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NOTAS

O Silêncio dos Animais


César Lombroso é o expoente desta
1

criminalÏstica, e seu livro O homem de/inquente


continua sendo usado como manual em
diversos recintos policiais e jurídicos. Charles Feltosa*

2
Lévi-Strauss menciona os antropólogos ingleses
Herbert Spencer e Edward Tylor O
norte-
americano Lewis Morgan foi o autor de Ancient
Society, livro em que propõe a
evolutiva que divide todas as culturas entre escala
selvageria, barbárie e civilização.

3
Sobre
Guarani Kaiowá: http://opaymbere.wordpress.com/
os
e http://www.cimi.org.brR
system=news&action=read&id=4637&eid=352
A PANTERA
4
Sobre os Tupinambá:
http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=4635&eid=342 Rainer Maria Rilke, 1903

*
(Trad. CF)
Sobre este conhecimento veja, por
exemplo: Darcy Ribeiro (org J: Suma Etnológica
Brasileira
vol 1: Etnobiologia, Petrópols, Vozes,
1987, e também Manuela Carneiro da Cunha
e Mauro
(No jardin des Plantes, Paris)
Barbosa de Almeida (OrgsJ: Enciclopédia
da t/oresta, São Paulo, Companhia das
Letras, 2002.
De tanto percorrer as grades seu olhar
Para informaçöes sobre povos indígenas no Brasil, veja esmoreceu nada mais se agarra:
http://www.socioambiental.org/ e a
http://www.cimi.org.br/e http://www.funai.gov.br/inde×.html
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas ml barras, nenhum mundo.
"Como era gostoso o meu francês", direçäo
Nelson Pereira dos Santos, 1970; e "Hans Staden"
direção Luis Alberto Pereira, 2000.
Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em torno de um centro
no qual encontra-se uma grande, mas anestesiada vontade.

De vez em quando a cortina da pupila


se abre em sÍlêncio. Uma imagem, então,
invade a tensa paz dos seus músculos
mergulha no coração e desaparece.

[80]
181]
l. Introdução Desde os tempos pré-históricos os animais têm sido usa-
dos para atender as nossas necessidades, seja como fontes
Refletir sobre os animais parece-me hoje uma tarefa tão de alimento, como também de informações (experiências
importante refletir sobre a violência urbana ou
como
laboratoriais indústrias de remédios, armas e cosmé-
nas

a pobreza mundial. Os animais são nossos vizinhos mais


-
ticas), de vestimenta (indústria de peles e de couro) e até
próximos na terra, habitam o mesmo território, ainda que de divertimento (circos terrestres e aquáticos). Na tradição
cristã o direito humano sobre os animais é fundamentado na
de forma bem diferente.
lei divina: "Temam e tremam em vossa presença todos os

animal" não deve tratada isoladamente, animais da terra, todas as aves do céu, e tudo o que tem vida
A "questão ser
movimento na terra. Em vossas mãos
ela envolve uma série de problemas, de ordem gnosiológica e pus todos os peixes
do Sustentai-vos de tudo
mar. que tem vida
(como os animais se comportam e qual a sua função no o e movimento"
qual deve relação (Gênesis IX, 2-3).
mundo?); ética (como tem sido e ser nossa

com os animais?) e ontológica (quais são as identidades e

modos de do homem do anima p ) Os animais têm sido então tradicionalmente divididos


diferenças entre os ser e
em três categorias: comestÏveis ou não comestíveis; ferozes
ou mansos; úteis ou inúteis. A legitimação dos direitos do
11. Quem são os Animais?
homem sobre os animais (abatidos e comidos) funda-se
na ideia de que os animais são outros absolutos, seres
Embora estejamos acostumados a conviver com cães'
radicalmente diferentes do homem. Essa ideologia está
gatos, pássaros e outros animais domésticos, é muito difícil
sempre associada, ainda que de forma implicita e não
tentar entender seu modo de ser sem cair em um certo antro-
tematizada, a todos os discursos que afirmam o caráter
pomorfismo, seja, projetando no comportamento do
ou
excepcional do ser humano na natureza. Na nossa tradição
animal características que são nossas. Interpretamos assim
cristã a afirmação mais famosa da excepcionalidade humana
os sons emitidos por golfinhos como risos de alegria ou
é aquela que diz que o homem teria sido o único ente ter
música.] Entre- a
o canto dos pássaros como uma forma de
sido feito conforme a imagem de deus (Gênesis, I, 27).
tanto tal antropomorfização não enfraquece a crença de
Quando deus viu suas obras, disse que eram boas, mas
que há fronteira fixa
uma e imutável entre os homens e
quando viu o homem, teria dito que eram muito boas. Mas
os animais, ao contrário a diferença costuma ser mais
em que consiste essa superioridade? Sabemos que o ser
enfatizada do que a semelhança.

