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A dissolução da união soviética inaugura seguramente um novo momento na

história contemporânea, talvez não pelo seu fim e sim pelo triunfo soberano de uma
lógica sustentada como inconsistente há pelos menos um século. Esse exercício busca
compreender através de uma leitura crítica de um material selecionado as visões dessa
nova atmosfera e as representações na vida cotidiana.

A dissolução da União Soviética não configura um trauma, aparenta de alguma


forma certa organicidade, como escreve François Furet: “O regime soviético saiu
sorrateiramente do teatro da História, onde havia feito uma entrada triunfal”. 1 Furet
atesta que as bases para o fracasso do projeto soviético esteja pautado principalmente na
falta de democracia e na dura repressão a liberdade de expressão e pensamento,
aproximando em diversos momentos ao nacional-socialismo alemão. Para Furet a
dissolução se inicia com a denúncia por parte de Khruschov das práticas de Stálin. A
denúncia ao expor uma atitude imprópria funciona quase como uma anistia ao
pensamento submerso sob a repressão de idéias, mas parece-me candente que Furet não
atribui à essa “liberação” de Khruschov o movimento anti-soviético a partir de então,
mas sobretudo à própria repressão cometida pelo estado soviético até então. Repressão
que serve tanto como base para Furet quanto para Francis Fukuyama para justificar o
fracasso da União Soviética, mas Fukuyama vai mais a fundo e numa atitude quase
caricata usa do mesmo recurso de Hegel e Marx para visualizar uma finalidade
Histórica para justificar a democracia liberal como ponto final insuperável da trajetória
social, com isso mais do que a legitimação do neoliberalismo ocidental Fukuyama cria
uma idealização do American way of life como modelo ideal ao desenvolvimento
social. Furet limita-se a identificar como a falta de democracia real, representação pela
falta da liberdade de expressão foi o mote a derrocada do sistema soviético, a supressão
da intelligentsia soviética fez do intelectual não uma testemunha do socialismo mas um
escritor dissidente.2 A dissolução do projeto soviético então se dá por duas frentes, uma
interna pautada na insatisfação da intelligentsia com a repressão e externamente por
limitar-se a um horizonte delimitado, uma esperança limitada, de que perante a
sociedade todo indivíduo é livre e equivalente a todos os outros, mas o processo de

1
FURET, François. O Passado de uma Ilusão. São Paulo : Editora Siciliano, 1995. Pág 9
2
Idem. Pág 565
construção de seu projeto social se pauta pela contraposição ao capitalismo e por vezes
incorporando suas próprias lógicas para sobreviver a suas investidas. Para Furet o
comunismo deve ultrapassar o horizonte do capitalismo, sendo sua dissolução o retorno
a contradição da democracia burguesa, mas agora sem uma nova proposição embora
ainda com a necessidade posta de uma sociedade mais democrática. Furet defende que
neste processo acaba a perspectiva Marxista-Leninista mas não se fecha o repertório da
democracia. As perspectivas de Furet e Fukuyama por mais que se distanciem tem em
comum que o estado organizacional pós-soviético é a atmosfera a se viver, mas não
fazem a medida da crise da economia mundial pautada no liberalismo econômico. É
interessante ressaltar que não é só Furet que vê essa aproximação entre capitalismo e
socialismo, Robert Kurz evidencia essa relação principalmente na apropriação do
trabalho, e principalmente do trabalho abstrato como esfera quase religiosa tanto do
capitalismo quanto do comunismo, cito:

“Se Alexej Stachanov, o homem que dizem ter extraído[...]na


região do rio Donez, 102 toneladas de carvão num turno de cinco horas
e 45 minutos, tornou-se modelo soviético e mito do trabalho, ele
personifica com isso precisamente o princípio capitalista de um
dispêndio abstrato de força de trabalho...”3

