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A Identidade Profissional dos Terapeutas

Ocupacionais: considerações a partir do


conceito de estigma de Erving Goffman
Professional Identity Of Occupational Therapists: a
discussion based on Erving Goffman’s concept of Stigma

Claudia Reinoso Araújo de Carvalho Resumo


Mestre em Saúde Pública. Professora Assistente do Curso de Terapia
Ocupacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Este trabalho relaciona a noção de identidade profis-
Endereço: UFRJ - CCS - Faculdade de Medicina. Av. Carlos Chagas sional da Terapia Ocupacional com a obra Estigma:
Filho, 373, Subsolo L - Sala da Coordenação da Terapia Ocupacio- notas sobre a manipulação da identidade deteriora-
nal, Ilha do Fundão, CEP 21941-902, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Email: claudiareinoso73@gmail.com
da, do sociólogo canadense Erving Goffman. Busca-
se articular ao campo profissional um conjunto
específico de conceitos que, na perspectiva teórica
do interacionismo simbólico, foram desenvolvidos
pelo autor. Tais conceitos relacionados à informa-
ção social são aplicados a situações cotidianas da
profissão, de modo que é possível constatar que as
manipulações da identidade acontecem no âmbito
profissional de forma muito similar ao descrito
por Goffman em seu livro. A análise é complemen-
tada por artigos e estudos acadêmicos nacionais e
internacionais do campo da Terapia Ocupacional
sobre o tema da identidade profissional. Ainda que
o estudo da identidade profissional exija diferentes
enfoques, conclui-se que as ideias do referido autor
contribuem significativamente nas reflexões acerca
do tema.
Palavras-chave: Terapia Ocupacional; Ciências So-
ciais; Profissões em saúde.

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Abstract Introdução
This work relates the notion of Occupational The- A Terapia Ocupacional é um campo de conhecimen-
rapy professional identity with the book “Stigma: to e intervenção em saúde, em educação e na área
notes on the management of spoiled identity”, social, que reúne tecnologias orientadas para a
written by Canadian sociologist Erving Goffman. emancipação e a autonomia de pessoas que, devido
An articulation is tried between the professional a problemáticas específicas (físicas, sensoriais,
field and a specific set of concepts which were de- psicológicas, mentais ou sociais), apresentam difi-
veloped by the author in the theoretical perspective culdades de inserção e participação na vida social
of symbolic interactions. Such concepts, related temporária ou definitivamente (Barros e col., 2002,
to social information, are applied to professional p. 366).
everyday situations so that it is possible to verify É notável o crescimento dessa profissão no
that the manipulations occur in the professional campo da saúde, especialmente na última década.
identity in a very similar way to those described by A ampliação da participação desses profissionais
Goffman in his book. The analysis is complemented pode ser verificada através do incremento da oferta
by national and international papers and academic de cursos de graduação na área, principalmente em
studies in the field of Occupational Therapy, on the instituições públicas de ensino, e, também, pelo
theme of professional identity. Although the study of aumento do número de vagas e de convocações ofe-
professional identity requires different approaches, recidas pelos concursos públicos.
it is possible to conclude that the ideas of the author Tentando atingir a integralidade, o Sistema Úni-
present a significant contribution to the reflections co de Saúde (SUS) tem criado novas oportunidades
on the subject. para diversas categorias profissionais na rede. Este
Keywords: Occupational Therapy; Social Sciences; é o caso daTerapia Ocupacional, quepossui caracte-
Health Professions. rísticas que favorecem sua inserção no atual sistema
público de saúde no Brasil. A preocupação com a
visão integral das pessoas e o reconhecimento da
dimensão social da saúde sempre estiveram presen-
tes para a profissão. Qualidade de vida, cidadania,
prevenção, promoção da saúde são termos bem pró-
ximos da Terapia Ocupacional e são, também, termos
próprios do SUS. Por outro lado, a diversidade de
suas áreas de atuação (saúde mental, a reabilitação,
prática hospitalar, área educacional, social e outras)
garante ao terapeuta ocupacional uma formação
geral e ampla, que vem sendo valorizada no atual
sistema de assistência à saúde.
Apesar de seu crescimento, o desconhecimento
acerca da profissão parece ser um incômodo para
os profissionais. Em recente pesquisa junto aos
terapeutas ocupacionais que atuam no Sistema
Único de Saúde (SUS) na cidade do Rio de Janeiro, foi
constatado que 24% dos profissionais entrevistados
apontaram a falta de reconhecimento da profissão
como o principal desafio em sua prática (Carvalho,
2010).
Este reconhecimento é visto como uma questão
importante pois se relaciona com a identidade
construída socialmente. Segundo Medeiros (2003),

