta aos olhos e
desafia tenazmente as tímidas tentativas de generalização
es­b oçadas acima. A observação, correta em seu sentido mais
geral, de que eram árduas as condições de competição da
força de trabalho no mercado capitalista em formação na
cidade le­v anta inúmeros problemas, dos quais apenas alguns
serão abordados neste trabalho. Seria importante, por exem­
plo, esclarecer que “mercado de trabalho” é este, pois neste
momento seria ilusório pensar que toda a situação se resume
ao velho esquema do trabalhador despossuído, dono apenas
de sua capacidade de trabalho, que se encontra então no tal
“mercado” com um capitalista altivo e carrancudo que, de­
tentor dos meios de produção, acena-lhe com a possibilida­
de de um emprego. Esse esquema não dá conta de milhares
de indivíduos que, não conseguindo ou não desejando se
tornar trabalhadores assalariados, sobreviviam sem se inte­
grarem ao tal “mercado”, mantendo‑se como ambulantes,
vendedores de jogo de bicho, jogadores profissionais, men­
digos, biscateiros etc.
Em síntese, o problema das rivalidades nacionais e
raciais entre os membros da classe trabalhadora remete tan­
to a aspectos inerentes à mentalidade popular, já há muito
internalizados por brasileiros pobres e imigrantes, quanto à
conjuntura específica de transição para a ordem capitalista
na cidade do Rio de Janeiro da época. Este trabalho ­f ocaliza
principalmente o segundo aspecto do problema. Neste sen­
tido, é importante perceber os inúmeros ­conflitos indivi­duais

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em situações de trabalho dentro do contexto mais amplo da
competição entre populares pela viabilização de sua sobre­
vivência em condições extremamente desfavorá­v eis, sendo
os conflitos nacionais e raciais a expressão mais ­c omum
dessas tensões provenientes da luta pela sobrevivência.
O restante do capítulo está dividido em cinco partes
principais. A primeira parte é uma tentativa de reconstrução
do esforço das classes dominantes em elaborar uma nova
ética de trabalho no período pós‑Abolição. Esta reconstru­
ção é necessária na medida em que, no processo de elabo­
ração dessa nova ética de trabalho, as classes dominantes
revelam aspectos de sua visão de mundo que tendem a jus­
tificar em certa medida as tensões e rivalidades nacionais e
raciais entre os membros da classe trabalhadora. A segunda
parte focaliza os conflitos surgidos entre companheiros de
trabalho, procurando ressaltar o papel da competição entre
os trabalhadores e das rivalidades nacionais e raciais nesse
contexto. A terceira parte procura reconstruir parcial­m ente
o paternalismo e os elementos de tensão contidos na relação
patrão–empregado. A quarta parte trata de outro aspecto
fundamental da luta pela sobrevivência dos membros das
classes populares: o problema da habitação. Os inúmeros
conflitos entre senhorio e inquilino reativam velhas concep­
ções populares sobre o português colonizador, explorador e
avarento, e o brasileiro colonizado e explorado. Finalmente,
tomaremos um segmento específico da classe trabalhadora,
os trabalhadores portuários ou estivadores, e tentaremos
observar como aspectos concretos da experiência individual
de vida dos membros das classes populares, como a compe­
tição pela sobrevivência e as rivalidades nacionais e raciais,
impõem limites bastante ­reais à eficácia das lutas reivindi­
catórias.

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Trabalhadores e vadios; imigrantes e libertos: a construção dos
mitos e a patologia social

Já dizia Cícero que a escravidão não se podia manter,


quando o senhor não dispunha do escravo como do seu
boi, do seu arado, do seu carro. Era preciso que dele
pudesse usar e abusar.
Desde que o escravo adquiria um direito, o senhor per­
dia na autoridade, e a escravidão estava ameaçada de
extinção.
V. Exa. conhece a história desta instituição, se tal nome
merece o fato da escravidão. Desde o ­c omeço, não se
reconheceu no escravo uma besta, mas um homem; ti­
nha direitos, que impunham ao senhor deve­res.
Esses direitos cresceram, alargaram‑se, foram mais e mais
atendidos pelo legislador, mandados respeitar­.
Um dia, o instrumento, o boi, o arado, pelo sopro do
legislador levantou‑se; tomou as formas de homem;
pôs‑se em pé, e disse ao poder público, armado ­d esde a
cabeça aos pés: — Eu sou livre; fostes vós que re­c o­
nhecestes o meu direito; eu sou livre; não me rendo,
prefiro a morte (sensação). 6

As palavras acima foram pronunciadas diante dos par­


lamentares do imperador pelo ministro da Justiça, Ferreira
Vianna, no dia 20 de julho de 1888. O tom patético do
discurso e a sensação que parece ter causado indicam bem
o paroxismo das emoções num momento percebido pelos
deputados como de extrema gravidade para o país. As pala­
vras de Ferreira Vianna, na verdade, historiam a seu modo
o processo segundo o qual o mundo do trabalho tornou‑se
um problema para as elites brasileiras a partir de meados do
século XIX, quando o fim do tráfico negreiro obrigou os
barões do Império a pensar o fim da propriedade escrava.

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Com efeito, a transição do trabalho escravo para o trabalho
livre no Brasil do século XIX colocou as classes dominantes
da época diante da necessidade premente de realizar reajus­
tes no seu universo mental, de adequar a sua visão de mun­
do às transformações socioeconômicas que estavam em
andamento. No mundo de outrora, ordenado pela presença
do escravo, a questão do trabalho era escassamente proble­
matizada na esfera das mentalidades: o trabalhador escravo
era propriedade do senhor e, sendo assim, o mundo do
trabalho estava obviamente circunscrito à esfera mais ampla
do mundo da ordem, que consagrava o princípio da pro­
priedade. 7
O processo que culminou no 13 de maio, no entanto,
rea­lizou finalmente a separação entre o trabalhador e sua for­
ça de trabalho. Com a libertação dos escravos, as classes pos­
suidoras não mais poderiam garantir o suprimento de for­ç a
de trabalho aos seus empreendimentos econômicos por meio
da propriedade de trabalhadores escravos. O pro­b le­m a que
se coloca, então, é de que o liberto, dono de sua força de
trabalho, torne-se um trabalhador, isto é, disponha-se vender
sua capacidade de trabalho ao capitalista empreen­d edor. Por
um lado, esse problema tinha seu aspecto prático que se
traduzia na tentativa de propor medidas que obrigassem o
indivíduo ao trabalho. Por outro lado, era preciso tam­b ém
um esforço de revisão de conceitos, de constru­ç ão de valo­
res que iriam constituir uma nova ética do traba­lho. Como
já foi sugerido na introdução, o conceito de traba­l ho pre­
cisava se despir de seu caráter aviltante e degradador carac­
terístico de uma sociedade escravista, assumindo uma rou­
pagem nova que lhe desse um valor positivo, tornando‑se
então o elemento fundamental para a implantação de uma
ordem burguesa no Brasil.

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Nas páginas seguintes, abordaremos alguns aspectos
das transformações no universo mental das classes dominan­
tes como contrapartida à transição do trabalho escravo para
o trabalho livre, a partir da análise dos debates sobre a re­
pressão da ociosidade na Câmara dos Deputados em 1888.
Neste debate, o liberto, o “trabalhador nacional”, parece ser
a preocupação exclusiva dos parlamentares, mas podemos
clara‑ mente acompanhar o esforço mais amplo de elabora­
ção, de construção de uma nova ética do trabalho. O imi­
grante é a grande presença ausente nesses debates: raramen­
te os debatedores irão se referir a ele explicitamente, mas só
este fato, num momento em que a ociosidade está em foco,
já é elucidativo do papel que os nossos deputados reservavam
para os imigrantes neste processo de construção de uma
nova ética do trabalho.

O projeto de repressão à ociosidade de 1888 — elabo­


rado pelo ministro Ferreira Vianna — começou a ser apre­
ciado na Câmara dos Deputados em julho, e sua discussão
foi bastante marcada pelos ânimos ainda exaltados pelas
repercussões da lei de 13 de maio. A utilidade do projeto
foi votada quase que unanimemente pela Câmara, sendo que
muitos deputados o viam como “de salvação pública para o
Império do Brasil”.
Havia um claro consenso entre os deputados de que a
Abolição trazia consigo os contornos do fantasma da desor­
dem. Na mesma época em que o projeto sobre a ocio­s idade
tramitava na Câmara, um grupo de deputados, liderado por
Lacerda Werneck e se identificando claramente com os inte­
resses das “classes dos lavradores”, dirigia uma interpelação
ao ministro da Justiça que visava exigir medidas do governo
para garantir a defesa da propriedade e da segurança indi­

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vidual dos cidadãos, já que estas, de acordo com os inter­
pelan­t es, estavam seriamente ameaçadas pelas “ordas” de
libertos que supostamente vagavam pelas estradas “a furtar
e rapinar”. 8
Dramatizando ao máximo a situação, os deputados ­falam
da solidão e do deserto a que ficaram reduzidas as fazendas
de Vassouras, onde as “pacíficas e laboriosas populações lo­
cais” — isto é, os proprietários e suas famílias — eram agora
obri­g adas a trabalhar dia e noite para “salvarem alguns caro­
ços de feijão” que garantissem sua alimentação. Mais do que
isto, a lei de 13 de maio era percebida como uma ­a mea­ç a à
ordem porque nivelava todas as classes de um dia para o
outro, pro­v ocando um deslocamento de profissões e de há­
bitos de conseqüências imprevisíveis. Para concluir, os inter­
pelantes citavam diversos casos de crimes que teriam sido
cometidos por libertos nos dias anteriores, provando assim
o caos social que reinava especialmente nas ­províncias do Rio
de Janeiro e de Minas Gerais. Como paliativo imediato para
o problema, su­g eria‑se que os libertos fossem recrutados em
massa para o exército.
Em sua resposta, Ferreira Vianna mostra claramente os
exageros das afirmações dos interpelantes e diz que uma das
respostas do governo aos temores gerais de comprometi­
mento da ordem era o projeto de repressão à ociosidade que
estava em discussão na Câmara. O problema, portanto, é de
ênfase e de decidir que medidas práticas tomar; contudo,
havia, sem dúvida, o consenso de que a ordem estava amea­
çada. Na ver­d ade, um dos pontos principais de toda essa
discussão por ocasião da interpelação, assim como do pro­
jeto sobre a ocio­s idade propriamente, é o consenso que se
estabelece quanto ao suposto caráter do liberto. Em primei­
ro lugar, os libertos eram em geral pensados como indiví­

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duos que estavam despreparados para a vida em sociedade.
A escravidão não havia dado a esses homens nenhuma noção
de justiça, de respeito à propriedade, de liberdade. A liber­
dade do cativeiro não significava para o liberto a responsa­
bilidade pelos seus atos, e sim a possibilidade de se tornar
ocioso, furtar, roubar etc. Os libertos traziam em si os vícios
de seu estado anterior, não tinham a ambição de fazer o bem
e de obter um trabalho honesto e não eram “civilizados” o
suficiente para se tornarem cida­d ãos plenos em poucos me­
ses. Era necessário, portanto, evi­t ar que os libertos compro­
metessem a ordem, e para isso ha­v ia de se reprimir os seus
vícios. Esses vícios seriam venci­d os através da educação, e
educar libertos significava criar o hábito do trabalho através
da repressão, da obriga­t orie­d ade. Este era exatamente o
objetivo do projeto de Ferreira Vianna, como bem resume
o deputado Mac‑Dowell:

Votei pela utilidade do projeto, convencido, como todos


estamos, de que hoje, mais do que nunca, é preciso
reprimir a vadiação, a mendicidade desnecessária, etc.
[...] Há o dever imperioso por parte do Estado de re­
primir e opor um dique a todos os vícios que o liberto
trouxe de seu antigo estado, e que não podia o efeito
miraculoso de uma lei fazer desaparecer, porque a lei
não pode de um momento para outro transformar o que
está na natureza.
[...] a lei produzirá os desejados efeitos com­p elin­d o‑se
a população ociosa ao trabalho honesto, mino­r ando‑se
o efeito desastroso que fatalmente se prevê como con­
seqüência da libertação de uma massa enorme de escra­
vos, atirada no meio da sociedade civilizada, escravos
sem estímulos para o bem, sem educação, sem os sen­
timentos nobres que só pode adquirir uma população
livre e finalmente será regulada a educação dos menores,
que se tornarão instrumentos do trabalho inteligente,

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cidadãos morigerados, [...] servindo de exemplo e edi­
ficação aos outros da mesma classe social. 9

O problema com que se defrontavam os parlamentares


era, em síntese, o de transformar o liberto em trabalhador.
Tomava‑se como ponto de partida, então, o suposto de que
todos os libertos eram ociosos, o que visava garantir, de
início, o direito da sociedade civilizada em emen­d á‑los.
Mas a trans­f ormação do liberto em trabalhador não podia
se dar apenas através da repressão, da violência explícita.
Afinal, não se desejava um retorno a alguma forma disfar­
çada da hedionda instituição da escravidão. Que fazer,
então? Bem, era necessário educar os libertos. Educar sig­
nifica incutir no indivíduo “essas grandes qualidades que
tornam um cidadão útil e o fazem compreender os seus
deveres e os seus direitos”. 10 Ora, que grandes qualidades
são essas que fazem de um indivíduo um cidadão “útil”, de
“caráter”? O amor e o respeito reli­g ioso à propriedade são,
sem dúvida, qualidades fundamentais do bom cidadão. Mas
esse não é o ponto essencial a enfa­t izar neste contexto.
Estamos pensando nos libertos, e convém acenar apenas
muito remotamente a esses indivíduos com a possibilidade
de se tornarem proprietários. Para o liberto, tornar-se bom
cidadão deve significar, acima de tudo, amar o trabalho em
si, independentemente das vantagens materiais que possam
daí advir. Educar o liberto significa transmitir­-lhe a noção
de que o trabalho é o valor supremo da vida em sociedade;
o trabalho é o elemento característico da vida “civi­l izada”.
Mas como pensar no trabalho como algo positivo, nobili­
tador, em uma sociedade que foi escravista durante mais
de três séculos? Como “convencer” o liberto a ser trabalha­
dor, logo ele, recém-advindo da escravidão? Mais do que

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isso, como justificar as medidas repressivas visando garan­
tir a organização do trabalho?
Os debates sobre o projeto de repressão à ociosidade
mostram claramente a tentativa dos parlamentares de pre­
cisar o conceito de trabalho e seu significado no mundo em
que viviam. Procurava-se uma justificativa ideológica para
o trabalho, isto é, razões que pudessem justificar a sua obri­
gatoriedade para as classes populares. A construção do con­
ceito de trabalho passa por diversas etapas. A noção pri­
meira e funda­m ental é a de que o trabalho é o elemento
orde­n ador da sociedade, a sua “lei suprema”. 11 O cidadão
recebe tudo da sociedade, pois esta lhe garante a segurança,
os di­reitos individuais, a liberdade, a honra etc. O cidadão,
portanto, está permanentemente endividado com a socieda­
de e deve retribuir o que dela recebe com o seu trabalho. O
trecho abaixo, de um discurso do deputado Ro­d rigues Pei­
xoto, ilustra bem esse ponto:

Em todos os tempos, o trabalho foi considerado o pri­


meiro elemento de uma sociedade bem organi­zada. Cada
membro da comunidade deve a esta uma parte do seu
tempo e do seu esforço no interesse geral, cuja inobser­
vância apresenta gravidade, o que autoriza de certo modo
a intervenção do Estado.
[...] é preciso que tenham todos uma ocupação porque
V. Exa. sabe que, desde que o indivíduo respira, como
que contrai uma dívida com a sociedade, a qual só paga­
rá com o trabalho. 12

Outro ponto fundamental é a relação que se estabelece


entre trabalho e moralidade: quanto mais dedicação e abne­
gação o indivíduo tiver em seu trabalho, maiores serão os
seus atributos morais. Uma das justificativas ideológicas
fundamentais para o projeto era a intenção de moralizar o

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indivíduo pelo trabalho. Era preciso incutir nos cidadãos o
hábito do trabalho, pois essa era a única forma de regenerar
a sociedade, protegendo‑a dos efeitos nocivos trazidos por
centenas de milhares de libertos — indiví­d uos sem nenhum
senso de moralidade. Dentro deste espírito, o projeto prevê
que os ociosos serão conduzidos a colô­n ias de trabalho, com
preferência para atividades agrícolas, onde serão internados
com o objetivo de adquirir o ­h ábito do trabalho. Essa retó­
rica moralista mal acoberta o obje­t ivo dos legisladores: a
pena para o ocioso devia ser bastante longa (de um a três
anos para o reincidente), pois o que se desejava não era a
punição pura e simples do indivíduo, mas sim sua reforma
moral — e este objetivo não podia ser alcançado em curto
prazo. A severidade das penas, portanto, explica-se pelo seu
caráter educativo, de regeneração moral do condenado,
como expressa o relator da comissão parlamentar encarre­
gada de dar um parecer inicial sobre o projeto:

Desde que o objetivo é a correção moral, evidentemen­


te eram insuficientes, para se alcançar esse objetivo, as
disposições penais do nosso Código Cri­m inal, que es­
tabelecem a prisão de 9 a 24 dias; era necessário corri­
gir um ato inveterado, por conseguinte, fazê‑lo substi­
tuir por outro, regenerando, fazendo adquirir o amor
ao trabalho, pela prática do trabalho. Ora, um hábito
desses não se adquire em pouco tempo... 13

O projeto previa ainda que uma parte do dinheiro obti­


do por meio do trabalho dos condenados nos estabeleci­
mentos correcionais seria depositado em um fundo e cada
condenado receberia um certo pecúlio por ocasião de sua
saída da prisão. O objetivo aqui era também educacional, pois
vi­s ava formar no indivíduo a ambição de possuir alguma

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coisa através de uma atividade honrada. Tome‑se o cuidado
de não dar a este “possuir” a ênfase na esperança de ad­q uirir
propriedade — o que se pensa antes é incutir no indivíduo
o hábito de ser econômico e de viver mais confor­t avelmente,
pois esses hábitos o estimulariam para o trabalho. 14
De qualquer forma, o respeito religioso à propriedade
é consagrado no projeto no item das circunstâncias agravan­
tes na prática da vadiagem: um dos agravantes da pena era
quando o indivíduo possuidor de certa fortuna acaba por
esbanjá‑la, ficando na miséria e sem condições de sustentar
a família. O debate deste item mostra o paroxismo a que
pode chegar esse respeito devido à propriedade, como, por
exemplo, quando um dos deputados não concorda com o
fato de um indivíduo que esbanja sua fortuna ter a pena
agravada, já que o tal indivíduo precisaria era de tratamen­
to médico, pois só poderia estar louco! Diz o deputado:

Ora, S. Exa. sabe que quase sempre a prodigalidade é


inerente a uma enfermidade, porque ninguém, na inte­
gridade das suas faculdades, porá fora aquilo que possui.
Sabe ainda V. Exa. que todos nós temos amor aos nos­
sos bens, ao fruto do nosso trabalho ou ao que de ou­
trem herdamos. Por conseqüência, um indivíduo que
esbanja aquilo que possui, que perde o amor à proprie­
dade, não é simplesmente um viúvo: é principalmente
um enfermo e a circunstância do esbanjamento não deve
ser para ele um agravante. 15

Vejamos agora como os deputados percebiam a relação


patrão–empregado neste mundo do trabalho em processo
de construção ideológica. O paternalismo é o elemento
fundamental neste contexto: a autoridade do patrão é enfa­
tizada e considerada essencial para que o trabalhador se veja

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obrigado a desempenhar suas tarefas com a eficiência exigi­
da, mas os possíveis excessos na autoridade patronal são
dissimulados sob a forma de proteção, da orientação que o
bom patrão devia a seus trabalhadores passivos e abnegados.
Diz o deputado Rodrigues Peixoto:

O patrão, depois de celebrado o contrato, se constitui


uma espécie de juiz doméstico e tem ação incontestável
sobre o trabalhador, para guiá-lo e acon­s elhá‑lo. Se al­
guma vez esse indivíduo sai das órbitas legais e pratica
alguma falta ou delito ligeiro, que não precisa ser puni­
do pela lei, o próprio patrão, em virtude do regulamen­
to que ali existe, e que estabelece direitos e deveres
entre locatário e locador, lhe inflige castigos moderados
como aqueles que infligem os pais aos filhos. 16

Outro momento importante neste processo de constru­


ção da ideologia do trabalho é a elaboração do conceito de
vadiagem: com todo o alarmismo e os exageros caracterís­
ticos destes homens quando discutem assuntos que supos­
tamente ameaçam o seu mundo, o esforço agora é pela
afirmação do ainda hoje poderoso mito da preguiça inata
do “trabalhador nacional”.
O conceito de vadiagem se constrói na mente dos parla­
mentares do fim do Segundo Reinado basicamente a partir
de um simples processo de inversão: todos os predicados
as­s ociados ao mundo do trabalho são negados quando o
objeto de reflexão é a vadiagem. Assim, enquanto o trabalho
é a lei suprema da sociedade, a ociosidade é uma amea­ç a
cons­t ante à ordem. O ocioso é aquele indivíduo que, ne­
gando‑se a pagar sua dívida para com a comunidade por
meio do trabalho honesto, coloca‑se à margem da sociedade
e nada produz para promover o bem comum.

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Há, portanto, uma incompatibilidade irredutível entre
manutenção da ordem e ociosidade. Mas era essencial para
os nossos deputados compreender melhor as causas da ocio­
sidade do trabalhador brasileiro. A crença nesta ociosidade
parecia comum a todos, e citava‑se, por exemplo, o cai­p ira
paulista, “um verdadeiro parasita, que consome ape­n as e
nada produz”. 17 Como explicar esta anomalia? Um dos de­
putados nos dá uma explicação didática, elaborando um
con­c eito que ele chama de “lei da necessidade”. 18 Segundo
ele, nos países europeus e asiáticos se acha realizada a teoria­
de Malthus e Ricardo, ou seja, há um excesso de população
em relação à capacidade de produzir víveres. A vida é bas­
tante dura para essas populações, que se sentem então es­
timuladas para o trabalho pela própria necessidade de lu­t ar
pela sobrevivência. No Brasil, ao contrário, o indivíduo
encontra muitas facilidades para subsistir, pois o nosso­solo
é rico, o nosso clima é ameno e a abundância se nota por
to­d a parte. Sendo assim, a nossa população não precisa ter
hábitos ativos de trabalho, pois tem facilidade em obter a
carne, o peixe, o fruto, e, além disso, a amenidade do clima
permite ao brasileiro passar perfeitamente ao relento, sem
cobrir o corpo com vestes pesadas e caras. Em nosso país,
portanto, é preciso obrigar o indivíduo ao trabalho, pois a
tentação da ociosidade é irresistível.
Ociosidade deve ser combatida não só porque negan­
do‑se ao trabalho o indivíduo deixa de pagar sua dívida para
com a sociedade, mas também porque o ocioso é um per­
vertido, um viciado que representa uma ameaça à moral e
aos bons costumes. Um indivíduo ocioso é um indivíduo
sem educação moral, pois não tem noção de responsabili­
dade, não tem interesse em produzir o bem comum nem
possui respeito pela propriedade. Sendo assim, a ociosidade

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é um estado de depravação de costumes que acaba levando
o indivíduo a cometer verdadeiros crimes contra a proprie­
dade e a segurança individual. Em outras palavras, a vadia­
gem é um ato preparatório do crime, daí a necessidade de
sua repressão. Assim se expressa a comissão parlamentar que
estudou o projeto:

O projeto [...] revela a intenção de orientar espíritos


transviados, corrigir disposições viciosas, antes que
punir criminosos.
Se o legislador tem o imprescindível dever de consagrar
no direito positivo prescrições tendentes à repressão dos
crimes que atentam à ordem social, não lhe é lícito
desconhecer que esses atos derivam‑se, o mais das vezes,
do relaxamento ou da depravação dos costumes, tendo
geralmente como causa geradora a ociosidade. 19

Outro aspecto interessante é a relação estabelecida en­


tre ociosidade e pobreza. O projeto reconhecia que eram
duas as condições elementares para que ficasse caracterizado
o delito de vadiagem: o hábito e a indigência, especialmen­
te a última. Se um indivíduo é ocioso, mas tem meios de
garantir sua sobrevivência, ele não é obviamente perigoso à
ordem social. Só a união da vadiagem com a indigência
afeta o senso moral, deturpando o homem e engendrando
o crime. Fica claro, portanto, que existe uma má ociosidade
e uma boa ociosidade. A má ociosidade é aquela caracterís­
tica das classes pobres, e deve ser prontamente reprimida.
A boa ociosidade é, com certeza, atributo dos nobres depu­
tados e seus iguais...
Os parlamentares reconhecem abertamente, portanto,
que se deseja reprimir os miseráveis. Passam a utilizar, então,
o conceito de “classes perigosas”, avidamente aprendido nos

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compêndios europeus da época. Segundo Alberto Passos
Gui­m arães, o termo “classes perigosas” apareceu original­
mente na Inglaterra e se referia às pessoas que já houvessem
passado pela prisão ou às que, mesmo ainda não tendo sido
presas, haviam optado por obter o seu sustento e o de sua
família por meio da prática de furtos e não do trabalho. 20
Esta utilização do termo, por conseguinte, é bastante res­
trita, referindo-se apenas aos indivíduos que já haviam aber­
tamente escolhido uma estratégia de sobrevivência que os
colocava à margem da lei. Os nossos deputados, contudo,
citam principalmente autores franceses e alargam conside­
ravelmente as proporções do termo. 21 Os legisladores bra­
sileiros utilizam o termo “classes perigosas” como sinônimo
de “classes pobres”, e isto significa dizer que o fato de ser
pobre torna o indivíduo automaticamente perigoso à socie­
dade. Os pobres apresentam maior tendência à ociosidade,
são cheios de vícios, menos moralizados e podem facilmen­
te “rolar até o abismo do crime”. Diz um dos deputados:

As classes pobres e viciosas [...] sempre foram e hão de


ser sempre a mais abundante causa de todas as sortes de
malfeitores: são elas que se designam mais propriamen­
te sob o título de — classes perigosas —; pois quando
mesmo o vício não é acompanhado pelo crime, só o fato
de aliar‑se à pobreza no mesmo indivíduo constitui um
justo motivo de terror para a sociedade. O perigo social
cresce e torna‑se de mais a mais ameaçador, à medida que
o pobre deteriora a sua condição pelo vício e, o que é
pior, pela ociosidade. 22

Resta situarmos como os nossos deputados percebem


a inserção do imigrante neste mundo do trabalho em pro­
cesso de construção ideológica. O artigo 3 o do projeto sobre

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a repressão da ociosidade prevê que o estrangeiro reinci­dente
no delito de vadiagem poderá ser expulso do país. O rigor
da pena para o estrangeiro reincidente e o fato de que qua­
se não se menciona o imigrante nestes debates sobre a ocio­
sidade mostram bem que o consenso a respeito do trabalha­
dor imigrante já havia sido atingido anteriormente. Como
mostra José de Souza Martins, as classes dominantes pen­
savam que o imigrante deveria ser “morigerado, sóbrio e
laborioso”, 23 isto é, ao cultivar as principais virtudes consa­
gradas na ética capitalista, o imigrante deveria servir de
exemplo ao trabalhador nacional. O imigrante e sua família
deveriam estar sempre dispostos ao trabalho árduo e às
condições difíceis de vida, pelo menos nos primeiros tempos,
sendo que estes sofrimentos seriam mais tarde compensados
pelo acesso à pequena agricultura familiar. Dentro deste
contexto, é fácil entender o porquê do rigor da pena do
estrangeiro que era detido por vadiagem: destinado a servir
de exemplo, de protótipo do tra­b a­l ha­d or ideal na ordem
capitalista que se anuncia, sua não‑adequação a estes parâ­
metros era vista como uma amea­ç a à ordem social. Ressal­
te‑se, porém, que esta visão positiva do imigrante aplicava‑se
principalmente àqueles que se destinavam, nesse período,
às zonas cafeeiras de São Paulo, especialmente os italianos.
A situação parecia ser bem mais ambígua e contraditória
quando estavam em questão, por exemplo, os 106.461 imi­
grantes portugueses, geralmente homens solteiros e empre­
gados no pequeno comércio, que habitavam a cidade do Rio
de Janeiro em 1890. 24 Voltaremos a este último aspecto
oportunamente.

Seguem‑se algumas observações de caráter geral que


darão não só a tônica das outras partes deste capítulo, mas

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que, na verdade, introduzem aspectos que serão explorados
ao longo de todo o restante do trabalho.

1) O universo ideológico das classes dominantes bra­


sileiras na agonia do Segundo Reinado e, depois, durante a
República Velha parece estar dividido em dois mundos que
se definem por sua oposição um ao outro: de um lado, há o
mundo do trabalho; de outro, há o da ociosidade e do cri­
me. No discurso dominante, o mundo da ociosidade e do
crime está à margem da sociedade civil — isto é, trata‑se de
um mundo marginal, que é concebido como imagem in­
vertida do mundo virtuoso da moral, do trabalho e da or­
dem. Este mundo às avessas — amoral, vadio e caótico — é
perce­b ido como uma aberração, devendo ser reprimido e
controlado para que não comprometa a ordem. Portanto,
um discurso ideológico dualista e profundamen­te maniqueís­
ta — baseado na tradição cristã ocidental de ­p rocurar dis­
tinguir sempre o bem do mal, o certo do errado etc. — pa­
rece ser a característica fundamental da visão de mundo das
classes dominantes brasileiras no período ­e studado.
A documentação analisada até aqui parece permitir,
contudo, pelo menos como hipótese, a leitura de uma outra
forma de inserção do pobre — isto é, do ocioso e do cri­
minoso em potencial — no mundo da ordem. A visão de
mundo dos nossos parlamentares postula um paralelismo
perfeito entre a hierarquização da estrutura social e as diver­
sas partes constituintes do universo ideológico. No ­nível mais
elevado da hierarquia social nós temos os proprie­t ários —
patrões —, seguidos de forma um tanto distante pelos bons
trabalhadores. Neste nível reina a ordem por excelência, já
que os indivíduos aí localizados são aqueles de mais alto
grau de moralidade, pois amam o trabalho e sabem respeitar

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a propriedade. No nível inferior, nós temos o mundo dos
ociosos. Neste mundo, existe um certo grau de depravação
moral e uma tendência à desordem, pois estes indivíduos
não respeitam a lei suprema da sociedade — o trabalho.
Finalmente, temos o mundo do crime, que é formado pelos
indivíduos de maus instintos, miseráveis e infensos aos di­
tames da ordem. Assim, cria‑se um sistema segundo o qual
o indivíduo mais bem situado na hierarquia social é sempre
mais dedicado ao trabalho, mais moral e ordeiro do que o
indivíduo que o precede. Ao contrário, quanto maior a po­
breza do indivíduo, maior sua repulsa ao trabalho e menor
a sua moralidade e seu apego à ordem.
Em outras palavras, o sistema se caracteriza por uma
linha contínua que une o mais moral ao menos moral no
universo ideológico, e o mais rico ao mais pobre na estru­
tura social. Neste sentido, não há um dualismo, uma oposi­
ção entre dois mundos diferentes, isto é, não há um mundo
do trabalho e outro da ociosidade e do crime — há, na ver­
dade, apenas um mundo, coerente e integrado na sua dimen­
são ideológica. Não faz sentido, então, pensar o ocioso e o
criminoso como indivíduos que vivem à margem do sistema,
marginais em relação a um suposto mundo da ordem. Cabe
pensar a ociosidade e o crime como elementos constituintes
da ordem e, mesmo, como elementos fun­d amentais para a
reprodução de um determinado tipo de so­c ie­d ade. Há de se
ques­t ionar a visão tradicionalmente veiculada pelas classes
do­m inantes brasileiras — tanto no passado quanto no pre­
sente — de que a vadiagem e o crime, que são noções cuja
produção social por si só já constitui um importante campo
de análise, são contradições dentro do sistema, simples con­
seqüências indesejáveis de suas deficiências. Em suma, a
hipótese que se quer lançar aqui é a de que a existência da

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ociosidade e do crime tem uma utilidade óbvia quando in­
terpretada do ponto de vista da racionalidade do sistema:
ela justifica os mecanismos de controle e sujeição dos grupos
sociais mais pobres. 25
Mais do que isto, já que ideologicamente quase se
equivalem os conceitos de pobreza, ociosidade e crimi­
nalidade — são todos atributos das chamadas “classes pe­
rigosas” —, en­t ão a decantada “preguiça” do brasileiro, a
“promiscuidade sexual” das classes populares, os seus “atos
fúteis” de violência etc. parecem ser, antes que dados in­
ques­t ionáveis da “realidade”, construções ou interpretações
das classes do­m inantes sobre a experiência ou condições de
vida experimentadas pelos populares. Estas noções, contu­
do, não se confundem com a experiência real de vida dos
populares, nem são a única leitura possível desta experiên­
cia. Em suma, cabe enfatizar que mitos como a “preguiça”
do brasileiro, a “promiscuidade sexual” dos populares e
outros congêneres são construções das classes dominantes
para justificar sua dominação de classe, sendo, então, apenas
uma versão ou leitura possível da “realidade”, apresentada
de maneira mais ou menos consciente pelos agentes histó­
ricos destas classes.

2) A cidade do Rio de Janeiro recebeu grande número


de estrangeiros nos anos imediatamente anteriores e seguin­
tes à Abolição, sendo que este contingente de imigrantes
veio se estabelecer numa cidade que continha na época um
grande número de negros e mulatos que viviam suas primei­
ras experiências como trabalhadores livres. Os dados refe­
rentes à estrutura ocupacional da cidade em 1890 mostram
uma marginalização ocupacional dos não‑brancos ocorrendo
em parte devido à presença dos imigrantes europeus. Mais

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da metade dos 89 mil estrangeiros economicamente ativos
trabalhava no comércio, indústria manu­f atureira e atividades
artísticas, ou seja, os imigrantes ocupavam os setores de
emprego mais dinâmicos. Enquanto isso, 48% dos não‑bran­
cos economicamente ativos em­p regavam‑se nos serviços
domésticos, 17% na indústria, 16% não tinham profissão
declarada e o restante encon­trava‑se em atividades extrativas,
de criação e agrícolas. 26 Estes dados sugerem uma questão
fundamental para a investigação histórica, mas que tem sido
estranhamente ignorada pelos historiadores — em parte
talvez pela dificuldade de levantamento de uma documen­
tação adequada, e em parte sem dúvida pela influência no­
tável do poderoso mito da “democracia racial brasileira”; a
questão, bastante complexa, pode ser enunciada de forma
relativamente simples, qual seja, como explicar o fato da
subordinação social do negro no Rio de Janeiro no período
pós­A bolição, fato este amplamente comprovado pelos dados
disponíveis sobre a estrutura ocupacional da cidade?
No caso da cidade do Rio de Janeiro, a situação de
subordinação social do negro no período pós‑Abolição não
foi até hoje objeto de uma investigação científica mais séria
e abrangente. Para o caso de São Paulo, porém, existem
estudos bastante pormenorizados sobre a situação do negro
no período pós‑Abolição, estudos estes realizados especial­
mente por Florestan Fernandes. 27 Fernandes, na verdade,
acaba encabeçando uma “escola” de sociólogos que produziu
excelentes trabalhos a respeito do negro brasileiro não só
em São Paulo, mas também em outras partes do Brasil. 28 A
influência desta “escola” foi bastante grande, tendo sido suas
análises sobre o problema negro geralmente aceitas e per­
manecido sem serem revistas ou questionadas nos meios
acadêmicos até bem pouco tempo.

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O ponto de partida de Florestan Fernandes é a caracte­
rização da sociedade escravista colonial e imperial no ­B rasil
como uma sociedade estamental e de castas: os elementos das
classes dominantes se classificavam em termos es­t a­m en­t ais,
os escravos em termos de casta, sendo que os ­e lementos
mestiços livres ou libertos oscilavam entre os dois tipos de
classificação. A ordem estamental ainda apresentava alguma
fluidez, mas o sistema de castas era bastante rígido, sendo
que os escravos estavam reduzidos a um estado de “anomia
social”, pois não participavam de um sistema definido de
direitos e de obrigações sociais. É dentro deste quadro con­
ceitual mais amplo que Fernandes situa seu estudo sobre a
integração do negro na sociedade de classes em formação
na cidade de São Paulo no final do século XIX e nas primei­
ras décadas do século XX.
Para ele, então, o escravismo era um sistema de castas
cuja desagregação — coincidindo com a formação das clas­
ses sociais — não se refletiu numa mudança substancial da
posição social do negro. Os negros foram incorporados às
plebes, tendo ficado condenados a uma “condição de casta
disfarçada”. 29 Os negros e mulatos encontravam‑se des­
preparados para o papel de trabalhadores livres. A população
de cor não tinha nem o treinamento técnico, nem a menta­
lidade e disciplina do trabalhador livre, ficando, assim, ex­
cluída das oportunidades econômicas e sociais oferecidas
pela ordem social competitiva emergente. Fernandes enfa­
tiza o efeito desagregador da escravidão, que havia destruí­
do quase todo o vestígio da herança cultural negra. A escra­
vidão havia ainda destituído os negros de toda vida fa­m iliar
e dificultado a criação de formas de cooperação e assistência
mútua baseadas na família. Por conseguinte, a herança do
escravismo, ao produzir entre negros e mulatos um estado

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de anomia social, pobreza e despreparo para o trabalho livre,
teria sido o principal fator responsável pelo isolamento
e subordinação social dos negros e mulatos no período
pós‑Abolição.
O problema principal suscitado pela análise de Fernan­
des é esta noção de que negros e mulatos se encontravam
num estado de “anomia” ou “patologia social” no período
pós-Abolição, estado este que se explicaria como uma he­
rança direta do escravismo. A primeira objeção séria que se
pode levantar neste contexto é a de que a visão que Fer­
nandes passa do liberto — como despreparado para o tra­
balho livre, destituído de vida familiar etc. — é perigo­
samente próxima àquela veiculada pela classe dominante
bra­s ileira no momento crucial da transição do trabalho es­
cravo para o trabalho livre, como mostram os debates par­
lamentares do período. Esta é uma objeção importante na
medida em que a concepção do liberto que parecia caracte­
rizar a visão de mundo da classe dominante brasileira no fim
do sé­c ulo XIX era, em grande parte, uma construção ideoló­
gica que visava atender às necessidades desta classe de con­
trolar e disci­p linar a força de trabalho num momento crucial
da tran­s ição para uma ordem capitalista no país, especial­
mente no Sudeste.
Outra objeção, talvez ainda mais fundamental, é que
estudos recentes sobre a escravidão, especialmente as pes­
quisas de Katia Mattoso e Robert Slenes, têm mostrado que,
apesar de toda a repressão e violência inerentes à condição
de “ser escravo no Brasil”, os negros escravos foram capazes
de manter, adaptar ou reconstruir padrões culturais, relações
de família e laços de solidariedade e ajuda mútua entre eles. 30
Mesmo se aceitarmos as premissas da teoria da patologia
social, portanto, pesquisas mais recentes, baseadas em ­s ólida

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e extensa pesquisa empírica, oferecem-nos dados que ­a balam
fortemente a tentativa de explicar a condição do negro bra­
sileiro no período pós‑A­b o­l ição pela via de sua suposta
patologia, herança do período escravista.
Além disso, Gilberto Velho nos leva a meditar sobre
algumas das premissas básicas da teoria da patologia so­c ial. 31
Preocupado com o estudo do chamado “comportamento
des­v iante”, Velho oferece uma crítica penetrante da teoria
da anomia enquanto teoria explicativa do “desvio”. Ele
percebe, de início, que o problema do desvio é sempre visto
ora do ponto de vista de uma patologia do indivíduo, 32 ora
do ponto de vista de uma patologia do social. Ele observa
que estas interpretações, apesar de aparentemente irrecon­
ciliáveis, partem de premissas fundamentalmente semelhan­
tes. Por um lado, a idéia do desvio, pressupondo assim a
existência de comportamentos “normais” claramente deli­
mitados em uma sociedade, leva ao estabelecimento de um
modelo muito rígido de cultura ou sociedade, sendo a plu­
ralidade de comportamentos dentro de uma cultura vista
dentro de limites muito empobrecedores. Por outro lado,
estas abordagens partem de uma visão dicotômica da reali­
dade, opondo indivíduo e sociedade como duas entidades
puras e abstratas. Como escreve G. Velho, “ou se cria uma
individualidade pura, uma essência defrontando‑se com o
meio ambiente exterior, de outra qualidade, ou então um
fato social puro, também to­d o‑poderoso, que paira sobre as
pessoas”. 33

3) Velho faz ainda algumas observações que servem


para esclarecer de que forma os inúmeros conflitos indivi­
duais expressados nos processos criminais de homicídio
estudados por nós são percebidos ao longo do trabalho.

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Feitas estas observações, restará situá‑las dentro do contex­
to histórico mais amplo da cidade do Rio de Janeiro na
Primeira República, permitindo-nos, assim, perceber as
relações, por exemplo, entre as tensões nacionais e raciais
recuperadas no nível da micro‑história e este processo his­
tórico mais amplo da cidade no período.
Preocupado sempre com o estudo do chamado “com­
portamento desviante”, Velho procura indicar novas pers­
pectivas para as pesquisas, na tentativa de virar a página das
in­fluências da teoria da patologia social sobre nossas análises.
Ele sugere inicialmente que se parta de um conceito de cul­
tu­r a menos rígido, ou seja, que se abandone o pressuposto
de um monolitismo em dado meio sociocultural, pois a cul­
tura é uma linguagem permanentemente acionada e transfor­
ma­d a por pessoas que desempenham diferentes papéis e
pos­s uem experiências existenciais próprias. Trata‑se, por­
tan­t o, de deixar de encarar a cultura como uma entidade
aca­b ada e de procurar enfatizar o caráter mul­t ifacetado, di­
nâ­m ico e até ambíguo da vida cultural. Dentro desta pers­
pectiva, o indiví­d uo desviante não é necessariamente um
“deslo­c ado”, nem a cultura é uma entidade tão monolítica
e, mesmo, esmagadora. Para Velho, então, o desviante é um
indivíduo que faz uma leitura diferente de um código socio­
cultural, isto é, ele não está fora de sua cultura, mas faz dela
uma leitura divergente daquela dos indivíduos ditos “ajus­
tados”. A possibilidade da existência dessas leituras diferen­
tes ou divergentes é garantida pelo próprio caráter desigual,
contraditório e político de todo sistema sociocultural.
As teorias de Velho convergem também com a contribui­
ção dos chamados “interacionistas”, como Howard Becker,
por exemplo. 34 Para Becker, não existem desviantes em si
­m esmos, mas apenas uma relação entre atores (indivíduos,

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grupos) que acusam outros atores de transgredir limites e
valores de uma determinada situação sociocul­t ural. O que
existe, então, são confrontos entre indivíduos ou grupos
concretos, entre acusadores e acusados. Neste sentido, aban­
dona‑se a de­f inição de desvio a partir de um modelo rígido
de cultura, capaz de prever a existência de um suposto com­
portamento “médio” ou “normal” dentro de um sistema
social; ao contrário, o desvio passa a ser a conseqüência da
aplicação por outrem de regras e sanções, ou seja, o desvio
passa a ser um problema político, e não uma qualidade ine­
rente ao ato da pessoa. Assim, tanto as rixas e conflitos por
questões de trabalho e habitação, que serão analisados nas
outras partes deste capítulo, como as rixas da hora do lazer
e do amor, que serão analisadas nos outros capítulos deste
estudo, são vistos como um acontecimento político dentro
de um determinado mi­c rogrupo sociocultural. Isto é, exis­
tem facções dos mais diferentes tipos em qualquer grupo
humano, o que implica uma permanente possibilidade de
confrontos a partir das tensões e divergências entre tais
facções. No nível da sociedade mais ampla, essas tensões são
expressas nas lutas de linhagens, classes etc. Mas essas ten­
sões e lutas aparecem também em situações microscópicas
do social, como nos grupos de trabalho e de vizinhança, na
família etc. De fato, uma verdadeira “política do cotidiano”
caracteriza a dinâmica de funcionamento desses microgrupos
socioculturais.

4) Resta, finalmente, juntar os elos aparentemente per­


didos dessas inúmeras observações de relevância tanto teóri­
ca quanto empírica e dar ao leitor a visão de conjunto que se
pretende. O conceito de “política do cotidiano” desenvolvido
por Velho é bastante útil na medida em que nos chama a

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atenção para o fato de que os processos criminais de homicí­
dio que analisamos devem ser vistos como a expressão de
tensões e conflitos entre grupos ou indivíduos, permitindo
assim que nos livremos um pouco do conceito de “com­
portamento desviante”, que é, em larga medida — e espe­
cialmente ainda quando a fonte analisada são processos cri­
minais —, uma construção dos mais poderosos para justificar
seu jugo sobre aqueles que lhes são antagônicos. As teorias
de Velho nos serviram, além disso, para a elaboração de pro­
cedimentos metodológicos que aprofundaram bastante a
nossa compreensão do próprio processo de produção social
de um processo criminal. Assim, para dar apenas um exemplo,
era uma prática bastante comum das autoridades policiais e
judiciárias da época interrogar as testemunhas de um deter­
minado conflito sobre os antecedentes dos envolvidos. Per­
guntava‑se ao interrogado, por exemplo, se o acusado era
“mo­r igerado e trabalhador” ou “desordeiro e vadio”. É uma
constatação óbvia, mas não por isso ir­relevante, a de que
este vocabulário dos agentes jurídicos em seu interrogatório
revela que uma das funções essenciais do aparato policial e
judiciário era o reforço dos valores funda­m entais da ética
de trabalho capitalista. Para constatar isso, no entanto, não
teria sido necessário ler processos criminais a mancheias. Ao
responder a esta pergunta, a testemunha nos revelava geral­
mente sua atitude em relação ao conflito, ou seja, de que
lado se alinhava e quais seus interesses em relação à luta.
Perc­e beu‑se, dessa forma, e para muito além do nível da
sim­p les intuição, que imigrantes da mesma nacionalidade
tendiam sempre a achar que o oponente de um de seus pa­
trícios em um confronto era um “desordeiro e vadio”. Foi
assim também que se percebeu, em outro exemplo, que um
empregado que depunha num processo que envolvia seu

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patrão tendia a referir‑se a este como “bom chefe de famí­
lia e trabalhador”, fato este que, associado a outras condi­
ções gerais de trabalho que pudemos recuperar ­a través dos
depoimentos nos processos, muito nos ensina a ­respeito da
relação patrão–empregado em diversas situações micro‑
históricas concretas.
A “tradução” do conceito de “política do cotidiano”
para procedimentos metodológicos concretos, porém, ainda
não completa o quadro. Se estas observações nos ajudam a
esclarecer o significado “antropológico” de cada conflito
microssocial específico, ainda não nos ajudam a perceber
estes conflitos no movimento mais amplo da sociedade em
questão, isto é, no próprio processo histórico. Pierre Vilar
já nos alertou que a história trata dos “enriquecimentos e
dos empobrecimentos” e não do rico e do pobre, ou do
vencedor e do vencido, ou mesmo da burguesia e do prole­
tariado, como categorias estanques e sem movimento. 35
Pensar o contrário seria achar possível compreender os pó­
los de uma relação isoladamente, sem atentar para a relação
em si em seus diversos momentos.
Assim, sabemos que o processo histórico por que pas­
sou a cidade do Rio de Janeiro na Primeira República apre­
sentou um traço continuísta fundamental em relação aos
tempos coloniais e imperiais: a continuação da subordinação
social dos brasileiros de cor, ou seja, o negro passou de es­
cravo a trabalhador livre, sem mudar, contudo, sua posição
relativa na estrutura social. Isso significa que, no desenrolar
das rivalidades nacionais e raciais que, como sugerimos e
veremos adiante, foram a expressão mais comum das tensões
provenientes da competição pela sobrevivência na cidade do
Rio de Janeiro da Primeira República, os brasileiros de cor
foram, ou continuaram a ser, os grandes perdedores. É den­

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tro de um esforço de compreensão deste processo histórico
mais amplo — que, a nosso ver, não pode ser adequadamen­
te explicado a partir dos pressupostos da teoria da patologia
social — que queremos situar os inúmeros microconflitos
sociais que analisaremos a seguir. Enfim, é importante en­
tender de que forma as determinações históricas mais amplas
interferem, ao mesmo tempo que se forjam, nas situações
micro‑históricas concretas e, em longo prazo, apontam os
vencedores da luta cotidiana pela sobrevivência e pelas pos­
sibilidades de ascensão social entre os trabalhadores.

Companheiros de trabalho, desempregados e gatunos

O caso abaixo parece mostrar uma situação bastante


típica para o surgimento de uma rixa e posterior conflito
entre companheiros de trabalho, assim como sugere aspectos
bastante comuns das condições de trabalho em uma peque­
na fábrica no Rio de Janeiro do início do século XX. Um
dos depoentes, Antônio José Teixeira, natural da capital
federal, de 20 anos, solteiro, industrial, declara

que é o encarregado gerente, da olaria da rua Capitão


Félix número um e por isso é que se encarrega da ad­
ministração da mesma olaria. Que entre oito emprega­
dos para o serviço teve um nacional de cor preta de
nome Ramiro Costa e que pelo mau procedimento do
mesmo e do gênio alterado teve necessidade de despe­
di‑lo do serviço isso há oito dias mais ou menos. Que,
ontem, às nove horas da noite mais ou menos, ele decla­
rante achava‑se na olaria e viu quando alguns dos empre­
gados, chegavam da rua para se recolher, e ao entrarem
no portão, o mesmo Ra­m iro Costa, que se achava do

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lado de fora do portão agrediu aos mesmos empregados,
armado com um fueiro de carroça, e em seguida com
um revólver que trazia disparou dois ou três tiros, atin­
gindo ao empregado Germano José Pinto, que ficou
ferido. 36

A olaria que serviu de cena para o fato relatado era


localizada em São Cristóvão, uma freguesia pontilhada de
fábricas como a mencionada acima e que, portanto, apre­
sentava em seu panorama um embrião de proletariado de
fábrica. 37 Os oito empregados da olaria habitavam em quar­
tos no alojamento da própria fábrica. O relacionamento
entre os companheiros de trabalho parecia bastante íntimo,
já que no próprio dia do conflito, um sábado, haviam saído
todos “despreocupados e alegres”, como declarou um deles,
para fazerem a barba em Benfica. O gerente também mo­r ava
na fábrica, mas não havia acompanhado os empregados à
barbearia.
De acordo com o relato do gerente, a origem das ten­
sões que culminaram na cena de sangue foi sua decisão de
despedir um empregado que tinha “mau procedimento”. O
empregado despedido, no entanto, o preto Ramiro, acabou
descarregando sua ira sobre seus companheiros de trabalho
e não sobre o gerente. Todos os outros empregados da pe­
quena fábrica eram portugueses, e todos condenam unani­
memente a conduta de Ramiro, que tinha “maus instintos”
e era “muito desordeiro”, segundo um deles. A acusação que
pesava sobre Ramiro era a de que ele, por ser um indivíduo
“rixoso, provocador e autoritário”, não cumpria as ordens
dos chefes e estragava os animais com que trabalhava. O
pre­t o Ramiro tinha 25 anos, era natural da capital federal,
casado, analfabeto e trabalhava como cocheiro na fábrica.

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Ele ficou foragido durante seis meses, e suas declarações
sobre o evento não constam dos autos. Um dos portugueses,
porém, nos informa que Ramiro se considerava perseguido
pelos companheiros e julgava que “eles houvessem con­
corrido para a saída dele”. Para completar o quadro, resta
mencionar que, cerca de dois ou três dias após a saída de
Ramiro, um outro português foi contratado para trabalhar
na olaria.
Esta pequena história traz à tona diversos aspectos que
são bastante recorrentes na documentação coligida. Temos
aqui um patrão — ou seu representante direto, um geren­
te — que parece praticar abertamente a discriminação con­
tra o brasileiro pobre de cor quando da contratação de
empregados para sua pequena fábrica. Vemos também um
grupo de imigrantes portugueses que se mostra bastante
solidário e unido numa situação conflituosa, sendo que
apóiam inteiramente a versão dada pelo gerente a respeito
do procedimento de Ramiro. Tanto o gerente da fábrica
como seus empregados utilizam as armas ideológicas for­
necidas pelos construtores da ética de trabalho capitalista
para reforçar sua acusação contra Ramiro; auxiliados pelo
interrogatório dos agentes policiais e jurídicos, os acusa­
dores afirmam que Ramiro é “desordeiro” e “mau trabalha­
dor”. O preto Ramiro, no entanto, oferece uma leitura di­
ferente de sua experiência, considerando‑se perseguido pelo
grupo acusador. No momento da luta, Ramiro pode ter tido
a satisfação de consumar a agressão que, ao que tudo indica,
tinha planejado com antecedência contra aqueles que via
como seus inimigos, mas, em longo prazo, teve de enfrentar
o desemprego, um período de seis meses como foragido da
polícia e, finalmente, o encarceramento e o constrangimen­
to de ser processado por crime de tentativa de homicídio.

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Ele acabou sendo condenado a apenas três meses de prisão,
pois o júri desqualificou seu crime para ofensas físicas leves.
A solidariedade entre imigrantes em situações con­f li­
tuosas no trabalho é mais uma vez ilustrada no caso a se­g uir,
de briga entre funcionários da Inspetoria de Limpeza Pú­
blica. 38 A cena do crime é a porta de entrada da própria
ins­p etoria, na Praça da República, e o preto Eu­c li­d es de
Oli­v eira, natural do estado do Rio de Janeiro, de 21 anos,
sol­t eiro, analfabeto, ajudante de caminhão da Limpeza Pú­
blica, narra na delegacia o conflito que resultou na morte
do italiano Bernardo Caputto, de 44 anos, viúvo, varredor:

[...] que seu verdadeiro nome é Euclides Pereira de


Oliveira, mas é certo que na Limpeza Pública e Parti­
cular deu o nome de Manoel de Souza Segundo, e isso
para ocupar esse lugar que ali exerce e que foi mandado
dar pelo carroceiro da mesma limpeza, de nome Agos­
tinho de tal; que ontem à noite procurado na Inspetoria
por Gaspar dos Santos Monteiro para receber do decla­
rante a quantia de cinco mil-réis que lhe era devedor e
não tendo essa quantia disse a Gaspar que voltasse hoje
para a receber; que em seguida começou a brincar com
um italiano varredor, brincadeira essa que consistia em
querer o declarante tirar dele a vassoura à qual puxava;
que nessa ocasião um outro italiano barbado disse a ele
declarante “larga a vassoura” e ato contínuo deu‑lhe um
cascudo, pelo que o declarante por seu turno deu nesse
italiano um cascudo também; que atracou‑se com­ esse
italiano barbado para brigar e nessa ocasião­ apareceu o
italiano Bernardo Caputto com um cabo de vassoura na
mão e quis dar no declarante uma ca­c etada; que então o
declarante sacou da cinta uma pe­q uena faca de açougue,
investiu contra Ca­p utto e vi­b rou‑lhe uma facada no pei­
to; [...] que Gaspar dos San­t os Monteiro que se achava
ao lado do declarante também puxou de uma grande faca,

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mas não chegou a ferir Caputto, pelo menos que ele
declarante vis­s e; [...] que também se achava juntamente
com Monteiro, Manoel da Silva que tem o vulgo de Gam­
bá, mas esse o declarante não viu puxar arma alguma [...].

Vemos, portanto, que a questão de Euclides começa


com um italiano, de quem tenta tomar a vassoura, mas em
seguida chega um outro italiano, o barbudo, que toma as
dores do patrício. Finalmente, chega um terceiro italiano,
armado de cabo de vassoura, que acaba sendo vítima de uma
facada certeira de Euclides. Havia outros ­f uncionários no
local, entre eles mais alguns italianos, e o acusado é aqui
novamente rotulado de “homem rixoso e desordeiro”.
Os dois homens que estavam em companhia de Eucli­des
por ocasião da ocorrência eram portugueses, sendo um ­d eles
Manoel da Silva, de 21 anos, solteiro, analfabeto, e o outro,
Gaspar Monteiro, de 18 anos, também solteiro, que “assinou
o nome”. O pouco que estes homens nos contam de sua vida
já ilustra outra vez a solidariedade entre imigrantes da mes­
ma nacionalidade pela viabilização de sua sobrevivência:
ambos eram vendedores ambulantes de lingüiça, sendo que
o patrão era outro português, o pai de Gaspar. Manoel da
Silva declara que não tinha domicílio certo, dormindo ora
em casa de seu patrão, ora em casa do filho deste. Esta re­
lação bastante estreita entre patrão e empregado, incluindo
muitas vezes a coabitação, parecia bastante comum em se
tratando de imigrantes de mesma nacionalidade.
O conflito do preto Euclides com os italianos, na ver­
dade, foi provavelmente também um conflito entre portu­
gueses e italianos. Manoel e Gaspar procuram, obviamente,
negar qualquer participação no conflito. No entanto, ambos
fugiram em desabalada carreira quando o italiano Caputto

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caiu morto, vitimado pela facada de Euclides. Os italianos
são unânimes em incluir os dois portugueses como compa­
nheiros de Euclides e, portanto, seus opositores. O próprio
Euclides confirma esta versão na delegacia, mas na pretoria
nega que os portugueses estivessem em sua companhia. Os
autos incluem também o depoimento de uma testemunha
que declara ter escutado os dois portugueses contarem em
um botequim, em tom de “gabolice”, sua participação no
conflito. A questão permanece, portanto, um tanto indefi­
nida, e o juiz declara improcedente a denúncia contra os
portugueses. O preto Euclides foi condenado pelo júri a 15
anos de prisão, tendo morrido de tuberculose pulmonar
depois de cumprir dois anos de pena.
Estes dois casos iniciais já sugerem o papel ­f undamental
desempenhado pelas rivalidades nacionais e raciais nos con­
flitos em situações de trabalho. Sugerem também uma forte
tendência entre os imigrantes da mesma ­n acionalidade de se
mostrarem solidários nessas ocasiões. As razões ale­g adas
pelos nossos personagens para as contendas em situa­ç ões de
trabalho podem ser bastante variadas, mas os ­t raços comuns
entre essas contendas são relativamente fáceis de se identi­
ficar: primeiro, elas revelam uma situação altamente com­
petitiva no trabalho; segundo, a competição se manifesta
principalmente por meio das lutas entre imigrantes e nacio­
nais. Observemos essas breves generalizações nos casos se­
guintes, que são de conflitos nos quais membros de um
mesmo grupo de trabalho parecem competir para “mostrar
serviço”, ou seja, para conquistar a simpatia dos patrões ou
superiores e conseguir beneficiar‑se de alguma forma do
caráter paternalista da relação patrão–empregado — predo­
minante especialmente nos pequenos estabelecimentos co­
merciais e industriais do período.