Para Kurz a elevação do trabalho abstrato a esfera “teológica”, já latente desde a


gênese do protestantismo moderno e desenvolvida na concorrência
capitalismo/socialismo, mudou profundamente a relação entre trabalho abstrato,
mercadoria e valor. A produção de mais valia a partir da lógica dinheiro – mercadoria –
dinheiro’ passa a se fetichizar cada vez mais dando mais ênfase ao caráter abstrato da
lógica, proporcionando a produção de dinheiro’ sem a mediação da mercadoria, passa-se
a ter dinheiro – dinheiro’ ou em alguns casos dinheiro – dinheiro’’. As proporções entre
força de trabalho e a reprodução abstrata de valor se distanciam cada vez mais frente ao
aumento da especulação monetária e a produção de mais-valia a partir da própria mais-
valia, a ressonância dessa lógica se intensifica principalmente na exploração da força de
trabalho, para intensificar cada vez mais esse distanciamento corporações se instalam
em zonas de baixo desenvolvimento social para se utilizar de mão de obra barata. Como

3
KURZ, Robert. O colapso da modernização: Da derrocada do socialismo de caserna à crise da
economia mundial. São Paulo : Editora Paz e Terra, 1993. Pág 20
podemos ver no documentário The Corporation (Mark Achbar/Jennifer Abbott, Canadá,
2003) as corporações nascem como equivalentes a indivíduos, mas se emancipam da
responsabilidade moral das pessoas físicas, principalmente porque se emancipam dos
indivíduos que a formam, a única responsabilidade real das corporações é a produção de
lucro irrestrita, seja na exploração da força de trabalho seja na simples valorização
abstrata de ações e commodities durante momentos de catátrofe (Guerra do Golfo, 11 de
setembro, etc.)a exemplo da fala de Carlton Brown no documentário: “Na devastação
estava a oportunidade”. Com a reprodução desenfreada do lucro reproduz-se o
endividamento da economia, pricipalmente o endividamento público que financia o
golpe que a economia capitalista dá em si mesma. As crises do sistema econômico
passam a ser financiadas pelo fraco estado nacional, que emancipa o sistema econômico
para fora de sua alçada. Vemos essa tendência na argumentação de Antonio Negri,
especialmente ao ressaltar que o papel antes estabelecido pelos estados nacionais se
desloca para esferas ainda obscuras, forma-se – em termos dele – um Império, mas
independente da concepção de Império até então, esse conjunto organizacional mundial
não emana de um centro político mas de uma rede econômica pulverizada, a velha
dicotomia Primeiro e Terceiro Mundo já não se mostra na prática, espaços de Terceiro
Mundo se apresentam em territórios do Primeiro Mundo e vice-versa, a globalização já
não se produz porque é intrínsecamente ligado ao Estado-nação, que se pulveriza, sendo
assim iniciativas “pacificadoras” e bélicas se estruturam na premissa de manutenção da
atmosfera ideal para o desenvolvimento desse novo paradigma. Surpreendentemente
Negri não encara essa conjuntura com pessimismo, encara como um campo aberto a
uma nova perspectiva, onde reestruturadas as concepções tradicionais de classe as
ferramentas sociais também se modificam, no lugar do proletariado revolucionário
surge um conceito novo, o de multidão, que pode nesse novo cenário buscar o sentido
real de democracia estendida além dos limites dos Estados-nação.