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o papel social de uma profissão da saúde também ência pessoal. O estigma configura-se como uma
passa pela condição política e econômica ditadas inabilitação para a aceitação social plena. À pessoa
pelas indústrias médicas. Cada vez mais, a prática com estigma segue-se todo um procedimento de
de saúde tem sido transformada numa prática de discriminação e segregação.
consumo de produtos: aparelhos e drogas, entre Na medida em que a Terapia Ocupacional inter-
outros, que encarecem as ações e cuja eficiência nem vêm com populações que podem ser consideradas
sempre é demonstrada. Em geral, as profissões que grupos “estigmatizados”, ela pode,, por consequ-
não atendem aos interesses do capital do sistema ência, ocupar também esse lugar. Neste sentido,
de saúde são pouco reconhecidas. A Terapia Ocupa- Goffman nos ajuda a refletir sobre o tema. A inten-
cional é diretamente afetada por essa tensão social, ção deste artigo é relacionar ao campo profissional
uma vez que os produtos das indústrias médicas algumas ideias desse autor no livro Estigma: notas
não são muito consumidos na prática da profissão. sobre a manipulação da identidade deteriorada.
Entre as profissões da saúde, o reconhecimento é Erving Goffman nasceu no Canadá, em 1922,
facilmente observado pela valorização das áreas de estudou nas universidades de Toronto e de Chicago.
conhecimento tradicionais e das modernamente Preocupou-se em estudar a interação social no dia-a-
ligadas à tecnologia. Dessa forma, as característi- dia. Para ele, o desempenho dos papéis sociais tem
cas da profissão têm valor restrito e suas práticas a ver com o modo como cada indivíduo concebe a
e estratégias de intervenção ainda são pouco com- sua imagem e a pretende manter. Os trabalhos de
preendidas. A população alvo das intervenções em Goffman começaram a ser mais conhecidos no Bra-
Terapia Ocupacional tem se caracterizado histo- sil em meados dos anos 60, despertando interesse
ricamente pela presença, em ampla diversidade e principalmente entre os antropólogos e psicólogos.
graduação, de alguma vulnerabilidade de saúde ou Suas principais obras foram “A representação do
social; além disso, a profissão procura trazer para eu na vida cotidiana” (1959, 1975), “Manicômios,
seu campo de reflexão teórico e para suas ações prá- prisões e conventos” (1961, 1974) e “Estigma” (1963,
ticas o compromisso com as necessidades objetivas 1975). Os anos entre parênteses representam, res-
e subjetivas da população atendida, a partir de uma pectivamente, o ano da publicação original e o ano
visão ampliada de saúde enredada à construção da primeira edição em português.
de direitos fundamentais (saúde, lazer, educação, Goffman está relacionado à perspectiva teórica
liberdade de expressão, convívio social e etc.). Isso do interacionismo simbólico, cujo foco se concentra
insere em sua identidade profissional novas interfa- nos processos de interação social que ocorrem entre
ces com processos artísticos e criativos, processos indivíduos ou grupos, mediados por relações simbó-
sócio-educativos em espaços inclusivos, propostas licas. O ser humano age com relação às coisas (obje-
de atenção comunitária e um redimensionamento tos, outras pessoas e tudo o mais que se encontra no
das relações entre saúde, qualidade de vida e tra- seu cotidiano...) informado pelos sentidos que elas
balho. Assim, a identidade profissional passa a ser têm para ele, preocupando-se em transmitir certas
dinâmica, em consonância com a diversidade dos impressões aos outros e tentando compreender a
processos terapêuticos experimentados (Liberman intenção dos atos dos outros. Em relação a isso, o ser
e col., 2006; Moreira, 2008). humano reorienta suas ações. Em “Estigma: notas
Segundo Amaral (1992), o contato com a diferen- sobre a manipulação da identidade deteriorada”,
ça desencadeia um conjunto de reações emocionais, Goffman utiliza um conjunto específico de conceitos
conscientes ou inconscientes, que determinam o sur- relacionados à informação social e à informação
gimento de preconceitos, estereótipos e estigmas. que o indivíduo transmite diretamente sobre si.
Para a autora, preconceito significa uma atitude Nessa obra, Goffman analisa os contatos mistos,
favorável ou desfavorável, positiva ou negativa, isto é, os momentos em que os estigmatizados e os
anterior a qualquer conhecimento. O estereótipo normais estão na mesma situação social, ou seja, na
consiste em um julgamento qualitativo, baseado presença física imediata um do outro, quer durante
no preconceito e, portanto, anterior a uma experi- uma conversa, quer na mera presença simultânea