[82] [83]
11\. O Silêncio dos Animais
lado animal.
.

tendência de mmimizar
. .

seu
humano tem a

expressa em famosas definições, todas elas foi interpretado de diversas ma-


Essa tendência se O silêncio dos animais
o único animaÍ": A passagem mais famosa
segumdo a mesma formulaçao: "o homem neiras na história da filosofia.
-

(1637) de Descartes,
que n (Thomas Willis), que fabrica seus
utensilios (Benjamim encontra-se no Discurso do Método
ou ainda que são como autômatos,
espécie de
Franklin), que faz religião (Edmund Burke), onde ele diz que os animais
que a sua supe- como os refógios são feitos
-

cozinha (Levi-Strauss). Já foi dito inclusive máquinas, feitas por deus assim
-
-

complexo sistema animais-máé¡uinas são capazes de compor-


rioridade podena ser justificada por um
·

por homens. Os
·

falar, raciocinar, avaliar:


digestivo: tamento complexo, mas não de

mostrar que, se
estrutura muito diferente, em seus intestinos,
dos especificamente neste ponto, para
O homem é de E me demorara
e do
que, preocupados apenas fossem providas de órgãos
animais vorazes, como cães, lobos, etc. existissem máquinas assim, que
qualquer outro animal irracional, não
diretamente de seu ventrículo
com a barriga, os tem descendo quase aspecto de um macaco, ou de
microcosmos que reconhecer que elas não seriam em tudo da
que, nesse nobre teríamos meio algum para
ou estômago ao ânus, ao passo outras que
partes intestinais varias circunvoluções animais; contudo, se existissem
é o homem, existem nas mesma natureza que esses nossas
imitassem tanto
sinuosas, meandros e voltas, por
meio das quais, obtendo uma reten- se assemelhassem
com os nossos corpos e
sempre dois meios
eh capaz de melhor se dedicar a fosse possível, teríamos
ção mais longa do alimento, ele ações quanto moralmente verdadeiros
tantos na igreja como que nem por isso seriam
especulações sublimes e proveitos serviços bastante seguros para constatar
é que jamais
poderiam utilizar
estado.2 homens. Desses meios, o primeiro
no
arranjando-os, como fazemos para
palavras, nem outros sinais,
pensamentos.'
levantada manifestar aos outros os nossos
citação parece antecipar uma hipótese
Essa
problema de dieta,
por Nietzsche, a saber, que cultura é um Importante ressaltar que os animais-máquinas de Des-
ou eliminação do que
de boa ou má digestão, de retenção não apenas destituídos de
são
inte\igência, mas
consumido.3 Existem muitos outros discursos cartes
está sendo afetividade. A visão cartesiana
único ser também de sensibilidade e de
sobre a excepcionalidade humana, como sendo o
sinal de deficiência, gerou
do silêncio dos animais, como um
essas variantes antro-
que faz arte, religião e ciência. Todas contra. Conduzida ao
superioridade muitas controvérsias, a favor e
pocêntricas têm em comum a crença de que a crença de que estes eram
racionalidade e na sua extremo, serviu para justificar a
humana funda-se no logos, na sua de sofrimento. Antony
os animais
incapazes de ter sentimentos de dor e
linguagem. Os animais não pensam nem falam, chegou a afirmar em
Legrand, cartesiano inglês do séc. XVll,
silenciam.