Tendo em vista tal debate buscarei a partir de agora, da maneira mais conclusiva
possível identificar a representação destas estruturas no filme Terra dos Mortos (Land of
the Dead, George Romero, Estados Unidos/Canadá/França, 2005).
No filme George Romero temos um mundo pós apocalíptico onde zumbis povoam
a maior parte do mundo, os humanos ainda vivos habitam uma cidade cercada e em um
tipo de estado de sítio governada por um único home: Kaufman (Dennis Hopper) –
escondido por trás de um conselho gestor. Dentro desta cidade temos a representação de
dois tipos sociais: temos os ricos que habitam um prédio chamado Fiddler’s Green que
se projeta imponente no centro da cidade e, em oposição a essa temos uma esfera
“popular”, jogada à miséria os indivíduos são habitam principalmente as ruas e
convivem com vícios organizados por Kaufman - um controle estrito sobre o conceito
de zoé(vida por si só) e consequentemente o conceito de bíos (vida própria de um
indivíduo ou de um grupo) que Giorgio Agamben apresenta em seu texto 4. Essas duas
esferas se relacionam diretamente com um conjunto maior externo à cidade: os zumbis.
A esfera “popular da cidade se relaciona com os zumbis primeiramente em função do
medo, que em parte é suavizada pela cerca em torno da cidade, e em segundo lugar
pelas práticas de entretenimento nas quais os zumbis são inseridos. A esfera “rica da
cidade se relaciona de uma maneira muito passiva com os zumbis, sendo mediada por
grupos de “mercenários” que organizam expedições ao exterior da cidade para coletar
recursos e “commodities” para a cidade. A relação passiva se dá acredito por dois
motivos: 1) há apesar da distância marcante (cercas e prédio) também um medo por
parte dessa esfera detentora de privilégios; 2)tanto Kaufman quanto os endinheirados
não tem nenhum poder sobre a zoé ou a bios dos zumbis, mesmo porque eles habitam
um espaço de contradição de tais conceitos. O que temos então na narrativa são pontos
de tensão entre as duas esferas sociais da cidade mas que não se distinguem pela
alienação e passividade da esfera popular, quanto pelo comodismo e controle pela
violência da esfera do dinheiro, as contradições sociais então não são alvo de uma
mobilização social oprimida, pois essa não tem consciência, salvo em alguns casos
pontuais, a solução da contradição vem de um lado da insatisfação de parte daqueles
que eram responsáveis pela entrada de recursos na cidade que chantageiam Kaufman e
de outro lado por uma espécie de tomada de consciência (parece-me mais como
consciência de um tipo de zoé do que uma consciência de espaço social) desperta pela
necessidade de “sobrevivência” em um zumbi específico. Essa tomada de consciência
cria um processo de conhecimento do mundo (caricaturalmente) à la 2001: uma odisséia
no espaço, dominando ferramentas, tanto físicas quanto comunicativas esse zumbi passa
a liderar a multidão de mortos-vivos. A consciência flue pela multidão conforme esses
são dirigidos à cidade, onde habita a única fonte de alimentação que dispõe, pouco a
pouco os outros zumbis passam também a dominar ferramentas com função de armas,
chegando numa cena pelas idas dos final do filme a superar seu elemento alienador

4
AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2002. Pág. 9-20.
(fogos de artifícios que são lançados pelo grupo de mercenários para prender a atenção
dos zumbis durante as expedições). Tendo isso percebemos que a revolução social do
filme não vem de um grupo oprimido pelas dinâmicas gerais da cidade, porque esses
perderam não só o controle de sua bíos como a própria consciência de sua existência
política. A Revolução vem de fora, da necessidade de sobrevivência da multidão, e da
insatisfação (perceptível só no zumbi líder) com o massacre empregado, esses não
possuem a bíos inerente aquela lógica de mundo, se é que a possuem de alguma forma,
eles são outra coisa. As mudanças despertadas pela ação da multidão não são percebidas
ou vividas em função dela própria, eles são movidos unicamente pela inércia, as
mudanças são entregues aos vivos, aqueles que estavam até então sem consciência de
sua bíos, de uma maneira inteligentemente farsesca vemos que como a multidão dos
zumbis se organiza a multidão de Negri, não tem forma definida, escapa ao tipo de bíos
estabelecida. Num tempo que morrem as revoluções dos vivos e que não se constroem
novas alternativas a uma atmosfera claramente sem saída, talvez os mortos precisem
finalmente levantar de seus túmulos.
AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2002.
FURET, François. O Passado de uma Ilusão. São Paulo : Editora Siciliano, 1995.
FUKUYAMA, Francis. O fim da história