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numa reunião informal. O estigma, a socialização enfrentaria os mesmos problemas. No entanto,
dos estigmatizados e as reações encontradas em busca apoiar-se em algo para tentar explicar suas
situações de interação social são descritos e ana- falhas, tal como alguém com lábio leporino (só
lisados. A interação social é marcada por símbolos para usar o exemplo descrito por Goffman em seu
cujo sentido é compartilhado e pressupõe manipu- livro), que usa essa desvantagem como “cabide”,
lação da identidade. No livro há exemplos de como a pendurando nisso todas as suas frustrações e todas
identidade pode ser manipulada, tanto por parte dos as obrigações desagradáveis da vida social, como
estigmatizados como por parte dos ditos normais. se a sua desvantagem fosse a causa de tudo aquilo
Farei uso dos mesmos exemplos só que no âmbito que não é capaz de fazer. Cabe esclarecer que em
profissional, no sentido de mostrar como a identida- algumas situações pode realmente acontecer algum
de profissional também pode ser manipulada. tipo de “boicote” por parte das outras categorias
profissionais. O exemplo de ganho secundário só
se aplica quando ocorre a manipulação por parte do
Manipulação da Identidade terapeuta ocupacional.
Segundo Goffman (1982), quando normais e estigma- Os estigmatizados podem encarar as privações
tizados se encontram, os estigmatizados assumem que sofreram como o que Goffman (1982) deno-
suas características distintivas e os normais tentam minou “benção secreta”, o que significa acreditar
suavizar e melhorar suas atitudes em relação à que o sofrimento tem o potencial de ensinar a uma
pessoa com o estigma. Em uma interação social, as pessoa sobre a vida e sobre outras pessoas. Goff-
manipulações da identidade estão presentes e são man dá o exemplo de uma senhora com sequelas
usadas de acordo com a situação. No campo profis- de poliomielite que relata que, além de sofrimen-
sional específico da saúde, também acontece algo to, sua experiência com a doença proporcionou
similar. Algumas profissões são estigmatizadas, aprendizado, aumentando sua atenção para com as
outras mais valorizadas. Os médicos, por tradição, outras pessoas e seus problemas. Isso faz lembrar,
detêm o maior prestígio entre os profissionais da por sua semelhança, a ideia que “paira” entre parte
saúde, e as outras profissões são muitas vezes vistas dos terapeutas ocupacionais de que a profissão
como menos importantes, algumas mais, outras é um dom divino e graças a ela pode-se enxergar
menos. Nesse sentido, relatarei, a seguir, alguns muitas coisas, ter sensibilidade apurada, entender
exemplos que identifiquei ao longo da minha car- perfeitamente as limitações das pessoas, ter per-
reira e que, de certa maneira, podem deixar claro sistência, entre outras qualidades. Castelo Branco,
que as manipulações da identidade acontecem no em sua pesquisa sobre a identidade profissional dos
âmbito profissional de forma muito parecida com o terapeutas ocupacionais em Pernambuco, relata
que Goffman relatou no seu livro Estigma. que de 20 profissionais entrevistados, 10 referiram
Um profissional pode responder a uma situação “sensibilidade, perseverança e paciência” como
do cotidiano da mesma forma que uma pessoa com requisitos necessários para se tornar um terapeuta
um estigma ligado a uma deformidade física respon- ocupacional. No mesmo estudo, a autora conclui que
deria. Vamos ao exemplo prático do que Goffman “essa concepção pode ser considerada como um dos
(1982) chamou “ganho secundário”, que seria o uso elementos condensados na imagem do terapeuta
da situação de desvantagem como culpa, ou melhor, ocupacional”. (Castelo Branco, 2003, p.54)
como desculpa pelo fracasso ao qual se chegou por As duas situações descritas acima acontecem por
outras razões. Um terapeuta ocupacional, ao assu- parte dos estigmatizados e podem ser entendidas
mir uma coordenação ou um cargo de chefia em uma como forma de manipulação da identidade, na medi-
instituição onde há diversos profissionais, pode da em que funcionam como um recurso para melhor
atribuir qualquer dificuldade que encontre à sua aceitação do estigma. No primeiro caso, fica mais a
formação, alegando haver resistências e insubordi- ideia de uso do estigma, enquanto que no segundo
nação às suas determinações por parte da equipe. exemplo a ideia de manipulação, ligada a formas
Provavelmente, fosse qual fosse sua profissão, ele compensatórias, melhor se aplica.