[85]

(84]
1694, baseado na superioridade do homem como composto tornarem escravos dos humanos. E ainda os famosos "maca-
pensamento e afetividade, que "os animais não sentem dor, cos sabedoria", dentro da tradição budista, passam
da

o gemido de uma cão que apanha não constitui prova de a noção de que sábio é aquele que tem coragem de se
sofrimento animal, assim como o som de um
instrumento recusar a ver, ouvir ou dizer o mal.
musical não atesta que o animal sente dor quando tocado".s
Os uivos e gemidos dos animais seriam meros reflexos O macaco se tornou afigura emblemática do problema
mecânicos, como os ruídos de uma máquina, sem relação da demarcação das fronteiras entre a natureza humana e a
com qualquer sensação interior. natureza animal desde a publicação da Origem das Espécies
em 1859, por Charles Darwin (1809-1882). Nessa famosa

A ausência de fala, e consequentemente a suposta obra o autor defende a tese de que o homem está sujeito
ausência de sofrimento, serviu de um lado pra contornar ao mesmo processo de adaptações dos animais na luta pela

um problema teológico, afinal porque deus permitiria o sobrevivência. A teoria da evolução de Darwin, juntamente
sofrimento de viventes que não cometeram nenhum pecado com o heliocentrismo de Copérnico, foi um duro golpe
original? O silêncio dos animais serve portanto para salvar contra a crença
suposta supremacia humana na natureza,
a

deus da acusação de se mostrar como um ser injusto e cruel. pois em relação aos animais que tornamos
nossos escravos,
Por outro lado, a suposta ausência de sinais de fala (e de não gostamos de ouvir que deveriam ser considerados
como
sofrimento) nos animais foi usada frequentemente como uma nossos semelhantes.
das justificativas para a sua exploração, especialmente pela
medicina, que praticava a vivisecção para fins didáticos. Uma tentativas mais recentes de enfraquecer a dis-
das

Uma verdadeira pedagogia da tortura. tinção absoluta entre homem e animal é representada
pela
obra de Peter Singer, pensador australiano nascido em
1947.
O problema é que na nossa tradição ocidental o silêncio Singer visa defender uma relação mais ética com os
animais,
costuma ser visto predominantemente como índice de falta não através de uma noção específica de "direitos
animais",
ou defeito, seja por passividade, ignorância ou submissão. mas sim argumentando que os animais
devem ter os mesmo
Existem evidentemente outras interpretações do silêncio. direitos dos homens. Em 1994 Singer funda com
Paola
Uma tradição antiga na Índia afirma que os orangotangos Caviliere o assim chamado "Projeto com Macaco", a ideia
não seriam animais, raça de homens que teria
mas uma de proteger os animais incluindo-os classificação de
na
resolvido não falar mais, para escapar da ameaça de se humanos, principalmente, os chimpanzés, orangotangos e
gorilas.6

(86] [87]
Segundo Nietzsche, o homem observa o comportamento do
poderia ser colo-
Uma série de questões fundamentais animal fica com inveja, pois também gostaria de não ficar
e
diferença entre homens
cada aqui: será que a identidade e a triste. Pergunta então: "por que você só fica aí me olhando e
e animais podem ser
constatadas de maneira meramente
não me fala da sua felicidade? O animal quer responder
quantitativa? ainda, será que a tentativa de atribuir
direitos
E
e dizer: isso vem do fato de que eu sempre esqueço o que
uma estra-
humanos a certos animais não seria muito mais resposta
queria dizer, mas ele já esquece também essa e se
excepcional do homem
tégia a favor da manutenção do lugar cala. O homem fica admirado de seu silêncio" (idem).
na natureza? Os animais
cujo genoma tiverem menos
o homem conti-
de 90 por cento de compartilhamento com O olhar oblíquo de Nietzsche sobre o rebanho no pasto
serem exp ora d os
nuarão apenas a ter apenas o direito de
I

faz com que também vejamos tudo de forma insólita e


e consumidos por nós?
surpreendente. O animal, que é sem passado e sem futuro,
parece viver mais intensamente que o homem, oprimido

Heidegger pelo excesso de memória e de pré-ocupação. Para ser feliz e


IV. O Silêncio dos Animais segundo Nietzsche e
para fazer os outros felizes será preciso recuperar um pouco
perspectiva antro- da sabedoria animal do esquecimento.
Ao invés tentar humanizar o animal,
e integrar
pocêntrica e antropomórfica, quer dizer, recuperar
humano, acredito que seja Nietzsche interpreta portanto positivamente
o silêncio
o animal no horizonte do gênero
"reanimali- dos animais. Bem ao contrário de Heidegger, que no seu
muito mais promissor investir em um projeto de
pensar, na já comentário a essa mesma passagem, em um seminário de
zação" do humano. Nietzsche nos obriga a
Intempestivas (1874), 1939, coloca contra Nietzsche a seguinte questão: pode
famosa passagem das consideraçöes
animal de ser: o animal se calar? Antes de responder a pergunta ele fala
acerca da sabedoria que pode haver no modo
Ele nada da importância fundamental da questão animal:
"Observe um rebanho, que pasta diante de ti.
come,
sabesobre o ontem ou o hoje, ele corre daqui para ali,
de manhã até Onde se dá a separação limítrofe entre o animal eo homem? Sim,
descansa, digere, corre novamente, e assim há mesmo tal separação? Tais questões vão além do ensaio de
a noite, dia após dia, amarrado
através de seu prazer e
Nietzsche; elas vão além de toda 'biologia' e de toda 'antro P olo 8 ia' -