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No primeiro desses casos, dois companheiros de traba­
lho em um depósito de carvão em São Cristóvão brigam por
terem idéias diferentes a respeito da forma como de­v iam
proceder em relação a seu superior hierárquico no servi­ç o,
que, no caso, era um feitor. 39 Como disse uma das testemu­
nhas, “a divergência entre os dois nascia do modo de pensar
acerca do serviço deles”. O ofendido Joaquim de Oliveira,
pardo, 23 anos, solteiro, cocheiro, dá-nos sua versão do
ocorrido:

[...] tendo deixado o caminhão de que é cocheiro na


respectiva cocheira, dirigiu‑se com alguns conhecidos
seus companheiros e mais Miguel de tal ao botequim
na rua Almirante Mariath onde foram tomar café; que
ali teve uma teima com Miguel por ter feito apear em
caminho um moço que viajava no vagão para dar lugar
ao feitor que encontrava em caminho e dessa teima
resultou que Miguel sacou de um revólver, alvejou‑o
contra ele depoente e o detonou indo a bala atingi‑lo
na barriga [...].

O acusado era o português Miguel de Paiva, de 24 anos,


solteiro, carvoeiro. Vemos no caso, portanto, que o portu­
guês aparentemente se irritou com a subserviência de Oli­
veira em relação ao feitor. A briga foi testemunhada por
outros três portugueses, entre eles o dono do botequim onde
se deu a luta. O relato desses três portugueses é semelhante
no essencial, com todos afirmando que Oliveira havia “pro­
vocado” seu patrício dando‑lhe “empurrões” e gritando
“Quebro‑te a cara”. Enquanto os portugueses parecem jus­
tificar o crime de seu patrício caracterizando‑o como um
ato de defesa, o único brasileiro que se achava próximo ao
local ouvira apenas a detonação do tiro, pois se encontrava

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num quartinho nos fundos do botequim. Este brasileiro,
contudo, auxiliou os “meganhas” — ­a pelido dos praças de
polícia na época — a prender o acusado, que se havia escon­
dido na latrina de uma casa de cômodos­.
Este processo revela também outro aspecto muito recor­
rente na documentação coligida. O crime foi cometido num
botequim durante um dos intervalos da jornada de trabalho.
Estes intervalos para tomar café e cachaça no botequim,
prolongados às vezes pelo jogo a dinheiro, eram bastante
comuns principalmente entre carvoeiros, estiva­d ores, carro­
ceiros, ambulantes e outros trabalhadores que não se viam
circunscritos a um espaço fechado rigidamente disciplinado.
Daí decorre o fato de que muitas das “questões por motivo
de serviço” acabavam resultando em conflitos nestes momen­
tos de lazer nos interstícios da jornada de trabalho, quando,
aparentemente, as questões podiam ser resolvidas sem pôr
em risco os meios de sobrevivência dos contendores.
O processo seguinte mostra dois empregados do Hos­
pital da Misericórdia que competem para “mostrar serviço”
às irmãs e que acabam resolvendo a rixa entre eles num dos
inter­v alos da jornada de trabalho. 40 Quitério Feitoza, per­
nambucano, de 24 anos, solteiro, servente de enfermeiro,
conta-nos sua briga com José da Silva, português, 23 anos,
solteiro, enfermeiro. Os envolvidos, assim como todos os
outros empregados da Santa Casa de Misericórdia que de­
põem no pro­c esso, moram no local de trabalho e, no mo­
mento da briga, estavam todos descansando e conversando
sentados próximo às árvores da praia de Santa Luzia, em
frente ao hospital. Diz Quitério

[...] que há muitos dias que por motivos de ciúmes há


prevenção da parte do ofendido que conhece pelo nome

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de Silva e que é enfermeiro da mesma enfer­ma­ria da qual
ele depoente é servente por causa da preferência que lhe
é dada pelas Irmãs da referida en­f ermaria, tendo sido até
insultado e agredido na re­f e­r ida enfermaria pelo ofendi­
do. Que hoje [...] acha­v a‑se sentado na praia de Santa
Luzia em frente à Santa Casa, quando a ele chegou‑se
o ofendido pro­v o­c ando‑o por duas ou três vezes. Que
ele depoen­t e ficou de sobreaviso. Que a um momento
dado o ofendido dirigiu‑se a ele depoente, empurran­
do‑o, ­d izendo ele depoente ao ofendido “deixe disso”;
que vol­t ando novamente o ofendido para cima dele
depoente, ele depoente sacou do seu revólver e disparou
um tiro [...].

As testemunhas do crime, todos companheiros de tra­


balho dos envolvidos, confirmam que havia uma antiga rixa
entre eles e que ambos vinham trocando provocações ­h avia
alguns dias, sem, entretanto, serem mais específicos ­q uanto
à causa da desavença entre os lutadores. Um fato interes­sante
neste processo é que o acusado redige sua defesa de próprio
punho, talvez apenas orientado por um advogado ou um
companheiro mais experiente da Casa de Detenção quanto
ao conteúdo. Escrevendo em péssimo português, o acusado
“implora a uma suplica” e diz “que me acho dento de um
carsere tão amargurado”. Explica que “um homem cansado
do trabalho, estando em seu discanso, e vindo um outro em
devido a provoca‑lo, aponta de amea­s ar‑me com amorte, eu
o passiente, vendo, tratei de minha defeza para que... não
me feri‑se”. Pede ainda “caridade” para “um pobre infeliz”,
anexando também um atestado de um médico do Recife para
quem havia trabalhado, no qual consta que o acusado sem­
pre tivera conduta “irre­p reen­s ível”, sendo “trabalhador e de
boa moral”. A estratégia de defesa do acusado, portanto,

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não foi negar o ato que cometeu, mas sim tentar colocar‑se
como um “bom trabalhador”, imbuído dos valores da ética
de trabalho capitalista. O estratagema deu certo e ele foi
absolvido.
Uma nova briga entre um brasileiro e um imigrante por
motivo de competição em situação de trabalho tem como
cenário uma oficina de sapateiros, na Rua Senhor dos Pas­
sos. 41 Maria Cecília Baeta Neves, ao traçar as características
gerais da indústria de calçados do Rio de Janeiro na primei­
ra década do século XX, 42 fornece-nos elementos importan­
tes para contextualizar o fascinante flagrante da rotina de
trabalho numa oficina de sapateiros da época que nos é dado
pelo processo em questão. A indústria de calçados da cidade
no período é predominantemente artesanal, sendo as ofici­
nas com cerca de 20 operários os estabelecimentos indus­
triais mais comuns no ramo. A produção nes­s as oficinas tem
um caráter individual, isto é, cada operário trabalha a seu
modo e com relativa independência dos outros trabalhado­
res. De forma característica para uma época de transição
para a ordem capitalista, a separação entre o capital e o
trabalho ainda não estava definitivamente realizada: os “ar­
tesãos” ou “artistas sapateiros” que trabalhavam nessas ofi­
cinas, apesar de assalariados, eram donos de seus instrumen­
tos de produção. Sendo assim, o ofício ainda era visto como
uma “arte”, com as ferramentas sendo utilizadas como uma
extensão do trabalhador e a qualidade do produto final de­
pendendo diretamente da inteligência e da qualificação
profissional do “artista”. Não existe, portanto, “qualquer
forma de adequação das atividades humanas aos ritmos e
movimentos do processo mecânico, próprio da indústria
moderna”. 43 Finalmente, eram admitidos “aprendizes” nas
oficinas, para que se treinassem no ofício, e os industriais

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recorriam também ao trabalho do menor, visando ao au­
mento do lucro por meio da compressão salarial.
José Bento de Souza, natural do Distrito Federal, de
14 anos, solteiro, aprendiz de sapateiro, narra sua briga com
Joaquim Alves Casemiro, português, de 20 anos, solteiro,
sapateiro:

[...] que estava hoje a uma hora da tarde mais ou menos,


na oficina de sapateiro à rua Senhor dos Passos número
noventa e três da qual é operário, e entregava‑se ao seu
trabalho, sentado no banco que ocupa na dita oficina,
quando alguns de seus companheiros começaram a brin­
car com ele declarante entre os quais o de nome Joaquim
Alves Casemiro que levantara‑se do seu lugar para vir
junto dele acusado arrebatar os aviamentos que tinha
no seu banco; que feito por Casemiro, ele acusado le­
vantou‑se por sua vez para apanhar os ditos aviamentos
que aquele espalhara pelo chão, voltando ao seu banco
para continuar o serviço que fazia; que outros compa­
nheiros nessa ocasião atiravam pedaços de sola e outros
pequenos objetos sobre ele acusado, tendo Casemiro
reproduzido a brincadeira de vir ao banco dele decla­
rante tomar‑lhe os aviamentos para tornar a espalhá‑los
pelo chão; que ele acusado diante de tal procedimento
pretendeu fazer com Casemiro o que este fizera‑lhe indo
ao banco do mesmo tomar-lhe os seus aviamentos, mas
nessa ocasião foi empurrado pelo mesmo Casemiro; que
voltando ao seu banco de trabalho Casemiro insistiu em
renovar a brincadeira, ocasião em que ele acusado com
a faca que trabalhava levantou‑se e foi ao encontro de
Casemiro fazendo menção de quem pretendia feri‑lo;
que assim procedeu sem intenção de fazer mal a seu
companheiro, porque calculara que este recuasse, mas
não se deu isso e quando deu acordo a si verificou que
havia ofendido à Casemiro [...].

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Esse flagrante da rotina de trabalho na oficina nos mos­
tra o caráter individual e paralelo do processo produtivo,
cada trabalhador debruçando‑se sobre seus afazeres de for­
ma independente dos outros. Daí se justifica a seriedade do
confronto que se segue à troca de provocações entre os con­
tendores: os artesãos se sentem ligados a sua “obra” — como
diz um deles — e o ataque a esta equivale a uma agressão
real ao autor de tal “obra”. A suposta “brincadeira” que
estes meninos sapateiros realizam ao longo do processo
produtivo assume, na verdade, um caráter altamente com­
petitivo. O próprio fato de que era José Bento a vítima fa­
vorita das “brincadeiras” que acabavam por prejudicar a
produtividade de seu trabalho, fato confirmado por outros
depoentes, é revelador: apesar de bastante jovem, ele é “es­
timado por seu patrão”, como diz uma das testemunhas, e,
além disso, “sabe ler e escrever e é bastante ativo”, já rece­
bendo “salário correspondente a uma diária de dois ou três
mil‑réis”, como afirma outra testemunha. Este salário era
bastante alto para uma criança aprendiz de sapateiro que,
de acordo com M. C. Baeta Neves, percebia normalmente
uma diária entre mil e 1.500 réis em 1906. 44 José Bento,
portanto, sendo um sapateiro de futuro promissor e gozan­
do da estima de seu patrão, acaba sendo a vítima predileta
dos companheiros que competiam com ele pelas possibili­
dades restritas de ascensão social.
O conflito seguinte, novamente entre um brasileiro
de cor e um português, ocorre numa disputa entre ambos
pela posse de uma grosa ou lima, um instrumento de tra­
balho im­p ortante para ambos. 45 Uma das testemunhas, José
Men­d es­, natural do estado do Rio, de 38 anos, narra os
antece­dentes do conflito no qual o português Manoel Torres,
de 28 anos, solteiro, carpinteiro, matou com dois tiros de

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garrucha o pardo Paulo Oliveira, de 50 anos, casado, ben­
galeiro:

[...] estava ele testemunha em a venda próxima à casa


onde trabalhava como carpinteiro o denunciado, que a
vítima encontrando‑se com o denunciado em a dita ven­
da onde ele testemunha se achava pediu ao denunciado
uma grosa que havia emprestado respondendo o denun­
ciado mal com palavras más pelo que a vítima, que esta­
va fazendo a cabeça em uma bengala, deu com a mesma
na cabeça do denunciado ferindo‑o e este correndo ao
quarto armou‑se de uma garrucha [...]; que o denuncia­
do não se achava embriagado pelo contrário a vítima
estava embriagado; [...] que co­n hece os precedentes do
denunciado e não lhe consta serem maus, sabendo ape­
nas ter ele dito que havia de matar alguém [...].

O português Manoel contesta o depoimento deste bra­


sileiro que nega que o acusado estivesse embriagado quando
da ocorrência e que ainda sugere que a agressão foi preme­
ditada — Manoel teria dito que “havia de matar alguém”.
As outras testemunhas afirmam que os dois con­t endores
estavam embriagados, e o advogado do acusado organiza a
bem‑sucedida defesa do réu em torno do conceito jurídico
da “privação de sentidos e inteligência”, 46 ou seja, Manoel,
estando embriagado, não podia ser responsabilizado crimi­
nalmente pelo seu ato. Aqui, mais uma vez, a jornada de
trabalho está intimamente ligada aos períodos de lazer no
botequim, que acaba se transformando na arena de luta dos
contendores.
Parece desnecessário multiplicar indefinidamente os
exem­p los de briga entre imigrantes e brasileiros em situa­
ções de trabalho. 47 Os casos analisados já sugerem a impor­
tância dos conflitos nacionais e raciais enquanto expressão

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das tensões provenientes da luta pela sobrevivência. Mas até
aqui vimos apenas casos em que brasileiros e estrangeiros
se enfrentam durante a jornada de trabalho. Res­t am ainda
alguns nos quais crimes de homicídio surgem como con­
seqüência de atitudes desesperadas de indivíduos desem­
pregados, ou como resultado de tentativas de ataque à pro­
priedade — os roubos e furtos dos “gatunos”. Aqui, no­
vamente, parece maior a probabilidade de que estrangeiros
e brasileiros se encontrem em campos opostos de luta.
Assim, Cândido Silva, natural do estado do Rio, 27
anos, solteiro, lavrador, assassinou com uma facada o italia­
no Hercílio Aldeghir, também de 27 anos, casado, operário.
O cri­m e se deu em uma venda, em Bangu, e, interrogado
sobre o que o levara a cometer tal ato, Cândido explicou:
“que achando‑se com fome e sem dinheiro para se tratar
resolveu praticar esse crime, uma vez que assim [obteria?]
amparo, que nunca teve ofensas do morto e nem nunca lhe
pediu coi­s a alguma, que cometeu o crime pelo motivo já
exposto”. 48
As explicações do acusado devem, sem dúvida, ter cau­
sado estranheza às autoridades policiais e judiciárias, que
tentam por todos os meios descobrir um motivo mais plau­
sível para o crime. As investigações foram inúteis, pois as
testemunhas declaram não saber o porquê da agressão de
Cândido, limitando‑se a afirmar que ele tinha “maus prece­
dentes”. Finalmente, o acusado é levado para o Hospício
Nacional para ser examinado por uma comissão de alienistas.
Afirmando sempre que matara por estar “desempregado,
doente e com fome”, necessitando, pois, de proteção, Cân­
dido é considerado louco, com os peritos achando que ele
sofria de “imbecilidade, com episódios delirantes”. É im­
possível deixar de pensar, no entanto, que as explicações de

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Cândido tinham a sua lógica — fosse esta a lógica da lou­
cura, ou a da extrema penúria.
Foram localizados ainda quatro casos de brigas entre
brasileiros e imigrantes devidos a furtos ou roubos. Em um
desses casos um negociante português afirma que dois ho­
mens — um brasileiro e um espanhol — entraram em seu
estabelecimento comercial e roubaram trezentos e tantos
mil‑réis. O português dispara tiros contra estes indiví­d uos
posteriormente. 49 Em outro processo um chacareiro espa­
nhol vinha por uma estrada montado em um cavalo quando
foi interceptado por três brasileiros que o acusavam de haver
roubado o cavalo que montava. Após uma discussão azeda­
da, o cavaleiro espanhol respondeu com tiros a seus acusa­
dores e declarou na delegacia que os brasileiros pareciam ser
assaltantes. 50 No caso seguinte, o caixeiro de um armazém,
de nacionalidade brasileira, afirma que teve de disparar sua
espingarda contra dois gatunos que tentaram penetrar no
es­t abelecimento quando lá dormia. Um dos ofendidos, de
nacionalidade desconhecida, morre, mas o sobrevivente, um
português, diz que fora cobrar do brasileiro uma dívida que
tinha “por causa de um anel”. 51 Finalmente, temos um gru­
po de marinheiros que sai para fazer compras; quando da
saída de uma casa de negócios, um desses marinheiros pega
a saca de compras de um outro — não se sabe se por acaso ou
matreiramente. Daí surgem a discussão e a briga, na qual se
enfrentaram um brasileiro pernambucano e um espanhol. 52
Em contrapartida a estes 14 casos mencionados de
brigas entre brasileiros e estrangeiros em situações ligadas
à competição pela sobrevivência, temos apenas cinco casos
de conflitos envolvendo apenas imigrantes e três ­e nvolvendo
apenas brasileiros em situações semelhantes. Os processos
que relatam conflitos entre imigrantes mostram as redes

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íntimas de solidariedade e ajuda mútua que estes imigrantes
teciam entre si. Ao mesmo tempo, eles revelam que a mesma
situação de penúria que reforçava estas redes de solidarie­
dade entre patrícios impunha também certos limites a essas
práticas de ajuda mútua, pois a necessidade de competir pela
obtenção dos meios de sobrevivência obscurecia algumas
vezes os laços de solidariedade nacional. De qualquer forma,
e apesar de a documentação analisada ser especializada em
violência, o que mais ressalta no conjunto é o caráter pre­
dominantemente solidário das relações entre imigrantes de
mesma nacionalidade.
Uma boa parte do comércio da cidade do Rio de Ja­neiro
no início do século XX era realizada por ambulantes. Ao des­
crever a atividade dos ambulantes no período, Luiz Edmun­
do pinta em cores vivas uma atividade frenética, com homens
e mulheres indo e vindo a gritar “histéricos pregões”. 53 A
descrição deste cronista sugere também que havia no comér­
cio ambulante uma certa tendência de grupos de uma mes­
ma nacionalidade em se dedicar a um ramo semelhante
dentro dessa atividade. Assim é, por exemplo, que os italia­
nos apa­r e­c em como vendedores de peixe ou de jornal, os
turcos e tur­c as são vendedores de fósforos, es­p e­l hinhos,
tesouras, bo­t ões e outras miudezas. Os portugueses, muito
nume­rosos, desempenhavam funções mais variadas, apare­
cendo como leiteiros, vendedores de frutas, bacalhau etc.
Além dis­s o, Luiz Edmundo, ferrenho ini­m igo dos portu­
gueses, a quem responsabilizava pelo “atraso nacional”,
afirma que estes dominavam o pequeno comércio não am­
bulante da cidade, estando estabelecidos em “mercearias,
padarias e quitandas”.54 Quanto aos brasi­leiros, há a ­esperada
referência à baiana “do cuscuz, da ­p a­m onha, do amendoim
e da cocada”, aos “moleques ­v en­­dedores de biscoitos e de

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balas” e aos pretos vendedores de sorvete. Finalmente, cabe
assinalar que, às vezes, os ambulantes de uma mesma nacio‑
nalidade se aglomeravam numa determinada área da cidade,
como, por exemplo, os imigrantes sírios e libaneses — cha‑
mados indistintamente de turcos — que já naquela época se
localizavam em grande número ao longo da Rua Senhor dos
Passos e adjacências.
Assim, Miguel Abrahão, sírio, de 18 anos, solteiro,
vendedor ambulante, narra o conflito a que assistiu entre
dois outros vendedores ambulantes, seus patrícios:

[...] que anteontem às cinco horas e meia da tarde mais


ou menos estando no largo da Sé em frente à igreja viu
[...] o menor Salomão Elias vendedor ambu­l ante de
fósforos e cigarros vendendo a um indivíduo e nesse
[ilegível] apareceu um seu compatriota de no­m e Elias
Iunes o qual teve forte discussão com Sa­l omão; que
este retirou‑se em direção à rua Uru­g uaia­n a sendo
perseguido por Elias que aí vendo-o vender cigarros e
fósforos a um outro indivíduo, levantou do pau que
consigo trazia dando uma pancada na ­c abeça, lado
esquerdo, de Salomão produzindo-lhe um “galo”, pas‑
sando-se este fato naquela rua entre a do ­H ospício e
Alfândega em frente a uma padaria ali existente; que
Salomão com a pancada foi por terra perdendo quase
os sentidos ficando com fortes dores na cabeça e per‑
turbado; que ao chegar em casa foi Salomão para o
leito, vomitando muito e perdendo a fala, sendo então
socorrido por diversos médicos entre eles o Dr. Olym‑
pio da Fonseca; que Salomão apesar dos ­s ocorros pres‑
tados veio a ­f alecer ontem às sete horas da noite de
comoção cerebral [...]. 55

Tanto o acusado quanto o ofendido neste episódio ti‑


nham apenas 15 anos de idade. Os diversos depoimentos de

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imigrantes sírios no processo mostram a mobilização dos
patrícios que eram vizinhos da família do “compatriota
enfermo” para prestar‑lhe auxílio e mostrar solidariedade.
Todos são unânimes em identificar a origem do conflito na
concorrência entre os jovens pelo monopólio do ponto‑de-
venda no qual trabalhavam. Outro fato interessante é o
duelo que se trava entre os agentes jurídicos: o delegado,
ao redigir a formação de culpa, defende a tese da “futili­d ade”
da agressão, “oriunda da venda de uma pequena caixa de
fósforos” e cometida por um “bárbaro”; o advogado do réu
contra‑argumenta que não houve “motivo fútil”, pois o réu e
a vítima pretendiam “ter o exclusivo da venda no local em
que se deu o fato” — para ele, o ocorrido foi uma “fatali­
dade”. Ao defender a tese da futilidade da agressão, o dele­
gado está cumprindo o seu papel, que é o de tentar “produ­
zir” o criminoso por meio de uma certa inter­p retação ou
leitura dos atos cometidos pelos con­t en­d ores durante o
confronto. O advogado de defesa reconhece no episódio
uma situação clara em que indivíduos trocam acusações e se
agridem com o firme propósito de garantir um espaço que
lhes permita a sobrevivência. Contudo, ele concebe esta
situação não como o produto concreto de determinações
sociais mais amplas, mas sim como uma “fatalidade” — um
acidente ou um capricho de um destino ignóbil. Neste caso,
portanto, em que temos total concordância entre as testemu­
nhas quanto aos atos e às motivações dos contendores, po­
demos discernir duas leituras divergentes destes atos, propos­
tas a partir dos diferentes papéis sociais desempenhados pelos
agentes jurídicos no episó­d io.
O processo seguinte narra a briga entre dois vende­d ores
ambulantes de nacionalidade portuguesa, Albertino Gonçal­
ves, de 30 anos, casado, analfabeto, e José Antônio Vieira,

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de 15 anos, solteiro, “assina o nome”. O acusado Vieira
conta o ocorrido:

[...] que saiu da rua da Misericórdia [...] na companhia


do português Albertino Gonçalves e de Mar­c e­lino de tal
e de Álvaro Joaquim Portela, com o fim [de] comprarem
uma carroça para vender frutas, na rua de São Clemente
[...]; que aí chegando tratavam de ­f azer o negócio sendo
que Albertino Gonçalves, ofereceu mais do que ele acu­
sado pela compra da ­c arroça, motivo porque tiveram
desde logo uma discussão dando‑lhe Albertino três
bofetadas, motivo porque ele acusado lançando mão de
uma pedra arre­m essou‑a à cabeça de Albertino e logo
disparou a correr [...]. 56

Vemos aí, novamente, que os contendores competem


pela obtenção de um instrumento de trabalho que é essencial
para a sua sobrevivência, ou seja, a carroça de frutas. A
análise do processo em seu conjunto, no entanto, caracteri­
za bem a estreiteza dos laços de solidariedade entre os imi­
grantes portugueses em questão. Uma das testemunhas,
outro português vendedor de frutas, de 43 anos, conta que
o acusado Vieira, ao chegar de Portugal havia poucos meses,
hospedara‑se em sua casa e resolvera iniciar sua vida na nova
terra também como vendedor ambulante de frutas e horta­
liças. Vieira trabalhava com o filho desta testemunha, “por­
tando‑se sempre com a melhor correção já nos serviços que
lhe eram encarregados, já particularmente”. A união entre
estes portugueses é evidenciada mais ainda pelo fato de que
o próprio ofendido pede para não ir a corpo de delito, pois
não queria incriminar o acusado, que era seu amigo. Este
caso, portanto, ilustra bem as possibilidades que se abriam
ao imigrante português que chegava ao Brasil, pois podia
contar com a ajuda de outros patrícios para iniciar a vida.

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Esta vida nova, entretanto, podia ter vicissitudes imprevis­
tas: o ofendido não contou com o atendimento médico
adequado, afirmando uma das testemunhas que houve gran­
de demora na Santa Casa, e acabou falecendo devido ao
ferimento recebido.
Foram localizados ainda dois casos de brigas entre por­
tugueses neste contexto. Em um deles, o acusado — que se
declarou desempregado — parece ter invadido o sítio do
ofendido para roubar e, sendo descoberto, lutou com seu
opositor e acabou por matá‑lo. 57 Em outro processo, não se
sabe bem o motivo da rivalidade entre dois portugueses,
ambos estivadores, mas durante a troca de provocações um
deles fica bastante aborrecido ao ser chamado de “vagabun­
do”. 58 Finalmente, temos apenas um caso de tentativa de
homicídio entre imigrantes de nacionalidades diferentes, que
serve para ilustrar novamente os laços de solidariedade exis­
tentes entre imigrantes de mesma nacionalidade. A testemu­
nha João de Oliveira, espanhol, de 59 anos, viúvo, analfa­
beto, hortelão, narra o conflito entre seu patrício Joaquim
Biosco, de 47 anos, solteiro, hortelão, e o português Ma­n oel
Antônio, de 23 anos, casado, analfabeto, carroceiro:

[...] que passava em frente à casa do senhor Manoel dos


Prazeres e ali viu o indivíduo Manoel Antônio conver­
sando com a senhora do senhor Ma­n oel dos Prazeres
dizendo as seguintes palavras: que iria à casa do espanhol
Joaquim Biosco para matá‑lo, visto ter este machucado
um seu animal, e que isso não passaria de hoje, só se ele
não pudesse; que a senhora de Manoel dos Prazeres
procurou dissuadi‑lo de seus intentos, nada conseguindo,
porém, que o que declara ouviu pelo interesse que a
conversação lhe despertara, tratando‑se, como se tratava,
de um conhecido seu; que despedindo‑se da senhora
referida dirigiu‑se à casa de Joaquim Biosco, que fica

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próxima, a quem interpelou na porta da rua sobre a ori­
gem dos fe­r imentos que alegava apresentar um burro de
sua propriedade, que conduzia; que Joaquim Biosco
negando a autoria de tais ferimentos apenas informou
que, mais de uma vez, teve ocasião de enxotar de sua
horta animais que ali entravam, mas isto sem feri‑los,
que nesta ocasião, dando por finda a discussão Manoel
Antônio simulou retirar‑se, dizendo ir queixar‑se à po­
lícia de Joaquim Biosco; que este não dando impor­
tân­c ia ao caso encaminhou‑se para o interior de sua
casa, ao mesmo tempo que Manoel Antônio retroceden­
do disparou dois tiros de revólver contra Biosco e fugiu,
internando‑se no mato próximo [...]. 59

Neste conflito, ocorrido na freguesia de Santa Cruz,


vemos que os contendores se enfrentam por questões que
envolvem diretamente seus meios de sobrevivência em uma
freguesia rural: a pequena produção de alimentos — no caso,
a horta de Biosco — e um animal fundamental para o trans­
porte — no caso, o burro de Manoel Antônio. A análise
conjunta dos depoimentos revela uma divisão estrita entre os
portugueses e os espanhóis que nos dão sua versão dos fatos.
O espanhol Oliveira, como vimos em suas declarações, diz
que o português Manoel atirou em seu patrício à ­t raição,
depois de ter dito a outras pessoas que iria matá‑lo. Um
outro espanhol, que se diz “amigo e compadre de Biosco”,
confirma esta versão dos fatos e conta que seguiu imediata­
mente para a casa de Biosco, com o intuito de ajudá‑lo. A
portuguesa Leonor da Luz, porém, dá um depoimento bem
mais favorável ao acusado. Confirma que Manoel fora pro­
curar seu marido, e isto porque Biosco já “há tempos chum­
bou dois animais do marido da declarante”. Leonor afirma
ainda que Manoel não havia absolutamente declarado que
iria matar Biosco, e sim apenas exigir uma indenização ­p elos

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ferimentos infligidos a seu burro. O português Manoel
­t ambém afirma que não teve intenção de matar o espanhol
e que só atirou para se defender, pois este ameaçava puxar
uma arma para agredi‑lo. Vemos, assim, que a rivalidade
entre estes portugueses e espanhóis era antiga, como con­
firma ex­p licitamente uma das testemunhas, e que a rixa
tem um desfecho violento quando as animosidades reben­
tam em danos aos meios de sobrevivência das partes em
confronto.
Resta ainda comentar os três únicos processos que nar­
ram brigas entre brasileiros em situações de trabalho. O
pe­q ueno número de casos neste item parece confirmar o
ar­g u­m ento que procuramos propor de que as rivalidades
na­c io­n ais e raciais — que ocorriam simultaneamente na
maio­r ia das vezes — eram a principal expressão dos confli­
tos que envolviam a luta pela reprodução da vida material
entre nossos personagens. As situações concretas que ense­
jam estas brigas entre brasileiros parecem em tudo seme­
lhantes às condições em que se deram os conflitos já anali­
sados nesta parte. O primeiro caso eclode quando um dos
contendores vê ameaçados seus meios de sobrevivência: um
in­d ivíduo carregava frutas para vender e um outro pediu
que ele lhe desse algumas, o que o vendedor se recusou a
fa­z er. 60 No segundo caso, vemos a competição no trabalho:
dois empregados de uma padaria brincam durante a jornada­
de ­t rabalho, até que as pilhérias de cunho machista se aze­
dam­e um dos indivíduos agride o outro com uma bofetada,
levando um tiro como troco.61 No último processo do ­grupo,
o assunto é o desemprego: dois cocheiros vão para um bo­
tequim conversar e acabam discutindo e brigando “por
questões de servi­ç o”. O agressor havia perdido o emprego
na véspera. 62

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De tudo que ficou dito até aqui, parece claro que a ca­
racterística essencial destas tensões e rixas associadas aos
pro­b lemas de reprodução da vida material de nossos perso­
nagens era o fato de que elas se exprimiam principalmente
através de conflitos entre imigrantes e brasileiros pobres,
especialmente os de cor. Estes confrontos entre estrangeiros
e brasileiros pobres, que ressaltam na documentação coligi­
da como um traço fundamental do dia‑a‑dia distante e em
grande parte obscuro das classes populares do Rio de Ja­neiro
na República Velha, coadunam-se perfeitamente com as de­
terminações estruturais mais amplas do processo histó­r ico
da cidade e do próprio país naquele período­.
Estes conflitos, como já foi mencionado anteriormente,
dão-se num momento preciso da história da cidade, ou seja,
num momento de transição para uma ordem capitalista. Este
momento caracterizava‑se também por uma presença ma­c iça
de imigrantes na cidade — especialmente portugueses — que
se vieram juntar aos milhares de brasileiros pobres de cor
que já aí se encontravam e continuavam a afluir do interior
do país. Cria‑se assim uma situação altamente competitiva
para os membros da classe trabalhadora, pois o mercado de
trabalho assalariado em formação na cidade não tem condi­
ções de absorver esta mão­d e‑obra abundante. Na verdade,
os donos do capital se beneficiavam amplamente da existên­
cia deste exército de reserva na capital da República, já que
isso barateava bastante o custo da força de trabalho. Quan­
to aos populares, tinham de conviver com as agruras de um
futuro incerto, baixos salários, longas jornadas de trabalho
e árdua competição para conseguirem uma ocupação como
assalariados da indústria ou do comércio. Muitos optam,
temporária ou definitivamente, por desempenharem ativi­
dades à margem desse mercado de trabalho em formação,

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exercendo atividades autônomas que lhes garantiam a so­
brevivência. Por exemplo, o comércio ambulante, filho mais
da necessidade e da tradição do que da opção desses indiví­
duos, floresce na cidade e dribla com maestria a repressão
que lhe é imposta pelo “progressismo” equívoco de alto
custo social das elites, tão bem representado pela ânsia de­
molidora — mas dita “civilizadora” — do prefeito Pereira
Passos, como veremos com mais detalhes logo adiante.
Mas mesmo entre os membros da classe trabalhadora,
que sofreu como um todo os resultados concretos dessa
transição para a ordem capitalista e a ideologia do progres­
so que a acompanhava, houve vencedores e perdedores.
Como vimos, na prática cotidiana da vida, tal como se ma­
nifesta nos conflitos microssociais recuperados por nós, a
competição pela sobrevivência e pela ascensão social entre
os populares tendia a colocar em campos opostos de luta
imigrantes e bra­s ileiros pobres, especialmente os de cor. Que
estas tensões tivessem que se exprimir desta forma precisa,
e não de qualquer outra, parece ser em grande parte o resul­
tado das tra­d i­c ionais contradições senhor‑patrão branco
versus es­c ra­v o‑empregado negro, e colon­i za­d or‑ex­p lorador
português versus colo­nizado‑explorado brasileiro que vinham
dando a tônica do processo histórico da cidade do Rio de
Janeiro ­h a­v ia séculos. Deste confronto, reativado no período
pós‑Abolição através da chegada maciça de imigrantes, espe­
cialmente portugueses, à cidade, resultou a recriação ou a
continuação em um novo contexto da subordinação social
do negro brasileiro. A documentação coligida e analisada
até aqui, assim como parte do que ainda virá a seguir, per­
mite-nos ­a venturar hipóteses sobre o porquê deste fato.
Primeiramente, há o fato óbvio de que havia uma ­c lara
predisposição por parte dos membros das classes dominan­

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tes em pensar o negro como um mau trabalhador e em re­
conhecer no imigrante um agente capaz de acelerar a tran­
sição para a ordem capitalista. Em termos práticos, isso
sig­n ificava que os indivíduos que tinham o poder de gerar
empregos tendiam a exercer práticas discriminatórias ­c ontra
os brasileiros de cor quando da contratação de seus empre­
gados. O forte preconceito contra o negro se combinava na
época com a obsessão das elites em promover o “pro­­gresso”
do país. Uma das formas de promover este “progres­s o” era
tentar “branquear” a população nacional. A tese do bran­
queamento tinha como suporte básico a idéia da supe­r io­
ridade da raça branca e postulava que com a miscigenação
constante a raça negra acabaria por desaparecer do país,
melhorando assim a nossa “raça” e eliminando um dos prin­
cipais entraves ao progresso nacional — a presença de um
grande contingente de população de cor, pessoas pertencen­
tes a uma raça degenerada. 63 O paroxismo desses sentimen­
tos negativos em relação ao negro dá uma idéia exata das
dificuldades que ele tinha de enfrentar para conseguir uma
colocação como assalariado em estabelecimentos comerciais
e industriais dominados por brancos.
Existia ainda, no caso da cidade do Rio de Janeiro, um
outro fator de complicação para o negro: além de branco,
era grande a probabilidade de ele ter de se defrontar com
um empregador estrangeiro, na maioria das vezes portu­g uês.
Com efeito, os portugueses dominavam grande parte da
atividade comercial e de serviços da cidade e mostravam uma
acentuada preferência por seus patrícios quando da contra­
tação de empregados. 64 É verdade que a atitude das classes
dominantes em relação ao português era em geral ambígua,
e Luiz Edmundo, por exemplo, chega a sugerir que eles eram
os “autores do atraso nacional”. 65 Esta atitude negativa em

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relação ao português, entretanto, era rela­t ivizada pelo fato
de que dentro das próprias elites parecia haver um número
considerável de abastados comerciantes portugueses. Entre
os populares, os portugueses carregavam, sem dúvida, o es­
tigma de serem avarentos e exploradores, o que na ver­d ade
apenas refletia a situação real de predominância por­t uguesa
no pequeno comércio da cidade. Em suma, os bra­s ileiros
pobres de cor se viam praticamente privados da pos­sibilidade
de conseguir uma colocação como assalariados numa das
áreas mais dinâmicas da economia da cidade — o comércio.

Patrão e empregado

A imagem da relação patrão–empregado geralmente


veiculada pelas classes dominantes brasileiras na República
Velha era de que esta relação se assemelhava em muitos
aspectos à relação entre pais e filhos. O patrão era uma es­
pécie de “juiz doméstico” que procurava guiar e aconselhar
o trabalhador, que, em troca, devia realizar suas tarefas com
dedicação e respeitar seu patrão. 66 Esta imagem ideal da
relação patrão–empregado tem um objetivo óbvio de con­
trole social, procurando esvaziar o potencial de conflito
inerente a uma relação baseada fundamentalmente na desi­
gualdade entre os indivíduos que dela participam.
Uma questão importante é saber até que ponto esse
paternalismo na relação patrão–empregado é realmente
compatível com relações de produção do tipo capitalista.
Procurarei argumentar nesta parte que, no contexto da tran­
sição para a ordem capitalista na cidade do Rio de Janeiro
na República Velha, a imagem paternalista da relação pa­
trão–empregado funcionou eficazmente como elemento

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mitigador das tensões entre patrões e empregados, pelo
menos até o final da primeira década do século XX. Ressal­
te‑se aqui que a documentação coligida privilegia os peque­
nos e médios empreendimentos econômicos — sejam eles
agrícolas, comerciais ou industriais —, não versando sobre
a relação patrão–empregado em empreendimentos de maior
vulto, como as grandes indústrias, por exemplo. 67

Há diferenças no conteúdo do paternalismo na relação


patrão–empregado dependendo do tipo de atividade econô­
mica na qual se realiza essa relação. Assim, comecemos por
analisar dois processos provenientes das fregue­s ias rurais da
cidade e que envolvem diversos lavradores. Benjamim Mar­
ques Seixas, de 22 anos, solteiro, português­, analfabeto,
conta a briga que teve com o pardo João de tal:

[...] que hoje às nove horas da noite mais ou menos ele


declarante foi a uma venda da vizinhança e encos­t ou‑se
ao balcão; que na dita venda se achavam Domingos
Manoel da Rocha e um João de tal, ambos de cor parda,
e este, para implicar com o declarante, disse‑lhe que se
desencostasse, ao que o declarante não deu resposta
alguma e retirou-se para dentro do terreno da chácara
em que mora; que daí a momentos entraram os ditos
Domingos e João e aproxi­m aram‑se do respondente;
que em seguida, o mesmo Domingos começou a pro­
vocá‑lo insultando‑o com palavras; que em seguida,
João também insul­t ou‑o, e sem que o declarante desse
o menor motivo, o mesmo João, armado de um cacete,
com ele deu‑lhe duas cacetadas [...]; que depois de fe­
rido o respondente correu para o interior da casa onde
se achava seu patrão Manoel dos Santos festejando São
Manoel com diversos amigos, e referindo‑lhe o sucedi­
do em altos gritos foi logo socorrido pelo dito seu pa­

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trão que saiu imediatamente em demanda do criminoso,
e chegando ao sítio onde tivera lugar o fato referido,
não mais foi encontrado o seu agressor pois tinha‑se já
evadido, achando‑se aí somente Do­m ingos a quem seu
dito patrão intimou para vir dar suas declarações nesta
delegacia. 68

Estamos novamente diante de um conflito entre um


português e um brasileiro pobre de cor. O depoimento de
Benjamim, apesar de narrar um conflito ocorrido no seu
período de lazer, é muito útil para compreendermos as con­
dições de trabalho numa freguesia rural da cidade e o tipo
de relação patrão–empregado vigente nesse contexto. Ben­
jamim residia no seu local de trabalho, ou seja, morava na
chácara de hortaliças cujo dono, seu patrão, era um portu­
guês de 30 anos, solteiro e que sabia ler e escrever. O dono
da chácara estava festejando são Manoel com alguns “ami­
gos”, e pelo depoimento das testemunhas nota‑se que alguns
destes “amigos” eram empregados seus na dita chácara.
­Vemos, portanto, o convívio íntimo entre o patrão e seus
empregados que, no caso, também eram portugueses, refor­
çando assim a noção de que o imigrante, quando patrão,
discriminava abertamente o brasileiro pobre por ocasião da
contratação de seus empregados. Note‑se também que,
nestas pequenas propriedades agrícolas das freguesias rurais
da cidade, patrões e empregados compartilhavam as mesmas
condições de vida e, em alguns casos, como no narrado
­a cima, a identidade cultural e os laços de solidarie­d ade na­
cional diminuíam a distância social e congraçavam todos em
torno de festejos e do objetivo comum de ganhar a vida.
Apesar do abrandamento da distância social entre pa­
trão e empregado neste contexto, a situação como um todo
reveste-se de um claro teor paternalista. Todos os portugue­

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ses reunidos na casa de Manoel prontamente se uniram em
torno do patrício ofendido e foram à delegacia denunciar o
ocorrido. É significativo, no entanto, o fato de Ben­jamim
se dirigir ao patrão “em altos gritos” pedindo sua ajuda. O
patrão é a primeira pessoa a quem o ofendido recorre, e
deste mesmo patrão ele espera proteção e solidariedade
total neste momento de infortúnio. O patrão, por sua vez,
corresponde às expectativas e age imediatamente para redi­
mir seu empregado das ofensas do pardo João de tal. Em
contraste com o comportamento solidário dos portugueses,
o pardo Domingos — sem dúvida ciente de que se encon­
trava numa situação em que a relação de forças lhe era am­
plamente desfavorável, podendo ser considerado cúmplice
na prática do delito — tentava livrar‑se dos apuros em que
se achava incriminando ainda mais seu companheiro fora­
gido, João de tal, que seria um “desordeiro conhecido e de
maus instintos”.
O processo seguinte também mostra a convivência
íntima entre patrões e empregados numa freguesia rural da
cidade, sendo que novamente um empregado conta com a
proteção do patrão num momento de apuros. Antônio Fer­
nandes, conhecido como Antônio Espanhol devido à sua
nacionalidade, de 40 anos, solteiro, analfabeto, lavrador,
narra assim o ocorrido:

[...] que em um dos domingos do princípio do mês


corrente ele declarante veio às seis horas da tarde mais
ou menos ao botequim de Tomás Espanhol situado na
estação do Cordovil, em companhia de Francisco Cunha
e José Antônio Cunha, a fim de be­b erem um pouco,
quando aí estavam apareceu‑lhes Manoel Bo­n i­f ácio da
Silva, conhecido por Manoel da Pinga, que com ele e
seus companheiros também bebera; que Ma­n oel Boni­

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fácio da Silva é empregado dele declarante e de seus
sócios José da Cunha e Francisco da Cunha; que passa­
da uma hora mais ou menos [...] apareceu no referido
botequim José Caboclo, e tomou um cálice de parati e
ao entrar Ma­n oel Bonifácio dirigira-lhe a palavra, usan­
do desta frase: Vai‑te ­e mbora José, não venhas compro­
meter aqui a ninguém, José retirou‑se mas voltou pouco
tem­p o depois e ficando como que espiando na porta do
botequim, Manoel Bonifácio repetiu a frase [...] e como
José Caboclo continuasse espiá-lo, Manoel Bo­n ifácio
saiu do botequim e correu perseguido por José Caboclo,
e alcançado aquele por este, atra­c aram‑se os dois [...]
que continuando na luta, o seu sócio Francisco da Cu­
nha interveio e os separou [...]. 69

A primeira parte do depoimento de Antônio Espanhol


relata uma cena na qual patrões e empregado confraternizam
num botequim próximo à pequena roça na qual todos tra­
balhavam. Neste ínterim, o empregado Manoel da Pinga,
natural do estado do Rio, 30 anos, solteiro, analfabeto,
entra em conflito com um dos outros freqüentadores do
botequim. No depoimento acima, um dos patrões de Pinga
procura colocar tanto a si como aos seus sócios Francisco e
Antônio Cunha, ambos portugueses, como simples obser­
vadores do conflito, tendo Francisco tentado apenas apartar
a briga. As outras testemunhas, entretanto, contam em sua
maioria que os patrões “tomaram as dores” de Pinga, e o
auxiliaram na agressão ao pardo José Caboclo. Este apareceu
morto no dia seguinte, estendido na linha do trem, e a po­
lícia suspeitava que ele não havia sido atropelado pelo trem,
mas sim colocado nos trilhos quando já era cadáver. Os três
patrões e o empregado Pinga, portanto, tornam-se suspeitos
de terem cometido o crime e são processados por homicídio.
Os quatro acusados se defendem sem procurar incriminar

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uns aos outros, com todos afirmando que o fato de Caboclo
ter sido pego pelo trem nada tinha a ver com a briga que
havia ocorrido no botequim horas antes. Os atropelamentos
pelos trens da Leo­p oldina eram bastante comuns nessa épo­
ca, e os réus acabaram impronunciados por falta de provas.
Os casos relatados sugerem, portanto, que nesses pe­
quenos empreendimentos agrícolas nas freguesias rurais da
cidade havia a possibilidade de uma relação bastante estrei­
ta entre patrão e empregado, o que diminuía de certa forma
a distância social entre eles. Mesmo assim, o patrão tendia
a desempenhar o papel de protetor e orientador de seus
empregados, que sem dúvida lhe retribuíam a proteção com
longas e penosas jornadas de trabalho. A relação patrão–em­
pregado nos pequenos empreendimentos econômicos nas
freguesias mais urbanizadas da cidade era, em muitos aspec­
tos, semelhante à descrita nestes casos rurais; no entanto,
parece haver também alguns elementos novos.
A semelhança essencial é que, tanto nos pequenos em­
preendimentos rurais quanto nos urbanos, a atitude pater­
nalista dos patrões tem o claro sentido de possibilitar o
aumento da exploração da força de trabalho. Nas pequenas
casas comerciais do centro da cidade, por exemplo, como
vendas, padarias, botequins etc., era comum que o patrão
permitisse que o empregado residisse e se alimentasse no
próprio local de trabalho. Em compensação, ao fazer isto,
o empregado se obrigava também a cumprir longas jornadas
de trabalho, pois muitos desses estabelecimentos normal­
mente fechavam apenas por poucas horas durante a noite.
Aluísio Azevedo, em O cortiço, seu célebre relato da vida das
classes populares da cidade do Rio de Janeiro no fim do
século XIX, sugere um outro possível significado que os
empregados desses pequenos estabelecimentos comerciais

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deviam atribuir à atitude paternalista dos patrões. Ele nos
conta, logo no início do livro, como o personagem principal,
o português João Romão, iniciara a escalada que o levaria
ao enriquecimento. João trabalhara dos 13 aos 25 anos como
empregado de um vendeiro que acabara fazendo fortuna em
sua “suja e obscura taverna” no bairro de Botafogo. João
economizara bastante durante esses anos, e o patrão, ao
voltar para Portugal, deixou para seu empregado como pa­
gamento “nem só a venda com o que estava dentro, como
ainda um conto e quinhentos em dinheiro”. 70
O que a história de João Romão parece sugerir é que
a dedicação e submissão ao patrão durante tantos anos
justificavam‑se, na verdade, pela esperança de ascensão social
que sua situação lhe dava. Essa esperança de ascensão social
era bastante justificável em seu caso, pois tinha a pele bran­
ca e era um imigrante que trabalhava para seu patrício. O
processo seguinte sugere mesmo que nos pequenos estabe­
lecimentos comerciais — onde predominava o paterna­lismo
na relação patrão–empregado de uma forma bastante direta
— o empregado se sentia quase que como um sócio de seu
patrão e, pelo menos às vezes, identificava‑se inteiramente
com os interesses dele. Essa identificação de interesses entre
patrão e empregado aumentava ainda mais quando ambos
eram imigrantes e, muitas vezes, até parentes. Assim, Au­
gusto Bastos, português, solteiro, de 21 anos, trabalhava
como caixeiro na venda de seu tio José Bastos, também
português, de 32 anos, solteiro. Ambos sabiam ler e escrever,
e Augusto conta na delegacia o caso de tentativa de homi­
cídio no qual teria sido vítima:

[...] que anteontem cerca de dez horas da noite pouco


mais ou menos como de costume fechou as portas da

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casa de negócio onde é empregado e em seguida veio
para a porta da rua e encostou‑se para tomar fresco a
um dos umbrais de pedra da porta, e viu em seguida
Epaminondas Mirandela, residente na casa fronteira, em
estado exaltado proferindo obscenidades as quais eram
dirigidas ao seu patrão que achava‑se ausente por já ter
se retirado para a sua residência, dizendo mais que ha­
via de matar todos os galegos aí residentes. Que cerca
de onze horas da noite do mesmo dia, Epaminondas
Miran­d ela, saindo pelos fundos da casa de sua residên­
cia, veio para a calçada da sua casa e daí de revólver em
punho continuou a proferir obscenidades e falar no
nome de seu patrão, José de Oliveira Bastos, e em se­
guida apontando o revólver para ele depoente desfechou
dois tiros [...]. 71

O acusado Epaminondas Mirandela era natural do esta­


do do Rio, tinha 30 anos, era casado, sabia ler e escrever e
possuía uma venda bem próxima àquela de José Bastos. Os
dois negociantes tinham acirrada rivalidade devido à concor­
rência comercial que travavam. Epaminondas nega a acusação
de que teria atirado em Augusto, dizendo que “tudo não
passa de uma farsa” e atribuindo a queixa “à desvan­t ajosa
concorrência que a sua casa de negócio faz à casa do quei­
xoso, tanto assim que no domingo passado as portas do
negócio dele depoente amanheceram sujas de fezes”.
Há diversos aspectos a ressaltar nesse episódio. Primei­
ro, a competição comercial entre os pequenos negociantes
se exprime ou se confunde com as rivalidades nacionais
entre brasileiros e portugueses. Segundo algumas testemu­
nhas, Epaminondas diz mesmo que havia de agredir os
portugueses, pois “que quem mata galegos não tem crime”.
Este conflito pode ter sido também a expressão de tensões
raciais, pois Epaminondas é identificado como um indivíduo

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“de cor morena”. Segundo, vemos que Epaminondas não
faz distinção alguma quanto a seus opositores: o nego­c iante
e o seu empregado são tratados igualmente como seus ini­
migos, que tendem apenas a ser identificados como mem­
bros de um conjunto mais amplo e numeroso de antagonis­
tas — os “galegos”. Finalmente, a situação configurada na
venda de José Bastos é típica do Rio de Janeiro daquela
época, sendo uma presença quase constante na do­c umenta­
ção analisada. Aí temos patrão e empregado portugueses
habitando o mesmo local em que trabalham. O empregado
é considerado um protegido do patrão, que no caso — de
forma nenhuma atípico — é também seu tio. O próprio
empregado e sobrinho, ao relatar a ocorrência na pretoria,
informa-nos que é “caixeiro de seu tio [...] tomando inte­
resse pelo negócio”, o que mostra de forma inequívoca que
a situação em que se encontrava continha uma possibilidade,
ou até mesmo uma promessa, de ascensão social.
Um outro indicador de que o teor paternalista da re­
lação patrão–empregado funcionava como eficiente miti­
gador de conflitos é o pequeno número de casos de brigas
entre patrão e empregado localizados por nós. Em apenas
dois processos temos conflitos diretos entre patrão e empre­
gado. Assim, Manoel de Abreu, português, de 25 anos,
casado, alfaiate, analfabeto, narra a briga que teve com seu
empregado Bernardo Francez, italiano, de 17 anos, solteiro,
analfabeto:

[...] que Bernardo Francez era seu empregado e ontem


saiu sem ter para tal fim pedido a necessária licença pelo
que quando voltou fez‑lhe as contas e o despediu, ten­
do Bernardo ficado a dever‑lhe vinte e quatro mil-réis
provenientes do restante de um terno de roupa; que
Bernardo saiu e às duas horas da tarde voltou e pela

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janela começou a insultá‑lo com frases ofensivas como
sejam filho da puta, corno e outros e apanhando de uma
pedra a arremessou para sua casa indo ela quebrar o
vidro da janela; que ele declarante exasperou‑se com
esse procedimento de Bernardo tirando de sua gaveta o
seu revólver “Bul­d og” e disparou dois tiros. 72

O empregado Bernardo dá uma versão diferente dos


fatos, afirmando que ele mesmo havia se despedido do em­
prego e que a briga com Manoel de Abreu se deu porque
este havia estragado um terno de sua propriedade, cor­t ando‑o
com uma tesoura e arremessando‑o na rua. A defesa do réu
neste processo exemplifica novamente como o discurso ju­
rídico desempenha o seu papel na construção ideológica da
oposição bom trabalhador/mau trabalhador ou trabalhador/
vadio. O advogado de defesa afirma que Ma­n oel “não é um
desocupado, mas um honesto operário alfaiate, que procura
tirar com seu trabalho os meios de subsis­t ência para sua
família”. Temos aí, portanto, a tentativa de enquadrar o
acusado na imagem ideal de homem que é compatível com
a ordem capitalista emergente: Ma­noel é um bom trabalhador,
que cumpre sua função social essencial — a de prover a sub­
sistência de sua família. Ber­n ardo, por outro lado, aparece
no discurso do advogado de defesa como um mau trabalha­
dor, que havia “incorrido em diversas faltas no seu trabalho”,
a ponto de provocar críticas dos fregueses.
No processo seguinte, temos um negociante português
que tem como empregados dois outros portugueses. O pa­
trão Antônio da Mata, de 28 anos, casado, sabendo ler e
escrever, conta como acabou levando um tiro de seu empre­
gado, o compatriota Firmino Rodrigues, de 23 anos, soltei­
ro, analfabeto:

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[...] que mandou o acusado levar um amarrado de cin­
qüenta sacos a um freguês, saindo o mesmo de sua casa
pelas nove horas da manhã. Que o acusado voltou desse
serviço que poderia ser feito em duas horas às quatro
da tarde razão pela qual ele informante admoestou‑o.
Que em resposta disse o acusado que ainda tinha vindo
cedo, limitando‑se ele informante a dizer: bom, está
direito, está a tua vontade. Que o acusado entrou para
os lados da cozinha onde pôs‑se a brincar com seu com­
panheiro José Afonso, enquanto ele informante conti­
nuava na sala no serviço de sacos na presença de Miguel.
Que ouvindo ele informante o acusado dizer: olha que
eu atiro, levantou‑se para impedir a continuação de tal
brinquedo, nada podendo fazer por ter recebido um
tiro no rosto [...] Que o acusado era seu empregado
apenas há oito dias e que anteriormente já o fora tam­
bém sendo certo que entre os dois nunca houve a me­
nor desavença [...]. 73

Neste caso, vemos que Antônio tem dificuldade de man­


ter a disciplina de seus compatriotas e empregados durante
o serviço. As testemunhas dividem‑se entre duas possíveis
ver­s ões dos fatos: alguns depoentes acham que a agressão
foi proposital, pois Firmino ficara ofendido com a repreen­
são que levara de seu patrão; outros depoentes, porém,
procuram inocentar Firmino, dizendo que a arma havia dis­
parado acidentalmente quando Firmino brincava com José
Afonso, seu companheiro de trabalho e patrício. O mais
interessante é que o próprio depoimento do patrão e ofen­
dido não é peremptório a esse respeito: apesar de admitir
que havia repreendido seu empregado, Antônio termina por
dizer que jamais havia tido desavença com Firmino. Bene­
ficiado pela dúvida, o réu é facilmente absolvido no júri.
Parece, contudo, existir uma relação direta entre ­m aior
grau de hierarquização das posições no trabalho e a ocor­

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rência de conflitos durante o serviço, pelo menos em em­
preendimentos econômicos de pequeno ou médio porte. A
maior hierarquização aumenta a distância entre os patrões
e os empregados mais subalternos, criando uma camada
intermediária de funcionários privilegiados que não é bem
vista pelos funcionários inferiores. Quando estão ausentes
as mediações da hierarquia de comando, é menor a distância
social entre patrão e empregado, o que tende a despertar
menores contradições entre ambos. O pequeno negociante
ou empresário, não raro recém‑saído dos próprios meios
operários, serve antes como um modelo de ascensão social
para cada um de seus empregados, que o respeitam pelo seu
êxito pessoal. 74 Convém, no entanto, não idealizar o quadro:
mesmo que a documentação coligida mostre que o empre­
gado muitas vezes se identifica claramente com os interesses
do patrão nos pequenos empreen­d imentos econômicos, a
situação é em si contraditória e potencialmente conflitiva.
No último processo comentado, por exemplo, vimos que o
patrão Antônio e o empregado Firmino têm uma concepção
diferente acerca do tempo necessário para realizar a tarefa
“de levar um amarrado de cinqüenta sacos a um freguês”.
O patrão acha que Fir­m ino demorou‑se demasiadamente na
tarefa, mas este retruca que “ainda tinha vindo cedo”. Este
curto diálogo mostra bem os limites objetivos de uma pos­
sível comunidade de interesses entre patrão e empregado,
mesmo no âmbito do pequeno empreendimento econômico.
De qualquer forma, as evidências indicam que o au­
mento das mediações da hierarquia de comando ­e nfraquece
de certa forma a eficácia da dominação paternalista, acir­
rando‑se então os conflitos entre os empregados e os funcio­
nários intermediários que representam, por via de regra, os
interesses do patrão. Assim, por exemplo, o português An­

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tônio Ferreira da Costa era o encarregado de uma co­c heira
onde também trabalhava um outro português, de nome
Joaquim Pereira. Certo dia, por volta das seis horas da tar­
de, Joaquim voltava do serviço para a cocheira e, ao apro­
ximar‑se, Antônio lhe gritou para que não soltasse ainda os
animais. Seguiu‑se uma “grande questão” na qual Joaquim
agrediu Antônio. Em seu depoimento, Joaquim se defende
dizendo que o encarregado o havia maltratado, implicando
com ele “a ponto de querer intervir em seu serviço”. 75
O próximo processo é bastante rico, envolvendo em
uma mesma situação relações paternalistas entre o represen­
tante do patrão, isto é, o gerente, e alguns empregados,
insubordinação de outros empregados em relação à autori­
dade deste mesmo gerente e, como pano de fundo do con­
flito, as rivalidades nacionais entre brasileiros e portugueses
e também entre imigrantes de nacionalidades diferentes. A
cena se passa na cocheira de uma empresa de transporte de
carnes verdes, à Rua Mariz e Barros. A cocheira pertence a
uns portugueses, que não estão presentes na ocasião. Lá
trabalhavam diversos empregados de nacionalidade portu­
guesa, mas havia também alguns brasileiros e pelo menos
um espanhol. Havia uma considerável hierar­q uização do
comando, pois, além dos patrões ausentes, temos ainda, pelo
menos, um encarregado ou gerente e seu assessor, ambos de
nacionalidade portuguesa. O acusado Maciel Rodrigues
Veiga, espanhol, de 27 anos, solteiro, sabendo ler e escrever,
cocheiro, dá a sua versão dos fatos:

[...] quando estava a aparelhar bestas para metê‑las na


carroça, sucedeu que uma delas lhe pisou o pé, e então
ele deu nela uma pancada com um pequeno pau que
apanhou no chão; que vendo isto o feitor Nogueira

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repreendendo [sic] dizendo‑lhe que não queria que
maltratasse os animais e que estava despe­d ido do servi‑
ço, e chamando‑o de filho da puta a uma observação
que lhe fez [...], respondeu que filho da puta era ele
Nogueira; que ouvindo isto, Nogueira avançou para
ele armado de machado, circundado por mais outras
pessoas, que [...] agredido, fugiu dizendo: “Esperem
aí que vocês me pagam”; que foi à casa, armou‑se de
um revólver de seu uso e com ele armado voltou à co‑
cheira; que aí chegado, disse, dirigindo‑se ao feitor
Nogueira “agora estou aqui, se vocês querem me matar,
que venham”; que nesse ato Domingos Antônio Nunes,
conhecido por Pi­c a‑Fumo [...] que estava à porta do
escritório puxou do revólver e deu no declarante um
tiro que não o atingiu; que recebendo o tiro, o decla‑
rante correu para o fundo da oficina [...] ouvindo um
rapaz gritar que estava ferido [...]; que Domingos Pi‑
ca‑Fumo não gosta dele declarante e tem má vontade
contra ele há muito tempo, tendo tido também questões
por motivos de serviço com o feitor Nogueira que re‑
puta também seu desafeto. 76

O mais revelador neste processo é reparar como se


constituem os grupos em confronto. Apoiando a versão do
espanhol Maciel, segundo a qual havia sido o português
Pica‑Fumo, uma espécie de assessor do gerente, o autor do
disparo que acabou por matar um outro empregado da co‑
cheira, temos diversos cocheiros de nacionalidade brasileira.
Estes cocheiros dizem ainda que o animal que levara a pan‑
cada de Maciel era “trêfego e insubmisso” e que realmente
diversos empregados seguiram o espanhol armados de paus
e vassouras. Para completar, afirmam que o acusado era
homem “trabalhador, sempre empregado e de bons costu‑
mes”. O outro grupo, encabeçado pelo gerente e por Pi‑
ca‑Fumo, era constituído quase exclusivamente por portu‑

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gueses e, segundo sua versão dos fatos, o espanhol Maciel
havia espancado “brutalmente” o animal, teria xingado No­
gueira de “galego” e “filho da puta” e havia disparado di­
versos tiros.
A situação descrita contém em si vários dos antagonis­
mos possíveis e que temos visto repetidamente nestes mi­
crogrupos de trabalho que analisamos. Primeiro, temos a
oposição já amplamente vista entre os empregados bra­
sileiros e os portugueses. Os brasileiros apóiam em sua
­m aioria a versão do acusado, o espanhol Maciel, enquanto
todos os portugueses apóiam a versão dada pelo gerente e
por Pica‑Fumo, seus compatriotas. Segundo, temos o anta­
gonismo entre alguns empregados — o espanhol e alguns
brasileiros — e os funcionários intermediários da hierarquia
de comando na cocheira. O episódio relatado se inicia quan­
do o espanhol Maciel não aceita a repreensão do gerente e
se insubordina. Finalmente, o advogado de defesa parece ter
percebido bem o sentido do jogo de forças em questão ao
contestar os depoimentos dos empregados portugueses da
cocheira, dizendo que eles eram “dependentes” do gerente
e de Pica‑Fumo. Com isto, ele parece compreen­d er que os
empregados portugueses gozavam de uma situa­ç ão privile­
giada na dita cocheira, pois seus patrões e os funcionários
intermediários eram seus compatriotas. O próprio fato de
que os funcionários intermediários eram portugueses já
mostra que os patrícios dos proprietários da cocheira esta­
vam mais justificados em sonhar com a ascensão social em
futuro próximo e, por conseguinte, apoiavam mais facilmen­
te o gerente quando do confronto deste com um seu com­
panheiro de trabalho.
Em outro processo, vemos uma situação em que, num
conflito entre um funcionário intermediário, no caso um

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chefe de tráfego de uma companhia de bondes, e um fun­
cionário subalterno, muitos empregados parecem coagidos
a apoiar a versão do chefe de tráfego com receio de possíveis
represálias. O chefe de tráfego resolvera passar um fiscal do
quadro dos fiscais efetivos para a reserva. Daí para a frente
existem duas versões sobre os acontecimentos: o chefe diz
que o fiscal se revoltara e tentara assassiná‑lo a tiros de re­
vólver; o fiscal, por outro lado, diz que tudo não passava de
invenção e que nem sequer estivera no local mencionado
como a cena do crime. As testemunhas, todos portugueses
e espanhóis, apóiam a versão do chefe, mas não de forma
muito contundente. Em geral dizem que viram o acusado
no local do crime e que ouviram disparos, mas alguns deles
afirmam que viram o acusado dar os tiros contra o ofendido.
Contestando uma destas testemunhas, o acusado diz que “a
mesma deu seu depoimento por insinuação do ofendido,
que sendo chefe do tráfego [...] se assim não procedesse
teria sido demitido perdendo o lugar”. O juiz parece dar
mais crédito à versão do fiscal, ressaltando até mesmo que
fora o próprio ofendido quem dera a queixa, sendo que a
polícia não havia sabido do ocorrido anteriormente. Justi­
ficando sua decisão de declarar im­p rocedente a denúncia, o
juiz escreve:

[...] considerando que as testemunhas inquiridas no


sumário [...] são em­p regados subalternos da aludida
companhia e dependentes mais ou menos do suposto
ofen­d ido; e que essas testemunhas mereceram por isso
a contradita que o réu lhes opôs; que essas testemunhas,
além de serem suspeitas, são discordes e incompletas
em seus depoimentos [...] julgo improcedente a de­
núncia [...]. 77

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TRABALHO LAR E BOTEQUIM.indb 129 25/07/2012 09:43:38


E, para concluir, o juiz resolve infligir ao réu “castigos
moderados, como aqueles que infligem os pais aos filhos”,78
e, no caso, aplicava-se um sermão: que o réu seja posto “em
liberdade [...] depois de vir a minha presença a fim de ser
convenientemente admoestado”.