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Há também, em uma interação, as manipulações Fisioterapia eram 491. Sobre a quantidade de pro-
por iniciativa dos outros. “Condescendência” e “in- fissionais, o site do DATASUS, em maio de 2010, nos
vasão de privacidade” são alguns dos exemplos uti- mostra que, no Brasil, o número de fisioterapeutas
lizados por Goffman. A condescendência acontece atuando no SUS é 54635, enquanto o de terapeutas
quando alguém faz um tipo de comentário, visando ocupacionais é 8795. Existe, sem dúvida, a necessi-
elogiar, mas, na realidade, está desqualificando. Isso dade de estudos a respeito das discrepâncias entre
pode ser feito sem que a pessoa se dê conta, embora as duas profissões. Uma idéia que pode ajudar a
algumas vezes possa ser proposital. Um caso bem compreender o porquê do maior desenvolvimento
emblemático é quando um profissional escuta, em da Fisioterapia é aquela já citada no início deste
tom de elogio: “Nossa! Você é terapeuta ocupacional! trabalho, relacionada a indústria médica.
Parece até que você é médico.” Certamente, muitos
profissionais já ouviram algo parecido. Na verdade,
algumas falas em tom de elogio depreciam uma
Identidade Profissional
profissão. De acordo com Kielhofner (1997), identidade pro-
A respeito da invasão de privacidade, Goffman fissional é o que os membros de um grupo têm em
(1982) nos mostra que o atributo diferencial autoriza comum e que os diferencia significativamente dos
indiscrições simpáticas. Infere-se que o indivíduo membros de outros grupos. O que une os membros
estigmatizado pode ser abordado à vontade por es- de um grupo profissional é o seu paradigma, visão
tranhos desde que sejam simpáticos à sua situação. coletiva, constituída por um conjunto de crenças
Goffman demonstra formas clássicas para esse tipo inquestionáveis que constituem uma perspectiva
de conversa: “Minha querida, como você conseguiu única, partilhada pelos membros do grupo. O para-
seu aparelho de surdez?”; “Meu tio-avô tinha um, digma define uma profissão e apresenta ideais sobre
então acho que sei tudo sobre o seu problema’’. sua prática. Na medida em que define a natureza e o
Trazendo novamente para o exemplo da Terapia propósito da profissão, constitui sua cultura, sendo
Ocupacional, as invasões desse tipo são bastante a fonte de significado e reconhecimento da comuni-
comuns. Qualquer pessoa se sente muito a vontade dade profissional. Enquanto cultura profissional, o
para exclamar: “Terapia Ocupacional? Que profissão paradigma permite aos membros compreenderem
diferente! Como é o trabalho? O que você faz?”. Al- o que fazem na sua prática, as suas principais
guns menos discretos: “Terapia Ocupacional! O que é preocupações e métodos. Ainda segundo o autor,
isso?”. Qualquer profissional da área provavelmente o paradigma de uma profissão é o que dá aos seus
já se deparou com tais perguntas. Em situações di- membros uma identidade profissional distinta.
versas, onde é comum informar a profissão, seja em Para compreender a identidade, Goffman (1982)
um cartório, em um banco ou em outros lugares, as destaca a importância da noção de unicidade, que é
pessoas se surpreendem, param o que estão fazendo o que permite o desempenho de um papel estrutura-
e os profissionais têm que discursar a respeito da do, rotineiro e padronizado na organização social.
profissão em uma situação onde seu interesse é A ideia de unicidade traz consigo elementos que
resolver algum problema comum do cotidiano. servem para a identificação positiva do indivíduo,
Os exemplos citados mostram como a profis- ou seja, é um conjunto de marcas que diferenciam a
são é afetada por esse desconhecimento social. A pessoa assim marcada de todos os outros indivíduos.
regulamentação, relativamente recente, da Terapia São atributos biológicos imutáveis, como a caligra-
Ocupacional no Brasil, por si só, não é suficiente fia, a aparência fotograficamente comprovada; itens
para justificar essa falta de reconhecimento, já que que são registrados de maneira permanente, como
a Fisioterapia foi regulamentada na mesma data, certidão de nascimento, nome e número da carteira
através do mesmo documento, e atualmente conta de identidade. Em se falando de identidade profis-
com muito mais visibilidade. De acordo com o INEP, sional, pode- se pensar que alguns elementos que
no ano de 2009, os cursos de graduação em Terapia funcionam como reforço da identidade são o nome,
Ocupacional no país eram 53, enquanto que os de a definição e o registro profissional.