por isso mesmo nunc a


de sua dor à estaca do instante, e A questão acerca da separação limÏtrofe entre o animal eo homem
Studienausgabe,
melancólico ou deprimido" (Kritische não é um problema da pesquisa erudita, também não é de forma
p. 244)· alguma um questão de "visão de mundo" ou de pois dentro
ed. Giorgio Colli und Mazzino Montinari, Bd. 1,
fé cristã,

(89]
(88]
religiosa -ela não é ques- animais "desinfelizes". Do ponto de vista da ontologia
são
dessas áreas ciência, visão de mundo, fé
-

através de uma decisão


autoritária fundamental, portanto, a interpretação nietzschiana do
tionável ou então já foi decidida
tóriecdee5seamc
ecidaednateœh viscoenudáe
muodes noe silêncio dos animais é falsa. Mas será que a tese da impossi-
e re
ê c a d su s
bilidade do silêncio dos animais não se baseia em uma
questionar pensante
no questionar ou não
sua fé religiosa, decide-se concepçao por demais essencializante e antropocêntrica da
p. 23)
dessa questão (Martin
Heidegger, Gesamtausgabe, Bd. 46,
diferença entre ser-aí e animal?
fundamental da demarcação
Colocada a importância
Heidegger recoloca-se a questão:
entre animal e humano
ponto de vista da ontologia
V. Linguagem e Finitude
pode o animal se calar? Do
não. Só pode se
fundamental heideggeriana a resposta é
A concepção heideggeriana de que o animal não pode
também pode falar. O silêncio é
carac-
calar um ser que
expressar. Então o falar, calar, ser feliz
esquecer esta diretamente
morrer ou
terística típica de seres que podem se

verdade aquém da ligada ao pensemento de que ele também não pode morrer.
está na
suposto silencio dos animais
apenas privação e ausência. É famosa a descrição de Heidegger em Ser
e Tempo (1927)
diferença entre o falar e calar, é
como faz Nietzs- das diferentes formas de morrer. O ser-aí nao finda lveren-
Interpretar essa ausência como silêncio,
antropomorfismo. Para Heidegger den] nunca no sentido de um mero perecer animal. O
che, é recair em um certo
animal e ser-aí não perece porque é um ente relação constante
não se cala, nem se silencia: o
em
a rigor o animal
com a morte, ainda que, na maior parte do tempo, de
"dessilenciado".
maneira não tematizada. O ser-aí tem varias possibilidades

rigor, o animal não apenas não relacionar com a sua própria morte (própria ou impro-
de se
De fato, para Heidegger, a priamente). Já o animal não pode morrer, porque ele em
não poderia se esquecer de
,

poderia silenciar, como também


porque estrito senso nem existe, quer dizer, ele não questiona, não
não pode esquecer,
nada. Em estrito senso o animal compreende, não fala, portanto, nada sabe sobre começo
lembrar,
tem a faculdade de se
só pode esquecer quem ou fim. O animal não pode falar nem
ser do animal, ao
contrário, é a morrer, é irracional e
de memória. A essência do felicidade: imortal.
mesmo vale para a
do "desesquecimento". O não
do ponto de vista da
ontologia fundamental o animal
felicidade é uma possibili- Heidegger diz em A Essência da Linguagem (1958) que
pode ser feliz, nem infeliz, pois os e×iste uma
marcados pela linguagem, relação ainda não tematizada entre o não ser
dade característica de seres