Senhorio e inquilino

Não há quem ignore que, com as demo­


lições e reconstruções que o aformo­s ea­
men­t o da cidade exigiu, houve no Rio
uma verdadeira “crise de habitação”. O
número de casas habitáveis diminuiu em
geral, porque a reconstrução é morosa.
Além disso, diminuiu especialmente, e
de modo notável, o número de casas mo­
destas, destinadas à moradia da gente
pobre — porque, substituindo as ruas
estreitas e humildes em que havia pré­
dios pequenos e baratos, rasgaram‑se
ruas largas e suntuo­s as, em que se edifi­
caram palacetes elegantes e caros. E que
fizeram os proprietários dos casebres e
dos cochichólos que as picaretas demo­
lidoras pouparam? viram na agonia da
gente pobre uma boa fonte de renda, e
aumentaram o preço dos seus prédios. É
uma crise completa e terrível: há poucas
casas para os humildes, e essas mesmas
poucas casas alugam‑se por um preço
que não é acessível ao que possuem os
poucos favorecidos de fortuna, os que
apenas podem ganhar ordenado exíguo
ou minguado salário.
O lavo B ilac 79

Para sobreviver, os nossos personagens não precisam


apenas de uma atividade que lhes garanta um rendimento.

130

TRABALHO LAR E BOTEQUIM.indb 130 25/07/2012 09:43:38


Eles precisam, também, de um teto. E, como nos explica
Bilac, o problema da moradia era sério no Rio de Janeiro
no início do século XX.
Os trechos a seguir constam das edições do Correio da
Manhã de 6 de janeiro e de 25 de novembro de 1906. Am­
bos tecem comentários a respeito da administração do pre­
feito Pereira Passos (1902‑1906) e procuram avaliar os re­
sultados das reformas urbanísticas realizadas no período. O
primeiro editorial foi escrito quando Pereira Passos ainda
era prefeito:

[...] hoje, mais do que nunca, dadas as excepcionais


circunstâncias em que se encontra esta cidade, onde
cresce, dia a dia, a febre, que já parece interminável,
dessas demolições que se estendem por aí afora, deve
provocar nossa atenção a sorte dessa infeliz gente que
vive do produto exclusivo de seu esforço quotidiano.
Como se não bastasse a quadra calamitosa que atraves­
samos, cheia de dificuldades para que o pobre operário
consiga uma modesta colocação, que o ­p onha a coberto
das mais imperiosas necessidades da vida, ainda surge
agora a agravar‑lhe a já penosa situação em que se en­
contra, essa dobadoura, ­v erdadeiramente tresloucada,
da interdição de pequenas casas, decreta­d a pela inspe­
toria de higiene. [...]
A falta de habitação para o trabalhador é absoluta,
ninguém pode negá‑lo. [...]
E ao governo do dr. Rodrigues Alves, que se notabili­
zará, por muitos títulos, nos anais da política nacional,
ficará mais este padrão de glória: — abriu avenidas,
largas ruas, construiu o cais, embelezou e aformoseou
a cidade, embora alicerçando todo esse grandioso edifí­
cio de melhoramentos materiais sobre [...] a desgraça de
uma classe honesta, operosa e digna de melhor sorte. 80

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O segundo trecho foi escrito logo após o término da
administração Pereira Passos, por ocasião de uma homena­
gem ao ex‑prefeito:

Toda a cidade rebentava, a um tempo, numa explosão


bendita de trabalho e em toda parte, de sol a sol, dia a
dia, num esforço sobre-humano, aparecia a figura im­
pressionante do eminente homem, fiscalizando, dirigin­
do, ordenando detalhes do grande plano transformador.
Quatro anos duros, a campanha contra a rotina de qua­
renta decênios que se fizera lei irrevogável nos nossos
costumes [...].
Mas o dr. Pereira Passos venceu. [...]
Ruas largas, avenidas sem fim, entrecruzando‑se, pré­
dios novos, altos, verdadeiros palácios! É o deslum­
bramento. 81

Como explicar que no espaço de apenas alguns meses


o mesmo jornal possa fazer avaliações tão diferentes das
reformas urbanísticas realizadas durante a administração de
Pereira Passos? Teria o jornal realmente mudado de posição?
E, mais importante do que isso, a quem interessavam e o que
significaram estas transformações urbanas que despejaram de
suas moradias nas ruas centrais da cidade cerca de duas de­
zenas de milhares de pessoas em cerca de quatro anos? 82
Enfim, quem “enriqueceu” e quem “empobreceu” com este
processo e quais suas conseqüências para o modo de vida da
classe trabalhadora do Rio de Janeiro no período?­
É antiga e bem conhecida a hipótese de Engels segun­
do a qual a organização do espaço urbano numa sociedade
capitalista ou em transição para o capitalismo seria um me­
canismo de controle social e econômico, utilizado pela bur­
guesia, visando principalmente organizar e disciplinar a
força de trabalho. Esta hipótese, associada à constatação de

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que o desenvolvimento do capitalismo traz consigo o sur­
gimento das grandes metrópoles modernas, forneceu o qua­
dro teórico fundamental de duas recentes e escla­rece­d oras
monografias a respeito da questão das habitações populares
e da administração Pereira Passos no contexto mais amplo
da transição para a ordem capitalista na cidade do Rio de
Janeiro. 83
Constatando o acelerado crescimento da população da
cidade nas três últimas décadas do século XIX, Lia de Aqui­
no Carvalho localiza neste período o agravamento do pro­
blema da moradia na cidade. 84 A autora tenta sempre si­t uar
a questão das habitações populares dentro do contexto das
transformações econômicas que estariam ocorrendo no país
em geral e na cidade do Rio de Janeiro em particular, em
fins do século XIX. Assim, havia um processo de acumula­
ção e concentração de capitais por parte de uma burguesia
emergente que impingia em proveito próprio diversas trans­
formações urbanas que mudavam pouco a pouco o panora­
ma da cidade. As modificações na economia urbana se davam
a partir da realocação de capitais e mão­-de‑obra desviados
do setor agrário decadente — a zona cafeeira do Vale do
Paraíba — e da ampliação do mercado consumidor possibi­
litada pela expansão dos meios de transportes, a generaliza­
ção do assalariamento e a concentração de uma população
migrante na capital. Desta forma, a burguesia comercial
tradicional, que empregava capital e crédito na exportação
de produtos agrícolas e na importação de manufaturas, cedia
terreno a uma nova burguesia comercial, que voltava seus
interesses para os setores dos transportes, serviços em geral
e indústria nascente. Essas transformações na economia
urbana, decorrentes da introdução maciça de capitais outro­
ra investidos em outra área, causaram a valorização do es­

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paço urbano, como corolário do próprio processo de acumu­
lação e concen­t ração de capitais por parte da nova bur­g uesia
emergente.
A valorização do solo urbano, abrindo caminho assim
para a especulação imobiliária, incidiu diretamente sobre o
problema das habitações populares. Escondida então por
detrás de uma política de planejamento urbano que visaria
apenas ao “saneamento” e “embelezamento” da cidade —
que seria batizada de “Maravilhosa” por Coelho Neto em
1908 85 —, uma elite de empresários intimamente associada
ao poder público coordenou um processo de urbanização
que visava orientar a ocupação do espaço urbano de acordo
com os imperativos da acumulação capitalista. A adminis­
tração de Pereira Passos seria o apogeu deste processo, quan­
do, por meio de uma concentração de poderes nas mãos do
prefeito, desencadeia-se um período bastante violento de
reforma urbanística nas áreas centrais da cidade, temperado
por arbitrariedades de toda ordem e demo­lidores golpes de
picareta. 86 Em apenas quatro anos, milha­res de pessoas ti­
veram de deixar suas casinhas em cortiços ou estalagens e
seus quartos em casas de cômodos, que foram desapropria­
das e demolidas por ordem da prefei­t ura. Em seu lugar
surgem a Avenida Central e outras ruas no centro da cidade,
valorizando assim ainda mais o espaço urbano e aumentan­
do o processo de acumulação de capital por meio de espe­
culação imobiliária. Quanto aos populares, que habitavam
em grande número os cortiços e casas de cômodos demoli­
dos, restaram-lhes poucas opções: uma delas era pagar alu­
guéis ainda mais exorbitantes que antes por casinhas ou
quartos nos cortiços e casas de cômodos ainda existentes;
outra opção era tentar mudar‑se para os subúrbios, o que
trazia o grave inconveniente de aumentar a distância a ser

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percorrida diariamente até o emprego; uma terceira opção
era ir habitar um dos inúmeros morros que rodeavam o
centro da cidade. 87 Enquanto não conseguiam uma solução,
os populares tinham também de se precaver para não termi­
narem “hóspedes” das delegacias policiais, pois poderiam
ser processados por vadiagem caso ficassem vagando pelas
ruas centrais da cidade. 88
Em linhas gerais, não há grandes divergências entre Lia
de Aquino Carvalho e Oswaldo Porto Rocha no tocante às
características gerais e ao significado das transformações
urbanísticas que culminaram na administração de Pereira
Passos: ambos confirmam a hipótese de que a segregação
habitacional imposta pelas reformas urbanas do período
representa uma projeção espacial do processo de estru­t ura­
ção de classes característico de uma sociedade em fase de
transição para uma economia de moldes capitalistas­.
Parece, no entanto, que Lia de A. Carvalho tende a
exagerar um pouco a importância do “processo indus­t ria­
lizante” no período como um dos desencadeadores das trans­
formações urbanas em questão. Para a autora, em fins do
século XIX a cidade do Rio de Janeiro já “deixava de ter uma
função eminentemente comercial em virtude do movimento
de seu porto e as atividades dele decorrentes e desenvolvia
um processo de industrialização que lançava as bases da
ocupação da cidade no século XX”. 89 Essa afirmação parece
um tanto exagerada, principalmente porque Lia de A. Car­
valho em certos momentos procura sugerir que as reformas
urbanísticas foram também uma tentativa de resolver o
problema da mão‑de‑obra para a indústria nascente, pois a
idéia seria transferir os trabalhadores para as vilas operárias
construídas junto às fábricas. 90 Na verdade, essas vilas ope­
rárias nunca foram construídas em número suficiente, e a

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orgia demolidora do tempo de Passos apenas agravou o
problema das habitações populares. 91 O setor industrial que
foi realmente beneficiado pelas transformações urbanas foi
o da construção civil, que lucrou amplamente com a espe­
culação imobiliária no período. A análise de Oswaldo Porto
Rocha aponta para uma combinação mais complexa de in­
teresses em torno das obras de “embelezamento” da cidade.
Segundo ele, a administração Pereira Passos representaria o
triunfo não só dos setores ligados à construção civil, mas
também daqueles ligados à expansão dos meios de transpor­
tes e ao grande comércio (de importação, principalmente). 92
Quanto a este último ponto, o próprio traçado da Avenida
Central é revelador, pois liga em linha reta o cais do porto
à área na qual se localizam as principais casas comerciais da
cidade.

Tentemos agora explicar a aparente ambigüidade do


Correio da Manhã em relação à “obra civilizadora” — ou
orgia da picareta — encabeçada pelo engenheiro Pereira
Passos. As transformações urbanas ocorridas no período de
1902 a 1906 opuseram, na verdade, dois grupos de interes­
ses bastante distintos: de um lado, havia a já mencionada
burguesia ligada ao grande comércio de importação, aos
meios de transporte e à construção civil; mas, de outro lado,
tínhamos um grupo talvez menos poderoso, porém bastan­
te tradicional na cidade, constituído pela pequena burguesia
ocupada até então com a especulação imobiliária, a explo­
ração das casas de cômodos e dos cortiços e o pequeno
comércio varejista dos armazéns, armarinhos, vendas etc.
Era contra esta pequena burguesia, com efeito, que se vol­
tava principalmente o poder de fogo da poderosa burguesia
comercial que procurava fazer valer seus interesses de acu­

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mulação capitalista. Apoiados em uma retórica que tentava
imputar a estes pequenos comerciantes e proprietá­r ios de
habitações coletivas a responsabilidade exclusiva pelo “atra­
so colonial” e pelas epidemias que de quando em vez asso­
lavam a capital federal, os empresários mais poderosos e a
administração municipal que os representava procuravam
desapropriar e demolir casarões, cortiços e pequenas casas
comerciais, sob o pretexto da necessidade de sanear a cida­
de e transformá‑la numa metrópole moderna, dotada de ruas
largas e avenidas, a exemplo das grandes cidades européias.
O Correio da Manhã, na realidade, apóia abertamente
a grande burguesia comercial nesta luta contra a pequena
burguesia, olhando com bons olhos o suposto sopro “civi­
li­z ador” trazido pelo sr. Pereira Passos. Tanto assim que, nos
primeiros meses de 1906, o jornal se lança numa ferrenha
campanha contra os “exploradores do povo”, divulgando
cartas que continham as queixas dos inquilinos de diversas
casas de cômodos e estalagens. O conteúdo dessas cartas não
variava muito, referindo‑se geralmente aos altos preços dos
aluguéis, à má qualidade das habitações e à ameaça constan­
te de despejo. 93 Um dos queixosos, por exemplo, escreve­:

Rio, 21.2.06. Exmo. Sr. No vosso órgão defensor da


classe oprimida e dos operários laboriosos que sempre
encontram as colunas francas para relatarem suas quei­
xas, venho hoje expor‑vos, exmo. sr., a crítica situação
em que se encontram dezenas de operários que habitam
os imundos cubículos da estalagem da rua Senador
Pompeu n o 36, de propriedade de um tal sr. Antônio
José Pereira. Além de um aluguel que é demasiado para
essa pobre gente, esse indivíduo aproveita‑se da fraque­
za desses infelizes e com fantásticos mandados de des­
pejo, expulsa a qualquer hora o inquilino que lhe é

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desafeto. Em princípios de dezembro do ano próximo
passado, expulsou ele duas famílias pobres, que tinham
seu aluguel pago em dia, unicamente porque sendo duas
lavadeiras, lhe gastavam muita água! Isto é triste, exmo.
sr.! Só num país desgraçado como o nosso se cometem
estes e outros absurdos contra um operário, porque o
operário não tem valor algum perante a justiça do nos­
so país.

O apoio ao prefeito Pereira Passos, no entanto, não era


incondicional. O jornal exigia sempre que a prefeitura tomas­
se providências no sentido de construir novas casas para os
trabalhadores que estavam perdendo seus tetos no ­c entro da
cidade. É neste contexto que se explica o agressivo editorial
contra o prefeito e o governo de Rodrigues Alves publicado
em 6 de janeiro de 1906. Mas, já em abril do mesmo ano,
Passos havia esboçado um plano para a construção de casas
operárias dentro dos preceitos recomendados pela “higiene”,
o que lhe valeu novamente as graças da imprensa que par­
ticipava e difundia a ideologia do ­p rogresso que estes ho­
mens haviam importado do continente europeu. Segundo o
jornal, a iniciativa de Passos era “digna de todo o aplauso
e... recomendará o nome do prefeito à gratidão desse gran­
de número de sacrificados”. 94 Daí, então, o editorial elogio­
so que podemos ler na edição de 25 de novembro de 1906,
que anunciava com todo o alarde a ho­menagem que “o povo,
sem distinção de classes” — nas pa­lavras do jornal —, faria
ao ex‑prefeito naquela mesma tarde.

Obviamente, no entanto, no confronto entre aqueles


que tinham muito — a grande burguesia comercial — e aque­
les que tinham menos que estes — a pequena burguesia ex­
ploradora das habitações coletivas e do comércio a varejo —,

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os maiores perdedores foram aqueles que nada tinham — a
classe trabalhadora, que morava em grande número nas
habitações coletivas, cada vez mais escassas, caras e precárias,
das freguesias centrais da cidade. A forma como se desen­
volveram as reformas urbanísticas, portanto, tendia a aguçar
o confronto cotidiano direto entre os exploradores das casas
de cômodos e estalagens e seus inquilinos, e isto é realmen­
te o que sugere a análise do número relativamente grande
de processos que localizamos de brigas entre senhorio e
inquilino.
Aqui, novamente, as rivalidades nacionais e raciais de­
sempenham um papel primordial como forma de expressão
das tensões provenientes das dificuldades de se obter um
teto a preço razoável e que ofereça condições mínimas de
ser habitado. Assim, o português Manoel Carvalho, de 33
anos, casado, sabendo ler e escrever, funcionário da Estrada
de Ferro Central do Brasil, era proprietário de uma casa na
qual alugava diversos cômodos. Um de seus inquilinos,
Alpheu Carlos Barroso, brasileiro, de 21 anos, casado, sa­
bendo ler e escrever, operário, nos conta o conflito que teve
com seu senhorio:

[...] que é inquilino do acusado presente, Manoel da


Costa Carvalho, e devido a ter se atrasado no pagamen­
to dos aluguéis da casa, teve ordem de mudança, não
tendo podido ainda mudar‑se por não ter encontrado
outra casa; que hoje às seis e meia horas da tarde, o acu­
sado foi à casa do declarante, e depois de haverem dis­
cutido sobre a mudança do declarante, o acusado tentou
agredi‑lo, sendo obstado por pessoas da casa; que [...] o
acusado Carvalho, voltou novamente [...] armado de
revólver e [...] detonou o revólver três vezes sobre o
declarante [...]. 95

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O próprio acusado e outras testemunhas confirmam que
o motivo da desavença entre os contendores havia sido real­
mente o problema do atraso do aluguel. Mas o acusado,
obviamente, oferece uma outra versão para a luta em si,
dizendo que fora agredido primeiro e que agira em legítima
defesa. Confirmando mais uma vez a solidariedade entre os
imigrantes, dois outros portugueses depõem no processo e
reforçam a versão dos fatos oferecida pelo acusado. O caso
relatado é típico em diversos outros aspectos: temos aqui a
dificuldade de um operário em pagar o aluguel, o problema
de arrumar um outro local para morar, o despejo exigido
pelo pequeno burguês explorador da habitação coletiva.
Finalmente, há também no caso um forte componente de
rivalidade entre brasileiros e portugueses. Três testemunhas,
sem dúvida simpáticas ao acusado, contam que, durante a
acalorada discussão com Alpheu, o acusado foi cercado por
diversos populares que perguntavam em tom desafiador: “O
que é que esse galego quer?” Além disso, após ter ­c ometido
o crime, Manoel teria sido perseguido por populares aos
gritos de “Mata, mata esse galego”.
A verossimilhança e tipicidade do caso relatado são
­t ambém confirmadas por um dos inúmeros delírios anti­lu­­
si­­tanos do cronista Luiz Edmundo. Muitos destes pe­q ue­
no‑burgueses exploradores de habitações coletivas e casas
comerciais no centro da cidade eram portugueses. Assim,
Luiz Edmundo, que considera os “bacalhoeiros” e “taman­
queiros” das ruas centrais da cidade, juntamente com outros
“estrangeiros” — isto é, portugueses — “os autores do ­atraso
nacional”, afirma que entre os principais obstáculos que
Pereira Passos encontrara para “civilizar” a cidade acha­
vam‑se “as conveniências do comércio estrangeiro”. 96 Pare­
ce sem dúvida verdadeiro que o fato de muitos proprietários

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de habitações coletivas serem portugueses contribuía para
acirrar as rivalidades nacionais e raciais entre portugueses e
brasileiros pobres, especialmente os de cor. Assim, o pro­
cesso seguinte relata a briga entre o senhorio português
Antônio Moreira, de 25 anos, casado, analfabeto, e o inqui­
lino Olímpio dos Santos, preto, natural do estado do Rio,
26 anos, casado, analfabeto, pedreiro. O depoimento a seguir
é de uma das testemunhas do conflito e é reproduzido ­q uase
na íntegra, porque nos proporciona um fascinante flagrante
de uma festa íntima de uma família negra e seus amigos num
cortiço da freguesia de Santo Antônio no início do século:

[...] realizava‑se um baile no cômodo onde mora o


ofendido a fim de comemorar o aniversário de uma filha
deste; que o [...] denunciado chegando à porta do quar­
to do ofendido intimou‑o a acabar com o baile com o
que o ofendido não concordou dizendo que estava em
sua casa e que não estava incomodando a ninguém; que
à vista das declarações do ofendido, o denunciado reti­
rou‑se voltando porém pouco depois armado de um
revólver e em atitude agressiva, intimando novamente
ao ofendido a acabar com o baile; que como o ofendido
insistisse em não acabar com o baile, o denunciado sa­
cando o revólver que trazia desfechou três tiros em
direção ao peito do ofendido [...]. Dada a palavra ao
denunciado, a seu requerimento respondeu: que não
tomou parte no baile nem para ele foi convidado; que
conhece Faus­t ina da Conceição, vizinha do quarto onde
se deu o baile, que morreu em conseqüência do susto;
que calcula em seis a oito homens nos que tomaram
parte no baile; que a intimação que o denunciado fez
para acabar o baile foi pouco depois da meia‑noite; que
o denunciado quando foi intimar o ofendido para acabar
com o baile disse que o fazia porque era homem de
trabalho e queria dormir; que os instrumentos que se

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tocaram no baile eram um violão, um cavaquinho e uma
harmônica; que as pessoas que to­m aram parte no baile
eram em geral operários; que não havia algazarra, tan­
to que do portão onde ele testemunha se achava não se
ouvia [...] barulho nenhum [...] Foi contestado o de­
poimento da testemunha, porque é falso [...] visto que­
rer ser agradável ao ofendido, seu amigo íntimo, sendo
a referida testemunha um dos convivas que mais per­
turbava a ordem no referido baile com gritos e algazar­
ra mostrando assim já estarem perturbados pelas bebidas
que haviam na referida festa e que ainda é suspeito o
depoimento da testemunha porque fez parte do grupo
dos agressores do acusado que teve de fazer uso de um
revólver para não ser morto [...]. 97

Além dos diversos detalhes a respeito da festinha familiar


que se realizava na casa de Olímpio, há outros ­e lementos a
destacar no depoimento acima. A testemunha é ­c laramente
simpática ao ofendido, e vemos então o duelo verbal entre
esta testemunha e o acusado Antônio Moreira na presença
do juiz na pretoria. Os contendores defendem versões dife­
rentes do ocorrido e trocam acusações. O interessante é que
as acusações que o português faz ao grupo de brasileiros de
cor procuram reproduzir aspectos da própria visão a ­respeito
do negro comum no discurso das classes dominantes: o
português exige o fim da festa porque era “homem de tra­
balho e queria dormir”, com o que obviamente sugeria que
os negros não eram homens “de trabalho”. Além disso,
afirma que os negros faziam “algazarra” porque estavam
“perturbados pelas bebidas”. O grupo oponente rebate,
logi­c a­m ente, as acusações de que são vadios, bêbados e
­a rruaceiros, dizendo apenas que comemoravam pacificamen­
te o aniversário da filha do ofendido e que a intimação dada

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pelo senhorio era um abuso, pois, como enfatiza o inquilino,
“estava em sua casa” e não incomodava ninguém.
Um outro processo também mostra um caso no qual a
tentativa do senhorio de pôr ordem na casa — ou de impor
sua autoridade sobre o inquilino — acaba causando um
conflito. O conflito se dá entre José Pereira Terra, português,
46 anos, casado, sabendo ler e escrever, barbeiro, e seu in­
quilino Graciliano Nunes, preto, de 35 anos, viúvo, “que se
empregava no serviço de preparo de café nos armazéns de
comissários e exportadores”. Sofia da Conceição, brasileira,
cozinheira, amásia do português José, dá sua versão sobre
a origem da desavença entre os contendores:

[...] que hoje pelas quatro horas da tarde José saiu para
a rua voltando cerca de nove horas da noite para jantar
mudando então de botinas para ficar mais a sua vonta­
de, notando a declarante que ele já estava um tanto al­
coolizado, pois tem o hábito de beber; que enquanto
José jantava o crioulo Graciliano alter­c ava com ele di­
zendo que José nada tinha que ver com a vida dele
Graciliano, ao que José respondeu que tinha pois viven­
do em companhia de uma senhora séria não podia ficar
satisfeito com o procedimento de Graciliano, que fazia
muito barulho de noite e introduzia em casa mulheres
que não eram sérias, ao que Graciliano replicou dizen­
do que tinha o direito de o fazer, porque o quarto era
seu e o paga [...]. 98

O episódio acima se passa numa das casinhas de uma


avenida e ilustra bem a que circunstâncias se submetiam
esses indivíduos devido à dificuldade de se obter uma mora­
dia adequada. Neste caso, é claro que o espaço diminuto que
essas três pessoas ocupam não permite que cada uma goze
de certa privacidade e independência em relação às outras.

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A discórdia surge quando o inquilino, que é aquele que
teoricamente teria menos direito a um espaço sob aquele
teto — “espaço”, aqui, entendido não só como espaço físico,
mas também como liberdade para viver a seu modo — re­
solve reivindicar aqueles que ele acha que são seus direitos,
provocando, ao proceder dessa forma, a reação do senhorio.
A luta por ocupação de espaço no ­i nterior de uma casinha
de avenida se expressa, contudo, na forma que já vimos ser
típica desses confrontos entre ­p ortugueses e brasileiros po­
bres de cor: o português e sua amásia, refle­t indo e reprodu­
zindo os estereótipos dominantes, acusam o negro de ter
uma vida promíscua, pois, nas palavras de Sofia, “introduzia
em casa mulheres que não eram sérias”. Mas o próprio de­
poimento do acusado nos informa que o preto Graciliano
apenas tinha uma namorada, com quem gostava de dormir
no quartinho que alugava. O preto Graciliano, então, pro­
cura asseverar sua independência em relação ao português,
seu senhorio, dizendo que nada lhe devia e que tinha direi­
tos, pois “o quarto era seu e o paga”.
Localizamos também três processos de brigas entre
brasileiros por problemas ligados à questão da moradia. As
situações que dão origem aos conflitos são basicamente
semelhantes às descritas até aqui. No primeiro desses casos,
o serralheiro Artur Monteiro, solteiro, de 19 anos, é acu­s ado
de haver disparado três tiros contra seu senhorio. Artur
explica que realmente estava devendo dois meses de aluguel
ao dito senhorio, mas este argumenta que Artur lhe devia
três meses, pois havia pagado o primeiro mês adiantado e
depois disto não pagara mais nada. As insistentes cobranças
do senhorio e a alegada impossibilidade de Artur em pagar
a dívida acabam originando o conflito. O senhorio de Artur
se chamava Campolin Müller — devendo ser, portanto, um

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descendente de imigrantes ou mesmo um imigrante natura­
lizado —, exercia a profissão de sapateiro, tinha 33 anos,
sabia ler e escrever, e alugava diversos quartos no casarão
em que morava. 99 Em outro conflito causado por dívidas a
serem saldadas, temos o caso de um pequeno construtor que
vai cobrar de um de seus clientes o pagamento por obras
realizadas na casa deste. Esgotados os argumentos verbais,
os contendores trocam tiros. 100
Finalmente, há um novo caso em que o senhorio tenta
pôr ordem em sua casa de cômodos e acaba brigando com
um dos inquilinos. O senhorio se chamava Alexandre Trinda­
de, natural da capital federal, 55 anos, viúvo, e alugava di­
versos cômodos no casarão de sua propriedade. Até no ­porão
haviam se instalado duas famílias inteiras. Uma dessas famí­
lias era constituída pelo viúvo Bernardino Pereira, de 51
anos, contínuo da Escola Politécnica, sua “velha mãe” e ­q uatro
filhos menores. Bernardino chegara em casa embriaga­d o e
fazendo grande alarido, o que provocou a repreensão por
par­t e do senhorio e o conflito entre os contendores. Ber­n ar­
dino morreu devido a uma pancada que levou na cabeça. 101
O quadro geral traçado anteriormente e esses casos que
acabamos de relatar de brigas entre senhorio e inquilino
mostram bem a gravidade da questão da habitação. As pica­
retas “progressistas” do sr. Passos não só demoliram casarões
e cortiços, mas também desorganizaram a vida de muitas
pessoas e agravaram ainda mais as já precárias condições de
sobrevivência das classes populares. O “progres­s ismo” equí­
voco de alto custo social do sr. Passos e seus seguidores,
po­rém, não teve só efeitos devastadores sobre o modo de vida
dos nossos personagens. Renovando tradições antigas, refor­
çando e construindo novos laços de solidariedade e ajuda
mútua, os populares realizaram ajustes em seu modo de vida

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O porão no Engenho Velho — Boulevard 28 de Setembro, 158 — onde Bernardino Pereira morava com sua
família (processo criminal no qual foi réu Alexandre José da Trindade, n o 1.076, maço 895, galeria a, 1910).

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que lhes permitiram sobreviver à ânsia demolidora — e acu­
muladora de capital — da grande burguesia comercial da
cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Veremos
estes ajustes e estratégias de sobrevivência praticados pelos
populares com o objetivo de contornar o problema da habi­
tação quando analisarmos as relações de amor, de família e
de amizade entre nossos personagens.

Conclusão — Ambigüidades e paradoxos na experiência de


vida da classe trabalhadora; o caso dos estivadores

A nossa preocupação aqui é tentar compreender como


a classe trabalhadora vivencia — aceitando, resistindo ou se
submetendo à força — a dominação de classe e o controle
so­c ial numa sociedade capitalista. Há, na verdade, que distin­
guir dois níveis na análise: de um lado, temos a questão da
complexidade dos mecanismos de controle social no mundo
capitalista; de outro, há o problema de tentar explicar a eficá­
cia e os limites do exercício deste controle a partir da recons­
tituição das condições de vida e da visão de mundo da classe
trabalhadora em questão. Estes dois níveis de análise, no
entanto, são absolutamente comple­m entares e só fazem sen­
tido se abordados como uma totalidade de relações comple­
xas, sutis e, às vezes, contraditórias.
O controle social numa sociedade capitalista procura
abarcar todas as esferas da vida, todas as situações possíveis
do cotidiano: este controle se exerce desde a tentativa do
estabelecimento da disciplina rígida do espaço e do tempo
na situação de trabalho até a tentativa de normatizar ou
regular as relações de amor e de família, passando, nos in­
terstícios, pela vigilância e repressão contínuas dos aparatos

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jurídico e policial. O empreendimento do controle social no
mundo capitalista, portanto, diz respeito à totalidade das
relações sociais por definição, e só as necessidades incontor­
náveis da redação deste texto explicam que tratemos do
assunto em diversos capítulos, abordando sucessivamente
as situações de trabalho, de amor, de lazer e de resistência
explícita à autoridade. Em todas estas esferas da vida, con­
tudo, o que se tem é a explicitação de um mesmo tipo de
controle — aquele necessário à reprodução e perpetuação
de relações capitalistas de produção —, mas que se expressa
de diversas formas — que variam desde o paternalismo da
relação patrão–empregado em diversos contextos até a vio­
lência explícita da força policial nas ruas da cidade.
Este primeiro capítulo, que trata das questões ligadas
às situações de trabalho e ao problema da habitação, já nos
permite levantar uma hipótese importante a respeito do
exercício do controle social numa sociedade capitalista.
Normalmente, quando pensamos em controle social, temos
em mente um todo complexo de relações através das quais
a classe dominante garante a subordinação social da classe
trabalhadora. Assim, pensamos numa relação na qual a clas­
se dominante é o sujeito, isto é, a protagonista de uma re­
lação de dominação na qual a classe trabalhadora é simples
objeto. Se parece simples constatar que a classe trabalha­d ora
é mero objeto no que diz respeito à exploração econômica,
não parece tão simples apreender o caráter da dominação
compreendida num sentido mais amplo, que abrangeria a
totalidade das relações sociais. O que parece ocorrer, de fato,
é que a classe trabalhadora é, em certa medida, sujeito de
sua própria dominação. Em outras palavras, não basta per­
ceber uma relação de dominação a partir dos mecanismos
de controle social mais ou menos conscientemente elabora­

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dos pela classe dominante no sentido de reproduzir certo
tipo de relações sociais que a beneficia. É necessário pensar
também nos elementos da ideo­logia popular que facilitam
a reprodução destas relações sociais, ou seja, existem elemen­
tos na visão de mundo da classe trabalhadora que a trans­
formam, em certos aspectos, em agente inconsciente de sua
própria dominação.
Assim, por exemplo, as divisões nacionais e raciais eram
um aspecto da visão de mundo das classes populares do Rio
de Janeiro na Primeira República que obstaculizava um
processo de tomada de consciência destes populares. Estas
divisões nacionais e raciais, que eram, a um só tempo, um
legado da tradição histórica e uma reelaboração surgida num
momento crucial da transição do trabalho escravo para o
trabalho livre no país, funcionavam como um elemento de
facilitação do controle social, transformando então a classe
trabalhadora, neste sentido específico, em agente ou sujeito de
sua própria dominação.
Existem também outras mediações da dominação de
classe numa sociedade capitalista que desempenham papel
semelhante e que têm caráter mais geral do que o problema
das divisões nacionais e raciais — que são uma característi­
ca mais particular do processo histórico da cidade do Rio
de Janeiro. Vimos, por exemplo, como na conjuntura espe­
cífica dos anos da virada do século no Brasil havia um pro­
cesso de fixação de valores que iriam justificar e reforçar a
tran­s ição para a ordem burguesa no país. Alguns dos pontos
fundamentais desta nova ideologia de trabalho veiculada
originalmente pelas classes dominantes eram a disciplina, a
dedicação e a competência profissional, que aumentariam
as condições de competitividade do indivíduo — isto é, do
trabalhador — no mercado de trabalho assalariado. Ora,

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vimos também que as condições árduas da luta pela sobre­
vivência — salários baixos, abundância de força de trabalho,
habitação escassa e em condições precárias — serviam para
incutir nos membros da classe trabalhadora que eles tinham
de competir uns com os outros no intuito de garantir a re­
produção material de sua existência. Desta forma, o valor
“competição”, elemento fundamental enquanto formador
da ética de trabalho capitalista, apresentava um sentido para
os populares na medida em que cor­respondia de certa forma
às condições concretas de vida que experimentavam.
Ressalte‑se, no entanto, que a situação é um tanto am­
bígua. Se é verdade que as condições concretas de vida dos
populares propiciavam em certa medida a absorção de valo­
res que facilitavam o controle social, não é menos verdade
que esses valores veiculados pela classe dominante eram
“lidos” ou interpretados de forma um tanto diferente e até
contraditória pelos membros da classe trabalhadora. Assim,
por exemplo, enquanto na ideologia do trabalho construída
pelos poderosos o valor “competição” significava basica­
mente competência profissional — isto é, habilidade téc­n ica,
disciplina, obediência etc. —, para os populares este valor
significava necessidade de sobreviver, de garantir a repro­
dução material da existência. Em termos de prática de vida
das classes populares, então, a necessidade de ser competi­
tivo — isto é, de ser bem‑sucedido na luta pela sobrevivên­
cia — traduz-se em ações aparentemente contraditórias. De
um lado, temos um mundo do trabalho em geral conflituo­
so, onde os indivíduos competem com o intuito de garantir
um meio de sobrevivência. Mas, por outro lado, esta neces­
sidade de sobreviver se traduz também na construção de
redes de solidariedade e ajuda mútua entre familiares, ami­
gos e vizinhos, que visam via­b ilizar a reprodução da exis­

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tência de todos. 102 Desta forma, o valor “competição” se
reveste não só de um conteúdo de luta e de desagregação,
mas também de solidariedade e de espírito comunitário.
A realidade do controle social é, portanto, do ponto
de vista da classe trabalhadora, algo ambíguo e paradoxal.
É ambíguo no sentido de que dá ensejo a práticas cotidia­
nas aparentemente contraditórias, isto é, práticas de micro­
lutas intestinas e de construção de laços de solidariedade.
É paradoxal no sentido de que a visão de mundo das clas­
ses populares contém e é acrescida continuamente de ele­
mentos que as tornam não só objetos do controle social,
mas também sujeitos de seu próprio controle. Reside nes­
te último aspecto, talvez, a principal sutileza da dominação
de classe numa sociedade capitalista: aqueles que são ob­
jeto de exploração econômica se sentem, na maior parte
do tempo, como se fossem os principais autores de sua
própria vida.

É quando tentamos analisar a classe trabalhadora em


movimento, ou seja, procurando fazer reivindicações em seu
próprio benefício, que podemos ter uma idéia mais exata de
quanto as ações e atitudes do dia‑a‑dia obscuro dos populares,
já reconstruídas em parte nos itens anteriores deste capítulo,
criam um padrão ideológico que contém em si os limites ne­
cessários da consciência de classe destes homens e mulheres
num determinado momento histórico. A experiên­c ia de um
grupo de trabalhadores numeroso e importante para a ci­dade
do Rio de Janeiro na República Velha — os estivadores —
irá nos permitir observar de perto as articulações entre a es­
trutura das mentalidades e atitudes mais simples dos popu­
lares vistas até aqui e algumas limitações necessárias do
movimento operário da Primeira República.

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É relativamente óbvio constatar que a mão‑de‑obra
portuária, por estar localizada num setor básico de uma
economia agroexportadora, encontra‑se numa posição de
negociação bastante forte. 103 As greves dos portuários, assim
como as dos ferroviários, causam perdas financeiras maciças
e são consideradas mais perigosas ainda por envolverem um
grande número de trabalhadores. Um trabalhador de estiva
no Rio de Janeiro do início do século XX era em geral bas­
tante consciente de sua situação de classe e valorizava o
sindicato a que pertencia; porém, o movimento dos por­
tuários da cidade no período esteve sempre limitado por
deter­m inações estruturais profundas, como veremos.
A reconstituição de algumas ações individuais ou de
pe­q uenos grupos de estivadores pode exemplificar de ma­
neira mais clara a consciência que estes homens tinham de
sua situação de classe e até nos esclarece sobre algumas
práticas cotidianas de resistência que eles utilizavam. Assim,
Luiz Castilhos, branco, natural do estado do Rio, de 42 anos,
solteiro, sabendo ler e escrever, conta a briga que teve com
Joaquim de Souza, mulato, de 32 anos, casado, analfabeto:

[...] que trabalhava no trapiche Comércio à rua da Saúde,


onde também trabalhava Joaquim Antônio de Souza; que
o trabalho que na ocasião faziam o declarante, Joaquim e
outros era pesar carne‑seca; que ­e ntão ali chegando um
homem que não é vagabundo, [...] pediu a Joaquim
um pe­d aço de carne para ­c omer; que Joaquim como
resposta disse ao homem que pedia que fosse pedir à
puta que o pariu; que o declarante ­f azendo ver a Joa­
quim que ha­v ia muita carne e que por conseqüência um
pedaço que desse ao homem para comer em nada pre­
judicaria ao dono da mercadoria, Joaquim voltando‑se
para o declarante man­d ou‑o também a puta que o pariu;
que em vista do mau humor de Joaquim o declarante

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retirou‑se do tra­p iche visto como naquele momento
terminaria o trabalho do dia, que em ­s eguida o decla­
rante foi à pa­g adoria receber a sua diária, que ao voltar
da pa­g a­d oria [...] Joaquim desfechou‑lhe ­q uatro ou
cinco tiros [...]. 104

Temos aqui um conflito que se origina a partir de uma


questão em torno de um carregamento de carne‑seca, mas
que também explicita na realidade duas concepções dife­
rentes a respeito da relação patrão–empregado. De um lado,
temos Joaquim de Souza, que não concorda que seus com­
panheiros de trabalho levem pedaços de carne‑seca para
comer e se justifica declarando que estava “zelando o inte­
resse de seus patrões”. Por outro lado, temos Luiz Castilhos
e outros estivadores, que não viam nada de mal em pegar
alguns pedaços de carne, pois em nada “prejudicaria ao
dono da mercadoria”. Vemos aí, portanto, um trabalhador
que se identifica claramente com os interesses de seu patrão
neste caso específico, enquanto outros procuram praticar
pequenas sabotagens que revelam uma consciência nítida
de que os interesses do patrão não são os seus. Esta con­
trovérsia entre trabalhadores que percebem a relação pa­
trão–empregado basicamente como uma relação de coope­
ração paternalista e aqueles que a concebem como uma
relação conflituosa está presente tanto nas ações indivi­d uais
dos trabalhadores de estiva quanto nas ações coletivas
desta categoria profissional.
Mas as práticas cotidianas de resistência são múltiplas
e variadas. Em outro processo, temos uma briga entre dois
feitores de estiva “por questão de serviço”. 105 Os dois ho­
mens se defrontaram na Rua de Santo Cristo, e um deles
acabou ferido à bala no nariz. O acusado foge na ocasião, e
diversos outros estivadores depõem na delegacia sobre o

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ocorrido. O acusado é finalmente preso, e as autoridades
judiciárias expedem diversos mandados intimando as tes­
temunhas do inquérito policial a prestar suas declarações na
pretoria. Apesar das inúmeras intimações, que duram meses,
os estivadores arrolados como testemunhas não se apre­
sentam para depor. O juiz, diante da insuficiência de provas,
julga improcedente a denúncia. Este procedimento de trun­
car o andamento do processo e facilitar a absolvição do réu
por insuficiência de provas é bastante comum nos processos
analisados que relatam brigas entre esti­v adores. Este fato
parece indicar um certo acordo tácito entre esses homens de
resolver suas desavenças entre eles apenas, recusando, sem­
pre que possível, a mediação das autoridades policiais e
judiciárias.
O caso seguinte relata um conflito ocorrido durante a
greve de sapateiros em 1906. O contramestre da fábrica de
cal­ç ados Condor, o português Eduardo Martins, casado,
de 35 anos, mostrou‑se contrário à greve, provocando a
ira de muitos sapateiros. No dia 5 de abril, Martins voltava
para sua casa em Inhaúma acompanhado de alguns operários
e, quando passava em frente ao botequim do Fiúza, bas­t ante
popular na localidade, foi interpelado por um grupo de in­
divíduos descontentes com o seu posicio­n a­m ento em re­lação
à greve. Segue‑se um grande conflito entre os dois gru­p os,
e Martins, ao identificar seus oponentes na dele­g acia, decla­
ra “que conhece quase todos os seus agressores apenas de
vista, os quais são sapateiros atual­m ente em greve sendo que
também se achavam acompanhados de indivíduos que não
fazem parte dessa classe e sim estivadores [...]”. 106
Outras testemunhas, ao que parece todas pertencentes
ao grupo de Martins, também declaram que havia estiva­
dores entre o grupo de sapateiros descontentes. O caso in­

154

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dica, portanto, que parecia haver entre os estivadores uma
certa consciência de que a defesa dos interesses de sua cate­
goria profissional passava necessariamente pela defesa dos
interesses da classe trabalhadora como um todo. 107
Estes poucos casos relatados até aqui mostram aspectos
interessantes da consciência que os estivadores tinham de
sua situação de classe. No entanto, os episódios contidos
nos processos seguintes, que relatam ações corriqueiras
individuais de estivadores e suas participações no movimen­
to operário, revelam os limites necessários da consciência
de classe desses homens. No primeiro caso, temos dois traba­
lhadores que se enfrentam numa situação típica de compe­
tição no trabalho. Segundo uma das testemunhas, a origem
da rixa entre os dois homens ocorreu quando ambos troca­
ram empurrões, na ânsia de dar seus nomes ao apontador.
Após um período de troca de provocações, os contendores
se enfrentaram no próprio cais do porto. 108 Em outro caso,
dois estivadores brigam no trapiche em que trabalhavam
“por questão de preferência no serviço de descarga de café”,
como afirma um comissário de polícia. O acusado se cha­
mava Caetano Damásio, pernambucano, de 19 anos, soltei­
ro, sabendo ler e escrever, e o ofendido era Manoel Gomes,
português, de 25 anos, solteiro, analfabeto. A inimizade
entre os dois homens talvez tivesse um conteú­d o de rivali­
dade nacional, mas, de qualquer forma, exempli­f ica nova­
mente o caráter competitivo da situação de trabalho desses
homens. Uma das testemunhas relata assim o ocorrido:

[...] que estava em uma embarcação [...] que descarre­


gava farinha e feijão na ponte do trapiche Silvino nas
docas, [quando viu?] travarem discussão à que se seguiu
luta corporal, os trabalhadores Caetano Da­m ásio e Ma­
noel Gomes, ocasionada pelo fato de Caetano Damásio

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arrebatar um saco para conduzir, tirando-o das mãos do
declarante que o ia entregar a Ma­n oel Gomes. Que
depois disso ambos subiram para o cais e logo após o
declarante ouviu o estampido de um tiro e vozes que
diziam “lá o homem matou o outro” [...] “pega! pega!
assassino” [...]. 109

“Competir”, palavra de ordem numa sociedade capita­


lista, traduzia-se em práticas cotidianas concretas dos tra­
balhadores de estiva. Interiorizar um determinado conceito
de competição — mesmo que num sentido aparentemente
distinto daquele veiculado pelos apologistas da nova ideo­
logia do trabalho — tem sérias conseqüências na vida desses
homens. Viver competitivamente significa perceber a si
mesmo como um ser basicamente solitário que se constitui
no principal agente ou construtor de seu próprio “destino”.
Viver competitivamente significa também interpretar suces­
sos e fracassos como resultados principalmente de potencia­
lidades e realizações individuais, diluindo assim, de forma
dramática, a consciência que esses homens necessitavam ter
do fato de que pertenciam a uma mesma classe social. “Ser”
competitivo significa, acima de tudo, conceber-se como “ser”
individual, solitário, “livre”, e não como “ser” produto de
um conjunto de relações sociais específicas.
Assim, criar organizações fortes para reivindicar direitos
de classe era uma experiência difícil e contraditória para os
estivadores. No dia 13 de maio de 1908, vigésimo aniversá­
rio da Abolição, a Sociedade dos Trabalhadores de Trapiche
e Café, um sindicato de estivadores, realizava uma reunião
em sua sede. 110 A reunião acabou em grande conflito, moti­
vado pela luta entre estrangeiros, especialmente portugueses,
e brasileiros de cor pelo controle do sindicato. O baiano
Rozendo Alfredo dos Santos, de 33 anos, viú­v o, sabendo

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ler e escrever, prestou um longo depoimento na delegacia
explicando o ocorrido. O seu relato resume bem as contra­
dições características da experiência de vida desses homens:
o alto nível de mobilização e consciência de classe expresso
no depoimento combina‑se com uma incontornável repro­
dução da longa tradição de rivalidades nacionais e raciais
entre brasileiros e portugueses. O impulso coletivo dilui‑se,
então, nos limites impostos por toda uma prática de vida.
Rozendo dá sua versão dos fatos:

[...] que é sócio da Sociedade de Resistência dos Tra­


balhadores em trapiches e café, com sede à rua Marechal
Floriano vinte, onde exerce o cargo de membro da Co­
missão de construção do edifício social; que sancionado
o decreto 1.637 de 5 de janeiro do ano passado, que
criou os sindicatos profis­s ionais e sociedades corpora­
tivas, aquela sociedade resolveu modificar a sua [ilegí­
vel] de acordo com o citado decreto que, pelo parágra­
fo segundo do artigo segundo estabelece que só podem
fazer parte das administrações brasileiros natos ou na­
turalizados com mais de cinco anos de residência no
país e no gozo de seus direitos civis; que havendo ter­
minado o mandato da diretoria, procedeu‑se a eleição
da nova diretoria de acordo com os estatutos sociais e
esta teve lugar no dia dez do corrente, na sede, eleição
essa que não foi anunciada com a devida antecedência
o que só foi feito no dia em que se realizou a eleição e
isto mesmo em um só jornal; que irregular­m ente foram
eleitos: Presidente o português José Fernandes Ribeiro
e tesoureiro Manoel Dias, também português [...], que
eleitos esses dois diretores com manifesta violação do
citado decreto, foi anunciada para hoje a assembléia para
dar‑lhes posse; [...] que aberta a sessão e exposto o
motivo desta o depoente pediu a palavra e começou sua
oração protestando contra a ilegalidade da eleição não
só por não ter sido ela previamente anunciada como

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ainda pela violação do referido decreto, pois que os
eleitos eram portugueses não naturalizados e além dis­
so o presidente eleito estava em atraso de dois meses
em suas mensalidades; que o seu discurso era violenta­
mente apartado por um grupo composto de Henrique
Roseira, Antônio Henrique, Rafael Mu­n hoz e Gumer­
cindo Louzada que o interrompiam com apartes amea­
çadores, assim se manifestando partidários do presiden­
te eleito e nes­s es apartes diziam que se o presidente
eleito não fosse empossado, formavam uma nova socie­
dade e davam por terra com o sindicato; que pedindo
a palavra o sócio Rufino Ferreira da Luz, fez ver que
mesmo antes da promulgação do decreto, já havia pro­
posto, no co­m eço da sociedade que o seu presidente
seria sempre um brasileiro e essa proposta havia sido
aprovada por brasi­leiros e estrangeiros; que nessa oca­
sião o sócio Hen­r ique Roseira que já se mostrava em
atitude agressiva e provocadora, provocou tumulto,
abrindo francamente a luta [...]. 111

Um detalhe talvez mostre de maneira inequívoca o cará­


ter racial da disputa: os estrangeiros presentes apar­t eavam o
baiano Rozendo aos gritos de “abaixo a plebe”. 112 Os resul­
tados deste conflito foram sentidos em curto e médio ­prazos.
Em curto prazo, houve uma sede bastante danificada, com
cadeiras e mesas quebradas e paredes perfuradas por balas,
homens feridos por tiros e facadas e diversas prisões. Em
médio prazo, no entanto, as perdas foram mais dramáticas:
o sindicato entrou em vertiginoso declínio e o número de
seus associados caiu de 4 mil para 200 num só ano. Três
anos depois, a sociedade contava apenas 50 membros, mas
iria revitalizar‑se sob nova liderança. 113
Como já foi mencionado, alguns conflitos indivi­d uais
entre trabalhadores se explicam a partir de concepções dife­
rentes que estes homens teriam da relação patrão–emprega­

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do: por um lado, havia trabalhadores que percebiam esta
relação basicamente como uma relação de cooperação pa­
ternalista; por outro lado, havia os que a percebiam como
uma relação conflituosa. A luta política interna dos sindica­
tos de estiva­d ores refletia de certa forma este conflito de
opiniões. Boris Fausto mostra que na capital federal, no
período, existia uma corrente no movimento operário que
ele classifica de “trabalhista” e que se limitava à defesa das
reivindicações mínimas da classe trabalhadora por via da
colaboração de classes e da proteção do Estado. 114 Assim, o
conflito seguinte, ocorrido na sede da União Operária dos
Estivadores, parece indicar a luta dentro desta organização
operária entre o grupo adepto da posição trabalhista e os
defensores de um sindicalismo mais independente. O con­
flito em questão ocorreu no dia 11 de abril de 1906 e resul­
tou no assassinato do preto Henrique Gomes, de 35 anos,
cometido por Antônio de Figueiredo, um paraibano de 33
anos. Um outro estivador presente na ocasião explica que

de fato havia na União uma divergência por causa de


questões internas que não eram de importância, ­visto que
a última assembléia geral tinha tudo sanado, mas que, en­
tretanto, a animosidade perdurava por questões das
últimas eleições federais em que Figueiredo e grande
número de sócios, por gratidão ao Coronel Leite Ribei­
ro, por muito ter feito em benefício da União, deram‑lhe
votos para deputado ao passo que Henrique era entu­
siasta do grupo que apoiava o candidato doutor Irineu
Machado. 115

Ora, enquanto o coronel Leite Ribeiro apresentava um


perfil bastante conservador, Irineu Machado esteve durante
muitos anos ligado aos núcleos contestadores. Ele era uma

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das figuras de maior prestígio do “jacobinismo” carioca, que
mostrava muito inconformismo com o triunfo da oligarquia
paulista, isto é, da burguesia do café, consolidado com a
ascensão de Prudente de Morais à presidência. Parece que
Irineu Machado esteve até mesmo envolvido num atentado
contra Prudente de Morais. 116
Talvez tão limitadores do alcance do movimento ope­
rário quanto estas lutas por rivalidades nacionais ou motivos
políticos no interior dos sindicatos fossem os ­c onflitos entre
as sociedades de estivadores. 117 No mês de agosto de 1905,
por exemplo, ocorrem sucessivos conflitos entre os membros
de duas sociedades rivais, a União Operária dos Estivadores
e a Sociedade Regeneradora dos Esti­v adores. Já no primei­
ro dia do mês, o Correio da Manhã noticiava que haviam
“ressurgido” as rivalidades entre os es­t i­v a­d ores. 118 Na vés­
pera, um grupo de trabalhadores pertencentes à União Ope­
rária dos Estivadores se apresentou ao comandante do vapor
Campeiro, que se encontrava no cais e precisava ser carrega­
do. Combinado o serviço entre o comandante e os esti­
vadores, estes aguardavam a abertura do trapiche para dar
início ao serviço. Nesse momento, surgiram alguns es­
tivadores pertencentes à Sociedade Rege­n eradora, come­
çando logo um conflito entre os membros das sociedades
rivais. O português José Joaquim Alves, de 37 anos, casado,
deu sua versão dos fatos na delegacia:

[...] que sendo convidado por outros companheiros para traba­


lhar a bordo do vapor “Campeiro”, que se achava atracado no trapi­
che Reis; que seguindo com os seus companheiros do mesmo tra­
piche aí se achava José Gomes Cardozo, conhecido por “Car­do­zinho”
em companhia de seus companheiros. Que Cardozinho per­tence à So­
ciedade da Regeneração e só trabalha com estivadores da mesma
Sociedade e por isso ­q uando ele testemunha e seus companheiros

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da União ­c hegaram ao trapiche [...] foram recebidos [...] a tiros
de revólver [...]. 119

As brigas entre os estivadores se sucedem no período.