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Na Terapia Ocupacional, o que deveria funcionar poderia ser outro, 21 responderam concordar com o
como um reforço da identidade são atributos fre- nome e 2 não responderam (Carvalho, 2010).
quentemente questionados por parte dos profissio- No que se referem ao registro profissional, os
nais. Enquanto a maioria das profissões é definida órgãos responsáveis são o conselho federal e os
em poucas palavras, a Terapia Ocupacional se perde regionais (respectivamente, COFFITO – Conselho
em longas definições, muitas vezes incompreensí- Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional e,
veis. Caniglia (2005) considera que a forma como em cada região, o CREFITO – Conselho Regional de
algumas associações de classe e profissionais defi- Fisioterapia e Terapia Ocupacional). Os conselhos
nem a Terapia Ocupacional chega a ser um problema são compartilhados, ou seja, não tratam apenas
para a formação da identidade do profissional. Nikel da Terapia Ocupacional, eles também se referem
(2007), em sua tese de doutorado, faz referências à Fisioterapia. Como consequência, a presidência
a um livro, com várias definições da profissão, pu- destes e os cargos mais importantes sempre es-
blicado pelo Curso de Terapia Ocupacional de Lins, tão entre os fisioterapeutas, já que, em geral, são
São Paulo. Ainda segundo o autor, nas definições eleitos quantitativamente por votos. Logicamente,
existentes para a Terapia Ocupacional, observa-se isso reforça certa posição coadjuvante da Terapia
que grande parte delas busca mostrar o que é a pro- Ocupacional, refletindo de forma negativa na sua
fissão com foco em seus recursos terapêuticos e nas identidade profissional.
inter-relações possíveis, sendo que poucas focam o
objeto de estudo da profissão. As pesquisas apontam
a falta de uma definição uniforme entre os profis-
Informação Social
sionais. Em 1990, um estudo de Lycett, realizado Segundo Goffman, “as informações sociais são
na Inglaterra, com o objetivo de compreender como transmitidas por signos. Alguns signos que trans-
os terapeutas ocupacionais definiam sua profissão, mitem informação social podem ser acessíveis de
concluiu que não existia uma abordagem comum forma freqüente e regular, e buscados e recebidos
na explicação de Terapia Ocupacional. Mais da me- habitualmente; esses signos podem ser chamados
tade dos participantes referiram ter dificuldades de símbolos” (Goffman, 1982, p. 39).
em explicar o seu trabalho. Segundo esse estudo, A informação social transmitida por qualquer
as palavras mais frequentemente usadas, como símbolo particular pode simplesmente confirmar
independência e reabilitação, não diferenciavam a aquilo que outros signos nos dizem sobre o indi-
Terapia Ocupacional das outras profissões da saúde. víduo, completando a imagem que temos dele, de
Resultados semelhantes encontraram Farinha e Sil- forma redundante e segura. “Exemplos disso são
va, em 2005, ao estudarem a identidade profissional os distintivos na lapela que atestam a participação
dos terapeutas ocupacionais portugueses. Nesse em um clube social e, em alguns contextos, a aliança
estudo, apesar de os terapeutas ocupacionais refe- que um homem tem em sua mão” (Goffman, 1982,
rirem, com maior frequência, palavras que remetem p.39). Os signos podem ou não ser empregados con-
para uma cultura mais atual da profissão (atividade tra a vontade do informante, quando o são tendem
e autonomia), estas foram partilhadas apenas por a serem símbolos de estigma. Símbolos de prestígio
20 a 30% dos entrevistados, o que retrata a falta de se contrapõem a símbolos de estigma.
uma linguagem uniforme entre os profissionais. Além dos símbolos de prestígio ou de estigma,
Esse mesmo estudo, em Portugal, revelou que 28 Goffman (1982) nos fala de um signo que tende a que-
% dos terapeutas ocupacionais entrevistados não brar uma imagem, a lançar dúvidas sobre a validade
concordam com o nome da profissão. No Brasil, os de uma identidade. São os desidentificadores.
questionamentos em relação ao nome são comuns Existem condutas que desidentificam, confun-
nas conversas entre os terapeutas ocupacionais. Em dem e nada contribuem para o fortalecimento da
um recente estudo no Rio de Janeiro, onde foram identidade profissional. Por exemplo, quando um
interrogados 50 terapeutas ocupacionais sobre essa profissional coloca em seu carimbo “Terapia de
questão, 27 responderam que o nome da profissão mão” ou outra especialidade qualquer, em vez de