[91]
(901
vivente" (Martin Heidegger, Höldelins Hymnen «Germanien»
capaz de morte eo não ser capaz de linguagem: "Os
mor-
enquanto und «Der Rhein», GA 39, 989, P.75). O salto entre a vida
tais são aqueles que podem experimentar a morte
não na linguagemvida fora da linguagem seria na verdade um
e
morte. O animal não é capaz disso. O animal também
linguagem abismo intransponível. Há mesmo todo esse abismo entre
pode falar. A relação essencial entre morte e
Sprache, o ani-mal eo homem no que diz respeito a morte? Não será
cintila, mas fica ainda impensada" (Unterwegs zur
Permitida nenhuma contaminação entre as duas dimensões?
Klett-Cotta Verlag, 2007, p.215).
"Onde cessa o animal e começa o homem?" pergunta
Nietzsche na //l. Consideração Intempestiva (em torno de
preciso ter cuidado com essa demarcação radical entre
É
Schopenhauer)! Esse modelo dualista, que estabelece
animal e homem, afinal os animais não são assim tão total-
uma
dicotomia entre o ser capaz eo incapaz de morrer não seria
mente incapazes de perceber a morte, uma vez que eles
certa abertura para apenas umareedição envergonhada daquele humanismo,
demonstram em seu comportamento uma
contraste vale que diz que o homem é o único animal que fala e pensa?
o sofrimento, a tristeza eo medo. A título de
lembrar a interpretação que Deleuze faz do animal no
Abcdaire (1998), onde ele não heideggeriana na ideia de abismo visa na
A ênfase
primeiro verbete do seu
verdade reabilitar o corpo humano, tradicionalmente des-
apenas argumenta que animais, artistas e filósofos têm em
em que estão
prezado como aquilo que temos em comum com os animais.
seu modo de ser algo em comum na medida
Sob o ponto de vista da ontologia tradicional o corpo
sempre "à espreita", como também conclui que são os
sem. humano é fundamentalmente um outro do animal, já que
animais não os homens que sabem morrer. Estes estão
e
costumam é sempre contaminado de sentido, racionalidade, compre-
pre tentando se evadir, ao passo que os animais
ensão, inteligência. Mesmo com essa ressalva a interpretação
procurar um canto todo próprio ao pressentir a hora final. Se
heideggeriana parece-me ainda estar contaminada de um
a for um processo de constante des- e reterritorialização,
vida
pode ser um certo antropocentrismo.
Recentemente é o filósofo argelino
então reservar um território para a morte
Jacques Derrida que denuncia os tracos antropocêntricos
indício de uma sabedoria instigante.
da feitura heideggeriana e recoloca as interpretações sobre a
Heidegger relação entre o silêncio e a morte dos animais sob um novo
No curso de semestre de inverno de 1934-35
Pasma.
radicaliza sua posição ao chegar mesmo a dizer: "O salto
ou
entre o animal vivente e homem falante é tão grande
ao
ainda maior do que entre a pedra inanimada frente

[92] [93]
ou total. Aqui coloca de novo problema ser-aí tem
Derrida observa perspicazmente que sempre que um se o se o
algum privilégio diante dos animais, pode efetivamente
filósofo diz "animal" (em francês: bête) diz ao mesmo tempo se

partir do texto L'animal que ser colocado como o único ente capaz de ter acesso à "morte
uma besteira (bêtise). Eu cito a

(2006):
enquanto tal".
donc je suis

Cada vez que «a gente» diz «O Animal», cada vez que o fi ósofo, ou Derrida a perspectiva da morte, por exemplo, faz
Para

não importa quem, diz no singular e sem adendos «O Animal», com que
a fronteira supostamente fixa e imutável entre
.

todo vivente que nao seja o


.

pretendendo designar dessa maneira h omem e animal fique enfraquecida, pois a linguagem
homem enquanto «anirnal rationale», o homem enquanto animal
humana esbarra no seu limite: "A morte [..] é o lugar onde
político, enquanto animal falante, zoon logon ekhon, o homem que
toda fronteira entre a fera e a existência do homem da fala
diz «eu» e se toma peÍo sujeito da frase que ele profere, enfim, o su-
jeito do dito animal, etc. Pois bem, a cada vez, o sujeito dessa frase, torna-se indeterminável (in: Le passage des frontières -

esse «a gente», esse «eu» diz uma besteira (Jacques Dernda:


L'animal
Autour du travail de Jacques Derrida, p.323, Paris: 1994).
que donc je sui, Paris, 2006, p. 282) A morte não pode ser dita, expressa ou explicada com as
palavras. Diante da morte somos como que empurrados de
terminologia, mas
.