No dia 19 de agosto do mesmo ano, o estivador Charles
Wallace levou dois tiros de revólver quando passava pelo
Largo de São Francisco. O agressor fugiu e Charles atribuiu
“a agressão a questões das duas sociedades de estivadores,
vis­t o ter trabalhado ora com sócios de uma, ora de outra”. 120
No dia 20 de agosto, cinco sócios da Sociedade Rege­n era­
dora se encontraram com um numeroso grupo da União. As
provocações começaram, e os cinco sócios da Sociedade
Regeneradora se refugiaram no escritório do chefe de estiva,
onde haviam ido receber seus salários. A chegada da polícia
dispersou o grupo da União. 121 No dia 10 de outubro, o Cor­
reio da Manhã, observando que se havia rompido um perío­
do de “relativa calma” entre os estivadores, volta a noti­c iar
um conflito entre membros das duas sociedades rivais. 122
Não há necessidade de multiplicar ainda mais os exem­
plos neste contexto. A longa trajetória percorrida neste
capítulo já deve ter demonstrado as ambigüidades e con­
tradições inerentes à experiência de vida da classe trabalha­
dora da cidade do Rio de Janeiro na República Velha. Para
viver, no entanto, os nossos personagens não precisam ape­
nas de trabalho e de abrigo. Eles precisam, também, de
amor...

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N otas

1
Sheldon L. Maran, Anarquistas, imigrantes e o movimento operário brasi-
leiro, 1890‑1920. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 31; e Boris
Fausto, Trabalho urbano e conflito social (1890-1920). Rio de Janeiro, São
Paulo: D ifel , 1977, p. 37.
2
Carlos A. Hasenbalg, Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Rio
de Janeiro: Graal, 1979, p. 159.
3
Sobre a lusofobia no século XIX e na República Velha como uma con­
tinuação de um conflito interno, inerente à sociedade colonial, ver
Maria Odila da Silva Dias, “A interiorização da metrópole (1808-1853)”,
in Carlos Guilherme Mota (org.), 1822: dimensões. São Paulo: Perspec­
tiva, 1972, pp. 179-80.
4
Eulalia M. L. Lobo, “Condições de vida dos artesãos e do operariado
no Rio de Janeiro da década de 1880 a 1920”, Nova Americana. Turim,
Einaudi, n o 4, 1981, p. 301.
5
Boris Fausto, Trabalho urbano..., op. cit., pp. 25‑29.
6
Anais da Câmara dos Deputados, 1888, vol. 3, p. 240. Uma versão an­
terior da análise que se segue foi publicada em S. Chalhoub, “Vadios e
barões no ocaso do Império: o debate sobre a repressão da ociosidade
na Câmara dos Deputados”, Estudos Ibero-Americanos. PUC–RS, vol. 9,
n os 1 e 2, jul. e dez., 1983.
7
Sobre os conceitos de “mundo do trabalho” e “mundo da ordem”, ver
Be­renice C. Brandão, Ilmar R. Mattos e Maria Alice R. de Carvalho, A
polícia e a força policial no Rio de Janeiro. PUC–RJ, 1981, Série Estudos,
n o 4.

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8
Anais da Câmara dos Deputados, 1888, vol. 3, pp. 229‑41.
9
Op. cit., vol. 7, pp. 259‑60.
10
Op. cit., vol. 6, p. 152.
11
Op. cit., vol. 3, p. 73.
12
Op. cit., vol. 6, pp. 150‑53.
13
Op. cit., vol. 6, p. 326.
14
Op. cit., vol. 6, p. 152.
15
Op. cit., vol. 6, p. 156.
16
Op. cit., vol. 6, p. 151.
17
Op. cit., vol. 6, p. 227.
18
Op. cit., vol. 6, p. 152.
19
Op. cit., vol. 6, p. 68.
20
A. P. Guimarães, As classes perigosas: banditismo urbano e rural. Rio de
Janeiro: Graal, 1982, p. 1.
21
Sobre o conceito de “classes perigosas” na França do século XIX, ver
Louis Chevalier, Laboring classes and dangerous classes in Paris during the
first half of the nineteenth century. Princeton: Princeton University Press,
1973.
22
Anais da Câmara dos Deputados, 1888, vol. 3, p. 73.
23
José de Souza Martins, O cativeiro da terra. São Paulo: Ciências Huma­
nas, 1979, p. 130.
24
Recenseamento geral da República dos Estados Unidos do Brasil, 1890.
25
Ver, por exemplo, José Ricardo Ramalho, Mundo do crime: a ordem pelo
avesso. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
26
Dados do recenseamento de 1890, reproduzidos em C. Hasenbalg, op.
cit., p. 159.
27
Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, 2 vols.
São Paulo: Ática, 1978; R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros em
São Paulo. Nacional, 1959.
28
Ver, por exemplo, Fernando H. Cardoso e O. Ianni, Cor e mobilidade
social em Florianópolis. São Paulo: Nacional, 1960; Fernando H. Cardo­
so, Capitalismo e escravidão no Brasil meridional. São Paulo: D ifel , 1962;
e O. Ianni, As metamorfoses do escravo. São Paulo: D ifel , 1962.

163

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29
F. Fernandes, “ Weight of the past”, Daedalus, primavera, 1967,
pp. 560-79.
30
Katia Mattoso, Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1982; Robert
Slenes, Escravidão e família: casamento, parentesco e compadrio em
três comunidades escravas, 1760-1888, projeto de pesquisa.
31
Gilberto Velho, “O estudo do comportamento desviante: a contribuição
da antropologia social”, in G. Velho (org.), Desvio e divergência: uma
crítica da patologia social, 4 a ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
32
Neste tipo de interpretação, o problema dos indivíduos que apresentam
comportamento desviante é encarado do ponto de vista estritamente
individual, sendo o fenômeno geralmente definido como endógeno ou
mesmo hereditário no indivíduo que apresenta tal comportamento. Um
exemplo ilustre desse tipo de interpretação são as teorias de Freud e seus
discípulos, que atribuem o surgimento do desvio às falhas do controle
social sobre os imperiosos impulsos biológicos do homem. Para Freud,
os fundamentos são esses impulsos biológicos do homem, sendo que a
construção da civilização ou da ordem social está baseada na “renúncia
às satisfações dos instintos” (Sigmund Freud, Civilization and its dis­
contents. Nova York: W. W. Norton, 1961, p. 44). Sendo assim, no
sistema freudiano o desvio provém do inconformismo com esta repres­
são aos instintos exercida pela ordem social: o comportamento desvian­
te surge quando os impulsos biologicamente enraizados irrompem
através do controle social.
33
G. Velho, op. cit., p. 19.
34
Howard Becker, Uma teoria da ação coletiva. Rio de Janeiro: Zahar, 1977,
caps. 3-6.
35
Pierre Vilar, Iniciación al vocabulario del análisis histórico. Barcelona:
Crítica, 1982, p. 127.
36
Processo-crime de Ramiro Costa (réu), n o 5.135, maço 889, galeria a,
Arquivo Nacional, 1908.
37
Brasil Gerson, História das ruas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Folha
Carioca Editora, s.d.; Boris Fausto, Trabalho urbano..., op. cit., p. 15.
38
Euclides Pereira de Oliveira, n o 4.964, maço 879, galeria a, AN, 1906.
39
Miguel Nunes de Paiva, n o 690, maço 881, galeria a, AN, 1907.
40
Quitério de Barros Feitoza, n o 4.999, maço 880, galeria a, 1907.
41
José Bento de Souza, n o 599, maço 876, galeria a, 1905.

164

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42
Maria Cecília Baeta Neves, “Greve dos sapateiros de 1906 no Rio de Janei­
ro: notas de pesquisa”, Revista de Administração de Empresas, n o 13, 1973.
43
Idem, op. cit., p. 50.
44
Idem, op. cit., p. 51.
45
Manoel Joaquim Torres, n o 4.945, maço 878, galeria a, 1904.
46
Sobre este conceito, ver Mariza Corrêa, Os crimes da paixão. São Paulo:
Brasiliense, 1981, pp. 21‑22, coleção Tudo é História.
47
Para outros exemplos de brigas entre brasileiros e estrangeiros neste
contexto específico, ver José Alves de Almeida, n o 1.074, maço 895,
galeria a, 1911; Amphilóquio Niemeyer, n o 619, maço 876, galeria a,
1905; e Luiz José de Faria, n o 4.995, maço 880, galeria a, 1907.
48
Cândido Gomes da Silva, n o 4.971, maço 879, galeria a, 1906.
49
Joaquim Gonçalves Servos, n o 1.046, maço 893, galeria a, 1909.
50
Victor Fernandes, n o 5.000, maço 880, galeria a, 1907.
51
Bernardino Francisco de Almeida, n o 609, maço 876, galeria a, 1905.
52
Manoel Garcia Chaves, n o 5.001, maço 880, galeria a, 1906.
53
Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro do meu tempo. Rio de Janeiro: Conquis­
ta, 1957, vol. 1, pp. 52‑62.
54
Idem, op. cit., pp. 117‑20. Era sem dúvida de longa data esta presença
maciça dos portugueses no pequeno comércio da cidade; ver, por exem­
plo, Luiz-Felipe de Alencastro, “Prolétaires et esclaves: immigrés por­
tugais et captifs africains à Rio de Janeiro — 1850-1872”, Cahiers du
C riar . Publications de l’Université de Rouen, n o 4, 1984, p. 124.
55
Elias Iunes, n o 603, maço 876, galeria a, 1905.
56
José Antônio Vieira, n o 4.933, maço 878, galeria a, 1904.
57
Gaspar Barros da Silva Porto, n o 615, maço 876, galeria a, 1907.
58
João Bandeira, n o 2.902, maço 2.191, galeria a, 1908.
59
Manoel Antônio, n o 5.137, maço 889, galeria a, 1909.
60
Antenor Moreira Alves da Silva, n o 4.940, maço 878, galeria a, 1905.
61
Alcino Floriano, n o 1.038, maço 893, galeria a, 1910.
62
José Vairo, n o 71, caixa 270, 1907.
63
Sobre a ideologia do branqueamento, ver Thomas E. Skidmore, Preto
no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1976.

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64
Sobre o empenho dos portugueses em manter um certo monopólio
sobre o pequeno comércio da cidade, limitando assim as possibilidades
de ascensão social dos brasileiros pobres, ver Luiz‑Felipe de Alencastro,
op. cit., p. 124; e Warren Dean, “A industrialização durante a Repúbli­
ca Velha”, in Boris Fausto (org.), O Brasil republicano: estrutura de poder
e economia (1889‑1930). São Paulo: D ifel , 1977, p. 271, coleção His­
tória Geral da Civilização Brasileira.
65
Luiz Edmundo, op. cit., vol. 1, p. 31.
66
Anais da Câmara dos Deputados, 1888, vol. 6, p. 151.
67
Note-se, no entanto, que os pequenos e médios empreendimentos — que
empregavam de um a cinco trabalhadores e de seis a 40, respectivamen­
te — eram mais típicos, pelo menos no que tange às indústrias. Ver
Eulalia Maria Lahmeyer Lobo, História do Rio de Janeiro (do capital co-
mercial ao capital industrial e financeiro). Rio de Janeiro: I bmec , 1978,
vol. 2, p. 488­.
68
João de tal, n o 5.114, caixa 1.158, galeria a, 1898.
69
Manoel Bonifácio da Silva, n o 4.935, maço 878, galeria a, 1906.
70
Aluísio Azevedo, O cortiço. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s.d., p.
19. Apesar de os eventos se desenrolarem em São Luís do Maranhão,
um ­o utro romance de Aluísio Azevedo, O mulato (Rio de Janeiro: Edi­
ções de Ouro, s.d.), também exemplifica a questão da solidariedade
entre portugueses e as possibilidades de ascensão social abertas por tais
circunstâncias.
71
Epaminondas Mirandella, n o 735, maço 883, galeria a, 1908.
72
Manoel de Abreu, n o 1.437, maço 903, galeria a, 1906.
73
Firmino Rodrigues, n o 689, maço 881, galeria a, 1906.
74
Ver Boris Fausto, Trabalho urbano..., op. cit., p. 107.
75
Joaquim Alves Pereira, n o 3.865, maço 949, galeria a, 1895.
76
Maciel Rodrigues Veiga, n o 696, maço 881, galeria a, 1907.
77
Leopoldo Ferreira da Silva, n o 724, maço 883, galeria a, 1908.
78
Trecho já citado dos Anais da Câmara dos Deputados, vol. 6, p. 151.
79
Olavo Bilac, “Chronica”, Kosmos, out., 1907, apud Antonio Dimas,
Tempos eufóricos (análise da revista Kosmos: 1904-1909). São Paulo:
Ática, 1983, p. 279.
80
Correio da Manhã, 6 jan., 1906, p. 1.

166

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81
Correio da Manhã, 25 nov., 1906, p. 5.
82
Dado citado por Oswaldo Porto Rocha, A era das demolições: cidade
do Rio de Janeiro: 1870‑1920. Dissertação de mestrado, Universidade
Federal Fluminense. Rio de Janeiro, 1983, p. 84.
83
Refiro-me à dissertação de O. P. Rocha, op. cit., e à de Lia de Aquino
Carvalho, Contribuição ao estudo das habitações populares: Rio de
Janeiro: 1886-1906. Dissertação de mestrado, Universidade Federal
Fluminense. Rio de Janeiro, 1980.
84
L. A. Carvalho, op. cit., p. 16. As observações que se seguem são em
geral baseadas nesta dissertação.
85
O. P. Rocha, op. cit., p. 132.
86
O. P. Rocha relata de forma minuciosa estas arbitrariedades e a concen­
tração de poderes nas mãos do prefeito, no capítulo 3 de sua dissertação.
Luiz Edmundo também conta as exigências de “amplos poderes” que
Passos fez para assumir a prefeitura; cf. op. cit., vol. 1, pp. 29‑31.
87
Havia ainda uma outra solução, que era a de dois ou mais casais ou
famílias dividirem o mesmo teto, como veremos no próximo capítulo.
88
Um rápido exame nas fichas de processos criminais da cidade do Rio de
Janeiro no início do século XX revela um enorme aumento do número
de processos de vadiagem, a partir de 1903. O tratamento dispensado
aos supostos vadios é violentamente condenado por Evaristo de Moraes
no Correio da Manhã, em artigo publicado em 24/7/1905, p. 4. O fa­
moso advogado aponta a existência de indivíduos presos sem processo,
de proces­s os por vadiagem e embriaguez que rolam nas delegacias e
pretorias por muitos meses e, ainda, chama atenção para as arbitrarie­
dades e violências cometidas pela polícia contra os “vadios”. É de se
notar também que ­d atam de 5/2/1903 os decretos n os 4.763 e 4.764
sobre o “Regulamento para o serviço policial do Distrito Federal” e
sobre o “Regulamento da ­S ecretaria de Polícia do Distrito Federal”,
respectivamente, que reformulam amplamente a polícia da cidade vi­
sando aumentar sua capacidade de controle e repressão. É neste mo­
mento, até mesmo, que se cria o Gabinete de Identi­f i­c ação e Estatística,
que, utilizando os modernos métodos da da­t i­loscopia, permite à polícia
um controle e identificação mais precisos dos ­c riminosos. É óbvio,
portanto, que a ação “civilizadora” das picaretas do sr. Passos estava
suficientemente garantida pela ação “saneadora” dos sabres ­p oliciais.
89
L. A. Carvalho, op. cit., p. 26.

167

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90
Lia de A. Carvalho escreve, por exemplo, na página 4: “A política mu­
nicipal em relação ao problema das moradias populares no Rio de Ja­
neiro refletia a preocupação, por parte do poder constituído, de solu­
cionar uma das questões do processo de urbanização da cidade, coloca­
da a partir do desenvolvimento industrial”.
91
A este respeito, ver, por exemplo, o editorial intitulado “Casas para os
pobres”, Correio da Manhã, 15 maio, 1908, p. 1.
92
O. P. Rocha, op. cit., p. 139.
93
Ver edição do Correio da Manhã de 18/2/1906, p. 1, que contém o
editorial de lançamento e justificação da campanha, e de 22/2/1906,
p. 1, para exemplo de carta dos queixosos.
94
Correio da Manhã, 12 abr., 1906, p. 1.
95
Manoel da Costa Carvalho, n o 5.053, maço 884, galeria a, 1908.
96
Luiz Edmundo, op. cit., vol. 1, p. 31.
97
Antônio Moreira, n o 722, maço 883, galeria a, 1908.
98
José Pereira Terra, n o 687, maço 881, galeria a, 1907.
99
Arthur Fernandes Monteiro, n o 4.990, maço 880, galeria a, 1906.
100
José Antônio Cardozo e Joaquim Pereira Rangel, n o 5.072, maço 886,
galeria a, 1908.
101
Alexandre José da Trindade, n o 1.076, maço 895, galeria a, 1910.
102
Ver cap. seguinte deste livro.
103
E. Hobsbawm, Os trabalhadores: estudo sobre a história do operariado. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 209; e Boris Fausto, Trabalho urbano...,
op. cit., pp. 122-23.
104
Joaquim Antônio de Souza, n o 1.057, maço 895, galeria a, 1910.
105
Bonifácio Paim, n o 714, maço 883, galeria a, 1909.
106
Manoel de Almeida Peixoto, n o 1.031, maço 893, galeria a, 1906.
107
Sobre a solidariedade entre os estivadores e outras categorias profis­
sionais, ver Marli B. M. de Albuquerque, Trabalho e conflito no
porto do Rio de Janeiro (1904-1920): um estudo sobre a participação
política das categorias portuárias no movimento operário da Primei­
ra República. Dissertação de mestrado em história, U frj . Rio de Ja­
neiro, s.d., p. 79.
108
Benjamim Guedes, n o 1.034, maço 893, galeria a, 1909.

168

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109
Caetano Damásio, n o 5.156, maço 890, galeria a, 1909.
110
Havia uma diferença, na verdade, entre ser estivador e trabalhador em
trapiche e café: apesar de ambos exercerem a função de carga e descar­
ga de mercadorias, o primeiro exercia sua atividade nos porões dos
navios, e o segundo, no interior dos armazéns; ver M. Albuquerque,
op. cit., p. 78­.
111
Rafael Serrato Munhoz e outros, n o 720, maço 883, galeria a, 1908.
112
Correio da Manhã, 14 maio, 1908, p. 2.
113
Sheldon Maran, op. cit., p. 31.
114
Boris Fausto, Trabalho urbano..., op. cit., p. 52; e Albuquerque, op.
cit., pp. 149‑50.
115
Antônio Francisco de Figueiredo, n o 1.108, maço 897, galeria a, 1906.
116
Dados sobre o coronel Leite Ribeiro e Irineu Machado obtidos em
Dunshee de Abranches, Governos e congressos da República dos Estados
Unidos do Brasil, 1889‑1917. São Paulo, 1918. Sobre Irineu Machado,
as informações foram completadas com dados obtidos em Boris Faus­
to, Trabalho urbano..., op. cit., p. 43, nota 3.
117
Marli Albuquerque não considera importantes os conflitos raciais e
nacionais entre os trabalhadores portuários, enfatizando sempre as
solidariedades entre eles (ver, por exemplo, p. 89). A autora, porém,
tende a exagerar um pouco na ênfase à convivência harmônica e soli­
dária entre os estivadores, como continuaremos a ver nas páginas se­
guintes.
118
Correio da Manhã, 1 o ago., 1905, p. 3.
119
José Gomes Cardozo, vulgo Cardozinho, n o 4.989, maço 880, galeria
a, 1905.
120
Correio da Manhã, 19 ago., 1905, p. 3.
121
Correio da Manhã, 20 ago., 1905, p. 2.
122
Correio da Manhã, 10 out., 1905, p. 2.

169

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...A mando ...

Inquietações teóricas e objetivos

Transformar o agente social expropriado em homem de


bem — isto é, em trabalhador assalariado — requer também
o exercício de um controle sobre sua vida fora do espaço do
trabalho, pois, afinal, um indivíduo integrado à sociedade
se define ainda por certos padrões de conduta amorosa, fa­
miliar e social. Sendo assim, o objetivo deste capítulo é
es­t udar alguns padrões de comportamento revelados por
homens e mulheres da classe trabalhadora ao se envolverem
em relações de amor na cidade do Rio de Janeiro na ­a lvorada
do século XX. Este tema, aparentemente esdrúxulo e açuca­
rado, suscita questões importantes: até que ponto os homens
e mulheres despossuídos que são nossos protagonistas ­n esta
história praticam relações de amor informadas pelos valores
dominantes com que são continuamente bombardeados
pelos veículos classistas de propagação e internalização de
padrões comportamentais? Numa época em que o “amar”,
como tudo, de resto, deveria se enquadrar nos padrões mo­
rais da ordem burguesa que se impunha, como efetivamen­

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te amaram os homens e mulheres da classe trabalhadora?
Viveram eles angustiados pela ânsia de se ajustarem aos
pa­d rões de conduta feitos para eles, ou forjaram valores
próprios que orientaram sua conduta nas situações reais
específicas que vivenciaram? Ou, quem sabe, viveram divi­
didos entre valores que não eram os seus e aqueles que
forjaram efetivamente em sua prática de vida?
Pelo menos no que tange às relações amorosas, este
problema da relação entre normas de comportamento do­
minantes e classes sociais tem sido tradicionalmente abor­
dado em nosso país do ponto de vista da patologia social:
tanto os homens de poder quanto os cientistas sociais têm
ado­t ado o procedimento de comparar os padrões de com­
portamento ideais considerados universais pela classe domi­
nante com a conduta real manifestada pelas classes popula­
res. O passo seguinte é constatar que a conduta real vivida
pelos membros das classes populares não se ajusta aos pa­
drões do­m inantes, concluindo-se, então, que os populares
vivem em um estado anô­m ico ou patológico no qual as re­
lações entre os sexos são caracterizadas pela desordem e pela
promiscuidade, cul­m i­n ando com a desagregação da família.
É lógico que esta linha contínua ao longo da qual os aman­
tes pobres se meta­m orfoseiam em seres promíscuos e anô­
micos pode apresentar as mais variadas sinuosidades. Para
citar apenas um exemplo já conhecido, lembramos que os
negros libertos — por ocasião do debate sobre a repressão
da ociosidade na Câmara dos Deputados alguns meses após
a Abolição — foram descritos pelos barões imperiais, de
forma caracteristicamente simplista e maniqueísta, como
indivíduos que viviam num estado de “depravação dos costu­
mes”, “cheios de vícios” e com baixos padrões morais. 1 Mas,
por outro lado, um pensador do quilate de um Florestan

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Fernandes, munido de toda sua inteligência, de numero­
sos dados em­p íricos e de sofisticado aparato teórico‑meto­
dológico, afirma sobre o mesmo negro liberto que ele
apresenta “de­f ormações introduzidas em sua pessoa pela
escravidão”, “ob­s essão pelo sexo” e que vivia em um es­
ta­d o de “desorganização permanente de suas condições
materiais e morais de existência social”. 2 É estar­r ecedor e
intrigante que pes­s oas tão diferentes cheguem a conclu­
sões tão parecidas.
É necessário desatar o nó górdio. E desatá‑lo neste con­
texto significa mudar a tonalidade e até o sentido das ­n ossas
perguntas. Os teóricos da patologia social deram uma con­
tribuição importante ao constatarem que os padrões de
comportamento amoroso praticados pela classe trabalhado­
ra não se ajustavam àqueles propalados pela classe dominan­
te. A constatação é essencial na medida em que sugere limi­
tes ­c laros à possível eficácia dos mecanismos de controle e
­r epressão sexual ativados pelos detentores do poder e do
capital na conjuntura específica da transição para a ordem
burguesa na cidade do Rio de Janeiro. Mas o sentido do
passo seguinte há de ser modificado: não se trata mais de
rotular de patológico ou anômico tudo aquilo que não se
ajusta satisfatoriamente aos valores característicos da visão
de mundo burguesa, e sim tentar compreender o sentido e
a racio­n alidade intrínsecos ao comportamento amoroso dos
membros da classe trabalhadora. Este sentido e esta racio­
nalidade só podem ser apreendidos a partir da reconstituição
artesanal de inúmeras histórias de amor entre estes indiví­
duos des­p os­s uídos, pois estas histórias — com seus incon­
táveis pequenos detalhes e pelo que revelam de numerosas
experiências reais vivenciadas por estas pessoas — nos in­
formarão dos condicionantes sociais e materiais do ato de

173

TRABALHO LAR E BOTEQUIM.indb 173 25/07/2012 09:43:40


amar nos escalões inferiores da sociedade carioca dos pri­
meiros anos do século XX.
Os estudos mais recentes sobre família no Brasil já
mostram claramente uma mudança de perspectiva sobre o
problema. Mariza Corrêa, por exemplo, “repensando” o
assunto, realça a necessidade de “dar conta de uma tensão
permanente entre os impositores de uma ordem pré‑de­f inida
e aqueles que a resistem cotidianamente”. 3 Concretamente,
isto significa reconhecer a impossibilidade de discorrer sobre
a família brasileira, enquanto modelo ideal pairando sobre
nossas cabeças e determinando as ações dos agentes histó­
ricos independentemente das situações de classe vivenciadas
por esses agentes na prática cotidiana da vida. Como afir­
mam com propriedade Lia Fukui e M. C. A. Bruschini, o
conhecimento do real significado das famílias num determi­
nado momento histórico

só é possível quando, ao invés de uma abordagem an­


corada no plano do ‘dever ser’, que tem orien­t ado a
teoria e a prática, na direção da normatização e do es­
tabelecimento de controles sociais­, procura‑se de fato
apreender o real significado da diversidade e da especi­
ficidade das diferentes estruturas familia­res num deter­
minado contexto social. 4

Ou, como escreve de forma ainda mais enfática Car­mem


Cinira Ma­c edo:

[...] O significado da família não pode, portanto, ser


estudado em termos gerais para o conjunto da socie­dade.
Pelo contrário, a análise da família deve visar a identifi­
cação da prática real das várias classes e, ao reconstituí‑las
por referência ao todo, retirar daí a compreensão do
sentido particular que a vida ­f amiliar assume em cada

174

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caso. A análise da família não pode ser desvinculada da
estrutura de classes e deve visar a reconstrução do modo
pelo qual ela representa um modo possível de viver
concretamente a inserção numa estrutura de classes.
Assim, o significado da família operária só pode ser
iluminado por referência às condições de vida das clas­
ses trabalhadoras no Brasil. 5

Cabem ainda algumas observações que visam ajustar as


expectativas do leitor aos objetivos obviamente limitados
deste capítulo. O enfoque deste estudo é a relação homem–
mulher em si, seja ela uma relação entre paqueras, namorados,
noivos, amantes, amásios ou cônjuges com papel assinado e
tudo o mais. Os dados sobre as relações de família de forma
mais ampla, no entanto — ou seja, aqueles referentes às re­
lações entre parentes, compadres e, até, amigos mais ínti­
mos —, não foram desprezados e são aqui copiosamente
utilizados porque nos esclarecem bastante sobre as formas
possíveis que assumem os relacionamentos ­a morosos entre
os despossuídos presentes no tempo e na sociedade em
questão. Esta opção preferencial de enfoque na vida do ­c asal
em si, ao invés de nos relacionamentos familiares mais am­
plos, deve‑se, por um lado, à natureza dos dados empíricos
coletados — provenientes, principalmente, de processos pe­
nais sobre homicídios pas­s ionais —, que privilegiam cla­
ramente a parcela do real vivido que concerne ao relaciona­
mento do casal em si. Mas, por outro lado, este enfoque é
reflexo da dificuldade que encontramos em perceber o real
significado do termo “família” para os homens e mulheres
em questão. Os dados coletados mostram que esses indiví­
duos se envolviam em redes de solidariedade e ajuda mútua
tão extensas, variadas e íntimas que se tornou impossível,
em diversas situações concretas, estabelecer os limites entre

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as redes de solidariedade dita “familiar” e as de outro tipo.
O compadrio entra como junção fundamental neste contex­
to, pois sim­b o­liza o caráter flexível e abrangente dessas ­redes
de solidariedade dita “familiar”: o procedimento de trazer
para o seio da família, através da instituição do compadrio,
ami­gos íntimos feitos na vizinhança ou nos locais de ­trabalho
é sistemático e bastante comum entre os homens e ­m ulheres
em questão.

O capítulo está dividido em quatro partes principais.


A primeira consiste na observação do processo de construção
dos papéis sexuais pela ordem burguesa emergente no Rio
de Ja­n eiro em fins do século XIX e primeiros anos do sécu­
lo XX. A apresentação resumida desse modelo burguês de
relação homem–mulher — colocando em evidência, assim,
seus pres­s upostos essenciais — é necessária na medida em
que nos pro­p omos mostrar os limites incontornáveis deste
modelo domi­n ante quando utilizado como instrumental
heurístico e ponto absoluto de referência na análise dos
padrões de comporta­m ento da classe trabalhadora. As duas
partes seguintes visam reconstruir certos aspectos das con­
dições de vida da classe trabalhadora que parecem condi­
cionar mais fortemente as formas que assumem as relações
entre os casais nesse con­t exto. A primeira dessas duas partes
trata da construção das redes de solidariedade e ajuda mútua
que se constituem num aspecto fundamental da estratégia
de sobrevivência do pobre urbano em questão. A outra par­
te versa sobre o modo específico de inserção da mulher
pobre no mundo do trabalho, já que esta inserção é outro
fator de peso na estratégia de sobre­v ivência das pessoas.
Finalmente, focalizaremos o relaciona­m ento entre homens
e mulheres em si mesmo, procurando esboçar algumas de

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suas regras de funcionamento e detectar alguns de seus ele­
mentos de tensão.

O modelo dominante de relação homem–mulher

Analisando principalmente as teses defendidas na Facul­


dade de Medicina do Rio de Janeiro ao longo do século XIX,
Jurandir Freire Costa procura mostrar a emer­g ência dos va­
lores e normas referentes à família burguesa no ­Brasil.6 Clara­
mente inspirado nas idéias de Foucault, Costa ar­g u­m enta
que os preceitos de uma educação higiê­n ica pre­s entes no
­d iscurso médico da época acabam por construir modelos de
homem, de mulher e de relacionamento entre os sexos que,
masca­r ados pelos seus propósitos decla­r adamente científi­
cos, reforçam formas de dominação e de manutenção e re­
produção da ordem social burguesa.
O discurso médico procurava captar as diferenças de
natureza entre os sexos a partir da maneira como homens e
mulheres reagiam ao amor e aos sentimentos em geral. De
maneira bastante característica para a época, essas diferenças
naturais entre homens e mulheres tinham sua origem, em
última análise, nas características anatômicas dos sexos.
Estabelece‑se, assim, uma correspondência direta entre “fa­
culdades afetivas” e formas anatômicas que dá legitimidade
científica ao discurso. Um dos nossos doutores postula des­
ta forma o pressuposto científico da natureza intrinsecamen­
te afetiva da mulher:

As observações anatômicas do Dr. Gall confirmam tão


bem esta diferença primeira que estabelecemos entre o
moral do homem e da mulher. Com efeito, Gall obser­

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va que as mulheres têm geralmente a cabeça mais volu­
mosa na parte posterior e a fronte mais estreita: e sabe­
mos que ele atribui às partes posteriores do cérebro as
faculdades afetivas, e às partes anteriores as faculdades
intelectuais”. 7

Estabelecida esta “verdade científica”, desenrola‑se


então o processo de caracterização sentimental, construindo-
se verdadeiros “catálogos de especificação sócio‑sexual”, para
utilizar a expressão de Jurandir F. Costa. 8 A primeira cons­
tatação era a de que a mulher era mais frágil fisicamente do
que o homem. Desta fragilidade física advinham a delicade­
za e a debilidade da constituição moral da mulher. Diz um
doutor: “Toda a constituição moral da mulher [...] resulta
da fraqueza inata de seus órgãos; tudo é subordinado a esse
princípio pelo qual a natureza quis tornar a mulher inferior
ao homem”. 9 Criatura fraca por natureza, as principais vir­
tudes femininas passam a ser a sensibilidade, a doçura, a
passividade e a submissão. A mulher, então, deve ser posta
sob a proteção do homem, empenhando-se em cuidar do lar
e dos filhos. Ela devia estar ligada ao homem como a “tre­
padeira a um tronco” e sua vida devia se resu­m ir “em amar
e ser amada”.10 O homem, ao contrário, caracterizava‑se pelo
vigor físico e pela força moral. Dominado pela sua virilida­
de, o homem amava menos que a mulher e seu interesse
estava mais voltado para o gozo puramente sensual. O ho­
mem era mais seco, racional, autoritário e duro.
O problema seguinte dos higienistas era explicitar como
criaturas tão opostas poderiam se unir para constituir uma
fa­m ília. A resposta encontrada era previsível: o amor aos
fi­lhos era o fator principal de união do casal. A mulher, as­
sim, fica reduzida ao seu papel de mãe e esposa, enquanto o
homem se dedica ao seu trabalho, à posse da mulher e à

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fiscalização dos filhos. Jurandir F. Costa acentua o caráter
assimétrico da relação conjugal propalada pelo poder médi­
co, pois nela o homem exercia uma pesada dominação sobre
a mulher. Esta dominação se justifica, segundo ele, por uma
espécie de compromisso entre o pai e o poder médico: o
patriarca dos tempos coloniais ostentava seu poder sobre
todo o grupo familiar e demais dependentes da propriedade;
agora, desprovido de terras e escravos e disciplinado se­x ual­
mente, o pai tinha como compensação a propriedade pri­v ada
da mulher.
Como observa Lia Fukui, a leitura de Freire Costa im­
pressiona porque reforça em sua generalidade um estereó­
tipo de relação homem–mulher que está fortemente presen­
te na literatura especializada e que provavelmente faz parte
do universo mental da população urbana brasileira. Falta,
contudo, saber “se esta norma é concretamente efetivada
pelos diferentes segmentos da sociedade”. 11
É óbvio, no entanto, que a construção e a divulgação
de um determinado modelo dominante de relação homem–
mulher não se fazem apenas através da ordem médica. As
lições de amor e sexo, paternidade e maternidade etc. tam­
bém são transmitidas por meio do aparato jurídico e da
imprensa, por exemplo. Em trabalho mais recente, Mariza
Corrêa estuda as representações jurídicas de papéis sexuais
a partir da análise de processos criminais de homicídios
passionais. 12 Apesar de o material analisado pela autora se
restringir à cidade de Campinas entre os anos de 1952 e
1972, as conclusões principais do estudo são bastante per­
tinentes para a análise dos processos penais do mesmo tipo
ocorridos na cidade do Rio de Janeiro do início do século­.
Corrêa mostra que o que está realmente em questão em
cada julgamento é a defesa de um sistema de normas visto

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como universal e absoluto. Os julgamentos, então, objetivam
reafirmar as normas dominantes, sendo que as pessoas en­
volvidas serão julgadas nem tanto pelo ato criminoso em si,
mas pela adequação de seu comportamento às regras de
conduta moral consideradas legítimas. Sendo assim, o mo­
delo ideal de mulher que aparece nos autos é o de mãe, ser
dócil e submisso cujo principal índice de moralidade é sua
fidelidade e dedicação ao marido. O homem se define prin­
cipalmente pela sua dedicação ao trabalho, pois sua obri­
gação fundamental é prover a subsistência da família. Daí
emerge, por conseguinte, uma imagem bastante assimétrica
de relação homem–mulher, com o homem exercendo uma
dominação completa sobre a mulher submissa. O paralelis­
mo com o discurso médico analisado por Jurandir Costa é
claro, mas os fundamentos da dominação masculina aqui
não são, obviamente, alegações de cunho cientificista — o
problema agora é a honra: a honra do homem depende da
conduta da mulher, que lhe deve ser absolutamente fiel, e é
exatamente essa dependência que legitima seu poder sobre
ela. Esta problemática da defesa da honra já estava cla­r a­
mente presente nos processos por crimes passionais do iní­
cio do século XX, só que naquela época os defensores con­
tavam ainda com o argumento da privação de sentidos: o
homem ofendido em sua honra ficava em estado de “priva­
ção de sentidos e inteligência” e cometia o crime em um
momento de desvario, de loucura momentânea. É interes­
sante, nesse contexto, realçar a combinação perfeita de um
con­c eito “mé­d i­c o‑científico” — a loucura — com um con­
ceito jurídico — “defesa da honra” — para reforçar o di­reito
de dominação do homem sobre a mulher no ­relacionamento
amoroso. Alicerçado nos discursos médico e jurídico, o ho­
mem adquiria, assim, poder de vida e morte sobre a mulher.

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Seria ocioso reconstituir aqui detalhadamente o pro­
cesso de elaboração das representações jurídicas de papéis
sexuais nos processos criminais do início do século, pois isso
seria apenas uma reafirmação das conclusões de Mariza
Corrêa já sintetizadas acima, e, além disso, fugiria um ­p ouco
dos objetivos deste capítulo. Tentemos satisfazer a possível
curiosidade do leitor comentando apenas um caso bastante
típico e elucidativo. O crime em questão ficou conhecido
na época como “A Tragédia da Tijuca” e um dos seus prin­
cipais atrativos é a atuação brilhante e decisiva de Evaristo
de Moraes, o mais famoso dentre todos os defensores de
criminosos passionais no período. 13 Advogado astuto e hábil
manipulador dos estereótipos sexuais dominantes à época, a
estratégia de defesa de Evaristo de Moraes no caso tipifica
bem o que invariavelmente ocorre em processos do gênero.
O crime ocorreu no Alto da Boa Vista no dia 26 de
abril de 1906 e foi cometido pelo estudante de direito Luís
de Faria Lacerda, que assassinou a tiros o médico João Fer­
reira de Moraes e fez diversos ferimentos na jovem e for­mosa
Climene Philipps Benzanilla, viúva de um diplomata chileno.
Temos, então, um açucarado triângulo amoroso, seme­lhante
aos de nossas atuais novelas das oito. O depoimento da viú­
va nos esclarece que ela e Lacerda ha­v iam sido namorados
durante algum tempo, mas que jamais havia dado ao jovem
estudante o seu “compromisso de noiva, porque este ainda
não tinha posição na ­s ociedade, que garantisse a sustentação
de um casal”. Arremata dizendo “que o rompimento de suas
relações com o mesmo acusado foi motivado por ter ela
informante tido decepções a respeito dele, sabendo que era
um moço de mau caráter, de maus costumes e vadio, tanto
que não conseguiu uma colocação durante todo o tempo que
o conheceu, isto é, seis anos”. O acusado, em depoimento

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patético e romântico, conta que, munido de uma carta amo­
rosa que havia há tempos recebido da esbelta viú­v a, diri­
giu‑se ao Alto da Tijuca para saber do dr. Moraes se este
estava de fato noivo de dona Climene e, “como tivesse re­
cebido resposta afirmativa, desvairado por profundo senti­
mento afetivo que a ela vota, três vezes detonou o revólver
[...]”. Depois disso, pensava em suicidar‑se, mas deparou
com a viúva adorada e mudou de idéia. Tomado de “aluci­
nação”, narrou a dona Climene “a desgraça em que o mer­
gulhara [...] clamando que ela era a causa de seu infortúnio”
e “no desvario em que foi tomado” descarregou‑lhe as outras
balas de seu revólver. Depois de narrar todo este frenesi,
contou que foi “cercado pela turba popular que, irada e feroz”
(grifo meu), agrediu‑o!
Para azar da viúva Climene, o astuto defensor de Lacer­
da conseguiu com a família do réu algumas cartas de pró­p rio
punho da viúva que eram bastante comprometedoras da
“honestidade” desta. Apesar da resistência do romântico acu­
sado, que não queria a divulgação das cartas pelo prejuízo
que traria à reputação de sua amada, Evaristo de Moraes
conseguiu fazer destas cartas o seu princi­p al ­a rgumento de
defesa. As cartas, apresentadas inespera­d amente no Tribunal
do Júri, no último instante, suge­r iam que a viúva havia
mantido relações sexuais com o réu durante o período de
namoro e que tinha até necessitado fazer um aborto. Assim,
o defensor do réu, matreiramente, faz da conduta da viúva
Climene o principal assunto a ser apre­c iado pelo júri, e este,
vencido pelos estereótipos sexuais que carregava consigo,
­a bsolve o réu. Quanto aos atos do réu propriamente ditos,
Eva­r isto de Moraes os justifica atri­b uindo‑os à “exacerbação
amorosa, elevada ao paroxismo, como legítimo equivalente
da alienação mental”.

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Orgulhoso de sua perspicácia, Evaristo de Moraes re­
lembra, já anos mais tarde, sua estratégia naquele célebre
caso:

Tinha eu, como arma principal, a coleção das cartas es­


critas a Lacerda por D. Climene. [...]
Baseou‑se, portanto, meu discurso, na demonstração de
ter havido entre Lacerda e a, também acusadora, D.
Climene, relações de certa intimidade, reveladas por
aquela comprometedora correspondência. Havia, de
fato, prova convincente de ter sido a formosa viú­va mais,
muito mais, do que simples namorada de Lacerda. Ha­
via, mesmo, prova irrecusável de haver o amor dos dois
produzido fruto, que eles não deixaram aparecer.
Contava eu (e não sem razão) com o efeito dessas escan­
dalosas revelações no espírito do júri, o qual não poderia
deixar de repelir a atitude de D. Cli­m ene, tendo a cora­
gem de mandar pedir para o seu ex­-aman­­te 30 anos de
prisão, depois de o haver enganado atrozmente. 14

Casos deste tipo repercutiam intensamente e eram co­


bertos de forma bastante sensacionalista pela imprensa da
época durante dias e até semanas. Um caso como este era
explorado ao infinito, pois não só os atores jurídicos, mas
também seus protagonistas, manipulavam com desenvoltu­
ra os valores dominantes da relação homem–mulher. Todo
o empreendimento acabava assumindo um caráter educacio­
nal claro, pois os diversos segmentos da sociedade deviam
reter do caso amplamente divulgado as lições pertinentes
sobre quais deveriam ser as condutas do homem e da mulher
no relacionamento amoroso ideal.
Mas para o pobre urbano, que ouvia comentários sobre
o caso por vizinhos ou amigos, ou ouvia a reportagem do
jornal lida em voz alta por um companheiro mais letrado no

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botequim, o que significava aquilo tudo? Que lições ele
realmente retinha de todo esse esforço educacional detona­
do pela classe dominante da sociedade?

Parentes, compadres e amigos

Ao analisar as relações de família entre os caipiras da


velha civilização do café — a região do Vale do Paraíba —,
Maria Sylvia de Carvalho Franco argumenta que a violência
era uma característica fundamental dessas relações, consti­
tuindo‑se em uma forma regular de ajuste de tensões. 15 Ela
afirma ainda que agressões sérias aparecem associadas à
rotina doméstica, em situações que não são absolutamente
de relevância excepcional para a sobrevivência do grupo
familiar. Fazendo uma comparação com o “padrão de orga­
nização da família tradicional brasileira, vigente entre as
camadas altas da sociedade até os fins do século XIX”, a
autora conclui que nas famílias caipiras “predominam os
vínculos pessoais dissociados de considerações de interes­
ses”, o que tornava as relações entre parentes superficiais e
ambíguas, dificultando a integração das famílias.
Maria Sylvia de C. Franco constata, então, que há di­
ferenças importantes no sentido das relações de parentesco
en­t re os caipiras em questão e a chamada “família tradicio­
nal brasileira”. A análise de Franco suscita, no entanto, al­
gumas questões, como, por exemplo, quando ela afirma que
a violência era a característica fundamental das relações de
fa­m ília entre os caipiras e que, além disso, essas relações
eram “dissociadas de considerações de interesses”. Parece
pro­b lemático trabalhar com a noção de violência como ins­
trumento heurístico, já que tal conceito está carregado de

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conotações de classe e, ainda, a autora utiliza processos cri­
minais na reconstituição das relações de família entre os
caipiras, o que privilegia obviamente as situações que de­
sembocam em confronto físico direto. Além disso, a cons­
tatação de que há diferenças no sentido das relações de
parentesco entre os caipiras e os setores abastados da socie­
dade não implica necessariamente que as relações de famí­lia
entre os caipiras são “dissociadas de considerações de in­
teresses”, mas pode significar apenas que tais relações entre
esses homens e mulheres são regidas por interesses dis­t in­t os
daqueles que predominam na chamada “família tradi­c ional
brasileira”, conceito este, aliás, bastante problemáti­c o­.
Sendo assim, as observações que se seguem a respeito
das relações entre parentes, compadres e amigos, entre os
membros da classe trabalhadora, visam mostrar

1) que, devido às condições adversas de luta para a repro­


dução de sua vida material, os laços de solidariedade e
ajuda mútua entre os homens e mulheres em questão
eram um aspecto fundamental de sua estratégia de so­
brevivência­;
2) que os eventuais conflitos entre parentes, compadres e
amigos possuíam uma significativa densidade política,
sendo expressão das tensões provenientes de lutas por
poder e influência no interior dos microgrupos socio­
culturais, tensões e lutas estas inerentes à dinâmica de
funcionamento de qualquer grupo humano. 16

Abdicamos, portanto, de tentar fazer qualquer avaliação


quanto ao grau de violência presente nos ajustes de tensão
dentro desses grupos, assim como não tentaremos construir
modelos abrangentes de relações de parentesco ou compa­

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drio pois, levando em consideração o estágio atual da pes­
quisa e o tipo de fonte analisada, tais pretensões em pouco
contribuiriam para um melhor conhecimento da realidade
que se quer apreender.

Miguel da Costa, natural do Distrito Federal, branco,


25 anos, operário, assim narra na delegacia o homicídio que
acabara de cometer contra seu cunhado, o estivador Ma­n oel
Pedro de Andrade, sergipano, pardo, de 32 anos:

[...] estando ele depoente em casa de seus pais à rua


acima indicada, aí chegou o seu cunhado Manoel Pedro
de Andrade pronunciando as seguintes palavras: “Já
aluguei a casa, as chaves estão aqui, porém só mudarei
quando eu quiser”; que o pai dele de­p oente dissera: —
“O senhor pode se mudar quando quiser, não é preciso,
porém, fazer barulho”, ao que Andrade nada responde­
ra; que o pai dele declarante entrara para o seu quarto
trancando‑se por dentro e Andrade indo em sua perse­
guição meteu o pé na porta; que o pai dele declarante
abrindo a porta foi [trecho ilegível] imediatamente por
Andrade que, trazendo um facão à cintura e uma faca
na mão, em atitude de desferir o golpe chamava‑o de
sem‑ver­g onha; que ele depoente vendo a iminência da
luta na qual seu pai seria vitimado, foi buscar um revól­
ver e desfechou um tiro em Andrade; que este deixando
seu pai vol­t ou‑se para ele depoente agarrando‑o e jo­
gando‑o no chão; que ele depoente uma vez caído deu
o segundo tiro, sendo ele depoente arrastado por diver­
sas pessoas que o puxaram para o interior da casa; que
An­d rade, já ferido, correu para a rua atrás de Fuão e
Sebastião Pereira, caindo no portão desfalecido [...]. 17

Esse depoimento caracteriza bem um aspecto funda­


mental da vida cotidiana do pobre urbano na cidade do Rio

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de Janeiro na era das reformas urbanísticas do prefeito Pe­
reira Passos: o problema da moradia era sério, tornando‑se
então bastante comum que casais jovens e seus filhos habi­
tassem a casa dos pais de um dos cônjuges. No caso em
questão, moravam na pequena casa dos pais de Vitória, mu­
lher de Andrade, além dos dois casais já mencionados, o
acusado e dois filhos menores de Vitória e Andrade. Esta
situação provocava tensões algumas vezes, causadas pela
competição entre sogro e genro pelo privilégio de dar as
ordens na casa. Tudo indica que as tensões inerentes a esta
situação só adquiriam feições mais graves quando o relacio­
namento entre o jovem casal não era bom, fazendo com que
os sogros ou mesmo os cunhados interferissem nas brigas
do casal. No caso em questão, há uma condenação quase
unânime da conduta de Andrade, que é considerado um
indivíduo “rixento” e “valente”, que ameaçava constante­
mente de pancadas os outros moradores da casa. O sogro
acusava Andrade de mau marido, pois “levava um mês,
quinze dias e mais sem aparecer em casa e quando aparecia
era apenas para provocar desordens e distúrbios”, caracte­
rizando assim sua interferência nos problemas de relaciona­
mento do casal. A má reputação de Andrade corria também
a vizinhança, que o responsabilizava pelas “desin­t eligências”
na família de Lourenço da Costa, outrora “pacata” e “digna
de todo respeito”, como afirma o vizinho Sebastião Pereira,
também quase agredido pelo ofendido Andrade quando
tentava interferir na luta. Os vizinhos narram o desenrolar
das tensões, contando episódios em que Andrade teria agre­
dido a sogra, “escangalhado” móveis e ameaçado “matar a
todos”. Andrade morre antes de dar sua versão dos fatos na
delegacia, mas sua atitude desafiadora ao chegar em casa,
sa­cudindo as chaves e apresentando o recibo de uma casa que

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já havia alugado, atesta sua intenção de livrar‑se da in­
terferência do sogro e passar a ter uma vida mais indepen­
dente. Vitória, a mulher da vítima, também não depõe no
processo, sabendo‑se apenas que gritou muito por socorro
durante a luta e depois foi “presa de uma crise nervosa”.
Os casos seguintes parecem confirmar a hipótese de que
os conflitos nos grupos familiares em questão origi­n a­v am‑se
sobretudo quando da interferência de sogros ou cunhados
no relacionamento do casal. No caso em que o alfaiate Ozias
Moreira, mineiro, pardo, de 22 anos, matou com um golpe
de navalha o sogro Joaquim Figueiredo, também pardo, de
42 anos, trabalhador, a necessidade havia novamente levado
sogro e genro a habitarem sob o mesmo teto. 18 O promotor
público narra dessa forma os antecedentes do crime:

O réu, há tempos, residia no Estado do Rio de Janei­ro,


onde exercia a profissão de alfaiate, havendo escasseado
o trabalho devido à crise da lavoura local, que é a única
fonte de todas as atividades comer­c iais e industriais, do
ofício já não tirava os meios para a mantença pessoal e
da família e escreveu ao sogro pormenorizando as difi­
cul­d ades que estavam atravessando e desesperançado
que aquele mal‑estar minorasse pelo desânimo que as­
soberbava a população local.
O sogro que idolatrava aquela filha, esposa do réu,
pressurosamente remeteu por um saque postal os recur­
sos para o regresso de todos e os acolheu alegremente
na sua confortável vivenda, onde residiam felizes até o
dia da execução criminosa.
Muitos meses decorreram naquela vida plácida, na mais
santa harmonia.
Por muitas vezes manifestara o réu desejos de regressar
para o local onde sentira o frio da miséria com todo o
seu cortejo de horrores, ao que se opunham todos, lhe
dizendo na intimidade familiar:

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“Você aqui não incomoda absolutamente a nós em coi­
sa alguma. Como quer voltar para um lugar, onde já
esteve mal sem um contrato que garanta a estabilidade
e o bem estar de sua família?”
Tão sensato parecer era motivo de profundo desgosto
para o réu que, dia a dia, aninhava mais aversão àqueles
que devia idolatrar, por não consentir na resolução le­
viana e insensata que queria pôr em prática. [...]
Daí veio a corrente de ódio implacável do réu contra o
seu sogro [...].

A situação de impasse se arrasta por algum tempo, até


que Ozias decide partir para o interior. A esposa, contudo,
fica indecisa, ora dizendo que partiria com o marido, ora
afirmando que ficaria com o pai. Acaba decidindo partir
com o marido, mas este, aparentemente irritado com a si­
tuação, decide que não mais a quer e que partiria sozinho.
Ozias sai e retorna mais tarde para pegar seus pertences,
encontrando então o sogro mais uma vez, ocorrendo nessa
ocasião o desfecho fatal. Há certa unanimidade das teste­
munhas quanto aos antecedentes da luta, mas muitas diver­
gências quanto ao seu desenrolar: alguns dizem que Ozias
provocara o conflito, mas a maioria diz que o sogro estava
mais exaltado e fora quem começara com a panca­d aria. De
qualquer forma, mais uma vez é a interferência de parentes
no relacionamento do casal que detona o ajuste violento.
No caso seguinte, Maria Francisca e sua filha moram
com seus respectivos amásios sob o mesmo teto. 19 Outro
fi­lho de Maria, João Braulino de Souza, pardo, de 18 anos,
padeiro e analfabeto, morava em outra casinha na mesma
rua. João relata na delegacia a briga que teve com o amá­s io
da irmã, Artur Silva, pernambucano, pardo, 23 anos, jor­
naleiro:

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[...] achava‑se [...] do lado de fora da casa onde mo­r a
sua irmã Deolinda, quando ouviu o amásio dela Artur
Ferreira da Silva maltratá‑la com palavras ofensivas; que
não sendo essa a primeira vez que Artur maltratava a
sua irmã, não só com palavras mas também ofendendo‑a
fisicamente, ele declarante entendeu que devia tomar‑lhe
uma satisfação e para isso, entrou na casa e dirigindo‑se
a Artur o repreendeu; que este enraivecendo‑se, levan­
tou uma foice que tinha na mão, fazendo menção de
feri‑lo, e foi nessa ocasião que ele declarante, apa­n hando
uma faca de seu padrasto que se achava pendurada,
investiu contra Artur dando‑lhe uma facada; que em
seguida Artur atra­c ou‑se com ele declarante, e como a
irmã dele Deo­linda o tivesse agarrado, Artur conseguiu
tirar‑lhe da mão a faca [...].

O ofendido faleceu a caminho da Santa Casa.


Artur, no entanto, ainda teve tempo de dar sua versão
dos fatos. Contou que a discussão com sua amásia era “sobre
uma filha dela pela qual Deolinda toma logo as dores quan­
do o declarante repreende”. Confirmou que Braulino acha­
va que ele infligia maus‑tratos a Deolinda e por isso veio
interpelá-lo. Nada mencionou sobre a foice que o acusado
disse que tinha na mão, afirmando que este o agrediu repen­
tinamente. Diversas testemunhas afirmam que Artur era
“rixento” e “valentão”, e o amásio de Maria Fran­c isca con­
firma que Artur sempre tinha discussões com sua amásia
Deolinda, “não lhe constando, porém, que ele a maltratasse
com pancadas”. O mais importante neste contexto é que
Deolinda repele fortemente a interferência do irmão em seu
relacionamento com o amásio. Confirmou que de fato tive­
ra pequenas rusgas com o amásio, “mas que não é verdade
que Artur maltratasse ela declarante, como afirmou seu ir­
mão Braulino”. Disse que seu irmão agredira Artur “sem

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motivo algum” e que não era verdade que Artur estava ar­
mado de foice na ocasião. Deolinda negou, ainda, que esti­
vesse discutindo com Artur quando Braulino apa­receu. Uma
das testemunhas refere que Braulino, dece­p ­c io­n ado com a
atitude hostil da irmã para com ele, teria lhe perguntado:
“É esse o pago que me dás de ser a seu favor?­”
No último caso em que aparece uma situação de tensão
causada pela interferência de parentes no relacionamento de
um casal, vemos a vingança do amásio abandonado contra
o sogro, a quem responsabilizava pelo fato de sua amásia o
haver deixado. 20 Mário Costa, cavouqueiro, de 27 anos,
dirigiu‑se à delegacia de Bangu para “queixar‑se de Manoel
Paulo Taveira que foi a sua casa anteontem buscar objetos
pertencentes a uma sua filha Maria Madalena, amásia do
declarante, tendo levado também roupas pertencentes a sua
mãe e uma nota de vinte mil‑réis que se achava dentro de
uma caixa [...]”. Mário prossegue contando que Taveira era
um assassino, pois tinha matado um homem havia dois anos
na mesma localidade, em crime cuja autoria não havia sido
descoberta na época. Com efeito, o processo contém o in­
quérito policial de dois anos antes, que não determinara a
autoria da morte do preto Alberto, vulgo Tifu. Mário conta
que Taveira matou Alberto para roubar mantimentos, quan­
do voltavam todos de uma venda. O depoente já era amásio
da filha de Taveira na época, e o assassinato “ficou em fa­
mília”, tendo sido o cadáver escondido no meio de um
matagal, onde foi encontrado dias de­p ois já bastante desfi­
gurado. Mário conta que veio à polícia porque Taveira o
havia ameaçado de morte caso se aproximasse de novo de
sua filha, e que esta o havia deixado “por imposição do pai”.
Em seu depoimento, um filho menor de Taveira con­
firmou o crime, dizendo que seu pai dera uma cacetada em

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Alberto quando este recusou‑se a soltar uma bolsa que tra­
zia. A mãe também confirma a ocorrência do crime, mas diz
que seu marido foi tomar satisfações de Tifu, que “vendo a
declarante passar convidou‑a para ir pro mato”, resultando
daí uma briga entre ambos. A filha de Taveira diz que não
vinha com sua família no dia da ocorrência, “não acreditan­
do fosse seu pai o autor de tal morte, que é apontada por
Mário Ferreira, ex-amásio da declarante, da qual deseja vin­
gar‑se por o haver deixado, tendo até a ameaçado de mor­t e”.
O acusado Taveira também nega ter cometido o crime e “que
a denúncia se deve a uma desarmonia entre ele e Mário
Ferreira, ex‑amásio de sua filha”. Mário também “insinuou
sua mulher para falar contra ele”. Diante desse caos de de­
clarações conflitantes, o júri absolveu folgadamente o réu,
abortando assim a vingança do amásio abandonado.
Até o momento, os casos relatados sugerem pelo menos
dois fatos importantes para que possamos contex­t ualizar
ade­q uadamente as relações amorosas dos homens e mulheres
em questão. Primeiro, notamos um esforço ingente desses
indiví­d uos para resolver o problema da moradia, o que teria
levado muitos casais ligados por laços de parentesco a habi­
tarem a mesma casa, muitas vezes em condições bastante
precárias. Como continuaremos a ver, não só casais ligados
por laços de parentesco, mas também casais ligados pela
insti­t uição do compadrio e até por simples amizade, eram
levados a morar sob o mesmo teto devido às imposições da
luta de todos pela sobrevivência. Segundo, a fonte principal
de tensões entre parentes provinha da interferência de sogros
e cunhados nos problemas de relacionamento do jovem ca­
sal, premido pela necessidade a morar junto com os pais de
um deles. Como ve­remos adiante, este fato comum de vá­r ios
casais habitarem sob o mesmo teto contém também mui­t os

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elementos de tensão quando está afastada a circunstância do
parentesco: o perigo do adultério — pouco importando se
real ou imaginado — rondava a cabeça dos amantes insegu­
ros; os problemas de cada casal eram compartilhados pelos
outros habitantes da casa, que, às vezes, tomavam par­t ido
na disputa; em algumas ocasiões surgiam problemas entre
os casais devido a pequenos deveres diários de solidariedade
e ajuda mútua que deviam ser cumpridos à risca; final­m ente,
podia ocorrer o fato de os ho­m ens e mulheres da casa se
ve­rem em campos opostos, como, por exemplo, quando as
mulheres se uniam para protestar contra seus maridos que
se juntavam para realizar “conquistas” e ir a bailes. ­21
De qualquer forma, a própria observação pormenori­
zada do surgimento das tensões entre esses homens e mulhe­
res faz lembrar Lima Barreto, que se impressionava em
ob­s ervar “de que maneira forte a miséria prende solida­m ente
os homens”. Esses casais, que se uniam para enfrentar, jun­
tos, a situação de penúria a que estavam condenados, “talvez
não se amassem, mas viviam juntos, trocando presentes,
pro­tegendo‑se, pres­tando‑se mútuos serviços”. 22 Na verdade,
os casos analisados a seguir parecem indicar que esses deve­
res de reciprocidade eram muito valorizados pelas pessoas,
que deles dependiam bastante para ­c ontinuar se equili­b ran­
do sempre precariamente na corda bamba da sobrevivência.
Antônio Pedro dos Santos, sergipano, pardo, de 31
anos, carpinteiro, narra detalhadamente a briga que resultou
na morte de seu concunhado José Agostinho da Paixão,
pardo, de 27 anos, pintor: 23

[...] que há meses convidou o seu concunhado José


Agostinho da Paixão para juntos arrendarem um terre­
no em Madureira para fazerem duas casinhas para si e

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suas famílias; que então não encontraram terreno para
aforar, porém tendo o declarante posteriormente arren­
dado um terreno em Madureira como esse fosse espa­
çoso ofereceu uma parte a José Agostinho para que ele
edificasse uma casinha ao lado da do declarante; em
vista disso os dois construíram duas casinhas vizinhas
uma da outra, sendo que a de José Agostinho não se
acha de todo concluída; que na sexta‑feira na ausência
do declarante José Agostinho e sua mulher vieram da
cidade para trabalhar nas obras da casa em companhia
de Trajano de tal e Pedro de tal, guarda‑freio da Estra­
da de Ferro Central; que o declarante foi dormir em sua
casa ficando José Agostinho na casa em construção em
companhia de Trajano, dormindo porém a mulher da­
quele Maria da Paixão no quarto do declarante em com­
panhia de um filhinho e dormindo o declarante e sua
mulher na sala próxima; que no dia seguinte o decla­
rante almoçou na casinha de José Agostinho em com­
panhia dele, de Maria da Paixão e Trajano estando nes­
sa ocasião sua mulher Dorcina ausente em casa de uma
vizinha de nome Eva; que à tarde Dorcina queixou‑se
do declarante não ter almoçado em sua companhia e por
isso disse que jantaria com ela, pelo que ela preparou o
jantar que foi servido no terreiro nos fundos da casa do
declarante das cinco às seis horas da tarde; que antes do
jantar José Agostinho perguntou se o declarante não ia
jantar em companhia dele ao que respondeu que não
porque já ia jantar com sua mulher não tendo visto
nessa ocasião a mulher de José Agostinho; que findo o
jantar foi à Cascadura a fim de comprar fumo e ao sair
viu José Agostinho e Trajano juntos à casa daquele; que
ao voltar já era noite e entrando em casa pelos fundos
recolheu‑se a seu quarto e deitou‑se depois de ter tirado
o paletó e as botinas; que na ocasião em que entrou sua
mulher e sua cunhada estavam na sala vizinha e conver­
savam, não tendo visto onde então se achava José Agos­
tinho; que tendo adormecido acordou em sobressaltos,

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deparando‑se‑lhe sua mulher entrando para o pequeno
quarto impelida por José Agostinho que gritava, diri­
gindo‑se ao declarante, que havia de acabar com ele e
com a sua raça por ele declarante não ter querido jantar
com eles; que José Agostinho empunhava um pedaço
de ferro [...]; que nessa ocasião diante do que se passa­
va o declarante apoderou‑se de uma faca de mesa que
se achava sobre um lavatório e servira para picar fumo
e com ela deu um golpe contra José Agostinho [...].