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colocar o nome da profissão, está passando uma ção e com as propostas de construção da integrali-
informação social equivocada em relação à profissão dade em saúde. Quando os terapeutas ocupacionais
e está fazendo uso de um desidentificador. O melhor conseguem produzir e acumular conhecimento
seria dizer: “Sou terapeuta ocupacional, especialista suficiente para serem reconhecidos em determina-
em mão” ou “sou terapeuta ocupacional, membro da área de atuação, este fato pode ser constatado
da Sociedade Brasileira de Terapia da Mão” e no quando as políticas da área passam a incorporá-lo
carimbo “Terapeuta Ocupacional – Terapia da Mão”, em sua equipe mínima ou, pelo menos, reconhecem
caso o profissional faça questão de mencionar sua que o trabalho é qualificado por sua presença. Tem
especialidade. Em caráter informativo, cabe aqui sido assim na área da Saúde Mental.
citar que a legislação aplicada aos fisioterapeutas
e terapeutas ocupacionais, através da resolução do
COFFITO nº 158 de 29 /11/1994, “proíbe o Fisiotera-
Referências
peuta e o Terapeuta Ocupacional de utilizar para fins AMARAL, L. A. Espelho Convexo: O corpo desviante
de identificação profissional, titulações outras, que no imaginário Coletivo. Tese de Doutorado.
não sejam aquelas próprias da Lei regulamentadora Instituto de Psicologia da USP, São Paulo, 1992.
das respectivas profissões, ou omitir sua titulação BARROS, D. D.; LOPES, R. E.; GALHEIGO, S. M.
profissional sempre que se anunciar em eventos Projeto Metuia - Terapia Ocupacional no campo
científico-culturais, anúncio profissional e outros” social. O Mundo da Saúde, São Paulo, v.26, n.3,
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social de sua profissão e os aspectos acerca de sua gov.br/superior/censosuperior/default.asp>.
identidade profissional é algo de grande importân- Acesso em 18 mar 2011.
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as reflexões a partir de Goffman, sendo necessários Disciplinar. Belo Horizonte: Ophicina de Arte e
estudos com diferentes enfoques. Não é possível, Prosa, 2005.
por exemplo, desvincular a questão da identidade
CARVALHO, C. R. A. de. A atuação dos terapeutas
profissional da formação (dos desenhos curricula-
ocupacionais em unidades públicas de saúde da
res), da história da profissão e também das regras e
cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2010.
tendências do mercado de trabalho em saúde.
Dissertação (mestrado em saúde publica)- Escola
Para finalizar, uma última e importante citação
Nacional de Saúde Publica Sergio Arouca/
de Goffman (1982) a respeito da identidade social, Fundação Oswaldo Cruz, 2010.
que é bem pertinente: “Pode-se acrescentar que
todas as vezes que um indivíduo entra numa or- CASTELO BRANCO, M. F. F. Terapeuta
ganização ou numa comunidade, ocorre mudança Ocupacional: Construção de uma identidade
marcada na estrutura do conhecimento sobre ele – profissional. Recife, 2003. Dissertação (mestrado
sua distribuição e seu caráter – e, portanto, mudança em ciências sociais) – Universidade Federal de
nas contingências do controle de informação” (p. Pernambuco, 2003.
60). Trazendo essa ideia para o âmbito profissional, CONSELHO FEDERAL DE FISIOTERAPIA E
pode-se considerar que a posição do terapeuta ocu- TERAPIA OCUPACIONAL, Resolução n.º 158,
pacional depende, em grande parte, da capacidade de 29 de novembro de 1994. Brasília, 1994.
dos profissionais perpetuarem e compartilharem o Disponível em <http://www.crefito11.org.br/index.
conhecimento desenvolvido na assistência e nas pes- php?option=com_content&view=article&id=31
quisas. Algumas estratégias nesse sentido buscam 8:resolucao-coffito-158&catid=36:resolucoes-
aproximação com a Política Nacional de Humaniza- coffito&Itemid=38>. Acesso em 18 mar 2011.

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Recebido em: 28/05/2010


Reapresentado em: 14/10/2011
Aprovado em: 09/12/2011

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