Parece só uma questão adjacente de


volta à nossa condição animal, pois só nos resta o silêncio.
é a questão mesma, a questão da linguagem, cujo poder
universalizante destrói as singularidades do mundo. Come- Entre o homem eo animal não existe uma borda unilinear,
temos em geral a arrogância de reduzir a impressionante mas múltiplas e heterogêneas relações. Para Derrida é
vanedade de seres vivos nao humanos a uma única classifi- necessario portanto desconfiar da necessidade do homem
cação homogênea de "animal desconsiderando assim ,
d e confirmar a todo custo sua superioridade diante dos
diferenças abismais entre uma borboleta e um rinoceronte, animais. Ele cita o filósofo e jurista Jeremy Bentham (T 748-
por exemplo· 1832), ativista dos direitos dos animais, famoso por ter
expressado de forma contundente essa desconfiança ao
Derrida não quer com essa observação refutar a diferença .

afirmar, no livro Uma Introdução aos Princípios da Moral e


.

fundamental entre o silêncio dos animais e a linguagem dos da Legislação (1789), que a questão não é se os animais
homens. A diferença entre o slIêncio dos animais e lingua- podem falar, mas sim se eles podem sofrer.
gem humana não pode ser menosprezada. Talvez seja uma
diferença tão importante como a que existe entre os seres
inanimados e os viventes. Mas essa diferença não é absoluta

[94] [95]
i

NOTAS
As relações dos viventes humanos com os
viventes não .

humanos têm sido violentas e devem mudar. Será preciso


bem sucedido filme A Marcha dos Pinguins (de Luc Jacquet, EUA/FRA, 2005) é
o belo e

reavaliar nossa responsabilidade ética diante de nossos


1

marcado por um tal antropomorfismo. O documentário exibe o complexo ritual de acasala-

vizinhos na terra: ficar atento, de um lado, para a pluralidade


mentadasavesatravesdorecursonarrativoderazerosanimaistalar:Atoressimulamavozae
supostos desejos e medos.
um macho, uma fêmea e um filhote, pontuando a saga com seus
irredutível dos animais, e de outro lado, para a dimensão resulta'do reve$se uma farsa, em que os pinguins da Antártida são exibidos como se fossem
O
monogamia,
de uma espécie de modelo natural para valores históricos e culturais tais como a
animal que há no corpo de cada um nóS.
fidelidade, o amor romântico.
a

2
ADOtação de um médico inglês, no começo do séc. XVil, citado por Keith Thomas. In: Man
and the Natural World, p.32, Oxford: 1983.

3
No Crepúsculo dos Deuses (§47), por exemplo, Nietzsche diz: "É decisivo para o destino do

povo e da humanidade, que se comece a cultura no lugar correto -


não na "alma" (como eram

as superstições fatais dos sacerdotes e dos semi-sacerdotes): o lugar correto é o corpo, os

gestos, a fisiologia, o resto sucede daí..." In: F. Nietzsche: Götzen-Därnmerung,


dieta, a

in: Kritische Studienausgabe, hg. von Giorgio Colli und Mazzino Montinari, Bd. 6, p.149,

Berlin/New York: 1988.

4
R. Descartes: Discours de la Méthode, V, p. 164. In: Œuvres et Lettres, Paris: 1953.

s
Citado por Keith Thomas, in: Man and the Natural World, p.33, Oxford: 1983.

*
A pesquisa científica parece caminhar na mesma direção, segundo o pesquisador Morris

Goodman, Estadual Wayne, em Detroit, que coordenou um estudo recente


da Universidade
acerca do tema, análise de 97 genes de seres humanos, chimpanzés, gorilas, orangotangos e
a

macacos mostrou que, entre pessoas e chimpanzés, a semelhança é de 99,4%. Para Goodman
é tão pouco, que não justifica classificar os chimpanzés em outra
e sua equipe, isso
família

que não aquela a que pertencem o homem e os hominídeos que o precederam (Cf. Proceedings

of National Academies of Science, USA. In: http://www.pnas.org/ cgildoi/10.1073/pnas.


123217210).

*Charles Feitosa, Rio de Janeiro, setembro de 2010.

[971
[96]
NIETZSCHE / DELEUZE
NATUREZA/ CULTURA

Organizadores:

Daniel Lins Nilson Oliveira Roberto Barros

la. edição, São Paulo, 2011

FAPESPA UFPA