Este fascinante flagrante de vida doméstica nos fornece


diversas informações. De início, nota‑se que os dois casais
em questão procuravam uma alternativa de moradia nos
subúrbios, deixando assim de habitar as freguesias centrais
da cidade. Eram, muito provavelmente, alguns dos ­m ilhares
de populares vitimados pela política de reformas urbanísti­
cas da era de Pereira Passos. No esforço de construção das
ca­s inhas, destaca‑se a ajuda dos amigos Trajano e Pedro, que
passam dias inteiros labutando com José Agostinho e Antô­
nio Pedro. Enquanto isso, as mulheres se revezam nas tare­
fas domésticas: uma prepara a comida e outra vai ­t rabalhar
na casa de uma vizinha. Um outro depoimento diz que Dor­
cina tinha ido à casa de Eva “fazer flores”; esta tarefa po­d eria
ser remunerada, como tais tarefas efetivamente o eram mui­
tas vezes, ou então era uma simples retribuição de um favor
prestado anteriormente pela vizinha. Esta ­s egunda hipótese
parece mais favorável neste caso específico, pois uma teste­
munha refere no processo que um filho de Eva havia estado
em casa de Dorcina no dia anterior “lavando a ­louça”.
Mais interessantes, contudo, são as observações quanto
ao caráter cerimonioso que cerca o ato de comer junto, de
almoçar, de jantar. Primeiro, vemos que a mulher de Antô­
nio Pedro, Dorcina, reclama deste por não haver almoçado

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com ela. Depois, Antônio Pedro narra os ­a ntecedentes da
luta sempre em função da indignação de José ­A gostinho
pelo fato de o amigo e concunhado não o haver chamado
para jantar. Com efeito, as testemunhas referem que José
Agostinho reclamava que Antônio Pedro, apesar de o ter
convidado para morarem juntos em Madureira, não estava
sendo correto com ele, tratando‑o “com pouco caso”. ­E stes
fatos ilus­t ram bem a importância que os nossos ­p ersonagens
atribuem às demonstrações diárias de hospitalidade e res­
peito mútuo, que servem como uma espécie de reafirmação
de cada parte de que todos estão unidos no objetivo comum
de tornar possível sua sobrevivência.
A versão da história apresentada por Antônio Pedro,
no entanto, parece enfatizar demasiadamente o papel da
­q ue­b ra do cerimonial gastronômico da rotina doméstica no
ajuste violento em questão. Esta atitude do acusado é com­
preensível, pois ele pretendia com isto colocar‑se como ví­
tima de uma agressão fútil para justificar o homicídio que
­c ometera. Tanto as mulheres dos envolvidos quanto os vizi­
nhos afirmam que a briga entre os contendores se dera “por
questão das casinhas que faziam”. O problema é que a ca­s i­
nha de Antônio Pedro, que fora construída primeiro, havia
ficado mais baixa e menos bonita do que a de José Agos­t i­
nho. Isto criou um mal‑estar entre os dois casais, pois as duas
irmãs viviam “altercando” sobre a qualidade das ca­s inhas, e
Antônio Pedro, considerando‑se ludibriado, tencionava fazer
mais obras em sua casinha, tornando‑a “mais alta e melhor”,
como a do companheiro. José Agostinho e Maria do Carmo
retrucavam que os outros estavam “com inveja da casa”.
To­d a esta questão, apesar de sua aparente futilidade, ensina-
nos um ponto de importância transcendental para estes
homens e mulheres: todas estas associações, estes laços de

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solidariedade e ajuda mútua eram percebidos como relações
entre seres rigorosamente iguais, que nelas se envolviam
para viabilizar a reprodução material de suas existências.
Sendo assim, é fácil compreender que a quebra de pequenos
­d everes diários da rotina doméstica — como prestar um pe­
queno auxílio ou seguir as regras da boa hospitalidade — e
a obtenção de privilégios ou vantagens indevidas por uma
das partes — como a construção de uma casinha “mais alta
e melhor” — eram fatos graves que, se não contornados,
poderiam desembocar em soluções radicais de conflitos.
Os compadres e os amigos eram pessoas com quem se
po­d ia contar nas vicissitudes da vida. José Ferreira Terra,
por exemplo, um português de 46 anos, barbeiro, correu
para a casa do compadre Brochado, também português, de
56 anos, quando matou com um tiro o preto Graciliano, que
alugava um quartinho na casa em que o acusado morava
com sua amásia. 24 Constança, por sua vez, portuguesa, de
41 anos, estava na casa de um seu compadre, “ajudan­d o a
fazer o luto” de uma pessoa da família que havia falecido,
quando recebeu a notícia de que seu próprio marido havia
sido morto durante uma briga. 25 A esposa do português
Abílio Ferreira pede a um amigo que vá à cidade chamar um
compadre seu, quando do assassinato de seu marido. 26 Em
outro processo, vemos que a menina Jandira de Carvalho,
natural da capital federal, de 8 anos, estava moran­d o na casa
de seu padrinho, o português José Pinto, de 41 anos, nego­
ciante, e de sua madrinha, a parda Sofia, de 40 anos, amásia
de Pinto. O padrinho havia ficado de ar­r umar‑lhe um colé­
gio. 27 Maria Estefânia, preta, de 45 anos, chama seu com­
padre Antônio Cassus, português, de 26 anos, operário,
quando um homem ameaça agredi‑la. 28 Além de todos estes
casos, temos obviamente a mobilização de compadres e

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amigos para auxiliar aqueles mais ­a tingidos pelo problema
da moradia. 29
Os compadres e amigos eram também pessoas a quem
se deviam dar demonstrações constantes de apreço e corte­
sia. O caso seguinte reforça muito do que já foi dito. Amé­
lia da Rocha Pereira, brasileira, de 21 anos, narra o cri­m e
cometido por seu marido contra a pessoa de Eugênio An­
tônio de Oliveira, pardo, de 30 anos, pedreiro: 30

[...] que é casada com Mário da Rocha Pereira, branco,


de 24 anos de idade [...] marítimo, alto, magro, pouco
bigode castanho e cabelo da mesma cor, e com ele resi­
de à rua acima referida em companhia de Carlos da
Rocha Pereira Júnior, irmão de seu marido e de seu
com­p adre Eduardo Gonzaga Borges e da mulher deste
Altina Gon­z aga Borges; que ontem, cerca de onze horas
da noite, ouvindo bater na ­p orta de sua casa e vendo
que era seu marido abriu‑a, ­t endo ele entrado em casa
com seus companheiros Eugênio Antônio de Oliveira e
Hermano Moreira Lima; que seu marido assim que
chegou acusou fome dizendo para que a declarante ar­
ranjasse o que comer para ele e seus dois amigos; que
então aprontando o que comer colocou na mesa onde
sentaram‑se os dois amigos de seu marido, tendo este
porém saído novamente para rua dizendo ir buscar um
violão; que como seu marido se demorasse Eugênio e
Hermano foram esperá‑lo no terreno em frente a sua
casa e quando ele chegou Eugênio Antônio de Oli­v eira
censurou‑o por ter‑se demorado, dizendo que faria o
mesmo quando ele fosse a sua casa; que por isso Eugê­
nio e seu marido entra­r am a discutir ofen­d endo‑se mu­
tuamente enquanto a declarante ­e ntrava em casa para
fazer café; que nessa ocasião ouviu a detonação de três
tiros pelo que correu para frente da casa e aí viu seu
marido com um revólver na mão e caminhando para a
rua [...].

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Aqui vemos, portanto, dois casais associados pelo com­
padrio habitando a mesma casa. Novamente, o conflito ­entre
os amigos parece girar em torno de certas expectativas de
cumprimento de regras de hospitalidade que não foram
adequadamente seguidas por uma das partes: Eugênio, con­
vidado para jantar, ofendeu‑se com a demora do amigo em
sentar-se à mesa, ameaçando tratá-lo da mesma forma quan­
do ele fosse a sua casa. Outros depoimentos esclarecem ­ainda
que Eugênio e Mário eram amigos bastante íntimos e que
os dois se tornariam compadres em breve, pois Mário havia
convidado Eugênio para batizar um de seus filhos. Durante
a discussão entre os dois, no entanto, Mário exasperou‑se
com a recusa do amigo em voltar para a mesa de jantar e
gritou para Eugênio que “não seria mais o padrinho do seu
filho”. A vítima, então, perdeu as estribeiras, xingou Mário
de “branco filho da puta”, e a troca de insultos culminou
com a morte de Eugênio. O episódio, portanto, possibi­li­t a-
nos ver o processo através do qual um amigo íntimo se
trans­f ormava em um membro da família, um compadre,
­p rocesso este que no caso em questão foi interrompido de
forma trágica porque uma das partes não cumpria adequa­
damente o seu papel neste ritual de aproximação.
A quebra de um ritual semelhante também parece ter
sido a origem da questão entre João Lúcio de Morais, pardo,
português, natural de Cabo Verde, 30 anos, estivador, e Benja­
mim Inácio, também estivador, de 39 anos.31 Declara João que

sempre ele ofendido foi amigo e companheiro de traba­


lho do acusado Benjamim Inácio e até ­u ltimamente
estando o mesmo desempregado ele ofendido se empe­
nhou e arranjou o mesmo. Que o acusado tem muito
mau gênio, mas com ele sempre se deu muito bem. Que
ontem ao sair do trabalho às quatro e meia ­h oras da

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tarde foi convidado pelo acusado Benjamim Inácio para
ir à casa do mesmo. Que foi, e ao chegar à casa do acu­
sado aí começou a conversar e nada deu lugar para que
o acusado com um revólver [...] desse um tiro para a
parede — como lhe ameaçando. Que ele ofendido ven­
do aquilo tratou de se despedir. Que o dono da casa e
o acusado não consentiram, con­v idando‑o para jantar,
mas ele não aceitou dizendo “você me recebeu assim
vou‑me embora”.

João realmente se retirou, mas Benjamim foi atrás dele


e acabaram brigando, ficando ferido João. Quase todas as
testemunhas referem que os envolvidos eram muito amigos
e estavam embriagados na ocasião.
O caso a seguir, em seu paroxismo, ilustra além de qual­
quer dúvida a importância primordial que os homens e mu­
lheres em questão atribuem ao seu relacionamento com
­com­padres e amigos, e, mais do que isso, enfatiza o papel das
pe­quenas demonstrações de solidariedade no relacionamento.
Era um domingo e José Cândido Vieira, português, 30 anos,
carpinteiro, saiu com sua mulher, Francisca Esteves Vieira,
portuguesa, de 25 anos, e seus filhos menores para visitar o
compadre José Ferreira Gaspar, português, casado, 28 anos,
pescador. 32 A visita durou todo o dia e, já às sete horas da
noite, a família visitante tomou o bonde de volta para casa.
O compadre visitado, José Gaspar, acompanhou a família
em sua viagem de retorno, prestando‑lhe, assim, nova cor­
tesia. Vieira sentava‑se no banco de trás com a mu­lher e fi­
lhos, e Gaspar vinha no banco da frente, vi­r ando‑se para
con­v ersar com seu compadre. Passando o bonde em frente
ao Cemitério de São Francisco Xavier, o recebedor começou
a cobrar as passagens de trás para a frente. Gaspar insistia
que queria “pagar todas as passagens”, mas o recebedor

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passou primeiro pelo banco de Vieira, que se ­a diantou e
pagou ele mesmo todas as passagens. Gaspar enfureceu‑se
com o recebedor, que também era português e tinha 27 anos,
por ter aceitado o pagamento feito pelo amigo, discutindo
ambos fortemente. Daí em diante a história fica nebulosa.
Algumas testemunhas contam que o condutor deu uma
bofetada em Gaspar, e Vieira, então, fez uso do guarda‑­chuva
que trazia e perfurou a cabeça do recebedor, que foi arre­
messado fora do bonde, morrendo em seguida. Os compa­
dres e a mulher de Vieira relatam que o recebedor se dese­
quilibrou e caiu durante a discussão. O exame de autópsia
mostra que o cadáver tinha o crânio perfurado por um ins­
trumento pontiagudo.

De tudo que ficou dito, ficam claros alguns condicio­


nantes concretos das relações de amor entre os homens e
mulheres em questão. Os imperativos da luta pela sobrevi­
vência faziam com que houvesse grande probabilidade de
um casal pobre dividir uma habitação com um ou mais casais
em idênticas condições. As relações entre estes casais ten­
diam a ser muito íntimas, pois a troca de pequenos serviços
e o cumprimento de deveres de ajuda mútua eram aspectos
fundamentais da estratégia de sobrevivência dessas pessoas.
Mas, por outro lado, essas circunstâncias tornavam a vida
de cada casal um tanto dependente das pessoas que os cer­
cavam, que, por isso, interferiam com freqüência em seus
problemas de relacionamento.
Pretendemos também ter mostrado o caráter mani­f es­
tamente político destas tensões e conflitos intrafami­lia­res e
entre amigos. O ajuste violento nunca surge de um momen­
to para outro, de maneira fútil e imprevista. Estes conflitos
são em geral resultado de um processo relativamente longo

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de escalada de tensões, de disputas e de troca de provocações
entre os indivíduos ou grupos em confronto. E, principal­
mente, a eclosão desses conflitos revela geralmente uma
­g rande valorização dos diversos rituais de solidariedade e
ajuda mútua que unem as pessoas. Num certo sentido, por­
tanto, o surgimento do ajuste violento nesse contexto sig­
nifica uma reafirmação de valores essenciais para a estratégia
de sobrevivência dos homens e mulheres, possuindo, assim,
um caráter construtivo e organizador das relações sociais
entre seres essencialmente iguais.

Mulheres trabalhadoras

Quem paga a casa pra homem é mulher


Canção de João da Baiana, 1915

Se é de mim, podem falar


Se é de mim, podem falar
Meu amor não tem dinheiro
Não vai roubar pra me dar (bis)

Quando a polícia vier, e souber


Quem paga a casa pra homem é mulher (bis)

No tempo que ele podia,


Me tratava muito bem.
Hoje está desempregado
Não me dá porque não tem.

Quando a polícia vier, e souber


Quem paga a casa pra homem é mulher (bis)

Quando eu estava mal de vida


Ele foi meu camarada
Hoje dou casa, comida,
Dinheiro e roupa lavada.

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Quando a polícia vier, e souber
Quem paga a casa pra homem é mulher 33 (bis)

As mesmas condições concretas de vida que atiravam


nossos personagens em redes íntimas de solidariedade e
ajuda mútua eram responsáveis por outra circunstância que
condicionava bastante as formas possíveis de relacionamen­
to homem–mulher neste contexto: o modo específico de
integração da mulher ao mundo do trabalho.
Apesar de encontrarmos algumas mulheres trabalhando
em casas de comércio ou como operárias, o serviço do­
méstico era o principal reduto ocupacional das mulheres
pobres. A tabela de profissões do censo do Distrito Federal
de 1906 indica que, do total de 117.904 pessoas que se
declararam empregadas em serviço doméstico, 94.730 eram
mulheres e apenas 23.174 eram homens. 34 O trabalho remu­
nerado da mulher pobre, portanto, era, em geral, uma ex­
tensão das suas funções domésticas, sendo realizado dentro
de sua própria casa ou na casa da família que a empregava.
Sendo assim, era relativamente fácil para essas mulheres
arrumarem uma colocação como lavadeiras, cozinheiras,
en­g omadeiras etc. Muitas ainda se dedicavam a fazer doces
e salgadinhos em casa, indo depois para a rua vendê‑los
junto com os filhos mais crescidos. Apesar de estas tarefas
­s erem em geral mal remuneradas, a documentação coligida
mostra claramente que: primeiro, muitas mulheres conse­
guiam sobreviver exclusivamente daquilo que conseguiam
obter com seu trabalho; segundo, o ato de desempenhar
atividades remuneradas, mesmo que intermitentes em mui­
tos casos, era parte da experiência real de vida dessas mu­
lheres. Como veremos a seguir, essa possibilidade de arrumar
trabalho com alguma facilidade colocava a mulher pobre em

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posição de relativa independência em relação a seu homem,
e ela soube muitas vezes asseverar esta sua condição com
altivez e, até, orgulho, como bem sugere o texto da compo­
sição de João da Baiana.
Rosária Maria Ferreira, preta, 34 anos, natural do es­
tado do Rio, narra assim o seu drama: 35

[...] que na sexta‑feira [...] estando fazendo cocadas para


vender, chamou, por volta das cinco horas da ­t arde, o
seu filho Faustino Ferreira, de oito anos de ­i dade e
mandou‑o acalentar o seu irmão Osvaldo, de seis meses
de idade, que chorando em redor da de­p oen­t e, impos­
sibilitava‑a de prosseguir a sua tarefa; que Faustino,
desobedecendo‑a, correu para a rua, de onde só regres­
sou já ao anoitecer; que a depoente, não só pela deso­
bediência do seu filho, como com o intuito de o educar,
tomou de uma pequena guarnição de guarda‑louça que,
por acaso encontrara no chão e vibrou‑lhe umas três ou
quatro pancadas, porém, moderadas, sendo que a pri­
meira ele recebera na mão direita, por ter, naturalmen­
te e com o intuito de defesa, a aparado; que no dia se­
guinte, sábado vinte e oito, pela manhã, a depoente
notou um pouco infla­m a­d a a mão de Faustino e pergun­
tando-lhe qual a causa, ele dissera ter sido uma farpa da
tal guarnição que ali entrara, quando na véspera fora
castigado; que imedia­t amente levou‑o à consulta do
doutor Oliveira de Meneses, na farmácia “Sam­p aio” sita
no Boulevard 28 de Setembro, onde foi examinado e
medicado por aquele clínico que recomendou não dei­
xasse Faustino apanhar sol; que chegando em casa, a
depoente reiterou esta recomendação a Faustino e apli­
cou‑lhe, na ferida, amiudadas vezes o medicamento
receitado; que no domingo vinte e nove, a depoente saiu
para vender as referidas cocadas e outros comestíveis e
ao regressar à casa por volta de uma hora da tarde, não
encontrou Faus­t ino, que só apareceu à tardinha e já com

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a mão muito inflamada e vermelha; que a depoen­t e,
muito desnorteada e contrariada, saiu à procura do
doutor Oliveira de Meneses, a quem não logrando en­
contrar, dirigiu‑se à farmácia Sampaio onde lhe foi dada
repeti­ç ão da receita daquele médico, cujo medi­c amento
a depoente levou aplicando à ferida até o dia seguinte,
segunda‑feira; que, neste dia [...] o doutor Meneses foi
a sua casa e não achou bom o estado de Faustino e, após
fazer neste uma injeção, aconselhou a depoente que o
levasse para o Hospital da Miseri­c ór­d ia, visto que o seu
tratamento não poderia ser feito na casa em que estava,
não só pela falta de recur­s os da depoente, como porque
a moléstia tinha ­t omado proporções que requeria um
tratamento que só naquele estabelecimento de caridade
poderia ser dado; que nesse mesmo dia, com guia do
co­m issário de higiene da Agência da Prefeitura, onde
foi solicitá‑la, a depoen­t e levou seu filho para o hos­p ital
[...]; que na terça‑feira, dia trinta e um, a depoente indo
ao hospital, pela manhã encontrou já morto seu filho...

A impressionante tragédia pessoal de Rosária choca


mais ainda se pensarmos que muito provavelmente este
estava longe de ser um caso único. Tentando deixar de lado
a inevi­t á­v el empatia que sentimos diante de semelhante
drama, o caso Rosária esclarece muitos pontos importantes
do “ser mulher”, do vivenciar a condição de mulher em si­
tuações cotidianas tão adversas. Rosária morava, por favor,
com a amiga Maria Almeida Cabral, de 20 anos, que havia
con­v enci­d o sua sogra a receber Rosária e seus três filhos.
Maria diz que já havia “convivido” com Rosária “mais de
uma vez”, o que sem dúvida significa que já havia anterior­
mente ­m orado com a amiga. Em nenhum momento se faz
qualquer refe­r ência a um amásio ou marido que Rosária
pudesse ter, ­s endo certo que a mesma sustentava a si e a seus
três filhos com a renda que conseguia obter da venda de

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“cocadas e outros comestíveis”. Ela contava ainda com suas
relações de amizade que, garantindo-lhe abrigo naquele
momento, demonstravam ser um fator essencial de sua so­
brevivência nas condições de penúria com que se defron­t ava.
Rosária tentava organizar sua vida doméstica de forma que
pudesse ­t rabalhar para conseguir seu sustento e o de seus
filhos: contava com a ajuda do mais velho nos cuidados com
o caçula de 6 ­m eses, o que a liberava para fazer os doces que
vendia principalmente no domingo de manhã. Todas as
testemunhas confirmam inteiramente a versão dada por
Rosária para o epi­s ódio, sendo que Maria e Firmina dizem
que Rosária batera no ­f ilho “com moderação” e que fizera
o possível para que ele tivesse o tratamento adequado. O
médico da farmácia “Sam­paio” também atesta a peregrinação
de Rosária para salvar o filho e atribui o fato de o menino
não ter sido adequadamente tratado ao “estado de pobreza”
da mulher. Outra estratégia que as testemunhas utilizam
para ­i nocentar Rosária é ressaltar que o menino Faustino
era “malcriado e desobediente”, “um verdadeiro garoto”, e
que ele, ao invés de atender às recomendações da mãe, havia
ido para a rua “soltar papagaios”, ficando exposto ao sol e
indefeso diante do tétano.
De todo o episódio, no entanto, o que mais interessa
ressaltar para os nossos objetivos é a maneira natural com
que as pessoas encaram e, principalmente, valorizam o tra­
balho de Rosária. Por um lado, temos Firmina, que havia
admitido Rosária e seus filhos em casa por recomendação
da nora havia cerca de um mês e afirmava que, “de fato,
Rosária sempre se portou bem trabalhando para o seu sus­
tento e dos seus filhos”. Esta avaliação positiva do trabalho
de Rosária por uma mulher que experimentava as agruras
da mesma situação de classe era previsível, mas ainda assim

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revela que para a mulher pobre o trabalho remunerado é um
aspecto essencial da construção de sua identidade social. Era
por se dedicar ao trabalho, conseguindo assim seu ­s ustento,
que Rosária podia contar com a ajuda das amigas num mo­
mento de dificuldade.
Talvez um pouco surpreendentes, contudo, sejam as
observações do promotor público. Logicamente ­c onvencido
de que Rosária não tinha tido nenhuma intenção de matar
o filho a pancadas, ele tenta justificar sua opinião de que
“não se trata, na espécie, de um crime”. Os seus argumentos
iniciais são inteiramente previsíveis; ele en­f atiza: que o me­
nino era muito desobediente e vadio; que as pancadas ­d adas
pela mãe “não foram bárbaras”; que o tétano havia surgido
devido à teimosia do menor; e que a ignorância da mãe e a
falta de higiene da casa em que moravam não ­h aviam per­
mitido o tratamento adequado. E conclui dizendo que “tudo
leva a crer que Rosária Maria Ferreira jamais ­a limentou a
in­t enção de eliminar a existência de seu filho Faustino, ­t anto
mais que, para sus­t entá‑lo e a outros irmãos, ela se entrega,
quotidianamente, ao trabalho do fabrico de doces, que, de­
pois, expõe à venda nas ruas”. Como legítimo por­t a‑voz do
modelo dominante — portanto, pre­t en­s amente universal e
absoluto — do “ser mulher” na sociedade em ques­t ão, o
nosso promotor utiliza aqui um argumento ­m uito pouco
ortodoxo. Valorando positivamente o ­t rabalho remunerado
da mulher pobre — e utilizando mesmo este argumento para
excluir sua responsabilidade criminal no caso —, o promotor
na verdade admite que o modelo dominante da mulher frá­
gil, passiva e economicamente dependente do macho não dá
con­t a da realidade em questão. E, mais do que isso, o mode­
lo dominante do “ser mulher” não serve sequer de pa­râ­metro
para julgar a conduta de Rosária em relação a seu ­f ilho e a

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seu trabalho. Vemos aí, claramente, que a inter­f e­r ência,
mesmo que acidental, de um drama humano co­m o­v ente vaza
a guarnição ideológica do aparato jurídico, obrigando‑o,
en­t ão, a levar em consideração o fato óbvio da exis­t ência de
visões de mundo essencialmente diferentes da sua.
A necessidade do trabalho remunerado feminino — e
a sua conseqüente valorização — entre os nossos protago­
nis­t as con­d icionava bastante as formas que assumiam os
rela­c iona­m entos amorosos. Os casos seguintes já nos suge­
rem alguns aspectos da relação entre trabalho feminino e
relacionamento homem–mulher. Maria Solanez, espanhola,
de 42 anos, estava já havia oito anos separada do marido,
trabalhando em uma oficina de costuras, onde também resi­
dia. 36 O marido, Mariano Alegret, de 56 anos, cubano natu­
ra­lizado ­brasileiro, picador, recebera havia pouco tempo uma
carta anônima que lhe informava que a mulher tinha arru­
mado um amante. Indignado, Mariano foi à oficina de cos­
turas à noite e, ao ver um vulto de homem saindo da casa,
disparou tiros que acabaram por não atingir ninguém. Ma­
ria Solanez repele fortemente a intervenção do marido em
sua vida, dizendo que desde que se havia separado dele vi­
vera “sempre às suas custas, com o produto de seu trabalho”.
Deu como causa da separação “os maus‑tra­tos” que o ma­rido
lhe infligia.
Vemos acima, então, o exemplo de uma mulher que,
in­s atisfeita com um relacionamento amoroso, opta por se
se­p arar e viver do próprio trabalho, orgulhando‑se muito
de sua independência. O caso seguinte, porém, é muito mais
contundente, pois capta uma mulher pobre num momento
crucial de sua vida: tinha de decidir em poucos instantes,
devido às circunstâncias, entre levar a bom termo a ati­v idade
remunerada que exercia naquele momento e ­a tender às exi­

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gências do marido, com quem mantinha um relaciona­m ento
difícil e de futuro imediato bastante incerto. Ela era Luí­s a
Martins, preta, brasileira, 19 anos, doméstica e analfabeta,
e ele era Cesário Martins, preto para uns, pardo para outros,
28 anos, servente de pedreiro. 37 Luísa narra a sua história:

[...] que é casada com Cesário José Martins há seis me­


ses e pouco depois foi por seu marido abandonada, indo
residir em casa de sua mãe à rua Nova, 7, em Dona
Clara; que tempos depois, Cesário reapareceu e foi com
ela declarante coabitar, na mesma casa de sua mãe; que
ultimamente Cesário afastou‑se novamente dela e por
isso, foi empregar‑se, ela declarante, na rua Souto Carva­
lho, 10, casa de Abílio Augusto Ferreira; que na casa em
que se acha empregada, foi procurada por seu marido,
na sexta‑feira passada, [...] que a convenceu de ir dar
um passeio à Dona Clara; que aí ­esteve com ele e pernoi­
tou, regressando no sábado, dia imediato, à casa de seus
patrões, que ela declarante vivia em desavenças com seu
marido e no entanto era por ele sempre procurada; que
hoje cerca de dez horas da noite, seu marido Cesário a
procurou, na rua Souto Carvalho, e a convidou para irem
à Dona Clara, em casa da mãe da declarante, po­r ém,
como estava em fes­t as, a casa de seu patrão por mo­t ivo
de aniversário da esposa dele e batismo de um filhinho,
observou a Ce­s ário ser isto inconveniente e que trans­
ferisse esse passeio para amanhã; que notou ter ele fica­
do contrariado, porque insistiu em querer levá‑la, porém
ela declarante disse terminantemente que não iria [...].

Luísa conversara com Cesário no jardim da casa do pa­


trão, e seu marido, acabada a conversa, permaneceu no por­
tão da casa, bastante irritado. O negociante português Abí­
lio Ferreira, patrão de Luísa, foi ao portão junto com outros
amigos para ordenar a Cesário que deixasse o local. Cesário

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respondeu com tiros, tendo Abílio falecido devido aos feri­
mentos que sofreu. Durante a fuga, Cesário também trocou
tiros com um guarda‑noturno, mas dessa vez foi ele próprio
que caiu morto.
Vemos aqui, novamente, um casal que recorreu ao expe­
diente de morar com outros membros da família como ­forma
de resolver o problema da moradia. Vemos também uma
mulher humilde que se coloca em posição de bastante inde­
pendência em relação ao seu homem. O relacionamento do
casal não era bom, e alguns testemunhos confirmam isto.
Abílio, por exemplo, antes de morrer, ainda teve tempo de
narrar o ocorrido e afirma que o casal não se entendia bem
e que Cesário sempre procurava a mulher “para fazerem as
pazes”. A mãe de Luísa, de nome Eva, viú­v a, de 39 anos,
cozinheira, declara que não podia afirmar se o casal “vivia
em desarmonia porque raras vezes lhe apareciam em casa”,
mas conta que, numa dessas visitas, Cesário zangou‑se com
sua mulher porque ela estava cantando, chegando até a dis­
pa­r ar tiros. Tudo indica, portanto, que Luísa estava entre
um relacionamento amoroso que poucas chances tinha de
dar certo e a manutenção de sua autonomia por meio do
emprego de doméstica. Sua decisão de não sacrificar o em­
prego para atender o marido sugere dois fatos importantes
a respei­t o da mulher pobre em geral neste contexto: primei­
ro, essa mulher valoriza seu trabalho não só porque é essen­
cial para sua sobrevivência, mas também porque garante
certa independência em relação aos homens; segundo, a sua
relativa independência a coloca em condições de poder recu­
sar a continuação de uma relação que já esgotou suas pos­
sibilidades afetivas e, mais do que isso, permite-lhe ter uma
parti­c i­p ação mais ativa no desenrolar de toda uma relação
amorosa, não se submetendo passivamente aos anseios de

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dominação do homem. Veremos melhor este segundo ­p onto
em ­s eguida.

Mulheres “da gandaia”?

A cidade tem mulheres perdidas, inteira­


mente da gandaia. Por causa delas tem
havido dramas [...] e, de vez em quan­
do, os amantes surgem rugindo, com o
revólver na mão.
J oão do R io , Vida vertiginosa, 1917 38

Como já vimos na introdução, havia um grande dese­


quilíbrio entre o número de homens e mulheres no Rio de
Janeiro na primeira década do século XX — segundo o cen­
so de 1906, havia na cidade 463.453 homens para 347.990
mulheres —, sendo que este desequilíbrio se acentua ligei­
ramente se pensarmos que a demografia da imigração leva­
va a uma concentração ainda maior de homens adultos na
faixa dos 15 aos 30 anos de idade — 59% dos habitantes
incluídos nesta faixa eram homens, contra 57% entre a po­
pulação total da cidade. 39
Este fato demográfico, apesar de circunstancial, é rele­
vante para o que se deseja argumentar nesta parte do capí­
tulo. O relacionamento homem–mulher entre os membros
da classe trabalhadora do Rio de Janeiro na Primeira Repú­
blica estava diretamente condicionado pelas situa­ç ões con­
cretas de vida desses indivíduos. Três fatos fundamentais da
vida dessas pessoas pareciam determinar mais fortemente o
seu ato de amar: primeiro, havia a necessidade da existência
de fortes laços de solidariedade entre parentes, compadres
e amigos, o que levava a uma maior probabilidade de inter­

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ferência de outros indiví­d uos nos problemas de relaciona­
mento do casal; segundo, a mulher pobre tendia a exercer
atividades remuneradas que lhe possibilitavam certa inde­
pendência em relação ao homem; terceiro, o grande dese­
quilíbrio numérico entre os sexos — com a existência de um
número bem menor de mulheres — tornava o ato de amar
bastante competitivo para os homens, ao mesmo tempo que
ampliava as possibilidades da mulher de escolher seletiva­
mente seu companheiro.
Esses três fatores combinados fazem emergir um tipo
de relacionamento amoroso bastante diferente dos este­
reótipos dominantes da relação homem–mulher. A possibi­
lidade de o homem impor seu poder tirânico sobre uma
mulher oprimida e indefesa está praticamente proscrita pe­
las condi­ç ões concretas de vida, pois este homem tem de
contar com as seguintes contingências: parentes, compadres
e amigos coíbem seus atos de violência; sua mulher pode
conseguir a sobrevivência sem depender dele e, finalmente,
sua mulher geralmente tem possibilidade de arrumar outro
companheiro com relativa facilidade. Todos estes fatos talvez
indiquem uma menor durabilidade, e talvez até instabilida­
de, nas relações homem–mulher entre essas pessoas, mas,
ao mesmo tempo, ao possibilitarem uma relação mais simé­
trica, talvez abrissem as portas para um relacionamento mais
significativo afeti­v amente, com considerável espaço para o
amor e o carinho.

Tentemos, então, testar as hipóteses lançadas acima a


respeito do relacionamento amoroso entre os nossos perso­
nagens, começando pelos casos em que a situação de tensão
entre os amantes desemboca num ato de violência de uma
das partes — geralmente, do homem.

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Os dois primeiros casos analisados têm em comum o
fato de que, rompida a relação, o homem volta a procurar
a mulher e acaba agredindo‑a quando um acordo para o
reatamento não é atingido. Francisco Horffe, natural da
capital federal, 28 anos, pardo‑claro para uns, branco para
outros, empregado nas obras da Avenida Central, conta
assim seu infortúnio: 40

[...] que tendo chegado do Rio Grande no domingo,


foi sabedor de que sua amásia Joaquina Novaes da Sil­
va se achava amasiada com um negociante a quem não
conhece; que hoje às onze e meia da noite, indo procu­
rá‑la na casa em que reside a mesma Joaquina à rua
Camerino, número cento e oito, ele a interpelou sobre
a acusação que pesava sobre ela; que Joa­q uina negando,
insultou‑o, e ele depoente enfure­c endo‑se lançou mão
de uma faca de cozinha, e fez em Joaquina diversos
ferimentos [...].

Joaquina, parda, de 22 anos, refere‑se a Francisco como


seu “ex‑amásio” e, de acordo com o noticiário do Correio da
Manhã do dia posterior ao crime, Francisco tinha abando­
nado Joaquina havia um ano, partindo para o Rio Grande
do Sul. Eduardo de Souza Dantas, 30 anos, cozinheiro,
compadre de Joaquina, era o dono da casa onde esta estava
morando na ocasião. Eduardo também se refere a Francisco
como o “ex‑amásio” da ofendida e conta que acolheu Joa­
quina em sua casa desde que seu amásio a abandonara, indo
para o Sul. Joaquina não nega que tivesse outro amante,
di­z endo que Francisco a agredira “demonstrando ciúmes
dela depoente com outro amante”. O compadre Eduardo
conta que Joaquina trabalhava fora como doméstica, e que
“às vezes saía depois de regressar de seu trabalho dirigin­
do‑se a uma venda existente nas imediações de sua casa”.

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Esta pequena e trágica história de amor contém todos
os elementos que, como já vimos, são condicionantes essen­
ciais da relação homem–mulher neste contexto. Vemos, de
início, que o compadre de Joaquina a socorreu quando de
seu abandono pelo amásio. Esta, por sua vez, continuou
sobrevivendo normalmente por meio da ajuda do compadre
e de seu trabalho como doméstica. Finalmente, pouco im­
porta aqui se Joaquina havia com efeito arrumado outro
amante — apesar de tudo levar a crer que sim —, pois o que
realmente interessa é que este fato era bastante provável, o
que levou ao desespero Francisco, o amante posses­s ivo que
não conseguiu impor livremente sua dominação. O ato de
matar a ex‑amásia é um ato de quem se vê incapaz de exer­
cer um certo poder sobre outra pessoa.
No caso seguinte, Marieta Mendes, branca, flumi­n en­s e,
20 anos, doméstica e analfabeta, conta que

viveu quatro anos como amante de Domingos Mon­t eiro


Jorge e há cerca de três meses [...] abandonou o referi­
do Domingos em Inhaúma onde moravam, por dar‑se
ele ao vício da embriaguez, vindo ela depoente para esta
cidade onde alugou um cômodo de número sete na casa
de cômodos número noventa e quatro da rua General
Gomes Carneiro. Desde que ela depoente separou‑se de
Do­m ingos, nunca mais este procurou‑a até que há ­c erca
de três dias, voltou ele a insistir com ela depoente para
continua­rem a viverem juntos, ao que ela recusou‑se e
que destes três dias para cá tem ele estado em seu apo­
sento, até que ontem Domingos tendo estado com ela
declarante deixou em seu quarto um revólver [...] De­
pois de entregar o revólver a ela depoente saiu Domin­
gos e foi para um botequim próximo cuja fregue­s ia ela
depoente reprovou entrando Domingos e ela de­p oente
para o aludido número sete da casa de cômodos [...] e

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fechada a porta do mesmo dei­t a­r am‑se na cama. Mo­
mentos depois começaram ambos a discutir resolven­
do‑se ela depoente a vestir para sair com ele a fim de
deixá‑lo na rua. Levantada da cama dirigiu‑se a depoen­
te para o toilette e na ocasião em que procurava prepa­
rar os cabelos foi inopinadamente agredida por Domin­
gos que des­f e­c hou‑lhe três vezes o revólver [...]. 41

Os outros depoimentos informam ainda que Marieta


morava no quartinho alugado junto com uma irmã. O senho­
rio e sua mulher, assim como outros habitantes da casa de
cômodos, afirmam que não conheciam o acusado e que só
depois do ocorrido foi que ficaram sabendo, por ­M arie­t a,
que ela e o acusado haviam sido amasiados. Aqui temos mais
um caso em que uma mulher pobre recusa‑se ter­m i­n ante­
mente a assumir um papel submisso na relação amorosa.
Ma­rieta não aceita continuar uma relação na qual se via sacri­
ficada pelo hábito do marido de se embriagar. Além disso,
a iniciativa de Marieta de abandonar Domingos e juntar‑se
à irmã para dar seqüência a sua vida mostra sua pos­s ibilidade
de viver sem depender do amásio. Nes­t e contexto, a agressão
do homem denota mais uma vez completa impotência em
impor sua dominação sobre a companheira.
A versão dos fatos apresentada por Domingos, ­contudo,
é um tanto diferente, mas inteiramente previsível. Ele sus­
tenta que Marieta ainda é sua amásia e que “em vista da
infi­d elidade da mesma muito se tem contrariado”. Diz ain­
da que “perdeu a cabeça” ao conversar com Marieta porque
esta disse‑lhe certas “coisas” e chegou a insultá‑lo. Apesar
da versão de Domingos ser um tanto diferente, ela ainda
assim confirma o essencial: seu ato de violência resultou
diretamente de sua incapacidade de exercer um poder ir­
restrito sobre a companheira. É absolutamente necessário

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enfatizar o fato de que a violência do homem surge, nos ca­s os
estuda­d os, antes como uma demonstração de fraqueza e im­
potência do que como uma demonstração de força, de po­der.
Este ponto é essencial porque o discurso dos agentes jurí­
dicos da época tentará inverter radicalmente o­ signi­f icado
desta violência masculina. Nestes casos em que o homem
acusa a companheira de infiel, os advogados argumentarão
invariavelmente que o homem partiu para a agressão porque
teve sua “honra ultrajada”, o que fez com que ele perdesse
a ­n oção de seus atos. Nota‑se, então, que o ato violento do
macho assumiu aqui uma conotação completamente dis­tinta:
a agressão do homem passa a ser o exercício, a prática de
um poder que ele tinha sobre a mulher. A “defesa da honra”,
por­t anto, transforma um ato de fraqueza e im­p otên­c ia em
demonstração de poder e dominação. A rea­lidade con­c reta
dentro da qual se desenrolam as relações de amor entre ­e sses
homens e mulheres pobres é, então, desfigurada e dis­t orcida
para servir à ideologia da dominação masculina. 42
Os casos seguintes mostram situações em que a mulher
apresenta uma conduta independente e insubmissa, às vezes
expressamente em represália à conduta do companheiro ao
longo do relacionamento. Nestes casos, portanto, a relação
ainda não estava rompida quando da crise que desembocou
no crime, sendo que o homem continua a alegar sistemati­
camente a infidelidade da companheira como justificativa
para a sua agressão. Antônio Paiva, natural da Paraíba, 24
anos, sargento da força policial, narra assim a sua desdita:

[...] que há cinco anos mais ou menos é casado com


Alice de Assunção a qual sempre se portou com serie­d ade
não constando ao declarante fato algum sobre a sua
honestidade; que há um ano mais ou menos o de­c larante

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reside, por espírito de economia, com o sargento Bié
atualmente destacado no Méier, o qual para ter um
auxílio para viver, visto serem os seus vencimentos como
os do declarante, diminutos, fornece comida aos praças
do destacamento, entre eles um de nome José; que na
madrugada de hoje ao sair de casa com Bié, este decla­
rou‑lhe que tinha um fato grave a co­m u­n icar‑lhe sobre
sua esposa, e que o faria em caminho, o que de fato fez
narrando‑lhe que Alice portava‑se mal, tendo notado
que ela namorava a referida praça José para quem tinha
todas as atenções havendo até pedido à mulher dele Bié
que queria ­lavar a roupa do mesmo José, com quem ela
já tinha tido encontros [...]; que há dias ele Bié notara
que Alice colocara entre a roupa engomada de José um
bilhete, e inter­r ogando‑o no destacamento confessou
ele que realmente tinha recebido dela um bilhete, que
en­tre­gou‑lhe, no qual Alice confes­sava‑lhe amor e outras
coisas que o declarante agora não se recorda [...] di­
zendo‑lhe ainda Bié que estava convencido que Alice o
enganava não estando disposto a que ela ­c ontinuasse
em sua casa; que o declarante convencido da ­t raição de
sua mulher, assim que chegou ao quartel escreveu um
bilhete ao seu cunhado Antônio de Assunção, co­n hecido
por Nhonhô, pedindo que ele o procurasse, e quando
ele chegou o declarante relatou‑lhe o que ou­v ira de Bié
acrescentando que ele fosse buscar ­A lice porque não
queria saber mais dela não querendo nem vê‑la; que por
volta das quatro horas da tarde o de­c la­r ante dirigiu‑se
à casa de sua sogra Dona Maria Amélia de Assunção
[...], a quem relatou o sucedido dizendo que tinha vis­
to o bilhete havendo­reconhe­c ido a letra de Alice e como
Dona Amélia não acreditasse o declarante disse‑lhe que
a chamasse e interrogasse; que Alice entrou na sala de
visitas, onde se achavam, risonha e com todo cinismo
confessou que realmente tinha escrito o aludido bilhete,
mas, como não tinha assinatura nada podia fazer; que
da discussão que tiveram e do que acabou de ouvir, dito

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com tanto cinismo [...] entre riso de mofa [...] o decla­
rante perdendo toda a calma, num momento de aluci­
nação, lançou mão do revólver que consigo trazia de­t o­
nan­d o‑o duas vezes contra Alice [...]. 43

Este relato minucioso do desenvolvimento de uma cri­


se conjugal reforça aspectos já conhecidos da estratégia de
so­brevivência do pobre urbano: a necessidade une dois casais
amigos sob o mesmo teto. Os homens trabalham na força
policial, enquanto as mulheres desempenham ativida­d es
remuneradas que representam uma extensão de suas funções
domésticas: elas oferecem pensão aos soldados do destaca­
mento e ainda lavam e engomam as roupas dos mes­m os
soldados. Vemos também um desdobramento ­p ossível des­
ta coabitação de casais amigos, com a ­i nterferência do sar­
gento Bié no relacionamento amoroso do outro ­c asal. É Bié
que denuncia ao amigo a suposta infidelidade da esposa e
chega até a exigir que esta deixe de imediato a sua casa. Aqui,
novamente, a agressão do homem é cons­t ruída a partir de
uma situação real de fraqueza e impotência dian­t e da insub­
missão da mulher. A versão que Alice dá aos fatos torna
patente sua disposição em não aceder à dominação do ma­
rido, exigindo a prática de uma relação amorosa mais simé­
trica. Sobre o fato de que seu marido havia insistido muito
para que ambos fossem morar na casa do sargento Bié, Ali­
ce diz “que seu marido assim procedeu para ficar mais à
vontade, pois que é atirado a conquistas”. ­C ontinua ainda
acu­s ando o marido de haver arrumado uma ­n amorada nas
redondezas e de sair à noite para ir a bailes com o sargento
Bié. Sendo assim, Alice claramente sugere que sua conduta
em relação ao soldado José foi em represália às atitudes que
seu marido vinha tomando. Ela confirma que mandou o tal
bilhete a José, mas nega que com ele tivesse tido encontros.

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Arremata ainda sugerindo que estas acusações eram feitas
pelo sargento Bié porque “ele a desejava”, tendo notado isto
“pelo seu olhar”.
No caso seguinte, a conduta independente de uma mu­
lher parece ser novamente a causa de desavenças entre um
casal. A carta transcrita abaixo foi escrita por Joaquim Ver­
ço­s a Calado, alagoano, de 25 anos, guarda‑civil, para Aris­
tea Lins, branca, brasileira, 20 anos. 44 Joaquim procurava
explicar à amásia sua decisão de romper a relação. Segundo
Joaquim, Aristea teria ficado muito abalada com o recebi­
mento da carta e acabara se suicidando com um tiro no
ouvido. Os moradores da casa de cômodos em que ambos
moravam, porém, afirmam que Joaquim havia matado a
amásia, pois já vinha ameaçando fazer isto havia algum
tempo. O ­p róprio Joaquim apresentou a carta ao delegado.

Minha Ingrata Aristea


Uma vez que foram debalde os conselhos que te dei em
voz baixa naquele quarto da miserável casa nú­m ero
cinqüenta e cinco da rua de Santana e para melhor acei­
tares tornei a dar‑lhe outros na praia da Lapa quando
ví­n hamos de regresso da casa de meu compa­d re Leo­
sette, a fim de abandonares a amizade de D. Belmira,
Ga­b riela, Nenê, Seraphina, a Negra e D. Adelina estas
in­f elizes prosti­t utas que iludiram‑te a fim de dares um
passo que por tua criancice dei­xou‑se levar, chegando
até ao ponto de não ligar‑me importância conforme a
sua própria e ingrata pessoa de coração tão cru passou
a me declarar por ocasião em que nos achavamos na
mesa depois que jantei e que a filhinha não jantou se­
quer, pois já que assim foi, assim seja, e queira desde já
por meio desta receber a notícia que a tua pessoa para
mim com muita dor passo a confessar que não existe,
peço‑te que nunca mais me aborreças ficando ciente

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também que as causadoras de teus sentimentos são aque­
las miseráveis mulheres que por Deus Onipotente juro
e espero o fim delas, somente pelo fato de tê‑la desen­
caminhado para o tão triste viver à mercê do povo.
Pro­m eto‑te pela última vez minha filha que fostes a
segunda e última mulher com quem vivi, a fim de não
passar por um outro dissabor tão amargurado conforme
passei por ti. Estimará a tua felicidade o nun­c a esque­
cido Verçosa (que uma hora Filhinho e outra hora Ve­
lhinho como tratavas).

As declarações que Joaquim presta a respeito da carta são


bastante duvidosas, tornando pouco provável a sua ­v ersão
de que a companheira se suicidara quando de seu recebi­
mento. O modo como a carta está escrita — explicando com
detalhes as causas das desavenças do casal e narrando as su­
postas tentativas de Joaquim de contornar os problemas —
deixa a nítida impressão de que ela foi escrita muito mais
para esclarecer o delegado do que propriamente Aristea.
Esta impressão se reforça quando sabemos que Joaquim
ainda morava com Aristea e estava sozinho com ela no mo­
mento do suposto suicídio. Além disso, o fato de que ­A ristea
apenas “assinava o nome”, não sabendo ler nem escrever —
fato afirmado por diversas testemunhas —, torna ainda mais
estranha a opção do acusado de romper o relacio­n amento
através de uma carta. O mais provável, portanto, é que o
acusado, tendo assassinado a amásia, tenha escrito a carta
para reforçar sua estratégia de alegar inocência sugerindo o
possível suicídio de Aristea.
Esta circunstância de a carta ter sido provavelmente
es­c rita para esclarecer à autoridade talvez nos auxilie a en­
tender a imagem de mulher que o acusado nos tenta trans­
mitir atra­v és de Aristea, imagem esta que se apresenta como

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A carta que Joaquim escreveu a Aristea (processo criminal no qual foi réu
Joaquim Verçosa Jacobina Callado, n o 5.040, maço 884, galeria a, 1908).

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claramente contraditória em relação à experiência real de
relacionamento que Joaquim teve com a amásia. Joaquim
pinta Aristea como uma mulher imatura — onde se destaca
a “criancice” —, que foi “iludida” por mulheres ­p erdidas e
levada para o mau caminho. Temos aí, então, uma ­m ulher
passiva, submissa e indefesa que, não tendo aceitado a pro­
teção e os conselhos de seu homem, acabou por se perder.
As outras testemunhas, contudo, revelam-nos que o rela­
cionamento entre o casal era problemático havia ­m uito
tempo e Aristea reclamava constantemente que seu amásio
era “muito ciumento”, ameaçando dar‑lhe pancadas e até
matá‑la por qualquer motivo. O irmão de Aristea conta que
sua irmã já o havia procurado pedindo que a ajudasse a alu­
gar um quarto, pois queria se separar de Joaquim. ­A ris­t ea
realmente fizera amizade com outras mulheres da casa de cô­
modos, sendo no entanto impossível saber se estas mulheres
eram realmente prostitutas, como alega Joaquim. O empre­
gado de um cinematógrafo da vizinhança, porém, conta que
Aristea ia ao cinematógrafo com freqüência, acom­p anhada
de outras mulheres e rapazes. Ele refere que Aristea, per­
guntada certa vez por seu amásio — que, ­t odos sabiam, não
gostava que ela ali fosse —, havia respondido que “nada
tinha a perder”.
A história de Aristea reforça novamente a figura do
homem frustrado diante da impossibilidade de subjugar sua
companheira pelo ciúme. Os casos até aqui mostram que a
luta da mulher por um relacionamento amoroso mais simé­
trico era um fato comum da vida destas pessoas e a mulher
insubmissa encontrava quase sempre aliados entre parentes,
compadres e amigos. Mas a luta da mulher para obter uma
relação mais igual também tem suas regras e seus limites
bem definidos: em um dos casos analisados, a conduta da

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mulher em relação ao marido é quase que unanimemente
reprovada pelos seus iguais. Trata‑se do caso de Elvira Mon­
teiro, portuguesa, de 25 anos, casada com José Monteiro,
também português, de 29 anos, cocheiro. 45 O casal habitava
uma das superlotadas casas de cômodos do início do século,
e sua história ilustra bem a participação ativa de outros
indivíduos nos problemas íntimos de um casal. Uma das
habitantes da casa de cômodos, portuguesa, de 29 anos,
doméstica, conta que

chegou o inquilino José Monteiro que logo perguntou


por sua mulher de nome Elvira; que a declarante à vis­
ta da pergunta de José Monteiro bateu na porta de
Pedro Primavera, pois a declarante tinha visto Elvira
dentro do quarto de Primavera; que nessa ocasião Elvi­
ra que se achava dentro do quarto de Primavera, avis­
tando a declarante ajuntou as mãos como quem supli­
cava misericórdia para ela; que José Monteiro que esta­
va junto com a declarante, quis forçar a porta para en­
trar, porém Primavera não consentiu; que Elvira conse­
guindo sair por outra porta foi alcançada pelo seu ma­
rido José Monteiro, que desfechou‑lhe cinco tiros à
queima‑roupa matando‑a instantaneamente; que atribui
como causa dessa desgraça achar‑se José Monteiro ofen­
dido com o procedimento de sua mulher e que nisso
tudo tem grande parte Pedro Primavera Filho que se
intitulava amante da mulher de José Monteiro [...].

A participação ativa da testemunha acima no desfecho


fatal do caso é enorme, pois ela chega até a bater na porta
do quarto de Primavera, pois sabia que Elvira estava lá den­
tro. Mas esta testemunha está longe de ser a única a conde­
nar a atitude de Elvira, apesar de os outros moradores da
casa de cômodos terem tentado resolutamente evitar o des­

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fecho sangrento. De qualquer forma, neste caso não há
nenhuma referência a uma possível conduta repressiva de
Monteiro em relação a Elvira, e a forma aparentemente es­
candalosa com que esta cometia o adultério com Primavera
fez com que não contasse com a simpatia dos outros habi­
tantes da casa de cômodos.
Resta finalmente comentar dois casos em que a luta da
mulher por uma relação mais igual, com a exigência firme
da fidelidade do companheiro, não a transforma em vítima
do homem. Em um desses casos, Marta Maria da Conceição,
parda, de 19 anos, cozinheira, conta

que conhece há três anos mais ou menos Luís ­Augus­t o


Pinto; que no ano de 1907, Pinto disse à depoente que
queria casar‑se com a depoente, pois, tinha‑lhe ­m uita
amizade; que em junho ainda do mesmo ano e ­q uando
a depoente estava empregada em uma casa no Sam­p aio,
Pinto a convidou para darem um passeio o que a de­
poente aceitou e uma tarde em lugar de ir para casa foi
com Pinto dar o passeio combinado até à Es­t ação do
Engenho de Dentro; que quando voltaram à noite foram
então pernoitar no quarto de Pinto e aí ele deflorou a
depoente; tendo consigo três contatos sexuais; que
tempos depois foram morar em casa de Mariana Es­
tefânia, sendo então que a mãe da depoen­t e soube do
caso, porém Pinto ainda declarou que se casa­v a com a
depoen­te; que no dia quatorze de ­agosto do ano passado
a de­poente teve uma filha de Pinto, à qual deram o nome
de Olímpia por ser esse o nome da mãe de Pinto; que
em abril do ano corrente a depoente teve notícia
que Pinto tinha uma noiva que se chamava Adelina que
morava na rua Dona Ana Nery [...]; que foi a sua casa
e aí encontrou seu amásio, sendo que fez aí grande
barulho; que foi então abandonada por Pinto que nada
mais deu à depoente nem à criança [...]. 46

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Marta conta ainda que Pinto, que era português, de 39
anos, caixeiro, havia mandado para ela uma lata de farinha
láctea Nestlé envenenada, com o óbvio intuito de matar sua
filhinha. Pinto nega a acusação, dizendo que isso não ­passava
de um ato de vingança de Marta, sendo esta ajudada por
Maria Estefânia, dona da casa de cômodos onde Pinto havia
alugado um quarto para morar com Marta. Vemos neste caso
uma mulher que exige a fidelidade de seu amásio e luta para
obtê‑la por todos os meios, além, obvia­m ente, de exigir que
Pinto assuma a sua condição de pai e auxilie no sustento da
criança. Mas Marta perde a parada, pois Pinto acaba ­c asan­d o
com Adelina, numa união que, muitas pessoas consideram,
foi por puro interesse da parte de Pinto, já que o pai de
Adelina era um negociante português que parecia prosperar
a cada dia.
Em apenas um dos casos analisados a mulher acaba
cometendo um crime por não aceitar a infidelidade do com­
panheiro. Trata‑se do caso de Sofia Eugênia da Gama, par­
da, de 40 anos, natural do estado do Rio, doméstica, anal­
fabeta, que deu um tiro no ouvido de seu amásio, José
Pinto Ferreira, português, de 41 anos, negociante, e outro
no próprio ouvido. 47 Um negociante amigo de Pinto conta
os antecedentes da questão:

[...] que entretendo estreitas relações de amizade com o


ofendido José Pinto Ferreira, sabe que ele é ama­s iado há
cerca de 20 anos com Sofia Eugênia da Gama, rapariga
de cor parda-escuro e quarenta anos presumíveis; que há
cerca de oito meses Ferreira, tendo tido como emprega­
da, uma mulher de nome Maria, começou a com esta ter
relações sexuais, e, por último, pô‑la por sua conta, em
uma casa à rua Luiz Barbosa vinte e três; que Sofia desco­
brindo a infidelidade do seu amásio, ficou toda enciuma­

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da e às ­v ezes procurava discutir ou brigar, não ­levando,
porém, a efeito, visto que Ferreira não lhe dava atenção;
que Ferreira sempre tratou com muito carinho sua amá­
sia Sofia, proporcionando‑lhe todos os recursos [...].

Este caso único de violência feminina direta contra o


ho­m em tem realmente todas as características da famosa
ex­c eção que prova a regra: a situação era tão humilhante
para Sofia que nos faz pensar que só em condições extremas
como essa a mulher recorria à violência direta contra o com­
panheiro. Pinto chegava ao requinte de dormir regularmen­
te às terças, sextas e domingos com a nova amante, enquan­
to passava as outras noites com a velha amásia. Esta trágica
his­t ória serve para sugerir que a violência direta contra o
com­p anheiro não era uma forma comum de a mulher pobre
mostrar sua exigência de um tratamento melhor e mais
igualitário na relação amorosa. A mulher pobre mostrava
seus anseios de uma relação mais simétrica preferencialmen­
te por meio de sua conduta independente e de atos não
violentos de represália às tentativas do marido de impor uma
dominação absoluta sobre ela. Ela recorria também, como
veremos adiante, ao expediente radical — e sempre dolo­roso
para o homem desprezado — de trocar de amásio.

O fato de ser mais comum a violência direta do homem


contra a mulher nas relações amorosas entre nossos persona­
gens talvez mereça uma interpretação mais apro­f undada,
mes­m o que ainda bastante hipotética. Toda a trajetória da
argu­m entação até aqui tem sido para mostrar que as con­
dições materiais de vida da classe trabalhadora na cidade do
Rio de Janeiro no início do século XX levavam a tipos de re­
lação homem–mulher que se caracterizavam por uma maior
simetria — ou seja, a experiência de vida destas pessoas não

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oferecia bases concretas que justificassem uma pesada do­
minação masculina no relacionamento de um casal, o que
resultava num papel mais ativo da mulher na relação.
Se esta posição menos passiva da mulher na relação
ocorria realmente na prática de vida destas pessoas no con­
texto histórico específico que experimentavam, então como
explicar que a mulher pobre continuasse a ser a principal
vítima da violência intraconjugal? Por que ela continuava
sendo vítima dos amantes possessivos e ciumentos? Por que
não era, ela também, autora de atos violentos de retaliação
com mais freqüência?
Essas interrogações precisam ser respondidas por par­
tes. Primeiro, é necessário inquirir sobre o significado da
violência masculina. Um de seus prováveis significados é
que os estereótipos sobre o “ser homem” e o “ser mulher”
pro­p alados pela classe dominante eram pelo menos parcial­
mente internalizados pelos amantes da classe trabalhadora.
­E sses modelos dominantes, ao incidirem sobre um meio
social que não tinha as condições materiais nem as motiva­
ções necessárias para praticá‑los, talvez criassem situações
de ambigüidade e insegurança que contribuíssem para o
recurso ao ajuste violento. O homem, especialmente, apren­
dia pelos estereótipos dominantes que a mulher era sua
propriedade privada, o que o tornava mais frustrado ao per­
ceber que a prática da vida não autorizava que ele exercesse
aquele poder ilimitado que o ser possuidor tem teoricamen­
te o direito de exercer sobre aquilo que é possuído.
Mas a violência masculina também pode ter um outro
significado. Como já vimos, a reprodução das condições
materiais de vida desses homens e dessas mulheres dependia
da sua capacidade em articular redes extensas de solidarie­
dade e ajuda mútua, que se constituíam em sua principal

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estratégia de sobrevivência nas situações de extrema penúria
que experimentavam. E o fato é que essas redes de solidarie­
dade e ajuda mútua eram mais facilmente cons­t ruídas entre
casais do que entre indivíduos isolados. Essa realidade é re­
la­t ivamente fácil de explicar. Devido à própria natureza da
divisão das tarefas entre o casal, temos que a mulher, espe­
cializando-se na realização de tarefas domésticas, remune­
radas ou não, acaba sendo o principal elo de prestação de
ser­v iços entre os casais. É ela geralmente que realiza peque­
nas tarefas domésticas para os casais amigos, criando e reno­
vando assim a teia de relações do casal. Mais do que isso, os
serviços prestados pelo homem nessas relações de ajuda
mútua, além de parecerem mais esporádicos, são também
de uma natureza essencialmente distinta daquela dos servi­
ços prestados pela mulher. O homem ajuda mais diretamen­
te um companheiro na hora difícil do desemprego, por
exemplo, ou quando da realização de uma tarefa árdua e
pesada como a construção de uma casa. Por quase todo o
resto do ­t empo, e excluindo também as horas semanais da
cachaça social no botequim da vizinhança, o homem depen­
de da presença da mulher para acionar e cumprir seus deve­
res cotidianos de solidariedade, como convidar os amigos
para jantar, por exemplo, para citar o caso que mais aparece
nos dados co­le­t ados. Nestas relações de ajuda mútua, por­
tanto, o casal funciona como a unidade ideal de prestação
de serviços, unidade esta que, desfeita, põe em risco a prin­
cipal estratégia de sobrevivência destes indivíduos. O rom­
pimento de uma relação, então, era visto pelo homem pobre
como uma desarticulação de seu modo de vida, com o agra­
vamento imediato de seus problemas de sobrevivência. Este
talvez seja o significado mais profundo da violência mascu­
lina no contexto histórico e na situação de classe experimen­

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tada por essas pessoas. As mulheres talvez se desesperassem
menos com este aspecto do rompimento amoroso, pois elas
com­p reendiam que em geral não teriam dificuldades em
ar­r umar outro amásio se assim o desejassem. O homem, no
en­t anto, sabia que estava novamente atirado numa arena na
qual a luta era árdua e conquistar uma nova companheira
poderia levar tempo.
O fato de a mulher recorrer com menos freqüência à
vio­lência contra o companheiro nos momentos de crise, po­
rém, não pode ser atribuído exclusivamente ao dado de que
o de­s equilíbrio numérico entre os sexos na cidade do Rio
de Janeiro da época tornava fácil para ela iniciar em breve
um outro relacionamento amoroso. As razões desse com­
portamento não diretamente violento das mulheres são mais
complexas. Aqui, novamente, é necessário ter em conta
que as mulheres pobres muito provavelmente interio­r izavam
pelo menos em parte os padrões dominantes do “ser mulher”
que a bombardeavam ao longo da vida. Sendo assim, os este­
reó­tipos de passividade e submissão feminina, gerando assim
a auto‑imagem da mulher‑vítima, talvez servissem como
uma espécie de freio aos possíveis impulsos femininos para
recorrer à violência física direta contra o parceiro amoroso.
A mulher parecia recorrer também a uma espécie de reta­
liação violenta indireta contra o homem, retaliação esta por
meio da qual ela negava sua submissão e desviava de si a
violência machista do homem. Refiro‑me às numerosas
ocorrências de brigas entre homens por causa de mulher.
Nesses ­c asos a mulher coloca‑se como o pivô da disputa e
assiste a seus possíveis algozes digladiarem‑se mutuamente.
Os dados coletados mostram que a mulher pobre em ques­
tão muitas vezes reagia aos maus‑tratos do companheiro
utilizando‑se do expediente de mudar de amásio. Esta “ro­

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ta­t ividade dos amá­s ios” atirava os homens uns contra os
­o utros e trans­f or­m ava as mulheres de vítimas da violência
machista em ma­n i­p u­ladoras, conscientes ou não, deste tipo
de violência. Desta forma, a mulher fragmenta o poder e a
ânsia de domi­n ação masculina, fazendo com que esse poder
masculino se exerça não apenas sobre si, mas também sobre
os outros homens. Para os homens, isto significa a recons­
trução parcial dos conceitos machistas pro­p alados de cima
para baixo pela classe dominante: os dados coligidos mos­
tram que a violência do homem por questões de amor se
exerce com muito mais freqüência contra outros homens do
que contra as mulheres. 48 É necessário ressaltar que os ho­
mens e mulheres pobres empenhados em relações amorosas
correm riscos geralmente semelhantes de sofrerem violên­
cias. Não é ape­n as a mulher que corre o risco de ser vitima­
da, como se po­d eria deduzir do modelo dominante de rela­
ção homem–mulher, pois a mulher pobre em questão tem
meios, que fre­q üentemente utiliza, de transformar seus al­
gozes em vítimas. Os fatos da competição pelas mulheres e
da “rotatividade dos amásios” vêm apenas confirmar o papel
ativo que a mulher pobre assume nos destinos de uma rela­
ção amorosa, sendo ela consciente de que pode a qualquer
momento desviar o rumo ou mesmo romper uma relação
que não mais a ­s atisfaz afetivamente.

Os casos analisados a seguir mostram homens que, em­


penhados na conquista de uma mesma mulher, acabam bri­
gando por isso. Honorina Martins, de 23 anos, lavadeira,
solteira, natural de São João da Barra, conta que

conheceu [...] Hermógenes Bispo dos Reis, ­daquela cida­


de, vendo o mesmo inconstantemente como embar­c adiço

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que era; que ao chegar nesta cidade coin­c i­d iu ir morar
em uma casa da rua Jogo da Bola [...] que então Her­
mógenes tomou a mãe da declarante pa­r a sua lavadeira,
lugar este que mais tarde passou para a depoente por
haver sua mãe adoecido; que uma vez a depoente tomou
de conta da roupa de Hermógenes para lavar este mui­
tas vezes mandava‑lhe junto à ­­roupa bilhetes con­v i­
dando‑a para com ele se amasiar; que a depoente vendo
que tal não devia aceder, não só por ter um filho de três
anos de idade a quem jamais sujeitaria a um indivíduo
como Hermógenes, como também pela diferença de
idade, o dissuadiu fazendo‑lhe ver que o proposto era
impertinente; que isto fez escrevendo‑lhe em um dos
mesmos bilhetes que recebera dele Hermó­g enes; que
Hermógenes não ­i nsistiu, porém não a queria com Ar­
mando Couto, a quem depois da referida proposta a
declarante passou a namorar, e de quem aceitara uma
proposta para se amasiarem, [...] [Hermógenes] passou
pela casa da depoente amea­ç ando‑o [a Armando], caso
não atendesse, de o esbofetear; que naturalmente deu‑se
qualquer desin­t e­ligência entre os dois donde proveio o
assassinato de Hermógenes [...]. 49

Honorina morava numa casa de cômodos com a mãe,


a irmã e o filho pequeno que menciona no depoimento.
Pelo menos Honorina e a mãe lavavam roupas para garan­
tir seu sustento, sendo que contavam entre seus fregueses
outros moradores da casa de cômodos. Mulher, portanto,
trabalhadora e independente, Honorina escolhe de forma
criteriosa seu possível amásio. Tanto Hermógenes Bispo
dos Reis, pardo, 41 anos, estivador, quanto Armando Cou­
to, natural do Distrito Federal, 18 anos, bombeiro hidráu­
lico, mos­t ram‑se interessados em se amasiar com Hono­r ina.
Uma das testemunhas afirma que Honorina “dava corda a
ambos”, mas ela nos diz que não se interessava por Hermó­

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genes porque não acreditava que este pudesse ser um bom
pai para seu filho, além de ser bem mais velho do que
ela. O caso ilustra bem a forma ativa como a mulher par­
ticipa de uma relação desde o início, escolhendo de forma
bastante seletiva e racio­n al o seu amásio e se recusando
a se submeter a um homem aparentemente dominador e
vio­len­t o como Hermógenes. Este, por sua vez, acaba ten­
tando exercer seu poder masculino sobre outro homem — o
rival mais bem‑sucedido —, porém acaba sendo morto
na luta.
Em outro caso semelhante, os amores de Alice Maria
da Conceição, parda, de 21 anos, cozinheira, natural de
Angra dos Reis, estavam sendo ardorosamente disputados
por João do Cavanhaque, branco, de 21 anos, natural do
Distrito Federal, cocheiro, e Antônio Teixeira, branco, de
19 anos, português e carroceiro.50 Antônio Teixeira se ­q ueixa
de que Alice ultimamente vinha “preferindo a João, natural­
mente porque este podia gastar mais do que ele”. Certa
noite, os rapazes se encontraram na casa de um amigo co­
mum, sendo que Alice vinha em companhia de João. Os
rapazes trocaram provocações e, no dia seguinte, João pro­
curou Antônio e desfechou-lhe diversos tiros. Algumas
testemunhas dizem que Alice era “mulher fácil” e que efe­
tivamente andava com os dois rapazes. Alice diz que nunca
foi amante “nem de João nem de Antônio”, mas que este
último “quis se amasiar com ela, porém, ela não quis por
saber que ele era pouco amante do trabalho”. Do alto de
sua posição de mulher cobiçada por dois rapazes ao mesmo
tempo, Alice dá uma esnobada final, afirmando que “nunca
foi amásia nem de um nem de outro, estando até, presente­
mente ama­s iada, com José dos Santos, pintor, com quem já
esteve amasiada quatro anos [...]”.

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O caso seguinte mostra que a violência machista do
amante inseguro era fragmentária e se fazia exercer tanto
sobre a companheira quanto sobre outros homens. ­C eleste
de Souza, preto, natural do estado do Rio, 20 anos, analfa­
beto, servente de pedreiro, desempregado na ocasião do
crime, era amasiado com Maria Benedita, brasileira, 18 anos,
analfabeta e cozinheira. 51 O casal morava na ­residência de
Joana, mãe de Maria Benedita, onde também morava outra
filha de Joana. Maria Benedita conta que era amasiada com
Celeste havia seis meses e se queixa de que

Celeste tinha ciúmes dela depoente, e várias vezes a amea­


çou com pancadas; que na quinta‑feira da semana passa­
da o seu amásio Celeste lhe disse que se a encontrasse na
rua conversando com José Saul ou outro qualquer ho­
mem a espancava; que amedrontada ficou doente e na
sexta‑feira da mesma semana teve um aborto e ainda hoje
se acha de cama doente. Que ela depoente nunca foi
infiel ao seu amásio Celeste. Que Celeste é de gênio
irascível e violento [...].

A violência do tratamento de Celeste à amásia é afir­


mada também por outras testemunhas e, de acordo com os
dados coletados, ele realmente tinha razão em temer a ­p erda
da amásia, pois as mulheres em questão pareciam muito
pouco condescendentes com este tipo de tratamento, princi­
palmente uma mulher como Maria Benedita, que tinha a
companhia da família e exercia a profissão de cozinheira. De
qualquer forma, o ato mais violento de Celeste foi dirigido
a outro homem, José Saul, preto, de 28 anos, carroceiro,
que trabalhava no abastecimento de carne aos açougues da
freguesia do Engenho Novo. Celeste diz que tinha rixa com
José Saul havia muito tempo, “por querer este lhe tomar a

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TRABALHO LAR E BOTEQUIM.indb 233 25/07/2012 09:43:43


sua amásia Maria Benedita”. Certo dia, os dois homens se
en­c ontraram quando José Saul passava com sua carroça de
carne pela rua em que morava Celeste. Os dois se desafiaram
e lutaram, tendo José Saul morrido com uma facada.
O trecho do depoimento seguinte é o de uma mulher
de nome Ana Gonçalves de Oliveira, portuguesa, 27 anos,
sol­t eira, costureira. 52 Ela foi chamada à delegacia porque
fora pivô de um crime no qual seu ex‑amásio Manoel Mon­
teiro Guedes, português, 48 anos, negociante, havia lutado
e sido ferido por Manoel Fonseca, português, 40 anos,
­n egociante, cujo “comércio consiste no transporte de gêne­
ros dos subúrbios [...] para o centro comercial desta cidade”.
Ma­n oel Guedes dizia que Manoel Fonseca, seu conhecido
de longa data, havia-lhe roubado a amásia. Ana conta que

até julho viveu amasiada com Manoel Guedes de quem


é sócia [...] na casa de quitanda à rua ­Visconde de Itaú­
na, número oitenta e sete, residindo ela ­d eclarante atual­
mente com uma comadre [...]; que o seu ex‑amante tem
lhe dado vários prejuízos empe­n han­d o‑lhe jóias e pe­
dindo‑lhe dinheiro para saldar compromissos seus e
como ela declarante conhecesse Manoel Fonseca por
vezes pe­diu deste dinheiro sob sua responsabilidade para
aten­d er a pedidos do dito Manoel Guedes; que pelo fato
dela declarante não ter querido mais o dito Monteiro
como seu amante por ter sofrido do mesmo até ­p ancada
começou ele a tudo fazer para que ela voltasse a sua com­
panhia e como ela declarante não cedeu a suas rei­t eradas
súplicas começou Monteiro Guedes [a dizer] que ela
declarante estava amasiada com Manoel Fonseca [...].

Ana conclui seu depoimento negando que tivesse tido


“relações carnais” com Manoel Fonseca, mas o que é mais
interessante nesta história é que temos mais uma mulher que

234

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se recusa a continuar uma relação amorosa com um homem
que a maltratava e de quem absolutamente não dependia
economicamente. Este caso também inaugura uma série de
exemplos nos quais, já rompida uma relação amorosa, geral­
mente por iniciativa da mulher, o ex‑amásio retorna para
agredir o homem que é ou que ele pensa ser o novo amásio
de sua ex-companheira. Em um desses casos, o sargento
Nó­b rega, da polícia civil, branco, solteiro, de 27 anos, vi­v ia
ama­s iado com Lourença Palhares, brasileira, viúva, de 31
anos, doméstica. 53 Certo dia, Lourença resolveu aban­d o­
ná‑lo, por motivos que não se especificam nos autos. En­
furecido, o sargento desfechou dois tiros contra a mulher,
errando o alvo. O sargento foi preso e julgado pelo júri,
tendo sido absolvido. Por esta ocasião, Lourença já se encon­
trava amasiada com outro homem, Leonel Ferrão, de 27
anos, solteiro, comandante da guarda noturna. O sargento
Nóbrega dirigiu então toda a sua raiva para o novo amásio
de Lourença, surgindo entre os dois homens uma séria rixa.
O sargento vivia propalando que daria cabo de Leonel.
Certa ocasião, quando o rival passava num bonde em frente
à dele­g acia, o sargento comentou com um companheiro:
“Vai, puto, que qualquer dia tu darás um adeus eterno”. O
compa­n heiro retrucou que Leonel era “homem valente”, ao
que o sargento respondeu “que para essa valentia ele sargen­
to ­t inha um revólver”. Dias depois, Leonel passou em fren­
te à delegacia na qual trabalhava Nóbrega, trazendo ainda
a “­amante disputada” 54 pelo braço. Os dois homens trocaram
tiros, sain­d o ferido o sargento.
O depoimento abaixo, de Maria Barbosa, de 21 anos,
solteira, lavadeira, é a história de outra mulher que decide
abandonar seu amásio, contando então com a ajuda de uma
amiga que a aceita para morar em sua casa. Maria Barbosa

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acaba se amasiando com um dos irmãos da amiga, rapaz com
quem, segundo ela, nada tinha anteriormente, e se cria ­a ssim
uma situação típica para o surgimento de uma rixa entre
homens que se tornam rivais amorosos. Diz Maria Barbosa

que era amasiada com o acusado Domingos Ferreira; que


há menos de um mês não podia continuar em sua com­
panhia; em vista disso foi residir com seus filhos em
casa de Carlos Jerônimo à rua Pernambuco, número
vinte, por ser amiga de sua mulher; que depois ­d isso
amasiou‑se com Sebastião, cunhado de Carlos e desde
então Domingos tomou raiva àquele, a quem ­m andava
provocações por intermédio de um sobrinho [...]. 55

O ex‑amásio de Maria Barbosa, o pardo Domingos, ti­n ha


37 anos, era viúvo, natural do estado de São Paulo e ferrei­
ro. O novo amásio, Sebastião, tinha 18 anos, era natu­r al do
estado do Rio e lavrador. Domingos foi procurar Sebastião
e ambos trocaram tiros, saindo ferido Domingos­.
Em outro exemplo, o português Cândido Alberto, de
28 anos, funileiro, era amasiado com Ana Gomes, portugue­
sa, de 25 anos, empregada como doméstica numa casa de
família em Botafogo. 56 Ambos viviam “maritalmente” num
quarto de estalagem pago por Cândido Alberto havia cerca
de sete anos. Cândido tinha um amigo de nome Antônio
Duarte, também português, de 26 anos, canteiro, que se
de­c larou casado. Cândido e Duarte se conheciam e manti­
nham relações amistosas havia um ano, mais ou menos,
quando surgiu entre ambos uma séria rixa. Cândido come­
çou a desconfiar de que Ana, sua amásia, o estava traindo
justamente com Duarte. Cândido estava certo, e Ana, em
seu depoimento, declarou‑se “seduzida” pelas cartas de amor
e promessas de Duarte, que, por sinal, mal escrevia o próprio

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nome e tinha suas cartas escritas por um negociante portu­
guês seu amigo. Ana declara

que só atendeu às seduções de Duarte porque este che­


gou ao ponto de ir dentro de sua própria casa, quando
o amásio estava trabalhando, para desviá‑la [...]; que as
rela­ç ões dele informante com a vítima não se limitavam
a simples galanteio, porém tiveram cará­t er mais positi­
vo, sendo que eram realizadas dentro da própria casa
do acusado [Cândido], quando este saía para seu traba­
lho, isso mais de uma vez; que o acusado sempre igno­
rou essas relações, até o dia em que a surpreendeu com
a vítima [...].

Após algumas semanas de troca de ameaças, os dois ri­


vais se encontraram em uma praia, ambos armados, e Cân­
dido desfechou cinco tiros em Duarte.
No caso seguinte, Emília Pinto, brasileira, de 32 anos,
doméstica, era casada havia quase 20 anos com Manoel Fer­
reira Pinto, português, 39 anos, cocheiro. 57 Emília narra as
circunstâncias de seu rompimento com Manoel Ferreira:

[...] que ela declarante é casada há vinte anos com Ma­


noel Ferreira Pinto com quem viveu algum tempo em
boa harmonia, tendo dele três filhos; que em setembro
de 1906, foram morar na casa acima citada, ocupando
o quarto e sala da frente; que na parte restante da casa
residia um moço de nome Manoel Correa, em compa­
nhia de três irmãs; que em princípios do ano próximo
findo, seu marido começou a ter ciúmes de Correa, ciú­
mes esses infundados, até que em fevereiro do mesmo
ano, depois do ­c arnaval, seu marido levou todos os
móveis e objetos que existiam em casa, abandonando a
declarante na maior miséria e levando consigo o filho
mais velho e uma menina; que então, seu marido co­m e­

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çou a difamá‑la, propalando ser ela amante de Cor­rea,
o que não era verdade; que tendo a declarante ficado
sem recursos, resolveu procurar um emprego, no que
foi obstada por Manoel Correa, o qual disse à decla­r ante
que, uma vez que seu marido a difamava publicamente
como amante dele Correa, fizesse do dito verdade e
passasse a viver em sua companhia, o que a declarante
aceitou, urgida pela necessidade; que daí seu marido
começou a perseguir Correa, ameaçando‑o em toda a
parte onde o encontrara [...].

Certo dia, Manoel Pinto foi à casa de Correa, que era


na­t ural do Distrito Federal, calceteiro e tinha 29 anos, e os
dois homens lutaram, morrendo Pinto com um tiro.
Não importa tanto nesse caso o fato de que Emília tal­
vez não dissesse a verdade quando qualificava de “infunda­
dos” os ciúmes do marido, mas sim que novamente temos
uma mulher que, ao trocar de amásio, assiste à luta entre os
dois homens que a desejavam. 58 Outra vez, o problema da
coa­b itação aparece intimamente ligado à crise de um casal,
apesar de certamente não dar conta do possível desgaste de
uma relação de quase 20 anos na qual Emília se viu envol­
vida quando ainda não tinha sequer 14 anos. De qualquer
forma, seria ilusório pensar que Emília assistia à luta entre
os dois contendores como um ser passivo, pronta a se ofe­
recer como troféu ao vencedor: ela dá motivos bastante
lógicos para a sua decisão de amasiar‑se com Correa, asso­
ciando‑a às necessidades de sobrevivência e a uma forma de
retaliação pelos ciúmes e pela campanha de difamação que
o marido parecia mover contra ela.
Em suma, a história de Emília é mais um caso contun­
dente e reiterativo de tudo que se quis argumentar nesta
parte: as mulheres em questão exigiam de seus companhei­

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ros relações amorosas em que assumissem uma posição mais
igual e participante, e estavam em condições de romper ou
pressionar pela mudança de rumo de relações que não as
satisfizessem. Essas mulheres, portanto, não eram obvia­
mente “da gandaia”, como queria João do Rio, e sim pare­
ciam estar não muito acomodadas ao jugo de seus homens.
Apesar disso, continuavam fortemente acorrentadas ao jugo
de outra classe, de outros homens que não eram os seus.

Epílogo

Os agentes jurídicos que produzem os processos crimi­


nais analisados partem do pressuposto de que qualquer re­
lação amorosa tende a um modelo absoluto e universal
segun­d o o qual o homem ocupa o pólo ativo e dominador,
enquanto a mulher se encontra no pólo passivo e submisso.
Sendo assim, as crises amorosas registradas nos processos
se explicam geralmente a partir da constatação de que a mu­
lher não assumiu devidamente a sua passividade e submissão,
quebrando assim o estado de equilíbrio desigual que ­d everia
caracterizar qualquer relação homem–mulher. Daí o fato de
que o comportamento da mulher é quase sempre o que está
em julgamento quando um criminoso passional do sexo
masculino está sentado no banco dos réus. Esta é apenas
uma das muitas contradições inerentes e necessárias a uma
sociedade cujo sentido mais profundo é a reprodução das
desigualdades — sejam elas sociais, econômicas, sexuais ou
de qualquer outro tipo que o leitor possa imaginar.
Um tanto alheios a este modelo absoluto ao qual se
deviam supostamente ajustar — mas sofrendo constante­
mente na pele e na mente a sua tentativa de imposição —,

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os seres de carne e osso em cuja vida fomos nos intrometer
pa­reciam vivenciar o amor a partir de parâmetros bem dis­
tintos. As suas condições materiais de vida, os seus modos
de pensar e agir os levavam a praticar uma relação homem–
mulher que tendia a uma bipolarização, com uma maior
divisão do poder entre os amantes. Isso pressupõe uma mu­
lher mais ativa e independente, o que significaria apenas
ad­m itir o tipo de postura que esta mulher tinha de assumir
diante da vida em condições tão adversas. ­S ignifica também
que, mais freqüentemente, as crises amorosas talvez fossem
resultado da não- aceitação por parte do homem da condu­
ta independente da mulher, conduta feminina esta mais de
acordo com as motivações e limites impostos a ela pela si­
tuação de classe que experimentava. 59
De qualquer forma, e além de qualquer possibilidade
de construir modelos rígidos e únicos de comportamento
amo­roso, os sinais longínquos emitidos por estes homens
e mulheres são ambíguos e contraditórios. Mas estes sinais
che­g am a nós, apesar de todo o esforço dos agentes jurí­d icos
em enquadrá‑los e, assim, silenciá‑los. Aguçando os ouvi­
dos, po­d emos escutar as vozes esganiçadas se infil­t ran­d o
pelas entrelinhas dos processos. Ao contrário do que pos­
tula o dita­d o jurídico, o que não está nos autos ainda assim
está no mundo. Por mais que tentem, os autos não silenciam
os atos. 60

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N otas

1
Anais da Câmara dos Deputados, 1888. Debate sobre a lei de repressão
à ociosidade.
2
Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes. São
Paulo: Ática, vol. 1, 1978, pp. 20 e 154‑55.
3
Mariza Corrêa, “Repensando a família patriarcal brasileira”, in vários
autores, Colcha de retalhos. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 35.
4
Lia Fukui e M. C. A. Bruschini, “A família em questão”, Cadernos de
Pesquisa da Fundação Carlos Chagas. São Paulo, 1981, p. 3.
5
Carmem Cinira Macedo, A reprodução da desigualdade: o projeto de vida
familiar de um grupo operário. São Paulo: H ucitec , 1979, p. 146. Uma
resenha bibliográfica que chega a esta perspectiva teórica é a de Lia F.
G. Fukui, “Estudos e pesquisas sobre família no Brasil”, Boletim Infor-
mativo e Bibliográfico de Ciências Sociais (BIB). Rio de Janeiro, n o 10,
1980. Para estudos de caso em uma perspectiva semelhante, ver, por
exemplo, Alba Zaluar, “As mulheres e a direção do consumo doméstico”,
in vários autores, Colcha de retalhos, op. cit., pp. 159-84; Elisabete Dória
Bilac, Famílias de trabalhadores: estratégias de sobrevivência. São Paulo:
Símbolo, 1978; e ainda os artigos de Ana Maria da Silva Dias, “Família
e trabalho na cafeicultura”, e Eni de Mesquita Samara, “Casamento e
papéis familiares em São Paulo no século XIX”, ambos incluídos nos
Cadernos de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas. São Paulo, 1981.
6
Jurandir Freire Costa, Ordem médica e norma familiar. Rio de Janeiro:
Graal, 1979.

241

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7
José Joaquim F. M. Barros, apud idem, op. cit., p. 235.
8
A síntese que se segue provém de idem, op. cit., cap. 6.
9
José Joaquim F. M. Barros, apud idem, op. cit., p. 235.
10
José Luiz da Costa, apud idem, op. cit., p. 236.
11
Fukui, “Estudos e pesquisas sobre família...”, op. cit., p. 15.
12
Mariza Corrêa, Morte em família. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
13
A narrativa que se segue é baseada no processo de Luís Cândido de
Faria Lacerda (réu), n o 4.930, maço 878, galeria a, Arquivo Nacional,
1906, no noticiário do Correio da Manhã dos dias posteriores ao crime
(a partir do dia 25/4/1906) e no livro de Evaristo de Moraes, Crimi-
nalidade passional — O homicídio e o homicídio-suicídio por amor. São
Paulo: Saraiva, 1933.
14
Evaristo de Moraes, op. cit., p. 115. Para outros exemplos da atuação
de Evaristo de Moraes no júri, ver processo de Lucinda Leão Mendes,
n o 4.969, maço 879, galeria a, 1906, e Arthur Frederico de Noronha,
n o 717, maço 883, galeria a, 1908.
15
Maria Sylvia de C. Franco, Homens livres na ordem escravocrata. São
Paulo: Ática, 1976, pp. 40‑47.
16
Gilberto Velho, “O estudo do comportamento desviante: a contribuição
da antropologia social”, in G. Velho (org.), Desvio e divergência: uma
crítica da patologia social. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
17
Miguel da Costa, n o 4.970, maço 879, galeria a, 1906.
18
Osias José Moreira, n o 1.068, maço 895, galeria a, 1911.
19
João Braulino de Sousa, n o 5.009, maço 880, galeria a, 1907.
20
Manoel Paulo Taveira, n o 1.061, maço 895, galeria a, 1911.
21
As estalagens e as casas de cômodos eram cenários bastante comuns
dessas desavenças típicas de situações em que diversos casais conviviam
sob o mesmo teto. Neste caso, as tensões talvez se agravassem pelo fato
de esses casais não possuírem, em geral, nenhum laço prévio de afini­
dade.
22
Lima Barreto, Recordações do escrivão Isaías Caminha. Rio de Janeiro:
Edições de Ouro, s.d., pp. 213‑14.
23
Antônio Pedro dos Santos, n o 5.023, maço 882, galeria a, 1907.
24
José Pereira Terra, n o 687, maço 881, galeria a, 1907.
25
Gaspar Barros da Silva Porto, n o 615, maço 876, galeria a, 1907.

242

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26
Joaquim de Andrade Bastos, n o 5.061, maço 886, galeria a, 1908.
27
Sofia Eugênia da Gama, n o 5.007, maço 880, galeria a, 1907.
28
Luís Augusto Pinto, n o 5.071, maço 886, galeria a, 1909.
29
Os casos são numerosos, e muitos serão citados ao longo do texto daqui
para frente.
30
Mário da Rocha Pereira, n o 1.066, maço 895, galeria a, 1911.
31
Benjamim Ignácio, n o 4.941, maço 878, galeria a, 1905.
32
José Cândido Vieira, n o 5.150, maço 890, galeria a, 1910.
33
Apud Oswaldo Porto Rocha, A era das demolições: cidade do Rio de
Janeiro: 1870‑1920. Dissertação de mestrado, Universidade Federal
Fluminense. Rio de Janeiro, 1983, p. 90.
34
Recenseamento do Rio de Janeiro realizado em 1906, pp. 388‑89.
35
Rosária Maria Ferreira, n o 8.547, caixa 1.187, galeria a, 1908.
36
Mariano Solanez Alegret, n o 5.063, maço 886, galeria a, 1909.
37
Joaquim de Andrade Bastos, n o 5.061, maço 886, galeria a, 1908.
38
João do Rio, Histórias da gente alegre (org. João Carlos Rodrigues). Rio
de Janeiro: José Olympio, 1981, p. 82.
39
Recenseamento do Rio de Janeiro realizado em 1906, pp. 122‑27.
40
Francisco Alberto Horffe, n o 612, maço 876, galeria a, 1905. Algumas
circunstâncias deste caso foram esclarecidas pelo noticiário do Correio
da Manhã, 27 jan., 1905.
41
Domingos Monteiro Jorge, n o 5.054, maço 886, galeria a, 1909.
42
Para um outro caso semelhante a estes dois comentados acima, ver o
processo de Edmundo Pfaltzgraff de Oliveira Paranhos, n o 5.059, maço
886, galeria a, 1908.
43
Antônio de Paiva, n o 5.048, maço 884, galeria a, 1908.
44
Joaquim Verçoza Jacobina Callado, no 5.040, maço 884, galeria a, 1908.
45
José Monteiro, n o 719, maço 883, galeria a, 1908.
46
Luís Augusto Pinto, n o 5.071, maço 886, galeria a, 1909.
47
Sofia Eugênia da Gama, n o 5.007, maço 880, galeria a, 1907.
48
Dos 140 processos de homicídio analisados, tivemos apenas cinco casos
comprovados de agressão do homem contra a companheira entre ca­
sais pobres. Além desses, no caso já analisado do processo citado na
nota 44, o acusado alega que a mulher se suicidou e é absolvido, com

243

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o júri aceitando sua alegação. Contudo, como já sugeri quando comentei
o caso, é bem mais provável que o acusado tenha efetivamente sido o
autor da agressão. Em outro caso, um homem é acusado de dar tiros na
noiva, mas há grandes contradições nos autos e fortes evidências de que
a polícia forjou o flagrante na delegacia. Por outro lado, foram locali­
zados 11 casos de brigas entre rivais por questões de amor, alguns dos
quais serão comentados adiante. Registraram‑se também três casos de
agressão de homens contra prostitutas e dois de homens que brigaram
por causa destas. Este número de questões envolvendo meretrizes é
relativamente alto, sugerindo a importância da prostituição como meio
de vida para mulheres humildes que desejavam ter uma vida indepen­
dente numa cidade repleta de homens jovens e solteiros. Esses casos
indicam, ainda, que essas mulheres não eram desprezadas pelos seus
iguais, pois inspiravam, algumas vezes, reações extremadas e até pas­
sionais. A prostituta parecia despertar sentimentos ambíguos de fascínio
e rejeição, pois em sua opção de vida ela negava radicalmente o es­
tereótipo da mulher possuída e dependente: ela fazia da negação da
possibilidade de alguém possuir seu corpo com exclusividade o meio de
ganhar a vida. Finalmente, a amostra contém alguns casos de crimes
de amor perpetrados por pessoas de classes mais abastadas. Destes, os
casos não mencionados no item “O modelo dominante de relação
homem–mulher”, neste capítulo, foram deixados de lado.
49
Armando Couto, n o 1.069, maço 895, galeria a, 1911.
50
João José da Silva, vulgo João do Cavaignac, n o 1.515, maço 906,
galeria a, 1907.
51
Celeste Lauriano José de Souza, n o 731, maço 883, galeria a, 1908.
52
Manoel Ferreira da Fonseca, n o 4.317, maço 954, galeria a, 1908.
53
Leonel Moreira Pires Ferrão, n o 607, maço 876, galeria a, 1905.
54
Este é o título da reportagem do Correio da Manhã sobre o crime de
Leonel Ferrão (matéria publicada em 8/12/1905).
55
Sebastião Pereira da Silva e outro, n o 2.775, maço 2.120, galeria a, 1906.
56
Cândido Alberto, n o 1.444, maço 903, galeria a, 1907.
57
Manoel Sanches Corrêa ou Manoel Joaquim Corrêa, n o 5.136, maço
889, galeria a, 1908.
58
Outro exemplo deste tipo é o narrado na introdução — a briga entre
Zé Galego e Paschoal.

244

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59
Maria Odila L. da Silva Dias, em trabalho notável sobre as mulheres
pobres na cidade de São Paulo no século XIX, também constata os
limites cotidianos às práticas das normas e valores ideológicos das
classes dominantes pelos agentes sociais expropriados. A autora escreve
que o sistema de dominação social das classes dominantes “estipulava
papéis sociais difíceis de serem mantidos por homens ou mulheres de
classes desfavorecidas, embora alguns de seus valores permeassem por
toda a sociedade como traços machistas dos papéis sociais masculinos.
Entretanto, normas e valores ideológicos relativos ao casamento e à
organização da família nos meios senhoriais não se estendiam aos
meios mais pobres de homens livres sem propriedades a transmitir.
Moças pobres sem dotes permaneciam solteiras ou tendiam a consti­
tuir uniões consensuais sucessivas”. Ver Maria Odila L. da Silva Dias,
Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX — Ana Gertrudes de Jesus.
São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 20.
60
O ditado jurídico é “O que não está nos autos não está no mundo” e é
citado por Mariza Corrêa em Morte em família. A autora parece descrer
da possibilidade de se chegar aos atos por meio dos autos, justificando
assim sua opção por trabalhar exclusivamente no nível das representações
jurídicas.

245

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...“M atando o bicho ”
e resistindo aos “ meganhas ”
Inquietações teóricas e objetivos

A burguesia, pelo rápido desenvolvimento


de todos os instrumentos de produção,
pelos meios de comunicação ­imensamente
facilitados, arrasta todas as nações, mesmo
as mais bárbaras, para a civilização [...].
Em uma palavra, cria um mundo à sua
própria imagem.
K. M arx e F. E ngels 1

[...] nunca houve um só tipo de “tran­


sição”. A tensão desta recai sobre a totali­
dade da cultura: a resistência à mudança
e o ascenso à mesma surge da cultura
inteira [...]. O que necessita dizer‑se não
é que uma forma de vida é melhor que
outra, mas sim que há aqui um problema
muito mais profundo; que o testemunho
histórico não é simplesmente de mudança
tecnológica neutra e inevitável, mas tam­
bém de exploração e resistência à explo­
ração; e que os valores são suscetíveis de
serem perdidos e encontrados.
E. P. T hompson 2

247

TRABALHO LAR E BOTEQUIM.indb 247 25/07/2012 09:43:43


O termo “imperialismo” passa a ter uso generalizado
en­t re intelectuais e políticos europeus no final do século
XIX. O Oxford English dictionary, que tenta sempre localizar
o exem­p lo mais antigo de uso de cada palavra, não consegue
encontrar exemplo de uso da palavra “imperialismo” que
seja anterior a 1881. 3 A palavra foi cunhada em função de
um dos acontecimentos mais singulares da história contem­
porânea — a expansão súbita e desenfreada dos impé­r ios
co­lo­n iais europeus após 1870. Nas três décadas que ante­
cederam o final do século XIX, os principais Estados euro­
peus — em ferrenha competição entre si — expandiram seu
controle político no exterior de forma espantosa — mais de
25 milhões de quilômetros quadrados de território e qua­s e
150 mi­lhões de pessoas, ou seja, cerca de um quinto da área
territorial mundial e um décimo da população mundial. 4
Uma outra faceta do mesmo fenômeno foi o verdadeiro
boom, a partir de 1873, de exportação de capitais europeus
para as suas próprias regiões coloniais dotadas de adminis­
tração lo­c al — como o Canadá, Índia e Austrália, no caso
do ­I mpé­r io inglês —, e também para as áreas de passado
colonial, mas ainda submetidas a um controle indireto das
principais po­t ên­c ias européias — como no caso da América
Latina. 5 Nas últimas décadas do século XIX e no início do
século XX, a América Latina, bombardeada por maciços
investimentos de capitais europeus, trilha decididamente o
caminho da “oci­­dentalização” na sua forma burguesa —
libe­r al, num proces­s o de mudança muitas vezes brutal e de
ele­v ado custo ­s ocial. 6
O Brasil cumpriu seu papel na crescente divisão inter­
na­c ional do trabalho estabelecida ao longo da segunda me­
tade do século XIX ao especializar‑se na produção de um
ar­t igo supérfluo de sobremesa — o café — e ao se transfor­

248

TRABALHO LAR E BOTEQUIM.indb 248 25/07/2012 09:43:43


mar também num dos alvos das batalhas de investimentos.
Este processo de maior integração do Brasil à economia ca­
pitalis­t a mun­d ial sofreu um novo impulso com a Abolição
e o­ad­v en­­to da República, que parecem ter criado o quadro
ins­t i­t ucional adequado para colocar o país numa posição de
maior destaque na divisão internacional do trabalho, atrain­
do ­a ssim os fluxos de capital e de força de trabalho que se
en­c a­m inha­v am do Velho para o Novo Mundo. A maior in­
te­g ração do Brasil à economia capitalista mundial a partir
dos acon­­­tecimentos de 1888‑1889 é comprovada pelos
­d ados de cresci­m ento das nossas exportações: estas cresce­
ram num ritmo de apenas 10% entre os decênios de 1871‑
1880 e 1881‑1890, passando este crescimento para 31,6%,
entre a penúltima e a última década do século XIX, e atin­
gindo a ele­v ada cifra de 63,7%, na primeira década do sé­
culo XX. 7 Ín­d ice ainda mais revelador deste processo são os
dados quan­to à penetração do capital inglês: de 1829 a 1860,
a Grã‑Bre­t anha concedeu ao governo brasileiro empréstimos
no ­v alor de 6.289.700 libras; de 1863 a 1888 foram conce­
di­d os emprés­t imos no valor de 37.407.300 libras e, final­
men­t e, de 1889 a 1914 estes empréstimos atingiram a cifra
de 112.774.433 libras.8 É por essa via que o governo ­f ederal
intervém decididamente para tornar viáveis as reformas
urba­n ísticas realizadas durante a gestão do prefeito Pereira
Pas­s os (1902‑1906): o presidente Rodrigues Alves solicita
e recebe do Congresso plenos poderes para negociar por in­
termédio de seu ministro Leopoldo de Bulhões um em­p rés­
timo­ vi­s ando a financiar as obras da capital federal. Com
efei­t o, é­ob­t ido, do grupo de banqueiros N. M. Rothschild,
um em­p rés­t imo no valor de 8,5 milhões de libras, quantia
que representava quase a metade do orçamento da União
em 1903. 9 

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A cidade do Rio de Janeiro, portanto, desempenhou
papel destacado nesta crescente inserção da economia brasi­
leira no capitalismo internacional. É verdade que a deca­d ên­
cia da economia cafeeira do Vale do Paraíba e o envio da
pro­d ução do Oeste paulista para o porto de Santos ten­d eram
a di­m inuir a atividade exportadora do Rio de Janeiro, mas
estes fatos foram compensados por um enorme aumento das
importações e do comércio de cabotagem. 10 Em 1906 en­
tra­v am na capital federal 2.386 navios a vapor e veleiros do
co­m ércio transatlântico e de cabotagem. Este movimento
dava uma tonelagem de 3.443.004, representando um au­
mento de mais de um terço no período de 1888 a 1906. As
impor­t a­ç ões do Rio de Janeiro neste último ano equivaliam
a ­p ouco menos da metade do total do país e as exportações,
a apenas um sétimo. Esses dados indicam com clareza uma
mudança de função do porto do Rio de Janeiro, que perde
sua impor­t ância como exportador de café e ganha como
centro distribuidor de artigos importados e como mercado
consumidor. 11
Com efeito, entravam pelo porto da cidade produtos
de toda espécie, predominando os artigos manufaturados.
Em 1906, a maior parte destes produtos era proveniente da
Inglaterra, ficando a Alemanha em segundo lugar e os Es­
tados Unidos em terceiro. 12 Houve, portanto, uma mudan­
ça de vulto nas atividades econômicas da cidade do Rio de
Ja­n eiro nos primeiros anos da República Velha, mudan­ç a
esta que transformou a cidade num grande centro cosmo­
polita, ligado intimamente à produção e ao comércio euro­
peus e americanos. 13 A cidade parecia mal preparada para
desempe­n har suas novas funções econômicas. Segmentos
das classes dominantes cariocas, ligados ao comércio de im­
portação e aos interesses do capital estrangeiro, logo se

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empenharam em realizar os melhoramentos materiais e as
re­f ormas nos ­h ábitos sociais que transformariam a capital
federal no posto avança­d o por onde se fariam “o progresso
e a grandeza do Brasil”. 14 Entenda‑se aqui que realizar o
“progresso” significava exclusi­v amente acompanhar os pa­
drões e o ritmo de ­d esdobramento da economia européia, 15
ou seja, a imagem que a nova burguesia carioca tinha do
“progresso” se sintetizava no ­o bjetivo precípuo de realizar
a civilização européia nos trópicos.
O “estado de espírito” — se é que o leitor me permi­
te uma expressão tão abstrata — que acompanha estas
­m udanças de base nas atividades econômicas e na estru­t ura
de poder da cidade se caracteriza por um cosmopolitismo
desmedido e agressivo. Um “escritor maldito” 16 como Lima
Barreto pinta com precisão este “estado de espírito” reinan­
te na cidade nos primeiros anos da República Velha — e
que culmi­n aria no delírio demolidor da gestão de Pereira
Passos, como já vimos em outro capítulo — num conto
debochado e divertido, intitulado “O homem que sabia
javanês”. 17 O nar­r ador da aventura, um bom contador de
histórias chamado Castelo, relata como conseguiu um em­
prego de professor de javanês, língua falada numa distan­
te possessão holandesa na Ásia, sem que tivesse nenhum
conhecimento prévio do idio­m a. Castelo estava “literal­
mente na miséria”, pulando de casa de pensão para casa de
pensão, quando leu no Jornal do Com­m ercio um anúncio
requisitando um professor de java­n ês. Estando o nosso
herói em apuros e sem saber como ganhar dinheiro, ima­
ginou que este seria um emprego para o qual haveria
poucos concorrentes. Assim, Castelo di­r i­g iu‑se à Biblio­
teca Nacional, descobriu algo sobre a ilha de Java, come­
çou a decorar o alfabeto javanês e logo se apresen­t ou ao

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velho barão de Jacuecanga, que era quem havia requi­s itado
o professor.
O bom barão queria aprender a língua com o intuito de
ler um velho livro, herança do avô, que era considerado uma
espécie de talismã da família. Não foi difícil ludibriar o
barão: este não conseguia sequer aprender as primeiras le­t ras
do alfabeto javanês e Castelo começou logo a “ler” para seu
aluno as histórias que supostamente constavam do ­livro, mas
que ele obviamente inventava utilizando um pouco de sua
criatividade. Nesse ínterim, a fama do “homem que ­s abia
javanês” alastra‑se pela cidade. O barão e seu gen­r o, um
desembargador influente, alardeiam em todas as direções a
sapiência deste homem tão jovem “que sabia javanês”. Para
encurtar a história, Castelo foi indicado para a carreira diplo­
mática, tornou-se cônsul, foi escolhido para representar o
país num congresso de lingüística em Paris e, na volta, foi
recebido solenemente pelo presidente da República. Diga‑se
de passagem que, apesar de se dedicar aos estudos, o nosso
cônsul jamais conseguiu aprender o javanês.
Lima Barreto critica, assim, de forma divertida e vee­
mente, o artificialismo daquela cultura burguesa importada
e bebida avidamente pelas elites cariocas do período. O
trágico, contudo, é que o processo de aburguesamento da
sociedade carioca estava muito além de uma simples comé­
dia de erros. Tratava‑se, na verdade, de um projeto político
de reforma social veiculado de forma consciente e agressiva
por uma classe dominante diretamente comprometida com
a penetração de capital e bens industrializados provenientes
das metrópoles capitalistas avançadas. Tratava‑se, portanto,
de um projeto social “totalizante” — no sentido de que vi­
sava impor não só mudanças materiais, mas todo um modo
de vida — e profundamente autoritário — no sentido de que

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visava realizar essas mudanças à força e sem nenhuma con­
sideração maior para com os setores sociais que sofreriam
as conseqüências diretas de tais transformações. Nicolau
Sev­cenko resume de forma brilhante os pontos fundamentais
deste projeto político de metamorfose social:

[...] a condenação dos hábitos e costumes ligados pela


memória à sociedade tradicional; a negação de todo e
qualquer elemento de cultura popular que pudesse ma­
cular a imagem civilizada da sociedade ­d ominante; uma
política rigorosa de expulsão dos grupos populares da
área central da cidade, que será ­p raticamente isolada
para o desfrute exclusivo das camadas abur­g uesadas; e
um cosmopolitismo agressivo, profundamente identifi­
cado com a vida parisiense. 18

Este projeto avassalador de mudança social — cujas


linhas de força fundamentais vinham de fora para dentro do
país e de cima para baixo do ponto de vista da estrutura
­s ocial interna — havia sido concebido como um processo
linear, natural e inevitável por seus protagonistas. Tratava‑se,
­a final, de fazer com que o país se inserisse na “civilização”.
O teste­m unho histórico, no entanto, é de profunda resistên­
cia à mu­d ança. Se é verdade que a burguesia sonhava em
“criar um mundo à sua própria imagem”, também é verda­
de que ­a cabou tendo de se contentar com uma imagem, no
­m ínimo, bastante imperfeita. O próprio Lima Barreto, “es­
critor maldito”, mula­t o numa sociedade que os poderosos
sonham em “regenerar”, ou seja, “embranquecer”, registra
nas vozes de seus personagens mais humildes o protesto
surdo, mas ­f irme, das vítimas. Para um conhecido de Isaías
Caminha, estes homens que “botam abaixo, derrubam casas,
levantam outras, tapam umas ruas, abrem outras [...] estão

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doidos!!!” 19 E Clara dos ­A njos, moça pobre e negra de um
subúrbio do Rio, enganada e deflorada por um conquistador
de pele branca, sardento e de cabelos claros, exclama “com
um grande acento de ­d esespero” abraçando‑se a sua mãe:
“Nós não somos nada nesta vida”. 20
A emancipação dos escravos e a política imigratória fo­
ram os dois processos constitutivos essenciais do mercado
de trabalho capitalista — e conseqüentemente da classe tra­
balhadora — da cidade do Rio de Janeiro nas últimas dé­
cadas do século XIX e no início do século XX. A Repú­b lica
procla­m ada em 1889 contém em si, portanto, como anta­
gonismo fundamental, a relação trabalho assalariado versus
capital. Pode‑se dizer mesmo que a República foi procla­
mada sobre a figura do homem livre-trabalhador assalariado-
cidadão. 21 Talvez fosse melhor afirmar que a República foi
proclamada sobre a figura do homem livre pobre porque ti­
nha para ele um projeto amplo, que era o de transformá‑lo
em trabalhador, ou seja, em fonte de acumulação de capital.
E a República foi proclamada ainda sobre o homem livre
pobre na medida em que este projeto de exploração econô­
mi­c a era acompanhado de todo um projeto de mudança
“es­p iritual”: já vimos nos capítulos anteriores como se for­
ja neste momento crucial toda uma nova ética de trabalho
e um ­m odelo de família que se aplicariam a todos os mem­
bros da “nação”. E já vimos também, em parte, a forma
con­t raditória com que a tentativa de implantação desse pro­
jeto de sociedade “de fora para dentro e de cima para baixo”
foi vivenciada pelos membros da classe trabalhadora: uma
aparente mistura indivisível de resignação e revolta, aquies­
cência e insubordi­n ação, solidariedade e lutas intestinas.
Mas o quadro ainda não estará completo enquanto não
trouxermos em cena, para desnudá‑lo, o mundo do lazer

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popular, dos botequins e das ruas, assim como a sua con­
trapartida inevitável: a repressão policial. Ela aparece aqui
com uma função relativamente óbvia, pois a organização da
força policial é “parte constitutiva da estratégia de ­f ormação
de um mercado capitalista de trabalho assalariado”. 22 Ou
seja, a imposição do assalariamento ao trabalhador é cor­ro­
borada pela vigilância constante do aparato policial, que
ro­t ula de “vadios” — e arremessa eventualmente ao xilin­
dró — todos aqueles indivíduos que se encontram nos bo­
tequins e nas ruas e que não conseguem provar sua condição
de trabalha­d ores — isto é, de indivíduos submetidos ou
adaptados ao projeto de vida feito para eles.
O restante deste capítulo pretende, no entanto, ir além
da simples exploração sistemática do vínculo que se estabe­
lece entre lazer popular–formação de um mercado capita­lista
de trabalho assalariado–repressão policial. Pretende‑se, além
disso, propor uma interpretação global do sentido da cul­t ura
popular na cidade do Rio de Janeiro nesta era de impor­t an­
tes transformações sociais. Seguindo a definição de Sidney
Mintz, 23 “cultura” é entendida aqui como uma espécie de
recurso, de formas ou alternativas de conduta ou com­p orta­
mento historicamente disponíveis aos membros de uma
de­t erminada comunidade ou classe social. Este conceito não
se confunde com o de “sociedade”, que é concebida como
a “arena” de luta ou as circunstâncias sociais que dão en­s ejo
à utilização das formas ou alternativas culturais disponíveis.
Sendo assim, a hipótese mais geral que se quer lançar aqui
sobre a cultura popular na cidade do Rio de Janeiro nestes
anos de formação da classe trabalhadora carioca é de que
esta cultura é resultado da dialética — antagonismos e re­
conciliações — entre as normas e os valores burgueses que
se desejam impor às classes populares “de fora para dentro

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e de cima para baixo” e as normas e os valores criados pela
própria classe trabalhadora na sua prá­t ica real de vida. Mais
do que isso, pretende‑se mostrar que na época havia uma
cultura popular relativamente autônoma, vigorosa e ­c riativa
na cidade e que, apesar de o projeto de sociedade das classes
dominantes cariocas querer se implantar de cima para baixo
independentemente da natureza da resposta social a este
projeto, o fato é que na prática polí­t ica real estas classes
do­m inantes não puderam escapar às contingências ­i mpostas
por uma classe trabalhadora que resistiu tenazmente à tenta­
tiva de destruição de seus valores tradicionais. Deve‑se
meditar, aliás, se a existência na cidade desta cultura popu­
lar ­v igorosa e largamente insubmissa, no momento crucial
da formação do mercado capitalista de trabalho assalariado,
explica, em alguma medida, o fato ób­v io de que vivemos,
hoje em dia, numa sociedade capitalista que não deu certo. 24
As partes seguintes do capítulo visam testar esta hi­
pótese geral a partir da análise das tensões e conflitos coti­
dianos no mundo do lazer popular na cidade do Rio da
primeira ­d écada do século XX: são abordadas sucessivamen­
te a vida no botequim, a relação entre populares e “mega­
nhas” — guardas-­c ivis — nas ruas da cidade e a dramatiza­
ção e ri­t ua­lização dos confli­t os na hora de “matar o bicho”,
isto é, de tomar a “­b ranquinha”.

Lazer e controle social: o dono do botequim e seus


fregueses; meganhas e populares

O Correio da Manhã do dia 17 de julho de 1906 inicia


assim o relato de um conflito entre o caixeiro de um bote­
quim e um dos fregueses: “Em um botequim [...] na ­e stação

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do Engenho de Dentro, verdadeira tasca onde se reúnem, à
noite, desordeiros e vagabundos, que perambulam pelos
subúrbios, promovendo desordens que sempre acabam em
terríveis desacatos, deu‑se ontem uma cena de sangue”. 25
Essa forma de introdução moralizadora é típica de no­
tícias do gênero na imprensa da época. Ela revela ­c laramente
a tentativa de estigmatização da principal opção de lazer dos
pobres urbanos do sexo masculino: a conversa informal que
estes homens levam no botequim, ao redor de uma mesa ou
encostados no balcão, sempre sorvendo goles de café, ca­
chaça, cerveja ou algum vinho bem barato. Era ali, nos
papos da hora de descanso, que se afogavam as mágoas da
luta pela vida e se entorpeciam os corpos doloridos pelas
horas seguidas do labor cotidiano.
A associação do espaço fundamental do lazer destes
homens com rótulos estigmatizantes do tipo “desordeiros”
e “vadios” é sintomática e reveladora. Esse tipo de ­associação
revela mais uma vez o projeto de vida que a jovem Repú­b lica
trazia para esses homens: ao chamá‑los de “de­s or­d eiros” e
“vadios”, enfatizava‑se novamente que urgia trans­f ormá‑los
em “morigerados” e “trabalhadores”. Mas aqui se revela
também algo que talvez se desejasse ocultar: a tentativa de
im­p o­s i­ç ão de hábitos de trabalho compatíveis com os desíg­
nios bur­g ueses de acumulação de capital encontrou firmes
obstá­c ulos nos velhos hábitos e no modo de vida tradicional
dos ­pobres urbanos em questão. Neste caso, a estigmatização
do ­e spaço por excelência do lazer popular revela aquilo que
a “história” na versão dos vencedores se empenha sempre
em ­o cultar: a transição para a ordem burguesa na cidade do
Rio de Janei­ro no período foi um processo de luta, de impo­
si­ç ões e resis­t ências, e não um caminhar harmônico, linear
e tranqüilo.

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Neste sentido, o botequim e o quiosque, a despeito de
seus algozes, apresentam múltiplos significados. O quiosque
era uma armação frágil de madeira, em estilo oriental, cons­
truído nas calçadas e ao redor do qual populares se reuniam
pa­r a beber e conversar. Segundo Luiz Edmundo, “[...] o
quios­q ue é uma improvisação achamboada e vulgar de ma­
dei­r as e zinco, espelunca fecal, empestando à distância e
em cujo bojo vil um homem se engaiola, vendendo ao pé‑
rapa­d o — vinhos, broas, café, sardinha frita, côdeas de
pão‑dormido, fumo, lascas de porco, queijo e bacalhau”. 26
O destino dos quiosques durante a administração Pe­
reira Passos é sintomático. É constantemente considerado
pela imprensa como uma “vergonha” para a cidade que se
“civilizava”, e o prefeito Passos esperava uma ocasião opor­
tuna para atacar de frente aquele comércio popular quando
“homens de negócio” resolveram agir por conta própria:
munidos de latas de querosene e caixas de fósforos, atearam
fogo em inúmeros quiosques do centro da cidade. 27
O que significa esse episódio, que aparentemente foi
ape­nas mais uma obra “saneadora” ou “civilizadora” da ­épo­c a
áurea de reformas urbanísticas? O próprio Luiz Ed­m un­d o
nos dá uma pista ao comentar que baleiros, carregadores,
vendedores de jornais e outros trabalhadores autônomos
costumavam se reunir em torno dos quiosques para tomar
goles da “branquinha” enquanto esperavam a freguesia. 28 O
hábito destes homens de assim proceder mostra que para
eles o ideal burguês de separação rígida entre lazer e traba­
lho não tem significado algum: trabalho e diversão estão
associados no cotidiano e não são regidos por horários ­f ixos.
Mas esta separação pouco rígida entre trabalho e lazer está
longe de ser um atributo único de trabalhadores autônomos:
as situa­ç ões de conflito ocorridas em botequins e quiosques

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mostram que muitas vezes os tra­b alhadores freqüentam
estes es­t a­b elecimentos nos in­t ers­t í­c ios da jornada de traba­
lho, quebrando assim a rotina de produção que seria dese­
jável do ponto de vista estrito dos donos do dinheiro. Des­
ta forma, o episódio da queima dos quiosques é mais uma
manifes­t ação do antagonismo fundamental que permeia a
­s ociedade, isto é, a relação trabalho assalariado versus capital.
Se a luta contra os quiosques foi sem tréguas, o mesmo
não ocorreu em relação aos botequins. Isto talvez se ­explique
pelo fato de que o botequim funcionava geralmente ­t ambém
como venda, desempenhando um papel fundamental na
distribuição de alimentos para a população de baixa renda.
Mas a condescendência em relação ao botequim pode ter
também significados menos aparentes, principalmente se
racioci­n armos em termos dos objetivos mais amplos da
classe dominante de exercer uma vigilância contínua sobre
sua força de trabalho. Assim, o quiosque era um estabele­
cimento com uma área interna diminuta, onde só cabiam o
pro­p rietário‑caixeiro e as poucas bebidas e guloseimas que
este ­vendia. O proprietário, portanto, ficava dentro do quios­
que, enquanto seus fregueses se moviam e conversavam do
lado de fora, isto é, nas ruas mesmo. Luiz Edmundo des­creve
com nojo o movimento em torno do quiosque, esta “in­
fâmia” contra a “civilização”:

Estão os fregueses do antro em derredor, recostados, à


vontade, os braços na platibanda de madeira, que suge­
re um balcão; os chapéus derrubados sobre os olhos,
fumando e cuspinhando o solo. Cada quiosque mostra,
em torno, um tapete de terra úmida, um círculo de lama.
Tudo aquilo é saliva. Antes do ­t rago, o pé‑rapado cospe.
Depois, vira nas goelas o copázio e suspira um ah! que
diz satisfação, gozo e ­c onforto. Nova cusparada. E da

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grossa, da boa... Para um cálice de cachaça há, sempre,
dois ou três de saliva. A obscenidade vem depois. 29

Mas esse ritual popular, obviamente inevitável, ­p oderia


pelo menos ser circunscrito às quatro paredes de um bote­
quim, pois assim se salvariam as aparências de “civilização”
da capital da República. A questão, contudo, pode ser ­a inda
mais complexa. Ao contrário do quiosque, o botequim é um
estabelecimento com uma área interna mais espaçosa, onde
se encontram não só o dono e seus caixeiros e fregueses, mas
também as mesas, cadeiras e estoque de mercadorias do
proprietário. Este, portanto, tem de zelar pela ordem em seu
es­t abelecimento, do contrário verá ameaçada a integridade
do capital investido no pequeno empreendimento econômi­c o.
Restringir os hábitos populares de conversar e be­b ericar ao
espaço interno do botequim significa, então, ­t ornar mais
explícito o antagonismo entre o pequeno proprietário e seus
fregueses, transformando o primeiro num alia­do mais ­efetivo
da força policial na vigilância contínua que se quer exercer
sobre os homens pobres — aqueles que devem ser submeti­
dos à condição de trabalhadores assalariados.
Assim, Luiz Edmundo conta que, no botequim de Antô­
nio Português, o proprietário costumava proibir os ex­cessos
dos “devotos de Baco” reclamando atenção e ­respeito e mos­
trando o santo no oratório.30 Em um dos proces­s os analisa­
dos, dois homens começam uma briga “por rixas antigas”
perto de um botequim, e o dono do estabelecimento afasta
seus fregueses e fecha as portas com receio do conflito. 31
Em ­o utro processo, dois rapazes brigam por causa de na­
moradas. A briga é precedida de um longo ritual de provo­
cações que tem seus episódios também no botequim da
esquina, mas o conflito acaba estourando mesmo na rua. O

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dono do botequim diz altivamente que assim foi porque
“não admite desordens em seu estabelecimento”. 32 Os pro­
ces­s os seguintes mostram ocasiões em que os donos destes
esta­b elecimentos ou seus caixeiros tomam medidas mais
enérgicas contra fregueses “de­s ordeiros”: ou brigam direta­
mente com esses fregueses, ou convocam os meganhas para
auxiliá‑los.
O gerente de um botequim em Inhaúma, Faustino José
da Silva, brasileiro, preto, de 27 anos, solteiro, escreveu de
próprio punho sua defesa no processo em que era acusado
de ter ferido a tiros, dentro do botequim no qual trabalhava,
o freguês de nome Manoel Monteiro, português, 37 anos,
casado:

Estando no botequim número trezentos e quarenta e


quatro da rua Goiás [...] onde era em­p re­g ado‑gerente;
no dia primeiro de janeiro, do ano corrente, às sete e
meia horas da noite, mais ou menos, entrou ali um ho­
mem que dizem chamar‑se Manoel Afonso Mon­t ei­ro e
este portando‑se inconvenientemente obri­g an­d o‑me a
pedi‑lo que não continuasse assim; e este julgando‑se
com direito virou a insultar‑me com palavras tais: “ne­
gro à toa, sem vergonha, filho da puta, safado” e lem­
brou‑se também do nome de minha mãe e ameaçan­
do‑me espancar. E como não estou habi­­tua­d o à capoei­
ragem, nem tão pouco sou lutador e ­v endo que de
forma nenhuma não podia me desemba­r açar do meu
gratuito agressor, vi‑me forçado lançar mão do revólver
e dispará‑lo, porém, não com o fim de feri‑lo mas de
amedrontá‑lo. Tudo que fiz foi na ­m inha legítima defe­
sa e não como disse a quinta ­t estemunha do processo
(Bento de tal) e por ser ela pessoa desafeta à minha pes­
soa, contestei‑a.
Alego mais: sou homem trabalhador e chefe de ­f amília
(mãe e irmãs); nunca dei entrada a prisão alguma, sen­

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do esta a primeira infelicidade que se dá em ­m inha vida,
pelo que espero que os beneméritos juízes que julgarem
a minha causa tenham um pouco de comi­s eração para
com a minha triste situação, pois que infelizmente não
tenho ninguém por mim! [...] 33

Logo abaixo deste texto e ao lado da data e assinatura


do réu, lê‑se a observação: “Segue‑se ex‑ofício por ser prole­
tário”. Não é possível descobrir se esta defesa bastante arti­
culada do réu foi redigida sob a orientação de um advogado
ou qualquer outra pessoa, mas o confronto de seu ­c onteúdo
com os outros depoimentos no processo nos esclarece bas­
tante sobre as circunstâncias da produção social de mais este
conflito. Na versão do ofendido, apoiada por outras teste­
munhas, o português Monteiro encontrava‑se no dito bote­
quim com seu sobrinho José Pereira, que era caixeiro do
mesmo botequim, e ambos entraram em discussão devido a
questões particulares. O preto Faustino, segundo o ­ofendido,
dirigiu‑se “à sua pessoa” e “disse ser o gerente do botequim
e não admitir ali discussões e mandado por ele que se reti­
rasse que ele ofendido disse‑lhe achar-se em um estabeleci­
mento comercial e por isso não podia retirar‑se”. A ­discussão
se azedou a partir daí e culminou com Faustino sacando da
arma e desfechando dois tiros contra Monteiro, que ficou
ferido no pescoço.
Alguns pontos podem ser ressaltados neste episódio. Pri­
meiro, vemos claramente que a situação de tensão se forma
com a tentativa do gerente do botequim de manter a ordem
no estabelecimento, procurando evitar discussões que pudes­
sem culminar em conflitos e possíveis danos à proprie­d ade
pela qual ele, como gerente, estava encarregado de ­z elar.
Segundo, o conflito tem um cunho claro de rivalidade de
raça e nacionalidade. Os dois pontos acima são ilustrados

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novamente na contestação que o acusado Faustino faz à tes­
te­m unha Bento Pinto, português, de 24 anos, solteiro, que
procura em seu depoimento incriminar mais ainda o acusa­
do, afirmando que este teria assassinado seu patrício se ele,
testemunha, por ocasião do segundo tiro, não lhe tivesse
segurado o pulso, “de modo que o projétil foi se encravar
numa táboa”. Faustino contesta esta testemunha, “que é seu
desafeto por causa de uma repreensão que ele denunciado
fez à testemunha quando esta fazia perturbação dentro da
casa de negócio”. Finalmente, a estratégia de defesa de Faus­
tino é a mais recorrente e a única cabível em casos deste
tipo: diz‑se insultado de “negro à toa”, e procura mostrar
que é, na verdade, “homem trabalhador e chefe de família”.
As rivalidades de raça e nacionalidade e o problema da
manutenção da ordem num botequim também parecem ­estar
na origem do conflito no qual o menino Adelino Fer­n andes,
português, de 14 anos, caixeiro do botequim na freguesia
de Santana, onde se deu o crime, matou com uma ­n avalhada
no pescoço Benedito Cruz, preto, de 16 anos. O outro cai­
xeiro do botequim, Leocádio Souza, natural do estado do
Rio, de 18 anos, solteiro, narra assim o ocorrido:

[...] entrou no botequim [...] Benedito da Cruz, menor


de cor preta e dirigindo‑se a ele depoente pediu‑lhe para
o servir de parati e feijão; que depois de servido Benedi­
to achava‑se um pouco alcoolizado e discutindo, ele
depoente o chamou à ordem e o mandou sair, levando‑o
até a porta, voltando logo para o interior da casa; que
logo em se­g uida, quando ele depoente voltou viu cair à
porta um indivíduo e aproximando‑se reconheceu ser o
referido Benedito; que na mesma ocasião o menor Licí­
nio [...] disse a ele depoente que tinha sido o caixeiro
Adelino Fernandes que com uma navalha deu um golpe
em Benedito, tendo antes lhe dado um pontapé; que

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então o depoente viu logo a falta de Adelino, pelo que
disse a alguns fregueses que tinha sido Adelino quem
havia matado a Benedito [...], que hoje de manhã estan­
do no botequim um moço cujo nome não sabe, lhe
contou que tinha sido patrão de Adelino quando tinha
armazém de ­m olhados à rua Escobar e que ele quando
seu empregado havia tido uma questão com um com­
panheiro e com um pau quebrou‑lhe a cabeça. Que se­
gundo informações que tem chegado a seu conhecimen­
to ele depoente soube que Adelino havia dito que se ele
depoente o maltratasse se vingaria. Que ouviu do qui­
tandeiro vizinho que Adelino há dias passados tinha
levado uns cascudos dados por Benedito pelo que Ade­
lino lhe disse que lhe havia de pagar. 34

O acusado negou sempre a autoria do crime, dizendo


haver sido outro rapaz o autor da morte de Benedito e justi­
ficando a acusação que lhe faziam pelo fato de que muitas
das testemunhas eram seus desafetos. As testemunhas são
quase unânimes na afirmação de que havia sido Adelino
real­m ente quem matara Benedito, mas discordam um pouco
quanto ao motivo. Uns dizem que Benedito estava “­t ocado”
e causava problemas, outro afirma que ele se recusava a ­pagar
a conta e outro ainda, que Benedito se enfureceu porque os
caixeiros do botequim se recusaram a lhe vender fiado dois
vinténs de parati. Estas versões, na verdade, parecem ser
mais complementares do que contraditórias. De qualquer
forma, a origem do conflito passa, sem dúvida, pelo proble­
ma da manutenção da ordem dentro do botequim. Além
disso, as rivalidades entre brasileiros e portugueses também
se insinuam aqui: o depoimento do brasileiro Leocádio,
­transcrito acima, deixa transparecer a competição na situação
de trabalho que existia entre ele e o caixeiro português de
nome Adelino. Assim, Leocádio procura incriminar ao má­

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ximo seu competidor na situação de trabalho, dizendo mes­
mo que o havia visto com a navalha com a qual teria ma­t ado
­B enedito. Finalmente, o confronto entre o preto Benedito e
o português Adelino anuncia o caráter ritualista e machista
dos confrontos entre estes homens: duas testemunhas afir­
mam que Benedito havia dado “cascudos” ou “bofetadas” em
Adelino dias antes, fazendo com que Adelino “jurasse vin­
gança”. A partir daí, detona‑se um ritual de provocações
entre os contendores, que culmina na navalhada da noite do
crime. Veremos com detalhes mais adiante por que, entre
estes homens, “uma bofetada não se leva para casa”, como
postula o provérbio popular.
A relação entre o proprietário do botequim e seus fre­
gueses está longe de se caracterizar sempre pela ­a nimosidade.
A posição do proprietário do botequim é um tanto ­ambígua:
por um lado, sua condição de proprietário fundamenta um
antagonismo básico entre ele e seus fregueses, mas, por
­o utro lado, ele fazia parte do mundo dos populares, compar­
ti­lhando sua visão das coisas e assimilando seu código de
conduta. Tanto é assim que o botequim é quase sempre o
­p onto de abrigo preferido de populares que procuram esca­
par à ação dos meganhas ou de outros quaisquer agressores.
Um carpinteiro, por exemplo, brigou com um companheiro
por causa de uma grosa, acabou agredindo seu oponente e
­c orreu para se esconder na “venda de Tupinambá”. 35 Já Ví­
tor Fer­n andes descia uma estrada a cavalo quando foi inter­
ceptado por um grupo de homens. Receoso de ser assaltado,
­d isparou tiros contra o grupo e se refugiou num botequim
das redondezas. 36 E mesmo Maria, perseguida implacavel­
mente por um ex-amásio muito ciumento, correu para um
botequim e se colocou sob a proteção dos homens que lá
estavam. 37 ­O utros exemplos surgirão ao longo da narrativa.

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Pode chegar a haver mesmo uma relação bastante es­
treita de solidariedade entre o dono do botequim e alguns
de seus fregueses. Assim, por exemplo, José Maria Couto,
­b rasileiro, de 33 anos, casado, era dono de um botequim na
Cachoeira da Tijuca. 38 Entre seus fregueses estava Apoliná­
rio José Soa­res, brasileiro, de 33 anos, solteiro, analfabeto,
carpinteiro. Segundo diversas testemunhas, era público e
notório que o dono da taverna “protege a Apolinário a quem
até já empres­t ou dinheiro para encarreirar a sua vida”. Numa
noite de agosto de 1905, no entanto, Apolinário disparou
um tiro de espingarda no botequim de Couto e foi acusado
de tenta­t iva de assassinato contra seu amigo. As versões so­
bre o ocor­r ido são as mais contraditórias possíveis. O acu­
sado diz ape­n as que estava completamente bêbedo e que de
nada se lembrava, reafirmando ainda sua longa amizade com
o suposto ofendido. No interrogatório na delegacia, logo
após o ­c rime, as testemunhas são unânimes em acusar Apoli­
nário de tentativa de assassinato. Na pretoria, porém, algu­
mas semanas depois, as versões são bastante contra­d i­t órias:
duas das teste­m unhas, Pimenta e Narciso, mantêm suas de­
clarações anteriores, mas são identificadas por outras tes­
temunhas como inimigas do réu e interessadas em sua con­
denação; as demais testemunhas, contudo, afirmam ago­r a
que Apolinário havia disparado o tiro para o teto, por brin­
cadei­r a, e que o fato não poderia ter‑se dado de outra forma,
já que o acusado era amigo do suposto ofendido e, além
dis­s o, era homem “morigerado e trabalhador”. Uma das
tes­t emunhas favoráveis a Apolinário vai ainda mais longe,
sugerindo que suas de­c larações na delegacia foram distor­
cidas pelos policiais para prejudicar o réu: diz Fernandes,
brasileiro, de 19 anos, caixeiro do botequim de Couto, que
“pelo pre­s ente retifica o seu depoimento tomado na dele­

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gacia de polícia, o qual malgrado seu não é completamente
a expressão da verdade”.
As diferentes versões sobre o episódio em questão le­
van­t am uma série de problemas em relação ao caráter pro­
fun­d amente político tanto da produção social dos conflitos
no botequim quanto da produção social do próprio pro­c esso
criminal. Inicialmente, temos um núcleo de fatos incontestá­
veis que são comuns a todas as versões: Apoli­n á­r io, o acu­
sa­d o, realmente disparou um tiro de espingarda dentro do
boteco de Couto. Daí por diante, as versões pro­d uzi­d as —
to­d as socialmente verossímeis e, portanto, obviamente rele­
vantes para avançar nossa compreensão do real vivido por
nos­­sos personagens — são como que armas utilizadas por
­e s­s as pessoas num jogo de poder que abarca diversos níveis
do real. No nível da comunidade local, do gru­po de vizi­nhança
que girava em torno do botequim do Couto, notamos em
parte a dinâmica interna de funcionamento destes pequenos
grupos: os depoimentos contraditórios re­v e­lam o conflito
político cotidiano como parte fundamental da dinâmica de
produção e reprodução desses microgrupos sociocultu­r ais.
Vemos também a posição ambígua do dono do bote­c o: sepa­
rado de seus fregueses pela sua con­dição de pe­queno proprie­
tário, está intimamente unido a eles pelas relações pessoais.
Na suspeita de fraudes e distorções nos depoimentos na
delegacia, vemos o antagonismo fundamental desta socieda­
de expresso na relação entre o aparato policial — represen­
tante dos donos do dinheiro e empenhado em “produzir”
crimino­s os para “mostrar serviço” — e os homens pobres
­u rbanos em questão. Este antagonismo se revela da mesma
forma se pensarmos que é também provável que a facção
local ligada a Apolinário tenha distorcido os fatos para tentar
inocentar o acusado. É em geral difícil — mas não de todo

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impossível — perceber em cada processo em que direção
ocorrem as distorções de maior peso; no entanto, seria ilu­
sório pensar que do maior ou menor sucesso deste empreen­
dimento de detetive dependesse toda a validade da análise:
fraudes poli­ciais ou “armações” de grupos locais para inocen­
tar algum de seus membros de atos “crimináveis” do ponto
de vista dos poderosos são duas expressões contraditórias,
mas não excludentes, do antagonismo fundamental da socie­
dade carioca no período em questão — não custa repetir, a
relação trabalho assalariado versus capital. E, mais ainda, o
procedi­m ento sistemático dos juízes das pretorias de checar
a veracidade das declarações anotadas nas delegacias e o
­e xpediente comum de advogados de basear as defesas dos
réus em supos­t as fraudes policiais revelam a dimensão pro­
fundamente po­lí­t ica da dinâmica de funcionamento interno
do próprio aparato jurídico-repressivo. Retomaremos estes
últimos ­p on­t os com detalhes logo adiante.

[...] Lá vem meganha!


Meganha sempre foi o guarda de polícia. Anos antes
chamavam‑no morcego, mata‑cachorro.
Se há quem fuja gritando, há, também, sempre, quem,
gritando, chegue pelo largo e proteste contra a ação
­p olicial em berros fortes:
— Não pode!
Não pode! Esse brado incontido, sincero e muitíssi­m o
do tempo, não falta nunca onde existem, de uma ­p arte
a autoridade, a idéia do poder constituído e da outra
parte, o povo na hora em que rebenta algum conflito.
É justa, por acaso, a autoridade ou exorbita? Isso não
vem ao caso. Berra‑se sempre. Berra‑se forte. Berra‑se
sem cessar:
— Não pode!

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Até parece que, no subconsciente do que protesta, tra­
balham os gritos sopitados dos tempos da ­colônia, quan­
do era crime e dos piores, erguer, mesmo de manso, a
voz ­c ontra a injustiça de el‑Rei ou a autori­d ade real.
Não pode! Alívio do imo peito, desafogar de corações!
Apenas (muito guarda, afinal, o subconsciente) se o
homem que representa o arbítrio do poder, que nos
­c orrige, a autoridade, enfim, que tem seguro, pelo gas­
ganete, o homem que delinqüiu num assomo de mando
e prepotência, como a indagar, e, em resposta ao que
grita — Não pode! pergunta por sua vez: — Que é que
não pode? logo a gentalha estaca, e os que a compõem
calam‑se, submissos, quando um não se sai com esta,
acobardado, solícito, explicando:
— Não pode é largar o homem [...]. 39

Este trecho de Luiz Edmundo nos coloca diante do


problema da relação entre populares e meganhas nas ruas da
cidade do Rio de Janeiro nos primeiros anos do século XX.
Como já foi mencionado anteriormente, o aparato policial
tem um papel fundamental a desempenhar neste momento
de tentativa de imposição de uma ordem burguesa na socie­
dade carioca do período: sua função é ao mesmo tempo de
vigilância — na medida em que deve zelar pela disciplina da
força de trabalho — e de repressão direta — na medida em
que deve espancar e arremessar ao xilindró todos aqueles que
se negam a se sujeitar às picaretas demolidoras da prefeitura
ou à condição de trabalhadores assalariados. A narrativa de
Luiz Edmundo sugere que a atitude dos populares em re­lação
aos meganhas combinava resistência e submissão. Mas esta
combinação necessita de algumas qualificações: a ­a titude
inicial e predominante é de resistência e insubmissão, ­s endo
o grito de protesto — “Não pode!” — “sincero e muitíssimo
do tempo”. O autor explica ainda a situação final de aparen­

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te submissão como resultado de um ­c ondicionamento longa­
mente arraigado no subconsciente desses populares — desde
“os tempos da colônia” — e segundo o qual o ­p rotesto con­
tra a autoridade era crime bastante grave, que ­d emandava
séria punição. O que o trecho de Luiz Edmundo parece su­
gerir, contudo, é um alto nível de racionalidade desses pobres
urbanos em seus confrontos com os meganhas: em princípio
e por princípio, a atitude deve ser de resistência, de tentativa
de obstaculizar, ou pelo menos moderar, a ação policial; no
entanto, não se perde a noção de que se está geralmente
diante de situações em que as relações das forças em jogo são
desfavoráveis aos populares — afinal, são os meganhas que,
por via de regra, estão mais bem armados e sempre dispostos
a conduzir “desordeiros” para as ­d elegacias.
Esta interpretação do trecho de Luiz Edmundo talvez
resuma em linhas gerais o que se tentará argumentar a partir
da análise dos processos criminais que tratam dos ­c onfrontos
entre membros da classe trabalhadora e policiais nos bote­
quins e nas ruas da cidade. Assim, Antônio Sebastião da
Cruz, natural da capital federal, de 21 anos, casado, ­s abendo
ler e escrever, praça de polícia, presta as seguintes ­declarações
no processo em que era acusado, junto com outro praça de
polícia, de ter assassinado com dois tiros Justino de Queiroz,
que se declarou francês, de 22 anos, solteiro, operário:

[...] estando de patrulha a rondar viu um grupo cons­


ti­t uído de seis indivíduos em grande algazarra sendo
que um dos tais indivíduos além de proferir obscenida­
de ao passar um bonde expunha o membro viril a quem
quisesse ver, ofendendo assim à moral pública; que o
de­p oente acercou‑se do grupo para admoestá‑lo, mas
foi recebido com grande vaia; que à vista disso pren­­deu
o indivíduo que mais se salientava e por esse fato se viu

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envolvido e bem assim seu companheiro de pa­t ru­lha,
por todos eles do grupo que se dispunham a agredir ao
depoente e seu companheiro e deram fuga ao preso; que
foi nesse momento então que para atemo­r izar os desor­
deiros dispararam ambos um tiro para o ar e feriram ao
homem que se punha em fuga e que fo­ra tirado das mãos
dele depoen­t e e seu ­c ompanheiro. 40

Obviamente, a versão do grupo de rapazes é um tanto


diferente. Para Justino, por exemplo, a ordem de prisão dada
pelos guardas ocorreu “sem que para isso houvesse motivo”.
Disse ainda que “protestou” porque viu “que era injusta a
prisão”. Outros membros do grupo dizem apenas que seu
companheiro, premido por necessidades inadiáveis, en­c os­
tara‑se a um muro e pusera‑se a “verter água” — isto é, a uri­
nar —, mas os meganhas chegaram quando o rapaz estava no
meio do ato e o repreenderam aos gritos. Os guar­d as‑civis
teriam recebido, logicamente, uma estrepitosa vaia e, ­i rritados
com tamanha afronta, deram voz de prisão ao rapaz que co­
me­t ia o “delito”. O jovem Justino, no entanto, reagiu, di­
zendo “que não podia ir preso pois que não tinha cometido
falta”, ao que o guarda Antônio replicou simplesmente:
“Não quero conversa, siga em frente” e, ato contínuo, des­
pencou algumas bordoadas em Justino. Os outros jovens do
grupo e populares que já se juntavam no local protestavam
dizendo ao guarda: “Não pode dar no homem”. Nesse ínte­
rim, o ­p reso aproveitou um instante de distração dos guar­
das e saiu em desabalada correria. Os guardas empunharam
seus revólveres e abriram fogo contra Justino, que veio a fa­
le­cer semanas depois devido aos dois tiros que lhe acertaram.
Um imigrante português, dono de botequim em São
Cristóvão, onde se deu o fato, ficou chocado com a ­v iolência
da cena e exclamou: “Isto é uma barbaridade, não estamos

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em um país de anarquistas!” Lembrando sem dúvida de
tempos idos em sua terra natal e expressando de certa forma
suas preferências políticas, a frase do português parece cap­
tar também o significado da ação da autoridade policial para
estes homens pobres: a autoridade legitimada pelo Estado
é repressiva, não oferece possibilidades de barganha e, prin­
cipalmente, em nome do estabelecimento da ordem, de­s or­
dena e confunde o mundo dos humildes. Sendo assim, os
conflitos cotidianos destes homens encontram apenas duas
saídas possíveis: a privatização ou a repressão. 41 A pri­v a­
tização significa que os conflitos serão resolvidos de acordo
com regras de comportamento próprias do grupo socio­c ul­
tural em questão, ou seja, os conflitos serão resolvidos no
nível dos elementos ordenadores das relações pessoais do
cotidiano, pois não se dá a estes homens a opção da media­
ção do Estado — cuja repressão ou violência legal deve ser
evitada e resistida sempre que possível.
O processo seguinte exemplifica de forma magnífica
esta desconfiança dos populares em relação à autoridade
constituída. Oscar da Silva, vulgo “Mulatinho”, de 30 anos,
casado, servente do Desinfectório Central de Higiene, tive­
ra havia dias, segundo ele, “uma pequena discussão” com
­Paulo dos Santos, vulgo “Jaguarão”, preto, de 23 anos, sol­
teiro, embarcadiço. Ambos passaram então a trocar ameaças,
até que se encontraram na Ladeira de Paula Matos, na fre­
guesia de Santo Antônio, e, após se desafiarem, Mulatinho
levou a melhor, acertando três tiros em Jaguarão. Depois
dos dis­p aros, cada contendor correu para um lado, sendo
que Ja­g uarão, ferido sem muita gravidade, refugiou-se na
venda de João Batista. Um velho e conceituado morador do
local, José Augusto Vinhaes, natural do estado do Maranhão,
de 50 anos, viúvo, capitão‑tenente reformado da armada,

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“atualmente chefe do serviço Marítimo das obras do porto”,
­o uviu os tiros e resolveu chamar os brigões para uma con­
versa, que relata da seguinte forma:

[...] que conhece há muito tempo o denunciado e ofen­


dido por serem moradores há longos anos ali, cha­
mou‑os a fim de inquirir do que havia, acudindo o
mesmo do seu chamado [sic], desceu à porta da rua e
perguntou ao acusado presente o que havia e quem
tinha dado os tiros; que o acusado declarou que não
tinha sido ele quem dera os ti­ros, protestando Ja­g ua­r ão
que sim e que tanto era verdade que ele Jaguarão se
achava ferido [...]; que ele testemunha e nesse ato,
revistou o acusado presente, nada tendo encontrado
como arma; que nesse ín­t erim apareceu no alto da la­
deira um guarda‑civil, o que fez com que o acusado
presente fugisse [...]. 42

A cena se passa no meio da rua, sob a vista dos mora­


dores do local, e mostra, portanto, que os contendores —
membros do mesmo grupo de vizinhança — aceitaram a
mediação de um indivíduo que gozava de prestígio nas re­
dondezas, mas a che­g ada do guarda‑civil — encarnação da
autoridade extrínseca ao grupo e vista como essencialmente
repressiva — motiva a tentativa de fuga do acusado.
Os três processos seguintes mostram que o antagonismo
latente entre o dono do botequim e seus fregueses, ­a ssim
como as contradições inerentes a esses microgrupos socio­
culturais — por exemplo, as rivalidades de raça e nacionali­
dade —, dei­x am brechas importantes para uma ação mais
efetiva do apa­r ato policial. Antônio de Almeida Pinto, por­
tuguês, 37 anos, solteiro, negociante, presta declarações
sobre um conflito ocorrido dentro de sua venda, na ­f reguesia
de Inhaúma:

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[...] que achava‑se ele depoente dentro de sua venda,
quando aí en­t raram três indivíduos já alcoolizados,
pedindo parati, que sendo, porém, hábito dele depoen­
­t e, não servir indivíduos alcoolizados, re­c usou‑se a
servi‑los, daí originando discussão entre eles, isto é,
di­­ri­­giram‑se eles, de modo insultuoso ao declarante,
chamando‑o de ga­l ego, sacana, miserável, e outros
nomes injuriosos; que a praça de ronda, o acusado
pre­s ente ouvindo‑as, chegou à porta da venda e diri­
gindo‑se aos indivíduos chamou‑os à ordem, ­d izendo
que não que­r ia palavradas, retirando‑se em seguida,
para defronte à venda; que os três indivíduos ­a inda
fi­c aram na venda alguns instantes, saindo depois, os
três juntos; que minutos após, ele declarante que se
acha­v a dentro do balcão ouviu o estampido de três
ou quatro tiros, pelo que, levado pela curiosidade,
­c hegou à porta da venda, onde viu então, a vítima
cambalean­d o cair e junto à mesma o acusado, empu­
nhando um revólver; que achavam‑se também junto
à praça os dois compa­n heiros da vítima; que os indi­
víduos a que se tem referido ele decla­r ante os conhe­
ce de vista sabendo por isso que eles se chamam Pau­
lo, Alfredo e Au­g usto, que foi o vitimado; que sabe
serem estes indiví­d uos ébrios habituais, por freqüen­
tarem assi­d uamente seu negócio; que não pode afir­
m a r s e o a c u s a d o a g i u e m d e f e s a p r ó p r i a , p a re ­
cendo‑lhe porém, que só levado por esse sentimento
podia ter usado do seu revólver [...]. 43

Paulo, Alfredo e Augusto, os “ébrios” e “desordeiros”


em questão, eram brasileiros. Paulo tinha 26 anos e era pe­
drei­r o, Alfredo tinha 39 anos e era pintor, e Augusto, o
ofendido, era um pardo de 35 anos, companheiro de trabalho
de Paulo no ofício de pedreiro. Além de Antônio Pinho, o
negociante que prestou as declarações acima, havia dois ou­
tros portugueses entre as testemunhas, e o próprio acusa­d o,

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o praça de polícia Roberto Ozório, era português naturaliza­
do brasileiro.
Diversos elementos já enfatizados anteriormente apare­
cem combinados neste episódio. Primeiro, temos o antago­
nismo entre o dono do botequim e seus fregueses, represen­
tado, na versão do pequeno proprietário, pela recusa deste
em servir “indivíduos já alcoolizados”, refletindo assim sua
preocupação em manter a ordem dentro de seu estabeleci­
mento. Na versão de Paulo, Alfredo e Augusto, no entanto,
a discussão com o dono do boteco se deu porque este se re­
cusava a vender fiado a seus fregueses. Segundo, vemos que
o problema do negociante português com seus fregueses
brasileiros se entrecruza com rivalidades de raça e nacionali­
dade. Os depoentes de nacionalidade portuguesa dizem que
os três brasileiros faziam “algazarra” no botequim e defendem
o meganha, também seu patrício, afirmando que este agira
em legítima defesa. Terceiro, os brasileiros confirmam tanto
a discussão com o dono do botequim, apesar de a justificarem
de forma diferente, quanto a troca de provocações e, final­
mente, o conflito com o meganha. Paulo relata que seu com­
panheiro Augusto, o ofendido que acabou fale­c endo devido
aos ferimentos, teria comentado em voz alta, para provocar
o praça de polícia: “[...] o governo não tinha dinheiro e no
entanto pagava tantos vagabundos para ­e starem em pé, nas
esquinas”. De acordo com Alfredo, Paulo teria ficado muito
revoltado com a agressão do meganha, ­d izendo “que este
matara seu companheiro covardemente, quando ele pedia
que não atirasse sobre o mesmo [...] [e] que se tivesse um
revólver teria feito ao acusado o mesmo que este fizera ao
seu companheiro”. O fato de Augusto ter provoca­d o o me­
ganha chamando‑o de “vagabundo” — um termo usado
habitualmente contra homens pobres como Augusto e seus

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companheiros — é interessante, na medida em que mostra
quanto a aplicação destes rótulos sociais está vinculada às
relações de poder na sociedade em questão, e não às quali­
dades intrínsecas das pessoas “presenteadas” com tais rótu­
los. Finalmente, suspeita‑se aqui de algumas distorções dos
policiais nas declarações anotadas, no sentido de diminuir
a gravidade ou mesmo justificar a agressão do praça Ozório.
As declarações dos portugueses na pretoria não são tão uni­
formemente favoráveis ao réu quanto as feitas na delegacia,
apesar de confirmarem em linhas gerais os problemas que
teriam sido causados pelos brasileiros no botequim. Um
desses portugueses, por exemplo, negociante vizinho ao
local do crime, teria declarado na delegacia que apenas ouvi­
ra os tiros, chegando depois ao local, afirmando ainda que
vira que Augusto estava armado de um cacete na ocasião; já
na pretoria, o mesmo depoente afirma “ter sido o acusado
o autor da morte de Augusto por ter visto o mesmo dar o
tiro” e que não vira cacete algum na mão do ofendido. Tam­
bém há contradições no mesmo sentido no depoimento de
Antô­nio Pinho: ele afirma na pretoria que ouvira do acusado
a con­f issão do crime. O outro português disse na pretoria,
a favor do ofendido, que o conhecia havia alguns meses e
que “nunca o vira metido em desordens”. O acusado contes­
tou na pretoria todas estas afirmações das testemunhas de
nacio­n alidade portuguesa.
Estas várias versões para o episódio, ora complemen­
tares, ora contraditórias, ilustram mais uma vez os ­m últiplos
aspectos da realidade social que podem ser percebidos por
meio da leitura de processos criminais. Nos autos em ques­
tão, diversas versões confirmam aspectos que temos visto
repetidos em muitos processos: a questão da manutenção
da ordem no botequim e sua articulação com a atuação dos

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me­g anhas; o hábito de resistência aos meganhas por parte
de populares; as rivalidades de raça e nacionalidade entre
mem­b ros da classe trabalhadora e entre estes e pequenos
pro­­prietários; e, finalmente, aqui se insinua novamente a
prá­t i­c a dos policiais na delegacia de distorcer ou forjar de­
clarações quando estão diretamente interessados no res­u l­
tado do inquérito. Sobre este último ponto, nota‑se ainda
que no caso em questão as possíveis distorções nos depoi­
mentos anotados na delegacia são no sentido de maximizar
a gravidade do conflito entre os portugueses e brasileiros
no bo­t equim, de modo a justificar a ação violenta do me­g a­
nha neste contexto. Assim, portanto, a própria manipulação
pos­s ivelmente feita na delegacia produz uma versão verossí­
mil sobre o episódio em questão, pois, como já vimos ampla­
mente, os conflitos relacionados a rivalidades de raça e na­
cionalidade são uma característica comum no cotidiano das
classes popu­lares do Rio de Janeiro no início do século XX.
Em seus próprios atos violentos ou fraudulentos, portanto,
a ­p olícia revela o conhecimento prático que possui sobre a
realidade social na qual atua e, conseqüentemente, as “men­
tiras” ou “armações” assim produzidas também são altamen­
te relevantes para o historiador da classe trabalhadora. 44
No processo seguinte, “um desconhecido”, homem
preto de 35 anos presumíveis, é acusado de “desordeiro” e
acaba sendo morto num botequim da freguesia de Santana
pelo meganha Bruno Melo, branco, pernambucano, ­s olteiro,
de 23 anos. O acusado Bruno conta que estava de ronda na
Rua Santo Cristo quando

chamou a atenção de um indivíduo desconhecido de cor


preta, a quem intimou para vir a esta Delegacia por
haver ferido com uma faca, que ainda trazia na mão, a
um indivíduo que estava em um botequim da rua San­

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to Cristo, produzindo‑lhe um corte no nariz; que, então,
o dito indivíduo, com muita dificulda­d e entregou‑lhe a
faca com que estava armado e nesta oca­­sião, com toda a
brandura o depoente fez‑lhe ver que de­v ia vir para esta
delegacia, o que não ­c onse­g uiu; que o dito indivíduo
atracou‑se ao depoente, lu­tando e neste momento conse­
guiu tomar‑lhe a faca, desar­m an­d o‑o do sabre que tra­
zia; que conseguindo esca­p ar‑se de suas mãos, feriu‑no
na mão esquerda com a dita faca e procurou conservar‑se
a pequena ­d istân­c ia; que, então, atirou a faca ao chão e
lhe disse “bas­ta o fa­cão para arrancar‑te a vida e picar‑te”
e, resoluta­m ente, avançou para o depoente, com o sabre
em pu­n ho, no intuito firme de matá‑lo; que, nesta oca­
sião, o declarante viu‑se na contingência de ­lançar mão
do seu revólver, dando dois tiros para o ar, a fim de
ame­d rontá‑lo; que, a despeito disto, o seu agressor não
se intimidou e mais resolutamente avançou novamente
para o depoente, que deu mais dois tiros, agora, ­s obre
o seu agressor, indo um dos projéteis alcançá‑lo na ca­
beça, fazendo‑o cair morto instantaneamen­­te; que ma­
tou o dito indivíduo em legítima defesa; [...] que o
depoente, depois de ter dado o último tiro e morto
o seu agressor, ouviu uma salva de palmas que lhe foram
dadas pelas famílias do local e demais pessoas que se
achavam aglomeradas naquele local [...]. 45

O meganha Bruno, com certeza, não era tão angelical


quanto tenta transparecer nesta sua conveniente versão do
as­s assinato que cometeu. Contudo, alguns pontos básicos
de seu depoimento, como a resistência do preto desconhe­
ci­d o, os dois tiros iniciais apenas para amedrontar o opo­
nente e a salva de palmas que teria recebido de populares
pre­s en­t es por sua ação contra o “feroz” inimigo também
constam das versões de di­v ersas testemunhas tanto na dele­
gacia quanto na pretoria. Entre estas testemunhas que corro­
boram a versão do acusado e postulam a “perversida­de” — ou

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in­s ubmissão — do ofen­d ido, temos cinco portugueses e um
italia­n o, sendo que, desses seis estrangeiros, quatro eram
pe­q uenos proprietários estabe­lecidos na rua onde se deu o
crime. Dessa forma, o antago­n ismo entre estes pequenos
proprietários e seus fregueses combina‑se com preconceitos
de raça e nacionalidade para de­t erminar que estas testemu­
nhas ofereçam versões do crime do meganha Bruno que
levariam com certeza à sua absolvição.
Mas provar que Bruno matou o preto desconhecido em
legítima defesa não foi tão simples assim. O juiz percebeu
que existia uma clara contradição entre a autópsia e a prova
teste­m unhal. De acordo com a autópsia, o ofendido havia
levado quatro tiros; portanto, não podia ser verdade que os
dois pri­m eiros tiros disparados pelo acusado tivessem sido
para o alto, sem o intuito de ferir a vítima, como declaram
as testemunhas referidas e o próprio acusado. O juiz, então,
percebe que houve algum tipo de “armação” nos autos —
que teria ocor­r ido, é óbvio, entre os depoentes ­e strangeiros,
em sua maioria pequenos proprietários, e os policiais — e
resol­v e pronunciar o réu. A vítima, no entanto, não viveu
para ofe­recer uma outra versão para os fatos, e o júri acatou
o argu­m ento de legítima defesa, absolvendo unanimemente
o meganha.
Em outro processo, o sargento da força policial Joa­
quim Frei­t as, baiano, de 29 anos, casado, tenta acabar com
uma discussão dentro de um botequim, mas termina por
irritar o preto Honório de tal, de 30 anos, que repele a
­i ntervenção do meganha e acaba levando um tiro deste.
Joaquim Nogueira, português, de 22 anos, solteiro, empre­
gado no bote­q uim de um seu patrício na freguesia do Espí­
rito Santo, onde se deu o crime em questão, narra como se
formou mais este “rolo”:

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[...] servia [...] a freguesia no botequim [...] onde é
em­p regado, quando entrou um fuzileiro naval e sen­
tando‑se a uma mesa pediu café; que na ocasião em
que atendia ele testemunha ao fuzileiro, entrou um
preto, que mais tarde ele testemunha soube chamar‑se
Honório e começou a provocar o fuzileiro, ­d iri­g in­d o‑
lhe mesmo alguns insultos; que no meio da discussão
Honório tirou o gorro do fuzileiro e o inuti­lizou, di­
zendo que isso fazia para que ele pagasse oito mil réis
ao corpo; que continuando Honório a ­d irigir insultos
ao fuzileiro e em altas vozes, foi‑se reunindo muita
gente, até que chegando o acusado presente [...] a ele
dirigiu‑se com o intuito de acalmá‑lo, mas Ho­n ó­r io
dizendo que não o conhecia como homem, deu‑lhe
uma cabeçada e sacando de uma faca investiu contra o
acusado. 46

Aqui, como no processo anterior, estavam presentes no


botequim cinco portugueses, entre eles o caixeiro Joaquim
Nogueira, e todas estas testemunhas prestam depoimentos
bastante semelhantes, explicando o crime a partir da condu­
ta do preto Honório e afirmando que o meganha agira em
legítima defesa. O relatório do delegado é inteiramente fa­
vorável ao acusado, e o advogado de defesa se refere a Ho­
nório como “desordeiro temido e assaz conhecido nos anais
do crime como facinoroso”. O ofendido Honório sobreviveu
aos ferimentos recebidos, mas suas declarações não constam
dos autos. Desta vez, como não há aparente contradição
entre o conteúdo dos depoimentos e os laudos técnicos, o
juiz absolve o sargento sem mandá‑lo a júri.

Um editorialista do Correio da Manhã escreve em 26


de janeiro de 1905:

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A falta de confiança na imparciali­d ade da Jus­t iça é, não
há duvidar, um sentimento profundamente enraizado
na alma popular. Os tribunais são considerados, geral­
mente, o inferno dos pobres e humildes, que encaram
a má solução dos seus pleitos e dos seus processos como
re­s ul­t ância pura e simples da miséria e da ausência de
proteção­. 47

Este sentimento de desconfiança dos populares em re­


lação à Justiça era sem dúvida bastante profundo e generali­
zado, especialmente num período de rápidas e violentas trans­
for­m ações urbanísticas. Havia a consciência clara de que
“não eram bons os negócios com a justiça”, e este sentimen­
to, apesar de raramente expresso em palavras, é facilmente
percebido por certos atos de nossos personagens. 48 Era co­
mum tentar escapar de todas as formas ao inconveniente de
ter de ir prestar declarações sobre uma ocorrência na dele­
gacia. Maria Amélia, por exemplo, caminhava em direção à
sua casa e “quando entrava no começo da rua, um moço de
cor branca, que não conhece, aconselhou a ela declarante
que não passasse no local do crime, pois o homem havia
morrido e que ela declarante podia ser incomodada pela
polícia, que a chamaria como testemunha”. 49 Além disso, é
raro o processo no qual as autoridades judiciárias conseguem
reinquirir todas as testemunhas arroladas no inquérito ou
flagrante policial. Muitos processos rolam durante meses
nas pretorias simplesmente porque as testemunhas arroladas
não são encon­t radas nos endereços dados e não podem ser
localizadas para depor. 50 Fica‑se com a impressão, na verda­
de, de que a polícia tem muitas vezes de levar as testemunhas
para a delegacia praticamente presas junto com o acusado. 51
Há, no entanto, de se fazer uma certa distinção entre a
violência judiciária e a policial. A primeira é uma violência

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mais racional e contida, proveniente da tentativa de ­a plicação
de leis criminais elaboradas para a perpetuação de um de­
terminado tipo de dominação de classe. No entanto, como
este corpo de leis é concebido pelas autoridades judiciárias
como expressão dos interesses de toda a sociedade, os magis­
trados não se concebem geralmente como pontas‑de‑lança
de dominação de classe. De qualquer forma, a violência do
judiciário sobre os homens pobres se distingue claramente
da violência policial, pois esta é mais abusiva e muitas vezes
corporal. 52 É assim, portanto, que vemos com freqüência,
como já foi indicado, que o interrogatório do juiz na pre­
toria visa não só ao esclarecimento do crime em questão
como também a uma certa fiscalização sobre o ­procedimento
dos policiais no inquérito.
Na consciência popular, portanto, a desconfiança em
relação à autoridade não se exprimia tanto por uma percep­
ção de que as leis eram feitas para garantir os privilégios de
uns poucos, mas sim pela constatação prática de que a auto­
ri­d ade mais visível, o meganha, estava nas ruas e nos bote­
quins da cidade para reprimir os homens pobres, e não para
­a rbitrar seus conflitos. A violência policial parecia tão ge­
neralizada e desmesurada na cidade do Rio de Janeiro na
primeira década do século XX que é impossível subestimar
o papel do aparato repressivo policial enquanto elemento
constitutivo essencial da estratégia de formação de um mer­
cado capitalista de trabalho assalariado.
Assim, o Correio da Manhã, jornal oposicionista no
período — com uma postura explícita de crítica às “oligar­
quias” —, lança‑se no ano de 1905 numa campanha sem
tréguas contra as “arbitrariedades policiais”. O jornal publi­
ca notícias seguidas de violências policiais, sob títulos como
“Desumanidade”, “Autoridade arbitrária”, “Polícia que es­

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panca”, “Tiros contra o povo” etc. e denuncia a ocorrência
de prisões ilegais e torturas contra presos nas delegacias sob
forma de fome, sede e, obviamente, espancamentos. 53 As
críticas mais diretas eram feitas contra o chefe de polícia no
período, o sr. Cardoso de Castro, pejorativamente ­c hamado
de o “neurastênico Cardosinho”. O trecho abaixo, por exem­
plo, é parte da introdução “moralizadora” de uma notícia
de violência policial:

Não raro têm os jornais a registrar espancamentos de


po­b res indivíduos, criminosos ou não, que caem no
de­s agrado de qualquer cafajeste guindado à altura de
auxiliar do Cardosinho.
Entretanto, tais fatos não devem admirar. O chefe de
polícia sanciona‑os, o ministro da justiça aplaude‑os, o
Sr. Rodrigues Alves “não quer incomodar‑se”. E vão
o che­f e, delegados, suplentes, inspetores, agentes, guar­
da‑civis espancando à vontade e a quem bem lhes ­parece.
Os heróis da façanha policial que hoje nos ocupa são
dois agentes e a vítima um homem morigerado, portu­
guês e trabalhador [...]. 54

Estas breves observações, portanto, fornecem um con­


texto mais adequado para a compreensão das práticas co­
muns nas delegacias de forjar ou distorcer depoimentos de
testemunhas, assim como a sua contrapartida, isto é, a prá­
ti­c a de populares de prestar declarações articuladas no sen­
tido de desagravar ou inocentar um companheiro. Os pro­
cessos seguintes mostram casos mais extremados do que os
comentados até aqui desta luta contínua entre policiais e
po­p ulares. De um lado, temos processos que mostram cla­
ramente a rivalidade existente entre policiais e indivíduos
com antece­d entes criminais ou tidos como desordeiros, o
que acaba ensejando práticas policiais de prisões arbitrárias

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e forjamento de flagrantes e inquéritos. Por outro lado,
temos processos que mostram companheiros de um deter­
minado grupo de vizinhança superando possíveis rivalidades
internas e se po­s i­c ionando unanimemente no esforço de
livrar um companheiro das mãos dos meganhas ou das ma­
lhas da justiça.
Muitas vezes, a ação contínua de vigilância e repressão
do aparato policial acabava criando rixas sérias com mem­
bros de um determinado grupo de vizinhança. Tornavam‑se
comuns, então, a troca de provocações e os eventuais con­
flitos entre os meganhas da delegacia local e os rapazes das
re­d ondezas. Assim, por exemplo, num domingo de julho de
1906, dia de festa de são Pedro, ocorre um conflito entre po­
liciais e um grupo de rapazes na freguesia de Santana. João
José da Silva, conhecido como “João Vagabundo”, bra­sileiro,
de 26 anos, solteiro, operário, dá sua versão dos fatos:

[...] que quase próximo à rua da União [...] foi alveja­d o


por um tiro de revólver contra ele declarante dis­p a­r ado
por João Ferreira da Silva, praça de força ­p oli­c ial, que
nessa ocasião vinha à paisana, isto às ­q uatro horas da
tarde cujo tiro atingiu‑lhe a virilha direita; que na oca­
sião em que foi alvejado pelo tiro vinha conversando
com outros, a respeito mesmo da dita praça agressora,
que antes, na festa de Santo Cristo, havia portado‑se
inconvenientemente com suas provo­c ações; que a mes­
ma praça antes de vi­t imar‑lhe já ou­t ros tinham também
sido vítimas de sua sanha; que João Ferreira da Silva é
seu desafeto por questões que ig­n ora, porquanto já por
muitas vezes o tem ameaçado de morte, embriagando‑se
até para pro­v ocá‑lo [...]. 55

O meganha, obviamente, devolve as acusações de João


Va­gabundo, dizendo que este o perseguia havia muito ­tem­po

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e que já o havia até agredido a tiros meses antes. João Va­
gabundo é acusado ainda de chefe de “um grupo de desor­
deiros”, e os outros depoimentos do processo sugerem que
o conflito não se deu apenas entre o meganha e João Vaga­
bundo, e sim entre dois grupos de indivíduos chefiados por
estes dois acusados. Um inspetor de polícia explica

que ele testemunha soube ter havido grande conflito e


muitos tiros de revólver [...] tiros esses que não lhe
disseram terem sido unicamente disparados pelos acu­
sados presentes; que na sua qualidade de autoridade
policial ele testemunha pode afirmar que em Santo
Cristo e adjacências quando se dá uma luta entre duas
pessoas daí sempre essa luta é generalizada pela inter­
venção no conflito de outras pessoas.

Em outro processo, policiais prendem um indivíduo


“por desconfiarem que [...] era um dos malandros a quem
eles sempre procuram para prender”. 56 Na verdade, o tal
in­d ivíduo, chamado Malaquias, era um velho conhecido dos
policiais da delegacia da freguesia de Santa Rita, já tendo
cum­p rido pena por roubo e ofensas físicas cometidas na­q ue­
las redondezas. Os policiais dizem que Malaquias dis­p arou
contra eles sem motivo algum; Malaquias afirma ­e xatamente
o oposto. Na verdade, o caso parece uma ingênua “armação”
dos policiais: os depoimentos anotados na delega­cia são qua­
se que rigorosamente idênticos, com todas as testemunhas
afirmando que viram Malaquias cometer o crime. Já na pre­
to­r ia, as declarações são mais matizadas, com a maioria das
testemunhas que não eram também policiais declarando que
apenas ouviram os tiros. O acusado foi absolvido no júri.
Estas arbitrariedades e violências policiais, quando ma­
nipuladas por um hábil advogado de defesa, acabam condu­

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zindo facilmente à absolvição dos acusados. O trecho se­
guinte é de uma defesa de um rapaz que se havia ­e nvolvido
em um conflito na porta de um clube, depois de uma festa
que havia varado a noite. O rapaz parecia ter alguns ­recursos
e pôde contratar um bom advogado, que se utilizou da má
reputação da polícia para desmoralizar debochadamente as
provas contra o réu contidas no flagrante policial, obtendo
assim uma fácil e unânime absolvição de seu cliente no júri.

As testemunhas todas, numa unanimidade que surpreen­


deria se não fosse cotidiana a desmoralização dos fla­
grantes policiais, proclamam a falsidade do flagran­t e do
presente processo, e a pretensa prova do alve­ja­m ento da
pseudo‑vítima José Constantino da Silva. José Constan­
tino da Silva, que o flagrante das fls. quis à força fazer
passar por ofendido, é o próprio a der­r ocar o castelo
infirme, a escangalhar a igrejinha policial!
[...] os tiros desferidos pelo Alferes Nelson Lyrio, o
foram para o ar, com o cano de revólver voltado para
cima. Ora, é óbvio que só poderia haver tentativa de ho­
micídio em tal caso, se algum aeronauta passasse àque­
la hora matutina por sobre as cabeças do jovem acusado
e do grupo palestrador de que falam os autos [...].
Examinemos a prova do processo. Não consideraremos
tal o pândego flagrante, destruído inteiramente pelo
sumário de culpa; este é que é a prova, e só quando ele
confirma e ratifica o flagrante, é que pode ter alguma
importância. Se o flagrante fizesse prova judi­c ial, seria
desnecessário proceder‑se a sumário de cul­p a; em tal
hi­p ótese, ai dos acusados! ninguém escapa­r ia: a mão do
escrivão a escorregar na mesma toada pelo alvo e pas­
sivo papel, que — coitado! — aceita o que se lhe deita,
e todos — acusados e testemunhas; como dóceis carnei­
rinhos, a assinarem os monótonos, probantes e iguais
depoimentos saídos da cachola do escrivão policial! Que
horror! Não haveria ninguém, ninguém que escapasse.

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A Casa de Correção regor­g itaria de gente, o Estado não
ganharia para alimentar e alojar os milhões de con­
denados [...]. 57

Talvez o nosso advogado exagere um pouco as “faça­


nhas” policiais na ânsia de obter a absolvição de seu cliente,
mas com certeza comete um engano ao generalizar a atitude
de populares envolvidos em processos na condição de teste­
munhas e acusados como sendo sempre a atitude de “dóceis
carneirinhos”. As evidências, na verdade, são abundantes no
sentido diametralmente oposto. Testemunhas e acusados não
hesitam em denunciar na pretoria que suas declarações foram
adulteradas na delegacia, ou que foram ameaçados e espan­
cados para prestar declarações que não desejavam ou con­
fessar crimes que não cometeram. Casos deste tipo são
nu­m erosos e se, por um lado, confirmam a ocorrência ge­
neralizada de violências policiais, por outro, a virulência das
denúncias também é reveladora do rancor popular em re­
lação à autoridade policial. Antônio Riachuelo, baiano,
pre­t o, de 29 anos, viúvo, cocheiro, conta na pretoria que
cami­n hava por uma rua da freguesia de Santana quando viu,
próximo a um botequim, “um agrupamento de populares e
várias pra­ç as de polícia”. Sem dúvida levado pela curiosi­
dade, aproximou‑se

e por essa ocasião acercou‑se dele informante um anspe­


çada da Força Policial que o convidou para ir à ­d elegacia
servir de testemunha de um crime, que ­s egundo dizia o
anspeçada, tivera ali lugar, crime este que o infor­m ante
não sabe qual foi, pois não viu luta, uma vítima e tam­
pouco o acusado de tal delito; que como o informante
não aquiescesse ao convite que lhe era feito, o anspeça­
da ameaçou‑o de prisão e chegando por sua vez um
comissário de polícia [trecho ilegível] o informante à

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delegacia, tendo mandado que uma praça o acompa­
nhasse; que aí, perguntado o informante declarou nada
saber do fato nem mesmo por informações [...]; que as
declarações constantes do inquérito policial como pres­
tadas pelo ­i nformante não lhe foram lidas nem mesmo
por ocasião de lhe ordenarem que as assinasse [...]. 58

Mas a coragem do cocheiro Antônio de denunciar os


procedimentos arbitrários da polícia está longe de ser ­i solada.
João Felipe, natural da capital federal, de 19 anos, solteiro,
catraieiro, queixa-se na pretoria de “que foi intimado por
uma praça de cavalaria para ir à delegacia”, onde foi ­c oagido
a assinar “qualquer coisa sem que tivesse feito qualquer
declaração”. 59 Já Manoel da Silva, pernambucano, de 49
anos, viúvo, “negociante volante”, protesta com veemência
que não declarou “absolutamente” na delegacia que conhe­
cia o acusado do crime sobre o qual depunha como “vaga­
bundo, desordeiro conhecido e de instintos perversos”.
Manoel reclama ainda que chegou à delegacia às três e trin­
ta da ­m anhã e que só foi depor às oito e trinta, assim mesmo
“na ­a usência do delegado”. 60 O funcionário público Walde­
mar, solteiro, de 21 anos, também afirma que suas declara­
ções foram dis­t orcidas pelo escrivão na delegacia.61 Antônio
Reis, natural do estado do Rio, de 29 anos, casado, também
empregado público, reclama que não prestou as declarações
que constavam dos autos e que “seu depoimento prestado
na polícia não lhe fora lido pelo escrivão, depois de lhe per­
guntar sobre o fato; que o doutor delegado estava na de­
legacia mas não se achava na sala em que ele depunha”.
Ainda no interrogatório desta mesma testemunha, o advo­
gado de defesa neste processo insinua que o delegado havia
­a meaçado os depoentes — alguns deles funcionários da
Estrada de Ferro Central do Brasil — dizendo que estava de

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c­ ombinação com um secretário do diretor da dita companhia
e que “aquele que não declarasse ter assistido ao fato crimi­
noso seria demitido do serviço da referida estrada”.62 E, para
encurtar uma lista que poderia ser ainda mais longa, 63 fica
registrado aqui o protesto dolorido e estridente do acusado
Adão Reder, um sapateiro de 22 anos, polonês, naturalizado
brasileiro, solteiro:

[...] que não foi inquirido pelo delegado de polícia, o


qual ouviu no inquérito as testemunhas na sua ­a usência;
alega mais que não foi inquirido na delegacia, como
também se tendo recusado a assinar o papel que lhe foi
apresentado pelo delegado, foi no mesmo momento
agarrado pela gola do casaco por um inspetor a quem
neste momento ouviu chamar de Câmara, e enquanto
este o agarrava, uma praça de polícia o espancava com
o cinturão, dizendo então o delegado “Assina ou não
assina?” Que então assinou [...]. 64

Resistir à autoridade policial, portanto, era o compor­


tamento que predominava entre os populares quando se
enfrentavam com os meganhas nas ruas e botequins da ci­
da­d e, ou com os delegados, inspetores e escrivães nas dele­
ga­c ias. Os membros das classes populares possuíam um
conhecimento prático de que tinham de desconfiar da auto­
ridade constituída, boicotar sua ação e resistir com violência
quando possível. E, às vezes, esta resistência era bem‑suce­
dida. Além de homens pobres espancados e feridos por
guar­d as‑civis e inspetores, o testemunho histórico também
registra casos de meganhas vaiados, surrados e perseguidos
por populares. Depois, era só contar com a solidariedade
dos companheiros, e o acusado acabava se livrando da en­
rascada em que se metera. Assim, o meganha Belarmino

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Vianna, pardo, de 22 anos, solteiro, conta a corrida que
levou de alguns populares na freguesia de Santo Antônio:

[...] que estando hoje de serviço na rua Paraíso [...] viu


um indivíduo que, na ladeira do Senado ­e spancava um
cão e proferia obscenidades; que dirigiu‑se para o local
em que estava o citado indivíduo e intimou‑o a ficar
sossegado, no que foi atendido; que, porém, assim que
o declarante se afastou o referido ­i ndivíduo continuou
nos mesmos desatinos o que fez com que o declarante
voltasse para intimá‑lo a vir a esta delegacia; que foi
en­t ão o declarante agredido pelo ­m esmo indivíduo o
qual vibrou‑lhe uma cabeçada que o ­a tirou de encontro
a uma parede, que vendo‑se agredido o declarante avan­
çou para ele e procurava trazê‑lo pela ladeira abaixo,
quando alguns indivíduos que se achavam nas proximi­
dades avançaram contra o ­d eclarante, sendo evitada a
agressão, por parte de tais ­i ndivíduos, por um outro que
correu em auxílio do declarante; que logo em seguida
apareceu um indivíduo, armado de um revólver e dis­
parou contra o declarante um tiro o que fez com que
ele declarante abandonasse o preso e corresse pela la­
deira abaixo [...]. 65

Nesta versão, portanto, vemos um meganha tentando


im­p or a ordem e populares resistindo à prisão de um compa­
nheiro e colocando o praça de polícia para correr. Como é
freqüente em casos que envolvem praças de polícia, os depoi­
mentos anotados na delegacia incriminam uniformemente
o réu, o italiano Caetano Grossi, cocheiro, de 28 anos, casa­
do, acusado de ter disparado o tiro. Na pretoria, contudo,
algumas testemunhas, confirmando que diversos populares
participaram das ações contra o meganha, confundem as
autoridades judiciárias e auxiliam o acusado dizendo não
pode­rem afirmar com certeza quem havia disparado o tiro.

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TRABALHO LAR E BOTEQUIM.indb 290 25/07/2012 09:43:44


O caixei­ro Francisco, natural da capital federal, de 30 anos,
por exemplo, declara apenas que ouviu falar “que o acusado
não tinha sido o autor das detonações e sim um outro que
diziam ser seu irmão”. Já o ambulante José Damigo, ­i taliano
como o acusado, declara que “não sabe quem foi o autor
dos dis­p a­ros”. O menino Pacheco, de 16 anos, natural da
­c apital federal, aprendiz de estucador, vai mais longe, afir­
mando que não se recordava de ter visto o denunciado no
local e que “ouviu dizer, por diversos moradores, que o
referido denunciado não havia tomado parte na agressão”.
E o português Rodrigues, de 23 anos, caixeiro como tantos
outros patrícios seus, além de dizer que não sabia quem
havia dado os tiros, conta que conhece o acusado “há tempos
e pode afirmar ser ele labo­r ioso, bom chefe de família e
cumpridor de seus deveres”. Diante deste coro em defesa de
Caetano, o juiz não teve outra alternativa e acabou impro­
nunciando o réu.
No processo seguinte, o pernambucano Francisco Mu­
niz, pardo, de 30 anos, solteiro, trabalhador, uniu-se ao por­
tuguês Bernardo Guedes, de 32 anos, casado, barbeiro, numa
luta contra o meganha Lucas Padilha, brasileiro, bran­c o, de
24 anos, casado. Antônio Dias, português, de 27 anos, viú­
vo, canteiro, dá sua versão do ocorrido na pretoria:

[...] achava‑se no botequim [...]; que momentos depois


chegou o acusado Muniz, entrando no mesmo; que do
lado contrário vinha o ofendido [o meganha Padilha],
que atravessando a rua chamou o acusado para fora,
dizendo quero te dar um tiro; que o Senhor No­g ueira
dono do referido botequim, vendo a ­a titude do ofendi­
do, empurrou da [ilegível] fora o acusado Muniz; que
este, então disse ao ofendido que fosse embora que ele
acusado tinha família, tendo como res­posta do ofendido,

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que ou tu me matas ou então eu te mato; que na mesma
ocasião, o ofendido sem ter res­p osta do acusado, deu
neste um tiro, indo a bala ferir um menor que mora
junto a uma quitanda; que logo após o tiro o acusado
Muniz defendeu‑se da agres­s ão recebida, atracando-se
com o ofendido [...] [que os acusados eram] homens
trabalhadores e mori­g erados [...]; que quanto ao ofen­
dido, conhece‑o como valente, abusando da autoridade
que tem. [...] Rein­q uirido disse que na delegacia se viu
impossibilitado de depor a verdade, por ter sido amea­
çado de ser recolhido ao xadrez, se fizesse declarações
contra o ofendido [...]. 66

O caso em questão mostra uma das raras ocasiões em


que ocorre, na documentação coligida, a união entre um
brasileiro de cor e um português na luta contra um inimigo
comum que, significativamente, era um guarda‑civil. Por
outro lado, na versão de Antônio Dias, temos um outro
exemplo de pequeno proprietário zelando pela ordem — isto
é, pelo capital investido — em seu estabelecimento: o “Se­
nhor Nogueira” empurrou Muniz para fora de seu boteco
quando viu que o meganha Padilha vinha agredi‑lo. Outros
depoimentos esclarecem que a rivalidade entre o meganha
Padilha e os acusados era bem antiga, sendo que o próprio
guarda-civil afirma que “a intriga desses dois indivíduos
contra ele declarante é já antiga desde o tempo em que fazia
ronda no Rio Comprido, sendo que em virtude de contí­n uos
desacatos desses dois desordeiros tinha sido ­t ransferido para
outro ponto [...]”. A explicação do guarda-civil é inte­res­
sante, na medida em que sugere que ele foi transferido para
outro local porque sua ação estava sendo continuamente
obstaculizada por membros de uma determinada comuni­
dade local. E, com efeito, uma testemunha simpática ao

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meganha — tratava-se de um estudante de direito, segundo
declarou — afirma que os acusados Pernambuco e Bernardo
“se arrogavam de fazer reclamações e ponderações atrevidas
quando este efetuava ali qualquer prisão, encorajando assim,
os vagabundos e desordeiros que por ali transitam”. Na ver­
dade, até Bernardo e Pernambuco e seus companheiros con­
firmam a inimizade deles, acusados, com o meganha Pa­dilha,
mas, na sua visão das coisas, a inimizade contra o meganha
era mais geral na comunidade local, e a culpa era do ­p róprio
guarda-civil: uma das testemunhas afirma que o guarda
Padilha “é muito implicante quando exerce suas funções”;
e o acusado Muniz diz que Padilha “conta ali no Rio Com­
prido, muitos inimigos”. Finalmente, também neste caso
ve­m os a testemunha Antônio Dias, cujo depoimento foi
transcrito acima, reclamar de ameaças sofridas na delegacia
e, efe­t ivamente, é notório nos autos que os depoimentos na
pre­t oria são substancialmente favoráveis ao réu, o que não
ocorre com as declarações anotadas na delegacia. Esta solida­
riedade expressa nas declarações dos compa­nheiros foi va­liosa
para os réus, que foram facilmente absolvidos no júri.
No processo seguinte, porém, temos um caso no qual
o juiz justifica a pronúncia do réu notando as contradições
das testemunhas no inquérito e no sumário e sugerindo que
elas mudaram seu depoimento na pretoria para proteger o
réu. Neste caso, portanto, a solidariedade dos amigos ­p arece
ter complicado ainda mais o acusado. Os autos em questão
tratam do assassinato do português João de Oliveira, de 24
anos, solteiro, carroceiro, que teria sido morto por Alfredo
Moreira, natural da capital federal, de 22 anos, casado, pin­
tor. O núcleo de fatos comuns a todos os depoimentos é que
Alfredo e mais três companheiros haviam ido fazer “um pi­
quenique nas Furnas” e, na volta, pararam numa venda onde

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entraram em uma desavença qualquer com indivíduos que
lá estavam. Mais do que isto, temos apenas o cadáver de
João de Oliveira estendido na Rua Marquês de São Vicente.
Na delegacia, os três companheiros de Alfredo contam que,
após a discussão na venda, o grupo seguia seu caminho quan­
do mais abaixo na estrada foi recebido em emboscada por
dois indivíduos “armados de varapaus” e que se encon­t ra­
vam na venda que haviam deixado momentos antes. Alfredo
trazia um revólver e disparou contra os agressores, matando
João de Oliveira. Já na pretoria, os mesmos rapazes dizem
que efetivamente pararam numa venda, onde havia um gru­
po de portugueses. Segundo esta nova versão unânime dos
compa­n heiros de Alfredo, estes portugueses da venda ha­
viam ­v isto que o grupo trazia consigo algum dinheiro e
resol­veram, então, preparar uma emboscada “para roubá‑lo”.

O corpo de João de Oliveira, estendido na Rua Marquês de São Vicente


(processo criminal no qual foi réu Alfredo Gomes Moreira, s.n o, maço 895,
galeria a, 1911).

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O corpo de Tifu, encontrado num matagal em Bangu (processo criminal no
qual foi réu Manoel Paulo Taveira, n o 1.061, maço 895, galeria a, 1911).

­ gora, no entanto, o ataque havia sido feito por quatro ini­


A
migos, dois atacando pela frente e dois investindo por trás.
O juiz sumariante, no entanto, não acreditou na nova versão,
justi­f icando assim a pronúncia do réu:

Considerando que as testemunhas, aliás companheiros de


passeio do acusado à Gávea, referem‑se no inqué­r ito ape­
nas a dois indivíduos, sendo um deles a vítima que foram
esperá-los no caminho depois de uma desavença que
haviam tido numa venda onde naquele local se encon­
traram, tendo os primeiros se achado na iminên­c ia de
uma agressão por parte dos dois últimos sem que abso­
lutamente nem o acusado nem qualquer de seus compa­
nheiros, fizesse a mais leve referência a um assalto com
o fim de roubo e entretanto depondo no sumário mo­
dificam os seus depoimentos anteriormente prestados
na polícia para declarar que foram atacados no caminho

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por quatro indivíduos um dos quais era a vítima; que os
assaltaram para roubar [...]. 67 (grifo no orig.)

Ressalte‑se, finalmente, como conclusão desta parte,


que esta atitude de desconfiança e resistência à autoridade
entre os populares está longe de se manifestar apenas em
casos isolados de ações individuais e de pequenos grupos
como os analisados neste capítulo. Na verdade, esses exem­
plos mi­c roscópicos de insubmissão em relação à autoridade
constituída parecem se inserir numa tradição já relativa­
mente longa de protesto popular entre os homens livres
pobres da ­c idade.
Em estudo sobre a “Revolta do Vintém”, ocorrida na
cidade do Rio de Janeiro em 1880, a historiadora Sandra
Graham mostra que há evidências de uma participação ativa
de membros da classe trabalhadora nos tumultos ocorridos
na ocasião. O episódio em si está relacionado à ­c obrança do
imposto de um vintém que seria feito aos passageiros dos
bondes da cidade. Era em geral reconhecido na época que
os pobres não tinham poder aquisitivo suficiente para uti­
lizar re­g ularmente os serviços dos bondes, tanto assim que
o ­i nício dos protestos contra o imposto do vintém — pas­
sea­t as e comícios, até mesmo uma tentativa, frustrada pela
repressão policial, de entregar um manifesto ao impera­dor —
contou principalmente com a participação de pessoas de
rendimentos relativamente modestos, mas regulares, decen­
temente vestidas e alfabetizadas — pequenos ­b urocratas e
comerciantes, por exemplo. No entanto, o movimento aca­
bou tomando rumos não previstos, evoluindo para confron­
tos abertos entre policiais e populares nas ruas da cidade, e,
nestes tumultos, parece ter sido ativa a participação de tra­
balhadores pobres, membros da “classe baixa de nossa po­

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pulação”, ou “pessoas de pouca importância”, como diziam
as autoridades encarregadas da repressão às manifestações.
No final, um saldo de muitos bondes destruídos por popu­
lares para servirem de barricadas, algumas poucas dezenas
de feridos, três mortos estendidos na Rua Uruguaiana e,
segundo Sandra Graham, uma mudança decisiva na “cultu­
ra política”: pela primeira vez na história recente do Rio de
Janeiro, um debate político alcançou as ruas e praças da
cidade e alguns políticos mais astutos perceberam que ­h avia
uma fonte estridente de poder fora do Parlamento, nestes
citadinos descontentes com os problemas sociais causados
pelo crescimento rápido e desordenado da corte e centro
político do Império. 68
Mas toda esta agitação, combinada com o resultado
prático da abolição efetiva do imposto do vintém meses
depois, além de instruir políticos preocupados com a ques­
tão social, também deve ter deixado suas sementes entre os
membros da classe trabalhadora em formação: a partir daí,
parece que os populares percebem cada vez mais que podem
resistir à imposição de medidas injustas por parte das autori­
dades constituídas. Tanto os políticos preocupados com os
problemas sociais quanto os pobres urbanos mostraram ter
assimilado as lições da Revolta do Vintém, utilizando‑se
fartamente da agitação política direta na campanha abo­
licionista dos anos 1880. Já na década de 90 temos as pri­
meiras tentativas mais concretas de organização de um mo­
vimento operário, que iria culminar com as sucessivas greves
e confrontos das primeiras duas décadas do século XX.
Mas talvez tão importantes quanto todas estas ­tentativas
conscientes de membros da classe trabalhadora de organizar
suas lutas reivindicatórias sejam as evidências de que, para­
lelamente a isto, havia-se arraigado profundamente entre os

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populares em geral a idéia de que se podia, e até se devia,
resistir à autoridade constituída todas as vezes que esta pa­
recia se exceder claramente no exercício de suas funções. É
este sentimento popular que parece se manifestar nestas
diversas situações microssociais de confrontos entre mega­
nhas e populares que analisamos nas páginas anteriores, e
é, sem dúvida, este o sentimento popular que, combinado
à insatisfação geral dos pobres urbanos com os problemas
sociais causados pelo delírio “progressista” da administração
de Pereira Passos, ajuda a compreender o episódio da Re­
volta da Vacina na cidade do Rio de Janeiro em 1904.
Entre o muito que havia de se fazer para “civilizar” o
Rio de Janeiro, os donos do poder entendiam que se devia
dar um combate sem tréguas às doenças endêmicas que as­
solavam a capital federal, como a febre amarela, a disenteria,
a varíola e outras. 69 Se o objetivo em si parece suficiente­
mente louvável, os métodos utilizados para consegui‑lo
foram os mesmos postos em prática no período para realizar
as mais deslavadas usurpações por parte da grande ­b urguesia
carioca. Da mesma forma como se demoliam casarões e
cortiços no centro da cidade para valorizar áreas visando à
especulação imobiliária e a obter vantagens para o comércio
de importação e para as indústrias nascentes — deixando ao
relento, quase que de passagem, milhares de pessoas — a
principal medida visando ao combate às doenças endêmicas
foi aprovar uma lei que dava plenos poderes aos organismos
sanitários de ordenar a demolição de construções sempre
que estas lhes parecessem insatisfatórias. Obviamente, se­
guiu‑se um frenesi de derrubada maciça de casas em bairros
pobres, arrombamentos e entradas à força em residências de
membros das classes populares e outras violências do gê­nero.
As vítimas ensaiam reações esparsas, resistem isoladamente,

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mas as manifestações passam a ser de maior agressividade a
­p artir da lei sobre a vacina obrigatória.
Em outubro de 1904 estava sancionada uma lei que
tor­n ava “obrigatória, em toda a República, a vacinação e a
re­v a­­­cinação contra a varíola”. Para populares cansados de
tantas ar­b i­­trariedades e insuflados ainda pela ação de polí­
ticos opo­s icionistas, a nova terapêutica parecia mais uma
vio­lên­c ia inaceitável. E os distúrbios começam a 10 de no­
vembro, com os manifestantes quebrando lampiões da ilu­
minação ­p ública e entrando em choques esporádicos com
policiais. Nos dias seguintes, os combates de rua aumentam
no centro e nos su­búrbios, com os manifestantes ­derrubando
carroças para se protegerem e resistirem às cargas da cavala­
ria, tiroteios contínuos, quebra de combustores de ilumina­
ção, destruição de fios de telefone etc. A cidade se trans­
forma por al­g uns dias em um enorme campo de batalha,
com grande número de mortos e feridos. E, ao que parece,
pequenos proprietários e trabalhadores pobres estavam uni­
dos na resistência:

Na rua, o entusiasmo transmudou‑se em agres­s i­­vi­d ade,


e os manifestantes travaram conflito com a po­lí­­cia. Não
houve mais meio de conter o populacho. Ti­r a­v am ­r ipas
e varas do material das construções no­v as; arrancavam
paralelepípedos; tomavam, de ­a s­s al­t o, sacos de rolhas
de cortiça na soleira dos arma­z éns, e ven­d eiros portu­
gueses, for­retas capazes de ne­g ar um pão por esmola,
davam‑lhe quero­s ene, às latas, para os incêndios. 70

O sentimento de desconfiança em relação à ­a utoridade,


portanto, rebentou em resistência violenta quando estes
trabalhadores pobres avaliaram uma determinada medida
go­v ernamental como abusiva e lesiva a seus interesses. E

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a resis­t ência popular teve seu símbolo de luta, o “Porto Ar­
tur” — referência à fortaleza russa que durante meses resis­
tiu ao cerco dos japoneses —, localizado sintomaticamente
no bair­ro da Saúde, local habitado por grande número de
estiva­d ores e trabalhadores portuários em geral. Mas, além
de fortaleza-símbolo, o trecho abaixo mostra que os popu­
lares tiveram também o seu herói:

Na cidade só se falava em “Porto Artur”, nome que deram


ao entrincheiramento da praia e rua da Harmonia, e onde,
desde a noite passada, não chegava nenhuma força legal,
ante as hostilidades freqüentes ali infringidas. Essa trin­
cheira, de mais de um metro de altura, era constituída
de sacos de areia, trilhos arrancados à linha, postes tele­
fônicos, fios de arame, paralelepípedos, troncos de árvo­
res, madeiras de ­c asas velhas, bondes e carroças. Ali,
armados de carabinas, com grande profusão de muni­
ções, revólveres e dinamite permaneciam esses homens
numa constante amea­ç a à ordem pública. Nos morros
do Livramento e da Mortona, fortificam‑se igualmente
com os mesmos elementos de resistência [...]. O bairro
estava inteiramente entregue a essa gente, pois, assalta­
da e invadida a 3 a Delegacia Urbana, as autoridades e o
des­t acamento tiveram de abandoná‑la [...]. Do largo da
Harmonia em diante, até à venda denominada Varanda,
na esquina da rua da Gamboa, seguiam‑se as outras
trincheiras, em grande número, até Porto Ar­t ur, onde
estava reunido o estado‑maior dos amotina­d os. Ali, de
momento a momento, soavam toques de corneta dando
ordens e recomendando sentido [...]. Nos morros próxi­
mos haviam estabelecido ­v erdadeiras baterias de canos
cheios de dinamite, bombas, pedras e munições. Pouco
de­p ois de 4 horas da tarde, nume­roso grupo abandonou
as fortificações e ­enca­mi­nhou‑ se para o posto de bombei­
ros da rua Gamboa, tentando assaltá‑lo (e trava‑se bata­
lha, com mortes). Antes desse tiroteio ocorrera outro

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fato de interesse no largo do Depósito, até onde avança­
ra numeroso grupo de amotinados da Saúde. Travou‑se
um tiroteio entre eles e uma força de polícia e do Exér­
cito ali de serviço. A luta foi tremenda e, no meio dos
turbu­l entos, avultava em denodo, numa bravura de
verdadeira fera, um crioulo reforçado, que era o chefe
dos grupos da Saúde. Esse indivíduo empunhava um
revólver em cada mão e desfechava‑o seguidamente
­s obre a força, e quando esta pôs o grupo em debanda­d a
ainda ficou ele a lutar, em resistência aos ­s oldados, dos
quais prostou [sic] um morto e dois gravemente feridos
[...]. Afinal, ao cabo de tenaz e cega resis­t ência, foi o
sinistro crioulo preso [...]. Esse crioulo tem a alcunha
de Prata Preta e, pela sua conhecida bravura como fa­
moso desordeiro, fora proclamado chefe dos sublevados
da Saúde. Nos embates ali trava­d os foi sempre visto nos
pontos mais perigosos, atirando contra a força. 71

Lazer e ritual (I): o surgimento da rixa


e a preparação do conflito

A vulgaridade da populaça! Há por aqui,


entre esses marçanos fortes, gente boa.
Há também ruim. Estão fatalmente des­
tinados ou a apanhar ou a dar, desde
crian­ç as. É a vida. Alguns são perversos:
provocam, matam. Vais ver.
J oão do R io 72

E. P. Thompson, em seu estudo sobre o processo histó­


rico de formação da classe trabalhadora inglesa no ­p eríodo
entre 1790 e 1830, acaba enumerando uma série de fatores
bem gerais reveladores de tal processo e que podem servir
pelo menos como parâmetros iniciais de reflexão sobre a

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formação de classes trabalhadoras em outros países do mun­
do ocidental em processo de transição para o capitalismo.
Thompson menciona, primeiramente, o crescimento da
consciência de classe, ou seja, da consciência de que há uma
identidade de interesses entre os diversos grupos de traba­
lhadores — identidade esta que se define fundamentalmen­
te ­c ontra os interesses de outras classes. Em segundo lugar,
temos o crescimento de formas correspondentes de organi­
zação política e industrial — como sindicatos, sociedades
de ­a juda mútua, movimentos educacionais e religiosos, or­
ganizações políticas, periódicos etc. Thompson menciona
ainda a existência de tradições intelectuais, padrões ou mo­
delos de comunidade e uma estrutura de sentimentos típicos
de uma determinada classe trabalhadora. E prossegue com
a observação essencial de que a formação de uma classe
trabalhadora é tanto um fato de história econômica quanto
de história política e cultural. 73
Assim, o processo específico de integração da ­e conomia
brasileira às transformações do capitalismo internacional na
segunda metade do século XIX e o processo interno de
transição do trabalho escravo para o trabalho livre — com
a conseqüente formação de um mercado capitalista de tra­
balho assalariado — foram os dois processos que — articu­
lados ainda às transformações econômicas específicas da
cidade do Rio de Janeiro na época — forneceram o contex­
to socioe­c o­n ômico para a formação histórica da classe tra­
balhadora carioca ao longo da segunda metade do século
XIX e das primeiras décadas da República Velha. Enquanto
fato de his­t ória política, a classe trabalhadora carioca marca
sua presença no período através das práticas de protesto
­p opular, das inúmeras organizações e sociedades de assistên­
cia ­m útua e, principalmente, através das lutas crescentes do

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movimento operário. Enquanto fato de história cultural —
e definindo cultura neste contexto, seguindo Sidney Mintz
e Richard Price, como “um corpo de crenças e valores, so­
cialmente adquiridos e modelados”, que servem a um grupo
ou classe social como “guias de comportamento” 74 —, mui­
to do que se escreveu até aqui revela a classe trabalhadora
carioca, já na primeira década do século XX, como possui­
dora de formas culturais próprias e independentes, ­m esmo
que ­f orjadas continuamente, na verdade, pela dia­lética ­e ntre
os projetos ou modelos culturais feitos para ela e aqueles
engendrados a partir de sua prática real de vida. Vimos,
assim, como a classe trabalhadora vivenciava o valor funda­
mental do traba­lho numa sociedade capitalista — isto é, o
valor “competição”; vimos ainda como era vivida e inter­
pretada a relação amorosa do ponto de vista dos populares,
e já abordamos em parte, neste capítulo, a importância do
botequim como reduto de lazer popular e a atitude de des­
confiança e resistência dos nossos personagens em relação
à ação dos me­g anhas e das autoridades policiais e judiciárias.
Podemos, contudo, ir além na análise dos padrões cul­
turais das classes populares cariocas no período. ­A rgumentei
mais atrás que, devido à atitude de descrença dos populares
em relação à possibilidade de as autoridades policiais e ju­
di­c iárias agirem no sentido de arbitrar seus conflitos — des­
crença esta nutrida por uma experiência cotidiana de ar­
bitrariedades e violências das ditas autoridades —, restava
aos populares apenas, como alternativa desejável, a “priva­
tização” desses conflitos, ou seja, a sua resolução de acordo
com regras de comportamento próprias do grupo socio­c ul­
tural em questão. Isso pressupõe a existência de elementos
ordenadores das relações pessoais do cotidiano desses ho­
mens e mulheres e que estes elementos eram compartilhados

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e valorizados por eles. Assim, a ocorrência dos ­c onflitos
violentos entre membros das classes populares, registrada
nos processos criminais analisados, é olhada aqui de um
ponto de vista totalmente diverso daquele do jurista, ou
mesmo do teórico da patologia social, que analisam os atos
de tais personagens a partir de um sistema rígido de ­v alores,
procurando avaliar até que ponto eles se enquadram nas
normas dominantes ou se constituem em indivíduos “crimi­
nosos” ou “desviantes”, desconsiderando, dessa forma, a
possibilidade de esses indivíduos regerem sua conduta por
normas ou padrões de comportamento alternativos àqueles
valorizados pelos monopolistas da virtude. Penso que esse tipo
de posicionamento é um nonsense epistemológico. Como este
é, no entanto, um nonsense ilustre e tradicional, talvez con­
venha analisar mais detidamente seu “engen­d ra­m ento”.
É longa a tradição entre os estudiosos na área de ­c iências
humanas de abordar o problema da criminalidade sempre
do ponto de vista das grandes contradições estruturais que
permeiam a sociedade em questão. Assim, por exemplo,
ainda no século passado, Engels focalizava o problema do
aumento da criminalidade entre as classes trabalhadoras
inglesas da época a partir das mudanças estruturais cataclís­
micas desen­c adeadas pela Revolução Industrial. Engels es­
tabelece uma relação direta entre a deterioração das condi­
ções de vida e mudanças observadas no comportamento
social dos habitantes das grandes cidades inglesas: o crime
traduzia uma primeira fase — ainda embrionária e com
baixo nível de conscientização — da oposição do proletaria­
do ao regime social vigente. 75
A pista de Engels tem sido bastante trilhada pelos estu­
diosos brasileiros, parecendo haver um certo consenso de
que a violência que permeia toda a história da nossa forma­

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ção so­c ial — culminando nos índices assustadores da cri­
minalidade atual — é resultado do próprio desdobramento
das contra­d ições estruturais da sociedade brasileira ao longo
do tempo. 76
É claro que o enfoque mencionado passa pela verdade:
condições socioistóricas mais amplas estão, sem dúvida,
informando a ocorrência da violência em suas diversas for­
mas — não só, portanto, a violência que é rotulada como
“crime” — em uma determinada sociedade. No entanto, este
enfoque, ao ser tomado como o único modo possível de abor­
dar o tema da ocorrência do conflito violento ou da cri­m i­
nalidade em geral envolvendo membros da classe traba­lha­
dora, traz problemas e reduz a questão a apenas uma de suas
faces. Como observa Maria Célia P. M. Paoli, este tipo de
abordagem, ao manter‑se num nível muito abstrato e ge­r al,
pode até conspirar contra a própria postura crítica que se
quer ter da sociedade estudada: se o crime é apenas ­p rodu­t o
direto de contradições estruturais, isto é, produto da mi­s éria
a que fica condenada grande parte da população, ­e ntão será
verdade que todos os miseráveis são potencialmente vio­
lentos ou criminosos? 77 Através de pequeno truque lógico,
então, reproduz‑se a ideologia da classe dominante e se
fornecem novos ­e lementos para justificar a opressão social.
Na verdade, pensar o problema da ocorrência de con­
flitos violentos entre os populares a partir apenas do ponto
de vista dos condicionamentos socioistóricos mais amplos
causa problemas teóricos e metodológicos sérios. Nesta
perspectiva, o conflito violento em si deixa de ser um obje­
to relevante de estudo, pois em última análise ele pode ser
en­t endido e explicado a partir de fatores extrínsecos às pró­
prias condições concretas de sua produção nas diversas si­
tuações microscópicas do social. 78 Em outras palavras, o

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conflito não é percebido como um produto social, como
uma “construção” de seres humanos concretos no bojo mes­
mo de suas relações cotidianas de vida, e sim como produto
de grandes abstrações teóricas — as “estruturas” ou entida­
des se­m elhantes — que supostamente se contradizem e que
são geradoras de realidade social.
Ora, dentro desta perspectiva teórica, é fácil perceber
o porquê do fato de a ocorrência de conflitos violentos en­
tre membros da classe trabalhadora ter sido tradicional­mente
abordada do ponto de vista do “desvio”, da “anomia” ou da
“patologia social”. Partindo de abstrações teóricas geradoras
de realidade social, o estudioso se exime de analisar a vio­
lência em si, em sua lógica interna manifesta nas ações dos
protagonistas de carne e osso que se inter‑relacionam num
determinado meio sociocultural. Assim, os teóricos da pato­
logia social postulam que a pobreza a que fica condenada
uma grande parte da população — pobreza esta­o riunda das
tais contradições estruturais — produz um estado de “ano­
mia”, de “ausência de normas”, de “falta de padrões de
com­p ortamento” etc., que se manifesta através da desagre­
gação da família, alto índice de criminalidade e outros ­fatores
considerados sintomas de desajuste. O que ocorre aqui, por
um lado, é a simples dedução de que um estado de pobreza
ou miséria destrói padrões de comportamento, laços de fa­
mília e solidariedade e estabelece o caos social entre as ­classes
populares. Por outro lado, em vez de tentar compreender
melhor o sentido e a racionalidade intrínsecos aos ­d iferentes
tipos de comportamento da classe trabalhadora, o que se faz
é apenas julgar esses tipos de comportamento a partir de
padrões que lhes são extrínsecos, ou seja, tenta‑se impingir
aos populares a camisa‑de‑força dos padrões de comporta­
mento da classe dominante.

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É necessário questionar, e agora de forma mais geral
ainda, se os cientistas sociais que se preocupam com o ­estudo
de classes populares se colocam realmente problemas signi­
ficativos quando procuram avaliar o grau de violência em
certa comunidade e, mais ainda, quando procuram ­relacionar
violência com desagregação social, uniões informais e tran­
sitórias com promiscuidade etc. Estas colocações quanto à
“promiscuidade” e “violência” das classes populares parecem
preconceituosas e pouco científicas. Afinal, o que é ser vio­
lento? Será que ser violento é dar tiros e facadas de vez em
quando, se é que este tipo de comportamento é tão genera­
lizado entre populares quanto nos procuram fazer crer as
festivas e pouco sérias reportagens de certos jornais e tele­
visões? Esta ênfase carnavalesca em apenas determinados
­t ipos de violência — esquecendo‑se, “inocentemente”, de
vio­l ências que provocam sofrimentos sociais muito mais
intensos — dá um paralelo perfeito com outro mito social
muito badalado e pouco conhecido: a malandragem. Qual­
quer indivíduo com um mínimo de perspicácia sabe que os
verdadeiros malandros não moram nas favelas...

A leitura dos processos criminais de homicídio ou ten­


tativa de homicídio envolvendo membros da classe traba­
lhadora carioca no início do século XX permite discernir
uma regularidade impressionante nos antecedentes e nas
condições gerais da produção social de cada conflito. Os
homens e mulheres presentes na cena de um crime de ho­
micídio, seja na condição de agentes, pacientes ou testemu­
nhas do ato, pareciam ter seu comportamento largamente
orien­t ado por uma série de normas ou regras conhecidas e
valorizadas ­p elos membros da comunidade onde se dava a
contenda. Isto é, o comportamento dos protagonistas do

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conflito, assim como de seus assistentes ou coadjuvantes,
estava programado socialmente, o que dava às ações das
pessoas envolvidas no episódio significados sociais precisos
e compreensíveis para os membros do microgrupo sociocul­
tural onde se desenrolava a luta. A ação violenta seguia
etapas previsíveis pelos membros desses microgrupos socio­
culturais — o surgimento da rixa, a escalada das tensões, o
desafio e a luta propriamente dita —, apresentando, portan­
to, um código ou um programa comum a todos os membros
da comunidade. É ­lógico que este código ou programa apre­
senta margens de ­liberdade sob a forma de opções ou va­r ia­
ções lícitas e, afora isso, os participantes, além de agirem de
acordo com o código aprendido, modificam-no parcialmen­
te através das ações recíprocas exercitadas entre eles. Não se
pode pensar, portanto, que o comportamento de nossos
per­s onagens esteja regulado por um determinismo do tipo
que os biólogos postulam para as abelhas e as formigas: em
sentido mais geral, deve‑se pensar que os homens executam
programas porque necessitam se servir de sistemas de signos
sociais verbais e não‑verbais, pré‑constituídos. Os homens,
para se comunicarem, para transmitirem mensagens, utili­
zam-se dos códigos existentes e que são resultado de ­trabalho
humano passado — códigos estes que, logicamente, possuem
dimensão histórica e se transformam continuamente. 79
O restante deste capítulo, então, é uma tentativa de dis­
cernir as diferentes etapas e “decifrar” o código do conflito
violento entre os nossos protagonistas. Procuraremos mos­
trar, assim, que a desconfiança e a resistência dos popula­res
em relação à intervenção das autoridades policiais e ju­d iciá­
rias em sua vida têm um sentido cultural profundo, enrai­
zado no próprio modo de vida da classe trabalhadora: os
populares estavam imbuídos de normas próprias reguladoras

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de suas desavenças, possuíam noções próprias de justiça e,
quando envolvidos em situações de conflito, ­s eguiam rituais
de conduta que mostravam apego a valores muitas vezes
opostos àqueles prezados pelas classes dominantes. 80

O surgimento das rixas na hora do lazer


e o botequim como “observatório popular”

Maria Sylvia de Carvalho Franco, em estudo baseado


em crimes ocorridos entre caipiras de parte da região cafeei­
ra do Vale do Paraíba no século passado XIX, pensa a rixa
como o motivo, geralmente fútil e superficial, que serve de
causa imediata para a precipitação de um conflito. Neste
­c ontexto, a violência é percebida como algo que irrompe
num momento, sem ser precedida de uma situação de tensão.
A autora ­o bserva que, nos conflitos analisados por ela, “a
oposição entre as pessoas envolvidas, sua expressão em ter­
mos de luta e ­s olução por meio da força, irrompe de relações
cujo conteúdo de hostilidade e sentido de ruptura se orga­
nizam de momento, sem que um estado anterior de tensão
tenha contribuído”. 81
Essas observações provocam interrogações importantes
sobre o caráter bastante complexo do estudo das causas ou
das motivações que levam à perpetração de crimes de homi­
cídio a partir da análise de processos criminais. O ­historiador
William B. Taylor questiona o valor objetivo, a veracidade
do que declaram a esse respeito os acusados, ofendidos e
testemunhas. 82 Taylor argumenta que o que freqüen­t emente
passa como a causa da agressão, nos estudos de crime em
processos, são geralmente apenas os antecedentes imediatos
do conflito aberto — discussões por causa de jogo, embria­

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guez, brincadeiras, desafios à masculinidade etc. Taylor
caracteriza‑se até por um certo ceticismo, afirmando que os
motivos alegados para a agressão nos processos criminais são
um fato social relevante apenas no sentido de que revelam
idéias populares sobre questões pelas quais é justificável o
recurso a meios violentos para a resolução de tensões em um
determinado grupo social. As declarações quanto ao motivo
da agressão não podem ser tomadas como as “razões reais”
do recurso aos ajustes violentos; para ele, essas “razões
reais” são “razões psíquicas”, em geral incognoscíveis.
Na verdade, não é necessário definir a rixa como o mo­
tivo fútil que serve de causa imediata para a precipitação
de um conflito, tampouco cabe compartilhar do ceticismo de
Tay­lor. Na documentação coligida e analisada a rixa seria mais
bem definida como a situação de tensão mais ou ­m enos pro­
longada no tempo que levará ao desafio e, finalmente, ao
con­f lito direto entre os contendores. Há uma distinção rele­
vante a fazer, portanto, entre os conceitos de rixa e de desa­
fio: o desafio pode ser visto como o último estágio de uma
escalada contínua de tensões específicas ativadas a ­p ar­t ir do
surgimento da rixa. O desafio precede imediatamente o con­
flito e o anuncia aos membros de um determinado meio
sociocultural; a rixa surge da própria dinâmica de funciona­
mento e ajuste de tensões dentro do microgrupo sociocultu­
ral estudado. Neste contexto, a violência não é algo gerado
es­p ontaneamente num dado momento, mas sim o ­resultado
de um processo discernível e até previsível ­pelos membros de
uma cultura ou sociedade.
Quanto ao ceticismo de Taylor, ele se justifica talvez
por uma necessidade de aprofundar mais a discussão sobre
o signi­f icado do surgimento da rixa dentro de um deter­
minado contexto sociocultural. Há de se enquadrar a rixa

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dentro de uma perspectiva teórica que a apreenda enquan­
to ­e xpressão da própria dinâmica do inter‑rela­c io­n amento
entre ­m embros de um microgrupo social dado. Como já foi
visto no ­p rimeiro capítulo e exemplificado repe­t idamente ao
longo da ­e xposição, é necessário perceber a rixa como um
aconteci­m ento político no interior de um determinado mi­
crogrupo sociocultural. O trecho abaixo, do antropólogo J.
van Velsen, parece perti­n ente neste contexto:

[...] em qualquer sociedade, o estudioso provavel­m ente


encontrará uma enorme categoria de conflitos onde a
disputa diz respeito basicamente à questão de quais de
um certo número de normas mutualmente con­f litantes
deveriam ser aplicadas aos “fatos” estabe­lecidos do caso.
Dentro deste ponto de vista, torna‑se importante obter
relatos e interpretações dos ­c onflitos ou outros eventos
particulares que sejam ­p rovenientes de pessoas diversas,
ao invés de procurar o relato ou a interpretação correta
dos eventos. 83

O trecho de Velsen é relevante, de um lado, porque cha­


ma a atenção para o fato de que, mesmo que as situações de
con­f lito em um determinado grupo sociocultural ­e stejam in­
formadas por um código amplo de orientação da conduta dos
protagonistas e coadjuvantes da ação, o código contém em si
mesmo normas conflitantes que muitas vezes são utilizadas
pelos personagens para justificar o conflito em ­c urso. Por
ou­tro lado, Velsen desnuda com precisão o ­caráter da “verda­
de” na análise destas situações microssociais, reve­l ando‑a
como uma construção de agentes sociais inseridos em lutas
­políticas que são parte constitutiva essencial da teia de ­relações
sociais na qual esses agentes se inserem em sua vida cotidiana.
Num dos processos criminais analisados, o advogado
de defesa se empenha em mostrar a parcialidade da testemu­

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nha de nome Luiz José Correa, português, de 44 anos, dono
de uma venda na freguesia do Engenho Novo, que declara
em seu depoimento nada saber, nem por ouvir dizer, de um
conflito ocorrido nas redondezas. O advogado procura pro­
var que a testemunha havia mentido em suas declarações com
o argu­m ento de que o negociante Luiz, “um dono de venda,
isto é, de um verdadeiro observatório popular [...] seis meses
após um fato passado na vizinhança, às portas do mesmo
negócio, nem dele ouviu, sequer, falar!” 84 (grifo no orig.)
O argumento utilizado pelo advogado revela o papel
do botequim ou da venda como centro aglutinador e difusor
de informações entre os populares. E, mais do que isso, a
refe­r ência à venda como “observatório popular” sugere que
este é um ponto privilegiado, uma espécie de janela aberta,
para o estudo de padrões de comportamento dos homens
po­b res em questão. Com efeito, a venda ou botequim é
cená­r io para o surgimento e desenrolar de rixas e conflitos
pelos mais va­r iados motivos, desde os problemas ligados ao
traba­lho e ha­b itação, passando pelas questões de amor e de
­rela­ç ões entre vizinhos, até as contendas por motivos mais
especifica­m ente ligados ao lazer, como os jogos, o carna­v al
ou a ­b ebi­d a.
A variedade enorme dos motivos alegados por popula­
res para o surgimento e desenrolar de rixas no botequim
pode ser ilustrada por um tropel de exemplos. Aqui vão
alguns: o co­c heiro Joaquim explica a agressão que sofreu de
José no “bo­t equim do Damião” como conseqüência de “uma
pequena questão [...] motivada em serviço de carroceiro que
ambos são”; 85 um grupo de empregados de um depósito de
car­v ão vai a um botequim num dos intervalos da jornada
de trabalho e dois deles entram em conflito devido à “diver­
gência [...] do modo de pensar acerca do serviço deles”; 86

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já a briga entre Eurico e o estivador Oscar, ocorrida em
frente a uma casa de pasto, alguns depoentes pensam ter
sido “por motivo de tra­b alho”, outros pensam “que fora a
ques­t ão mo­t ivada pela rifa de um revólver”; 87 Salvador e
Ma­n oel se desentendem “por questões antigas” dentro de
um botequim, isto é, ao que pa­rece, Salvador havia dado uma
medalha para Manoel vender, mas este último replica “que
não tinha dinheiro nem meda­lha”; 88 já “Manoel da Pinga”
diz que a briga da qual par­t icipou no botequim começou
“por brincadeira”; 89 em outro caso, dois rapazes brigam
numa esquina em frente a um bo­t equim, ao que parece “por
causa de namoradas”; 90 e, para terminar esta pe­q uena lista
de exemplos, temos a briga entre o carregador Alfredo e o
padeiro Graffion dentro de uma casa de pasto — para algu­
mas testemunhas, os dois homens come­ç aram a discutir
sobre quem “pagaria a despesa”, mas o caso pode ser tam­
bém uma briga entre um casal homossexual: Graffion de­
clara que, ao ficar desempregado, foi para a casa de Alfredo,
e ambos passaram a dormir “no mesmo quarto e na mesma
cama”, mas se queixa ao delegado de que “ontem [...] acor­
dou verificando que Alfredo procurava servir‑se dele para a
prática de atos imorais e de perversão”. 91
Os motivos alegados pelos contendores ou pelas teste­
munhas para explicar o surgimento das rixas ou questões
que deram origem aos conflitos são, portanto, bastante va­
riados. No entanto, é preciso utilizar essas alegações dos
depoentes com cuidado: com freqüência, o que aparece nos
processos criminais como as causas últimas dos conflitos são
apenas seus antecedentes imediatos. Este problema pode ser
em par­t e evitado com a leitura exaustiva e comparativa dos
autos, o que acaba explicitando quase sempre o que está­
efe­t i­­vamente em jogo na contenda, ou seja, a leitura atenta

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do processo esclarece geralmente o caráter político do surgi­
mento das rixas e dos conflitos nestas instâncias microscó­
picas do social.
O processo seguinte — um conflito entre vizinhos —
mostra bem que a análise do problema das causas do ­c onflito
não pode se ater exclusivamente ao que os depoentes iden­
tificam como suas causas nas declarações às autoridades. Na
verdade, todas as informações contidas nos testemunhos a
respeito da dinâmica de funcionamento destes microgrupos
socioculturais são relevantes para o estudo das causas do
re­c urso ao ajuste violento. Assim, João Figueiredo, brasi­lei­
ro, viúvo, 43 anos, porteiro de uma repartição pública e mo­
rador no Bexiga teve uma questão com Matheus de Abreu,
­b rasileiro, solteiro, 25 anos, também morador no Bexiga,
aparentemente porque defendeu‑se com um tiro do assédio
dos cachorros de Matheus, que ameaçavam mor­d ê‑lo. Após
troca de insultos quando do episódio dos cachorros, Figuei­
redo e Matheus voltaram a se encontrar mais tarde em um
bo­t equim das vizi­n hanças. Na presença de um grupo de
cerca de 20 pessoas, os dois discutiram, brigaram e Fi­g uei­
redo desfechou um tiro contra Matheus, errando o alvo. Isto
é tudo que revelaria uma leitura superficial dos depoimentos.
A situação, contudo, é claramente bem mais complexa. Mui­
tos dos depoentes, em sua maioria jovens lavradores, decla­
ram‑se inimigos do ofen­s or, dizendo, por exemplo, “que a
vizinhança não gosta do acusado Figueiredo, por ser desor­
deiro, e o ofendido é ­h omem pacífico e trabalhador”. Fi­
gueiredo é acusado ainda de ser provocador e estar sempre
envolvido em questões. Outras tes­t emunhas, porém, decla­
ram que Matheus é que havia ­d irigido insultos a Figuei­redo.
Interrogado, o acusado atribuiu a de­n úncia a rixas antigas,
afirmando que alguns dos moradores do lugar — in­d ivíduos

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desordeiros, segundo ele — não que­r iam que ele ali perma­
necesse. Em sua defesa, Figueiredo ­a nexou cartas de pes­s oas
influentes da região, inclusive a de um certo “coronel”. 92
O processo acima ilustra o caráter profundamente polí­
tico do surgimento das rixas entre os homens pobres em
ques­t ão e exemplifica bem a conveniência do conceito de
“­p olítica do cotidiano”, desenvolvida por Velho e Becker,
neste tipo de análise. 93 Vemos primeiro que os depoentes
explicitam como causa do conflito o problema em torno dos
cachorros. No en­t anto, a análise dos testemunhos em seu
conjunto ­t orna claro que o problema com os cachorros foi
apenas o estopim para a explosão de tensões muito mais
profundas. Assim, temos os declarantes divididos quase que
em blocos, sendo que a maio­r ia apoiava o ofendido e uns
poucos eram simpáticos ao acu­s ado. Há uma óbvia troca de
acusações entre as partes em confronto: chamam‑se mutua­
mente de “desordeiros”. E, fi­n almente, o caráter político da
luta é simbolizado ainda pela atitude do acusado ao incluir
cartas de pessoas influentes da vizinhança em sua defesa. Já
nesta altura, estamos bastante distantes da aparente futili­
dade de um conflito ­s upostamente ocorrido por causa de
tiros desfechados contra cachorros.
O jogo a dinheiro no botequim também era uma situa­
ção que tornava explícito algumas vezes o caráter político
das ri­x as entre vizinhos ou companheiros de trabalho. Po­
demos lembrar, por exemplo, que um jogo a dinheiro ­p arece
ter sido um dos antecedentes imediatos da morte de Zé Ga­
lego, nar­r ada na introdução. Zé Galego havia perdido algum
dinheiro e, inconformado, teria sacado um revólver e ­exigido
de Case­m iro, outro estivador, a devolução da quantia. Ga­
lego conse­g uiu seu intento, já que, de acordo com Paschoal,
“ali no jogo, o mais forte sempre saía ganhando”. 94

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Havia também o problema da competição pelo do­m í­nio
dos pontos de jogo nos botequins. O trecho abaixo, pu­b lica­
do no Correio da Manhã, em 31 de agosto de 1908, é a in­
trodução a uma notícia de briga entre jogadores profissio­nais:

Não basta, às vezes, ao espírito exaltado de um ­jogador


que perde, uma ligeira explicação do banqueiro para
acalmá‑lo. E é sempre nos centros, onde a jogatina im­
pera, onde o dado rola, sob a impressão profunda dos
muitos olhos que sobre ele pairam, que se dão ­p equenas
questões, cujos desfechos são em sua ­m aioria trágicos.
Nos grandes centros, onde à roda do pano verde sen­
tam‑se jogadores da alta sociedade, estas questões des­
lindam‑se com o consolo de um ou outro ao parceiro
mais caipora. Nos meios baixos, porém, onde se encon­
tram tipos já afeitos aos crimes, uma ligeira troca de
palavras dá lugar a uma cena de sangue, reluzindo a
lâmina do punhal e os canos dos Smith e Wesson, ma­
nejados por mãos entendedoras. 95

Esta introdução informa muito mais a respeito das con­


cepções que um jornalista burguês possuía sobre os “meios
baixos” do que propriamente uma compreensão sobre o que
estava realmente na origem da disputa entre “Antonico Bull-
Dog”, um português de 27 anos, solteiro, e “Cara de ­Velho”,
de 32 anos, solteiro, ambos exploradores de pontos de jogo.
A leitura dos autos revela que os dois con­t endores eram
jogadores profissionais muito conhecidos e respeitados na
freguesia de Sacramento. Em torno deles reunia‑se sempre
um grupo numeroso de indivíduos, que tiravam sua sobre­
vivência, pelo menos em parte, das atividades dos patrões
como controladores de pontos de jogo. Segundo uma das
testemunhas, a rivalidade entre Antonico Bull‑Dog e Cara
de Velho começara quando o último, que havia conseguido

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dominar o ponto de jogo de um determinado botequim das
redondezas, resolve abandoná‑lo para tentar a exploração de
um outro ponto que achava mais promissor. Mas a nova
empreitada não deu certo, e Cara de Velho resolveu tentar
reconquistar seu antigo ponto, agora dominado por An­to­nico
Bull‑Dog. Os depoimentos nos autos mostram o desen­rolar
de um longo ritual de provocações envolvendo os dois ho­
mens e seus respectivos capangas, e que culmina no ­d esafio
e luta da qual resultou a morte de Cara de Velho. 96
Além do jogo, o carnaval era outra fonte eventual do
sur­g imento de rixas associadas ao mundo do lazer popular.
Intrépidos e irreverentes, os foliões entusiasmados desta “fes­
ta de plebe” — como a define Luiz Edmundo — ­g ostavam
de provocar os guardas‑civis cantando debochadamente:

Eu vou bebê,
Eu vou me embriagá,
Eu vou fazê baruio
Prá puliça me pegá.
A puliça não qué
Que eu dance aqui,
Eu danço aqui
Danço acolá. 97

Os “brinquedos de carnaval” estão às vezes na origem


de agressões sérias. Assim, Arthur da Cruz, pardo, de 28
anos, casado, pintor, desentendeu-se com Lucílio de Alcân­
tara, natural da capital federal, 26 anos, solteiro, também
pintor — os dois já haviam até trabalhado juntos. Lucílio
dá a sua versão dos fatos:

[...] que ontem à noite realmente atirou extrato de um


lança‑perfume em Arthur e ele por isso ­m altratou muito
ao depoente; sendo que três vezes, ontem esse homem

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maltratou ao depoente; que hoje às quatro horas da ­tarde
encontram‑se novamente na rua 24 de Maio esquina de
Magalhães Castro e Arthur novamente insul­t ou ao de­
poente sendo então que o depoente quis ir em­b ora e foi
perseguido por Arthur então fez uso de seu revólver [...]. 98

Outros depoentes no processo mostram ter acompa­


nhado o desenrolar das provocações trocadas pelos dois
­r apazes nas horas que se seguiram ao episódio do lança‑per­
fume. O próprio ofendido, Arthur, diz que quando se en­
controu com o acusado este “interpelou‑o, dizendo se não
queria espan­c ar‑lhe, pois ele acusado havia sabido ter ele
informante isso dito [...]”. Este ritual de troca de provoca­
ções entre os con­t en­d ores antes do conflito e a participação
ativa de outros membros da comunidade neste processo de
preparação da luta — assistindo à troca de provocações en­
tre os oponentes e servindo de mensageiros dos desafios
trocados, como a ­p romessa de espancamento que teria sido
feita por Arthur no caso acima — são traços comuns nos
conflitos entre nossos protagonistas e serão analisados mais
deta­lha­d amente logo adiante.
Luiz Edmundo, em sua colorida descrição do “­c arnaval
de outrora”, dá certa ênfase à rivalidade existente entre as
so­c iedades carnavalescas da época — agremiações onde se
reu­n iam as “moçoilas e rapazelhos” humildes que habitavam
os “casebres que se dependuram como gaiolas de pássaros”
pelas encostas dos morros cariocas. Os preconceitos de clas­
se do cronista, aliados ao seu antilusitanismo ferrenho, forne­
cem-lhe uma teoria explicativa das causas dessas rivali­d ades:

A rivalidade existente entre esses grupos glorifi­c a­d ores


de Momo é coisa velha e conhecida. ­E mulação ativa,
concorrência, por vezes, provocadora e peri­g osa. O que

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caracteriza as camadas inferiores da nossa sociedade
ainda é aquele espírito bárbaro e ­i rrequieto, vindo de
velhos tempos de domínio estrangeiro, quando se toma­
va como matéria‑prima para colonização entre elemen­
tos raciais opostos, a massa triste dos degredados, que
a justiça portuguesa para cá viveu sempre a enviar. 99

Não era obviamente assim, no entanto, que os perso­


nagens de um conflito envolvendo membros de sociedades
carnavalescas rivais percebiam as ações nas quais tomavam
parte. Manoel Leite, por exemplo, português, de 20 anos,
solteiro, açougueiro, justifica no depoimento abaixo os ­t iros
que disparou contra Oswaldo Jacques, brasileiro, de 17 anos,
solteiro, carpinteiro, e Antônio Monteiro, português, tam­
bém de 17 anos e solteiro, alfaiate:

[...] soube que Oswaldo Jacques e Albino Nunes Mon­


teiro a quem conhece pelo vulgo de “alfaiate” propa­
laram que haviam esbofeteado a ele acusado e que as
sócias do Grupo Estrela da rua Larga, da qual ele acu­
sado faz parte eram putas; que hoje às oito horas da
noite [...] foi agredido com uma bofetada vibrada por
Oswaldo Jacques que se achava em companhia de ou­t ros
e a fim de os intimidar apontou contra o seu revól­v er,
mas não o detonou e Jacques e seus ­c ompanheiros ame­
drontados fugiram [...]. 100

Houve depois um novo encontro, no qual o acusado


efetivamente disparou tiros, saindo ferido Antônio Mon­t ei­
ro, irmão de Albino. Segundo o depoimento de Manoel, são
duas as razões que o levam ao conflito: primeiro, procura
defender a reputação da sociedade carnavalesca à qual per­
tence — Estrela da Rua Larga — contra as afirmativas feitas
pelos membros de outra sociedade carnavalesca — Oswaldo
Jacques, Antônio e Albino pertencem à sociedade Chuveiro

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do Inferno — de que as sócias da sociedade Estrela são pu­
tas; segundo, ele tenta defender seus predicados masculinos
de ser corajoso e sem medo de rixas, não admitindo, assim,
que outros indivíduos andem propalando que lhe deram
bofetadas. Fica claro, também, tanto pelo depoimento de
Manoel quanto pelos outros depoimentos incluídos nos
autos, que a rivalidade entre os contendores era antiga e que
o ritual de provocações evoluía constantemente através dos
desafios mútuos à masculinidade dos envolvidos. Veremos
agora então, um pouco mais de perto, este período de esca­
lada de tensões que sempre se segue ao surgimento da rixa
e precede o desafio final anunciador do início da luta e,
paralelamente, tentaremos compreender o significado social
do código machista de conduta que parece ser a linguagem
norteadora do ajuste violento entre esses homens.

A escalada das tensões: o papel do machismo;


o significado do desafio

— Então vosmecê tem a corage de pô


os mocotó na minha Chica seu galego?
Vamo vê isso. Arresponda dereito porque
de carqué forma eu tenho mesmo de lhe
que­b rá a sem vergonha da cara.
— Lá de insultare naon, retruca o outro,
que cando me pus aqui tanto me pus plu
baim duma cuma d’oitra. Essa é que é a
burdade! Mas cá indiscunsiderações não
nas admito, fique o cabra sabendo, isso,
naim que benha de mó pai!
E, antes de receber o que já espera, des­
fere, logo, o murro.
Engalfinham‑se os dois.
L uiz E dmundo 101

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Logicamente, o aparecimento da rixa não significava que
o processo teria continuidade e desembocaria necessariamen­
te em um homicídio, uma tentativa de homicídio, ou mesmo
em um conflito menos grave. Caso o processo ­t ivesse segui­
mento, no entanto, havia uma grande diversidade de manei­
ras através das quais os contendores preparavam o confron­
to. Os antecedentes dos crimes estudados têm o aspecto de
um ritual de permuta de provocações e ameaças mais ou
menos veladas entre os rixosos, ritual este que na grande
maioria das vezes envolvia ativamente outros membros do
grupo humano em questão. Entre as provocações mais ou
menos indiretas, as fofocas e as intrigas eram, talvez, as mais
comuns, e seus conteúdos variavam de acordo com os moti­
vos alegados para as desavenças. Um de nossos contendores
ficou furioso ao saber que o seu oponente vivia espalhando
que ele era “vagabundo”. 102 Outro recebeu uma carta anô­
nima revelando que sua mulher o traía. 103 Outro revelava a
todos que havia “tomado a amante” de seu desafeto.104 E um
outro ainda contava a todos a bofetada que havia dado em
seu opositor na véspera. 105 O botequim era quase sempre o
pon­to central destes eventos. Um homem disse numa casa de
pasto que iria buscar a mulher — de quem estava separado
e que trabalhava como doméstica — e que, se ela não o qui­
sesse, a sua garrucha “havia de comer carne”: o homem aca­
ba matando o patrão da mulher quando vai buscá‑la. 106 Um
dos contendores numa briga de amor teria anunciado em
um botequim das redondezas “que ia tirar uma desforra­”
de alguém naquele dia. 107 Outro ainda chegava a avisar a
to­d os no boteco “que naquela noite talvez tivesse de ­d ormir
no xa­d rez ou de ficar no necrotério”, anunciando assim sua
dis­p osição de resolver suas desavenças com o oponente em
bre­v e. 108 Se havia alguém disposto a contar a um dos rixo­

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TRABALHO LAR E BOTEQUIM.indb 321 25/07/2012 09:43:46


sos o que o outro dizia dele, o conflito geralmente ocorria
­q uan­d o a parte atingida pelas intrigas ou fofocas ia tomar
satisfações.
Havia formas de provocação que envolviam mais dire­
tamente os rixosos. João Eufrosino estava enfurecido com
Geraldino Maciel, mas não parecia ainda decidido pela agres­
são. No dia seguinte, contudo, cruzou com Geraldino na rua
e este lhe “atirou olhares provocadores e de pouco caso”. 109
João nada fez naquele momento, mas desfechou diversos
tiros contra Geraldino horas depois. Já Antônio Bull‑Dog
diz para Cara de Velho, dentro de um botequim cheio de
fregueses, que este último “não fazia medo a todos”. 110 Em
outro processo, os carroceiros Antônio e João, que já tinham
rixa antiga, descobriram que eram amantes da mesma mu­
lher. Certa noite, os dois homens e a mulher em questão se
encontraram na casa de amigos que tinham em comum.
Alice, parda de 21 anos por cujos encantos os dois jovens
se defrontavam, resolveu voltar para casa em companhia de
João. Enciumado, Antônio perseguiu o casal a distância
durante todo o tempo que estiveram juntos, atirando‑lhes
olhares ameaçadores. Os dois joven